Capítulo 16
A cabeça de parecia estar funcionando a mil por hora. Sua nuca e seu maxilar doíam tamanha tensão que estava sentindo, seus dedos estavam doloridos de tanto apertar o volante, mas ela dirigia de volta à Cambridge como se não houvesse amanhã. Não sabia como estava conseguindo enxergar a estrada e as sinalizações à sua frente.
ainda estava sentindo muita dor, fechou os olhos e recostou no banco depois de perguntar diversas vezes “Ele quem?” para a ex-namorada e não receber nada menos que um olhar assustado. Ela tinha tentado falar, de verdade, mas tudo ainda estava confuso na sua cabeça, os flashbacks daquele dia invadindo sua mente de uma vez. E tinha um outro problema: a garota duvidava muito que acreditasse nela. Além disso, sabia que ele estava muito machucado e precisava ir para o hospital. Os problemas dela podiam ser resolvidos depois.
Por um segundo, a garota desviou os olhos da estrada e olhou de relance para o garoto. Não podia acreditar naquele dia. Nunca imaginaria que ela o salvaria de alguma coisa, que ele se deixaria ser salvo por ela. Tinha chamado ele de amor. Sem nem pensar, porque era isso que ele realmente era. era o grande amor da sua vida, sempre seria.
Pensou em todas as vezes que ele a tinha salvado, achando-a quando ela desaparecia, ajudando-a consertar todas as merdas que ela fazia. E agora os dois estavam ali, tão perto, mas um imenso abismo entre os dois. Nada nunca mais seria como antes, mas agora ela tinha a chance de provar o que realmente tinha acontecido e finalmente conseguir concluir seu plano. O real motivo pelo qual ela tinha voltado a Cambrigde, cidade da sua ruína.
gemeu e abriu os olhos, os dois já estavam quase chegando na sua casa. Ainda estava zonzo pela quantidade de bebida e drogas que tinha ingerido, sabia que estava mal. Pior do que todas as outras vezes. Mas não virou na rua que o levava para casa.
— Para onde está me levando? — Sua voz era rouca e mal saiu de sua garganta, mas ele conseguiu perguntar.
— Pro hospital. — A de também não passava de um sussurro.
— Nada disso. — Afirmou, tentando se ajeitar no banco do carona. — Quero ir para casa.
— … você está machucado, realmente machucado, precisa ver um médico e…
— Não me diga o que eu preciso. — O grunhido do garoto foi o suficiente para que não discutisse e apenas encolhesse os ombros, evitando ao máximo olhar para o ex-namorado.
Quando chegaram à porta da casa dos , tentou ser orgulhoso e sair do carro sozinho, mas estava fraco demais para isso. Todo seu corpo doía. Aceitou em silêncio a ajuda de , que deixou que ele se apoiasse nela até a porta. Os dois subiram as escadas com dificuldade, mas conseguiram sentar o garoto na cama. suspirou, suas pálpebras estavam pesadas e tudo que ele queria era dormir.
— Posso limpar seus machucados? — perguntou, tinha decidido que não tomaria nenhuma decisão sem perguntar a ele, era mais fácil assim.
apenas assentiu com a cabeça, estava cansado demais, mas sentia o sangue pregando em seu rosto e aquilo estava o incomodando.
A garota vasculhou o armário do banheiro, em busca de um kit de primeiros socorros, e encontrou algodões e gazes, além de um soro para limpar os machucados. Posicionou-se de frente para ele, sem estar tão perto, e se inclinou para começar a limpar os machucados. tentou não se mexer e nem se esquivar ao sentir a ardência no rosto, já tinha levado porrada antes e sabia que era o único jeito de sarar, então ele não se comportaria como uma criança.
Suas pupilas ainda estavam dilatadas e ele enxergava tudo em câmera lenta, além de estar tudo embaçado. Mas ele tinha ciência que ele e estavam tendo um momento, talvez o melhor momento desde quando ela tinha voltado: não havia gritos, não havia lágrimas e nem chateação, era apenas limpando seu rosto, com um vinco na testa e a uma feição de pena, mas seus olhos estavam sombrios.
O que ela tinha dito no carro mesmo sobre ? Sua cabeça estava confusa e a garota estava muito nervosa no carro, parecia que tinha se lembrado de algo…
— Prontinho. — murmurou, sua voz estava rouca.
Ela também estava exausta, parecia que aquele dia nunca ia terminar.
— Obrigado. — sussurrou, de coração, e se inclinou para trás, para deitar-se na cama. — Pode ficar, se quiser. — Falou mais baixo ainda, o que surpreendeu a garota.
Não seria uma má ideia fugir de casa por mais um tempo, já tinha respondido às mensagens de Emma, dizendo que estava com , mas não queria chegar em casa e ficar sozinha com seus pensamentos. Ainda estava assustada pelas memórias dentro do carro e ainda sentia o frio na nuca causado pelo cano da arma. Precisava de descanso, antes de enfrentar os seus próximos problemas.
voltou seu olhar para o ex-namorado, que já se encontrava com os olhos fechados e a boca entreaberta, suspirando baixinho. Ela já tinha observado ele dormindo diversas vezes quando namoravam, mas agora parecia diferente. Seu rosto não era tão suave quanto antes, mas, ainda assim, ele parecia indefeso, desarmado. No fim, era apenas um adolescente que tinha sido forçado a aprender se virar rápido demais e agora estava se afundando no próprio pesar. E parte disso era culpa dela.
Não.
Não mais.
Ela sabia que não tinha feito nada, sabia que o verdadeiro culpado se escondia atrás da vulnerabilidade dela, mas isso estava prestes a acabar. Finalmente ela encontraria a paz que tanto procurou durante todos os anos.
As pálpebras da finalmente começaram a pesar e a garota se deitou na cama. Era estranho se deitar com novamente, mesmo que estivessem em lados bem opostos da cama. Mas ela não se deitaria no quarto dos pais dele, muito menos no de Lily, e estava cansada demais para se mover. Apenas fechou os olhos e esperou que não fosse perturbada com pesadelos.
ㅤTrês dias depois...
Já era o quinto copo de café que jogava fora. Suas olheiras estavam chegando quase na sua boca e seus ombros estavam pesados como se ela carregasse um muro nas costas. ainda não tinha voltado de sabe lá Deus onde ele estava com , ela não sabia onde ele estava e nem quando voltaria, só tinha recebido uma mensagem com um pedido de desculpas e dizendo que voltaria logo. Apenas isso. Nenhuma satisfação.
Ela estava sozinha novamente depois de ter sido expulsa da casa de aos berros do garoto há três dias. Ele simplesmente não lembrava de nada do dia anterior: não se lembrava que ela tinha salvado ele e não a deixou falar sobre o que tinha lembrado de . Resumindo: ela estava na estaca zero novamente. Não sabia o que fazer em relação ao que tinha se lembrado, não tinha como provar que tinha se envolvido com a morte de Lily-Anne... mas por que ele teria deixado as peônias no túmulo da garota? Por que ele estava lá? Por que ele tinha a ameaçado com uma arma? Nada disso se encaixava e ela precisava de ajuda para descobrir a verdade, mas agora estava sozinha e sem rumo novamente.
se lembrava. Era tudo nebuloso, mas ele sabia que tinha ido ao cemitério, sabia que de alguma forma Lily tinha aparecido para ele e sabia que, com certeza, tinha levado a maior surra de todos os tempos. Mas se negava a acreditar que, de todas as pessoas naquela cidade, justo tinha cuidado dele. E dormido na sua cama. Com ele.
Sabia que a reação ao acordar e vê-la ali tinha sido completamente irracional e exagerada, mas ele estava confuso e não sabia o que fazer. Não podia olhar para a garota sem sentir dor e se lembrar de todo mal que ela causava. Mas uma parte dele também queria ouvir o que ela tinha a dizer, queria acreditar que tudo tinha sido um mal-entendido. Mas sua mente estava conflituosa demais para tudo aquilo. A única coisa que passava pela sua cabeça, era que precisava da sua melhor amiga de novo.
tinha saído da cidade com , mas ele não sabia onde os dois estavam. Não sabia se se sentia aliviado por pelo menos ela estar com , mesmo que ele fosse um traidor, ou se se sentia culpado por saber que ela tinha saído da cidade por causa dele. Por causa de tudo que ele tinha causado e continuava causando. Mas ele sabia que não podia fazer nada, enquanto a amiga não voltasse para casa, então resolveu agir com o que ele podia: iria tentar falar com de novo. Talvez até pedir desculpas pela reação que teve em sua casa. Querendo ou não, ela tinha o ajudado, não iria agradecê-la nem nada disso, porque era culpa dela. Mas iria tentar ouvir, finalmente, o que a garota tinha para dizer.
Eles tinham detenção naquela tarde. Tinham conseguido adiar o máximo possível por causa dos ensaios para a peça, mas agora que os ensaios tinham sido pausados, eles eram obrigados a cumprir. estava um caco, como ele. Mesmo que nos dias atuais, ao contrário de antes do acidente, ela não fizesse uma superprodução para ir à escola, a garota estava sempre arrumada, com os cabelos alinhados e uma maquiagem básica, mas hoje ela estava vestida com um moletom e os cabelos amarrados em um rabo de cavalo. Parecia que ela não dormia e nem comia há dias.
Inconscientemente, sentiu uma pontada de culpa no peito, mas resolveu ignorar. Faria o que fosse necessário apenas para descobrir a verdade, não era mais responsabilidade dele cuidar dela.
Caminhou em direção à sala de detenção e quando entrou, a ex-namorada já estava lá. Porém, seus olhares não se cruzaram. estava de cabeça baixa, mexendo no celular. não sabia se sentava próximo a ela, então escolheu um meio termo e sentou duas cadeiras à frente. Havia mais dois garotos do terceiro ano na sala e ele duvidava que enchesse. , felizmente, já tinha cumprido o castigo e não precisaria ficar com eles novamente. Aquele garoto era um porre e todos os dias provava que o soco que tinha dado nele foi merecido, mas ele tentava deixar para lá.
Espiou novamente a loira e dessa vez seus olhos se encontraram, em uma eletricidade que jamais tinham sentido desde que tinha voltado. Aquele momento no quarto dele tinha mexido com os dois mais do que poderiam imaginar ou admitir. Mas os olhos de eram tristes e cansados, e ela logo os desviou. O que estranhamente incomodou , mas ele não sabia o que dizer.
— Boa tarde a todos vocês. — Senhor Charlie, o professor de História da Arte, era responsável pela detenção naquele dia e, obviamente, estava tão desanimado quanto os alunos. — Hoje vocês serão designados em duplas para suas tarefas e devem ficar até o final da tarde, trazendo um relatório de atividades para que eu assine no final, então sugiro que façam o que eu mandar. — Fitou-os por um momento, antes de continuar. — Kylie e Jason, vocês ajudarão no refeitório, Lisa, a cozinheira, vai dizer o que vocês devem fazer. — Os garotos exclamaram murmúrios de reclamação e saíram em direção ao refeitório. — E vocês dois irão para os arquivos na sala do diretor Thomas, a Lauren dirá o que vocês precisam fazer. — Senhor Charlie abanou as mãos para que eles fossem logo e os dois se levantaram para caminhar para a sala do diretor, que ficava no terceiro andar.
Caminharam em silêncio, em uma distância segura. sentia suas mãos suando e tinha uma dor latente no estômago. Ela não sabia se era pelo nervosismo ou pelos copos de café que tinha tomado, mas sentia que estava prestes a falar com ela. Ela o conhecia demais, sabia que ele estava nervoso e tentava um jeito de se aproximar.
— Boa tarde, senhorita e senhor ! — Lauren os recepcionou, ela era a ária puxa-saco do diretor.
Os alunos até desconfiavam que os dois tinham um caso, mas não passava de um boato… até onde sabiam.
— Vocês vão organizar as pastas de ocorrências dos alunos por ano, está tudo uma bagunça! De 2010 para trás pode ir tudo para o lixo, mas, para frente, precisa ser organizado e é isso que vocês farão hoje. Certo? Coloquem por ordem alfabética, aqui está a lista de todos os alunos do colégio. — Sorriu amarelo, claramente aliviada de alguém ter que fazer esse trabalho por ela.
Os adolescentes apenas assentiram, em silêncio, e caminharam para a sala do diretor, que felizmente estava vazia. Então, olharam-se novamente por alguns minutos, mudando o peso de uma perna para outra, até que quebrou o silêncio:
— Como quer fazer isso? — Murmurou e pensou por algum tempo, antes de responder.
— Acho que podemos separar primeiro o que for para jogar fora, enquanto o outro vai colocando por ano e depois colocamos juntos em ordem alfabética. Certo? — Tentou ao máximo ser simpático, já que tinha sido um imbecil após expulsá-la da casa dele, depois dela ter cuidado dele.
apenas assentiu e os dois passaram a trabalhar dessa forma.
Seus ombros estavam menos pesados, apesar de ainda estar nervosa. Mas parecia estar estranhamente tentando tratá-la com o mínimo de respeito.
Depois de um tempo trabalhando em silêncio, o garoto resolveu quebrá-lo. Sem perceber que suas mãos estavam tremendo, começou a falar:
— … o que aconteceu naquele dia? — Perguntou, fitando os olhos castanhos de intensamente. — Eu me lembro, mas não de tudo… te devo, te devo… desculpas por ter te tratado daquela forma. Eu… eu não sei. Está tudo bem confuso, eu vi Lily, ora, eu vi minha irmã e ela está morta, você… sabe disso, você…
— Eu não matei Lily, . — A voz de era praticamente inaudível e ela já sentia as lágrimas brotarem nos olhos dela, mas ela as segurou. — Eu juro… tudo isso… não sei explicar, não me lembro de tudo, mas não foi eu. — Garantiu e fez uma careta de dor.
Aquela conversa estava sendo mais difícil do que ele imaginava. Por todos esses anos ele não tinha pensado sequer em dar uma abertura para , nunca, tinha jurado pela vida dele jamais perdoar a garota que ele tanto amou, mas as circunstâncias praticamente o obrigavam a saber a versão dela. E depois da visão que tinha tido com sua irmã, ele não tinha certeza de mais nada. Lily era sua vida, a sua pessoa favorita no mundo. Como ele podia ignorar o que ela tinha dito a ele? Mesmo que fosse um fantasma ou uma alucinação dele, ele não conseguia tirar as palavras da irmã de sua cabeça: precisa entender que só estará em paz quando aprender a perdoar.
Será que ele só estaria em paz se perdoasse ? Mas como ele poderia perdoar alguém que lhe causou tanta dor? Por que Lily estaria feliz com isso?
— Eu voltei para descobrir o que aconteceu de verdade, não vim para te machucar, não vim para causar nenhuma dor. — suplicou, tentou se aproximar de , mas ele se afastou, o que fez a garota recuar.
Um passo de cada vez, pensou.
— O que eu disse sobre … , é sério, ele está envolvido com alguma coisa! — Falou mais alto que pretendia e olhou em volta, assustada.
a observava com atenção, tentando decifrar se ela estava mentindo ou não. Quando namoravam, sabia dizer com convicção se estava falando a verdade, mas agora ele não a conhecia mais, a garota parecia mais… cascuda.
respirou fundo e contou para o garoto tudo que tinha acontecido naquele dia, desde a hora que ela tinha ligado para ele, até o momento que voltaram para casa. ouviu tudo em silêncio, tentando juntar as peças. Sabia que era louco, alucinado por , e faria qualquer coisa, mas não fazia sentido que ele tivesse matado a sua irmã. Ele não seria tão sádico.
— … Lily morreu de overdose. — disse, entredentes, era difícil acreditar nessa história, mas era isso que os boletins médicos diziam. — Você a forçou a usar junto com você. É o que se encaixa, o que faz sentido. Você não se lembra como estava naquele dia, mas eu sim. Nem parecia você mesma… você estava… estava… — não conseguiu terminar sua fala.
Lembrar daquele dia doía demais, levava-o para um lugar sombrio.
— Mas a troco de que viria me ameaçar, então? — questionou, sabia que precisava desesperadamente que acreditasse nela.
Precisava de um aliado para descobrir toda a verdade e nenhum seria melhor que ele.
— Por favor, você precisa acreditar em mim. Sei que tenho uma parcela de culpa, eu jamais queria ter sido o que fui no passado, você não merecia tudo que fiz você passar… , eu… eu te amei de verdade. — Quando percebeu, as palavras já tinham saído e os dois se encararam.
Ali, pareciam estar de volta ao passado, mas no meio dos dois havia turbulências, dores, pesar, choro e a culpa. Nada seria como antes.
— Você está com . — murmurou, entredentes.
Isso, no meio de tantas coisas, tinha virado apenas um detalhe. Mas, ainda assim, o machucava.
não sabia como responder aquilo. Não queria estragar o momento que estavam tendo, era a primeira vez que estavam conversando como pessoas civilizadas desde que ela tinha voltado e a garota sabia do comportamento explosivo de . Uma palavra errada os faria andar para trás e agora que tinha chegado até aqui, ela não queria estragar tudo.
pareceu perceber o desconforto da loira e mudou de assunto:
— Nada explica as mensagens de texto que recebi… por que alguém estaria me perturbando assim? — ele murmurou. — Talvez tenha algo a ver, mas não estou certo disso.
— Tudo se volta para ele. — insistiu.
Sabia com toda certeza de que estava envolvido dos pés à cabeça em tudo.
— Ele teria motivos para me ferrar, para…
— Você também precisa parar de achar que é isenta de culpa, . — O som da voz de falando seu nome fez o coração da garota quase parar de bater.
Ela o encarou e se arrependeu logo em seguida. Não gostava de como ele a olhava.
— Você pode achar que está mudada, mas nada muda tudo o que você nos fez passar no passado, talvez se você… se você estivesse como está agora, Lily ainda estaria aqui. Então, por favor, eu juro que estou tentando acreditar em você, mas, por favor, pare de agir como se você fosse a vítima.
não ia tentar se justificar, porque tinha medo de que o progresso que tinham feito até aqui fosse por água abaixo, então, limitou-se a balançar a cabeça positivamente e continuou fitando os papéis à sua frente, nomes de pessoas que tinham crescido com ela, alguns de novos habitantes da cidade, outros que ela não tinha o menor contato...
parecia estar se esforçando no seu limite para ficar ali no mesmo ambiente que ela e conversar para resolverem tudo. Naquele momento, ele sentia que Lily devia estar feliz por ele estar tentando, ele realmente queria que tudo ficasse bem e as perguntas sem resposta fossem solucionadas, mas sabia que nunca ia conseguir perdoar totalmente.
— Você sabe onde está? — Perguntou baixinho.
Ele ainda estava com raiva, mas se preocupava com o amigo. Não queria que ele fosse embora novamente.
— Não. — O olhar de endureceu, dava para ver que ela estava chateada com o garoto. — Mas ele disse que está bem. está com ele. — Comentou, fechando os lábios em uma linha.
— É. Espero que voltem logo. — deu de ombros e continuou entregando os papéis para a mais nova.
Era estranho que os dois estivessem quase… batendo papo. Depois de tanta dor, tanto ódio envolvido, quase pareciam os mesmos… quase.
— Parece que tem toda nossa vida aqui. — riu ao ver a grossura de algumas pastas. — Certeza que o Thomas guarda segredos que nem sonhamos... — ela estava se sentindo estranhamente confortável em conversar com .
Seu coração ainda estava batendo descontroladamente e ela sentia que poderia desmaiar a qualquer momento, mas não estava mais com medo.
— É verdade. — riu e seu coração pareceu saltar do peito.
Como ele era bonito, meu Deus! Por mais mudado que ele estivesse, seu sorriso ainda era um dos mais belos do mundo e o jeito que ele apertava os olhos a encantava demais.
— Nossa… sua pasta é bem maior que de todo mundo. — comentou, pegando a grande pasta escrito “ ”.
Quando ia abrir, em um timing quase perfeito, a porta da sala se abriu e o diretor Thomas entrou na sala. Sua expressão era vazia, mas ele parecia estar preocupado com alguma coisa.
— Bom dia, senhor e senhorita ! Fico feliz que estejam convivendo com civilidade nesta tarde... — comentou e os dois se entreolharam, mas nada disseram, além de responder os cumprimentos do diretor. — Creio que minha ária se confundiu, vocês não devem mexer nesses arquivos. Dito isso, podem se concentrar em outras atividades. — Disse em um tom firme.
e então se levantaram e cumprimentaram novamente o diretor ao saírem da sala.
— O que tem de tão o que não podemos ver? — ergueu as sobrancelhas, mas não sabia responder.
Lauren estava cabisbaixa quando passaram por ela, provavelmente tinha levado uma grande bronca.
— Foi o professor da detenção que me pediu para os levarem aos arquivos, não sabia que era ultraso! — Rolou os olhos para os dois e os garotos seguraram o riso. — Eu recebo pouquíssimo para essa humilhação toda, meninos. — A ária desabafou. — Vocês já podem ir… amanhã vou procurar outra coisa para fazerem, não contem ao diretor que eu os liberei mais cedo. — Deu uma piscadela para eles e os enxotou com a mão.
e agradeceram, depois de assinar o relatório que Lauren entregaria ao professor Charlie, e saíram da sala, indo em direção ao corredor que partia para a saída. O silêncio reinou novamente entre os dois, não sabiam como agir ou o que falar depois do momento que tiveram, mas sentia que estava cada vez mais próxima de atingir seu objetivo e tinha dado um grande passo, só precisava conquistar a confiança de aos poucos. Estava feliz que ele tinha parado para ouvi-la, coisa que ela jamais imaginou que faria novamente.
estava com o mesmo sentimento, mas ainda receoso. Sabia que a única pessoa que a entenderia nesse momento era , mas ela estava longe. E Lily, que estava morta. E ele duvidava que o fantasma dela aparecesse novamente para ele. Ele estava sozinho. De novo.
