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Finalizada em: 25/04/2020

Capítulo Único

- Essa noite vai incrível. – ouvi Nathalie falar enquanto me seguia para dentro do bar que elas haviam escolhido para passarmos nossa noite.
- O que importa é que a aproveite ao máximo. – vi Bridget piscar para Candace e todas elas rirem de uma forma que parecia que escondiam algo.
- Desde que tenha bebidas e música boa, eu não preciso de mais nada.
- Bem-vinda, senhorita, isso é o que não faltará na sua noite. – um homem extremamente bonito se aproximou, segurando minha mão e deixando um beijo em seu dorso, um verdadeiro cavalheiro.
- Fico feliz em saber. – sorri tímida. Minhas amigas pareciam um pouco mais confortáveis ao olharem em volta, então me sentei na mesa e decidi ter minha primeira impressão.
As paredes eram feitas de tijolos, de uma forma bem rústica e que era iluminada pelos diversos spots e pisca-pisca espalhados pelo local. Na lateral esquerda, era possível ver a cozinha e todos que estavam lá dentro preparando os petiscos solicitados. No centro, em frente de onde estávamos sentadas, havia um palco. Nada muito exagerado, apenas um palco simples, sem instrumentos, e com uma cortina preta que levava ao backstage, provavelmente. Ao lado do palco estava o bar, com uma grande variedade de garrafas coloridas que chamavam a atenção, posicionadas acima de um grande espelho. Na parte da direita, podíamos ver as janelas que davam para a rua iluminada por diversos letreiros do comércio em volta. E essa também era a parte que tinha mais mesas posicionadas em uma longa fileira.
- Tudo muito bonitinho aqui, não é? Adorei o lugar. - falei, recebendo diversos acenos de cabeça em concordância e mais alguns olhares trocados entre elas. – O que vocês estão aprontando? – perguntei finalmente.
- Nada, . Por que a pergunta? – Taylor questionou sem me encarar, olhando para o cardápio como todas as outras.
- Eu conheço vocês. – dei mais uma olhada em volta e reparei algo que ainda não havia me dado conta, e então entendi o que talvez estivesse acontecendo. Balancei minha cabeça negativamente rindo e decidi continuar aproveitando minha noite antes de ter certeza.
- Vou começar por um martini. – falei quando o garçom se aproximou e ele assentiu, sorrindo. Seu sorriso parecia com o daqueles modelos de campanha de cuecas da Calvin Klein e eu apenas tive certeza da minha sensação. – Falta muito? – perguntei as encarando. Elas riram discretamente.
- Uma hora. – Nathalie respondeu.
- Então espero que minha bebida chegue rápido, pois já vou pedir a próxima. Preciso já estar um pouco fora de mim para isso.

Em minha frente era possível ver quatro taças diferentes, e foi vendo isso que percebi que talvez tivesse feito algo errado. Quatro bebidas doces, e uma mistura incorrigível de seus componentes, como beber uma com vodca e outra com tequila. Não me sentia bêbada, mas minha cabeça girava um pouco e eu sabia que quando levantasse dali estaria um tanto quanto ferrada. Eu entendia os efeitos da bebida no cérebro, e era isso que fazia repudia-las no dia a dia, mas estava ali para aproveitar e decidi que era um ótimo dia para isso. Só havia imaginado que uma de minhas amigas ficaria sóbria para cuidar de mim, afinal, aquela noite era para mim. Afastei esses pensamentos e comecei a rir sozinha quando as luzes se apagaram e um holofote iluminou o palco e alguns tambores rufaram em algum lugar que eu não conseguia localizar.
- , por favor, aproveite. – Taylor sussurrou em meu ouvido e eu ri, negando com a cabeça.
A música começou a tocar e apenas em seus primeiros toques já era possível sentir sua batida forte. Três garotos entraram no palco vestidos de moletom, cada um em uma cor, e eles pareciam se preparar. Não era possível que eles tivessem muito mais que 21 anos, o que me fez rir, pois não conseguia entender o que minhas amigas tinham na cabeça.
Eles caminhavam lentamente pelo pequeno palco e se posicionaram em um V, onde o garoto da esquerda usava um moletom roxo, o da direita azul, e o do meio utilizava-se bem da cor vermelha. Quando a batida se tornou ainda mais forte, eles começaram a movimentar-se de uma forma sensual, começando a tirar alguns gritos das mulheres ali em volta que já pareciam conhecer o lugar. Estando ali na frente, decidi ficar quieta enquanto minhas amigas gritavam. Talvez esse tenha sido um grande erro, pois estar diferente de todas, poderia chamar atenção.
Conforme a música tocava, eles se revezavam entre passos de dança combinados e um pouco mais livres, sempre misturados a movimentos que transformavam o palco quase em uma cama, já que eles se arrastavam por ali como se estivessem transando com alguém. No início do refrão, então, fui surpreendida, pois seus moletons foram descartados no chão, revelando nenhuma camisa por baixo. Isso sim trouxe a plateia à histeria, com seus corpos bem definidos e rostos bonitos que apareciam mais claramente sem a touca.
E então, no melhor estilo Magic Mike, os garotos desceram do palco, andando entre as mulheres nas mesas, ainda seguindo suas coreografias pré-montadas com um improviso ou outro. Segui com meus olhos o garoto que anteriormente usava o moletom roxo e observei enquanto ele se posicionava entre as pernas de uma mulher e ela gritava histericamente com as mãos em sua cabeça entrando na dança.
Senti uma mão em meu ombro e automaticamente comecei a negar com a cabeça e murmurar diversos “nãos” entre gritos de minhas amigas como “vai, !” e outros que não conseguia distinguir. Então reconheci aquele como o garoto da direita, que utilizava o moletom azul, e ele sorriu de uma forma engraçada como se pedisse permissão, provavelmente após ouvir minhas diversas recusas. Respirei fundo, me lembrando que aquilo era apenas uma brincadeira e dei de ombros, vendo seu sorriso malicioso tomar conta de seu rosto. Ele então se aproximou de meu pescoço, e inconscientemente senti aquela região se arrepiar e tentei controlar meus sentidos me distraindo com qualquer ponto fixo que localizasse o mais distante.
Em um movimento rápido, o garoto empurrou minha cadeira em uma posição que o favorecesse e se colocou em minha frente com uma perna em cada lado do meu corpo, quase sentando-se em meu colo. Em meio a mais palavras ininteligíveis de minhas companheiras, ele mais uma vez manteve sua sensualidade enquanto simulava algumas investidas quase sem me tocar. Suspirei e tentei não encarar seus olhos enquanto sua respiração se passava por descompassada. Por um segundo o encarei, ele piscou para mim e se abaixou em minha altura, fingindo mordiscar o lóbulo de minha orelha e se afastando para voltar ao palco.

