Última atualização: 01/06/2021

Prólogo

São Paulo – Brasil.
Avenida Paulista

Os finos respingos de água caindo do céu eram mais do que condizentes para um começo de manhã na "Terra da Garoa". Antes mesmo dos tímidos raios de sol iluminarem o céu a movimentação no aglomerado de prédios empresariais era constante. Carros, ônibus, motos, mesmo bicicletas, patinetes motorizados e skates são usados como modo de transporte por aqueles que transitam de uma ponta da avenida à outra.
A quantidade de pedestres era absurda. Transitavam sozinhos, em trios, duplas e até mesmo quintetos pelas calçadas. Atravessavam faixas, compravam revistas nas bancas, tomavam cafés, desciam e subiam nas vias dos metrôs subterrâneos e até mesmo faziam malabarismo com o celular em mãos enquanto seguravam mochilas, bolsas e pastas.
Cada qual seguindo a própria direção para um objetivo em comum: chegar à tempo ao seu compromisso.
Santos Benedetti era uma pequena formiga no meio daquele formigueiro de pessoas distintas. Ela já foi de se encantar pela beleza que aquele mundo moderno e repleto de pessoas importantes e interessantes causava e chegou a se sentir honrada em fazer parte daquele grupo de pessoas que teve a oportunidade ilustre de poder chamar um daqueles prédios de aparência luxuosa de local de trabalho.
Hoje não mais.
Depois de um ano trabalhando no escritório comercial de uma empresa multinacional de exportação de couros, ela foi conhecendo os bastidores de um mundo ganancioso que se refugia por trás de pessoas simpáticas, bonitas e experientes.
Após a sua formação em Administração, muito sonhava em ocupar uma cadeira de um cargo importante, onde tivesse uma sala de móveis chiques com uma vista maravilhosa do topo do prédio mais alto da Paulista, e ficou mais do que emocionada quando conseguiu um emprego onde pudesse dar os seus primeiros passos rumo ao objetivo.
Contudo, a sua personalidade impulsiva pedia mais e ficar atrás de um computador digitando e corrigindo documentos de exportação de produtos para países estrangeiros, presa em um escritório com uma equipe inteiramente masculina não supria o seu potencial.
No entanto, como já era maior de idade e já não mais legalmente dependente dos pais, ela tinha que se contentar com a sua função, pois era a qual pagava as suas contas, o aluguel do apartamento que dividia com a amiga e a parcela do seu carro.
Ela entra no saguão do grande prédio de vidraças reluzentes e piso ilustrado e brilhoso, e faz um cumprimento silencioso a Caio, o segurança. Insere o dedo no leitor das catracas e a atravessa quando a luz verde é sinalizada.
Sob os saltos, os quais a sua posição social exigia que usasse, ela caminha pelo corredor até chegar aos elevadores e sinaliza à Bete, colega que trabalhava em uma das empresas de marketing no prédio, para que ela segurasse as portas a tempo dela alcançá-los.
- Bom dia. – diz à colega e aos demais presentes no elevador, recebendo alguns acenos distraídos em resposta, e se posiciona na lateral da caixa de ferro. As portas se fecham.
- Bom dia, Liza. – Bete responde com um sorriso, apesar do semblante de preocupação.
- A segunda-feira já começou difícil? – a jovem pergunta, dando espaço para dois senhores descerem no primeiro andar.
- Mais que difícil. – ela bufa aflita e se aproxima da colega para pronunciar em tom mais baixo: – Agora pouco a Cris, recepcionista, falou sobre um rumor de que uma das empresas do prédio vai fazer cortes no orçamento hoje.
- Demissões em massa? – Liza pergunta e Bete assente freneticamente. – E como ela sabe disso?
- Ela é a recepcionista do prédio, ela ouve de tudo. Né, Liza? – diz com as sobrancelhas caídas. – Aquela vaca só não quis dizer qual empresa era. Ela gosta de ver o sofrimento alheio.
solta um riso fraco.
- Não seria a primeira vez que ela inventa esse tipo de rumor só para deixar a gente afoito.
- Eu sei, mas da última vez que ela disse que alguém da diretoria da GOLDEN G tinha um caso com a secretária, a Ana foi demitida na semana seguinte. – ela diz, dando espaço para que mais duas pessoas saíssem no sexto andar. – Algumas coisas são verídicas. E eu não posso ser demitida agora, logo quando o Jorge está trocando de empresa e estamos incertos de como vai ser o futuro dele na nova companhia. A mensalidade da escolinha do Vitor é uma fortuna e eu não quero tirá-lo de lá agora que ele finalmente se acostumou com os coleguinhas.
- Você precisa se acalmar, amiga. – Liza diz com a voz amigável. – Você pensa que as coisas deram errado antes mesmo de acontecer. Nem sabe se é a sua empresa quem está fazendo os cortes ou se vai ter cortes realmente.
- Eu preciso pensar antes de acontecer para me planejar. – Bete explica. – Sou mãe, preciso pensar na faculdade do meu filho.
- Bete, o Vitor tem quatro anos. – Liza ri contida.
- E me faltam só 14 até os 18. – ela grunhi aflita. – Daqui para lá é num piscar de olhos.
balança a cabeça, desistindo de contestar com a colega que tinha ansiedade comprovada em laudo. Quando chega no oitavo andar, a jovem se despede de Bete, garantindo: - Você ficará bem. – e se encaminha ao saguão da própria empresa.
Chegando lá ela se depara com um inusitado salão cheio de pessoas com expressões iguais às de Bete, algumas até mesmo transpiravam e outras andavam de um lado ao outro inquietas. A atendente no balcão principal, Sara, estava em uma conversa baixa ao telefone e quando se aproximou notou que ela chorava baixinho.
Liza olha ao seu redor e encontra o colega de setor, Mário, em um canto. Se aproxima o cumprimentando e logo indaga: - O que está acontecendo aqui?
O senhor já de idade, e os cabelos grisalhos evidenciavam isso, a encara com a testa vincada e os óculos de grau quadrados na ponta do fino nariz.
- Cortes no orçamento.
engole em seco.
(...)

Claro que ela não seria uma das prioridades para permanência na empresa com apenas um ano de casa quando havia funcionários de mais de oito ou 10, mas não pôde deixar de se sentir injustiçada porque ela ralava para caramba naquele emprego.
Ela havia ouvido rumores de que aqueles eram tempos difíceis para a empresa, com o valor do gado nas alturas e a falta de matéria prima que fazia o produto ficar mais caro e, por consequência, não ser vendido, mas ela nunca imaginava que estavam a ponto de declarar falência.
Contudo, não contestou. Juntou os seus pertences em uma caixa de papelão e fez a caminhada da vergonha de volta à casa. Se permitiu chamar um táxi para não passar pelo constrangimento de carregar uma caixa com toda a sua carreira metrô afora.
Chegando ao condomínio onde ficava o seu prédio, ela passa pela portaria dando um sorriso singelo ao porteiro, muito diferente daquele simpático que tinha no rosto na manhã, e caminhou até o último prédio.
Ela pega o elevador vazio e tem a oportunidade de se olhar no espelho.
O cabelo castanho longo preso em um rabo de cavalo tinha alguns fios soltos, sua camisa branca tinha a marca suja da caixa que carregou durante a viagem, a barra da calça azul escuro arrastava no chão porque ela havia se livrado dos sapatos de salto ainda no carro e a pouca maquiagem que havia passado no rosto não disfarçou em momento algum a insatisfação que estava sentindo de si mesma, fora as bolsas fundas debaixo de seus olhos avelã evidenciando o cansaço.
Ela esperou chegar ao seu andar, caminhou até a sua porta, equilibrando a caixa em mãos procurou pela chave dentro de sua bolsa, para então conseguir respirar aliviada no conforto do lar.
O apartamento não tinha mais que 56m², mas era o suficiente para duas jovens solteiras recém-formadas. Cada qual com seu quarto individual não se importavam em compartilhar os demais ambientes, pois tinham uma convivência harmônica.
As duas haviam se conhecido no primeiro ano de faculdade e se tornaram inseparáveis desde então. Tinham personalidades parecidas e um grande companheirismo, por isso sabiam que estavam destinadas a estarem na vida da outra o resto de suas vidas.
Liza deixa a caixa sob a pequena mesa de jantar e caminha até a sua minúscula cozinha. O relógio digital da geladeira marcava quatro e trinta da tarde, realmente todo o desembaraço das papeladas para a demissão havia tomado boa parte do seu dia e toda a sua paciência. Assim ela não hesita em abrir uma garrafa de vinho da sua adega e despeja o líquido na taça até enchê-la.
Com garrafa e copo em mãos, ela transita até a sala e senta-se no sofá macio.
Dizer que muitos pensamentos passavam por sua cabeça seria mentira, seus olhos estavam focados em algum ponto do rack enquanto toda a sua concentração estava focada na sua respiração leve.
Ao lado de fora, através das portas de vidros que davam à varanda do apartamento, era possível ver uma chuva torrencial se formando. As nuvens ficavam cada vez mais escuras e o dia mais cinzento.
Não saberia dizer quanto tempo havia ficado ali, só olhando aquela pequena bola de poeira parada ao lado do aparelho da internet, mas respirou fundo e chacoalhou a cabeça quando pingos grossos começaram a cair ferozmente e o barulho de trovões a despertou.
Ela tinha que começar a distribuir currículos com certa urgência, o valor do seguro-desemprego somado ao das férias que não havia tirado não poderia cobrir as suas despesas por mais de três meses, e ela sabia o quanto estava difícil a luta no mercado de trabalho ultimamente, portanto quanto antes começasse, melhor.
Liza apoia a garrafa e taça no braço do sofá e escorrega de lá para o chão, engatinhando para se aproximar do móvel que passara tanto tempo mirando. Lá ela abre o gavetão e procura por seu notebook, que não é muito difícil de ser encontrado devida a arrumação compulsiva da colega de apartamento.
Ela então atualiza os dados do seu currículo, fazendo uma careta ao colocar a data de término do contrato com a sua ex-empresa, e começa a procurar por vagas na sua área online. Depois de algumas taças de vinho, ao ler a descrição das vagas para se candidatar, ela recorda-se que é necessário apresentação do diploma em certas entrevistas.
- Merda. – xinga baixo olhando ao redor. Onde será que ela tinha guardado isso?
Liza coloca o computador de lado e volta a procurar no gavetão do rack. Lá ela encontra algumas contas pagas, papéis aleatórios, revistas e uma caixa com seu nome, provavelmente com alguns de seus pertences.
Ela puxa a caixa para o próprio colo e a abre sem hesitação, mas para por um instante ao constatar que ali havia nada mais que fotos. Dúzias delas.
A mulher já ia deixar a caixa de lado, mas uma foto em específico chama a sua atenção.
Era dela mais jovem. Devia ter cerca de 16 anos, podia-se notar pelo rosto jovial e brilho nos olhos que só um jovem isento de responsabilidades pode ter.
Na foto, Liza vestia um macacão amarelo de mangas longas repleto de logotipos de várias empresas automobilísticas e um boné preto na cabeça. Seus cabelos que sempre foram longos caíam como cascatas sobre os ombros, desordenados nas pontas. Luvas grossas pretas cobriam suas mãos e uma delas segurava um troféu de sessenta centímetros fundado na prata.
O sorriso grandioso em seu rosto evidenciava o quão feliz ela estava.
Ao seu lado, apontando para o troféu, estava um homem mais velho também com um sorriso no rosto – este mais formal – enquanto a outra mão estava pousada de forma descontraída sob o ombro da garota em um singelo abraço. Atrás deles uma parede vermelha também repleta de marcas automobilísticas fechava o cenário.
Liza não pôde deixar de sorrir com aquela imagem que há muito custo tentou tirar de sua cabeça. Foram anos tentando a muito custo esquecer os dias de glória que eram impossíveis de serem retomados.
Ela deixa a foto de lado e olha as demais mais atentamente.
Enquanto está perdida em memórias, a porta do apartamento se abre e o furacão loiro passa por ela metralhando dizeres: - Que inferno de chuva! Eu não aguento mais molhar as minhas roupas. No final da semana não vai sobrar uma calça decente para ir trabalhar.
fecha a porta com o pé e despeja suas bolsas em cima da mesa.
- Aliás, o seu boy me mandou mensagens a tarde inteira perguntando por que você não respondia as mensagens dele. – ela continua dizendo enquanto arrancava jaqueta e botas ensopadas. – Eu poderia até falar que você é uma pessoa ocupada que, ao contrário dele, não fica à toa no trabalho, mas eu não estava a fim. Além de que meu chefe estava com a macaca hoje e... – se interrompe ao notar Liza no chão da sala, tão concentrada na caixa em seu colo que não prestava a mínima atenção nos seus dizeres. – Liz, está me ouvindo?
- Oi? – a morena vira a cabeça na direção da amiga que enruga a testa enquanto analisava o ambiente.
- Uma garrafa de vinho pela metade em plena segunda-feira às... – olha no seu relógio de pulso – seis e vinte da tarde, não respondeu mensagens o dia inteiro, bagunça espalhada pelo chão e esse olhar de cachorro que caiu da mudança. – a loira se aproxima da amiga e se senta ao seu lado, afastando algumas das fotos para sentar no chão. – O que aconteceu?
Liza ri, a conhecia tão bem.
- Não tenho notícias boas. – revela fazendo uma leve careta.
- Claro que não são, caso contrário, estaríamos tomando cerveja. – a loira diz pegando a taça ao lado da amiga e tomando um gole do líquido.
respira fundo e mira os grandes olhos amêndoa da amiga.
- Fui demitida.
- O que? – ela esbraveja com as sobrancelhas erguidas.
- Eles estão fazendo cortes no orçamento. – a jovem fala sem rodeios. – A empresa está indo pro buraco.
prensa os lábios e seu olhar fica momentaneamente vago.
- Azar o deles. – fala por fim.
Liza ri fraco.
- Não sei por que pensei que você ficaria aflita com isso. Mas, de qualquer forma, não têm com o que se preocupar. – a morena trata de explicar – Consigo cobrir as despesas por um tempo, pelo menos até encontrar outro emprego.
- Realmente não estou preocupada. – sorri – Eu sei que você não me deixaria na mão. Eu fico é realmente feliz em saber que agora você vai poder procurar fazer alguma coisa que realmente goste. Era o ponta pé que você estava precisando, já vinha reclamando desse trampo há meses.
- Não. – Liza nega com movimentos vagarosos com a cabeça – Eu vou procurar algo na mesma área, que mexa com exportação. Tenho um ano de experiência com isso, fora os cursos que eu fiz. É mais fácil de conseguir um emprego.
- É, um de merda igual ao outro. – a loira diz direta – Desculpa, Liz, mas é a verdade. Tem pessoas que sonham em viver em um escritório trabalhando oito horas por dia todos os dias na semana porque o salário é mais que satisfatório, mas você não é assim. – ela sorri – Esse vazio que você fala que tem dentro de si não vai ser preenchido por dinheiro. Então você tem duas opções, continuar numa carreira que não gosta e viver insatisfeita ou pode tomar uma atitude para mudar isso agora e ficar plena.
- Não tenho direito ao benefício da dúvida agora, temos contas para pagar, aluguel, tenho a parcela do carro...
- Não dramatiza tanto. – a interrompe virando os olhos dramaticamente. – Você disse que consegue segurar as coisas por um tempo e se, durante esse tempo, você não conseguir se encontrar, eu cubro a sua parte até você se estabilizar.
- Não, . – nega veemente – Não quero montar nas suas costas.
- Não vai montar. – ela sorri bondosa. – Eu estou em uma fase ótima no serviço, você sabe. E quantas vezes você já não apoiou as minhas decisões e continuou comigo até o final? Tanto financeiramente quanto emocionalmente? – a loira continua na sequência. – Somos mais que amigas, somos irmãs. E é para isso que as irmãs servem.
mira a companheira de apê, a vaidosa e deslumbrante Kauana Silva.
Dona de longas madeixas loiras com cachos grossos, ela se destacava não só pelos olhos grandes e doces ou pelo corpo deslumbrante de uma brasileira nata. Sua inteligência e personalidade arrojada falavam por si só, ocasionando diversas amizades de diversos grupos sociais.
A honestidade e simpatia eclodiam um grande coração que era repleto de empatia, companheirismo e fidelidade. Além do bom humor, o otimismo constante e a personalidade marcante. Ela não poderia ter conhecido pessoa melhor.
- Obrigada. – abraça a amiga, que retribui com um sorriso no rosto.
- Fico muito orgulhosa por ter tomado essa decisão, mesmo que foi sob pressão. – a loira diz ao se separarem e ambas riem. – Agora é só sucesso.
suspira.
- Nem sei por onde começar. – a morena admite.
- Você não faz ideia de algo que queira fazer para o resto da vida? – a loira questiona em incentivo.
Liza olha para as fotos espalhadas no chão, mas sorri tristonha. Aquele era um sonho distante, e sua oportunidade já havia passado.
segue o seu olhar e mira uma foto em específico. Ela a pega para aproximar dos olhos e analisá-la melhor.
Na captura tinha um carro de corrida, parecidos com aqueles que passavam no canal de esporte aos domingos de manhã. Ele era preto e tinha vários desenhos em sua lataria.
Dentro havia um piloto, o capacete amarelo fechado a impedia de reconhecer a pessoa, e ao seu redor várias pessoas com as roupas nas mesmas cores. Eles pareciam agitados e realmente deveriam estar, pois estavam nas margens de uma pista de corrida, supôs.
Enquanto está perdida em pensamentos corre os olhos sobre as demais fotos. Fotos de Liza ao lado de carros, em cima de pódios, segurando troféus e vestindo os típicos macacões de pilotos.
- O que diabos é isso e como eu nunca tinha visto essas fotos antes? – ela indaga, não conseguindo impedir o seu impulso curioso.
Liza nota as fotos nas mãos da amiga e sente como se tivesse sido pega no flagra.
- Bom... – ela suspira para ganhar tempo. – É uma longa história.
- Não tenho nenhum compromisso marcado para esta noite. – sorri marota e cruza as pernas.
coça a cabeça em aflição, mas sabe que a amiga não a deixaria sair dali sem contar todo e cada detalhe sobre a sua vida no mundo das corridas. Por isso ela dá de ombros e diz: - Vou precisar de mais uma garrafa de vinho.


