Finalizada em: 30/07/2019
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Prólogo

Tudo que o sol toca é o nosso reino. O tempo de um reinado se levanta e se põe como o sol. Um dia, o sol vai se pôr com o meu tempo aqui e vai se levantar com o seu como novo rei. Há muito mais que um rei tem que fazer além de sua vontade.
Tudo que você vê faz parte de um delicado equilíbrio. Como rei, é necessário entender isso e respeitar todos os animais, desde a pequena formiga até o maior dos antílopes. Veja, quando você morre, seu corpo se torna grama, e os antílopes comem grama. E assim estamos todos ligados no grande Ciclo da Vida.
Só sou corajoso quando é preciso ser. Ser corajoso não significa meter-se em apuros ou buscar problemas.
Os grandes reis do passado nos observam lá das estrelas. E quando se sentir perdido, lembre-se que esses reis sempre estarão lá para guiar-te.



O Ciclo da Vida

A lembrança mais antiga de começa com um mais um dos dias ensolarados nas Terras do Reino, como milhares de outros na terra ancestral. Tudo que ela sabia era que em um desses incontáveis dias acordou e contemplou a forma adormecida de sua mãe, , por um breve momento antes de seus olhos se acostumarem à penumbra. Ao se levantar lembrou-se que estava na caverna onde todos os leões e leoas descansavam. A plataforma em que o rei e a rainha, e , dormiam estava vazia, mas aquilo não era algo a que ela daria importância. De fato, naquele tempo, tudo que importava era correr pelas savanas e explorar cada canto e pedaço das Terras do Reino.
E é nesse mesmo dia que nossa história começa. se sentou, tentando não pisar em ninguém, e esperou, impaciente, sua mãe acordar. Afinal, embora parecesse, aquele não era um dia comum: era o dia em que e haviam prometido ensinar-lhe a rastrear gazelas. Ela já havia ouvido tantas histórias sobre como o reino dependia de que as leoas trouxessem a caça que mal podia esperar para vê-las em ação - e, mais importante, desejava ser como elas.
Por fim, depois de uma espera quase interminável, viu sua mãe bocejar e se levantar, e ela começou a empurrar uma das patas dela com a cabeça.
- Vamos, mamãe, vamos! Você ‘tá demorando muito! - Ela deu uma risada, algo que não apreciou.
- Tenha calma, querida. A savana não vai sair do lugar. - Argumentou, enquanto se dirigia à saída da caverna. se antecipou, correndo entre as pernas delas e a esperando do lado de fora. Enquanto via sua mãe sair da caverna, também viu e um pouco afastados, subindo ao topo da Pedra do Rei, enquanto os observava.
- O que eles estão fazendo? - perguntou enquanto sua mãe se aproximava e as duas começavam a caminhar na direção oposta.
- está ensinando a sobre como ser rei. - Ela sorriu enquanto desciam a Pedra do Rei até as savanas. - Um dia ele tomará o lugar de e, se tiver o valor suficiente, será reconhecido e aceito por todos como o novo rei.
- E por quê ele tem que ser aceito, mamãe? já não nasceu como rei?
- Tornar-se rei ou rainha é um direito de nascença, mas existem alguns limites. Somente o filhote mais velho será rei ou rainha depois que seu pai ou mãe se for. Irmãos e irmãs são os sucessores, caso algo aconteça com o novo líder. Mas, mais importante do que isso… um rei ou rainha tem que mostrar a todos que é merecedor dessa posição. Liderar é uma honra e exige grande responsabilidade. O líder sempre tem que pensar no bem estar do grupo e no que é melhor para todos. Ele tem que ser leal, justo e sábio, como é.
achou aquelas palavras complicadas, de maneira que continuou falando.
- Filha, um reino é composto de um rei, de uma rainha e de muitas leoas, como eu e você. Geralmente apenas o rei e a rainha têm filhotes, mas as outras leoas às vezes acabam tendo filhotes com leões solitários e elas também os criam junto com a manada se assim desejarem. - Ela começou a andar pelas savanas e a pequena correu para andar ao seu lado. As duas caminharam por alguns minutos até que sua mãe subiu numa acácia, uma árvore fina e alta, e seguiu logo atrás, usando suas garras para se segurar no tronco. se sentou em um dos troncos e viu que observava um grupo de gazelas a curta distância. Ela se virou para a filha, que perguntou:
- Mamãe, é daqui que vamos rastrear as gazelas? Por quê subimos aqui?
- Você consegue ver tudo daqui, certo? - apontou com a cabeça para o grupo de animais abaixo e para a imensidão das savanas. assentiu, conseguia ver até uma manada de elefantes ao longe. - Escalar árvores não é algo que fazemos com frequência, mas pode ser muito útil para se ter uma ideia de alvos em potencial quando você estiver caçando. Mas só quando for mais velha. - Riu da careta que fez. - Antes que eu te ensine a rastrear as gazelas, você tem que começar a entender o que é ser uma leoa. Sente-se comigo aqui. - Ela obedeceu, sentando-se em frente à mãe. - Me diga uma coisa: o que as leoas fazem nas Terras do Reino?
inclinou a cabeça para o lado, um pouco confusa.
- Elas caçam?
- Correto. Ao caçar, trazemos o sustento e a sobrevivência para nós mesmas e para todos. Os leões também sabem caçar, porém essa é primariamente uma função das leoas. Enquanto o rei lidera e protege todos que vivem no reino, a rainha lidera as leoas, as caçadoras. É esse papel que desempenha com maestria. Eu te trouxe aqui em cima para que você observe a imensidão do nosso reino e quanta vida há nele. - olhou para a mãe e sorriu ao voltar seu olhar para as savanas. Havia algo de muito bonito em tudo aquilo, uma espécie de harmonia que ela não sabia definir. - Mais importante do que a caça em si, uma caçadora tem que conhecer e respeitar todas as criaturas. O que você acha que aconteceria se fôssemos atrás de todos que você está vendo lá embaixo?
apertou os olhos para ver melhor.
- Acho que eles iriam se assustar e correr, e talvez fossem embora daqui.
- E além disso, ficaríamos sem comida e morreríamos de fome. E essas gazelas ficariam sem pasto para comer e também iriam morrer. É por isso que uma caçadora deve sempre respeitar o ciclo da vida, que nos envolve a todos e que nos conecta. , escute com atenção: como futura caçadora, você nunca deve abater mais do que o necessário. Você deve apenas pegar o que for preciso para nosso sustento. - assentiu com vigor, vendo que a mãe se levantava.
- Entendi. Nunca pegar mais do que o necessário. Mas como eu vou saber o quanto é suficiente?
- Você aprenderá comigo, com e com as outras leoas conforme formos te ensinando a caçar. Você ainda tem muito chão pela frente, querida. - começou a seguir enquanto ela descia da árvore. - Agora, o que você me diz de observarmos algumas gazelas?