- Eu odeio tanto vocês. – falei rindo enquanto elas se abanavam com as mãos ao final do show.
- Você merecia, . O Oliver é incrivelmente maravilhoso, mas você precisava se despedir de outros, pareceu uma boa forma. – Nathalie falou, deixando claro que fora sua ideia.
- Eu só não vou discutir com vocês por estar um pouco fora de mim. E inclusive, com dor de cabeça. – falei dando um gole na outra bebida que havia pedido.
- Eu ainda não estou louca o suficiente, então vou até o bar. – todas concordaram, se levantando.
- Vamos, . – assenti e me levantei, escorando meu braço no corpo de Candace e fazendo-a rir.
- Acho que vou ter que ir no banheiro, já encontro vocês lá. – reclamei, sentindo meu estômago revirar. Elas concordaram sem nem mesmo perceber o que eu falava e seguiram o caminho até o bar.
Segurei minha barriga inconscientemente e andei em direção ao banheiro. Entrei e deixei sem querer com que a porta batesse de forma estrondosa. Respirei fundo e parei em frente a pia, abrindo a torneira e jogando água em meu pescoço para relaxar. Senti a náusea diminuir e sorri, agradecendo a Deus, pois eu odiava colocar tudo pra fora e sabia que se isso acontecesse, eu não aguentaria nem metade do que aquela noite deveria ser. Não sei onde estava com a cabeça, eu sabia que não podia beber tanto, e que qualquer pouco já se tornava tanto para mim.
Senti a náusea me apunhalar mais uma vez e corri para dentro do box, me ajoelhando em frente ao vaso e não conseguindo controlar. Minha cabeça doeu e tudo girou, mas quase instantaneamente me senti melhor e consegui me levantar, feliz que não havia me sujado. Parei novamente em frente a pia e coloquei um pouco de água na boca para me limpar e tirar aquele gosto estranho.
Peguei o chiclete em meu bolso e dei pulos de alegria em pensar que havia o colocado ali no minuto antes de sair pela porta da casa que estava hospedada. Sem querer deixei com que o papel caísse dentro da pia e ao me movimentar para pega-lo, a torneira automática foi acionada, fazendo com que a água batesse na embalagem metalizada e espirrasse para todos os lados e diretamente em mim. Respirei fundo, sentindo vontade de chorar ao ver minha blusa clara se tornando transparente e minha calça com uma grande poça de água.
Peguei meu celular e digitei uma mensagem para as meninas avisando que eu iria até a casa para trocar de roupa e voltaria em seguida. Tentei bater um pouco do excesso de água com o papel que tinha ali e comecei a me perguntar como andaria daquele jeito na rua. O bar era próximo a casa que havia alugado na rua Cornelia, mas não esperava ter que andar pela rua completamente molhada.
Tomei coragem e saí do banheiro com o corpo curvado em direção ao chão para que não aparecesse a bagunça, mesmo no escuro do bar. Parei em frente ao segurança e expliquei o que acontecera, apontando para minhas amigas e informando que já voltaria. Ele concordou, se segurando para não rir de minha situação. Passei pela porta e senti o vento leve bater em meu corpo, não estava frio, mas a água gelada em contato com minha pele me fazia duplicar a sensação.
Parei na porta e me xinguei mentalmente olhando para meus pés e reclamando de meu sapato, eu, com certeza, voltaria com meus confortáveis tênis. Estava acostumada a estar confortável com meu uniforme, então me vestir da socialite que eu deveria ser me parecia sempre um inferno. Não que eu não gostasse, mas sempre acabava com dor nos pés, ou nas pernas, ou nas costas, ou com um pé torcido. Respirei fundo pela milésima vez naquele dia e comecei a andar na direção que deveria seguir, ainda encarando minha burrice na roupa molhada.
- Ai. – ouvi uma reclamação que quase abafava a minha própria quando esbarrei em alguém, batendo minha cabeça.
- Me perdoa, eu não estava olhando. – falei choramingando e me punindo mentalmente por estar sendo tão desastrada naquele dia. Ainda bem que eu não estava trabalhando, já poderia ter tirado a coordenação motora de alguém.
- Você está bem? – o encarei e percebi que ele parecia segurar a risada enquanto olhava minha situação e provavelmente percebia minha voz de irritação.
- Não, sendo sincera, estou irritada, como você pode ver. – falei rindo e então ele sorriu e eu senti minhas bochechas ficarem vermelhas enquanto ele também coçava sua cabeça parecendo envergonhado por me reconhecer, assim como eu o reconhecera. Seu corpo coberto por uma camisa preta, uma jaqueta da mesma cor e seu cabelo penteado de forma diferente conseguiam me enganar, mas não seu sorriso. – Um pouco estranho, acho melhor eu ir. – apontei para meu caminho e sorri timidamente acenando com minha mão e me lembrando da cena de um tempo atrás enquanto ele dançava em um palco sem camisa.
- Ei, é só um trabalho. – ele segurou meu braço delicadamente, soltando assim que dei um passo para trás novamente e levantando suas mãos como em rendição. – Desculpa, não sei, eu deveria pedir desculpa? – ele riu e eu neguei com a cabeça.
- Não, talvez minhas amigas deveriam por me trazer aqui.
- É, se não é seu estilo, talvez.
- Só não acho que faz muito o estilo de uma noiva. – ele automaticamente balançou sua cabeça, concordando e rindo.
- Isso com certeza não. Mas não foi nada demais, então acredito que sua consciência esteja tranquila, pensa como uma brincadeira. Eu penso como um trabalho toda noite. – ele deu de ombros e eu sorri, concordando. – O que aconteceu? – ele apontou para minha roupa e eu lhe contei o que havia acontecido no banheiro e que estava indo para casa trocar de roupa para voltar. – Se quiser, posso te acompanhar. – ele retirou a jaqueta de seu corpo e jogou em meus ombros antes que eu pudesse negar. – Sei que não se deve confiar em um estranho, mas acho que já estamos bem íntimos.
- Ei. – eu reclamei, rindo. – Não precisa, sério. – movimentei meus braços para tirar a peça de roupa de meus ombros e ele a apertou novamente contra meu corpo.
- Você está toda molhada, não seja cabeça dura. Sou , mas como disse, já somos íntimos até demais, pode me chamar de . – eu concordei, colocando a jaqueta e estendendo minha mão para ele.
- Sou , ou . Eu aluguei uma casa na rua Cornelia, aqui perto. Vou até lá e já trago sua jaqueta de volta, é rápido. – comecei a caminhar com ele ao meu lado.
- Posso te acompanhar, pego minha jaqueta e sigo pra casa como estava indo? – ele riu e eu parei novamente, o encarando.
- Meu Deus, você estava indo embora, por favor, pega. – eu tentei puxar a jaqueta dele de meus braços e ele negou mais uma vez.
- Se te conforta, eu moro para o mesmo lado, não vai fugir do meu caminho. – eu assenti e sorri agradecida. – Então, você não é daqui? – ele perguntou, andando ao meu lado. – Você disse que alugou uma casa.
- Ah, sim. Eu moro no Carnegie Hill, assim como minhas amigas, mas queríamos sair um pouco de lá e fazer algo diferente.
- Ah. É como sua despedida de solteira? – questionou e eu assenti.
- Quase isso, não sei. Ainda não está tão próximo, mas queríamos sair um pouco. – dei de ombros e ele concordou. – E você?
- Não vou casar não, tá tudo tranquilo. – brincou e eu bati levemente em seu braço como se já fossemos amigos há muito mais tempo que 10 minutos e uma cena sexy em meu colo. – O que quer saber?
- Não sei, só estava tentando puxar algum assunto pra não entrarmos em um silêncio estranho, mas já estamos quase lá. – apontei para rua ao longe no próximo quarteirão.
- Eu moro numa rua próxima daqui. – ele sorriu, apontando para o lado contrário de onde estávamos indo e eu assenti.
- Você gosta do seu trabalho? – perguntei aleatoriamente.
- Ah, não é a coisa mais incrível do mundo, mas paga bem, é um bom aprendizado e é divertido.
- Tenho uma pergunta boba. – ri discretamente, me amaldiçoando antes mesmo de perguntar. – Como vocês escolhem as “vitimas”?
- Você está fazendo uma pergunta geral ou é a curiosidade batendo e sua vontade era dizer “como você me escolheu?”
- Geral. – revirei os olhos e ele riu.
- No geral, aleatoriamente, não tem nenhum padrão. É bem aleatório mesmo. Você... – ele me olhou com um sorriso engraçado e desviou o olhar antes de terminar a frase. – Foi porquê achei muito bonita mesmo. – abaixei minha cabeça, envergonhada. - Com todo respeito, não estou tentando nada. – ele completou rapidamente.
- Está tudo bem, relaxa. – ri discretamente, ainda um pouco surpresa com sua resposta. – Bom, eu fico ali. – apontei para entrada rústica da casa a poucos passos de nós.
- Vai lá, se troca, e eu fico aqui esperando minha jaqueta. – assenti e sorri agradecida, colocando a chave na porta e entrando já com o pensamento em que roupa e sapato colocaria para que fosse o mais rápido possível.

- Muito obrigada. – falei passando pela porta e a fechando já com a jaqueta de em mãos. – Você foi um verdadeiro cavalheiro, fico muito agradecida mesmo.
- Sem problemas, fico feliz em poder ajudar. Bom, eu vou indo então. – assenti e ele estendeu a mão para que eu apertasse. – Tchau, .
- Tchau, . – sorri e acenei em sua direção, logo virando de costas para seguir o caminho contrário ao seu enquanto ele vestia a jaqueta novamente. Olhei para trás novamente quando senti seus olhos sobre mim e me preparei para acenar uma última vez quando meu corpo foi de encontro ao chão.
- Caralho! – gritei em alto e bom som, recebendo alguns olhares das pouquíssimas pessoas que andavam pela rua deserta naquele horário.
- Ei, você está bem? – perguntou ao me alcançar rapidamente e se abaixar ao meu lado.
- Não, eu devo estar com algum problema muito sério de desequilíbrio da vida hoje. – resmunguei novamente com lágrimas chegando em meus olhos. Ainda não sabia se elas apareciam devido ao psicológico irritado ou a dor incomoda que eu sentia em meu pé. – Acho que me machuquei. Era só o que me faltava.
- Vou pedir um táxi e vamos até o hospital. – ele falou, pegando seu celular no bolso.
- Não, de forma alguma, . Agradeço por sua ajuda, e agradeço se me colocar em um táxi, porque realmente será necessário visitar um médico, mas seguirei sozinha.
- Há alguns minutos você me disse que eu havia sido um cavalheiro, o que te faz pensar que vou mudar essa postura agora?
- Nós nem nos conhecermos? – falei, sabendo que seria uma batalha perdida já que ele já havia solicitado o carro.
- Eu sou , você é a , e isso é tudo que preciso saber pra querer te acompanhar até um hospital para saber se está tudo bem. Mas se quiser ligar para suas amigas, espero elas com você.
- Não acho que elas estão em condições de me acompanhar. – bufei. – Como uma noite completamente normal pode virar um caos de aleatoriedades? Não é possível que eu tenha todos os desastres de anos em uma única noite.
- Aparentemente, é possível sim. Vamos até o Lenox Health que fica mais próximo. – eu assenti e fiz força com o pé esquerdo para me levantar do chão, apoiada em seu ombro.
- Está doendo muito? – ele perguntou sentado no banco da frente e encarando meu pé que já estava descalço esticado no banco de trás. Eu já havia tirado o tênis para evitar o tecido apertado contra a provável torção gerada pelo tropeção no desnível da rua e observava a lesão inchando.
- Um pouco, mas nada insuportável. Deve ser apenas uma entorse leve, mas é necessário um raio-X para confirmar que não teve fratura. – ele assentiu, olhando novamente para frente.

- Dra. ? – me virei rapidamente na cadeira da sala de espera, vendo William me encarar.
- Dr. William, olá. – ele se abaixou, abraçando-me enquanto nos olhava curioso e fingia ter sua atenção toda em seu celular.
- Está tudo bem? O que aconteceu? – apontei para meu tornozelo e ele estendeu seu braço para que eu me apoiasse.
- Provavelmente foi apenas uma entorse leve. – comentei novamente o que havia dito para no carro e ele concordou.
- Mas é melhor verificar. Vamos lá. – me virei para e ele apenas acenou e apontou para a cadeira, dizendo em silêncio que estaria aguardando ali. Pensei em reclamar e falar que ele poderia ir, mas percebi que ele era realmente um poço de bondade em seu natural e preferiria se certificar de que eu estava bem.
- E Joe, como está? – Will me perguntou quando entramos em sua sala.
- Está ótimo, ansioso pelo próximo ano. Ele tem várias ideias para o hospital, você sabe. – ele concordou, me soltando ao me sentar na maca.
- Ele sempre teve muitas ideias para tudo. Vamos ver isso. – ele apontou para meu pé e começou a avaliar a lesão enquanto eu fazia expressões de dor a cada toque e conversávamos sobre Joe.

- Foi um pouco pior do que pensei. – falei, me aproximando de um distraído e apontando para bota preta em meu pé.
- Nossa. – ele se levantou, andando até mim. – Quebrou?
- Não, foi só uma entorse mesmo, mas a bota foi necessária pra imobilizar. Usar pelo menos por cinco dias, de acordo com o Will. – ele concordou, balançando a cabeça. – Vou pedir um táxi e te deixo na sua casa, tudo bem? Muito obrigada por me acompanhar, você foi realmente muito bom com uma desconhecida. – sorri sendo sincera e ele apenas concordou com a cabeça mais uma vez.
- O que eu puder ajudar, estou aqui. Se escora em mim, vamos esperar lá fora. – ele me indicou seu braço para que andássemos até o exterior do hospital enquanto eu pedia o carro pelo aplicativo em meu celular. – Posso perguntar a história do “doutora ”? Você conhecia o médico, certo? – ele pareceu incerto, provavelmente com medo de estar sendo intrometido.
- Já trabalhamos juntos. – falei calmamente, tentando deixar claro que não tinha problema com sua pergunta. – Sou médica, estou fazendo residência, trabalho em um hospital perto de onde moro.
- Meu Deus, . Isso é muito legal. – ele pareceu animado enquanto entrava no carro, o que me fez rir. – É uma profissão que admiro muito. O que você está estudando?
- Pretendo me especializar em neurocirurgia.
- Jura? – ele gargalhou e eu sabia que ele estava tendo o pensamento que eu tivera mais cedo. – Desculpa, eu nunca deixaria você mexer em minha cabeça, você é um desastre.
- É só nessa noite, eu sou muito boa na minha profissão. – eu ri, fazendo-o concordar levemente com a cabeça depois de falar seu endereço para o motorista.
- Eu tenho certeza que é.

- , foi um prazer dividir meus desastres com você. – falei depois de um tempo em silêncio quando paramos em frente ao prédio que ele morava.
- O prazer foi todo meu, espero que você não faça isso outras vezes, ninguém merece todo azar de uma vez.
- Muito obrigada, de verdade, não teria sido tão divertido passar por tudo isso sozinha. Você é incrível, um verdadeiro super herói da atualidade. – falei, rindo. – Obrigada mesmo, espero que quando você precisar, alguém faça o mesmo por você.
- Foi um prazer te conhecer, doutora . – revirei meus olhos e ele sorriu, abrindo a porta e saindo do carro enquanto acenava para mim.
- Tchau, . Foi um prazer te conhecer.

- , como você está? – Taylor perguntou assim que entrei em casa. Encarei o relógio e vi que já eram duas e meia da manhã.
- Estou bem, mas com uma nova amiga. – apontei para meu pé e ela riu, negando com a cabeça.
- Como tudo isso aconteceu?
- Eu não faço ideia, minha sorte hoje estava igual a zero. E você e as meninas, estão bem?
- Todas bem, mas Candace e Bridget já dormiram. A Nathalie deve estar mais que bem, ela foi embora com um carinha que conheceu.
- Não esperava menos, me surpreende que Candace não tenha feito o mesmo. – me referi à única outra solteira do grupo. Bridget havia começado a namorar há pouco tempo e Taylor namorava há três anos, aguardando ser pedida em casamento logo.
- Fico triste que não tenha ficado conosco até o fim, era sua noite e você passou sozinha.
- Ainda vou me vingar por terem me feito passar por isso. – falei rindo em me lembrar do bar e dançando em minha frente. – Mas não fiquei sozinha. Deixei um estranho me acompanhar até o hospital. – ela me encarou de olhos arregalados, sem entender. – Preciso comer alguma coisa, vem, vou te contar.

- Você já avisou o Joe sobre o que aconteceu? Ele vai nos culpar, tenho certeza. – Nathalie falou enquanto pulava na piscina e se juntava as outras meninas.
- Mandei mensagem, ele ficou preocupado, mas falei que estava bem. Ele culpou vocês, afinal ele conhece vocês e sabem o quão loucas são, mas já limpei a barra e disse o quão estabanada eu estava pra fazer isso sozinha. – falei rindo, sentada em uma cadeira próxima a piscina, já que não teria como entrar. – E isso nos levou para outro assunto, ele vai ficar em Detroit por mais duas semanas, esperando por um outro congresso e fazendo mais alguns cursos. Decidi ficar aqui por essa semana, alugar mais alguns dias e descansar meu pé sem toda loucura da minha rotina de casa sozinha.
- Você vai tirar férias, sozinha? – Candace perguntou, arqueando as sobrancelhas.
- Todas vocês têm muito o que fazer, eu sei, então sim. Eu gostei dessa casa, é gigante, eu bem que posso aproveitar alguns dias aqui. Não estou 100% imobilizada, consigo me virar bem.
- Eu posso ficar pelo menos por alguns dias, se você quiser. – Nathalie comentou e eu abri um sorriso.
- Vai ser incrível ter companhia. – falei animada e todas comemoraram.
- Odeio ter que trabalhar. – Bridget reclamou e recebeu espirros de água de todos os lados.
- Uma casa gigantesca dessa, só pra nós duas. Inacreditável. – Nathalie me olhou e eu ri, sabendo que ela estava provocando as outras garotas. Dessa vez, ela quem foi o alvo das grandes ondas de água.

- Eu não aguento mais assistir, meu Deus. – reclamei, virada de ponta cabeça no sofá, aguentando o peso da bota posicionada para cima e sabendo que não deveria estar daquele jeito. Já havia passado um dia que estávamos ali sozinhas e parecia que cada minuto se arrastava enquanto assistíamos série.
- Já estou cansada também. Precisamos sair, fazer alguma coisa. – ela comentou, pegando o celular para provavelmente buscar por algo ali em volta.
- Ah, . Tem um bar próximo daqui que parece legal. Poderíamos ir, só pra distrair um pouco, ver música ao vivo. Nada de garotos dançando sem roupa, prometo. – ela cruzou os dedos em minha frente depois de ver meu olhar de quem suspeitava de suas escolhas.
- Certo, mas não posso ir andando. – ela assentiu e se levantou, andando até mim para me ajudar a sair do sofá. – Eu realmente não devia ter me posicionado assim. – respirei fundo, tentando voltar a me sentar normalmente para levantar em seguida em meio a grunhidos e risadas de minha amiga.

Entramos no restaurante e eu suspirei, vendo um ambiente aconchegante e com certeza romântico. As paredes eram claras e ficavam lindas com a luz da noite, pois tinham algumas lâmpadas coloridas espalhadas pelo ambiente que pareciam servir apenas para melhorar a iluminação natural. No canto havia um palco onde uma garota, que deveria ter aproximadamente minha idade, cantava uma versão diferente de “Take on Me” do A-ha e Nathalie me encarou, parecendo impressionada.
- Eu juro que ia perguntar onde vocês gostariam de sentar, mas vou escolher por minha conta o lugar mais seguro e isolado de pessoas que possam se machucar. – encarei um que se aproximara por trás de nós e segurava meu braço delicadamente, sorrindo em minha direção.
- , isso parece perseguição. – falei rindo. Ele usava uma camisa social branca e um jeans escuro, combinando com seu All-Star preto nos pés.
- Bom, é a segunda vez que você me encontra em meu trabalho. Mas hoje não vou te fazer passar vergonha. – ele completou e vi Nathalie rir ao meu lado. – E quem é essa linda mulher que te acompanha? – ele se aproximou de minha amiga, beijando sua mão de uma forma doce.
- Sou Nathalie. – ela respondeu, com certeza suspirando internamente pelo sorriso de .
- É um prazer, sou .
- O cavalheiro da . – ela riu e eu rolei os olhos quando ele me encarou.
- Eu só falei que você havia me ajudado e elas te apelidaram de coisas como super herói. Não que não seja, mas, né?! – eu ri e ele colocou sua mão em minhas costas para nos tirar do meio do caminho, indicando-nos uma mesa.
- Eu só fiz o que qualquer um deveria fazer. – ele piscou para Nathalie e eu sorri discretamente, percebendo um olhar de flerte entre os dois. – Acho que aqui você não vai machucar ninguém.
- Então você tem dois trabalhos? – ele assentiu, vendo um colega o chamar do outro lado.
- Entro às três aqui e saio às nove. Vou até o outro, me apresento por volta da meia-noite e fim do dia pra mim.
- Que incrível, . – ele nos entregou os cardápios e observou o colega o chamar novamente.
- Já volto para pegar o pedido de vocês. – ele tocou rapidamente meu ombro e eu sorri, feliz por encontrá-lo.

- Eu não me lembrava dele ser tão gracinha quanto é. – minha amiga comentou enquanto o observava andar por ali.
- Não acha que ele é muito novo pra você ficar secando-o assim? – perguntei, rindo.
- Ele é lindo, . Você tem que admitir. – eu concordei com a cabeça e ela riu, dando de ombros.
- Ele é muito simpático também. – falei também, observando-o de longe.
- Eu percebi. – ela comentou, colocando um pouco mais de malícia em seu tom de voz e me fazendo rir.

- Tenta não derrubar isso em mim, por favor. – falou quando se abaixou próximo de nossa mesa para retirar as bebidas e pratos que comemos.
- Odeio como você ficou apenas com essa impressão minha de atrapalhada. – rolei os olhos e ele riu.
- Não tenho culpa que foi tudo o que vi.
- Você tem sorte que estou num espírito bom hoje, senão ia te empurrar com essa bandeja no chão.
- Ai, , que horror. Vai fazer o menino perder o emprego. – Nathalie comentou, encarando-o.
- Ainda bem que tenho uma defensora agora. – ele riu, ainda olhando para mim. – Vou finalizar o de vocês, depois preciso ir. – ele saiu para deixar a bandeja na cozinha e retornou rapidamente com a conta. – De quinta-feira, eu troco o trabalho pesado pelo palco. – ele falou, apontando para onde a garota agora cantava alguma coisa do Bon Jovi que não reconheci por estar prestando atenção em nossa conversa enquanto passava o cartão para pagar.
- Você canta? – perguntei, arrumando minhas coisas para me levantar. Ele apoiou sua mão em meu braço para não me deixar fazer força no pé machucado. Ele assentiu e pediu um minuto, enquanto ia até os fundos do restaurante para provavelmente pegar suas coisas, voltando com uma mochila nas costas.
- Você não iria passar só o fim de semana por aqui? – ele perguntou, nos seguindo até a saída.
- Sim, mas gostei da casa e já que estou de molho e meu noivo está viajando, achei legal ficar mais um pouco. – dei de ombros e Nathalie riu.
- Fiquei junto pra dar uma força e fazer uma companhia, já que ela teve essa ideia do nada.
- É, acho que ela tá precisando de um pouco de cuidado mesmo. – ele concordou, rindo.
- O que acha de almoçar com a gente amanhã? Posso cozinhar alguma coisa. Queria te agradecer por tudo que você fez no sábado. – ele sorriu discretamente, parecendo surpreso.
- Você sabe que não precisa disso.
- Mas seria legal, . – Nathalie comentou, pegando sua mão e forçando um hi-5, o que nos fez rir.
- Tudo bem. – ele puxou seu celular do bolso e me entregou, desbloqueado. – Coloca seu número. – eu peguei o aparelho digitando rapidamente meu nome e número.
- Me manda uma mensagem pra eu salvar o seu e nos vemos amanhã então. – me aproximei e beijei seu rosto, vendo Nathalie fazer o mesmo em seguida.
- Nos vemos amanhã.

- Estou extremamente feliz que você está noiva, acho que nem quando você me chamou para ser madrinha eu fiquei tão feliz. – Nathalie comentou quando entrou na cozinha enquanto eu colocava tudo que usaria em cima da bancada.
- E seria por? – perguntei sem entender e ela se sentou em cima da bancada que eu colocava as coisas e tirou um batom do bolso, começando a passá-lo.
- Talvez por ser um colírio para os olhos. – ela deu de ombros e eu gargalhei. – Ele sabe que você é noiva, certo? E muito bem amarrada ao seu futuro casamento? – eu assenti.
- Sim, ele sabe. Só não me deixem sozinha, por favor.
- Não acho que você vá querer participar. – ela sorriu maliciosamente com os lábios grudados e eu neguei com a cabeça, gargalhando mais uma vez. Nathalie era louca, eu nunca entenderia como havíamos nos tornado amigas, pois em alguns pontos éramos extremamente opostas.
- Definitivamente não.

Coloquei a cebola para fritar e parei para olhar meu celular, encontrando uma mensagem de avisando que estava na calçada. Por que ele não havia tocado a campainha eu não sabia. Corri pelo gigante corredor da casa para chegar até a entrada e abri a porta, o encontrando ali vestido com bermudas, uma camisa preta, o tênis em seu pé e sua mochila nas costas.
- Campainhas existem para serem tocadas, tá? Se eu não olhasse o celular, você ficaria aí parado a vida toda? – perguntei sem nem o mesmo cumprimentar. Ele rolou os olhos.
- Oi pra você também. – ele sorriu e se aproximou, beijando minha bochecha.
- , que cheiro é esse? – Nathalie apareceu no corredor, nos encarando enquanto eu deixava entrar e fechava a porta atrás de nós. Inspirei por um segundo e então comecei a andar rapidamente corredor adentro para alcançar a cozinha. Ouvi os passos deles atrás de mim em meio a risadas.
- Droga! – peguei a panela e tirei do fogo, colocando na pia. – Foi só a cebola queimando.
- Preciso te chamar de desastre ou é melhor deixar pra lá?
- Melhor deixar pra lá. – mostrei a língua e ele deu de ombros.
- Certeza que quer cozinhar? – perguntou.
- , eu tenho 26 anos e moro sozinha há seis deles, eu sei cozinhar muito bem. É meu hobbie, por sinal.
- Você mexe com cérebros, não é? Você come tranquilamente depois de uma cirurgia?
- Só falta ela comer o cérebro. – Nathalie falou e eu lhe mostrei o dedo do meio enquanto o garoto gargalhava.
- Acho que eu não conseguiria. – ele fez careta.
- Comer o cérebro? Eu também não. – Nathalie falou rindo e eu rolei os olhos.
- Não imagino ver aquela coisa gosmenta todo dia.
- Meu Deus, . Você é uma criança.
- Não precisa chorar por isso, . Eu me retiro. – ele indicou a porta da cozinha e eu ri, pois ele se referia aos meus olhos marejados por conta da cebola que eu cortava novamente para continuar a fazer a comida. – Devo ficar aqui te supervisionando? – ele apontou para uma cadeira.
- Se você quiser, pode vir aqui pra sala comigo enquanto a cozinha. – minha amiga pegou sua mão para tentar puxa-lo, mas ele gentilmente se soltou sorrindo.
- Talvez depois, por enquanto quero ver ela estragar mais coisas. – ele falou apontando para toda comida na bancada.
- Meu Deus, em que momento eu te dei essa intimidade? – vi Nathalie sair bufando e tentei não rir.
- No momento em que apareceu toda molhada no meio da rua e me deixou te acompanhar, creio até que você disse algo como: “, você é muito lindo e gentil, acho que podemos ser amigos.” – ele fez aspas com os dedos e se aproximou de meu corpo, apoiando sua mão em minha cintura e bagunçando meus cabelos. Rolei meus olhos e ele riu, se afastando e puxando a cadeira para se sentar.

- Vai, me conta mais da sua vida. – ele perguntou quando puxei uma cadeira para sentar ao seu lado, já que agora tudo estava sendo preparado.
- Curioso. – ele deu de ombros e um sorriso de lado brotou em seus lábios. – Odeio falar de mim, me sinto no Tinder.
- É mais como Facebook, já que pela fase do Tinder você já passou. – ele piscou e eu concordei, vendo que fazia sentido.
- Oi, meu nome é , eu tenho 26 anos... – brinquei.
- E eu não fumo há duas horas, sendo esse o meu recorde. – ele afinou a voz e me interrompeu, me fazendo rir. – Menos coisas que eu já sei, vai.
- Okay, você sabe que estou estudando para ser neurocirurgiã e, fora isso, sou completamente estabanada. Eu amo meu trabalho, de verdade, por toda a parte de salvar vidas. Moro sozinha há seis anos, não gosto de ir pra academia ou fazer qualquer exercício, então pra me distrair em casa eu cozinho ou assisto alguma série. Durmo em filmes com muita facilidade e adoro musicais. Acho que isso resume um pouco.
- Futura noiva que não fala do futuro marido? – ele perguntou, arqueando as sobrancelhas. Abaixei a cabeça envergonhada.
- Não achei que esse tipo de coisa fosse interessante. Eu namoro com Joe há dois anos e estamos noivos há sete meses. Ele é filho do dono do hospital e lá as coisas estão funcionando como a realeza. – rolei os olhos. – O pai dele quer sair, pois se diz cansado, então o Joe vai assumir no próximo ano. Mas eles querem que ele esteja casado, pra manter a boa imagem de família que eles têm. Claro que eu não sabia disso quando começamos a namorar, eu nem sabia que ele era filho deles quando entrei no hospital.
- Isso quase soa como se você não estivesse bem com essa situação. – ele abaixou seu tom de voz como eu fizera, provavelmente vendo alguma movimentação de Nathalie na sala.
- Com a de casar não. – soltei o ar que estava guardando e ele riu. – Mas eu não posso abrir a boca pra ninguém sobre isso, claro. Seria uma loucura deixar de fazer isso, certo? Todo mundo vê assim. Eu gosto do Joe, mesmo, mas a ideia de casar para manter uma imagem não me deixa feliz.
- Você não acha que seria errado, ? Você casar sem querer? – ele colocou sua mão sobre a minha, como para demonstrar um apoio.
- Seria, mas não acho que será de todo ruim, . Joe é uma pessoa incrível, sei que será um bom casamento de qualquer forma. Mesmo que nesse momento eu esteja um pouco chateada que ele vá ficar em Detroit para um curso por mais essa semana e a próxima, sendo que meu aniversário é no sábado. Ele pediu desculpas, claro, mas no ano passado foi a mesma coisa.
- Você faz aniversário no sábado? E você ainda vai estar aqui? – ele pareceu animado.
- Não sei, , bem provável. Eu realmente gostei daqui, não quero ir pra casa ainda, acho que estou curtindo meu momento longe da rotina para pensar em tudo que te falei. Por sinal, obrigada. Você é um ótimo ouvinte. – apertei sua mão em agradecimento ao perceber que as duas ainda estavam juntas.
- Fico feliz em te ajudar mais uma vez. – ele piscou e eu sorri, novamente encantada com sua simpatia. – Sábado é minha folga do mês. Se você quiser, podemos fazer algo.
- Eu acho que pode ser uma boa ideia. Sou apaixonada pelo meu aniversário, sabia? Pra mim, é o melhor dia do ano, mesmo que eu esteja ficando velha nele.
- Fica combinado então, vou arrumar algo legal para fazermos no sábado. Algo que nem você, e nem sua botinha sofram, se você ainda estiver com ela.
- E aí, o que estão conversando? – Nathalie entrou na cozinha e puxou rapidamente uma cadeira para o lado de . Eu rapidamente me levantei e andei até o fogão, deixando com que os dois conversassem.
- Estava apenas perguntando um pouco mais sobre a , já que somos amigos agora. – ele não deu detalhes da conversa e eu agradeci mentalmente por isso, certas coisas eu preferia manter nessas férias e não levar para casa, tipo meus pensamentos sobre o casamento com Joe e o hospital.
- A tem uma vida perfeitamente chata, mas e a sua? Conta sobre você. – ela puxou um pouco mais a cadeira para próximo do garoto e eu ri sozinha, ainda virada de costas para eles. Nathalie não era discreta quando queria algo, e acredito que já tinha percebido isso.
- Ah, não tem nada de muito interessante na minha vida. A da não é chata, a minha com certeza é. – ele pareceu envergonhado.
- Vai, , fala um pouquinho. – ela insistiu, colocando sua mão no ombro do garoto. Me virei para ir até o armário e pegar outra panela e senti o olhar de em mim, mesmo que Nathalie estivesse quase em cima dele tentando conversar. Troquei um olhar com ele, o incentivando e ele sorriu discretamente, respirando fundo e provavelmente procurando o que falar. Sorri também e voltei para o fogão, os dando as costas, mas ainda prestando atenção na conversa.
- Meu nome é , eu tenho 20 anos... – ele brincou e eu logo o interrompi.
- E eu não transo há um dia. – enquanto riamos da piada, notei que talvez não fosse o melhor exemplo de abstinência para usar com minha amiga pendurada em seu pescoço.
- Olha, não é por nada, mas isso eu poderia resolver. – ela riu alto da própria piada e eu me virei para ver um um tanto quanto envergonhado, mas que já parecia tentar mudar sua postura para aproveitar que a mulher ao seu lado estava tentando algo.
Ele sussurrou algo em seu ouvido e eu vi minha amiga sorrir maliciosamente e sair da cozinha em direção a sala, sem dizer nada. Encarei e ele sorriu em minha direção novamente, se ajeitando na cadeira.
- Vai, agora quero ouvir mais sobre você. – aproveitei a deixa que tinha ficado e me encostei na bancada, o encarando.
- Ah, , tudo chato. – ele riu e se levantou, encostando-se também na pedra ao meu lado. – Meus dois empregos você já sabe. Trabalho onde nos conhecemos me apresentando e deixando as pessoas envergonhadas como você, ou não, porque sempre tem as mais atiradas. Trabalho de garçom no outro, mas de quinta-feira eu canto. E no tempo livre faço audição pra qualquer série, filme, musical, comercial... Só nunca deu certo, ainda, mas continuo tentando.
- Então você é o típico sonhador de Nova York que quer ser uma estrela? – ele assentiu, dando de ombros.
- Desde pequeno, por isso escolhi morar aqui. Tive toda aquela briga com a família por não querer ir pra faculdade e tudo, bem típico.
- E aparentemente você é bom em tudo que faz, não é?
- Isso é um elogio? – ele se aproximou, cutucando minha cintura.
- Ainda não te vi cantando, então não é um elogio por completo. – pisquei para ele e ele sorriu.
- É impressão minha ou sua amiga tá realmente tentando algo comigo? – ele perguntou, olhando na direção da sala.
- Ela está. Pode ter certeza. Ela é bem legal, vai lá com ela um pouco enquanto finalizo tudo e coloco na mesa.
- Ahn... Não, quero te ajudar. – ele respondeu rapidamente.
- Pode ir lá, eu termino rapidinho aqui. – coloquei a mão em seu peito, o empurrando. Ele suspirou e colocou sua mão em cima da minha, parecendo pensar e logo a tirando dali.
- Tudo bem.

- Tudo... – entrei na sala e tentei parar antes que eles me ouvissem, mas sem sucesso. se afastou rapidamente de Nathalie, com as bochechas vermelhas, enquanto ela tinha um sorriso no rosto. – Pronto. Eu vou indo pra lá. – apontei para cozinha e saí andando, segurando a risada.
- Eu também. – ouvi falar prontamente e correr atrás de mim até a cozinha. – Desculpa por isso, ela me deixou sem saída. – ele parecia incomodado com o que havia acontecido e eu apenas sorri, achando graça.
- Ela realmente corre atrás do que quer. – dei de ombros e quando virei de costas vi que ele resmungava algo, mas não foi possível entender. – Disse algo? – perguntei e ele negou veemente, mas notei que ele ainda parecia incomodado que eu os tivesse atrapalhado.

- Ficamos combinados pra sábado, então? – ele perguntou quando o levei até a porta, ele já estava quase atrasado para seu trabalho. Eu assenti e ele sorriu, parecendo animado.
- Tchau, .
- Tchau, . – ele beijou minha bochecha e saiu em direção ao restaurante.

- Ei, eu vou dar uma volta tá? – falei para minha amiga, já passando pela sala em direção à porta.
- Tudo bem, estou com preguiça. – ela falou, largada no sofá. Desde quando acordamos ficamos da mesma forma que todos os dias, deitadas fazendo nada. Eu havia me levantado há um tempo para tomar um banho e tirar a preguiça, quando decidi que sair um pouco seria bom.
Mandei uma mensagem para , avisando que logo estaria lá. Ele não respondeu, então imaginei que ele já estivesse tocando.

Cheguei ao restaurante e fui atendida por um garçom extremamente simpático que me perguntou se eu tinha uma preferência de mesa. Olhei para o palco e vi ali, sorrindo ao me ver chegar. O local já estava cheio, porém, havia acabado de vagar uma mesa próxima ao palco. Perguntei a ele se teria problema que eu esperasse a limpeza ser feita para me sentar ali.
Fiz meu pedido e peguei meu celular do bolso, abrindo minhas redes sociais para me distrair enquanto ouvia cantar uma versão acústica de várias músicas do Backstreet Boys. Ele me encarava e sorria algumas vezes, assim como para todos ali em volta que comentavam que ele era bom. Ouvi alguns comentários também de que algumas pessoas sempre estavam ali às quintas-feiras para vê-lo. O garoto era extremamente bom, sua voz era incrível e dava aquela vontade de ficar horas ali ouvindo. Eu já havia percebido que sua intenção não era ser cantor, ter um álbum e fazer uma turnê, mas ele gostava de dar o máximo de si em tudo que fazia.
Conhecia há menos de uma semana, mas já havia criado uma amizade que queria levar comigo daquela semana de férias. Ele era uma pessoa inspiradora, e eu queria muito ter alguém assim em minha vida, alguém fora do meu círculo de amizades que se resumia em médicos e socialites, principalmente como seria após meu casamento. Não que eu não gostasse dessa vida, eu tinha minhas diversões, mas às vezes se tornava um pouco enjoativa e seria legal ter alguém que apreciasse uma música pop pra curtir junto.
parecia se sentir confortável comigo também, então estava satisfeita com a nossa amizade. Por mais estranho que tivesse sido o início dela e que com certeza eu nunca contaria pra ninguém que havia me tornado amiga de um garoto que dançou em meu colo em uma saída com minhas amigas que seria como uma despedida de solteira antecipada, pois seria loucura.
Alguns minutos depois, quando ele terminou de cantar alguma música country que eu não conhecia, ele anunciou uma pausa em meio a alguns aplausos e assovios. Ele acenou do palco e desceu, andando até minha mesa e cumprimentando todos seus colegas de trabalho no curto caminho.
- E aí, . – ele se sentou ao meu lado no sofá, roubando uma batata frita de meu prato. Antes de colocá-la na boca, ele se aproximou e beijou minha bochecha fazendo um som estalado.
- Você é incrível, só isso que tenho pra dizer. Sua voz é ótima e eu só escutei elogios aqui em volta, todo mundo gosta muito.
- Eu sei. – ele falou, convencido. – Só queria que isso fosse suficiente pra ter um grande papel. – sua voz parecia um pouco sem esperança.
- Ah, . – coloquei minha mão em seu cabelo quando ele se encostou em meu ombro. – Você vai conseguir, eu tenho certeza.
- Já estou há dois anos tentando e não consegui nada, . Estou ficando meio desmotivado, sabe?
- E se eu estivesse azarada no dia que nos conhecemos porque naquele momento eu estava passando toda sorte pra você? – falei brincando e me senti uma criança com aquele pensamento.
- Meu Deus, de onde você tirou essa ideia? – ele perguntou, agora bebendo o refrigerante do meu copo.
- Você tá bem folgado, né? – comentei e ele riu, dando de ombros.

- Vou descer com você, depois vou andando até o bar. – ele comentou, dando o endereço da Rua Cornelia para o motorista. Já eram quase nove horas quando ele parou de cantar e decidiu comer algo antes de irmos embora.
Ele pediu para que eu o esperasse e voltássemos juntos, como eu não tinha nada pra fazer, aproveitei aquele tempo o ouvindo cantar e absorvendo um pouco mais daquela boa energia do lugar.
- Já pensou no que vamos fazer no sábado? – perguntei, curiosa.
- Ainda não, mas mesmo que soubesse, não falaria. Vai ser surpresa. A Nathalie vai conosco, certo?
- Acredito que sim, não comentei com ela ainda. Vocês não vão usar meu aniversário para se pegar, né? – perguntei, brincando.
- Larga de ser boba. Eu nem quero ficar com a Nathalie, . Não sei, não me senti assim por ela.
- Ah. – soltei sem graça. – Desculpa, não deveria fazer esse tipo de brincadeira.
- Ei, não tem problema. – ele riu. – Só quis esclarecer. – seus ombros relaxaram e ele se virou em minha direção, abrindo um sorriso. – Faria muito sentido ficar com ela, ela é linda, mas acho que em outras circunstâncias, não sei. – ele foi diminuindo sua voz e então chacoalhou a cabeça, parecendo tentar afastar um pensamento. – Enfim, aqui estamos.
Nós descemos do carro e ele me deu a mão para que subisse na calçada, mesmo que eu conseguisse me locomover tranquilamente com a bota, insistia em seu cavalheirismo. Olhei para rua deserta e dei risada das janelas que batiam com a brisa do outono, já que todos dali insistiam em mantê-las abertas até o último segundo antes de dormir.
- Não posso demorar, pra não me atrasar. – ele falou enquanto eu procurava a chave em meus bolsos. Encontrei-a e parei em frente a ele, sorrindo em concordância. – Obrigado por ir me ver hoje, estou gostando muito de ter sua companhia esses dias.
- Eu também estou gostando dessa amizade. Espero que você ainda queira ser meu amigo, mesmo quando eu não estiver tão perto quanto estou como aqui na Rua Cornelia. – antes que ele pudesse responder, senti diversos pingos de água em meu cabelo enquanto os via escorrer pelo rosto de . Parecia que haviam jogado água em baldes do céu, pois não estava sendo uma garoa gradativamente aumentando.
- Entra, vai. – ele pegou a chave da minha mão e abriu o portão, me empurrando para dentro e fechando a porta atrás de si.
- , meu Deus, como você vai agora? – falei rindo enquanto tentava chacoalhar a água para fora de meu corpo. Meu tronco estava mais molhado que minhas pernas. Nunca imaginaria que um minuto de chuva pudesse molhar tanto. Não estávamos encharcados, mas com certeza ficaria doente em sair com aquele moletom no vento gelado do outono.
- Nem estou tão molhado, só meu cabelo que sofreu tanto quanto o seu. – ele se chacoalhou e toda água respingou em mim. Ele deu de ombros e gargalhou, encostando-se na parede contrária a que eu estava no corredor. – Acho que foi uma boa rápida chuva.
- Também acho. – sorri, encarando seus olhos iluminados pela luz baixa do corredor. Aquela casa era um tanto quanto antiga, e seu jeito rústico me fazia sentir em um castelo de séculos passados.
- Bom, eu vou indo. – ele falou após um longo suspiro que nos despertou de um silêncio estranho. – Não se preocupa, vou pelas partes cobertas até lá. – ele interrompeu antes que eu me pronunciasse. Apenas assenti e ele sorriu mais uma vez, se aproximando e colocando suas mãos em minha cintura para depositar um beijo em minha testa. – Até sábado.
Soltei o ar que estava segurando por algum motivo e bati a porta atrás dele, trancando-a. Chacoalhei novamente meu cabelo e subi os degraus para seguir pelo corredor, encontrando Nathalie ao final com os braços cruzados e um sorriso no rosto.
- Choveu do nada. – comentei rindo.
- Eu vi, fui fechar a janela da frente correndo. – ela me estendeu uma toalha. – Vi você chegando. Tudo bem? – eu assenti. – Tenho uma péssima notícia. – ela me seguiu em direção ao quarto. – Vou ter que ir embora, . A Sra. Bett entrou em trabalho de parto, e eu sei que ela não vai aceitar ter o bebê com mais ninguém, ela já me ligou.
- Ah, claro! Sem problemas, amiga.
- Você vai ficar aqui? Achei que voltaria comigo.
- Eu realmente estou gostando de ficar nessa casa, não sei. Tem algo nela.
- Tem certeza que é nela? – ela perguntou e eu tentei entender seu tom.
- Está sendo bom ficar aqui, sério. Eu acho que precisava sair um pouco da loucura toda de hospital e casamento.
- E vai passar seu aniversário aqui sozinha?
- Vou fazer algo com o , não se preocupe. Você já vai agora? – ela assentiu, apontando para as coisas prontas no outro quarto.
- . – a abracei e antes que eu entrasse no banheiro para tirar a roupa molhada, ela segurou meu pulso. – Você vê que esse garoto está caidinho por você, certo?
- Não? – falei em um tom interrogativo, tentando entender de onde ela tirara aquele pensamento.
- Ele está. Da pra ver no jeito que ele te olha, tive certeza agora quando os vi se despedindo. Sei que você está bem tranquila com seu casamento e tudo mais, mas cuidado com ele. Cuidado para não machucá-lo.
- N., ele sabe do meu casamento desde a primeira vez que conversamos, ele sabe que estamos criando uma amizade e nada além disso. – beijei sua bochecha e ela me abraçou apertado.
- Tudo bem, . Mas fique esperta, tá? Qualquer coisa me liga, amo você.
- Também amo você, me avise quando chegar. – ela assentiu e saiu pela porta, pegando suas coisas no outro quarto e descendo as escadas. Respirei fundo e tirei da cabeça os pensamentos de Nathalie o quanto antes, principalmente aqueles que me levavam a pensar na frase “sei que está tranquila com seu casamento”. Sabia que não estava tentando nada comigo, era algo claro, mas não sabia se a ideia do meu casamento estava tão bem. Ainda mais a cada segundo que me lembrava que Joe tinha algumas outras prioridades além de mim, de nós.

- , essa tempestade acabou com qualquer chance do que eu tinha planejado, me perdoa. falou no telefone quando atendi. Já eram cinco da tarde e havíamos marcado às seis para sairmos.
- Ei, , está tudo bem. Acho que ninguém estava prevendo isso. Vamos ter que remarcar.
- Não, você não vai passar seu aniversário sozinha nessa casa. Eu vou te passar meu endereço por mensagem e você vem até aqui em uma hora e meia, tudo bem por você? Vou preparar algo legal para nós fazermos. Já até tive uma ideia.
- Tudo bem.

- Ei, oi! – falei quando abriu a porta. Ele jogou seus braços em minha cintura e me tirou do chão em um abraço apertado.
- Parabéns, .
- Obrigada. – sorri, agradecida. – Quem diria que ia esfriar tanto do nada, não é? Acho que não estou bem vestida pra uma festa, mas o dia parecia pedir um moletom. – ele apontou para própria roupa, rindo.
- Tenho que concordar, por isso fiz o mesmo. Se sinta em casa, tudo bem? Não tem três andares como a sua mansão alugada, mas é bem aconchegante.
- Muito. – me sentei no sofá e o vi ir até a cozinha, logo me levantando para segui-lo.
- Olha, eu não acho que um aniversário é aniversário sem porcarias, então comprei várias. – ele apontou para os salgadinhos em diversos potes. – E eu também acho que precisamos de um bolo, só que como foi de última hora, não tive como fazer. Aí pensei que talvez fosse uma boa diversão fazer um bolo e enfeitar, então comprei várias coisas para isso. – ele deu de ombros indicando os doces, corantes e granulados em uma sacola.
- Meu Deus, faz muito tempo que não faço isso. Eu amei, . – dei risada, surpresa com sua preparação. – Agora que não deixo essa amizade de jeito nenhum mesmo, me ganhou nos detalhes que envolvem comida. – ele piscou. - Obrigada por me fazer companhia nesse dia, confesso que depois que conversei com você aquele dia, várias coisas entraram na minha cabeça e não saíram mais, estou precisando de um pouco de diversão mesmo.
- Então vamos colocar a mão na massa e te distrair. – ele nem mesmo perguntou sobre o que eu estava falando. Ele começou a pegar os ingredientes nos armários enquanto eu ia até a sala e tirava meu moletom quente demais. Peguei o prendedor de cabelo e o arrumei em um rabo bagunçado, pois estava com medo de mexer e fazer com que ele caísse mais que o normal. Olhei para o carpete e aproveitei para tirar também meus tênis, rindo do quão confortável eu estava me sentindo. – Uau, se desmontou. – ele apontou para minha roupa e eu dei de ombros, mostrando a língua.
- Vai, me dá os ovos.

- Posso colocar música? – ele perguntou, pegando o celular. Eu assenti.
- Tem uma playlist chamada Guilty Pleasure, eu tenho certeza que você é a pessoa certa que vai conhecer todas as letras e gostar como eu. – ele se aproximou enquanto eu batia a massa e me mostrou o celular, indicando com o dedo aquela playlist como uma de suas favoritas no aplicativo.
- Não acredito. – falei rindo e ele deu play na seleção, fazendo com que Call Me Maybe de Carly Rae Jepsen invadisse o cômodo.
- Eu amo essa música, acho que ela é uma das mais Guilty Pleasure que tem nessa lista. – ele falou, começando a cantar junto.
- Your stare was holding, ripped jeans, skin was showin'. – peguei uma colher e usei de microfone, me afastando da massa do bolo e começando a dançar em direção a sala, feliz de finalmente estar sem a bota que me incomodou por uma longa semana. - Hot night, wind was blowin', where you think you're going baby? – ouvi o rangido do chão e olhei para baixo, saindo de cima daquela parte da sala de janta e indo para o carpete na sala. – Hey, I just... – quando dei um passo para o lado, senti meu corpo desequilibrar na ponta do carpete e caí no sofá, fazendo um barulho alto que fez com que quase chorasse de rir.
- Talvez eu precise fazer a manutenção o quanto antes, mas já acostumei com onde estão os problemas.
- Um aviso cairia bem. – falei, voltando para cozinha.
- Só tem uma coisa que cairia melhor que um aviso, você. – ele falou rindo e eu tentei segurar, mas tive que acompanha-lo. – Muda de música, essa já deu ruim. – ele apontou para o celular e pegou a assadeira do bolo, colocando no forno que já estava pré-aquecido.

- Meu Deus, essa é uma das minhas preferidas! – falei, animada ao ouvir a introdução de Dancing Queen, do ABBA. Peguei o saco de confeiteiro e comecei a primeira fileira de chantilly na vertical.
- Oh, you can dance, you can jive, having the time of your life... – cantou, animado também. Me virei para ele e coloquei a ponta do saquinho em sua bochecha, apertando levemente para sujá-lo com o doce branco. O vi rir e limpar com a mão, deixando com que caísse no chão e logo em seguida ele pisasse em cima com seus pés, que estavam descalços como os meus. Dei de ombros quando ele me encarou, culpando-me.
- And when you get the chance, you are the dancing queen, young and sweet... – levantei meus braços, me deixando cair no ritmo da música enquanto balançava meu corpo.
sorriu e se aproximou, esticando suas mãos para que eu pegasse. Ele me conduziu pela pequena cozinha no ritmo animado da música, segurando minhas duas mãos e improvisando alguns passos que me ensinava.
- Esse é um musical que eu toparia ser até a árvore. – ele falou enquanto eu respirava cansada com as mãos apoiadas em meus joelhos.
- Acho que esse, até eu que não sei cantar e dançar queria. – ele voltou sua atenção para o bolo. - Isso é um bom começo pra uma boa amizade, vou te fazer me ensinar a dançar. – falei apontando para nós dois e ele concordou, rindo.
- Você não leva o menor jeito, mas prometo que posso tentar. – o encarei indignada e ele apenas me olhou com a expressão de “infelizmente é verdade” e eu dei um tapa em seu braço.

- Ah, , jogar isso com você é pedir pra perder, com certeza. – falei quando ele sugeriu que jogássemos Just Dance em seu vídeo game.
- Eu juro que vou pegar leve. – ele juntou as mãos, pedindo por favor.
- Eu vou passar vergonha. – me joguei no sofá, concordando. Ele rapidamente correu até o aparelho, ligando-o.
- Há quanto tempo você joga todas as músicas dele? – apontei para versão 2018 que ele tinha em mãos.
- Há tempo suficiente pra decorar todas. – ele falou rindo e eu lhe mostrei o dedo do meio.
- Não vou jogar, de jeito nenhum.
- Vai, só uma. – ele fez bico e eu rolei os olhos, me levantando.
- Eu escolho a música. – falei, levantando a mão para que meu corpo fosse reconhecido pelo jogo. – Essa. – selecionei Despacito, do Luís Fonsi e revirou os olhos.
- É muito lenta, e fácil. – ele reclamou.
- Exatamente por isso.
Me posicionei no lugar correto e vi fazer o mesmo, então dei início a música e antes de começar a dançar eu já estava rindo. Eu não era muito boa no espanhol, mas aquela música era ótima e eu insistia em canta-la alto enquanto dançava.
Tentei incorporar minha dançarina interior e me juntar a nos passos ritmados antes de chegarmos ao primeiro refrão. Aquela era uma dança com passos em dupla, então tentei dar meu melhor para bater nele em seu próprio jogo. Eu só não conseguia levar aquela competição tão a sério por dividirmos a música com risadas e caretas sendo feitas um para o outro.
No refrão, se posicionou atrás de mim para seguir os passos dados na tela e sua mão se colocou em minha cintura firmemente, lhe dando a oportunidade de me guiar pelos passos que já sabia de cor. Durante todo o refrão ele falava para mim os próximos passos que faríamos, me ajudando.
- Claro que eu não ganharia. – falei rindo ao final da música e me joguei no sofá, sendo seguida por ele que se deitou em meu colo. – Mas confesso que deve ter sido minha melhor pontuação na vida, dançar com você é fácil.
- Também com uma ajuda dessa, se você não conseguisse seria estranho. – ele apontou para si mesmo e eu rolei os olhos. – Quer comer o bolo? – ele se levantou ao me ver assentir. – Vai ser o parabéns mais sem graça da sua vida. – ele pegou a vela que havia comprado.
- Nem precisa cantar, .
- Precisa sim! É importante. E eu ainda vou receber o primeiro pedaço, você me conhece há uma semana e eu já vou ter essa honra.
- Não é como se eu tivesse opção, não é? – dei de ombros e ele sorriu, logo iniciando um “parabéns” extremamente animado para apenas uma pessoa cantando. – , você apagou a luz? – ele perguntou depois que eu havia apagado as velas e estávamos no escuro.
- Não, achei que tinha sido você. – ele andou até o interruptor e ouvi o barulho dele mexendo, porém, a luz não se acendeu. Dei uma olhada para fora da cozinha, tateando a parede para me localizar, e vi que na sala tudo estava desligado também. – É, estamos sem luz.
- Ah, que droga! Eu ia te derrotar em mais uma música. – ele falou. – Vou procurar meu celular, não sei onde deixei.
- O meu está no sofá, acho que é mais fácil eu encontrar. – continuei tateando as paredes para me localizar e fui dando pequenos passos até a sala. – Onde você tá?
- Aqui. – ele falou alto sem saber onde eu estava e eu dei um pulo, assustando com sua voz ao meu lado. – Essa janela é tão ruim de iluminação que eu realmente não te vejo.
- A cortina tá fechada, deve ser por isso. Já pensou que estávamos com uma vela na mão e era só ter acendido?
- Tarde demais. – ouvi sua risada baixa próxima a mim e de repente ouvi o rangido do chão e sabia que dessa vez, ele tropeçara no carpete. – Ai. – ele reclamou, rindo.
- E agora, não sei onde você tá pra não pisar em você. Você tá bem? – perguntei.
- Sim. Cuidado pra não... – senti que havia pisado em algo e quando o ouvi gritar, percebi que era sua mão.
- Aí meu Deus, , me desculpa. – eu me abaixei ao seu lado, procurando por sua mão desesperadamente, sem saber o que fazer. Usei minha outra mão para tatear o sofá em busca do celular e o encontrei próximo a mim, desbloqueei o aparelho e o deixei virado para cima para usar a luz.
- Tudo bem, , tá tudo bem. – vi seu sorriso que tentava me acalmar e me sentei ao seu lado. Ele estava deitado com a barriga pra cima e eu me sentei entre seu braço esquerdo e o sofá, próximo de sua mão que eu pisara e ele agora passava a outra como se fosse aliviar a dor.
- Eu acho que você talvez seja o motivo de eu estar dessa forma, porque não é possível que tanta coisa aconteça de ruim comigo de uma vez só. Estou começando a acreditar na teoria que te dei sorte. – resmunguei, emburrada. Ele riu, se levantando e sentando próximo a mim. Senti sua mão passar por minha cintura e um arrepio correr automaticamente por meu corpo. encostou seu queixo em meu ombro, e continuava com seu sorriso no rosto, parecendo pensativo. Ele me encarava como se estivesse decorando cada parte do meu rosto, e quando menos esperei, estava sorrindo também e minha respiração parecia falhar.
- Nem tudo que aconteceu essa semana foi ruim, . – ele falou baixo e eu assenti sorrindo, ainda em um transe enquanto mantinha meus olhos nos dele. A luz do celular se apagou e eu senti a respiração de cada vez mais próxima, até sentir sua boca em minha bochecha, deixando um beijo demorado ali. Desbloqueei o celular novamente e a luz se acendeu. Tentei controlar minha respiração enquanto passava sua mão da minha cintura para minha perna como em um carinho. Olhei para tela do aparelho e vi que se passava das dez e tinha uma mensagem e duas ligações de Joe. Abri a mensagem e li que ele estava me procurando, pois ele achara que eu já tinha voltado para casa e estava lá de surpresa me esperando para comemorar meu aniversário.
- Ei, tá tudo bem? – perguntou quando me levantei rapidamente e comecei a calçar meu tênis e procurar minha blusa para vestir. – ? – ele perguntou novamente quando não o respondi.
- Eu tenho que ir, , me desculpa.
- Eu fiz alguma coisa? – ele perguntou, se levantando e ficando parado em minha frente enquanto eu vestia o moletom. – ? – ele chamou minha atenção quando deixei de responde-lo mais uma vez.
- Ahn, não. Tá tudo bem, eu só preciso ir, mesmo. Me desculpa, muito obrigada por tudo, , você é incrível e eu sou realmente muito grata por tudo que fez por mim essa semana. – prendi minha respiração e me aproximei dele, abraçando-o rapidamente. Ele colocou seus braços em volta da minha cintura e me segurou apertado antes que eu pudesse me soltar como planejara. Soltei o ar que estava guardando e senti o cheiro de seu perfume, o que me fez suspirar mais uma vez. – Eu... Eu realmente preciso ir. – tirei suas mãos de minha cintura e beijei sua bochecha, correndo para porta.
- Me desculpa, . Por qualquer coisa que tenha feito você correr assim. – ele falou triste. A lanterna do meu celular estava acesa e eu podia ver seus olhos brilhando, tentando entender o que estava acontecendo. Mas eu tinha mesmo que ir, eu não podia ficar ali e me explicar agora. Sorri para ele e fechei a porta atrás de mim, deixando um garoto triste e preocupado para trás.

Cheguei na casa que alugara e corri para o quarto, jogando minhas roupas espalhadas dentro da mala. O caminho todo tentei não pensar em , mas foi difícil. Ele estava enganando minha mente, eu não poderia me colocar nessa situação por nem um minuto mais. Sentei na cama por um segundo e me deixei respirar, tentando aliviar as sensações que ainda passavam por meu corpo.
Mandei uma mensagem para Joe de que logo estaria em casa e terminei de arrumar minha mala. Havia ficado ali apenas uma semana e sabia que sempre teria lembranças daquela casa, mas eu precisava deixar a Rua Cornelia para trás. Vi uma mensagem de chegar e a ignorei, pensando até mesmo em bloquear seu número por um tempo, ao menos até colocar minha cabeça no lugar. Pensei em avisa-lo que estava indo embora, mas não me sentia capaz de vê-lo questionar, então apenas andei até o carro o mais rápido que podia e o tirei da garagem, pegando meu caminho para casa e deixando aquela semana para trás, como era necessário.

2 semanas.
- Joe, não dá. – falei, colocando meus talheres ao lado do prato e limpando minha boca com o guardanapo. O homem em minha frente parecia tentar entender do que eu estava falando, e eu apenas respirei fundo, sentindo lágrimas começarem a surgir em meus olhos.
- , o que foi? A comida está ruim? – neguei com a cabeça e olhei mais uma vez suas malas ali ao lado, ainda sem desfazer, mesmo que ele já tivesse voltado de viagem há dois dias.
- Eu não posso seguir com isso, eu pensei muito, eu não consigo ser essa pessoa que você precisa. Nem pra você, nem pro hospital. Eu não consigo pensar em viver no hospital, enquanto você viaja, faz cursos, administra de longe, passa uma semana em casa e três fora. Eu sei que vai ser assim, eu estava ciente quando aceitei, mas não é o que quero pra minha vida.
- , de onde você tirou isso do nada? – ele perguntou, parecendo surpreso.
- Eu venho pensando há algum tempo, eu estive tentando considerar que podemos fazer dar certo, mas pra mim não tem como, Joe. Eu realmente gosto de você, mas eu não quero casar agora e já ter todas as responsabilidades de um hospital com você. Eu quero aproveitar minha residência, me especializar, e depois pensar em um casamento.
- , estava tudo tão certo, o que deu em você? – ele parecia tentar se manter calmo, mas os nós de seus dedos estavam esbranquiçados e eu achei que ele acertaria um soco na mesa a qualquer segundo. – Você sabe das minhas responsabilidades com o hospital.
- Eu sei, Joe. Realmente sei, e é por isso que eu não posso seguir em frente. Espero que você me perdoe. – me levantei da mesa e andei até ele, dando um beijo em sua bochecha.
- Amanhã nós conversamos melhor, você não está pensando direito. – ele segurou minha mão, parecendo mais calmo. Tentei lhe dar um sorriso e acenei, caminhando até a porta com uma sensação de certeza do que havia feito, eu não podia continuar. Eu havia tentado, mas não era certo.

2 anos
Eu nunca imaginaria estar de volta naquela rua. Olhei pela janela e vi a casa que eu ficara dois anos atrás, uma casa que mesmo depois de um tempo, ainda me trazia lembranças. Desempacotei a última caixa e coloquei alguns porta retratos nos lugares e outros enfeites, como os de natal que havia trazido. Pendurei-os pela casa e sorri, satisfeita em ver tudo pronto.
Me joguei no sofá, cansada depois de arrumar tudo ali, fazer uma mudança não era nada fácil, mas com certeza minha vida ficaria mais simples estando ali. Eu havia aceitado uma oportunidade no Lenox Health, e como passaria muito tempo no hospital, soube que seria melhor estar por perto. Eu já estivera ali, e não podia negar que havia adorado o bairro, não seria esforço nenhum me mudar. Claro, eu não poderia comprar a casa gigante que ficara da outra vez, pois seu preço era muito alto, mas logo quando comecei a procurar, encontrei uma casa do outro lado da rua, bem menor e ótima para alguém sozinha como eu.
Vi uma mensagem de no meu celular e dei risada, começando a imaginar o que ele acharia daquilo. Eu não havia contado para ele sobre a mudança, mas havia falado que nesse fim de semana o visitaria.
Seis meses atrás, eu estava andando pela Times Square para comprar algumas coisas e fui atingida por uma onda de pensamentos ao ver diversas coisas. Eu vi um teatro, uma placa de audições, um garoto tocando e cantando em frente a uma loja, uma garota que dançava em frente a outra. Era tudo que eu sempre via pela cidade, pois aquela cidade respirava talentos, e foi isso que me fez pensar em . Aquela cidade gritava seu nome, gritava seu jeito, gritava seu talento.
Eu não havia mais falado com ele desde que deixara a rua Cornelia naquele dia, mas foi naquele momento que senti que havia errado em me afastar do garoto, já que foi ele quem me fez pensar e acertar partes da minha vida que estavam indo pra um caminho que eu não queria seguir. Naquele dia, mandei uma mensagem para ele, pedindo desculpa por tudo que tinha acontecido e falando que havia passado por um momento complicado e estava errada de afastar alguém que havia feito tanta diferença na minha vida em apenas uma semana. Ele me perguntou o que tinha acontecido e eu liguei pra ele para explicar tudo e resumir como tinha sido aquele tempo que não conversamos, o que nos fez passar uma noite inteira em ligação.
Desde esse dia, conversávamos sempre. e eu nos aproximamos novamente, mas em meio a uma amizade virtual, já que nunca havíamos conversado sobre nos encontrar. Eu não sabia nada sobre sua vida amorosa, não falávamos de tudo, pois certos assuntos pareciam precisar de um pouco mais de seriedade e isso não conseguíamos ter. Eu não sabia nada sobre sua vida amorosa, mas confesso que queria, pois eu sabia o que tinha acontecido a cada conversa que tivemos naquele período, eu sabia que havia me apaixonado por com nossa reaproximação. Eu sabia que ele havia me feito sentir, mesmo de longe, tudo que senti no tempo em tivemos juntos e não pude reconhecer na época.
Quando percebi isso, tive um choque. Nós éramos muito diferentes e eu não conseguia pensar em como falar pra ele que nem havíamos nos encontrado e eu não conseguia parar de pensar nele. Nós brincávamos algumas vezes, flertes inocentes em meio a risadas, mas nada sério, nunca. Algumas vezes eu achava que era correspondida, mas me lembrava que o ocorrido entre nós já havia passado há muito tempo e ele com certeza já havia esquecido.
Quando consegui o emprego e decidi me mudar, duas semanas atrás, preferi não contar a ele e surpreende-lo. Falei que estaria próxima de sua casa e queria vê-lo. Ele ficou animado e eu agradeci em não receber qualquer resposta evasiva que mostraria que ele não queria me ver. Não sabia como reagiria se recuasse e eu sentisse que o perderia, eu, com certeza, nunca mais pisaria naquela rua e conseguiria outro emprego longe dali. Eu tinha medo de dar qualquer passo, mas depois que reconheci estar apaixonada por , eu faria de tudo para tê-lo comigo, eu não iria embora dessa vez e eu não o deixaria ir. Não conseguia nem mesmo pensar nisso, mas era inevitável ver o lado ruim quando haviam se passado dois anos desde nosso último encontro. Pensar em uma relação me parecia até estranho.
Tentei afastar aqueles pensamentos da cabeça e corri para o banho quando vi que já era duas e meia e seu turno no restaurante começava às três. Ele ainda estava no mesmo trabalho, então eu o encontraria lá, mesmo que não o tivesse avisado.

Entrei no restaurante e ainda estava extremamente vazio por ser o horário entre o almoço e o jantar. Respirei fundo e comecei a olhar em volta, sentindo a mesma admiração pelo lugar como da primeira vez, aquele lugar era uma graça e não tinha como negar. Vi andando de um lado para o outro e suspirei, andando na direção contrária e me sentando em uma mesa. Mandaria uma mensagem para ele, avisando que estava aqui.
De longe, vi uma moça sentada na mesa próxima da cozinha, e ela acompanhava com o olhar onde quer que ele fosse. Ele sorriu para ela e olhou para cozinha, recebendo um ok de alguém. Ele então se sentou em sua frente e eles iniciaram uma conversa animada, que logo pareceu se tornar um diálogo romântico. Eles se olhavam com um enorme carinho e os vi dar as mãos em cima da mesa, vendo então uma aliança brilhando na mão da mulher. Respirei fundo e tentei controlar meu corpo, esbarrando no garçom que chegara ali pra me atender quando levantei rápido demais para correr do restaurante.
Entrei em meu carro que estava parado ali próximo e comecei a dirigir, ignorando as diversas notificações que chegavam em meu celular. Eu não sabia se havia me visto lá, mas as mensagens que chegavam eram dele. Estava na segunda avenida, me aproximando do Entrance Tunnel quando vi que ele me ligava. Pensei em não atender, mas eu sentia que precisaria também explicar porque sumiria dali e não o visitaria. Entrei em uma rua e estacionei o carro, atendendo sua ligação.
- Volta. – ele falou assim que atendi.
- Oi, .
- Eu te vi, você pode voltar, por favor?
- , eu não posso. Eu...
- , eu te conheço, volta aqui e me deixa conversar com você. Não seja teimosa, não agora, por favor.
- ...
- Você consegue me esperar no restaurante por um tempo? Eu tenho algumas coisas pra fazer, vão cobrir meu turno hoje.
- Tudo bem.
– falei, me dando por vencida.

Deixei meu carro em casa e andei até o restaurante, eu precisava respirar um pouco, e eu não queria dirigir depois. Entrei mais uma vez no restaurante e me sentei longe, sem que me visse. Pedi uma bebida, nada muito pesado, e aguardei o tempo passar.
Depois de uma hora e mais algumas bebidas, ele já havia me visto e parecia nervoso, não mais do que eu estava, mas decidira não falar comigo até estar livre. Respirei fundo diversas vezes, tentando controlar a ansiedade.
- Ei, oi. – ele parou ao lado da minha mesa, já pronto para ir embora. Ele tinha um sorriso lindo no rosto e estendeu sua mão em minha direção, para que eu pegasse. Segurei sua mão e me levantei, sendo abraçada por ele. – Como você tá?
- Acho que bem. – estranhei seu jeito normal, sem falar no que acontecera antes ou citar a ligação. – E você?
- Estou ótimo. – ele falou, deixando seu sorriso se alargar. O encarei sem entender e ele deu de ombros, andando até a saída do restaurante e me puxando junto a ele. – Eu preciso pegar uma blusa em casa. – ele disse, chamando um táxi.

- Você realmente não vai falar nada? – perguntei agoniada, saindo do carro depois de um curto caminho em silêncio até sua rua.
- Eu estou com o pé atrás de ter entendido errado. – ele falou, parando na calçada em minha frente. O vi respirar fundo e então ele me encarou. – Eu não tenho ninguém, e eu queria te contar quem era aquela moça de uma forma muito mais legal do que você tornou. – ele rolou os olhos e eu arqueei as sobrancelhas, tentando o entender. – Olha essa mão aqui. – ele levantou sua mão para que eu olhasse, ainda sem entender. – Não tem nenhuma aliança aqui, nada. Sigo completamente disponível, e eu acho que era isso que você queria ouvir e está segurando um sorriso, mas não vou me precipitar. Vem cá.
segurou minha mão e me puxou escadas acima pelo prédio. Antes de entrar e segui-lo, encarei ao meu redor e sorri, me lembrando da única outra vez que estivera ali e como mudara completamente o rumo da minha vida por estar com ele naquele apartamento. Confesso que quando fui embora, não imaginava estar ali novamente um dia, mas parecia extremamente certo enquanto ele me puxava com sua mão na minha.
- Queria um lugar legal. – ele abriu uma porta de emergência e saímos no telhado empoeirado e cheio de materiais, com uma planta morta bem ao lado da porta. – Não é nada bonito ou arrumado, mas a vista pelo menos é legal.
- A vista compensa. – concordei, andando até a beirada do muro e sendo acompanhada por ele.
- Eu estava lá... – ele começou, encostando-se no muro e segurando minha mão próxima ao seu peito, sem tirar seus olhos dos meus que já não encaravam mais a Selva de Pedra. – Ensaiando, . Aquela é a Beverly, ela vai ser meu par, eu consegui um papel, finalmente. Não é nada... – antes que ele pudesse finalizar sua frase, eu pulei em seu pescoço e o senti agarrar minhas pernas para me tirar do chão antes que eu caísse.
- , meu Deus, isso é incrível! Você podia ter me contado antes, nossa, eu nem sei o que falar! Você merece tanto, que orgulho! – falei animada, me atropelando em diversas palavras.
- Agora... – ele me colocou no chão novamente, deixando uma de suas mãos em minha cintura enquanto a outra tentava arrumar meu cabelo que se bagunçara em meio a minha felicidade. – Eu preciso saber se eu me precipitei em contar isso, ou se eu posso ter entendido certo você saindo correndo do restaurante. – eu abaixei minha cabeça, tentando esconder o sorriso em meio ao meu rosto envergonhado. Ele negou com um aceno de cabeça e colocou sua mão em meu rosto, levantando-o para que pudesse olhar em seus olhos. – Você queria me ver?
- , eu... – tentei buscar palavras pra falar algo no mínimo decente, mas não tive muito tempo, já que ele de forma desesperada uniu nossos lábios em um beijo. Sua respiração estava tão descompassada quanto a minha e por um segundo me lembrei da cena do meu aniversário na semana que nos conhecemos. Suas mãos seguravam firmemente minha cintura, enquanto as minhas se jogaram em seus ombros tentando aproximar mais ainda os nossos corpos a cada segundo.
- É tão bom saber que eu não estava louco, . – ele falou assim que separamos nossas bocas. – Quando a gente se conheceu, algo me disse que isso tinha que acontecer, eu acho que foi amor à primeira vista, mas com a emoção do balde de água fria da palavra “noiva”. Mas ainda sim, eu senti que precisava ficar perto de você. Eu não esbarrei em você casualmente na rua aquele dia, e eu me sinto insano em te contar isso, mas eu senti que precisava falar com você então esperei um pouco e quando te vi saindo senti que tinha alguém lá em cima me ajudando. Falar isso em voz alta me faz sentir ainda mais um stalker obcecado, mas eu juro que depois disso eu não tinha nenhuma intenção, nada, eu queria realmente ser seu amigo. – ele riu com o rosto ainda próximo do meu e eu controlei a vontade que estava de grudar nossos lábios outra vez.
- Até o meu aniversário. – falei e ele assentiu.
- Até o seu aniversário, que eu não consegui me controlar quando percebi que você estava tão presente naquele momento quanto eu. Eu nunca faria nada, mas eu soube que você estava perdida também. Quando você foi embora eu percebi a burrada que tínhamos feito, mas confesso que em uma semana eu já estava mais tranquilo e achando que era tudo coisa da minha cabeça, que era só uma coisa boba que tinha rolado e vida que segue.
- Mas aí eu passei pelo meio da Times Square e ouvi e vi seu nome em tudo ali. Em toda a cidade na verdade. Eu percebi que tivera uma oportunidade ótima de conhecer um garoto bem Nova Yorkino... – falei rindo e ele revirou os olhos. - E deixei pra trás por bobeira. Por isso senti que nossa amizade merecia mais uma chance, eu só não esperava sentir o que senti. Eu gosto de você, , você me faz bem. Todas as nossas conversas, todas as brincadeiras, todos os momentos, tudo me fez querer está aqui agora. Lembrar como uma semana com você foi mais do que anos com qualquer pessoa da minha vida, me fez querer estar aqui agora. Você me salvou de algo que me faria extremamente infeliz, e agora eu sei porquê você apareceu no meu caminho. De uma forma bem inconveniente e provocadora, devo acrescentar. – ele sorriu, apertando ainda mais sua mão em minha pele. – Você não apareceu pra me plantar uma dúvida na cabeça, você apareceu pra ser a dúvida. – dei de ombros e ele riu de minha conclusão.
- Isso tudo quer dizer que eu tenho uma chance com você? – ele apontou para nós dois, fazendo uma expressão boba.
- Até duas, se precisar. – ele riu, olhando para o relógio em seu pulso.
- A gente pode resolver quantas eu preciso no caminho? Vou pegar minha blusa em casa e preciso ir pro ensaio, você vem comigo? – eu assenti, sem nem pensar.
- Podemos pegar meu carro e eu levo você. - ele segurou minha mão mais uma vez e me deu um rápido selinho antes de andar comigo em direção a escada novamente.
, eu só queria dizer que eu acho que devíamos reencenar nosso primeiro encontro, mas em casa. – ele falou sério e eu gargalhei, dando um tapa em sua cabeça. – Desculpa, eu senti que agora posso falar tudo que pensei, estou com alguns pensamentos de uma semana e depois mais uns seis meses em atraso. – ele riu e parou no meio da escada para me dar mais um rápido beijo.

- Rua Cornelia, por favor. – falei para o motorista ao entrar no banco de trás do carro com ao meu lado. Ele fechou a porta e me encarou com as sobrancelhas arqueadas. - Aluguei uma casa na rua Cornelia. – falei casualmente. – De uma forma mais permanente que dá última vez. - Ele arregalou os olhos. – Eu também tenho novidades, não é tão boa quanto a sua, mas... Vou trabalhar no Lenox Health e, como serão turnos e mais turnos, achei que seria legal morar mais perto. E também achei que era bom respirar novos ares. E... – falei ainda despejando as palavras. – Talvez eu tivesse uma esperança de que seria divertido morar perto de você.
- , isso é maravilhoso! Essa notícia é tão incrível quanto a minha, sem dúvida. – ele colocou suas mãos em meu rosto e me beijou demoradamente. – Vou fazer ser muito divertido morar perto de mim, você não tem ideia. – ele riu ao fazer uma piada maliciosa mais uma vez.
- Dois anos te mudaram, hein? Tá descarado.
- Dois anos não, , o que me mudou foi uma você solteira. – ele brincou. – Mas não por muito tempo. – ele sorriu sincero e beijou minha bochecha, encostando minha cabeça em seu ombro.
Me mudar para aquele bairro parecia, agora mais do que nunca, a coisa certa a se fazer. Eu sentia que tudo apontava o nosso caminho para preencher os espaços daquela folha em branco que era a nova fase que começávamos ali. Eu já me sentia em casa naquele lugar, principalmente com . Meu único medo naquele novo começo, era o medo de sempre, o medo do fim. Eu esperava não perdê-lo, pois agora eu entendia o que eu havia deixado pra trás quando fui embora, e o medo de viver o que queremos é o tipo de coração partido que nem o tempo pode curar.
Olhei pela janela e tentei controlar a tontura que começava a dar sinais, pois eu sabia que era completamente psicológica, aquilo estava mais para borboletas no estômago. Eu havia bebido no restaurante enquanto esperava por ele, mas nada se comparava a estar inebriada pelo perfume de e por todo aquele sentimento que dominava o banco de trás do carro no abraço em que estávamos.




Fim.



Nota da autora: Oi, gente! Espero que tenham gostado da fic! Esse enredo foge um pouco do meu clichê de sempre, e confesso que foi um sofrimento escrever um romance com uma pp noiva, tomando todos os cuidados, hahahah. Espero os comentários de vocês, me digam o que acharam <3




Outras Fanfics:
  • 04. She Will Be Loved
  • 14. Maneira Errada (continuação de She Will Be Loved)
  • I Do (continuação de She Will Be Loved e Maneira Errada)
  • 08. Two Worlds Collide
  • 12. Hesitate


    Nota da beta: Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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