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Última atualização:30/12/2021

21. Do you think is easy being of the jealous kind?

FEVEREIRO, 2019
Um mês e meio atrás




A minha viagem para o Japão foi super tranquila. Comprei um voo com uma conexão, porque era metade do valor de um voo direto. Um absurdo, eu sei.

Era sábado, dia 02 no Japão e, portanto, oficialmente não mais aniversário de Harry. Ele e os amigos – todos do Japão – tinham montado praticamente um roteiro de coisas para fazer em seu aniversário, o final de semana seria todo de comemorações para ele.

Eu sabia qual era o nome do hotel que Harry estava ficando, porque ele tinha me mandado uma foto da entrada para eu ver como era bonito. Então reservei uma diária lá. A internet borbulhava de rumores de que a estadia longa de Harry no Japão era por causa de uma modelo, Kiko Mizuhara. Eu não sabia se era verdade ou não, então não queria tomar como garantido que eu ficaria no quarto dele. Até porque se ele estivesse com ela, eu não queria atrapalhar nada.

Eu não o avisei nem mesmo que estava indo, foi totalmente surpresa. Eu deveria ter filmado a cara dele quando abri a porta do quarto na casa de seu amigo. Harry tinha dormido lá porque aparentemente ele estava muito louco para ir para o hotel sozinho na noite anterior.

- Então você passou a tarde toda em uma cafeteria sozinho? - Perguntei, incrédula.

Harry estava me contando sobre como havia sido seu aniversário no dia anterior.

- Sim. Lendo Norwegian Wood.

- Como a música dos Beatles?

- Exatamente por causa da música dos Beatles. - Respondeu.

- E o que aconteceu com My Policeman?

- Já terminei. - Deu de ombros.

- E aí? Gostou?

- Definitivamente um dos meus preferidos que li ano passado. Por falar em livro, quando voltar para LA e eu for devolver o seu, quero te emprestar um.

- Qual?

- In Watermelon Sugar.

- Nunca ouvi falar.

- Foi através dele que descobri esse que estou lendo agora.

- E você gostou?

- Você não faz ideia do quanto. - Deu uma risadinha que não entendi muito bem o sentido. - É muito importante para mim que você leia esse.

- Como assim?

- Você precisa ler e depois eu te explico. - Fiz cara de confusa.

- Tudo bem. - Concordei mesmo assim. - E depois?

- Depois o quê?

- Depois que você passou a tarde toda sozinho?

- A gente foi jantar fora e fomos em um bar. Sabe aquele programa, Queer Eye? - “Sim”, respondi. - O Kizuku é amigo de um dos apresentadores, o Bobby.

Kizuku era o dono da casa. O que tem um cachorro com instagram.

- Qual é o Bobby?

- Um loiro. - Assenti. - Encontramos com ele ontem, que ficou de ir hoje de novo no bar que vamos. Ele é super engraçado. Daqueles que fica do seu lado zombando se você está bebendo devagar.

- Agora está explicado porque você dormiu até tão tarde. Deve ter morrido de beber. - Harry gargalhou.

A expressão “morrer de fazer algo”, não fazia o menor sentido em inglês para ninguém de outro país. Mas para Harry fazia, porque eu tinha ensinado o significado.

- Ele e o marido bebem como peixes.*

Harry e eu já tínhamos voltado para o hotel para nos arrumarmos para a noite. É claro que ele me fez levar todas as minhas coisas para o quarto dele, depois de quase ficar irritado explicando que nunca tinha sequer visto pessoalmente a tal da Kiko. “Você sabe que se eu tivesse algo com ela, eu te contaria.”, foi o que ele disse. E, bem, eu acredito que ele contaria mesmo.

A noite de hoje era em um karaokê-bar. Quando chegamos, Harry já foi imediatamente em direção à algumas pessoas em uma mesa, conhecia todos muito bem.

- , esses são Kunich, Sean e Himawari. - Harry apontou para cada dono dos nomes enquanto eu dava um aperto de mão em cumprimento.

- Himawari. - Repeti quando cumprimentei o último deles. - Sunflower. - Olhei para Harry tentando não esboçar nenhuma reação.

- Sim, meu nome em inglês significa girassol. Você fala japonês? - Himawari me perguntou.

Antes de responder, eu deixei que minhas memórias me levassem de volta para o meio do mês de outubro.




- Eu odeio você. - Proferiu em um riso soprado.

- Eu só sou uma boa amiga e presto atenção em tudo o que você desabafa comigo. O que tem para odiar em uma excelente confidente?

- Cala a boca e termina seu café.

E rindo se levantou da cama, fazendo uma saída teatral para fora do quarto.

- Ei! - Gritei. - Volta aqui! Você ainda não me contou o que aconteceu para você ter escrito a metade de Sunflower que não é sobre nós!

- Bloody Hell, ! Você não vai me deixar em paz enquanto eu não te contar, não é? - Harry respondeu ao voltar para trás exatamente como fazia quando fingia que iria embora de entrevistas ao receber perguntas constrangedoras.

- Não, tudo bem. Se você não quiser me contar, eu não pergunto mais. - Levantei os braços em sinal de rendição, fazendo drama e em seguida tomei outro gole do café. A bandeja de café da manhã que ele havia trazido para a cama já estava quase vazia.

- Unfffff. Você sabe que eu estou só brincando. Desde quando eu consigo ficar sem te contar alguma coisa? - Riu voltando a se sentar na cama.

- Não sei. Às vezes quando o assunto é muito sério você fica meio introspectivo. - Dei de ombros.

- Ah, . Qual é?!

- “Ah, ” nada. Eu ‘tô mentindo agora?

- Não. - Harry demorou a responder, contrariado.

- Eu não quero ser invasiva. Você não precisa me contar tudo.

- Eu te conto porque eu quero. Porque você é minha amiga e eu confio em você para dividir as coisas. Todo mundo precisa de alguém para contar os problemas e pedir opiniões, do contrário, não seria possível que chegássemos a ver as coisas com mais clareza.

- Isso é diferente. Você já resolveu. Só me contaria para sanar minhas curiosidades.

- Bem... Digamos que não está assim tão resolvido?

- Harry! Você está com problemas esse tempo todo e não me falou nada? Você contou para alguém?

- Não. - Olhou para baixo, arrumando os anéis nos dedos.

- Está vendo o que eu acabei de dizer? Você só me conta as coisas depois que as resolveu. Foi assim desde o começo, desde a Sophie. - Falei o nome dela e isso fez com que Harry fizesse uma careta. - Você tem essa mania de querer resolver tudo sozinho! - Bufei. - O que aconteceu? Você está bem? Quer conversar sobre isso agora?

- Corações quebrados são inevitáveis, . Não dá para ficar bem o tempo todo.

A resposta de Harry foi como levar um banho de água fria ou um soco na boca do estômago. Eu achava que poderia resolver todos os seus problemas só porque não suportava a ideia de vê-lo triste. Mas a verdade é que eu nunca poderia protegê-lo de todo o mal do mundo e menos ainda curá-lo sendo aquela pessoa que sempre está “ali” por ele. Isso era muito pouco. Estar perto e ser alguém disponível para ouvi-lo era tudo o que eu podia oferecer e aquilo não era nada. Quem eu era e o que eu sabia da vida para que meus conselhos e opiniões pudessem ser capazes de consertar tudo?

- Eu sei, Harold.

- Eu não tenho medo de pular de cabeça nos meus sentimentos. Isso é o que nos faz sentirmos humanos, e, seja bom ou ruim, é a vida, .

- Eu sei. - Repeti. - Mas eu tenho medo por você. Essa intensidade toda... Quando você está num momento bom, é quando você sente o melhor. Mas quando algo ruim acontece, é um dos momentos em que você mais se sente mal. Você vai nos extremos e isso me assusta. Porque eu nunca quero te ver mal.

- Obrigado por se importar tanto comigo. - Assenti com a cabeça. - Eu só... - Ponderou antes de voltar a falar. - Quero viver tudo o que há para viver. Não é que eu goste de me sentir mal, ninguém gosta, não é? Mas não quero evitar, eu não posso me fechar quando as coisas dão errado, eu quero ser aberto.

Eu não soube o que responder.

- É por isso que eu te conto, mas nem sempre quando aquilo ainda está me machucando. Porque é por isso que eu escrevo; quando algo me machuca, é através da música que eu coloco para fora, é na música que eu posso ser patético, engraçado, dramático, gótico, exagerado... Tratar tudo como se fosse o fim do mundo, sendo que nem sempre é.

Ele voltou a se sentar na beira na cama.

- E, às vezes, não parece bom preocupar meus amigos com alguma reação que pode ser exagerada, sabe? Eu escrevo o que me incomoda e depois... depois tudo passa. Não parece mais ser tão ruim como era. Eu sigo em frente. E se realmente não passar, aí sim eu procuro alguém para conversar, faço terapia, sei lá... Só não quero ser precipitado. Não quero chegar para você e dizer que o mundo desmoronou porque eu conheci um cara tão incrível e babaca ao mesmo tempo que faz eu me sentir o maior ignorante do mundo, um burro, literalmente.

Se ajeitou na cama, claramente desconfortável.

- De ficar ensaiando o que falar no espelho depois do primeiro encontro, de ter a sensação de precisar lavar a boca antes de falar, se não pareceria idiota, estúpido. De me sentir um garoto de quinze anos que chega para a menina que gosta na escola e trava para dizer “oi” e quando consegue falar, tudo o que recebe em resposta é indiferença, porque eu não sou popular o bastante, ou legal o bastante, ou bonito o bastante.

Eu não sabia muito bem se estava entendendo a analogia da escola, mas não quis interrompê-lo.

- Só que agora eu tenho vinte de quatro anos e a resposta indiferente que eu recebo faz com que eu sinta que não sou inteligente o bastante, ou culto o bastante, ou interessante o bastante. É como ser rejeitado pela menina que eu gosto porque ela gosta do popular rico.

Ah! Agora eu entendi.

- Só que agora eu sou a porra de um cantor famoso que com só vinte e quatro anos viajou o mundo inteiro, que tem cinco álbuns de sucesso lançados com uma banda e um álbum de estreia em carreira solo que atingiu número 1 nas paradas de mais de 85 países! E eu odeio que isso não significa nada porque não me impede de me sentir assim!

Eu já tinha colocado uma das mãos no ombro de Harry e tirado a bandeja que estava entre nós.

- Vem cá. - Falei quando pareceu que ele tinha acabado de vez. Ele me abraçou e afundou a cabeça no meu pescoço. - Você sabe que você é tudo isso que não está sentindo e mais, não sabe? - Perguntei depois de um tempo ao ver que ele havia recuperado o fôlego.

Eu sempre ficava em um misto de surpresa e alerta quando ele falava incisivo assim, o que era extremamente raro de acontecer. Não precisa conhecê-lo para saber que ele é a pessoa que mais usa interjeições ao falar. Era até estranho ouvir um Harry que completava uma sentença sem se interromper com “hums” e “ahns”.

Parecia que esse discurso já tinha sido repassado na sua cabeça milhares de vezes, era quase como se tivesse sido decorado.

- Eu sou? - Respondeu em escárnio.

- É claro, H. E você não deveria deixar ninguém te fazer pensar o contrário.

- Você fala como se fosse fácil fazer isso. Como se fosse só fazer e tudo se resolver.

- Sinto muito. - Suspirei. - Não quero que seja simples. Eu sei que todo mundo tem inseguranças. Deus sabe das minhas. - Ri sem humor.

- Eu não te acho insegura. - Harry tirou a cabeça do meu pescoço para me olhar.

- Isso porque você não sabe o que se passa dentro da minha cabeça. - Ri com um pouco mais de graça dessa vez.

- Pensando bem ontem você estava meio estranha, mas eu nem conto. Não é comum te ver assim...

- O que eu quero dizer... - O interrompi. O foco não era eu. - É que você não pode se diminuir. Porra, parece absurdo eu precisar disso isso logo para você! Mas a real é que parece que você colocou quem quer que seja essa pessoa em um patamar elevado ao seu. Você o deu muita credibilidade, entende? Por que ele é alguém que você considera com tanta importância a opinião?

- Eu não sei. - Falou pausadamente, refletindo. - O nome dele é Himawari. Sabe o que isso significa? - “O quê?”, eu murmurei. - Sunflower.

Inteligente, Harry Styles. Muito inteligente.

- E ele é foda. Já produziu um monte de músicas para artistas no Japão. - Completou com um sorriso de lado.

- E? - Desdenhei. - Assim como os seus produtores que produziram as suas músicas são fodas também. - Suspirei antes de voltar a falar. - Olha, Harry, eu sei muito bem o que é admirar alguém e sentir que qualquer que seja a opinião vinda daquela pessoa passe a ser verdade absoluta. Mas pasmem! Ele também é um humano como você, ele não sabe de tudo.

- Sabe o que eu acho? - Perguntou.

- Hum?

- Que é incrível como você enxerga coisas assim para dar conselhos para os outros e não vê que poderia usar para si mesma.

- Você está fugindo do assunto. - Retruquei na defensiva.

Harry sorriu.

- Eu estou?





- Não, eu não falo Japonês. - Sorri ao responder. - Harry comentou comigo um dia.

- Hum! Quer dizer que o Harry fala de mim? - Perguntou e eu sorri de novo.

- De todos vocês. Ele me conta histórias o tempo todo! Como aquele dia que o Sean, eu acho, dormiu depois do almoço e você pintou o rosto dele com um canetão. Não foi? - Ele concordou com a cabeça. - Eu nunca tive nenhum contato com a sua língua e eu nunca consigo gravar os nomes, aí ele me disse o significado para me ajudar a lembrar. Assim eu não ficaria perdida quando ele me contasse as histórias.

Inventei a primeira desculpa que me veio à cabeça. Foi bem convincente porque Himawari talvez tenha parecido decepcionado. Não sei se ele esperava ter sido mencionado por Harry de outra maneira, mas eu não daria esse gostinho a ele.

- Todas as vezes que ele vem para cá sempre me conta uma história mais engraçada que a outra. Fico com ciúmes que ele se diverte tanto com outros amigos que não sou eu. - Dei um risinho para mostrar que estava brincando.

- Mas a gente também se diverte, ). Só que do nosso jeito. - Harry lançou uma piscadinha para mim.

Qualquer idiota pegaria o duplo sentido da fala depois do tom sugestivo que Harry usou.

Era impressão minha ou eu estava sendo usada para fazer ciúmes?



Sean estava em pé a alguns metros na nossa frente, cantando no karaokê com Bobby. Era uma música que eu não conhecia. Kizuku era o único dos amigos que não tinha ido. Aparentemente tinha prometido que levaria a namorada para jantar.

A mesa era redonda, os lugares para sentar eram estranhos, alguns eram cadeiras, outros eram bancos almofadados, os quais eram tão confortáveis que eu poderia até dormir neles. Harry e eu sentávamos um ao lado do outro, Himawari à nossa frente e Kunich ao meu lado. Além do marido de Bobby, o cara do Queer Eye, havia também duas outras mulheres, eu não sabia se eram namoradas de alguns deles ou só amigas. O resto dos lugares estavam vagos. E olha, ainda tinham bastante lugares. Era uma mesa grande.

Bebíamos, ríamos, conversávamos, o pessoal na mesa gritava obscenidades para Sean, como “gostoso!” “arrasa!” e coisas do tipo. E detalhe: Tudo em Japonês. Eu não entendia nada! Harry, que já estava bastante familiarizado com a língua, traduzia para mim quando eu pedia. Quase todo mundo falava inglês, com exceção de uma das mulheres, então, no geral, eu estava conseguindo participar da conversa.

- Olha quem chegou! - Himawari gritou por cima das vozes e antes que eu pudesse virar para o lado que ele apontava, uma mulher se sentou bem ao lado de Harry.

- Olá! - Cumprimentou em Japonês e deu uma olhada na roda, reconhecendo a mim e Harry como ocidentais e passando a falar em Inglês. - De quem é o aniversário?

- Meu. - Harry levantou uma mão, tímido.

- Harry Styles... Então é você quem aparentemente eu estou namorando? É um prazer te conhecer, sou a Kiko. - Estendeu uma mão para cumprimentá-lo.

Harry sorriu um pouco sem graça e eu fechei a cara. Achei muito atirada para o meu gosto.

- Aparentemente, sim. - Ele respondeu e eu virei a cara para o lado contrário, revirando os olhos. Kunich me deu um sorriso ao perceber.

- Então, feliz aniversário! - Harry assentiu e murmurou um fraco “obrigado” - E essa moça ao seu lado? - Apontou para mim com a cabeça. - A namorada de verdade, suponho.

- Essa é a minha amiga, . - Harry me apresentou enquanto eu abria um daqueles sorrisos forçados.

- Bem, então é um prazer amiga do Harry. - Também me deu um aperto de mão, o qual retribui sem muita vontade.

- . É o meu nome. - Corrigi.

Ela estava achando que era quem para se referir a mim meramente como a “amiga do Harry”?

- Vamos cantar na próxima? - Perguntei a Harry, passando a ignorá-la imediatamente.

Era infantil da minha parte? Talvez. Até porque eles realmente não se conheciam e ela parecia simpática. Meio forçada para o meu gosto, mas aparentemente simpática aos olhos de todos ali.

- Claro! Já vou lá procurar a sua música.

- Quer saber de uma coisa, Harold? - Passou a me encarar, a atenção completamente voltada para mim. - Hoje eu vou dar uma de você. Vou cantar, sei lá, Don’t Stop Believin’.

- Jura? - Um vinco formado em sua testa. - Nada de I Don’t Want To Miss a Thing? - Neguei com a cabeça, sorrindo.

- Nah! Hoje, não. É seu aniversário, essa vai ser minha homenagem a você. - Ele deu uma gargalhada.

- Okay. Então vou dar uma de você, também.

- Ou de Louis. - Completei. - Qual vai ser a sua música? - Harry pensou por um momento.

- Nirvana... Smells...

- Like Teen Spirit. - Falamos ao mesmo tempo.

Começamos a rir por termos falado sincronizado.

Eu fui primeiro, porque já era humilhação demais cantar num karaokê com Harry Styles ali, agora cantar depois que ele tinha ido criaria um contraste maior.

Não que eu desse a mínima para isso, porque enquanto Kiko cantava com Himawari em um dueto, eu sugeri que Harry e eu deveríamos fazer o mesmo.

- Okay. Mas que música vamos cantar? - Ele perguntou e eu sugeri algumas músicas que foram todas negadas por ele.

- I Will Survive? Rich Girl? Faith?

- Faith! - Repetiu gritando.

- Você sabe que não é justo você escolher essa música, não é?

- Por que não?

- Porque está na sua zona de conforto!

- Todo mundo só canta músicas que tem familiaridade. - Deu de ombros.

Eu mordi o lábio, segurando uma risada.

- Não entendi seu ponto. - Me encarava confuso.

- Você tem mais familiaridade com essa música do que a maioria das pessoas, visto que você é um plagiador. - Provoquei e gargalhei em seguida.

- Ah, não. De novo com essa história?

- Desculpa, eu não consigo evitar. - Eu ria enquanto Harry revirava os olhos.



A noite passou como um borrão. Estávamos apenas Harry e eu sentados na mesa depois da última rodada de karaokê. A galera tinha meio que se dispersado a esse ponto. Todos tínhamos comido alguns petiscos, bebido saquê, tequila, muita vodka e sei lá mais o quê, cantado músicas do karaokê sentados dali mesmo enquanto passávamos o microfone tal como passa-se um baseado, o qual inclusive também fez parte da roda. Eu fui de sóbria, para muito bêbada, chapada e bêbada e, agora, a sei lá que horas da madrugada, o efeito já tinha passado um pouco, não que eu estivesse completamente sóbria ainda; mas eu estava melhor do que Harry.

- Você está me evitando? - Harry me perguntou de repente, me assustando.

- Quê? - Respondi debilmente. - Estávamos cantando no karaokê abraçados há menos de uma hora.

- Só na hora do karaokê, em que todos os meus amigos prestavam atenção em nós. Mas por que toda hora que eu chego perto de você, você se afasta discretamente? Não me deixou colocar a mão na sua perna quando estávamos sentados mais cedo, eu te abracei e você nem me abraçou de volta e agora mesmo eu fui te beijar e você se levantou!

- É óbvio, Harry, estamos em público, você quer que a sua bunda bêbada esteja na mídia amanhã beijando uma estranha num bar? Aliás, esqueceu que supostamente você veio para cá por causa da Kiko? - Apontei com a cabeça para a mulher que agora estava cantando no karaokê com Bobby.

- Estamos no JAPÃO! - Ele falou mais alto como se ali ninguém o conhecesse. Em parte, era um pouco verdade. Ninguém o abordou naquela noite. - Eu não dou a mínima para a Kiko. E você não é uma estranha. - Corrigiu o tom de voz quando viu que havia chamado a atenção de pessoas nas mesas próximas. - E eu estou falando sobre você estar me evitando desde o início do ano!

- Quê? Eu não estou! - Revidei na defensiva.

- Não? Então prova! Me beija, aqui e agora. - Eu balancei a cabeça em descrença.

- Você está bêbado.

- Foda-se. Eu ‘tô bêbado, mas sei o que eu ‘tô falando. Isso está me incomodando há dias! E daí que só agora bêbado que ‘tô dizendo? - Ele falava um pouco embolado, era fofo, mas eu estava brava demais para ligar. - Você está me evitando. - Repetiu. - Se você não está, então prova.

- Não, eu não tenho que te provar nada.

- É porque você está me evitando.

- E você só está causando essa ceninha porque seu plano de me usar para fazer ciúmes no Himawari não está dando certo, já que ele nem liga para você! - Falei fria.

- Ah, então é por isso que você está me evitando? - Ele pareceu não sentir a cutucada, como se ele realmente não se importasse com Himawari.

- Não, porra! - Gritei. - Eu não ‘tô te evitando. - Eu jamais gritaria com Harry daquela forma estando completamente sóbria.

- . - Harry cerrou os olhos e se inclinou na minha direção. - Você está com ciúmes dele? - Deixou um sorrisinho escapar no fim.

- Ah, puta que me pariu. Era só o que faltava. - Soltei em português enquanto jogava as mãos para o alto. - Não, Harry. - Revirei os olhos. - Eu só não ‘tô aqui para ser uma espécie de conserto temporário para você.

Harry começou a gargalhar, muito, como se eu tivesse contado uma piada engraçadíssima.

- Nem brigando comigo você deixa de citar músicas da banda

- Foi totalmente não intencional dessa vez. - Revirei os olhos de novo, já estava perdendo a paciência.

- E eu achei que você fosse exatamente isso. - Juntei minhas sobrancelhas, numa expressão nada satisfeita. - O escape. E eu sou o seu. Não é isso que somos um do outro? Não é para isso nossa amizade? Uma reserva? Alguém para contar sempre pra sexo?

- Sim, Harry. Mas não é SÓ para isso. Pelo menos eu pensei que não fosse, não é? - O veneno do escárnio era projetado em cada sílaba. - Por isso que eu viajei do outro lado do mundo até a porra do Japão! Porque somos amigos e eu queria estar presente no seu aniversário. Não para servir de tapa buraco porque esse cuzão aí não vê o cara incrível que você é. Menos hoje, porque hoje você está sendo um completo babaca.

Eu me levantei e peguei a minha bolsa, ia voltar para o hotel imediatamente, a chave do quarto estava comigo, mesmo. Eu pegaria minhas coisas e reservaria outro quarto até ir embora. Eu não queria olhar para a cara de Harry naquele momento.

- Espera! Aonde você vai? - Harry segurou meu braço quando eu já estava de pé.

- Para o hotel. - Puxei o meu braço num solavanco e sai andando.

Era bom que esse idiota viesse atrás de mim, ou eu nunca mais olharia na cara dele.

Eu mal terminei de pensar isso e o escutei gritando meu nome e em seguida sua mão segurou meu braço novamente, me virei lentamente, sem olhá-lo nos olhos.

- Me. Solta. - Falei quase babando como um cachorro raivoso. De fato, eu estava tão puta que se eu fosse um pinscher estaria tremendo.

Harry imediatamente afrouxou a mão e, hesitante, abaixou o próprio braço.

- , eu não estou tentando te usar para fazer ciúmes em ninguém. Podemos, podemos conversar depois? Eu não ‘tô raciocinando bem agora para explicar.

- Você não tá raciocinando bem para nada nesse momento.

Eu movi o corpo para me virar de costas e Harry levantou o braço para me segurar de novo, mas parou no meio do caminho, fechando a palma aberta em um punho, se repreendendo antes de me tocar.

- )... - Me chamou, a mão ainda no ar, próxima do meu braço, mas sem me tocar. - Babe...

Eu encarava o chão, metade do corpo virado para ir embora e a outra metade ainda preso a Harry.

Uma das músicas novas que Harry havia me mostrado em algum momento no ano anterior era reproduzida na minha cabeça.

Don't call me ‘baby’ again
You got your reasons
I know that you're tryna be friends
I know you mean it


- Me desculpe, eu não sabia que você estava se sentindo assim, nunca foi minha intenção fazer com que você se sentisse usada.

Do you think it's easy
Being of the jealous kind?
'Cause I miss the shape of your lips
You'll win
It's just a trick
And this is it
So I'm sorry


- Tudo bem. - Terminei de me virar e continuei andando.

- ! - Harry me gritou e deu passos rápidos para me acompanhar. - , espera!

- O que foi, Harry? - Me virei de uma vez, dessa vez encarando-o.

- Aonde você vai?

- Eu já disse! Eu vou embora.

- Eu-eu... Espera, eu vou-vou com você.

- Eu não quero que você vá comigo. - Revidei imediatamente, fria.

It's hard for me to go home
Be so lonely


- Por favor. Me desculpa, podemos conversar com calma? Vamos embora juntos e a gente conversa. Me deixa só pegar minhas coisas e avisar ao pessoal.

Assenti com a cabeça ainda meio contrariada, mas Harry não se afastou enquanto não teve certeza de que eu não iria embora assim que ele se virasse.

No fundo, bem no fundo mesmo, eu senti uma pontinha de culpa por estarmos indo embora, era seu aniversário! E ir embora estragava tudo..., mas a culpa era dele! Ele quem falou besteira. Para mim, a noite já tinha acabado mesmo. Eu não podia continuar ali. Nem mesmo por ele. Dessa vez eu me colocaria em primeiro lugar na minha vida.

Parece que o álcool que estava no corpo de Harry evaporou em menos de dez minutos, que foi o tempo que gastamos saindo do bar e entrando no primeiro táxi que passou. Eu fui o caminho todo emburrada e de braços cruzados, e Harry, sentado ao meu lado claramente desconfortável, não disse uma palavra, respeitando meu espaço.

Eu abri a porta do quarto e a minha vontade era fechá-la na cara de Harry e deixá-lo no corredor, mas ele estava grudado em mim igual carrapato.

- Espaço pessoal? - Pedi suspirando quando larguei minha bolsa na mesinha e caminhei para o banheiro e vi que Harry ainda estava me seguindo.

- Desculpe. Podemos conver-

- Eu vou tomar banho. - Entrei no banheiro e bati a porta em um estrondo. Foda-se, o quarto estava no nome do Harry mesmo. Se alguém reclamasse do barulho de madrugada seria problema dele.

Liguei o chuveiro e fui até o espelho, me apoiando na pia e levei uma das mãos aos olhos, cobrindo-os e apertando os cantinhos.

Oh, todos os santos das fãs que se apaixonam pelos ídolos! Eu precisaria de calma naquele momento para não jogar minhas roupas na mala e ir direto para o aeroporto.

Eu comecei a rir ali sozinha, em plena... olhei o relógio, 4h48 da manhã. Eu nunca conseguiria ir embora. Deixo em aberto se é porque Harry não deixaria ou se eu não teria forças o suficiente para isso.

Depois que eu descobri... depois que eu aceitei estar apaixonada por Harry as coisas ficaram piores e eu achava que de alguma forma fossem melhorar, bom, pelo menos eu parei de sonhar que ele iria embora.

E eu nunca pensei que eu que cogitaria a possibilidade de ir embora e nunca mais voltar.

Eu demorei ao máximo no banho, eu queria torturar Harry. Ele era um idiota e eu mais ainda, porque estava aqui toda apaixonada e ele não estava nem aí para mim. E eu sentia que eu seria sempre a amiga que ele pega quando quer, quando para mim, por mais que tivesse tentado vê-lo também dessa forma, eu já entrei nessa amizade em desvantagem, porque ele nunca foi só um amigo para mim, ele nunca seria. Ele sempre seria meu ídolo ou alguém por quem me apaixonei. Ele sempre seria mais, de qualquer forma que fosse.

Eu fechei o registro do chuveiro decidida: Eu iria superar Harry Styles.

É claro que já comecei falhando, percebi isso quando me lembrei que entrei no banheiro sem ter pegado a toalha.

Quando abri a porta, Harry que estava nervosamente andando de um lado para o outro em frente ao banheiro, parou e deu um passo na minha direção, mas arregalou os olhos quando me viu sem roupas e molhada.

- Isso é a minha punição? - Perguntou de boca aberta.

- Eu só esqueci a toalha. - Revirei os olhos, passando bem do seu lado em direção a pequena varanda que tínhamos ali.

Me enrolei na toalha e peguei a primeira roupa que vi na mala e parti em direção ao outro ambiente do quarto, onde ficava uma mesinha de jantar e frigobar.

- Não precisa sair! - Ele me gritou e eu parei onde estava. - Eu vou. Para você trocar de roupa e tal.

Me virei de uma vez e acabei trombando com ele que já caminhava para sair.

- Desculpa. - Eu pedi enquanto ele ainda me segurava. - Você pode me soltar agora, eu não vou cair.

- Eu não quero te soltar, ).

- E-eu... - Antes que eu pudesse formar uma sílaba sem gaguejar, Harry me beijou.

E foi aí que eu falhei pela segunda vez seguida em menos de dez minutos de decisão em superar Harry; com sexo de reconciliação.





* Em Inglês, a expressão “to drink like a fish” ou, na tradução literal, “beber como um peixe” é o equivalente a “beber como um gambá” em Português.





*


Eu acordei com a luz da janela invadindo o quarto, porque esquecemos a porta da varanda aberta.

Harry já estava acordado e me encarava.

- , isso entre a gente só dá certo porque usamos um ao outro no melhor sentido da palavra, porque você me apoia e eu espero que você se sinta apoiada por mim também.

Harry começou a falar assim que viu meus olhos abertos, eu fechei e abri algumas vezes tentando focá-lo e processar o que ele estava dizendo.

- Ei! Easy, tiger! Me deixa acordar primeiro. - Reclamei.

- Me perdoa pelo que eu disse ontem, eu sei que estar bêbado não justifica, mas eu não falei na intenção de ser maldoso. Eu nunca te usaria dessa forma.

- Falou, sim. - Eu rebati e ele negou com a cabeça.

Eu me sentei na cama e esfreguei os olhos.

- Porque é isso que você faz, Harry. - Voltei a falar e ele me deu um olhar confuso. - Você sempre sabe exatamente o que dizer para magoar alguém. - Meu tom de voz era baixo, calmo. - E quando você se sente ameaçado, você ataca com o que sabe que vai doer no outro.

- E-eu-eu não faço isso! Foi você quem sempre brincou que somos como a música Temporary Fix!

- Você já se sentiu ofendido alguma vez em que eu disse isso? Ou em que eu usei qualquer uma das suas outras músicas como referência?

- Não! Claro que não.

- Mas eu me senti, Harry. E muito. Senti como se você tivesse nos reduzido a isso. E eu juro que eu pensei que fosse muito mais para você do que apenas uma foda fixa.

- É claro que você é! , você me salvou! Houve momentos no último ano em que eu me vi no fundo do poço e ter a sua amizade foi crucial para que eu não me mantivesse lá!

Harry se sentou na cama também e colocou uma das mãos no meu ombro, e eu o olhei por reflexo.

- Você é a minha melhor amiga, minha confidente, meu copiloto, a que sempre comanda o rádio com as melhores das piores músicas.

- Cala a boca que você gosta de One Direction também. - Eu acusei e ele sorriu, concordando.

- Você é uma das melhores pessoas que eu conheci nos últimos anos e eu falo sério quando digo isso, não é nenhum exagero! E eu estava tão feliz ontem por você estar aqui. Ainda estou. Mas você me evitou a noite toda.

Eu percebi Harry engolindo em seco, um pouco nervoso e hesitante. Respirou fundo antes de continuar.

- Sendo sincero, meu ego ficou ferido. - Parou de falar de novo, apenas por um momento.

Parecia fazer muito esforço para verbalizar essa frase.

- E por mais que você não admita, tem me evitado, sim, desde o início do ano. E eu sei que isso também não justifica. E eu-eu me senti inseguro, não pensei muito antes de falar, pensei que talvez você não quisesse mais ser meu conserto temporário. - Ele finalizou um pouco acanhado. - Não te ofendi dessa vez, ofendi?

- Não, Harry. - Revirei os olhos. - Não ofendeu.

- Merda! Como essa coisa de comunicar é difícil. - Harry respirou fundo. - Mas é isso, eu fiquei inseguro. Me perdoa por deixar isso atingir você. - Suspirou aliviado. - Como é difícil admitir estar errado também. - Deu um sorrisinho, tentando soar engraçado.

Mas eu continuei o encarando por alguns segundos, pensando no que falar.

- Você me magoou, Harry.

- Eu sei. Eu fui um idiota. Me desculpa, por favor.

- Não me magoe de novo.

Me levantei da cama em um pulo e fui para o banheiro, porque estava me sentindo sufocada no mesmo ambiente que Harry.

Eu havia me trancado naquele banheiro e encarado meu reflexo no espelho mais vezes nas últimas doze horas do que eu havia feito desde que eu cheguei.

Aproveitei que já estava ali e tomei um banho. Eu tinha lavado os cabelos quando chegamos e dormido com eles molhados, o que não me favoreceu nem um pouco, então lavei de novo. Sendo sincera, eu só queria poder estender ao máximo possível o tempo até ter que encarar Harry de novo.

Eu não passei mais do que quinze minutos lá dentro dessa vez, mas quando abri a porta, não encontrando Harry na cama que, por sinal, estava feita, tive a sensação de que fiquei fora por horas. Pelo menos parecia. Fora do meu corpo.

- Harry? - Chamei.

- O quê?

Ele apareceu no vão da porta. Na verdade, somente a sua cabeça e uma das mãos, que segurava o celular.

- Achei que você tivesse saído. - Comentei como explicação de que não era nada.

Ele caminhou na minha direção, levantando os braços ao se aproximar, como se fosse me abraçar, mas abaixou-os batendo na lateral do corpo, parecendo mudar de ideia.

- Está com fome? - Perguntou ao parar na minha frente, mexendo um dos braços na minha direção, desajeitado.

A ideia de que ele se conteve me deixou desconfortável e aliviada ao mesmo tempo.

- Hm... Eu comeria. - Dei de ombros.

- Eu pedi café da manhã. Está na mesa.

Eu devo ter o olhado com uma cara engraçada antes de me mover instintivamente até o outro cômodo. Eu estava surpresa.

Fiquei mais surpresa ainda quando cheguei até o mesmo vão de porta que Harry estava antes. Dali, já conseguia ver a mesa simples redonda, que estava decorada com um vaso de flores bem no centro e, em volta, o típico café americano que se encontrava em qualquer lugar. Ovos mexidos, bacon, café, leite, suco, torradas, pães e frutas. A variedade era enorme, mas tudo parecia ter sido feito em porções para dois.