guiou pelas savanas, sempre mantendo uma distância segura do grupo de gazelas que haviam identificado de cima da acácia. A cada passo, ela mostrava que tipo de marcas os animais deixavam, e como identificá-las e segui-las na direção correta. achou aquilo muito divertido e começou a se animar quando a mãe lhe ensinou a ver marcas de diferentes animais, como gnus, javalis, e antílopes. Ela seguia , correndo atrás dela e tentando encontrar as marcas e dizer a que animal pertenciam antes que ela dissesse.
Já estavam fazendo aquilo há algum tempo quando e as demais leoas chegaram até elas, para iniciar a caça daquele dia. e orientaram que se abaixasse na relva e apenas observasse enquanto perseguiam um grupo de gnus. se inclinou sobre , sussurrando:
- Você deve ficar tão imóvel quanto conseguir, filha. - assentiu, se encolhendo na grama. - Tem que sentir a terra sob suas patas. - pisou a terra até não houvesse nenhum ruído. - Agora você se move bem rápido, sem fazer barulho e ataca sua presa! - Ela correu encolhida na grama até achar uma abertura, onde conseguia ver alguém abaixado. Com um grito de guerra, ela se lançou sobre a figura, que foi jogada para o chão e gritou de susto!
- Ahá, te venci! - ela gritou, triunfante, vendo que tinha atacado ninguém menos que , seu melhor amigo. O filhote caramelo se levantou, cuspindo um pouco de terra parecendo um pouco aborrecido, e se virou para ela. e não conseguiam parar de rir.
- Oi, … Eu acho.
- Oi, ! - ela respondeu, dando risadinhas. - ‘Tá vendo só? Você fica aí parado, distraído, vai acabar sendo emboscado! - Ela rolou no chão, ainda rindo da expressão de susto dele.
- Ah, me larga, vai - ele balançou a cabeça, tirando os últimos grãos de terra de sua pelagem - Qualquer dia ainda vou te vencer numa luta.
apenas levantou uma das sobrancelhas, de volta a seu comportamento calmo.
- Com certeza, esse dia não é hoje. - Ela olhou dele para , que já havia se acalmado. - Enfim, você veio caçar com a sua mãe também?
se levantou e pigarreou, parecendo mais animado.
- Na verdade, eu vim te chamar para irmos pra um lugar super legal.
- , estamos no meio de uma caça!
- Mas é muito legal, eu juro! - Ele começou a apontar com a cabeça para a saída das savanas. - Acabei de saber sobre esse lugar ótimo! Tenho certeza que você vai gostar.
parecia ter deixado de lado a observação da caça das leoas. Ela estava animada com a perspectiva de uma aventura ao lado de seu melhor amigo. Porém, com uma condição…
- Aonde vamos? É melhor que não seja nenhum lugar bobo! - respondeu, um pouco desconfiada. Só ela já havia perdido a conta de quantas enrascadas havia se metido com .
- Não, é muito legal… - estava prestes a falar mais quando pareceu se lembrar de que sua mãe estava presente. Ela, entendendo a deixa, trocou um rápido olhar com e as duas se aproximaram alguns passos, ficando na frente dos filhotes.
- E onde é esse lugar legal? - perguntou, de maneira leve, mas ainda atenta.
- É… Uh, perto do olho d’água. - Ele respondeu após pensar um pouco.
- E o que tem de mais o olho d’água? - falou um pouco mais alto do que gostaria. chegou bem perto dela e sussurrou:
- Eu te mostro quando chegarmos lá! - assentiu e se virou para .
- Ahn… Mãe, posso ir com ?
- Hummm, não sei… O que você acha, ? - perguntou da mesma maneira que a leoa. parecia pronta para tomar uma decisão. - Bem…
Os dois filhotes, prevendo o que iria acontecer, se interpuseram entre as duas, sorrindo de orelha a orelha. Quem sabe aquilo não mudaria a opinião delas?
- Deixaaaaaa! Por favor!
- Está bem, eu deixo! - e tiveram alguns momentos para comemorar antes que ela terminasse de falar. - ... Desde que o Zazu vá com vocês.
- Ah não, o Zazu não! - protestou, sem sucesso.

