Olympus

Última atualização: 30/04/2022

Prólogo

— Hermes! — Hera gritou, extasiada, após ler o papel em suas mãos. Não acreditava naquelas palavras. — Hermes! Mas que porra é essa aqui?
Hermes respirou fundo e voltou a entrar no escritório de Hera, apoiando-se sobre o batente da porta e cruzando os braços. O sorriso gentil que lhe era peculiar poderia transmitir a imagem de alguém tranquilo, porém estava preocupado com a quantidade excessiva de cartas que havia de entregar ainda naquele dia. A retenção de Hera não ajudaria em nada, mas, a julgar pelo semblante irritado, Hermes não se oporia à qualquer explicação por mais tempo que tomasse. A deusa apenas colocou o papel amarelado sobre sua mesa e se recostou na macia cadeira, encarando o mensageiro com os olhos tão arregalados, que Hermes jurou presenciar um breve colapso interno.
— Você sabe o que tem nesse documento? — Hera perguntou enquanto sorria, incrédula, com uma voz doce. As mudanças temperamentais dela já não eram estranhas para ele e, muito menos, para o resto do Olimpo.
— Não sei — Hermes respondeu com uma careta inocente. Realmente não sabia.
A deusa bateu as duas mãos sobre o vidro da mesa, consumida por uma ira repentina. Seu longo e sedoso cabelo dourado imediatamente começou a flutuar mais elevado do que lhe era normal, acima do ombro, extinguindo a pouca serenidade que ainda restava, e as bochechas coraram de maneira violenta. A postura rígida e as roupas elegantes e sérias dela, como sempre, somente contribuíram para que Hermes concluísse que, qualquer que fosse o conteúdo da carta, não era uma notícia nada boa.
— Aqui diz que uma nova deusa nasceu — Hera falou em um fio de voz, como se estivesse prestes a surtar.
— Isso não é uma boa notícia? — o mensageiro perguntou, contente.
— Uma nova deusa nasceu... de pais mortais — Hera completou enquanto rangia os dentes.
Hermes não conseguiu conter a gargalhada, que aumentava gradativamente. Teve que abrir suas grandes e plumosas asas para o corpo não desequilibrar, pois os olhos marejados já lhe atrapalhavam a visão. O que Hera acabara de dizer soava como uma verdadeira piada em sua cabeça, mas, aos poucos, o riso cessou-se. Hermes notou, pela expressão sóbria de Hera, que não se tratava de uma brincadeira, porém de um acontecimento real.
— Oh — ele colocou a mão na nuca e reteve as asas. — Você está falando sério.
— Claro que eu estou falando sério! — ela esbravejou e voltou a se sentar. — Você acha que eu brincaria sobre algo grave assim?
— Mas isso não é possível, Hera.
— Não me diga — a deusa retrucou em um tom sarcástico, que não abalou o bom humor de Hermes. — Chame Zeus imediatamente. Precisamos fazer algo a respeito.
— Tudo bem — Hermes assentiu com a cabeça e logo em seguida pôs-se a voar para fora da mansão de Hera e de Zeus com uma velocidade inacreditável, em direção ao maior prédio do Olimpo, a empresa do deus do raio.

Capítulo 1

— Bom dia, gata — Hermes apoiou-se no balcão de recepção e abriu seu sorriso mais galanteador.
A mulher sentada apenas lhe lançou um olhar entediado e frívolo, apesar de não ser o suficiente para afetar o ânimo do rapaz. Se havia dois lugares que Hermes adorava visitar eram as empresas de Zeus e de Hades. Ambas eram muito sofisticadas, com decorações modernas, e possuíam atendentes ninfas muito bonitas, mas muito bonitas mesmo.
— Preciso ver o Zeus — o mensageiro sorriu, gentil. — É um caso urgente.
— Você marcou horário? — a recepcionista perguntou, desinteressada.
— Não, você sabe que não, mas estou às ordens de Hera.
— Hera? — A mulher, agora, pareceu curiosa. — Ela está aqui?
— Não, mas pediu para que eu fosse falar com Zeus imediatamente. — Ele fez uma careta sugestiva e começou a dar pequenos passos para o lado, visando aproximar-se do elevador.
— Hermes, você sabe que precisa marcar horário — ela bufou, já pegando o telefone e discando o número da secretária de Zeus. Muito provavelmente eles seriam pegos no flagra, se Hermes subisse sem ser anunciado.
— Você sabe o meu nome. — Os olhos do mensageiro brilharam e, em um pulo, ele jogou-se em cima do balcão, levantando um dos pés e ficando próximo à recepcionista, que se limitou a revirar os olhos e empurrar a cabeça dele para longe sem delicadeza.
— Você vem aqui todo dia, pelo amor dos deuses, é inevitável que eu saiba o seu nome e não é algo facultativo, se quer saber.
— Não importa — Hermes sorriu, satisfeito. — Você sabe o meu nome.
Ele aproveitou que ela, agora, conversava no telefone e pulou as catracas, indo direto para o elevador e apertando o botão que o levaria para o último andar. Como havia, literalmente, mais de uma centena de andares, arrependeu-se no trigésimo segundo por não ter ido voando, chegaria muito mais rápido. Duas de suas características naturais eram a agilidade e a eficiência, coisas que o cubículo metálico não conhecia, ao que tudo indicava. Quando finalmente o som agudo anunciou sua chegada e as portas se abriram, Hermes notou que a secretária de Zeus arrumava seu cabelo e possuía os botões da blusa presos na ordem errada, como quem os ajeitara na pressa, e o batom borrado. Nada daquilo, no entanto, era novidade. Já pegara ela e o próprio deus do raio inumeráveis vezes no meio do sexo, algo que fazia jus à fama de traição de Zeus e deixava Hera furiosa, diga-se de passagem.
— Bom dia — ele cumprimentou-a, simpático, indo em direção à sala de Zeus sem cerimônia alguma.
— Você não pode entrar aí sem antes ser anunciado — a secretária falou, incrédula, e franziu o cenho, pronta para se levantar e impedir que Hermes adentrasse o escritório.
— Sem problemas — ele sorriu, divertido, e abriu a porta sem pudor. — Bom dia, Zeus, estou anunciando a minha própria entrada.
Hermes limitou-se a enfiar metade de seu corpo no cômodo, chamando a atenção de Zeus e, ao fundo, a secretária bateu a mão na testa, como quem reprovava o gesto, mas já não tinha o que fazer.
— Em que posso ajudá-lo, Hermes? — o deus do raio perguntou, cordial, e o mensageiro inclinou levemente a cabeça. Sabia qual seria a reação de Zeus.
— Hera está requisitando sua presença de imediato.
— Não posso agora, estou ocupado trabalhando.
— É um assunto muito importante, creio — Hermes fez uma careta engraçada e Zeus apenas desejou que ele saísse logo dali. — Aparentemente, uma nova deusa nasceu.
— E por que raios isso me tange?
— Porque ela nasceu de pais mortais.
— Hermes — Zeus apoiou as duas mãos juntas sobre sua mesa de vidro fosco e ergueu uma das sobrancelhas, falando com serenidade —, Hera lhe enviou aqui somente para me irritar? Ela está brava com alguma coisa?
— Acredito que não, mas ela parecia bem zangada com o documento que recebeu sobre isso.
Pela primeira vez desde que Hermes entrou, Zeus pareceu levar o assunto a sério, engolindo em seco e franzindo o cenho. Aquilo era simplesmente impossível. Nunca que uma deusa poderia nascer de mortais. Ele apenas interpretou aquilo como um mal-entendido. Ponderou que Hera, na verdade, estivesse tentando irritá-lo, o que lhe parecia algo rotineiro. Não poderia dizer que seu casamento fosse o mais agraciado do Olimpo, com certeza não. Zeus, então, analisou Hermes dos pés à cabeça. O sorriso gentil do rapaz já não lhe enganava, estava apressado.
— Avise Hera que discutiremos sobre isso assim que eu chegar em casa — o deus do raio voltou a fitar a papelada em cima da mesa. Hermes encarou o gesto como uma permissão para que pudesse se retirar.


— ESSE FILHO DA PUTA O QUÊ? — Hera esbravejou ao ouvir o que Hermes lhe contara.
Dessa vez, o mensageiro estava bem menos paciente. Tinha quase certeza que ficaria preso a manhã toda nesse jogo de idas e vindas entre Hera e Zeus, que eram um casal muito complicado quando havia conflito de interesses, ou seja, 90% do tempo. Ele precisava terminar de entregar as correspondências, porém não poderia negar os desejos dos grandes deuses, sobretudo de Zeus.
— Ainda está por vir o dia que meu próprio marido vai respeitar meus desejos e entender a gravidade dos problemas — Hera respirou fundo e colocou a mão sobre a testa junto de sua melhor expressão dramática de sofrimento. — Chame Deméter, então. Tenho certeza de que ela, sendo a remetente da carta, me dará ouvidos.
— Não precisa me chamar, já estou aqui. — Deméter, a deusa da agricultura e das estações, apareceu atrás de Hermes, que levou um susto e arregalou os olhos, segurando-se para não gritar. — Vim o mais rápido que pude.
Embora soubesse que não era exatamente bem-vindo no escritório de Hera no momento — ou quase sempre —, ele não pôde deixar de esperar à porta e ouvir, atento, a conversa. Estava curioso para saber onde a situação iria chegar. Nenhuma das deusas pareceu se incomodar com sua presença. Deméter apenas sentou-se em uma das poltronas do local e Hera apoiou seu quadril sobre a mesa, cruzando os braços.
— Querida irmã — Deméter passou a mão por seus longos e flutuantes cabelos verdes escuros, com a cor da folhagem de uma árvore saudável —, eu mesma não acreditei quando a vi, mas pude sentir em minha própria pele a verdade.
— O que você afirma é muito sério. Deusas não nascem de mortais.
— Eu sei, mas Gaia confirmou seu oráculo. — Deméter apoiou as mãos em seu colo e respirou fundo. — A deusa da primavera nasceu no reino da Terra de um homem e uma mulher comuns.
— Deusa da primavera? — Hera engoliu em seco e sua face ficou um pouco mais pálida. — Perséfone é a deusa da primavera, isso não faz sentido.
— Perséfone agora é a deusa da morte — Deméter fechou o semblante imediatamente e Hermes quase não conteve a risada.
Era muito claro, embora centenas de anos já tivessem se passado, que Deméter nunca aceitara que sua filha preferida tivesse escolhido se casar com Hades. Hermes sempre achou que a justificativa para essa paixão era que Deméter mantivera a própria filha Perséfone em cativeiro e o rei do Submundo lhe oferecia toda a liberdade e gentileza que alguém poderia dar, porém foi em Hades e Perséfone que Hermes viu o que poderia ser o amor genuíno, algo que, até então, somente Eros compreendia. Diferentemente do que todos achavam, Hades era um perfeito cavalheiro com Perséfone e o mensageiro prezava muito pelo casal, sobretudo pela rainha do Submundo, que o tratava com muito carinho. Bom, tratava a quase todos com muito carinho.
— Devemos fazer algo em relação a isso — Hera decidiu e Deméter concordou.
— Acho que deveríamos trazê-la para o Olimpo agora mesmo, querida irmã.
— Ou... — Hermes passou a mão sobre seu cabelo vermelho cacheado, inclinou a cabeça sugestivo e ambas o olharam com o cenho franzido. — Ou vocês poderiam deixá-la na Terra até que atingisse o crescimento suficiente.
— Você diz a idade que ela vai aparentar para sempre? — Hera perguntou, confusa.
— Sim — o mensageiro sorriu, gentil. Hermes não compreendia o tom urgente da rainha do Olimpo, afinal, a menina era imortal, qual era a pressa em trazê-la?
— E por que deveríamos fazer isso? — Deméter perguntou, irritada.
— Você falou com a Mãe Terra, digo, Gaia, não falou? — ele questionou, insinuante. — A nova deusa da primavera com certeza se tornará uma bela mulher, assim como Perséfone é.
— Gaia realmente disse que só não será mais bonita que Afrodite — Deméter confirmou e Hera contorceu o nariz em puro ciúme.
Só lhe faltava isso, uma bela deusa para acabar caindo na lábia de Zeus e adicionando mais um nome à lista de traições com Hera.
— E gostaríamos de protegê-la de Zeus, não acham? — Hermes continuou a falar.
Hera gostou da ideia do rapaz. Teria, pelo menos, alguns bons anos para persuadir a menina a não gostar de Zeus. Talvez, até pudesse pedir para Eros que acertasse uma flecha com ponta de chumbo em seu coração, assim ela repudiaria o seu marido e aquilo seria um problema a menos. Ou, talvez, a convencesse de se tornar uma deusa da castidade, junto a Héstia, Atenas e Ártemis. Os pensamentos, invadindo sua cabeça em uma avalanche, somente contribuíam para seu sorriso aumentar.
Deméter apreciava igualmente a ideia, sobretudo pela saudade que sentia de proteger Perséfone quando ela ainda era sua pequena filha. Ter uma segunda chance de criar alguém capaz de moldar a própria primavera soava como um presente. Dessa vez, não deixaria o mesmo erro acontecer.
— Certo — as deusas responderam, animadas, em uníssono, e Hermes logo perdeu o sorriso. A julgar pelas expressões possessivas nos rostos das duas, já não sabia mais se tinha feito uma proposta que fosse boa para a nova deusa.
— Talvez devêssemos colocá-la sob proteção. — Hermes passou a mão na nuca, tentando se convencer de que aquilo, de algum modo, livraria a deusa da primavera de qualquer plano maligno que Hera, em particular, pudesse colocar em prática.
— Sim! — Deméter afirmou, contente. No fundo, ela gostaria que a menina tomasse o voto da castidade e vivesse com ela no reino dos mortais, algo que planejara para Perséfone e nunca havia sido colocado em prática. — Deveríamos transformar uma ninfa em uma humana, assim ela pode acompanhar a deusa o tempo todo.
— Claro — Hera concordou, hesitante. Estava claro que não era a favor dessa proteção, uma vez que não poderia usar seus poderes sobre a menina como quisesse sem que a ninfa percebesse, mas também sabia que Deméter não mudaria de opinião a respeito disso. — Qual é o nome dela, inclusive? Dessa nova deusa...
— Deméter informou, sorridente, e Hera abriu uma careta de desgosto.
— Que nome horrível. O que aconteceu com as boas designações gregas e romanas?
— Eu achei lindo — Hermes falou, sincero, com um sorriso gracioso. — E sei exatamente qual ninfa poderíamos usar nesse plano.
— Medea — Hera sorriu, satisfeita, acompanhada pelo mensageiro.


Medea, com seu cabelo longo em um tom púrpuro azulado, que chamava muita atenção, revirou os olhos e tirou seus óculos escuros. A jaqueta de couro preta e as botas de saltos finíssimos somente corroboravam para a imagem ranzinza da mulher. Medea estava irritada com o homem em sua frente na fila da cafeteria. A cada dois segundos, ele olhava para trás, na intenção de admirar , que encarava a vitrine de bolos com os olhos estreitos, como se estivesse tomando a decisão mais difícil de sua vida. Quando ele se virou uma última vez, a ninfa pigarreou e abriu um falso sorriso simpático. A verdade é que já deveria estar acostumada, talvez devesse somente se apoiar em uma das pernas, cruzar os braços e respirar fundo, entretanto, qualquer um que conhecesse sua natureza felina sabia que a ninfa não fazia questão de administrar seu autocontrole.
— Ela é linda, não é? — Medea sussurrou e o homem balançou a cabeça, animado, em concordância. — Pois é, mas você não e esse seu espionar pessoas alheias só me faz pensar que você é completamente pervertido. — Agora, seu tom de voz era cínico e o homem pôde jurar que as írises dela estavam douradas. — ENTÃO PARE DE ENCARÁ-LA, SEU OTÁRIO!
— Medea... — , com um semblante angelical, chamou sua atenção. Embora sua intenção fosse a repreender pela atitude grosseira, possuía uma áurea tão naturalmente agradável, que, nem se quisesse, alguém conseguiria ficar bravo ao seu redor. Era quase como um poder, um dom inerente. Medea, no entanto, sabia que o termo “quase” era inadequado, pois a deusa da primavera estava fadada a ter essa influência natural sobre os outros. — Desculpe pela minha amiga — pediu, gentilmente, para o homem assustado. — Eu tenho certeza de que ela não quis lhe insultar.
— Eu quis, sim — Medea ergueu uma das sobrancelhas e ele apenas se virou para a frente, com os olhos arregalados.
— Eu sei que você gosta de uma boa discussão, mas hoje você parece um pouco mais inclinada a pular em alguém do que o normal — sorriu, discreta, o que a provocou com sucesso.
— O que você está inferindo? — Medea perguntou, fingindo não notar o tom sutil de repreensão, e observou a amiga pegar o cardápio sobre a bancada.
— Aqui está escrito “é proibido...”, está vendo? — apontou para as palavras impressas no papel. — O que significa “Medea adora”.
Embora carregasse uma aparência realmente encantadora, sobretudo por sua beleza divina e seu jeito delicado e humilde, que lhe davam um brilho saudável, crescer ao lado da ninfa de personalidade forte a agraciou com habilidades indispensáveis. Um senso de humor aguçado, uma intuição engenhosa, uma competência ímpar para respostas afiadas, um raciocínio rápido, um gosto pela aventura. A favorita de Medea, que, na verdade, não se categorizava como uma competência, e sim como algo que a ninfa adorava ver executar com tanta graciosidade, era o diálogo dissimulado vindo de alguém que parecia tão inocente.
A primeira vez que pisou no reino dos mortais, não poderia ter se sentido mais enfurecida. Xingou até o último fio do cabelo dourado de Hera, que se deliciou com a raiva, ouvindo-a de sua mansão no Olimpo enquanto lixava as unhas. Medea estava fadada a passar os próximos anos como babá, proibida de retornar até que completasse sua punição. Ao longo desses anos, no entanto, pegou-se encantada pelo jeito cativante de , que a surpreendia com sua elegância e bondade, ao mesmo tempo que se dispunha a curtir a vida sem acanhamento. Assim, ambas tiveram anos muito bons na Terra, algo que a ninfa nunca esperaria acontecer. Criaram um laço inabalável. Mal sabia os segredos que Medea guardava, embora estivesse prestes a descobrir.
— Então, um cappuccino e um latte? — perguntou e Medea chacoalhou a cabeça, percebendo que divagava.
— Sim.
voltou-se para o atendente e começou a fazer os pedidos. Medea aproveitou para dar uma olhada no arredor, procurando uma mesa, e deparou-se com um bebê, que tentava morder uma pequena girafa de borracha. Enquanto os pais conversavam animados em uma das mesas, ele intercalava as mordidas com batidas do brinquedo sobre a cadeirinha em que sentava, o que gerou em Medea uma careta de desgosto.
— Humanos são tão bizarros. Será que eles já nascem com cérebros?
— O que disse? — falou, confusa.
— Nada — a ninfa respondeu muito rápido.
— Está tudo bem? — perguntou, cautelosa, oferecendo uma xícara para a amiga, que aceitou e começou a andar em direção à uma das mesas vazias do local. — Você parece incomodada.
— Está tudo bem — ela disse ao se sentar. — Na verdade, está tudo mais que bem.
— Certo — sorriu e deu um gole em sua bebida quente.
O outono lá fora já começava a dar sua primeira aparição, com as folhas marrons das árvores caindo sobre o chão e o vento barulhento varrendo as ruas. Por algum motivo estranho, a secura das folhas incomodava . Tinha a impressão de que a pele de sua nuca estava coçando, mas ela decidiu ignorar a sensação estranha e focar na postura rígida de Medea. Embora soubesse que nada acolhia mais do que um cappuccino fresco logo cedo, o semblante concentrado da amiga lhe deixava preocupada.
— Sabe por que eu lhe trouxe aqui hoje? — a ninfa questionou.
— Porque é minha cafeteria preferida — arriscou.
— Não — Medea revirou os olhos.
— Porque você gosta dos bolinhos de blueberry daqui.
, que respostas idiotas. Claro que não é por isso.
— Sabe, eu acho que um bolinho animaria seu estado de espírito — fez uma careta insinuante e a ninfa só conseguiu pensar que ela faria amizade com Hermes, tinha certeza.
— Eu não preciso de bolinhos, eu preciso que você preste atenção no que eu vou contar. — Medea fechou o semblante e deu um longo gole em sua xícara, como em um sinal implícito para que ela prosseguisse. — Hoje é um dia especial. Você, provavelmente, ficará bem confusa com o que direi, mas é importante que você entenda.
— Você está me assustando.
— Shhh — a ninfa revirou os olhos. — , tem um motivo pelo qual eu fui colocada em sua vida.
— Colocada?
— Pare de me interromper, porra.
— Desculpe. — Um pequeno bico surgiu nos lábios de .
— Enfim, Hera me enviou para sua proteção.
— Quem é Hera?
— Hera, a deusa do casamento, rainha olimpiana — Medea falou como se fosse a maior obviedade do mundo, aceitando que não ficaria calada.
— Você diz Hera como na mitologia grega?
— Quem mais seria? — a ninfa declarou, impaciente. — Hera me enviou para o reino dos mortais e eu somente poderei voltar para o Olimpo, se lhe trouxer sob proteção quando você completar sua idade eterna, o que eu acho que já aconteceu, porque você tem esse mesmo exato rosto desprezível há anos.
— Você sabe que isso soou um absurdo, não sabe? — juntou as sobrancelhas e envolveu as mãos na xícara, para aquecê-las. Teve vontade de rir, mas se conteve, pois a amiga realmente parecia falar sério. — São histórias antigas, Medea, mitos. O que deu em você?
— Ok, vamos tentar do começo — a ninfa respirou fundo e ergueu uma das sobrancelhas, com um semblante sóbrio no rosto. — A muitos e muitos anos atrás, o mundo foi criado por alguém super importante, que também criou os titãs, certo? — Medea perguntou e apenas franziu a testa mais uma vez, focada em ouvir as palavras dela. — Os titãs e as titânides geraram os deuses em uma orgia familiar que pode soar estranho para meros mortais, pois não me parece algo comum por aqui. Enfim, deuses, seres poderosos e um pouco egocêntricos que reinam não somente a Terra, mas o mundo dos mortos e o mundo das criaturas imortais.
— Essa história é o que ensinam nas escolas — declarou, confusa.
— Sim! E também ensinam sobre esses deuses, Atenas, Apolo, Zeus, Hera, Afrodite e muitos outros.
— Certo.
— Então — Medea pigarreou e abriu um largo sorriso —, é aí que você entra, porque, pasme, você é uma deusa.
— Por acaso isso é uma cantada ruim? — fez uma careta e a ninfa bateu a mão na testa.
— Eu estou falando sério, puta que pariu, por que você não acredita em mim, ?
— Porque isso soa um pouco...
— Quer saber? Eu já passei anos cuidando de você, não preciso ter mais trabalho e ficar dando aulas sobre como funciona o Olimpo, você vai descobrir sozinha. — Medea levantou, impaciente, e começou a andar em direção à porta de saída. — Vem comigo.
— Para onde vamos? — estava curiosa, embora não estivesse entendendo nada do que acontecia.
— Ao Olimpo, obviamente.


— Você acha que é uma boa ideia, Hades? — Perséfone perguntou, manhosa, enquanto seu marido preparava o café.
A deusa, que acabara de receber uma carta de sua mãe, Deméter, não sabia exatamente como se sentir.
— Acho difícil de acreditar que isso seria algo bom, coração — ele respondeu sem tirar os olhos da máquina de expresso e Perséfone levantou de sua cadeira para ir até próximo dele, sentando-se sobre a bancada da cozinha ao seu lado.
— Você deveria falar com Zeus — Perséfone piscou os olhos, carinhosa.
Era uma verdade universal que Hades só precisou de uma única batida do coração para se apaixonar por sua esposa. Era daí, inclusive, de onde vinha a justificativa para o apelido carinhoso que ele tanto usava ao se referir a Perséfone, coração. Nada que ela lhe pedisse com apreço seria negado, jamais. Punia sem piedade e clemência aqueles que ousassem pronunciar alguma palavra de hostilidade em relação a ela. Ao contrário de seus irmãos, Hades era completamente devoto à sua esposa, cativando um amor eterno e puro que outras deusas invejavam.
— Não sei se isso vai ajudar. Você imagina como a notícia já deve ter chegado em Hera, ela provavelmente falou com Zeus e ele deve tê-la ignorado.
— Converse com seu irmão, querido. Tente convencê-lo de que ela, pelo menos, tenha um estágio na sua empresa. — Agora a deusa passava a mão sobre seus longos cabelos rosas. — Isso pode ajudá-la, assim como me ajudou, lembra?
— Tudo bem, mas não posso garantir nada, coração. Você sabe como Deméter pode ser possessiva.
— Sei que vai fazer o seu melhor. — A deusa levantou-se, satisfeita, e deu um beijo na bochecha de Hades. — Vou alimentar o Cérbero e depois visitarei Ártemis. Volto na hora do almoço. Vai querer sair, cozinhar ou estará em reunião?
— Podemos almoçar no Olimpo hoje.
— Sério? — Perséfone sorriu, animada, ao abrir a porta para o quintal e Hades riu de seu entusiasmo.
— Claro.
Então, a rainha do Submundo fechou o vidro atrás de si, à procura do cachorro com pelos negros sedosos e olhos azuis cintilantes. Hades virou a pequena xícara de expresso em um único gole, sentindo-se finalmente pronto para começar o dia, que, na verdade, já havia se iniciado com a carta de Deméter. Fechou os botões de seu terno, pegou uma das setes chaves de carros em cima de uma estante e colocou as mãos nos bolsos da calça, caminhando com calma até a garagem. Não havia pressa nenhuma para ver a cara de Zeus logo pela manhã. Lá, entrou em um dos luxuosos veículos esportivos e não demorou muito para que estivesse dirigindo em direção ao Olimpo, mais especificamente à empresa de seu irmão.
Assim que estacionou o carro em frente ao prédio moderno, enfeitado com vidros espelhados e detalhes em branco, não pôde deixar de revirar os olhos. Odiava como o reino dos imortais fazia sol e claridade o tempo todo, preferia muito mais o céu eternamente escuro do Submundo, aconchegava-lhe de modo envolvente e não queimava suas retinas. Desprezível.
Respirou fundo e abriu a porta do carro. Passou o caminho até a recepção pensando na conversa que teria com Zeus, que, com certeza, não estaria interessado no assunto, mas que ficaria surpreso em ver Hades vagando pelo Olimpo, algo que acontecia uma vez a cada dezenas de anos, ou a pedido de Perséfone ou em alguma festa mandatória de Zeus e Hera.
Hades apenas encarou a recepcionista com seu usual olhar letal e sua postura impecável, o suficiente para que ela suasse nervosa, liberando a catraca sem que ele precisasse pronunciar uma palavra sequer. Em questão de segundos, já subia pelo elevador e um barulho agudo anunciou sua chegada. A secretária de Zeus apenas arregalou os olhos e começou a sentir um frio violento, algo que Hades trazia consigo por onde quer que passasse. O deus do Submundo não se deu ao trabalho de cumprimentar a ninfa, sabia muito bem que ela era interesseira e cativava esperanças — em vão — de quebrar o casamento de Zeus e Hera. Aos seus olhos, a ninfa era motivo de repúdio, mais insignificante do que uma poeira no mundo dos mortais. Secretamente, contava os dias para que ela chegasse ao Tártaro, sua passagem para o campo de punição estava garantida, se dependesse de Hades para julgá-la. Passou reto pela secretária e entrou no escritório de Zeus, que abriu um sorriso imenso ao ver o irmão parado à porta.
— Hades! A que prazer devo a companhia? — o deus do raio falou, divertido, e Hades somente fechou ainda mais o semblante. Felicidade vinda dele às oito horas da manhã só era digna de sua querida Perséfone.
— Precisamos conversar. — Ele fechou a porta atrás de si.
— O que aconteceu? — Zeus perguntou, confuso.
— Precisamos conversar sobre essa tal de . — Hades manteve-se de pé, estático, com as mãos no bolso da calça social.
— De novo isso? — Zeus apoiou a cabeça nas mãos e os cotovelos na mesa de vidro fosco, completamente entediado. — Deméter e Hera já vieram aqui mais cedo me encher a paciência por causa dessa deusa aí. Achei que isso tivesse sido resolvido há anos, quando ela nasceu.
— A Perséfone acha que não é uma boa ideia que fique sobre os cuidados somente de Deméter e Hera.
— Engraçado, elas me disseram o contrário. — O deus do raio ergueu uma das sobrancelhas e Hades continuou inexpressivo.
— Você sabe muito bem que Deméter vai praticar a mesma coisa que fazia com Perséfone. Lembre-se do caos que isso gerou na Terra e no Olimpo também. As pessoas começaram a questionar a sua influência e eu acho que...
— Isso foi diferente, Hades, Perséfone estava fadada a ser a deusa da morte.
— Nada indica que a história não possa se repetir — o deus do Submundo sorriu, discreto. — E vai sobrar para você no final, pois quem está tomando a decisão sobre não é Deméter, nem Hera, é você.
— O que você sugere? — Zeus perguntou um pouco mais interessado, admitindo que Hades tinha um ponto importante.
— Sugiro que dê um estágio de meio período para a deusa da primavera em minha empresa e que ela tenha liberdade no Olimpo. Tenho certeza que Deméter vai querer colocá-la na escola de castidade ridícula de Héstia, mas, se isso for acontecer, deve partir de uma atitude voluntária de .
— Algo mais?
— Considerando que ela é nova aqui, vai passar meio período no Tártaro e meio período na Terra sendo ensinada por Deméter, seria interessante se ela morasse com Atenas ou Ártemis, deusas que podem lhe ensinar outras coisas.
— VOCÊ É IDIOTA, HADES? — Hécate, que abriu a porta do escritório de Zeus literalmente em um chute, não parecia estar no melhor dos seus humores. — Quer colocar a menina com as deusas que fizeram voto da castidade quando o objetivo é evitar que ela seja influenciada pela Deméter a fazer esse voto? Por algum acaso você é imbecil?
Depois de quase gritar com o deus do Submundo, Hécate, a deusa das bruxas, ajeitou seu terno preto justo ao corpo e colocou o cabelo chanel, escuro como a noite, atrás das orelhas, procurando acalmar-se. Andou até uma das cadeiras em frente à mesa de Zeus e se sentou acomodada. Seus olhos brilhavam como auroras boreais, em um misto de amarelo e verde que encantavam. Por onde quer que passasse, deixava um efêmero rastro de luz reluzente púrpura. Seria quase delicado e ingênuo, se ela não possuísse uma personalidade forte e um perfil poderoso. Hécate cruzou os braços e começou a bater sua bota de salto fino no chão freneticamente, olhando com cólera os dois deuses constrangidos.
— Coloquem-na para morar com Psique, seus idiotas.
— Psique! — Hades abriu um sorriso contente, apesar de ainda estar atordoado com a entrada repentina da deusa. — Como não pensamos nisso antes? Seria perfeito.
— Por que perfeito? — Zeus manifestou-se, confuso.
— Meus deuses.... e pensar que esse cérebro é o que governa o Olimpo — Hécate revirou os olhos e o deus do raio continuou sem entender. Embora soubesse que a mulher tinha acabado de ofendê-lo, Zeus possuía um respeito tão grande por Hécate, que os insultos nunca lhe incomodavam. — Psique é a única que nasceu e viveu na Terra, assim como .
— Então está decidido. terá um estágio de meio período no Submundo, aprenderá a florescer a primavera na Terra com Deméter no outro período e morará com Psique — Zeus concluiu, já sem ânimo. — Alguma outra demanda?
— Não — Hécate respondeu de súbito e virou-se para Hades, assumindo uma face irritada. — Mas que porra você está fazendo aqui? — Então, ela se levantou de súbito da cadeira, quase voando para cima do rei do Tártaro. — VOCÊ PRECISA COMANDAR O SUBMUNDO E EU NÃO SOU SUA BABÁ!
— Desculpe — Hades falou, sem graça, passando a mão sobre a nuca. — Perséfone pediu para que eu viesse conversar com Zeus.
— Perséfone? — De um segundo ao outro, a deusa das bruxas sorriu com carinho e seus olhos começaram a brilhar ainda mais. A voz, agora doce, da mulher, assustou Zeus. — Como ela está?
— Bem, mas tenho certeza que você sabe disso, trocam cartas o tempo todo e, agora que ela mora comigo, também saem o tempo todo. — Hades cruzou os braços e estreitou os olhos, demonstrando um claro sinal de ciúme.
— Chega de reclamar. Temos trabalho a fazer — Hécate fechou o semblante e bateu duas palmas, transportando-se para o Submundo sem ao menos se despedir de Zeus.

