Contador:
Última atualização: 07/04/2021

Prólogo

estava nervosa.
As mãos tremiam e um leve suor acumulava-se em seu rosto. Aparecer daquele jeito, em rede nacional para milhares de pessoas, estava deixando-a paranoica. Não que a maquiagem fosse seu maior problema naquela noite, longe disso. A maior questão que ocupava um enorme espaço em sua cabeça era o conteúdo da entrevista que daria para Jimmy Fallon.
Mesmo que Jimmy fosse um apresentador exemplar, o conteúdo das perguntas a deixavam um tanto quanto apreensiva quando, pelo menos nos últimos três anos, o conteúdo delas era sempre o mesmo: processos de composições, o sucesso gigantesco que a cantora havia alcançado nos últimos anos após uma participação na criação do álbum da Rowdy e a pior delas: sua relação conturbada com , o vocalista da Rowdy.
odiava aquela pergunta, não importava a forma como esta era meticulosamente arranjada. Odiava a forma como os apresentadores realizavam a conhecida introdução "E agora, falaremos de um assunto polêmico: como está o coração de ?". Deus, como odiava aquele amontoado de palavras. Parecia que tudo o que a cantora fizesse era sempre voltado a quem ela havia escrito suas letras ou como se sentia com o fato de ela estar seguindo carreira no mesmo ramo que ele.
— Dona de três singles que ocuparam o topo das paradas em vinte e dois países, incluindo Estados Unidos, Inglaterra e Brasil, vamos receber uma artista que vai estar em replay por todos os lugares que vocês forem e também aguentou muito por nós, ! - Jimmy a chamou, tirando-a de seu transe para adentrar o estúdio do Saturday Night Live.
foi recebida com uma salva de palmas extremamente calorosa enquanto andava através do palco até a conhecida poltrona do programa de Jimmy, acenando para alguns fãs a medida em que se aproximava dele. Quando se aproximou, sorriu em direção à Jimmy que a envolveu em um abraço cuidadoso antes de voltar para seu lado da mesa.
— Como é bom te receber novamente! - Jimmy sorriu. - Como você está, ? Faz um tempo desde a última vez que te recebi nessa poltrona. Ouvi dizer que a senhorita estava ocupada demais para mim.
— Quem te disse isso? - riu. -Nunca estarei ocupada demais para você, Fallon, deixe de drama. - rolou os olhos, sorrindo para o apresentador. - Mas estou ótima e você, como está?
— Estou ótimo, mas vamos ao que interessa, sim? - ele se virou para trás, puxando algo que conseguiu identificar como sendo uma revista. - Pouco menos de três anos de carreira e a senhorita conseguiu uma capa na Vogue, como se sente com esse feito?
— Posso pegar? Eu ainda não vi pessoalmente. - Jimmy estendeu o exemplar em direção a , que observou com atenção os detalhes da capa com uma citação de um trecho da entrevista prestada algumas semanas atrás. - Deus, ficou ainda melhor do que eu pensei que ficaria.
— Não é? Digo, essa entrevista deu muito o que falar devido ao seu conteúdo. - o apresentador voltou a pegar o exemplar, colocando em cima da mesa. - Uma capa na Vogue e um papel principal em uma série sucesso da HBO, podemos dizer que você está aqui para ficar?
— Eu não sei. - estava sem graça. - Quero dizer, há alguns anos eu estava trabalhando como roadie para a banda do meu primo, agora eu estou produzindo meu segundo álbum de estúdio e com um contrato renovado para a segunda temporada de uma série. - ela cruzou os braços em cima de suas pernas. - Frequentemente eu penso que estou vivendo um sonho e, honestamente, se for um sonho eu prefiro continuar dormindo.
— E falando sobre seu passado antes de tudo isso... - oh, oh... escolha de palavras erradas, , pensou a cantora. - Recentemente você e Griffin postaram um vídeo cover em seu canal no Youtube, huh? - ele disse. - Para aqueles que estão perdidos: e Griffin Graham, baterista da banda Rowdy, são primos e recentemente postaram um vídeo fazendo um cover de Take Me Down da The Pretty Reckless, vamos ver um trecho.
E ambos se viraram para o telão onde um trecho do cover estava passando. e Griffin estavam sentados no sofá da cantora, dois microfones estavam dispostos em frente a cada um deles e Griff fazia os solos de guitarra e os backing vocals enquanto ela tocava seu violão e cantava as letras com uma afinação perfeita em harmonia com o rapaz, sorrindo e brincando vez ou outra com ele.
— E o cover foi um sucesso, notado pela vocalista da The Pretty Reckless, Taylor Momsen, em seu perfil do Twitter. - Jimmy voltou a encará-la. - Como vocês decidiram postar esse cover? As pessoas estão especulando bastante sobre como isso poderia ser uma indireta.
— Indireta? - a cantora riu, já imaginando onde aquele assunto iria acabar chegando.
— Para aqueles perdidos: fez uma grande participação no terceiro álbum de estúdio da banda Rowdy, o Bloom. O dueto dela com , "Bad Things”, ficou no topo da paradas por mais de vinte e seis semanas consecutivas. - Jimmy se virou para a cantora. - Fãs estão especulando que talvez isso tenha sido uma indireta para uma nova participação no próximo álbum da Rowdy.
— As pessoas têm uma imaginação muito fértil. - sorriu. - Eu e Griff estávamos compondo alguns arranjos para o meu próximo álbum e tivemos a ideia de fazer um cover juntos, achamos que seria uma boa ideia visto que nossas agendas costumam ser bem preenchidas e quase nunca nos vemos. - deu de ombros.
— Então é um "não" para qualquer participação entre você e a Rowdy?
— Não digo que não é possível que aconteça... - sentou-se mais ereta. - Eu ficaria honrada de fazer uma colaboração com a Rowdy novamente. Eu os admiro muito e foram eles quem me deram a oportunidade de ser o que sou hoje em primeiro lugar. - ela estava sendo sincera, afinal. - O processo de composição do Bloom foi uma das experiências mais ricas que já tive, musicalmente falando. Além disso, eu tenho um carinho enorme por eles e boa parte do tempo eu me sinto como se fosse uma mãe orgulhosa de seus filhos.
— Isso foi a coisa mais pessoal que você já disse sobre seu relacionamento com os garotos. - Jimmy se recostou na cadeira. - Então eu tenho que perguntar: como está o seu relacionamento com os outros membros da Rowdy atualmente? Sabemos que até quatro anos atrás eles eram uma constante em sua vida e vice-versa, surgiram até mesmo rumores que você e poderiam estar em um relacionamento.
— Você não deixa nada passar, né? - ela balançou a cabeça negativamente. - Eu tenho estado um tanto quanto distante dos meninos, principalmente por conta da distância, visto que eu passo a maior parte do meu tempo em San Francisco ou Nova Iorque enquanto todos eles moram em Los Angeles. Mas eu estou sempre conversando com eles por Facetime.
— Isso significa que você tem acompanhado os trabalhos deles, então?
— Definitivamente, "Bloody Valentine" e "Why Are You Here" estão na minha playlist pessoal desde o lançamento e eu estou bastante ansiosa pelo próximo álbum.
— E quanto aos projetos pessoais deles, você acompanhou?
— Só alguns, acompanhei os de Dom e Tommy e apesar de ter dado os parabéns eu tenho que fazer um adendo: "Parents" e "Scumbag" são obras de arte e se você ainda não escutou, deveria!
— Você tem certeza que não criou um fã-clube para eles? - Jimmy riu.
— Não posso confirmar ou desmentir nada. - levantou as mãos em rendição. - De verdade, os meninos são extremamente talentosos, é minha obrigação moral dar ênfase nisso.
— É ótimo saber que vocês continuaram a amizade mesmo seguindo caminhos diferentes, musicalmente falando. - o homem sorriu. - Todavia, podemos ver algo com mais influência do rock em seus próximos trabalhos? Algo mais parecido com Linkin Park, talvez? - Jimmy alfinetou, em uma referência clara aos citados anteriormente.
— Não é uma coisa que eu posso dar certeza ainda, mas é uma possibilidade. - puxou os cachos para suas costas. - Digo, muitas das minhas influências líricas vieram de Oasis e Blink-182, então tudo é um grande campo à ser explorado. Eu estou sempre tentando mesclar meus estilos preferidos, "All For Us" e "Replay" são os maiores exemplos, eles destoam muito entre um e outro.
— É ótimo ouvir isso , ficamos ansiosos para seus próximos lançamentos. - ele sorriu. - E agora, daremos um break para os comerciais e no segundo bloco teremos Billie Eilish!
Jimmy sorriu em direção às câmeras aguardando o sinal de que os comerciais já haviam começado. Quando a confirmação chegou, o apresentador virou em direção a com um sorriso tão sincero em seu rosto que a cantora não pode deixar de agradecer mentalmente pelas perguntas mais descontraídas que ele havia feito.
— Trate de me avisar com antecedência em relação ao novo álbum, sim? Faço questão de ser o primeiro a saber.
— Aye, sir! - bateu em continência, se levantando da poltrona para dar um abraço rápido de despedida no apresentador. - Você será o primeiro a saber.
A morena sorriu, se despedindo do homem e fazendo seu caminho até o backstage do estúdio para encontrar sua empresária com uma cara não muito agradável em seu rosto. Isso era algo que amava em Sabrina: tudo naquela mulher conseguia ser tão transparente feito uma taça de cristal polido.
A empresária e a cantora mantinham uma relação de amizade e profissionalismo desde que se conhecia por gente, ambas saíram de Toledo, Ohio e se mudaram para Nova Iorque para cursar Música e Produção Musical em Julliard, moraram juntas por todos os anos da graduação e quando assinou seu contrato como roadie da Rowdy, fez questão de a arrastar junto com ela poucos meses depois.
— Eu amei a entrevista, você serviu muito bem. - Brina sorria nervosa. - Mas o twitter está uma loucura e eu recebi uma ligação de Ashleigh que eu duvido que você vai querer saber do que se trata.
Brina pegou a mão de e a arrastou pelo backstage até o camarim que haviam designado para a breve estádia de no estúdio do programa. Quando entraram no pequeno cômodo, Sabrina fez questão de fechar a porta e passar a chave para que ninguém pudesse interromper a conversa que elas teriam naquele momento.
— Brina, você está me deixando um tanto assustada.
— Eu sei! - a empresária disse, sentando-se em frente à logo após a própria se sentar. - Não é proposital, ok?
— Ok! - riu fraco. - Poderia desembuchar?
— Ashleigh me ligou dizendo que estava acompanhando o programa e disse que os meninos querem que você participe na produção do próximo álbum de estúdio.
E foi naquele momento que entendeu: ela estava ferrada.


Capítulo 1: As Provações e Tribulações de Ter Uma Overdose

"Life's about making mistakes.
It's also about trying to be great."
(A vida é sobre cometer erros
Também é sobre tentar ser incrível.)
- At My Best, Machine Gun Kelly
Los Angeles, CA
Quatro anos antes



Sabe, existem uma infinidade de coisas que os filmes e seriados não mostram em relações a overdoses por drogas. A primeira delas, é o inferno que você passa quando é obrigado a ser internado em uma clínica de reabilitação. A internação nunca é a pior parte, as crises de abstinência são. Elas te fazem repensar as suas escolhas na vida enquanto você treme, grita e quase se autodestrói. Na maior parte do tempo você é como uma bomba relógio a ponto de explodir. E eu odiava essa sensação.
Odiava a forma como meus colegas de banda me olhavam, odiava a forma que minha própria filha me olhava e por isso eu não julguei Ashleigh quando ela me disse as seguintes palavras:
— Você vai para a reabilitação e quando sair, vai ser vigiado vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. É a consequência por seus erros, . Você não pode continuar se destruindo e destruindo tudo ao seu redor.
Eu estava ferrado e havia aceitado de bom grado as consequências pela minha falta de responsabilidade, mesmo que pela maior parte do tempo eu me sentisse como uma criança que havia matado aula. A questão aqui era que eu tinha vinte e seis anos nas costas, uma filha de oito anos e uma banda que estava quase colapsando graças aos meus vícios autodestrutivos. Eu estava na merda. Ferrado em todos os aspectos da minha vida, principalmente porque a minha mais nova babá era ninguém menos que .
era um pé no saco, para dizer o mínimo. Linda, porém um pé no saco. tinha pouco mais de um metro e setenta de altura, seus cabelos negros eram cacheados e sua pele era de um tom marrom-claro. Ela poderia facilmente se passar por uma modelo se, em noventa por cento do tempo, ela não ficasse com a cara fechada em uma expressão que gritava "eu não quero ser sua amiga, não tente". Em um breve resumo: ela era amada por todos ao seu redor, até mesmo por minha filha e eu não era a pessoa preferida dela.
? - chamou minha atenção, me fazendo encará-la pela primeira vez naquele dia. - Eu quero te fazer uma pergunta bem simples e eu gostaria que você me respondesse com sinceridade, sim?
— Diga.
— Onde você estava com a cabeça?
— Perdão? - franzi o cenho, claramente confuso com suas palavras.
— Eu estou perguntando onde você estava com a cabeça quando resolveu injetar. - a voz dela estava calma enquanto ela dirigia pela Sunset Strip.
— As coisas estavam complicadas. - encarei a rua à minha frente, o céu pintado de laranja denunciava o pôr do sol. - É tudo o que você precisa saber.
— Vou respeitar o seu tempo, apesar de querer te agredir fisicamente.
— Vá em frente. - ri fraco
— Estou tentando ser compreensiva. - E então, da mesma forma que havia puxado assunto, voltou sua atenção para a rua.
O sol já havia se posto por completo quando parou seu carro diante da minha mansão em Hidden Hills. As luzes acesas denunciavam que a casa não estava completamente vazia e por um breve momento, me permiti sentir algo além da culpa que havia tomado conta de meu corpo nos últimos três meses em que havia estado longe. Deus, como eu havia sentido falta da minha casa.
— Você está entregue, fique á vontade para sair quando quiser, sem pressa. - me chamou e só então pude perceber que estava divagando em meus pensamentos novamente.
— Você não pode ser uma pessoa educada pelo menos uma vez? - a encarei.
— Esse é meu charme, você poderia achar que somos amigos se eu fosse uma pessoa agradável.
— Não seria uma má ideia. - abri a porta do Camaro 76, saindo para fora do veículo com certa dificultado devido à altura. - Já pensou em atualizar essa lata-velha? Quero dizer, é um bom carro, mas algumas melhorias não fariam mal.
— Não ouse ofender Luci dessa forma, você esteve bem confortável dentro dela. - me encarou como se eu tivesse acabado se direcionar os piores dos insultos ao seu carro. - Além do mais, posso cogitar a ideia se você começar a me pagar de acordo com tudo o que faço. Ou me comprar um Pontiac.
— Está afiada, huh? - a encarei.
— Tive tempo pra praticar. - deu de ombros. - Bom, acho que você não precisa mais de mim então esse é meu momento de ir. - ela me deu as costas, começando a ir em direção ao carro.
?
— Sim?
— Você poderia... - respirei fundo, me sentindo um completo idiota por deixar as palavras saírem por meus lábios. - Você poderia... hum... você sabe... - apontei para a porta de entrada. - Acho que Cassie gostaria de te ver.
— Você está com medo, não está?
— Aterrorizado.
— O que eu não faço para ajudar o próximo. - ela sorriu pela primeira vez desde que havia me buscado no estúdio, mas não sem rolar os olhos. - Vamos lá, medroso.
E como se ela fosse imbatível, passou por mim e abriu a porta, abrindo espaço para que eu pudesse entrar na mansão. Quando o fiz, apenas fechou a porta e me seguiu através do corredor até a sala de estar onde uma grande faixa escrito "BEM-VINDO DE VOLTA, " estava pendurada de um lado à outro.
— BEM-VINDO, !
Uma orquestra de vozes berrou, me deixando desconcertado por alguns bons segundos. estava encostada em um dos pilares do portal de entrada com um sorriso orgulhoso no rosto, apenas fazendo um gesto para que eu andasse em direção ao centro da sala onde meus colegas de banda e amigos estavam.
— É bom te ter de volta, cara. - Griffin abriu seus braços quando eu cheguei próximo dele, me envolvendo em seus braços em um abraço com direito á tapinha nas costas. - Tivemos um trabalhão pra conseguir juntar todo mundo.
— É bom te ver também, Griff. - sorri de canto. - Onde está Cassie?
— Foi pegar algo pra você, disse que era uma surpresa. - Dominic deu de ombros, levando o copo de algo que parecia limonada até os lábios. - Você quer? É sem álcool.
— Estou bem, valeu.
— PAI!
Escutei Cassandra gritar, chamando minha atenção de imediato. Joguei minha mochila no chão e me abaixei, envolvendo minha filha em um abraço quando ela pulou em meu colo. Seus cabelos estavam cuidadosamente arrumados no topo de sua cabeça com alguns cachos caindo em seu rosto.
— Hey, princesa. - a encarei. - Você está linda, quem te arrumou assim?
. Ela me ajudou a fazer isso, também. - ela estendeu um embrulho amarelo. - Amarelo é sua cor favorita.
— Obrigado, princesa.
Sorri, sentando-me no chão e pegando o embrulho amarelo de suas mãos. Procurei pela melhor forma de abrir o pacote, desamarrando o laço vermelho que o envolvia antes de rasgar a fina camada de papel. Dentro da embalagem havia um porta-retratos com uma foto que havia sido tirada no mês anterior à minha overdose, no dia do meu aniversário. Na foto, Cassandra estava entre e eu, nos abraçando ao mesmo tempo. estava gargalhando de algo com um dedo do meio apontando para Griffin e todos os meus colegas de banda estavam com o rosto sujo de chantilly. E, em cima da foto, uma pulseira de prata repousava cuidadosamente.
— É pra você. - Cassie sorria. Peguei a pulseira, lendo o entalhe que havia sido escrito em seu interior: "Você é amado e importante". Senti meus olhos começarem a lacrimejar.
— Merda. - limpei as lágrimas antes que elas escapassem por meus olhos. - Isso é lindo, obrigado. - a abracei com força. - É a coisa mais legal que já fizeram pra mim, vocês são uns fodidos. - encarei meus amigos, balançando a cabeça. - Podemos começar essa festa ou...?
— Achei que isso não aconteceria. - Thomas bufou, estendendo uma garrafa de cerveja em minha direção. Balancei a cabeça em agradecimento e a peguei, me levantando do chão para colocar o porta-retratos em cima da lareira.
Griffin ligou a música em alguma playlist de rock clássico á medida em que todos se dispersavam no meio da sala, incluindo Cassie que agora estava nas costas de Dominic enquanto ele corria pela sala imitando um avião. Crianças, pensei.
Procurei por ao redor da sala, encontrando-a quando ela se esgueirava em direção aos fundos da casa com uma garrafa de cerveja em sua mão. Balancei a cabeça negativamente e comecei a desenhar meu caminho em direção à porta que ela havia saído, parando eventualmente para abraçar alguns outros amigos que chamavam minha atenção para dizer que estavam felizes por eu estar finalmente bem. Mal sabiam eles o inferno que eu estava passando naquele momento.
— Você tem que ser sempre tão antissocial, ? - chamei sua atenção quando finalmente passei pela porta, encontrando-a sentada em uma das cadeiras ao redor da piscina.
— A festa é sua, quem tem que estar ao redor das pessoas é você. - ela riu fraco, acendendo um cigarro entre seus lábios. - Como está se sentindo?
— E você se preocupa? - me sentei na cadeira á sua frente. - Posso ter um?
— Claro. - me empurrou o maço de cigarros, peguei um e coloquei entre meus lábios, sendo surpreendido por ela estendendo o braço para acendê-lo. - É meu trabalho me preocupar com vocês, shittyheads.
— Estou me sentindo ótimo. - murmurei, tragando o cigarro. - Obrigado por ter organizado isso.
— Achei que fosse legal ter pessoas que se importam com você agora. - me encarou. - Eu sei que posso ser um pé no saco às vezes, mas é meu trabalho e eu me importo contigo, tá? - ela deu um gole em sua cerveja. - Rowdy não seria a mesma sem você como vocalista.
— E guitarrista base, não esquece. - Soltei um riso fraco. - Ashleigh me disse que você cuidou da Cassie quando tudo aconteceu. - encarei a piscina á minha frente. - Eu não tenho como te agradecer por isso. Na realidade, acho que nunca vou conseguir te retribuir.
— Você não precisa. - ela deu de ombros. - Cass é uma criança maravilhosa, não me deu trabalho algum.
— Mesmo assim. - suspirei – Eu vou dar um jeito de te recompensar por isso, tá?
— Só não cometer os mesmos erros e eu já vou me sentir recompensada, ok? – o olhar que carregava me fez sentir como se eu fosse um filhote de golden retriever. – Você não está sozinho, tá? Existem pessoas que se importam com você, principalmente Cassie.
E era por esse motivo que eu não era um fã número um de . Ela tinha uma mania extremamente irritante de tentar tirar informações de mim com aquele joguinho de “oh meu deus, eu me importo com você" e te olhar como se você fosse um projeto de caridade.
— Você não cansa? – a encarei, recebendo como resposta o seu olhar confuso. – Você deveria parar com essa merda. Pelo amor de deus, , você está me olhando como se eu fosse a merda do seu projeto da escola.
— Você é inacreditável. – ela me encarou com um sorriso no rosto enquanto balançava a cabeça negativamente. – É incrível como você consegue ser um grande cuzão com pessoas que não fizeram absolutamente nada pra você. – ela se levantou. – Olha, , nós vamos ter que ficar juntos todos os dias por sabe-se lá quanto tempo, então eu sugiro que você comece a pagar uma terapia pra tratar seus problemas de confiança porque, honestamente, eu não sou paga pra aguentar suas mudanças de humor.
E simplesmente puxou a garrafa de cerveja de cima da mesa e me deu as costas, voltando para o interior da mansão sem ao menos olhar para trás. Ótimo. Passei as mãos por meu rosto e bufei, encarando o céu escuro tomado por estrelas com Oasis tocando como trilha sonora.
Escutei passos se aproximarem e voltei minha atenção para a porta, identificando Griffin com um copo de algo que provavelmente deveria ser whisky em sua mão.
Griffin Graham era meu melhor amigo desde os meus dezenove anos. O cara era um baterista monstruoso com um metro e sessenta de altura e um dos primeiros membros da Rowdy. E algo me dizia que ele nutria sentimentos por , já que ele era o membro número um de seu extenso fã-clube.
— Por favor, não venha me dar sermões sobre a sua namoradinha. – revirei meus olhos quando ele se sentou ao meu lado.
— Você acabou de se entregar, cara. – Griff me encarou. – Que merda aconteceu agora?
— O de sempre, metendo o nariz onde não foi chamada.
, você precisa parar com isso. – ele deu um gole no copo. – Se você tivesse ideia do quanto ela se ralou nos últimos três meses, não estaria assim agora.
— Me ilumine. – o encarei.
— Bom – ele levantou a mão, contando os acontecimentos nos dedos. – Ela dirigiu por quarenta minutos por Los Angeles pra ficar com a Cassie no dia da sua overdose, se ofereceu para ficar de babá dela quando eu não podia, levou e buscou a Cassie na escola todos os dias, organizou uma festa de boas vindas com todos os seus amigos mais próximos. – ele parou. – Ela até comprou o presente da Cassie pra que ela pudesse te dar algo, então o mínimo que você deveria fazer é tratá-la com um pouco mais de respeito, pra variar.
— Ela faz as coisas serem complicadas.
Ela faz? – ele riu fraco. – Eu diria que isso se chama tensão sexual. – Griffin sorriu. O típico sorriso de leprechaun.
— Vai se foder, Griffin.
— Quanto mais cedo você aceitar que se comporta como uma criança de doze anos tentando chamar a atenção da quedinha, melhor. – levantou as mãos em rendição. – Você pode fingir que eu sou a sua consciência e nesse momento ela está dizendo pra você parar de se comportar como uma criança birrenta.
—Por que eu ainda sou seu amigo?
— Porque eu sou um baterista do caralho e tenho os melhores conselhos para a sua cabeça zoada. – ele sorriu. – Mas, vem cá, como estão as coisas? Digo, verdadeiramente.
— Um inferno. – suspirei. – Eu me sinto como se fosse a pior pessoa do mundo todo e os olhares que vivem me lançando não ajudam muito.
— Os olhares?
— Sim. Tá todo mundo me olhando com pena, entende? Todo mundo tá me olhando como se eu tivesse perdido a merda da minha família. Foi só uma overdose.
— Eu acho que você tá projetando nos outros a forma como você se vê, .
— Não ouse vir com essa baboseira de psicologia pra cima de mim, você largou no terceiro semestre.
— Mas é verdade. – deu de ombros. – Você está vendo as pessoas pelo seu achismo e isso é perigoso, . Pode ter sido só uma overdose pra você, mas nos quase te perdemos, cara. Eu sei que você odeia escutar isso, mas você é importante pra gente. Pra todos nós, sem exceção. Apenas pense como nós ficamos quando recebemos a notícia que você estava entre a vida e a morte. Imagina o quanto a Cassie ficou aterrorizada por ter te encontrado do jeito que você estava. – engoli em seco. – Nós não estamos te olhando com piedade, estamos te olhando com preocupação. Você quase matou a gente do coração, .
Eu ao menos conseguia encontrar palavras para tentar contrariar Griffin. Eu estava enjoado e pela primeira vez em um longo tempo eu me vi apenas acatando tudo o que ele havia dito. Ele estava certo, estava certa e eu estava agindo como um enorme babaca ao tratá-la mal por simplesmente dizer o que todos queriam me dizer. Por isso eu não pensei duas vezes antes de me levantar.
— Ela saiu como um furacão daqui, não faço ideia de onde ela está. – Griffin sorriu. – Boa sorte.
Apenas respondi com um aceno de cabeça antes de deixar minha garrafa de cerveja pela metade em cima da mesa de vidro e me lançar para dentro da mansão novamente. Parei em frente à porta e observei a sala, procurando por todos os cantos antes de me sentir extremamente frustrado por não a encontrar.
— Procurando alguém? – Thomas parou ao meu lado.
.
— Da última vez que eu a vi, ela estava falando com a Cassie. Algo sobre piano, não faço ideia do que se tratava.
— Valeu.
Uma pequena luz se acendeu em minha cabeça. Claro que Cassie iria arrastar até o estúdio para obrigá-la a vê-la tocar algum dos instrumentos que estavam parados nos meses em que estive fora.
Fiz meu caminho em direção à mesa de bebidas, pegando dois copos vermelhos e os enchendo com refrigerante, pegando cada um deles em minhas mãos antes de voltar a fazer meu caminho em direção ao estúdio. Andei pelos corredores até chegar na porta que levava em direção ao estúdio, abrindo-a com um pouco de dificuldade devido aos copos em minhas mãos. Adentrei o estúdio e agradeci mentalmente as paredes isoladas do lugar, que me fizeram escutar sem ruído algum uma voz angelical de acompanhada do piano.
Você realmente sabe como me fazer chorar quando me olha com esses olhos de oceano, eu estou assustada, eu nunca cai tão alto caindo em seus olhos de oceano...
tocava o piano como de ele fosse um antigo amigo. Cassie estava sentada ao seu lado, encarando-a com plena admiração à medida que a roadie tocava as notas. Não pude deixar de sentir certa inveja por presenciar a cena. carregava um talento admirável, para se dizer o mínimo e eu me encontrava hipnotizado por sua habilidade. Não que fosse uma novidade, claro. era responsável pela checagem de som e teste de instrumentos em todos os shows, não era impressionante que ela fosse tão boa no piano. O que era uma surpresa, no entanto, era a sua voz e a técnica vocal que ela nunca havia sequer mencionado anteriormente.
— Você poderia tocar mais uma, ? – Cassie pediu e eu me encontrei torcendo internamente para que ela o fizesse.
— Seu pai não vai ficar bravo de estarmos aqui?
— Papai não se importa, ele está ocupado com tio Griffin. – Cass sorriu. – Por favorzinho, papai quase nunca toca piano. – e foi naquele momento que eu me senti a pior pessoa de todo o mundo. Uma pessoa sem laços sanguíneos se preocupava mais com minha filha do que eu mesmo. Apenas respirei fundo e puxei a cadeira da mesa de mixagem silenciosamente, sentando-me ali para observá-las.
— Tudo bem. – riu. – Mas você tem que prometer que não vai contar pra ninguém, tá?
— Prometo. – Cassie envolveu o mindinho de com o seu próprio, sorrindo. – Você poderia tocar uma das suas?
— Minhas músicas não são feitas pra sua idade, baixinha. – nota mental: também era compositora, aparentemente. – Mas posso tocar outra coisa, sim?
— Tudo bem. – e no momento seguinte, começou a tocar algumas notas antes de começar a cantar.
Eu tenho visto anjos na minha sala de estar, que andaram no sol e dormiram na lua, cobertos na fragrância de seus próprios perfumes...
Consegui identificar a música como sendo alguma do Khalid e não pude deixar de cantá-la mentalmente, seguindo o tempo do piano com meus dedos à medida em que o fazia. Pouco tempo depois dela finalizou a música e eu enxerguei a minha deixa para finalmente conversar com ela. Levantei-me da cadeira e apertei o botão da mesa de mixagem para que as caixas do interior da cabine de gravação fossem ativadas.
? Posso falar com você por um momento? – ela deu um pulo ao escutar minha voz e se virou em direção ao vidro, visivelmente assustada.
— Claro. – se levantou, levando Cassie consigo para fora da cabine.
— Princesa, você poderia ir com o tio Griffin? Ele disse que ia fazer chocolate.
— Claro. – minha filha sorriu. – Não briga com a , tá? – e me deu um abraço antes de correr para fora da sala.
— Me desculpa por estar aqui, não deveria ter entrado sem ter pedido antes. – me encarou.
— Tá tudo bem. – suspirei, pegando um dos copos e estendendo para ela. – Oferta de paz? É Coca, sei que você tá dirigindo hoje.
— Valeu. – ela pegou o copo, encostando-se na mesa de mixagem com os braços cruzados. – Então...
Vocêestavacerta, eunãoseiaceitaras verdadesquandoelassãojogadasnaminha caraeeusintomuitoportersidoumbabaca. – me atropelei em minhas próprias palavras e apenas me encarou.
— Respira, fala de novo e com calma.
— Eu não sei aceitar as verdades quando elas são jogadas na minha cara. Você estava certa, me desculpe por ter sido um babaca.
— Griffin te mandou aqui, né? – uma de suas sobrancelhas estavam arqueadas, um sorriso se formava em seus lábios.
— Não realmente. – ri fraco. – Vamos apenas dizer que ele me deu uma sessão de terapia e eu acabei percebendo as coisas.
— Ok, aceito suas desculpas. – ela deu um gole da Coca-Cola no copo. – E aceito sua oferta de paz.
— Estamos bem?
— Claro. – ela deu de ombros. – Isso é tudo?
— Não exatamente. – tomei um gole do meu copo. – Por que você nunca comentou que sabia cantar? Você poderia estar nos ajudando com o álbum, uma participação até.
— Você escutou?
— Eu estou aqui tem um tempinho.
— Ah... – estava visivelmente desconfortável.
— Então...
— Eu tenho medo de palco. – agora ela estava encarando o sofá em sua frente.
— Você trabalha com palco todos os dias, .
— Eu trabalho no backstage. – corrigiu. – Eu nunca estou no meio de multidões e sou o centro das atenções.
— Você tá brincando, né?
— Não, eu nunca investi na carreira de musicista justamente por isso.
, você tem que mostrar isso para os outros. De verdade, imagine ter você no nosso próximo álbum? Seria estrondoso.
— Não, .
— Você poderia fazer turnês em conjunto com a gente, até mesmo abrir nossos shows. – virou o resto da Coca que estava em seu copo, jogando no lixo ao lado da mesa ao se levantar.
— Isso não está aberto a discussões.
— Pare de ser medrosa, qual é!
— Tchau, .
E simplesmente me deu as costas pela segunda vez em menos de uma hora, saindo pela porta do estúdio e me deixando sozinho em um silêncio absoluto.
Por sorte, eu não era do tipo que desistia fácil.