- Eu imaginei que você não gostaria de comer arroz e sopa agora. - Apesar de falar sério, o tom de voz de Harry saiu divertido.

- Não acredito que você me privou de um típico café da manhã japonês. - Brinquei também e ele sorriu. - Obrigada.

- Então eu vou tomar banho enquanto você toma café. - Apontou, ainda desajeitado, em direção ao banheiro.

- Você não vai tomar café comigo? - Questionei.

- E-eu... - Harry gaguejou.

E eu entendi tudo.

- Ei! É claro que eu quero que você tome café comigo! - Puxei-o pela mão e só soltei quando já estávamos ao lado de uma das cadeiras. - Agora senta a sua bunda aí.

- Eu estou com vergonha de te olhar. Me sinto muito idiota pelo que eu disse. - Harry falou ao se sentar na cadeira, ainda sem tocar em nada do que estava na mesa.

- E deveria mesmo. - Concordei, sem dó. - Mas você não pode pegar suas palavras de volta. Não pode retirar o que disse.

Harry apenas concordou com a cabeça. Eu dei de ombros, como se dissesse que aquilo não tinha mais importância e comecei a comer.

Após alguns segundos, Harry fez o mesmo, ainda sem dizer nada.

Comemos em silêncio por alguns minutos. A situação estava toda muito desconfortável e Harry mais ainda.

- Então... - Quebrei o silêncio, tentando agir normalmente. - O que vamos fazer hoje?

Harry, que antes estava com a cabeça baixa, parecendo concentradíssimo em um pedaço de melão, me encarou.

- Quer conhecer a cidade? Posso te levar em alguns lugares. - Harry respondeu.

- Mas você não marcou nada com seus amigos? Não quero atrapalhar os seus planos.

- Passamos o tempo todo que você está aqui com outras pessoas. Hoje queria aproveitar o dia sozinhos... Se você estiver tudo bem para você.

- Claro, H! É seu aniversário. A programação é da sua escolha. - Eu sorri para ele e recebi um sorriso de volta.

- Ok. - Concordou.

- Ok. - Reforcei.

- Então eu vou tomar banho agora.

Balancei a cabeça concordando.

- Ok. - Repeti.

Harry se levantou da mesa e a passos desajeitados saiu do cômodo.

Já sozinha, eu balancei a cabeça de novo, dessa vez em negativa.

O que eu estava fazendo ali?



*


Era bem comum ver pessoas andando de bicicleta nas calçadas das ruas de Tóquio. E podíamos encontrar bicicletas para alugar em praticamente qualquer esquina.

Mesmo com muito esforço, eu não conseguia me lembrar da última vez que havia andado de bicicleta. Eu andava de moto, é claro, e eram dois meios de transporte parecidos em termos de equilibro e tal. Mas só isso. E não que eu tivesse tido algum problema para pedalar. Afinal, o que diziam sobre nunca se esquecer como se anda de bicicleta era verdade. Mesmo que passassem anos, mesmo que você se sentisse pouco confiante nos primeiros metros, uma vez adquirida, era impossível perder a habilidade de andar de bicicleta.

Apesar de Harry ter visitado Tóquio com frequência nos últimos tempos, a quantidade de lugares que ele conhecia era impressionante. Pedalamos pelas ruas a um primeiro momento parecendo sem rumo.

- Você precisa ver o fluxo de pessoas que passa por aqui durante a semana, é impressionante. - Harry comentou quando paramos em frente à estação de trem.

Enquanto Harry falava, eu murmurava em concordância sem muito o que dizer, sem ter o que acrescentar àquela conversa.

Não é que eu estivesse exatamente com raiva de Harry... Eu estava chateada, é claro. Decepcionada também. Mas a culpa era somente minha, porque eu nem mesmo sabia o que esperava de Harry.

Eu esperava que ele fosse gostar de mim também?

Que ele fosse se declarar?

Que ele percebesse o quão terrivelmente apaixonada estou?

Não, isso não.

Tudo o que eu menos queria é que ele percebesse.

E era por isso que eu tinha que disfarçar o melhor que pudesse.

- Eu costumo vir aqui de manhã e caminhar seguindo o fluxo de pessoas, eu imagino que tenho uma pasta nas mãos e que eu estou indo para o trabalho em algum escritório por aí.

- É mesmo? Isso não parece divertido.

- É bom... Ser anônimo de novo.

- Imagino que seja.

Harry suspirou e voltou a se sentar no banco da bicicleta.

- Vamos?

Concordei com a cabeça.

Eu sabia que ele tinha ficado incomodado com a forma como falei. Eu queria muito fingir que nada tinha acontecido e eu tentava muito agir assim também. Mas era muito difícil.

Continuamos andando por mais alguns minutos, até que Harry subiu em uma das calçadas e parou em frente ao que parecia uma loja de antiquarias misturada com um brechó.

- Quer entrar?

Dei de ombros.

- Pode ser.

Descemos das bicicletas e as encostamos em um poste. Assim mesmo, sem prendê-las a ele ou algo do tipo. Harry havia dito que voltaríamos para encontrá-las da mesma forma.

Sem sair do lugar, dei um giro de 360 graus observando as pessoas, coisas e sons ao nosso redor.

Havia alguns pássaros espalhados pelos fios dos postes. Pousados ali, pareciam ter todo o tempo do mundo.

Talvez estivessem esperando um companheiro que estaria para chegar.

Será que os pássaros tinham certeza de que algum outro iria, um dia, salva-los da solidão?

- Podemos tomar sorvete antes? - Pedi.

Harry olhou para os lados procurando pelo que eu falava, até encontrar o pequeno carrinho de sorvete do outro lado da calçada.

- É claro, babe.

Com um sorriso, Harry colocou uma das mãos nas minhas costas e nos guiou até lá. Eu pedi uma bola de chocolate e ele pediu chocomenta, que poderia facilmente ser confundido por pistache, até mesmo no gosto.

- Você não vai me deixar provar o seu também? - Perguntou manhoso.

Os pássaros sequer eram sozinhos? Eu não sabia dizer.

Será que sentiam um vazio bem grande ao se perguntarem o que fazem por tanto tempo do ano ali, até precisarem voar ao sul no inverno? O voo alcançado nessa época trazia-lhes algum propósito?

Do que é mesmo que eu estou falando?

- Mas é só chocolate! - Rebati, mas antes de ouvir uma resposta, eu já havia esticado o braço para que Harry alcançasse meu sorvete.

- Hmmmm. - Murmurou. - Passando um dos dedos nos lábios que haviam se sujado. - Tem razão. É chocolate com gosto de chocolate.

Eu revirei os olhos. De praxe. E sai andando em sua frente, atravessando a calçada em direção à loja.

- Eu acho que o sorveteiro confundiu a caixa de chocomenta. - Harry comentou ao vir correndo atrás de mim.

- Você acha? - Debochei. - Isso não é chocomenta nem aqui, nem na China.

- Na China não é mesmo, apesar de estarmos perto.

- N-não... - Segurei o riso. - Deixa para lá.

Por que eu ainda insistia em traduzir para o Inglês as expressões Brasileiras?

- Ahnnn, o que foi? O que isso quis dizer? Se você está rindo, tinha outro sentido. - Harry perguntou curioso.

Eu empurrei a porta da loja e o sino preso a ela fez barulho.

Eu esperei Harry estar ao meu lado e cruzei meu braço no dele. Parados de costas à porta fechada, eu o encarei.

- Tem coisas, meu amigo, que você nunca vai entender.

Em um movimento rápido, passei a casquinha para a mão que estava com o braço cruzado no dele e com a livre, passei o dedo no sorvete e em seguida no nariz dele.

- Ah, não. - Negou com a cabeça. - Você não fez isso.

Voltei com o sorvete para a outra mão e desfiz nossos braços dados.

- Eu fiz, sim. - Respondi rindo e comecei a dar alguns passos de costas para os fundos da loja.

Harry fez o mesmo com seu próprio sorvete e esticou o braço, tentando me dar o troco.

- Cuidado! - Me alertou a tempo para que eu desviasse de uma caixa no chão.

E tempo suficiente para que ele passasse o sorvete verde na minha bochecha.

- Lambe! - Falei alto. - Agora você vai lamber! - Completei rindo.

- Com prazer! - Rebateu rindo também enquanto eu já passava a mão na bochecha para me limpar.

Sabe quando duas pessoas riem até quase ficar sem ar? Nós brasileiros soltamos sempre alguns “ai ai” ao fim das risadas. Eu fiz isso, até pararmos de rir de vez e nos olharmos de um jeito esquisito.

De um jeito como se tivéssemos esquecido de tudo por um momento. E realmente nos esquecemos. Como se não tivéssemos esse grande e incômodo elefante na sala.

Eu encarei o chão por alguns segundos. E então girei os calcanhares para ficar de costas para Harry e voltei a caminhar em direção ao balcão da loja.

Será que um elefante se metamorfosearia em um pássaro?

Talvez fosse minha hora de voar.


22. And we know that sometimes it all gets a little too much.

FEVEREIRO, 2019
Um mês atrás




Os dias estavam passando muito rápido e os fins de semana mais rápido ainda. Antes que eu percebesse já era o sábado do chá mensal com Elinor.

Tínhamos lavado roupas como sempre e conversávamos em sua sala com um sabor novo de chá e biscoitos. Eu poderia facilmente me passar por uma velhinha fofoqueira depois de me associar à uma.

Ela ficava insistindo para saber o que eu tinha achado de Adam e o que tinha acontecido quando ele foi ao meu apartamento.

- Você precisa perguntar ao seu filho! - Eu rebatia.

- Ele não quis me contar. - Ela choramingava.

- Se ele não quis te contar, não sou eu quem vai quebrar o silêncio.

- !

- El! - Ela suspirou e sorriu em seguida.

- Você é a única pessoa que me chama assim.

- Eu aprendi com um certo alguém a ficar dando apelidos diferentes do que as pessoas já estão acostumadas. - Eu sorri também.

Harry veio na minha mente na hora e era quase como se eu pudesse ouvir sua voz me chamando, “Ei, ), olha só essa música!” ou “), o que você acha de irmos comer fora?”

- Ih, que cara é essa? - Elinor pegou algo no ar e não deixou passar. Foi a minha vez de suspirar.

O ruim de não conseguir mentir era isso: eu não sabia nem disfarçar o que estava pensando; qualquer um que me conhecesse, perceberia.

- Ah, nada não.

Mas é claro que ela insistiu em saber. E é claro que ela não fazia ideia de quem era o Harry quando contei tudo, desde quando pedi ajuda para chegar ao píer e surtava, porque não sabia o que fazer com meu ídolo na minha frente, até a nossa briga mais recente, no Japão.

O que me deixava em uma situação mais conflituosa eram meus próprios sentimentos em conflito; oscilando entre a dor do coração partido pelas coisas que Harry disse e tentando não guardar aquela mágoa, a todo momento me relembrando de não deixar pequenos momentos ruins se sobressaírem sobre os outros momentos muito bons.

- Sabe, isso me lembra de como conheci John...

John era o falecido marido.

- Eu tinha acabado o treinamento de aeromoças de 1962 e era meu primeiro dia no trabalho. Eu nunca tinha andado de avião antes, naquela época passagens de avião eram bem caras e só viajava quem tinha muito dinheiro para pagar.

Eu assentia de tempos em tempos para mostrar que estava acompanhando o que ela falava.

- Eu nunca tinha estado em um aeroporto também, então fiquei completamente perdida lá dentro. Fiquei por incontáveis minutos arrastando a minha malinha pelos corredores, procurando onde eu deveria embarcar. Eu me lembro perfeitamente de conferir o meu papel com a minha escala da semana e os horários de voos que eu faria e, mesmo assim, continuava andando em círculos.

Ela fez uma pausa e tomou um gole de chá antes de continuar, as mãozinhas delicadas e finas tremiam um pouco pela idade.

- Eu devo ter parecido muito desesperada, porque aquele homem com um sorriso aberto e simpático parou ao meu lado e disse: “Primeiro dia?”. - Ela deu uma gargalhada fraca, como se estivesse se lembrando da cena. - E eu me lembro de olhá-lo no uniforme de piloto e pensar em como ele era bonito.

Ela me deu um tapinha no braço e eu coloquei o cotovelo em cima da mesa e descansei o rosto na mão. Um sorriso de lado não saia dos meus lábios.

- John era o único piloto negro da companhia. Não foi fácil quando começamos a namorar. Casais interraciais não eram bem vistos.

Eu fiz uma careta, mas não a interrompi.

- É bem normal nos sentirmos inseguros quando chegamos naquele ponto das nossas vidas em que parece que todas as decisões são sempre grandes decisões, sabe? Mas eu vou te falar uma coisa, ... John me ajudou muito na época! Ele me mostrou todos os lugares que eu precisava saber ir, quem procurar. Escala, trocas de turno...

Ela fez uma pausa, procurando meu olhar.

- Ele me mostrou um caminho e eu o segui. Não só no trabalho, mas também na vida. Eu decidi.

De maneira literal e figurativa, John e Elinor traçaram caminhos em direção a um mesmo destino. Primeiro das salas de embargue até os aviões, depois até o altar e outras escolhas que fizeram ao longo da vida.

- Entende o que quero dizer?

Balancei a cabeça ao mesmo tempo em que dava de ombros, ainda confusa com o significado.

- Eu conheço o olhar... de quando se esbarra em uma dessas decisões. A primeira vez que o vi foi em mim mesma, sobre ser aeromoça ou quando John me pediu em casamento. Depois passei a reconhecê-lo nas salas de embarque, nas faces de pessoas que estavam indo para não mais voltar... Ou nos sorrisos que acompanhavam o pisar no avião, de quem tinha decidido voltar, ou ficar... - Ela deu um sorriso. - Sempre depende da perspectiva. - Completou dando uma piscadela descontraída.

Continuei calada, apenas absorvendo o que ela falava.

- E eu vi isso em você agora, querida. E acho que sua grande decisão tem a ver com esse rapaz.

Harry... Harry e eu realmente seguimos juntos por um mesmo caminho e eu não estou falando daquele para chegar até o píer de Santa Mônica.

Em alguns momentos fomos guiados por mim e, em outros, ele escolheu a estrada e eu o segui; por minha própria escolha, afinal de contas.

- Eu o amo... - Confessei em um suspiro, percebendo como verbalizar meus sentimentos por Harry se tornavam um ato mais fácil a cada vez que eu o fazia.

- Mas? - Elinor replicou, sentindo meu tom de hesitação.

- Mas eu não sei se ele sente o mesmo. Eu acho que ele não sente o mesmo.

Apesar dos caminhos sinuosos que tínhamos traçado até então, será que chegaríamos ao mesmo destino?

- Só há um jeito de descobrir... - Elinor deixou a resposta no ar e eu retruquei com ar de impaciência.

Eu já havia falado sobre os meus receios de ter como consequência o encerramento da nossa amizade.

- Eu não vou conversar com ele sobre isso!

- E quem disse que para descobrir você precisa conversar com ele? - Ela respondeu sorrindo e, quando fiz uma careta de confusão, completou: - A descoberta só diz respeito ao que você decidirá. Se quer continuar sendo apenas amigos, é o que serão, porque só depende de você qual caminho seguir.

Eu tossi, desconfortável com a conversa.

- Bem, preciso ir embora agora.

Antes que Elinor pudesse protestar, eu completei:

- Em maio eu saio de férias e estou adiantando matérias para terminar antes de viajar e ficar só por conta de terminar de escrever minha dissertação do mestrado. - Sorri, querendo desesperadamente mudar de assunto. - E eu me formo em setembro! Você vai na minha colação, não vai?

- Mas é claro, querida! - Ela deu uma risada, como se a minha pergunta fosse totalmente sem lógica. - O ano mal começou, mas parece que você terá um bem cheio. - Ela brincou e eu sorri antes de concordar.

- Pela amostra que já tive até então, não tenho dúvidas disso.

*


- Está muito vinho para ser de uva! De uva é mais arroxeado. - Eu retruquei.

- É de framboesa! - Lucy rebateu convicta.

- Já descartamos framboesa, está muito escuro.

- Então é de morango. - Lucy chutou.

- Morango é mais vermelho. - Eu neguei de novo.

- Fuck! Por que não perguntam para a cozinheira? - Henry interferiu.

Ele já estava sem paciência pela nossa discussão para adivinhar qual era o sabor da gelatina que era a sobremesa do almoço naquele dia.

- Vou procurar no google. - Anunciei para ninguém e peguei o celular.

Mas Henry bufou, se levantando da mesa e indo em direção à uma das funcionárias da cozinha.

Da mesa, Lucy e eu o observávamos conversar e gesticular, longe o bastante para que não pudéssemos ouvir o que eles falavam.

- Se a Jane estivesse aqui, ela faria o desempate. - Eu choraminguei.

Nossa amiga já tinha ganhado seu bebê recentemente e estava de licença maternidade.

- Podíamos ir vê-la juntas. - Lucy sugeriu.

- Claro! Que dia?

- Acho que mês que vem seria ideal. - Concordei com a cabeça.

- Verdade! Para que eles tenham um período tranquilo de adaptação. - Ela concordou também.

Nesse mesmo momento Henry voltou a se sentar ao nosso lado.

- E então? - Lucy incentivou antes que ele pudesse abrir a boca.

- Framboesa.

- Eu sabia! - Ela comemorou.

- Foi o primeiro sabor que falei. - Me fiz de esperta, causando risos em nós três. Provei a sobremesa. - Mas nunca que isso tem gosto de framboesa!



Ao voltarmos do almoço, eu sabia que todo o momento de descontração anterior iria para o ralo. Henry e eu estávamos passando por uma semana difícil em relação ao nosso trabalho.

Lucy e eu nos assustamos quando ele abriu a porta da sala com a agressividade de sempre.

- Assustada, Felina? - Perguntou com um sorriso debochado enquanto fechava a porta atrás de si. - Achei que já tivesse se acostumado com as minhas entradas triunfantes.

- Eu estava concentrada, Campbell! - Revirei os olhos. - Que bom humor é esse? - Perguntei quando o sorriso de seu rosto não havia sumido. - A gente está fodido, você está me entendendo? Você deveria estar mais preocupado que eu, o cliente é seu!

- O cliente é nosso! Até onde eu sei, você trabalha no mesmo propósito que o meu.

Lucy arregalou os olhos com a má resposta e eu gargalhei.

- Humm. Você está afiado hoje, hein? Sua mulinha. - Henry riu também, embora “mulinha” em inglês não soasse tão engraçado assim.

- Desculpe. Não foi minha intenção.

- Só desculpo se me deixar dar uma volta no seu BMW. - Pisquei para ele.

- Deus! Você é muito mercenária! - Henry respondeu em tom de revolta e Lucy e eu rimos muito.

- Por falar em carro, posso buscar café no Starbucks no seu? - Lucy me olhou com cara de cachorro pidão.

- Nem pensar! - Neguei imediatamente. - Te deixo usar um dos carros da empresa.

- O Starbucks é do outro lado da rua. - Henry apontou com o dedão em uma direção aleatória enquanto tinha um olhar confuso no rosto.

- Eu odeio aquela loja! - Foi a vez de Lucy revirar os olhos.

- Ela brigou com todos os atendentes. - Eu sussurrei para Henry, fingindo que ela não conseguia ouvir.

- Eu gosto de ir no da Melrose’s. - Ela falava da avenida que ficava à pouco mais de duas quadras de distância.

- Isso é perto. Por que não vai a pé? - Henry questionou inocente.

- Você já viu o sol que está lá fora? - Seu tom de voz de obviedade fez com que ríssemos.

- Carro da empresa, sim. Benzinho, não. - Decretei e ela bufou. - Me respeita que sou sua chefe! - Repreendi brincando e ela me mostrou a língua.

Henry ria, enquanto eu resmungava sobre essa mania infantil de mostrar a língua para os outros. Nesse meio tempo, Lucy se levantou para pegar a bolsa e já estava prestes a abrir a porta quando eu cocei a garganta.

- Eu quero um mocha frappuccino e me traz um muffin também.

Ela soltou a maçaneta da porta e caminhou de costas até chegar perto o bastante de mim, para depois estender uma das mãos na altura do meu rosto, já que eu estava sentada. Desviei o olhar de sua mão para Henry que estava em pé ao meu lado e de braços cruzados. Ele revirou os olhos nada sutilmente antes de enfiar a mão no bolso da calça para pegar a carteira.

- Pode me trazer um smoothie verde e... - Lucy o interrompeu.

- Virei assistente agora? - Ele ignorou a brincadeira.

Teoricamente, estagiários buscam mais cafés do que assistentes; não que fosse o caso de Lucy, já que eu nunca fui folgada com ela. Ela buscava café para ela mesma porque queria e eu só aproveitava a viagem. E não que eu fosse entrar nessa discussão deles.

- ... e pegar o que quiser para você mesma. - Lhe entregou uma nota de 50 dólares.

- E o troco é meu? - Henry suspirou.

- Certo. - Concordou relutante.

Satisfeita com a barganha, ela sorriu antes de sair.

- Benzinho, não! - Gritei de novo para reforçar.

Ela acenou indiferente e fechou a porta.

- Depois eu que sou a mercenária. - Comentei rindo.

- Ela aprendeu com você. - Fiz uma cara de ofendida e Henry riu. - E “Benzinho”? - Completou confuso.

- É o nome do meu carro. - Balancei a cabeça como se dissesse “dã?” - Mercedes Benz. E “inho” é o sufixo para o uso de diminutivo em português. - Comecei a rir ao me explicar. - E também leva um duplo sentido, porque “benzinho” no Brasil é um apelido brega para tratar um namorado ou alguém que você é bem íntimo. - Dei de ombros, indiferente.

Henry não respondeu, ficou apenas balançando a cabeça em negativa, como se estivesse ouvindo a explicação de uma louca que não adianta retrucar. E claro, um maldito sorrisinho acompanhava a expressão em seu rosto.

Eu tinha um pacote meio vazio de pirulitos em uma das gavetas da minha mesa. Ofereci um a Henry, que negou, enquanto me olhava incrédulo.

- O quê?! - Questionei enquanto tirava a embalagem de um para mim. - Eu ‘tô nervosa! Quando eu ‘tô nervosa, eu bebo. Mas já que não dá para fazer isso, então eu como. Mastigo alguma coisa, sei lá. - Completei afobada.

- Mas você precisa chupar o negócio assim? - Eu olhei para a minha mão que segurava o canudinho na boca e depois para ele e então dei de ombros.

- Estou chupando normal. - Dei de ombros de novo.

- A gente não tem nada mais, e acredite, para mim está ótimo assim, sendo amigos. Eu totalmente respeito você estar apaixonada e eu estou... dando novos passos com Kate..., mas-mas você precisa admitir que é meio difícil de ignorar a sua boca fazendo isso. - Gesticulou exageradamente os braços, tentando reproduzir o que eu fazia.

Eu soltei uma gargalhada alta e revirei os olhos em seguida.

- Se você quiser, eu quero.

- Sério?

- Não. Eu não faria isso com a Kate. Pelo menos não depois que vocês foram no primeiro reencontro.

- Merda! Por que mesmo que eu aceitei a sua ajuda? - Dessa vez ele quem revirou os olhos, mas estava totalmente brincando.

- Em quantos vocês já foram?

- Quatro. - Ele se escorou na mesa, quase se sentando. - Inclusive, comentei que a ideia do passeio a cavalo em Solvang foi sua.

- Jura? - Arregalei os olhos, preocupada.

- Sim. - Deu de ombros. - Ela sabe que trabalhamos diretamente e, por isso, acabamos tendo muito contato, não é? Talvez eu tenha deixado a entender que nos damos bem e... conversamos. - Fiz uma careta. - Calma! Não precisa se preocupar. Ela achou legal que eu tenha conversado com alguém sobre nós dois... ela disse que ‘mostra que eu me importo’, sabe? Em fazer certo dessa vez. E por isso ela acha que “pedi” dicas.

- Aww, Campbell! Você não é mesmo um doce tão doce quanto esse pirulito?! - Debochei.

- Engraçadinha. - Afinou a voz, tão debochado quanto eu. - Kate disse que deveríamos convidá-la para jantar algum dia desses, porque Maddie sempre fala de você e em como você é divertida e que vocês são amigas.

- Eu adoro sua filha.

- E ela adora você!

- Tyler sempre diz que você é bem legal.

- Se me lembro bem, ele disse que eu sou “legal para alguém tão velho”. - Citei fazendo aspas com os dedos. Minha voz em uma mistura entre ofensa e divertimento.

- Bem, ainda assim ele te acha muito descolada. - Henry riu.

- De qualquer forma, eu vou, é claro! Sabe que nunca dispenso sua comida. Inclusive, sinto falta de ir para a sua casa depois de um dia do cão e ter algo que não seja congelado ou algum tipo de delivery para comer. - Tentei fazer uma piada, mas não dava para rir da minha própria desgraçada sem que soasse uma risada triste.

- Ok. Vamos marcar. - Respondeu vagamente, pois seu celular apitou. - Vamos subir para a sala de reunião. Elliot já está nos esperando.

- Não vamos esperar Lucy voltar com os cafés? - Fiz cara de triste e arregalei os olhos

- Já é mais de uma e meia da tarde, precisamos resolver isso logo. Ela leva para a gente lá em cima.

Eu mordi o cabo do pirulito em um sinal de nervosismo e concordei com a cabeça, me levantando da cadeira em seguida. Henry então abriu a porta e me deu passagem para sairmos dali e enfrentarmos o dragão.

*


Joguei a bolsa no chão e em seguida me joguei de costas na cama, caindo como um saco de batatas.

- Preciso de férias. - Falei comigo mesma encarando o meu quarto vazio. - Mas antes preciso de uma bebida.

Depois de um banho rápido, me servi de uma dose de whisky barato que tinha acabado de comprar no caminho para casa e carreguei comigo até a varanda a sacola praticamente vazia debaixo de um braço e a garrafa no outro.

Acendi um cigarro do maço que eu também havia comprado e dei uma tragada rápida antes de abrir a barra de chocolate e comer um pedaço, engolindo-o com whisky. Uma combinação não muito agradável, mas eu estava pouco me fodendo. Naquele momento havia coisas mais desagradáveis e que deixavam um gosto mais amargo em minha vida.

Eram mais de sete da noite e eu tinha trabalhado quase doze horas naquele dia, estava estressada e cansada.

Havia uma poltrona simples no canto da varanda, a qual o antigo morador havia deixado para trás ao se mudar. Eu me deixei cair no assento e larguei a garrafa de whisky no chão.




Eu ouvi a porta de entrada bater e olhei no relógio: oito e quinze da noite. Tudo ficou em silêncio até que eu ouvi a porta de novo ser fechada em um baque. Eu havia chegado do trabalho há umas duas horas e estava estudando para as provas finais, já que não tinha aula naquele dia. Conforme eu avançava na faculdade, mais difícil ficava, mas eu já tinha passado da metade, então ia acabar logo. Era o que eu esperava.

Sai do quarto, aproveitando a desculpa de que precisava descansar as vistas e caminhei inconscientemente até a porta da frente, em direção à varanda.

- Oi. - Eu cumprimentei meu irmão que estava sentado em uma das cadeiras. - Chegou agora?

Estudei sua fisionomia abatida e um pouco agitada. Ainda vestia seu uniforme do trabalho.

Ele soltou lentamente a fumaça que havia prendido na boca e me respondeu com um aceno de cabeça seguido de um suspiro. Com uma expressão que eu reconhecia no espelho, me convidou a sentar na cadeira ao seu lado.

- Quer? - Me estendeu o copo de whisky que antes descansava no chão aos seus pés.

Eu tomei um gole e fiz uma careta instantânea.

- Eca! Você não colocou gelo?

Tomou delicadamente o copo da minha mão e deu outro gole antes de responder.

- Eu não fui na cozinha.

- Puta merda, garoto! O que aconteceu? Você está tomando whisky puro em temperatura ambiente. - Meu tom de voz assustado fez com que ele soltasse uma gargalhada desanimada.

- Cadê nossos pais? - Desviou o assunto.

- Foram jantar fora.

- O que você estava fazendo?

- Estudando. - Respondi concisa.

- Você é o meu orgulho mesmo, né. - Forçou um sorriso e eu sorri de volta, porque sabia que o problema não era comigo.

- Dia difícil? - Concordou com a cabeça em resposta e deu outro trago no cigarro. - Você sabe que as coisas vão melhorar, não sabe? - Recebi uma careta em resposta dessa vez.

- Eu sei? - Respondeu irônico.

- André! É claro que sim!

- E se não aceitarem a minha proposta, ? Eu estou trabalhando nesse projeto há meses, se negarem... Eu não sei o que fazer, todo o esforço e tempo gastos...

André me encarou por um momento, desviando o olhar em seguida e fixando-o num ponto específico embaixo da janela, em uma parte da parede que tinha um pedaço de tinta descascando.

- Maninho, com essa proposta vão é te promover! Já tenho dito! - Ele me olhou sorrindo e voltou a encarar o buraco com tinta descascada.

- Você não existe, mana.

- Vai dar tudo certo, maninho. - Eu sorri também. - Eu tenho orgulho demais de você. E você é a minha maior inspiração.

- Eu sei que você paga um pau para mim. - Respondeu fingindo indiferença e eu gargalhei antes de dar um tapa em seu ombro.

- Passa esse copo pra cá que eu vou por gelo nessa merda.




Não muito tempo depois disso, realmente aconteceu sua promoção, ele saiu da casa dos nossos pais dois meses depois. Nunca imaginaríamos que tudo terminaria como terminou.

Eu encarei a minha parede que estava com a tinta impecável. E então cocei a cabeça em um ato de nervosismo e suspirei.

Minha vida já estava complicada o bastante tendo que lidar com meus sentimentos amorosos sem controle e com todos os problemas que estavam acontecendo no meu trabalho; agora eu ainda ficaria para baixo com saudades do meu irmão.

Tudo estava acontecendo ao mesmo tempo e eu sinceramente não sabia se suportaria o peso de tudo desmoronando.

O quê? Que pensamento maluco é esse?

Foi como se eu tivesse acionado um freio dentro de mim mesma.

Eu não acredito em coincidências! Eu acredito que as coisas acontecem porque estão destinadas a acontecer. Pessoas ficam juntas porque o tempo todo fazemos escolhas que, por mais que possam parecer aleatórias num primeiro momento, revelam todo um sentido quando atingem aquele propósito final.

Não é à toa que-

O meu celular começou a tocar e quebrou a minha linha de raciocínio. Era uma ligação no FaceTime e quando alcancei o aparelho e olhei para a tela, um sorriso involuntário brotou no meu rosto.

- Ei, estranho!

- Eiii. Como você está?

- Sentindo sua falta! E você?

- Ocupado. - O sorriso não saia do meu rosto. - As coisas estão uma loucura aqui no estúdio!

Harry estava na área e conversávamos todos os dias pelo celular, ele tinha alugado um estúdio em Malibu que era uma casa e estava finalizando o álbum. Não saia de lá para nada, comia, dormia, assistia TV, usava drogas recreativas e me mandava fotos malucas, tudo lá.

- Você diz isso todos os dias, H.

Sem perceber, levei o cigarro que eu ainda segurava entre os dedos até a boca.

- Isso na sua mão é um cigarro? - Harry perguntou curioso. - Não sabia que você fumava. - Completou confuso.

- Eu não fumo. - Rebati indiferente e tomei um gole de whisky.

- Ahnnnn, eu tenho plena certeza que isso na sua boca é um cigarro.

- Bem, eu estou fumando nesse exato momento. Mas eu não fumo.

- Aconteceu alguma coisa? - Harry arqueou uma sobrancelha ao perguntar.

Não foi à toa que, mesmo que inconscientemente, eu tinha reproduzido um hábito tão comum do meu irmão e que me trouxe à mente justamente a lembrança de quando ele estava passando por algo parecido pelo que eu estou agora e eu lhe disse palavras de conforto que eu ouviria dele se ele estivesse aqui.

- Só um dia difícil. - Eu respondi a Harry, forçando um sorriso de lábios fechados no final.

- Hmm. Desculpe, mas não me convenceu. - Eu suspirei.

Às vezes eu odiava ser tão transparente. E odiava que Harry me conhecesse tanto também.

- Estão acontecendo algumas... situações no meu trabalho. Henry e eu as apelidamos de dragões. - Eu ri da piada interna. - Estamos trabalhando para apagar o fogo que produzem.

Era claro que Harry não ia entender a metáfora, então balancei uma mão na frente da tela e comecei a explicar desde quando e onde o problema todo tinha surgido.

- ...E então quando foi mais ou menos uma e meia da tarde, Lucy foi buscar café do Starbucks e o Henry, eu e o Elliot, que é um dos supervisores da produção, ficamos até às seis e vinte planejando o que fazer. Cheguei em casa há pouco.

Dei uma pausa, conferindo se eu não estava entediando Harry. Talvez estivesse. Então fiz um comentário mais descontraído.

- Mas foi engraçado, porque a Lucy tinha reclamado com Henry que não era nossa assistente e, mesmo assim, ela acabou levando os cafés para a gente lá na sala de reunião.

- Uau! Tão tarde? Parece mesmo um problema difícil de resolver. Mas tenho certeza que você vai dar um jeito. Você é muito competente.

- Sim! Dá para acreditar? O coitado do Henry teve que ligar para a ex-esposa buscar os filhos na escola. Essa semana era a vez dele, que supostamente deveria levar e buscar, mas hoje só conseguiu deixá-los na escola. Ele ficou arrasado, tinha planejado levá-los para o parque depois.

Encarei as marcas dos meus dedos no copo agora vazio. Demorei alguns segundos para perceber que eu não mais encarava a tela enquanto falava distraída. Dei um sorriso calmo.

- Você não faz ideia de como ter você do meu lado dando esse apoio faz diferença. Eu não sei o que faria se não fôssemos amigos!

Harry tampou a boca para tossir e eu achei até que ele não havia me escutado, até que respondeu:

- É... Se não fôssemos amigos...

*


Outro dia vencido e, com as coisas melhorando, caminhava em direção ao estacionamento enquanto digitava rápidas e animadas mensagens para Harry.



05:10pm: Ei, você vem jantar comigo hoje?



05:10pm: Eiii, Babe! Claro! Só finalizando
a mixagem de uma música.

05:11pm: Já chegou em casa?

05:11pm: Saindo do trabalho.

05:11pm: Qual música?



05:12pm: Não vou te dizerrrr!

05:12pm: hahaha




Respondi com um emoji revirando os olhos, minha marca registrada e ignorei-o.





05:13pm: Te espero à que horas?



05:13pm: Te aviso quando sair daqui.
Prometo não demorar.

05:13pm: Você vai cozinhar o que pedi?

05:14pm: Vouuu *outro emoji revirando olhos*



05:15pm: Obrigadoooo.


Com um estúpido sorriso no rosto, dei partida no carro e fui para casa. Depois de tomar banho, eu trabalhei um pouco na minha dissertação e só percebi quanto tempo havia passado quando senti meu estômago roncar.

Às quase oito horas da noite, Harry ainda não tinha dado sinal de vida.

07:42pm: Estou com fomeeee. Cadê você?



07:53pm: Desculpe! Tom precisou que eu
regravasse um backvocal.

