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Finalizada em: 10/05/2022

Capítulo 1

(Pelos olhos da )

— J, isso não vai dar certo... — eu disse, quase desistindo de comer.
— Você tem que apoiar assim, tá vendo? — Jungkook me mostrou, possivelmente pela centésima vez na nossa vida, como segurar o jeotgarak. — Francamente, , nós sempre jantamos na casa dos meus pais e você não aprendeu ainda? — ele zombou de mim, manuseando com maestria o jeotgarak entre os dedos tatuados.
Jeon Jungkook, meu melhor amigo, era coreano e excepcionalmente bom em tudo que se propunha a fazer. Chegava a ser irritante às vezes: não havia nada em que ele não fosse excelente e implicar comigo não era exceção.
— Não ligue para ele, meu bem, você fez um ótimo trabalho até derrubar todo o arroz. — a mãe de Jungkook tentou disfarçar, mas até ela queria rir de mim. Por sorte, eu e ele nos conhecíamos desde os 13 anos e a família dele já estava habituada à minha presença e à minha falta de habilidade com os utensílios asiáticos. Pedi desculpas sem som para que ela lesse meus lábios e ela sorriu e mudou de assunto. — Como vai o balé?
— Intenso. Meu corpo está começando a doer mais que o normal... — respondi.
— É porque você já está velha, . — Jungkook se intrometeu.
— Se eu sou velha, você é o quê? Você só é um mês mais novo que eu!
— E nunca se esqueça disso.
Dei um soquinho no braço de Jungkook e ele sequer se moveu, mas minha mão reclamou um pouco. Aquele menino estava se dedicando mesmo às aulas boxe que fazia, o braço definido parecia ferro.
— Por favor, vocês dois estão começando a vida agora! — o pai dele interveio. — Falando nisso, como está o apartamento?
— Ficando cada vez mais cheio de frescuras. Appa, por favor, diga a que não podemos comprar tudo na cor rosa...
— Eu avisei a você quando quis dividir o apartamento com uma mulher... elas dominam tudo. Não é mesmo, querida? — ele dirigiu um olhar completamente cativo na direção da esposa, que piscou para ele.
Admirei em silêncio a cumplicidade e o carinho do casal. Os pais de Jungkook mudaram-se para Nova York anos depois dele ter nascido e mantinham um lindo relacionamento de muito amor e respeito mútuo. Sempre me senti acolhida na casa dos Jeon e eles eram como minha segunda família desde que meus pais se divorciaram: foi um período terrível e a rachadura da separação ainda doía, mas quando eu estava com Jungkook e sua família, parecia que eu pertencia a um lar novamente.
, você está certa. — a mãe de Jungkook, que sempre me defendia das reclamações dele, concordou. — Precisa mostrar quem manda na decoração da casa o quanto antes, assim vocês não terão problemas quando se casarem.
Omma! — Jungkook censurou a mãe e eu ri. Ela nunca disfarçou seu desejo de que namorássemos e, agora que estávamos terminando a faculdade e decidimos morar juntos para dividir as despesas, ela estava nas nuvens imaginando que em breve seríamos um casal.
— Não sei não, senhora Jeon... Jungkook como marido? A senhora sabia que ele quase nunca lava a louça? — brinquei.
— Não foi assim que eu criei você! — a mãe de Jungkook beliscou o filho, que se encolheu todo, choramingando.
Omma... já dissemos milhões de vezes, somos apenas melhores amigos. — ele respondeu, esfregando a orelha que recebeu o beliscão.
A fala de Jungkook me fez sorrir com a lembrança do dia em que o vi pela primeira vez na escola. Ele entrou na sala de aula com os olhos enormes e parecia apavorado. Depois de algumas semanas, por ser introvertido e estrangeiro, ainda não tinha feito amigos e eu me ofereci para a tarefa. Sejamos francos, eu salvei a vida social daquele garoto! Desde então, eu o vi crescer e se tornar um homem incrível — e sim, muito bonito — mas a senhora Jeon estava fantasiando: eu nunca pensei em Jungkook daquela maneira... bom, pelo menos não conscientemente. Ultimamente ele andava aparecendo nos meus sonhos de uma maneira, digamos, incomum.
— Querida, não assuste a com essa conversa! Nosso filho já tem tão poucos amigos... — o senhor Jeon disse, rindo.
— Obrigado, appa. O respeito de vocês por mim foi embora junto com a sobremesa. — Jungkook ironizou.
— Fique tranquilo, filho, eu arrumei um amigo para você. Ele também é coreano. Você se lembra dos Kim? — o pai dele continuou.
— A família dona da Kim Enterprises? O senhor já fez um projeto de um dos prédios deles, não foi?
— Sim! 34 andares! Um orgulho! Quando formos para a Coreia visitar seus avós, vou levar você lá. — o senhor Jeon apertou o ombro do filho, sorrindo. Sempre que falavam sobre engenharia o pai de Jungkook não conseguia esconder a felicidade por ele ter escolhido o mesmo caminho profissional que o seu. — Como eu ia dizendo, o filho mais velho deles está sendo transferido para estudar na mesma universidade que você e a . Dei seu telefone para ele, vocês deveriam sair.
— Hm, OK. Claro. — Jungkook respondeu sem ânimo, aceitando apenas para não decepcionar o pai.
— Eles são muito tradicionais, mas o rapaz tem a sua idade, vocês que são jovens devem se entender melhor... O nome dele é Kim Taehyung.
Jungkook não estava muito confortável com a ideia, então eu apertei seu joelho levemente, tranquilizando-o:
— Tudo bem, seu antissocial. Eu vou com vocês. Além do mais, eu sou tão tagarela que você nem vai precisar trocar duas palavras com ele.
Depois do jantar, nos preparávamos para dormir e viajar de volta para casa na manhã seguinte. Já na confortável cama do quarto de hóspedes dos Jeon, resolvi tentar achar o tal Kim Taehyung em alguma rede social. Uma busca rápida no Instagram e eu levantei da cama praticamente num pulo.
Corri até a porta do quarto de Jungkook e bati nervosamente. Ele abriu com o cabelo desgrenhado e uma carinha de quem tinha acabado de acordar. Entrei sem a menor cerimônia e me espalhei na cama, impregnada do cheiro amadeirado dele. Eu fazia isso o tempo inteiro no nosso apartamento, ele já nem se assustava mais, apenas sentava adoravelmente em cima dos pezinhos enquanto eu ocupava todo o espaço do colchão.
— ESSE é o Kim Taehyung! Você TEM que ser amigo dele, você tá me entendendo? — decretei, enfiando o celular no rosto dele.
Jungkook esfregou os olhos e analisou o feed de Taehyung:
— Sou mais eu. — ele respondeu me devolvendo o celular, entediado. — Ele tá de terno em quase todas as fotos, aposto que é um chato.
— Chato ou não, ele é um espetáculo de lindo e você vai nos apresentar!
— Tá, tá. Pensando bem, ótima ideia. Assim eu me livro de vocês dois de uma vez só.
— Você não consegue nem me tirar do seu quarto, Jeon Jungkook! Que dirá da sua vida! — baguncei ainda mais o cabelo dele e ele sorriu tímido, encolhendo os ombros e apertando os olhinhos cor de jabuticaba.
Fiquei um bom tempo analisando e comentando detalhadamente todas as fotos do Taehyung, as marcações, as pessoas que seguia, enfim, a investigação completa. Jungkook até que tentou acompanhar, mas depois de alguns minutos, ele respondia somente com "hum" e já estava cambaleando de sono.
— Solteiro e desimpedido. — concluí para o meu melhor amigo adormecido e com a boca entreaberta. Ri sozinha do quanto ele ficava fofo dormindo profundamente e, obviamente, aproveitei que estava com o celular em mãos para tirar uma foto.

Capítulo 2

(Pelos olhos do Jungkook)

Aquela manhã estava tão fresca e agradável que eu quase esqueci de ficar irritado com a e seu falatório incansável sobre o tal Kim Taehyung. Por que ela estava fazendo tanto alvoroço em cima daquele cara? Ele era alto, coreano e, OK, até que era bonito, mas e daí? Eu também era... Não que eu quisesse que minha melhor amiga me achasse bonito, eu só não estava no clima para duas horas num carro falando sobre o tal Kim: já era suficientemente desconfortável o fato de eu ter que ficar amigo dele por conta do meu pai...
Fazer amigos nunca foi uma tarefa fácil para mim. Não me sentia muito à vontade com outras pessoas e desde pequeno minha mãe brincava com a minha introversão, dizendo que depois de uma interação social, precisava me colocar na tomada para carregar. O curioso é que, além da minha família e alguns amigos, a era uma das únicas pessoas das quais eu não me cansava, embora às vezes ela se esforçasse bastante para me tirar do sério:
— Acabei de receber uma mensagem da Caytlin! — ela ergueu as sobrancelhas sugestivamente. — Ela disse que vai ter uma festa na casa dela hoje e advinha só? Você vai comigo.
— Não posso ir em festas. Minha religião não me permite. — sorri para ela e voltei a me concentrar na estrada.
— Anda, J! Ela tem uma queda por você há tempos! Ela é perfeitamente linda e legal, você é mesmo tão exigente assim?
— Não gosto muito de loiras... — respondi pensando no cabelo preto da . Mas por que eu pensei nisso?
— Eu já respondi que vou e que vou levar você. Aliás, falando em levar, sabe quem você deveria chamar também?
"Lá vem. O Kim Taehyung.", pensei fazendo uma careta involuntariamente.
— Não adianta fazer biquinho, e se ele gostar de mim? Você vai ser obrigado a conviver com ele.
— Tá, eu mando mensagem pra ele assim que chegarmos. Vou aproveitar e mandar uma foto sua acabando de acordar, o homem precisa saber logo com o que está lidando.
— Você quis dizer uma foto tipo essa? — me mostrou o celular dela e eu me vi dormindo de boca aberta na tela.
— Uau. Você é mesmo obcecada por mim, hein? — brinquei e ela me chamou de idiota, mas estava rindo. Quando ela fazia isso, eu não conseguia evitar de rir junto.

***

, eu tô pronto. — bati na porta do quarto dela, avisando-a. Ela abriu a porta e tudo o que eu vi foi um decote farto. Farto e lindo.
— Ei! — ela estalou os dedos. — Meus olhos estão aqui em cima! Mas bom saber que funcionou.
— Vamos logo antes que eu desista...
— Ainda bem que você é bonito. Alguma coisa tinha que compensar você ser tão enjoado. — ela ajeitou meu cabelo e me deu um beijo rosto. Aquilo certamente me animou um pouco.
Chegamos à casa da Caytlin e da porta mesmo eu percebi tinha gente demais para o meu gosto:
! Que bom que você veio! E trouxe o Jungkook! — a anfitriã nos recebeu e eu sorri. Estendi a mão para cumprimentá-la, mas em vez de apertá-la, ela me puxou e me abraçou, me impregnando com um perfume extremamente doce. encolheu os ombros, rindo do meu desconforto.
— Você me coloca em cada uma, ... — reclamei quando Caytlin finalmente me soltou e saiu para me buscar uma bebida.
— Eu te trouxe para uma festa na casa de uma garota linda que está louca por você, eu sou mesmo uma péssima amiga. — ironizou. — Falando em amigos, aquele ali não é o seu?
— Você já achou o Kim no meio dessa gente toda? — perguntei admirado.
— O único coreano aqui além de você? Não é tão difícil, né?
— Vamos acabar logo com isso. — acenei para o cara com o cabelo meticulosamente penteado e partido de lado, uma camiseta social com as mangas dobradas e a maior cara de mauricinho que eu já tinha visto na vida. Quando dei o primeiro passo na direção dele, me impediu.
— Espera um minuto! — ela jogou o cabelo para frente e para trás, ajeitando-o, e mexeu no decote. Eu tinha que parar de prestar atenção naquele decote. — Agora sim.
— Acho que esse cara não precisa de mais amigos. Ele parece estar bem conversando com aquele pessoal ali... — resmunguei enquanto andávamos até ele.
— Ele pode até não precisar, mas você sim. Sabia que você pode conhecer outras pessoas além de mim e seus amigos do boxe?
— Você já me dá dor de cabeça o suficiente. — brinquei e finalmente alcançamos o Kim. Ele se virou com o clássico copo vermelho de plástico das festas na mão e um sorriso retangular. — Kim Taehyung? Jeon Jungkook.
— Oi! Meu pai me falou de você... — ele olhou direto para o meu braço coberto de tatuagens e o sorriso quase se desfez.
"Um otário. Eu sabia.", pensei, mas me arrependi imediatamente. A família Kim era conservadora e ainda existia muito estigma em relação às tatuagens na Coreia, era de se esperar que ele, no mínimo, me estranhasse. O sorriso dele reapareceu, mais largo, e eu percebi que ele tinha notado a presença da . Fiquei ali parado enquanto ela mesma se apresentava e trocava algumas ideias com ele, falando sobre seu curso e se oferecendo para mostrar o campus, enquanto os olhos dele, fascinados, desciam demais de vez em quando.
— Ela parece ótima. — Kim foi obrigado a conversar comigo porque algumas amigas da chegaram, levando-a para beber alguma coisa. — Vocês estão juntos há muito tempo?
— Desde os 13 anos... — percebi pela cara de espanto dele que eu tinha entendido a pergunta errado. — Ahn, somos melhores amigos desde os 13 anos. Não somos um casal.
— Não me diga... — ele ergueu as sobrancelhas e tomou um gole, tentando disfarçar que estava sorrindo e o quanto estava feliz em saber que estava disponível.
— Pois é, eu já disse. — brinquei com os brincos na orelha, procurando algum assunto. — Você está gostando daqui?
— É tudo muito diferente, mas sim. Estou gostando bastante. — ele respondeu olhando fixamente para onde e suas amigas estavam. — Então, eu estou no time de beisebol. Você joga? — ele apontou os rapazes que estavam com ele antes de chegarmos e tentou dar continuidade à conversa.
— Beisebol? Um pouco, quando era mais novo...
— Deveria jogar com a gente qualquer dia desses. Deixa eu te apresentar ao pessoal do time. — ele saiu caminhando e eu o segui.
Kim tinha acabado de ser transferido e já era altamente bem relacionado (melhor do que eu, diga-se de passagem). Ele não precisava de mim como amigo, mas claramente planejava me manter por perto por um motivo bem óbvio: o motivo começava com e terminava com .
— Eu já volto, meu copo tá vazio. — usei como desculpa para sair dali. Não estava afim de passar a noite cercado de marmanjos discutindo estratégias de jogo e quem pegava mais mulher. O time de beisebol tinha uma contagem ridícula de quem transou mais vezes. Kim só ria e balançava a cabeça.
"Tradicional, é? Sei." pensei enquanto me afastava para abastecer meu copo. "Quero ver manter a tradição e sair daqui sem pegar uma estrangeira."
— Atenção! — vi Caytlin subir na mesa de centro da sala e anunciar com uma voz enérgica, rodeada por um grupo de meninas. — Vamos começar essa festa! — ela aumentou o volume da música e imediatamente formou-se um círculo de pessoas em volta delas para vê-las dançando.
— Eu passo. Não tenho mais idade. — me adiantei quando veio correndo na minha direção com aquele sorriso de quem queria pedir alguma coisa. Ela já estava com os pés descalços e o cabelo preso porque, ao contrário de mim, ficava à vontade em qualquer lugar.
— Tadinho. Ninguém te chamou pra dançar no baile e você ficou traumatizado? — ela fez um beicinho e tomou o copo da minha mão, virando tudo. — Seu amigo falou alguma coisa de mim?
— Em primeiro lugar, de nada. — sacudi o copo vazio quando ela me devolveu. — Em segundo lugar, falou sim. Ele não está interessado.
— O quê? É sério?
— Claro que não, tonta. — apertei as bochechas dela, avermelhadas por conta da bebida. — Você alugou um quarto na cabeça dele. Bom, você e esse seu... — fiz um gesto abrangendo meu próprio peito e ela me empurrou levemente, rindo.
! — Caytlin cantarolou de cima da mesa e apontou uma cadeira no meio do círculo enquanto tocava River, do BRKN Love. — Essa é sua música! Vai ficar aí parada feito um poste?
— Estou indo, gata. — respondeu confiante, como sempre, e soltou o cabelo espalhando o cheiro de maçã verde do xampu dela. — Garanta que o Taehyung veja isso, OK? — ela piscou e saiu.
Ela começou a caminhar no ritmo sexy da música e eu fiquei meio nervoso. Vê-la dançando não deveria ser novidade para mim, além de ter ido a várias apresentações de balé, ela sempre dançava em casa. Eu gostava de olhar e, às vezes, até de dançar junto. A faxina do sábado demorava muito mais quando ela colocava a playlist dela e ficava me incluindo na coreografia improvisada, é verdade, mas eu não me importava. No entanto, naquele momento, tinha um alvo claro em mente — e ela não costumava errar. Kim era um homem morto.
Ela movimentava o quadril com maestria, a cintura estreita e marcada quase desenhava a música de tão solta. Corria as mãos pelo próprio corpo enquanto rebolava, o esmalte vermelho vivo indicava todos os caminhos dela. Quando ela começou com as encaradas insinuantes e as jogadas de cabelo, o cara, boquiaberto, nem piscava.
O quarto que a alugou na cabeça dele tinha acabado de virar uma casa inteira.

