Contador:
Última atualização:26/03/2021

11. You don’t know what you do to me.

NOVEMBRO, 2018
4 meses atrás




O mês de novembro foi muitíssimo esperado por mim, porque em menos de uma semana minha melhor amiga estaria de férias me visitando. Ontem também havia sido meu primeiro Halloween em solo americano. Gostaria de poder contar que eu tinha ido à festas, ou qualquer coisa do tipo, mas, na realidade, essa época para os adultos (com empregos reais) não é tão legal assim, porque simplesmente é um dia como qualquer outro. Harry havia ido na festa anual de Halloween da Casamigos, basicamente um monte de gente rica e de quebra mais alguns famosos no meio. Foi em Beverly Hills, então não se espera menos que isso.

Harry, na verdade, até tinha me convidado para o acompanhar, mas a festa foi em pleno domingo e eu teria que trabalhar cedo no dia seguinte, fora que quando chegasse em casa teria que ir para a faculdade, o que me impossibilitaria de descansar. Não achei uma ideia boa, então recusei com pesar no coração. Me senti ainda mais arrependida em ter recusado o convite quando saíram as fotos de Harry vestido de Elton John no uniforme do Dodgers de 1975. Bem, eu sabia que ele usaria essa fantasia, mas me atingiu de um jeito diferente quando o vi produzido.

De qualquer forma, já era uma quinta feira e eu teria aula, mas no dia seguinte buscaríamos meu carro que chegaria na loja na parte da tarde. Eu estava um pouco frustrada, porque os quinze dias tinham se transformado em quase trinta. No dia em que Henry e eu tivemos aquela “reunião” na minha sala eu recebi uma ligação de Jordan informando que o processo de produção tinha atrasado e que precisariam de mais um prazo. Então, para ser sincera, eu não aguentava mais esperar.

10:39pm: Oi, ‘tá acordado? - Foi a mensagem
que enviei para Harry quando cheguei da aula



10:42pm: Oi, . Você já chegou da aula?

10:43pm: Acabei de chegar. Posso te ligar?



Eu não tive uma resposta imediata, em vez disso, o meu celular começou a vibrar, indicando uma ligação de Harry

- É claro que você pode me ligar. - Foi a primeira coisa que ele falou ao ser atendido.

- Eu não sabia se você estaria ocupado. - Respondi com uma risadinha.

- Para você eu nunca estou. Como foi a aula? - Perguntou interessado.

- Foi ótima! Fizemos uma simulação de logística internacional reversa com aplicação para transportes aéreos e marítimos. - Comecei a tagarelar. - Eu sou muito mais fã do marítimo, você sabe, não é? Porque os navios tem seu charme, mas não posso negar que os aviões são o melhor meio de transporte já inventado. Você concorda comigo, visto que viaja de um lado do país até o outro, depois cruza o oceano e isso tudo em um período de três dias. - Me ocorreu um pensamento. - Como é que você aguenta tanta mudança de fuso horário?

- Jesus Cristo, . Respira. - Harry começou a rir.

- Desculpe. É que foi muito legal. - Eu estava agitada naquele dia.

- É legal te ver falando do que você gosta. Embora eu não entenda nada sobre isso.

Eu não podia ver, mas sabia que ele estava sorrindo.

- Então... Confirmado que você vai me levar para buscar meu carro amanhã, não é?

- Ah! Mas é claro que você não estava me ligando para contar como foi sua aula. - Harry riu do outro lado da linha. - Eu sabia que você ia falar desse carro de novo pela terceira vez hoje.

- Desculpa, eu ‘tô ansiosa. - Choraminguei com a voz manhosa.

- , é claro que eu vou com você, não perderia esse momento por nada.

- Então... - Repeti de novo no mesmo tom de voz anterior. - Eu pedi uma folga amanhã. Podíamos fazer alguma coisa juntos antes de buscar o carro. - Sugeri.

- É claro! Quero passar o máximo de tempo que der com você, porque, como já comentei, viajo de novo para o Japão na semana que vem e só volto para LA em dezembro por uma semana, porque preciso comparecer em algumas confraternizações de amigos aqui. Depois vou para Londres dar uma passada na minha casa, e preciso fazer a mesma coisa com os amigos de lá antes de ir para Holmes Chapel para o natal com a minha família. Então provavelmente só vamos nos ver de novo ano que vem.

- Espero que você volte a tempo de conhecer .

- Provavelmente volto ainda na primeira semana de dezembro. Eu não tenho certeza. Tenho que conferir minhas passagens. - Ficou por um momento calado. - Vamos almoçar juntos amanhã?

- Eu pensei em tomarmos café e passarmos o dia juntos, já que tenho o dia todo livre. Mas almoço está ótimo.

- Eu tenho aula de ioga às nove.

- É verdade! Você faz tanta coisa de gente que não tem nada para fazer que eu até fico perdida. - Debochei.

- Por que você não vai comigo dessa vez?

- Ah não, Harry. Você já me arrastou para a academia, agora ioga?

- Tenho certeza que você vai gostar. Não descarte a possibilidade antes de tentar. - Eu comecei a rir.

- Há! Parece você respondendo algum dos meninos sobre aquelas perguntas idiotas sobre garotas nas entrevistas. “Não descarte a possibilidade de se relacionar com homens antes de tentar”. Para quem você disse isso mesmo? Niall? Liam? Não me lembro.

- Eu nunca disse isso. - Reagiu imediatamente.

- Não foi exatamente assim, mas foi nesse sentido. - Eu continuava com o tom de voz de riso.

- Eu não...

- Não me faça revirar o YouTube procurando o vídeo dessa entrevista para esfregar na sua cara, Harry Styles. Você sabe que isso é uma coisa que você falaria. - Brinquei.

- Você é tão... Argh! - Resmungou frustrado.

- Eu também te amo! - Gracejei, fazendo-o rir.



*


- Até que foi legal. - Eu admiti quando saímos da aula de ioga as dez da manhã daquela sexta-feira.

Harry levantou uma sobrancelha e fez sua melhor cara de sarcasmo antes de me responder.

- Eu te disse.

- É tudo tão... Calmo. - Tentei encontrar palavras para explicar. - Acho que eu estou sempre muito agitada com tudo o que tenho para fazer, o mestrado, o trabalho... sabe? Foi bom dar uma desacelerada. Me sinto bem tranquila agora.

- Eu te disse. - Harry repetiu, dessa vez revirando os olhos.

- Obrigada por me trazer. Foi ótimo mesmo. - Eu o abracei de lado ao agradecer.

- Vem, vamos comprar um café.

- Hm... Lugar novo ou já conhecido?

- Novo.

- Qual é o lugar que eu vou conhecer dessa vez?

- Beachwood cafe. - Já estávamos dentro do carro e Harry deu partida.

- Espera... Esse lugar fica em Hollywood Hills.

- Você já conhece?

- Não conheço. Mas é praticamente do lado da sua casa. Deve ter milhares de fotos suas em dias diferentes nesse lugar.

- Eu vou sempre lá. - Deu de ombros.

- Não vai estar... cheio? - Perguntei com certo temor na voz.

Harry não poderia estar mais reconhecível. Fazia um tempo que ele não cortava o cabelo e estava em uma versão um pouco mais curta e mais rebelde da que ele usava em 2014.

- Eu não sei o que fazer, . - Harry suspirou e eu fiquei calada esperando que ele se explicasse. Parecia realmente chateado. - Eu não posso te pedir mais do que eu já te peço para se preocupar menos com isso, sabe? Não quero que fique forçado. É um direito seu não querer ter seu rosto exposto. E eu, uh, acho que esse é um assunto horrível de se abordar, entende? É péssimo eu ter que falar: “olha, vamos sair e vão ter fotos suas na internet.”. - Desabafou. - Eu, de verdade, tento evitar falar sobre isso. Mas acho que chegou nossa hora, não dá mais para evitar.

- Me desculpa, Harry. - Eu me senti muito mal por estar tocando nesse assunto com tanta frequência nas últimas semanas. - Não é como se eu não soubesse o que esperar. Eu sempre soube. É só que... eu só... eu não quero que isso interfira na nossa amizade. E justamente porque eu sei sobre tudo é que me preocupo com o impacto que uma aparição ao seu lado causaria.

- Eu posso ser sincero? - Assenti. - Eu não estou entendendo esse seu comportamento. Você não é o tipo que se importa com o que pensam sobre você. Desde que eu te conheço você é sempre tão confiante e despreocupada em relação a essas coisas. Eu sei como a internet, a mídia pode ser tóxica, mas... - Cortei sua fala.

- Harry, eu não estou preocupada com o que as suas fãs vão dizer de mim.

- Então o que é?

- Eu não sei! - Exclamei passando uma mão na testa. - Eu não sei, tá legal? - Respirei fundo, tentando acalmar a voz. - Eu só ‘tô preocupada com você.

E se isso, de me reconhecerem, de boatos sobre nós, de alguma forma afastasse Harry? Eu tinha medo de estragar tudo. Eu tinha medo de que Harry fosse embora. Por que eu tinha que ter aquele estúpido sonho sobre Harry indo embora quase todas as noites? Agora eu sentia sempre esse medo incompreensível de que alguma coisa fosse acontecer, coisa eu não fazia ideia do que era, e então seria o fim. Eu nunca mais veria Harry.

- Você não tem que se preocupar comigo, .

Quando ele viu que eu não responderia nada, voltou a falar.

- Nós somos apenas amigos, você não precisa se preocupar em desmentir quem disser algo além disso.

Ouch! A frieza em sua voz de algum modo tinha doído. Não porque ele disse o óbvio, mas pela forma que disse. Me remexi no banco, desconfortável.

- Porque você sabe que vão dizer! E eu não posso te proteger dessa loucura que é a minha vida. Vão ter pessoas especulando, mas eventualmente vão ver que não tem nada demais e vão te deixar em paz. E se você não está preocupada com descobrirem quem você é, como você diz, você também não precisa se preocupar comigo ou em como eu vou lidar com isso. Eu cuido de tudo. ´Tá bom, ? - Perguntou, mas continuei calada. - Olha pra mim! - Harry chamou minha atenção, e eu o encarei rapidamente antes que ele voltasse a olhar para o trânsito. - Não se preocupe!

- Alguém sabe sobre a gente? Algum dos seus amigos? - A pergunta deslizou pela minha boca antes que eu pudesse me conter.

- Uh... James, claro. Mitch, Sarah, Jeff, minha mãe, provavelmente a Gemma... Acho que somente essas pessoas. - Respondeu, mas ainda parecia pensar. - Por que a pergunta?

Caramba! Para qual fosse a definição da nossa relação, que não era sequer um relacionamento, de fato, romântico, tinha muita gente sabendo, né? A maioria do tempo que estávamos juntos agíamos realmente como amigos apenas, muitas vezes nem parecia que a gente já tinha sequer se pegado alguma vez. Qual foi última vez que a gente tinha transado? Semanas? Eu nem lembro.

- Como sua mãe e sua irmã foram aparecer nessa história? - Não evitei a pergunta. - O Jeff eu até entendo, porque ele é seu agente... Mitch e Sarah foi meio que inevitável.

- Assim como James, minha mãe e minha irmã sabem que você é minha amiga. Não é nada demais, um dia eu só comentei com a minha mãe que tínhamos ficado, mas não falei que é algo que sempre rola. Então provavelmente ela acha que foi só aquela vez.

Sempre?

- E não é como se tivéssemos uma regra de não contar para ninguém, certo? Para quem você contou? - Ele devolveu a pergunta.

- Minha mãe, ... E Henry.

- Henry? O cara do seu trabalho que você tem um caso?

- Eu não tenho um caso com ele! Caso é coisa de quem trai alguém. - Revirei os olhos. - Ele sabe de você e você sabe dele. - Dei de ombros como se aquela informação fosse algo previsível, como se o mínimo que Harry devesse esperar de mim é que eu seria honesta com ambos.

- E a Lucy? - Neguei com a cabeça. - Mas por quê? Pensei que vocês fossem amigas.

- E somos! Mas eu prefiro não ficar espalhando, porque você é você. Minha mãe e a estão no Brasil, não é como se isso afetasse a vida delas. O Henry simplesmente não liga para quem você é, ele mal sabia seu nome antes. A Lucy não é próxima de você, mas ainda assim ela meio que conhece alguém, que conhece alguém, que te conhece. Não é assim que todos os boatos surgem?

- Você não existe. - Ele negou com a cabeça, sorrindo. - Pode levar isso como um elogio. Você se daria bem sendo famosa.

- Só se esqueceu do fato de que eu não tenho nada que pudesse me levar para a fama. Mas obrigada? - Agradeci em tom de pergunta enquanto Harry parava o carro, imaginei que já havíamos chegado.

Uma montanha russa de emoções... Era isso estar com Harry. O clima tenso havia se dissipado de tal forma que era como se não tivesse existido. Isso me tirava dos trilhos e não tinha nada que me voltasse para o lugar. E cada dia ficava pior... ou melhor, depende da perspectiva.

Destravei o cinto e sem pensar muito puxei-o pelo pescoço, iniciando um beijo que Harry correspondeu imediatamente. Eu já havia me relacionado com muitas pessoas nos meus vinte e quatro anos, mas Harry... Harry era Harry. Eu não queria que parecesse que eu estava colocando-o num pedestal, mas eu nunca tinha beijado ninguém como nos beijávamos, não por ele ter “o melhor beijo”, não. Não é nesse sentido. O que eu digo é que o beijo era incomum. Geralmente quando você beija alguém tem duas opções: Ou o beijo encaixa e é muito bom, ou o beijo não encaixa e é horrível.

Quando eu beijava Harry, eu sentia que era difícil poder descrever as sensações físicas que aquele ato me proporcionava. O nosso beijo, para mim, se encaixava perfeitamente. Mas o que me deixava sem saber explicar era o modo como Harry me beijava. Ele me causava essa sensação de beijar lento e rápido ao mesmo tempo, de mover a língua sem pressa, mas com urgência em se mover. De transmitir delicadeza em cada toque ao mesmo tempo em que pressionava com certa brutalidade e firmeza as mãos no meu corpo, fossem no rosto, pescoço, cintura ou até mesmo em um abraço pelos ombros. O efeito do seu beijo poderia me fazer querer ultrapassar aquela barreira a qualquer momento, ao mesmo tempo em que me fazia pensar que eu poderia ficar daquela forma, apenas o beijando, por horas sem me cansar. Se você entendeu sobre o que eu estou falando e pensou em alguém... Então esse alguém é o seu Harry.

- Uau! De onde surgiu isso? - Harry perguntou quando finalizamos o beijo com selinhos.

- Senti falta do seu beijo. - Dei de ombros. - Vamos transar hoje?! - Eu perguntei em um tom de decreto e Harry arregalou os olhos.

- Nós vamos? Espera! Você está me chamando ou afirmando? - Deu uma risadinha, achando muito engraçado minha atitude de marcar um sexo.

- Estou te comunicando. Tem muitas pessoas sabendo desse envolvimento para eu não estar usufruindo dele ao máximo possível.

Harry juntou as sobrancelhas, me encarando com uma expressão engraçada. Sem sua resposta, eu voltei a falar.

- Ok. - Dei um tapinha na sua perna, como se essa fosse eu encerrando o assunto. - O que você acha de almoçarmos lá em casa hoje? Posso cozinhar algo para nós.

Harry sorriu ao concordar em um aceno e então saímos do carro.

O café era muito bonito, tinha o mesmo conceito do primeiro que ele me levou na primeira vez que saímos. Havia um caixa separado para pedidos de cafés e para levar. Então paguei rapidamente por dois capuccinos, sob protestos de Harry. Se fosse por ele teríamos ficado lá e ainda pedido algo para comer. Mas eu havia feito compras em um supermercado brasileiro recentemente e queria fazer alguma comida típica e sabia que não íamos comer se nos empanturrássemos as mais de dez horas da manhã de panquecas, ovos, bacon e outras coisas pesadas que americanos comem como café da manhã.

O lugar também estava bem cheio e me trouxe muita dor de cabeça depois, porque quando fomos embora tiraram algumas fotos nossas, a maioria dos sites diziam, vou citar: “Harry Styles é visto com garota misteriosa. Será que vem um novo casal por aí?” e muitas outras baboseiras, tipo: “O casal parecia bem próximo, conforme andavam lado a lado, conversavam, gesticulavam e riam bastante um com o outro. Nós os achamos fofos e torcemos.”

O fandom foi à loucura, um terço brigava com o resto dizendo que Harry tinha direito de ter amigas mulheres, outro se dividia entre perguntar quem eu era, se eu era a mesma pessoa dos rumores passados, fazendo análises de comparação de fotos, ao mesmo tempo que divulgavam sua opinião sobre apoiar ou não, eu parecer bonita ou não, suficiente para ele ou não. Já o último terço dos fãs se dividia entre não se preocuparem, porque sabiam que Harry era casado com Louis e ficar com raiva de mim por ser a nova stunt separadora do casal. Estávamos em 2018, qual é?! Elas ainda acreditavam que eles namoravam outras pessoas por contrato? De qualquer forma, este último era o meu time preferido, me rendeu muitas risadas ver as teorias e as montagens de Larry que surgiram a partir das nossas fotos.

Eu não falei nada com Harry, porque já tínhamos discutido sobre isso e eu não queria entrar nessa briga de novo. Eu sabia que ele tinha visto que estávamos sendo fotografados, ele sempre vê. Além de tudo, era natural que fôssemos nos lugares que ele costumava frequentar e tinha passado da hora de cair a minha ficha que a maioria desses lugares já eram conhecidos por receber celebridades e que sempre teria algum paparazzi. Aquele era o mundo de Harry. Ou eu aceitava isso, ou não saíamos sozinhos em público mais. O que seria difícil, porque eu não queria nos privar de nada. E essa minha paranoia poderia ser exatamente o que nos afastaria. E aí meu sonho se tornaria realidade. Eu tinha que parar com isso já.

Eu não sabia fazer nenhum tipo de comida muito elaborada, para Harry e eu, naquela tarde, cozinhei o típico arroz, feijão, bife e batata frita, que eu estava morrendo para comer. Saladas, claro, e os complementos e etc. Obviamente ele já deve ter comido coisas melhores, mas essa combinação para um brasileiro morando há mais de seis meses nos Estados Unidos era, literalmente, o paraíso.

- Sei que você não come carne vermelha, então fiz peixe para substituir. Mas se você quiser abrir exceção dessa vez... A gente sempre come com bife, sabe, no Brasil. - Eu sugeri ao terminar tudo. - Pode ser sincero se você não gostar, eu tenho uns pacotes de comida congelada aqui também. - Eu dei uma risadinha. - É um prato bem simples. - Eu continuava falando enquanto ele se servia (com o peixe) e se sentava à mesa.

- Não é ruim. - Ele respondeu após experimentar. - O arroz e o feijão têm um gosto totalmente diferente.

- É o tempero. E o fato de que não comemos nada disso enlatado. - Eu falava com a boca um pouco cheia, era mal educado, mas eu não estava nem aí! - Eu ‘tava morrendo de saudades dessa comida. Queria que fosse da minha mãe, mas vamos ter que nos contentar com sendo eu a cozinhá-la.

- Sua mãe é uma boa cozinheira então, pelo visto.

- Minha mãe? Meu Deus, não! Ela odeia cozinhar. - Respondi rindo. - Mas a gente sempre tem saudade da comida de mãe, não é? Você sente falta da comida da sua mãe?

- Não só da comida, sinto falta da minha mãe toda. - Replicou brincalhão.

- Então você sabe muito bem o que eu sinto. - Ele concordou com um aceno de cabeça.

Terminamos de comer enquanto ainda falávamos das nossas mães. Deus, como eu estava com saudades!

- Sabe o violão preto que eu deixei aqui outro dia? - Harry me perguntou.

- Que você esqueceu aqui outro dia? - Reformulei a pergunta em tom provocativo. - Está no meu quarto. Você quer levá-lo hoje?

- Hm, pode ser. Você pode pegá-lo para mim? - Pediu educado.

Pela cara de Harry, ele não havia odiado a comida, mas eu tenho que ser sincera aqui, não é como se ele estivesse apaixonado também.

- Que reserva é essa, Styles? Pode buscar você. Até parece que não invade a minha casa e entra no meu quarto comigo dormindo. - Levantei da mesa recolhendo os pratos e resmungando alguns “eu hein”, em português mesmo.

Ele começou a rir e murmurou algo que eu não entendi antes de rumar em direção ao meu quarto, atravessando de volta em segundos para a sala. Não demorou muito e eu pude escutá-lo dedilhando algumas notas aleatórias no instrumento. Eu terminei tudo rapidamente e voltei para a sala. Ainda tínhamos algumas horas antes de buscar meu carro.

Encontrei-o no sofá com o celular apoiado no joelho direito enquanto ele afinava o violão.

- Aplicativo para afinar violão, sério, Harry Styles? - Sentei-me na ponta oposta, para vê-lo melhor e não atrapalhar o movimento do braço do violão.

- O quê?

- Sei lá... Quero dizer, artista profissional há dez anos, você toca violão há pelo menos o quê? Uns sete, oito? Eu esperava pelo menos que você afinasse o violão de ouvido. - Zombei.

- Mas com o celular é tão mais fácil. - Harry choramingou.

- Mas não era você o cara descolado e old school que sequer tem whatsapp? De repente se rendeu aos aplicativos de afinar violão? Assim, que tipo de artista é você? Poderia pelo menos baixar o whatsapp para eu te enviar uns stickers feitos com as suas fotos, não acha?

- Tudo bem, ! Tudo bem! - Harry bufou, pegando seu celular e literalmente jogando-o contra mim.

Eu continuei rindo ao pegar seu celular que tinha batido na minha perna e colocá-lo na mesa de centro, enquanto Harry passou a afinar o violão de ouvido.

- E eu ainda não sei o que é um stickar. - Completou, com seu sotaque britânico acentuado na última palavra. - ‘Tá vendo? Eu sei afinar um violão.

- Então toca alguma coisa para eu ter certeza. - Ele revirou os olhos fingindo tédio, mas sorriu em seguida.

- O que você quer ouvir? - Perguntou atencioso.

- Qualquer coisa. Pode tocar o que você quiser.

Harry começou a dedilhar a melodia de “Supera” da Marilia Mendonça.

- Eu não acredito que você aprendeu a tocar isso. Você precisa voltar a trabalhar urgentemente, você ‘tá completamente sem o que fazer.

Ele realmente tinha gostado, já tinha falado dessa música outro dia e agora isso.

- Eeeei, eu ‘tô trabalhando. Já temos um monte de músicas prontas, sabia?

- Hum. - Respondi fingindo desconfiança. - Não sei, não. Tem algum tempo que você não me mostra nenhuma.

- Eu só não sei a letra, então eu toco e você canta, ok? - Ignorou a minha provocação.

- Quê? Não, eu não vou cantar em português. Você sabe que eu não sei cantar.

- Qual é o problema? Eu não vou entender mesmo. Você canta em inglês, o que é muito pior, porque aí eu entendo. - Dei um tapa em seu braço.

- Odeio seus tapas, são ardidos.

- Então me respeita, que aí não terão tapas.

- Eu só falei a verdade. - Respondeu com inocência na voz. - Você é uma das piores cantoras que eu já vi.

- Eu sei disso, obrigada. Não precisa de me dizer. - Fingi estar brava.

- Então, vai cantar ou não?

- Não!

Harry continuou dedilhando a melodia da música no violão, mesmo com todas as suas tentativas de que eu cantasse a música sendo negadas. Eu tentava disfarçar o friozinho que eu sentia na barriga toda vez que o via tocar ou cantar, tentava disfarçar com humor e provocações, como se o que ele estivesse fazendo ali não mexesse comigo, não fosse nada além de um dia comum ao lado de Harry Styles, o que realmente não passava disso. Todos os dias ao lado dele eram assim. Eu só não conseguia fazer com que meu cérebro entendesse isso. Eu só não conseguia fazer com que meu coração de fã compreendesse.

Cada dia com Harry, mesmo simples, mesmo cotidiano, era incrível, e eu sei que isso soa meio brega. Mas era como um sonho, um sonho que cada dia que passava eu tinha mais medo de acordar. Eu tinha medo de acordar um dia e ter perdido tudo.

Naquele momento, sentávamos um de frente para o outro, cada um em uma ponta do sofá, e eu me sentia como se estivesse recebendo uma serenata de amor. Exceto que Harry era um cantor profissional que já tocava e cantava normalmente e aquela não era uma ocasião excepcional com uma declaração em forma de música de amor. Era, na verdade, uma música de corno tocada com a única finalidade de servir em mais uma das empreitadas humorísticas de Harry.

Ainda assim... Ainda assim era como estar sonhando. Mesmo com Harry fazendo barulhos estranhos com a boca que eram para supostamente ser a letra da música que ele não sabia, mesmo com a voz que claramente era uma caricatura de qualquer outra pessoa, menos a sua verdadeira. Ainda assim eu sentia esse buraco no estômago e a sensação de “casa” que só a sua presença me trazia estando longe do Brasil.

- Eu queria saber tocar alguma coisa. - Comentei. - Já que eu canto tão mal, só para compensar a ausência de dons artísticos.

- Vem cá! - Chamou e se arrastou para o meio do sofá e eu fiz o mesmo. - Eu posso te ensinar se você quiser. - Ofereceu e passou o violão para o meu colo.

- Sério? - Perguntei num tom desacreditado, as sobrancelhas unidas formavam um vinco na minha testa. - Eu quero! - Respondi sem pestanejar.

- Okay! Você tem alguma noção? - Perguntou enquanto via que eu segurava o violão desajeitadamente.

- Não sei sequer qual corda é qual. - Comecei a rir. - Talvez eu saiba em português, mas em inglês, definitivamente, não.

- E está me julgando por afinar o violão com um aplicativo de celular? - Perguntou irônico e eu assenti sincera e confiante.

Harry riu e tinha aquela calma na fala que lhe era tão característica e a paciência que parecia ter roubado do resto do mundo. Cuidado e atenção definiram aquele momento entre nós.



*


- Eu ‘tô muito ansiosa, Harold! - Eu comentei entre risos quando chegamos na agência para buscar meu carro.

Hilary mais uma vez estava na porta e eu fui até ela, dando-lhe um abraço ao cumprimentá-la.

- Oi, Hilary! Você viu meu carro? Diz que meu bebê já chegou, por favor? - Ela riu divertida com a minha agitação.

- , eu não sei qual é o seu carro. - Ela respondeu depois de cumprimentar Harry.

- Mercedes cinza. Conversível. - O rosto dela se iluminou em reconhecimento.

- Ah, sim! Quando eu cheguei para trabalhar já estava aqui. - Ela disse apontando para o fundo da loja, no corredor central de carros, onde um veículo coberto por uma capa branca com uma fita vermelha bloqueava a saída de outros.

Ué! Por que tinham tampado o carro?

- Tem certeza que aquele é o meu? Foi eu mesma quem comprou, não tem nada lá de surpresa para precisarem cobrir o carro. - Hilary riu e deu de ombros, como se dissesse que não sabia o motivo.

Jordan estava nos esperando perto do carro coberto e após os cumprimentos me indicou o veículo e disse que eu poderia tirar a capa quando quisesse. Eu fiz a mesma pergunta sobre o porquê da capa.

- Você vai ver. Tira a capa, eu vou te ajudar. - Respondeu e juntos puxamos o tecido até o carro estar completamente visível.

Era o meu carro, o que eu tinha escolhido. Mercedes C-300, cinza, conversível. Mas com bancos e interior... beges? Eu arregalei os olhos.

- Eu-eu não... Esse não é o meu carro. Eu troquei os bancos para padrão. - Olhei para baixo. - As rodas também. Houve um erro.

Eu olhei para Harry em busca de apoio, ele não parecia nem um pouco alarmado pelo erro. Estava com os braços cruzados na altura do peito e o mesmo sorrisinho torto de sempre nos lábios. Eu olhei de volta para Jordan.

- O que é isso? Eu não estou entendendo. Esse não foi o carro que eu escolhi. - Eu estava um pouco alarmada. Eu não podia ficar com esse carro, eu não tinha dinheiro para pagar a diferença.

- Então, srta. . - Jordan começou. - Foi por isso que precisamos de mais dias para terminar a fabricação.

- Como assim? Eu não ‘tô acompanhando. - Eu alternei o olhar entre Harry, o carro e Jordan. E então eu entendi - Harry, o que você fez? - Ele deu de ombros, segurando o sorriso. - Harry Edward Styles, você não fez isso. - Eu coloquei as mãos na boca. Os olhos mais arregalados ainda, se é que isso fosse possível.

- Você queria tanto o carro assim. - Deu de ombros de novo, dessa vez com um sorrisão. - Considere como seu presente de natal.

Um presente de quase sete mil dólares. Isso que era estilo.

Eu ainda tinha as mãos tampando a boca, eu já podia sentir as lágrimas apontando nos meus olhos. Eu contive a vontade de dar um tapa no braço dele, em vez disso, o abracei abruptamente.

- Você é um cretino filho da puta! Obrigada! Porra! Obrigada! Obrigada! Obrigada! - Soltei o abraço e limpei os olhos. - Eu não acredito nisso. Eu nem sei o que dizer! Eu te falei que não era para você fazer isso!

- Você não disse nada sobre eu te dar um presente. - Ele respondeu cínico e ainda todo sorridente.

Afffffff! Que droga de garoto perfeito!

- Agora você realmente está me pedindo em namoro. - Eu soltei de uma vez, a típica reação piadista em um momento em que você não sabe como reagir. Jordan deu uma risada. Arregalei os olhos de novo. - Não é de verdade. Isso é só uma piada interna nossa. - Eu imediatamente me retratei direcionada ao vendedor.

Meu Deus, eu só sabia passar vergonha. Harry somente riu do meu embaraço. Eu olhei feio para ele.

- Vamos lá, babe! Entra no seu carro. - Eu sabia que o uso do apelido naquele momento tinha sido para me constranger mais.

Olhei para Harry e revirei as órbitas com a maior cara de tédio que consegui fazer. Provavelmente não deu muito certo, porque eu estava muito animada. Parecia que eu sairia saltitando a qualquer momento.

Abri a porta do carro e deslizei suavemente para o meu banco bege, eu não conseguia acreditar. O câmbio já estava na partida, então só apertei o botão de ligar no painel e o motor rugiu imediatamente. Em seguida apertei o botão de abrir a capota, eu ria igual uma idiota. Harry se debruçou sobre a janela.

- O que acha de darmos um passeio? - Sorriu, mostrando todos os dentes e as covinhas.

- Com você do lado? Só se for de capota fechada. - Pisquei divertida.



Eu tive que me controlar para não levar uma multa no caminho de Malibu até Hollywood Hills, eu estava animada, agitada, explodindo de felicidade. Aquele carro era um monstro, acabei deixando Harry para trás e cheguei em sua casa primeiro. Ele ainda demorou uns cinco minutos para chegar depois de mim. Ele guardou seu carro e eu nem mesmo quis entrar, fiquei no meu esperando-o. Era só uma desculpa para que eu ficasse admirando e alisando a superfície interna.

- Aonde vamos? - Perguntei quando ele voltou, sentando no banco – bege! – do passageiro.

Tínhamos um esquema, Harry sempre ia dirigindo para os nossos passeios, porque mesmo que usasse o GPS, ele já havia ido pelo menos uma vez no lugar. E eu sempre dirigia na volta, então ele já estava acostumado a me ver no volante.

- Pensei em só rodarmos pela cidade na intenção que você testasse o carro. Mas eu tenho certeza que você já testou no caminho de volta. - Debochou divertido.

- Eu não testei à noite. É diferente. - Pisquei sorrindo, dando partida novamente.

O sol estava começando a se pôr. Los Angeles era linda nesse horário, com as altas palmeiras e o laranja no horizonte contrastando com o resto do céu azul. Era o cenário perfeito para dirigir.

- Quero te contar uma coisa. - Harry falou assim que o carro começou a se mover.

- Quem foi o alvo dessa vez? - Ele imediatamente começou a rir. - Não diz que rolou mais coisas com a pessoa que você escreveu metade – enfatizei – de Sunflower?

- Parece que é só andarmos de carro para esse assunto surgir. E com você falando assim parece que eu sou um predador.

- É verdade, não é mesmo? A maioria das vezes que conversamos sobre isso são quando estamos dirigindo. - Comentei em concordância. - Todo mundo tem fase em que pega um monte de gente em um curto período de tempo, Harry. Isso não tem nada a ver, não se preocupe. Vamos lá, me conta.

- Você lembra da última vez que fui no Canadá? Logo quando a turnê acabou. - Assenti. - Lembra que eu estava com uns amigos?

- A família Gerber. - Concordei com a cabeça de novo.

- Como? - Me olhou confuso. Ele nunca parava de se surpreender. Era fofo. - Deixa para lá. Eu já sei como você sabe disso.

- Você realmente nunca vê as fotos que saem de você?

- Não, não mesmo. Quando eu sei que tiraram fotos minhas, eu não entro nas redes sociais por uns dias, sabe? Até o volume de marcações diminuir. - Ele riu antes de continuar.

- Não que você tenha notificações ativadas, de qualquer forma... - Resmunguei. - Mas enfim, continua.

- Ei, eu tenho sim! Das pessoas que eu sigo. Eu sempre vejo quando você me marca em algo.

- Só do Instagram, não é? Porque você nem tem aplicativo de twitter instalado.

- E você nem tem twitter! - Rebateu.

E eu tinha sim, ele só não sabia. Simplesmente porque eu não precisava do constrangimento de ele por acaso ler meus tweets antigos, além de encontrar uma foto dele de icon.

- Mas, enfim... - Encerrou o assunto em uma concordância velada. - Eles estavam na festa de Halloween aquele dia. E a Kaia... - Arregalei os olhos. - ...levou uma amiga.

- Eu juro por Deus que eu ia parar esse carro agora e te dar uma porrada se você tivesse falado que tinha ficado com essa menina.

- Ótimo. Isso confirma que você sabe de quem eu ‘tô falando. - Revirei os olhos, mostrando que era óbvio que eu sabia. - E é claro que não faria isso. A Kaia só tem dezessete anos!

- Graças a Deus! Porque eu simplesmente não saberia quem é você. - Ele riu do meu drama.

- Além do mais, o pai dela também me mataria... - Arregalou os olhos. E eu comecei a rir. - Mas eu já tinha conversado com ela umas duas vezes através da Kaia. Então ela ‘tava ali, eu ‘tava ali...

- E por isso vocês transaram?! - Falei na lata.

- A gente foi para um dos banheiros na festa, mas...

- Eu não acredito! - Comecei a gargalhar. - Harry Styles transa no banheiro de festas. O que aconteceu com o antigo costume de levar as mulheres para os quartos de hotéis?

- Mas como eu estava dizendo antes de você me interromper. - Revirou os olhos. Ele tinha mesmo pegado a minha mania. - Nós não fizemos nada demais. Eu não quis.

- O quê? - Perguntei confusa. - Você não quis?

- Não. - Deu de ombros, sem muitas explicações.

- Eu não acredito! - Repeti no mesmo tom. - Harry Styles fica com as pessoas só de beijos e não transa. - Comecei a rir de novo.

- Você é ridícula, sabia disso? - Ele sorria, uma mistura entre achar engraçado ou achar irritante, eu não saberia dizer qual sentimento predominava.

- Sabia. - Concordei rindo. - Mas por que você não quis? Tinha bebido muito? Ela beijava mal? Ah, já sei, ela vomitou em... você sabe onde... - Provoquei.

- Eu tinha bebido, sim. Mas...

- ENTÃO VOCÊ BROCHOU? - Eu gritei o interrompendo e gargalhando.

- Por acaso eu tenho cara de brocha, ?

- Eu não sei. - Dei de ombros. - Homens quando bebem muito, você sabe...

- Eu vou me lembrar disso quando você estiver gozando gemendo meu nome, cretina.

A resposta de Harry me fez rir mais ainda.

- ‘Tá, tudo bem. Nós já transamos bêbados e você nunca me deixou na mão.

A última vez que estávamos bêbados foi quando jantamos no Nobu, e eu tenho que confessar que eu quase pedi arrego, porque ele estava incansável.

- Obrigado.

- De nada. Pode continuar.

- Mas eu só não quis.

- Qual é o nome dela? Me deixa ver uma foto. - Pedi.

- Charlotte. - Respondeu enquanto digitava algo no celular.

- Quantas Charlottes você conhece, garoto? Isso não te confunde? - Ele riu do meu questionamento.

- É um nome bem comum. Eu não tenho culpa. - Deu de ombros. Colocou o celular por um momento à minha frente, na tela, na conta verificada dessa tal Charlotte, havia uma foto dela com Kaia.

- Modelo também? - Perguntei voltando a olhar para o trânsito.

- E cantora. - Voltou com o celular para o bolso.

- Hum. - Assenti. - Nunca ouvi falar. Muito bonita. Mas não parece ser muito mais velha.

- Ok. Foi por isso que eu não quis. - Confessou, por fim. - Eu não sabia que ela tinha só dezoito anos. - Eu comecei a gargalhar de novo.

- Agora está explicado. Parece a sua cara dar uma bola fora dessas, sabe? Agora eu ‘tô aqui imaginando você fugindo dela no banheiro, porque tinha acabado de descobrir que ela era uma adolescente.

- Faz parte. Eu prefiro não me envolver com mulheres tão novas.

- Por isso você me quis. - Falei divertida.

- A nossa diferença de idade não é nem dez dias, . - Revirou os olhos.

- E daí? Ainda assim sou mais velha que você. - Harry bufou fingindo tédio. - Você foi o primeiro cara com quem transei desde que terminei o namoro. - Completei casualmente.

- Sério? - Respondeu mais interessado, se ajeitando no banco, exatamente da forma que eu fazia quando ele estava dirigindo e me contava alguma coisa. Ele estava realmente pegando todas as minhas manias. - Você nunca me falou isso.

- Não é nada demais. - Dei de ombros. - Agora que surgiu a oportunidade para comentar.

Harry parecia não saber o que dizer. Ele não era do tipo que iria fingir se gabar naquele momento. Eu era a pessoa que debochava quando ele falava sério, não o contrário.

- Eu beijei um monte de pessoas, é claro. - Voltei a falar, convencida. - Eu só não quis transar com ninguém. Eu devo ter saído todos os fins de semana do meu último mês no Brasil. Era carnaval. - Dei de ombros, justificando.

- Você fala como se eu tivesse completa noção do que é o carnaval.

- É ótimo. Vou te contar umas histórias.

Já tinha escurecido completamente e eu tinha parado o carro a uma distância segura da entrada do letreiro de Hollywood para que ninguém nos visse dentro do veículo.

- Então, teve essa vez que a gente foi para um bloquinho...

- O que é um bloquinio?

- Blo-qui-nho. Nho! - Repeti pausadamente para Harry e expliquei o que era. - Enfim, tínhamos ido , eu, um cara que ela estava pegando e o amigo dele para o centro da cidade e estava super lotado, porque é carnaval, é claro. Era de tarde já e tínhamos fumado quase toda a maconha que levamos, e a minha amiga ficando como cara, né? E o amigo dele e eu lá de vela naquela situação meio esquisita, porque não nos conhecíamos. E eu definitivamente não ‘tava afim dele.

- Achei que a história terminaria com você dizendo que ficou com ele.

- Aí aí, Harry Styles, depois de todos esses meses de convivência, você ainda me acha assim tão previsível? - Balancei a cabeça em negação enquanto fazia um barulho de tsc tsc com a boca. - Paramos para usar o banheiro químico e entramos e eu em um juntas. - Eu comecei a rir, porque até hoje não consigo entender o porquê de termos feito isso. - Enquanto ela fazia xixi, eu segurava seu celular e tal e os meninos seguravam a porta do lado de fora. Coisas de Brasil, não me peça para explicar. - Completei quando vi que Harry ia me interromper. - Daí estávamos demorando e eles gritaram perguntando se por acaso estávamos transando lá dentro. O que seria um nojo, diga-se de passagem. - Eu sorria com a lembranças, eu vivi bons tempos no Brasil, esses dias de festa literalmente me salvaram de sucumbir ao luto pela perda do meu irmão. - E então sussurrou...

Minha mente me levou de volta para o exato momento.




Eu segurava pelos ombros para que ela urinasse sem se encostar na tampa do vaso do banheiro químico, eu não sabia quem estava mais bêbada entre nós duas. Foi quando ouvimos Carlos, o boy que estava ficando gritar do outro lado da porta.

- Vocês não estão se pegando aí dentro, não, né? Que demora!

- Ew, que nojo. Como que transa aqui dentro? - Eu falei instantaneamente.

- A gente podia empurrar a porta e fingir que tá se beijando. - propôs e eu comecei a gargalhar.

- A gente podia fazer uns barulhos também. - Eu entrei na onda e ela também riu.

Então a gente segurou um selinho e meio que empurramos a porta fingindo que estava emperrada para que eles abrissem, quando o cara abriu, e viu a gente daquele jeito, ele gritou um “eu sabia” no mesmo momento, então descemos do banheiro rindo.

- A gente não ‘tava se pegando de verdade, idiota. - Eu falei.

- Por que não? - O amigo dele perguntou.

me olhou, eu olhei de volta e dei de ombros.

- Por que não?





- Você beijou sua melhor amiga? - Harry me perguntou quando eu terminei de contar a história.

- Estávamos chapadas e bêbadas, era carnaval, nada demais. Além do mais, não é como se aquela tivesse sido a primeira vez. - Eu dei de ombros, com um sorriso sacana.

- Devo ficar preocupado em competir com ela pela sua boca? - Eu gargalhei.

- Não, porque eu não vou te dividir com ela.

- Mas eu divido você com ela, é isso?

- Não, Harry. Ninguém vai dividir ninguém aqui. A gente não sai por aí se pegando, embora já tenhamos dividido a cama com um cara.

- Ménage, ?

- Mas como eu disse... - Ignorei-o. - Eu não vou dividir você com ela. - Balancei a cabeça. - Não mesmo, sem chances.

- Droga! Você diz que fez um ménage e eu não posso nem propor um entre nós?

- Você não ia, não.

- Ia sim.

- Não ia, Harry. Você é muito egocêntrico para propor isso.

- Bem, não sou eu quem está dizendo que não vai te dividir.

- Eu já te divido com o mundo, Harry, como fã. E com esse monte de gente que você pega por aí. Acho que posso me dar ao luxo de pelo menos não querer dividir você quando estamos juntos, não é? Agora, se você quiser transar com ela longe de mim, aí é um problema seu. Mas jamais faria isso comigo. Na verdade, eu acho que ela nem gosta de você. - Provoquei.

Harry sorriu negando com a cabeça, pronto para me dar uma nova resposta.

Eu sabia que não havia nada que Harry odiasse mais do que ter alguém que não o conhece não gostando dele. Ele sempre gostou de ser o queridinho por todos, o cara super legal e engraçado que todo mundo gosta em qualquer lugar que ele chega. Então, se alguém não dá esse crédito para ele, ele meio que faz de tudo para entender o porquê não gostam dele e o que ele pode fazer para chamar atenção dessa pessoa. Um narcisista, de fato.

Dali alguns dias ele viajaria de novo. Eu sei que era por pouco tempo e logo ele estaria de volta, mas eu ia sentir sua falta.


12.The boys and girls are here, I’m messing around with them.

NOVEMBRO, 2018
3 meses e meio atrás




Estava a caminho do aeroporto para buscar , era uma sexta-feira. O LAX é relativamente perto do meu trabalho, então eu pude trabalhar normalmente e só sai um pouco mais cedo para chegar a tempo. Eu queria fingir que era durona, mas quanto mais o reencontro se aproximava, mais eu passava a ter certeza que desabaria em lágrimas.

Eu insisti para que Lucy fosse comigo, mas ela achou melhor não estar “no meio” quando eu me reencontrasse com minha melhor amiga. Ela achava que fosse ficar com ciúmes se ficasse grudada conosco o tempo todo. Eu, sinceramente, não sei bem o que pensar sobre isso. Não havia me ocorrido que uma pudesse sentir ciúmes da outra agora que ficaríamos todas juntas. Era o que eu mais queria. A minha pessoa favorita do Brasil reunida com uma das minhas pessoas favoritas dos Estados Unidos. Só faltava os meus pais e Harry para tudo ficar mais perfeito. Mas eu tinha um pedacinho deles carregados comigo.

Sentada em um dos bancos do portão de check-out que sairia, eu olhava para o celular a cada dez segundos, parecia que eu esperava há uma eternidade, mas eu só estava ansiosa mesmo. A porta automática se abriu mais uma vez e no meio de tantas pessoas vindo naquela direção, eu a vi. Ali mesmo já senti vontade de chorar, o nariz e olhos ardendo por segurar as lágrimas.

- Caralho, que saudade! - falou com a voz abafada quando nos agarramos.

- Eu nem acredito que você tá mesmo aqui! - Eu sussurrei, a voz embargada pelas lágrimas.

Quando nos separamos, ela também chorava. Não um choro copioso, mas um singelo rolar de lágrimas.

- Seus pais mandaram tantas coisas que eu juro que achei que não fosse passar pela imigração. - Ela brincou.

- Ah, eu imagino. Conheço muito bem meus pais. - Eu ri junto com ela. - Vem, meu carro tá no estacionamento.

tinha trazido tantas malas que precisamos de um daqueles carrinhos para atravessar o aeroporto. No caminho até o carro, que era um pouco longo visto que o LAX era enorme, não paramos de falar por nem mesmo um segundo.

- E o Daniel? Ainda tá com raiva de mim?

Daniel era um dos melhores amigos de e meu ex-namorado, aquele que terminei antes de vir para LA. Ele tinha ficado ressentido quando eu disse que não queria tentar nada a distância. Os dois meses, quase três, que eu fiquei no Brasil depois que terminamos foram sem contato nenhum com ele. Só quando faltava alguns dias para a viagem que ele me mandou uma mensagem se despedindo, me desejando boa sorte e tudo mais. Não era exatamente como se ele estivesse com raiva, mas as coisas ficaram um pouco estranhas.

- Que nada! Quando ele soube que eu ‘tava vindo ficou todo animado. Não parava de falar de você.

- Sério? - Arqueei uma sobrancelha em surpresa.

- Ele ainda gosta de você, . Ele só ficou com raiva na hora.

- Tadinho. Eu também gosto muito dele. Não queria que deixássemos de conversar. Mas ele tem que superar.

- Até porque você já superou, né, safada?! - Ela disse gargalhando.

- Idiota. - Eu dei um tapa no braço dela.

era a única pessoa que sabia de Henry além do Harry. Nem mesmo minha mãe sabia. Acho que se ela soubesse que não se pode ter relacionamentos afetivos entre colegas de trabalho e era exatamente aquilo que Henry e eu éramos, ela me mataria.

- Mano do céu! - expressou com os olhos arregalados quando parei em frente ao carro e destravei o alarme. - Você ‘ta rodando bolsinha aqui nos EUA, né, sua puta? Só pode, olha esse carro. Puta que pariu!

- Me respeita! - Foi só o que eu consegui dizer depois de gargalhar até perder o ar. Aí que saudades que eu ‘tava dessa retardada e de conversar em português.

- Não, sério. Eu ‘tô chocada, mano. - Ela respondeu deslizando para o banco do passageiro, da mesma forma que eu tinha feito quando entrei no carro pela primeira vez.

- Amiga, aqui é outra realidade. Onde eu trabalho todo mundo que tem cargo mais ou menos no mesmo nível que o meu tem um carro assim pra melhor. Sério. Você vai ver na rua. Pra gente parece super chique, mas aqui, para o meu estilo de vida, não é nada demais.

A primeira coisa que fiz foi abrir a capota, porque eu tenho certeza que era o que gostaria que eu fizesse. Erámos muito diferentes uma da outra e, no entanto, muito iguais. Eu sempre ponderava as situações, enquanto ela atingia altos níveis de inconveniência sem se importar. É estranho pensar em como eu costumo ficar bem mais parecida com ela quando estamos juntas.

Não estou dizendo que eu sou do tipo influenciável, uma “maria vai com as outras”, espero que isso já seja perceptível a esse ponto. Mas que também não sou nenhuma puritana, espero que isso também já seja perceptível. Eu acho que sou uma pessoa dosada, na medida. Eu sinto que sou brincalhona, sem ser inconveniente, que eu sou séria quando precisa ser e ajo de acordo com quem está a minha volta. só faz realçar o meu lado que não se importa com o que os outros pensam. É como se ela tirasse uma espécie de filtro invisível de mim. Dá pra entender? Nós erámos terríveis separadas e insuportavelmente terríveis juntas.

Eu não havia dirigido muito de capota aberta ainda. Eu sempre ia trabalhar com o ar condicionado ligado porque Los Angeles era quase sempre muito quente, então nem os vidros eu abria. Nos fins de semana, que ainda haviam sido poucos, enquanto Harry ainda não tinha viajado eu não aceitei andar no carro dele quando saímos juntos, porque era a mesma sensação que temos quando compramos qualquer coisa nova e queremos usar o tempo todo. Eu tirava o carro da garagem até para ir na padaria na rua debaixo.

Com Harry definitivamente não dava para andar de capota levantada, as pessoas conseguiam reconhecê-lo dentro de carros até quando os vidros estavam fechados, eu que não correria aquele risco de ter alguém nos seguindo. Vai saber se não puxariam minha placa para descobrir meu nome. Era uma possibilidade e eu sempre fui paranoica. Depois que Harry tinha voltado para o Japão, eu só tinha saído com Lucy algumas vezes e ido para a casa de Henry. Às vezes eu abria a capota quando voltava de lá, porque a melhor parte de um conversível é fazer isso quando você está sozinha dirigindo de madrugada.

Sobre Harry, na verdade, eu estava começando a achar que ele estava produzindo alguma das músicas por lá. Escrevendo, era óbvio. Mas ele estava andando pelo Japão com gente que mexe com música. Não foi difícil ligar um ponto ao outro. Alguma coisa estava acontecendo. Ele não estava indo e voltando de lá com frequência nos últimos meses sem motivo.

- Não morre nunca mais. - Eu comentei com ao sentir meu celular vibrar no bolso e ver o nome de Harry na tela.

- O quê? - me olhou confusa.

- Nada. - Balancei a cabeça e as mãos, num gesto de “deixa pra lá”. - Hey, babe! - Cumprimentei Harry atendendo a ligação.

- Ei, tudo bem? Já foi buscar sua amiga? - Harry respondeu do outro lado.

- Ela acabou de chegar. Na verdade, estamos dentro do carro. Estava prestes a sair do estacionamento nesse momento.

- Ah, que ótimo! Diz que mandei um “oi”.

- Harry tá dizendo oi. - Transmiti o recado em português. - Ela disse oi de volta. - Voltei a falar com Harry.

- Eu não quero te atrapalhar, só queria te perguntar uma coisa.

- Manda!

- Lembra aquele dia que fomos no Cafe Habana?

- Qual dia? - Já tínhamos ido lá mais vezes do que posso me lembrar.

- Na primeira vez, que eu vesti uma camisa branca amassada e você se recusou a sair comigo daquele jeito. - Respondeu com tom de voz de mágoa e eu gargalhei.

- Lembro, o que tem?

- O seu chiclete era de morango, não era?

- Ahn?

- O seu chiclete...

- Eu entendi, Harry.

- Desculpa.

- Não entendi a pergunta. - Comecei a rir. - Você me ligou para saber qual sabor de chiclete eu gosto? Achei que você queria falar algo sério.

- Isso é sério. Eu estou... estou escrevendo. - Confessou. - Eu escrevi... Vou ler duas linhas só...

- Ok. Pode ler. - Suspirei e encarei que não estava entendendo nada.

- “Tastes like strawberries on a summer evening / and it sounds just like a song” - Harry, na verdade, cantarolou uma melodia daquelas que pareciam ficar presas na nossa mente. - O seu beijo tem gosto de morango. Em um entardecer ensolarado, assim como naquele dia. - Completou. - Estava chovendo nos dias anteriores e justo naquela noite que saímos fez sol o dia inteiro. Você se lembra?

- Me lembro como se fosse ontem, Harry.

- E eu me lembro de querer muito te beijar e você tinha colocado no carro aquela playlist sua e estava tocando aquela música brasileira que você gosta muito... Sobre coisas que você faria por alguém, qual é o nome mesmo?

- “Por você” - Falei em Português. - Na versão do Frejat. Que em inglês seria “for you”.

- Isso. Eu poderia... Eu poderia fazer algo do tipo por você. Eu poderia ter feito algo ali se eu tivesse certeza que seria retribuído, que o pagamento seria o seu beijo de volta. - Meus músculos se retesaram em tensão ao ouvir a resposta de Harry.

- Eu faria muita coisa por você. Eu te protegeria de tudo, se pudesse.

- Mas você não... você tinha ignorado todas as minhas investidas até então... Eu não sabia se eu não estava sendo claro, ou se você só não estava interessada, mesmo.

- Independente disso. Eu andaria no fogo por você, Harry. Mesmo que nunca tivéssemos nos envolvido assim.

A linha ficou muda depois disso. Eu só ouvia a respiração dele misturada com a minha. Eu dei uma risadinha nervosa.

- Harry?

Não respondeu.

- Harry?

- Oi! Desculpa! Me veio uma ideia aqui. Eu precisei escrever para não esquecer.

- Ok. Tudo bem. A gente conversa depois.

- Não! Não desliga ainda. Eu...

- Harry, você não estava sendo claro. Não foi você quem disse que nunca tinha pensado em mim dessa forma antes da praia em San Diego?

- E você acreditou? - Rebateu na hora, em tom de descrença e riso.

- Acreditei, é claro. Não sabia que você estava mentindo para mim. - Eu sorria enquanto falava.