07:53pm: Harry, pelo amor de Deus! Qual foi
a última vez que você saiu desse estúdio?

07:53pm: Vocês terminam isso amanhã!
Vocês têm todo o tempo do mundo.

07:54pm: Qual foi a última hora que você comeu?



07:55pm: Calma, mamãe! Uma mensagem de
cada vez! Hahaha

07:56pm: Ainda vou demorar mais 10 minutos.
Você ainda me espera, por favor?

07:56pm: 10 dias.

07:57pm: 10 dias o quê, cabeção?



07:57pm: Que não saio do estúdio.

07:58pm: HARRY, VEM EMBORA AGORA!

07:58pm: Você tem 30 minutos para chegar aqui!



Rindo sozinha, coloquei o celular em modo avião, pois eu sabia que quando ele enviasse a resposta e não mostrasse que eu havia visualizado, ele ficaria inquieto.

Era impossível que ele chegasse na minha casa em trinta minutos saindo de Malibu. Mas eu queria vê-lo tentar.

Como eu previ, foi uma hora depois que escutei o barulho da chave na fechadura e um Harry com seu olhar de cachorro que caiu da mudança passou pela porta.

- Eiiii. - Cumprimentou eufórico. - Desculpa a demora, eu passei lá em casa para buscar isso! - Gritou rindo e ergueu a garrafa de vinho branco que carregava em uma das mãos.

Eu estava sentada no sofá e lia o livro que Harry havia me emprestado e virei o pescoço para encará-lo com o olhar que eu chamava de “preguiça alheia.”, antes de colocar o livro virado para baixo no assento para marcar a página que eu estava.

- Oi... - Eu caminhei até ele a passos decididos e segurei sua nuca antes de lhe dar um beijo. - Que saudade! - Falei em português.

Parecia que havia meses que eu não o via.

Harry não hesitou em retribuir o beijo, meio sem jeito pela quantidade de coisas que segurava nas mãos.

Colei nossos corpos com um pouco de agressividade e, como ele foi pego de surpresa, cambaleou para trás, batendo as costas na porta. Aproveitei o apoio e coloquei uma das pernas entre as suas.

Como Harry estava com as mãos ocupadas, seus movimentos ficaram restringidos, o que tornou tudo ainda mais divertido para mim, que distribui beijos pelo seu pescoço e rosto enquanto o via rendido aos meus braços, voltando até seus lábios e prendendo-os entre os dentes antes de enfiar a língua em sua boca para outro beijo urgente.

Senti Harry ofegar e pressionei meus quadris um pouco mais contra seu corpo. Com a mesma mão que antes segurava sua nuca, puxei de leve seus cabelos, enquanto a outra eu espalmava na lateral do seu abdômen, pressionando-o cada vez mais firme contra a porta. Quando Harry gemeu, eu aproveitei para sugar sua língua, arrancando um “aí” de seus lábios dessa vez. Foi esse alerta que me fez parar.

- Minha língua. - Falou esquisito com a língua que já sangrava para fora. - Eu cortei. Você se esqueceu que contei?

Desencostei meu joelho da porta. Indecisa entre rir e sentir pena.

- Awww, me desculpe. - Decidi pela pena, ainda que eu tivesse um sorriso debochado no rosto.

- Está sangrando? - Colocou a língua para fora de novo e eu arregalei os olhos.

- Sua língua está cortada em duas. - Respondi alarmada.

- Ah, não! - Correu em direção ao banheiro, deixando as sacolas e o vinho em cima da bancada da cozinha ao passar.

Eu o acompanhei já gargalhando. Dando de cara com seu olhar enfurecido assim que entrei no quarto.

- Era brincadeirinha. - Confessei rindo mais ainda enquanto via Harry encarar a própria língua no espelho do meu banheiro. - Mas está sangrando um pouco, sim. - Parei de rir. - Sério, me desculpa. Está doendo?

- Não, a culpa não é sua. - Parou de se olhar no espelho e escorou o corpo no batente da porta do banheiro e me encarou. - Eu que sou burro e tenho uma equipe mais burra ainda. E eu falo para todo mundo pular no buraco e todo mundo pula. - Resmungou a última parte e eu ri de novo.

- O quê?

- A gente usou uns cogumelos uns dias atrás.

- Aquele dia depois que conversamos ao telefone, não é?

Na madrugada em questão, Harry tinha me mandando umas fotos com a língua sangrando e a única mensagem era uma palavra: “cogumelos”. Como eu estava ocupada, tínhamos trocado mensagens breves, nas quais só me preocupei em saber se ele estava bem. Por isso, acabei sem saber exatamente o que aconteceu.

- Sim, você estava fumando e bebendo whisky e eu pensei que eu estava só trabalhando e não estava me divertindo e isso supostamente deveria ser divertido!

Eu concordei com a cabeça, pois já tivemos conversas sobre isso antes.

- Então eu tive essa ideia e todo mundo topou. A gente usou uns cogumelos e colocou Paul McCartney para tocar. Deitamos na grama que tem na frente do estúdio e eu acho que até dormi. - Ele se desencostou do batente e caminhou até mim, que estava escordada no outro batente, o do quarto. - ...E teve aquela outra conversa que tivemos outro dia...

- Sobre você se arriscar mais artisticamente? Eu não estava falando sobre usar drogas e cortar a própria língua! - Repreendi e Harry encostou o rosto na curva do meu pescoço. Gesto que me desarmou. - O que aconteceu, afinal?

- O Mitch começou a tocar esse solo muito bom junto de uma das músicas que estava tocando e eu decidi pular a janela para ver. Bati meu joelho no queixo. - Fiz uma careta de dor, ainda que ele não pudesse ver.

- Por que você não passou pela porta, Harry Styles?

- Porque eu estava chapado?! - Respondeu como se fosse óbvio e lógico.

- Deixa eu ver. - Pedi enquanto passava meus braços em volta de seu tronco e sentia-o passar os dele em volta do meu.

Com a língua para fora, Harry acompanhava com o olhar enquanto eu analisava sua língua.

- Está doendo? - Perguntei. - Da para ver um risquinho aqui. - Usei uma das mãos para apontar com um dedo bem próximo de sua língua.

- Um pouco. - Respondeu guardando a língua e eu me inclinei para lhe dar um selinho. - Mas valeu a pena.

- Porque você se divertiu?! - Chutei.

- Não. Quero dizer, sim. Eu me diverti... até morder a minha língua e ficar 40 minutos tentando fazer pará-la de sangrar. - Soltei uma gargalhada e ele sorriu. - Mas valeu a pena porque escrevemos uma das minhas músicas favoritas até agora.

- Jura? Isso é ótimo! Me mostra?

- Vou pensar. - Sorriu de novo.

- Harry! - Fiz cara de brava.

- Precisamos aprender a tocá-la de novo. - Fiz cara de confusa.

- O quê?

- Mitch começou a tocar, certo? Antes de eu ter a minha língua cortada. Só que ele também usou cogumelos e não se lembra mais do que tocou.

- E agora? - Exclamei assustada.

- Temos tudo gravado. Não se preocupe.

- Você não existe, H.

- Você me esperou para jantar? - Mudou de assunto.

- Claro!

- Então você que não existe, Darling!

Voltamos para a sala abraçados de lado e eu fui até a cozinha esquentar a comida.

- Deixa que eu te ajudo. - Harry ofereceu.

Como não tinha muito o que fazer, já que estava tudo pronto, eu sugeri:

- Obrigada. Que tal se você começar abrindo o vinho para nós?

Harry prontamente apanhou a garrafa que ainda estava no balcão e, provando que conhecia muito bem a minha cozinha, buscou pelo abridor em uma das gavetas, retirando a rolha habilmente em seguida.

- Taças... Taças... - Começou a murmurar enquanto fazia um uni-duni-tê entre as portas do armário, tentando se lembrar em qual delas ficavam os copos.

- Na terceira porta da...

- Esquerda! - Completou e abriu imediatamente a pequena porta. - Me lembrei.

Harry então me passou uma das taças e eu tomei um gole ainda em frente ao fogão.

- Você pode levar os frios para a mesa? - Apontei para a bancada ao lado da pia onde tinham duas vasilhas.

- Okay.

Logo em seguida, levei o restante das panelas para a mesa que eu já havia arrumado e nos sentamos.

Durante o jantar, continuamos conversando sobre o álbum, meu trabalho e algumas trivialidades. De certa forma, demos um jeito de voltar ao “normal” depois do que havia acontecido em seu aniversário. Para ser sincera, eu realmente não queria ter feito um grande alarde por tudo, então na maioria do tempo bloqueava o que havia acontecido.

Fazia quase duas semanas que eu não via Harry. Ele estava mesmo focado no processo do álbum e, por mais que estivesse sentindo saudades, eu havia meio que dado um espaço também, sempre esperando que ele é quem me procuraria quando não estivesse ocupado.

Era por isso que conversávamos apenas por telefone, mesmo que ele estivesse a alguns quilômetros de distância.

Não é que eu achasse que eu o atrapalhava, nem nada disso. Menos ainda que eu me achasse importante o suficiente para ser uma distração... Eu só não queria incomodar também. Eu sei o quanto o trabalho era importante para ele... esse álbum. E, mesmo que a minha opinião não importasse muito, o álbum também era importante para mim, sendo a fã que eu era.

Depois que Harry retirou a mesa, lavou as vasilhas e eu as sequei, continuamos sentados na mesa da cozinha conversando.

- Vou ao banheiro. - Harry disse e eu acenei com a cabeça.

Aproveitei para checar as mensagens do meu telefone corporativo, estava estranhando que ninguém havia me ligado com algum problema.

Harry apareceu à minha frente enquanto eu ainda estava distraída.

- Obrigado por ter sido meu valentine hoje... Nesse ano. - Me entregou uma das sacolas que estavam na bancada. - Happy Valentine’s Day.

- Harry... Eu-eu não comprei nada para você. - Me levantei da cadeira, olhando-o nos olhos e depois abaixando o olhar para a sacola simples de papel.

- Tudo bem. Não é como se tivéssemos falado algo sobre trocar presentes. - Ele deu de ombros, como se realmente não se importasse.

Eu sabia que a cultura de “Valentine’s Day” dos outros países era totalmente diferente da cultura de “dia dos namorados” do Brasil. Para começar nos Estados Unidos você dava cartões ou presentes simples para amigos, familiares, colegas de trabalho e também para qualquer pessoa que você gostasse e tivesse feito companhia no “feriado”.

Não que eu achasse que Harry fosse me dar alguma coisa quando me pediu que jantássemos juntos por causa disso. Afinal, era super comum que amigos fizessem alguma coisa do tipo nesse dia.

Coloquei a mão dentro da sacola, tocando imediatamente em um tecido macio. Ansiosa para descobrir o que era, puxei-o descobrindo uma camisa branca.

A camisa do merch de Wish You Were Here do Pink Floyd.

A camisa do Pink Floyd de Harry. Vintage.

- Eu tenho essa camisa há anos. Achei em um brechó em Nova York em uma das viagens com a banda.

A camisa que antes nova era branca, agora havia adquirido um tom amarelado e tinha pequenos rasgos ao redor da gola, alguns furos distribuídos na região dos ombros e também das barras, provavelmente já tendo sido comprada assim por Harry, o tecido parecia bem antigo e a estampa estava bem desbotada.

- Estava guardada em uma caixa no fundo da loja. Foi um verdadeiro achado. É um pouco pequena para mim; acabei comprando assim mesmo, porque amei. Mas eu nunca a usei.

- Você falou dessa camisa quando você fez a entrevista para capa da Another Man em 2016... Eu me lembro. - Eu estava atônita. - Meu Deus, Harry! Eu não posso aceitar!

- ), eu sei que essa banda significa muito mais para você do que jamais poderia significar para mim, mesmo que eu ame essa camisa. E é por isso que se torna muito mais especial que eu a dê para você. Por favor, não recuse meu presente.

Ao mesmo tempo que eu sabia que era só uma camisa e não havia motivos para eu recusá-la, consciente de que eu já havia aceitado muitos outros presentes de Harry, eu também sabia que aquilo era tudo, menos “só” uma camisa para mim.

Eu suspirei, sem saber muito bem onde eu havia acertado para merecer tanto. Grata por Harry sempre encontrar novos meios de fazer mais momentos bons para sobressair quaisquer que tenham sido os ruins.

Fiz uma prece silenciosa para quem quer que fosse o responsável por trazer Harry para a minha vida.

- Obrigada. De verdade.


23. Are we friends or are we more?

MARÇO, 2019
Alguns dias atrás




Faltavam poucos dias para que completasse oficialmente um ano que eu morava nos Estados Unidos.

Enquanto no Brasil era carnaval e cada vez que eu abria o Instagram tinha que ver todos os meus amigos se divertindo... Eu, que estava na outra extremidade do continente, só trabalhava. Quero dizer, não me entenda mal; acho que a essa altura já deu para perceber que eu gosto do meu trabalho, gosto do que faço, gosto da ideia de ir para West Hollywood e passar dirigindo pela calçada da fama todos os dias. Não há o que reclamar sobre isso.

Mas dizer que eu não queria quatro dias de folga para me afogar em álcool com meus amigos enquanto beijamos bocas de procedência duvidosa era mentira. Não que na minha situação atual eu fosse beijar alguém, já que Harry não saia da minha cabeça. Viu? Até para explicar sobre minha deprê por não estar com meus amigos eu tenho que o mencionar.

A melhor parte do carnaval não era nem todos aqueles dias de festa em que eu mal dormia ou comia, só bebia e ficava acordada o máximo de tempo possível; a melhor parte era que meu irmão odiava.

André nunca gostou de carnaval. E sabe qual era a melhor parte dessa melhor parte? Sim, as melhores partes ainda têm melhores partes. Um pouco confuso, mas juro que faz sentido. E era a melhor da melhor porque eu tinha um motorista particular; corrigindo, um piloto particular. André me levava e me buscava para todos os bloquinhos e festas nessa época do ano. Todo mundo sabe que o trânsito em época de carnaval é o caos instaurado, e é claro que uma moto facilita o acesso a qualquer parte da cidade, então eu sempre estava no foco de qualquer bagunça muito rápido e nunca tinha que me preocupar em como eu ia embora ou se eu tinha bebido demais, porque ele não gostava de ir, ou seja, então ele não estaria bêbado e poderia me buscar sempre que eu ligasse. Era perfeito!

Me lembrar do carnaval e, mais especificamente das caronas na moto de André, me fizeram pensar por onde anda a minha Hondinha. Bem, ela não é mais minha. Espero que seu novo dono dê tanto valor a ela quanto eu. Eu poderia cantar When I Was Your Man do Bruno Mars. Tudo bem, agora eu estou rindo sozinha ao comparar um término de relacionamento à venda da minha moto. Bem, de qualquer forma, eu espero que seu atual dono lhe dê todas as suas horas disponíveis para cuidar de você, Hondinha. Espero que ele segure sua mão, ops, guidão, assim como eu segurava e te leve para todas as festas, ou trabalho, tanto faz. Ou melhor, espero que você leve seu dono para onde ele precisar ir, assim como você me levou. Nunca me esquecerei que a minha moto me levou até Harry, até seu show. E lá vem o bendito aparecendo de novo nos meus pensamentos!

Droga! Que saudades de um passeio de moto. Eu amo dirigir por essa ou qualquer outra cidade de madrugada, mas andar de moto às quatro da tarde em um sol escaldante também tem o seu valor. Como quando você está em um lugar abafado e abre uma janela, aquela primeira lufada de ar fresco que vem de fora. No Brasil, apesar de proibido, a viseira levantada do capacete enquanto você pilota é a janela aberta. A música que sai do painel do carro é substituída pelo ruído do vento que é abafado pelo acolchoado do capacete. A mão direita que costuma descansar no câmbio de marcha passa a contrair e relaxar o músculo ao usar o acelerador e, às vezes, o freio da roda dianteira.

Em um impulso, peguei o celular e, com um clique rápido nas chamadas recentes, o número de Harry já chamava.

- Boa tarde, babe.

- Ei! Tá fazendo o quê?

- Eu estou ótimo, , obrigado por perguntar! E você, como está? - Dei uma gargalhada diante do tom ofendido.

- A gente se falou por mensagens de manhã, dramático. - Depois dessa resposta ele bufou, contrariado porque eu estava certa.

E exatamente porque tínhamos nos falado pela manhã, eu sabia que Harry estava em casa e não no estúdio.

- Acabei de almoçar e estou lavando as vasilhas.

- O quê?

- Você perguntou o que eu estava fazendo...

- Ah! Por que você está lavando as vasilhas? - Dava para perceber mesmo que a chamada estava no viva-voz e a voz dele estava um pouco longe e dividia lugar com algum outro barulho.

- Porque depois que Margot fez o almoço, eu disse para ela que poderia ir embora. É sábado, não gosto de ter que fazê-la trabalhar até tarde.

- Ela passou suas roupas?

- De manhã, enquanto fui correr.

Harry sempre acabava dizendo que ela poderia fazer isso na segunda-feira e aí acabava sem roupas passadas para o fim de semana.

- Você tem sorte de ter uma mulher tão legal trabalhando para você, porque você é um bagunceiro.

- Sorte não, eu pago muito bem. - Riu em seguida.

- Nem por todo o dinheiro do mundo eu trabalharia para ficar recolhendo suas meias espalhadas pela casa.

- Você faz isso de graça!

- Porque você é folgado e espalha suas coisas pela minha casa! Eu devia jogar tudo fora mesmo.

- Você sempre ameaça que vai jogar tudo fora.

- Talvez eu devesse começar a cumprir! A senhora Thompson vai direto para o céu por te aguentar.

- Mas eu sou um amor. Estou até lavando as vasilhas!

- Não faz mais que a sua obrigação. Você quem sujou.

- Você é cruel, sabia disso?

- E você me ama! - Gargalhei e ele me acompanhou. - E eu também te amo, você sabe disso, não sabe?! Quero te pedir uma coisa! - Falei tudo de uma vez só.

- É claro que você não estava se declarando. Foi muito fácil para ser verdade.

- Sonha, Harry Styles. Sonha.

- O que você quer, interesseira?

Eu tinha aquela conversa com Harry no tom mais descontraído possível, mas, por dentro, eu sentia meu coração batendo mais rápido do que o normal. Eu poderia ser considerada uma masoquista por ficar brincando assim comigo mesma? Eu sabia que essas piadas internas, que não passavam de nada além disso, piadas, mexiam comigo. E mesmo assim eu continuava agindo como antes. Como quando éramos, de fato, só amigos. Bem, ainda éramos só isso, porque Harry não sabia que eu me sentia diferente agora.

- Então... Sabe o que é? É porque é carnaval no Brasil e eu estava lembrando dos meus amigos e também do meu irmão e aí lembrei de quando eu fui para o seu show e...

- ), pede logo o que você quer. Eu sei que você está enrolando. - Comecei a rir.

- Me empresta sua moto?

- Para que você quer a minha moto? Quero dizer, é só isso? É claro que eu te empresto, mas ‘tô curioso, para que você precisa dela?

- Você quer dar um passeio de moto comigo? Eu piloto, é claro.



A minha fissura por passeios de carro na madrugada ou de moto pela tarde não tinha a ver com o lugar, ou com o fato de andar por aí sem ter para onde ir ou onde precisar chegar; tinha mais a ver com a companhia. Fosse a minha própria ou de alguém de quem eu gostasse muito. As únicas pessoas que me acompanharam nisso antes de Harry foram André e meu último ex, Daniel.

Para ser sincera, eu quem acompanhava André e não o contrário, porque esse hábito, ou melhor, esse gosto por passeios sem destino foi primeiro dele. Ele quase nunca me deixava pilotar, então estava sempre em sua garupa.

O meu carro ficou do lado de dentro da entrada arborizada da casa de Harry.

- Eu não estou muito confiante com isso.

O portão branco eletrônico abria e eu batia no estofado do banco de sua Harley Davidson para que ele montasse atrás de mim.

- Harry, eu piloto há tanto tempo quanto você e considerando que eu pilotei muito mais vezes durante esse tempo, você não tem com o que se preocupar.

- Eu nunca andei na garupa de ninguém. Eu sempre piloto.

- Você não confia em mim? - Ele suspirou e concordou com a cabeça.

Ainda um pouco hesitante, Harry montou na garupa e eu acelerei para fora, parando um pouco no passeio enquanto esperávamos que o portão se fechasse às nossas costas.

- Aonde vamos? - Perguntou antes que eu começasse a andar

- Vamos passar pela orla da praia? Deve ser ótimo fazer isso de moto.

Harry concordou com um murmúrio, precisávamos conversar tudo agora, porque depois que estivéssemos na rua seria muito difícil ouvir um ao outro.

- Quando você anda na garupa, precisa travar suas pernas para dentro o máximo que conseguir, okay? Assim você nos ajuda a ficar estáveis nas curvas. - Outro aceno de cabeça.

- Então eu tenho praticamente que te encoxar? Isso não vai ser tão ruim quanto eu pensava. -

Eu dei uma gargalhada me lembrando que eu já ouvi a mesma coisa de Daniel. Homens eram tão previsíveis.

- Isso é uma desculpa porque você quer ser encoxada? - Arregalou os olhos fingindo ter descoberto meu real e obscuro motivo.

- Não, Harry. Estou falando sério. Se você deixar suas pernas frouxas e abertas, pode nos fazer tombar. - Senti seus joelhos apertando as minhas pernas. - Também não precisa ficar neurótico assim, travado. Só fique firme, okay? É como quando você pilota.

- Por que não falou antes?

- É a mesma coisa, é só que quando as pessoas estão na garupa costumam achar que podem deixar as pernas soltas. - Revirei os olhos e fechei o capacete. - Pronto?

- Sim! - Falou um pouco mais alto para que eu ouvisse através dos capacetes.

Sem responder, acelerei a moto e recolhi os pés do chão, trocando quase no mesmo segundo para segunda e depois terceira marcha quando já estávamos na nossa faixa na rua.

Eu nem me lembrava mais como era pilotar nas ruas do bairro de Harry, já que foram raros os momentos em que fui para sua casa com a Hondinha, ele sempre me buscava de carro, ou ficava mais na minha casa. Ao pensar sobre isso, vejo como nossa logística melhorou em 80% depois que comprei meu carro.

De carro até qualquer parte da costa demorávamos em torno de uma hora, chegamos com 45 minutos de moto. Como não íamos para nenhum lugar específico, eu continuei pilotando pela estrada que beirava a praia. No horizonte, víamos o azul do oceano ir ao encontro do azul do céu.

A tarde em Los Angeles era sempre ensolarada. Na verdade, eram raros os momentos em que não fazia calor nesse lugar. A falta de proteção da moto nos fazia sentir um vento refrescante conforme eu ia mais rápido.

Harry tinha as mãos fechadas em punho apoiadas nas próprias pernas, provavelmente as costas estava doendo depois de vir com aquela sua mal postura característica por todo o caminho, eu achava que agora talvez não adiantasse muito ficar com as costas retas, mas me divertia com ele tentando. Eu conseguia senti-lo puxar o ar e estufar o peito bem atrás de mim, na tentativa de manter a postura corrigida.

Tirei a mão esquerda do guidão e tateei cegamente procurando pela dele atrás de mim, apertando-a e em seguida apertando sua perna. Meu gesto fez com que ele levasse as duas mãos até os meus quadris, depositando-as suavemente ali.

Eu tinha prendido meus cabelos dentro do capacete, pois pensei que poderiam incomodar Harry quando ventasse, mas eu me lembrava perfeitamente da sensação dos fios ricochetando para todos os lados, como se eu não tivesse ficado nem mesmo um dia sem subir em uma moto.

A moto de Harry era, de fato, muito diferente da Hondinha, demandava uma inclinação maior do meu corpo para alcançar os guidões, visto que era uma moto mais baixa do que a que eu tinha, parecia até que eu estava em uma corrida profissional ou algo assim, era uma sensação gostosa.

Andamos de Santa Mônica até um pouco depois de Malibu, eu peguei a moto com o tanque um pouco menos da metade e não queria nem pensar na possibilidade de precisar descer em um posto com Harry na garupa, então achei melhor voltar antes que ficássemos sem combustível.

Mas antes disso parei em um acostamento. Tinha ido tão longe que nem via mais a praia dali da avenida principal. A coisa toda meio que tinha desviado do propósito, já que eu queria ir o mais próximo da orla da praia.

- Onde estamos? - Harry perguntou confuso quando desci da moto meio trôpega.

Do lado do acostamento tinha uma rua que provavelmente ia em direção à praia. Do outro lado da rua, lotes vagos com muito mato. Era como se estivéssemos no subúrbio de Malibu, se não fosse pela praia que provavelmente estava logo depois dos lotes.

Eu nunca tinha ido ali também, então não tinha muito mais noção do que Harry.

- Você que vem para Malibu sempre. - Dei de ombros, encarando-o que ainda sentava na moto.

- Eu nunca vim para cá. - Rebateu.

- Verdade! Você só vai até os restaurantes caros no centro. - Ele deu uma risada da provocação. - Você precisa viver fora dessa sua bolha de famoso, Styles. O mundo é um lugar enorme e você tem possibilidade de explorar muito além do óbvio. Não se limite a ir aonde todo mundo que você conhece vai.

- E você conhece aqui?

- Não. - Ele tombou a cabeça e arqueou uma sobrancelha. - E esse é o ponto!




- Amor, aonde você está nos levando?

- Para um lugar.

- Você ao menos sabe aonde está indo?

- Não se preocupe com isso, Dan. Curte a viagem enquanto a sua namorada pilota.

- É um pouco difícil apreciar a paisagem enquanto eu estou sentado bem atrás de você assim.

Eu comecei a gargalhar. Daniel e eu gritávamos um para o outro, as viseiras dos nossos capacetes estavam levantadas para que conseguíssemos mal nos escutar.

- Eu sei que sou uma grande gostosa.

Meu comentário fez com que Daniel deslizasse uma das mãos pela minha coxa, apertando a parte interna.

- Você já caiu de moto? - Gritei.

- Não! Eu nem sei andar de moto, você sabe que só ando com você. - Gritou de volta.

- Pois é o que vai acontecer se você continuar fazendo isso.

- Isso o quê? - Se fez de desentendido e passou a mão na minha virilha dessa vez. Soltei o ar em um gemido misturado com uma bufada de frustração. - Ah, isso? - Fez de novo.

Nesse ponto eu já ria de nervoso, porque eu estava ali, pilotando uma moto a mais de 80km de distância por hora, enquanto meu namorado na garupa me provocava.

- Okay. Vamos precisar fazer uma parada. - Anunciei bem a tempo de ver a placa de um motel na estrada.





Eu ainda tinha essa moto, estava na casa dos meus pais no Brasil.

- Só... aprecie a vista. - Eu sugeri.

- Vista? Estamos numa estrada no meio do nada! - Rebateu.

Bem, ele tinha razão.

Montei na Harley Davidson novamente, dessa vez, sentando praticamente no colo de Harry de propósito, garantindo que ele sentiria a rebolada discreta.

- Então tire uma foto minha. - Eu pedi como se não tivesse feito absolutamente nada e ele me olhou confuso, ainda processando a sentença que tinha ouvido.

- Vai, desce. - Mandei e ele desceu da moto um pouco atordoado.

Eu não podia reclamar de Harry, até que ele era um bom fotógrafo e não se importava que eu pedisse para repetir a pose ou que tirasse outras 50 fotos diferentes.

- Vem aqui, vamos tirar uma foto juntos. - Chamei.

Ele se aproximou e bateu uma selfie nossa. Sim, Brasil, Harry Styles sabe tirar selfies.

- Obrigada. - Eu desci da moto olhando para as fotos e Harry voltou a se sentar. - Ei, ei, ei! - Chamei sua atenção. - Eu que vou pilotar! - Decretei apontando um dedo em seu rosto quando vi que havia se sentado mais pra frente e segurado um dos guidões.

Sem dizer nada, Harry colocou as duas mãos para o alto e depois as apoiou no tanque de combustível, mas ainda assim não mexeu a bunda do banco. Se ele estava tentando me enrolar para não ir na garupa de novo, não ia funcionar.

- Não estou tentando roubar a minha moto. - Falou por fim e eu respondi com uma careta.

Harry fixou o olhar em algum ponto à sua frente, mexendo-o ao acompanhar o passar dos carros pela estrada.

Eu tinha as mãos nos bolsos e comecei a chutar uma pedrinha que estava aos meus pés.

- Vai fazer um ano... desde que eu me mudei. - Quebrei o silêncio que não havia durado muito tempo.

- Então nos conhecemos há um ano? - Harry tentava balançar os pés no ar, mas, por ser alto, o máximo que fazia era arrastar o solado do vans branco imundo no asfalto quente.

- Não. Eu já tinha me mudado há mais de um mês quando nos esbarramos.

- Na minha cabeça é como se tivéssemos nos conhecido no boliche.

- Você não se lembra de como nos conhecemos? - Retruquei incrédula ao encará-lo com uma expressão de espanto. - O boliche foi meses depois! - Harry começou a rir.

- Claro que me lembro. - Ele revirou os olhos, parando de arrastar os pés por um momento. - Parece que foi há uma vida que você me abordou desesperada perdida nessas ruas. - Eu cruzei os braços e também revirei os olhos.

Harry e eu estávamos relativamente bem depois do episódio no Japão. Já havia se passado mais de um mês e eu não me sentia magoada pelo que ele havia dito, mas eu experienciava momentos de fraqueza em que as suas palavras ressoavam na minha cabeça de maneira distorcida.

Harry disse “...mas não é isso que somos? O escape?” e a minha cabeça transformava em “você não é nada para mim” “só somos amigos porque posso fazer sexo com você sem me preocupar com cobranças ou dar satisfações”. Ah! A tão indesejada montanha russa de emoções...

Balancei a cabeça, espantando esses pensamentos.

Eu sabia que tudo aquilo que eu pensava era mentira e que a única verdade é que ele era meu amigo, sim.

- Eu sinto falta, sabe? Dos meus pais. De todo mundo no Brasil. É bom ter alguém como você para quem dizer isso, porque eu acho que você entende bem como é. - Harry concordou com a cabeça.

- Quando você diz todo mundo... - Harry deixou um sorriso ladino preencher seu rosto. - Isso inclui o seu namoradinho que está longe também?

Eu tombei a cabeça para o lado e dei uma risada confusa, balbuciando alguns “o quê?” inaudíveis.

- Desculpe. Eu não sei porque eu disse isso. - Harry respondeu nervoso e um pouco sem graça.

- Eu não acredito. - Falei pausadamente e Harry deixou escapar outra risada nervosa que tentou disfarçar colocando a mão na boca. - Eu falando sério e você debochando de mim? Não sabia que tínhamos invertido os papéis. - Comecei séria e acabei rindo para descontrair.

Não havia motivos para que ele ficasse tímido perto de mim. Se o meu ex com quem eu não conversava há um ano passou pela cabeça dele, ele não deveria ter que reprimir o pensamento; não comigo. Nunca comigo. Se ele sentia raiva, que não me escondesse, se ele sentia ciúmes, que dissesse. Fosse o que ele estivesse sentindo, eu deveria saber que, comigo, ele nunca precisaria não ser ele mesmo, porque eu o queria o mais próximo de mim possível e isso só aconteceria se ele sempre sentisse que comigo ele jamais precisaria ensaiar o que dizer.

Comigo ele nunca precisará ensaiar o que dizer.

- É a convivência. - Piscou divertido e eu sorri sentindo que ele captou a mensagem quando o vi relaxar.

- Você acha que eu estaria com você se eu estivesse sentindo falta dele? - Retruquei sem vacilar.

- Ah, então você admite que está comigo?

- Estou... te pegando. - Gargalhei. - Quero dizer, não nesse exato momento, até porque estamos na rua e tudo mais.

- Estou me sentindo usado. - Arqueei uma sobrancelha e acabei ficando séria mesmo sem querer.

Harry me encarou e eu sustentei seu olhar por alguns segundos.

- Bem, pode não ser um ano ainda, mas te conhecer foi uma das melhores coisas que me aconteceram no ano passado. E esse tempo desde então tem sido um dos melhores. Eu sinto como se-se... - Gaguejou um pouco e eu praticamente não respirava porque não queria o interromper. - ... como se eu tivesse um lugar para voltar, sabe? Como se eu tivesse algo muito importante me esperando. - Sem graça, abaixou a cabeça e sorriu. - Há muito tempo eu não me sentia assim. - Balançou a cabeça como eu tinha feito minutos antes, como se para espantar pensamentos. - Há anos.

- Hmmm. - Murmurei. - Você só está dizendo isso porque está com remorso. - Minha voz saiu extremamente esquisita na tentativa de ser engraçada com aquele fundo de verdade que usamos para dar uma leve cutucada.

Mas eu me arrependi assim que terminei de falar. Então depositei todo o peso do corpo em um só pé, me sentindo desconfortável.

- Por que eu diria isso só por estar com remorso? - Replicou sério.

- Para tentar fazer com que eu não me sinta só como sua amiga de sexo. - Rebati rápido e ficando séria também.

Eu também não queria ter que ensaiar o que dizer para ele.

- Isso é sério? - Dei de ombros. - Depois de um ano convivendo comigo você acha que eu seria falso o suficiente para dizer isso tudo só para consertar algo idiota que eu disse antes? Você me conhece tão pouco assim? Quando eu te digo isso, é porque eu realmente quis dizer.

- Eu não quis dizer que você é falso. - Troquei o peso de perna de novo.

- Então me diz, , o que você quis dizer?

- Jezz. Você está bravo? Calma, eu estava brincando. - Tentei contornar a situação, mas talvez já fosse tarde demais. Mas também não havia motivos para ficar tão ofendido. - Você pode debochar de mim, mas eu não posso debochar de você?



O ruim da moto de Harry era que o descanso de estacionar não a inclinava muito.

Assim que entramos em sua garagem e eu estacionei nos fundos bem atrás do meu carro, meu calcanhar quase ficou agarrado quando tentei descer dobrando a perna em vez de esticá-la pela parte de trás, já que não tinha como fazer isso com Harry ainda sentado na traseira. Como o descanso deixava a moto apenas levemente inclinada, a altura não ajudava muito.

- O que você está fazendo? - Me perguntou confuso ao me segurar involuntariamente antes que eu caísse de cara no chão.

- Descendo da moto. O que parece que eu estou fazendo?

Todas as minhas ideias malucas de sexo na moto tinham evaporado depois do clima tenso que nós mesmos criamos por uma bobagem.

A viagem de volta não foi nem metade divertida como foi na ida. Eu acabei montando na moto de novo e vindo embora. Harry não disse uma palavra mais.

Era incrível como podíamos ir de brincalhões à extremamente sérios e quase discutindo num piscar de olhos. A bipolaridade que rondava a nossa relação me deixava zonza.

- Ei! - Harry tinha soltado um dos meus braços, mas permaneceu segurando o outro. - Não vamos ficar brigando.

Suspirei audivelmente antes de olhá-lo nos olhos. E lá estava o turbilhão de sentimentos e sensações mais uma vez, bloqueando todo o meu discernimento e racionalidade.

Voltei a me sentar na moto, dessa vez de frente para ele.

- Deixa os pés no chão, senão a moto pode tombar. - Pedi e ele concordou com a cabeça, ainda confuso.

Do jeito que eu estava, meus pés não alcançavam o chão. Que ideia foi essa que eu tive?