Capítulo 3

(Pela boca da )

Fazia tempo que a arquibancada dos jogos de beisebol não ficava tão cheia e o técnico e os jogadores tinham uma pessoa para agradecer por lotar novamente o público da torcida: Kim Taehyung, com sua beleza irresistível, atraiu várias garotas curiosas. Eu também estava lá por ele, para admirar seu talento como jogador e como suas pernas torneadas ficavam maravilhosas naquela calça apertada, mas era diferente: ele tinha me convidado. Bom, a mim e ao Jungkook, que sentou ao meu lado depois de ter comprado um balde imenso de pipoca:
— Se a gente perder esse jogo, a culpa é sua. — ele resmungou de mau humor e colocou um punhado na boca.
— O que eu fiz dessa vez?
— Kim me parou na fila só para perguntar de você. — ele respondeu com a boca cheia e uma careta adorável que ele sempre fazia quando gostava muito de alguma comida. — O homem ainda está tonto da sua dança de ontem. — ele continuou mastigando emburradinho. — Com você aqui, ele não vai acertar uma bola.
— Ou ele vai querer me impressionar e acertar todas. — meti a mão no balde e ele aumentou o bico e a careta.
— Tira a mão daí! — ele tentou me morder e eu ri. Jungkook parecia uma criança às vezes, com o sorriso que apertava os olhos de tão grande e aquele jeitinho de quem estava vivenciando tudo na vida pela primeira vez. Me encantava.
E, pelo visto, não só a mim. Caytlin nos viu de longe e se juntou a nós. Ela estava tão bonita que até soltou a língua de Jungkook: surpreendentemente, eles conversaram o jogo inteiro e pareciam estar se dando bem (apesar de eu achar que ela estava tentando demais, não havia a menor necessidade de se inclinar tanto para ouvi-lo nem de tocar no braço dele a cada cinco minutos). Felizmente, eu podia me distrair daquele projeto de casal admirando Taehyung, que vez por outra me procurava no público, cerrando os olhos por causa do sol e sorrindo quando me achava. Um sorriso quadrado e lindo.
— O que vocês vão fazer depois do jogo? — a voz de Caytlin me despertou.
— Vamos levar o batedor de ouro aí para comer alguma coisa. — Jungkook disse com um pouco de ciúme por Taehyung estar sendo ovacionado e conduzindo o time à vitória.
— Conheço um lugar ótimo. Levo vocês no meu carro. — Caytlin se ofereceu, sem a menor cerimônia pela intromissão.
— Podemos seguir você, viemos no carro da . — Jungkook sugeriu.
— Ou você pode vir comigo e a leva o Taehyung. — Caytlin olhou para mim com cara de "me ajuda nessa, amiga!".
Apesar de eu ter achado seu autoconvite indelicado, a ideia de Caytlin era viável logisticamente e ainda me renderia algum tempo sozinha com Taehyung. Além disso, ela e Jungkook estavam se dando muito bem. Tão bem que, quando o jogo acabou, já de noite, ela quis ir na frente com a desculpa de conseguir bons lugares no restaurante e Jungkook aceitou.
— Tudo bem por você, ? — ele quis ter certeza.
— Claro. Parece que a celebridade ali vai demorar. — usei a cabeça para apontar Taehyung e a fila de pessoas que estavam indo parabenizá-lo por seu desempenho.
— Te vejo daqui a pouco. — Jungkook me deu um beijo na bochecha, não sem antes rolar os olhos para o meu comentário sobre o Taehyung.
O campo foi esvaziando, sobravam apenas três ou quatro pessoas na arquibancada e pude ver quando Taehyung finalmente se livrou do técnico e correu até onde eu estava. O cabelo meio comprido, despenteado dessa vez, balançava conforme ele se aproximava e caía graciosamente sobre o seu rosto. Quando ele se apoiou na grade e sacudiu a cabeça, puxando os fios para trás com as duas mãos, eu só conseguia pensar em marcar aquele pescoço exposto com as unhas. Ou com os dentes.
— Por favor, não desiste de mim! — ele pediu, tentando se desculpar pela demora e abrindo aquele sorriso que me desestabilizava.
— Você tem 15 minutos ou eu te deixo sem carona e sem jantar. — ameacei.
— Você não teria coragem... — ele duvidou, inclinando-se para mais perto de mim.
— Experimenta, batedor. — me inclinei de volta e me debrucei na grade, encarando-o. Os olhos dele eram diferentes um do outro e pareciam carregados de tédio e cansaço do mundo. Tinha uma gracinha de sinal bem embaixo de um deles. Kim Taehyung tinha aquele quê de mistério e magnetismo, eu não conseguia quebrar o contato visual por nenhum minuto sequer e, quando ele riu, o ritmo lento e hipnótico da risada me acordou todas as borboletas do estômago.
— Você não abandonaria um pobre estrangeiro nessa cidade fria e sem coração. — ele alargou o sorriso. Aquele menino precisava parar de sorrir para mim.
— Quer passar a noite ao relento nesse campo, Kim Taehyung? — cogitei.
— Depende. Se eu estiver bem acompanhado...
— Chuveiro. — apressei ele, apontando a direção do vestiário.
— Você quem manda, bailarina. Hoje eu estou nas suas mãos. — ele respondeu, afastando-se.
"Golpe.", meu cérebro me alertou imediatamente, mas eu quase não consegui ouvir porque uma outra voz se sobrepunha à da minha razão. Uma voz que dizia "vamos lá, se cair, do chão não passa."
Ri sozinha de mim mesma. Taehyung já tinha demorado o suficiente para que as poucas pessoas que restavam no campo fossem embora também e eu procurei uma distração: achei alguns tacos de beisebol com umas bolas e resolvi arriscar um arremesso. Até que foi bem longe para uma primeira tentativa.
— Belo balanço. — Taehyung finalmente surgiu atrás de mim.
Ele sorriu e se aproximou com os cabelos úmidos, o casaco do time e uma camisa verde-escura de um tecido leve meio aberta. Talvez fosse a pressa, ou talvez ele quisesse que eu visse uma charmosa correntinha prata descansando no seu pescoço e descendo pela clavícula alta e marcada, o fato era que ele tinha pulado dois ou três botões e aquilo tudo somado ao delicioso perfume cítrico dele estava fantástico.
— Algum conselho técnico para me dar? — perguntei.
— Sua postura é muito boa, mas precisa de ajustes. Posso?
Preparei novamente a pose para rebater e assenti com a cabeça. Ele segurou minha cintura e começou a me dar orientações ao pé do ouvido com uma voz encorpada que me fez, literalmente, tremer na base.
— Não gire tanto o quadril, apenas o tronco. Lembre-se de segurar o ar com o diafragma. — ele deslizou uma das mãos pela minha barriga. — Concentre a respiração aqui.
Aquela voz grossa e quente sussurrada tão de perto me arrepiou o corpo inteiro. Taehyung falava e se movia de um jeito moroso, tudo nele soava feito música. Ele me deixava nervosa e o pior é que ele já estava ciente disso quando pôs a mão sobre a minha, corrigindo o modo como eu segurava o taco:
— Um pouco mais para cima... — ele passou os dedos pelo meu punho como uma carícia enquanto a outra mão permanecia assente na minha cintura. — Perfeito. Eu vou arremessar para você.
Taehyung afastou-se para atirar a bola e eu a acertei novamente, mas ela foi muito mais longe dessa vez. Sorri orgulhosa do meu feito:
— Acho que eu tenho que correr para a base agora, certo? — perguntei, sem ter muita certeza se tinha entendido as regras do beisebol que Jungkook me explicou mais cedo.
— Ou você pode ficar aqui e conversar comigo.
— Podemos fazer isso no restaurante, onde já deveríamos estar, aliás. — joguei o taco para Taehyung, que apanhou sem o menor esforço, com uma mão só. — Você não vai querer saber como é o Jungkook quando está com fome...
— A única coisa que eu quero saber sobre o Jungkook já está aqui. — ele disse, brincando habilmente com o taco. Por que diabos aquilo era tão sexy?
— Você estava planejando ficar sozinho comigo, Kim Taehyung? — censurei ele, cruzando os braços e fingindo que eu não estava querendo fazer a mesma coisa.
— Por que você acha que eu enrolei tanto para sair do campo? — ele riu.
— Porque você é a estrela do time e todos queriam um pedacinho de você.
— Bom, pois agora eu sou todo seu. — ele deu uma piscadinha encantadora. — Você me deixou do avesso, . Tô com você dançando na minha cabeça até agora.
— Onde foi que você me viu dançar? — banquei a desentendida.
— Na festa da Caytlin. E noite passada, no meu sonho.
— Meu Deus. — balancei a cabeça, incrédula. — Essas suas cantadas funcionam lá na Coreia?
— De jeito nenhum. Lá o que funciona é isso aqui. — ele puxou o casaco com o número e o nome dele escritos, como se quisesse enfatizar a popularidade que aquelas letras lhe conferiam.
— Sério? Você nem joga tão bem assim. — brinquei.
— Que bom que você não me viu quando eu comecei, então...
— Eu comecei há poucos instantes e já acertei em cheio. — respondi, envaidecida.
— Ah, mas eu também acertei em cheio. O taco. Na minha própria cara. — ele disse, me fazendo gargalhar.
— Eu quebrei um dente de leite na minha primeira pirueta no balé. Acho que eu ganhei de você.
— Não tão rápido, bailarina. Eu tenho uma lista enorme de acidentes no beisebol. Você tem tempo?
— Acho que Jungkook e Caytlin não vão se importar se ficarmos por aqui e trocarmos o jantar no restaurante pelos hotdogs daquela barraca. — sugeri, tirando o celular do bolso para avisar meu melhor amigo da mudança de planos.
Taehyung aceitou a ideia satisfeito e me contou desde as suas primeiras jogadas desastrosas até a emoção do seu primeiro home run. Cada história era acompanhada de um riso que me parecia mais melódico, mais quadrado e mais bonito que o anterior. Já estávamos falando e rindo há horas e eu começava a sentir que estava despindo o Taehyung daquela roupa de atleta popular, enquanto ele, no entanto, estava se despindo literalmente:
— Esfriou um pouco, mas... eu não queria ir embora. — ele confessou, tirando o casaco e colocando-o cuidadosamente por cima dos meus ombros.
Eu também não. O que eu queria mesmo era virar a noite ali, ouvindo mais histórias naquele sotaque atravessado a admirando cada traço daquele rosto bonito, mas, de repente, os refletores do campo se apagaram completamente. Taehyung riu mais uma vez:
— Acabou que ficamos nós dois ao relento no campo.
— É. Acho que eu preciso te levar para casa agora. — concluí, acendendo a lanterna do celular. — Mas para isso eu preciso encontrar meu carro nesse breu.
— Então segura em mim. Esse terreno é cheio de declives, só nivelaram a parte do campo. Para que lado você estacionou? — ele perguntou, me oferecendo gentilmente o braço como apoio.
— Esquerda. — respondi e fomos caminhando até avistar meu carro com a fraca luz da lanterna. Já quase chegando perto da porta, pisei em falso e Taehyung me segurou firmemente pela cintura.
— Tudo bem, eu te peguei. — ele disse, sorrindo, com o rosto quase colado no meu.
— Até que enfim. — respondi e joguei os braços em volta do pescoço dele, surpreendendo-o com um demorado beijo na boca. Ele correspondeu com uma língua lenta e deliciosa e puxando meu corpo para ainda mais perto. O perfume dele se misturava ao meu e o metal frio da correntinha roçava delicadamente na fenda entre meus seios, enquanto os dedos dele passeavam pela base das minhas costas. Quando por fim desgrudamos os lábios, ele sussurrou:
— Não marque nada para amanhã à noite. Eu preciso te ver de novo.