- Eu não estava exatamente mentindo. E eu realmente nunca quis que você achasse que eu estava te usando por causa da minha situação com... a Sophie. - Suspirou. - Então, o que eu disse era verdade. E a sua amizade é muito importante para mim. Mas que eu já tinha pensado em te beijar, isso eu tinha.

- Você deixou claro como a água que é apaixonado por ela. Eu nunca me esqueci disso, não se preocupe, porque eu concordei com ser o escape e tal. - Brinquei, rindo.

- Soa horrível quando você diz assim. - Harry também riu.

- Lembra aquele dia que cantei Temporary Fix para você? - Perguntei e ele respondeu com um “uh-hum”. - Então, você sabe que ainda pode me ligar, se não estiver com ninguém... Posso ser o que você quiser que eu seja naquele momento. Quer uma amiga? Estou aqui. Quer me contar do cara que quebrou seu coração? Estou ouvindo. Quer alguém para... - Me lembrei que estava do meu lado e comecei a tossir, engasgada com a minha gargalhada. - Eu não posso falar agora. - Completei nervosa. - A minha amiga está aqui do meu lado. Mas você entendeu o ponto.

- E eu também gosto de te ver acordando com a minha camisa. E posso imaginar o que você está pensando, você não precisa falar.

- Harry! - Repreendi-o pelo último comentário. - Então estamos quites?

- Estamos! - Concordou ainda rindo.

- Mas por que está me contando isso agora? - Perguntei, de repente me lembrando do foco inicial da conversa.

- Porque eu ‘tô no Japão escrevendo uma música sobre você. - Riu em tom de ironia. - E eu não consigo me lembrar se seu beijo tinha gosto de morango na última vez que nos beijamos. E isso está me perturbando.

- Se serve de consolo, eu estava usando um hidratante labial de morango nesse dia. Então, provavelmente, sim?! - Respondi com um risinho e encarei de novo, que ainda me olhava com uma cara estupefata.

- Obrigado. Eu vou... eu vou voltar ao meu processo aqui. E também não quero te prender mais. Você disse que ia dirigir agora, não é?

- Sim, estamos saindo do aeroporto. Conversamos mais tarde?! - Harry murmurou em concordância.

- Saudade! - Falou em português. - Mal posso esperar para sentir seu gosto de novo. - Completou em Inglês, e eu já não sabia se ele falava apenas do beijo. - Me espere voltar para casa. Eu não demoro.

Mal sabia ele que eu é quem pedia que ele me esperasse quase todas as noites enquanto observava uma Times Square vazia. Eu sentia que pudesse esperar pelo tempo que fosse preciso, ainda que o Harry do meu sonho insistisse em dizer que não poderia me esperar para sempre.

- O que foi isso? - perguntou quando eu desliguei a chamada, risonha e claramente constrangida.

- Nem queira saber.



*


- Me desculpa ter ‘te deixado sozinha a semana toda. - Eu choramingava com meu maior tom de culpabilidade para enquanto nos arrumávamos.

- Aí, cala a boca, . - Ela revirou os olhos. - Eu sabia que você ia ter que trabalhar quando eu decidir vir pra cá nas férias.

Naquela noite era a comemoração do aniversário de vinte e um anos da Lucy. Eu tinha organizado uma pequena festa surpresa para ela no meio da semana, que foi na data de seu aniversário, de fato. Mas é claro que ela iria na boate mais famosa de LA, agora que legalmente poderia beber.

- Até parece que você não me conhece, como se eu ligasse de sair sozinha. - falava enquanto se maquiava em pé ao meu lado, dividíamos o mesmo espelho.

Eu não achava muito justo que ela ficasse sozinha, mas eu tinha que trabalhar. Então tentava não ficar agarrada na empresa depois do horário e sempre que eu chegava, quando não tinha aula, saíamos para conhecer um lugar novo, geralmente algum lugar que vendia comida, porque esse era o nosso programa favorito: Sair para comer. Eu até tinha passado esse hábito para Harry, porque só saíamos para isso também. É como se ele tivesse virado a minha na Califórnia, só que com sotaque britânico.

Tinha vezes que ficava no apartamento o dia inteiro sentada no sofá vendo Netflix e esvaziando os meus armários. Ela estava de férias em Los Angeles, eu sempre dizia, mas ela dizia que também fazia parte de tirar férias ficar trancada em casa vegetando. Essa semana que ela tinha resolvido dar uma turistada. Ela me levava no trabalho e ficava com o carro para poder ir onde quisesse, depois, à tarde, me buscava. Nos fins de semana fazíamos tudo juntas. Apesar de estar me sentindo meio culpada, acho que ela tinha se divertido bastante, mesmo quando estava sozinha. E nunca estava sozinha de verdade.

- Mesmo assim. Eu queria ter ido com você. - Dei de ombros.

- Você ia era estragar meus esquemas. Você tem ideia do tanto de cara gato que tem no tinder? Aliás, só tem cara gato. Não tem um feio! - Eu sorri.

Eu tinha uma vaga ideia, mas não pelo tinder, e sim por ver nas ruas.

Todos os dias quando eu chegava do trabalho, ou quando ela ia me buscar, passávamos as seguintes duas horas ou mais com ela me contando de algum encontro. Naquela semana ela tinha saído com pelo menos uns três caras diferentes. Nem ela mais tinha certeza da conta.

Saímos da minha casa mais de dez da noite, pedi um Uber porque eu tinha certeza que só voltaríamos com o sol nascendo e que não estaríamos nada bem. Era a primeira balada que íamos desde que ela tinha chegado.

e Lucy já tinham se conhecido em uma das vezes que tinha ido me buscar. Lucy tinha razão sobre os ciúmes e por isso não tínhamos saído nós três em nenhuma situação. dizia que tinha ido passar as férias comigo e que tínhamos que fazer coisas só nós duas. Ela não se importou de ir na boate naquele dia porque era o aniversário de Lucy. E na verdade, elas até que eram bem parecidas, se parassem com toda essa bobeira se dariam muito bem.

- Oi, aniversariante. - Eu disse ao abraçá-la quando chegamos.

- Eu nem acredito que agora vou poder beber nos Happy Hours depois do trabalho. - Foi o que Lucy disse depois de nos cumprimentar.

Eu dei uma boa olhada em quem estava na mesa – enorme, diga-se de passagem – que Lucy havia reservado para os convidados. Era bem ao lado da pista de dança, e eu reconheci boa parte das pessoas. Pelo menos metade do pessoal do administrativo estava ali. De supervisores só tinham eu... E Henry.

Além de Henry, as únicas pessoas que eu conversava um pouco eram Caroline, de compras, e Jane, engenheira do trabalho, que estava grávida de sete meses agora. Seu marido também estava ali. Tinha mais um monte de garotas loiras de cabelão e uns garotos bombados que eu supus serem colegas de faculdade de Lucy, além da colega de quarto, Charlotte, que eu já conhecia. De pelo menos vinte pessoas, havia um total de... cinco que eu conversava. Será que eu era introspectiva?

Contornei a mesa, me sentando no lugar vago ao lado de Henry, acenando para todos em um breve cumprimento. se sentou ao meu lado.

- Ei, Campbell. Não sabia que você vinha. - Falei próximo ao seu ouvido porque a música já estava absurdamente alta. - Essa é a minha amiga do Brasil, . - Apresentei e ele olhou para ela, acenando com a cabeça.

- , esse é o Henry. - Falei próximo ao seu ouvido também.

- Hummm, Henry. Sei. - Ela se expressou maliciosa.

- Ouvi falar muito de você. - Henry respondeu polido e elegante.

- Eu também ouvi falar muito de você. - Ela gritou por cima de mim, que estava bem no meio da interação entre eles, imediatamente olhei para frente para ver se alguém estava prestando atenção, mas cada um cuidava da sua vida e também acho que a música estava muito alta para que alguém pudesse ouvir.

Do outro lado de Henry, estava Chad, o seu estagiário. Ele parecia ser um pouco mais novo que Lucy. Mas com certeza tinha a mesma idade ou era mais velho, até porque se não, ele nem estaria ali. Acho que eles eram bem amigos.

- Vamos beber, , por favor. - me cutucou, pidona. O cardápio já em mãos.

- O que você quer? Podia ter caipirinha, né? Seria demais!

- Essa droga de país que você escolheu vir, a culpa é sua. - me xingou e eu comecei a gargalhar. - Vou de gin tônica.

- Eu quero também. Será que eles vêm aqui anotar ou pedimos no balcão? - Perguntei.

- Não sei, vou descobrir. Já volto.

Assim que se levantou e estava a uma distância considerável, Henry me cutucou discretamente.

- Eu já bebi demais ou você falando português é uma das coisas mais sexies que já ouvi? - Meu olhar foi imediatamente para o copo em sua frente enquanto eu gargalhava.

- O que você está bebendo?

- Água. - Levantou o copo da mesa.

- Essa foi muito boa, Campbell. Perspicaz. - Ele sorriu.

- Eu quase não ouvi nada porque a música está muito alta, e entendi menos ainda. Será que você poderia falar mais um pouco no meu ouvido?

O que eu responderia para isso?

- Estou com saudades. - Ele falou novamente quando eu não respondi.

- Eu também. - Coloquei a mão por debaixo da mesa e apertei levemente na altura da coxa, voltando-a para cima da mesa em seguida.

Henry me perguntou como estavam as coisas e rapidamente engatamos uma conversa sobre trivialidades. não demorou a voltar com nossos drinks e logo estávamos conversando com as pessoas que estavam sentadas mais próximas na mesa. Eu conversei pela primeira vez um pouco com Chad, vi que ele era um garoto muito bom, parecia tão inteligente quanto Lucy.

- Será que a gente pode pedir ao DJ para tocar alguma música? Não aguento mais ouvir remix de música pop internacional. - reclamou comigo. Ela falava em português quando queria que só eu entendesse.

- Eu já sei o que você está pensando. Eles nem devem saber como tocar funk aqui.

- Eu ensino, vem. Vamos, por favor. Eu mereço isso depois de ter sido largada sozinha a semana toda. - Eu sabia que ela ia usar isso contra mim em algum momento.

- Falsa. - Acabei rindo, mas me levantei indo onde Lucy estava sentada. - Lucy, vamos dançar? - Perguntei em seu ouvido. - Chama quem quiser vir para a pista. Agora eu vou te apresentar ao funk brasileiro. - Pisquei.

Ela me olhou meio sem entender, mas concordou se levantando.

Existe algum brasileiro que vai para os Estados Unidos e não mostra o funk para os amigos alguma vez? Você pode até não gostar do estilo, só que é impossível um brasileiro em outras terras que não queira mostrar tudo do nosso Brasil. Isso inclui todos os estilos musicais, e naquele momento, era a vez do funk.

A deu o seu jeitinho de jogar uma conversa no DJ, porque ela era a pessoa com mais lábia que eu conhecia. Deixou o próprio celular com ele, em uma playlist só com os funks mais famosos. Ele só precisaria colocar para tocar.

Não demorou dez minutos e o resto do pessoal da nossa mesa que não quis ir dançar tinha se juntado a nós. Junto com eles, um grupo de brasileiros que estava na boate também. Os grupos fizeram amizade conosco e e eu ficamos gritando conversas em português com eles. Havia outras três garotas brasileiras, que, com , ficaram tentando ensinar o quadradinho para Lucy, Jane e Charlotte. Até mesmo Chad e outros dois colegas de Lucy também arriscaram rebolar. Eu gargalhava muito das tentativas frustradas enquanto gritava para ninguém em específico.

- É fácil! É só dobrar um joelho por vez e jogar o quadril.

Não faz sentido nenhum falando, mas tente visualizar. A roda de pessoas era enorme. Eu dancei com Lucy e , com Henry e Chad, com Jane e Dylan (seu marido), com um dos casais dos brasileiros... Foram mais de quarenta minutos só de funk. O DJ deixou que nos divertíssemos bastante. Nessa hora, e eu já tínhamos trocado os drinks por cervejas, porque se não, não aguentaríamos o resto da noite.

Depois que o funk parou de tocar, algumas pessoas ainda ficaram na pista de dança. , Henry, Lucy e Chad ficaram dançando comigo e com Natália, Pedro, João, Lucas e Larissa, os brasileiros. O resto deles voltaram para suas mesas.

Uma batida eletrônica ressoava na pista, que ainda continuava cheia. Henry tinha ido ao banheiro, Lucy conversava com Chad e tinha engatado uma conversa com Pedro e João, claramente não havia decidido qual dos dois estava mais interessada, Lucas e Larissa eram um casal. Natália conversava comigo e com Henry, ela parecia interessada nele. Não a culpava, porque ele era um gato e tinha uma conversa muito boa, mas ela também era muito bonita.

- Você está só de férias em LA, né? Você volta quando? - Eu perguntei para ela.

- Daqui duas semanas. E você?

- Eu moro aqui. Vai fazer um ano.

- Sério? E você ‘tá gostando?

- Eu adoro. O Henry, a Lucy, o Chad, - Apontei para eles. - Uma galera ali na mesa... - Apontei de novo. - Todos trabalham comigo.

- Que legal. E aí vocês vieram todos para a balada juntos?

- É porque hoje é aniversário da Lucy. Ela que convidou todo mundo. - Ela acenou em concordância.

- Vamos lá para fora comigo? É horrível conversar gritando. - Ela perguntou.

- Ahn... Claro, vamos.

Ela me puxou pela mão nos guiando para fora do tumulto de pessoas, a boate tinha uma área externa com algumas mesas, o som chegava até ali, mas era muito mais baixo e dava pra conversar em um tom de voz normal. As áreas eram separadas por um vidro, conseguíamos ver as pessoas lá dentro e as pessoas de dentro conseguiam ver as pessoas lá fora. Não que fosse possível ver rostos específicos... Muita mudança de luz e fumaça.

- Achei que vocês todos estavam entre casais... Você e Henry. - Eu arregalei os olhos. Estávamos dando muito na cara?

- Não! - Neguei imediatamente com uma risada nervosa. - O pessoal pareceu formar panelinhas, mas ninguém namora ninguém. Por quê? Parece que nós somos um casal?

- Não, é que vocês parecem bem próximos, e como só ele ficou perto de você quando todo mundo se separou, pensei que tivessem algo.

- Não, não! Se você estiver interessada vai fundo. Se quiser posso comentar com ele pra você. - Sugeri amigável.

- Você acha que ele ficaria comigo? - Perguntou rindo. A risada dela era daquelas estranhas que contagiavam. Caramba, ela era muito linda. A boca dela estava contornada com um gloss que chama atenção de longe.

- Não sei. - Respondi aquilo porque não sabia mesmo.

O Henry era meio à moda antiga, não acho que ele saia beijando pessoas em baladas. Ainda mais que eu estava lá e a gente costumava ficar. Eu tinha que lembrar de falar que por mim não tinha problema se ele quisesse.

- Mas você é bonita pra caralho, ele seria besta se não quisesse.

- Mas não é nele que eu ‘tô interessada.

- Ué! Em quem então? Acho que qualquer um dos meninos ia querer ficar com você. - Ela arqueou uma sobrancelha, enquanto me encarava com um sorriso divertido nos lábios. - Ahhhhhhh, é em mim? - Ela riu quando a minha ficha finalmente caiu.

Ela me contou que os amigos só chegaram para dançar com a gente porque ela me viu de longe e ficou interessada. E o tempo todo eu achava que Natália estava olhando para o Henry. Eu era tão boa em perceber certas coisas e ao mesmo tempo parecia cega para outras.

- Bom, eu não sei se você fica com meninas, mas eu não posso perder a oportunidade de te pedir um beijo.

- Nem se eu não ficasse com meninas eu não te negaria isso.



*


Sendo dramática, acordei no dia seguinte com a pior ressaca da minha vida. Mentira, a pior, pelo menos esse ano, foi a do jantar com James.

Acordei com a segunda pior ressaca do ano às três da tarde. Em um domingo. Eu vegetei o dia inteiro e mesmo assim não fiquei 100% curada para trabalhar na segunda feira.

não ficou muito melhor que eu. Ela foi a primeira a pedir para que não saíssemos naquele dia e me acompanhou nos analgésicos, pedidos de delivery e maratonas de séries.

- Você sumiu ontem na balada. O Henry voltou do banheiro e ficou te procurando. Ninguém sabia onde você tinha ido.

- Uma das meninas brasileiras me pediu para ir na parte de fora com ela. Você ‘tava muito ocupada decidindo entre os boys.

- Affff! Nem te conto! Atirei ‘pro lado errado, porque os dois eram um casal. - Ela respondeu bufando. - Mas então você deu um perdido no Henry?

- Eu não disse isso. - Tentei negar, mas acabei me entregando.

- Ah, não! Você deu perdido no Henry! - Ela começou a rir. - Será que foi por isso que ele foi te procurar e voltou super rápido dizendo que não tinha te achado?

- Ele foi me procurar? Ele é doido? Tinha sei lá quantas pessoas do nosso trabalho lá. Era lógico que eu não ia ficar com ele.

- Mas acho também que ele não esperava que você fosse ficar com outra pessoa. - Ela deu outra risada.

- Ah, eu acho que ele não deve ter me achado mesmo.

- Ele voltou rápido demais, . Não deu tempo de te procurar na boate toda.

- Será? Acho que você ‘tava muito bêbada para mensurar tempo. - Debochei. - Ele não me falou nada quando voltei para perto de vocês.

- Palhaça! - Ela riu mesmo fingindo ofensa. - Não sei. Eu acho que ele te viu.

- Ah, amanhã eu converso com ele.

E conversei. Depois do expediente, subi até a sala de Henry para tentar descobrir se ele viu alguma coisa. E se ainda estava tudo okay entre nós. Quero dizer, ele sabia que eu ficava com outros caras, no caso, Harry. Mas não sei se estaria tudo bem para ele ter me visto beijar uma pessoa aleatória na balada. Se é que ele tinha visto alguma coisa.



05:10pm: Não vou pra casa. - Enviei para .
enquanto subia as escadas até a sala de Henry.



05:10pm: Direto pra faculdade? - Ela
respondeu na mesma hora.



05:10pm: Sim.



Eu não sabia o rumo que aquela conversa tomaria e nem o tempo que levaria, por isso achei melhor ir de lá direto para a faculdade. Sim, eu estava esperando o pior. Eu sabia que Henry ia embora um pouco depois de todo mundo, então talvez ele não estivesse afim de ficar preso no trabalho discutindo comigo sobre sei lá o que fôssemos discutir.

Eu sei que não tínhamos nada sério; mas tínhamos alguma coisa, então na minha cabeça não era certo agir como se eu não devesse nada para ele. Era meio que uma consciência de responsabilidade afetiva.

Parei na entrada da sala e bati na porta de madeira que estava aberta, chamando a atenção de Henry que estava concentrado mexendo no computador. Usava um par de óculos de grau com armação arredondada. Assim que ele viu que era eu na porta, abriu um grande sorriso. Quase inconscientemente fiz uma lista de coisas que achava sexy nele e me visualizei marcando um “check” nessa cena.

- Oi? - Ele perguntou depois de alguns segundos esperando que eu dissesse algo.

- Hey! - Respondi com um sorriso.

- Está tudo bem, pretty? - Tirou as mãos do teclado e virou a cadeira na minha direção.

- Sim, desculpa a viagem! É porque você está muito gostoso todo concentrado e usando esses óculos. - Eu falei essa parte num tom de voz baixo, mesmo que eu soubesse que não havia ninguém mais naquele andar. - Eu quase me esqueci o que vim fazer aqui. - Ele imediatamente gargalhou.

- Então, o que está esperando? Entra aí! - Chamou com a mão, voltando a encaixar a cadeira de frente para a mesa. Entrei, permanecendo em pé, apenas escorando o corpo na bancada que ficava na parede ao lado da porta.

- Só vim saber como você está. Eu ainda me sinto com ressaca de sábado. - Eu tentava ver algum sinal de mudança em Henry, mas ele estava parecendo completamente normal para mim.

- Eu estou ótimo. Não enchi a cara como você. - Ele deu um riso nasalado.

- É... Por falar nisso, a minha amiga me disse que você ficou me procurando depois que voltou do banheiro naquela hora. - Cocei a cabeça, incerta se já deveria ir direto ao ponto. - Mas você não me falou nada depois. Fiquei pensando se queria falar algo comigo. - Essa última eu inventei na hora. Não fazia parte dos meus planos dizer aquilo.

- Oh! Por isso. - Deu um sorriso. - Não era nada. - Outro sorriso.

- Okay. Tudo bem então. Só passei para dar um oi mesmo, eu tenho que ir para a faculdade. - Me desencostei da bancada, caminhando até a porta.

- Boa aula, pretty. Até amanhã.

- Tchau tchau. Até amanhã. - Acenei breve e sai.

Okay! Aquilo definitivamente tinha sido estranho. Não, não tinha sido estranho. Era coisa da minha cabeça, tinha sido normal.

Eu desci o primeiro lance das escadas quando meu celular pessoal vibrou indicando uma mensagem, por reflexo levantei o braço para olhar para a tela do aparelho que estava na minha mão. Era uma mensagem de Henry. A mensagem era somente uma foto. Não dizia nada. Parei entre um degrau e outro e cliquei diretamente na notificação sendo direcionada para a foto que se abriu no mesmo instante.

Filho da puta.

Dei meia volta.

Eu tinha subido de volta apenas um lance e alguns degraus da escada. Mas subi correndo, ficando ofegante. Encontrei Henry na mesma posição em que ele estava antes, só que dessa vez ele tinha um sorriso idiota no rosto.

- O que é isso? - Perguntei mostrando a tela do meu próprio celular com a imagem aberta.

Henry desviou o olhar do computador e fingiu olhar para o que eu estava mostrando.

- Uma foto?

Uma foto minha beijando Natália.

- Isso é invasão de privacidade, sabia?

- Como você tinha bebido muito, eu só quis ter algo para te ajudar a lembrar, caso você se esquecesse de algum detalhe da noite.

Nossa, mas isso era uma atitude muito babaca.

- Você ‘tá falando sério?

- É óbvio que não. - Ele riu.

- Então por que tirou essa foto?

- Eu não sou seu inimigo, . - Ele entrou na defensiva. - Pelo contrário, eu sou seu amigo. E amigos fazem essas coisas para zoar uns com os outros.

- De novo: Isso é sério? - Será que eu estava reagindo sem pensar de novo? Exagerando? Porque eu já podia sentir meu sangue ferver.

Ele viu que eu não estava achando graça nenhuma na brincadeira.

- Eu não tirei essa foto. - Esclareceu. - Foi a , ela que me enviou. Era só uma brincadeira, . Não era para te constranger, ou sei lá o que você estiver pensando.

Eu não estava pensando nada. Só em... Por que a faria aquilo?

Comecei a andar de um lado para o outro em frente sua mesa. Que sacanagem. Aquilo era sério? Mesmo?

- Calma, senta aí. Por que você está nervosa assim? É só uma foto sua beijando uma garota. Não tem nada demais além disso na foto. Calma. Vou te contar a história.



* Henry – No sábado *

- ? - Chamei-a assim que voltei do banheiro e não encontrei onde estávamos. - Viu a ?

- Eu a vi indo para a parte externa com uma das meninas.

Agradeci e fui até onde era a porta de acesso para aquela área. Caminhei entre algumas pessoas e logo a encontrei. Ela conversava com uma das meninas brasileiras e de repente elas começaram a se beijar. Opa. Eu não deveria ficar encarando. Voltei para dentro.

- ? - Chamei a amiga de novo.

- Quê? Encontrou a ? - Confirmei com a cabeça.

- Mas ela... el-ela não estava sozinha. - Como eu ia explicar para uma menina que eu nem conhecia que a amiga dela estava beijando outra menina?

- E daí? - Claro que ela não tinha entendido.

- Nada. É... ahn... Acho melhor você ver.

Pedi que ela me acompanhasse e rapidamente estávamos no lado de fora novamente, caminhei por onde tinha ido, encontrando e a outra garota. bateu com uma das mãos no meu ombro, começando a rir. Abriu imediatamente a câmera do celular, tirando algumas fotos.

- O que você está fazendo? - Perguntei sem entender.

- Criando provas.

- Por quê?

- Porque é isso que amigos fazem. A gente zoa uns aos outros.

- O que você quer dizer? Eu não te chamei para zoar a . Talvez ela bebeu demais e amanhã talvez não vá gostar de saber que você deixou que ela fizesse algo que normalmente não faria.

- O quê? Henry, a é bi. Ela não precisa beber para beijar ninguém.

- Oh! - Minha ficha caiu. - Oh! - Eu fiquei sem graça. - Eu não sabia.

riu muito de mim, muito mesmo. Do tipo chorar de rir.

- Então nós vamos fazer o seguinte... - Ela começou a me contar o plano.




- E foi isso. Ela me disse que ia fazer você pensar que eu tinha ido te procurar, visto você beijando a garota e não gostado. Porque aparentemente ela sabe do nosso “relacionamento”. - Henry fez aspas com a mão. - Isso era algo que eu também não sabia. Mas enfim! Ela me mandou a foto, me disse que você tinha caído perfeitamente na armadilha e que provavelmente você ia me rondar para saber se eu tinha visto algo. Aí ela me disse que se você negasse, que era para te mostrar a foto.

- Eu vou matar aquela garota. - Eu falei com tom de voz bravo, mas acabei rindo. - Ela sempre faz isso comigo. Não foi a primeira vez. Eu deveria até ter desconfiado.

- Era só uma brincadeira. Eu juro que se soubesse que você não ia gostar, eu jamais teria feito.

- ‘Tá tudo bem. Eu aceito brincadeiras. Mas saiba que vai ter volta. - Apontei o dedo em sua direção. - Saiba disso!

Henry começou a rir da minha tentativa falha de intimidá-lo e eu acabei o acompanhando, tivemos uma crise de riso, assim mesmo, de uma coisa que nem era tão engraçada a esse ponto. Acho que eu ria mais por estar aliviada por tudo estar normal. Acho que eu estava mais preocupada com a reação de Henry do que tinha me dado conta.

- Okay! - Ele disse quando conseguimos controlar o riso. - Agora que vi que você não está brava, vem cá me dar um abraço. - Pediu se levantando e contornando a mesa, só precisei dar dois passos para que meu corpo encontrasse o seu, que me esperava de braços abertos.

- Fiquei com medo da sua reação. - Eu sussurrei entre o abraço.

- Por quê? - Ele desfez o abraço para me olhar, mas permaneceu com as mãos segurando em ambos meus braços.

- Não sei. Fiquei com medo de você ficar com raiva de mim porque eu beijei outra pessoa.

- Por que eu ficaria? Eu não tenho direito de ficar bravo por uma coisa dessas. A gente nunca teve nenhuma conversa sobre exclusividade.

- Pelo contrário. Acho que é um acordo implícito que podemos ficar com outras pessoas. - Confirmei.

- E eu não sou seu dono, você beija quem quiser. - Eu sorri. - Além do mais, foi uma bela visão. Quero dizer, duas mulheres se pegando. Se queria saber o que eu acho: eu aprovo.

- Henry! - Eu exclamei em repreensão.

- O quê? Nada de “Campbell” dessa vez? - Provocou. - A outra garota também era linda. Difícil não pensar nada, não é?

- Henry! - Exclamei de novo, dessa vez rindo. - Mas sabe... - Fiquei séria de novo. - A gente passa por cada coisa nessa vida que espera de tudo, não seria a primeira vez, entende? E eu gosto tanto de conversar com você, das nossas brincadeiras fora de hora, do seu jeito cortês quando é para falar sério... Da sua comida! Eu gosto muito que você sempre cozinha algo pra mim.

- É porque depois tem a sobremesa... - Ele respondeu num tom de voz despretensioso, mas cheio de malícia.

Comecei a gargalhar e chamei sua atenção de novo, mas eu não conseguiria convencer nem a mim mesma que aquilo era uma repreensão.

- Que coisa horrível de se dizer. Idiota!

Dar intimidade para os outros é uma bosta, né?

- Eu estou brincando. - Ele sorriu alisando o braço que eu tinha dado um tapa. - Mais ou menos. - Sorriu com cinismo dessa vez.

- Enfim... O que eu quero dizer é que... eu não queria que perdêssemos nada disso, sabe? Se pararmos de ficar.

Era como se eu estivesse preparando o terreno, como se eu soubesse que isso ia acontecer em algum momento. Como se eu sentisse que estávamos chegando ao fim da linha. E eu queria garantir que a amizade permaneceria.

- Eu não vou deixar de te dar uns amassos só porque você beijou uma mulher, . Além do mais, se eu tivesse que me preocupar com alguém, seria com seu amigo lá. O cantor.

- Ah não. - Revirei os olhos. - Lá vem você com essa de novo. Eu não vou namorar com ele, Campbell. Desencana.

- Eu sou a pessoa mais ok com isso entre nós três, baby. Aliás, eu não sei sobre ele, porque não o conheço. Mas eu aceito que vocês vão ficar juntos mais do que você, porque você ainda fica tentando se enganar. Corrigindo de novo: Você não aceita nem um pouco.

- Você é terrível, sabia disso? - Ele sorriu.

- Você não pode usar minhas palavras contra mim. A terrível aqui é você.

- Você também, Campbell. Tanto quanto eu.

- Não vou negar ou afirmar. Vou apenas te dar um beijo, porque já preciso ir embora.

- Uh-hum... - Eu concordei enquanto passava os braços ao redor de seu pescoço. - E eu tenho que ir para a faculdade. - Respondi fingindo desdém. Até teria dado de ombros, se meus braços estivessem abaixados.

Mas o único beijo se transformou em vários e os minutos se passaram rapidamente, acabamos engatando uma conversa na outra, sobre assuntos cada vez mais diferentes, ainda estávamos em pé, Henry e eu escorados de lado na bancada, um de frente para o outro, enquanto ele fazia um movimento leve e bem devagar de alisar meu braço com as costas da mão. Acho que ele já estava fazendo aquilo de modo inconsciente.

Dei praticamente um pulo para trás quando meu cérebro simplesmente fez piscar uma única palavra na minha mente: Faculdade!

- Quantas horas? - Exclamei enquanto eu mesma olhava. - Eu tenho que ir para a aula! Merda! Vou me atrasar. - Faltava vinte minutos para começar. - Se eu correr consigo chegar só um pouco atrasada.

- Ah! Não vai? - Pediu manhoso. - Vamos para casa comigo?

- Eu não posso faltar, Henry... - Respondi pesarosa.

- Tem prova?

- Não.

- Trabalho?

- Não.

- Então por que não pode? Você nunca falta, . Um dia só não vai te causar problemas. - Ele voltou a deslizar os dedos pelo meu braço, como se para me convencer de vez.

- Eu falei para a que ia para a aula... - Respondi sem muita convicção.

- Você volta ‘pra casa na hora que deveria voltar da faculdade. Qual é, ! Eu sei que a gente não pode ficar saindo e deixando a sua amiga sozinha. Mas nesse caso é como se você estivesse na aula. Ela ia ficar sozinha de qualquer jeito.

Henry tinha razão e eu não tinha mais argumentos. Eu amava ter comigo, e não queria nem imaginar como ia ser ruim quando ela tivesse que ir embora. Mas eu sentia falta de ir para a casa dele às vezes depois do trabalho. Nesses últimos dias tenho descontado todas as minhas frustrações em chocolate.

De repente, um barulho de pés entrando na sala foi ouvido. Eu me assustei e reagi abruptamente ao susto, me afastando da forma que percebi, de imediato, ser a mais suspeita.

- Sr. Campbell... - Era Jane, engenheira de segurança. - Srta. . - Desviou o olhar dele para mim, nos analisando. - Desculpem, eu não sabia que ainda tinha alguém aqui. Pensei que tivesse esquecido a luz acesa, então vim apagar. - Ela estava visivelmente envergonhada e saiu praticamente correndo da sala segurando seu barrigão de grávida, sem nem mesmo esperar para saber o que responderíamos.

- Puta que pariu. - Soltei em português mesmo. - Agora fodeu, caralho. - Henry olhava para mim meio confuso, porque não sabia o que eu estava dizendo.

- Não tinha nada para ela ver, . Fica calma. - Incrível como ele sabia o que eu estava pensando só pelo jeito que fiquei, mesmo sem conseguir me entender. - Não estávamos fazendo nada demais.

- É, mas era você quem estava me acariciando! Nada suspeito, imagina! - Respondi com tom de voz bravo.

- Ei! Ei! - Chamou minha atenção, eu olhava para toda a extensão da sala, menos para ele. - Eu não tenho culpa, ok? Não tem necessidade de você agir assim comigo.

Ouch. O remorso caiu como um tijolo na minha cabeça.

- Me desculpa, Angel. - Respondi com a voz mais suave que consegui. - Eu não quis te tratar mal. - Passei a mão na cabeça, puxando os cabelos para trás. - Você tem razão. Eu me assustei e agi imediatamente em uma defensiva, o que só comprova a minha culpa e levanta suspeitas. Eu não sei porque eu me movi tão rápido. Que merda!

- ! Se acalma! Você quer que eu converse com ela amanhã?

- Não! ‘Tá maluco?

- Você já parou para pensar que às vezes você reage exageradamente com coisas que não precisam de exagero? - Arqueou uma sobrancelha.

- Henry, se ela nos denunciar eu posso perder o meu emprego. Você pode perder o seu emprego! - Ele ignorou totalmente o que eu disse.

- E quando seria normal você reagir exageradamente você mantém a calma? Eu já te vi lidando com situações realmente muito piores sem que um fio do seu cabelo saísse do lugar. Você ‘tá literalmente surtando antecipadamente.

Aquilo me fez pensar. Talvez ele estivesse com razão. Eu só tinha um monte de possibilidades, nenhuma certeza.

- Ninguém é perfeito, não é mesmo? - Respondi sarcástica.

Que culpa eu tinha de perder o controle às vezes?

- Definitivamente não. Você não é um robô para sempre ter as respostas certas e manter as aparências, não demonstrando o que está sentindo... - Henry citou tudo aquilo porque era exatamente o que eu fazia sempre. - Mas vamos manter a calma, tudo bem?

- Ok! - Murmurei assentindo.

- Você quer conversar com ela?

- Quero. - Respondi no mesmo instante.

- Então amanhã você faz isso. Vocês duas tem afinidade, são amigas aqui, se gostam. Não tem motivos para que ela faça algo sobre isso e mesmo se fizesse, ela teria que reunir provas, primeiramente. Ok? Agora vamos para casa comigo.

- Eu acho melhor conversar com ela agora. Vou na sala dela.

- Certo! Eu já sei quando não adianta discutir. Mas vai para a minha casa depois, por favor, .

- Não vou te dar certeza.

- Tudo bem. - Suspirou. - Qualquer coisa me liga.

Depositou um beijo na minha testa, pegou a maleta e saiu da sala logo atrás de mim, trancando-a enquanto eu ia em direção a sala de Jane.

Ela não estava lá e a porta já estava trancada. Procurei nos prováveis lugares que ela poderia estar e quando não a encontrei em nenhum, tive certeza que ela já tinha ido embora. Suspirei audivelmente em frustração.

Fiz o mesmo processo de Henry de buscar a bolsa e trancar a sala e fui para o meu carro. Eu tinha que aceitar que aquilo, naquele dia, naquele momento, estava fora do meu controle e eu não podia fazer absolutamente nada, além de esperar o dia seguinte. Dei partida no veículo saindo pelo estacionamento e pegando o rumo de casa.


13. We’re just swimming around in our glasses and talking out of our asses.

DEZEMBRO, 2018
3 meses atrás




- Não acredito que já está chegando o dia de você ir embora! - Eu reclamei com assim que desci do meu carro e fechei a porta.

Tínhamos chegado ao restaurante que combinei de encontrar com Harry para almoçar. Minha melhor amiga só ia conhecê-lo agora. Harry havia passado o mês de novembro todo no Japão e uma pequena parte em Londres.

Estávamos olhando o cardápio para matar o tempo quando ele chegou.

- Oi, ! Como você ‘tá? - Disse ao se aproximar e me dar um beijo no rosto e um abraço leve e meio desengonçado. me olhou engraçado por causa do jeito que ele me chamou. Mas não liguei para isso. Já tinha me acostumado.

Porém, eu quis revirar os olhos, Harry era muito britânico às vezes, não me via há mais de um mês e nem sequer esperou que eu levantasse para lhe dar um abraço apertado. Ou é coisa de brasileiro ficar sem ver poucos dias e nem querer soltar mais a pessoa de tanto abraçar?

- E você deve ser a , certo? - Também deu um abraço rápido e um beijo no rosto da minha amiga.

- Isso mesmo! E você é o Harry. - Ela respondeu, sem alterar nem um músculo facial pela presença dele.

Eu digo isso porque, né? Harry Styles? Você me entende?

- Gostei do sotaque dela. - Ele deu um sorriso daqueles que eu considerava como um divisor de águas, era definidor! No sentido de: Ou você gosta de Harry Styles, ou você ainda não o conhece. O sorriso era como uma marca registrada, pois quando ele sorria daquela forma, não havia ninguém que não o conhecesse que não passasse a gostar dele.

Mas era um pouco... Digamos que “osso duro de roer”. Ela não se deixava impressionar pelo fato de ele ser uma celebridade. Mas eu sabia que ele a conquistaria de qualquer forma. Ou talvez não, nesse caso ele implicaria com ela até ela passar a amar odiá-lo.

- Então, como estão as coisas? Você resolveu? - Harry me perguntou ao se sentar na cadeira ao meu lado, passando a olhar o cardápio.

Eu havia contado para ele sobre o incidente na sala de Henry no mês anterior, mas não conversamos muito depois, Harry ficou ocupado no estúdio mesmo tendo me dito que não iria trabalhar no álbum até o ano que vem. Ele não se aguenta.

já sabia como tudo tinha se resolvido. Relembrei os pontos principais antes de retomá-los a Harry.



Assim que cheguei no dia seguinte, não consegui sossegar e trabalhar em paz enquanto não dava o horário de Jane chegar, como engenheira de segurança, ela sempre ia embora uma hora mais tarde do que todo mundo, eu não fazia ideia do porquê, então também chegava uma hora mais tarde. Eu tinha mínimos conhecimentos de segurança do trabalho e, sinceramente, não era minha área favorita.

Ela mal havia guardado a bolsa quando bati na porta.

- Oi, Jane! Tudo bem? - Eu pagava para dispensar as formalidades de chamar todos pelo sobrenome, então só fazia isso com a gerência (porque eu fazia parte dela) e dos mais velhos, porque eles faziam questão. Ou quando estávamos em reunião. - Como está o bebê?

- Oi, ! Tudo bem e você? - Ela olhou para mim ao responder e antes de se sentar na cadeira. Eu ainda estava parada na porta. - Ele está ótimo. Não aguento mais esperar para ele nascer.

- Tudo bem também. - Eu sorri, simpática. - Ele nasce quando, mesmo?

- Em fevereiro!

- E o nome, já escolheu?

- Dylan não gosta de nenhum que sugiro. - Ela bufou.

- Homens, certo? - Falei e ela riu. Cocei a garganta. - Eu posso... posso conversar com você?

- Claro! O que você está precisando? - Ao ouvir a resposta, eu entrei na sala e fechei a porta.

- Então, sobre ontem... - Hesitei, na verdade eu não sabia bem o que falaria. - Eu-eu não sei bem o que você viu, mas-mas eu queria esclarecer qualquer mal-entendido. - Eu gaguejava tanto que se estivesse vendo a cena de fora, com certeza estaria rindo da minha eu, muito otária, daquela versão.

- Fica tranquila, ! Eu não sou do tipo que faz fofoca da vida dos outros. - Ela deu de ombros.

- Eu sei. Mas... - Eu não tinha resposta. Qualquer coisa que eu falasse automaticamente denunciaria minha culpa. Eu não conseguiria mentir.

- Além do mais, eu sou sua amiga. Não sou? - Jane continuou quando eu fiquei em silêncio por tempo demais.

- É claro! - Isso eu respondi sem hesitar.

- Eu já tinha percebido que você anda muito mais amigável com ele do que antes. E você só age assim com a Lucy e talvez comigo. - Ela riu. - Claro que isso não prova nada, só mostra que você fez mais amizade e tem mais intimidade com a gente do que com as outras pessoas. Eu queria te perguntar desde antes da festa da Lucy, mas fiquei com vergonha de estar enganada e você se ofender, por causa da regra de não se envolver com colegas, sabe? - Ela fez uma pausa e eu assenti. - Mas agora senta aqui e me conta tudo!




- A sala da Jane e a minha são umas das únicas que não tem câmeras. Eu devo ter ficado lá uma hora conversando. Eu contei para ela como uma prova de que a considero minha amiga como ela me considera amiga dela.

Eu deixei de fora para Harry que, quando tudo aconteceu, mesmo eu tendo tomado o rumo de casa, acabei mudando de ideia no meio do caminho e fazendo o retorno para a casa de Henry, porque pensei: Bem, se isso tudo vai acabar agora, pelo menos podemos fazer isso pela última vez, como uma despedida.

Mas ainda bem que deu tudo certo. Ainda bem que não foi a última vez.

Mas eu precisava tomar muito cuidado agora, Lucy e Jane sabiam do meu envolvimento com Henry. Eram pessoas demais.

Harry não precisava saber que eu tinha ido até Henry naquele dia, porque achei que não seria legal contar exatamente o dia que fui para casa de outro cara. Sim, a gente sempre contava sobre os sexos casuais um do outro, mas geralmente eram com pessoas que não conhecíamos e não veríamos mais. Acho que eu não gostaria de saber que ele se encontrou com a Kendall ontem, por exemplo. Detalhes sobre os rolos fixos não parecia algo que eu poderia aguentar saber. Na minha cabeça eu era o único rolo fixo dele, e para mim isso bastava.

- Então tudo foi resolvido? - Harry perguntou.

- Sim. Tudo continua como sempre. - Eu respondi em conclusão.

- E eu achava que o problema todo tinha sido quando ele te viu beijando aquela garota. - revirou os olhos, fingindo tédio.

Harry arregalou os olhos, me olhando assustado.

- Espera! Essa parte eu não fiquei sabendo. - Comentou meio rindo.

- Eu tinha até esquecido disso. - Foi o que respondi.

- Você se esqueceu de me contar a melhor parte? - Harry brincou.

Contei brevemente e sem muitos detalhes. Aquele assunto não era a mesma coisa quando não estávamos dirigindo, indo para algum lugar ou voltando pela noite de vidros fechados e com música para completar o cenário de fundo.

- E você está gostando de Los Angeles, ? - Perguntou quando terminei de contar.

- Ah sim! Adorando. Pena que logo vou embora.

- Sério? Achei que passaria o natal e ano novo aqui. - Harry replicou confuso.

- Infelizmente preciso voltar para o meu trabalho. Eu não queria deixar a passar o natal sozinha, sabe? Mas ela não quer voltar para o Brasil.

- Eu já te disse, Docinho. Eles disseram que poderiam me dar no máximo dez dias de folga. As passagens são muito caras para eu não ficar nem duas semanas lá. Não compensa. Eu já vou nas férias, você sabe. - Falei em português. Já discutimos sobre aquilo antes, não queria brigar de novo e nem colocar o Harry no meio da briga.

- Tá bom, . Tá bom. - E ela revirou os olhos.

Harry ficou com cara de quem não estava entendendo nada. Até porque não estava entendendo mesmo. Depois eu acabei contando o que havíamos falado.

- Vocês são bem parecidas, sabe? - Harry comentou.

e eu olhamos uma para a outra e explodimos em uma gargalhada. Não erámos nem um pouco parecidas.

- Não estou falando fisicamente. - Harry revirou os olhos também.

- Onde ele aprendeu a fazer isso? - gritou apontando para ele.

- Comigo. - Respondi começando a rir mais ainda.

- Não acredito que você passou as minhas manias para ele. - voltou a falar.

- A culpa é sua que passou todas as suas manias para mim. - Retruquei.

- É disso que eu estou falando! - A voz de Harry se sobressaiu a nossa, rindo também. - Vocês duas tem um jeito muito parecido.

- É a convivência. - Eu falei e concordou.

Eu não sabia o que faríamos a seguir, mas esperava que tivéssemos mais momentos juntos, minhas duas pessoas preferidas comigo, eu estava feliz.

Por mais que eu já vivesse há alguns meses na cidade, parecia que eu ainda não conhecia nada, Harry sempre conseguia me levar em um lugar novo que eu nunca tinha ouvido falar. Eu já deixei claro o meu amor por cafeterias, mas eu achava incrível a quantidade delas que havia em LA.

Harry ia se encontrar com Jeff, seu agente, depois do almoço e nos chamou para ir junto. Fui seguindo o carro dele até uma cafeteria que não era muito longe de onde almoçamos. Jeff já estava lá quando chegamos.

- Ei, mate. - Harry cumprimentou Jeff com um abraço. - Essa é a e essa é a amiga dela, .

- Ei, Harold! - Jeff respondeu. - É um prazer conhecer vocês duas. - Direcionou a fala a cada uma de nós depois de um aperto de mãos.

- Quais são as novas? - Harry perguntou. Nos sentamos em uma mesa de madeira com bancos inteiros sem encostos, também de madeira. Eram bem diferentes, nunca tinha visto assentos daquela forma em cafeterias.

- Bom, eu estou começando a ficar com ciúmes da . Porque você chegou em LA e foi vê-la primeiro.

Eu comecei a rir.

- Pode me chamar de , Jeff! Estamos entre amigos aqui, você não precisa competir a atenção de Harry comigo, ele é todo seu. - Brinquei.

- Ah, então você está me dispensando assim? Tão fácil? Achei que fosse pelo menos discutir por minha causa.

- Eu não brigo por homem, Harry. E você não seria o primeiro, sinto muito. - Quando terminei de falar, já havia levantado o braço e fizemos um high five.

Ele fez a melhor cara de ofendido que conseguiu, enquanto e Jeff riam.

Eu estava impressionada. Eu nunca havia visto ou conversado com Jeff, mas ele puxou assunto e fez piadas comigo como se já me conhecesse. Depois, eu perguntei a Harry se aquele era o jeito dele, Harry respondeu que em parte era, e em parte porque provavelmente ele já havia falado muito de mim.

Conhecer Jeff não foi muito diferente de conhecer James, eu fiquei com medo da mesma forma. Mas com James eu fui avisada antes, tive muito mais tempo para ficar remoendo os mesmos pensamentos. Com Jeff foi algo instantâneo, Harry nos convidou para acompanhá-lo e eu não tive muito tempo para pensar em nada disso, apenas durante o caminho que não foi muito demorado.

Eu dei graças aos céus pela forma que ele me tratou, com muito mais intimidade do que eu esperava, porque afinal, eu estava conhecendo um dos amigos mais íntimos de Harry, que além de tudo ainda cuidava de sua carreira. Era mesmo muita pressão ou eu estava exagerando?

Mesmo que tivéssemos acabado de almoçar, pedimos milkshakes de sobremesa. Harry contava sobre o período em que esteve fora, e eu já havíamos ouvido tudo enquanto almoçávamos, então ficamos caladas ou às vezes conversávamos entre nós, esperando uma brecha na conversa para falar de alguma outra coisa.

Era muito legal que mesmo que Harry e Jeff trabalhassem juntos e tivessem ficado sem se ver por tanto tempo eles não falaram de trabalho nem uma vez. Harry tinha esse poder de ter acabado de chegar de, sei lá, uma apresentação super importante e conseguir só falar de outras coisas irrelevantes. Como se tivesse acabado de chegar de um dia como o meu, num escritório. Daí ele sentaria na frente da TV e facilmente conversaria sobre o livro que estava lendo. Por falar em livro, ele estava lendo um que eu emprestei, My policeman, eu tinha gostado tanto que falei por dias com Harry que ele deveria ler, até que ele finalmente aceitou pegar emprestado.

Jeff e Harry ainda conversavam entre si, quando me peguei observando Harry melhor, seu cabelo estava enorme! Tudo bem que já havia um tempo em que ele não cortava, mas não imaginei que pudesse dar tanta diferença em apenas um mês. Sentado com os cotovelos apoiados na mesa e com o tronco flexionado em uma posição relaxada, seu cabelo dava a ilusão de já estar no pescoço. Como eu estava sentada do seu lado, discretamente me arrastei pelo banco um pouco para longe e tirei uma foto. olhava para ele e ele olhava para Jeff, tinha ficado engraçada. Harry vestia uma camisa de botões branca, uma calça xadrez com uma meia na canela e um sapato da Gucci amarelo. Ali, sentado, não parecia uma boa combinação. Mas pra mim ele sempre estava lindo. Me aproximei novamente.

- E a Glenne? Como vai? - Já que Jeff havia agido como meu amigo íntimo, pensei que também poderia fazer isso perguntando sobre a namorada que eu nem conhecia. Não que eu tivesse alguma ideia do que estava fazendo (num geral), para ser sincera.

- Glenne? - Ele me olhou confuso por um momento, depois trocou um olhar com Harry. - Ela está ótima. Obrigado por perguntar.

- Achei que ela fosse vir com você. - Completei. - Uma pena, queria conhecê-la.

- Vamos marcar alguma coisa. - Jeff replicou prontamente e eu sorri. - Eu peço Harry para te falar.

- Claro. Okay!

estava um pouco excluída da conversa, então falei com ela em português.

- É a namorada do Jeff, que inclusive não conheço. - Ela acenou concordando que entendeu. - Eles devem estar me achando meio louca agora, porque supostamente não era para eu saber sobre ela. Mas eles são amigos do Harry, então saem fotos, sabe como é.

- É impressão minha ou você está numa onda de mulheres que falam línguas estrangeiras? - Jeff questionou falando baixo para Harry quase quando terminei de falar. Acabou que eu ouvi mesmo assim.

Eu já sabia que Jeff sabia do meu envolvimento além da amizade com Harry, eu tinha me incomodado um pouco antes, mas agora que estava ali diante dele, eu não via muitos motivos para me preocupar.

- Olha, Jeff, eu acho que ele está meio obcecado. - Fingi um tom sério, mas que claramente era brincadeira. Jeff arregalou os olhos, envergonhado por eu ter ouvido. - Se ele pelo menos aprendesse a falar a língua de todas essas mulheres com quem ele sai, estaria em vantagem, não é?

- Gostei dela. - Jeff falou para Harry, que tentou ignorar a alfinetada.

- Você que não me ensina português, ! - Retrucou em sua defesa.

- Estou ao seu dispor, babe. Quando quiser. - Falei num tom cínico e dei uma piscadinha para ele.

- Debochada. - Sussurrou em minha direção, ainda assim de modo audível a todos.

- A maior de todas. - Pisquei de novo.

Estávamos rindo dessa última provocação quando vimos a silhueta de alguém se aproximando da nossa mesa. Era uma garota de uns 15 anos, tremendo.

- Harry? - Ela chamou e ele imediatamente a encarou com um sorriso.

- Ei!

- Desculpa incomodar, mas você pode tirar uma foto comigo?

- Claro. - Ele sorriu de novo. Enquanto isso, eu tinha deslizado pelo banco para menos um metro de distância dele.

- Obrigada! Desculpa atrapalhar vocês.

- Não tem problema nenhum. - Eu falei tentando tranquilizá-la. Ela estava tremendo muito.

Jeff mexia no celular, nem um pouco preocupado, acho que ele já estava acostumado com essas abordagens e meninas quase desmaiando.

Harry se levantou e foi para o lado dela, tocando seu ombro.

- Você está bem? - Ele perguntou.

- Sim, sim. Eu estou nervosa. Eu te amo muito. - Harry então pegou em suas duas mãos.

- Respira fundo. Está tudo bem, ok? - Ela concordou com a cabeça. - , pega o celular dela. - Harry me chamou e eu levantei prontamente.

- Deixa eu tirar a foto para vocês. Fica calma, ok? - Ela assentiu de novo e Harry os posicionou de frente para a câmera. Eu bati uma foto rápida e devolvi o celular para ela.

- Obrigada. - Ela falou com Harry e então pareceu me notar pela primeira vez. - Obrigada. - Disse para mim. - Quem é você?

- Eu... eu... - Gaguejei de olhos arregalados e encarei Harry, gritando por socorro silencioso.

- Ela é a , uma pessoa nova da equipe. - Harry respondeu por mim. - Vai trabalhar diretamente com o Jeff. - Completou, chamando atenção de seu agente, que até então continuava alheio a conversa.

- Sim, isso mesmo. - Jeff confirmou assim que conseguiu desfazer a cara de surpresa.

A garota não questionou muito depois disso, agradeceu e foi embora. Ela nem sequer abraçou Harry. Esse povo era muito esquisito, ela estava mais preocupada com o fato de ser Harry Styles ali ou com a foto do que com o fato de que ela tinha a chance de abraçar o ídolo e conversar com ele. Vai entender.

Me sente no banco de novo, desolada.

- Ei! Veja pelo lado bom, agora todo mundo vai achar que você trabalha comigo e ninguém vai te perseguir mais. - Harry brincou tentando amenizar a situação.

Eu só concordei com a cabeça, incapaz de pensar muito além disso.



*


Eu tinha ido trabalhar normalmente nos próximos dias, ninguém havia descoberto minhas redes sociais depois do incidente, até porque não tinha nada meu na internet com nome de “”, Harry foi esperto nesse ponto. Ele me seguia, mas meu Instagram era privado e continuaria assim.

Era sexta feira e e eu tínhamos combinado que passaríamos o fim de semana todo juntas. Inclusive, naquele dia quando eu chegasse em casa íamos patinar na orla da praia em Santa Mônica.

O expediente já estava quase acabando, Lucy já tinha ido embora e eu subi para deixar uns documentos com Henry. O bonitão, como tinha o apelidado, tinha tomado uma multa num dos carros da empresa.

- Knock Knock. - Falei quando cheguei à porta de sua sala, que como sempre estava aberta.

- Who’s there? - Ele respondeu sorrindo ao me ver na porta.

- Ah não, sem piadas de “toque-toque”.