Capítulo 2

— Medea, onde estamos? — perguntou, confusa, assim que entraram em um prédio.
Aquele, no entanto, não era qualquer prédio. Não importava se sediava as editoras das maiores revistas do país ou se possuía uma bela arquitetura, sua importância vinha de outro fator.
Sem saber de onde Medea havia conseguido um cartão de acesso que as liberava nas catracas, apenas observava o que acontecia com cautela enquanto seguia a amiga. Medea não pronunciara nenhuma palavra desde que saíram da cafeteria e aquilo só contribuiu para aumentar sua curiosidade.
As pessoas que transitavam pelo pátio térreo do local pareciam extremamente apressadas, embora fosse somente oito da manhã. Era como se um pequeno caos se instalasse naquele hall de entrada, como se o mundo fosse pequeno demais no momento. havia esbarrado acidentalmente em, pelo menos, três pessoas e nenhuma delas pareceu perceber. O que quer que fosse que conversassem em seus telefones aparentava ser mais importante do que qualquer pedido de desculpas.
Assim que pararam em frente a um dos dez elevadores do local, Medea apertou o botão do painel com uma animação que não lhe era comum. Muito pelo contrário, a única vez que a viu assim foi quando a amiga falou que iria fazer uma pequena visita ao vizinho barulhento de seu apartamento. Diga-se de passagem, nunca mais o viu.
— Por Hades, o que você acha que faz aqui? — a ninfa perguntou, rude, quando uma mulher com um copo de café parou ao seu lado. A estranha apenas franziu o cenho, confusa, olhando para trás para ter certeza de que Medea falava com ela. — Esse elevador está ocupado, vaza daqui.
— Mas o elevador é...
— É por causa de pessoas como você que o shampoo vem com instruções.
— Mas...
— O que eu acabei de falar? — Medea revirou os olhos e a mulher abriu a boca, sem conseguir dizer nada. — Vai lá chorar no cantinho, vai — a ninfa fez um gesto com as mãos para que ela se afastasse.
— Qual o seu problema? — a desconhecida parecia estar em choque.
Não era de se espantar, no entanto, já que Medea não era a pessoa mais educada do mundo.
— O meu problema, no momento, é a sua falta de cérebro.
— Você é louca!
— Oh, por favor, você acha que isso é um insulto?
tinha certeza que ela arranjaria uma discussão com a estranha, se o elevador não tivesse aberto as portas no segundo seguinte, o que fez Medea voltar a abrir um sorriso alegre e puxar para dentro, ignorando o fato de a mulher ter ficado estática, encarando as duas. Ela teria intervindo, se não conhecesse bem demais a amiga. A cabeça quente sempre levava à discussões.
Mesmo sem apertar nenhum botão, o elevador começou a subir. apenas encarou a amiga, que se apoiava em uma das paredes do cubículo, sem prestar muita atenção ao redor. Estava focada em mexer no celular. Pensou em dizer que ela deveria ter mais empatia, agora que estavam a sós, mas o comportamento de Medea estava estranho desde que o dia começou, então preferiu não intervir. Quando o silêncio se instalou por um período longo demais, percebeu que o elevador estava subindo fazia muito tempo e olhou imediatamente para o painel que anunciava os andares. De maneira estranha, o número 378 podia ser visto e ela deu uma risada, achando estar alucinada. Aquilo não era possível. Que prédio tinha mais de duzentos andares? Colocou-se nas pontas dos pés e deu duas batidinhas no visor com o dedo, mas ele somente ia aumentando o número de um em um, como se nada estivesse errado. colocou uma mão na cintura e a outra no queixo. Deveria estar ficando completamente maluca. O delírio talvez explicasse o dia bizarro.
— Medea, acho que tem alguma coisa errada com esse elevador.
— Por que diz isso? — a ninfa perguntou, distraída.
— Porque... — não conseguiu continuar a frase.
Assim que se virou para fitar a amiga, seus olhos arregalaram e sua boca abriu em choque. Medea estava com orelhas muito pontudas e a pele vermelha, mas não como de quem está corada, vermelha como a cor de um rubi, da ponta dos pés até a cabeça. A única coisa que continuava igual eram os longos cabelos escuros.
— O que aconteceu com você? — segurou as bochechas da ninfa e ela revirou os olhos em resposta.
— Eu esqueci de avisar. Você é a deusa da primavera e eu sou uma ninfa do Submundo.
apenas abriu um sorriso forçado, não entendendo nada. Estava convicta que aquilo era tudo um sonho. Um elevador que subia até o infinito e uma Medea no corpo de um ser que jamais havia visto.
— Eu avisei que o Olimpo era real, você que não quis acreditar — a ninfa deu de ombros.
— O quê?
, os deuses existem, é isso que estou tentando lhe dizer. Zeus, Hera, Atenas, Hades, Poseidon, Héstia, eles todos existem. Por algum motivo que eu não sei explicar, você nasceu na Terra, de pais humanos, mesmo sendo uma deusa, o que é algo que nunca aconteceu.
— Então nós realmente estamos indo para o Olimpo?
— Sim. — Medea olhou o painel de relance. — Estamos quase chegando.
— E o que é o Submundo? Quer dizer, você disse que é uma... ninfa do Submundo.
— O Submundo é o lugar para onde vão os mortos.
fez uma careta de incredulidade, erguendo as sobrancelhas e se esforçando para digerir, simultaneamente, o que Medea havia dito e a sua nova aparência. Não teve muito tempo, no entanto, para processar os pensamentos, as portas do elevador se abriram e um cômodo branco e moderno se projetou em sua frente.
— Bom dia, Medea. — Uma ninfa amarela atrás do balcão, com cabelos de cobras iguais aos da Medusa, sorriu, bem-humorada. — Que bom tê-la de volta.
— Tanto faz — Medea segurou o pulso de , puxando-a junto a ela e parou em frente à recepcionista.
— Bem-vinda ao Olimpo, deusa da primavera. — A ninfa sorridente dirigiu-se a , que foi pega de surpresa e arregalou os olhos ao perceber que a estranha encarava-lhe fixamente.
— Muito obrigada. Posso saber por que estamos aqui?
Medea revirou os olhos e a recepcionista deu uma risada, achando a pergunta engraçada. Sem mais delongas, a ninfa amarela apertou uma tecla do seu computador e pediu para que chamassem Psique. questionou-se com quem ela estava falando. Na verdade, no momento, não havia nada sobre o que ela não se questionava.
— Medea. — A mulher atrás do balcão esticou a mão e a ninfa vermelha em sua frente bufou, entregando-lhe o celular que tirou do bolso da calça. A recepcionista sorriu, esperta, e continuou com o braço erguido. Medea revirou os olhos, emburrada, e tirou outro telefone da jaqueta. — Você sabe que isso é proibido no Olimpo.
— Por que é proibido? — perguntou, curiosa, já colocando o seu próprio celular no balcão de mármore.
— Porque isso colocaria o emprego de Hermes no lixo.
— Você sabe muito bem que esse não é o motivo, Medea. — A ninfa amarela estreitou os olhos. — Há alguns anos tivemos problemas com nudes vazados e o escândalo foi... um tanto quanto sério. Zeus não ficou nada feliz.
— Entendi — falou, um pouco surpresa. Até o paraíso tinha seus problemas, ao que tudo indicava.
— Zeus não ficou feliz porque os nudes eram dele — Medea segurou o riso.
— O QUÊ? — arregalou os olhos.
— Cuidado com o que você fala, você sabe bem que as notícias correm rápido por aqui. — A recepcionista ergueu um das sobrancelhas e Medea somente bufou, irritada.
Sem hesitar por um segundo sequer, a ninfa amarela voltou a abrir seu sorriso simpático e apertou um botão debaixo do balcão, que abriu uma janela atrás dela. Estava muito claro, pela paisagem e pelo vento abismal, que aquele cômodo ficava literalmente no meio das nuvens. Agora, com um sorriso dócil e sem ao menos olhar o que fazia, a secretária jogou os celulares pela janela e ficou boquiaberta enquanto via o buraco fechar de modo automático.
O QUE DIABOS ELA HAVIA ACABADO DE FAZER?
arregalou os olhos e virou-se para encarar Medea, que apenas deu de ombros, como se dissesse, de modo implícito, “foi bom enquanto durou, agora pare de chorar”. Alguns minutos depois, na calada e em uma troca de olhares estranha, uma bela mulher abriu uma das portas do local. Diferentemente das outras, ela parecia um ser... normal, como qualquer outro humano. Psique possuía uma expressão serena e arriscaria dizer animada, também. Vestia um vestido branco comprido de seda com um delicado cordão de ouro ao redor da cintura, que evidenciava um corpo muito bonito e uma pele negra reluzente, e um salto dourado.
— Você deve ser a ! — A estranha colocou as mãos nos braços da deusa da primavera, que sorriu, sem graça. percebeu que era estudada pelos olhos cor de mel da mulher em sua frente. Ela percorria cada detalhe de seu rosto como se aquilo fosse nostálgico. E, talvez, fosse. — Você realmente é arrebatadora, o oráculo não mente. Muito prazer, meu nome é Psique. — Antes mesmo que pudesse dizer algo, ela continuou a falar, dessa vez voltando seu olhar para Medea. — Muito obrigada por todo o seu esforço. Espero que você faça um bom retorno para casa.
— Como assim retorno para casa? — perguntou, confusa, enquanto a ninfa andava em direção à uma porta, que não era a mesma que Psique havia usado para chegar até ali.
— Meu apartamento deve estar coberto em poeira — Medea riu, acompanhada pela recepcionista. — Vejo vocês outra hora.
Então, ela fechou a porta atrás de si e sentiu os olhares das outras duas caírem sobre seus ombros. Não havia momento na sua vida que ficara mais confusa que naquele momento, disso ela tinha certeza.
— Não se preocupe, querida, você ainda verá Medea, sobretudo quando estiver estagiando no Submundo.
— Eu vou o quê? — arregalou os olhos e Psique riu, já abrindo uma das portas e balançando a cabeça para que a deusa da primavera a acompanhasse.
— Eu explicarei tudo no caminho.
Assim que deixou o cômodo, foi inevitável ficar boquiaberta. Em sua frente havia um tipo de escada rolante extensa, com degraus de nuvens nada confiáveis, que dava em uma cidade inteira suspensa sobre as nuvens. Uma placa brilhante anunciava a entrada aos céus “Você chegou ao Olimpo”. Assim que Psique pisou em uma das nuvens, não hesitou em fazer o mesmo, observando ao longe aquelas ruas e prédios tão deslumbrantes. Talvez fossem os raios solares, porém absolutamente tudo ali parecia angelical, como se um coro, junto às melhores harpas, soasse ao fundo.
— Então — Psique animou-se ao perceber que estava fascinada com o cenário —, existem muitas regras olimpianas. Acho que as principais são que há uma hierarquia e que as pessoas devem exercer seus papéis. Zeus é o rei de tudo, basicamente, embora Hades governe o Submundo e, Poseidon, os mares. A palavra deles é a palavra final e nós nunca, eu repito, nunca, devemos desobedecê-los, se não quisermos encarar as consequências. Eles possuem o poder de fazer o que quiserem, até mesmo nos matarem. Logo em seguida temos os outros deuses, os semideuses e, por fim, as ninfas, que são facilmente reconhecidas pelas cores vibrantes, com suas orelhas pontudas, suas membranas natatórias nas mãos ou seus cabelos de serpentes. Elas são as mais diferentes dos humanos, os semideuses são os mais parecidos e os deuses, bem, eles podem ter peculiaridades.
— Onde você se encaixa nisso? — perguntou, curiosa.
— Eu sou exceção — Psique respondeu com um sorriso divertido. — Chegaremos nesse ponto depois. Todos, seja no Tártaro, seja no Olimpo, seja na Terra, temos afazeres. Cada pequena decisão feita pelos seres mortais é influenciada por nós. Quando eu digo cada pequena decisão, eu digo desde escolher entre descer de elevador ou escada até causar alguma guerra mundial. Por exemplo, Ares está influenciando os conflitos na Terra nesse instante, Hera está analisando os casamentos que acontecem nas próximas semanas e Eros está fazendo as pessoas se apaixonarem ou se odiarem.
— E por que os deuses têm afazeres?
— O mundo precisa continuar fluindo em harmonia — Psique respondeu, generalista, e mudou de assunto. — Zeus pediu para que você morasse comigo por enquanto, até ter experiência o suficiente para ter sua própria vida sozinha.
Logo que ela terminou de falar, saíram da escada rolante e foi guiada pelas calçadas do Olimpo, enquanto apreciava parques, prédios e outros diversos estabelecimentos de uma cidade maior do que imaginou que seria. Psique apontava para todos os lados, explicando onde ficava cada comércio, mas estava distraída, não conseguia absorver um quarto do que Psique falava. Quando se deu conta, as duas já estavam em frente à uma linda casa, grande demais para uma pessoa morar sozinha e aberta demais para um senso de segurança. Ponderou, no entanto, que o Olimpo era um dos lugares mais seguros do universo, pelo menos, deveria ser. Assim que deu o primeiro passo para dentro da propriedade, o jardim floresceu instantaneamente, o que encantou Psique.
— Isso foi incrível! — Psique ergueu os braços, consumida por uma alegria que lhe era peculiar. — Hera com certeza vai querer que você cuide do jardim da mansão dela.
— Eu que fiz isso?
— Mas é claro, . Você é a deusa da primavera. — Então Psique franziu o cenho e adquiriu uma expressão séria quando percebeu o que se passava. Apressou os passos até a porta da entrada principal e a abriu com urgência. — Nunca lhe ensinaram a controlar seus poderes?
— Eu não sabia que tinha poderes até esse exato momento — informou ao entrar na casa.
Tudo dentro era bem moderno, com uma cozinha em conceito aberto e ilha de mármore, uma sala com uma televisão gigantesca e um sofá que acomodaria muitas pessoas... ou deuses e ninfas. Algo a fazia se sentir confortável, talvez fosse a presença de Psique ou talvez fosse a quantidade abundante de luz natural que entrava pelas grandes janelas de vidro.
sentou-se sobre o balcão gelado da cozinha, observando Psique analisar um papel em sua mão. Pela expressão facial dela, havia alguma coisa errada.
— Aconteceu algo?
— Sim, minha deusa — Psique respondeu no automático. — Achei que você, pelo menos, saberia usar seus poderes, mas, como você nem fazia ideia de que os tinha, tive que ver quem vai lhe ensinar. Nesse documento que Hera me deu, consta que você vai aprender com Deméter.
— E isso é algo ruim?
Psique engoliu em seco e teve um pequeno tique no olho esquerdo. Sabia muito bem que aquilo não seria nada bom para , tendo em vista o que aconteceu com Perséfone há centenas de anos.
— Ainda não posso dizer. Pelo menos, você fará estágio no Submundo para contrabalancear. Perséfone com certeza lhe dará apoio.
— Quando exatamente eu começo esses estágios?
— Acho que amanhã mesmo — ela falou, colocando o papel de volta em uma gaveta.
— Psique — pigarreou —, você é humana, não é? Assim como eu?
— Podemos dizer que sim, mas é um pouco mais complicado.
— Existem outros humanos no Olimpo?
— Não — Psique afirmou, rápido. — Somente eu.
— E eu.
— Não, . — Ela apoiou-se na geladeira e cruzou os braços. De repente, Psique já não parecia mais dócil. — Você não é humana, nunca foi. Você é uma deusa, um ser imortal dotado de qualidades que nem imagina.
— Imortal? Você está dizendo que eu nunca vou morrer?
— Uma grande responsabilidade — Psique ergueu os ombros e ficou perplexa. Ela já sabia que na mitologia os deuses viviam eternamente, mas nunca lhe passou pela cabeça que seria o mesmo com ela. — Vejo que você não está a par de certas informações. De qualquer maneira, vai acabar descobrindo.
— Por que é um pouco complicado? — questionou e pôde perceber o brilho triste que tomou conta dos olhos de Psique. — Digo, por que você não é totalmente humana?
— Meus deuses, ninguém lhe contou nenhum dos acontecimentos do passado, não é? — A mulher de pé enrijeceu os músculos. Passou pela sua cabeça que aquilo havia sido feito de propósito e Psique teria que dar todas as notícias ruins à . — Bom, acredite ou não, eu nasci há mil anos. E, sim, eu deveria estar enterrada debaixo da terra nesse ponto da minha vida. Diziam, lá na Terra, que eu era mais bonita que a própria Afrodite. — olhou-a discretamente dos pés à cabeça e não conseguiu discordar, embora ainda nem conhecesse Afrodite. — Ela não ficou muito feliz com os rumores e mandou Eros, seu filho, verificar se isso era realmente verdade e, se fosse, dar um jeito. Acontece que eu e ele nos apaixonamos. Não foi de um dia para o outro, acredite, demorou mais ou menos um ano, mas a história ficaria longa se eu contasse os detalhes. Enfim, Zeus, como um presente para comemorar nosso amor, me concedeu vida eterna desde que eu vivesse no Olimpo.
— Certo — fez um bico enquanto mergulhava em um estudo na postura corporal de Psique. — Só que você não está mais com o Eros.
— Não — Psique sorriu, surpresa, ao encarar uma com uma expressão divertida no rosto. — Digamos que eu tive um... pequeno desentendimento com Eros.
Psique balançou a cabeça rapidamente de um lado para o outro, como se espantasse os pensamentos, e abriu a geladeira a procura de uma garrafa de água. interpretou o gesto como um sinal para encerrar o assunto.
— O que quer visitar primeiro? — Psique voltou a falar depois de dar um gole em sua bebida. — Posso te falar onde ficam as melhores baladas, parques e cinemas, se quiser.
— Acho que podemos começar com os seus lugares preferidos — falou, já saindo de cima do balcão, e passou a mão pelos cabelos, sentindo um pressentimento estranho.
— Perfeito! Podemos conversar um pouquinho como estão as coisas lá na Terra durante o caminho. Faz muito tempo que não apareço por lá.
— Claro — sorriu, simpática. — Mas temos que fazer um acordo. — Psique apenas assentiu com a cabeça e a deusa prosseguiu. — Precisamos passar em algum lugar para comprarmos roupas. Medea não me avisou que eu viria ao Olimpo antes de eu sair de casa.


estava cansado. Havia passado o dia todo na Terra, encarregado de cumprir suas incumbências. Desde que começara seu trabalho, sentia que a carga horária aumentava gradativamente. Os mortais e suas consciências lhe esgotavam.
Assim que avistou os altos prédios do Olimpo dentre as nuvens, abriu um sorriso discreto, embora cínico, algo que lhe era peculiar. Como único filho de Perséfone e Hades, era agraciado com uma feição extremamente atraente, que não passava despercebida por nenhuma deusa ou ninfa, e com um comportamento inabalável, sarcástico, ludibriante e, sobretudo, perigoso. Para as mulheres, a verdadeira e irresistível linha tênue entre o bom e o perverso; para os homens, alguém a se temer. Não era à toa que era o deus do sofrimento e do prazer, tinha as características e habilidades exatas para isso. Já diziam na Terra que deuses bons levavam ao céu, mas que o traria até você. Não que fosse inteiramente verdade, mas ele não se cansava de ouvir isso.
Logo que avistou a cúpula do Palácio da Corte, retraiu suas belas asas, de penas negras afiadas e reluzentes como o metal, formando um escudo ao redor de seu corpo, e permitiu que fosse puxado pela gravidade e caísse livremente. Adorava a sensação de liberdade que o gesto lhe causava, apreciava ainda mais quando a queda era percorrida com os olhos fechados. Nada era mais seu do que o controle de sua própria vida. Pouquíssimos metros antes de colidir com o chão, abriu suas imponentes asas em toda sua extensão, parando, ajoelhado, na rua bem em frente ao palácio e levantando-se logo em seguida. Seu instinto, todavia, obrigou-o a olhar de relance para a diagonal. Algo em seu peito parecia incomodado, como se alertasse de que estava em perigo.
Quando pousou a vista sobre duas mulheres, sentiu o coração pular uma batida e a íris ficar afiada. Psique conversava com alguém que ele nunca tinha visto antes, mas que imediatamente considerou a mulher mais linda que já vira, ainda mais bela que a própria Afrodite. Os traços finos e delicados do rosto ornavam com seus gestos graciosos. O corpo era perigosamente tentador. E ela exalava uma tranquilidade ameaçadora. Talvez a tenha encarado por tempo demais, pois ela o fitou, curiosa, e uma coroa de flores brotou em sua cabeça, assim como seu cabelo cresceu instantaneamente pelo menos um metro e começou a flutuar. Algo em suas mechas capturou o interesse do deus. Como nunca a havia visto, a cor era um coral vivo e as pontas um pouco mais alaranjadas, como o próprio fogo. Quando percebeu quem ela era, imediatamente fechou o semblante por sentir uma leve e quase imperceptível pontada no estômago. Depreciava, por natureza, qualquer tipo de sentimento que não fosse seu verdadeiro vício: o prazer genuíno. Pensou que nem parecia alguém com mais de duzentos anos de maturidade nas costas. Sentiu desprezo por si mesmo. Hermes apareceu ao seu lado, junto de Eros, que deu dois tapinhas nas costas de , tirando-o de seus devaneios. Os três deuses fecharam as asas e, apesar de um diálogo começar, não conseguia se concentrar por ainda estar atordoado.
— Finalmente meu turno acabou — Hermes reclamou enquanto alongava o corpo.
— Diga por você, eu amo meu trabalho — Eros declarou, animado, porém o mensageiro o ignorou, voltando a falar.
— Quase fiquei de correio particular de Hera e Zeus de novo por causa dessa nova deusa da primavera.
— Será que ela é bonita? — Eros perguntou com um sorriso malicioso e demorou apenas alguns milissegundos para responder mentalmente que sim, com certeza sim. De relance, olhou para o lugar onde elas estavam, mas as duas haviam sumido. — Ainda não tive chance de vê-la.
— Se o oráculo de Gaia estiver correto, ela deve ser um pitelzinho.
— Pitelzinho, Hermes? Mas que porra é essa? — Eros repreendeu-o e cruzou os braços na altura do peito. — Talvez eu atire uma das minhas flechas com ponta de ouro nela, não seria nada mal ter a deusa da primavera como amante.
— Você jogando sujo? — ergueu uma das sobrancelhas, falando em um tom provocativo com o qual os outros dois já estavam acostumados. — Você não consegue nem ir contra as regras de merda da Hera.
Eros restringiu-se a fazer uma careta emburrada. Odiava o fato de que não poderia se divertir manipulando os outros. Tudo porque Zeus colocava a culpa de suas traições nos poderes dele e de Afrodite, alegando que eles haviam o influenciado a fazer sexo com outras. Por mais que Eros e sua mãe, de fato, tivessem um domínio no quesito relacionamentos amorosos e induzissem pessoas a se apaixonarem por outras de acordo com suas vontades e caprichos, isso não queria dizer que estivessem conectados com os atos de Zeus.
— Falando sobre meus poderes — Eros abriu um sorriso dissimulado e fitou , o que deixou Hermes intrigado —, eu sinto em meus ossos que tem alguma coisa errada com você. Algo como... uma atração reprimida.
— Você deve estar louco — Hermes começou a rir escandalosamente. — ? se interessando por alguém?
— Todos podem se apaixonar — Eros retrucou.
— Não o deus do prazer e do sofrimento. Ele é o cara dos filmes que leva todas para a cama e nunca liga no dia seguinte, você sabe disso — o mensageiro continuou a falar. — Quase trezentos anos nas costas e todas os seres do Olimpo, do Submundo e dos mares aos seus pés não foram o suficiente para ele amar alguém, não acho que é agora que isso vai acontecer.
— Não estou apaixonado, não seja idiota, Eros. — Dessa vez, o próprio quem afirmou.
— Hades nunca se apaixonou por alguém sem ser Perséfone, talvez seja o sangue, talvez você esteja fadado a só se apaixonar uma única vez — Eros ponderou, embora estivesse surpreso por nunca ter notado que jamais havia sentido amor profundo por alguém, o que soava muito triste em sua cabeça. Não conseguiria imaginar uma vida de solidão. — Não se preocupe, cara, eu posso garantir que ela te ame de volta.
— Com esse corpo gostoso não haverá necessidade — Hermes proferiu, espirituoso, e o deus do prazer e do sofrimento revirou os olhos.
— Não se atrasem — falou, já começando a andar em direção à calçada. — Ou eu vou sem vocês.


Psique parou de súbito em frente à uma suntuosa construção, o que acarretou em um quase trombo dela com , que andava distraída, tentando dividir sua atenção entre ouvir Psique tagarelar, segurar as dezenas sacolas de compras e tentar acompanhar a paisagem estonteante que era o Olimpo. Tudo, absolutamente tudo, chamava-lhe atenção. Era como se o ar fosse mais limpo, as cores, mais vibrantes, e as pessoas, mais felizes. já perdera a conta de quantas vezes se pegara distraída com os cabelos sedosos e longos das ninfas azuis, ou com o fato de que o andar de todos, como se estivessem flutuando, era extremamente agradável de observar, ou com os belos guardiões olimpianos em seus uniformes impecáveis, que sempre pareciam estar rindo de alguma coisa...
— Pelo amor dos deuses, , tenha mais cuidado.
— Desculpe. Continue, por favor.
— Esse aqui — Psique apontou para a construção suntuosa ao seu lado, com seus pilares monumentais e escadarias gigantes de mármore e sua cúpula banhada a ouro —, é o Palácio da Corte. Basicamente, é onde os grandes deuses decidem sobre punições, eventos e marcos históricos. Seria o equivalente ao tribunal dos mortais.
Psique prosseguiu com seu discurso, mas sentiu uma estranha necessidade de olhar para o lado. Seus ombro e braço esquerdos pareciam mais quentes do que o resto de seu corpo. Pegou-se com a impressão de estar sendo observada. E realmente estava. Sua visão recaiu sobre alguém que estava parado no meio da rua, sem se preocupar com o arredor. Ela não poderia dizer que ele carregava a expressão mais simpática do mundo, muito pelo contrário. As imensas asas abertas, escuras e sóbrias como uma noite sem estrelas, chamaram-lhe a atenção. Traziam um ar de grandiosidade e intimidação como jamais vira e pareciam ser feitas do mais resistente aço cortante. Eram encantadoras, embora aparentassem serem extremamente pesadas. O homem que as sustentava encarava com veemência e fatalidade, como se estivesse tentando entrar em sua mente, como se pudesse invadi-la. Ele estava todo de preto, com uma jaqueta de couro e botas e a face trazia uma beleza ameaçadora. Algo na íris de seus olhos era fúnebre e gélida, o que lembrou da própria morte e a atração contraditória que lhe percorreu o corpo gerou uma coroa florida sobre seus cabelos, com raízes entrelaçadas e belas flores coloridas.
De repente, ela sentiu um frio tomar conta de si, algo nada agradável que a obrigou a passar as mãos sobre os braços. Jurou que uma fumaça de ar saíra de sua boca quando respirou. Por alguns segundos quis desviar o olhar para verificar se a temperatura gélida passaria, mas não conseguiu, estava interessada demais nele. Perigosamente interessada.
, você está prestando... — Psique parou seu monólogo ao se deparar com o surgimento do adorno na cabeça da mulher em sua frente e acompanhou seu olhar quando percebeu que a deusa estava focada em outra coisa. — NÃO, NÃO, NÃO!
Psique segurou pelos braços e quase a arremessou para o outro lado do Olimpo. Empurrou-a para outra rua com tanta vontade, que a deusa da primavera quase perdeu o equilíbrio ao tentar acompanhar seus passos apressados, sentindo sua cabeça estranhamente mil vezes mais leve. O desespero de Psique era evidente e estava confusa, não entendeu a reação repentina, mas, a julgar pela expressão enfurecida, somada ao semblante de desgosto e ao ranger de dentes, ela nem precisaria perguntar nada, a explicação viria naturalmente.
— Não! Nem pensar!
— Nem pensar o quê? — indagou, olhando para os lados na intenção de se localizar.
— Me prometa que você não vai chegar perto de .
?
— O filho de Hades e Perséfone, a própria prole da maldade — Psique falou como se aquilo fosse um fato óbvio. Talvez fosse para quem vivia no reino dos imortais. — Você não quer se envolver com ele, acredite. Eu não sei se Medea lhe contou, mas os deuses vivem relações sexuais complicadas.
— Ela comentou sobre isso. — fez um bico engraçado ao lembrar de como Medea havia resumido tais relações a uma orgia deliberada.
— Com essa sua beleza, os deuses irão atrás de você, mas você deve tomar cuidado. Se quiser virar uma deusa da castidade, assim como Héstia, Atenas e Ártemis, não pode deixar que eles a convençam a dormir com você. Caso não queira, deve ser cautelosa com quem dorme, a difamação corre mais rápido que Hermes, por aqui. — Psique vomitava as palavras com urgência e apenas fazia uma careta de clara desorientação. — Não se envolva com Ares, pois Afrodite irá puni-la. Zeus está fora da lista, Hera lhe mataria. Poseidon também é casado, assim como Hefesto e Hades. Agora, ... é o favorito de Hera, sobretudo por ser da realeza, e ela o quer como marido de sua filha mais nova, Hebe, então ele automaticamente se torna o protegido da rainha e você não quer uma briga contra ela, disso eu tenho certeza. Não só isso, não é o tipo com quem você deve se envolver, ele é fruto do caos, , ele é tão cruel como a morte.
Embora o objetivo de Psique fosse alertar a deusa sobre os males que um complexo amoroso olimpiano causava, estava deslumbrada demais com a aparência de . Sabia, entretanto, que alguém “cruel como a morte” não poderia ser uma boa pessoa. Questionava-se por que Psique parecia temer tanto o filho de Perséfone e Hades. Será que a família era tão vil como descreviam os mitos?
— Então, me prometa que você não vai chegar perto dele.
— Tudo bem — levantou os braços em rendimento.
Psique continuou a falar, muito provavelmente sobre a personalidade ruim de , mas não conseguiu focar nas palavras dela, deparou-se com sua imagem refletida em um dos vidros espelhados de um prédio e não pôde deixar de ficar estática, sentindo sua pressão baixar um pouco.
— O que aconteceu com o meu cabelo? — a deusa arregalou os olhos.
As mechas não se pareciam nem um pouco com o que eram originalmente e tinham um comprimento absurdo, flutuando acima dos ombros. A cor era tão estranha que sentiu estar no corpo de outra pessoa. Em um reflexo, colocou a mão sobre o cabelo, que estava muito mais macio do que lhe era usual.
— Sobre isso — Psique suspirou impaciente —, o Olimpo funciona como uma fonte de recarga, então é normal que seus poderes fiquem um pouco mais evidentes por aqui. Quando você se submete a emoções fortes, principalmente medo, raiva e desejo, seu cabelo expressa isso crescendo. Ao longo do tempo você aprende a controlar, ainda é muito nova. — Psique pegou um conjunto de fios e começou a analisá-los. — Mas admito que é estranho seu cabelo só ficar colorido quando você está nos extremos, você verá que as deusas e os deuses têm cabelos coloridos o tempo todo, assim como as ninfas.