Daquela vez, a opinião de não iria prevalecer. Os dois pequenos leões tiveram que fazer o percurso acompanhados do calau azulado que era o mordomo do rei e que também costumava supervisionar o jovem herdeiro. e caminhavam devagar enquanto Zazu os acompanhava, voando a uma pequena distância deles. Os dois andavam lado a lado, conversando baixo para que o pássaro não ouvisse.
- Depressa, quanto mais cedo chegarmos lá mais cedo voltamos - falou lá de cima, parecendo entediado, e foi ignorado pelos filhotes.
- Aonde vamos de verdade? - perguntou, voltando a ficar animada. A sede de aventura percorria suas veias.
- Ao cemitério de elefantes! - sussurrou, quase dando pulinhos no lugar, tamanha sua animação.
- UAU!!! - deu um grito, que tentou silenciar, apontando com a cabeça para Zazu. - E como vamos nos livrar dele?
Não deu outra: dentro de alguns minutos, Zazu desceu até os dois e pousou, ficando na linha de visão deles.
- Ah, olha só esses dois: pequenas sementes de romã florescendo na savana. Seus pais vão vibrar ao verem os dois entrelaçados assim! - Na opinião dos dois, Zazu começava mais um dos seus discursos intermináveis e incompreensíveis. Os dois reviraram os olhos, e fez a pergunta que estava na mente de :
- Entre o quê? - Por quê aquele pássaro falava em charadas?
- Laçados, namorados, ou noivos! - Zazu sorriu, parecendo estranhamente animado.
arqueou uma sobrancelha, se aproximando do calau.
- E isso quer dizer...?
- Um dia vocês estarão casados! - Zazu só faltava cantar de tão feliz que se sentia, e os filhotes continuaram estranhando seu comportamento.
- AARRGHH!!!!!! - gritaram juntos, sem apagar as expressões de nojo de seus rostos. Casar, os dois? Sendo melhores amigos? Aquilo era inconcebível! Eles não entendiam como alguém, ainda mais Zazu, poderia pensar tamanho absurdo.
- Eu não posso me casar com ela! É minha amiga!
- É, seria tão esquisito! - emendou, balançando a cabeça.
Zazu não se abalou e fez um movimento de fechar suas asas uma contra a outra, como se desse o assunto por encerrado.
- Eu lamento estourar a sua bola, mas os dois pombinhos não terão escolha. É uma tradição de várias gerações. - Ante aquilo, os dois o olharam como se o reprovassem, revirando os olhos de novo, e começaram a se afastar.
- Pois quando eu for rei vou acabar logo com isso. - comentou, porém Zazu acabou ouvindo e voltou para perto deles.
- Não se eu estiver perto!
- Então está despedido! - sorriu presunçoso, certo de que havia ganhado mais uma discussão. Mas Zazu era osso duro de roer.
- Você pode tentar, mas só o rei pode fazer isso.
sabia que era hora de intervir e ajudar seu amigo.
- Ora, ele é o futuro rei! - como era que Zazu não se lembrava daquela informação óbvia?
- É, e você tem que fazer o que eu mando! - piscou para , e com sua pata deu um leve empurrão em Zazu para provar seu ponto. Zazu cruzou as asas na sua frente de novo.
- Ainda não, senhor. E com uma atitude dessas, receio que se torne um rei bastante patético.
se virou para ele, sorrindo disfarçadamente.
- Não do modo que eu vejo.

(N/A: Coloque a música para tocar!)

