Capítulo Único
“— Oppa, o que você quer ser na sua próxima vida?
— Na minha próxima vida? Essa é difícil. E você?
— Eu? Eu quero ser uma árvore.
— Isso é lindo, então… Eu quero ser um lago na frente dessa árvore. Há algo mágico na maneira como as árvores refletem no lago. Então, eu quero ser o lago.”
Sentada no banco da capela, eu sabia que era o momento de me despedir. Todos haviam ido embora, apenas eu estava ali. Com o coração apertado e uma faísca de esperança crescente. A porta da capela se abre e meus olhos cruzam com o dele — de pé e sorrindo para mim.
— Vamos? — Ele estendeu a mão e eu assenti, incapaz de resistir. Segurei sua mão e senti o calor que não deveria estar ali. Levantei-me e seguimos até o carro. Ele abriu a porta para mim, ajeitou meu cinto de segurança com um cuidado familiar e depois assumiu o volante. Girou a chave, e o carro ganhou vida. O rádio ligou sozinho, tocando sua música favorita. Passei um tempo apenas olhando para ele, para cada detalhe do rosto que eu tanto temia esquecer, enquanto ele falava coisas aleatórias, como se estivéssemos em um dia comum.
A estrada se alongava diante de nós. Árvores passavam pelo vidro, e eu sentia o vento bater no rosto. Ele comentava sobre um restaurante antigo que frequentávamos.
— Será que ainda servem aquele macarrão que você adorava? — perguntou rindo. — Se servirem, vamos lá — respondi, mesmo sabendo que não iríamos.
— Seria uma ótima ideia. — Ele sorriu, me fazendo sorrir junto. A presença dele me trazia uma sensação reconfortante, mas ao mesmo tempo parecia uma calma falsa, como se precedesse uma tempestade.
Ele apoiou o braço na janela, dirigindo devagar, como se não houvesse pressa de chegar a lugar algum. A estrada parecia infinita, cercada por árvores que se repetiam como um cenário pintado. Eu observava cada detalhe do perfil dele — a curva do nariz, o modo como seus lábios se curvavam em um sorriso tranquilo. Guardava tudo na memória com medo de esquecer.
— Você ainda canta no carro? — arrisquei perguntar, lembrando das incontáveis viagens em que ele transformava qualquer trajeto em um show particular.
Ele riu baixo e aumentou o volume do rádio. A mesma música começou a tocar de novo. Sem hesitar, ele começou a cantarolar. A voz era suave, levemente rouca, tão familiar que me atingiu como um soco no peito.
— Continua igualzinho — falei, rindo com lágrimas escondidas.
— Igualzinho não… — ele desviou o olhar da estrada por um segundo e me encarou. — Falta você cantar comigo.
Respirei fundo, e mesmo com a garganta embargada, deixei algumas palavras escaparem, acompanhando o refrão. Era estranho — a música nunca acabava. Quando terminava, recomeçava imediatamente, sem intervalo, como se o rádio estivesse preso em um loop. Quis perguntar, tocar no assunto, mas temia que isso fizesse o momento terminar.
— Ainda lembra quando a gente errou a entrada da estrada e acabou em outra cidade? — ele perguntou, rindo sozinho.
— Você jurava que não precisava de GPS. — Revirei os olhos, sorrindo.
— E não precisava mesmo, porque no fim, chegamos ao lugar certo.
— Depois de quatro horas rodando em círculos… — completei, e os dois rimos.
Por alguns minutos, tudo pareceu normal outra vez. Como se a vida ainda fosse generosa conosco. Em seguida, ele estacionou em um restaurante, desceu e caminhou rapidamente para abrir a porta para mim.
Entramos juntos no restaurante, e imediatamente senti a estranheza. O lugar estava cheio, mas ninguém parecia reparar nele. Garçons passavam apressados, famílias conversavam em suas mesas, e era como se ele fosse invisível para todos, menos para mim. Ele puxou a cadeira para que eu me sentasse e tomou o lugar à minha frente. Pegou o cardápio e fingiu folheá-lo, mas seus olhos estavam fixos em mim, como se eu fosse a única coisa que importava ali.
— Vai pedir o macarrão? — perguntou, com aquele sorriso leve que eu conhecia tão bem. Assenti.
— Claro. Quero sentir o gosto de novo. — Respondi.
O garçom chegou, e quando me virei para dar o pedido, percebi que os olhos dele só se fixaram em mim, como se não houvesse mais ninguém à mesa. Pedi o prato que costumava amar, e por um instante quase pedi algo para ele também… mas parei. A garganta fechou quando percebi que não havia necessidade.
Ele apoiou o queixo na mão e ficou me observando enquanto eu mexia no guardanapo, tentando ignorar o desconforto que crescia dentro de mim. Quando a comida chegou, o cheiro invadiu o ar, e senti um nó no estômago — era idêntico ao de anos atrás, como se o tempo tivesse congelado aquela lembrança.
— Está igualzinho… — murmurei, dando a primeira garfada.
Ele riu baixo, mas não tocou em nada. Os talheres diante dele permaneceram intactos. A cada vez que eu levantava os olhos, ele estava me encarando com uma intensidade quase dolorosa, como se quisesse memorizar cada detalhe meu.
— Não vai comer? — perguntei baixinho, mesmo sabendo a resposta. Ele apenas balançou a cabeça, o sorriso suave nos lábios.
— Hoje não. Só quero te ver. — Minha visão embaçou de lágrimas, mas continuei comendo, como se aquilo fosse suficiente para sustentar os dois. E talvez fosse.