Capítulo 3

Da esquina, destacavam-se os arbustos, agora floridos, da casa de Psique. Ou o que seria a sua casa também a partir de agora. levou um susto ao se deparar com uma estranha de cabelo roxo à porta de entrada. Ártemis possuía as madeixas lisas e lambidas até a altura da cintura, onde apoiava uma das mãos. Usava um moletom cinza e parecia ter acabado de sair da academia, embora apresentasse, naquele instante, uma beleza ímpar, digna de capa de revista. Ela carregava um semblante tão feliz que chegava a ser assustador e uma certa obsessão podia ser vista nas linhas de sua íris. O sorriso divertido que lhe era peculiar contribuía para a imagem jovial e descontraída de Ártemis, mas a deusa tentava esconder sua face de preocupação gerada pela notícia da carta que recebera de Apolo depois do almoço.
— Pelos deuses, como você é bonita! O oráculo não mente. — A deusa da caça segurou as mãos de e a fez rodopiar para ter uma visão completa da moça confusa. — Estava na hora de alguém novo aparecer por aqui, depois de uns milênios a rotina fica chata. — Ela apertou as bochechas rosadas de . — E esses cabelos! Simplesmente divinos! Afrodite ficará furiosa — Ártemis riu, travessa, e Psique a acompanhou. — Mas precisamos cortá-los, quando eles pararem de flutuar, estarão pesando demais e isso vai dar dor de cabeça.
— Ártemis, minha querida deusa — Psique sorriu, carinhosa, já abrindo a porta para que todas entrassem. achou bem estranho o fato de a casa não ter fechadura, somente maçaneta — e de não ter notado antes —, a que devemos a honra de sua presença?
— Sem formalidades, meu amor — a deusa pediu enquanto ia em direção à cozinha. — Vim conhecer a .
— Eu?
— Sim — Ártemis respondeu e chamou-a com um gesto de mão. — Tive uma pequena reunião com Perséfone e Hades no almoço e ela avisou que você estaria por aqui. Olha que notícia ótima! Somos vizinhas agora.
— Hades? — Psique ergueu uma das sobrancelhas em um tom misto de suspeita e dúvida. — No Olimpo? Hades no Olimpo?
— O próprio — Ártemis sorriu, esperta, e revirou os olhos. O breve sarcasmo que escorria de sua voz condizia perfeitamente com o semblante perspicaz. — Amigável, como sempre.
não sabia dizer se morar ao lado da estranha de cabelos roxos realmente era uma notícia ótima, porém achou Ártemis muito simpática e bonita. Aparentava ter, no máximo, vinte e dois anos e exalava um ar de juventude e compostura como nunca vira antes. Talvez fossem características inerentes ao seu ser. Algo em sua aura, entretanto, também trazia um ar felino e levemente fatal, o que não deixava muito confortável. Quando Ártemis deu dois tapinhas sobre um dos bancos da cozinha, a deusa da primavera interpretou aquilo como um convite para se sentar e o fez, largando as sacolas de compras na ilha de mármore. Em seguida, Ártemis tirou um afiado punhal do bolso do moletom e cortou os cabelos de em um único movimento preciso, o que fez as mechas da deusa da primavera voltarem à cor original e assustar as outras duas outras mulheres no recinto, que arregalaram os olhos concomitantemente. , sem se surpreender com mais uma das coisas bizarras que aconteciam no Olimpo, apenas se perguntou se todos carregavam uma pequena adaga no bolso por ali.
— Fascinante — Ártemis olhou para o resto do tufo de cabelo no chão, que ainda se mantinha em cores vívidas de coral e laranja. — Nunca vi isso acontecer.
— Mas também nunca vimos uma deusa nascer de mortais — Psique deu de ombros, tentando aceitar o quanto antes que já não viveria um dia normal a partir de agora, e saiu da cozinha para pegar o aspirador de pó.
— Inclusive, ainda não me apresentei. Sou Ártemis, a deusa da caça e dos animais selvagens, protegida pelo voto da castidade e ao dispor daqueles que me trazem oferendas.
— Muito prazer — sorriu, gentil, jurando que uma luz dourada exalava de Ártemis. — , ...deusa da primavera, eu acho.
— Medea me contou que você é uma deusa que gosta de aventuras, respostas afiadas e tem um bom senso humorístico.
— Eu acho que ela exagerou um pouco. — As bochechas de coraram levemente. — Tenho certeza de que ela foi gentil demais nos elogios.
— Descobriremos depois de amanhã — Ártemis falou, animada, enquanto ia em direção ao sofá da sala. — Venha comigo para o centro de treinamento. Tenho certeza que podemos lhe colocar à prova lá.
— Sábado não dá, Ártemis — Psique interveio e ambas as deusas a olharam.
— Por quê? — perguntou, curiosa. — Eu tenho algum tipo de trabalho ou finais de semanas não existem por aqui?
— Porque acontecerá uma comemoração centenária do casamento de Zeus e Hera e eles darão uma grande festa para os deuses em sua mansão — Psique respondeu, calma, embora a deusa da primavera tenha reconhecido um leve tom de desapontamento, e Ártemis fez uma careta. Ela havia esquecido desse evento.
— Verdade. Então, no domingo — a deusa da caça sugeriu.
— O que acontece nesse centro de treinamento? — questionou, interessada, apoiando os cotovelos sobre a bancada de mármore.
— É um lugar onde Atenas, eu, outros deuses e semideuses autorizados treinamos nossas habilidades e condicionamentos físicos.
— Admito que a ideia não me parece tão convidativa assim — fez uma careta hesitante e desviou o olhar para o eternamente ensolarado quintal. — Quer dizer, não podemos passar o dia assistindo filmes ou fazendo um programa leve?
Então Psique e Ártemis começaram a rir escandalosamente, entreolhando-se, como se aquilo fosse um verdadeiro absurdo. não entendeu o motivo da graça e ficou sem jeito, abrindo um sorriso envergonhado.
— Você realmente tem um humor excelente, isso já está provado. — Ártemis limpava a lágrima que insistia em se formar no canto do seu olho. — Está tarde, então creio que vocês irão dormir em breve. Nos encontramos na festa, . Aconselho que use seu melhor vestido, você não gostaria de deixar Hera ainda mais irritada pela sua apresentação, certo?
— Ainda mais? — arregalou os olhos e Ártemis limitou-se a sorrir, gentil.
Então, a deusa da caça se levantou e foi até a porta, fechando-a atrás de si. Assim como chegou em um piscar de olhos, Ártemis saiu. Psique apenas voltou a sorrir, meiga, e avisou que o quarto disponível era no andar de cima, na última porta do corredor. Foi depois dessa fala que ela se pôs a subir as escadas e sumir de vista também.
não entendeu nada do que aconteceu nos últimos segundos. Respirou fundo e encarou a sala vazia. Passou-lhe pela cabeça que deveria assaltar a geladeira e tomar um banho quente e demorado logo em seguida. Talvez, isso a tirasse de seus devaneios em relação à todas as coisas que não entendera no dia.
Assim que abriu todos os armários da cozinha, encontrando os mais diversos utensílios culinários que não pareciam ter sido usados uma única vez sequer, finalmente deparou-se com uma caixa de cereal, o que lhe pareceu o suficiente na hora. Sem muita cerimônia, considerou aquilo seu jantar e começou a comer diretamente da embalagem, já se dirigindo às escadas.
Logo que pisou no último degrau, encontrou uma sala que continha um piano de calda preto bem no centro e uma grande sacada com uma vista maravilhosa da fachada da casa. Tudo parecia estar perfeitamente limpo. Ela até ousaria dizer intocado.
olhou para os dois lados do corredor. Apesar de Psique ter dito que seu quarto era na última porta, ela não sabia de qual lado, então arriscou andar para a direita primeiro. Encontrou, entretanto, uma aconchegante sala de cinema, com sofás distribuídos em níveis, pôsteres de filmes estrelando ninfas como atrizes, uma iluminação suave e um projetor para a gigantesca tela. questionou porque diabos existia uma sala de cinema, se no andar debaixo havia uma televisão mais que suficiente.
— Eu sou excessivamente rica no Olimpo? — indagou ao enfiar sua mão na caixa de cereal para colocar uma quantidade exagerada de comida na boca e sorriu, contente.
Assim que fechou a porta atrás de si, andou apressadamente para a outra ponta do corredor. Nunca esteve tão feliz em ter girado uma maçaneta antes. O quarto era muito espaçoso, com uma bela cama de casal enorme que poderia ser visualizada logo que entrasse, posicionada em cima de um tapete delicado. Estantes de madeira clara decoradas com luzes cobriam toda a parede que continha a porta. Havia uma escada dourada que deslizava sobre um corrimão próximo ao teto para que objetos pudessem ser alcançados nas partes mais elevadas. Tudo era muito moderno e elegante, embora ainda existissem espaços vazios no local, convidando-a para decorar como bem entendesse. Uma bela e ampla sacada, somada às duas outras portas do quarto, concluíam o cômodo. A primeira porta levava a um closet vazio e a segunda a um banheiro de piso e paredes de mármore puro, com muitos adornos em ouro e o maior espelho que já vira. Estava completamente deslumbrada, sobretudo quando notou a banheira clássica com pés dourados no canto. Sentia-se extasiada e o brilho nos olhos era inevitável. A deusa estava tão mergulhada na felicidade que, em choque, ramos de plantas começaram a invadir todo o quarto, deixando-o ainda mais encantador, o que parecia algo impossível.
— Típico dos deuses — Medea revirou os olhos ao retirar os óculos de sol e apoiou-se no batente da porta. — Sempre com suas casas extravagantes. Você deveria ter visto quando Zeus e Hera ainda moravam em um palácio. Era ridículo.
— Medea! — gritou, feliz, e foi correndo abraçar a ninfa.
— Esqueci como você é afetuosa — ela revirou os olhos outra vez e analisou rapidamente o quarto. — Já vi que você transformou seu quarto em mato. — E, assim que a ninfa terminou de falar, flores começaram a desabrochar sobre os ramos, decorando tanto as estantes quanto as paredes e o teto.
— É bom vê-la de novo também — a deusa falou, sarcástica, e deitou-se sobre a cama, abrindo os braços espaçosamente sobre o edredom macio.
— Deixa eu adivinhar, eu sempre fui uma ótima guia turística e você nunca me valorizou. Agora que Psique está lhe guiando, você me quer de volta.
— Não é isso, você sabe. Psique é uma pessoa incrível — riu e abriu um sorriso tímido em seguida. Não demorou muito para que Medea deitasse ao seu lado e as duas encarassem o teto.
— Um dia e eu já fui substituída?
— Não seja boba.
— Não fique preocupada, aqui você vai viver do melhor que existe — Medea sorriu, compreensiva, como se pudesse ler os pensamentos de , porém, logo seu semblante sereno se tornou malicioso e seus olhos pretos começaram a reluzir. — Assim que aprender a usar seus poderes, vai ver como tudo fica mais... divertido. Como você vai conseguir manipular deuses e mortais, causar o caos na Terra, sair impune de... — encarou Medea com uma expressão séria e uma das sobrancelhas levantadas, o que fez a ninfa revirar os olhos e cruzar os braços. — Você também vai fazer as pessoas felizes e todo esse blá blá blá.
— Você quis dizer fazer as pessoas felizes com os meus afazeres não facultativos? — perguntou, curiosa. Embora não pudesse escolher as próprias ocupações, estava ansiosa para saber qual seria seu papel ali, que, aparentemente, era feito sob medida.
— Sim, toda essa idiotice aí. Mas agora vamos falar sobre o meu dia.
— O que aconteceu no seu dia? — sorriu, gentil.
— Voltei para o meu apartamento, estava um caos. Tinha um tipo de vida crescendo nos alimentos da minha geladeira — Medea falou enquanto encarava suas unhas e fez uma careta de desgosto. — Mas esse não é o ápice do dia. Já voltei a ser escalada para o meu antigo trabalho.
— Deixe-me adivinhar — a deusa da primavera falou, divertida. Medea reconheceu um leve tom perverso em sua voz. — Seu antigo trabalho era importunar os seus pobres colegas de trabalho? Condenar os recém mortos? Torturar as almas vis?
— Não faço nada disso, otária — a ninfa revirou os olhos e riu. A deusa deliciava-se em provocar a falta de paciência da amiga. — Acho que já é tortura o suficiente para as almas quando vagam por cem anos às margens do rio depois que morrem — Medea falou com naturalidade e ficou boquiaberta. — E quem condena os recém mortos são Hades, Perséfone e , que, inclusive, só fica cada vez mais gostoso, convenhamos. Um sorriso do desgraçado e seu útero explode. Ele daria o perfeito amante.
— Psique falou que seria bom eu ficar longe dele.
— Talvez ela tenha razão — Medea concordou com um gesto de cabeça. — Quer dizer, foi ele quem provocou Hera ainda mais e agora ela vai vir atrás de você, assim como fez com Psique.
— Provocou Hera? — sentou em um pulo sobre a cama. — O que quer dizer com isso?
— Nada demais, relaxe. Hera tem um complexo muito irritante quando o assunto é família. Não à toa também, dizem que ela é a deusa do casamento, mas eu diria do ciúme. Não consigo passar cinco minutos na mesma sala que ela sem querer vomitar, mas tenho que admitir que ela tem um guarda-roupa sem igual, ela sabe se vestir.
— Por que ela viria atrás de mim, Medea?
— Você sabe como vocês deuses são sentimentais.
— Somos? — perguntou, confusa.
— Vocês literalmente sentem no corpo quando alguma coisa tange ou afeta vocês. — A ninfa revirou os olhos. — Tão dramáticos. Você ainda não está treinada, mas daqui a pouco vai começar a sentir isso quando alguém cortar alguma flor de um jardim ou derrubar uma árvore e você vai saber exatamente qual é a flor ou a árvore.
— Você está me dizendo que eu vou sentir quando alguém cortar uma flor? — arregalou os olhos e virou-se para encarar uma Medea despreocupada, jogada na cama ao seu lado.
— Não é como se as pessoas saíssem por aí cortando flores, ok? — a ninfa deu de ombros. — Ao que tudo indica, Afrodite identificou um sentimento não usual de atração vinda de Hermes, ou Eros, mas não sabia dizer de qual, já que eles estavam muito próximos um do outro. Ela acabou contando isso para Hera, o que não é surpresa, já que Afrodite ama uma fofoca. Bom, sobrou para você, já que só o fato de existir uma pequena possibilidade de ter sido já teria enfurecido Hera, que o quer de genro. É claro que ela foi tirar satisfação com o , caso contrário não seria a rainha-do-Olimpo-que-consegue-tudo-o-que-quer-mimimi. Ele não ficou nem um pouco feliz com a intromissão de Hera na vida amorosa dele, então tudo o que fez foi sorrir, sarcástico, quando ela perguntou se ele tinha algum tipo de atração por você. Só que um sorriso sarcástico não é exatamente um sim nem um não, é apenas o necessário para se irritar Hera. De qualquer maneira, se for Hermes quem tiver sentido a atração, Hera com certeza não ligaria... E se for Eros... Bom, você não faria isso com Psique, certo? — então Medea deu um sorriso falsamente fofo e concluiu seu relato enquanto se mantinha estática. Mal havia chegado no Olimpo e já havia arranjado problemas. — É frustrante como um dos quatro olimpianos mais desejados já lhe quer. Você está sob a raiva de todas as ninfas que querem subir na vida e a gente sabe que o único meio de isso acontecer é casando com um deus. E convenhamos que daria um belo de um marido. O sexo deve ser absurdamente bom.
ergueu uma das sobrancelhas, um pouco perturbada por tudo que a amiga havia acabado de dizer, e Medea deu de ombros de novo, como quem implicitamente pede para ignorar o problema, sugestão essa que foi não facultativamente aderida pela deusa da primavera por causa da mudança repentina de assunto vinda por parte da ninfa.
— Notei que o piano de cauda ainda está aqui. Por que será que Psique ainda não se livrou dele? Quer dizer, ela basicamente reformou a casa toda.
— Por que ela se livraria do piano? — franziu o cenho enquanto encarava o ramo de folhas no teto.
— Porque ele pertence a Eros — Medea respondeu como se fosse o fato mais óbvio do mundo. — Essa casa pertence a Eros.
— Como assim? — fitou-a, confusa. — Eu achei que essa casa fosse de Psique. Ele mora aqui? Mas eles não haviam terminado ou algo do tipo?
— Eu diria algo do tipo. E não, ele não mora aqui, ele mora com a mãe dele. — Medea fez uma careta de aversão. Ela achava Psique e Eros um casal meloso demais para o seu gosto. — Tem muito drama nessa história aí. — Então voltou a se deitar, dessa vez de barriga para baixo. Ela apoiou seus cotovelos na cama, sua cabeça nas mãos e abriu seu maior sorriso de curiosidade, o que fez Medea revirar os olhos e voltar a falar, porém agora com uma voz mais arrastada. — Ouça com atenção, porque eu não vou repetir nada, ok? Bom, a muitos anos atrás...
— Quantos anos?
— Shhh, isso não é importante — Medea bufou e segurou a risada. — Agora pare de fazer perguntas... A muitos anos atrás, surgiram rumores de que a mulher mais linda do universo habitava a terra. Diga-se de passagem, Afrodite ficou furiosa. Ela mandou seu filho, Eros, matar a mulher, se aquilo fosse verdade. — arregalou os olhos e Medea limitou-se a fazer uma careta em concordância com a indignação. — Acontece que Eros acabou se apaixonando por Psique, algo que não é surpreendente, quero dizer, você já viu essa mulher? Só que, como ela estava prestes a se casar forçadamente com um homem que não amava, Eros raptou-a e levou-a para o Olimpo, onde poderia cuidar dela, desde que Psique não saísse de casa para não ser descoberta por ninguém. Se isso acontecesse, Eros poderia até mesmo ser temporariamente expulso do Olimpo ou, quem sabe, algo pior. — A ninfa fechou a boca em uma linha e encarou com afinco o teto, lembrando-se da história de Prometeu. — Um detalhe importante é que Eros nunca se revelou na sua forma natural de deus enquanto estava com Psique, pois ele queria que ela se apaixonasse pela sua personalidade, não por sua aparência ou sua importância. A condição, portanto, era que Psique enxergasse Eros com outro corpo. Aparentemente, ele também não contou que a havia levado para o Olimpo. — abriu um sorriso sem graça ao pensar nas inúmeras coisas que poderiam dar errado a partir dali. — O plano de esconder Psique funcionou por quase um ano, mas era óbvio que não poderia durar para sempre. Ela sentiu saudades de sua família e pediu para Eros que pudesse vê-los. O idiota manteiga derretida disse que sim, então Psique desceu à Terra e conversou primeiramente com seus pais, que ficaram preocupados, mas respeitaram o desejo dela. O problema foi suas irmãs, que a questionaram sobre a veracidade de Eros. Elas não compreendiam o porquê de ele não poder se mostrar para Psique e convenceram-na de que aquilo era uma armadilha, que Eros fazia mal para Psique, que a mantinha em cativeiro, porque ele sentia ciúmes. Psique ficou tão magoada, que acabou cedendo à sugestão de matar Eros e fugir, achando que realmente estivesse em um tipo de plano maligno.
— Mas eu achei que eles estivessem apaixonados.
— Acho que estavam — Medea estreitou os olhos. Não se lembrava muito bem. A verdade é que não havia participado da história. Na época, ela só frequentava o Submundo. — Bom, o tempo não poderia ter sido pior. No mesmo dia que Psique resolveu aguardar Eros com uma adaga, foi o dia em que ele resolveu revelar sobre seu relacionamento proibido para Afrodite, sua mãe, e para Zeus, que determinaria o destino de ambos a partir de então. Eu tenho quase certeza de que Afrodite deve ter oferecido uma de suas ninfas assistentes para ser secretária de Zeus em troca de ele aceitar o relacionamento de seu filho com Psique. Elas são reconhecidas pelas belezas ímpares entre nós.
— Você está me dizendo que foi nesse dia que ele resolveu aparecer em sua verdadeira forma para Psique?
— Sim, ele achou que ela finalmente estava apaixonada pela pessoa que ele era. Eros pediu para Hera a autorização de um casamento e Zeus presenteou Psique com a imortalidade para que o mais novo casal pudesse viver junto para sempre e toda essa baboseira ridícula. Deve ter sido triste ter voltado para casa, para essa casa, e ver Psique segurando uma adaga com a intenção de enviá-lo diretamente para o Submundo.
— Não é à toa que ela reformou a casa — ergueu as sobrancelhas. — Tudo aqui devia lembrar Eros. Se Psique realmente o amava, deve ter sido muito difícil para ambos.
— Eu não sei o que aconteceu depois disso. Não fiquei muito interessada no drama que veio em seguida. — Medea suspirou e sentou-se sobre a cama. — Acho que eu devo ir. Ártemis pode sentir minha presença e eu sei que ela não vai com a minha cara.
— Por que diz isso? — franziu o cenho, interessada, e levantou da cama, caminhando em direção ao banheiro.
— Digamos que eu sem querer roubei o arco de prata dela.
— Você roubou algo de uma deusa? — parou subitamente e olhou para trás, encarando a amiga. Não sabia o grau de ruindade que isso representava, mas entendia que não era algo sensato.
— Você não deveria achar ruim, foi assim que eu te conheci. A minha punição foi ter que ser sua babá naquele lugar horroroso que você chama de terra natal.
— Sempre tão sutil — a deusa da primavera balançou a cabeça em negação, mesmo que carregasse um sorriso, e Medea a acompanhou, já indo em direção à porta do quarto para voltar para sua casa.
— Mas agora é sério, com o que você trabalha? — perguntou, divertida, antes de entrar no banheiro.
— Sou secretária da Hécate.



— Átropos, Láquesis, venham aqui — Cloto chamou suas irmãs. Estava incrédula com as imagens projetadas na tela. — Venham ver isso.
— O que aconteceu? — Láquesis aproximou-se com sua fita métrica na mão e a apoiou sobre a mesa para poder prender seus cabelos ondulados prateados em um coque.
— Essa é a... — Átropos começou a falar, parando de afiar sua tesoura. Havia acabado de usá-la para cortar seu cabelo curto e liso, também prateado, ainda que essa não fosse sua usual função.
— Sim — Cloto interrompeu-a com um sorriso sombrio no rosto.
Não haviam pessoas mais qualificadas do que as três irmãs Parcas para esse trabalho no Submundo. Agraciadas com o dom da morte, eram elas quem decidiam quando a vida do homem cessaria. Como se o poder de controlar a linha tênue entre o efêmero e a eternidade já não bastasse, também possuíam a habilidade de prever o futuro, tornando-as fontes de oráculos, uma dádiva que era limitada a poucos titãs e deuses.
Bastava que apenas cortassem o rolo de filme, provido por Cloto e medido por Láquesis, com a tesoura de Átropos e a alma deixaria o corpo, dirigindo-se ao mundo das sombras. Embora a aparência jovial das três miúdas Parcas chamassem atenção, sobretudo por causa de suas mechas na cor do mais polido metal e da pele azulada intacta, as Parcas eram deusas milenares, ainda mais arcaicas que Cronos, o deus do tempo.
— E esse é o... — Láquesis levantou uma das sobrancelhas, chocada com a cena projetada sobre a tela.
— Sim — Cloto respondeu, satisfeita.
— Deveríamos chamar Hades.
— Não, Átropos — Cloto sorriu e balançou a cabeça de um lado ao outro com lentidão. — O oráculo ainda não deve ser revelado.
— Mas, irmã, nunca tivemos uma deusa da fertilidade antes. Pelo menos não uma que pudesse... fazer isso. Hades precisa saber. — Láquesis quem interveio, preocupada, dessa vez.


— Eu lhe deixo por aqui — Psique sorriu, carinhosa, e deu uma última olhada nas roupas de .
A deusa da primavera usava um longo vestido de seda branco, com detalhes dourados, parecido com o que Psique vestiu a primeira vez que vira . Em sua cabeça, uma coroa de flores delicada, nos pés, um salto branco e nos pulsos, adornos em ouro.
— Eu realmente tenho que vestir isso? — perguntou, sentindo-se estranha.
— Enquanto estiver na Terra, sim. No Submundo e aqui, não. Deméter é meio chata com essas coisas — Psique sorriu, satisfeita com a aparência da mulher em sua frente, e começou a empurrá-la para dentro da estação de metrô do Olimpo. — Lembre-se de descer na saída certa. Eu lhe encontro em casa na hora do almoço, tudo bem?
Sem ter tempo para protestar, foi empurrada pela enorme multidão de pessoas que estavam a caminho do trabalho. Não seria surpresa dizer que ela atraiu muitos olhares, não somente pelas vestimentas incomuns ou pela beleza extraordinária, mas por ser uma grande novidade no Olimpo. apenas retribuiu com um sorriso tímido o olhar das ninfas. Pôde jurar que ouviu umas pessoas cochichando sobre ela ser a “nova Perséfone”, algo que não foi muito agradável de se escutar, justamente por causa do tom julgador. Quando se deu conta, a sua cabine, uma vez lotada, agora estava vazia e o frear gradativo do trem denunciava que ela havia chegado em seu destino, a Terra.
! — uma Deméter extremamente feliz a recebeu na estação de metrô, que, de maneira bizarra, dava direto para o meio de um campo florido com uma floresta ao fundo.
olhou ao seu redor, não sabia identificar onde estava. Havia algumas ninfas rosas de orelhas pontudas como as de Medea atrás da deusa da agricultura que estudavam com um olhar muito curioso e sorriam, tímidas. O resto do cenário era literalmente o meio do mato. Onde diabos ela estava? Em que país estava? Arregalou os olhos quando Deméter se aproximou e segurou-a pelas mãos de um modo materno.
— Que bom que está aqui. Vamos começar as tarefas do dia — Deméter sorriu, gentil, e se virou de costas para começar a andar.
não deu um único passo para acompanhá-la, mas foi necessário somente um gesto de cabeça de uma das ninfas e ela apressou-se para alcançar a mulher de longos cabelos verdes escuros, que falava rápido demais para oito horas da manhã. Isso a fez estreitar os olhos e pensar que certamente não lembraria um terço das coisas que Deméter pedia.
— Você vai tomar conta da primavera, o que significa que passará seis meses do ano na Terra, três no hemisfério norte e três no sul, tudo bem? — Deméter perguntou, mas não teve tempo de responder. — Sua tarefa é básica, trazer e manter a primavera na Terra. Para isso, preciso que você aprenda a controlar suas emoções muito bem. Muito bem. — A deusa da agricultura sorriu com os olhos arregalados, em uma tentativa — com êxito — de deixar desconfortável. — Erros não são tolerados, os humanos dependem de nós. Isso quer dizer que, se você estiver cansada, não vai ter energia o suficiente para florescer o que precisa, se estiver triste, não vai ter ânimo para manter as flores polinizadas, se estiver brava, o solo não será fértil e, se estiver irritada, ervas daninhas são os únicos produtos possível, entendeu? Existem outros milhares de sentimentos que podemos colocar na lista, mas agora não temos tempo de fazê-lo. Espero que você sempre esteja com um humor impecável. Preciso também que você aprenda a lidar com a dor.
— Lidar com a dor? — fez uma careta preocupada e arregalou levemente os olhos, alternando a vista entre a trilha pela qual andava e uma Deméter sorridente.
— Claro, querida, a dor. — Então a deusa dos cabelos verdes parou de súbito e aproximou-se do rosto de , ficando a dez centímetros dele. — Toda vez que alguém serrar uma árvore, você vai sentir; até o pequeno arrancar de uma folha saudável, você sentirá. — Ela pôs-se a andar com seu sorriso radiante de volta. — É um pouco preocupante que você ainda não tenha sentido isso, seus poderes devem estar muito elementares. Presumo que isso mude já na semana que vem e espero que você saiba lidar com a dor, caso contrário, contate o filho do Hades e da... pensando melhor, não há necessidade de contatar ninguém.
— O quão ruim é essa dor? — perguntou enquanto se virava de costas para observar as três ninfas que as seguiam.
— Depende do quanto você se importa com a primavera.
Só naquele momento, percebeu o quão intimidadora Démeter era. O porte rígido, o vestido justo branco impecável, o coque sem um fio sequer fora do lugar, o sorriso forçado, embora com um toque de contentamento, o queixo empinado, os saltos finíssimos pisando sobre a mais pura terra, a coluna ereta. Tudo indicava um ar autoritário que fez sorrir, levemente desesperada, quando percebeu que ela teria que trabalhar com Deméter pelos próximos sabe-se lá quantos meses. Algo no jeito que a deusa da agricultura a olhava fazia sentir um incômodo no estômago. Talvez fosse seu corpo pedindo para que tomasse cuidado.
— Ótimo, vamos começar — Deméter sorriu abertamente e ergueu a mão em direção à uma das ninfas que as acompanhavam.
Foi-lhe dado um enorme facão afiado, o que fez engolir em seco e, de imediato, questionar-se o que ela faria com aquilo. Mal deu tempo para se preparar ou sequer desenvolver alguma teoria e Deméter, com um único golpe certeiro, passou a lamina através de uma das árvores do local, fazendo a tora cair inerte sobre o solo em um som opaco.
Aquilo gerou uma dor instantânea no coração de , como se mil agulhas o atravessassem. Ela imediatamente sentiu uma falta de ar enlouquecedora, o oxigênio não chegava mais ao seu pulmão e ela não conseguia nem pronunciar um gemido de dor. Precisou estender uma mão para se apoiar na árvore mais próxima, enquanto a outra pousava sobre seu peito. O sufocamento era aterrorizante. Jurou que também não sentia as pernas e cederia. Por que diabos sentia tanta dor? Queria arrancar seu coração fora!
— O que... o que você fez? — perguntou em um fio de voz, gruindo.
As ninfas carregavam uma expressão de dó, mas receberam um comando explícito de Deméter para não ajudar. Olhar a deusa da primavera naquele estado tornava aquele trabalho cinquenta vezes mais difícil e elas não conseguiam esconder o semblante de incômodo. Foi só quando voltou a respirar aos poucos que as ninfas retomaram a tranquilidade.
— É dessa dor que eu estou falando — Deméter abriu um sorriso falsamente inocente. — Agora reconstrua a árvore.
— O quê?

Capítulo 4

— Pelos deuses! — Psique ficou boquiaberta ao se deparar com sentada na bancada da cozinha, que comia uma fruta qualquer que encontrou na geladeira. — O que aconteceu com você?
— Está tão ruim assim? — a deusa da primavera sorriu, sem graça, embora soubesse exatamente como estava. Deméter não havia adotado a metodologia de pequenas conquistas, muito pelo contrário, nunca precisou evoluir tão rápido. A deusa da agricultura não hesitou um segundo sequer quando o assunto era aprendizado prático. Passara o dia arranjando maneiras de desenvolver um reflexo de defesa na deusa da primavera e, para isso, precisou de meios criativos para causar dor, algo que claramente não agradava , mas que era necessário.
Ela sentiu que seu coração havia dilacerado pelo menos dez vezes nas últimas quatro horas. Não poderia negar, no entanto, que havia sido efetivo. Sentia que estava mais apta a filtrar as dores, apesar de algo dentro de si lhe alertar que elas não poderiam ir embora por completo.
Havia um quê natural de disciplina escrita nas linhas da íris de Deméter. Um sentimento de compaixão foi inevitável quando percebeu que a deusa da agricultura havia tido uma criação tão dura quanto dava, mas, a julgar pelo comportamento reservado, aquilo nunca seria admitido.
— O que aconteceu com o seu vestido? — Psique ergueu a barra rasgada da roupa, ainda em choque. A última coisa que esperava no momento era que voltasse para o Olimpo como se tivesse sido arrastada pelo trem e não entrado no trem. — E sua coroa de flores?
— Bem, eu...
— E seu rosto... você chorou? — Psique franziu o cenho e, sem delicadeza alguma, puxou a cabeça de para que pudesse enxergá-la mais de perto, o que quase a fez cair da bancada. — O que a Deméter fez?
— Está tudo bem, só estou um pouco cansada. Estou aprendendo a controlar a dor.
— Por Héstia, não há condições de você continuar o dia assim — Psique suspirou pesadamente e balançou a cabeça em negação. — Vá tomar um banho, vou avisar Hades que não será possível começar o estágio hoje.
— Eu estou bem, não se preocupe.
— Você vê isso? — Psique apontou para a sua expressão cética. — Isso é o quanto de credibilidade eu coloquei nas suas palavras. Eu moro aqui há mais de um milênio, , eu sei o que a dor causa nos deuses. Não estamos falando de um corte superficial, eu diria que deve ter sido algo mais parecido com uma faca sendo enfiada no seu coração.
— É uma boa descrição... — concordou com um leve aceno de cabeça.
— Agora vá tomar banho. Vou escrever uma carta para Hades explicando tudo. — Psique fez um gesto com as mãos para apressar . — E descanse à tarde. Eu tenho que voltar a trabalhar quando meu horário de almoço acabar, mas, se precisar de algo, chame a Ártemis.
Sem mais delongas, apenas obedeceu à Psique e foi para seu quarto. Não demorou muito para que ela tomasse sua ducha, pois a única coisa que seu corpo pedia era que se deitasse na cama para que ela dormisse profundamente. Assim que saiu do banheiro, pegou a primeira roupa que viu no closet, um vestido confortável e curto e desceu as escadas degrau por degrau, torcendo para que Psique não precisasse da ajuda que estava prestes a oferecer para que pudesse retornar ao seu quarto o quanto antes. Sentiu seu corpo ficar mais pesado à medida que o tempo passava. O cansaço execrável finalmente lhe atingira.
— Psique, você precisa de ajuda com a car...
teve que parar a frase no meio quando se deparou com um homem de cabelos cacheados vermelhos e belas asas parado em frente à porta de entrada da casa. Psique entregava-lhe uma carta, mas foi obrigada a fitar quando percebeu por que Hermes estava estático. O deus encontrava-se extasiado e não conseguia desviar o olhar por mais que tentasse, embora não quisesse. , por outro lado, encarava-o com ingenuidade, encantada pelas grandes e delicadas asas de plumas brancas.
Enquanto descia os últimos degraus, Hermes jurou que ela flutuava graciosamente. Ele ousaria dizer que exalava uma aura angelical atípica, nunca esteve tão impactado. Pegou-se preso no sorriso gentil e uma serenidade instantânea invadiu o ambiente, algo que ele teve certeza ser uma característica particular que somente a deusa da primavera poderia trazer. O sorriso que lhe era peculiar apenas aumentou, assim como o bom humor inerente, agora entendia por que tinha uma atração reprimida por . Questionava-se quem não tinha.
, esse é Hermes, o mensageiro — Psique apresentou-o com o cenho franzido, achando estranho o fato de Hermes fixar abertamente seu olhar em .
— Muito prazer. — A deusa da primavera manteve o sorriso gentil e parou ao lado de Psique. — Como você está?
— Sim — Hermes respondeu sem pensar muito nas palavras automáticas que saíam de sua boca.
— Tente babar um pouco menos, ok? — Psique olhou de relance para seu relógio e ergueu mais uma vez a carta, dessa vez mais impaciente. — Eu estou atrasada. Preciso que entregue isso a Hades o mais rápido possível, tudo bem? — Sem ao menos esperar uma resposta, ela saiu da casa, deixando Hermes e para trás.
— Por Zeus, Afrodite irá surtar — o mensageiro abriu um sorriso divertido, como se voltasse à realidade. — Eu preciso estar perto de você quando isso acontecer. Afrodite tem os melhores surtos. Eu levo a pipoca e você a bebida.
— Tudo bem — deu uma leve risada, sem entender muito bem o que ele dizia. — Quer entrar?
— Só Eros saberia dizer o quanto eu adoraria, mas preciso terminar meu turno — Hermes apontou para a carta de Psique.
— Bom, posso, pelo menos, lhe oferecer uma garrafa d'água? — a deusa da primavera sorriu, acolhedora, e os olhos do mensageiro brilharam.
Ele já estava ansioso para encontrar Eros e no final do dia e dizer que, além de muito bonita, também era gentil. Agora a ideia de atingi-la com uma flecha de ponta dourada já não lhe parecia absurda como quando Eros havia sugerido.
— Não precisa, muito obrigado. Você já conheceu a cidade? As pessoas?
— Psique foi extremamente atenciosa e receptiva e me mostrou um pouco da cidade, mas ainda não tive a oportunidade de conhecer muitas pessoas.
— Nós podemos sair hoje mais tarde, posso lhe apresentar para alguns amigos. Tenho certeza de que e Eros estão curiosos para lhe conhecer.
— Isso é muito gentil, mas acho que não estou muito confortável para sair hoje — respondeu ao lembrar que prometera a Psique que ficaria longe de . O semblante levemente tristonho de Hermes, no entanto, denunciava sua decepção súbita, o que originou um compadecimento anormal, como se uma carga intensa de compaixão crescesse dentro de si. — Mas, se quiser, você pode vir aqui para jantar comigo e com Psique.
— Perfeito! — Hermes voltou a sorrir, contente, de um segundo ao outro. — Nos vemos às... oito horas? Oh, antes que eu me esqueça, aqui está seu convite para a comemoração centenária do casamento mais importante da Tríade Real. — Então o mensageiro entregou um envelope azul de adornos dourados para a .
Antes mesmo que ela pudesse expressar qualquer reação, Hermes abriu suas grandes asas e só foi preciso uma batida para que ele já estivesse fora do alcance de vista da deusa da primavera. Era rápido, ela tinha de admitir. apenas balançou a cabeça e fechou a porta, dirigindo-se logo em seguida para seu quarto enquanto lia o papel em suas mãos.
— Caríssima , é com enorme prazer que a convidamos para celebrar mais um centenário de nosso amor matrimonial eterno. — franziu o cenho ao pronunciar as palavras. Não esperava que fosse da natureza de Hera ser tão receptiva ou cordial. — A comemoração... hm, nada de importante nesse parágrafo... importância do casamento... felizes por recebê-la... traje social... amanhã, às sete horas da noite. — Virou o convite para verificar se havia algo no verso, porém a única coisa com a qual se deparou foi um desenho em finas linhas douradas do que ela julgou ser Zeus e Hera um ao lado do outro. — Até que são fofos. E o convite é bonitinho.