Capítulo 4

(Pela boca do Jungkook)

— Obrigado pela companhia e pela carona, Caytlin! — agradeci, desafivelando o cinto de segurança.
— Vai custar um pouquinho de açúcar, bonitão! — Caytlin respondeu e apontou a bochecha, pedindo um beijo, mas quando me inclinei para fazê-lo, ela virou-se rapidamente e demos um selinho. — Ops! — ela riu. — Precisamos repetir isso, hein.
— O jantar ou... — enrubesci na hora. Ela estava se referindo ao selinho.
— Só depende de você. Boa noite, JK! — ela sorriu largo e eu desci do carro.
Eu não queria admitir, mas até que eu me diverti com a Caytlin. Ela era extrovertida, engraçada e meio maluca. Ah, e decidida. Sabia muito bem o que queria e, pelo visto, ela queria a mim. Não vou mentir que estava envaidecido por ser enxergado e desejado por uma loira bonita e bem-resolvida como aquela: sendo meio quieto como eu era, só tinha ficado com garotas tão tímidas quanto. Gostava das tímidas, claro, mas estar com a Caytlin foi... diferente. Ela era falante como a . A mesma que chegou tarde em casa com um sorriso carimbado na cara:
— Você desmontou o almofadinha, não foi? — perguntei.
— Acho que ele que me desmontou... — respondeu dando um daqueles giros de balé e se jogando no sofá, ao meu lado. Fechei o livro que estava lendo e ela recostou a cabeça no meu ombro, suspirando.
— Vai, me conta como foi. — pedi, também recostando a cabeça.
— Você não está se esquecendo de nada não?
Beijei a cabeça dela e levantei para buscar um pote de sorvete e duas colheres, uma espécie de ritual nosso, obrigatório sempre que o tópico era "ficantes e relacionamentos". Apesar de ter várias amigas, preferia conversar certas coisas comigo: sentávamos no chão e acabávamos sozinhos com um pote inteiro de chocolate trufado, o favorito dela. Fazíamos isso desde o dia em que ela deu seu primeiro beijo e me fez contar sobre o meu, que já tinha rolado, quando eu ainda estava na Coreia (obrigado, Lana Hae! Eu estava achando que nunca ia acontecer!). Daí em diante vieram outros beijos e outras primeiras vezes, algumas boas, outras nem tanto, mas nós continuávamos compartilhando tudo um com o outro.
— Você "tropeçou" e "caiu" nos braços dele? Sei. — indaguei fazendo aspas no ar.
— Eu passei a noite inteira dando todos os sinais e ele mal me tocava, tive que me jogar em cima dele! Por que vocês coreanos são tão retraídos?
— Por que vocês norte-americanas são tão atiradas?
arregalou os olhos e depois seu sorriso abriu lentamente:
— Nós norte-americanas? Espera aí, você e a Caytlin...
— "Você e a Caytlin" nada... ela se virou rápido e demos um selinho sem querer.
— "Sem querer", sei! — me imitou, sinalizando as aspas e rindo.
— Acho que ela queria mesmo que eu a beijasse.
— Bateram na sua cabeça na aula de boxe, foi? — deu uma colherada no sorvete e empurrou o pote na minha direção, indicando a minha vez. — Óbvio que ela queria, seu tapado!
— Meio que entrei em pânico, ela é popular e bonita demais para mim.
— Sabe aquele negócio brilhante que tem no seu banheiro? Se chama espelho. Você deveria testar qualquer dia desses.
Sorri envergonhado e enfiei a colher no sorvete. Gostava das minhas tatuagens, do meu cabelo, me achava bonito, só não o suficiente para alguém como a Caytlin ou mesmo a . Só o simples fato de pensar na minha melhor amiga daquela forma me deixava nervoso e eu acabei errando a entrada na hora de tomar o sorvete. riu de mim e limpou o canto da minha boca com o dedo, enfiando-o na boca dela em seguida. Eu achei... sensual?
— Você é uma delícia, J. — ela disse depois de ter provado o sorvete que limpou dos meus lábios. — É lindo e um cara incrível. Deixa disso e chama ela para sair.
Claro, ela. A Caytlin... Quem mais seria?
— Talvez eu faça isso. — respondi. — E você e o Kim?
— Vamos sair amanhã à noite. Ai, meu Deus! — ela parou a colher na boca. — O que eu vou vestir?
Demorou uma eternidade, mas enfim decidiu o vestido ideal: nenhum dos que ela tinha no guarda-roupa. No dia do encontro, ela me alugou quase a tarde inteira à procura da peça perfeita. Eu já não aguentava mais carregar sacolas e receber olhares de julgamento das vendedoras:
— Olha, nós temos calcinhas mais larguinhas, para, sabe? Acomodar tudo... — tive que ouvir de uma das atendentes. Apenas sorri e procurei pela .
, pelo amor de Deus, me tira daqui. Já é a terceira vendedora que acha que eu sou uma drag queen.
— Desde quando você tem masculinidade frágil, J? Não se preocupe, eu já achei meu vestido. Agora só precisamos achar um para você.
— Não sei não, . Eu ando malhando perna, mas não acho que eu vá ficar bem de vestido...
— “Para você” significa um vestido que você ache bonito, engraçadinho. Para a Caytlin usar quando você finalmente chamá-la para sair. O que você me diz desse aqui? — ela estendeu uma das roupas da pilha que tinha separado para me mostrar.
— Eu sei lá. Tem preto?
Emo. — ela decretou. — Tem. Então?
— Tanto faz, é só uma roupa num cabide, nem sei ao certo se eu entendi.
— Segura minha bolsa, eu vou vestir para você.
Eu achei que fosse morrer de tédio. Só queria ir embora e agora me fazia escolher um vestido para um encontro que eu nem tinha certeza se queria ir. Estava pensando que Caytlin era areia demais para o meu caminhãozinho quando conseguiu a peça na cor preta e apareceu na porta do provador feminino.
Puta que pariu.
Meus olhos estavam vidrados no corpo dela, denunciado pelo corte justo. Quando foi que a ... cresceu daquele jeito? Ela era uma garotinha magricela quando eu a conheci e agora ela estava ali, uma mulher feita (e gostosa) na minha frente. Eu ensaiei falar, mas as palavras não saíam de jeito nenhum.
— Seus olhinhos de jabuticaba estão brilhando. — me acordou do meu devaneio. — É exatamente essa reação que ela quer. Vai ser esse.
"Porra, Jungkook.", pensei sozinho enquanto ia para o caixa. "Parece até que nunca viu mulher." E, pensando bem, fazia tempo que eu não via mesmo. Esse encontro com a Caytlin podia ser uma boa ideia, afinal.

***

estava eufórica e continuava se olhando no espelho compulsivamente, mesmo depois de eu ter dito umas cinquenta vezes que ela estava linda. E ela estava mesmo. Por volta das oito da noite, o Kim bateu na porta.
— Oi! — eu atendi meio sem jeito. — Ela está quase pronta.
— Hã... OK. Eu espero. — ele sorriu sem graça.
— Entra aí.
Kim entrou e ficou esperando na sala, com as mãos nos bolsos. Como não precisávamos mais forçar ou fingir qualquer amizade, já que ele tinha conseguido o que queria de mim, não restava nenhum assunto (nem muita simpatia) entre nós. Ficamos, então, num silêncio bem desconfortável. Um silêncio que ele quebrou da pior maneira possível:
— Sua família aceita isso aí? — e apontou para o meu braço tatuado.
— E a sua? Aceita você saindo com uma estrangeira? — rebati sem pensar.
Kim fechou a cara na hora e o clima definitivamente nublou entre nós. Por sorte, surgiu cumprimentando-o docemente e ela estava bonita demais para ele continuar irritado. Ela me abraçou para se despedir de mim e eu sussurrei, como sempre fazia toda vez que ela saía para um encontro:
— Tchau, . Divirta-se! Se precisar, me liga que eu vou te buscar.
OK. A última parte eu não sussurrei. Queria que o Kim ouvisse.
Não precisa, ela vai ficar bem. Ela está comigo. — Kim respondeu em coreano e tirou dos meus braços.
Pelo seu bem, é melhor que ela fique mesmo. — respondi, também em coreano, já de saco cheio daquele abusado.
— Os dois vão ficar de segredinho agora, é? — perguntou, mas Kim desconversou, levando-a.
E ela foi pela primeira vez. Depois a segunda, a terceira, a quarta... Kim quase sempre vinha buscá-la num carro diferente, todos alugados, e os dois nunca faziam programas com outras pessoas. Me preocupava que ele não quisesse ser visto com a , mas quem não quereria? Ela era espetacular, linda, inteligente e tinha um ótimo gosto para lingeries... o que eu nunca teria percebido até ela aparecer na porta do meu quarto com o vestido aberto na parte de trás:
— J, eu não alcanço o zíper! Me ajuda a fechar?
Afastei o cabelo dela e, conforme subia o zíper pela cintura fina, um calor esquisito me subia também o peito. O sutiã era de renda e vermelho, o que com certeza significava que a não ia dormir em casa naquela noite. De novo.

Capítulo 5

(Pelo desejo da )

Eu já sabia o caminho do imenso saguão até o quarto do Taehyung de cor. Os funcionários do hotel em que ele estava hospedado tinham ordens diretas para me deixar subir a qualquer momento e eram sempre muito solícitos e simpáticos. O serviço era, de fato, cinco estrelas em todos os sentidos: o restaurante era incrível, a sacada e a cobertura eram lindas e a cama do Tae era a mais confortável que eu já experimentei na vida (talvez o fato de o Taehyung estar nela e adorar dormir agarrado tenha ajudado também), mas eu ainda não entendia por que ele não tinha procurado um apartamento para ficar, ou, pelo menos, por que ele não tinha desfeito as malas completamente.
Entrei no quarto sem bater e dei de cara, como sempre, com os livros, as anotações dos estudos grudadas em post-its na parede e o cheiro cítrico dele. Tae estava sentado no sofá do quarto amplo, decorado no estilo minimalista, com o notebook no colo e falando em coreano com alguém. Ele sorriu quando me viu e voltou a encarar o computador. Estava usando uma camisa branca, uma calça social preta e o blazer estava separado em cima da cama, onde eu me sentei. Ele deveria estar se arrumando para o nosso jantar quando recebeu a chamada de vídeo.
Appa... — ele chamou, um pouco receoso. Alternava o olhar entre mim e a tela, com a boca entreaberta, como se estivesse prestes a dizer alguma coisa. Depois de algum tempo, ele finalmente disse algo que eu não entendi e fechou o computador.
— Era o seu pai? — perguntei, reconhecendo a forma como Jungkook chamava o pai dele.
— Era. — o semblante de Taehyung caiu e ele ficou sério de repente. Levantou-se ainda meio cabisbaixo e só conseguiu sorrir quando se aproximou de mim. — Você está mais linda do que o normal. — ele me deu um selinho.
— Tae... está tudo bem? — segurei a nuca dele.
— Sim, só estou um pouco cansado. — ele deslizou minha mão até sua boca e a beijou. — Meu pai estava me atualizando de alguns assuntos da empresa. A parte chata da coisa, sabe? Que bom que você chegou e me salvou. — ele encaixou o próprio rosto na minha mão, pedindo um carinho.
— A gente não precisa sair se você não quiser. Podemos ficar aqui. — sugeri, fazendo a carícia que ele pediu tão descaradamente.
— Jura? Você não fica chateada? — os olhinhos diferentes brilharam.
— Claro que não. — respondi já me livrando dos saltos, para ficar mais à vontade. — Mas eu fico com fome. O que você quer comer?
Ele não respondeu, apenas me olhou de cima a baixo com um meio sorriso que se formou lentamente e arqueando a sobrancelha:
— Taehyung! — censurei.
— Você perguntou o que eu quero... — ele riu e me deu outro selinho. — Mas, tudo bem, vou pedir alguma coisa para comermos. Estou com um merlot maravilhoso aqui que me lembrou você.
— Por quê? — perguntei enquanto ele buscava a garrafa de vinho e me estendia uma taça.
— Fiquei com um gosto inesquecível na boca quando provei. — ele piscou e tomamos um gole depois de brindarmos. — Viu? Aveludado. É o gosto que eu sinto quando beijo você.
Enterneci na hora. Taehyung era um galanteador nato e estava mais atraente que o normal naquela noite. Apesar de jovem, ele entendia de vinhos, de negócios, falava outras línguas além do coreano e do inglês e ficava impecável em um terno. Tinha um jeito naturalmente carismático e muito charmoso e já estava bem habituado ao novo país, à nova universidade e até mesmo a mim. Já fazia pouco mais de um mês que vínhamos trocando beijos e encontros, agora eu estava novamente no quarto dele, assistindo-o trocar a calça social por uma de moletom e a camisa branca por camisa nenhuma, me deixando apreciar a vista do corpo amorenado e definido. Ele sentou-se novamente no sofá para ligar para a recepção e eu aproveitei para checar o celular enquanto ele fazia o pedido. Jungkook tinha me enviado um vídeo absurdo de tão fofo e eu não consegui conter o riso.
— O que é tão engraçado, hein? — Tae perguntou do sofá, desligando o telefone.
— Jungkook me enviou um vídeo adorável de cachorrinhos. Estamos pensando em adotar um. — respondi.
— Ah, o Jeon... — Tae respondeu apático, os olhos ainda mais entediados que o usual. — Esse cara tem tudo mesmo. Você e agora um filhotinho.
— Você não está com ciúmes do meu melhor amigo, está?
— Não. Claro que não. — ele cruzou os braços e abriu mais as pernas, espalhando-se no sofá. Fez um biquinho lindo que eu quis beijar na hora e deu uma olhadinha por cima do nariz. — Quer dizer, eu tenho ciúme dele. Mas só às vezes. Sei lá.
Ri e balancei a cabeça, achando graça da situação. Já tinha notado a disputa de testosterona entre os meus dois coreanos favoritos para saber quem era o macho-alfa e aquilo até que me divertia. Tae ficava lindo todo irritadinho.
Levantei da cama e sentei no colo dele, fazendo um carinho na nuca e subindo pelo cabelo escuro e macio. Contornei o rosto dele com as pontas dos dedos, passando pelos lábios e embalando-os num beijo que tinha o gosto do vinho que tomamos. Ele tinha razão, o merlot tinha um gosto aveludado, a única diferença era que, da língua dele, era mais doce. E quente. Muito mais quente. — E agora? Você ainda está com ciúmes? — sussurrei.
— Um pouco... — ele sussurrou de volta, roçando o nariz no meu.
— E se eu fizer isso? — desprendi lentamente três botões que meu vestido de cetim tinha na frente. — Você ainda vai ficar com ciúmes?
— Talvez. — ele respondeu, olhando meu decote e afastando o tecido. — Tira tudo e a gente vê o que acontece.
Apoiei as mãos no peito dele, percorrendo a suave curva com as unhas, e voltei a beijá-lo. Ele se encolheu um pouco, eriçado, e mordeu meu lábio inferior quando sorriu. Tae se esforçou um pouco para cima e me permitiu sentir algo se avolumando apesar das roupas. Sem interromper o beijo, senti minha intimidade umedecendo conforme eu me esfregava pelo seu membro semiereto. Taehyung respirou pesado no meu ouvido ao perceber minha excitação e eu arqueei as costas, arrepiada.
— Me ajuda? – pedi, manhosa, baixando as alças do meu vestido e conduzindo as mãos dele pelo meu tronco, indicando o zíper.
Ele abriu bem devagar e puxou o vestido para cima. O jeito como ele molhava os lábios enquanto repetia o desenho do sutiã vermelho na minha pele e como eu o sentia aumentando abaixo de mim me deixou quase febril de desejo. Quando Taehyung abriu o fecho, liberando e abocanhando meus seios, eu acendi completamente. A boca dele trilhou o caminho do meu pescoço e a língua grande e quente brincou pela minha orelha:
— Tae... — gemi. — Daqui a pouco chegam com o jantar na porta e eu não vou conseguir parar isso... — avisei com dificuldade.
— Que ouçam o que estamos fazendo, então. — ele puxou levemente meu cabelo e a língua fez o caminho inverso, descendo o meu pescoço e de volta aos seios rígidos e sensíveis, que ele apertava levemente. — Ainda tem muita roupa em você. — ele puxou o elástico da minha calcinha rendada e eu reclamei baixinho quando chicoteou de volta.
Levantei do colo dele e removi a peça, enquanto ele mexia na carteira, ao lado do telefone, procurando um preservativo. Ele puxou a calça de moletom e a boxer preta para baixo e o membro pulou completamente desperto:
— Sua vez de me ajudar. — ele me avisou com a embalagem prateada em mãos.
Ajoelhei entre as coxas dele e segurei a pele ereta, puxando para cima e para baixo vagarosamente. Taehyung endureceu ainda mais entre meus dedos, relaxou as pernas e levou as mãos à cabeça, descansando as costas no sofá. Apertei um pouco mais forte e movimentei a mão mais rápido enquanto ele se retorcia na minha frente, quase se dando por vencido, mas ele ergueu o tronco de uma vez e segurou meu queixo:
— Assim não. — ele passou o polegar pelo meu lábio inferior e eu imediatamente abri a boca, sugando-o. Tae revirou os olhos, ainda ofegante. — Eu quero você. Agora.
— Você gosta de dar ordens, hein? — constatei, soltando o dedo dele e encaixando a proteção. Sentei de volta no colo dele, que me segurou pelo quadril e enfiou a língua na minha boca.
— E você gosta de me provocar. — ele encaixou-se dentro de mim, fazendo movimentos lentos e circulares, como se quisesse me percorrer inteiramente por dentro.
— Tae... — choraminguei, gemendo mais alto conforme ele se aproximava do meu ponto.
— O que foi? — ele apertou minha cintura. — Gosta de provocar, mas não de ser provocada?
— Mais rápido... — implorei.
— Eu quero aproveitar você toda...
Ele me torturou por mais alguns minutos, meu sexo inchado o apertava quando ele finalmente me encontrou. Pus uma mão na boca para abafar um grito e cravei as unhas no abdômen dele com a outra.
— Achei você, ... — ele abriu um sorriso extremamente sensual de satisfação e começou a me mover para frente e para trás enquanto eu o seguia. — Você vai me fazer gozar tão gostoso... — ele avisou num sussurro, sem tirar os olhos de mim.
Meus seios balançavam cada vez mais na medida em que aumentávamos a velocidade e eu sentia que estava quase lá. Ainda estávamos nos encarando quando minhas pernas começaram a pesar e a tremer, anunciando o orgasmo que percorreu todo meu corpo. Taehyung chegou com força e meu sexo sentiu o preservativo esquentando e expandindo lá dentro com o jorro dele, que enterrou a cabeça no sofá gemendo meu nome e mordendo o próprio lábio.
— Isso aqui... — ele disse, recuperando o fôlego e segurando meus seios. — Eu passaria o dia inteiro aqui. Como você consegue fazer outra coisa?
— É só não olhar pra baixo. — selei os lábios dele e ele riu quadrado.
— Por que a borboleta? — ele perguntou, fazendo um carinho numa discreta tatuagem que eu tinha bem no começo da barriga, na fenda do peito.
— Para me lembrar de só fazer as coisas enquanto elas me derem borboletas no estômago. — respondi.
— Você pulsa mesmo num ritmo único, bailarina. — ele abriu o sorriso novamente. — É maravilhoso estar perto de você.
— Eu sei. — dei um beijo estalado na bochecha dele e me levantei.
— Onde você vai? — ele resmungou, dengoso, tirando a camisinha.
— Me vestir? — fiquei de pé na frente dele, apontando para a minha nudez.
— Agora não. — a campainha tocou e ele subiu a boxer e a calça rapidamente. — Vai para o chuveiro que eu te encontro lá. — ele acertou um tapinha na minha bunda.
Os vidros do box embaçaram com a água quente e eu ainda cheirava a Taehyung quando ele correu a porta do banheiro e ficou parado na minha frente, me olhando quase com adoração.
— Você não vem? — perguntei, enquanto a espuma escorria e revelava meu corpo. Ele sorriu com o canto da boca, mas os olhos estavam tristes:
— Estou mapeando você.
— Mapeando? Está perdido, por acaso? — brinquei.
— Estou. E não sei mais o caminho de volta. — ele entrou embaixo do chuveiro e me beijou. Eu ainda estava quente da água e dele, a boca ávida quase não me deixava respirar. Era uma agonia deliciosa.
Tae me colocou na camisa branca dele depois do banho, jantamos e ensaiamos assistir alguma coisa, mas acabamos pegando no sono. Ele repousava tranquilamente e eu, ao contrário dele, sempre me mexi demais até dormindo. A cama era imensa e eu já estava quase na ponta quando a mão morna de Taehyung me puxou pela cintura e ele aninhou-se no meu pescoço, passando a perna por cima de mim:
— Você foi parar muito longe. Não sai de perto de mim não, tá? — ele pediu, rouco, e voltou a dormir, me apertando num abraço.