Capítulo 1

Santos Benedetti, também conhecida como , pode levar uma vida adulta comum e sem grandes marcos históricos, simplesmente vivendo como uma jovem-adulta que trabalha, frequenta baladas, bares e restaurantes, tem um relacionamento ioiô com um rapaz bacana, faz uma viagem ao ano e tem contas a pagar.
Contudo, por baixo daquela excelente postura, linguajar culto e boas referências profissionais, estava uma talentosa pilota automobilística e grande parte da sua roda social não fazia ideia disso.
Sua história começou cedo quando ainda tinha apenas seis anos. Com a mãe sendo sócia de uma grande rede de farmácias e o pai supervisor de uma equipe de bioquímicos em uma empresa multinacional, ela ficava sob os cuidados do tio.
Fabio Benedetti era jovem, um rapaz impulsivo que passou a morar com a irmã mais velha depois que a mãe decidiu largar tudo no Brasil para se aventurar pela Europa. No entanto, ele não deixava que sua obrigação como babá o impedisse de viver suas aventuras, portanto levava a garota para jogos de futebol, jogos de basquete e, a sua paixão pessoal, corridas.
Mostrou-a a história das corridas, as suas etapas, o grande campeonato de Fórmula 1, os bastidores por trás das máquinas potentes, a beleza do deslizar dos carros pelo asfalto e os grandes ídolos do esporte.
A menina ficou tão encantada que fez com que o tio a levasse para pilotar qualquer máquina que a fizesse ser tão veloz quanto e foi no kart por onde começou, mostrando que não era somente uma atenciosa espectadora, mas uma pilota dominante.
Inspirada pela história de Ayrton Senna, grande ídolo brasileiro, ela se atentava a todas as formas de percorrer um caminho até a vitória.
Apesar de o esporte ser dominante por homens, a garota não se deixava abalar. Aprendeu a ser rápida, a percorrer trajetórias, frenagem, dosagem da aceleração, posição do volante, a largar, ultrapassar, evitar uma ultrapassagem, saber se posicionar na pista e planejar uma corrida.
Ela prestava atenção a todo detalhe no acerto do chassi e motor acompanhando o tio a montar e desmontar os karts e com isso adquirir conhecimento sobre as minuciosas particularidades daquela ferramenta.
Assim, aos oito, começou a participar de corridas em campeonatos mirins regionais. Ganhava sete corridas de dez competidas e sempre alcançava o pódio, um lugar entre os três primeiros colocados.
Vista a grande fascinação da menina pelo esporte e seu inegável talento natural, os pais – mesmo que a contragosto – autorizaram que o tio a levasse para campeonatos mirins municipais.
Dos municipais ela seguiu para os estaduais e, com 14 anos, já era dominante nas pistas e tinha uma extensa lista de vitórias no bolso.
Na época, ela sofria muito preconceito por ser atuante em um esporte masculino e a maioria das crianças a recriminavam, acusando-a de ser "Maria-João" e inúmeros outros adjetivos maldosos. Por isso não tinha muitos amigos, resumia-se à Natalia, uma colega da sua classe; Raul, um dos competidores que disputava as mesmas provas que ela, e seu tio.
Muito madura para a sua idade ela ignorava os maus comentários e voltava seu foco completamente para o seu objetivo, se tornar uma pilota de Fórmula 1.
As condições não eram as mais acessíveis, o esporte sempre teve um custo muito alto e seus pais não eram completamente a favor da sua escolha, vetando-a de receber qualquer valor para isto. Apesar de sempre estar recebendo prêmios em valores monetários nas disputas, não era sempre que eles podiam cobrir as quantias para que ela pudesse ter as melhores condições de motor, chassi e adereços.
Ainda aos 14 anos, apesar de todas as adversidades, ela terminou o campeonato juvenil vitoriosa e passou para a Fórmula 4, a primeira escala no automobilismo fora do kart. A maioria dos pilotos eram mais velhos, por volta dos 16 e 17 anos, mas mais uma vez não se deixou abalar.
Ela disputa um campeonato na Argentina, onde mostra grande desenvoltura e termina em segundo lugar no pódio. Lá ela chama a atenção de uma equipe alemã de automobilismo, a Motorsport, que a propõe um contrato como pilota júnior até que atingisse 16 anos, idade a qual estaria oficialmente liberada para dirigir automóveis e assim disputar em campeonatos maiores.
A oportunidade na Alemanha é quase vetada pela mãe, porém o pai a convence de que essa era uma chance em milhares e que a filha deles realmente era reconhecida pelo seu talento.
- Você foi para a Alemanha? – interrompe boquiaberta.
A morena sorri.
- Com todas as despesas pagas pela Motorsport.
- Que sonho! – a loira sorri encantada.
Já na Alemanha, ela mostra sua determinação e se supera em cada obstáculo. Os campeonatos alemães da F4 são os mais disputados e, portanto, melhores para a formação de seus pilotos.
Assim, ao atingir 15 anos, ela começa a disputar uma temporada como pilota titular e traz uma avalanche de vitórias para a equipe da Academia juvenil, alcançado terceiro e segundo lugar diversas vezes, terminando a temporada em segundo lugar na classificação geral.
Aos 16 anos chama a atenção da requisitadíssima Fórmula Renault 2.0., Campeonato Europeu, conhecida por ser onde grandes campeões de Fórmula 1 estiveram no início da carreira. Neste ponto, já está em velocidade total, sonhando que a qualquer momento estaria pondo os seus pés no campeonato tão sonhado.
Ela compete uma temporada completa, viajando por diversos países, entre eles Itália, França e Portugal. Conhece alguns agentes, empresários e mesmo patrocinadores. Contudo, na época, a sua aptidão não era tão aclamara como a de seus adversários, o gênero masculino ainda era muito forte, e isto a fez perder diversos contratos e oportunidades para melhor aprimoramento da carreira.
Mesmo assim, seu desempenho a faz campeã da temporada naquele ano, despertando o interesse de marcas grandes e famosas escuderias. Entre elas a tão sonhada McLaren, mesma onde o ídolo Ayrton Senna fez o seu nome nos anos 80.
- Me fala que eles te chamaram, por favor. – pede com os olhos brilhantes.
sorri orgulhosa, relevando: - No final da entrega dos troféus, Ron Dennis me procurou.
- Traduza, por favor. – a loira faz uma careta engraçada.
- Ele era o chefe de equipe da McLaren. – Liza conta – Ele me deu o cartão dele e disse para eu o procurar quando atingisse a maioridade, para entrar no programa juvenil deles.
não consegue controlar um gritinho empolgado.
- Ele disse que já vinha notando o meu talento há algum tempo e que eu podia ter um futuro promissor como pilota da McLaren. – a morena termina a fala suspirando.
A amiga nota um crescente tom de tristeza tomar conta da conversa.
- Mas não foi o que aconteceu, já que está aqui tomando vinho comigo. – a loira diz bebendo outro gole do líquido. O conteúdo da segunda garrafa já havia acabado, restava meros goles em ambas as taças.
- Quando meus pais viram que correr estava passando de um mero hobby para a minha real profissão, me vetaram. – Liza diz cabisbaixa. – Só que eles nunca entenderam que eu nunca levei isso como um mero passatempo, eu realmente me via fazendo aquilo pelo resto da minha vida. E eles tinham muito medo disso, de eu me machucar como outros pilotos já se machucaram. É um esporte perigoso, afinal.
- Eles simplesmente não aceitaram e foi isso? Largou mão de tudo que tinha conquistado? – questiona indignada.
- Eu ainda era menor, legalmente ainda não tinha idade para tomar essas decisões. – explica. – Além do medo, tinha o fato de que minhas notas na escola estavam péssimas e o número de faltas era gigantesco porque eu mal parava em casa. – ela bufa cansada. – Então eles cancelaram meu contrato. Tivemos que pagar uma multa caríssima sobre a quebra de contrato com a Motorsport e partir, então eles me proibiram de voltar a correr. Venderam meu kart e se livraram de todos os meus troféus.
- Que triste, amiga. – a loira diz pousando a mão no ombro da outra.
- Foi como se eles tivessem tirado um órgão de mim, algo que eu realmente precisava para viver. – ela prossegue, após engolir em seco. – Eu entrei em depressão, não queria mais sair de casa, comer, sequer me levantar da cama.
tapa a boca, horrorizada.
- Passei por muitas sessões de terapia para me recuperar. – Liza conta. – E, para suprir essa falta, eles me colocaram em um monte de cursos profissionalizantes. – ela ri sem humor – Não que eu reclame, afinal, isso acabou ajudando muito. Virei até poliglota. – por final sorri.
A amiga sorri em apoio e volta a olhar as fotos. Na maioria delas, para não falar em todas, a amiga tinha um intacto sorriso grandioso nos lábios e o brilho de gratificação nos olhos. Aquela tinha sido uma parte muito importante da vida dela, estava claro.
- Então essa é a sua área. – diz com convicção.
- Esta era a minha área. – diz recolhendo as fotos espalhadas no chão e as recolocando de volta na caixa.
- Por que não pode ser mais? – a loira indaga enquanto observava a amiga guardar a caixa de volta no gavetão do rack e recolher as taças e garrafas de vinho pelo chão.
se levanta coloca as taças e garrafas sobre o balcão da cozinha e suspira pesadamente.
- Porque já passou a minha época, eu perdi a fase de me atualizar com as tecnologias dos carros, pegar a prática de agora e toda a introdução à essa nova era. – deu de ombros, obviamente chateada.
- Benedetti, você tem 22 anos. – a loira diz se levantando e caminhando em sua direção. – Você é jovem e esperta, ainda tem muitos anos para recuperar o tempo perdido. Se bem que, - ela sorri – eu acho que quando a pessoa tem um talento como você tem, o resto é mero detalhe.
- Eu nem sei se ainda consigo pilotar. – Liza se desvencilha.
- Você dirige o seu carro. – comenta.
- Não é a mesma coisa, acredite. – diz com a voz rouca.
- Mas imagino que deva ser como andar de bicicleta. – a loira insiste. – Você pode perder a prática, mas nunca se esquece realmente.
A morena morde o lábio inferior em dúvida.
- Não sei não, .
- Você está com a faca e o queijo na mão, é só cortar. – ela se expressa com ambas as mãos. – Afinal, Ron Dennis já esperou por muito tempo.
- Ele não é mais o chefe de equipe da McLaren, o cara se aposentou já faz um tempo.
- Mas ele não é o único chefe de equipe que existe. Eu acho. – ela trata de acrescentar, não entendia absolutamente nada do mundo automobilístico. Tirar a sua habilitação foi o máximo que chegou perto de tudo isso.
- Não é assim tão fácil quanto você pensa. – Liza diz séria. – Tudo isso tem um custo muito alto. Para voltar a competir em campeonatos do meu nível, eu preciso ter patrocínios, escuderia e uma marca para representar. Depois do cancelamento com a Motorsport, eu desapareci das corridas e isso tem um preço, de ser esquecida. – ela engole em seco – Eu já não tinha muito apoio naquela época por ser mulher, agora então em uma retomada na carreira vai ser muito mais difícil simplesmente encontrar alguém que queira se associar à minha imagem. Aceite, acabou para mim. O laço de confiança entre equipe e piloto é um vínculo feito em anos, eu não tenho mais essa possibilidade.
- Mas e as pessoas que trabalhavam com você, o seu tio, eles não podem ajudar? – a loira tenta esperançosa.
- , eu aprecio que você esteja tentando insistir nisso porque obviamente viu que me fez feliz. – ela pousa a mão no ombro da amiga – Mas é um assunto que a muito custo eu consegui esquecer, tive que enterrar lá no fundo da minha mente para que não me causasse mais dor. Eu não sei se estou preparada emocionalmente para voltar a ter isso presente em minha vida, sequer se estarei algum dia. Eu estou bem do jeito que estou, sério. – ela sorri como garantia – Nem todas as pessoas são plenamente felizes com as suas profissões e isso está OK.
- Mas...
- Por favor. Por mim. – ela a interrompe. – Esquece isso.
olha nos olhos da amiga, eles a imploravam para não persistir no assunto. Pela forma que ela falava e pelo modo que suas mãos tremiam ao tocar no passado, sabia que tinha uma profunda mágoa de tudo o que havia acontecido. E a loira sabia que era normal sentir medo de sair da sua zona de conforto, mas ela sabia que Liza não era daquele jeito.
Ela era altruísta, perseverante, corajosa e nunca aceitava um não como resposta. E esta recusa de seu próprio sonho ia contra todos os seus conceitos.
Mesmo assim acatou ao seu pedido e ficou quieta.
- Bom, eu vou tomar um banho e me deitar. – a morena diz suspirando. – Foi um longo dia e amanhã eu já vou começar a procurar outro emprego.
assente à contragosto.
- Boa noite.
- Boa noite.
Quando Liza fecha a porta do banheiro, corre em direção a bolsa da amiga e começa a sua busca pelo seu celular. Encontrado o telefone ela o desbloqueia e segue sem hesitações até a lista de contatos.
Precisava ser rápida.
Ela percorre a lista rapidamente até que o contato "tio Fábio" pisca na tela e seus olhos brilham.
- Vou esquecer, uma ova. - ela diz e aperta o botão da chamada. – É para o seu próprio bem.
O telefone toca duas vezes antes de ser atendido.