— Não acredito que você fez isso! — mal conseguia respirar enquanto tentava segurar o riso e engolir o vinho ao mesmo tempo.
— Não é como se tivesse sido por querer — Medea revirou os olhos e recostou-se na cadeira.
— Mas é claro que foi por querer — Hermes retrucou com um tom de obviedade e Psique balançou a cabeça em concordância ao mesmo tempo que dava a última garfada em sua sobremesa. — A sua sorte é que Hécate gosta muito de você e lhe defendeu, caso contrário você estaria sem seus olhos se dependesse de Hades.
— Outch. — A careta de dor no semblante de foi inevitável.
— Estou impressionada — Psique deu um sorriso divertido. — Não é qualquer um que acerta uma flecha de prata no bumbum do rei do Submundo.
— Bom, eu já sabia que eu seria punida por encontrar o arco de prata da Ártemis — Medea deu de ombros e tomou mais um gole de sua taça —, e eu tinha que provar para a idiota da Elísia que eu era boa de mira.
— Então, realmente foi intencional. — ficou boquiaberta com a audácia da amiga.
— Pelo menos foi com a flecha de prata. — Hermes ergueu as sobrancelhas. — Imagina se fosse com uma das flechas de Eros, você teria causado um caos.
— Como assim? — a deusa da primavera franziu o cenho, sem entender o que o mensageiro havia insinuado.
— Eros possui flechas especiais. — Dessa vez, Psique quem respondeu e não pôde deixar de ficar surpresa com a serenidade e o conforto em sua voz, ainda mais depois de ouvir sobre sua história no dia anterior. — As flechas com pontas de ouro fazem você se apaixonar perdidamente e as com ponta de chumbo, odiar profundamente.
— Hades é casado com Perséfone, não? — perguntou ao se apoiar na mesa. — O que aconteceria se Hades fosse atingido pela flecha com ponta de ouro? Ele amaria ainda mais Perséfone ou se apaixonaria por outra pessoa?
— Eu diria que nenhum dos dois — Hermes sorriu, esperto, e deu uma piscadinha divertida ao se recordar do casal. — Não existe criatura no universo que Hades goste mais do que de Perséfone, é deusamente impossível que se ame mais do que isso. Eros disse que é um dos amores mais puros e genuínos com o qual já se deparou.
— Mais puro que Apolo e Dafne? — como quem encarava um desafio, Medea ergueu a sobrancelha, sugestiva.
— Não vale se não for espontâneo — Psique interveio.
— Espontâneo? — encarou a ninfa vermelha, buscando uma explicação.
— Digamos que Apolo só ama tanto Dafne, pois ele foi atingido por uma flecha de ponta dourada. — A ninfa fez uma careta de incômodo. — Mas acabou não sendo tão ruim que eles não tenham dado certo. Quero dizer, Dafne era insuportável — Medea revirou os olhos ao lembrar do jeito exacerbadamente gracioso e generoso da ninfa rosa, que lhe irritava. — Urgh.
— Dafne era um amor — Psique sorriu, divertida, balançou a cabeça em negação e fitou seu prato vazio sobre a mesa de jantar. — Ela era uma das ninfas que trabalhavam com Deméter. Apolo e ela poderiam ter dado certo, se o incidente não tivesse acontecido.
— Que incidente? — franziu o cenho ao perceber que todos na mesa tencionaram os ombros. — O que aconteceu?
— Zeus matou o filho de Apolo — Hermes engoliu em seco e passou a mão sobre a nuca, incerto para onde olhar. — Apolo não ficou muito contente e resolveu se vingar. Então ele matou os ciclopes, os criadores dos raios, e isso enfureceu Zeus.
— Apolo foi julgado por Hera no Palácio da Corte — Psique continuou. — Sua sentença foi uma expulsão de um ano do Olimpo, mas Zeus não se contentou com a punição e obrigou Eros a atingir Dafne com uma flecha de ponta de chumbo. — já não conseguia esconder a expressão de surpresa. — Dafne parou de amá-lo no segundo seguinte e o repúdio começou a ser cativado, somente para se tornar insuportável, pois Apolo começou a perseguir Dafne para onde quer que ela fosse, na esperança de que um dia ele a tivesse de volta.
— Dafne ficou tão cansada disso que pediu para Zeus transformá-la em um loureiro — Hermes voltou a falar, agora com a voz um pouco mais carregada. — E o grande deus do raio o fez, agraciando-a com a forma de uma coroa de louros que Apolo usa até hoje.
— Afrodite e Adônis? — Medea, sem afeto nenhum pelo relato, manteve a expressão entediada.
— Ok, talvez eles dois concorram para o pódio de amor mais puro e genuíno — Hermes cedeu e balançou a cabeça em concordância.
— Por que Zeus matou o filho de Apolo? — sem se conformar com a mudança de assunto, apenas perguntou, curiosa.
— Talvez, essa seja uma história para outro dia — o mensageiro falou ao encarar seu relógio. — Está tarde e eu preciso dormir, tenho que acordar cedo para entregar as correspondências. Inclusive, o número de cartas aumentou muito desde sua chegada, sabia? — Hermes sorriu, animado, para , que se limitou a erguer as sobrancelhas e apontar para si mesma. — Sim, você. Não duvido que seja manchete dos jornais amanhã.
— Devo admitir que isso não é reconfortante. — deu um último gole em sua taça enquanto levantava da mesa para acompanhar Hermes até a porta.
— Eu preciso ir também. — Medea colocou seu casaco de couro preto. — Para começo de conversa, eu nem deveria estar aqui. — A ninfa se referiu ao jantar para o qual se autoconvidou para participar quando vinha visitar e se deparou com Psique e a deusa da primavera cozinhando algo que ela julgou ser sua próxima refeição. — E Hécate pediu para eu receber uns documentos. Eu não acho que final de semana seja uma expressão do vocabulário dela. — ela revirou os olhos e colocou seus óculos de sol, já na porta. — Urgh, às vezes eu odeio meu trabalho.
— Às vezes eu odeio o meu também — Hermes deu de ombros e respirou fundo. — Obrigado pelo jantar, nos vemos na festa. — Medea apenas acenou, apesar de Psique não saber dizer se foi um sinal de despedida ou sinal de indiferença, e não hesitou um segundo para começar a andar de volta para casa. Hermes, entretanto, foi mais carinhoso e deu um longo abraço nas duas. — Espero que tenham gostado do vinho.
— Estava excelente — sorriu, gentil, e o mensageiro sentiu sua face corar. — Obrigada.


— Fazia tanto tempo que eu não trazia alguém para jantar aqui em casa — Psique suspirou, inclinou o torço para trás e apoiou-se em seus antebraços, sentada na bancada da cozinha. — Esqueci como isso é bom.
— Realmente foi divertido — concordou, terminando de lavar a louça. — Mas fiquei em choque com a história de Dafne e Apolo. Como pode alguém ser privado do amor dessa maneira?
— Inclusive, sobre relacionamentos, não me lembro a última vez que Hermes ficou tão encantado com alguém — Psique sorriu, insinuante.
— Não seja boba, Ártemis estava certa, ter alguém novo no Olimpo depois de milênios é só uma quebra de rotina. Daqui a pouco ele volta a ser o Hermes que você conhece.
— Sabe, Hermes não faria um par ruim.
— Se eu soubesse que você tentaria me arranjar um marido no dia seguinte à minha chegada, talvez eu repensasse sobre fazer amizade com você — virou-se de costas para a pia, encarou Psique e riu divertida.
— Você vai viver eternamente, que pelo menos seja ao lado do amor. Sob o pesado fardo do amor eu afundarei. É um ditado famoso por aqui. Todos no Olimpo estão fadados a amar, é quase como uma lei natural, como se você nascesse predestinada a se apaixonar por uma pessoa em específico. Bom, aparentemente, as exceções são Zeus e Poseidon. — Então Psique apenas sorriu, tímida, e saiu de cima da bancada em um pulo, dirigindo-se até a escada. — Acredite, você pode ter quem quiser com esse rostinho e essa habilidade natural de deixar todos confortáveis à sua volta. — Ela parou no meio de um degrau e voltou a encarar . — Você é agraciada pelo dom único da gentileza casta e da vivacidade, estar perto de você é como deitar em um campo de tulipas, por mais estranho que isso soe. Qualquer homem seria o mais feliz do Olimpo em lhe chamar de esposa, então, escolha bem, pois opções não lhe faltam.
— Eu lhe contarei quando encontrar a pessoa certa.
— Estou com medo de que você já tenha encontrado — Psique sussurrou e sorriu, sem graça, ao se lembrar do dia anterior.


— Psique, você não acha que esse vestido está muito justo? — O sorriso tímido demonstrava o incômodo de .
As curvas marcadas pelo traje repleto de diamantes evidenciavam uma beleza excepcional, como Psique havia frisado o caminho todo até a mansão de Hera e de Zeus. Quase inevitavelmente, a natural delicadeza somada ao acanhamento de deixavam uma nuvem de cortesia sobre ela. A deusa da primavera, no entanto, procurava por um pouco mais de discrição no momento. Não estava confortável em chamar atenção em frente à dezenas de deuses que ela ainda não conhecia, mas estava prestes a fazer uma entrada triunfal, se dependesse somente de sua roupa. O cabelo, agora colorido em coral e longo, com ondas graciosas, só destacava o constrangimento e ela tinha a leve impressão de que poderia cair a qualquer momento naqueles saltos exageradamente finos.
— Não seja tola, você está linda.
— Obrigada. De novo — riu, nervosa, ao encarar a fenda em sua saia, mostrando um pouco mais do que deveria.
— Aqui está o presente, você só precisa entregar para Hera — Psique sorriu, animada, estendendo-lhe um envelope, e basicamente empurrou a deusa até a escadaria de entrada. Antes mesmo que pudesse protestar, Psique apenas voltou a falar rápido na intenção de poder voltar para casa o quanto antes. A necessidade desesperada de não esbarrar com Eros era tudo que a guiava no momento. — Não deixe que Hera lhe intimide, tudo bem?
— Por que esse presente é tão pequeno?
— Isso é um vale presente. Hera sempre troca tudo que as pessoas dão, então essa é a melhor solução. Agora vai — Psique fez um bico, mantendo um semblante sério, e fez gestos com as mãos para que adentrasse o local. — Faça amizades e depois me conte todas as fofocas.
respirou fundo, precisou de uns segundos para tomar coragem e começar a pisar degrau por degrau na grande escadaria de mármore adornada por fontes modernas, cuja água escorria sobre a pedra, embora não tocassem no caminho. Divino, ela diria, ainda que ostentoso demais. Segurando sua saia para que não tropeçasse, ela parou em frente à imponente porta francesa de entrada, que foi aberta por dois gentis guardiões olimpianos. O que encontrou do outro lado, contudo, não foi a cena mais agradável que poderia recebê-la.
— VOCÊ SÓ PODE ESTAR BRINCANDO COMIGO, ZEUS! — Hera esbravejou e rangeu os dentes logo em seguida, apontando o dedo indicador para a face de seu marido, que apenas mantinha uma postura impaciente e um semblante sério. podia, literalmente, sentir a raiva que ela exalava, era como um pulsar em seu corpo. A pupila dilatada, os punhos fechados e os cabelos esvoaçantes denunciavam a ira que consumia a rainha do Olimpo. — Você não poderia ter escolhido um dia melhor, não é, seu idiota ingrato?
— É a minha natureza, Hera, mas você sabe que meu verdadeiro amor é você.
— VOCÊ ACHA QUE EU TENHO CARA DE IMBECIL, ZEUS? Eu quero ver o dia em que eu lhe trair para você perceber o quanto você me machuca.
— Você não faria isso, Hera. — O semblante austero do deus do raio agora tornara-se irritado.
— Não faria? — a deusa do casamento cruzou os braços e sorriu, desafiadora, inclinando levemente o torso para trás. A repentina mudança de humor atordoou um pouco , que não sabia se deveria dar meia volta ou entrar na casa sem fazer barulho e passar despercebida ou continuar parada ali. A terceira opção lhe parecia a menos tentadora e correta, porém seu corpo simplesmente não lhe obedecia, ela estava estática.
— Você não fará isso, porque eu lhe proíbo.
— URGH, VÁ PARA O TÁRTARO, SEU PEDAÇO DE DESCOMEDIMENTO! VOCÊ E A SUA PROLE EXECRÁVEL! Ninguém, Zeus, eu repito, ninguém deve ficar sabendo disso. Eu não vou tolerar que você manche meu nome mais uma vez. Tome conta dessa situação, caso contrário eu mesma darei um jeito nisso e você não poderá reclamar.
— Como você ousa falar assim com... — antes que pudesse concluir sua fala, o deus do raio franziu o cenho e olhou para sua direita, fitando com certa confusão inicial em seus olhos. — .
Hera, ainda irritada pela discussão inacabada, virou-se com uma expressão mortal sobre seu rosto. A deusa da primavera não poderia deixar de admitir, Hera era extremamente bonita, embora os modos coléricos que acabara de presenciar tirassem um pouco de sua polidez. Os cabelos longos e dourados agraciavam-na com um brilho esplêndido que chegava a ser ridículo. Os traços faciais sutis, embora claramente convictos, unido ao vestido vermelho sensual lapidavam uma das mais belas mulheres que já se criou.
A chegada da ilustre convidada gerou em Hera, de um segundo ao outro, um sorriso debochado, analisando dos pés à cabeça na velocidade mais devagar que conseguia. Algo em seu estudo, todavia, a fez estreitar os olhos. não se assemelhava à Perséfone e sequer exalava a mesma aura. A deusa do casamento sentiu-se inquieta com a natural calmaria que concebia ao seu redor, não gostou nem um pouco dessa influência que ela tinha sobre os outros. O encantamento de Zeus, em contrapartida, precisou ser reprimido enquanto estava ao lado de sua esposa. Não poderia esboçar qualquer tipo de admiração sem que Hera tivesse um colapso ali mesmo, apesar de não reprimir qualquer pensamento impuro que passasse por sua cabeça.
— Seja muito bem-vinda ao Olimpo, . — O sorriso, agora tranquilo, de Hera, impedia que a deusa da primavera conseguisse se sentir à vontade. Por um instante, preferiu o comportamento colérico.
— Muito obrigada — ela agradeceu e engoliu em seco logo em seguida, vendo o casal se aproximar. — Vocês têm uma bela casa.
— Eu sei — Hera respondeu, pomposa, e apoiou a mão na cintura. — Estamos... contentes que você veio.
— É um prazer finalmente conhecê-los. Ouvi coisas maravilhosas sobre vocês. — O olhar cínico de Hera fez se questionar se ela notara sua mentira. Zeus, no entanto, não parecia muito absorto na conversa, fitando a convidada atentamente, assim como Hermes fizera no dia anterior, algo que não passou despercebido pela esposa.
— Como foi a sua recepção no Olimpo? Está gostando da cidade? — a deusa do casamento inclinou a cabeça.
— Sim, é uma cidade encantadora. Utópica, eu diria. — fechou sua boca em uma linha ao sentir o incômodo do olhar constante e pesado de Zeus sobre si. — Vocês fizeram um excelente trabalho.
— Obrigada. — Pela primeira vez desde que chegara, Hera transpareceu um pouco de satisfação. — Já teve tempo de conhecer muitas pessoas?
— Ainda não, mas posso lhe garantir que todas as que conheci até agora são muito receptivas.
— Algum candidato para um futuro casamento? — Hera sorriu, dissimulada, com um claro tom de ironia escorrendo de sua voz. — Esse é o meu departamento, posso lhe conceder uma ajudinha se precisar.
— Bom, acho que ainda está muito cedo para...
— Afrodite me contou que Hermes e você se deram bem. Ele é um bom pretendente, não acha? — não pôde deixar de arregalar levemente os olhos ao ouvir aquilo. — Não se preocupe, eu cuido da papelada, você e Hermes darão um belo casal. Que tal fazermos uma cerimônia majestosa? Cinco vestidos, pelo menos dez madrinhas, trezentos convidados, um buffet impecável, um bolo de sete andares, com cinco camadas em cada um, no palácio da ilha sagrada de Aegina, do pico do sol ao anoitecer... Posso lhe passar o contato da minha melhor ninfa decoradora. Os arranjos centrais devem ter as mais belas flores, afinal, não é todo dia que uma deusa da primavera se casa. — Assim que ela terminou a frase carregada de coação, Zeus pareceu sair de um transe somente para encarar sua esposa com a testa franzida e um semblante confuso, um tanto decepcionado. Era óbvio que queria como uma de suas amantes. Hera, então, riu forçadamente. — É brincadeirinha, não se preocupe, nós não a podemos obrigar a se casar. — Naquele instante, já não sabia como reagir, apenas se limitou a dar uma risada fraca. — Só podemos negar o seu pedido matrimonial.
A única imagem que se projetava na mente de naquele instante era Hera colocando qualquer licença matrimonial que quisesse diretamente no triturador.
— Hm... err... onde fica o banheiro? — olhou para os lados. Nunca desejara tanto não estar em um lugar.
— No final do corredor, mas recomendo usar o do salão de comemoração — Zeus quem respondeu dessa vez, apontando para o caminho que levaria à festa.
— Ah, antes que eu me esqueça, feliz aniversário de casamento — sorriu, tímida, e entregou o envelope para Hera, que o abriu na hora sem cerimônia alguma.
— Até que não é tão ruim — Hera falou com um meio sorriso. Ainda não era conhecimento de , mas o vale presente era da loja de cristais favorita da deusa do casamento. Psique acertara com precisão.
— Muito obrigado — Zeus agradeceu com um aceno de cabeça.
Não foi necessário qualquer outro gesto para que começasse a andar à procura do salão de festas. A imensidão do local, no entanto, não parecia estar a seu favor. Ela passava por diferentes cômodos e corredores, mas sempre retornava ao mesmo lugar. Psique avisara-lhe sobre a síndrome de labirinto que a mansão de Zeus e de Hera possuía. Ela respirou fundo, traçando qualquer tentativa falha de criar um caminho que a levasse direto para a porta de saída ou para o salão principal da comemoração. Qualquer um dos dois conviria, apesar de, inconscientemente, ela torcer mais para a primeira opção. Depois de passar pela terceira vez pela mesma sala, resolveu que ficaria ali por alguns segundos até que criasse vontade de voltar a andar. Ou talvez só cativasse a esperança de que alguém fosse passar por ali. Seus únicos desejos eram que essa pessoa não fosse Zeus e que não fosse extremamente proibido pela privacidade que ela estivesse ali. Não gostaria de ser expulsa do Olimpo no seu terceiro dia.
Seu cérebro estava prestes a convencê-la de que ficaria perdida ali até o final da festa. Ou, talvez, até o final da eternidade, se não encontrasse uma saída. Sentou-se no longo sofá de cor creme e cruzou as pernas, observando os belos quadros nas paredes. Três em especial chamaram-lhe atenção. Eram retratos das famílias de Zeus, de Hades e de Poseidon ou o que se denominava a Tríade Real. As molduras eram feitas de ouro e as pinceladas eram suaves como uma pena, obras primas, não poderia negar.
No primeiro retrato posavam Hera e Zeus ao fundo, com sorrisos que ela julgara simpáticos demais para o casal que acabou de conhecer. Em frente a eles estavam seus três filhos legítimos, Hebe, Hefesto e Ares. No segundo retrato, Poseidon e Anfitrite seguravam um bebê. Os sorrisos pareciam genuínos dessa vez, porém Psique lhe avisara que Poseidon era somente uma versão um pouco mais discreta de Zeus. Talvez, fosse um efeito do recém-nascido, alegria genuína. Na terceira e última pintura, Hades abraçava Perséfone pela cintura, ele com um sorriso discreto e ela com um encantador e parecia estar entediado, embora mantivesse uma postura impecável. questionou-se como cada um dos três principais deuses foram parar exatamente onde estavam, governando os mares, o Submundo, o Olimpo e a Terra. Os poucos segundos de paz, no entanto, foram silenciosamente interrompidos quando alguém adentrou o local.
abrira a porta com a mão que não segurava o copo de whisky. As mangas arregaçadas da blusa social branca e botões abertos abaixo do colarinho apenas sugeriam o quão confortável ele estava, ao mesmo tempo que mantinha as maneiras naturais de seriedade. sequer deu mais que um passo cômodo adentro. Ele apenas encarou rapidamente dos pés à cabeça, sem esboçar qualquer reação senão a íris afiada. Ela ainda não sabia, mas ele se perguntou se aquele maldito vestido havia sido feito sob medida para enlouquecê-lo. Marcava as curvas da deusa da primavera como se fizesse jus ao divino. Teve que apertar um pouco mais os dedos sobre o copo de cristal para reprimir aquela pontada no estômago que o irritava. O bom humor não demorou milissegundos para se esvair depois disso.
, por outro lado, não sabia como reagir. A natureza gentil obrigava-a a iniciar uma conversa e lhe pedir direção, embora Psique tenha lhe encorajado a resguardar qualquer tipo de contato com . A indecisão a fez franzir o cenho, algo que não foi interpretado como um sinal de recepção por ele, porém o desabrochar de uma bela flor no cabelo de , perto de seu ouvido, sugeria o contrário.
— O que você faz aqui? — o deus perguntou, preservando o semblante provocativo, ainda que tentasse esconder qualquer traço de surpresa por encontrar ali.
! — uma voz feminina aguda soou no corredor e ele instintivamente fechou a porta atrás de si, evitando qualquer barulho que denunciasse sua localização.
A deusa da primavera ergueu uma das sobrancelhas e abriu um pequeno sorriso quase imperceptível.
— O que você faz aqui? — ela retrucou.
apenas sorriu, esperto, e recostou-se sobre a parede ao lado da porta. O revide apenas o fez ficar ainda mais interessado, algo que seu corpo alertava não ser bom, embora ele ignorasse a sensação. Deu um longo gole em sua bebida ao desviar o olhar da deusa da primavera e ela, por mais que devesse, não conseguia parar de o encarar. , mais do que estudada pelos seus olhos, sentia que tentava ler as entrelinhas, algo que a deixava um pouco exposta. Era aquela mesma sensação invasiva de que ele tentava ler os seus pensamentos.
— Como está Psique? — ele perguntou depois de cuidadosamente apoiar o copo em uma mesa de mogno ao seu lado e colocar as mãos nos bolsos da calça.
— Bem, eu diria. Ainda não posso afirmar com certeza, a conheço há pouco tempo.
— E como você está?
— Me adaptando — ela respondeu, sincera. — Na medida do possível.
— Não me parece que o Olimpo tenha sido inteiramente acolhedor.
— Digamos que a utopia é só um conceito. — não pôde deixar de pensar em Hera ou em Deméter naquele instante. fitava-a como se soubesse exatamente o que ela pensava e a deusa precisou desviar o olhar ao perceber que estava presa no semblante instigante do homem em sua frente. — A mudança às vezes causa um pouco de desconforto.
— Eu sei — respondeu, sereno. — Eu posso sentir.
— O desconforto alheio?
— A dor. — O sorriso lateral mantinha-se inabalável. Era quase perturbador o fato de ele dizer aquilo com tanta naturalidade, ainda que seu jeito fosse uma novidade somente para a deusa da primavera. — Deméter não é para qualquer um.
— Você sentiu a minha dor?
Embora o tom tenha sido curioso, não intencionava prolongar a conversa. A voz de Psique ressoava em sua mente como um teimoso lembrete do que lhe prometera. , entretanto, estava cativado demais pela sensação agradável que gerava na sala e ela, por mais que se convencesse do contrário, gostava do tom de voz aveludado do rapaz. Transmitia uma calmaria invejável, apesar do frio desconfortável começar a invadir o local.
— Eu realmente não quero atrapalhar o seu... hm... encontro. — levantou-se ao perceber que ele não responderia e ajeitou sua longa saia.
— Não se preocupe — sorriu de lado e desencostou-se da parede, o que fez a deusa da primavera parar no seu primeiro passo. — Você não está atrapalhando. E não deveria se retirar, fui eu quem entrei depois. Além do mais, minha passagem de saída acaba de chegar.
E, no segundo seguinte, Eros abriu a porta de maçaneta dourada pela qual entrara. Ele carregava uma expressão impaciente e sua primeira reação teria sido gritar com sobre Hebe, que o perseguia pela festa procurando pelo amigo, se não fosse pela presença claramente notória de outra pessoa no local. Aquilo foi o suficiente para que Eros se calasse imediatamente. O encantamento instantâneo por pesou muito mais do que qualquer gesto de reclamação, cuja existência se tornara insignificante ao fitar a deusa da primavera. Hermes havia sido completamente sensato em sua descrição, era, no mínimo, arrebatadora.
— Oh, wow... Oh... wow!
Ela não pôde deixar de notar que precisou segurar o riso com a falta de palavras de Eros e tossiu discreto para tirar o cupido de seus devaneios quando começou a ficar sem graça com o olhar prolongado sobre si. Ainda submerso na atratividade absurda que a deusa da primavera exalava, Eros balançou a cabeça para espantar os pensamentos. Quando finalmente voltou à realidade, sentiu aquela atração reprimida sobre , a mesma de dois dias atrás, algo que não poderia ser ignorado. Muito pelo contrário, a natureza espirituosa causava-lhe uma vontade quase necessária de provocação.
— Oh, sim. É inevitável — Eros abriu um sorriso dissimulado e alternou os olhares entre os outros dois deuses na sala, que franziram o cenho com a reação inesperada. — Vocês farão mini deuses. Lindos mini deuses.
Como se o véu do sarcasmo caísse sobre novamente, a risada foi irremediável. Ele balançou a cabeça em negação e cruzou os braços, encarando Eros com um ar de deboche. limitou-se a erguer uma das sobrancelhas, um pouco intrigada pelo jeito franco do rapaz. Achou graça no jeito bobo de Eros e em seu comentário, embora soubesse, pelos relatos de Hermes e de Medea, que ele costumava ter uma natureza um pouco mais ácida e confiante do que a que acabara de demonstrar.
— Você deve ser Eros — com o intuito de quebrar o silêncio que se instalara no local, sorriu, simpática, e começou a andar em sua direção para que pudesse cumprimentá-lo. — Muito prazer, sou a , deusa da primavera.
— Muito prazer, eu sou muito bonita — Eros percebeu o que falara e colocou a mão sobre a testa, enquanto a outra apertava a mão de , que deu uma leve risada. — Não foi isso que eu quis dizer. — Então, assim que se afastaram, ele inclinou a cabeça na direção de e começou a sussurrar, na intenção de ser o mais discreto possível. — Pelos deuses, não acredito que o Hermes tinha razão, achei que ele estivesse exagerando. Ela é bonita para caralho e ainda cheira como um mar de rosas.
— Eu... hm... eu consigo lhe ouvir — a deusa da primavera sorriu, sem graça. — Mas obrigada, eu acho.
— Peço desculpas pela má recepção, eu não sei me comportar em situações como essa — Eros passou a mão pelo cabelo rosa, bagunçando-o, e suas bochechas coraram.
— Você não sabe se comportar. Ponto — acrescentou, irônico, e sentiu o olhar cortante do cupido sobre si, que foi prontamente ignorado.
— O que faz aqui? Por que não está na festa? — Eros perguntou, curioso, para .
— Eu estava procurando por um pouco de paz — ela mentiu. O sorriso debochado de denunciava que ele sabia que a deusa não estava ali por simples e livre arbítrio. — Mas acho que já está na hora de voltar.
— Neste caso, você primeiro — Eros segurou a porta para que passasse.
— Muito obrigada — ela sorriu, gentil.
Apesar de estar com a estranha sensação de que carregava um olhar sobre suas costas, a deusa preferiu ignorar o pressentimento e começou a andar pelo longo corredor com altas pilastras de mármore, torcendo para acertar o caminho dessa vez.
— Você viu essa bunda? — Eros sussurrou e limitou-se a revirar os olhos, pegando seu copo para que pudesse sair dali.