Passei os braços ao redor de seu pescoço, demonstrando toda a confiança que eu consegui reunir antes de beijá-lo sem aviso.

O bom da moto de Harry era que o descanso não a inclinava muito.

Harry correspondeu sem hesitar e passou os dois braços ao redor do meu tronco, abraçando-me firme.

Eu não entendia antes como meus sentidos, emoções, sensações e todo o resto podiam oscilar em tantos extremos na presença de Harry, talvez pensasse que fosse um efeito exclusivo de sua pessoa, mas hoje vejo que é o efeito de se estar intensamente apaixonada por ele.

- Vamos para o quarto?! - Me perguntou ofegante.

Eu estava apaixonada por Harry. E esse sentimento era como um furacão na minha vida, bagunçando, destruindo e deixando tudo revirado em um piscar de olhos. E eu sabia que não poderia me livrar disso.

- Não, vamos ficar aqui.



*




Entramos para a casa de Harry aos risos e olhares cúmplices. Convenhamos que seria meio difícil continuarmos estranhos um com o outro depois do que tinha acabado de acontecer, do que tínhamos acabado de fazer.

- O que acha se fôssemos para a piscina? - Harry sugeriu ao abrir a porta de seu quarto.

Era um pouco mais do meio da tarde e o sol ainda brilhava.

- Você sabe que eu não tenho nenhuma roupa aqui, não sabe? Isso inclui biquinis.

Harry parou no meio do quarto se virando para mim. Uma de suas mãos foi até a minha nuca e ele começou a fazer um carinho nos meus cabelos.

- Nos próximos dias eu vou separar aquelas roupas que tenho dito que quero doar. Isso vai abrir espaço no meu closet, e aí você pode trazer algumas roupas suas, coisas de mulher... Tipo biquinis que não tem como eu te emprestar. O que você acha? - Eu desviei o olhar até a porta do closet. - Ou podemos também sair para comprar algumas coisas para você deixar aqui. Não que eu me importe de você usar as minhas, é claro.

- Seria legal. - Voltei a olhá-lo e dei um sorriso. - Quero dizer, eu posso trazer algumas coisas. Obrigada.

Eu nunca tinha me preocupado em levar nada para a casa de Harry, pois compartilhávamos tudo; desde roupas até shampoos e cremes de pele. Ele sempre teve muito bom gosto, então eu gostava de todos os cheiros desses itens. E eu sempre andava com calcinhas limpas na bolsa, caso eu não voltasse para casa.

- Mas hoje você pode ficar de calcinha e sutiã. Eu não me importo. - Fez uma careta de indiferença e sorriu também.

- Cretino. - Harry tombou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. - Então me empreste uma dessas suas camisas de botão, porque eu não vou sair andando até lá fora só de calcinha e sutiã. - Dei um tapa em seu ombro.

- Meu closet é seu. Pegue o que quiser. - Revirei os olhos.

- Agora você está sendo brega.

- Mas você é mesmo uma mulher difícil de agradar, . Jezz! - Arqueei uma sobrancelha e caminhei desviando dele para chegar até o closet. - Okay! Tudo bem. Isso é mentira. - Falou mais alto quando eu sumi lá para dentro. - Você é bem fácil de agradar.

- E sou mesmo. Obrigada pelo reconhecimento. - Falei ao sair de dentro do closet com uma camisa em cada mão.

Uma das camisas era uma rosa estampada com bolinhas brancas, da YSL, bem famosa entre os fãs, pois ele usou uma vez em um show em 2015, ainda com a banda. A outra era uma camisa da Gucci cor de pêssego, personalizada com a palavra ‘Styles’ bordada no peito.

- Posso usar uma dessas duas?

- Claro. - Deu de ombros. - Mas com essas mangas longas você não vai sentir calor de ficar no sol? - Neguei com a cabeça. Eu não tinha intenção de ficar no sol vestindo a camisa.

- Qual? - Alternei as duas na frente do meu corpo.

Harry contorceu os lábios pensativo. Murmurou alguns “hums” e colocou a mão no queixo.

- A pêssego. - Quando falou, não houve hesitação.

- Mas você é mesmo fangirl da Gucci, não é? - Debochei.

- Só porque você gosta mais de Saint Laurent não quer dizer que eu sou fangirl da Gucci.

- Quem disse que eu gosto mais de Saint Laurent? - Arqueei uma sobrancelha.

- Eu já percebi. - Deu de ombros de novo. E eu neguei com a cabeça e um sorrisinho nos lábios. - Além do mais, escolhi essa porque tem o meu sobrenome gravado. - Me lançou uma piscadela.

- Mas você é mesmo um homem muito narcisista, Harry Styles. Jezz! - Imitei o mesmo tom de voz que ele havia usado comigo ao dizer que eu era ‘uma mulher difícil de se agradar’.

Harry estendeu uma das mãos em direção a camisa da YSL.

- Vai aceitar minha opinião?

Sem dizer nada, eu entreguei o cabide a ele, que imediatamente saiu andando para guardá-lo de volta no closet.

- Além do mais, isso tem muito mais a ver com você usando algo com meu nome do que com o meu ego.



Eu tinha pegado no carro um livro que Harry havia me emprestado e lia-o enquanto estava deitada de bruços em uma toalha ao lado da piscina, os cotovelos apoiados no chão para firmar o livro que eu segurava nas mãos. Eu tinha prendido os cabelos em um coque bagunçado e aberto o fecho do sutiã para que não ficasse com marcas estranhas nas costas.

- Qual é, ! Você não vai mesmo entrar? - Harry, que tinha acabado de emergir da água, gritou enquanto balançava a cabeça rapidamente e puxava os cabelos molhados para trás. - O sol já vai se pôr!

- Depois. - Gritei de volta e alcancei a lata de cerveja ao meu lado. Fiz uma careta ao provar o líquido. - Está tão quente que a cerveja já esquentou.

Harry mergulhou de novo, nadando na minha direção.

- Eu posso te fazer um drink. - Sugeriu ao apoiar os braços na beirada da piscina. Eu tirei o par de óculos escuros dele que eu usava e coloquei ao lado da toalha.

- Que tal se eu te fizer um drink? - Ele sorriu confuso e tombou a cabeça para o lado enquanto eu já me punha de pé e estendia a mão para ele. - Vem!

- O que você vai fazer?

- Eu vou fazer uma bebida típica brasileira que você já tomou.

- Eu já? - Concordei com a cabeça e murmurei um “uh-hum”.

- Em 2014, quando foi para o Brasil na primeira vez. Vocês beberam na piscina no hotel no Rio de Janeiro. Caipirinha, você se lembra?

- Eu me lembro de beber muitas coisas no Rio de Janeiro. Teve uma festa no hotel à noite.

- Agora ficar loucasso você não se lembra, né. - Resmunguei em português enquanto revirei os olhos.

- O quê?

- Nada. Deixa para lá.

Eu balancei uma mão no ar e entrei dentro da casa em direção à cozinha. Harry me seguiu trôpego.

- A gente deveria ter ido em alguma feira em Hollywood para comprar uma garrafa de cachaça.

- Caçaxa? - Repetiu e eu comecei a rir.

- É uma bebida alcoólica feita de cana-de-açúcar e a gente usa para fazer caipirinha.

Eu expliquei sem corrigir sua pronúncia, porque tinha achado muito fofinho para que não deixasse que ele continuasse falando errado.

Fui em direção ao bar, ou seja lá como chama a área em que Harry tinha uma coleção de bebidas de todos os tipos, e puxei uma garrafa de vodka que estava cheia um pouco além da metade.

- Mas vodka serve também. - Balancei a garrafa em sua frente e voltei para a cozinha, quase trombando com Harry que estava completamente perdido me seguindo.

- O que mais precisa?

- Limões, gelo, açúcar. - Listei enquanto abria um dos armários da parede para pegar o açúcar e ouvi Harry abrindo a geladeira logo atrás de mim.

Em seguida, com todos os itens em cima da bancada, procurei na gaveta uma faca e o que mais servisse para fazer a bebida. Caprichei no álcool como boa brasileira que sou e provei antes de passar o copo, de whisky que eu havia usado, para Harry.

- Acha que está bom ou precisa de mais vodka?

Harry bebericou com cuidado e imediatamente afastou o copo com olhos arregalados, seguido de uma tosse contida.

- Ficou forte? - Perguntei com um sorriso inocente.

- Na-não. Está ótimo. - Respondeu com a melhor pose de machão que conseguiu fazer. E, considerando que estamos falando de Harry Styles, não foi muito convincente.

- Ótimo! - Repeti.

Eu havia preparado uma jarra, então rapidamente coloquei um copo para mim também e guardei a jarra na geladeira.

Caminhamos juntos para o lado de fora, Harry pegou a minha mão que não segurava o copo e me puxou contra seu corpo, me dando um beijo leve nos lábios.

- Você está linda atravessando minha casa de calcinha e sutiã.

Em um primeiro momento eu encarei seus olhos e depois desviei o olhar para o chão, com um sorriso tímido e envergonhado nos lábios.

- De sutiã aberto, inclusive. - Rebati depois de alguns segundos. A peça ainda tampava meus seios, mas uma parte embaixo escapava para fora do bojo enquanto eu andava.

Eu vestia um sutiã simples que não combinava com a calcinha. Normalizem não vestir o conjunto de lingerie!

- Melhor ainda. - Harry não hesitou na resposta quando voltamos a caminhar de mãos dadas e balançando os braços e eu dei uma gargalhada.

Andar de calcinha e sutiã em um local em que eu não estivesse sozinha era algo fora de cogitação antes de conhecer Harry. Eu jamais teria me sentido confortável. Mas ele me fazia sentir como se eu não precisasse me preocupar com a minha aparência, seja como ela fosse naquele determinado momento; desde que eu estivesse confortável, nada mais importava.

E, puta merda, como eu me sentia confortável com Harry. Quando eu conseguia me esquecer do formigamento nos meus dedos que tocavam os seus. Se eu conseguia esquecer do quase choque térmico da sua mão quente e, sem anéis, na minha, que suava frio.

Porque quando eu não conseguia me esquecer, era impossível de me sentir confortável sabendo que eu estava apaixonada por ele e que o menor contato físico me deixava inquieta e nervosa porque eu estava mentindo, ou melhor, omitindo algo dele e, num geral, já era difícil guardar qualquer segredo de Harry, mais difícil era guardar um segredo sobre ele.

Eu me deitei do mesmo jeito que estava e Harry se sentou na beira da piscina ao meu lado, para que pudéssemos conversar e desfrutar da bebida.

- Me conta alguma coisa. - Eu pedi.

- Sobre o quê?

- Sobre a sua ida ao Brasil em 2014. Do que você se lembra?

- Eu me lembro disso. - Alcançou o copo que tinha depositado no chão e o ergueu batendo no meu. - E de entrar em pé nas escadas da piscina às oito da manhã com meu par de chelsea’s preferido.

- É claro que você se lembra da melhor bebida alcoólica do mundo.

- Não exagera. - Rebateu e eu revirei os olhos.

- H, você bebe tequila como se fosse champanhe. Você não tem parâmetros para julgar o que é bom ou ruim.

- Ei! Você também gosta de tequila!

- Em shots com limão e sal. - Fingi bufar e apanhei o meu celular que tinha ficado ao lado dos óculos. - Meu Deus! - Exclamei. - Eu quase explodi o meu iPhone. Está fervendo, olha! - Falei alto e alarmada e encostei o celular na bochecha de Harry com um pouco de força que gerou um tapa estalado.

- Ouch! - Exclamou de susto.

- Desculpa. - Falei ao mesmo tempo.

- Está bem quente mesmo, tire do sol.

Encarei-o como se dissesse “o que acha que estou fazendo?”. Em vez de dizer algo, procurei no Google fotos de Harry na piscina do hotel em 2014, passando o aparelho para ele em seguida.

- Uau. Esse sou eu. - Respondeu debilmente.

- Você ainda fica idiota exatamente assim quando está bêbado.

- Eu não fico idiota! - Exclamou ofendido. E eu arqueei uma sobrancelha.

- Jura? - Dei uma risadinha.

- , seu celular está tocando. - Avisou ao mesmo tempo em que me erguia o aparelho vibrante de volta.

Eu encarei a tela enquanto um número não salvo com DDD da minha cidade natal brilhava.

- Hum. - Murmurei. - É do Brasil. Quem será? - Perguntei mais para mim mesma, mas vi Harry dando de ombros.

- Alô? - Atendi em inglês por hábito e rolei os olhos quando vi Harry negar com a cabeça segurando uma risada. - Alô? - Repeti em português depois de coçar a garganta.

- Oi, . - A voz que eu ouvi do outro lado da linha fez arrepiar a minha espinha.

- Que-quem é?

- Você não reconhece mais a minha voz, amor?

Harry me encarava atentamente e ficou em alerta quando eu suspirei e revirei os olhos de uma maneira que eu não costumava fazer. De uma maneira que não era em divertimento.

- Como você conseguiu o meu número? - Rosnei entre dentes e Harry me olhou ainda mais confuso por não estar entendendo nada.

- Nossa, linda, isso é jeito de falar comigo depois de tanto tempo?

- Rafael, o que você quer? - Vociferei, ainda com a voz grave e baixa.

- Só liguei para saber como você está, bebê. Estou com saudades. Soube que vai vir de férias para o Brasil.

- Como você conseguiu esse número? - Perguntei de novo, falando pausadamente.

- Então, que dia você chega? - Perguntou casualmente ignorando a minha pergunta anterior.

- Não é da sua conta! - Acabei falando um pouco mais alto do que calculei, o que fez com que Harry arrastasse o corpo para mais perto de mim.

- Quem é? - Sussurrou e eu apenas neguei com a cabeça.

- Nossa! - Rafael exclamou. - Mas você não mudou nada mesmo não é, ? Seus pais não te deram educação e mesmo tendo namorado todos aqueles anos comigo não aprendeu nada do que eu te ensinei.

O tom de voz agressivo teria me feito recuar, se eu não estivesse deitada. Mas foi o suficiente para que eu me pusesse de pé.

- Cala a boca. - Gritei tão agressiva quanto e coloquei uma mão na testa. Eu não ia chorar.

Harry se levantou imediatamente e se pôs na minha frente, tentando fazer contato visual comigo, mas permaneci olhando para o chão.

- É por isso que ninguém te quer, sua vadia, eu te falei que eu era o único que ia te aturar, por isso que o seu namoradinho te deu um pé na bunda e agora você está sozinha.

Era quase como se eu estivesse em choque até então e suas palavras finalmente me fizeram acordar.

- Vai tomar no seu cu, Rafael. Eu que terminei com ele, seu escroto do caralho! - Cada vez eu gritava mais alto. - E quer saber de uma coisa? Morre!

Eu desliguei o celular tremendo tanto que não percebi que as dobras dos meus dedos estavam brancas por causa da força que eu o segurava até Harry tocar a minha mão, pegando o aparelho e me puxando para um abraço.

Ele me apertou em seus braços com segurança sem dizer nada pelo que pareceu um longo tempo e quando percebeu que eu não tremia mais, sussurrou:

- O que aconteceu?

- Eu não sei como ele descobriu o meu número. - Balbuciei e Harry me segurou pelos ombros e se afastou para me encarar.

- O quê? - Confuso, mas me olhava intensamente. - ), você ainda está falando em português.

- E-eu não sei co-como ele descobriu o-o meu número. - Quase soletrei, como se tivesse me esquecido da entonação das palavras na língua em que eu já estava tão familiarizada.

- “Ele”, quem? - A voz de Harry era baixa e cautelosa.

- Meu ex.

- Deni-el? - Harry falou o nome em uma mistura de sotaque em inglês com português, esse último sendo como ele me ouvia falar.

Neguei com a cabeça.

- O outro.

Aquele que pertencia ao meu real passado obscuro, do qual eu não queria me lembrar.

Eu contei superficialmente o que Rafael tinha falado, sobre ter descoberto que eu ia passar férias no Brasil e que ele tinha sido agressivo e que eu tinha mandado ele tomar naquele lugar desligando na cara dele.

Era o máximo que eu conseguia trazer à tona de uma só vez. Assim como a morte de meu irmão quando nos conhecemos, isso era algo que eu preferia nunca ter que falar sobre.

- O que é tomá nu cú? - Perguntou inocente, tentando imitar o meu sotaque.

Eu mais do que depressa comecei a gargalhar. O que fez com que Harry me olhasse ainda mais confuso e um pouco envergonhado.

- Desculpa. É que você falou de um jeito tão fofo.

- Para de me chamar de fofo. Eu sou um homem! - Engrossou a voz numa brincadeira, o que me fez rir mais ainda.

- Você só não é mais queer* porque ainda gosta de mulher. - Ele passou os dedos gentilmente ao redor dos meus olhos, limpando qualquer resquício de lágrimas.

A minha resposta não fazia nenhum sentido, uma vez que o que faria com que ele não se identificasse como hétero seria o fato de não gostar só de mulheres... Não de, bem, gostar. O que ele, como eu podia provar, gostava. Mas desde que ele gostasse de qualquer outro gênero também, ele já não era mais hétero. De qualquer modo, foi o bastante para provocar Harry e direcioná-lo ao foco do que eu queria que ele prestasse atenção.

- Ainda? Como assim “ainda”?

- Achei que tínhamos deixado para trás a saga do “como assim”. - Rebati com um sorrisinho de lado.

- Você não tem jeito, não é? - Balançou a cabeça e passou um dos braços sobre o meu ombro. - Vem, vamos pegar mais caipirinha e você me conta o que é esse palavrão que você disse aí.

- E é, literalmente, um palavrão. - Fiz a tradução, que imediatamente deixou Harry de boca aberta.

- Eu não acredito que você, a doce , diz coisas desse tipo.

- Ah, cala a boca. - Revirei os olhos. - Eu te falei aquele dia na casa da sua mãe que eu digo essas coisas o tempo todo, você só não entende porque eu digo em outra língua.

- Bem, eu preciso aprender a falar português e expandir meu vocabulário de palavrões.

Enquanto Harry falava, eu já tinha nos servido com mais um copo cada de bebida, guardado o restante na geladeira de novo, tomando o copo da mão de Harry em seguida e parado de costas para ele.

- Abotoa para mim, por favor. - Falei me referindo ao sutiã.

- Com todo o prazer. - Embora a resposta atrevida, Harry apenas abotoou o sutiã como eu pedi e me virou de frente para ele novamente, depositando um beijo suave na minha testa antes de pegar o próprio copo de volta.

Eu tinha bebido metade do meu copo em um gole, então voltei a abrir a geladeira para completar. A caipirinha me fez relaxar. Quase me fez esquecer do incômodo constante no meu peito, que apenas foi agravado pela ligação inesperada do meu ex-namorado abusivo.

- Vou fazer mais. - Anunciei ao balançar a jarra na frente do meu rosto e ver que ali só tinha o equivalente a talvez um copo e meio.

Eu praticamente esqueci o episódio de alguns minutos atrás, quase balançada angelicalmente pelo conforto da presença e cuidado de Harry.

Antes mesmo que eu terminasse de fazer mais, Harry tinha enchido o seu próprio copo e completado o meu, esvaziado a jarra, jogado fora os limões e passado água para limpar os resquícios de açúcar.

- Você já sabe quando tira férias? - A pergunta veio cautelosa e com um tom indiferente, como se testasse o ambiente.

- Em maio. - Eu respondi casualmente, mostrando que não havia necessidade para evitar nenhum assunto correlacionado com o fatídico acontecido.

Mas apreciei seu cuidado.

- E viaja quando para o Brasil? Você já comprou suas passagens?

- Ainda estou olhando as passagens, então não sei o dia certo. Coloquei um alerta no google para me avisar de promoções. Espero pegar um dia com preço bem bacana.

- E é muito caro?

- Um pouco. Mas como nunca fui, também não tenho parâmetros para saber se está no valor normal que é sempre, ou se está muito acima, sei lá, preciso pesquisar bem.

- Bem, eu posso pagar a diferença para você. - Sugeriu no mesmo tom casual que eu havia usado, como quem diz “bem, eu posso buscar água na cozinha para você”.

- Puffff! - Meus lábios fizeram um barulho de “até parece”, antes mesmo que eu vocalizasse essas palavras. - Até parece! - Rolei os olhos enquanto transferia o líquido para a jarra e misturava mais uma vez só para garantir.

- Sabe qual é o problema? - “Hm?”, eu respondi com um meio sorriso, já sabendo o que estava por vir. - Você não tem um pingo de respeito por mim! Você debocha de mim na minha cara, você nem hesita ao fazer isso. Você é muito, muito afrontosa. - Eu dei uma risadinha. - Terminou?

- Terminei. - Respondi.

- Então vamos voltar. - Eu concordei com a cabeça.

Já estava escuro quando voltamos lá para fora. Eu estava prestes a me deitar no mesmo lugar quando Harry tirou o copo da minha mão e o colocou em cima da toalha.

Eu não estava excepcionalmente bêbada, não como eu geralmente costumava ficar quando bebia com Harry, mas eu já sentia a cabeça um pouco mais leve, principalmente depois de tomar um copo de servir whisky cheio de caipirinha em dois goles, quase como água.

- E sabe de outra coisa? - Harry voltou a falar ao se curvar para depositar seu próprio copo no chão.

- O quê?

- Eu vou fazer você começar a me respeitar.

No mesmo momento, na velocidade de uma piscada de olhos, Harry passou um dos braços atrás dos meus joelhos e o outro nas minhas costas, me fazendo soltar um grito ao ser erguida do chão.

Com menos de cinco segundos eu emergia a cabeça da água, puxando o ar por ter sido pega desprevenida e jogada na piscina. Aliás, jogada não, Harry pulou comigo em seu colo e ainda me segurava quando subimos de volta à superfície.

- Filho da pu... Me solta! - Me debati sem necessidade, uma vez que meus pés tocaram o fundo da piscina no mesmo momento em que verbalizei a ordem.

Afundei de uma vez e voltei puxando os cabelos para trás, passei as mãos no rosto e cabelo para em seguida procurar por Harry e jogar água nele.

- Isso foi maldade.

- Você é má comigo o tempo todo e eu não reclamo.

- Porque você gosta! - Rebati sem vacilar, deixando Harry desconcertado por um segundo.

Mas só por um segundo. Ele se recuperou no mesmo momento, me puxando pelo pescoço e me dando um selinho. O empurrei pelo peitoral e, quando ele estava distante o bastante, revirei os olhos e caminhei até a beirada da piscina, apanhando meu copo e dando outro gole generoso.

Harry imitou o que eu fiz em seguida. Nos apoiamos na borda da piscina segurando nossos copos e eu alcancei os óculos de Harry que eu havia largado também ali, trazendo-os para o meu rosto e encarando Harry ao meu lado esquerdo através das lentes.

- O que você está fazendo? - Perguntou risonho e confuso.

- Você tem me perguntado muito isso hoje. - Eu sorri também. Eu teria piscado, se ele conseguisse ver meus olhos.

- Já está escuro.

- E daí? Você não acha que eu fico bem nos seus óculos?

- Eu acho que você fica bem em qualquer coisa, mas especialmente usando algo meu.

A minha reação instantânea foi revirar os olhos, mas me lembrei no mesmo momento de que ele não os via, então soltei uma bufada enquanto sentia o “tu-tum tu-tum" do meu coração tão alto que eu tive medo de que ele pudesse ouvir.

- Se você vai ser brega de novo isso não vai ter graça. Você supostamente deveria dizer que eu me acho ou estou sendo egocêntrica, ou qualquer coisa parecida.

- Como você faz comigo?

- Exatamente como eu faço com você.

- Impossível. Porque você é muito boa... ARGH! Você é muito boa pra se achar de verdade.

Eu quis revirar os olhos de novo, mas meu coração apaixonado acabou enviando comandos errados para o meu cérebro e o que saiu foi um sorriso bobo e nada contido.

Eu esbarrei o meu ombro no dele, empurrando-o de leve.

- Vou buscar mais bebida. - Harry me puxou de volta assim que dei o primeiro passo em direção as escadas da piscina.

- Eu vou. - Ele respondeu.

Sem que eu pudesse protestar, Harry tomou impulso e subiu para fora da piscina usando a borda.

- Coloca mais gelo na jarra e a traga! - Eu pedi. - Agora não tem mais sol, acho que aguenta ficar aqui fora.

Harry concordou com um aceno e sumiu para dentro de casa. Voltou com um sorriso bobo no rosto, a jarra em uma das mãos e o meu celular, que eu não fazia ideia de onde estava antes, na outra mão.

Esvaziamos outro copo rapidamente e eu já tinha me desprendido da beirada e boiava de olhos fechados sentindo a sensação da água tapando meus ouvidos e os meus sentidos ficarem turvos por causa do álcool. Algo tocou meu pé e eu me desesperei por alguns segundos me fazendo afundar, voltando para à superfície tossindo água e encarando Harry que ria da minha cara.

Uma música que eu não conhecia tocava.

- Desculpe, eu não quis te assustar. Mas eu te chamei e você não estava ouvindo.

- É, geralmente as pessoas não ouvem com os ouvidos debaixo d’água, mesmo. - Fiz uma careta de sabichona.

- Espertinha!

- O que foi?

- O quê?

- Você quem me chamou! - Levantei os braços para o alto e abaixei rápido e com força, fazendo espirrar água em Harry.

- Eu achei que você estivesse dormindo. Só quis conferir. - Balancei a cabeça para os lados e voltei a me aproximar da beirada da piscina e, consequentemente, dele.

- Impossível dormir assim.

- Você não está se vendo.

- Dã. Claro que não.

- Eu quis dizer - usou o tom de voz mais paciente e pausado - que você não está vendo como você está alcoolizada. Então não duvido que você dormiria.

- Me poupe. Eu ‘tô de boa. - Bati a mão em seu ombro e puxei meu copo, chocando-o com o dele em um brinde que espirrou bebida para todos os lados. Então fechei os olhos e tomei outro gole.

Meu corpo se retraiu ao sentir a água que Harry de propósito espirrou em mim depois disso. Abri os olhos apenas para tomar outro jato de água na cara.

Com o rosto virado para o lado oposto, comecei a jogar água de volta em Harry, enquanto gritava cada vez que ele também me acertava. Nossas risadas ecoavam alto na área vazia.

- Chega! - Eu gritei, mas continuei jogando água para todos os lados, incapaz de ceder primeiro e tomar mais esguichos de água.

- Eu estou aqui. - Harry falou bem próximo do meu rosto, me causando outro susto. - Você está apenas jogando água na água.

Abri os olhos, percebendo imediatamente que ele estava tão próximo quanto a sua voz tinha denunciado estar.

Passei os braços ao redor de seu pescoço e lhe dei um abraço. Nesse momento, ele me levantou um pouco e começou a girar comigo dentro da água. Apertei o abraço e afundei meu rosto na curva do seu pescoço enquanto ria e dava mais impulso com as pernas para trás, sentindo meu corpo flutuar.

Parecia tão fácil que eu confessasse ali, naquele instante, todos os meus sentimentos. Era só abrir a boca e as palavras deslizariam facilmente, como eu sabia que deslizariam; como eu já tinha treinado antes ao confessar para outras pessoas.

- Eu...

Quando não continuei, Harry parou de nos rodar e desfez o abraço para me olhar, mas ainda me apertando contra si.

- O quê?

Eu dei um sorriso sem graça e olhei para baixo, onde nossos corpos estavam colados da altura do colo para baixo.

Voltei a olhá-lo em seguida, o sorriso ainda nos lábios.

- Eu acho que bebi demais.





* Termo utilizado para se referir à pessoas que não se identificam com o padrão heteronormativo de sexualidade.


24. The songs that you sing when you're all alone.

MARÇO, 2019
Um dia atrás




Ponto de vista de Harry Styles.


Eu tinha os olhos fixos na estrada; mas eu não a enxergava, não de verdade. Eu dirigia de modo automático pelo caminho que me era o mais familiar nos últimos meses: A casa de .

Depois do meu aniversário, eu havia voltado de Tóquio. De vez. Já tinha uma boa quantidade de músicas escritas e agora estava focado em produzi-las.

Convidei para fazer um passeio comigo hoje, era por isso que eu estava indo para sua casa. No fundo, eu esperava me redimir pela briga no meu aniversário e todos os outros pequenos desentendimentos depois disso. Não que ela estivesse com raiva de mim, ou algo do tipo, mas eu só sentia que deveria fazer algo certo sem estragar depois pelo menos uma vez. E era por isso que eu não enxergava a estrada, imerso em meus próprios pensamentos que me traziam um leve incômodo de culpa.

é aquele tipo de pessoa que te induz a ser melhor, agir melhor. Sempre que eu estava ao seu lado, sentia-me eletrizado; como se eu transbordasse energia e outras coisas boas, que me possibilitariam de fazer tudo. Então, quando de alguma forma eu fazia o contrário do que me era transmitido, sentia-me como se estivesse a decepcionando.

Porque ela tinha esse ar de uma simplicidade de se admirar. Aquela pessoa com quem você sente que é muito fácil de conviver. Como se eu pudesse me abrir sem temer, com a certeza de que um julgamento não viria depois, pois sua generosidade era sem limites. Sua compreensão era inimaginável e muitas vezes impraticável para mim. Sua essência, no entanto, permanecia franca, mas nunca rude. Humana, com erros e acertos. Real, sem máscaras que possivelmente embelezariam uma cena feia.

Eu tinha mais a aprender com ela sobre a arte da vida do que eu jamais poderia aprender em todas as vezes em que me trancava por semanas em um estúdio para produzir algo novo. Isso, que era um fato através do meu olhar, continha uma ironia deliciosa, visto que não era nem um pouco artística. Ela tinha sensibilidade para admirar as artes num geral, mas conhecimento nulo. E ainda assim conseguiu me ensinar o que eu não tinha aprendido em dez anos. Ainda conseguia. Ainda me ensinava.

Estacionei meu carro na vaga que agora era praticamente minha. No elevador, sentia minhas mãos suando, como se expectasse algo a acontecer. Ainda que tudo ao redor parecesse muito familiar e usual. Buscá-la em sua casa, sair para um passeio... Provavelmente era minha culpa que me atormentava.

Eu não pensei que estivesse com tanto remorso ao ponto de me sentir nervoso por vê-la. Eu me senti nervoso quando jantamos juntos no Valentine’s Day, eu me senti ansioso fazendo FaceTime com ela, e para variar, ainda tínhamos discutido de novo quando saímos de moto semana passada. Toda vez que eu achava que havia consertado o que fiz em Tóquio, eu estragava de novo.

Se eu olhasse profundamente para todas as poucas vezes que nos vimos desde o meu aniversário e em como não me senti normal, ainda assim não conseguia me lembrar de estar tão nervoso quanto agora. Ou talvez fosse apenas a minha imaginação. Ou talvez fosse o fato de que agora eu também estava chateado por ter ficado minimamente bravo no passeio de moto em que só tinha feito de tudo para me agradar.

Usei a minha própria cópia da chave para abrir a porta, como sempre fazia. Ela provavelmente já me esperava, porque sempre era muito pontual quando marcávamos algo.

O seu apartamento não era grande, mas era muito bem decorado, com o melhor dos bons gostos. No geral, tinha um tom neutro e minimalista, um ar delicado e sofisticado na decoração.

Eu imaginava que entrar no apartamento de era como dar um passeio por sua mente. Que a sua transparência era transferida para os objetos que envolviam seu dia a dia. Eu me perguntava se eu poderia enxergar isso em seu escritório, caso algum dia fosse até lá. Será que ela toma café com uma xícara que tem gravado a letra de alguma das minhas músicas? Eu notei que a que ficava na cozinha não está mais lá. Quando ela anota recados, usa o bloco de notas do celular, ou tem canetas diferentes e fofas como as que têm em seu quarto para isso?

Bem, eu sei que isso parece totalmente irrelevante. Mas até que ponto conhecemos alguém? Até que ponto é possível entender alguém? Seus sentimentos, expressões, medos e as palavras não ditas. Porque muitas vezes não dizemos o que realmente queremos dizer. E eu gosto de pensar que conheço mais profundamente do que já conheci outras pessoas. Pensar sobre esses detalhes que muitas vezes não são notados até mesmo pela própria pessoa é o que me faz achar que a conheço mais, porque nunca me vi dedicado a nada disso antes.

É claro que grande parte disso só é possível porque ela me deixou entrar na sua vida. Ela quis ser conhecida e entendida. E, mesmo assim, eu ainda acho que há tantas coisas as quais não sei e que gostaria de saber. Talvez ela não seja tão aberta assim. Não que eu ache que seja intencional. Está mais para o contrário, sua intenção é ser. Mas algo que sei é que muitas dessas coisas talvez não consiga ou não saiba como me contar, por mais que queira. Os motivos? Aqueles que todo mundo tem. As bagagens do passado, medo do desconhecimento que há no futuro, que há no não saber o que acontecerá.

E, mais do que saber isso, eu sei que para preencher essas lacunas eu preciso enxergá-las nos detalhes que a escapam. Talvez ela nunca me diga, mas talvez eu possa captar. Porque eu quero conhecê-la. Eu gosto da ideia de conhecê-la nos detalhes mais importantes e naqueles não tão importantes assim.

Toquei com cuidado flores em um vaso próximo, ao lado, um porta-retrato da família. Livros espalhados por todos os cantos, no assento do sofá, na bancada que dividia a cozinha da sala de jantar, na cabeceira da cama e também nas prateleiras. Um cheiro que lhe era característico também se espalhava por todos os cômodos; como se ela deixasse uma marca invisível por onde passasse. Todos esses detalhes estavam sempre ali e eu gostava de pensar que a conhecia o bastante para afirmar que tudo isso era um reflexo externo da sua personalidade.

Assim como a filosofia de sua própria vida, a casa também não tinha meios termos; ou estava completamente arrumada ou completamente bagunçada, bem assim, extremos. Hoje era um dos dias em que estava perfeitamente arrumada, “recém-arrumada” do tipo.

É engraçado pensar que em algum momento lá no início ela era essa pessoa séria e comedida. O que claramente é algo que ela liga e desliga dependendo do contexto. é uma pessoa totalmente adaptável ao ambiente. Ela era muito convidativa, mas complexa. Por mais que ela sempre estivesse disposta a se mostrar para mim, do outro lado, era de uma forma misteriosa, que eu precisava decifrar para compreender.

Um livro aberto, mas escrito em uma língua que eu não era fluente.

E escrito de uma forma que eu ainda estava aprendendo a decifrar.

E é engraçado também pensar em como a consciência disso só me atingiu quando eu a vi se transformar diante de mim. Não que ela tenha parado de ligar e desligar essa capacidade de se tornar completamente profissional ou totalmente leve com um piscar de olhos, como daquelas que fazem uma piada ácida e logo em seguida ri da sua cara. Gosto de pensar que a sutileza dessas mudanças e o fato da parte leve se manter ativa mais frequentemente do que antes só acontece comigo e provavelmente com algumas outras poucas pessoas que ela deixa entrar em sua vida.

Embora o que eu jamais pensaria e ainda me causa certa estranheza é quando essa separação extrema não acontece. Tipo ouvi-la cantar e dançar enquanto trabalha ou organiza algo. Já que, aparentemente, trabalho para ela entra na categoria de algo a ser executado com seriedade. Mas quando ninguém está olhando ela é muito mais do que aquilo que ela mostra. E quando você ganha sua confiança, ela agirá exatamente como se estivesse sozinha. E isso significava ver a sua essência. Sem barreiras. Isso faz sentido?