Capítulo 2: As Provações e Tribulações de Estar em Turnê

“How many special people change?
How many lives are living strange?
Where were you while we were getting high?”
(Quantas pessoas especiais mudam? Quantas vidas estão vivendo estranhamente?
Onde você estava quando estávamos nos drogando?)
-
Champagne Supernova, Oasis
San Diego, CA Três anos e sete meses antes



Encarei o relógio em meu pulso pela terceira vez em menos de trinta segundos, milagrosamente esperando que alguma notícia boa pudesse ser dita em meio ao caos que eu me encontrava no momento. Minhas mãos tremiam e meu coração batia tão rápido quando os tambores da banda marcial da Julliard. Eu. Estou. Fodida. Eram as três palavras que rodavam minha mente quando Dominic me disse que ele não fazia ideia de onde estava.
— Onde caralhos o está? Nós entramos em dez minutos, . – Rob me encarou como se milagrosamente eu pudesse materializar se me esforçasse o suficiente.
— Eu vou procurar ele, segura essa merda. – Entreguei o iPad que conectava com o teleprompter.
Respirei fundo e comecei a desenhar meu caminho pelo backstage, trombando em diversas outras pessoas enquanto corria. Veja bem, se você conhece minimamente algum roadie, você deve saber que nós somos a classe mais baixa de todo o universo. Quero dizer, somos os primeiros a chegar nos estádios, sempre os últimos a sair e nossa alimentação deveria ser considerada um crime contra os direitos humanos. Um fato bônus? Muitos de nós temos vícios. Cafeína ou nicotina, sua escolha. O meu? São ambos. Por isso eu nunca sou a pessoa mais indicada a correr por um backstage lotado. Entretanto, aqui estou eu, correndo feito uma idiota enquanto grito escandalosamente:
— ALGUÉM VIU O ?
Eu já deveria imaginar que a resposta seria negativa. Se eu não tinha ideia de onde ele estava, nenhum dos outros provavelmente saberiam também. Na realidade, minhas apostas seriam as seguintes: todos sabem onde ele está, nenhum deles tem coragem o suficiente para o que vai acontecer quando o encontrarem, então tudo é empurrado para a pessoa que vos fala neste exato momento.
Parei diante no meio do corredor dos camarins, apoiando me em meus joelhos enquanto tentava recuperar o ritmo da minha respiração ofegante. Eu nunca mais vou me prestar a esse papel. Ofeguei mais uma vez, apoiando minhas mãos em minha cintura uma última vez antes de andar rapidamente até o camarim de e pegar no trinco, girando-o apenas para perceber que ele estava trancado.
Eu já estou saindo, mete o pé daqui. – gritou, me fazendo grunhir. Por favor, não esteja usando. Por favor, não esteja usando.
, sou eu.
Escutei um grunhido dentro da sala e o clique da fechadura, voltei a girar a maçaneta e quando a porta se abriu, eu me lancei para dentro e voltei a trancar a porta. A cena que encontrei lá dentro, em contrapartida, fez meu coração quebrar em tantos pedaços que eu ao menos consegui brigar com pelo estresse de me fazer correr atrás dele.
— Hey, o que está acontecendo? – estava sentado no chão, a camisa rosa cavada deixava suas tatuagens à mostra como se elas fossem uma camiseta de manga. Suas costas estavam encostadas no sofá e as pernas estavam esticadas, seu cabelo estava bagunçado e ele estava tão pálido quanto um fantasma. – Fala comigo, .
— Eu não consigo fazer isso, . – Ele murmurou, pegando o balde que estava ao seu lado e enfiando a cabeça dentro dele para vomitar. Merda.
— Okay, fica calmo. – Respirei fundo, tirando o walkie talkie do meu cinto. – Pessoal, achei o . Vamos precisar atrasar um pouco a entrada, o ponto dele está com defeito e eu vou precisar trocar, prolonguem o show de abertura por mais dez minutos.
Ok, . – Rob respondeu, me fazendo agradecer mentalmente a todos os deuses possíveis.
— Ok, vamos lá. – Me abaixei, sentando-me ao lado de para encará-lo. – O que está rolando? Você está usando de novo?
For Christ’s sake, . me encarou. – Você está comigo todo o tempo, não é como se eu tivesse tempo para isso. – Ele fechou os olhos. – Crise de ansiedade, talvez? Sei lá, , eu só sei que não estou conseguindo segurar caralho de comida nenhuma no meu estômago desde que cheguei.
— Menos ruim. – Murmurei, me arrastando em direção ao frigobar. – Uma garrafa de água? Sério? – peguei a garrafa lacrada, abrindo-a e estendendo para ele.
— Melhor uma do que nenhuma, certo? – ele riu fraco, pegando a garrafa e dando um gole. – Valeu.
— Vamos lá, eu tenho que te deixar inteiro em quinze minutos. – Voltei a me sentar ao lado de . Ele estava terrível, para dizer o mínimo. – Você precisa comer alguma coisa, não vai conseguir aguentar duas horas de palco sem ter comido nada.
— Ousado você pensar que não. – Ele sorriu, voltando a abraçar o balde para vomitar mais uma vez. – Ok, talvez você tenha razão.
— Claro que tenho. – Rolei os olhos, tirando uma barra de cereal do cinto para estender para ele. – Você está com medo de subir no palco.
— Vai se foder. – Ele puxou a barrinha da minha mão, abrindo o pacote e dando uma mordida. – Isso é normal para mim. Não pode ser isso.
— É isso ou você está grávido.
— Acredite ou não, eu não tenho os instrumentos para a segunda opção, então... – deu um gole na água. – Além disso, eu tenho apresentado em plateias maiores por anos.
— Você não tinha sofrido uma overdose quando tocou para essas plateias, . - estava olhando o teto. – É sua primeira apresentação desde a overdose.
— Eu definitivamente vou te demitir, estou cansado das suas suposições. – Rolou os olhos, rindo fraco. – O que eu posso fazer?
— Feche os olhos e imagine todo mundo pelado.
— Você quer me fazer parar de vomitar para ficar com o pau duro?
— Você é nojento, . – Fiz uma careta, empurrando-o e respondeu com uma risada.
— Faz parte. – Deu de ombros, a cor aos poucos voltando ao seu rosto.
— Se sentindo melhor?
— É, dá para aguentar duas horas de palco. – Deu de ombros, apenas balancei a cabeça e me levantei, estendendo minha mão em sua direção.
— Temos um show para começar. – Ele pegou minha mão, se levantando. – Pronto?
— Bastante. – Ele sorriu, se virando de costas para que eu pudesse passar o ponto e entregar para que ele os repousasse nos ombros. – Ainda acho que você deveria subir no palco junto com a gente.
— Nos seus sonhos, talvez. – Liguei o ponto, esperando que ele se virasse para mim. – Vai lá e faz o que você sabe fazer de melhor, tudo bem? Você é ótimo, seus fãs te amam e a prova disso é que o estádio está lotado. – Passei minha mão por seus cabelos bagunçados, tentando arrumá-los da melhor forma possível. – E, pelo amor de deus, lava esse cabelo depois do show.
— Vai se foder. – deu com ambos os dedos do meio. – Obrigado.
— É meu trabalho. – Olhei para o relógio em meu pulso, cinco minutos para a entrada. – Vamos, você tem cinco minutos.
Deu de costas para , destrancando a porta e a abrindo para que ele saísse, quando ele o fez, apenas fechei atrás de mim e fiz meu caminho ao seu lado silenciosamente pelos corredores, recebendo os olhares dos outros como se eu fosse um alien. Típica atitude de babaca. Tirei duas balas de menta e abri uma, colocando em minha boca e estendendo a outra para .
— Você está com bafo. – Ele rolou os olhos, aceitando a bala e abrindo o pacote com os dentes antes de enfiá-la na boca.
— Babaca.
— Covarde.
Ele me encarou por alguns segundos antes de apenas balançar a cabeça negativamente. Paramos na entrada ao lado do palco. Dom, Thomas e Griffin já estavam prontos para entrar enquanto o vídeo de introdução já passava no telão.
— Graças a deus. – Rob encarou . – trocou seu ponto?
— Sim, eu estou pronto. – Ele encarou Rob enquanto eu pegava a guitarra e colocava a correia nos pinos da guitarra. Ao terminar, apenas estendi a fender em direção ao vocalista que me agradeceu com um maneio de cabeça e passou a correia através do pescoço, prendendo-a em seu ombro. – Valeu.
— De nada. – Encarei os meninos. – Tá todo mundo pronto?
— Falta meu beijinho de boa sorte. – Dominic fez biquinho.
— Vai se foder, Dom. – rolei os olhos, parando diante dele. – O batom está borrado. – Segurei sua bochecha, passando o polegar pelo canto borrado do batom. – Agora sim. Vocês entram em 30 segundos, destruam esse palco e não ousem dar um show menos que perfeito, ok?
— Aye, sir. – eles bateram em continência, andei até Griffin e segurei seus ombros.
– Boa sorte, cuzão.
— Valeu, gatinha. – Sorri, depositando um beijo em sua bochecha. – Vamos lá, temos um show para fazer.
Encarei os garotos, fazendo um gesto com as mãos para que eles fizessem seu caminho até o palco quando as luzes se apagaram. Peguei o IPad do teleprompter com Rob e o segurei contra meu peito, sendo surpreendida com beijinhos de Dom, Tom e Griffin em minha bochecha antes que eles finalmente corressem em direção ao palco para tomar seus devidos lugares. foi o último deles, apenas dando um aperto fraco em meu ombro antes de ir para o palco e parar diante de seu microfone.
As luzes acenderam e os membros da Rowdy foram ovacionados por uma multidão de fãs enlouquecidos que gritavam e erguiam cartazes. Encostei em uma das barras do backstage e confirmei com a mesa de mixagem se tudo estava pronto, quando a confirmação me chegou apenas balancei com a cabeça positivamente em direção à .
— Boa noite, San Diego! – sorria. – Puta merda, é muito bom estar de volta. Eu senti falta de vocês. Mas, sem mais delongas, acho que deveríamos começar com uma das músicas do novo álbum, não? – encarou Griffin, que confirmou com a cabeça. – Eu escrevi essa música algumas semanas depois de sair da reabilitação, se chama No meu melhor, espero que gostem tanto quanto eu.
começou a tocar um conjunto de acordes enquanto Dom realizava alguns solos ao seu lado. Griffin tinha um sorriso no rosto que denunciava o quão orgulhoso ele estava de . Até eu, de certa forma, me sentia assim. Não era por menos, afinal, ele havia passado por poucas e boas durante seu tempo na reabilitação e aos poucos estava voltando aos trilhos. Havia voltado a compor e pelos últimos cinco meses havia se tornado um pouco mais aturável pelo nosso próprio bem. Ele estava evoluindo.
Eu escrevi essa música como um pedido de ajuda, pelo bem de qualquer que se identificar com ela. – A voz dele estava um pouco vacilante, ainda que afinada. – Eu escrevi essa carta para amenizar sua dor, porque todos os dias eu acordo me sentindo do mesmo jeito. – Ele fechou os olhos.
Eu estava encarando o que seria a apresentação mais pessoal de em anos de carreira, conseguia sentir a dor de seu peito em cada uma das palavras que saiam por seus lábios à medida em que ele cantava. Era tudo extremamente transparente, quase tanto quanto a lágrima solitária que caiu por sua bochecha quando ele finalmente finalizou a música.
— Ele está chorando? – Sabrina encostou seu queixo em meu ombro.
Sabrina Davis era um pesadelo em minha vida desde que eu me conhecia por gente. Nos conhecemos quando eu me mudei para Toledo aos nove anos de idade e nos tornamos inseparáveis desde então. Passamos por todas as piores fases, incluindo a fase de adaptação em Nova Iorque durante a faculdade, dividimos um apartamento fora do campus por cinco anos antes de Griffin me arrumar um emprego com a staff e eu finalmente arrastá-la junto comigo.
Em um resumo: ela era um pesadelo, mas era um pesadelo da qual eu nunca, em momento algum, cogitaria viver sem.
— Acho que sim. – Suspirei. – Não é por menos, a letra é bem pesada.
— Você vai chorar quando chegar a sua vez?
— Do que você está falando?
— Ah, você sabe... quando você tomar coragem para subir no palco junto com eles.
— Ainda nesse assunto? Está parecendo o .
— Então você anda confabulando com o inimigo e não teve a decência de me dizer? Estou desapontada.
— Eu não estou confabulando com ninguém. – Encarei a tela do tablet para verificar as luzes. – Eu estive com o todos os dias pelos últimos cinco meses e eu te disse que ele me viu com a Cassie no dia da festa de boas-vindas.
— Então ele vem tentando te convencer a cantar com eles desde então?
— Yep. – Liguei a luz avermelhada para o começo do cover de uma das músicas do Mötley Crüe. – E eu já disse não. Centenas de vezes, para ser honesta. – A encarei. – E ele mudou a abordagem.
— Você acendeu a chama que ele precisava quando não aceitou o pedido dele, algo me diz que ele não desiste fácil. – Ergui uma de minhas sobrancelhas. – O quê?
— Você está agindo em conjunto com ele. – Eu estava incrédula. – Minha melhor amiga está agindo pelas minhas costas.
— Eu não estou agindo pelas suas costas, eu estou tentando fazer com que você se dê a oportunidade de explorar algo que sabemos que vai te fazer feliz. – Ela me encarou. – Qual é, ! Vai te matar ao menos dar uma chance?
— Sim, eu vou entrar em combustão instantânea no minuto em que eu pisar dentro do estúdio. – Peguei o celular em meu bolso, desbloqueando a tela para entrar na câmera para gravar alguns segundos do show e enviar para Cassie.
— Você deveria se envergonhar.
— Perdão?
— Você estudou anos na Julliard, cansou de fazer aulas de composição e coral, vai mesmo jogar tudo isso fora?
— Eu tenho medo de palco, Brina.
— E é por isso que existe algo mágico chamado terapia, serve para te fazer superar traumas. – Sabrina parou em minha frente. – Você merece isso e só vai superar seu medo quando realmente tentar. – Ela sorria de canto. – Você ajuda todo mundo o tempo todo, mas sempre se esquece de fazer algo por você.
— Eu já faço, todos os dias. – Aumentei as luzes azuis e diminui as vermelhas. – Eu amo o meu trabalho e estou satisfeita em trabalhar no backstage, é meu emprego dos sonhos. Eu estou feliz assim.
— Vamos combinar algo, então.
— Eu não vou gostar disso, né?
— Seguinte. – Sabrina sorriu, os cabelos castanhos caindo em cascatas por suas costas quando ela passou suas mãos por eles. – Você tenta uma vez tentar compor algo com eles. Uma vez, sem compromisso.
— Você vai me colocar em problemas.
— Claro que não. – Ela gesticulou com a mão. – Você ainda está como babá do em tempo integral, todos da banda te amam então não existe nenhum contra.
— Você ainda vai causar a minha demissão.
— Isso foi um “sim"?
— Isso foi um “vou pensar sobre”. – Sorri de canto. – Agora, vai lá cuidar do que você tem que fazer, preciso manter o foco.
As pessoas são assim mesmo, a gente tenta ajudar e aí elas simplesmente nos expulsam. – Ela dramatizou, jogando os cabelos antes de sair andando em direção ao backstage.
Continuei ao lado do palco durante toda a hora restante que se passou depois disso, me certificando de que tudo estava em perfeito estado até o final do show.
Algumas músicas depois, o show estava chegando ao seu fim e a música que iria finalizar o show era a música solo de Dom e ele precisaria de um violão para começá-la. O maior problema era que a única pessoa no backstage lateral era eu. Absolutamente todas as almas presentes naquele espaço milagrosamente sumiram.
Engoli em seco, deixando o IPad em cima de uma das caixas de som e andando em direção ao violão de Dominic, que descansava cuidadosamente em seu apoio. Retirei-o dali e comecei a ajustar a correia nas tarraxas, parando para afinar o violão um tom acima que a afinação padrão para a música. Ao terminar, retirei o violão dos meus ombros e o segurei pelo braço, esperando a finalização da música para que Dom pegasse o violão.
Mordi meu lábio e aguardei até que Dominic fizesse menção de andar até o canto do palco para pegar seus instrumentos como ele sempre fazia. Mas, dessa vez, ele não o fez. Dom apenas ficou parado no mesmo lugar por alguns segundos antes de começar a gesticular para que eu andasse até ele para entregar o violão. Deus, como eu odeio essa banda. Respirei fundo, sentindo o pânico começando a se arrastar por dentro de mim. Engoli em seco e tomei coragem, andando em direção ao guitarrista antes que pudesse pensar duas vezes no que estava fazendo. É só não olhar para a multidão, vai ficar tudo bem, é só não olhar para a multidão.
— Valeu, ! – Dom sorriu, tirando a guitarra de seus ombros e estendendo-a para mim enquanto segurava o braço do violão com a mão livre. – Poderia me ajudar com o cabo? – ele sorriu e eu conseguia facilmente visualizar trinta e duas formas diferentes de assassiná-lo sem deixar provas.
— C-claro.
Sorri nervosa, buscando pelo cabo P10 e notando que ele havia caído no chão após ele ter tirado da guitarra. Merda, merda, merda. Eu estava tremendo. Respirei fundo mais uma vez, tentando manter o foco. Me abaixei para pegar o cabo e me arrependi instantaneamente ao ver a multidão de pessoas que ocupavam cada pequeno espaço livre do Mattress Firm Anphitheatre. Engoli em seco mais uma vez, sentindo uma gota de suor escorrer por minha bochecha.
— Tá tudo bem, ? Você está pálida pra caralho.
— E-eu estou bem, sim.
Murmurei, pegando o fio e passando ao redor da correia para conectar na entrada do violão, para sair correndo em direção ao backstage sem ao menos escutar o agradecimento de Dom.
Tudo estava girando e eu estava ofegante. Procurei pelo balde mais próximo ao lado do palco e o agarrei, enfiando minha cabeça quando todo o meu almoço resolveu sair por todos os buracos possíveis, menos o correto. Puta merda, eu odeio a minha vida.
Me sentei contra uma das diversas caixas empilhadas ao lado do palco, puxei o balde cuidadosamente e o coloquei entre minhas pernas. Me estiquei apenas o suficiente para pegar o Ipad para fazer o controle das luzes à medida e que Dominic cantava. Encostei minha cabeça contra a caixa e tentei normalizar minha respiração, curvando-me contra o balde mais uma vez.
Pelo tempo em que finalmente parei de vomitar, o show já tinha acabado e quatro homens estavam parados na minha frente com olhares preocupados.
— E aí, como foi o show? – tombei minha cabeça para trás, encarando os membros da Rowdy. – O meu foi legal pra caralho.
— Porra, . – Griffin murmurou, abaixando-se ao meu lado. – Isso tudo foi porque você subiu no palco?
— O que você acha, Griff? – o encarei. – Que merda, eu sempre deixei claro o porquê de não subir. – Passei a mão por meu rosto, limpando o suor frio que se acumulou ali antes de prender meu cabelo em um rabo de cavalo. – Qual de vocês, babacas, teve a brilhante ideia de fazer essa brincadeira?
— Eu sinto muito, , eu não imaginava que você tivesse tanto medo assim. – Dom me encarou. – Eu realmente sinto muito.
— Mas eu tenho, Dom. – suspirei, me apoiando em uma das caixas para me levantar. – Eu fico apavorada, cacete. – Empurrei o balde cuidadosamente com o pé. – Só não faz isso de novo. – Ele assentiu. – Isso vale para todos vocês.
— Não vamos fazer. – me encarou. – Preciso de um banho. - E então ele me deu as costas.
— Vocês três estão fedendo, façam o mesmo que o .
Os homens apenas confirmaram com a cabeça, seguindo pelo corredor lateral até seus respectivos camarins. Aguardei por alguns minutos e desliguei o teleprompter, apagando as luzes do palco. Peguei o balde no chão e o coloquei entre as toalhas sujas, fazendo meu caminho até os camarins o mais lentamente possível para que o meu estômago não resolvesse reclamar novamente. Coloquei o teleprompter em cima da mesa de equipamentos e parei diante da porta de , batendo três vezes antes de ouvir algo de dentro dela.
Entra, estou no banho.
Girei a maçaneta, entrando no ambiente para encontrá-lo com papéis por todos os lados. Balancei a cabeça negativamente, me aproximando da penteadeira que haviam colocado ali.
E você é minha droga, te respirando até meu rosto adormecer. – Li um pedaço do trecho da letra garranchada em uma das folhas. – Nada além dos saltos altos, perdendo a minha religião.
Gosta do que está lendo? – escutei , só então voltando minha atenção em direção a porta do pequeno banheiro do camarim. Os cabelos dele estavam molhados e caiam por seu rosto enquanto ele passava a toalha pelos fios, deixando-a pendurada em seus ombros. – Nós temos um tempo antes de ir para o hotel, resolvi tirá-las para ver se consigo algo bom.
— Me desculpe. – Sai de perto da penteadeira, sentando-me no sofá. – Você já tem alguma ideia de título?
— Ainda não. – Pendurou a toalha em uma das araras ao seu lado, andando até a penteadeira e pegando as letras antes de se sentar ao meu lado. – Eu estava pensando em fazer um dueto com isso.
— Acho que vai fazer sucesso se você o fizer, é uma boa letra. – Sorri de canto. – Colocar um trecho dela para começar a música, talvez?
— Eu estou escutando. – Pegou a caneta na mesinha de centro. – Me ajuda com essa.
— Foi apenas uma ideia, não quero me meter no seu processo de criação. – Ri fraco.
— Eu estou pedindo para você me ajudar. – Ele me encarou. – Você tem medo de palco, eu entendo. Isso não significa que você não pode me ajudar a compor.
— Você é um pé no saco. – Bufei. – O que você está pensando para essa?
— Não sei. – Ele colocou os pés na mesa de centro. – Eles poderiam ser como Bonnie e Clyde.
— Ladrões de banco suicidas?
— Não, babaca. – bufou. – Uma dupla que aceita tudo pelo outro. Que está lá independentemente do quão ruim as coisas estão.
— E posteriormente roubam bancos.
— Talvez uma invasão de propriedade privada, também. Quem sabe. – Ele riu fraco quando eu o encarei incrédula. – É liberdade poética, conhece?
— Vai se foder. – Balancei a cabeça. – Ok, uma dupla dinâmica que topa tudo. – Peguei a letra das mãos de . – Nada é tão ruim se te faz sentir bem?
— Eles são extremo opostos, mas se encontram nos gostos bizarros.
— Oh, eles também gostam de BDSM. Safados.
— Se te faz se sentir melhor, eles podem curtir uma depravação. – Deu de ombros.
— Eu estou enojada. – Ri fraco. – Okay, e se colocarmos algo antes dessa tentativa de convencimento?
— Tipo...
Se você soubesse das coisas ruins que eu gosto, não pense que eu consigo explicar. – Escrevi ao lado. - O que posso dizer? É complicado.
— Ok, ela se sente envergonhada dos gostos sexuais exóticos dela.
Você poderia parar de relacionar tudo à sexo? – ergui uma sobrancelha. – Deus, você parece um garoto de fundamental.
— Você quem começou com essa merda de BDSM, eu só estou mergulhando no seu processo.
— Vai se foder.
— É a segunda vez em menos de dez minutos. – Ele sorriu. – Eu estou contando.
— Vai se foder. – Balancei a cabeça. – E se colocarmos algo como “Não importa o que você faz, nem o que você diz. Eu apenas quero fazer coisas ruins com você”?
— Muda essa ordem. – Ele se virou para mostrar no papel. – Coloca “Não importa o que você diz, nem o que você faz", acho que fica mais harmônico e rimado.
— Tudo bem. – Apoiei meu queixo em minha mão. – Podemos voltar com o começo e isso poderia ser o refrão, quando as músicas são dueto o ideal é ter um refrão para não ficar confuso.
— Então já temos um refrão. – Ele encostou no sofá. – Estou ficando louco? Estou perdendo a cabeça? Se você soubesse das coisas ruins que eu gosto. – Me olhou. – O que acha?
— Boa, essa pode ser a introdução. – Anotei no papel, assoprando o cacho que caiu em meu rosto quando me inclinei. – Tão bom que você não consegue explicar, o que posso dizer? É complicado. Podemos colocar isso para finalizar o refrão.
— Eu gosto disso, pode colocar.
— Ok. – Escrevi o trecho na folha. – Prontinho. – Estendi a folha. – Sua música está pronta.
— Não está, ainda precisamos fazer a ponte. – Ele pegou a folha.
— Precisamos? – arqueei uma sobrancelha.
— Sim, precisamos. – Ele se levantou, andando até uma das araras para pegar uma camiseta de manga rosa. – Você está presa a mim noventa por cento do seu tempo, poderia me ajudar com outras composições.
, você está com as suas capacidades mentais em perfeito estado? – colocou a camiseta, cobrindo as tatuagens com o tecido rosa.
— Sim? – me encarou. – Qual é, nós dois sabemos que você sabe compor e faz isso muito bem, o que te impede? – e, novamente, estava enchendo o meu saco. – Responde.
— Eu te disse milhares de vezes que não, para de insistir.
, eu estou realmente tentando ser uma pessoa legal aqui e você não está me ajudando.
— Você está tentando me fazer ultrapassar limites que eu não posso ultrapassar. – O encarei. – Olha, eu vou ver Griffin. – Me levantei.
— Você não pode me deixar sozinho.
— Eu estou no camarim ao lado.
— Ainda não pode me deixar sozinho, Ashleigh foi bastante clara quando disse que eu seria vigiado vinte e quatro horas por dia.
— Você realmente está usando essa carta?
— Eu não desisto fácil e eu estou tentando te compensar aqui, tá?
— Você poderia me dar um carro novo, me sentiria plenamente compensada.
— Estamos no Natal e eu me tornei o Papai Noel?
— Não, você está mais para o Grinch. – Me virei, pegando a maçaneta e a girando. – Vamos lá, não posso te deixar sozinho.
sorriu, saindo para fora do camarim e parando ao meu lado quando fechei a porta atrás de mim. Andei em direção ao camarim de Griffin e abri a porta, encontrando-o jogado no sofá completamente pelado com seu celular em mãos. Visão do inferno, para dizer o mínimo.
— Pelo amor de Deus, Griffin! – berrei, fechando os olhos. – Bota uma roupa, agora.
— E é por isso que você bate antes de entrar, . – O escutei levantar-se, pegando alguma roupa e pulando, ria ao meu lado. – Pode abrir.
— Você é nojento. - Abri os olhos, encarando-o. – Sério, quem fica pelado jogado no sofá?
— Eu. – deu de ombros, me fazendo encará-lo. – O quê?
— Eu estou enojada. – Me sentei no sofá. – Como foi o show, Griff?
— Ótimo. – Encarou . – Ela te arrastou até aqui?
— Eu não arrastei ninguém, ele veio porque aparentemente não sabe ficar sozinho por cinco minutos.
— Você – ele apontou para mim. – Vai se foder. – Depois encarou Griffin. – Convence a sua namorada a me escutar.
— Namorada? – encarei . – Nojento.
— Ele colocou na cabeça dele que a gente se pega. – Griffin explicou. – O que está tentando fazer?
— Estou tentando convencê-la a me ajudar a compor algumas músicas. – me olhou. – Você já viu essa mulher compondo?
— Já. – Griffin me encarou. – Mas eu tenho tentado fazer isso que você está fazendo por bastante tempo. – Ele encarou a tela do telefone. – Nunca funcionou, ela tem um bloqueio...
— Vai se foder. – Apontei, interrompendo-o. – Deus, vocês não me dão um dia de paz. - Me levantei, passando a mão por meu rosto. – Eu estou saindo, não ouse vir atrás de mim. – Eu disse, encarando .
Sai do camarim de Griffin e andei rapidamente pelo backstage até a entrada lateral do palco. A maior parte dos roadies estavam começando a desmontar os instrumentos musicais para colocá-los de volta nos ônibus da turnê.
Respirei fundo e fiz meu caminho até o palco pela segunda vez naquele dia. O estádio agora estava vazio, sendo iluminado pelas luzes nos postes. Andei até o final do palco, sentando-me ali com as pernas suspensas no ar. Eu me sentia totalmente esmagada pela sensação de ser tão pequena perto do espaço enorme, uma vez lotado de pessoas. Me deitei no palco, encarando o céu estrelado antes de fechar meus olhos.
— Isso vai ser uma longa turnê.