Capítulo 5

— Hermes! — abriu um grande sorriso ao se aproximar do rapaz, que a recebeu com um abraço apertado. — Como você está?
— Eu já lhe contei que meu único relacionamento sério é o álcool? — Hermes sorriu, exageradamente simpático. — Você está linda! Que vestido incrível. — Então, ele segurou a mão de para que ela desse uma volta, algo que atraiu os olhares das pessoas ao redor. — Achei que não viria mais.
— Psique demorou para me convencer a sair de casa nesse vestido. — A deusa da primavera aceitou a taça de champanhe que um garçom lhe ofereceu. — Obrigada.
— Ela se perdeu quando chegou aqui — acrescentou com um sorriso debochado.
— Em minha defesa, esse lugar é muito grande. — encarou-o com um olhar desafiador.
Naquele instante, o deus desejou que ela não tivesse o feito, pois aquilo não somente aumentou o sorriso malicioso de Eros, como fora obrigado a trincar o maxilar para reprimir a sensação estranha que surgia em seu peito. Aquilo estava começando a irritá-lo. Irritá-lo até demais. Como se compreendesse o significado daquele desconforto de um segundo ao outro, sentiu uma leve repulsa por si mesmo. Patético.
— Claro — respondeu, ácido, e revirou os olhos, o que a fez franzir o cenho com a mudança repentina de tom de voz. — Espero que Creta não precise da primavera, porque você claramente não vai dar conta.
— Não se preocupe — Eros encarou-a de soslaio, quase sussurrando, e deu uma piscadinha. — É a natureza dele. Você se acostuma. Além do mais, ele está travado em uma batalha interna nesse exato momento.
— O que é Creta? — perguntou, confusa.
— Você não sabe o que é Creta? — franziu o cenho e revirou os olhos.
— Eu realmente não perguntaria se soubesse, não acha? — Embora a escolha de palavras não tenha sido a mais cortês, a nuvem de graciosidade da deusa da primavera amenizava quase que completamente a aspereza dos seus modos. , no entanto, não poderia deixar de admitir que o diálogo dissimulado vindo de alguém que parecia ser tão inocente lhe cativara a atenção.
— Creta é uma cidade na Terra — Eros falou, divertindo-se com a falta de conhecimento que tinha em relação aos acontecimentos históricos olimpianos.
— E é uma cidade especial, porque... — ela inclinou a cabeça na espera de receber alguma resposta.
— Talvez devêssemos ir para que você descubra sozinha — sugeriu, sério, com uma das sobrancelhas erguidas.
— Pelos deuses, Eros. Olhe isso — Hermes cutucou seu amigo e apontou para o outro lado do salão, para onde os quatro olharam. — Ares está acompanhando Afrodite mais uma vez.
— Eu não estou surpreso. Afrodite é muita areia para o caminhãozinho do Hefesto — Eros deu de ombros. — Ele deve sonhar em ser tão bom quanto Ares.
— Eu não sei quem é esse Hefesto, mas confesso que já estou um pouco triste por ele — falou, sem pensar, enquanto olhava o casal.
Afrodite era simplesmente extraordinária. Ela possuía longos cabelos loiros acobreados que flutuavam, como na bela pintura de Botticelli. Seus gestos eram contemplados por uma delicadeza ímpar. jurou que harpas e pássaros cantaram ao fundo quando a deusa do desejo riu na conversa que estava tendo. Já não soava absurdo que ela tivesse aparecido em uma concha vinda dos mares e que flores crescessem por onde passava. Afrodite era encantadora.
— Às vezes, eu também fico triste por Hefesto — falou, discreto, sem desviar o olhar do casal risonho. — Afinal, eles são casados.
— Ares e Afrodite? Eles são casados? — perguntou, sem conseguir parar de analisar a deusa do desejo.
— Afrodite e Hefesto.
— Mas eu achei que Afrodite tivesse algum tipo de relacionamento com Ares e que talvez Hefesto gostasse dela, mas não fosse correspondido.
— Afrodite — apontava sua taça de champanhe para cada uma das pessoas a quem se referia — é casada com Hefesto, mas ela teve filhos com Ares, embora seu verdadeiro amor tenha sido Adônis.
— Mas Hefesto e Ares não são irmãos? — a deusa da primavera franziu o cenho e arregalou os olhos logo em seguida. — Afrodite não é meia-irmã dos dois?
— Sim — respondeu, com certa naturalidade, e voltou a encarar . — Mas o que tem de estranho nisso?
— Oh, merda — Hermes sorriu, sem graça, e virou sua bebida em um único gole. — Ela está vindo. Afrodite está vindo para cá. Ajam naturalmente.
— Por que tártaros você está nessa posição? — Eros proferiu, incrédulo, ao encarar Hermes com o peito inflado, olhando para o teto e segurando o copo vazio na altura do ombro.
— Isso é o seu agir naturalmente? — riu e o mensageiro fechou o semblante.
— É por isso que você não sabe esconder segredos, Hermes — ergueu uma sobrancelha.
— Por que você está tão nervoso? — a deusa perguntou, curiosa.
— Porque ele fica intimidado pela beleza da Afrodite.
, você poderia, por favor, não me difamar assim? — Hermes sussurrou, indignado.
— O quê? — o deus do sofrimento e do prazer perguntou, fingindo perplexidade. — Eu acho isso tão... fofo.
— Você disse... fofo? — Eros imediatamente assumiu uma expressão de repúdio.
— O que está acontecendo com você? — Hermes falou, preocupado, e arregalou os olhos.
— Oh, eu sei o que está acontecendo com ele — o cupido abriu um sorriso malicioso.
Não foi necessário que sequer abrisse a boca para confrontá-lo, um olhar letal e afiado foi o suficiente para que o amigo fechasse a boca em uma linha e começasse a fitar qualquer outro ponto do local. Todos sabiam que aquele tipo de olhar vindo de era capaz de causar dor física por si só.
— Eros! Meu amado filho! — Afrodite colocou as duas mãos no maxilar do rapaz para que pudesse vê-lo mais de perto. — Que bom que veio.
— Oi, mãe — o cupido sorriu, gentil. — Oi, pai.
— Eros — Ares cumprimentou-o com um leve aceno de cabeça. — . Hermes.
— E você deve ser a . — Afrodite focou toda sua atenção na deusa da primavera, que sorriu, sem graça, ao perceber que todos a encaravam. A mulher parecia genuinamente encantada com os traços delicados da nova deusa. — Muito prazer em conhecê-la, sou Afrodite, deusa do desejo. Esse é Ares, deus da guerra.
— O prazer é todo meu. — Antes que pudesse pronunciar qualquer outra palavra, Afrodite voltou a falar, animada.
— Vejo que já conheceu meu garoto Eros. Lindo, não acha? Um belo partido. Ele foi votado um dos cinco deuses mais bonitos de todos os tempos pela LOGQ.
Eros arregalou os olhos e quase engasgou com seu champanhe quando ouviu as palavras saindo da boca de sua própria mãe.
— Sim, claro. Lindo. — O desconforto notável de fez segurar a risada, algo que não foi muito discreto, e ela precisou dar um leve chute em seu tornozelo por debaixo da saia para que ele retomasse sua compostura.
— Outch!
— Hm... — Afrodite estreitou os olhos e começou a estudar detalhadamente as expressões faciais da mulher em sua frente. De um segundo a outro, seu semblante passou de confuso para surpreso. — Oh, que interessante. — Um sorriso gentil surgiu em seu rosto. — Eu não estava esperando por isso. Quer dizer, eu jurava que era Eros.
— Desculpe, não estava esperando pelo quê? — a deusa da primavera franziu o cenho e começou a intercalar seu olhar entre uma Afrodite muito maravilhada e um incomodado.
— Querida, vou ali cumprimentar Hera e já volto, tudo bem? — Ares apontou para a esquerda com a cabeça.
— Não se preocupe, meu amor, eu vou com você. Terminei por aqui.
— O que foi isso? — Hermes perguntou, inquieto, quando o casal finalmente se afastou.
— Eu preciso de um drink... Não, eu preciso de seis drinks. Para quem mais será que ela fez propaganda de mim? — Eros suspirou e sequer hesitou em ir em direção ao bar. — Todo evento é a mesma coisa.
, olhe o bar. É a Celena que está fazendo os drinks — Hermes abriu um sorriso, animado. — Me espere, Eros, eu vou com você! — o mensageiro anunciou, fazendo gestos corridos com os braços, apesar de o cupido já ter sumido de vista dentre o amontado de pessoas.
— Hermes, você quer que eu vá com você? — sugeriu com um leve tom subentendido em sua voz.
O mensageiro pareceu ponderar a proposta por alguns segundos, porém, ao que tudo indicava, ele mudou de ideia no meio do caminho. Naquele instante, algo dentro de a fez entender a situação. Ela abriu um sorriso complacente e entregou sua taça ainda meio cheia para , que a segurou sem entender o gesto.
— Eu vou. — A deusa da primavera passou a mão sobre seu cabelo para ajeitá-lo.
— Eu não acho que seja uma boa ideia. — O próprio Hermes discordou.
— Confie em mim. — somente precisou piscar os olhos poucas vezes e abrir um sorriso terno.
— Eu não acho que o Hermes vai concordar com isso tão fá...
— Tudo bem — o mensageiro balançou a cabeça em concordância.
— O quê?! — perguntou, incrédulo, e estreitou os olhos. — Como você se vendeu tão rápido?
— Eu não poderia dizer não para ela.
— Nos deseje sorte! — a deusa da primavera sorriu para e a sensação irritante em sua barriga o fez fechar o semblante.
— Você pode me trazer um whisky puro? — ele ergueu a taça dela que ainda segurava. — Por favor.
— Claro.
— Ele acabou de dizer por favor? — o mensageiro arregalou os olhos ao fitar a deusa ao seu lado.
Assim que e Hermes começaram a andar em direção ao bar, ela percebeu que ele engoliu em seco. Era visível que ele estava nervoso e não pôde deixar de achar aquilo uma graça. O sorriso simpático que lhe era peculiar poderia transmitir a imagem de alguém tranquilo, porém, naquele instante, ele não era o suficiente para mascarar sua ansiedade.
A deusa da primavera não saberia dizer se Celena era o que Psique se referiria como o “Sob o pesado fardo do amor eu afundarei” de Hermes, já que o mensageiro também não parecera confortável perto de Afrodite, que ela não acreditava ser sua cara metade. Talvez, fosse apenas uma pessoa pela qual Hermes tinha uma atração.
— Ok, você vai para um canto do bar e eu vou para o outro — ela começou a falar rápido. — Eu preciso fazer meu pedido antes de você, entendido? — o mensageiro concordou com a cabeça. — Agora, me dê sua gravata.
— O quê? — ele olhou, confuso, para .
— E abra pelo menos um botão dessa sua camiseta — ela apontou para seu colarinho. — Você está tão nervoso que sua cara inteira está vermelha.
— Oh. — Hermes se apressou a tirar a gravata e estendeu-a para a deusa, que jogou o objeto para trás sem hesitar. — E agora?
— Agora você vai para o seu canto — apontou para o lado oposto de onde ia. Ela colocou seus longos cabelos atrás dos ombros e abriu seu melhor sorriso.
O plano estruturado em sua mente parecia primoroso até ela se aproximar do balcão e notar a presença de duas ninfas fazendo os drinks no bar. não soube dizer qual era Celena. Por alguns segundos, ela entreolhou ambas, porém ainda assim não conseguiu identificar. A deusa da primavera inclinou levemente seu corpo para a direita à procura de Hermes. Quando o encontrou em meio a várias pessoas do outro lado do bar, arregalou os olhos e começou a fazer gestos discretos com os braços para chamar a atenção do mensageiro.
— Qual delas é a Celena? — perguntou, baixo e devagar, para que Hermes pudesse ler seus lábios. Ele, no entanto, apenas reagiu com uma careta confusa. — CE-LE-NA. Qual delas é a Celena? — ainda que falasse o mais alto que podia, Hermes não a entendeu, então suspirou e voltou a se apoiar no balcão, desistindo de tentar se comunicar com o mensageiro.
— O que você gostaria de beber esta noite? — uma das ninfas, a de olhos redondos, orelhas pontudas e tom de pele azul esverdeado, abordou-a enquanto enxugava uma taça.
— Boa noite — sorriu, gentil, torcendo para que essa fosse a tal de Celena. — Eu gostaria de um Dry Martini, por favor... Ah! E um whisky puro.
— Excelentes escolhas, minha deusa — a ninfa sorriu de volta.
— Muito obrigada — estendeu seu palmo na altura do ombro e concentrou-se fixamente em sua mão até que uma azaléia vermelha surgisse ali. A deusa da primavera ofereceu a flor para a ninfa, que sorriu, encantada. — Aqui. Coloque no seu cabelo, vai ficar incrível.
— Obrigada.
— Mas acho que você nem precisa da flor para chamar ainda mais atenção.
— Desculpe, o que disse? — a estranha perguntou, confusa, enquanto colocava o gim e o vermute na coqueteleira.
— Eu acho que aquele deus ali está de olho em você — apontou com a cabeça para Hermes e a ninfa virou de costas discretamente para ver de quem a deusa falava.
— Ah, sim... Hermes...
— Você é tão sortuda.
— Sou?
— Claro! Sabe, deusas como eu morreríamos por ter Hermes como nosso amante... ou namorado... ou marido. Quer dizer, olhe para ele, tão bonito e elegante.
— Sério? — Celena franziu o cenho, parecia começar a demonstrar interesse.
— Com certeza. Não somente ele é filho do grande Zeus, mas ele é mais rápido que o próprio vento. O que eu não daria para que ele prestasse atenção em mim, mas eu sei que não sou boa o suficiente para alguém como Hermes. Você é realmente muito sortuda.
— Bom, ele não é de todo ruim. — Celena inclinou a cabeça ao encarar Hermes, que ficou surpreso ao perceber que a ninfa o analisava. — Ele é um semi-deus...
— Uhum... — sorriu esperta. — Praticamente um deus, já que ele mora aqui no Olimpo.
— Verdade. E ele é bonitinho...
— Muito bonito.
— E ele tem um trabalho bom.
— Sim — a deusa da primavera concordou, com um sorriso alegre, ao perceber que Celena, agora, parecia genuinamente interessada. — Ele entrega cartas, isso é muito importante.
— E ele envia os sonhos criados pelos deuses aos mortais e guia as almas dos mortos para Hades.
— Sério? — franziu o cenho e a ninfa virou-se para fitá-la. — Quero dizer, sim, ele leva os sonhos e guia as almas, você quer algo mais completo do que isso? Urgh, ele é perfeito. — Então, quando Celena se virou uma última vez para trocar olhares com Hermes, fez um pequeno sinal de aprovação com as mãos, algo que fez o mensageiro sorrir, animado. — Eu acho que ele quer pedir um drink, você não acha? — a deusa perguntou, insinuante.
— Oh... Acho que sim. Aqui estão os seus — Celena colocou-os sobre o balcão. — Como eu estou?
— Divina — elogiou enquanto pegava a taça e o copo. — Eu lhe desejaria sorte, mas você nem vai precisar.
Assim que a ninfa foi até o outro lado do bar para abordar Hermes, virou-se de costas para sair dali, entregar o whisky de e, depois, tentar encontrar algum rosto familiar com o qual pudesse conversar. Longe de , de preferência. Psique surtaria só de saber que ela esteve mais próxima dele do que o raio de cinco metros estabelecido por segurança.
O caminho de volta, embora curto, foi o suficiente para que recebesse muitos olhares sobre si. Ela teve quase certeza de que metade da festa comentava sobre sua aparição e aquilo só contribuiu para uma leve ansiedade se instalando sobre seu corpo. O meio sorriso tentava esconder seu desconforto, embora o deixasse ainda mais aparente. E, como a lei de Murphy estipula, qualquer situação que pode ficar pior, ficará pior. Quando finalmente encontrou em meio à multidão, já não poderia voltar atrás no momento em que notou a presença de Hera ao lado dele.
— Quanta gentileza — Hera sorriu, irônica, ao pegar a taça de Martini da mão da deusa da primavera. — Você me trouxe meu favorito.
apenas revirou os olhos com a cena, demonstrando a clara irritação. estava prestes a se pronunciar, porém a rainha do Olimpo continuou sua conversa.
— Então, querido — Hera deu um gole em sua bebida e voltou a encarar —, você já foi falar com Hebe?
— Depende, você já parou de tentar controlar a minha vida pessoal?
— Oh, querido, você sabe que eu só quero o melhor para minha família.
— Eu acho que eu vou... — deu um pequeno passo para o lado enquanto falava, porém Hera fitou-a imediatamente.
— Não, fique. Já estamos acabando — a deusa do casamento insistiu. Por mais que não quisesse permanecer ali, entendia que não poderia negar um pedido de Hera. Precisou, portanto, manter-se parada ao lado dos dois, apenas observando o diálogo.
— Sabe, eu acho que Apolo e Hebe dariam um belo casal — sorriu, provocante, e Hera fechou o semblante. Não havia nada que a irritasse mais do que a ideia de sua filha favorita se relacionando com uma prole gerada pela infidelidade de Zeus. — Ou talvez Ersa e Hebe... Melhor ainda, Héracles e Hebe.
— Basta! — ela esbravejou, chamando atenção de algumas pessoas em sua volta. — Segunda-feira, depois do seu expediente, eu estarei lhe esperando em meu escritório para discutirmos sobre isso.
— Hm... — pareceu ponderar por um instante, colocando uma mão em seu queixo, porém logo em seguida suspirou falsamente, frustrado. — Segunda eu não posso, já tenho compromisso e seria muito rude eu desmarcar.
— Que compromisso? — Hera perguntou, irritada.
— Um encontro — ele respondeu, calmo, com o leve sorriso inabalável que lhe era peculiar.
— Com quem? Com quem é esse encontro que é mais importante do que uma reunião com a própria rainha do Olimpo? É com a Hebe?
O sorriso perverso foi inevitável quando percebeu o quanto estava prestes a irritar ainda mais Hera.
— Com ela — o deus apontou para , que arregalou os olhos, sentindo que uma coroa de flores estava prestes a surgir em sua cabeça.
— COM ELA? — Hera perguntou, incrédula, e colocou as mãos na cintura.
Seus cabelos começaram a flutuar acima dos ombros, evidenciando a ira que agora tomava conta de seu corpo. A deusa da primavera engoliu em seco. A raiva que Hera exalava estremecia os ossos de , apertando-lhe o coração, algo que ela não parecia controlar. Antes que pudesse protestar, Hera saíra abruptamente com seus olhos arregalados e, agora, brilhantes como o próprio sol.
!
— Oh, fique tranquila, — o deus deu uma piscadinha e sorriu de lado. — Não vai dar em nada.


— VOCÊ O QUÊ? — Psique quase engasgou com o seu cereal. — VOCÊ TEM UM ENCONTRO COM ? Você por algum acaso ouve as coisas que eu falo? CINCO METROS, , CINCO METROS!
— Eu juro que não foi algo facultativo — sorriu, sem graça, enquanto se apoiava na parede para tirar seus saltos. Seus pés imploravam por um descanso.
No segundo seguinte, Psique quase derrubou sua colher de susto e a deusa da primavera teve que se segurar na bancada da cozinha. Ártemis abriu a porta em um chute e adentrou a casa, eufórica.
— Pelos deuses, é verdade? — a deusa da caça levantou seus braços em comemoração e seus olhos reluziam mais do que nunca.
— O que é verdade? — Psique balançou a cabeça confusa, ainda assustada com a aparição repentina.
— Que a vai em um encontro com . Um encontro. Encontro. Com . .
— Ok, já entendemos, Ártemis — Psique falou, irritada. — Sim, aparentemente tem um encontro com e eu queria muito entender como tártaros isso aconteceu.
— Eu não estou surpresa — a deusa da caça deu uma leve risada. — Com aquele vestido de ontem, até eu lhe chamaria para um encontro. A festa inteira estava falando sobre você.
— Hera vai me matar ainda mais agora — grunhiu e colocou a mão na testa.
— O que você quer dizer com ainda mais? — Psique estreitou os olhos.
— Bom... — engoliu em seco e foi até a geladeira pegar uma garrafa de água, tentando evitar ao máximo o contato visual com qualquer uma das duas. — O que aconteceu é que eu estava inserida no meio de uma discussão de e Hera. Sem querer, eu estava inserida sem querer — a deusa da primavera frisou, ao receber o olhar mortal de Psique sobre si. — Ela estava pressionando-o em relação à sua vida amorosa e propôs que terminassem a discussão na segunda à noite, mas o disse que estava ocupado, porque teria um encontro comigo.
— E aí você disse que não, que ele não tinha um encontro com você — Psique falou, como se evidenciasse algo óbvio.
— Eu não sei se conseguiria fazer isso, ele não parecia confortável com a reunião forçada que teria com Hera.
— Oh, isso é tão a cara de uma deusa da primavera — Ártemis sorriu, divertida. Ainda com o vestido preto justo e curto da noite anterior, ela começou a tirar seus saltos. A julgar pelas vestimentas, diria que Ártemis sequer passou em casa, deve ter vindo direto da mansão de Hera e Zeus. — Tão empática e bondosa, pensando no que é melhor para os outros. Eu nem sabia que sentia falta de uma deusa da primavera até você chegar.
— Você nunca — Psique arregalou os olhos para ressaltar o que dizia —, nunca, deve interferir nos desejos de Hera, não importa nem se a vida de alguém esteja em jogo. Pelos deuses, no que você estava pensando, ?
— Eu também não tive muita escolha — a deusa da primavera deu de ombros. Sabia que Psique lhe aconselhara com uma boa intenção, mas não concordava em agir contra seus princípios. — Um segundo depois de sugerir esse suposto encontro, Hera já estava, no mínimo, furiosa e saiu do salão voando, literalmente voando. Ela não queria ouvir nada do que eu tinha a dizer e, muito menos, ouvir sobre mim. Eu não acho que ter a festa inteira falando sobre eu ou o meu vestido seja algo favorável, não concorda?
— Então, eu tenho más notícias para você — Ártemis sorriu, sem graça, e abriu o papel acinzentado que segurava. — Você e estão na capa dos jornais.
— O quê? — arregalou os olhos e pegou o objeto que a deusa da caça estendeu em sua direção.
— Não só dos jornais, mas das revistas também — Ártemis acrescentou. — Já são o casal mais popular do Olimpo.
— Meus deuses — Psique riu em desespero. — Foi bom lhe conhecer, .
— Como conseguiram uma foto nossa? Eu não apareci em público com ele.
— Eles estão em todos os lugares, querida — Ártemis sorriu, esperta, e pegou o jornal de novo, analisando a gigantesca foto da primeira página. — E é uma bela reportagem, sabe? nunca saiu em um encontro com alguém, ele é o rei do sexo casual, sem compromisso. Nunca o vi marcar um encontro. Esse jornal vai vender tão fácil quanto as maçãs de ouro de Hera. Eu sugiro que coloquem um guardião na porta de entrada e outro na saída dos fundos, porque os paparazzis com certeza virão aqui.
— Por que eu sinto que ainda não acordei e estou vivendo meu pior pesadelo? — Psique questionou-se, checando a paisagem janela afora.
— Eu não gosto muito dele, mas devo admitir que vocês fazem um belo casal. — Ártemis fez um bico engraçado enquanto lia a reportagem.
— A gente não é um casal — estreitou os olhos e abriu os braços em contrariedade.
— E lá se vai a minha passagem de ida para os Pomares do Elísio. Eu abrigo a deusa que enfureceu Hera. — Psique pareceu entrar em um estado de choque. — Eu vou ser julgada por Tsífone no Tártaro por ter assassinado a calmaria do Olimpo.
— Você vai sobreviver, não seja dramática — Ártemis fez um gesto de desdém com a mão, sem tirar os olhos do jornal. — É verdade que vocês já saíam escondidos antes e só agora resolveram tornar público? E que Hera já está planejando o casamento de vocês na ilha de Aegina? — a deusa da caça ficou boquiaberta com o que acabara de ler.
— Claro que não — respondeu, incrédula, e sentou-se na bancada de mármore. — Eu só estive aqui por três dias, seria, no mínimo, impossível. Sem contar que eu realmente levei a sério quando Psique me pediu para ficar longe de .
— Vocês me parecem estar bem perto nessa foto — a deusa da caça sorriu, divertida, e fechou o semblante.
— Obrigada pela observação, Ártemis. — A deusa da primavera limitou-se a respirar fundo. — Vou mandar uma carta para , pedindo gentilmente para que ele entenda que eu não posso comparecer a esse encontro, o qual eu nem sabia da existência... Ok, talvez eu não faça isso. Não posso deixar que ele vá até o encontro de Hera, que o obrigará a casar com Hebe quando isso claramente não é um desejo dele. Preciso colocar a cabeça no lugar. Antes de resolver isso, irei tomar um longo banho espumado de banheira e dormir por, pelo menos, dez horas — sorriu, satisfeita, e pegou seus sapatos, andando em direção à escada. Foi obrigada, no entanto, a parar no meio do caminho quando Ártemis começou a gargalhar cada vez mais alto, parando somente quando ficou sem ar e precisou secar uma lágrima que escorria sobre sua bochecha.
— Pelos deuses, essa atuação foi incrível — Ártemis bateu palmas. — Vá se trocar e eu lhe encontro em cinco minutos para irmos ao centro de treinamento.
— Desculpe, acho que eu ouvi errado — piscou algumas vezes na esperança de haver um mal-entendido. — Você disse centro de treinamento?
— Exatamente — Ártemis falou, satisfeita, já andando até a porta de entrada. — Cinco minutos. Não se atrase.
— Mas... Mas, Ártemis, nós não dormimos desde ontem.
— Isso é um problema?
Logo que Ártemis fechou a porta para ir até sua casa, sem ao menos esperar uma resposta, jogou a cabeça para trás e grunhiu de cansaço premeditado. Sabia que tinha combinado com a deusa da caça de ir ao centro de treinamento no domingo, só não esperava que a condição adversa de chegar às sete horas da manhã fosse acontecer. Seu corpo doía ao pensar que teria que praticar exercícios com vestígios de álcool em seu sangue. Nenhum ser, mortal ou imortal, deveria ser submetido a um treinamento físico tão cedo em um domingo. Ainda mais um ser que estivesse suscetível a uma ressaca.
— Eu diria que eu estou com dó de você, mas, já que você não me ouviu, eu estou só com um pouquinho — Psique quebrou o silêncio da cozinha, encarando a deusa da primavera com uma sobrancelha erguida. — Você não tem ideia do que Hera é capaz. E isso vai afetar a sua vida, a vida do , a vida de Perséfone e a minha vida também. Seremos punidos com o fim da imortalidade, isso se ela não resolver nos castigar como fez com Prometeu ou Atlas, o que seria ainda pior, porque, se ao menos fôssemos para o Submundo, ainda haveria chances de cairmos nos Campos Elísios.
— Eu prometo que vou resolver isso — sorriu, sem graça. — Talvez, eu possa conversar com Hera, dizer que eu não pretendo casar com ou algo do tipo.
— Sim! Sim, eu acho que... err... — embora Psique tenha começado a fala entusiasmada, ela não pôde deixar de franzir o cenho em desânimo e abaixar o tom de voz quando sua intuição lhe fez perceber que, talvez, estivesse privando de algo que não devesse. — Acho que isso ajuda.
— Certo, vou escrever uma carta ainda hoje para marcarmos um encontro — a deusa da primavera sorriu, gentil, por finalmente sentir que estava fazendo algo que ajudasse Psique. — Oh, antes de eu subir para me trocar, você sabia que Afrodite é casada com seu meio-irmão e teve filhos com seu outro meio-irmão e esses meios-irmãos são irmãos?
— Bizarro, não? — Psique respondeu, um pouco mais animada. — É bom ver alguém que também achou isso estranho.
— Oh, sim, a orgia familiar deliberada. Medea avisou.
— Aqui você é livre para ser e fazer o que quiser sem ser julgado, desde que você não acabe interferindo nos interesses de Zeus. Mas, se pararmos para pensar sobre isso, é meio natural que família se relacione com família, porque metade do Olimpo é filho de Zeus e as próprias famílias reais funcionam assim. Quer dizer, Hera é irmã de Zeus e Hades é tio de Perséfone, sendo que a própria Perséfone é filha de Zeus com a irmã dele, Deméter.
— O quê?
— Eu realmente falei sério quando eu disse que você tinha muitas opções aqui no Olimpo. Agora vá se trocar, porque Ártemis não gosta de atrasos.

Capítulo 6

— Mais uma vez — Ártemis falou, firme, encarando com sua postura impecável e seus braços cruzados.
— Mais uma vez? — a deusa da primavera grunhiu, quase sem ar.
— Pegue mais leve, Ártemis. — Atenas deu uma risada enquanto limpava o suor de sua testa com uma toalha. — Primavera, lembra? Ela não precisa do condicionamento físico.
— Oh, claro — a deusa da caça balançou a cabeça em concordância. — Então... intervalo?
— Isso seria ótimo — suspirou, aliviada. — Eu acho que o chão é um ótimo lugar para descansar, não concordam? Vou ficar aqui só por uns minutinhos.
Assim que chegaram ao centro de treinamento, Ártemis e foram recebidas por Atenas. O local cativara a deusa da primavera sem ao menos precisar mais do que um olhar. O grande domo era envolvido por um vidro espelhado que abria como janelas normais, permitindo que a luz natural penetrasse e que plantas em cascatas se abrigassem ali de maneira saudável e decorassem, em ramos, o vidro. Foi espontâneo, portanto, que sentisse certo conforto. No centro do domo ficava uma arena esportiva rebaixada, rodeada por uma arquibancada de concreto. Mais afastado do núcleo, acompanhando o limite do local, ficavam as mais diversas salas para todos os tipos de treinamentos possíveis, com suas paredes de vidro para que tudo pudesse ser observado. somente pôde dar uma rápida olhada na sala de tiro com arco antes que Atenas viesse se apresentar.
A deusa da guerra e da sabedoria mostrou-se muito receptiva e bondosa, complementando o treino de com a paciência que faltava em Ártemis. Treino o qual fora o suficiente para fazer cada um de seus músculos latejar. A deusa da primavera anotara mentalmente que nunca mais treinaria sob as ordens de Ártemis de novo.
— Você poderia parar, pelo amor dos deuses? — aproximou-se com uma expressão pouco amigável enquanto passava a mão pelo cabelo encharcado de suor.
— Você está em todo lugar? — grunhiu quando tentou se mover para levantar do chão.
— Pelo que eu saiba, você é a pessoa nova por aqui.
— Ele tem um ponto — Ártemis concordou, interessada na cena.
— Parar com o quê? — a deusa da primavera respirou fundo e criou coragem para se colocar de pé, sentindo suas pernas tremerem.
— Urgh! — grunhiu, irritado. — Parar com esse treino.
— Por quê? — ela perguntou, confusa, e Atenas deu uma leve risada.
— Não se preocupe, já estamos terminando — Ártemis garantiu, encarando com certo ar de curiosidade. Nunca sequer chegara tão perto dele, mas agora entendia o porquê das famas de beleza e de mordaz que ele possuía.
— Porque ele sente a sua dor muscular — Atenas sussurrou, segurando o riso, embora o deus tenha escutado de qualquer maneira.
— É angustiante, ainda mais com a sua privação de sono — cruzou os braços e trincou o maxilar. — Se você não consegue aguentar, ficar em casa é uma opção melhor do que me importunar.
— Oh, você não gosta disso? — assumiu um semblante falsamente preocupado e começou a se alongar, o que fez estreitar os olhos com raiva. O cansaço acumulado de uma noite não dormida somente contribuía para uma facilidade de irritá-la. Qualquer grosseria que recebesse seria retribuída com uma resposta afiada, já não importando se viesse de Zeus ou de qualquer outra pessoa. — Bom, eu não gosto de difamação em capa de revista, mas você não me vê reclamando, certo?
— Por que você está falando como se fosse eu quem tivesse vendido a foto e a história para os jornais?
— Não importa quem vendeu isso, , o meu ponto é que você não pode vir aqui reclamar sobre algo que eu não controlo, se eu não faço o mesmo com você.
— Mas você pode evitar, eu, por outro lado, não tenho o controle da mídia.
— Você reparou? — Atenas sussurrou ao fundo, ouvindo silenciosamente a discussão de e .
— Sim! — Ártemis respondeu, surpresa, mantendo um tom de voz tão baixo quanto o da outra deusa. — Eu nunca tinha visto isso antes.
— Nem eu — Atenas abriu um sorriso divertido. — sente a dor de como a de mais ninguém.
— Normalmente, ele gosta quando os outros sofrem, não? — Ártemis franziu o cenho. — É como um combustível.
— Não dessa vez — Atenas fechou a boca em uma linha, intrigada.
— Você realmente está reclamando porque eu estou fazendo exercícios? — abriu os braços, irritada.
— Sim — respondeu, com obviedade.
— Qual o seu problema?
— No momento, você.
— Quer saber, tudo bem — a deusa da primavera suspirou, cansada. — Eu vou parar o treino por aqui e vou andando para casa. Talvez, eu pare para fazer umas flexões no meio do caminho.
— Andando? — o deus riu, sarcástico, e balançou a cabeça em negação.
— Sim, andando. Você poderia, por gentileza, abrir a porta para mim? Meus braços não funcionam — a deusa sorriu, provocante. — Mas, se não quiser, eu mesma posso tentar abri-la.
Ela sabia que estava rangendo os dentes só de pensar que ela percorreria dezenas de quadras com as pernas no limiar do funcionamento. Talvez, até desmaiasse no meio do caminho por causa da falta do café da manhã, porém não poderia deixá-lo ser rude por algo que não tinha controle, ainda que a natureza bondosa lhe obrigasse a parar o treino imediatamente.
— Para uma deusa da primavera, você não é tão gentil como deveria — disse, cínico, e revirou os olhos.
— Oh, desculpe. O poder que eu não escolhi para você está lhe machucando? — retrucou.
O deus restringiu-se a respirar fundo e, de repente, abriu suas grandes asas escuras de penas afiadas, algo que assustou e a fez dar um passo para trás em reflexo. Ártemis e Atenas, que observavam a cena com atenção e braços cruzados, apenas ergueram as sobrancelhas. andou devagar até , que se manteve estática, sentindo um frio na barriga, e delicadamente segurou-a entre seus braços, como se carregasse algo frágil. O toque suave e muito mais cuidadoso do que ela esperava a fez corar de imediato e ela precisou conter-se para que outra coroa de flores não surgisse sobre seus cabelos, embora a cor deles começasse a se tornar coral. Foi somente quando ela já estava envolvida de maneira firme, que percebeu o que estava prestes a acontecer e arregalou os olhos.
— NÃO!
— Tarde demais — ele sussurrou em seu ouvido e sorriu, provocante. Não demorou mais de um segundo para que saísse pelo teto de vidro do domo.
— VOCÊ É LOUCO? — entreolhava freneticamente as asas dele e o chão do Olimpo se afastando. — VOCÊ DEVERIA TER PEDIDO MINHA PERMISSÃO!
— Pelos deuses — piscou os olhos e balançou a cabeça atordoado —, não precisa gritar, eu estou ao seu lado. E eu tinha certeza que você diria não.
— É claro que eu diria não — engoliu em seco quando percebeu que já não conseguia diferenciar as pessoas de meros pontos. — Psique me pediu para que eu ficasse longe de você.
— Ela pediu? — encarou-a com o cenho franzido. Pela primeira vez desde que o conhecera, identificou um traço diferente das usuais ironia e seriedade em sua íris. Ela enxergou certo... pesar.
— E eu não acho que isso seja seguro. — A deusa da primavera ignorou a pergunta, desviando o olhar para as nuvens ao redor. — Não tem nem um cinto de segurança.
O silêncio que se instalou logo em seguida e que perdurou por um longo período a deixou desconfortável. Era como se pudesse sentir que estava chateado. Aproveitando o momento de silêncio, ela estreitou os olhos e começou a estudar a face dele, algo que ela sabia que não deveria fazer, embora não pudesse evitar. possuía uma beleza ameaçadora, isso ela já havia notado. O que não havia percebido era como conseguia sentir a pulsação de seu corpo quando estava tão próxima dele. Ou como a pele muito quente parecia queimar em contato com a sua. Perdeu-se nas linhas esculpidas de seu rosto e não percebeu que demorou tempo demais analisando-o.
— O que você está fazendo? — perguntou em voz baixa, intrigado pela atenção de .
— Hm... — ela desviou o olhar para baixo e falou a primeira coisa que veio em sua mente. — Por que Hera insiste tanto que você case com a Hebe, se você já deixou claro que não quer?
— Eu nunca disse que não queria.
— Oh — ergueu as sobrancelhas em surpresa. — Então por que nós temos um encontro, se a Hebe é uma opção? Por que você não sai com ela?
— Porque, se eu for sair com a Hebe, tem que partir da minha própria vontade. Eu não quero que Hera esteja envolvida nisso, assim como eu não quero que qualquer outra pessoa esteja.
— Isso não me deixa em uma boa posição, apesar de eu também achar que deve partir da sua própria vontade — suspirou e encarou-a. — Hera já não gosta muito de mim...
— Você não precisa ir ao encontro — o deus interrompeu-a prontamente. — Eu sei me virar com Hera, não preciso que você me faça nenhum favor.
— Não precisa encarar como um favor, senão como uma cortesia.
— Talvez você realmente seja a deusa da primavera, afinal — deu um sorriso discreto, que logo sumiu. — Mas, se você quer um conselho, não viva a sua vida tentando agradar a Zeus ou Hera, por mais que deva obedecê-los. Você está no Olimpo. Apesar da hierarquia, não há lugar onde você poderia ter mais liberdade.
— Agradeço o conselho — sorriu, delicada, percebendo o olhar atento de sobre si. — E, se você quiser um conselho também, por favor, tome um banho. De preferência agora, mas, obrigatoriamente, antes do nosso encontro. Você está cheirando a suor de treino.
Ele apenas fechou o semblante e ergueu a sobrancelha. percebeu na hora o que se passava em sua mente e estreitou os olhos. — Não ouse me largar, .


