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Se eu podia acordar em um lugar diferente em uma hora diferente, será que eu podia acordar como uma pessoa diferente? — Clube da Luta


Parte III — The Catcher In the Rye





There's so much more that I wanted, and there's so much more that I needed, and time keeps moving on and on and on… Soon we'll all be gone.

Eram sete da noite quando Marla entrou no quarto de . Tinha sido levado para o hospital por volta das duas e meia, passou por uma cirurgia às pressas assim que chegou, e tinha acordado da anestesia poucos minutos antes de Marla ligar para ele, pedindo por amparo. Julie tinha soltado-a. Não disse à delegada nada em relação a .
Ele já estava incomodado o suficiente com uma pessoa sabendo o que aconteceu.
Aquilo o feria de todos os jeitos possíveis.
Apenas imaginar o estado de já lhe dava pena. E pena era um dos sentimentos que o oficial mais abominava no mundo.
Marla estava sentada em uma fileira de bancos, no corredor. Olhando para o chão, a testa apoiada nas mãos. Uma enfermeira saiu do quarto de , e foi até a detetive.
– Está esperando para entrar no quarto do senhor ? – era expressiva como um azulejo.
Marla levantou a cabeça como se tivesse sido acordada de surpresa durante uma soneca.
– Sim, sim, sim – seus olhos ainda resistiam para se manter abertos.
A enfermeira indicou a porta. Não disse nada. Marla se levantou e entrou no quarto lentamente.
Da porta, viu o corpo de deitado, o rosto quase todo envolvido por faixas de ataduras. Apenas sua face direita estava descoberta. O olho direito estava semi-aberto.
Parecia cansado. O rosto estava relaxado, exausto. Desistindo, como se tudo no mundo já não valesse mais a pena.
Quando se aproximou o suficiente, Marla pôde ler algo em sua testa. Estava cortado formando uma palavra perfeita.
– Quem fez isso com você, ?
Ela tinha o terror em sua voz.
Ele pigarreou.
– Não podemos matá-la. Não podemos arriscar nada... Não podemos colocar em qualquer risco. Não podemos avisar a ... Não há nada que possamos fazer.
– O que aconteceu?
Ele fechou os olhos.
"Traidor".
Era o que estava sinalizado em sua testa, em uma caligrafia totalmente compreensível.
Um aviso.
A voz de saiu fraca, como um confissão, quando ele murmurou:
– Eu tenho medo de Ramona como jamais temi algo em toda minha vida.
Marla sentou-se ao pé da cama.
– Não podemos avisar à ? Temos que pará-la. Se a teoria de estiver certa...
– Não podemos – disse, com tamanha força que ele parecia estar realmente cansado – Se dissermos qualquer coisa, Ramona pode nos matar. Eu sei por que ela fez aquilo.
– Por que você acha?
Ele engoliu em seco.
– Ramona não queria me matar. Ela preferiu me deixar viver na minha própria desgraça. Ela percebeu o valor das coisas para mim... E, quando eu pisei fora da linha, ela usou isso contra mim. Não podemos pará-la.
pode.
– Não se Ramona conseguir pará-la antes.

Não havia uma única luz acesa na casa. Não havia um som sequer.
começou a se perguntar onde estariam e , mas sabia que aquela não era a maior questão do momento.
Claro, o mais importante seria ouvir o que Ramona tinha a dizer.
Sentiu como se estivesse no mar, à deriva, naquele instante. Naufragara de um navio vazio, de tripulantes fugitivos ou afugentados.
Assistindo aos outros no mar, observando outros navios, até lhe tirarem de seu próprio.
Ajuste as velas.
Mulher ao mar.
Só tinha uma mesa na cozinha. Ramona se sentou de um lado, com os dedos de uma mão entrelaçados com os da outra, e o rosto calmo. Não sorria e não estava séria. Parecia uma enfermeira ao atender um paciente terminal.
Os olhos evitavam o olhar de . Estava estranhamente ansiosa.
– Você quer perguntar... ou só quer que eu fale?
preferiu ficar de pé. Deu de ombros.
– O que quer que eu saiba mais detalhes.
Ramona suspirou, colocou as mãos no rosto e ficou em silêncio. aguardou pacientemente a reação da loira. Teve a sensação de que ela estava planejando cada fonema que sairia de sua boca.
Por fim, Ramona arranhou a própria cabeça com as unhas, levando todo o cabelo para trás. Nesse momento, um filete de sangue escorreu novamente pelo seu nariz. temeu que teria ferido Ramona forte demais.
– O que eu disser aqui... – começou, a voz baixa e rouca – É um segredo de estado. Sigiloso demais. É segredo profissional.
– Profissional?
... – olhou para a detetive, tentando manter o olhar nela – Você já deve ter se perguntado por que você nunca me vê trabalhando. Já deve ter se perguntado por que eu estou tanto tempo com você. Deve se perguntar isso a cada dia.
– Na verdade, me pergunto a cada hora.
Ramona riu.
... Quando eu digo que não somos nem um pouco diferentes, estou falando sério.
– O quê? – franziu o cenho – Ramona, seja direta.
– Argh! – a loira gritou, como se algo crescesse dentro dela, e quisesse sair, mas ela estivesse tentando evitar – , eu também sou detetive. Mas sou detetive particular. Sou paga para investigar pessoas, e dar aos meus empregadores dados e informações sobre essa pessoa.
– Detetive?
– Observo quem querem que eu observe. E, ultimamente, andei trabalhando bastante.
– Isso quer dizer que...
Você é o meu trabalho, .
chegou o corpo para trás, cruzando os braços. Não queria dizer nada, até porque não era necessário. Ramona era a que deveria falar.
– Eu fui paga, há muito tempo, para te observar, e registrar cada coisa sobre você que eu pudesse registrar. Descobri muitas coisas. E recebi um valor extra para ser ameaçadora, para te manter com medo de mim. Além disso...
– Ramona! – gritou, para fazê-la se calar. Julgou que não estava recebendo as respostas certas – Quem é o seu empregador?
Ramona suspirou.
– Um empregador meu está morto, e o outro, preso. Jacqueline e James Durden me pagaram assim que Samantha Fox foi assassinada, pois sabiam que estavam procurando furos para fazer você voltar à delegacia. Eles queriam que eu os ajudasse.
– Ajudasse em quê?
Ramona inclinou o corpo bem para frente, deitando-o em cima da mesa. apoiou os cotovelos do outro lado, também se inclinando para frente.
– Eles queriam que eu exterminasse a família .
A detetive não soube como reagir.
– Como assim? – foi o que conseguiu dizer.
Então, ela começou a contar.

Eu estive passando por péssimas situações financeiras. Minha família morreu quando eu era jovem, e meu sobrenome nunca carregou uma boa reputação. Pouco depois de sair da faculdade, já precisava desesperadamente de alguma grana. Eu me tornei detetive particular, e frequentava lugares barra pesada, procurando pessoas para me procurar.
Foi em um bar de esquina que James Durden me achou. Conversamos uma noite: ele bebia como uma esponja, e me falou sobre o irmão dele, assassinado recentemente. Entreguei a ele meu cartão, vendo uma oportunidade crescendo ali.
Quando você foi presa, comecei a receber telefonemas de Jacqueline, que tinha me conhecido por meio do irmão. Eu sabia quem ela era, e logo pesquisei tudo que podia e não podia sobre o caso Durden. Ela dizia que queria informações suas de dentro do Manson. Eu sempre me gabei dos meus infiltrados, e tive sucesso. Durante três meses, ela me obrigou a supervisionar você à distância.
Eu estava servindo remédios.
Estava na enfermaria.
Estava em todo lugar.
Quando você saiu, Jacqueline surtou. Ela a queria como um objeto. James também me contatou nessa época, e jurou uma quantia absurda para eu continuar indo atrás de você. Como ser detetive particular hoje em dia é pedir para passar fome, aceitei. De início, eram apenas informações, o que eu não hesitava em fornecer. Cheguei até a ir na festa de Halloween da sua delegacia... Mas quando uma pessoa morreu, vi que as coisas estavam ficando arriscadas demais. Relutei continuar meu trabalho. Enquanto James continuava enfiando dinheiro, eu me enfiava mais na sua vida.
Ele me pagou cinco mil dólares para colocar fogo na sua casa.
Não me entenda mal. Eu sabia que não havia maneira de você ou seus amigos se ferirem. Antes sequer de começar o fogo, eu já estava preparada para ligar para os bombeiros. A única parte de sua casa que ficou realmente sem chances de recuperação foi o escritório, onde James disse que era o lugar onde ficava a maioria das suas memórias sobre sua infância.
Ele me forneceu fotos de você no hotel, e eu entrei no seu quarto para colocá-las na parede, com uma letra ameaçadora de uma bela música.
James aumentava cada vez mais meu salário, à medida com que eu deveria me tornar mais ameaçadora para você.
E eu sabia de tudo. Cheguei até sua casa, conheci seu ex-noivo e seu melhor amigo. Não consegui me aproximar de sua amiga, mas você mesma a desconsidera. E estou em sua vida, desde então, te ajudando.
E pouco a pouco, consegui entrar em seus sonhos, como o lado escuro da lua.

– Por que eu sou tão importante para você? – perguntou, com o cenho franzido. Não conseguia compreender o motivo de ela ser o objeto de pesquisa de Ramona e dos Durden. De um jeito estranho, eles se preocupavam mais com ela do que sua própria mãe.
Ramona comprimiu os lábios e levantou o corpo para dar um tapa no rosto de .
– Pare com isso. Eu só tenho um instinto fraternal sobre você. Sinto que preciso te proteger.
– Eu não preciso de ninguém para me proteger – retrucou, dando um tapa no rosto de Ramona. A loira murmurou um ‘ouch’, massageando a bochecha, mas acreditou que aquilo fosse justo.
– Acho que precisa sim – devolveu Ramona, movendo o maxilar.
– Você fornecia que tipo de informação aos Durden?
– Nada demais. Eles te conheciam bem. Simplesmente queriam saber onde você andava e o que você andava fazendo. Queriam armar sua vingança. Eu lhes dei um mapa, e eles se aproveitavam disso. Você compreende mais do que ninguém as coisas que fazemos pelo trabalho, não compreende, ?
franziu o cenho.
– Posso te chamar de , não posso? – perguntou Ramona, erguendo as sobrancelhas, sabendo que estava andando em um campo minado.
– Pode sim. Pode, pode me chamar de .
– Então... Tem algo que eu possa fazer por você?
puxou o cabelo para trás e bateu com a testa na mesa.
– Ligue para uma loja de espelhos. Quero espelhos. Muitos. E acho bom você estar em forma – respondeu, com a cabeça abaixada.
– Para quê?
Ergueu a cabeça, com as sobrancelhas erguidas.
– Depois disso tudo, vou fazer você arrastar alguns móveis.

e tinham um combinado semanal de quem deveria buscar a comida. Quando tinham paciência, decidiam essa e outras questões relevantes com jogos de cartas. Quando não tinham, o que era quase sempre, jogavam um simples par ou ímpar. Mas sempre ganhava, porque ele sempre escolhia ímpar primeiro, e ‘magicamente’, sempre dava ímpar. Ele costumava insistir em sua tese de ‘no par ou ímpar, apesar de, matematicamente, as chances de ganhar serem de 50%, elas podem aumentar quando você escolhe o ímpar e sabe jogar’. Insistia também que escreveria uma tese de quinze páginas sobre ‘a ciência do par ou ímpar’ e ganharia o Nobel por isso.
Quando ele começava a explicar sua matemática teórica errada sobre o assunto, simplesmente saía de casa e dava graças a Deus por ser de ciências biológicas. Se não fosse, ele iria morrer de fome.
desceu do prédio e foi até o restaurante chinês mais próximo. Chegando lá, a televisão reprisava os trechos mais relevantes da entrevista com . Era um lugar pequeno, vazio e precário, mas servia a melhor comida chinesa do bairro. Escolheu com um atendente a comida, e logo foi para o caixa. Estava com tanta fome que comeria o plástico da embalagem.
Quando a imagem de apareceu na tela, ele não conseguiu desviar o olhar perdido a ela. Estava no caixa, e mal lembrava-se sequer de que não estava em casa.
Mulher ao mar... e eu tenho o salva-vidas.
– Bonita, mas não deve valer nada – falou o caixa.
suspirou, abaixando a cabeça e pegando o dinheiro para pagar.
– Vale sim. Só não sabe disso – e completou, falando mais baixo: – Prova para todos que não precisa provar nada a ninguém.
– Essa entrevista ficou boa – comentou ainda o atendente, entregando-lhe a sacola com os potes de comida – Fizeram boas perguntas a ela. A garota ficou presa várias vezes.
Eu sei como o jornalismo é maldito o suficiente para manipular uma simples entrevista.
Eu percebi isso.

– Acho que sim. Obrigado – ele cortou, pegando a sacola. Não queria ficar muito mais tempo vendo a imagem de na tela de TV.
O quão vazio será um homem completo?
Na saída, cruzou com uma jovem, na porta. Tinha longos cabelos dourados, trançados, e o topo da cabeça escondido por um gorro. A pele era clara, e seu nariz era fino. Os olhos, de um verde incrível. Ela empurrou o ombro de ao passar por ele. Antes que chegasse à porta, ouviu o som de algo caindo de uma prateleira. Virou-se para trás, e soube exatamente quem era a jovem.
A menina que o atacou na rua, agora tinha uma pistola apontada para o pobre chinês do outro lado do caixa. Estava com a arma calmamente direcionada ao homem, perto de suas costelas, escondida, para não haver pânico.
Não havia ninguém no restaurante além de , o caixa, ela e alguns atendentes.
– Me dê tudo que eu puder carregar comigo – ela murmurou entre dentes – E não terá nenhum motivo para eu atirar.
apertou os olhos. Abriu a porta, e deixou-a fechar sozinha.
– É uma menina, é só uma menina! – gritou o atendente, do outro lado do restaurante. Procurava acalmar o caixa. Zoe apontou a arma para ele, e murmurou:
– Isso não valeu para você. Não quero ter que fazer você calar a boca.
– Por favor! Não temos muito dinheiro! Por favor! – dizia o pobre caixa, choramingando.
Havia um motivo para ela não estar usando arma naquele dia. Na rua, com .
– Não quero dinheiro, quero comida.
Ela tinha uma mão trêmula.
retornou. Silencioso, com calma. O caixa estava colocando comidas prontas de potes lentamente na sacola. Zoe estava de costas para .
– Rápido, Mushu, mais rápido! – disse ela – Esvazie essa prateleira antes que eu esvazie a sua cabeça!
Devagar, colocou o indicador na frente de seus próprios lábios.
– Porra, qual é o seu problema...? – gritou a menina, assim que bateu forte com a lateral de sua mão na nuca dela. Ela não gritou. Suas pernas cederam, mas a arma não foi solta de sua mão. pegou a arma com rapidez e jogou-a no chão, para debaixo de uma prateleira, enquanto imobilizava a menina com a outra mão. Virou Zoe para o outro lado e jogou o corpo dela contra o chão, colocando o rosto dela contra o ladrilho.
A menina rapidamente recobrou sua consciência. O rosto doía. Mas o máximo que ela parecia sentir eram cócegas. Ria como se tivesse acabado de ouvir a melhor piada de humor negro de sua vida.
– Quantas vezes já foi presa? – perguntou , abaixando o rosto até a orelha dela.
Zoe direcionou suas íris verdes para o canto esquerdo, com as sobrancelhas e os cantos dos lábios estranhamente erguidos. Lembrava um palhaço.
– Algumas. O suficiente para esperar que não aconteça de novo.
Seu tom era calmo, solene. Quase como se já planejasse aquilo.
Como se desejasse.
As sirenes de polícia começaram a soar do lado de fora.
– Oh, porcaria! – ela fez uma voz infantil – Acho que os guardiões da justiça chegaram – e fez, três vezes, o som de sirenes, rindo em seguida.
– Acho que não foram o suficiente.
– Acredite. Foram.
Eu sei exatamente o que estou fazendo.
– Que vergonha estar de quatro quando seus colegas de trabalho chegarem – ela comentou, como se desaprovasse a blusa que estava usando.
Levantou Zoe e os dois ficaram de pé.
– Mãos ao alto! Mãos ao alto! – gritou um policial, entrando no restaurante com uma arma em punho. Quando percebeu que a situação estava sob controle, acalmou-se e foi até Zoe. estava rendendo-a sem dificuldades.
– Vocês me expulsam do mundo de vocês e não percebem que estão se prendendo no meu – ela disse, com um sorriso.
O policial puxou-a de . Pegou as algemas e prendeu-a. Teve a impressão de que Zoe, inclusive, mexia com seus dedos em formato de onda, como se quisesse logo ser algemada.
– Bom trabalho, cara – disse o policial, para .
Com a última frase de Zoe, teve a impressão que tinha feito a pior coisa que poderia, nas últimas semanas.
Ela sabe exatamente o que está fazendo.

– É um sofá! – Ramona reclamou – Não consigo arrastar sozinha, muito menos com você em cima dele!
estava deitada no sofá, comendo uma maçã e segurando um livro com a outra mão. O sofá não saía do lugar, por mais que Ramona estivesse usando toda sua força para movê-lo.
– Caguei para você. Dê seu jeito. Você não é uma gênia? Mova com o poder da mente – disse, dando de ombros e mordendo a maçã.
– Sou inteligente, não sou da porra dos X-Men. Saia daí, sua preguiçosa!
levantou-se sem parar de ler. Engraçado como ela estava lendo e relendo apenas o título do livro.
‘Os métodos de investigação modernos’.
Deixou o livro na bancada e continuou a comer sua maçã. Ramona continuava fazendo força para arrastar o sofá, como se quisesse mover uma montanha.
– Uma ajudinha, ? Não, não é necessário, obrigada. Estou muito bem sozinha!
– Você ainda vai me ajudar com os espelhos. Não se atreva a começar a suar.
Ramona usava uma camiseta cinza, e seus cabelos loiros estavam presos com uma trança. Ela começava a suar, quando viu algo em suas costas.
Em sua pele, havia um desenho, com plástico em cima, uma tatuagem recém-feita.
– O que é isso? Nas suas costas – apontou, mordendo a maçã.
Ramona olhou para as costas, e lembrou-se da tatuagem.
– Ah, é só um projeto. Vai ficar pronta em mais uma ou duas sessões. Quero que você veja quando estiver pronto. Mas, voltando a esse sofá recheado de chumbo, não é melhor arrumar isso com os arrumadores dos espelhos?
– Pode ser – ela deu de ombros novamente.
Ramona fez uma careta.
– Eu quero te matar por ter quase me matado para arrastar essa droga de sofá.
– Holmes ou Poirot?
A loira franziu o cenho, ainda ofegante.
– O quê?
– Holmes ou Poirot? Você sabe – mordeu mais uma vez a maçã, olhando para o vazio e apoiada na parede – Conan Doyle ou Agatha Christie.
Ramona balbuciou algumas palavras, mas não conseguiu achar uma resposta.
– Está perguntando quem eu prefiro? Ou quem é melhor?
– Só escolha.
– Mas se for para escolher o melhor, eu...
– Ramona, só escolhe de uma vez! – reclamou, com o cenho franzido.
– Ok, ok! Holmes – fez uma pausa e cruzou os braços, se apoiando na parede do outro lado da de , ficando na exata posição dela – E você?
olhou para cima, pensando.
– Acho que Poirot. Odeio os métodos do Sherlock. Ele é meio sobre-humano, sabe? Não existe detetive daquele jeito. Tão... observativo.
– Não deve existir mesmo.
estava ocupada demais, pensando, para perceber a ironia.
– Falando sério, . Você sabe definir uma personalidade pelos olhos da pessoa.
O telefone começou a tocar no segundo andar. fez uma careta de cansaço.
– Não sei se quero atender. Esse é meu telefone público. Se ligam para ele, ou é de cartão de crédito, ou problema.
– Você não deve atender, então?
murmurou um ‘argh’ e foi até as escadas, subindo de dois degraus em dois degraus. Lá de cima, prosseguiu:
– Posso dizer sua personalidade pelo seu esmalte.
Piscou um olho para Ramona e atendeu o telefone sem fio no aparador do corredor.
– disse.
– Acho que a graça do Sherlock é ele ser meio sobre-humano – Ramona comentou, quase falando sozinha – Ele ser todo frio, estúpido e brilhante. É a graça dele, sabe? Mas se você estiver perguntando qual eu prefiro, entre os Sherlocks, claro que o britânico. Ele é feio, mas o outro foi o Homem de Ferro. Perde pontos comigo.
– Shh – murmurou . A conversa parecia realmente importante – Ok, entendi. Obrigada. Já estou indo.
Desligou o telefone. Colocou-o de volta no gancho.
– Deixa eu adivinhar: conversa com a mãe?
– Seria melhor se fosse – respondeu, pegando o casaco pendurado no final da escada – Você fica aí para comprar os espelhos ou vem comigo?
Ramona também pegou um casaco, no cabideiro perto da porta.
– Ainda pergunta? Para onde vamos?
– Para o hospital. Tyler teve problemas. Pediram para contatar um familiar – explicou, abrindo a porta. Ramona empurrou novamente a madeira e fechou-a.
– Você não vai assim, vai? O pessoal deve estar te caçando como loucos. Não se exponha.
– O que quer que eu faça?
Ramona virou os olhos. Foi até o cabideiro e pegou um chapéu, de , preto e curto. Tirou do pulso direito um elástico de cabelo e entregou-o a .
– Prenda-o até que não possamos vê-lo. Tome meu casaco, e me dê o seu. E coloque um sapato que não faça barulho. Essa sua bota seria capaz de acordar a cidade inteira dormindo. E não fique muito tempo por lá.
– Estou com tanta vontade de ir... – falou, com ironia – Mas precisamos ter uma conversa séria.
colocou o chapéu. Trocou de casaco com Ramona, um preto grande e pesado, e colocou tênis que estavam perto da porta.
– Que conversa?
– Você não gostar do Homem de Ferro. Nossa amizade foi terrivelmente abalada.
Ramona deixou um pequeno sorriso começar a crescer em seu rosto.
– Somos amigas, então?
ficou de pé, depois de colocar o tênis, e abriu a porta. Percebeu que não devia ter dito aquilo. Deixou escapar. Estranho como, perto de Ramona, era difícil conseguir conter suas palavras. Era como se a loira fosse algo como uma protetora.
Pode dizer. Eu vou ouvir.
E não colocarei isso contra você.
– Acho que mais ou menos.
– Como assim?
comprimiu os lábios e saiu, falando:
– Isso já está constrangedor. Não force a barra.
– Ok, ok. E sobre o esmalte, você não era tão metida, sabia?
– Achei que tínhamos intimidade o suficiente para eu não precisar ser humilde perto de você. Tipo desde que você me salvou de um sequestro.
Ramona sorriu e fechou a porta atrás de si, depois de sair também.
– Não foi um insulto. Você pode ser tão metida quanto quiser. Você é tudo que está dizendo ser, e ninguém pode dizer o contrário.

Tyler estava sentado em sua cama. Era um cubículo, seu quarto. E o hospital, mais especificamente, a ala Gein, psiquiátrica, era estranhamente hostil.
Limpo, iluminado, muitos sorrisos.
O cenário perfeito para um teatro em chamas.
Um lugar perfeito para não apresentar cordialidade.
Tyler não era louco, muito menos os outros pacientes da ala. Mas tratavam-os como se fossem.
O que levara um tão jovem rapaz a parar num lugar daqueles? E com um futuro tão... certo?
Tyler ...
Certamente, o mundo não é nem um pouco original.
Seu quarto tinha paredes azuis bebê. A cama era de solteiro, e era o único móvel além da escrivaninha, que não tinha muitas coisas em cima. Era como o quarto de uma criança. Tyler pôde pedir algumas coisas na cozinha, que limpava sempre no banheiro, e escondia debaixo da cama. Precisava de uma pá, luvas e de uma tigela pequena.
Deram-lhe sem reclamar, apenas se perguntando o uso dos objetos.
Não aguentava mais. Eram sete dias, dia após dia, tendo que separar, procurar, lavar e, depois de uma injeção de coragem, voltar ao ponto zero.
O ponto morto.
Os médicos tinham chamado porque ela era o único telefone de contato. Tyler tinha vomitado praticamente seu próprio peso, de nojo. Mais cedo ou mais tarde, isso aconteceria.
O problema era que eles tinham achado a causa do problema, e estavam dispostos a dá-lo à irmã de Tyler.
E, definitivamente, aquilo não poderia acabar nas mãos de .
Ele estava sentado na cama, abraçando suas pernas e com o rosto escondido atrás dos joelhos.
Começou uma contagem regressiva de 10 a zero.
Quando chegou ao zero, dois enfermeiros apareceram na porta. Usavam macacões brancos, e tinham o rosto fechado, frio. Estreitamente profissional. Tyler não lutou: ficou de pé e com as mãos para trás.
– Novidades da ilha do prazer? Alguma data para eu sair daqui? – ele perguntou, sem emoção.
– Você pode sair quando quiser – respondeu um dos enfermeiros. O outro o corrigiu:
Podia. Depois disso, duvido que consiga sair tão cedo.
Gosto assim.
– É quem está aí? – Tyler perguntou, com um enfermeiro segurando-o por cada braço.
Os dois riram.
– Para sua felicidade, não. Você tinha pedido para contatar outra pessoa e, bem, teve sorte. Dois amigos de sua irmã estão no hospital. Um está incapacitado, mas a outra pode vê-lo.
– Qual o nome dela? – Tyler perguntou, franzindo o cenho, estranhado com a situação. Dependendo da amiga, poderia dar o objeto. Dependendo, talvez desse até para o amigo.
– Marla Bronx, é detetive da delegacia da sua irmã – disse o enfermeiro, levando Tyler porta afora para a sala onde poderia falar com Marla – O amigo é , se não me engano. Ele está internado.
– O que houve?
Quando fez a pergunta, os enfermeiros abriram a porta da sala. Os internos chamavam aquele lugar de "Juízo Final". Ali, normalmente, aconteciam os últimos contatos dos internos com seus conhecidos e parentes. Se tudo ocorresse bem, talvez fossem liberados ou, pelo menos, teriam sua data de saída determinada. Se não ocorresse... Era de ala Gein ao instituto Manson.
Aquele lugar, sim, era difícil de se ver fora. O Manson guardava os piores casos. Raramente um paciente era liberado de lá, e nunca voltaria. A maior parte dos pacientes do Manson já tinham conhecido a ala Gein do hospital – apelidaram a ala exatamente por causa do nome do instituto, os dois sobrenomes de dois assassinos da vida real.
Estar no Manson era ser condenado eternamente a um lugar escuro.
Abriram a porta do Juízo Final e não fizeram mais nada. Tyler ergueu as sobrancelhas e fez um bico. Andou lentamente para dentro da sala. Foi até a mesa, e exatamente quando sentou-se, a porta se fechou.
Bufou.
A outra porta foi aberta alguns segundos depois. Uma mulher de cabelos lisos, vermelhos como fogo, entrou na sala. Foi vacilante até a cadeira, e sentou-se, do outro lado da mesa, longe de Tyler.
Ele riu.
Ela está se borrando. Vai ser fácil controlar uma pessoa assim.
– Cigarro? – perguntou ele.
Marla pareceu distraída e ter tomado um susto com a pergunta.
– Não fumo.
– Estou perguntando se tem um cigarro para mim.
– Ah. Não.
Tyler suspirou e colocou a mão no bolso. Usava uma calça comprida branca, e uma camiseta também branca. Os cabelos estavam despenteados, agora parecendo um pouco mais escuros que seu loiro original. Os olhos não eram mais tão brilhantes. Agora, eram de um castanho-esverdeado opaco.
Sem esperanças.
Tirou do bolso uma carteia de cigarros e colocou um na boca.
– Tem um isqueiro? – perguntou, o cigarro pendendo entre seus lábios.
Marla pegou um isqueiro no bolso e olhou para Tyler. Ele apontou para seu próprio lado, com os olhos. Convidou-a. Piscou um olho. Marla levantou da cadeira e foi ao seu encontro, andando ao lado da mesa e acendendo o isqueiro na ponta de seu cigarro.
Tyler sugou tanto a fumaça que pareceu depender dela para sobreviver. Não soltou um único suspiro de fumaça; apenas de ar, de olhos fechados, soltando um gemido baixo, de alívio.
– Os cigarros daqui têm gosto de poeira, mas preciso da minha cota diária de nicotina. Mas diga – ele tragou de novo – O que lhe traz aqui?
teve problemas. Teve que fazer uma cirurgia.
– De emergência? – Tyler ergueu uma sobrancelha – O que o cara tem, câncer?
– Queimaduras em 40% da face.
Tyler percebeu que talvez a situação estivesse séria demais para piadas.
– 40? – perguntou.
– Teve sorte de ainda estar enxergando por um dos olhos. Aliás, ele não viu quem era. Mas deixaram um bilhete para trás.
– Bilhete?
– Escreveram "traidor" na testa dele. Cortaram, melhor dizendo, sua pele, para escrever.
Tyler sentia cada vez mais desgosto. Marla estava ao seu lado, de pé, braços cruzados, enquanto ele estava sentado em uma cadeira, sem qualquer postura. Percebendo que a conversa provavelmente seria longa, ele apontou uma cadeira no canto da sala, para ela. Marla puxou-a e sentou-se na frente dele.
– Por que acha que fizeram isso?
– Ele e tiveram problemas pessoais. Correram boatos pela delegacia dizendo ela teria se oferecido para ele. Ela foi para sua casa, isso é certo. Mas o resto é versão.
– Ele falou isso? – Tyler começou a se irritar – Vou matar esse filho da puta.
– Já quase fizeram isso por você.
– Quem foi?
Marla olhou para os lados, para as paredes.
– Não podem nos ouvir, se você falar baixo – Tyler explicou, tragando mais uma vez.
– Acho que você conhece a Ramona.
Tyler apertou tão forte o cigarro que quase precisaria jogá-lo fora. Trincou os dentes, e fechou forte os olhos.
– Eu nunca a vi – disse Marla, completando.
– Então, você não sabe?
– Lógico que sei. Provavelmente, não descobri da mesma maneira que você, mas sei. Quero dizer que nunca a vi em ação.
– Eu já suspeitava dela. A primeira vez que a vi, a reconheci. Ela me observava quando James Durden fazia gato e sapato de mim no porão do hotel.
– Não fez nada? – Marla perguntou – Para impedir.
– Não – tragou mais uma vez, soltando o ar em formas de circunferências.
disse que Ramona a ajudou a fugir. Que Ramona ajudou-a a provar sua inocência. Vai proteger a Ramona com unhas e garras.
Tyler riu.
está aqui – disse.
– Está? – Marla perguntou, parecendo interessada em ver o mais cedo possível – Onde? Você a viu?
– Ainda não – tragou de novo – Ela está aqui, isso eu sei, porque são as normas contataram algum parente diante de algum problema.
– Você teve problemas?
Tyler colocou a mão no bolso, olhando para a frente. Tirou dali uma pequena chave, de dois centímetros, talvez um pouco mais.
– Eu sou o problema – disse, com o cigarro pendendo em seus lábios, piscando um olho para Marla. Colocou a chave em cima da mesa, e arrastou-a até a mulher.
– O que isso abre? – perguntou, olhando para a chave.
– Não tenho ainda o que isso abre, só a chave. Peguei no hotel Tate. Pelo que ouvi, parecia importante para os Durden. Resolvi pegar e guardar.
– Como conseguiu guardar, todos esses dias?
Tyler apagou o cigarro na madeira da mesa.
– De início? Nos bolsos, tênis, onde dava – respondeu, sem olhar para ela, apenas para a ponta apagada de seu cigarro, vago – Depois que vim para cá, que era revisado todos os dias, tive que encontrar meios menos convencionais.
Marla afastou-se do pequeno objeto de metal na mesa.
– Você... engolia?
– Calculava a hora que ela ia sair, e saía. Limpava tudo e comia de novo, antes da próxima revista. Cheguei a engoli-la – deu de ombros, como se nada daquilo importasse mais, lembrando-se – Umas cinco vezes. Engolir era fácil. Difícil era colocá-la para fora.
– Que nojo – comentou Marla.
– Não coloca a mão na boca depois de segurar nela, linda – Tyler disse, rindo cinicamente – Essa chave já passou por lugares que você jamais colocaria a mão.
Fazendo uma careta, Marla colocou a chave no bolso.
– Vou mergulhar esse troço em álcool por um dia.
– Faz bem. No entanto, não mostre isso à .
– Por que não?
– Ramona pode ver.
A porta foi aberta. Um enfermeiro estava esperando. Tyler olhou para trás, e, depois, para Marla. Fez uma careta, e disse:
– Melhor eu ir. Não quero ser liberado.
Ele levantou-se e foi até a porta. Ela perguntou, confusa:
– Por que não?
Tyler deu de ombros, antes de sair da sala.
– Ramona pode me ver.
E saiu porta afora.

Sendo levado até seu quarto novamente, Tyler esperou encontrar . Impressionantemente, o cômodo estava vazio. Só havia uma mulher, sentada na cama, usando calças escuras, tênis e um chapéu preto. Seu cabelo não podia ser visto, muito menos seu rosto.
– Tem visita, – disse o enfermeiro, empurrando Tyler para dentro do quarto.
Ele passou as mãos nos cabelos, ajeitando-os, quando a porta se fechou.
– Com licença? – ele perguntou, se aproximando da moça.
– Hey, Tyler – respondeu, erguendo a cabeça e levantando o chapéu.
? – perguntou ele, recuando. ficou de pé, e seu irmão continuou a recuar, até bater na parede.
Era como se estivesse aterrorizado. Vendo algo nocivo, tóxico.
Extremamente radioativo.
– Você está estranha – ele falou, balbuciando um pouco no começo da frase.
tirou o chapéu e deixou o cabelo cair pelos ombros. Ele se referia às roupas da irmã.
– Também estive com saudades. O que aconteceu por aqui?
Ele negou com a cabeça.
– Nada. Eu passei mal, mas já estou melhor. Ligaram por protocolo. Você sabe bem como é.
– Eu sei. Mas me lembro da bem a última vez que estive aqui – falou, ajeitando o cabelo – E conheço bem o protocolo para saber que só me chamariam se fosse muito, muito grave.
– Eu passei mal. Comi o que não devia. Nada demais, já melhorei. Sou capaz de comer um boi. Aliás.
Tyler sentou-se ao lado dela, na cama. Fitou a parede da frente.
– Eu vi sua entrevista hoje cedo. Você contornou bem as perguntas.
– Contornei? – ela também fitava a parede. De certo modo, ambos agiam como se estivessem falando no telefone um com o outro, e não como se estivessem lado a lado – Como pode saber?
– Pelo simples fato de que não entendi nada, e continuei sem saber as exatas coisas que já não sabia.
riu.
– O que aconteceu para você vir me ver como se fosse uma espiã russa?
passou as mãos nos cabelos. Comprimiu os lábios e suspirou.
– Não posso voltar para a delegacia. Estão escondendo coisas de mim. E sou suspeita de outro crime.
Tyler franziu o cenho e voltou a olhar para a irmã.
– O que houve? e seu amigo jornalista não podem te ajudar?
está morta.
Tyler não soube responder. A boca ficou aberta, sem produzir um único som.
? Morta? As coisas estavam fugindo do controle cada vez mais.
Ou entrando no controle...
É uma questão de perspectiva.
– E acham que você a matou? Por quê?
– Tem coisas demais que você não sabe, Tyler.
– Pode pelo menos olhar para mim? – ele pediu. Não tirou as olhos da irmã desde que ela disse que estava morta. não tirava os olhos da parede.
Ela virou o pescoço para o irmão, inclinou-se para perto dele e semicerrou os olhos. Ficou assim por três segundos, e então olhou de volta para frente.
– Satisfeito? – ela perguntou – Você não sabe de nada desde que entrou aqui. E, acredite, muita coisa aconteceu. Não vou te deixar a par disso, porque não acho que seja da sua conta. Você não se deu o trabalho de tentar saber o que estava acontecendo. Não vou me dar o trabalho de te contar.
Ele ficou em silêncio.
– Quando morreu? – foi o que julgou inteligente o suficiente para perguntar.
agradecia mentalmente. Conversar com Tyler era como conversar com um desconhecido, na maioria das vezes. Isso a deixava à vontade.
De uma maneira estranhamente banal, se sentia mais à vontade falando com desconhecidos, sobre fatos que tinha certeza, do que com conhecidos sobre o que não podia se assegurar.
– O corpo foi encontrado por mim há algumas horas. Sou a principal suspeita. Marla e estão atrás de mim, com certeza. Não tenho um álibi.
Déjà-vu, de novo.
– Te garanto que eles têm mais com o que se preocupar – Tyler respondeu, em um tom calmo.
– Tipo o quê?
Tyler tornou-se calmo. Daquilo, pelo menos, ele entendia.
está aqui no hospital. Está internado. Encontrei Marla agora há pouco. Ela disse que queimaram a cara dele. Você vai ficar sem vê-lo por algum tempo.
– Você encontrou Marla? Queimaram ? Como assim? – as perguntas de se atropelavam. Era informação demais para cinco frases.
– Ela veio vê-lo, pelo jeito. Queimaram o rosto dele, mas ainda não sabem quem foi que queimou. Estão aqui. Tome cuidado na saída.
– Por que você encontrou Marla? – focou-se na pergunta mais importante, ao seu julgamento.
Tyler deu de ombros.
– Não acho que seja da sua conta.
recuou. Estava disposta a não falar mais nada.
– Você não faz ideia, faz, ? – Tyler perguntou, rindo nervoso – Por que continuo aqui. Por que estou tomando distância de você. Por que tudo está acontecendo. Não faz ideia do que escondem de você.
– Cala a boca, Tyler.
– Ramona está aqui? Entre nós?
– Está lá embaixo.
Ele bufou, levantando da cama e ficando de frente para a irmã, com as mãos apoiadas nos joelhos, inclinado para frente.
– Então, sozinha, entre no necrotério. Sozinha. Lá terá muitas de suas respostas. Procure algo incomum. Sobre , o que você descobriu?
estava quase assustada. Nunca viu Tyler tão sério.
– Ela sabia que morreria. Foi o que consegui pensar.
– Ela deixou algo para você? Algo que você achou que deveria ver? Que ninguém mais veria, mas você viu?
O olhar de desceu até seu dedo. No anelar, tinha um grosso anel preto. Tyler pegou a mão da irmã e tirou o anel, examinando-o.
– Ei! – reclamou , em protesto.
– Esse anel significa alguma coisa? Algo para você?
De uma maneira súbita, Tyler pareceu ser perfeito para o papel de detetive. Sua objetividade com as perguntas, sem rodeios, rápido, era notável.
– Nós compramos juntas há um tempo. Cada uma tem um. Bobeira adolescente. Foi ideia da .
Tyler levantou o anel, e colocou-o contra a luz. Sua irmã ainda não conseguia entender o que ele procurava.
Ele com certeza sabia que havia algo ali.
Então, subitamente, ele começou a sorrir. Como se tivesse encontrado a solução para tudo. Estaria tudo salvo.
– Ela sabia mesmo. E sabia quem a mataria. Diga-me, – ele prosseguiu, ajoelhando no chão e ficando de frente para a irmã – Se você pudesse deixar uma última mensagem, horas antes de possivelmente ser assassinada, qual mensagem seria?
– O nome de quem acredito ser o assassino. Rápido, Tyler, senão vão me achar aqui. E você não é o Sherlock: vá direto ao ponto.
– Você escreveria claramente – ele frisou essa palavra, segurando o anel entre o polegar e o indicador – Ou com algum código que apenas uma pessoa entenderia?
franziu a testa, com o canto dos lábios erguidos.
– Provavelmente, o código. Para o assassino não perceber. Aonde quer chegar?
Ele jogou o anel no colo da irmã. Levantou-se e, dando a volta na cama, falou, com as mãos atrás da cabeça, como se estivesse se espreguiçando depois de um trabalho árduo:
usou um objeto que poucos reparariam, mas sabia que você iria percebê-lo. Afinal, era um símbolo de vocês. Representava a amizade, no momento em que ela foi morta. Ela usou isso como mensagem. Divirta-se descobrindo o que esses números significam.
– Que números? – virou o corpo para Tyler.
– Na parte interna do anel.
ergueu o pequeno objeto contra a luz. Pôde ver, se tivesse cuidado, pequenos números, em um código, separados por hífens.
As últimas palavras de .
Incrível como as últimas palavras, às vezes, significam mais do que todas as outras ditas antes.
– São números de dois dígitos. Será que significam letras? – ela perguntou.
– Um deles é 53. Boa sorte em descobrir a 53ª letra. Além disso, duvido que ela fosse se dar o trabalho de criar um código que rodasse o alfabeto. Ela não tinha tempo. Precisava de algo mais rápido, não necessariamente mais fácil. Ela tinha algum hobbie? Alguma mania?
deu de ombros, já calculando.
Alfabeto? Improvável, mas vale a tentativa.
Uma senha, e não uma mensagem escrita? Talvez. Precisaria do objeto a ser decodificado.
Algum tipo de coordenada? Provável. Coordenada geográfica da cidade? Precisaria pesquisar.
?
Jazz, tênis, seriados de comédia, filmes dramáticos, pubs, pintura.
– Dança, esportes, artes cinematográficas e artes plásticas. Graus e pausas, pontos, cenas e cores.
Tinha dito isso fitando o vazio.
– Como é? – Tyler perdeu-se diante da frase dita em velocidade incompreensível.
Velocidade incompreensível.
Acorde.
Acorde.
– Nada – ela ergueu o olhar.
– Tudo bem então – Tyler finalizou, olhando para ela – Saindo daqui, volte para a recepção. Siga na direção dos laboratórios. Vai ter uma placa indicando o necrotério... Já estive ali, é raro ter alguém supervisionando. Você consegue entrar em dois segundos, se não estiver vestida parecendo que vai sequestrar alguém.
passou a mão pelos olhos, tirando o excesso de maquiagem preta.
– Vou precisar falar com alguém?
– Não. O que estiver procurando vai estar na estante verde, com os cadáveres. A verde é dos crimes ainda não resolvidos. Os corpos ficam até toda autópsia ser completa.
– Que corpo estou procurando?
Ouviram um som vindo da porta. Ambos imediatamente olharam naquela direção. Percebendo que era um alarme falso, voltaram a se olhar. Tyler suspirou, olhando novamente para a irmã, e falando baixo:
– Quanto mais tempo você ficar aqui, mais darão falta de você em outro lugar. Marla não deve estar atrás de você agora, mas logo ela vai reparar que, se houvesse algum problema comigo, chamariam você.
Deu um soco em si mesmo internamente. Que grande filho da puta.
Apesar de ter ajudado Marla contra , estava agora ajudando contra Marla.
Duas faces de uma mesma moeda sem valor.
Ao mesmo tempo em que deveria se manter longe de , deveria protegê-la. Ela não tinha noção do que estava acontecendo.
– Ela sabe que você teve problemas? – franziu a testa.
Parabéns, Tyler. Ter duas caras pode misturar as máscaras.
– Acho uma boa ideia você ir.
– É o corpo do caso do Halloween que estou procurando.
Tyler não respondeu. levantou-se e estendeu a mão para o irmão. O loiro olhou para a mão, em seguida para a mulher que a tinha estendida, e foi ao encontro de , abraçando-a com força. Pega de surpresa, ela custou um pouco a retribuir o abraço.
Não retribuía com o mesmo calor. Pois Tyler a abraçava como se nunca mais fosse vê-la. E o abraçava como se aquilo fosse protegê-lo de todos os males do mundo.
Ambos estavam errados.
– Obrigada – ela disse, no ouvido do irmão.
Saiu da sala em seguida.

Saindo do quarto de Tyler, sentiu uma onda inesperada de raiva. Aquilo era como o Manson, em versão mais "calma". Era uma demo.
Leve tapas e aprenda a suportar a dor de uma surra.
Que bela mentira.
Uma bela negação.
O símbolo perfeito do que ela mais rejeitava. A negação da verdade.
Sem o chapéu, segurando-o embaixo do braço, olhou para os dois lados do corredor. Era um necrotério o que procurava. Nunca esteve em um necrotério antes, e, agora, não seria a melhor hora para pouca experiência.
Mecanicameente, foi até a recepção do andar. Ficou ereta na frente do elevador, apenas aguardando. Fechou os olhos com calma.
Necrotério.
Halloween.
Teria sua resposta. Teria uma solução, qualquer que fosse esta.
A dor mais constante em não era alguém ter morrido naquele lugar. Era ela não saber quem era.
Era terrível pensar assim. Cruel, e, de certo modo, mau. Sua curiosidade conseguia ser superior a toda sua sensibilidade.
Cada vez mais forte. Cada vez mais resistente. Cada vez menos humana.
Não era assim. Tinha se tornado um monstro.
Pelo menos, percebera isso. Poderia reverter o processo? Talvez. Primeiro, deveria cortar o mal pela raiz.
Ramona e Halloween.
Queria, e deveria, atropelar tudo em seu caminho. Seguir até o fim.
Mostrar a todos aqueles idiotas que foram contra ela, em todo momento, que ela sempre estava certa. Mostrar que não deveriam ter ido com a moção, que deviam ter suas próprias interpretações da história e escolher seu lado. Mostrar que estavam sendo hipócritas e obedecendo o sistema.
Perfeitos idiotas americanos.
Tyler não percebia o inferno no qual se encontrava. Mostrar a verdade, resolver todos os casos e recuperar a ordem seria sua solução.
Custasse o que fosse custar. Se não pudesse tirar alguém de sua estrada, tiraria a estrada desse alguém.
A porta do elevador se abriu. Quando abriu os olhos, pôde perceber que não faria aquela viagem sozinha. Havia um enfermeiro e um enfermo, este deitado na maca. O enfermeiro era bem jovem, e ela não podia ver o doente deitado; seu rosto estava coberto. Parecia exausto ou dopado. Com um sorriso fraco, adentrou no elevador e apertou o botão do andar.
A porta se fechou.
Olhou de lado para o doente. Mal se mexia. Gemeu um pouco e virou a cabeça.
Como conseguiria viver aprisionada em um corpo que não se move?
– Horrível, não? – perguntou o enfermeiro.
Era um homem, o pobre ser deitado. Seus movimentos eram lentos e vagos.
Não queria tocar nada. Apenas queria se lembrar de que podia se mexer.
O rosto estava enrolado em gazes. Os lábios estavam secos, e podia-se ver manchas que iam de seu olho direito (que estava descoberto) até seu queixo, como um fino rio seco percorrendo seu rosto.
percebeu, então, que ainda havia algo humano dentro dela. Ficou sensível só ver aquele pobre ser, um homem aparentemente saudável, a julgar pelo seu corpo, deitado em uma maca, fraco, dependendo de outra pessoa para movimentá-lo.
jamais conseguiria viver daquele modo. Dependente. Não sentia pena de quem vivia. Era medo o que sentia, de chegar àquele ponto.
– Terrível – concordou ela.
A cabeça do homem moveu-se um pouco.
O que levara um tão jovem rapaz a parar num lugar daqueles? E com um futuro tão... certo?
Alheios.
– Ele fez uma complexa cirurgia. Vai precisar de várias sessões para reconstruir a face.
comprimiu os lábios. Franziu o cenho.
Tatuagens de pássaros no braço.
– Reconstruir?
– Sim. Chegou aqui com o rosto queimado. Pareceu ácido, pelo jeito com que ficou. Mas não sabemos. Ele está bem mal desde que chegou. Ainda bem que carrega um sobrenome rico o suficiente para bancá-lo. Tenho pena.
Ácido.
Queimado.
Sobrenome.
Pena.
– Um homem assim, no auge de sua vida, arruinado.
Arruinado.
Arruinado.
– Que sobrenome seria? – perguntou, tentando não deixar sua voz carregada de choro atrapalhá-la.
O enfermeiro olhou para o homem com pena. Como se nunca mais aquele pobre coitado fosse poder sorrir novamente.
Se é que já tinha sorriso.
Se é que não tinha perdido algo que nem percebia que tinha.
– apontou para a pulseira do enfermo – É seu nome. Conhece?
Aquilo feriu como se tivesse acabado de descobrir a mais dura verdade.
Irreversível.
Totalmente... irreversível.
Ele não queria morrer.
Por todas as coisas ruins que tinha feito, ele desejou nem ter nascido.
– Não.
– Bem, fico por aqui – disse o enfermeiro, forçando um sorriso depois de uma conversa tão melancólica – Até logo.
A porta se abriu e o enfermeiro empurrou o carrinho. Completou:
– A pressão dele caiu, temos que ir ao cardiologista.
Ele parece estar desistindo de se manter vivo.
não respondeu nada. Quando a porta ia se fechar, e o enfermeiro tinha dado as costas, ela esticou o braço, abrindo a porta, e falou:
– Boa sorte a ele.
O enfermeiro apenas assentiu.
Aquilo doía como uma faca. A porta do elevador se fechou, e começou a descer.
Rumo ao inferno, onde era seu lugar.
Que personalidade de merda, .
Que pessoa você é.
O choro foi incontrolável. sentou no chão do elevador, abraçando suas pernas, e não conseguia parar.
Um monstro.
Sentiu culpa por ter desejado mal a , e ele ter recebido.
Era como se aquilo tivesse sido por causa dela.
Como se tivesse jogado ácido no rosto de .
Matou-o por fora, e assassinou-o por dentro.
De pouco a pouco... Cortando o mal pela raiz.
Soluçava. Queria parar aquilo.
O elevador parou. Térreo. Necrotério.
Estava decidido. Precisava ir até o fim.
Até onde conseguisse chegar.
Até... Até onde seus limites permitissem.
O corredor estava vazio. Saiu do elevador e, sem olhar para os lados, seguiu a direção que a seta de uma placa na parede apontava.
"Necrotério".
Era a porta branca no final do corredor.
Era um corredor cor de gelo.
O Manson... de novo.
Quanto mais perto chegava da porta, mais rápido andava para alcançá-la.
? – ouviu uma voz dentro de sua cabeça.
Mais um pouco.
Impassível.
Determinada.
Vingança.
Caí porque estava andando sob o gelo fino, e insisti em minha caminhada.
!
Tudo se desfez a pó aos meus pés.
A porta estava em sua frente. O caminho percorrido desmoronava sob seus pés. Não tinha como voltar. Era apenas empurrar a porta... e ver quem lhe esperava em cima de uma fria mesa de metal.
! – gritou a voz, finalmente a alcançando e puxando-a pelo ombro.
não soube dizer o que aconteceu. Era como se tivesse sido acordada de um sonho. Um pesadelo o qual só escaparia se o superasse.
– Ramona a segurou pelos ombros – Você está bem? piscou forte os olhos.
– Vamos para casa. Eu quero ir para casa.