A nossa essência mais pura está em como somos quando estamos sozinhos. Quem você é quando ninguém está olhando? ) era exatamente a mesma pessoa, só um pouco menos preocupada, um pouco menos extrema, mais relaxada, mais... ela mesma.

Eu sabia sobre ela o que de visível há para saber. A tatuagem secreta, as músicas que ela só canta se estiver sozinha (e agora só se não tiver ninguém por perto, além de mim), a forma como os lábios tremem quando ela mente. Ou como ela dança diferente quando está na frente dos amigos. E todos os outros detalhes que a tornam quem ela é.

E agora eu queria conhecer aqueles detalhes que não estão ali, tão fáceis de alcançar. E esses eram os complexos. Esses eram os que eu considerava de elite, de alta afinidade para que ela sequer pensasse na possibilidade de abri-los para alguém.

Ouvi um barulho ritmado de batidas vindo diretamente do quarto. Ao chegar na porta, encontrei uma cena inusitada: batia pregos na parede e, presos entre suas pernas, quadros pequenos. Eu não contive o sorriso.

- Olá! - Chamei quando ela não notou a minha presença.

- Oi, Harry. - Ela disse sem se virar.

Era dessa simplicidade e franqueza que eu falava. Se havia algo que eu tinha aprendido com era como as pessoas podiam aparentar serem confiantes e ainda assim ter problemas de insegurança. Ali, pregando aquele prego, a linguagem corporal de não vacilava. Ela sabia exatamente o que estava fazendo, e ela era assim em tudo, principalmente no trabalho. E eram poucas e cada vez mais escassas as vezes em que eu conseguia me lembrar de não a ver assim: segura, certa, firme.

E com isso, os momentos de fraqueza e vulnerabilidade eram mais claros para mim. O que eu de forma alguma via como algo ruim. Quanto mais isso acontecia, mais próximos eu nos julgava estar.

E tudo bem também, porque ninguém precisa ser confiante o tempo todo. E era totalmente humano e real que ela fosse sempre tão confiante, mas, por vezes, essa confiança vacilasse nos momentos mais bobos e sem importância. Era algo que eu admirava, na verdade, porque nunca se via a confiança de se abalar quando as coisas eram realmente sérias.

Eu queria saber o que se passa na cabeça dela e entender melhor como ela processa as coisas, o que, como mencionei, não é particularmente fácil.

- Você precisa de ajuda? - Eu sabia que não, mas eu era prestativo demais para não perguntar.

Algumas pessoas podiam interpretar errado esse meu jeito. Como se eu fizesse isso com algum tipo de sentimento de superioridade, mas não . Ela sempre me demonstrou altos níveis de compreensão e aceitação. Quase como se tivéssemos uma conexão que ia além dos limites físicos. E eu tentava retribuir aceitando-a, desvendando-a, compreendendo-a.

Ela me oferecia sua afeição em qualquer que fosse a oportunidade. Como se, a seu ver, eu não fosse capaz de fazer nada de errado. E nada que eu dissesse ou agisse fazia com que aquele olhar gentil e livre de julgamento sumisse de seu rosto. Nela, havia um lugar onde eu me sentia seguro para ser o que havia de mais profundo no “eu mesmo”.

- Não, tudo bem. Já estou acabando.

Ao dizer isso, ela tirou um último prego preso entre os lábios e o bateu na parede, pendurando rapidamente os quadros em cada um deles.

Logo em seguida, descemos até o carro e ela me perguntou aonde iríamos.

Ela estava especialmente linda hoje. Os cabelos presos em duas tranças baixas e bem bagunçadas, a franja meio solta caindo nos olhos. E um conjunto de moletom num tom laranja amarelado. A cor combinava com ela, alegre, iluminada. Convergia com o dia, brilhante.

- Vou te levar até a minha versão do Observatório Griffith. Sabe, porque obviamente não posso ir até lá. - Dei uma risadinha.

- Você se acha muito engraçado. - Revirou os olhos.

- Você tem me dito muito isso ultimamente.

- E onde seria essa sua versão? - Me ignorou.

- Nas colinas em Laurel Canyon.

- Perto da sua casa?

- Ahn, sim. Um pouco.

A área de Laurel Canyon era simplesmente chamada de “The Canyon” nos anos 60, quando foi lar de grandes artistas, tais como: Joni Mitchell e Jim Morrison, dois cantores de quem sou particularmente fã, além de Jimi Hendrix, John Mayall e muitos outros, afinal, celebridades têm vivido nessa área desde essa época.

As estreitas e sinuosas ruas nos levavam desde o Sunset Boulevard, no coração de Hollywood, até à locais escondidos e peculiares; os meus preferidos por serem aqueles onde eu poderia ir sem ninguém nunca imaginar por onde eu estaria.

Se nós dirigíssemos até bem alto dentro das colinas, conseguiríamos as melhores vistas para o centro de Los Angeles. E era por isso que o bairro todo era a minha versão de Griffith.

Durante o trajeto de pouco mais de vinte minutos, eu estava consciente de que falava além do normal sobre todas as informações que eu conseguia me lembrar sobre a ligação entre Laurel Canyon e o Rock ‘n’ Roll dos anos 60.

- ...Joni Mitchell escreveu o álbum Blue praticamente todo no bangalô que ela morava em The Canyon. Ela tinha terminado com Grahan Nash, que, como músico da época, também morava nessa região. É por isso que a palavra “blue”* aparece tanto durante o álbum inteiro. Meio que representa como ela se sentia triste e solitária.

assentia enquanto eu falava. Como se prestasse atenção em uma explicação em sala de aula, ela estava totalmente concentrada em mim. O interessante é que ela dizia que eu era da mesma forma, que eu sempre concentrava a minha atenção em quem quer que estivesse falando.

Até porque eu gostava desse tipo de atenção, não vou mentir. E eu estava acostumado a falar e ser ouvido, privilégios da fama, provavelmente. Os quais só intensificaram e ratificavam o meu prazer por essa atenção, que eu também sabia apreciar de modo saudável. Eu acho. Talvez fosse por isso que eu também tinha tanto respeito por prestar atenção e dar ouvidos a quem falasse comigo.

A sua atenção era um pouco diferente da que eu recebia de pessoas desconhecidas, no entanto. Não era e nunca tinha sido uma atenção superficial, de interesse. Era uma atenção voltada a realmente se importar com o que eu tinha para dizer.

- ...Até mesmo a estética visual leva essa cor. Foi uma representação incisiva do seu estado de espírito. É por isso que as minhas músicas preferidas dela são desse álbum, porque ela se preocupou em dizer a verdade, em dizer exatamente como se sentia, sem mascarar ou embelezar nada.

- Alguma música dela já te inspirou em alguma que você escreveu?

Essa era a típica pergunta que eu esperaria de alguém que me conhece e que realmente está ali na conversa, de corpo, mente e alma presentes.

- Nenhuma que eu tenha gostado de verdade.

- Que pena. - Ela fez um biquinho triste e depois sorriu.

Distraído pela conversa, quase passei do acostamento em que deveria parar. Era um alívio ser um local tão deserto, porque pude retornar alguns metros em marcha ré sem muitos problemas.

- Chegamos! - Anunciei quando estacionei a traseira do meu carro de frente para o barranco.

- Chegamos aonde, exatamente? - Ela me perguntou confusa.

- Na minha versão do Observatório Griffith. - Eu repeti quase pausadamente, como se fosse possível que ela não tivesse me escutado bem das outras vezes.

- A sua versão do Observatório Griffth é um acostamento de uma estrada no meio do nada?

Bem, foi você quem disse que eu poderia ir aonde quisesse, sem me limitar, já que o mundo é enorme, eu pensei. Mas em vez de responder, eu sorri para ela e, sem dizer nada, destravei o cinto e desci do carro, não demorando até eu ser seguido por ela.

Levantei minha cabeça para o céu e inspirei profundamente o ar. O inverno tinha recém acabado e entrávamos na primavera. O dia estava lindo. Não se via uma nuvem no céu.

- É a primeira vez que vejo o céu tão límpido em um bom tempo. - A época do ano não era favorável para o céu sem nuvens, eu não acreditaria se não estivesse vendo. - Você já viu o céu tão azul assim desde que se mudou? - A pergunta fez com que ela também olhasse para cima.

Mas ) não me respondeu de imediato.

- Não. - Baixou o olhar por um momento e me encarou em seguida. - Não com você.

Eu não perguntei o que aquilo queria dizer. Porque, sinceramente, eu não tinha certeza se queria descobrir.

Me virei de costas e voltei até o carro, abrindo o porta-malas, onde eu tinha preparado para que pudéssemos nos sentar e ter um piquenique. Comecei a tirar as tampas das vasilhas e ficou sem reação quando viu tudo. Ela não precisava usar as palavras para que eu pudesse saber o que ela pensava.

- Vai lá, coloca uma daquelas músicas suas que eu nunca ouvi e você sempre finge que não sabe cantar para que eu não me sinta tão mal. - Entreguei a chave em sua mão.

Ela saiu saltitante, me causando uma gargalhada, porque ela literalmente saia pulando como se tivesse cinco anos. Ela não tinha medo de ser julgada por isso, ela não se reprimia, não fazia jogos, não bancava a “descolada”, ela só agia e falava o que pensava sem inibições. Não fingia, se ela estava empolgada, você saberia. Esse é o ponto quando digo que ela sempre foi transparente para mim, mesmo que algumas outras coisas sobre ela não fossem assim tão fáceis de se interpretar.

Um tempo que considerei longo o bastante depois – ela sempre se enrolava para conectar o celular no som do carro –, eu ouvi a melodia de uma música até então desconhecida.

- Essa é para você! - Ela gritou ao voltar correndo e se sentar na traseira do carro, que eu tinha abaixado os bancos justamente para esse fim.

Raul Seixas – Maluco Beleza



Assim que ouvi a voz do cantor, a voz de se sobressaiu em seguida.

- Enquanto você se esforça para ser / Um sujeito normal. - Cantou em uma tradução improvisada, tão desafinada quanto eu já esperava. - E fazer tudo igual / Eu do outro lado, aprendendo a ser louco.

Eu já estava acostumado que ela colocasse músicas em sua língua e traduzisse para mim, mas com essa eu entendi imediatamente o que ela quis dizer com “essa é para você”, ela adorava me provocar e debochar de tudo o que eu falava, mesmo que fosse sério.

É, eu queria ser normal às vezes e eu me esforçava para não ter ninguém sabendo onde eu estava e com quem estava. Isso era um crime agora?


Um maluco total, mas na loucura real
Controlando a minha maluquez
Disfarçada em minha lucidez

Vou ficar, ficar com certeza
Maluco beleza


- Beleza! - Gritei ao reconhecer uma palavra. Ela não estava mais traduzindo a esse ponto.

- Este caminho que eu mesmo escolhi / É tão fácil seguir / Por não ter onde ir. - Ela retomou a tradução. E eu tive mais certeza de que estava traduzindo somente os pontos em que queria que eu soubesse o que dizia.


Controlando a minha maluquez
Disfarçada em minha lucidez

Vou ficar, ficar com certeza
Maluco beleza
Vou ficar, ficar com certeza
Maluco beleza



- Okay! Eu já entendi! Você não concorda que eu deixe de frequentar lugares só para que não saibam onde estou.

- Eu não estou falando disso, H.

- É sobre o quê? - Me fingi de desentendido.

- Sobre o que você falou do álbum.

- Ah. - Murmurei desanimado.

Tínhamos tido uma conversa há algum tempo sobre algumas inseguranças que tenho em relação ao meu próximo álbum, sobre como eu quero experimentar coisas novas, ser mais impulsivo e planejar menos, mas não sei se tenho coragem.

- Eu sei que você se manteve num lugar seguro enquanto fazia o primeiro álbum. Mas como você vai saber se consegue escrever do jeito que você quer se você não tentar?

- Tenho medo de decepcionar a todos. - Falei sem rodeios, porque tinha esse efeito sobre mim. Consegue arrancar de mim o que quer que ela queira saber e não me era mais estranho como eu me sentia totalmente confortável para lhe contar qualquer coisa que estivesse passando pela minha cabeça. Qualquer coisa que eu estivesse sentindo, sem medo de parecer fraco, sem medo de ser vulnerável.

- Harry, olha para mim. - Eu já a encarava, mas ela tomou meu rosto em suas mãos, dificultando que eu desviasse o olhar, mesmo que por segundos. - Você não vai! Os seus fãs te amam, garoto! - Ela deu uma risada. - Você faz esses shows incríveis em que transmite essa ideia de que estamos em um ambiente em que podemos ser nós mesmos, em que somos aceitos e amados. Por que você acha que você também não tem essa mesma segurança? Você tem!

- Obrigado.

- Você é um músico. Você é um artista! Isso é o que você escolheu ser e é impossível que você seja ruim nisso. Então faça o que te der vontade. Eu tenho certeza que a gente vai amar. Seja Maluco Beleza. Beleza? Mas sem usar drogas e morder a língua pulando de janelas, pelo amor de Deus!

Esse monte de significados só para a palavra “beleza” estavam me confundindo.

- Beleza! - Eu concordei rindo. - Eu vou ser como você, me arriscar mais. - Ela começou a gargalhar.

- Não, se você for ser como eu, você vai para um escritório fazer exatamente a mesma coisa todos os dias. Não diga isso.

Eu tinha um sorriso nos lábios e, ao ouvir sua resposta, neguei com a cabeça. sempre via tudo com muita objetividade e clareza, menos quando tratava de si mesma. Aí era quase como se não acreditasse ou tivesse medo de descobrir que, de fato, ela não era normal e sim, extraordinária.

Se ela pudesse se enxergar com meus olhos.

Eu sempre pensei em Los Angeles como uma estadia parecida com estar de férias. Pensei isso por tantos anos que, finalmente, há quase um ano tinha criado coragem de colocar a minha casa à venda. Havia algum tempo, eu não sabia dizer exatamente quanto, em que eu me pegava observando e todas essas suas atitudes e o seu jeito e pensando em como eu não queria ter que ir embora. Inevitavelmente era o que eu sempre fazia.

Eu queria poder descobrir um modo de eternizar aquele momento para sempre.

- Eu não acredito que preciso ir para Londres.

- Ei! - me repreendeu. - Pensa pelo lado bom, produção do HS2.

- HS2? - Repeti confuso.

- É. É como a gente chama seu álbum novo.

Eu comecei a rir. Eu já tinha um nome para o álbum, mas preferi guardar só para mim por enquanto.

- A gente? - Debochei, mas ela ignorou.

Bem, talvez eu realmente tivesse um modo.

- Vou sentir saudades. - Ela respondeu, seguida de um suspiro.

Eu senti as tão familiarizadas borboletas no estômago. O coração acelerado de leve. Eu nunca imaginei que fosse conhecer uma palavra que caracterizasse melhor a falta que alguém faz até conhecer e descobrir que além de uma palavra melhor, eu conheceria alguém que faz jus a ela.

Eu morreria de saudades. A intensidade dessa sentença combinava comigo. E se tinha uma pessoa que me fazia sentir como se fosse morrer de alguma coisa, essa pessoa era ela.




- O que vocês dois têm, hein? - Minha mãe soltou a pergunta assim, na lata.

- O quê? - A encarei confuso.

Estávamos sentados no sofá, estava tomando banho e eu esperava fingindo assistir TV, enquanto pensava que não queria que ela tivesse que ir embora.

- Você diz que vocês dois são amigos, mas desde que ela foi para o quarto se arrumar para ir embora você está com essa cara, como se alguém tivesse... não sei, morrido.

- Somos amigos! - Reforcei. - Mas é claro que eu queria que ela pudesse ficar mais.

- Por quê?

- Como assim “por quê?”? Porque ela é minha amiga, porque eu gosto da companhia dela.

- Vá com ela.

- O quê? E você? Eu já vou para o Japão daqui alguns dias, quero passar o resto do tempo com você.

- Eu vou sobreviver.

Silêncio. Suspirei.

- Eu-eu não sei o que estou sentindo. - Admiti. - A gente diz que é só amigos.

- Mas para você não é mais só isso.

- Não. Quero dizer, eu não sei. - Sussurrei, de repente com medo de que escutasse. - Você sabe tudo o que aconteceu ano passado, mãe. Eu tinha certeza que estava apaixonado pela Sophie até uma semana atrás.

- O que aconteceu há uma semana?

- ) e eu a encontramos em Londres. Foi por acaso, mas eu fiquei confuso.

- Você não sabe se ainda gosta da Sophie?

- Eu tenho certeza que não gosto mais da Sophie. - Minha mãe me deu um olhar confuso e eu tentei me explicar. - Eu só não sei se eu... não sei se eu consigo confiar, sabe? Não sei se estou pronto para isso de novo. Não sei se quero me envolver assim agora.

- Você acha que talvez não devesse confiar na ?

- Não! Claro que não! - Neguei imediatamente. - Ela é incrível, mãe. Sério. Foi por causa de termos visto a Sophie que eu percebi que não me sinto da mesma forma que me sentia pela ).

- Harry, não deixe o passado interferir nas suas decisões do futuro. Mas você precisa descobrir se realmente gosta dela, para não a magoar.

- Eu sei. - Passei uma mão na testa, um pouco nervoso. - Eu vou deixar as coisas como estão por enquanto... Eu só vou falar com ela quando tiver certeza do que sinto e do que quero. - Me interrompi, percebendo algo de súbito. - E-e por que você acha que eu a magoaria?

- Vai dizer que você não percebeu que ela gosta de você também?




- Terra chamando Harry! - balançou a mão na minha frente.

- Desculpe!

- Estava pensando em quê?

Eu seria hipócrita se dissesse que naquela época já não tinha percebido que ) estava diferente. E eu já me questionava se ela sentia algo por mim. Outras pessoas, como minha mãe, percebendo o mesmo só mostrava que talvez eu estivesse certo. Naquela época, no natal, era certo que eu também já não me sentia da mesma forma, mas eu não confiava que os meus sentimentos eram fortes o suficiente. E eu não poderia arriscar a magoar ou constranger se eu não seria capaz de dar tudo de mim em algo que eu não conseguia nem me decidir se queria.

Por isso eu decidi que só tocaria no assunto quando- SE eu tivesse certeza que era o que eu queria. Porque eu sabia que não poderia voltar atrás, não tendo uma ideia de como ela se sente sobre mim.

- Nada. Sobre música. - Menti.

deu de ombros. Eu tinha certeza que ela não tinha acreditado, mas ela não insistiria. Ela sempre respeitava meu espaço, por mais inconformada que ficasse.

- Eu esqueci que tinha combinado com a Lucy de ir na casa da Jane hoje.

- Ah, é. O bebê dela nasceu. Não é? Você tinha me dito.

- Mês passado. Será que... - Hesitou. - Você se importaria de passar lá comigo agora?

No caminho até a casa de Jane, que foi dirigindo por saber melhor onde era e convenientemente mantendo nosso combinado de que ela dirigia na volta, eu coloquei o álbum de Joni Mitchell para tocar.

Eu costumo ouvir álbuns em ordem, gosto que as pessoas ouçam o meu na ordem também, mas dessa vez não consegui evitar e pulei algumas faixas, acho que o momento era muito propício para a Faixa 6, ‘Califórnia’. Descíamos as colinas do The Canyon, ouvindo uma música inspirada no momento da vida da cantora em que ela morou aqui. Era meio surreal.

- ), você já se sente em casa? Morando aqui em Los Angeles? - Perguntei em um impulso.

Ela pensou por um momento, mas, quando respondeu olhando nos meus olhos não houve hesitação em sua voz.

- Sim. Eu me sinto.

Para Joni Mitchell, retornar à Califórnia era sinônimo de voltar para casa. E talvez eu estivesse começando a pensar assim também. Por mais que eu fosse embora, mesmo que eu vendesse minha casa, alguma coisa me dizia que eu sempre voltaria. Alguém me faria voltar.



- Oi, ! Senti sua falta! - A mulher que atendeu à porta a deu um abraço apertado, como se não se vissem há meses. Dava para ver que ) era muito querida.

- Eu também! A empresa não é a mesma sem você, Jane! - Ela respondeu com a mesma empolgação.

- E você deve ser o Harry! - Estendeu a mão e eu apertei.

- Sou sim. - Respondi um pouco tímido.

Era estranho quando as pessoas já me conheciam. Quero dizer, as pessoas sempre me conheciam, mas era estranho quando já me conheciam assim. Faz sentido? Como quando você é apresentado a alguém e esse alguém diz que ouviu falar de você por outro alguém. Esse tipo de conhecer, não o conhecer por ser celebridade.

- Eu sou a Jane! É um prazer! Entrem! - Abriu espaço para que passássemos pela porta.

- Parabéns pelo bebê. Eu trouxe isso para você. - Entreguei algumas flores que tínhamos comprado no caminho.

- Ah, obrigada, Harry! É muito gentil da sua parte. Vem! Eu vou levá-los no quarto para ver o Edward.

Assim que passamos pela sala um pouco cheia, percebi todos os olhares que atraiu. Ela causava esse efeito de ter instantaneamente a atenção das pessoas onde quer que ela estivesse e o que tornava esse efeito ainda mais atraente era que ela não percebia isso.

Jezz. Isso foi muito One Direction.

Reconheci Lucy ao longe e cumprimentou algumas pessoas com acenos enquanto falava para ninguém em específico que já voltava.

- Edward? - Eu mimiquei para .

- Nem começa. - Ela respondeu em tom de voz normal.

- O quê? - Jane que nos guiava se virou para trás para perguntar.

- O nome do meio do Harry é Edward, agora ele vai ficar se achando porque o nome do bebê é Edward também. - me entregou e eu senti que estava ficando vermelho de vergonha.

- Foi Dylan quem escolheu no fim. - Ela gargalhou, rindo. - Ele não gostava de nenhum nome que eu sugeria.

- Edward é um ótimo nome. - Eu dei de ombros.

- É mesmo. - Ela concordou.

O bebê estava acordado e, enquanto o segurava, eu perguntei se poderia segurá-lo também.

- Você leva jeito. - Eu comentei quando me passou o bebê. - Você quer ter filhos? - Perguntei curioso.

- Ah, eu não sei. - Respondeu. - Quero dizer, talvez, algum dia. - Deu de ombros. - E você também leva jeito. - Apontou para mim. Eu segurava Edward com apenas um braço, enquanto usava a outra mão para tocar seus finos e poucos fios de cabelo.

- Bem, eu tenho quatro afilhados.

- Quatro? - Jane interviu assustada.

- As pessoas gostam de confiar seus filhos a Harry, não sei o que eles têm na cabeça. - debochou, afiada.

- Há-há. Muito engraçada.

- Eu sou hilária. - Tentou imitar o meu tom de voz de algum momento em que eu havia dito o mesmo.

Quando voltamos para a sala, havia um homem tão alto quanto eu, porém bem mais encorpado e que não estava lá antes.

- Campbell! - gritou assim que o viu.

Ah! Então aquele era o tal do Henry.

Quando estavam perto o bastante, ela praticamente pulou no pescoço dele, em um abraço desnecessariamente apertado.

- Não sabia que você vinha visitar a Jane e o bebê hoje. - Ela comentou assim que o soltou.

- Eu cheguei há algum tempo. Estava no banheiro. Mas achei que todo mundo do nosso círculo tivesse combinado de vir no mesmo dia.

- Ah é? Não sabia. A Lucy me chamou para vir, mas não disse nada que todos tinham combinado para hoje.

Será que ficaria muito na cara se eu pigarreasse?

Eles sorriram um para o outro como se eu não existisse e então me olhou, como se finalmente se lembrasse que eu estava ali.

- Harry, esse é o Henry. Henry, esse é o Harry. - Nos apresentou finalmente, embolando um pouco a fala para pronunciar tantas vezes os nossos nomes que eram tão parecidos.

Pelo menos não precisei fingir uma tosse.

Eu gostava quando seu sotaque se acentuava ou quando ela acabava dizendo algo um pouco errado. Acontecia bastante quando ela estava nervosa.

- Então esse é o famoso Harry? - Henry perguntou ao apertar minha mão.

Acabei soltando uma gargalhada. A ironia daquela frase era hilária.

- Não ficou... Não ficou bom esse trocadilho. - ) comentou tentando segurar o riso. Ela provavelmente pensou o mesmo que eu.

Henry franziu o cenho e alterou o olhar entre mim e ela algumas vezes.

- Oh! Entendi. Foi mal. Erro meu. - Respondeu rindo sem jeito.

- Então quer dizer que a fala muito de mim? - Não me contive.

- Bastante. - Ele respondeu sem hesitar. E então eles trocaram um olhar intenso, o qual não gostei nem um pouco de ver.

“E ela não fala praticamente nada de você”, era o que eu queria responder, mas fiquei calado.

Nesse momento Lucy se aproximou de nós e começou a nos cumprimentar.

- Oi, Harry.

- Olá, Lucy. Tudo bem?

- Tudo sim. E você?

- Eu estou okay.

Ficamos em silêncio.

- Precisamos marcar outro boliche. A sua amiga me deve uma revanche. - Completei.

- Aceita que você perdeu, H. - provocou.

- É por isso que eu preciso de uma revanche, porque eu perdi. - Disse como se fosse óbvio e ela começou a rir.

- Vou ao banheiro. Vamos comigo, Lucy?

A garota murmurou um “sim” com a cabeça e então elas saíram.

Encarei o homem à minha frente e ele me encarou de volta. Era uma situação um pouco esquisita. Eu estava sempre convivendo com as minhas ex-namoradas, mas eu nunca tive que lidar com nenhum cara que elas estavam envolvidas. Não que a minha relação com a seja algo próximo com qualquer coisa que já tive com algum ex, mas era o máximo que eu conseguia relacionar.

- Não sabia que você conhecia Lucy também. - Henry foi quem quebrou o silêncio. Eu estava muito desconfortável para me forçar a manter uma conversa com aquele cara.

- Ahn, sim... A amiga dela, colega de quarto, sei lá, é prima da minha baterista.

- Da sua baterista? Nossa! Que mundo pequeno, não é?

Ele claramente estava totalmente confortável na minha presença.

Como se... como se não estivéssemos competindo pela mesma mulher... Ou pior! Como se ele tivesse a tranquilidade de um vencedor.

- É. E é legal a ), a ... - Me corrigi, não queria ele falando com ela usando meu apelido. - Ter pessoas como a Lucy e... você no trabalho. Quando ela se mudou não tinha muitos amigos e eu viajo bastante, sentia que ela ficava sozinha às vezes.

Eu estava meio que o agradecendo por cuidar dela? Eu não conseguia acreditar.

Entregando seu coração – que talvez ainda nem me pertencesse – de bandeja para os lobos. Para o lobo.

- A é uma pessoa muito carinhosa, ela quase precisa ter alguém para que ela possa cuidar, ela sempre quer ter certeza que todos ao redor dela estão bem, sabe? E, às vezes, eu acho que ela esquece de conferir se ela está bem também.

- A é forte, Harry. Eu não acho que ela precise de pessoas cuidando dela, porque ela não se abate fácil.

- Você acha? - Questionei. - Eu não sei... Ela passou por muitas coisas ultimamente, teve a morte do irmão logo antes de ela se mudar para cá, aí ficou aqui por meses e a única pessoa que ela conhecia era eu e, como eu disse, eu não estou sempre aqui. Talvez ela se sentisse sozinha.

Uau! Era incrível como nós dois tínhamos visões completamente distintas. Falávamos da mesma pessoa?

- Ela comentou mesmo sobre o irmão. - Henry respondeu vagamente.

- O que eu quero dizer é que é bom ter pessoas que gostam dela aqui. Ela é muito especial. Você devia saber disso.

- Eu sei disso, cara. - Henry concordou, quase confuso com o que eu falava. Eu estava confuso com o que eu mesmo falava.

- O cara que estiver com ela vai ser muito sortudo. - Ele assentiu devagar e tinha uma sobrancelha erguida.

As meninas voltaram bem a tempo de nos salvar de entrar em outro silêncio constrangedor.

Eu gostava de , sentia algo por ela. Mas vê-la ali sorrindo da forma que ela sorria para Henry e toda a intimidade que eles pareciam ter... Talvez ele gostasse mais dela do que eu. E talvez ela gostasse tanto dele quanto ele parecia gostar dela.

E essa ideia embrulhava terrivelmente meu estômago.

Não é como se eu tivesse medo de ele ser melhor que eu, mas com ele... com ele, ela nunca teria que se preocupar em se esconder, ou com pessoas a perseguindo. Então talvez, só talvez, eu devesse recuar, deixar o caminho livre para ele.

Henry foi embora não muito depois disso. Quando apertamos as mãos e nos demos aqueles tapas amigáveis nas costas um do outro, eu o segurei por alguns segundos, o bastante para sussurrar em seu ouvido:

- Cuida bem dela, cara.

Ela realente parecia feliz perto dele. E eu deveria ficar feliz por isso, eu deveria ficar feliz... se eu não fosse egoísta demais para isso.



- Ele parece um cara legal. - Eu disse enquanto caminhávamos até o carro.

- Ele é. Um dos melhores.

Eu me perguntei se eu também era um dos melhores a seu ver.

- Agora entendo o porquê vocês, ahn... tem algo?! - começou a rir. - O quê? Eu disse algo errado?

- Não temos algo. - Ela falou por fim, fazendo aspas com os dedos.

Oh. Merda.

Será que é por isso que ela estava me evitando? Quero dizer, ela quase sempre dizia que não estava afim quando eu tentava algo, mas eu estava achando que tínhamos superado isso depois da briga no Japão, mesmo que eu ainda me sinta culpado pelo que falei.

Eles estavam realmente caminhando para algo mais sério? Será que ela queria me contar e me chamou para vir hoje para isso?

- Co-como assim?

- E lá vem Harry Styles com seus “como assim?” - Ela debochou, imitando exatamente como eu fazia com ela.

- Você ‘tá me dizendo que vocês estão... tipo, sério? E o seu emprego? - Ela riu mais ainda quando eu perguntei isso

Tudo bem, ficar comigo poderia significar perseguição diária ou se esconder muito bem. Mas ela ficaria com ele e... e aí? Uma hora ou outra descobririam e ela poderia perder o emprego.

Então eu me peguei desejando que eles não estivessem juntos.

- Eu estou dizendo que não temos algo e nem nada. - Eu fiquei mais confuso ainda com essa explicação. - Não estamos mais juntos, Harry.

Soltei todo o ar que eu prendi nos últimos dez segundos em que esperava ela falar.

- Ele está voltando com a esposa.

O quê?

- Espera? Ele te largou para voltar com a esposa?

Fiquei nervoso e com raiva de Henry ao imaginar que ele havia a machucado.

- Como ele...eu vou matar esse filho da pu...

- Harry!

me puxou pelo ombro logo que me virei de costas para voltar à casa de sua colega de trabalho, mesmo que inconscientemente eu soubesse que ele não estava mais lá.

- Guarda seu treino de boxe para quando for necessário, okay? Ele não me largou! - Ela ria enquanto falava. Parecia achar graça.

Eu não ia realmente voltar lá para confrontá-lo, foi só uma reação automática de instinto de proteção. Algo que eu definitivamente faria pela irmã, ou qualquer outra mulher que tivesse sido desrespeitada.

- Você está com ele enquanto ele está com a esposa?! - Dei um puxão no meu braço para que ela soltasse meu ombro e dei um passo para trás, incrédulo.

- Não! Não é nada disso, seu louco! Será que eu posso falar sem você me interromper?

- Claro. - Neguei com a cabeça para me manter em foco. - Me desculpe. - Voltei para perto dela.

- Ele está voltando com a esposa, porque eu juntei os dois.

Ela me contou toda a história quando já estávamos no caminho para sua casa.

- Mas agora os dois ficam juntos e você sozinha? Isso não é justo!

- Eu não fiquei sozinha, ele não vai deixar de ser meu amigo.

- Você, você gosta dele? - Eu hesitei ao perguntar, tinha medo da resposta.

que conversava o tempo inteiro olhando para mim, mesmo que eu não olhasse de volta, pois tinha que me manter concentrado na estrada, desviou o olhar para a janela.

- Não como deveria.

Que merda isso queria dizer?





* Blue, em inglês, embora tenha como tradução principal como sendo a cor “azul”, também é usada como expressão que caracteriza melancolia, tristeza ou o estado de estar deprimido.


25. I Wanna Be Yours.

MARÇO, 2019
Atualmente




Ponto de vista de Harry Styles.


Ainda dopado pelo sono, eu não abri os olhos mesmo sentindo se mexer ao meu lado na cama. Porém, involuntariamente pisquei algumas vezes tentando olhá-la quando se levantou, levando consigo o calor e o cheiro de seu corpo.

Pelas frestas que meus olhos produziam durante as piscadas rápidas, tive um vislumbre do tecido azul do moletom oversized que eu usava no dia anterior e que eu tinha largado em algum lugar de seu quarto antes de dormir.

Seus olhos, que anteriormente não prestavam atenção em mim, captaram o meu olhar, enquanto suas mãos puxavam a barra do moletom para cobrir as pernas.

- Bom dia, raio de sol! - Sua voz saiu melódica e energética, o que não deixava de ser engraçado; ela quase nunca era animada logo ao acordar.

- Bom dia, gorgeous. - Já minha voz havia saído fraca e baixa. Dei um sorriso para compensar.

Ignorei a vontade de me levantar só para a abraçar e sentir o cheiro do meu perfume no meu moletom em uma mistura com seu próprio perfume e o cheiro de seu cabelo, o qual eu já sentia falta.

- Quer panquecas?

Assenti tão devagar que ela já havia saído do quarto antes que eu terminasse. Me espreguicei calmamente, colocando as duas mãos atrás da cabeça em seguida.

Ainda com preguiça de me levantar, em um primeiro momento, encarei o teto. Escutei o barulho de utensílios de cozinha. Os cômodos não eram longe uns dos outros na casa de .

Depois, desviei o olhar para observar o restante do cômodo que já me era tão familiar. A decoração era marrom-acinzentada e branco. Na mesa da cabeceira, havia um livro fechado, marcado ainda nas primeiras páginas com o que parecia ser um pedaço de papel qualquer.

Meu olhar caminhou até o canto em que ela havia recém colocado os quadros decorativos. Em um deles eu podia ler o trecho de uma de minhas músicas. Sorri involuntariamente com esse detalhe.

Seu apartamento não tinha escritório. Sua mesa ficava em seu quarto, bem de frente para a cama. Ali havia um notebook, muitos itens de papelaria e uma cadeira confortável. Na parede atrás, havia um grande painel de grades e acima dele, duas prateleiras cheias de livros.

Me levantei da cama, chegando perto do painel para observar as fotos. Eu via seus pais, seu irmão, Lucy, , alguns amigos em fotos ainda no Brasil. Em todas ela estava sorrindo.

Eu aparecia em algumas fotos também, uma selfie nossa tirada em seu carro, uma de nós em um show que não me lembro de quem. Tinha uma minha sozinho tocando violão em seu sofá. Uma do natal, com a minha irmã e o seu namorado também.