Ana hab’ a malik gabbar itahrisu ya a da!
(Eu serei um rei poderoso, [tenham] cuidado inimigos!)

acabou jogando Zazu para trás de uma árvore - ele, não intimidado, se inclinou e tirou um pelo da cabeça de .

‘Ulli da gaddi da walla hizar walla hata imla’?
(Diga-me, isso é real ou uma piada ou um erro de ortografia?)

meneou a cabeça e logo alguns pássaros arrumaram várias folhas ao redor de seu pescoço, simulando uma juba, e ele a mexia enquanto andava. Escalou até um tronco de árvore e fingiu um rugido, fazendo Zazu cair na lama embaixo.

Hab’ a malik fo’ il-a’da ma gabitnis wallada.
(Eu serei um rei extraordinário como ninguém antes [de mim]!)
Az’ar fi il-fil yitra’ ‘as wi yi’ ul “kullu illa da!”
(Se eu rugisse para um elefante, ele diria "tudo menos isso!")

Zazu balançou a cabeça em desaprovação.

Da ‘ayyil yilzamu dada wi za iru malusta’ sir!
(Esse garoto precisa de uma babá e seu rugido é ineficaz!)

Ele acabou se limpando na orelha de um elefante, que, irritado, bateu nele. Zazu foi arremessado para o lago enquanto os dois filhotes corriam na água atrás dele, cantando.

Ma’ dars asbur lamma ab’ a malik!
(Eu mal posso esperar para ser rei!)

Os dois alcançaram Zazu à beira da água e ele se virou para os dois.

Ba’ ullak eh, lissa ktir ‘ala ahlamak di!
(Você ainda tem um longo caminho a percorrer para esses sonhos!)
Ma uttis la’!
(Não me diga "não!")

respondeu, e ele e começaram a fazer caretas para Zazu. Eles pouco se importavam.

Ana’ ba ul...
(E eu digo "não!")

o interrompeu.

Kilmitu huwa il-ha!
(Ele fala a verdade!)
Ana asdi...
(Quero dizer…)

Ela cuspiu água nele e continuou cantando.

Wahid zayyi hatir”
(Alguém tão incrível quanto eu!)
Bass...
(Mas…)
Mus mihtag liwazir!
(Não há necessidade de um vizir!)

Gritaram juntos, e saíram correndo, para no momento seguinte passarem pelo calau, nos lombos de dois avestruzes.

La’, da kitir!
(Não, é o suficiente!)
Timsi id-dunya ‘ala hawaya
(O mundo vai do jeito que eu quero!)

Zazu começou a voar atrás deles.

Mafis kalam min da...
(Não há palavras para isso!)
Ana il-awwal wi il-kulli waraya!
(Eu sou o primeiro e todo mundo me segue!)

Zazu os alcançou após se desviar de algumas árvores.

A’tadiqu anna al-waqta qad han, wi ha’ ulhalak bisraha!
(Eu admito que chegou a hora, e eu vou te dizer honestamente…)

Ele não viu, porém, que os avestruzes haviam parado de correr e bateu contra um rinoceronte. e continuaram dizendo:

Bisaraha, inta muristan wi kifaya gadal wi kifaya gadal wi tanaha!
(Honestamente, você é um maluco! Pare de discutir e ser bobo!)

Ele pousou num pedaço de tronco que boiava, e parecida lívido. Após o tronco ser levado por uma cachoeira e cair, ele apareceu voando.

Law kan da uslubak… Li ‘ilmak, hastaqil! Hatfas min kulli ‘uyubak, halas fad biyya il-kel! Da inta ya dubak ‘alli lisanu tawil!
(Com essa atitude, para sua informação, vou renunciar! É isso, não aguento mais! Espere só encontrar quem fala mal!)

e agora desfilavam em meio a um grupo de zebras orgulhosas.
Ma’ dars asbur lamma ab’ a malik!
(Eu mal posso esperar para ser rei!)

Quando Zazu conseguiu encontrá-los, já estavam em meio a muitos outros animais. cantava do topo de uma girafa, dando comandos aos animais para despistar Zazu.

Kullu yibussi simal! Kullu yibussi yimin! Wi ana taht il-adwa’ hayyuni ya hilwin!
(Todo mundo olhe para a esquerda! Todo mundo para a direita! Eu estou no centro das atenções… Torçam por mim, amigos!)
Mis dilwa it!
(Agora não!)

Enquanto Zazu tentava abrir caminho entre uma girafa e uma zebra, e cochichavam para os animais, que sussurravam entre si, como se passassem uma mensagem.

Birruh widdam ya habib il-malayin za ‘im qa ‘id hanla ‘i zayyak fen?
(Nós te apoiamos corpo e alma, ó amado por milhões Onde vamos encontrar um líder como você?)

Dois macacos se aproximaram e pegaram Zazu, enquanto um grupo de girafas jogava e para cima, e os dois não conseguiam parar de rir.