- Você que começou. - Riu. - E o que você tem contra piadas? - Perguntou divertido enquanto eu me sentava na cadeira do lado oposto na sua mesa.

- Nada, só me fazem parecer que eu não sei nada de inglês, porque nunca as entendo. - Respondi frustrada e Henry gargalhou.

- Bem, você está me entendendo agora, certo? - Revirei os olhos e vociferei um “lógico” que o fez rir de novo. - O que você precisa, pretty? - Perguntou observando os papéis no meu colo.

- Do seu autógrafo. - Coloquei os documentos na mesa. - Bem aqui. - Apontei para a linha que tinha o nome dele impresso bem embaixo.

- O que é isso?

- Seu presente de natal adiantado. O desconto da multa por estacionar em local proibido.

- Aí, que saco!

- Não sabe dirigir, é isso que acontece.

- Oh! O que você quer dizer com isso? Que você dirige melhor do que eu?

- Isso é óbvio.

- Ohhh! - Henry tinha expressões de quem se sentia desafiado. - Vamos ter que conferir isso.

- Quando quiser. - Pisquei e depois sorri debochada. - Agora assina isso logo, porque preciso ir embora.

- Também estou indo. - Respondeu enquanto rabiscava algo que chamava de sua assinatura no papel.

- Vai sair mais cedo, Campbell?

- Sim, as crianças vão ficar comigo esse fim de semana.

Henry sempre saia mais cedo quando ia buscá-los na casa da mãe.

- E você? Por que a pressa para ir embora?

- e eu combinamos de patinar em Santa Mônica hoje. Ela está com o carro, vai passar daqui a pouco para me buscar.

Só era ruim sair sem tomar banho depois de um dia de trabalho, mas eu sabia que se fosse para casa não teria coragem de voltar todo o trajeto. A empresa ficava na metade do caminho entre minha casa e a praia de Santa Mônica, era muita estrada.

- Sério? Que legal. Eu estava procurando alguma coisa diferente para fazer com eles esse fim de semana. Acha que é uma boa ideia?

Henry juntou suas coisas, fechou a sala e desceu comigo. Fomos até a minha, ainda conversando, enquanto ele me esperava juntar as minhas coisas e também trancar minha sala.

- Acho que é uma ótima atividade para que vocês três façam juntos.

Henry e eu íamos caminhando em direção ao estacionamento, provavelmente pararíamos entre nossas duas vagas, que ficavam lado a lado. Fazíamos isso sempre e acabávamos estendendo o assunto por mais 20 ou 30 minutos antes de finalmente irmos embora. Vi o carro de Henry e logo depois o meu, já tinha chegado.

- Vou levá-los amanhã. Ali estão eles. - Apontou para um carro do outro lado do estacionamento, que no mesmo minuto teve três portas abertas.

Da parte da frente saíram uma mulher e uma menina e atrás um menino. Não eram apenas os filhos de Henry, a ex esposa também.

- Achei que você ia buscá-los. - Comentei enquanto estávamos parados ao longe, observando-os se aproximarem.

- Kate quis trazê-los para adiantar para mim. - Olhei-o surpresa. - Acredita?

Eu balancei a cabeça na horizontal, rindo. Pelas histórias que Henry me contava sobre a ex, mesmo tendo um convívio amigável, ela não facilitava as coisas para ele; era quase como se ainda o estivesse punindo depois de tantos anos. E eu não achava que ela estivesse errada, eu sei que há pessoas que podem ser bem rancorosas.

E Henry aceitava tudo, apaziguador, como se fosse uma sentença jurídica que ele tinha prazer em cumprir para o bem da própria consciência. Por isso, alguma coisa me dizia que ele ainda gostava dela e quisesse fazer tudo certo e compensar seus erros.

Quando ele me falava sobre ela, o que não acontecia muito se eu não perguntasse, mas não era como se ele quisesse esconder algo de mim, porque sempre que eu demonstrava interesse, Henry tinha facilidade de se abrir comigo, era algo que eu definitivamente gostava nele. Ele fazia tudo ser muito simples, eu perguntava e ele respondia, sincero e límpido, sem jogos, sem medo de dizer alguma coisa errada.

Nessas conversas, eu já notei como ele conta coisas sobre ela com admiração, principalmente na parte de como ela é uma boa mãe para os filhos dele e como ela fazia e sempre fez de tudo pelos dois pequenos.

Talvez esse jeito dela fosse apenas uma implicância velada para enterrar os velhos sentimentos que ela também ainda nutria por ele. Essas eram as minhas teorias, eu não conhecia o lado dela e acho que Henry jamais admitiria se eu estivesse certa sobre isso.

- Então eu vou indo.

- Não, espera aqui. Quero te apresentar a eles.

- Ok. - Confirmei, mas na verdade só estava travada no lugar sem saber como reagir.

- Oi, Pumpkin! - Madison, a filha de Henry, foi a primeira a se aproximar, dando-lhe um abraço.

- Oi, pai. - Respondeu ao soltá-lo e olhou para mim. - Oi.

- Ei. - Eu levantei a mão em um aceno e sorri, mas tenho quase certeza que saiu mais como uma careta de surpresa.

- Ei, campeão. - Abraçou Tyler, o qual foi para o lado da irmã em seguida sem falar nada.

- Oi, Henry! - Katherine o cumprimentou com um beijo no rosto.

Ela era alta, esbelta e usava um scarpin salto 15cm. Acho que as descrições sobre suas extravagâncias estavam corretas, pois suas roupas pareciam caríssimas. Eu abaixei o olhar, dando uma checada em mim mesma. Um scarpin tão alto quanto e, por incrível que pareça, eu até usava o terninho completo naquele dia, blazer e tal. Eu não estava nada mal. Mas não vou mentir, ela me deixou intimidada. Não por estar mais arrumada que eu, porque não estava. Mas porque ela era claramente uma mulher muito elegante, por volta dos seus 35 anos. Enquanto eu, em termos de atitudes e jeito de agir, parecia só uma pirralha deslumbrada perto dela.

- Kate, essa é a . A nova supervisora de logística.

- Olá, é um prazer. Eu sou a Katherine. - Se virou para mim e estendeu a mão.

- ! - Corrigi Henry, já que eu preferia que me chamassem pelo apelido. - E o prazer é meu. - Cumprimentei-a.

- E esses são Madison e Tyler, certo? - Apontei para os dois adolescentes. - Seu pai fala muito de vocês! Seus filhos são lindos. - Completei olhando para Katherine.

- Obrigada! - Ela sorriu. - E você está gostando daqui? Henry comentou que tinham contratado uma nova supervisora de outro país.

- Ah sim, eu sou do Brasil. Até então tem sido tudo ótimo. Quero dizer, a Califórnia é um ótimo lugar para viver.

- E já tem muito tempo que você mora aqui? - Katherine perguntou simpática, o que me impressionou. Não pensei que ela fosse me dar “bola”.

- Eu me mudei logo antes de assumir o cargo, faz um ano em março.

- Ah, então você já não é tão nova mais assim. - Ela riu.

- É. Acho que não. - Eu ri também.

- Então... - Bateu as mãos uma na outra. - Preciso ir. Henry, eles têm tudo o que precisam nas mochilas, mas Maddie está com a chave e podem ir lá em casa caso precisem pegar algo.

- Kate vai viajar esse fim de semana. - Henry me explicou.

- Ah! Isso é ótimo. - Eu sorri. - E para onde você vai?

- Para Solvang.

Eu encarei Henry sem saber o que responder. Eles eram separados e ela ia para a fazenda dele? Eles dividiam a fazenda?

- Ah! Que legal, Katherine!

- Você conhece, ?

Olhei para Henry de novo. Eu não sabia se ele tinha falado algo sobre nós, e ao tempo mesmo tinha medo de mentir e ela soubesse sobre.

- E-eu já ouvi falar. Dinamarca na Califórnia, certo?

- Um lugar encantador. - Ela confirmou. - Enfim, foi um prazer te conhecer. Mas eu preciso ir, pego a estrada ainda hoje.

- Então tenha uma boa viagem. - Eu falei enquanto ela já abraçava os filhos.

- Se comportem com seu pai.

- A gente não é criança mais, mãe. - Madison quem respondeu revirando os olhos e eu segurei um risinho, porque eu era igualzinha a ela na adolescência.

- Tchau, tchau. - Katherine falou enquanto já se distanciava e acenava.

Eu arregalei os olhos para Henry que retribuiu o meu olhar. Henry, que estava com a chave do carro esse tempo todo nas mãos, destravou o alarme.

- Ponham suas coisas lá no carro, eu já vou. - As crianças concordam e se afastaram.

- Eu vou te matar, Campbell! - Vociferei em um sussurro. - Como você arma uma dessas para mim sem nenhum aviso?

- Eu não sabia que ela ia falar de Solvang. E também, por que você perguntou para onde ela ia?

- Eu só queria ser simpática! - Rebati. - Eu ia adivinhar que ela ia para a sua fazenda?

- A minha fazenda? O quê?

- Não é? De vocês?

- Não, claro que não. Os pais dela moram em Solvang, têm uma fazenda vizinha à minha. Todos os nossos bens já estão divididos. Nosso divórcio foi amigável, você sabe.

- Henry, você não... não tem que me dar satisfação. Eu só entrei em pânico. Fiquei sem saber o que falar, pensando que você tinha comentado alguma coisa, sei lá.

- Não, claro que não contei nada. Regra de não ter relacionamentos afetivos entre funcionários, se esqueceu?

- Eu não me esqueço dessa merda nem dormindo. - Retruquei sincera e Henry começou a rir.

- Nós conversamos, lógico. Ela me pergunta sempre como está o trabalho, eu pergunto sobre qualquer coisa que ela esteja fazendo na época... Eu provavelmente contei quando mandaram o outro supervisor embora e quando você chegou, essas coisas. Mas eu e você nem tínhamos contato.

- For god’s sake, Campbell! Você me deu um susto. - Coloquei uma mão na testa e balancei a cabeça. - Enfim, eu preciso ir. Vejo você na segunda?

- Claro. Até segunda. - Me deu um abraço rápido e correu para o carro.

Eu fiquei parada no mesmo lugar pelos segundos que demoraram que ele entrasse no carro. Como um despertar, me movi automaticamente até meu carro, abrindo a porta do motorista e levando um susto ao encontrar lá.

- Esqueci que você vinha me buscar. - Bati a mão na testa.

- O que aconteceu? Eu cheguei uns dez minutos antes de você descer, mas quando vi que você estava com o bonitão preferi não chamar atenção e te esperar no carro.

Estava decidido, era completamente #TeamHenry. Embora ela não desgostasse do Harry, ela não era nem um pouco fã dele. Só o aturava. Ela dizia que o Henry era mais gostoso, mais velho, mais experiente e, por isso, era óbvio que ele era melhor. Palavras dela!

- Mas depois chegou aquela mulher com aqueles meninos e vocês conversando, pensei que ainda estavam resolvendo algo do trabalho.

- Aqueles, Docinho, minha querida, eram a ex esposa e filhos do Henry.

- Babado! - Sua boca formou um “o” perfeito. - Você acabou de conhecer seus enteados.

- Aí, cala a boca e sai daí, eu que vou dirigir. - Rindo, ela pulou para o banco do passageiro.

e eu tínhamos combinado várias atividades para os seus últimos dias de férias. Como o dia de sua volta para o Brasil já estava chegando, queríamos aproveitar ao máximo os últimos momentos.

Mais rápido do que imaginei chegamos à praia, já estava começando a escurecer e as luzes do píer já estavam todas acesas, tornando o lugar ainda mais lindo.

e eu sempre fazíamos esses tipos de passeio quando adolescentes, ou patinávamos ou andávamos de bicicleta ou qualquer outra coisa do tipo, conforme fomos crescendo e nos tornando adultas, trocamos esses passeios pelos empregos, faculdade e, claro, festas e bares. Mas nunca nos esquecemos desses momentos que tanto nos fizeram felizes ao longo dos nossos mais de quinze anos de amizade.

Estar ali com ela, fazendo algo que fazíamos mais de dez anos atrás, mas a quase 10 mil quilômetros de distância de casa era surreal. Aquele passeio havia me conectado de uma forma muito amigável com um passado saudoso e de gratidão, que também me ligou a um outro momento passado não tão distante, na verdade, que havia acontecido há menos de um ano.

- Foi aqui que eu conheci o Harry.

e eu tínhamos nos sentado em um dos bancos próximos ao píer depois de mais de uma hora patinando sem parar. Sem prática, eu sentia meus tornozelos arderem pelo peso dos patins.

- Sério? Aqui?

- Não, não exatamente aqui, mas quando nos conhecemos viemos para cá. - Expliquei. - A gente se sentou naquele banco ali. - Apontei para o lado, indicando um banco um pouco mais distante.

- ... - Me virei para olhá-la. - Você tem certeza que isso que você tem com Harry é só amizade mesmo? Você falou dele a noite toda. Você fala demais dele desde que eu cheguei.

- Você ‘tá doida, ? Claro que somos só amigos. E é claro que eu falo demais dele, é o Harry?!

- Eu sei que você já falava demais dele antes, mesmo antes de conhecê-lo. Mas não sei, parece de um jeito diferente agora. Eu continuei pensando que era só a sua chatice – revirei os olhos – por ele quando conversávamos pelo telefone, mas depois que cheguei aqui e o conheci e vi vocês juntos... Você convive muito mais com o bonitão e não fala dele metade do que fala desse garoto.

- , ele é o Harry!

- , para de falar isso como se ele fosse um deus, um alienígena ou sei lá! Caralho, fodas que ele é o Harry. - Ela já estava impaciente. - Isso não impede que ele goste de você também. - Dessa vez eu ri com sarcasmo.

- Impede, porque ele é o Harry! - Ela fechou a cara. - Docinho, o que eu quero dizer é que o Harry tem milhares de mulheres caindo aos pés dele.

- E daí? Ele caga igual todo mundo. - Eu comecei a rir, era muito desbocada.

- E homens também... - Completei e ri, tentando descontrair um pouco a conversa. - Não ‘tô dizendo que ele é o Harry, o perfeito, imaculado, sem defeitos, que nunca erra. ‘Tô dizendo que ele é alguém que pode ter quem ele quiser que esteja à altura dele, à altura do dinheiro, da fama.

- , vai tomar no cu. - Eu comecei a gargalhar de novo, meu Deus, como eu amo conversar em português e amo essa garota. - Eu já falei que se foda, foda-se dinheiro e fama, eu não conheço o Harry como você conhece, mas eu te conheço e se o Harry ligasse pra essas porras, você nem seria amiga dele, menos ainda fã. Além do mais, você também tem um monte de caras aos seus pés. E mulheres também. - Completou e riu, também tentando descontrair.

- O Henry não conta como “um monte”. - Brinquei.

- O bonitão vale por vários. - Rebateu. - Você não enxerga o Henry, porque tudo o que vê na sua frente é o Harry.

- Nada a ver, se fosse assim eu nem ficava com o Henry. E eu já te disse que Harry e eu somos só amigos.

- Se me lembro bem, você começou exatamente assim com Daniel.

- Você acabou de comparar o Harry com o Daniel? - Eu ri mais ainda. - A minha história com o Daniel não tem nada a ver com a minha com o Harry! Eu conhecia o Daniel há anos, porque ele é seu melhor amigo! Eu virei amiga dele, porque eu não queria que você precisasse escolher com quem passar tempo, então sempre tentei me dar bem com ele por isso! Por sua causa! E além do mais... - Repeti o mesmo que ela disse, mas com ironia. - O Harry é apaixonado por outra.

- ‘Tá bom, Florzinha. Eu não vou falar mais nada sobre isso. Se você quer enganá-lo e enganar a si mesma, tudo bem. Eu não me meto mais. - Eu bufei e revirei os olhos.

- Por falar no Daniel, como ele está? - Eu estava decidida a não discutir mais também. Esse assunto era desgastante. Eu não queria ter que ficar provando para as pessoas que era possível que eu ficasse com Harry e fosse apenas sua amiga, sem complexidades.

- Ah, eu já te contei tudo quando cheguei. Ele ficou na fossa quando você terminou com ele. Ainda mais vendo no meu Instagram que você estava em todos os rolês, o carnaval, as festas, as pessoas que você pegou.

- Meu irmão tinha morrido, . Eu não fui viver a minha vida enquanto ainda tenho tempo para alfinetar meu ex. O início desse ano foi perturbador, se eu ficasse em casa remoendo o fato de que o André se foi para sempre, eu nem sei como eu estaria agora.

- Eu sei disso. - Concordou compreensiva. - E no fundo o Daniel sabe também. Ele só não aceitou bem no começo. Ele sempre pergunta de você, sabe?

- Mas ele não tá saindo com ninguém?

- Claro que tá, é o Daniel, ! - Respondeu sem vacilar usando o mesmo tom que eu ao dizer “é o Harry”, nós duas não precisávamos de muito para nos entender. Eu comecei a rir. - Por quê? Ainda tá interessada? Achei que Henry e Harry já fossem demais para você dar conta. - Debochou. - Daqui a três meses você vai para o Brasil, né? Posso falar com ele. - Comecei a rir.

- Eu sinto falta dele, mas não como namorado, acho que não vejo mais espaço para o Daniel na minha vida, . As coisas mudaram tanto, tudo tem sido tão diferente, eu sou uma pessoa diferente.

- Eu sei. Você sente falta dele como pessoa, né? De quando éramos amigos e saíamos nós três.

- ISSO! - Concordei aliviada, sempre sabia o que eu queria dizer sem que eu precisasse me explicar muito.

Como eu senti falta de alguém que pudesse me compreender assim. Só tinha alguém que me entendia quase tão bem quanto, mas depois dessa conversa com , eu não queria mais admitir quem.



*


Acordamos bem cedo no dia seguinte, sábado, porque tínhamos um cronograma para cumprir, pela manhã tínhamos feito um passeio até o letreiro de Hollywood, tínhamos acabado de voltar para casa para tomar um banho e nos arrumar novamente, pois íamos para a casa de Jane almoçar, onde encontraríamos com Lucy e passaríamos a tarde na piscina em sua casa.

- Finalmente fomos no letreiro de Hollywood. Não acredito que você me enrolou tanto pelo passeio mais óbvio de Los Angeles. - reclamou.

- Docinho, eu moro aqui há meses e nunca tinha ido lá. - Repliquei revirando os olhos.

Quando estávamos juntas só conversávamos em português. Acho que isso era o que eu mais tinha sentido falta, falar na minha língua materna, e a comida, é claro.

- Eu não acredito, por que você não foi antes?

Eu já tinha ido perto da entrada do letreiro e passava perto sempre, mas nunca tinha de fato subido a serra e ido próximo ao ponto em que era área de visitação turística.

- Ah, porque eu não tinha companhia.

- E o Henry? - Torci a cara, como se dissesse “não, nada a ver”.

- Por quê? Vocês convivem diariamente, sempre que você fala dele conta só coisas boas, não entendo porque você não fala tanto dele quanto fala do Harry. - Voltou a falar a mesma coisa. - Eu achei que vocês fossem muito mais próximos.

- Ah, eu acho que somos próximos... Mas o Henry não tem tempo de ficar fazendo esses passeios.

- Você já chamou?

- Não. Eu geralmente só saio com o Harry, e com ele não tem como ir lá, porque, bom, ele é Harry, né?

me deu um olhar que eu sabia muito bem o que significava e imediatamente a nossa conversa da noite anterior veio em minha mente.

- Bom, já que você e Harry são só “amigos” - Fez aspas com os dedos. - Você nunca considerou que passa muito mais tempo com o Henry? Vocês são próximos assim como diz, o que te impede de chamá-lo para sair e fazer coisas juntos?

- Nada, ué. Um pouco porque ser vistos juntos não é bom, né. Você sabe da proibição da empresa.

- , eu não acho que seja isso.

- E o que você acha, ? - Rebati sarcástica. - Que eu não enxergo o Henry por causa de Harry Styles?

- Exatamente. E Harry Styles não faz parte do mundo real. Você deveria prestar mais atenção no Henry.

- Ou o quê?

- Ou ele pode se cansar. Vocês têm muito mais a ver um com o outro, vocês convivem muito mais, o estilo de vida de vocês coincide mais. Henry seria um cara para casar, estabilidade física e emocional.

Tudo isso fazia sentido, eu sabia que em parte concordava, mas, contrariada, preferi ignorar.

- E o Harry não?

- Não era você quem acabou de dizer que o Harry “é o Harry”? Não é você quem fala todo dia que ele faz parte de um mundo diferente, porque ele é famoso, cobiçado e milionário? Achei que você não se achava à altura de ter um relacionamento com ele.

- Só quero dizer que ele também pode se casar e ter algo estável mesmo sendo famoso e tal, porque ele é uma pessoa incrível; e, como eu disse, eu não acho que ele é melhor que ninguém por ser uma celebridade, a questão é que Harry e eu não temos nada! Esse é o meu ponto! Nós somos amigos, independente de ficarmos. Essa é a única certeza entre mim e ele.

estava pronta para rebater e eu só balancei a mão como se dissesse “chega!”.

- ‘Tá pronta?

- Eu sempre fico pronta antes de você, . - Revirou os olhos também.

- Ok, então vamos.


14. I want you here with me, like how I picture it.

DEZEMBRO, 2018
3 meses atrás




No dia seguinte ao que foi embora, Harry me chamou para jantar em sua casa, ele sabia que eu estava triste por estar sozinha novamente, não exatamente porque estava sozinha, mas sim pela falta que uma pessoa tão próxima a gente faz quando parte, né?

Eu sei que Harry costumava cozinhar na época em que ele morava no complexo em Princess Park com o restante dos meninos e dividia a casa com Louis. Mas, sinceramente, quão bom cozinheiro era um garoto de dezesseis/dezessete anos que nem sequer ficava em casa? Ele deve ter cozinhado algumas poucas vezes e olhe lá!

Eu esperava chegar com o jantar pronto, mas quando Harry não foi me receber na entrada, tendo apenas aberto o portão eletrônico pelo sistema do celular e eu o encontrei na cozinha com uma panela quase transbordando água, eu quis rir, ou xingá-lo, porque eu estava com fome. Não consegui decidir na hora.

- Que diabos você está fazendo, Styles? - Eu falei alto ao contemplar a quase bagunça.

- Macarrão cacio e pepe, pois sei que é uma das poucas comidas que você gosta sem carne. - Respondeu com tom de voz inocente.

- Com esse monte de água e só esse pouco de macarrão? Você quer alagar a sua cozinha? - Debochei.

Não que eu achasse que isso fosse possível; o cômodo era muito amplo para se alagar tão fácil. Harry como sempre começou a rir, ele era muito bem treinado para a mídia e levava isso para a vida, ele nunca se alterava por nada. Não que houvesse motivos ali, porque eu o tratei num tom de brincadeira o tempo todo. Mas mesmo se eu tivesse falado sério, acho que ele não faria nada além de rir um pouco sem graça.

- Joga um pouco de água fora, H. E prova para ver se está bem temperado. - Ele concordou com a cabeça fazendo imediatamente conforme orientei. - Ótimo, agora vou esperar na sala.

- Nãoooooo! - Gritou, mesmo que eu estivesse bem ao seu lado.

- Você alugou meu ouvido por acaso, meu filho? - Respondi em português. - Deixa pra lá. - Acrescentei em inglês porque ele já estava me olhando confuso.

- Fica aqui na cozinha comigo. - Pediu.

- Eu achei que VOCÊ fosse cozinhar pra mim.

- Eu pedi sua ajuda? - Retrucou imediatamente, afiado.

Dessa vez quem começou a rir foi eu. Não, eu gargalhei.

- De onde aprendeu a ser mal educado assim, hein? Deixa só eu contar para sua mãe para ver o que ela acha disso.

- Só fica aqui comigo, . Não vou te pedir ajuda, prometo. - Falou no tom de voz de sempre, aquela era a resposta que ele daria desde o começo. Aposto que não fez isso só para tirar onda com a minha cara. - Por falar na minha mãe, quero te fazer um convite.

Arqueei uma sobrancelha, desconfiada.

- Hm? - Dei um resmungo como resposta.

- Quero que você vá para a Inglaterra comigo na sexta que vem para passar o natal na casa da minha mãe. - Harry nem me olhava enquanto falava, mexia a colher na panela.

Engasguei com minha própria saliva.

- Harry, na sexta ainda vai faltar mais de uma semana para o natal. - Eu dei a resposta mais lógica e aleatória em que consegui pensar enquanto não processava aquilo.

- Eu sei. Mas você se lembra que preciso ir na confraternização dos meus amigos em Londres antes de ir para Holmes Chapel? - Olhou para mim por um breve segundo e voltou a atenção para a panela. - Falando em festa de natal, você vai comigo na casa de Michael, certo?

Michael era um dos amigos não famosos de Harry e que também tinha ido à praia em San Diego conosco.

- Eu não sei, Harry... Digo, eu vou à casa de Michael, é claro. Mas viajar até sua cidade natal com você para o feriado de natal, eu não sei. Isso é muito familiar, você não acha? Não quero ser uma intrusa.

Harry abaixou o fogo e largou a colher, se aproximando de mim, o olhar sempre fixo ao mesmo.

- Eu não estou te pedindo em namoro, . É só o natal.

- Há-há. - Fingi rir. - Engraçadinho. - Ele piscou para mim ao ouvir minha resposta.

- Eu só não quero que você fique sozinha, porque me importo com você. Além do mais, você é minha amiga, e por isso é mais do que bem vinda na minha casa ou na casa da minha família.

- Para a casa de Nova York ninguém me convida. - Forcei um drama.

- Você é bem-vinda inclusive na minha casa de Nova York.

- Você sabe que tem aquele restaurante lá que eu quero muito ir, eu já te falei dele.

- De tanto você falar desse restaurante até eu quero ir lá, preciso saber se a comida é tão boa quanto parece nas fotos no site. Vamos para lá no ano que vem, combinado?

- Tudo bem.

- Agora vamos lá, aceita passar o natal comigo em Cheshire?

- Sim, aceito! - Eu dei um largo sorriso.

Harry deu um suspiro de alívio.

- Ainda bem que aceitou, porque já comprei as passagens.

- Harry! - Repreendi sem tentar segurar o riso.

Eu jamais tinha cogitado passar as festividades de fim de ano com Harry, até porque eu sempre soube que ele sempre ia para Holmes Chapel e estar diante do fato de que eu realmente ia junto me trazia certo conforto e aquecia meu coração, porque o primeiro natal longe de casa seria com a pessoa que mais me fazia sentir em “casa”, seja qual fosse esse lugar.

Ao mesmo tempo a ideia de conhecer as pessoas mais importantes na vida dele simplesmente me aterrorizava!

- Eu não queria te deixar passar o natal sozinha, darling. É o natal! - Nesse ponto, Harry já tinha voltado a mexer na panela.

- Pffff. - Bufei. - Não me pede em namoro, senhor “é só o natal”. - Provoquei rindo. - E eu ia arrumar alguma coisa para fazer.

- Você? Eu duvido! É cheia de “não quero incomodar”, aposto que ninguém sabe que você ia estar sozinha.

Droga! Como ele tinha razão... Eu não poderia negar nem se quisesse.

- Eu te compraria uma passagem para o Brasil, mas eu não sei exatamente onde você mora. - Se justificou. - E eu sei que se eu te perguntasse você jamais aceitaria.

- Você está certo. - Concordei rindo. - Mas o problema não é o dinheiro, Harry. É só que eu não quero ter que ir para voltar tão rápido.

- Claro, eu entendo. Mas fico feliz de ter sua companhia.

Eu não respondi, mas dei um sorriso.

- Eu vou te levar em todos os lugares que eu costumava ir quando criança. E tem uma loja em Londres, eu acho que você vai adorar...

Harry desatou a falar, lembrando que isso não significava falar mais rápido ou menos pausado. Eu fiquei ouvindo por um tempo, apenas concordando com a cabeça tentando me lembrar de todos os planos que ele estava fazendo para nós.

Meu estômago roncou alto.

- O que é isso? - Eu já havia começado a rir quando Harry perguntou.

- Eu estou com fome.

- Não, você tem um bicho aí dentro.

- Cala a boca, Styles.

- Já falei que adoro quando você fica sem graça?

- Certo! - Revirei os olhos. - Mas agora me diz, quando esse jantar fica pronto?



*




Há uns dias eu tinha encontrado Elinor nos elevadores e recebi uma bronca por não ter ido visitá-la para o chá que havia prometido meses atrás. Combinei que iria na mesma semana e tive que ir mesmo, porque logo viajaria para Londres com Harry e depois voltaria praticamente no ano novo.

Quando bati na sua porta naquela tarde, fui recebida com um caloroso abraço.

- Entra, entra! - Elinor abriu passagem. - Acabei de colocar a água para ferver. - Fechou a porta atrás de nós. - Você quer tomar chá de que?

- Qualquer sabor desde que esteja bem quente. - Respondi simpática.

Eu nunca tinha tomado chá do tipo Londrino, com leite e todas aquelas coisas, então como estávamos nos Estados Unidos, eu esperava que fosse um daqueles de pacotinhos que tem em todos os lugares. Mas se fosse diferente, eu gostaria de experimentar, de qualquer forma.

- Como você está, El? - Perguntei quando já estava confortavelmente sentada em uma cadeira à mesa de jantar.

- Estou ótima, minha filha. Meus filhos vão vir na semana que vem para o natal. - Elinor era viúva havia alguns anos.

- É mesmo? E quantos filhos a senhora têm?

- Dois homens e uma mulher. E dois netos, por enquanto. O terceiro a caminho! - Ela respondeu me olhando da cozinha.

A copa, sala e cozinha eram conjugados, assim como no meu apartamento. O fogão ficava de lado para onde eu estava sentada, então ela poderia me olhar sem muita dificuldade.

- Que legal! E seus netos tem quantos anos?

- O mais velho tem sete e o mais novo tem cinco. Os dois são da minha filha que é mais velha e a esposa do meu filho do meio está grávida do meu terceiro neto.

- Devem ser uma família linda.

- Você poderia vir aqui de novo quando eles chegassem. Eu adoraria que você os conhecesse.

- Seria um prazer! - E então me lembrei que iria para a Inglaterra com Harry. - Mas eu viajo na sexta-feira.

- Vai visitar a família? - Respondeu enquanto trazia as coisas para a mesa.

- Não. Eu não consegui muitos dias de folga, então ia ficar por aqui mesmo, sozinha. Mas um amigo me convidou para passar o natal com ele, na Inglaterra.

- Amigo, huh? - Respondeu desconfiada. Eu comecei a rir negando com a cabeça por causa do tom.

- Sim. Ele descobriu que eu ia ficar sozinha, ficou com pena de mim e comprou as passagens para que eu fosse com ele antes de me chamar. Não pude recusar. - Ela concordou com a cabeça enquanto me entregava uma xícara. - Obrigada.

- De nada. - Ela sorriu se sentando na cadeira mais próxima a mim. - Você volta quando?

- Devo chegar aqui no dia 27 de madrugada. Eu só consegui dez dias de folga. - Sorri triste.

- Eles vão ficar aqui até o ano novo.

- Então eu passo aqui quando voltar, pode ser?

- É claro! - Concordou animada. - Sabe, minha filha... Acho que você se daria super bem com o meu caçula. Você tem quantos anos?

Eu comecei a rir. Porque as mulheres idosas ou mais velhas sempre querem empurrar seus filhos solteiros para as moças jovens que elas fazem amizade?

- Eu tenho vinte de quatro.

- Ele tem vinte de sete. Vocês formariam um casal lindo. Eu vou te mostrar uma foto dele. - Ela levantou devagar e caminhou até o celular que estava em uma bancada. Mais devagar ainda mexeu no celular até encontrar o que queria.

Quando olhei para a foto, tentei não demonstrar nenhuma expressão de surpresa. O homem era simplesmente maravilhoso. Era negro com um tom de pele que fazia com que ele parecesse ser indígena e tinha lindos olhos cor de avelã. O cabelo cortado rente a cabeça e usava um terno, o que me fez me perguntar com o que ele trabalhava. Eu ia precisar de um babador. Ele tinha um sorriso perfeitamente alinhado e completamente cativante. Parecia bem alto também. Talvez tivesse por volta de 1,85m.

- Esses são meus outros filhos.

Passou para o lado mostrando uma outra foto, uma mulher parecida com o filho mais novo, se não mais bonita, um homem que supus ser o marido e duas crianças. Depois, em outra foto, um homem com aparência de trinta e poucos anos, de pele mais escura que os outros dois e um sorriso gentil, ao lado de uma mulher grávida.

Numa das paredes, havia um retratado de Elinor e um homem, que supus ser seu marido, daqueles que pessoas mais velhas tem em casa, minha avó tem um desses em casa e provavelmente você também conhece alguém que tem uma foto dessas.

A de Elinor mostra uma versão desbotada dela de pele um pouco mais bronzeada, ainda que pálida e longos cabelos pretos e grandes olhos amendoados, ao seu lado, um homem negro de pele escura, os mesmos olhos avelã dos filhos e um sorriso gentil, que eu descobri na hora de quem o filho do meio puxou.

- São lindos. Sua família é. - Respondi ainda admirando-os.

- Obrigada, querida. Mais chá? - Perguntou olhando para minha xícara vazia.

- Claro! Por favor. - Aceitei porque ainda não queria ir embora.

- Coma alguns biscoitos! - Puxou um dos vidros que havia colocado na mesa para mim. Então peguei um.

- O chá está ótimo. - Eu não fazia ideia de que sabor era e fiquei com vergonha de perguntar.

- , o que você vai fazer no ano novo?

- Hm... Eu ainda não sei. Provavelmente nada, já que vou gastar toda a minha folga com o natal.

- Você gostaria de passar o ano novo aqui, com a minha família?

- Eu-eu... - Eu não sabia o que responder. - Eu não quero incomodá-los, imagina!

- O que é isso, minha filha. Não é incômodo algum. Eu adoro a casa cheia.

- Bem, eu não vejo motivos para recusar. Será um prazer.

Eu não conseguiria descrever a felicidade de Elinor, tamanha era a genuinidade. Fiquei feliz por saber que ela realmente queria a minha presença. Fiquei com medo de que talvez estivesse me chamando por pena, por saber que talvez eu ficaria sozinha, eu não me importaria de passar sozinha, se fosse o caso. Eu estava acostumada a passar os feriados sozinha, afinal, eu já não morava perto dos meus pais há anos e não era sempre que dava para viajar de volta.

Dali para frente, Elinor só me falou de seus filhos e netos, me contou várias histórias do passado, eu mais concordava e ria, deixando que ela falasse o tanto que quisesse. Acho que ela ficava bem sozinha às vezes, fiquei com pena, porque ela era uma companhia muito agradável. Uma senhora espetacular, eu diria.



*


- Knock Knock? - Henry disse após a sua clássica atitude de bater uma única vez na porta da minha sala e depois abri-la com tudo como se fosse derrubar o lugar.

- O que eu disse sobre piadas de “toc toc”? - Não falei nada sobre suas entradas espalhafatosas, porque eu simplesmente tinha desistido de reclamar.

- Você disse “isso”. - Fez um gesto de “grande” com as mãos. - E eu ouvi “isso”. - E então usou o polegar e o indicador para demonstrar algo bem pequeno.

- Hum. Perdeu o respeito, então? - Lucy que estava na sua mesa deu uma risadinha.

- Posso entrar?

- Não sei nem que milagre você só abriu a porta; quase a quebrando como sempre, mas milagre por não ter invadido. - Revirei os olhos e ele já tinha entrado e fechado a porta atrás de si.

- Seria mais fácil se você a deixasse aberta igual a minha. - Ele me mostrou a língua. Muito maduro. - Oi, Lucy! - Caminhou até ela, a qual se levantou para lhe dar um abraço.

- Oi, Campbell. - Lucy também havia pegado minha mania de chamar Henry apenas pelo sobrenome.

- Eu não gosto. O barulho das pessoas passando me incomoda. - Respondi.

- Não sabia que ainda estava aqui. Há tempos não te vejo. - Henry falou com Lucy. Eu revirei os olhos por ter sido ignorada e voltei a atenção para o computador. - Como estão os planos para o fim de ano, Kiddo?

- Você sabe que eu sou só três anos mais nova que a , não sabe? - Ela odiava o apelido.

- Três anos e dez meses. - Eu corrigi.

- Tanto faz. - Ela balançou a mão num ar de indiferença.

- Você nem podia beber até ontem, para mim você ainda é uma adolescente. - Henry quem respondeu e eu comecei a rir.

- ! - Lucy me chamou. Aquele tom de voz era o de “me defenda”.

- Ok, Campbell. Chega de implicar com a minha estagiária. O que você precisa?

- Quando você sai de recesso?

Henry sabia que eu ia passar o natal na Inglaterra com o Harry. E ele ia passar a véspera com os filhos e levá-los no dia 25 para cear com a mãe. E eu não sei o que eles fariam no ano novo.

- Dia 17, mas eu já viajo nessa sexta. E você?

- Provavelmente no fim da semana que vem.

- Então só vou te ver de novo no ano que vem?

- Provavelmente, sim. A não ser que você queira ir para a minha casa no ano novo. - Piscou divertido.

- Não dá, Angel. Eu já aceitei passar o ano novo com a família de uma amiga lá do prédio.

- E se não fosse isso, ela ia para a minha casa, eu chamei primeiro. - Lucy rebateu.

- Aí, você ainda está aí? - Henry provocou. - Que horas você vai embora mesmo?

Esses dois só ficavam se alfinetando, mas no fundo se adoravam. Afinal, se eu ficava com Henry era por causa de Lucy, porque foi ela que desde o começo me avisou que ele estava interessado em mim. Embora eu nunca tenha a escutado.

- Só vou quando a quiser. - Ela rebateu, topetuda. - Você acha que eu gosto de ficar de vela para vocês?

- Lucy! - Eu repreendi.

- Na verdade, eu acho que você gosta, sim. - Henry respondeu sem se abalar e ela riu.

- Gosto mesmo. - Concordou sem hesitar. - Adoro o fato de ter sido o cupido de vocês. Vocês são as minhas pessoas preferidas aqui. E fazem do meu emprego o melhor de todos e eu nunca pensei que eu poderia gostar tanto de trabalhar aqui. Eu amo nossos almoços corridos juntos, os happy hours nas sextas... Quando a vai. - Se corrigiu e revirou os olhos.

- Awww, Lindinha! Vem cá! Chamei-a, que se levantou da cadeira e veio me dar um abraço.

Assim que nos soltamos, Lucy mostrou a língua para Henry.

- É isso, muito maduro vocês dois.

- ‘Tá vendo, ? É por isso que agora reajo a tudo mostrando a língua. Culpa dessa pirralha.

- Ah, Campbell, pelo amor de Deus, você tem quarenta anos, vai me dizer que uma menina de vinte te influenciou?

- Vinte e um! - Lucy corrigiu ultrajada e eu revirei os olhos. - Por falar em idade, seu aniversário está chegando, não é, ?

André.

A imagem do meu irmão que morreu dias antes do meu aniversário imediatamente apareceu na minha mente.

Uau! Eu não tinha parado para pensar que em um mês faria um ano de sua morte.

E não seria agora que eu pararia. Não. Sem tristeza. Não era o momento!

Olhei no relógio, vendo que já havia se passado dez minutos do horário de Lucy.

- Lucy! Sua hora! - Ela se levantou e saiu correndo em direção à porta, o ponto eletrônico não ficava longe. O sr. Stein me mataria se tivesse que pagar horas extras para ela.

- Pronto. Deu doze minutos, desculpa, florzinha.

- Não, ‘tá tudo bem. O Henry vai lá dizer que foi culpa dele.

- Eu vou? - Arregalou os olhos. - Ah, eu vou. - Concordou irônico. - Sonhe! - Nós três começamos a gargalhar.

- Poxa, Campbell. O sr. Stein puxa seu saco, se você falar que precisou que ela buscasse, sei lá, um contrato na sua sala para mim, ele não vai achar ruim.

- Boa tentativa, mas não.

- Achei que você fosse mais bondoso. - Fiz um biquinho fingindo tristeza.

- Então... - Lucy nos interrompeu. - Eu vou deixar vocês nessa D.R, hoje é noite de filmes com Charlotte.

- Isso, você nem me chama. - Continuei com o bico, dessa vez direcionado à Lucy.

- Ei! Você não ia para casa comigo?

- Cala a boca, Campbell.

- Tchau tchau, casal favorito. Vejo vocês amanhã. - Lucy nos mandou beijos no ar e saiu da minha sala mais que depressa.

- ‘Tá vendo? Você está assustando a minha estagiária. - Reclamei assim que a porta foi fechada.

- O que a assustou foi esse bico falso.

- Credo, Campbell. Você já foi mais amoroso, sabia? - Reclamei ainda fazendo drama.

- Ainda sou, Felina. - Piscou numa tentativa acertada de me seduzir.

- Hum. Não sei se acredito. - Cruzei os braços e encarei algum ponto fixo na lateral.

- Você já terminou por hoje?

- Sim. E você?

- Eu também. Então podemos ir? Vou te mostrar todo o meu amor. - Eu comecei a rir.

- Podemos. - Concordei ainda rindo.

- Vou buscar minhas coisas. Te encontro no estacionamento? - Assenti e Henry saiu da sala.

Desliguei o computador, peguei a minha bolsa e tranquei a sala. Caminhei os poucos metros que separavam a minha sala da primeira porta que ia para o estacionamento e me lembrei que esqueci o ar condicionado ligado.

Mas que bostaaaaaaaa!

Voltei para trás enfurecida. Não enfurecida de verdade, mas você me entendeu.

Demorei quase dois minutos para achar a chave dentro da minha bolsa. Quando cheguei no estacionamento, Henry me esperava encostado no próprio carro.

- Desculpa a demora, esqueci a merda do ar ligado. - Falei impaciente e Henry gargalhou.

- Estranho seria se você tivesse se lembrado de desligar. - Pendi a cabeça para um lado.

- É verdade. - Concordei em seguida, rindo. - Por onde vamos?

- Com certeza tem trânsito agora. Caminho alternativo que te ensinei?!

- Ok. Até na sua casa. - Henry concordou com a cabeça e entrou no seu carro.

Eu fiz o mesmo, só que no meu. Esperei que ele saísse na frente e fui o seguindo. Mais ou menos 35 minutos depois chegamos em sua casa. Henry estava de BMW naquele dia, a mesma que fomos para Solvang.

- Você tem que me emprestar esse carro. - Eu falei quando bati a porta do meu carro, já dentro da garagem da casa de Henry.

- Sonha.

- Henry!

- Você já tem o seu. - Deu de ombros.

- Mas não é uma BMW?

- Mas é um Mercedes?

- O que custa, Henry? Eu já dirigi mesmo naquele dia.

- Mas eu estava do lado. Outra coisa totalmente diferente é deixar meu carro na sua mão sem supervisão.

Eu comecei a gargalhar, uma gargalhada de puro sarcasmo.

- Você sabe que eu sou supervisora de logística, não sabe? Eu dirijo melhor que você, você queira admitir ou não.

- De novo nessa?

- Eu só vou deixar para lá quando você aceitar esse fato. - Henry quem gargalhou dessa vez.

- Vem, pretty. Vamos discutir isso melhor na cozinha.

- uhhhh, você vai cozinhar pra gente? O que você vai fazer? - Perguntei já com água na boca, eu só tinha almoçado naquele dia, estava com fome. - Espera! Por que eu sinto que isso foi um desvio de assunto?

- Porque foi. - Ele gargalhou de novo. - Sempre que eu falo de comida você esquece qualquer coisa que estamos discutindo.

- Isso não é justo. O que você vai cozinhar?

- Viu? - Riu de novo. - Estou pensando numa carne assada, com umas batatas, arroz para acompanhar, aquela salada que você gosta com champignons e o meu molho especial. O que acha?

- Sim, por favor! Eu só como comida de verdade quando venho para cá. Minha mãe ficaria orgulhosa. Não, espera. - Fiz uma careta e comecei a rir. - Ela me mataria, na verdade.

- Como é a sua mãe? - Henry perguntou curioso.

Nesse momento, já tínhamos entrado em casa e eu me dirigia para o quarto de Henry com ele logo atrás de mim.

- Ah, a minha mãe é um doce de pessoa. Mas bem direta, sabe? Com ela não tem muito drama. O que é bom, mas também é ruim, porque ela literalmente me mataria se soubesse que estamos quebrando as regras.

- Para que servem as regras se não para as quebrarmos às vezes? - Replicou em um tom divertido.

- Você sabe que eu levo meu emprego a sério, não sabe?

- Não tem ninguém que leva o emprego mais a sério que você, .

- Tem, sim. a minha mãe. Pensa em mim multiplicada por cinco, no mínimo. É a minha mãe.

Joguei a minha bolsa em cima da poltrona do quarto de Henry e depois abri a segunda gaveta do armário ao lado, ali tinham algumas peças de roupas minhas.

Eu sei o que você está pensando nesse momento. Para um relacionamento que não era sério eu tinha até roupas na casa do cara? Bem, sim. E eu não tinha roupas nem na casa de Harry, que era de longe meu melhor amigo em Los Angeles. Mas pense pelo lado prático: Antes usar as minhas roupas na casa dele do que usar as dele, né? Seria bem mais íntimo.

- Posso tomar banho? - Henry revirou os olhos.

- Não sei por que ainda pergunta.

Eram só algumas roupas velhas, umas camisas e calças de moletom, porque quando eu ia para lá direto do trabalho sempre tomava banho. Era uma questão de praticidade brasileira. Henry já sabia disso.

Quase nunca combinávamos quando eu ia para lá, estávamos trabalhando e Henry me ligaria, mandaria uma mensagem ou desceria até a minha sala e falaria “vamos para a minha casa hoje?” e eu diria que “sim” sempre quando podia, então nunca estava preparada para isso e não dá para ficar sem tomar banho depois de um longo dia de trabalho.

- Só queria ser educada. - Dei de ombros.

- , você está em casa.

Não estou não. Não é um lugar estranho, é mais como se fosse um hotel, confortável o bastante para que eu me sentisse como se estivesse de férias, ou passeando, no caso, já que durante os dias de semana que eu ia para lá, não dormia. Sempre voltava para casa no mesmo dia por causa do trabalho no dia seguinte. Mas não era casa. Não mesmo.

- Obrigada. - Eu sorri. - Você quer ir comigo?

- Tentador, mas não. - Negou com a cabeça. - Vou cozinhar e quando acabar venho.

- Isso aí, vai fazer a minha comida, Chef. Campbell. - Brinquei.

- Te espero na cozinha? - Assenti e Henry saiu pela porta e eu entrei para o banheiro.

Eu desci imediatamente após o banho. Ao passar pela mesa de jantar, vi o blazer do terno de Henry pendurado perfeitamente nas costas de uma das cadeiras. Na cozinha, o encontrei exatamente como ele falou que estaria. Na pia, ele cortava alguns legumes, descalço, dois ou três botões da camisa branca abertos e a gravata com nó já afrouxado ainda se encontrava em seu pescoço.

Dei um tapa em sua bunda. Ele pulou de susto.

- Não vi você chegando. - Falou depois de me xingar pelo susto.

- Sorrateira como um felino. - Fiz a piada com o meu apelido e comecei a rir.

Ficamos conversando enquanto Henry terminava de fazer tudo. Eu nem me atrevia a tentar ajudar, Henry cozinhava muito bem para que eu me metesse. Depois que ele colocou o assado no forno, eu disse que olharia para que ele pudesse ir tomar banho. E então ele foi, me deixando sozinha ali.

Passado algum tempo, percebi que Henry estava demorando para voltar, eu não duvidava nada que alguém tinha ligado do trabalho e se eu subisse para o seu quarto o encontraria com o notebook ligado resolvendo alguma coisa. Eu sabia disso, porque sempre acontecia comigo também.

Tirei a carne do forno quando ficou pronta, eu não cozinhava tão mal ao ponto de não saber nem isso, na verdade, eu até cozinhava bem, mas gostava muito mais de não precisar cozinhar.

Enquanto Henry ainda não voltava, tirei uma foto da comida para postar no Instagram. Acabei compartilhando a foto também no direct com Harry. Óbvio que ele não viu na hora. Abri as mensagens, então.

07:00pm: Tá aí?



Esperei um minuto e não tive resposta, deixei para lá e fui até a escada.

- Campbell? - Gritei e esperei alguns segundos. - A comida ficou pronta. - Gritei de novo.

Ele também não me respondeu, então fui até seu quarto, encontrei-o exatamente como imaginei, sentado todo encurvado na cama, vestindo só a calça social que já estava antes.

Assim que me viu, levantou um dedo como se dissesse “só um minuto”, enquanto ainda falava ao telefone.

07:12pm: Oiiii.


- Espere um minuto, por favor. - Henry falou para quem quer que fosse que ele estivesse conversando e então tirou o celular do ouvido. A pessoa do outro lado falou de novo, fazendo com que ele voltasse com o celular. - Cala a boca. - Henry revirou os olhos rindo e colocou o celular no viva-voz para que eu ouvisse também.

- Uhhh, Campbell. - A pessoa do outro lado, que distingui como um homem, afinou a voz ao falar. - A comida está pronta. - Uma falha tentativa de imitar a minha voz.

- Eu gritei tão alto assim? - Falei em um sussurro e Henry concordou com a cabeça, rindo.

- Quem é a mulher que está aí cozinhando para você, Henry? É gostosa?

Eu comecei a rir, reconhecendo a voz de um dos supervisores da produção, que também era grande amigo de Henry.

- Não é da sua conta, Elliot. E eu que cozinhei para ela. Agora cala a boca e espera um minuto. - Respondeu e em seguida tirou do viva-voz e tampou a saída de voz do celular. - Teve um problema com o material da Stack Tecnology. - Concordei em silêncio, sabendo de qual cliente falava. Henry destampou o alto-falante. - Erro da produção, para variar. - Gritou para provocar Elliot, de quem eu não ouvi a resposta. - Mas o cliente está furioso.

- Aí ele te liga para você resolver? - Perguntei incrédula, ainda falando mais baixo do que o normal para não correr o risco de ele ouvir e reconhecer minha voz.

- Está me ligando mais como um pedido de ajuda de um amigo do que colega de trabalho. - Deu de ombros.

- Esse povo da produção é folgado, não deixa jogarem a culpa em você. - Henry sorriu divertido e assentiu.

Eu, mal saída das fraldas, dando conselho de maldade empresarial para Henry. Era engraçado mesmo.

- Eu já estou terminando, vou só tomar um banho e já vou.

- Uh-hum. - Concordei. - Desculpa gritar e atrapalhar.

Henry fez um gesto de “deixa para lá.” ou talvez fosse “não tem problema.” e eu voltei para a cozinha.

07:20pm: Te mandei uma DM
07:20pm: No instagram



07:22pm: Ok.

07: 33pm: *emojis dormindo*



Henry finalmente voltou. Parece que o problema foi sério mesmo. Ele estava me contando mais detalhes sobre e meu celular não parava de apitar mensagens.

07:41pm: Desculpe. Esqueci a senha
do meu istagram.
07:41pm: Você quem cozinhou aquela carne?
Parece uma delícia.

07:42pm: Foi o Henry



07:42pm: Você e Henry, huh? Estão sérios
mesmo...
07:47pm: Mas isso é uma indireta?
07:47pm: Sobre os meus dotes culinários?

07:48pm: Sobre a sua falta deles



07:48pm: Você está querendo dizer que eu
cozinho mal????

07:49pm: EXATAMENTE. Chora boy.



07:49pm: Eu nem gosto de carne mesmo.
07:49pm: O que ‘chora’ quer dizer?




*




- Porra, isso aqui tá muito bom! - Eu falei de boca cheia. - Tem certeza que não quer?

- Não, eu tomei café antes de descer para a sua sala. Eu ‘tô cheio, como mais tarde.

- Não acredito que você fez aquilo tudo só para mim.

- Eu adoro cozinhar para você. Eu quase não estava cozinhando, sabe? Antes... Porque sozinho não tem graça. E ninguém valoriza tanto os meus dotes culinários quanto você.

- Então você faz comida para mim porque gosta que eu inflo seu ego?!

- Basicamente isso. - Concordou rindo.

- Pois muito bem, continue sempre, porque só tem uma coisa que você faz melhor que cozinhar.

- Sexo? - Henry chutou sem hesitar e eu comecei a gargalhar negando com a cabeça.

Estávamos na sala de estar, Henry tinha ligado a TV num canal que estava passando Grey’s Anatomy, então conversávamos enquanto fingíamos assistir à série. Sentados cada um em um sofá, porque eu era espaçosa e colocava as pernas para cima. E Henry me assistia comer, o que era estranho.

O interfone tocou. Imediatamente tirei os pés do sofá, me sentando ereta.

- Você está esperando alguém? - Olhei-o confusa.

- Não. - Respondeu retribuindo o olhar de confusão.

Henry caminhou até a parede onde ficava o monitor da câmera, depois me olhou confuso de novo.

- Quem é? - Perguntei.

- Já volto. - Respondeu e sumiu pelo corredor.

Eu não conseguia escutar a porta sendo aberta ou fechada dali, mas certamente consegui ouvir as vozes altas. Eu não distingui o que Henry falava, até ouvir seus passos voltando pelo corredor.

- O que você está fazendo aqui? Você veio sozinha?

- Briguei com a mamãe. E peguei um Uber.

A pessoa respondeu ao mesmo tempo em que ambos entravam novamente no meu campo de visão. A filha de Henry, Madison, era quem estava ali, dando de cara comigo vestindo uma camisa velha dois números maior, uma calça de moletom e com os cabelos presos para o alto... eu nem comento.

- Sua mãe não sabe que você está aqui? Madison!

- Ela é uma chata, pai.

- Não fale assim da sua mãe. - Repreendeu e Madison fez uma cara emburrada.