***

Na manhã seguinte, despertamos com fortes batidas na porta e uma voz masculina chamando por Taehyung. Pela quantidade de apelidos "carinhosos", certamente era um amigo. Esfreguei os olhos e verifiquei o horário no celular:
— Tae, acorda. Nós dormimos até meio-dia. E tem alguém batendo na porta.
— Tem, é? — ele abriu os olhos vagarosamente, sonolento, mas despertou completamente segundos depois, arregalando-os. — Ah, não! O treino hoje às 11:30! — ele pôs a mão no rosto. — Me desculpa, eu preciso ir.
— Tudo bem, esquecido. Eu só vou lavar o rosto. — disse, me levantando para pegar meu vestido e ganhando um selinho dele.
Ele atendeu a porta assanhado e ainda sem camisa. Do banheiro, consegui escutar a conversa:
— Cara, o que aconteceu? Eu te liguei um milhão de vezes.
— Foi mal. Meu celular ficou no silencioso. — ele justificou.
— Você tá atrasado e... Espera aí, tem alguém aqui com você? De quem é aquele sutiã?
"Droga! Eu esqueci completamente!", pensei, com o rosto limpo e terminando de colocar o vestido. Estava pronta para sair do banheiro e explicar ao amigo de Taehyung que eu era o motivo do atraso, mas minha mão congelou na maçaneta quando ouvi a resposta dele:
— De ninguém. Não tem ninguém aqui. — Tae cortou enfaticamente.
— Se você se atrasou porque está com uma líder de torcida, a gente te acoberta para o técnico, cara...
— Já disse, não tem ninguém aqui. — ele repetiu.
— Qual é, cara, vai dizer que aquele sutiã vermelho todo rendado é seu, por acaso? — o amigo insistiu.
— Não é nada importante. Me espera lá embaixo que eu já tô indo. — e ouvi o som da porta fechando.
Minha garganta começou a arranhar com o choro querendo se formar. Foi quando eu reparei que Taehyung ainda não tinha me apresentado a nenhum dos seus amigos ou me convidado para qualquer um dos programas que fazia com eles. Achava apenas que ele era discreto, mas aquele comentário só tinha uma explicação: minha intuição estava certa e Kim Taehyung não passava de um idiota que mudava completamente perto dos amigos (também idiotas).
"Chora em casa.", disse a mim mesma, encarando o espelho e retocando o batom. Enxuguei raivosamente uma ou duas lágrimas que insistiram em escorrer e saí do banheiro, calçando os saltos e colocando a bolsa no ombro.
, por favor, sobre o que você acabou de ouvir...
Fiz um sinal para que ele se calasse:
— Não me segue. Nem me procura mais. Entendeu?
, me deixa te explicar o que aconteceu. — ele pediu com os olhos marejando.
— Não precisa, eu já entendi. Se o seu "não sai de perto de mim" só vale na cama, Kim Taehyung, então eu é que não quero ficar perto de você em lugar nenhum. — caminhei em direção à porta, pisando no meu sutiã que ainda estava no chão. — Pode ficar com ele, aliás. Não é nada importante. — repeti e deixei o quarto.

Capítulo 6

(Pelo desejo do Jungkook)

Eu já estava quase terminando o almoço quando lembrei que estávamos sem o estoque de chocolate trufado de que a precisaria para me contar todos os detalhes de mais uma noite com o Kim. Eu poderia facilmente sair para comprar um ou dois potes, mas preferi não fazê-lo. Talvez, sem o sorvete, ela não falasse. Talvez, só daquela vez, eu definitivamente não quisesse ouvir.
O barulho das chaves denunciava a chegada dela e eu me preparei para ao menos adiar o relato, mas quando ela abriu a porta, seu rosto avermelhado nas bochechas e na pontinha do nariz indicavam que ela tinha chorado. Apaguei o fogo e corri para abraçá-la. Ela apertou minha cintura e deixou mais algumas lágrimas escaparem. Meu corpo inteiro tremeu de ira quando um pensamento me ocorreu:
... — segurei o rosto dela. — Ele machucou você? — perguntei, sério.
— Não, J. Não desse jeito que você está pensando. — ela respondeu e eu vi nos seus olhos que ela não estava mentindo. Suspirei de alívio. Já tinha pensado em pelo menos cinco formas diferentes de acabar com a raça do Kim caso ele tivesse tentado o que quer que fosse sem o consentimento da .
— Onde é que esse desgraçado está agora? — perguntei, enxugando os olhos dela quando ela terminou de me contar o que tinha acontecido.
— Deve estar no campo, treinando. Ou fodendo alguma líder de torcida. — ela falou com desgosto. — Mas de jeito nenhum você vai falar com ele, entendeu?
— Quem disse que eu quero falar?
— Por isso mesmo que eu não posso te deixar ir. O campo fica dentro da universidade, e se você perder sua bolsa por causa de uma briga? Não vale a pena.
— Então eu posso bater nele em outro lugar?
riu. Finalmente. Eu queria mantê-la assim para sempre.
— Me dá 45 minutos para chorar no chuveiro e tirar esse cheiro de Taehyung de mim. Mais três dias para definhar no meu quarto de pijama. Depois eu prometo que vou ficar bem. — ela sorriu sem mostrar os dentes e foi para o quarto dela.
Estava preocupado, é claro, mas eu entendia como a funcionava e ela mesma já tinha colocado uma data de validade naquela fossa. Eu sabia que ela iria se refazer — o que não mudava em nada o fato de que eu queria quebrar todos os dentes do Kim. Não via a hora de ir para o treino de boxe mais tarde e fingir que o saco de pancadas era ele.
Terminei de arrumar a cozinha e fui para o meu quarto, me atirando na cama. Liguei a televisão e selecionei um título aleatório, mas fiquei entediado e comecei a brincar com action figures na prateleira ao lado. Eu já estava velho demais para fazer os efeitos sonoros, mas era bem mais legal assim.
— É sério isso aí? — apareceu na porta, usando uma camiseta larga de Star Wars e um short preto minúsculo.
— Nem vem. — continuei fazendo barulhos de soco enquanto brincava. — Você é a única garota que sabe disso.
— Não é disso que eu tô falando, nerd. Deadpool x Aquaman? Eles nem são do mesmo universo, ô dodói. — ela entrou no quarto. — Posso definhar um pouco aqui com você?
"Não com esse short desse tamanho.", pensei, me repreendendo na mesma hora e colocando os bonecos de volta no lugar. Ela queria meu apoio como melhor amigo, e não que eu reparasse na bunda dela — que, por sinal, estava maravilhosa.
— Pijama do Darth Vader? — comentei e me ajeitei na cama, sinalizando o lugar ao meu lado para ela.
— Estou 100% do lado negro da força agora. O que você está assistindo?
— Não tenho certeza. Parece terror. E é bem ruim.
— Perfeito. Não quero ver nenhum filme com casal feliz. Ou qualquer outro ser humano feliz. — ela respondeu, sentando-se ao meu lado e passando meu braço em volta do pescoço dela. Meu coração bateu todo errado porque ela estava cheirando a hidratante de morango e o short ficava mais curto a cada vez que ela se mexia. Puxei meu cobertor do Homem-Aranha, que eu escondia embaixo de um travesseiro, e cobri nossas pernas expostas:
— Tá se sentindo melhor?
— Não muito, mas eu vou.
— Você quer que eu falte o treino hoje para ficar com você?
— De jeito nenhum! É praticamente a única coisa que consegue te tirar de casa por livre e espontânea vontade. E eu sei o quanto você gosta do boxe.
— É quase uma terapia para mim. — confessei. — Quando estou aprendendo o ritmo dos golpes, da minha respiração e do meu corpo, eu me sinto em equilíbrio comigo mesmo.
— Eu bem que estou precisando de equilíbrio… — ela suspirou. — Estou quase desistindo de acertar meu arabesque.
— Você me chamou de quê? — perguntei, estranhando aquele termo.
Arabesque, seu tonto. — ela ensaiou uma risada. — É um movimento de balé em que a gente ergue a perna de trabalho para trás e para cima. — os dedos dela desenharam o movimento no ar.
— Então é só levantar uma perna e manter a outra no chão?
— Numa sapatilha de ponta.
— Oh... Isso complica um pouco as coisas.
— Nem me fale. — ela soprou, decepcionada. — Sempre fico pendendo para a frente ou para os lados... Falta pouco para eu me esborrachar no chão.
— Você pode me avisar quando isso aí acontecer? Quero estar na primeira fila.
— Eu odeio você. — ela me deu uma leve cotovelada e eu ri da sua irritação.
— Eu vou estar lá quando você achar seu equilíbrio, , você sabe.
Ela reclinou-se e me abraçou, descansando a cabeça no meu peito. Levantou um pouco o rosto e encontrou o meu pescoço, onde ela deixou um beijo que me pegou totalmente desprevenido:
— Obrigada por cuidar de mim, J.
— Imagina. — estreitei mais ainda o abraço, arrepiado. — É só me dizer se houver algo que eu possa fazer.
— Canta para mim? — ela pediu baixinho.
— Ah, ...
— Por favor, J. — ela insistiu, fazendo um beicinho. — Sua voz é tão linda e doce! É a única coisa que me acalma.
— O que você quer ouvir? — perguntei, rendido.
— A que você estiver pensando nesse exato momento. — ela se acomodou melhor em mim e na cama. Puxei o ar bem fundo e comecei a cantar We Dont Talk Anymore enquanto arrastava o mindinho pelo nariz dela. Os olhinhos da começaram a pesar e a letra começou a me doer, mas eu terminei mesmo assim.
Don't wanna know
Kind of dress you're wearing Tonight
If he's holding onto you so tight
The way I did before
I overdosed
Should've known your love was a game
Now I can't get you out of my brain
Oh, it's such a shame


***

acabou adormecendo nos meus braços, mas minha aula começava em meia hora e eu precisava ir. Eu precisava ir, certo? Ir para o treino, bater em alguma coisa, esquecer como o cabelo dela tinha um cheiro bom e como ela encaixava direitinho no meu abraço. Tentei me mexer cuidadosamente para não acordá-la, mas, caralho, por que era tão difícil sair de perto dela? Por que o meu corpo reclamou tanto quando eu me desprendi dela e levantei da cama?
Ajeitei melhor o cobertor para mantê-la aquecida, embora eu tivesse certeza de que não adiantaria muita coisa deixá-la toda embrulhada: ela não ficava quieta nem para dormir. Coloquei o cabelo dela atrás da orelha e pensei em carregá-la até o seu quarto, mas me dei conta de que eu gostava muito mais da ideia de tê-la na minha cama quando eu chegasse...
Eu só podia estar enlouquecendo.
Decidi tomar uma chuveirada antes de ir para a aula, esperando que a água lavasse aqueles pensamentos malucos da minha cabeça, mas só o que eu consegui fazer foi lembrar do decote, do sutiã vermelho, do short e de como a deveria ser flexível por conta do balé… Alguém entre as minhas pernas estava começando a se animar:
“Você só pode estar brincando comigo. Não podemos desejá-la, cara. Vai dormir.”, disse a mim mesmo, mudando a temperatura da água para a mais baixa possível.
Depois do banho gelado, que tinha durado mais do que eu planejava na tentativa de fazer o sangue voltar a irrigar a cabeça certa, enrolei uma toalha na cintura e saí do banheiro para buscar minhas roupas. tinha acordado e estava sentada na beira da cama, me olhando fixamente:
— Que bom, você tá viva. Eu estava preocupado, você dormiu sem se mexer.
No entanto, em vez de me responder, continuou me olhando e mordeu o lábio.
? — estranhei. Ela nunca passava muito tempo calada.
soltou o lábio e cruzou as pernas, sem tirar os olhos de mim. Ela ruborizou um pouco e respirou alto. Ela estava... me secando?
, tá tudo bem aí? — insisti.
— Ah, tá tudo bem sim. — ela respondeu, finalmente. — Tá tudo ótimo...