Capítulo 3: As Provações e Tribulações de Confiar

“Your money is getting wasted
But you’re always getting wasted all the time.”
(Seu dinheiro está sendo perdido
Mas você está perdido o tempo todo)
— Dying In a Hot Tub, Palaye Royale
Três anos e cinco meses antes



O sol entrava pelas cortinas abertas de meu quarto, tornando impossível que eu conseguisse enxergar algo dentro da claridade em que meu quarto se encontrava. Minha cabeça doía da mesma forma que meu peito e eu mal conseguia me sentir bem o suficiente para levantar da cama naquele dia. Me virei em minha cama apenas o suficiente para conseguir me esticar em direção à mesa de cabeceira, pegando meu celular para encontrar um amontoado de mensagens preocupadas de meus amigos enchendo a tela de notificações.
Desbloqueei minha tela de celular e passei para o aplicativo de mensagens, respirando fundo antes de deixar o celular descansando em meu peito enquanto eu repassava em minha mente a imagem de Alyssa pegando suas coisas em meu armário e simplesmente me dando as costas no dia dos namorados.
— Eu não posso estar com alguém que tem medo de me assumir, , relacionamentos não funcionam assim.
Suas palavras se repetiam em minha mente como um looping e eu não conseguia ter uma reação diferente de inercia. Eu estava flutuando dentro de meus próprios pensamentos quando senti o celular vibrar em meu peito, rolei meus olhos e encarei a tela, avaliando se minha paciência estava grande o suficiente para lidar com os surtos de . Após alguns segundos, me dei por vencido e deslizei o botão para atender a chamada.
Pelo amor de deus, , você está fora de si? chiou.
— Bom dia para você também, estrelinha. – Murmurei. – O que foi?
Não ouse vir com seu sarcasmo e apelidos para cima de mim, . – Eu conseguia enxergá-la massageando suas têmporas. – Você fez um tweet suspeito e sumiu durante um dia todo, você entende a gravidade ou eu preciso desenhar?
— Foi um tweet autoexplicativo, não existe nada mais por trás dele. – fechei os olhos. – Agora que você já sabe que estou vivo, já pode desligar.
Alyssa realmente terminou com você no dia dos namorados?
— É.
Eu estou indo até aí.
Que porra?
Você teve sua festa de autopiedade e eu Ashleigh está preocupada, você precisa espairecer.
— Eu posso fazer isso sozinho, passo.
Tarde demais.
— Eu te odeio.
Posso viver com isso.
— Ashleigh deveria te demitir, você é extremamente irritante. – Provoquei, fechando meus olhos com força antes de me sentar na cama. - Se vai vir até aqui ao menos tenha a decência de bater antes de entrar.
E você é extremamente desagradável. FILHO DA PUTA! – ela gritou, me fazendo afastar o aparelho celular de perto do meu ouvido. – Desculpa, , um babaca me fechou em uma curva. De qualquer forma, eu estou com o Griffin, os meninos devem estar indo até aí também.
— Merda, , eu só queria um dia tranquilo sem a presença de vocês.
Eu sei, é por isso mesmo que isso é algo que não vamos fazer. Levanta da cama e se arruma, chego em quinze minutos.
E, sem nenhum aviso prévio, desligou o celular na minha cara. Suspirei pelo o que parecia ser a centésima vez naquele dia, coçando meus olhos antes de me levantar da cama e desenhar meu caminho em direção ao banheiro de meu quarto. Não me preocupei em me olhar no espelho, apenas foquei no banho que deveria levar menos que dez minutos se eu quisesse estar pronto antes de invadir a minha residência. Ao menos a água do chuveiro serviria para me fazer esquecer, mesmo que por alguns segundos, as dores musculares de ter corrido uma maratona por Hidden Hills apenas para me permitir esquecer os últimos dois dias.
Após longos minutos embaixo da água gelada, finalmente me senti bem o suficiente para sair do banheiro. Enrolei a toalha em minha cintura e andei em longas passadas em direção ao closet, pegando qualquer peça de roupa que fosse menos quente para aturar a primavera da California. Por fim, me permiti pegar o celular em minha cama, enfiando-o no bolso de minha bermuda antes sair de dentro do cômodo iluminado.
Desci as escadas pacientemente, encontrando meus adoráveis colegas de banda carregando coolers em direção à piscina na parte de trás de minha mansão. Balancei a cabeça negativamente, encarando Griffin com o meu melhor semblante irritado, mesmo que internamente eu estivesse agradecendo a companhia dos meus melhores amigos naquele momento.
— Bom dia, Raio-de-Sol. – Griff sorriu, dando leves tapinhas em minhas costas quando me puxou para um abraço. – Como está se sentindo?
— Eu consigo lidar. – dei de ombros, sabendo muito bem que aquilo era a última coisa que conseguiria lidar no momento.
acabou de estacionar, ela trouxe bastante coisa então estamos ajudando. Dom está com Cassie terminando de colocar as bebidas para fora.
— Ótimo. – balancei a cabeça, voltando a desenhar meu caminho até a porta de entrada onde os carros de meus amigos haviam sido estacionados. – Deus. Você está se mudando para a minha casa?
— Você bem que gostaria.
— Você comprou tudo isso?
— Não, o Griffin. – ela fez uma careta. – Estávamos juntos, não foi difícil juntar o resto do pessoal depois disso.
— Vocês estão fodendo? – perguntei, casualmente, enquanto puxava o último cooler que faltava no porta-malas e abaixava a porta.
Ew, não. – ela balançou a cabeça como se estivesse visivelmente ofendida pela pergunta. – De onde você tirou essa maluquice, ?
— Vocês vivem juntos, é quase como se fossem uma pessoa só, você fica de agarração com ele quando estamos só nós, é suspeito para dizer o mínimo. – Enumerei os fatores, voltando a encará-la. – Vai dizer que eu estou errado em perguntar?
— Quando estamos com outras pessoas eu estou trabalhando. – explicou. – Eu preciso manter o máximo de profissionalismo, além do mais, eu e Griffin nos conhecemos por um bom tempo, ele é o mais próximo de família que eu tenho. – deu de ombros. – Além do mais, é contra as minhas regras ter relações românticas com as bandas que eu trabalho.
— Sério? – arqueei uma de minhas sobrancelhas. – Nunca? Nenhuma?
— Eu já passei da minha fase starstruck. – Colocou o cooler em no chão ao lado da churrasqueira. – Depois de ver de perto como a indústria funciona, eu deixei de ficar realmente impressionada por ela, entende? E eu sinto que não conseguiria manter uma relação com alguém que estivesse cercado por holofotes e toda essa merda. Eu gosto do anonimato e da minha privacidade.
— Você diz isso porque molha as calças sempre que está próxima do palco. – provoquei.
— Pode ser que seja isso mesmo. – se abaixou, tirando a tampa de um dos coolers para pegar duas cervejas. – Mas, se um dia isso acontecer, eu vou pedir uma mudança de banda pra Capitol, eu prefiro isso do que ser pega no meio de um conflito de interesses.
— Você tem bolas, isso eu tenho que admitir. – peguei uma das garrafas de cerveja que ela estendeu em minha direção. – Valeu.
— Por nada. – ela sorriu de canto, arrancando a tapa lacrada da cerveja com ajuda do anel prateado que sempre ficava em seu dedo do meio. – Eu vou tratar ver como o Tommy está com as bebidas do bar.
— Vai lá.
E com um aceno de cabeça ela foi saltitando em direção à cozinha feito uma criança alegre. Balancei minha cabeça negativamente enquanto andava em direção à cadeira na beira da piscina onde Dom e Cass brincavam entre si.
— Ei, vocês. – chamei a atenção de ambos – O que estão fazendo?
— Estava falando para a Cassie o quanto você e fariam um casal fofinho.
— Vocês deveriam namorar. – Cassie soltou, casualmente, como se não significasse nada. – Ele é mais legal que a Alyssa.
— Olha as ideias que você está alimentando na minha filha, Dominic. – fiz uma careta. – Vocês dois, deixem a minha vida amorosa como está, já é complicado o suficiente. – dei um gole em minha cerveja e a deixei repousar na mesa ao meu lado.
— Papai, você poderia me dar seu celular para eu tirar uma foto?
— Claro, princesa. – sorri, tirando o aparelho de meu bolso e para entregar nas pequenas mãos de Cassie.
E me virei para a piscina, o que foi uma péssima decisão visto que menos de trinta segundos depois meus melhores amigos me fizeram o grande favor de me empurrar na água que se encontrava quente graças ao sol que se encontrava no topo do céu no momento. Deus, como eu odiava os meus amigos.
— Que porra foi essa, caras? – passei a mão em meu rosto em uma tentativa falha de tirar um pouco da água que havia se acumulado ali, somente para encontrar dois marmanjos velhos gargalhando com Cassandra.
— Cara... – a risada de Griffin era tão histérica que ele ao menos conseguia terminar a frase sem se apoiar em seus próprios joelhos. – Você caiu que nem um pedaço de bosta na água.
— Caralho, como eu amo trabalhar do lado de vocês puta merda. – Dominic limpou uma lágrima de seu olho. – Você é um gênio, Cass.
— Obrigada. – Minha filha riu e eu estava embasbacado com a traição da pequena garotinha.
— Cassie, você realmente me traiu dessa forma?
— Você estava triste... – ela disse, me encarando com um rosto que transbordava inocência.
— Eu realmente odeio vocês. – fiz um careta, andando em direção à beira da piscina para me impulsionar para fora dela. – Eu estou encharcado. – tirei a camisa e a regata, jogando-as em uma das cadeiras livres.
— Estranho seria se você não estivesse. – retornou com alguns potes de vidro com carne em seus braços e agora tinha um óculos de sol em seu rosto. – Esse é meio que o ponto de jogar alguém na piscina.
— Continue falando e eu faço questão de te jogar dentro dela também.
— Eu adoraria ver você tentar. – provocou, abaixando levemente os óculos para me encarar.
— Eu tomaria isso como um desafio. – Dom sorriu diabolicamente.
— Eu não deixaria, papai.
— Deixem-na pelo menos colocar as carnes na mesa antes. – Tommy berrou, colocando as bandejas que ele carregava na mesa para auxiliar com as que ela carregava.
— Que seja. – ela murmurou, ajustando o óculos de sol em seu rosto antes de pegar o celular e deslizar a tela, colocando em sua orelha enquanto falava com alguém que eu não fiz questão de saber quem eram-.
— Ashleigh está bastante carrasca nas últimas semanas, não? – Tommy mudou de assunto, tomando minha atenção. Apenas franzi o cenho visivelmente confuso com o que ele estava se referindo. – As gravações do próximo álbum, cara. Ela está maluca.
— Faz dois anos desde o último lançamento, ela está sofrendo com a pressão da Capitol, você poderia culpá-la? Dois anos sem um álbum, a minha overdose, o fato de que eu agora preciso de uma babá. – apontei em direção a , que falava com atenção no telefone. – É bastante coisa para lidar ao mesmo tempo.
— Ela quer que comecemos as gravações no próximo mês, cara. – Griffin me encarou rapidamente enquanto brincava de adoleta com Cassandra. – Você tem algo em mente?
— Na real... – peguei uma garrafa de cerveja, usando o avental de Tommy para abrir. – Eu tenho uma ideia, mas eu preciso de ajuda para convencer a pessoa em questão.
— Você realmente está cogitando isso? Cara, isso é praticamente impossível. – Griff parou de brincar com Cass.
— Eu perdi algo aqui? – Dom franziu o cenho. – Porque eu realmente estou tentando entender o que está rolando.
— Ele quer que a esteja no próximo álbum. – meu melhor amigo massageou as têmporas, balançando a cabeça negativamente.
— A nossa ? A garota que vomitou as tripas só de trocar uma guitarra em um palco? Nós realmente estamos falando da mesma pessoa? – Tommy levou a cerveja até os próprios lábios.
— Sim, a nossa . – Graham suspirou, voltando a brincar com Cassie. – Ela é formada em produção musical e tem especialização em composição pela Juilliard.
— Ela o QUÊ? – Dom cuspiu a cerveja. – Por que caralhos ela ainda está trabalhando para a gente? Quero dizer, não que nós não sejamos muito legais, mas com um currículo desses ela poderia estar, você sabe, mais famosa que a gente.
— Você acabou de responder sua pergunta alguns segundos atrás. – Griff riu fraco, pegando as bochechas de Cassie. – Ela tem medo de palco, têm sido assim desde sempre.
— Isso pode ser resolvido. – dei de ombros. – Ela me ajudou com a composição de uma música e, por mais que na maior parte do tempo ela seja irritante...
— Muito cuidado com as palavras que você vai dizer agora. – Griff censurou.
— Continuando. – o ignorei, - Por mais irritante que seja, ela tem o talento e uma voz que eu nunca ouvi em lugar nenhum, a música é simplesmente genial e a forma que ela compõe é fluída, nós precisamos dela.
— Você vai me render belas dores de cabeça. – o baterista me encarou.
canta muito bem. – Cassie me encarou. – Vocês podem cantar agora?
— Cassie, ela não vai fazer isso agora. – a encarei.
— Eu posso pedir.
— E vocês podem mostrar a nova composição que tanto disseram.
— Do que vocês estão falando? – finalmente apareceu, dessa vez com Sabrina ao seu lado. –
— Oi, pessoal. – Brina acenou e eu apenas meneei com a cabeça. – Como está, ?
— Ótimo. – dei de ombros. – Estávamos falando da sua participação no próximo álbum.
— E você estava pensando em me contar isso quando, ? – a empresária a encarou, com uma expressão não muito amigável.
— Isso nunca foi uma hipótese a ser considerada. – deu de ombros. – E eu achei que você já tivesse entendido o que eu te disse um mês atrás.
— Eu não esqueço fácil.
— Nem me diga. – balançou a cabeça.
— Qual é! – Dom a encarou. – Canta algo para a gente, parece que todo mundo aqui já te escutou cantando menos eu.
— E eu. – Tommy adicionou e a expressão de beirava o pânico. – Você tem pânico de palco, eu entendo, mas estamos entre pessoas que você conhece tem bastante tempo.
— Por favorzinho, . – Cassandra correu em direção a ela, encarando-a com a mesma expressão pidona, digna do Gato-de-Botas e eu apenas conseguia pensar no quanto eu mimaria aquela pequena garotinha por usar a sua influência sobre da maneira certa.
— Não.
— Você realmente vai negar isso pra Cassie? – joguei a última carta que me faltava na manga, rezando para que aquilo fosse suficiente para convencê-la.
— Olha para cara dela, . – Brina apontou para o rostinho pidão da minha filha. – Você realmente vai ser sem coração a esse ponto?
— Eu odeio todos vocês. – bufou. – Menos você, você é um anjinho. – se abaixou, depositando um beijo terno na testa de Cass. – Eu faço, mas é só porque Cassie realmente jogou baixo ao pedir isso, ok? – rolou os olhos. – Eu vou pegar o violão.
— Está no estúdio, você pode trazer as partituras que estão em cima do piano, quero ajuda nelas.
— Não abusa da minha boa vontade, . – murmurou, antes de me dar as costas e sumir dentro do interior da mansão.
— Você me deve um bolo de chocolate. – Cassandra me olhou e eu apenas abri meus braços, esperando que ela corresse me abraçar. – Você está molhado.
— Você vai ganhar todos os bolos do mundo depois disso. – Griffin a encarou, me cortando antes que eu pudesse ao menos respondê-la.
— Vocês realmente querem a no álbum ou é apenas um jeito de implicar com ela? – Brina cruzou os braços, me encarando. Sabrina era tão transparente quanto uma taça de cristal polido e era bem fácil de perceber que ela se encontrava em um misto de felicidade e receio.
— Cara, eu a quero no álbum mais do que qualquer coisa. – levantei as mãos em defensiva. – Eu tenho um plano novo para esse álbum e eu quero que ela esteja nele, tanto na composição quanto na faixa. Eu devo isso a ela depois de tudo.
— Eu apoio. – Brina sorriu. – Ela é uma musicista incrível e pelos últimos quinze anos eu tenho tentado incessantemente fazer com que ela siga na carreira, se vocês querem mesmo fazer isso, vão ter meu apoio.
— Vocês vão me colocar em uma encrenca fodida. – Griff balançou a cabeça. – Mas eu topo, ela é realmente talentosa.
— Não posso tirar conclusões antes de escutá-la. – Dom murmurou, mas o sorriso em seu rosto denunciava que ele apenas estava sendo do contra.
— Por mim o que vocês decidirem, está decidido. – Tommy deu de ombros.
— Eu ajudo. – Cassie riu, sentando-se ao lado de Griffin.
— Você fez o arranjo para a letra? – finalmente passou pela porta com o violão em mãos, se sentando na cadeira em uma distância segura, me estiquei para pegar o violão de suas mãos e ela apenas se afastou, me deixando confuso por alguns segundos. – Você está ensopado, eu posso tocar.
— Por mim tudo bem. – dei de ombros, pegando as partituras ao lado. – Você pode fazer as partes em vermelho e eu faço as em azul.
— Juntos nas grifadas em roxo? – franziu o cenho, eu apenas assenti. – Ok, o arranjo é Dó, Sol, Lá Menor, Dó com Sétima, Fá e Ré Menor? – eu assenti. – Beleza. – murmurou, prendendo os cabelos cacheados em um coque bagunçado no topo de sua cabeça, deixando alguns cachos caindo por seu rosto. – Vamos lá.
— Um, dois, três...
Fiz a contagem em voz alta, esperando que começasse a tocar os acordes um por um. Contei o tempo da música e notei que a roadie tremia levemente e encarava o papel com afinco antes de finalmente começar a cantar o refrão.
Estou fora da minha cabeça? Estou fora da minha mente? Se você ao menos soubesse das coisas ruins que eu gosto... – ela usou uma nota de cabeça, me fazendo encará-la. – Não ache que posso explicar, o que posso dizer? É complicado. respirou fundo, o balançar de sua perna denunciava o quão nervosa ela estava. – Não importa o que você diz, não importa o que você diz, eu apenas quero fazer coisas ruins com você, tão bom que você ao menos pode explicar, o que posso dizer? É complicado.
Encarei meus amigos rapidamente e eles se encontravam tão embasbacados como eu quando havia escutado a roadie cantando pela primeira vez. A técnica era incomparável, mesmo nervosa ela apenas seguia como se nada pudesse tirá-la do estado em que ela havia se posto. Era quase como se se trancasse dentro de uma pequena bolha longe de tudo e todos. Era talento em sua forma mais pura.
Nada é tão ruim se te faz sentir bem, então você volta como eu sabia que voltaria. – comecei minha parte, encarando que agora já estava com os olhos abertos e mudava o ritmo para a estrofe. – Nós dois somos selvagens e a noite ainda é uma criança, você é minha droga, respiro você até ficar chapado. – ela me encarou com um olhar reprovador, claramente fazendo referência a Cassie que escutava tudo atentamente. Continuei no verso. – Então você diz.
— Eu te quero para sempre, mesmo quando não estamos juntos.
¬– começamos o dueto, agora ela balançava a cabeça levemente. – Cicatrizes no meu corpo para que eu possa te olhar a qualquer momento.
— CA-RA-LHO. – Dominic nos encarava como se tivesse acabado de tomar um soco. – Que porra, ? Você tem que ajudar a gente no próximo álbum.
— Sou uma roadie, não uma cantora. – abraçou o violão. – Vocês podem encontrar outra pessoa.
— Nem fodendo. – Tommy se pronunciou. – Não vai ser metade do que acabamos de ver agora e se nós não queremos uma segunda opção, queremos você.
— Por favor, respeitem a minha decisão de não fazer isso.
... – Griffin a encarou e eu pude enxergá-la engolindo em seco.
— Você não, Griffin. – ela soava um tanto quanto desapontada.
— Você precisa deixar ir, . – ele a encarou. – Você não pode continuar deixando de fazer as coisas por isso.
— Você não entende.
— Você tem razão, eu não entendo. Mas eu sei que nada vai ser um motivo plausível para você ter deixado isso de lado, principalmente quando isso foi algo que você passou boa parte da sua vida fazendo. – todos nós estávamos em silencio, apenas observando o desenrolar da cena a nossa frente. -Você precisa deixar ir e não fingir que essa parte da sua vida não existiu.
— Porra, Griff, não torne as coisas mais difíceis do que já são, tá legal? Eu já tenho muita coisa para lidar e eu não posso pegar um compromisso que sei que não vou conseguir terminar. – se levantou, tirando a correia do violão de seu corpo e o segurando pelo braço. – A resposta é não. – e nos deu as costas, voltando para o interior da mansão.
— O que acabou de rolar aqui? – Dom alternou seu olhar entre mim e Griffin. – Tipo, real, o que caralhos acabou de acontecer?
— Não é meu segredo para contar. – Griffin se levantou. – Brie, poderia me ajudar com a comida?
— Claro. – a empresária sorriu terna em minha direção antes de seguir Griff em direção à churrasqueira.
— Ele sabe de algo. – Dom se sentou ao meu lado, constatando o obvio.
— Não me diga, Sherlock. – rolei os olhos, olhando para Cassie. – Ei, Cass, você quer ir comigo procurar a ? Acho que ela gostaria da sua companhia.
— A está brava, papai? – ela franziu o cenho, andando em minha direção.
— Acho que ela só está um pouco sem graça.
— Por quê?
— O quê? – a encarei.
— Por que ela está sem graça?
— Bom, isso acontece quando você tem vergonha de algo e as pessoas te perguntam sobre. – fiz o meu melhor para tentar contextualizar. – Nós enchemos o saco dela e agora ela está sem graça por isso.
— Você quem começou com essa ideia, nós só compramos. – Tommy apontou. – Além disso, eu ainda não acredito que vamos desistir tão fácil assim.
— Quem disse que vamos?
— Vocês estão agindo contra as costas da minha melhor amiga? – Sabrina encostou no balcão da área da churrasqueira.
— Depende. – a encarei. – Você vai contar se estivermos?
— Claro que não. – ela deu um longo gole em sua cerveja. – Serei a apoiadora número um da ideia, tenho tentado convencê-la desde sempre.
— Eu te adoro, sabe disso né?
— Espera um segundo, preciso gravar isso.
— Vai a merda. – rolei os olhos.
— Vai você.
— Linguajar, crianças no cômodo. – Griffin apontou.
— Eu vou procurar a sua namorada. – me levantei. – Cass? Papai precisa conversar com a tia , você poderia ficar com seus tios por um momento? – ela assentiu, correndo em direção a Tommy e Dom.
— Fiquem de olho, sim? Eu já volto.
Esperei pela confirmação de Brina e Dominic. Quando esta chegou, eu apenas desenhei meu caminho em direção ao interior da mansão buscando pela silhueta da roadie. Não tardou que eu a encontrasse sentada em uma das baquetas do meu bar particular, encarando o gargalo da garrafa de cerveja que, a este ponto, provavelmente se encontrava quente.
— Ei, estranha. – a chamei, me encostando no balcão de mármore. – Você veio até aqui para ficar se autoflagelando?
— De início, não. – ela me encarou. – Agora, todavia, eu posso estar considerando a ideia.
— Não fode. – puxei a banqueta a sua frente, me sentando em seguida. – O que te impede?
, não quero continuar com isso, por favor.
— Qual é! Acho que mereço o mínimo de honestidade considerando que eu fui sincero com relação à Alyssa.
— Eu só não consigo, tá? É algo bem mais profundo do que medo e eu não consigo deixar isso de lado.
— Você gosta disso?
— Sim, mas...
— Então não tem “mas”. – a interrompi. – , você é uma musicista completa, eu teria que ser muito maluco para deixar você desperdiçar seu talento assim.
— Eu gosto de onde estou agora.
— Eu vejo a forma como você fica quando toca pra Cassie ou quando compõe. A paixão no seu rosto é clara. – me levantei, dando a volta através do bar para pegar uma garrafa de whisky e dois copos. – Eu sou um arrombado, mas não sou cego.
— Eu estou dirigindo.
— Você pode passar a noite, eles também vão. – apontei em direção ao grupo que brincava de algo próximo da piscina. – A questão aqui é: do que você tem tanto medo? – servi a bebida em ambos os copos, estendendo o copo de vidro em sua direção.
— Para alguém que odeia falar sobre si, você está bastante interessado na minha vida. – ela pegou o próprio copo, dando um gole na bebida.
— Posso voltar a ser o babaca de sempre, é só você pedir com jeitinho, gatinha. – pisquei em sua direção, tirando um sorriso de seu rosto. – Eu estou falando sério.
— São muitas coisas que me impedem e eu não me sinto confortável o suficiente para falar sobre com você, sem ofensas.
— Não ofendeu. – suspirei. – Escuta, eu tenho uma proposta.
— Essa questão não está aberta a discussões, se é esse o seu plano.
— Agora você está me ofendendo. – apontei, franzindo o cenho. – De qualquer forma, é de conhecimento geral o seu pânico por palcos.
— De fato.
— Mas, segundo minhas fontes, você compõe.
— Ah, não. – balançou sua cabeça negativamente, massageando as têmporas. – Onde você está querendo chegar?
— Você compôs comigo, quero que me ajude a compor o resto do álbum. – me encarou, deixando o copo repousar em cima do balcão antes de começar a gargalhar. – O que foi?
— Você se escutou agora? Tipo, realmente escutou o que acabou de sair da sua boca?
— Eu acabei de te fazer uma proposta que não envolve cantar em um palco.
— Eu sou uma roadie, não uma compositora.
— Seu diploma da Juilliard me diz o contrário.
— Você está me stalkeando ou algo assim?
— Não é importante. – balancei minha mão. – Eu quero que você me ajude nas composições, você não precisa cantar se não quiser, apenas me ajudar nas letras e arranjos. – tomei um gole do líquido em meu copo. – E, se você em algum momento se sentir preparada e tiver vontade, podemos gravar algo. – suspirei. – Todos eles concordam e Cassie ficaria brava comigo pelo resto do ano se eu não propusesse isso a você. – joguei a última carta que me faltava, sabendo que o apego de por minha filha provavelmente faria com que ela ao menos pensasse com mais carinho na proposta.
— Eu te odeio.
— Funcionou?
— Não vou te dar esse gostinho. – ela me encarou, rolando os olhos. – Tá.
— Isso é um sim?
— Isso é um talvez. – pontuou, levantando o dedo em riste. – Mas a minha prioridade continua sendo a minha profissão de roadie e isso inclui ser sua babá. – assenti. – E eu não quero que outras pessoas saibam.
— Defina “outras pessoas”.
— O resto da equipe, com exceção da Ashleigh por motivos óbvios. – justificou. – Não quero dar margem para que as pessoas assumam coisas sobre mim.
— Como o que? Você estar dormindo com a banda toda?
— É.
— Por mim tudo bem. – levantei meu copo. – Então nós temos um acordo?
— Temos um “talvez”. – ela bateu seu copo contra o meu, virando o resto da bebida que restara dentro dele.
E foi naquele exato momento com o olhar vacilante de em minha direção que eu me permiti sentir algo além do misto de antipatia e gratidão que tomavam meu peito sempre que estava envolvida no assunto. Ela havia se permitido fazer algo que iria contra uma parte que ela negava com afinco.
E eu estava louco para descobrir o porquê.