A escola já estava mais vazia naquele ponto, pois as aulas à tarde já tinham acabado, mas os dois tinham treino. Seguiram juntos para os vestiários, atraindo alguns olhares de quem ainda estava no colégio e cochichos. ouviu uma garota dizer “O que pensa disso?” e um outro dizer “Não faz apenas uns dias que ele a estava chamando de assassina por aí?”, mas resolveu ignorar, já estava acostumada com as pessoas falando dela. , por outro lado, estava profundamente incomodado. Suas bochechas estavam coradas, ela não sabia se era por raiva ou por vergonha, mas quando chegaram nas portas dos vestiários que separavam o feminino do masculino, tudo que ela ganhou foi um aceno de cabeça e ele entrou rapidamente no vestiário masculino. Como se estivesse fugindo dela.
No final do dia, ela estava sozinha. De novo.
— Como foi a detenção, lindinha? — Foi recebida logo com o deboche de Meredith quando entrou no vestiário feminino, mas não tinha forças para rebater a colega de treino, então apenas a ignorou.
A garota deu um sorriso de satisfação, pensando que tinha afetado a loira, e saiu rebolando para o campo. apenas suspirou e naquele momento sentiu falta de . Ela sempre sabia o que falar nesses momentos. Onde será que ela estava? O que ela e estariam fazendo?
espiava pela cortina do quarto de hotel onde estavam, observando o movimento do lado de fora, enquanto estava no banho. Os dois planejavam tomar um café da tarde em uma das lanchonetes que tinham conhecido quando viajaram pela primeira vez para New York. Sim, estavam nos Estados Unidos! Às vezes era assustador o privilégio que tinham de simplesmente sair do país, sozinhos, usando seus próprios cartões de crédito.
A mãe de estava em sei lá qual lugar do mundo, trabalhando, e os pais de já estavam se acostumando com as escapadas do filho. Tinham decidido puramente no desespero o destino da viagem: enfrentou uma crise de pânico e precisava fugir de tudo.
ㅤTrês dias antes...— Eu nunca fiz algo assim antes... — comentou quando se sentaram nas poltronas do avião.
Eram desconfortáveis, mas o melhor que tinham conseguido comprando uma passagem de última hora.
— É divertido. — sorriu, mas era um sorriso forçado.
Não estava nem um pouco confortável. Ainda se preocupava com , se ela tinha achado ou se ela estava brava com ele. também estava ansiosa por notícias do amigo, mas também estava aliviada por fugir de tudo aquilo um pouco. Ela estava ficando cansada do peso de sempre precisar cuidar dos amigos e não ter ninguém para cuidar dela.
A garota juntou sua mão com a de , dando um rápido beijo no dorso da do garoto.
— Obrigada. — Murmurou e fez um carinho no cabelo da amiga.
Estava feliz de poder ajudá-la, mas ela não sabia que era ela que estava o salvando. Não conseguia parar de pensar na mensagem de texto que ele tinha recebido. Sabia que ele tinha arruinado tudo.
— Você parece estar se escondendo. — apareceu do nada novamente no quarto, o que fez o garoto pular e logo em seguida corar as bochechas: ela estava apenas de sutiã e calcinha. — Não é nada que você não tenha visto antes, -boy! — Ela riu e balançou a cabeça, colocando um vestido logo em seguida.
Pegou seu celular para checar as mensagens de texto, já sabendo que teria as de . Respondeu ao amigo, dizendo que estava tudo bem e que voltaria logo, e também perguntou como ele estava. A garota estava evitando ligar para , sabia que desmontaria e voltaria correndo para Cambridge assim que ouvisse a voz dele, sabendo que ele precisava dela. Mas era hora dela se cuidar. Precisava de mais um tempinho só para ela, antes de tornar tudo sobre os outros de novo.
— Está pronta? — franziu a testa e a garota percebeu que ele estava incomodado com alguma coisa, mas resolveu não perguntar.
estava estranho desde que saíram da cidade, parecia estar fugindo também. Mas ela suspeitava que fosse por toda a situação que ele tinha criado: estava se envolvendo com ninguém menos que .
Não tocaram no assunto desde que tinham chegado, sabia que devia a o apoio que ele tinha dado a ela no seu momento de crise, então, embora não concordasse com as atitudes do amigo e não soubesse como seria quando eles voltassem para Cambridge, a garota não queria pensar nisso naquele momento. Estava curtindo seus dias de escape.
— Vamos. — Respondeu, pegando a bolsa e entrelaçando as mãos com a do amigo, antes de saírem do quarto.
» : Estou bem. Logo estou de volta. Como você está?
leu as mensagens de assim que chegou em casa e pensou em ligar para a amiga, mas já tinha feito isso antes e ela não tinha o respondido, então apenas respondeu de volta que estava com saudades e que queria se desculpar por tudo que tinha causado.
Sentia falta do calor e da paz que trazia para os seus dias, mas também entendia que ela quisesse ficar um tempo longe. Ela segurava a barra demais, uma hora explodiria e esse momento tinha chegado, o que deixava o garoto se sentindo extremamente culpado.
se deitou no sofá, repassando toda a conversa que tinha tido com , tentando ligar os pontos e pensar em alguma coisa. Precisavam tomar uma atitude logo. Além disso, tinha estranhado a reação do diretor quando viu as pastas que eles mexiam. Por que a de era a maior de todas? Tinha ficado extremamente curioso em relação a isso e sentiu estranhamente uma vontade de comentar com a garota sobre isso.
Pegou seu celular e ponderou por alguns minutos. Quando ia imaginar que estaria cogitando ligar para por livre e espontânea vontade novamente? Aquilo estava muito, muito estranho.
Quando finalmente tomou coragem para ligar, o som da campainha ressoando o impediu, o que entendeu ser um sinal. Mas, ao abrir a porta, preferia que não fosse. Imediatamente sua boca se fechou em uma linha fina, ao contrário do homem do outro lado da porta, que sorria como se fosse o melhor dia da vida dele.
— O que você está fazendo aqui?
Capítulo 17 - Parte 01
— Então, eu preciso, encarecidamente, que você vá hoje depois das suas aulas resolver isso, . Estamos correndo contra o tempo aqui, minha filha! — A voz de Emma tornou-se apenas um eco na mente de , enquanto a garota remexia o cereal no pote, ao invés de realmente comer.
Ainda estava um pouco atordoada com os acontecimentos e a conversa que teve com . Estava, por um lado, feliz de estar conseguindo chegar em algum lugar e por outro, estava morrendo de medo. Precisava urgente que a próxima consulta com seu psicólogo chegasse logo.
— , você está me ouvindo?
— Me desculpe, Emma! — Agarota deu um sorriso falso. — Fica difícil entender, quando você solta quinhentas palavras por segundo.
A mãe dela nem se afetou com o sarcasmo, estava preocupada demais com todas as tarefas do Baile dos Fundadores naquele final de semana, que coroava a mais nova Miss Cambridge.
— Só achei que você ia gostar de tentar mudar seu par, minha filha. A não ser que você e já tenham feito as pazes. — Emma cruzou os braços e encarou a filha, que finalmente pareceu lhe dar a devida atenção.
arregalou os olhos e deu um tapinha na própria testa. Tinha se esquecido completamente que tinham feito a inscrição para o baile enquanto ainda namoravam e tinha certeza de que preferia enfiar a cabeça num poço, do que ir ao evento com ela, principalmente porque precisavam performar uma dança ridícula.
— É por isso que você vai à casa da senhora Lockwood, depois das suas aulas, para resolver a questão do seu par, como eu estava dizendo… e logo após irá para a prova do seu vestido, que tomei a liberdade de escolher, já que você…
— Emma! — exclamou, pousando as mãos sobre os ombros da mãe. — Me mande uma to-do list pelo celular, ok? Não consigo me concentrar com toda essa falação! — A garota não gostava de ser malcriada com a mãe, mas em algumas situações parecia ser a única solução que Emma simplesmente calasse a boca.
A garota se levantou da cadeira e pegou sua mochila, seu motorista já a aguardava na porta de casa e ela saiu sem se despedir de Emma, que já estava no celular irritando outra pessoa. Já estava exausta só de pensar no dia que tinha pela frente com aulas monótonas, detenção e ainda teria que conversar com a insuportável senhora Lockwood. A mulher do prefeito agia como se fosse a rainha da Inglaterra e não tinha a menor paciência para aquilo, às vezes até entendia por que Damien era um descompensado, não deveria ter sido fácil viver numa casa com aquelas pessoas.
Ao chegar no colégio, imediatamente o estômago da garota passou a se remexer inteiro, como se as borboletas estivessem enfurecidas. Ela sabia que essa reação era porque veria novamente. Não sabia encarar a nova realidade em que ele conseguia, mesmo que relutante, conversar com ela sem chamá-la de assassina ou coisa parecida. Sabia que ele ainda não confiava nela, mas estava feliz de ele pelo menos ter dado o benefício da dúvida em relação ao que ela tinha contado sobre .
Ao lembrar desse nome, um novo arrepio percorreu seu pescoço. Medo. Era o que ela sentia em relação ao . Sabia que ele estava envolvido até o último fio de cabelo com a morte de Lily, mas não tinha como provar. Até então, só tinha suas memórias que não eram nenhum um pouco confiáveis. Mas ela sabia que a verdade estava cada vez mais próxima e ela só precisava aproveitar a chance quando aparecesse.
Os pensamentos de foram interrompidos pelo vibrar do celular, que denunciava uma mensagem:
» : Tudo bem? Estou com saudades, não vejo a hora de consertar tudo isso.
Mas ela não respondeu, apenas fechou o celular novamente. Ela precisava dele, tudo se alinharia com ele, mas não conseguia conversar com ele naquele momento. Já havia dias que ela nem sabia onde ele estava e suas mensagens eram sempre em tons vazios. Estava começando a acreditar que quando ele voltasse, tudo estaria por água abaixo, mas se recusava a pensar nisso. Agora, com a “reaproximação” de , seus sentimentos ficaram confusos novamente. sabia que era boba de pensar que podia passar por cima de tudo e gostar dela novamente, mas era o que ela queria. Ela o amava com todo o coração e queria que eles pudessem ser felizes juntos. A única coisa que a faria feliz na vida seria isso. Mas não tinha como voltar no tempo e apagar tudo que tinha acontecido. Seu destino estava fadado desde a maldita hora que resolveu usar drogas naquele maldito dia.
Pegou o celular novamente para checar a próxima consulta com seu terapeuta, já estava sentindo tudo saindo dos eixos novamente e precisava que ele a lembrasse de seus objetivos e que nada estava perdido ainda.
Os olhos de vagaram para as garotas da torcida passando com a decoração do Baile. Há alguns anos, ela estaria liderando aquela fila. Ser Miss Cambridge era tudo que ela queria, muito por influência de Emma, mas também porque era uma forma de afirmação. Ela era a rainha daquele Império. Porém, nada daquilo fazia sentido mais. Afinal, o que eles eram? Uma espécie de realeza que se destacava dos demais, só porque eram filhos fundadores e tinham gordas poupanças? Porque eles tinham que ser melhores? No fim, eles só eram fodidos como todo mundo. Ela usava drogas para preencher o vazio que sentia em casa, tinha sido abandonada pelo pai, não tinha um bom relacionamento com seu pai e , bom, era um anjo entre todos eles, e por culpa dela tinha virado uma pessoa completamente sem perspectiva.
Cada um deles tinham problemas que eram mascarados por dinheiro, status e nome familiar, mas, no fim, eram todos fodidos. Todos ali tinham um segredo a guardar, todos carregam um peso que ninguém sabia. A não ser ela. Todos sabiam como tinha arruinado a própria vida, seu relacionamento e suas amizades. E ninguém dava a mínima!
— Soube que o traste está de volta à cidade. — Melanie resmungou, enquanto bebericava seu chá.
Emma se remexeu desconfortável na cadeira, enquanto aguardava seu croissant ficar pronto.
As duas estavam sentadas do lado de fora do café de Bobby, tinham marcado de se encontrar para resolver as pendências do baile. Além disso, sempre que possível se encontravam para um brunch, eram boas amigas desde a adolescência e tinham o apoio uma da outra no período em que os filhos estavam fora após a morte de Lily.
— Espero que a visita dele seja breve, já temos problemas demais em Cambridge para lidar com isso agora. — Emma balançou a cabeça negativamente e fez uma careta.
— Não entendo como éramos amigos no colégio... — Melanie também fez uma careta. — Não tínhamos muito juízo… — riu ao se lembrar das enrascadas em que ela e a amiga se metiam.
— Talvez nossos filhos tenham a quem puxar. — Emma suspirou, elas não eram um bom exemplo e muita coisa do passado das duas estava enterrado.
Se descobrisse, com certeza apontaria dedos e usaria de justificativa para fazer o que bem entendesse. Por mais que agora ela tivesse muito mais juízo do que quando mais nova, a mulher carregava o medo de que sua filha voltasse a ser o que era e perdesse todo o propósito de sua volta. Isso era algo que perturbava Emma profundamente.
— Por falar nisso... — a loira comentou, afastando os pensamentos ruins. — Tem falado com ? está miserável, sentindo muita falta dele. — Comentou.
Estava preocupada com a filha, não estava comendo direito e nem se comunicando, aparecendo com olheiras nos olhos e com o semblante triste, preocupado.
— Ah, você sabe como eles são… precisava de um tempo para ele. Vivo dizendo ao Thomas que esse é o preço que pagamos por dar tanta liberdade ao , com o cartão de crédito ele consegue ir até à China! — Melanie resmungou, à contragosto. — Mas espero que tudo se resolva, eu nem sabia que os dois estavam juntos, ficou tão distante depois que a mais nova dos se foi… — Melanie parecia querer falar mais, mas sua boca se fechou em uma linha fina e seus olhos ficaram fixos na figura masculina que desceu do carro do outro lado da rua, e caminhou em direção à cafeteria com um sorriso cafajeste nos olhos e um olhar cintilante por trás das lentes dos óculos escuros.
— Senhoras… — cumprimentou sem tirar os olhos das duas e adentrou na cafeteria sem tirar o sorriso do rosto.
Emma apenas respirou fundo, tentando controlar sua raiva, enquanto Melanie rolava os olhos.
— Acho que essa é a nossa deixa para ir embora! — Emma pegou sua bolsa e deixou o dinheiro da conta e da gorjeta em cima da mesa, e as duas se levantaram, prontas para irem para casa, despedindo-se com um abraço.
— Droga! — resmungou, quando tentava pela milésima vez acender seu isqueiro, que aparentemente tinha perdido o gás.
Depois da vigésima tentativa, arremessou o artefato longe e guardou o cigarro no bolso, frustrado.
— Dia difícil, huh? — Ao ouvir o som dessa voz, todos os músculos rígidos do garoto pareceram relaxar e ele pôde respirar fundo.
— Achei que você tinha decidido dar o fora de Cambrigde de vez, cricket... — sorriu verdadeiramente pela primeira vez na semana e abraçou , que também sorria.
Finalmente sua melhor amiga estava de volta.
— Nunca mais faça isso. — a ameaçou em tom sério.
— Posso dizer o mesmo para você, seu cretino! Não suma novamente. — Pediu, em tom de súplica, e abraçou o amigo novamente.
O garoto se sentia culpado, sabia que era boa parte do motivo de ter precisado de todo esse tempo longe, mas também tinha noção que a amiga tinha as próprias questões e, principalmente, os próprios traumas, não era justo que ela cuidasse sempre de todos e esquecesse de si mesma.
— Senti saudades, como estão as coisas por aqui?
— Você não faz ideia… — não sabia nem por onde começar a atualizar a amiga depois de tudo que tinha acontecido e, principalmente, depois da visita que tinha recebido. — Temos muito o que conversar, o que acha de matar aula? — Sorriu travesso e concordou.
Apesar de tudo, ele estava feliz com a volta da melhor amiga, parecia o sopro de esperança que ele precisava para finalmente começar a resolver as pontas soltas de toda essa história.
Em geral, agora lidava teoricamente bem com o turbilhão de emoções da sua vida, poucas vezes desde sua volta ela tinha tido um episódio ruim. Óbvio que a terapia e os remédios que ela tomava para depressão e ansiedade a ajudavam muito, mas tinha dias que a tristeza a pegava de jeito. Hoje estava sendo um daqueles dias, em que nada fazia sentido e que ela queria ter o poder de voltar no tempo e apagar tudo de ruim que tinha feito, tudo que tinha contribuído para que ela estivesse nessa situação atual: sem amigos, sem namorado e sem conseguir provar que não tinha cometido um assassinato. Sabia que ela não respondia criminalmente, todos sabiam do laudo de Lily: overdose. Mas ninguém acreditava nessa história. As pessoas da cidade transpareciam não ligar, já tinham se passado anos, todos seguiam sua própria vida. Mas era a pessoa mais importante da vida dela. Era tudo por ele. O que a garota mais queria era o perdão do seu grande amor.
A garota se sentia tão culpada que parecia transbordar. Sentia-se culpada por ter sido uma filha rebelde e malcriada, que tinha tudo em suas mãos e não era grata por ter, por ter sido uma má melhor amiga para , por seus diversos episódios de egoísmo. Na terapia, ela entendia que algumas questões eram além dela. Ela não se sentia vista em casa e fazia certas coisas para chamar atenção de seu pai, que sempre estava longe viajando e não participava de seu dia a dia. E Emma, ah, Emma, queria controlar cada passo que ela dava, queria que ela se tornasse uma mini Emma, não a enxergava como , com sua própria personalidade e seus próprios gostos, tudo girava em torno do legado da família , o legado da família fundadora e isso pesava muito em seus ombros desde criança.
não tinha o direito de não ser perfeita.
E tudo isso estava caindo sobre seus ombros de novo. Seria o fim para Emma se ela não se tornasse a Miss Cambridge, sabia que a mãe não demonstraria a decepção, mas que estaria profundamente triste pela filha mais uma vez quebrar o legado. Mas era impossível que ela ganhasse: Caroline também dedicava sua vida inteira para esse momento e, inclusive, merecia mais que ela. O famoso Baile dos Fundadores tinha deixado de ser um sonho para há muito tempo. E, pra falar verdade, ela nem sabia mais o que sonhava, não sabia mais qual caminho trilhar na sua vida, estava à deriva, perdida.
A garota estava tão imersa em seus pensamentos, que nem percebeu que o sinal havia tocado e ela estava sozinha na sala. Balançou a cabeça negativamente e se levantou para ir em direção ao refeitório, pelo menos essa tinha sido sua última aula do dia e depois do pequeno compromisso na casa dos Lockwood, ela poderia ir para casa e se esconder em seu quarto.
— Uau! — Foi a única exclamação de ao ouvir contar tudo que tinha acontecido nos últimos dias, inclusive as conclusões que tinha chegado e a busca, então estagnada, de provas contra .
— Eu não acredito que ele te bateu, eu sinto tanto por isso, sinto muito mesmo, . — A garota afagou as mãos do amigo. — Mas eu não… matar Lily? Por que ele faria isso?
— Por que faria? — nem acreditou nas palavras que saíram de sua boca.
Se algum tempo atrás ele não tinha dúvidas que a ex-namorada tinha matado sua irmã, agora uma pontinha insistente de incerteza rondava sua mente. No fundo, ele sempre teve a esperança de estar errado e o grande amor da sua vida ser inocente, mas na maior parte do tempo estava tomado pelo ódio.
— Você está defendendo ela? — se afetou e se levantou. — Não acha que seria simplesmente conveniente para ela que fosse o culpado? Afinal, eles se odiavam, ele te bateu… era a oportunidade perfeita para ela tirar ele da reta.
— Defendendo? Defendendo? Eu só estou confuso, , não sei mais em quem acreditar. Eu só estou surpreso de você ter certeza de que é cem por cento inocente, depois daquele filha da puta ter me espancado até eu quase perder os dentes e você ter ido passar férias com seu melhor amigo, enquanto a assassina cuidava de mim! — vomitou as palavras antes que pudesse se conter e subiu as escadas de sua casa, batendo a porta ao passar pelo quarto, deixando uma furiosa na sala de casa.
Tudo aquilo estava passando dos limites, talvez fosse a hora de encarar que talvez não houvesse nenhum culpado e a versão da polícia fosse verdadeira: Lily tinha tido uma overdose. Adolescentes mentiam, certo? se recusava a acreditar que seu ex-namorado era um assassino, nada os davam pista disso, ele era filho do pastor, pelo amor de Deus! Sabia que não era uma pessoa fácil de lidar, mas ele não tinha nenhum conflito com Lily-Anne. Seu problema sempre tinha sido com . Será que ele seria tão frio a ponto de matar uma criança só para que fosse considerada culpada? Nada disso fazia sentido!
pegou suas coisas para sair dali, não podia acreditar que tinha dito aquilo tudo para ela. Passar férias? Ela tinha tido a porra de uma crise do pânico.
fechou os olhos com força ao ouvir a porta da frente de sua casa bater. Sabia que tinha ido embora furiosa e não a culpava, não tinha pensado muito antes de falar. Sua cabeça estava um turbilhão de emoções com todo o drama que eles estavam envolvidos novamente e a visita que ele tinha recebido na noite anterior não tinha ajudado em nada.