— Sabe, você é como um sonho. Fácil de conversar, atraente, bom de cama e engraçado. Mas o ponto é que eu não preciso de um homem. Não me entenda mal, eu adoro homens. Eu só não preciso deles.
A postura tranquila e o leve sorriso poderiam transmitir certa suavidade à situação, porém as palavras de Hécate seriam duras para a pessoa que as fosse ler.
— Posso chamar Hermes? — Medea perguntou quando terminou de digitar.
— Pode — a deusa das bruxas assentiu, satisfeita. — Ah, preciso que você marque uma reunião urgente com Hades.
— Claro — a ninfa falou enquanto andava até a porta do escritório de Hécate. — Vou marcar uma logo depois do seu horário de almoço.
Assim que Medea fechou a porta atrás de si, ela percebeu a presença de em frente à sua mesa. A deusa da primavera parecia concentrada demais em observar os objetos sobre a superfície de vidro para notar que a amiga acabara de entrar no cômodo.
— Você é pontual.
— Medea — sorriu, gentil, embora tenha levado um breve susto com a quebra do silêncio. — Está pronta?
— Ainda não — a ninfa suspirou e deixou seu computador sobre a mesa. — Só preciso imprimir isso e fazer uma ligação e depois podemos ir.
— Tudo bem.
Apesar de um estranhamento inicial, não poderia deixar de admitir que o lugar era muito bonito. A placa de “Parabéns, você está morto” bem na entrada do Submundo não era a mais acolhedora, mas era sincera. A escuridão absoluta não era algo que lhe agradava, muito pelo contrário, em seu ponto de vista, havia poucas sensações mais prazerosas do que o calor do sol em contato com a sua pele. Nada mais natural do que a necessidade de sol vinda da deusa da primavera. O breu do Submundo parecia se refletir não somente nas pessoas, mas nas construções também. Era como viver em uma eterna noite, onde somente as luzes artificiais se destacavam nos prédios e nos outdoors das ruas. Como no resto daquele universo, o escritório de Hécate na empresa de Hades não poderia ser diferente, porém o chão preto com fios de ouros caóticos trazia uma elegância diferente ao cômodo e os quadros de molduras douradas eram a escolha certa para tornar o ambiente primoroso.
— O que você quis dizer com não dá? — Medea, sentada em cima de sua mesa, conversava no telefone. — O que foi que eu disse sobre você dizer não à Hécate?... Hm, uhum... ENTÃO POR QUE TÁRTAROS VOCÊ ESTÁ ME DIZENDO QUE NÃO DÁ? — arregalou os olhos com o susto ao ouvir a ninfa gritar com a pessoa do outro lado da linha. — Por acaso a palavra urgente não existe no seu vocabulário? Será que eu vou precisar falar para a deusa das bruxas que a secretária do Hades não... Hm, imaginei que não... Isso, querida, depois do almoço... QUATORZE HORAS? A Hécate parece o tipo de pessoa que espera uns minutinhos? Pode marcar aí às treze horas... Sem mas. — Então, a ninfa desligou.
— Uau, deve ser tão... prazeroso trabalhar com você — inclinou a cabeça, arrancando um olhar mortal de Medea.
— É assim que as coisas funcionam no Submundo, ok?
— Cheguei, cheguei! — Hermes apareceu, correndo, no final do longo e largo corredor.
O mensageiro, ainda com o sorriso gentil que lhe era peculiar, aparentava estar apressado. O peito ofegava, como quem suplicava por ar, algo que surpreendera , já que Hermes poderia correr cinco maratonas seguidas sem sequer deixar um pingo de suor escorrer pela testa.
! — Hermes alargou ainda mais o sorriso quando percebeu a presença da deusa. — Eu não consigo me acostumar com tanta beleza.
— Como você está? — deu uma leve risada e cumprimentou-o com um abraço.
— Muito bem. Eu fiquei de lhe procurar para agradecê-la.
— Agradecer? — Medea sorriu, interessada, enquanto dobrava o papel impresso para colocar no envelope.
— Sim, essa perfeição aqui em forma de deusa me ajudou com Celena. Ela, enfim, aceitou sair comigo.
— Isso quer dizer que você finalmente vai parar de tentar flertar com a recepcionista e chegar aqui a tempo?
— Não se iluda, Medeazinha — o mensageiro sorriu, divertido, e a ninfa revirou os olhos. — A vida é curta demais para não flertar com quem quisermos.
— Não me chame assim, otário.
— E quando vocês vão sair? — perguntou, animada.
— Hoje à noite — Hermes inflou o peito contente. Não conseguiria expressar em palavras a ansiedade e o orgulho dentro de si. Havia anos que tentava ter um encontro com Celena, porém a personalidade desajeitada não lhe permitia. — Mas tenho certeza de que não será um encontro digno de capa de revista como o seu.
— Oh, nós precisamos conversar sobre isso no nosso almoço — Medea sorriu, maliciosa, sem desviar o olhar do envelope onde escrevia. — Você precisa fazer compras antes desse encontro.
— Capa de revista... Hera vai me matar, não vai? — O semblante preocupado de só piorou quando Hermes sorriu sem graça, confirmando implicitamente sua suposição.
— Bom, se a ocasião é seu velório, você também precisa fazer compras — a ninfa acrescentou, olhando a amiga dos pés à cabeça. — Você não pode ser enterrada nessas roupas. Quer vir também, Hermes? Acho que faremos compras assim que o turno dela acabar ou depois do almoço mesmo.
— Acho que não haverá compatibilidade de horário, preciso de horas extras com Hades. Não sei se isso ajuda, mas gosta de vestidos pretos ou vermelhos.
— Não ajuda — franziu o cenho, incrédula.
— Anotado — Medea escreveu em um pequeno papel qualquer em cima de sua mesa. — Preciso que entregue isso para Hélio. — A ninfa ergueu um envelope. — Não é urgente, mas seria bom se fosse entregue hoje mesmo.
— Hélio? — Hermes encarou a secretária com um ar de curiosidade, porém tudo o que recebeu em troca foi uma careta. — Oh, que pena. Eu acho que eles são bem diferentes, mas admito que gostaria que desse certo.
— O que está acontecendo? — a deusa da primavera entreolhou ambos.
— Hécate tem um caso com Hélio — Medea sussurrou e olhou para a porta à sua direita, verificando se Hécate não estava prestes a sair. — Na verdade, Hécate tinha um caso com Hélio. Acho que ela vai dar um fim a isso hoje, porque ele quer algo mais sério e ela não quer. Eu tenho a leve impressão de que isso está acontecendo porque ela está interessada em outro deus.
— Bom, eu preciso ir, estou atrasado. Vejo vocês mais tarde — o mensageiro falou, já abrindo suas asas.
— Boa sorte no encontro — sorriu, dócil, e acenou. — Nos conte tudo depois.
— Não vá com a sua camiseta verde, você fica horrível nela. Parece aquela árvore que os humanos decoram com luzinhas no final do ano com esse cabelo vermelho em contraste — Medea acrescentou enquanto colocava seu casaco. — Estou tão feliz que agora podemos almoçar juntas todos os dias por causa do seu estágio. Mal posso esperar para falar mal da idiota da Aura.
Quando estavam prestes a sair, Hécate abriu a porta de seu escritório, inicialmente concentrada nos documentos em mãos.
— Medea, alguma mensagem nova?
— Não, mas já avisei a Mérope sobre a reunião com Hades.
— Perfeito. Peça para o departamento de marketing que... Oh.
Logo que Hécate notou a presença da outra deusa, foi impossível continuar prestando atenção nos papéis que segurava. A delicadeza e a aura afável foram as primeiras coisas a serem sentidas. Hécate nunca fora inclinada à receptividade forçada, sempre prezara pela naturalidade dos acontecimentos e era por esse motivo que raramente fazia questão de sair de seu caminho para conhecer os outros. O caráter firme também lhe concedera uma fama de reservada, embora qualquer um que a conhecesse não hesitaria em descrevê-la como uma mulher singular, simpática e agraciada com um requinte ímpar, ainda que seu temperamento fosse forte.
— Olá — Hécate sorriu e estendeu sua mão para cumprimentá-la.
— Muito prazer, eu sou a .
— A nova deusa da primavera? Não tivemos a oportunidade de nos conhecermos na festa de Zeus e de Hera. Meu nome é Hécate.
Sem saber muito bem como reagir à figura elegante em sua frente, abriu seu maior sorriso e falou a primeira coisa que conseguiu pensar.
— Você gostaria de almoçar com a gente?
Assim que Medea ouviu a pergunta, foi inevitável revirar de olhos e colocar os dedos sob as têmporas, procurando por um fio de paciência que, talvez, nem existisse. Embora Medea gostasse da personalidade de Hécate e lhe concedesse favores pessoais de vez em quando, não poderia deixar de manter sua relação estritamente profissional para um bom convívio diário.
— Agradeço o convite, mas eu preciso resolver assuntos particulares — a deusa das bruxas sorriu de canto e colocou os seus óculos escuros. — Foi bom conhecê-la, . Tente não causar muito estrago por aqui, certo?
A deusa da primavera esperou Hécate atravessar o corredor para chegar aos elevadores antes de voltar a falar, porém, dessa vez, em um sussurro.
— Um pouco rude, não acha? Como ela pôde assumir que eu causo estrago sem ao menos me conhecer?
— Oh, não — Medea engoliu em seco. — Não foi rude, foi um oráculo.
— O quê? — franziu o cenho e virou-se para encarar a amiga, que balançava a cabeça em negação e observava sua chefe sumir por detrás das portas do elevador.
— Ela sabe de alguma coisa que vai acontecer e aparentemente não é algo bom.
— Você está me dizendo que ela sabe o futuro?
— Não só sabe, como sabe que você vai fazer algo inconsequente. — A ninfa pegou a bolsa de e jogou-a na deusa, que segurou o objeto desajeitadamente e tentou acompanhar os passos de Medea enquanto ela andava apressada. — Vamos logo. Talvez eu consiga descobrir o que você vai fazer. Hécate não vai me contar nada, mas ela não é uma deusa do oráculo, então ela tem que ter ouvido de alguém que é. Nós vamos fazer uma pequena visita às Parcas.
— A gente não ia almoçar?
— Pelo amor à fofoca, , prioridades!


— E como foi? — Psique perguntou, distraída, enquanto mexia nas peças do jogo de xadrez em cima da cama de .
— Foi um pouco estranho — a deusa da primavera falou do banheiro, terminando de se vestir.
— O que seria estranho? — Embora prestasse atenção nos movimentos de Psique, sua oponente no jogo, Ártemis parecia curiosa em saber mais sobre o dia de .
— Bom, nós fomos até as Parcas e elas agiram como se já me conhecessem.
— Então, definitivamente, foram elas que lançaram o oráculo — a deusa da caça colocou a mão no queixo, tentando se concentrar. — Vocês conseguiram alguma informação?
— Não, não conseguimos nada. Medea quase arranjou briga com a deusa que estava segurando uma fita métrica...
— Láquesis — Psique interrompeu.
— Láquesis, certo — concordou com a cabeça e voltou a passar seu batom vermelho. — Depois disso, nós almoçamos, e acabou sobrando um tempo, então Medea e eu fomos comprar um vestido.
— Eu ainda sou a favor de você ir de moletom — Psique suspirou e ergueu uma das sobrancelhas, claramente incomodada com a situação, o que fez Ártemis rir. — Nem sei porque você tomou banho. Banhos não são dignos de . Banhos não são dignos da minha ida ao Tártaro. Na verdade, eu não sou nem a favor de você ir.
— Eu não sei porque você reclama tanto disso — a deusa da caça abriu um sorriso divertido, o que fez Psique franzir o cenho. — Quando você chegou aqui, ninguém além de Zeus era a favor de você ficar, mas você o fez do mesmo jeito.
— Mas eu fiz por amor — Psique revidou e voltou a encarar o tabuleiro. — O caso dela não é amor.
— Pode ainda não ser, mas...
— Ainda? Mas? — Psique interrompeu-a em um fio de voz e arregalou os olhos. — O que você sabe, Ártemis?
A deusa da caça olhou rapidamente para a porta do banheiro para se certificar de que não estava ouvindo a conversa.
— Ontem, no centro do treinamento, eu e Atenas reparamos que e têm uma conexão diferente do...
— Por favor, me diga que você não vai falar o que eu acho que você vai falar.
— Ela ainda é muito inexperiente para perceber essas coisas, mas ele parece sentir a presença dela mais do que de qualquer outra pessoa.
— Então ele sabe? — Psique ficou boquiaberta.
— Eu acho que sente, mas não acho que saiba. Também não acho que ele suspeite, até porque é o , ele vai suprimir qualquer sinal de sentimento como se a vida dele dependesse disso.
— Quando Hera perceber isso, ela vai enlouquecer.
— Isso não vai importar para ela — Ártemis pronunciou-se em um tom tão sóbrio e fúnebre, que um calafrio inevitável passou pela nuca de Psique. — Ela vai fazer o que for preciso para casar e Hebe, assim como Zeus fez com Anfitrite e Poseidon. Então, se eu fosse você, eu não me preocuparia com isso de sair com ou com qualquer coisa que está por vir, já tem seu destino escrito e nem eu, nem você e nem ela — Ártemis apontou com a cabeça para o banheiro —, podemos fazer alguma coisa.
— Urgh, eu odeio que isso deveria me deixar tranquila, mas só me deixa triste — Psique passou a mão pela testa, perdendo qualquer interesse que ainda restava pelo jogo.
— Que salto vocês acham que eu deveria usar com esse vestido? — perguntou ao sair do banheiro e as duas, que estavam deitadas em sua cama, imediatamente olharam para a deusa da primavera.
— Pelos deuses, , como você está bonita! — Psique levantou-se, apressada, e aproximou-se para poder vê-la mais de perto. — Eu ainda não acredito que o encontro é com o , mas, por Zeus, como você está bonita.
— Eu acho que tem alguma coisa faltando... — Ártemis estreitou os olhos enquanto analisava dos pés à cabeça.
— Meus saltos? — a deusa da primavera passou a mão pelo vestido preto justo e longo, ajeitando-o, e apontou para baixo, evidenciando os pés descalços.
— Não, não é isso. Você precisa de um tcham.
— Um tcham? — Psique falou em um tom mais alto e apontou para com as duas mãos, expressando a incredulidade em sua face. — Você não acha que essa mulher por si só já é um tcham?
— Isso é muito gentil — sorriu, doce. — Obrigada, Psique.
— Eu sei o que falta — Ártemis sorriu, satisfeita, e levantou-se da cama. Assim que deu três passos em direção à deusa da primavera, ela levantou sua própria saia curta para retirar um punhal do elástico que contornava sua coxa. não pôde conter o choque ao abrir a boca em perplexidade enquanto Psique encarava a situação com brandura. — Não se mexa — Ártemis pediu, séria, e agachou-se para segurar a barra do vestido de .
Sem hesitar por um segundo sequer, traçou um rasgo linear com a lâmina afiada até a altura da sua coxa.
— Oh, você estava certa. Isso dá um tcham — Psique concordou com acenos de cabeça.
— Você sempre carrega uma adaga? — arregalou levemente os olhos, sem conseguir desviar sua visão da saia agora rasgada.
— Saltos pretos. — Ártemis voltou a sentar na cama. — Agora vá, porque você deve estar atrasada.
— Para onde vocês vão, afinal? — Psique perguntou, distraída.
— Eu não sei — respondeu enquanto começava a afivelar o salto.
— O quê? — elas perguntaram em uníssono e encararam a deusa.
— É uma surpresa? — Ártemis continuou, agora com um tom de interesse.
— Nós nunca combinamos isso — deu de ombros. — Nunca combinamos nada, na verdade.
— Como tártaros vocês esperam se encontrar, se não marcaram um lugar para isso? — Psique cruzou os braços e estreitou os olhos, questionando-se como conseguia ficar ainda mais irritada a cada segundo.
— Ela pode ir para a casa dele — Ártemis ergueu a sobrancelha, sugestiva, e trocou olhares com Psique, que não parecia nada contente com a situação.
— Claro, vamos tornar os rumores cinco vezes piores. — Psique fez um gesto com as mãos e começou a andar até a cama, já sem muita paciência para estender a conversa. — Primeiro encontro e o casal olimpiano favorito consome seu amor em uma noite de muito prazer. Essa vai ser a capa do jornal de amanhã. Ou, talvez, como o sexo no primeiro encontro já não precisa mais ser um tabu.
— Uhh! — Ártemis abriu um sorriso curioso e olhou para . — Você precisa nos contar se ele faz jus à fama na cama, se isso acontecer.
— Alguma de vocês tem o endereço dele? — sorriu, gentil, ignorando o que elas haviam acabado de dizer.
— É só falar para o taxista que você está indo para o apartamento do — a deusa da caça respondeu, distraída.
— Ele realmente tem uma fama — sorriu, sem graça, e Psique apenas gesticulou com seus lábios as palavras “Eu avisei” em resposta. — Volto em algumas horas.
— Estaremos aqui — Ártemis falou automaticamente.


Quando deu duas leves batidas sobre a porta de entrada, tudo o que desejou foi que estivesse em frente ao apartamento certo. A única pessoa que encontrara em meio aos infinitos corredores daquele prédio não sabia ao certo lhe dar direções concisas. Seria, portanto, a terceira e última porta pela qual passaria. Depois disso, somente lhe restaria retornar para casa. Sem receber qualquer resposta nos próximos segundos, voltou a bater à porta, desta vez de maneira um pouco mais firme, o que foi o suficiente para que uma pequena fresta aparecesse, dando abertura à escuridão dentro do apartamento, cortada, agora, pelo fino raio de luz vindo do corredor que invadia a sala.
— Oh, desculpe. — deu um passo para trás em reflexo. — A porta estava aberta, eu...
No segundo seguinte, percebeu que não havia ninguém a escutando. O local permanecia vazio. A primeira reação que teve foi fechar a porta para deixá-la do jeito que a encontrou, porém franziu o cenho quando sentiu uma necessidade incontrolável de abri-la novamente. Era quase como se tivesse uma natural inclinação ao desconhecido, como se alguém lhe chamasse lá dentro. Sua mão manteve-se agarrada à maçaneta.
— O que eu estou fazendo? — perguntou-se em um sussurro. — Não posso invadir a casa de alguém.
Decidida a ir embora, a leve irritação foi inevitável quando seu próprio corpo não obedeceu seu cérebro. rangeu os dentes e xingou-se até o último fio de cabelo quando percebeu que a curiosidade seria sua ruína.
— Maldito Olimpo e sentimentos à flor da pele!
Assim que respirou fundo, não hesitou dois segundos antes de abrir a porta e fechá-la novamente atrás de si. A escuridão adentro era tão protuberante que teve dificuldade de se localizar e um cheiro forte e metálico lhe invadiu as narinas, o que a fez segurar a respiração. A ânsia e o frio na barriga, embora devessem ser atribuídos à sensação de risco, pareciam confortar , como se lhe dissessem que estava prestes a descobrir algo que deveria, ainda que aquilo, talvez, não fosse algo bom. Guiava-se a partir da mais pura intuição, mesmo que invadir apartamentos alheios não fosse certo. Andando passo a passo, bem devagar para não tropeçar em nada, e tateando os móveis cegamente, sentia um frio no estômago aumentar de modo gradativo. Aos poucos, as batidas do coração tornaram-se mais rápidas e um desconforto tomou conta de si. Era como se alguém a alertasse do perigo.
— Como existe um lugar tão escuro no Olimpo? Urgh! E que cheiro é esse?
Antes que pudesse falar qualquer outra coisa, a deusa da primavera acidentalmente esbarrou em um objeto. Quando ele se chocou contra o piso frio, o barulho dos estilhaços tomou conta do cômodo. Sua primeira reação foi fazer uma careta sem jeito e parar no mesmo instante.
— Merda. Onde ficam os interruptores dessa casa? — ela olhava, em vão, para todos os lados. Um risco de claridade ao longe, entretanto, acendeu uma leve esperança sobre . — Talvez eu consiga encontrar um interruptor ali perto.
Caminhou devagar até a porta de onde saía o feixe de luz, evitando pisar em qualquer caco que pudesse fazê-la escorregar, embora o barulho de vidro quebrando denunciasse o jeito atrapalhado. Em dois segundos de coragem insana e com o coração batendo mais rápido que as próprias asas de Hermes, colocou a mão sobre a madeira da porta e empurrou-a. O cômodo era um banheiro como outro qualquer, o que surpreendera a deusa, no entanto, foi uma banheira preenchida até a borda com um líquido avermelhado que parecia sangue puro. imediatamente colocou a mão sobre o nariz quando o cheiro forte de ferro invadiu sua respiração e teve que segurar a vontade de vomitar. Sentia que havia acabado de adentrar a cena de um assassinato. O ar parecia denso e pesado, quase fúnebre, ela diria, e aquilo lhe causava uma náusea que revirava seu estômago. Repentinamente, uma cabeça emergiu da água rúbea.
— PUTA QUE PARIU!
A deusa da primavera arregalou os olhos e colocou a mão sobre o peito, dando passos apressados para trás em puro desespero e chocando-se contra a parede.
— Você não é muito discreta, não? — a pessoa pronunciou-se, ácida, com uma voz familiar.
?
— Sim — ele respondeu, finalmente abrindo os olhos.
Agora que o líquido avermelhado escorria de seu rosto, pôde notar que sua usual face saudável parecia consumida pela mais pura exaustão. Ainda que o sorriso sarcástico peculiar, dessa vez menos intenso que o habitual, se mantivesse no semblante, o lábio levemente inchado somado ao corte no supercílio e às olheiras arroxeadas lhe concediam uma fisionomia de fraqueza e soturnez que causava certo alarde em , uma que ela nunca imaginaria ver justamente em .
— VOCÊ ESTÁ NADANDO EM SANGUE?
— Você pode, por favor, parar de gritar?
— Me desculpe. — A deusa finalmente voltou a sentir suas pernas e o coração começava a desacelerar, embora ainda não conseguisse se desencostar da parede ou sequer mover-se. — O que você está fazendo?
— Tomando banho. — finalmente se sentou no fundo banheira e passou as mãos pelo cabelo encharcado. — Por que você invadiu o meu apartamento?
— Você geralmente toma banho em sangue?
Sem responder, apenas revirou os olhos impaciente, levantou e saiu da banheira, o que fez corar e desviar o olhar para qualquer outro canto do cômodo de imediato. O deus, por outro lado, parecia completamente confortável com a presença dela ali, amarrando a toalha em sua cintura sem pressa alguma.
— Eu acho que vou esperar você ficar pronto lá na sala, ok?
— Sinta-se livre para esperar onde quiser, já que você já está confortável o suficiente para invadir a casa.
Assim que ele terminou de falar, a deusa da primavera parou seu olhar sobre e não pôde não ficar completamente aterrorizada com a imagem. Seu corpo carregava feridas e cortes que iam de lado a lado em seu torso, rasgando sua pele de modo brutal. Ela nunca havia visto machucados tão graves em sua vida. O sangue escorria em fios densos sobre sua pele, ainda que não parecesse se incomodar.
— Pelos deuses... — sussurrou, vidrada nas feridas e, agora, dando passos hesitantes até o deus, que franziu o cenho com a aproximação dela. — É o seu sangue. É o seu sangue na banheira. Precisamos ir para o hospital.
— Hospital? Hospitais são somente para as ninfas e para os guardiões. Deuses se curam rápido — deu uma risada debochada, obrigando a encará-lo com um semblante irritado. — São só cortezinhos.
— Não seja ridículo — a deusa balançou a cabeça em negação e encostou o dedo indicador levemente sobre o abdômen dele, enquanto ele mordia o lábio inferior para segurar o gemido de dor. — Sua barriga está rígida, isso deve estar doendo muito. Quem fez isso com você? Quem em sã consciência faria isso com você? Isso é desumano.
— Muito pelo contrário.
A voz terna de era quase capaz de atenuar qualquer austeridade que pudesse expressar. Ele manteve-se em silêncio por alguns longos segundos, analisando-a. Não se lembrava da última vez em que vira um semblante de preocupação dirigido para si e estranhou um pouco a afabilidade, estreitando os olhos.
— São só cortezinhos — repetiu, frio.
— Sua toalha está vermelha de tanto sangue que tem nela — retrucou, um pouco impaciente.
— Não se preocupe com isso.
— Você está falando sério? — Agora, a incredulidade no tom de voz da deusa foi impossível de se conter. — Se você não vai ao hospital, temos que fazer alguma coisa.
— Você veio aqui para me irritar? — trincou o maxilar, encarando-a veemente nos olhos.
— Se eu for ser sincera, eu vim aqui achando que eu teria um jantar agradável, mas, até agora, eu só tive que lidar com alguém sem noção.
— Isso é o que eu estou fazendo. Você acha que é a primeira vez que isso acontece? — apontou para a banheira ensanguentada. — Você é nova por aqui, ainda tem muito o que aprender.
— Por que é tão difícil para você aceitar ajuda?
— Eu sei me cuidar, não preciso de ajuda.
— Ninguém disse que você não sabe — pronunciou-se, irritada, e seu cabelo começou a crescer e flutuar aos poucos sem ela ao menos perceber, tornando-se coral. — Mas você não precisa ser grosso quando alguém lhe oferece ajuda. Aceitar não significa que você não sabe se cuidar. Você só está agindo como uma criança.
Logo que terminou de falar, ela engoliu em seco quando percebeu que a íris de agora estava tão vermelha quanto a água. Ela podia sentir a tensão que exalava dele, era quase palpável.
— Saia — o deus pediu com o único fio de paciência que ainda lhe restava. — Saia agora.
— Não — franziu o cenho e cruzou os braços.
Ela sabia que não deveria ter dito aquilo, muito menos com a convicção com a qual dissera. Conseguia sentir o sangue de pulsando cada vez mais rápido e seus machucados começavam a sangrar ainda mais. Foi preciso que pressionasse o maxilar para não ceder à vontade impetuosa de dar um passo para trás. Tanto pela natural e irritante gentileza que exigia o respeito pelos desejos de , quanto pelo medo que percorria suas veias ao encarar o deus daquele jeito, como se a qualquer instante ele pudesse parti-la ao meio.
— Não? — rangeu os dentes e veias escuras começaram a aparecer debaixo de seus olhos.
— Eu não vou lhe deixar assim.
— Então, você não me deixa escolha — ele encarou-a profundamente nos olhos.
No instante que dissera aquilo, uma dor aguda invadiu o corpo de . Ela sentia os ossos de sua costela trincando um a um só para se regenerarem no segundo seguinte e ele fazer tudo de novo. Um grunhido alto de dor foi inevitável e ela precisou recuar alguns passos para se apoiar no batente da porta. Já não conseguia permanecer de pé sozinha, estava fraca. Segurou a respiração enquanto sentia uma vontade enlouquecedora de implorar para que ele parasse, ainda que não fosse fazê-lo. Com certa dificuldade, escorregando aos poucos pelo batente e tentando evitar quaisquer lágrimas, que mesmo assim insistiam em cair, concentrou-se na figura de e grossos ramos de cipó começaram a surgir e se emaranhar sobre o torso dele.
— Isso é o máximo que você consegue? — sorriu, sarcástico. — Plantas?
Assim que ele terminou de falar, espinhos longos e afiados surgiram sobre o cipó, encravando em sua pele, o que o fez gemer de dor e cessar instantaneamente a dor de .
— Nunca mais faça isso comigo — a deusa falou, irritada e ofegante, observando encará-la com raiva.
Quando notou que ele não estava revidando, esforçando-se somente para se manter de pé, percebeu que o deus estava fraco demais para sequer fazer alguma coisa. Ela imediatamente fez a planta se desfazer e percebeu que perdia a consciência aos poucos.
— Não, não, não, não!
A deusa apressou-se para segurá-lo e se levantou correndo, a tempo de jogar seu corpo na frente do dele. Ela conseguiu abraçá-lo antes que ele caísse no chão, porém não aguentaria o peso sobre si por muito tempo.
— Eu não acredito que isso está acontecendo — falou, irritada, e respirou fundo. — Se você tivesse me ouvido, eu não precisaria lhe carregar até sua cama. Viu como você complica tudo com o seu orgulho?
Sentindo cada vez mais o peso do corpo sobre si, virou-se de costas com dificuldade para que pudesse carregá-lo. O vestido justo, cuja barra estava agora mergulhada em sangue, não ajudava com a tarefa difícil.
— Você deveria me agradecer por eu não estar lhe arrastando pelos pés.
Penosamente e com somente a luz do banheiro lhe guiando, carregou até seu quarto. Colocou-o com o maior cuidado que conseguiu sobre a cama, ainda com dificuldade, e precisou apoiar-se por alguns segundos na parede depois de ajeitá-lo ali. O ar que faltava em seus pulmões aos poucos voltava e a respiração estabelecia seu ritmo natural. Antes que finalmente desencostasse dali, percebeu o quanto parecia vulnerável deitado sobre os lençóis pretos e sem a postura defensiva que lhe era peculiar. O rosto estava pleno, sem o sorriso ludibriante ou a íris fatal, e os ombros leves, como quem não carrega culpa. Traços esculpidos como um verdadeiro deus. Lembrava-lhe até a figura de um anjo caído. Uma sensação estranha lhe invadiu o estômago quando se deu conta que o estudava cautelosamente e ela precisou balançar a cabeça em negação para fingir que seu coração não havia apertado.
Assim que voltou a pisar no corredor, as luzes da casa se acenderam. apenas franziu o cenho em pura confusão, questionando-se como o sistema elétrico daquela casa funcionava. Talvez ele tivesse vida própria. Ela virou-se para trás para checar se havia acordado com a claridade, mas ele sequer havia se mexido. A deusa da primavera apressou-se para ir até a cozinha, tentando ao máximo encontrar as coisas naquele apartamento desconhecido. Procurou por um vaso de planta que pudesse usar para crescer carqueja e babosa. Enfim, o pouco conhecimento que já havia adquirido com o estágio de Démeter seria útil. Não demorou muito para que ela retornasse ao quarto com um balde de água, compressas e as plantas. Os ferimentos levaram mais tempo do que ela previu para serem limpos, o que poderia ser explicado pelo toque delicado e com certa hesitação, evitando qualquer movimento mais brusco que pudesse machucá-lo ainda mais. Assim que colocou as folhas sobre os machucados, a deusa teve a leve impressão de ver franzir o cenho em incômodo, mas deu de ombros depois de fitá-lo por alguns segundos e não receber nenhuma reação.
Quando finalmente terminou de limpar tudo, respirou fundo e sentou-se devagar na poltrona que havia em frente à cama, sentindo o peso do cansaço cair sobre seus ombros. Um longo suspiro foi inevitável depois de um dia tão atarefado. Ela encarou em silêncio, acompanhando a respiração leve e compassada do deus no movimento repetitivo de subir e descer de seu peito, algo que a acolheu de maneira estranha. Era como se transmitisse uma calmaria incomum. Agradável. À medida que o tempo passava, seu corpo finalmente relaxava e ela se permitiu dormir ali mesmo.
Ainda não estava alerta o suficiente quando foi acordada por um barulho incessante de alguém batendo em uma porta, embora ela parecesse longe. Em outro cômodo. Em outro quarto. Longe da cama de , onde acordara sozinha.

Capítulo 7

Hades respirou fundo e voltou a encarar Perséfone, sentada ao seu lado na sala de reunião. Sua esposa não parecia expressar qualquer reação em seu semblante, embora ele soubesse o que se passava em sua mente. A deusa tocava o dedo levemente sobre a borda de sua xícara de café em um movimento repetitivo, encarando o líquido escuro enquanto divagava em seus pensamentos. As Parcas, por outro lado, pareciam muito mais tranquilas do que deveriam. Sentadas do outro lado da mesa, fitando os governantes do Submundo, a notícia que haviam acabado de dar já não era novidade havia dias. Estavam surpresas, no entanto, pela falta de palavras de Perséfone, que sempre parecia ter algum comentário interessante a acrescentar. O silêncio indicava uma reflexão além da que previram. Hades não se oporia a qualquer espera de tempo para que sua esposa se pronunciasse. Ele compreendia a sua necessidade de ponderar. Ele mesmo teria que tomar uma importante decisão mais à frente.
— E vocês conseguem me dizer quando? — Perséfone perguntou, sem tirar os olhos da xícara.
— Você sabe que oráculos não são tão precisos assim — Láquesis respondeu, séria.
— Eu sei que parece uma coisa ruim agora, mas será útil para vocês, acreditem. — Cloto levantou-se com calma, sendo acompanhada pelas irmãs.
— Como exatamente será útil? — Hades pronunciou-se, confuso, ainda que seu tom tenha sido tranquilo. — Damos conta do fluxo de mortes que recebemos.
— Não é por causa do fluxo — Átropos falou ao colocar sua cadeira de volta no lugar. As irmãs concordaram em não comentar sobre tudo o que viram para que o casal não tomasse decisões precipitadas. — Mas vocês não precisam se preocupar com isso. Não é como se pudessem mudar o que vai acontecer.
Assim que as Parcas deixaram Perséfone e Hades a sós na sala de reunião, a deusa encarou o rei do Submundo com certa preocupação em seu olhar, que foi prontamente entendida.
— Eu sei, coração — ele sorriu, fraco. — Eu sinto muito. Sei que você não queria que isso acontecesse.
—Temos que esconder isso de Zeus. Pelo menos, por alguns milênios.
— Você ouviu as Parcas. Os rumores sobre vão chegar muito antes de ela mesma saber que consegue fazer isso. Não temos como saber se isso vai começar amanhã.
— Zeus vai matá-la — Perséfone balançou a cabeça em negação e suspirou. — Pelo amor dos deuses, será Asclépio tudo de novo. Temos que falar com Deméter.
— Não acha que é melhor somente nós sabermos, por enquanto?
— Você não acha que Deméter vai fazer de tudo para manter viva na Terra?
— Coração, eu entendo que você tenha uma certa simpatia pela , mas ela não é filha da Deméter. Você é.
— Você tem um ponto. Devemos contar para ?
— Não vejo porque contar — Hades deu de ombros e levantou-se da cadeira. — Ele não está envolvido.
Perséfone limitou-se a assentir com a cabeça e levantar também, acompanhando seu marido até a porta. Antes que ele voltasse aos afazeres, a deusa parou em sua frente e ajeitou sua gravata, passando a mão delicadamente pelo tecido, assim que terminou. Hades apenas segurou o queixo de Perséfone para que pudesse encará-la nos olhos, como se dissesse que tudo ficaria bem.