Capítulo 04: Pequenos Passos Também São Avanços

“I don’t even know myself
I wish I could be someone else.”

(Eu não me reconheço
Eu gostaria de poder ser outra pessoa)

— Something’s Gotta Give, All Time Low
Miami, Florida

Três anos e quatro meses antes.





— Como estão os ensaios?
Minha terapeuta sorriu, arrumando-se em sua cadeira estofada.
Liana era uma mulher na casa de seus quarenta anos e era minha terapeuta desde que eu me conhecia por gente. Nossas sessões começaram graças aos acontecimentos que haviam me levado a morar com os Graham no auge dos meus nove anos de idade. Uma criança que havia perdido sua mãe para a leucemia, com um pai alcoólatra que havia torrado cada centavo do seguro de vida em apostas e garrafas de bebida. As crises de pânico, os traumas e os mecanismos de defesa que foram criados a partir desses singelos momentos me transformaram na pessoa que havia sido uma paciente VIP de Liana pelos últimos quinze anos. E contando.
— Regulares.
E como foi o processo?
— Caótico...? – me permiti soltar um riso nervoso. - Eu tive bastante coisa para fazer nos últimos dias devido a turnê, então eu estou a ponto de ter um ataque de nervos devido a quantidade de café que eu tenho ingerido por dia. – ri fraco, observando que Liana anotava algo em seu conhecido bloquinho de notas.
E como está sendo com a banda? Os processos de gravação já começaram?
— Eu estava com até duas horas atrás, ficamos trabalhando em uma música desde as oito da manhã sem uma pausa, ainda estamos na fase de composição. Está funcionando bem, mas ele ainda insiste na outra parte do acordo.
A parte de cantar junto, correto?
— Sim. – bufei. – Ele é realmente insistente e isso me incomoda em maneiras que nunca achei realmente serem possíveis.
De que forma isso te incomoda?
— Eu não sei... – fiz uma breve pausa, tentando formular uma frase que fizesse sentido. – Eu acho que a parte que mais me incomoda é o fato de que ele está exigindo de mim algo que eu não sou capaz de entregar.
Você não é capaz ou está relutante em fazê-lo? – Liana se arrumou contra a cadeira.
— Eu não sou capaz.
E por que você pensa dessa forma?
— Porque todas as vezes em que eu me dei o direito de tentar fazê-lo, eu simplesmente travei.
, o que eu vou dizer agora, precisa ser dito, ok? E pode doer um pouco. – assenti. – Você e sua mãe eram próximas e você a perdeu muito cedo, o luto é um sentimento válido e você tem que se permitir sentir para que você possa se curar, afinal, o que é a felicidade sem a tristeza, não? – ela sorriu. – Mas você também deve se permitir seguir com os seus sonhos, você precisa externalizar esses sentimentos de alguma forma. E fazê-lo através da música pode ser uma boa forma de começar. Você precisa se dar a chance de experimentar, entende?
— Eu entendo e acho que a tentativa é válida, mas mesmo que eu queira, eu sempre travo quando penso sobre. – respirei fundo, deixando o ar sair por meus lábios enquanto encarava minhas mãos. – Eu me dei a chance de experimentar o processo de composição e está sendo uma nova experiência.
E como isso te faz sentir?
— De primeira me pareceu assustador e eu não conseguia parar de pensar que havia sido uma péssima escolha e que eu deveria apenas pedir para que os meninos reconsiderassem a minha participação. - Cocei minha nuca, me sentindo desconfortável em estar falando aquilo em voz alta. – Mas agora... É como se fosse algo simples que eu venho fazendo a vida toda. Consigo fazer isso com as mãos amarradas em minhas costas.
Isso é algo bom de se escutar, . – Liana sorriu. – Mas voltando a questão de cantar. – ela gesticulou com as mãos. – Eu tenho um exercício que podemos realizar em relação a este impasse, podemos tentar se isso fizer sentido para você, sim? – balancei positivamente, como um incentivo para que ela continuasse. – Podemos começar a trabalhar com esse desconforto aos poucos, da mesma forma que trabalhamos a questão das composições. – ela cruzou os braços. – Você me disse que havia começado aos poucos, certo? Compondo com e aos poucos se juntando com os outros membros da banda, correto?
— Correto. – me arrumei contra a minha própria cadeira.
Por que não fazer o mesmo com a ideia de cantar? – franzi o cenho. – Pelo o que você tem me dito nas últimas vezes, você se sentiu confortável para fazê-lo ao redor de algumas pessoas pontuais. Poderia ser uma boa forma de trabalhar isso sem a pressão de uma plateia grande. – ela apoiou seus braços na mesa. – Começar o processo aos poucos.
— Em pequenos passos?
Exatamente. – Liana se recostou em sua cadeira. – Não necessariamente agora, mas você manter a ideia em aberto já é um grande passo, dessa forma podemos entender juntas a causa raiz dessa questão.
— Eu vou tentar. – murmurei, levando minha atenção a porta quando a cabeça flutuante de Sabrina invadiu o cômodo. – Liana, eu vou precisar ir. Podemos finalizar por hoje?
Claro. – ela sorriu e pequenas marcas de expressão se formaram ao redor de seus olhos. – Caso precise, pode voltar a me chamar.
— Tudo bem. – assenti. – Tenha uma boa semana, Liana.
Aguardei que ela respondesse e finalizei a chamada de vídeo, abaixando a tela do notebook e me levantando para deixá-lo repousando em cima da mesa de centro do camarim improvisado que eu dividia com Sabrina.
— Atrapalhei vocês? – ela sorriu, entrando no cômodo com dois copos térmicos em mãos. – Eu trouxe café! Descafeinado, porque você deve ter tomado uns cinco só hoje.
— Obrigada, você é definitivamente um anjo. – peguei o copo de sua mão.
— De nada. – ela sorriu, balançando seus longos cabelos. – Como foi com Liana?
— O usual, nada fora do comum. – dei de ombros. – Como foi com Ashleigh?
— Nós temos... – encarou o relógio dourado que repousava em seu pulso. – Cerca de dez minutos para começar o teste de som. Nossa vida de apenas guarda-costas acabou desde que Miles e Jonah saíram, eles exigiram que você voltasse a testar os instrumentos porque, aparentemente, os dois não acertavam o tom do mesmo jeito.
— E eu que trabalhe cinco vezes mais porque eles não conseguem dar conta do mínimo, né? – franzi o cenho, rolando os olhos antes de pegar as chaves do camarim e guardá-las no bolso frontal de minha calça. – Quando eu assinei o contrato, ninguém me contou essa parte. – brinquei.
— Bom, do jeito que as coisas estão indo, logo você sai dessa vida para lotar estádios como esse. – Sabrina apoiou suas mãos em meus ombros, me empurrando para fora do pequeno quartinho aos fundos do palco. Parei para passar as chaves rapidamente e voltei a andar pelos corredores.
— Com toda a certeza. – ironizei. – Você vai ser a minha empresária também?
— Mas é claro? – ela riu e a frase soou mais como uma pergunta do que qualquer outra possível variação. – Eu tenho esperado por esse momento por mais tempo do que eu gostaria.
— Você é uma pessoa tão sonhadora, Brina. – balancei a cabeça, secretamente imaginando em minha cabeça uma realidade paralela onde meu medo não existia e eu pudesse realmente me apresentar em um palco para milhares de pessoas.
— Imagina os looks, amiga. – ela se apoiou em meu ombro, apontando para a frente como se pudesse tocar o cenário. – se apresentando no Hard Rock Stadium, para milhares de pessoas. – suspirou. – Eu consigo imaginar os instrumentos, os gritos, as placas. É tudo tão lindo.
— Em um universo alternativo, quem sabe. – soltei um riso divertido, me desvencilhando dos meus braços para subir as escadas que davam para o palco. – Ben, todos os instrumentos já estão no palco?
— Eu e Rony acabamos de colocar os pratos que faltavam para a bateria, as guitarras já estão nos suportes, tudo pronto para a passagem de som. – ele escreveu algo em sua prancheta. – Aliás, a banda já está aqui, Ashleigh pediu para que eles viessem mais cedo, você já sabe do resto.
— É, sei sim. – encarei Sabrina, procurando por alguma pista em seu rosto sobre o que estava acontecendo. – De qualquer forma, eu vou começar a testar os instrumentos de corda, ainda temos um tempo até eles virem para o teste vocal.
— Claro, acho que eles vão subir a qualquer momento.
Apenas assenti, arrumando o walkie-talkie grudado em meu cinto antes de fazer meu caminho em direção à primeira guitarra das duas espalhadas em cada lado do palco. A retirei cuidadosamente do suporte, passando a correia por meu pescoço antes de conectar o cabo P10 na entrada e me aproximar do microfone.
Lizzie, você poderia aumentar o volume do amplificador quatro, por favor? Vou começar os testes. – minha voz ecoou pelo estádio quando fiz o pedido no microfone e um certo nervosismo começou a se formar em meu estômago.
Quando a mão de Lizzie me deu permissão, girei o potenciômetro de volume do instrumento e toquei as cordas, avaliando se elas estavam em uma altura razoável. Quando obtive plena certeza, comecei a trabalhar na afinação do instrumento a partir do afinador no headstock. Testei algumas harmonias e liguei os pedais com o auxílio da ponta do meu tênis, distraidamente tocando os acordes que estava testando com dias antes.
Desde que você partiu eu tenho me apegado à memória, desde que você saiu por aquela porta. – escutei a voz grave de acompanhar a música após as pequenas notas da minha imersão pessoal e minha cara não poderia ser definida como algo além do mais puro e verdadeiro choque. – E você disse que eu mudei e que você está cansada pra caralho de mim, você já não é mais minha. Dois, três, quatro.
Eu estava tão chocada que ao menos consegui ter uma reação diferente do que apenas continuar tocando as notas do começo da música. Encarei o resto do palco e notei que ele não era o único a ter se esgueirado pelos seus cantos enquanto eu realizava os testes de som. Dom, Thomas e Griffin estavam parados, apenas esperando que eu continuasse a música que daria início aos testes. Deixei o sentimento de nervosismo descansar em meu estômago, começando os acordes da próxima estrofe.
Oh, oh, ela disse: você tem que me deixar ir, oh, oh. – toquei o conjunto de acordes, sendo acompanhada pelo resto dos homens que apenas lançavam caretas em minha direção, tirando um riso nervoso de meus lábios enquanto eu apenas me concentrava para não acabar com toda imersão que eles haviam criado. – Ela disse: eu morreria por você, você é como a minha droga, mas eu não consigo mais ficar chapado com você, você já não é mais meu.
O leve nervosismo que tomava conta de meu estômago estava começando a ser substituído por uma sensação leve, que se comparava a forma em como eu costumava me sentir quando estava brincando com Cassie ou até mesmo nas noites de filmes com os Graham, quando Griffin e eu éramos crianças. Eu não conseguia segurar o sorriso em meu rosto quando Dominic ria em minha direção, como se ele estivesse se divertindo quase tanto quanto eu. E ele provavelmente estava.
Eu ainda me lembro o que você vestiu no nosso primeiro encontro e de como aquele vestido preto valorizou as suas curvas. – ele começou a cantar a estrofe do rap, que havíamos trabalhado meticulosamente alguns dias antes. – Ainda me lembro de fumar para acalmar os meus nervos e para que você não precisasse levar sua bolsa, eu a peguei primeiro.
Eu encarava , tentando fazer com que ele entendesse o orgulho que eu estava sentindo dele e da forma como seus sentimentos foram colocados na música, o ajudando a superar o término conturbado com Alyssa meses antes. Ainda me lembrava das noites em claro que havíamos passado tentando decidir se a música deveria ou não estar no setlist da turnê e das dúvidas que ele apresentava quanto a forma em que colocaria detalhes de seu relacionamento, uma vez que conseguia ser extremamente privado quando o assunto se virava em direção à sua vida amorosa. E o fato de toda a mídia só descobrir de suas relações após os términos diziam muito sobre a pessoa que ele era fora dos holofotes.
E eu não posso ser eu mesmo sem você. ¬– ele retirou o microfone do tripé, começando a andar em minha direção. – Eu não estou bem. – me distanciei do lugar onde eu estava, dando passos hesitantes em sua direção. – Eu sei que já disse isso antes, mas preciso de você agora. – eu sorri em sua direção, balançando minha cabeça enquanto me deixava levar pelo ritmo da música e me permitia dançar ao seu lado, virando-me de costas para ele, sentindo suas costas contra as minhas. – Ela disse: eu morreria por você, você é como minha droga mas eu não consigo mais ficar chapado sem você, você não é mais minha.
Ele cantou a última estrofe e eu parei de tocar, assim como os outros garotos. Me virei em sua direção, sentindo a adrenalina correndo por minhas veias enquanto eu encarava o sorriso travesso que tomava conta de seus lábios. Retirei o cabo da guitarra e a coloquei novamente no suporte, tentando processar os mais recentes acontecimentos.
— Puta merda, , isso foi incrível! – ele sorria, totalmente embasbacado, e eu arriscava dizer que minha cara deveria ser a mesma. Senti meus olhos começarem a queimar e aos poucos, lágrimas quentes começaram a cair por minhas bochechas. O sentimento de choque havia sido rapidamente substituído por felicidade e eu não conseguia segurar as lágrimas. – ? Está tudo bem?
— Eu consegui, . – passei a mão por meus olhos, agradecendo a falta de maquiagem. – , eu consegui tocar na frente de pessoas! – agora eu estava rindo, totalmente descontrolada enquanto minhas lágrimas caiam.
— Sim, você conseguiu. – Griffin apareceu atrás de . – Vem cá, sua babaca. – ele me puxou para seus braços, fechando os braços ao redor do meu corpo enquanto eu me acabava em lágrimas. Senti um amontoado de pessoas se juntarem ao abraço em grupo, o que fez como se eu me sentisse uma peça de porcelana prestes a quebrar.
— Estamos orgulhosos de você, . – finalmente se pronunciou, dando tapinhas em meu ombro.
— Você não vai me substituir nessa banda, , eu trabalhei muito para chegar até aqui. – Dom brincou, me fazendo soltar uma risada.
— Eu voto que devemos substituir o Dom, você é mais estilosa e mais comprometida com a gente. – Tommy provocou.
— Você está falando isso porque eu sou gay? – ele encarou Tommy, apoiando sua mão na cintura.
— Claro que não idiota, vem cá, me dá um beijo. – o baixista estendeu a mão para o guitarrista.
— Regra número um: você não namora o seu colega de banda. – brincou.
— Por isso eu estou sugerindo que ele saia. – Tommy sorriu travesso. – Brincadeiras à parte, foi um grande passo se considerarmos que você não conseguia nem tocar para gente. Parabéns, cara.
— Vocês são horríveis. – finalmente me desvencilhei deles, limpando meus olhos. – Vocês precisam continuar com a passagem de som, eu vou tomar uma água.
— Achamos que você iria terminar a passagem com a gente. – Griff me encarou. – Sabe, você poderia. É uma boa forma de praticar.
— No próximo show, quem sabe. – sorri fraco. – Carga emocional grande demais, eu preciso tirar uma pausa para conseguir processar tudo. Obrigada por isso, pessoal. Agora eu vou sumir no backstage.
Bati continência, me distanciando o mais rápido dos rapazes apenas para encontrar Sabrina me encarando, orgulhosa. Ela carregava uma garrafa de água em uma mão e um pacotinho de chocolate na outra, que haviam sido nossas comidas conforto pelos últimos anos.
— Você conseguiu! – Brina gritou, pulando em meu pescoço em um abraço apertado que soava como casa, assim como o de Griff. – Eu sempre soube que você conseguiria, meu Deus, eu estou tão orgulhosa de você! Como se sente? – ela me entregou os objetos. – Vamos até as arquibancadas para que você me conte tudo, já falei com Ashleigh e ela liberou a gente.
E com isso, saiu me arrastando pelos corredores em direção as arquibancadas da área do camarote. Nos sentamos com os pés apoiados nas grades de segurança, observando os meninos brincarem entre si à distância.
— Então, me conta tudo!
Eu comecei a explicar tudo, da parte das afinações até as partes do misto de sentimentos que senti durante todo o processo que havíamos passado até estarmos ali. Do nervosismo, do pequeno espasmo de felicidade me permitir experimentar algo novo depois anos me proibindo de sentir as lembranças sobre minha mãe. Deus, eu estava me sentindo extremamente leve.
— Meu Deus, eu fico tão feliz em escutar isso. – Brina limpou uma pequena lágrima que caiu por suas bochechas. – Parece até que fui eu quem passou por isso, eu estou toda chorosa.
— Nem comece, eu provavelmente vou voltar a chorar se você começar. – ri fraco, abrindo o pacote de Sneakers e dando uma generosa mordida.
— Você pretende ir um pouco mais além? Tipo, realmente fazer parte do álbum de forma mais direta? Cantando, por exemplo?
— Eu não sei, Brinnie. – cocei minha nuca, sentindo a incerteza tomar conta de mim. – Digo, eu quero me permitir fazer isso, mas ainda não sei se esse é o momento, sabe? Eu quero ter certeza de que cada pequeno passo vai ser respeitado e que eu não vou me puxar mais do que eu consigo ir por agora.
— Mas é uma possibilidade, né?
— É definitivamente algo que eu cogito fazer, mas ainda me parece um pouco cedo. – encarei meu tênis. – Mas acho que o fato de eu não ter vomitado hoje já é bom o suficiente, né?
— O fato de ninguém ter que limpar vomito no backstage é perfeito, as pessoas não acham mais que é o tendo uma crise de abstinência. – deu de ombros, mordendo um pedaço de seu próprio chocolate.
— Falando dele... – a encarei. – Você e Griff me parecem bem próximos nos últimos meses. – ergui uma sobrancelha, notando um rubor tomar conta das bochechas de Brina. – E você não me disse nadinha.
— Ele é seu primo.
— E você tem um precipício nele. – arqueei uma sobrancelha.
— Era platônico.
— Amor platônico não dura dez anos.
— Ok, você tem um ponto válido. – ela pontuou. – Mas, em minha defesa, eu estava ocupada demais traçando o meu futuro.
— E eu não te julgo nem um pouquinho. – dei outra mordida em meu chocolate. – Mas fico feliz que está dando certo, vocês meio que merecem um ao outro. Toda a sensatez fica concentrada.
— Você é uma palhaça, sabia? – ela rolou os olhos.
— Parte do meu trabalho é impedir que as pessoas se matem, preciso ser uma piadista. – dei de ombros.
— E seu relacionamento com o ? Como está sendo?
— Você sabe, é uma pessoa difícil de lidar na maior parte do tempo, mas quando estamos compondo tudo é bastante pacífico. É quase como se ele mudasse da água para o vinho, sabe?
— Eu nunca, em todos os anos de carreira, achei que fosse escutar alguém descrevendo como pacífico. – ela bebericou sua água. – É um acontecimento imperdível que somente seria capaz de realizar.
— Nós só conversamos sobre processos de composição e Cassie, não é como se conversássemos sobre o sentido da vida e a forma como nos sentimos, acho que isso torna tudo menos complicado.
— Você tem um ponto. – Brina sorriu, encostando contra as barras de metal. – Ashleigh está tentando trazer a Cass para o próximo show, ela ainda não comentou com para que ele não criasse muita expectativa.
— Eu vou ser responsável por ela, né? – a encarei, já sabendo a resposta antes mesmo que ela me confirmasse.
— É muito ousado você achar que não seria. – confirmou. – Mas não é como se nós fossemos deixar todas as responsabilidades só para você, Rob já está trabalhando na divisão de tarefas para que você não fique sobrecarregada.
— E a stalker?
— Todos estão espertos e temos fotos espalhadas por todos os cantos para que ninguém cometa o erro de deixá-la invadir o camarim.
— Ótimo, isso torna um problema a menos.
, sua presença está sendo solicitada no palco neste exato momento. ¬– falou no microfone, chamando minha atenção. – A banda precisa de água e comida, então você pode arrastar essa sua bunda para cá antes que nós tenhamos que morrer de fome.
— O que você está fazendo com esse homem?
— Fazendo ele pensar que sou a empregada dele, ao que parece. – me levantei, estendendo minha mão para ajudar Sabrina a se levantar do chão. Bati a mão em minhas roupas para tirar o resquício de poeira que havia restado nas peças, descendo pelos degraus de metal.
— Bom, você tecnicamente é a empregada deles, todos somos na verdade. – a empresária brincou.
— Mas não sou a garçonete particular.
— É, realmente.
— De qualquer forma, eu vou pedir comida. – puxei o celular de meu bolso. – Ou será que eles querem comer fora?
— Se vocês forem no Denny’s, eu aceito acompanhar vocês, o de Pasadena não é a mesma coisa que o de Miami.
— Okay. – me aproximei do palco. – O que vocês preferem: delivery ou ir até o Denny’s?
— Isso é uma pergunta real? – me encarou, antes de colocar sua guitarra no suporte.
— Visto que vocês são insuportáveis, sim. – falei, como a resposta fosse óbvia.
— Dois anos e você ainda não conhece a gente? Simplesmente lamentável. – ele balançou a cabeça negativamente.
— Se fode, . – rolei os olhos, andando em direção a escada lateral.
Atenção, acaba de receber uma advertência por mandar a banda se foder. Alguém notifica o Rob? – falou no microfone, me fazendo encará-lo.
— Retificando: eu mandei você ir se foder, o resto da banda não me dá metade do trabalho. – pontuei, digitando uma mensagem em conjunto avisando para Rob e Ashleigh que levaria os garotos até o Denny’s. – Vocês reclamaram que estavam com fome, vamos logo antes que eu desista de alimentar vocês.
Os chamei, desenhando meu caminho até a sala de Rob para pegar as chaves de uma das vans. Quando cheguei próximo da porta, apenas dei leves batidas para me certificar de que ninguém estava seminu antes de adentrar o cômodo
— Eu vou pegar as chaves de uma das vans de transporte, ok?
— Claro, Matt vai acompanhar vocês para que não haja problemas.
— Ok, valeu. – peguei a chave que Rob me estendeu.
?
— Sim? – franzi o cenho, encarando-o
— Ótimo trabalho hoje mais cedo na passagem de som. – ele sorriu. – Poderíamos tentar mais vezes.
— É... – confirmei, incerta. – Quem sabe, né?
Ele apenas riu fraco, me dando permissão para que eu saísse pela porta e finalmente encontrasse uma quantidade razoável de pessoas me olhando como se eu fosse a portadora de uma fortuna milionária com apenas quinze anos de idade. O que, obviamente, não era verdade.
— Matt vai vir com a gente. – balancei o molho de chaves, abaixando minha mão quando se estendeu para pegá-las. – Eu dirijo.
— Já te disseram o quanto você é chata hoje?
— Não, me ilumine.
— Ninguém me perguntou, mas eu prefiro quando os dois estão sendo educados, tocando em cima de um palco e parecendo que são amigos de longa data. – Griffin alfinetou.
Nunca vai acontecer. – respondemos em uníssono, o que me fez segurar um sorrisinho enquanto andávamos em direção ao estacionamento onde a van estava.
— Quando eu estava no colégio, eu estudei uma coisa muito interessante em física: eletroestática. Existe algo muito legal chamado Lei de Coulomb. – Dominic murmurou. – Essa lei é aquela lei que se aplica quando partículas diferentes se atraem.
— Partículas, não pessoas. – pontou.
— Seguindo do pressuposto que todos nós somos formados por partículas de algo... – Thomas murmurou, o que me fez rolar os olhos com tanta força que eu quase fui capaz de enxergar minha massa cinzenta.
— É melhor vocês permanecerem calados ou eu juro que cometerei um crime de ódio contra vocês.
Sorri irônica em direção aos rapazes, que responderam com um maneio de cabeça antes de mudarem completamente o assunto para algo que eu não me esforcei em acompanhar. Atravessamos a porta em direção ao estacionamento onde as vans se encontravam e, por um período, me permiti ficar atrás de todos eles. O que não durou muito, visto que se virou em minha direção e desacelerou seus passos para me acompanhar. Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de limpar a garganta e finalmente falar.
— Olha... Eu não te disse isso antes, mas você fez um ótimo trabalho lá. – ele me encarou, seus olhos, apesar de cansados, demonstrando sinceridade em suas palavras. – Obrigado por não nos deixar na mão.
— Eu só estava seguindo com a passagem de som, não foi nada demais.
— Eu estou tentando, poderia me deixar terminar? – eu ri fraco, balançando minha cabeça positivamente. – Sério, os caras estão felizes por você ter tocado com a gente, eles querem que seja mais frequente. Donnie até sugeriu um gig em casa quando passarmos por Los Angeles de novo.
— É, não sei sobre isso. – girei as chaves em meu dedo indicador.
— Considere, ok? – balancei a cabeça positivamente ao vê-lo acelerar os próprios passos. – Aliás, ?
— Sim? – arqueei uma de minhas sobrancelhas.
— Eu estou orgulhoso de você.
E, com um aceno de cabeça, correu em direção aos outros membros da banda antes que eu pudesse sequer processar o que ele havia dito.