Capítulo 2

Já havia se passado uma semana desde que havia sido demitida. Sete dias sem precisar seguir horários, organizar sua agenda, frequentar reuniões, revisar papeladas, realizar tarefas e ela já estava no seu extremo da frustração. Odiava não ter nada produtivo para fazer.
Por isso havia criado uma rotina organizada em casa.
Às oito horas da manhã ela acordava, punha um café para ser preparado em sua cafeteira, descia até a padaria na esquina da rua de seu condomínio para comprar dois pães e tomava o seu café da manhã. Às oito e quarenta ela abria o seu notebook na página de notícias do mundo e lia algumas matérias para se atualizar. Às nove começava a sua busca online por vagas de emprego, havia feito uma assinatura em um classificado e, de vez em quando, participava de algumas pré-seleções de vagas.
Às dez e meia ela tinha aulas de alemão, havia se cadastrado em um curso online com professores nativos, e se divertia com os sons que as palavras tinham. Às onze e meia ela começava a preparar o almoço ou se arrumava para almoçar fora, fosse com a ou Rafael, com quem tinha um quase relacionamento estável.
Eles estavam há agradáveis cinco meses juntos e podia dizer que Fael a fazia feliz. Ao menos ele não era daqueles caras super possessivos que precisam saber cada passo que a parceira dá.
Eles tinham conversas agradáveis, riam bastante quando estavam juntos e tinham gostos semelhantes. Não compartilhavam tudo de suas vidas, mas acreditava que era um ponto saudável do relacionamento.
Ela já havia namorado outras vezes e tinham sido tão agradáveis quanto. Seus relacionamentos, porém, tinham data de validade e não passavam de sete meses. Geralmente porque os companheiros procuravam por estabilidade, oficializar um compromisso e dar passos importantes na relação, mas com nenhum deles sentira que estava realmente amando a ponto de se comprometer.
O mesmo acontecia no seu rolo com Fael. Mesmo que o relacionamento deles estivesse caminhando decentemente, ela ainda sentia que não estava entregue a ele. Ela os via mais como bons amigos do que como um casal realmente. E isso com certeza era um problema, que ela não lidaria até que fosse necessário intervir.
Seguindo, às duas da tarde ela voltava a procurar por vagas de empregos. Depois disso tinha o resto da tarde e noite livre. O que era legal no início, mas já estava a deixando agoniada.
Teve dias que ela se permitiu ir aproveitar a noite em alguns barzinhos da Vila Madalena e bebeu cerveja de qualidade. Outros ela apenas ficava no sofá da casa assistindo séries as quais nunca tinha tido tempo para serem finalizadas. Mas o tédio era sempre constante, ele ia e vinha frequentemente e ela não sabia até quando aguentaria.
Estava começando a considerar se voluntariar como vigia do seu prédio, visto o anúncio deixado no elevador no começo da semana. E naquela manhã, quando trocava de roupas para ir à padaria, decidiu que iria passar na portaria do prédio para saber mais sobre a vaga.
No entanto, enquanto escovava os dentes, o interfone do apartamento toca. se apressa em enxaguar a boca rapidamente a tempo de atender a chamada.
Ela corre até a cozinha e pega o aparelho.
- Oi.
- Dona , o Sr. Fabio está aqui na portaria. Tem permissão para subir? – a voz do porteiro questiona de modo formal.
- Fabio? – ela indaga, enrugando a testa. – Não conheço nenhum Fabio.
- Ele disse que é seu tio. – o porteiro diz depois de um tempo em silêncio.
- Isso é impossível, meu tio está no Reino Unido. – ela diz risonha.
"Posso falar com ela?" – escuta a voz inconfundível no fundo da ligação. Logo o telefone é passado de mão e a voz soa clara em seus ouvidos – Cacete, . Me libera logo, a viagem foi cansativa para porra.
- Tio Fábio! – ela esbraveja feliz. – Não estou acreditando!
- Tá, tá, pode falar o quanto está radiante pela surpresa mais tarde, mas agora libera a minha subida. Tá legal? – ele pede num tom jocoso de impaciência.
- Claro. – ela diz e escuta o telefone ser passado de uma mão a outra novamente. – Pode liberar a subida, Mauro.
Ela ainda estava desacreditava mesmo vendo seu tio em carne e osso do lado de fora da porta de seu apartamento. Ele estava um pouco mais velho, mas eram os mesmos olhos avelã herdado da família, os mesmos cabelos castanhos ondulados e despenteados, o mesmo cavanhaque e bigodes desenhados e o mesmo jeito de moleque que sempre teve.
- Tio! – ela exalta animada e o abraça forte.
- Puxa vida! Como você cresceu! – ele diz retribuindo o abraço na mesma intensidade. – Achei que ia ficar com um metro e meio para sempre. Você sabe, dizem que só se cresce até os 16.
ri.
- Como eu senti falta desse seu bom humor. – ela diz afastando-se e dando passagem para que ele entrasse no apartamento, carregando uma mala média de rodinhas consigo.
- Não teria sentido se me ligasse mais vezes, - ele diz ao parar a mala em um canto da sala e se virar para ela cruzando os braços – seus pais te proibiram de me ver, não de falar comigo.
- Me desculpe mesmo. – ela diz com sinceridade. – Eu fiquei tão atarefada nesses últimos anos que nem para a vovó eu ligo com frequência. Toda vez que ela me liga, me xinga horrores.
- Eu sei, eu ouço. – ele diz. – Aquela mulher vira um dragão quando está nervosa. Pessoas no raio de dez metros conseguem ouvi-la quando está dando bronca em alguém.
- Aliás, como ela está?
- Muito bem para uma vovozinha aventureira. – ele ri. – Ela está com mais energia que eu. A mulher faz tanta coisa que às vezes eu me sinto perdido. Até em grupo de escalada ela está.
Emília Benedetti era uma italiana desbravadora. Havia se aventurado quando jovem, fugindo de casa para vir pular carnaval no Brasil, se aventurou quando se casou com um brasileiro e decidiu por abandonar tudo no próprio país para ficar com ele, se aventurou ao ter sucesso em uma carreira como guia turística no país e não deixou de se aventurar quando o amor de sua vida faleceu de câncer no pâncreas.
não se recordava muito dele, porque era pequena quando tudo aconteceu, mas sua mãe dizia como a avó havia sofrido na descoberta e progressão da doença. Câncer é uma merda.
Emilia havia ficado ao lado do marido até o final, fez todas as suas vontades e não havia deixado lhe faltar absolutamente nada, por isso tinha o sentimento de dever cumprido quando ele partiu.
Então, na opinião da neta, a avó tinha mais do que o direito de aproveitar os anos que lhe restava da forma que achasse melhor. Os filhos aprovando sua decisão ou não.
- Eu quero ter esse espírito jovem da vovó quando estiver com na idade dela. – diz sorrindo orgulhosa.
- Realmente. – o tio concorda.
- Mas, me fala, o que está fazendo por aqui? E, ainda por cima, sem avisar? – ela questiona sorridente. – Me pegou de surpresa.
- Essa era a intenção. – ele piscou. – Eu queria rever a minha sobrinha preferida, que mal à nisso?
- Sou sua única sobrinha. – ela cerra os olhos brincalhona.
- E por isso eu decidi que não vou mais prolongar essa besteira de ficar evitando você só porque aconteceu tudo o que aconteceu. – ele contorna de forma eficaz – Eu sou maior de idade, você agora também é e, de qualquer forma, isso não importa mais, seus pais estão separados mesmo. Não é como se estivéssemos infringindo alguma regra.
- Nunca liguei para a opinião dos meus pais, mas sempre tive que acatá-las. – ela dá de ombros. – Hoje não mais, faço minha própria vida. Só não mantive contato com você porque você foi para o cacete do Reino Unido. Como que foi esses tempos por lá?
Eles conversavam e se atualizaram da vida um do outro até que a fome bateu e a barriga de roncou. Pela aparição inusitada e feliz, a jovem concluiu que era merecido saírem para comer decentemente em uma padaria agradável.
O tio imediatamente readquiriu suas energias, parecia muito animado na caminhada que faziam até a garagem dos prédios.
- Você tem um Gol. – ele comenta alegre quando as luzes do carro piscam ao destravar o alarme. – É a sua cara.
- Não esperava uma Maserati, não é? – ela brinca quando entram no carro.
- Se for para ser nesse nível, você tem mais cara de Porsche. – ele diz e ambos riem.
Fabio nota a agilidade do ligar até a desenvoltura da forma que ela manobrava o carro, mas nada comentou. Não falaria nada sobre o tal assunto. Por enquanto.
Contudo não fora surpresa alguma a velocidade em que percorria por entre os carros, as ultrapassagens rápidas e, até mesmo, perigosas para o trânsito de uma metrópole, mas ele sabia que ela fazia aquilo involuntariamente como se os seus sentidos executassem a ação antes que ela sequer pensasse.
Não demoraram a chegar a uma padaria grande e requintada.
- Então, demitida, hein? – Fabio cita quando terminam de fazer os seus pedidos à garçonete.
- Cortes no orçamento. – ela dá de ombros. – Não é como se eu fosse a prioridade deles.
- Eles também não eram a sua. – ele observa. – O lado bom é que você agora tem muito tempo livre.
- Não sei o que tem de bom nisso. – ela ri anasalada – Você conhece o ditado, "mente vazia, oficina do diabo".
- Credo, você falou exatamente como o seu pai agora. – ele faz uma careta enojada. – Aliás, como que está aquele filho-da-mãe?
- Bem. – ela assente. – Com uma namorada com, literalmente, a idade da filha dele e tentando acompanhar a fase juvenil dela. – ambos fazem uma careta – Mas se ele está feliz, por mim tudo bem. O vi no final de semana retrasado, fomos jogar paintball. A mira dele continua péssima.
- E sua mãe com isso?
- Está O.K. O divórcio foi mais amigável do que eu pensei, acho que eles ficaram aliviados por não terem mais que manter as aparências de que um não combinava mais com a vida do outro. – ela ri – Minha mãe, claro, está cada vez mais focada na rede de farmácias, que está a triplicar o número de lojas, e enchendo aquela casa gigantesca com dinossauros.
A garçonete traz o pedido deles, que não demoram a abocanhar sem parar a conversa por isso.
- Dinossauros? – o tio indaga depois de engolir um pão de queijo. – Tipo, fósseis?
- Não. – ri. – Cachorros gigantes. Ela comprou dois São Bernardo que tomam conta da casa.
- Nada mais apaziguador do que filhos que não a contradigam, certo? – Fábio ri. – Sua mãe sempre gostou de ser uma doutrinadora.
- É. – ela ri e dá um gole no suco de laranja. – Mas ela também está feliz e, pelo visto, está tendo uns encontros às escondidas com um cara aí. Então eu também fico feliz.
- E você?
- O que tem eu? – ela rebate distraída.
- Todo esse tempo você tem falado que as pessoas estão felizes e que você está feliz por elas. Mas você está feliz por você? – ele questiona sério.
dá um meio sorriso.
- Estou.
- Você se esqueceu que eu te conheço desde quando ainda usava fraldas? – Fabio questiona brincalhão. – Eu sei quando está mentindo.
- Não estou mentindo. – ela persiste e, quando vê que ele vai contradizê-la, continua: – Eu sou feliz com a minha vida, sou agradecida por ela. Sou privilegiada por ter o que tenho, por ter tido a oportunidade de ter feito tudo o que fiz. Para alguém na minha idade fico satisfeita em já ter saído de casa, ser financeiramente independente dos meus pais, ter o meu carro e poder comprar as minhas coisas.
- Mas você poderia ter bem mais. – ele instiga.
- Tio Fábio, por favor. – ela pede, já sentindo o assunto que viria a seguir.
- O que? – ele questiona fingindo-se estar desentendido. – Esse é o momento certo para você ir atrás do que sempre quis e ser plenamente feliz. Porque eu sei que você não está satisfeita do jeito que as coisas estão agora.
Ela morde a bochecha por dentro, ganhando tempo.
- Nós dois sabemos que isso não é mais possível. - diz depois de um tempo.
- Não. Eu sei que é possível e você acha que não é. – ele diz arrancando-lhe uma risada contida. – Você tem um talento, um talento que poucas pessoas foram gratificadas em ter. Sabe quantas vezes eu quis ter essa habilidade no volante como você tem? – ele arqueia a sobrancelha esquerda. – Eu mataria para ter, mas não é possível. Porque é um dom. Você nasceu com isso.
- Muito cedo para filosofar, não acha? – ela questiona divertida e ele a olha com cara feia.
- Não muda de assunto.
Ela revida os olhos teatralmente.
- A questão, tio, é que eu não sou mais aquela garota de 16 anos. – ela diz. – Eu mudei, você mudou, todos passamos por uma evolução durante esses seis anos. E eu não sei se estou preparada para enfrentar tudo aquilo de novo. – ela admite, encolhendo os ombros – Eu fiquei muito instável emocionalmente depois daquilo e não estou certa de que retornar para um ambiente em que eu fui muito hostilizada, insultada, vítima de preconceito pelo meu gênero é o melhor para mim no momento.
- Você sofreu muito lá sim, eu vi tudo isso. – ele pousa a mão em cima da dela por cima da mesa – Mas a sensação de ter uma máquina potente no seu comando, como ela desliza pela pista naquele asfalto macio, a velocidade que faz o seu estômago congelar, a sensação de que você está voando e, ainda por cima, fazer aquele bando de mauricinhos metidos comer poeira não recompensa tudo isso?