, eu sei que você está aí! — Psique pronunciou-se, irritada, enquanto batia incessantemente à porta do apartamento. — Abre logo!
— Psique — Hermes sorriu, carinhoso, ao encontrá-la no corredor. Ainda estava na sua primeira tarefa do dia, então ainda não haviam atrasos que pudessem abalar seu habitual bom humor. — Também precisa falar com ?
— Não, eu preciso falar com a — ela respondeu, finalmente parando de bater à porta.
— Ela está aí? — A confusão do mensageiro foi imediata. — Achei que ela morasse com você.
— Ela mora, mas ela não voltou para casa ontem à noite. — Então, Psique virou sua cabeça em direção ao apartamento de novo. — E O NÃO QUER ABRIR ESSA PORTA!
— Isso me salva tempo, na verdade — Hermes sorriu, satisfeito. — Preciso entregar uma carta a ela.
— Você só vai conseguir fazer isso... QUANDO ELE PARAR DE ME IGNORAR!
— Você poderia, por favor, parar de gritar? — abriu a porta repentinamente, segurando um copo de café e com um semblante irritadiço, assustando os dois. — Não sei se notou, mas eu tenho vizinhos.
— Pelos deuses, que cara horrível — Psique fez uma careta de desgosto. — O que tem nesse café para você ficar assim?
— Hipocrisia — Hermes respondeu.
— Onde ela está? – Psique perguntou, impaciente, porém somente recebeu um olhar de tédio como resposta.
— Roupas amassadas... Expresso... — Hermes franziu o cenho ao analisar a imagem de em sua frente. — Cabelo bagunçado... Falando por favor às sete horas da manhã... Hm. — Então, o mensageiro abriu um sorriso dissimulado e cruzou os braços. — O encontro foi bom. Muito bom.
— Urgh, eu não acredito que recebi a benção da imortalidade para ouvir isso. — Psique segurou a ânsia de vômito.
— Não melhor que o meu, mas, ainda assim, muito bom — Hermes continuou.
— O que vocês estão fazendo aqui? — O humor sarcástico não permitia que tivesse paciência o suficiente para lidar com drama tão cedo pela manhã.
— Eu vim procurar a . Ela precisa estar na Terra em uma hora. — Psique checou seu relógio de pulso. A julgar pelo ombro tensionado, ela não estava nem um pouco confortável de estar ali. — E eu preciso ir, estou atrasada. Meu turno começa em quinze minutos.
— Eu acho que ela é responsável o suficiente para controlar os próprios horários — falou, ácido, e deu um gole em seu café, recebendo um olhar irritado de Psique.
— Eu espero que ela não se atrase — a mulher ergueu a sobrancelha, sugestiva. — Hera não vai gostar nem um pouco de saber que chegou atrasada no estágio da Deméter porque ela estava na sua casa. Se ela se atrasar, eu não vou poupar culpa sobre você.
Sem que qualquer outra palavra pudesse ser dita, Psique apressou-se a andar pelo corredor na intenção de sair dali o mais rápido possível. Hermes, apenas encarando a situação com atenção, restringiu-se a esperar que ela sumisse de vista para voltar a falar.
— Você sabe construir as suas amizades, não?
— Do que você precisa, Hermes? — perguntou, apontando com a cabeça para sala, em um convite implícito para que o amigo entrasse no apartamento.
— Entregar umas coisas. — O mensageiro sentou-se no sofá e começou a separar as cartas, jogando-as no estofado sem cerimônia alguma. — realmente está aqui?
Embora Hermes esperasse uma resposta, continuou apoiado no balcão da cozinha com uma face inexpressiva, denunciando que não iria tocar no assunto.
— Bom, se ela estiver... — Hermes voltou a falar. — Tenho uma carta a ela. Vou deixar junto com as suas. Se ela não estiver aqui, fica a seu cargo entregar.
— Não se preocupe. — A voz de obrigou ambos a olharem para o corredor, de onde ela vinha enquanto segurava os seus saltos nas mãos. — Ele não vai precisar me entregar.
O cabelo bagunçado e a face levemente inchada pela falta de sono não foram o suficiente para que ou Hermes deixassem de encarar a deusa da primavera com certa admiração. O encantamento, todavia, devia-se à sua natural aura acolhedora e terna e aos jeitos graciosos, que, naquele momento, pareciam exalar dela com certa distinção. apenas desviou o olhar para seu copo e deu o último gole em seu café. Hermes, por outro lado, sorriu abertamente e estendeu o envelope para , que não hesitou em abri-lo. Sabia exatamente do que se tratava.
— Hermes — ela chamou-o, ao mesmo tempo que terminava de ler as últimas linhas escritas —, você poderia avisar a Deméter que eu vou me atrasar por conta de uma reunião urgente com Hera?
— Claro — o mensageiro sorriu, prestativo, voltando a procurar as cartas de no meio das dezenas de envelopes.
— Você tem uma reunião com Hera? — perguntou, sério, ainda que estivesse minimamente curioso.
— Tenho — encarou-o com um leve sorriso divertido. — Você não sabia? Toda terça-feira nos reunimos para um chá de café-da-manhã e falamos mal de você.
— Pelo que eu saiba, você não tem o que falar mal de mim — sorriu, malicioso. — Pelo menos, foi isso que eu interpretei dos seus gemidos ontem à noite. — Hermes imediatamente ficou boquiaberto com a fala do outro deus e redirecionou seu olhar para .
— Oh. — A deusa assumiu sua melhor falsa expressão de vergonha, que logo deu espaço a um sorriso esperto. — Pobre, . Sonhando com as coisas que não pode ter.
— Então vocês não dormiram juntos? — Hermes franziu o cenho e recebeu o olhar dos outros dois sobre si. mantinha o semblante indiferente, porém parecia levemente confusa. — Quem é você? — o mensageiro perguntou, ao arregalar os olhos. — O que você fez com o ?
— Eu adoraria prolongar essa conversa, mas eu tenho uma reunião para comparecer. — A deusa começou a colocar seus saltos.
— Você vai assim? — Hermes apontou da cabeça aos pés dela. — Hera vai ter um ataque cardíaco.
olhou para a barra avermelhada com sangue seco de seu vestido branco e não pôde deixar de concordar com o mensageiro.
— Bom... — ela voltou a sorrir, gentil. — Podemos dar um jeito nisso.
Sem ao menos hesitar, aproveitou a fenda que Ártemis já havia feito e rasgou o vestido na altura de sua coxa, arrancando metade do tecido para fora e jogando-o na direção de , que o pegou no ar com prontidão, sem ao menos expressar qualquer surpresa ou desviar o olhar, como se já o esperasse. Um sorriso fascinado, ainda que discreto, foi inevitável enquanto ele a observava tentar desembaraçar o cabelo.
— Espero que tenham um bom dia — a deusa sorriu, terna, e caminhou até a porta. — Hermes, você está convidado para jantar lá em casa hoje à noite. Podemos conversar sobre seu encontro com calma. — O mensageiro apenas assentiu, animado, e falou algo que não conseguiu ouvir, mas que ela encarou como um gesto de confirmação. — , você também está convidado, se quiser jantar. Mas só avisando que os meus jantares realmente envolvem comida.
Antes de fechar a porta atrás de si, trocou um último olhar com , desviando-o rapidamente para a região de seu torso, agora coberto por uma camiseta preta, onde os ferimentos estavam. Ele imediatamente entendeu a mensagem e deu um pequeno sorriso de lado, assentindo com a cabeça apenas uma vez, como quem garante que está tudo bem.


— Pelos deuses — Hera colocou a mão na cintura e respirou fundo ao encarar dos pés à cabeça. — Você está positivamente medieval.
A deusa da primavera sorriu, sem graça, e manteve-se parada à porta de entrada do escritório de Hera. A julgar pelos braços cruzados e a impaciência clara em sua face, a deusa do casamento não parecia nada contente com a presença de , apesar de que não poderia deixar de admitir que cativara uma curiosidade desde que recebera a carta dela perguntando se poderiam conversar a sós. A verdade é que não esperava que nada de proveitoso fosse gerado daquilo que ela queria que fosse um breve diálogo, porém o assunto que estava por vir a deixaria inclinada ao interesse.
— O que aconteceu? — Hera perguntou com um sorriso satisfeito e levemente vil, desencostando seu quadril da mesa para voltar a sentar em sua cadeira. — Arranjou briga com o Cérbero? Ou você só tem um mau gosto para roupas mesmo?
— Não, eu... isso foi apenas um imprevisto — respondeu, ao fitar seus sapatos sujos de sangue, preocupada demais em analisá-los para reparar na referência desconhecida.
— Sente-se — Hera pediu, ao apontar para a cadeira do outro lado de sua mesa.
— Obrigada — sorriu, gentil, e andou com passos cautelosos. Temia que até o barulho de seu salto contra o chão pudesse enfurecer a deusa do casamento.
— A que devo o prazer de sua presença?
— Gostaria de falar sobre .
— Claro que gostaria. — O sorriso sarcástico e os cotovelos apoiados sob a mesa concediam certo ar de irritabilidade à Hera.
— Bom, primeiramente, gostaria de agradecer por me conceder uma reunião em tão curto prazo. — Ainda que Hera tenha apreciado a educação de , tudo que ela fez foi erguer uma das sobrancelhas, exigindo, de maneira implícita, que fosse direta ao ponto. — Entendo que você tenha certa preocupação em relação aos seus laços familiares e também entendo que eu pareço representar uma ameaça...
— Ameaça? — Hera franziu o cenho e encarou-a como se não a entendesse. — Por que você representaria uma ameaça para qualquer deus, querida? Não seja ridícula, você é a deusa da primavera. Não faria mal a uma folha sequer.
— É exatamente esse o ponto. Eu não tenho a intenção de machucar nada nem ninguém, sobretudo os desejos das outras pessoas. Eu acabei de chegar ao Olimpo. Ainda preciso de tempo para me adaptar e acho que a última coisa que procuro no momento é me envolver com outra pessoa, entende?
— Você chama o não envolvimento de sair em capas de revistas com manchetes de encontro? Bem incoerente essa sua definição, não concorda? — A deusa da primavera engoliu em seco com o questionamento de Hera. Embora ela soubesse que as notícias que circulavam não possuíam embasamento algum, não poderia deixar de admitir que, na perspectiva de qualquer outra pessoa, aquilo não soava como um descaso midiático. — A sua prioridade aqui no Olimpo sempre deve ser exercer seu papel de deusa da primavera.
— Certo — concordou, hesitante, e o semblante impaciente de Hera obrigou-a a ser mais objetiva. — Eu não pretendo me casar com , se é isso que lhe preocupa, mas...
— Oh, mas você não vai — Hera interrompeu-a com um sorriso irônico.
— Como eu estava dizendo — , mesmo que soubesse que continuar a falar não era sua melhor escolha, não conseguia deixar que sua gentileza não a guiasse —, sei que é algo que lhe preocupa, mas não acho que deveria. É só que... hm... talvez seja interessante não forçar a fazer algo que ele não queira.
A risada histérica de Hera não foi interpretada como um bom sinal por . Ela vinha carregada de incredulidade, graça e irritação, misturados em uma proporção que apenas servia para confirmar a frustração da deusa da primavera. De um segundo ao outro, Hera voltou a assumir o semblante sério e a risada cessou instantaneamente. Os longos cabelos dourados começavam a flutuar, contribuindo para o indício das mudanças repentinas de humor que tanto se atribuíam à rainha do Olimpo. apenas fechou a boca em uma linha, ponderando se não deveria ter sido inteiramente sincera.
— Sua criança néscia — Hera estreitou os olhos e fitou sua convidada com afinco. — Eu não sabia que audácia e desrespeito eram características de uma deusa da primavera.
— Desculpe, a intenção não era...
— Não me importa a sua intenção. Você está falando com a rainha do Olimpo. Deve tomar mais cuidado, porque seus atos geram consequências. Eu vou fingir que isso não aconteceu, porque você acabou de chegar aqui, mas saiba que eu não estou preocupada com nada que está relacionado ao e você não deveria se preocupar com os meus laços familiares. Como eu já lhe disse, o seu papel é ser deusa da primavera. Somente isso.
— Certo — sorriu, desconfortável.
— Agora, pode ir. — Hera voltou a encarar a papelada sobre sua mesa, com tédio. — Tenho certeza que Deméter está lhe esperando.
Embora não soubesse, sobretudo pelo comportamento inóspito de Hera, suas palavras haviam gerado certo conforto na deusa do casamento. Foi por esse motivo que, quando saiu da sala, Hera desviou rapidamente o olhar para a porta, abriu um pequeno sorriso e balançou a cabeça em negação. Não somente esperava que a nova deusa já não fosse interferir nos seus planos, mas também criava expectativas de que a personalidade forte não lhe permitisse traí-la com Zeus.
— Eu acho que aquele “é brincadeira, nós não podemos lhe obrigar a casar” não era brincadeira — falou, para si mesma, enquanto andava pela mansão de Hera, procurando a saída.


— Cheguei, cheguei! — Hermes fechou a porta do apartamento atrás de si. — Desculpe o atraso.
— Eu sei que você está cheio de coisas para fazer, mas eu não posso mais chegar atrasada ao trabalho.
Hécate estava estressada, algo que ela não conseguia esconder, embora tentasse. Aqueles que não a conheciam, ao presumir pelo terninho preto impecável, botas de saltos finíssimos, cabelo chanel afiado e face jovial, não conseguiriam distinguir, mas ela apresentava uma peculiaridade no tom de voz quase imperceptível, que Hermes particularmente notara. Ele, todavia, não a contestaria. Sabia o porquê de ela estar assim e sentia-se responsável por causar o estresse.
— Eu sei, me desculpe — o mensageiro sorriu, gentil, e aproximou-se da deusa. — Eu não consigo mais conciliar o meu trabalho com isso. E as pessoas estão começando a achar estranho eu estar fazendo tanta hora extra para Zeus e para Hades.
— Talvez, seja melhor nós pedirmos para Afrodite cuidar dele.
— Eu não sei se seria uma boa ideia — Hermes franziu o cenho e cruzou os braços. — Ela já tem três filhos pequenos para tomar conta.
— É verdade — Hécate suspirou e sentou-se no braço do sofá. — Mas eu não posso continuar escondendo o Dionísio aqui. Minha casa não é um lugar bom para um bebê e nós passamos o dia inteiro fora praticamente.
— Eu sei — o mensageiro passou a mão na nuca e desviou o olhar para o chão, pensando em alguma outra alternativa. — Eu não posso mantê-lo na minha casa, ela é muito próxima da mansão de Hera.
— Eu ainda acho que você deveria encarregar alguma ninfa para cuidar do Dionísio.
— Eu não posso fazer isso, Zeus pediu para que eu cuidasse dele e pediu que eu o mantivesse escondido de Hera.
— Zeus realmente deveria parar de gerar tantos filhos, se ele não vai cuidar deles — Hécate replicou, séria.
Hermes respirou fundo e encarou a deusa em sua frente. Sabia que ela estava o ajudando mais do que deveria e não gostaria que Hécate passasse por qualquer tipo de complicação. Cuidar de um filho bastardo de Zeus nunca estivera em seus planos até que o rei do Olimpo o pedisse, temendo que sua esposa matasse sua prole. Desde então, tivera que dividir sua extensa carga horária de trabalho com um plano de paternidade. Suas faltas de habilidades e experiências naturalmente o conduziram a um inicial fracasso que se refletiam em um bebê chorando o dia todo, fraldas mal colocadas e noites sem dormir. Hécate cruzara sua vida como uma salvação naquele momento. Ela encontrara-o passeando com um bebê pelo Submundo, o que não era algo comum, apesar de ser o único lugar que pudesse sair em público, sem que Hera fosse notificada. Soube, de imediato, que Dionísio deveria ser um filho adulterino de Zeus e prontamente ofereceu ajuda, o que não era algo de sua natureza, porém alguma coisa na figura de Hermes a inclinou a fazê-lo.
Antes que o mensageiro pudesse falar qualquer coisa, um choro de bebê obrigou-os a fitarem o andar de cima do loft da cobertura em que Hécate morava.
— Preciso trabalhar. — A deusa voltou seu olhar para Hermes. — Você cuida disso? Eu acho que é troca de fralda, porque eu já o alimentei.
— Claro — o mensageiro sorriu, gentil. — Nos vemos mais tarde.
— Precisamos arranjar um outro meio de cuidar dele — ela suspirou, cansada.
— Eu vou considerar a ideia da ninfa, eu prometo.


— Última aula da semana — Deméter sorriu, contente, ao fitar descendo do vagão do trem.
Os quatro dias que haviam passado tinham sido extremamente produtivos. Deméter ficara impressionada com a rapidez com a qual aprendia a controlar seus poderes. Ela evoluía de maneira mais vertiginosa que o planejado e aquilo significava menos trabalho para a deusa da agricultura, que estava responsável pela primavera desde que Perséfone se tornara rainha do Submundo, há centenas de anos. A alegria, no entanto, não era tão satisfatória quanto esperava. Os modos distintos de e Perséfone pareciam iluminar Deméter em relação ao seu desejo de manter a nova deusa da primavera na Terra. Não importava o quanto ela quisesse, as duas não eram a mesma pessoa. Nunca seriam e ela parecia tomar consciência disso apenas agora. Perséfone não somente mostrara certa inclinação à frivolidade, como era sua filha de sangue, o que gerava um sentimento de amor insubstituível, o qual não poderia suprir com a chegada da nova deusa. , ainda que também pudesse ser tão gentil e benevolente quanto Perséfone, não possuía traços insensíveis, embora soubesse ser astuta em defesa de suas virtudes.
— As ninfas das montanhas já estão lhe esperando — Deméter começou a andar enquanto falava, esperando que a acompanhasse, como sempre. — Hoje iremos aprender uma das coisas mais importantes para você. Seria impossível você levar a primavera para todos os lugares do mundo, se tivesse que florescer e crescer árvore por árvore, arbusto por arbusto e o resto da flora como estávamos praticando. Você, acompanhada das ninfas das montanhas, vai subir até o topo de uma das montanhas e de lá florescer tudo ao seu redor em um raio de duzentos metros para começarmos. Quando você estiver boa o suficiente, vai conseguir fazer isso dos cumes mais elevados e sem precisar ver a paisagem para quilômetros de distância. Isso vai ajudar bastante nas suas tarefas.
— Como, exatamente, eu irei fazer isso para todo o terreno em um raio de duzentos metros? — perguntou, distraída, observando a paisagem que, agora, já lhe era familiar dos campos floridos.
— Concentre-se, querida — Deméter abriu um sorriso erudito e desviou o olhar da trilha para encarar a deusa que a seguia. — Eu não estarei lá para lhe ajudar, mas acho que já está pronta para se virar sozinha. Sente-se no chão, feche os olhos, respire fundo e sinta o solo. Sinta as flores, sinta o vento, sinta as pequenas sementes sob a terra. Notifique as ninfas, se precisar de algo. Eu tenho uma reunião importante sobre um novo planejamento da produção da minha marca, então estarei no Olimpo.
— Certo.
— Ótimo. Continue a trilha e Phaedra a encontrará ao final. Boa sorte.
E, com apenas um breve aceno e um leve sorriso, Deméter começou a caminhar pela mata fechada com delicadeza, como se as árvores se distorcessem para abrirem-lhe caminho. apenas franziu o cenho com a cena, apesar de enxergar graciosidade naquilo. Balançou a cabeça como quem desperta de um devaneio e voltou a caminhar pela trilha que recebia alguns raios de sol, somente aqueles que as folhagens das árvores permitiam passar. Após poucos seis minutos de caminhada silenciosa e agradável, a deusa da primavera ouviu um barulho atípico, um que não se assemelhava nem um pouco com o canto dos pássaros ou do vento deslocando-se entre as folhas. parou, por alguns segundos, olhando, atenta, ao seu redor. Nada parecia fora do normal. Até o verde das folhagens estava certo. Quando foi continuar a andar, no entanto, um susto a fez segurar a respiração e arregalar os olhos. Seu corpo, completamente surpreso, não conseguiu se mexer. Como se o tempo passasse em câmera lenta, um gigantesco leão corria em sua frente, ainda que não em sua direção. No segundo seguinte, um homem jogou-se sobre o animal em um pulo feroz, com uma pupila felina tão letal, que poderia matar alguém apenas com um olhar. Eles sequer pareciam notar a presença da deusa estática e pálida dentre a paisagem e jurou que estava enlouquecendo. Um humano estrangulando um leão com suas próprias mãos. Com as próprias mãos. Aquilo não poderia ser real. Estava vidrada no que parecia ser uma cena de filme. E, em um piscar de olhos, eles haviam sumido de vista e a floresta parecia em paz novamente.


— Boa tarde, Mikaris — sorriu, simpática, ao entrar no elevador e encontrar sua colega de trabalho.
A deusa, apesar de sempre estar inclinada a pensar sob perspectivas positivas, não podia deixar de notar que o Submundo parecia causar um leve traço de mal humor sobre seus habitantes. Especialmente sobre a ninfa que se sentava à mesa em frente à sua e que foi encarregada de tirar as eventuais dúvidas de . Era nessas horas que sentia saudades de Medea. Ela poderia não aderir às palavras mais gentis, mas, pelo menos, expressava o que queria. Mikaris limitou-se a encarar a deusa dos pés à cabeça e voltar a fitar as portas automáticas fechando. A ninfa tinha certeza de que um ser tão delicado como não conseguiria durar em um lugar como o Submundo, ainda que ela não soubesse que o estágio fosse passageiro e sem possibilidades de efetivação se dependesse de Hera.
— Como foi o seu almoço? — A deusa da primavera voltou seu olhar para a mulher ao lado, na esperança de que uma conversa pudesse surgir e disfarçar a lentidão do cubículo.
— Satisfatório. Me alimentei das almas perdidas que vagam à beira do rio Estige.
— Sério? — arregalou os olhos.
— Claro que não — a ninfa franziu o cenho e fitou a deusa. — Eu comi uma salada com as meninas do vigésimo terceiro andar.
— Oh, ainda não estou acostumada com o Submundo.
— Percebe-se. É por isso que você vem vestida assim? — Mikaris apontou para o vestido branco e o salto alto colorido, com um olhar julgador evidente.
Foi instintivo que olhasse para baixo, analisando suas roupas e depois desviasse o olhar para a ninfa, que usava um vestido curto preto justo ao corpo, com mangas longas e scarpins da mesma cor.
— Isso é tão... — Mikares continuou a falar enquanto as portas abriam. — Claro. E de séculos atrás.
— Eu acho bonito — interveio com a usual expressão séria, parado em frente ao elevador com as mãos no bolso da calça social.
Sem saber como reagir, Mikaris apenas ficou levemente pálida com a presença do deus e manteve-se estática, parte por causa da vergonha e parte por causa da beleza ameaçadora. Era muito difícil encontrá-lo vagando fora de seu andar e era ainda mais difícil saber como se comportar diante do que seria o deus mais desejado do Submundo. encarava-a de maneira inexpressiva, ela encarava-o em choque e entreolhava ambos. A deusa, que ficou sem graça com a situação, tentou cortar o silêncio.
sorriu, gentil, e ele imediatamente desviou o seu olhar para ela. — Como você está?
— Não há necessidade para conversa, eu sei que você só está me perguntando por educação — o deus ergueu a sobrancelha e revirou os olhos.
— Se eu não estivesse interessada na resposta, eu não teria perguntado, não acha?
— Sua natureza é bondosa demais — ele retrucou.
— Sua natureza é desconfiada demais — a deusa inclinou a cabeça em falsa ingenuidade.
estreitou os olhos, ficou quieto por alguns segundos e, logo depois, se virou em direção à Mikaris, que continuava parada ao encarar os dois.
— Você não está atrasada para o seu turno? — A voz sóbria dele a fez engolir em seco e assentir.
— Sim, claro. — A ninfa apressou-se a sair do elevador. — Desculpe.
— Eu deveria ir também — sorriu, cortês, e deu um passo em direção ao corredor.
— Você vem comigo.
— Desculpe, o que disse?
Antes que ele respondesse, um barulho agudo anunciou a partida do elevador e segurou firmemente pela cintura e puxou-a para dentro de novo para que a porta não fechasse sobre ela, o que fez seu corpo colar ao dele. A deusa, um pouco desnorteada pela proximidade, colocou as mãos sobre o torso dele em reflexo e corou ao sentir o calor que ele naturalmente exalava. Ela estava perto demais de e aquilo lhe causava uma sensação estranha, como de perigo iminente. O deus parecia tão ocupado em analisar os detalhes de seu rosto com um semblante intrigado que somente aos poucos soltou as mãos de sua cintura e se afastou. Ao contrário de , ele não parecia incomodado, apenas levemente confuso. Balançou a cabeça para voltar à realidade, engoliu em seco e apertou um dos botões do painel. Quando o elevador começou a subir, colocou as mãos nos bolsos da calça e voltou a falar
— Parte do seu estágio aqui é conhecer como as coisas funcionam no Submundo. Hoje eu estou responsável pelos julgamentos finais e você vai observá-los.
— Julgamentos finais? — perguntou, confusa.
— É quando decidimos se os mortos vão para os Campos Asfódelos, para os Campos de Punição do Tártaro ou para os Pomares de Elísio. O primeiro pertence às almas que não são virtuosas nem más, o segundo, às almas que são más e, o terceiro, às almas que são virtuosas. Há as exceções, que são as pessoas de feitos tão grandiosos que se tornam dignas da eternidade no Olimpo.
— Eu não acho que você consiga julgar as pessoas sem ser tendencioso.
, pelo canto do olho, observou por alguns breves segundos antes de voltar a falar.
— Você é muito nova para se expressar com tanta certeza.
— Isso significa que você acha que sempre faz a melhor escolha?
— Imagine um humano apaixonado por outro. O quão longe ele pode ir em nome do amor?
— O quanto a consciência dele permitir, eu acho — franziu o cenho com a pergunta.
— Agora, imagine o oposto, um humano que odeia um outro. O quão longe ele pode ir em nome da vingança? O que torna os atos justificáveis? Ele também pode ir tão longe quanto a consciência dele permitir?
Antes que pudesse responder, as portas do elevador se abriram e começou a andar, passando por um vasto hall com sofás e um balcão de recepção e adentrando um corredor preenchido por salas de reuniões com paredes de vidro. A deusa, ainda levemente confusa, seguia-o em seu encalço.
— Eu não sei, .
— Verdadeiro ou falso? — O deus parou em frente à porta de seu escritório. — Tudo é justo na guerra entre o amor e o ódio.
— Falso — rebateu com convicção.
— É por isso que quem faz o trabalho de julgar sou eu e não você — levantou uma sobrancelha acompanhado de um sorriso sarcástico característico. — Já esteve apaixonada?
— Hm... Creio que não.
— Já odiou alguém?
— Não, mas...
— Então, você não pode se expressar com tanta certeza quando carece desses sentimentos.
— Você acredita que tudo é justo nessa guerra? — franziu o cenho e acompanhou-o ao entrar no espaçoso escritório, intrigada demais para sequer analisar a frivolidade da decoração.
— Não. — encostou seu quadril sobre a mesa, cruzou os braços e encarou-a nos olhos. — Eu não acredito que tudo é justo, mas eu acredito no sofrimento. Ninguém o quer, então faremos todo o cabível para que ele cesse, não acha? E eu também acredito no prazer. Dois sentimentos que estão muito presentes na guerra do amor e do ódio.
— Vamos falar de Apolo e Dafne — ergueu a sobrancelha, sugestiva, e assentiu. — Você acha justo que Dafne tenha tido que se transformar em um loureiro para evitar Apolo?
— Não, mas há a condição de que ela estava sob o efeito da flecha de chumbo de Eros.
— Então, como você a julgaria, sabendo que ela privou Apolo de seu afeto, de seu prazer e de sua felicidade, sabendo que ela tinha consciência de que Apolo estava perdidamente apaixonado por ela e, por consequência, sua transformação lhe causaria dor e sofrimento pela eternidade?
— Eu a encaminharia para os Campos Asfódelos, se ela não tivesse qualquer outro ato vil ou notável em seu histórico. Não somente foi Zeus quem obrigou Eros a atirar a flecha, como eu também a estaria libertando da agonia de uma perseguição indesejada.
— Mas você tem o poder de mandá-la de volta ao Olimpo e acabar com a agonia eterna de Apolo. Então não acha que isso seria uma escolha injusta, mas, dessa vez, para Apolo?
— Meu papel é condenar os mortos, não agradar aos vivos.
— E se Apolo morresse, você o mandaria para o Tártaro por ter amado demais? Você se sentiria julgado de maneira justa, se estivesse no lugar de Apolo?
— Para começo de conversa, eu não iria lhe importunar como o imbecil do Apolo fez com a Dafne — proferiu as palavras com rapidez, sem ao menos ter tempo de filtrar os pensamentos. — Se você não estivesse interessada, isso seria problema meu. Não faz sentido eu causar repúdio em alguém que eu amo, isso não só lhe machucaria, como me machucaria por estar lhe incomodando, ainda mais se chegasse ao ponto de você suplicar a Zeus para que... — antes que pudesse continuar, franziu o cenho e pareceu criar consciência do que dizia. engoliu em seco e desviou o olhar para a janela. — Foi um exemplo hipotético. Usar você nesse contexto foi só um exemplo hipo...
— Pew, pew, pew! — Hermes invadiu o escritório de com Eros em seu encalço. Ambos usavam óculos escuros e não pareceram notar de imediato a presença de . — Tirem os diabéticos da sala, porque o docinho chegou.
— Pelos deuses, quem foi o sortudo que passou por essa sala? — o cupido abriu um sorriso dissimulado. — Essa pessoa está positivamente apaixonada. Diagnóstico do próprio Doutor Amor aqui. Vocês conseguem sentir o cheiro de paixão no ar? Quase tão bom quanto muffins saindo direto do... ?
? — Hermes repetiu, confuso, e escorregou os óculos sobre o nariz para poder enxergar melhor. — ! Você estava certo, Eros, bem que eu senti um cheiro de... amor da minha vida — o mensageiro abriu um sorriso alegre e passou seu braço sobre os ombros da deusa, claramente animado com sua presença. Ela sempre encarava os gestos de Hermes com muita simpatia. A aura afável e o habitual bom-humor tornavam o amigo uma ótima companhia em meio ao caos do Olimpo.
— Como vocês estão? — perguntou, gentil.
— A... — Eros encarou Hermes com animação.
— Ni... — o mensageiro levantou os braços.
— Mados! — o cupido finalizou com um grande sorriso e uma pose que fez rir.
— O que você está fazendo aqui? — Hermes perguntou, confuso, para a deusa.
— O que vocês estão fazendo aqui? — manteve a expressão séria.
O mensageiro não conteve a risada escandalosa, apoiando-se nos joelhos, enquanto tentava resgatar o ar em seus pulmões. não entendia o que estava acontecendo, assim como , e Eros parecia mais preocupado em achar uma posição confortável no grande sofá preto de couro do que em prestar atenção no diálogo.
— Eu adoro o seu humor, cara. — Hermes endireitou a postura e voltou a encarar . — Não sei como você consegue se manter tão sério enquanto faz piadas.
apenas franziu o cenho em resposta. O amigo conhecia-o há centenas de anos. Embora não se pudesse dizer que o deus do sofrimento e do prazer fosse o ser mais comunicativo do universo, não era possível que o mensageiro acreditasse nas próprias palavras.
— Quais são os planos para hoje? — perguntou, entusiasmada.
— Fórmula 1. — Eros voltou a se pronunciar e começou a revezar falas com Hermes.
— GP Itália.
— Melhores lugares da casa.
— Acesso aos bastidores pós corrida.
— Com direito a open de drinks.
— Belas mulheres.
— Um verdadeiro...
— Paraíso — Hermes terminou a frase do cupido e começou a fazer uma pequena dança em comemoração.
— Não vai rolar — ergueu uma sobrancelha.
— Mas você disse que ia — Eros contestou com sua melhor voz de chantagem emocional, que não foi o suficiente para comover o amigo.
— Eu tenho trabalho a fazer. — desencostou-se da mesa para pegar alguns arquivos separados sobre ela.
— Mande todos para o Tártaro de uma vez. Ninguém é genuinamente bom e não egoísta. — Eros deu de ombros.
— E pensar que é você quem distribui amor no mundo — sorriu, esperta, e recebeu um olhar divertido do cupido como resposta.
— Você é sortuda por já não precisar da minha ajuda nesse quesito — ele deu uma piscadinha e a deusa franziu a testa.
— Você está apaixonada e não me contou? — Hermes ficou boquiaberto.
— Do que você está falando? — perguntou, confusa, embora soubesse muito bem que Eros podia sentir o indício de borboletas em seu estômago, cuja existência ela se recusava a reconhecer.
— Sim, Eros — falou, sarcástico. — Do que você está falando?
— Eu... Er... Você não precisa da minha ajuda, porque... porque você é perfeita. Isso, perfeita. Você terá qualquer um que quiser.
— Hmm, isso está em um oráculo? — Hermes perguntou com a curiosidade inocente de uma criança.
— Não precisamos de um oráculo para ter certeza disso. — Eros apontou para . — Olhe só para essa obra de arte. Ela dá conta por si só.
O assentir de cabeça do mensageiro em concordância irritou e ele imediatamente fechou o arquivo em suas mãos, enrijecendo os ombros e estreitando os olhos. Embora encarasse a presença dos dois em seu escritório como um milagre pontual, como um tiro certeiro para lhe salvar de uma situação desagradável, tinha certeza de que a natureza sincera de Eros iria lhe causar algum problema e Hermes não deixaria o cômodo até obter a história completa, algo que não estava disposto a dar nem sob ordens de Zeus. Já havia sido um grande passo aceitar aquela sensação estúpida que crescia em seu peito, não estava disposto a ir além. Estava convencido de que era efêmero e definitivamente irritante.
— Obrigada, eu acho — sorriu, gentil, e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, chamando a atenção de todos. — Eu imagino que seja uma oportunidade rara, então. , quer que eu fale com alguém para ver se consigo arranjar um substituto para você?
— Ótima ideia — Hermes proferiu, radiante.
— Por mais que você trabalhe aqui, não é sua responsabilidade fazer isso — respondeu, sério, e voltou a encarar a papelada em suas mãos. — E não seria necessário, porque eu não vou. Como eu já havia dito, eu tenho trabalho a fazer.
Eros bufou, derrotado, inclinando a cabeça para trás, e Hermes fez um pequeno barulho de decepção, que foi baixo, mas não o suficiente para passar despercebido por .
— Urgh, você costumava ser mais legal — Eros murmurou, apesar de saber que somente havia dito aquilo para tentar convencê-lo a ir. — Por que você resolveu começar a fazer a coisa certa só agora que a chegou?
— Se vocês não têm assuntos ligados ao meu trabalho para acrescentarem — falou, sem desviar o olhar dos documentos —, peço que se retirem, por gentileza.
— Por gentileza? — Hermes sorriu, divertido, e encarou a deusa de relance. — Que cavalheiro. Vamos, Eros, vamos voltar ao trabalho.
esperou que Hermes e Eros fechassem a porta de vidro do escritório atrás de si para se aproximar de , em passos silenciosos, e abrir um sorriso curioso, apoiando-se devagar na mesa.
— Por que você não foi?
— Porque eu preciso fazer o meu trabalho. As almas não vão ser encaminhadas sem alguém para julgá-las.
— Sério? — ela perguntou em um falso tom de surpresa e logo depois colocou a mão no queixo. — Mas Perséfone não estava livre hoje?
— Como você sabe disso? — imediatamente desviou o olhar dos papéis para encarar , o que o deixou surpreso por causa da proximidade inesperada.
— Como você mesmo disse, eu trabalho aqui, .