Quando finalmente tomou coragem para ligar, o som da campainha ressoando o impediu, o que entendeu ser um sinal. Mas ao abrir a porta, preferia que não fosse. Imediatamente sua boca se fechou em uma linha fina, ao contrário do homem do outro lado da porta, que sorria como se fosse o melhor dia da vida dele.
— O que você está fazendo aqui?
—Não era bem essa a recepção que eu estava esperando, mas vou aceitar! —Tio John suspirou de um jeito irônico e sorriu para , que ainda não tinha aberto passagem.
O que ele estava fazendo? Nunca tinha se importado em dar as caras desde o enterro de Lily, por que agora?
— Não vai me convidar para entrar? — O sorriso dessa vez se tornou ameaçador e engoliu em seco, dando passagem para que o irmão de seu pai passasse.
Ele trazia apenas uma mala. Pelo menos não ficaria tanto tempo, assim esperava.
— Não se preocupe, não pretendo ficar no seu caminho. Só vim me certificar que o sobrenome seja bem representado na festa dos fundadores. Vou ficar no quarto de hóspedes e já contratei uma faxineira, imaginei que essa casa estaria um pandemônio. — Torceu o nariz olhando em volta e subiu as escadas.
— Fodido. — rolou os olhos e xingou baixinho.
Era obrigado a respeitar o tio, porque ele era o único parente vivo e “responsável” por ele, além de cuidar do dinheiro dele até que fizesse vinte e um anos, então ele tinha que andar na linha. Só esperava que essa visita durasse o menor tempo possível.
bufou ao se lembrar da noite anterior. Não tinha visto o tio hoje ainda, ele tinha saído antes que ele acordasse. Era melhor assim. Queria que os caminhos deles se cruzassem o menos possível. Mas como nada na sua vida era do jeito que ele queria, logo ouviu os passos fortes de John na escada, seguidos de duas batidas na porta. O garoto se levantou e abriu, fitando o homem que carregava dois ternos pendurados em um cabide, dentro de uma capa protetora.
— Tomei a liberdade de encomendar seu terno para o Miss Cambridge, sinto que meu gosto é um pouco mais... refinado. — Analisou as vestes do garoto de cima a baixo e deu uma risada, fazendo resistir ao ímpeto de rolar os olhos.
— Agradeço a sua preocupação, mas eu não vou ao baile. — fez menção de fechar a porta, mas seu tio segurou com a outra mão.
— É claro que você vai. — Sua voz era firme, que procurava intimidar.
Mas não se importou muito com isso. Deu de ombros e se jogou na cama, mas o tio não desistiu. Entrou no quarto do garoto, pendurando calmamente o terno em um gancho da parede, sentando-se na cadeira da mesa de computador.
— Você pode tentar lutar contra isso, mas faz parte de ser um .
— Você nunca está aqui para fazer parte, por que eu tenho que estar?
— Porque eu preciso tocar os negócios da família, enquanto você fica aqui torrando o dinheiro com drogas. O mínimo que você tem que fazer é vestir a porra do terno e honrar o que resta de dignidade dessa família. — John mostrou sua verdadeira face e segurou a língua para não responder e cerrou os punhos.
Sua vontade era socar aquele maldito, mas sabia que seria pior para ele. Então resolveu ficar calado.
— Eu vou no seu baile estúpido, por favor, saia e feche a porta. — Falou baixo, cerrando os dentes e John assentiu, satisfeito com sua pequena cena.
Só precisava que o sobrinho estivesse no baile, feliz ou não.
Saiu fechando a porta delicadamente e desceu as escadas novamente. Tinha algumas pendências para serem resolvidas.
saiu da escola ensaiando um discurso perfeito que comoveria a senhora Lockwood, sabia que precisava ser impecável, porque a mulher era uma bruxa. Nem julgava Damien por querer morar longe daquela casa, uma enorme mansão apenas para duas pessoas: ela e o prefeito.
Subiu as escadas depois de passar pela segurança e entrou, sendo levada até onde a mãe de Damien estava. A mulher já a esperava na sala de estar, sentada com as pernas cruzadas. Ela era tão elegante quanto Emma, parecia que até tinham sido treinadas juntas, os mesmos trejeitos, a mesma forma de falar, o cabelo alinhado da mesma forma. Sabia que as duas tinham sido amigas no colégio e se encontravam sempre para assuntos relacionados aos eventos dos fundadores e esperava que isso pesasse ao seu favor, embora soubesse muito bem o que a senhora Lockwood pensava da filha depravada dos .
— Oi, senhora Lockwood! — usou seu tom de voz mais simpático.
Tinha até mesmo colocado um vestido e feito uma maquiagem básica para parecer mais humana e melhorar a terrível aparência que ela estava nos últimos dias.
— Obrigada por ter separado um tempo para me encontrar, sei que sua agenda está cheia com as coisas do baile…
— É sempre um prazer, ! — Sorriu falsamente para garota, que retribuiu. — Aceita um chá? — Perguntou, já servindo antes que a mais nova respondesse, mas, ainda assim, ela balançou a cabeça positivamente. — Então, em que posso ajudar?
— Bom… — tomou um gole de seu chá antes de continuar. — A senhora sabe que as inscrições para o Miss Cambridge foram feitas quando éramos mais novos e antes de… bom, antes de eu ir embora... — resolveu concluir assim e senhora Lockwood deu um sorriso acolhedor. — Então meu par nas inscrições era o e hoje em dia nós não nos falamos… então queria saber se eu posso trocar pra, bem, qualquer pessoa que fale comigo. — se ajeitou desconfortável na cadeira, quando a feição de Carol se fechou.
— Creio que não será possível, querida. Todos os pares já estão formados e nosso trabalho é muito sério para qualquer briguinha atrapalhar isso! Filhos fundadores precisam dançar e se apresentar com filhos fundadores! — A senhora ajeitou os cabelos (que já estavam perfeitamente arrumados) e antes que a garota pudesse argumentar, uma voz masculina invadiu a sala.
— Então isso não será um problema, se ela dançar comigo. — apareceu na sala de estar com seu sorriso perfeito e seu cabelo, antes uma bagunça total que o deixava charmoso, estava cortado rente a cabeça, deixando-o incrivelmente lindo da mesma forma.
sentiu um misto de emoções ao ver novamente seu… namorado? Ela não sabia mais o que ele era para ela. Mas a que prevaleceu foi a raiva. Profundo ódio por ele ter a deixado sozinha e ter voltado com aquele sorriso idiota nos lábios como se nada tivesse acontecido.
— Bom, acho que assim não será um problema…— Carol deu de ombros e sorriu desconfortável.
Tinha sentido a tensão que se espalhou no ambiente.
— Muito obrigada pelo seu tempo, senhora Lockwood! Tenha um bom dia! — forçou um sorriso educado e saiu depressa, precisava ir para casa o mais rápido possível.
Sentiu que ia atrás dela, mas não queria falar com ele, não agora.
— , por favor, espere! — O chamado dele era em vão e a garota conseguiu chegar no carro antes que ele a alcançasse. — Corra e o atropele se for necessário! — Disse ao motorista, que arregalou os olhos, mas fez o que a garota pediu, virando o carro em direção à residência dos , que ficava a poucas quadras dali.
Quando chegou em casa, tudo que a garota queria era se jogar em sua cama e chorar. Definitivamente não estava preparada para ver , tampouco ter algum tipo de conversa com ele. Só de ouvir o som da voz dele um frio percorreu por sua espinha e tudo que ela queria era chorar e chorar. Não estava nem um pouco a fim de lidar com aquela situação. Por dias tinha planejado cada palavra que falaria para o namorado por ter simplesmente a abandonado sem dar nenhuma explicação ou satisfação, principalmente porque sabia o tanto que ela precisava dele. Por não a ter defendido diante de , mesmo que fosse uma situação delicada, e, sobretudo, não estar lá para protegê-la quando tinha uma arma em seu pescoço. Não queria que nada daquilo viesse à tona, não queria contar da pequena aproximação que teve com , nem nada disso. Só queria que ele tivesse continuado onde quer que ele estivesse, isso pouparia algumas coisas. Mas também sabia que muita coisa do seu presente e futuro dependiam de seu relacionamento com . Não podia simplesmente acabar com tudo. Não agora que estava tão perto!
desmoronou em sua cama. Estava perdida. Não sabia o que fazer para continuar sustando aquela situação. Então resolveu ligar para a única pessoa que saberia dizer a ela o que fazer:
— Doutor Marcus, me desculpe te ligar fora do meu horário, mas preciso da sua ajuda. Você é o único que pode me ajudar a pensar com clareza agora. — Implorou no celular quando o psicólogo atendeu no terceiro toque e suspirou quando ouviu a voz suave do médico:
—Não se preocupe, minha querida. Imaginei que me ligaria. Sou todo ouvidos…
— E o Miss Cambridge 2019 vai para… — Senhora Lockwood abriu um sorriso encantador, antes de anunciar a vencedora do concurso daquele ano. — Caroline Forbes! — O som da plateia foi ensurdecedor e o sorriso de Caroline poderia rasgar sua cara.
estava genuinamente feliz ao ver a amiga caminhar para o palco segurando seu vestido azul bebê. Sabia que Carol sonhava com isso desde quando eram crianças, verdadeiramente um sonho, e não apenas um legado imposto a ela como era das .
De longe, conseguiu ver o desapontamento no falso sorriso de Emma, mas não se importou. Já estava nervosa o suficiente com o abraço que pesava na sua cintura. Seu coração não tinha parado de bater forte desde que tinha sido chamada para a grande dança e agora, com aquelas mãos trêmulas pousadas em sua cintura, tampouco pararia.
Mas sua atenção foi tomada para os arfos vindo da plateia, seguidos de alguns gritos exagerados. O discurso de Caroline foi interrompido por uma onda de choque no grande palco que tinha sido montado no jardim enorme de Cambridge High School. Lá atrás, depois de onde os convidados estavam sentados, rastejava no chão levando uma poça de sangue consigo.
Capítulo 17 - Parte 02
A música era ambiente quando as portas do salão do casarão dos Lockwood finalmente se abriram, observou tudo com os olhos semicerrados. Aquilo era parte de uma grande orquestra, um grande circo. Todo ano as famílias fundadoras gastavam quantidades incontáveis de dinheiro apenas para continuarem mantendo seu status, aquilo tudo era uma grande palhaçada, mas não deixava de ser bonito: decoração impecável, musicistas famosos de Londres convidados para comporem a orquestra, tudo minimamente calculado para que fosse perfeito. Havia uma grande escada, bem no meio do salão, onde as candidatas ao Miss Cambridge desceriam para encontrarem seus pares no fim dos degraus, tudo milimetricamente calculado, claro. Depois que se encontrassem, todos os casais desceriam para o grande salão, para performaram uma dança ridícula da qual eles eram obrigados a saber desde a pré-adolescência. e Caroline no passado costumavam ser obcecadas pelo dia que elas finalmente poderiam ser candidatas, então todos eles sabiam o passo a passo do Miss Cambridge de cor.
Após a grande dança, todos se direcionariam ao grande palco no jardim da casa dos Lockwood, onde as cadeiras estavam posicionadas para os convidados, e ali seria anunciada a grande vencedora. enfiou as duas mãos nos bolsos da calça social enquanto observava o fluxo de pessoas chegando, procurando onde estariam oferecendo as bebidas. Se fosse encarar aquilo, precisava de uma bebida. Tinha considerado fumar um baseado para se acalmar, mas sabia que John, que não saía da sua cola, o repreenderia, então preferiu evitar.
Aproveitou que o tio saiu de sua cola e caminhou até onde as bebidas estavam sendo servidas. O barman levantou as sobrancelhas, provavelmente porque sabia que ele era menor de idade, mas sorrateiramente passou uma nota de cem libras pelo balcão e deu uma piscadela para o homem, que rapidamente pegou o dinheiro e serviu um whisky duplo para o garoto. encostou no bar e passou a observar as pessoas no local, os pais de seus colegas de classe eram desembargadores, políticos, donos de grandes empresas. Todas as famílias ali tinham um legado, todos tinham nascido ali e honravam o nome de Cambridge pelo país inteiro. Aquilo o fez sentir falta de seus pais. James esperava que fosse grande, bem sucedido como ele. Apesar de apoiar sua carreira no futebol, sabia que aquilo só abriria portas para uma bolsa na faculdade. Sabia que o verdadeiro desejo de seu pai era que ele assumisse as indústrias , que agora eram comandadas pelo seu Tio John. O seu legado era comandado por um idiota. Mas não queria saber daquilo, estava perdido, divagando como um peixe fora d'água.
— Você parece um pinguim. — Ouviu o murmúrio de uma voz conhecida e rolou os olhos. estava vestida como uma viúva em um enterro, mas não deixava de estar estonteante. A beleza da amiga reluzia de uma forma diferente, ela estava diferente desde a pequena viagem com , que por sinal ainda não tinha dado as caras. não sabia o que pensar e o que faria com sua amizade com ainda, estava puto, nunca imaginaria que o amigo seria capaz de roubar sua garota… esse último pensamento fez o garoto de olhos azuis balançar a cabeça negativamente, tentando ignorar.
— E você está radiante — ironizou e beijou a bochecha de . — Sinto muito pelas coisas que falei. — Beijou a mão da amiga em seguida. A garota apenas deu um meio sorriso. Ainda estava com as coisas engasgadas, mas estava morrendo de saudades de seu melhor amigo e preferia deixar as coisas em paz por pelo menos uma noite. — Tenho certeza que você será nossa próxima Miss Cambridge. — deu uma risada verdadeira enquanto levava um peteleco da amiga.
não se reconhecia no espelho. A garota nem lembrava a última vez que tinha se arrumado dessa forma. Seus cabelos caíam em ondas perfeitamente alinhadas, enquanto Caroline a ajudava nas últimas amarrações do vestido. Um corset verde-água lhe acinturava e, abaixo, uma saia rodada. Estava como uma princesa. Do jeito que Emma sempre havia sonhado. Mas não parecia ela mesma. Aquela garota não existia mais, esses sonhos, tudo que a vida da alta sociedade de Cambridge proporciona, não a preenchia mais. A garota sabia que estava ali apenas para agradar sua mãe, por todo sofrimento que ela tinha causado, aquilo era o mínimo, mas ainda assim não deixava de se sentir vazia. Ali definitivamente não era seu lugar.
— Estou tão feliz! — Caroline estava tão radiante que suas pupilas estavam dilatadas e ela não conseguia conter seus pulinhos de felicidade. — Sonhamos com isso desde crianças!
se limitou a forçar um sorriso para a amiga. Estava feliz por ela e esperava que ela ganhasse. Teria pelo menos uma satisfação em ver a cara de cu de Meredith ao ver que tinha perdido. A garota as fuzilava com os olhos do outro lado da sala.
— Com quem você vai dançar? — Forbes não conseguiu segurar a curiosidade para ela mesma
— — respondeu sem olhar para a amiga
— Ele voltou? Vocês conversaram? Eu achei uma palhaçada ele simplesmente sumir depois daquela cena toda no refeitório. Como você está em relação a isso? Eu fico preocupada com você às vezes, … — Caroline falava mais rápido do que a garota conseguia acompanhar, então a deteve, colocando as mãos no ombro da amiga e olhando fixamente nos seus olhos.
— Sua maquiagem está borrada — sussurrou para a loira, que imediatamente arregalou os olhos e foi se preocupar consigo mesma no espelho, deixando a garota respirar em paz.
Ao mencionar o nome de seu namorado, ela tinha instantaneamente ficado nervosa, não tinha tido nenhum contato com desde a casa dos Lockwood, mas esperava que ele aparecesse para a estúpida dança e esperava que a música estivesse alta o suficiente para que os dois não tivessem a oportunidade de conversar. Não queria falar com ele ainda. Seu coração estava profundamente confuso e magoado e ela não tinha certeza se queria continuar com aquilo, por mais que custasse outras coisas. Ela daria outro jeito de se dar bem. tinha pouco tempo até que Caroline percebesse que sua maquiagem não estava nem um pouco borrada, então se esgueirou sorrateiramente para fora da sala de hóspedes da senhora Lockwood, que tinha sido transformada numa espécie de camarim para elas. Ao sair, percebeu que, na sala ao lado, John, tio de , conversava aos sussurros com o prefeito, senhor Lockwood, e com o diretor Thomas, o pai de , o que significava que o garoto tinha chegado, assim ela esperava.
— Oh, ! — O diretor percebeu sua presença, enquanto os outros dois sorriram amarelo para a garota. — Espero que não se esqueça que, depois da festa, você e estão encarregados de levar os enfeites de volta para a escola, faz parte da detenção. — Deu uma piscadela para a menina, que rolou os olhos. Achava um absurdo, mas não iria contestar e correr o risco de ser expulsa da escola (de novo).
— Ei, ! Está quase na hora! Os fotógrafos têm que tirar as últimas fotos. — Ouviu a voz de Caroline a chamar, então voltou sua atenção para a amiga, recebendo um tapinha no ombro do diretor como dispensa. Antes de se concentrar nas fotos, seu celular apitou em suas mãos, mostrando uma mensagem de .
» : Não se preocupe. Estou quase chegando.
Sem perceber, a garota respirou aliviada. Apesar de tudo, tinha medo que ele sumisse de novo. Não que se preocupasse excessivamente com a droga do concurso e todo aquele teatro, mas sabia que isso era importante para Emma. A mulher estava radiante desde a noite anterior e sabia que devia isso ela, já tinha decepcionado sua mãe muitas vezes no passado e, apesar da relação das duas não ter sido ideal, sabia que Emma fazia o que podia e que sempre esteve do seu lado, mesmo com a cidade inteira achando que tinha matado uma criança. Emma merecia que ela ao menos tentasse, mesmo que essa vida não a preenchesse mais.
ficou triste ao se lembrar do quanto ela e Caroline falavam sobre esse dia, sua visão sobre o Miss Cambridge era totalmente diferente naquela época, tinha sido um pouco antes das drogas se tornarem a coisa mais importante da sua vida. Ela sonhava em descer as escadas e encontrar lhe esperando no pé delas, com o cabelo lambido para trás e os olhos azuis reluzindo para ela… balançou a cabeça e tirou a imagem do pensamento. Aquilo estava no passado, simplesmente enterrado. Ela precisava olhar para frente, para o presente.
Deu o último ajuste em seu penteado e seguiu com Caroline onde os fotógrafos tiravam as últimas fotos e mandavam as garotas fazerem diversas poses.
se arrependeu de não ter aceitado a oferta de carona de seu pai no minuto em que saiu de casa e viu o Volvo preto parado em sua porta. Mas ele não se arrependia do anel que levava em seu bolso, que agora parecia pesar uma tonelada. Os dias que passou nos Estados Unidos foram reveladores para ele. O garoto sentia que precisava urgente sair de Cambridge, e queria que fosse com ele. Tinha certeza que o lugar da garota era com ele, com ninguém mais. Sabia que ela estava muito brava com ele e seria uma tarefa difícil conseguir que ela o perdoasse, mas sabia as palavras exatas para convencê-la. Ele era apaixonado por ela de verdade. Sua amizade com estava em jogo, novamente, por causa de uma garota, mas não era qualquer uma. orbitava em sua mente, era dona de seus pensamentos e de seu coração e ele sabia que precisava sair o mais rápido possível da cidade com ela, mesmo que a verdade fosse revelada.
Caminhou rápido até seu carro e deu partida. Sabia que seria seguido, mas contanto que fosse rápido e conseguisse entrar depressa nas dependências da casa dos Lockwood, estaria a salvo. Nunca dirigiu tão rápido e tão certo do que queria naquele dia, saberia o quanto ele a amava e entenderia que todas as suas atitudes foram por amor, nada mais que isso.
Sua testa pingava suor e seus olhos não desgrudavam do retrovisor, onde os olhos castanhos que dirigiam o Volvo também não se desviavam dele. Respirou fundo quando chegou à imponente residência dos Lockwood. Antes de abrir a porta, seu celular bipou. Era uma mensagem de um número desconhecido.
» UN: Hey, é aqui. A bateria do meu celular morreu. Mudança de planos! A grande dança será feita no jardim dos Lockwood. Me encontre nos fundos.
sorriu, seu coração passou a bater mais forte. Ela não estava tão brava com ele assim, certo? Achou estranho que mudassem a programação assim em cima da hora, mas guardou o celular no bolso e se dirigiu a entrada do jardim dos fundos da casa dos Lockwood, que desembocava na floresta antes da grande clareira onde os convidados se sentariam para a coroação da Miss Cambridge.
já estava em seu quinto whisky duplo quando a senhora Lockwood apareceu no topo da grande escadaria com seu vestido vermelho e seus cabelos perfeitamente alinhados em um coque. Ela sorriu majestosamente antes de tomar o microfone em mãos.
— Boa tarde a todos. É um prazer receber todas as famílias fundadoras e convidados! É uma honra ser cerimonialista de mais um Miss Cambridge, no qual nossas garotas são apresentadas à sociedade com uma belíssima apresentação. Além disso, no final, como todos já sabem, apenas uma delas será premiada como a nossa próxima MISS CAMBRIDGE! — A fala da senhora Lockwood foi seguida de uma grande salva de palmas. Ela sorriu graciosamente, enquanto uma assistente entregou um papel que seguiria com o nome de todas as participantes, em ordem alfabética. As garotas sairiam de um quarto e se posicionariam em frente a grande escada, assim, seu par indicado a esperaria no fim da escada quando seu nome fosse chamado.