Eles discutiam como se eu nem estivesse ali. E eu... eu observava a tudo com o prato ainda na mão e a comida dentro da boca meio mastigada, daquele jeito em que temos medo até de respirar e atrair atenção indevida.

- E o que ela está fazendo aqui? - Apontou com o dedo para mim e eu engoli a comida do jeito que estava, quase me engasgando.

- Eu? - Apontei com meu dedo para mim mesma. - Eu-eu-eu... ‘tô comendo. - Respondi idiotamente mostrando o prato.

Parecia que um furacão havia chegado, sem avisos, destruindo tudo.

- Bem, eu não quero atrapalhar vocês. - Respondeu sarcástica e virou de costas, mas trombou com Henry que estava bem atrás dela.

- Não! - Eu praticamente gritei. - Eu-eu vou embora. Não se preocupe. Eu sei que você precisa conversar com o seu pai.

- , você não precisa ir embora. - Henry disse e lançou o olhar para Madison, aquele olhar de pai que vai te dar uma surra. Ela revirou os olhos antes de concordar.

- Tudo bem, você pode ficar.

Affff!! Que garota audaciosa!

“Você pode ficar”. Abusada!

- Okay. - Foi tudo o que eu respondi. - Você está com fome? Seu pai fez carne assada. - Ela continuava me olhando desconfiada e não respondeu. - Vem, eu vou servir um prato para você, está uma delícia.

- Vai. - Henry ordenou entre dentes e a deu um empurrãozinho pelas costas. De braços cruzados, ela me acompanhou até a cozinha e Henry ficou na sala.

Eu peguei um prato no armário e destampei as panelas em cima do fogão.

- Arroz? - Eu perguntei e ela concordou com a cabeça. - Batata? - Retirei a carne de dentro do forno. - Tem um pouco de cebola, mas podemos tirar se você não gostar.

- Eu gosto. - Aleluia, ela falou!

- Ok. - Concordei terminando de servir a comida. - O que você gosta para beber? Eu fiz suco de laranja.

- Refrigerante.

- Ok. - Eu abri a geladeira e entreguei um copo para ela, o qual enchi em seguida. - Você gosta de Grey’s Anatomy? A gente estava assistindo.

- A gente, você diz... Você e meu pai?

Engoli em seco, forçando minhas pernas a continuarem caminhando até a sala.

- Si-sim. - Dei de ombros, ainda meio vacilante. O que eu poderia responder?!

Assim que entramos na sala, Henry andava de um lado para o outro na frente da tv enquanto falava ao telefone.

- Sim, ela está aqui, não se preocupe. Eu a levo embora depois.

- Com quem você estava falando? - Madison perguntou.

Me sentei calada no mesmo lugar em que estava e peguei meu prato que tinha deixado em cima da mesa de centro. Eu nem estava mais com fome.

- Com a sua mãe, é claro.

- Não acredito que você ligou para ela!

- Ela estava preocupada, Maddie! Tenha consciência.

Madison então se sentou no outro sofá, onde Henry estava sentado antes de ela chegar. E ele, para não ajudar em nada, veio e se sentou ao meu lado.

- O que você está fazendo? - Sussurrei para ele.

- Me sentando?

- Do meu lado? - Henry revirou os olhos e se afastou trinta centímetros.

- Está bom? - Desviei o olhar de Henry, voltando a encarar a garota, dessa vez tratei de sorrir.

- Uh-hum. - Ela respondeu.

- Agora você vai me contar por que brigou com sua mãe?

Madison negou com a cabeça.

- Deixa ela terminar de comer, Campbell. Depois vocês conversam. - Minha intromissão fez com que ela me encarasse.

- Uh-hum. - Ela então concordou.

Eu quase podia jurar que era possível cortar a tensão do ambiente. A série ainda passava na TV, eu fingia assistir enquanto Henry não parava de encarar a filha. Uma série de pensamentos passava pela minha cabeça naquele momento.

“Meu Deus, o que eu ‘tô fazendo aqui?”

“Eu nem ei lidar com adolescente”

“A garota me odeia”

“Eu nem tenho nada com Henry para aguentar esse B.O”

“Onde eu fui me meter”

E o meu clássico: “puta que pariu!”

Encarei Henry, seus olhos sempre brilhantes em uma expressão divertida ou tranquila, agora estavam focados e sustentavam uma carranca que eu tinha que admitir que era sexy.

Foco, !

A filha dele está bem aqui do lado, ele está bravo. Eu ‘tô no meio da briga familiar, isso não é bom. Isso não é legal.

- Tem alguma chance da sua mulher aparecer aqui? - Sussurrei para Henry, mais tensa ainda ao cogitar a possibilidade.

- Não, já conversamos. Vou levar Madison embora mais tarde. - Concordei com a cabeça.

A garota comeu tranquilamente pelos próximos minutos que para mim pareceram horas.

- Pode me dar. Eu levo para a cozinha. - Estendi a mão para pegar seu prato antes que ela o colocasse em cima da mesa de centro. Madison não disse nada ao me passar o objeto.

- Madison?! - Henry interviu.

- O quê?

- Cadê a educação? - Ela revirou os olhos.

- Obrigada. - Falou para mim.

- De nada, querida. - Eu sorri e sai do cômodo, mas não antes de ouvir Henry.

- Então, quer me contar agora o que aconteceu?

Somente quando eu estava na cozinha sozinha e longe das vistas de qualquer um que pareceu que eu pude finalmente respirar. Balancei a cabeça para me concentrar e comecei a guardar as coisas. Coloquei as panelas e a carne na geladeira e juntei todas as louças na pia, começando a lavá-las. Fiz o processo o mais devagar que consegui. Queria que fosse possível me teletransportar dali até a minha casa sem que eu tivesse que passar pela sala e ter que encarar aquela situação que eu tinha caído de paraquedas.

Mas, infelizmente, uma hora eu teria que voltar. Então, antes fosse logo para que eu pudesse sair daquela situação o mais rápido possível.

Então caminhei decidida até a sala e me sentei no sofá exatamente no lugar que eu estava antes, ao lado de Henry. A pose era só um disfarce superficial, porque por dentro eu me sentia como uma criança que queria pedir permissão para ir embora.

- A escola ligou para a sua mãe! Você tem noção do que é isso?

A discussão continuava calorosa tal qual quando deixei o cômodo.

- Relaxa, pai. É só uma nota baixa. Não é o fim do mundo.

- Não é o fim do mundo? - Respondeu sarcástico. - Desde quando você tira nota baixa, Madison? Você precisa me dar uma justificava melhor do que “não é o fim do mundo”.

- A minha mãe não tinha nem que ter ‘te falado nada.

- Eu sou o seu pai! Eu me preocupo com você. A professora disse que você tem andado distraída e não tem prestado atenção nas aulas.

A garota ficou calada. Encarava um ponto fixo à sua frente, incapaz de olhar nos olhos do pai. Eu deveria me meter? Não, claro que não. Eu não tinha nada a ver com a paternidade de Henry. Mas eu meti? Óbvio, porque o meu instinto de resolução de problemas gritava dentro de mim, mesmo que absolutamente nada fosse da minha conta.

- Madison. - Chamei-a, que em um susto repentino por eu ter falado, me olhou. - Aconteceu alguma coisa com você na escola? Para te deixar distraída? - Perguntei com cautela e com a voz mansa. - Algo de ruim? Alguém fez algo com você?

- Não... - Ela balançou a cabeça negando, já não me olhava mais. Não olhar as pessoas nos olhos ao responder perguntas objetivas não era um bom sinal. - Mas tem-tem uma coisa.

- O quê? - Henry respondeu imediatamente e eu me voltei para ele, fazendo uma cara feia.

- Nada, deixa para lá.

- Henry, você ficou aqui com a garota por vinte minutos e vocês só brigaram. - Eu sussurrei para ele. - Ela é uma adolescente, sabia? - Ele bufou e não falou mais nada.

Senhor, o que mesmo que eu estava fazendo ali? Ah sim, eu era legal demais para simplesmente sair andando.

- Maddie... - Me levantei e sentei no outro sofá, ao lado dela. - Eu posso te chamar de Maddie? - Ela assentiu. - Aconteceu alguma coisa? Se você não quiser contar para o seu pai, porque ele é homem, você pode me contar, ok? Pode confiar em mim. Coisas de garotas e tal.

- Não é nada de mais. - Ela respondeu, num típico sinal de enrolação.

- Não tem problema, pode falar mesmo assim.

- É que tem esse menino na minha sala...

- O que tem ele?

- Ele é super legal e a gente conversa no snapchat às vezes. - Eu consegui ouvir Henry soltando a respiração imediatamente. E eu fiz uma prece de agradecimento aos céus por não ser nada do que eu estava pensando.

- E você gosta dele?

- QUÊ? NÃO! - Reação exagerada. Ela se denunciou tão fácil.

- Tudo bem. - Eu respondi rindo. - Vocês ficam conversando na aula?

- Não... - Eu arqueei uma sobrancelha. - Às vezes. - Admitiu. - Mas ele conversa mais com os amigos e eu fico olhando, não consigo prestar atenção na aula.

- Awwwww. Você está apaixonada. - Eu olhei para Henry, que tinha uma expressão nada satisfeita.

- Eu não estou apaixonada! - Ela rebateu, envergonhada.

- Madison, você não tem idade para isso!

- Awwwww, você está com ciúmes. - Ele retribuiu meu comentário com a sua melhor cara de “sério, ?” - Ah, qual é, Campbell! Até parece que você nunca teve uma paixão na escola.

- Maddie, baby, eu entendo que você já é uma adolescente, que você gosta de sair com as suas amigas e... e-e falar de garotos. - Henry fez uma careta de desgosto. - Mas você tem que se concentrar nos estudos, sabe disso, não sabe? Lembra que conversamos uma vez sobre hora para ser sério e hora para se divertir?

- Uh-hum. - Ela assentiu, parecia ouvir atenta.

- Vocês podem conversar no intervalo e pela internet quando não estão fazendo o dever de casa, mas na escola precisa estudar. Lembre-se disso. Por que não explicou para a sua mãe?

- Porque ela só sabe gritar. Em nenhum momento ela quis saber porque eu tinha me distraído, ela só queria saber de dizer que isso não poderia acontecer.

- Maddie, a sua mãe só quer o seu bem. Tenho certeza que ela ficou preocupada com você. - Eu falei.

- Depois vamos conversar sobre isso nós três, tudo bem? - Henry sugeriu e ela concordou com outro aceno de cabeça. - Agora vem cá, me dá um abraço. - A garota se levantou com um sorriso e o abraçou. - Me desculpa ter ficado nervoso, você sabe que pode me contar tudo, não sabe? - Ela concordou de novo. - E você sabe que pode me ligar ou me pedir para ir falar com você também, certo? A qualquer hora.

- Eu sei, pai.

Eu assistia à cena com um quentinho no coração, completamente derretida pelo amor que dali emanava. Notei a pulseira que havia ajudado Henry a escolher bem no braço de Madison. Ela se assustou um pouco quando a toquei involuntariamente.

- Já está cheia de pingentes. - Comentei.

- Berloques. - Ela me corrigiu divertida ao se sentar ao lado do pai.

- Certo. Berloques. - Concordei me sentindo uma idosa de 95 anos.

- quem me ajudou a escolher seu presente, sabia, Maddie? - Henry comentou e a garota arregalou os olhos.

- Sério? - Ele e eu assentimos ao mesmo tempo. - Pai, posso perguntar uma coisa? - Ela falou com Henry, mas olhava para mim.

- Claro. - Ele respondeu e eu concordei com a cabeça.

- Vocês estão namorando?

Se eu estivesse bebendo alguma coisa, aquele seria o momento em que eu cuspiria tudo. Henry travou por um segundo e me encarou, sem saber o que falar.

- Não! - Eu neguei no segundo seguinte e então Henry me acompanhou com outro “não”, como se ele estivesse esperando para repetir o que quer que fosse que eu dissesse.

- Não? - Nos olhou confusa. - Então o que você está fazendo aqui? - Seu tom de voz não era mais grosseiro como quando chegou. Ela perguntava com genuína curiosidade.

Eu cocei a nuca e encarei Henry.

- Madison... - Henry estava tão cercado pela pergunta quanto eu.

Dei um tapa na minha própria testa.

- Não fica me olhando, não, Campbell. A filha é sua. Você que se explique. - Revirei os olhos.

- Vocês podem me falar. Eu tenho 15 anos, não sou uma criança!

Henry suspirou alto e gaguejou um pouco, tentando encontrar as palavras certas.

- Você sabe que a trabalha com o papai, não sabe? - Ela balançou a cabeça que sim. - Então, acontece que no trabalho do papai, não podemos namorar outros colegas, entende?

- Uh-hum.

- Por isso você não pode contar para ninguém que eu estava aqui, Maddie. - Eu completei e ela me encarou. - Nem para a sua mãe. Para ninguém mesmo, ok?

- Ok.

- Sério? - Questionei surpreendida com a facilidade com que ela concordou.

- Sim. Eu não sou criança. - Ela repetiu revirando os olhos, como se estivesse cansada de ter que dizer o óbvio. - Eu sei guardar segredo.

Será que eu parecia adolescente também de tanto que revirava os olhos? Porque eu já estava irritada com esse deboche.

- Mas então quer dizer que se não fosse isso vocês estariam namorando? - Ela completou. E mais uma vez aquele seria o momento de cuspir qualquer líquido que estivesse na minha boca.

- Ok, Madison, chega por hoje, já está tarde e preciso te levar embora porque você tem aula amanhã!

- Ah, não! Não quero falar com a minha mãe hoje. Posso dormir aqui? Você me leva para a escola amanhã. - Ela pediu com a voz totalmente transformada e um jeito doce, nem parecia a mesma.

- Ok. - Henry concordou sem hesitar.

Babão.

- Então eu vou indo. - Anunciei e já me levantei do sofá na mesma hora, precisava aproveitar a deixa.

- Está cedo ainda, . - Só encarei-o sem dizer nada. - Ok. Tudo bem, já entendi. - Completou rindo. - Vou te levar até a porta. - Se levantou também.

- Tchau, Maddie. - Acenei para ela e dei um sorriso, que foi retribuído.

Henry subiu até o quarto para buscar minhas coisas e depois atravessamos a casa em silêncio. Ao chegarmos à porta de entrada, assim que Henry a abriu, me virei subitamente de frente para ele.

- Henry, me desculpa! - Despejei.

- Pelo quê? - Sua resposta e expressão confusas vieram no mesmo segundo.

- Henry, me desculpa, por favor. Eu não queria passar por cima da sua autoridade, a filha é sua, eu juro que só queria ajudar.

- , do que você está falando?

- De eu ter me intrometido no meio quando ela não queria contar o porquê está ficando distraída na aula.

- , você não tem que pedir desculpas por isso.

- É porque eu te interrompi e eu sei que eu faço isso às vezes e sou meio mandona, mas você sabe que é sempre brincando, não sabe? E dessa vez não fiz por mal e...

- ! - Me interrompeu. - ‘Tá tudo bem, ok? Na verdade, queria te agradecer, você lidou com ela muito bem. Adolescentes não são fáceis. - Ele arregalou os olhos e deu um suspiro profundo. - E ela foi muito rude com você no início. - Colocou as duas mãos na cintura.

- ‘Tá tudo bem também. - Eu sorri. - Então... - Cocei a nuca de novo, era uma situação um pouco esquisita. - Te vejo amanhã?

- Pode apostar que sim.

Henry se aproximou para um beijo, mas o freei com uma mão em seu peito assim que entendi suas intenções.

- Henry! - Balancei a cabeça em negativa algumas vezes seguidas. - Sua filha pode ver.

- E daí? - Continuei negando com a cabeça, dessa vez sorrindo. Lhe dei um abraço rápido e me afastei.

- Tchau. - Acenei para ele, já distante. - Não esquece de abrir o portão! - Gritei ao me lembrar.


15. I'm not ever going back.

DEZEMBRO, 2018
2 meses e meio atrás




A viagem até Londres havia sido super tranquila, era a primeira vez que eu andava na primeira classe. E, claro, a primeira vez que eu ia para a Europa também. Eu teria que voltar um dia depois do natal, porque só tinha dez dias, mas eu não queria pensar naquilo na hora, eu tinha acabado de chegar, ia aproveitar ao máximo possível.

- Harry, faz quanto tempo que você não vem aqui? - Eu gritei da cozinha enquanto abria os armários praticamente vazios.

- Em Londres? Um mês, talvez. - Harry gritou de volta da sala, onde escolhia um filme para assistirmos.

Eu sabia que ele esteve aqui em Londres há pouco tempo, mas parecia que ele não aparecia nessa casa há pelo menos seis meses. Quem estava num lugar e volta em menos de um mês e não tem comida? E tudo parecia recém limpo, como se ele tivesse mandado uma empregada para limpar antes de vir, talvez há uns dois dias.

- Se vamos ficar aqui até semana que vem, precisamos de comida. - Gritei novamente.

Harry apareceu na cozinha em seguida me dando um susto.

- Não precisa gritar, estou do seu lado. - Deu um sorriso de lábios fechados enquanto recebia um tapa no braço.

- Idiota! Odeio essa sua mania de estar conversando de outros cômodos e aparecer onde eu estou do nada. - Ele riu.

- Das últimas vezes que vim aqui fiquei por pouco tempo. Só vinha para dormir, então comi fora. Mas podemos pedir comida, o que acha? - Harry sugeriu.

- Podemos pedir pizza! E tomar um vinho. - Eu dei a ideia, sim, eu queria pizza, por incrível que pareça. E ele sabia que eu não gostava de vinhos super caros e chiques, geralmente preferia comprar em supermercados mesmo.

- Vinho? Acho que não tenho nenhum aqui, eu já levei a adega para minha nova casa. - Eu mencionei que ele havia comprado outra mansão em Londres? Pois é! Ele tinha. - Teríamos que sair para comprar. - Respondeu meio desanimado, mas eu não percebi a princípio.

- Ótimo! Vou pegar um casaco. - Falei já fazendo menção em deixar o cômodo, mas Harry segurou um dos meus braços, me impedindo. - O que foi, H?

- Só tem um lugar que vende o vinho que eu mais gosto em toda a região e é também o motivo pelo qual a dispensa está vazia há meses. - Harry começou a dizer com a voz baixinha, como se fosse com muita dificuldade que revelasse aquilo.

- Como assim? - Foi tudo o que perguntei.

- Era o mercado que ela fazia compras, depois que tudo aconteceu, eu jurei que não voltaria mais lá, . - Então tudo fez sentido para mim.

- Harry, podemos ir em outro mercado. - Eu dei a opção.

- Mas em nenhum outro tem esse vinho. - Harry argumentou.

Assim fica difícil né, meu querido?! Contive a vontade de revirar os olhos e pensei um pouco antes de respondê-lo. Eu precisava ser um ombro amigo naquele momento. Aconselha-lo. Suspirei ao decidir o que falar.

- Já fazem meses, Harry. Seria bom se você pudesse seguir em frente, evitar todos os lugares que vocês foram juntos em Londres só faz tudo doer mais, você só vai saber se superou quando ir e perceber que não sente mais nada, ou que talvez sinta, mas que não quer mais voltar atrás. - Eu falei enquanto afagava seu braço, em consolo.

Harry me olhava muito atento enquanto eu falava e continuou olhando por alguns segundos depois disso, pensando.

- Quer saber? Você tem razão. Além do mais, o pior que poderia acontecer é ela estar lá! - Disse com o tom de voz mais animado, como se pensasse que as possibilidades daquilo acontecer eram praticamente nulas. E seria bastante má sorte também.

- Tudo bem, então! - Foi o que eu respondi. - Ah, eu só trouxe um par de botas de cano baixo que está secando depois da chuva que tomamos quando chegamos, você pode me emprestar um?

- Sim, eu vou pegar. Me espera aqui. Não quero correr o risco de você ver aquele closet agora.

Harry deu uma risadinha já caminhando e sumiu pelo corredor. Ele claramente estava debochando da vez que conheci sua casa em Los Angeles e não me controlei ao ver suas coisas. Que memórias seu guarda-roupas de Londres, lugar que considera como sua casa oficialmente, poderia conter? Aposto que são mais incríveis ainda.





- Você está andando muito engraçado. - Foi o que Harry disse ao entrarmos lado a lado no pequeno mercado, cada um com uma cesta em mãos.

- Bom, deve ser porque o seu pé é enorme?! - Empurrei seu ombro. - Mas pelo menos o cano é apertado e a bota não vai sair do meu pé. Vou pegar algumas coisas para tomarmos café amanhã, e uns lanches para os próximos dias. Quer alguma coisa?

- Não, como o que você comprar. Eu vou pegar o vinho. - Harry respondeu e entrou em outro corredor, enquanto eu seguia pelo lado oposto.

Acho que estava para existir uma pessoa mais fácil de se conviver. Quero dizer, Harry era muito participativo e opinava em tudo em que eu pedisse sua opinião. (E às vezes no que eu não pedia também). Mas ao mesmo tempo, eu sentia total liberdade para escolher coisas por nós, sabendo que ele ficaria satisfeito com o que quer que fosse. Ele não era uma pessoa exigente nesses aspectos.

Comprei pães de forma, iogurte, frutas – especialmente bananas – E outras coisas que eu sabia que Harry gostava, além de biscoitos recheados – que eram o meu fraco – e chá gelado, que não podia faltar, apesar de estar frio. Harry estava numa fase que não tomava mais o típico chá londrino. Eu nem oferecia mais, ele sempre deixava esfriar e usava isso como desculpa para não querer. O chá já estando gelado não tinha como arrumar desculpas. De qualquer forma, ele sempre optava por café preto.

Só parei de pegar coisas quando enchi a cesta mais do que calculei, não precisaríamos mais que aquilo, pois na semana seguinte já seria véspera de natal e iriamos para Holmes Chapel passar com família de Harry. Pelo menos ele teria coisas quando voltasse pra Londres de novo. Não peguei nada que tivesse que ser preparado, eu não iria cozinhar, eu estava me considerando de férias.

Caminhei pelos corredores à procura de Harry, mas não o encontrei em nenhum lugar. Parei pertos dos caixas olhando para frente para ver se o avistava vindo para já pagar, pois eu havia demorado sozinha, era provável que tivesse terminado primeiro que eu. O único lugar que eu não havia ido era a sessão de bebidas, porque... bem... ele havia ido direto lá, não era possível que ainda estivesse no mesmo lugar. Talvez eu tenha ficado parada uns cinco minutos quando decidi o procurar de novo. Levantei olhar para encontrar a placa que indicava essa seção e me dirigi até lá.

Não acreditei que fosse possível, mas não foi uma surpresa que ele estivesse ainda na seção das bebidas. A surpresa foi quando o encontrei, sua cesta estava vazia e ele sequer tinha algo em mãos. Ele estava de costas para o início do corredor, de onde eu tinha vindo, conversando com uma mulher. O rosto dela foi a primeira coisa que vi, não a conhecia, mas sabia muito bem de quem se tratava.

Diminui a velocidade dos passos. Pelo modo como Harry balançava a cabeça em negação e a mulher recuava para trás com um olhar triste que tentava a todo custo desviar do meu, eu sabia que a conversa estava chegando ao fim, mas não porque eu tinha chegado.

- Mas eu não posso, sinto muito. - Escutei Harry dizer assim que parei ao lado dele, tocando imediatamente seu ombro para que ele percebesse minha presença, mas ele nem se mexeu.

- Está tudo bem, eu entendo. Eu preciso ir, foi bom te ver. Se cuida, ok? - Ela sorriu de lábios fechados antes de se afastar de vez.

A cesta de Harry continuava vazia. Sem saber como reagir àquela situação, peguei uma garrafa do vinho que Harry anteriormente havia comentado o nome e, sem dizer nada, caminhamos até o caixa. Tudo ficou ainda mais esquisito quando tirei meu cartão para pagar e Harry não protestou, na verdade, ainda não havia pronunciado nem uma mísera palavra, parecia absorto.

Guardamos as compras no carro e eu resolvi me pronunciar.

- Era ela, certo? Sophie? - Perguntei ao fechar o porta-malas e Harry assentiu. - Você está bem?

- Eu vou ficar. - Foi tudo o que ele respondeu antes de me lançar um sorriso sem mostrar os dentes, que retribui. - Você pode dirigir? Preciso escrever algo.

- Pode apostar que sim! - Respondi animada e peguei as chaves da mão dele que pendia no ar.

Me desloquei rapidamente para o lado esquerdo e quando abri a porta: banco do passageiro.

- Ops! - Cocei a cabeça meio sem graça.

Mesmo cabisbaixo, Harry imediatamente começou a rir da minha mancada. Mas logo ficou sério de novo.

- Me esqueci da mão inglesa. Nem acredito que vou dirigir em Londres.

O caminho não foi nada como eu havia imaginado, pensei que dirigir pela primeira vez na Europa seria muito mais divertido; janela aberta e cantando junto com alguma música aleatória que saia do rádio, porém havia começado a chover de novo e eu não me atrevi a ligar o som. Não com Harry escrevendo e riscando, escrevendo e riscando de novo, ferozmente em um bloquinho de notas que tirou do porta-luvas do carro.





Harry havia ficado distraído o resto da noite, eu não fiz mais perguntas e deixei-o um pouco com os próprios pensamentos. Eu não tinha como, sei lá, ir embora e deixá-lo sozinho, mas tentei me manter neutra o máximo possível para que ele pudesse processar o que estava sentindo sem grandes interrupções. Eu nunca perguntei o que realmente aconteceu antes que eu chegasse até eles. E ele nunca me contou.

Ele acordou no dia seguinte parecendo a mesma pessoa de sempre... Até começar a falar.

- O que acha de irmos à praia?

- O quê? Você está louco, Harry? Estamos no inverno!

Se o inferno congelasse, Londres seria uma amostra de como seria.

- Eu sei. Não estou dizendo para irmos com roupas de banho, só... andar por lá.

Não nevava ainda, mas chovia constantemente e o frio era absurdo.

- Eu sei de um lugar que não vai estar chovendo. - Completou quando eu não falei nada.

Suspirei alto, impaciente.

- Onde, Styles?

- Eu te conto quando chegarmos.

- Pode pelo menos me dizer algo sobre?

- Não é por aqui, são três horas de carro.

Droga! Meu palpite era que talvez fôssemos até Brighton. Mas eram só duas horas de viagem.

- Claro, Harry! Ótima ideia dirigir à toa por três horas. - Revirei os olhos. - Aliás, pode contar quatro, com essa chuva.

- Você tem razão. Não foi uma boa ideia. Me desculpe.

Merda! Agora ele ia fazer com que eu me sentisse mal. Eu deveria mesmo ter um pouco mais de consideração. Eu sabia que ele não estava tão bem quanto tentava fingir.

- Tudo bem, Harry. - Revirei os olhos ao ceder. - Mas eu vou montar a playlist de ida! - Anunciei com a voz um pouco mais alta do que o normal. Como se fosse uma competição de que quem pedisse primeiro, ganhava.

Harry levantou um dedo ao mesmo tempo em que ia começar a falar.

- Não adianta pôr objeções. Vai ter que escutar One Direction sim, vai ter que escutar sua própria voz sim!

Ele abaixou o dedo, desistindo de falar.

Harry acabou se animando bastante durante o trajeto, ele foi dirigindo e eu, como havia dito, comandei o rádio. Quando eu colocava para tocar uma de suas músicas solo, ele tentava fingir certo desdém, mas acabava rindo e me acompanhando nas cantorias. É aquilo que dizem, se você não pode com eles, junte-se a eles. Harry não podia comigo, não nesse aspecto.

Era quase como se estivéssemos em um Carpool karaoke, quadro do programa de James Corden. Eu cantava assustadoramente mal e mesmo que fosse uma brincadeira, Harry não saia nem um milímetro do tom. Mesmo gritando e dançando no banco. Até desligamos o ar quente em determinado momento, porque quase começamos a suar.

- Jezz, ! Você está indo fundo aqui. - Apontou para o rádio que havia começado a tocar She’s Not Afraid, uma música não muito popular do segundo álbum da banda.

- Essa música é super animada. É perfeita para uma viagem de carro, você não acha? - Defendi a injustiçada.

- Não é uma das minhas preferidas. - Ele riu.

- Não é uma das minhas também. Mas tem aquele cheiro de adolescência e nostalgia. - Me ajeitei no banco, sentando em cima de uma das pernas e com as costas na porta. Assim eu conseguia olhá-lo melhor. Eu sempre me sentava assim quando ele dirigia.

- Exatamente! Música pop genérica para adolescente. - Respondeu indiferente e eu levantei um braço, ofendida.

- Tudo bem, senhor musicista, artista impecável que nunca escuta música pop hit. - Ele começou a gargalhar imediatamente após ouvir o que eu disse.

- Eu não disse que nunca escuto música que é feita para ser hit. - Se defendeu.

- Até porque seria mentira. Você acha que eu nunca te ouvi cantando One Direction no chuveiro? Tudo bem que você canta, tipo, No Control, mas ainda assim. - Ele balançou a cabeça, rindo e concordando. - Não seja hipócrita.

- Até que você poderia ser musa de She’s not Afraid. - Comentou, o sotaque carregadíssimo ao pronunciar o nome da música.

- O que isso quer dizer?

- Não sei, me lembra um pouco você.

- Por quê? Acha que eu tenho medo de me apaixonar?! - Retruquei.

- Eu não disse isso. - Triplicou com um sorriso no rosto.

- Então do que você ‘tá falando? - Eu quase tinha uma interrogação na testa

- Você é toda corajosa para algumas coisas, a maioria para coisas que as outras pessoas não são. E quando são coisas que a maioria das pessoas são corajosas, você não é. - Respondeu com um ar misterioso.

- O que isso quer dizer? - Perguntei mais confusa ainda. Ele começou a rir.

- Deixa pra lá. - Balançou uma das mãos, como se dissesse que eu deveria descobrir sozinha, porque ele não explicaria. - Quem escreveu essa música? Eu não me lembro.

- Eu não sei. - Dei de ombros.

- Você não sabe? - Fingiu uma surpresa debochada. Eu odiava quando ele fazia isso. Era sempre quando eu dizia não saber algo sobre ele ou a banda. Sempre me olhava com um olhar de “que tipo de fã é você?”.

Eu tô dizendo, Harry Styles é um idiota.

- Vou olhar no Google. - Respondi e pesquisei rapidamente. - Não foi nenhum de vocês.

- AHÁ! - Gritou acusatório e eu fiz cara de tédio. - Se fosse uma que tivéssemos escrito eu tenho certeza que ia gostar mais.

- Você é tão narcisista! - Revirei os olhos, o que só fez com que ele gargalhasse mais.

O resto da viagem foi todo assim, Harry implicava com as minhas músicas e eu fingia estar entediada das opiniões dele enquanto eu me divertia mais do que tudo.

Eu nem me assustei quando Harry estacionou o carro em um espaço aberto bem de frente para a praia.

- Onde estamos? - Eu olhava admirada. Era simplesmente lindo.

- Em Lyme. - Harry sorria me olhando.

Realmente não estava chovendo ali, mas ainda assim fazia muito frio. Havia um enorme paredão de concreto com escadas laterais que levavam até muito próximo da água. Ventava muito e a água batia com força em um dos lados do paredão. Era um lugar muito alto que cortava na vertical mar a dentro. Fomos naquela direção caminhando lado a lado. Harry tinha colocado casualmente as mãos nos bolsos de um grande casaco Gucci e eu me sentia como um pacote enrolada naquela jaqueta de couro, com luvas, cachecol e touca. E usava outro par de botas de Harry. Acho que eu estava viciada nessa peça.

Fizemos o caminho até uma das pontas em completo silêncio.

Eu já tinha ouvido falar de Lyme em um dos livros de Jane Austen, mas estar ali, de verdade, me deixou sem palavras. Tínhamos todo o lugar só para nós, não era o ponto mais procurado por turistas naquela época do ano. Não me admira. Quem seria o doido? Só Harry Styles e uma amiga/fã completamente perturbada que toparia até pular na água se ele sugerisse! E estava muito frio!

- Eu costumava vir muito aqui nos últimos anos da banda. - Harry disse em um determinado momento.

Estávamos parados olhando as ondas se quebrando quase tão longe quanto uma boa visão pudesse ver nitidamente. O barulho das águas batendo abaixo de nós era forte e ao mesmo tempo acolhedor. Familiar e calmante.

- Às vezes tínhamos uma ou algumas semanas daqueles bem cheias, sabe? - Me olhou e eu concordei ainda em silêncio. - E tudo parecia demais. Às vezes era tarde da noite e eu não conseguia dormir, mesmo estando cansado. Um dia eu peguei o carro e dirigi sem rumo, não sei como, vim parar aqui.

Alguma coisa me dizia que ele sabia muito bem como tinha ido parar ali.

- Eu me sentei várias vezes aqui para ver o sol nascer. - Ele tirou uma das mãos do casaco e envolveu a minha, que ainda estava coberta pela luva. - Sempre que eu tinha alguma decisão importante para tomar, tipo quando decidimos nos separar. Ou quando eu precisei selecionar as músicas para o meu primeiro álbum.

Harry não me olhou. Estava com o olhar perdido no horizonte. Eu tentava acompanhar seu olhar. Fiquei me perguntando se ele tinha uma grande decisão naquele momento e se tinha a ver com Sophie. Mas apenas escutei enquanto ele falava, sentindo sua mão segurar firme a minha. Eu senti medo de verdade de pensar que talvez ele fosse perdoá-la e que eles pudessem ficar juntos de novo. Eu esperava que não fosse isso a tornar o meu sonho realidade, eu esperava que isso não o fizesse ir embora.

- É lindo aqui, não é?

Concordei.

- É sim.



*


Harry ia correr todos os dias no Hampstead Heath, o parque que ficava literalmente atrás da sua casa. Como não tinha que se preocupar em sair muito cedo para não pegar o sol muito quente, já que estava frio, geralmente ia às nove e pouco. Provavelmente fui com ele duas vezes durante toda a semana que ficamos em Londres. Eu não conseguia acordar, fazia muito frio. Harry acordava mais cedo e sempre deixava o café da manhã pronto para mim, mesmo quando eu não ia com ele.

No geral, ele estava sempre muito animado para me mostrar todos os lugares que gostava de ir. A princípio, fiquei um pouco chateada de não poder ir nos pontos turísticos; mas era um preço baixo a se pagar considerando que eu estava com Harry Styles. Na verdade, eu até poderia ir, mas não achei vantajoso “turistar” enquanto deixava Harry fazer as compras de natal sozinho.

Fomos a sebos, lojas de antiquarias e brechós, entramos pela porta dos fundos nos restaurantes e o dono da academia que Harry fazia pilates até tirou uma foto nossa quando fomos um dia à noite. Harry conhecia todo mundo; era pior do que em Los Angeles. Parecia que eu estava em um daqueles bairros do interior, em que todo mundo se conhece pelo nome. A diferença é que ele fazia isso nos lugares em que íamos. Acho que, de certa forma, era uma zona de conforto, entende? Frequentar os mesmos lugares, com os mesmos donos que criou amizade desde que se mudou para Londres pela primeira vez, desde que ficou famoso.

Harry tinha tantas coisas para me mostrar, que fazia com que todos os lugares óbvios não fossem tão importantes assim. Era como se eu estivesse em uma outra Londres, totalmente diferente da visão que somos acostumados a conhecer. Era como sua bolha particular. Todas as noites ao deitar a cabeça no travesseiro ao seu lado, eu demorava a dormir imaginando o privilégio de ter sido permitida a conhecer aquela parte do mundo dele. Aquilo era algo importante, com toda a certeza. Tudo o que eu vi dizia muito mais sobre Harry Styles do que eu jamais tinha visto até então. E eu preciso confessar, nada me decepcionou.

Seguimos uma certa rotina para conseguir fazer tudo o que Harry havia proposto. E eu fazia o possível para deixá-lo animado depois do que havia acontecido. Harry não era o tipo de pessoa que escondia quando estava mal, mas ele não gostava de preocupar ninguém com seus problemas, então ele meio que tentava não ficar voltando em assuntos que já haviam passado. Mas eu sabia que aquele encontro não tão inesperado havia mexido com ele. Eu só não fazia ideia de quanto.

Na metade da semana, Harry ainda não parecia 100% normal. Às vezes eu o pegava pensativo, como se ainda tivesse aquela grande decisão a ser tomada.

Estávamos voltando do centro de Londres da casa de um de seus amigos, onde tínhamos nos reunido para um almoço de natal adiantado. Era início da noite e, como ali era a Inglaterra, chovia.

- Harry, será que você pode passar em algum supermercado?

- Claro. Você precisa de alguma coisa?

- Não, só vou comprar sorvete.

- Sorvete? Está fazendo três graus, !

- Eu sei. - Respondi com um sorriso e Harry continuava me olhando como se eu fosse louca. - O que acha se fizermos uma noite de beleza? Eu trouxe uns cremes faciais. A gente fofoca e toma sorvete. E você liga o aquecedor no máximo.

- Acho uma ótima ideia. - Sorriu também ao entender minhas intenções.

Harry parou em uma loja de conveniências em um posto de combustível e aproveitou para abastecer.

- Você quer entrar ou vai esperar no carro?

- Vou entrar. - Ele respondeu colocando a bomba de volta na máquina e caminhou para perto de mim, assim fomos andando lado a lado.

Harry abriu a porta para mim e me concedeu passagem. Aquele sininho típico de lugares como aquele tocou.

- Você ouviu isso? - Parei na porta me virando para ele, que pareceu prestar atenção e deu um passo para ficar do meu lado. Ficamos parados sem exatamente estar do lado de fora ou do lado de dentro por alguns segundos antes de reagir.

A loja estava tocando Night Changes da One Direction e tinha pelo menos meia dúzia de garotas no fundo cantando junto.

- Eu acho que vou esperar no carro. - Harry falou rindo ao passo em que me estendeu seu cartão e o cupom fiscal que tinha o código para pagamento do combustível.

- Okay. - Peguei o cupom, rindo também. - Pode deixar que eu pago.

- Não! , pega aqui o cartão!

- Eu não demoro. - Soltei a porta e Harry não teve escolha se não dar meia volta.

Entrei cantando a música também e ninguém pode me julgar! Procurei pelo que eu precisava e não demorei a voltar, encontrando Harry mexendo nos botões do rádio, escolhendo uma música.

- Você tem que parar de ficar pagando as coisas para mim! - Falou numa tentativa de se mostrar bravo quando me sentei dentro do carro e o entreguei o cupom com o carimbo de pagamento.

- Eu também andei no carro. - Respondi rindo. Era só isso que esse tom dele conseguia arrancar de mim, risos.

- Ah, cala a boca. - Eu ri mais ainda da sua resposta.

- Olha o que comprei. - Falei abrindo a sacola.

- Você tá levando a sério esse negócio de noite de beleza. - Foi o que ele respondeu ao ver três vidros de esmalte de cores diferentes lá dentro.

- Sempre! - Respondi com convicção e Harry deu partida enquanto ainda ríamos.



*




Dois dias antes de irmos para Holmes Chapel eu conheci Gemma. Ela precisava comprar alguns poucos presentes que restavam e ainda aproveitaria a carona para sua cidade natal. As pessoas presenteavam todo mundo (mesmo!) nesses feriados. Compravam um presente para cada membro da família, para cada amigo e para qualquer pessoa que fosse estar junto na ceia. Era incrível.

Gemma queria que Harry fosse com ela em algumas lojas de marcas para ajudá-la no presente da mãe, Anne. Eu sabia que Harry já tinha comprado o seu presente, porque havíamos ido em uma loja que ela gostava muito uns dias atrás. Mas Gemma tinha uma ideia totalmente diferente de presente.

Eu já vinha pensando no que compraria para Harry há meses e eu não conseguia pensar em nada bom o bastante e tudo só havia piorado depois de ele ter me dado quase sete mil dólares em forma de customizações para o meu carro. Para ser sincera, àquela altura eu já estava desesperada.

Quando Harry e Gemma começaram a se arrumar depois do almoço para irem onde quer que ela quisesse ir eu tentava pensar em algum motivo para não ir junto.

- ? - Gemma entrou no quarto de Harry me chamando.

Ele havia acabado de sair do banho e estava com uma toalha branca enrolada na cintura, mas estava dentro do closet escolhendo o que vestir. Sim, eu havia visto tudo lá dentro, sem comentários para a minha reação.

- Depois que comprarmos tudo o que for preciso, você vai comigo numa loja de coisas de casa? O Harry não gosta dessa parte das compras.

- Não aceita, . - Harry respondeu fechando a porta do closet. - Gemma vai te prender para o resto da vida, o mundo para de girar quando ela entra nessas lojas. Sinceramente, qual é a graça de ficar escolhendo toalhas? Para mim são todas iguais. - Parou ao meu lado com uma das mãos na cintura e a outra segurando uma muda de roupas.

- Isso é porque você contrata alguém para comprar tudo o que tem dentro das suas casas. - Gemma retrucou.

Ótimo! Briga de irmãos e eu aqui no meio.

- E daí? Isso não significa que eu não opino em nada. Eu só deixo as escolhas para quem entende mais do assunto do que eu.

Eu me sentei na cama. Eu paro a briga ou deixo rolar? Aliás, eles estão mesmo brigando? Apesar dos tons de voz ríspidos, acho que era de família esse negócio de falar baixo e devagar.

- Então como você pode dizer que é tudo igual?

- Eu disse que para mim são todas iguais. É por isso que eu contrato pessoas para escolher. Eles sabem a diferença.

- Okay, guys! O que está acontecendo aqui? - Intervi. Mas não deixei que ninguém me respondesse. - Gemma, eu adoraria ir com você. Mas eu estava pensando em ficar por aqui hoje, sabe? Eu estou um pouco cansada. Eu tentei acompanhar Harry nessa rotina doida dele, mas dá para ver que eu não ‘tô nem um pouco acostumada.

- Sem problemas, ! - Ela sorriu para mim e fez uma careta para o irmão.

Harry foi para o banheiro vestir as roupas.

- Vocês brigam assim sempre? - Eu perguntei baixo para Gemma, com medo de que Harry ouvisse.

- Nunca! - Ela riu fraco. - Isso a gente chama de briga simulada. Só uma implicância para não perdermos o costume. A gente se dá muito bem mesmo.

Suspirei aliviada.

- Ainda bem. Vocês me assustaram. - Isso fez com que ela risse de verdade.

- , tem que certeza que não quer ir mesmo? - Harry me perguntou ao voltar do banheiro.

- Sim. Tudo bem para você se eu ficar aqui?

- É claro que sim. - Parou ao meu lado de novo, dessa vez com as duas mãos na cintura.

- Tem certeza? Eu pensei que como Gemma está aqui, vocês podem fazer companhia um para o outro. Mas agora estou com medo de vocês se matarem. - Ri assustada e eles me acompanharam, só que em divertimento.

- Vai ficar tudo bem. Então, eu vou deixar a Range aqui para você, tudo bem? Caso queira sair para comprar algo, alguma comida.

Eu ainda conseguia me impressionar com o fato de que Harry tinha dois carros no mesmo modelo, um aqui em Londres e um em LA. Deve ser mesmo um carro muito bom.

- Obrigada!

Eu gostava dessa confiança que Harry depositava em mim. Quero dizer, qual é?!!! Ele ‘tá deixando um carro comigo. Um carro. Ninguém fazia isso. Pelo menos não sem você pedir.

- Sem problemas. - Me respondeu como se deixar um carro com alguém não fosse nada demais. - Gem, você já está pronta? Vou na garagem buscar outro carro.

Ela concordou e ele saiu do cômodo.

O que dizer da garagem de Harry? Ele tinha uma garagem subterrânea onde guardava todos os carros. E eram muitos. Eu tinha ido lá uma vez quando chegamos, era impressionante. A maioria eram carros antigos, junto com outro Tesla que ele jurava que não era do mesmo modelo do que ele tinha em LA.

Eu fui para a frente da casa para me despedir. (Mentira, eu fui para ver com qual da meia dúzia de carros Harry sairia da garagem.)

Alguns minutos depois, uma frente branca pôde ser vista. Era um ford clássico dos anos 70. Ninguém poderia dizer que Harry Styles não tinha estilo.

- Uau! Eu nem sabia que você ainda tinha esse carro. - Gemma comentou.

- Esse carro não é um que você tinha deixado largado num estacionamento aqui perto? - Perguntei enquanto Gemma contornava o veículo para entrar no banco do passageiro.

- Isso foi antes de eu aumentar a garagem, já tem anos e... Espera! Como você... - Pensou melhor no que falaria. - Como EU ainda fico surpreso que você sabe dessas coisas?

- Do mesmo jeito que você fica surpreso quando eu não sei. - Lancei uma piscadela. - Já podemos considerar que eu sou sua terceira maior fã?

- Terceira? - Replicou confuso. O braço direito pendia para fora do vidro aberto.

- Sim, depois da sua mãe e da sua irmã, é claro.

- Eu não sou fã desse garoto, me tira dessa lista. - Gemma gritou do outro lado, brincando.

- Acho que você supera a minha mãe, . - Harry respondeu rindo.

Assim que eles foram embora, corri para dentro da casa para tomar banho (quase desisti dessa parte) e trocar de roupa. Depois de passar todos aqueles dias visitando lugares que Harry gostava de ir, eu sabia muito bem onde encontraria o presente perfeito: uma loja de roupas e acessórios masculinos vintage. Ou como eu chamaria: O brechó favorito de Harry.

A maioria das t-shirts antigas de Harry vinham dessa loja, então eu pensei em comprar algo do tipo. Eu sabia que nada disso me custaria muito, ainda mais por ser vintage, mas eu esperava que trouxesse algum valor sentimental. Na verdade, Harry e eu fomos nessa loja no dia seguinte ao que chegamos em Londres, ele nunca procura por nada específico, só olha as coisas e se gosta de algo, compra. Dessa vez, acabou por não comprar nada e um dos vendedores afirmou que chegariam mais coisas durante a semana, então eu estava apenas me arriscando.

Eu estava toda empolgada, porque Harry havia deixado o carro comigo, não que ele nunca tivesse oferecido antes de eu comprar o meu. Mas era diferente, era Londres! E por isso mesmo que quando sai na rua fiquei morrendo de medo de dar alguma coisa errada. E se furasse um pneu? E se alguém batesse em mim? Pior! E se eu batesse em alguém? Esse último era o mais improvável de todos, porque eu sempre fui cautelosa, mas esses foram apenas alguns dos pensamentos que me ocorreram durante todo o meu trajeto até a loja.

Quando cheguei, a mesma pessoa que Harry conhecia me atendeu e também me reconheceu. Será que era uma ideia muito ruim dar algo de um brechó como presente de natal? Era incrível o quanto eu estava desesperada. Eu só queria comprar algo que Harry gostasse, queria agradá-lo! Por que tinha que ser tão difícil?

Fiquei uns bons trinta minutos rodando pela loja sem achar nada que me interessasse, na verdade, eu tinha até visto umas camisas legais que eu sabia que Harry gostaria, mas eu não tinha sentido aquela coisa, sabe? Tipo “é isso!”, até ver os acessórios de cabelo pendurados em um canto perto do provador. Bati o olho em uma boina jeans e então o “é isso!” me ocorreu.

Era simples e os pedaços pareciam de tons diferentes, o vendedor me contou que era uma peça reciclada que tinha sido feita de jeans Levi’s. Era por isso a diferença dos tons de jeans. Isso definitivamente era algo que Harry acharia super legal. Ele amaria saber da história. Eu fiquei simplesmente apaixonada e já conseguia imaginá-lo usando.

Acabei olhando os outros chapéus e achando outra boina parecida, porém de lã cinza. Decidi levar as duas. Eu estava aliviada por ter conseguido achar algo e mesmo sabendo que era algo que Harry gostava, ainda fiquei apreensiva. Mas acho que não teria nada que eu ficaria 100% certa da escolha. Era difícil comprar algo para quem tinha tudo e o fato de ele ter me dado de presente de natal os sete mil me deixava ainda mais insegura. Eu tinha que parar de me preocupar com isso, porque eu sabia que ele odiaria saber que eu ficava preocupada de dar algo à altura, mesmo que fosse impossível e, sinceramente, era ridículo como eu nem sequer tinha chegado perto.

No caixa, havia um suporte com anéis, enquanto o caixa registrava a compra, eu fiquei olhando-os distraída, acabei encontrando um anel de coração num dourado desgastado que achei a cara de Harry, incluindo-o na compra. Eu esperava que servisse em algum de seus dedos.

No caminho de volta eu tive uma ideia melhor e já que o meu presente tinha se tornado múltiplos presentes, mesmo não tendo sido a intenção a princípio, eu decidi que faria aquilo direito, voltei ao centro, direto para um dos sebos que eu havia ido com Harry. Quase chorei quando encontrei uma cópia de 1987 do vinil de Graceland do Paul Simon, ele ia amar. E eu sabia que ele não tinha esse, especificamente, porque escutamos vários álbuns da coleção de Harry durante essa semana em Londres.

Parecia que o destino estava ao meu favor naquele dia, passando por uma das prateleiras bati o olho em uma pequena pilha com os romances de Jane Austen, não precisei procurar muito para achar Persuasão, a obra que tem menção ao litoral de Lyme. Não era uma edição muito antiga, estava relativamente nova. Mas achei que fosse legal incluir no meu kit de presente.

Por fim, fui à uma loja de doces e chocolates de fabricação típica da Inglaterra (foi a loja mais próxima da casa de Harry que consegui achar pelo Google). Em LA havia somente uma em toda a cidade e foi um dos primeiros lugares que Harry me levou quando viramos amigos. Por sorte, eu conseguia me lembrar das embalagens, porque eu não lembraria nomes nem sob hipnose.

Juntei todos os presentes numa caixa simples e coloquei um laço bonito com um bilhete. Acho que eu tinha feito um bom trabalho. Ainda que eu não soubesse dizer se eu tinha sido criativa ou completamente idiota.

Bom, eu descobriria em três dias.


16. Friends just sleep in another bed.

DEZEMBRO, 2018
Véspera de Natal




Minha respiração estava ofegante, eu podia sentir meu coração batendo no mesmo ritmo descompassado.

- Eu não posso te esperar para sempre. - Harry falou ignorando todas as minhas perguntas.

- O que está acontecendo, Harry? Me diz por que você estava me esperando?

- Você só está enganando a si mesma. E a mim. - Repetiu pela segunda vez.

In a black dress, she's such an actress

- Eu não posso esperar para sempre para saber. - Recebi a mesma resposta de sempre.

Ele sorriu e eu acordei.

Mas que caralhos está acontecendo?

Encarei o teto branco do que costuma ser o quarto de Harry quando visita a casa da mãe em Holmes Chapel.

Virei a cabeça, encontrando-o dormindo profundamente. Meio de lado, meio de bruços, um dos braços debaixo do travesseiro e o outro abraçado a mim, na altura da minha barriga. Me mexi desconfortavelmente dentro do espaço limitado. Acabei o acordando.

- Hmmm. - Primeiro resmungou. - O que foi? - Perguntou com a voz falhada.

- Nada. Desculpa te acordar. - Respondi sussurrando.

- Está tudo bem, babe?

- Uh-hum. - Menti.

- Hum. - Murmurou mais alguma outra coisa inaudível e travou os músculos me puxando para mais perto de si, em seguida levantou a cabeça o suficiente para alcançar meu ombro e depositou um beijo ali.

- Acho melhor voltar para o meu quarto. - Falei depois de alguns segundos.

Ele abriu os olhos imediatamente.

- Por quê? Está tudo bem mesmo?

Tínhamos chegado na cidade pela noite e não demorou muito para irmos dormir, não que estivéssemos cansados da viagem, porque foram só quatro horas. A mãe de Harry gentilmente preparou o quarto de hóspedes para mim, mas eu escapei para o quarto dele nas primeiras horas da madrugada, não que eu tivesse a intenção de dormir por ali, aconteceu sem que eu percebesse, acho que ainda daria tempo de voltar para meu quarto sem levantar suspeitas.

A verdade é que eu não fazia ideia de que horas eram, não que houvesse algum problema nisso, porém fui em quem pediu o quarto separado, Harry ficou surpreso, Gemma ficou surpresa e até Anne ficou surpresa. Acho que eu só não queria causar uma impressão errada, uma vez que Harry e eu éramos amigos nos termos mais claros. Independente que todos ali sabiam que dormíamos juntos, para mim não parecia normal simplesmente dormir no mesmo quarto que ele. Não éramos um casal.

- Porque não quero que sua mãe me veja saindo do seu quarto.

- Por quê? - Perguntou de novo. Revirei os olhos.

- Porque não. Fico com vergonha.

Ele sorriu. Maldito sorriso igual ao do meu pesadelo.

- O que foi, ?

- Nada. Já falei. - Eu ainda sussurrava.

- Não vou te deixar levantar se não me disser a verdade.

- Merda! Você tem que me conhecer tão bem assim? Coisa chata. - Dessa vez ele deu um risinho abafado.

- Então? - Incentivou.

- Eu tive um pesadelo, mas não é por isso que eu quero voltar para o meu quarto. Esse é só o motivo pelo qual acordei.

- Uh-hum. - Murmurou voltando a fechar os olhos.

- Dá para parar de responder tudo com resmungos? - Meu sussurro ficou um pouco mais alto.

- Quer me contar o que você sonhou? - Perguntou sussurrando de volta, o tom de voz vezes mais baixo que o meu.

- Na verdade, não. - Seria bem constrangedor. - Acho que vou ligar para a minha terapeuta.

- Você faz terapia? - Surpreso, sussurrou.

- Eu fiz algumas sessões no Brasil depois que o André morreu.

- Quem?

- Meu irmão, Styles.

- Desculpe. Ainda estou meio dormindo.

- Tudo bem. - Eu sorri. - Posso ir agora?