Zayyak mafis fi id-dunya diyya itnen
(Não há dois leões como você [neste mundo]!)
Ma’ dars asbur lamma ab’ a malik!
(Eu mal posso esperar para ser rei!)

e terminaram de cantar enquanto todos os animais perdiam o equilíbrio e caíam em cima de Zazu. Ele gritava os nomes dos filhotes enquanto tentava sair de baixo de uma rinoceronte.
e correram da clareira para trás de algumas rochas. Olhando para trás, satisfeitos ao ver que ninguém os seguia. Os dois riram.
- Tudo bem, funcionou.
- Nos livramos! - riu.
- Ha, eu sou um gênio - se gabou, presunçoso.
- Ei, gênio, foi ideia minha! - contestou, se pondo na frente dele.
- É, mas eu a executei. - Apontou para si mesmo com uma pata.
- Comigo! - Ela respondeu no mesmo tempo. ouviu um “ah é?” de antes que ele a empurrasse para o chão.
Os dois rolaram algumas vezes, brincando de luta, quando terminou vencendo.
- Te peguei - bradou, orgulhosa.
reclamou e fez menção de levantar, então ela saiu de cima dele e já começava a caminhar quando ele a empurrou de novo. Dessa vez, porém os dois rolaram por baixo de um barranco até que venceu de novo. “Te peguei outra vez”, ela riu. só teve tempo de olhar para ela quando um barulho chamou sua atenção. Ali, na frente deles, havia fumaça saindo de um buraco no chão!
Foi então que os dois perceberam que se encontravam num lugar muito diferente das Terras do Reino. Era uma espécie de vale sombrio, cheio de rochas e de buracos como aquele. saiu de cima de e os dois fitaram, admirados (e talvez um pouco assustados) aquele gêiser.
A fumaça se dissipou para revelar partes mais sombrias do vale e ossos - muitos ossos, em todos os lugares. inclinou a cabeça e o seguiu, enquanto subiram um pequeno barranco, dando de cara com um esqueleto de elefante. Eles podiam ver muito bem o crânio e os ossos que deviam ter formado sua tromba. De cima daquele monte, se apoiaram em um osso gigante e viram ossadas a perder de vista no vale embaixo deles. Exclamaram, surpresos.
Eles haviam chegado ao cemitério de elefantes.