Por um momento se pega presa nesse misto de sensações e tem recordações vívidas onde vivenciava tudo aquilo. Faltou pouco para ela sentir o vento batendo contra o seu corpo e a pressão nos seus dedos sob o volante.
- Aonde quer chegar com isso? – ela indaga depois de despertar.
- Te fazer perceber que ser pilota é o que você é, e não tem como negar a sua origem.
Eles finalizam o seu café e o tio cobre toda a conta, disse que era o mínimo que podia fazer. Na volta para o carro o tio é quem toma a direção do carro e não o contraria.
Quando estão tomando um caminho diferente do para o condomínio onde ela morava, ela questiona: - Aonde estamos indo?
Fabio a olha de canto do olho e sorri.
- No autódromo de Interlagos. Tem uma coisa lá que eu quero você veja.
(...)

É indescritível a sensação que sentia ao estar de volta, depois de longos anos, a um autódromo.
Seu tio conseguira acesso às arquibancadas e, mesmo que não estivesse ocorrendo uma corrida no momento e o lugar estivesse completamente vazio, a emoção que arrepiava desde a sua espinha até os pelos eriçados em seu braço era impagável.
Ela percorreu os olhos pela extensão daquele circuito e parou em um trecho específico que ligava o fim da reta dos boxes à curva do sol. As duas curvas que formavam um S, nomeado carinhosamente como o S do ídolo Ayrton Senna.
Lembrar-se de Senna a fazia lembrar a sua determinação, resiliência, dedicação e o quanto era motivado. Consequentemente se sente envergonhada. No passado ela levava cada ensinamento do ídolo ao pé da letra e se, ainda tivesse comprometimento consigo mesma e com seus sonhos, não pensaria duas vezes em retornar ao esporte que tanto amava. Senna estaria decepcionado com o que ela havia se tornado.
se lembrava claramente da primeira vez que havia pisado ali. Com seis anos de súbito ela decidira que queria ser como aqueles pilotos. Ela queria sentir o arrepio de estar controlando um carro potente, de percorrer aquele circuito e trabalhar com uma equipe legal.
Nunca teve a oportunidade de competir naquele autódromo porém, e não queria aceitar a ideia de que nunca teria a oportunidade. Isso se ela optar por continuar como analista de exportação.
Fabio nota o local onde o olhar da sobrinha está preso e não consegue evitar sorrir, era exatamente o efeito que esperava ter com aquela visita. Contudo, isso não bastava.
- Vamos. – ele diz encaminhando-se para a saída da arquibancada.
- Vamos aonde? – ela indaga seguindo seus passos com tranquilidade.
- Quero que conheça um velho conhecido meu.
Eles percorrem os corredores externos, em uma caminhada vagarosa e tranquila na direção das garagens. Como o tio havia conseguido acesso à uma parte tão restrita do autódromo era o que passava pela cabeça da jovem, mas o questionamento sumiu quando ficaram tão próximos da pista principal.
Ela admirou aquele asfalto impecável, que se assemelhava à um tapete de veludo extenso. Uma grade de ferro a separava daquela superfície em que estava louca para sentir, usufruir, percorrer.
Chegado às garagens, Fabio entra no quinto portão, o único que estava aberto. está um pouco atrás e, quando seus olhos pousam no que estava dentro daquele cubículo, suas pernas travam do lado de fora.
Seu coração sob o peito tamborilou, suas mãos transpiraram e ela podia sentir sua pressão cair gradativamente.
- ? – o tio a chama quando nota sua ausência.
Mas os olhos dela estão vidrados naquele carro único, o inconfundivelmente gritante modelo MP4/4 de Fórmula 1. As rodas grandes e desgastadas, a lataria pintada de branco com detalhes vermelhos, a asa traseira com o símbolo marcante da Marlboro e o número 12 pintado em vermelho no bico frontal do carro falavam por si só.
Aquele era o carro em que Ayrton Senna ganhou o campeonato mundial em 1988.
As lágrimas vieram involuntárias marejando seus olhos. Ela não podia acreditar.
- Benedetti. – uma voz masculina, diferente da de seu tio, capta a sua atenção.
Um homem por volta de seus 35 anos de cabelos castanhos, olhos calmos, sorriso fácil e de fisionomia conhecida por tamanha semelhança, estava ao lado do carro. Ela sabia quem era ele, havia assistido algumas de suas corridas e torcido como se estivesse fazendo pelo próprio ídolo. Ele era Bruno Senna o também piloto e sobrinho de seu ídolo.
- Ah, meu Deus! – ela sopra, limpando os cantos dos olhos e piscando algumas vezes para focar a visão. Não estava acreditando quem estava parado diante dela.
O homem sorri e se aproxima.
- É um grande prazer finalmente te conhecer. – ele diz estendendo a mão em sua direção.
- Me conhecer? – ela ri abobalhada apertando sua mão. – É um grande prazer conhecer você!
- Fico honrado. – ele sorri simpático.
- Essa realmente é... – ela induz em tom de indagação, apontando para o carro.
- Ela mesma. Ao vivo e a cores.
- Puta merda! – escapa de sua boca, mas ela não se importa. Seus olhos percorrem o carro novamente e ela não consegue controlar: – Eu posso tocar?
- Tocar? – ele arqueia uma sobrancelha aos risos. – Quero que você a pilote.
- O que? – sua voz sobe três oitavos, boquiaberta.
- Chamei o Bruno aqui hoje porque sua amiga me ligou falando o quanto você tem estado incomodada com o vazio que sente em sua vida. – Fabio revela, aproximando-se dos dois. – Todos nós sabemos o que está faltando aí e o Bruno concordou comigo que é um pecado você estar tanto tempo longe das pistas. Ele está aqui para te fazer perceber que não há outra coisa que te faça mais feliz do que pilotar um carro.
- E nada melhor do que pilotar o carro do ídolo para fazer você repensar as suas decisões. – Bruno completou. – Eu acompanhei a sua trajetória quando mais nova e é inegável o quanto você é talentosa. É um erro esconder todo esse potencial atrás de uma mesa de escritório.
- Espera aí, - ela pede, confusa. – eu estou um pouco perdida. Primeiro de tudo, como vocês se conhecem?
- No final da temporada da Fórmula Renault 2.0 que você disputou eu entrei em contato com o seu tio. – Bruno revela. – Eu queria saber mais sobre a primeira brasileira, próxima mulher, que iria disputar o GP da Fórmula 1.
- Você vê isso acontecendo? – ela questiona com um sorriso bobo no rosto.
- Claramente. – ele diz veemente.
- Mas e os patrocinadores, os contratos que eu perdi... – ela começa.
- Tudo isso vai ser recuperado, faço questão de ajudar com isso. Tenho muitos contatos. – ele a interrompe, com confiança. – Você só tem que se sentar atrás do volante e dar o seu show. Precisa relembrar que nada mais importa depois que o sinal verde da largada apita. É você, o carro e a pista. Só isso importa.
pousa os olhos no carro novamente e respira fundo.
- Eu não sei se consigo.
- Consegue. – o tio diz, empurrando um capacete verde e amarelo em suas mãos. – Eu tenho fé em você.
- Meus Deus, esse não é o... – ela esbraveja admirando o capacete em mãos.
- Não. – Bruno adianta-se em negar, rindo do evidente desespero da garota. – Esse é uma réplica, os dele estão em exposição em museu.
- Ufa. – ela suspira aliviada. – Acho que eu me culparia pelo resto da vida se suasse no capacete que foi do Ayrton.
Os três riem.
- Está pronta? – Fabio pergunta, indicando o carro com a cabeça.
- Não. – ela diz. – Mas eu vou mesmo assim.
veste o macacão de proteção simples, preto, a touca, prende os cabelos por dentro do macacão, calça as luvas e mira o capacete. Tinha se esquecido da última vez que havia feito aquele ritual. Como em todas e cada vez que colocou aqueles trajes, ela se sentiu eufórica. O coração acelerou e seus instintos redobraram. Ela não pôde evitar sentir ansiedade.
O carro foi posto na pista e ela se encaminhou em sua direção com as pernas tremendo e capacete em mãos geladas.
Ela mira o cockpit, tentando absorver todo e cada detalhe do banco, painel e espaço onde dali a poucos minutos ela teria a honra de estar.
Bruno e Fabio se aproximam dela e o primeiro indica o volante em suas mãos.
- Não consigo acreditar que isso está mesmo acontecendo. – ela diz colocando o capacete na cabeça e acertando a fivela de segurança. À esta medida ela tem que secar as lágrimas que já desciam incontroláveis pelos seus olhos, atrapalharia a sua visão de dentro do capacete.
Respirando fundo, ela pega o volante das mãos de Bruno e monta no carro. Enfiando as suas pernas até alcançar os pedais e encaixando o volante no painel.
Ao contrário do que esperava, o carro não cheirava à suor e sim à eucalipto, um suave aroma de limpeza que significava que a família tinha cuidados atenciosos com aquele carro – ganho por Senna em uma aposta com Ron Dennis em uma de suas corridas. Desde então, Senna guardava o carro em casa e, após a sua morte, a família ficado com sua posse. O banco, o painel, cinto, alças e pedais eram completamente restaurados, como se fossem novos. O McLaren estava sendo bem cuidado.
Ela passa as mãos ao redor do volante, sentindo através das luvas todo o peso de estar comandando uma máquina histórica. Não controla o sorriso, era automático e inevitável.
Era aquilo. Estava acontecendo. Ela ia correr novamente.
E no carro e circuito de seu ídolo.
Seu coração triplica a velocidade das batidas.
- Esse é um carro antigo, por isso as engrenagens são diferentes das que estava acostumada. – Bruno diz apoiando-se na lataria para passar-lhe as instruções. – No geral, falta muitas coisas se comparado à tecnologia atual. Mas eu sei que você dá conta.
- Não estamos com o rádio, portanto não tem como se comunicar conosco enquanto estiver lá. – Fabio diz. – Esse é um momento seu, e vai poder fazer o que quiser.
- Faça quantas voltas você achar necessário, não tem problema algum. – Bruno diz – Só tome cuidado, estes são pneus macios e foram trocados recentemente, mas já são usados coisa de uma ou duas voltas, no máximo. Não temos uma equipe para trocá-los aqui, então por favor, os poupe.
- Entendido. – ela diz sorrindo. – Muito obrigada, não sei dizer o quanto eu estou emocionada agora.
- Só aproveite. – Bruno diz e dá um tapinha na lataria antes de se afastar junto de Fabio.
aperta o botão no volante e o ronco do motor faz todo o seu esqueleto tremer de emoção. Ela dá partida e o carro começa a se movimentar vagarosamente até a pole position, a primeira posição de largada.
Ela olha o semáforo completar suas luzes vermelhas, cada luz acessa uma pontada gelada em seu estômago e, quando se apagam, ela acelera como há muito tempo não fazia.
O carro partiu de forma veloz e seu corpo pressionado contra banco com a pressão do vento. Preparação física, ela precisava com urgência. Mas conseguiu relevar os primeiros instantes de aderência à pista e resistir aos contras.
O velocímetro marcava 200 quilômetros por hora e ela reduz, porque logo vem a primeira curva. Suas mãos giravam nos sentidos conforme a pista automaticamente, seus olhos rapidamente seguiam o circuito enquanto acertavam a asa traseira e dianteira.
Ela troca de marcha e logo reduz para as próximas duas curvas seguidas, feitas com completo domínio – exatamente como havia dito, ela nunca desaprendeu a pilotar.
Passadas as curvas, ela pega a pista reta e acelera em seu máximo. O carro está com vibração, mas ela deduz que é normal devido à sua idade, e diminui o grau da asa traseira para melhor dinâmica.
Todo o percurso parecia estar gravado em sua mente, de tantas corridas já havia assistido ali, e suas mãos se moviam sozinhas através dos comandos certos.
Ela puxa uma lufada de ar, controlando o choro.
Ela podia sentir como se tivesse o ídolo ali junto dela, de tão íntima que se sentia com aquele carro, mesmo nunca tendo o pilotado antes.
Quando chega às curvas em formado S não consegue controlar as lágrimas que despencaram pelo seu rosto. Ela reduz a velocidade e abre a viseira do capacete, já embaçada.
Tirando uma mão do volante, ela limpa os olhos com o tecido da luva rapidamente e logo trata de fechar a viseira para voltar à mão ao seu lugar.
O final da sua primeira volta é marcado pela passagem da faixa quadriculada no chão, mas ela não quer parar. Por isso acelera mais uma vez e faz o trajeto tudo de novo. Duas, três, quatro, sete, nove, 12 vezes.
Cada vez mais querendo testar os seus próprios limites e superando qualquer medo tolo que havia passado por sua cabeça. Ela queria retomar. Não, ela tinha que retornar à sua grande paixão. E ela sabia que poderia passar por qualquer coisa desde que pudesse ter suas mãos no volante de uma máquina potente.
No final da décima quarta volta, ela para na pista interna - a pit lane - em frente de Fabio e Bruno, e salta do carro reabastecida de adrenalina e coragem.
- E então? – Fabio questiona esperançoso enquanto ela tirava o capacete.
- "Na adversidade, uns desistem, enquanto outros batem recordes." – ela pronuncia, citando uma das mais famosas frases do ídolo. – E eu não estou pronta para desistir. – fala decidida e se vira para o tio – Me arranja um carro, o resto pode deixar comigo.
Fabio grita alegremente e bate a mão com um Bruno que sorria satisfeito.