Capítulo 7

(Pelo corpo da )

— Por que você tá me olhando com essa cara? — Jungkook teve a audácia de me perguntar. Esqueceram de avisar para ele o quanto ele era gostoso?
"Porque você tá me dando um tesão desgraçado, por isso", mordi o lábio tentando impedir que o pensamento escapasse para a boca. Era melhor que eu ficasse calada porque, se eu dissesse qualquer coisa, ele ficaria envergonhado e correria para se vestir. E se torcer para que aquela toalha caísse era errado, eu que não queria estar certa.
Já fazia um bom tempo desde a última vez que vi Jungkook sem camisa e era a primeira vez que eu o via assim, sem nada além daquele maldito tecido branco. De lá para cá, nunca tinha tido a oportunidade de observar o quanto o corpo dele tinha mudado. Para melhor, é óbvio. Ele definitivamente deveria usar menos roupa em casa e me deixar ver mais vezes o braço completamente marcado de tinta, a cintura fina e as entradas indicando o caminho, que foram mais do que suficientes para me deixar com água na boca.
Meu estômago revirou de um calafrio e eu salivei. Quem era aquele Jungkook? Onde ele estava escondido esse tempo todo? Por que meu coração e meu sexo estavam palpitando conforme ele se aproximava?
? — ele chamou.
A toalha descia timidamente a cada passo que ele dava na minha direção. Ele sacudiu os cabelos para tirar o excesso de umidade e alguns filetes de água desceram pelo peito imenso e escorreram pelos gomos da barriga definida. Eu só queria saber onde aquela trilha terminava...
, você tá aí parada há um tempão. Faz alguma coisa!
"Quer saber? Foda-se. Foi ele quem pediu."
Puxei a toalha de uma vez e me levantei em seguida, colando meu corpo ao dele, ainda molhado. Inspirei o cheiro de banho recém-tomado e enfiei meus dedos no seu cabelo úmido, marcando-lhe a boca com um beijo que fez ele suspirar e crescer na minha frente. Ele apertou minha bunda com as duas mãos cheias, mas respirou fundo e voltou a si por um instante:
... o que estamos fazendo?
— Shhh. Não pensa. Não fala. Só me deixa terminar. — ordenei, mordendo o lóbulo da orelha dele e sentindo a pele dele arrepiar sobre a minha.
Desci meus lábios pelo seu pescoço, peito e abdômen, beijando cada centímetro que encontrei pelo trajeto. Sentei na cama e massageei o membro dele, que ficava cada vez mais rígido e latejava nas minhas mãos. Eu já tinha me dado por perdida e, àquela altura, eu estava faminta. Não havia mais nada a fazer a não ser prová-lo.
Fechei o punho nele e ainda assim sobrou bastante da ereção palpitando ardente entre meus dedos<. Comecei a lambê-lo, movimentando minha cabeça de modo a soltá-lo apenas para guardar tudo novamente. Jungkook pulsava na minha boca e eu sentia o tronco dele lutar para acertar a respiração alta. Suguei mais rápido e mais forte, usando a língua como tapete sobre os dentes para não machucá-lo com o movimento agora frenético dos meus lábios.
— Por favor, não para. — ele pediu, sôfrego, segurando meu rosto. — Eu estou quase chegando.
Eu queria que ele chegasse. Eu precisava saber que gosto tinha.
Ele gemeu rouco, apertando os olhos, quando o jato quente preencheu minha boca e desceu ainda morno pela garganta. Jungkook era doce no começo e salgado no final. Engoli até a última gota, satisfeita, e quando olhei para cima, assisti seu peitoral malhado contraindo e expandindo conforme ele reavia o fôlego. Ele se retirou de mim tremendo e eu me preparei para levantar, mas ele me empurrou deitada na cama:
— Você só sai daqui depois que eu te saciar. — ele decretou, ajoelhando-se na minha frente e encaixando os dedos no elástico da minha peça de baixo.
Ele jogou o pescoço para trás e prendeu o lábio inferior com os dentes quando descobriu que eu não trazia mais nada entre a pele e o short. Fechou os olhos e gemeu:
— Ah, ! Você dorme sem calcinha! Como eu vou parar de pensar nisso agora?
— Como eu vou parar de pensar em você só de toalha? — respondi, deixando que ele apoiasse minha perna por cima do seu ombro e afastasse a outra, me fazendo abrir passagem para a língua dele, que vinha me desenhando o percurso na coxa interna até alcançar minha intimidade.
Ele não demorou muito para me descobrir, mas demorou-se bastante estimulando o local exato do meu prazer. A língua inquieta dele só me deixou para que ele encaixasse a mão entre as minhas pernas e me adentrasse com dois dedos que se moviam energicamente lá dentro. Jungkook me assistia satisfeito enquanto eu me contorcia de prazer:
— Pode vir, . — ele pediu, lambendo o gosto que eu deixei na boca dele. — Eu quero ver isso.
Minha vista escureceu e o ar ficou rarefeito de repente. Eu sentia o ápice se aproximando, se alastrando pelas minhas vísceras, e quando por fim atingi o orgasmo...
Eu acordei.
De um sonho erótico. Com meu melhor amigo.
Sentei rapidamente, suada e ofegante e, quando mexi minhas pernas, me dei conta de que estava encharcada.
"Ele é mesmo bom em tudo. Me fez gozar sem nem tocar em mim.", pensei, ainda confusa. Não era a primeira vez que Jungkook aparecia nos meus sonhos, mas nenhum deles tinha sido tão explícito e intenso assim. Vê-lo com aquele corpo magnífico coberto apenas por uma toalha branca tinha bagunçado a minha cabeça. Já tinham se passado alguns dias e a imagem de Jungkook seminu continuava bem vívida na minha memória e, pelo visto, no meu corpo também.
Levantei para tomar um banho e me preparar para a aula de balé, ainda assimilando aquele sonho maluco. Gostoso, mas maluco. Vesti um collant preto que era completamente aberto nas costas, coloquei um short jeans por cima e ajeitei o meião rosa, a sapatilha e as ponteiras na bolsa. Não gostava de sair por aí com o figurino completo de bailarina e me trocava sempre que chegava ao estúdio, bem próximo do nosso apartamento.
Saí do quarto e Jungkook estava na cozinha, com um pano de copa no ombro coberto, infelizmente, por uma camisa:
— Eu tenho uma péssima notícia para você...
"Que você está vestido? Eu já percebi."
— Nós estamos sem café. — ele me avisou. — Mas eu dei uma espiada pela janela e vi que a dona Aurora já abriu.
Não consegui conter o sorriso. Adorava a dona Aurora. Ela era uma simpática e amável senhora, proprietária de um charmoso café que ficava ao ar livre no parque da esquina. Eu e Jungkook sempre passávamos por lá e pedíamos as mesmas bebidas, Dona Aurora já nos conhecia e nutria por nós um carinho quase maternal. Eu estava absorta nesse pensamento enquanto andávamos até o parque, quando Jungkook segurou minha mão e, como de costume, conduziu meu corpo para o lado direito dele:
— Por que você sempre faz isso? — perguntei.
— O quê? — ele respondeu sem perceber o que tinha feito.
— Você sempre me coloca do lado da calçada quando estamos andando.
— É instintivo. — ele sorriu sem jeito, encolhendo os ombros e franzindo o nariz. — A calçada é o lado mais seguro da rua, além do mais, se algo acontecer, eu vejo primeiro e protejo você.
— Você é meu herói. — abracei o braço dele e continuamos caminhando. — Peter Parker se orgulharia de você.
— Eu sou Peter Parker. Mas não conte a ninguém. — ele levou o indicador a boca e eu quase tropecei.
— A minha bailarina e o meu lutador! — dona Aurora sorriu e juntou as mãos perto do coração quando nos viu chegando. — Como estão meus clientes favoritos?
— Dona Aurora! Falando assim, os outros vão ficar chateados. — Jungkook brincou e eu joguei um beijo para ela.
— Quem liga? — dona Aurora deu uma sonora risada. — Esperem um pouquinho, já vou preparar o frappuccino da minha e o café preto do meu JK.
Eu achava de uma doçura sem tamanho o modo como dona Aurora sempre se referia a nós como sendo "dela". Eu tinha saudades de me sentir "de alguém" desde o divórcio dos meus pais e sempre ficava meio sensível quando sofria uma rejeição, como a que eu sofri com o Taehyung.
Inferno. O Taehyung. O mesmo que me deu um belo de um fora e que, por uma piada do destino, estava sentado tranquilamente em uma das mesas, com um café gelado e um livro na mão.
Desde que eu o deixei no quarto do hotel, Taehyung tinha me ligado e mandado inúmeras mensagens pedindo que eu aceitasse conversar com ele, mas eu tinha ignorado todas e aquela era a primeira vez que nos víamos desde o término — se é que eu poderia chamar de término. Segundo ele mesmo, o que tínhamos não era nada importante. Fiquei triste nos primeiros dias, mas, agora, sempre que eu lembrava do acontecido, o que eu sentia era raiva. Muita raiva. Ele bateu os olhos em mim e eu virei rapidamente, constatando pela expressão de Jungkook que ele também já tinha notado a sua presença.
— Diz que ele não me viu ainda. — pedi, de frente para Jungkook e de costas para Taehyung.
— Diz que eu posso bater nele agora. — ele respondeu trincando o queixo e lançando um olhar de ódio na direção dele.
— Não, não pode. Ele viu ou não viu? — insisti na pergunta.
— Viu, mas não parece muito feliz. Deve ser porque eu estou com você.
— É. Ele nunca foi muito com a sua cara mesmo... — lembrei, enquanto uma ideia se mexia no fundo da minha cabeça.
— Nem eu com a dele. Tenho esse Kim atravessado na garganta desde o início.
— Na certa ele se sente ameaçado por você porque você é bonito. — pisquei para ele e ajeitei o colarinho da sua camisa entreaberta, esperando que Taehyung visse e se incomodasse. Jungkook me conhecia como ninguém e percebeu meu plano na hora.
— Você não está pensando em me usar para fazer ciúmes nesse cara, está?
Sorri para ele mordendo o lábio e com os olhos brilhando.
— Maldita. Você está.
— Anda, J! Eu só quero que ele fique tão irritado como eu fiquei!
Jungkook pensou um pouco, balançou a cabeça e sorriu. Por fim, coçou a nuca e concordou:
— Você é maluca, . — ele falou, rodeando minha cintura e me puxando para mais perto. — Mas se é para deixar o engomadinho puto, eu topo. Além do mais, eu sempre faço o que você quer, não é? — ele disse, me encarando.
Eu não sabia dizer o que era, mas havia alguma coisa diferente na forma como Jungkook me olhou naquele momento. Por um instante, ele não parecia o meu melhor amigo tímido e que evitava contato visual, ele parecia o cara sexy e agridoce do meu sonho molhado. Corri as mãos ao redor do seu pescoço, tentando me lembrar mentalmente que o que eu queria mesmo era atingir o Taehyung, mas, por Deus, aquele perfume amadeirado dele sempre foi tão gostoso assim?
— Droga. Acho que não está funcionando. — constatei depois de arriscar olhar para Taehyung por cima dos ombros e vê-lo distraído com o livro. — Mas obrigada mesmo assim. — segurei o rosto de Jungkook e deixei um beijo na bochecha dele, sentindo a barba por fazer me pinicar um pouco.
, esse beijo aí não vai convencer.
— O quê?
— Confia em mim, tá? — ele sussurrou.
Jungkook apertou mais o cerco em volta da minha cintura, me deixando sentir seu coração batendo apressado contra o meu peito. Aquela proximidade me enfraqueceu as pernas, que vacilaram e quiseram me trair, e eu amoleci com o carinho que ele fez nas minhas costas antes do braço forte me imprensar contra o corpo grande e quente. Ele passeou pelo meu rosto com o dorso das mãos e as letras desenhadas nos dedos desceram pelo meu maxilar, segurando meu queixo. Me olhou profundamente com os olhos de jabuticaba, encantados de tudo, como se quisesse me pedir permissão para a loucura que estava prestes a fazer, e, por um momento, eu desaprendi a respirar.
Jungkook encostou o nariz no meu e o piercing dele arrastou de leve no meu lábio quando ele entreabriu a boca e me beijou, lento, doce e delicioso. Ele me beijou como quem esperava há muito tempo. Ele me beijou como quem tinha sede.
As mãos dele ainda brincavam pelo meu rosto e se perderam no meu cabelo. Ele descolou minimamente dos meus lábios, tomando um breve fôlego e, em vez de parar aquela (deliciosa) insanidade, a língua dele procurou entrar na minha boca.
E eu deixei.

Capítulo 8

(Pelo corpo do Jungkook)