- Poder, você pode. Mas a minha vontade é que você fique.

- Não dá, H. É sério. Seria muito estranho. Eu sou sua amiga, não faz sentido dormirmos no mesmo quarto, na mesma cama. Estamos na casa da sua mãe!

- Você fica repetindo isso o tempo todo, que somos amigos isso, que somos amigos aquilo.

- E não é o que somos? - Revidei ríspida.

- Sim, é! - Replicou calmo. - Mas onde foi dito que não podemos dormir juntos na casa da minha mãe?

- Isso é questão de bom senso, Harry. - Voltei a acalmar a voz.

- Você nunca quebra as regras? - Me perguntou retórico. - Você não quebra nem mesmo as regras não ditas. Aliás, isso nem seria quebrar alguma regra.

- Vou ter que te responder isso de novo?

- Não! Mas você fica dizendo que somos amigos como se isso justificasse tudo. Como se isso fizesse sentido para tudo como faz na sua cabeça.

- Eu não quero justificar nada. Só estou expondo meu ponto de vista.

- Você é tão correta às vezes. - O resmungão respondeu. - Sempre calculando e ponderando até mesmo as coisas sem menor importância. Tipo agora! Sobre dormir ou não no meu quarto na casa da minha mãe.

- Sério? Quer voltar nesse assunto hoje? Na véspera de natal?

- Não. Você sabe que eu odeio discutir.

- Então para de implicar com as minhas paranoias. - Respondi voltando a soar ríspida e impulsionei o corpo para sentar na cama, Harry não esperava por esse movimento, então não conseguiu me segurar a tempo.

- Espera! Não vai embora com raiva. - Ele também se sentou na cama.

- Eu não estou com raiva, Harry. - Respondi quase vociferando seu nome, ainda sem olhá-lo.

- Mas também não está tranquila. - Retrucou. - Vem cá. - Me puxou pelos ombros, me fazendo cair com as costas em seu colo. - Você sabe que eu odeio me despedir brigado.

- Harry, eu só vou para o outro quarto. - Revirei os olhos para disfarçar um sorriso involuntário.

- Mesmo assim. Me desculpa?

- Não. Você nem mesmo se sente arrependido pelo que disse.

- Só porque eu acho uma coisa não significa que eu posso te chatear por isso.

- Você está levando a sério esse negócio de admitir quando está errado, hein? Tão a sério que está admitindo até quando não acha que está.

- Eu tenho que parar de te mostrar minhas músicas. - Revirou os olhos também.

- Você tem que parar de pegar as minhas manias, isso sim!

Eu já sorria como uma tola àquela altura da conversa, e o pior, eu não me sentia preocupada diante do poder que Harry exercia sobre mim. Talvez eu devesse me preocupar com a facilidade com que ele me desarmava.

- Que seja. - Revirou os olhos de novo. - Você quem me ensinou que precisamos nos comunicar, não é? Você sempre conversa comigo, não importa o que eu fiz, ou o que você fez, ou sobre o que seja. Você diz na hora, sem enrolação.

- Eu sei, mas eu sempre fui assim. Se eu não gostei de algo, o melhor jeito é dizer “olha, eu não gostei do jeito que você falou, ou agiu”. Eu acho que é bem mais justo, sabe? - Concordou com a cabeça.

- E você sabe que eu nunca fui assim. - Contrapôs. - Eu sempre fodo os meus relacionamentos por isso. Por palavras não ditas ou meio ditas, suposições feitas sem pensar direito, por ser orgulhoso demais para admitir meus erros. Eu não quero mais ser assim. É por isso que eu não vou te deixar sair desse quarto sentindo qualquer coisa ruim por mim. Mesmo que você esteja só indo para o outro quarto.

- Tudo bem, Harry. Eu te desculpo. Me desculpa também?

- Mas você não fez nada. - Me olhou confuso enquanto afagava meus cabelos.

- Me desculpa por ser tão inflexível às vezes.

- Você não é! Você não deveria fazer nada que te deixa desconfortável só porque eu quero. Eu sou um idiota.

- Isso você é mesmo.

- Heeeeeey! - Protestou ultrajado.

- Agora deixa eu tentar fingir que não dormi aqui. A gente se fala daqui a pouco, okay? - Fiz um bico esperando que ele beijasse.

- Claro! - Respondeu abaixando o pescoço e me dando um selinho antes que eu levantasse de vez.



*


Antes mesmo do almoço, Anne e Gemma se reuniram na cozinha para começar os preparativos para a ceia, ainda que a tradição fosse diferente do Brasil, já que comemoravam o natal no dia 25, de fato. A véspera era usada para adiantar o que era necessário para a ceia.

- ? - Anne me chamou assim que desci do quarto depois de subir para escovar os dentes.

- Sim, senhora Anne? - Respondi respeitosa.

- Só Anne. - Retrucou e eu ri.

- Desculpe. E pode me chamar só de , também.

- Tudo bem. - Ela sorriu, era uma mulher muito gentil, Harry nunca mentiu em nenhuma das vezes em que falou tão bem da mãe. - Você quer nos ajudar a fazer os biscoitos de natal? Não precisa se você não quiser, é claro.

- Eu adoraria! - Respondi animada. - Meu Deus, eu sempre quis fazer biscoitos de natal, no Brasil não fazemos essas coisas.

- Que ótimo! Então vem cá! - Me puxou pela mão até a cozinha.

- Ma-mas você vai ter que me instruir. Eu não faço ideia do que fazer. - Respondi um pouco sem graça.

- O Harry me disse que você não sabe cozinhar. - Deu um riso abafado.

- O quê? Eu sei cozinhar sim. - Eu estava totalmente envergonhada agora.

- Não muito bem, não é, ? - Harry respondeu entrando no cômodo.

- Como você ousa falar mal de mim para a sua mãe, Harry Styles? - Eu cruzei os braços ao me virar para ele.

- Eu só falei a verdade. - Rindo, passou um dos braços por cima dos meus ombros. Eu olhei-o com cara de desprezo. - Ok. Tudo bem. Você não cozinha tão mal assim. Só o seu conhecimento culinário que é limitado.

- Obrigada! Agora me sinto menos injustiçada. - Anne riu da minha resposta.

Gemma entrou na cozinha.

- A comida estava muito gostosa naquele dia que a cozinhou para a gente na sua casa. - Gemma encarou o irmão ao sair em minha defesa.

- Viu? Você que é ingrato.

- Era só macarrão. - Harry respondeu.

- Você está falando de quem aqui, meu amor? - O apelido saiu no meu português mais sarcástico. - Pelo menos eu faço macarrão melhor do que você.

- Touché!

- Isso aí, agora desgruda de mim porque eu quero ajudar aqui. - Falei tirando seu braço dos meus ombros.

- Ouch! Você está recusando contato físico comigo? E eu pensei que você fosse minha fã.

- Aí, Harry. Eu já te falei, foram só decepções depois que te conheci. - Harry imediatamente soltou outro “ouch” ao colocar as duas mãos no peito.

Esse é um homem que sabia ser dramático.

- Estou brincando, Harry. Você sabe que eu te amo. - Harry sorriu e eu lhe dei um beijo na bochecha.

Anne e Gemma assistiam à nossa cena, caladas. Apenas observadoras com sorrisos de divertimento.

- Isso aqui está cheirando muito bem. - Harry falou apontando para o forno.

- A primeira assada de biscoitos já está quase pronta. - Anne respondeu. - Então eu vou colocar as mini tortas. - Foi então que eu reparei em duas grandes formas lotadas de tortinhas em cima de um fogão maior ainda. - Harry, você quer decorar os biscoitos junto com a ?

- Claro, mãe.

- Meu Deus, eu vou decorar os biscoitos? - Respondi animada. - E se eu deixá-los parecendo monstrinhos? - Perguntei assustada, mas teve efeito contrário em todos, que só riram.

- Não é difícil. O Harry te mostra. - Gemma falou colocando a mão no meu ombro, consoladora.

Harry e eu nos sentamos na mesa de jantar com dois tabuleiros de biscoitos, um monte desse recheio colorido que eu não sabia o nome e bisnagas daquelas que usam para decorar bolo, só que em tamanhos consideravelmente menores, os bicos dessas bisnagas eram super finos, perfeitos para desenharmos olhos e sorrisos nos biscoitos em formato de bonecos ou os contornos das árvores de natal.

Logo no meu primeiro biscoito eu decidi que fazer aquilo era difícil, sim; ou eu que era burra e não sabia controlar uma bisnaga. Ou eu podia simplesmente concordar com a teoria de Harry de que meu conhecimento culinário era limitado, em todos os aspectos.

Não sei bem quando, mas Harry e eu começamos a competir quem decorava mais biscoitos. Preciso dizer que eu estava perdendo de lavada?

- Não vale! Você está roubando! - Eu quase gritei.

- Eu estou roubando como, exatamente, ? - Harry respondeu sarcástico.

- Você está fazendo mal feito só para fazer mais. - Retruquei.

- Isso não é verdade. - Me olhou ofendido.

- É sim. Olha isso! - Apontei para o biscoito que estava em sua mão.

- Eu errei, foi sem querer. - O encarei, desconfiada.

- Hm. Então ‘tá bom. Você é muito competitivo, tenho que ficar de olho.

Harry começou a rir.

- Assim você me ofende. Eu gosto de ganhar de maneira justa! Eu sou honesto.

- Blah blah blah. - Revirei os olhos enquanto o remedava.

- Você não tem um pingo de respeito por mim, não é? - Dessa vez eu que comecei a rir.

Harry enfiou um dedo em uma das vasilhas e passou recheio na minha bochecha.

- Eu não acredito! - Tentei fazer o mesmo, mas ele segurou o meu braço.

- Você não pode revidar. Eu só estava me vingando do seu deboche.

- Você estava... se vingando? - Perguntei pausadamente. - Você pegou o treat people with kindness e enfiou no cu? - Falei e imediatamente tampei a boca com a mão. Harry gargalhava. - Será que sua mãe escutou? - Olhei em direção à cozinha para ver se via algum movimento de Anne. Será que eu conseguia ficar um dia sem passar vergonha?

- Desde quando você usa esse tipo de palavreado, ?

- Desde sempre. - Dei de ombros.

- Eu nunca te vi falando nada disso. - Harry ainda ria. - Quero dizer, você fala palavrão, mas não assim.

- É porque geralmente eu falo em português, então você não entende. - Dei um tampinha no seu ombro.

- Você é tão cínica.

- Eu? Eu???? Você que fica aí dizendo para tratar as pessoas com gentileza e acabou de dizer que estava SE VINGANDO de mim.

- Para de ser dramática. - Harry conteve o sorriso só para revirar os olhos em um falso tédio.

Decidi ignorá-lo e me concentrar nos biscoitos. O silêncio não durou muito.

- Já deu parabéns para o Louis? - Eu perguntei de repente.

- O quê? - Harry respondeu confuso. Ao contrário de mim, ele estava concentrado. - Oh, Louis. Sim. Eu mandei uma mensagem mais cedo. E você?

- Eu o quê?

- Deu parabéns para o Louis? - Perguntou como se fosse óbvio.

- Eu não. Ele nem vai ver. - Dei de ombros, como se fosse óbvio também.

Harry revirou os olhos de novo e puxou o celular do bolso, digitando rapidamente e depois colocando o aparelho em cima da mesa, todo sujo.

- Mandei uma mensagem perguntando se ele está ocupado.

- Por quê? - Perguntei inocentemente.

- Porque vou ligar para ele. Aí você deseja feliz aniversário.

Eu entrei em choque no mesmo momento. Harry me olhou e imitou a mesma expressão de pateta que eu estava fazendo. Dei um tapa no seu braço.

- Para de me imitar.

- Então fecha a boca, . Você não vai desmaiar agora, for fuck’s sake!

- Claro que não. - Respondi fingindo ofensa.

Por fora eu dizia “não”, por dentro meu cérebro estava gritando “mentira!”

O celular apitou uma mensagem.

- Ele acabou de me responder. - Harry disse olhando para a tela.

- E aí? - Perguntei, tentando não fazer cara de choque de novo.

Harry não respondeu, em vez disso, escutei o som clássico de “chamando” do FaceTime.

- Hey, mate. Feliz aniversário.

- Hey, lad. Obrigado. Feliz natal. - Eu escutei Louis fuckin’ Tomlinson responder.

Eu estava sentada na ponta da mesa e Harry estava na cadeira ao lado, então eu não conseguia ver a tela do telefone. E nem precisava, eu já estava surtando só de ouvir os dois conversando, se eu o visse, não garantia que não fosse desmaiar mesmo.

- Harry, espera aí. O Freddie está me chamando. - Eu ouvi Louis falar depois que Harry falou algo que eu não escutei.

- O Freddie? - Eu balbuciei para Harry.

- É. O filho dele. - Harry me explicou.

- Eu sei quem é o Freddie, Harry. Pelo amor de Deus. - Falei exasperada.

- Pronto. Freddie, diz oi para o tio Harry. Você se lembra dele? Amigo do papai.

Aí! Eu não sabia se o meu coração doía mais por saber que eles se conheciam, ou se por saber que Harry e Louis não conviviam o bastante, ao ponto em que provavelmente fosse possível que a criança se esquecesse de Harry.

- Como estão as coisas? Tudo bem? Você já tinha me desejado feliz aniversário, não imaginei que fosse ligar. - Louis perguntou.

- Até o Louis sabe que você não é de chamadas de vídeo. - Eu, que estava até então muda, soltei sem perceber.

Louis começou a rir. E eu acabei rindo também.

- Quem está aí com você?

- É a . - Harry respondeu e tentou arrastar a minha cadeira para o seu lado. Eu me levantei um pouco para terminar de chegar perto e entrar no ângulo da câmera. Vi que Freddie estava no colo de Louis. - Liguei por causa dela.

- Harry! Disfarça pelo menos. O cara não precisa saber que você não liga para desejar feliz aniversário, sabe? Se limita a uma mensagem! E de repente liga para que outras pessoas o façam. - Falei e olhei para a tela. - Oi, Louis. Eu sou a .

- Eu sei. Legal finalmente te conhecer. Tudo bem?

- Sabe? - Olhei para o Harry, depois para o celular, depois para Harry de novo e mais uma vez para a tela. - E-e-eu estou bem e você, Louis? Feliz aniversário, a propósito. E feliz natal, para você e sua família. - Completei olhando para Freddie.

- Obrigado! Um feliz natal para vocês também. Como estão os planos para amanhã?

- Os de sempre. Estamos em Holmes Chapel. - Harry quem respondeu.

- Anne está te fazendo decorar biscoitos, ? - Louis perguntou maroto.

Eu não respondi, apenas ri para a tela e olhei para Harry confusa.

- Uma vez os meninos vieram passar o natal aqui, minha mãe fez com que todos decorassem biscoitos. O Louis jogou farinha dentro do nariz do Liam. - Harry explicou.

- Ele ficou espirrando o resto da noite. - Louis completou, gargalhando.

- Isso tudo porque o Liam estava errando todos os biscoitos. - Harry completou Louis.

- Coitado! - Penalizei.

- Coitado nada! Eu já tinha falado para fazermos do meu jeito que seria melhor. - Louis replicou.

- “Esqueça o que te disseram nos escoteiros, Payno. Vamos fazer isso do jeito Tommo” - Eu repeti a icônica frase de Louis que aparece no filme This Is Us, de quando os meninos foram acampar e estavam tentando montar barracas.

- Harry?! - Louis chamou.

- Eu te falei. - Harry respondeu com um sorriso.

- O quê? - Eu soltei, confusa em meio à conversa em que os dois trocavam apenas com os olhares.

- Eu te falei que ela sabia tudo, man. - Harry falou de novo.

- Harry me contou que você é fã da banda. - Louis riu.

- E de vocês solo também. Quero dizer, seu álbum, mal posso esperar.

- Obrigado, love! - Louis sorriu. - Se Harry apostar qualquer coisa com você, não aceite. Ele rouba, principalmente decorando esses biscoitos.

- Eeeei. - Harry gritou.

- Eu sabia! - E eu falei junto.

Eu não queria ter um mini surto só porque estava falando com Louis. Mas o que eu poderia fazer? Eu era uma fã! Antes de tudo, antes de ser amiga, antes de ser ficante, antes de estar inserida no mundo de Harry e, consequentemente, ter contato com seus amigos... Eu era só uma fã! Não importava quanto tempo passasse, eu nunca poderia me acostumar o bastante.



Eu não sabia decidir qual havia sido a coisa mais divertida do dia, decorar biscoitos com Harry havia sido o auge dos meus sonhos que eu nunca havia nem mesmo pensado na possibilidade. Quando se pensa em um ídolo, não se imagina essas coisas, eu acho. Se imagina saindo com eles, jantares, festas, não sei, mas decorar biscoitos de natal? Nunca havia sonhado com nada tão específico. Era algo tão simples. Para eles uma tradição que faziam todos os anos, mas para mim era como... Eu não sei. Não tenho como comparar a nada. E conversar com Louis? Como eu explico o quão incrível foi sem parecer boba?

Já pela noite, após todos termos tomado banho porque ninguém saiu dessa empreitada com menos do que a roupa e cabelos brancos de recheio e farinha, a família tinha tradição de se sentar em frente à televisão, mas não assistir nada, e sim, ficarem conversando. O namorado de Gemma, Michal, havia chegado no fim da tarde e passaria a noite e o dia seguinte conosco. Oficialmente todos os membros da família eram incrivelmente maravilhosos. Só faltava o pai de Harry, que eu não sabia se conheceríamos.

A conversa estava animada quando entramos no assunto memórias do passado e Anne começou a contar histórias de Gemma e Harry quando crianças.

- Eu devo ter uma foto disso. Eu vou buscar o álbum.

- Nãooooo! - Gemma e Harry gritaram ao mesmo tempo.

- Ela faz isso todo ano. - Michal me falou. Estávamos rindo dos irmãos. - Eu já devo ter visto esse álbum pelo menos três vezes.

Anne voltou e se sentou ao meu lado, já que eu era a única ali que nunca tinha visto as fotos. Parecia que o álbum estava em ordem cronológica. Era enorme e volumoso. Uma das primeiras fotos que me chamou atenção fora de um Harry de aproximadamente um ano, cabelos lisos completamente loiros e um par de enormes olhos azuis. Estava deitado na grama com a cabeça em cima da barriga de um cachorro malhado de cinza.

- Esse era o Max. - Gemma quem falou. - Harry fazia o que queria com esse cachorro e o bicho simplesmente aceitava.

- O que eu posso dizer? Eu levava jeito com ele. - Harry se defendeu, rindo.

- Você se lembra quando íamos buscar sua irmã na escola e não podíamos ficar parados esperando-a por nem mesmo dez minutos sem que você começasse a contar alguma história para qualquer pessoa que te desse atenção? - Anne perguntou a Harry.

- Dá para acreditar que antes mesmo de ter idade para estudar, Harry já tinha essa facilidade de lidar com as pessoas? - Gemma me perguntou de forma retórica. - Quando começou a conviver com pessoas diferentes na escola isso só piorou. Ele chamava atenção por onde passava. Sempre teve esse magnetismo que fazia com que simplesmente todos parassem para ver o que quer que fosse que ele estivesse fazendo. Ninguém acreditava que éramos irmãos. Porque eu era o total oposto. Ninguém prestava atenção em mim.

Depois, havia uma foto de Gemma e Harry crianças em roupas de banho ao lado de uma piscina. Em um canto da página dizia “Gem & H. Férias em Chipre”.

- Awwww. Você era tão fofinho. - Eu comentei para Harry, em parte tirando sarro com sua cara. - Você também, Gemma. Mas ainda é. Diferente dele. - Pisquei para ele que pegou a indireta provocativa.

- Gem, você se lembra que roubou todo o presunto do café da manhã para alimentar os gatos que viviam nas ruas ao redor do hotel? - Anne perguntou rindo.

- Eu não sabia dessa história. - Michal comentou, divertido.

- Pois é. Você sabe, Gemma sempre foi mais quieta que Harry. Enquanto isso, ele passou todos os dias jogando um jogo de tabuleiro com adolescentes na quadra perto dessa piscina. - Anne apontou para a foto.

- Harry ficou tão popular que tinha uma galera se despedindo quando fomos embora. E ele tinha só sete anos. - Gemma completou.

- Essas covinhas foram sempre carismáticas, então? - Brinquei cutucando Harry no braço que a esse passo já estava totalmente constrangido. E eu não podia negar que me divertia às custas disso.

Depois, outra foto hilária. Harry e Gemma com franjas tão grandes e cheias que lhes cobriam a testa e parte dos olhos. Harry usava uma calça tão baixa que eu não saberia descrever. Gemma tinha lápis super pretos ao redor dos olhos e pulseiras com tarraxas pontudas.

- O que é isso? - Eu perguntei mal aguentando parar de rir.

- Ah, minha cara , essa foi a fase de emo adolescente. - Gemma respondeu. - Harry, como você me deixava queimar o seu cabelo só para alisá-lo dessa forma horrenda?

- Bom, era melhor do que quando você cortava. - Harry retrucou rindo.

Eu não conseguia parar de rir também. Ainda estava dividida entre achá-lo ridículo ou totalmente engraçado.

- Eu também tive essa fase. - Me lembrei de uma eu de dezesseis anos que achava ser a mais hardcore ouvindo bandas de rock e vestindo preto o tempo todo. - Quando meu irmão cresceu e foi para a faculdade, ele abandonou o estilo emo e passou para mim tudo o que ele tinha, como uma herança. Eu tenho uma coleção de camisas de bandas de rock na casa dos meus pais.

- Eu não sabia que você tem um irmão. - Gemma comentou.

Imediatamente percebi Harry ficar tenso ao meu lado. Presumo que ele não falou nada. Eu também não me lembraria de falar se estivesse no lugar dele. Mas tentei não me importar.

- Sim. Ele era quase cinco anos mais velho. - O uso do verbo no passado deixou claro coisas que ninguém precisaria perguntar para entender.

- Eu não consigo imaginar você sendo emo na adolescência. Em que ponto você foi corrompida e virou fã de One Direction? - Harry brincou para quebrar o clima.

Eu gargalhei imediatamente. Na página da vez, a foto de um Harry que parecia ter a mesma idade de quando foi para o The X-Factor.

- Bem, o que posso dizer? One Direction sempre foi o meu guilty pleasure.



*


Antes de dormir, eu liguei para meus pais para desejar feliz natal. Eu estava com tantas saudades! Foi bem difícil conversar com eles. Sempre dizem que os primeiros são os mais difíceis quando se perde alguém, primeiro natal, primeiro aniversário... Eu não fazia ideia de como meus pais estavam passando sem ele por perto.

Todos nós fomos dormir mais de meia noite. Ainda assim foi estranho não virar a noite acordada enchendo a cara com André enquanto nossos pais já dormiam há horas, controlando as risadas de bêbados a cada memória que lembrávamos, contando-as pela milésima vez, como fazíamos todos os anos.

Estava sonhando com uma dessas memórias, uma em que meu irmão e eu vestíamos camisas iguais do Pink Floyd logo antes do meu aniversário de dezessete anos, foi o meu prêmio daquele ano conseguir que ele vestisse uma das camisas antigas. Eu ainda não conhecia One Direction naquela época.

Eu acordei com o barulho de leves batidas antes da porta ser aberta.

- Ei, ‘tá dormindo? - Mesmo no escuro, pude ver a silhueta da cabeça de Harry que apontava dentro do quarto.

- Sim. - Respondi e escutei sua risada baixa quase imediatamente.

- E desde quando gente que está dormindo responde perguntas? - Harry retrucou entrando no quarto.

- Sonâmbulos. - Revirei os olhos, mesmo que ele não pudesse ver. - Você me acorda e ainda tem a audácia de perguntar se eu estou dormindo? Difícil, não é, Styles?

- Desculpe. Eu não consegui dormir, então vim ver se você queria companhia.

Bufei fingindo irritação e arrastei o corpo para o canto.

- Vem cá. - Chamei e Harry imediatamente entrou e se deitou de costas para mim, o abracei pela cintura, numa conchinha, cobrindo-o com o edredom.

Settle down with me
Cover me up
Cuddle me in


Era como se a nossa discussão sobre dividir a cama nunca tivesse acontecido.

- Por que não conseguiu dormir? - Sussurrei próximo ao seu ouvido.

- Não sei. Acho que me acostumei a dormir com você. - Respondeu se aconchegando nos meus braços.

Lie down with me
And hold me in your arms


Eu comecei a rir, uma risada abafada, porque eu tinha medo de acordar alguém mesmo que os quartos não fossem perto o bastante para isso.

- Para, né! - Respondi em um tom descrente enquanto ainda ria.

- Por que você nunca leva a sério nada do que eu falo? - Harry perguntou num tom de voz de chateação.

- Eu sempre levo a sério o que você fala.

- Então por que está rindo?

- Porque isso é engraçado, só dormimos juntos por uma semana. - Deixei escapar outra risada.

Harry e eu sempre dormíamos juntos na minha casa ou na dele, mas nunca dormimos juntos por tantos dias seguidos.

- Os meus sentimentos são algum tipo de piada para você, ? - Harry se virou de frente para mim. Quando falou de novo, eu senti seu hálito de pasta de dentes. O rosto bem próximo ao meu. - Eu sei que nós dormimos juntos por só uma semana, mas você não facilita as coisas, sabe? - Me puxou pela cintura, afundando o rosto no meu pescoço e inspirando fundo antes de voltar a cabeça para o travesseiro.

And your heart's against my chest,
Your lips pressed in my neck


- O que eu fiz agora????

- Você tem o melhor cheiro do mundo! Eu durmo sem perceber, quase embalado por ele.

I'm falling for your eyes,
But they don't know me yet


- Agora você está sendo exagerado.

- É sério! Mesmo quando você não está com perfume, tipo agora, o seu cabelo cheira tão bem que eu consigo sentir a um metro de distância de você. - Eu ri mais um pouco, dessa vez constrangida pelos elogios. - E você sempre faz carinho nos meus cabelos e me abraça para dormir, mesmo que você saiba que vai praticamente me chutar da cama quando dormir de verdade.

And with a feeling I'll forget,
I'm in love now


- É por isso que você tem que me deixar ficar na ponta.

- Não, tenho medo de você se espaçar demais e cair.

- Desde quando eu já cai de alguma cama?! - Respondi ultrajada.

- Você não cai justamente porque fica no canto. Então pode me empurrar a vontade dormindo, porque eu vou saber que você está segura.

- Awwww, Harry. - Fiz uma vozinha de neném. - Você me deixa sem saber o que te responder.

- Só diz que sempre vai me abraçar enquanto ainda estiver acordada.

- Prometo! - Harry se virou de costas novamente, ao passo em que me mantive abraçando-o pela barriga, suas costas ao encontro do meu peito.

- Como foi para você falar com Louis hoje? - Ele me perguntou de repente.

- Foi incrível, H! Obrigada por isso. Eu acho que a minha ficha ainda não caiu. O Louis sempre foi o meu preferido.

- Achei que eu fosse o seu preferido! - Revidou ofendido.

- Depois de você, é claro. - Eu ri e dei um beijo em seu pescoço.

Kiss me like you wanna be loved
You wanna be loved


- Viu? Você não facilita. - Eu quase gargalhei, mas me contive.

- H? - Chamei quando consegui me controlar.

- Sim?

- Como o Louis sabia quem eu era?

- Bem, eu falei de você outro dia. - Eu ainda não estava satisfeita com essa resposta, mas sem que eu falasse nada, ele completou: - O gosto musical de vocês é idêntico. Aliás, vocês são bem parecidos em muitos aspectos.

- O Louis é o próprio One Direction, é claro que nossos gostos musicais são parecidos. - Eu respondi como se fosse óbvio, no sentido de que Louis tinha escrito a maioria das músicas da banda.

- Não. Não é disso que eu estou falando... - Fez uma pausa. - Por exemplo, qual seria sua música de cantar no karaokê?

- I Don’t Want To Miss a Thing, Aerosmith, é claro.

- Viu? É a música do Louis também.

- Sério? Eu não-eu não sabia disso. - Respondi incrédula.

- Eu sei que você não sabia. Mas vocês gostam das mesmas bandas, Oasis, Nirvana, Kings of Leon...

- Esse gosto musical todo é culpa do meu irmão.

- Se eu fosse escolher uma música para um karaokê, eu cantaria, sei lá, Sledgehammer, Peter Gabriel.

- Ou alguma música da Joni Mitchell ou Stevie Nicks.

- Exato! Você é muito mais para o rock progressivo. E eu sou mais um rock anos 60/70.

- Tipo Fleetwood Mac e The Beatles. - Completei de novo. - Mas eu também gosto das suas músicas.

- Eu sei. Mas você é muito mais a vibe do Louis.

- Eu sempre te disse que meu irmão era como o Louis. - Dei um risinho.

- Então, eu acho que podemos declarar que você é mais Louis do que Harry. - Eu ri com o comentário, me lembrando de quando toquei nesse assunto pela primeira vez, meses atrás quando ficamos pela primeira vez e eu contei da morte de André.

- Ah, mas eu queria mais ser você. - Bocejei.

- Por quê?

- Porque você é mais alto. - Dessa vez foi Harry quem riu.

- Não o deixe ouvir você falando isso. - Harry respondeu e eu fiz um sinal de silêncio com o dedo nos lábios.

- Segredo. - Eu sorri.

- O jeito de vocês também. Louis é mais minimalista, tipo você.

- E você é todo extravagante. Ousado, divertido. Irritantemente energético pelas manhãs.

- Até nisso vocês se parecem. Ele é a pessoa mais mal humorada que eu conheço se tem que levantar antes das 11h. O que acontecia sempre, é claro. Então ele estava sempre revirando os olhos, como você também!

- Ok, ok. Eu já entendi que somos parecidos. Mas vem cá, me conta... - Comecei, mas acabei rindo antes de terminar. - Vocês já se pegaram, não se pegaram? Pode me falar.

- Ah, . Qual é? Achei que ia falar algo importante.

- Isso é importante. - Bocejei de novo.

- Eu já te falei que eu não falo sobre isso. - Apesar da resposta em tom sério, Harry sorria, achando graça no meu tom pedinte.

- Só sim ou não. Por favor. - Implorei.

- De todas as fãs do mundo que eu poderia me envolver, fui arrumar logo uma Larry shipper.

- Eu não sou Larry shipper. Eu sou eu e você shipper.

You wanna be loved

- Ah é? Achei que você fosse Henry e você shipper... - Harry retrucou debochado e eu comecei a gargalhar.

This feels like falling in love

- Ciúmes de novo? - Perguntei provocando, me lembrando do dia que fomos ao Nobu e ele fez menção a Henry com o mesmo tom sarcástico na voz.

Falling in love

- Cala a boca. - Harry retrucou e eu comecei a rir. - Shiu. - Me repreendeu. - Você vai acordar alguém.

- A culpa é sua, idiota. - Dei um tapinha desajeitado em seu braço. Eu faria aquilo melhor se não estivesse deitada tão próxima a ele. - Bem, eu preciso saber se devo me preocupar com o Louis. Sabe, como você precisou saber se devia se preocupar com .

- Ah, não, ! - Dessa vez quem riu foi Harry. - Ciúmes de novo? - Repetiu o que eu falei.

Falling in love

- Você não sabe como é ter que te dividir com milhões de pessoas. - Eu respondi rindo também.

- Ah, mas você não precisa. Sou todo seu.

Settle down with me
And I’ll be your safety
You’ll be my lady


Dessa vez eu gargalhei de verdade mesmo e Harry tampou minha boca com a mão.

- Essa realmente foi uma piada boa. - Eu respondi quando ele me soltou e até mesmo Harry riu, sabendo que era mentira.

- Eu sou todo seu. Aqui e agora. - Quando ele disse isso meu riso morreu em uma tosse forçada, meio constrangida e talvez muito mais séria do que calculei.

Então procurei seus olhos que já me encaravam na escuridão.

- Mas por quanto tempo?

Nem mesmo eu esperava por essa resposta, então não me surpreendi com a surpresa de Harry, que o deixou sem fala.

I’ve been feeling everything

- Meu Deus, como chegamos nesse assunto mesmo? - Eu dei um sorriso seguido de um riso curto.

- Porque você disse que shippava a gente... - Harry respondeu divertido, ignorando o momento tenso que havia acabado de acontecer.

- Ah é... - Respondi desanimada. - Mas então, você e Louis?

- É meio impossível conviver com vocês dois que são tão parecidos e não mencionar vocês um para o outro. Além de que você também é fã da banda.

- Não foi isso que eu perguntei.

- Não sabia que era só você que podia fugir dos assuntos.

Touché, Harry Styles.

- Hum. - Murmurei divertida. Eu não tinha resposta para aquilo.

I guess that’s how I know you

- Vamos dormir, você está cansada. - Harry falou quando eu bocejei de novo.

- Acho que amanhã vai ser muito divertido. - Respondi em um sussurro.

- Vai ser um dia cheio, eu sei, mas eu queria te levar em um lugar amanhã. - Harry sussurrou de volta.

So I hold you close to help you to give it up

- Uh-hum. Tudo bem. - Lhe dei um beijo no rosto, me aconchegando melhor naquele espaço. - Vamos aonde você quiser. - Concordei, já não mais tão consciente.

So kiss me like you wanna be loved
You wanna be loved
You wanna be loved


- Boa noite, .

- Boa noite, Harold.

This feels like falling in love


17. Let me change your ticket home.

DEZEMBRO, 2018
Natal




Eu tinha esquecido a cortina aberta.

Mentira.

Eu tinha deixado a cortina aberta. De propósito.

Mas não foram os raios de luz da manhã que me acordaram e, sim, o despertador de Harry.

- Seria clichê demais que eu tivesse acordado e estivesse nevando lá fora? - Perguntei dramática ao abrir os olhos e ver que eu tinha deixado a cortina aberta para nada. Só chovia naquele lugar.

- Bom dia para você também, reclamona. - Harry respondeu com sua voz rouca e grave em níveis só atingidos ao acabar de acordar.

- Eu queria que saíssemos antes que as lojas abrissem. Eu vou para o meu quarto me arrumar. Eu volto em dez minutos, está bem?

- Uh-hum. - Murmurei em resposta, não tinha mexido nem um músculo ainda.

Harry havia acordado mais cedo do que o normal para que fôssemos seja lá onde fosse que ele queria ir. Fechei os olhos pelo que pareceram trinta segundos e então Harry estava de volta. Como aparentemente eu tinha dormido por quase dez minutos, ele desceu na frente para adiantar um café para nós enquanto eu me arrumava. Fazia tanto frio que eu não sabia ser possível.

- ‘Tá pronta? - Harry abriu a porta do quarto em um baque surdo.

- Shiu! Você vai acordar os outros! - Respondi deixando de olhar no espelho e me virando para ele. - Mas sim, estou pronta.

- Maravilha! Vamos tomar café?

- Vamos. - Concordei parando ao seu lado na porta. - Harry, você acha que tem algum problema se eu sair com essa roupa?

Eu vestia o meu moletom TPWK. Um que ele havia me prometido e me dado há meses.

- Problema nenhum. - Negou me olhando da cabeça aos pés. - Você está ótima. - Saiu na frente pelo corredor em direção as escadas. - O que houve com as minhas botas? - Perguntou ainda de costas.

- Achei melhor calçar as minhas, mesmo. - Eu tinha comprado um par novo em Londres, porque chovia muito e os dois pares que eu tinha levado não estavam sendo suficientes; inclusive era a primeira vez que eu estava usando-o, já que eu estava sempre usando algum par de Harry. - Não sei aonde vamos. Vai que eu as arranho? - Harry riu em resposta.

- Provavelmente é melhor que calce algo que não vai sair dos seus pés. Nós vamos andar um pouco.

- Aonde vamos? - Perguntei mesmo que soubesse ser em vão. Harry gostava de manter mistério.

- Em alguns lugares. Só para você conhecer ao redor.

- Hum. Okay! - Parecia um programa despretensioso de quem não tinha nada planejado.

Desci as escadas na sua frente, dando de cara com Gemma sentada à mesa, também tomando café. Eu estava crente que todos ainda dormiam.

- Bom dia, casal! - Um sorriso malicioso surgiu em seus lábios.

- Bom dia. - Eu respondi sem entender muito bem o porquê do “apelido”.

- E aí, dormiram bem?

- Ahnnn, sim e você? - Eu respondi incerta, mas levando a pergunta a sério.

- A Gemma só ‘tá implicando com você. Ignora. - Harry revirou os olhos.

- O qu-quê? - Respondi em choque. - Por quê?

- Suas risadas me acordaram ontem. - Ela deu de ombros com naturalidade. - Vocês estavam falando bem alto do seu quarto. - Apontou para mim e enfatizou o “vocês”.

- Meu Deus, me desculpa, Gemma!

Ela imediatamente começou a rir. Se divertindo às custas do meu embaraço.

- O Harry ainda é super sutil, você não acha? Ele deve ter acordado a casa toda quando foi ao banheiro.

- Você que já estava acordada e me viu passando em frente ao seu quarto.

- E se você não estivesse no quarto da , eu não teria visto sua cara feia. - Ela rebateu.

Depois disso, eu queria ser um avestruz e poder cavar um buraco no chão, bem ali mesmo, e enfiar a minha cabeça. Como eu não podia fazer isso, tomei o meu café o mais rápido possível e fiquei apressando Harry.

- Vocês vão demorar? - Ela ainda tinha um olhar malicioso sobre nós.

- Não. Logo estaremos de volta. - Eu ouvi Harry parando para respondê-la enquanto eu já tinha fugido pela porta.

Saímos ainda encontrando uma chuva que alternava entre uma garoa fina e grossos pingos que duravam pouco mais de vinte minutos cada pancada.

O vilarejo era pequeno, Harry me contou, pouco mais de cinco mil habitantes. As ruas estavam relativamente cheias, mesmo na manhã de natal as pessoas saíam para comprar pão, ir à missa ou estavam a caminho de casa de amigos e parentes.

- Eu costumava pegar o meu salário todo da padaria e pegar um trem até Manchester no fim de semana para comprar roupas. - Harry comentou quando passamos em frente à padaria que ele costumava trabalhar. Recém aberta, pelo carro foi possível ver uma pequena movimentação lá dentro.

- Achei que você comprava passagens para ver sua namoradinha que morava em outra cidade. - Comentei me lembrando que ele havia dito isso em alguma entrevista.

- Bem, isso também. Mas eu não namorei durante todo o período em que trabalhei lá. - Ele riu divertido. - Acredita que até outro dia eles tinham um pôster bizarro meu posicionado bem em um dos vidros da frente?

- Mentira! - Exclamei em choque. - Com uma foto de quando você ainda trabalhava lá?

- É! Em tamanho real e tudo.

- Pensa na galera que foi naquela padaria depois que você ficou famoso? Eles devem ter ganhado um monte de dinheiro. Essa vila toda virou turística por sua causa. - Brinquei.

- Você acha que eles mantiveram fotos minhas espalhadas pela padaria por todos esses anos de graça? - Harry perguntou em um tom entre estar ofendido e ser sagaz.

- Não! Você não fez isso! - Ri incrédula, mas achando divertido.

- Não, não fiz mesmo. - Quebrou o clima de suspense e começou a gargalhar. - Eles me pediram e eu deixei. Na época era legal, sei lá, quando eu tinha dezessete anos parecia o máximo. Depois comecei a achar esquisito. Foi um alívio quando minha mãe me contou que haviam tirado.

Eu ria tanto que minha barriga doía. Se Harry não contasse suas histórias de modo tão engraçado, talvez eu até pudesse sentir pena dele.

Fizemos uma rotatória e subimos na última entrada à esquerda, caindo em uma avenida longa e reta. Completamente vazia se não fossem pelos poucos carros passando, bem diferente dos lugares que tínhamos acabado de passar. Acho que não estávamos mais no centro. Logo Harry parou o carro num acostamento/entrada de uma casa. Não sei bem como chamar, já que as casas por ali não tinham necessariamente entradas. Era mais como um espaço aberto em frente as portas de entrada que pareciam cada uma ser de uma casa. Como um prédio de um andar só. Ou um condomínio de apenas três casas interligadas.

Harry desceu do carro em um pulo, contornou pela frente correndo e abriu a porta para mim.

- Uh, Harry? O que viemos fazer aqui? - Perguntei ao pegar em sua mão estendida para me ajudar a descer do carro.

- É aqui que eu morava. Antes de tudo.

Eu não disfarcei quando meu queixo caiu e minha boca formou um perfeito “o” de surpresa. Eu não acreditava que estivesse mesmo ali.

Assim que eu estava firme no chão, Harry soltou minha mão batendo a porta atrás de mim e acionando o alarme. O carro não estava impedindo a entrada e saída de outros veículos, porém era uma Range Rover, um puta carro grande, que, certamente dificultaria se alguém chegasse ou quisesse sair e, ademais, não estava, digamos, estacionado, propriamente falando. Não que Harry se importasse com isso, ele era a pessoa com mais multas por estacionamento que eu já conheci.

- Uh, Harry? - Eu estava hesitante e sem entender muito bem o que estávamos fazendo ali. - Você pode deixar o carro aqui desse jeito?

- Não tem problema, não vamos demorar. - Ele respondeu ainda olhando para a casa.

Viu? Ele não se importava.

- A gente não pode entrar porque moram outras pessoas aqui. Mas podemos ver ao redor. Vem! - Pegou a minha mão e me puxou por dois passos antes de parar, me soltar e olhar para trás. - Uh... Acho melhor não te segurar pela mão, ainda é cedo e parece que não tem ninguém, mas todo mundo sabe que venho pra cá no natal, melhor não arriscar.

- Claro! - Concordei, apesar de sentir instantaneamente a falta da sua mão quente. - Apesar que duvido muito que alguém pense que você está na rua na manhã de natal, ainda mais com essa garoa irritante. - Eu concordei rindo.

A casa era na esquina, entramos na rua ao lado, saindo da avenida e fomos caminhando calmamente lado a lado, não era uma rua muito grande, por isso chegamos ao fim em poucos minutos, não tinha saída, terminava em um campo de futebol.

- Eu costumava brincar aqui com meus amigos depois da aula. Quando não trabalhava na padaria ainda.

- Você? Jogando futebol? - Provoquei. - Deviam mesmo ser seus amigos para te aceitar no time.

- Engraçadinha. - Deu uma daquelas risadas lentas e sarcásticas.

Harry me contou algumas histórias, enquanto apontava para pontos específicos que só ele parecia ver, nostálgico. Ao longe, eu não poderia afirmar se ele mostrava o meio do campo ou a entrada, eu não tinha a mesma visão, nem suas memórias, embora eu tentasse imaginar cada cena com deleite.

Eu queria que Harry me contasse tudo do passado, tudo de quando ainda não nos conhecíamos. De alguma forma, isso me fazia sentir mais próxima a ele, como se eu realmente tivesse vivenciado tudo aquilo com ele. Como se nos conhecêssemos há muito mais tempo do que eu realmente me lembrava.

- Vem, vamos voltar. - Esticou a mão pegando na minha, estava prestes a me puxar de novo quando se lembrou do que havia acabado de dizer. - Oops! Força do hábito.

Depois da nossa última briga sobre sermos vistos juntos, exposição da mídia, etc, etc, Harry vinha fazendo de tudo para evitar qualquer coisa que pudesse me deixar chateada. Não que eu quisesse que ele fizesse isso, mas ficávamos nessas atitudes; eu fingia que não via nada para tentar agradá-lo e ele evitava que me fizessem de alvo, também para me agradar. E no final não percebíamos que não precisávamos ficar fazendo coisas para agradar um ao outro.

Na metade da rua havia um beco que eu não havia notado, pensei que fosse somente uma entrada de garagem quando passamos, mas Harry entrou ali e eu o segui. Não tinha acesso para carros depois dos primeiros dois metros e saímos bem atrás de sua antiga casa. Aquele quarteirão não era bem um quarteirão.

- Ali, tá vendo? - Apontou para a última janela da direita no segundo andar. - Ali era o meu quarto. - E tá vendo ali? - Apontou para a casa ao lado. - Ali fica o meu restaurante chinês favorito da infância. - Parecia literalmente só uma casa, como qualquer outra. - Eu costumava chegar da aula, abrir a janela e inspirar profundamente o ar. Eu conseguia sentir perfeitamente o cheiro da comida.

Eu sorria enquanto Harry me contava. Aquela conhecida sensação de eu parecia à par de cada mínimo detalhe de sua vida no passado, como se fosse uma memória minha.

- É uma pena que não está aberto. Eu queria muito te levar lá para que conhecesse.

- Devíamos ter vindo ontem. - Falei ao me lembrar que na Europa o dia 24 de dezembro era completamente comum para eles.

- Nah! - Negou. - Tudo bem. Quando você vier para cá de novo, vamos vir sem falta. - Concordei em silêncio. - Vem, vamos embora. Eu quero passar em mais um lugar antes de voltarmos.

Voltamos pelo mesmo caminho que tínhamos feito até ali, passando novamente pela padaria e eu até achei que estivéssemos voltando para casa, mas em algum momento Harry tomou um caminho diferente, nos levando para outro possível destino. Era um daqueles momentos em que a chuva engrossava por alguns minutos, então Harry dirigia devagar. No carro, uma música dos anos 80 tocava pelo rádio. Eu apostaria fácil que aquela era a rádio preferida de Harry. Um celular começou a tocar.

- Não é o meu. - Avisei imediatamente. Eu só usava meu celular pessoal no silencioso, então só vibrava ao receber chamadas.

Era o telefone pessoal de Harry que tocava dentro de seu bolso. Ele havia deixado o aparelho para assuntos profissionais no quarto. Diminuiu ainda mais a velocidade enquanto lutava para retirar o aparelho do bolso, este último bloqueado pelo cinto.

- Atende para mim, por favor. - Pediu entregando o celular na minha mão. Olhei o nome rapidamente. Era a mãe dele.

- Oi, Anne. - Cumprimentei-a assim que levei o telefone ao ouvido. - O Harry está dirigindo, me pediu para atender. Eu não tenho certeza... Não, não sei. Eu posso colocar no viva-voz para que você fale com ele, pode ser? Ok. Só um minuto. - Fiz o que falei. - Pronto.

- Harry?

- Oi, mãe. - Harry respondeu.

- Harry, aonde vocês foram? - Anne perguntou, parecia preocupada.

- Dar um passeio.

- Na manhã de natal? Onde vocês estão?

- Perto da antiga casa. - Harry tentava ouvir através do barulho da chuva e manejava não gritar muito para ser ouvido.

- Vocês já estão vindo? Estamos esperando vocês para abrir os presentes. - Já devia ser quase o horário do almoço.

- Sim, chegamos em trinta minutos, okay?

- Okay, filho. Amo você.

- Te amo, mãe. Tchau.

A chamada se encerrou sozinha, então bloqueei o telefone, colocando-o em um dos descansos de copo do carro.

- Temos que nos apressar. - Harry falou, voltando a dirigir na velocidade que estava antes da ligação.

Como eu disse antes, o vilarejo é pequeno, demoramos menos de cinco minutos para chegar ao destino de Harry: uma ponte em um campo aberto.

- Aqui é onde eu estou pensando que é? - Perguntei quando Harry parou o carro um pouco longe e eu finalmente entendi o que ele quis dizer mais cedo com “nós vamos andar um pouco”. A avenida não tinha muitos lugares para paradas.

- Ainda não leio mentes. - Respondeu jocoso.

Não, não era somente uma ponte num campo aberto. Era a ponte onde Harry escreveu seu nome e o campo aberto onde ele gravou cenas para o filme One Direction: This is Us.

- Idiota. - Revirei os olhos. - Será que você consegue ser mais previsível? - Debochei.

Não que eu achasse que fosse previsível ME levar ali, mas se eu parasse para pensar, é onde eu levaria alguém que sabe tanto sobre mim e assistiu a tudo isso de longe. Era quase como se ele sentisse que me devesse esses momentos. Não que ele devesse, é claro.

- Se quiser podemos ir embora. - Apontou para trás, despretensioso. Olhei e vi os quase duzentos metros que tínhamos caminhado desde o carro. O chão molhado fazia o barro grudar nas laterais do solado da minha bota. A grama estava falhada.

- Não, claro que não. - Harry gargalhou. Ele escondia as mãos nos bolsos do casaco.

- Eu sabia que não. - Respondeu convencido.

- Como se chama o rio que passa por essa ponte? É um rio? Um lago?

- É o lago Dane Meadow.

- Você sempre vinha muito aqui antes de ser famoso?

- Costumávamos vir para cá em casais depois das aulas. Foi logo ali em baixo que dei o meu primeiro beijo. - Apontou para um ponto distante em que havia uma descida. - E a escola fica não muito longe naquela direção. - Apontou para a extremidade oposta.

- Como você se sente quando volta aqui, depois de todos esses anos? - Perguntei me referindo a cidade e não ao lugar em específico.

Harry deu mais alguns passos em silêncio antes de responder.

- É surreal. Agora eu venho sempre, mas no começo da banda... Ficar tanto tempo ser vir e encontrar tudo igual era reconfortante. Andar por aqui assim, sem mais ninguém, é quase como se eu voltasse a ter dezesseis anos e ninguém soubesse quem eu sou.

- Deve ter sido difícil, você sabe, ficar longe por tanto tempo. E ao mesmo tempo ter que lidar com pessoas sabendo cada passo que você dava.

- Eu sou muito sortudo por ter tido os meninos para fazer aquilo comigo. Eu não estava sozinho. - Harry falava de cabeça baixa, prestava atenção a cada passo que dava. O chão estava escorregadio.

- É verdade. E vocês passaram por muitas coisas juntos. Eu fico muito feliz quando olho para trás e vejo que vocês conseguiram. E eu não sou absolutamente ninguém, então eu nem imagino como vocês se sentem vendo agora tudo isso que viveram, tudo o que conquistaram.

- Só pudemos passar por tudo isso por causa de pessoas como você, . - Harry me olhou pela primeira vez em algum tempo.

Havia muita sinceridade em seu olhar. Talvez mais sinceridade do que somente suas palavras conseguissem transmitir. Talvez mais sinceridade do que eu pudesse descrever.



Quando chegamos, senti como se Anne quase pudesse ser capaz de nos matar. Demoramos muito mais que meia hora para voltar. Harry tinha nos encrencado. Era uma situação engraçada, porque parecia que erámos crianças e tínhamos feito algo errado. Mas tudo bem, tinha valido a pena.

Tinha valido tanto a pena. A cada hora que eu passava naquele lugar, eu conhecia uma versão diferente de Harry, diferente da sua versão dos Estados Unidos. Diferente e ao mesmo tempo tão igual. Aquele Harry que estava com a família, era em essência o mesmo Harry que eu sempre conheci. Mas também era um Harry que se parecia muito mais com uma pessoa que vive no mesmo mundo que o meu. O mundo normal, sem fama, sem mídia, sem trabalho extraordinário.

Harry era um cara família. Amoroso. Era cheio dos toques, abraços, carinhos. Ele estava o tempo todo em contato físico com alguém. Ele não conversava com ninguém por dez minutos sem abraçar a pessoa sem motivo algum. Era quase como um cachorro carente, que fica roçando o rabo na sua perna e te seguindo aonde você vai. Eu sei que pode ser uma comparação engraçada, mas era fofo. Harry não perdia a oportunidade de deitar a cabeça no ombro de Anne, ou de dar um soquinho de punho com Michal ou Gemma. E comigo, bem, qualquer lugar que estivéssemos parados um ao lado do outro, ele sempre tinha que passar um braço por cima dos meus ombros.

Era assim que estávamos naquele exato momento após o almoço tardio. Tínhamos nos sentado ao redor da árvore para trocar os presentes de natal. Harry e eu dividíamos o sofá menor e ele tinha passado o braço pelos meus ombros no momento em que nos sentamos.

Os costumes eram tão diferentes que eu me sentia um pouco perdida, por exemplo, aparentemente, toda a comida que tinha sido feita no dia anterior, (e realmente eu tinha estranhado porque foram só um ou dois pratos diferentes) não era para almoçarmos ali, mas sim, para levar para a casa de uma prima de Harry, que seria onde celebraríamos o natal em um jantar mais tarde. Cada pessoa da família fazia alguma coisa para a ceia e se juntavam pela noite na casa de alguém. Esse ano era na casa dessa prima.

E eu fiquei achando que provaria um dos biscoitos logo depois do almoço. Ledo engano.

Voltando aos presentes, eu estava um pouco envergonhada, porque não fazia ideia de que Michal estaria ali, então não comprei nada para ele. Na verdade, era lógico que ele estaria ali, mas eu simplesmente não tinha pensado nisso.

Para Gemma, comprei um par de óculos escuros e um conjunto de colar e brincos para Anne.

- Obrigada, . Eu os adorei. - Ouvi Anne me agradecer enquanto voltava a me sentar ao lado de Harry e o entregava a caixa com os artigos vintage e chocolate.

- O que você comprou para mim? - Perguntou brincalhão.

Os presentes estavam debaixo de um papel. E ao abrir a caixa, a primeira coisa que Harry visualizou foi o bilhete que escrevi. Ele pegou cuidadosamente e eu vi que ele lia somente para si.

“Espero que goste dos seus presentes não tão novos assim.
Obrigada pelo ano incrível.
Feliz natal.
Sua amiga, sempre,

.”


Sorriu colocando o bilhete no braço do sofá e levantando o papel para visualizar os itens. Harry pegou um a um, primeiro as boinas, depois o livro, o vinil...

- Meus chocolates preferidos. - Comentou. - E o que é isso aqui? - Perguntou ao ver o anel no fundo da caixa.

- Espero que goste. - Respondi um pouco sem graça.

- ... - Harry falou meu nome para me chamar, o semblante sério. Eu o encarei sem entender. - Você está me pedindo em namoro? - Quase me engasguei de tanto rir.