Capítulo 3

A decoração moderna e paredes de tijolos à vista, com lustres pretos pendentes no teto e iluminação clara trazia um pouco de familiaridade e segurança para o coração da jovem. O cheio de comida sendo preparada, as mesas ilustradas e perfeitamente limpas, e a música típica ambiente certamente eram tranquilizantes.
O Supra di Mauro Maia é um restaurante italiano famoso em São Paulo conhecido por sua gastronomia de requinte e um chef de grande notoriedade. É um dos restaurantes favoritos dos pais de e era por isso que ela estava ali àquela noite.
Ela precisava informar aos pais a sua decisão, afinal partiria em breve à Itália para começar a coordenar o seu contrato, começar os treinos e preparação física já para entrar na sua primeira temporada do campeonato GP2 – categoria que oferece gancho de entrada para a tão sonhada Fórmula 1.
não queria ter de enfrentar os pais, mas não achava certo eles ficarem sabendo da sua decisão através da televisão ou jornais digitais. Então juntou toda a coragem que tinha e os convidou para um tranquilo jantar – sem citar o motivo, claro. Tratariam do assunto conforme os pratos chegassem à mesa. Nada que uma boa comida não pudesse resolver, certo?
- Oi, tenho uma reserva no nome de Benedetti. – a jovem diz ao recepcionista.
- Mesa para quatro pessoas? – o rapaz de sorriso simpático questiona ao mirar a tela do seu computador.
- Para cinco. – diz ao lado da amiga.
- Bem pensado, pode ser que meu pai apareça com a Barbie. – diz revirando os olhos rapidamente. – É, mesa para cinco. Por favor.
- Perfeito. – o recepcionista diz e se levanta. – Favor, queiram me acompanhar.
As duas jovens seguem o rapaz pelo salão, por entre as mesas ocupadas, e ele as indica uma mesa com seis lugares ao canto. Ótimo, pensou, quando mais discrição melhor.
- Boa noite. Sou Miguel, ficarei responsável pela mesa de vocês esta noite. Gostariam de fazer o pedido ou vão aguardar pelos demais? – o garçom se aproximou e questionou educadamente enquanto entregava os cardápios.
- Vamos aguardar, mas por enquanto pode me trazer uma garrafa de vinho. – diz sorrindo nervosa.
- Brunello di Montalcino, seco. Por favor. – diz e ele anota em seu aparelho em mãos.
- . – chama sua atenção disfarçadamente, o vinho era um dos mais caros do cardápio, contudo, também um dos mais deliciosos.
- Essa noite merece. – a loira diz confirmando o pedido. – Afinal, daqui a pouco você vai ganhar rios de dinheiro mesmo. Se permita à essas regalias.
ri.
- Precisando, podem me chamar. – o rapaz diz e se afasta.
- Você precisa ficar calma. – diz ao notar as mãos trêmulas da amiga.
- É para isso que o vinho serve.
- Eles não podem te proibir de ir. – a loira garante, charmosamente colocando o cabelo longo atrás no ombro. – Já é adulta e independente. O máximo que pode acontecer é ficarem com raiva...
- Pararem de falar comigo...
- Gritar no meio do restaurante...
- E armar um escarcéu. – finaliza engolindo em seco. – Não está ajudando.
- Só estou pontuando as possibilidades para você se preparar. – ela dá de ombros.
Miguel retorna com a garrafa solicitada e duas taças. Ele pousa a taça com delicadamente na frente de cada uma e despeja o líquido com agilidade.
- Aproveitem. – deseja e novamente se afasta.
Quando está na sua segunda taça de vinho, ela quase cospe o conteúdo na sua boca ao perceber Rafael na entrada do restaurante.
Ele passa a mão cuidadosamente pelo cabelo preto, reforçando o topete com os dedos enquanto conversava com o recepcionista alegremente. Mesmo de costas ela sabia que era ele, aquelas costas largas cobertas por uma camisa preta e bumbum redondo vestido com uma bermuda branca eram inconfundíveis.
- Que droga! – ela reclama contida na direção da amiga após engolir o vinho com dificuldade. – O que o Fael está fazendo aqui?
logo levanta ambas as sobrancelhas e morde a bochecha por dentro.
- Digamos que quando citei os cinco lugares, eu não estava contando com a namorada do seu pai. – diz receosa.
- ! – ela exclama inconformada.
- O que? – ela logo se recompõe, assumindo uma postura confiante. – Como você queria dar a notícia para ele, por mensagem? – ela ri fraco – O garoto merece ser noticiado cara a cara.
- Eu não ia fazer por mensagem. – diz indignada, para depois desviar os olhos e completar em um tom mais baixo. – Ia ligar para ele do aeroporto logo antes de embarcar.
- ! – chama sua atenção de volta.
- Está bem, eu sei que não seria a melhor forma. – ela confessa – Mas eu não queria ter que olhar nos olhos dele e falar que todos os planos que fizemos para o final do ano estão cancelados. Você já o viu fazer "a" cara triste? – nega com a cabeça – É desesperadamente dolorosa e, como todas as vezes que isso acontece, eu vou ficar me sentindo uma vilã.
- Você não é vilã. – diz com convicção. – Está indo atrás do seu sonho e, se ele realmente gostar de você, vai entender. Eu meio que já adiantei sobre a história das corridas, então não vai ser um choque tão grande assim.
- Como é? – ela indaga inconformada.
- Falei por cima só, não aprofundei muito. Era só para ele não estar por fora da conversa, poxa. – ela sorri de lado. – Mas ele não faz ideia que seja sobre isso ou porque está aqui, então o resto é com você.
solta o ar tenso.
- Você é impossível.
- E você me ama. – diz rapidamente antes de se virar e cumprimentar: – Oi, Fael!
- Oi, . – ele diz aproximando-se sorridente e eles batem as mãos no alto. – Oi, amor.
mal tem tempo de responder e logo os lábios do rapaz estão junto aos seus, em um beijo rápido.
- Que restaurante legal, nunca tinha vindo aqui antes. – ele diz sentando-se ao lado da parceira e apoiando o braço descontraidamente no encosto da sua cadeira.
- É, bem legal. – concorda, sorrindo sem humor.
- Amor, sobre aquela viagem para as Maldivas, eu estava vendo uma promoção de passagens essa semana. – ele diz enquanto levantava o dedo para chamar o garçom. – Os preços caíram pela metade do preço, é a hora certa de comprar.
arqueia as sobrancelhas em surpresa pela rapidez em que o assunto foi abordado e um segundo depois está de pé: - Eu vou até o toalete, se me deem licença.
observa a loira caminhar vagarosamente até os banheiros amaldiçoando-a silenciosamente. Miguel se aproxima da mesa e já deixa uma taça para o recém-chegado, prevendo o seu pedido.
- Obrigado, amigo. – Rafael agradece sorrindo enquanto Miguel despejava o líquido em sua taça.
- Então, Fael, sobre a viagem... – ela umedece os lábios ao virar em sua direção e encarar aqueles olhos pretos profundos. – Vai ter que ser adiada.
Miguel inteligentemente se afasta da mesa quando nota o rapaz tirar o sorriso do rosto e parar o caminho que fazia da taça até a própria boca.
- Por quê?
- É melhor esperar os meus pais chegarem para a gente continuar essa conversa. – ela diz cuidadosamente.
- Ah Meu Deus – sua expressão se torna de completo pavor e ele pousa a taça de volta sobre a mesa. – Viagem adiada, jantar com seus pais... Você está grávida.
- O que? – ela ri. – Claro que não.
- Ufa! – ele suspira com a mão no peito. – Que susto.
ri verdadeiramente.
- Não que não seria legal uma mini ou um mini Fael correndo pela casa, - ele se adianta, acariciando o ombro dela delicadamente. – Mas acho que não estamos prontos para isso ainda.
- Definitivamente não estamos.
Eles sorriem um para o outro.
- Sabe, a estava comentando algo esses dias atrás sobre você e alguns prêmios em campeonatos automobilísticos. – ele comentou descontraidamente antes de tomar um gole do vinho. - E eu fiquei me perguntando de quem eu estava com raiva: você por não ter me contado nada ou eu por não ter jogado o seu nome na internet quando começamos a sair.
ri.
- Você costuma jogar o nome de quem você sai na internet?
- Não, mas acho que vou passar a aderir. – ele diz rindo. – Descobri que você foi uma das melhores pilotas júnior. Por que não me contou?
Ela respira fundo.
- Era um passado que eu vinha tentando superar, esquecer. – diz olhando em seus olhos. – Contar a vocês não ajudaria no processo.
Ele se põe a pensar, mas logo admiti: - É, faz sentido.
Ela sorri e permanece com os olhos nos dele por alguns instantes.
- Pode perguntar, eu sei que você está se coçando para saber.
- Como que era? – ele questiona com um sorriso enorme nos lábios. – A sensação de dirigir um carro incrivelmente veloz?
ri anasalado.
- Maravilhoso. – ela pronuncia, com paixão exalante no brilho de seus olhos. – Você sente todo aquele poder nas palmas de suas mãos e supri qualquer outro sentimento. Te deixa extasiado. É uma das melhores sensações que já senti na minha vida.
- Qual a velocidade máxima que você já alcançou? – ele indaga com o rosto repleto de admiração.
- Já cheguei à 305 km/h., mas isso em testes com carros da F2, não cheguei a disputar com esses carros. Minha categoria permitia só até os 170 km/h.
- Isso é tão legal! – ele celebra. – Eu vi que você teve nove vitórias na Fórmula Renault, e foi campeã na sua temporada de estreia. Isso é impressionante!
- Você realmente me googlou! – ela comenta risonha.
- Era o mínimo que eu poderia fazer. – ele dá de ombros aos risos. – Têm umas três páginas de pesquisa falando sobre a minha namorada e eu não fazia ideia. Mas tudo bem. A questão é: você sempre se sentiu deslocada no trabalho e estava insatisfeita, agora eu sei por que, mas, por que não retomou sua carreira ainda?
sorri desconcertada e é salva antes que pudesse abrir a boca. Seus pais haviam chegado no momento certo.
- Boa noite, queridos. – diz sua mãe com um sorriso simpático no rosto.
Ambos se levantaram para cumprimentar, respira aliviada.
- Oi, pai. – ela diz abraçando ao homem. – Vocês vieram juntos?
- Não, chegamos ao mesmo tempo. – o pai informa sorrindo. – O que quer dizer que não estou atrasado.
- Vai chover, graças a esse milagre. – Patrícia alfineta de forma divertida, logo puxando a filha para um abraço depois de cumprimentar Fael. - Você está divina, meu amor. - a mulher elogia admirando o seu vestido vermelho de alças e saltos finos.
- Seria o segundo da noite, já que é incomum a convidar a nós dois para um jantar no meio da semana. – Marcos rebate, olhando sugestivamente na direção da filha.
retorna à mesa no mesmo instante e cumprimenta os recém-chegados. Não se demora muito para que todos se acomodassem e avaliassem os cardápios.
Depois que haviam feito os seus pedidos, auxiliados por Miguel que havia feito aconselhamentos notavelmente deliciosos, sabia que não teria muito tempo até que alguém questionasse o real motivo para estarem reunidos naquela noite. E foi o que o seu pai pontuou na sequência: - Apesar de estar contente por esta reunião, minha filha, estou curioso em saber o porquê ela foi necessária.
olha para , que a incentiva com o olhar, e respira fundo.
- Reuni vocês aqui hoje porque tenho uma notícia importante para dar.
- Vocês vão se casar! – a mãe sugere alegremente, batendo as mãos em entusiasmo.
Rafael engasga com o líquido que havia acabado de colocar na boca.
- Não! – se adianta em negar e dar palmadas leves nas costas no rapaz. – Por favor, não tentem adivinhar. Só hoje já fiquei noiva e grávida.
- Está grávida? – o pai indaga com a face alarmada.
- Não! – ela nega novamente e se vira à Fael. – Você está bem?
- Sim. – ele diz com a voz rouca, depois de duas tosses.
endireita a sua postura diante de todos os olhos em sua direção e respira fundo novamente.
- Eu vou voltar a correr.
A mesa é coberta por um manto agonizante de silêncio.
olha para as expressões de cada um, que – exceto a de – todas estavam surpresas, e continua: - Angelo Rosin da Prema Racing está me esperando na Itália até a próxima semana para finalizarmos o acordo sobre eu correr como pilota deles na próxima temporada da Fórmula 2 e já começar os testes classificatórios. Ela vai ser o meu gancho de entrada para a Fórmula 1 porque preciso completar minha caderneta de quilômetros corridos com um carro de mais de 600 cavalos para tirar a superlicença e ter autorização oficial. Embarco neste sábado.
Dito isso, ela pega sua taça e dá uma grande golada no vinho.
Depois que pousa a taça na mesa novamente, aguarda pela torrente de perguntas que viriam.
- Você está louca?
- Colocar sua vida em risco assim?
- Você já assinou um contrato sem ao menos contatar os seus responsáveis?
- A passagem é reembolsável?
- Quando começa essa temporada?
- Você leu as cláusulas desse acordo?
- Calma, pessoal, vamos ouvir o que ela tem a dizer. – pede educadamente.
- Basta. – sobressalta, interrompendo os questionamentos. – Primeiro de tudo, eu quero deixar claro que essa é a minha decisão e não há circunstância alguma que me faça mudar de ideia. Eu sou maior de idade e porventura agora tenho direito de escolher o que eu quero para a minha vida. E é isso que eu sempre quis.
- Você já assinou o contrato? – a mãe pergunta incrédula.
- Há três dias.
A mãe põe a mão no peito enquanto ergue a outra de forma alarmante, para chamar Miguel: - Uma água, por favor.
Marcos olha para a filha com uma expressão pensativa. Em seguida procura por sua mão por cima da mesa. entrelaça os seus dedos.
- É isso mesmo que você quer, querida? – ele questiona carinhosamente.
- Sim, pai. - ela sorri.
Ele solta o ar que prendia.
- É muito perigoso. – ele comenta relutante. – As pessoas morrem nessas competições.
- Isso acontecia com frequência antigamente, pai. – ela explica – Hoje, com o avanço da tecnologia, a segurança triplicou e é muito difícil um acidente chegar á óbito. Eu sei que é um esporte perigoso, mas nós sofremos riscos todos os dias de nossas vidas em qualquer profissão. Para morrer, basta estar vivo. E eu não vou mais deixar que o medo decida por mim.
Marcos olha a filha nos olhos e sorri.
- Você tem um bom agente para cuidar da parte burocrática? – ele indaga.
- O que? – a mãe esbraveja olhando diretamente para Marcos, que a ignora.
- O tio Fábio já está lá cuidando disso para mim junto da Renata Rodrigues, aquela advogada que negociou a quebra do contrato. – ela informa sorrindo aliviada. – Eles estão fechando acordo com uma empresária para gerenciar minha carreira e evitar boa parte dos problemas da última vez, ela vai favorecer a minha imagem.
- Eu sabia que tinha dedo do seu tio nisso, assim que a mamãe falou que ele estava vindo para cá, eu devia ter desconfiado. – Patrícia intervém na conversa, aos resmungos.
- Ele sempre cuidou de mim e apoia minha carreira, eu não poderia pedir a qualquer outra pessoa para exercer uma função que sempre foi dele. – esclarece à mãe. – E, mais uma vez, a decisão foi minha.
- Vai abandonar tudo o que você conquistou aqui para correr? – a mãe questiona abismada.
- Sim. – ela sorri. – Vendi meu carro, desfiz das minhas coisas, juntei uma boa grana para começar. Minha mala já está pronta para a Itália.
- Como pôde? – a mãe grunhe ofendida – Depois de tudo o que tivemos que fazer para que você saísse desse mundo? Depois de todo o dinheiro que gastamos?
- Aquela tinha sido uma decisão de vocês, e sofreram as consequências por ela. – ela rebate. – Agora quem está escolhendo sou eu, e somente eu vou arcar com as consequências pela minha decisão.
Patrícia bebe a sua água, controlando a respiração fervorosa.
- Se pensa que estarei na arquibancada te aplaudindo de pé, está muito enganada.
- Eu não vim pedir isso. – diz séria. – Vim explicar o porquê eu não estarei no Brasil durante um bom tempo. E quanto ao seu apoio, sobrevivo sem ele. Afinal, sempre sobrevivi. Você não estava lá para aplaudir os meus pódios e mesmo assim eu sempre estive neles.
Quando o último resquício da paciência de Patrícia se perde, a mulher pega sua bolsa e levanta-se da mesa, caminhando para a saída em passadas firmes.
- Patrícia. – Marcos a chama, mas ela sequer olha para trás.
Os pratos chegam e as pessoas na mesa os recebem em silêncio.
olha da porta de saída do restaurante ao seu pai.
- Não vou ficar chateada se for até lá. Sei que tenho o seu apoio e para mim isso basta. – ela diz e o pai sorri em sua direção antes de se levantar e ir atrás de Patrícia.
Os três restantes começam a comer em silêncio, que é interrompido um tempo depois pela própria : - Nada a declarar? – ela questiona à Fael, que se manteve em silêncio desde que a notícia fora dada.
Ele engole sua massa e toma um gole do vinho vagarosamente para em seguida mirá-la nos olhos.
- Eu estou feliz por estar correndo atrás de uma coisa que obviamente é importante para você.
Ela analisa o rosto pleno e sem expressões do rapaz.
- E por que eu acho que você está falando isso só para me agradar? – ela questiona.
Ele limpa a boca com o guardanapo e vira em sua direção. automaticamente encontra uma desculpa para sair da mesa, dizendo algo sobre ir elogiar à comida ao chefe, e se afasta.
- Não estou falando só para te agradar, eu realmente estou feliz por você. – ele esclarece sorrindo. – Só estou pensando no quanto sua ida para outro país vai afetar o que temos. Poxa, uma hora estamos planejando uma viagem e na outra você vai morar em outro país. Estou tentando assimilar essas informações, pensei que estávamos atingindo o próximo nível no relacionamento.
engole em seco.
- Não se preocupe, eu não sou o tipo de cara que vai ficar te segurando em um relacionamento à distância. – ele diz rindo fraco. – Só que eu gosto do que temos e não deixo de ficar triste por ter que acabar.
- Não tem necessariamente que acabar tudo entre nós. – ela fala, porque sabe que o seu envolvimento romântico com Fael não era tão forte para resistir à distância e a falta de contato. – Somos bons amigos e eu não quero que fique como se nunca mais fossemos voltar a nos falar. Podemos fazer visitas, trocar mensagens, fazer chamadas de vídeo, tem tantas alternativas. – ela entrelaça os seus dedos nos cabelos da nuca dele, de forma carinhosa – Não quero tirar você da lista de discagem rápida. Eu gosto de você.
- Essa é a questão. – ele sorri tristonho – Você gosta de mim, eu te amo. E tudo bem, eu não tenho como te obrigar a me amar. Mas eu pensava que poderia conseguir que me amasse com o tempo, esse que não vamos ter mais. Então, meio que acabou sim. – ele ri sem humor. – Vou sentir falta do seu beijo, dos seus braços, – ele encosta a bochecha no braço dela, que ainda acariciava o cabelo – do seu riso, das suas covinhas, – ele acaricia sua bochecha com a mão livre – da sua sensatez, da sua inteligência... E, apesar de saber que vou sentir muito a sua falta e do que temos, não vou ser egoísta e fazer qualquer coisa que te faça se sentir mal por estar indo atrás do seu sonho.
- Como eu queria que você só me xingasse e saísse batendo o pé, fica mais fácil te odiar e não sentir sua falta. – ela diz e enlaça o seu pescoço com os braços, abraçando-o forte. – Você é incrível, obrigada. Por tudo.
Depois que o clima ficou mais tranquilo e as pessoas retornaram à mesa, exceto por Patrícia que havia realmente ido embora, a noite foi fechada com conversas menos pesadas e risadas sobre assuntos aleatórios.
No sábado de manhã, para a sua surpresa, os três a acompanharam no aeroporto até a sua partida para uma vida completamente nova. Quando seu voo foi chamado, cada um tinha as suas solicitações e recomendações para dar.
- Você trate de me ligar, ao menos a cada dois dias. Sei que vai estar ocupada, mas arranje um tempo para me atualizar se você tem comido direito, se tem dormido o suficiente e se precisa de qualquer coisa. Eu farei o possível daqui para ajudar. – o pai declara. – Seu tio não é lá muito certo das ideias, mas eu confio em você. Tenha juízo e não se meta em encrenca. No final do ano eu estarei lá para te visitar e, quem sabe, estar comemorando a vitória da minha filhota. Desculpe amor, minhas férias não saem antes disso.
sorri compreensiva.
- Está tudo bem, pai. Eu entendo. Obrigada.
- E perdoe a sua mãe, você sabe que ela só está com medo de você se machucar. – seu pai diz. – Ela te ama e não quer te perder.
- É uma péssima forma de demonstrar. – ela suspira. – De qualquer forma, o importante é que desta vez ao menos tenho você ao meu lado. Obrigada.
Eles se abraçam, afunda o rosto na curvatura do pescoço do pai enquanto ele a apertava em seus braços, guardando na memória cada detalhe. Eles sabiam que aquela poderia ser uma despedida real, não como de quando ela foi morar do outro lado da cidade com a amiga. Eles não se veriam mais todo final de semana ou tomariam cerveja assistindo as partidas de futebol na quarta-feira, e aquilo doía. A saudade já batia precocemente antes mesmo dela partir.
Apesar do pai ser bruto e um pouco quieto, deixando-a desejar palavras, ele recompensava em atitudes. Marcos sempre fez de tudo pela filha, claro, o que estava ao seu alcance; sempre a encorajando a seguir o coração e não ter medo de grandes desafios.
Vê-la depressiva partira o seu coração e foi um dos motivos que o fez pedir o divórcio da ex-mulher – não estava mais disposto a compactuar pela limitação e superproteção que ela queria impor à filha. Então, neste momento, ele não poderia estar mais feliz por ela finalmente estar satisfeita consigo mesma. Não deixaria de apoiá-la um instante sequer, mesmo que sentisse que um pedaço dele estava indo para o outro lado do mundo.
Eles se afastam e limpa as lágrimas debaixo dos olhos rapidamente.
- Eu te amo, pai.
- Também te amo, .
Visto o término da despedida, se aproxima.
- Não se esquece de pegar o telefone de algum italiano gatinho, daqueles que você sabe que eu vou me derreter. – pede e a jovem ri. – É o mínimo por ter que fazer eu dividir o apê com a minha prima.
- A Rebeca é um amor, . Não dramatiza.
- Mas ela não é você, chata. – ela diz abraçando-a calorosamente. – E não ouse arrumar uma melhor amiga lá, que eu saio daqui para ralar a cara dela e a sua no asfalto.
gargalha.
- Ninguém vai assumir o seu posto, isso eu posso te garantir.
Elas se afastam e Rafael se aproxima.
- Isso não é um adeus. – ela diz convicta, entrelaçando os dedos de suas mãos – É um "até logo", amigo.
- Vou ficar esperando, até lá vou assistir a todas as corridas e torcer feito um louco por você. – ele sorri encostando as suas testas.
Eles juntam os lábios calmamente, selando suas bocas vagarosa e calmamente antes de se abraçarem. Logo se afastam e todo aeroporto pode ouvir: Voo 2158 Latam para Vicenza, Itália.
- É a minha deixa. – diz sorrindo aos três. – Tchau, gente.
E assim ela se vira para o portão de embarque, guardando em mente aqueles que acessavam para ela, e completamente pronta para o que vinha pela frente.