Havia algumas fotos do que parecia ser no seu trabalho. Ela sentada atrás de uma mesa. Em outra, no estacionamento que eu reconhecia, mas com algumas pessoas que eu não conhecia; ela vestia uma roupa casual e tinha um crachá pendurado no pescoço. Contei em quantas fotos Henry aparecia e quantas fotos havia comigo. Senti uma pontada de inveja, ele estava em quase todas que parecia se referir ao trabalho.

Alguns daqueles rostos que eu não reconhecia poderia ser seu ex-namorado? Eu tinha curiosidade de saber. A ideia de que ela ia vê-lo depois de um ano não me era agradável. Ela poderia se esquecer do que estava aqui a esperando. Poderia sentir falta da antiga vida e não querer mais voltar. Poderia sentir falta dele.

A ideia de ficar vinte dias longe dela me agradava menos ainda. Será que ela gostaria que eu fosse junto? Eu não queria atrapalhar sua viagem. Não queria ser um peso que ela teria que levar para todos os lugares quando fosse visitar amigos e familiares que ela não via há tanto tempo. Era um momento que deveria ser dedicado a fortalecer os laços entre eles.

Eu não podia deixá-la ir, e eu não estava falando da viagem.




- Jeff falou algo com você? - Eu perguntei a Tom. - Ele está atrasado.

- Não. Deve estar só preso no trânsito. - Ele deu de ombros.

- Sobre ‘Watermelon Sugar’... - Tom tocou no assunto com cuidado e eu bufei. - Já se decidiu entre a primeira ou a segunda versão que fizemos?

- Não. Não quero falar sobre isso.

- Harold, essa música vai ser um hit. Eu sei disso.

Ignorei as predicações de Tom, o produtor e compositor conhecido por Kid Harpoon.

- Eu vou ligar para a , com licença.

Apanhei meu celular jogado em cima de uma das mesas ao lado de um teclado e sai para fora do estúdio, atravessando a casa até o jardim.

Eu estava começando a me sentir sufocado, estávamos no estúdio há semanas e eu nem me lembrava a última vez que tinha saído dali.

Eu costumava gostar de alugar aquele estúdio que também era uma casa, justamente pela funcionalidade que me permitia não precisar sair dali para nada. Eu tinha quartos, cozinha, um monte de instrumentos musicais e todo mundo que eu precisava isolado comigo.

Talvez eu me sentisse daquela forma pelo fato de não conseguir terminar uma das minhas músicas, Watermelon Sugar, pois parecia que nunca ficaria da forma que eu queria. Na verdade, nem eu sabia exatamente o que queria para ela. E isso me frustrava. Porque ora eu odiava, ora amava e não conseguia sentir se deveria colocá-la ou não no álbum.

- Ei, estranho!

Ao ver o rosto de pela tela, imediatamente eu soube que tinha alguma coisa errada.

Engoli todas as minhas preocupações e enterrei o egoísmo que me fazia estar pensando somente em mim e no meu maldito álbum naquele momento.

- Eiii. Como você está? - Respondi o mais animado que consegui.

- Sentindo sua falta! E você?

Eu estava tão intensamente imerso nas minhas próprias questões que não me passou pela cabeça que o mundo lá fora continuava a girar e que vivia nele, e que existiam problemas maiores do que eu não estar gostando de uma música que eu escrevi.

- Ocupado. As coisas estão uma loucura aqui no estúdio!

Ela sorria enquanto eu falava, mas ainda assim não parecia que estava tudo bem.

- Você diz isso todos os dias, H.

- Isso na sua mão é um cigarro? - Tentei não demonstrar choque. - Não sabia que você fumava.

Não era como se eu me importasse com isso. Sophie fumava. Mas, quero dizer, cigarros fazem mal e eu nunca tinha visto-a fumando antes.

- Eu não fumo.

Sua voz era categórica, mas sua expressão de indiferença fez acender um alerta vermelho dentro de mim, que brilhou mais ainda ao ver que ela bebia whiskey. Ela nem era fã de whiskey e menos ainda o tipo que fazia “a indiferente”, em tradução: “eu não ligo se estou entupindo meus pulmões de fumaça e causando cirrose no meu fígado.” Não, ela não era desse tipo.

- Ahnnnn, eu tenho plena certeza que isso na sua boca é um cigarro.

- Bem, eu estou fumando nesse exato momento. Mas eu não fumo.

Parecia que aquilo fazia todo o sentido para ela, mas eu decidi não discutir. Não era disso que ela precisava agora.

- Aconteceu alguma coisa?

- Só um dia difícil.

- Hmm. Desculpe, mas não me convenceu.

Seu suspiro longo denunciou mais ainda sua transparência.

- Estão acontecendo algumas... situações no meu trabalho. Henry e eu as apelidamos de dragões. Estamos trabalhando para apagar o fogo que eles produzem.

Eles quem? Os dragões?

Eu devo ter feito uma cara de confusão, porque realmente não entendia aquela linguagem empresarial.

Sem que eu precisasse insistir, passou a me contar o que havia acontecido.

- ...E então quando foi mais ou menos uma e meia da tarde, Lucy foi buscar café do Starbucks e o Henry, eu e o Elliot, que é um dos supervisores da produção, ficamos até às seis e vinte planejando o que fazer. Cheguei em casa há pouco.

Esse Henry de novo... Tentei não revirar os olhos ao ouvir seu nome.

- Mas foi engraçado, porque a Lucy tinha reclamado com Henry que não era nossa assistente e, mesmo assim, ela acabou levando os cafés para a gente lá na sala de reunião.

Sends his assistant for coffee in the afternoon
Around 1:32
Like he knows what to do

Até que eu poderia fazer alguma coisa com essas informações aleatórias dela...Balancei a cabeça para me concentrar no momento presente. Na conversa. Em .

O que ela tinha dito mesmo?

Ah, sim! Que havia chegado tarde.

- Uau! Tão tarde? Parece mesmo um problema difícil de resolver. Mas tenho certeza que você vai dar um jeito. Você é muito competente.

Dei um sorriso forçado. Eu entendia que ela tinha problemas, mas não é como se eu entendesse o que eram esses problemas.

- Sim! Dá para acreditar? O coitado do Henry teve que ligar para a ex-esposa buscar os filhos na escola. Essa semana era a vez dele, que supostamente deveria levar e buscar, mas hoje só conseguiu deixá-los na escola. Ele ficou arrasado, tinha planejado levá-los para o parque depois.

Por mais que eu me esforçasse, essa parte dela, seu lado profissional, era muito distante. Como se fossem duas pessoas distintas, uma eu conhecia bem, a outra... não fazia ideia de quem era.

And I don't know why
I don't know who she is

Eu não ia deixar a diferença dos nossos mundos ser uma barreira. Não quando eu já tinha tantas outras.

Eu sei quem ela é. E o que eu não sei sobre ela, eu quero aprender.

Eu precisava desligar e escrever tudo antes que eu me esquecesse. Era assim que eu resolveria tudo, todas essas minhas preocupações. Com uma música que, ao terminá-la, engavetaria consigo todas as dúvidas e inseguranças.

- Você não faz ideia de como ter você do meu lado dando esse apoio faz diferença...

Avistei o carro de Jeff passando pelo portão recentemente aberto e desviei o olhar da tela só por um segundo.

- ...eu não sei o que faria se não fôssemos amigos!

O quê? Que conversa era aquela?

Pigarreei, desconfortável.

- É... Se não fôssemos amigos...

Seria tão ruim assim se não fôssemos amigos, ? Se fôssemos algo mais?

- Olha, preciso desligar. - Falei depressa. - A porra do Jeff acabou de chegar aqui e ele está meia hora atrasado. Preciso do meu empresário para me dar opinião em algumas coisas que estou em dúvida..., mas nos vemos na quinta-feira, certo?

- É claro, H! Até o Valentine’s Day. Ahn... Bom trabalho aí...

Eu já nem olhava mais para a tela, observando Jeff se aproximar.

- Vê se come alguma coisa e não esquece de beber água.

O comentário me chamou atenção, fazendo com que eu a olhasse mais uma vez e acenasse em concordância.

- Tenho que ir. Love you, babe. Tchau.

Apertei o botão de desligar antes de ouvir sua resposta.

- Falando com a namoradinha? - Jeff me perguntou com um sorriso irônico.

- Cala a boca. Você está atrasado.

- Desculpa. Acabei ficando ocupado resolvendo umas questões para o John Mayer e além do mais, esse estúdio é no fim do mundo! E você conhece o trânsito de LA...




Fui distraído pela voz de que tentava, sem muito sucesso, acompanhar a música que tocava. Eu ouvia apenas o barulho e a sua voz que abafava a voz de quem cantava. Soltei uma risada da sua pronuncia, porque o que ela dizia parecia qualquer coisa, menos inglês.

Lancei um último olhar diretamente para o painel, havia algumas notas também, a maioria reconheci como trechos de músicas e, mais uma vez, encontrei a letra de mais do que uma das minhas.

Talvez, se a música que escrevi naquele dia entrasse para o álbum, pudesse colocar um trecho em seu painel também.

Caminhei até a cozinha e somente ao parar no batente da porta pude reconhecer a música que tocava através dos alto-falantes de seu celular. Na verdade, o final da música, pois já passava para a próxima.

Escorei no batente, observando-a de costas enquanto cantava, agora com uma pronuncia com menos sotaque, em frente ao fogão.

Ela não havia percebido que eu estava ali e eu me preparava para anunciar minha presença quando ela se virou de uma vez em direção a geladeira, soltando um gritinho de susto ao me ver.

- Não sabia que você era do tipo que fazia as coisas ouvindo música, achei que levava o trabalho bem a sério. - Debochei de seu jeito distraído e relaxado.

- Aí, garoto! Você quer me matar de susto? Há quanto tempo você está aí?

- Desde que essa música começou.

Dei alguns passos para dentro do cômodo e então já a tinha nos meus braços, como desejei desde o primeiro minuto em que acordamos e ela saiu do meu lado.

- “The way it brings out the blue in your eyes is the tenerife sea. (A forma como isso destaca o azul nos seus olhos é como o mar do tenerife)” - Ela cantarolou, dessa vez baixinho, com o queixo no meu ombro.

- Bem, meus olhos são verdes. - Também encaixei meu queixo em seu ombro.

- “The way it brings out the green in your eyes is the... (A forma como isso destaca o verde nos seus olhos é como...)” - Ela parou de uma vez e desfez o abraço. Uma expressão de dúvida em seu rosto. - Eu não sei o que rima, você que é o compositor aqui. - Eu dei uma gargalhada do seu tom de voz indignado.

- O verso todo não rima. - Dei de ombros.

- Reclama com o Ed Sheeran; que é o compositor, nesse caso.

- Babe, o que eu quero dizer é que não precisa rimar.

- Oh! - Ela deu uma risadinha sem graça. - Entendi! - Completou fingindo indiferença. - Mas ainda assim, vou deixar as metáforas para você. - Com um sorriso cínico, se afastou e abriu a geladeira.

- Sabe, a gente vai ficar semanas sem se ver agora que eu vou para Londres e um mês depois você que vai viajar parar o Brasil e vamos ficar mais vinte dias sem nos ver de novo.

Eu gostava de tudo em . Mas seu lado descontraído e despreocupado era, sem dúvidas, o meu preferido.

desligou o fogão e se virou para me encarar, se escorando na pedra da pia.

- Mas você pode me ligar sempre que quiser.

O sorriso em seus lábios denunciava o quanto ela estava feliz por voltar ao seu país.

- Eu não quero te atrapalhar. - Fui sincero.

- Você nunca atrapalharia, H! Além do mais...

Ela se virou de costas de novo e eu acabei não entendendo o que ela tinha dito.

-... A minha intenção é descansar, passear em lugares que eu costumava ir, ver meus amigos, fazer coisas mais tranquilas...

Ela gaguejou um pouco, mas consegui entender o final. Não quis deixá-la sem graça pedindo para repetir. Ela falava mais rápido do que o normal, sinal de que estava nervosa. Será que estava tentando disfarçar, porque realmente não queria que eu ficasse ligando e a atrapalhando?

- Eu vou sentir sua falta, darling...

A confissão veio com facilidade, pois era a única coisa que se passava pela minha cabeça naquele momento.

- Quando você voltar, podemos ir naquele restaurante em New York que você queria...

- Bem, você quer ir comigo?

Arregalei os olhos quando ela cortou o que eu estava falando, era algo que ela definitivamente não estava acostumada a fazer. Pela primeira vez parecia que eu tinha falado sozinho, que ela não tinha prestado atenção em nenhuma palavra que eu disse.

- Digo, viajar comigo... Eu sei, sei que você tem uma agenda cheia e horários meio loucos, e é meio esquisito eu levar um cara que eu pego para viajar comigo para casa dos meus pais nas férias, é esquisito, não é? Mas antes disso somos amigos, certo? Mas também não quero que você fique achando que eu estou achando algo.

Ela falava tão rápido que eu tinha que me concentrar em seus lábios para entender.

- Espero que isso faça sentido. É estranho, eu sei. - Repetiu, ainda mais agitada. - Porque você consequentemente conheceria meus pais. Mas somos amigos, não é? - Repetiu de novo. - Amigos conhecem a família de amigos.

- Sim, amigos conhecem a família de seus amigos... - Eu disse devagar, tentando entender porque ela estava agindo assim tão de repente. - Você conheceu um bocado de gente da minha família. - Dei uma risada.

Pela forma como ela continuou a falar, imagino que também não tenha prestado atenção à última coisa que eu disse.

- É só porque eu queria que você me conhecesse de verdade, conhecesse essa parte do meu mundo, assim como você me permitiu conhecer o seu. Seria legal ter você comigo.

Senti meu estômago se revirar. Isso era tudo o que eu queria! Será que você não percebia, ?

- Além disso, onde eu moro é muito calmo, é quase interior, tenho certeza que ninguém vai te reconhecer e nem te incomodar, eu sei que você não se importa com os fãs, mas também sei que não é sempre que você gosta que saibam onde você está e... Ah! Você me entendeu..., mas lá nós poderemos sair para onde... - Coloquei dois dedos em seus lábios, gesto que pedia silêncio. - Quisermos. - Sussurrou

Precisei controlar a vontade de colocar um dos dedos dentro de sua boca, bem entre os lábios quentes que me traziam memórias não convenientes para a situação. Okay, esse não é o melhor momento para isso.

- Onde você morava. - Dei um sorriso de lado e abaixei meus dedos antes que mudasse de ideia. - Você está falando demais.

- É o quê? - Me olhou completamente confusa.

- Você disse que onde você mora é calmo e eu te corrigi, porque você não mora mais lá, você mora aqui, babe.

Era importante para mim frisar que o seu lugar agora era aqui, comigo. Não queria que ela viajasse pensando que não pertence à Los Angeles.

- Estou falando sério, Harry... - Ela suspirou, impaciente.

Era sempre assim com ela, se eu falava sério, ela fazia piadinhas e deboches. Se ela falava sério, eu não podia fazer o mesmo. Porque, aparentemente, quando as coisas eram sérias para ela, eram sérias e ponto!

- Tudo bem. Que dia vamos mesmo?

É claro que eu queria ir. E eu não sabia se me sentia mais feliz ou mais aliviado por saber que ela também queria que eu fosse.

- Eu provavelmente já terei terminado o álbum até lá, não vai ser problema nenhum. O resto eu deixo para que Jeff resolva enquanto eu estiver fora.

- Eu gosto do Jeff. - Ela disse. - Ele é um bom amigo para você.

- Ele também gosta de você. - Deixei que minha mão pousasse levemente em sua bochecha e retirasse alguns fios de cabelo do seu rosto, colocando-os atrás da orelha.

Se isso tudo... O sentimento de felicidade ao ver o sorriso em seu rosto olhando o carro da forma que ela queria na concessionária, o alívio ao sentir sua mão em meu ombro enquanto eu encarava Sophie, a sensação de segurança ao segurar sua mão observando a praia em Lyme, a forma como minha pele reagia ao seu toque, o deslumbramento ao vê-la nas minhas roupas ou ao abrir uma gaveta no closet e encontrar suas roupas lá. Seu cuidado e afeto sem medida. Se como eu sou aberto com ela, como eu consigo ser honesto com ela e comigo mesmo. Se o medo que senti ao dizer o que não queria ter dito no Japão, o embrulho no estômago ao vê-la com Adam e depois com Henry. Se a forma como ela me olha aqui e agora, se isso tudo que ela desperta dentro de mim e mexe tanto comigo não prova para mim mesmo que o que eu sinto é suficiente para arriscar, eu não sei mais o que provaria.

E eu definitivamente não precisaria perdê-la para descobrir que eu posso fazer de tudo por ela. Inclusive ignorar as decepções amorosas do passado; porque ela não era o meu passado, era o meu presente... e futuro.




- Obrigada pelo jantar e pela camisa, é claro. - estava perceptivelmente tímida pelo presente.

Eu devia ter avisado que traria algo para ela de Valentine’s. Não queria que ela ficasse achando que era alguma coisa romântica ou algo do tipo. Vai saber como era a cultura brasileira sobre presentes nessa data. Aqui nos Estados Unidos era bem comum presentear amigos e pessoas queridas com cartões, flores, chocolates e até mesmo presentes não convencionais, como uma camisa do Pink Floyd.

- Você quem fez o jantar! - Eu rebati em um riso frouxo. - Eu que tenho que agradecer pela comida e companhia incríveis! Você é ouro, ! Me salvou de uma noite entediante no estúdio.

- Pena que não vou conseguir te salvar da madrugada entediante no estúdio. - Quando ela disse ‘entediante’, fez aspas com os dedos e usou um tom sarcástico que me fez sorrir. - Tem certeza que não quer dormir aqui?

- Eu preciso mesmo ir. Eu avisei que voltaria às 11pm.

- Bem, já são 10:54pm. - Ela disse ao olhar o celular.

- É a minha vingança contra o atraso de Jeff naquele dia. - Eu dei um sorriso inocente.

- Jezz! Você está mesmo vingativo ultimamente! - Ela gargalhou.

Era sempre difícil de me despedir. Provavelmente gastamos mais do que os 6 minutos que eu ainda tinha sobrando para fazer isso.



No caminho de volta ao estúdio, eu cantarolava junto com a minha própria voz que saia do rádio do carro. Era a demo de uma música que eu havia intitulado de ‘Golden’, e só uma das várias que eu havia escrito para . Mesmo já tendo escrito tamanha quantidade de músicas que eram obviamente sobre ela, eu não conseguia admitir isso para mim mesmo.

Apesar de ser à noite, eu conseguia me lembrar das várias vezes que havia feito o trajeto da minha casa até o estúdio depois de escrever essa música, o sol bloqueando irritantemente a minha visão enquanto eu me recusava a fechar a capota de um dos carros que eu dirigia.

Eu poderia dizer fácil que aquela era a minha preferida. Tinha tudo a ver com a Califórnia e, claro, tinha tudo a ver com . Ou pelo menos com a minha visão sobre ela.

Quando cheguei ao estúdio - bem atrasado - naquela noite, Mitch me esperava na entrada.

- Você está ouvindo essa música de novo? - Mitch comentou rindo enquanto eu descia do carro.

- Me deixa em paz! - Dei um empurrão de leve em seu ombro.

- Espera! Eu estou vendo essa puxada de lábio! Isso foi um sorriso, não foi? Não disfarça! Ah, cara! Você está mesmo apaixonado!

- Cala a boca. - Acabei rindo mesmo assim.

- H, você ouve essa música praticamente todos os dias e todos os dias você fica com um sorriso idiota no rosto. Eu não convivo com a o bastante para saber o que ela acha de você, mas pelo que você me conta, vocês dois estão caídos um pelo outro!

- Você a chamou de quê?

- Desculpa, cara. Mas você só se refere a ela assim. E não é como se você quase não falasse dela, não é?!

- Exatamente, só eu! Para você e o resto do mundo é !

- Então, por que não fala nada para a ? - Enfatizou ironicamente seu nome ao final.

- Porque eu não sei ainda se eu quero algo sério com ela.

- For fuck’s sake, Harry! Você é burro? - Fiz uma cara de ofendido. - Você está de quatro por essa mulher!

Revirei os olhos descrente e balancei uma mão como se dissesse “nada a ver”.

- E quer saber a verdade? Você está assim desde quando fomos jogar boliche e ela não ficou nem um pouco impressionada com a sua boa aparência ou o seu carro chique. E, depois, quando você ofereceu carona e, adendo: todo mundo aqui sabe que as suas caronas sempre acabam na sua casa, mais precisamente, na sua cama!

Eu neguei com a cabeça, completamente envergonhado. Mas não fui capaz de dizer nada.

- É, sim, você sabe disso! - Mitch insistiu. - Mas ela recusou, montando naquela moto, completamente foda e deixando você para trás. Foi ali, meu amigo, a sua ruína.

- Para quem não tem o hábito de falar muito, você está bem falante hoje!

- Ela é uma das mulheres mais legais que já entrou na sua vida. Ela é inteligente, divertida, humilde e muito bonita! - Mitch fez uma cara de dor e tornou a falar, em sussurro: - Não fala para a Sarah que eu disse isso. - E rindo, continuou com a voz normal. - Porra, quando eu conheci a Sarah... Foi incrível. A parece com ela, ambas muito esforçadas, destemidas, têm esse ar assim de que parece que nada seria capaz de as parar... Você sabe que a não vai te esperar para sempre, não sabe?

Eu fiquei calado. Ele estava sendo exagerado. Eu nem mesmo sabia se queria arriscar algo com ela.

- Tudo bem! Já que você não vai admitir, pelo menos me conta como foi o jantar.

Contei brevemente tudo e tive vontade de dar um soco na cara de convencido que Mitch fazia.

- Você deu a sua camisa vintage do Pink Floyd para ela? - Questionou incrédulo. - Você nem deixa ninguém tocar naquela merda.

- Ela gosta de Pink Floyd. - Dei de ombros, como se não fosse nada demais.

A história e a ligação entre e o irmão que morreu não era minha para que eu compartilhasse.

Mas Mitch começou a gargalhar. Muito.

Tudo bem que eu gostava tanto assim da camisa, mas a minha justificativa não era assim tão absurda para ser verdade.

- Você usou alguma coisa? - Eu perguntei quando ele perdeu o ar de tanto rir.

- Alguém tinha que se lembrar do solo de ‘She’... E como foi eu mesmo que compus... - Revirei os olhos.

- Já não bastava eu ter cortado a minha língua escrevendo essa música?

- Jeff não está nem mesmo bravo.

Mitch mudou de assunto. Como ele não estava são, resolvi não me irritar por ser ignorado. Fiquei refletindo sobre seu surto de consciência há alguns segundos atrás... E tentava entender o porquê as palavras dele me incomodaram tanto.

- Ele disse “Harry com certeza vai se atrasar, não o esperem aqui antes de onze e meia.”.

- Ele disse isso? - Perguntei indiferente.

- Ele disse. - Confirmou. - Eu perguntei o porquê e ele me respondeu que você estava dando o troco nele.

Eu não consegui conter a gargalhada. Eu amava aquele cara e o quão bem ele me conhecia. Não era à toa que ele era meu empresário.

- Qual música estão mexendo agora? - Eu perguntei quando estávamos já perto de entrar no estúdio.

- 'Adore You'. - Mitch respondeu conciso. - Se der tempo, a versão número 6 de 'Sunflower'.

Eu concordei com a cabeça sem dizer nada. Tínhamos que produzir logo essa música hoje? Essas?

- É, meu amigo... Hoje você não esquece da sua musa. - Eu dei um suspiro antes de responder.

- Eu estava pensando a mesma coisa.




Estava decidido! Eu não vou esperar que ela vá embora para estar pronto. Eu estou pronto agora.

- Tudo que estamos vivendo nesses últimos meses... é... eu não sei...eu...

Eu não sabia por onde começar a dizer o que a ter conhecido significava para mim.

- Harry Styles, você está me pedindo em namoro? - Ela perguntou no tom debochado de sempre, quebrando imediatamente a tensão que eu sentia.

Foi ali que eu soube que eu poderia falar o que quisesse, que ela me entenderia. Sempre.

- Não. - Respondi sério.

- Não? - Ela imitou.

- Não! - Confirmei.

Eu achava que não conseguiria disfarçar bem o alívio que senti e ela perceberia que eu estava brincando, mas quando ela arregalou os olhos, surpresa, percebi que ela não fazia ideia do que eu estava prestes a relevar.

- ...Porque eu nem sei se você sente o mesmo. - Sorri de lábios fechados e puxei o ar com força. - O que eu estou tentando dizer é que eu estou inegavelmente apaixonado por você.

Continuei sorrindo minimamente ao ver sua expressão de choque. Eu não disse nada enquanto a esperava responder. Foi um longo e torturante silêncio.

- O quê? Assim? Do nada?

Bem, essa não era exatamente a reação que eu esperava.

- Não é do nada, você sabe disso.

- De-desde quando?

Será que eu estava a interpretando errado durante todo esse tempo?, a dúvida pairou sobre mim.

Não, não era possível. Ela sentia algo por mim também. Todos os momentos que vivemos juntos. Eu não estava imaginando os olhares, os ciúmes não admitidos, as frases mantidas em uma linha fina entre brincar e falar sério.

A parceria sexual que antes só acontecia quando não tínhamos outros planos e que havia se tornado exclusiva; por ela não me contar de mais ninguém, eu passei a acreditar que era o único agora. E ela, no fim da noite, de qualquer noite, era sempre quem estava comigo, era ela quem eu sempre procurava.

Não era possível que eu estava sentindo tudo aquilo, por todos esses meses, sozinho.

- Não sei te dizer exatamente desde quando, mas alguma coisa mudou quando fomos para Londres, ainda antes do natal. - Dei de ombros. - Talvez desde quando te beijei pela primeira vez e eu só não soubesse. Talvez eu sempre soube. Talvez eu só tenha demorado para decidir. Mas tenho certeza do que eu sinto agora e eu só não quero ter que esconder isso de você.

Encarei-a, não para intimidá-la, aquela era a minha forma de rendição. Eu sentia que não havia nada além da verdade entre nós agora. Sempre só houve verdade, mas agora estava tudo exposto.

Eu estava exposto.

- “... E onde há verdade não há barreiras, não há olhares desviados e, se nada acontecer, que jamais seja porque algum de nós não estava ciente das possibilidades”.

Seu olhar mais uma vez foi de confusão.

- Call Me By Your Name. - Expliquei.

- Aquele filme do Timothée Chamalet, o ator que você teve uma conversa meio entrevista em 2017?

- Uh-hum. - Eu sabia que ela reconheceria o nome do filme por causa dessa entrevista. - Eu li o livro depois que conversei com Timothée, me chamou bastante atenção.

então ficou calada de novo. E eu estava começando a me sentir nervoso.

- Você não precisa me dizer nada, não precisa dizer que me ama..., mas quero que esteja ciente do que eu sinto e das suas opções aqui, porque se houver alguma chance de você sentir algo parecido por mim... Eu quero tentar.

O silêncio dela era esmagador. Suspirei, antes de voltar a falar.

- Eu quero continuar te contando como alguém deu em cima de mim, eu quero continuar ouvindo as suas histórias também, porque eu sei que muita gente flerta com você, ou pelo menos tenta. - Ela riu, ufa. Foi o suficiente para diminuir o aperto no meu peito. - Eu só não quero mais te contar como foi sair com aquele alguém, porque eu quero ser só seu. E quero que você seja só minha.

- Eu... não consigo imaginar a possibilidade de você estar apaixonado por mim.

Dessa vez, eu que fiquei confuso.

- Por quê? O que tem de tão extraordinário nisso?

- Eu não tenho nada que te prenda, nada que te interesse, eu não sou ninguém. Eu sou... comum.

- Eu também sou só um garoto comum. Esse sou eu. - Apontei para mim. - Essa é você. - Apontei para ela. - E nós é o que eu quero.

- Não. - Ela negou com a cabeça, efusiva. - Você pode gostar de quem você quiser que a pessoa automaticamente vai gostar de você de volta só porque você é você! Isso se a pessoa já não estiver só esperando ser você quem gosta de volta. - Ela fez cara de confusão assim que terminou de falar.

- O quê? De onde você tirou isso? Não tem como todo mundo gostar de mim. Ninguém agrada todo mundo.

- Você entendeu o que eu quis dizer. - Ela respondeu parecendo um pouco impaciente. - Você sabe do que eu estou falando! Você pode ter quem quiser.

- Eu entendi. Mas eu não acredito que eu estou ouvindo isso de você! Na minha vida, muitas pessoas gostam de mim. E você mesma já disse: Porque eu sou eu..., mas não é real! Não gostam de mim de verdade!

- Desculpa. - Ela suspirou, arrependida. - Eu não sei o que dizer. Isso tudo me pegou de surpresa.

- Me diz o que você sente! Você me disse que queria que eu viajasse com você para que eu te conhecesse de verdade. Então se abre para mim, ! Eu nunca sei o que você sente de verdade.

Eu não queria parecer desesperado, mas acho que era tarde demais.

- Eu acho que... eu sou eu. Eu fico fazendo piadinhas sem graça o tempo todo e sendo debochada, e ao mesmo tempo séria demais, porque eu trabalho demais e levo essas coisas muito a sério. E isso não tem nada a ver, me ignora. - Ela reconsiderou me fazendo rir. - Mas eu sou eu! - Bateu os dedos no próprio peito. - E você é você. - Apontou para mim.

Eu esperei pacientemente que ela continuasse.

- Você é o ser humano mais incrível que eu já conheci. Você é generoso. Você é gentil. Você é livre. Você é altruísta sendo também a pessoa mais narcisista que eu já conheci e até hoje não sei como você consegue manejar essa dupla personalidade. Porra. - Ela soltou em português e naquela época eu já sabia o significado. - Você nem mesmo fica nervoso. Até quando te provocam e te tratam com grosseria você devolve tudo em forma de amor e gentileza.

Eu queria mais do que tudo a abraçar naquele momento, mas não queria que ela parasse de falar. Eu sentia que a devia esse momento de desabafo.

- Eu sei que não existe ninguém perfeito e você tem muitos defeitos... - Ela deu uma risadinha antes de continuar. - Tipo pegar sorvete do pote fazendo um buraco. Apertar a pasta de dente pelo meio. Largar suas meias espalhadas pelo chão do meu quarto. Ou quando eu te grito de algum cômodo e você simplesmente se teletransporta para o meu lado, me assustando de propósito. - Ela revirou os olhos e eu gargalhei. - E você é inacreditavelmente irritante. E não existe ninguém perfeito. - Ela repetiu. - Mas você é o mais próximo disso que eu já conheci. Tem como não se apaixonar por você? Merda! - Essa palavra eu não sabia o que significava. - Tem como não te amar, Harry?

Os olhos dela se encheram de lágrimas. Aquilo cortou o meu coração.

- Não chora, por favor. Eu não quero fazer você se sentir mal. Eu estou tentando tanto não agir como idiota. - Eu tentei limpar a lágrima que escorreu, mas esta foi seguida por outra.

Deixei minha mão pairar em seu rosto por um momento, antes de voltar a largar os braços ao lado do meu corpo, desolado.

- Eu também não quero chorar. Que droga! - Essa eu também sabia, ela falava muito. - Mas eu tenho medo de você ir embora.

Agora eu tinha ficado assustado, conseguiu ignorar que eu parafraseei a minha própria música ainda não lançada. Quando ela leva conversas tão a sério assim ao ponto de não intervir com alguma piadinha irritante?

Minha cabeça praticamente latejava de tantos pensamentos. O que isso queria dizer? É claro que eu estou falando sério e quero ser levado a sério, mas esse comportamento é tão não-. Ela nunca deixa passar nada.

- Eu não vou. Não vou me afastar.

- E quando você descobrir que você é bom demais para mim?

Bloody Hell, então era sobre isso? Eu nunca pensei que por baixo de toda essa aparente autoconfiança e autossuficiência, encontraria uma que acha que não é boa o bastante para mim. Eu entendo que não somos confiantes o tempo todo e percebo isso nela, mas nunca imaginei que fosse algo tão profundo ao ponto de não se achar boa para alguém, que tivesse esse tipo de baixa autoestima. Agora não me admira ela não ter feito nenhuma piadinha. Isso é realmente algo sério para ela. Mais sério do que jamais pensei. Como sou idiota.

- , você está se ouvindo? Em que mundo você vive que não se enxerga metade do que eu te vejo? Você é tudo isso que você disse sobre mim: Gentil, uma das pessoas mais generosas e preocupada com os outros que eu já vi.

Eu acabei sorrindo ao pensar que ela havia visto em mim o melhor que eu via nela também.

- Você é forte, corajosa, divertida. Você vai atrás dos meus fãs em qualquer lugar para que eles tenham algum contato comigo. Você é uma pessoa comum? Sim! Você tem um monte de defeitos?

Acabei soltando uma gargalhada irônica, porque ao pensar em seus defeitos, eu não conseguia odiar nem mesmo um.

- Você deixa a toalha molhada na cama e nos finais de semana tem um par de sapato para cada dia da semana espalhados pelo quarto. Você deixa só o resto de água na garrafa na geladeira só para não ter que encher. E sempre coloca o pé em cima do banco do meu carro, não importa quão sujo esteja o seu calçado e nem o quão limpo esteja ou claro seja o banco.

Isso fez com que ela sorrisse minimamente. E eu aproveitei para respirar fundo.

Mas você é também uma das pessoas mais extraordinárias que eu já conheci. Eu gosto de quem eu sou, mas eu gosto mais ainda de quem eu sou perto de você. Porque eu admiro você. Eu estou apaixonado por você.

- And all my little things? - Ela citou tentando ser debochada, mas os olhos voltaram a lacrimar.

Aquilo me deu um alívio no peito. Essa era a que eu conhecia.

- E tem essa mania irritante de cantar todas as minhas músicas em todas as situações. - Eu sorri.

- Eu não cantei. - Ela riu chorosa.

- Obrigado, Deus! Porque você canta muito mal. - Fingi revirar os olhos.

- E você tem essa mania irritante de pegar todas as minhas manias!

- E eu realmente acredito em tudo o que você diz sobre mim. Não porque é tudo verdade. Longe disso! Mas porque eu sei que é a forma que os seus olhos me enxergam. E pra mim, a forma que você me enxerga é o que importa, é suficiente para que eu acredite e me veja assim também, entende? Ou veja que eu posso ser uma versão melhor de mim mesmo em um futuro não muito distante com você do lado me encorajando para isso... Porque você já me vê assim, o que me dá uma sensação de que é tudo possível. - Soltei outra risada.

- O que aconteceu com a gente, Harry?

- Eu não sei. - Eu sorri.

- Talvez... Talvez eu esteja apaixonada por você por tanto tempo quanto você diz estar por mim.

Meu coração deu um solavanco com a revelação. Era tão bom ouvir aquilo. Depois de tudo o que havia acontecido comigo no passado, ter a confirmação de que eu estava apaixonado por alguém que sentia o mesmo por mim era tudo.

- Por que você nunca me disse nada antes?

- Porra, Harry!

Eu acabei gargalhando de novo. Ela devia estar muito nervosa para soltar tantos palavrões em português.

- Desde que somos amigos, eu sempre soube que você era apaixonado por outra. Por que eu falaria alguma coisa e estragaria tudo?

- Por que você acha que estragaria tudo? Se sentimos algo mais forte, não vale a pena tentar?

- Porque prometemos! - Ela levantou a voz, frustrada.

Eu a olhei confuso.

- O que você quer dizer?