— Sem mais delongas, nossa primeira participante: Meredith Smith, acompanhada de . — revirou os olhos, logo o casal mais insuportável do colégio tomaria as honras de abrir a cerimônia. Aquilo era uma tortura. Queria sair dali, mas sentia os olhos de John firmes nele, sabia que seria um escândalo se ele abandonasse o evento. estava sentada perto da sua mãe, fazendo caretas, riu quando ela sinalizou o capeta enquanto Meredith e se posicionaram.
E assim a cerimônia seguiu, ao todo, dez meninas seriam chamadas. O garoto estava nervoso, sabia que estaria deslumbrante, e também que aquele era para ser um momento deles. Tinham ensaiado por meses aquela coreografia estúpida, sabia os passos de cor e o quanto aquilo era importante para a ex-namorada, não sabia o quanto era agora que tudo tinha mudado, mas fato era, significava alguma coisa já que ela tinha desistido de participar.
Inconscientemente, ele chegou mais perto da escadaria quando a letra do nome dela se aproximava. Queria vê-la, independente de tudo. Poderia ser pela bebida, mas a mágoa e o ódio pareciam ter desaparecido naquele momento.
— , acompanhada de . — Quando ela apareceu, parecia que tudo ao redor tinha ficado em câmera lenta. Ele nunca tinha a visto tão linda assim, um vestido tão gracioso que ressaltava cada detalhe de sua pele, uma maquiagem leve, mas que a deixava graciosa, além de um lindo sorriso nos lábios, mesmo que parecesse um pouco nervosa. Ela estava maravilhosa. Mas logo seu sorriso se tornou um de confusão. não estava na ponta da escada e os convidados passaram a olhar para os lados, o procurando. Senhora Lockwood pigarreou e novamente chamou:
— , acompanhante de . — Esperou alguns segundos se passassem, mas o garoto não apareceu.
não chegou a pensar direito, mas quando percebeu, já estava na ponta da escada, estendendo o braço para que descesse. A atitude do garoto ocasionou alguns cochichos e uma feição extremamente confusa em , que o fuzilava com os olhos do outro lado do salão. , por outro lado, estava tão surpresa quanto aliviada. Ela ainda era uma , não queria passar a vergonha de ser abandonada na frente da cidade inteira, já não bastava o seu péssimo histórico. suava frio enquanto esperava que ela descesse, enquanto a garota descia devagar, pois seu coração batia tão forte que ela tinha medo de tropeçar e pagar um mico ainda maior.
Quando suas mãos se tocaram, parecia que os dois tinham tomado um choque. Uma carga de eletricidade inexplicável passou em seus corpos. As últimas garotas foram chamadas, enfim era o momento da grande dança. Seus passos eram delicados e milimetricamente calculados, e a melhor parte: nenhuma parte do corpo se tocava. As mãos ficavam para cima, as palmas viradas uma para o outro, mas sem se tocarem. Os corpos separados. A única coisa que devia se manter era o contato visual. A coisa mais difícil do mundo para o antigo casal.
não conseguia decifrar os olhos do garoto, enquanto ele via tudo nela: confusão, medo, vergonha e… encanto? Decerto, ela era encantada por ele, estava lindo de terno e seus olhos azuis eram tão intensos, apesar de sempre estarem tristes ultimamente. não entendia seus sentimentos naquele momento, mas não queria sair dali. Parecia que os dois estavam numa bolha, longe de tudo e todos, longe de todas as coisas ruins, mas sabia que aquilo tinha tempo certo para terminar. Assim que a música acabasse, tudo voltaria para o mesmo lugar novamente. Então decidiu aproveitar aquele momento único de paz em todos esses meses.
percebeu do que se tratava no minuto que chegou na clareira e viu o palco e as cadeiras longe de onde ele estava. Se sentiu um tanto quanto imbecil por isso. Tinham ensaiado mais de mil vezes a coreografia das meninas descendo as escadas e seus pares as buscando.
— Eu não tinha ideia se funcionaria, mas ultimamente você tem sido extremamente burro. — se virou para encarar o homem atrás dele, que estava acompanhado pelo garoto.
— Eu te avisei para não se meter mais com . Você foi avisado. E depois, se meter para longe da cidade com ? O que você pensou? Que não iriamos atrás de você?
— Eu não penso muito em vocês. — tentou se mostrar durão para esconder o medo.
— Não tente ser espertinho, filhinho do diretor. Seu pai não vai conseguir te defender mais. — O garoto sibilou para , mas recebeu um olhar de alerta, então recolheu as asas.
— O que vocês querem? — perguntou, estava tentando se manter na defensiva.
— Considere isso como um recado. — Antes que o garoto pudesse ter tempo de pensar, recebeu um soco no olho tão forte que perdeu o equilíbrio. Em seguida, foi segurado pelo garoto enquanto levava chutes na barriga do homem, sem qualquer possibilidade de defesa. Apenas fechou os olhos e gritou a cada surra que recebia, sabia que ninguém o ouviria, sabia que morreria se não tivessem pena dele. Só fechou os olhos e rezou para que tivesse forças para ir ao carro quando eles terminassem.
Mas fizeram pior: o deixaram perto de onde a próxima Miss Cambridge seria coroada. Ele não tinha outra escolha a não ser se rastejar para lá para que alguém o ajudasse.
— Fique longe da , todos os passos de vocês estão sendo monitorados. Nós sabemos de tudo.
Então percebeu que aquele não era um aviso só para ele.
Depois da grande dança, parecia ter recebido um balde de água fria, nada era como antes. Nunca mais seria. o olhou com uma compaixão absurda, que chegava a dar enjoo. Mas ele sorriu de lado quando ela o agradeceu com os lábios, sem sair som da sua boca. E ela realmente estava agradecida, e furiosa por ter lhe abandonado DE NOVO. Depois disso, era insustentável manter qualquer tipo de relacionamento com o garoto, por mais que isso lhe custasse quase tudo.
Agora era hora de se dirigir ao palco, para que a vencedora fosse anunciada. Todas as garotas se perfilaram no palco, enquanto os convidados se assentaram nas cadeiras colocadas na grama. pousou as mãos na sua cintura, o que novamente lhe passou as ondas de choque elétrico que pareciam ir direto para seu coração, que queria sair do peito. O garoto suava frio, pensando que tudo aquilo era muito errado, mas ao mesmo tempo muito certo. Só queria apagar todas as coisas ruins que tinham acontecido, para que pudesse ficar junto de quem ele realmente amava. Mas isso era impossível.
— E o Miss Cambridge 2019 vai para… — A senhora Lockwood abriu um sorriso encantador antes de anunciar a vencedora do concurso daquele ano. — Caroline Forbes! — O som da plateia foi ensurdecedor e o sorriso de Caroline poderia rasgar sua cara. estava genuinamente feliz ao ver a amiga caminhar no palco segurando seu vestido azul bebê. Sabia que Carol sonhava com isso desde quando eram crianças, verdadeiramente um sonho, e não apenas um legado imposto a ela como era das . De longe, conseguiu ver o desapontamento no falso sorriso de Emma, mas não se importou. Já estava nervosa o suficiente com o abraço que pesava na sua cintura. Seu coração não tinha parado de bater forte desde que tinha sido chamada para a grande dança e agora, com aquelas mãos trêmulas pousadas em sua cintura, tampouco pararia. Mas sua atenção foi tomada para os arfos vindo da plateia, seguidos de alguns gritos exagerados. O discurso de Caroline foi interrompido por uma onda de choque no grande palco que tinha sido montado no jardim enorme de Cambridge High School. Lá atrás, depois de onde os convidados estavam sentados, rastejava no chão levando uma poça de sangue consigo.
Capítulo 18
Em meio aos seus pensamentos, conseguiu ouvir vozes conhecidas no corredor. Uma gritaria acontecendo, era… era a voz de . Tentou se mexer para ir em direção à voz, mas tudo doía demais.
一 Você NÃO pode me proibir de vê-lo por causa de uma merda de detenção, está maluco? — a garota esbravejava no corredor, indignada com o que estava acontecendo.
一 Não só posso como vou, mocinha. Você não vai ser de nenhuma ajuda aqui e combinados são combinados. 一 Thomas estava impassível na sua decisão.
ALGUMAS HORAS ANTES
一 E o Miss Cambridge 2019 vai para… 一 senhora Lockwood abriu um sorriso encantador antes de anunciar a vencedora do concurso daquele ano. 一 Caroline Forbes! 一 O som da plateia foi ensurdecedor e o sorriso de Caroline poderia rasgar sua cara.
estava genuinamente feliz ao ver a amiga caminhar no palco segurando seu vestido azul bebê. Sabia que Carol sonhava com isso desde quando eram crianças, verdadeiramente um sonho, e não apenas um legado imposto a ela como era das . De longe, conseguiu ver o desapontamento no falso sorriso de Emma, mas não se importou. Já estava nervosa o suficiente com o abraço que pesava na sua cintura. Seu coração não tinha parado de bater forte desde que tinha sido chamada para a grande dança, e agora, com aquelas mãos trêmulas pousadas em sua cintura, tampouco pararia.
Mas sua atenção foi tomada para os arfos vindo da plateia, seguidos de alguns gritos exagerados. O discurso de Caroline foi interrompido por uma onda de choque no grande palco que tinha sido montado no jardim enorme de Cambridge High School. Lá atrás, depois de onde os convidados estavam sentados, rastejava no chão, levando uma poça de sangue consigo. Passada a onda de choque, as pessoas mais próximas rapidamente correram em direção ao garoto, aos gritos de “Chamem uma ambulância”, “Chamem o senhor ”. olhou em choque para , que prontamente pegou na mão da garota para que corressem na direção do garoto de cabelos encaracolados.
No meio do caminho, sentiu uma mão firme segurando seu braço, como advertência, mas puxou forte, se afastando de Tio John, e continuou correndo com .
seguia em choque, observando toda a cena, enquanto via seu melhor amigo arfar de dor e sangrar na frente da cidade inteira.
一 SAIAM DA FRENTE 一 berrou.
Ela estava tão atordoada que nem percebeu que as lágrimas já caíam descontroladamente por seu rosto. Se sentia tão culpada, tinha sumido e ela não havia se preocupado se algo tinha acontecido com ele. Apenas ficou com raiva, pensando que ele a tinha deixado na mão, e agora ele estava ali, sem conseguir nem abrir os olhos direito. Tinha claramente levado uma surra, mas quem faria isso com ele? Por quê?
一 … 一 lamentou enquanto se abaixava ao lado do namorado.
一 … 一 arfou, conseguindo abrir levemente os olhos e os fechando novamente. 一 Você… Nós… fugir 一 balbuciou palavras desconexas até que não aguentou a dor lancinante e desmaiou nos braços da garota, que gritou, ainda mais desesperada por ajuda.
A ambulância chegou poucos minutos depois, os paramédicos afastaram com dificuldade, mas conseguiram colocar na maca, depois no automóvel, seguindo para o hospital. O pai e a mãe do garoto foram juntos na ambulância com ele, enquanto corria desesperada para encontrar alguém que a levasse para o hospital o mais rápido possível. Emma tentou chegar até a garota, mas ela estava transtornada, sabia que alguém tinha feito isso com e tinha suas desconfianças, as ameaças estavam cada vez mais perto dela. Ele tinha dito algo como fugir.
seguiu atordoado, mas sabia que tinha que ajudá-la. Estranhamente hoje, estava tendo esse ímpeto com a ex-namorada.
一 … 一 limpou a garganta quando alcançou a garota e tocou levemente seus ombros. 一 Tente se acalmar, eu vou te levar até lá.
Poderia estar com o maior ódio possível do amigo, mas o ver daquele jeito tinha dilacerado seu coração. claramente tinha levado uma surra, mas não conseguia imaginar de quem. O amigo era a pessoa mais boa praça que conhecia, se relacionava bem com todos os outros, até mesmo com o nojento ou com Lockwood. Não via motivos para que alguém quisesse bater nele. Exceto, por seu relacionamento com .
conseguiu levar até seu carro, a garota estava com os cabelos bagunçados e a maquiagem borrada pelo choro. Tentou ignorar os olhares das pessoas em volta, mas estava ciente que a cidade inteira, após o choque dos dois terem dançado juntos no baile, se chocavam mais ainda com os dois indo para o carro juntos. Mas nada daquilo importava naquele momento. não sabia mais separar as coisas, não sabia mais carregar tanto ódio da garota e no fundo, sabia que a partir daquele momento seus destinos estavam selados, teriam que conviver mesmo que doesse muito.
ALGUMAS HORAS DEPOIS
não podia acreditar que estava sendo proibida de ver , não pelos médicos e nem pelos enfermeiros, mas pelo senhor Thomas , que barrava o corredor para que nem ela, nem se aproximassem do quarto. Ela podia ver, pelo vidro, a condição de seu namorado na maca, todo enfaixado e inchado, com os olhos fechados. Seus olhos se encheram de lágrimas novamente; a garota só tinha conseguido ficar calma no carro, com , embora tivesse sido uma viagem extremamente desconfortável e silenciosa até o hospital. Seus pensamentos estavam confusos e desordenados, havia acontecido tantas coisas em um dia só, que a garota só queria sair correndo e se trancar em algum canto.
一 Você NÃO pode me proibir de vê-lo por causa de uma merda de detenção, está maluco? 一 a garota esbravejava no corredor, indignada com o que estava acontecendo.
一 Não só posso como vou, mocinha. Você não vai ser de nenhuma ajuda aqui, e combinados são combinados. 一 Thomas estava impassível na sua decisão. 一 E você vai acompanhá-la, . 一 Seu rosto se virou duramente para , que até então estava calado, observando o amigo pelo vidro. Tão ferido. Por quê…?
一 Não faz o menor sentido, Thomas. Como poderemos nos concentrar em detenção com dessa forma? Como o senhor pode sequer pensar nisso? 一 tentou demonstrar calma, mas queria gritar descontroladamente como . Seu celular estava com pelo menos cinquenta chamadas perdidas de , assim como sabia que John o encheria o saco também.
一 Vocês têm um dever a cumprir. 一 Por falar no diabo, o seu tio tinha aparecido atrás deles. revirou os olhos, seu rosto estava vermelho de tanto ódio e também pelas lágrimas. A última pessoa que queria ver ali era o tio asqueroso de .
一 Me deixe, pelo menos, vê-lo por um momento 一 suplicou a Thomas, que suspirou e apenas apontou para o quarto, dando passagem para que a garota entrasse, logo atrás.
一 Dois minutos.
一 … 一 As lágrimas caíam fortemente pelo rosto da garota, ela tinha medo de tocá-lo pela extensão dos machucados. O garoto tentou se mexer na maca, denunciando que estava acordado. 一 Não se mexa, eu estou aqui. Você vai ficar bem. 一 Mesmo chorosa, tentou limpar suas lágrimas e beijou o topo da testa de , o único lugar no rosto do garoto que não estava machucado.
一 Ei, cara 一 falou, a voz baixa e embargada ao ver o amigo daquela forma. 一 Você vai ficar bem, vamos descobrir quem fez isso com você. 一 Trocou um olhar rápido com e, ao olhar para o lado de fora, percebeu que Thomas e John conversavam em voz baixa, observando os três dentro do quarto.
一 Você vai ficar bem, eu prometo que vai.
, com muito esforço, conseguiu estender a mão para que pegasse. A garota sorriu com o esforço do mais velho, que conseguiu abrir levemente os olhos, franzindo a testa de dor. 一 … 一 sussurrou, a voz quase inaudível. 一 Fuja.
olhou para com os olhos arregalados
一 O quê?
一 Fu… 一 tentou falar novamente, mas seus remédios pareceram começar a fazer efeito, ao mesmo tempo que Thomas entrou no quarto .
一 É melhor vocês irem. Podem ir pra casa, me desculpem. 一 O diretor pareceu recuperar a sanidade. Era de se esperar que não estivesse bem, vendo o filho daquela maneira. e saíram do quarto sem protestar, a primeira depositou outro beijo leve na testa de antes de deixar o quarto. olhou com raiva para o tio, mas não disse nada, apenas saiu pelo corredor ao lado de , não sem antes puxá-la para a primeira esquerda, lado contrário da saída. A garota o olhou com uma expressão confusa, mas se calou ao ver fazer sinal de silêncio com indicador, apontando para o corredor. De lá, ouviram a voz de Thomas se exaltar.
一 Quero saber agora quem fez isso com o meu filho e por que, John! Esse nunca foi nosso combinado…一 Dava pra sentir o ódio na voz de Thomas, mesmo que não pudessem vê-los.
一 Fique tranquilo, Thomas. Acho que tem lugares mais apropriados para termos essa conversa 一 John falou calmamente, guiando o diretor de Cambridge High School para longe dali.
一 Ele disse fuja, não foi? 一 murmurou para .
O garoto a estava levando para casa e, devido aos acontecimentos, os dois não se falaram muito enquanto dirigia pelas ruas de Cambridge. Ele pilotava mais devagar do que costumava, como se estranhamente não quisesse chegar rápido na casa de . Não sabia por que, mas algo fazia com que ele quisesse a ex-namorada próxima, e isso perturbava a sua mente.
一 Mas fugir de quê?
一 Ou de quem… 一 sussurrou, estremecendo ao se lembrar da arma no seu pescoço. 一 … você era a última pessoa que precisava estar fazendo isso por mim, me desculpe, eu…
一 Eu também não entendo o porquê... 一 a interrompeu. 一 Eu… há poucas semanas atrás, você era a pior pessoa da minha vida, desde… desde a morte de Lily eu tenho um ódio profundo por você, mas parece que… desde aquele dia que você me encontrou, as coisas estão diferentes, de alguma forma eu acho que acredito em você, ou pelo menos não tenho mais tanta certeza do que aconteceu naquele dia… 一 despejou as palavras, sem jeito, nem ele sabia o que realmente estava sentindo ou pensando. 一 Eu só queria que isso tudo fosse um pesadelo… não quero reviver a morte de Lily, ao mesmo tempo que, se não foi sua culpa, preciso descobrir de quem foi… Mas juro por Deus, , se você estiver me manipulando de alguma forma… 一 balançou a cabeça, tentando não pensar nessa possibilidade.
一 , eu juro, eu vim justamente por isso, para descobrir a verdade, descobrir por que isso aconteceu, quem fez isso… 一 tentava dizer, mas as lágrimas começaram a cair novamente pelo seu rosto enquanto se aproximava da casa dela.
Estava feliz pelo voto de confiança, mesmo que ainda não parecesse perdoá-la, mas ao mesmo tempo preocupada com o que viria a seguir. Sabia que precisava ser completamente honesta com a partir de agora. O garoto parou o carro na entrada da garagem da mansão dos , e olhou intensamente para , sem saber o que fazer. Num ato impensado, limpou as lágrimas da garota, levemente. O toque no nas bochechas da ex-namorada fez com que a eletricidade de antes voltasse. Aquele era um momento que nenhum dos dois imaginou que teriam de novo. Parecia lindo, errado e cheio de esperanças.
一 … 一 murmurou. 一 Eu preciso te contar uma coisa, mas você não pode contar pra ninguém. Ninguém. Nem para .
Quando acordou ele não sabia se era dia ou noite, mas suas dores estavam melhores. Ele já conseguia abrir o olho quase por completo e o latejar na sua cabeça, agora, não passava de um incômodo. Relembrou a vinda de em seu quarto, lembrou-se vagamente de ver uma figura masculina atrás dela, mas não tinha certeza de quem era porque não falara com ele. Esperava que a garota estivesse bem, se culpava muito por não ter chegado a tempo de tirar daquela maldita cidade antes que o pegassem, e sabia que, se não fizesse alguma coisa, seria muito pior. Três batidas na porta de seu quarto o despertaram de seus pensamentos, junto ao arfar de ver quem passava por ela.
一 Chegou a hora de conversarmos. 一 Damien levantou as sobrancelhas para , como um desafio, e fechou a porta atrás de si.
chegou atordoado em casa. Ainda não tinha saído do carro, sem conseguir se mexer. Precisava urgentemente de um baseado para esvaziar a mente. Quando viu que o carro de John não estava na rua e nem na garagem, desceu do seu carro e seguiu para o quintal dos fundos, onde poderia fumar em paz. Estava perturbado com as coisas que tinha contado. Não sabia se confiava nela, mas também não teria por que a garota mentir para ele e nem inventar aquilo tudo. Precisava de , para conversar sobre, mas tinha prometido que não contaria para ninguém e, de certa forma, entendia que aquele precisava ser um segredo dos dois. Ninguém tinha mais sofrimento nessa história toda do que os dois. Sua cabeça fervia ao pensar que talvez ele houvesse desperdiçado anos de vida odiando a pessoa que ele mais amava no mundo por algo que ela não tinha cometido, mas mesmo assim, não conseguia ver como isenta de tudo. Ela definitivamente estava drogada no dia, e não cuidou de Lily, independente da culpa ter sido dela ou não. Ele só queria saber o que realmente tinha acontecido, e a perda de memória de não era oportuna para nenhum dos dois. Mas agora o garoto estava determinado a descobrir o que tinha acontecido, e definitivamente não podia fazer isso sozinho. Teria que aprender a deixar o ódio e o rancor de lado para trabalhar lado a lado com quem um dia foi o amor da sua vida.
se sentia aliviada por finalmente ter se aberto com e ter contado tudo que ele precisava saber sobre sua volta e seus verdadeiros motivos. Torcia para que ele tivesse acreditado nela e a ajudasse a entender o que realmente tinha acontecido naquela noite. Estava farta de guardar tudo aquilo só para si. Sabia que o garoto tinha se perturbado com tudo que ela tinha falado, mas precisava saber antes que fosse tarde demais e os dois perdessem a chance de descobrir a verdade. A garota, com os últimos acontecimentos, sentia que o quebra cabeça estava mais próximo do que imaginava de ser resolvido.