Capítulo 4

East Midlands, Inglaterra
GP Inglaterra – Circuito Silverstone

"E a grande novidade para essa temporada da GP2 é a equipe da Prema Racing composta por uma pilota. Isso o que vocês ouviram, uma mulher. A escuderia que tem fortes laços com a Mercedes e Ferrari, tendo administrado muitos pilotos da Academia da Ferrari, fez um investimento forte em Santos Benedetti. A brasileira tem 22 anos e uma história nas pistas. Já tendo disputado campeonatos mirins, ela tem uma série de conquistas em sua trajetória. A nova corredora da escuderia italiana passou alguns anos sabáticos e retornou com tudo para essa temporada."
"Não sei não, Ricci. Uma mulher?"
"Qual o problema, Giovanni?"
"Digamos que a história das corridas já tem um denominador comum, o hormônio masculino. É necessário todo um porte físico, um peso ideal e os reflexos intuitivos que só nós temos. Já foi provado que as mulheres não estão aptas para estar atrás de um volante em campeonatos automobilísticos importantes. Tivemos Maria Teresa, Lella Lombardi, Divina Galica, Sarah Fisher, Susie Wolf entre outras e pudemos ver o seu desempenho, não atingiram nem o top dez nas classificações. Concordo que temos que fazer uma diversidade de gênero no mundo automobilístico, mas o lugar atrás do volante só cabe ao homem."
"Isso foi machista, Giovanni. Não foi legal".
"Sei que as pessoas concordam comigo. As mulheres não podem competir a GP2 muito menos Fórmula 1, e digo isso para o próprio bem delas. São frágeis, podem se machucar."
Muda de canal.
" Santos Benedetti é o novo rosto da Prema Racing, umas das poucas mulheres que conseguiram alcançar a Fórmula 2. Apesar de a equipe ter grandes apostas nessa nova ideia e sua performance ter sido destaque nos testes para classificação da pré-temporada, seguimos nos perguntando: Afinal, a pista é lugar para uma mulher?"
Muda de canal.
"Desde quando a Prema Racing anunciou a contratação desta pilota não só o mundo automobilístico, mas como o mundo inteiro, tem entrado em conflito pelo debate. De um lado os apoiadores da diversidade de gênero na categoria, do outro os apoiadores da permanência da supremacia masculina. A psicóloga Ananda La Paz responde: por que os homens se sentem tão ameaçados por essa conquista?"
Muda de canal.
- Está legal, já chega. – a voz de Fábio surge no fundo dos aposentos e logo ele está sentado ao lado de no grande e macio sofá em frente a Televisão de 50 polegadas. – Ficar assistindo à essas reportagens na véspera do seu primeiro treino livre não vai te deixar menos ansiosa. Eu falei para não colocarem uma televisão aqui, você vai ficar paranoica.
Eles estavam em seu camarim da Prema Racing, onde era disponibilizado um sofá grande, frigobar, uma maca para massagem, alguns petiscos postos em uma mesa ao canto, um saco de pancada preto pendurado do teto enquanto as luvas de boxe recém-tiradas estavam jogadas ao lado de . Era o seu lugar de descanso e pré-aquecimento antes de entrar em ação na pista à poucos metros de distância.
- Tudo bem. – ela diz ao apertar o botão para passar ao próximo canal. – Ouvir tudo isso só me deixa com mais garra de mostrar a eles do que eu sou capaz. Sei que estou pronta.
- Essa é a minha garota. – Fabio passa o braço por cima do ombro da sobrinha, sorrindo.
"A seguir veja o relato do piloto Mick Schumacher, ilustre filho do heptacampeão da Fórmula 1 – Michael Schumacher, comentar sobre a nova parceira de equipe. Os dois foram confirmados como pilotos titulares pela Prema Racing para a Fórmula 2."
"Eu ainda não a conheci, mas sei que ela dá um show. Com certeza vai calar a boca de muita gente".
– diz o loiro na televisão, rodeado por inúmeros microfones.
- Já gostei do garoto. – Fabio diz com os olhos na tela. – Aliás, a Prema concordou em te poupar das coletivas com a imprensa nesse final de semana, para não tirar a sua concentração da corrida.
- Estava torcendo para você dizer isso. – ela sorri satisfeita, odiava ter que falar com a imprensa e se submeter a perguntas desagradáveis.
- Mick vai ter que dar conta sozinho, mas o garoto deve fazer isso com o pé nas costas. Já está no ramo há anos. – Fabio declara. – Aliás, vão poder finalmente se conhecer hoje, depois do treino livre, daqui a pouco. Tentei marcar um encontro antes, mas a assessoria dele não encontrou um espaço livre na agenda. Ele tem um sobrenome de peso, seria ótimo para a sua imagem estar relacionada a ele.
- Não quero me apoiar na imagem de alguém, tio.
- Não é se apoiar. – Fábio sorri travesso – É usufruir. Afinal a ideia de terem uma boa relação nos bastidores trás apoiadores e fãs, e eles trazem audiência que, por sua consequência, te faz crescer aos olhos de um público que vai te favorecer.
- Ele foi um dos poucos que deram declaração sobre mim e achei isso legal, mas não vou forçar uma amizade por interesse. Sinto muito. – ela diz e faz o tio suspirar – Aliás, você viu o que o Hamilton disse sobre mim?
- É exatamente por isso que estou aqui. – ele diz com excitação e puxa o celular no bolso do casaco. Desbloqueia a tela, que já está na matéria, e corre a notícia para ler em voz alta: - "Ela alcançou uma posição que, a um retrógrado modo de pensar, sempre pertenceu à um homem. Por isso estão tão irritados. Estou ansioso para o que está por vir, a garota tem um futuro brilhante e espero algum dia poder dividir a pista com ela."
- É assim que eu quero ser conhecida, pelo o que eu faço ou posso fazer, não pelas pessoas que eu conheço. – ela sorri. – Lewis Hamilton definitivamente fez o meu dia.
- Que honra é ter o outro heptacampeão da Fórmula 1 dizendo isso sobre você, tenho que procurar o contato dele ou da assessoria para agradecer. – Fabio diz e corre os olhos para o relógio digital no canto da tela do celular. – Puta merda, estamos atrasados. Daqui a pouco aparece aquela lunática da Sandy para te puxar pelos cabeços...
- Me puxar pelos cabelos? – ela o interrompe com a sobrancelha arqueada.
- O.K., me puxar pelos cabelos porque eu tinha que ter te tirado daqui há 15 minutos. – ele diz levantando-se. – Vamos, minha estrela. Hora de brilhar.
Dito isso, o acompanha para fora da sala, eles atravessam os longos corredores brancos até a entrada das garagens da Prema Racing, simbolicamente com faixadas vermelho e branco.
Ela se aproxima de seu carro, das mesmas cores, cercado por inúmeros integrantes da equipe de engenharia e mecânica. Ela havia os conhecido há três meses quando começara a preparação e os treinos intensivos, e sentia como se já fosse parte da família Prema há anos.
Com a ajuda deles, ela pegou a habilidade na condução de uma máquina moderna, a ter sensibilidade para passar aos engenheiros as reações do carro, mexer nos comandos do volante para modificar as muitas funções existentes, gerar a pressão aerodinâmica nas curvas, explicaram o que acontece se eleva ou abaixa o assoalho em um milímetro, como o carro reage se der um grau a mais ou a menos de asa em alta velocidade e ela não poderia estar mais animada para mostrar aos demais todo o progresso que eles haviam feito até então.
cumprimenta a todos com um sorriso estampado no rosto, completamente ansiosa para entrar no carro e fazer história.
- , os pedais já foram ajustados conforme o que você pediu. – disse René, o seu engenheiro chefe. – Aquela vibração da roda dianteira esquerda também foi arrumada, sem problemas nas curvas desta vez. Vamos seguir com as táticas do Plano A. 35 H à direita nesse começo, tudo bem?
- Entendido. Obrigada, René.
- Vamos lá, hora do show. – Angelo, o chefe de equipe, esbraveja no meio da cabine e aponta para – Faça o seu espetáculo, Benedetti.
- Com prazer. – ela diz e passa os braços pelas mangas de seu macacão branco e vermelho, antes amarradas na cintura, e fecha o zíper rapidamente. Em seguida ela tira o boné da marca, coloca os fones do rádio nos ouvidos e passa a balaclava pela cabeça. Sandy, a tal lunática, a ajuda a colocar os cabelos longos para dentro do traje e passa a proteção do pescoço pela sua cabeça. Ajustando-a.
- Se fizer 40 por cento do que vi você fazer nos treinos lá na sede, nós podemos nos considerar campeões dessa temporada. – a loira diz, com os finos olhos azuis brilhando de emoção em sua direção.
Sandy era uma italiana linda, inteligente, experiente, ótima em fechar negócios e com o pavio curto. Ela sempre visava os melhores meios para levantar a carreira de alguém, já havia trabalhado com inúmeros pilotos e levado a maioria ao topo. Tinha sempre as melhores dicas e, apesar de ser casca grossa, havia se tornado uma grande amiga de .
Não era do feitio de uma empresária correr a cidade no interior da Itália inteira atrás de um brigadeiro brasileiro porque a pilota de TPM pediu por alguns antes dos testes classificatórios, mas ela o fez. Sandy sempre garantia que tivesse as melhores condições possíveis para trabalhar e, da mesma forma, cobrava por resultados os quais nunca deixara a desejar.
Ela tinha uma linha cronológica para levar ao seu objetivo e garantiu que estaria com ela em todas as situações. Ao lado dela e do tio, não poderia se sentir mais segura.
- Ainda são os treinos livres, Sandy. – relembra, colocando o capacete verde e amarelo que havia ganho de presente de Bruno na cabeça – Nas classificatórias você pode me colocar essa pilha toda.
- Aí que você se engana, mon chéri. – ela diz ajustando a trava de segurança do capacete. – É hoje que você vai causar as primeiras impressões. Hoje você inferniza a vida daqueles machistas.
- E vou fazer com gosto. – sorri e monta no carro, acertando o corpo no cockpit e encaixando as suas pernas até que encontrasse os pedais. – Tio! – ela chama sua atenção quando ele passa pela lateral do carro.
Ele se aproxima.
- Ela... Retornou a ligação? – ela questiona receosa.
Pela cara dela, ele sabia exatamente de quem a sobrinha estava falando, a mãe. Durante todo esse tempo, Patrícia não havia telefonado, mandado mensagens, um e-mail sequer e começava a se sentir profundamente incomodada com o descaso. Sabia que não teria apoio interino dos pais em sua decisão, mas nunca que a mãe faria greve de silêncio daquela forma. Era ridículo, beirava a infantilidade.
Se ela estava preocupada com , aquela era uma péssima forma de demonstrar. Mas, apesar de todos os pesares, ela era sua mãe e sentia falta dela.
- Não, querida, sinto muito. – Fabio diz tristonho.
Ela respira fundo.
- Tudo bem.
- Seu pai mandou mensagem dizendo que já está com a TV ligada, vai acompanhar todo o treino. – Fabio diz alegre, tentando animá-la. – Disse que comprou até uma vuvuzela para a corrida no domingo. Os vizinhos que o aguentem.
- É, eu sei. Ele me ligou. – Ela ri. – Assim como a , a vovó e o Fael.
Fabio suspira.
- Tudo bem, não é importante agora. Vamos lá. – ela diz sorrindo e chacoalhando a cabeça. Aquela era a hora de se concentrar, independente das adversidades.
Logo que Fabio se afasta Greg e Malcon, dois membros da sua equipe, começam a afivelar os seus cintos de segurança.
- Boa sorte, . – eles desejam e se afastam do carro.
liga o motor e respira fundo.
Havia finalmente chegado a hora.
(...)
não sabia dizer quantas mãos ela havia apertado desde que saíra do carro. Mas não recusava nenhuma que vinha em sua direção para parabenizá-la pelo melhor tempo da volta na pista logo em sua estreia. Ela não escondia a sua satisfação.
Até mesmo os pilotos de outras escuderias haviam se aproximado, se apresentado, e lhe dado os parabéns pelo treino e pela coragem do retorno às pistas.
De volta à garagem da Prema, ela também é parabenizada pela sua equipe e a equipe que trabalhava com Mick, seu parceiro de escuderia e vizinho de garagem. Logo o loiro de olhos azuis também se aproximou e com o sotaque puxado para o alemão forte, diz: - Finalmente! Pensei que só íamos nos conhecer a caminho do pódio.
- Oi! – ela diz e aperta a sua mão estendida. – É um prazer te conhecer.
- Digo o mesmo. – ele sorri simpático, com as covinhas em suas bochechas sendo evidenciadas. – Parabéns pela volta de hoje, foi impressionante.
- Obrigada.
- Se continuar assim, não duvido nada que vai conseguir a pole position da corrida logo de cara.
- Olha que não sou de pensar pequeno. – ela diz com os olhos cerrados e riso contente.
- E nem deve. Você tem talento.
não consegue controlar o sorriso que se alarga em seu rosto, não se alegrar com aquele elogio seria no mínimo incoerente. Mick era conhecido por, além do seu talento genético, pelo seu carisma, a simpatia e sua sensatez. Ele foi o piloto modelo do ano declarado pela Revista Esporte do ano anterior.
E, apesar de ter trilhado toda a sua reputação por mérito próprio, era impossível olhar para Mick e não se recordar do pai, Michael. Eles tinham os mesmos olhos, nariz, lábios e sorriso. jamais se esqueceria do rosto do homem que a fazia assistir as corridas aos domingos de manhã em toda a sua adolescência. Havia chorado culposamente quando ele sofreu o acidente em 2013 e não retornou mais às pistas. Então estar próxima do filho dele era uma honra.
- Bom, tenho que ir. – Mick faz uma careta cansada. – Coletiva de imprensa.
- Boa sorte. – ela diz despertando de seus devaneios.
- Que tal um jantar mais tarde? – ele diz enquanto se afastava em passos lentos. – Sabe, para a gente poder se conhecer, falar sobre a equipe, algumas dicas...
- Oh, sinto muito. Hoje vou ficar a noite inteira presa com a equipe tática para repassar as estratégias de domingo. Soube que você já fez isso, então não vamos nos ver lá. – ela diz sentida, mas logo sorri ao sugerir: – Poderíamos almoçar amanhã.
- Vou ficar preso em uma entrevista para a televisão local. – ele torce a boca. – Jantar amanhã, talvez por volta das nove?
- Tenho consulta com o fisio, último check-up antes da corrida. – ela deixa os ombros caírem.
- Vamos fazer assim, - ele se reaproxima e tira o telefone do bolso do macacão. – Me passa o seu número e a gente combina o melhor horário.
sorri e pega o telefone que ele a oferecia, rapidamente digitando o número. Quando o entrega de volta ele sorri satisfeito.
- Eu vou te mandar mensagem. – ele diz novamente se afastando.
- Vou esperar. – ela responde e ele ri antes de dar-lhe as costas e se distanciar acompanhado de outras dez pessoas ao seu redor.
- Eu conheço esse olhar. – a voz de Sandy sopra seu ouvido.
- Do que você está falando?
- Do flerte entre você e o garoto prodígio. – ela diz. – Como sua empresária eu tenho o dever de te alertar sobre os perigos que há nos bastidores.
- O que? – ri. – Não estávamos flertando, ele me chamou para jantar para uma conversa amigável. Somos colegas de equipe, não temos que manter uma relação boa? – questiona recordando-se da fala do tio.
- Uma relação profissional boa. – Sandy destaca – Querida, ainda que eles forem pilotos aclamados, de nomes estimados e com talento, não passam de garotos. E esses garotos quando veem uma mulher belíssima como você, ainda por cima vestida em um macacão sexy e mandando ver na pista, não pensam em outra coisa além de te fazer subir no troféu deles.
não contém a risada.
- Estou falando sério. – Sandy diz, apesar de rir minimamente. – Mick é um bom garoto, mas ainda sim é um garoto. Além de um dos pilotos que compete na mesma categoria que você. Você não tem tempo para esse tipo de distração agora.
- Eu não estava pensando por este lado e acho que ele só quis ser simpático. – ela dá de ombros.
- Mi amore, todos são simpáticos e é assim que entram no seu coraçãozinho e te afetam. Quando menos perceber, está acordando na cama dele, completamente nua, quando deveria estar na sua preparação física. – ela relata – Se apaixonar não é errado e nem proibido, mas pode afetar a sua razão em certos momentos e nunca é uma boa ideia se envolver com os seus adversários. Ainda mais se for o seu companheiro de equipe.