– O que você estava pensando? Indo até o necrotério como se fosse uma criança indo para a Disney?
tinha os indicadores nas têmporas, andando de um lado para o outro na cozinha. Eram dez da noite, e queria muito dormir.
Os espelhos e vidros chegariam na manhã seguinte.
– Café? – ofereceu a loira.
virou para a pia, onde ficava a cafeteira, e pegou o recipiente com o café. Encheu uma caneca e deu-a para Ramona. Levou o resto do recipiente consigo até a mesa.
Ramona virou os olhos.
– Seus pensamentos te matam, não matam?
apenas ergueu o olhar, mas continuou massageando as têmporas.
– O que há na sua mente, criança? – perguntou a loira.
– Você ficou lá embaixo todo aquele tempo, no hospital?
Ramona franziu a testa.
– Sim... Fiquei – respondeu, vaga. Tinha o cabelo trançado e já vestia uma camiseta de um time de basquete, que usava como pijama.
– Eu não te vi quando desci do elevador.
– Eu estava do outro lado da recepção.
– A recepção estava quase vazia. Eu prestei bem atenção – o tom de era incisivo, quase desafiador – Das poucas pessoas que estavam ali, nenhuma delas era você.
Ramona continuou mexendo a colher em seu café. Não tinha se abalado nem um pouco com a acusação de .
– Você está ao menos me ouvindo? – perguntou .
– Você está se ouvindo? – Ramona perguntou, fazendo uma pausa para beber o café – Se estiver, vai perceber que é uma boa hora de calar a boca.
– O que você ficou fazendo no térreo?
– Te dando cobertura – a loira respondeu como se fosse a coisa mais lógica do mundo – Se Marla ou outra pessoa da delegacia aparecesse, eu iria te avisar. O que você estava fazendo, indo até o necrotério?
– Eu estava indo ao necrotério, como você mesma está dizendo e viu. Agora me responda como você sabia que a Marla, especificamente ela, sendo o único nome que você conseguiu citar, estava no hospital?
Ramona voltou a beber o café. Pigarreou e colocou a caneca em cima da bancada, dando as costas para .
– Eu... vi a Marla passando no corredor.
– Ramona... – retrucou, como se estivesse falando com uma criança insistente em uma mentira, o que deixou a loira bem mais pressionada – Não adianta mentir. Posso ver que está mentindo. Você mordeu seu lábio. Além disso, todo mundo naquela delegacia viu seu retrato falado, desde o incêndio. Todo mundo por lá não perderia a chance de colocar uma linda algema como pulseira em você.
Ramona bebeu quase todo o café em um gole só, abriu a torneira da pia e encheu a caneca d’água.
– Não entendi por que quer saber como eu soube que Marla estava lá.
– Marla estava lá e falou com Tyler. Estava lá com . E está terrivelmente ferido.
Ramona engoliu em seco.
– Está?
– Sim – ouviu a cadeira arrastando, e percebeu que se aproximava dela – Eu o vi. 40% da face deformada. Ácido ou algo semelhante. Queriam acabar com o rosto dele.
Chegou ao lado de Ramona. Tinha as mãos atrás do corpo. Paciente, quase infantil. Apontou com os olhos para a mão esquerda de Ramona, que lavava a caneca dentro da pia.
– Machucou o dedinho, foi?
– Queimei com fogo do café.
– Só se for com lava.
Havia uma bolha do tamanho de uma ervilha, debaixo de esparadrapos, no dedo de Ramona.
– Onde você estava quando eu estava dormindo e quando fui até ?
– Eu fui fazer minha tatuagem.
– Por cinco horas?
Ramona engoliu em seco.
podia ser um grande filho da puta, mas ninguém merece ter o rosto queimado.
A caneca na mão de Ramona caiu na pia e quase se quebrou. Ela apoiou uma mão em cada lado da pia, abaixou a cabeça e apertou forte os olhos.
O barco está balançando, tentando se manter instável.
À deriva na tempestade.
– Foi mais forte do que eu.
– O quê? – não tinha entendido o murmúrio.
– Foi mais forte do que eu. Desculpe. Eu não pude evitar. Eu tive a chance... Ele teve razões para merecer aquilo... Ele te colocou no Manson...!
– Mas Ramona...
Quando a loira olhou para , tinha seus olhos mareados.
A tempestade.
– Eu não consegui evitar. Ele mereceu o que teve. Ele recebeu um castigo.
– Ramona, ele... Ele mereceu algum troco, mas não tinha que ter o rosto queimado. Isso é irreversível.
– Eu sei, mas...
– Mas o quê?
Ramona passou as mãos freneticamente pelos cabelos, andando para trás, parecendo querer que tomasse distância dela. Como um ser querendo resistir a seus próprios instintos.
– Ele merecia o troco, . Olho por olho. Ferida por ferida!
– Ramona!
– Ele mereceu! – a loira gritou, apertando os olhos com força.
As luzes da casa se apagaram nesse momento. olhou para a lâmpada, apagada, e bufou. De vez em quando, aquilo acontecia.
Homem ao mar. Homem ao mar.
– Não me arrependo. Nem um único pingo de remorso. Ele mereceu.
pôde ver a sombra de Ramona, encolhida, no escuro. A luz da lua adentrava o cômodo, e foi nesse momento que ela conseguiu ouvir um raio. Ramona abraçava suas pernas, no canto da cozinha, quando começou a chover torrencialmente, do nada.
A tempestade se aproxima.
– Por que fez isso? – perguntou, andando lentamente até Ramona, a passos largos, as mãos preparadas. Já vivera casos suficientes na delegacia para reconhecer um psicopata em potencial. E quando eles poderiam atacar – Por que acha que ele merecia? Por que queimá-lo?
– Ele se feriu onde mais lhe doía. Em seu ego. Profundamente.
– Ramona, por que você está assim? Por que isso lhe fere?
A loira ergueu a cabeça. Chorava e tinha os lábios comprimidos.
– Como assim?
– Você nunca pareceu se arrepender de ter feito nada. Nem está se arrependendo de ter ferido . Por que está arrependida que eu saiba que foi você?
– Se Marla descobrisse... Se o jornalista descobrisse... Eu não veria problema.
– Por que você se incomoda justamente comigo?
– Você não entende?! – Ramona gritou até sua voz sair rouca, quase sem sequer sair som. Levantou a cabeça e fincou as unhas em suas próprias pernas, os olhos fechados e a garganta saltando.
Outro raio soou. Este era longo, riscando o céu, e separando-o em dois.
– Eu fiz isso por você, . Todo esse tempo. Por isso continuei aqui! Você não se pergunta? Eu sou como você... Nos mínimos detalhes. Naquele necrotério, tem algo que você quer saber, mas não deve. Estou te protegendo das piores coisas.
– Eu não sou uma assassina – retrucou com os dentes cerrados. Nada provavelmente a irritaria mais do que aquela acusação.
– Nem eu – Ramona tinha o cenho franzido em um rosto de raiva, ameaçador – Não ligo caso qualquer um saiba do que fiz. Desde Julie, até Marla. Mas você não pode me incriminar. Isso não é justo. Porque eu fiz isso por você.
– Ramona, você é lésbica?
A loira franziu o cenho.
– É o quê? Eu estou aqui, abrindo meu coração para você, e você me faz uma pergunta dessas?
– Justamente por isso.
– Não, não sou lésbica, pelo menos não enquanto a Olivia Wilde não cruzar meu caminho. Eu só estou aqui, ainda, por um único motivo, pelo qual estou surpresa em você não ter se questionado.
– Que motivo seria esse?
Então, ela começou a contar.

Era para você me temer, mas, estranhamente, você ficou curiosa.
Isso me incomodava. Olhando pelo lado dos Durden, eu concordava com a vingança deles. Você tinha sido responsável, provavelmente, pelo assassinato do irmão deles. Foi quando percebi que você dificilmente era a assassina de Joe... Você o amava demais para isso. Ele era o homem de sua vida, e você custou sequer a superá-lo quando deixaram de se falar. Você jamais conseguiria matá-lo. Eu passei a entender o seu lado.
Eu precisava dar um jeito de ajudar você, mas sem deixar de ganhar meu dinheiro.
Eu vi seu noivado desmoronar, seus amigos irem para longe. Queria ajudar você.
Jacqueline e James surtaram pouco depois, com a ideia insana de vingança à flor da pele. Jackie não tinha nada a perder. Fez um plano para te levar ao Tate, você e Tyler, para matá-los. Queriam isso, não importasse o que acontecesse. O maior erro deles tinha sido me incluir na ideia.
Deixei pistas que eu sabia que seus amigos decifrariam, para levá-los ao Hotel Tate, no dia do sequestro.
Me envolvi, mas te libertei e consegui o que faltava: uma prova que iria inocentá-la. Trabalhei para tentar descobrir quem tinha forjado aquela prova, mas ainda não obtive sucesso.
Você era a peça do jogo de James e Jacqueline, mas eles eram peças do meu jogo.
se feriu, assim como . e Tyler tiveram traumas, poucas feridas físicas graves. Mas minha maior meta fora atingida: você sobreviveu, e os maiores danos foram aos próprios Durdens.
James internado, Jacqueline cometendo suicídio.
Eu tinha feito meu papel. Dei a você seu tempo, e me distanciei. Você não confiava em mim, e eu via e compreendia seus motivos. Tinha me intrometido em sua vida. Acredito, no entanto, que quando lhe protegi no hotel, você pareceu começar a confiar em mim. Não me ver como amiga nem nada semelhante, mas confiar. Foi impagável como tudo fluiu perfeitamente para mim.
Ganhei dinheiro para viver um ano inteiro, sem trabalhar um minuto sequer.
Não quero que você me odeie, por mais que eu ainda lhe dê motivos para fazê-lo. Te ver sozinha me fez mal, porque me identifiquei. Nossa história é semelhante, de certo modo. Minha mãe também me deixou. Não conheci meu pai. Tive que viver por conta própria, sozinha, por anos. Conheci não apenas o fundo do poço, como fui soterrada nele. Só que cavei até a superfície... Coisa que você não estava conseguindo fazer.
Se eu consegui me reerguer, ou melhor, me recriar, quero que você também seja assim.
Frases que a aterrorizavam deveriam torná-la mais resistente ao terror.
Não mais. Não mais pessoas te dizendo o que fazer. Não mais pessoas te dizendo o que falar ou o que ser. Você tinha que agir por si mesma. Você é sua própria heroína. Você caiu em um buraco, e não vou dizer que eu serei aquela que tirará você daqui. Mas vou ser aquela que te fará escalar as paredes.
É por isso que ainda estou aqui. Para provar a você que você pode chegar aonde você quiser.
Porque você é bem além de uma detetive. Você é a Serpente Vigilante. E não vai ser nenhum jornalista ou policial de merda que vai tirar isso de você.

– Ramona, eu não...
– Puta que pariu! – gritou a loira, quando outro raio soou, ficando de pé e andando com os passos pesados até , que recuou. Ramona a fez bater com as costas na parede. Segurou os pulsos de , erguendo-os na altura do rosto.
– Uma vez na vida, coloque sua cabeça em si mesma, não nos outros.
Tudo era rápido demais. não conseguia assimilar as palavras de Ramona. Era como se a voz de Ramona fosse a voz dentro de sua cabeça, aquela outra pessoa que você dentro de cada um de nós. Sua consciência.
Talvez Ramona fosse mesmo a consciência de . E talvez fosse a consciência de Ramona.
A adrenalina corria por sua veias tanto quanto os olhos de Ramona ardiam em chamas, refletindo a luz da lua e dos raios, do lado de fora da casa.
Tudo desmorona.
Mas tudo se ergue novamente.
– Ramona – falava devagar, com calma. Não era a primeira vez que falava com uma maníaca, ou com uma psicótica. E não seria a última – Eu sou apenas uma mulher. Eu não sou uma heroína.
A loira agarrou seus pulsos mais fortemente, gritando, como se quisesse muito convencer de acreditar nela:
– Se machuque, mas mostre sua cicatriz. Você sabe que é assim que funciona!
– Me solte! Eu não aguento mais isso! – tentava se desprender de Ramona, sem sucesso.
– Pare de gritar comigo! – Ramona retrucou.
– Eu não estou gritando contigo! Eu estou gritando, e você está aqui!
As duas pararam por um segundo. Olharam-se fixamente, até que Ramona começou a rir em uma gargalhada baixa. também riu.
– Foi algo idiota para se dizer – disse.
– Foi.
Patético, mas era seu único tiro. Desarmara Ramona com sucesso. Ela soltou suas mãos e recuou, devagar. Virou de costas para a detetive e ficou parada.
A voz de surgiu baixa, tímida:
– Obrigada... Por isso. Por me mostrar que ainda há alguém aqui por mim. Você...
Ramona ergueu a cabeça, rindo.
– Bem-vinda ao lado escuro da lua.
franziu o cenho.
– Nada disso foi verdade?
– Mais ou menos – Ramona limpou o rosto das lágrimas secas, com uma careta – O choro eu forcei mesmo, assumo. Mas tudo que falei foi verdade. Tudinho. Menos o choro.
– Ramona...
– É sério! – disse a loira, rindo – Eu precisava falar isso com você. Você não iria me ouvir se eu não te amolecesse.
– E com ...
– Ele mereceu, ainda acho isso. Não me arrependo. Mas sabe o que eu gosto em você?
– Estou com medo de perguntar, mas o quê, Ramona?
A loira apontou para e falou:
– Você respeita o que você não gosta em mim. E eu odeio quando eu tenho que aceitar os defeitos dos outros, mas ninguém respeita ou aceita os meus. Você respeita os meus defeitos, eu respeito os seus. E é isso que eu gosto em você.
– Gratificante.
Um pequeno silêncio foi feito.
– Você não me odeia mais ainda, odeia? Agora que eu reparei que isso podia ter o efeito reverso.
– Não muito. Até que estou gostando de conhecer esse outro lado seu – comentou – Mais real. Menos forte.
– Faço o meu melhor – Ramona disse, piscando um olho e voltando a falar com a animação de uma criança – Tenho uma pergunta para você: Kurt Cobain ou Marilyn Monroe?
– Você só pode estar brincando – fez uma careta de desafio, cruzando os braços.
– Ah, fale sério. Não é tão difícil.
– Ok, ok... Deus, eu amo a Marilyn, mas o Kurt seria um desafio.
– Apenas decida, mulher!
– Ok! Kurt. E você?
– John Kennedy.
– Você disse Marilyn ou Kurt!
– Minha vez, minhas regras.
A chuva diminuiu. As coisas pareciam começar a ficar pacíficas.
O mar continuava agitado, mas, agora, sabia como ajustar as velas.

– Ainda está chovendo? – perguntou, sem tirar os olhos da TV.
, abaixando a garrafa de sua boca, olhou para a janela.
– Não. Parou agora há pouco.
– Você acha que todos os Stark se manterão vivos até o fim da série?
ergueu novamente a garrafa, tomando três goles e abaixando-a de novo. Molhou os lábios e falou, dramático:
You know nothing, Jon Snow.
Ouviram um estrondo vindo do andar debaixo. Parecia que alguém tinha acabado de jogar um sofá em outro alguém. Com e Ramona, eles não esperavam menos que isso. Levantaram e foram às pressas até a escada, temendo que o próximo objeto a ser lançado às paredes fosse a televisão.
Quando chegaram no primeiro andar, se surpreenderam ao ver Ramona deitada no chão, em um colchão, enquanto arrumava o terceiro colchão em volta da lareira.
– As luzes queimaram. Hoje, a noite vai ser à moda antiga – informou Ramona, as pernas cruzadas e a coluna ereta, como uma criança.
– Achei que vocês estivessem se matando – falou , descendo as escadas e desviando do sofá, no canto da sala, em direção aos colchões.
– Errou por cinco minutos – respondeu , posicionando o último sofá. Ramona tinha uma sacola ao seu lado, e a sala estava completamente escura, a não ser por um pouco da luz da lua, que invadia a sala sem permissão, sendo totalmente bem-vinda. Ramona abriu a sacola e tirou dali uma garrafa d'água, com um líquido espesso, que não consegui identificar a cor. Os colchões estavam organizados como três arestas de um quadrado, sendo a lareira a quarta.
Ramona abriu a garrafa e jogou o líquido na madeira que tinha na lareira.
– Ela vai explodir nossa casa? – perguntou , sentando no colchão ao lado da lareira. sentou-se no em frente a esta, e uniu-se a ela, deixando Ramona sozinha no outro lado da lareira.
– Andei estudando um pouco de química e esbarrei com isso – justificou-se a loira – Vocês vão ver que coisa mágica.
Pegou o isqueiro que nunca tirava de perto de si. O isqueiro que colocara fogo na casa de . O isqueiro que acendia todos seus cigarros.
Acendeu o isqueiro na ponta de um pedacinho de papel, e jogou o papel na fogueira. A seguir, não acreditava em sua visão. Se não tivesse certeza que não estava sonhando, alucinando, duvidaria de seus olhos. Consumindo a lenha, crescendo por todo lugar umedecido pela solução de Ramona, nasceu uma chama crescente, leve. Era púrpura, alta, e incrível. Ver aquilo era como estar presente na mais perfeita harmonia do mundo.
inclinou-se, chegando perto de Ramona, apoiando os joelhos no chão. Olhou bem para o fogo, com o queixo caído.
– Que fantástico – ele falou.
Ramona deu um sorrisinho infantil. sentou-se ao lado dela, enquanto a loira se servia de seu prêmio por proporcionar uma fogueira colorida: um cigarro. Acendeu a ponta com o isqueiro, inspirando com gosto aquela fumaça.
– Isso tem cheiro de morte – disse , fazendo com a mão um movimento para afastar a fumaça.
– E ela nunca cheirou tão bem – retrucou Ramona, com o rosto sereno.
envolveu os ombros de Ramona com um braço. virou os olhos.
– É sério, qual a nece...
foi interrompida pelo toque de seu próprio celular. Estava em cima da mesa, a pouca distância de onde estava. Ela levantou-se, pegou o aparelho e olhou o número no visor.
– É o . Ramona, não fale nada.
– Ele sabe quem eu sou?
– Quem não sabe quem você é?
Atendeu a chamada e levou o telefone ao ouvido.
? Estou na clandestinidade. Estou viciado em um jogo do celular, e o confiscou essa droga.
Ela riu. Ramona fez movimentos com os lábios onde se lia "viva-voz". acionou o auto-falante da chamada. Com um pouco de estática, a voz de surgiu novamente.
– Está tudo bem? Você não falou nada até agora.
– Estou bem, estou bem – ela falou logo, tentando esconder a risada. , naquele mundo em que ela se localizava, pareceu apenas um bobo da corte. Um motivo de risada.
– Ah, ok – ele disse, a voz murcha – Bem, queria saber como você está. Amanhã teremos nossa segunda consulta.
– Estarei lá. Às cinco.
– É. Você saiu de casa desde que te deixamos aí?
– Saí, Tyler teve um probleminha e eu tive que ir até o hospital.
– Você encontrou Tyler? E como foi?
deu de ombros. , e Ramona a observavam, como se fosse uma tela de cinema, e eles fossem os espectadores.
Expectadores.
Não precisava de mais ninguém.
– Foi normal. Não falamos sobre nada, só sobre o que aconteceu.
– E o que aconteceu?
mordeu o lábio. Encarou os olhos dos outros que estavam na sala, atenciosos. Ramona sorria pequeno, com a mão apoiando o queixo, e as unhas nos lábios.
O que você acha que precisa fazer?
– Nada demais. Ele passou mal. Protocolo.
– Entendi. Quem mais está aí?
– Ah, só o e o . Daqui a pouco, vou dormir. Posso acordar a hora que eu quiser, mesmo.
foi obrigado a rir. estava fazendo piada de sua situação profissional deplorável.
e ? Que bom, . Sério mesmo. Pelo menos, você não está sozinha.
– É, não estou.
Piscou um olho para Ramona.
– Ok então, . Te vejo amanhã.
– Bye bye, .
Desligou e deitou no colchão, deixando o telefone na barriga. Ramona tragou o cigarro e estendeu-o para .
– Cara, não. Não força.
– Você ia amar. É como ter a vida bem na sua mão. Você para quando quiser, quando achar uma boa ideia.
– Por enquanto, prefiro me manter bem viva.
– Melhor assim. Sobra mais para mim. Mas agora vamos ao que interessa: Mark Chapman ou Charles Manson?
– Como é? – perguntou, parecendo levemente assustado com a pergunta.
– Charles Manson, claro – respondeu, ignorando , e completando: – Eu matava o infeliz.
– Opa, aquieta, mulher – Ramona disse, fazendo com as mãos sinal para que não fosse tão agressiva.
– É só um jogo. Mas eu com certeza o mataria.
– Eu entendo. Também mataria.
– Então é Manson para você também?
– Acho que sim.
– Pobre Lennon.
apagou depois dessa frase. Fechou os olhos e dormiu, olhando para a luz púrpura do fogo à sua frente.
Uma luz para queimar todos os impérios.
Uma luz capaz de cegar o sol, uma luz que poderia deixar o sol envergonhado de nascer.
Uma luz que cria uma doma iluminada em seu interior, escura em seu exterior.
Uma luz que abriga os animais mais sombrios.
Uma luz que não é refletida, mas absorvida.
A melhor parte de parecer santa é poder virar o demônio quando quiser.

Insider information, hand in your resignation… Loss of a good friend, best of intentions I found, tight-lipped procrastination… Yeah later, see you around.




The war is won before it's begun, release the doves, surrender love…

– Canalize essa dor. Filtre essa tristeza. Acha que consegue fazer isso?
– Isso é mesmo nece...?
– Shh. Foi retórica. Agora, encube essa dor. Transforme-a. Faça-a agir ao seu favor.
tinha as pernas cruzadas e sentava-se atrás delas. As mãos repousadas nos joelhos, em posição de relaxamento.
Fechou os olhos.
– A vida se resume a esperar por dias melhores com a bunda sentada no sofá, enquanto você realmente deveria tentar fazer o "hoje" melhor do que os outros dias.
Vire o jogo.
– O sol é o mesmo, relativamente, mas você está mais velha. Apenas esperando algo ou alguém para indicar o caminho.
O fogo ardia. Era como se ela fosse uma pedra de magma prestes a explodir.
– Não espere. Trilhe seu caminho no chão sujo. Sozinha.
Sem apagar o fogo, apenas controle-o.
– Transforme a dor em raiva. Troque a faca de lado.
Sentia a chama aumentar cada vez mais.
Estava escuro, vazio. Sua coluna tornava-se cada vez mais firme.
– Quem a fere, será ferido da mesma maneira.
Franziu o cenho inconscientemente. Apenas a voz de Ramona agia sobre .
Fora isso, tudo dependia dela.
Não respire. Alimente a chama.
– A dor não ajuda. A dor é guardada, engolida e engasgada.
Queime-se aprendendo a controlar o fogo.
– A raiva liberta. A raiva trabalha ao seu lado. A raiva é cuspida na cara do seu inimigo.
Sua cabeça parecia prestes a explodir. Era uma situação que nunca sentira antes.
– Não esqueça seu passado. Faça as pazes com ele. Assim, aprenderá a controlar seu futuro.
Leve como uma pluma.
– As coisas ficam mais fáceis quando se transforma a dor em raiva.
Renascendo.
– A dor gera um escudo. A raiva gera uma arma.
Queimada e renascendo das cinzas.
– Você sabe que perdeu o tiro de largada.
Recuperando-se.
Você sabe que perdeu o tiro de largada.
A campainha começou a tocar nesse momento.
– Merda – murmurou Ramona, ficando de pé e indo até a porta – Logo agora que tínhamos conseguido renascer.
abriu um olho. Olhou para o relógio na parede: onze e meia.
Vantagens de estar desempregada.
– Ok, obrigada. Pode me ajudar com esses móveis? É só colocar o sofá lá em cima.
fechou os dois olhos novamente e suspirou. Surpreendeu-se consigo mesma: Ramona não apenas dormindo sob seu teto, mas também ajudando-a a se manter calma, sem qualquer excesso de ansiedade.
Estava deixando com menos vontade de usar seus talentos de policial para fins nada éticos.
Ela não sabia explicar o que achava disso. Por um lado, não gostava de estar assim, se sentindo cada vez mais próxima de Ramona. De um jeito bem incômodo, não podia evitar que Ramona soubesse demais sobre a vida dela. Sentia uma impressão de que a loira podia, e iria, a qualquer momento, dar o bote. A mania de perseguição de era pouco racional, mas quais são as chances? Absurdas. É matemática. seria a idiota novamente. Por outro lado, Ramona parecia estar sinceramente determinada em ajudar.
Era como se fossem irmãs de outra vida.
Estava sozinha, não estava? Não era como se Ramona fosse uma má companhia.
preferiu achar que, para ela, tudo estava bem, enquanto Ramona preferisse ir contra os outros para protegê-la.
Enquanto Ramona agisse ao seu lado, não havia motivos para se preocupar.
Dois homens entraram na sala, e cada um agarrou um lado do sofá. Ramona, de pé, deu passagem e indicou as escadas.
– Deixem no segundo quarto à esquerda.
Sem muitas dificuldades, eles conseguiram subir e logo deixaram o sofá no andar de cima.
– Ainda quero entender essa dos espelhos e do sofá.
– Shhh – retrucou, ainda de olhos fechados – Estou renascendo aqui. Não atrapalhe meu renascimento.
Ramona levantou as mãos na altura do rosto, se rendendo. Poucos segundos depois, ela assinou uma prancheta e eles se foram.
– Pronto, gracinha. Já renasceu? Ou vai demorar três dias?
Ela pegou um cigarro em cima da mesa e acendeu-o, com as mãos em volta da chama, para não apagá-la. A fumaça saiu azul.
– Essa é a sua terapia? – perguntou , sem abrir os olhos.
– Funciona mais rápido que a sua.
– Minha avó viveu até os 96 sem fumar.
– A minha viveu até os 95 sem se importar com a vida dos outros.
franziu o cenho, como se acabasse de ser atingida com um tapa.
– Ouch.
– Desculpe. Foi automático.
– Você falando "desculpe"? – ela riu – Valeu mais do que a desculpa em si.
– Idiota – Ramona também riu, tragando.
girou os joelhos e ficou de pé ainda com a coluna ereta.
– Vamos almoçar? Estou faminta.
– Se você puder pagar algo maior que um fast-food... – Ramona disse, torcendo o cabelo em um coque – Brincadeira. Vamos sim. Alguma ideia de um lugar bom?
– Não estou com dinheiro para nada muito superior a um hambúrguer. Vou ficar um tempo sem trabalhar, precisamos economizar.
Ramona concordou em silêncio, tragando mais uma vez.
– Tenho um dinheiro guardado.
– Não vou querer seu dinheiro.
– Você está me dando um lugar para ficar. Tenho a obrigação de lhe oferecer algo em troca.
– Me ajude hoje à tarde e estaremos quites.
subiu as escadas e entrou em o que um dia já fora seu quarto. Não sobrara muito da cama, além de seu esqueleto. Pegou a primeira blusa que viu em sua mala, mas Ramona protestou, tocando seu ombro.
– Você pode sair até para a padaria, mas vai sair linda. Não pegue a primeira blusa, . Você sabe que podem te chamar para a delegacia.
– Ai, meu... – ia começar a reclamar, mas Ramona a interrompeu.
– A maioria dos times vence por causa das roupas deles, não pelos jogadores.
– Ramona, por favor. Pense antes de falar.
– Você não acha que outros times de baseball tremem na base cada vez que veem os Yankees em campo?
Parando um segundo, teve que concordar. É.
Coloque uma capa bonita, que não vão questionar o que está debaixo dela.
Complexo de Yankees.
– Chega para lá – disse a loira, mexendo na bolsa de – Toma essa blusa e esse casaco.
Era uma camiseta branca, lisa, e uma bela jaqueta preta.
Procurou um pouco mais na bolsa e, por fim, encontrou uma calça comprida jeans, azul clara.
– Deixo você escolher seu sapato.
– Só por isso, vou de chinelos.
Ramona olhou para a janela na frente das duas.
– Tem certeza? Vai congelar seus dedinhos.
– Vou de tênis.
Ramona deu de ombros rindo com deboche. até gostava do jeito de Ramona, e, por isso, suportava aquela cara que ela costumava fazer. Era o rosto dela. Como se tudo, para Ramona, estivesse errado no mundo. Como se a opinião dela fosse a única certa. Como se ela tivesse todas as respostas.
E não tinha?
O telefone começou a tocar nesse momento.
– Aposto que estarão convidando você para um belo almoço na delegacia.
– Aposto que, se estiverem, sei quem vai ser o prato principal – retrucou , ficando de pé, depois de colocar a camiseta branca e pegar o casaco. Foi para o corredor e pegou o telefone no gancho.
– Alô? – fez uma voz cansada, como se estivesse acabado de acordar. Ótima tática para causar um "Desculpe! Ligo de novo mais tarde".
? – era a voz de Julie Stoner.
quis jogar o telefone com toda sua força no andar debaixo nesse momento.
– Sim – foi o máximo que respondeu.
– Julie aqui. Você está sendo solicitada na delegacia.
Para que ser tão formal? Ah, sim. Porque ela tentou me prender há menos de 24 horas.
Insensível.

Insensível.
– Estou? Quem está me solicitando?
– Querem conversar com você.
– Da última vez que eu fui até aí, quase não pude sair.
Julie suspirou e ficou em silêncio por alguns instantes. Ramona olhava para esperando alguma reação, qualquer que fosse. O suspiro não tinha soado como impaciente, mas, sim, como se estivesse sendo uma derrota.
Julie perdia para , e sabia disso.
Sabia que quanto mais afundava, mais emergia.
– Não sou eu. Não é Marla. Não é ninguém daqui.
franziu o cenho.
– Não é como um interrogatório, é?
– Mais ou menos. Até é, se você fizer direito.
– O quê? – por mais que se esforçasse, ela não conseguia compreender.
Julie fez uma pausa.
– Ontem, prendemos uma jovem que disse ter atacado-os. O nome dela é Zoe. E a única coisa que ela diz é "só falarei na presença de ".
O olhar de se ergueu.
Sua coluna tornou-se ereta.
A respiração ficou calma.
Renascendo das cinzas, como uma fênix.
– A menina morena?
– Ela é loira.
É realmente Zoe.
– Estarei aí depois do almoço. Como uma contribuinte a um crime.
conhecia a lei o suficiente para saber que não poderiam prendê-la de novo, a não ser que vissem uma brecha. Coisa que se policiaria para não acontecer.
– Ela também pediu para lhe avisar um bilhete.
respirou fundo. Cada palavra parecia decisiva.
Voltar para o Manson.
Ser presa.
Quase a mesma coisa.
Mas, agora, ela tinha o controle.
Canalizando a dor, transformando-a em raiva.
Não podendo derrubá-la.
A única coisa que pode me derrubar sou eu mesma.
– "Venha sozinha".
Feliz como apenas ficaria, ela sorriu pequeno.
– Estarei aí depois do almoço. Sozinha.
– Estaremos à sua espera.
A frase soou maliciosa. Como se Julie estivesse com uma armadilha pronta para pegar .
Desligou o telefone, demorando alguns segundos para engolir a informação.
Um sorrisinho começou a se formar em seu rosto.
– Ramona, vamos a um banquete. Hoje é por minha conta. Começamos a trabalhar à noite.
– Estou até com medo de perguntar, mas quem era? Com essa felicidade, só pode ter sido o Brad Pitt ou sei lá.
– Não era o Brad Pitt. Era mil vezes melhor! – disse, rindo, saltitando no mesmo lugar para colocar uma calça.
– Melhor que o Brad Pitt? Eu duvido.
– Não duvide – agora, ela pulava num pé só para colocar o tênis. Sorrindo como não sorria há dias – Julie me chamou para a delegacia. Vou interrogar uma pessoa.
– Achei que estivesse afastada.
– Também achei. Julie também achou. Todos nós também achamos.
– Mas você foi chamada pela delegada que te afastou a voltar para um único interrogatório.
– Não apenas isso. Fica melhor: eu fui chamada especialmente pela pessoa presa, para que eu a interrogasse. Ela só vai falar na minha presença.
– Isso significa que...
– Exato. O jogo começa.

Ramona tinha acordado mais cedo naquele dia, para fazer a segunda parte de sua tatuagem. Era linda, mas incrivelmente aterrorizante.
Um par de asas de anjo, que tomavam espaço em boa parte de suas costas, mas que tinham em sua base, costuras.
As pontas das penas queimadas.
Exatamente o que parecia significar.
conseguia ver o começo daquela tatuagem, a base das asas costuradas, parecendo perfurar a pele de Ramona, toda vez que a loira prendia o cabelo.
Tentou não pensar no assunto durante o almoço.
– Não sei muito bem o que perguntar.
– Ah, você sabe exatamente o que perguntar – Ramona disse com as sobrancelhas erguidas, enquanto cortava um pedaço de carne para comer – Aproveite a situação que você estiver no momento. Olhe bem para ela, capture um blefe. Seja o "policial bom" e o "policial mau" ao mesmo tempo.
– Isso parece difícil.
– Tudo sempre parece impossível até você conseguir fazer. E ainda mais você.
– Não sei se me sinto especial, ou não.
Estavam na mesma diner de dias antes. Comendo a mesma comida. Mas a televisão ligada tinha outra programação.
– Olha ali, eu! – apontou para a TV, no canto da parede oposta. Ramona, em sua frente, teve que ficar de costas para olhar para a tela e ver trechos da entrevista de . Não era possível ouvir totalmente a voz dela: o programa cortava trechos e incluía a voz do narrador.
– Ainda vão passar isso de novo algumas vezes por alguns dias – Ramona falou, voltando a olhar para , com o tom de voz como que quisesse tranquilizá-la – Você é uma celebridade.
– Como em um filme.
– Quase isso. Você foi presa injustamente, e agora está voltando para recuperar sua reputação. Você é uma vingadora.
– Não, outro apelido não! – balançou as mãos em negação, fazendo Ramona rir – Continue com a "Serpente Vigilante". Já está de bom tamanho.
– Quer que eu vá com você na delegacia?
colocou um pedaço de carne na boca, e começou a mastigá-la sem parar. Queria ganhar tempo para a resposta, procurar um jeito mais sutil de dizer "querer eu quero, mas não posso correr o risco de ser vista com você".
– Não é melhor você ficar em casa? Sabe, só temos eu, você, e , e talvez não seja uma boa ideia deixarmos a casa vazia o dia inteiro, ainda mais eu estando sempre na primeira página dos...
– Já entendi – Ramona ergueu uma mão, para que se calasse – Não precisa enrolar. Eu sei que não deixaram você ir acompanhada, e que ainda devem estar procurando por mim na delegacia. Posso ficar em casa sim, não se preocupe. Qualquer problema, apareço por lá. Só me ligue.
– Ok, obrigada.
– Não tenha qualquer problema.
– Tudo bem.

Quando chegou à delegacia, não sentia culpa. Na verdade, sentia uma pequena sensação de ansiedade. Afinal, não tinham um mandado de prisão contra ela. Mas poderiam conseguir um.
Poderia voltar ao Manson.
Se ajudasse-os com Zoe, poderiam conseguir prendê-la.
Se não os ajudasse, considerariam aquilo negação de contribuição às autoridades.
Eu era uma das autoridades.
Não é mais.
Não tinha mais nenhuma autoridade ali.
Nenhuma formal, quer dizer. Porque a cidade de Longview inteira lhe dava moral.
Quando entrou na delegacia, não havia ninguém a olhando. sabia que só havia quatro pessoas que sabiam de sua delicada situação: , Marla, Julie e .
E ela não via problema de isso vazar, na verdade. não temia a história real. Temia apenas as falsas.
– Estou aqui – disse a voz de Julie Stoner, parada na entrada para o corredor. Tinha os braços cruzados na frente do peito, o cabelo solto, com uma curta franja em sua testa. Os olhos claros estavam agora opacos. E os lábios, desenhando um sorriso falso.
De certo modo, Julie parecia .
Ajeitando a jaqueta preta, foi na direção da delegada. Julie, quando ela se aproximou, assentiu com a cabeça e girou o corpo em noventa graus, indo para a sala onde Zoe estava.
Primeiro andar, ala oeste. nunca ia para lá. Só foi uma única vez: quando tinha sido detido por invasão de domicílio. Não se lembrava bem como era. Por lá, eram só as quatro celas de quem ficava preso por algumas horas.
Se a situação ficasse ruim, logo os presos eram mandados para lugares piores.
As celas A e B possuíam mesas em sua frente, e um banco dentro, com uma janela. Eram bem iluminadas, para presos por crimes simples, como furtos. tinha ficado na B. A cela C, por outro lado, não tinha janelas, nem um banco, nem uma mesa. Criminosos um pouco mais perigosos: quem quer que entrasse na sala ficaria mais distante possível dele.
A cela D era uma solitária.
Zoe estava na cela A. Mas deveria estar na D.
– Ela passou a cooperar um pouco desde que disse que você vinha. Mas não almoçou.
– Ela está passando bem? – perguntou , ajeitando a gola da jaqueta.
– Mais ou menos. Parece um pouco desnutrida, sabe? Magra demais.
– Não me admira. A comida que vocês arrumam é uma merda.
– A gente tira do gramado da rua mesmo. Quer ter luxo? Não roube um restaurante oriental.
Espera.
Roubar um restaurante oriental?
– Onde era esse restaurante? – perguntou , parada na frente da porta da sala da cela A, com Julie ao seu lado, esta com a mão na maçaneta.
– Na Waiter Street.
Waiter Street. Rua do e do .
Restaurante oriental. Onde eles costumam comprar comida.

– Foi na hora do jantar, havia poucas pessoas lá na hora. Ainda bem que estava lá. Que coincidência – disse, inexpressiva.
comprimiu os lábios, quando Julie girou a maçaneta.
– É. Grande coincidência.
A sala tinha uma cela no canto, pequena, com espaço para uma única pessoa. Era cinza clara, bem iluminada, mas assustadoramente silenciosa. Saindo da cela, o preso ficava em uma parte aberta, com um vidro separando-o de sua visita, com uma mesa entre os dois.
Zoe estava sem gorro. Seu cabelo loiro estava sujo, grosso e solto. Estava mais pálida que o normal. E tão magra quanto já era. De lado para a porta, de modo que a viu de perfil ao primeiro olhar.
Julie ficou na porta, abrindo espaço para que entrasse na sala, e saiu assim que esta o fez.
Isolando duas bombas.
A bomba de hidrogênio possui uma bomba atômica como ponto inicial de explosão.
Zoe era a bomba atômica de .
Os olhos verdes da menina eram mais vívidos do que o resto de seu corpo. Caçaram a detetive assim que Julie fechou a porta.
estava desarmada em todos os sentidos da palavra, quando foi até a cadeira, na frente da mesa.
Zoe olhou para a porta, com a mão na frente dos lábios, como se estivesse esperando-a ansiosamente há algum tempo.
– Eles podem ouvir alguma coisa?
– Só se você me estrangular.
Zoe riu, deu um sorrisinho. A menina sentou-se na frente da detetive.
Havia um pequeno vão embaixo do vidro em cima da mesa, pelo qual não era possível passar uma mão muito grossa. Mas a de e a de Zoe passariam sem muita dificuldade.
– Passei a noite aqui. Estou com dores nas costas até agora.
– Quer um cigarro?
Zoe franziu o cenho.
– Você? Me oferecendo um cigarro?
– Você está sob tensão. Deve estar precisando de uma válvula de escape.
pegou sua bolsa, logo tirando dali um único cigarro e um isqueiro.
– Peguei de uma amiga. Não quero alimentar seu vício, mas acho que talvez isso faça bem à sua sanidade.
Acendeu a ponta do cigarro e deu-o aceso à Zoe, pelo vão. Franzindo o cenho, ela aceitou.
segurou a mão de Zoe que pegou o cigarro, envolvendo-a com a sua. Era uma pele estranhamente quente.
– O que está fazendo aqui, em uma cela? – perguntou a detetive, com as mãos envolvendo a mão de Zoe.
A jovem tragou.
– Estava com fome.
– Não estava não. Você tem anorexia. Posso ver isso em seus olhos. Tem dinheiro para comer, é saudável. Mas não quer comer.
– Ah, é? – Zoe riu debochada – Conte-me mais, Freud.
semicerrou os olhos.
– Órfã de pai. Tem carência da figura masculina. Estou certa?
Zoe se entortou na cadeira, ficando de lado, ainda com a mão segura por .
– Eu realmente queria ver você, . Já ouvi falar muito de você. Em noticiários.
– Estive bem na moda ultimamente.
Zoe riu. Desviou o olhar e comprimiu os lábios.
– Ouvi dizer que foi acusada de mais homicídios.
– É sempre tão bom falar com uma fã.
– Não sou sua fã.
– Talvez não minha, mas do você é.
Zoe deixou a cabeça cair um pouco para trás. Fitava , como se procurasse o blefe.
– Você não enxerga, não é? Não se sente como se seu tempo estivesse correndo?
recuou. Os olhos de Zoe eram como os de um tigre.
Fixos em sua presa, mas sedutores.
Continue olhando.
– A guerra já começou, e você ficou para trás.
Mais perto.
– Você não percebe que perdeu o tiro de largada. Você não consegue se sustentar.
Mais perto...
Zoe tinha os olhos bem abertos.
– Olhe nos meus olhos e diga se garotas boas realmente vão para o paraíso.
Joe Durden.
Joe Durden.
Joe Durden.
.
– Ah, então você ser anoréxica, mas estar roubando potes de comida no justo restaurante oriental onde costuma comprar comida, o mesmo ligado a mim e atacado por você, é tudo questão de coincidência?
Zoe hesitou.
– Eu nunca matei ninguém – continuou – Nem você. Mas você quer manter sua pose de má. Tudo isso para se aproximar de mim.
A mão que segurava torceu-se, segurando a da própria com força. Em um movimento rápido de defesa, Zoe inclinou o corpo para frente, agarrando a mão de e deixando-a incapacitada de sair dali.
Alarmada, mas sem movimentos bruscos, manteve a calma.
– Eu já toquei os pulsos de muita gente – disse Zoe, olhando bem fundo nos olhos de – É onde a vida realmente corre, como um rio. Não há ninguém que eu não possa tocar, cara. E se eu posso tocá-la, eu posso matá-la.
Sua voz era como se estivesse contando a história da Cinderella a uma criança.
ergueu o canto do lábio.
– Gosto de pessoas como você.
Zoe voltou a apoiar as costas na cadeira. voltou a segurar o pulso dela.
Minha vez.
– Gosto de pessoas que acreditam que têm o poder.
– Eu tenho o poder.
– Demais para quem parafraseia Charles Manson – fez um bico debochada, como se dissesse "boa tentativa" – Sim, já li coisas dele. Você é como todos que pisam aqui. Todo mundo. Acha que sabe controlar um policial. Se faz de espertinho. Mas é um imbecil. Todo mundo diz que sabe das coisas, que é diferente. É o que todos dizem.
– Não sou todo mundo – via a garganta de Zoe pular.
– Todos dizem isso também.
Zoe parecia estar perdendo suas cartas na manga.
Ramona, comande.
– Não se force, Zoe. Não pague de rebelde, inteligente e anárquica. Seus olhos me contam mentiras, sua boca conta o que você quer que seja a verdade. Mas a verdade mesmo é contada aqui.
bateu duas vezes o indicador na mão de Zoe. Quando os olhos verdes da menina repousaram em sua própria pele, viu que fazia algum tempo que estava medindo seu pulso.
– Você queria estar aqui. Queria me ver e falar comigo. Agora me diga o que quer.
Zoe engoliu em seco.
– Dessa vez, por favor – quem usava o tom e a cara de deboche, dessa vez, era – Sem rodeios e teatros de segunda.
Essa é Ramona falando por mim, e eu amo isso.
– Eu... – Zoe balbuciava – Eu estou aqui porque quis.
Repetia o que mandava.
– Boa menina.
Zoe tragou mais uma vez, deixando as cinzas caírem no chão.
– Eu precisava falar com você há algum tempo. Vi sobre a morte de .
– Noticiaram rápido assim?
– Não noticiaram. Ainda. Um conhecido meu estava na rua onde aconteceu, quando aconteceu. Viu todas as viaturas, falou com algumas pessoas e a notícia começou a correr.
– Começou, foi? – fez um bico como se estivesse admirada, erguendo as sobrancelhas – Seu amigo conhecia a ?
Zoe estranhou.
– Não.
– E você conhecia?
– Claro. Não estou falando dela?
– Quem te falou sobre ?
– Você.
– Não fui eu. Aliás, ninguém daqui parece te conhecer. te conhecia?
Zoe deixou o olhar fugir um pouco para a esquerda.
– Não.
– Ainda estou tomando seu pulso, Zoe – falou em tom de aviso.
– Ok, ok. Eu conhecia sim. Mas faz muito pouco tempo.
– Onde a conheceu?
Zoe deu de ombros, fingindo despreocupação.
Mas o sangue, o rio de sua vida, corria por suas veias descompassado.
– Não lembro. Não faz muito tempo.
– Tudo bem. Se não quiser me dizer, sem problemas. Assim como não quer me dizer sobre os Durden.
– O que, exatamente, eu não quero dizer?
deu de ombros, soltando o pulso de Zoe e ficando de pé. – Deve ser algo relevante. Você tem um canivete de Joe Durden e o usa como se fosse seu. Vou averiguar isso quando tiver mais tempo.
– Já vai?
– Preciso ir. Logo estarei de volta. Por enquanto, fique na sua. Vai conseguir mais privilégios se for se manter uma boa menina.
– Você não manda em mim.
– Você não tem muita opção, tem? – ficou de costas para Zoe, indo até a porta – Não seja tão durona. Sua força precisa ficar na sua cabeça, não nos seus braços ou pernas.
Girou a maçaneta. Virou-se para Zoe e finalizou:
– Nunca deixe pessoas conhecerem seu lado feio, Zoe.
A menina poderia julgá-la um anjo. Mas um anjo caído, consequentemente, um ser mentiroso. Bela apenas exteriormente.
Apenas como Ramona.
Como Ramona.
Engolida por Ramona.
A essência de Ramona.
E gostava disso.
Porque se estava se tornando Ramona, Zoe estava se tornando .
Porque tinha aprendido da pior maneira a depender de alguém.
E agora aprendia a reproduzir isso.
Exatamente como tudo deveria ser.

