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Última atualização: 14/07/2021

“Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece, mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas... Diante de uma larga frente de batalha, procure o ponto mais fraco e, ali, ataque com a sua maior força.”
Sun Tzu — A arte da guerra

Capítulo 1

“Quem não sabe de onde veio, nunca encontrará o seu destino.”
(Provérbio Filipino)

A primeira coisa que eu percebi era que estava muito frio e escuro. Eu estava congelando. E minha cabeça doía muito em um ponto acima da testa, que fazia espalhar a dor pelo resto.
Fiz um esforço para me lembrar de onde estava ou como tinha ido parar ali, mas não conseguia sabe o que havia acontecido na noite anterior ou há poucas horas. Era como se houvesse um borrão na minha mente. Tudo o que eu sabia era que da última vez não estava tão frio.
Apoiei meus braços no chão e levantei meu corpo, ainda sentindo muita dor de cabeça. Algo viscoso, como sangue, parecia grudado na minha testa quando eu movia as sobrancelhas. Será que eu havia caído e batido a cabeça em algum lugar? Era horrível não conseguir lembrar nada.
Toquei o lugar e cheirei meus dedos. Era realmente sangue.
— Levante com as mãos para cima.
Uma voz masculina vinda de algum lugar na minha frente falou e eu me levantei, em alerta, ficando momentaneamente tonta e perdendo a visão já precária. Pisquei os olhos para me estabilizar e tentei tatear algo para me segurar.
— Quem é você? — minha boca tinha um gosto amargo e minha voz estava embolada quando perguntei.
— Eu disse para se levantar com as mãos para cima. — a voz repetiu, parecendo sem paciência.
O quarto estava escuro, então eu não conseguia enxergar muita coisa, mesmo com a luz da Lua e dos postes que vinham de fora e iluminavam precariamente o quarto. Só sabia que não fazia a mínima ideia de que lugar era aquele. E nem quem era aquele homem que estava falando comigo.
Eu ouvi os passos do homem na minha frente se aproximando. Fui me afastando para trás, procurando uma rota de fuga.
— Quem é você? — eu perguntei novamente.
Antes que eu pudesse fazer alguma coisa, as luzes se acenderam, me cegando temporariamente.
Quando abri meus olhos e finalmente consegui enxergar alguma coisa, o homem pulou em cima de mim e nós rolamos pelo chão gelado. Eu fiquei embaixo dele e o seu braço me segurou pela garganta. Eu chutei suas costas por trás com o calcanhar e rolei para cima dele, acertando o soco duplo na parte esquerda do seu rosto. Minhas faixas pretas em taekwondo e em outras variedades de lutas que meu pai havia me obrigado a aprender durante a infância realmente tinham servido para alguma coisa.
— O que você está fazendo na minha casa?
Ele inverteu nossa posição e segurou minhas duas mãos no alto da minha cabeça, seu joelho amassando a minha barriga, me prendendo no chão. Ele era muito maior e mais forte do que eu, então poderia manter aquela posição por muito tempo.
— Eu não sei quem é você e não sei o que estou fazendo aqui. — eu confessei e uma de suas mãos segurou meu pescoço com força. Eu comecei a sufocar, sem ar.
— Estou sendo muito paciente com você. Não vou continuar assim, então me responda. Quem é você?
— Eu... Eu... Você...
Seus olhos eram muito perigosos. Eram escuros e no fundo, tinham aquele toque de perigo que mandava você se afastar. Ele estava falando sério sobre me matar, dada a expressão em seu rosto. Ele iria esmagar minha garganta até separar minha cabeça do resto do corpo se eu não começasse a falar rápido. Meu coração estava batendo aceleradamente pelo medo.
— Não sei o que estou fazendo aqui. — repeti baixo, com a voz esganiçada e ele soltou minha garganta, me segurando pelo queixo para encará-lo, sem gentileza nenhuma. Provavelmente seus dedos deixariam marcas vermelhas na minha pele, pela força que ele segurava.
Eu tentei recuperar o ar, enquanto tentava me explicar.
— Eu não estou de brincadeira. — ele sibilou.
— E nem eu. — falei.
— Comece a falar agora.
— Se você me soltasse um pouco, talvez... — parei de falar rapidamente quando ele empurrou seu joelho mais forte na minha barriga, provavelmente na área do meu diafragma, já que minha respiração logo foi cortada novamente. — Eu disse que eu não sei.
— E eu não acredito em você.
— Eu acabei de acordar. — falei, tossindo. — Eu juro, não faço ideia de onde estou. Eu não lembro como vim parar aqui.
— Me dê uma boa razão para não quebrar um de seus braços agora.
— Se você me soltasse um pouco, talvez pudéssemos conversar adequadamente.
Seus olhos se estreitaram, ficando ainda menores, como duas fendas.
— Você invade a minha casa e quer conversar?
— Eu não invadi sua casa. Eu não... Talvez... — ele exigia uma explicação que eu não podia dar. Não fazia ideia de como havia ido parar ali.
Agindo puramente por instinto, eu dei uma cabeçada nele com força, fazendo a minha própria cabeça latejar pior do que antes.
Eu o empurrei para trás e corri o máximo que eu podia.
A porta do quarto estava a uma distância maior e ele estava entre ela e eu, então corri para a janela e a abri, fazendo o vento frio me acertar com força. Os pelos dos meus braços se eriçaram.
O homem desconhecido se recuperou da cabeçada e levantou de novo. Ele me segurou pelos pés, me derrubando. Bati o rosto com força no chão. Pela falta do barulho, nada havia sido quebrado, mas, em contrapartida, sangue começou a jorrar pelo meu rosto, junto com uma dor lancinante. Minha visão escureceu e eu achei que iria desmaiar.
Levantei, rapidamente, me recuperando, e ele também. Isso me deu uma oportunidade de analisá-lo pela primeira vez. Ele era bem alto, talvez quinze ou dezoito centímetros mais alto do que eu. Como estava vestindo apenas uma calça de moletom, pude perceber que era magro, mas pelos músculos sobressalentes e suas técnicas em me imobilizar, ele era tão bom quanto eu. Seus olhos, esticados, eram assassinos.
Eu não me lembrava de conhecê-lo ou ter visto alguma coisa sobre ele em lugar nenhum. Eu não fazia ideia de quem ele era.
Nós lutamos, tentando derrubar um ao outro, até eu conseguir chutá-lo no estômago e correr para fora, saltando pela janela. O que foi uma droga, já que estávamos no segundo andar e, quando caí, o impacto foi todo absolvido pelo meu braço esquerdo, enviando uma fisgada de dor pelo resto do corpo todo. Ele hesitou um pouco antes de pular, mas não fiquei esperando para ver o que aconteceria em seguida.
Eu não conseguia sentir meu braço, estava machucada, com muita dor de cabeça e uma amnésia temporária, mas corri como se a minha vida dependesse disso. E ela meio que dependia.
O medo fazia meu sangue ferver e lutar contra o frio que cortava o meu rosto enquanto eu corria para longe do maluco atrás de mim. Estava com dor em todos os lugares, mas nada me faria parar. Eu precisava chegar na delegacia mais próxima para ficar segura.
Tinha um homem atrás de mim alegando que eu havia invadido sua casa. Ele poderia muito bem ter sido aquele que havia me levado até ali ou algo pior.

Será que eu havia sido sequestrada? Drogada? Nunca visitei baladas antes, sempre recusei todos os convites de festas de fraternidade. Como ele havia conseguido me pegar?

Eu estava andando cegamente por um lugar que eu não sabia onde no planeta se localizava, mas fui estúpida para roubar uma olhada por cima do ombro. Foram apenas três segundos até vê-lo me alcançando e me derrubando na calçada. De novo. Dessa vez eu usei os braços para proteger o rosto e meu corpo todo protestou. Eu me rastejei para longe, sem forças, apoiada no braço bom. Ele também estava machucado, mancando de uma perna, mas sua determinação era assassina.
— Olhe, eu realmente não...
Quase engoli a língua quando ele levantou uma arma apontada para mim. Quem atira em uma pessoa indefesa? Que tipo de criminoso era aquele? Eu levantei as mãos, em sinal de rendição.
— Por favor, não me mate! Por favor! — implorei.
— Você vai me responder agora?
Ele ainda estava sem camisa e, igual a mim, estava tremendo de frio. Mas parecia mais concentrado em me matar do que na baixa temperatura.
— Eu já disse que não sei o que aconteceu e porque eu fui parar na sua casa. Eu não sei quem é você, eu não sei o que está acontecendo. Por favor, não me mate.
Ele soltou uma risada amarga, fazendo-o parecer ainda mais assustador.
Eu nunca havia pensado em como morreria ou em que idade, mas aquela situação era a última em que eu imaginava estar metida. Em um lugar desconhecido, com uma pessoa desconhecida. Será que meu pai encontraria meu corpo? Será que doeria muito levar um tiro?
— Eu vou contar até três para você falar e vou atirar. Um...
Ele ia se aproximando lentamente e eu ia tentando me afastar, ainda rastejando pela rua. Ignorei os arranhões que ia ganhando enquanto fazia isso.
— Por favor, acredite em mim. — implorei.
— Dois... — ele destravou a arma.
— Meu nome é . — gritei.
— Então é estrangeira?
— O quê? Estrangeira? Onde estamos?
Me coloquei de pé com esforço e o encarei, em confusão. Onde no planeta Terra eu estava?
— Quem está fazendo as perguntas aqui sou eu.
— Por favor, abaixe a arma. Eu não quero te fazer mal. — tentei passar a inocência na minha voz, mas ele não parecia muito convencido. Sua expressão não tinha nenhuma alteração.
— Você invade a minha casa, me agride e não quer me fazer mal?
Parecia realmente um absurdo, mas, mesmo a situação parecendo impossível, eu nunca faria mal a ninguém do jeito que ele estava alegando.
— Foi você quem me atacou primeiro. — eu levantei o tom da voz, indignada, e ele levantou a arma mais ameaçadoramente. — Desculpa. — falei apressadamente, antes que ele fizesse algum movimento impulsivo. — Eu acho que bati a cabeça. Não sei onde eu estou, sinto muito.
— Você deve ser uma imigrante ilegal. Ou uma espiã. Vou te entregar às autoridades coreanas assim que te derrubar.
— Coreanas? — minha voz saiu esganiçada com a surpresa pelo comentário dele. — Onde é que estamos?
— Gangnam, Seul, Coreia do Sul. — respondeu. — Ou você acha que o coreano é falado em todos os países do mundo?
— Não, eu só pensei...
Não tinha percebido que estávamos falando em coreano, provavelmente por causa da maneira que nos encontramos. Falar coreano para mim era tão natural como a minha primeira língua.