Emma não estava em casa quando ela entrou. Checou seu celular e viu a mensagem dizendo que estava na senhora Lockwood, que tinha tido um mal estar terrível depois do baile ter sido arruinado por . Todos da cidade estavam escandalizados pela cena do filho do diretor se rastejando, jorrando sangue. Os policiais trabalhavam para saber o que tinha acontecido, e as fofocas corriam soltas, algumas mais absurdas que outras.
tomou um banho demorado de banheira antes de voltar para seu quarto e deitar na cama. Seus pensamentos rondavam todos os anos que passara longe até agora. Parecia que já tinha uma vida que tinha voltado, tantas coisas ruins tinham acontecido que era até difícil acreditar que ela tinha voltado por um bem maior. A garota nem percebeu quando adormeceu, seus sonhos finalmente a deixando em paz para um sono profundo. Que, porém, foi interrompido pelo som insistente do seu celular tocando. Pensou em ignorar, mas depois da terceira chamada, foi obrigada a atender:
一 Alô 一 murmurou, com a voz sonolenta.
一 ? Aqui é o … 一 a voz do garoto estava estranha, como se ele tivesse chorado… 一 A mãe de me ligou, ela estava muito perturbada e eu…eu não sei o que fazer.
一 Fazer com o quê? Não estou entendendo, o que houve? 一 sentou imediatamente na cama, preocupada.
一 sofreu uma parada cardiorrespiratória no hospital 一 falou devagar, como se estivesse tentando processar as palavras que ele mesmo disse 一 Ele não resistiu, . está morto.
Capítulo 19
não aguentava mais ir a velórios, mas parecia que estes faziam grande parte da sua vida. Em todos os outros, ele tinha seu melhor amigo do lado, mas nesse, ele estava sozinho. estava dentro daquele caixão, sem poder ser tocado. Nunca mais veria o amigo sorrir; nunca mais veria seus cabelos bagunçados; nunca mais ouviria dedilhar canções no violão… não tinha se despedido do seu melhor amigo. O último sentimento que tinha sentido por ele era raiva, desgosto e mágoa, tudo por uma garota que os dois amavam. E agora ele estava morto, como todas as outras pessoas da sua família.
O olhar de estava perdido, atordoado. Tinha ciência que a principal igreja da cidade estava cheia, todas as famílias fundadoras, a comunidade escolar e a prefeitura estavam prestando apoio à família depois da grande tragédia. A polícia de Cambridge estava investigando a morte, já que a insuficiência respiratória de tinha sido ocasionada pela surra que o garoto tinha levado pouco antes do Baile dos Fundadores, mas ainda não tinham nenhuma pista do que pudesse ter acontecido. Já era a segunda morte naquele ano na cidade. Uma espécie de maldição.
Enquanto caminhava, tentando tomar coragem de chegar perto do caixão que estava no altar, cercado por coroas de flores e um grande quadro de , vestido com a farda de futebol de Cambridge. Seu caixão estava aberto, mas um grande véu branco transparente tampava o corpo. Tinha ouvido alguém sussurrar que o garoto estava inchado, mas não deu importância. Suas pernas pesavam e sua cabeça doía, não sabia se conseguiria ver o amigo naquela situação. Nada daquilo parecia real. Sentiu a mão de em seu ombro, ela estava com os olhos vermelhos, mas não chorava. Ela o guiou até o caixão, mas ele não conseguiu olhar. Não queria que a última imagem de na sua mente fosse aquela, queria se lembrar do melhor amigo de outra forma, de momentos felizes.
estava na segunda fileira de cadeiras, sentada imóvel ao lado de Emma e Joe, que tinha acabado de chegar de mais uma viagem. Sua visão estava turva e sua cabeça latejava, não tinha conseguido chegar nem perto do caixão de . Não queria que nada daquilo tivesse acontecido, seu plano não era esse.
A garota se levantou, decidida a tentar ver , se despedir. Não queria que a última imagem na sua mente fosse dele no caixão, mas para que sua ficha caísse ela precisava vê-lo. Ela sentia um peso incomum nas costas, como se mais uma morte fosse culpa dela. Não entendia o porque daquilo ter acontecido. Se não tinha nada a ver, porque ele tinha apanhado? Quem faria isso? Porque todas as pessoas pareciam saber que tinha algo errado, menos ela? Se sentia no escuro naquela situação.
e estavam próximos ao caixão quando a loira se aproximou, os olhos da ex-amiga estavam marejados e as olheiras fundas. Nenhum dos dois olhavam para o corpo, mas pareciam estar em transe. deu uma leve olhada para a ex-namorada, tinha quase se esquecido que o melhor amigo e ela estavam em um relacionamento. Aquilo ainda o embrulhava o estômago, mas, de alguma forma, ele queria estar lá por ela. Não entendia os sentimentos que o estavam abraçando naquele momento, mas já era impossível para ficar longe de .
A garota se aproximou do caixão em passos lentos, mas parou no primeiro degrau. Definitivamente não conseguiria. desabou nas escadas, seu estômago retorcia em dor física enquanto a garota chorava. Não se importava com todas as pessoas a olhando, sentindo pena ou sem saber o que fazer, mas ela não tinha mais forças para encarar tudo aquilo. Parecia um erro ter voltado e desencadeado mais problemas do que soluções.
sentiu seus braços serem puxados, em uma tentativa falha de erguê-la. Mas ela não queria sair dali. Seus olhos se levantaram o suficiente apenas para ver que quem a segurava era a última pessoa que ela queria ver: .
— Vamos, , não faça uma cena… — seus olhos eram penetrantes e sua feição parecia se divertir. No mesmo instante a garota tentou puxar o braço, mas o aperto do homem era bem mais forte que ela.
— Me solta agora. — a voz de saiu mais baixa e menos firme do que ela pretendia, o que só pareceu diverti-lo ainda mais. — SOLTA AGORA, SOLTA! FOI VOCÊ, SEU MALDITO, FOI VOCÊ! — nesse momento toda a igreja se virou para a garota, que conseguiu se desvencilhar de e se levantar. Sua visão estava turva e prejudicada pelas lágrimas. Mas ainda sim conseguiu encontrar o olhar de , que balançou a cabeça negativamente, assustado, como se a garota corresse algum perigo. E se as desconfianças dos dois estivessem certas, ela realmente estava em perigo gritando com daquela forma.
— Eu não sei do que essa louca drogada está falando. — levantou os braços, se defendendo. Enquanto todos olhavam a cena com perplexidade, sem saber como agir. , por fim, foi perdendo suas últimas forças e sentiu cambalear para o lado, antes que seu corpo atingisse o chão, sentiu duas mãos e um peito quente a segurando.
— Peguei você. Está tudo bem. Vamos embora. — ouvia a voz dele de longe, mas não conseguiu mais abrir os olhos.
— Isso não vai acabar bem. Já estamos muito expostos… aquela cena de incriminando ! Você precisa ir embora agora. Vai ser uma questão de tempo até descobrirem a verdade. — a voz da garota no porão era estridente e nervosa. Ouviam-se alguns murmúrios concordando, mas a voz do garoto prevaleceu.
—Ninguém vai descobrir nada. A morte de não tem nada a ver conosco.
— Mas foram vocês que bateram nele! — a garota agora chorava, o desespero tomando conta de todo o seu ser.
— Eu já disse que nós não fizemos nada disso, porra! — A voz do garoto se alterou. — Você que começou isso, agora aguente as consequências. está morto. Nada tem mais volta.
ALGUNS DIAS ANTES DA MORTE
— Faz bem, né? — observou com um sorriso se lambuzar com o gelato que tinham comprado na quinta avenida. Tinham pousado em New York há poucas horas e somente naquele momento a tensão da garota tinha passado. Nunca tinha visto a amiga ter uma crise de pânico, mas sabia que toda aquela situação com o sumiço de tinha mexido - ainda mais - com a cabeça dela, principalmente por estar envolvida.
— Então… qual é a sua com a ? — tentou parecer casual, mas ainda não tinha engolido aquela história de buquê de flores e pedido de namoro. Sabia que tinha uma quedinha por antes dela e começarem a namorar no passado, mas jamais imaginaria que tinha evoluído de forma tão… avassaladora.
— Isso nunca foi novidade. — desconversou, parecendo ler os pensamentos da amiga.
— Você realmente atirou para todos os lados. — riu. O garoto levou um tempo para relembrar, mas depois caiu em si, dando um sorrisinho sem graça.
— Não fique tão vermelho, . Não foi seu melhor trabalho. — torceu o nariz, se lembrando da noite em que ela bebeu demais. bufou, ofendido, mas logo depois riu e puxou a amiga pela mão. — Acho que podemos tomar algo mais forte que isso — apontou para o sorvete de chocolate quase no fim.
7 ANOS ANTES DA MORTE
— Ei, ! Duvido que você consegue sem as mãos. — se exibiu para o amigo enquanto descia de bicicleta pela rua. Tinha acabado de ganhar o brinquedo de aniversário e estava com os amigos na rua brincando desde o almoço. As mães de e já tinham buscado os dois, mas continuou brincando com ela, não estava interessado em ir para casa e estava se divertindo muito andando de bicicleta com a amiga. Além disso, sua casa era bem próxima de , então seus pais o deixaram ficar mais um pouco.
— Vamos descer até o final da rua! — exclamou e os dois desceram acelerando até o fim da rua, que era sem saída. No entanto, , sem perceber, passou por cima de uma pedra, perdendo um pouco do controle da bicicleta nova, já que ela era um pouco maior do que a menina estava acostumada. A garota acabou caindo, seus óculos indo parar longe.
— Ai! — exclamou com um muxoxo de dor.
— Ei, você machucou? — ajoelhou do lado da amiga, que estava com um pequeno ralado no joelho e no cotovelo esquerdo, mas nada grave. A garota balançou a cabeça negativamente, tentando se levantar.
— Eu sou tão desastrada. Nunca vou ter um namorado! — desabafou do nada. não sabia como reagir aquilo porque não sabia que a amiga queria um namorado. Fazia pouco menos de dois meses em que ele tinha parado de achar garotas nojentas, então não sabia que também se sentia pronta para ter um namorado.
— , eu tenho 12 anos e ainda gosto desse tipo de brincadeiras. As garotas da minha idade não andam mais de bicicleta, elas gostam de maquiagens… veja a . — ela se esticou, tomando cuidado com o joelho, e cruzou os braços, deixando uma lágrima escorrer pelo seu rosto. A verdade é que a menina não sentia que se encaixava. E desde que seu pai a tinha deixado, ela não se sentia tão bem assim no mundo.
— Eu te acho muito legal. — afirmou.
— … — de repente a garota teve uma ideia ao olhar para os olhos verdes do amigo — Você me daria um beijo? O primeiro beijo?
— Ahn… hoje? — o garoto coçou a cabeça. Nunca tinha pensado nisso também.
— Minha mãe diz que nosso primeiro beijo tem que ser com um garoto que nos ache legal. — sentiu seu rosto enrubescer.
— Ahn… tudo bem. — se aproximou da amiga, os dois com os olhos abertos e depositou um beijo rápido na amiga, um selinho inocente como os dois eram.
ALGUNS DIAS ANTES DA MORTE
explodiu em gargalhadas quando e ela se lembraram daquele momento. Já era a quinta dose de whisky duplo que os dois dividiram no serviço de quarto. Sabia que a qualquer momento poderiam receber reclamações da vizinhança, mas não se importava. Estava precisando se divertir assim, sem ninguém para se preocupar ou cuidar.
— Você não tinha ninguém melhor para tirar seu beijo virgem. — se gabou.
— Não posso dizer o mesmo sobre a virgindade… — refletiu por um momento, antes dos dois se acabarem em risadas novamente. Que foram se findando até os dois se encararem.
— Você realmente acha que não foi meu melhor trabalho? Eu já estava bem experiente. — se gabou.
— , nós transamos porque eu estava bêbada, no dia dos namorados e tomei um bolo da pessoa que eu amava. — riu e o amigo acompanhou. Aquele assunto era enterrado para os dois, mas naquele dia ele estava estranhamente vindo à tona
— Eu sou muito bom no que eu faço. Eu explodi sua mente, seja sincera. — deu um soquinho de leve na amiga, que o encarou, e depois seus olhos desceram para sua boca e se demoraram ali. Deixando confuso.
— O que foi?
— Nada… é que…— não sabia encontrar as palavras certas, apenas se aproximou do garoto e depositou um selinho em seus lábios, e depois outro. afastou gentilmente a amiga, colocando as mãos em seus ombros.
— , você passou por muito hoje, está confusa… — ele tentou a afastar, mas a garota novamente se aproximou dele, depositando beijos em seu pescoço.
— Eu preciso… de uma distração. — respirou na orelha do amigo e sentiu o pescoço dele arrepiar.
a olhou, parecendo ponderar sobre a situação.
— …
— Ela nunca vai saber. Por favor. Eu preciso me desligar. — insistiu, subindo no colo do garoto, se acomodando em um rebolado. sentiu seus pelos eriçarem e o ar ficar mais difícil de respirar. — Por favor.
suplicou antes de se dar por vencido e enfiar as mãos no cabelo da garota, a puxando para perto e fazendo-a arfar. O beijo dos dois não era necessariamente gostoso, mas sim urgente, com um misto de sentimentos que nada tinha a ver com os dois. Seus corpos ali estavam totalmente separados da mente e logo as roupas estavam espalhadas pelo chão.
— Joe, eu acredito que você irá entender quando eu disser que prefiro que sua filha não compareça ao enterro de . Já tivemos aborrecimentos demais por um dia. — a expressão de Thomas era vazia, como se apenas seu corpo estivesse ali, no automático.
— Os dois estavam namorando… — Emma suspirou, preocupada com o estado que a filha tinha sido levada dali e com o medo do pesadelo de anos atrás se repetir. — Não é fácil para ela… embora eu não saiba o que aconteceu entre ela e o filho do pastor .
— A verdade é que sua filha é uma grande criadora de problemas, Emma. — John se intrometeu na conversa. Fazendo com que Joe bufasse. Ele odiava aquele cara, assim como todos que o conheciam de verdade.
— Não ficarei aqui para ouvir besteiras sobre minha filha. — Joe virou as costas, puxando Emma consigo.
***
UM MÊS ANTES DA MORTE
— Você tem sardinhas. — sorriu e passou os dedos levemente pelo rosto da namorada. — Porque sempre as esconde com maquiagem?
— Porque acho ridículo. — respondeu, pegando o dedo do garoto e tirando de seu rosto. Os dois estavam deitados em seu quarto, curtindo a preguiça depois de transarem. sempre ficava pensativa depois desses momentos porque, apesar de ser bom, nada parecia se encaixar perfeitamente. Sabia que era uma clara comparação a , que não existia e provavelmente não existiria nada igual. Por mais vezes que ela queria admitir, enquanto estava por cima dela, ela desejava que fosse .
— Você é linda. — beijou seu nariz e as maçãs do rosto da garota, onde as suas sardas se concentravam. — Eu sou louco por você. Seria capaz de matar por você.
UM DIA ANTES DA MORTE
estava disposto a fazer o que fosse necessário para estar junto com a garota que ele amava. Sabia que estava sendo perseguido desde New York. Não só por aquelas pessoas, mas também por seus próprios pensamentos. Sabia que não deveria ter se deixado levar e transado com sua melhor amiga. Sabia que os dois estavam bêbados e em situação de estresse, mas sua tarefa era cuidar da amiga e não se aproveitar dela.
Ele se sentia nojento, não apenas por trair o amor da sua vida, mas também por ter feito aquilo com . Ele a pediu mil desculpas, apesar de que a amiga disse que não precisava, que se sentia tão mal quanto ele e que, na verdade, ela que tinha o usado. Mas, de toda forma, estava tudo errado e ele precisava consertar. Depois de fugir dele na casa dos Lockwood, mas ainda sim aceitar dançar com ele. Sabia que precisava de um grande gesto. Ele estava saindo da loja de joias, depois de finalmente achar um anel que combinava perfeitamente com , quando seu celular bipou uma mensagem. O garoto ficou pálido com o conteúdo do vídeo. Ciente que ele precisava sumir daquela cidade com sua namorada o mais rápido possível.
DIA DA MORTE
O efeito do remédio ia e vinha, mas continuava grogue e sem saber direito o que estava acontecendo, ouvia vozes o tempo inteiro, entrando e saindo do quarto, mas não sentia forças o suficiente para abrir os olhos, muito menos para levantar e dar uma olhada em volta. Em algum momento, sentiu sua maca mexendo, como se estivessem movendo-o de lugar. Quando abriu os olhos, só conseguiu ver o teto branco acima de si. Não conseguia olhar para os lados e nem identificar as vozes que falavam, tudo estava distante. Depois, apagou de novo.
Quando acordou novamente, tudo estava escuro. Não conseguia se mover para achar um interruptor e sua voz não saía, para que chamasse alguém. Ele não parecia estar no hospital. De repente, ouviu uma voz familiar e suspirou aliviado. Talvez ele só estivesse realmente sendo tratado da maior surra de todos os tempos.
— Ei, cara, me desculpe por isso. Mas é para o seu bem. - ouviu a dureza na voz e viu a dor no olhar ao mesmo tempo. Em questão de segundos, ele não enxergou mais nada e o monitor ao seu lado apitou em um único som.
Capítulo 20
estava com dificuldades de sair de perto da garota desde o momento em que a puxou para longe de diante de todas aquelas pessoas no enterro. Mal sabia se tinha ciência que era ele ali, mas ela o deixou a conduzir para dentro do carro, enquanto chorava e tremia copiosamente. Assim como permitiu que ele acariciasse seus cabelos até que ela se sentisse segura para cair no sono. E assim ela estava até agora. Ele não conseguia se mover, apesar de seus pensamentos estarem pipocando em sua mente. Não queria nem pensar o que estava imaginando em ver os dois próximos novamente, e nem seu tio; muito menos as pessoas da escola. Ele não se importava, mas sabia que o julgamento alheio atingiria . Ele não entendia direito o que estava acontecendo, mas sabia que, depois do que tinha ouvido contar, e, estranhamente não tinha duvidado dela, seria difícil mantê-la longe. Por mais que, toda vez que a tocava ou a sentia perto demais, parecia que uma lâmina cortava seu peito de fora a fora. Fechou os olhos e se lembrou da conversa que tiveram dentro do carro, antes de saberem o destino de :
一 … 一 murmurou 一 Eu preciso te contar uma coisa, mas você não pode contar pra ninguém. Ninguém. Nem para .
一 … eu não gosto de esconder as coisas de , ela já está se sentindo de fora desde que… desde que nos reaproximamos. 一 aquela palavra não parecia correta ao definir a recente relação dos dois. Mas não sabia qual outra seria mais adequada.
一 Mas isso não pode sair daqui. Pelo menos não até juntarmos todas as peças… 一 sussurrou e olhou para os lados, como se tivesse medo que fossem ouvidos. 一 Preciso te contar o que me levou a voltar para Cambridge.
O movimento debaixo de si o tirou da imersão de pensamentos e olhou para baixo, vendo o despertar de . Ela parecia estar confusa, então ele não fez movimentos bruscos para que ela não se assustasse. Ela estava com uma dor de cabeça que parecia que nunca ia passar, mas pela primeira vez no dia, se sentiu a salvo. Sabia que estava ali. Da forma mais dolorosa, imperfeita e improvável do mundo, os dois estavam juntos. Se apoiando.
一 está morto. 一 Sussurrou. As lágrimas voltando aos seus olhos. apenas assentiu, sem saber o que dizer. estava morto e tudo estava diferente. Como lidariam com aquilo dali pra frente?
***
DOIS MESES DEPOIS
Era estranho pensar que depois da morte de uma pessoa, a vida das outras simplesmente continua. Nada para, nada deixa de ser como era. Os filmes continuam rodando no cinema, os carros continuam trafegando pela cidade, os bares e os cafés continuam abrindo e a vida simplesmente… continua. tinha presenciado mortes o suficiente na sua família para saber disso: a vida simplesmente continuava. Mas o luto estava ali, presente no cotidiano, no futebol, nas tardes comendo panquecas com . Cada vez mais a rotina parecia estar esvaziada de sentido. Mas ali ele estava, seguindo a vida como ela era, indo para a escola, participando dos ensaios da peça e cumprindo uma detenção que parecia ser eterna. Puxou o último trago no baseado, enquanto esperava a garota passar pelo portão. Não estava conseguindo passar um dia sem ficar chapado, desde o enterro. Dois meses se passaram e ainda era inacreditável que estivessem sendo obrigados a seguir a vida normalmente, quando mais uma pessoa querida tinha ido embora. As pessoas pareciam estar no automático, seguindo suas vidas como se nada tivesse acontecido. Mas não eles. e estavam todos os dias incansavelmente procurando respostas sobre a morte de , ou pelo menos, sobre a surra que o garoto tinha levado pouco antes de ter uma parada cardiorrespiratória. Esperavam encontrar algo que ligasse isso à morte de Lily, que culminaria no principal suspeito: . Depois desse tempo, tinha total certeza que a ex namorada não estava envolvida. Mas ainda não sabia ao certo quais sentimentos estavam em seu coração. Ainda a culpava. Ainda sentia seu coração estar dilacerado toda vez que os dois estavam perto um do outro, o que agora acontecia com frequência, mesmo que quase sempre às escondidas. Mas sabia agora, com mais clareza, que o foco da garota era o mesmo que o seu: descobrir quem tinha assassinado sua irmã mais nova. Mas ainda sim, um sentimento inquietante ainda trazia conflito entre os dois:
一 Não acha que é o momento de contar para ? 一 murmurou quando se aconchegou no carro
一 Não podemos sair espalhando até termos certeza, . Ela já está sofrendo demais, não precisa lidar com um ex-namorado assassino. Até que tenhamos provas o suficiente, corre perigo. É melhor que ela não saiba. 一 argumentou pela vigésima vez. sempre tocava nesse assunto.