- Eeeei! Essa fala é minha! - Eu retruquei enquanto ele também ria.

- Como você sabia que eu não tinha justamente esse EP de Graceland?

- Talvez eu seja mais observadora do que você pensa. - Brinquei, com um ar de misteriosa.

- Eu adorei tudo, . Sério. Obrigado. Você é incrível! - Me abraçou e em seguida começou a testar o anel nos dedos para ver em qual caberia.

Foi a vez de Harry e em seguida Gemma darem seus presentes.

Anne foi quem entregou seus presentes por último, deu a Harry, Gemma e Michal suéteres iguais daqueles que são tradicionais de se usar no natal. Eram vermelhos e tinham o desenho de uma rena. Na verdade, o de Harry tinha só uma rena e de Gemma e Michal um casal de renas. Acho que porque eles eram um casal. A cena dos três vestidos com a roupa era completamente adorável.

- Posso tirar uma foto de vocês com os suéteres iguais? Vocês estão a coisa mais fofa do mundo. - Eu pedi.

- Falta você, . - Anne falou do outro lado da sala e eu olhei para ela confusa.

- Como assim?

- O seu presente. - Anne pegou um embrulho que estava em um canto do cômodo que eu não havia notado e me entregou.

- Você comprou um presente para mim? - Perguntei surpresa. Eu não esperava ganhar nada de ninguém, eles nem me conheciam!

- Mas é claro, bobinha! - Me entregou a caixa e, quando abri, encontrei um suéter igual ao de Harry, com uma rena só.

- Eu não acredito que ganhei um suéter natalino. Esse é o melhor natal da minha vida! - Exclamei rindo.

Aquilo era simplesmente perfeito. Eu amava essas tradições, principalmente as de natal. Decorar biscoitos, suéteres combinando de natal... Aquilo era tudo para mim e mais um pouco.

- Obrigada, Anne. Eu amei de verdade. - Dei-lhe um abraço apertado, que ficou rindo do meu entusiasmo.

- Então vista também. Vou tirar uma foto de vocês quatro juntos.

Não importava que Harry e eu tivéssemos 24 anos, e nem que ele fosse um famoso multimilionário, nem que Gemma tivesse 28 anos e Michal mais ou menos a mesma idade. Mães eram mães. Em qualquer lugar.

- Agora é a vez do meu presente. - Harry falou depois que tiramos as fotos.

- Mas você já deu presente para todo mundo. - Eu comentei.

- Falta você. - Sorriu enigmático e saiu correndo do cômodo.

Não faltava eu, nada. Ele já tinha me dado um presente. Os acessórios do carro. Eu já podia ficar completamente envergonhada ou era exagero?

- Meu Deus, Harry. Você já me deu presente de natal. Lembra? - Eu falei quando ele apareceu de volta e se sentou de novo do meu lado.

- Ah! Não acredito que você levou o que eu falei a sério. Não era seu presente de natal de verdade. Esse é o seu presente de natal.

Harry então passou a case de violão para o meu colo.

- Já que você começou a aprender a tocar, acho que nada mais justo do que você ter o seu próprio violão.

Eu estava completamente sem palavras. Alternava meu olhar entre Harry e o grande objeto a minha frente. Até que criei coragem e abri o zíper, revelando um violão da marca Fender de cor bege com as bordas pretas. Devia ter custado uns 500 dólares, o que era caro, considerando que violões de outras marcas ali não passavam de 60 dólares.

Analisando melhor os detalhes, reparei que em uma das casas do violão, bem no meio do braço, as iniciais do meu nome e sobrenome estavam gravadas ali. Se eu afastasse as cordas de lugar, podia ver os detalhes das duas letras em dourado. Minimalistas, mas significantes. Definitivamente eu poderia descartar o preço, havia sido muito mais caro do que eu imaginava.

- Até pensei em te dar um dos meus. Mas você merece um que tenha sido sempre só seu. - Completou diante da minha mudez.

Novo e customizado. Céus! O que eu fiz para merecer tanto?

- Harry... - Eu estava mesmo sem palavras. - É perfeito. Obrigada. - Eu o abracei apertado.

- “Obrigada”, nada. Você já pode começar a tocar alguma coisa para nós. Pela primeira vez em anos não vai ser eu o cantor das festas. - Brincou.

Eu só sabia tocar vários pedacinhos de algumas poucas músicas, mas foi o suficiente para nos entreter pelo resto da tarde. Harry tentava me passar mais alguma melodia, mas eu não achava que era tão fácil assim.

Anne fez chá, porque também fazia parte da tradição natalina. Harry não era fã do chá com leite e, para ser sincera, eu também não tinha gostado.

Logo depois fomos nos arrumar para encontrar o restante da família de Harry. Saímos de casa pouco depois das cinco. Fomos no carro de Anne, foi a primeira vez que eu não vi Harry dirigindo. Gemma foi ao lado de Anne carregando duas vasilhas com biscoitos. Acho que daria para ver de longe quais foram os que eu decorei. Uma tristeza só.

Eu me sentei em uma ponta e Michal na outra. Harry ia no meio. Acho que ele realmente tinha gostado do meu presente. Vestia uma camisa de botões branca com listras finas em um tom de rosa, uma calça jeans de lavagem clara, seu único par de vans branco que já não estava mais tão branco assim e uma das boinas que eu havia dado, a de lã cinza. Além dos seus anéis de sempre, o anel de coração estava no seu dedo do meio.

A prima de Harry, Chloe, foi quem nos recebeu na porta junto com um enorme cachorro preto. Absurdamente manso. Havia um monte de pessoas na casa, eu não conseguiria gravar todos os nomes. Tinham os tios de Harry, que eram os pais de Chloe, seu marido, além de um casal de amigos com um bebê que não parecia ter mais que dois ou três anos de idade e mais umas outras crianças.

- Vocês chegaram na hora exata! - A mãe de Chloe disse. - Vamos começar os jogos de adivinhação agora.

Todos tinham taças e copos nas mãos, cheios com as mais variadas bebidas. Logo nos primeiros cinco minutos ali, fui cercada por Chloe, que só me liberou após aceitar uma taça de champanhe. Eu nem era muito fã de champanhe, mas não consegui recusar. Ela era uma pessoa bem persuasiva, de fato.

Harry se sentou no sofá, Anne ao seu lado e Gemma em uma cadeira atrás dele. O enorme cachorro automaticamente foi para o colo de Harry, parecia bem familiarizado com a sua presença. Eu me sentei numa cadeira ao lado, formando um semicírculo junto com Chloe que havia sentado em outra cadeira de frente para o sofá.

- Vamos lá, Tia Anne, você é a primeira! - Chloe gritou sobre as outras vozes que conversavam, chamando a atenção de todos. - Eu vou começar com uma pergunta fácil para você. - Ela tinha uns cartões nas mãos, como daqueles de jogos de tabuleiro, tipo “imagem&ação”.

Ninguém me explicou do que se tratava aquele jogo, mesmo assim, e mesmo antes de começar, eu estava achando tudo muito engraçado. Para mim, ficou claro que aquela era uma atividade que faziam em todos os natais.

- Para entrar no clima natalino, qual é o nome do escritor inglês que escreveu A Christmas Carol?

Todos olharam para Anne, esperando que ela respondesse.

- Charles Dickens. Clássico. - Anne falou depois de alguns segundos de tensão.

- Din din! - Chloe imitou o bagulho de um sino, confirmando a resposta certa.

Em seguida, passou para a próxima pessoa.

- Harry, 100 pessoas foram entrevistadas e disseram qual o apelido que mais usam para chamar o parceiro.

- Okay!

- Dentre o mais votado, as opções são: Honey, Darling, Sweetheart e Love.

- Okay! - Repetiu e pensou por alguns segundos. - Darling.

Um din din em outro tom saiu da boca de Chloe. A resposta estava errada.

- Sweetheart. - Chloe deu a resposta certa com seu perfeito sotaque britânico.

- Oh oh! Parece que alguém aqui não é o melhor em todos os jogos. - Falei provocando Harry, me lembrando do quanto ele foi competitivo no boliche.

- Quem ia imaginar que darling não é o apelido mais usado? - Harry rebateu ultrajado e eu comecei a rir.

Eu também teria errado, para falar a verdade.

Era a vez de Gemma.

- Qual desses instrumentos musicais não possui cordas? Opção a: harpa, b: contra baixo, c: trompete ou d: Cítara

- Seja inteligente com essa. - Harry virou para trás falando com a irmã.

Essa era muito fácil e Harry ficaria completamente ofendido se ela errasse.

- A resposta é a letra c.

Outro din din de resposta certa. E novamente um Harry se virando para trás, dessa vez para um soquinho de punho com Gemma.

Ainda estavam jogando quando meu celular começou a tocar. Era Henry. Como estávamos na sala de estar pedi licença e atendi a ligação.

- Heeeey! - Cumprimentei animada enquanto me levantava e saia pela porta da frente, indo para a calçada

- Feliz natal, Pretty! Como estão as festividades em Londres?

- Feliz natal, Campbell! Então, eu não estou mais em Londres, viemos para a cidade natal do Harry, no noroeste da Inglaterra. E você? O que está fazendo? - Devia ser pouco mais de 11 da manhã na Califórnia.

- Acordei agora pouco, aproveitei que as crianças dormiram até mais tarde também. Fizemos um brunch daqueles. Agora Tyler está jogando videogame e Maddie está por aí, acho que no quarto. Daqui unas horas vou levá-los para a mãe.

- Hmmm! Só de pensar no seu brunch me deu água na boca. Diz que mandei um abraço para eles!

- Okay! - Concordou. - , você sabe que brunch não é nada além de comprar as comidas prontas, não sabe? - Provocou.

- Mas só você sabe comprar as comidas certas. - Repliquei em um elogio que o desarmou, então soltei um riso.

- Oi, !!!!! - Escutei o grito de Maddie.

- Como você sabe que é a , garota? - Henry rebateu assustado, como se a menina tivesse surgido do nada.

- Você acabou de falar o nome dela! - Dessa vez a resposta estava mais longe, acho que ela tinha chegado perto do telefone e não gritava mais.

- Oi, Princesa! Feliz natal! - Respondi enquanto ria da briga fingida. - E aí, o que você ganhou de natal do seu pai?

- , porque você não ajudou meu pai a escolher meu presente dessa vez? Ele é terrível com isso.

Eu adorava a sinceridade dessa adolescente, pensei enquanto ria.

- Achei que você gostasse de pantufas. - Henry rebateu.

- Eu gosto, mas não com o desenho das princesas. Eu não tenho mais cinco anos!

- Tem só 10 a mais que isso. O que é a mesma coisa. - Henry rebateu de novo e eu pude escutá-la bufando. Acho que nesse ponto da conversa já estávamos no viva-voz.

- , espera só para ver o seu presente de natal que meu pai comprou. Eu que ajudei a escolher. - Falou em uma mistura de animação e orgulho.

- Hum, é mesmo? E o que é?

- Não posso falar! É surpresa! - Eu gargalhei com sua resposta.

- Então eu devia mesmo ter ajudado seu pai a comprar seu presente. Assim seria mais justo. - Brinquei. - Mas, em minha defesa, ele não me pediu ajuda dessa vez.

- É porque você já tinha viajado. - Henry se defendeu.

- Bem, se você não deixasse todos os presentes de todas as datas comemorativas para a última hora isso não teria acontecido e você teria tempo de ter me pedido ajuda!

- Mas o seu presente o meu pai ficou pensando já tem muito tempo! - Maddie entregou.

- Madison! - Henry repreendeu e eu comecei a rir.

- Ah é?

- Uh-hum! - Concordou. - Quando fomos no shopping ele entrava e saia das lojas resmungando: “Por que é tão difícil achar um presente?!” “Já tem semanas que penso no presente da e ainda não faço ideia do que comprar!” e coisas assim.

- Então é isso? Perdi a minha filha para o inimigo?
- Henry dramatizou. - Você viu a uma vez e já está me entregando assim? Que tipo de filha é você?

Na verdade, tínhamos nos visto duas vezes, mas não quis corrigi-lo.

- Aceite, Campbell, eu sou a mais legal de nós dois.

Eu estava de costas para a porta e encarava a rua deserta, no entanto completamente iluminada com os enfeites de natal. Não havia nada ali naquele bairro simples que indicasse que eu estivesse realmente na Inglaterra em vez dos Estados Unidos. Talvez os volantes que se encontravam no lado direito dos carros estacionados, pensei.

Nesse momento alguém tocou meu ombro, me fazendo levar um susto dos grandes. Olhei para trás encarando um Harry que já se desculpava.

- Você me assustou! - Esbravejei, o coração batendo acelerado.

- O quê? - Henry perguntou confuso do outro lado da linha.

- Não, não você, Campbell. Só um momento. - Pedi enquanto via Harry gesticular na minha frente.

- Desculpe, eu não quis te assustar. É porque te chamei lá da porta e você não ouviu. O jantar já vai ser servido. Só vim te chamar.

- Tudo bem. Só vou me despedir. - Falei para Harry que apenas concordou com a cabeça e literalmente ficou ali parado me esperando. - Eu já vou. - Reforcei, e, como se ele acordasse de um transe, balançou a cabeça de novo e virou de costas.

Quando ele abriu a porta e eu achei que ele fosse fechá-la logo atrás de si e entrar na casa, ele parou bem no batente, segurando a maçaneta.

- Henry, preciso desligar. Styles acabou de vir me chamar para o jantar. - Expliquei.

Agora eu estava de costas para a rua e, enquanto falava, encarava Harry prostrado na porta.

- Ah, então não sou só eu que você tem essa mania de chamar pelo sobrenome? Poxa, achei que pelo menos nisso eu fosse exclusivo. - Brincou.

- Na verdade, eu quase nunca chamo Harry pelo sobrenome.

- Styles? Harry? - Maddie rebateu imediatamente, como se juntasse as peças de um quebra-cabeças.

- Ah, não, Campbell. Não me diga que sua filha é fã do Harry.

- Okay. Então eu não digo. - Ele respondeu rindo e eu revirei os olhos, mesmo que ele não pudesse ver. - One Direction foi uma febre. - Completou, como se estivesse tentando se justificar, ou se desculpar, eu não sabia mais.

- E como você não sabia quem ele era? - Perguntei incrédula.

- Eu não sabia que o Harry One Direction que ela falava era o seu Harry. - Eu quase podia visualizá-lo dando de ombros, indiferente.

- Harry Styles? - Ela gritava afobada. - !!!

- Preciso ir. Agora você que se explique para a sua filha. Feliz natal! - Me apressei desligando o telefone. Era só o que me faltava. Henry só me metia em furadas mesmo.

Soltei um suspiro e então caminhei até Harry. Parei na porta ao seu lado quando vi que ele não se mexeu.

- Henry, uh? Nem no natal você se desliga do trabalho? - Brincou num tom desconcertado.

- Ele só me ligou para desejar feliz natal. - Dei de ombros.

- Entendi.

- O que foi? - Eu perguntei.

- Nada. - Deu de ombros também. - Posso te dar um beijo?

- Só um? - Soltei um riso divertido.

- Quantos você me deixar te dar.

Me aproximei colando nossos lábios em selinho rápido, então Harry me segurou pela cintura, me dando uma série de selinhos.

- Vamos? - Perguntei sorrindo quando nos afastamos.

O jantar aconteceu em uma enorme mesa quadrada, exatamente como nos filmes que estamos tão acostumados a assistir. O clima completamente amigável me deixou mais confortável do que eu pensei que conseguisse ficar. E eu que nem era da família, me peguei completamente envolvida pelas histórias que contavam, ao ponto de me sentir como se também me lembrasse de cada uma delas.

Eu não fazia ideia de que horas eram quando fomos embora. E eu também não saberia dizer se eu estava mais tonta de sono ou de champanhe, ou vinho, ou cerveja, ou de todas as bebidas que misturei ao apostar com Harry num dos jogos. A pessoa mais sóbria era Michal que havia bebido somente uma taça de champanhe na hora do brinde, ele nos dirigiu para casa.

Pela primeira vez na viagem nem eu ou Harry acordamos no meio da noite para nos esgueirar para o quarto um do outro. Foi a única noite da viagem em que dormimos separados, cada um sozinho em seu respectivo quarto.



Eu gostaria de dizer que acordamos no outro dia com o melhor humor do mundo, mas a ressaca não deixou que isso fosse possível. Estávamos felizes, é claro. Tinha sido um ótimo feriado. Mas eu tinha que parar de acompanhar Harry, eu estava acabando com meu fígado. Na verdade, tínhamos urgentemente que parar de encher a cara em qualquer oportunidade. Harry era, definitivamente, meu companheiro para todas as horas. Seja o ombro para chorar, o conselheiro amoroso durante as viagens de carro, ou até mesmo para beber assistindo TV ou comer até sentir que vai passar mal. Seja para o que fosse, estávamos os dois prontos. E isso nos fazia quase uma dupla de “sem limites”. Harry pelo menos ainda era saudável, não comia carne nenhuma além de peixe, meditava, fazia ioga, pilates, academia e boxer às vezes, além de sair para caminhar duas vezes ao dia. Eu era só frituras e álcool, o combo perfeito para entupir as veias do meu coração. Talvez só eu fosse sem limites, então.

O pior é que eu teria que voltar para Los Angeles naquele dia. Já que meus dez dias estavam acabando e eu teria que voltar para trabalhar nos dias 28, 29 e 30. Inacreditável, eu sei. Mas eu já não tinha mais horas disponíveis para folgar. O que me consolava era que o voo era de madrugada, então ainda teríamos a parte da tarde para aproveitar.

- O que você quer fazer no seu último dia aqui? - Harry me perguntou quando entrei em seu quarto.

Todos tínhamos acordado um pouco tarde naquele dia, ninguém ficou imune a ressaca, nem mesmo Anne, que de todos nós, foi a que mais bebeu champanhe e vinho.

- Tomar um remédio para dor de cabeça e fingir que não acordei ainda? - Sugeri divertida.

- Acho uma ótima ideia.

Como estava quase no horário do almoço, decidimos pular o café da manhã.

Harry e eu nos sentamos na frente da TV e optamos por assistir The Notebook. Na verdade, estávamos só com preguiça de procurar por algo novo e seria uma opção legal, já que nunca tínhamos assisto ao filme juntos. Eu, pelo menos, nem me lembrava da última vez que tinha assistido, e com certeza foi bem antes de conhecê-lo.

- Eu odeio quando ele faz isso. - Reclamei na cena em que Noah se pendura na roda gigante para coagir Allie a sair com ele. - Ele é muito manipulador.

- O quê? - Harry discordou. - Ele é um homem apaixonado!

- Ele é abusivo! - Rebati.

- Bem, isso eu tenho que concordar. - Harry riu e desviamos o olhar da TV para encarar Gemma que entrava na sala.

- Não acredito que vocês vão ficar deitados no sofá o dia inteiro! - Ela encarou a TV por alguns segundos enquanto reconhecia o que passava. - Harry, você já deve ter visto esse filme umas vinte vezes! Vamos fazer alguma outra coisa.

Harry estava deitado no sofá com a cabeça no meu colo, nos encaramos e eu sutilmente dei de ombros, sem saber o que fazer.

- Você quer fazer alguma coisa, H?

- Vamos lá, Harry! Você só vem para cá uma vez no ano, vamos, sei lá, mostrar a cidade para a !

- Ma-mas eu-eu já... - Levantei um dedo, sem saber muito bem como estragar a empolgação de Gemma dizendo que eu já conhecia a cidade.

- Então vamos! - Harry concordou e eu dei de ombros, concordando também.

Andamos alguns quarteirões de carro, sem ter muitas ideias do que fazer. Acabamos parando em um parque próximo à casa. Estava bem mais frio do que no dia anterior, mas contávamos com uma tímida luz de sol.

Por fim, decidimos voltar para a casa de Chloe para um almoço tardio das sobras do jantar da noite anterior. Anne nos encontrou lá depois disso. Dessa vez, éramos só nós lá. Passamos o resto da tarde jogando, bebendo e rindo.



Quase na minha hora de ir embora, Harry e eu discutíamos.

- Harry, você não precisa me levar, eu olhei no Google e o aeroporto de Manchester fica a menos de trinta minutos daqui.

Já que logicamente Harry não iria embora de Holmes Chapel no dia 26 de dezembro, eu pegaria um voo de Manchester até Londres e então para Los Angeles. Infelizmente não tinham voos direto.

- , eu já falei que eu vou te levar no aeroporto. - Revidou pela milésima vez.

- E eu já falei que não tem necessidade de você deixar sua família para me levar embora. - Repliquei pela trigésima vez.

- Eu não vou te levar embora. É só o aeroporto, que você mesma disse “menos de trinta minutos daqui”. - Fez aspas com os dedos em um tom sarcástico.

Bufei, me dando por vencida.

- Jezz! Você é muito irritante! - Revirei os olhos.

- E você é muito teimosa.

- Você que é! - Retruquei implicante.

- Não, você!

- Aí! Cala a boca e vamos logo. - Harry começou a rir e saiu do quarto carregando as minhas malas, enquanto eu continuei emburrada e desci atrás dele.

Eu me despedi de Anne e Gemma com promessas de que voltaria para visitá-las em breve.

- Você parece que tem doze anos com esse bico desse tamanho. - Harry sorria enquanto falava.

- Não me provoca, Styles. - Ele começou a gargalhar.

- Então deixa de ser marrenta. - Apertou a minha bochecha quando já estávamos sentados lado a lado no carro.

- É só que eu sou autossuficiente para ir até o aeroporto sozinha, sabia? - Retruquei impaciente.

- Sabia, é claro. Mas você pode me culpar por querer passar míseros trinta minutos a mais com você?

- Passamos os últimos dez dias juntos. - Soltei um riso nasalado.

- Ah, então quer dizer que você não queria passar mais tempo comigo? Dez dias é o suficiente? Por isso está indo embora?

- Você sabe que sim.

- Eu sei que você quer se livrar de mim? - Rebateu divertido.

- Você sabe que eu queria passar mais tempo com você. - Repeti revirando os olhos.

Harry sorriu e, parecendo se dar por vencido, se inclinou no banco e colocou a mão direita na minha cintura, colando nossos lábios em seguida, num beijo despretensiosamente carinhoso.

- Vou sentir saudade. - Completou ao se afastar. - Não é a mesma coisa sem você.

- Eu também. - Sorri com os lábios fechados e fiz um carinho no seu rosto. - Eu adorei essa viagem. Nossa, não tenho palavras para te agradecer. Foi tudo incrível.

- Imagina. Não precisa de me agradecer por isso. Eu fiquei muito feliz de você ter vindo.

- Eu adorei a tarde também, termos saído com Gemma e Michal e depois na casa de Chloe. Foi bem divertido, vocês são muito animados.

- Eu também gostei muito da tarde. Tem certeza que não pode ficar mais uns dias? - Comecei a rir.

- Tenho. Eu preciso trabalhar depois de amanhã.

- Porque eu consigo dar um jeito de trocar suas passagens, você sabe. - Respondeu ignorando o que eu havia acabado de dizer.

- Eu ficaria se pudesse, H.

- Eu sei. Mas não custa tentar, não é?

- E por que você tem que ir para o Japão de novo, hein? - Inverti a situação contra ele. - Por que você não pode ir embora daqui para LA e ficar lá comigo?

- Eu quero muito passar meu aniversário no Japão.

- Nem me fala disso. - Cruzei os braços, fazendo drama. - Eu ainda não superei que você não vai estar por perto no seu aniversário.

- Você sabe que é só dizer e te mando as passagens para lá.

- Harry, eu não posso ir para o Japão! Você sabe que eu tenho que trabalhar. Isso gastaria dias que eu não tenho.

- Eu prometo que venho para o seu, tudo bem?

- E daí? Quem se importa com o meu aniversário? Eu queria passar o seu com você! - Retruquei.

- Eeeei. Eu me importo!

- Mas isso não é justo! - Voltei a falar com a voz manhosa. Harry riu.

- E desde quando a vida é justa, ?

Desde quando a vida é justa?!


18. Maybe I'm too busy being yours to fall for somebody new.

DEZEMBRO, 2018
Ano Novo




Eu gastei o dia seguinte inteiro desfazendo malas. E dormindo antes das oito da noite.

Cheguei para trabalhar no dia 28 adiantada em meia hora. Eu sei que só tinha viajado por dez dias, mas era bom estar de volta. Estava com saudade até da minha cadeira na minha sala. A quantidade de serviço acumulado não era muito grande, pois Lucy tinha me salvado como sempre. Por falar nela, acho que foi a pessoa de quem mais senti falta nesses dias. Mal podia esperar que ela chegasse para me contar como havia sido as coisas nos dias em que estive fora.

Eu também estava com saudades de Henry, que também tinha pegado dez dias de folga, só que ele saiu depois de mim e só voltaria depois do ano novo.

Quando Lucy chegou no horário de sempre, fomos imediatamente almoçar, como também sempre fazíamos. Também achei estranho não ter a companhia de Henry na mesa. Bom, para compensar, Jane almoçava sempre conosco agora.

- Seus pais voltam quando para a Alemanha? - Perguntei para Lucy, cujos pais tinham vindo passar o natal com ela, já que ela não poderia viajar devido ao trabalho.

Há empresas que tiram férias coletivas, dão recesso nessa época, mas como erámos uma empresa que prestava serviços a nível comercial e industrial, isso não poderia acontecer lá. Não tinha como todos pararem de trabalhar ao mesmo tempo.

- Acho que na segunda semana de janeiro. - Ela respondeu.

- Ah! Então ficarão aqui por bastante tempo. - Jane comentou.

- Você precisa conhecê-los antes de irem embora. - Lucy falou comigo.

- Sim, vamos combinar! Mas me conta, como foi a festa? Estou morrendo para saber. - Perguntei referente a confraternização de natal que não pude participar, porque já estava em Londres no dia.

- O sr. Smith ficou tão bêbado que começou a dançar quando tocou ABBA. - Lucy comentou em postura de fofoca. Eu gargalhei.

- Você tinha que ver a cara do sr. Stein vendo a cena. - Jane completou.

Jane era mais velha, estava grávida, então seu jeito contrastava muito com o de Lucy, mas isso não nos impedia de nos dar muito bem. Ela só não era tão energética e “meninininha” como Lucy. Ela, assim como eu, tinha um senso de responsabilidade um pouco maior, mas era tão bem humorada quanto Lucy e eu.

- Não acredito! E eu achava que ninguém conseguiria passar mais vergonha com o homem do que eu.

- O que você já fez de vergonhoso na frente do CEO, ? - Lucy perguntou.

- Eu só fico gaguejando como se estivesse tendo um derrame cada vez que tenho que falar com ele.

- Você não é a única. - Jane brincou e todas rimos.

- E como foi o seu natal Harry Styles, huh? - Lucy perguntou sugestiva e dando ênfase no nome de Harry.

Eu acabei contando sobre Harry para Lucy depois de ela ter ficado uma semana inteira insistindo para saber com quem e para onde eu viajaria.

- Harry Styles? O cantor? - Jane perguntou, ela estava totalmente fora do assunto.

- Foi ótimo. Os amigos e a família dele são incríveis. - Contei alguns detalhes sobre Londres, Gemma, o passeio em Holmes Chapel e a ceia com a família dele. - E ele me deu um violão de natal! Eu realmente me diverti muito.

- Hummm, já está no nível de conhecer a família, é? - Lucy provocou.

- De tudo que contei, foi isso que você prestou atenção? Você sabe que somos amigos!

- Só até estarem sozinhos entre quatro paredes. - Ela retrucou sem vacilar.

- Lucy! - Repreendi. - Você é terrível!

- Eu e você, somos. - Lançou uma piscadela.

- Mas... - Jane hesitou, olhando para os lados antes de continuar em um sussurro. - E o Henry?

- O que tem ele? - Perguntei confusa.

- Eu achei que vocês tinham alguma coisa. - Ela explicou.

- Temos, mas não é nada sério.

- Eu acho que vocês formam um casal muito bonito. - Jane elogiou.

- Ah, não. Você também? - Choraminguei.

- Eu sempre disse isso para ela. Eu percebi que Henry presta atenção nela desde o meu primeiro dia! - Lucy concordou.

- me deu um sermão outro dia sobre como eu não ligo o suficiente para ele e poderia estar deixando-o escapar por isso. Mas não é como se ele quisesse algo sério. Nem eu.

- Vocês já conversaram sobre isso? - Jane perguntou.

Não, nunca tínhamos conversado.

- Você gosta dele? - É claro que a pergunta veio de Lucy.

- Ahn, gosto. Acho que temos muitas coisas em comum e a gente se dá muito bem. É tudo muito fácil com ele, mas talvez seja justamente porque não temos cobranças de algo sério.

Quando falou que eu deveria pelo menos considerar a possibilidade de ver Henry como um potencial relacionamento sério, eu sequer ouvi; primeiro porque ela não morre de amores pelo Harry e então achei que ela só estivesse falando isso por não “gostar” dele e achar que ele estivesse atrapalhando que eu fique com Henry, o que não é verdade, porque somos amigos e nada que tenho com Harry é empecilho para nada relacionado ao Henry, uma vez que eles não são concorrentes e meu relacionamento com os dois é totalmente diferente e não comparativo. E segundo e mais simples, ela amou o Henry e, por isso, talvez só nos queira juntos.

- Se você realmente o perdesse por não estar considerando algo com ele, mesmo que talvez ele esteja e só não fale, você se arrependeria? - Essa foi Jane, eu não esperava; as perguntas constrangedoras sempre vinham de Lucy.

- Não faço ideia. - Eu respondi sincera.

Por mais que eu tenha dito que acho que tudo só é fácil porque não há cobranças, eu não acredito que seja só por isso, acredito que mesmo se namorássemos, ainda seria assim, ainda daríamos certo.

- Mas vocês acham mesmo que faríamos um bom casal?

eu pude ignorar, mas agora Jane e Lucy dizendo a mesma coisa totalizava nas três pessoas mais próximas de mim atualmente me dizendo algo que eu nunca tinha parado para pensar antes e talvez realmente fosse algo que me faria feliz e eu estivesse perdendo se pelo menos não tentasse.

- Sim! - Responderam juntas.

- Eu queria que você pudesse ver quando vocês dois engatam numa conversa sobre planejamento de rota e estratégia de vendas. É uma conexão linda de se ver. - Lucy suspirou teatralmente.

- Ah, não é bem assim. - Desconversei.

- Bem, eu achei vocês bem íntimos naquele dia. - Jane comentou. - E não ‘tô falando de vocês quase se agarrando. - Completou e rimos.

- Henry é um cara incrível, mas eu realmente não sei se ele está procurando um relacionamento sério agora. - Eu sorri e remexi no resto de comida no prato.

Por mais que eu estivesse pensando sobre isso tudo, não queria admitir considerar a possibilidade.

- Mas vamos parar de falar de homens? - Perguntei levando o astral. - Parece que não temos outro assunto! Será que três mulheres podem usar o intervalo de almoço para conversar sobre um assunto que não seja centralizado no sexo oposto? Passamos dez dias sem nos ver, girls! Eu sei que podemos fazer melhor que isso!

Imediatamente as meninas introduziram um novo assunto.

Eu não posso mentir, a partir desse dia eu não consegui tirar da cabeça essa conversa. Eu tinha que concordar que ter algo sério com Henry poderia ser algo a se considerar. E era isso, me peguei pensando que gostaria de namorar Henry, de estar com ele em algo sólido com compromisso, de viajarmos mais juntos como quando fomos para Solvang, de passar mais tempo com seus filhos, principalmente Maddie, a quem eu já adorava.

A forma como Henry me entendia e eu o entendia era algo que eu sempre gostei. A proximidade dos nossos mundos parecia mais real quando eu não pensava somente no “agora”, por que onde eu gostaria de estar em cinco anos? É bem fácil de imaginar que provavelmente eu ainda estaria ali, no mesmo emprego, fazendo as mesmas coisas, assim como Henry. Eu já tinha quase 25 anos, não era exatamente como se eu estivesse pensando em me casar, mas construir algo junto com alguém, um relacionamento forte, duradouro, era definitivamente algo que eu queria para os próximos anos e, querendo ou não, isso era algo que eu visualizava em Henry.

Talvez eu devesse chamá-lo para conversar depois do ano novo; não que eu estivesse pensando em dizer que eu queria algo sério com ele, mas talvez, apenas... Não sei, me abrir para a possibilidade? Acho que o maior problema para mim é que eu não tinha sequer me aberto para essa possibilidade antes de e, agora, Jane e Lucy. Talvez eu devesse me deixar levar e ver no que daríamos.



*


Pouco antes de ir para o apartamento de Elinor, recebi uma ligação de Henry. Tínhamos conversado por horas nesses três últimos dias. Eu ligava para Henry com a desculpa de que queria contar algo que tinha acontecido no trabalho, com “algo”, lê-se: fofoca. E Henry era muito bem resolvido para usar alguma desculpa para me ligar.

Não tínhamos esse costume de ligações antes, talvez porque nós nos vemos todos os dias, mas agora nesse recesso esse foi o modo que encontramos de continuar próximos. Na verdade, estava certa, eu passava muito mais tempo com Henry, e nessas últimas semanas com o recesso também na faculdade foram raros os dias em que não fui para casa com ele depois do trabalho. Estava sendo esquisito essas quase duas semanas longe.

- Feliz ano novo, Angel!

- Feliz ano novo, ! Você já está na casa da sua vizinha?

- Ainda não, vou daqui a pouco.

- A Madison estava me falando que eu preciso filmar sua reação quando entregar seu presente.

- Vocês estão me deixando curiosa!

- Eu juro que não é nada demais. É só porque ela escolheu e está nessa ansiedade para saber se você vai gostar.

Eu soltei uma risada e em minha mente rondava apenas uma frase.

Não o deixe escapar.

Não o deixe escapar.


- Estou com saudades. - Falei sincera.

- Eu também. Acho que nunca ficamos tanto tempo ser nos ver, não é?

- Acredita se eu disser que estava pensando nisso agora? - Gargalhei e Henry me acompanhou.

- Eu sei que eu sou difícil de ficar longe.

- Aí, meu Deus, mas você se acha, hein?

E o pior é que eu tinha que concordar.

Nós conversamos por mais alguns minutos e eu tive que desligar, pois já estava na hora que eu havia marcado de ir para Elinor.

Toda a família estava ficando na casa dela, eu não sabia como ela fazia caber tantas pessoas naquele apartamento que, apesar de não ser pequeno, também não era grande o bastante para tantas pessoas.

Assim que cheguei, parecia que todos já estavam me esperando.

- ! Chegou em boa hora. - Elinor me saudou na porta. - Acabamos de abrir uma garrafa de champanhe! Vamos, entre, querida! - Ótimo, mais champanhe, eca.

- Feliz natal atrasado. Eu comprei isso para você. - Entreguei o embrulho simples que continha um porta-retrato. - Sabe aquela foto que me mostrou quando vim tomar chá aquele dia?

- Aquela foto? - Elinor confirmou desembrulhando o item.

- Aquela. - Concordei. - Isso é para você colocá-la na estante.

- Obrigada! Na próxima vez que você vier aqui, vai estar lá. - Me abraçou de lado e me guiou para dentro, até a sala de estar.

O lugar estava uma zona, dois meninos estavam sentados no chão com brinquedos e gritavam o que parecia ser uma narração de corrida com os carrinhos. Em um dos sofás, a esposa do filho do meio de Elinor conversava com outra mulher, a filha mais velha dela. Eu reconheci ambas pelas fotos.

No outro sofá, os outros dois filhos de Elinor, que também reconheci pelas fotos, conversavam com um outro homem em uma poltrona, provavelmente marido da filha de Elinor. Muitas conversas em paralelo.

- Olha quem chegou! Nossa única e última convidada! - Elinor brincou rindo.

- Oi, boa noite! - Acenei tímida de pé ao lado de um dos sofás.

O filho mais velho de Elinor imediatamente se levantou para me cumprimentar.

- Olá! Eu sou o Isaac. - Estendeu a mão, a qual apertei. - Aquela linda mulher grávida é a minha esposa, Amelia.

- Aquela é a minha filha, Scarlet. - Elinor disse apontando para a outra mulher. Acenei e soltei outro “oi” tímido.

- O meu marido, Andrew. - Scarlet apontou e ele me cumprimentou com um aceno de cabeça. - E as crianças são os meus filhos, Samuel e Joseph.

- E o meu caçula, Adam. - Elinor apontou para o primeiro de seus filhos que eu tinha visto foto, e que era mais bonito ainda ao vivo.

- Eu sou a , mas podem me chamar de .

Elinor se retirou do cômodo e eu me sentei em uma cadeira, tendo imediatamente toda a conversa centralizada em mim.

- Então, mamãe disse que você mora aqui no prédio... - Scarlet começou. - Há quanto tempo você mora aqui? - Ficou claro para mim que ela era a “líder” do bando.

- Há nove meses. Me mudei em março. - Respondi tentando soar o mais simpática possível.

- E onde você morava antes? - Ainda Michelle perguntou.

- No Brasil. - Respondi com um risinho.

- Ah, você não é daqui! - Amelia comentou. - Está gostando dos Estados Unidos?

- Bom, eu só conheço a Califórnia, mas gosto muito do clima daqui. E acho que todo mundo é sempre muito animado, o que é legal.

- E o que você faz aqui? - Não preciso dizer quem perguntou, né?!

- Eu sou supervisora de logística numa empresa em West Hollywood.

- Legal! - Ouvi Adam dizer.

- E como você conheceu nossa mãe? - Isaac perguntou em um tom de curiosidade.

- Na lavanderia do prédio. - Contei, rindo. - Sua mãe, aparentemente, adora lavar roupas nos sábados de manhã. Cá entre nós, se eu pudesse escolher um horário para lavar roupas, certamente não seria num sábado de manhã, sabe? Eu dormiria até tarde.

Elinor voltou com uma bendita taça de champanhe. O que aconteceu com as cervejas ou qualquer outra bebida nesse país? Todo mundo só toma essa merda em festas?

- Obrigada, El. - Sorri e apoiei a base da taça na perna.

Elinor se sentou em uma cadeira ao meu lado.

- Como foi o natal na Inglaterra, querida? - Me perguntou com seu jeito doce de sempre.

- Foi ótimo. Mas lá chove o tempo todo e faz muito frio. Eu não gosto de tanto frio.

- Achei que você tivesse dito que era do Brasil. - Scarlet, em seu tom de voz desconfiado, falou.

- Ah sim, eu estava na Inglaterra na casa de amigos. - Expliquei sem perder o sorriso. - E com vocês, como foram as festividades por aqui? - Lancei a pergunta para ninguém em específico.

- Você perdeu o melhor peru do mundo, feito pela minha sogra linda. - Foi a primeira vez que ouvi Andrew falar.

- É mesmo? - Olhei para Elinor. - Por que não me disse isso, El? Com certeza eu não teria viajado. - Brinquei, dando um tapinha no seu joelho que estava próximo do meu.

- Para sua sorte, estou fazendo-o de novo. - Devolveu o tapinha na minha coxa. - Inclusive, vou olhar o forno. - Se levantou e foi em direção a cozinha.

Aos poucos, as perguntas pararam de ser direcionadas somente a mim e todos voltaram para as conversas que antecederam minha chegada.

Ninguém estava mais prestando atenção em mim, o que foi um alívio, então eu só ouvia as conversas e sorria quando olhavam para mim e perguntavam coisas tipo “você não acha, ?”

Adam se sentou na cadeira vaga de Elinor ao meu lado.

- Oi.

- Oi. - Me virei para olhá-lo.

- Desculpe pela minha irmã, ela é meio super protetora.

- Bom, parece que ela não foi com a minha cara. - Sorri divertida.

- Ela só está com ciúmes de mim. Irmã mais velha, sabe como é...

- De você? Por quê?

- Por causa do... - Observou minha expressão confusa. - Oh, meu Deus! Você não sabe? - Perguntou surpreso. Eu não fazia ideia do que ele estava falando, então neguei com a cabeça. - A minha mãe disse que tinha arrumando um date para mim hoje.

Eu comecei a gargalhar.

- Então eu sou o seu date da noite e por isso sua irmã estava me interrogando?

- Desculpe, e-eu achei que você tivesse concordado com isso... A minha mãe, meu Deus, me desculpe! - Adam se atropelava nas palavras ao falar, parecia ser uma pessoa muito tímida.

- Relaxa. ‘Tá tudo bem. - Eu toquei no seu ombro. - Eu não concordei antes, mas posso concordar agora. - Completei rindo e ele me acompanhou.

- É por isso que você mal olhou na minha cara. Você não fazia ideia de nada. - Agora ele também ria enquanto falava.

- A sua mãe comentou algo sobre achar que nos daríamos bem, mas foi só isso. Não achei que ela estivesse levando a sério.

- Isso é cara da minha mãe. Eu... - Parou de falar ao olhar para a minha mão e ver a taça de champanhe intocada. - Eu vou beber uma cerveja, você me acompanha?

- Sim. - Respondi no mesmo instante, o que o fez rir. - Desculpe, eu não sou muito fã de champanhe. - Sussurrei a última parte, como se contasse um segredo.

- Certo. - Piscou ao entender o recado. Seria exagero se eu dissesse que quase desmaiei? - Eu volto já. - Entreguei a taça para Adam, que saiu do cômodo e voltou com duas long necks.

- Obrigada.

- Cheers. - Bateu a sua cerveja na minha e tomou um gole. - Então... Você é do Brasil e se mudou para cá para trabalhar?

- Sim. E eu faço mestrado na CiAM.

- Instituto de Gestão Avançada da Califórnia. Você está mesmo dentro dos negócios empresariais, huh? - Eu ri um pouco sem graça.

- Pode-se dizer que sim. - Concordei com um aceno de cabeça. - E você?

- Stanford. Doutorado em direito. Eu sou advogado.

Ahhhhh, por isso a foto de terno.

- Então você mora aqui na Califórnia! Pelo que Elinor falava de vocês, achava que moravam em outros estados.

- Eu sou o único que mora por aqui. - Riu. - Eu tenho um escritório em San Jose.

- Onde eu trabalho há uma filial em San Francisco. É perto. - Eu disse.

- Ahhhh. - Ele balançou a cabeça em um sinal de “mais ou menos” e eu ri.

Enquanto conversávamos mais um pouco para nos conhecermos, eu notei que ele realmente era bem tímido.

- Minha vez. - Eu falei ao ver a garrafa vazia em sua mão. - Volto já. - Sorri e sai levando nossas garrafas.

Eu conseguia ver Elinor na cozinha de onde estávamos, o benefício de cômodos conjugados. Passei pela mesa da sala de jantar e vi que já estava parcialmente arrumada.

- Oi. - Eu disse para ela ao chegar na cozinha. - Eu vim pegar mais cervejas.

- Na geladeira, querida. - Apontou. - Você pode avisar a todos que o jantar está quase pronto? Mais quinze minutos.

- Okay. - Abri a geladeira e peguei as bebidas. - Obrigada.

- ? - Eu ia saindo do cômodo quando Elinor me chamou.

- Sim? - Voltei para perto de dela.

- Me ajude a levar essas comidas para a mesa.

- Claro. - Deixei as cervejas na pia e peguei uma panela de sua mão.

Andei até a mesa e Elinor veio atrás de mim.

- Onde?

- Pode deixar aqui ao lado dessa. - Concordei com a cabeça e a segui de volta para repetirmos o mesmo processo e voltamos de novo para a cozinha. - Então, gostou do meu filho?

Comecei a gargalhar, era claro que ela não tinha me pedido ajuda só para carregar umas vasilhas para ela.

- Sim, ele é muito simpático. E um pouco tímido, não é?

- Ah, meu filho, muito tímido, sim. - Eu sorri.

- Bem, eu vou levar essa cerveja para ele. - Voltei a pegar as garrafas.

- Não se esqueça de avisar sobre o jantar. - Acenei com a cabeça e sai do cômodo.

O jantar não demorou muito depois disso, foi bem divertido, apesar que eu ainda estava achando que Michelle não tinha gostado muito de mim.

Ainda faltava algumas horas para a meia noite, todos estavam de volta à sala, conversando e bebendo. Parecia que eu tinha voltado ao ano anterior e eu estava em casa, com a minha família. Com André.




- E então, mana... Você e Daniel, como vão fazer? - André me perguntou quando meu até então namorado foi ao banheiro.

- Eu só contei para ele da proposta, mas não paramos pra conversar sobre como isso nos afetará. Achei melhor deixar virar o ano primeiro. Mas eu sei que ele não quer terminar, sabe?

- Mas... E você? O que você quer?

- Eu sei que eu ‘tô indo para outro país. Eu não queria terminar, mas também não quero um relacionamento a distância.

- Mas vocês já não estão? Desde que você foi para São Paulo?

- Ah, André, mas não tem em comparação, né? A gente se vê quase todo fim de semana.

- Aposto que o Daniel te visitaria quantas vezes fossem possíveis.

- É... Uma vez nas férias dele e uma vez nas minhas.

- Qual é, mana! O Daniel é um cara legal.

- André, se toca! - Revirei os olhos. - Eu ‘tô indo para Los Angeles. Você acha que eu vou para a cidade dos famosos namorando um cara que está à 10 mil quilômetros de distância?

- E eu achei que você não queria terminar. - Riu da minha resposta.

- Eu não quero magoar ele.

- Mana, eu sou a pessoa que mais te conhece no mundo, você tem o maior coração que eu já vi.

- Eu já te disse que você é o melhor irmão do mundo?

- Hummm. - André murmurou, fingindo pensar. - Hoje não. - Brincou.

- Eu te amo. Você é o melhor irmão do mundo.

- E você é a melhor irmã do mundo. - André deu um beijo na minha testa e sorrimos. - Mas eu aposto que se fosse o Harry Styles você aceitaria o namoro a distância.

- Lógico?! - Respondi rindo. - Eu não sou idiota?! Além do mais, Harry Styles tem tempo e dinheiro, poderia viajar todo dia para me ver.

- O que tem o Harry Styles? - Daniel tinha se aproximado de nós e pegou o fim da conversa.

- ‘Tô contando pro André que eu comprei ingressos pro show do Harry em Los Angeles. - Meu irmão arqueou uma sobrancelha, porque ele não fazia ideia desse fato.

- Hum. Não sabia que você tinha decidido ir.

- Achei que era óbvio? - Rebati sem entender.

- Talvez para você seja mesmo.

- Amor... Por favor, ano novo, né?

Essa era sempre a minha desculpa quando alguém tocava em algum assunto que eu não queria conversar “feriado, né?”; “natal, vamos falar disso agora?”; “ano novo, vamos discutir de novo?”; “falamos disso outro dia, agora de novo?” etc etc.

- Daniel, vamos comigo buscar mais cervejas? - André interrompeu o início do que poderia ser uma discussão.

André sempre foi o melhor em acalmar os ânimos. Por isso ele era a minha pessoa.





Quando eu respondi aquilo, há exatamente um ano, eu era apenas uma fã inocente e apaixonada... Como as coisas mudam, como aprendemos e como crescemos e como passamos a enxergar as coisas de modo diferente quando se tornam realidade, não é mesmo?! Num passado não tão distante em que a minha eu de 23 anos que nunca tinha saído do Brasil sonhava em encontrar com Harry Styles, parecia óbvio que eu faria qualquer coisa para estar com ele.

Mas agora ali, me lembrando em que disse que era “lógico” que eu faria qualquer coisa pelo Harry Styles que eu não conhecia, agora parecia estúpido. Eu ainda faria qualquer coisa por aquele Harry que agora eu conhecia, mas eu não sacrificaria meu emprego ou meus sonhos, assim como não os sacrifiquei por Daniel, porque no fim do dia, Harry era somente um homem, como qualquer outro, não havia nada de mágico, nada de perfeição divina. Era só o Harry, um ser humano incrível, mas só isso, um ser humano. Imperfeito, com erros, defeitos, maus hábitos... Mesmo que todas as questões de distância pudessem ser facilitadas pelo dinheiro, não era como se só aquilo fosse um problema. Seu mundo era como uma realidade paralela, talvez o meu eu que agora havia passado pelo processo de “desmitificação do ídolo”, talvez esse meu eu buscasse algo mais real, concreto.

Tipo... Tipo um relacionamento estável com Henry Campbell. Era algo assim que o meu eu buscava agora. Algo que não parecesse um sonho o tempo todo, algo que não fosse frágil e que eu tivesse que me preocupar. Algo que se ajustasse ao meu mundo.

Como eu queria que André estivesse aqui para me ouvir e fazer o que ele fazia de melhor: Não me dar conselho nenhum que prestasse. Ele sempre me acolhia com frases que pareciam retiradas de um biscoito da sorte. Ele era ótimo em dizer as maiores obviedades; mas só eu sei como o seu “vai ficar tudo bem” sempre foi o melhor remédio.

- Meu irmão me mataria se me ouvisse dizer que minha banda preferida não é Pink Floyd. - Eu completei ao responder à pergunta que Adam havia acabado de me fazer. André esperaria que eu dissesse pelo menos, sei lá, Fresno.

- Ele é muito fã?

Acho que eu poderia dizer que Pink Floyd era para ele o que Harry Styles é para mim. Acho que todo esse amor por música, bandas e cantores eu herdei dele, aliás, aprendi com ele. Nossos pais sempre gostaram daquele sertanejo raiz, afinal, nasceram e foram criados no interior, mas nunca foram tão aficionados em nada disso quanto nós dois. André e eu nascemos na cidade, sem ter essa cultura de interior tão próxima, ainda que tenhamos crescido indo para o interior na casa da nossa avó nas férias escolares, mesmo assim não ligávamos mesmo para sertanejo.

- Ele era.

Ainda era muito doloroso ter que me referir a ele no passado. Mas eu não conseguia deixar de sorrir sempre que me lembrava dos nossos melhores momentos.

- Ele morreu há quase um ano. - Completei quando vi o olhar de confusão de Adam.

- Meu Deus, . Eu sinto muito.

- Tudo bem. Sério. - Eu sorri. - É sempre bom falar dele assim. Mantém a memória viva, sabe?

André me deu meu primeiro CD do Pink Floyd, e do Queen, e do Beatles e de todas as bandas de rock famosas brasileiras no auge de 2010. André me deu o meu primeiro CD da One Direction também, embora sempre me fizesse jurar que os meus cantores favoritos ainda eram os mesmos que os dele. Eu não era capaz de negar, eu o idolatrava, eu queria ser como ele, ouvir o que ele ouvia, vestir o que ele vestia, falar como ele falava. Aquela coisa de irmão mais novo que quer ser exatamente como o irmão mais velho quando crescer. Ele era a minha maior inspiração.

André me levou no meu primeiro show, André segurou a minha mão quando entramos pelos portões da escola no meu primeiro dia de aula. André foi quem deu um soco no meu primeiro namoradinho, ainda nessa mesma escola. Ele me mostrou o mundo aos seus olhos... Como na primeira vez que dirigi depois que tirei carteira.




André parou o carro no acostamento. Estávamos em uma rodovia à uma distância de uns 25km de onde morávamos. Era domingo e a estrada estava naturalmente vazia.

- Okay! - Bateu as mãos nas pernas. - Vamos trocar de lugar. - Ele disse e saiu do carro, deixando-o ligado. Eu apenas pulei para o banco do motorista. - Cuidado para não sentar no freio de mão e o carro descer! - Gritou quando viu o que eu estava fazendo.

- Foi! - Gritei a vitória ao conseguir me sentar no banco do motorista com sucesso. Ele abriu a porta do outro lado e se sentou.

- Agora você precisa soltar bem devagar a embreagem e se o carro não andar sozinho, dá um ‘toquinho no acelerador.

- Eu sei disso, André. Eu fiz autoescola, sabia?

- Sei lá, vai saber.

- Você não confia em mim?

- Não exatamente. - Riu e eu fiz uma careta.

Era um daqueles domingos de sol escaldante. O carro de André não era velho, mas não era o mais moderno ou o mais caro, por isso nem ar condicionado tinha. Os vidros estavam abertos ao máximo, os da janela de trás só abriam até a metade, com aquelas manivelas que parecem a coisa mais velha do mundo agora. E isso foi em 2012.

Eu tirei os sapatos e joguei para o banco de trás, já começando a suar, não saberia dizer se pelo calor ou nervosismo. André colocou o cinto e imediatamente segurou na alça do teto, que carinhosamente é apelidada de “puta que pariu” ou “puta merda”, o nome depende da intensidade do susto que você passa na estrada.

- Ah não, André! Segurar no puta merda é ofensa, porra.

- Puta que pariuuuuuu! - Ele gritou, rindo. Ele tinha 23 anos nessa época, o humor no auge. - É assim que eu vou ficar quando você arrancar esse carro.

- Cala a boca, idiota. - Acabei rindo também. - Tá bom, vamos lá. - Com um suspiro, engatei a primeira marcha e soltei o freio de mão, virando o volante na direção da estrada, o pé quase todo afundado na embreagem, mas o carro desceu sozinho, graças a Deus.

- Fica na faixa da direita, assim você só precisa olhar o retrovisor esquerdo. Não esquece de olhar. Sabe quando a gente passa de moto? É assim que os motoqueiros vão passar.

André pilotava também e eu sempre estava na garupa com ele. Talvez pilotar tenha sido outra coisa que comecei a fazer por causa dele.

- Desenvolve o carro. - Concordei com a cabeça, jogando terceira e depois quarta. - Ótimo. Cuidado que logo ali na frente tem um radar.

- Tá bom.

- Olha o retrovisor. - Olhei. - O radar. !! O radar, diminui, caralho! - Entrei em pânico por um segundo e acabei pisando no freio com tudo, jogando André para frente, que bateu com as mãos no painel para se segurar. - Porra, cara, você freou muito em cima.

- Desculpa.

- Não pisa no freio de uma vez assim, vai afundando o pé gradualmente, tá bom?

- Tá.