Capítulo 05: Permitir

“I promise you will learn from my mistakes.”
(Eu prometo que você vai aprender com meus erros)
Fix You, Coldplay

Marselha, Provença-Alpes-Costa Azul

Três anos e dois meses





definitivamente era um pesadelo.
Essa foi a conclusão que eu havia tirado depois de quatro horas trancado em um quarto de hotel tentando finalizar uma música. E você quer um spoiler? A música não foi finalizada.
— Pelo amor de Deus, , que merda você está tentando fazer com isso? – grunhi, frustrado, vendo-a riscar o mesmo verso pela décima vez com um marcador preto.
— Você realmente quer começar essa droga de música com “tudo começou com um dólar e um sonho”? – Ela me encarou, deixando o marcador cair em cima do caderno. – Se sim, você fique à vontade para pegar essa droga e me deixar ir comer algo.
— Onde eu estava com a cabeça quando decidi que seria uma boa ideia simplesmente te chamar para esse álbum, mesmo? – perguntei de forma retórica, rolando os olhos.
— Vá até o fim ou volte pra casa, meu anjo. – ela sorriu irônica em minha direção. balançou sua cabeça negativamente, rindo consigo mesma. Não pude deixar de ficar um pouco assustado com o ato.
— Pensou em algo? – arqueei uma de minhas sobrancelhas, tentando descobrir o que ela escrevia no papel.
Você pode ir até o fim ou voltar para casa, você pode viver ou apenas desistir, deixe rolar, porque eu vou arriscar tudo. leu as palavras com o dedo indicador em riste. – Como você adora essa coisa de duplo sentido, pensei que podíamos colocar aquela coisa que falei mais cedo.
— Qual delas? Você literalmente apagou e escreveu trezentas coisas nas últimas três horas.
— Essa coisa de estar alto e estar chapado, entende?
Você pode ir até o alto ou ficar para baixo?
— Combina o suficiente para mim, o que acha? – me estendeu a folha de papel com as letras escritas cuidadosamente e eu a peguei.
— Colocar o que você disse no começo, pode ser? – franzi o cenho, pensando em algo para combinar com o que havíamos conversado. – Você pode ir até o topo ou ficar para baixo, você pode permanecer jovem ou apenas envelhecer.
Deixe rolar, porque eu vou arriscar tudo. ¬ – ela cantou, andando em direção a guitarra que descansava em cima da cama. – Tenho uma ideia para o arranjo nesse começo, me acompanha?
— Claro. – dei de ombros, a observando ligar a pequena caixa amplificadora que descansava ao lado da cama e deixar a guitarra apoiada em sua perna, conectando o cabo.
— Estava pensando em algo assim, olha. – ela colocou a correia ao redor de seu corpo, aumentando o volume do instrumento antes de começar uma sequência de acordes formadas por si bemol menor, sol bemol e ré bemol. – Você pode ir até o topo ou ficar para baixo, você pode permanecer jovem ou apenas envelhecer, deixe ir, porque eu vou arriscar tudo. ¬– ela adicionou o acorde de lá bemol menor, substituindo a variação do si no primeiro verso. – Você pode ir até o fim ou ir para casa, você pode viver a vida ou apenas desistir, deixe rolar, porque eu vou arriscar tudo. – cantou as palavras de forma confiante, me encarando enquanto brincava com os acordes no braço da minha fender.
— Continua com isso. – pontuei, me virando para a mesa de centro e pegando as letras já escritas. – Olha, tudo começou com um dólar e um sonho, certo? Para que eu pudesse mostrar para essas pessoas como sonhar certo. Eu poderia ensiná-las e olhar para as estrelas e leva-las das luzes da rua para as arenas.
Merda, é assim que o topo parece? ¬— sorriu, cantando o verso antes que eu pudesse fazê-lo, se levantando da cama para dançar levemente enquanto tocava.
Ainda me lembro das noites comendo cup noodles, ainda me lembro olhar a minha conta bancária e ter apenas 26 dólares na noite em que assinei o meu contrato com a gravadora. – eu sorria em sua direção, sentindo minhas bochechas doerem pela falta de costume em realizar o ato. Parei de cantar, observando se envolver em um momento próprio enquanto ela tocava.
— O que achou? – ela me encarou, o sorriso em seu rosto sendo capaz de iluminar Las Vegas inteira após um apagão. – ?
— Honestamente? Acho que você poderia trabalhar um pouco mais a sua afinação, você desafina muito. – brinquei e a mulher rolou os olhos, me respondendo com um dedo do meio em riste.
— Vai se foder, eu canto melhor do que você e sem metade do esforço. – abaixou o volume da guitarra, tirando o cabo e colocando o instrumento em cima da cama novamente, desligando a pequena caixa amplificadora.
— Grava a música com a gente e eu me convenço disso. – coloquei o papel em cima da mesa, cruzando os braços.
— Se eu fizer isso, vou tomar seu lugar como vocalista, é melhor manter as coisas assim por enquanto. – ela tirou o celular de seu bolso, desbloqueando a tela e digitando algo que eu não pude ao certo identificar. – Ashleigh me pediu para te levar até a suíte, algo sobre uma surpresa para você.
— Meu aniversário já passou. – franzi meu cenho, encarando a roadie.
— E? Nós estamos na França, cara, só aproveita as oportunidades que a vida te dá e para de ser desconfiado com tudo. – rolou os olhos, colocando o celular dentro de seu bolso novamente antes de sair andando em direção à porta. – Vai ficar parado aí?
Babaca. – murmurei, puxando meu celular de cima da mesa de cabeceira para guardá-lo no bolso de minha bermuda amarela, antes de finalmente seguir pelos corredores do hotel.
Escondi minhas mãos nos bolsos, serpenteando pelos corredores de parede creme do hotel, apenas escutando o baque surdo dos passos firmes da roadie no corredor. Como estávamos todos hospedados no mesmo andar, não levou muito tempo para que nós finalmente chegássemos no quarto de minha empresária. deu duas batidas na porta, entrando quando a voz de Ashleigh saiu abafada do cômodo, solicitando que entrássemos. A banda toda estava no quarto, sorrindo, alegres, quando eu finalmente apareci.
— Cristo, vocês finalmente apareceram. – Dom nos encarou. – Muito ocupados no quarto?
— Não do jeito que você insiste em achar que estávamos. – o respondeu antes mesmo que eu pudesse. – Obrigada por trazer comida. – agradeceu a Ashleigh, correndo em direção da bandeja com sanduiches que descansava na pequena bancada que separava a cozinha improvisada do quarto.
— Esfomeada. – gritei em sua direção, recebendo uma cara não muito boa como resposta.
, que bom que vocês se sentiram prontos para se juntarem a nós. – a loira sorriu, apoiando os braços na mesa. – Como eu estava dizendo para os meninos mais cedo, sabemos seu aniversário foi dois meses atrás, mas resolvemos ser mais maleáveis. Nós ficamos em Marselha até segunda à noite e o show no Festival Marsatac é no domingo, então achamos que seria uma boa ideia permitir que vocês comemorassem o seu aniversário em alguma boate de Marselha, já que nós não pudemos comemorar devido à agenda apertada. – ela sorriu em minha direção, me deixando desconcertado. Depois de meses liberado da reabilitação, aquela era a primeira vez que Ashleigh me deixava fazer algo do tipo. – Fizemos as reservas na Baby Club para hoje à noite.
— Você está brincando, não é? – eu a encarei, buscando algum sinal de que ela estava brincando. – Sério?
— Sim, mas as equipe vai junto para certificar de que nada aconteça, mas acredito que isso não seja um problema para você, já que você e têm trabalhado juntos no último mês.

Eu estava tão estático que ao menos conseguia me importar com o fato de ter que me acompanhar com a sua carranca de quem odiava qualquer tipo de diversão. Eu estava livre para me divertir pela primeira vez em meses e nem aquela condição tiraria isso de mim.
— Porra. – eu deixei um sorriso escapar por meus lábios, andando em direção a Ashleigh para abraçá-la. – Obrigado por isso, Ash, você não vai se arrepender eu juro.
— É bom que eu não me arrependa mesmo. – ela sorriu. – Vá se arrumar, vocês vão sair às nove.
— Ok. – me levantei, encarando meus colegas de banda. – Francesas, caras.
— Franceses, de forma geral.
Dom corrigiu, levantando o indicador em riste enquanto se levantava para me acompanhar em direção à porta de saída. e Sabrina não se preocuparam em se levantar, apenas conversando entre si ao mesmo tempo em que a roadie dava mais uma mordida de seu sanduíche.
— E, ? – Ashleigh me chamou mais uma vez, me fazendo virar para encará-la. – Sem drogas, ok?
— Aprendi minha lição, não vou te desapontar de novo. – sorri de canto em sua direção, finalmente saindo de dentro do quarto.
— Caralho, eu me recuso a não ficar fora de mim hoje, eu preciso disso. Ultimamente nós trabalhamos sem parar. – Dom andou ao meu lado, chamando minha atenção. – Você e , huh?
— O que tem? – franzi o cenho.
— Vocês ficaram presos por horas naquele quarto, é impossível que não tenha saído uma bitoquinha.
— Vocês realmente vão falar dela dessa forma quando eu estou perto? – Griffin fez uma careta. – Me poupem disso, por favor.
— Não tem nada para dizer, nós estávamos trabalhando como sempre estivemos desde que começamos o processo de composição. – dei de ombros. – Pare de falar da namorada de Griffin, é desrespeitoso.
— Ela não é a minha namorada, pelo amor de Deus. – o baterista reclamou, rolando os olhos. – Mas é, como vocês estão se saindo? Ela já quis te assassinar ou ainda estão nessa coisa de relação passivo-agressiva?
— Estamos nos saindo bem, até. – abri a porta do meu quarto, não me importando em fechar, sabendo que eles me acompanhariam. – Finalizamos mais uma hoje. – peguei os papéis na mesa, entregando-os para Griffin. – O que acham?
— Gostei disso. – Thomas encarou as letras rabiscadas. – Isso está realmente bom, tem mais alguma aí?
— Acho que são as únicas que eu tenho, as outras estão com ela.
— Vocês acham que, se eu pedir com jeitinho, ela me ajuda com as minhas também? – Dom sorriu como uma criança. – Quero dizer, ela é muito boa.
— Você tem noção do quão difícil foi para que ela me ajudasse a compor? Eu demorei meses.
— Você não tem o mínimo de moral com ela, eu tenho. – deu de ombros, pegando o próprio celular e digitando algo rapidamente.
— Eu vou rir da sua cara quando ela negar.
— Não contaria com isso. – Tommy murmurou. – Ela disse sim.
— Nem fodendo. – me aproximei, lendo a mensagem de .

Princesa [23/06 17:52]: Claro, Dom, acabei de terminar a música com o , podemos trabalhar na sua amanhã, se você não estiver muito cansado.
Nos vemos mais tarde. Xx


Encarei a tela do celular, embasbacado. Tirei o aparelho das mãos de Dom em meio a protestos dele e apertei na opção de câmera, fazendo questão de tirar uma foto mostrando o dedo do meio antes de colocar a legenda “você é uma traidora de merda”, que foi respondida com alguns emojis revirando os olhos.
— Deus, vocês realmente não poderiam ser mais casal que isso? – Dom tirou o celular de minhas mãos, bloqueando a tela e guardando-o no bolso de seu moletom. – Eu estou saindo, preciso ir estar levemente apresentável. Vou nessa. - E, com um aceno de mão, saiu do meu quarto.
, nós precisamos conversar.
Griffin franziu o cenho, andando em direção à porta e fechando-a atrás de si. Ele respirou fundo e puxou uma cadeira, sentando-se no lugar em que estava antes. Ele massageou as têmporas, apontando para a cadeira à sua frente para que eu fizesse o mesmo. Balancei a cabeça e me sentei, esperando pelo próximo discurso de Griffin.

— O quê?
— Quais são as suas intenções com a ? – indagou, me fazendo soltar uma risada incrédula antes de perceber a seriedade da conversa.
— Atualmente? Só terminar o álbum com pelo menos uma música na voz dela.
— Ok. – Griff suspirou. – Olha, cara, eu te conheço como eu mesmo, nós nos conhecemos desde a adolescência então não me leve a mal, sim? – ele suspirou, se ajeitando na cadeira. – é importante para mim, muito.
— É? Eu nunca fui capaz de perceber. – ironizei.
— Vai se foder. – apontou o dedo em minha direção, voltando para a sua postura séria. – Eu a amo, não do jeito que vocês insistem em apontar, mas eu amo.
— Não tenho o dia todo, Griffin. – o apressei.
— O ponto é: ela é importante para mim e eu não quero vê-la sair machucada disso, tá? – a expressão que tomou conta do meu rosto não deveria ser uma das melhores, já que ele se apressou para corrigir. – Vocês vivem se matando, algum momento essa merda pode ficar seria o suficiente para alguém sair machucado. E pode parecer toda durona, mas ela é só casca.
— E você tá vindo com essa merda para cima de mim por...? – franzi o cenho. – Olha, cara, eu realmente não pretendo ter nenhuma relação que não seja profissional. Além disso, nós passamos da fase de gato e rato, nós estamos bem agora.
— Eu não estou dizendo que você quer algo com ela, só estou dizendo para não deixar que outras coisas fiquem entre vocês a ponto de ela vir chorar para mim, tá? – ele suspirou. – Você é meu melhor amigo, eu sei que ela pode ser algo bom para você, então baixa essa guarda e dê a ela uma chance. – ele se levantou.
— Vai se foder.
— Eu te amo também, cara.
Griffin soltou uma risadinha, me fazendo rolar os olhos antes de acompanhá-lo com o olhar até a saída. Ele fechou a porta, me fazendo respirar fundo antes de finalmente me levantar e ir até o banheiro. Eu estava determinado a aproveitar a minha noite sem que os comentários espertinhos do meu melhor amigo me deixassem em uma espiral de pensamentos.

🎸🤘🎼🎵


Pelo horário em que todos ficamos prontos, minha ansiedade estava em picos altos o suficiente para que minha perna não parasse de se mexer. Ainda faltavam Dom, Thomas e as babás. E eu já estava a ponto de implorar para que fossemos na frente e nos encontrássemos na balada. Entretanto, não tardou para que meu celular vibrasse com uma mensagem de Dom:

Donnie [23/06 21:35]: Se prepare para ter a porra de um aneurisma.


Franzi o cenho, dando uma cotovelada em Griffin para que ele lesse a mensagem. Eu sabia que Dom havia pedido para que se arrumasse com ele, só não contava que ela realmente tivesse aceitado o pedido. Por um breve momento me permiti sentir a confusão, balançando minha cabeça negativamente antes de pegar o celular da mão de Griff.

— Realmente, ele não estava exagerando.
Encarei a porta do quarto quando ela se abriu, mostrando os responsáveis pelo atraso colossal que havíamos tido. E, puta merda, o atraso havia valido cada mínimo minuto. Eu estava pouco me fodendo para os meus adoráveis colegas de bandas, minha atenção tinha sido capturada especificamente pelas duas mulheres que estavam ao lado deles. Principalmente que estava à direita de Dom. A mulher usava um vestido preto de algum tecido fino que eu não tinha ideia do que era feito, seu decote era em forma de “v” com alças finas. Ele caia por seu corpo até o meio das coxas com uma fenda lateral. Ela carregava uma jaqueta jeans em seus braços e botas de combate com saltos plataforma nos pés.
Eu engoli em seco, olhando de cima à baixo cada detalhe de seu corpo cheio de curvas, finalmente encarando seu rosto, que me encarava como se ela pudesse me incinerar com a força do pensamento. Flagrado.
— Gosta do que vê, ? – arqueou uma sobrancelha, vestindo a jaqueta jeans e tirando toda a minha diversão.
— Sendo bem honesto? – a encarei dos pés à cabeça mais uma vez. – Bastante.
— Babaca.
— Não finja que você não gosta. – pisquei em sua direção, o que a fez rolar os olhos em resposta.
— Vai se foder. – ela apontou em minha direção. – Ashleigh disse que os carros estão esperando a gente no térreo. Ela disse também que tem uma quantidade considerável de paparazzis na saída.
— Vamos em carros diferentes, então? – Griff indagou.
— Sim, muita gente para um carro só. – ela encarou o celular. - Ralf, , Griff, Sabrina e eu vamos em um, Thomas, Dom e Johnny vão em outro.
guardou o aparelho dentro de um dos bolsos de sua jaqueta, sendo a primeira a sair do quarto. O resto de nós apenas a seguiu, entrando no elevador assim que ele chegou ao nosso andar. Minhas mãos suavam e eu sorria como um otário na direção dos meus amigos, que conversavam animadamente entre si. Olhei do canto do olho e notei que ela digitava algo em seu celular.
— Ei. – chamei sua atenção e ela me encarou com uma de suas sobrancelhas arqueadas.
— Sim?
— Eu quis dizer o que falei mais cedo, você está bonita. – uma confusão tomou conta de seu rosto. – Para alguém que vive à base de café, não dorme e se alimenta mal. – ela rolou os olhos, dando uma risadinha divertida.
— Você é inacreditável, incapaz até de um simples elogio.
— Você poderia se acostumar.
— Uhum. – sorriu de canto. – Você está bonito também... – ela me encarou, finalizando a frase após uma pausa. - Para alguém que passa a metade do dia fumando como uma chaminé e bebendo como um opala.
Ela sorriu, convencida, saindo de dentro do elevador antes que eu pudesse ao menos rebater seu comentário. Balancei a cabeça negativamente, rindo do comentário de . Sai do elevador e os acompanhei até os carros onde e Brina estavam paradas. Ralph sorriu em minha direção e eu entrei no banco do carona. Tirei os óculos de sol do bolso de minha camisa e os coloquei em meu rosto, sabendo que o turbilhão de flashes cegantes chegariam logo em seguida. , Brinnie e Griff entraram no banco traseiro, tagarelando.
— Ugh, eu odeio essa parte. – reclamou, colocando os próprios óculos.
— Espere até ver os tabloides amanhã.
— “ e Griffin Graham são flagrados deixando hotel com mulheres misteriosas.” – Griffin imitou.
— “ e Griffin Graham são flagrados deixando balada francesa acompanhado de mulheres.” – repeti, rolando os olhos.
— A vida de vocês realmente é muito difícil. – ironizou. – Vocês não vão ser xingados por todas as redes sociais amanhã.
Eu a encarei pelo retrovisor, pouco tempo antes do turbilhão de flashes invadirem a minha visão. tentava sorrir, mesmo escondendo seu rosto entre suas mãos enquanto Ralph tentava pacientemente não passar por cima dos pés de nenhum dos fotógrafos e, após longos minutos que mais pareceram uma eternidade, nós finalmente chegamos na entrada pintada em preto e branco do Baby Club. Retirei meus óculos e os guardei em meu bolso novamente.
A fila estava imensa e eu agradeci mentalmente por ter os privilégios da fama, que me impediam de ficar parado por horas em uma fila. Ralph parou o carro no meio-fio, desligando-o antes de descer do carro. Eu estava ansioso. Deixei um sorriso brincar em meus lábios antes de fazer o mesmo que o segurança, andando em direção a porta de entrada junto dos meus colegas de banda em meio aos gritos de algumas fãs histéricas que estavam na fila.
— Eu falo com ele, sim?
me encarou, se referindo ao segurança da boate. Dei de ombros, encarando sua pose baixinha enquanto ela mantinha um diálogo com o segurança em um francês que me deixou impressionado. A mulher a minha frente era cheia de surpresas e eu estava começando a ficar chateado de não saber sobre elas de antemão.
Merci beaucop. – ela sorriu para o homem, virando-se em nossa direção. – Vamos lá.
O segurança abriu a porta de entrada e eu agradeci com um maneio de cabeça. Não tardou para que o som alto de alguma música eletrônica invadisse meus ouvidos. O interior da boate estava lotado, para dizer o mínimo. Luzes coloridas eram as únicas coisas que iluminavam o ambiente. Tentei buscar pelo bar, finalmente o encontrando-o em um canto mais afastado, diferenciado apenas por luzes azuis no balcão de bebidas. Me abaixei até que minha boca ficasse próxima o suficiente do ouvido de para que ela me escutasse. O que foi uma má ideia, considerando o quão cheirosa ela estava.
— Preciso de uma bebida, você vem? – ela tampou um dos ouvidos para que pudesse me escutar melhor.
— Claro, estava pensando em pegar uma também. Eu não consigo ver merda nenhuma, você achou o bar? – ela virou a cabeça, falando próximo do meu rosto como eu havia feito momentos antes.
— Sim, vem cá.
Tomei a frente, estendendo minha mão para que ela a pegasse. me encarou por um tempo considerável e eu conseguia enxergar a expressão confusa dela quando alguns flashes das luzes do palco batiam em seu rosto. Após alguns segundos, ela suspirou, finalmente pegando minha mão e me seguindo até o bar, desviando dos corpos dançantes no meio do caminho. Paramos em frente ao balcão pouco tempo depois, sentando-se contra as banquetas com os outros membros da banda próximos de nós.
— Vai querer o quê? – me aproximei.
— Whisky. – ergui uma sobrancelha. – O quê?
— Nós acabamos de chegar.
— Olha, ... – ela suspirou. – A pessoa que eu sou quando estamos trabalhando é diferente da pessoa que eu sou me divertindo, tá legal? Eu posso estar como sua babá, mas Ashleigh disse para eu me divertir então é isso que vou fazer.
— Ok.
Levantei minhas mãos em rendição, sorrindo em sua direção. Eu estava gostando de ver aquele lado de mais do que eu admitiria em voz alta. Me virei em direção a um dos barmans, chamando-o antes de explicar para os pedidos e ela fazer a tradução para o homem. Ele sorriu em nossa direção, balançando a cabeça antes de começar a preparar os drinks.
— Shots de tequila? – arqueou a sobrancelha.
— Sim. – a encarei. – Você vira comigo? Qual é! Estamos comemorando hoje.
— E o que estamos celebrando?
— Minha sobriedade. – comecei a contar nos dedos. – Nosso álbum e o fato de você ser realmente alguém agradável. – ela soltou uma gargalhada, balançando a cabeça negativamente. O sorriso em seu rosto era bonito o suficiente para que eu ficasse hipnotizado.
— Okay, você me convenceu. – ela se deu por vencida. – Dez meses, não é?
— E contando. – encarei o barman, que colocava as bebidas em minha frente e a bandeja com sal e limão. – Merci. – disse, com um meneio de cabeça. – Eu acertei isso? – confirmei com a roadie.
— Sim, você acertou. – ela sorriu, espalhando um pouco do sal no espaço entre seu indicador e polegar, e pegou a fatia de limão entre ambos os dedos. Eu peguei um dos copinhos e ela fez o mesmo. – Por dez meses e três dias de sobriedade.
estendeu seu copo em direção ao meu e por alguns segundos eu fiquei estático. Eu havia completado dez meses há três dias e ela havia contado. Peguei meu copo, batendo-o contra o dela antes de lamber o sal em minha mão e virar o shot, mordendo a fatia de limão. Colocamos os copos ao mesmo tempo contra o balcão e eu sorri em sua direção.
— Você contou. – afirmei, ainda incrédulo com o fato.
— Sim, senhor. – ela pegou o copo com whisky, bebericando o líquido.
— Por quê? – franzi o cenho, pegando o meu copo com vodca e seguindo os movimentos da mulher à minha frente.
— Nós estamos realmente tendo essa conversa em uma boate?
— A música não está dançante o suficiente para mim. - dei de ombros, passando meu olhar rapidamente pelo local. – Meus melhores amigos aparentemente estão se pegando com outras pessoas. – constatei, após identificar Dom beijando algum cara loiro próximo ao canto do bar e Griffin acariciando a bochecha de Brina. – E Thomas deve estar na área para fumantes. Eu estou entediado.
me encarou por algum tempo, tentando procurar algo em meu rosto em que eu não pude ao certo identificar. Ela respirou fundo, tirando a jaqueta e a amarrando em sua cintura, me dando uma visão perfeita do decote com as finas alças antes de voltar a me encarar.
— Bom, eu sou apegada a datas. Eu gosto de marcar eventos que tiveram impacto o suficiente para mudar algo na minha vida. Minha terapeuta me diz que eu sou apegada ao passado, eu digo que eu só gosto de marcar coisas. – deu de ombros.
— Sua terapeuta?
— Você não é o único com problemas e, PUTA MERDA, EU AMO ESSA MÚSICA! – ela começou a dançar no banco.
— Vai lá, eu me comporto.
sorriu, se levantando em um pulo e correndo em direção à pista de dança. Alguma música do David Guetta tomava conta das caixas de som e eu me permiti ficar de costas para observá-la. Ela sorria, balançando seu corpo no ritmo da música, alternando entre passar a mão por seus cabelos e tomar goles do conteúdo em seu copo. Pouco tempo depois, Sabrina se juntou a ela, ambas dançando animadamente, carregadas de sensualidade. Respirei fundo, tomando um gole de minha própria vodca antes de sentir um braço envolver meu pescoço.
— Cara, você está comendo a com os olhos. – Dom gritou próximo de minha cabeça, me fazendo encará-lo. Ele sorria de orelha a orelha, denunciando que ele havia pelo menos usado alguma coisa para estar tão alegre. – Me diga uma razão para vocês não estarem fodendo. Uma. Razão. – ele pontuou.
— Ela não faz o meu tipo. – dei de ombros, voltando a encará-la. Agora um cara havia envolvido sua cintura com as mãos, passeando as mãos por seu corpo enquanto ela rebolava. Trinquei o maxilar, voltando a encarar o meu guitarrista.
— Sim, ela faz.
— Ilustre.
— Acompanhe o meu raciocínio. – pontuou, pegando o copo que o barman o havia entregado. – Ela não é fácil de se impressionar e não está tornando as coisas fáceis para você. De todo o seu histórico imenso de namoradas, todas elas tinham essas característica em comum.
— Não é porque uma mulher não dá a foda para mim que isso quer dizer que eu misteriosamente vou querer foder com ela, não sou uma porra de um animal, Donnie. – o encarei, entediado, rolando os olhos.
— Eu ainda não terminei. – pontou com o dedo em riste. – Vocês têm química. Eu consigo tocar a tensão sexual das encaradas quando estamos no mesmo cômodo. E ela está te tornando alguém melhor. Você finalmente se rendeu aos encantos de como o resto de nós. Dito isso, eu estou indo resolver minha libido. Nos vemos por aí.
Dom depositou um beijo estalado em meu rosto, me fazendo rolar os olhos, antes de sair saltitando para o canto onde ele estava momentos antes. Suspirei, tirando meu celular do bolso e desbloqueando a tela. Entrei em meu perfil do Instagram, tirando uma foto e postando no stories em seguida, voltando a guardar o aparelho em meu bolso antes de me levantar e me juntar à roadie na pista de dança.