一 Preciso passar mais tempo com ela, mas toda vez que estou, preciso mentir. Não posso mais fazer isso. Ainda mais por você. 一 as palavras de não saíram exatamente como ele planejou, o que acontecia com frequência. Ainda estava se ajustando a toda essa convivência com a pessoa que ele mais odiou na vida.
一 Tudo bem, desculpe. 一 respirou fundo, tentando conter as lágrimas que quase todos os dias insistiam em cair dos seus olhos. Sabia que tinha sorte de acreditar em suas palavras, então não queria forçar. 一 Podemos contar à ela. Hoje a noite. 一 Não achava que seria bom que contasse os motivos que a levaram a voltar, muito menos toda a investigação que estavam fazendo. Mas sabia que estava sendo doloroso para mentir para sua melhor amiga, e não queria ser o pivô de mais um conflito.
一 Obrigado. Ela vai nos ajudar, você vai ver. 一 segurou o impulso de dar um beijo na bochecha da ex, então apenas se remexeu desconfortável no banco e deu partida no carro, em direção a escola. Ele ainda estava tentando entender esses impulsos quando estava com . Tinham começado há algumas semanas. Toda vez que estavam juntos, às vezes ele tinha o pensamento intrusivo de abraçá-la ou tocar suas mãos, ou até mesmo encostar os lábios nela, mas reprimia essas sensações com toda força que tinha. Porque ele simplesmente não podia. Parecia errado ainda ter esse tipo de sentimento por depois de tudo.
一 … como você pode ser capaz de acreditar nisso? 一 riu, incrédula. Suas olheiras estavam fundas e roxas. A garota mal estava dormindo nos últimos meses. Quando a chamou para ir até sua casa à noite, esperava que pudessem conversar. O amigo estava muito estranho desde o enterro de . Sabia que estava passando tempo com a e desde então, se esgueirava toda vez que ela perguntava sobre. 一 Parece muito uma história para você se safar. 一 encarou , que tinha uma expressão vazia no rosto, e cruzou os braços.
一 Não faz o menor sentido que ela tenha inventado isso, cricket. 一 ponderou 一 recebeu fotos, do dia da morte de Lily, onde ela estava desacordada no banco da frente e dirigia o carro.
一 Então você se envolveu com apenas para saber se ele estava envolvido na morte de Lily? 一 questionou, olhando para 一 Isso soa meio patético.
一 Foi a única forma que encontrei. Não foi tudo fingimento, eu realmente acho que ele… 一 não conseguiu terminar a frase. Pensar em ainda doía. Não sabia do seu envolvimento com a morte da garotinha, mas parecia impossível para ela pensar que todos aqueles sentimentos eram fingidos.
一 era completamente apaixonado por você, . Desde sempre. 一 afirmou com certa amargura, o que fez se remexer, desconfortável. Ele sabia que era verdade, mas se sentia mal que o melhor amigo foi embora sem saber que o tinha perdoado por se envolver com .
一 Eu me nego a acreditar que tem algo a ver com isso. Parece uma emboscada para culpá-lo. Assim como fizeram com você. amava Lily-Anne como uma irmã. 一 se levantou, inquieto.
一 O que te faz pensar que ela não quer tirar o dela da reta, ? Como pode ter certeza? Remexer nessa história só vai te fazer mal. Você não enxerga isso? 一 fuzilou com os olhos. Tudo que aquela garota tocava, ela destruía.
一 Não foi ela. 一 afirmou categoricamente. Agora, tinha mais clareza sobre isso, principalmente depois do dia da surra no cemitério. E depois do que tinha descoberto na detenção, apesar de não saber a relação de uma coisa com a outra. Mas conseguia sentir, em todo seu ser, que sua ex não tinha participação direta na morte de sua irmã. Queria ter podido ter essa clareza antes, mas ele não se culpava. tinha perdido seus pais e logo em seguida a garota que ele amava tinha sido a última pessoa a estar com sua irmã. Tudo apontava para ela e seu pesar era grande demais, mas sabia reconhecer quando estava errado. As coisas poderiam ser diferentes, se ele tivesse acreditado na ex desde o início.
Mas não sabia como afirmar categoricamente para que seu ex-namorado estava envolvido em todas essas mortes.
一 Eu não quero me envolver nisso. Vocês dois estão com uma espécie de estresse pós traumático para bancarem detetives dessa forma. 一 começou a se exaltar, seus olhos se enchendo de lágrimas. 一 Lily está morta e também. Essa merda não vai se consertar. Nada vai trazer eles de volta. Não entendem isso? Por que simplesmente não conseguem deixar pra lá e tentar seguir essa merda de vida? Por que você, , não volta para o buraco onde você estava e nos deixa em paz? 一 as palavras de eram duras e nenhum dos dois teve coragem de rebater. A garota chorava ruidosamente, mas quando tentou se aproximar, ela se afastou, deixando o amigo sem entender.
一 Você quer se aproximar dela, se aproxime sozinho. Espero que estejam felizes. 一 cuspiu as palavras e pegou seu casaco, querendo dar o fora dali.
desabou no sofá. Não imaginou que a conversa com a amiga seria daquela forma, mas não a julgava. queria fazer o que qualquer pessoa normal faria: deixar para lá e seguir a vida. Afinal, ela tinha razão. Nada traria Lily de volta. Remexer naquela história só trazia mais dores.
Sentiu o lado do sofá afundar do seu lado, e se virou para .
一 Você se apaixonou de verdade, huh? Por ele? . 一 perguntou, sem jeito. Mas não tinha como evitar aquela conversa.
一 Nada parecido com o que já senti por você em toda minha vida. 一 respondeu com sinceridade, sem conseguir encarar nos olhos. O garoto pigarreou, sem jeito e se levantou do sofá.
一 Acho melhor você ir para casa. 一 sussurrou.
Depois do momento com na casa de , os dois mal tinham se falado. Se esbarravam pelos corredores da escola, mas não estava preparada para voltar aos eixos com o amigo. Tudo estava confuso demais para que ela acompanhasse. Tinha medo de ter outra crise de pânico, e, dessa vez, não tinha ninguém para ampará-la.
一 Você parece estar precisando de ajuda com isso 一 a voz conhecida disparou, enquanto ela tentava acender o isqueiro. 一 Vamos ver o que posso fazer. 一 Damien sorriu para a garota, que apesar de querer, não fez objeção para que ele se sentasse ao seu lado.
Depois da morte de , parecia inacreditável que e ainda precisassem frequentar a detenção, porque, ironicamente, apesar de terem se passado meses desde a briga com Meredith e , nesse meio tempo, sempre aconteceu alguma coisa em que eles precisassem deixar a detenção de lado - velórios, por exemplo. Mas lá estavam eles, em silêncio, mexendo nos arquivos dos alunos. Por sorte, estavam sozinhos. O diretor Thomas estava afastado desde a morte de , os boatos era que ele e a esposa estavam fazendo terapia duas vezes por semana. e tampouco tinham palavras, estavam numa espécie de torpor diante dos últimos acontecimentos. Nem para a investigação sobre a morte de Lily estavam dispostos, principalmente depois da briga com ; parecia que as coisas estavam sem sentido e sem rumo. estava inquieto. Se lembrou do início da detenção, quando encontrou os arquivos e nunca conseguiu comentar com a ex-namorada sobre, mas também não sabia como dar aquele tipo de notícia, a garota não precisava de mais uma bomba na sua vida, mas também não queria mentir para ela.
一 … tem algo que você precisa saber 一 a voz do garoto saiu rouca e vacilou quando levantou os olhos vazios em sua direção. Ela não estava bem, suas olheiras eram fundas e pareciam fora de órbita.
一 Só um segundo! 一 um brilho de esperança pareceu surgir em seus olhos quando a tela do seu telefone brilhou 一 Claro, seria ótimo. 一 murmurou para quem quer que fosse do outro lado da linha 一 É meu psiquiatra… ele conseguiu um horário para adiantar minha consulta 一 explicou 一 Ele têm me ajudado com o lance da memória…
一 Ah, que ótimo! 一 murmurou, esperançoso.
一 O que você dizia? 一 a garota perguntou, mas não o olhou nos olhos, ainda estava distraída com o celular e decidiu que não era o melhor momento para tratar daquele assunto. Talvez a levasse para algum café longe de Cambridge para conversarem ou faria panquecas na sua casa... aquele tipo de conversa precisava de um lugar aconchegante, principalmente porque ele não sabia como abordar o assunto e muito menos como a garota reagiria ao saber. Ele não queria ser responsável por contar aquilo a , mas tinha que honrar a palavra de não mentirem mais um para o outro.
一 É muita cara de pau sua aparecer por aqui, não acha? 一 o garoto de olhos verdes perguntou, com sarcasmo, mas a tremida na voz denunciava que ele não estava tão seguro de si assim como tentava mostrar.
一 Talvez porque vocês estejam sempre fazendo merda… matar o , jura? 一 o mais velho sibilou, marchando com as botas pesadas para dentro da cabana. A chuva que caia do lado de fora parecia que derrubaria o imóvel a qualquer momento, mas, àquela altura do campeonato, não tinham muita escolha além de se esconder ali até que fosse seguro ir para outro lugar.
一 Essa é a questão… não fomos nós! Quem seria burro o bastante para mexer com o filho de Thomas ? 一 o garoto observava os movimentos do mais velho como um juiz numa partida de tênis de mesa, onde as botas iam, seus olhos iam atrás, dava para ver, bem sutilmente, o brilho da arma pesando em sua cintura.
一 Resta saber quem pagará o pato por isso!
一 Eu tenho uma ideia! 一 a voz feminina, que até então apenas observava, sibilou 一 Já culpamos a antes, não? O que acham de uma segunda vez?
Capítulo 21
Suíça, dois anos atrás.
O quarto era amplo e luxuoso, mas nem a decoração sofisticada conseguia disfarçar a sensação de prisão. As cortinas de linho esvoaçavam levemente com o ar-condicionado, e a mobília minimalista, de tons neutros, parecia um cenário estéril. O colchão macio não trazia conforto, apenas afundava sob o peso de seu corpo trêmulo. As unhas curtas, antes tão bem cuidadas, arranhavam os próprios braços, tentando rasgar a sensação que pulsava sob a pele. O estômago embrulhava, um gosto amargo de bile subindo à garganta. O relógio na parede marcava o tempo de forma impiedosa, cada segundo um peso insuportável na consciência frágil.
se encolheu no canto da cama, as mãos apertando a cabeça como se pudesse esmagar os pensamentos que vinham em enxurrada. O suor escorria pela testa, grudando os fios de cabelo na pele pálida. A luz indireta do teto era suave, mas nem isso amenizava a dor que tomava cada centímetro de seu corpo. Os olhos ardiam, vermelhos e secos, mas as lágrimas não vinham. Era como se estivesse presa em um ciclo de dor e vazio, sem saída.
Um flash cortou sua mente. Rápido e distorcido.
Garrafa quebrada. O vidro cortando os pés descalços. O som abafado de vozes masculinas conversando. Não conseguia ver os rostos, apenas vultos e sombras. Ela estava escondida, encolhida em um canto, tentando não respirar alto. As vozes murmuravam coisas que não faziam sentido, misturando-se com o barulho de risos e o tilintar de copos. Seu coração martelava no peito, e a sensação de perigo era sufocante.
De volta ao quarto, ela arfou, os pulmões se apertando. As unhas cravaram mais fundo na pele, deixando marcas avermelhadas. Queria gritar, mas a voz não saía. A abstinência era uma fera viva dentro dela, arranhando suas entranhas, queimando em ondas de desespero. A mente estava em brasa, os pensamentos desordenados, repetitivos, e a cada vez que fechava os olhos, as imagens voltavam.
Lily Anne. O grito dela atravessando o ar. O pavor na voz cortando como uma lâmina.
Seus olhos se abriram em um sobressalto. A boca seca, a respiração curta. Ela tentou se lembrar de detalhes, mas era como tentar segurar areia entre os dedos. Só restavam fragmentos, lascas afiadas que cortavam por dentro. Um deles a atingiu em cheio.
O porta-malas de um carro. O cheiro de gasolina e ferrugem. O ar abafado. O corpo encolhido em meio à escuridão. Ela sentia o metal frio pressionando suas costas, as mãos atadas, os pulsos latejando. O coração batia descompassado, e ela não sabia como tinha parado ali. Apenas o medo era nítido. O medo e o gosto de sangue na boca.
De volta ao presente, um soluço escapou de sua garganta. Ela se balançava para frente e para trás, tentando afastar as memórias que rasgavam sua mente como cacos de vidro. Os músculos estavam tensos, a pele formigava, e a necessidade ardia em cada nervo. Queria escapar do próprio corpo, fugir daquele quarto, daquela dor incessante que a mantinha presa entre a realidade e o passado.
Mas não havia fuga. Só restava a agonia, as memórias fragmentadas e a noção de que algo terrível tinha acontecido naquela noite – algo que sua mente insistia em esquecer, mas seu corpo se recusava a abandonar. Ela sabia que tinha algo de errado, sabia que a história não tinha sido contada da maneira certa e que estava sendo culpada por algo que não tinha feito. Mas todas as provas apontavam para ela e o fato de ser uma drogada não facilitava o processo de maneira alguma. Por isso, depois de ter sido completamente humilhada e expulsa do enterro de Lily, os pais a mandaram para clínica de reabilitação o mais longe possível de Cambridge. Obviamente para o resto da sociedade de elite que ficou, a história é que ela tinha ido pra um colégio interno só de garotas, mas somente ela sabia a realidade. Estava ali para ser desintoxicada.
Suíça - Alguns meses atrás.
A primeira reunião do dia havia chegado ao fim. O silêncio pairava no ambiente, apenas o leve arrastar de cadeiras e sussurros dispersos quebravam a quietude forçada. permanecia imóvel, afundada em um dos sofás da ampla sala de estar, seu corpo rígido, quase inerte. O couro macio do estofado cedia sob seu peso, mas ela não parecia sentir.
Durante toda a sessão, não emitira uma única palavra. Seu olhar estava fixo em um ponto vago acima da cabeça do psicólogo, como se enxergasse algo que ninguém mais via – ou talvez nada enxergasse. Seus olhos não refletiam vida, apenas um abismo sem fim. A mente, perdida em algum lugar distante, navegava por mares turbulentos dos quais ela não conseguia escapar. Talvez nem sua alma estivesse ali. Apenas seu corpo – uma carcaça vazia, fria, sem propósito.
— Que o Senhor me conceda serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para modificar as que eu posso e sabedoria para saber a diferença entre elas. — As vozes do grupo ecoaram em uníssono, a prece impregnada de esperança e resignação.
permaneceu muda. Seus lábios nem se moveram para fingir que acompanhava. Era como se o mundo ao seu redor existisse em uma frequência diferente, inalcançável.
O psicólogo, sentado à frente do grupo, lançou-lhe um olhar observador. Seus olhos atentos pousaram sobre ela por alguns instantes, avaliando cada mínimo detalhe. Então, discretamente, rabiscou algo em sua prancheta.
Ele nunca intervinha durante essas sessões, jamais pressionava ninguém a falar. Sua função era apenas mediar, permitir que cada um encontrasse suas próprias palavras – ou seu próprio silêncio. Mas sempre que seus olhos recaíam sobre , a caneta se movia, anotando algo que ela nunca saberia.
E , por sua vez, continuava calada. Mas dessa vez, algo diferente aconteceu. Quando ela se levantou para seguir o grupo que se despedia do psicólogo, ele a parou, segurando levemente em seu braço. A garota retesou o corpo com o toque, mas se virou para olhá-lo.
— , gostaria de conversar com você a sós no meu escritório hoje.
A garota entendeu que não era um pedido e apenas balançou a cabeça. Pelo tanto que ele anotava sempre que olhava para ela, sabia que chegaria esse momento. Se limitou a isso e após ele apenas assentir, a garota saiu da sala, retornando ao seu quarto.
O tique-taque do relógio na parede era a única coisa que quebrava o silêncio sufocante do consultório. A sala era menor do que ela esperava, levemente abafada, com móveis de couro escuro e uma escrivaninha impecavelmente organizada. Não havia certificados pendurados, nem aquele cheiro forte de desinfetante que os consultórios costumavam ter. Tudo parecia cuidadosamente calculado para ser impessoal.
Mas o que realmente a incomodava não era a sala em si. Era o homem sentado à sua frente.
Ele não parecia um psiquiatra. Nada de pranchetas, anotações, nem aquele olhar clínico de quem tenta entender sua mente. Ele simplesmente a observava com um olhar pesado, como se já soubesse tudo. Como se estivesse esperando algo.
cruzou os braços contra o peito, num reflexo automático de defesa.
— Eu não sei por que estou aqui. — Disse, tentando soar firme.
O homem esboçou um sorriso mínimo, quase imperceptível.
— Eu sei. — Ele inclinou a cabeça levemente, como se analisasse a forma como ela reagia às palavras. — E mais importante que isso… sei por que eu estou aqui.
O desconforto dela aumentou.
— Como assim?
Ele se inclinou um pouco para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Sei o que precisa ser feito, . Sei o que você precisa fazer. Você precisa voltar!
O coração dela deu um salto desconfortável. Por que ele falava com tanta certeza? Como se soubesse todos os seus segredos e tivesse vivido o que aconteceu no passado com ela. Mas ele não sabia, não a conhecia. Por que falava com tanta certeza?
— Eu… eu não posso voltar para casa. — Ainda assim, ela encontrou palavras para o responder.
— Não pode… ou não quer?
Ela prendeu a respiração.
— Eu já causei sofrimento demais.
O psiquiatra soltou um riso seco, sem humor.
— Você tem certeza disso? Quero dizer… você realmente sabe tudo o que aconteceu naquela noite?
Os olhos dela se arregalaram.
— O que você quer dizer com isso?
— Quero dizer… — Ele fez uma pausa calculada. — Que você não se lembra de todos os detalhes.
O sangue dela gelou. Por que ele estava falando aquilo? Ela só tinha falado sobre o assunto nos primeiros dias, nem se lembrava se ele estava na sala ou não, as lembranças do dia que ela chegara ali estavam completamente nebulosas em sua mente. Ainda assim, ele parecia saber exatamente tudo que tinha acontecido naquela noite.
— Eu…
— Não. — Ele a interrompeu, a voz afiada como uma lâmina. — Você não se lembra. Sua mente bloqueou. Mas eu posso ajudar.
O peito de subia e descia em uma respiração instável. Cada parte do seu corpo gritava para sair dali, para correr, mas suas pernas estavam presas no chão.
— Por quê? — Sua voz falhou. — Por que você está me dizendo isso? O que você tem a ver com toda essa história e porque você quer que eu volte para casa?
O silêncio foi longo. Denso. Um tanto quanto desconfortável. não tinha ideia do porquê ele estava insistindo tanto naquilo, já que nem a conhecia direito. Mais desconfortável ainda era pensar no que o esperava se ela voltasse para casa. Medo, vergonha, rancor. Como poderia encarar todas aquelas pessoas?
E então, o psiquiatra sorriu.
— Porque minha vida depende disso. — A resposta a atingiu como um soco. piscou, confusa. Sua vida? O que isso significava? Quem era aquele homem, afinal? E por que ele falava como se estivesse jogando uma partida de xadrez onde ela era apenas uma peça? — E quanto à sua… você não quer ter a chance de reconquistar sua vida de volta?
— O que eu preciso fazer? — Ela perguntou, finalmente. Não tinha absolutamente nada a perder. Já tinha perdido seus amigos, seu namorado, o respeito de seus pais. Não poderia ficar escondida naquela clínica para sempre.
Ele inclinou a cabeça, observando-a por um instante antes de dizer:
— O primeiro passo… é se aproximar de .
O nome atingiu como um choque. Como ele conhecia ? Mas, àquela altura, sabia que o homem sabia muito mais da sua vida do que ela imaginava. A pergunta era: como?
— O quê? — Ela balançou a cabeça, tentando processar. — Por quê? O que tem a ver com isso?
A confusão borbulhava dentro dela. e eram praticamente irmãos. O que ele teria a ver com tudo isso? Ainda assim, não conseguia encontrar as perguntas certas para fazer aquele homem, só sentia no fundo do peito que podia confiar nele. Alguma coisa no olhar dele a dizia que ela podia ir até o fim, que ele a ajudaria. Afinal, ele era o único que tinha oferecido ajuda a ele desde que tudo aconteceu.
O psiquiatra sustentou o olhar dela, os olhos carregados de algo que ela não conseguia decifrar.
— Tudo.
sentiu um nó se formar em sua garganta.