Ao redor, ninguém parecia notá-lo. O garçom recolheu meu prato quando terminei e agradeceu apenas a mim, sem sequer dirigir um olhar para ele. Foi como um soco no estômago. Ele, no entanto, não demonstrou incômodo algum; apenas levantou-se, deu a volta na mesa e estendeu a mão para mim.
— Vamos? — a voz dele era calma, mas havia um peso oculto. Levantei-me, segurei sua mão e deixei que me conduzisse para fora. Quando cruzamos a porta, percebi que o vento da noite estava mais frio, como se a realidade estivesse tentando me puxar de volta.
— O que quer fazer agora? — Perguntou ele, abrindo a porta do carro para mim. Olhei ao redor e senti a brisa do vento soprando em meu rosto.
— Podemos dar uma caminhada? — Sugeri e ele assentiu. Caminhamos de mãos dadas pela rua, em silêncio, aquele tipo silêncio confortável.
Enquanto caminhávamos, observamos uma barraquinha de sorvete.
— Quer um sorvete? — Perguntou ele, assenti e caminhamos juntos pela rua.
— Dois de creme, por favor. — Pedi, o sorveteiro me entregou as duas casquinhas. Andamos de mãos dadas, e eu não consegui segurar a risada.
— Você lembra? — comecei, mordendo o sorvete. — No verão de 2018, você comeu o meu inteiro sem pedir.
— Eu tinha certeza de que você não queria mais! — Ele arqueou a sobrancelha, fingindo indignação.
— Você nunca teve certeza de nada — provoquei, e ele riu, o som ecoando suave na rua.
Depois de alguns minutos, meu sorvete começou a derreter, escorrendo pela mão. Olhei para o dele — intacto. Nenhuma gota caía, nenhuma marca de calor. Foi ali que a realidade começou a se infiltrar como uma sombra. E eu percebi — esse era o único lugar onde podíamos ficar juntos, e eu não queria ir embora dali.
Caminhamos um pouco mais e nos sentamos em um banco, ele virou-se para mim e sorriu.
— Sua mente parece estar longe. — Disse, acariciando meu rosto. Neguei com a cabeça.
— Não, ela está bem aqui. Aqui, com você, onde eu quero estar. — Sorri e ele retribuiu meu sorriso.
— Tem certeza? — Ele escovou uma mecha do meu cabelo para trás da minha orelha.
— Absoluta. — Respondi sem hesitar. Me aproximei dele e o puxei para um abraço, afundando meu rosto em seu peito. — Eu senti tanto a sua falta. — Murmurei, ele sorriu e acariciou minhas costas.
— Eu estou bem aqui. Não vou a lugar algum. — Ele afastou o abraço apenas para olhar em meus olhos. — Sempre ao seu lado. — Seus olhos brilhavam, o brilho habitual de emoção que ele carregava consigo. A facilidade em se emocionar e chorar por isso sempre estiveram presentes nele. Sorri ao notar o brilho em seus olhos e assenti, voltando para o abraço. Eu não sentia mais a brisa fria soprando em meu corpo, tudo que eu sentia era seu abraço reconfortante e quente. Eu me sentia em casa, como não havia me sentido há muito tempo. Parecia que tudo estava em seu devido lugar, e meu coração batia aquecido. Ficamos ali por longos minutos. Eu sentia o ritmo do coração dele, e por um instante acreditei que nada pudesse separá-lo de mim.
— Senhora? — Senti alguém colocando a mão em meu ombro, e de repente, a brisa fria parou de soprar completamente. O abraço quente se foi, a única coisa que eu sentia era a madeira gelada do banco duro da capela. Virei para trás e o padre estava de pé. — Eles querem autorização para levar o corpo para a cremação. — Foi nesse momento que o peso da situação caiu sobre mim. Eu adormeci. Adormeci no banco da capela enquanto velava o corpo dele. Mas, de alguma forma, ele encontrou um jeito de vir até mim.
— Sim, claro. — Respondi, me levantando do banco e indo dar o último adeus ao amor da minha vida. Deitado sobre aquele acolchoado, suas mãos estavam frias, seus olhos fechados. Nenhum vestígio do seu abraço quente ou dos seus olhos carregados de emoção. Ele partiu.
Saí da capela em passos lentos, sentindo minhas pernas pesadas como se o chão me puxasse para baixo. Nas mãos, carregava a urna que parecia conter não apenas as cinzas dele, mas também pedaços do meu próprio coração. A cada passo, lembrava da voz dele, do sorriso, do calor do abraço que ainda parecia grudado em minha pele.
O caminho até o lago foi silencioso. O sol já havia se posto, mas a água refletia a lua e as árvores ao redor, exatamente como ele havia descrito uma vez. Minha respiração falhava, e lágrimas silenciosas desciam enquanto eu me aproximava da margem.Apertei a urna contra o peito.
— Você disse que queria ser o lago… — sussurrei, a voz embargada. — E eu, a árvore diante dele.
Abri a tampa devagar. O vento soprou de leve quando deixei as cinzas escaparem, dançando no ar antes de tocar a superfície tranquila da água. Elas se espalharam suavemente, misturando-se ao lago que refletia as árvores, cumprindo a promessa de uma próxima vida.
Fiquei ali parada, observando, até que uma calma inesperada tomou conta de mim. Pela primeira vez, não senti apenas a dor da ausência, mas também a certeza de que ele estava ali — não como antes, mas como sempre.
— Sempre ao meu lado. — sorri entre lágrimas, repetindo as palavras dele.
E naquele instante, entendi: ele era o lago, eu era a árvore, e juntos permaneceríamos, lado a lado, mesmo que em formas diferentes.
Fim.
Nota da autora: Sem nota.
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