Capítulo 06: Conversas Noturnas e Interações no Twitter

“And the way that you bringin' me down It's a turn on, get it away from me.”
(E a maneira que você me fere
É algo que me atrai, tire isso de perto de mim)
— All The Stars, Kendrick Lamar feat. SZA


Marselha, Provença Alpes Costa Azul

Três anos e dois meses antes





Algumas horas haviam se passado desde que havíamos chegado na boate e meus pés já se encontravam doloridos. A vida noturna francesa era diferente do que eu estava acostumada. Não que meu costume fosse parâmetro para algo. Pelos últimos dois anos eu havia me enfiado em um sistema sem diversão alguma e vivido pelo trabalho. Era a primeira vez que eu me permitia me divertir em algum tempo e era isso que eu estava fazendo. Por isso corri em direção ao sofá do camarote, sentando-me ao lado de .
— Você está bêbada? – ele me encarou com uma das sobrancelhas arqueadas antes de dar um gole em sua cerveja.
— Não, eu vim pegar uma cerveja e me sentar um pouco, meus pés doem.
Fiz uma careta, pegando meus cabelos e os arrumando em um coque no topo de minha cabeça, tomando o cuidado de deixar alguns cachos caindo por meu rosto. Eu estava quente e um pouco de suor já se acumulava em minha nuca e testa. Os amarrei com o auxílio do elástico que sempre trazia em meu pulso. Voltei a minha atenção a , que me encarava sem piscar. A garrafa de cerveja parada no ar como se ele tivesse sido pego de surpresa e não pudesse ao menos abaixá-la. Rolei meus olhos.
— Você poderia parar?
— Com? – ele indagou, se virando em minha direção antes de colocar a garrafa de cerveja na mesa.
— Os olhares, não sou cega. – ri, nervosa, pegando uma das cervejas no balde de gelo em cima da mesa.
engoliu em seco antes de voltar a me encarar mais uma vez. Os cabelos caiam levemente de lado em sua testa, seguindo o movimento do topete que ele havia modelado. Um de seus cotovelos estavam apoiados em seu joelho, segurando a garrafa entre seu os dedos enquanto ele lambia os lábios e respirava fundo. Me arrumei no estofado, sentindo-me um pouco mais quente do que momentos antes. Ele se aproximou um pouco mais, me permitindo sentir o cheiro de seu perfume por tempo suficiente para que eu lutasse contra o impulso de esconder o meu rosto na curva de seu pescoço.

— Foi mal, não consigo manter meu foco com os seus peitos me encarando. – ele brincou, me fazendo empurrá-lo enquanto ele gargalhava.
— Seu escroto. – rolei os olhos, abrindo a garrafa com o anel de prata em meu dedo.
— Não, agora é sério, foi mal. – ele levantou as mãos em rendição. - Eu só estou desacostumado com a legal.
— Certo. – eu o encarei, dando um gole generoso de minha cerveja.
Senti meu pescoço sendo envolvido por um braço pulante. Me virei na direção da pessoa, encarando Griffin com um sorriso brilhante. Seus lábios estavam sujos de batom vermelho e ele pulava animadamente ao meu lado como se tivesse acabado de receber a melhor notícia do mundo.
— Quem foi? – gritei, levando uma de minhas mãos até seu ombro, tentando fazer com que ele parasse de pular em cima de mim.
— Quem você acha? – ele soltou uma risada. – Porra, eu estou fodido.
— Sim, você está. – brinquei, dando mais um gole em minha bebida.
— Posso saber o que vocês dois estão fofocando? – reclamou e Griffin parou entre nós.
— Eu, meu querido amigo, acabei de beijar a mulher mais bonita que já colocou os pés nessa terra e nada, nem mesmo esse seu humor de bosta, vai estragar isso. – pontuou, se levantando e virando-se em direção ao bar do camarote. – Lohan, ME TRAZ TRÊS SHOTS PORQUE EU ESTOU EM MODO DE COMEMORAÇÃO! – Griffin gritou em um francês arrastado, o que me fez gargalhar.
— Eu sou o único cara que não fala uma palavra de francês aqui? – o vocalista franziu o cenho. – As únicas três palavras que sei falar em francês são ménage, croissant e cabernet.
me ensinou. – Griffin justificou, sentando-se ao meu lado e apoiando os pés na mesa. – Vocês vão ficar parados aí ou realmente vão aproveitar algo dessa festa? Honestamente, , você já foi melhor.
— Estou aderindo ao celibato após Alyssa, muita dor de cabeça e eu preciso focar em me manter sóbrio. – pegou outra garrafa de cerveja e a estendeu em minha direção em um pedido silencioso para que eu a abrisse. Assim que o fiz, entreguei-a e ele a pegou, se jogando contra o estofado de couro em seguida.
— Seu babaca pretensioso.
Griffin se apoiou em sua própria perna, encarando como se ele tivesse acabado de cometer a pior das traições. apenas o respondeu com um arquear de sobrancelha, voltando sua atenção para a própria garrafa de cerveja quando Dom, Thomas e Sabrina se juntaram a nós com duas garrafas de champanhe.
— Caras, vocês não sabem da novidade. – Griffin chamou a atenção dos outros. – está aderindo ao celibato.
— Alguém colocou algo na sua bebida? – Dom indagou, acendendo o cigarro de maconha entre seus lábios e dando uma tragada. – Alguém quer?
Griffin e Thomas confirmaram, correndo em direção ao outro banco enquanto Sabrina rolava os olhos e se sentava no lugar que antes Griffin estava. Levei minha atenção para , que encarava os amigos, dividindo um baseado com uma expressão indecifrável. Hesitei por alguns segundos antes de levar minha mão até seu ombro para chamar sua atenção. Ele se virou em minha direção, a pupila dilatada devido à baixa iluminação.
— Vou fumar um cigarro, quer vir?
— Claro. – ele se levantou.
— Vou fumar, quer vir? – falei com Sabrina, que apenas negou.
— Alguém precisa ficar de olho nesses três, vai lá. – ela apertou meu ombro, me encorajando.
Sorri em agradecimento, desviando dos rapazes antes de pegar o pulso de e guiá-lo para fora do camarote. O senti movendo sua mão, escorregando-a o suficiente para que andássemos de mãos dadas durante o percurso até a área de fumantes. Senti meu rosto esquentar com o ato, apenas aceitando-o antes de finalmente passar pela porta que levava até nosso destino. Permanecemos de mãos dadas até chegarmos no canto mais afastado da área. Peguei meu maço de cigarros e tirei um dos tubinhos, colocando-o entre meus lábios antes de acendê-lo com meu isqueiro. fez o mesmo, fechando os olhos e tombando sua cabeça para trás enquanto a fumaça saia por seus lábios em direção ao céu escuro. O que eu consideraria uma visão sexy se não fosse por toda a situação.
— Ansioso para o show? – tentei puxar assunto, apoiando-me na grade do fumódromo.
— Já me acostumei. – ele ao menos se preocupou em me olhar. – ?
— Eu? – traguei a fumaça do meu cigarro, encarando a vista silenciosa da madrugada francesa.
— Por que você parou de cantar? – deixei a fumaça sair por meus lábios, encarando o cigarro entre meus dedos. Eu imaginava que depois de tantos meses trabalhando juntos a pergunta apareceria, só não esperava que ela fosse aparecer agora.
— É uma pergunta complicada.
— Entendi. – ele apoiou-se na grade ao meu lado.
— Minha mãe, ela foi a razão. – suspirei, tragando o cigarro mais uma vez.
— Eu acho que entendi, mas não tenho certeza. – ele riu fraco.
— Minha mãe costumava tocar piano, ela me ensinou. – soltei a fumaça, encarando um ponto qualquer à minha frente. – Ela era uma oncologista, nascida e criada em Nova Orleans, francês era a sua segunda língua e posteriormente se tornou a minha. – sorri, me lembrando de quando conversávamos no idioma para que ninguém nos entendesse. – Nós tínhamos esse costume de cantarmos juntas. Ela desenvolveu leucemia, irônico, não?
... – murmurou e eu apenas gesticulei para que ele me deixasse terminar. Senti meus olhos queimarem e os fechei, evitando que aquilo me afetasse a ponto de chorar na frente de um dos meus chefes.
— Ela fez todo o tratamento, incluindo a quimioterapia, seus cabelos caíram e eu lembro de pegar uma tesoura e cortar os meus para que ela não se sentisse sozinha. Eu tinha oito anos. – ri fraco. – Ela fez o transplante de medula e ele foi um sucesso, nós achamos que ela iria melhorar. Um mês depois ela pegou uma pneumonia, seu sistema imunológico estava fragilizado demais e ela não aguentou. Ela morreu na semana seguinte. Meu pai não conseguiu lidar com isso, então ele torrou boa parte do seguro de vida com bebidas e apostas.
— Porra, ...
— Está tudo bem. – traguei mais uma vez. – Então os pais de Griffin, meus tios, entraram com um processo para ter a minha guarda legal, me mudei para a casa dos Graham com nove anos e fiquei até os dezoito, quando me mudei para Nova York para fazer faculdade.
— Espera aí... – ele me interrompeu, me olhando embasbacado. – Então você é a irmã? A irmã do Griff que eu nunca conheci? – assenti. – Que nós usávamos os instrumentos para os ensaios?
— Vocês usavam as minhas coisas? – arqueei a sobrancelha.
— Não é importante, foca no fato de que você é a prima do meu melhor amigo, que ele considera uma irmã e ele não teve a decência de me contar em todo esse tempo. – reclamou. – Porra, eu me sinto traído para um santo caralho.
— Não culpe ele, eu pedi para que ele não contasse para ninguém. Não queria que achassem que eu estava ali por ser privilegiada e toda essa merda, eu só queria ser tratada como uma empregada comum e é isso que eu fiz nos últimos dois anos.
— E eu achei que vocês estavam fodendo. – riu, balançando a cabeça. – Inacreditável, tudo está explicado agora.
— Isso significa que você vai parar de me encher quanto a isso?
— Definitivamente, . – ele sorriu.
Um sorriso sincero. Um maldito sorriso que me deixou o encarando por um longo tempo antes de finalmente recuperar meus sentidos e voltar minha atenção para a vista a minha frente. O que não durou muito, até ele chamar minha atenção novamente.
— Sinto muito por sua perda e por forçar você a ultrapassar seus limites. Eu sei a merda que é ter que lidar com perdas, não deveria ter te forçado.
— Está tudo bem, eu estou tentando superar esse bloqueio aos poucos.
— E isso significa?
— Que eu posso estar considerando entrar em um estúdio e gravar o nosso dueto. – o encarei ao dizê-lo, sendo pega pela expressão embasbacada de me encarando. Seus olhos estavam brilhando e um sorriso aos poucos se formava em seus lábios.
— Você está zoando? , eu juro por Deus que se você estiver zoando com a minha cara, eu vou te demitir.
— Eu não estou.
— Porra.
Ele passou as mãos pelo cabelo, o sorriso bobo em seus lábios denunciava um alegre que eu nunca tinha realmente visto. Principalmente quando era uma referência a algo que eu havia dito. O humor de quando eu estava no assunto normalmente oscilava entre implicância extrema ou rolar de olhos. Nunca a alegria e o alívio que eu estava vendo em seu rosto. Ele balançou a cabeça, deixando uma risada sair de seus lábios.
, anote essas palavras, porque elas podem nunca mais sair da minha boca novamente, beleza? – ele segurou meus ombros, me fazendo levantar a cabeça para encará-lo. – Eu juro por Deus e por qualquer merda que você acredite, eu não me importo, que eu vou fazer o possível para não ser um pau no cu.
— Obrigada, eu acho?
— Por nada. – ele soltou meus ombros. – Eu preciso mijar, me espera ou a gente se encontra lá dentro?
— Eu espero.
— Certo.
apagou o cigarro, jogando a bituca no lixo antes de sair de perto de mim e fazer seu caminho até a porta. Sai de perto da grade, me sentando em uma das cadeiras enquanto tirava o celular do bolso de minha jaqueta e desbloqueava a tela, entrando no twitter apenas para encontrar a Rowdy e o nome dos membros nos trending topics. Respirei fundo, entrando no assunto e me preparando para ler comentários não tão agradáveis sobre mim e Sabrina.

scar is a go for broke
@domlgbt
NEM SEIS DA TARDE E EU JÁ FUI TOMBADA POR SENDO UM GOSTOSO
02:49 AM · 24 de jun de 2017·Twitter for iPhone


Eu ri fraco, lendo o comentário da garota antes de entrar em seu perfil. Uma foto de sorrindo com os cabelos pintados de castanho estava como ícone, combinando com a capa escura que trazia uma citação de Percy Jackson. Eu saí do perfil, voltando para o nome dos garotos para ver os tweets. O próximo, no entanto, não foi tão agradável quanto eu gostaria.

carly
@petwrsbitch
ok mas quem são as ratas com o e o griffin? certeza que deve ser duas interesseiras
02:55 AM · 24 de jun de 2017·Twitter for Web


Engoli em seco, entrando no tweet e lendo os comentários. Alguns eram realmente maldosos, falando sobre o quão ridícula eu estava, me comparando com Alyssa e dizendo que ela era bem mais bonita. Encontrei alguns comentários positivos, agradecendo o mínimo de bom senso das pessoas em questão.

ally
@tommyslane em resposta a @petwrsbitch
a de blazer é a Sabrina uma das empresárias e a de vestido é a , ela é a roadie
supera a inveja amg eles n vao te comer
03:02 AM · 24 de jun de 2017·Twitter for Android

julie is a bad mf
@goodgriffin em resposta a @petwrsbitch
a amargura de n poder quicar no ídolo e precisar mandar hate para as meninas
03:10 AM · 24 de jun de 2017·Twitter for Android


Passei por mais alguns tweets, chegando em uma parte onde as pessoas estavam divididas entre surtos e teorias sobre quem eu e Sabrina éramos. Eu ri com alguns dos tweets, não me permitindo deixar que os maldosos tomassem conta de meus pensamentos.

cat’s turning 22
@thecruehoe
na boa eu não sei quem eu queria ser mais: a pra beijar o ou o pra beijar a
o surto da bissexualidade, meu pai
03:12 AM · 24 de jun de 2017·Twitter for iPhone


Me permiti gargalhar lendo, lutando contra a vontade de permanecer quieta em relação aos tweets. Finalmente me dei por vencida, clicando na opção de citar o tweet e digitando as palavras como se elas não fossem nada demais. E não seriam, uma vez que eu era apenas mais uma pessoa normal ao redor dos garotos. Cliquei em enviar, encarando o tweet por algum tempo.

@itsme em citação ao tweet de @thecruehoe:
Eu e só trabalhamos juntos, mas eu estou solteira caso você tenha interesse (;
03:13 AM · 24 de jun de 2017·Twitter for iPhone


E voltei para a minha linha do tempo, sendo bombardeada com notificações poucos segundos depois. Franzi o cenho, entrando na parte de notificações apenas para ver diversas menções que se dividiam entre risadas, alguns surtos e pessoas me seguindo. Entrei na menção de Griffin ao meu tweet.

@rowdygriffin em citação ao tweet de @itsme:
PARA DE DAR EM CIMA DAS MINHAS FÃS eu vou te demitir
03:15 AM · 24 de jun de 2017·Twitter for iPhone


Eu gargalhei sozinha com o tweet de Griffin. O twitter havia explodido e notificações não paravam de chegar, me obrigando a ativar o modo silencioso do celular antes de correr o dedo por minhas menções. Finalmente encontrei o tweet da garota que havia respondido mais cedo. Eram três tweets.

@thecruehoe em citação ao tweet de @itsme:
O QUE TÁ ACONTECENDO AQUIIIII ABDFDJKSNCÇKJDNVÇDAJVFOSNIÇCLVLNFOBVNVOÇIDSINVDS
3 minutes ago· 24 de jun de 2017·Twitter for iPhone

@thecruehoe em citação ao tweet de @itsme:
MEU DEUS É A MESMO SOCORRO
2 minutes ago· 24 de jun de 2017·Twitter for iPhone

@thecruehoe em citação ao tweet de @itsme:
eu tenho quando a gente pode se ver?
desculpa tô nervosa
3 minutes ago· 24 de jun de 2017·Twitter for iPhone


— Podemos ir embora? – escutei se sentar ao meu lado e bloqueei meu celular, encarando-o.
— Aconteceu algo? Você está bem?
— Eu estou bem para um caralho. – ele ironizou, passando a mão pelos cabelos. – Podemos ir?
— Podemos, claro. – peguei meu celular, desbloqueando a tela e ignorando as notificações do twitter para digitar uma mensagem para Sabrina.
— Eles podem ir embora com Johnny. – se levantou.
— Como quiser. - procurei pelo nome de Ralph entre os contatos frequentes, digitando a mensagem para que ele nos esperasse na entrada da boate. – Ele disse que já está lá.
— Ótimo.
Me levantei e pegou minha mão, segurando-a antes de sair me guiando até o interior da boate mais uma vez. Ele andava em passadas rápidas, empurrando algumas pessoas durante o caminho quando elas demoravam muito para saírem. Escutei alguns xingamentos em francês, pedindo desculpas em seguida. Pelo tempo em que chegamos na porta de saída da boate, estava tão apressado que ao menos se preocupou em soltar minha mão e ele só foi notar a merda que havia feito quando um turbilhão de flashes e câmeras nos cegaram. Coloquei a mão em meu rosto, focando no chão abaixo dos meus pés enquanto andávamos.
! QUEM É ELA?
, VOCÊ PODERIA NOS FALAR MAIS SOBRE SUA OVERDOSE?
, COMO A SUA FILHA LIDOU COM O FATO DE TE VER TENDO UMA OVERDOSE?
, COMO FOI A REABILITAÇÃO?
Consegui ver o corpo de tensionar e ele parou de andar, se preparando para se virar em direção ao fotógrafo que havia citado Cassie. Seu rosto carregava uma expressão furiosa e uma de suas mãos estavam fechadas em punho, prontas para irem de encontro com o rosto ou com a câmera. O que aparecesse primeiro. Eu engoli em seco, apertando sua mão com força o suficiente para que ele desviasse sua atenção em minha direção. E assim ele o fez, a expressão irredutível quando eu balancei minha cabeça negativamente e disse:
— Não vale a pena, vamos, por favor.
Ele hesitou por alguns segundos, voltando a andar em direção ao carro e me arrastando junto com ele mais uma vez. Sua mão apertando a minha quase que na mesma intensidade que eu havia feito anteriormente. Ele abriu a porta, parando ao lado dela para que eu entrasse. Agradeci com a cabeça, entrando no veículo e me arrumando. se sentou ao meu lado, mantendo sua atenção na rua enquanto Ralph dirigia até o hotel.
O resto do caminho até o hotel foi silencioso. não se preocupou em mudar seu foco de atenção até estarmos dentro do elevador que nos levaria até o corredor de seu quarto. Seus punhos estavam cerrados e seu maxilar estava trincado. Saímos do elevador e eu o acompanhei até seu quarto. Suas mãos estavam trêmulas quando ele pegou as chaves do quarto para abri-lo. Quando ele finalmente o fez, se virou em minha direção e acenou com a cabeça em um agradecimento silencioso, fechando a porta com violência em seguida.
Voltei a fazer o meu caminho em direção ao meu quarto, entrando no cômodo e trancando a porta em seguida. Peguei meu celular e avisei Sabrina que eles deveriam voltar sem mim e ela apenas me respondeu com um emoji de dedo do meio. Rolei os olhos, deixando o aparelho na mesinha de cabeceira antes de me sentar na cama e retirar meus coturnos. Puxei minha maleta, buscando pela necessaire onde meus lenços para remoção de maquiagem estavam. Peguei o pacote e fui até o banheiro, parando diante do espelho enquanto retirava os cílios postiços, as lentes de contato e toda a maquiagem que havia passado em meu rosto. Tirei as peças de roupa restantes e peguei a camiseta que ia até o meio de minhas coxas, vestindo-a junto do short de tecido que costumava ser meu pijama.
Escovei meus dentes e refiz meu caminho até o meu quarto, me jogando na cama e desligando o meu abajur. O silêncio acompanhado da escuridão aos poucos me abraçando em uma atmosfera de cansaço devido às horas dançantes na boate. Eu estava quase caindo no sono quando um barulho na porta chamou minha atenção. Duas batidas. Franzi o cenho, ligando o abajur e pegando as chaves na mesa, andando em direção à porta para abri-la.
, oi. – eu estava surpresa. – O que você está fazendo aqui?
— Eu tenho essa música na minha cabeça e eu não consigo tirar. – ele pontuou antes de invadir meu quarto como um furacão. – Me ajuda?
— É quase quatro da manhã, . – expliquei, encostando a porta atrás de mim.
— Eu sei, mas eu preciso disso, tá? – ele me encarou, as diversas folhas de papel em uma de suas mãos.
— Ok. – eu cocei minha cabeça, andando até minha cama e me sentando com as costas contra a cabeceira. – Vamos ver o que você tem aí.
Bati no colchão da cama para que ele se sentasse. Ele balançou a cabeça, andando em minha direção e se sentando com as pernas cruzadas em cima do colchão. Peguei os óculos de grau na mesa de cabeceira os colocando no rosto quando me entregou as folhas de papel. Eu as analisei, engolindo em seco o conteúdo da letra. Era tão pessoal como todas as outras que havíamos trabalhado nos últimos meses.
— Obrigado por hoje mais cedo, eu provavelmente estaria na capa dos tabloides por ter socado a cara daquele paparazzi se você não estivesse lá. – ele puxou o assunto e eu o olhei através da armação dos meus óculos.
— Eles foram baixos demais, só não valia a pena. – sorri de canto, voltando minha atenção para as folhas em minhas mãos, me esticando e pegando a caneta que estava ao seu lado para colocar algumas anotações.
— Não fode, só aceita o agradecimento.
— Tudo bem. – ainda me concentrando nas letras em minhas mãos. – Podemos fazer uma alteração aqui, olha. – apontei para a frase. – Podemos colocar “Eu não posso agora, eu sou um viajante” ao invés de “Eu não posso agora, eu estou apenas me segurando”, o que acha? – ele se aproximou, esticando-se ao meu lado para encarar a letra.
— Eu gosto. – me encarou. Os olhos cansados próximos demais e a boca entreaberta. – Está tudo bem?
— Sim. – deixei a caneta repousar em meu colo. – Estamos na fase da honestidade ou...?
— O que quer dizer? – ele franziu o cenho.
— Você vai me responder se eu te perguntar algo ou vai se fechar como das outras vezes?
— Depende do que você vai perguntar, se não for alguma merda artificial como das outras vezes, eu posso considerar responder. – se apoiou em um dos braços, me olhando dos pés à cabeça antes de lamber os lábios e voltar a me encarar. – Vá em frente.
— Por que você quis sair de lá? – apertei a caneta em minha mão, com medo da resposta.
— Drogas. – ele não se afastou, ainda segurando o contato visual de momentos antes. – Eu estou lutando para um caralho para me manter sóbrio, ver pessoas usando ainda me deixa incomodado. Cedo demais. Mas acho que você já notou isso, certo, ? – meu nome saiu de seus lábios lentamente e ele se aproximou um pouco mais.
— Eu imaginei.
Ele sorriu de canto. O sorriso sapeca em seus lábios denunciando segundas e terceiras intenções. Eu engoli em seco, sentindo meu corpo se esquentar com a proximidade. Eu conseguia sentir sua respiração quente batendo contra meu rosto, causando um leve arrepio em minha pele. encarou meus olhos de novo, se aproximando um pouco mais. O suficiente para quase tocar seus lábios nos meus. Meu coração batia com a velocidade de tambores contra meu peito devido a antecipação. Fechei os olhos, me preparando para sentir seus lábios nos meus quando uma batida na porta o fez se afastar rapidamente. Eu voltei minha atenção para a folha de papel poucos segundos antes da porta de abrir.

— Eu sabia que iria pegar vocês dois aqui! – Dominic chamou nossa atenção, me fazendo virar em sua direção. – Você foi muito babaca de abandonar a gente, .
— Não estava no clima, achei melhor voltar do que estragar a experiência de vocês. – ele bufou, encarando Dom.
— Eu estou atrapalhando algo?
— Está. – estava com uma expressão desgostosa encarando o melhor amigo. – Eu e estamos no meio de algo, poderia vazar daqui?
— No meio de algo, certo... – Dom sorriu sapeca.
— Processo de composição, babaca. – levantou as letras no ar e eu agradeci por ele manter os segundos que se passaram esquecidos.
— Preciso de um quarto para dormir, não estou em condições de voltar para o meu e o Griffin está sumido.
— E o Tommy?
— Desmaiou de bêbado no caminho, Ralph precisou carregar ele no colo.
Porra.
bufou, visivelmente irritado com a situação. Ele se levantou, pegando as letras e colocando em cima da mesa de centro do quarto. Eu fiz o mesmo, seguindo-os em direção à porta e me encostando no batente com os braços cruzados enquanto os dois músicos andavam pelo corredor.
— Ei, ! – chamou minha atenção, me fazendo olhar em sua direção antes de parar em frente ao próprio quarto. – Nós terminamos isso amanhã.
E adentrou o ambiente, mas não sem antes me lançar uma piscadela. Engoli em seco, apenas fechando a porta e passando a chave por ela. Suspirei, refazendo meu caminho até a cama e me deitando contra o estofado em que eu e estávamos minutos antes. Desliguei o abajur, fechando meus olhos e me permitindo tentar voltar a dormir, mesmo com a incômoda sensação que havia deixado em meu corpo.

Capítulo 07: Sentir Saudades Quando Acabar

“Why are we just not as good in the day?”
(Por que nós não somos tão bons na luz do dia?)
October, Alessia Cara


Marselha, Provença Alpes Costa Azul
Três anos e dois meses antes





Eu estava sentado em meu quarto. Minha perna mexia incessantemente devido à ansiedade que aos poucos tomava conta de meu corpo. Engoli em seco, andando em direção da janela do quarto e me sentando no pequeno banquinho ao lado dela. Retirei o maço de cigarros amassado do bolso de minha calça para colocar um dos tubinhos entre meus lábios. O acendi, dando uma tragada longa antes de voltar minha atenção para a vista francesa no lado de fora da janela. Fechei meus olhos, repassando os acontecimentos de dois dias atrás. próxima o suficiente para que eu sentisse sua respiração em meu rosto. Os olhos fechados em expectativa. Um beijo que por pouco não aconteceu.
Meus pensamentos giravam em looping ao redor de suas ações na noite de sexta, me fazendo ficar repassando o rosto de em diferentes momentos da noite. me encarando com uma cara de choque quando estendi minha mão em sua direção. sorrindo em minha direção antes de virarmos shots de tequila. A felicidade em seu rosto por comemorar meus dez meses de sobriedade. O fato dela perceber meu desconforto com meus adoráveis colegas de banda fumando maconha. As conversas pessoais. O aperto em minha mão para que eu não socasse um fotografo. Pequenas ações que ela havia tomado durante a noite somente para que eu aproveitasse tudo da melhor forma.
Eu ri com meus próprios pensamentos em relação à roadie. Meses antes eu não conseguiria ser capaz de ter um diálogo de quatro frases sem direcionar um insulto em sua direção e, agora, eu estava em um ponto onde as únicas coisas que se passavam em minha cabeça eram relacionadas a . e sua personalidade cheia de preocupação com todos ao seu redor.
Rolei os olhos, puxando o celular de meu bolso e desbloqueando a tela, buscando pelo número da roadie. Não havíamos trocado nenhuma palavra desde a madrugada de sábado e eu estava começando a estranhar o seu silêncio repentino. Entrei na conversa de , digitando uma mensagem antes de enviar.