- Não era isso que estava acontecendo.
- Tudo bem, só estou te alertando. – ela diz sorrindo carinhosa – Meu dever também é cuidar de você. Os pilotos podem parecer ser amigos e próximos, mas especialmente estes da F2 na primeira oportunidade fazem de tudo para pegar o lugar uns dos outros no grid. Sabe, isso vale a entrada para a Fórmula 1 e eles usam todas as táticas possíveis. Por isso você, mon chéri, tem que ter o dobro de cuidado. Cair na lábia de um piloto é muito fácil e pode ser fatal para alguém na sua posição. Sei onde você quer chegar e farei o meu melhor para que o alcance, mas tem que me prometer que vai me ouvir.
- Pode deixar, Sandy. – ela abraça a loira de lado. – Fica tranquila que eu não vim aqui para isso. Eu estou completamente focada na minha carreira e assim permanecerei. Não vou me envolver, prometo. Fora que acabei de sair de um relacionamento, namoro está fora das minhas prioridades de qualquer forma.
- É assim que se fala, ragazza. – Sandy comemora. – Claro que nem sempre são unhas e farpas, mas eu não gostaria de ver você ser passada para trás por um deles. Confie plenamente em sua equipe, e em sua equipe somente.
- Entendido. – ela diz veemente.
Ela estava ali para ser campeã, e campeã ela seria.
(...)
Maranello, Itália
Circuito Fiorano
- Dona Thompson, ESPN Americana. , depois de três pódios, duas P4 e uma P5, você já tem uma somatória de pontos que uma mulher nunca antes atingiu nessa categoria. Como se sente em relação à essa marca histórica? – indaga uma das entrevistadoras que está com o microfone direcionado à Liza.
- Eu me sinto satisfeita em mostrar ao mundo que mulher no volante não é perigo constante. – diz divertida, causando uma onda de riso no grupo de entrevistadores – Temos que parar com esse tabu de que nós não temos condição para guiar um carro em pista. Não poderia estar mais honrada pela Prema me dar essa oportunidade e, claro, sem a ajuda da minha equipe isso não seria possível. Foi um trabalho em conjunto, a equipe é maravilhosa, e eu não poderia estar mais orgulhosa do que estamos fazendo.
- Richard Clark, SporTV alemã. , estando em terceiro lugar na classificatória geral do campeonato GP2, você já tem condição para tirar a superlicença que te permite pilotar um F1 e foi noticiado que você já está com o processo em andamento. Você tem intenções de disputar o campeonato da Fórmula 1 no ano que vem?
- Não posso afirmar que estarei na grid da Fórmula 1 já no ano que vem, mas estamos trabalhando para que seja possível. Afinal, a Fórmula 1 é o campeonato dos sonhos de todo piloto e comigo não seria diferente. Mas essa é a minha temporada de estreia na GP2 depois de anos parada e estou feliz pelas conquistas que estamos tendo até então.
- Donald Price, Fox Sports europeia. , o mundo tem acompanhado de perto a sua carreira e todas as suas conquistas históricas. Garotinhas ao redor do globo têm se sentido cada vez mais inspiradas em você para se tornarem pilotas de sucesso. Têm algum conselho para elas?
- Nunca desistir é primordial. A estrada percorrida não é fácil, tem que ter garra e foco no seu objetivo. Serão muitos comentários ofensivos, oportunidades desiguais, desmerecimento, falta de apoio, mas temos que mostrar que não somos vencidas tão facilmente. Tudo é possível se você se esforçar para isso.
- E é notável o quanto tem esforçado. – Donald continua. – Afinal seus treinos são constantes, mais frequentes que os seus colegas de campeonato. No entanto, não seria saudável, e até complementar, uma folga de vez em quando para acalmar os ânimos?
ri.
- Ouviu isso, Sandy? – a jovem indaga e todas as cabeças se viram para a empresária, que já adquiri a coloração vermelha no rosto. – Estou brincando, me desculpe. – Uma enxurrada de risadas soa. – Treinar não é uma questão obrigatória para mim, eu faço porque eu mesma me submeto a isto. Além de melhorar as minhas habilidades é também uma forma de me tranquilizar e acho que nunca vou me cansar disso. Correr é a minha vida.
- Obrigada, .
- Está bom, já chega pessoal. – Fábio interfere o falatório dos repórteres. – Ela acabou de sair do pódio e está encharcada de champanhe, precisa de um banho. Obrigado a todos, mas temos que ir.
Dito isso, a jovem se despede do grupo e acompanha seu tio e a empresária bastidores adentro.
- Mandou bem, nem parece que há uns três meses tinha vergonha das câmeras e microfones. Falas bem elaboradas, neutras e coerentes. – Sandy elogia. – Você é carismática o bastante e a mídia ama você.
- Ama até demais. – Fábio resmunga. – Ontem saiu uma foto dela conversando com o Mick na garagem e eu saí no fundo, devia ser alguns paparazzi nos portões da arquibancada que pegaram vocês distraídos. Vocês saíram perfeitos, agora eu... – ele bufa de cara fechada – Virei um meme da GP2.
- Aquela foto está no papel de parede do meu celular, sua cara está cômica. – diz rindo e joga a garrafa de champanhe vazia em uma lixeira apropriada quando passa ao lado dela. – As entrevistas de hoje foram de boa, só achei inconveniente aquele Donald falar sobre os meus treinos, ninguém pega no pé dos outros pelo tanto que eles treinam.
- É porque os outros não são tão obcecados como você. – Fabio declara. Eles saem pelos portões do fundo e já tem um carro os esperando para os levarem ao hotel. – Já conversei com você sobre a intensidade e frequência dos seus treinos. Você não é de ferro, uma hora tem que descansar.
Os três entram no carro.
- Oi, Peter. – cumprimenta o motorista enquanto afivelava o seu cinto.
- Srta. Benedetti, parabéns pelo pódio de hoje. – o homem diz encarando-a através do retrovisor. – Quase alcançou o primeiro lugar desta vez.
- Obrigada, Peter! – ela agradece sorrindo. – Tá vendo, tio Fábio? – ela se direciona a ele, sentado no banco do passageiro – Não é obsessão, se chama perfeccionismo. E tem trazido resultados, então não fale da minha dedicação como se fosse uma coisa ruim. É coerente que eu treine mais que os outros se eu quero chegar ao nível de experiência deles.
- Nessa eu tenho que concordar com seu tio. É bom que esteja tão dedicada, mas você precisa respirar os ares fora de um autódromo um pouco. – Sandy diz guardando o troféu de em sua bolsa de tamanho maior que o convencional. – Você está indo muito bem, então não vamos fazer com que isso vire algo ruim. Está bem?
- Como queiram. – ela dá de ombros.
- Mudando de assunto, Mattia Binotto entrou em contato comigo. – Sandy informa descontraidamente. Todos no carro, exceto motorista, prendem a respiração por um momento.
- Ah, meu Deus, - alarga o seu sorrido. - o chefe de equipe da Ferrari me procurando? O que ele queria?
- Sim. – Sandy sorri confiante. – Ele te convidou para fazer um teste de direção no modelo que vai às pistas na próxima temporada da F1. Na verdade, você e ao Schumacher. – ela complementa – Ele quer aproveitar que vocês estão na cidade da sede da fábrica da construtora. Como a próxima corrida é só daqui duas semanas, poderíamos ficar por aqui, aproveitar essa semana livre para descansar, e fechar com chave de ouro no teste da Ferrari.
- Gostei da parte do descansar. – Fabio diz do banco da frente.
- Gostei da parte do fechar com chave de ouro. Quando vai ser? – pergunta animada.
- Próximo sábado. Mas marquei um jantar hoje com o pessoal da equipe Ferrari só para socializar. – Sandy comunica. – Esteja pronta às oito.
- Sem problemas. – ela fala batendo na mão do tio em comemoração.
Chegando ao hotel, Peter teve a usual dificuldade para parar o carro, tamanha era a quantidade de pessoas ao redor do veículo. Dois seguranças do hotel automaticamente se encaminham na direção do carro para auxiliar na transição da pilota para a porta de entrada.
Todo fim de toda corrida era sempre a mesma coisa e, apesar de cansativo, não se recusava tirar nenhuma foto ou autografar qualquer objeto que os fãs a pediam. Ela sentia como se aquilo fosse uma demonstração de quanto ela estava fazendo bem o seu trabalho, e não poderia se sentir mais agradecida por isso.
Depois que terminou de tirar a última das 23 fotos em poses diferentes os seguranças a acompanharam até o saguão do hotel.
- Obrigada, Gunter, Dylan. – ela diz aos rapazes que sorriem de volta e se direciona ao elevador.
- Eu tenho que confirmar a reserva no restaurante, para que nada saia do previsto. Toma aqui o seu celular e o carregador. – Sandy diz, entregando-a seus pertences antes de se afastar. – Antes do jantar tenho um encontro com o pessoal da TNT Energy drink, acho que lá vem uma bela parceria por aí. Encontro com vocês mais tarde.
e Fabio param na frente do elevador, aguardando por sua chegada ao andar, quando o celular do homem toca.
- Alô. – ele atente de imediato. – Oi... – ele diz animado e logo põe a mão sob o autofalante para dizer à sobrinha – , se importa de continuar sozinha até o quarto? O elevador pode cortar a ligação.
- Claro que não, pode ir. – ela diz. Ele sorri e acena para ela, se afastando enquanto continuava a conversa.
desbloqueia o celular em mãos, mas não tem tempo de conferir nada porque duas mãos fortes a tiram do chão por alguns instantes e a giram junto à um grito: - Olha ela aí!
Quando é posta de volta ao chão ela gira nos calcanhares e dá de cara com Felipe Drugovich, piloto brasileiro e colega de campeonato que disputava pela atual Motorsport.
- Parabéns pela P2! – ele salda com o sorriso divertido no rosto.
- Obrigada! E parabéns a você também pela P4! – ela diz e bate na sua mão erguida no alto. – Você fez uma corrida incrível!
- A corrida em si foi incrível, mas quase te pego no final da terceira curva. – ele diz cruzando os braços. – Foi mal.
- Achei que ia me fazer ir para fora da pista. – ela responde risonha.
- Pedro me disse que introduziram a DRS semana passada no seu carro. Foi por isso que não rodou?
- Não. – ela dá de ombros – Desacelerei e virei o volante dois graus direita e esquerda para manter a aderência. Não foi preciso a DRS.
- Uma boa. – ele elogia, passando as mãos pelo cabelo castanho claro. A atenção do rapaz é captada por algo acima da cabeça de e ele sorri – Falando no diabo.
A jovem gira nos calcanhares a tempo de ver Pedro Piquet, piloto também brasileiro, representante da Charouz Racing System, vir em sua direção.
- Parabéns, pequena grande mulher! – ele ergue os braços para abraçá-la.
- Obrigada! – ela ri fechando os braços ao redor do rapaz rapidamente.
- Você arrebentou e, melhor ainda, deixou o Alesi mordido de raiva. – os três riem.
Giuliano Alesi era um piloto francês, também da Motorsport, que não se mostrava muito contente pelo fato de ter uma mulher no campeonato. Por ser filho de um ex-piloto, diferente de Mick e Pedro, o rapaz tinha o ego extremamente inflado e arrogante. Consequentemente não ia muito com a cara de , mas ela não podia se importar menos com isso.
- Nós estamos combinando de ir à um clube que tem aqui perto mais tarde para comemorar. Sabe, encher a cara, arriscar uns passos, falar bobagem, e não aceito um não seu como resposta. – Pedro diz com aqueles olhos castanhos brilhantes, quase num tom preto intenso. – Vamos eu, Lipe, Armstrong, Dan e um pessoal da engenharia da Virtuosi Racing. Só gente boa, vai ser que nem a farra da última vez.
- A Turquia nunca mais será a mesma depois daquela noite. – Felipe diz rindo.
Apesar dos alertas de Sandy sobre os pilotos da GP2, não conseguiu evitar uma relação divertida com os pilotos brasileiros. Eles haviam sido tão receptivos e hospitaleiros, da forma que só as pessoas da sua nacionalidade poderiam ser, que quando viu já estava inclusa em sua roda de amigos. Eles a faziam rir e deixavam o trabalho mais informal, eram uns dos poucos pilotos a quem ela havia se afeiçoado.
- Eu adoraria ir, mas... – ela começa com uma face sofrida.
- Deixa eu adivinhar, vai acordar amanhã cedo para treinar? – Felipe interrompe sua fala com uma sobrancelha arqueada.
- Não. – ela ri. Até os seus colegas estavam habituados com a sua falta de tempo, ela realmente precisava de uma folga, pensou.
- Tem simulação? – Pedro tenta.
- Não. – ela sorri. – Sandy marcou um jantar importante hoje à noite. Mas, dependendo da hora que acabar por lá, eu apareço no tal clube depois.
- Então, você vai? – Felipe indaga animado.
- Estou dizendo que talvez eu apareça. – ela acentua.
- Isso já é alguma coisa. – Pedro diz sorridente. – Te mando a localização por mensagem.
- Está bom. – ela se despede dos dois e eles saem conversando animados.
(...)
- Me desculpe o atraso, - diz ao se aproximar de Fabio no saguão do restaurante luxuoso – Sandy me fez alisar todo o cabelo.
Fabio olha a sobrinha de cima à baixo. Ela vestia uma calça social preta, camisa de seda dourada com um decote médio e mangas bufantes, saltos agulha e maquiagem leve no rosto. O cabelo longo estava solto e batia na altura da sua cintura, moldando o seu rosto e corpo.
- Está linda. – ele elogia – E mais alta. Finalmente não vou conversar com você vendo o topo da sua cabeça.
ri e empurra o ombro do tio.
- Sim, mas continuo preferindo as sapatilhas, macacão e boné. – ela resmunga disfarçadamente com um sorriso no rosto. – Esses sapatos doem, mas Sandy diz que são elegantes e finos, além de empinar o meu bumbum. Então...
- Eu tenho pena de vocês mulheres, esse negócio deve ser uma tortura. – ele diz fitando os pés da sobrinha. – Mas se ela acha que seu bumbum vai fazer negócios serem fechados hoje, bota ele para jogo.
Ambos riem.
- Mandei mensagem para o Mick perguntando se viríamos juntos para cá e ele me disse que não estava sabendo de nada, a Sandy não o convidou?
- Esse jantar não é uma introdução dos pilotos da Prema para a Ferrari e sim de você para a Ferrari. – Fabio explica. – O Mick já é bem íntimo daquela escuderia, o pai dele correu por eles durante anos, você sabe. O intuito desse jantar é tornar você íntima deles também.
- Entendi. – ela assente. – Mas, por causa dessa bola fora, agora estou devendo uma pizza clandestina para o Mick, que a nossa nutricionista não saiba disso.
- Que a Sandy não saiba que você volta e meia faz um tráfico de pizzas para o seu quarto. Ela vai te matar. – ele a corrige aos risos. – Aliás, onde está a ragazza? – indaga procurando Sandy por cima do ombro da sobrinha.
- Ainda naquela reunião sobre o patrocínio da TNT, disse para eu vir na frente. Acho que vem uma parceria grande por aí, ela estava muito animada. Eles estão na negociação já tem horas. – corre os olhos pelo saguão parcialmente cheio – Mas parece que fomos os primeiros a chegar, de qualquer forma.
- Não, não. Ele foi ao banheiro. – Fabio diz.
- Ele quem? – pergunta entusiasmada e é quando um rapaz se aproxima dos dois.
De rosto alegre e sorriso nos lábios, o garoto caucasiano de cabelos castanhos propositalmente bagunçados, tinha os olhos verdes mais marcantes que já havia visto – graças ao salto que a deixara na mesma altura. Ele vestia uma calça jeans e camisa social preta, com as mangas dobradas até os cotovelos. Simples, porém elegante.
Ela não esperava que ele comparecesse, e talvez essa fosse a sua ruína, porque não esperava ficar tão impactada com a presença de alguém que até então ela não sabia muito mais que o nome.
O rapaz olhava diretamente em seus olhos e, por mais desconcertante que podia parecer, ela não conseguia desviar. Não saberia dizer se passara segundos, minutos ou até horas, mas ela se via vergonhosamente presa no seu olhar e mal ouve o tio quando ele apresenta: - , acredito que já ouviu falar de Leclerc. Ele veio em nome da Ferrari, é um dos pilotos titulares deles.