Os cabelos da estavam emaranhados nos meus dedos e a brisa que circulava no parque fazia o perfume dela subir. Ela tinha gosto de maçã, era doce e saciava a sede. Aquilo era uma loucura, mas ela não estava resistindo e eu não queria parar.
Eu não queria, mas eu precisava. Não podíamos misturar as coisas — embora tudo o que eu mais desejasse naquele momento era que a língua dela se confundisse ainda mais com a minha. Estávamos indo longe demais e, afinal de contas, ela estava fazendo aquilo para chamar a atenção de outro cara. Um cara que eu detestava.
Deixei os lábios carnudos dela com algum esforço e me empenhei para me recompor. estava, mais uma vez, me encarando daquele jeito fixo que ela me olhou quando estava acordando na minha cama há alguns dias e aquilo me encantava quase tanto quanto me apavorava. Parecia que ela queria ler minha alma e eu senti que se não desviasse dos seus olhos redondos e cor de mel, ela me devoraria. Uma parte meio dormente de mim queria deixar, mas a outra estava acordada e viu Kim possesso de raiva, fechando o livro com força e levantando-se para ir embora:
— Deu certo. Ele acabou de sair batendo os pés de tão zangado. — disse.
— Ele quem? — me perguntou, atônita.
— O Kim. Irritamos ele com o beijo, lembra? Eu queria fazer isso há tanto tempo...
— Fazer o quê? — ela ficou ligeira e adoravelmente corada.
— Irritar o Kim. — menti. Eu estava falando do beijo.
sorriu sem jeito, suspirou e passou as mãos pelo próprio corpo, agitando os dedos. Ficou procurando para onde olhar, nervosa, até que dona Aurora nos chamou com um grande sorriso e segurando nossos copos:
— Peguem logo! Quero ficar com as mãos livres para aplaudir aquele beijo! Sempre torci por vocês! — dona Aurora disse, emocionada.
Sinceramente, depois daquele beijo, até eu estava torcendo por nós. Não posso negar que também estava aterrorizado, com medo de estar confundindo os meus sentimentos pela e os dela por mim. Que raios estava acontecendo, afinal? Que diabos eu estava pensando quando beijei minha melhor amiga?
— Nós só queríamos fazer uma cena para causar ciúmes em alguém, dona Aurora. — busquei na a convicção que faltava em mim. — Não é, ?
— Claro... — ela respondeu depois de um tempo. — Foi uma encenação. J e eu somos melhores amigos. — ela me olhou e deu um sorriso.
— Uma coisa não impede a outra. — Dona Aurora deu de ombros e gargalhou.
"Não impede, mas estraga." algum lugar desperto do meu cérebro me avisou. E não, eu não poderia arriscar perder a . O melhor a fazer era esquecer aquele beijo e fingir que nada havia acontecido. Mas esquecer como, se meus lábios já estavam ardendo e pedindo por ela?
Agitei a cabeça, culpando o café que desceu pela garganta quente e rápido demais. Quem sabe eu só estivesse carente ou qualquer coisa parecida. Me peguei pensando que estava passando da hora de chamar a Caytlin para sair quando e eu conversávamos naturalmente sobre outras coisas a caminho do estúdio de dança. Ela me convidou para assistir ao ensaio, mas eu precisava de um tempo sozinho para processar o que tinha acabado de acontecer e para me concentrar em outra garota. Estava decidido a sair com a Caytlin e, com sorte, tudo voltaria ao normal. Por favor, tinha que voltar ao normal! Aquele beijo tinha me quebrado, estava confuso, assustado e, ao mesmo tempo, querendo desesperadamente mais.
Eu precisava bater em alguma coisa para me livrar daquela ansiedade.
Passei em casa para buscar as ataduras e as luvas e fui para a academia. Treinei até a exaustão, só parei quando as juntas a ponto de sangrar me avisaram que meu pulso estava quase abrindo e que não importava quantos golpes eu deferia naquele saco de pancadas, nada, nem o sal do meu suor me tirava o gosto dela da boca. Tomei uma chuveirada rápida e me preparei para ir embora, mas, quando desci as escadas e coloquei o pé na calçada, demorei para acreditar no que estava na minha frente:
— Eu tô te vendo bem mais do que eu gostaria hoje. Tá perdido, cara? — falei rispidamente na direção do Kim, que estava encostado num carro estacionado em frente à academia.
— Eu tenho que falar com ela. — Kim disse, ignorando a minha pergunta. — Infelizmente, preciso da sua ajuda para isso.
— Você espera mesmo que eu te ajude depois do que você fez?
— Eu não podia deixar ninguém descobrir sobre ela e você sabe o porquê.
Eu sabia, afinal, eu também era coreano. Eu sabia tanto que até tentaria "entender". Mas ele tinha mexido com a estrangeira errada. Era a minha .
— Eu quero que você convença a a falar comigo. — ele insistiu.
— Vai ficar querendo. — respondi irritado com o tom que ele tinha usado.
— Você não entende o que a e eu tivemos, Jeon. Não me leve a mal, o sexo era incrível, mas era mais do que isso. — ele mostrou o sorriso retangular estúpido, como se mascasse um chiclete imaginário.
Aquele filho da puta estava tentando me irritar? Porque ele estava conseguindo.
— Tira o nome da dessa sua boca ou eu mesmo arranco para você. — ameacei e comecei a andar.
— Você parece frustrado, cara. — ele provocou enquanto me seguia. — A culpa não é minha se você gosta dela, mas é covarde demais para fazer alguma coisa além daquele teatrinho. Que porra foi aquela?
Dei meia volta e respirei fundo. O sangue fervilhou nas minhas veias.
— Eu beijei uma garota incrível na frente de todo mundo. Como um homem de verdade. — rebati.
— Um homem de verdade não precisa de plateia para fazê-la gemer como eu fiz. — ele falou soberbamente dando um meio sorriso.
Fui tomado de uma ira crescente que estremeceu todo meu corpo, se espalhando dentro de mim e explodindo num cruzado de direita na boca daquele imbecil. Um apagão: quando dei por mim, já tinha feito e Kim já estava virando o rosto com uma expressão profunda de desprezo. Eu podia jurar que o desgraçado estava rindo quando cuspiu um bocado de sangue no chão e passou a língua nos dentes lentamente:
— Ainda estão todos aí. Na próxima, eu já não garanto. — ralhei. Eu estava tão cego de raiva que sequer consegui me defender da ofensiva do Kim, que me acertou um soco no olho e me embaçou a vista por alguns segundos.
— Ei, ei, ei! — era a voz do Big Joe, dono da academia, já habituado a ver conflitos entre alunos. — Nada de dançar aqui na calçada, rapazes. Se quiserem lutar, lutem lá dentro.
Kim fuzilou Joe com aqueles malditos olhos trocados, passou a mão no local golpeado e entrou no carro batendo a porta. Saiu abruptamente e os pneus cantaram no asfalto.
— Desculpa, Joe. — falei, tocando minha sobrancelha e percebendo que eu também estava sangrando.
— É para isso que você treina que nem um desgraçado, é? Para ficar dando soquinho no coleguinha coreano? Esse aí não é você! — Joe me censurou. Era um grosseirão, mas gostava de mim e me aconselhava sempre.
— Só manda esse otário embora se ele aparecer de novo. — olhei minha mão trêmula manchada de vermelho do meu próprio sangue.
— "Manda esse otário embora se ele aparecer de novo". — ele me imitou torcendo a boca. — Vai embora você. E vai andando, para esfriar essa cabeça. Dá aqui a chave da sua moto. Amanhã você pega, nervosinho.
Obedeci o grandalhão e a caminhada de volta me acalmou um pouco os ânimos. Entrei em casa e a primeira coisa que eu fiz foi me jogar no sofá. Inferno de enxaqueca, até a luz do abajur me doía. Ouvi a voz da saindo do seu quarto e preenchendo a sala:
— J, estou indo buscar o jantar, você prefere... Ai, meu Deus! — ela parou a frase e deixou a carteira cair no chão. — O que aconteceu com o seu rosto?
"Eu apanhei, mas também bati. E queria ter batido mais."
— Fiquei distraído durante o treino e caí de cara na lona. — menti.
franziu o cenho, como se duvidasse do que eu tinha acabado de falar, mas não questionou. Apenas entrou no banheiro e saiu de lá com a caixa de primeiros socorros, sentando-se ao meu lado para analisar o ferimento com um olhar sério e as mãos cheirando a antisséptico.
— Isso aí tá bem feio. — ela sentenciou.
— Ai, porra! — reclamei.
— Se você parasse de se mexer já ajudava, sabia?
— Mas tá doendo! — choraminguei enquanto ela limpava o sangue com uma solução que ardia. — , pelo amor de Deus, o que é isso?
— É só soro fisiológico, seu chorão. Fica quieto!
Era sem querer, eu me remexia feito uma tarântula porque meu rosto estava muito sensível e doendo bastante. O infeliz do Kim tinha me acertado em cheio. Prendi as duas mãozinhas da juntas, obrigando-a a parar o movimento, e ela arfou e revirou os olhos, ainda segurando o algodão imbuído de soro:
— Não me faça ter que partir para a ignorância. Você sabe que eu limpo isso aí à força.
— E quem é que vai me segurar? Você com esse seu corpinho de bailarina? — desdenhei do tamanho dela. Quando estávamos de pé, ela batia praticamente no meu peito.
passou uma perna de cada lado do meu corpo, desvencilhando-se das minhas mãos e sentando-se sobre minhas coxas. Segurou firmemente meu rosto e voltou a limpar onde a ferida estava mais funda e mais dolorida. Tentei levantar, mas ela usou o peso do próprio corpo contra mim para me obrigar a ficar sentado:
— Nunca subestime a força física de uma bailarina, lutador. Eu sustento esse corpinho inteiro numa ponta. — ela disse, tão próxima de mim que eu sentia sua respiração.
O hálito quente dela me fez lembrar o nosso beijo e o quanto eu queria repeti-lo. Ah, o gosto de maçã que eu ainda sentia e que levou minha língua seca ao céu da boca... Apertei os olhos com força, inclinando a cabeça para trás involuntariamente para afastar o pensamento, mas venceu a distância deslizando o corpo dela para mais perto do meu e deu uma leve quicada no meu colo ao fazê-lo:
— Fica. Quieto. — ela ordenou mais uma vez, concentrada em concluir seu trabalho.
OK. Agora eu tinha que ficar quieto ou alguém lá embaixo acordaria.
Baixei os olhos e o short dela, que já era minúsculo, estava enrolando nas pernas grossas. Por que todas as roupas da eram tão curtas? Olhei para cima, procurando um alvo menos perigoso para concentrar a vista, e dei de cara com a boca dela e a marcação sinuosa do arco do cupido quase como um convite. Estava sem saída. Só me restava fechar os olhos e torcer para que ela terminasse logo.
— Está limpo. — ela avisou. — Agora o remédio. Isso sim pode arder um pouco.
Ela borrifou o cicatrizante no meu rosto cuidadosamente e eu senti a ardência sobre a qual ela me alertou. Apertei as coxas dela, sugando o ar entre os dentes, e ela finalizou com um curativo e um beijo na minha bochecha:
— Para sarar mais rápido. — ela sorriu e eu segurei, por muito pouco, o ímpeto de beijá-la novamente. Aquele meu desejo quase descontrolado pela só podia ser tesão acumulado. Já fazia um tempo que eu não pegava ninguém, era isso. Tinha que ser isso.
— Será que sara até amanhã? — perguntei. — Não queria ter que sair com a Caytlin de cara inchada...
— Vocês vão sair? — indagou, surpresa.
— Amanhã à noite. — confirmei.
— Ah... Que bom... — ela saiu de cima de mim, guardando as coisas de volta na caixa de primeiros socorros rapidamente. — Tenho certeza de que ela não vai se importar com seu rosto assim, J. Vai dar tudo certo. — ela deu um sorriso labial.
— Obrigado, . Quer que eu vá com você buscar o jantar?
— Pode ir sem mim, estou sem fome e meio cansada, acho que já vou me deitar. Te vejo amanhã, OK? — ela sumiu no quarto dela e fechou a porta.
Comi qualquer coisa que tínhamos na geladeira mesmo e também me preparei para dormir. Deixei minha porta aberta, na esperança de que surgisse com mais um pijama revelador demais.
Mas eu esperei quase a noite toda e ela não apareceu.

Capítulo 9

(Pelo coração da )