[25/06 18:45]: Eu preciso de café, poderia trazer?

Encarei a tela do celular, esperando por uma resposta. Os minutos se passaram lentamente sem a roadie enviar qualquer novo sinal de vida e eu bufei, bloqueando a tela e voltando o aparelho em meu bolso antes de tragar novamente o cigarro, antes de apagá-lo contra a parede do hotel e jogá-lo no lixo ao meu lado. Três batidas na porta chamaram minha atenção e eu me levantei, andando em direção a ela. Forcei minha melhor cara de entediado, já imaginando que a pessoa que estava no lado oposto não seria a mesma que não saia de minha cabeça pelas últimas duas noites. Puxei a porta, encarando os cachos de presos no coque no topo de sua cabeça como o habitual. O rosto livre de maquiagens, roupas largas e os jordans em seus pés. Ela me encarou, sorrindo com todos os dentes em minha direção antes de levantar um copo térmico.
— Você não checa o café da sua cafeteira antes de vir me encher? Eu tenho outras coisas para fazer além de te servir o tempo todo.
— Da última vez que chequei, você ainda estava encarregada de ser minha babá. – peguei o copo em sua mão. – Valeu. – me afastei da porta o suficiente para convidá-la silenciosamente para entrar e assim ela o fez. – O que você tem aí?
— Ideias. – ela pontuou, passando por mim e puxando a cadeira da mesa de centro, jogando um conjunto de folhas de papel na mesa. – Eu estive trabalhando em algumas coisas e eu quero sua opinião nelas. – me encarou, a perna mexendo ansiosamente e as mãos tremiam levemente sempre que ela pegava algum dos papeis.
?
— Sim? – ela separou um conjunto de folhas. – Eu terminei de colocar os últimos detalhes em 27, espero que goste. – ela me estendeu e eu agradeci com a cabeça, lendo os trechos que ela havia adicionado com caneta roxa.
— Há quanto tempo você não dorme? – alternei minha atenção entre a folha e a mulher à minha frente.
— Umas vinte horas, talvez? Eu não sei, estava focada nas composições e não vi a hora passando. – balançou a mão. – De qualquer forma, eu compus algo para o Dom. Na realidade, para a Rowdy. – ela falou, rápido demais.
— Quanto de café você tomou? Você está acelerada demais para quem está há vinte horas sem um cochilo. – franzi o cenho, me sentando à sua frente para encará-la. As olheiras estavam fundas, mas ela sorria divertidamente, me encarando.
— Eu não contei, mas o suficiente. – deu de ombros – Bom, e aí?
— Eu gostei, na real. – olhei as letras de novo. – Piano?
— É, eu pensei em fazer o arranjo de piano para o começo, mas só se você se sentir confortável com a ideia. – ela sorriu de canto, pegando o celular e o desbloqueando. – Eu fiz um rascunho no celular, olha.
colocou o áudio para tocar, sua voz no conjunto de notas do piano. Eu coloquei minha mão em minha boca, olhando com atenção a tela do celular e me focando em esconder o sorriso enquanto eu escutava sua voz cantando as minhas letras.
— E aí?
— Podemos colocar uma linha de guitarra para acompanhar a partir do segundo para sempre. – me estiquei, pegando a caneta que descansava na mesa para adicionar a informação no trecho.
— Isso e um violão, talvez.
— Boa. – anotei a sugestão. – Você disse que fez algo para o Dom?
— Sim, ele me pediu para ajudar ele no processo de composição. – explicou. – Eu estava com ele ontem. – senti um leve desconforto com a informação, mantendo minha expressão neutra. – Nós trabalhamos em uma música e eu tive uma ideia nas últimas horas, queria sua opinião antes de mostrar para ele.
— Vai lá. – encarei, esperando que ela me mostrasse. sorriu, colocando um cachinho atrás da orelha distraidamente enquanto espalhava a letra com o arranjo pronto, inclinando-se. – Céus caindo?
— É, não me pergunte, eu apenas aceitei a ideia e fui.
Eu avaliei a letra, lendo cada uma das estrofes com atenção. Eu nunca tinha visto uma composição inteira feita por , por isso não me surpreendi com a organização metódica na folha. havia colocado observações em diferentes cores, incluindo a forma como as estrofes seriam cantadas. Avaliei alguns trechos, surpreso com os rimados. Ela havia criado uma música com trechos falados para Donnie, dando a liberdade para que ele rimasse ao invés de apenas cantar, como normalmente fazia. Eu balancei a cabeça negativamente, incrédulo com a versatilidade criativa da roadie à minha frente.
— Você fez um rap para ele. – terminei de ler as letras. – Você deu uma letra de rap para o Donnie. – eu estava realmente surpreso e estava lutando para manter meu rosto neutro, escondendo meu choque. Aquela mulher era fodidamente talentosa. – Porra, , você sabe rimar.
— Eu não consigo dizer se isso é uma reação boa ou ruim. – ela riu sem graça e eu a encarei. – Você gostou?
— Se eu gostei? – franzi o cenho, passando a mão por meus cabelos antes de soltar uma risada. – Isso é bom para caralho, porra. – sorriu. Aquele sorriso capaz de iluminar uma cidade inteira por meses.
— Eu espero que vocês consigam achar uma utilidade para ela. – ela se levantou. – Considerem um presente, uma compensação pelo apoio e pela paciência que vocês estão tendo comigo. – ela sorriu de canto. – Bom, vou indo. Daqui a pouco eu volto para te buscar. Nós vamos sair às sete e meia. – começou a fazer seu caminho em direção à porta.
— Ei, . – a chamei, dando um gole de meu café antes dela se virar em minha direção. Assim que ela o fez, deixei o copo na mesa e me joguei contra o encosto da cadeira. – Ainda temos um assunto pendente da madrugada de sábado. – passei a língua por meus lábios.
— Temos? – ela arqueou uma sobrancelha e eu não pude evitar sorrir. Ela havia voltado com a postura defensiva de sempre.
— Temos. – me levantei, andando até ela e parando em sua frente. – Você sabe... Um beijo normalmente significa alguma coisa. – encarei seus olhos, o sorriso brincalhão em seus lábios estava impassível.
— Pode significar... – sustentou seu olhar contra o meu. – Se ele chega a acontecer. O que não foi o caso, então...
Ela deu de ombros. Deixei um riso divertido escapar por meu nariz e estiquei meu braço contra sua cabeça, deixando-a com um espaço considerável entre meu corpo e a superfície de madeira. não vacilou por um segundo. Eu tombei minha cabeça para o lado, encarando seus lábios antes de voltar a falar.
— O fato de você estar pronta para um antes de Dom bater na porta diz o contrário. – deu uma risadinha antes de acompanhar meus movimentos.
— O fato de você ter tentado e ainda ter voltado com isso para o assunto diz mais sobre o que você estava sentindo do que sobre mim, . – ela pegou a gola de minha camisa, dobrando-a com atenção antes de segurar meu rosto com uma das mãos. – Como eu já te disse há meses: não fico com os membros das minhas bandas. Pessoas famosas não me impressionam e com você não seria diferente. Então, se você me permite, eu ainda preciso checar os outros garotos.
Eu fiquei sem reação. me empurrou levemente com ambas as mãos, pegando a maçaneta da porta e abrindo-a, saindo por ela calmamente sem ao menos se dar ao trabalho de olhar para trás. Passei a mão por meu rosto, balançando a cabeça negativamente com sua reação. Voltei a fazer meu caminho em direção à mesa, pegando uma folha de papel para rascunhar algumas letras que passavam por minha cabeça enquanto a hora de ir até o festival não chegava,

🎸🤘🎼🎵


Backstages de festival eram um saco.
É isso. O backstage das minhas turnês era sempre melhor. Tínhamos um conjunto de roadies contratados somente para a nossa banda. Roadies que já trabalhavam há tanto tempo com a gente que já conheciam cada um dos nossos costumes, o que incluía camarins separados e não um cubículo onde eu ficava preso com mais três caras. Não que eu não gostasse de Donnie, Griff e Tommy. Eu os amava, afinal, era o mais próximo de uma família que eu tive por muitos anos. Mas eu apenas gostava de aproveitar o pequeno tempo sozinho antes de subir em um palco lotado de pessoas. Por isso, pouco tempo após ajustar minhas coisas no camarim, eu saí pela porta e me sentei ao fundo do palco que iriamos apresentar com meu celular em mãos. Desbloqueei a tela do aparelho e busquei pelo contato de Cassie, clicando na opção de facetime assim que seu contato apareceu. O aparelho chamou por algum tempo e então caiu, indicando que ela provavelmente estaria dormindo. Rolei os olhos, apoiando meu corpo contra a estrutura que mantinha o palco em pé enquanto Borgore tocava alguns de seus sucessos de anos antes. Alguma merda eletrônica que eu não fazia a mínima questão de saber o nome.
— Ei, .
Escutei a voz de e levantei minha cabeça em sua direção quase que de imediato. Ela estava com um sorriso no rosto ao me encarar e eu me permiti baixar o olhar até a pequena garotinha que a acompanhava. Me levantei em um pulo, me abaixando para pegá-la no colo quando ela correu em minha direção. A abracei com força, sentindo seus braços apertarem meu pescoço com cuidado enquanto eu escondia meu rosto em seus cabelos cuidadosamente arrumados. Deus, como eu havia sentido falta daquele pequeno pedacinho de gente. A coloquei, no chão, abaixando-me o suficiente para encará-la.
— Você nem ao menos teve a decência de me dizer que estava vindo. – empurrei seu ombro cuidadosamente, sendo retribuído com um sorriso
— Tia Ash disse que tínhamos que manter segredo, eu queria fazer uma surpresa. – balancei minha cabeça negativamente, alternando minha atenção até , que mexia em seu celular distraidamente
— Você sabia disso?
— Claro que eu sabia. – ela disse, como se eu tivesse acabado de dizer a coisa mais horrenda do mundo. – Que tipo de roadie eu seria se não soubesse? – sorriu.
— O tipo que facilitaria minha missão pessoal de não te suportar. – soltou uma risadinha.
— De nada, . – a roadie se desencostou do palco, guardando o celular no bolso traseiro da calça. – Eu vou com os outros meninos, ainda temos mais vinte minutos de música ruim antes de vocês entrarem...
— Preciso estar lá pelo menos dez minutos antes para que você acerte o retorno, entendido. – a cortei. – Não vou fazer nada estúpido, pode ir.
sorriu, encarando Cassandra uma vez mais antes de dar as costas e sumir entre o backstage do Festival Marsatac. Voltei minha atenção para a pequena garotinha, que carregava uma pequena mochila rosa nas costas. Me sentei no chão mais uma vez, sendo acompanhado por ela.
— E então, como foi que você veio parar aqui, princesa?
— Tia Ash comprou as passagens para mim e June. – se referiu à governanta que cuidava dela quando eu estava em turnê. – Chegamos tem dois dias.
— Você poderia ter ficado junto comigo. – encarei seu rosto sorridente, me perguntando como alguém como eu havia tirado tamanha sorte em ter alguém como ela na vida.
— Eu não queria atrapalhar, titia disse que você ia sair com os tios. – franzi o cenho, pensando em que momento eu havia feito com que ela se sentisse como algo incômodo. Talvez por culpa das vezes em que você a deixou em casa para sair se drogar com outras pessoas, seu babaca.
— Não, nunca. – eu sorri em sua direção, tentando ao máximo impedir que meus pensamentos afetassem aquele momento singelo. – Você nunca me incomodaria, eu estava com saudades, teria desistido de ir se fosse o caso. Você é a coisa mais importante para mim, nunca seria um incômodo.
— Eu queria que você fosse se divertir, eu me diverti com June. – ela sorriu inocentemente, tirando a mochila das costas. – E com , ela passou algum tempo comigo hoje.
— Ela passou? – a encarei, me perguntando se o tempo em que permaneceu em silêncio tinha algo a ver com o fato de estar com Cassandra. – Quando?
— Durante o sábado e um pouco da manhã. – Bingo. – Ela passou a maior parte do tempo escrevendo com o tio Dom, mas me ensinou algumas coisas legais durante as pausas, olha.
Cass abriu a mochila, tirando um pequeno caderno de capa preta de dentro dela antes de me entregar. O nome de Cassie estava escrito na capa com uma caligrafia meticulosamente decorada. A caligrafia de . Um sentimento desconhecido tomou conta de meu peito e eu me permiti abrir o caderno. A curiosidade se arrastando por minhas entranhas de uma forma em que eu não podia evitar não olhar o que elas haviam trabalhado. O que encontrei no caderno, todavia, era melhor do que todas as expectativas que eu havia colocado nele.
me ajudou com o sombreado de alguns, ela também me deu isso. – Cass tirou um pequeno kit de aquarelas e eu sorri, voltando minha atenção aos desenhos.
Boa parte deles eram referências a algum anime. Porém, a pintura foi o que me deixou verdadeiramente impressionado. As cores combinavam perfeitamente e a técnica havia me deixado embasbacado.
— Você fez isso? – eu estava tão orgulhoso dela que ao menos conseguia expressar o suficiente. O que não era difícil, considerando que eu conseguia ser excepcionalmente péssimo nesse aspecto.
— Sim, me mandou alguns tutoriais quando disse que estava aprendendo a desenhar e eu estive praticando desde então. – ela me encarou, seus olhos brilhando de ansiedade. – Você gostou?
— Eu amei. – sorri, folheando o caderno. – Porra, minha filha é uma artista do caralho. – eu ri, embasbacado. – Não repita o que eu disse, é feio. – a censurei.
— Tudo bem. – a garotinha sorriu, voltando a guardar as coisas na mochila.
— Vamos? – me abaixei, esperando que ela subisse em minhas costas.
— Cavalinho. - Cassie enlaçou seus braços em meu pescoço e eu segurei suas pernas.
— Pronta?
Perguntei, virando meu rosto em sua direção apenas para enxergá-la confirmar com a cabeça. Saímos correndo pelo backstage do festival em meio aos meus gritos para que as pessoas não nos trombassem no meio do caminho. As risadas de minha filha preencheram meus ouvidos, enchendo o meu peito de um sentimento reconfortante que somente ela era capaz de fornecer. Paramos diante do camarim pouco tempo depois. Eu abri a porta, encarando meus colegas de banda, o que naquele momento incluía a própria roadie, que conversava animadamente com Dom sobre algo escrito em bloco de notas que eu identifiquei como sendo o caderno de composições dele.
— Bem na hora, adoro quando você é pontual. – Griff sorriu, tombando a cabeça para o lado. – Vem cá, pivete, me dá um abraço.
Griffin levantou os braços e eu me abaixei, colocando Cassie no chão poucos segundos antes dela sair correndo da porta até os braços do meu melhor amigo, que a apertou em um abraço carinhoso antes de começar a fazer cócegas em sua barriga. Encostei a porta atrás de mim, sentando-me no espaço livre ao lado do baterista. Minha filha veio em minha direção pouco tempo depois, sentando-se em meu colo para que eu a abraçasse.
— Então, quem de vocês já sabia disso? – apontei para Cass.
— Todo mundo, só você que não. – Tom me encarou entediado enquanto tragava o próprio cigarro. – Tal qual como o corno, você também foi o último a saber.
— Se fode. – dei com o dedo do meio em sua direção.
— Linguajar, crianças no cômodo. – censurou, ao menos tirando sua atenção do papel que escrevia algo.
— Você é uma traidora. – provoquei, esperando que ela rebatesse. E então ela se virou em minha direção, revelando os óculos de grau com as grossas armações transparentes quando ela os abaixou para me encarar.
— Cassie, tampa os ouvidos, por favor? – e assim minha filha o fez. – Caralho, , eu não tenho um dia de paz, porra.
Eu pisquei algumas vezes, processando o conjunto de palavras que ela havia acabado de dizer. Encarei meus colegas de banda, revezando a atenção entre eles e a roadie. Foram segundos do mais profundo silêncio antes do ambiente ser invadido por um coral de gargalhadas, incluindo a dela. Cassie finalmente tirou as mãos do ouvido, parecendo perdida enquanto eu limpava as lágrimas de diversão de meus olhos. Em quase três anos, eu nunca havia escutado colocar tantos palavrões em uma frase tão curta. E considerando a reação dos outros, acredito que eles também não.
, você desperta o pior lado da . – Tommy tossiu algumas vezes, balançando a cabeça negativamente. – Aí, porra.
— Vocês são muito bons em encher meu saco. – ela rolou os olhos, voltando a atenção para o papel.
— É que o caralho do não te dá um minuto de paz, né? Entendi. – Dom completou.
— Isso foi tão errado, em tantas formas. – Griff pontou, ainda em meio às risadas.
— Beleza, quarta série. – riu, finalmente olhando para o relógio. – , você é o último que falta pôr o retorno, vem para cá.
Cassandra escorregou do meu colo, sentando-se no sofá enquanto eu me diria até a roadie e parava de costas para ela. se levantou, colocando o aparelho em meu bolso para conectar o fone de retorno logo em seguida. Ela testou algumas vezes, se certificando que tudo estava certo antes de passar o fio por baixo de minha camisa e deixá-lo pendurado em meus ombros. Ela deu três batidinhas no local, uma mania que ela sempre havia apresentado com os outros meninos.
— Prontinho, livre para ir.
— Valeu.
Não pude ao menos tomar dois passos antes de um dos roadies do festival baterem na porta, avisando que entraríamos em um minuto. Assentimos e saímos do camarim, com conversando animadamente com minha filha enquanto ela segurava sua mão. Segurei um sorriso, só então notando o quanto elas eram parecidas. Quase como mãe e filha, se a roadie não parecesse uma adolescente noventa por cento do tempo. Ri de meus próprios pensamentos, parando ao lado da entrada do palco e me abaixando ao lado de Cass.
— Você vai assistir?
— Vou, papai. – ela me abraçou, depositando um beijo em minha bochecha. – Boa sorte.
Eu sorri em agradecimento, me levantando em seguida. desejava boa sorte para os garotos, abraçando-os calorosamente antes de depositar um beijinho na testa que soava quase maternal. Ela parou diante de Dom, ralhando sobre o batom estar borrado antes de limpar com o polegar e o empurrar em minha direção. Ela se virou para mim, dando passos hesitantes antes de respirar fundo e se impulsionar contra meu corpo, envolvendo-me em seus braços em um abraço tão caloroso quanto o dos outros. Fiquei parado por severos segundos, surpreso demais para reagir ao ato. Ela apertou um dos meus ombros, batendo três vezes antes de soltar um melódico:
— Boa sorte.
Não houve um beijo na testa como o dos outros. Apenas um abraço caloroso e batidinhas no ombro. Eu assenti com a cabeça, sentindo uma euforia estranha tomar conta de meu corpo antes de subir no palco e parar diante do microfone decorado com a multidão vibrando em coro o nome de nossa banda.
— BOA NOITE, MARSELHA! – gritei, sendo recebido por mais berros do público. – Nós somos a Rowdy e essa música se chama Beijar o Céu.

Capítulo 08: Aniversários e Comemorações

“We even got a secret handshake
And she loves the music that my band makes
I know I'm young, but if I had to choose her or the Sun
I'd be one nocturnal son of a gun”

(Nós temos até um aperto de mão secreto
E ela adora a música que minha banda faz
Eu sei que sou novo, mas se eu tivesse que escolher entre ela e o Sol
Eu viraria um filho da mãe noturno)


— Cupid’s Chokehold, Gym Class Heroes

Los Angeles, CA
Três anos e um mês antes





Eu nunca fui uma criança problema.
Apesar de ter motivos consideráveis para acabar me tornando uma, eu sempre fui a criança nerd do fundo da classe. Mesmo nas aulas de música ou na banda marcial, eu sempre fui a pessoa que não faria diferença se estivesse lá ou não. Em contrapartida, eu também me tornei a criança com tantos pensamentos que queria agarrar o mundo todo com as mãos.
Procurando por formas de me expressar que não fosse a música, algo que na época eu estava deixando de lado, eu acabei me tornando uma pessoa viciada em hobbies. Artesanato, esculturas de argila, aulas de pintura em tela, aulas de maquiagem e até mesmo tricô. E então ele veio. Com quatorze anos, eu conheci a magia dos videogames e minha vida mudou drasticamente. Eu havia encontrado uma nova forma de me expressar: jogando toda a minha raiva e frustração gritando com jogadores ruins em jogos online. E, naquele momento, aquilo era exatamente o que eu estava fazendo.
— COMO VOCÊ CONSEGUIU ERRAR ESSA ULT, INFERNO? Você não sabe jogar, porra? Puta merda, que time ruim do caralho.
Grunhi, me jogando contra o estofado da cadeira enquanto a tela vermelha na tela indicava a derrota na partida. Esfreguei meu rosto, saindo do replay para verificar a pontuação. Vinte e seis abates e duas mortes, totalizando o jogador com maior número de abates da partida. Rolei os olhos, fechando o jogo antes mesmo de me dar a chance de passar mais raiva.
Senti meu celular vibrar em cima da mesa e franzi o cenho. Eu estava em meu período de recesso e não estava nem um pouco a fim de trabalhar, considerando o amontoado de serviço que havia sido colocado em minhas costas. Por isso, ignorei a chamada e voltei minha atenção para a área de trabalho do computador, ponderando se continuaria a campanha de The Witcher ou começaria Heavy Rain. Optei pela segunda opção, abrindo o jogo e aguardando enquanto ele carregava.
, bora mais uma partida de LOL? – Johnn chamou em um dos chats de voz, me fazendo revirar os olhos com a possibilidade de cair em um time ruim novamente.
— Nem, eu passei raiva demais na última, não quero continuar me estressando. Vou começar Heavy Rain. – murmurei, apertando o play.
Beleza, se mudar de ideia avisa.
— Ok. – respondi, alheia, voltando minha atenção para o jogo antes de chamarem minha atenção de novo.
Oh, , você não tem celular não? – escutei a voz de Griff ralhar.
— Estou em recesso, favor não me chamar para trabalhar porque eu não irei.
Griff, você tá sumido. – Johnn voltou. – Cola para uma partida qualquer dia.
Claro, só a agenda diminuir que eu apareço. – meu primo riu. – Vem para o .
— Eu estou de boa, vou ficar no meu joguinho e aproveitar para desintoxicar da companhia de vocês.
Você não tem a opção de negar, eu estou na porta da sua casa e não vou sair até você vir junto. – ele buzinou, me fazendo rolar os olhos.
— Eu te odeio.
Traga o presente da Cassie também.
Eu respirei fundo, fechando todas as aplicações do computador antes de finalmente desligá-lo. O aniversário de Cassie havia sido na quarta-feira daquela mesma semana e devido ao fim da turnê e foco na produção do novo álbum, estávamos todos em período de recesso por quinze dias até retornar as funções normais. Não que eu estivesse obedecendo, uma vez que havia Dom havia vindo até a minha casa pelo menos três vezes durante esse período para trabalharmos em algumas de suas composições. E ele não era o único, Griffin e eu também tivemos nossos momentos.
O fato era que eu havia planejado meu fim de semana como uma desintoxicação. Mas quando um dos membros é alguém da sua família, o processo fica ainda mais difícil. Como nossos pais haviam continuado em Toledo, isso fazia de mim a única família de Griffin em Los Angeles, por isso eu era quase que diariamente atazanada por ele. Peguei meu celular do carregador, procurando o contato de Griffin para enviar uma mensagem.

[28/07 12:37]: Eu preciso me arrumar, vc tá com a chave? Pode ficar no sofá enquanto eu me arrumo.