O Cemitério de Elefantes

- É muito assustador! - , ainda com os olhos arregalados, não conseguia parar de olhar as carcaças de elefantes.
- Sim, não é legal? - parecia tão animado quanto ela.
- Poderíamos nos meter em grandes problemas - sorriu presunçosamente.
- Eu sei, huh. - Ele respondeu da mesma maneira e os dois se voltaram para o crânio gigantesco de onde saíam os ossos das trombas.
- Será que os cérebros deles ainda estão aí?
- Só há uma maneira de saber - começou a andar naquela direção - Venha, vamos verificar!
E naquele momento, o calau azul que eles menos queriam ver apareceu na frente de , bloqueando seu caminho.
- Não! A única coisa que vocês vão verificar é a saída!
- Ah não, Zazu! - e protestaram, enquanto Zazu mexia as asas em direção à saída, fazendo com que tivesse que dar alguns passos para trás em descontentamento. - Estamos muito além dos limites das Terras do Reino - comentou, bagunçando suas penas, parecendo assustado.
- Olha só, o bico-de-banana ‘tá com medo! - debochou e riu.
- É senhor bico-de-banana para você, felpudo. - Zazu, irritado, apontou uma asa para o focinho de . - E fique sabendo que agora estamos todos nós em perigo - sua expressão foi de irritada para amedrontada mais uma vez.
, com uma expressão presunçosa no rosto, passou na frente de Zazu e continuou indo em frente.
- Huh, perigo? - debochou, ficando embaixo do crânio - Eu ando pelo lado selvagem. Eu rio na cara do perigo! Ha ha ha! - Ele riu novamente, mas nenhum dos filhotes nem o calau esperavam que a risada dele seria respondida com três risos roucos e altos vindo de dentro das cavidades oculares daquele crânio.
parecia, por fim, ter percebido que Zazu não estava de brincadeira. Ele sentiu seus pelos se arrepiarem e exclamou, assustado, correndo para trás de e Zazu. Os três observaram enquanto duas hienas enormes e risonhas saíam de dentro do crânio, descendo na direção deles. A terceira, a maior de todas, saiu da parte de baixo do crânio, onde havia estado momentos antes.
As três eram cinzentas, todas muito similares e pareciam um pouco desengonçadas, com pescoços e pernas longas e corpos esguios. , imóvel, só conseguia prestar atenção nas fileiras de dentes que cada uma tinha, e agora mostravam, em sorrisos sinistros.
- Olha só, Banzai, o que encontramos aqui? - debochou a maior hiena, a única fêmea e que parecia ser a líder do bando. Zazu e os filhotes se encostaram em um dos ossos e ele, apesar de ser menor, ficou na frente, protegendo os leões.
- Eu não sei, Shenzi, ah… O que você acha, Ed? - o segundo em comando perguntou para a hiena de olhos confusos que vinha atrás, que apenas riu, sem falar nada. As três começaram a andar juntas na direção deles.
- É isso mesmo que eu estava pensando… Um trio de invasores! - continuou falando como se Ed tivesse lhe respondido, e começaram a encarar Zazu. Ele, sempre diplomático, tentou falar com elas, enquanto e permaneciam paralisados.
- Foi por acidente, eu posso lhes assegurar, apenas um erro de navegação. - Enquanto ele falava, e se viraram e começaram a sair dali, e Zazu não conseguiu porque Shenzi pisou em suas penas, mantendo-o no chão.
- Oh, oh, espere aí, espere aí, eu te conheço - ela estreitou os olhos - você é o bobo da corte de .
- Eu, madame, sou o mordomo do rei - ele respondeu com educação, e ela soltou suas penas. As outras duas hienas já andavam em círculos ao redor de e de , impedindo que saíssem dali.
- Então você é o… - Banzai começou.
- O futuro rei! - respondeu, combativo. não sabia o que pensar e também não conseguia entender como seu amigo havia sido tão tolo de cair na conversa das hienas. Na opinião dela, eles deveriam enganá-las e sair correndo antes que fosse tarde demais. Shenzi se juntou às outras duas, andando em círculos ao redor deles, com Zazu no meio.
- Sabe o que nós fazemos com reis que pisam fora de seu reino? - ela perguntou, como se a resposta não fosse óbvia.
- Vocês não podem fazer nada comigo! - ele rebateu, parecendo irritado.
Zazu deu uma risadinha nervosa.
- Teoricamente podem, esse é o território delas - ele informou, pousando uma asa no ombro de .
- Mas, Zazu, você não disse que elas não passam de carniceiras babosas e sarnentas? - perguntou em voz alta, e só conseguia pensar que a cada momento a situação deles ficava pior. Teria seu amigo perdido a noção do perigo?
- Em boca fechada não entra mosca… - ele respondeu baixinho, mas foi suficiente para Banzai ouvir e avançar nele. Shenzi e Ed também haviam parado de circular.
- Quem aqui come mosca?! - perguntou, sem entender o que ele falava.
- Ah, minha nossa, olhem para o sol, é hora de ir! - os três tentaram correr pela abertura deixada pelas hienas, mas Shenzi se pôs na frente deles, impedindo a passagem.
- Ora, por quê a pressa? Seria ótimo ficarem para o jantar - avançou até eles, fez com que eles dessem alguns passos para trás, seguido de um sorriso sinistro e cheio de dentes. Zazu esticou suas asas na frente dos leões de novo.
- É, gostaríamos de ter… Leão na mesa! - Banzai disse e começou a rir.
Foram necessários poucos segundos para que Zazu notasse que começavam a se distrair ao gargalharem, e eles usaram aquela abertura para pular por cima do osso de elefante e correrem pelo vale abaixo, tentando encontrar a saída. e corriam por dentro de algumas costelas de elefantes enquanto Zazu voava um pouco atrás deles. Eles não notaram que em algum momento ele havia parado de segui-los. Pularam por cima de outra ossada e pararam no que parecia ser um vale de ossos.
- Escapamos? - estava tão rouca que parecia que não falava há tempos.
- Acho que sim - respondeu , ofegante. - Onde está o Zazu? - Eles trocaram um olhar, engoliram em seco e voltaram por onde haviam vindo, procurando qualquer sinal do pássaro.
Não demorou muito para que embaixo das costelas de um elefante encontrassem as três hienas rindo e Zazu saindo voando após o buraco com fumaça jogá-lo para cima.
- Hey! - gritou, atraindo a atenção das hienas - Por que não pegam alguém do seu tamanho? - ele desafiou.
- Suas covardes! - emendou, sentindo-se mais corajosa.
- Como você? - Shenzi questionou, e os dois filhotes exclamaram e saíram correndo, agora com as hienas no seu encalço. Eles tiveram que parar após dois gêiseres explodirem na frente deles, com as hienas aparecendo no meio da fumaça e rindo. Os dois ouviam as hienas próximas demais, latindo e rosnando enquanto usavam suas garras para ajudá-los a subir no crânio de momentos atrás. acompanhava , um pouco atrás dele.