E então, sem dizer mais nada, ele puxou o celular do bolso interno do paletó. Desbloqueou a tela. Deslizou o dedo devagar, como se soubesse exatamente o que estava prestes a mostrar.
Ele virou a tela para ela e o tempo pareceu parar.
Os olhos de se arregalaram, e sua respiração se partiu em um arfar audível.
Seus dedos se apertaram contra os braços da poltrona. Seu corpo inteiro congelou.
Ela queria perguntar. Precisava perguntar.
Mas sua voz simplesmente desapareceu.
FIM DO FLASHBACK.
A chuva tamborilava contra a janela, um som ritmado e hipnotizante que preenchia o silêncio do quarto escuro. estava sentado na beira da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos, os dedos entrelaçados diante da boca. Seus olhos vagavam pelo chão, sem de fato enxergar nada, perdidos no turbilhão de pensamentos que se misturavam em sua mente.
.
O nome dela pairava sobre tudo, como um espectro impossível de ignorar. Ele precisava falar com ela. Precisava dizer o que descobriu, mas como? Havia tantas palavras e, ao mesmo tempo, nenhuma parecia certa. O luto ainda pesava sobre seus ombros como uma corrente invisível, e, mesmo assim, ele não conseguia negar o que sentia. O coração ainda pulsava por , mesmo que a dor insistisse em se colocar entre eles como um abismo intransponível.
O som repentino de batidas na porta o tirou do devaneio. Três pancadas rápidas, urgentes. franziu o cenho e se levantou, sentindo um arrepio percorrer sua pele quando abriu a porta.
estava ali, encharcada. Os fios de cabelo grudavam em seu rosto, e as roupas pesavam com a água da chuva. Seus olhos estavam vermelhos, marejados, e seus ombros tremiam, não se sabia se de frio ou da emoção que a consumia.
— Eu tentei... — A voz dela saiu trêmula, e ela respirou fundo antes de continuar. — Eu tentei não acreditar no que estava dizendo. Eu tentei pensar que ela estava só... manipulando tudo de novo. Mas... eu não posso ignorar isso.
Ela ergueu o celular com a mão trêmula e virou a tela para .
Por um momento, ele não conseguiu reagir. Seu peito subiu e desceu de forma irregular, enquanto seus olhos percorriam a imagem. Era como se o ar ao redor dele tivesse se tornado mais pesado, como se a chuva lá fora agora ressoasse dentro de sua cabeça.
— O que... — A boca dele se entreabriu, mas as palavras não saíram. Ele sentiu um frio estranho tomar conta de si. — Eu preciso falar com . Agora.
soluçou e passou as mãos pelo rosto molhado, sem conseguir conter as lágrimas. O peso daquela revelação era sufocante, e a chuva, com seu ritmo inconstante, parecia acompanhar o desespero que crescia dentro deles.
A noite que já era sombria tornava-se ainda mais misteriosa. Algo estava acontecendo, algo maior do que eles podiam entender. E sabia que não poderia mais fugir da verdade.
estava deitada na cama, com os olhos fixos no teto escuro de seu quarto. O sono parecia um luxo inalcançável, para sua mente inquieta e sobrecarregada. Desde o velório de , tudo havia se tornado ainda mais confuso. Ela sabia que para , conviver com ela era um desafio. As informações que ele recebeu nesse curto espaço de tempo eram pesadas demais. Ele sabia que ela tinha voltado para Cambridge para provar sua inocência. Sabia que ela se aproximou de porque acreditava que ele tinha alguma ligação com a morte de Lily-Anne, mas no meio do caminho, acabou se afeiçoando a ele. Sabia também que, no fundo, ela tinha certeza de que estava envolvido de alguma forma.
Mas ele não sabia tudo.
suspirou e se virou na cama. Sentia uma pontada de culpa por não ter contado toda a verdade. Não explicou a porque suspeitava de desde o início. E não sabia se um dia conseguiria. não estava mais ali para se defender, e ela não queria que carregasse ainda mais raiva do amigo morto. Parecia até engraçado pensar que ele tinha ressentimentos de pelo relacionamento que o garoto tinha tido com ela, mas sabia que sim, que tinha se magoado profundamente. Mas não pelo motivo que ela queria. Sabia que ele tinha se chateado porque estava morta para ele, ele era alguém que ele odiaria para sempre e não por ciúmes.
Seu telefone vibrou sobre a mesa de cabeceira, a tirando de seus devaneios. o pegou com dedos hesitantes ao ver o nome na tela, seus olhos se arregalaram ao ler a mensagem.
: "Preciso falar com você. Agora. Venha até minha casa."
O coração de disparou. A urgência naquelas palavras a fez se levantar de imediato. Sem pensar duas vezes, pegou as chaves do carro. Não pediu ao motorista. Não queria ser vista saindo àquela hora. Com passos rápidos e silenciosos, atravessou a casa e saiu furtivamente, ligando o motor sem hesitação.
O vento frio da noite e a estrada molhada a aguardavam. Algo lhe dizia que nada mais seria o mesmo depois daquela conversa.
Quando chegou à casa de , seu peito estava apertado em um misto de ansiedade e medo. Ao entrar na sala, percebeu sentada no sofá, uma toalha enrolada nos ombros e os olhos inchados, denunciando que havia chorado. estava parado junto à ilha que dividia a cozinha da sala, os braços cruzados e os olhos brilhando com intensidade. Não parecia drogado, mas sua energia era carregada.
— O que aconteceu? — A voz de soou mais fraca do que gostaria.
hesitou por um instante, depois pegou o celular e virou a tela para ela.
O mundo de parou.
Seu corpo ficou tenso, a respiração acelerou e o coração martelou dentro do peito. Era a mesma foto. A mesma foto que o psicólogo lhe mostrou meses atrás durante uma sessão de terapia. Aquela foto foi definitiva para que ela voltasse para Cambridge. A mesma foto que a fez voltar até aqui. Como poderia explicar porque escondeu isso deles?
Sua boca ficou seca. Os olhos de e estavam cravados nela, esperando uma explicação para aquela reação.
— Eu... eu já vi essa foto antes. — ela admitiu, relutante. — Meu psicólogo me mostrou. Foi isso que me fez voltar.
franziu o cenho, seus olhos agora carregados de raiva contida.
— E por que diabos você nunca nos contou isso? — Sua voz era dura. — Como espera que eu confie em você se continua escondendo coisas?
sentiu um aperto no peito. Sua vontade era de gritar, mas apenas sussurrou:
— Me desculpe...
a encarou por um instante, e algo dentro dele surpreendentemente amoleceu. Ele também escondia coisas dela. Como poderia julgá-la?
pigarrou, quebrando a tensão.
— Precisamos de uma ideia para desmascarar tudo, de uma vez por todas — disse, a voz firme.
assentiu lentamente.
— Precisamos ir até a polícia — declarou.
Mas e se entreolharam, ambas negando com a cabeça.
— Não — disse, determinada. — Eu tenho motivos suficientes para desconfiar até da polícia. Eles não hesitaram em me incriminar antes.
O silêncio caiu sobre eles como um peso, e percebeu que estavam prestes a cruzar um limite sem volta. O garoto se jogou no sofá, exasperado. Colocou as mãos sob a cabeça, tentando clarear as ideias. A sala estava mergulhada em penumbra, com apenas o som distante da chuva batendo contra as janelas, criando uma atmosfera pesada e sufocante.
Sua mente era um turbilhão de pensamentos conflitantes. A necessidade de descobrir a verdade por trás da morte de sua irmã o consumia, mas a perspectiva de remexer no luto e na dor o paralisava. Valeria a pena? Nada traria Lily-Anne de volta. Ainda assim, a sede de justiça — ou talvez de vingança — ardia em seu peito. A ideia de encontrar o culpado e fazê-lo pagar nunca foi tão intensa.
Quando suspeitava de , por mais doloroso que fosse, não conseguia imaginar tirar-lhe a vida; desejava que ela sofresse, mas não a morte. Mas e se o responsável fosse ? O cerco de evidências parecia se fechar ao redor de seu melhor amigo, e a impossibilidade de confrontá-lo, devido à sua morte, tornava tudo ainda mais insuportável. A culpa corroía por dentro; como podia suspeitar daquele que sempre esteve ao seu lado? Mas a imagem...
Pegou novamente o celular de , suas mãos tremendo levemente. A foto mostrava ao volante do Volvo prata de , tentando cobrir o rosto diante do flash da câmera. No banco de trás, e Lily-Anne estavam inconscientes, com os olhos fechados, como se desmaiadas.
O peso daquela imagem era esmagador. Cada detalhe parecia gritar perguntas sem resposta, e a traição implícita dilacerava o coração de . A chuva lá fora intensificava a sensação de desespero, como se o mundo exterior refletisse a tempestade interna que o consumia.
Sentiu-se à beira de um abismo, onde cada decisão poderia levá-lo mais fundo na escuridão ou, talvez, oferecer uma tênue esperança de luz. Mas, naquele momento, tudo o que sentia era a dor lancinante da dúvida e da perda.
andava de um lado para o outro na sala, seu casaco já estava jogado no chão, e os cabelos, antes soltos, agora presos de forma desajeitada. permanecia sentada no sofá, agora vestindo roupas secas de , que estava na cozinha; cozinhar, de alguma forma, o distraía. Claro, sua outra válvula de escape eram as drogas, mas não parecia uma boa ideia recorrer a elas naquele momento.
— Precisamos de um motivo para ligar e . Afinal, por que estava no Volvo de ? — questionou , interrompendo seu vaivém.
se remexeu, visivelmente desconfortável. Ainda não estava totalmente convencida de que seu ex-namorado estivesse envolvido naquela história.
— Pode haver vários motivos, mas ainda assim não vejo como pode estar envolvido nisso.
— E como você tem tanta certeza de que está? — retrucou , frustrada com a defesa incessante de em relação a , especialmente considerando o histórico abusivo dele. — Ele espancou há pouco tempo, me ameaçou com uma arma, deixou peônias no túmulo da Lily e, coincidentemente, tem peônias tatuadas. — Ironizou, enquanto bufava e se levantava abruptamente. — Você está sendo idiota, .
— E você, ? — disparou, a voz carregada de rancor. — A única que poderia nos ajudar lembrando de algo daquela maldita noite, e nem para isso você serve. Desde quando ouvimos essa garota, ? Quer saber, ? Você sempre fez um inferno nas nossas vidas, desde antes de tudo isso acontecer. Você tem, sim, sua parcela de culpa, sendo uma drogada de merda. Então, senhorita perfeita, abaixe a droga da sua bola.
, que observava a discussão da cozinha, sentiu-se dividido. Compreendia as mágoas de em relação a , mas sabia que aquela briga não os levaria a lugar algum. Além disso, também não entendia como podia defender tão fervorosamente.
— Chega, vocês duas. — Interveio, a voz firme, mas carregada de exaustão. — Essa discussão não vai nos levar a nada. Precisamos descansar e retomar isso pela manhã, com a cabeça fria. — Vou levar você para casa, . — Ofereceu, tentando apaziguar os ânimos.
— Não precisa. — Ela respondeu secamente, pegando suas coisas e saindo sozinha, deixando e sozinhos na sala, o silêncio pesado preenchendo o espaço entre eles.
Após a saída abrupta de , o silêncio pairou pesado na sala. , sentindo o peso das palavras ditas, começou a andar de um lado para o outro, tentando organizar os pensamentos que se atropelavam em sua mente. , por sua vez, permaneceu encostado na bancada da cozinha, observando-a com um misto de preocupação e exaustão. A tensão entre eles era palpável, e sabia que precisava quebrar aquele silêncio sufocante. Respirando fundo, ela parou e olhou diretamente para , seus olhos refletindo arrependimento e dor.
— , eu... eu preciso te pedir desculpas.
Ele franziu o cenho, surpreso com a súbita declaração, mas permaneceu em silêncio, permitindo que ela continuasse.
— Eu deveria ter lhe contado sobre a foto. Quando o psicólogo me mostrou, meses atrás, foi o que me motivou a voltar para Cambridge. Mas eu não sabia como você reagiria, e... eu não queria que você odiasse o .
abriu a boca para falar, mas ergueu a mão, pedindo que ele a deixasse terminar.
— E não é só isso. Eu preciso me desculpar por tudo. Por todas as vezes que você se esforçou para me ver bem e eu não correspondi. Por todas as vezes que as drogas interferiram no nosso relacionamento, que eu te afastei quando você só queria ajudar.
As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de , mas ela não tentou contê-las. sentiu um nó se formar em sua garganta, cada palavra dela atingindo-o como um golpe.
— Eu causei tanta confusão, tanta dor. Você perdeu a sua irmã, e eu... eu me envolvi com o .
Ao mencionar , a voz de falhou, e ela precisou de um momento para recuperar o fôlego.
— Eu tive sentimentos por ele, sim. Mas nada que se compare ao amor avassalador que eu senti por você. Se eu pudesse voltar no tempo, apagaria todas as coisas ruins e voltaria para o dia da roda-gigante, quando você me pediu em namoro.
sentiu as próprias lágrimas ameaçarem cair. Ele queria dizer a ela que também tinha seus segredos, que não era o único a esconder coisas. Mas, naquele momento, tudo o que ele conseguia fazer era fechar a distância entre eles e envolvê-la em um abraço apertado, deixando que o silêncio falasse por ambos.
O garoto sentiu o peso esmagador das emoções enquanto abraçava . A proximidade dela evocava uma tempestade interna: culpa, ressentimento, amor e uma dor profunda se entrelaçavam em seu coração. Como podia estar ali, segurando a pessoa que, de certa forma, contribuiu para a perda irreparável de sua irmã? Ao mesmo tempo, ele reconhecia a fragilidade de , uma menina marcada por traumas familiares e escolhas equivocadas.
O calor do corpo dela contra o seu era ao mesmo tempo reconfortante e perturbador. As lembranças do passado inundavam sua mente: os sorrisos compartilhados, as lágrimas, as promessas quebradas. sabia que carregava um segredo que poderia mudar tudo, e a culpa por mantê-lo o consumia.
Enquanto seus pensamentos se embaralhavam, seus olhos encontraram os de . Havia uma tristeza profunda ali, refletindo a dor que ambos compartilhavam. Sem conseguir resistir, inclinou-se lentamente, sentindo a respiração dela se misturar à sua. Quando seus lábios finalmente se tocaram, foi como se o mundo ao redor desaparecesse.
O beijo era carregado de uma intensidade avassaladora. Lágrimas escorriam pelo rosto de ambos, misturando-se ao contato de suas bocas. A suavidade dos lábios de contrastava com a aspereza das emoções que compartilhavam. Cada movimento era uma mistura de desejo e arrependimento, paixão e dor. sentia o gosto salgado das lágrimas, enquanto suas mãos tremiam ao acariciar o rosto dela.
O coração de batia descompassado, uma mistura de amor e ódio pulsando em suas veias. Ele podia sentir o corpo de tremer, refletindo a vulnerabilidade e o medo que ambos sentiam. A profundidade do beijo aumentava, como se estivessem tentando encontrar redenção um no outro, buscando desesperadamente apagar as cicatrizes do passado.
De repente, a realidade os atingiu com força. afastou-se abruptamente, ofegante, os olhos arregalados em choque pelo que acabara de acontecer. A sala parecia girar ao seu redor, e o peso do que compartilhavam tornou-se insuportável. Ele sabia que não podia mais esconder a verdade.
— , eu... preciso te contar algo.
Capítulo 22
Uma lembrança antiga surgiu, cortante como uma lâmina:
A menina de seis anos segurava o caderno de caligrafia com as duas mãos, tremendo diante do olhar severo de Emma.
一 Isso está horrível, ! 一 a voz dela era um chicote no ar 一 De novo! E desta vez, sem erros, você precisa ser melhor que isso, precisa ser digna do nome que carrega.
Digna. A mesma palavra que tinha ouvido incontáveis vezes ao longo da sua vida. Sempre precisava ser a filha perfeita, com as melhores notas, melhores roupas, os cabelos mais alinhados. A herdeira sem falhas. Mas e se aquele nome nem lhe pertencesse? Sua mente vagou novamente para a voz de , sussurrando palavras que agora pareciam desconexas, a única coisa que tinha grudado em sua mente era: Joe e Emma não são seus pais biológicos.
olhou pela janela, os olhos turvos pela mistura de lágrimas e chuva. O farol do carro refletia nas poças da rua, criando um efeito borrado de luzes que mais pareciam sombras distantes de uma vida que ela mal reconhecia como sua.
A memória da conversa com ainda queimava dentro dela. Ele tinha feito o que achava certo, tentando protegê-la da dor de saber da verdade, mas isso não mudava o fato de que o mundo dela havia acabado de virar de cabeça para baixo. De novo. Ela não era quem pensava ser.
Os flashes de toda a sua vida vinham como tiros em sua direção. De repente, todas as vezes que ela sentiu não pertencer, todas as vezes em que ela não sentia pertencer àquele mundo, tudo fazia sentido agora. Ela realmente não pertencia.
A garota mal percebeu quando estacionou o carro na entrada da impotente mansão dos . A chave girou na fechadura com um clique seco, e empurrou a porta devagar. Entrou com passos lentos, quase silenciosos, como se a casa — aquela casa onde crescera — já não lhe pertencesse mais. O ar estava morno, com o cheiro reconfortante de alho refogado e alguma coisa assando no forno. Uma cena comum. Comum demais para o que estava acontecendo dentro dela.
Na cozinha, as panelas tilintavam baixinho. Joanne mexia uma colher de pau numa panela, o avental amarrado com capricho, os cabelos presos como sempre.
— Você saiu tão apressada, mas resolvi fazer o jantar para quando você voltasse — disse ela, sem se virar. — Seus pais foram jantar com o senhor e a senhora Lockwood. Disseram que não iam demorar...
Ela se virou então, e o que viu congelou sua expressão. estava parada no batente da porta. Os olhos vermelhos, como se tivesse chorado sem parar, os cabelos desgrenhados, a blusa encharcada pela chuva. O rosto era o de alguém que tinha escutado uma verdade que desmontava o mundo.
— ? — a voz de Joanne vacilou, o olhar se estreitando de preocupação. — O que aconteceu?
não respondeu de imediato. Ficou apenas ali, olhando. Avaliando. E então, com uma voz fria, firme, que ela mesma não reconhecia como sua, disse:
— Por que você nunca me contou?
Joanne franziu o cenho, confusa.
— Contar o quê?
— Que eu fui adotada.
O silêncio caiu como um raio. Joanne soltou a colher na bancada com um leve estrondo, mas não recuou. Não demonstrou surpresa. Apenas ergueu o queixo, os olhos fixos nos dela.
— Não sei que espécie de brincadeira é essa, , mas eu trabalho nessa casa há tempo o suficiente para me lembrar de ver sua mãe grávida. E do seu nascimento. Eu estava lá. Eu segurei você nos braços antes mesmo do seu pai.
A voz dela saiu precisa, firme demais. Mas havia algo... algo no modo como evitava piscar. Como se soubesse que, ao desviar os olhos, a mentira pudesse escapar. deu um passo à frente, os olhos faiscando.
— encontrou documentos na escola… e agora tudo faz sentido. Os olhares, os sussurros, as coisas que ninguém nunca dizia em voz alta. Emma sempre exigiu mais de mim do que de qualquer outra mãe que eu conheço, como se quisesse me moldar em algo que eu nunca fui. Como se precisasse justificar minha presença naquela casa. Agora eu sei por quê.
Joanne balançou a cabeça devagar, como se tentasse organizar os pensamentos diante de algo completamente absurdo.
— Nada do que você está dizendo faz sentido, — disse ela, com a voz um pouco mais baixa, mas carregada de uma preocupação real. — Que documentos? Você... você está sóbria?
Ela deu um passo na direção da garota, instintivamente estendendo a mão para tocá-la, para verificar sua temperatura, seu pulso, qualquer coisa que pudesse explicar aquele estado. Mas se esquivou com um movimento seco, dando um passo para trás. O olhar dela estava alerta agora, como um animal acuado. E antes que pudesse responder, o celular vibrou no bolso de trás, tocando alto na cozinha silenciosa. Ela o puxou rapidamente, mas nem teve tempo de ver o nome na tela. Ao mesmo tempo, batidas fortes e insistentes na porta de frente fizeram as duas pularem; estavam tão absortas naquele momento, que o barulho do lado de fora não foi ouvido.
Joanne secou as mãos no avental e foi até a porta, hesitante. Ao girar a maçaneta e abrir a porta, recuou um passo, como se tivesse levado um tapa invisível.
Do lado de fora, dois policiais uniformizados esperavam. Rostos duros e olhos indecifráveis. Entre eles, o delegado Shawn, de sobretudo escuro, que deu um passo à frente.
Ele ergueu o queixo lentamente. Os olhos eram frios como gelo. A voz, quando veio, era como um veredicto que não admitia contestação:
— , você está presa pelo assassinato de .
O silêncio que se seguiu foi absoluto. O celular de escorregou de seus dedos e caiu no chão, vibrando inutilmente. Ela abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Apenas um som preso na garganta, como se o ar tivesse sido arrancado dos pulmões.
E pela segunda vez naquela noite, o mundo de se despedaçou.
O caminho que se seguiu até a delegacia foi silencioso. ainda estava processando que aquilo estava lhe acontecendo de novo: as algemas, os policiais falando ao mesmo tempo, Joanne gritando desesperada. Estava sendo levada novamente por um crime que não tinha cometido. Os fatos não eram aqueles, morreu de parada cardíaca. Por que estava sendo presa pelo assassinato dele?