- Quando nos beijamos na sua casa depois da praia, você se lembra? Você me disse que não queria passar a impressão errada e eu disse que havia entendido os termos: Não esperar nada de você e continuarmos amigos. - Ela citou com os dedos.

- Eu achei que você tinha dito aquilo porque não queria que ficasse um clima estranho caso aquela fosse a única vez que rolasse algo. Porra, na verdade, eu achei que aquele era o seu recado de que aquela era a única vez que ia acontecer algo entre nós, e aí quando ficamos de novo, e de novo... - Ela negou com a cabeça, desacreditada.

- Eu disse aquilo porque eu tinha medo de você achar que eu estava me apegando enquanto você ainda era apaixonado por outra e, portanto, não sentia nada por mim. E eu não queria confundir as coisas, queria cumprir o que eu havia prometido... Eu não queria que você se afastasse por achar que eu tinha sentimentos que você não correspondia, você parecia tão preocupado que isso acontecesse na época.

- Eu só não queria fazer você passar comigo o que eu havia passado, ser só o lance casual de alguém enquanto você se apaixona! Mas as pessoas mudam, . E eu mudei muito nesses últimos meses e... achei que você tivesse percebido, achei que estivesse demostrando, deixando claro... de alguma forma. A culpa foi minha, eu deveria ter falado antes.

Eu via muito facilmente qual era o nosso problema ali. Eu ainda estava muito apegado à ideia de que era apaixonado por Sophie para perceber o quanto estava realmente apaixonado por e ela estava muito apegada a algo dito meses atrás. Tínhamos uma pilha de achismos acumulados que teriam sido esclarecidos se tivéssemos conversado abertamente antes.

- H, eu nunca quis e nem esperei nada de você, porque tudo o que eu sempre precisei foi olhar para o lado e te encontrar. Sorriso torto, vans encardido, cabelo parcialmente preso no topo da cabeça. Só quero isso, olhar e saber que você está aqui. E para falar a verdade, pra mim isso é o suficiente.

Eu não soube o que dizer. Porque eu sabia exatamente como era se sentir assim. Estar tão caído por alguém ao ponto de o mínimo ser suficiente.

- Você é apaixonado por outra! - Parecia que alguma ficha havia caído dentro dela. - Não é?

Me lembrei de Sophie, em algum lugar em Londres. Talvez estivesse em seu apartamento, ou na editora em que trabalha; em sua sala com a janela de frente para a mesa do restaurante onde nos encontramos pela primeira vez, também onde rascunhei os primeiros versos de Carolina enquanto a via através da mesma janela, sentada na mesa presa ao telefone; 10 minutos atrasada para o nosso almoço/encontro. Me lembro que mesmo de longe conseguia ver sua agitação aparente, provavelmente pensando que eu tinha ido embora depois de me cansar de esperá-la, ou pensava que talvez eu ainda estivesse lá, mas o tempo em que me deixara ali esperando a preocupava. E me lembro também de não me preocupar com o fato de que eu poderia esperar por horas, mesmo que fôssemos ficar juntos por apenas quinze minutos.

E agora eu pensava em como tudo aquilo parecia tão distante, tão diferente. Irreal demais. Quase em outra vida, a vida de outra pessoa, que eu havia apenas ouvido a história.

- Você se lembra da última vez que falei sobre ela? - Perguntei e ela pareceu pensar, negando com a cabeça alguns segundos depois.

- Quando a vi aquele dia... - Eu me referia ao encontro inesperado no supermercado em Londres. - Eu sei que você acha que que eu fiquei balançado por ela, que aquele encontro me deixou mal. Ou talvez você até tenha cogitado que eu estivesse arrependido de termos nos afastado e ter ficado com medo de que eu voltasse correndo para os braços dela...

Eu sabia que tudo aquilo provavelmente tinha passado pela cabeça de . Ela era transparente demais. Sempre foi.

- Mas a verdade é que eu percebi que só estava com medo de deixar ir algo que eu já não sentia há muito tempo. Porque eu já sabia que eu não olhava para você da mesma forma. Porque no fundo eu sabia que sentia algo por você. Você sabe o que nós dois conversamos naquele dia?

- Não. Você nunca me contou e eu nunca tive coragem de perguntar. - Ela deu de ombros.

- É isso que eu falo sobre eu nunca saber o que você sente sobre as coisas!

Decifrar seus pensamentos, expressões e emoções básicas estava em uma camada muito menos profunda do que a dos seus sentimentos e seu coração.

- Você tem esse jeito sempre tão compreensível. Nós nos separamos num supermercado e quando você me encontrou de novo eu estava conversando com a pessoa que mais me fez sofrer nos últimos anos e que você sabia que eu, teoricamente, era apaixonado. E você tinha esse olhar... compassivo! Seu rosto, neutro! Eu amo isso em você, porque você nunca me julgou. Mas eu também odeio, porque se você já tinha sentimentos por mim nessa época, você os mascarou muito bem. Não dá para saber nem se você ficou com ciúmes.

Isso fez com que ela gargalhasse.

- Desculpa por não ser do tipo ciumenta? - Brincou.

- Eu escrevi uma música sobre aquele dia. A última sobre ela. - Voltei a falar sério.

- Eu sei. - Ela sorriu. - Eu dirigi, lembra? Em Londres, pela primeira vez. - Mexeu as sobrancelhas, divertida.

- Eu escrevi o que eu disse para ela.

- O que vocês conversaram? - Ela perguntou mesmo sabendo que eu falaria ainda que ela ficasse calada. Mas aquele era o nosso esquema. Era como funcionávamos.

- Ela me pediu desculpas.

- É o mínimo. - Ela me interrompeu revirando os olhos.

- Parece que as coisas não estavam indo bem para ela.

- Aqui se faz, aqui se paga.

- ! - Repreendi.

- O quê? O “trate as pessoas com gentileza” aqui, é você. - Eu ri. - Você não queria saber o que eu acho? Agora aguente.

- Isso você sempre fez, falar o que pensa assim.

- É verdade. - Ela reconsiderou rindo com uma mão no queixo, como se pensasse.

- E falar o que pensa não é falar o que sente. - Pontuei e ela parou de rir.

Balancei a cabeça, escolha errada de palavras na hora errada.

- Ela não entrou em detalhes, mas parece que não estava mais namorando.

- Aposto que o cara descobriu quem ela é.

- Dá para parar de me interromper? - Isso fez com que ela risse de novo.

Essa situação estava toda muito tensa. Eu sentia um alívio enorme quando a fazia rir ou ela soltava alguma gracinha para descontrair, quanto mais ela se parecia com a normal, mais confortável eu ficava em falar.

- Desculpa. - Ela pediu, mas eu sabia que não se sentia nenhum pouco culpada. - Continua.

- Acho que ela estava sentindo a minha falta. Queria que voltássemos a ter contato.

- Mentira! - exclamou surpresa. - Que falsa! Ela está achando que você virou segunda opção, por acaso?

- Acho que eu sempre fui a segunda opção dela. Eu só não percebia. Talvez não me importasse.

- Eu não preciso cantar um trecho de Just a Little Bit Of Your Heart de novo, preciso? Já passamos por essa fase.

Eu poderia ter dito que a amava bem ali, enquanto a lembrança da primeira vez que ela citou uma música minha, naquela cafeteria escondida no meio do nada em um bairro afastado de Los Angeles, tantos meses atrás, pairava na minha mente.

- Não, não precisa. - Revirei os olhos, ainda que incapaz de conter um sorriso. - E eu também não preciso cantar para você, preciso? - Ela gargalhou. - Porque o que você estava falando agora pouco de só ter um pouco de mim se parece muito com o que eu dizia há um tempo atrás sobre ela. - Ela deu de ombros.

- Bem, você pode cantar sempre para mim. - Eu revirei os olhos, incapaz de conter meu coração acelerado com o seu gracejo.

- Talvez eu tivesse aceitado. - concordou com a cabeça para confirmar que estava concentrada quando voltei ao assunto principal, completamente habituada com essa nossa mania. - Digo, eu a perdoei há muito tempo, é claro. Mas talvez eu tivesse aceitado voltar a falar com ela, não porque queria algo de novo, mas porquê...

Parei para pensar... Por quê? Eu nem mesmo sei.

falou uma palavra em português e eu não entendi.

- O quê? - Perguntei confuso.

- G-A-D-O. - Ela soletrou. - Gado. - Repetiu. - É isso que você é. E é a única coisa que justifica você aceitar ter contato com ela de novo.

Gastamos quase dez minutos para eu conseguir entender a explicação do que significava essa palavra para que no fim eu ficasse ofendido.

Eu gostava muito dessa dinâmica de conversa que tínhamos. Poderíamos estar falando do assunto mais sério que fosse, que se fizesse alguma piadinha, desviaríamos do assunto por longos minutos e depois voltaríamos ao foco, como se nada tivesse acontecido. Nosso diálogo era bem flexível e isso ter acontecido duas vezes seguidas em tão curto espaço de tempo mostrava isso.

- Enfim. - Voltei ao assunto, desistindo de ficar ofendido, porque o que eu queria falar ali era importante. - Mas eu não aceitei. Sabe por quê?

- Não, estou esperando você me contar. - Soltou, atrevida.

Ignorei. Respirei fundo, me concentrando para dizer as palavras certas. Era importante que eu transmitisse o que estava sentindo da melhor maneira possível. precisava entender claramente que a única pessoa por quem eu estava apaixonado estava ali na minha frente agora.

- Porque aparentemente agora eu sou gado por você. - Isso fez com que ela sorrisse. - Porque ali, de frente para a pessoa que eu mais quis uma explicação sobre tudo e por tanto tempo, ali, , a primeira coisa, a única pessoa que veio na minha cabeça foi... você. E em como você tinha me mostrado um lado diferente sobre muitas coisas, sabe? De companheirismo, de fidelidade, de amizade pura e sem interesses, de preocupação verdadeira, de apoio e cuidado. De amor. Até mesmo um lado diferente de como era uma pessoa que é minha fã. E naquele momento eu percebi que eu era apaixonado por uma versão dela que eu mesmo criei. Mas que eu finalmente sabia quem ela era de verdade.

Era péssimo admitir em voz alta que eu tinha me enganado. Eu sempre fui um bom julgador de caráter. E eu me sentia horrível quando isso acontecia, quando eu me enganava sobre as pessoas.

Conheci Sophie na época em que a banda havia anunciado o hiato. Por mais que estivesse ansioso para fazer as coisas sozinho, eu também estava nervoso porque ia fazer as coisas sozinho. Eu não queria ficar sozinho. Nunca quis. Será que Sophie sempre deu sinais de quem realmente era e eu só não conseguia enxergar? Meu medo tinha ofuscado meu discernimento?

Por muito tempo eu queria que Sophie aparecesse com uma história que justificasse tudo o que ela tinha feito. Que falasse que tudo era mentira, que ela não tinha feito nada daquilo. Que eu não tinha me enganado sobre ela e que tudo tinha sido um mal entendido. Mas naquele dia no supermercado, com uma saltitante que tinha acabado de sumir pelos corredores usando uma bota minha que mal lhe cabia no pé, eu percebi que ela faria o possível e o impossível para me ver bem e tornar o meu dia melhor, mesmo que fosse na cidade que tinha o tipo de clima que ela mais odiava bebendo um vinho barato. Ela jamais me machucaria intencionalmente.

- Mas, principalmente, eu descobri muitas coisas sobre mim também. E então, eu reuni todas as minhas forças, porque foi difícil, . Foi muito difícil perceber tudo aquilo ali, naquela hora, de repente.... E então eu senti a sua mão no meu ombro. - Eu ri nasalado. - Você chegou no momento perfeito, babe. - Toquei suavemente seu queixo. - Como se soubesse que era naquele momento que eu precisava de você, porque eu tinha acabado de dizer que eu poderia, mas não ficaria na vida dela.

Eu falava tudo isso quase sem piscar, com medo de desviar o olhar e perder alguma reação em seu rosto. Eu sempre fui bom com as palavras, mas eu era melhor quando as transformava em versos de músicas. Meu coração palpitava tão forte que eu quase poderia acreditar que ouviria. A adrenalina que corria em minhas veias por estar me declarando quase ofuscava meu nervosismo. Quase.

- Você sempre parece saber a coisa certa para dizer. - Continuei. - A coisa certa no momento certo. E sabe também exatamente quando não dizer. E não me entenda mal, eu amo isso que a gente tem do jeito que é. Amo a nossa cumplicidade, nossa amizade, companheirismo. Eu espero estar retribuindo tudo isso para você até então.

- Harry, você-você retribui, sim. Eu nunca senti que nossa relação fosse nada menos do que uma via de mão dupla. Você sempre foi atencioso, cuidadoso, carinhoso. Eu...só... - Ela gaguejava bastante.

- Tudo bem, você não precisa dizer nada porque eu estou te dizendo. Eu confesso que não planejei dizer nada disso hoje. Só... saiu. Pareceu o momento certo.

Eu jamais imaginei que contaria tudo ao acordar naquela manhã. Jamais imaginei que seria aquele o momento em que falaria dos meus sentimentos.

- Não, Harry! Você me conhece... Eu gosto de ter tudo explicado, gosto quando nos comunicamos. Eu só... me esqueço que algumas coisas não precisam ser ditas.

sempre parecia me entender. E ela só ficava brava comigo quando eu agia mesmo como o filho da puta arrogante que eu era; o que acontecia com certa frequência, apesar de não durar por muito tempo (ela ficar brava, porque o meu status de idiota permanecia, admito). Mas, não sei, ela sempre entendia o que eu queria explicar, mesmo que eu não quisesse dizer muito. Ela entendia até mesmo quando nem eu mesmo entendia ainda o que queria dizer.

E aquele era, sem dúvidas, o momento para que ela soubesse de tudo isso.

- Eu amo tudo isso que a gente tem. - Enfatizei. - E eu sei que você disse que para você é suficiente apenas me ter por perto. Mas isso não é mais suficiente para mim.

Suspirei, mais decidido do que nunca.

- Eu quero mais.


26. I've been gone too long from you.

MARÇO E ABRIL, 2019




Foi bem estranho quando Harry foi para Londres. Foi estranho porque eu pensei que sentiria mais sua falta do que eu realmente estava sentindo.

Talvez fosse o fato de que tínhamos passado as últimas semanas longe um do outro, já que ele estava o tempo todo no estúdio. Então eu meio que tinha me acostumado com isso.

- Duas semanas. - Harry suspirou do outro lado da linha.

As ligações, no entanto, eram algo que eu passei a esperar sempre, porque eu também tinha me acostumado com elas.

- Vão passar rápido, H. - Eu também suspirei do meu lado da linha.

- Eu tinha que viajar logo agora? Não, quero dizer, logo agora que nos resolvemos? Devíamos ter conversado antes.

- Isso eu concordo. - Soltei uma risada. - Mas as coisas aconteceram como e quando tinham que ser.

- Bullshit. Você que ficou se cagando de medo de admitir que me ama.

- Ah, claro. E você foi muito corajoso, não é?

- Bem... Na verdade, sim.

Eu não via Harry naquele momento, mas conseguia mentalizar perfeitamente suas expressões faciais. Ele provavelmente tinha arqueado as duas sobrancelhas quando disse ‘bem...’, como se estivesse considerando a situação, também teria deslizado o lábio inferior um pouco para fora, quase formando um biquinho, para em seguida inclinar a cabeça levemente para a direita ao completar com ‘na verdade, sim’.

Caralho. Eu tô muito apaixonada.

- Idiota! - Xinguei, porque eu não tinha argumentos contra aquilo.

- Sinto sua falta. Muito. Mal posso esperar para ver você.

- Eu...

Escutei um grito ao fundo que dizia “Tommmmmm” e, por isso, parei de falar.

- Tommmm! - A voz repetiu. - Já está na hora de buscar as crianças na escola.

Comecei a rir e Harry me acompanhou.

- Quem é que está gritando aí?

- É a Jenny, esposa do Tom. Eu ‘tô na casa deles.

- Achei que...

- Tom, vá buscar as crianças! - Escutei Jenny gritando mais uma vez.

- For goodness sake, cara. Dá pra você responder a sua esposa?! - Ouvi Harry falando e claramente não era comigo.

- Oh, ele está aí do seu lado? - Perguntei rindo mais ainda.

- Ele ‘tá finalizando uma música para mim nos aparelhos dele, porque segundo ele “os dele são melhores do que os dos estúdios”.

- E são mesmo.
- A reposta de Tom veio instantânea.

- Ei, Tom! - Eu disse rindo.

- Oi, ! Quando você vem para a Inglaterra? - A resposta veio com eco, imaginei que eu estivesse no viva-voz agora.

- Hm... Fazer o quê? - Perguntei confusa.

- Nos visitar, é claro.

- Bem, ninguém me convidou. - Soltei uma risadinha.

Clap!, foi o som seco que ouvi em seguida.

- Ouch! Por que me bateu? - Harry resmungou.

- Harry, você não convidou a sua namorada para vir para Londres?

- E-eu - ela está trabalhando...
- Ouvi Harry gaguejar em reposta.

- Sweetheart, venha para Londres. Meu convite. Tem um restaurante excelente perto da minha casa. Jenny vai adorar conversar com você sobre algo que não seja fraldas e escola. - Eu soltei uma risada. - E com você aqui, esse mané vai parar de resmungar o tempo todo.

- Achei que vocês estivessem em Bath.

- Vamos amanhã. O estúdio do Peter Gabriel estava alugado. Só consegui para a partir de amanhã e ninguém toma aquele lugar de mim nas próximas duas semanas. - A resposta veio de Harry.

- Jezz! Você é mesmo muito possessivo. - Eu brinquei e Harry riu.

- Ótimo saber que você sabe onde está se metendo. - Dessa vez quem falou foi Tom.

- Eu já vim vacinada, não se preocupe.

- Eiii! - Um Harry ofendido resmungou.

- Bem, vou deixar vocês agora. Preciso buscar meus filhos antes que minha esposa venha até aqui me matar.

- Tchau, Tom. Bom falar com você!

E, assim, estávamos sozinhos novamente.

- Então... Você terminou de ler o livro que te emprestei?

- Qual deles?

- O último.

- Nem comecei.

Eu estava mentindo. Já tinha começado a ler, sim.

- !

- O quê? Que droga de título é In Watermelon Sugar? - Meu comentário fez Harry rir.

- Sabe qual música Tom está finalizando agora? Watermelon Sugar.

- Espera, o quê? - Minha mente deu um nó. - Você escreveu uma música inspirada no livro?

- Bem, não exatamente inspirada no livro. Mas só com o mesmo título?! - Respondeu em tom de pergunta.

- Que dia? Quando? Como? - Disparei em um momento de completo acesso de fã.

- Deve ter uns quatro meses que escrevi, mas ainda estamos tentando finalizar.

- Me mostraaaaa. - Implorei dramática.

- Hm, okay... Eu vou-vou colocar para tocar.

- Ah, você não pode cantar? - Fiz uma vozinha triste e pidona.

- Ah não, . Eu acordei com a garganta arranhando hoje. - Bufei.

- Tudo bem, Harry! Tudo bem! - Cedi contrariada.

A linha ficou muda por alguns segundos; na verdade, eu conseguia escutar o barulho de Harry mexendo em algo e então... Sua voz gravada soou alta e clara: “Tastes like strawberries on a summer evening / and it sounds just like a song”...

- Ei! Eu conheço essa música. Quero dizer, você já me mostrou esse trecho antes.

- Shiu.

- Desculpa. - Dei uma risadinha e fiquei calada esperando até que a música terminasse.

- E então?

- Faz sentido...

- O que faz sentido?

- Lembra no livro quando fala sobre aquele homem, inBOIL, que largou o lugar que todos vivem e foi viver em um local proibido? Sobre como fazem aquele whiskey do açúcar da melancia e em como todos que o seguiam ficavam lá o tempo todo bêbados... E então você escreve uma música sobre ficar chapado em açúcar de melancia. - Eu tentei não rir ao concluir o pensamento.

Harry não pareceu perceber que eu havia acabado de dizer que não tinha começado o livro e mesmo assim havia acabado de citar algo da história.

- Você não se cansa de ser uma grande sabe-tudo?

- Mas... eu... você não queria saber do livro? - Harry começou a rir com minha confusão.

- Você poderia só ter dito se gostou da música, sabe?

- É claro que gostei, Harry! Mas que pergunta é essa?!

- Que bom, porque eu escrevi para você.

Eu quase engasguei quando Harry disse isso, apesar de ter achado mesmo que fosse para mim, eu não esperava que ele fosse admitir assim. Tudo bem que ele havia escrito Sunflower depois de passarmos uma noite juntos, mas era diferente; naquela época não estávamos, bem, juntos.

- Harry, eu não-eu não sei o que falar.

Agora eu já havia associado todos os sinais que Harry havia deixado nos últimos meses, como, por exemplo, quando estávamos no Japão e ele havia dito que era importante que eu lesse o livro. Era por isso.

- Você não precisa dizer nada, só de saber que você gostou eu fico feliz. Eu entendo que tudo entre a gente é muito novo e tudo para você também é diferente... E, pra ser sincero, mesmo já acostumado com esse mundo da música, eu me pego sem saber como reagir quando alguém escreve algo sobre mim também. Eu só quero ter certeza que você não está desconfortável com nada que esteja sendo dito, em nenhuma delas.

Em nenhuma delas? Quantas outras músicas Harry escreveu para mim?

- Pufff. - Fiz um barulho de desdém com a boca. - Do que você está falando? Um cantor famoso escrever uma música para mim é só mais uma terça-feira. Acontece sempre. - Meu comentário fez Harry gargalhar.

- Que outro famoso você namorou que eu não estou sabendo?

- Bem, vejamos... - Eu fingi pensar. - Shawn Mendes, por exemplo, metade das músicas dele foram escritas para mim. Sabe aquela banda, bem famosa, One Direction? Eu juro que o Irlandês tinha um caso comigo.

- E aí você acordou, não é?

- Ei! Uma garota não pode mais sentir que seu cantor preferido escreveu algo diretamente para ela de tanto que ela se identifica com a música? - Rebati, contornando a situação e deixando um Harry risonho do outro lado da linha.

- Mas eu sou o seu cantor preferido.

- E aí você acordou, não é? - Harry deu outra gargalhada.

- Ei! Golpe baixo usar minhas palavras contra mim.

- Essas palavras não são suas.

- Você entendeu, !

- Então se você é o meu cantor preferido... - Eu comecei e ouvi Harry murmurar um “hum”, descrente. - ...e uma fã sempre acha que é como se certas músicas fossem escritas diretamente para ela... então você não escreveu essas músicas para mim de verdade, mas só fez parecer que sim?

- Desisto! - Harry gritou e eu gargalhei.

A sua risada me acompanhou em seguida e demorou algum tempo até que nos recuperássemos, deixamos morrer aos poucos aquele último fio de sorriso que resta depois de uma boa gargalhada.

- Eu te amo.

- Eu não quero ser aqueles casais piegas que ficam se despedindo dizendo que também amam um ao outro..., mas eu também te amo.

- A gente ainda não ‘tá se despedindo.

- Não? - Retruquei confusa.

- Não. Ainda temos vinte minutos até Tom voltar com as crianças da escola e eu não conseguir mais te ouvir por causa da gritaria. - Brincou e eu sorri.

Okay. Eu estava sentindo tanta falta de Harry quanto imaginei que sentiria. Ou até mais.

- ‘Tô morrendo de saudades. - Confessei. - Volta logo.

- Eu também. Eu já fiquei muito tempo longe de você, prometo não demorar muito mais. Você me espera voltar para casa?

- Sempre.

Eu sabia que Harry continuava sorrindo. E eu sentia no fundo do meu coração que o tempo longe que Harry se referia não era por causa dessa viagem, e sim pelo tempo que desperdiçamos evitando o que, agora, percebemos nunca ter parecido evitável.

- Eu queria te contar uma coisa. - O tom de Harry ficou drasticamente sério e eu me antecipei para respondê-lo.

- Claro, H. Você sabe que pode me contar qualquer coisa.

- Eu realmente queria conversar pessoalmente, de preferência de carro, como a gente sempre faz... - Harry continuou, como se não tivesse ouvido o que eu havia acabado de dizer.

- Awww! Eu seeei! Se você preferir esperar até voltar não tem problema!

- Mas não dá para esperar. Será que você pode vir para a Inglaterra para eu te contar? - Pediu com um tom de voz triste, mas eu ri.

- Estou indo para o aeroporto! - Eu bati os pés pesadamente no chão para simular passos.

- Eu sei que você viria se pudesse. - Ele replicou e eu murmurei um “uh-hum”. - Não é nada demais, é só que... eu-eu... - Harry gaguejou e eu comecei a ficar preocupada.

- Harry, o que foi?

- Promete que não vai ficar brava?

- Meu Deus! Ficar brava? Por quê? O que aconteceu?

- É porque eu-eu recebi uma mensagem da... - Respirou fundo. - Sophie.

- O que ela queria com você? - Perguntei tão séria quanto ele havia ficado agora a pouco.

- Você disse que não ia ficar brava! - Harry choramingou.

- Eu não disse isso e não estou brava.

- Eu seeeei. - Ele reclamou.

- Babe, o que ela queria? Pode me contar.

- Elaqueriasabersepoderíamosnosencontrar. - Harry disparou em um forte sotaque britânico e eu comecei a rir.

- O quê? Meu amor, inglês aqui é segunda língua, você precisa falar mais devagar.

- Irônico vindo de você. - Harry rebateu e eu ri.

- Ei! Eu não falo rápido.

- Você já se viu nervosa?

- Só para registrar, estou revirando os olhos. - Isso o fez rir.

- Você faz isso porque sabe que estou certo.

- E?

- E é isso. Ela queria saber se poderíamos nos encontrar.

- H, por que eu ficaria brava com você por ela te procurar?

- Porque você acha que eu sou um bobo de a perdoar. E eu fico com vergonha por você me achar um bobo. Eu quero ser o cara que você acha legal, descolado. E não é nada legal quando a sua garota te acha um idiota.

Meu coração escapou uma batida. Eu era a garota dele. Alguém me belisca para confirmar que eu não estou sonhando? Eu não consigo acreditar que esse garoto seja meu.

- Eu que seria uma idiota se te achasse bobo por ter um coração tão bom.

Eu pensei em fazer alguma brincadeira com o que ele havia acabado de falar, mas eu não queria que ele pensasse que eu não levava a sério as suas inseguranças.

- Eu posso te ligar por vídeo? - Perguntei. - Sinto que essa conversa seria melhor se estivéssemos nos vendo.

- , você é perfeita! Eu pensei a mesma coisa!

Eu apenas soltei uma risada antes de desligar e retornar em seguida com a chamada de vídeo.

- Você é simplesmente a mulher mais linda que eu já vi na vida. - Harry comentou assim que estávamos nos vendo e eu gargalhei. - Você é um colírio para os meus olhos.

Eu estava estirada no sofá e tudo o que Harry conseguia ver pela minúscula tela era que eu usava uma camisa dele e tinha o cabelo preso em um rabo de cavalo.

- Sério isso? - Respondi fingindo tédio.

Já Harry estava impecável, como sempre. Ele vestia uma camisa branca lisa, usava um boné azul virado para trás e airpods no ouvido, os quais ele não largava mais. Parecia que nunca havia existido fones de ouvido para Harry Styles, nas nossas chamadas agora ele só usava os benditos airpods.

- Mas é claro que é sério. Ou você acha que a beleza é só algo externo? Só de poder te ver me sinto reconfortado. - Arqueou uma sobrancelha. - Além do mais, eu nunca entendi porque as pessoas associam colírio com estar vendo algo esteticamente bonito. A função de um colírio é nos fazer enxergar com maior clareza e ajudar com quaisquer incômodos na visão. Você, com certeza, sempre me faz ver as coisas de outro modo.

Eu queria não sentir como se ultimamente toda a minha existência tivesse se centralizado com objetivo de me transformar em uma manteiga derretida, mas eu ainda não havia descoberto como não ser afetada por cada comentário de Harry, por cada fração de atenção, cada palavra que parece estrategicamente organizada em cada frase com o intuito de fazer com que eu me apaixone ainda mais por ele. E ainda assim, meu coração estava tão cheio desse sentimento que eu acreditava fielmente que fosse impossível amar Harry mais do que eu já amava sem que meu peito explodisse.

- Às vezes, por um segundo, eu me esqueço que você é um compositor e, por consequência, todo poético e tudo mais.

- E, também, se fôssemos focar na questão colírio e beleza considerando esse cabelo despenteado seu... - Deixou a frase morrer com uma gargalhada.

- Idiota!

- Mas bonita camisa.

- Idiota! - Eu repeti.

- Estou brincando. Só quebrando a tensão. Eu não pensei que fosse ficar tão desconfortável falando de outras mulheres com você, considerando... - Harry deixou a frase morrer de novo.

- Considerando que sempre contamos sobre outras pessoas um para o outro. - Eu completei.

- É. Mas era diferente antes. Nós não tínhamos... - Harry hesitou, parecendo escolher bem as palavras. - Não tínhamos nada...sério.

- Ao mesmo tempo em que tudo é tão igual, parece que tudo mudou, não é? - Eu comentei. - Nós não mudamos, mas algo mudou. Eu não sei explicar, mas é realmente diferente. Eu me sinto diferente.

- Vo-você está feliz assim?

- Você quer saber se eu me arrependo que tenhamos mudado? - Harry não respondeu, mas sua cabeça balançou levemente para baixo, tão sutil que só alguém que o conhecesse como eu notaria. - Eu acho que o que tínhamos era ótimo, mas como você me disse naquele dia... não era mais suficiente, porque poderíamos fazer melhor.

Harry sorriu satisfeito com a resposta, não precisávamos dizer nada mais. Ambos concordávamos que não poderíamos mais continuar como estávamos e que deveríamos levar nossa relação para um próximo nível.

- Mas, e então? O que você respondeu à Sophie? - Eu perguntei, não conseguindo mais delongar o assunto principal.

- Respondi que não tínhamos um porquê para nos encontrarmos, que não tínhamos nada a conversar.

- Sério? - Perguntei surpresa.

- Não. - Deu um sorriso sem graça. - Eu não respondi nada ainda.

- Seria estranho mesmo, sabe? Que você dissesse que não tem nada para falar... - Deixei meu comentário em aberto e vi Harry suspirar em seguida.

- A quem eu estou querendo enganar?

- A mim que não é. - Dei uma risada. - Te conheço muito bem para isso.

- Você tem razão. Você sabe que o que eu mais quis por muito tempo foi que ela finalmente me ligasse para dizer que sentia muito.

- Então eu não entendi o porquê você não a respondeu.

- Porque eu não sei como você se sente sobre isso.

- Eu? - Rebati confusa.

- É claro. Eu não iria encontrar minha ex, de quem não sou amigo, sem te falar nada antes. - Eu comecei a rir com a resposta de Harry. - Se ela fosse minha amiga, seria bem normal encontrá-la para tomar um café ou sei lá... - Continuou reflexivo.

- Ela não é sua ex. Vocês nem tiveram nada sério.

- Claro, . Obrigado por pontuar isso. - Respondeu em tom sarcástico, o qual me fez dar outra risada.

- Emocionado. - Soltei, em português, sem perceber.

- O quê?

- Deixa para lá.

- Eu tenho uma música, eu te mostrei logo quando nos conhecemos...

- Qual delas?

- E-eu não tinha terminado... - Harry puxou um pedaço dos lábios com os dedos.

- Desculpa. - Eu respondi gargalhando.

- Uma música que não tem nome ainda e que escrevi para ela muito antes de te conhecer. - Eu murmurei apenas um “okay”, com medo de Harry me repreender por interrompê-lo de novo. - E eu queria fazer uma coisa sobre essa música, mas eu precisaria dela.

- Você está falando sério? - Controlei a vontade de revirar os olhos. Isso era realmente patético.

- Infelizmente, sim. - Harry desviou o olhar da câmera ao falar, e passou dois dedos alisando o bigode praticamente inexistente. - Olha, mas eu não preciso realmente vê-la. - Voltou atrás. - Eu realmente não tenho nada de muito importante para falar, eu estou bem assim, eu não deveria vê-la.

- Eu acho que você deveria ir.

- Você tem razão, é uma péssima... O quê?

- Você deveria ir. - Repeti. - Harry, eu acho que o que vocês tiveram, seja lá o que fosse, terminou sem a chance de realmente terminar, entende? E a gente está dizendo muito ‘realmente’, você percebeu? - Desviei o assunto, só para descontrair. Funcionou, Harry riu, então continuei. - Você não teve a chance de confrontá-la sobre tudo, não pôde dar um ponto final. Vocês simplesmente se afastaram um dia e nunca mais conversaram.

- Eu realmen... - Harry parou. - O que dá para substituir por ‘realmente’?

- Sei lá. - Eu soltei uma gargalhada. - Você que é o compositor aqui.

- Ótimo, . Hoje é o dia de relembrar Harry as coisas de forma irônica, não é? - Bufou contrariado e fingindo irritação.

- Quer parar de me chamar de , Harry?

- Desculpe, babe... - Arqueou uma sobrancelha e sussurrou um “melhor assim?”, o qual respondi com um revirar de olhos.

- ‘Realmente’ é o nosso novo ‘como assim?’. - Comentei e Harry colocou a mão que não segurava o celular, no peito, fingindo ofensa.

- Nada, nunca, superará o seu confuso ‘como assim?’. Respeite a nossa história, por favor. - Dessa vez, eu que bufei.

- Sendo bem sincera, Harry, eu não acho que você deva realmente ouvir o que ela tem para falar, porque eu aposto que vai ser um monte de arrependimentos e choramingo. Verdadeiros? Eu não sei. Mas eu acho que você precisa ouvir, para poder seguir em frente.

- Eu já segui em frente. - Rebateu contrariado.

- Mas você precisa de uma explicação que faça sentido, sabe? Mesmo que seja tudo muito óbvio, mesmo que você já tenha a perdoado, mesmo que vocês tenham se esbarrado no corredor de um supermercado. Eu acho que vocês precisam de uma conversa decente, sabe? De vocês se encontrarem com o objetivo de realmente falar sobre o que aconteceu. E você também precisa dar chance a ela para pedir desculpas diretamente a você sem que seja no calor de um reencontro não planejado.

- Ela parece mesmo arrependida.

- Não acho que isso faça diferença. Ela não pode desfazer as péssimas escolhas que fez. Mas se ela quer conversar, há duas opções como motivos, na minha opinião: A primeira é que ela está fingindo e quer algo de você. E a segunda é que ela precisa ouvir o seu perdão tanto quanto você precisa ouvi-la pedir.

Harry não respondeu, apenas assentiu, tentando assimilar o que eu falava.

- Então, eu acho que você deveria ir.

*


- Shiuuu! Quer parar de falar “eu te avisei”, caralho?

Eu estava no celular com pela 19229380 vez naquela semana. Não é que não conversássemos muito nos últimos tempos, mas agora parecia que eu tinha muito mais para contar do que antes.

- Porra! Mas eu te avisei!

gargalhou junto comigo enquanto eu olhava para os lados, vendo se alguém estava cuidando da minha vida, já que eu fazia uma chamada de vídeo com ela bem no meio do pátio da empresa.

- Eu estava só esperando quando viria o momento que seria Harry pra cá, Harry pra lá... Eu já não aguentava mais e nem tinha começado!