Capítulo 8

Hera descera à Terra para falar com Hélio. A verdade era que, todas as vezes que precisava fazê-lo, sempre havia um apelo à tensão. Como um constante vigilante, Hélio possuía informações privilegiadas sobre os acontecimentos mundanos. Dar a volta no planeta em apenas um dia em infinitas repetições proporcionava-lhe os olhos que alguém jamais teria. Todo canto que a luz tocava era comtemplado pelo deus do sol.
Hera, consciente da vastidão de segredos, eventualmente recorria a Hélio, sobretudo para saber sobre as proles bastardas que Zeus tentava esconder dela. O desconforto, no entanto, era inevitável, pois Hélio e Hera não cativavam uma relação aprazível. Havia uma antipatia implícita que tecia certa hostilidade entre ambos, ainda que o deus atendesse aos desejos da rainha do Olimpo, algo que não poderia ser negado nem se quisesse.
— Hélio — a deusa cumprimentou-o, séria.
— Hera — ele assentiu a cabeça com uma expressão mais austera que a que lhe era peculiar.
— Eu preciso de uma informação.
— Diga-me o que precisa e eu lhe direi se posso ajudá-la.
— Zeus teve mais uma prole execrável com uma... humana — Hera assumiu um semblante de desgosto. Odiava ter que pronunciar aquelas palavras para qualquer pessoa, principalmente para si mesma. — Ele me contou no dia da nossa comemoração centenária de casamento, acredita? Disse que havia dado um jeito nisso há alguns dias, mas meu marido não é capaz de fazer as coisas com competência, você sabe, e os olimpianos vão ficar sabendo de mais uma das traições. Antes que isso aconteça, eu preciso achar essa criança para evitar qualquer comprovação desse boato. Onde ela está?
Hélio franziu o cenho e respirou fundo. Embora não gostasse da personalidade instável de Hera ou de seu abuso de poder, seria hipocrisia dizer que parte de si não sentia compaixão pela figura ressentida da rainha. A quantidade de rumores que se tornavam verdades em relação ao matrimônio de Hera era ofensiva, ainda mais com ela sendo a própria deusa do casamento.
— Zeus gerou um fruto da relação com a humana Sêmele. Desde que o bebê nasceu, há duas semanas, eu não os vi mais.
— Eles simplesmente desapareceram?
— A não ser que estejam vivendo somente à noite, creio que você deve checar a lista de mortos do Submundo.
— Zeus não mataria o próprio filho em vão, muito menos sua amante — Hera bufou, irritada, e passou a mão entre seus longos fios de cabelo dourados.
— Talvez o reino das águas? — Hélio sugeriu, cansado.
Nutrir as hipóteses da rainha do Olimpo não estava na sua lista de afazeres e atrasava o deus em relação ao seu trabalho, algo que exigia extrema pontualidade para a vida dos humanos. Como qualquer outro ser lúcido, no entanto, não se permitiria ir contra às vontades de Hera.
— Pelo bem do idiota do meu marido, eu espero que ele esteja lá.


— Isso é exatamente o que eu precisava — respirou fundo e manteve-se de olhos fechados.
Uma das coisas que ela mais gostava no Olimpo era a acolhedora sensação do sol batendo sobre seu corpo. Embora fosse dia até de noite, aquilo estranhamente não a incomodava como ela achou que iria. A temperatura era sempre agradável, nada muito quente ou muito frio, e já havia se acostumado com a luminosidade constante desde que chegara, algo que parecia contribuir para o bom humor dos olimpianos. Deitada sobre a grama do parque, o ar puro e o calor do sol a mergulhavam em uma tranquilidade que há muito tempo não sentia. Psique, ao seu lado, ao som de pássaros cantando e crianças correndo ao fundo, quase dormia.
— O que aconteceu com o sol?
franziu o cenho com a pergunta de Psique e abriu os olhos, somente para se deparar com a figura de Hermes voando sobre sua cabeça, deitado sobre o ar de barriga para baixo, com suas belas asas de plumagem branca.
— Que coincidência — o mensageiro sorriu, simpático. — Eu não sabia que vocês frequentavam o parque domingo de manhã.
— Você não deveria estar no centro de treinamento? — Psique perguntou, confusa, e sentou-se enquanto Hermes se colocava de pé novamente.
— Me reerguer dos tombos da minha vida amorosa já é o suficiente para meu físico — ele piscou, divertido. — Mas, falando sério, eu deveria estar, muito bem colocado.
— Como foi seu segundo encontro com Celene ontem à noite? — a deusa da primavera perguntou, curiosa, e abriu um sorriso ao perceber a expressão dissimulada em Hermes.
— Você sabe que foi bom.
— Vocês são um casal agora? — Psique pareceu interessada na conversa.
— Não, eu estou dormindo com outra pessoa também — o mensageiro deu de ombros e ergueu as sobrancelhas. Hermes falava tanto sobre Celene nos dias que jantavam juntos que ela sequer imaginou a possibilidade de haver outra pessoa envolvida. — E não se preocupe — ele voltou a falar assim que Psique abriu a boca para intervir —, eu avisei que estou vendo mais alguém. Agora, vamos falar do que realmente importa. — Hermes mostrou a capa da revista que segurava e apontou para uma foto de , que arregalou os olhos ao finalmente se reconhecer. — Eu e a imprensa queremos saber quando o casal mais queridinho do Olimpo vai sair de novo. Nós queremos mais informações, por favor.
— Urgh, eu não aguento mais os paparazzi indo até lá em casa na hora do almoço — Psique grunhiu, irritada. — Sorte a sua que você almoça no Submundo nos dias úteis. A calçada fica lotada, é tão insuportável que parece até o quintal de Hades.
— Você sabe que o encontro foi só uma vez e que não foi facultativo, Hermes — pegou a revista para verificar o que haviam escrito sobre ela na matéria.
— Enfim... — ele falou, com o sorriso simpático. — Nós trouxemos nosso café da manhã e tivemos...
— VOCÊ TEVE! — Eros gritou ao fundo, claramente irritado, e desviou seu olhar para ele, que estava de braços cruzados a dez metros de distância. — VOCÊ QUEM TEVE!
Eu tive a ideia de convidar vocês para se juntar a nós.
— Adoraríamos! — respondeu, já se levantando, e Psique a encarou com seu melhor semblante de incredulidade.
— Não, nós não adoraríamos, estamos bem assim.
— Oh, por favor, Psique — Hermes lacrimejou em falsa tristeza para convencê-la. — Você sabe como nós...
— VOCÊ! — Eros interrompeu-o novamente.
— Você sabe como eu amo passar tempo com você.
— Mas é claro que vamos, seria grosseria recusarmos um convite tão gentil.
, de que lado você está? — Psique retrucou, impaciente.
— Do lado do amor — a deusa respondeu, com um sorriso divertido, enquanto Hermes fazia corações no ar com suas mãos.
— A gente ama o amor — o mensageiro sorriu e bateu sua mão na de .
— Urgh, tudo bem — Psique suspirou em derrota. — Mas vocês que se movam até aqui.
— VOCÊ ESTÁ FALANDO SÉRIO? — Eros começou a andar, irritado, até eles.
— Parece que eu estou brincando? — Psique ergueu uma sobrancelha e Hermes e se entreolharam. Nunca esperavam nenhum tipo de acidez vinda dela. — Vocês vêm até aqui ou nós não iremos.
— Nós, eu repito, nós lhe convidamos para comer a nossa comida e você ainda quer que nós mudemos de lugar? Qual o seu problema? — Eros não conseguia conter a indignação.
— Vamos deixar claro que a comida não é sua. A comida do Olimpo é de graça para todos, então, se você não pagou por ela, teoricamente ela é de todos.
— Mas fui eu quem buscou no mercado.
— Se essa for a lógica, toda a comida é de Deméter, porque é ela quem planta tudo.
— E é essa a companhia selvagem que você quer colocar perto de mim? — Eros encarou Hermes e abriu os braços.
— Rei do drama — Psique revirou os olhos.
sentiu uma necessidade imediata de intervir quando a íris do cupido se tornou afiada. A deusa não fazia ideia de que Psique e Eros sequer conseguiam ficar no mesmo ambiente. O jeito com o qual Psique falava sobre ele não parecia indicar nenhum tipo de remorso, o que claramente não era o caso. Hermes, um pouco frustrado, não conseguiu conter o desapontamento e suspirou devagar, cruzando os braços. O mensageiro cativava esperanças de que os reaproximar pouco a pouco seria suficiente para que o amor reatasse. Nunca achou que sentiria isso, mas preferia a época em que Eros passava menos tempo com ele para estar com Psique, porque, ao menos, tudo parecia estar em perfeita harmonia.
— Porque nós todos não nos movemos para outro lugar? — sugeriu.
— Por que, se todos já estamos aqui?
— Pelo amor dos deuses, Psique, você não vai morrer se der cinco passos para o lado — Eros respondeu, ainda irritado.
— Ok, utilize os seus poderes de deixar todos à sua volta calmos — Hermes pediu para , que franziu o cenho em resposta.
— Eu não sabia que eu conseguia fazer isso.
— Urgh, poderia estar aqui e incitar prazer nesses dois apaixonados em negação — o mensageiro passou a mão sobre a nuca. — Isso tudo se resolveria.
— Você não ousaria! — Psique e Eros falaram em uníssono e olharam para Hermes.
— Talvez nós possamos somente deitar na grama e apreciar o silêncio — sugeriu. — O que acham?
— Você acha que eu confio em ficar perto dela? — Eros passou as mãos pelo cabelo rosa com uma expressão de desespero. — Ela tentou me matar!
— Porque eu achei que você estava me colocando em cativeiro! — Psique levantou-se em um pulo.
— Mas eu não estava!
— Você chama aquilo de quê? De vida? Eu não podia nem sair de casa e ficava o dia inteiro sozinha. Durante um ano, Eros, um ano!
— Eu... Eu... Eu... URGH! EU NÃO LHE SUPORTO! POR QUE VOCÊ ME TRATA ASSIM?
O silêncio em seguida foi desconfortável. As pessoas ao redor imediatamente fitaram a cena. Psique encarava Eros com o cenho franzido e seus olhos estavam carregados pela mais pura tristeza. Eros, por outro lado, trazia raiva e alívio. Alívio por, enfim, ter expressado um pouco de seus sentimentos acumulados, raiva por achar que Psique pensava que ele faria qualquer coisa para machucá-la.
— Eu acho que fomos longe demais dessa vez — Hermes sussurrou e engoliu em seco.


— Eu sinto muito, querida irmã. — Deméter colocou seu copo d’água sobre a mesa. — Eu não sei.
Era notório que Hera estava consumida demais por seus problemas familiares. Os almoços entre ela, Deméter e Héstia costumavam ser regados a discussões sobre a escola de Héstia, acontecimentos recentes no Olimpo, que mantinham Deméter informada, e comentários sobre matrimônios que Hera planejava. Desta vez, o único assunto que a rainha do Olimpo trouxera estava relacionado a um tema que a deixava obcecada: as traições de Zeus. Deméter entendia a profundidade da dor que a infidelidade causava, não por tê-la experimentado, mas por reconhecer que Hera perdia sua autoridade e influência cada vez que Zeus cometia seus atos hediondos.
— Eu gostaria de poder ajudá-la, Hera — Héstia sorria, complacente. — Infelizmente, eu não possuo informações que sejam de grande valor.
— Ainda está por vir o dia em que uma prole de meu marido estúpido será minha ruína — Hera colocou a mão sobre a testa e assumiu seu melhor semblante dramático. — Vocês verão, Gaia lançará seu oráculo.
— Não se preocupe com isso antes do tempo. — Deméter respirou fundo. Sabia o que a irmã pretendia fazer. Hera poderia ser generosa, agradável, interessante; poderia ser tudo, menos prudente. — Mas não faça nada que possa causar arrependimento depois.
— Como se eu já não tivesse problemas o suficiente — a rainha do Olimpo revirou os olhos e bufou, passando a mão por seus belos cabelos dourados flutuantes.
— O que mais lhe aflige? — Héstia perguntou, genuinamente preocupada.
A amabilidade e a generosidade eram características inerentes à deusa da castidade e do lar. Seus cabelos laranjas traziam certa alegria à figura sempre serena e, ao corpo robusto, uma postura acolhedora imbatível. Héstia cativava cortesia em qualquer um que conhecesse, embora soubesse manter o comportamento sério devido ao caráter extremamente correto.
, me aflige — Hera respondeu, um pouco abatida.
— Por causa das manchetes, você diz? — Héstia franziu o cenho.
— Manchetes? — Deméter parecia confusa.
— Há rumores de que e estão saindo — a deusa da castidade respondeu. — Está em todos os jornais e revistas.
e ? — Deméter deu uma leve risada e tomou um gole de seu vinho. — Isso é algum tipo de piada?
— Ultrajante, não acha? — Hera revirou os olhos. Seus cabelos flutuando acima do ombro denunciavam sua insatisfação. — Pelo menos, ela me garantiu de que nada aconteceria.
— É inesperado, certamente, mas seria apenas a história se repetindo — Deméter deu de ombros, o que fez a rainha do Olimpo estreitar os olhos. Ela estranhou o fato de a irmã não ter expressado qualquer reação protetora em relação à .
— Você não acha que é uma má ideia? — Hera instigou, curiosa. — Quer dizer, você estaria tranquila em saber que a história de Hades e Perséfone aconteceria de novo?
— Não acho que seria exatamente a mesma história — Deméter encarou a irmã, desconfiada.
— Por que diz isso? — Héstia questionou-a.
— Por dois simples fatores — a deusa da agricultura voltou a falar. — Eu reconheço que grande parte das ações de Perséfone foram geradas por causa da minha criação severa, algo que não acontece com , pois eu já não tenho a necessidade de criar uma prole perfeita quando ela sequer é minha filha. O outro fator é que e Perséfone não são a mesma pessoa. — Hera ergueu as sobrancelhas quando notou que já não poderia contar com a estratégia de Deméter de manter a nova deusa na Terra. — Perséfone tinha uma pequena inclinação à perversidade, ainda que não notasse. Não à toa cometeu um ato de traição, mas também se encaixou bem nas tarefas do Submundo. — Deméter falava com certo pesar. Arrependia-se por não ter se comportado de maneira diferente na época. — possui um excelente coração. Existe um quê de generosidade romântica e um temperamento refinado que a tornam uma deusa rara. Quando eu digo mesma história, seria como o equilíbrio entre o bom e o mal, entende? Eu, particularmente, não esperava que e ela acabassem juntos, mas não fariam um casal ruim.
Hera não gostou nem um pouco das palavras que ouvira. Héstia, por outro lado, ficou ainda mais ansiosa para conhecer .
— E seus poderes? Como vai o desenvolvimento? — a deusa da castidade, perguntou animada.
— É realmente impressionante como ela evolui rápido — Deméter respondeu, satisfeita, mais orgulhosa com o resultado de seu trabalho do que com o esforço de .
— Você acha que ela já pode começar a trabalhar? — Hera sorriu, dissimulada. Adoraria se passasse os próximos três meses na Terra.
— Primeiro, acho que ela precisa aprender a voar. — Deméter recostou-se na cadeira, sempre com uma postura impecável.
— Ela ainda não sabe voar? — Hera franziu o cenho.
— Cada coisa no seu tempo — Héstia sorriu, terna.
— Poderíamos jogá-la de um penhasco para acelerar o processo — a rainha do Olimpo revirou os olhos.


— Você já inseriu no sistema os números dessa semana? — Mikaris perguntou, desinteressada, enquanto encarava a tela de seu computador. , na mesa em frente, apenas assentiu com a cabeça. — Ótimo.
A ninfa levantou-se e abriu uma das gavetas do armário de arquivos. Retirou uns documentos em pastas pretas, verificando se eram os corretos enquanto andava até a deusa da primavera. Sem cerimônia alguma, colocou-os sobre a mesa de e voltou até sua cadeira.
— Entregue isso para a secretária de . Andar noventa e sete.
— Certo. Volto em alguns minutos — sorriu, gentil, e não recebeu resposta, algo que ela já esperava depois de quase duas semanas trabalhando com a ninfa.
Não demorou muito para que o barulho agudo do elevador anunciasse sua chegada. Eram quatro e meia da tarde e os funcionários que ainda não haviam ido embora estavam se preparando para ir. Afinal, era o Inferno, por que Tártaros eles teriam funcionários aplicados que saíam na hora certa?
O hall do andar estava vazio, sem qualquer sinal de vida. atravessou-o com a companhia do barulho de seu salto contra o chão. Passou pelo corredor com as salas de reunião e quando finalmente chegou em frente ao escritório de , a mesa de sua secretária estava desocupada. Não havia nada além de um computador desligado sobre a superfície. Teria deixado os documentos ali mesmo, se não tivesse desviado o olhar para dentro da sala de por acaso. Ele parecia observar com atenção. Sentado, uma mão segurava um papel e a outra, o queixo. A deusa da primavera apenas apontou para os arquivos que tinha em mão e ele fez um gesto com a cabeça para que ela entrasse.
— Mikaris pediu para que eu entregasse isso para sua secretária. — fechou a pesada porta de vidro atrás de si e andou até a mesa de .
Quando ele se levantou, ela não conseguiu evitar desviar seu olhar para a blusa branca dele. Uma pequena mancha avermelhada marcava o tecido na altura do peito e ela imediatamente reconheceu o que poderia ser. acompanhou o olhar confuso de e encarou suas próprias roupas.
— Está tudo bem? — ela perguntou, preocupada.
Ele sabia que não sairia da sala sem uma boa explicação. A verdade era que já nem se oporia a dar uma. Aquela sensação estranha no estômago lhe dava liberdade e conforto suficiente para que ele quisesse falar. já havia aceitado que não conseguia ir contra suas vontades perto de , embora atribuísse esse sentimento patético à natural afabilidade que ela trazia consigo aonde quer que fosse.
— Sim — ele respondeu, tranquilo, e afastou sua cadeira. — Ainda tenho uns machucados muito profundos que estão demorando para cicatrizarem.
— Você acha que, se suturarmos, ajudaria?
O estranhamento causado pela preocupação genuína de o fez estreitar os olhos. Não sabia se algum dia iria se acostumar com as reações dela, principalmente com a gentileza suave.
— Eu não sei — respondeu, sincero. — Já era para eu estar curado no dia seguinte, não sei porque está demorando tanto dessa vez.
— Ajudaria se eu soubesse o que causou essas feridas — ergueu uma sobrancelha, sugestiva.
— Bom, parcialmente você sabe, mas não vamos falar sobre isso — disse em um tom sério e a deusa abriu seu sorriso mais gentil.
— Não se preocupe, quando estiver pronto e, se quiser conversar, eu estarei aqui. Agora me diga, você tem agulha e fio? Precisamos cuidar disso — ela apontou para a mancha vermelha na camisa.
— Perséfone deixou uma caixa de primeiros socorros ali — o deus apontou para um dos armários da estante que cobria toda a parede atrás de sua mesa. — Não sei o que tem dentro, mas, do jeito que ela é precavida, não duvido que tenha tudo o que precisa e o que não precisa também.
andou até o armário e retirou a caixa. tinha razão, pelo peso, deveria ter tudo e mais um pouco. Ela apoiou-a sobre a mesa e começou a procurar os objetos enquanto desabotoava a camisa com calma.
— Você sabe que não precisa fazer isso, não sabe?
— Você não aprendeu nada, não é mesmo? — perguntou, sem desviar o olhar da caixa.
— Aprendi que você sempre tem uma resposta na ponta da língua — ele deu um pequeno sorriso.
— Não custa nada receber ajuda dos outros — a deusa falou enquanto colocava as luvas de plástico. — Além do mais, não acho que seja muito agradável suturar a si mesmo.
não respondeu, apenas se limitou a observar o que fazia. Ela retirou os instrumentos esterilizados da embalagem. Estava tentando trabalhar com o que tinha, ainda que não fosse a pessoa mais experiente para isso. Quando finalmente terminou de preparar tudo, andou até , que estava parado de pé, em frente à sua cadeira, com as mãos nos bolsos e o semblante inabalável que lhe era peculiar. tentou achar alguma posição favorável para fazer a sutura. Depois de mais de quatro tentativas, apenas revirou os olhos e segurou firmemente pela cintura, colocando-a sentada sobre a mesa e se encaixou entre suas pernas. Não que o problema fosse achar uma posição, mas também não iria se opor a ficar assim,
A deusa da primavera, um pouco surpresa, encarou-o por alguns segundos, sem que qualquer um dos dois desviasse o olhar. Segundos que ela não conseguiu decifrar o que a íris de dizia. Balançou a cabeça quando voltou à realidade e engoliu em seco.
— Eu nunca fiz isso antes, então você vai ter que confiar em mim — falou, tranquila, enquanto limpava o ferimento, que era maior do que ela esperava.
— Você nunca fez isso antes? — arregalou os olhos e ela pôde ver seus ombros tensionados.
— Se você se estressar, só vai doer mais.
Para a surpresa de , sequer sentiu a agulha sobre sua pele. Manteve uma expressão serena e as mãos nos bolsos da calça. Aquela tranquilidade contribuiu para a concentração de , que tentava fazer a sutura com a maior delicadeza que conseguia.
— Eu... hm... Eu gostaria de... de lhe agradecer.
— Pelo que, exatamente? — a deusa perguntou, distraída.
— Por hoje e pelo dia do que seria nosso falso encontro. — respirou fundo antes de continuar. — Sei que não fui a pessoa mais educada do universo, então... hm... obrigado.
— É sempre um prazer ajudá-lo, sorriu, terna, fitou-o nos olhos rapidamente e voltou a suturá-lo enquanto ele observava sua face de concentração. — Pronto. Não ficou a sutura mais bonita do mundo, mas creio que vá ajudar.
deu um passo para trás e estendeu a mão para , que a segurou para sair da mesa.
— Hades e Perséfone farão uma festa nesse final de semana — o deus começou a vestir sua camisa de novo. — Tenho certeza de que eles vão lhe enviar o convite, mas gostaria de convidá-la pessoalmente.
— Eu adoraria ir — sorriu, alegre, e o gesto causou um frio da barriga do deus, sem ele sequer tentar reprimir.
Mikaris, encarando a cena do outro lado do vidro, arregalou os olhos. Subira para tentar descobrir porquê estava demorando tanto e se deparou com e ela em seu escritório, enquanto ele abotoava a camisa. Os jornais estavam prestes a vender uma ótima história.


— Psique! — abriu a porta, animada.
— Pelos deuses! — Psique jogou a revista que lia para o alto com o susto. — O que aconteceu?
— Adivinha só quem ela viu hoje? — Ártemis apareceu atrás da outra deusa na porta de entrada, com um sorriso animado. — Adônis!
— Sério? — Psique franziu o cenho. — Achei que Ares o tivesse matado.
— Conte a história — Ártemis pediu enquanto andava até o sofá para se juntar a Psique.
— Certo — fechou a porta e foi até a cozinha para pegar um copo d’água. — Hoje foi um dia tranquilo, um desses dias especiais que Deméter está com um humor excelente.
— Dias? No plural? — Psique franziu o cenho.
— Ela é legal — respondeu, com um sorriso divertido.
— Você é a deusa da primavera — Ártemis interveio, com tom de obviedade. — Você está naturalmente inclinada a ver o lado bom das pessoas.
— Sério? Até mesmo o de Hera? — perguntou e, logo em seguida, balançou a cabeça como quem volta à realidade. — Enfim, nesses dias, Deméter permite que eu pratique o que eu quiser. Hoje, em especial, era aniversário de uma das ninfas da terra, Athania, então eu e as outras ninfas resolvemos fazer uma pequena estufa de vidro para ela como presente.
— Tão fofo, não? — Ártemis fitava Psique com os olhos brilhando.
— Não plantamos nada dentro para que ela tivesse a oportunidade de escolher o que quisesse, mas, na entrada, eu resolvi crescer rosas — a deusa da primavera estreitou os olhos ao lembrar da cena. — Só que não importava quais flores eu quisesse, as únicas que cresciam eram anêmonas.
— Adônis! — Psique sorriu, alegre.
— Sim! — Ártemis abriu os braços em animação.
— E elas eram vermelhas, não? — Psique perguntou, curiosa.
— Todas elas, sem exceção — colocou a mão sobre o queixo. — E eu estranhamente não senti uma conexão forte com essas flores como sinto com o resto.
— Adônis! — Psique e Ártemis falaram em uníssono.
— As flores eram Adônis? — a deusa da primavera estava intrigada com toda a felicidade das duas.
— Sim — a deusa da caça sorriu. — Estou surpresa que você não conheça a história.
— Eu acho melhor você ficar surpresa quando ela conhecer alguma história — Psique acrescentou.
comentou sobre isso na comemoração centenária de Hera e de Zeus, se eu não me engano — pronunciou o nome do deus do prazer e do sofrimento e Psique respirou fundo. — Ele disse algo sobre Adônis ser o verdadeiro amor de Afrodite.
— Adônis era como vocês, nascido na Terra — Ártemis começou a falar. — Porém, não era um deus, apenas um simples humano. Ele era um excelente caçador, eu adorava observá-lo. Além de ser habilidoso, ele era tão bonito quanto um deus, apesar de não bonito o suficiente para Afrodite, mas, convenhamos, quem é?
— Mas tinha um bom coração, era nobre, genuíno — Psique continuou. — Um dia, na floresta, ele encontrou Afrodite e eles se apaixonaram perdidamente com um único olhar.
— Isso aconteceu porque uma flecha de Eros havia esbarrado na deusa do desejo antes. — Ártemis levantou o dedo indicador. — Mas... Eros não especificou por quem ele gostaria que sua mãe se apaixonasse, já que foi sem querer, o que abria a possibilidade de que Afrodite poderia se apaixonar por quem ela quisesse, o que torna o amor ainda mais puro.
— Mas em um fatídico dia — Psique arregalou os olhos —, um enorme javali feriu Adônis. Afrodite desceu até a Terra em uma batida da asa de Hermes, porém chegou tarde demais. Adônis estava quase morto.
— As lágrimas de Afrodite que se juntaram ao sangue dele caíram sobre a terra e anêmonas vermelhas surgiram sobre o chão. — Ártemis parecia mergulhada demais no relato, com uma expressão de choque. — E é por isso que Afrodite não desce mais à Terra na primavera.
— Temos quase certeza de que o javali era Ares — Psique ergueu uma das sobrancelhas. — Ele morre de ciúmes dos amantes de Afrodite, apesar de ele mesmo ser um.
— Quem mais poderia ser? — Ártemis sorriu, sarcástica. — Bom, agora que já contamos a história, vamos para o assunto pelo qual eu vim aqui em primeiro lugar. Vocês vão para a festa de Hades nesse final de semana? Eu acabei de comprar o vestido perfeito. Super curto, super justo e super brilhante. Fa-bu-lo-so.
— Acho que sim, me parece uma boa oportunidade para conhecer mais pessoas — deu de ombros.
— Espere aí — Psique estreitou os olhos. — Como você sabe que também foi convidada para a festa de Hades nesse final de semana, se o envelope do nosso convite está fechado em cima da ilha da cozinha?
me convidou pessoalmente há dois dias lá no estágio.
— Como é que vocês estão se tornando meu casal favorito? — Ártemiu sorriu, incrédula. — Eu nem gosto dele.
— Pelos bons deuses — Psique colocou a mão na testa e escorregou no sofá —, então quer dizer que as revistas podem estar certas.
— Do que você está falando? — franziu o cenho junto à Ártemis.
— Vocês não viram as notícias de hoje? — Psique pegou a revista que havia caído no chão. — Está em todo lugar.
— Eu estive um pouco ocupada esses dias por causa de uns projetos da escola de Héstia — a deusa da caça pegou o objeto que Psique estendia e começou a ler. — Como emagrecer para ficar tão linda quanto Afrodite? Esse artigo é péssimo, quando as pessoas vão entender que ser magra não significa ser bonita?
— Na outra página — Psique suspirou.
— O amor deixou de ser um mito? — Ártemis lia o artigo. — Nosso casal olimpiano preferido deixou muito claro que seu relacionamento já não é uma mera paixão e, muito menos, uma única noite de sexo. Em seu segundo encontro, e foram vistos nessa última quarta-feira, juntos, no escritório do nosso glorioso deus enquanto ele terminava de abotoar sua blusa. Será que a nova deusa da primavera vai ser a responsável por fechar a caixa de Pandora dele? , reconhecido por sua fama de sexo casual... Ok, acho que podemos parar por aqui.
— O QUÊ? — segurou a revista para terminar de ler a matéria. — Por que a mídia me odeia?
— Não duvido que Hera derrube a porta de entrada daqui a pouco. — Psique respirou fundo, olhando para o teto em desânimo.
— Pelos deuses, vocês fizeram sexo no escritório dele? — Ártemis sorriu, dissimulada. — Isso é tão uma cena de filme.
— Está mais para uma cena do meu pior pesadelo — Psique suspirou.
— Nada disso aqui é verdade! — a deusa da primavera arregalou os olhos.
— Então vocês não estavam juntos no escritório dele na quarta à noite? — Ártemis ergueu uma sobrancelha.
— Bom, sim, estávamos, mas...
— E ele estava sem camisa? — Psique interrompeu .
— Estava, mas...
— VOCÊS ESTÃO PLANEJANDO UM CASAMENTO? — a deusa da caça sorriu. — EU POSSO SER MADRINHA?
— Ninguém vai se casar! — colocou a mão na testa e seu cabelo começou a flutuar sobre seus ombros. — Eu estava o ajudando com um machucado, só isso.
— Nós deveríamos falar com Afrodite ou Eros. — Ártemis ignorou tudo o que havia dito e encarou Psique profundamente nos olhos. — Precisamos saber se o amor é genuíno.

Continua...



Nota da autora: Olá, musas olimpianas! Espero que estejam bem! Queria acrescentar aqui um pequeno comentário de esclarecimento. Visando propósitos criativos, procurei trazer os mitos gregos para um cenário contemporâneo, mas, para que isso fosse possível, precisei fazer certas alterações em características, histórias e personalidades. Também gostaria de ressaltar que há diversas versões da mitologia, então escolhi as que mais me chamaram atenção e trabalhei em cima delas.


Nota da beta: Meu Deus, coitada da , não tem um dia de paz nesse Olimpo, sempre vai parar nas revistas hahahahaha mas também quem ela e querem enganar, né? É um ajuda ali, outra lá, daqui a pouco eles se rendem de vez hahahaha
E eu amei a cena do piquenique delas, super divertida, ri mt com o caos que foi instaurado em segundos com uma simples pergunta do Hermes 🗣️🗣️


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.

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