Não havia muita gente no corredor. Quando saiu da sala, deveria ter ido embora.
Mas não podia. Precisava de informações.
Tinha tido a pasta de Joe Durden por algumas semanas, mas, depois do sequestro, achou melhor de livrar dela. Ter aquela pasta em sua casa, depois de ser sequestrada pela irmã louca obsessiva de Joe, não seria uma situação adequada.
Então se desfez da pasta, colocando-a em seu devido lugar, sem antes anotar seus dados mais relevantes.
Mesmo assim, aquilo não seria o suficiente.
Precisava de muito mais.
Sorte sua que as únicas pessoas que a consideravam uma suspeita em potencial eram a delegada e a maior detetive do recinto. A "melhor" depois da própria , óbvio.
Em sua mente, trilhou o caminho até a sala do segundo andar onde ficavam os arquivos. Segunda porta à esquerda, subindo as escadas. Deveria subir sem aparentar hesitação ou qualquer vestígio de dúvida.
Foi até a escada.
Começou a subir os degraus.
– Olá, ! – cumprimentou um policial chamado Jim.
– Como está? – ela retrucou, sendo simpática.
Mais um lance.
! – disse Dayse, passando pelo corredor.
– Dayse! Como anda? – perguntou sorrindo.
Olhou para a porta. Mais alguns passos. Quase lá.
Seus olhos focavam apenas a maçaneta prateada.
Tocou a maçaneta. Era só girá-la.
Escorregou para dentro da sala. Tateou a parede, na escuridão, procurando pelo interruptor.
Quando a luz se acendeu, surpresa.
Trinta ficheiros de cerca de um metro e meio de altura, lado a lado, em quarteirões, do jeito que fosse. Dentro de alguns, casos arquivados. De outros, casos encerrados.
Era o paraíso, e podia ouvir os anjos.
Haviam anjos naquelas pastas. Anjos que nunca chegariam aos céus.
Vou lhes devolver suas asas cortadas.
Lembrou-se da tatuagem de Ramona.
Ramona era um falso anjo, com as asas costuradas à força, subindo do inferno. Tinha até as pontas das penas queimadas.
Rezou para que Ramona agisse ao seu favor, enquanto abria a primeira gaveta.
Casos em andamento, sessão J.
Joseph William Durden.
Pegou a pasta de Joe.
Algumas pastas estavam em cima de uma pequena mesa, no centro da sala. Eram as pastas de casos em andamento recorrentes. Sempre tinham cópias que ficavam na delegacia: apenas um exemplar ficava com o detetive encarregado.
Ainda bem.
A pasta de ainda era nova em folha. Agarrou as quatro que estavam em cima da mesa junto dela, e guardou todas as cinco finas pastas em sua bolsa. Com pressa, abriu o ficheiro mais próximo, e tirou cinco pastas aleatórias, deixando-as na mesa, na mesma posição das que tinha tirado.
Perfeito.
Suspirou aliviada.
Isso está certo.
Virou-se para a porta, e, quando estava quase alcançando a maçaneta, percebeu seu pior erro. Seu mais sutil e mais mortal erro.
Tinha deixado a porta encostada, para que não fizesse barulho.
Viu, segundo por segundo, a porta se abrindo devagar. Viu também a sombra se projetar nela. Viu a mão, o pé, e, por fim, o rosto de quem estava entrando ali.
E desejou a todos os anjos para que pudesse desaparecer.
Ramona, socorro.
Isso não está certo.
– Achei que tinha um objetivo ao vir para cá – disse a dura voz de Julie Stoner.
Isso está bem longe de estar certo.

Zoe não conseguia acreditar. Pagar de idiota para ? Por favor! Aquela mulher não deveria ser capaz sequer de segurar uma arma. Não mais.
Mas não conseguia negar. A presença daquela mulher era capaz de colocar qualquer pessoa na linha.
Zoe conseguia até se ver batendo continência para .
Tudo nela exalava respeito. Tudo parecia simpático o suficiente para lhe fazer falar, mas hostil o suficiente para lhe manter distante.
Respeite a linha, era o que sua imagem dizia.
E, agora, tinha entre os dedos um pequeno cartão. Um cartão de visitas.
Quem diabos era Holly Capote, afinal?
Olhou para o cartão. estava lhe abrindo uma brecha. Estava deixando Zoe entrar.
Deixe-a entrar.
Assim como Ramona fizera com , fazia com Zoe.
.
Uma simples frase que a deixava totalmente dependente, curiosa e em pânico.

Estou com você, boneca de papel.


Renascendo como uma fênix.

– Já terminou com Zoe?
A voz de Julie era tão afiada quanto uma faca de cerâmica.
quase ergueu as mãos, se rendendo.
Porque não havia escapatória.
Sem saída.
Estava roubando arquivos confidenciais, estando sob suspeita de ter cometido um assassinato.
Ou seja, todos os indícios estavam ali.
E, muito provavelmente, não seriam tão bonzinhos a pontos de deixarem ela ir para o Manson.
Balbuciou, quando viu Julie colocar as mãos nas cinturas.
E, nesse instante, percebeu que a vida que corria por suas veias, agora correu por seus olhos.
– Ah, finalmente! – disse uma voz atrás da delegada – Só porque eu ia passar na sala de registros, não significa que você deveria me esperar na sala de registros.
Era uma voz mansa e natural.
– Com licença, Julie, preciso levar para minha sala agora.
passou pela delegada com um rosto de quem estava com pressa e impaciente. Agarrou o pulso de .
– Você chamou para cá também?
Ele engoliu em seco, de costas para a delegada. Quando virou-se para ela, era como um adolescente procurando a todo custo uma boa resposta para a diretora autoritária.
Se enterrando junto a quem já estava enterrado.
– Ah, sim, chamei. Não te avisei?
Julie fez que não e completou:
– Nunca faça qualquer coisa sob meu teto, sem me avisar. Por que a chamou?
Um curto silêncio.
Um curto circuito.
– Bem, eu sabia que já tinham chamado-a – ele disse, sem fazer ideia de quem havia chamado , mas prendendo-se à palavra "também" dita por Julie – E pensei que mais um trio de entrevistas seriam uma boa ideia.
– Um trio? – Julie perguntou, cruzando os braços e com o cenho franzido.
– É, para o jornal. Se ficarem boas, publicamos semana que vem. Vai ser meu jeitinho de agradecer à por ter me feito ser admitido aqui – retrucou , dando de ombros.
quis dar um pontapé em , mas se segurou, devido às circunstâncias.
– Quem tinha chamado mesmo? – foi a pergunta que Julie fez.
pensou um palavrão.
– Não foi a Zoe?
O tom de voz de , tão calmo, convenceria qualquer um.
Ninguém jamais imaginaria que ele apenas se baseou na primeira frase que ouviu de Julie.
"Já terminou com Zoe?"
Olhos calmos, brilhando, mas não muito.
Sem suor.
Sem desviar o olhar ou hesitar.
– Bem, ela vai ficar na sua sala – disse a delegada, desarmando-se.
era o melhor mentiroso do mundo.
– Vai ficar sim. Ela se confundiu. Eu disse que ia passar aqui, e ela achou que íamos fazer a entrevista aqui.
fez uma careta como se achasse uma idiota.
Julie deu um pequeno sorrisinho simpático, mal sabendo que estava sendo a idiota.
– Vamos sair daqui – a delegada disse, colocando a mão na maçaneta de novo, e abrindo espaço para que os dois saíssem da sala.
Sem dizer nada, agarrou o pulso de e saiu porta afora.
Puxou-a escada abaixo, quase fazendo tropeçar. Empurrou-a para dentro de sua sala, assim que chegaram ao térreo.
caiu sentada na poltrona ali presente. Ainda estava confusa quando fechou a porta com o pé, e apoiou as costas para mantê-la fechada.
– No que você estava pensando? – ele perguntou, deixando o rosto sereno e calmo para trás, soando até um pouco sarcástico – Eu salvei a sua vida, faça isso valer a pena.
– E eu salvei a sua, me retribua! – retrucou, com o cenho franzido e cruzando os braços.
– Estou retribuindo – respondeu, indo até a mesa, pegando uma sacola de mercado que tinha em cima dela e jogando-a para .
Agarrando a sacola no seu colo, olhou para . Esperou o que quer que ele estivesse planejando.
– Bom argumento lá fora. Boa desculpa.
deu de ombros, rindo.
– Sou um jornalista, magro, e tenho menos de um metro e oitenta. Se eu não soubesse mentir, não estaria vivo.
riu, mas logo depois, o clima de suspense voltou a permanecer. Não era como se não soubessem o que estava acontecendo.
Simplesmente não sabiam o que ia acontecer.
saberia como prosseguir com seu dia. Ela sabia que, depois da delegacia, iria para o consultório de . Sabia que faria sua consulta, e, depois, iria para casa. Em casa, usaria os espelhos.
Não esperava ser pega por Julie na sala de registros.
Não esperava ser salva por .
Não esperava estar agora na sala dele.
Não esperava estar agora em uma situação delicada.
Sempre estava.
Com , a situação era sempre delicada.
– Você vai ter que vir amanhã, depois e depois, para fazermos as tais entrevistas.
Ele tinha dito aquilo com a voz de um médico prestes a contar a um paciente que ele tem câncer terminal.
– Você vai ter que publicar algo? Posso inventar uma história de superação.
andava em círculos na sala. Parecia nervoso, até meio apreensivo.
– Não. Não precisa. Julie apenas vai ouvir que foi uma matéria negada.
olhou para , enquanto ele não parava de andar em círculos no meio da sala, com a mão em volta do queixo e o indicador na frente do lábio.
– Afinal, o que você estava fazendo na sala de registros?
– Pesquisas.
se preparava para mais uma pergunta, que também se preparava, para retrucar.
"Que tipo de pesquisa?"
Pois sim. Não é da sua conta.
– Vai precisar fazer mais pesquisas desse tipo?
Não esperava por aquilo.
– Talvez. Acho que sim.
– Julie vai continuar achando que você está aqui para as entrevistas.
– Posso ir até a sala de registros.
abaixou na frente da cadeira, ajoelhando-se no chão em frente a . Ela, por sua vez, recuou.
Ele parecia muito preocupado com a situação, e que precisava que seguisse à risca cada mínima instrução dele.
– Você vai entrar nessa sala por três dias, nessa específica sala – apontou para o chão em que ambos estavam em cima – E não vai sair dela. O que quer que tenha pego na sala de registros vai ter que ficar com você. E o que quer que tenha ficado lá, vai continuar lá.
– Espera. O quê?
– Eu vou tentar te ajudar.
estava apoiado em seus joelhos, olhando para cima. lembrava-se bem do dia em que seu mentor havia lhe ensinado sobre alguns truques de convencimento: um deles era sempre se posicionar abaixo de quem você procura convencer. Isso dará à pessoa uma impressão de que é superior a você.
Ela estava convencida de que queria algo em troca daquilo. Só podia ser.
Inclinou-se com o rosto para ficar mais próxima dele.
– Vai?
– Sim. Vou lhe passar as informações que precisar e te manter ciente de tudo que está acontecendo nesse lugar.
– Em troca de quê?
molhou os lábios.
– Quero que você faça o mesmo comigo.
– Que eu compartilhe o que eu sei?
– O que não sabe também, se for possível.
– Só isso? Quer que eu ajude e seja ajudada por você?
– Lembra-se do dia em que descobrimos que Samantha estava grávida?
Ela assentiu com a cabeça. Era para ser exatamente aquilo.
– Se precisar de alguma coisa, vou te ajudar. Mas também não quero ficar para trás. Me mantenha a par de tudo. Inclusive do que você não tem certeza.
Ajuda recíproca.
– Trato feito? – ele perguntou.
Mas, de um jeito, ainda não confiava nele.
– Preciso de uma garantia – ela afirmou – De que o que eu lhe disser não vai sair daqui, e de que suas informações serão verdadeiras.
Ele suspirou.
– E se você não está mentindo para mim.
ficou de pé de novo. Cruzou os braços, e apoiou o ombro na parede atrás da cadeira.
– Você se lembra do dia em que eu e fomos até o Manson?
– Sim... Lembro.
– Você lembra que eu disse que sentia a honra de conhecer a Serpente Vigilante?
– Sim...
– Lembra que quando sua casa pegou fogo, eu ofereci a minha e do meu amigo, sem questionar nada?
– Lembro.
– E de quando eu fui até sua casa e fui preso, mas depois consegui ajudar dois policiais a chegarem onde você tinha sido levada após um sequestro?
Ela não respondeu.
– Ou quando então, depois de você ter perdido total confiança em mim, eu simplesmente respeitei seu espaço?
A voz de já soava como uma confissão. ficou de pé, segurando a sacola junto ao corpo, enquanto ele continuava a falar sem tirar os olhos dos dela:
– Quando eu fiquei sabendo que você tinha ido para a casa de um dos homens que você mais odiava, dormido com ele, e não fiz nada, por mais chateado que eu tenha ficado, porque você pode fazer o que quiser, e eu a deixei triste, então você tem todo o direito de me fazer sentir do mesmo jeito?
Ele não respirava. As palavras eram soltas ao vento. Eram deixadas livres.
Fênix.
– E quando eu te avisei que você seria presa? Lembra disso tudo? Consegue se lembrar?
Ele quase chorava. Algo dentro de o feria, e ele se libertava daquela besta guardada em sua alma. Ainda assim, feria.
Quebrar algo e se desculpar não o trará de volta.
... – ele segurou o braço dela, pois queria tocá-la em qualquer lugar que fosse – Quando eu lhe dei motivos para que não confiasse em mim?
Ele molhava os lábios constantemente. comprimiu os seus e desviou o olhar.
Ambos só faziam essas coisas quando estavam nervosos, sob pressão. Um colocava pressão no outro. Sem cessar.
– Cala a boca, . Só cala a boca.
Ele engoliu em seco.
– Eu mudei meus planos por você. Eu fiz isso de uma vez só. Eu não pensei, eu só fiz – passou as costas da mão pelo nariz, olhando para baixo, quase como se estivesse falando sozinho – Acho que é o que se faz quando algo ou alguém realmente vale a pena. Você faz isso porque sabe que é certo... Você está realmente seguro de tudo. Quando você pensa duas vezes, não vale a pena de verdade.
suspirou e fez um movimento brusco para que a soltasse. Foi até a porta e, segurando a maçaneta, disse, apoiando a testa na porta:
– Você me quebrou agora.
– Me desculpe – disse com uma voz morta.
Aquilo quebrou os dois.
Aquilo matou os dois.
saiu da sala e foi em direção à saída da delegacia. Na sacola, viu que ali haviam canetas para escrever em superfícies como espelhos.
Você me quebrou agora.
Me desculpe.

Mais cacos de vidro no chão.

– Tudo bem?
Psicólogos costumam começar a sessão com as perguntas mais idiotas. Claro que não estava tudo bem. Se estivesse, nenhum dos dois estaria ali.
Entretanto, preferiu assentir. era inteligente o suficiente para entender que assentir não era um "sim"; no máximo algo mais para o "mais ou menos".
– Andei tomando o remédio que você tinha me indicado – ela disse.
Sentia-se absurdamente pequena ali. Tudo em volta parecia apertá-la contra si própria, causando uma incômoda situação claustrofóbica.
– Isso é bom. Isso é muito bom, ! – fazia uma voz de comemoração, sentado na superfície da mesa em frente à – E hoje? Como foi seu dia? Alguém da delegacia te procurou?
– Sim, tive que passar por lá.
não anotava uma única linha de suas conclusões. Não era necessário. Estar ali não era como ser analisada, era mais como desabafar com um grande amigo.
– E como foi? – assumiu feições de preocupação.
deu de ombros.
– Até que poderia ter sido pior. Fui chamada para ajudar na contribuição de uma detenta.
– E você colaborou por livre e espontânea vontade?
– Mais ou menos. Sabe quando não te obrigam, mas você sabe que haverá consequências se você não fizer? Foi isso, só que pior.
– Como foi a ajuda?
– A detenta só falaria na minha presença. Eu fui até a delegacia e falei com ela.
– Falou ou a interrogou?
– A sutil linha tênue entre esses dois – ela respondeu, rindo – Eu falei coisas que a deixaram um pouco constrangida. O jogo do policial bom, policial mau. Eu fui os dois.
– Fez perguntas?
– Sim, poucas. Ela não falou muito. Fui lá mesmo para semear a discórdia.
teve que se segurar muito, para não dar uma sonora risada.
– Sua discórdia foi devidamente plantada? Falando no seu ponto de vista.
ergueu as sobrancelhas e fez um bico.
– Não fui nada mal.
– Só isso? Foi o que fez hoje?
Ela comprimiu os lábios por um instante. já tinha a conclusão que achou que fosse ter.
– Encontrei na delegacia.
– Encontrou? – ele perguntou, soando preocupado – E o que houve? Vocês dois estão bem? Não o encontrei hoje, não sei quantos pontos ele provavelmente precisará levar.
– Não, não, está tudo bem. Ele me entregou as canetas. E nos falamos um pouco.
— Falaram? Sobre o quê?
Ela franziu o cenho.
– Você precisa realmente saber disso? Digo, como psicólogo.
deu uma risadinha fraca, olhando para baixo, constrangido.
– Não, na verdade, não. Mas gosto muito de vocês. Você é a mulher mais fascinante que já conheci, e o é meu irmão de outra mãe – cruzou os braços, sorrindo ainda sentado na mesa, mas deixando sorriso sumir por um instante, tomando um rosto ainda amigável, mais profissional – Mas não consigo aguentar a ideia de vocês juntos. Vocês são incrivelmente opostos. Você, famosa, bem sucedida. E ele, um Zé ninguém.
– Isso é ruim?
– Mais ou menos. Normalmente, até ajuda. Mas, no caso de vocês, só dá errado. Vocês nasceram para ficarem bem distantes um do outro, . Ele não compreende isso. Você, pelo menos, consegue compreender?
Ela engoliu em seco. , possivelmente, estava certo.
Ela sabia que estava. Ela esperava que estava. Até concordava que estava.
– Na última vez que você veio, estava calada, evasiva e até um pouco agressiva. Quando te liguei, você estava de ótimo humor. E agora, chega a estar sarcástica. Você está progredindo de humor de uma maneira surpreendente.
Deveria perceber que estava melhor sem .
– Estou?
– Sim. Estar longe dele, de sua chefe e de colegas de trabalho lhe fez bem de uma hora para outra. Você está de bom humor, está mais confiante.
– Meu trabalho me deixa menos confiante?
– Eu não disse isso. Ele só te deixa mais estressada. Não estou falando para que você pare de trabalhar: o seu problema não é o seu trabalho. São as pessoas que você convive, no meio dele.
– O que você sugere, ?
Ele fez uma careta pensativa, olhando para o teto.
– Você não é mais obrigada a comparecer no seu trabalho. Julie a afastou, lembra-se? Então, você não deve mais ir à delegacia. Fique em casa. Faça o que quiser em casa, dê tiros nas paredes, exploda a privada. Mas não acho que sair muito seja saudável para você.
pensou se deveria ou não dizer a que teria que continuar indo à delegacia por três dias, especificamente para encontrar e ser ajudada por . Mas percebeu que não seria uma boa ideia. Então, apenas assentiu.
– Eu devo negar ir, se for solicitada?
– Não, pois isso pode ser pior no futuro. Vá se for solicitada. Mas apenas se for solicitada.
Fez uma curta pausa.
– Saia menos de casa. Há alguma coisa por lá, um tipo estranho de aura, que parece estar fazendo bem a você. Nos sentimos mais à vontade com nosso ambiente que chamamos de "nosso".
pegou no bolso a caixinha azul. Abriu-a e pegou um comprimido, jogando-o para o fundo de sua garganta.
– Obrigada, . Era exatamente o que eu precisava ouvir.
sorriu e tocou o ombro de .
– Fico feliz por estar ajudando.

estava sentada no centro do quarto. Aquele quarto já fora, um dia, o quarto de . A cama dela, entretanto, não estava mais ali.
Não havia nada no quarto além de uma cadeira, um estojo de canetas e espelhos.
Muitos espelhos.
Quando Ramona entrou na casa, já era quase dez da noite. Abrindo a porta, a primeira coisa que viu foi um espelho, do outro lado da sala.
? – perguntou, gritando. Estranhou a presença de um espelho retangular na parede, imediatamente à frente da porta de entrada.
Não conseguiria fugir daquele espelho, quando fosse entrar em casa.
Talvez aquela fosse justamente a intenção.
Olhou para o lado. Havia outro espelho em cima do sofá, no teto. Outro, em frente ao mesmo sofá.
O sofá que costuma sentar.
– Aqui em cima! – gritou a , de um quarto.
Ramona começou a subir as escadas, e não se surpreendeu ao ver mais um espelho, na parede, no fim da escada.
Virando-se para o corredor, havia outro espelho no final desde, na parede do quarto de .
– Isso está ficando esquizofrênico – Ramona murmurou, se aproximando de onde estava.
Chegando no quarto, teve medo.
Porque encontrou de pé, no centro do cômodo, as mãos na cintura, olhando para um imenso espelho na parede como se admirasse uma obra de arte.
O espelho estava vazio e tomava uma parede inteira.
– Você está bem? – perguntou a loira, temendo com sua vida cada palavra que fosse dizer.
O olhar vazio e, ao mesmo tempo, concentrado de chegava a ser insano. Eram espelhos vazios. Não havia nada neles.
Apenas palavras desesperadas para serem escritas.
– Estou bem.
Pegou uma das canetas sem parar de olhar para um ponto fixo do espelho. Tirou sua tampa e foi até esse ponto, ficando na ponta dos pés e levantando o braço, para conseguir escrever.
– O que está fazendo?
Escreveu uma série de número, parando para conferir um anel preto de vez em quando.
– Investigações.
– Para isso os espelhos?
– Sabe quando estamos no banho, entediadas, e começamos a desenhar no vidro embaçado? – terminou de escrever, e tampou a caneta, recuando para o centro da sala sem sequer olhar para Ramona desde que ela chegara – É o mesmo princípio.
Ramona foi para o lado de . As duas observaram, esta com as mãos na cintura, aquela com os braços cruzados, o código que escrevera. Pareciam esperar que ele se resolvesse sozinho, ali, em segundos.
2531613532363-92
– O que isso quer dizer? – perguntou a loira.
– Sou obrigada a ver minhas investigações na casa inteira. A qualquer ângulo que eu olhe.
...
– Ah, desculpe – ela pareceu acordar – Não sei o que quer dizer.
– E o que é?
– Eu e tínhamos algo tipo um anel da amizade. Ela morreu usando o dela. E ele tinha isso escrito no interior dele.
– Quem descobriu?
– Tyler, ontem. Mas não fazemos ideia do que possa significar. Podem ser mil coisas.
– Tem certeza de que isso é relevante? Digo, que não é uma armação para focar sua atenção em um lugar insignificante?
deu de ombros.
– Se for, não vou focar minha atenção. Existem outras mil coisas que pedem minha atenção. E essa não vai ser a mais importante.
Ramona murmurou um "aham" e continuou de braços cruzados.
– Acho uma boa te analisar de novo. Você não está nem um pouco sã.
– Eu estou bem. Nunca estive melhor. Inclusive, já fiz várias possíveis teorias de como decodificar essa mensagem de .
– Me diga cinco, se são "várias" – Ramona fez as aspas com os dedos.
– Posso dizer dez.
Se tinha algo que odiava era deboche. Ironia, tudo bem. Sarcasmo, em alguns casos. Mas não suportava, em hipótese alguma, deboche.
– É?
– Pode ser uma identificação pessoal, um documento. Pode ser um código para algum caso. Pode ser um conjunto de coordenadas.
Quanto mais falava, mais ela escrevia as novas prováveis resoluções no espelho, de caneta azul.
... Está tudo certo?
– Não poderia estar melhor. Estou à todo vapor! – respondeu, com a voz animada – Estou de volta ao jogo.
Engoliu em seco, olhando para o espelho.
De volta ao jogo.
. A Serpente Vigilante trocando de pele.
Ramona sabia o que precisava fazer. Sabia o que precisava falar. E sabia ainda mais o que deveria fazer.
– Não te incomoda não saber o morto do Halloween?
suspirou. Estava irritada por Ramona estar sempre atrapalhando sua linha de raciocínio.
– Você fica mais bonita de boca calada. E não preciso que me digam.
– Acha que pode adivinhar o assassino, a cena, e o morto? Ah, sim. Me poupe.
– Acha que não? Ok – girou o corpo e ficou de frente para Ramona. Fechou os olhos.
Feche os olhos.
Canalize essa dor. Filtre essa tristeza. Acha que consegue fazer isso?
Encube essa dor. Transforme-a. Faça-a agir ao seu favor.
Vire o jogo.
Você não é uma pedra de magma. Você é o fogo.
Sem apagar o fogo, apenas controle-o.
Uma faca? Uma arma.
Sua chama aumenta cada vez mais.
Escuro, vazio. Firme.
Respire. Alimente a chama.
Controle o fogo.
Cuspida na cara do seu inimigo.
Firme como um rochedo.
Renascendo.
Queimada e renascendo das cinzas.
Recuperando-se.
Você sabe que perdeu o tiro de largada.
Sabe.
Sabe.
Sabe?
– Por ser uma festa privada, temos o número de possíveis vítimas bem reduzido. O assassino atacou-o de surpresa, por trás, e a vítima não conseguiu reagir. Mas você esqueceu que estamos falando de uma festa entre policiais? Nomeie cinco policiais que não conseguem se defender de um assassino com uma faca. Por favor, Ramona. Está mais do que claro que o morto não era da polícia, ou, pelo menos, não trabalhava nas ruas ou com armas. Nisso, ficamos com as poucas opções de pessoas, como e . Já sabemos que não foi nenhum desses dois. Assim, temos apenas convidados amigos de policiais. Era magro, ou magra, muito provavelmente. Não resistiu ao ataque. E o que mais?...
– Ok, chega. Estou assustada.
deu um sorrisinho.
Sabia.
– Chego a algum lugar em algumas horas. Me deixe sozinha, que consigo descobrir até o provável morto... Sem nem olhar o cadáver.
– Você é assustadora.
– Você me deixou assim.
e Ramona nem se olhavam. Elas continuavam encarando o espelho, fitando o vazio. Como se fossem melhores amigas de séculos.
E, de certo modo, estavam perto disso.
suspirou. Disse, a voz derrotada, enquanto escrevia mais algumas palavras-chave no espelho.
Ramona era seu espelho.
Ou era o espelho de Ramona?
De qualquer modo... Isso era bom.
– Temos cinco assassinatos aqui. São todos mais ou menos no mesmo círculo de pessoas, os mesmos conhecidos. Mas são bem diferentes um do outro.
– O que você quer dizer com isso?
– Esse assassino... o do Halloween, o do suicida e o da . Talvez até o de Joe Durden. Essa pessoa gosta de ver a vítima. O jeito dele, ou dela, de matar é muito singular. Ele quer ver a pessoa agoniada... Os jeitos diferentes, como do suicida e de , mostram que ele quer ver a vítima morrer. Ele quer vê-la implorar por perdão, por piedade, por sua própria vida. E o do Halloween, quase a mesma coisa. Atacou de surpresa, provavelmente porque não teria tempo de ver a vítima novamente de maneira tão vulnerável, ou sozinha. Sabemos que ele teve pressa, não tinha tempo, mas ele não se segurou. Mesmo assim, ele se satisfez: pessoas precisavam ver isso... Temerem isso. Ele matou alguém em uma festa. sangrou até morrer. E Joe... Bem, você sabe.
– E Samantha?
– A morte de Samantha foi um truque, uma armadilha. Ela estava lá, na própria casa de Sam, em uma caixa. Foi colocada lá por alguém próximo dela. Mas a pessoa não estaria lá quando Samantha morresse. Mesmo assim, seria trabalho feito. Ela morreria... Alguma hora. Talvez demorasse, mas ela morreria.
– Você quer dizer...
– Exatamente. É um erro comum. Mortes similares entre o mesmo grupo de pessoas. Mas temos dois assassinos. Pelo menos. E, pelo jeito... Ainda contando.
– Mas como pode saber se você nem ao menos viu os corpos? O do Halloween e o suicida.
– Se não querem me mostrar os corpos, vou mostrar que não preciso ver os corpos.
, a morte de Joe não foi vista pelo assassino. O Durden queimou, e o cara que o matou nem se deu o trabalho de ver seu corpo? Se ele gostava tanto desse gosto do trabalho feito?
– Ramona, Joe estava banhado de éter etílico. Isso entra em combustão a 315ºC. A pele humana se queima a 120. Só imagine como Joe Durden ficou.
Dois assassinos.
Suicida.
Fraqueza.
Desconhecido.
Palavras-chave.
Chaves e palavras.
Ramona e .
– Você é genial.
Uma fênix.
Irmãs de alma.
– Você também me deixou assim.
– De nada.

Hey young blood, doesn't it feel like our time is running out? I'm gonna change you like a remix, then I'll raise you like a phoenix.




Look at him now in the mirror dreaming, what is happening in his head?

contava os minutos desde que tinha entrado naquele quarto de hotel. E tentava estimar, em uma brincadeira ridícula, quantos minutos demoraria para que pudesse sair dele.
Era como o Manson, para , em proporções estranhamente semelhantes.
Dentro do quarto, dentro do Manson, ambas estavam mais seguras.
Os demônios caminham à noite, mas voam de dia.
Tudo parecia estar começando a entrar em ordem. Não recebera ligações recentemente. E parecia estar bem.
Sem sinais de perigo.
estava sentada na poltrona. Devagar, levantou-se e pegou o celular em cima da cama e procurou o número da discagem rápida.
— Alô? — perguntou a voz rouca de Marla. conferiu a hora, perguntando-se por um momento se não tivesse ligado cedo demais. Eram dez da manhã.
— Marla? aqui.
— Ah! — exclamou a detetive, que não tinha salvado o número da moça por motivos lógicos, e por isso quase sempre era pega de surpresa por suas ligações — Como está?
— Estou bem. E vocês?
— Nem tudo. Mas por que me ligou?
respirou fundo.
— Acho que estou pronta. Para voltar.
Marla ficou em silêncio por alguns segundos. Limpou a garganta, ficando com a voz menos rouca.
...
— Estou pronta e quero voltar. está bem?
— Na medida do possível. Você pediu para que não te desse detalhes. Não quero te estressar. De modo algum.
— Ainda não quero saber detalhes do que quer que seja. Mas, se tudo estiver bem com e Tyler, acho que já posso voltar.
— Tyler continua no hospital.
— E ?
— Para saber se ela está bem, preciso da sua ajuda também.
engoliu em seco.
— Precisa?
viu Ramona. Ele disse que a viu bem em sua frente.
— Sim?
— Ramona queimou quarenta por cento da face dele.
ficou em silêncio por alguns instantes.
— Assim que puder, venha me buscar. Estarei pronta em meia hora.

Tyler acreditava que, desde o sequestro, ficaria a salvo se estivesse no hospital. De certo modo, estava certo. Estaria sob melhores cuidados, longe da pessoa mais perigosa que conhecia.
Mas estaria frágil à pessoa mais perigosa que não conhecia.
Ainda era cedo quando alguém entrou em seu quarto. Usava uma touca e máscara, sendo possível apenas ver seus olhos.
Seus grandes olhos brilhantes.
Lentes? Talvez.
Mas continuavam assustadores.
Tyler estava deitado, enrolado nos lençóis, apenas aguardando sua enfermeira para servir seu almoço. Cada vez que a tal enfermeira ia servi-lo, ela colocava em seu colo o prato, e Tyler fazia a primeira piada suja que viesse à mente. A maioria não daria certo com um homem qualquer, mas o olhar incisivo de Tyler era fora do normal.
O Don Juan de Longview.
O olhar de Tyler era, ao mesmo tempo, sutil e grave. Era límpido e malicioso. Era sujo e puro.
Era estranhamente igual ao de , mas usado para fins distintos.
Quando ouviu a porta, Tyler disse em tom de brincadeira, sem abrir os olhos:
— Quem ousa interferir meu descanso?
Não obteve resposta. Estranhando, ele ergueu a cabeça, vendo um corpo de costas. Não sabia dizer se era um homem ou uma mulher. Não tinha ombros largos, e nem era alto, mas não tinha pose feminina. Estava de calça e jaleco de mangas compridas, ambos brancos. E mexia na comida de Tyler.
— Bom dia — cumprimentou o , com o cenho franzido.
— Bom dia, sr. — respondeu uma voz serena. Tyler achou que era uma voz masculina, mas, por um momento, não soube dizer.
Aquilo estava incomum demais.
Normal demais.
— Teve uma boa noite? — perguntou o enfermeiro. Mexia na comida, dividindo-a na bandeja.
Tyler passou a mão pelos cabelos, apertando os olhos.
— Sim. Na medida do possível.
Qualquer uso de alguma palavra errada era quase crucial.
O enfermeiro salgou o prato.
— Percebo que gosta de dormir. Dizem por aqui que dorme quase doze horas por dia.
Ele segurou as extremidades da bandeja.
— E sei que está sozinho há algum tempo. Sua irmã não o visita.
— Minha irmã tem mais o que fazer — Tyler respondeu, sem emoção — Tipo aparecer em programas de TV aberta e explanar fatos de sua vida pessoal por lá.
O enfermeiro riu. Girou o corpo e foi com a bandeja até a cama de Tyler, a passos largos.
— Ela parece ser bem atenciosa com o senhor, entretanto. Veio no hospital recentemente. Veio vê-lo.
— Ela não é atenciosa. Veio poucas vezes.
— Ela zela pelo senhor.
Colocou a bandeja no colo de Tyler. O jovem loiro observava o enfermeiro com o olhar torto, não tirando os olhos dos dele.
Eram como estrelas.
Tinham um brilho próprio.
Os olhos de Tyler eram incisivos, maliciosos. Os do enfermeiro eram radioativos, atraentes.
Ele tinha brilho próprio.
A maior das estrelas, que acabara de morrer.
— Ela quer cuidar do senhor.
Tyler sentia tanta fome que comeria um rochedo. Sem tirar os olhos do enfermeiro, agarrou a colher de plástico e serviu-se de um punhado de arroz com legumes.
— Ela não precisa me proteger. Estou bem aqui.
Os olhos claros do enfermeiro estavam apontados para a bandeja até então. Mas olharam de lado para o jovem.
Eram sarcásticos.
— Não acha que está trancando a porta de sua própria cela?
Tyler colocou mais comida na colher.
— Uma prisão é mais segura que um hospital.
Seus olhos brilharam.
Estrelas engolidas por um buraco negro.
Tyler era uma minúscula estrela.
Colocou a colher na boca.
É necessária uma grande quantidade de arsênico para fazer você passar mal.
Tyler entendeu isso tarde demais.
— Estou seguro aqui. Existem pessoas más lá fora.
— Existem pessoas piores aqui dentro. Ou você realmente acredita que uma pessoa que segura um bisturi com firmeza e corta a pele de alguém com precisão, vendo seus órgãos vitais quase na palma de suas mãos, é uma pessoa sã?
Tyler engoliu e sentiu como se houvesse pequenos grãos de arame farpado descendo por seu organismo.
— Médicos são loucos. Usamos armas para salvar vidas. Tal como policiais.
— Estão salvando a minha vida — tal afirmação de Tyler soou como um questionamento.
O enfermeiro riu.
— Sua policial favorita está?
O jovem engoliu em seco.
— Não tem dinheiro. Não tem bens — enumerou o enfermeiro, com um olhar sarcástico — Vai de teto em teto.
Por debaixo da máscara, ele sorriu.
— Você sabe que é um parasita.
— Quem é você?
— Você é uma célula errada, que começou um tumor. Mas ainda tem tempo de consertar isso.
— Não sei do que você está falando.
Engasgou.
O enfermeiro sentou-se no pé da cama de Tyler. Precaveu para que não tocasse no .
Assistiria, apenas.
De longe, nem precisaria encostar nele para que conseguisse o que queria.
Era muito especial para tocar Tyler. Era muito bom para tocar a pele de ser verme, um ser miserável como Tyler .
Aquele câncer.
Tyler apertou os olhos, colocando a mão na frente da boca e tossindo forte. Abriu os olhos, que, a essa altura, já estavam vermelhos e lacrimejando. Ardiam.
— Seu tempo corre mais devagar aqui dentro. Mas não lhe faz jus.
Ambos sustentaram o olhar um do outro.
As pequenas esmeraldas cristalinas de Tyler e as balas do enfermeiro. Balas de diamante contra cristais manchados de ébano.
Tyler mal conseguia falar, de tanto que tossia.
— Você apodrecer só deixaria tudo mais fácil para ela.
— Cale a boca. Cale — tossiu mais, envolvendo o próprio pescoço com a mão.
O já estava em agonia, como se algo estivesse se forma do em sua garganta, algo imperceptível. Algo inacessível.
Um tumor.
Tyler era o tumor.
— É um sangue de merda mesmo, — comentou o enfermeiro, olhando para ele com desprezo.
Em uma onda, Tyler foi atingido por milhões de pares de olhos idênticos aos dele.
Ao longo de sua vida, sempre que se pegara pensando em sua trajetória, via aqueles olhos.
Tinha pesadelos com aqueles olhos.
— Sangue de merda que nunca foi derramado.
Um garoto que tinha medo do escuro.
Um menino, não um herói.
Um garoto azarado.
O enfermeiro riu.
— Só derramam sangue de pessoas importantes. Pessoas como você não têm seu nome lembrado.
Você sabe que perdeu o tiro da largada, Tyler.
Aqueles olhos claros eram os piores olhos.
Eram a mistura de todos.
Era como olhar de um anjo.
Ramona.
Ramona.
Um anjo o odeia, Tyler. Um anjo mau.
Você é radioativo.
— Deus ignora você. Ele não o odeia. Ele simplesmente o considera insignificante.
Se sua garganta fechasse, seria mais fácil.
O enfermeiro foi até a mesa e pegou uma pasta fina, azul, e uma caneta. Com a outra mão, um copo de suco de laranja. Tomou um gole, de costas para o .
Não estava no chão apenas por que caíra. Era porque ninguém lembrou de levantá-lo.
— Talvez queira ver isso. Chegou aqui mais cedo.
Deixou o copo na mesinha perto da cama, e deixou a pasta no colo de Tyler, tirando a bandeja e colocando-a na mesma mesinha.
Evacuando.
— Não quero nada de você, até porque você não tem nada a oferecer. Apenas olhe isso.
A visão de Tyler começava a ficar turva. Ele segurou a pasta e a abriu desesperado, quase deixando seu conteúdo cair em cima da cama.
Leu as palavras-chave e soube o que aquilo significava.
Podia ouvir os soldados. Podia ver a sala ficando mais escura, as paredes descascando e tudo se esvaziando.
Só sobraria Tyler.
Sempre só sobrara Tyler.
O quarto ficaria cheio com os soldados. As enfermeiras empurrariam a maca, e ele seria saudado.
No berço de glória.
A caneta foi estendida a ele. Segurou com firmeza e rabiscou uma assinatura na última página.
O enfermeiro tirou a pasta e a caneta das mãos de Tyler com calma, e lhe deu o suco. O jovem bebeu como se fosse a última coisa que lhe restava na vida. Quanto mais o cítrico líquido descia por sua garganta, mais ele sentia-se melhor.
Fechou os olhos.
A fumaça estava se dissipando. E Tyler voltava à realidade.
O enfermeiro não estava mais ali. Nem ele, nem a pasta, muito menos o prato.
Tyler apertou forte os olhos e, por um mínimo lapso de momento, desejou que tivesse comido todo o conteúdo do prato.
Pois jamais seria saudado nos portões do paraíso.
Um filho de ninguém.
Ouviu batidas na porta. Sem responder, viu uma mulher de um belo corpo, loira, entrar no cômodo com o almoço de Tyler.
— Como está, sr. ?
Tyler passou as costas da mão pela face, limpando a lágrima.
— Está bem? Nunca o vi em silêncio por tanto tempo.
— Já almocei. Um enfermeiro entrou aqui já alguns minutos e me serviu.
A loira franziu o cenho.
— Sim. Era um enfermeiro, e você deve tê-lo visto no corredor, com uma pasta azul na mão.
A enfermeira foi até ele, tocou a sua testa, como se medisse sua temperatura, com um sorriso estranho.
O sorriso de quem entretém uma pessoa, para que ela não descubra em que situação terrível ela se encontrava.
— Tyler, querido. Não temos enfermeiros aqui. Só enfermeiras.
— Como? — foi a vez de Tyler franzir o cenho.
— Você está bem mesmo? Tem certeza de que não foi um sonho ruim?
— Eu sei o que vi — seu tom era nervoso, beirando o de súplica — Eu vi um enfermeiro aqui. Ele me serviu o almoço.
— Querido...
Ela estendeu a mão para tocar seu braço. Tyler segurou a mão dela no ar, segurando-a com força e agressividade.
Seu par de esmeraldas estava vidrado.
— Não me chame de querido. Não me trate como um doente. Eu sei o que vi.
A loira comprimiu os lábios.
— Tudo bem. Vou devolver seu almoço. Sem problemas.
Tyler soltou-a sem mudar a expressão. Não piscava. A enfermeira deu as costas para ele rapidamente, e levou a comida para fora do quarto.
A porta fechou-se. Ela respirou fundo, como se tivesse se salvado de uma situação perigosa.
— Doutor — ela chamou o médico que passava pelo corredor — Acho que deveríamos transferi-lo.
— Transferir? Ele está reagindo tão bem.
— Ele disse ter visto um enfermeiro. Está agressivo. Acho que a ala Gein não é mais o suficiente para ele.

O efeito placebo é um fenômeno que ocorre quando, por exemplo, um depressivo toma algum comprimido sem qualquer efeito e acredita estar sendo curado, simplesmente porque contam a ele que tal comprimido ajuda no tratamento. A ideia do efeito placebo é que podemos ser curados, essencialmente, porque acreditamos estar sendo curados.
De forma geral, o cérebro nos engana de forma inacreditável. Quando nos convencemos de algo, chegamos a ser patéticos ao tentar provar isso ou acreditar nisso. Tudo parece nos convencer cada vez mais.
Isso, às vezes, tem efeitos reversos. Como, por exemplo, ao comer algo na presença de um indivíduo estranho, acreditar estar sendo envenenado com arsênico, e, ao beber um simples suco de laranja, acreditar estar a salvo.
É simples questão de psicologia.

regressou mais de dez anos de sua vida no momento em que ficou pronta para sair de casa. Vestia uma calça preta, com botas de salto fino também pretas, e uma blusa social branca. Os cabelos estavam alinhados, e sua maquiagem, perfeita.
Quando olhou sua imagem no espelho, lembrou-se de .
Não estava frio naquele dia, mas, ainda assim, era inverno em Longview. A delegacia estava cheia quando ela chegou, por volta das dez da manhã.
Não precisou identificar-se quando chegou ao lugar, e se encaminhou para a sala de .
Ainda sabem quem manda aqui.
Mais cedo, em casa, Ramona tinha acordado às oito, por um milagre. Ela era o tipo de pessoa que gostava de acordar à uma da tarde, e ainda reclamava.
Chegou à cozinha e colocou o café na cafeteira. Enquanto ia até a geladeira para pegar algum iogurte, deparou-se com um espelho na parede ao lado, exatamente de frente para a mesa que ficava na cozinha.
— Bom dia — falou , entrando no cômodo sem blusa, mas já com as calças e os tênis — Estou receoso de perguntar, mas para que o espelho?
Havia uma série de números escrita no espelho.
2531613532363-92
— Nada de importante. Só não apague.
deu de ombros, sentando à mesa. Segundos depois que Ramona se juntou a ele, surgiu ali, já pronta para sair. Foi até a cafeteira e encheu uma caneca com seu conteúdo. Virou-se para a mesa, olhando fixamente e com o olhar vazio para onde estava sentado. Ele olhou de lado para ela, incomodado.
— O que foi?
— Você está no meu lugar.
e Ramona trocaram olhares.
— Ninguém tem lugar marcado.
— Eu tenho.
— Onde está a marcação, que eu não vi?
— Bem na sua frente.
Em frente a era o espelho.
— Você só pode estar de brincadeira — Ramona murmurou, a voz expressando surpresa, comendo um pedaço de pão em seguida.
— Tenho que trabalhar. Esse é meu método.
— Ok, isso não é método. Isso é coisa de gente doida.
balançou a mão como se quisesse que Ramona esquecesse o assunto, e se levantou para dar lugar a . A detetive sentou-se, assentindo com a cabeça, em agradecimento.
acordara inexpressiva. sabia, pelo tempo de convivência, que ela agia assim sempre que estava dedicada a um caso. Era como se, de tão ocupada pensando, sua mente esquecesse de representar qualquer emoção.
— O que significa isso? É um número de identificação?
bebeu alguns goles de café antes de responder a :
— Não sei. Mas bom palpite. Vou anotar.
Ramona e ele se olharam. A loira girou os olhos discretamente, e disse:
— O que tem para fazer hoje?
virou a caneca e fez uma careta entristecida ao ver que sua bebida energética e vital tinha chegado ao fim.
— Tenho um encontro com dois amigos mais tardes. Dois coleguinhas — ela respondeu, indo para a pia para pegar mais café.
— Almoça fora?
— Provável. Volto depois da minha consulta. E a gente vive de sanduíche.
— Não reclamaria — se manifestou em relação ao jantar.
virou a caneca assim que a encheu, bebendo o café por inteiro. Quando saiu da cozinha para a sala, pegou seu blazer preto e cruzou com , descendo a escada.
— Olá! — disse ela para , que bocejava, com os cabelos em pé.
— Tchau — ele retrucou assim que ela segurou na maçaneta.
— Quer deixar algum aviso? Algo para eu lembrar? — gritou Ramona, quando abriu a porta.
— Não limpe minhas janelas! — gritou de volta, antes de sair da porta, com um estrondo.
Ramona sabia que, se subisse as escadas e fosse para o quarto dos espelhos de , encontraria a única janela do lugar com os vidros rabiscados de lápis de cor. E os espelhos cheios de anotações.
Bebeu o café sorrindo.
E perguntou-se, antes de ir para a delegacia, como deveria estar naquele momento.