GLOSSÁRIO
Sistema de Redução de Arrasto ou DRS (Drag Reduction System, em inglês) é uma tecnologia automobilística cuja finalidade é reduzir o efeito do arrasto aerodinâmico e permitir ultrapassagens.


Capítulo 5

- É uma honra te conhecer. – ele diz esticando a mão na direção de , o sotaque mais arrastado deixando o seu inglês charmoso. – Parabéns pelo pódio de hoje, fez uma bela corrida.
- Obrigada! – ela responde apertando a sua mão, no entanto Leclerc a vira delicadamente e pousa um beijo rápido lá. – Deixa eu adivinhar, francês.
- Monegasco. – ele afirma alegre.
- Nunca conheci um monegasco antes. – ela comenta. – Você sabe, não tivemos corrida lá essa temporada.
- Espero causar uma boa primeira impressão, então. – ele diz sorrindo e nota que os olhos verdes sorriam junto.
- Parabéns pela posição na classificação geral, foi uma temporada e tanto. – ela diz.
- Foi dura, mas fico feliz por ter ficado entre o top cinco. Obrigado.
Fabio olha de um a outro antes de dizer: - Acha que os outros vão demorar, ? Já podíamos indo até a mesa.
- Ah, o Carlos não vai poder comparecer. Ele foi para Madrid logo que entrou de férias, já que a temporada encerrou mais cedo esse ano, e está aproveitando os últimos dias já que os treinos vão ser intensos a partir de janeiro. - ele se referia ao outro piloto oficial da escuderia – O Mattia já está a caminho, mas acho que nós podemos ir nos adiantando sim.
- Então, - Fabio se vira ao recepcionista – a nossa mesa. Por favor.
O concierge os guiou pelo salão repleto de mesas lustradas e bem decoradas com toalhas de linho caro em tons pastéis, compostas por pessoas bem-vestidas que conversavam discretamente; garçons ágeis transitavam com bandejas em mãos; e lustres de cristais pendiam do teto de gesso bem moldado onde pinturas angelicais davam um ar de catedral, complementando o ambiente requintado.
- Aqui, senhores. Senhora. – o rapaz indica a mesa de seis lugares e puxa a cadeira para .
- Obrigada.
se senta à sua frente e Fabio ao seu lado.
- Aqui estão os menus. – ele diz enquanto distribui o livro fino de capa de couro e folhas grossas – Fiquem à vontade para me questionar sobre qualquer dúvida e estarei a disposição caso queiram sugestões. Alguma bebida até que os demais cheguem?
- Por enquanto, estamos bem?! – olha aos demais, que assentem. – Vamos dar uma olhada e te avisamos, obrigado.
O rapaz assente e se afasta.
- Tudo aqui parece ser tão bom. – comenta correndo os olhos pelas fotos coloridas e bem ilustradas. – É uma pena que eu não possa comer a maioria dessas coisas.
- Dieta balanceada? – questiona fazendo uma careta.
- É. – a jovem ri anasalado, abaixando o cardápio. – Me fala, do que adianta viajar para países diferentes se você não pode conhecer a culinária local? É uma tortura.
- Nem me fale, - ele diz, também abaixando o livro – Eu adoro comer carne. E logo quando estava no Brasil a minha nutricionista me colocou em uma dieta de verduras e legumes porque o meu colesterol estava ameaçando subir. Eu quis morrer.
- Você já foi ao Brasil, eu sou de lá. – ela comenta animada. – O que achou do país?
- É um dos meus países favoritos, digo, o circuito de lá é sensacional. – ele relata – Gosto do calor, a cultura divertida, música boa, comida deliciosa e as pessoas mais alegres que eu já conheci. Gosto de tudo de lá.
- Teve algum rumor que você ouviu sobre o Brasil que viu depois que era mito? – ela questiona – Porque antes de ir para Abu Dhabi, eu jurava que ia ter que usar burqa, abaya, ou véu enquanto estivesse lá. Chegando lá vi que a maioria estava com roupas normais, aí eles me explicaram que o único lugar em toda a cidade em que realmente precisa se vestir assim é para visitar o Grand Mosque. Não levei nem um biquíni para ir à praia porque achava que ia para cadeia caso usasse.
ri junto de .
- Bom, eu ouvi dizer que as brasileiras são as mulheres mais bonitas no mundo. – ele a encara com uma sobrancelha arqueada e um sorriso cumplice sob os lábios – E acabei de comprovar que isso é a mais pura verdade.
sorri e sente suas bochechas esquentarem.
- Me desculpem pelo atraso, meus queridos. – um homem alto, de óculos redondos presos sob o nariz longo e fino, cabelos encaracolados e cheios diz ao se aproximar da mesa de forma afobada. Ele caminha até , que se levanta, e ergue a mão. – Benedetti, a próxima promessa para a Fórmula 1.
- Agora que foi você quem falou, eu acredito nisso. – ela diz e o homem ri. – É um prazer, Sr. Binotto.
- Por favor, sem formalidades. Me chame de Mattia. Parabéns por mais uma bela corrida. – ele saúda – Você está fazendo história na GP2, minha cara.
- Obrigada, significa muito para mim.
O homem se direciona a Fabio, que se levanta já estendendo sua mão: - Fabio Benedetti, tio, amigo e nas horas vagas agente.
- É claro que eu conheço você, foi quem entrou em contato conosco antes da temporada começar. – Mattia diz. – Ainda bem que o Angelo e René não a deixaram escapar, caso contrário não teria garantido a vaga dela na Academia da Ferrari para o ano que vem.
- Ah, Meu Deus, - não controla o sorriso que se alarga. – para o ano que vem?
- Com toda a certeza. – Mattia afirma, caminhando até a cadeira próxima e se acomodando, os demais também se sentam. – Daqui a alguns anos estará na mesma equipe que a do nosso garoto aqui. – ele aponta para que sorri. – A Ferrari teria um imenso prazer em ter você como nossa pilota de testes.
- Pilota de testes? – repete, o sorriso murchando gradativamente.
- É claro, seu talento é inigualável. Nossos engenheiros ficarão animados em trabalhar com você. – Mattia diz e ergue sua mão, olhando para os lados. – Garçom!
recorre com o olhar ao tio, que tem a expressão ofendida. Ele limpa a garganta.
- O nosso objetivo com a , Mattia, não é nos limitarmos à pilota de testes. – Fabio diz sério. – Sabemos que todos os pilotos passam por essa fase, assim como ela vai passar também. Mas estamos pensando em ir além, pilota reserva, até como pilota titular. Se a Ferrari garantir que ela tem chance de crescimento, com certeza seremos ótimos juntos.
- Titular? – Mattia ri fraco. – Temos que ser realista, meus queridos, a vaga de piloto titular de uma construtora que compete na Fórmula 1 é a mais disputada no mundo automobilístico. Principalmente a vaga na Ferrari. Não digo que é impossível, mas as chances de uma mulher conseguir esse feitio, por mais jovem que seja, é quase nula. Não basta só ter o talento, tem inúmeros outros fatores que se agregam. Fatores que pelo gênero, você não tem.
- Sr. Binotto, - sorri entredentes – não acha que para uma mulher eu já não superei expectativas demais? Como você disse estou fazendo história, e não tenho intenção de parar. Minha intenção é quebrar recordes.
- E ela tem tanta chance quanto qualquer outro. – Fabio complementa.
- É uma fala visionária. – o homem sorri. – Mas não a culpo, a público tem a superestimado. Eles têm muita expectativa em você.
O garçom se aproxima da mesa e indaga educadamente: - Estamos esperando por mais alguém?
- Não. – diz tirando o celular de dentro da sua bolsa minúscula por baixo da mesa. – A Sandy avisou que não vai poder comparecer, ela pede desculpas aos senhores, mas está presa em uma reunião e não conseguirá sair de lá cedo. Negócios, vocês sabem.
- Sem problemas. – Mattia sorri e se vira ao garçom. – Então já farei o meu pedido.
- Não tinha dito que ela viria mais tarde? – Fabio pergunta à sobrinha aos murmúrios.
- Não vale a pena a perca de tempo. – ela responde no mesmo tom, enquanto digitava no celular uma mensagem avisando que ele não precisava comparecer.
Eles fazem os pedidos que não demoram a chegar, fato que agradeceu mentalmente visto o silêncio constrangedor que havia assumido a mesa. Ela tinha tanta coisa para perguntar, além de dizer o quanto admirava o trabalho do engenheiro, mas o banho de água fria havia travado a sua língua.
A última coisa que ela queria era trabalhar com alguém que não estava aberto para testar o seu potencial, então ela mesma descartara qualquer chance que poderia ter com a famosa escuderia. Teria outras oportunidades. Ele não seria o último à procurá-la, ela tinha que confiar nisso.
Depois da refeição Mattia sorri antes de dizer: - Foi uma noite muito agradável e esclarecedora. Srta. Benedetti, sua vaga conosco continua de pé, caso venha a mudar de ideia.
- Obrigada, Sr. Binotto. Mas creio que não vou.
- Tudo bem. – Mattia sorri. O sorriso educado inabalável, apesar das farpas trocadas – Se me derem licença, eu vou me retirar. Muito obrigado pelo convite, espero vê-la no sábado. – ele se levanta e os outros três o acompanham, apenas por formalidades – ?
- Acho que vou ficar para a sobremesa. – o rapaz diz, surpreendendo a todos. – Aproveitar a noite de folga. – e dá de ombros.
- Então está bom, só não extrapole. – ele assente e pega na mão de cada um. – Aos que ficam, uma boa noite.
- Tchau. – os três dizem em conjunto.
Logo que o homem se retira, Fabio se vira para a sobrinha: - ?
Ela encara por um instante, que está com um sorriso tímido, e diz: - Acho que podemos ficar para a sobremesa. Já estamos aqui mesmo.
- Tudo bem. – o tio sorri. – Se me deem licença, vou ao toalete.
e voltam a se sentar.
- Eu não tenho como expressar o quão embaraçoso foi isso... – começa.
- Olha, me desculpe, eu não quero ser rude com você. – ela o interrompe – Mas se vai seguir a mesma linha que o seu chefe não serei mais tão educada.
- Não. – ele ri. – Quis dizer embaraçoso para ele. Desculpe-me por tudo isso, foi realmente desnecessário.
arqueira as sobrancelhas surpresa.
- Ele perdeu uma oportunidade divina de ter você na nossa equipe. – o rapaz continua. – Eu não só acredito que você consiga ser pilota titular da F1, como vai ultrapassar os veteranos e agregar muito valor na equipe que tiver a sorte de ter você. Aposto que outras construtoras que tenham essa visão vão brigar para te ter. Mattia não é um cara machista, mas é teimoso e antiquado. Vai ter que aprender na raça que os tempos são outros e as mulheres já estão tomando o seu devido lugar no esporte.
sorri verdadeiramente.
- Você é um homem sensato, . – ela elogia.
- E gostaria de ter a chance de salvar essa noite terrível, vamos só esquecer que Mattia foi um idiota. – ele joga a mão por cima do ombro, de modo representativo. – Eu vim aqui para conhecer a pilota de quem todos estão falando e estou gostando cada vez mais dela.
O garçom se reaproxima, interrompendo a conexão de olhar dos dois: - Permita-me sugestões para a sobremesa.
- Pode ficar para mais tarde, por enquanto vou querer uma cerveja. – diz, mostrando suas covinhas ao sorrir. – Estava doido para ele ir embora para poder beber em paz. Madame?
- Eu vou ter que te acompanhar. – ela sorri de volta e mira o garçom. – Duas cervejas, por favor.
Quando Fabio retorna do banheiro ele encontra os dois conversando e rindo feitos bons velhos amigos.
- Então você prefere não usar a DRS. – ela comenta risonha – Como você a chamou mesmo?
- Dispositivo de salvação dos precários. – ele ri. – Não me leve a mal. Imagino que você já deve ter usado, eu já usei e vários pilotos aderiram, mas é uma ferramenta apelativa. Facilita muito o trabalho do piloto, mas tira toda a magia de você ter que lutar para se manter na competição. Perdeu a graça disputar uma ultrapassagem.
ri e concorda.
- Provavelmente as pessoas devem perguntar isso muito a você, mas você prefere que te chamem de ou ? – ela questiona evidenciando a pronuncia do L no final, como os franceses costumam fazer.
- Acho que prefiro que você me chame de , seu sotaque francês é adorável. – ele ri de modo jocoso e ela joga o guardanapo limpo em sua direção, apesar de rir.
- Eu dei tudo de mim neste sotaque. – ela toma um gole da cerveja controlando o riso.
- Tudo bem, aposto que não pronuncio tão bem quanto você pronuncia meu nome.
Ambos voltam a rir.
- Por favor, me chame de . – ela pede.
- Perdi alguma coisa? – Fabio questiona sentando-se.
- O aqui, - eles riem – é um cara legal. Ele estava me contando de quando também correu pela Prema no GP2.
- Época difícil. – o rapaz diz balançando a cabeça em negativa. – As pessoas se comiam vivas. Os pilotos, as escuderias, todos sonhando com uma chance na F1, claro. Já vi de tudo, até soco na cara. Você vai ver que quando passar para a F1 as coisas tende ficar mais tranquilas.
assente, apesar de não ter tido experiências desagradáveis com os adversários até então. Contudo estavam no meio da temporada e muita coisa ainda poderia acontecer, e ela sabia que era só ter dedicação para passar por isso ilesa. Como já vinha fazendo, não podia reclamar. Tinha comentários, rumores e pessoas maldosas, mas nada mais do que o já esperado.
Eles riram e conversaram por horas, o que não faltava era assunto entre os dois. Já havia mais de 15 garrafas de cerveja vazias sobre a mesa – visto que eles dispensaram as taças –, camisas desabotoadas, cabelo preso e saltos largados debaixo da mesa, quando Fabio anuncia: - Bom, este resto de noite foi completamente agradável, mas acho que está na minha hora, crianças.
- O que, mas já? – pergunta e procura o relógio de pulso, se surpreendendo com a hora. – Porra, já é meia noite e meia.
- Impossível. – diz antes de verificar a tela do celular. – Uau, a hora passou voando.
olha o salão ao seu redor e nota que a maioria das mesas estavam limpas e vazias, fora a deles, mais quatro mesas estavam ocupadas.
- Pois é. – Fabio pronuncia se levantando – Eu não quero ser indelicado, mas tem uma cama e robe me esperando no meu quarto do hotel. , foi um prazer rapaz. – o garoto se levanta e aperta a mão de Fabio – Você é gente boa, não deixe que eles tirem isso de você.
- Pode deixar.
- , posso falar com você por um instante?
- Claro. – ela diz, apesar de franzir a testa em confusão.
- Podem ficar. – fala antes que a jovem se levantasse – Eu estava com vontade de ir ao banheiro mesmo. – e se retira.
- O que? – ela pergunta ao tio quando o rapaz se afasta o suficiente.
- Nunca fui bom nessas coisas de sermão ou aconselhamentos, mas não dirija alcoolizada, tenha juízo e use camisinha.
- O que? – ela indaga rindo. – Não tem por que eu usar camisinha.
- Não te ensinaram isso na escola? – ele rebate com a testa vincada. – Tem as doenças sexualmente transmissíveis, gravidez...
- Não. – ela o interrompe de imediato, rindo. – Não é isso. É que não tem por que eu usar porque não vou transar.
- Claro. – o tio diz ironicamente e rindo. – Qual é, eu fiquei aqui de vela a noite inteira. Vocês dois estavam praticamente se comendo com os olhos e eu nunca vi você falar tanto assim em toda minha vida. Meu Deus, como vocês têm assunto.
- Nos demos bem, foi isso. – ela dá de ombros – Ele é um cara legal, mas isso não quer dizer que vamos transar.
- Tá, negue o quanto quiser. – ele cruza os braços. – Nós dois sabemos que existe uma tensão sexual por aqui. Eu estou indo embora porque estava quase me afogando nela.
- Não, tio. – ela nega séria. – Não tem nada a ver. Eu não tenho tempo para isso...
- Relaxa. – ele a interrompe. – Você já está bem encaminhada, focada o bastante em sua carreira e agora precisa relaxar. Semana do descanso, lembra?
- Mas isso...
- Se não for com ele, seja com quem for, um pouco de sexo de vez em quando faz bem. Sabia? – ele ri. – Vocês não têm que casar e sua carreira não vai acabar porque você deu umazinha com um cara. Afinal, você não tem intenção de entrar na Ferrari mesmo. – ele dá de ombros – Todo mundo tem direito de ter uma vida sexual. É só para descontrair. Que nem na época da faculdade.
- Tá falando para eu reincorporar a época do sexo sem compromisso?
- Isso! – o tio afirma sorrindo – Não precisa forçar nada, deixa as coisas fluírem. Está na cara que ele gostou de você. E eu te conheço o suficiente para saber que você gostou dele.
- Mas ele é piloto. – ela destaca receosa. – E não sei, não fiquei com ninguém depois do Fael.
- Fael já deve estar em outra e tudo bem porque agora vocês são só amigos. Lembra? – Fabio atenua – E se o cara é piloto, e daí? – ele descruza os braços – Ele não está no mesmo campeonato que você, está?
arqueia uma sobrancelha, considerando a sua situação.
- Ele está voltando e eu estou indo. – Fabio diz e dá um beijo em sua bochecha, só para sussurrar em seu ouvido. – Boa trepada, vai tirar essa tensão do corpo. Só não deixa a Sandy saber.
Ela gargalha assim que o tio se afasta, logo está de volta à mesa.
- Ele teve mesmo que ir embora? – pergunta depois que o garçom trás outra rodada de cerveja. – É um cara legal.
- Sim. – ela ri, recordando-se da declaração do tio – Só que ele está cansado, sabe. A Sandy o coloca para trabalhar nos bastidores das corridas, fazer campanhas, correr atrás de patrocínios e digamos que ele não estava muito acostumado com tanta responsabilidade. – não era de um todo mentira.
- Sandy? – ele repete.
- Cassandra Ricci, minha empresária. – ela explica.
- Caraca, ela voltou aos negócios? – ele indaga contente. – Fico feliz por ela.
- Vocês se conhecem?
- Sim. Ela gerenciava a carreira de um amigo próximo meu, boa empresária. – ele toma um gole da cerveja – Eu tinha um pouco de medo dela, mas ela era boa.
- Ela dá um pouco de medo em mim às vezes também. – ela ri. – Desculpa perguntar, mas por que ela deixou de gerenciar ele? Sabe, até agora ela tem sido maravilhosa, mas gostaria de me preparar se algo acabar dando errado.
O sorriso de diminui gradativamente e seus olhos ficam vidrados na cerveja em sua mão. se arrepende da pergunta no mesmo instante. Quando está para se desculpar e pedir que esquecesse o assunto, ele fala: - Ele sofreu um acidente em 2014.
A garganta de seca.
- Acho que foi o último acidente fatal da Fórmula 1. – ele continua com a voz rouca. – Ele não resistiu, faleceu em 2015 devido às lesões.
- Eu sinto muito, . – ela pousa a mão sobre a dele por cima da mesa, o rapaz sente um arrepio passar por seu corpo. – Jules Bianchi era seu amigo, eu não sabia.
conhecia a história do trágico acidente do jovem e promissor piloto de Fórmula 1, havia sido exatamente por causa do acontecimento com ele que os pais dela haviam a tirado do esporte. Na época o evento havia chocado todo o público do automobilismo como os demais. Foi trágico, fatal e triste.
Quando e o tio haviam puxado o histórico da empresária que tinha recentemente retornado às atividades na intenção de contratá-la, não havia imaginado que aquele tinha sido o seu último cliente.
- Ele era meu padrinho. Era um cara legal. – sorri triste, erguendo os olhos até os dela. – Foi um choque para todo mundo, ninguém esperava que acontecesse, claro. Ele resistiu, lutou com todas as forças para se manter vivo. Mas as sequelas eram irreversíveis. E, enquanto ninguém tinha condição alguma de se preparar para o que todos sabíamos que iria acontecer, Sandy tomou a frente. Ela cuidou de tudo mesmo que não fosse sua responsabilidade. Ela fez questão, eles eram muito próximos. – ele suspira – Portanto, sim, ela é uma boa empresária, boa pessoa... Você não poderia estar com pessoa melhor ao seu lado.
- Claro. – ela sorri, buscando a sua garrafa de cerveja já na metade e a ergue no ar – À Jules.
- À Jules. – ele repete o ato e os dois viram a cerveja garganta adentro.
O garçom não espera pelo pedido, já trazendo mais uma rodada de cerveja.
- Obrigada. – ela agradece e o rapaz sorri antes de se retirar. se vira para – Desculpa, não queria fazer o clima ficar tão pesado.
- Tudo bem. – sorri fraco.
- Vamos falar de outra coisa além de corrida, falamos sobre isso a noite toda. – ela diz, tentando contornar a situação. – O que você gosta de fazer, além de, claro, correr?
- Gosto de velejar, nadar. – ele sorri feliz, talvez recordando-se de um momento no mar. – Jogo bastante videogame, funciona mais como um simulador para corrida – ele ri – e tocar piano.
- Você sabe tocar piano? – ela questiona admirada, ele assente. – Eu sempre quis aprender a tocar, acho muito bonito. Mas minha mãe preferiu me colocar na aula de francês, italiano e espanhol.
- Aussi beau que. – ele diz “Tão bonito quanto” em francês.
- Je continue avec le piano. – responde “Eu fico com o piano, mesmo”.
sorri.
- Você... Poderia? – ela questiona divertida, indicando o piano preto de calda no canto do salão.
Ele segue o seu olhar e volta aos olhos dela.
- Será que eles não vão se incomodar? – ele rebate indicando o grupo de garçons parados próximos às portas da cozinha, que só esperavam os dois pedir a conta para encerrar o expediente.
- Acho que eles deixariam até a gente se pendurar no lustre se formos embora logo. – ela diz e ambos riem.
- Sendo assim. – ergue o braço, chamando um dos garçons, que se aproxima rapidamente. – Amigo, trás mais duas cervejas para nós e pode fechar a conta, por favor.
- Vou providenciar, senhor. – o rapaz diz e se afasta.
se levanta e estende a mão para , ela pega os saltos de baixo da mesa e a bolsa antes de agarrá-la para juntos irem até o piano. A última coisa que ela iria se importar agora era com as etiquetas.
Ele se senta na banqueta com ela ao seu lado e levanta a tampa do teclado.
- Algum pedido especial?
- Me surpreenda. – ela diz cruzando as pernas.
apalpa as teclas, se familiarizando com as mesmas, para em seguida iniciar uma melodia conhecida sem dificuldade alguma. Aquela era a introdução de Hey Jude, dos Beatles.
ficou a assistir o rapaz correr os dedos por entre as teclas concentrado, o vinco em sua testa indicava o quão focado estava. Ela mira desde os dedos dele até o seu rosto, neste demorando-se mais porque havia algo familiar e aconchegante naquela face plena de mínimas e adoráveis pintinhas.
Vez ou outra entre os acordes ele sorria e a olhava de canto de olho, flagrando-a com o olhar encantado sobre si.
não era um homem de muitas exigências ou quem muito escolhia a dedo, mas nunca em toda a sua vida havia se deparado com mulher mais encantadora e que parecia se encaixar em todos os seus padrões.
Simpática, divertida, educada, determinada e, claro, linda. Havia sido fisgado desde quando colocara os olhos nela e, mesmo que não acreditasse em amor à primeira vista, sentia que tinha acontecido com ele àquela noite.
Quando tocou a última nota da música suspirou e virou-se para , que bateu palmas.
- Isso foi lindo. – ela diz admirada – Obrigada.
sorri.
O garçom retorna com as duas cervejas e uma caderneta de couro. Ele deixa as duas garrafas em cima do piano e os entrega a caderneta com a conta. faz uma careta.
- Não quero ir embora agora.
pega uma das garrafas e a leva até a boca. Depois que toma um longo gole, diz: - Eu também não. Mas se não formos, eles vão nos expulsar.
O garçom ri.
Ainda contrariado tira a carteira do bolso, pega algumas notas e coloca dentro da caderneta, entregando-a ao garçom: - Obrigado, amigo, o jantar foi maravilhoso. Meus cumprimentos ao chef. Pode ficar com a gorjeta.
O garçom agradece, os deseja uma boa noite e se afasta.
- De volta à tortura. – diz ao colocar os saltos de volta.
ri, mas a oferece o braço como apoio quando se levantam.
Lado a lado eles caminham para fora do restaurante.
- Sabe, acabei de ter uma ideia. – diz quando eles param na calçada. – Eu quero continuar comemorando o pódio de hoje, e você não quer ir embora ainda. Por que não vem comigo no clube que meus amigos estão?
- Se eu não for atrapalhar...
- , por favor. – ela ri revirando os olhos teatralmente, ele sorri. – Podemos continuar bebendo. Vai ser divertido.
- Tudo bem, então. – ele diz e ergue a mão à frente – Táxi!




Continua...



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