Ao pular por cima do crânio, os dois acabaram descendo pela coluna de um elefante, e quando a descida acabou conseguiram saltar, caindo numa espécie de colina cheia de ossinhos, que iam caindo para os lados e para trás conforme pisavam neles e tentavam escalar, o desespero dos dois aumentando porque não faziam ideia da proximidade das hienas.
tentava acompanhar enquanto ele terminava de escalar, mas eram tantos ossos sob suas patas que faziam com que ela caísse, por mais que se esforçasse para ficar no alto. Ela notou que duas das hienas estavam próximas demais dela, já subindo a colina também. Então fez a única coisa que conseguiu pensar: gritou o nome de , para que ele visse que ela precisava de ajuda. Assim que ele se virou para ela, ela caiu ainda mais, tentando inutilmente firmar suas garras no chão escorregadio. Ela conseguiu se firmar e saiu dali ao mesmo tempo que arranhou Shenzi, fazendo com que ela rosnasse ainda mais. Os dois filhotes aproveitaram para terminar a escalada, deixando-as um pouco para trás.
O único caminho possível era uma caverna, na qual eles entraram sem hesitar, e correram por dentro dela até chegarem ao que parecia ser o final dela. A única saída era por cima, e os dois pularam em cima dos ossos de um filhote de elefante, tentando alcançar a saída. Porém, aqueles ossos eram muito frágeis e os dois apenas conseguiram cair no chão.
e começaram a tremer quando viram as hienas se aproximando, dando mais risadas, e ela se pôs atrás dele sem perceber. Estavam acabados, e não havia mais nenhuma saída. fez a única coisa que não haviam tentado - ele, que sempre se gabava de seus urros, tentou rugir para afugentar as hienas, mas aquilo só fez com que rissem mais. Talvez ele precisasse praticar mais seu rugido.
- É só isso? - Shenzi e suas companheiras estavam perto demais deles. - Faz de novo, vamos…
sentiu todos os seus pelos se arrepiarem e pôs todas as forças que ainda tinha naquele rugido, e arregalou os olhos quando notou que aquela não era a voz de .
Na frente deles, apareceu do nada, derrubando as três hienas com uma só patada e rugindo para elas, assustando-as com seu tamanho avantajado e dentes e garras à mostra. Como e de onde ele havia aparecido? Como sabia que estavam em perigo? eram as perguntas que rondavam as mentes de e de . Elas tentavam desviar, mas o lugar era tão apertado não conseguiam. Os dois, ainda surpreendidos, ouviam os guinchos de dor delas quando Zazu se juntou a eles, pousando do lado de .
Por fim, com outro rugido ensurdecedor, encurralou as três entre suas patas.
- Quietos! - ele bradou, e Shenzi e Ed se cobriram com as próprias patas enquanto Banzai tentava argumentar.
- Nós já íamos embora…
- Calma, calma, nós sentimos muito… - Shenzi tomou a frente.
- Se vocês chegarem perto do meu filho outra vez… - ele começou a ameaçar.
- Oh, então ele é seu filho? - Shenzi tentou enganá-lo e Banzai repetiu a pergunta, os dois dizendo que não sabiam daquilo. Eles poderiam ter se safado se Ed não tivesse balançado a cabeça, dizendo o contrário deles. rugiu mais uma vez, fazendo questão de mostrar seu poder, e as três hienas fugiram, tremendo de medo.
Zazu voou para o lado de , assentindo, mas lhe lançou um olhar tão gelado que o calau se encolheu. e saíram de dentro dos ossos e se aproximaram.
- Pai, eu…
- Você me desobedeceu deliberadamente. - o interrompeu, duro, fazendo com que baixasse a cabeça, parecendo arrependido. - Vamos para casa.
- Você foi muito valente - respondeu, também de cabeça baixa.
Terminava de escurecer enquanto todos caminhavam, já de volta às Terras do Reino. ia na frente, decidido, enquanto os dois filhotes, envergonhados, andavam cabisbaixos alguns passos atrás dele, e Zazu voava os acompanhando. chamou Zazu, que voou até ele.
- Majestade?
- Acompanhe - ordenou, lançando um olhar para os dois filhotes sentados na relva. - O meu filho tem que aprender uma lição. - se escondeu na grama quando ouviu aquilo.
- Vamos, - Zazu chegou até eles. - Boa sorte, . - declarou, pondo as asas nos ombros dele.
assentiu e foi embora com o calau para o lado oposto, olhando uma última vez para enquanto a noite caía.
não conseguiu pensar muito em depois daquilo. Pelo contrário, ela só queria chegar em casa, dormir muito e esquecer que aquilo tinha acontecido. Ela e Zazu retornaram em silêncio, sem trocar uma única palavra, apenas trocando alguns olhares decepcionados.
Porém, os planos dela foram por água abaixo quando ela viu que sua mãe, e todas as outras leoas estavam agrupadas na borda da Pedra do Rei, como se analisassem quem chegava pelas savanas.
Era claro que estavam esperando o retorno dos quatro. Quando viram que apenas e Zazu subiam nas pedras para chegar até elas, apenas se aproximou. Com uma olhada rápida para as leoas, viu que todas tinham a mesma expressão de desapontamento de . tocou em com sua cabeça de uma maneira delicada, como um cumprimento.
- Vamos, filha - falou em alto e bom som, assentindo para as outras leoas. a seguiu e notou que tomavam o caminho até o topo da pedra, o mesmo lugar onde ela tinha visto ir com seu pai. Ela não teve tempo para ficar surpresa, pois as duas se sentaram juntas, vendo a imensidão escura embaixo e na frente delas, iluminadas pela luz de incontáveis estrelas.
- Então você já sabe o que aconteceu, mamãe? - ainda não havia levantado a cabeça, falava olhando o chão. suspirou e olhou para ela.
- , todo mundo viu sair correndo na direção do Cemitério dos Elefantes depois que Zazu chegou aqui com suas penas chamuscadas e tremendo.
- Mas, mamãe, e eu sempre nos aventuramos juntos e eu... Eu nunca pensei que poderíamos nos meter em uma encrenca tão grande…
- Você sabe que o é muito impulsivo, não sabe? Nenhum de vocês pensou que algo sério poderia acontecer ao se afastarem das Terras do Reino. Entende o que estou dizendo, ? - se sentou perto dela. - Você poderia ter morrido hoje.
fechou os olhos e abaixou a cabeça.
- Agora você tem a mim, a nós, para te proteger, mas e quando você crescer? De agora em diante, você precisa se lembrar que tudo que você faz tem uma consequência. É o que eu te expliquei sobre ser uma caçadora…
- … Que se caçarmos demais, ficamos sem comida. - completou.
- E é percebendo esses limites que você se tornará quem deve ser, e ocupará seu lugar no Ciclo da Vida.
- E como eu vou saber quem devo ser?
- Eu não tenho, nem posso ter, essa resposta. - Àquela altura, as duas já estavam sentadas juntas, olhando as estrelas.
- Mas eu achei que você sabia de tudo, mãe.
se aproximou e se deitou entre as patas dela. Ela deu uma risada leve.
- Só um pouco nas noites estreladas, querida.