— Diga-me, caro amigo meu — pediu , falando alto e entrando na cozinha com a caneca de café, desfilando como se fosse o último rei da Inglaterra, enquanto cochilava em cima da mesa com a cabeça apoiada na mão direita e uma caneca de café em sua frente —, você gosta de si mesmo?
deu um pulo de susto na cadeira, coçando o olho e bocejando, ao ouvir a voz alta de . O psicólogo tinha essa bela mania de assustá-lo de manhã.
— Se eu disser que sim — ele pigarreou, pegando a caneca e bebendo o café —, eu seria um idiota, certo?
tirou um segundo para refletir, arqueando as sobrancelhas ao concordar, apoiando as costas na parede da cozinha.
— Na verdade, você já é um idiota. Mas se você disser que sim, você também seria um mentiroso.
— Eu admiro o jeito com o que você fala com as pessoas de manhã. Sinceramente. Anima muito ao começar o dia.
— Tira o olho que eu gosto é de mulher. Falando nisso, você com essa cara de desgosto, parecendo que abriu o pote de sorvete do congelador e achou feijão... Nem preciso perguntar.
deu de ombros. Não conseguia assimilar metade das palavras de àquela hora da manhã, mas fingia que o fazia por conta da amizade.
— Se você gosta de si mesmo, deveria deixar logo isso morrer. Vocês se conheceram há, o que, um mês? E já se acha no Romeu e Julieta.
franziu o cenho, sentindo-se ofendido pelo ofício de jornalista e estar ouvindo um erro literário daqueles.
— Para começar, Romeu e Julieta se passa em um período de três dias. Então, eles estão piores que eu. Depois, isso simplesmente está me incomodando.
— Você e ? O que te incomoda?
Comprimiu os lábios e disse, com as sobrancelhas erguidas, sutilmente incrédulo:
— O fato de não ter dado certo por terceiros, e não por conta de nós mesmos.
— Para de drama, .
— Me deixa, cara — ficou de pé para ir até a pia se servir de mais café — Estou só te falando como me sinto.
— Você e ela se conhecem há pouco tempo e você já está que nem um otário, cheirando a bunda dela sempre que a vê.
— Para você falar merda, é melhor ficar de boca calada — retrucou firmemente, apoiando o quadril na bancada e cruzando os braços.
abaixou os olhos e bebeu alguns goles do café.
— Desculpe. Não quis te ofender. Como psicólogo, não posso menosprezar os sentimentos dos outros. Desculpe mesmo.
— Tudo bem, . Eu só... — grunhiu baixo — Tudo isso andou me irritando muito.
— Bela hora para se revoltar com o mundo ao seu redor. Mas pode dizer — falou, puxando a cadeira em frente a —, sou todo ouvidos. E não tenho nada melhor para fazer.
virou os olhos e deu um sorriso pequeno. Cruzou os braços, esperando o café terminar de encher na caneca.
— Vai me analisar?
Os cantos dos lábios de foram até cada orelha, praticamente.
— Se você deixar, e se não deixar também.
se ajeitou. Apoiou as mãos na bancada, cerrando os punhos e com os nós dos dedos ficando brancos. Comprimiu os lábios novamente e tentou conter sua voz.
— Não paro de pensar nela sobre o Tyler. Ele no Gein, afastado de tudo e de todos, como sempre disse que ele ficou. Tyler é o maior problema de . Ele suga a energia que ela tem, e não retribui isso a ela. É só uma criança revoltada.
Bebeu alguns goles de seu café enquanto ouvia resumir:
— Ele é um imaturo querendo se meter em assuntos sérios. E sabe do que mais? Cedo ou tarde, ou sai daquele hospital livre, ou em uma camisa de força.
— O que quer dizer com isso?
— Está brincando? Você sabe como é. Da ala Gein, ou é rua, ou é Manson.
— Se ele for para o Manson, você acha melhor saber ou não?
deu de ombros.
— Prefiro não pensar no assunto. Não vou ser eu quem vai avisar isso a ela, mesmo.
— Viu? Esse é o problema! — apontou para , a voz menos contida, mas ainda calma, como se apontasse para o ponto que não conseguisse expressar, mas tivesse acabado de alcançá-lo — Ninguém parece estar preocupado em contar qualquer coisa a ela, de qualquer modo.
suspirou pesadamente. Tinha cansado de falar aquilo com . Toda vez, ele fazia um pequeno comentário em relação a isso, e era obrigado a repetir que não poderia ter a paz mundial e a economia em ordem no mesmo momento.
As coisas simplesmente não funcionam assim. não poderia mudar o que lhe incomodava.
Acostume-se e acomode-se nessa casa quebrada.
— Você parece se esforçar para não entender, não é, cara? Se ela não comenta, não comente. E se ninguém falar, não fale. Ela já deve ter demorado a superar, então só não a faça lembrar. Você não vai conseguir fazer muito, e se estressar por isso não é o ideal.
— Você acha isso certo, ? Se coloque na situação dela — inclinou-se para frente, semicerrando os olhos e sem piscar, começando a se alterar — Depois de ser afastada por três meses por um crime que não cometeu, ela ainda é obrigada a se mudar para a casa de pessoas que ela não conhece, depois de sua casa pegar fogo... e ainda fica sozinha de uma hora para outra.
...
— É só injusto, ok? E isso me incomoda se fosse com ela ou com qualquer outra pessoa. Porque eu, desculpe-me por isso, gosto de fazer as coisas certas.
— Primeiramente, cada vez que você diz que mesmo se não fosse com ela, você estaria assim, me convence menos — já falava como se fosse uma bronca: firme e alto — Então pare. Depois, se convença que você não tem o poder de mudar tudo. Você é um no meio de vários, um gato entre os leões. E, por último, ela não está sozinha. Ela tem a mim, por exemplo. E, sinto dizer, não tem a você. Porque eu disse e vou repetir — foi a vez de inclinar-se e apontar o dedo para — Vocês dois são uma bomba a explodir. Ela mesma diz que acha melhor vocês manterem a distância. Disse que não quer você por perto.
mordeu o lábio, desviando o olhar.
As porras de umas pastas em arquivos.
Deixe isso correr, para que mudar o que não explodiu?
Por que esvaziar um copo prestes a transbordar, se a água parou de cair?
Isso era infantil. Essa ideia de mudar as coisas que lhe incomodam. achava isso, porque sabia que quanto mais envelheceria, mais se acomodaria.
Quando você cresce, seu coração morre.¹
Disse, baixo:
— Não me lembro de ela ter dito isso.
— Ela nunca diria isso a você.
nunca diria isso a ninguém, . Nem a ela disse.
bufou.
— Ok, ok. Posso ter inventado um pouco sobre o que ela acha de você. Mas acho que você está confundindo as coisas. Você vai sempre que ela o chama, como um cãozinho, e aposto que ela não esqueceu o fatídico dia com a .
. Eu vou quando qualquer um chama. Olha só para mim! — abriu os braços, falando mais alto e rindo — Você acabou de dizer. Quem sou eu para negar algo a alguém? O que mandam, eu faço. Eu sou assim. É meu jeito, quero ser agradável. E não vai ser você, depois de 25 anos, que vai mudar isso em mim.
comprimiu os lábios, apoiando as costas na cadeira com um ar de desistência. Não era uma discussão; era apenas uma conversa desgastaste.
— Eu respeito o fato de não querer me ver nem como amigo. Por isso, mantenho a distância dela desde que ela pediu por isso. Só vou até ela quando acho que ela precisa de mim, ou quando ela chama por mim. Porque eu sou assim. Não gosto disso, acredite. Se você não gosta, imagine eu. Mas é realmente doloroso ser apenas o apoio, um ajudante, para a mulher que você considera uma das mais importantes para você. Eu quero ajudar . E ninguém pode dizer que não posso fazer isso.
, não corra com as coisas. Ninguém precisa te dizer, garoto. Porque você mesmo sabe que não pode. Por que insistir tanto em uma mulher que você conhece há tão pouco tempo?
bufou, dando as costas para e indo para a porta.
— Porque nesse pouco tempo, ela me fez esquecer que eu sou só mais um na multidão.
Pegou o casaco e suspirou.
— Eu quero , e ninguém pode dizer que eu não posso tê-la.
— Se você for vê-la, lembre-se de que está fazendo algo muito, muito errado.
— Às vezes é bom fazer a coisa errada.
Te faz diferenciar do que é certo.
ficou de pé, pegando as chaves do carro na mesa e rodando o chaveiro no dedo indicador.
— Promete 'pro seu irmãozão que não vai fazer nada que você vá se arrepender depois.
virou os olhos.
— Ok, prometo 'pro meu irmãozão.
Abrindo a porta, ergueu as sobrancelhas em surpresa.
— Bem, isso é novidade.
— O quê?
— Essa reação. Quando faço esses tipos de pedidos a qualquer pessoa.
— Como as pessoas costumam reagir?
riu.
— Elas mandam eu ir me foder.
Garanto que não vou me arrepender.
A primeira coisa que precisava fazer era ajudar a provar que Joe Durden ainda estava vivo.

A mente de era uma sala, sem portas ou janelas. As paredes eram de um tom acinzentado de lilás, gélido. Na hora que se sentou na frente de , em uma cadeira estofada, de pernas cruzadas e sem tocar no chão, a sala só tinha um piano.
entrou na sala no exato momento em que sentou em seu piano imaginário. Quando era mais jovem, Johanna Durden dizia que aquilo traria paz à sua mente. Johanna dizia que sempre que estivesse tensa, ou ansiosa, era bom criar um cenário imaginário em que prevalecesse a ordem e a paz.
O cenário de era um piano.
entrou na sala olhando para baixo, e devagar. Tinha, em suas mãos, um papel branco dobrado. Foi até a mesa, sentando na frente de , e apoiando os cotovelos nos joelhos, inclinado para frente, como que esperando algo de .
Ela abriu os olhos como se esperasse algo de também.
Começou a tocar nas teclas.
— Não vai anotar nada? — ela perguntou.
murmurou um "ah", e pegou o papel e a caneta que estavam em cima da mesa e empurrou-os em cima da madeira em direção a .
— Você quem vai, não?
Quando a música começou a tocar, ergueu os olhos para . Ele esperava algo dela. E ela não esperava absolutamente nada dele.
Ele tentava passar pelo muro.
E não estava do outro lado. Ela estava em cima.
Vai ficar em cima do muro até te empurrarem?
— O que é isso? — perguntou, apontando com a cabeça para o papel dobrado.
pegou o papel e abriu-o para , mostrando que era uma cópia do arquivo de . Havia alguns dados que não entenderia nem se tentasse, mas havia uma única palavra ali que ela odiava:
Positivo.
— Você tinha dito que Joe foi encontrado quase todo queimado.
— Éter etílico — ela completou, ainda olhando fixamente para a palavra, como se fosse o menos importante do mundo naquele momento.
— Carbonizado até a alma. É. Mas que não se teve 100% de certeza de que foi ele a ser deixado naquela lixeira.
Uma lixeira.
Belo depósito para os restos mortais de Joseph Durden.
— De fato.
— Você tem alguma prova de que ele possa estar vivo?
encostou as costas na cadeira, com os dentes trincados, inspirando e expirando ar pela boca. Fechou os olhos.
Mais rápido, mais rápido.
— Jacqueline e James afirmaram piamente que Joe está morto. Dificilmente, se ele estivesse vivo, ele não deixaria seus irmãos sabendo.
— Continue — pediu, apoiando as costas na cadeira e apoiado as mãos entrelaçadas no colo.
— Ao mesmo tempo que ele tinha que deixar pouca gente sabendo disso. Se ele estiver vivo, precisou de alguém para ajudá-lo. Precisou de um tipo de comunicador, mediador, entre ele e mim. Alguém que pudesse me observar, pudesse informar a ele sobre o que estou fazendo e sobre os passos que estou dando.
— Você tem palpites?
— Tenho três.
A música ficava mais difícil de tocar, parecendo estar tão longe do final, crescendo mais a cada instante.
Mais forte.
— Zoe, e Ramona.
— Zoe? — franziu o cenho — Quero saber sobre essa teoria.
— Sobre o dia em que você foi atacado por ela, ela disse que achou que você era meu irmão. Ela não conseguiu reconhecer Tyler, quem quer que ele fosse. Recebeu alguma ordem, decerto, ou não o via há tempos. Isso já seria mais um problema de memória meu do que qualquer outra coisa, e olha que não tenho motivos para reclamar de minha memória.
— O que quer dizer com isso?
Ela mordeu o lábio. não tinha motivos para dizer qualquer teoria dela para outra pessoa, mas poderia acabar deixando algo escapar, exatamente por não ter noção do que estava acontecendo ali.
Não importava: nunca teria ideia do que aquilo tudo representava, ainda mais para . Não tão distante.
Consegue chegar mais perto? Não sente o cheiro de veneno?
As teclas ficavam mais duras.
— Acredito que Zoe seja da família Durden.
deixou a boca abrir um pouco, mas logo a fechou, antes que soasse muito infantil ou tolo. Até parecia que não conhecia aquele universo.
— Continue. Por favor, continue — ele pediu, gaguejando um pouco, e colocando a mão apoiando o queixo, como se assistisse a um filme de suspense.
fechou os olhos por dois segundos. No primeiro, pensou nas palavras mais adequadas. No segundo, ordenou-as.
Ficou de pé, passando a língua pelos lábios. Deu as costas para , colocando as mãos na cintura e olhando em volta, na sala, enquanto dizia:
— Zoe é uma Durden. Pelo menos é o que tenho quase certeza. Ela deve ter uns quinze ou dezesseis anos, o que nos dá uma diferença de cerca de dez anos. Não lembro de nenhuma parente dos Durden nascida quando eu e Joe tínhamos dez anos.
— Por que acha que ela seja uma Durden?
— Eu a vi com o canivete de Joe uma vez. Esse canivete sumiu há muito tempo, era da família dele. Não encontraram esse canivete quando ele morreu. Acredito que ela tenha conseguido ele antes da morte de Joe, e isso seria impossível se ela não fosse uma Durden.
As teclas corriam mais rápido que conseguia acompanhar. A música cobrava mais habilidade que ela realmente tinha.
— Mas ela vive na rua. Como ela pode ser uma Durden? A família é rica.
— Não tão rica. Dependendo do nível de parentesco... Johanna e Johnny eram ricos, mas não todos de suas famílias. Se ela for prima...
Eu não sou garota de rua. Eu tenho uma casa.
E o que aconteceu com ela?
Está mal-assombrada.

— Mas por que ela teria vindo até nós?
Havia um quadro de notas na parede. Alguns livros em uma prateleira.
— Se Joe estiver vivo, eles provavelmente trabalham juntos. São Durden. Ela oferece informações a ele. Justamente por isso ela foi ao restaurante japonês na Waiter Street: ela queria ser presa. Queria que você a prendesse.
pegou uma caixinha azul no bolso. Já tinha tomado a pílula de manhã, mas sentiu que precisava de mais uma. Engoliu-a a seco.
— E, estando aqui, solicitou falar apenas com você — continuou, apoiando as costas na cadeira e cruzando as pernas, coçando o queixo — Isso significa que está fazendo seu trabalho.
— Está sim. Teoricamente — retrucou , olhando diretamente para o quadro de notas. Havia notas sobre entregas de artigos, além de um post-it amarelo, escrito "pegar as autópsias".
— Isso significa que ela tem hora para sair — concluiu, a voz expressando um pouco de dúvida.
fechou os olhos.
A sala ficava mais escura. não saberia dizer se era porque ela estava olhando para baixo, para o piano, reservando toda sua atenção nele, ou se era porque as luzes estavam diminuindo.
"Pegar as autópsias."
Sua sala de paz precisava de uma reforma urgente.
Tinha sido invadida.
Invadida.
Podia ver os soldados chegando.
— Sim. Ela vai sair. Ele, provavelmente, que irá tirá-la daqui. Só precisamos descobrir como, e quando, para ficarmos atentos a qualquer sombra de aparição dele.
Mas Zoe queria Tyler. Por que Zoe queria Tyler?
Feche os olhos. Feche a porta.
— Por que acha que estava envolvida com Joe?
Autópsias? Ele sabe?
Já se está no escuro.
Está rápido demais.
Pare.
Pare.
Não consigo acompanhar.
Vou explodir.
mudou muito desde que eu cheguei. Ela era altamente influenciável: teve uma juventude difícil, faria qualquer coisa para conseguir a confiança de quem deseja.
Explodir.
— Ela não o reconheceria?
Explo...
Por que acenderam a luz?
Quase ofendida, ela fez uma careta de desprezo e virou-se para , colocando os indicadores nas têmporas para falar:
— Use um pouco do seu cérebro. Não se pode reconhecê-lo. Quanto dinheiro ele deve gastar para ter mudado a aparência?
Engoliu em seco por um segundo.
— Desculpe.
— Não, você tem toda razão. Erro meu — ele disse, fazendo gestos para que ela não se importasse — se une a Joe para lhe atingir. Acha mesmo que ela faria isso?
— Não faria. Não por muito tempo. Não consegui entender ainda por que ela provavelmente desistiu de ajudá-lo.
Porque ela me deixou uma mensagem codificada.
— O que ela ganharia com isso?
Seus olhos doíam. Sua cabeça dava voltas em torno do eixo.
Mas não poderia parar de tocar. As engrenagens tinham que continuar a funcionar.
Não podia parar. Abra os olhos.
Você é a única.
— Talvez dinheiro. Mas meu maior palpite é outro...
ficou de pé, com os braços cruzados, atento.
Ela comprimiu os lábios.
Durma. Apenas durma.
— Talvez achasse que, fazendo isso, ela poderia ter você — concluiu, olhando no fundo de seus olhos.
— Ter a mim?! — riu, apontando para si próprio.
se colocou entre nós. Aquilo foi apenas uma das coisas que me atingiram. Ela me fragilizou e abriu caminho para tentar algo com você. Acredite, acho que ela estava bem mais interessada em você do que no dinheiro que talvez estivesse ganhando.
— Eu jamais ficaria com ela depois de algo daquele tipo. Ela acreditou mesmo que me faria ficar atraído por ela?
sabia exatamente o que dizer, só que também sabia que não deveria fazê-lo.
Um dos efeitos de estar imersa em suas investigações era que pensava mais rápido do que sua capacidade de falar. Assim, palavras saíam atropeladas, e ela falava coisas que não deveria.
Porque, às vezes, as engrenagens correm mais rápido do que se consegue conter.
— Ela não sabia se você estava realmente interessado em...
comprimiu os lábios. ficou sem reação, com a boca aberta enquanto sua voz sumia no fim da frase.
— Interesse é uma palavra fraca demais.
Você me quebrou agora.
— Ok, não vamos perder o foco, estamos chegando a algum lugar — falou, desviando o olhar e dando um passo para trás.
A música tocava sozinha, mais rápido que era capaz de tocar.
O piano tocava sozinho.
Ela não tinha mais o controle.
Não pare.
Não pare.
sentou novamente e perguntou:
— E por que sua amiga Ramona?
suspirou.
Amiga.
— Quando cheguei em casa ontem, encontrei duas pastas no meu quarto. Pastas originais, das que ficam apenas com o detetive encarregado.
— E quem era o detetive encarregado? Você?
— Era .
— Oh, espere — fez uma careta incrédula — levou as pastas para casa, como todos levam. Ela invadiu a casa dele?
— Temo que ela tenha feito pior. Você sabe o que houve com ele?
— Não faço ideia.
— Queimadura de ácido em quarenta por cento do rosto. Ele está internado.
ficou em choque.
— Muita informação para pouco tempo — foi o que conseguiu dizer, baixo e com o olhar vagando pelo quarto, e sentando lentamente na cadeira novamente.
— Eu sei.
— Ramona o atacou?
— Sim. Mas não parece querer fazer nada contra mim. De algum modo, ela não quer me ferir.
, ela colocou fogo na sua casa!
— Você não entende, ela...
— Você está defendendo uma incendiária, e quase homicida! — disse, enlevando o tom de voz, tamanha sua indignação.
— Não fale dela! — protestou, batendo uma mão na mesa.
chegou para trás, na cadeira, assustado. Falou com a voz mais baixa, querendo acalmá-la:
— Ainda estão fazendo buscas por ela.
— Então não acho recomendável que você diga por aí que eu e ela andamos nos falando.
— Isso foi uma ameaça?
— Foi uma sugestão. Que horas são?
— Meio-dia. Tem lugar para almoçar?
— Tenho sim. Mas tenho algo para resolver antes. Se Zoe for uma Durden, tenho uma oportunidade imperdível de descobrir.
começou a andar na direção da porta, quando perguntou:
— Posso te ver mais tarde?
— Melhor não.
Ela tinha dito isso sem sequer olhar para trás, batendo a porta antes que ele pudesse retrucar.
Não queria que ele fosse mais um problema, mesmo que ele estivesse começando a ser.
Porque ele sabia.
Ninguém mesmo parece querer me mostrar quem morreu naquela festa e naquela forca de mentira.
Ele sabia quem tinha morrido na festa e no suicídio.
Mas não quero saber quem morreu.
E ele também escondia isso dela.
Quero saber por que me escondem isso.

Do lado de fora, pegou uma pequena sacola plástica da bolsa enquanto andava pelo corredor.
Era uma sacola de comida, improvisada, mas o que tinha ali dentro era bem mais importante do que parecia.
Um pequeno cigarro, de um dia de idade. Usado, ainda com sua saliva em uma ponta.
É. A gente faz o que pode.
odiava cigarros. Mas dar um único cigarro para Zoe...
Ergueu o canto do lábio, olhando fixamente para a porta que queria chegar.
Assim fica fácil demais...
Passou a mão pelos cabelos, jogando-os todos para trás. Antes de chegar até a sala dos testes de laboratório, arregaçou as mangas.
Desceu os olhos para o que tinha escrito em seu antebraço.
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Tinha decorado-os, praticamente. A única coisa que lhe intrigava na sequência era o hífen antes dos dois últimos dígitos.
Era uma referência a um tipo diferente de código, que completava o primeiro? Ou um tipo de subtração?
Abriu a maçaneta. O laboratório estava vazio. Entrou no recinto, fechando a porta atrás de si, e arrastando uma cadeira. Se alguém entrasse, teria dificuldades em abrir a porta, dando tempo para se esconder.
sabia que Dayse costumava entrar no laboratório; a policial estava envolvida em um caso em que a identificação de digitais e sangue era frequente. A detetive, então, deixou a sacola em cima da mesa, numa cesta onde ficava a "fila" dos testes, juntamente com um bilhete adesivado ao plástico.
"Compare o DNA da saliva com algum de algum Durden. Deixe o resultado na sala de . E felicidades pelo aniversário de Georgie".
Georgie era o filho de Dayse, um menininho fofo, gordinho e rosa. sabia seu aniversário porque tinha visto o calendário na mesa que Dayse estava sentada no laboratório, e o dia marcado para o aniversário do menino.
Com aquele comentário, deixaria óbvio sobre de quem aquele pedido por DNA vinha.
Obrigada pela colaboração, Zoe.
Antes que saísse do laboratório, parou no meio do caminho, ficando parada, estática, no ar.
Por breves segundos, pôde sentir a Terra parar de girar, o tempo parar de correr, seu coração parar de bombear e sua respiração parar de agir.
E uma única frase tomou conta de sua mente, quando pôde sentir suas pupilas dilatarem, procurando ser o mais precisas possível.
"O que significa isso? É um número de identificação?".
Um número de identificação de DNA.
Era esse o segredo de ? Ela já teria feito exame de Zoe, ou de outra pessoa, e tinha revelado isso com suas últimas palavras?
teria de averiguar.
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92 seria um ficheiro? Um tipo de caixa de código fixa, onde existem milhares de documentos, mas apenas os que terminam com 92 estariam ali?
Olhou para trás. As luzes do laboratório estavam fracas, mas o lugar era azul claro, então a iluminação era refletida. Era possível ver pastas e folhas empilhadas pelas mesas.
Calculou que devia ter cerca de cinco minutos ali dentro.
No fundo da sala, tinha uma porta de vidro para o laboratório. Um armário, nesta sala, tinha fileiras e fileiras de tubos de ensaios com amostras. Computadores, mesas, microscópios...
Era um banquete, um paraíso fora de ordem.
deveria instalar a ordem.
Olhou para a porta. As luzes estavam fracas.
Começou a andar ate a porta de vidro. Era necessária uma senha para entrar.
era a encarregada pelo laboratório. A líder.
Uma senha...
Data de nascimento? Não, por Deus, não. Fácil demais.
Aniversário dos pais? Irmãos? era distante de sua família.
Algo importante para ela...
Seis dígitos.
Teclado numérico com três letras por dígito.
2-7-2-6-2-6.
B-R-A-N-C-O.
Uma luz verde foi acesa e a porta destrancou. Empurrando o vidro, ali dentro o ar era mais limpo.
Mas era um lugar tão sujo...
A porta se fechou novamente, com dentro do laboratório. Poderia ser aberta por dentro, quando ela quisesse sair.
Cheirava a limpeza.
Quatro minutos.
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Andou rapidamente até o armário, ajoelhando-se no chão, e abrindo-o com urgência. Os tubos de ensaio estavam cheios, assim como os plásticos com provas.
Todos identificados por números.
Nenhum com um hífen na identificação.
— Merda — xingou baixo, jogando os plásticos de qualquer maneira de volta no armário, irritada. Sentia sua pele ficar vermelha, e quente. Arfava.
Porque era como se o tempo corresse mais rápido e ela corresse mais devagar.
Engatinhou até outro armário, ficando de pé no meio do trajeto e indo apressada, sem jeito, até a mesa central. Mais mostras, relatórios, documentos. Alguns possuíam identificações, outros, ainda não.
São números.
Malditos números.
Eles a encaravam. A cobrando.
Por favor, nos salve.
O silêncio era tão alto que a deixava surda. Sem ouvir qualquer ruído.
Só isso.
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As mãos corriam frenéticas, como se possuíssem vida própria, pela mesa. Não poderia parar. Espalhava os papéis, desorganizava provas e pistas.
Mas isso não importava.
Era por uma causa maior. Não?
Sentia seu coração a bater. Era seu motor. Ele corria cada vez mais rápido.
A música não acabara no momento em que deixara a sala de . Ela, na verdade, tornou-se mais alta.
Achou um papel com números no cabeçalho, mas eram pequenos demais. Felizmente, havia um hífen. O número depois do hífen era 35.
Pequeno demais.
‘Ficheiro C, fileira E’ era o que vinha depois desse número.
Espere.
35.
3-5.
C-E.
Havia um grande armário na sala onde estava anteriormente, antes do laboratório. Tinha identificação por letras.
deu a volta na mesa para chegar até a porta. Correu, dessa vez.
A ansiedade por saber a verdade não a consumia. Deixava-a mais quente.
Porque nunca pôde ouvir a voz de daquela maneira, desde sua morte.
Abriu a porta, e correu pelo vão aberto dela, apressada. Deixou a porta fechar atrás de si, quando já tinha alcançado armário. Procurou a gaveta de letra I. Quando a achou, puxou com toda sua força a pesada gaveta de fichas.
Eram tantas fileiras que lhe deu pânico. Mas foi diretamente para a B.
Correu o indicador e o dedo do meio pelas fichas dali, procurando alguma que começasse com 2531.
Nada. Erro.
Foi nesse instante que ouviu a cadeira próxima à porta ser arrastada.
Fechou os olhos.
Parou.
O tempo nunca correu tão devagar.

— Você deu a ela a chance. Deixou o queijo para o rato! — disse Marla, em um tom de queixa.
— Não questione meus métodos — Julie parecia sem paciência — Que eu me lembre, nesta sala, a mulher com menos taxa de erro sou eu.
Porém, não.
, abraçada aos joelhos debaixo da mesa, sentia o suor descer por sua testa. Estava com os joelhos e as mãos no chão, as costas tocando a gaveta que ficava debaixo da mesa, encolhida como um animalzinho indefeso.
Fechou os olhos com força.
A sua respiração pareceu mais alta. Sempre parece.
— Não questiono. Até porque você é a delegada. Só questiono suas ações em relação a ela.
viu os pés de Julie aparecerem em frente à mesa. Estava tão baixa, escondida, que não conseguiu nem ver o joelho da delegada.
Suas costas tocavam a gaveta, e tinha que se encolher por causa do vão entre a mesa e a parede, ao seu lado.
— Você pode ser boa em investigações, e está fazendo exatamente o trabalho o qual foi encarregada. Mas com estratégia, um macaco atrás de sua banana seria mais inteligente.
comprimiu os lábios. Sorriu.
— Acha que não foi ideia minha? Que não foi estreitamente planejado por mim? Por favor, Marla.
Julie parou. Seus saltos pretos, de sete centímetros, reconhecíveis pelos constantes baques que anunciavam a chegada da delegada, ficaram estéticos a alguns centímetros de .
Suas pupilas deviam ter ficado do tamanho de bolas de gude quando os pés de Julie ficaram separados como se ela fosse se abaixar.
— Você é muito inteligente, Julie, e, sim, estou fazendo meu trabalho exatamente como você pediu. Ou melhor, exigiu. Mas você não é vidente.
— Não sou. Mas sei como fazer as coisas trabalharem ao meu favor.
Voltou a andar, dando a volta na mesa. Dessa vez, os sapatos que apareceram foram os de Marla: um par de botas pretas de salto baixo.
Quando Marla também parou, teve a certeza que precisava de um jeito de ficar invisível.
O vão.
O vão.
Marla Bronx abaixou-se, apoiando nos joelhos, como que procurando algo debaixo da mesa. Não encontrou absolutamente nada.
Porque, há alguns segundos, já tinha feito seu movimento.
No primeiro instante, viu Marla parar. E ficou o vão ao seu lado.
No segundo instante, chegou o corpo para o lado, arrastando os joelhos no chão e encaixando-se no espaço do vão, com o braço esquerdo encostado na parede. Os joelhos de Marla já estavam quase tocando o chão.
No terceiro instante, apoiou as mãos no chão, e os joelhos, ficando com o tronco oculto atrás da gaveta, os braços retos e as pernas dobradas por trás da mesa, com os pés para cima, e rezando para que nada caísse de seus bolsos.
Bolsos?
Minha bolsa ficou no laboratório.
No quarto instante, Marla se levantou.
— Achei que tivesse ouvido algo — ela justificou-se, ficando de pé novamente. estava com os joelhos e as mãos esticados para se esconder, e sustentando todo seu corpo. O Manson tinha lhe dado uma boa força muscular, mas não estava totalmente em forma.
Ouviu mais um par de pés caminhando pela sala, enquanto voltava para debaixo da gaveta, vendo que Marla continuara parada.
Mais um par.
— Você veio aqui mais cedo? — perguntou Julie, com sua voz vinda de onde ficava a porta de vidro.
Parando por um momento novamente, tentou pensar em como Julie poderia saber que a porta tinha sido aberta.
— A luz do painel está verde. Ela fica verde por alguns minutos, a partir da última vez que abriram a porta. Você veio aqui mais cedo? — a delegada perguntou mais uma vez.
se xingou mentalmente. Além da bolsa, caída e jogada de qualquer maneira no chão do laboratório, agora Julie e Marla tinham mais um motivo para entrar no laboratório.
Foi quando foi pega com um pensamento vindo da parte favorita de sua cabeça: a parte que, independente da situação, agia mais rápido que o resto, e observava os deslizes dos outros. Foi graças a essa parte que ela virara policial e detetive. Dessa vez, a pergunta formulada por essa parte de sua cabeça foi:
"Afinal, por que Julie e Marla estão no laboratório?".
Foi então quando ela se lembrou do terceiro indivíduo, que estava na sala com elas, mas se movia pouco ou não se manifestava.
Uma pessoa que fora mandada ali, e ainda estava na porta, esperando ou observando Julie e Marla. Talvez estivesse fazendo os dois.
Assim que a detetive ruiva se afastou da mesa para se aproximar da delegada, que estava de pé perto da porta de vidro, colocou a mão com cuidado no bolso de trás da calça, para pegar o celular. Sem qualquer som (ainda lembrava-se de quando seu mentor a ensinara a ser silenciosa sempre que precisasse, e a ser barulhenta sempre que quisesse), desbloqueou a tela e digitou a mensagem.
"Me ajude".
Tocou a tecla para enviar a mensagem e, apertando os olhos com força, se encolheu enquanto esperava ir ajudá-la.
Foi nesse instante que ouviu um baixo ruído de mensagem vindo da sala onde ela estava.
— Foi você? — a voz de Marla soou.
disse com a voz como se acabasse de acordar:
— Foi, foi o meu celular. É coisa de um amigo.
— Bem, venha nos ajudar aqui, então. Viu alguém vindo para o laboratório mais cedo?
— Não vi ninguém.
sabia que estava em algum lugar daquela sala.
A porta de vidro foi aberta, e os três entraram no laboratório. viu com o canto dos olhos a bolsa de , e chutou-a para perto de uma das cadeiras próximas à mesa central, bagunçada.
Alguns segundos depois, assim que Julie e Marla terminavam de circular a mesa, eles voltaram à porta.
— Deve ter sido alguém do laboratório que veio e saiu às pressas — Marla disse, apontando para a bolsa.
— Não justifica a porta aberta há tão pouco tempo. Ninguém do laboratório passou aqui ultimamente.
— Na verdade, delegada — disse , ainda próximo à porta de vidro — Fui eu quem vim. Estava procurando um exame de Samantha Fox, para incluir alguns dados não-confidenciais na minha matéria.
Julie franziu a testa.
— Você quem fez essa bagunça?
— Foi, desculpe... Eu não consegui achar nada, e depois não soube arrumar. Arrumei de qualquer jeito.
— Qualquer jeito mesmo — comentou Marla, olhando para os papéis empilhados sem qualquer tipo de ordem.
deu de ombros, com o canto esquerdo dos lábios erguido.
— Não achei o exame, afinal. Mas vou voltar mais tarde.
Dando de ombros, Marla passou pela porta de vidro e foi em direção à saída da sala.
— Vamos? Você quem quis chamar o para almoçar contigo, Julie, e está fazendo hora. Também preciso ir.
Julie passou as mãos por sua blusa, alisando-a, e passou com a cara fechada por . Erguendo uma sobrancelha, olhou-o de lado.
— Como você sabia a senha do laboratório?
Assim que ela passou, deixou a porta de vidro ser fechada, e foi até onde a delegada estava, parada.
não conseguia nem piscar. Agachada, estava olhando diretamente para os pés de e de Julie. Ambos, frente a frente, em silêncio.
era a chefe daqui. Acha que foi difícil adivinhar? Na primeira tentativa, já acertei os seis números.
— Que números são? — Julie perguntou.
suspirou, como se estivesse cansado daquele questionário.
— 2, 7, 2, 6, 2 e 6.
Antes que Julie tivesse entrado no laboratório, o visor verde ainda mostrava a sequência de seis números.
Só espero que ela não pergunte como cheguei a essa conclusão.
Julie sustentou o olhar inexpressivo de por alguns segundos, até ir até Marla.
— Vamos logo, logo o horário de almoço acaba.
Os pés de não saíram do lugar, mas os de Julie logo saíram do campo de visão de .
— Vão indo, vou ligar para meu amigo para saber o que aconteceu.
— Tem certeza? Se demorar, não vamos poder te esperar por muito tempo.
— Sim, podem ir. Nem estou com muita fome.
A porta se fechou logo em seguida, na mesma hora em que suspirou de alívio. abaixou, olhando para a detetive agachada, e molhou os lábios.
— Você dá mais trabalho do que eu pensava.
— Ah, cala a boca — ela reclamou, engatinhando para fora da mesa.
— O que estava fazendo? — ele perguntou, ajudando-a a levantar.
— Quase o que você falou para Julie que estava. E aposto que você só estava no lugar certo, na hora certa, para variar.
Ele virou os olhos.
— Era você quem estava no lugar errado, na hora errada, na verdade. Eu ia almoçar, com a Julie. Ela ia falar sobre minha promoção e os direitos dela. Mas recebeu um aviso na sala dela sobre o laboratório.
— Um aviso? — franziu o cenho, cruzando os braços.
— O laboratório estava fechado pela hora do almoço. Abriram do nada para dar uma geral, e você não acha que a delegada fosse ser avisada?
Ela fez uma careta, torcendo a boca e olhando para o lado.
— Além disso, todo mundo sabe que você andou tão estranha ultimamente, que qualquer tipo de acontecimento desses já remete você a elas.
Ela virou os olhos.
— Eu sou estranha. Ninguém entendeu isso ainda? Mas enfim — ela balançou as mãos para que parassem aquele assunto — Bom saber. Da próxima vez, vou pensar numa desculpa prévia. Aliás...
Deu a volta em , abrindo a porta de vidro, ainda com o visor verde, para pegar sua bolsa na cadeira. Assim que voltou para a sala onde ele estava, a porta de vidro foi fechada e o visor ficou vermelho.
— Obrigada pela ajuda. Foi conveniente.
— Por nada. Mas você não foi honesta mais cedo.
Ela ergueu uma sobrancelha, ofendida.
— Não fui honesta?
Ele fez que não com a cabeça.
— Você disse que iria embora, e que ia me contar tudo que soubesse — cruzou os braços, sem tirar os olhos de — E, bem — ele deu de ombros, com o canto do lábio erguido —, eu estou quase certo de que não foi isso o que aconteceu. Na atual situação, digo.
era um jornalista. Era um repórter, um homem de notícias. Não era um policial, por isso não usava armas.
Policiais usam armas para ameaçar e se defender.
Mas erguer o lábio era a arma de para desarmar os outros.
Talvez essa fosse sua vontade sobre todos. Seu rosto, seus traços e sua personalidade eram a soma perfeita de simpatia. expirava simpatia, e isso fazia os outros retribuírem isso.
tinha a aparência de um homem comum, um jovem como qualquer outro, e isso era a melhor coisa que podia dizer sobre si.
— Você não ia entender, retrucou, desviando o olhar, como se quisesse logo acabar com aquilo e sair dali — Eu trabalho mais rápido do que você. Estou sempre correndo mais rápido.
— Nesse caso, eu correrei mais rápido até te alcançar.
Ela comprimiu os lábios e fez uma careta como se tivesse sido atingida por algo que tivesse ferido-a.
— De novo não, .
— O que foi, ? — ele nem deu tempo a ela, soando urgente — Nem um pouco nervosa quando Julie e Marla estavam por perto, pensando rápido o suficiente para se esconder a tempo, mas perdendo a língua com um simples cara que você conheceu alguns meses atrás?
— Quer saber por que estou aqui? — ela perguntou, colocando as mãos na cintura — É isso o que quer? Ótimo, eu estava checando aquilo da Zoe. Eu peguei o DNA dela, e agora eu quero saber sobre os Durden. Mas tem algo que eu realmente não lhe contei...
Por que abrir os olhos, se ainda está escuro?
Não pode ver se está escuro com os olhos fechados, é por isso.
— Algo que não está me deixando dormir.
— O que é? Alguém sabe?
— Apenas o meu irmão e Ramona — limpou a garganta — me deixou uma mensagem.
— Uma mensagem?
arregaçou a manga e mostrou os números a ele. Eram muitos, e, de início, não soube ver qualquer tipo de ordem neles. Bem, nem de final. Eram muitos números.
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— Whoa — ele disse, arqueando as sobrancelhas — Devo dizer que não esperava por isso.
— Nem eu — esticou a manga novamente, falando como se estivesse sozinha, mas bando para ele ao completar: — Eu achei que isso pudesse estar relacionado a algo no laboratório, mas a Marla e a Julie chegaram aqui no instante em que eu estava saindo. Pensei que quisesse me indicar algum registro daqui, quem sabe um arquivo. Mas acho que entendi errado.
deixou uma mensagem?
— Ela me deixou uma mensagem. Eu ainda não consegui entender por que exatamente ela foi para mim, mas foi.
apoiou o quadril na mesa, apoiando as mãos na bancada, e riu com a cabeça abaixada.
— O que foi? Eu sou engraçada? Isso é engraçado para você?
— Não, não engraçado — ele disse, erguendo a cabeça e molhando os lábios — Não, "engraçado" não é a palavra perfeita você é... interessante.
Ela franziu o cenho, tentando entender o que ele quisera dizer com aquilo.
— Foi um elogio. Mesmo assim, eu simplesmente não consigo entender isso — disse, fazendo uma careta como se estivesse diante do maior mistério que a ciência tivesse encontrado nos últimos anos.
— O quê?
— Viu? Exatamente. Se fosse a Marla dizendo isso, você teria dito que não se importa e teria saído andando. Mas... — sabia exatamente o que ele iria dizer — Você ainda está aqui, de pé, na minha frente. Do jornalista, do novato.
— Não seja tão... — ela preparou-se para virar para a porta, saindo da sala — Tão prepotente, .
Quando deu as costas a , achava que ele fosse continuar exatamente onde estava, estático e sem conseguir reagir. Quando segurou a maçaneta, no entanto, não conseguiu sair. Em vez disso, sentiu seu braço ser puxado e suas costas serem jogadas contra a parede. Sentiu sua respiração ficar mais rápida, em seguida, tão lenta que ela ansiava pelo ar que não conseguia obter. E as luzes pareceram mais escuras, pois havia alguém na frente delas, bloqueando sua visão.
Contra a parede, só teve uma certeza do que queria, e uma certeza do que não podia.
— Você não deveria ter escolhido essa palavra... — disse, afundando o rosto no ombro de , os olhos fechados, contendo-se. Tinha as mãos na parede bloqueando sua passagem, e os olhos de estavam em total alerta.
E precisava desarmá-lo.
— Você é meu amigo tanto quanto .
— Sou? — podia reconhecer o sorriso em seus lábios, quando ele levantou a cabeça e murmurou em seu ouvido — Bem, isso é interessante. Você nunca nega ver , mas está sempre fugindo de mim.
Tirou o rosto de perto da orelha de , ficando com ele próximo ao dela a ponto de seus narizes quase se tocarem — Mas sempre que eu me aproximo, você parece se sentir mais segura.
Os olhos de estavam apontados para o chão, para a camiseta de , para onde fosse. Só não deveria olhar para seus olhos.
— Para um jornalista, você está vendo as coisas de jeito errado demais — ela retrucou, rindo.
Ele colocou uma das mãos no cabelo dela, colocando-o atrás da orelha.
— Uma das coisas similares entre o seu trabalho e o meu é que não somos pagos para ver. Somos pagos para interpretar. E ambos fazemos isso muito bem.
Quanto mais ela tentava se esquivar, mais parecia estar se afundando. Sentia o toque sutil e acidental da pele dele na sua e seu cheiro. Sentia sua respiração. Sentia-o por completo, sentia-o mais do que deveria e menos do que desejava.
Comprimiu os lábios, mordendo o inferior e virando a cabeça do lábio ao dizer:
— Por que você continua fazendo isso? Hein? Pare, . Você está me desconcentrando.
fechou os olhos. Quando os abriu de novo, já estava a cerca de um metro dela, com o rosto de clara desaprovação, como que decepcionado. Colocou as mãos nos bolsos, falando com o cenho franzido, as palavras saindo rápidas e quase atropeladas:
— Eu não estou, . Estou te concentrando ainda mais. Estou te forçando a encarar o que você acha que está melhor sem. Sabe por quê? Porque você está tão acostumada com sentimentos que nem consegue mais interpretá-los. Estava acostumada com , com suas amizades, e tudo para você é tão breve quanto um estalo. Para você, são meras formalidades do ser humano, as emoções boas. Você está tão... acostumada com os sentimentos que não consegue mais entendê-los. São apenas ações para você, apenas raiva e ciúmes. Você não consegue entender a coisa mais simples, o motivo pelo qual te deixou essa mensagem. O motivo pelo qual está morta.
— Qual seria, então? — ela perguntou com o mesmo tom de voz de .
— Porque ela gostava de você! — disse como se fosse óbvio — Ela adorava você, ela a amava como melhor amiga! E é por isso que a mensagem foi só para você: você é a única que poderia pegar o código e entendê-lo corretamente. confiava em você, se preocupou. Você era a única amiga dela, e o motivo pelo qual ela não aguentava ser menor do que você. Você era a única pessoa que não a via de um modo ruim, errado, você não era como as mulheres que a consideravam uma vagabunda ou como os homens que a viam como uma coisa descartável. Ela não poderia viver se sentindo inferior a você porque para ela, você era mais que uma colega: era praticamente uma irmã.
— O que uma coisa tem a ver com a outra? — gesticulava como se, sim, jamais conseguiria compreender aquilo tudo de modo tão óbvio.
— Por Deus, ! — colocou as mãos na cabeça, chocado como ela estava bloqueada a perceber aquilo por si mesma — não queria mais te machucar. Ela não queria que alguém a machucasse. Então, ela teve que ter certeza de que isso jamais aconteceria...
— No momento que ela me fez me afastar dela.
Tudo fez sentido então.
era, sim, inferior a . E sabia disso. E queria mudar isso.
E ela se odiava por isso.
Se odiava por ter se aproximado de . E se odiava ainda mais por ter se colocado entre eles.
Mas se tinha realmente feito aquilo... Se tinha se colocado entre os dois... e depois se arrependido tanto, morrido...
É porque havia alguém sim atrás dela.
E no momento em que ela se colocou entre a única coisa que estava começando a me deixar realmente feliz.
falou mais baixo dessa vez, com o rosto quase preocupado, como se ambos tivessem percebido exatamente a mesma coisa, e a tal pessoa por trás disso tudo estivesse naquela sala também. Ou estivesse próxima aos dois.
— Ela está morta agora porque alguém percebeu isso, alguém que sabia que iria te ajudar, não importasse o que acontecesse. Mais do que isso... Ela passou suas últimas horas tentando ter certeza de que você iria ler sua última mensagem. Sua última ajuda.
— Cristo... — foi o que conseguiu dizer, colocando as mãos na boca e dando as costas para , apoiando a testa e o antebraço na parede.
Quando achei que estivesse querendo dizer alguma coisa, eu estava certa.
brigou comigo, disse aquilo tudo, para me deixar curiosa para saber o porquê.
Esse é o porquê.
Ela está me ajudando até agora.

— Ela gostava mais de você do que você poderia possivelmente entender. E graças a Deus ela percebeu isso antes que fosse tarde demais.
— Estava no nosso anel... lembrou do anel... — murmurou.
— Anel?
— Os números estavam inscritos dentro de um anel que e eu usávamos — explicou com o rosto virado um pouco para o lado, olhando para por cima do ombro.
Ele passou a mão pelos cabelos, apoiando o quadril na mesa novamente.
— Deve ter um significado mais simples do que parece. Ela deve ter imaginado a maneira de decodificar rápido...
Ela não estava ouvindo.
queria chorar.
Segurou a maçaneta.
— Você deveria ter me deixado sozinha quando teve a chance, — ela disse.
Ele deu uma risada como se dissesse "falar é fácil".
— Eu ainda tenho. No começo, eu tive a chance de não me aproximar de você. E agora não vai ser quando vou te deixar sozinha. Porque não quero. E porque, bem... — ele deu de ombros — Eu sei que, cedo ou tarde, você vai precisar da minha ajuda de novo.
Ela abriu a porta, deixando na sala. E foi embora, sem nem olhar para quem estava na delegacia.

Marla já estava tempo demais lá dentro. Conferiu o relógio, sentada no banco de trás do carro. Estava ansiosa.
Tinha que sair. Tinha que ver. Tinha que observar com seus próprios olhos, vê-la ao vivo.
Bufou. Colocou a mão na porta, para abri-la. Saiu do carro de mau jeito, fechando a porta e correndo para a delegacia.
Marla estava ali. Estava perto da porta, e saía com pressa. Os cabelos ruivos balançavam para os lados, e seus olhos verdes estavam enormes.
, volte para o carro! — a ruiva disse, com as mãos estendidas para frente, fazendo virar de costas, em direção à porta — Você não deve ser vista nessas condições.
não deu para trás. Voltou a olhar para o interior da delegacia, aflita.
— Preciso vê-la. Preciso vê-las! Onde ela está? Onde está ?
— Se ela te vir... — Marla continuava empurrando-a. Julie estava aparecendo na secretaria da delegacia nesse momento, e franziu o cenho, andando em direção a Marla.
? É este seu nome, não? — perguntou, quando se aproximou, fazendo Marla parar e ficar estática — Amiga de ?
não soube responder. Olhou o crachá da mulher: Julie Stoner.
A delegada.
Aquela vagabunda miserável.
— Sou — falou, trocando um rápido olhar com Marla.
— Está procurando ? Ela deve estar com o jornalista, saindo agora — avisou, pegando o celular no bolso e andando direção à saída, sem prestar atenção em .
Você falou com . Foi tudo porque você falou com ele.
É você. Só pode ser você.
Você está matando de dentro para fora.

— Foi demitida? — perguntou , seguindo Julie.
A delegada comprimiu os lábios e arrumou uma mecha do cabelo, de costas para a mulher. Disse:
— Não use essa palavra. foi apenas afastada.
— De novo?
Sabia que tinha sido assassinada. E que era a principal suspeita.
— Sim — Julie respondeu, fria, virando para . Estava na frente das escadas, do lado de fora da delegacia, e estava na porta — Ela deve voltar logo.
— Quando?
— Quando tivermos certeza de que ela não é um perigo em potencial.
Então ela nunca vai voltar.
— E falando nela... — a delegada continuou, olhando para o interior da delegacia. Quando seguiu seu olhar, Julie deu as costas e se foi.
Marla ainda não conseguia falar nada, mas agora conseguiu agir. Segurou a mão de e puxou-a para descerem as escadas.
Não antes de conseguir ver .
Santo Deus.
Suas roupas eram estranhas. Era uma blusa social branca, com um suéter xadrez por cima, que delineavam seu tronco, deixando-a com o corpo de uma modelo. As calças pretas vinham acompanhadas de sapatos também pretos, e seu olhar estava vago.
Olhava para fora, mas não via .
Porque tinha algo em seus olhos. Algo a impedia de ver.
— Marla, me tire daqui.
As duas foram correndo em direção ao carro. não conseguiu ver sua amiga, e também não iria se importar.
tinha a deixado, não?
— Você viu? A viu? — perguntou Marla, fechando a porta do carro correndo ao entrar nele.
estava em choque. Os olhos também estavam vagos, entretanto, porque ela enxergava demais.
— É minha culpa. É minha culpa.
— Por que é sua culpa?
colocou as mãos na ferrete da boca.
— Eu a deixei à deriva, e se apossaram dela. Não é , não mais.
Olhou para Marla.
— E o pior é que não há nada que possamos fazer em relação a isso.
Fechou os olhos. Sentiu seu corpo se dobrar, por dentro.
— Precisamos ir para o hospital. Agora.

Não havia mais nada para falar. Exceto que estava tomada por uma dor de cabeça absurda.
Tinha bebido três copos de café seguidos, na sala de espera.
— Então, tudo bem, ? — perguntou , arrumando a blusa depois de fechar a porta. Foi andando devagar até a mesa, mas parou ao lado de , sentando em uma cadeira ao lado da dela.
Ela assentiu com a cabeça, com dois dedos na têmpora direita. Sua vontade era sair dali o mais rápido possível.
— Falei com hoje mais cedo — ele continuou — Vocês andaram se falando?
Ela fechou os olhos com força. Era como se houvesse algo dentro de sua cabeça, dentro de seu corpo, e quisesse sair, e a única maneira de fazê-lo era abrir um buraco no crânio de .
— Não, faz tempo que não troco palavras com ele — respondeu ela, desviando o olhar enquanto coçava a testa, querendo acabar logo com aquilo — Só o trivial mesmo.
— E isso faz falta para você?
sabia mentir, claro. Mas não sob pressão. Muito menos com dor de cabeça. E estava começando a irritá-la.
— Faz, mas acho que é uma questão de costume.
Não era. O costume a levaria a aceitar, não a superar. Uma simples troca de palavras faria tudo voltar à tona.
Era como cobrir com algo transparente: está coberto, não se pode inserir nada ou atingir, mas ainda podemos ver o que há dentro.
Sabia disso.
Se não tinha falado para sobre os dois estarem se vendo novamente, não seria ela quem iria contar.
Pegou na bolsa a caixinha azul. Estava quase sem os remédios de , e engoliu um a seco.
— Mas isso a incomoda?
Deu de ombros.
— Você está bem, ? Está pálida — ele perguntou, estendendo a mão para tocar a testa de . Ela desviou, séria e olhando fixamente para . Ele estremeceu. nunca tinha lançado aquele olhar antes.
Não era como se estivesse irritada, mas como se o considerasse insignificante. Como se ele sempre tivesse sido isso, e este foi o momento em que ela deixou isso escapar.
Escapar? Não, era como se ela quisesse que ele soubesse disso.
Se o mundo acabar amanhã, você estará sozinho.
— É uma dor de cabeça, só — ela respondeu, fechando os olhos e balançando a mão para que ele não insistisse.
— Ok... Julie entrou em contato comigo. Ela perguntou como você está reagindo.
deu de ombros novamente.
— E o que você respondeu?
— Que você não apresenta mais sequelas do dia com Jacqueline. Quase como se aquilo tivesse sido excluído da sua memória, arquivado.
Ela deu um sorriso cansado.
— Só isso? Então já terminamos?
— Ei, você acabou de chegar — ele retrucou, sorrindo com simpatia — Está com pressa?
— Não, eu só estou cansada. Queria ir para casa, preciso trabalhar.
— Já não passou o dia no trabalho?
fechou os olhos com força e os abriu de novo.
Sua cabeça doía cada vez mais. Precisava sair dali.
Sentia-se mais quente. O café parecia estar banhando seu corpo por dentro, todo ele.
Café.
Café.
— Sim... Preciso ir, .
— Não está cansada? Talvez seja melhor você ficar de repouso, não parece muito bem...
— Estou bem, ... — ela falou, ficando de pé, a mão na testa, os olhos apontados para o chão — Eu só preciso...
— Não quer mesmo ficar mais um pouco...? — ele perguntou, tocando o pulso dela, quando deu as costas para ele.
Ela desviou. Tirou a mão do rosto e, olhando diretamente para os olhos dele, retrucou, com a voz firme e grossa:
— Já disse que não, caralho.
Estava séria, e quebrava os olhos de .
Por isso a chamavam de Serpente.
Porque tinha os mesmos olhos de uma. Frios, afiados e belos.
gelou e não soube responder. A boca estava entreaberta, sem conseguir reagir.
— Ok... Qualquer problema, me ligue.
Ela foi em direção à porta sem dizer mais nada. engoliu em seco.

Alfabeto?
Não. Riscou.
Coordenadas geográficas?
Olhou para o mapa da cidade, na outra parede. Além dos alfinetes marcando os locais onde cada corpo fora encontrado, não havia mais nada nele. Não podiam ser coordenadas, mas ainda poderia tentar de novo.
Uma senha? Mas de quê?
Interrogação.
Identificação no laboratório?
Não. Não conseguiu nada.
Riscou.
Senha do celular? Talvez. Precisaria conseguir o celular ou computador.
Datas de casos antigos? Não conseguira fazer qualquer relação com uma data, mas ficaria atenta.
Algum tipo de identificação civil? Procurara no computador. Nada.
Aquilo estava enlouquecendo-a, e sabia disso.
2531613532363-92
deixara isso com um motivo... deveria entender a senha, saber o código para decifrá-la. Não deveria ser tão idiota, nem tão difícil.
Devia ser algo ridiculamente fácil, mas é complicado trabalhar em várias coisas ao mesmo tempo.
Tudo entra em conflito.
— Tudo bem, ? A pizza chegou — falou , da porta.
Ela acordou. Estava sentada no chão, em frente à parede com o espelho.
Olhou para cima. Outro espelho.
Samantha Fox.
Halloween.
Suicida.
.
— Estou bem, já estou indo.
entrou no quarto e fechou a porta. Sentou-se ao lado de , de costas para o espelho.
— Alguma ideia? — ele perguntou.
— Umas sete.
— Sete?! — ele exclamou, olhando para ela.
— Nunca tente formular soluções para o que encontrar. Venha com várias soluções, e exclua alguma com as provas — fez uma pausa, voltando a olhar para o espelho como se ele fosse uma obra do Picasso — Funciona comigo.
— Eu conheço você o suficiente para saber que algo está te incomodando. Vai, pode falar.
— Você nem sabe nada sobre nenhum caso, — retrucou, inexpressiva.
— Você deixou um resumo bom o suficiente para eu saber tudo, no meu tempo livre.
olhou em volta e viu que ele estava certo. Riu. a acompanhou e esperou, enquanto o sorriso de morria aos poucos.
Sua cabeça não doía mais.
— O assassino do Halloween. Isso que mais me intriga.
— Detalhes.
— Foi em uma festa. Todos ignoram isso — olhava para suas anotações e para si mesma — Acham que ele fez isso para chamar a atenção. Se fosse só isso, ele teria matado e exposto o corpo na sacada de um prédio da cidade. Mas ele não fez isso... Ele jogou o corpo ainda vivo, sangrando, de um terraço.
— Sim, e daí?
— O ponto é esse, ! — olhou para ele, ainda pensando, com a voz calma — E daí? Daí que era uma festa. De policiais. Cometer um assassinato nessas circunstâncias era muita ousadia ou muita burrice, e muito, mas muito arriscado. Entende agora?
— Nada.
— Ok, vamos lá. Vamos supor que você quisesse matar... Bem, a Marla.
— Sim... Suposição aceitável.
— Estamos falando sério aqui.
— Quando eu não estou falando sério?
— Ok, , voltando. Você pode ir até a casa dela? Não. Todos os prédios possuem câmeras de segurança. Você não é próximo dela. Seria um tiro no pé. Iria até a delegacia? Um pouco mais inteligente, mas demoraria até achar um momento perfeito. Ela deveria estar sozinha, as câmeras desligadas, muitas pessoas saindo e entrando da delegacia.
— Você quer dizer que o assassino não era tão próximo do morto?
— Sim. A festa era sua única oportunidade. Se fosse próximo, podia ter ido até a casa de sua vítima, que ninguém suspeitaria de nada. Era inteligente o suficiente para criar um álibi, qualquer que fosse. Mas preferiu a festa. Matou rápido, se livrou do corpo e da arma. Era sua única chance.
— Então é provável que tenha sido um crime de interesse, não pessoal.
— É cedo para dizer. Não sei se a vítima poderia ser adúltera. Não temos como saber o motivo do crime, mas sinto que estamos chegando cada vez mais perto.

Eu, Tyler James , confiro meus bens à minha única irmã, Anne , em caso de perda legal destes ou falecimento. Todos meus bens, materiais ou econômicos, ficarão sujeitos a ela, não havendo transferência desse direito, a não ser que haja consentimento ou incapacidade da própria para a administração dos mesmos. Não sou responsável pelas decisões de minha irmã em relação a estes valores, e a recíproca também ocorre. Sendo assim, eu, Tyler James , estou ciente de minha decisão até que haja renovação desta.

¹ - “Quando você cresce, seu coração morre.” — frase do filme Clube dos Cinco.

Listening to you I get the music, gazing at you I get the heat, following you I climb the mountain, I get excitement at your feet…




Have you heard the news that you're dead?

Um.
Dois.
Três.
Esse era o número de gotas que caíam no ar condicionado da sala, antes de uma breve pausa, e recomeçar.
Um.
Dois.
Três.
Recomeçar.
Começou a bater com os dedos contra a mesa. A pausa.
Um.
Halloween.
Dois.
Suicida.
Três.
.
Pausa.
Um.
Faca.
Dois.
Corda.
Três.
Código.
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Uma folha de papel voou no canto da mesa. Seus olhos foram direcionados para a folha, baixos, lentos, acompanhando sua queda em onda.
Não se moveu.
Um. Dois. Três.
A sala tinha paredes laranja. Nunca tinha percebido isso. Eram laranja claro, e com um único abajur para servir de iluminação.
Abaixou os olhos e se deu conta de que não estava sozinha.
Jacqueline Durden.
Foi atingida por um pensamento estranho. Não tinha pensado daquela maneira antes e, incrivelmente, fazia sentido.
Jackie teria assassinado a pessoa do Halloween. Se aquela pessoa estava ali e foi morta, ela provavelmente tinha algo a dizer a .
Pensou mais.
Pensou mais. Jacqueline tinha o motivo. E a chance.
E se o morto do Halloween e o suicida tivessem a mesma informação? E se Jackie não quisesse que esta chegasse a ?
Balançou a cabeça negativamente.
O ventilador voltou a girar normalmente, rápido demais para os olhos . Xingou baixo, movendo-se para se ajeitar na cadeira. Claro que Jacqueline não tinha nada a ver com aquilo. Que ideia! Ela mesma já tinha se convencido de que Jackie não tinha assassinado ninguém além de si mesma. Aliás, e ? O assassino de certamente era o mesmo do Halloween e do suicida. O método para cada um podia ser diferente, o que dificilmente o colocaria como serial killer pelos policiais, já que os casos vistos por alto não teriam ligação.
A ligação era simplesmente a pessoa comum a todas as vítimas.
Irritou-se por aquele pensamento repentino. Aquilo era a prova óbvia de que ela não estava se concentrando o suficiente.
O assassino não deixou passar o código de . Era provável que nem sequer tivesse visto-o, mas ainda havia a chance de ele ter querido que o visse.
Abriu a bolsa, pegando a caixinha azul e uma pílula. Jogou-a no fundo da garganta e engoliu.
De algum modo, ela sentiu como se tudo trabalhasse para o mesmo final, independente do que fosse acontecer no meio.
tinha dormido no sofá na noite anterior. Acordou cedo porque não conseguira dormir bem — apesar de que precisasse. E, quando abriu os olhos, viu-se no espelho do teto, este com uma série de números escrita.
Não preciso nem repetir a série.
— Bom dia, flor de cerejeira.
Olhou de lado para Ramona, que vinha na direção do sofá. Estava com os cabelos presos e não vestia uma roupa de quem pretendia sair de casa.
— Desde quando você mora aqui? — perguntou, com a voz rouca da manhã, e ficando sentada no sofá. Gemeu baixo de dor no pescoço.
Ramona fez uma careta de quem não entendia a pergunta, ou como se a resposta fosse tão óbvia que era desnecessário perguntar.
— Desde que eu venho dormindo aqui há dias e você nunca reclamou.
— Estou reclamando agora.
A loira deu um sorrisinho e voltou a dar atenção no que quer que estivesse arrumando em cima da mesa.
— Não está reclamando, está apenas perguntando.
— Não estou não.
— Tinha é que gastar sua cota de reclamação com esse torcicolo. Não tenho paciência para ouvir mulher rabugenta a essa hora da manhã, então reclame do útil.
bufou. Como se não bastasse ignorar a presença de , tinha agora que suportar Ramona.
Mas estava cuspindo no prato que comia. Ramona veio depois de ir embora sem data de volta — a essa altura, provavelmente, devia estar próximo seu retorno —, e, se não fosse ela, estaria sozinha.
Completamente sozinha.
— Caí no sono ontem — explicou, ficando de pé e com a careta de dor — Estava pensando. Vou passar na sala do hoje...
— Não esquece a camisinha.
olhou para a loira, franzindo o cenho.
— Foi só uma brincadeira — Ramona se justificou.
— Não entendo ironia a essa hora da manhã. Falando nisso, que horas são?
— Oito e meia. Ainda tem bastante tempo livre.
tomou seu caminho em direção à cozinha, com Ramona ao seu encalço. Sentou-se no mesmo lugar da manhã anterior, mas dessa vez ambas estavam sozinhas.
e tiveram que sair cedo. teve uma emergência no trabalho, e precisou levá-lo — explicou Ramona, colocando café na caneca para . Foi para a mesa e colocou a caneca na frente de — Mas fale sobre seu encontro com . Sou toda ouvidos, afinal, não passa nenhuma série boa a essa hora.
tomou alguns goles do café e sentiu a manhã encher seu corpo. Suspirou em alívio. Ramona acendeu um cigarro, com a mão na frente do isqueiro. A fumaça que saiu era azulada, provavelmente resultado da mesma reação que ela tinha usado na fogueira há alguns dias.
— Tivemos que nos ver ontem, e teremos que nos ver hoje e amanhã. Ele está me ajudando com os casos enquanto eu o mantenho a par do que estou pensando.
— O que há de ruim nisso?
— Basicamente, nada. Mas ontem eu tive um problema e ele me ajudou.
— Putz, isso me cheira a clima romântico — Ramona fez uma careta de nojo, inclinando-se para frente — E eu tenho alergia a isso.
riu.
— Não foi nada demais, na verdade. Só falamos.
— Mas falaram as palavras certas e, ao mesmo tempo, erradas — adivinhou Ramona.
deu de ombros ao concordar.
— Bem, pelo menos, você não está apaixonada, está? Porque você sabe o tipo de merda que acontece quando estamos apaixonados.
— Não, não, não é isso. É só que... — ela procurava as palavras, gesticulando — Acho que as coisas parecem menos complexas. Mais nítidas.
— Que coisas?
— Todas. Principalmente os casos. É como se estar perto dele escondesse meu lado mais profissional. Não, não profissional. Mais frio. Me sinto mais humana, e menos ameaçadora.
Menos desagradável.
"Eu sou a única pessoa que faz você se sentir vivo."
— Eca — Ramona murmurou.
riu, bebendo mais café.
— Que comentário tocante. Fiquei até emocionada.
— Bem, isso sobre ele é com você. Não vou me meter. Só não acho que vá fazer bem a sua carreira se estressar com esse tipo de coisa... Você já viu como isso é cansativo.
torceu o lábio. Queria ir visitar , mas teve medo de terem dado um jeito de rastrear Ramona, e ir vê-lo pudesse prejudicar as duas.
— Quer saber? Ele é só uma porra de uma memória. Quer dizer, quem sou eu para gostar do cara que todo mundo gosta?
— Ninguém perde o que nunca teve, — Ramona disse, levantando da mesa com a caneca de para colocá-la na pia — Você nunca teve .
retrucou com amargura:
— É fácil para você falar assim, você é bonita.
Ramona riu.
— Você sabe exatamente o que quer. Só tem medo de que não seja certo querer isso.
— Você fala muito complicado.
levantou-se e foi se trocar. Tinha dormido no sofá pensando na conversa com e na consulta de . Subiu as escadas para chegar até seu quarto, e Ramona ficou apoiada com o ombro na porta, e os braços cruzados.
— Acho que o pior foi com . Não sei por quê, mas perdi a cabeça na consulta de ontem.
— O que houve?
— Falei um palavrão completamente sem motivo.
Ramona deu uma risada.
— Falamos dois desde que você acordou.
— Não, não esse tipo de palavrão. Eu falei com raiva. E não sei por quê. E tem coisa pior...
— O quê?
engoliu em seco.
me mandou uma mensagem depois. Eu não lembro de ter feito isso. Ele me disse o que houve... Mas meu cérebro simplesmente apagou isso.

A porta foi aberta. Fugiu de suas lembranças da manhã, e conferiu o relógio. Nove e meia.
— Desculpe o atraso — falou, entrando na sala.
não estava com vontade alguma de colaborar.
— Alguma nova descoberta?
Tinha colocado todas as maneiras possíveis de coordenadas para o código de . Não chegara a lugar algum. O computador, aliás, tinha ficado ligado a noite inteira porque tinha feito suas anotações na sala, sentada no sofá.
Então ‘coordenadas’ estava fora. Se perguntou se realmente queria apontar um lugar.
Fez que não com a cabeça, cansada.
— Está tudo bem?
Não, não está.
— Dormi mal noite passada.
— Dormiu mal ou dormiu pouco?
Ela bocejou.
— Os dois.
foi em direção à cadeira. Sentou-se de frente para .
A sala dele tinha uma aura estranha. Não sabia dizer se eram as anotações de , mas era como se tudo e qualquer fato recente estivesse ali. Quer saber os corpos recentemente encontrados? O jornalista pode lhe dizer. Está curioso para descobrir o que houve com o oficial ? Bem, tem a resposta!
sabe. não faz as perguntas certas. Ele faz as erradas, ele quer lhe ver blefar.
é um rato entre os elefantes: ninguém o vê, mas ele vê a todos.
— Não consigo mais me concentrar direito — ela confessou, baixo, passando a mão pela testa.
está em férias. Férias sem data para voltar.
está trabalhando o dia inteiro.
Ramona passa o dia fora e vai para a minha casa à noite porque não tem onde ficar.
terminou o noivado comigo e age como se nada estivesse acontecendo.
Eu odeio tudo isso.
E o pior era que, apesar de tudo, não era isso que a desconcentrava. Isso era estável.
Só havia uma coisa instável.
— Não consigo.
comprimiu os lábios e inclinou o corpo para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Eu sei que há muito de errado à minha volta. Eu sei que deveria me importar com outras coisas... Mas tenho coisas mais importantes com o que me preocupar.
Sinto como se, a qualquer momento, tudo que me incomoda pudesse simplesmente desaparecer em névoa.
— É isso que lhe incomoda? — ele perguntou, com as sobrancelhas sutilmente erguidas, com medo de estar entrando em território proibido — As coisas que não parecem destinadas a desaparecer?
Coisas instáveis?
Não havia som na sala. Eram apenas os dois.
Não havia delegacia.
Eram apenas os dois.
levantou o olhar para ele, enquanto brincava inquieta com suas próprias unhas.
— Pode me responder uma coisa?
— Posso tentar.
Seu tom de voz era curioso, como uma criança querendo ouvir a dica de onde está escondido seu presente.
— Por que, de todas as coisas que tenho em minha cabeça, você é a única que eu quero tirar?
não esperava aquela pergunta. Nem . Ela não sabia que falaria uma coisa daquelas.
Afinal... Por que era a única coisa que sempre voltava a ela?
Lembrava-se de . Ele era como uma garantia. , desde muito nova, apenas queria Joseph Durden. Ele era e sempre seria seu primeiro amor. Quando ele se perdeu, não gostava de admitir isso, mas ela sentiu falta daquilo.
Sentiu falta de olhar para alguém e querer poder sempre olhar aquela pessoa de perto.
Sentiu falta das conversas entoadas ao luar, das palavras perdidas.
Sempre uma jovem longe de todos, adulta cedo demais, porém, aquilo a mantinha jovem.
Estar estável.
A ilusão de amar Joe Durden a mantinha como ela achava que tudo deveria ser.
Era isso! Por que ter tanto medo de dizer de uma vez? Era puramente isso: não se considerava no padrão. Desde muito jovem, viveu coisas que não desejaria nem aos seus inimigos. Cresceu em seu meio. E, quando perdeu Joe, focou-se mais em si.
Cresceu no vazio.
E o que alcançou? Reconhecimento. Fama.
E um namorado. .
Nunca amou .
Ramona tinha razão. Ramona sempre tinha.
e eram uma relação prestes a explodir. Porque ela nunca o amou.
Porque só queria amar alguém, quem quer que fosse, e apareceu no lugar certo, na hora certa.
— Eu amava a sensação de tê-lo — ela murmurou.
Você sabe que perdeu o tiro de largada.
Sempre viveu no castelo de areia. era para dar certo porque era para dar certo.
Lembrou-se do dia em que ele fora aclamado com uma medalha em um evento. , certamente, como sua namorada, foi convidada a comparecer. Só que ela estaria saindo de um pesado turno, e dificilmente poderia trocar de roupas para ir. Ele disse que não havia problemas. Chegando lá, foi encaminhada para a primeira fileira de bancos, ficando de frente para um palco. Sentou-se ao lado de seu namorado, e inclinou-se para dar um beijo em seu rosto.
negou, cochichando:
— Tire esse distintivo, .
Ela estranhara.
— Tirar?
— Pessoas não precisam saber onde você trabalha, por aqui — ele tinha um semblante sério.
, eu não...
— Só tire, ok? Tire.
tirou o distintivo e olhou-o antes de guardar. Era prateado, lustrado. Não merecia ficar dentro de uma bolsa.
— Por que isso?
— Aqui, você não é uma detetive. É uma policial.
— Sim, e daí? — ela não conseguia compreender.
Ele apenas torceu o lábio e olhou para frente. entendeu em seguida.
Para ele, policial era um trabalho sujo. Era bruto.
nunca gostara do emprego de . Por mais que tivesse sido por causa desse emprego que eles se conheceram, ele nunca fez questão de esconder o que achava daquilo.
“Policial é trabalho de homens, e você ter esse trabalho só te faz parecer grotesca.”
gostava dessa impressão. Essa sensação de que era o homem da casa.
Ele só se sentia ameaçado.
Mas cedia demais. se negava.
Ela apenas amava a sensação de tê-lo.
? , tudo bem? — ouviu perguntou.
Ela piscou os olhos duas vezes, balançando a cabeça de leve.
— Desculpe.
— Você ficou catatônica por alguns segundos.
Um assunto interminado.
chegou para trás na cadeira, claramente desconfortável. Desviou o olhar, respondendo sem firmeza:
— Não sei como te responder isso.
— Sabe sim — retrucou, com um tom quase arrogante na voz. Era irônica, franzindo o cenho e chegando o corpo para frente.
Ele engoliu em seco.
— Você só fez coisas ultimamente para que isso acontecesse. Só anda me provocando, me deixando em uma rua sem saída. Por quê, ?
Ele não sabia responder. Saberia, se ela fosse mais sutil. Mas tinha balas e não parecia querer economizá-las.
Ela ficou de pé, andou até um lado da sala, olhando para as anotações. Passou as mãos pelos cabelos, colocando-os para trás, e disse em um suspiro, com as mãos na cintura:
— Me ajude a acabar com isso de uma vez; preciso me concentrar. Me ajude a responder a única questão que parece ter uma resposta simples: por que você me deixa tão confusa?
Ele quis rir. Resposta simples?
— Porque quero que você se sinta como eu.
A visão de ficou turva. Foi como se sua visão se convertesse em audição, esta que se tornou mil vezes mais aguçada.
— Você já me deixou esperando tempo demais. Você foi atrás do , eu fiquei calado. Você teve problemas, eu ajudei, você agiu com indiferença.
A voz de era incisiva, e pior: se aproximava dela.
— Eu fiquei esperando por um tempo. Eu dei seu tempo para pensar. E só queria espaço para me desculpar e me explicar. E você não me deu.
Ele riu na nuca de . Só de imaginar seu sorriso sarcástico, ela já sentiu um arrepio na espinha.
— Você me confundiu, eu só quero que você se confunda também. Você me deu liberdade para isso, . Eu só quero que você se decida.
Ele tocou sua mão.
— Quero que você decida onde estou. Eu só não quero ser só seu amigo.
Sua voz era morna e queimava a pele de .
Uma raposa que brinca com a serpente.
— Quero que você me diga se alguém já a fez perder a postura, como está perdendo agora.
Ele encaixou a cabeça para falar em seu ouvido:
— Quero que me diga se alguém já a fez se desconcentrar como você está se desconcentrando. E, acima de tudo, quero que me diga se alguém, algum dia, já a fez se sentir tão viva, como está se sentindo agora.
Déjà-vu.
Retrocedendo.
Caos.
girou e voltou para perto da mesa, procurando sua bolsa.
— Acho que acabamos aqui.
colocou as mãos nos bolsos e não perdeu a calma. Continuava sereno.
— Fugir? Não é muito ‘ ’ de você.
Ela ignorou, por mais que quisesse responder.
— Se eu responder a sua pergunta, pode responder uma minha?
Ela engoliu em seco, virando-se lentamente para trás, para , com os olhos fechados, procurando continuar tranquila.
— Eu só gostaria de uma resposta final. Eu simplesmente não consigo mais com isso de colegas e amigos nas horas de necessidade.
— Só... faça a pergunta — ela pediu, chegando o corpo para trás. Batendo as partes de trás de suas coxas na bancada da mesa.
continuou a andar até ela, deixando um espaço pequeno entre eles. Ele a olhava bem no fundo dos olhos, com o corpo reto, a não ser pelos ombros relaxados. Tinha as mãos nos bolsos. Por outro lado, quase sentava na mesa, tentando manter certa distância de .
— Quero que você me diga até quando vai se enganar, fingindo que não faço surtir nada sobre você. Até quando vai se enganar como se eu ainda fosse seu assunto interminado.
Ela engoliu em seco. Era aquilo? Estava acabado? Simples assim?
...
— Posso fazer essa resposta ser mais rápida.
Ela ergueu a cabeça. Olhou-o bem nos olhos, e esperou.
Queria aquilo. Ah, se queria.
Era a maior cadeia de catástrofes.
A raposa e a serpente.
A pior das bombas.
tirou uma das mãos dos bolsos sem que percebesse, e segurou o pulso dela, puxando-a contra seu corpo. A outra mão posicionou-se no pescoço de , com um toque suave.
Foi assim que ela sentiu seus lábios tocarem os de . Uma das mãos dele estava em sua cintura, a outra acariciava sua nuca. E a beijava devagar, encaixando seus lábios, lento, atroz.
E sabia que a faria perder o controle.
Tinha as mãos no peito de . Sua camiseta era cinza, com uma jaqueta.
caçava seus lábios, e não queria que eles se fossem. Em um momento, mordeu-os e sugou-o para voltar a beijá-lo.
Aquela foi a resposta de .
Logo, as mãos de foram para os quadris de , descendo para suas pernas. Ele segurou-as, levantando e sentando-a na mesa. A moça suspirou em alívio, e ergueu as mãos para o pescoço de , puxando-o para si, de volta. A outra mão estava no ombro dele, com as unhas fincando.
Agora o beijo de era voraz. Todo o tempo perdido... deveria ser bem recompensado.
separou os joelhos sutilmente, e, com a mão no ombro de , puxou-o para mais perto. Entre as coxas de , as mãos de estavam em sua cintura, vacilando para descerem um pouco.
Controle.
Controle.
Quando a mão de chegou à blusa de , ela separou o beijo, tomando ar.
Que merda tinha acabado de fazer?
também respirou fundo, como que pegando fôlego. A luz era baixa no cômodo. Murmurou:
— E sua reposta: eu simplesmente quero ter a certeza de que ficarei na sua cabeça tanto quanto você fica na minha.
Depois de ouvir isso, simplesmente desceu da mesa e saiu da sala, sem que a parasse.
Ele já tinha dado seu recado.

De todas as coisas que poderia estar pensando, só havia uma coisa que Marla não conseguia tirar de sua cabeça: .
Por que pedir ajuda a logo ela? Por que, de todos, preferira pedir amparo a Marla?
Seus olhos verdes não brilhavam, talvez pois não tinham foco, ou pois ela tinha receio. Não sabia o que poderia acontecer, e a partir de quando assumira as responsabilidades com , tinha uma coisa a mais a se preocupar.
Nunca gostara muito de . Mas não era o caso de odiá-la ou algo assim; simplesmente não simpatizava com ela. considerava seu trabalho uma diversão, um charme.
Acorde. Você não está em um livro do Conan Doyle.
Você precisa saber que lê histórias de detetives e que sua vida nunca será como elas.
Precisa se conformar que sua vida não vai ser muito diferente da de milhares de outras pessoas.
Se conseguir se convencer disso, talvez envelheça menos frustrada.
E nunca alcançará nada na vida se não trabalhar duro por isso.
alcançou o topo não porque escalou, mas porque usou uma catapulta. Rápida.
Quando pediu sua ajuda, fora inteligente ao não chamar alguém próximo a . ? ? Julie? Loucura. Mas Marla? Perfeito.
Precisava ficar por perto, mesmo longe, mas observar de longe.
já tinha dito que sentia forte remorso por ter ido embora tão repentinamente. Na situação que estava, entretanto, não tinha opção.
Quanto mais rápido corria, mais rápido corria o tempo que a acompanhava.
Olhou para sua mesa. Nenhuma foto. Marla deixara sua família no interior da Califórnia para viver em Longview. Outro fim do mundo. Seus pais estavam longe, não tinha irmãos ou irmãs, e mal esperava para o Natal, dali a dias. Poderia ir para casa. Sair do trabalho.
Mas o trabalho não sairia dela.
Estar ali, falando com , não seria o suficiente.
Não, e Marla precisava agora mais do que nunca, prestar sua ajuda.
Não sabia por quê. Não saberia explicar. Talvez fosse porque estivesse no fundo do poço, mas lá fosse tão claro, que ela não percebesse isso.
Pegou o telefone em cima da mesa, e telefonou para a sala de . Poucos toques depois, ele atendeu, com a voz cansada:
— Alô?
, Marla falando. está aí?
— Não, acabou de sair. Por quê?
— Sabe onde ela foi?
— Não. Mas não acredito que tenha ido embora.

Zoe estava deitada na cama dura, olhando para o teto, brincando com o cartão em suas mãos. Ouviu o som da porta sendo aberta, e levantou a cabeça alarmada, em susto. Estava detida lá até alguém pagar sua fiança ou seu responsável ir lá buscá-la.
Ou seja, nunca.
— Ah, olá, você — ela falou, desanimada, deitando novamente.
O rosto de era pouco amigável. Bem pouco. Ao contrário: ela não estava para brincadeiras antes, e agora, menos ainda. Quando fora vê-la na primeira vez, deparou-se com uma jovem que tentava mostrar-se independente e cheia de si.
mostrou a ela que isso é questão de ponto de vista.
Poder é ilusão. Sempre há alguém que o observa de longe, enquanto você se gaba de possuir poder, alguém o tem mais que você.
Comumente, essa pessoa controla você sem que você saiba.
Uma jovem dona de sua vida. Que não percebe que não é dona de nada.
Essa história já conhecia.
— Assim você me magoa — falou, inexpressiva, fechando a porta atrás de si com o calcanhar. Ergueu do bolso um cigarro novinho — Trouxe mais um exemplar para sua reserva de nicotina.
Zoe levantou-se prontamente, sentando na cadeira em frente à sem pressa, bem acomodada. Parecia até satisfeita em estar ali. acendeu o cigarro e passou-o, aceso, por debaixo do vidro. Zoe tinha começado a fazer duas tranças laterais baixas, enquanto acendia o cigarro. Ao pegá-lo, seu cabelo maltratado e loiro estava trançado em ambos os lados.
— Parece tão mais saudável. Estou até com pena de te dar isso.
— Não fale isso nem brincando — Zoe falou, rindo e tragando, em alívio — Eu amo o gosto de veneno pela manhã.
ergueu sutilmente o canto dos lábios, enquanto observava Zoe tragar. Como se estivesse ali exatamente para isso: observar a garota.
Como um animalzinho em cativeiro.
— Parece tão feliz em estar aqui. Isso não lhe incomoda? — apontou para sua volta, sem tirar os olhos de Zoe — As quatro paredes.
A loira deu de ombros.
— Nada entra, nada sai. Mas diga-me, o que faz aqui? Eu não lhe chamei.
— Acha que só venho aqui por sua causa? Que pouco modesto.
Zoe riu.
— Você não anda bem falada o suficiente para ter passe livre por aqui.
— Faz um bom tempo que não ando bem falada — retrucou, rindo — Mas fui convidada a vir. Além disso, precisava falar com você.
A menina tragou novamente, encostando as costas na cadeira, com as sobrancelhas arqueadas.
— Sou toda ouvidos, se me trouxer mais do meu veneno.
— Posso até tentar providenciar isso. Mas queria saber sua ligação com os Durden.
Zoe franziu o cenho, dando de ombros.
— Isso é por causa do canivete?
— Sim, ele pertenceu por um bom tempo a Joe Durden. Já ouviu falar nele?
— Algumas vezes. Aposto que você também ouviu — disse ela, rindo.
Já. Algumas vezes. Mais do que eu gostaria.
Todas as noites, eu ainda posso ouvi-lo.
— O canivete era dele. E ainda estou bem curiosa para saber como ele foi parar com você.
— Ele veio até mim. Eu e meus amigos. Acha realmente que vou lembrar de como arrumei um canivete? — Zoe fez uma cara de desprezo.
semicerrou os olhos e riu.
— Você toma toda essa pose — ela disse, fazendo gestos para indicar sua última palavra, e falando com claro desprezo em sua voz — De criminosa, de garota rebelde, contra o sistema, mas caga nas calças quando ouve uma sirene de polícia. Eu honestamente não sei por que você se dá o trabalho... Eu, com dezesseis anos, tinha mais ficha criminal que você.
Zoe tragou, sustentando o olhar de .
— Não é uma batalha para saber qual das duas é a dona da rua, . Não seja tão convencida.
— Ah, está diminuindo a agressividade dos adjetivos? Que gentil. Estou quase vendo uma solicitação de amizade no Facebook agora.
— Eu estou aqui há dois dias e o máximo que você fez comigo foi calar a minha boca ontem. Vou mandar a Julie colocar uma plaquinha lá embaixo com sua foto no funcionário do mês, com uma estrelinha.
— Ah, Zoe... Você nem fala com a Julie. Precisou me chamar aqui para fazer você soltar uma sílaba.
— Só falaria na presença de uma pessoa do mínimo do meu nível — tragou mais uma vez — Você pareceu ser, quando pegou meu canivete. Mas me decepcionei.
— Foi, é? — apoiou o cotovelo na mesa, segurando o queixo pela mão, semicerrando os olhos novamente, observando Zoe — Engraçado você se decepcionar comigo. Achei que você gostasse de se prender à figura feminina mais próxima.
Zoe recuou.
— O que quer dizer com isso?
Queria desviar os olhos dos de . Fez isso uma vez, mas não resistia: voltava a olhar para eles. Eram tão fixos nela, que eram como câmeras.
Guardando cada imagem.
Guardando cada pessoa.
relaxou os olhos. Chegou para trás na cadeira, olhando para suas mãos em seu colo com descaso.
— É seu jeito de as pessoas te verem, não? É provável que sequer seu nome seja Zoe. Mas em troca de quê? — inclinou-se novamente, com os olhos semicerrados — Em troca de quê, Zoe?
Fez uma pausa, erguendo um canto dos lábios.
— Você sabe que é só uma coadjuvante nisso tudo. Por que se dá o trabalho?
Zoe comprimiu os lábios.
— É atenção, não é? Tudo que você quer são os holofotes em cima de você. Vou te contar uma coisa, garotinha: uma hora os holofotes podem te cegar, de tão fortes.
Outra pausa, e dessa vez, um balanço negativo com a cabeça.
— Você parece velha demais para uma menina jovem.
— Aonde quer chegar, ? Aonde você quer chegar?
Sua voz parecia ansiar por ar. Era como se a presença de enchesse a sala, e sufocasse todo o redor.
Quase poderia sufocar a si mesma.
Nada entra, nada sai.
Como Tyler.
Sou mesmo a mais vulnerável?
— Foi seu pai, não foi? Ele deve ter te deixado com, o quê, uns cinco anos? Você e sua mãe? Foi isso?
Zoe comprimiu os lábios, aproximando o cigarro dos lábios para disfarçar.
— Você está inventando isso.
— O que mais? Hum, vamos ver... — coçou o queixo — Talvez filha única? Provável. E sua mãe...? Era dona de casa ou uma faz-tudo? Acho que fico com a faz-tudo.
Zoe engoliu em seco, engasgando com a fumaça.
— Esse anel que você usa no anelar é antigo — apontou para a joia suja no dedo da jovem — É uma aliança barata. Você é nova demais para ser uma viúva, então ficamos com a opção de que foi dos seus pais. Mas uma aliança não estar com a mãe? Poderia ter sido porque eles compraram uma nova, mas essa é de péssima qualidade, o que invalida qualquer dinheiro sobrando que possa servir a esse luxo — fez uma pausa para rir com deboche — Putz, deve ter sido um divórcio difícil, ainda mais para uma mulher e sua filha hiperativa se manterem estáveis depois disso. É isso que quer dizer com uma casa mal-assombrada?
Zoe coçou o nariz, desviando o olhar.
— E os Durden, onde se encaixam nisso?
A menina olhou-a de lado, com o olhar fixo. Poderia cortar , se ela já não estivesse imune a qualquer ferida.
— Prima?
Zoe suspirou. Tirou as cinzas do cigarro e tossiu. Tragou mais uma vez, olhando para .
— Você achou estar escolhendo uma detetive que conseguisse enrolar, mas chamou o diabo para vir te ver.
A jovem ergueu suas esmeraldas. Tinha os olhos sutilmente apertados. Incendiada.
Mas era uma chama jovem demais para começar um incêndio.
— Errou em só uma coisa, — disse, com a voz fraca e um pouco irônica — Meus pais não se divorciaram. Eles nem sequer chegaram a se casar. Minha mãe me teve com o irmão de Johnny Durden... e ele nunca me assumiu.
relaxou. Tinha chegado longe demais.
E incrivelmente certo.
Chutara o divórcio, mas sua intuição apostava no abandono.
— Ele a engravidou enquanto namoravam. Quando ele soube de mim, exigiu um aborto imediato — fez uma pausa, comprimindo os lábios, e tragando mais uma vez — Imediato. Ela não aceitou, como você pode ver — ela riu baixo — Meu pai bateu nela e na barriga, bastante. Chutou. Eu tinha sete meses.
Apertou os olhos, e pôde ver a água acumular em seus olhos. Mordeu o lábio e virou os olhos.
— Por pouco ela não abortou. Foi às pressas para o hospital e teve um parto induzido. Quando eu nasci, com uma pequena deformidade no crânio, ela teve uma hemorragia. Morreu pouco depois. Minha avó cuidou de mim, meus avós maternos, eles cuidaram de mim. Diziam que eram meus pais. E que a minha falecida mãe era minha irmã mais velha...
— Zoe... Eu não...
— Descobri a verdade há pouco tempo. Achei o anel de compromisso dos meus pais, os nomes deles gravados dentro. Meus avós não conseguiram mais esconder a verdade de mim. Me contaram tudo... Inclusive sobre a morte dele. Eu era órfã de um pai que nunca tive. Fugi de casa nesse dia. Eles não fazem a menor ideia de onde estou. Não tenho registros para eles me encontrarem aqui, nem documentos em dia. Meu nome é Zoe. Significa ‘vida’.
Tossiu, com o choro começando a se libertar.
— Meu nome é Zoe.
desejou estar ali, perto de Zoe, para poder abraçá-la. Em vez disso, apenas falou, em voz baixa, enquanto a menina limpava as lágrimas incensáveis:
— Eu conheço você... Eu acertei tudo... Porque sou exatamente igual a você.
O olhar de Zoe se ergueu.
— Minha mãe me teve solteira, eu e meu irmão. Ela trabalhava na mansão dos Durden. Eu também cresci sozinha, precisando cuidar de mim mesma. Nunca tive pai. Meu pai sempre foi Johnny Durden.
Zoe soluçou.
— Depois que eles morreram, minha vida ficou um inferno. Minha e do meu irmão. Ele foi embora de casa, minha mãe não conseguia cuidar nem de si mesma, sempre endividada. Às vezes bêbada. Eu encontrei meu lugar sozinha, Zoe.
— Por que está fazendo isso?
engoliu em seco.
— Quero que você perceba que não precisa fazer isso. Posso olhar dentro de sua alma. Você não é assim. Você é como eu.
Zoe abaixou a cabeça e balançou-a.
— Eu ataquei seu amigo porque achei que ele fosse seu irmão. Sabia quem você era. Eu acompanhei e procurei tudo que podia sobre os Durden, quando descobri que meu pai era um deles. Sabe como é ligar para uma casa vazia?
ergueu o canto do lábio.
— Sei como é ligar de um telefone mudo.
Zoe riu pequeno.
— Meu pai nunca me procurou. Ele estava no avião de Johnny, era contador da família. Eu tinha doze anos quando ele morreu, e foi há poucos meses que descobri tudo isso sobre minha família. Quando descobri que a herança dos Durden está congelada, só vim proclamar pela minha parte. Minha parte geral. Afinal, sou uma Durden. Eu só quis meter medo.
— Por um breve momento, conseguiu. Mas Zoe — disse, colocando a mão por debaixo do vidro, tocando na dela, de leve — Sempre haverá alguém mais alto que você vendo isso tudo...
Uma pausa.
Então, ela compreendeu.
Aquela vagabunda.
Era isso que Julie tinha querido dizer. Era aquilo!
Julie não apenas sabia que tinha as pastas dos casos, como se deixara enganar por , e... e...
— O que está comigo pode não ser verdade. Julie sabia que eu iria atrás das pastas... e provavelmente controlou o que eu leria nelas.
— O quê?
ergueu a cabeça, piscando os olhos. Recolheu sua mão da parte de Zoe.
— Desculpe. Preciso ir.
fez menção de se levantar, mas a jovem segurou forte sua mão.
— Espere!
A detetive olhou para a mão de Zoe. Tremia.
— Por que fez isso tudo? Por que está me ajudando?
Ela ergueu o olhar para a menina.
— Gostaria que você fosse minha aliada. Que você pudesse me ajudar, quando eu precisasse de ajuda, sem que ninguém saiba. Pode fazer isso? Posso contar com você?
Zoe gelou.
Está comigo, boneca de papel?
‘Estou com você, boneca de papel.’
— De onde conhece o apelido ‘boneca de papel’? — perguntou a menina.
— É um apelido pessoal. Por quê?
Zoe soltou-a.
— Coincidência.
A menina calou-se. Tendo terminado o que tinha ali, saiu da sala.
Estava esvaziando seus assuntos inacabados.

Na recepção da delegacia, inclinou o corpo por cima da mesa. Pediu por um telefone. Ligar do seu próprio não teria muito efeito.
Tinha uma informação crucial.
Zoe era, afinal, importante até demais. E precisavam mantê-la em segurança.
Ouviu o som da porta de vidro batendo, da delegacia, quando pediu o telefone.
— Ah, você aí. Era justamente com você que eu queria falar.
A voz da Sra. era arrastada. Ela tropeçou ao entrar, e andava sutilmente encurvada.
engoliu em seco.
— Não posso falar agora.
A Sra. riu.
— Não finja que tem coisas importantes para fazer. Não é como se você fosse uma policial de verdade.
Ao dizer isso, agarrou o antebraço de . Bruscamente, a fez soltar, com um movimento para trazer o braço para perto de seu próprio corpo. Sentia o cheiro de álcool.
— Achei que eu tivesse deixado de ser sua filha há muito tempo.
Todos da delegacia olharam a cena. olhou em volta, agarrou sua mãe pelo braço com força e quase arrastou-a para fora da delegacia. Marchando, desceu as escadas e olhou-a no fundo olhos ao dizer:
— O que você quer?
A Sra. engoliu, e fechou os olhos, querendo se lembrar.
— Eu te vi no jornal.
— Você e o resto da Califórnia.
A reação de sua mãe foi inesperada: ela riu.
— Está ficando famosa, minha filhinha — quis tocar o rosto de , mas ela desviou.
— Diga logo o que quer e me deixe em paz. Da última vez que nos vimos, você não fazia menção de voltar.
— Minha filha... — foi mansa — Eu só queria pedir uma ajuda. Eu errei. Me perdoe. Eu só queria que você lembrasse de mim...
— Sua filha assassina lembrava toda vez que você não ia visitá-la.
A Sra. parecia estar perdendo a paciência aos poucos.
... Não fale assim.
— Teve tempo de me procurar quando voltei, poderia ter me procurado depois, mas hoje vem até mim fedendo a bebida. O que foi? Precisa de mais dinheiro meu? Quer me roubar ainda mais?
Não era boa hora de tratar daquilo com . A jovem estava claramente alterada, depois da conversa com Zoe.
Ou explodia, ou se afogava.
— Roubar? — a Sra. torcia cada vez mais suas feições — Cale a porra da boca, garota. Cale o caralho da boca quando fala comigo!
Levantou a mão, mas a segurou pelo pulso no ar. Tinha o rosto sério, o olhar fixo, as pupilas dilatadas.
— Limpe a boca para falar comigo. Não te tratarei como minha mãe, se não me tratar como sua filha.
A mulher riu. Riu com deboche, com ironia.
— Você não tem ninguém, . Nada lhe sobrou. Você está morta por dentro, morta! Já te falaram isso? Morta! — ela gritava.
não a soltou, mantando o olhar fixo na mãe, sem alterar qualquer coisa em sua face. A outra mão estava atrás de seu corpo, segurando um celular e discando três números.
— As pessoas têm medo de você, estão abaixo de você. Ninguém nunca gostou de você. Você usa sua influência para a ilusão de que gostaram de você.
Tinha veneno em sua voz.
Riu com um tom diabólico e insano.
— Você teve o que merece, afinal? Estaremos todos no mesmo lugar, . Eu e você. No mesmo buraco. Você é a maldição que carrego, eu sou a que você carrega.
— Isso é o melhor que pode me dizer?! — gritou em exclamação desesperada, sua voz saindo aguda.
Uma sirene veio pela rua, e ao vê-la, se aproximando ao longe, soltou a mão de sua mãe. A Sra. abaixou-a rapidamente, sem tocar .
Entretanto, a jovem jogou-se no chão, dando um tapa em sua própria bochecha.
Caída, tinha o cabelo no rosto, e ficou imóvel quando a ambulância chegou.
? — perguntou a Sra. , sem compreender.
Foi nesse instante que dois homens de branco a seguraram, um por cada braço.
! — gritou ela, pedindo por socorro.
— Ela é louca! Ela está bêbada, me bateu, me jurou de morte! — gritava em desespero, rastejando para longe da mãe, o rosto sem ser possível de ser visto com seus cabelos na frente.
! Me soltem! — ela tentava se desprender, sem sucesso — , faça com que me soltem!
A detetive não se moveu. Levantou a cabeça, com uma marca vermelha na bochecha.
— Tirem-na das ruas, por favor. Esta mulher é louca. Ela é perigosa.
A Sra. parou, incrédula. Os dois enfermeiros a colocaram na parte de trás da ambulância.
— Ela é minha filha! ! — ela gritou.
ficou de pé, repetindo, baixo:
— Achei que eu tivesse deixado de ser sua filha há muito tempo.
Quando a ambulância se foi, provavelmente em direção ao Manson, algumas pessoas da delegacia observavam de dentro.
! — chamou Marla, tomando a frente.
olhou-a, virando a cabeça para trás. A ruiva, ao ver o rosto dela, parou por um instante.
— Entre. Vou pegar um pouco de gelo.
subiu as escadas com o rosto direcionado ao chão, seguindo Marla, fingindo que ninguém a olhava.
Quando, na verdade, queria que estivessem todos vendo, sim.

estava sentada na cadeira de sua antiga sala, agora de Marla. As paredes eram verdes, iguais aos olhos da nova detetive dona do espaço.
A ruiva entrou na sala com um saco de gelo, enquanto observava o lugar.
— Se ela lhe fazia tanto mal, deveria ter feito isso há tempos... — comentou Marla, baixo, sentando na frente de , estendendo o gelo.
ergueu o olhar para Marla, séria, pegando o saco e tocando-o com sutileza na face machucada.
— Logo melhoro. Obrigada.
Marla vestia uma blusa social branca, com calças pretas. Seu uniforme. Quer dizer, não era o oficial, mas era o comumente indicado aos policiais.
Marla jamais iria contra as indicações de seu trabalho.
Apoiou os cotovelos nos joelhos, inclinada para frente.
— Ela tinha bebido? — perguntou com um pouco de curiosidade.
passou a língua na bochecha.
— Como uma esponja.
Marla riu.
— Eu nem deveria estar aqui. Tenho consulta com meu psicólogo hoje.
— Seu psicólogo? Achei que não fosse mais continuar com sua terapia enquanto... Você sabe... Estivesse afastada.
ergueu uma sobrancelha por um instante.
— Ele é um dos meus melhores amigos, o meu médico. Gosto de ir até lá por ele. Não pela terapia em si. Assim como gosto de vir ver .
— Mesmo depois de ?
deu de ombros.
— Não sei. Só tive vontade de vir vê-lo. Como nos velhos tempos.
Marla riu, olhando para baixo.
— Entendo. Vir para o trabalho e ver certos rostos faz o dia parecer que vale mais a pena ser vivido.
ergueu o olhar para Marla.
— Exatamente isso.
Marla riu, parecendo esquecer que estava ali. Sentindo-se deslocada, perguntou, sem compreender:
— O que foi?
— Você não sabe de nada, não é, ? — ela perguntou, levantando a cabeça e olhando para com um pouco de deboche. Um pouco irritada, retrucou:
— O que quer dizer com isso?
Marla chegou para trás, deixando as costas caírem na cadeira.
— Nossa primeira escolha não foi você. Nossa primeira suspeita, da . Não foi Ramona, não foi nem o .
franziu o cenho.
— Nossa primeira escolha, e maior, foi o . E está apenas crescendo cada vez mais.
O tom de Marla era solene. Como se contasse algo secreto a .
— Espere. O quê? Por quê?
veio de repente — Marla começou a falar, quase sem parar para respirar —, sabe que ele veio desesperado por esse trabalho. Ele teria feito qualquer coisa para vir, e teria feito qualquer coisa para ficar aqui, como escrever um monte de mentiras sobre você, e agora ele está fazendo qualquer coisa para não sair daqui. quase foi responsável por uma provável demissão: ela o expôs a um grave caso aberto de traição. Mas tem sua confiança. Ele ofereceu a você sua casa, apenas para observá-la. Viu todas as brigas, todas as cenas dessa delegacia. Ele via por todos os buracos de fechadura. Ajudou você quando sua confiança foi quebrada. E com uma de suas maiores amigas...
Inclinou-se para perto de novamente.
— Ele é perfeito. Ele se livrou de quem poderia tê-lo feito ser demitido. Um escândalo. Ele tem o poder da reputação, e garanto que é quase o poder total onde trabalhamos.
não sabia o que dizer. tinha motivos. Oportunidade.
Ele teria coragem?
Por experiência própria, de tantos casos, sabia que não era possível fazer tal confirmação ou negação.
— Quero que pense nisso e que tome cuidado, . Quero que tome muito cuidado.
— Por que está me dizendo isso?
— Porque andam escondendo muito de você. Estou tentando ajudar.
demorou um pouco a pensar no que fazer. Ficou de pé, deixou o saco de gelo em cima da mesa e olhou para Marla.
— Obrigada. Pelo gelo.
Foi embora em seguida. Dessa vez, passou da delegacia.
não tinha atendido o telefone.
O caso era que precisava arrumar o telefone do advogado dos Durden.

Quando trancou a porta da sala, queria privacidade. sentiu-se presa. Suas mãos tremiam.
Só queria sair dali. Fugir o mais rápido que conseguisse.
Evaporar pelas paredes.
— Está confortável, ? — ele perguntou.
Ela tinha o cabelo impedindo-o de ver sua face machucada. Agarrou a cadeira até os nós de seus dedos ficarem brancos.
Não respondeu. Ele sentou-se do outro lado da mesa.
, estranhei um pouco sua reação na consulta passada. Se não se importa, gostaria de gravar essa — ele ergueu um pequeno gravador portátil. Ela concordou com a cabeça. Nesse momento, ele viu a área roxa no rosto dela.
! — ele ficou de pé, com os olhos do tamanho de bolas de gude, tocando a pele do rosto dela — Como conseguiu isso? Foi seu irmão? Diga para seu amigo .
— Errou, quase — ela retrucou com um pouco de ironia — Minha mãe. Errou o parente.
— Por Deus, — ele examinava o machucado — Isso está horrível. Que monstro de mãe faria isso?
— Estou bem, , estou bem.
Ela queria que ele voltasse para seu lugar. Não tinha paciência.
, sua mãe... Por que ela fez isso?
— Ela só estava matando as saudades de mim. Ou matando outra coisa de mim.
— Não é hora de brincar, ...
— Já disse que estou bem, , pode fazer seu trabalho, que eu faço o meu? — ela respondeu com a voz firme.
tirou a mão do rosto dela, alarmado, e recuou. Voltou para sua cadeira lentamente, um pouco envergonhado.
— Bem... Podemos falar sobre sua mãe, para começar.
Ela virou os olhos.
— Não, , acho melhor não. Vamos falar sobre outra coisa.
— Não acho uma boa ideia rodearmos esse assunto. Está claro que ele é relevante.
... — ela passou a mão pela testa, tentando conter sua paciência — Vamos falar de outra coisa.
— ele foi duro — Vamos falar sobre família. Ok?
Ele tinha o tom de quem falava com uma criança sem alfabetização.
— Ok? — repetiu.
Ela ergueu o olhar, fixo, nele. Respirou fundo, com a cabeça sutilmente abaixada, enquanto olhava para .
— Vamos falar sobre família — ela concordou, falando lentamente, ajeitando-se na cadeira — Quando sua mãe morreu?
recuou na cadeira.
— O quê? — perguntou ele, com um pequeno sorriso — Não entendi.
— Perguntei quando que sua mãe morreu.
— Eu nunca disse que minha mãe morreu.
— Para você ser tão grosseiro quando se trata de mulheres, comendo uma depois da outra, fodendo como uma máquina, não deve ter tido a mãe por muito tempo — ela respondeu como se ele tivesse pedido-a para explicar por que 1+1 é igual a 2 — Então, me diga, quando ela morreu?
Ele balbuciou algumas palavras, mas não respondeu nada.
— Foi antes ou depois do seu vício em cocaína começar?
— ele cortou-a — Não admito que diga algo assim sobre mim. Não me conhece para saber tais coisas.
Ela virou os olhos, rindo com graça.
— Não preciso te conhecer há um ano ou há um milênio — retrucou, com a voz carregada de ironia — Sua mania de coçar as narinas com o dedo virado para cima, e fungando a unha, te entrega. Você cheirava até obstruir seu nariz.
.
— Deve ter sido depois. Um trauma? Foi depois que se curou desse vício que decidiu virar psicólogo, ? Para decifrar sua própria doença? Sabe o que dizem. Os que curam feridas são, normalmente, os mais feridos.
, chega.
— E sua família? O que fizeram para que você os ignorasse tanto? — ela perguntou, inclinando-se para frente, e apoiando o queixo com a mão, curiosa, com os olhos apertados — Eles te deixaram de lado quando foi internado, não? Espera, espera! — ela disse, fazendo com a mão o sinal para que ele realmente esperasse algo, com um sorriso de quem participava de uma brincadeira de mímica — Você nem chegou a se tratar! Teve que largar o vício sozinho. Acertei?
, já chega, eu já falei.
— E qual é essa coisa que você se arrepende, hein? Posso ver no fundo de seus olhos isso. Fez algo em seu passado que se arrepende. Não, engano meu, merda! — ela xingou-se pelo erro, mas ainda ria como uma criança — Não se arrepende. Mas deveria ter se arrependido. Afinal, foi algo bem errado, não foi, ? O que houve? Roubou alguém? Ou deixou alguém morrer por drogas próximo a você... E por isso obrigou-se a parar por vontade própria?
Ele não respondeu. Estava arfando, segurando a cadeira com os nós dos dedos brancos. Não piscava.
— Ah, — ela pediu, mansa, fazendo bico — Diga para sua amiga .
— Quero que saia daqui agora.
Ele não se deu o trabalho de fazer qualquer movimento.
— Que injusto, . Também tenho meus superpoderes. Por que só você pode usar os seus?
— Saia. Daqui. Agora.
Seu tom enfático não serviu para forçá-la a sair mais rápido. Ela ergueu-se lentamente, com o canto do lábio erguido e o olhar pousado nele.
— Obrigada. Boa noite, amigo .
Fez uma reverência. E se retirou.
não soube dizer se ela tinha sido sarcástica e chamado-o de rei, ou se ela tinha se considerado uma estrela no fim de seu número principal.

Era isso.
caiu no sono deitada no centro da sala. Não tinha comido nada. Quando Ramona entrou no quarto dos espelhos, sentiu um arrepio na espinha.
A palavra ‘herança’ estava escrita repetidas vezes, nos espelhos, em diferentes tamanhos, em diferentes cores.
A maior delas era em vermelho.
Em outro, da mesma cor, tinha o nome de Julie, e embaixo, escrito ‘traidora’.
As coisas estavam cada vez mais perigosas.
era o fio vermelho. Ramona tinha sido a corrente elétrica.
Era impossível impedir a detonação.

If life ain't just a joke, the why are we laughing? If life ain't just a joke, then why am I dead?




Come as you are, as you were, as I want you to be, as a trend, as a friend, as an old enemy…

Ao contrário do que se acredita devido à crença popular, a hipnose não se trata de uma forma de sono, mas sim de um transe. A hipnose é uma técnica usada na terapia analítica, e serve para modificar gradualmente a atenção, fazendo o hipnotista dialogar com o inconsciente do hipnotizado, e fazendo-o experimentar mudanças nas sensações, percepções, percepções, pensamentos ou comportamento. Entretanto, o paciente pode apresentar amnésia total ou parcial da experiência hipnótica, ter alucinações, crises histéricas, e aguçamento de memória.
A hipnose pode ser autoinduzida.
Em seu modo mais moderno, a hipnose é atingida de métodos simples, como uma conversa ordinária, em que perguntas e escolhas de palavras específicas levam o hipnotizado a um estado de transe. Há também procura pela fixação do olhar do paciente, indução de relaxamento e concentração do foco de atenção (comumente interiorizado).
Logicamente, deve haver um vínculo de confiança entre o hipnotista e o hipnotizado para que haja sucesso no processo.
A maioria dos psiquiatras e psicólogos, entretanto, concorda que doenças psiquiátricas possuem maior tratamento e, portanto, chances de cura, com o paciente em estado normal de consciência.
A maioria.

Aquela manhã nublada começou com uma tempestade, e acordou, deitada no chão da sala vazia. Era o tipo de manhã que já vinha com o aviso de que seria melhor continuar dormindo. Quando abriu os olhos, viu Ramona de pé, inclinada para frente, com as mãos apoiadas nos joelhos. Ao lado dela, e estavam de pé, observando .
Os grandes olhos azuis de Ramona estavam apontados para com atenção e curiosidade. Quando abriu os olhos, a loira ergueu os cantos dos lábios, em um sorriso infantil.
— Estávamos apostando a hora que você acordaria. Eu ganhei.
— Se eu soubesse disso, fingiria por um tempo.
Ramona estendeu a mão para que segurasse e se levantasse, como fez. A detetive usava um moletom de um time qualquer de baseball.
Conferiu o relógio do celular, em seu bolso. Eram nove da manhã.
— Está quase caindo o mundo lá fora, avisou, ainda com seus pijamas — Se eu fosse você, ficaria em casa.
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— Não posso. Tenho assuntos a resolver com um pessoal.
"Nossa primeira escolha, e maior, foi o ."
"Ele é perfeito."

, é perigoso você ir lá para fora à pé ou de táxi. O dilúvio está de volta — enfatizou, quando saiu do quarto.
Herança.
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Zoe é uma Durden. É prima de Joe. Zoe tem uma porcentagem na herança. E atacou porque acreditava que ele fosse Tyler.
Zoe pesquisou o suficiente sobre a família Durden para saber do caso de Justin, para saber sobre os .
Foi por isso que ela queria Tyler e veio a mim.
Eu sou o mais próximo que ela pode alcançar de Joe.
Ela quer minha ajuda para resgatar seu sobrenome.
Eu posso oferecer essa ajuda... Se ela me oferecer a dela.

desceu as escadas e foi até a cozinha. Realmente, chovia forte. Fechou a janela e serviu-se de café.
Sentiu seus pulmões pesados. Ramona tinha que diminuir a quantidade diária de cigarros. Respirar aquela fumaça dos cigarros de Ramona estava fazendo mal.
— Não posso ficar em casa. Hoje o que mais tenho que fazer é trabalhar.
— Você disse que disse que era melhor você evitar sair de casa, — Ramona lembrou.
— Eu estou dizendo que disse que o disse que era melhor, mas não que era o que eu deveria fazer.
— E eu estou dizendo que é melhor ninguém dizer mais nada — interrompeu, chegando na cozinha com ao seu encalço, este rindo — Primeiro, porque já está me confundindo, e meus neurônios só acordam às onze. Segundo, porque, , você deve cuidar de seu trabalho, mas não pode deixar isso afetar sua saúde.
tinha ligado a cafeteira nesse momento, virando os olhos para .
— Eu não cuidar do meu trabalho afeta muito mais a minha saúde.
— Isso é verídico — concordou, a contragosto, sentando à mesa.
— Bem, , faça o que você achar melhor. Mas se um velhinho barbudo mandar você entrar no barco dele, sugiro que você obedeça.
Rolou os olhos. Como amava aquele cara.
Talvez fosse por causa de como eles se conheceram, mas o tempo confirmou que eles eram mesmo melhores amigos. amava poucas pessoas em sua vida: esse nome se resumira a Joe Durden e os outros Durden, claro, com jeitos diferentes de amor, e . Mas era, com certeza, a pessoa que mais amava no mundo. O amava do jeito mais puro da palavra, e nunca conseguiria se imaginar sem ele.
Rezou para que, das coisas que há haviam te tirado, nunca tirassem .
Estava colocando suas botas, pretas, de couro, quando entrou no quarto.
, conseguiu algo com o código?
Ela torceu a boca e fez que não com a cabeça. Completou, como se estivesse falando consigo mesma:
— Estava pensando que poderia ser um CEP ou um CPF, algo assim.
— Já procurei no sistema. Não achei nada.
— Que sistema?
— Da delegacia. No computador.
— Como fez isso?
Dayse andou me ajudando um pouco... Desde os resultados de Zoe até invadir os programas.
— Andei com uma ajudinha de uns amigos.
Ele virou os olhos, entrando no quarto e sentando no chão ao lado de sua amiga. No quarto dela, havia um pequeno espelho.
A maior anotação desde era "ROUPA" em caixa alta e caneta preta.
Encarou suas próprias letras.
O Halloween.
Pessoas observavam o local do assassinato. Ela já descobrira por que fora na sacada: o assassino tinha pressa.
Pessoas observavam os dados pessoais. Tentavam descobrir alguém que tinha motivos para tirar a vida de outra pessoa.
Mas era a roupa o que mais lhe intrigava.
— Como alguém que acaba de esfaquear outra pessoa passaria despercebido?
— Como? — perguntou .
ficou de pé, passando a mão nos cabelos freneticamente, murmurando um amargo "argh".
— A arma, a roupa... Uma pessoa com a blusa ensanguentada e uma faca não passa invisível por aí.
riu.
— Está sendo pouco inteligente, .
— Estou? — ela perguntou, em tom de preocupação.
— Para a roupa, é só o assassino colocar um tipo de blusa por cima, e depois descartá-la. Sobre a arma, ele pode ter escondido-a.
— O que quer dizer com isso? — ela perguntou, cruzando os braços.
ficou de pé, pegando uma caneta para escrever e desenhar no espelho.
— Você escreveu que o assassino o atacou por trás. Decerto, estava com pressa, mas conseguiu imobilizar e matar logo sua vítima.
“Mas ele tomou um tempo para pensar. Tinha muito sangue no terraço, mas também tinha no pátio aonde o corpo caiu. Você mesma viu isso. Disse que a vítima morreu na queda, e não com a faca.”
— Sim...
— As luzes também tinham desligado. O assassino tinha roupas sujas, mas ninguém na delegacia, na correria, enxergaria, com a escuridão.
acompanhava, assentindo.
— E sobre a arma, isso é o mais simples. Havia armas de brinquedo, de plástico, escondidas pela delegacia. O assassino escondeu a faca usada no crime. Limpou-a e escondeu, para ganhar tempo. Quando pôde, voltou onde ela estava e escondeu-a consigo.
— Essa teoria é muito furada.
— Não tem nem uma melhor do que essa — contradisse, com uma sobrancelha erguida.
bufou.
— A arma foi encontrada em um lixo, embrulhada e sem impressões digitais.
— Na delegacia?
— Sim.
comprimiu os lábios e olhou para o espelho.
— Desculpe, . Mas, nesse caso, você deveria saber quem é a vítima. Não pode avançar muito mais do que já avançou.
A fantasia ou tinha o sangue como tema, para ninguém estranhar sua presença, ou poderia ser facilmente trocada. Como uma blusa social ou um casaco colocado por cima.
colocou as mãos na cintura, bufando mais uma vez.
— Não me diga. Já fiz até coisas teoricamente ilegais para descobrir isso.
levantou-se e foi em direção à porta. Sorriu, segurando a maçaneta enquanto disse:
— Tente não fazer coisas "teoricamente ilegais" e passe a fazer as "teoricamente antiéticas".
sorriu em retribuição.
Sabia o que queria dizer.
E tinha a impressão de que ia se surpreender quando descobrisse quem foi assassinado no Halloween.

Julie Stoner entrou em sua sala apressada. Quando o fez, tinha os cabelos caindo nos olhos, presos em um coque malfeito. Fechou a porta com o tornozelo.
A tela do computador se acendeu nesse momento, notificando um e-mail novo.
A delegada se sentou, devagar, ajeitando o uniforme. Era um e-mail de cerca de uma hora, mas tinha ligado o computador mais cedo e ficado tempo demais longe dele.
Ele continuava com seu aviso.
Mexeu com o mouse, fazendo a tela se acender de uma vez. Abriu o e-mail, e que vinha com uma única palavra:
Positivo.
Essa era a palavra que precisava ler.
Não a que esperava, mas a que precisava.
Colocou as mãos na frente da boca.
Não sabia se sorria ou se chorava.
Era real. estava livre.
Tinha gravado a conversa de Zoe e dela, com um microfone escondido. Sabia que aquilo era antiético, mas era o único jeito de ter informação verdadeira das duas.
Sabia que não podia saber muito.
Se estivesse certo, deveria ser a que menos deveria saber de alguma coisa.
Era uma faca de dois gumes. Não queria manter sem conhecimento sobre si mesma e todo o resto, mas se ela soubesse de tudo...
Seria obrigada a calá-la.
O pensamento a atingiu como uma bala de canhão.
Não pensaria naquilo, por enquanto.
Era a herança, o que importava. Era tudo pela herança.
E aquilo era o atestado final.
E somado ao que havia lhe contado...
estava livre. Ela estava a salvo.
Mas quem, além de Julie, sabia disso?
Que ela não tinha nada a temer?

imaginava que estava agindo de jeito estranho por causa do dia anterior. O que não faltavam eram motivos para ela estar estranha e irritada.
Era por um motivo completamente diferente.
não pode ser o assassino do Halloween. Mas pode ter matado o suicida e .
Ela estava sentada na cadeira em frente a ele, que estava sentado atrás da mesa, com a estante de livros atrás de si.
Ele teve motivações e chances de matar .
Ele não poderia ver, mas estalava os dedos sem parar, já sem conseguir produzir um estalo sequer, por baixo da mesa.
Não me importa o Halloween. me deu uma pista. era uma irmã para mim.
matou .
Mas me traiu.

Comprimiu os lábios.
me traiu.
Eu não deveria vingá-la.
Não deveria estar procurando seu assassino.
Não é problema meu.

O big bang.
— Descobri algo que você deveria saber — disse assim que se sentou à mesa.
apenas esperou o que ele fosse dizer.
— Julie está se encarregando pessoalmente do caso de .
não soube interpretar se aquilo era um aviso ou um pedido por ajuda.
— Julie? Pessoalmente? — ela não entendeu de imediato. Franziu o cenho e se ajeitou na cadeira, prestando atenção. Uma delegada tomando as rédeas de um caso?
Claro. A vítima foi uma pessoa interna. E não morreu de uma maneira qualquer, como tiro ou facadas.
confirmou com a cabeça. Coçou a barba do queixo e deixou as mãos repousadas no colo.
Nem , nem ninguém parece caber como assassino do Halloween ou suicida.
Os dados que tinha não batiam.
— Talvez seja hora de falar sobre o anel, .
Se ela tivesse um lápis em sua mão naquele momento, o quebraria.
— Sobre o anel de ? O anel que ela me deixou?
— Sobre o código. Só duas cabeças pensando não serão o suficiente. Precisa de mais gente.
— Tenho bem mais que duas cabeças pensando.
, , eu, Ramona e você.
Ele balbuciou um pouco.
— Ok. Não descobriu nada sobre qualquer outro caso, de qualquer jeito?
Ela coçava as palmas de suas mãos incansavelmente.
As feridas liberariam a verdade.
— Nada? Nem sobre Samantha?
Ela fez que não. Jogou os cabelos para trás e, em um suspiro, abaixou a cabeça.
— O que houve, ? — ele perguntou, levantando um pouco da cadeira.
— Acho melhor eu fazer as perguntas agora.
sentou-se de novo. Deu um sorriso amarelo, sem saber como responder.
— Você não precisa...
— Não foi uma pergunta — ela cortou-o, pegando uma caneta em cima da mesa, sem olhar para ele. Tinha sido firme e rápida com a resposta.
Com a caneta, retocou os números escritos em seu braço.
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Excluindo números ímpares ou pares, ainda não tenho um resultado significativo.
Nem somando todos até reduzir a um único algarismo.
Então, pode ser uma senha?

— Bem, vá em frente — ele disse, apontando para uma folha de papel em cima da mesa, e depois, apoiando a cabeça com a mão, e encostando as costas na cadeira.
Mas uma senha de quê?
— Há quanto tempo estava envolvida com o ? — ela perguntou, como uma jornalista, e dando um clique com a caneta.
Ele olhou para cima, parecendo calcular.
— Desde o Halloween. Eles se conheceram lá.
— Durante a festa?
— Creio que sim. Eu não estava próximo na hora.
— E você?
— Eu o quê?
— Quando e como conheceu ?
Ele franziu o cenho, rindo. permaneceu indiferente, observando-o, persuadindo-o para responder.
Era seu método de trabalho. Quando alguém enrolava para responder, ignora a hesitação e apenas espera a resposta desejada.
— Faz parte do seu raciocínio? — ele perguntou, estranhando.
— Na realidade, não.
— Então por que está perguntando?
— Por que está fugindo da pergunta? — ela imitou o rosto dele. Franziu o cenho e riu.
Aquilo, para ele, soou assustador.
Os olhos de estavam refletindo tudo que ela via.
Era como se não tivesse ninguém por trás deles.
se via em um reflexo infiel, e estava no centro do alvo.
Uma onda terrível de medo o atingiu.
Como se não se lembrasse do dia anterior. Ou não quisesse se lembrar.
— Não estou — ele tornou-se evasivo — Não lembro bem. Foi na festa também, mas não lembro quem apresentou. Acho que foi o , talvez a Marla. Não tenho certeza agora.
— Você percebeu que, pouco antes de morrer, tinha se apaixonado por você?
Pane.
Ele ficou boquiaberto. Balbuciou um pouco antes de conseguir formular uma resposta:
— Não... Não tinha percebido isso. Você tinha dito só que ela estava interessada...
Ela comprimiu os lábios e arqueou as sobrancelhas, como se dissesse "fazer o quê, não é?".
— Ela te disse isso? — perguntou ele.
— Ela pareceu ter se arrependido do que fez, no dia em que brigamos. Isso não adiantou muito. Já tinha irritado alguém, a essa altura.
— O que quer dizer com isso?
— Shhh — disse, colocando o indicador na frente dos lábios — A pessoa com a caneta faz as perguntas.
Ele comprimiu os lábios. Deitou as costas na cadeira e coçou a nuca.
sabotou minha reportagem. Não acredito que alguém faça isso quando está apaixonado por essa pessoa.
riu em deboche. se sentiu ofendido por não estar acompanhando o pensamento dela.
— O quê?
— A fez exatamente o que ela julgou certo. Sabotar sua reportagem foi o jeito mais fácil.
— Mais fácil de quê?
— De garantir que eu não o perdoaria.
Ele começou a acompanhar.
— Ela queria... você longe?
começou a anotar algo no papel.
— Aquilo não era mais sobre mim. não queria a mim quando fez o que fez. Pessoas tentaram te ferir, pessoas tentaram te matar. Eles quiseram me colocar para baixo, e eles conseguiram, no exato momento que tiraram você de perto de mim. E do jeito mais fácil: colocando alguém entre nós.
A cabeça de não conseguia assimilar. Era como se houvesse outra pessoa ali, falando por .
Ele ouvia sua voz, via seu rosto, mas não era pensando ali.
Seu jeito inexpressivo era assustador.
queria a mim. E por isso sabotou meu trabalho, e fez aquele escândalo.
— Mas isso não faz sentido. fazer aquilo com em casa seria burrice.
— Talvez a questão não fosse o sorria, acompanhando o raciocínio de — Talvez a questão fosse você. Ela queria te atingir.
olhou para ele, séria, e para o que havia escrito no papel.
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— Posso perguntar algo?
— Vá em frente — relaxou na cadeira.
morreu em decorrência de uma hemorragia localizada. Injetaram nela um medicamento anticoagulante, e cortaram uma das principais veias do corpo humano. A pessoa que fez isso deveria estar com muita raiva dela.
— Para matar, para começar — lembrou.
— É, tanto faz.
Ambos sustentaram os olhares um do outro e silêncio por alguns segundos.
Ela está fazendo o que acho que está fazendo?
— Concorda que poderia ser alguém que ela recentemente tenha irritado?
— Sim.
— E que ela tenha tirado algo importante?
Ele franziu o cenho e deu uma risada que interpretou como nervosa.
— Você não pode estar falando sério.
— Não citei nomes.
Ele virou os olhos.
— Você entende aonde quero chegar — ela prosseguiu — Alguém de dentro fez isso.
— E o que te faz pensar que fui eu?
ia se preparar para responder, quando continuou:
— Ou melhor, quem te fez pensar que fui eu?
— Você está na mira tanto quanto eu. Se sua ideia é sermos honestos um com o outro, é o que estou fazendo aqui.
— Ser honesta não é fazer um interrogatório para ver onde vou escorregar.
— Também posso escorregar.
— Você está me assistindo andar sobre o gelo fino.
— O que você fará quando esse gelo quebrar?
Nenhum dos dois piscava.
tinha um rosto incrédulo, e com raiva. Depois de tudo, ainda suspeitava dele? Aquilo o deixava irado.
— Engraçado. Eu me aproximei porque achei você inteligente demais para seu cargo.
— E eu me aproximei porque achei você misteriosa demais para o seu.
Ela riu. Parecia ter total controle sobre a situação.
Foi quando riu.
— O que foi?
— Posso não te conhecer há muito tempo, mas posso dizer quando está blefando.
— Eu? Blefando? Cuidado com o que fala, .
— Os motivos que você tem para suspeitar de mim são os mesmos que eu tenho para suspeitar de você.
— Essa sua língua já não lhe deu problema o suficiente? — ela soou agressiva.
— Minha língua me deu o maior problema que eu amo ter.
Ele sorriu de lado. ficou de pé, pegou sua bolsa e foi em direção à porta.
— Já acabou? Cedo assim?
— Já tenho o que preciso.
se levantou da mesa e empurrou a porta com uma mão, impedindo que a abrisse.
— Garanto que não.
Ela pareceu nervosa. Percebeu que, se Marla estivesse certa, estava com um potencial assassino dentro daquela sala.
Um assassino fissurado por ela.
— Me deixe sair.
— Está com medo? — ele perguntou — Eu também deveria ter. Afinal, um de nós pode ser o assassino.
comprimiu os lábios e deixou a coluna reta. Respirou fundo. E sentiu como se o incêndio de sua ira escapasse com o ar por suas narinas.
.
O pequeno gato em meio a leões.
— Eu não sou uma assassina.
— Tenho tantas garantias quanto você.
— Qual seu álibi para a noite da morte de ?
— Eu estava em casa, sozinho. Tenho o mesmo álibi que você.
— O fato pelo qual você chegou na delegacia exatamente quando todas as mortes começaram a acontecer é pura coincidência?
virou os olhos.
— Quem colocou essa merda toda na sua cabeça?
— Uma pessoa que está investigando tudo isso desde o começo.
— A mulher que te prendeu erroneamente? Oh, desculpe, te "afastou"? — ele fez as aspas com os dedos.
Ele tinha um ponto. Marla tinha errado antes.
Mas agora ela parecia tão certa...
Ou apenas queria provar isso para si mesma?
— Você acreditou em Marla porque queria que eu fosse outra pessoa. Não quem você realmente conhece.
, pare com isso — ela disse, olhando par ao chão. Ele caminhou de volta para sua cadeira.
— Peça ao para me fazer parar.
O tom de sua voz fez o sangue de borbulhar.
.
.
Dois lados do muro.
Não podia mais ficar em cima dele. Pois ela fazia-o desmoronar.
— Todos aqui estão na mira, — ele disse, acalmando a voz — Você, eu, , Marla, Julie, até o . Todos nós podemos ter sido pelo menos um dos assassinos.
— Não podemos confiar em ninguém.
— Podemos. Mas tomamos riscos, caso confiemos na pessoa errada.
Ela suspirou.
— Como posso ter certeza de que você não matou ? — perguntou, com a voz fraca.
fez uma breve pausa, respondendo sem pensar antes de falar:
— Porque, por mais raiva que eu sentisse dela, eu nunca mataria alguém.
— Podemos ser assassinos quando descontrolados.
, você me viu perder o controle uma vez. Eu bati no James Durden e chamei a de piranha. Mas nunca conseguiria matar alguém.
Ele fez mais uma pausa, caminhando de volta para a mesa.
— Eu não sou um assassino, assim como sei que você também não é.
olhou para ele, por cima do ombro.
tinha, e sempre teve, olhos infantis.
tinha a bondade em si.
— Eu escrevia sobre a morte. Ela se multiplica de um jeito bizarro. Mas aqui dentro? Aqui é assustador.
Parou por um momento.
— Eu odiava . Ou melhor, eu passei a odiá-la. Mas não a mataria porque ela era completamente irrelevante para mim. Eu a ignorava completamente. Para mim, não significava nada, muito menos algo que me incomodasse. Ela não me incomodava nem um pouco, porque eu não a via. Ela nunca estava lá.
virou-se para ele.
— Ela só tentou tirar de mim uma das coisas que mais me faziam bem.
O cérebro de entrou em pane. Apesar de ser uma máquina quase perfeita, interligada, com uma habilidade de memória invejável, ele entrou em transe.
— Cale a boca, .
Ele fez uma careta, erguendo as mãos com as palmas viradas para cima e deixando-as cair em sua coxa depois.
— É só isso que você sabe me dizer?
— Pare de dizer essas coisas — o tom de era urgente — Pare de falar que te tirou algo. Se você perde algo, você procura reconquistar!
— Eu te dei seu tempo. Fiz o que pude para te convencer da verdade. Quando achei que não teria mais chances, desisti. Achei que não era nosso tempo.
— Ah, por favor! — ela ergueu aos mãos — Tempo foi o que perdemos fingindo que estávamos bem.
Ele foi pego de surpresa por aquela. tapou o rosto com as mãos.
— Se vai dizer alguma coisa assim, não brinque comigo, . Diga-me logo o que você acha.
— Acho que você gosta de colocar problemas no que é simples porque tem medo.
— Medo? — ela tinha os olhos semicerrados, enquanto andava em volta da mesa, ficando ao lado de — Por que eu teria medo?
— Porque essa é a única vez que sua vida que parece real.
apoiou o quadril na bancada, com a cabeça baixa. a observava sem dizer nada.
Com poucas palavras, ele definiu o que se negava a entender.
— Você é a pessoa mais brilhante que já conheci, mas com um assunto fácil como esse, você não parece compreender. Gosta de manter sua pose. Coisas como essas não te atingem.
— Pare com isso — ela fez uma careta como se continuasse incrédula — Eu vi o jeito com que ela te beijou, .
— Como?
Ele soou desafiador.
tirou uma respiração profunda nesse momento.
Porque, na primeira vez em muito tempo, parecia real.
— Assim.
Com o pé, fez os pés frontais da cadeira de se levantarem. Ele caiu para trás por um milésimo de segundo, apoiando na estante atrás de si e ficando apenas levemente inclinado.
colocou a mão na nuca de , agarrando seus cabelos com força, posicionando seu corpo em frente ao dele, sentando em seu colo.
Seu beijo não podia ter sido mais direto. Sentiu um leve choque no momento, e, naquela vez, não sairia.
Encaixou seus lábios com os de , e ele surpreendeu-se com esse contato. Ela parecia que receava pelo que aconteceria depois daquele ato. Porém, reconfortou com um beijo lento, que fazia ambos conhecerem bem cada centímetro um do outro.
Tocou a cintura dela e abraçou.
Não a deixaria sair dali.
Uma mão de tocava o peito dele, e a outra continuava em sua nuca, massageando-o.
Beijava-o como se nunca mais pudesse beijá-lo de novo.
Como se tivesse finalmente tido a chance de vislumbrar o paraíso.
Finalmente.
Era esse o gosto.
Finalmente.
— Eu não sei que merda estou fazendo — ela disse, separando os lábios dos dois por um instante.
calou-a quando a beijou novamente, sugando seu lábio e fazendo-a suspirar uma única vogal, como se ele tivesse sugado sua habilidade de falar.
— Não pare de fazer, então.
Ela aproximou ainda mais o corpo de , ficando as unhas em seu ombro, quase arranhando-o. Sua respiração saía entrecortada.
Ele segurava suas coxas com força.
Cortou o beijo, massageando as pernas de , enquanto ela espalhava beijos no pescoço de , querendo sentir seu gosto, sentir sua pele, senti-lo.
Pouco tempo para muitas coisas.
— Eu vou acabar com você, — ele sussurrou — Eu vou te deixar sem ar. Eu vou fazer você ter ódio de mim, você me desejar mais do que nunca desejou ninguém. Eu vou te arrastar para o inferno, para o pecado sem volta, e vou te corromper. Eu vou te corromper.
aproximou mais ainda o corpo de , seu quadril mais perto do tronco dele.
Muito mais perto.
? — Julie bateu na porta.
saltou para trás, sentando na mesa. Respirou fundo, como se estivesse acabado de alcançar a superfície depois de um longo mergulho.
— Entre — disse , passando a mão nos cabelos para ajeitá-los.
A delegada abriu a porta.
— Já deu a sua hora. Acho melhor ir para casa.
— Sim. Mas tenho algo para falar com você. Me espere na sua sala em cinco minutos.
Julie franziu o cenho e entrou na sala. Andou até um ponto de frente para , do outro lado da mesa, oposta aos dois.
— Já terminaram?
colocou a mão na coxa de nesse instante, sem olhar, e não deixando Julie ver.
— Você interrompeu um pedaço importante, mas não tem problema — ele respondeu — Podemos retomar em outra hora, não, ?
Ele apertou a carne dela de um jeito que ela teve que se segurar para não acabar deixando uma única vogal escapar novamente.
— Sim, já estamos acabando. Te vejo lá fora, Julie.
Desconfiada, a delegada saiu da sala. Assim que ela fechou a porta, falou, em um suspiro aliviado:
— Não sei o que diabos aconteceu com você, mas espero que não seja a única vez.
Ela quis rir, mas a preocupação falou mais alto.
— Preciso ir. Mesmo. Tenho uma coisa muito importante para fazer.
Ela deu a volta na mesa, pegando sua bolsa e indo para a porta. Calmamente, se levantou e disse:
— Pode me prometer uma coisa?
— Fale.
— Jante comigo.
Ela franziu o cenho como se tivesse ouvido algo absurdo e olhou para ele exatamente assim.
— O quê?
vai fazer plantão hoje. Vai dormir no hospital. Vá lá para casa, e vamos fazer um jantar.
— Para que o jantar?
— Normalmente, para comer.
— Você me entendeu.
Ele sorriu torto.
— Para colocar as cartas na mesa.
Ela ponderou a questão por um segundo.
— Se você disser que não, aquilo ali — ele apontou para a cadeira — Não terá significado nada, e vou considerar o assunto como acabado.
— Ok! — ela desistiu — Estarei lá às sete.
deu um sorriso satisfeito. abriu a maçaneta. Lentamente, saiu da sala, e não protestou.
Ele não tinha motivos para tal.

No corredor, cumprimentou Dayse ao passar por ela. Mas não parou. Caso o fizesse, poderia comprometer sua cumplicidade.
Então, foi até a segunda divisão, onde Zoe estava, praticamente em silêncio.
Na entrada da segunda divisão, havia uma pequena cabine, onde um homem estava sentado. Ele parecia ser de meia-idade, ou, pelo menos, era o que seu rosto deixava transparecer. E, definitivamente, não estava nem um pouco feliz.
Antes que ele a visse, dividiu o cabelo ao meio e deixou o maxilar levemente para frente.
— Bom dia — cumprimentou.
O homem ergueu os olhos, mas não demonstrou qualquer emoção.
— Bom dia. Você trabalha aqui?
— Não.
Ele a olhou de baixo a cima. Deu de ombros.
— Então o que quer?
Podia ser um disfarce ridículo, mas pessoas que não convivessem com ela dificilmente a reconheceriam em um olhar.
— Gostaria de efetuar o pagamento de uma fiança.
Sem expressar qualquer sentimento por isso, o homem pegou um livro embaixo da mesa. Parecia perturbado com o cubículo onde estava.
— De quem?
— Zoe — disse, inclinando o corpo como se estivesse curiosa para ler o que estava no livro.
— Zoe de quê?
Ela deu de ombros, enquanto pegava a carteira.
— Ela está registrada como Zoe. Na cela A.
Ele começou a virar as páginas.
— Foi um furto simples. Cinquenta dólares de fiança.
Tirou uma nota de cinquenta e colocou debaixo do vidro.
— Quero que ela vá embora amanhã.
— Quer oficializar o pagamento amanhã?
— Foi o que eu disse — ela retrucou toda sua simpatia estonteante.
— Então terá que assinalar o horário, para a delegada assinar e oficializar.
Ele virou o livro e passou-o por debaixo do vidro, com uma caneta. Murmurou, como se pensasse alto:
— Engraçado, é muito raro alguém pagar uma fiança, mas só pedir a liberação para outro dia.
— Uma detetive específica deverá estar aqui na hora que ela estiver sendo liberada.
— Você é a mãe dela?
assinou um nome onde deveria, e, ao lado, a hora em que estaria ali no dia seguinte.
— Sou uma amiga.
Devolveu o livro.
O homem abaixou os olhos para conferir, e quando ia perguntar mais alguma coisa, a mulher já estava longe, com o cabelo ajeitado.
Ele percebeu quem era. Somando sua aparência e sua assinatura, percebeu.
tinha assinado seu nome, e mais outra coisa.
Durden.
Ele não entendeu por que ela tinha pagado a fiança de uma adolescente qualquer.
Não entenderia, porque ela mesma estava arriscando no desconhecido ao fazer aquilo.

Quando estava do lado de fora da delegacia, começou a tossir como se estivesse querendo expulsar seus pulmões. A chuva não tinha cessado, e apesar de terem se passado poucas horas desde que saíra de casa, agora estava bem mais difícil de achar um táxi.
— Precisa de carona? — disse alguém atrás de , saindo da delegacia.
estava fechando a jaqueta. Havia uma irritante brisa, que fazia algumas gotas escaparem para onde eles estavam, que era coberto. O céu não parecia do meio do dia: estava mais para o final, de tão escuro.
— Pode me deixar em casa? — ela perguntou, sem graça.
— Na sua casa? Não vai almoçar?
— Tenho um delicioso prato de macarrão congelado à minha espera.
riu e pegou a chave do carro no bolso.
— Acho que seria mais indicado você ir comigo a esperar eternamente essa chuva acabar.
Ela cruzou os braços, e se arrepiou.
— Ok. Onde está o carro?
apontou para o estacionamento, onde o carro dele — não mais um caindo aos pedaços, mas sim, um outro Audi, usado — estava. Correndo, ambos entraram, ele no motorista e ela no carona.
— Tem alguém te esperando? — perguntou, colocando o cinto de segurança. fez o mesmo, enquanto ele dava a partida no carro.
— Ramona deve estar por lá, acredito. Só ela. Logo irei me consultar com o .
— Você disse a ele sobre estarmos nos vendo?
Ela estranhou a pergunta, demorando um pouco para respondê-la.
— Não. Por quê?
sorriu, começando a manobrar o carro.
— Ainda bem. Nem eu.
Ela acompanhou o sorriso dele.
Saindo da delegacia, ficou em silêncio por alguns instantes. Olhou para a rua, enquanto acelerava cada vez mais.
— Qual o limite da velocidade por aqui?
estranhou a pergunta, ainda mais vindo de uma mulher que não dirigia. Ainda assim, respondeu sem tentar demonstrar muita curiosidade:
— Sessenta quilômetros por hora, por quê?
Sessenta? Não pode ser isso.
Quem sabe, em metros por segundo...

, podemos fazer um teste? Uma coisa importante. Faz parte da investigação.
falava rápido.
Noventa e dois dividido por três vírgula seis.
Vinte e cinto e meio. Vinte e seis?
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Vinte e cinco.

— Investigação?
— Sim — ela respondeu rápido, sem querer abrir espaço para outra pergunta — Preciso que ande a vinte e cinco quilômetros por hora.
Ele reduziu a velocidade, até ficar com o número desejado.
À esquerda, havia uma rua que ia da numeração 253 até a 161, até alcançar uma esquina.
O coração de se encheu de esperanças. Talvez, dessa vez, estivesse na pista certa.
— Vire aqui — ela indicou a direção.
Estranhando, seguiu o instruído.
Não poderia parar. Não poderia errar. Tinha que continuar na velocidade constante de vinte e cinco quilômetros.
Tinha que continuar em sua própria velocidade.
Sem erros.
olhou para o painel de quilometragem. Contou até três.
No terceiro segundo, havia duas ruas para se virar. A da direita começava com a numeração de 532.
— Direita. Direita, ! — ela disse, com a voz alta, sem tirar os olhos da rua.
obedeceu, mas olhou para , querendo entender o que diabos ela estava fazendo.
Quando eles viraram a rua, teve a certeza de que deveriam continuar seguindo até chegarem ao 363.
A rua terminava no litoral.
lembrou-se da última vez que aquilo aconteceu.
, já chega.
Os olhos dela estavam vidrados no final da rua. não enxergava as calçadas, as casas, prédios.
— Não, continue, continue indo.
Ela sequer piscava.
A chuva parecia prestes a atravessar o vidro, e fazer as rodas escorregarem. A borracha não resistia à água, fazendo sons irritantes e escapando.
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.
.
Déjà-vu.
estava começando a reduzir a velocidade. A voz de veio como um grito, um rugido, para que ele parasse:
— O que está fazendo?
— Vamos bater no muro!
— Estamos tão perto!
Ela agarrou o volante por cima de , sem olhar para ele, e com o pânico crescendo em seus olhos.
Venha.
Venha.
Corra, não se atrase.
! — ele gritou, freando bruscamente, quase fazendo com que os dois batessem a cabeça em algum lugar. As rodas derraparam, quase batendo a traseira do carro no muro.
Pausa.
O relógio estava correndo ao contrário.
Ela começou a ofegar. A poucos metros do muro que protegia a costa do mar, seus olhos voltaram a lhe obedecer.
— Estávamos tão perto, sim. De sermos jogados no mar! — disse, também ofegando — O que aconteceu?
Não conseguia pensar numa resposta aceitável.
— A senha de . O código — passou a mão pelos cabelos, colocando-os para trás, e suspirando — Achei que acharíamos um endereço com números do código.
começou a dar a ré, para fazer o retorno. Estavam a poucos quarteirões da casa de .
— Não acho que essa seja a chave — ele falou, andando com mais cuidado do que antes — Na verdade, acho que o código de seja resolvido com algo bem mais simples. Não como números de um endereço ou documento...
Ambos continuaram em silêncio. não queria falar, e não insistiu. Antes de chegar em casa, ela perguntou:
— Ainda estou convidada para ao jantar?
Ele deu um sorriso reconfortante ao estacionar.
— Eu demorei a fazer você aceitar. Você não vai fugir tão fácil de mim agora, .
Ela deu um sorriso amarelo, saindo do carro. Antes, entretanto, murmurou, com a voz morta:
— Desculpe.

Como a sessão anterior não tinha acabado nada bem, achou que era melhor ele fazer uso de um método frequente em terapia, e de um nada indicado, naquela tarde chuvosa.
Um era usar uma câmera de vídeo para gravar a consulta, e o outro, hipnose.
Eram três da tarde.
O jeito com que chegara para a consulta era perturbador. Seus dedos estavam tilintando na cadeira, magros, e seus lábios tremiam. Os olhos estavam incessantes e nervosos.
via a câmera ali, mas parecia estar procurando por mais.
quis me dizer algo. Mas não posso ler.
Que tipo de detetive eu sou? Estou perdendo a mão?
Suffragette foi só um insight?

, como está? — perguntou com a voz mansa, quando, realmente, ele temia pelo que viria a acontecer.
Ela ergueu o olhar, molhando o lábio. Continuava a tremer.
— Com medo.
Ele sentou-se na cadeira, agora posicionada mais próxima a um divã da sala do que da mesa. acompanhou com o olhar o caminho dele, fazendo-o medir ainda mais suas seguintes frases.
— Medo? De quê?
Seu olhar estava exausto, assim como o resto de seu corpo. Sentia seu cérebro quente, derretendo aos poucos, fundindo-se ao seu crânio.
A tosse só piorava.
— Sinto como se eu não fosse mais uma boa detetive.
— Por Deus, . Não diga uma coisa dessas. Você é uma ótima profissional.
Ela riu com descaso. Não ignorava o elogio de seu amigo, porém, não o considerava a verdade absoluta, exatamente porque ele era seu amigo.
— Estou com tantos problemas nos casos recentes, com Ramona, com minha vida pessoal, que sinto como se o sucesso de Suffragette tivesse sido apenas um golpe de sorte.
esticou a mão e tocou levemente a mão de , repousada em sem próprio colo.
, seus casos recentes são só mais difíceis. Isso não faz de você uma má detetive.
e estão me ajudando, e, ainda assim, não chego a lugar algum.
— Deve ser porque você já chegou e não reparou, ou esse lugar simplesmente ainda não está disponível. Quem sabe, se você esperar um pouco, possa achar as soluções.
Ela riu torto, abaixando a cabeça timidamente.
— Não tenho certeza, . São muitos trabalhando no caso. Eu sou a que menos tem informações.
— Mas a que mais sabe usar as que tem.
O sorriso do psicólogo era tão reconfortante que não conseguia manter aqueles pensamentos negativos.
... Não sei...
— Na, não, não — ele repetiu, balançando o indicador — Não há nada no mundo que não saibamos. Nós apenas não decidimos ainda, ou tememos que nossa decisão não seja a certa.
Ela riu. Adorava as frases feitas de , e como ele sempre as usava no momento certo.
— Vou continuar me concentrando. Mas, de qualquer modo, por que a câmera?
Apontou para a filmadora em cima da mesa. comprimiu os lábios, nervoso.
— Você disse que não se lembra do que aconteceu na nossa última sessão. Bem, além de filmar esta em que estamos, também tive uma ideia, um jeito que pode fazer você ter algumas certezas.
— Que tipo de jeito?
Ele começou a esfregar a palma de uma mão na outra, cada vez suando mais frio.
— Bem... Vai ser a primeira vez que tento. Então...
— ela usou o "olhar-durão-de-detetive", o que fazia tremer na base —, diga de uma vez.
Ele limpou a garganta e disse, firme:
— Hipnose. O único jeito que você poderá olhar dentro da sua alma.

A sala estava sem iluminação. estava deitada no divã, com os olhos direcionados para o teto e as mãos repousando em seu colo.
— Quero que feche os olhos, e que diga sempre a primeira coisa que vier à mente quando eu fizer uma pergunta.
Aquilo parecia errado. Não como se não fosse autorizado a usar tal método, mas como se temesse o que ele poderia encontrar.
Não tinha nada a temer, mas sentia-se como se fosse um cidadão qualquer caminhando próximo a uma cabine policial.
Obedeceu.
— Quero que ouça essa canção — ele falou, e pôde ouvir em seguida um clique de reprodução.
A música que tomou conta do consultório era instrumental, no piano.
Piano.
Aquilo não tomaria um rumo nada bom.
— É uma boa canção — ela disse, engolindo em seco.
Algo tremulava dentro dela, agitando-se em um corpo em repouso.
Choques e ondas.
Vibrações.
— Quero que se concentre nessa canção — instruiu.
Era uma canção lenta, de início. Depois, entretanto, ela tomava um novo ritmo.
Igual a .
Relaxou e concentrou-se na música.
— Quero que me diga o que foi responsável por ontem.
— Ramona.
A canção tornou-se mais melancólica.
— Ramona? Sua amiga?
deu uma risada. ajeitou-se na cadeira.
— É, mais ou menos isso.
— Por que "mais ou menos"?
— Faça perguntas que vão me ajudar, . Você é perda de tempo.
Ele não retrucou. Quebrar aquela linha era arriscado. Poderia comprometer a terapia.
— Por que Ramona está interferindo diretamente em seu humor e comportamento?
— Não fale como se fosse ruim. Ramona me ajuda mais do que todos vocês juntos e multiplicados por mil.
Seu tom de voz era grosseiro e afiado.
Não havia mais ninguém na sala além de . Ela e seu gênio, que ocupava o cômodo inteiro.
— Ah, é? Ela te ajuda? — percebeu que, para conseguir entrar no jogo, deveria igualar-se no nível de conversa com .
— Talvez não com os casos, não muito.
— Então que outro tipo de ajuda ela lhe oferece?
Nesse instante, ele ouviu um forte estalo. Tal estalo era dos dedos de , que seguravam os lados do divã. Ela agarrava o móvel como se não quisesse e não pudesse se desprender dele.
Como se algo estivesse querendo invadir.
Sua voz era rouca e entredentes.
A canção entrou no solo.
— Ela me torna uma pessoa melhor.
Foi no instante que a canção ficou diferente que abriu os ilhós em um clique.
?
Ela olhou para baixo, e sentou-se no divã, colocando a mão na cabeça.
— Sinto como se tivessem batido na minha cabeça com um taco de baseball.
respirou fundo, aliviado.
— Bem, foi rápido. Mas foi o suficiente.
— Foi?
— Já tirei minha conclusão.
A canção não parava, tornando-se rápida, enquanto estreitava os olhos e inclinava o corpo para frente, apoiando os cotovelos em seus joelhos.
— Fale mais sobre isso.
Seu tom era calmo como o cantar de um anjo.
A prova.
— Estar muito com Ramona libera em você um lado ruim. Conhece aquela história de "diga-me com quem andas, e contarei quem és"? — deu a volta na mesa e sentou-se em seu lugar, de costume — É exatamente isso. Tendemos a repetir, inconscientemente, coisas de pessoas que admiramos e vivemos próximos.
— E acha que andar com Ramona me faz mal?
— Você fica mais agressiva, explosiva.
Ela chegou o corpo para trás, devagar, deitando de lado no divã, e apoiando a cabeça com uma mão.
— Fico melhor. Mais confiante.
— Fica mais sozinha. Você afasta os outros. E, mais ainda, fica um pouco cruel.
Tinha que tomar cuidado com suas palavras.
— Desenvolva — ela pediu.
Ele comprimiu os lábios.
— Você tem dois lados, como qualquer pessoa. Com Ramona, seu lado mais agressivo e explosivo aflora. Isso não está saudável. Você foge ao seu lado natural, à sua própria natureza, quando acaba imitando sem querer a pessoa que admira. Você vai para o lado mau, errado.
Ela riu em deboche.
— Isso soa como a maior merda que você falou esses últimos dias.
O rosto de ficou rubro.
A canção estava indo para o fim, tornando-se contra quem tinha reproduzido-a.
— Que porra é essa de "fugir à natureza", "ir para o lado errado"? Digo, olha para você — apontou para ele com descaso — Você é brilhante. Você cabe perfeitamente em ambos os "lados". Todos cabem. Todos já deram um escorregãozinho — ela indicou, com o indicador e o polegar, o gesto para frisar sua última palavra, e começou a enumerar, erguendo o polegar, o indicador e, por último, o dedo do meio — Quando você não dá dinheiro a um sem teto, quando você acelera por causa do sinal amarelo, quando você ignora uma pessoa que quer lhe vender sua única fonte de renda. Você não escolhe seu lado — disse com uma risada — As coisas que você fez já escolheram por você. Somos todos maus e somos todos bons. Uma coisa de cada vez.
A canção acabou. E ficou certo quem iria aplaudir o final.
— Eu não admiro Ramona. Ela apenas me faz ser um ser humano melhor.
— Não um ser humano. Talvez um indivíduo, mas um ser humano, nunca.
Ela deu uma risada, dando de ombros e completando com um "é, talvez".
ficou de pé e abriu a porta para . Antes de sair, ela olhou-o bem no fundo dos olhos, murmurando:
— Há sempre um lado selvagem para um rosto inocente, não é, doutor?

tinha as mãos dentro dos bolsos de seu sobretudo, olhava para o chão, e esperava poder ir para aquele lugar uma última vez. Ultimamente, naqueles dias, ia constantemente para aquele lugar. Andava, por todos os crepúsculos eternos, até aquele lugar, e voltava.
Eternamente, caminhando, observando e voltando, para retornar segundos depois.
andava por um gramado ralo, em direção a um campo plano a alguns metros afrente. Havia um muro alto, cinza, com uma cerca de ferro, de flechas apontadas para cima, no portão. O vento gélido, da brisa daquele lugar distante e desconhecido, tinha a mesma temperatura da pele de .
Levantava seus cabelos, e ele não tinha para onde ir.
empurrou o portão, olhando para cima.
Naquele lugar, seu rosto estava perfeito. Apesar de não saber como ele tinha ficado, lá, ele estava como sempre esteve.
O portão não fez nenhum som, e todo o lugar estava silencioso quando entrou naquele terreno.
O céu estava alaranjado. parou em frente a cinco sepulturas. Cinco túmulos, lápides novas em folha, de pedra.
Joseph Durden.
Jacqueline Durden.
Justin Durden.
.
Tyler .
Uma lápide por dia que estivesse lá.
Nesta ordem.
Ele nunca dizia nada. Ia até o cemitério, observava as lápides e ia embora.
Nesse dia, entretanto, aparecera um túmulo a mais. Este estava ao lado do de Tyler, e tinha escrito ‘ ’.
não sabia onde estava, muito menos por que estava lá. No instante em que a lápide de apareceu, ele compreendeu.
Não era um sonho. Não era um coma.
Era um prólogo. Um prelúdio.
Quando ia virar de costas, sentiu seu corpo pesar e ir em queda.
A sexta lápide abrira sob seus pés.
Ao cair, se ergueu. Ele abriu os olhos e começou a ofegar.
— Sr. ? Relaxe, Sr. — instruiu o médico que estava posto ao seu lado. tinha apenas um olho aberto, pois o outro estava embaixo de faixas. O médico era um senhor de meia-idade, que devia estar lá há muito tempo.
— O que está havendo? — perguntou, aterrorizado, segurando com força os lados da cama. Seus músculos estavam tão relaxados que ele mal conseguia controlá-los.
— O senhor ficou em coma por cinco dias, Sr. . Vai receber alta até completar uma semana.
— Meu trabalho. Como está meu trabalho?
— Esqueceu de que uma colega de trabalho sua veio até aqui?
começou a conseguir relaxar.
— Sim. Marla. Lembro bem. esteve aqui?
— Não, senhor, que eu saiba, não.
Ele engoliu em seco.
— Obrigado. Muito obrigado, doutor.
— Sem problemas, Sr. , estou aqui para ajudá-lo.
— Quer me ajudar, doutor? — ele perguntou, olhando o médico de lado.
— Sim, farei o que puder.
— Solicite a presença de ainda hoje.

Take your time, hurry up, choice is yours, don’t be late…




Crashing into walls, banging on your door, so why’d you let me in?

nunca tinha ido àquela parte do hospital. Era um lugar frio, com as paredes azuis claras e o piso cor de gelo. Provavelmente, era impressão sua, mas sentia como se seu corpo se arrepiasse cada vez que um médico passasse.
Cada médico, de branco, sério. achava que poderia ler suas mentes.
Documentos para preencher.
Relatórios para entregar.
Pessoas com quem falar, a quem tranquilizar. Contar a verdade.
Corpos.
De certo modo, tinham profissões semelhantes. Ambos tentavam salvar vidas, à sua própria maneira.
Ou, talvez, descobrir o que aconteceu para acabar com uma.
Mas, naquele lugar, os médicos pareciam sempre prestes a dar a bendita notícia terminal a um paciente.
Sempre, porque eles tinham os rostos que os policiais de Longview estavam ultimamente.
odiava hospitais.
— Srta. — chamou um médico de meia idade, com metade de seu corpo aparecendo em uma das portas do corredor onde estavam — O Sr. gostaria de vê-la agora.
se levantou e encaminhou-se até a porta. Chegando lá, o médico sussurrou, antes que ela entrasse:
— Por favor, não tente esboçar qualquer reação à sua aparência. Não é bom para a recuperação.
não respondeu, mas balançou a cabeça positivamente. Admitia que não sabia como deveria estar debaixo das ataduras, então, esperava o pior.
Entrou no quarto. estava sentado na cama, olhando para o outro lado do quarto, ficando de perfil para . Seu rosto deixava parecer que ele estava refletindo sobre algo, talvez o que o médico tivesse dito.
Podia ver seu rosto, e isso já era algo bom demais. Pelo menos, metade dele. A metade direita.
Não sabia como começar. Que tal da maneira mais simples?
? — ela chamou — Tudo bem?
Nossa. Que bela maneira de reencontrar um parceiro ferido.
olhou para ela. Ainda havia algumas ataduras em seu rosto.
Sua face esquerda estava morta.
Sabia que tinha dinheiro o suficiente para comprar até uma cabeça nova, da cara de quem ele quisesse. Ele, todavia, não fizera nenhum tipo de reposição de pele, ou algo assim. Pelo menos, não por enquanto — era preocupado demais com sua aparência, então, logo deveria tirar férias para fazer uma cirurgia mais delicada e cara. imaginou que ele iria ficar daquele jeito por um pouco mais de tempo.
A mensagem em sua testa, clara e direta, não saiu dali. O corte, já cicatrizado, continuava com o mesmo bilhete: ‘traidor’.
Talvez, pensou, a mensagem fosse verídica, mas escrita na pessoa errada.
Cerrou o punho. Ramona tinha feito algo daquela magnitude em um oficial de polícia. Seu parceiro de trabalho.
— Está feio assim? — ele perguntou, com o canto do lábio erguido — Está me olhando como se eu fosse o Frankenstein.
Quando deu por si, percebeu que não tinha dito mais nada desde que vira sua face machucada. Ela só foi até uma cadeira perto da cama, sentou-se e olhou para como se ele fosse um ser mitológico.
— Desculpe.
Sua pele estava realmente morta. Mais clara do que o resto do seu rosto, caída, como se tivesse derretido — e não tinha? —, em uma região que ia de sua têmpora e corria quase até o queixo. O olho também estava levemente caído, torto, mas, por um milagre, não tivera problemas com sua visão. A marca era uma gigante cicatriz, que dava até agonia de olhar. E não parecia ser, de forma alguma, de um ser humano.
Sua simetria tinha sido completamente comprometida. Nem o melhor cirurgião do mundo poderia fazê-lo ficar como antes.
— Você queria falar comigo — disse ela.
Recebera um telefonema do hospital. Achou que fosse sobre Tyler, mas preferiu não dizer essa parte a .
Ele virou o rosto, olhando para um pequeno móvel ao lado da cama, azul-claro, e puxou a gaveta dele.
— Eu tinha isso no meu casaco, quando vim para cá.
— Quem chamou a ambulância? — ela perguntou.
ergueu a mão, a cerca de dez centímetros de sua própria coxa repousada, para que ela não fizesse mais aquele tipo de pergunta.
— Eles tiraram tudo que tinha comigo, e colocaram numa sacola de plástico.
Como quando pegam as provas em um laboratório legista.
assentiu.
Ele pegou uma sacola plástica transparente, e tirou de lá uma caderneta. Era azul-marinha, sem nenhuma ilustração. Entregou-a fechada para , que colocou-a no colo quase sem olhar o que era aquilo.
— Quero que leia o que tem aí, e que use isso em seu favor.
— São seus casos?
— Eram.
franziu o cenho.
— Agora estou passando-os para você. Estou sem condições de qualquer caso policial no momento — ele disse — Julie deve fazer um comunicado oficial em breve, mas não importa. Para quem quer que ela mande os casos, o que eu descobri estará com você.
— Foi para isso que pediu que eu viesse? Para me entregar sua caderneta?
Ele molhou os lábios, se inclinando para frente.
— Isso pode ser o pior passo que estou dando. Mas todos sabem que você é a melhor no que faz. Subestimei sua capacidade. Não importa o que possa acontecer: quero que você fique ciente de tudo que sei.
— Como uma parceria?
Ele tentou fazer um sorriso, mas se interrompeu.
— Sim. Como uma parceria — fez uma pausa — Você sabe... Eu posso ser um babaca, estúpido, mas nunca seria tão... Tão... mau.
Ela colocou a caderneta na bolsa.
— Pode ir, se quiser. Não quero obrigá-la a ver isso.
O jeito de , de agir como se fosse uma coisa tão pequena, fez ter pena. O contraste com o que ele era, e o que ele virou. O medo realmente tinha transformado-o.
E, exatamente por esse medo, não confrontaria Ramona.
— Irei, mas não por isso. Tenho um compromisso. Espero que possa voltar logo.
levantou-se, e, quando foi para a porta, a chamou. Ela olhou para ele, que comprimiu os lábios, em arrependimento.
— Você sabe quem fez isso comigo?
Ela engoliu em seco.
— Sim. Vou dar um jeito em Ramona.
Ela partiu.
deitou-se na cama e ficou olhando para o teto.
Ela ainda não percebera. Ramona ainda não tinha dito a verdade.
Quem quer que Ramona fosse.

— Já estava ficando preocupada, você não dava sinal de vida — disse Ramona, quando passou correndo por ela, e começou a subir as escadas — Já ia chamar a polícia.
— Está aqui há muito tempo?
A loira estava com os cabelos presos, e com uma camiseta que deixava boa parte de sua grande tatuagem à mostra.
O anjo falso, que, na verdade, tinha vindo do mar de chamas.
A porta da casa foi fechada. estava no andar de cima, correndo para seu quarto. Ramona foi vagamente atrás dela, devagar, e, chegando ao quarto, apoiou o ombro na porta, cruzando os braços.
— Seis e meia, você nem jantou, mal ficou no seu amiguinho médico de doido... e está com pressa para quê?
A detetive estava sentada no chão em frente a um espelho. Com a mão, apagou um nome escrito ali.
.
é um policial renomado de Longview.
só tinha um álibi: para o Halloween.
Motivos? No método que seu mentor ensinara, não analise motivos primeiro. Analise o tempo. Analise álibis.
Porque não importa o que aconteça. Se o suspeito tiver todos os motivos e métodos, mas tiver um álibi concreto, essa investigação não chegará a lugar algum.
Seu mentor era o homem mais inteligente e controverso que conhecera, e sentia muita falta dele.
Apagou o nome de , mas reescreveu-o a seguir, com uma interrogação ao lado.
A verdade era que ninguém ali tinha um álibi.
levantou e abriu a porta do armário. Como o fogo não atingira muito de seu quarto — apenas as cortinas —, suas roupas ficaram intactas. Ficou encarando o armário por alguns segundos.
— Você fica bem de azul escuro — Ramona falou, com um comentário. Assim que a frase foi completa, pegou um vestido curto, solto, sem mangas e rodado, de um tom forte de azul.
— Vai dormir aqui hoje? — perguntou, indo rápido para o trocador de roupas no canto do quarto.
— Ainda pergunta?
ignorou a resposta e começou a se vestir.
— Por que a pressa?
— Tenho um compromisso para daqui a pouco. Perdi a hora.
— Então, vou melhorar a pergunta: por que você demorou a chegar?
— Tive que passar no hospital, fui solicitada.
— Tyler de novo?
.
Ramona perdeu a fala. Começou a balbuciar, e seu rosto se transformou em uma careta de indignação.
— Você só pode estar de sacanagem. Encontrou o e não me falou?
— Para começar, eu não sabia que ia encontrá-lo até encontrar. Ele me pediu para ir ao quarto dele correndo. Logo que saí do , fui lá.
— Ok, tanto faz. Você o encontrou quando ele estava vulnerável.
colocou a cabeça para fora do trocador.
— O que quer dizer com isso?
— Nada — Ramona deu de ombros — Onde você está indo?
saiu do trocador, com o belo vestido, e foi ao armário. Pegou um sapato, preto, de salto alto.
— A um jantar. Aliás, preciso te pedir uma coisa.
— Bem, peça.
A detetive fez uma pausa, suspirando enquanto calçava os lindos saltos. Perguntou-se o quanto se importava, para se arrumar daquela maneira.
— Eu preciso te pedir para que não apareça mais tarde.
— Você o quê? — o rosto de indignação voltara.
— Por favor, Ramona. Eu não sei que horas vou voltar mais tarde. e vão estar dormindo, e você vai me fazer perguntas.
— Ah, entendo. Então, você provavelmente vai encontrar alguém que eu não vou com a cara. Sendo assim, nossa lista é bem curta.
— Ramona... Menos.
A loira virou os olhos.
deve estar colocando sua melhor cueca, a essa altura. Leve uma camisinha. E, dessa vez, falo sério.
— Obrigada pela lembrança — ela retrucou com ironia, pegando a maquiagem.
— Posso aparecer depois?
— O quão depois?
— Sei lá. Depois que você fizer o que tem que fazer.
— Sim, você pode aparecer depois — fez a voz como se respondesse a uma criança, depois de muita insistência desta com alguma coisa — Mais uma coisa que você queira me perguntar, madame?
— Sim. Você caiu na historinha do , qualquer que ela tenha sido?
ergueu uma sobrancelha, ainda com a maquiagem. Ramona se aproximou e tomou o pincel de sua mão, ajudando-a.
— O cara estava deitado na minha frente, com ataduras, depois de acordar de um coma. Tenho certeza de que ele não estava mentindo.
— Assim como você tinha certeza de que ele não estava te usando.
cerrou os punhos de novo, mas como Ramona estava concentrada demais em seu rosto, não viu.
— Eu nunca disse isso.
— Mas você pensou. De qualquer modo — ela terminou com o pincel, e pegou o delineador —, o fato é que ele é o culpado por colocar você em uma “clínica para pessoas com saúde delicada” por nenhum motivo aparente. Te chamou de louca. E toda cidade viu.
— Bom, nesse caso, você está certa. Mas depois falamos disso. Ele não está exatamente no clima para uma intimidação.
— Aposto que você tem coisas mais importantes com que se preocupar.
Ramona terminou. Sua frase soou inexpressiva, já que ela realmente não aprovava o relacionamento dos dois.
Psicose ou Vertigo? — disse, cansada.
— Isso é bem injusto, e você sabe.
— Só responda.
sabia que aquele jogo era um jeito de Ramona mostrar a proximidade das duas. E sua voz completava o quanto ela estava decepcionada com estar contrariando-a.
— Ok, Vertigo.
— Sério? Mas tem o Norman Bates em Psicose.
— Não me confunda, mulher.
Ramona deu um sorrisinho. Então, inexpressiva novamente, falou:
— Me dê um aviso, que apareço quando você precisar.
olhou-a no fundo de seus olhos azuis.
Talvez, não estivesse inexpressiva. Talvez estivesse tão irritada que lutava contra seus músculos para não demonstrar isso.
— Você tem meu aviso.
Ramona não estava gostando nem um pouco disso.
pegou a bolsa e se encaminhou para as escadas. Tomou a seco a última pílula de , enquanto descia os degraus, e ouviu Ramona falar:
— Espero que não se arrependa.
Ao segurar a maçaneta, a loira finalizou:
— Não é sempre que posso consertar suas merdas.

A casa não tinha ninguém além de . Ele vestia uma camiseta branca e calça jeans, aguardando a hora do jantar.
Não havia muito a ser feito. era um bom cozinheiro, e tinha feito uma travessa de carne ao molho madeira.
Tinha acabado de colocar a carne no forno quando a campainha tocou.
Foi atender, tentando não demonstrar nenhuma pressa. A verdade era que estava ansioso. Não nervoso; não, não era essa a palavra.
Finalmente.
Quando abriu a porta, tinha as mãos na frente de seu corpo, segurando a bolsa, e ela mordia o lábio. Seus cabelos estavam caídos por seus ombros. Semelhante à primeira vez que se viram, mas não idêntica.
Naquela noite, ela estava assim só para ele.
— Hey, — ele disse, com um sorrisinho — Entre, você chegou bem na hora.
Ela sorriu radiante. Desde que voltara para sua casa, quando saiu do Manson, ela estava bem diferente.
No carro com , há tantos dias que pareciam anos, ela sorria com simpatia para . Não sorria para o resto, a não ser que fosse com pura ironia.
Naquela noite, seu sorriso era o de quem sabia a origem do universo.
— Já sinto o cheiro — ela disse, com um murmúrio que confirmou que o cheiro a agradara, enquanto se encaminhava para a cozinha, deixando a bolsa no canto do sofá — Ainda falta preparar algo?
— Não, só precisamos esperar a carne... — respondeu , indo para a cozinha atrás de . Ele olhou para o saco de papel com pães de forma, em cima da bancada, e completou — E eu esqueci de cortar os pães.
ia fazer menção de ir até a bancada, mas já estava ali, e ergueu a mão para que ele não se movesse. Sorriu, erguendo o canto do lábio, e disse:
— Você fez o jantar. Eu corto os pães, você espera a carne.
Ele franziu o cenho, com os cantos dos lábios erguidos.
— Tudo bem.
pegou uma faca, no faqueiro, do tamanho de seu antibraço.
Parou um instante, olhando para a faca.
Jacqueline.
.
Ramona.
Pegou um pão, enquanto olhava para a tábua da bancada, e começou a cortá-lo, em tiras. As serras da faca estavam tão afiadas, que o menor movimento em sua pele provocaria um corte que sangraria por um bom tempo.
Mas ela não pensou no assunto. Com o rosto inexpressivo, os lábios sutilmente erguidos e os músculos dos braços firmes, enquanto cortava.
observava, com a mão apoiando o queixo, e as pernas cruzadas.
, me permite a pergunta?
Ele a estudava. A faca era só o objeto que usava, mas a arma já representava-a por completo.
Dependendo de como usá-la, você pode vir a se cortar, ou não.
Uma grande faca, banhada em prata, suja com o ferro.
Pontiaguda.
Quieta, silenciosa.
Extremamente perigosa.
Você está garantida.
Você sempre esteve garantida.

A arma não deve ser temida. A mesma arma o protege ou o mata.
era a arma. Mas quem a segurava?
— Claro — ela respondeu, olhando-o por cima do ombro — Vá em frente.
— Quando eu lhe convidei para vir, você pensou duas vezes?
Ela parou por um minuto.
— Não exatamente. A resposta veio rápido, só custei a dizê-la.
A precisão. É a precisão que a diferencia.
Ela escorre por seus dedos, exatos.
As melhores respostas.
Somos todos viciados em você. O que a faz assim?

— Fico feliz em saber. Principalmente em ver que você ainda pensa sobre o que houve.
Começou a cortar o pão mais rápido, amassando-o com a mão esquerda e cortando-o em tiras com a direita.
Sinais.
Precisão.
Fuja.
Algo aqui dentro. Algo que me faz assim.
Posso vê-la.
Posso vê-la.
— Não consigo imaginar como eu poderia esquecer — disse, com um sorriso, e devagar.
Quando se voltou para a faca, apertou os lábios.
O relógio vinha de sua própria mente.
De trás para frente.
— Deixe-me ajudá-la com isso — ele falou, ficando de pé.
— Eu consigo — sua fala saiu cortada, hesitante.
Segurou a haste com mais força.
Colocou as costas da mão na testa. Tinha começado a suar frio.
— E seu parceiro, ?
— Meu parceiro? Meu mentor?
Parecia procurar ar.
Respirar oxigênio em um incêndio atrai as chamas.
— Ele foi transferido. Não falo com ele há um tempo.
— Sabe que não estou falando dele.
.
Que linda caricatura da verdade.
— Está tensa — ele falou, preocupado, levantando e indo até ela.
— Estou bem. Só o efeito de um remédio que andei tomando.
— Tem certeza?
Você se livra de tudo que a aflige. Você é séria e fria, porque isso é produtivo.
São alter egos, roupas que você veste quando precisa.

Não era quem pensava isso.
— Estou bem.
— A carne está pronta.
Ele pegou a comida dentro do forno e foi até a mesa, colocando-a no centro.
— Nossa. Da última vez que vim, a única coisa que tínhamos no centro da mesa era uma caixa engordurada de pizza.
Ele riu, puxando a cadeira para que ela se sentasse. Agradecendo, ela ficou de frente para ele, que se sentou do outro lado.
— Continuamos tendo. Mas hoje é uma ocasião especial.
Pegou os talheres, fazendo uma pausa.
— Eu coloquei meus talentos de cozinheiro a postos, para hoje.
— Devo esperar um molho madeira com gosto de terra? Não fiquei tempo suficiente para ver seus dotes tão aflorados.
— Não foi por falta de insistência minha, que você não ficou.
Ela ergueu os olhos, não dizendo uma única sílaba.
Se e tinham alguma semelhança, era que ambos amavam provocar . E tinham maneiras bem diferentes para tal.
Ele sorriu pequeno, cortando sua carne.
E eu pagaria para vê-la em desequilíbrio.
O caos parece tão certo.

— Eu acredito em você. Sobre a matéria. Demorei, mas acredito.
— O que lhe fez mudar de ideia?
Era como se ela fosse a lua. A cada instante, uma face.
O lado escuro da lua.
Agora era . Sua amiga, que o acompanhou na casa de Samantha, que foi morar em sua casa. Que o beijou depois de lhe contar a verdade.
Que, por instantes de dúvida extrema, no fundo de sua personalidade, ele achou que a amava.
Pouco depois, essa dúvida caiu por terra, dando lugar à certeza.
Não foi só a dúvida que se foi naquela noite.
— O arrependimento. Quando se despediu daquele modo, percebi que ela tinha feito algo. Algo que ela não se orgulhava.
— O arrependimento de a fez perceber que eu tinha dito a verdade?
— Não disse que foi o de .
Ele ergueu uma sobrancelha.
Não fazia ideia do que era tentar colocar em caos. Em desequilíbrio.
Ela tinha sua própria maneira de defender disso.
— Então está aqui com um pouco de culpa, também.
Ela franziu o cenho, sorrindo.
— Desculpe?
— Não, não, não — ele sorriu de volta — Não foi uma pergunta. Você também tem pecados a confessar por aqui!
Ela pegou o guardanapo e limpou o canto do lábio.
— Os pecados que confessei com já foram até perdoados.
Ele mordeu o lábio, comprimindo os olhos.
— Ouch. Strike 1.
Ela deu de ombros.
Vamos lá, . Isso é um desafio? Quer que eu a desarme?
Eu sou o único que faz você se sentir viva.
Me dê os sinais. Quero acreditar.

— E você achou realmente que eu não ia voltar com esse assunto?
— Na verdade, não. Já imaginava que você ia falar disso. Mas ignoro isso.
— Por quê, exatamente?
— Porque sempre que nos falamos, você precisa se prender a algo.
— Preciso, é? E por quê?
sentiu a ponta do indicador de em sua coxa, debaixo da mesa.
— Porque enquanto nos falamos, não temos roteiro. Simplesmente falamos a primeira coisa. E isso a deixa sem chão.
Ela engoliu em seco, cerrando os punhos em nervosismo, fazendo suas unhas marcarem as palmas de suas mãos.
— Você gosta de planejar suas coisas. De ter controle, a ordem.
— Você parece realmente me conhecer — ela comentou, tentando disfarçar.
Resista, sua vadiazinha.
Não me faça ir aí.

Não era .
— Mais do que você admite se conhecer.
A desordem a aflige, porque você passa a não ter controle sobre as coisas. Você não sabe o futuro.
Você sente o desespero que escapa pela ponta de suas unhas.
Eu sou seu caos.
Sou sua desordem.

— Eu me aproximei de você porque achei você inteligente demais para seu cargo — ela disse, a voz baixa e calma.
— E eu me aproximei de você porque achei você misteriosa demais para o seu — ele retrucou no mesmo tom.
Sem coordenação.
Fora do passo.
Fora do rumo.
— Me diga, , quais são as coisas que te prendem à sanidade?
Deixe-me chegar mais perto.
Eu sou seu caos.

Ela ergueu o canto do lábio.
Sem controle.
Fora da ordem.
O caos soa tão atraente quando você o coordena...
Ela esticou a perna, acariciando a perna de , que chegou a recuar um pouco com o corpo, alarmado.
— Eu pergunto a mesma coisa.
Ele deu um pequeno sorriso, mas voltou a aguardar o próximo passo dela.
Você achou mesmo que eu deixaria você ficar com a melhor parte?
pode ter chegado a dizer alguma verdade. Sobre aquela história de ele ter transado comigo até em gravidade zero? Merda. Mas você sabe bem a verdade.
Ele engoliu em seco, seu rosto passando a expressar total interesse na conversa. Disse, admitindo:
— Ele estava desesperado. Precisava daquilo.
Ela sorriu. Apontou para si mesma, rindo da mesma maneira que quando chegara à casa de :
— Olhe só para mim. Você não conseguiria me odiar nem se tentasse. Nem você, nem .
Fez uma pausa.
— Com quem não gosto, não faço sequer questão de ser agradável. Porque todos naquela delegacia precisam de mim.
— Um excesso de ego, posso enxergar.
— Deus salve Ramona.
se levantou com o prato vazio, indo para a pia.
— Ramona? Sua amiga?
colocou o prato dentro da pia sem responder.
— Ah, agora estou vendo. Com o pessoal da delegacia, você é como Ramona. Com , é a nossa . E comigo...
— Diga, eu quero que diga — ela falou, olhando-o por cima do ombro. A voz era agressiva, desesperada.
Urgente.
— Sem roteiro. O caos.
se levantou, ficando atrás de , na pia. Tocou de leve sua cintura. Ela estremeceu.
— Vamos fazer esse coração bater mais rápido.
Troca.
Curto circuito.
— Você foi a coisa mais aterradora que aconteceu na minha vida.
Confusão.
Barulho de vidros.
Feche os olhos e enxergue o paraíso.
Está vendo? É porque tem os olhos fechados.
— Está me machucando, falando assim — ele sussurrou, acariciando de leve a cintura de , o tecido arranhando de leve sua pele.
Se sua alma tinha algo faltando, é porque deveria completar.
Por que negar seus instintos?
Você é o que é, .
Uma vagabunda. Uma fraca, uma mulher inferior.
Levante.
— Então me machuque de volta.
A mão de foi para a frente de sua cintura, puxando-a de leve contra seu corpo. Sentia o calor que sua pele expirava.
Um muro em queda. Balas para todos os lados.
Aviões com rumo a lugar nenhum, e ela não se importava.
Deveria estar ali, queria estar ali.
— Estou a um vestido de distância de te levar até a lua.
Seus olhos se abriram como se explodissem.
Vamos fazer esse coração bater mais rápido.
Pressão: normal.
Respiração: lenta.
Pupilas: contraídas.
Músculos: relaxados.
Sempre no controle.
O desastre está só começando.
Mas ela deveria tomar conta de tudo.
Pegou a faca que tinha usado, para limpá-la. Passou o indicador pela lâmina, com os cabelos balançando sutilmente ao movimento de sua cabeça, ao direcionar o rosto para baixo.
No controle.
Em desequilíbrio.
O verdadeiro caos.
... Você conhece a história d’O Fantasma Da Ópera?
— Sim... Já li o livro faz tempo, mas conheço.
Limpou o outro lado da lâmina, fazendo um pequeno ruído, com o ar sendo rasgado.
— Lembra-se do trecho em que o Fantasma, Erik, aprisiona Christine no subterrâneo?
— Vagamente...
Ele não compreendia o que O Fantasma da Ópera tinha a ver com aquilo tudo. Na verdade, Literatura deixava-o bem pouco excitado.
— Bem, eu já reli esse trecho diversas vezes. E sabe o que acredito? Que aquela cena foi um ponto de vista de Christine.
— O que quer dizer com isso?
Abriu a torneira e ergueu a faca, olhando para o reflexo dos dois na lâmina.
Você deveria ter fugido enquanto teve chance.
— Não é o fantasma, entende? É a própria Christine. Ela gosta da escuridão.
Olhou-o pelo canto do olho.
— Christine não assumia isso. Precisou do Fantasma para que ela conhecesse seu verdadeiro lugar. Para que ela se tornasse a heroína, no final.
Ele engoliu em seco. admirava-se na lâmina da faca.
— Christine deixou-se prender no subterrâneo. Ela não podia negar sua realidade. Seu verdadeiro lado. Ela torna-se a heroína, no final... Porque se aproveitou do Fantasma.
— Ela não se aproveitou.
— Não? — perguntou, abaixando a faca para dentro da pia. Seus olhos estavam mortos e aterrorizantes.
Você veste a pele dela. Você se transforma em Ramona.
Não deveria ter contradito-a.
Ela faz de mim uma pessoa melhor.
Não uma pessoa. Mas ela é como eu sempre quis ser.

— Christine leva o mérito por salvar todos, enquanto o Fantasma deu-a toda sua energia. Ele a vitalizou. E, no fim, ela o deixa. Finge que o quer, e o deixa. Sabe o que é isso?
Olhou para baixo. Um pouco temeroso, ele acompanhou o olhar.
O reflexo era só dele.
— Ele se sacrificou, e ela apenas deixa-o sem pestanejar. Já viu essa história antes?
Ele balbuciou. colocou uma mão em cima da mão de , em sua cintura. Prendendo-o.
Não fuja.
Nem tente.
Sempre lhe avisaram, . A Serpente Vigilante.
— Deveria ter mantido as mãos no nível dos olhos.¹
Ele recuou.
— Vamos fazer esse coração bater mais rápido.
As luzes se apagaram no momento em que ele conseguiu ver seu reflexo mais uma vez, mas a faca agora estava mais alta.
Ele deu as costas e correu até o interruptor, acendendo a luz. Na pia, não havia ninguém.
O sonho de outro alguém?
As luzes se apagaram novamente. O interruptor não funcionava.
— Vamos lhe mostrar o que é um ‘não’, senhor . O senhor já aprendeu, agora é sua vez.

A primeira reação que teve foi correr para a porta. O apartamento dele dava para uma vizinhança escassa, com poucas luzes. Não era possível enxergar muito.
Além de estar no escuro, ainda estava com medo, então calculava que suas pupilas deviam estar com o tamanho de maçãs.
Ao chegar à porta, quase derrubando-a, girou a maçaneta. Ela não abriu, e não havia chave.
— Correr para a porta? Ah, vamos lá. Você consegue fazer melhor que isso.
Pense, .
A voz vinha do canto da sala, mas não adiantava ir até ela.
— Você sabe aonde isso vai dar, . Só quero deixar tudo mais divertido.
Primeiro, defesa. Como se defender de um facão de cozinha?
Correu em direção ao corredor, ao som de gargalhadas.
, estou indo!²
Chegou ao fim do corredor, no quarto de . Virou as gavetas de cabeça para baixo, desesperado. O escuro era assustador.
Exatamente porque sabia o que estava guardado lá.
— Por que o medo, ? Eu não vou machucá-lo! ²
A voz vinha do corredor, calma, serena.
Nada. A única coisa que tinha era um mísero e insignificante canivete.
Puta que pariu.
— Eu não vou machucá-lo... Eu vou acertá-lo com tanta força na barriga que você nem sentirá a dor. ²
Não havia como sair dali sem que ela o visse no corredor.
Quem quer que ela fosse.
Olhou para a janela. Ali, na janela de , havia uma pequena varanda de ferro, da escada de incêndio. A varanda era compartilhada com o quarto de , do lado.
A escada de incêndio?
Correu para a porta e fechou-a tentando não fazer barulho.
Silêncio.
Caos.
A estrutura de madeira vibrou com um forte impacto do lado do corredor, do chute contra a porta.
— Quem tem medo do lobo mau, lobo mau, lobo mau... — ela cantarolava, e, a cada repetição, mais um forte chute.
Não era ela. Era um chute absurdo.
De uma besta.
Não adiantava fugir. Não era para fugir.
Olhou para a janela e não pensou duas vezes. Correu até ela, colocando um pé para fora, e com o resto do corpo em seguida. Ouviu a porta sendo aberta com delicadeza, com a maçaneta se abrindo.
Ninguém do outro lado.
Ele respirou fundo. Deveria fazer aquilo.
Foi para seu quarto, deixando a janela aberta ao entrar. Pé ante pé, atravessou o quarto.
A voz do corredor era sobre-humana.
estava se tornando Ramona.
A via como ídola, e começou a imitá-la. Demais.
— Muito trabalho e pouca diversão fazem de Jack um menino idiota... ² — ela cantarolou, com a faca arranhando a parede.
Ele ouvia.
Engoliu em seco.
— Olá, — ela disse em um tom infantil — Venha brincar comigo. Venha brincar comigo, . Para sempre... E sempre... E sempre. ²
Se ela queria tanto parafrasear o filme, ele também tinha direito.
Posicionou-se lentamente atrás da porta, e pegou no bolso uma moeda. Mirando com a pouca luz que tinha, e a memória que poderia se gabar, sabia que tinha um porta-lápis em cima da mesa, que, por sua vez, estava ao lado da janela.
Jogou a moeda ali, fazendo um baixo ruído de canetas caindo.
A porta logo se abriu, silenciosa. Nem os passos dela faziam barulho.
Um verdadeiro anjo.
... Estou indo² — ela sussurrou, ao passar pela porta. Passou por ele, com a faca nas costas.
Não havia outra chance. Quando ela olhou para a janela aberta, a cortina balançando com o vento, ele teve que agir.
Com maior preocupação com a faca, segurou a mão que estava armada e a domou, esticando o braço para longe. Com a outra mão, empurrou-a ao chão, como fizera com Zoe.
— Aqui está Johnny² — ele murmurou, com a voz cansada, ou aliviada. Talvez os dois. O rosto dela estava contra o chão, a faca foi pega e jogada para o canto do quarto.
— Você está me machucando! — ela gritou.
Ele estava sentado em seu quadril. Tentou ficar de pé, sem jeito, mas no momento em que diminuiu a força, ela girou o corpo, fazendo-o ficar ajoelhado e conseguindo dar um forte soco no rosto dele. Ela tentou ficar de pé, e, ao instante que se ajoelhou, puxou-a pelo tornozelo, sem hesitar em segurá-la pelos pulsos. Atordoado, ele estava praticamente de quatro.
Engraçado. Mesmo sendo segura por ele, ela envolveu-o com as pernas, sem deixar conseguir se movimentar. Suas coxas estavam nuas, com o vestido caído, as pernas levantadas para segurar fortemente pelos quadris.
— Sempre soube que você tinha coxas fortes — ele comentou, sorrindo.
Com um sorriso, ela tentou girá-lo, sem sucesso. riu de sua tentativa.
— O que você estava pensando?
— Deixe-me ir!
! — ele gritou, apertando seus pulsos — Pare, eu vou acabar te machucando de verdade!
apertou os olhos.
Quando os abriu novamente, ofegava. Estava exausta.
— Deixe-me ir — ela repetiu, mais baixo. soltou-a e ela fez o mesmo. Ambos sentaram-se um para o outro.
— O que houve? — ele perguntou.
— Não sei. Não sei porra nenhuma — ela murmurou, ficando de pé, saindo de perto dele.
!
A porta estava trancada.
— Não tente fugir — ele disse, cansado — Não adianta fugir.
— Isso nunca aconteceu antes — ela murmurou, tentando destrancar a porta com mais força, balançando-a.
, não tente fugir — ele repetiu, indo até ela.
— Deixe-me em paz. Deixe-me em paz — ela murmurou, de olhos fechados.
— Algo em você tenta ser como Ramona. Ela é uma droga para você.
— Fique longe de mim.
Quando ele tocou o ombro de , ela virou de frente para ele, batendo as costas na porta, se defendendo com as mãos na frente do corpo.
Eu sou nociva, não me toque.
— Acalme-se! — ele falou, segurando seus pulsos novamente. Ela parecia aterrorizada.
— Eu... Eu não... — ela gaguejava como se fosse chorar.
soltou seus pulsos e foi com as mãos para seus ombros, para abraçá-la. Antes que o corpo de estivesse totalmente contra o seu, ela ergueu a cabeça, indo rapidamente para seus lábios, sugando-os.
correspondeu, surpreso.
precisava de apoio, e ele era o único que saberia oferecer.
Por segundos, o beijo veio como uma pausa, um descanso. Ela partiu, murmurando, ainda ofegante:
— Livre-me. Quero ver você tentar.
O sinal verde.
Agora, sim.
Finalmente.
— Faça esse coração bater mais rápido.

olhou bem no fundo dos olhos de . Em algum lugar, lá dentro, viu o que ela estava dizendo.
Nada.
Ela não estava querendo dizer nada além do que estava dizendo.
O caso que não tinha sido encerrado.
A voz dela estava saindo entrecortada, quando aproximou seu rosto do dela, com voracidade, fazendo-a bater novamente as costas na porta.
Você não precisa de mais ninguém.
correspondia, e ele percebeu que, enfim, não havia o que esconder.
Ergueu as pernas da moça, que imediatamente se prenderam novamente ao seu quadril. As coxas fortes dela aproximaram ainda mais seus corpos, enquanto segurava-a, pois não tinha a menor intenção de deixá-la partir.
Erguia seu vestido, tocando sua pele, já tão conhecida e tão pouco explorada por ele. Beijava os lábios de , nunca separando-se dela, unindo seus corpos cada vez mais. Ela abraçava-o no pescoço, mal conseguindo respirar.
Livre-me.
Seu corpo se aquecia cada vez mais, quando ergueu seu corpo, investindo-o contra ele. As costas de arrastaram pela porta, fazendo-a subir, e partir o beijo em um murmúrio arfado, de surpresa.
estava tão perto, que ele não queria perdê-la.
Onde tinham parado da primeira vez.
Seu toque era forte, firme, mas não bruto. Era diferente de .
não queria possuí-la por alguns instantes. Ele queria tê-la para sempre.
Eu sou demais para você?
Porque você é demais para mim.

Segurando-a pelas coxas, a pele dela ficando vermelha pela força, a levou até a cama. Chegando ali, soltou seu corpo, fazendo-a ficar ajoelhada.
Estava longe demais.
Mostre-a aonde quer chegar, .
Quando procurou os lábios de , ele beijou-a, fazendo-a chegar o corpo para trás. Era lento e, ao mesmo tempo, não perdia um detalhe. As mãos de , hábeis, erguiam seu vestido, abraçavam seu quadril.
Agora, nunca mais te deixarei ir.
Quando chegou até suas costas, começou a deitá-la. sentia seu corpo caindo, e não fazia nenhuma interrupção. Entregue a ele, e sabia que não precisava ir a lugar algum.
Estava no lugar certo.
Deitou-se em cima de seu corpo, com o vestido na cintura de , a mão direita em seu quadril, puxando-a contra si, enquanto a mão esquerda estava no busto de . Seu toque era suave, prolongando cada sensação dela, principalmente a de que, enfim, estavam onde sempre deveriam ter estado.
Vou lhe dar todos os motivos para ficar.
desceu os beijos, indo para o dorso de , até alcançar seu decote. Suas mãos estavam na cintura e na alça da peça, abaixando esta por um instante.
Ela abriu os olhos e direcionou o olhar ao teto.
Como foi que acabamos assim?
O sutiã preto de protegia seu seio, mas quando o rosto de o alcançou, não havia mais necessidade disso. Sem demora, o rapaz puxou para cima o tecido azul, despindo-a sem cerimônias. usava uma lingerie preta, mas no instante em que estava beijando seu seio, ele livrou-a do sutiã.
Ela não sabia conseguia se controlar. Os lábios de a envolviam, beijando-a com carinho, até pararem no lugar exato. As mãos dele se posicionaram novamente em seu quadril, apertando-o com tanta força, em contraste com a lentidão que sua língua acariciava seu seio.
Ele não perderia um detalhe.
A língua de tinha amaciado-a, mas sutis mordiscadas, expressavam exatamente aonde ele iria chegar. não iria acelerá-lo: ele sabia o que estava fazendo.
Comporte-se.
Cada centímetro, cada pedaço do corpo de , de sua pele aveludada, ele faria jus por estar ali.
E daria a ela a certeza de que, depois de e , era que faria sentir o êxtase.
Um leve gemido escapou pelos lábios de , enquanto suas mãos estavam na beirada da cama, descontando tudo no lençol. Suas unhas se fincavam ao tecido.
— Comporte-se — sussurrou, ao erguer a cabeça, antes de continuar seu caminho, beijando a barriga de , logo indo aonde queria.
Agora parece uma hora boa para cometer os mesmos erros.
Abaixou a única peça de roupa que cobria a região. Seus lábios foram diretamente ao encontro do corpo da moça, e, no instante em que ele começou, ela sentiu sua alma.
Estava sentindo uma parte de dentro de seu corpo, via o rapaz entre suas pernas, enquanto ele segurava-as. Fincou as unhas na pele de , indo cada vez mais longe, mais rápido, enquanto o arfar de ficava cada vez mais alto. Cada vez que a língua de movimentava-se, ela sentia o caos.
O caos era ele.
Quanto mais sentia sugá-la, percorrendo cada centímetro de seu lugar mais pessoal, sentiu a invasão.
Venha.
Venha, estou aqui, apenas para isso.