Eu não podia reclamar, não tinha esse direito. Na verdade, se eu tinha alguma coisa, era uma boa parcela de culpa: eu fui a pessoa que mais insistiu para que Jungkook desse uma chance para Caytlin e agora os dois teriam um encontro. Ela certamente vai aparecer linda num vestido preto justíssimo que eu ajudei a escolher, trocar o perfume doce pelo que eu sugeri e conversar com ele sobre os assuntos preferidos dele, que por acaso eu listei e mandei para ela por mensagem semanas atrás. Eu tinha mesmo entregado Jungkook de bandeja e agora eu teria que me virar sozinha para esquecer aquele maldito sonho e aquele maldito beijo.
Desisti de tentar dormir e abri um pouco as cortinas, os primeiros raios de sol já estavam deitando timidamente na janela e estava quase clareando. Comecei a me aprontar, precisava sair mais cedo de casa para evitar Jungkook. Não queria que ele percebesse o quanto eu estava enciumada e, de fato, eu não deveria estar. Eu deveria torcer pela felicidade do meu melhor amigo... certo?
Juntei minhas coisas e escrevi um bilhete para ele no mural que tínhamos na geladeira: "Ocupada demais hoje, te vejo mais tarde. Boa sorte no seu encontro!", e saí de casa torcendo para que dona Aurora já estivesse ao menos abrindo as portas àquele horário.
— Você caiu da cama, meu bem? — dona Aurora me perguntou segurando um molho de chaves quando me viu em frente à cafeteria.
— Estou no meio de uma crise que só o seu frapuccino pode resolver. Será que a senhora poderia abrir mais cedo para a sua bailarina?
— Vem, meu amor, vamos comer juntas. — ela sorriu e eu a ajudei a abrir o portão de ferro. Deixamos as portas baixas e ela começou a preparar o café e umas panquecas que cheiravam incrivelmente bem.
— Eu já fui uma bailarina, sabia? — ela disse quando nos sentamos à mesa, apontando para as sapatilhas na minha bolsa. — Há muito, muito tempo, quando meu corpo estava todo em dia assim que nem o seu.
— Meu corpo anda de mal comigo ultimamente, dona Aurora... Não estou acertando meu arabesque.
— Isso é porque você está dançando com a cabeça, minha querida. Dance com o seu coração e seu corpo vai segui-lo. Você tem uma coisa para resolver aí dentro, não tem? — ela me deu um reconfortante sorriso.
— Eu tenho sim. Obrigada, dona Aurora. Pelo café e pelo conselho. — agradeci e tentei convencê-la a me deixar lavar a louça antes de ir para a minha aula. Demorou, mas ela cedeu. Quando terminei de limpar tudo, ela me deu um abraço demorado.
— Dê um beijo no meu lutador por mim. E depois, dê outro por você. De preferência um daqueles que vocês deram ontem. — ela piscou, rindo.
Esbocei um sorriso que saiu com gosto de saudade. Ao que parecia, aquele tinha sido nosso primeiro e único beijo e eu precisava me conformar ou, pelo menos por enquanto, me distrair. Pratiquei no estúdio a manhã inteira, almocei com umas amigas e, à tarde, fui para a biblioteca da universidade estudar e concluir alguns trabalhos. Quanto mais eu me forçava a não pensar no Jungkook e naquele beijo, mais forte me vinha a lembrança. E não só do beijo, mas da voz doce que cantava para mim sempre que eu pedia, da risada tímida que fazia ele contrair os ombros e mexer o nariz e de como ele sempre esteve lá por mim.
Céus. O que aconteceu que me fez vê-lo assim tão diferente, de um jeito que eu nunca tinha visto em todos esses anos? Foi o sonho? Foi o beijo? Foi o fato de termos começado a morar juntos?
Porra. A gente morava junto! Lembrar disso foi como um soco no estômago e, de repente, a boca amargou. Minha cabeça deu um giro e eu larguei a caneta em cima dos livros, afundando o rosto nas mãos. Uma fadiga inexplicável me atingiu como uma pancada, parecia que meus ossos tinham sido moídos e colocados de volta dentro do meu corpo. O pensamento que eu tive me causou ânsia e uma sensação de febre repentina.
E se ele levasse a Caytlin para o apartamento? O nosso apartamento? Eu... ouviria tudo do quarto ao lado?!
— Não! — deixei escapar um grito de repulsa que foi abafado pelo "shhh" da bibliotecária. Espremi as têmporas, puxando da memória um lugar onde eu pudesse passar a noite fazendo qualquer outra coisa que não ficar de camarote do Jungkook se dando bem.
Enfim, um clarão na minha mente. Eu tinha um local, afinal.
Já era noite quando decidi rumar para o meu esconderijo, mas fui impedida por alguém que bloqueou meu carro ao estacionar atrás dele, me deixando sem saída. Me aproximei e espiei pelos vidros, procurando algo que me ajudasse a identificar o motorista e bati os olhos num casaco de beisebol estirado no banco de trás.
"Taehyung.", disse a mim mesma depois de ler as letras "K, I, M" estampadas. Andei até o campo de beisebol com dificuldade por causa dos desníveis e amaldiçoando tudo e todos mentalmente. Não bastava ter que lidar com o nó que o Jungkook atou na minha cabeça, agora eu precisava lidar com o meu ex e ainda correr o risco de torcer o tornozelo no caminho. Cheguei ao campo e encontrei Taehyung sozinho, sentado na arquibancada, com os cotovelos apoiados no joelho e apertando os dedos nervosamente.
— Está bloqueando meu carro, Taehyung. — eu disse enquanto me aproximava.
Ele levantou a cabeça e sorriu rapidamente ao me ver, como se estivesse me esperando há muito tempo:
— Desculpa. Não consegui pensar em outra maneira de te fazer falar comigo. — ele confessou e eu pude ver seu rosto nitidamente.
— Então você era a lona. — constatei, reparando no lábio cortado dele. — Eu sabia.
— O quê?
— Jungkook chegou machucado ontem e disse que tinha caído no treino, mas tá literalmente na cara que vocês brigaram. Por quê?
— Porque eu fui um idiota colossal com ele. E com você. Principalmente com você.
— Você foi. Pode me destrancar agora?
, eu estou tentando conversar com você há dias, até tentei te encontrar naquele café, mas... — ele hesitou e engoliu em seco, sem concluir a frase. — Eu só queria me explicar. Fica, por favor.
Subi alguns degraus da arquibancada e me sentei ao lado de Taehyung. Tinha tempo de sobra para matar e, além disso, ele estava enciumado, machucado e parecia estar em conflito. Julguei que ele já tinha sofrido o bastante e resolvi ouvi-lo.
— Desembucha, batedor. — cruzei os braços sobre o peito e ele sorriu aliviado ao me ouvir chamá-lo pelo apelido.
— Você sabe por que meus pais me mandaram para cá, não sabe? — ele começou enquanto eu me ajeitava no batente.
— Estudar administração? — dei de ombros, ainda em postura de defesa.
— Pois é. Estou me preparando para assumir os negócios da minha família em alguns anos. Viajei quase o mundo inteiro para isso. Antes de chegar à América, eu estive em vários outros lugares, mas nunca demorei em nenhum. Nunca tive um amigo com quem dividir um apartamento. Nunca desfiz as malas por completo. Nunca quis que ninguém ficasse comigo porque... porque eu estou sempre indo embora.
Tae soprou o ar, dolorido, e vê-lo naquele estado de contrição me desarmou um pouco. Descruzei os braços e me inclinei para mais perto.
— Eu sou “o asiático transferido” onde quer que eu chegue. — ele continuou. — Com o tempo, eu aprendi a agir que nem um otário porque era mais fácil de me misturar assim.
— Era mais fácil magoar as pessoas que se importam com você também?
— Eu me sinto péssimo pela maneira como eu tratei você, . Me desculpa. — Tae me olhou nos olhos pela primeira vez em muito tempo.
— Por que você fez aquilo, Tae? Eu só queria que você me assumisse na frente dos seus amigos. Era pedir muito?
— Não, não era. — ele baixou os olhos, suspirando. — Mas eu deveria ter te contado antes.
— Me contado o quê?
— Que eu não podia deixar ninguém saber que estávamos juntos porque você é estrangeira. Se alguém soubesse de nós, a notícia certamente chegaria aos meus pais e, como eu sou o filho mais velho, eu estaria renegando a minha família.
— Renegando a sua família? — perguntei, boquiaberta. — Como ficar comigo seria renegar a sua família?
— As coisas são bem diferentes de onde eu venho, . Talvez você não sinta tanto essa diferença porque só conviveu com os Jeon, que são calorosos e receptivos, mas, acredita em mim, não é assim com todos os coreanos. — ele explicou, contemplando o campo. — Não se relacionar com estrangeiros não é uma regra, mas é um costume muito forte e muito enraizado em algumas famílias. A minha segue há gerações, e eu realmente pensei que conseguiria manter a tradição, mas aí veio você...
— O que tem eu?
— Você me fez questionar tudo o que eu achava que sabia. — ele fechou os olhos quando disse "tudo".
Eu estava completamente atordoada. Jungkook já havia me contado sobre como era importante manter a linhagem asiática na cultura deles, mas eu não fazia ideia do quão sério era aquilo.
— Tae... — balancei a cabeça, tentando assimilar aquela informação. — Eu não imaginava que estava sendo difícil assim para você. Achei simplesmente que você era um babaca.
— Eu meio que sou mesmo. Na última vez em que estivemos juntos, quando meu appa me ligou, eu deveria ter falado de você... — ele apertou os olhos dolorosamente.
— Você ficou bem triste depois de falar com o seu pai. — lembrei. — O que ele te disse?
— Que eu preciso voltar para casa.
— O quê? — falei mais alto do que eu planejava, atônita. — Achei que você ficaria ao menos para terminar o curso! Quando você tem que ir?
— Eu já deveria ter ido, mas eu não podia partir sem falar com você.
Ele respirou fundo e tomou minhas mãos entre as dele. Aquele dissabor de despedida que eu conhecia tão bem começava a se apoderar de mim: filha única de pais separados, eu sabia bem o que era um adeus quando via um. Os olhos dele se arrastavam por mim e meu coração encolheu no meu peito. Sentia que estava prestes a ter que tomar uma decisão que magoaria alguém que, depois daquilo tudo, eu não queria magoar.
— Você não foi feita para ficar em segredo e eu errei ao tentar te manter escondida, eu sei. Fiquei assustado, . Achei que eu nunca conseguiria me sentir em casa longe da Coreia, mas eu consigo. Eu consigo quando estou com você. — Tae beijou minhas mãos e a voz sussurrada derramava feito mel nos meus ouvidos. — Nós... nós ainda podemos dar um jeito nisso se...
Pressionei dois dedos contra os lábios de Tae, evitando que ele terminasse de falar.
— Tae, eu não quero ser a pessoa que vai te colocar contra os seus pais. Você sabe, lá no fundo, que não é isso que você quer também. Nós ficamos juntos por tempo suficiente para eu perceber que a sua família é a sua maior prioridade. Foi uma das coisas que fizeram eu me encantar por você.
— Eu quero muito honrar a confiança que eles depositaram em mim, . Cuidar de tudo o que eles construíram, trabalhar para que sejamos ainda maiores... Sempre foi o meu sonho. Eu só não quero que isso me impeça de ficar com você.
— Mas impede, Tae. E esse não é o único impedimento. Existe outro ainda maior.
Minha língua travou e um calafrio me percorreu a espinha. Eu estava prestes a verbalizar o que eu já sabia, mas não queria admitir. A sensação de febre voltou e meu pulso acelerado fez meu coração errar algumas batidas. Antes que eu confessasse, Taehyung segurou meu rosto, me olhando ternamente. Ele sorriu conformado e me deu um demorado beijo na testa:
É ele, não é? — ele murmurou com a voz encorpada de sempre depois de deslizar o rosto pelo meu pescoço e me abraçar.
— Tae… — apertei ele, chorando e molhando a camisa impregnada do cheiro cítrico. — Eu não queria que você fosse embora, mas sim. É ele. — confessei mais para mim do que para o Tae. — Eu amo o Jungkook.
— Eu sei. Meio que odeio ele por isso. — ele riu contido.
— Quando você embarca?
— Amanhã.
— Kim Taehyung! Mas já?
— Sem você, , eu não tenho mais nada para fazer aqui. — ele enxugou meu rosto, acariciando-o. — Eu preciso te deixar enquanto eu ainda consigo.
— Eu sinto muito. Eu não sabia até…
— Até vocês se beijarem. Está tudo bem, . — Taehyung me abraçou novamente, sorrindo. — Conta logo pra ele, tá?
— Eu acho que é tarde...
— Por causa da loira da festa? — Tae me lembrou que, naquele momento, Jungkook estava com uma Caytlin preparada para conquistá-lo em algum restaurante por aí.
Não consegui responder e apenas assenti com a cabeça. Tae sibilou com desdém.
— Ele não olha para ela do mesmo jeito que olha para você, . Conta pra ele. — ele repetiu, insistente. — Ah, e peça desculpas a ele por mim. Eu disse umas coisas só para provocar aquela briga, me sinto um estúpido.
— Não sinta. Ele também já queria te bater há muito tempo. — usei o ombro para empurrá-lo e ele soltou uma risada que parecia uma música.
— Vamos, eu vou liberar seu carro. — ele disse, levantando-se e me estendendo o braço. — Os declives no terreno, lembra?
Senti meu rosto esquentando e avermelhando quando recordei que foi daquele jeito que acabou acontecendo o nosso primeiro beijo.
— Vamos, . Eu adoraria, mas você não precisa me beijar dessa vez. — ele fez um gesto indicando o lábio inchado. — Até porque, graças ao seu amigo, eu não vou beijar ninguém por um tempo.
Ri e aceitei o braço dele, aproveitando os últimos momentos daquela companhia que, de um jeito meio torto, acabou me fazendo um bem imenso. Taehyung me abriu os olhos para uma felicidade que estava mais perto de mim do que eu imaginava. Eu só não sabia se eu conseguiria alcançá-la, mas eu precisava ao menos esticar a mão e tentar.
— Ah... Isso aqui é seu. — ele me entregou um embrulho com meu sutiã vermelho dentro quando chegamos ao carro. — Só pra você saber, você foi e sempre vai ser muito importante pra mim, .
— Fica com ele. Pra você lembrar de mim. — empurrei o embrulho da mão dele levemente.
— Eu não vou precisar dele pra isso. Não vou esquecer você.
— Nem eu. — pulei no pescoço dele e lhe dei um último abraço. — Boa sorte, Tae. Eu realmente espero que você seja muito feliz. — desejei ao pé do ouvido.
— Eu desejo o mesmo pra você, de verdade. Mas, se não der certo com o Jeon, venha me visitar na Coreia. — ele deu sua charmosa piscadinha e abriu seu sorriso quadrado, galante como sempre foi.

***

Entrei no meu carro com as mãos trêmulas sobre o volante. Taehyung e dona Aurora tinham razão, eu precisava resolver aquilo de uma vez e contar ao Jungkook como eu me sentia, como minha pele reagia ao toque dele, como aquele beijo tinha virado o jogo... Tentei me convencer de que suportaria a ideia de não ser correspondida, que até aguentaria vê-lo com outra garota, desde que continuássemos melhores amigos, como sempre fomos...
Mas quando eu passei pela rua da Caytlin e vi os dois se beijando, eu percebi o quanto eu estava errada.

Capítulo 10

(Pelo coração do Jungkook)

— Eu me diverti bastante, Caytlin, obrigado. — encarei a porta do prédio dela, enfiando as mãos nos bolsos do casaco. — Bom, acho que você está entregue.
— Ainda está meio cedo. — ela olhou o relógio de pulso e se aproximou de mim. — Você quer entrar e tomar alguma coisa?
— Ahn... não, eu não quero incomodar... — eu tentei explicar, mas fui impedido por um beijo. Senti o gosto doce do brilho labial dela me carimbando a boca e, por mais que não tivesse nada de errado com a Caytlin, eu não conseguia correspondê-la e ela percebeu.
— Algum problema? — ela me perguntou.
— Sim. Quer dizer, não, não com você. Comigo.
Olhei a garota na minha frente e ela estava mesmo de tirar o fôlego. O vestido preto era perfeito, mas eu sentia falta de uma certa tatuagem de borboleta. A maquiagem estava bem feita, mas eu queria mesmo umas sardas adoráveis… Caytlin não tinha absolutamente nenhum defeito, ela só… não era a .
— Me desculpa, Caytlin. Você é incrível, mas eu estou um pouco confuso agora.
Ela arregalou os olhos, surpresa, mas depois abriu o seu típico sorriso largo:
— Isso não é um problema, JK. As pessoas amam quem elas amam, está tudo bem.
— O quê? Não, não esse tipo de confusão... — tirei a mão do bolso e passei pela testa, rindo. — Eu amo alguém sim, mas é outra garota.
— Oh... — ela cerrou as sobrancelhas. — Que pena... Para mim, claro, mas que bom para você, né? Enfim, você entendeu. — ela riu nervosamente, mexendo no cabelo.
— Eu sinto muito, Caytlin.
— Imagina! Ao menos eu descobri que você beija bem. Ela é uma garota de sorte. — ela sorriu sincero e me deu um beijo no rosto. — Boa noite, JK!
Vi a porta do prédio fechando e Caytlin sumindo atrás dela, encarei meus próprios pés e fiquei esperando que eles decidissem um rumo sozinhos. Eu tinha que contar para a , mas contar o que exatamente? Que eu a amo? Isso ela já sabia. Eu precisava contar para ela que eu a amava como homem, não só como melhor amigo, e eu não sabia sequer por onde começar. Aliás, até que sabia, eu precisava achá-la primeiro, mas por algum motivo, ela não atendia o celular. Imaginei que ela estivesse em casa e girei nos meus tornozelos em direção ao nosso apartamento, ensaiando vários discursos no caminho. Quem passou por mim na rua certamente achou que eu estava louco, falando sozinho daquele jeito, e talvez eu estivesse mesmo: afinal, quanto resta de lucidez quando se está apaixonado?
Minhas mãos suavam e meus ouvidos zuniam conforme eu subia os degraus da escada. Destranquei a porta meio trepidante e encontrei o lugar completamente vazio. Chequei o quarto dela, que ainda cheirava ao xampu de maçã verde e ao perfume floral, e sorri sozinho quando vi o ursinho de pelúcia em cima da cama. ainda era a mesma garotinha da foto que ela tinha na cômoda, os olhos de mel atentos a tudo, o sorriso sapeca e o jeito mais doce do mundo.
— Ah, ... Quando foi que você me ganhou desse jeito, hein? — suspirei, pegando o porta-retrato e reparando que o local da foto era extremamente familiar.
Eu sabia exatamente onde a estava.