Deixei o celular em cima da mesa, escutando o barulho da porta no andar debaixo abrir e fechar, em uma confirmação de que ele realmente estava com a chave. Fiz meu caminho até o banheiro de meu quarto, trancando a porta atrás de mim. Me despi, jogando meus pijamas dentro do cesto de roupas antes de entrar embaixo do chuveiro e ligar a água, deixando-a percorrer por todo o meu corpo.
Meu banho foi rápido. A finalização do meu cabelo, todavia, foi o que me fez ficar um tempo severo contra o espelho do banheiro. O trabalho de fazer a fitagem mecha por mecha e posteriormente seguir com o difusor me fazia seriamente cogitar voltar com as tranças, apenas para economizar as dores no braço por segurar o secador. Quando meus cachos ficaram finalmente modelados, resolvi me concentrar na maquiagem. Algo leve, considerando o calor californiano. Ao finalizar, apenas coloquei uma camisa larga, um shorts e um par de tênis, puxando minha bolsa e jogando o celular dentro dela. Desci as escadas, encontrando Griffin jogado no sofá, jogando em meu DS.
— Vamos? – o encarei.
— Aleluia, achei que não iria mais sair daqui. – ele se levantou, desligando o DS e deixando na mesa de centro.
— Meu cabelo dá trabalho, você deveria saber disso antes de chegar em cima da hora. – rolei os olhos, andando em direção da porta e saindo em seguida.
— Mas ele ficou bonito. – ele saiu, me esperando no hall de entrada enquanto eu trancava a porta. – Olha só, molinha. – Griff pegou um dos cachos, esticando e soltando.
— Tira a pata. – bati em sua mão. – Vai estragar o formato e demorou para deixar definido assim. – guardei a chave em minha bolsa, descendo os degraus do hall de entrada para entrar no carro de Griff.
— Não pode mais fazer carinho no cabelo da prima que ela reclama, enfia no cu também. – ele ralhou, sentando-se ao meu lado antes de dar partida e dirigir em direção à casa de . – Eu queria entender o porquê de você não ir morar comigo, a casa é enorme. Você não precisaria pagar nada.
— Eu gosto de ter o meu espaço e a minha privacidade. – coloquei meus óculos de sol. – E eu não quero passar raiva com a sua desorganização. A primeira camiseta que eu encontrasse em cima do sofá me faria ter uma síncope.
— É só que a casa fica vazia o tempo todo. – ele batia no volante conforme os compassos da música no rádio. – E nossos pais disseram que não se sentem à vontade de sair de Toledo sabendo que não vou ficar em casa quando as turnês começarem. Você sabe, aquele papo de sempre.
— Por que eu iria ficar mais perto dos meus filhos se eles não ficam em casa? – imitei Leo. – Se for para continuar sem vê-los com frequência, posso pelo menos permanecer em uma cidade em que conheço.
— Velho ranzinza. – ele balançou a cabeça, rindo. – Mas eu estou falando sério sobre você vir morar comigo, prometo manter as coisas organizadas se você vier. Nós não moramos juntos desde que você foi para Nova York, eu gostava de não precisar sair de casa para produzirmos algo.
— Só você? – ergui uma sobrancelha, rindo fraco. – Eu posso considerar a ideia, mas não posso garantir nada.
— Eu vou acabar te convencendo qualquer hora. – ele riu. – Cara, terminamos o arranjo final de 27 ontem, você devia ver como ficou o resultado. Simplesmente do caralho.
— Sério? Vocês já estão com planos de gravação?
— Estamos só finalizando alguns retoques nas músicas para ver quais vão ser colocadas no álbum. O chegou com algumas bem pessoais, pedimos para que ele as colocasse também.
— Legal, eu fico feliz que vocês estejam conseguindo usar as coisas. – sorri, encarando o letreiro de Hollywood a distância. – Griff?
— Sim?
— Eu... Estava pensando. – respirei fundo. – Como foi que você lidou com toda a exposição quando vocês começaram a ser vistos? Tipo, a sensação.
— Eu vomitei por algum tempo antes de subirmos no palco do nosso primeiro show grande. – ele riu. – Você está considerando aceitar?
— Seria muito doido se eu dissesse que sim?
— Se você estiver com a motivação certa, isso não seria nem um pouco doido. – Griffin sorriu. O mesmo sorriso maternal de Becky. – Você está fazendo isso por você ou por ?
— Quando pensei pela primeira vez sobre, achei que seria por ele e por toda a insistência. – suspirei. – Mas... Depois de todos os últimos meses compondo com vocês, eu tomei a consciência de que estava fazendo isso por mim. Ele me empurrou, claro, mas eu aceitei porque queria saber como era. E agora eu quero saber como é isso.
— Então a resposta é simples: não é uma loucura. – Griffin parou em frente à mansão de , estacionando o carro e se virando em minha direção. – Você merece isso tanto quanto eu, então eu vou te apoiar em cada passo do processo. – ele sorriu. – Estou feliz que esteja reunindo coragem para aceitar.
— Obrigada, Griff. – eu sorri, abraçando-o com força.
— Por nada, .
Griffin retribuiu o abraço, se soltando quando o fiz. Saímos de dentro do carro, entrando pela porta da frente da mansão e escutando o som alto de guitarras e bateria. Franzi o cenho, apenas seguindo normalmente até a sala para encontrar o set completo no meio dela com tocando alegremente com os outros rapazes. O que eu não contava, todavia, era com as crianças correndo de um lado para o outro como se estivessem em um mosh pit.
Porra. – ele parou no meio da música, sendo pego com diversos xingamentos infantis das crianças. – chegou, finalmente. – riu, tirando a guitarra do pescoço antes de colocá-la em cima do suporte e andar em minha direção. – Ei, como está? Achamos que você não viria.
— Não foi por falta de tentativa. – Griffin completou. – Se não fosse por mim, aparecendo na porta da casa dela, ela provavelmente teria ficado jogando pelo resto do dia.
— Realmente, meus planos para hoje envolviam uma desintoxicação da presença de vocês. – passei o olhar pela sala, procurando por Cassie entre a pequena sala de fundamental no meio da sala.
— Ela está no quarto dela, foi pegar algo. – segurou o braço da guitarra. – E nós precisamos de ajuda para lidar com essas trintas crianças, não é como se eu tivesse ideia de como agradá-las.
— Sério, ? – eu ergui uma sobrancelha, o encarando incrédula. – Vocês só me chamaram porque não tem ideia de como lidar com crianças?
— Não, não foi isso. – ele se apressou em corrigir suas próprias palavras. – Cassie disse que queria que você viesse e eu sou expert em festas de gente grande. Não é como se eu pudesse dar shots de tequila e cigarros de maconha para crianças de nove anos. – se defendeu, tentando arrumar uma desculpa que fizesse a minha cara melhorar de uma hora para outra. – Nós pedimos algumas pizzas, temos doces na cozinha e Ashleigh disse que chegaria com o bolo daqui algum tempo.
— Certo, certo. – passei a mão em meu rosto, respirando fundo antes de passar por e parar diante da pequena plateia. – Quem está com fome? – fui recebida por um conjunto de gritos animados das crianças à minha frente. – Ok, sigam a tia ,
O conjunto da pré-escola me acompanhou até a cozinha e eles se sentaram entre os bancos livres do local. Me aproximei do amontoado de caixas de e logo fui acompanhada por ele, que começou a me ajudar com a distribuição das caixas em cima do balcão. Não tardou para que Griffin e Dom se juntassem a nós, espalhando os cupcakes e docinhos nos espaços livres.
Não foi tão trabalhoso como imaginei que seria, considerando os balões de hélio e as decorações espalhadas pelo cômodo. A creche logo começou a se movimentar, pegando doces e colocando nos pratinhos antes de engatarem em conversas animadas sobre como os Avengers fariam para derrotar Thanos.
— Você vai ficar parada aí? Come. – chamou minha atenção, estendendo um prato com pizza de brócolis e queijo em minha direção. – Sei que você gosta desse crime que nem deveria ser chamado de pizza.
— Vai à merda, . – rolei os olhos, aceitando o prato de bom grado antes de pegar uma das fatias e dar uma mordida generosa. – Você gosta de pizza de puro óleo, o que você está falando?
— Você meça suas palavras para falar da pizza de quatro queijos ou eu juro que te expulso dessa residência. – apontou, dando uma mordida na fatia em suas mãos.
— Tudo bem, continue vivendo no seu mundo de fantasias. – levantei minhas mãos em rendição, encarando a porta traseira se abrir com Ashleigh e Tommy carregando um bolo enorme.
— Acho que a gente deveria ajudar eles, né? – comentou.
— Definitivamente. – dei outra mordida em minha pizza, deixando o pedaço inacabado na bancada da pia. – Vou distrair a Cass, preciso entregar o presente dela de qualquer forma.
Me apressei em sair da cozinha, ao menos esperando pelo aval do antes de começar a fazer o meu caminho em direção às escadarias. Eu estava nervosa e não tinha ideia se a pequena garotinha iria gostar do presente que eu havia escolhido. Ela era uma criança milionária, consequentemente a gama de presentes que eu poderia dar não eram coisas que o pai dela não podia comprar. Parei diante da porta azul e bati três vezes, esperando que a voz da garotinha me pedisse para entrar. Assim que ela o fez, entrei no ambiente onde algumas músicas da Billie Eilish tocavam animadamente.
— Tia ! – Cassie sorriu e eu me abaixei, envolvendo-a em um abraço quando ela parou diante de mim. – Achei que não viria, você disse que não ia sair hoje. – a garotinha me encarou, saindo de perto de mim.
— Você vai ficar brava se eu disser que os meus planos eram ter ficados em casa jogando pelo resto do dia? – eu sorri, deixando minha bolsa em sua cama antes de me sentar. – Mas eu comprei um presente para você. – eu sorri, puxando a bolsa com e a abrindo, retirando a caixa com o embrulho roxo. – Feliz aniversário, baixinha.
— Obrigada, . - os olhos de Cassandra brilharam enquanto ela encarava embrulho em minhas mãos. Os dedos percorreram o embrulho assim que ela o pegou.
— Abre.
Eu sorri, incentivando-a a abrir o presente. Os olhos da garotinha se viraram famintos para a embalagem e escorregaram pela fita preta cuidadosamente amarrada. O resto do processo não foi de longe tão delicado. Cassandra rasgou o papel de presente de forma ávida, jogando o restante do pacote no chão para encarar por longos segundos o presente. Ela olhava incrédula para a caixa da mesa digitalizadora como se aquilo fosse a coisa mais legal que ela havia ganhado em anos. Ela deixou o presente em cima da cama, me envolvendo em um abraço apertado.
— Obrigada, . – ela sorriu. – É o melhor presente do mundo. – ela riu, abrindo a caixa.
— Você tinha comentado que queria começar a fazer uma série de quadrinhos, imaginei que uma mesa iria facilitar o processo. – eu sorri, vendo-a pegar os fios e a mesa e correr até o setup que estava no canto do quarto. Me levantei, acompanhando-a. – Se você quiser, posso te ajudar a configurar, você vai precisar instalar o driver para conseguir usar nos outros programas.
— Vai mesmo. – a garotinha se sentou na cadeira, ligando o computador e esperando que ele iniciasse. – Papai me deu um Ipad também. Agora eu posso desenhar quando for na turnê com vocês e em casa, com uma tela maior, eu só preciso praticar mais.
— É como aprender a desenhar tudo de novo, mas acho que você consegue se acostumar mais rápido que eu. – eu ri fraco, vendo-a conectar os fios. – Okay, vou te ensinar como fazer a instalação caso você precise fazer de novo e eu não estiver, tá?
— Ok. – Cassie andou com a cadeira para o lado, me dando espaço para olhar o monitor.
— Pesquisa pelo site da Huion na barra de pesquisa. – assim ela o fez, abrindo o site. – Agora pesquisa pelo modelo da mesa, é a H420. – selecionou o modelo e eu me apoiei no encosto de sua cadeira. – Seleciona o sistema, agora faz o download.
Os próximos passos foram rápidos e bastante padronizados. Cassandra fez a instalação dos drivers e começou a procurar por softwares que facilitassem sua empreitada de começar seus projetos de desenho. Quando finalmente encontrou um que lhe agradasse, não pensou duas vezes antes de instalá-lo e começar a testar os diferentes comandos. Permanecemos por um bom tempo ali. Cass sorrindo animadamente com os controles e eu a auxiliando com o pouco que eu sabia de arte digital até ela finalmente largar a caneta.
— Eu vou conseguir fazer tanta coisa com isso. - ela sorriu, se levantando da cadeira e me envolvendo entre seus braços pequenos com força. Eu sorri, acariciando o topo de sua cabeça com carinho antes dela me soltar. – Eu amei.
— Imagina. – eu sorri de canto. – Vamos descer, seus amigos estão te esperando.
— Claro.
Segurei os ombros da garotinha, empurrando-a levemente para fora do quarto e a acompanhando até a cozinha. O cômodo estava silencioso, apesar de bem iluminado, e assim que passamos pelo portal da sala, um coro desafinado de crianças de adultos berrou uma música qualquer de aniversário, fazendo Cassie correr em direção ao pai e abraçá-lo com força enquanto a girava no ar. Sorri de canto, voltando para o meu cantinho ao lado da pia onde minha pizza ainda descansava intocada, porém, coberta com papel toalha, observando tudo à distância.
Cassandra estava em pé em um banquinho em frente ao bolo de aniversário enquanto os outros permaneciam cantando alegremente. Ela assoprou as velinhas, fechando os olhos para fazer seu pedido de aniversário.
— E para quem vai o primeiro pedaço? – Ashleigh sorriu, pegando a espátula e parando em frente ao bolo.
— Bom... – Cass pensou por alguns segundos, sussurrando no ouvido da loira a resposta, que assentiu e cortou um pedaço grande, dividindo-o posteriormente em dois pedaços. – Eu não sabia para quem entregar primeiro, então o primeiro pedaço é do papai e da .
Eu deixei o pedaço da pizza no ar em direção à minha boca com a mudança repentina do foco da atenção do cômodo. Eu tossi, deixando meu prato de lado e lavando minha mão antes de fazer meu caminho em direção à Cassie e . Sorri em sua direção, pegando o prato na mão de Ashleigh.
— Vamos tirar uma foto!
Dom gritou, me fazendo fuzilá-lo com a minha melhor imitação de olhar irritado. O que deve ter sido péssimo, visto que ele começou a rir logo em seguida. Parei ao lado de Cassie, sentindo seu braço enrolar em minha cintura. Encarei a câmera, rindo com a gracinha de Griffin no outro lado do ambiente.
— Ei, . – me chamou e eu me virei em sua direção e quase no mesmo momento um cupcake com o topo lotado de chantilly veio voando em direção à minha cara. O que não foi o suficiente, porque ainda o esfregou em meu rosto. – Para não perder o costume.
— Seu... – eu ri, incrédula demais para qualquer reação que fosse diferente à essa enquanto tirava o chantilly do meu olho. – Babaca! Isso vai ter volta. – apontei em sua direção, sendo bombardeada pela risada sincera de Cass e .
— Ficarei ansioso. – passou seu mindinho em minha bochecha, lambendo o dedo em seguida.
As risadas acabaram logo quando os outros pedaços de bolo foram distribuídos entre os amiguinhos de Cassie e os meninos da banda. Aproveitei o momento de distração dos demais e me permiti sair de perto para ir até o banheiro, encostando a porta o suficiente para que eu conseguisse lavar meu rosto sem que alguma das crianças acabassem invadindo o cômodo. Abri a torneira e comecei a passar a água em meu rosto com a ajuda do sabonete líquido. Escutei um conjunto de batidas na porta e me levantei, secando o rosto com uma das toalhas delicadamente dobradas dentro do armário abaixo da enorme pia de granito.
— Já estou saindo. – levantei minha voz o suficiente para que eu conseguisse ser escutada dentro daquele banheiro imenso e não tardou para que a cabeça flutuante de Niki se pendurasse na fresta aberta da porta com a mão cobrindo os olhos.
— Você está sem roupas?
— Não, eu só vim limpar a bagunça que o seu melhor amigo fez. – disse, jogando a toalha no cesto de roupas antes de deixar o banheiro com Dom ao meu lado. – O que quer?
— Um gig, gatinha. – Dominique pegou uma de minhas mãos, girando-me no corredor. – Quero que continue com as músicas com a gente, eu tenho um repertório grande.
— Você vai me pagar?
— Com todo o café que você puder tomar sem começar a tremer que nem da última vez, oh, rainha. – ele prestou uma reverência, me fazendo rolar os olhos.
— Me convenceu. – dei de ombros.
— Ótimo, adoro quando você se vende por pouco.
O respondi com o dedo do meio em riste antes de me dirigir até o set improvisado em frente ao sofá, parando em frente ao tripé extra com microfone onde Dom estava momentos antes. Me virei em direção para Griffin, que se arrumava no banco da bateria.
— O que vamos tocar?
— Não sei, achei que você soubesse do que a Cassie gosta.
— Ela gosta daquela garota, Billie alguma coisa. – pontuou. – estava cantando para ela no dia que eu descobri que ela era mais que um rostinho bonito.
— Ela também gosta de One Direction.
— Eu não vou tocar One Direction, . – ralhou, como se eu tivesse acabado de invocar o próprio satanás na sua sala.
— Eu sei tocar Rock Me, What Makes You Beautiful e algumas outras. – Griffin soltou casualmente, sendo o bombardeado com um olhar fuzilante de . – O que foi, cara? Vai dizer que você nunca se pegou cantando um “você ilumina meu mundo como ninguém mais consegue”?
— Tenho orgulho de dizer que eu nunca escutei isso na minha vida. – sorriu orgulhosamente.
— Mentiroso. – Thomas se pronunciou. – Você estava escutando Night Changes semana passada, eu te sigo no Spotify.
— Prefiro quando você assume o papel de caladão do grupo, você fica bem mais legal. – murmurou, arrumando a guitarra na correia. – Ok, mas a Cassie gosta de Happily.
— E de Perfect. – pontuei. – Mas acho que não dá para fazer muita coisa com elas.
— E se a gente fosse com Happily e Drag me Down? – Griffin sugeriu. – Acho que dá para fazer.
— Eu sei as duas. – dei de ombros. – E por vocês?
— Pelo amor de Deus, eu sou o maior fã de Larry que já pisou nessa casa, acima de mim, somente freddieismyqueen. – Dom sorriu, plugando o cabo na guitarra. – Estamos decididos então?
— Yep. – Thomas assentiu, esperando os outros.
Cassandra Alicia , se dirija até a sala de estar, seus tios e tem uma surpresa para o seu aniversário. – eu disse na minha melhor imitação da voz da mulher do Google. – Repito, Cassandra Alicia , você está sendo convocada.
As vozes das crianças junto de Cassie invadiram a sala, gritando, enquanto se sentavam na frente do set improvisado no centro dela. Seus olhos brilhavam e o canto de sua boca ainda estava sujo devido ao chocolate do bolo, mas o sorriso em seu rosto era tão fofo que me fazia querer protegê-la de qualquer mal que pudesse vir a acontecer com ela.
Griffin começou sua contagem e não demorou para que o pocket show começasse e uma plateia de crianças tirassem risadas de mim e , que, por sinal, parecia estar se divertindo mais do que qualquer um naquela sala. O mesmo cara que havia dito que não escutava One Direction.
Eu não me importo com o que as pessoas dizem quando estamos juntos. ¬– sorriu em minha direção, cantando em dueto comigo. – Você sabe que eu quero ser a pessoa que te abraça enquanto você dorme.
Eu só quero que seja você e eu para sempre, eu sei que você quer partir então fique comigo, eu e você totalmente felizes.
Terminamos a música e se dirigiu até Cassie, tirando uma flor de origami de seu bolso traseiro antes de se ajoelhar e entregar para a garotinha, que pegou a flor e pulou nos braços do pai em um abraço apertado. Eu ri fraco, deixando o espaço ao lado do microfone e escapulir para a cozinha mais uma vez.
Parei diante das caixas de pizza, agradecendo mentalmente ao ver que ainda haviam sobrado pedaços o suficiente da minha favorita. A coloquei em um dos pratinhos descartáveis, levando-a junto comigo para o lado de fora da casa. Me sentei em uma das cadeiras de sol, colocando o pratinho em meu colo para saborear a pizza.
— Você se importa se eu me juntar? – escutei a voz de Tommy vindo de algum ponto próximo a mim. Ele trazia um cigarro de maconha entre os dedos.
— Senta aí.
— Valeu. - assim ele o fez, acendendo o baseado antes de dar uma longa tragada. – Vai ser muito babaca da minha parte admitir que eu não coloquei nenhuma fé em você nos ajudando?
— Vai, mas eu concordo. – soltei uma risadinha. – Eu também não esperava muito de mim nesse aspecto, fico feliz de não ter sido a única.
— Mas é doido que você me surpreendeu nisso. – ele apontou, soltando a fumaça para cima, tomando o cuidado para que ela não fosse diretamente em meu rosto. – É legal ter a sua companhia ajudando a gente, fico feliz que o finalmente tenha parado de ser um cuzão.
— Você não deveria falar assim do seu colega de banda. – dei mais uma mordida na fatia. – Ele te ajuda a pagar as contas.
— Oh, xingar ele de cuzão? – Thomas riu. – Não, eu já disse isso para ele algumas vezes, deixou de ser novidade. Não tem falsos nessa mesa. – ele levantou ambas as mãos em rendição.
— Eu fico grata, odiaria ficar no meio de um conflito. – brinquei. – Mas e quanto às suas composições? Você nunca me falou sobre elas. E eu normalmente ajudo na dos outros rapazes também.
— Nunca pensei em pedir ajuda. – ele riu. – Convenhamos, depois do , eu acho que sou o que você tem menos intimidade.
— Você tem um ponto nessa. – dei de ombros. – Mas não significa que você não pode pedir, eu sou só uma ajudante.
— Por enquanto, em alguns meses você vai fazer um sucesso estrondoso e vai deixar de ser nossa roadie. E aí eu nunca mais vou poder sorrir de novo. – dramatizou.
— Vai se foder. – eu mandei o dedo do meio em sua direção, rolando os olhos. – Se isso acontecer, eu faço questão de ter um grupo nas DM’s só para encher o saco de vocês.
— É melhor que sim. – ele sorriu, balançando a cabeça. – Mas eu tenho uma ideia para você, é algo mais meu do que da Rowdy, mas se você quiser me ajudar nessa, está convidada.
— Me manda os detalhes?
— Eu estou invadido suas DM’s agorinha mesmo. – Tommy sorriu, mexendo em algo em seu celular e logo em seguida meu celular vibrou com a notificação de uma solicitação de mensagens no meu Instagram. – E eu acho um absurdo você não me seguir no Instagram.
— Não sigo nenhum de vocês, se isso te faz sentir melhor. – abri o aplicativo, retribuindo o follow do homem ao meu lado.
— Sua cretina. – ele pegou uma bolinha de papel do bolso de sua calça, jogando-a em minha cabeça tão rápido que eu ao menos tive tempo de desviar.
— Maior do que eu, só cinco de você. – eu rebati, dando uma risadinha quando ele ameaçou jogar uma outra bolinha de procedência duvidosa em minha direção. Tommy era uma pessoa divertida, apesar de quieto na maior parte do tempo.
— Eu vou começar a achar que isso é pessoal.
— Sonhou bastante. – eu ri, tirando a carteira de cigarros de meu bolso. – Me empresta o isqueiro?
— Claro. – ele jogou o quadradinho de metal em meu colo enquanto eu colocava o prato descartável vazio ao lado do meu pé. Agradeci com o maneio de cabeça, acendendo o cigarro em meus lábios para devolver o isqueiro em seguida.
— Valeu.
— Sem problemas. – ele sorriu de canto, deixando guardado o objeto no bolso de sua calça. – Vou voltar para dentro, estou nessa de não fumar perto do depois de tudo o que rolou na balada.
— Eu agradeço. – sorri de canto. – Acho que, por dentro, ele agradece também.
— Espero a sua resposta.
E assim ele retornou para dentro, me permitindo entrar no aplicativo de mensagens e ler a foto da letra que ele havia enviado. Era algo muito longe do que a Rowdy fazia. Longe até mesmo do que eu esperava de Tommy, se eu fosse ser sincera. Fiquei ali por longos minutos, somente pensando na letra enquanto meu cigarro se esvaía aos poucos. Me levantei da cadeira, pegando o pratinho descartável para jogá-lo no lixo durante o caminho para o lado de dentro da mansão de antes de voltar para o interior dela.
Foram longas horas rindo e brincando com uma sala de fundamental antes dos pais de cada um dos colegas de classe de Cass finalmente virem buscá-los, sobrando somente um grupo de adultos potencialmente exaustos. Minhas pernas descansavam em cima das pernas de Griffin enquanto ele improvisava uma bateria com canetas esferográficas.
— Quer ir para casa? – ele me chamou.
— Você me deixa em casa ou eu vou para a sua?
— Não faz muita diferença, não é como se você não tivesse roupas sobrando lá.
— E vocês tem coragem de reclamar quando eu achava que vocês estavam se pegando. – se pronunciou, nos fazendo virar em sua direção.
— Eu estou com a Sabrina, cara. – Griff disse, como se não fosse óbvio. – Na conjuntura atual, é mais fácil você e estarem se pegando que qualquer outra coisa.
— Ela amaria que isso acontecesse. – alfinetou, olhando em minha direção. – Certo, ?
— Eu gostaria que fosse a namorada do papai. – Cassie comentou, me fazendo relembrar o acontecimento na noite de comemoração à sobriedade de .
— Sim. – concordei, me esforçando para manter a neutralidade. – Quase tanto quanto colocar um ombro deslocado no lugar e fazer um transplante de órgãos sem anestesia. – rolei os olhos. – Vou pegar mais um pedaço de pizza e nós podemos ir, tá?
— Claro.
Meu irmão deu de ombros, apenas se jogando no sofá novamente quando eu me levantei. Puxei a bolsa ao meu lado, desenhando meu caminho em direção à cozinha e parando próxima a alguns cupcakes que haviam sobrado. Peguei um deles, puxando uma quantidade extra de chantilly de alguns outros antes de colocá-lo escondido entre as caixas de pizza quando escutei passos vindo em direção à cozinha. Me virei no exato momento em que parou em minha frente.
— Pegou pesado no transplante de órgãos sem anestesia, estrelinha.
— Algum dia você vai superar esse apelido ridículo?
— Talvez. – ele deu de ombros, dando dois passos em minha direção. – Você não está brava por hoje mais cedo, está?
— Brava pelo chantilly na minha cara?
— É.
— Não, está tudo bem. – eu dei de ombros. – Não é como se eu tivesse passado horas me arrumando, de qualquer forma.
— Claro. – ele me encarou, levando sua mão em direção a um cacho solitário que estava em meu rosto.
o pegou entre seus dedos, delicadamente colocando-o entre alguns outros e impedindo que ele voltasse a cair próximo de meus olhos. Ele me encarava com curiosidade, arqueando uma das sobrancelhas antes de abaixar sua mão e repousá-la em minha bochecha, acariciando o local antes de colocar seu braço livre ao lado de meu corpo. Eu engoli em seco, incapaz de sequer mudar a minha atenção de .
— Você realmente não tem ideia do quanto a ideia de te beijar vem passando na minha cabeça desde aquele dia. – ele ao menos precisava dar detalhes, eu sabia perfeitamente de qual ocasião ele se referia. Principalmente quando eu também me pegava pensando vez ou outra no que não havia acontecido.
— Eu já te disse... – mexi minha mão o suficiente para pegar o cupcake em minhas costas.
— Isso não me impede de continuar pensando. – passou a língua nos próprios lábios. – Não me importo com o seu mantra, no momento eu só estou pensando no que nós não resolvemos.
...
— Não diga que você não esteve pensando nisso também.
— E faria diferença? – eu ri. – Sou uma roadie e você um astro do rock, estamos em mundos diferentes.
— Não por muito tempo. – ele murmurou. – Um beijo, , é só isso.
— Apenas isso?
— E nada mais.
— Tudo bem.
Eu o encarei, esperando que ele se pronunciasse sobre isso. Ele parou por algum tempo, procurando algum sinal de hesitação e, quando não encontrou, apenas levou a mão livre em direção à minha cintura e me puxou contra seu corpo. Eu engoli em seco, esperando que ele se aproximasse. Os segundos seguintes se passaram rápido demais para que conseguisse processar. Em um momento ele estava próximo e no seguinte, eu estava esfregando o cupcake cheio de chantilly em seu rosto.
— Você tinha que estragar o clima, não é? – ele fechou os olhos, sorrindo com frustração enquanto limpava a cobertura azul dos olhos. – , eu te odeio. – ele soltou uma risadinha.
— Te disse que teria volta.
— Você é má. – ele balançou a cabeça negativamente. – Eu gosto.
— Está bem óbvio. – eu joguei meus cabelos para trás, deixando o cupcake sem cobertura no balcão. – Tchau, . – murmurei, ficando na ponta dos pés para depositar um beijo cuidadoso em sua bochecha, sujando a ponta de meu nariz. – Nos vemos qualquer dia. – passei ao lado de e senti seus dedos encostarem nos meus, impedindo-me de continuar meu caminho.
— Obrigado. – ele me encarou, acariciando o topo de minha mão com o polegar. – Até mesmo por essa merda na minha cara.
— Sempre que precisar.
Balancei minha cabeça, batendo continência antes de me desvencilhar de duas mãos e voltar a fazer o meu caminho em direção à sala, onde Griffin já me esperava com as chaves em mãos. Me despedi dos outros meninos e de Cassie, a abraçando com força antes de finalmente entrarmos no carro voltarmos para casa.



Continua...



Nota do autor: OI, OI, OI!!!!
Cá estamos novamente e temos um pouco da minha interação preferida: Cassie, a pp e a banda.
Acima de muitos, ninguém acima deles.
No mais, eu espero que vocês não queiram me matar pelo bait no fim do capitulo dosjfoidsfodifjs foi necessário, pois a nossa menina é vingativahhhhh.
Espero que vocês tenham gostado e até logo.
Entrem no grupinho também, temos surtos, cantoria e spoilers rsrsrsrsrs
Até a próxima, pessoal!!

Caixinha de comentários: A caixinha de comentários pode não estar aparecendo para vocês, pois o Disqus está instável ultimamente. Caso queira deixar um comentário, é só clicar AQUI



Outras Fanfics:
The Heir | Longfic - Em andamento
A Song About You | Longfic - Em andamento
Under The California Sun | Shortfic
03. Centuries | Ficstape #031 - Fall Out Boy - American Beauty/American Psycho


Nota da beta: Que capítulo INCRÍVEL! Meu Deus! Eu amei essa festa, amo a cumplicidade dela com a Cassie, com os caras da banda, e principalmente com o ! É incrível como eles tem uma química que nem percebem hahahah Já tô ansiosa por esse beijo aí voinvposmcpoadsoi cadê o próximo no meu e-mail? <3

Qualquer erro nessa atualização ou reclamações somente no e-mail.


comments powered by Disqus