- Logo ali na frente, mais ou menos daqui uns dois quilômetros, vai ter uma reta, aí você pode colocar quinta e só acelerar. O próximo radar está longe.

- Ok. - Eu dava respostas monossilábicas, tentando concentrar a minha atenção em todas as mil coisas que precisa fazer para deixar o carro em movimento e dentro da faixa.

- Você consegue dirigir com o som ligado?

- Eu acho que sim.

Escutei o barulho do porta-luvas abrindo e depois fechando, em seguida o barulho do plástico da capa e então ele colocou um CD no rádio. Eu não conseguia virar a cabeça para olhar. Antes que alguma música tocasse, meu irmão apertou um dos botões passando as faixas, parando subitamente, sabendo exatamente onde estava a música que queria ouvir. Uma melodia tão conhecida soou pelos alto-falantes do veículo.

Pink Floyd – Learning to Fly



- Ah não, André. - Eu comecei a rir. Ele sorriu para mim, mas não disse nada, em vez disso, cantou junto com a música.

- Into the distance a ribbon of black / Stretched to the point of no turning back / A flight of fancy on a windswept field... - Sua voz começou tímida, num timbre baixo que quase não se escutava com o barulho externo que era ampliado pelas janelas abertas.

- Aumenta o volume. - Eu pedi.

- Tem certeza?

- Sim. O vento tá fazendo muito barulho, quase não tá dando pra ouvir a música. How can I escape this irresistible grasp? - Eu terminei gritando a letra por cima do barulho.


Can't keep my eyes from the circling skies
(Não consigo tirar meus olhos dos céus circulando)
Tongue tied and twisted just an earth bound misfit, I
(Língua presa e enrolada, só um desajustado preso à Terra, eu)


Gritamos o último verso juntos, dessa vez a música tão alta que quase não nos ouvíamos.


Ice is forming on the tips of my wings
(Gelo se formando sobre as pontas das minhas asas)
Unheeded warnings I thought I thought of everything
(Avisos não observados eu pensei que tinha pensado em tudo)
No navigator to find my way home
(Nenhum navegador para me guiar para casa)
Unladened, empty and turned to stone
(Descarregado, vazio e petrificado)

A soul in tension that's learning to fly
(Uma alma em tensão que está aprendendo a voar)
Condition grounded but determined to try
(Condição: preso ao chão, mas determinado a tentar)

Can't keep my eyes from the circling skies
(Não consigo tirar meus olhos dos céus circulando)
Tongue-tied and twisted just an earth-bound misfit, I
(Língua presa e enrolada, só um desajustado preso à Terra, eu)


E então ficamos em silêncio para a parte da música em que falam sobre a preparação para decolagem de um avião. Era quase o mesmo mantra que eu havia feito minutos antes de sair com o carro do acostamento. Meu irmão... Ele sabia das coisas.

Above the planet on a wing and a prayer,
(Acima do planeta, em uma asa e uma oração,)
My grubby halo, a vapor trail in the empty air,
(Minha auréola suja, uma trilha de vapor no ar vazio)
Across the clouds I see my shadow fly
(Através das nuvens vejo minha sombra voar)
Out of the corner of my watering eye
(Com o canto do meu olho lacrimejado)
A dream unthreatened by the morning light
(Um sonho não ameaçado pela luz da manhã)
Could blow this soul right through the roof of the night
(Poderia soprar essa alma para além dos limites da noite)


Atingimos o ponto mais reto da estrada bem quando a última parte da música se iniciou. Cantávamos com todo o ar dos nossos pulmões.


There's no sensation to compare with this
(Não há sensação que se compare com isso)
Suspended animation, a state of bliss
(Animação suspensa, um estado de êxtase)

Can't keep my mind from the circling skies
(Não consigo tirar minha mente dos céus circulando)
Tongue-tied and twisted just an earth-bound misfit, I
(Língua presa e enrolada, só um desajustado preso à Terra, eu)


André tocava uma guitarra imaginária junto com o solo do guitarrista. Eu sorria de orelha a orelha. Conseguia sentir o suor na pele e aquela sensação de completo êxtase, de se sentir muito bem mesmo, era como se ali, naquela estrada quase vazia, dirigindo “pela primeira vez”, eu realmente pudesse voar.




Foi ali que eu me apaixonei por dirigir, era por isso que qualquer mínima distância em que eu dirigia tinha tanto impacto para mim. Eu sempre me lembrava desse dia. Eu e meu irmão, como se fôssemos uma só alma, ainda aprendendo a voar em um mundo tão grande.

- Queridos, a contagem vai começar. - Elinor nos chamou.

Era isso, 2019 estava ali na esquina.

Fomos todos para a varanda. Era bem pequena, mas nos apertamos ali, foi o momento da noite em que mais me senti parte. Parte de algo. Parte dali. Finalmente.

Eu escutei a contagem regressiva, as vozes pareciam distantes demais e as pessoas pareciam estar se mexendo devagar demais, tudo externo parecia desconectado. Eu queria que André estivesse aqui.

5, 4, 3, 2, 1...

Os fogos começaram a estourar, me trazendo de volta à realidade.

Na ponta da varanda, do meu lado esquerdo, estava Adam. Me virei para ele, dando-lhe um abraço.

- Feliz ano novo. - Eu sussurrei em seu ouvido. Ouvindo a felicitação de volta em seguida.

- ! Feliz ano novo, minha querida! - Elinor veio gritando para o nosso lado, eu sorri, me soltando de Adam e dando-lhe um abraço apertado.

- Feliz ano novo, El. - Brindei a taça que tinha na mão com a dela. Dessa vez não tive como fugir do champanhe.

Depois de abraçar e desejar as felicitações usuais para todos, ainda continuamos na varanda por alguns minutos, bebericando o champanhe e ouvindo os planos uns dos outros para o ano seguinte.

O que eu queria para 2019? Quais eram os meus planos? Minhas metas? Ali, nos primeiros minutos daquele ano que se iniciava, era a primeira vez que eu parava para pensar naquilo.

Olhando para trás, eu havia conquistado em 2018 tudo o que eu mais almejei nos últimos anos. Eu tinha um emprego que eu amava e que tinha ficado melhor ainda porque eu o fazia em Los Angeles agora, eu tinha o carro dos meus sonhos, eu tinha a amizade de Harry, e isso resumia tudo. Eu tinha ótimos amigos ali e outros me esperando no Brasil. Em breve eu teria um título acadêmico de mestre. Tudo parecia perfeito. Exceto que faltava uma coisa. Tudo o que eu mais queria e nunca poderia ter de volta: O meu irmão.

Meus planos para 2019: Eu não queria nunca esquecer do seu rosto, seu cheiro, sua voz. Isso era o que eu queria naquele momento. Era o bastante.

- Ei, ! - Ouvi Adam me chamar num canto. - Quer outra cerveja? - Me perguntou como quem compartilha um segredo. Bem, de certa forma, ele guardava o meu segredo de que eu detestava champanhe.

O meu irmão estava morto. E uma parte de mim se foi com ele. Mas eu estava muito viva e uma parte dele sempre viveria comigo. E ali, pela primeira vez, eu prometi algo por mim e por ele: Eu viveria aquela vida por nós dois.

- Eu quero sim. - Então sorri para ele, feliz.

- E o que achou da virada do ano aqui? - Me perguntou enquanto caminhávamos de volta para a cozinha.

- Basicamente igual ao Brasil. - Respondi dando de ombros.

- Sério? - Ele abriu a geladeira e tirou duas cervejas, me entregando uma.

- Ah, sim. Mesma vibe. Pelo menos quando a gente passa a virada com a família, assim.

Por falar em família, aproveitei para digitar uma mensagem para os meus pais avisando que ligaria depois. Eles provavelmente estariam dormindo. Duvido muito que tenham ficado acordados esperando a virada, ainda mais que agora eram só os dois em casa.

Adam e eu conversamos por mais algumas horas. Respondíamos as conversas na roda em paralelo, mas na maioria do tempo estávamos envoltos em uma bolha de assuntos particular só nossa.

- Estou começando a ficar com sono, acho que vou embora. - Falei com Adam.

- Ah, tão cedo? - Me olhou com uma cara de cachorro abandonado.

- Nem sabemos que horas são. - Comecei a rir antes de olhar o celular, era um pouco depois das três. - A hora passou voando.

- Está quase cedo. - Brincou. E era verdade, se não fosse inverno, o sol nasceria em poucas horas.

- Eu preciso dormir, amanhã eu trabalho.

- Amanhã... Hoje? - Perguntou confuso.

- Amanhã, amanhã. Dia 2.

- Tão rápido? - Demonstrou surpresa.

- Não temos recessos. A produção da empresa não pode parar, sabe? Consequentemente, a logística também não pode. Se estão produzindo, temos que entregar.

- E a demanda é muita alta? - Perguntou quando eu me levantava da cadeira. - Eu te levo até a porta.

- Bastante! Principalmente nessa época do ano.

A parte que eu mais odiava sobre ir em festas era ter que me despedir de pessoa por pessoa, então fazia isso o mais brevemente possível. Só demorei um pouco mais com Elinor, combinando o horário que nos encontraríamos na lavanderia no sábado para lavarmos roupa juntas.

Adam abriu a porta para mim e fechou-a atrás de si, saindo para o corredor comigo.

- Então é isso. Obrigada pela companhia. - Eu falei, de repente me sentindo muito sem jeito.

- Foi um prazer te conhecer. - Me puxou para um abraço demorado.

Quando nos soltamos, não nos afastamos. Tivemos aquela troca de olhares tensa que sempre precede um beijo entre desconhecidos. A primeira coisa que pensei naquele momento foi como era hilário que, pela primeira vez um gringo me beijaria, porque eu sempre era a pessoa quem puxava o beijo. Foi assim com Harry e também com Henry.

Quando você beija alguém sempre tem duas possibilidades: Ou o beijo encaixa e é muito bom, ou o beijo não encaixa e é horrível (sim, eu já disse isso sobre Harry), mas essa foi a segunda coisa que pensei, bem quando Adam se aproximou e chocou seus lábios contra os meus. Na verdade, acho que poderia dizer que nos beijamos ao mesmo tempo, mas eu darei um crédito extra para ele pela atitude.

Adam apoiou uma das mãos no meu rosto tão delicadamente que eu mal podia sentir seu toque. Não foi um beijo voraz, cheio de desejo. Foi um beijo cauteloso e carinhoso, que combinava com a sua timidez e com a parte da sua personalidade que eu conheci naquela noite. Não, não foi um beijo horrível. Adam e eu nos encaixamos, foi muito bom, foi leve, foi refrescante, foi legal.

Foi... legal? E ao mesmo tempo foi diferente. Alguma coisa parecia terrivelmente errada.

O que me levou a pensar na terceira coisa sobre toda a aura que precedeu e envolveu aquele beijo.

Não era um diferente do tipo completamente diferente como era beijar Harry.

Porque ele não era o Harry. Ninguém era.

Então eu me afastei. Os olhos arregalados, assustada.

- Desculpa. Eu-eu não posso fazer isso. Eu tenho que ir embora.

E então eu sai correndo.

Porque ali, beijando Adam na noite de ano novo, eu tive uma epifania.

Eu estava apaixonada por Harry Styles.

E eu só queria que a vida tivesse uma alça de teto para que eu pudesse segurar enquanto grito: puta que pariu!


19. In a black dress, she's such an actress.

JANEIRO, 2019
Dois meses atrás




De todos os livros que li na minha vida, a última personagem que achei que algum dia eu pudesse me identificar era Bella Swan de Crepúsculo. Mas, naquele momento, eu me sentia exatamente como ela.

De três coisas eu tinha absoluta certeza:

1 – Harry Styles não era um vamp... tá, eu não tinha certeza disso, porque eu ainda não conseguia explicar como ele aparecia de um país para o outro tão rapidamente.

Na verdade, só tinha uma coisa que eu podia afirmar estar absolutamente certa: Eu estava completamente apaixonada por ele.

Não, não por Edward Cullen.

Por Harry Styles.

E não dá nem para me culpar por estar levando essa revelação com a maior carga de ironia que eu consigo depositar.

Eu. Apaixonada por Harry. O mesmo Harry que era apaixonado por outra. Você consegue sentir daí o tanto que eu me fodi?

Quero dizer, não ainda, mas eu já consigo prever o final disso.

Aliás, eu poderia listar, sim, três coisas que eu tinha certeza:

1 – Eu estava completamente apaixonada por ele.

2 – Eu estava completamente fodida também.

E eu nem queria começar a pensar nas outras partes complicadas disso. Eu estava apaixonada por Harry Styles, cantor famoso que tinha outras milhões de pessoas também apaixonadas por ele, e pior, sem nunca terem o visto, exatamente como eu já fui um dia. Isso realmente parece que aconteceu há uma vida, eu estava tão acostumada a conviver com Harry que eu sequer me lembro mais de como era apenas sonhar com tê-lo por perto.

O que também tornava tudo mais assustador, essa paixão era diferente da que eu sempre tive, porque ele estava bem ali do meu lado agora. Muito perto, e talvez nunca antes tão distante, já que não podia ser meu.

3 – E estar perto dele, sim, era isso que ia acabar comigo.

O que eu vou fazer agora?

Me arrastei para fora da cama como se eu estivesse indo para um funeral. Tipo o meu próprio.

Eu não tinha ideia do que eu faria a seguir, Harry voltaria do Japão no fim de semana, como eu poderia encará-lo agora? Como eu olharia em seus olhos e agiria como se os meus sentimentos por ele não estivessem me consumindo tão avassaladoramente quanto estão agora?

Talvez fosse óbvio que eu já tivesse todos esses sentimentos há mais tempo do que havia me dado conta, mas sabe quando você vê a coisa ali e não a enxerga? A coisa simplesmente está ali e, sem que você perceba, ela vai tomando forma e ganhando um espaço que depois é difícil de mensurar e mais difícil ainda de aceitar que está ali e que ocupa tanto do seu coração. Esteve o tempo todo bem ali, debaixo do meu nariz. Eu sei o que é se apaixonar, eu já me apaixonei antes, mas dessa vez era como se eu estivesse completamente cega por tanto tempo que eu sequer sei quanto.

Realmente tudo ainda era igual. Exceto dentro de mim; em que tudo tinha mudado. Todas as cores, cheiros, sons que tinham um certo significado prévio a entrada de Harry na minha vida, agora adquiriram nuances diferentes.

Como eu me comportaria como se nada tivesse mudado?

Como se eu não tivesse descoberto essa coisa que arde em meu peito sempre que seu nome surge na minha mente e a sua imagem com um sorriso torto aparece diante dos meus olhos, projetado tão poderosamente que poderia até mesmo ser real?

Meu Deus, desde quando meus pensamentos viraram uma peça shakespeariana? Essa coisa de “arde em meu peito” e dramatizações derivadas eu deixo para os poetas.

Peguei meu celular checando as horas, não era nada cedo no Brasil. Busquei um velho contato tão conhecido e há muito tempo esquecido.

11:47am: Oi, Angela! Tudo bem? Feliz ano novo!
Posso marcar uma sessão via skype quando você
retornar do recesso?



Eu não esperava que a minha antiga terapeuta do Brasil fosse responder ainda naquele dia, afinal, era primeiro de janeiro.

Acabei pedindo um almoço, meu humor fúnebre não me permitiria cozinhar nada. Exagerado? Talvez. Mas estar apaixonado já era uma merda. Já experimentou estar apaixonada por Harry Styles? Uma merda ao quadrado. E apaixonada por alguém que está apaixonado por outra pessoa? Uma merda ao cubo. E apaixonada por Harry Styles, enquanto ele está apaixonado por outro alguém que deu um pé na bunda dele e recentemente apareceu e pode ter abalado todas as suas estruturas? O que vem depois de cubo? Pois é uma merda multiplicada na contagem depois de cubo.

2:28pm: Oi, ! Estou ótima e você? Feliz
ano novo! Que bom que me procurou. Eu
atendo amanhã mesmo, que horas você
quer marcar?




2:29pm: Pode ser às 17h? Eu trabalho
amanhã.



2:29pm: Te vejo amanhã às 17h!

2:30pm: Pera, as 17h daqui ou daí?
Hahaha



2:30pm: Desculpa! Para você as 21h!



2:30pm: Combinado!



Quando foi um pouco mais para o fim da tarde e início da noite, eu já estava estranhando por Harry não ter aparecido. Estava estranhando e também estava um pouco aliviada, porque eu não queria ter que falar com ele tão cedo. Mas o destino adora tirar uma com a minha cara. ‘Tá, ‘tá, tudo bem, era óbvio que Harry ia me procurar mais cedo ou mais tarde. Harry tinha ido para o Japão uns dois dias depois que fui embora de Holmes Chapel e não conversávamos desde então.

- Feliz ano novo para a minha Brasileira favorita! - Harry gritou do outro lado da linha assim que atendi a ligação.

- Que animação é essa? - Eu ri. - Feliz ano novo, babe. - Torci a cara quando percebi que havia o chamado de “babe”, porque até mesmo isso tinha adquirido um significado diferente agora.

- Por que você não está animada? É 2019! - Rebateu. - Por que recusou a chamada em vídeo?

- Porque eu ‘tô descabelada debaixo das cobertas no sofá com um balde de pipoca assistindo todos os filmes de natal que sobraram na Netflix.

- Que mórbido. - Riu e eu concordei com um “uh-hum”. - E desde quando você liga para isso?

Eu achava difícil esconder qualquer coisa de Harry só usando minha voz, imagina se ele estivesse me vendo? Seria praticamente impossível.

- Sempre liguei!

- Eu acordei com você uma semana inteira, . Não tem nenhuma versão sua que eu não tenha visto.

- É! Obrigada por me lembrar de toda a perda da minha dignidade. Eu gostaria de tentar salvar um pouco, se possível.

- Ah, qual é?! Você acorda toda fofa mesmo descabelada.

- Obrigada?

- Acha que vou tirar um print e postar na internet?

- E você lá sabe tirar print?

- ...

- Esse é o meu nome. - Retruquei jocosa. - André quem escolheu.

- Sério?

- Uh-hum.

André tinha quatro anos quando minha mãe ficou grávida de mim. Meus pais não conseguiam decidir meu nome, então colocaram alguns papéis com as opções e pediram que ele escolhesse. Ele nem sabia escrever, acho que foi totalmente aleatório.

Mas não contei nada disso a Harry.

- Que legal. E quando eu penso que já te conheço o bastante, você me solta uma informação totalmente nova.

Ah, Harry, você não sabia da missa a metade.

- Pois é...

Um silêncio se seguiu depois da minha resposta.

- Você ‘tá ocupada?

- Não... Acabei de falar que ‘tô no meu sofá sozinha e depressiva vendo filmes de natal.

- Eu ‘tô te atrapalhando?

- Claro que não, por quê?

- Não sei. Parece que não quer conversar. Não está me respondendo direito.

- Eu ‘tô te respondendo, sim! - Ri nervosamente. - ‘Tá carente, é?

- Olha, já que você tocou nesse assunto... Não é que eu esteja carente, sabe? Mas se você estivesse aqui, eu aceitaria... sei lá, um boquete.

- Harry!!

- Você quem perguntou.

- Eu não perguntei nada disso! - Ri mais nervosa ainda. - E você é carente!

- Não sou, não!

- Agora vai virar mentiroso? - Rebati e ele gargalhou.

- ‘Tá, talvez eu seja um pouco.

- Pois é.

Outro silêncio. Meu Deus. Eu estava me sentindo como quando nos conhecemos. Aquele silêncio constrangedor que sucedia cada uma das nossas conversas em Santa Mônica. Aqui estávamos novamente numa situação tão similar que até me assustava. Antes, era eu, a fã que não sabia – ou não queria – dizer que sabia quem ele era. A fã que tentava se conter para não acabar se entregando. Agora, era eu, a amiga que claramente nunca conseguiu ser só amiga e não sabe como agir sem entregar o quão terrivelmente apaixonada está.

- Aconteceu algo?

Ah, ótimo, parabéns, . Você achava mesmo que ia cortar uma piada pervertida de Harry e ele não ia desconfiar de nada? Logo você? Que embarcava em absolutamente todas.

- Hum, tipo o quê?

- Não sei. Você está esquisita.

- Impressão sua.

- Eu fiz alguma coisa errada? Eu sei que a gente discutiu quando você foi embora de Holmes Chapel, mas-mas eu achei que estava tudo bem. Você não ficou brava, ficou?

- Não, Harry. Você não fez nada. E não, eu não fiquei brava. ‘Tá tudo bem.

- Okay. Vai ver eu ‘tô carente mesmo. - Admitiu.

- Pois é! Cadê o seu amiguinho aí do Japão? - Provoquei, eu precisava agir como de costume.

- Você sabe.

- Sem chance para vocês?

- Sem chance.

- Sinto muito, H. Não queria te ver sofrer.

- Já falamos sobre isso. Você não pode me proteger.

- Porra, e eu não sei? - Falei brincando. - Vou te prender no meu apartamento e só te deixar fazer aparições públicas para trabalho, assim ninguém brinca com seu coração.

- Vou dá-lo para você. Tenho certeza que você vai cuidar dele e dos meus sentimentos.

- Harry, nem brinca com isso. - Gargalhei petrificada.

Isso só poderia ser algum tipo de piada do universo. O que eu fiz para merecer isso? Hein? Eu sou uma pessoa legal. É divertido para quem quer que seja ficar jogando essas ironias na minha vida? Porque olha, não ‘tô achando graça.

- Não é brincadeira. - Riu também. - Sabe o que eu ‘tava lembrando mais cedo? - Mudou de assunto repentinamente.

- O quê?

- Daquele dia que estreamos seu carro.

- Que paramos perto da entrada do letreiro?

- Não, não o dia que buscamos. O dia que estreamos.

Eu engasguei ao entender sobre o que ele falava e tossi tanto que acabei o assustando.

- ? Você ‘tá bem? O que aconteceu?

- Na-nada, eu-eu... fui beber água e me engasguei.

Nossa! Essa foi a pior desculpa de todas.

- Você está bem?

- Sim, ‘tô bem. Pode falar.

- Então...Talvez eu esteja carente daquilo, com você. - Limpei a garganta, aproveitando a desculpa do engasgo.

Oh, todos os santos das fãs que se apaixonam pelos ídolos! Eu ia responder o quê? Eu estava entrando em COLAPSO. Como eu ia sequer beijar Harry se eu não conseguia nem olhar na cara dele através da tela do celular? Ou não conseguia nem ouvir ele falando sobre sexo. No carro. Comigo.

- Quando você volta?

- Na sexta. Podemos passar o fim de semana juntos... O que você quer fazer?

- Hummm, não sei. Achei que você já tinha escolhido... Sabe, um passeio no meu carro. - Dei de ombros, mesmo que Harry não pudesse ver. Ele riu, entendendo pelo meu tom de voz.

Eu não podia dar outro corte, ele ia ficar mais desconfiado do que já estava.

- Eu ‘tô com saudade da minha amiga, não só do ‘escape’.

- Mas eu-eu... vo-você acabou de dizer que...

- Não ‘tô falando só de sexo no carro, eu quero aquilo, aquele momento. Você e eu. Quero esse seu sorriso cretino que sempre precede uma das suas implicâncias. Quero não ter que ficar limpando a marca do seu sapato do meu carro, porque quando você dirige não coloca o pé no banco. Sabe? É disso que eu ‘tô falando. Eu quero mais momentos como aquele. Com você. É disso que ‘tô carente. Do sexo também, é claro. Mas isso é só bônus.

- Pervertido. - Acabei gargalhando.

- Então, o que quer fazer? Qualquer coisa. Podemos ir num restaurante novo, ou só sair dirigindo por LA de madrugada, eu provavelmente vou estar com insônia mesmo por causa do fuso horário.

- Ah, eu não sei, Harold.

- Podíamos montar um quebra-cabeças! Ou jogar algum jogo de tabuleiro?

- Quê?! - Comecei a rir das ideias malucas.

- Só uma sugestão. Só quero passar um tempo com você, sabe? Compensar essas semanas longe nos últimos meses.

- Você chega na sexta?

- De manhã. Vou direto para a sua casa, tudo bem?



*


Eu tinha levado o presente dele até a empresa, porque eu sentia que não fosse vê-lo a não ser ali por um bom tempo. Eu não precisei procurá-lo, nos encontramos ainda pela manhã quando ele foi até a minha sala. Coincidentemente, ele também havia levado meu presente.

Assim que Henry pisou na minha sala e estava na minha frente, eu soube, eu soube que não poderia mais fazer aquilo, eu soube que precisava contar a ele que não queria mais nada.

Eu não conseguia me imaginar beijando Harry sabendo que agora escondo meus sentimentos por ele e aparentemente eu não conseguia ficar com mais ninguém porque eu só conseguia pensar em Harry. Ótimo, esse era o momento em que eu ficaria sozinha? Preciso começar a adotar gatos.

- Você fez falta aqui depois do natal. - Falei ao abraça-lo.

Tudo o que eu sentia em relação a Henry estava muito mais claro agora. Era por isso que eu só consegui considerar a possibilidade de estar com ele depois de ter sido influenciada, porque por mim mesma eu nunca pensaria nisso, e era simples... Eu não estava apaixonada por ele, nunca estive. Podíamos nos dar bem como fosse, ter essa absurda atração e desejo um pelo outro, fora o fato de gostar de estar em sua presença. Mas era só isso.

Talvez isso também tenha me confundido, eu nunca achei que meu relacionamento com Henry fosse parecido com o meu com Harry, em nenhum aspecto, porque sempre achei que meu relacionamento com Harry fosse apenas amizade e com Henry sempre foi um interesse físico, desde o primeiro momento.

- E você fez falta antes do natal! - Henry rebateu.

- Como foram os feriados? Como estão as crianças?

- Você não vai acreditar se eu te contar... que ceamos juntos no natal... Nós quatro!

- “Nós quatro”, com sua ex?

Era óbvio que sim.

- Você acredita?

- Meu Deus, isso é ótimo, Henry! Como isso aconteceu?

Eu sabia que Henry e a mulher se davam relativamente bem, mas eles sempre revezavam os feriados, nunca passavam juntos. Era no mínimo de se estranhar.

- Você se lembra que mencionei que os levaria para a casa da mãe porque esse ano era vez de jantarem com ela? - “Uh-hum”, eu murmurei. - Quando chegamos lá... Ela me convidou para entrar, pela primeira vez.

- E você?

- Eu entrei! - Deu de ombros. - No começo foi um pouco esquisito, mas foi bem divertido.

- Imagino o quanto você deva ter ficado chocado na hora.

- Você não faz ideia! Mas as crianças ficaram felizes de estarmos reunidos. Acho que foi bom para eles.

- Henry, posso te dizer uma coisa? - Perguntei ficando séria.

- O que foi? Aconteceu algo? - Eu comecei a rir.

- Não! Essa é a minha cara de quem está prestes a se intrometer na sua vida. - Ele riu também.

- Ah! Pode falar. - Respondeu e eu concordei com a cabeça.

- Você voltaria com ela? Se pudesse?

Henry hesitou. Não sei se ele gostou da pergunta.

- Está com medo de ficar sem mim? - Brincou numa tentativa não muito acertada de descontrair.

- Não, bobo! Mas não seria bom se vocês pudessem fazer tudo juntos de novo?

- Seria perfeito! Sinto falta de estar mais tempo com meus filhos às vezes.

- Não só por causa dos seus filhos. Eu tenho a impressão de que você ainda a ama..., mas o que eu ia dizer é: Por que vocês nunca tentaram de novo?

- Eu-eu não sei. E também não sei como poderia fazer isso ou por onde começar.

- Eu posso te ajudar! - Henry riu. - É sério, Campbell! - Reforcei, falando mais sério dessa vez. - Quero dizer, ela ter te chamado para passarem o natal juntos... Isso quer dizer alguma coisa, não quer? E eu acho que ela ainda te ama também!

- É muito estranho falar disso com você! - Deu uma risada constrangida por fim. - Você está se oferecendo para me ajudar a reconquistar a minha ex esposa!

- Eu gosto de você, Henry. Mas eu acho que você já deve saber que eu não gosto de você desse jeito.

- Eu sei.

- E eu também não acho que você goste de mim assim.

- Eu sei. - Repetiu em um suspiro.

- Eu acho... Eu acho que estou apaixonada pelo Harry. - Admiti.

- Agora conta a novidade. - Revirou os olhos e me deu um sorriso irônico.

- Sempre foi tão óbvio assim? - Henry balançou a cabeça em um “sim”. Dessa vez fui em quem suspirou.

- Ei! Que desanimo é esse?

- Eu não acho que o Harry goste de mim desse jeito, Henry.

- Vocês já conversaram sobre isso?

- Esse é o problema! Ele sempre encontra um jeito de enfatizar que somos só amigos. E quero dizer, somos mesmo. - Dei de ombros.

- Mas vocês não ficam? Como ele pode não gostar de você de outro jeito? - Dei de ombros de novo. - Você é incrível e ele é um idiota se não percebe isso. Você é uma das mulheres mais inteligentes... - Levantou uma mão e começou a contar nos dedos. - Independentes, bem resolvidas, gentis e altruístas que eu já conheci.

Abaixei o olhar um pouco sem graça pelos elogios.

- Ele é apaixonado por outra, Henry.

- Bem, isso é um problema. - Ele concordou com a cabeça. - Mas você deveria falar com ele.

- O quê? Nunca! Eu nunca vou dizer nada.

- Como não? Você precisa contar.

- Temos um trato implícito desde o começo de que somos só amigos e que não confundiríamos as coisas ao começarmos a transar. E se eu disser algo e estragar tudo? Não quero o perder, perder sua amizade. Eu prefiro ser só sua amiga. É mais seguro. Não vou dizer nada.



*



- Não tem problema nenhum, ! Sei que estamos em fusos diferentes e fiquei muito feliz por você ter me procurado.

- Obrigada.

- Então, como estão as coisas?

- Estão bem...

- E o que você tem feito?

- Trabalhado. - A resposta curta veio precedida de uma risada nervosa. Os primeiros minutos na sessão sempre eram constrangedores para mim. - A , minha melhor amiga, tirou férias e veio para cá mês passado, foi bom matar as saudades. - Acrescentei, não adiantaria pagar sessão na terapia para ficar igual idiota e não responder devidamente.

- E o show do cantor que você ia?

Tinha esquecido que eu tinha contado até para as paredes que eu ia no show do Harry aqui em Los Angeles. Por que eu tinha que ser assim? Involuntariamente balancei a cabeça em negação.

- Você não foi? - Ela interpretou errado o meu sinal, que nem era para ela.

- Não! Eu fui, sim. Foi incrível. Na verdade, isso é meio que o motivo pelo qual precisava muito conversar.

- Me conta o que aconteceu.

- Então, eu fui no show do Harry Styles e ele mora aqui em Los Angeles, né? Tem um monte de famoso aqui, na verdade, e é engraçado, porque você vai nos lugares e tem famoso sentado assim, casualmente... Outro dia eu fui com uma colega de trabalho almoçar perto dos estúdios Paramount e aquela mulher que faz os filmes dos vingadores, Scarlett Johansson estava sentada duas mesas atrás da gente. - Falei tudo em um fôlego só.

- E ninguém a interrompeu?

- O mais bizarro é isso, o pessoal aqui está tão acostumado que nem ligam. Alguns ficam tirando umas fotos de longe, mas só isso.

- E o Harry Styles?

- O que tem ele?

Eu estava meio que desviando o foco da conversa mesmo sem querer. Mas eu precisava falar logo antes que eu realmente passasse a desviar do assunto por querer e desistisse de vez.

- Onde ele entra nessa história?

- Ah, é! O Harry... Longa história, mas somos amigos agora.

- É mesmo? E como isso aconteceu?

Contei uma versão resumida de como fiquei perdida em West Hollywood, sobre o show e o boliche.

- E então uma coisa levou à outra e viramos amigos. Tudo graças a essa facilidade de encontrar pessoas famosas por aqui. - Brinquei.

- E como ele é?

- Ele é incrível! Um amor de pessoa, super humilde. A gente se dá super bem, na verdade, não sei como ele me suporta, porque eu fico dando ataques de fã quase todos os dias. - Dei uma gargalhada. - Vou te mostrar algumas fotos nossas.

Peguei meu celular e abri a galeria, procurando primeiro pelas fotos mais antigas.

- Essa foi no show. - Tentei enquadrar a tela do celular na pequena câmera do notebook. Quando ela assentiu, voltei a procurar por outra foto. - Essa aqui é de quando fomos ao boliche. - Mostrei do mesmo jeito que tinha feito. - Essa foi no natal. Fomos para a casa da família dele, na Inglaterra. - Era uma das fotos que Anne tinha tirado. - Essa é a irmã dele e o namorado dela.

Eu tinha um monte de fotos aleatórias, umas de Harry fazendo caretas, outras dele tocando violão na minha casa, ou piano na casa dele, umas selfies nossas deitados de cabeça para baixo na cama, claro que essas eu não mostrei. Um monte de fotos dele no Japão, fotos dele na mesa de algum restaurante junto com algumas minhas que ele tirava bem na hora que eu estava mastigando a comida... Minha galeria estava lotada com o rosto dele.

- Acontece que de uns meses pra cá, eu ‘tô tendo um mesmo sonho repetido com ele.

Contei o sonho com todos os detalhes, enfatizando como às vezes algumas frases de Harry mudam, mas ele parece sempre pronto para ir embora, porque sabe que eu escondo algo dele e que eu deveria contar. Embora eu não soubesse o que era.

- Hum... - Angela ficou pensativa. - Interessante.

- Interessante? Como assim?

- E por que você acha que está sonhando especificamente com ele dizendo que você demorou e ele ficou te esperando? Esperando por quê? Pelo quê?

- Não faço ideia.

- O que você acha do Harry?

- Ah, isso que já falei, ele é um cara legal, somos super amigos... Ele me atura.

- Por que você diz que ele te atura? Você acha que ele não gosta de você?

- Não, não é isso. Acho que se somos amigos é porque ele gosta de mim também. - Soltei um risinho. - Mas deve ser chato para ele, porque eu fico cantando suas músicas o tempo todo no em seu ouvido.

- E o que ele diz quando você faz isso?

- Ele finge que não gosta, mas canta junto. - Ri de novo. - Ele é muito educado para me mandar calar a boca.

- Como você se enxerga nessa relação? Como você se sente sobre ele?

- Não sei, como assim?

- Você disse que vocês são amigos, mas ao mesmo tempo que ele só te atura. E você, também o atura? Ou você gosta de conviver com ele, gosta do jeito dele?

- Ele é meu ídolo. - Respondi num riso como se fosse uma obviedade. - Eu adoro tê-lo por perto.

- Então é isso que ele é para você? O ídolo que atura a fã, no caso você?

- Não! Por que você diz isso?

- Foi você quem disse, só estou confirmando. Você ainda não me disse como se sente sobre ele. Vocês são só amigos? Ou tem algo a mais? Além de ele te aturar e você o idolatrar.

- Não é que eu o idolatre. - Me justifiquei. - Eu sou fã do trabalho dele, só isso. - Dei de ombros.

- E o que mais?

- Não sei.

- , vou ser um pouco mais direta aqui, tudo bem? - Assenti. - Nunca rolou nada entre vocês? Pelo menos um interesse da sua parte? - Eu torci a cara e olhei para baixo.

- Isso importa? Não acho que seja relevante pra questão do sonho.

- Claro que importa. Todos os detalhes são relevantes.

- A gente fica... às vezes.

- Às vezes? Com que frequência?

- Ultimamente em quase todas as vezes que a gente se vê.

- E qual é a frequência que vocês se veem?

- Quando ele está em LA quase todos os dias.

- E onde ele está agora?

- No Japão. Ele volta na sexta.

- E você vai vê-lo?

- Uh-hum.

- Ok. Então vocês são amigos coloridos?

- Acho que sim.

- E o que você pensa sobre isso?

- Eu acho, sei lá, normal?

- Para você tá tudo bem ser a amiga que ele procura quando quer? - Dei de ombros, confirmando. - E você sonha com ele especificamente dizendo “não posso te esperar para sempre.”? - Concordei de novo. - E o que você acha que isso quer dizer?

- Não faço ideia.

- E quando ele diz “Não posso esperar para sempre para saber.”?

- Que ele pode arrumar outra pessoa e eu perder a chance?

- Você acha isso? Lembre-se, você que sonhou, não foi o Harry quem disse. O que você precisa saber?

- Não sei. Eu sonho com isso há meses e eu nunca o vi mais do que como amigo... Até semana passada.

- Por que até semana passada?

- Porque semana passada eu percebi que estava apaixonada por ele.

Quando percebi, já tinha falado. Eu estava assustada com a facilidade que meu inconsciente tinha fixado essa ideia e a facilidade que a minha boca dizia essas palavras em voz alta.

Angela assentiu devagar. Como se não fosse nenhuma informação nova.

- Bem, então acho que você já sabe o que precisava saber. E isso explica algumas coisas.

Parecia tão óbvio agora que ela havia praticamente me entregado tudo mastigado. O meu sonho não queria me avisar que Harry precisava saber de algo, e sim que eu precisava saber o que estava sentindo, para, assim, saber o que fazer e agir. Eu precisava descobrir que eu estava apaixonada por ele, ou, aparentemente segundo meu sonho, parar de me enganar. E eu que mal conseguia mentir nas situações mais bobas, me percebi sendo uma excelente atriz, daquelas que mentia para si mesma ao ponto de realmente acreditar.

In a black dress, she’s such an actress.

- Tipo quais?

- Bem, você disse que está apaixonada por ele, certo?

- Sim.

- E o que ele acha disso? - Neguei com a cabeça.

- Ele não sabe.

- Por que não? Você acha que ele te corresponderia?

Neguei com a cabeça tão rápido que senti o quarto girar.

- Não, ele não corresponderia.

- Como você sabe?

- A questão é que ele não gosta de mim assim.

- Ele já te disse?

- Nunca disse que não gosta de mim, mas já me contou de outra pessoa que é apaixonado.

- E isso impede que ele goste de você?

- Eu acho que sim.

- Por que você acha que isso impediria? Você acha que não podemos nos apaixonar por duas pessoas ao mesmo tempo?

- Ah, eu não sei.

- Como você se sente com a ideia de que ele goste de você também?

Psicólogos e suas habilidades de analisar as pessoas era um inferno, né.

- Eu acho que você tem medo de ser correspondida, agora a questão é, por quê?

- Ele é o Harry! - Respondi.

- E o que isso quer dizer?

Dei de ombros.

E um novo questionamento me surge: Quem é Harry Styles para mim? Ele é meu ídolo? Meu amigo? O cara por quem estou apaixonada? Ele é tudo isso? Dá para ser tudo em um só? Ele não é nada?

Eu não consigo discernir a forma como o enxergo por que tudo está embaralhado agora.

- Eu não sei. Não quero falar mais sobre isso. Preciso pensar.

- Tudo bem. - Angela concordou. - E como as outras coisas vão? Quando você me mandou mensagem, achei que quisesse falar sobre o seu irmão. Vai fazer um ano, não é?

Ah, não. Eu não queria falar disso também. Por que mesmo que a gente precisa encarar como nos sentimos sobre as coisas? Não dá só para ignorar tudo?



*


Todos os gerentes que tinham pegado folga no fim do ano foram voltando a trabalhar aos poucos durante a primeira semana do novo ano. Eu tinha quase certeza que as datas tinham sido calculadas para que fosse possível ser feito o coquetel do ano bem na sexta, naquela semana como sendo uma substituição ao famoso “happy hour”.

Eu já sabia há algum tempo sobre essa reunião de staff que era feita todo início de ano, na qual eram estabelecidas as novas metas para o novo ano, assim como verificação do fechamento do ano anterior e, para ser sincera, também era um motivo para todos os gerentes encherem a cara de bebidas caras numa festa bancada pelos donos da empresa.

Eu trabalhei pela manhã e fomos para o local logo após o almoço, Lucy ficou choramingando porque ela tinha que ficar para trabalhar enquanto Jane, Henry e eu íamos para o coquetel encher a cara com desculpa de reunião. Eu fiquei com dó dela, porque eu também já tinha sido estagiária, mas se ela seguisse carreira, em alguns anos também estaria enchendo a cara nos coquetéis disfarçados de reuniões de negócios.

Fomos parar nesse lugar que era uma espécie de café com ar de pub e que foi locado exclusivamente para a reunião, bem na beira da praia em Venice com uma vista maravilhosa. Alguns barmen já estavam a postos quando chegamos, prontos para preparar as bebidas. De cara eu pedi um Martini, aproveitando o oferecimento dos donos. Jane teve que ficar nas bebidas não alcoólicas, isso que dá ficar grávida.

Num primeiro momento, realmente falamos sobre metas para o próximo ano, mas de uma maneira muito mais informal do que pensei, como se realmente fosse uma conversa de bar. Não demorou muito mais que uma hora para que os assuntos destoassem completamente disso.

Eu não bebi muito, porque precisaria dirigir para ir embora. E sei que o certo é não beber nada, por isso só me hidratei com água depois das 16h para que não ficasse com a consciência pesada. Nos meus dias usuais de trabalho, eu chegava em casa as cinco e pouco, porém nesse dia eu me atrasei um pouco mais de meia hora.

Eu estava exausta quando cheguei em casa. Subi pelo elevador já me imaginando no banho e pensando no que eu pediria para comer. Eu abri a porta do meu apartamento com facilidade e não me assustei ao encontrar Harry de costas sentado no sofá e a TV ligada; afinal, ele tinha uma cópia da chave do meu apartamento desde que a troca da fechadura foi feita.

- Ah, oi! Esqueci que você vinha para cá hoje. - Eu disse fechando a porta atrás de mim.

- Ei, ! Como foi o traba... Uau! - Ele interrompeu a própria fala ao se virar para me encarar. - Você está gostosa! - O comentário me fez gargalhar. - Por que está de terno? - Perguntou enquanto se levantava e encontrava comigo no meio do caminho entre a porta e o sofá para me dar um abraço acalorado.

- Primeira reunião do ano. Fomos num coquetel bancado pelos donos da empresa, um monte de gerentes daqui e das outras filiais da Califórnia. - Expliquei com desdém. - Sabe como é.

Não, ele não sabia. Era uma realidade que não fazia parte do mundo de Harry.

- Você deveria se vestir assim mais vezes. - Ele ainda me segurava em seus braços, ainda que a uma distância em que conseguisse me olhar dos pés à cabeça.

- Do que você está falando? Eu vou trabalhar assim todos os dias! - Gargalhei.

- Mas você não usa o blazer, usa? Você usa uma calça social e uma camisa, e olhe lá, porque eu já fui te buscar e você estava de jeans, tênis e uma camiseta minha.

Eu ri de novo, porque era verdade. Tinha vezes que eu tinha preguiça de me vestir, então, em algumas sextas-feiras quando Sr. Stein não estava na empresa, e eu geralmente não tinha nada importante marcado, como reuniões ou visitas de clientes ou fornecedores, eu me dava ao luxo de ser um pouquinho flexível no dresscode. ‘Tá, eu me dava ao luxo de ser totalmente flexível, um pouquinho eu já era todos os dias me recusando a usar o terno completo.

- Só uso quando está frio.

- Então, deveria se vestir assim mais vezes, te dá um ar de mulher de negócios super sexy e eu já ‘tô excitado só de falar.

- Mas eu sou uma mulher de negócios! - Rebati junto com outra gargalhada.

- Claro que é. Mas o visual ajuda na imaginação. - Eu não conseguia parar de rir, para mascarar que estava um pouco constrangida também, porque era como se Harry me despisse com os olhos.

- Tudo bem, vou trocar as suas camisas velhas pelos ternos.

- Também não precisa ser radical assim. - Voltou atrás. - Quando puder usar jeans e minhas camisetas para trabalhar, use, mas quando eu for te buscar depois do trabalho, vá de terno.

- Sim, senhor! - Bati continência e ele só revirou os olhos.

- Não que eu esteja mandando no que você vai vestir, é claro. - Se apressou a falar. - Você veste o que quiser. Só estou dizendo que adoraria te ver assim mais vezes.

- Uh-hum. - Murmurei com um meio sorriso.

Soltei suas mãos e caminhei para dentro de casa, indo em direção ao quarto para deixar minha bolsa.

- E como você se esqueceu que eu estava no Japão e chegaria hoje de manhã? - Harry retomou o assunto num tom ofendido enquanto ia atrás de mim até o quarto.

- Eu me lembrava que você vinha hoje. Só me esqueci em algum momento durante essa tarde. - Expliquei.

Assim que guardei a bolsa dentro do closet, encostei as costas na porta, me virando para Harry que tinha parado na porta do cômodo.

- Senti sua falta. - Atravessou o quarto e se aproximou de mim. - Você demorou a chegar hoje.

Encarando os olhos sempre atentos de Harry pela primeira vez depois de tudo, eu quis dizer que o amava. Mesmo que nos dias anteriores eu não soubesse como eu o encararia, ali, naquele momento, eu sabia que mesmo assim havia sentido a sua falta, mesmo que o meu coração estivesse vivendo no paradoxo entre esperar por seu retorno e não querer o ver nunca mais, no fundo, eu mal podia esperar para vê-lo de novo. Eu quis dizer o quanto eu o amava e também o quanto senti sua falta e o quanto o queria por perto, o quanto eu tinha medo de tudo o que eu estava sentindo e das consequências que aquilo trazia para a minha vida, também quis perguntá-lo se saber sobre os meus sentimentos afetaria a sua vida ou se simplesmente não seria relevante o bastante para mudar algo para ele. Será que ele colocaria a cabeça no travesseiro e pensaria: “A está apaixonada por mim, como isso nos deixará em termos de amizade?” Ou se ele deitaria a cabeça no travesseiro e nem se lembraria disso, nem se preocuparia ao cortar os laços, uma vez que eu não pude não confundir tudo. Eu gostaria de saber, gostaria de perguntar. Porém, tudo o que eu disse foi:

- Eu também.

Harry abriu um sorriso, as covinhas aparentes, e eu não pude fazer nada além de sorrir de volta.

- Eu vou tomar um banho, porque estou morta. Estava pensando em pedir algo para comer, o que acha? - Não é que eu queria mudar de assunto, mas veio a calhar para o momento.

- Eu ia perguntar se você queria sair para comer tacos, mas acho melhor pedirmos, não é?

- Seria ótimo, H! Podemos sair amanhã, tudo bem?

- Claro! Como você quiser. Pode ir para o seu banho que eu cuido dos pedidos.

- Obrigada! Você é o melhor!

- Eu sei. - Piscou e, num movimento rápido, deu um beijo no meu pescoço que me arrepiou imediatamente e fez meu coração acelerar. Então saiu do quarto, sem que eu pudesse reagir.

- E muito modesto também! - Gritei tardiamente e ainda pude ouvir sua risada.

Enquanto deixava a água fervendo cair nas minhas costas de modo relaxante e agradável, eu me perguntava por quanto tempo conseguiria agir de uma maneira que beirasse o normal, eu estava me esforçando muito para tentar ao menos ser como sempre fomos, mas eu não sei se seria convincente. Em alguns momentos a conversa fluía e eu chegava até a pensar que tudo ficaria bem e eu conseguiria esconder, mas, em outros momentos, atingíamos níveis de conversa que me deixavam desconfortável o suficiente para estragar tudo em um piscar de olhos.

Milhares de pensamentos passavam pela minha cabeça ao ponto de fazê-la doer. Eu sai do banheiro e procurava uma roupa ainda com tudo pairando sobre mim, aquela grossa e pesada nuvem preta que anuncia um verdadeiro temporal. Como se tudo estivesse prestes a desabar e, dessa vez, em cima de mim.

Ainda dentro do quarto, adiando de propósito o momento em que encararia Harry de novo, sem saber como eu conseguiria passar o resto da noite com ele, eu ouvi a campainha do apartamento tocar. Estranhei um pouco, porque ninguém vinha até a minha casa, pelo menos não sem avisar, só Harry, mas ele já estava ali. Eu ri do pensamento e caminhei até a mesa de cabeceira, checando o celular, só para ter certeza que não era nenhuma das minhas amigas.

Quase no mesmo momento em que larguei o celular no mesmo lugar, uma batida na porta e o meu “entre” revelou Harry, eu estava só de calcinha e começava a vestir uma camiseta.

- Tem um cara na porta querendo falar com você. - Fiz uma careta de confusão, primeiro porque seu tom de voz estava sério/informativo e eu esperava alguma piada suja pelo fato de eu estar seminua, e segundo porque eu não fazia ideia de quem era.

- Será que é o Henry? Ele não viria sem falar nada. - Falei alto, mais para mim mesma do que para Harry.

Não fazia o menor sentido Henry vir na minha casa, primeiro porque ele só tinha passado aqui uma vez para me buscar e provavelmente nem se lembrava mais onde eu morava e segundo porque tínhamos entrado em consenso de que não ficaríamos mais juntos e ele tinha aceitado minha ajuda para reconquistar a esposa. Porém, Henry era o único homem que eu conseguia pensar além de Harry.

- Ele disse que o nome dele é Adam. - Harry respondeu à pergunta que não havia sido direcionada a ele.

- Adam? O que ele está fazendo aqui? - De novo outra pergunta retórica para mim mesma e então vesti o short de pijama que eu já tinha separado e sai do quarto.

- Eu falei que você estava saindo do banho, o convidei para entrar e disse que vinha te chamar. - Harry disse enquanto caminhávamos até a sala, eu assenti e agradeci.

Encontrei Adam sentado no sofá. O que ele estava fazendo aqui?

Assim que ele me viu, se levantou e veio na minha direção.

- Oi! - Forcei um tom de voz simpático e animado quando o cumprimentei com um abraço leve e um beijo no rosto.

Harry passou direto por nós e se sentou no mesmo lugar no sofá em que ele estava quando eu cheguei, de costas. Também pegou o controle e começou a zapear os canais.

- Oi, . Tudo bem?

- Tu-tudo e você?

- Tudo bem.

Uma pausa. Eu não sabia se soaria rude em perguntar o que ele estava fazendo ali. Ele abriu e fechou a boca algumas vezes enquanto alternava com sorrisos.

- Ahn... Será que podemos conversar lá fora? - Apontou com o dedão para a porta que estava atrás dele.

- Claro. Tudo bem. - Ele estava claramente desconfortável, talvez pela presença de Harry.

Assenti e fui para fora, sendo acompanhada por ele. Já no corredor, fechei a porta do apartamento e ficamos bem em frente a ela, eu ainda segurei a maçaneta por alguns segundos.

- Então, o que está fazendo aqui? - Acabei perguntando, mas logo depois dei um sorriso. - Desculpe estar sem jeito, é que não esperava te ver.

- Eu volto para casa amanhã de manhã, então tomei a liberdade de perguntar para a minha mãe qual era o seu apartamento, porque queria me despedir..., mas aquele cara que abriu a porta não era o Harry Styles? - Apontou para a porta fechada com uma expressão perturbada ao mudar o foco repentinamente, o que me pegou de surpresa.

- É, é sim. - Cobri a boca com o punho fechado soltando uma tosse desconfortável.

- Mas a gente... e-eu não sabia que você tinha namorado. - Comecei a rir. - Qual graça?

- Ele não é meu namorado; é meu amigo. - Quando eu disse isso, Adam arqueou uma sobrancelha e me encarou dos pés à cabeça.

- Entendi. - Falou por fim, apontando sutilmente para o meu pijama curto.

Eu não me senti nem um pouco ofendida pelo seu tom sugestivo. Nem mesmo eu acreditaria nisso se a situação fosse invertida. Harry estava casualmente na minha casa, atendeu a minha porta e eu ainda estava vestida como se estivéssemos prontos para dormir. Mas o que eu fazia ou como me vestia na frente dos outros era um problema meu e se ele não acreditava em mim era um problema dele.

- Achei até que tinha batido no apartamento errado, mas depois pensei que não tinha a menor possibilidade de ele morar nesse prédio e que deveria ser só um cara muito parecido. - Ele soltou um riso sem graça.

- Não mesmo. - Concordei rindo também.

- Eu também vim para perguntar se você poderia me passar seu número, pra gente conversar, quem sabe se ver quando eu voltar para cá.

- Adam... - Cocei a cabeça, constrangida. - Sabe o que é? Você é um doce e eu adoraria te passar meu número para que fôssemos amigos.

Pelo olhar desapontado de Adam, com certeza essa não era a resposta que ele esperava. Mas bem, o que ele poderia fazer, se não, aceitar?



Fechei a porta atrás de mim e dei um suspiro, quase me esquecendo de que Harry estava ali e que eu ainda teria que lidar com isso, com ele.

Eu preciso de férias da minha própria vida!

Mesmo que o sofá fosse de costas para a porta, Harry tinha o pescoço torcido e me encarava com uma das sobrancelhas erguidas. Me desencostei da porta ficando numa posição ereta e dando um daqueles pigarros que a gente acha que disfarça tudo quando na verdade só se entrega mais.

Levantei uma sobrancelha também e balancei a cabeça.

- O que foi? - Questionei.

- Nada! - Deu de ombros.

Ficamos em silêncios por alguns segundos, eu ainda processava o que tinha acontecido, perdida em meus próprios pensamentos, e Harry ainda me encarava.

- Quem era esse cara? - Me perguntou por fim.

- Filho da Elinor, minha vizinha.

- Que você passou o ano novo junto? - “Uh-hum”, eu murmurei. Harry abriu e fechou a boca algumas vezes, balbuciou alguns sons indistintos para mim, como se pensasse melhor no que dizer, como se pensasse melhor se diria ou desistiria.

- Ele não mora aqui, aí está indo embora hoje, veio se despedir. - Completei após alguns segundos de silêncio, quando vi que ele realmente não diria mais nada e só estava se embolando mais. Eu tentava não rir. Harry deu de ombros de novo e pigarreou.