Shawn lhe lançou o mesmo olhar daquele dia, da morte de Lily-Anne, como se estivesse decepcionado com ela. não tinha forças para se contorcer ou para refutar suas acusações, só queria sumir. Então se concentrou na única coisa boa que tinha lhe acontecido em meses: o beijo.
A memória veio forte e vívida. Estavam na sala, a tensão entre os dois era palpável. Os olhos de se cravaram nos dela, intensos, como se uma batalha se desenrolasse dentro dele. Então, sem aviso, ele se aproximou e seus lábios encontraram os dela.
O mundo ao redor desapareceu. Por um instante, o peso em seus ombros se dissipou. A dor, o luto, a culpa, tudo ficou em segundo plano. Tudo o que existia era o calor do beijo, a forma como os dedos de tocaram seu rosto, hesitantes e ao mesmo tempo desesperados. Era como se ele estivesse segurando-a para não afundar, ou talvez estivesse se permitindo afundar junto com ela.
Mas então, tão abruptamente quanto começou, terminou. recuou de repente, os olhos arregalados como se tivesse cometido um erro terrível. O silêncio entre eles foi ensurdecedor. sentiu o frio voltar instantaneamente, a realidade caindo sobre ela como uma tempestade. Ele desviou o olhar, engolindo em seco.
— , eu preciso te contar algo.
E foi então que percebeu. Ele se lembrou. Lembrou-se de que a odiava.
O nó em sua garganta apertou. Dentro do carro da polícia, com o som das sirenes ecoando, fechou os olhos, desejando voltar para aquele momento, antes de tudo desabar novamente, antes de dizer que ela era adotada, antes que ele se arrependesse de beijá-la. Mesmo com toda a dor, mesmo com a confusão, aquele beijo tinha sido real. E era tudo o que ela tinha agora.
A sala de interrogatório era fria e estéril. As paredes cinzentas, iluminadas por uma luz branca e impiedosa, pareciam se fechar ao seu redor. O único som era o do relógio na parede, cada tique-taque ecoando na sala vazia, aumentando a sensação de espera interminável. estava sozinha, sentada em uma cadeira dura de metal, os braços cruzados sobre a mesa gelada. Seus pulsos ainda doíam das algemas. O nervosismo latejava em sua garganta, mas ela se recusava a ceder ao medo. A espera era sufocante. O silêncio da sala parecia zombar dela, refletindo o caos em sua mente. Nada fazia sentido. Por que estavam fazendo isso com ela? Quem queria destruí-la dessa forma? Ela respirou fundo, tentando afastar o pânico. Mas a verdade era uma só: ninguém viria salvá-la.
O som da maçaneta girando quebrou o silêncio sepulcral da sala. ergueu os olhos lentamente, sua respiração entrecortada pelo peso da ansiedade que a consumia. A porta se abriu e, por um momento, tudo pareceu acontecer em câmera lenta. O delegado Shawn entrou, sua expressão inabalável, como se já tivesse um veredicto pronto.
Ele puxou uma cadeira e sentou-se à frente dela, jogando um arquivo sobre a mesa. O som do papel contra o metal ecoou na sala vazia, fazendo estremecer. Ela não tentou pegar os documentos, não tentou se defender. O cansaço era esmagador, e tudo dentro dela gritava que nada do que dissesse mudaria o que quer que tivessem decidido.
— Você sabe por que está aqui, ? — Shawn perguntou, sua voz arrastada, carregada de uma exaustão que parecia se igualar à dela.
Ela piscou, seus olhos fixos no nome rabiscado na capa do arquivo. " ".
— Não — sua voz saiu baixa, quase um sussurro. — Eu não sei.
O delegado suspirou, inclinando-se para frente. Suas mãos entrelaçaram-se sobre a mesa, como se tentasse conter algo dentro de si.
— A autópsia revelou algo interessante — ele começou, observando-a atentamente. — não morreu de parada cardíaca. Ele foi sufocado com um travesseiro.
O coração de disparou. Ela sentiu um frio gelado subir por sua espinha.
— O quê? — sua voz falhou.
— E temos motivos para acreditar que foi você quem o matou — Shawn continuou. — Suas digitais estavam no travesseiro usado para sufocá-lo.
O mundo girou ao seu redor. agarrou os braços da cadeira, tentando se firmar, tentando respirar. Era impossível. Era um pesadelo.
— Isso é loucura! — ela arfou. — Eu jamais faria isso! Eu sequer estava com ele na hora em que morreu!
Shawn abriu o arquivo e deslizou uma foto em sua direção. baixou os olhos e sentiu seu estômago revirar. Era uma imagem do travesseiro, com marcas visíveis.
— Então me explique isto — Shawn desafiou, sua voz baixa, perigosa.
sentiu o ar lhe faltar. Alguém estava armando para ela. Mas quem?
— Você sabe que eu não fiz isso, eu não estava lá, eu tenho um álibi! — ela disse, sua voz carregada de desespero.
Por um momento, a expressão do delegado vacilou. Mas ele rapidamente retomou a postura e suspirou pesadamente.
— Eu já livrei a sua barra uma vez, . — Ele apoiou os cotovelos sobre a mesa, a tensão em seu rosto evidente. — Na verdade, mais de uma vez. Mas dessa vez, você não vai escapar de um segundo assassinato.
o encarou, seus olhos brilhando de incredulidade.
— Você sabe que eu não fiz nenhuma dessas coisas — afirmou, sua voz trêmula, mas firme.
Shawn riu, mas não havia humor em sua expressão.
— Se essa for sua defesa no tribunal, prepare-se para passar uns bons anos na cadeia.
Antes que pudesse responder, um oficial apareceu na porta e sussurrou algo no ouvido do delegado. Shawn revirou os olhos e se levantou, saindo sem dizer mais nada. Assim que a porta se fechou, sentiu as lágrimas escorrerem pelo seu rosto. Por que estavam fazendo isso com ela de novo? Estava cansada de ser um alvo tão fácil. Isso precisava acabar. Agora que sabia que tinha sido assassinado, a dor do luto se tornou ainda pior. Por que tinham feito isso com ele? Quem teria motivos para matá-lo? Dez minutos se passaram, e a porta se abriu novamente. O delegado Shawn entrou, sua expressão contrariada.
— Cometemos um engano, senhorita . Você está liberada das acusações — disse a contragosto.
franziu a testa, confusa. O que tinha mudado? As coisas estavam acontecendo tão rápido que seu corpo não reagia mais, e a garota teve que ser arrastada pelo braço por um dos oficiais. Ao sair da sala, avistou Thomas do lado de fora, sua expressão indecifrável. Ao seu lado, um homem que ela nunca tinha visto antes — provavelmente um advogado.
— , meu motorista está do lado de fora, pronto para levá-la para casa — Thomas disse com naturalidade. — Não sei de onde tiraram esses absurdos, mas está tudo resolvido, não se preocupe. Já liguei para os seus pais e eles estão a caminho de casa.
Das poucas palavras que ele disse, apenas uma coisa a deixou verdadeiramente preocupada: seus pais estavam voltando. Emma provavelmente teria um ataque cardíaco, e Joe a olharia com pesar. Mas, acima de tudo, não queria enfrentar a conversa inevitável sobre o fato de que acabara de descobrir que era adotada.
Sem outra opção, entrou no carro e seguiu para casa. O trajeto foi um borrão de pensamentos angustiantes.
O carro parou em frente à casa que antes parecia um refúgio, mas que agora não passava de um palco de mentiras e segredos. permaneceu imóvel por um instante, encarando a porta de entrada, como se ela representasse a passagem para um mundo que não a aceitava mais.
Ao abrir a porta, um cheiro familiar, de temperos e comida caseira, invadiu suas narinas. O aroma deveria ser reconfortante, mas naquele momento soava como uma ironia cruel, um lembrete do que tudo parecia ter sido construído sobre falsidades.
Antes que pudesse dar um passo, Joanne apareceu apressada, os olhos brilhando com uma mistura de alívio e ansiedade.
— ! — exclamou, envolvendo-a num abraço apertado, quase desesperado. — Eu sabia que tinham cometido um engano! Seus pais já estão chegando, mas eu fiquei tão feliz de ver que você voltou bem!
correspondeu ao abraço, sentindo um nó se formar em sua garganta, mas logo se afastou delicadamente.
— Obrigada, Joanne — murmurou, a voz baixa, carregada de cansaço. — Preciso ir para o meu quarto agora. Me dê licença, por favor.
Joanne assentiu, ainda preocupada, mas respeitou o pedido.
subiu as escadas com passos lentos, cada pensamento mais pesado que o outro. O corpo cansado carregava a mistura sufocante de medo, raiva e tristeza. As sombras das lâmpadas do corredor pareciam alongar-se, moldando a atmosfera tensa que se espalhava pelo ar.
Chegando ao quarto, fechou a porta atrás de si com um clique seco, que soou como um corte abrupto no silêncio opressor que reinava ali dentro. Encostou-se na porta por um momento, deixando que os olhos pesassem, tentando driblar o turbilhão de pensamentos que não paravam de rodopiar.
Sem muita força, ela deslizou até o chão, sentando-se com as costas na porta, sentindo o frio da madeira contra a pele quente. As lágrimas finalmente vieram, silenciosas, deslizando pelas bochechas sem pedir permissão.
A cabeça caiu entre as mãos, e o mundo lá fora parecia cada vez mais distante, como se ela estivesse presa num espaço entre a dor da verdade e a esperança de um dia entender tudo aquilo.
O calor da manhã filtrava-se pelas cortinas, banhando o quarto de em uma luz dourada e suave. Por um breve momento, enquanto seus olhos ainda estavam fechados, ela se permitiu acreditar que tudo não passara de um pesadelo. Mas então, o peso em seu peito, a exaustão em seus músculos e a dor de cabeça a puxaram de volta à realidade.
Ela se sentou na cama, os cabelos desgrenhados caindo sobre os ombros. Queria desesperadamente voltar a dormir, se esconder do mundo e da confusão que sua vida se tinha se tornado. Mas o baque de passos apressados ecoando pelo corredor fez seu coração disparar.
A porta do quarto se abriu com um movimento brusco e Emma entrou, seus olhos faiscando de raiva e preocupação.
Ela se sentou na beirada da cama, o peso do mundo sobre seus ombros, o corpo pesado e os pensamentos ainda turvos. Emma e Joe estavam ali, aguardando uma explicação sobre o que aconteceu na delegacia, mas não podia mais se esconder. O silêncio entre eles era palpável, um vazio ensurdecedor que só aumentava à medida que o tempo passava.
Emma parecia a ponto de explodir. Ela estava tão alterada que os olhos estavam quase hipnotizados pela raiva. Não era como ela. percebeu que algo estava errado, muito além daquilo que a mãe estava tentando expressar.
— Isso é um ABSURDO! — Emma gritou, as palavras saindo afiadas, carregadas de uma energia que nunca vira nela. — Como puderam te acusar de algo tão horrendo? , isso é difamação! Você e estavam namorando! Quem quer que tenha feito isso com você vai pagar muito caro! Vou processar esses incompetentes!
olhou para sua mãe, a dor em seu peito queimando ainda mais forte. A última coisa que ela queria era ser defendida assim. Como se a fúria de Emma pudesse apagar todas as outras mentiras, todas as outras verdades não ditas. Ela sentia as palavras pesadas em sua garganta, mas era agora ou nunca.
— Se você se importasse tanto com a verdade… — sua voz saiu trêmula, mas as palavras estavam firmes, afiadas como uma lâmina. — Me contaria que eu sou adotada!
O ar ficou gelado, denso, como se o tempo tivesse parado. Emma congelou, seus olhos piscando rapidamente, tentando processar as palavras da filha. Joe estava atrás dela, a expressão de quem soubera que o segredo estava prestes a ser revelado. Ele parecia uma pedra, paralisado, as mãos tremendo ligeiramente.
A respiração de Emma ficou ofegante. Ela parecia prestes a protestar, negar, gritar qualquer coisa para abafar aquilo. Mas as palavras falharam. A boca aberta, as palavras presas, a hesitação em seu olhar… tudo isso não passou despercebido por . Ela sabia.
Joe foi o primeiro a se mexer, um gesto brusco, como se quisesse sair dali, mas ficou onde estava, os olhos desviando para o chão.
— Que besteira é essa, ? Claro que você não é adotada! — Emma disse, mas sua voz soou vazia, como se estivesse tentando convencer a si mesma mais do que a filha.
sentiu a raiva explodir dentro dela, mas se controlou. Tudo ali estava errado, e ela sabia que eles estavam mentindo. O olhar fugidio de Joe, o nervosismo de Emma, a falta de uma explicação concreta…
Ela se levantou da cama, agora erguendo o olhar com uma frieza imensa.
— Eu quero fazer um teste de DNA. — Ela afirmou, sem titubear. A exigência nas palavras deixou o ar ainda mais pesado, como se o simples ato de pronunciar a frase tivesse mudado a dinâmica da sala.
Emma bufou, a expressão de desgosto evidente.
— Isso é ridículo. Mas se isso vai fazer você parar com essas paranoias, faremos o teste durante a semana. Agora, precisamos nos preocupar com você, entender o que aconteceu nesse interrogatório.
queria gritar, queria destruir aquele momento, mas as palavras não saíam. A suspeita, a certeza de que havia algo muito mais sombrio sendo escondido, a dor de não poder confiar em ninguém… tudo isso pesava em seu coração. Ela suspirou profundamente, deixando o assunto de lado, por enquanto. O mistério da adoção podia esperar. Mas o que aconteceu na delegacia não podia. Ela contou tudo sobre o interrogatório, mas a sensação de estar sendo observada, como se fosse uma estranha, nunca a abandonou.
FLASHBACK
20 de novembro de 1998
As mãos de Emma tremiam enquanto as lágrimas já desciam pelo seu rosto. Seus soluços ecoavam no banheiro gigante da mansão dos , enquanto ela tentava controlar a respiração. Ao mesmo tempo, escutou o barulho da porta se abrindo. Por um momento, teve um sobressalto, mas viu que era Joanne quem entrava. A mulher tinha o rosto sério, tentando esconder o alarme.
— Emma… — a voz dela era um sussurro gentil, mas firme. Emma não olhou para cima. O rímel escorria pelo rosto, e ela apertava os joelhos contra o peito, sentada sobre a tampa do vaso sanitário. Joanne ajoelhou-se ao lado dela, segurando suas mãos geladas. — Vai ficar tudo bem. — apertou seus dedos. — Você não está sozinha. Emma ergueu os olhos marejados para a governanta e balançou a cabeça lentamente. — Ninguém nunca pode saber a verdade. — Sua voz saiu frágil, um sussurro despedaçado. E então, tudo escureceu.
4 de julho de 2003
A casa estava um caos. O som distante dos fogos de artifício não conseguia abafar o tom cortante da voz de Emma.
— Coloque os sapatos, agora! — ela gritou, os punhos cerrados ao lado do corpo. A garotinha, não mais do que cinco anos, se encolheu no canto da sala, os olhos marejados com lágrimas. Pequenos soluços sacudiam seu corpinho frágil.
— Eu… eu não consigo… — balbuciou entre lágrimas, os pezinhos descalços sobre o chão frio.
Emma passou as mãos pelos cabelos desgrenhados, o desespero crescendo dentro dela. O relógio marcava sete e meia. Elas estavam atrasadas. De novo.
— Isso é um erro. — A frase escapou antes que ela pudesse se segurar. — Você é um erro.
O silêncio caiu pesado entre as duas. A garotinha soluçou mais alto, cobrindo o rosto com as mãos. Emma sentiu o peito apertar. Mas era tarde demais. As palavras já tinham sido ditas. O estrondo de um novo rojão no céu pareceu marcar aquele momento como uma cicatriz permanente.
15 de agosto de 2013
O quarto de Damien tinha um cheiro peculiar de incenso barato e livros velhos. sentou-se no colchão jogado no chão, observando Damien remexer a mochila.
— Tenho algo legal para te mostrar. — Ele virou-se com um sorriso travesso, segurando um pequeno saquinho plástico. Ela arqueou uma sobrancelha.
— Isso é…?
— Maconha. — Damien piscou. — Relaxa, você vai gostar. Ele acendeu o baseado com um isqueiro surrado e deu a primeira tragada, puxando o ar profundamente antes de soltar a fumaça em pequenos anéis. Então, passou para . Ela segurou hesitante, os dedos tremendo um pouco. Levou o cigarro aos lábios e tragou. O calor seco invadiu sua garganta, e a tosse veio instantaneamente, arrancando uma risada de Damien. — Fácil, garota. Devagar.
tentou novamente, dessa vez mais devagar. A fumaça desceu com mais facilidade. Por um momento, nada aconteceu. Mas então, veio a onda. Primeiro, um formigamento nos dedos. Depois, uma leveza absurda na cabeça, como se estivesse flutuando. O tempo parecia desacelerar, as cores pareciam mais vibrantes, e uma risada involuntária escapou de seus lábios.
— Meu Deus… — Ela olhou para Damien, os olhos arregalados e brilhantes. — Isso é estranho.
— Estranho bom? — Ele riu, deitando-se ao lado dela no colchão.
fechou os olhos e sentiu o mundo girar suavemente ao seu redor. Pela primeira vez em muito tempo, nada parecia importar. Apenas aquele momento, apenas aquela sensação de leveza absoluta. E pela primeira vez em muito tempo, ela se sentiu livre.
15 de fevereiro de 2014
Emma vasculhava o quarto de quando encontrou um pequeno pacote escondido entre as roupas. O coração dela disparou ao reconhecer o que era. LSD. Seu estômago revirou. Sentiu o peito apertar de raiva e medo ao mesmo tempo. Marchou até a sala segurando o pacote na mão.
— O que é isso, ? — Sua voz era afiada como uma lâmina. , sentada no sofá, olhou para a mão da mãe e revirou os olhos.
— Você já sabe o que é, então por que está perguntando? — Ela cruzou os braços, desafiadora.
— Você enlouqueceu? — Emma gritou, sentindo a frustração crescer. — Isso não é brincadeira!
— Ah, porque você é um modelo perfeito de moralidade, né? — riu amargamente. Então, seus olhos brilharam de fúria. — Você acha que eu não me lembro de você chamando uma menina de cinco anos de erro?
Emma ficou pálida. O peso das palavras de a atingiu como um soco no estômago. Antes que pudesse responder, Joe entrou na sala, franzindo a testa.
— O que está acontecendo aqui? — Sua voz grave carregava irritação e cansaço. se virou para ele, os olhos faiscando de raiva.
— O que está acontecendo? — Ela riu, sarcástica. — O senhor finalmente resolveu aparecer? Sempre viajando, sempre ocupado, nunca aqui quando realmente importa!
— Não começa, . — Joe suspirou, passando a mão pelo rosto.
— Não começa? — Ela se levantou de um salto. — Como você tem coragem de dizer isso? Você some por semanas, meses, e acha que tem moral pra entrar aqui e fingir que se importa? — Emma tentou intervir, mas estava apenas começando. — E você, Emma! — Ela se virou para a mais velha, os olhos cheios de lágrimas e raiva. — Acha que tem o direito de me julgar? Você me trata como se eu fosse um fardo, me controla o tempo todo, me sufoca! Eu não sou você! Nunca serei!
Joe apontou para o pacote ainda na mão de Emma, tentando retomar o controle da situação.
— , isso aqui é sério. Você precisa parar com isso agora.
— Sério? Sério, pai? — soltou uma risada amarga. — Você não faz ideia do que é sério, porque nunca esteve aqui pra saber! Você acha que minha vida está uma bagunça? Você e a Emma me fizeram assim!
O silêncio pesou como chumbo. Emma respirava com dificuldade, Joe apertava a mandíbula e tremia da cabeça aos pés. O passado, as feridas, os segredos — tudo estava exposto agora, sangrando na sala de estar. E ninguém sabia como consertar.
15 de julho de 2016
Emma andava de um lado para o outro na sala, os saltos ecoando no chão de madeira polida, as mãos suadas tremendo contra as laterais do corpo. O relógio na parede marcava 03:47. Onde diabos eles estavam? Joe e deveriam ter chegado há horas. Mas, em vez disso, ela estava ali, sozinha, tentando não enlouquecer com as possibilidades que percorriam sua mente. Um assassinato? Um escândalo? Dessa vez, não havia saída fácil. Todos os erros e vergonhas que já havia causado para a família pareciam pequenos perto disso. Dessa tragédia. Mas no fundo… no fundo, Emma sabia. Sabia que sua filha não seria capaz de algo assim. Não . Não sua garotinha. Alguém deveria ter armado para ela. Tinha que ser isso. Mas o que importava agora? Independentemente da verdade, era a drogada da cidade. O caso já estava nos jornais, os sussurros nas ruas seriam implacáveis. Todos os olhos voltados para eles, esperando a próxima manchete.
Emma parou abruptamente diante da lareira, seu olhar fixo na moldura dourada sobre a prateleira. Uma foto antiga: ainda criança, sorrindo de braços abertos na praia, o sol refletindo nos cabelos escuros. Um sorriso que há anos não via. Ela não permitiria mais isso. No momento em que Lily Anne foi enterrada, Emma já tinha tomado sua decisão. seria mandada para uma clínica de reabilitação na Suíça. Pelo tempo que fosse necessário. Pelo resto da vida, se fosse preciso. Não queria sua filha nessa cidade nunca mais.
Continua...
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