Por que eu estava do outro lado do mundo? Como eu havia parado naquele lugar? Será que eu havia sido sequestrada? Será que aquele homem era um traficante de seres humanos?

Tinha visto muitos documentários sobre tráfico humano para roubo de órgãos e prostituição forçada, mas nunca achei que aquilo pudesse realmente acontecer comigo. Nunca achamos que isso realmente acontece até sermos as vítimas. Sempre me achei muito esperta por não falar com desconhecidos ou por não aceitar bebidas e nem alimentos de estranhos, mas ali estava eu.
— Será que você pode abaixar sua arma para que possamos conversar? Eu não quero te fazer mal, eu posso tentar me lembrar de como cheguei aqui. Eu posso te dar todas as informações que você deseja.
Ele não parecia muito convencido das minhas palavras.

Ele vai te matar. Saia daí o mais rápido possível.

Desesperada com a possibilidade de morrer daquele jeito, podendo nunca mais reencontrar a minha família, eu voltei a correr, mas um disparo e o ardor em meu braço me fizeram parar abruptamente. Olhei para o sangue que começou a encharcar minha blusa e para o homem na minha frente.
— Você... Você atirou...?
Eu queria chorar. Ou cair durinha ali mesmo.
O universo atendeu o meu pedido e foi o que aconteceu. Não, não chorei. Só caí durinha ali mesmo.

Capítulo 2

“Espere o melhor, prepare-se para o pior e aceite o que vier.”
(Provérbio Chinês)

Pela segunda vez eu acordei com uma dor de cabeça matadora. Eu nunca havia sido vítima de enxaquecas ou dores como aquela, então a falta de costume piorava ainda mais. Meu rosto estava todo endurecido por causa de alguma coisa seca em cima dele. Será que eu havia derramado bebida em cima de mim mesma? Vomitado? Quão patético isso seria?
Me mexi um pouco e levantei uma das mãos para tentar tirar aquilo do meu rosto, mas percebi que minhas mãos estavam presas acima da minha cabeça.
Abri os olhos rapidamente e vi que o que as estavam prendendo eram um par de algemas. Tentei puxar com força, desesperada, o que resultou em uma dor que se espalhou pelos meus braços. Eu gritei com a dor.
— Finalmente você acordou.
Me assustei com a pessoa que entrou no recinto e virei a cabeça para constatar o óbvio. Não havia sido um sonho. Ou melhor, um pesadelo. Era real e ainda estava acontecendo.
O estranho que havia me enchido de porrada estava ao meu lado. Ele vestia roupas limpas e algumas marcas roxas cobriam seu rosto, além de um curativo no lábio. Eu não havia feito um estrago tão grande, pelo que parecia. Ao contrário dele, que parecia ter feito picadinho do meu rosto.
A arma não estava em nenhum lugar à vista, mas o medo ainda latejava nas minhas têmporas. Aquele homem queria me matar. Ele quase o havia feito.
Olhei para o meu braço e apenas encontrei um curativo malfeito cobrindo a ferida da bala. Não parecia muito machucado, mas ainda doía, principalmente pelo jeito como meu braço estava posicionado.
— A bala foi de raspão, mas da próxima vez minha mira vai ser diferente. — ele comentou, vendo a direção do meu olhar. — Eu não erro meu alvo.
O homem desconhecido sentou na cadeira ao lado da cama e se aproximou. Eu tentei recuar o mais longe dele possível, mas era muito difícil com as duas mãos presas.
— Dessa vez você não vai conseguir escapar tão fácil.
— O que você quer de mim? — minha voz estava rouca e embolada.
Tossi, tentando recuperar, mas arranhou minha garganta, fazendo doer ainda mais.
— Não deveria ser eu a fazer essa pergunta, já que foi você que invadiu a minha casa? — ele perguntou.
— Já disse que não consigo me lembrar do porquê estava na sua casa. Por favor, me solte. Só quero ir para casa.
Senti as lágrimas se acumulando atrás dos meus olhos e meu nariz pinicando com a vontade de chorar.
— E você quer que eu acredite nessa sua história?
— Não quero parecer repetitiva, mas é a minha palavra contra a sua desconfiança. Já disse meu nome. Não sou estrangeira. Se estamos realmente na Coreia do Sul, eu não sou estrangeira, sou daqui. Nasci em Incheon. Pode pesquisar.
— Não tenha dúvida de que é isso que eu estou fazendo agora.
— Então... — pigarreei, tentando consertar minha voz. — Quem é você e por que eu teria tanto interesse em invadir a sua casa ou fazer algum mal a você?
— Por que eu iria responder às suas perguntas? — ele desafiou.
— Até aqui eu fui bem-educada respondendo tudo o que você me perguntou. Tentei me explicar o tempo todo e você partiu para a violência. Você deveria retribuir o favor e ser educado também.
— Iremos conversar quando eu confirmar a sua identidade.
Ele se levantou, prestes a deixar o quarto, e eu não poderia deixar aquilo acontecer.
— Espera, você vai me deixar aqui sozinha? — ele se virou, levantando uma sobrancelha. — Eu estou toda machucada, com amnésia temporária e levei um tiro. Você vai me deixar aqui nessas condições? Eu posso pegar uma infecção nas minhas feridas ou machucar ainda mais meu braço. Eu posso te processar por essa violência depois que confirmar quem eu sou.
— Você é uma prisioneira. — ele lembrou. — Eu não te devo nada.
— Aonde eu posso ir cheia de hematomas desse jeito? Ainda mais sem dinheiro, sem nenhum documento ou arma. Provavelmente você já me revistou. — eu não conseguia deixar de sentir nojo ao pensar em suas mãos tateando meu corpo, procurando por qualquer coisa que eu estivesse carregando. Engoli a náusea e continuei. — Já deve ser manhã, você me encontraria muito rápido. Me deixe, pelo menos, ir ao banheiro. — ele continuou me encarando com uma sobrancelha erguida. — Ou você pode simplesmente me deixar mijar nas calças.
— Eu não deveria ser tão gentil com você.
Ele pegou uma chave do bolso e soltou as algemas. Eu puxei minhas mãos, tocando os pulsos machucados e marcados.
Gentil? Acho que você quebrou o meu nariz e ainda atirou em mim.
— Não está quebrado e já disse que a bala foi de raspão. Pode ir ao banheiro. Trarei roupas limpas para você se trocar. Sua aparência é lamentável. Mas nem pense em fugir. Minha mira é muito boa.
Ele me deixou sozinha no quarto e eu corri para a porta em anexo, que parecia o banheiro.
O quarto era diferente daquele em que eu havia acordado, era muito limpo e confortável, mas ainda sim parecia uma prisão. Não havia janelas e apenas uma porta de saída que eu poderia apostar meu braço direito que estava trancada por fora. Era um pouco melhor do que uma masmorra, mas ainda assustador.
Entrei no banheiro e corri para o espelho. Minha aparência era realmente lamentável, como o estranho havia dito. Eu quase não conseguia me reconhecer. Meu olho estava arroxeado e quase fechado, sangue cobria meu nariz e bochechas, meu lábio inferior estava manchado e havia vários arranhões pelo meu rosto. Além da terra cobrindo meu cabelo, pescoço e debaixo das minhas unhas.
Mas não foi só a minha cara moída que chamou a minha atenção. Eu estava diferente. Meu rosto estava mais magro e meu cabelo estava mais curto do que eu me lembrava. Na verdade, estava muito mais curto, quase não alcançando os ombros, sendo que da última vez que eu havia ido a um salão, saí com o mesmo comprimento de sempre: quase alcançando a cintura. Meu corpo parecia mais forte e eu sentia músculos que nem sabia que tinha. Eu parecia uma estranha para mim mesma, como se o tempo tivesse passado sem que eu percebesse.
Não tomei banho. Não ficaria pelada naquele lugar de maneira nenhuma. Poderia ter câmeras me vigiando naquele momento ou poderia facilitar o trabalho do estranho se ele fosse um estuprador ou um psicopata e só estivesse esperando o momento que eu estivesse vulnerável. Ou fazer um vídeo meu para chantagear meu pai ou espalhar pela internet.
Apenas lavei o rosto e usei as toalhas limpas para enxugá-lo, tirando o sangue com cuidado para não piorar os ferimentos. Lavado, a situação não parecia tão ruim. Meu nariz estava bem machucado, mas os outros eram apenas arranhões que seriam fáceis de curar. Tirei o curativo do braço para examinar a ferida. O tiro tinha sido de raspão e o lugar não estava muito ferido, mas precisava tratar com antisséptico para não infecionar.
Levantei a blusa procurando por outros hematomas. Meu pescoço estava vermelho, meus braços estavam machucados e vários círculos roxos cobriam a minha barriga. Realmente, aquele homem havia acabado comigo. Em pensar que aquilo havia sido apenas para me pegar, estremeci ao imaginar como seria se ele tentasse me matar com as próprias mãos.
Saindo do quarto, vi as roupas que ele havia colocado em cima da cama para eu me trocar, mas eu nunca vestiria aquilo.
Comecei a calcular maneiras de fugir daquele lugar. Não poderia ser prisioneira daquele homem. Se estávamos realmente na Coreia, eu precisava deixar o país com urgência. Não fazia ideia de como havia parado ali, mas chegando à polícia o mais rápido possível, eu poderia achar as respostas das minhas perguntas e ir para casa em segurança.
Procurei pelo quarto algo que pudesse me servir de auxílio para escapar e encontrei um ventilador em um canto. Desmontei a parte de fora, o batendo no chão e puxando com as duas mãos até a parte de plástico quebrar, e tirei um pedaço de arame do motor.
Gostaria, naquele momento, de dar um grande beijo no meu pai por ter me ensinado todas essas coisas no tempo que foi da polícia.
Com o arame, eu consegui abrir a fechadura da porta e soltei a respiração quando percebi que não havia ninguém do lado de fora. Qual era a pior coisa que poderia acontecer comigo? O estranho atirar em mim de novo e me prender? Ele me matar? Aquilo eu sabia que ele faria de qualquer maneira, mas eu precisava lutar e não me entregaria facilmente. Precisava arriscar para pedir socorro, pois não ficaria presa naquele lugar de jeito nenhum. Já havia visto documentários e reportagens suficientes sobre o que acontecia quando as pessoas eram sequestradas e levadas para o exterior. Não queria nem imaginar que drogas eles poderiam ter injetado em mim, ou pior, colocado dentro do meu corpo para me fazerem de mula1.
Fui andando o mais silenciosamente possível, passando por um corredor com várias portas. Testei algumas, mas todas elas estavam trancadas.
No final do corredor havia uma porta entreaberta. Pensei que o estranho estaria ali dentro e já estava preparada para brigar de novo, mas quando a abri, não havia ninguém. O lugar me chamou a atenção automaticamente e eu entrei na sala, fechando a porta atrás de mim e acendendo a luz no interruptor perto, esquecendo, momentaneamente, que estava tentando escapar daquele lugar.
Era como um escritório com uma mesa e uma poltrona confortável atrás, mas que parecia nunca ter sido usada. Sem janelas ou sistema de aquecimento visível. A parede oposta estava coberta de fotos e anotações. Fios de lã ligavam um ponto ao outro, presos com alfinete e anotações com piloto preto em todos os lugares. Já tinha visto aquilo vezes demais para não saber o que era. Uma sala de investigação. E, a julgar pelo tamanho do painel de informações, era uma investigação muito grande.
Será que o estranho era da polícia? Isso explicaria a arma, as algemas e as medidas de segurança na casa.
Me aproximei do painel e comecei a analisar as fotos e os recortes das matérias. De uma maneira assustadora, elas pareciam muito familiares para mim, o que era muito estranho, porque, de acordo com o que eu me lembrava, nunca tinha visto aquelas fotos antes. Ou será que já?
Nunca fui muito interessada pelo trabalho do meu pai e ele sempre fez questão de me deixar longe das investigações, então aquilo não tinha nada a ver com o trabalho dele.
Comecei a olhar atentamente. Havia vários recortes de jornais e relatórios da polícia falando sobre assassinatos, pelo pouco que pude entender do coreano, já que não lia tão bem quanto falava. Pela semelhança entre as fotos, eu chutaria que se tratava de um assassino em série. Havia uma linha do tempo inacabada para a esquerda e para a direita, com pontos de interrogação antes do primeiro assassinato colado no painel. Cada ponto tinha seu conjunto de dados, com fotos um pouco perturbadoras das cenas dos crimes.
Encarando aqueles pontos de interrogação e as imagens, um flash apareceu na minha mente. Como uma memória antiga. Uma memória que eu não me lembrava de ter antes daquele dia.

Aquele havia sido o primeiro assassinato. Não havia nenhum caso antes dele.

Eu lembrava de mim mesma fazendo uma linha do tempo como aquela na parede do meu quarto na faculdade, com recortes e até mesmo com fotos parecidas com aquelas. Aquilo havia realmente acontecido ou meu cérebro havia começado a misturar a realidade com sonhos?
Uma sensação angustiante tomou conta do meu corpo. Eu não conseguia me lembrar do que eu havia feito no dia anterior. Ou no dia antes dele. Comecei a ficar em pânico. Eu estava realmente com amnésia.

O que eu estava fazendo naquele lugar?
Como eu estava envolvida com aquela investigação que eu nem sabia sobre o que se tratava?
Quem eram aquelas pessoas mortas?
Como eu as conhecia?


Alguém empurrou a porta, o que a fez bater contra a parede com um estrondo e eu pulei com o susto.
— Você fez exatamente o que eu disse para não fazer. Qual será a sua desculpa agora?
Eu virei para a porta aberta, como uma criança sendo pega com a mão no pote do biscoito pela mãe. E a mãe, naquele caso, era um homem bravo e com um instinto assassino.
A parte boa era que, pelo menos, ele não estava segurando uma arma.


1Mula: é o nome que se dá a pessoa usada por traficantes para transportar a droga ilegal por fronteiras policiadas, mediante pagamento ou coação.

Capítulo 3

“O cão não ladra por valentia e sim por medo.”
(Provérbio Chinês)

— Eu disse para você não escapar, porque eu não teria tanta paciência dessa vez.
Eu olhei curiosamente para o rosto do homem que havia invadido a sala e interrompido meu pensamento. Eu sabia quem era aquele homem. No início, o medo havia nublado minha visão, mas vendo-o claramente, eu consegui reconhecê-lo. Já havia visto seu rosto milhares de vezes antes.
— Você é ?
— Você não disse que não se lembrava de nada? — aquela pergunta era suficiente para mim.
— Mas eu me lembro de você. Lembro do que aconteceu com a sua família. Você foi o único que conseguiu escapar há dezesseis anos e agora investiga o que aconteceu com todas aquelas pessoas. Eu lembro de ter lido sobre você e de ter visto suas entrevistas na internet.
foi se aproximando e eu fui andando para trás, tentando me afastar. Se ele me atacasse, eu fugiria por debaixo dele. Suas pernas eram longas e eu era pequena, então conseguiria passar engatinhando. Era mais fácil fugir do que tentar lutar com ele de novo.
— O que você sabe sobre isso?
— Foi a única coisa que eu consegui lembrar. Quando olhei essas fotos e li essas matérias... Eu... Eu sabia alguma coisa sobre esse caso. Antes de acordar aqui hoje. Alguma coisa aconteceu.
— Como você conseguiu sair do quarto? — eu engoli em seco.
— Conheço algumas técnicas.
— Você precisa de uma explicação muito boa para que eu acredite nisso porque, de acordo com as minhas pesquisas, não existe aqui e em lugar nenhum. Principalmente uma nascida em Incheon. Você não deu entrada na Coreia do Sul em nenhum aeroporto nos últimos dias e nem nos últimos meses. Não há rastros seus em lugar nenhum nesse país. Para quem você trabalha? Por que você está aqui? Você é uma espiã norte-coreana? Uma desertora?
jogou alguns papéis para mim e eu os agarrei. Eram os resultados das buscas dele. Eu não conseguia entender muito bem, mas nos hospitais, na polícia, em lugar nenhum havia uma nascida em Incheon. O que estava acontecendo?
— Isso não é possível. — falei com descrença.
— Qual a sua explicação agora?
Eu ainda estava muito chocada com os resultados para pensar em qualquer coisa. Toda a minha vida havia sido apagada. O que estava acontecendo? O que seria de mim?
— Você tem certeza que essa busca está certa? Não é possível. Eu sei quem eu sou. — tentei argumentar.
— Incompetente não é uma palavra que se aplica ao trabalho que eu faço.
— Eu posso não saber como vim parar aqui, mas eu tenho certeza de quem eu sou. Meu nome é , nascida em trinta de outubro de 1996, em Incheon, Coreia do Sul. Filha de Alexandre e Tereza . Não importa o que esses resultados dizem, eu sei quem eu sou.
— Isso não é o suficiente para acreditar em quem você é. Você conseguiu passar por toda a minha segurança, entrou na minha casa, não, no meu quarto, e quer que eu simplesmente acredite na sua palavra?
— Qual a data de hoje? — ele franziu o cenho para mim.
— O quê?
— Qual a data de hoje? — repeti.
— 20 de setembro de 2017.
— O que você disse? — perguntei, incapaz de acreditar.
Nove meses. Eu havia perdido a memória dos últimos nove meses devido a alguma pancada na cabeça que eu havia levado. Nove meses estavam em algum lugar da minha mente, onde também estariam as respostas para as minhas outras tantas perguntas.
— Estamos no dia 20, do mês de setembro, no ano de 2017.
— Eu perdi a lembrança dos últimos nove meses da minha vida. De alguma maneira, eu estou envolvida nessa investigação. Eu lembro de poucas coisas, mas lembro de ter pesquisado e lido sobre você. Lembro de ter visto esses casos antes.
— Então você pode estar envolvida com o assassino. — não era uma pergunta.
— Os casos começaram há dezesseis anos, eu tinha cinco anos na época. Como isso é possível?
Antes que pudesse responder alguma coisa, a porta foi aberta e um homem vestindo um terno e com uma expressão nada agradável entrou.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou.
— Vejo que você conseguiu achá-la. — o homem falou, sem me olhar. — Iremos levá-la para a embaixada?
— Descobri que ela tem pistas sobre o caso da minha família. Vou levá-la para o hospital primeiro, para confirmar se pode ter ocorrido alguma coisa com o cérebro dela.
Uma luz de esperança se acendeu.
— Isso quer dizer que você vai confiar em mim? — ele me olhou com cara de poucos amigos.
— Você ainda é minha prisioneira. — eu revirei os olhos. — Estamos saindo. Vista as roupas que eu peguei para você.
— Estou muito confortável com as minhas roupas, obrigada.
levantou uma sobrancelha para mim como se dissesse que não dava a mínima se eu fosse trocar de roupa ou continuasse com as minhas sujas e fedorentas.
Suspirei e peguei a roupas que ele havia separado para mim.
***

Saí do escritório e voltei para o quarto onde havia ficado algemada sendo escoltada pelos dois homens.
Precisava me juntar a eles para descobrir o que havia acontecido comigo e com a minha identidade. Queria que o meu pai estivesse ali para me ajudar, mas não o via há quase um ano. Bom, se eu havia realmente perdido a memória, seriam quase dois anos.
Troquei minhas roupas rasgadas e sujas pelas roupas que havia colocado no quarto. Era uma calça e simples e um moletom, junto com sapatos. Tinha ficado um pouco grande, mas eram roupas femininas, então foi mais fácil adaptar.
— Estou pronta.
e o cara sinistro que estava junto com ele me levaram por uma escada para o andar de baixo.
— Vocês por acaso não me enganaram e agora vão me matar?
— Se ele quisesse te matar, já teria feito isso. — o sinistro falou e eu estremeci com o pensamento.
Quem eram aqueles dois? Sobre eu só lembrava o nome e o passado. Quem ele havia se tornado? Será que um traficante ou mafioso? Na Coreia existia isso?
Ei, quem é você? — perguntei ao estranho sem expressão.
Pensando bem, os dois poderiam se passar por irmãos, já que nenhum deles tinha expressões faciais normais. Ambos tinham uma cara séria, com os lábios quase apertados de tão tensos e o maxilar tensionado.
— O funcionário dele. — o sinistro respondeu, simplesmente.
Entramos em um estacionamento subterrâneo e eles me colocaram no banco traseiro de um carro preto grande. entrou no lado do motorista e o sinistrão, entrou no passageiro. Assim que ele entrou, pude perceber que tinha uma arma na cintura por debaixo do terno. Funcionário? Em que estava metido para andar com um homem armado, ter um carro daquele e ainda saber atirar tão bem? Agiotagem? Tráfico? Máfia?
— Então... Você é , não é?
Ele me lançou um olhar nada amigável pelo espelho retrovisor.
— Sinto muito, eu me esqueci. Do que devo chamar você já que estamos realmente na Coreia? Devo começar a usar os honoríficos2? Fiquei tão longe daqui que esqueci as considerações. O que você vai ser? Sr. ? ? Sunbaenim3? apenas? Você é mais velho do que eu. Pode ser... Oppa4?
Se um olhar pudesse matar alguém, eu estaria mortinha naquele momento. O Sr. Terno-e-arma tossiu para disfarçar a risada.
-ssi5. — o Terno-e-arma respondeu, recuperando a compostura.
— Apenas está bom. — respondeu.
— Tudo bem, Apenas está bom. Você deve ter se tornado uma pessoa muito importante para precisar de um segurança e um carro desses.
— Você pode ficar calada até chegarmos ao hospital? Não aja como se eu tivesse acreditado realmente na sua história. Ainda precisamos saber se você está falando a verdade.
— Ou apenas podemos desmaiá-la até chegarmos.
Dei de ombros como se a ameaça não significasse nada e fiquei o resto do caminho em silêncio.
Olhando pela janela, realmente percebi que estávamos na Coreia. Havia passado tanto tempo fora que havia quase esquecido de como era o meu país natal — se lembranças de uma garota de cinco anos contassem como memórias.
Estávamos na metrópole, mas o antigo se misturava com o moderno. Os prédios enormes e luxuosos de Gangnam, o grande fluxo de gente nas ruas — como esperado de uma cidade tão desenvolvida em todos os sentidos —, mas no fundo as antigas casas. Estava encantada com tudo o que via do lado de fora da janela, já que eu não tinha quase nenhuma lembrança da Coreia quando era criança e só tinha visto imagens de Seul pela televisão ou pela internet.
Entramos no estacionamento do hospital e enquanto saiu do carro, seu segurança sinistro ficou tomando conta de mim. Leia-se: vigiando.
— Qual o seu nome? — perguntei para ele, tentando puxar assunto, cortar o silêncio assustador e ser simpática.
Talvez se ele gostasse de mim, não quisesse me matar a cada três segundos.
— Isso não é importante. — ele me tirou de tempo.
— Você sabe, se o que eu falo for realmente comprovado verdade, não vai me deixar ir. Eu posso ter pistas sobre o assassinato da família dele. Provavelmente vamos nos ver muito daqui para frente.
— Você realmente não pode ficar calada? Eu sou um ex-oficial do exército e sunbae6 é um investigador, ex-tenente da Agência de Polícia Metropolitana de Seul. Poderíamos facilmente desaparecer com você sem deixar nenhum rastro.
Queria dizer para ele que meu pai era um oficial condecorado da polícia coreana e eu sabia reconhecer ameaças vazias, mas apareceu e nos mandou sair do carro antes disso.
Na sala, o médico me colocou para fazer uma tomografia e fez alguns outros exames de praxe para ver se havia algo de errado com o meu cérebro. Eu fiquei silenciosa o tempo todo, observando cada passo. Estar em um hospital, com o cheiro tão característico, me levou de volta as minhas práticas da faculdade.
Sentia muita falta de ajudar os outros como enfermeira. Também sentia falta dos meus livros de estudo, das ligações noturnas para o meu pai, dos presentes que ele me enviava, de saber que estava segura. Sentia falta da minha vida antiga, antes de cair naquela loucura. Tinha sido tudo muito rápido para pensar no antes.
Tudo tinha ido embora de uma maneira tão rápida e confusa, que meu peito doía em pensar no que eu estava metida. Queria que aquilo tudo fosse apenas um sonho e eu acordasse no meu quarto na faculdade, feliz, sabendo que estava bem. Mas não era um sonho. Eu estava confusa, sem saber como realmente me sentir diante daquilo tudo. Me senti tão pequena que achei que poderia desaparecer.
Eu estava cercada de gente desconhecida, que parecia me odiar e me ameaçava a cada dois minutos como se eu fosse uma pessoa perigosa.
Engoli as lágrimas que queriam descer e esperei pacientemente a maca voltar para o lugar, saindo do tomógrafo. O médico me chamou do outro lado da sala e entrou comigo, mesmo sem ser convidado.
— Como esperado pelos seus sintomas, você tem um leve inchaço no córtex motor, responsável pela memória processual, que inclui eventos pessoas importantes ou intensos, o que explica a amnésia temporária. Você bateu a cabeça muito forte em algum lugar, certo?
— Sim. — respondeu por mim. — Ela caiu e ficou desacordada por um tempo.
— Bom, o inchaço não é grande então não há perigo e nem necessidade de cirurgia, aparentemente. Cada organismo responde de uma maneira diferente, então eu não garanto que a sua memória vai voltar, mas talvez, aos poucos, você se lembre do que perdeu. Recomendo descanso por alguns dias e curativos nesses outros machucados. Deve tomar bastante cuidado porque pancadas futuras podem resultar em um problema ainda maior e mais perigoso para a sua saúde. Espero vê-la mais vezes nas próximas semanas para acompanharmos sua recuperação. A área é muito sensível, mas a recuperação vai ser rápida. Se sentir alguma tontura, enjoo, visão turva ou desmaios, você deverá voltar para novos exames.
— Obrigada, doutor.
apertou a mão do homem e uma enfermeira nos guiou para outra sala, onde minhas feridas foram desinfecionadas e cuidadas.
Em nenhum momento ela lançou olhares estranhos para o homem parado ao meu lado, olhando tudo com olhos de falcão. Ninguém desconfiava que eu pudesse ter sido sequestrada ou atacada por ele. Foi estranho.
Ela nos deixou sozinhos quando acabou.
— Será que agora você acredita em mim? — perguntei, segurando a vontade de dizer: “Eu tinha razão.”
— É possível que você esteja envolvida de algum modo com o que aconteceu a minha família e por isso vou mantê-la por perto, mas isso não quer dizer que eu confio em você. — ele falou baixo, quando eu comecei a me levantar. — Você pode ter perdido sua memória, mas isso não te torna inocente, nem agora e nem antes. Além disso, não tente fugir. Eu posso te encontrar em qualquer lugar.
— Eu estou em outro país, sem documentos e dinheiro. Como eu poderia fugir de você? — eu quase gritei de frustração.
— É só um aviso. — soou alto e claro. — Vamos embora.
— Você não vai me levar para a polícia ou para a embaixada? Talvez eles possam encontrar alguma coisa que você não conseguiu. — quis saber.
— Temos coisas mais importantes para resolver antes disso.
Voltamos para a casa de e eu fui colocada para tomar banho. Literalmente colocada, porque ele me empurrou para dentro do banheiro e fechou a porta antes que eu pudesse falar mais alguma coisa.
Ele e o segurança estranho ficaram do lado de fora me vigiando, porque eu podia ouvir suas vozes abafadas.
Depois do banho, eu troquei meus curativos com o kit que tinha colocado à minha disposição. Estava me sentindo muito melhor por causa dos analgésicos que havia tomado. Minha barriga e pernas estavam doloridas, além do meu nariz que — felizmente — não estava quebrado, mas eu estava longe de estar confortável e bem.
Eu queria ir para casa. Queria meu pai. Queria sair daquela loucura e voltar para a minha normalidade entediante. Nunca havia feito o estilo aventureira e muito atrevida. Só era corajosa na frente de cadáveres nas salas de prática.
Eu estava abrindo a porta do banheiro para sair, quando ouvi um pedaço da conversa dos dois homens do lado de fora:
— ...poderia mantê-la aqui enquanto suas memórias não voltam. Ou entregá-la à polícia.
— Não posso deixá-la presa, ela nunca vai aceitar assim. E eu preciso da sua ajuda para descobrir o que aconteceu. Se eu a levar para alguma autoridade agora, vai ser difícil manter contato com ela. — falou baixo.
— Então você decidiu confiar nela? — o Terno-e-arma perguntou, como se a ideia parecesse absurda.
— Talvez. Acho que ela é a pessoa que estava me enviando as mensagens esse tempo todo com as pistas.
— Isso é muito estranho, sunbae. Pode ser uma armadilha.
— Meu instinto diz que não é. Seria muita coincidência ela aparecer justamente quando a pessoa da mensagem sugeriu que nos encontrássemos.
— Ela pode ser essa pessoa, mas ainda estar armando. Não sabemos nada sobre essa mulher. Seu nome não está em lugar nenhum, é um indício muito forte de que ela está mentindo.
Eu abri a porta com força, assustando os dois.
— Os senhores estão falando sobre mim pelas costas, que coisa feia. No meu país, chamamos isso de fofoca. Se vão começar a falar sobre mim, é bom que eu esteja presente.



2A Coreia usa sufixos de tratamento, geralmente usados para se referir à pessoa com quem se está falando, ou quando se refere a um terceiro.
3Sunbae: termo usado para se dirigir a colegas mais velhos ou mentores. Nim: sufixo usado para se dirigir de maneira formal a alguém geralmente mais velho ou mais respeitado do que você.
4Oppa: É uma forma amigável de uma mulher se dirigir à um homem que seja mais velho. Pode também ser usado para se dirigir a namorados.
5-ssi: sufixo usado para se dirigir de maneira formal a alguém que você não conhece ou que você não é próximo.
6Sunbae: Referindo-se a alguém de um grau elevado, como um chefe ou alguém numa série acima.

Capítulo 4

“É muito fácil ser pedra, o difícil é ser vidraça.”
(Provérbio Chinês)


pigarreou, parecendo quase envergonhado por ter sido pego no flagra.
— Vejo que você terminou o seu banho. — constatou o óbvio. — Está se sentindo melhor? — levantei uma sobrancelha.
— Sua gentileza me comove. Você mudou da água para o vinho agora que quer a minha ajuda. — acusei, sem vergonha.
— Sinto muito, não era a intenção. Antes você era uma possível ameaça, agora é alguém que pode estar falando a verdade.
— Ninguém pediu nada a você.
colocou a mão na frente, para segurar o seu cachorro valente na coleira.
— Vocês estavam falando sobre uma pessoa que o enviou mensagens. Quem é essa pessoa?
— Nós realmente não somos obrigados a te contar nada. Você ainda está aqui como uma possível criminosa. Você invadiu a casa, agrediu uma pessoa que não conhecia e não encontramos nada que comprove sua identidade.
— Tudo bem, . Eu realmente preciso conversar com ela. Você pode tomar conta de tudo na empresa hoje até eu resolver as coisas por aqui? — o mandou sair de maneira pouco gentil.
Sunbae, você tem certeza de que pode confiar nela?
olhou para o segurança sinistro – – e concordou com a cabeça. Talvez tenha sido uma comunicação Jedi, porque, depois disso, saiu do quarto, me deixando sozinha com .
— Você está com fome?
me levou para a cozinha e me deu ramen com kimchi requentado para comer. Não tinha percebido o quanto estava com fome. Não lembrava a última vez que havia comido, mas meu estômago agradeceu quando coloquei a comida para dentro. Comi tudo, até bebi o caldo que ficou no final, tentando ter calma para não vomitar tudo depois, mas estava com tanta fome que, se isso acontecesse, eu não me importaria muito. me ofereceu água e um guardanapo, enquanto sentava à minha frente na mesa.
— Sinto muito pelo...
— Você acha que eu sou a pessoa que estava te enviando mensagens? — cortei a conversa fiada.
continuou com a expressão inalterada. Durante toda a manhã, eu não o vi esboçar nenhuma emoção em seu rosto. Enquanto lutava, enquanto conversava ou em qualquer outro momento. Será que ele não sorria? Seus olhos continuavam escuros e ameaçadores.
— Há alguns meses venho recebendo mensagens de um número secreto impossível de rastrear com pistas sobre o assassinato da minha família. Essa pessoa nunca se identificou e na semana passada, pediu para se encontrar comigo aqui na Coreia. Então você simplesmente aparece na minha casa sem memória. Isso me leva a acreditar que talvez tenha sido você a pessoa que estava me enviando as mensagens e alguém chegou em você antes de você chegar a mim. Creio que tenha sido essa pessoa que fez você perder a memória.
— E você tirou essa conclusão antes ou depois de atirar em mim? — falei, controlando a raiva e a vontade de chorar.
Se ele tivesse sido um pouco mais racional, eu não teria passando por aquele sofrimento e humilhação.
— Eu precisava te parar.
— Você pulou em cima de mim. — eu acusei, já com raiva.
Ele não deveria ter me feito passar por aquilo, sabendo desde o início que eu poderia ser inocente e que estava do lado dele.
— Você estava tão assustada quanto eu. Não poderia te deixar escapar.
— Será que você ficou ofendido pela surra que levou? — ele bufou.
— Surra? Por favor, foi o contrário, não?
— Você tem quase o dobro do meu tamanho e acabou com mais do que um olho roxo. Além do mais, não foi justo. Você tinha uma arma.
— Eu vou aceitar dizer que foi empate. — ele finalizou o assunto e eu rolei os olhos, ainda com raiva.
levou os pratos sujos para a pia e mudou de assunto. Ele não me parecia uma pessoa que gostava muito de falar sobre outras coisas que não fosse trabalho.
— Do que você se lembra? — tentei pensar.
— Minha última lembrança é de agosto de 2016. Lembro de estar muito nervosa e estressada por causa dos exames finais do semestre. Lembro de tentar entrar em contato com meu pai e dormir cedo. Nada muito específico, apenas minha rotina normal. Mas não lembro nada sobre o caso do assassinato dos seus pais. Eu sei que conheço o caso e estou bem familiarizada com ele, assim como os outros que se seguiram, mas, na verdade, não me lembro de como nem o porquê de ter essas informações na minha mente. Do mesmo jeito que você conhece alguém a vida toda, mas não sabe, exatamente, quando foi o primeiro encontro.
— O que você sabe sobre ele?
— Sei que há dezesseis anos uma família de Anyang foi brutalmente assassinada e apenas o filho mais novo dessa família sobreviveu. O pai foi o primeiro a ser morto, com três facadas no pescoço. O filho mais velho foi o segundo, com cinco facadas na barriga. A mãe tentou proteger a filha do meio, mas as duas levaram três facadas no pescoço e morreram por último no chão da cozinha. O filho mais novo estava dormindo no andar de cima e só descobriu os corpos algumas horas depois.
“Os policiais e os jornais acharam que havia sido um crime de vingança, por conta da brutalidade dos assassinatos, mas algum tempo depois, em Incheon, outra família foi morta do mesmo jeito. Nenhuma digital e nem a arma dos crimes foram encontradas. Pelos anos que se seguiram, outros assassinatos do mesmo estilo foram acontecendo e novas investigações foram abertas. Depois de três anos e quatro casos com as mesmas características e as mesmas faltas de provas, a polícia classificou como assassinato em série, conhecido como o Açougueiro de Anyang. Outros voltaram a acontecer, mas durante algum tempo nada aconteceu, ninguém ouviu falar do assassino ou se chegou a uma conclusão sobre o que aconteceu. Não conseguiram ligar as vítimas e por isso as investigações foram arquivadas por falta de provas.”
Pela primeira vez desde de que eu o vi pela primeira vez, naquela manhã, eu vi um flash de emoção cruzar o rosto de . Foi bem rápido, mas eu vi a tristeza profunda nos olhos dele. Tinha me esquecido completamente que foi ele a criança que encontrou seus pais e dois irmãos mortos, mergulhados em poças do seu próprio sangue, quando saiu do quarto para beber água.
Não podia nem imaginar o quanto aquilo deveria ter sido duro para ele. Havia perdido a minha mãe, mas como ela havia morrido no parto, não conseguia ter saudades de uma coisa que eu nem lembrava. Mas para ele deveria ser duro acordar todos os dias e lembrar.
Queria abraçá-lo para confortá-lo como eu fazia com as famílias que recebiam no hospital que seus entes queridos não haviam sobrevivido a cirurgia, mas sabia que se tentasse fazer aquilo, ele me daria uma chave de braço. Além do mais, coreanos nem gostavam de abraços.
— Sinto muito. — falei, cheia de pesar.
— Tudo bem. Suas lembranças estão certas.
— Eu gostaria de voltar para a sua sala, lá em cima, para aprender mais sobre os casos ou tentar lembrar de alguma coisa, se estiver tudo bem.
, há dez anos, eu tomei a decisão de descobrir o que aconteceu com a minha família e por isso abri uma agência de investigações. O que me manteve nesse ramo há tanto tempo e o que me fez tão bom nisso foi o meu instinto. Esse instinto me disse para onde ir e se eu deveria confiar ou não nas pessoas. E esse mesmo instinto diz que eu posso confiar em você. Realmente não queria acreditar, já que você foi a pessoa que acordou no meu quarto, aparentemente sem memória de como havia parado lá e sem nenhuma informação do seu passado. Parece loucura, pensando racionalmente, mas eu vou confiar em você a partir de hoje. Vou ouvir o que você tem a dizer, vou confiar nas coisas que você lembra.
Reprimi um sorriso satisfeito. Aquele era o primeiro passo.
Finalmente ele estava acreditando em mim. Quer dizer, se ele não tivesse acreditado em mim, não saberia o que fazer. era a única pessoa que poderia me ajudar. Ele era a minha única maneira de descobrir o que havia acontecido comigo e me ajudar a conseguir a minha identidade de volta. E por conta daquele voto de confiança dele para mim, eu também confiaria nele.
— Obrigada, . Eu vou fazer de tudo para conseguir lembrar o que aconteceu com a sua família.
— Também farei de tudo para descobrir o que aconteceu com a sua identidade. Tenho meu pessoal nisso. Iremos procurar por casos de desaparecimentos onde pudermos. Se você tem uma família, ela deve estar procurando por você agora. — ele prometeu e eu me senti um pouco aliviada.

me levou de volta para a sua sala de investigação particular e eu passei o resto do dia, lendo todas as informações que ele tinha. Cada detalhe sobre cada família que havia sido vítima do serial killer. Apaguei do vidro o ponto de interrogação antes do caso da família dele e escrevi em cima “1º caso”, atualizando a informação.
Me esforcei, repassando várias vezes os artigos que lia com a ajuda de um tradutor na internet e as imagens, para tentar lembrar mais alguma coisa ou despertar algum flash da minha memória, mas tinha sido inútil.
Ji-soo, trabalhador da construção civil, casado com Woo Soo Ji, dona de casa e ex-professora de primário, moradores de Anyang e pais de Min-ho, Eun-ho e Dak-ho, todos estudantes, com idades próximas. A família foi morta em 2001, o primeiro dos crimes.
A família de Cha Dal-bong e Cha Ho Rang morreu em 2003 e eles viviam em Incheon, mas poucas coisas se sabiam sobre os dois. Cha Ho Rang parecia ter sido dona de casa e Cha Dal-bong tinha algumas passagens pela polícia. Tinham apenas dois filhos, Cha Se Hee e Cha Moon Hee.
Moon Tae-joo também era um trabalhador de construção civil em Anyang e era casado com Go Jung Min, antiga escritora de livros infantis, mas que só trabalhava como dona de casa. O assassinato ocorreu no meio de 2005, tirando suas vidas e a vida de sua filha doente.
Cha Jung-Hwan, funcionário público de um cartório. Cha So-Min, enfermeira em Incheon, casados há mais de vinte anos e pais de Cha Mi-Young e Cha Ra-Young, de 16 e 18 anos, estudantes. Morreram em 2007.
Em 2009 aconteceu o assassinato mais difícil de investigar. O assassinato da família de Seo Dong-won. Poucas coisas se sabiam sobre ele e sua família. Não conseguiram nada sobre sua profissão ou de sua esposa, Seo Myung Ja, porque os dois mudavam muito de cidade e usavam nomes falsos. Inclusive seus filhos So-Hee e Min-Hee.
Os dois últimos mudaram um pouco o padrão, porque, geralmente, os crimes aconteciam com dois anos de diferença, mas esses diferiram em apenas um ano. O de Goo Dae Young, antigo delegado em Anyang e morador de Busan, esposo da advogada Goo So Hyun. Tinha três filhos e todos foram mortos. O mais velho tinha dezessete anos e a mais nova tinha nove. E em 2013 aconteceu o último assassinato, que foi o de Lee Won Seok, advogado criminalista, sua esposa, a professora Lee Bong Soon, e suas duas filhas.
Lendo cada um dos dados, eu tentei fazer minha mente voltar, mas ficava cada vez mais frustrada.
Quanto mais rápido eu conseguisse ajudar , mais rápido eu descobriria o que havia acontecido comigo.

Naquela noite, depois de comer sozinha outro pacote de ramen – porque era a única coisa que tinha dentro do armário – eu deitei na cama do quarto que seria meu dali para frente. Encarando o teto branco, as lágrimas começaram a cair involuntariamente. Meu coração doía da saudade e da angústia. Eu queria voltar para o meu quarto, para a minha rotina, para os meus colegas, as minhas aulas, o meu conforto. Queria voltar para a minha velha vida.
Tudo que havia acontecido naquele dia, desde acordar no quarto de um estranho, levar um tiro de raspão no braço, apanhar, ser levada ao hospital e descobrir o sofrimento que todas aquelas famílias haviam passado, tudo voltou para mim com força e eu chorei em silêncio, no travesseiro.
— Por favor, meu Deus, me ajude.
Peguei no sono, enquanto repetia aquela frase incansáveis vezes.

Capítulo 5

“Se quiser derrubar uma árvore na metade do tempo, passe o dobro do tempo amolando o machado.”
(Provérbio Chinês)

— Você disse agência de investigação e não uma mega empresa de investigação. — exclamei, olhando a faixada do alto prédio na minha frente.
era muito rico. Não só rico, ou riquinho, mas sim podre de rico. Ele era dono de uma das maiores empresas – se não fosse a maior – de investigação de toda a Coreia do Sul. Ele estava em todos os lugares, ajudava pessoas de todo o país, contando com a ajuda de muitas organizações políticas. Pelo tamanho da casa dele, eu já tinha imaginado o quanto ele tinha, mas vendo a empresa e a quantidade de pessoas que entravam e saíam dela, pude ver a grandiosidade de sua fortuna.
Ele estendeu o braço para que eu entrasse na frente dele e seguimos para dentro. Por todo lugar que passávamos, os funcionários o cumprimentavam com uma profunda reverência1 de 90 graus, mostrando o seu respeito. Alguns falavam comigo e eu devolvia a reverência, do jeito que havia sido ensinada quando era pequena.
Uau. Tudo aqui é tão grande e... brilhante. — falei, quando entramos no elevador particular que nos levaria para a sala dele.
— Brilhante? Esse é um adjeto diferente de tudo que eu já ouvi sobre a minha empresa.
— Você é muito bem-sucedido, mesmo muito jovem.
— A determinação faz isso com você. Por aqui, por favor.
Nós saímos do elevador e ele me guiou por um longo corredor cheio de portas. Assim que entramos na porta no final do corredor, ela foi novamente escancarada e algumas pessoas entraram apressadamente na sala.
Uma mulher se destacou entre as três pessoas que haviam entrado, falando diretamente com , sem usar os honoríficos e sem cumprimentar ninguém mais na sala:
— Você pode me explicar o que é isso?
Eles deviam ser próximos. Bom dia para você também, unnie2.
, por favor...
— Uma pessoa simplesmente aparece e você acredita em tudo que ela fala? — a mulher exigiu, parecendo furiosa.
— Por favor, , você pode levar a para conhecer a empresa? Preciso conversar com .
– ou segurança sinistro – me segurou pelo braço e me colocou para fora da sala.
— Meu braço. — reclamei. — Já entendi que preciso sair.
— Pode deixar, -ah. Eu a levarei para conhecer o resto da empresa. — falou a terceira pessoa que havia entrado na sala e que eu não havia notado até aquele momento.
Será que o só tinha funcionários loucos? Com uma cara ainda fechada, me liberou para sair com o outro segurança, ou sei lá o que ele era.
— Quem é você?
Jinhwan, mas todo mundo me chama de Jay. Você vai querer o tour que damos às crianças quando as escolas vêm nos visitar ou o tour legal?
Sorri para Jay. Ele tinha um sorriso carismático e foi a primeira pessoa que me tratou bem desde que eu havia acordado naquele lugar. Senti uma empatia instantânea por ele. Precisava mantê-lo ao meu lado.
Ele começou me explicando como o lugar funcionava. Cada área especializada em uma coisa. A parte das denúncias, das pesquisas, forense, publicidade e hackers. O lugar era formidável e muito bem organizado.
Perambulamos de cima para baixo, algumas salas eu não pude acessar, já que o sistema de passagem de informações era dividido em níveis e eu não podia conhecer todos.
Jay me levou por quase todos os andares, me apresentando às pessoas e tirando minhas dúvidas pacientemente. A cada coisa que eu via, ficava ainda mais curiosa pelo lugar e com vontade de trabalhar ali e com aquelas pessoas, mesmo não tendo nada a ver com a minha área. Nunca tinha visto de perto uma empresa daquela magnitude. era responsável por uma enorme equipe de pessoas que ajudavam outras pessoas. Comecei a entender o nível de segurança da sua casa, com biometria na porta principal e várias câmeras espalhadas.
— Tudo começou com a vontade do sunbae de vingar a morte da família dele, mas logo ele se tornou uma espécie de justiceiro. A população, a polícia e até os nossos governantes enxergaram os esforços dele e o ajudaram, principalmente financeiramente. Foram surgindo vários casos no meio do caminho e logo a vontade de fazer justiça por outros surgiu. Mesmo enganando pela casca grossa do lado de fora, ele tem essa essência boa, sabe? De não esperar recompensa de ninguém pelo bem que faz. Quando crescer, quero ser como ele.
havia construído uma fortaleza e mesmo com tudo aquilo não havia conseguido pegar o assassino da sua família. Isso queria dizer que ele estava lidando com alguém tão bom quanto ele e que dispunha de tantos recursos e tanta força quanto. Não conseguia enxergar como eu poderia ajudar mais do que aquelas coisas.
— Você está com fome?
Jay me levou para o refeitório da empresa e eu coloquei no prato várias comidas que eu não conhecia. Nunca tinha sido fresca para comida e do jeito que eu estava com fome, não teria nenhuma dificuldade de comer aquilo tudo.
— Tem certeza de que vai comer isso tudo? — ele perguntou, quando sentamos em uma mesa.
— Eu estou morrendo de fome e o não tem muita coisa em casa para me alimentar.
— Eu ainda não acredito que o sunbae deixou você ficar.
— Até você já conhece a história?
— Não é que eu esteja chamando o de fofoqueiro, mas ontem ele estava com muita raiva do que aconteceu. sunbae realmente surpreendeu todos nós acreditando em você. Ele nunca consegue confiar em uma pessoa logo de cara. Levou três anos para ele me deixar chamá-lo de hyung3 e é só quando ninguém está por perto. — dei de ombros.
— Não sei o que aconteceu, mas fico feliz que ele tenha escolhido confiar em mim. Mesmo eu tendo apanhado primeiro para que isso viesse a acontecer. — nós dois rimos.
— Você ficou bem machucada. — Jay apontou para o meu rosto. — Imagino o quanto deve ter doído.
— Parece pior do que realmente é.
Jay levantou uma sobrancelha, sabendo que eu estava brincando.
O hematoma no meu olho estava bem arroxeado, mas parecia menos inchado depois de várias compressas de água em cima e os outros machucados ainda eram visíveis, mas ninguém havia olhado torto na minha direção, logo, havia avisado a todos sobre o fato ou aquela era uma visão constante dentro da empresa. Meu rosto ainda estava dolorido e eu precisava tomar cuidado quando tomava banho. As outras partes do meu corpo estavam menos arruinadas.
Estava muito mais relaxada naquela manhã. Conhecendo a ajuda que eu teria, estava muito mais confiante de que iria descobrir logo o que havia acontecido comigo e aquela situação iria mudar. Logo estaria de volta em casa.
— O que você faz aqui?
— Sou formado em ciência da computação. Não há alguém nesse mundo que eu não consiga rastrear, não com as minhas habilidades e com os equipamentos que nós temos. Fui eu quem investigou sobre você e voltou com as mãos vazias. Realmente me surpreendeu muito. É como se você nunca tivesse existido. Confiando que você nos deu seu nome verdadeiro, acreditamos que sua identidade tenha sido apagada. Procuramos pelo nome do seu pai e da sua falecida mãe, mas nenhum dos dois puderam ser achados.
Do jeito que Jay estava olhando para mim, parecia que a mesma pergunta que rodava na minha mente, rodava na dele.
— Você acha que a pancada pode ter afetado isso também? — ele assentiu para a minha pergunta. — Não consigo explicar, mas eu tenho certeza de quem eu sou. Tudo de vários meses atrás e antes disso, eu consigo lembrar. Cada memória da minha infância, a minha família e quem eu sou. Lembro até das minhas aulas na faculdade. Lembro que não gosto de amendoins e de sorvete de baunilha. Não acredito que isso tenha acontecido. Acho que, realmente, a minha identidade foi apagada.
— Para apagar a identidade de uma pessoa, é necessário muito esforço, dinheiro e habilidade. Quero muito conhecer essa pessoa.
— Muito mais do que você, eu quero conhecê-la.
Estávamos no meio da nossa conversa quando um som de algo disparando interrompeu o garfo de chegar à minha boca.
— Isso foi o que eu acho que foi?
Meu coração começou a bater com força no meu peito e eu larguei o garfo com força dentro do prato.
— Um... tiro?
Jay se levantou, em alerta, assim como várias pessoas ao nosso redor. Outro som de tiro e dessa vez foi mais alto e nítido. Vários outros disparos se sucederam.
— Como alguém conseguiu passar pela segurança desse lugar?
Uma sirene alta começou a tocar e várias pessoas foram ao chão. Quem não havia abaixado, sacou suas armas. Jay me derrubou no chão com força, cobrindo a minha cabeça, me forçando a ficar abaixada.
— O que está acontecendo? — perguntei, assustada.
— Fique parada e com a cabeça baixa.
Ele pegou um celular e colocou no ouvido.
— Estamos no refeitório do térreo.
Mantenha Anna segura, chego aí em dois minutos. — a pessoa do outro lado da linha gritou. .
Jay ligou para outra pessoa e começou a falar tão rápido que eu não conseguia processar as palavras.
— O que está acontecendo? — perguntei para Jay, quando terminou a ligação.
Ele continuava pressionando minha cabeça para baixo, contra o chão.
— Permaneça abaixada.
Alguém me puxou pelo braço e rolou comigo para debaixo de outra mesa, eu ia gritar, mas colocou a mão na minha boca. Ele se aproximou do meu ouvido e meu corpo todo gelou.
— Vou levá-la para um lugar seguro. Mantenha sua cabeça abaixada e protegida. Vou contar até três e você vai correr como quando você correu fugindo de mim, tudo bem? — concordei com um aceno.
No três, me puxou de pé e nós corremos para fora do refeitório por uma saída que eu não tinha visto antes.
— O que está acontecendo? — perguntei frenética, quando paramos de correr.
Me dobrei, com as mãos nos joelhos, tentando tomar respirações profundas, com o peito queimando pelo esforço.
— Alguém está aqui por você. Pelas câmeras, vi que a pessoa estava se dirigindo ao refeitório, onde você estava.
Fiquei ainda mais sem ar. Alguém estava tentando me... matar?
— Isso nunca aconteceu antes. Alguém daqui de dentro fez isso.
— Será que foi a mesma pessoa que me fez perder a memória e apagou a minha identidade?
— Não sei, mas é provável. Acho que o já conseguiu conter a situação.
sacou o celular e começou a gritar para do outro lado da linha, pedindo – leia-se exigindo – explicações. Aquele pessoal só sabia falar gritando?
— O que aconteceu? — perguntei.
— Foi uma pessoa que fez alarde e acabou sendo baleada, antes de conseguir prenderem ele. A situação já está contida, mas eu preciso tirar você daqui e descobrir o que realmente aconteceu, porque isso não é algo convencional. Vamos.
Nós voltamos para o refeitório, onde tudo parecia como antes. A diferença era que todo mundo estava mais atento, olhando para um para o outro e um pouco assustados também.
Jay veio caminhando na nossa direção, junto com .
— Já levaram o corpo dele.
, eu preciso de respostas. Como alguém conseguiu entrar aqui com uma arma sem estar autorizado? Como alguém conseguiu passar pela minha segurança? — estava com raiva, mas sua expressão ainda era inalterada, como sempre. Só sua voz estava mais dura e seus olhos mais estreitos.
— Foi um dos nossos funcionários. Ele começou no corredor 1B e tudo indica que estava indo em direção ao refeitório, mas foi detido antes de conseguir chegar lá. Ele sabia que não conseguiria.
Jay passou uma série de papéis para , que automaticamente começou a ler as informações.
— Lee Jinyoung, aqui mesmo de Seul, vinte e sete anos, especialista em criminalística. Nenhuma ligação suspeita, nenhum antecedente. Nós o contratamos há três anos através das nossas seleções anuais. A arma era nossa.
— Eu preciso de todas informações sobre essa pessoa em vinte minutos na minha mesa. Preciso descobrir de que maneira que ela pode estar envolvida com o assassino que procuramos.
, eu sei que você está...
— Como posso trabalhar em uma empresa onde nem nos meus funcionários eu posso confiar? Você sabe o que isso quer dizer? Todo o nosso esforço vai por água abaixo.
— Em cinco anos, algo como isso nunca aconteceu. Não é possível um funcionário qualquer, simplesmente ter decidido sozinho, com um revólver simples, investir contra uma empresa onde ele sabe que setenta por cento tem porte de armas e treinamento militar. Ele estava procurando por alguém ou simplesmente querendo chamar a nossa atenção.
— Vocês acham que é por causa dela? — apontou com o queixo para a minha direção.
— Isso é uma prova de que a minha intuição estava certa.
segurou minha mão de novo e nós fizemos o mesmo caminho do início da manhã para o escritório dele, com e Jay em nosso encalço. Eu me sentia como uma criança sendo guiada pelo professor, perdida no meio dos adultos.
— Libere uma nota para a imprensa explicando o que aconteceu aqui. Eu não quero que... — a fala de ficou no ar quando ele abriu a porta do escritório e todos nós olhamos para dentro.
A mão dele que ainda segurava a minha, apertou com força e ele abaixou a minha cabeça para o lado contrário, em seu peito, de uma maneira que me impedia de olhar para dentro do escritório, mas, infelizmente, a cena que eu havia acabado de ver, mesmo que por apenas poucos segundos, estava gravada como com ferro na minha mente.
Senti minhas entranhas apertando e o vômito chegar até a minha garganta quando virei minha cabeça para o outro lado, forçando minha visão para o que estava na minha frente.
O escritório de estava um caos de sangue e papéis jogados por todos os lados, como se tivesse acontecido uma briga no local. E no chão estava a histérica daquela manhã, , morta com várias facadas.


1Na Coreia, os cumprimentos são feitos por reverências com o corpo curvado e quanto mais profunda a reverência, mostra o nível da pessoa a quem se dirige a reverência.
2Unnie: Usado para uma mulher se dirigir a uma mulher um pouco mais velha.
3Hyung: Maneira de um homem tratar outro homem que seja mais velho e próximo. Também pode significar irmão mais velho.

Capítulo 6

“Pouco se aprende com a vitória, mas muito com a derrota.”
(Provérbio Japonês)

Como uma estudante de enfermagem, eu já vi muitas coisas que me abalaram. Muitos corpos mortos, de vários formatos, cores e tamanhos diferentes. Com várias causas de mortes diferentes. Não havia escolhido aquela profissão por amar ver gente morta, mas pela minha vontade de ajudar outras pessoas. Com a parte de ver gente morta eu apenas tive que me acostumar com o passar do tempo.
Mas uma coisa era ver gente morta depois que seus corpos estavam limpos e prontos para a prática. Outra coisa era ver um corpo fresco, com tantas facadas no pescoço que a cabeça quase se desprendia da base, como uma boneca de pano descosturada, com o fedor de sangue pinicando no nariz. Ainda mais de uma pessoa que você tinha visto viva em poucas horas.
— Você está bem?
Eu acenei apenas, não confiando na minha voz para falar nada. Terminei de beber a água que estava na minha mão e coloquei as mãos em cima dos joelhos, tentando fazê-las pararem de tremer.
Jay estava em um canto, devastado e com os olhos vermelhos de tanto chorar. estava em outro canto, apenas observando e telefonava para alguém diferente a cada três segundos, falando com uma voz friamente calma.
Quando descobrimos o corpo de , nos levou para outro lugar e os peritos apareceram. Mesmo estando em uma empresa especializada em investigação, a polícia precisava ser a primeira a ter contato com a cena do crime. Pelo grande barulho do lado de fora da porta, eles ainda estavam lá, fazendo o trabalho deles.
Eu estou bem. Tudo vai ficar bem. Era tudo que eu dizia para mim mesma, mas no fundo eu sabia que não ia. Assim como havia sido , poderia ter sido eu. Poderia ter sido eu no meio daquela carnificina, brutalmente assassinada, sem saber por quem e nem por quê. O que eu temia de verdade era que, provavelmente, deveria ter sido eu.
Sunbae, lá fora. Nós precisamos conversar.
— Eu sei o que você vai falar, . Por favor, não se intimide pela minha presença. — falei, olhando diretamente para ele, mostrando que não estava intimidada.
Ele respondeu à altura:
— Os tiros foram uma distração para ele fazer o que tinha vindo fazer. Esse foi o primeiro aviso que você recebeu em tantos anos de investigação e logo quando ela aparece. Você não acha coincidência demais?
— Está dizendo que é minha culpa? — eu o acusei, ofendida.
. — reclamou. — Obviamente estar aqui e viva não era o plano dele. Alguma coisa deu errado e ele está avisando. Nunca estivemos tão perto e foi o preço a pagar por isso, infelizmente.
Jay saiu da sala e bateu a porta fechada com força depois do comentário de . Até para mim pareceu frio demais diante de tudo que havíamos acabado de presenciar.
— Ele está muito chateado, não é? por acaso era namorada dele? — nenhum dos dois me respondeu.
vai te levar de volta para casa enquanto resolvo as coisas por aqui.
Sunbae...
— Não, . Você é o único em quem eu confio para deixá-la protegida longe das minhas vistas. Se alguma coisa acontecer, não hesite em me ligar. Já tivemos problemas demais hoje.
— Você não acha que eu mereço estar a par do que acontece aqui, já que isso está diretamente ligado comigo? — exigi.
— Até eu saber o que aconteceu aqui, você fica longe. — começou a me puxar para fora.
— Você não acha que estar em contato com a investigação me faria relembrar alguma coisa? — usei a única carta que tinha, tentando me desvencilhar dele.
— É por isso que você precisa ficar longe daqui. Se algo desse tipo acontecer novamente e eu não puder protegê-la, poderei perder a maior oportunidade em anos de conseguir solucionar esse caso. Vá para casa.
Deixei me conduzir para fora, descendo pelo elevador ligado diretamente ao escritório de para o estacionamento, de volta para o carro que tínhamos utilizado naquela manhã.
Quando saímos, tomamos um caminho diferente, porque a pista principal que levava à empresa estava tomada por pessoas da imprensa e curiosos, além dos carros da polícia. , por sua vez, não falou nada durante todo o caminho. Nem se dignou a olhar na minha direção, como se eu não existisse. Preferi pensar que aquilo era melhor do que um olhar ameaçador.
Em casa, no quarto que havia sido designado para mim, eu andava de um lado para o outro, tentando pensar algo para trazer minhas memórias de volta. A sensação de vazio, de um buraco em branco no meio das memórias, trazia um sentimento desesperador de perda. Era como uma névoa que cobria as memórias, sabendo que elas estavam ali em algum lugar.
No meio dos meus devaneios, algo na parte de baixo da casa fez um barulho alto e eu quase me joguei pela escada, descendo para ver o que estava acontecendo. Antes enfrentar o perigo de cara do que ficar esperando ele chegar até você, alguém tinha dito isso alguma vez.
Será que a pessoa que havia matado estava naquela casa para me matar também?
?
Chamei pelo amigo de , mas ninguém respondeu. Ele não havia sido designado para me proteger? Onde ele estava quando eu mais precisava dele?
?
Olhando pela janela, eu vi que o carro estacionado quando havíamos chegado não estava mais ali. tinha ido embora? E se alguém aparecesse para me matar como havia acontecido na empresa? Realmente, aquele idiota tinha aproveitado a primeira oportunidade para me deixar sozinha para morrer. Não sabia que ele me odiava tanto.
Será que ele estaria me culpando pela morte de Hae Won? Um pensamento bem pior correu a minha mente. Será que eu tinha sido realmente culpada daquela morte? Ouvi passos bem leves atrás de mim e eu virei com tudo, dando uma rasteira e subindo em cima da pessoa, segurando-o pelo pescoço e com um soco pronto. Meu corpo machucado protestou pelo esforço.
— Você queria me testar, não?
não me afastou. Apenas me avaliou com olhos desafiadores.
— Você é um idiota.
Eu o empurrei com força e me coloquei de pé, controlando a vontade de socá-lo até minha raiva passar. Meus olhos se encheram de água. Como ele pôde me assustar daquele jeito, sabendo que minha vida estava em risco de verdade?
— Seus movimentos não são nada maus. — ele falou, se levantando e tirando a poeira do terno, como se não fosse nada.
— Será que agora que você sabe que eu não vou fugir, você vai confiar em mim? — seus olhos diziam que não. — Você não confia no julgamento do seu amigo?
— O sunbae pode estar cego pela necessidade de resolver esse caso e não enxergou quem você é de verdade. — ele admitiu, impassível.
— Eu não sou, supostamente, a pessoa que está conversando com ele há vários meses?
Supostamente. — ele frisou a palavra. — E ninguém nunca disse que essa pessoa queria nos ajudar.
— Ela não ofereceu várias pistas sobre os casos? — ele deu de ombros.
— Trabalho nesse ramo há tempo demais para aprender a não confiar nas pessoas. Está com fome?
Eu o olhei com os olhos semicerrados. Qual o problema com aquelas pessoas?
— Vou tomar banho. Peço, por gentileza, que você não invada o banho para me matar.
Subi, enxugando as lágrimas que estavam prestes a cair. Eu não me envergonharia chorando na frente dele. não merecia.

Continuei no quarto, tentando juntar as pistas que tinha anotado em uma velha agenda encontrada no escritório de , até quando o ouvi chegar no andar de baixo. De jeito nenhum teria ficado sozinha no mesmo cômodo com o estranho do , que estava esperando só pela oportunidade para me matar ou pelo menos me torturar em troca das informações que ele achava que eu escondia. Nem todos haviam me dado um voto de confiança, como .
— Você está bem? — meu anfitrião me perguntou quando desci as escadas.
Segurei a calça de moletom que vestia com as duas mãos, para me impedir de tropeçar na barra grande demais. Precisava de roupas de verdade.
parecia cansado, como uma pessoa que não dormia bem há dias ou que tivesse algo atormentando a sua mente.
— Sim. E você? — ele acenou com a cabeça.
— As características do homicídio de batem perfeitamente com o estilo do serial killer que procuramos. — ele falou diretamente. — Foi encontrado na cena do crime um livro de psicologia com um autógrafo para Lee Bong Soon. Lee Bong Soon era o nome de uma das vítimas do último caso no ano passado. Como nos anteriores, um item do último caso foi deixado na cena seguinte. A única diferença é que apenas uma vítima foi encontrada dessa vez, fugindo do padrão, o que nos faz concluir que esse crime não foi planejado como antes, mas uma medida extrema.
— Nunca estivemos tão perto dele antes.
— Ele nunca esteve tão perto de nós antes. — corrigiu e eu estremeci. — A única razão para isso ter acontecido é porque , finalmente, está aqui. Você deve saber coisas importantes e o assassino sabe disso.
— Eu só preciso saber como me meti no meio dessa confusão. — ambos olharam para mim. — Quer dizer, como eu acabei metida nessa história? Por que eu comecei a investigar esses casos? O que isso tem a ver comigo?
— Talvez essa seja a chave da resolução.
— Você pode me mostrar a mensagens que eu supostamente te enviei?
me passou o celular dele, nas mensagens que a pessoa, que todos achavam que era eu, havia mandado.

Número desconhecido: Você é Park Minho?

Aquela mensagem parecia tanto comigo. Direta.

Park Minho: Quem é você?
Número desconhecido: Você é a única vítima do caso do assassinato da família em Anyang em 2001. Park Minho: Se não me disser quem é, irei bloquear o número. Número desconhecido: Eu sou alguém que está investigando o caso e tem pistas sobre o que aconteceu com a sua família.

Depois dessa mensagem, só voltou a responder no dia seguinte. Provavelmente havia tentado rastrear o número ou descobrir mais sobre a pessoa anônima. Apenas a mensagem que foi enviada no dia seguinte o fez voltar a responder o número desconhecido. Foi uma maneira esperta que eu – supostamente – havia encontrado de chamar a atenção dele.

Número desconhecido: Sei que o assassino deixa itens dos assassinatos anteriores nas cenas dos crimes seguintes.
Park Minho: Quem é você?
Número desconhecido: Preciso manter a minha identidade protegida para não correr perigo, mas quero ajudá-lo. Possuo informações que podem ser desconhecidas para você.

Nas mensagens seguintes, com grandes intervalos entre os dias, e a pessoa desconhecida conversaram sobre os homicídios. não falava quase nada sobre o que sabia, mas a pessoa que estava enviando as mensagens deu várias pistas que, pelas respostas dele, pareciam novas.
Estava quase no final da conversa quando uma mensagem em particular chamou a minha atenção.
Sei que posso confiar em você, porque também fui vítima dele. — li em voz alta.
— O que? — perguntou.
— Essa mensagem é familiar. Talvez eu lembre de ter escrito isso.
Olhei para o homem na minha frente e ele me encarava com esperança. Algo na minha mente apitou. Eu me lembrava de ter escrito algo como aquilo em algum momento da minha vida, mas não sabia quando. Forcei as lembranças, mas nada chegou. Aquelas palavras eram muito familiares para mim. Será que aquilo era um sinal?
pegou o celular da minha mão e leu a mensagem que eu indiquei.
— E o que isso significa? — dei de ombros.
— Não faço ideia, mas essas palavras parecem familiares para mim. Não lembro totalmente, mas tenho a vaga memória de conhecê-las e, possivelmente, tê-las digitado. Então eu posso, realmente, ser essa pessoa.
— Que conveniente se lembrar disso agora.
Rolei os olhos para . Ele nunca ajudava, só enchia com dúvidas sobre mim.
, por favor. Decidimos dar um voto de confiança a ela e por isso acredito em suas palavras. Se essa mensagem parece familiar para ela, a probabilidade de que tenha sido ela a pessoa que estava me contatando todo esse tempo é muito mais alta. As coisas começaram a se encaixar. Podemos estar cada vez mais próximos da resposta.
Sunbae, você precisa comer e descansar. Teremos muito trabalho contatando a família de e com os procedimentos seguintes.
— Você tem razão, . Obrigado por me lembrar. Por favor, podem começar a comer sem mim. Não vou demorar muito.
subiu e eu fiquei novamente sozinha com o sinistro que me odiava.
— Você sabe que não está ajudando em nada desse jeito. já tomou sua decisão. — falei, querendo mostrar que ele estava errado.
— Vamos comer. — ele falou simplesmente, ignorando meu comentário.
— Você vai ser simplesmente assim? Nenhum pedido de desculpas?
Ele se levantou e começou a mexer nas panelas.
— Todos são culpados até que se prove o contrário. — disse em tom acusatório. — Não te devo nenhum pedido de desculpas.
— Eu tenho quase certeza de que a frase certa não é assim. — falei e ele continuou não dando a mínima. — Se você não estiver satisfeito, é só sair. Você não é obrigado a conviver comigo.
— Você pode pegar aquela sacola para mim, por favor?
Eu dei um sorriso amarelo para a maneira como ele me ignorava.
— Pois fique sabendo que eu também não confio totalmente em você.
— Não fui eu que apareceu no quarto de um estranho e alegou não saber porque estava ali, além de não ter identidade e nem rastro em lugar nenhum.
Olhando por aquele lado, eu realmente parecia suspeita. Droga, ele tinha razão e eu odiava admitir.
não demorou em descer, com uma roupa limpa e o cabelo molhado, então logo pude encher minha barriga que se embrulhava de fome, jantando o que havia comprado, com os dois, na sala, e lendo alguns papéis que ele havia levado sobre o relatório da polícia.
As fotos da cena do crime foram jogadas em cima da mesinha de centro e meu estômago cheio deu um salto, quase me fazendo vomitar o jantar inteiro em cima delas. Era horrível. se encontrava em um estado deplorável, praticamente desumano. Até mesmo olhar era difícil. As fotos eram semelhantes àquelas dos crimes anteriores, mas eu nunca tinha visto as evidências tão vívidas e recentes como aquelas. Olhando para elas, eu podia lembrar da cena vista pessoalmente. Os relatos nos jornais e nos sites não faziam jus à crueldade daquela pessoa.
Tentei enxergar na expressão algum traço de nostalgia ou tristeza, mas ele estava concentrado nos documentos à sua frente, com a comida inacabada esquecida de lado. Seus olhos eram rápidos correndo pelas palavras e eu imaginei o que poderia estar passando pela cabeça dele.
— O quê?
Ele havia levantado a cabeça e olhado para mim. também me olhou, para ver o que estava acontecendo.
— Nada. — sacudi a cabeça e voltei para os papéis, tentando forçar minha mente a recordar de algo, com aqueles relatos.

O que você sabe, Anna? O que tem escondido dentro da sua cabeça?




Continua...



Nota da autora: Olá! Tudo bom? Espero que você tenha gostado dos novos capítulos da história. Tem sugestões de músicas para a playlist? Pode enviar nos comentários ou falar comigo no Instagram. XOXO



Nota da beta: Eu tô impactada, sério.
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