- Vem aqui! Você está muito longe.

Automaticamente caminhei até Harry após seu pedido, parando na sua frente e abaixando a cabeça para encontrar seu olhar. Ele então segurou com as duas mãos nas laterais dos meus braços como apoio para se levantar, deixando nossos olhares mais alinhados.

Era 2019, a primeira vez que eu via Harry pessoalmente naquele novo ano e a primeira vez que o via em uma semana. Seus cabelos um pouco mais cacheados que o normal devido ao tamanho consideravelmente maior do que ele normalmente usava desde que o conheci, os olhos com o mesmo tom de verde cristal, o nariz com a pontinha fina que curvava levemente para baixo quando ele sorria agora estava empinado porque ele tinha uma expressão neutra no rosto. Desci o olhar em direção ao seu peito, ele usava uma t-shirt basicona, possivelmente vintage e que não deixava nenhuma das suas tatuagens do tórax à mostra. Levei a mão ao seu pescoço, puxando a corrente de prata até que revelasse o pingente que cruz, que soltei, deixando-o por cima da camisa.

Ele era exatamente o mesmo.

Encontrei o seu olhar novamente a tempo de ver seu rosto se aproximando do meu e logo senti o toque suave dos seus lábios nos meus.

Ele ainda era o mesmo. Mas não para mim.

Me afastei com um sorriso sem graça. A tempo de ainda ver seus olhos fechados por alguns segundos.

- Por que está me beijando? - Perguntei dizendo num tom descontraído.

- Como assim “por quê”? - Me olhou confuso.

- Do nada. - Harry pendeu a cabeça para um lado e soltou o ar num sorriso que se confundiu com uma bufada.

- Desculpa? Eu posso te beijar? - Eu ainda estava sendo segurada bem próxima de si.

Eu não esperava que ele fosse pedir. Como se nega algo do tipo? Como eu teria forças para negar algo do tipo para Harry?

Sem perceber, inclinei a cabeça sutilmente para baixo e depois para cima. Foi o suficiente para que Harry voltasse a colar nossos lábios e aprofundasse nosso beijo.

Num movimento rápido, me girou contra o sofá e lentamente me deitou ali sem quebrar o beijo, mais rápido ainda senti seu corpo pressionando o meu e, sem que eu percebesse, eu já estava presa entre ele e o sofá.

A mão de Harry que não apoiava as minhas costas, começou a deslizar pela minha perna, subindo pela parte de dentro da minha coxa e parando na minha barriga antes de deslizar para a lateral e pressionar a minha cintura com dedos precisos.

Eu travava uma batalha interna entre arfar ou me sentir desconfortável. Seus lábios, imediatamente ao partir o beijo, traçaram um caminho molhado até o meu pescoço e nuca, onde deixou outros beijos tão molhados quanto.

- Harry?

- Hum? - Os beijos desciam pela minha clavícula, quase chegando ao ombro.

- E-e-eu n-na-não ‘tô afim agora.

Minhas palavras fizeram com que Harry travasse no mesmo instante. Ele levantou a cabeça e me encarou.

- Aconteceu algo? - Neguei com a cabeça. - Foi aquele cara?

- O quê? Que cara? - Harry levantou a sobrancelha de novo, com um olhar de “você sabe”, eu nem estava mais me lembrando que Adam tinha ido ali. Eu não gostava desse Harry sarcástico, só era legal quando estávamos os dois brincando e nos provocando. - Não aconteceu nada. E não foi ele, ele só veio se despedir, eu já falei.

Harry concordou com a cabeça sem dizer mais nada e se levantou de cima de mim. No mesmo momento me sentei no sofá. Ele tirou o cabelo do rosto com uma das mãos e depois as colocou nos bolsos para ajeitar a calça.

- Tudo bem. - Deu um meio sorriso. - O que você quer fazer então? Quer jogar palavras cruzadas?


20. Would you wanna stay, if I were to say?

JANEIRO, 2019
Um mês e meio atrás




Eu nunca pensei muito sobre a morte.

É claro que pessoas sempre morrem, o tempo todo. E a gente vê sobre isso o tempo todo também, na tv, na internet, nos jornais..., mas eu nunca me deixei pensar mais do que o normal momentâneo quando sabemos da morte de alguém. Até André morrer.

Perder meu irmão foi a pior coisa que aconteceu na minha vida.

Era o meu aniversário de 25 anos. E eu só conseguia pensar que poucos dias atrás completava um ano que ele se foi.

As pessoas lidam com o luto de maneiras diferentes. Droga, uma mesma pessoa lida com vários lutos de formas diferentes. Eu lidei. Me lembro de anos atrás quando meu avô morreu, ou aquela tia que eu adorava. Em cada uma dessas vezes eu agi diferente, eu fui uma pessoa diferente.

Mas nada me preparou para perder meu irmão. Acho nada nunca nos prepara para perder alguém. Cada vez é como se fosse a primeira.

E tudo bem não estar preparado.

Tudo bem ser como o Louis, que foi para a balada com a irmã uns dias depois da morte da mãe. Ele estava destruído, dava para ver na cara dele. Mas ele fez o possível para que pudesse superar, ou suportar, ou talvez só tentar não morrer por dentro também.

E tudo bem ser como eu, que de forma alguma quero socializar ou fazer qualquer tipo de comemoração ao meu aniversário.

Era uma sexta-feira e eu não pretendia ficar em casa deixando que tudo isso me corroesse de dentro para fora. O trabalho me esperava. E trabalhar era o que eu queria.

Mas é claro que eu seria ingênua se acreditasse que Lucy simplesmente aceitaria que eu não queria fazer nada.

Ela tinha me mandado uma mensagem dizendo que se atrasaria e que eu deveria ir almoçar sozinha porque ela chegaria só depois que o almoço parasse de ser servido. Logo hoje, eu pensei. Henry também não poderia almoçar comigo, tinha uma reunião com um cliente e Jane tinha um treinamento. Okay. Eu almoço sozinha.

Foi o que fiz.

Estranhei o refeitório vazio de pessoas conhecidas. Estava cheio, como sempre, mas daquela sensação de estar ao redor de milhares de pessoas e, ainda assim, sozinho.

Talvez fosse porque eu fui um pouco mais tarde, inconscientemente esperando que Lucy chegaria em algum momento, mais cedo do que previu, dizendo que deu tudo certo com o que quer que fosse que a estava atrasando. Mas não aconteceu.

E foi então que voltei para trabalhar, já que não tinha ninguém para conversar e me fazer gastar o curto tempo do almoço. Eu abri a porta da minha sala, só para descobrir que todos estavam lá dentro. Todo mundo do escritório, os gerentes, Henry e seus vendedores, Lucy e Jane. Era por volta das uma da tarde. Eu nem sabia que tanta gente gostava de mim assim.

De repente fiquei feliz por Lucy não ter me escutado. Ela nunca escuta.

Havia alguns balões pregados num quadro que eu usava para traçar rotas, esquemas ou deixar recados para os motoristas e mecânicos. Meu monitor também tinha alguns balões pregados e a minha mesa e de Lucy tinham sido juntadas e formavam uma só, com bolo, salgados e refrigerante, no melhor estilo brasileiro.

- Meu Deus! Onde você arrumou coxinha? - Eu perguntei à Lucy enquanto a abraçava.

- Campbell quem comprou. - Ela sussurrou de volta no meu ouvido e, quando nos soltamos, eu olhei para Henry do outro lado da sala, com um copo na mão, ria de alguma coisa que o sr. Cooper tinha lhe dito.

Se eu pudesse, correria até ele e pularia em seu colo, dando-lhe o melhor abraço de urso que eu conseguisse. Quem ia imaginar que tudo o que eu precisava era de coxinha ou empadinha? Só Henry mesmo.

Agradeci a todos, alguns com abraços e outros com apertos de mãos. Sim, era esquisito, mas o pessoal aqui não era muito de abraçar, não. Deixei Henry por último e, sem me importar muito com o que falariam, dei-lhe um abraço breve, mas apertado.

- Soube que você encomendou as coxinhas. Onde você encontrou isso? - Eu estava incrédula.

- Eu tenho um amigo que a prima da esposa dele é brasileira. Ela tem um restaurante ou algo assim que vende isso no Brasil.

“Isso”, chamando coxinha de “isso”? Mais respeito, Campbell, pelo amor de Deus, coxinha é comida sagrada.

- Outro dia falou que era comida obrigatória nas festas de aniversários brasileiras, lembrei de você na hora. Ela veio passar umas semanas aqui, com o fim de ano e tudo mais, ela quem fez tudo. O bolo também.

- Henry... Eu não sei nem como te agradecer.

- Imagina. Você merece. E sei também o quanto gosta de comida. - Riu depois.

Será que Henry teria feito isso tudo sabendo que eu “terminaria” com ele?

- Claro que não, . - Foi a resposta quando perguntei discretamente se ele tinha encomendando antes de tudo acontecer. - Isso aconteceu depois, tipo, há umas duas semanas.

Então ele gostava mesmo de mim. Era um bom amigo, afinal.

Harry me ligou em algum momento da bagunça e eu saí sutilmente da sala, dizendo que ia ao banheiro para Jane, eu acho.

Ele tinha voltado para o Japão, mas tinha prometido que viria nessa noite para comemorar o meu aniversário, me levar para jantar ou algo assim.

- Olá, babe. - Foi como Harry me cumprimentou assim que atendi. - Feliz aniversário.

- Obrigada, H. Você está em conexão? - Estranhei um pouco a ligação, porque era supostamente para Harry estar em algum avião vindo para cá.

- Então, eu ‘tô te ligando porque não consegui embarcar.

- Como assim, Harry? - Respondi confusa.

- E vamos à saga dos “como assim”. - Brincou e eu revirei os olhos, os quais ainda bem ele não podia ver. - Está chovendo muito aqui, cancelaram alguns voos. O meu.

- Aí, não! - Exclamei desapontada. - Sério?

- , me desculpe. Eu acho que não vou conseguir ir. Não tem previsão para liberarem e, mesmo que eu conseguisse um voo direto, ainda são mais de 10 horas de viagem e eu precisaria voltar na segunda-feira se quero passar o meu aniversário aqui.

- Não! Não tem problema, H. Tudo bem. Fique aí, não se preocupe. A gente se vê quando você voltar.

- Se eu conseguisse um voo agora, mesmo que fossem duas escalas eu iria. Eu juro.

Era para Harry ter embarcado bem mais cedo. Deve ter ficado esse tempo todo esperando um voo.

- Eu sei que sim. Mas tudo bem, sério.

- Me desculpa mesmo. Você sabe o quanto queria estar aí com você, não sabe? Eu sei de tudo o que está acontecendo, imagino como você se sinta agora, por causa do André e tudo mais. Mas se você precisar de qualquer coisa, você sabe que pode me ligar, não sabe? A qualquer hora. Eu estou aqui para você. Conta comigo, por favor.

- Uns 50 mil na minha conta bancária resolveriam algumas coisas. - Descontraí.

- Não brinca com isso, porque você sabe que eu te mando esse dinheiro agora. - Gargalhou e eu o acompanhei.

- Eu brinco justamente porque você não leva a sério. Se você levasse, eu não poderia falar mesmo, porque senão seu dinheiro já estaria todo comigo.

- Meio difícil que todo o meu dinheiro estivesse com você. Mas alguns milhares, talvez.

- Ah, é. Você tem milhões. Eu me esqueço disso às vezes. - Respondi com desdém seguido de um riso.

- Te vejo mês que vem?

- Com certeza.

Assim que a ligação foi finalizada, ainda aguardei alguns minutos dentro do banheiro, pensando. Com certeza Harry me veria mês que vem, mais especificamente daqui uma semana, no dia de seu aniversário, porque o que ele não sabia é que eu estava planejando ir para o Tóquio, só por causa dele.

Acho que também foi por isso que não me importei muito de ele não poder vir, porque eu sabia que eu estava indo. Eu planejava ir somente para o fim de semana e voltar na segunda ou terça. Eu não tinha muitas horas para ficar mais tempo fora do que isso. E o sr. Stein meio que gostava de mim o bastante para me deixar ficar ausente bem no início do ano e tão próximo assim das minhas férias. Já tínhamos resolvido isso, eu tiraria 30 dias em maio, ficaria 20 no Brasil. Parece pouco, né? E é mesmo. Se eu pudesse ficaria 6 meses.

Voltei para a minha sala e pouco a pouco as pessoas foram indo embora. Tudo não durou mais de uma hora, afinal, todo mundo ainda precisava trabalhar.

De qualquer forma, Lucy não deixou que a festa acabasse por ali, insistiu para que saíssemos depois para comemorar o meu aniversário. “Mas já comemoramos com a festa surpresa”, eu disse. “Festa na empresa não conta”, ela respondeu. Depois de muito insistir e de muito eu negar, entramos no consenso que nada de baladas, no máximo o Happy Hour de toda sexta. Conforme o fim do expediente se aproximava, percebi que fui iludida de novo, pois acreditei que ela deixaria que eu fosse para casa depois do Happy Hour. “Chama mais alguém. Vamos jantar depois.”, foi o que ela disse, bem sutil, como se não fosse nada demais. Só uma sugestão inocente.

Jane topou na hora e ligou para o marido nos encontrar lá. Só faltava falar com Henry, então liguei para seu ramal.

- Não posso, é o meu fim de semana com as crianças.

- Leva eles. Só a Lucy e Jane que eu chamei, não tem ninguém demais e não tem mais nada a ver. Agora também não temos nada para esconder. - Completei e ri.

- Você quer que eu leve meus filhos de 11 e 15 anos para o bar?

- Se você for, a gente cancela o Happy Hour e vai direto para o restaurante.

- Só se eles quiserem ir.

Henry desligou avisando que me ligaria de novo quando falasse com as crianças. O que não aconteceu. Então supus que ele ficou muito ocupado ou não conseguiu falar com eles.

Como usual, fui para o estacionamento ao fim do expediente, Lucy ia de carona comigo, e Jane nos acompanhava porque nossas vagas ficavam todas próximas. O carro de Henry ainda estava lá quando cheguei. Em menos de cinco minutos ele apontou na porta de saída, corria.

- Oi! - Se aproximou ofegante. - Quase não te pego mais aqui. Não consegui ligar para eles, o sr. Smith apareceu na minha sala.

- O que dança ABBA? - Perguntei jocosa e ele riu negando com a cabeça. - Eu perdi mesmo essa festa?! - Reclamei fingindo chateação.

- Perdeu. - Henry falou.

- Uh-hum. - Jane concordou.

- Então, vamos? Você vai passar na casa da Kate para pegar as crianças? - Perguntei.

- Não, ela está vindo. - Arqueei uma sobrancelha para Henry e ele pegou o recado. - Vai chegar a qualquer momento. - Completou com um risinho.

Eu apostava meu carro que ela também estava tentando uma reconciliação.

Não mais que cinco minutos depois, ela realmente chegou. A mesma pose de sempre, cabelos esvoaçantes, salto 15cm e uma elegância inabalável.

- Oi, ! - Maddie foi quem chegou perto de nós primeiro, quase me derrubando ao me abraçar em um baque. O sr. Stein estava na empresa hoje, então eu estava propriamente vestida, e digamos que saltos tendem a me trair.

- Madison! - Ela gritou. - Olha os modos! Você quase derrubou a menina!

- Oi, Maddie. - Eu respondi um pouco insegura, olhando para sua mãe que não entendia nem um pouco o porquê de tanta afeição a mim.

- Oi, Henry. Oi, meninas. - Nos cumprimentou ao chegar perto. Tyler veio logo atrás e me deu um abraço também, acho que imitando a irmã.

- Desculpa! É que eu estou animada. - Respondeu à mãe - Você trouxe meu autógrafo?

- A-autógrafo? - Fiz uma careta para ela e encarei Henry, o qual deu um tapa na própria testa.

- Esqueci de pedi-la. - Henry explicou.

- Do que vocês estão falando? - Katherine perguntou o que rondava a minha mente.

- A Madison estava comigo em um dia que tivemos um problema na empresa. - Henry interviu com uma desculpa tão rápida que me surpreendeu.

- Eu falei com ela no telefone outro dia, mãe. Ela é namorada do Harry Styles.

- Oi? - Eu rebati imediatamente, mas fui ignorada.

- Meu pai disse que ela podia me arrumar um autógrafo.

Ah, você disse? - Eu olhei para Henry incrédula. Meu olhar dizia “Quando eu pedi para você se virar, não era isso que eu esperava.”, ele deu de ombros. Deve ter entendido.

- Ela não parava de falar dele depois que você soltou o nome.

Eu comecei a rir, não tinha o que fazer.

- Bem, eu não tenho um autógrafo agora, porque eu não sabia. Mas posso ligar para ele.

- O quê? Não, não precisa disso, . - Katherine interveio.

- Não, Katherine, não é problema nenhum.

- Pode me chamar de Kate. E obrigada. Ela o adora. Aquela banda toda.

- One Direction? - Maddie balançou a cabeça primeiro.

- Eu também. - Respondi rindo. E ela fez uma cara de “sério?”. - Uh-hum, eu conversei com o Louis pelo FaceTime outro dia. Foi incrível. - Contei em uma falsa tentativa de sussurrar e todo mundo riu.

Eu tentei fazer uma ligação para Harry naquele momento, mas ele não atendeu.

- É aniversário da , vocês querem ir? - Tyler deu de ombros, como tanto faz.

- Assim que Harry puder, ele vai me ligar de volta. - Falei para Madison, não que eu precisasse convencê-la de qualquer forma.

Katherine, que agora eu podia chamar de Kate, estava prestes a ir embora quando cutuquei Henry. Já estava na hora de colocar o plano em ação.

- Chama ela. - Sussurrei.

- O quê?

- Chama ela para ir! - Falei mais alto e ele finalmente entendeu.

- Kate! - Henry gritou numa decisão completamente impensada, fazendo com que ela se virasse assustada. - Quer ir conosco?

- Não, imagina, é o seu fim de semana com as crianças, além disso vocês vão comemorar um aniversário e eu não quero...

- Eu faço questão da sua presença. Vamos só jantar. - Intervi. - Se você não estiver ocupada, é claro.

- Tudo bem. - Ela sorriu cedente. - Então eu acompanho vocês.

Fomos em um italiano em West Hollywood mesmo. Eu estava morrendo de vontade de comer carbonara. Um vinho branco para acompanhar, alguma das pessoas que eu mais gostava e pronto, tinha uma receita de noite perfeita.

Jane não podia beber, ela já estava com por volta de sete meses de gravidez; isso foi motivo de piadas entre todos, que a comparamos aos filhos de Henry e Kate, que, logicamente, também não podiam beber.

Eu fiz questão que Henry e Kate se sentassem juntos de forma que parecesse que foi aleatório. Jane e Lucy sabiam que não estávamos mais juntos, mas ficaram um pouco confusas quando chamei Kate e mais ainda quando puxei as duas para que sentassem cada uma do meu lado, não deixando alternativa para o casal, senão, sentar juntos.

Foi ótimo ver os dois juntos, me deu uma ideia melhor do que achavam um do outro e de como era a dinâmica entre eles. Ela definitivamente ainda gostava dele também; não era muito difícil de perceber.

No decorrer do jantar, Henry me lançava alguns olhares como quem dissesse “acho que está dando certo”, ao passo em que eu sorria e meneava a cabeça discretamente.

- Vamos fazer um brinde. - Henry disse em determinado momento, o que chamou a atenção de todos. - Ao aniversário da .

- À . - Eu ouvi um a um repetindo enquanto erguiam suas taças.

Eu sorri encarando cada um dos rostos daquelas pessoas. Foi o momento em que mais senti falta de Harry na noite. Eu estaria mentindo se dissesse que não havia pensado nele durante todo o dia depois da ligação e, talvez, até antes disso. Eu queria muito que ele estivesse ali, por mais que eu estivesse rodeada de pessoas queridas e agradáveis, não era a mesma coisa sem ele, não era tão vívido.

Eu percebi ali, no brinde, que só faltava ele. Que onde quer que eu estivesse, se ele não estivesse junto, no meu coração sempre haveria um buraquinho vazio que só se preenchia com a sua presença.

E, puxa, como ele fazia falta.



*


Por um milagre, eu não acordei com dor de cabeça no dia seguinte, acho que não bebi o suficiente para isso, ainda bem.

Sábado, como de costume, eu desci até a lavanderia do prédio para lavar roupas, quando cheguei Elinor já me esperava. Ela sabia do meu aniversário e tinha me comprado um vaso com flores. Uma fofa, eu sei.

Passamos boa parte da manhã ali. Eu adorava esses momentos com ela, tínhamos ficado muito próximas nos últimos meses e estávamos ali quase todos os sábados e eu ia à casa dela pelo menos uma vez por mês para tomarmos chá. Eu me sentia bem com esse tempo que passávamos juntas, ainda mais porque ela já era mais velha e ficava sozinha. Eu não queria que ela ficasse sozinha e ao mesmo tempo ela também me fazia companhia. Não que eu me importasse em ficar sozinha, é claro.

Quando voltei para o meu apartamento, procurei imediatamente um lugar para deixar as flores, parecia que havia completado de forma única o ambiente, como se só faltasse aquilo.

Liguei o som e fui para a cozinha. O que eu prepararia para o almoço? Eu seria muito crucificada se fizesse macarrão de novo? Às vezes eu tinha a sensação de que só cozinhava macarrão, o que não era bem mentira. E parecia que era a única comida que eu sabia fazer, o que não era bem verdade. Dei de ombros e enchi uma panela com água. A campainha tocou.

“Estranho”, pensei. Eu não estava esperando ninguém. Nunca estava. Abri a porta dando de cara com a última pessoa que eu esperava ver naquele momento.

- Você gosta de Blues e Jazz? - Meus lábios formaram um sorriso para acompanhar o seu de covinhas.

Agora tocava “Feeling Good” de Nina Simone.

- “It’s a new dawn, It’s a new day, It’s a new life... (É uma nova manhã, é um novo dia, uma nova vida...)” - Puxei Harry pela mão já me mexendo ao som da música e fechei a porta.

- “...for me. And I’m feeling good (Para mim. E eu estou me sentindo bem)”. - E não hesitou em completar com sua voz sempre perfeitamente afinada.

Rimos e ele me abraçou.

- Feliz aniversário, Darling.

- Harry, o que você ‘tá fazendo aqui? - Eu o encarei com um sorriso de orelha a orelha.

- Você achou mesmo que eu perderia o seu aniversário?

- Mas, e a chuva? Como você fez?

- Não tinha chuva, pelo menos não no Japão.

- Co-como assim? - Ele revirou os olhos, eu dei um tapa em seu braço. O de praxe.

- Choveu, mas eu já estava no avião, tivemos que pousar em Dubai e aí cancelaram um dos voos... - Suspirou. - Uma longa história.

- Em Dubai? - Franzi o cenho.

- Uh-hum. No aeroporto de Qatar.

- Mas eu achei que você viesse do Japão para LA pelo oceano pacífico.

- Jeff me comprou uma passagem que vinha até San Francisco e aí teria que pegar outro voo para LA. Quando o avião teve que parar em Dubai, eu já sabia que não ia chegar a tempo ontem, então pensei em te pregar uma peça dizendo que não viria de jeito nenhum. - Sorriu cínico. - O bom é que de Dubai foi um voo direto. Fred me buscou no LAX não tem duas horas, ele me deixou direto aqui.

- Por isso você tocou campainha... - Comentei ligando os pontos. - Você se acha muito engraçado, não é?

- Eu acho que eu sou hilário. - Levantou as sobrancelhas duas vezes rápido. - Huh? - Deu um tapinha com as costas da mão no meu ombro.

- Idiota. - Revirei os olhos.

- Você ficou chateada porque eu não ia vir, não ficou?

- Eu? Não... - Levantei uma sobrancelha com desdém e dei as costas para ele, voltando para a cozinha.

- Pode dizer a verdade. - Insistiu quando já estávamos na cozinha.

Nem fodendo que eu admitiria isso. Eu já tinha admitido sentimentos demais pelo ano que mal havia começado. Eu tinha pelo menos uma média de 340 dias até precisar admitir algo de novo.

- Você é de verdade assim tão narcisista? - Isso fez com que ele gargalhasse.

- O que você está cozinhando, babe?

- Espaguete.

- De quê?

- Não sei ainda. Agora que você chegou, posso descartar à bolonhesa.

- Eu te admiro por isso, você sabe, não sabe?

- Pelo quê? - Encarei-o confusa.

- Por esse esforço em respeitar o fato de que não como carne.

- Harold, não é esforço algum!

- Tem razão. Essa sua facilidade em descartar qualquer coisa que contenha carne quando estamos juntos. Talvez eu não diga isso o suficiente, mas eu reconheço cada uma dessas vezes. Por mais que você sempre faça parecer como se não fosse nada. Obrigado.

- Imagina. - Dei de ombros. Para mim realmente não era nada de mais fazer aquilo. - Você deve estar cansado, quer tomar um banho?

- Quero. Não vou mentir, eu poderia dormir agora.

- Toma banho e dorme, quando ficar pronto eu te chamo.

- O aniversário é seu. Eu que deveria estar cozinhando para você.

- Você paga o jantar mais tarde. - Pisquei.

- Ah, com toda a certeza. - Piscou de volta.



- Então, já decidiu aonde quer ir? - Harry me perguntou pela milésima vez enquanto eu terminava de me arrumar.

- Você que mora aqui há anos, sabe os melhores lugares.

- Okay. O que você quer comer?

- Não sei. - Dei de ombros. - Têm tantas opções. - Ele revirou os olhos pela terceira ou quarta vez desde que começara a me perguntar sobre onde iríamos. - Que tal o Nobu? Acho que quero comida Japonesa.

- Sério?

- O quê?

- , é o seu aniversário e você está na Califórnia com um cara com uma conta bancária de 8 dígitos. E você quer ir ao Nobu?

- Não é qualquer cara. É Harry Styles, famoso e – enfatizei irônica, uma pausa dramática – com uma conta bancária de 8 dígitos.

- Só quero dizer que eu poderia alugar um barco na baia em Marina Del Rey. - Pensou um pouco. - Eu poderia alugar um jatinho e em uma hora estaríamos em Las Vegas ou qualquer merda assim.

- Nunca que você poderia alugar um jatinho e chegar em Las Vegas em uma hora. Esses trâmites de aluguel demoram.

- Você e sua racionalidade são umas estraga-prazeres, sabia?

- Não tenho culpa se você não sabe fazer cálculo. - Soltei um risinho.

- Pra sua informação, poderíamos, sim, estar lá em uma hora. Se eu já tivesse resolvido isso antes de chegar aqui.

- Harry!

- Estou brincando! Eu só queria deixar claro que você tem todas as opções que quiser aqui.

- Harry, desde quando eu me importo com fazer passeios chiques e exclusivos? Desde quando você acha que eu me importo com isso?

- Tudo bem, tudo bem! - Revirou os olhos, se dando por vencido. - Nobu será!

- Obrigada. - Irônica.

Resmungando eu terminei de me arrumar e saímos. Demorávamos uma hora da minha casa até Malibu. Até parece que chegaríamos em Las Vegas com uma hora. Bufei sozinha enquanto pensava nisso, Harry ao meu lado sentado no banco do passageiro nunca poderia imaginar o que se passava na minha cabeça naquele momento, tendo como única pista a cara feia que eu provavelmente estava fazendo. Tínhamos invertido os papéis hoje, ele sempre dirigia na ida para os lugares, mas por algum motivo, eu que o fiz. Talvez fosse porque estávamos no meu carro.

Eu entendi o que Harry quis dizer com ser o meu aniversário. Ir jantar com ele no sábado à noite era algo que sempre fazíamos, não tinha nada de “especial” ou diferente nisso. Era nossa rotina, era conforto. E era exatamente isso que eu precisava. Eu não precisava de grandes gestos ou de ir para lugares caros (não que o Nobu fosse barato, mas você entendeu o ponto.), eu não precisava de Harry gastando rios de dinheiro para me agradar só porque era meu aniversário. Talvez se não tivesse acontecido tudo o que aconteceu, eu até aceitasse o jatinho para Las Vegas, até porque era Las Vegas, né?! Porém, ao considerar a situação atual da minha vida, tudo o que eu queria era uma das minhas comidas favoritas e a companhia de Harry. Básico e sem muito drama.

Eu até cheguei a começar a explicar isso para ele enquanto esperávamos o manobrista nos estregar a chave do carro para irmos embora. Mas ele disse que não precisava. Ele entendia. Eu sabia que ele entendia e que também sabia exatamente todos os meus motivos.

- Ah, eu quase ia me esquecendo! - Harry disse ao parar o carro num semáforo. Tínhamos saído do estacionamento mais do que depressa. Nunca se sabe quando tem paparazzi e onde estão escondidos.

- Do quê? - Eu perguntei confusa.

- Abre o porta-luvas. - Pediu e assim eu o fiz, imediatamente localizando o que provavelmente seria para mim.

- Presente? Que horas você colocou isso aqui?

- Eu mesmo embrulhei. - Fez uma cara de convencido, a qual só consegui ver porque estava inclinada para bem perto dele.

- Agora eu realmente estou lisonjeada. Sendo colocada na mesma categoria que Louis Tomlinson e tendo meu presente de Harry Styles sendo pessoalmente embrulhado por ele mesmo?!

Eu ri um pouco da ironia de estar citando Louis pela terceira vez em assuntos completamente opostos em menos de 30 horas. Ele era meu exemplo para tudo mesmo. Incrível.

- Eu vou te bater! - Ele disse em um riso esganiçado.

- O quê? Primeiro ameaçador e agora agressor? - Brinquei, fingindo estar assustada.

- Ameaçador? - Rebateu confuso.

- É! Não pense que esqueci quando você queria se vingar de mim na casa da sua mãe.

- E me vinguei. E não aja como se você não gostasse de uns tapas. - Gargalhei.

- Desde quando tudo o que a gente fala se transforma em algo com cunho sexual?

- Tudo bem, não fui eu quem embrulhou. - Ele desviou o assunto.

- Merda! - Exclamei. - Não dá para competir mesmo com o Louis.

- Quer calar a boca e abrir logo?

Era uma caixa pequena, quase do tamanho de uma caixa de joia...

Arregalei os olhos e meu coração acelerou quando me dei conta. Era, sim, uma caixa de joia, era óbvio, e eu nem precisava desembrulhar o papel para ter certeza.

- Meu Deus, Harry! - Exclamei de novo. - Isso deve ter custado uma fortuna!

- Gostou? - Virou a cabeça por só um momento para ver minha reação.

- Depois disso eu duvido que você ainda tenha 8 dígitos no banco. - Ele gargalhou.

Eu desprendi a corrente fina muito delicada de dentro da caixinha, segurando-a bem próxima dos meus olhos para ver os detalhes.

Era um colar com dois pingentes bem pequenos, um era um morango e o outro um violão, ou talvez uma guitarra, eu não saberia distinguir. Tudo em dourado. Era a combinação perfeita entre o meu gosto minimalista, por causa dos pingentes delicados; e o de Harry, por causa da estética contida na sobreposição de dois pingentes num só cordão.

- Espero que goste de acessórios dourados. Quero dizer, também poderia ser prata, mas eu acho que dourado é definitivamente a sua cor. E você também pode usar um de cada vez se quiser, sabe, os pingentes. - Ele quase gaguejava.

- Eu amei, Harry. Obrigada. É perfeito.

Eu o ouvi suspirar aliviado.

- Então valeu a pena não ter mais os 8 dígitos. - Revirei os olhos.

Como eu poderia arriscar tudo isso? Eu nunca teria coragem. Ter uma pessoa como Harry por perto é como ganhar na loteria, com um prêmio numa quantia de 8 dígitos e tudo. Mesmo que fosse para ser sempre só a amiga.

Você permaneceria? Se soubesse de tudo o que eu tenho para te dizer? Se soubesse de tudo o que eu sinto por você?

- Você é um idiota, sabia? - Ele negou com a cabeça, mas não conseguia parar de rir. - Ah, você pode me dar um autógrafo?

Eu não poderia arriscar tudo. Falar pode ser um erro. O que você faria se soubesse, Harry?

- Um autógrafo? - Me perguntou confuso diante da mudança repentina de assunto.

Eu sou uma idiota.

Pessoas apaixonadas agem como tolos, mesmo.

- É. É que a filha do Henry descobriu que eu estava com você aquele dia no natal e ela o fez prometer que me pediria para te pedir um autógrafo.

- O Henry tem uma filha? - Harry perguntou num tom surpreso, mais porque não sabia disso do que pelo conteúdo da informação em si.

- Uma filha e um filho.

Eu não falava muito sobre Henry para Harry. Ele só sabia que ficávamos, sem muitos detalhes, não sabia quando, quantas vezes eu o via, nada disso. Eu também não comentava nada. Eu nem comentei que não ficávamos mais, também.

- Ela tem 15 anos. E consegue ser o reflexo perfeito da adolescente chata e menina adorável ao mesmo tempo.

Harry não questionou nada.

- Ahn, é claro. Você me lembra quando chegarmos em casa?

Concordei. Não estávamos muito longe, entrávamos em Hollywood já.

- Eu só vou fazer uma parada. Seu carro precisa abastecer. Mas fique longe do cupom de pagamento! - Me advertiu.

- Depois desse presente, eu deveria pagar o seu combustível pelo resto do mês.

- O mês acaba em uma semana, .

- Exatamente. - Pisquei e Harry caiu na gargalhada assim que entendeu.

- E eu achei que você estava sendo benevolente.

- Você espera muito de mim. - Gargalhei também.



Assim que Harry saltou do carro e estava fora da minha vista lá pela lateral o abastecendo, eu peguei minha bolsa que havia jogado no banco de trás. – Que, por ironia, Henry havia me dado de presente de natal. – De lá, retirei o presente de Harry; compacto o bastante para caber na bolsa.

Eu havia o trazido porque pensei que se já presenteasse Harry agora, o deixaria mais convencido de que não nos veríamos mesmo. Ele tinha tocado no assunto de me comprar passagens de novo outro dia. Da primeira vez, eu logicamente não levei a sério e pensei que ele só estava sendo educado porque eu tinha reclamado que não o veria bem no seu aniversário. Mas, dessa outra vez, ele sugeriu sem nem estarmos falando sobre o assunto. Por isso decidi fazer essa surpresa. Seria legal para mim também. Afinal, eu viajaria para o Japão. Incrível.

Encarei a pequena caixa em minhas mãos, apenas um pouco maior do que a que eu havia ganhado de Harry, enrolada num laço de cetim comprado numa lojinha qualquer. Eu já tinha aceitado o fato de que Harry sempre me superaria em questão de preços de presentes. Principalmente se ele continuasse sendo criativo assim. Eu duvido que exista algo tão específico quanto um pingente de morango e de violão quanto aqueles. Aquilo era algo personalizado, eu não tinha dúvidas, imediatamente me lembrei do violão com as minhas iniciais gravadas. Eu queria matar Harry ao pensar no preço que essa joia pode ter custado.

Enfim, voltando para o meu presente para ele... Apesar de saber que nunca o superaria em valor material, eu estava orgulhosa do valor sentimental que aquele presente reunia. Eu tinha selecionado algumas das músicas que costumávamos ouvir juntos, as que mais ouvíamos, ou as que eu mais gostava e também as que mais me lembravam de Harry quando eu ainda estava no Brasil e não o conhecia. Eu tinha feito um compilado de todas essas músicas e as reunido numa fita cassete.

Era uma mixtape.

Uma mixtape que consistia no Lado A: músicas internacionais; e Lado B: músicas brasileiras. Harry já tinha ouvido algumas músicas do Lado B, mas outras seriam inéditas para seus ouvidos. As do Lado A ele conhecia todas, provavelmente, embora algumas nunca tenhamos escutado juntos.

O lance da fita cassete era simples: Eu havia feito uma mixtape porque queria trazer de volta uma vibe meio anos 80/90 e, como Harry tinha vários carros antigos, era a minha versão de playlist só que do século XX, para que ele ouvisse dirigindo. Sim, acredite, existem carros que o som tem entrada para fita cassete. De qualquer forma, dentro da caixinha e junto com a fita, eu também coloquei toda a mixtape em formato de pendrive. Qual é! Eu não era tão oldschool assim para não ter uma cópia digital. E também, um bilhete. Ok, na verdade era uma carta. Eu também percebi que gostava de escrever bilhetes e entregá-los junto com presentes.

As músicas são as seguintes:

Lado A

Graceland – Paul Simon (A gente ama essa);

Scarborough Fair / Canticle – Simon & Garfunkel;

Sledgehammer - Peter Gabriel;

Vapour Trail – Ride;


Kiwi – Harry Styles (Essa não poderia faltar);

Feeling Good – Nina Simone (Já ficou na cara qual playlist eu estava ouvindo mais cedo quando ele chegou de surpresa?);

Rooms on Fire – Stevie Nicks (Ele ama essa, só entrou na fita por isso);

Do I Wanna Know? – Arctic Monkeys (Essa a gente faz karoakê no carro sempre);

Temporary Fix – One Direction (Essa só entrou porque eu gosto da ironia);

1950 – King Princess (Ele me viciou total nessa música);

Landslide – Fleetwood Mac;

What Makes You Beautiful – One Direction (Guilty Pleasure de Harry Styles, não poderia deixar de fora; eu mesma não suporto mais ouvir);

Sunflower, vol. 4 (demo) – Harry Styles; (Era mais uma gravação de áudio que ele me enviou por mensagens)

Count On Me – Bruno Mars (Trilha sonora da nossa amizade, pode entrar);

My Old Man – Joni Mitchell;

Atlas – Shannon Saunders;

Faith – George Michael;

Breathe (In the Air) – Pink Floyd;

I Don’t Wanna Miss A Thing – Aerosmith;

Don’t Stop Believin’ – Journey.


Eu poderia fazer parênteses em cada uma dessas músicas, mas acho que talvez fosse ficar chato. A verdade é que consigo pensar em pelo menos uma memória engraçada para cada música, algumas memórias com Harry, outras, sem ele.




Voltávamos de algum lugar que eu não me lembro onde agora, eu dirigia e Harry ficava trocando de música sem parar.

- Dá para você deixar uma música rolar inteira? - Eu reclamei, já irritada.

Nem tudo são flores, meus amigos. Para quem romantiza os nossos passeios de carro, talvez seja um choque descobrir que a gente briga sobre as músicas mais do que gostaríamos de admitir.

- Nossa, mas você está chata hoje. - Rebateu.





Eu acho que a gente tinha brigado por alguma outra coisa que também não me lembro. Só sei que ele não teria falado assim comigo se fosse só pela música.




- Se você tivesse me deixado escolher a playlist, isso não estaria acontecendo.

- Mas é você quem sempre dirige na volta e eu tomo conta da playlist!

- Bem, talvez devêssemos ter mudado hoje.

- Chata.

- Implicante.

- Azeda.

- Ah, cala a boca.

Eu tomei o controle do som da sua mão.

- Desisto. Acho que já ouvimos todas as músicas do mundo.

- Melodramático.

- Eu ‘tô tentando fazer com que a gente pare com a troca de ofensas aqui, .

- Você quem começou, Styles. - Debochei antes de dar de ombros.

- Muito madura.

- Essa fala é minha! - Ele suspirou. - Tudo bem, desculpa. - Eu cedi. - Por que a gente está brigando mesmo?

- Porque você é chata.

- Achei que a gente tinha parado de rebater ofensas um contra o outro. - Retruquei debochada.

- Desculpa, eu não resisti. - Ele gargalhou ao responder, mais descontraído. Bipolar, eu diria.

A gente nunca brigava de verdade sobre essas coisas bobas. Nada que durasse mais do que uma troca de farpadas inofensivas.

Levou o dedo nervoso até o som, apertando o botão de mudar de faixa. Dei um tapa em sua mão.

- Ouch! Sem me agredir, por favor.

Eu ia chamá-lo de dramático de novo, mas me distrai ao reconhecer o arranjo melódico extremamente familiar que saia através das caixas de som espalhadas pelo veículo.

- Por que está rindo? Você não conhecia essa música? - Harry perguntou confuso diante da minha mudança de humor.

Well, I guess it would be nice
If I could touch your body

- Não, eu conhecia. Claro que conheço! - Balancei a cabeça de um lado para o outro na horizontal, contendo um riso nasalado conforme a ideia da próxima implicância tomava forma em minha mente. - Eu só tinha me esquecido que você a tinha copiado na cara dura.

- Ei! Eu não copiei! - Estava ofendido.

- Harry, você tem uma frase exatamente igual na sua música.

- Foi só uma inspiração.

- Okay. Qualquer coisa que te faça dormir à noite.





O Lado B me trazia muito mais memórias de quando Harry era apenas um rosto num pôster na parede do meu quarto. Mas que eu, enquanto como qualquer outro ser humano, ainda sonhava e tinha esperanças. Entenda isso como quiser.

Lado B

Espatódea – Nando Reis;

O Leãozinho (ao vivo) – Caetano Veloso e Maria Gadú
(Eu fico cantarolando essa para ele, principalmente quando ele prende o cabelo em um topete com um prendedor);

Eu Te Devoro – Djavan;

All Star – Nando Reis
(Ele adora o título dessa);

Amigos Até Certa Instância – Jovem Dionisio (Essa só entrou porque eu gosto da ironia);

Que Estrago – Letrux;

N – Nando Reis;

Chamego Meu – ANAVITORIA;

Luz Que Me Traz Paz – Maneva;

Trevo (Tu) – ANAVITORIA e Tiago Iorc
(Demorei só cinco minutos – um recorde – para explicar o que significava “trevo” quando ouvimos essa música na primeira vez);

Por Você – Frejat;

Aonde Quer Que Eu Vá – Os Paralamas do Sucesso;

Pisando Descalço – Maneva;

Você Me Encantou Demais – Natiruts
(Uma das minhas preferidas);

Supera – Marília Mendonça (Desculpa, eu não resisti).

Eu sei. Talvez a parte em português seja bem romântica, mas temos que considerar que a maioria - não todas - das músicas eram ouvidas quando eu estava no Brasil e sonhava em conhecer Harry. Eu era permeada por toda aquela aura de endeusamento do ídolo e tal. Espero que minha justificativa seja suficiente para que isso seja relevado aqui. Eu juro que melhorei.

Três ou quatro memórias específicas tomavam destaque em minha mente. Era até difícil escolher só uma para contar.




O ano era 2013. Eu estava no último período de Design e no primeiro de Administração, que fiz em EAD para conseguir conciliar com meu trabalho na empresa. Eu ainda não trabalhava em logística e, por isso, não tinha me mudado para São Paulo. Trabalhava igual a uma cachorra e estudava mais ainda. Não que isso tivesse mudado ao longo dos anos, mas com certeza era pior.

“One Direction anuncia primeira turnê na América do Sul”, era o que a notícia dizia. Todo o twitter entrou em colapso. Eu precisava ir nesse show.

Foram dias de ansiedade em que eu dormia e acordava pensando nesses ingressos.

“E se eu não conseguir comprar?”

“E se eu não conseguir pagar?”

“Eu vou em São Paulo ou no Rio de Janeiro?” “Lógico que no que eu conseguir comprar ingressos”

Se meu pai me via sozinha em algum cômodo, ele fugia. Minha mãe me mandava calar a boca de cinco em cinco minutos. Ninguém aguentava mais me ouvir falando desse show que eu sequer tinha ingressos.

- Você vai conseguir comprar, não se preocupe. - André tentava me acalmar, ele era o único ali que me entendia minimamente.

- Você vai comigo?

- Não força a barra.

- Pô, André! O que custa?

- Eu vou estar ocupado.

- Como você sabe que vai estar ocupado? O Show é em maio do ano que vem!

- Porque qualquer coisa que eu fizer é mais interessante.

- Assim você me magoa.

- Sem chantagem emocional! Desculpa, mana, mas essa eu vou ter que recusar.

Tivemos vários diálogos parecidos com esse ao longo dos meses até a abertura das vendas dos ingressos. As vendas começaram à meia noite e eu passei o dia inteiro elétrica e a noite em claro por causa da adrenalina depois de conseguir comprar dois ingressos, Rio de Janeiro, uma quinta-feira.

“Dois?” Você deve estar se perguntando. Sim, eu consegui convencer André a ir comigo eventualmente.

O show ainda demoraria alguns meses. O show ainda demoraria alguns meses!!!! E eu fui ingênua, não contei com isso, não pensei na possibilidade. Eu não tinha informação do calendário da faculdade para a época ainda. E essa foi a minha rasteira.

O ano de 2014 chegou, muitas expectativas, recém formada em Design de Interiores e tinha ido para o segundo período de Administração, agora presencial. Eu já tinha começado a ser notada no trabalho, estava sendo delegada para algumas tarefas de maior responsabilidade. Os gerentes sabiam que eu estava estudando na área. Tudo caminhava perfeitamente bem.

As aulas começaram. As duas semanas padrão para aplicação de provas? Programadas justamente para a semana dos shows aqui e a semana seguinte. Eu tinha 20 anos. E, com o drama da adolescência ainda fresco em minhas veias, eu queria morrer.

Eu faltaria. Perderia a prova. Foi o meu primeiro pensamento.

Depois, comecei a raciocinar sobre isso. Eu poderia trocar o ingresso para São Paulo, sábado.

Mas eu precisava do fim de semana para estudar para a outra semana de provas que viria.

Eu faltaria à prova na quinta. Voltei a pensar.

E assim levei meu pensamento a trancos e barrancos pelos meses que se seguiram. O plano parecia perfeito. Eu pediria folga na quinta e sexta, viajaria quinta de manhã e voltaria na sexta à tarde, bem a tempo de ir para a faculdade fazer a prova do dia.

Parecia o plano perfeito. E talvez realmente fosse.

Até eu me ver afundando na matéria de quinta-feira. Sim, esse é o meu passado obscuro. Talvez eu não fosse tão nerd quanto aparentava ser, porque eu estava com uma dificuldade fodida de entender a matéria e as minhas notas estavam horríveis. Se eu perdesse a prova, eu reprovaria com toda a certeza.

Quando eu vendi meus ingressos, dois dias antes do show, eu estava deitada na minha cama olhando para o teto, chorava compulsivamente, me sentindo uma fraude como fã.

Por você eu dançaria tango no teto
Eu limparia os trilhos do metrô
Eu iria a pé do Rio a Salvador

Eu me declarava uma super fã e não tinha conseguido fazer nem isso por eles. Ir em um maldito show.

Eu aceitaria a vida como ela é





Eu achava que aquele tinha sido o pior dilema da minha vida até o ano passado. Incrível como ter um irmão morto muda drasticamente suas perspectivas.

Com o passar dos anos, acabei me perdoando por perder o show. Eu entendi que eu tinha feito algo por alguém: eu mesma. Eu aceitei a vida como ela é, assim como a música que eu tanto dedicava a eles dizia. Eu aceitei que as coisas deveriam ter sido daquele jeito. Assim como aceitei sobre André.

No fim, a prova realmente me salvou de repetir a matéria. Talvez se eu não tivesse a feito, talvez, não; com certeza isso teria atrasado minha formatura e teria causado um efeito dominó na minha vida profissional. Quais poderiam ter sido os rumos que o meu destino tomaria se essa decisão tivesse sido diferente? Talvez eu nem estivesse bem aqui hoje, em Los Angeles, sentada no banco do passageiro do meu carro dos sonhos, esperando Harry Styles abastecê-lo.

“Eu faria muita coisa por você.”, me lembrei daquela ligação que tivemos quando busquei Docinho no aeroporto. E me lembro de como escolhi bem aquelas palavras, porque eu realmente quis dizer aquilo. Porque eu faria muita coisa, desde que isso não custasse a minha carreira. E por isso, eu nunca poderia fazer “tudo”.

Eu não faria tudo por você, Harry, mas tudo o que eu fizesse teria sido decidido do fundo do meu coração.

Ele abriu a porta do carro.

- Você demorou. - Comentei.

- A balconista era uma fã. Meu Deus, como ela fala. Eu devo ter gravado vídeos mandando oi para umas quatro amigas diferentes.

- Ah, pobre coitado do Harry Styles. Como é difícil ser famoso. - Eu debochei e ele riu, desviando o olhar do meu rosto para a caixa nas minhas mãos pela primeira vez.

- O que é isso? - Perguntou curioso.

- Bem, já que não vamos nos ver no dia do seu aniversário, pensei em te dar seu presente de uma vez. - Entreguei a caixinha em suas mãos.

Como sempre o papel com o recadinho cobria o conteúdo ao fundo. Harry então primeiro pegou o papel, que era uma folha de caderno qualquer que eu tinha em casa e que estava dobrada ao meio. Quando abriu e viu que era longa, deixou-a em uma das pernas para ver o restante do conteúdo da caixa.

- Uma fita cassete? - Perguntou olhando o verso, no qual cuidadosamente escrevi cada uma das músicas separadas pelo Lado A e Lado B. - Você é a pessoa mais criativa que eu conheço. - Elogiou ao terminar de ler cada um dos títulos.

- É uma mixtape. Como as pessoas presenteavam músicas que gostavam e que lembravam quem elas amavam em algum momento uns 30 anos atrás.

- Excelente escolha de músicas. Apesar de eu não ter reconhecido metade das em português.

- Eu queria que você conhecesse algumas novas. O Brasil tem uma cultura linda.

- Eu tenho certeza disso. - Desviou o olhar da fita em seu colo e me encarou. - Obrigado. - Disse muito sincero. - Eu adorei de verdade. Minha mãe vai ter um problema para conseguir superar o seu presente. - Eu dei uma gargalhada.

- Fico feliz que tenha gostado. Eu escolhi seu presente de aniversário primeiro do que o de natal. Então eu fiz tudo com muito carinho.

- , melhor do que me comprar acessórios vintage, só fazendo algo a mão para mim. Sério. Você não poderia ter acertado mais.

Harry me puxou para um abraço, daqueles desengonçados, porque se você se esqueceu, ainda estávamos dentro do carro!!

- Posso ler agora? Você se importa? - Tinha pegado a carta de novo.

- Não. Vá em frente. - Eu estava ansiosa para que ele lesse, naquele papel havia uma explicação muito mais real e profunda para o motivo daquele presente.



Dear Harry,

Enquanto escrevo essa nota para você, eu penso sobre as músicas que eu escolhi para compor essa fita cassete (e o pendrive, que você já deve ter visto também. Na verdade, não sei quais dos seus carros antigos tem entrada para fita, mas sei que você tem um toca fitas em Londres, eu vi. ;) Mas fiz essa versão “digital” para você tocar as músicas enquanto estiver dirigindo sozinho algum dos seus carros antigos que não tem conexão bluetooth, e poder sentir como se eu estivesse com você lá!)

O que eu realmente penso sobre essas músicas é, na verdade, sobre o fato de como elas me fazem pensar em todas as nossas memórias juntos e também em todas as minhas memórias de um passado não tão distante, de quando você existia apenas nos meus sonhos. E agora, quando você não está por perto, mas sempre nos meus pensamentos.

Eu também penso sobre como essas músicas são importantes e significativas para outras pessoas e o que elas sentiram e ainda sentem, o bom e o ruim, enquanto as ouvem. Porque alguém uma vez me disse que sentir, seja o bom ou o ruim, é o que nos faz nos sentirmos humanos. ;)

Eu amaria ter escrito qualquer uma dessas músicas, porque elas realmente significam muitas coisas lindas para mim. E eu espero que elas sempre te façam tão feliz quanto me fazem.

Feliz aniversário e eu te amo.

Sua,
.

P.s.: Eu acho que essa nota virou uma carta.
P.s.s.: Eu espero que você goste de recebê-las. (quero dizer, cartas)




Eu poderia dizer que vi os olhos de Harry se encherem de lágrimas, mas não vou dar certeza.

- , eu não quero ir para casa.

- Por que não?

- Porque precisamos sair dirigindo pela cidade enquanto essas músicas tocam.

- Tudo bem. Então vamos! - Eu concordei com uma risada breve.

Ouvimos uma buzina e olhamos para trás ao mesmo tempo, os olhos arregalados, assustados.

Havia um carro esperando para abastecer.

Nós nos encaramos de novo e começamos a gargalhar.

- Vamos! - Harry confirmou, já dando partida.

E então só havia um pensamento em minha cabeça, como um déjàvu.

“Com você? Para qualquer lugar”.




Clique aqui para ler a parte 3



Nota da autora: OI, PODEROSAS!! Como estamos? Chorando em posição fetal? (não pela att, mas porque ontem foi um dia triste para todas as directioners que ainda sofrem pela bandinha morta, ou talvez pela att também; já que, COINCIDENTEMENTE, tem umas coisinhas sobre a relação da pp com a banda nesse cap). Mas enfim, a intenção da att era pra alegrar e deixar o coração quentinho depois de sofrer por... vocês sabem o quê (aniversário da saída de Zayn cof cof)

ENFIMM!! Não deixem de me dizer o que vocês acharam, pode ser aqui nos comentários ou onde vocês quiserem, sempre aceito teorias e adoro conversar sobre as possibilidades de MDD no meu pv do whats, só entrar no grupo aqui e pegar meu número. (ps: Sai MUITO spoiler, MESMO!) whatsapp ou facebook.
Sigam também a PP no instagram!! (ps.: Lembrando que a pp não tem forma física, então ela pode aparecer com várias aparências diferentes)
E também sigam a playlist com as músicas-título pra sempre ficar por dentro de qual vai ser a do próximo capítulo!

Mixtape do aniversário do Harry:
SIDE A
SIDE B

É isso! Até a próxima e beijinhos da Cam Vessato ♥

Outras Fanfics:
The Spaniards' Girl - Restritas, Cantores, Harry Styles, Shortfic
The Spaniards' Girl - The Dinner - Restritas, Cantores, Harry Styles, Shortfic
Just Another Hotel Room - Bandas, One Direction, Shortfic

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus