02. Drag Me Down

Finalizada em:08/01/2026

Capítulo Único

Abril chegou silencioso, quase irônico, como se o mundo inteiro tivesse combinado de falar baixo enquanto e Harry Styles viviam um refúgio que não constava em nenhuma agenda. Do lado de fora, o tempo parecia suspenso; do lado de dentro, tudo acontecia de uma vez. O isolamento não os afastou do mundo — empurrou-os um para dentro do outro. Sem palcos, sem voos, sem fotógrafos. Apenas eles, e aquilo que sobrava quando todas as versões públicas eram deixadas na porta.
Os dias começavam tarde, como se o relógio também tivesse aprendido a respeitá-los. O sol entrava pela varanda em faixas douradas, iluminando a poeira no ar. gostava de sentar no chão, costas apoiadas no sofá, caneca de café esquecida ao lado, o caderno aberto sobre as pernas. Harry ficava descalço, camiseta velha, cabelo bagunçado de propósito, violão apoiado no colo como uma extensão do corpo. Às vezes, o silêncio era confortável — denso, mas bom. Outras vezes, ele era preenchido por conversas que começavam sem rumo e terminavam em confissões.
Falavam do passado com cuidado, como quem pisa em terreno frágil. Dos medos que não apareciam em entrevistas. Do futuro, esse lugar indefinido que os dois evitavam nomear, mas que insistia em existir entre uma frase e outra. escrevia como se tentasse organizar o mundo em linhas tortas; Harry a observava, atento aos detalhes que ninguém mais via — a testa levemente franzida, o lábio preso entre os dentes, o jeito como ela parava de escrever quando alguma ideia doía mais do que deveria.
Era nesses momentos que ele sentia uma certeza quase arrogante de que nada poderia puxá-lo para baixo.
Ela ria quando ele cantarolava pela casa, usando a colher de pau como microfone, desafinando de propósito, rodopiando no meio da sala só para arrancar dela aquele sorriso específico — o que começava tímido e terminava aberto, verdadeiro. À noite, escolhiam filmes antigos, daqueles que ninguém mais lembrava, dividiam o cobertor no sofá e inventavam diálogos alternativos para as cenas ruins. Harry desenhava coisas invisíveis nas costas dela com a ponta dos dedos — estrelas, palavras soltas, promessas que nunca eram ditas em voz alta.
— Eu amo você — ele dizia quase sempre no meio de algo banal, como se a frase precisasse existir ali, no cotidiano, para não se perder.
— Eu sei — ela respondia, virando o rosto para encará-lo, sorriso pequeno, mas firme. — E eu amo você também.
Não era exagero. Não era urgência. Era respeito. Era cuidado nos gestos pequenos — o cobertor ajeitado quando ela dormia no sofá, o café feito do jeito que ele gostava sem que precisasse pedir. Era carinho. Era real. Tão real que, às vezes, assustava mais do que qualquer caos conhecido.
Mas havia rachaduras. Pequenas. Invisíveis. Silenciosas como o próprio mês que passava.
Harry sentia, em certos dias, que carregava um peso que não dividia. Havia momentos em que ela se perdia do nada, o olhar distante mesmo estando ali, presente fisicamente. Ele perguntava, com cuidado, como quem não quer invadir. Ela sorria — sempre esse sorriso — e dizia que estava tudo bem. E ele acreditava. Não por ingenuidade, mas porque queria acreditar. Porque admitir o contrário significaria aceitar que nem todo amor é suficiente para iluminar os cantos escuros.
E assim, enquanto abril avançava devagar, eles continuavam naquele abrigo improvisado, ignorando que até os silêncios mais doces podem esconder fissuras — e que algumas verdades não fazem barulho ao chegar.
O convite para reunião chegou sem peso algum — e talvez fosse exatamente isso que o tornasse tão inquietante.
Uma mensagem curta, quase burocrática demais para algo que envolvia tantos anos de história: revisar pendências antigas, encerrar contratos arquivados, colocar um ponto final em assuntos que “já não tinham impacto no presente”. Nada urgente. Nada emocional. Pelo menos no papel. Louis Tomlinson estaria lá pessoalmente. Os outros entrariam por chamada de vídeo. Zayn Malik não participaria. Nunca participava.
Harry Styles aceitou mais por exaustão do que por real vontade. Havia algo em fechar ciclos que parecia necessário — mesmo quando o corpo inteiro avisava que aquilo não terminaria bem.
A sala de reuniões era um retrato fiel do passado que ele acreditava ter superado. Fria. Impessoal. Sem identidade. As paredes claras demais refletiam uma luz dura, pouco acolhedora. A mesa grande ocupava espaço como se quisesse impor autoridade. As cadeiras rangiam a cada movimento, denunciando qualquer desconforto. O cheiro de papel velho misturado com café requentado era familiar demais — o tipo de cheiro que não se esquece porque nunca significou coisa boa.
Harry sentou-se sentindo-se um intruso na própria história.
Ele não era mais aquele garoto disposto a aceitar tudo em troca de estabilidade. Ainda assim, era impossível ignorar a sensação de que uma versão antiga dele estava ali, sentada em algum canto invisível da sala, assistindo a tudo em silêncio.
Um dos agentes falava sem parar. Datas. Valores. Ajustes. Justificativas ensaiadas demais para soarem honestas. Louis permanecia quieto ao lado de Harry, braços cruzados, postura rígida. Observava tudo com atenção excessiva — o tipo de atenção de quem já havia aprendido a desconfiar antes mesmo de saber o motivo.
Na tela à frente, os outros rostos apareciam divididos em pequenos quadrados. Pixelados. Distantes. Um deles bocejava discretamente. Outro mantinha o microfone no mudo, mas a expressão denunciava tédio. Era claro: para eles, aquilo era só mais uma reunião.
Harry se distraiu.
Não por falta de interesse, mas por necessidade. Precisava ocupar as mãos, ancorar o corpo em algo físico. Passou os dedos pelos papéis espalhados sobre a mesa — contratos antigos, aditivos, termos que ele lembrava vagamente de ter assinado sem ler, confiando demais, questionando de menos.
Até que um nome saltou da página.
.
Foi como um impacto seco no peito.
O tempo desacelerou de forma quase violenta. O coração dele falhou por um segundo — aquele intervalo estranho em que o corpo tenta decidir se aquilo é real ou se ainda dá tempo de recuar. Depois, disparou rápido demais, forte demais. Ele franziu a testa, aproximou o papel, convencido de que estava interpretando errado.
Leu uma linha. Depois outra. E outra.
Abril de 2015.
A data parecia gritar.
O ar da sala mudou. Ou talvez tenha sido ele que deixou de respirar. As vozes continuavam, mas soavam abafadas, distantes, como se viessem debaixo d’água. O papel tremia levemente entre seus dedos, agora úmidos de suor.
Era um acordo.
Formal. Frio. Calculado até o último detalhe.
Entre ela e a Modest. Um relacionamento contratual. Duração estipulada: um ano. Pagamentos mensais. Um valor final descrito com precisão quase cruel. A decisão de continuar ou não — dela. Cláusula de sigilo. Multa milionária. Exceções: apenas uma amiga. .
Cada palavra parecia arrancar algo de dentro dele.
Na tela, um dos meninos franziu o cenho, percebendo a mudança abrupta no rosto de Harry. Outro inclinou-se para mais perto da câmera, como se tentasse ler à distância o que havia acontecido. O silêncio começou a se espalhar também ali, desconfortável, pesado.
Louis percebeu imediatamente.
Ele se inclinou levemente para o lado de Harry, tentando enxergar o documento. Bastou um segundo. Um único segundo. O maxilar dele se contraiu, o olhar escureceu. Não disse nada — mas o corpo inteiro reagiu. Endureceu.
Harry sentiu o estômago revirar. A náusea subiu devagar, inevitável. As memórias vieram em avalanche: os sorrisos dela, os toques cuidadosos, as noites em que acreditou, sem qualquer reserva, que estava vivendo algo genuíno. Tudo agora se misturava àquelas linhas frias no papel, como se duas realidades incompatíveis colidissem dentro dele.
— Isso… isso aqui tá errado — murmurou, a voz falhando antes mesmo de concluir a frase.
Um dos agentes reagiu rápido demais. Estendeu a mão para puxar o papel de volta — um gesto automático, treinado, quase defensivo.
Tarde demais.
Harry se levantou de supetão. A cadeira arrastou no chão com um barulho alto, agressivo, quebrando de vez a falsa normalidade da sala. Na chamada de vídeo, os rostos se mexeram ao mesmo tempo. Um deles arregalou os olhos. Outro abriu a boca, mas não disse nada.
— Isso é sobre mim? — Harry perguntou, a voz baixa, carregada de algo que ninguém ali queria enfrentar. — Sobre ela?
Louis virou-se para os agentes, o olhar cortante, como se exigisse uma resposta imediata. Na tela, ninguém falou. Nenhuma tentativa de explicação. Nenhuma justificativa apressada. Nenhuma mentira confortável.
O silêncio respondeu por todos.
Ele não esperou mais nada.
Saiu da sala sem dizer uma única palavra, o papel ainda amassado na mão, como prova física de algo que jamais deveria ter sido descoberto daquela forma. Louis o seguiu com o olhar, imóvel, o rosto fechado, claramente dividido entre ir atrás dele ou permanecer para explodir ali mesmo.
No corredor estreito, cada passo de Harry ecoava alto demais.
E a pergunta que martelava em sua cabeça não pedia resposta imediata — apenas garantia que nada voltaria a ser simples:
O que, afinal, tinha sido real?
Na mesma hora, Louis Tomlinson se afastou da sala como quem foge de um incêndio invisível. O celular já estava na mão antes mesmo de o corpo decidir para onde ir. Os passos eram rápidos demais, duros demais para alguém que fingia estar apenas “indo atender uma ligação”. Ele não esperou o corredor ficar vazio — ligou ali mesmo, a porta de vidro ainda se fechando atrás de si, como se aquele limite físico pudesse conter o que estava prestes a explodir.
atendeu no segundo toque.
— Louis? — a voz dela veio confusa, limpa demais, quase inocente diante do caos que se aproximava.
Ele fechou os olhos por um instante, como se isso pudesse atrasar o inevitável.
— Você sabia? — disparou, sem preparo, sem cuidado. — Me diz que você não sabia.
O silêncio do outro lado não foi longo, mas foi pesado. Um silêncio que denunciava escolha, não surpresa. respirou fundo, audível, como quem mede cada palavra sabendo que qualquer uma delas poderia ser irreversível.
— Sabia do quê?
A pergunta soou frágil. Insuficiente.
— Do contrato — ele disse, agora mais alto, a voz já tremendo de raiva e incredulidade. — Da . Do Harry. Da Modest. Você tava lá como exceção de sigilo, . Tá escrito. Escrito.
O nome dela no papel ainda queimava na mente dele, como uma traição dupla: ao amigo, ao amor que ele achava conhecer.
— Louis… — a voz de falhou pela primeira vez. — Não é tão simples assim.
E foi ali que tudo desabou.
A discussão começou contida, quase cuidadosa — duas pessoas que se amavam tentando não atravessar um limite sem volta. Mas amor não segura verdades grandes demais. As palavras começaram a sair atropeladas, afiadas, ditas num tom que não permite retorno. Louis andava de um lado para o outro, a mão passando pelos cabelos, o peito subindo e descendo rápido demais.
— Então em quê você deixou a gente acreditar? — ele gritou. — Você me olhou nos olhos esse tempo todo!
— Eu não podia contar! — respondeu, a voz já embargada. — Você acha que eu queria carregar isso sozinha?
— Mas carregou! — ele rebateu, sem piedade. — E deixou o Harry ser enganado!
O nome de Harry Styles foi um estalo seco, um golpe direto. começou a chorar — primeiro em silêncio, depois alto, descontrolado. Não era só culpa. Era medo acumulado. Exaustão. O cansaço de sustentar um segredo grande demais dentro de um relacionamento que nunca pediu por ele.
— Eu fiz o que achei que protegeria todo mundo — ela disse, entre soluços. — Inclusive você.
Louis encostou a testa na parede fria do corredor. Proteção. Sempre essa palavra. Usada como justificativa quando a verdade machuca demais.
— E quem protege a gente agora? — murmurou, a raiva se dissolvendo em algo mais feio, mais profundo: decepção.
Do outro lado da linha, entendeu. Aquilo não era só uma briga. Era uma rachadura que talvez nunca mais se fechasse.
Quando a ligação caiu, o silêncio tomou o apartamento dela. As mãos tremiam. O ar parecia denso demais. ficou olhando o celular por longos segundos, esperando que vibrasse de novo. Não vibrou.
Ela respirou fundo, reuniu o pouco de coragem que restava — e ligou.
atendeu rápido demais, como se o corpo já estivesse em alerta havia horas.
— Mila? Tá tudo bem? — a voz veio doce, distraída. Normal. Dolorosamente normal.
fechou os olhos antes de falar. Quando abriu a boca, já chorava.
… você precisa saber de uma coisa. Agora.
Do outro lado da linha, sentiu o estômago afundar. Havia um tom específico naquela voz — o tom que antecede perdas irreversíveis.
— O Harry descobriu — disse, por fim. — Hoje. Numa reunião. O contrato. Tudo.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Não houve grito. Nem defesa. Nem pergunta imediata. Apenas um vazio súbito, como se algo essencial tivesse sido arrancado do peito de . O mundo ficou distante, desfocado. O chão pareceu instável.
— Ele… ele sabe de tudo? — perguntou, finalmente, a voz baixa, quase irreconhecível.
— Sabe — respondeu. — E saiu de lá destruído.
desligou sem perceber. Ficou sentada no chão, encostada no sofá, exatamente como costumava ficar nas manhãs tranquilas com Harry. A memória daquele gesto cotidiano doeu mais do que qualquer acusação. As rachaduras que ela fingira não ver agora se escancaravam — não só no amor dele, mas no dela também.
Foi ali que a decisão nasceu.
Ela precisava sumir.
Não como punição. Não como manipulação. Mas porque ficar significaria implorar. Significaria se diminuir. Significaria tentar consertar algo que precisava, antes de tudo, respirar longe dela.
Por dias, não existiu.
Sem mensagens. Sem respostas. Sem “visualizado”. O telefone desligado a maior parte do tempo, como se até o som fosse agressivo demais. Harry tentou ligar. Uma vez. Duas. Muitas. Depois parou — não por falta de amor, mas porque cada chamada não atendida o empurrava para um lugar escuro que ele ainda não conseguia nomear.
, enquanto isso, pegou uma mala pequena — quase simbólica — e foi até Zayn Malik.
A casa ficava afastada, cercada por árvores e silêncio, como se tivesse sido construída para acolher quem precisava desaparecer por um tempo. Não havia câmeras. Não havia curiosos. Só um portão discreto e uma porta que se abriu sem perguntas.
Zayn a olhou por um segundo longo demais. estava abatida. Olhos fundos, pele pálida, o corpo curvado como quem carrega anos em vez de dias. A mala pendia da mão, esquecida. Ela parecia menor. Quebrável.
Ele não perguntou nada.
Apenas a puxou para um abraço firme, daqueles que não pedem explicação. desmoronou ali. O choro veio inteiro, atrasado, brutal. O tipo de choro que não tenta ser bonito. O rosto enterrado no peito dele, como se finalmente tivesse permissão para cair.
Dentro da casa, o silêncio era respeitoso. Zayn fez chá. Ela sentou no sofá, as mãos tremendo. Demorou para conseguir falar — quando falou, foi tudo de uma vez, como se segurar mais fosse impossível.
Contou das dívidas que cresciam silenciosas. Da família sufocada. Do pai idoso, dos remédios caros, das consultas intermináveis. Das contas que chegavam indiferentes ao medo. Do contrato do livro que prometeu alívio e entregou pouco. Do pânico diário de falhar com todo mundo.
— Eu não fiz por fama — disse, a voz quebrada, quase envergonhada. — Eu fiz porque não tinha saída.
As palavras pareceram pequenas diante do estrago. Mesmo assim, precisavam ser ditas.
Contou de . Do irmão. Da cirurgia urgente. Do medo real de perder alguém amado sem ter feito tudo o que podia. Do desespero que empurra pessoas boas para escolhas impossíveis.
Zayn ouviu tudo em silêncio. Não interrompeu. Não julgou. Quando ela terminou, a casa parecia mais pesada, como se as paredes também tivessem absorvido aquela dor.
Ele passou a mão no rosto devagar, claramente abalado.
— Se você tivesse pedido… — disse, baixo, com cuidado demais para não feri-la ainda mais. — Qualquer um de nós teria ajudado. Eu teria dado o dinheiro. Harry teria. Todos nós.
A frase não veio como reprovação. Veio como verdade.
E foi isso que a destruiu.
chorou de novo — mas agora não era desespero. Era culpa. Vergonha. Amor misturado com arrependimento. A compreensão tardia de que nunca esteve sozinha — apenas acreditou que precisava estar.
— Eu sei — respondeu, cobrindo o rosto com as mãos. — E é isso que dói.
Porque, no fim, nunca foi sobre dinheiro.
Foi sobre ter sobrevivido sozinha por tempo demais — e perceber, tarde demais, que o preço dessa solidão podia ser perder o amor da própria vida.
Não foi exatamente dias depois. Foi depois que o tempo deixou de funcionar direito.
Depois que as horas se alongaram como feridas abertas. Depois que a ausência virou um terceiro corpo entre eles, ocupando cada espaço que antes era silêncio confortável.
O encontro aconteceu quando já não dava mais para adiar. Quando o que não era dito pesava mais do que qualquer verdade dita em voz alta.
O lugar foi escolhido sem apego. Neutro. Um espaço que não guardava risos, nem promessas, nem lembranças felizes demais para suportar. Ainda assim, o ar parecia carregado de tudo o que eles tinham sido.
Harry chegou antes. Sempre chegava. Ficou de pé por um tempo, depois sentou, depois levantou de novo. As mãos iam e vinham dos bolsos como se procurassem algo que já não estava ali. O maxilar travado denunciava o esforço quase cruel de se manter inteiro.
Quando entrou, ele sentiu antes de ver.
Sentiu no peito — aquele reflexo antigo, automático, que não tinha aprendido a obedecer à razão.
Ela parecia diferente. Não distante. Exposta. Como alguém que já tinha decidido não se proteger mais. Os olhos sustentaram os dele sem fuga, mesmo marejados. Mesmo vulneráveis.
Eles se sentaram frente a frente.
O silêncio que se formou não era vazio — era pesado, cheio de frases engolidas, noites mal dormidas, versões não ditas. Um silêncio que pedia coragem.
respirou fundo. Não como quem se acalma, mas como quem se prepara para atravessar algo sem garantia de retorno.
— Eu preciso te contar tudo — disse, por fim. — Do jeito certo. Mesmo que doa.
Harry assentiu lentamente. Não confiava na própria voz.
Ela começou do início. Não do contrato — mas do sentimento.
— Quando eu assinei… — a voz falhou por um instante, mas ela continuou — eu já te amava. Não foi “vou fingir gostar dele”. Foi… “eu gosto dele, e talvez isso resolva coisas que eu não consigo resolver sozinha”.
She said, “We’re not going anywhere.”
A frase não veio como defesa. Veio como confissão. Como algo que precisava ser libertado.
— Não foi uma escolha fria. Não foi cálculo. Eu não acordei um dia pensando em fingir algo que não existia. Eu já estava envolvida. Já tinha medo de te perder sem nem saber por quê.
Ela explicou como o contrato surgiu num momento em que tudo parecia ruir. Como a proposta veio disfarçada de solução, de alívio imediato para problemas que ela carregava sozinha há tempo demais. Falou das dívidas, da família, da sensação constante de estar à beira do colapso.
— Eles me ofereceram uma saída — disse. — E eu… eu me agarrei a ela do jeito que pude.
Harry manteve o olhar fixo nela. Cada palavra entrava como uma peça nova num quebra-cabeça que já não se parecia com a imagem original.
— Eu tentei me convencer de que não machucaria ninguém — continuou. — Porque o que eu sentia por você era real. Sempre foi. O contrato era papel. Um acordo externo. Você… nunca foi parte disso pra mim.
Ela engoliu o choro.
— Eu nunca te beijei por obrigação. Nunca fiquei por conveniência. Nunca disse “eu te amo” sem sentir. Mas eu sei que isso não apaga o resto.
Houve um intervalo longo demais antes de Harry responder. Ele passou a mão pelo rosto, respirou fundo, como se estivesse tentando conter algo que não cabia mais dentro.
— Eu acredito em você — disse, finalmente. — Acredito que o que você sentia era verdadeiro.
fechou os olhos por um segundo. Aquilo, paradoxalmente, doía mais do que se ele não acreditasse.
— Mas — ele continuou, com cuidado — eu preciso conviver com o fato de que, sem saber, eu fui parte de um acordo. Que algo que eu achei que era só nosso… não era completamente.
As palavras não vieram duras. Vieram cansadas.
— Eu tô tentando entender — confessou. — Tô tentando encontrar um jeito de continuar sem sentir que o chão pode sumir a qualquer momento.
Ela estendeu a mão por reflexo. Parou no meio do caminho. Recolheu. Sabia que não tinha mais esse direito.
— Se amar você agora significa aceitar qualquer decisão que você tome — disse, em voz baixa — então é isso que eu faço.
Não houve promessas. Nem reconciliação. Nem ruptura.
Apenas a verdade inteira entre eles — e o peso de perceber que amar, às vezes, não é suficiente para desfazer escolhas feitas para sobreviver.
Harry tentou seguir. Tentou se convencer de que compreender era o mesmo que perdoar. Tentou rir nos momentos certos, tocar os mesmos acordes, deitar ao lado dela fingindo que o corpo não carregava perguntas demais.
Mas algo insistia em permanecer.
Não era raiva. Não era ódio.
Era traição.
Era acordar ao lado dela e sentir amor — e, logo depois, sentir medo. Era olhar para e se perguntar, em silêncio, quantas partes dela, ele ainda não conhecia. Era perceber que a dúvida tinha se instalado num lugar onde antes só existia confiança.
Até que o corpo entendeu antes da mente.
O dia do término não veio anunciado. Ele apenas chegou.
estava com os olhos inchados, vermelhos, cansados de um choro que não fazia barulho. Daquele que acontece quando não há mais força para lutar contra o inevitável.
Vê-la assim quase o fez desistir.
Quase.
Mas Harry sabia. Sabia que, se ficasse daquele jeito, o amor se transformaria em algo torto. Ressentido. Vigilante. Pequeno demais para o que eles tinham sido.
Melhor partir enquanto ainda a amava.
Do que partir quando já não sentisse mais nada.
— Você tem certeza? — a voz dela saiu frágil, quebrada, quase um pedido infantil para que ele dissesse não.
Ele não tinha.
Mas também não conseguia ficar.
— Eu sinto muito.
Foi tudo.
Ela desabou sem palavras. O choro veio inteiro, sem defesa. Quando ele deu um passo à frente, ela ergueu a mão — não em rejeição, mas em preservação.
— Você já pode ir.
Ele ficou parado, esmagado pela culpa de amar alguém que nunca quis machucá-lo — e ainda assim machucar.
— Eu espero que um dia você me perdoe — disse, antes de ir.
Ela fechou os olhos.
Quando a porta se fechou, o silêncio ficou.
Pela primeira vez, Harry sentiu que alguém havia conseguido puxá-lo para baixo.
Não por maldade. Não por cálculo. Não por falta de amor.
Ali, naquele fim, não havia vilões.
Apenas duas pessoas que se amaram do jeito que conseguiram e descobriram que, às vezes, nem o amor impede alguém de ser arrastado para baixo.




Fim!



Nota da autora: Sem nota.





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