Aquilo já tinha demorado tanto, que ele só tinha interesse em prolongar.
E nem estava no ponto principal daquilo ainda.
Quando ele investia cada vez mais, chegou o momento em que tapou a própria boca, em um som primitivo.
Ele era a resposta.
A coisa que lhe prendia à sanidade.
afastou seu rosto, respirando ofegante. Passou a língua de leve pelos lábios.
— Ainda consegue fazer muito? — ele perguntou, baixo.
deu uma leve risada.
— Você disse que ia me corromper. É o máximo que pode conseguir?
Ah, aquela ameaça. não perderia aquilo por nada.
levantou o tronco, ficando sentada, nua, na frente de . Ele estava estático, observando seu corpo, suas curvas. Ainda estavam no escuro, mas podia vê-la.
Podia tocá-la. Ter para si.
Cada mínima parte dela.
E corrompê-la. Finalmente, poderia corrompê-la.
foi até seus lábios, beijando-os lentamente, agarrando os cabelos de . Ficou ajoelhada na sua frente, o corpo erguido, ele com a cabeça levantada, e ao mesmo tempo, fraco.
o tomava, sugava todas suas energias, cansando-o.
Tinha-o em todos os sentidos.
As mãos da moça foram até sua camiseta branca, despindo-o. O tronco de , que ela nunca tinha visto, não era musculoso como o de . Definia seus músculos, agora mais enrijecidos do que nunca, entretanto.
As mãos de não perderam a chance de segurar o corpo nu de , enquanto a beijava, apertando-a a cada segundo.
Quando as mãos da moça desceram, ele entendeu o que haveria ali.
Olho por olho.
As calças folgadas de não demoraram a cair. passou o indicador, lentamente, pelo tronco sutilmente definido de , delineando seu caminho. Ao chegar cada vez mais próxima de seu destino, parou por um instante.
Mordeu o lábio de , puxando-o, quando sua mão desceu por debaixo de sua cueca. A outra mão abaixou a peça de roupa, enquanto ela acariciava , totalmente enrijecido.
Os lábios do rapaz a procuraram, quando ela recuou. Sua respiração entrecortada era o que lhe entregava:
— Me corrompa — ele pediu.
A escuridão.
Preto no branco.
Manchas, na escuridão, não são percebidas.
E com as luzes apagadas é menos perigoso.
As mãos de relaxaram quando as de começaram a trabalhar. Foi a vez dele de se entregar: os suspiros, os murmúrios, as súplicas.
Tal momento foi breve. deitou o corpo de novamente, livrando-se de suas próprias roupas.
Ao deitar o corpo por cima do dela, olhou no fundo de seus olhos. Esperava por aquilo há tempos, se ninguém tivesse interrompido-os.
Interromper? Por favor. Era como se não houvesse nenhum intervalo de tempo entre eles.
Os olhos de olhando para o universo dos olhos dela. Um buraco negro, que tinha atraído-o.
Duas forças, duas direções.
— Venha — ela chamou.
O corpo de foi todo contra o de , sem demorar. Certeiramente, ele alcançou o fundo dela, sua região mais oculta, natural, com o grito animalesco que ela liberou.
Profundo, forte, o lado escuro da lua.
Não há lado escuro.
A lua é toda escura.
tinha o movimento sinuoso, indo até o ponto mais distante de . O inalcançável era possível para ele, em suspiros.
Esquecidos. Deixados de lado.
Gotas de suor estavam em suas peles. Como balas.
Impenetráveis... Não.
Inquebráveis.
— Até onde sua mente vai resistir? — ele murmurou.
As investidas eram cada vez mais fundas, o corpo de movimentando-se em ritmo uniforme, lento. O de , entretanto, permanecia alheio ao dele, erguendo os quadris, ajudando-o.
Seus olhos estavam fechados.
Seus sentidos estavam a mil. Nunca se sentira assim.
A maior simplicidade a fazia explodir.
O detonador.
Entregue aos próprios sentidos, que se tornaram cada vez mais apurados.
Tato. A pele morna e macia de a tocava com calma, aproveitando cada mínimo detalhe dela, como se tivesse medo de acabar nunca podendo aproveitar aquilo mais uma vez. Sua única chance. Queria tocar cada centímetro seu como se fosse a última vez. O toque doce, gentil e incrivelmente perfeito dele, que explorava cada lugar estratégico, que só a fazia se entregar cada vez mais.
Olfato. O cheiro intenso de tomou conta de cada pedaço de sua mente, tirando toda sua sanidade e entregando-a a uma parte que desconhecia de si, a qual não tinha qualquer controle. Hipnotizava-a com o cheiro de madeira, que a colocava em total sentimento de entrega. Não como se fizesse se render a um desejo oculto... Mas como se fizesse ela admitir finalmente algo já há tempos certo.
Audição. A voz de , pela primeira vez, inerte, libertava as sílabas mais baixas, aprisionadas, do mundo. Letras aprisionadas, que procuravam sua liberdade, com quem deveriam ter sido soltas há tanto tempo. Pouco compreensíveis em sentido, mas cristalinas para seus ouvidos.
Paladar. O gosto de , cada pequena região de sua boca, e o doce de sua alma vindo à superfície. Convertendo ao gosto do amargo, guardado em uma ampola de sua essência, inesquecível como o doce de seus lábios.
Era bem diferente de . Por quê? Bem, porque nem lembrava que existia. Nem . E isso era o que mais importava.
Ele suspirou, em seu ápice. Uma última linha de voz, rouca, escapando por seus lábios, antes de ele cair, sem forças, em cima do corpo de .
Eles se tocavam, e sabiam que tinham feito algo errado.
Era bem mais prazeroso fazer a coisa errada.
O lado escuro da lua.
depositou um beijo na testa de , caindo ao lado dela. Poucos segundos depois, ambos caíram no sonho.
Mas já tinham estado no paraíso.

assistia o vídeo de novo, de novo e de novo.
O hospital tinha recebido um homicida potencialmente perigoso. Então, precisavam de alguns psicólogos e psiquiatra a postos, até a manhã seguinte, onde esse homicida seria encaminhado para os tribunais.
estava com a ala Gein naquela noite.
Ele odiava e temia a ala Gein.
O vídeo de só parecia servir cada vez melhor como trilha sonora de lá.
"Sempre há um lado selvagem para um rosto inocente, não, doutor?"
Era uma pergunta retórica? Ou um aviso?
Talvez fosse só a impressão errada. As coisas andavam fluindo tão bem, que não parecia provável que estivesse realmente ameaçando-o.
O que ela andava ouvindo dos outros, para ter um comportamento tão explosivo com seu psicólogo?
O que estavam plantando em sua mente, para ela estar tão agressiva?
E os remédios?
— Senhor — chamou uma enfermeira, abrindo a porta de seu consultório.
— Sim? — ele perguntou, desligando a câmera em um susto.
— Tem pessoas aqui querendo falar com você.
— Dê a eles meu telefone e diga que não estou atendendo emergências.
— Senhor, eles dizem que é urgente.
— O que estou fazendo aqui também é — retrucou, irritado.
— Eles não vão embora enquanto você não for vê-los.
— Quantos são?
— Duas mulheres pediram para conversar.
— Que elas conversem entre si.
— Senhor...
já estava perdendo a paciência.
— Quem são? As porras do papa e do resto do Vaticano? Não podem esperar até amanhã?
— Senhor, são da polícia.
Ele gelou. Sua espinha estremeceu, mas ele conseguiu disfarçar.
Levantou-se em silêncio e foi atrás da enfermeira. Atravessou a ala Gein e chegou à central do hospital. Havia três policiais uniformizados, além de Marla Bronx, que tomava a frente, e Julie Stoner, ao seu lado. As duas estavam sentadas esperando por , enquanto os outros estavam de pé.
— Detetives, eu já dei minha entrevista.
— Sabemos — Julie disse com um sorrisinho.
Aquela presença o aterrorizava.
— Não podem vir aqui no meu trabalho procurar por mim, a não ser que seja muito importante.
Marla ficou de pé, ajeitando sua blusa social e pegando algo no bolso.
— É muito importante. Vire-se.
Engolindo em seco, ficou de costas. Marla abaixou suas mãos para o quadril, e ele sentiu as algemas se fechando ao redor de seu pulso.
— Senhor , o senhor está detido por 48 horas como mais provável assassino da legista , e caso não sejam encontradas pistas que o inocentem, o senhor será condenado como culpado.
— O quê?! — ele perguntou, virando bruscamente para trás, mas os três policiais já tinham sido rápidos para o segurarem. Renderam , e, por mais que ele tentasse se mover, lutar, era inútil.
Já estava preso.
— Tem o direito de permanecer calado e de pedir um advogado, caso não tenha um.
— Eu não a matei. Eu sou inocente! — ele declarou, alto.
— Tem 48 horas para provar isso. Até lá, ficará sobre nossos cuidados na delegacia — a voz de Marla continuava serena.
Julie não se movera. Estava com a cabeça apoiada em seu punho fechado, e olhava para com os olhos semicerrados, e sem nenhuma expressão. Sem tirar os olhos dele.
— Tem o direito de solicitar a revisão de provas. Tem algum pedido?
Marla virou de costas e foi caminhando com ele para a saída, enquanto todos que estavam no hospital observavam sem dizer uma palavra.
— Quero no caso. Eu sou inocente e sei que ela poderá provar isso.
Ele movia seus ombros, mas não chegava a lugar algum, com tanta gente o segurando. Abaixaram sua cabeça e ele entrou na viatura.
Julie ajeitou seu terninho e entrou no banco do carona, sem dizer uma palavra.
Uma gota de suor escorreu pela testa de .
Pelo menos, espero que ela possa.
Talvez, ela não.

¹ — frase do filme ‘O Fantásma da Ópera’
² — frases do filme ‘O Iluminado’

Am I too much for you? 'Cause you're too much for me, I still wanna be corrupted.




My shadow side so amplified keeps coming back dissatisfied…

Quando abriu os olhos, na manhã seguinte, estava completamente nua, envolvida pelos lençóis. olhou para os lados e viu que a cama estava vazia.
O quarto estava claro, com as cortinas deixando uma fresta de luz passar. Tinha um espelho na porta aberta do armário.
Olhou em volta. Não havia nada de incomum no quarto, além da porta do armário aberta, e a falta da faca no chão.
Pegou seu sutiã e calcinha, que estavam em uma poltrona próxima à cama, e a camiseta branca de , que ela mesma tinha tirado dele na noite anterior. Vestiu-a.
Com o armário aberto e o quarto vazio, ela não imaginava muito. A falta da faca foi mais um fator àquela soma.
tinha deixado-a lá, e ido para a delegacia.
A noite anterior a atingiu como um meteoro.
Comprimindo os lábios, receosa, abriu a porta do quarto, indo lentamente até a sala e cozinha. Seus pés não produziram som, diferentemente da noite que passara.
Here's Johnny.
Chegando à cozinha, viu um homem de costas para ela, apenas com as calças que lhe caíam pelos quadris, preparando panquecas no forno. As costas faziam um vão em sua coluna, com seus ombros delineados pelos sutis músculos que o formavam.
Quando sentou-se à bancada, olhou para trás, dando um leve sorriso ao vê-la.
— Bom dia — ele cumprimentou, sorrindo.
Ela não conseguiu conter o seu próprio para acompanhá-lo.
— Bom dia. Achei que já tivesse ido.
Ele fez que não, fazendo uma careta como se aquilo fosse uma ideia absurda, enquanto servia as panquecas em um prato. Quando foi até a bancada deixar o prato na frente de , colocou uma mão atrás de sua nuca, de seus cabelos embaraçados, levantando um pouco a cabeça dela e dando um leve beijo nos lábios para cumprimentá-la.
— Melhor que aqueles ovos com bacon que o fazia para a gente, não é? — ele perguntou, ao sentar-se em frente a .
— Aqueles ovos com gosto de pia suja.
— É porque não lava a louça.
— Ele ainda está no hospital?
— Suspeito que sim. Mas estranho ele ainda não ter ligado.
bebeu o café, pensando por um instante.
— De repente, ficou liberado muito tarde, e não achou uma boa ideia ligar.
comeu um pedaço da panqueca com mel, negando com a cabeça.
— Acho improvável. Eu e temos um acordo de avisarmos nossos passos um para o outro.
franziu o cenho, rindo.
— É por causa do carro! — se defendeu, também rindo. deu uma risada, comendo um pedaço de panqueca também. — Seu tempo na delegacia acabou — observou — Vai querer ir até lá hoje?
bebeu mais café e deu de ombros.
— Não quero, mas preciso. Tenho que falar com alguém que logo não estará mais lá.
deu conta do recado.
Zoe.
Zoe Durden, melhor dizendo, segundo .
— Bem, de qualquer modo, acho que se você entrar comigo, não terá problemas.
— Eu vou entrar contigo? Digo, como sua acompanhante?
— Lógico — ele respondeu, fazendo uma careta como se aquilo fosse (e era) a coisa mais óbvia do mundo — Vamos juntos, aí não podem fazer muito.
ergueu o canto do lábio.
— Vai querer ir agora? Está cedo... Podemos brincar um pouco.
riu, acompanhando-a.
— Ainda tem energia para isso? Acabou de levantar.
— Tive muito tempo desperdiçado. Precisamos compensar.
Quando ia retrucar, seu celular tocou. Ele pediu licença e atendeu-o, levantando da mesa. Segundos depois, retornou, com o rosto antes promíscuo agora aterrorizado.
— A diversão vai ter que ficar para mais tarde, . Era o .
— O que aconteceu? — ela perguntou, ficando de pé, deixando quase metade da panqueca no prato.
pegou sua blusa de mangas compridas, verde, em cima do sofá. Vestiu-a. não teve outra opção senão ir até onde estava seu vestido azul, demasiado elegante para a ocasião.
— Ele está na delegacia. Pegaram-no para a investigação da .
Depois de passar o vestido por sua cabeça, e ajeitá-lo no resto do corpo, ela teve suas feições transformadas para a preocupação.
Não sabia interpretar por quê, mas estava mais preocupada do que estivera antes.
— Ele vai contribuir com a investigação? — ela perguntou, colocando seus sapatos pretos, de salto. Definitivamente, não estava com uma roupa adequada.
— Aqui — disse, estendendo a ela uma jaqueta de couro preta, da própria , esquecida lá da última vez que estivera no apartamento de e .
Algo no interior de sabia que aquilo duraria algum tempo, mas não eternamente. Deixara roupas demais na casa deles, e muitas reticências.
— Ele não contribuiu com a investigação — respondeu , pegando as chaves do carro gentilmente cedidas a na noite anterior — Pelo menos, não do modo convencional.
Seu rosto não era gentil, e sim, preocupado. Tinha pressa, correndo para ir até seu amigo o mais cedo possível.
O tempo correndo ao contrário.
— Eles estão quase encerrando o caso, desde que pegaram o . Acham que ele matou . E talvez, não só ela.

Depois de ter passado um longo tempo acordado, não desejava nada além de uma boa noite de sono. Era cerca de dez da manhã, e ele estava numa cela vazia, com uma pseudocama, dura, uma pseudopia que não saía água e uma pseudojanela que não dava para lugar nenhum além dos fundos da delegacia — ou seja, uma rua.
Tudo isso para um pseudoassassino.
não era um assassino.
tinha sido sua ligação por direito. Não pediria por um advogado: só correm a eles os culpados.
Correu ao homem mais próximo da melhor detetive da região.
estava sentado na cama, olhando para o chão, com os cotovelos apoiados em suas pernas, em claro sinal de cansaço, quando ouviu os passos do corredor. A porta foi aberta, e entraram na sala duas pessoas: e Julie Stoner.
E ? Precisava de .
Que se foda , onde está a ?
! — exclamou , assim que o amigo se levantou para se jogar contra a grade da cela, ficando quase pendurado — Que merda você fez, cara?
O psicólogo não respondeu. Olhou para a delegada, que estava posta na sala, de braços cruzados. Seus cabelos castanho-escuros estavam soltos, caídos por seus ombros, dando a ela uma aparência aterrorizadora, de poder explícito.
Que ela tinha. E não tinha levado tão a sério.
— Você precisa me tirar daqui, disse, a voz baixa, olhando para Julie de lado — Eu não matei a . Eu juro pela minha alma que não matei a !
A afirmação dele soou quase como um pedido de socorro.
— Julie, poderia nos dar um pouco de privacidade? — perguntou , olhando-a, com sua voz inalterada. A morena assentiu com a cabeça, cruzando os braços, e partiu sem hesitar. Era como se só tivesse ido ali para conferir o reencontro deles.
E para mostrar que ela estaria observando-os.
Quando Julie deixou-os sozinhos, não deixou de falar em sussurro. Parecia que, para ele, o fato de estar em uma cela implicava imediatamente que estava precisando de ajuda disfarçada.
— O que houve? No telefone, você só pediu para eu vir — falou.
passou as mãos pelos cabelos, preocupado.
— Ontem, no hospital. Eles fizeram um rebuliço. Foi ridículo, cara. Na frente de todo o hospital, eles me fizeram passar vergonha no meu emprego! Vou processar essa merda assim que sair. Disseram que eu sou suspeito de ter matado a e que tenho pouco tempo para achar um jeito de me declarar inocente, senão, vou para julgamento e posso ser preso para valer.
, relaxe. Não te disseram mais nada além disso?
— E precisavam? — o psicólogo apontou para si mesmo e para o chão, lembrando onde estava — Não parecem ser pessoas de muitas palavras.
— Te garanto que só na aparência.
— A única que pareceu estar a fim de me ajudar um pouco, de me ouvir, é aquela ruivinha. Qual o nome dela mesmo? Uma de olhos verdes.
— Marla. Marla Bronx.
— Ela é uma gata, cara. Já pegou?
— Foco, .
— Ela pareceu flexível. Digo, assim que arrumarmos um álibi, precisamos falar é com ela. A delegada parece que chupou limão, quando me vê.
— Aposto que deve ser pelo seu jeito cavaleiro de ser. Mas relaxe. Vamos arrumar um jeito de te tirar daqui cedo.
comprimiu os lábios, balançando a cabeça, como que vindo com más notícias.
— Aí que está, cara. Eu não pedi para você vir. Pedi para você e virem.
— E ela veio — respondeu um pouco irritado, diante da falta de consideração de em o chamar e considerar sua ajuda irrelevante — Só não veio até aqui. Teve que pegar algumas coisas dela em outro lugar. Não acho que a liberem de entrar aqui.
— Ela que pode me tirar daqui. Você precisa falar com ela.
— Eu falo. Depois volto aqui, mas duvido que ela possa vir. Vamos dar uma olhada no caso e procurar furos para te inocentar. Não se preocupe, nós vamos dar um jeito e tirar você daí.
apenas assentiu. Sabendo que não havia mais nada a ser dito, saiu do espaço, coçando a nuca, questionando sua última afirmação.

Havia uma leve confusão no corredor. Aparentemente, alguém tinha pagado a fiança de uma garota que estava em uma das celas, então, ela estava sendo liberada.
A coisa era que era o ‘alguém’ e Zoe era a ‘garota’.
Julie e Marla estavam de braços cruzados na recepção da delegacia, esperando. As duas, ultimamente, eram unha e carne. Andavam juntas, falando de casos ou não, almoçando... não sabia se considerava isso uma ameaça ou não.
Escoltada por um policial, Zoe se encaminhava para a saída. Sorria com o canto do lábio erguido, andando calmamente com as mãos atrás do corpo.
Não poderia ficar lá por mais de uma semana. Mesmo que ninguém fosse vê-la ou pagar sua fiança, não poderia ficar mais de uma semana. E estava quase completando estes sete dias.
estava de pé, os braços cruzados, no canto da delegacia. Vestia uma blusa social branca, de seu uniforme (que ela nunca vestia, mas sempre deixava uma muda de roupas na sala de Julie, para o caso de precisar trocar, por conta de alguma mancha). apareceu ao seu lado, quando voltou da cela de . Ele não disse nada, mas seu rosto já expressou a incredulidade por Zoe estar sendo liberada.
Era óbvio que nem todo mundo sabia que quem tinha pagado a fiança. A informação tinha ficado restrita apenas à Julie, e ao gordo dos pagamentos. Este que é completamente irrelevante à história.
— Alguém veio buscá-la? — perguntou, fitando a garota andando para o lado de fora.
fez que não, descruzando os braços e seguindo Zoe. foi ao seu encalço, curioso para saber o que estava acontecendo. Julie abriu a porta e foi com a jovem loira para o lado de fora, descendo as escadas.
e não sabiam de alguma vez que a delegada tivesse ido, pessoalmente, levar um detido para fora. Julie estava levando seu próprio lixo para a rua.
E, com certeza, não estava nem um pouco feliz.
pagando a fiança de Zoe era um deboche alto demais para se ignorar.
O céu estava nublado, mas não parecia que iria chover. tinha passos rápidos, deixando a porta de vidro fechar quase que em cima de , enquanto ambos seguiam Julie.
— a delegada chamou.
A detetive foi prontamente em direção às duas. ficou de longe, observando, de perto da porta, enquanto as três mulheres estavam no fim da escada.
Julie tinha Zoe segura pelo braço e jogou a menina para a detetive, assim que esta se aproximou. A delegada, então, distanciou-se de ambas, como se estivesse querendo fazê-lo desde sempre, com algum tipo de aversão. Zoe tinha seus olhos fechados, e abriu-os lentamente.
Verdes, brilhantes.
fitou-a, séria, com os olhos apertados.
— Podem deixar-nos a sós? — perguntou , com as mãos nos quadris.
Julie olhou para e começou a subir as escadas, para que ambos entrassem na delegacia novamente.
— Espero que não vá se arrepender do que fez, — disse a delegada.
— Espero que o que fiz tenha valido a pena — falou a detetive, inexpressiva.
A jovem não respondeu. Estendeu a mão, mas não para apertar a de .
A porta de vidro foi fechada, separando as duplas.
— Voltem ao trabalho. Se importar com isso só vai trazer menos produtividade para essa divisão — Julie Stoner falou, alto.
Todos viraram para o que estavam fazendo, fazendo a delegada suspirar.
— Algo grande está acontecendo aqui, — ela disse subitamente, fazendo prestar atenção nela, que prosseguia pensando alto — Algo que posso sentir o cheiro, mas não consigo saber de onde vem. Entende?
Ele fez que não e ficou por isso mesmo.
O cheiro ficou pior ainda quando ele começou a ser tomado por pólvora, do lado de fora da delegacia.

Todos que estavam ali, sem exceção, correram para onde e Zoe foram deixadas. Só tinha ali, caída no chão, com a barriga contra o asfalto.
! — gritou Julie, indo socorrê-la.
Não havia uma única gota de sangue. As roupas de estavam intactas, a não ser por um único buraco de bala, nas costas de sua blusa.
— O que aconteceu? — Julie perguntou, ajoelhando-se ao seu lado.
não conseguiu dizer nada. Nem se moveu. Seus olhos estavam bem abertos, vidrados, e sua respiração estava lenta, procurando por ar.
Tudo tinha acontecido muito rápido.
Julie tentou levantá-la, mas não conseguia ter forças para permanecer erguida. Tentando se levantar, apoiada em seus braços, caiu novamente, preferindo girar e ficar virada para cima, fitando o céu.
— O coldre, Julie — observou, tentando não gaguejar. Apontou para o acessório vazio no quadril de , por cima de suas calças pretas.
— Você estava armada, ? Responda-me, você estava armada?! — a delegada perguntou, a voz cada vez mais alta.
começou a arfar.
— Deixe-me. Deixe-me, Julie — ela pediu, com as mãos trêmulas.
Julie ignorou-a, seu rosto em uma careta de incredulidade.
— Não posso acreditar que fez isso. Sabe que nunca pode se armar se estiver sozinha com um suspeito. O que deu em você?
apertou os olhos, seu arfar cada vez mais alto.
— Julie, guarde as perguntas para depois — sugeriu.
— Guarde suas sugestões para alguém que realmente as ouça, — a arrogância na voz de Julie foi pouco discreta.
— Vou colocá-las no jornal, quando for falar da sua má conduta ao ver uma policial ferida, e aposto que centenas de pessoas irão ouvir.
A delegada engoliu em seco, fitando com seus olhos de oliva. Apenas olhou para e, com calma, murmurou:
— Para onde ela foi?
A mão direita de ergueu-se levemente, apontando para a subida da rua, na direção norte em relação ao seu corpo. Julie olhou para trás e gritou, se levantando:
— Quero duas viaturas na direção norte! A garota não pode ter ido para muito longe. Só quero que achem aquela menina!
Entrou na delegacia, deixando com . Os outros curiosos que estavam ali não estavam perto o suficiente para saber o que estava havendo, mas entenderam que não deveriam se intrometer, e preferiram seguir as ordens de Julie, voltando ao trabalho.
Preocupados com ela? Por favor. Eram apenas curiosos.
murmurou, tocando sua mão. pareceu relaxar por um momento, fechando os olhos, respirando com mais calma, e em alívio — O que aconteceu?
— Zoe tirou a pistola — a policial fitava o vazio, o céu nublado e uniforme — Ela deu um tiro nas minhas costas. Ela correu, e sumiu. Ela simplesmente sumiu.
— Não se feriu? — ele franziu o cenho.
A mão fraca de subiu aos botões de sua blusa, abrindo os dois superiores. reconheceu um colete à prova de balas ali, sem dificuldades.
Mas seu cenho continuou franzido.
Havia um furo do tamanho do buraco na camada de ozônio, naquela história.
O tiro foi nas costas. Houve um tempo entre Zoe ter pegado a arma e ter virado.
mentiria sobre isso?
— Como Zoe pode ter te atingido pelas costas, e ter pegado sua pistola, sem que você tivesse percebido?
Ela olhou-o de lado, erguendo uma sobrancelha. Ergueu o indicador, firme, e levou-o à frente dos lábios, sibilando um baixo ‘shh’ para .

A noite caiu rápido no dia em que o sol não chegou a raiar. sabia que não poderia ficar muito tempo na delegacia, então, deixou-a em sua própria casa, enquanto escrevia matérias no trabalho. Ficara encarregado por Jameson a fazer um artigo à parte, sobre violência juvenil.
Ironia? Provável, mas estava cansado demais para pensar sobre o assunto.
Quando chegou em sua casa, estava sentada à mesa, com um bloquinho na mão, como ele já tinha visto há algumas semanas. Não pareceu reparar quando ele entrou.
bateu a porta com o pé, deixando-a escapar.
— Deus! — murmurou, dando um salto na cadeira — Você me assustou.
— Desculpe. Mas estar preso não te assustou?
Caminhando para unir-se a ela, puxou uma cadeira em volta à mesa e sentou-se.
O bloco não tinha nada escrito.
— Honestamente, não. Em um caso assim, é o suspeito principal. Vão espremer até conseguirem uma confissão.
— Mesmo ele sendo inocente?
— Mesmo se ele fosse o presidente. Eles acham que, quando se tem um suspeito em potencial, isso é sinônimo de culpa. Vão incitar uma confissão. Um mínimo ‘já quis socar aquela vagabunda’ pode ser suficiente.
é bem explosivo quando o colocam sob pressão. Pode acabar tendo problemas.
— Então manda um calmante para ele. Qualquer ‘explosão’ pode fazê-lo ir para o júri.
expirou pesadamente.
— Nem parece que está sem trabalhar — observou, levantando.
— Minha cabeça não para de trabalhar. Não é culpa minha. Acho que meu cérebro não fica de férias.
Ele riu, abrindo a geladeira e pegando o queijo, e levou-o para a mesa. Ao sentar-se, pegou também os pratos no vão debaixo da mesa.
— E alguém conseguiu algo com Zoe? — ela perguntou.
riu ao colocar um prato para .
— Claro que não. Estão indo para o lado errado.
Os pães de cima da mesa estavam com uma cara bonita, como se tivessem acabado de sair do forno. Pegou um e o queijo, tentando cortá-lo. Estava tão duro que precisou deferir uma facada forte, para conseguir cortar.
— Por que você está tentando matar o queijo? — perguntou.
riu, suspirando.
— Algo grande está acontecendo aqui. Mas nem todo mundo consegue ver — fez uma pausa — Não falo com Ramona desde ontem. Ela deve estar maluca.
— Ligue para ela.
— Já tentei. Não tem ninguém em casa.
— Ela está na sua casa? — franziu o cenho — Digo, como hóspede?
— Mais ou menos. É complicado. Devo avisar a ela onde estou.
comeu um pedaço do pão, pensando no que Ramona estava pensando sobre aquilo.
não puxara o assunto. Muito menos ela. Era, no entanto, algo bastante pertinente.
— Você não se preocupou com ontem à noite?
Aquilo não era, de forma alguma, um tópico agradável. Para nenhum dos dois. Se há uma interrogação, uma pergunta, porém, deve haver uma resposta. E com seu ofício, deveria dá-la.
— Honestamente? Sim, muito. Por alguns instantes, temi pela minha vida. Não sei como você fez as luzes se apagarem, e quando parafraseava O Iluminado, percebi que não era uma brincadeira. Eu não a reconheci. Sua amiga estava ali, ela te transformou. Eu via vestígios seus, mas não via você.
— Me sinto mais forte. Ramona é como sempre quis ser. Quero ser ela.
— Ela enfraquece os outros para se sentir mais forte.
A faca caiu da mão de , batendo no prato. Colocou a mão na testa, olhando para a louça vazia.
Você é grotesca.
— Vou ligar para Ramona mais tarde.
— Avise que não vai passar a noite em casa.
ergueu os olhos e sorriu amarelo para , ajeitando o cabelo.
— Você sabe escolher as palavras, .
— Tenho meus momentos.

beijou seu rosto, delicado. Tirava mechas de seu cabelo de sua face, colocando-as atrás de suas orelhas, segurando a moça pela nuca.
Mantendo-a ali.
Era sua.
Eram apenas aquilo, em uma via de mão única.
Era noite, mas não muito tarde, quando tinha novamente em seus braços, enquanto ambos estavam de pé, frente a frente, no quarto de . A chuva caía torrencialmente.
Observou-a no fundo de seus olhos, antes de selar seus lábios em um delicado e longo beijo, seus polegares massageando as bochechas de com carinho.
Ela vestia novamente o vestido, já que a blusa branca tinha ficado para o exame de balística. rápida e agilmente ergueu o tecido leve, fazendo-o escorregar pela pele de porcelana de , deixando-a logo como ele gostava de admirá-la.
As curvas de seu corpo, seus seios fartos, delineados no belo sutiã, sua cintura fina e seu quadril deixavam-na como um violão. Nada amava mais em seu corpo do que suas coxas e quadril: assim que a deixou despida, agarrou-se em seus ombros, assim que puxou-a pela cintura, fazendo seus corpos se encontrarem.
beijava-o com ternura, como poucas vezes já fizera com qualquer namorado ou o que fosse. Todos a queriam como um troféu, mas, para , ela era o troféu.
E não precisava de mais ninguém além dele.
Guiava em direção à cama, mas antes que ela se sentasse, girou e trocou de posição com , rindo. Brincava com seu cinto, abrindo-o e desabotoando a calça. Empurrou-o pelo peito, fazendo cair deitado na cama, com o zíper e botão da calça abertos.
Ela continuou de pé, em frente a ele. O rapaz sorria, quando erguia-o e o fazia se sentar, puxando-o pela blusa.
— Achei que tinha algo para fazer — ele murmurou, segurando por seu quadril, envolvendo-a com suas mãos. Ela estava de pé, ficando levemente mais alta que ele, com seus cabelos caindo contra seus seios protegidos por um sutiã branco, rendado.
— Isso aqui é bem mais importante.
Beijou , sugando seu lábio inferior, puxando-o para si, enquanto abaixava seu corpo, até se ajoelhar no chão. Ao momento em que procurou os lábios de novamente, mas ficou apenas com a boca entreaberta, respirando lentamente, com os olhos fechados, sabia o que era aquilo.
A calça era bastante folgada, o que não deu a trabalho algum. Ajoelhada aos seus pés, em um ato de retribuição pela noite anterior.
As pernas de estavam para fora da cama, e logo abaixou suas calças, livrando-o da peça, quando os jeans caíram em seus pés. Ao abaixar também a cueca vermelha de , mentalmente, acrescentou:
‘Esse é meu modo de retribuir um belo favor’.
Segurou quando seus lábios o circundaram, o músculo de sua língua massageando-o, tendo-o todo para si, enchendo-se dele. O som alto e animal que soltou em seguida foi a resposta.
— Continue.
Lenta, tinha o controle. Torturá-lo era a melhor maneira de fazer tudo mais agradável. Os movimentos calmos, bem direcionados, de seu músculo da língua ao massageá-lo eram tão controlados que temeu ter que acabar com a festa logo no prólogo.
Os olhos de estavam fechados, circulando com sua língua, e sua mão segurando-o. Estava quente como seu sangue deveria estar, correndo a toda velocidade por cada mínima veia de seu corpo.
Outro som animalesco foi ouvido quando encheu mais a boca.
Tomando velocidade, cada vez mais rápido.
De verdade, cada vez mais real.
Coisas morrem para que nasçam outras.
segurou os cabelos de , mas, impressionantemente, não a fez afundar ainda mais. Em vez disso, puxou-a devagar, fazendo-a soltá-lo aos poucos, terminando de sentir o mínimo gosto de .
— Venha — ele chamou.
chegou um pouco para trás, apenas com sua camisa. foi até seus lábios novamente, enquanto o rapaz a puxava cada vez mais para si, deixando os cabelos da moça embaraçados, descendo a calcinha de antes de fazê-la subir em seu colo. Assim que envolveu com suas coxas, ajoelhada em cima de seu quadril, puxou a blusa do jornalista, fazendo-o ficar nu rapidamente.
As mãos de estavam bem posicionadas, nas laterais de seus quadris, quando sorriu, voltando a beijá-lo. Logo, ela mesma desfez-se de seu sutiã.
A chuva continua, mas ambos estavam querendo correr demais em uma tempestade.
Um carro vazio no dilúvio é tão irrelevante quanto uma casa vazia em um incêndio?
Segurava pelo ombro e pela nuca, beijando-o e indo por cada centímetro seu. Seus quadris iam e vinham, em movimentos uniformes, torturantes.
Frente, e trás.
Cada vez mais rápidos.
Ele guiava, mas ela sabia a intensidade.
Controle e força.
Chuvas e trovões.
A batida, o encontro.
Quando afundou seus quadris em , ele fez o som de sua glória.
Boom.
A quebra.
Frente a frente.
Em movimentos lentos, os quais apenas coordenava, o deixava cada vez mais entregue a si.
O acidente.
Uma curva em falso.
Na oitava investida, atingiu seu ápice.
Algo morria naquele instante.
deitou-se na cama, e sentou ao seu lado, contra a cabeceira, enquanto via o peito de arfar.
Em um breve instante de silêncio, foi a primeira a dizer:
— Isso foi algo que não pensei em fazer.
— Quando você fizer planos, devo explodir — ele murmurou, levantando e ficando sentado na cama.
riu. Esse instante, entretanto, foi breve.
— Vou precisar ir para casa logo.
olhou para ela, virando o corpo, deitando da barriga para baixo na cama, apoiando em seus cotovelos.
— Fiz algo de errado?
— Não, ! Não, imagine — ela falou, sorrindo — Aliás, você fez muito certo. O caso é que... é complicado. Não quero deixar Ramona sozinha por tanto tempo.
— Por que não? O que há?
— Ela precisa de mim, eu preciso dela. Não quero que ela ache que esqueci dela.
— Ela não vai achar, , que você a esqueceu só porque não apareceu no dia seguinte — ele esticou a mão, colocando uma mecha do cabelo de atrás da orelha.
— Não é bem isso...
— Você quer ir vê-la porque ela estava por perto enquanto você se sentia sozinha?
Ela tentou responder, mas não conseguiu desmentir rápido o suficiente.
— Te peguei agora, hein — ele disse, acompanhado com seu sorriso encantador.
riu sem graça. tocou sua mão, pedindo para que ela se deitasse. Ele próprio acomodou-se, e deitou-se em cima de seu braço, enquanto entrelaçava seus dedos com os dele, e ele ficava levemente mais alto que ela.
— Sei que isso pode soar estranho, mas me sinto diferente quando estou com você — ela falou, baixo.
— Soa redundante, na verdade. Eu já sabia — ele retrucou, rindo, beijando a testa de .
Ela sorriu amarelo. Pensou, por um instante, no que dizer.
Percebeu que isso era totalmente desnecessário e preferiu dizer a verdade:
— Lembra-se de quando estávamos nos conhecendo, e eu sempre fazia jogos de palavras, quando nós falávamos?
— Sim, claramente.
— Lembra-se também de como passei a deixar de fazer isso, quando viemos morar aqui?
— Lembro...
Ela olhou-o.
— Eu gosto de fazer isso. Me deixa acima das pessoas. Mas com você, não queria. Eu via que isso era uma atitude estúpida, desnecessária quando você não conhece ninguém, e lhe dá uma má impressão. Pessoas não gostam de você, quando você faz isso. É uma atitude de pessoas ruins.
Ele não respondeu, apenas olhou-a esperando o resto.
— Depois que o conheci melhor, vi que não precisávamos disso. Abandonei isso. Nos falávamos como amigos, e isso me fez ser verdadeira, quando estou com você. Dispensava minha face de mulher má, independente, que não precisa de amigos ou colegas. Nunca mais destratei quem não merecesse, quem não me conhecesse bem. Acho que estou chegando a algum lugar. O mundo precisa de mais pessoas assim, pessoas para despertar a bondade em outras. Entende, ? Entende o que quero dizer?
— Na verdade, não.
sorriu. Levantou o rosto, olhando-o bem em seus olhos, e disse, com a voz límpida, e mais real que jamais fizera:
— Você me faz querer ser uma pessoa melhor.
Ele não tinha palavras. Beijou-a forte, mas logo os separou, porque precisava dizer:
— Estou lhe dizendo. Eu nunca vou deixar você se sentir sozinha de novo. Eu prometo.
Acariciou seu rosto, beijando-a de novo.
, quando deixei a casa de meus pais, sabe o que meu velho me disse? Já lhe contei?
— Não, nunca.
— Ele me disse que, quando vamos dizer ‘eu te amo’ a alguém, é algo incontrolável. É algo que demoramos a dizer, mas, quando dizemos, não conseguimos parar. É algo automático. E agora, acabei de perceber que ele estava certo.
Ela delineou um leve sorriso.
— Você me ama, ?
— Eu te amo. Eu te amo de verdade. Você me fez ver que amor não significa passar cada mínimo segundo juntos, mas fazer cada pequena coisa, cada frase, cada movimento parecer especial o suficiente para ser lembrado.
mordeu o lábio.
— Isso dói?
— Menos do que eu esperava, mais do que eu gostaria.
Ela comprimiu os lábios. Seus olhos ardiam. O que eram aquelas gotas vazando por seus olhos?
— Você sabe escolher as palavras, .
— Já disse, . Tenho meus momentos.
Seu sorriso encantador veio novamente, e sentiu que era aquele sorriso que ela queria ver pelo resto de sua vida.

acordou quase à uma da manhã, enquanto a chuva forte caía contra Longview. Correu para seu celular, que estava em cima da mesa de trabalhos de , e viu a mensagem que piscava na tela.
‘Venha para casa. É urgente. De verdade’.
Não tinha remetente, e exatamente por isso sabia quem era.
— ela chamou, cutucando-o no ombro — ! !
— O que houve, ? — o rapaz acordou, assustado, esfregando os olhos.
Ela correu até o vestido azul, caído no chão. Passou-o por cima da cabeça, vestindo-se.
voltou a chamar, quando a moça pegou suas roupas íntimas, deixadas no chão.
— Foi a Ramona. Ela me mandou uma mensagem, preciso ir para casa.
— Mas o que aconteceu? Por que essa urgência?
pegou sua bolsa deixou-a cair ao seu lado, enquanto colocava sua sandália desajeitadamente.
— Ela não disse. Deve ser algo bem importante mesmo. Eu disse que ela ia surtar.
levantou sem jeito e saiu do quarto. tinha vestido suas calças nesse meio tempo, e fora atrás dela, até a porta de casa.
— Me ligue para avisar que está tudo bem. Se não estiver, também — ele pediu, com a voz baixa, e sem fazer muitas perguntas. Tinha percebido que também não parecia saber de muito.
Dando um leve beijo de despedida em , saiu da casa, e olhou o relógio.
Duas e meia da manhã.
Agora, o maior desafio que ela poderia encontrar seria pegar um táxi.

A Singer Street estava deserta às três da manhã. Por ser uma rua residencial, o movimento costuma acabar às duas. O táxi parou bem na porta da casa de , e ela saiu rapidamente, abrindo a porta de casa e acendendo a luz imediatamente.
— Ramona? — perguntou.
As sandálias estavam largas em seus pés, o que a possibilitou tirá-las rápido.
A loira vinha da cozinha com o telefone na mão. Seus olhos azuis fitavam o vazio, e ela tinha o rosto de choque. Seus cabelos estavam soltos, desarrumados, e usava uma camiseta e shorts.
Não era a Ramona que conhecia. Estava frágil.
Algo bem grave tinha acontecido.
— Ramona — disse, tentando tocá-la no ombro para fazê-la sentar no sofá.
A loira afastou-se, olhando para , sem mudar sua expressão.
— Eles ligaram. Eles ligaram agora pouco, eles disseram que acabou.
— Quem ligou? O que acabou?
Ramona encostou as costas na parede, descendo o corpo e passando a mão no cabelo, colocando-o para trás, e com as unhas arranhando seu couro cabeludo no processo.
— Eles acabaram, . Os dois. De uma vez só.
abaixou-se, ficando de joelhos de frente para Ramona. A loira olhava para o chão, sem expressão.
A morte pairava acima das duas.
— Se existir destino, ele é um filho da puta — Ramona murmurou.
— Diga o que aconteceu. Estou aqui. Vou ficar aqui.
... — fechou os olhos — É o contrário. Eu estou aqui por você.
A detetive franziu o cenho.
— O que houve?
Ramona olhou para .
— Foi o caos. Ele chegou, . Nem eu nem você o vimos chegando.
Ramona comprimiu os olhos.
— Foi por culpa sua, . Foi você que causou isso. Foi a sua negligência.
recuou um pouco. A loira cortava palavras, pulava frases.
Espaços vazios.
O muro.
Ramona, eu estou aqui por você.
Mas a casa está vazia.

— Minha negligência?
A respiração de Ramona saía rápida e quente. Como um touro.
— Você não nos deu notícias há um dia. Ninguém sabia onde você estava. e tentaram te ligar e você tinha desligado o celular.
— Era uma coisa importante, Ramona. Vocês podiam ter ido à casa do .
— Você não estava lá quando eles foram. Os dois ficaram preocupados.
— O que aconteceu, Ramona?
Rápida, Ramona se levantou, olhando fixamente para . estava alerta, recuando, e assustada.
— Eles me mandaram ficar aqui, caso você aparecesse. Você nem olhava para o celular, eles se preocuparam e tentaram o Palácio da Cerejeira. A casa dos Durden. Acharam que você poderia estar lá.
— Ramona...
— Cala a boca, sua filha da puta! — a loira gritou, com os olhos marejados e a água começando a escorrer, trazendo consigo as manchas negras de maquiagem — Da última vez que você tinha sumido, você tinha sido sequestrada e quase assassinada. Eles ficaram preocupados com você, , mas não poderiam avisar à polícia. Por quê? — Ramona riu, cínica — Simplesmente porque você estava sendo dada como suspeita de assassinato.
— Mas eu estive na delegacia mais cedo, por que não podiam simplesmente perguntar por mim?
Ramona jogou o telefone na direção de . A detetive conseguiu desviar a tempo, com o aparelho se estilhaçando contra a parede.
— Porque se falassem que você sumiu, a polícia podia achar que você fugiu.
— Onde estão? Onde estão e ?
Passando as costas da mão no nariz, Ramona fungou.
— Estava chovendo, quando eles saíram. Foi um pouco depois do jantar. Eles foram para o Palácio da Cerejeira. Me ligaram mais ou menos meia noite. Era uma viatura policial.
— Uma viatura? — não entendia onde ela iria chegar.
— Houve um grave acidente em uma das ruas próximas ao Palácio da Cerejeira. Um carro tinha perdido o controle do volante, por causa da chuva, e bateu contra um caminhão. O caminhão fez o carro girar na pista, e ser atingido de lado por outro. O motorista do caminhão e do segundo carro estão bem, sem ferimentos graves.
sabia bem aonde aquilo iria acabar.
Uma cena em mente, uma cena projetada, sem fim.
Não era contínua. Simplesmente não tinha final.
Frente a frente.
e morreram na hora. A polícia achou o cartão de visitas de , e ligaram para o número residencial. Me avisaram o que aconteceu. Tive sorte de ter conseguido falar com você.
— Eles... — tinha os olhos bem abertos, mirando o chão. Ramona chorava, mas continuava com seu sorriso cínico.
— Eles estão mortos, . Os dois. Eles estavam do mesmo jeito, do exato mesmo jeito que estavam desde que cheguei. As mesmas cores de roupas. E eles morreram por sua culpa.
— Minha culpa? O acidente foi minha culpa?
— Se você não fosse tão egoísta, eles não teriam que te procurar a cidade inteira. Eles estão mortos, . Mortos! — sua voz era firme e bem alta, quase rouca, enquanto tentava engolir o choro — ficou com o rosto estilhaçado por causa do vidro, que quebrou com a batida. O carro ficou bem amassado, e quebrou o pescoço com o impacto.
Fez uma pausa, fungando.
— Eles estariam aqui, se você não tivesse sido tão egoísta. Você só estava pensando em você mesma.
— Foi você que me disse para pensar mais em mim! — apontou para Ramona, com seus olhos marejados e a voz desafinada.
— Eu falei para você pensar mais em si mesma, não para esquecer seus verdadeiros amigos, que sempre estão e sempre estiveram aqui por você! — a loira gritava, chegando cada vez mais perto de — Falei para você esquecer os que não se importam com você, que não querem seu bem, para você agir por si mesma, porque você é a melhor. Mas vou te dizer uma coisa, : o melhor só tem uma certeza, e é a de que ele não é perfeito. Quem acha que é perfeito é o mais tolo de todos. E eu não estou aqui para você ser a mais tola de todos!
Ramona pegava as almofadas do sofá e as lançava contra as paredes. não tinha reação: apenas observava sua amiga tão confidente, tão estável, perder o controle.
Algo morria naquele instante.
A curva em falso.
Era real.
Cigarros jogados para cima, a mesa de centro sendo virada, uma mulher perdendo o controle. A mais humana das mulheres, sendo um animal.
O lado feio.
O lado escuro da lua.
É incrível como, para termos um dia de paz, precisamos lutar um ano de guerras.
— Você estava no ? Não minta para mim, você estava no ? — perguntou Ramona, olhando subitamente para .
— Eu...
Mais uma almofada correu até o outro lado da sala, esta em direção a .
— Você deveria ter nos dito. Deveria se importar com quem se importa com você.
— Ramona, não haja como se eles fossem sua família. Você apareceu e ficou.
A loira franziu o cenho.
— Está me chamando de parasita?
não respondeu.
— Eu fiquei porque fui bem recebida. Porque queria estar com vocês. Eu queria ajudá-los, mantê-los bem. Eu não sou um parasita.
Uma pausa.
— Eu não sou um parasita.
engoliu em seco.
— Me diga por que parece que ele é a única pessoa que você já amou de verdade.
— Porque ele é.
— E ?
— São amores diferentes.
— Quero que me diga o que você fará se eu for embora.
A detetive não conseguia responder. Limpou a garganta, e com um suspiro, murmurou:
— Eu vou sentir sua falta.
— Mas está melhor sozinha?
assentiu.
— Quero que saiba, , que acabou de perder a pessoa que mais se importava com você.
Ramona andou com passos lentos em direção à moça. Quando alcançou-a, abraçou forte a detetive, pelo pescoço. Afundou o rosto em seu ombro, e assim permaneceu, por vários segundos.
A velocidade.
Por favor, faça tudo ficar mais lento.
Não consigo acompanhar.
— Acho que fiz o que precisava fazer. Agora, você realmente consegue se virar sozinha.
Deixou de abraçar e foi até a porta. Abriu a maçaneta e saiu.
tinha permanecido no centro da sala, em choque. Havia muitos espelhos ali, mas todos a refletiam, e a ela apenas.
Ramona era só uma lembrança.
Demorou quase meia hora para assimilar tudo. Parada, imóvel, tudo correu novamente. Sem fim, em uma curva em falso.
Foi até a porta. Não havia nada na rua, ninguém.
Apenas uma pequena caixa azul, em cima do tapete. Um cubo, pequeno, com uma única fechadura em toda sua estrutura. Quase uma caixinha de músicas.
Zoe? Provável. Mas não queria pensar em mais nada. Foi para a cama e dormiu, incapaz de chorar. Não queria levantar da cama, não queria ninguém. Só queria seu melhor amigo de volta.
‘Eles estavam do mesmo jeito, do exato mesmo jeito que estavam desde que cheguei. As mesmas cores de roupas’.
.
As exatas mesmas roupas. Desde um pouco antes de Ramona ir para sua casa, ambos só usavam as mesmas cores. Como se tivessem pausado no tempo.
Se puderem me ouvir, quero que saibam que sentirei muito suas faltas.

De manhã, acordou e a casa continuava vazia. Levantou, e foi ao banheiro. Acendeu a luz, com os olhos ainda fora de foco. Passou a mão pelos cabelos, apertando os olhos, enquanto virava o rosto para o espelho.
Não conseguia enxergar bem, mas diferenciava sua própria imagem das manchas vermelhas. Não era sangue; estava mais para um batom. Mas o vermelho era significativo.
Um bilhete, um belo recado.
‘Só poderá haver um.’
Quando olhou para frente, havia um grande ‘X’ na altura de seu rosto. Exatamente.
Ele foi avisado, isso não poderia negar.
A dama de negro o observava e, se dependesse dela, por pouco tempo. Logo, eles se tornariam amigos de eternidade.

You don’t form in the wet sand… You don’t form at all… I do!


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