***

Já era quase meia-noite. Corri como um desembestado até o estúdio de dança e verifiquei pela ruela lateral que uma das janelas do segundo andar tinha luzes acesas. Puxei a escada de incêndio e subi me apoiando no ferro úmido da garoa, ameaça de chuva que cobria a cidade. Olhei pela janela entreaberta antes de empurrá-la para entrar e estava na sala de ensaio das bailarinas iniciantes, deitada no chão revestido de tapetes e coberto por uma manta cor de rosa que ela escondia em um dos armários. As luzes vinham de um pequeno refletor que ficava no canto da sala, projetando cores frias que alternavam entre tons de azul, verde e roxo, lembrando uma galáxia estrelada.
— Gostei da iluminação... — disse baixinho, para não assustá-la.
— J? O que você está fazendo aqui? — ela levantou o rosto corado, enxugando algumas lágrimas.
— Você sempre vem aqui quando quer se esconder. — entrei pela janela e ela voltou a se deitar enquanto eu me aproximava. Tirei os sapatos e o casaco e deitei ao lado dela naquela espécie de cama improvisada, cruzando o braço sob a cabeça como travesseiro. — Eu lembro bem de quando você fugiu para cá pela primeira vez.
— A noite da separação dos meus pais... — ela recordou com pesar, olhando vazio para o teto. — Eu achava que se eles ficassem ocupados me procurando, esqueceriam que decidiram se divorciar.
— Eles quase enlouqueceram atrás de você.
— E você foi o único que conseguiu me achar.
— Eu sei mais de você do que de mim mesmo, . Você é feita de vidro para mim.
Virei a cabeça para poder olhar para ela. Ela me deu um meio sorriso e voltou a encarar as luzes no teto, com as mãos entrelaçadas sobre a barriga e balançando os pezinhos, como sempre. Estava com uma blusa de manga longa, vinho, quase da cor do batom que ela tinha esquecido de retocar, deixando apenas uma tom discreto e adorável nos lábios lindos, e uma saia preta com meias 7/8 da mesma cor.
— O que aconteceu que te fez vir para cá? — indaguei sem tirar os olhos dela.
— Nada... — ela falou sem segurança. era uma péssima mentirosa. — Como foi com a Caytlin?
Ela suspirou dolorido antes de perguntar e eu senti um certo receio na voz dela. Era como se ela estivesse triste ao pensar em mim com outra garota, uma tristeza bem parecida com a que eu sentia quando ela estava com o Kim. Acendi uma fagulha de esperança de ser correspondido e, por um momento, até esqueci o quanto eu estava nervoso.
... eu preciso te contar uma coisa. — fechei os punhos e dobrei as pernas, sentando em cima dos meus pés, de frente para ela.
— Nossa. Parece sério. — ela franziu o cenho e sentou—se também.
Segurei as mãos pequenininhas dela entre as minhas, girando um dos anéis que ela usava, apreensivo. Qualquer que fosse a reação dela, não poderia ser pior que a agonia que eu estava sentindo. Eu tinha urgência dela. Queria aquelas mãos nas minhas, aquela boca na minha e aquele corpo no meu:
— Eu estou apaixonado, . Na verdade, eu sou apaixonado pela mesma pessoa há muito, muito tempo.
parecia transtornada e prestes a chorar mais. Começou a respirar alto e respondeu com a voz embargando:
— Meu Deus, J... Bom, finalmente você se apaixonou por alguém, né? — ela sorriu fraco e falso. — Você... você precisa contar para ela.
Uma lágrima escapou e ela tentou se soltar de mim para contê-la, mas eu segurei as mãozinhas dela juntas e trouxe-as ao meu peito. Passei as pernas dela por cima das minhas, puxando-a para mais perto:
... — colei meu rosto no dela. — Eu estou te contando agora.
— O quê? — senti os dedinhos dela gelarem na minha pele exposta pela camisa entreaberta.
— Você me fez ouvir os sininhos. É você. — confessei. Sempre achei que eu ouviria barulho de sinos tocando quando achasse o amor da minha vida.
— Então você está me dizendo que... que você quer...
— Eu estou dizendo... — interrompi sem me afastar do rosto dela. — Que eu quero ser mais que o seu melhor amigo. Eu quero ser mais que o cara que te ajuda a colocar o vestido para um encontro, eu quero ser o cara que te leva no encontro e que tira o vestido de você!
— Jungkook...
— Eu quero te colocar para dormir na minha cama, com uma camiseta minha, depois de ter aproveitado esse teu corpo maravilhoso que não sai da minha cabeça. Eu quero te ouvir tagarelando por horas só para poder te interromper com um beijo e ver sua carinha de brava por ter feito você se perder na história... Eu quero que você seja minha. Só minha. Porque eu já sou todo, todo seu, .
Ela ensaiou um sorriso, mas ainda estava meio perdida. Reparei que os papéis tinham se invertido, geralmente era eu quem evitava o contato visual e, desde que eu tinha começado a falar, não conseguia me olhar de tão nervosa. Encaixei as palmas no rosto dela, acariciando as bochechas com os polegares e fazendo com que ela me encarasse. Quando ela levantou os olhos, confessei, baixinho, como um segredo, aquelas palavras que pertenciam a ela, somente a ela e mais ninguém:
— Eu te amo, .
Ela fechou os olhos e sorriu, prendendo o lábio inferior com os dentes. Os segundos que ela levou para dizer alguma coisa demoraram uma eternidade:
— Eu também te amo, seu nerd. — ela finalmente sussurrou de volta, respirando o mesmo fôlego que eu.
Nerd sim. E seu também. — confirmei, rindo e suspirando de alívio.
Apertei a cintura dela num abraço, arrepiado com o carinho que ela fazia na minha nuca. Respirei acalentado por ela, deixando que nossas almas se enlaçassem e meu coração acertasse o compasso com o dela. Era surreal como fazíamos sentido, como encaixávamos, como era quase uma simbiose. Entre atalhos e desvios de rota, ali estávamos, e eu agradeci em silêncio ao destino por todos os caminhos que eu tomei e todas as curvas que eu fiz terem me levado até ela.
— Eu estava entendendo tudo errado, J. Eu... — ela passou o nariz no meu. — Eu não acredito que isso está acontecendo. — ela disse, quase inaudível, ainda enroscada em mim.
— Está acontecendo sim. — rocei no nariz dela de volta. — E eu posso te provar.
Passei um braço pelas costas dela enquanto me deitava sobre o seu corpo. Apoiei os cotovelos no chão fofo coberto pela manta e sorriu brincando com meu cabelo quando eu beijei o pescoço e o maxilar dela até chegar à boca. Selei seus lábios demoradamente antes de iniciar o melhor beijo da minha vida, sentindo a embriaguez doce que aquela boca de maçã me causava. Eu estava completamente inebriado da . Queria bebê-la e me derramar nela ao mesmo tempo.
— Como a gente quase se perdeu estando tão perto um do outro? — sussurrei ainda ofegante do beijo, com os lábios raspando nos dela.
— Eu não sei, mas eu só quero me perder em você agora.
... — meu estômago esfriou de ansiedade. — Aqui? Agora?
— Nós já esperamos tempo demais. Eu quero você. Aqui. Agora. — ela disse, contornando meu rosto com o indicador.
Aquelas simples palavras dela foram suficientes para fazer o sangue correr violentamente e eu ficar apertado dentro da boxer. Não era só a seca que eu estava atravessando, a mulher que eu amava estava ali nos meus braços, dizendo o quanto me queria e, quando a boca da se torceu num sorriso lento, eu soube na hora que ela estava me sentindo também.
Percorri a perna dela por dentro da roupa até descobrir onde a meia terminava, enquanto a língua irrequieta dela dançava deliciosamente junto com a minha. Ela deixou escapar um gemido quando buscou ar e eu apertei a coxa dela instintivamente, forçando-me sobre ela:
... Se você ficar gemendo no meio do beijo você vai me enlouquecer. — avisei.
— Talvez eu queira isso. — ela mordeu meu lábio.
— E talvez eu queira tirar isso tudo de você. — confessei, preso entre os dentes dela.
Enganchei os dedos na meia e arrastei o rosto pelo seu tronco ao descer para despi-la. Desenrolei o tule fino e escuro pelas pernas dela, com a boca acompanhando o trabalho das mãos, sem abandonar a pele eriçada e macia nem por um minuto sequer. Embolei as meias juntas e lancei por cima dos ombros, fazendo rir e apoiar a ponta do pé nu no meu peito. Beijei o peito do pé dela, acariciando a panturrilha, e o apoiei nas minhas coxas para me livrar da minha camisa.
— Uau. — ela soprou, admirada, quando abri todos os botões e atirei a camisa para longe. — É ainda melhor que no meu sonho. — ela levou o dedo à boca.
— Você tem sonhado comigo seminu, ? — perguntei depois de desabotoar minha calça e baixá-la um pouco, tentando acomodar a ereção que crescia só de pensar em como a estava fácil naquela saia. — O que eu vou fazer com você, hein?
— Você pode começar me tirando dessa roupa. — ela respondeu e eu puxei o zíper da saia dela para baixo, descobrindo a minúscula calcinha rendada. E preta.
— Sabia que você ia adorar essa cor. — ela falou quando me viu suspirar e sorrir.
— Eu vou adorar mais ainda saber que gosto você tem. — disse, resvalando os dedos pelo tecido úmido do sexo dela.
Tirei a peça e encostei os lábios na barriga morna, já revirando em antecipação. Segui a trilha do umbigo e escorreguei pela fenda salgada e sensível, sugando a abertura. Ela empurrou minha cabeça e enfiou os dedos no meu cabelo, pressionando a si mesma contra a minha boca. A minha língua fazia-a se contorcer e anelar e aquela foi, sem dúvida, a dança mais linda que ela já fez. Quando levantei o rosto, encontrei suada, vermelha, quente e excitada. Exatamente como eu queria.
Sorri de lado, triunfante, e ela levantou os braços acima da cabeça, relaxando o corpo e me dando a oportunidade perfeita para tirá-la da blusa. Percebi, na metade do caminho, que ela estava sem sutiã e que por causa disso eu já estava a ponto de saltar da cueca. Encaixei os polegares nos bicos rígidos e deixei um beijo na tatuagem de borboleta antes de lamber os seios fartos, sobrando nas minhas mãos. gemia e se mexia tão gostoso abaixo de mim que eu já não cabia mais dentro da roupa. Ela desceu os dedos pelas minhas costas, arranhando a curva da lombar de leve, e apertou minha bunda quando enfiou a mão no meu bolso:
— Diz que você ainda guarda na carteira. — ela perguntou, manhosa, e eu confirmei. Obrigado ao anjo que me lembrou de passar na farmácia.
soltou meus lábios arquejando lasciva e com o rosto em brasa. O pouco de batom que restava escapou manchando-lhe o canto da boca, que ainda permanecia vermelha, mas agora de mim e da avidez do meu beijo.
— Então abre essa que eu abro esse. — ela ordenou, puxando o cós da minha calça ao encontrar o pacote metalizado e jogar a carteira num canto qualquer.
Ela pinçou e rasgou cuidadosamente a embalagem e eu removi a calça e a boxer juntas, quase em desespero. A próxima coisa que eu vi foi vestindo o meu comprimento pulsante e salivando enquanto desenrolava o látex por ele, com os olhos fixos no meu tamanho. O toque dela em mim, naquela parte de mim, me deixou por um fio de sanidade.
— Você vai acabar comigo. — ela exalou, sôfrega, e os olhos de mel dela encontraram os meus, carregados de luxúria.
— Eu prometo que só vou te dar prazer. — sussurrei, selando os seus lábios e me encaixando entre as pernas dela para adentrar a ponta. se arqueou toda e eu a observava ser banhada pelo gradiente de luzes azuis do refletor, completamente extasiado.
Ela estava me beijando quando eu empurrei o restante, fazendo-a grunhir baixinho na minha boca e cravar as unhas nas minhas costas. As entranhas dela contraíam conforme ela se acostumava comigo, tentando acomodar a minha rigidez. era estreita e eu estava fazendo-a sofrer gentilmente enquanto ela me apertava, deslizando facilmente pela fissura inchada de excitação. Comecei a estocar devagar, num ritmo quase torturante, movimentando o quadril em onda:
— Mais... — li nos seus lábios quando ela implorou sem som, o rosto contorcido na cara de prazer mais linda que eu já tinha visto na vida.
Nossa respiração desacertada ecoava e preenchia a sala, abafada pela chuva que caía pesada lá fora. Era como se estivéssemos criando ali a nossa própria música, escrevendo versos e rimas que só nós sabíamos ler. Nossos corpos grudavam e desgrudavam com o suor conforme eu me forçava nela, só havia o som da nossa pele batendo e dos gemidos de satisfação que deixávamos, entre beijos, no ouvido um do outro.
Continuei alternando a velocidade e suplicava — delicioso — a cada vez que eu desacelerava. Meu peito inflamava, queimando do ar rarefeito, quase incendiando de desejo, até me sentir tonto de pré-gozo e a virar um borrão lindo na minha frente. Ela me ardia e me aliviava. Me afligia e me deleitava. Me arrancava tudo e me preenchia. Eu começava e terminava nela.
Me empurrei sobre a quase com descontrole, rendido ao instinto e movido por puro tesão. Mesmo exausto, não conseguia parar — na verdade, eu gostava da sensação de quase esgotamento por me doar por completo como eu estava fazendo naquele momento. Segurei o máximo que pude: aquilo estava tão incrivelmente viciante que eu não queria deixar de me esforçar para dentro dela, mas quando ela choramingou meu nome, eu senti o membro latente gotejar e a vista escurecer naquele torpor antes de gozar.
... — chamei o nome dela como quem roga uma prece.
— Vem comigo... — ela pediu em resposta.
se torceu, a respiração começou a mudar e, quando ela fechou as pernas em volta da minha cintura, a carne trêmula denunciou que a onda de adrenalina do orgasmo tinha percorrido-a por completo. Me prendi e me prolonguei naquela sensação de deleite alheia, satisfeito por satisfazê-la, e meu gozo verteu quente dentro dela. Me deixei escorrer e apertei os olhos vertiginosamente, desfalecendo de prazer ao me enterrar nela duas ou três últimas vezes, com a camisinha encharcada. Ela gemeu fraco e arrastado e eu descansei o corpo em cima dela, sem conseguir apagar o sorriso de saciedade:
Caralho... — encostei a testa na dela.
— A gente devia ter feito isso muito antes. — ela observou risonha, se recuperando e piscando para mim.
— Não se preocupe, nós vamos fazer isso muitas vezes daqui para frente... — eu disse e ela riu, enquanto as luzes continuavam repetindo desenhos de estrelas em nós dois.
— Eu te amo, J. — me fez um cafuné enquanto eu reavia as forças e meu corpo reagiu à carícia se aninhando ainda mais ao dela. — Eu te amo muito.
Respondi com um beijo calmo, escrevendo no céu da boca dela o quanto eu a amava de volta.
Ela era mesmo linda. E eu via o universo inteiro refletido nela.

***

Estacionei a moto na viela sorrindo como um idiota. Há alguns dias, eu subi aquelas escadas e tive a noite que mudou tudo (para melhor), agora eu estava lá novamente, dessa vez para buscar minha namorada depois do ensaio de balé. Entrei no estúdio e cumprimentei os funcionários com o rosto esquentando de uma culpa gostosa e olhei timidamente pelas portas de vidro da sala onde dançava. Ela sustentava graciosamente o corpo na ponta dos pés, girando e executando os movimentos com perfeição. A professora encerrou a aula elogiando o desempenho dela e eu bati no vidro, envaidecido, acenando para ela, que correu na minha direção.
— Ei, gatinha! Quer dar uma volta? — joguei a chave da moto para cima e apanhei de volta com uma mão só.
— Com você? Para qualquer lugar. — ela pulou no meu pescoço e selou minha boca, beijando meu rosto repetidas vezes.
— Eu peguei o finalzinho. Você acertou o seu chavesque! — reparei, orgulhoso.
Arabesque, amor! — ela corrigiu com os olhinhos sumindo de tanto rir.
— Passei perto... Como foi que você fez?
— Eu finalmente achei meu equilíbrio. — ela arrumou os fios da minha franja. — É você.
Sorri timidamente e escondi o rosto no pescoço da , levantando-a e girando o corpo dela no ar.
— Vamos para casa testar esse seu equilíbrio no quarto, então... — sugeri baixinho depois de beijá-la apaixonadamente.
— Você lembrou de esconder seu cobertor do Homem-Aranha? — ela perguntou quando eu a coloquei de volta no chão.
— Eu te amo por muitos motivos, , mas principalmente por não precisar esconder nenhuma parte minha de você. — beijei a pontinha do nariz da minha melhor amiga, que agora também era minha namorada. E a mulher da minha vida.




FIM!



Nota da autora: Chegamos ao fim do potinho de açúcar e eu só tenho a agradecer a todo mundo que me ajudou a equilibrar esse Arabesque: minha betamiga, Daph, que me encorajou (e me ameaçou às vezes), scriptou tudo e arrumou o arco do Tae comigo; minhas leitoras de milhões, Betiza e Biba, que estiveram sempre comentando aqui e, em especial, a Luísa, que, como ela diz, caiu de parquedas e apareceu no ponto de virada da história, dividindo comigo os surtos, as teorias e as opiniões que foram fundamentais na hora da revisão final. No mais, muito obrigada a você, leitor(a) que chegou até aqui! Eu fico muito, muito feliz de termos dançado juntos. Até a próxima!



Outras Fanfics:
Flamme
Flamme 2


Nota da beta: Eu não tô nem acreditando que acabou. Sério, eu me sinto parte desse projeto. Obrigada a Ilane por me carregar nesse projeto e nos surtos e a você, leitor(a), por chegar até aqui. A gente se vê por aí!

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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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