Última atualização: 23 de agosto de 2025

Prólogo



— VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO — escutava Collin gritar, pela que parecia ser a milésima vez.
Benson ria, alegando que ninguém poderia obrigá-lo a ficar, uma vez que não existia nenhum contrato. Me perguntei várias vezes porque nunca pensamos em fazer isso, já que assim, meu treinador e eu não estariamos metidos nessa enrascada, então me lembrei que ele costumava ser gentil. Me perguntava agora se o jeito antes não era apenas fingimento.
Meu par estava me abandonando faltando apenas duas semanas para o início da competição mundial. Tudo porque eu não correspondi aos seus sentimentos na noite de ontem, Benson se declarou para mim, e quando eu disse que o vi apenas com um amigo, ele saiu furioso. Achei que ia passar, mas vi tudo ruir quando ele apareceu mais cedo no rinque dizendo que estava lá apenas para limpar seu armário.
Admirei o esforço de Collin em continuar tentando, já que eu havia até implorado a Benson para ficar, tendo recebido apenas grosserias e caras de desprezo. Sabia que não seria a única prejúdicada, enquanto eu perdia anos me preparando para esse momento, Collin perdia seu tempo e seus ensinamentos, sem a chance de levar uma outra dupla a competição.
Eu tinha sentado no cantinho do rinque desde que Benson gritou comigo, me acusando de ser uma mimada que só pensava nos próprios sentimentos, parece que ele achava mesmo que eu tinha a obrigação de aceitar um relacionamento só porque éramos parceiros. O Grand Prix de Patinação Artística acontecia uma vez por ano, e eu levei anos até estar pronta para a competição, não haveria como substituí-lo a tempo, ninguém estaria tão preparado assim sem um para a competição. Se ele queria destruir os meus sonhos por corresponder aos seus sentimentos, ele estava conseguindo. Desisti de segurar o choro.
Não sei por quanto tempo fiquei ali encolhida, mas levantei a cabeça quando escutei um estrondo na porta de entrada, tendo apenas tempo de ver Benson saindo. Collin balançava a cabeça negativamente na minha direção, sabia que não tinha mais jeito.
Enxuguei as lágrimas nas mangas escuras do macacão enquanto me levantava, não havia nada mais para se fazer ali.
Me arrastei até onde o treinador estava, riscando o gelo com meus patins.
— Eu sinto muito, treinador — falei em voz baixa, me sentia mal por ter feito ele desperdiçar seu tempo durante os últimos três anos. — Eu não sabia que ele ia fazer isso.
— Não é sua culpa, — ele balançou a cabeça. Apesar do tom de voz calmo, era nítido que tinha ficado chateado. — Além do mais, isso foi praticamente um assédio, deixar você dessa maneira porquê você não aceitou ficar com ele?
Concordei. A verdade é que nenhum de nós esperava essa atitude de Benson.
— Eu vou pra casa, preciso ficar sozinha um tempo até assimilar que não vou mais competir agora.
— Descansa pelo tempo que precisar, sabe que o rinque vai estar sempre aberto para você, sinto muito, de verdade.
Dei uma batidinha no ombro dele, agradecendo.
— Sinto muito pelo seu trabalho também, treinador — ele apenas assentiu, pensativo.
Sai dali logo depois, desesperada para chegar em casa e chorar no meu quarto. Me senti ainda pior quando lembrei que teria que contar aos meus pais que eles também haviam desperdiçado seu dinheiro. Começava a ficar com raiva de Benson. Na pressa para guardar tudo dentro do armário, acabei cortando o meu braço com a lâmina do patins, senti vontade de jogar eles longe, acho que no fundo só não fiz porque lembrei de todo o esforço que meus pais fizeram para pagá-lo.


Quando eu cheguei em casa meus pais ainda não estavam, o que era um alívio — já que assim eu teria tempo para me acalmar antes de conversar com eles. Deixei os patins na garagem e corri para o meu quarto, não sei se passei mais tempo cuidando do corte em meu braço ou chorando embaixo do chuveiro. Quando eu saí, me enfiei debaixo das cobertas buscando algum tipo de conforto que não existia, e sem perceber acabei caindo no sono enquanto soluçava chorando.
Acordei algumas horas depois, acordei escutando o leve ruído que meus pais faziam no andar de baixo. Achei que sentar com eles e conversar sobre o ocorrido seria muito mais doloroso, mas o apoio que eles me deram me fez encontrar parte do conforto que precisava. Mesmo não tendo culpa, me sentia culpada por eles terem desperdiçado seu dinheiro com meu sonho, ainda mais que eu não sabia quando encontraria um par novamente, não sabia nem se poderia competir no próximo ano. Me perguntei se não teria sido melhor ir para a faculdade.
Uma semana se passou e o meu desânimo só aumentava, não tinha nada para fazer — uma vez que nos últimos anos, eu havia dedicado praticamente todo o meu tempo livre a treinar patinação no gelo. Recebi alguns amigos que tentavam (sem sucesso) me animar, eu agradecia a todas as mostras de carinho, eles não tinham culpa do meu mal momento e só queriam ajudar, mas sempre torcia para ficar sozinha logo. Meus pais estavam me dando todo o apoio do mundo, não tocavam no assunto e sempre tinham palavras gentis para mim. Em uma passagem rápida pela garagem atrás de uma caixa, notei que alguém havia pendurado meus patins (e eles estavam limpos), respeitando a minha decisão de não ficar olhando para eles a todo momento no meu quarto, como era meu costume antes. Imaginei que tivesse sido meu pai.
Naquela mesma semana, algo aconteceu durante o jantar. A campainha tocou, como eu estava na cadeira mais próxima a sala acabei me oferecendo para ver quem era, o que eu não esperava era encontrar um Sr. Collins eufórico, me dizendo que tinha uma boa notícia.
, eu tenho alguém preparado o suficiente para competir junto com você.
Ele sorriu, me deixando de boca aberta.



Continua...



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