- Minha nossa, . Você odeia o Harry tanto assim? - Respondi com chateação.

- Claro que não, tapada. Mas você precisa admitir que fica insuportável quando está apaixonada.

A verdade é que eu estava me afogando. Sozinha. Eu já não conseguia mais esconder meus sentimentos por Harry e falar sobre isso para ouvir o que eu já estava cansada de saber só me deixava pior. Eu não queria ouvir a verdade, eu não queria falar sobre isso e, no entanto, era só nisso que eu pensava, então eu acabei me fechando, porque eu sabia que era a única pessoa que poderia facilmente arrancar de mim a verdade. Até mesmo na terapia, que voltei a fazer semanalmente depois daquela vez, eu preferia evitar o assunto Harry-e-meus-sentimentos-não-assumidos-por-ele. Agora que estávamos juntos, ficou tudo bem.

- Ele me faz feliz, Docinho. - Confessei. - Quero dizer, eu me faço feliz, mas ele me deixa mais feliz ainda. Eu... eu gosto de ficar perto dele. Ele me liga todos os dias e ele ‘tá oito horas à frente daqui, sabe? E tem o álbum... é sempre uma correria, eu sempre ‘tô no telefone com ele e tem mil pessoas falando no fundo e música tocando e gente o gritando e mesmo assim, , mesmo assim ele me liga, nem que seja só para perguntar se eu ‘tô bem e para me desejar um bom dia. E, às vezes, ele me liga e é de madrugada lá e ele quer saber todos os detalhes de como foi o meu dia, o que eu fiz, e eu-eu ‘tô tão aliviada que eu não preciso mais mentir para ele.

- Você deveria ter falado com ele antes, mas você é uma cabeça dura do caralho. - Eu dei uma gargalhada.

- Ainda bem que aqui ninguém fala português, porque pela quantidade de palavrões que você fala, eu já estaria na rua se alguém ouvisse.

- Fazer o quê? - levantou um dos braços na frente da câmera para mostrar que dava de ombros. - É o meu jeitinho.

- Queria que você estivesse aqui. - Confessei.

- Também queria estar aí. Mas tudo bem, a gente vai se ver logo, logo.

- Eu ainda não acredito que o Harry vai também. - Outra confissão, seguida de um grunhido histérico.

- Aaaaaaa. - colocou a língua para fora e fez vômito.

- Ridícula.

- Eu não tenho nada contra ele, eu juro.

- Você só gosta de implicar comigo?

- Exatamente! Mas é claro que eu queria que você ficasse com o bonitão.

- Eu vou dizer para o Henry que você disse isso. E a gente não está num filme para você torcer por quem você quer que eu fique não, viu? Isso aqui é a minha vida. - Revirei os olhos.

- Quer saber? Foda-se. Saíram umas fotos do Harry outro dia no twitter e ele ‘tava bem gostoso. Pronto, falei.

- Por Deus, ! - Gritei. - Eu vivi para que você admitisse isso!

- Ele estava com uma boina jeans e uma calça flare mostarda. Assoviando na rua enquanto andava. Eu aposto que ele tinha falado com você no telefone.

- A boina foi um presente meu. - Assumi com uma risadinha que saiu pelo nariz.

- Mentira!

- Aham. - Balancei a cabeça enquanto minha boca flexionava num bico que tinha intenção de mostrar prepotência. - Verdade.

- Então o filho da puta ‘tá tão apaixonado quanto você.

- Você ainda tem dúvidas? Depois de tudo o que eu te contei? A boina nem entra como prova disso, porque ele já usava há muito tempo.

- Porque ele já ‘tava apaixonado há muito tempo. - revirou os olhos.

- Talvez. - Respondi pendendo a cabeça para um lado, em uma confissão velada.

- Cachorra! Você sabe que sim! - Acusou e eu gargalhei.

- Talvez. - Repeti.

Gargalhamos tão alto que acabei chamando a atenção do porteiro que estava relativamente longe. Parecíamos duas adolescentes conversando sobre o cara da escola que achávamos bonitinho. E, de certa forma, eu me sentia assim, como se nunca tivesse me apaixonado antes, como se tudo aquilo que eu estava sentindo por Harry fosse novo. Um fresco recomeço.

Dali, do meio do pátio, vi Henry caminhando do prédio do escritório, vindo na minha direção.

- Falando no bonitão... - Comentei furtivamente com levantando as sobrancelhas duas vezes rápidas antes de virar discretamente a câmera e enquadrar Henry.

Ele estava, não especialmente, maravilhoso hoje. Vestia calça e camisa pretas. Sapato perfeitamente lustrado da mesma cor. Henry não era como eu, ele tentava seguir o código de vestimenta, então mesmo que flexibilizasse um pouco, estava sempre de social. Porém, a falta do paletó e da gravata nele e a presença de calça jeans e uma bota em mim indicavam que o Sr. Stein não estava na empresa.

- Ei, Campbell. - Eu cumprimentei quando ele chegou a uma distância curta.

- Olá, Srta. . - Respondeu formal, com um olhar desconfiado para o meu celular.

- Relaxa, não é ninguém do trabalho. - Virei a tela, que eu já havia voltado a câmera para mim, para Henry.

- Ah! Oi, . - Ele deu um tchauzinho simpático para a tela.

- Assim eu vou passar mal. - continuou falando em português. - Pergunta se ele pode me chamar pelo sobrenome com essa voz também. - Se abanou exageradamente, enquanto Henry fazia uma careta de desentendimento.

- Ela perguntou se você poderia...

- NÃO SE ATREVA. - gritou para me interromper. - Oi, Henry. Tudo bem? - Respondeu em Inglês para ele.

- Estou ótimo e você? - Ele respondeu.

- Eu estou ótima também. Muito bem.

- Achei que você estivesse prestes a passar mal. - Fingi comentar casualmente.

- Quer calar a boca?

- Campbell, você precisa de algo? - Perguntei ignorando .

- Não, tudo bem. Eu passei na sua sala para conversarmos, Lucy disse que você estava aqui fora, mas não é nada urgente.

- Ok, galera. Essa é a minha deixa para desligar. - se intrometeu. - A gente se fala depois, Florzinha. - Completou em português. - Dá um beijo no bonitão por mim. - E desligou.

- Filha da pu... - Desisti de xingá-la, já que, para meu contragosto, ela não veria.

- Desculpe, eu não queria atrapalhar. - Henry falou culpado.

- Não, tudo bem. Não se preocupe. - Tranquilizei-o. - Ela não se importa porque é você. - Completei rindo.

- Como assim?

- Ela tem um crush em você. Ela te chama de “bonitão”, que não tem bem uma palavra em Inglês que faz jus, mas é como se fosse o aumentativo de bonito, mas não é “o mais bonito”, é mais um conjunto de “muito bonito e atraente”. - Tentei explicar, mas soei mais confusa do que certa.

- Okay?! - Henry também soou confuso. - Eu acho que entendi. Pois diga que ela também é bonitaun.

Eu gargalhei bem alto.

- O quê? - Harry respondeu à minha gargalhada com outro olhar confuso.

- É porque é uma palavra masculina. O feminino é bonitona.

- Aí, não, diga em Inglês mesmo, Português é muito confuso. - Henry fez uma careta.

- Ah, qual é. Você já sabe um monte de palavras em Português.

- Eu gosto de... Vai tomá nu cu.

Eu ri mais ainda. Se os dois homens mais próximos de mim naquele país sabiam as piores palavras em português, o que aquilo dizia sobre mim?

- Viu? Quatro palavras. - Reforcei.

Caminhamos de volta para a minha sala com Henry citando todas as palavras em português que ele sabia, que não eram muitas.

- Então, você sabe que eu vou sair de férias, não é? - Henry questionou quando abriu a porta e deu passagem para que eu entrasse.

- Uh-hum. - Murmurei. - Eu nem ‘tô sentindo inveja, daqui a pouco é a minha vez, mesmo. - Fiz um bico grande demais.

- Fofa! - Henry apertou a minha bochecha depois de fazer um “awwn” bem alto, o qual atraiu a atenção de Lucy, que até então estava concentrada.

- Por que será que parece que só eu trabalho nesse lugar? - Ela reclamou.

- Porque você é a estagiária. - Henry retrucou implicante.

- ! - Lucy me repreendeu quando dei uma risadinha.

- Senta aí, Campbell. - Eu ofereci a cadeira à frente da minha mesa. - O que você queria me falar?

- Então... férias. - Retomou. - O que você vai fazer nesse final de semana?

- Hum, eu não sei. Harry ainda estará em Londres e a Lucy tem prova na semana que vem e já decretou que vai ficar o fim de semana todo estudando. Por quê? Tem algum plano? - Sugeri com um tom de malícia.

- Bem, na verdade, sim! - Devolveu o mesmo tom.

- Muita tensão aqui, vou beber água e vou demorar 30 minutos. - Lucy deixou o aviso que mais soou como uma advertência antes de sair da sala.

Eu encarei Henry com as sobrancelhas erguidas e ele retribuiu o olhar com um sorriso.

- Eu estava brincando, pelo amor de Deus. - Eu disse isso contornando a mesa e me escorando na beirada, bem de frente para ele.

- Vamos viajar...

- Henry! - O interrompi.

- Você começou...

- Você sabe que eu estou com o Harry e você tem Kate de volta agora. É claro que é brincadeira.

- Quando eu digo ‘vamos viajar’, eu quis dizer Kate, eu e as crianças. - Respondeu inocente, sabendo que a resposta me deixaria totalmente sem graça e desarmada.

- Você é inacreditável. - Balancei a cabeça em negativa.

- Eu preciso de um favor, .

- Manda ver, bonitão. - Ele revirou os olhos ao ouvir o novo apelido.

- Você pode ficar com o Kal por alguns dias?

- Virei babá de cachorro agora?

- Só pelo final de semana.

- Quanto você vai me pagar?

- , por favor... Ele fica nervoso perto de outros cachorros, não posso deixá-lo em um hotel.

- Ok...

- Jura?

- Se você deixar seu carro comigo. A BMW. - A cara de Henry foi completamente impagável e eu queria muito ter filmado.

- Você não está falando sério. - Eu arqueei uma sobrancelha como quem diz “estou falando sério”, enquanto ele colocava as duas mãos na cintura e olhava bufando para os lados.

- Tudo bem. - Concordou se dando por vencido.

- Aeee! - Comemorei pulando em seus braços e lhe dando um abraço de urso e um beijo na bochecha. - Eu te disse que eu ainda ia dirigir o seu carro.

- Eu ainda posso mudar de ideia. - Encarei-o por alguns segundos, analisando sua feição.

- Nah. Não vai, não. - Franzi o nariz, despreocupada e confiante. - Mas vem cá. - Segurei seu braço delicadamente com a mão, enquanto me esticava para mais perto de seu ouvido. - Você e Kate estão bem sérios agora, hein? Viajando juntos, reunião de família. - Falei em um tom levemente debochado.

- Olha quem fala, a pessoa que namora Harry Styles.

- Você nem sabia quem era Harry Styles antes de me conhecer! - Henry fez uma careta de concordância. - E a gente não ‘tá namorando. - Completei.

- Ah, qual é! O cara veio completamente pirado e possessivo para cima de mim para depois você dizer que não namoram? Ele ficaria decepcionado. - Eu soltei uma gargalhada.

Henry, obviamente, havia me contado tudo o que tinha acontecido enquanto eu não estava por perto na casa de Jane, inclusive do surto de ciúmes de Harry. Tudo o que Henry me contou me ajudou a colocar alguns quebra-cabeças no lugar, trazendo sentido para justificar todas aquelas atitudes posteriores de Harry.

- Ele concordaria comigo.

- Tem certeza?

- Claro. A gente só ‘tá junto. Sem pressão. Sem rótulos.

- E você está completamente apaixonada por ele. - Henry constatou e eu concordei com um riso frouxo.

- Você se lembra das primeiras vezes em que se apaixonou? Em que sentiu aquela paixão avassaladora que queimava sua alma sempre que você ouvia o nome da pessoa? Quando penso em Harry, é como se eu voltasse a ser adolescente, tudo com ele é tão intenso como se eu nunca tivesse me apaixonado antes e, ao mesmo tempo, é algo tão leve, tão simples e tão maduro, que me deixa com essa sensação de sempre saber exatamente o que fazer e como agir e o que esperar, como se convivêssemos há tantos anos que estamos completamente confortáveis um com o outro e temos capacidade de premeditar todos os pensamentos e ações um do outro, num nível complete-todas-as-minhas-falas, sabe? Eu me sinto... arrebatada por uma sensação de conforto e paz sempre que o imagino sentado com os pés no sofá da minha sala. Você se sente assim sobre Kate?

- Bem, o sofá da sua sala é algo bem específico e, num geral, eu jamais chegaria a uma definição com essas palavras, mas agora que você as disse, parece que foram ditas para mim.

- Bem, eu as disse para você. - Segurei uma risadinha.

- Há-há. Hilária. Parece que foram feitas sobre mim e Kate. Melhor assim?

- Totalmente. - Dei de ombros.

- Vocês formam um casal bonito.

- Você realmente acha isso, Campbell? - Eu perguntei e ele concordou com a cabeça.

- Claro que você ficaria muito melhor comigo, se não fosse por Kate e tal.

- Então quer dizer que eu sou sua segunda opção?

- Está louca? Claro que não.

- Henry! - Cruzei os braços ofendida.

- Você seria a terceira. - Eu abri a boca para retrucar e... - A primeira é a minha filha - acabei sorrindo ao escutar isso.

- Isso é completamente adorável. Por falar nisso, como está a Maddie? E Tyler?

- Eles estão ótimos! Maddie estará na minha casa hoje, por que você não passa lá para vê-la? - Eu fiz uma careta, como de quem acha que não é uma boa ideia. - Kate adora você e você sabe disso.

- Mas ela não vai estar lá. E esse é o problema.

- Eu aviso que você foi ver a Madison.

- Você tem certeza que não tem problema?

- Você vai contar pra ela que transava comigo no sofá da minha casa?

- E na bancada da cozinha, em todos os quartos, - comecei a contar nos dedos - no parapeito da janela, na piscina, nos banheiros...

- !

- É óbvio que eu não vou contar, ficou louco?

- Então, qual seria o problema? Para todos os efeitos sempre fomos amigos e nada além disso. E como nós dois concordamos que não deveríamos mais fazer isso...

- Transar em todos os cômodos? - Eu completei rindo.

- E eu que sou inacreditável? - Henry suspirou audível. - Você está fazendo isso ser mais difícil do que eu gostaria.

- Isso o quê? - Perguntei confusa.

- Gostar de você. - Eu explodi em uma gargalhada.

- Você me ama, Viking! - Henry deu de ombros, sem discordar ou concordar. - Eu só tenho medo de atrapalhar vocês.

- , se Kate e eu estamos juntos hoje é por sua causa! E ela sabe muito bem disso. Eu contei tudo, ela sabe que você quem me incentivou a ir atrás dela, ela sabe que foi você quem deu todas as dicas do que fazer/quando fazer/o que falar/como me reaproximar dela. Você me ajudou a ver que tínhamos uma chance ainda e eu nunca deixei de dizer à Kate o quanto sou grato por ter você como amiga. Você é uma pessoa incrível, eu duvido que você poderia atrapalhar algo porque gosta demais da minha filha e quer vê-la!

- Você sabe que mentiras não são boa coisa. E se ela ficar sabendo por alguém? Vai passar a me odiar. - Eu tentava rebatar Henry, mas no fundo eu concordava que não dizer era a melhor opção.

- Ela vai te odiar se ficar sabendo por você também. - Ele deu de ombros.

- Eu não confiaria na amizade entre meu marido e uma pessoa que ele tenha se envolvido numa situação como a nossa. - Dei de ombros também.

- Por que não? Estamos acabados, sem chance de retorno.

- Sim. Eu e você sabemos disso, mas não tem como ela saber que realmente é assim que nos sentimos.

- E contar pode parecer que levamos tudo mais a sério do que foi.

- Você tem razão. Se falarmos, é dar mais importância para isso do que nossa amizade. E eu acho que tudo isso foi um passo para que pudéssemos construir essa relação sem inibições.

- Viu? E não é como se estivéssemos mentindo, só não estamos colocando holofotes no que não é necessário. - Eu balançava a cabeça em concordância enquanto Henry falava. - Madison adora você, Kate adora você, eu adoro você e estamos todos bem.

Era uma situação um pouco chata, eu considerava muito Kate para esconder esse segredo e mentir nas suas costas e, ao mesmo tempo, como mulher, eu entendia que isso causaria um grande desconforto para ela, eu não via motivos para trazer ao conhecimento de Kate algo que agora era totalmente irrelevante. Não é como se a informação fosse mudar em algo, afinal...

Henry e eu nunca fomos e nem seríamos nada.

*


O primeiro domingo de abril havia acordado um pouco nublado, enquanto a previsão do tempo indicava que aquele poderia ser o único dia a chover naquele mês. Ótimo, eu pensei. O único dia propenso a chover tinha que ser logo em um domingo!

Tão logo percebi que aquele dia cinza havia sido especialmente enviado para mim quando, ao abrir minhas redes sociais, me deparei com uma foto de Harry sentado à mesa de algum lugar com... Sophie.

A foto, que aparecia repetidas vezes em lugares diferentes, informava na legenda que havia sido tirada há alguns dias antes, conciliando perfeitamente com o que Harry havia me dito.

Mas só porque eu já sabia, não significa que não me incomodava.

Tudo bem! Eu sei que foi eu quem disse para que ele fosse nessa merda, mas e daí? Eu não tinha como prever que eu não ia gostar de ver as fotos.

É aquilo que dizem... O que os olhos não veem, a internet te conta!

E como conta!

Depois de pesquisar bastante para ver tudo o que se era possível saber sobre o encontro mais falado do fandom, eu descobri que só foram tiradas duas fotos por fãs que as postaram somente na noite anterior. Essas duas fotos, no entanto, eram o bastante para poluir todos os lugares que eu olhasse. Não havia como clicar em nada que não aparecesse Harry Styles e Sophie Lockwood em um almoço ‘romântico’.

“Amigo da ex?”, uma das manchetes dizia.

“Harry e Sophie almoçando em Londres quarta-feira, 03 de abril”, os portais de Harry informavam.

Cliquei na foto em um dos portais e comecei a ler os comentários.

“Não tenho dúvidas de que é ele. Olha os anéis.”

“Eles estão juntos de novo?”

“Mas ela não está namorando?”

“Harry cortou o cabelo para encontrar a Sophie.”

“Harry...”


Espera, o quê? Ele cortou o cabelo?

Fechei os comentários e voltei a olhar para a foto. Horrorizada, constatei que ele havia mesmo cortado o cabelo, em um corte similar ‘Era Dunkirk’, porém um pouco mais longo. Mas que porra era aquela? Como assim ele havia cortado o cabelo e nem me falou nada?

Assim que esse pensamento me ocorreu, uma única palavra invadiu a minha mente: SENSO, . Senso! Harry Styles não precisa te pedir permissão para cortar o cabelo.

Emburrada, frustrada e sozinha, tentei acalmar meus próprios ânimos, entendendo que eu não estava chateada porque ele havia cortado o cabelo, tampouco achava que o corte havia sido por causa de Sophie, será que não foi mesmo?, eu deveria entender que o que havia me deixado incomodada foi ver provas de que Harry realmente havia se encontrado com ela.

Sabe aquele negócio de que a coisa só toma forma quando se torna real? Foi assim para mim ao ver uma foto de Harry com Sophie naquela manhã. Eu tinha consciência de que eles iriam se encontrar na quarta-feira passada, eu sabia que eu era a principal responsável por aquele encontro e eu sabia dos riscos de Harry ser fotografado junto com ela. Sabia! Preciso repetir mais uma vez para mim mesma: Eu sabia! Mas foi como uma espécie de epifania ver que aquilo tinha mesmo acontecido. Até então, o encontro parecia algo muito abstrato. Caralho, eu sabia disso, mas caralho, realmente tinha acontecido! E ter uma prova disso era bizarro! O encontro tem uma forma, uma matéria, um corpo. Uma foto! Uma não, duas.

Eu não queria fazer disso uma grande coisa, queria continuar agindo normalmente. No melhor cenário eu ligaria para Harry como se eu não tivesse visto as fotos, ou como se elas não tivessem me afetado. Ao mesmo tempo, alguma coisa dentro de mim relutava em aceitar fazer as coisas assim, tão simples. Então eu não queria ligar, queria dar um chá de sumiço, fingir que esqueci quem era Harry Styles, ignorar suas futuras ligações e mensagens, fazê-lo pagar de alguma forma por algo que não era um crime e nem havia um culpado.

Eu já disse que odeio estar apaixonada?

Ainda relutante, mudei a tela do celular para os contatos, tentando convencer a mim mesma que eu não faria uma ligação para Harry sendo irônica, sarcástica ou evasiva, tentando me convencer de que eu seria a eu de sempre, sem dor de cotovelo desnecessária.

A chamada tocou apenas duas vezes antes de ser recusada.

Minha boca se abriu em choque antes que eu ouvisse minha própria voz:

- Filho da puta, desligou na minha cara.

Eu tentei calcular rapidamente que horas deveriam ser em Bath, antes de me tocar que eu nem sabia se Harry tinha voltado para o estúdio depois de ver Sophie em Londres. O pensamento de Harry dirigindo por três horas para a encontrar também me incomodou.

Eu não fazia o tipo que se rastejava. Quando Harry não me atendia, eu nunca, veja bem, eu NUNCA ligava de novo, porque poderia ser que ele estivesse no estúdio, ocupado, dormindo, ou qualquer outra merda. Eu sempre esperava sua chamada de retorno, quando fosse que ele pudesse. Então senti muita raiva de mim mesma quando voltei a apertar o botão verde para uma nova tentativa de chamada.

Meu coração se acelerou de uma vez quando ouvi o seu ‘oi’ e voltou a desacelerar quando percebi que era a gravação do correio de voz. “Oi, é o Harry, eu não posso atender agora...” MAS ISSO É MUITA HUMILHAÇÃO, BRASIL! Ele desligou sem nem chamar direito. Mas que porr????

Chequei as mensagens mais uma vez, porque quando Harry não me atendia por estar ocupado, a chamada perdida sempre vinha seguida de uma mensagem informando isso.

Mas como a trouxa aqui já imaginava, isso mesmo, nada. Nem um oi, nem uma palavrinha dizendo “ocupado”, nem uma daquelas mensagens prontas do tipo “te ligo depois”, “estou em reunião”. Nada. Zero. Fumaça.

Ok, . Respira. Lembra que isso não é nada demais e você só está surtada porque viu a porra do seu namo... caralho, ele não é nem a porra do meu namorado!

Esfreguei os olhos com os dedos pensando no quanto eu era patética e isso só indicava uma coisa: Terapia. Era domingo? Era. Eu não poderia ter uma sessão agora, mas eu poderia mandar uma mensagem. Pelo menos a minha terapeuta me responderia.



Provavelmente dez minutos haviam se passado quando eu recebi uma chamada de vídeo de Harry. A minha vontade era deixar o meu lado implicante tomar conta e recusar as primeiras chamadas, mas tive medo de que ele desistisse. Ou então de atender, no mínimo, grosseira. Mas eu não pagava terapia para fazer tudo ao contrário do que eu era orientada. Eu já tinha 25 anos, era adulta, que tal atender e ouvir o porquê ele não pôde me atender?!

Tudo o que eu havia ensaiado dizer, na breve troca de mensagens pelo whatsapp com a minha psicóloga, simplesmente desapareceu quando eu vi não uma, mas quatro pessoas do outro lado da tela.

- Oi, babe! - Harry me cumprimentou sorridente e meus lábios haviam parado a meio caminho de formar um sorriso. - Vo-você está travada. Uhm, será que é a minha conexão? - Perguntou encarando as pessoas ao seu lado e se levantando para alcançar o celular. - , você está me ouvindo?

- Puta que pariu, o que ‘tá acontecendo? - Eu gritei em português quando consegui fechar a boca e sair do meu estado de torpor.

Eu ouvi todas as risadas misturadas e alguns “o quê?”.

- Eu acho que ela vai desmaiar, Harry. - Apesar de enxergar muito bem, minha vista parecia fora de foco, mas o sotaque irlandês e a risada que o seguiu eram inconfundíveis.

- Não, Niall. Eu não vou desmaiar. Mas obrigada pela preocupação. - Revirei os olhos, desconcertada.

- Dispensamos as apresentações, então? - Louis se intrometeu, batendo as próprias mãos uma única vez.

- Você já não é necessário apresentar de qualquer jeito, boobear. - Me aproximei da tela e lancei uma piscadela para Louis enquanto ouvia o coro de vaias e risadinhas pelo apelido.

- Odeio que me chamem assim. - Louis retrucou emburrado.

- Eu sei. - Pisquei de novo.

- Odeio que você seja uma sabe-tudo sobre nós. - Ignorei a reclamação que era, no mínimo, verdadeira.

- Guys, espera. O que está acontecendo? O que vocês estão fazendo juntos? Meu Deus. Eu não... - Eu tentava, em vão, não balbuciar. - Meu Deus, Liam, oi, lindo, com você está? Está lindo, não é? Eu não acredito!

- Eiii, por que está puxando saco do Liam? - Harry perguntou ofendido.

- Porque o Liam é o único civilizado.

- Eu sou civilizado. - Louis rebateu e eu ergui uma sobrancelha.

- Eu também. - Niall completou.

- Tudo bem. Respira. Tá tudo certo. Ok. - Falei mais para mim mesma. - Vamos começar de novo. - Disse para eles, que apenas riram e concordaram com a cabeça. - Oi, Niall, Liam. Eu sou a , é um prazer. Oi, Louis. Tudo bem? Como está o Freddie? Meu Deus! - Perdi o foco e o autocontrole recém reconquistados. - Liam, e o Bear? Não, isso é demais para mim. O que está acontecendo? Como? Como?!

- Por que eu não ganhei oi? - Harry choramingou.

- Porque você recusou a minha chamada.

- Uuuuuuuh. - O coro foi instantâneo.

- Babe, eu...

- Lá vem a desculpa... - Louis interrompeu.

- Louis! - Harry repreendeu.

- Ele não atendeu porque estava conosco. - Liam respondeu.

- Eu não poderia te atender antes de adestrar esses animais. Estava um caos aqui, não queria te deixar traumatizada. - Harry completou.

- Tudo bem, tudo bem. - Falei indiferente, como se aquilo não importasse mais. - A questão é: Onde vocês estão e o que vocês estão fazendo juntos?

Harry se levantou mais uma vez para pegar o celular, no qual trocou a câmera para a traseira e eu reconheci imediatamente o tapete rosa que cobria a escadaria ao fundo.

- Estamos na minha casa, em Londres. - Harry falou ao posicionar o celular e câmera onde e como estavam inicialmente.

- Okay... - Balancei a cabeça em concordância. - Isso eu vi. Mas... como?

- Eu moro no fim da rua. - Niall disse.

- Eu liguei para os meninos e perguntei se poderiam vir aqui hoje.

- Por quê? - Eu perguntei debilmente.

- Como assim, “por quê?” - Harry rebateu. - Porque nós...

- E que comece a saga do “como assim”. - Eu o interrompi com uma risada que deixou os outros sem entender.

- ...somos amigos. - Harry soltou uma risada nasalada ao terminar a frase, incapaz de se manter inatingível.

- Arrumem um quarto, por favor. - Louis gritou.

- O quê? Não estamos fazendo nada. - Harry nos defendeu.

- Isso, com certeza, foi alguma conversa interna que só vocês dois entendem. - Louis explicou, enquanto Niall e Liam concordavam.

- Desculpem. - Eu pedi um pouco constrangida.

Eu não estava acreditandoooo! Eu queria gritar!

- Liam, qual é, você é quem eu mais confio dos quatro, me conta: O que vocês foram fazer aí?

- Eu queria mostrar algumas das músicas para eles, ‘tá bom? - Harry se antecipou e respondeu por Liam.

- Awwwwwwn! Isso é tão fofo, H! Vocês estão tendo uma listening party?

- Quase isso. - Niall concordou.

- Meu Deus! Eu não quero atrapalhar, continuem aí. Está tudo bem, Harry, o que eu queria falar não era nada importante e com certeza pode esperar.

- O que você queria falar? - Harry rebateu curioso.

- Hum... Eu que-queria saber sobre a coisa que começa com S. - Eu não sabia se eu podia falar na frente de todo mundo.

- S de Sophie? - Louis pescou o significado e perguntou com um revirar de olhos.

- Estamos sabendo tudo sobre o encontro em primeira mão e depois repassamos para você. - Niall completou piscando para mim.

- Não foi um encontro! - Harry protestou.

- Aí, Niall, não pisca assim que eu passo mal. - Eu pedi em tom de súplica, ignorando totalmente o que Harry havia falado e fazendo com que os outros três caíssem na gargalhada.

- Achei que o Louis fosse o seu favorito. - Harry resmungou baixo.

- O quê? Quem te disse isso? Eu gosto de todos igualmente. - Eu desmenti em uma atuação exagerada que provavelmente entregava que eu estava, na verdade, ‘mentindo’. Era impossível que eu gostasse de todos de forma igualitária, considerando que eu era apaixonada por Harry e que tínhamos um outro tipo de vínculo.

- Você gosta mais de mim, mas dos três de forma igual.

- Hum, na verdade, eu gosto dos três e menos de você. - Niall riu tanto que ficou vermelho.

- Foi uma péssima ideia chamá-los para essa chamada. - Harry resmungou mais uma vez.

- Eu achei uma ótima ideia. Estou tendo um ótimo momento. - Respondi inocente. - Mas não vamos falar de mim agora. - Mudei o foco. - O que estão achando das músicas que estão escutando, meninos?

- As músicas estão incríveis. - Liam começou. - Estávamos falando, agora a pouco, acho que Harold realmente se encontrou nesse álbum.

- É... - Louis ia concordando, mas acabei o interrompendo.

- Álbum? - Minha voz saiu um pouco mais aguda e mais alta do que calculei. - Você disse que eram umas músicas. - Encarei Harry, completamente perdida.

- Eu ainda não decidi quais músicas vão entrar no álbum, mas terminamos no estúdio na terça-feira. Ainda temos alguns ajustes, mas faremos nas próximas semanas.

- Por que eu não estava sabendo disso?

- Você sabe que eu não gosto de estragar as coisas para você.

- E você sabe que eu penso que: Qual a graça de te conhecer, se não saber de tudo antes do mundo?

Louis torceu a boca e tombou a cabeça um pouco para o lado, como quem diz “faz sentido”.

- Não é, Louis? - Perguntei retoricamente. - Louis acha que estou certa. - Completei falando para Harry.

- Enfim. - Harry encerrou o assunto. - Eu ia te falar na próxima vez que conversássemos, de qualquer forma, porque estou pensando em dar uma festa no estúdio em Malibu antes da nossa viagem.

Será que Harry a convidou para a festa do álbum que escreveu para ela? Mais um álbum... Se até os membros da antiga banda dele sabiam sobre a mulher, é porque, com certeza, havia mais músicas sobre ela do que eu estava contando. O que não pinta um cenário muito favorável sobre ela na minha cabeça...

- ?

E eu não quero me arrepender de ter convencido Harry a encontrá-la, mas agora... Com esse álbum finalizado e aquelas fotos dos dois juntos enquadrando o perfil sorridente de Sophie, ele mostrando algo para ela no celular dele...

O que eu estava pensando quando falei que ele deveria ir vê-la? E se, com isso, algum antigo sentimento de Harry tenha se acendido por ela?

- !

- Ahn? O quê?

- , está tudo bem? - Harry perguntou com a testa franzida, seu tom de voz saiu suave ao dizer meu apelido.

- S-sim, tudo bem, por quê? - A nota de hesitação que indicava que eu estava mentindo jamais passaria despercebida por Harry.

- Eu chamei o seu nome mais de quatro vezes, foi a internet? Não parecia que tínhamos perdido a conexão. - Harry tentou fingir que não havia percebido minha resposta não verdadeira, talvez para não me constranger na frente dos outros. - Você me ouviu? - Ou talvez ele simplesmente não quisesse começar uma discussão na frente deles e se constranger.

- Fala de novo, por favor.

Porque Niall chamou o encontro de encontro? Será que ele não gosta de mim? Será que ele preferia ver Harry com Sophie?

- Eu estava falando que se os garotos estiverem em LA na época da festa, vocês podem se conhecer...

- C-claro! - Sorri. - Parece uma ótima ideia! Eu vou adorar.

Cada uma das cabeças do outro lado da tela acenaram em concordância a minha resposta. E então, de repente, caímos em um silêncio quase intolerável, Harry e eu simplesmente não sabíamos como ignorar aquela pontinha do iceberg que surgiu ao longe, mas incômoda o bastante para nos distrair de continuar uma conversa normal. Parecendo sentir o clima pesado que havia se instalado no ar, Niall, Liam e até mesmo Louis também perderam as palavras.

- Está tudo bem mesmo? - Harry perguntou novamente.

- É, você está com uma expressão diferente. - Liam completou.

- É apenas o choque de conversar com vocês. - Dei de ombros, fingindo indiferença.

As palavras recém ouvidas da minha psicóloga ainda planavam à minha volta. Eu não vou assumir nada, preciso ouvir a versão de Harry primeiro, saber o que realmente aconteceu naquele encontro.

- Bem, eu vou desligar agora e deixar vocês terem sua festa para ouvir o álbum. - Minha voz saiu com um tom quase indetectável de sarcasmo, mas que eu sabia que Harry tinha bem interpretado. - Foi um imenso prazer conhecer vocês, mesmo que por chamada de vídeo. Se divirtam juntos!

Eu desliguei a chamada tão logo ouvi a primeira palavra de despedida que, sinceramente, não sei de quem veio.

Caralho! Eu acabei de conhecer a One Direction por chamada de vídeo!

Eu coloquei uma mão em cada lado da cabeça, como se eu não pudesse acreditar que as imagens que eram projetadas na minha mente naquele momento eram memórias. E recentes.

Por que mesmo tendo passado por esse momento que eu só ousaria desejar nos meus sonhos mais profundos, ainda sinto esse buraco no fundo do meu âmago que grita que hoje não estava sendo um dos meus dias e que eu deveria dormir até ele acabar? Que eu deveria me afogar em comédias românticas, sorvete e lágrimas?

Harry Styles, você acha divertido viver constantemente nessa montanha russa? Ou eu estou girando até passar mal lá no alto sozinha?

Continua...



Nota da autora: OI, PODEROSAS!! Como estamos?
VOCES JA LERAM O SPIN OFF DE MDD? NAO? ENTAO VAO NO LINK ALI EM BAIXO, LEIA 'DE VOLTA A DEZEMBRO', ESPECIAL DE NATAL :)
Essa é a ultima att do ano, entao queria desejar voces um feliz natal atrasado (quem ja leu DVAD nao recebeu feliz natal atrasado, hein) e um OTIMO ANO NOVOOOOOOO (desculpa a falta de acentos, teclado americano é um saco)

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É isso! Até a próxima e beijinhos da Cam Vessato ♥

Outras Fanfics:

De Volta a Dezembro (Mistérios do Destino Spin-Off) - Restritas, Harry Styles, Shortfic
The Spaniards' Girl - Restritas, Cantores, Harry Styles, Shortfic
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Just Another Hotel Room - Bandas, One Direction, Shortfic

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