E daquele dia em diante, aprendeu a sempre seguir os conselhos dos leões mais experientes. Ela sabia que um dia daria risada de tudo aquilo, mas no momento as cicatrizes daquele encontro ainda estavam muito frescas em sua mente. Ela imaginava que também deveria se sentir daquela maneira.
Nos dias que se sucederam à aventura deles no Cemitério de Elefantes, notou que continuava aventureiro, mas ao mesmo tempo parecia um pouco mais distante. Por isso, ela não estranhou que ele não apareceu quando ela foi mais uma vez aprender a caçar com as leoas.
Como naquele dia, ela estava aprendendo a se agachar no chão e a não fazer barulho algum, e, de dentro da relva, deveria escolher quem atacar - muitas vezes os mais frágeis eram escolhidos, e então o próximo passo era iniciar o ataque.
- Você deve ter o elemento surpresa quando for dar o bote - lhe explicava em sussurros. - Senão, você vai assustá-los demais e não vai conseguir pegar nenhum, por mais que você corra. Eles são bastante rápidos.
Enquanto explicava, sentiu uma espécie de vento estranho agitando alguns de seus pelos, e então levantou a cabeça, olhando para a direção do vento. Ela conseguia ver, ao longe, uma movimentação estranha em um desfiladeiro. Deu de ombros e voltou a sua atenção para a caça, para não perder uma possível refeição.
A caça daquele dia foi difícil e extenuante, pois parecia que alguns animais estavam mais ariscos que o normal e estava difícil pegar um sem provocar a fuga de todos os outros do bando. As leoas prevaleceram após muito esforço e, exaustas, fizeram o caminho de volta à Pedra do Rei. estava pensando no que contaria sobre a caçada para , e ele contaria a ela de seus deveres reais, e de como havia ajudado a resolver uma disputa com alguns leopardos - algo que a havia feito rir dias atrás.
No entanto, as leoas tinham acabado de subir nas pedras, com liderando o cortejo, quando a presença ameaçadora de Scar sob a pálida lua causou arrepios em suas espinhas. Ele parecia ter aquele mesmo olhar desamparado de sempre, mas daquela vez foi diferente. Era claro para elas que ele estava de fato abalado. Aquilo fez com que se escondesse atrás das pernas de sua mãe enquanto caminhava.
Naquele momento, soube que algum mal deveria ter acontecido a e , as duas criaturas que ela mais amava no mundo. Ela se aproximou e o encarou.
- O que aconteceu, Scar?
Ele suspirou antes de se virar para ela. Zazu estava no chão ao lado dele, e parecia muito impactado também. Ele se aproximou de e pousou uma asa em uma das patas dela, o que fez com que ela prestasse atenção. As outras leoas, que chegavam atrás dela, fizeram o mesmo, se agrupando ao redor do irmão do rei. Ele começou a narrar o que havia acontecido, e assim soube que seus temores haviam se tornado reais.
- … A morte de é uma tragédia. - Conforme as palavras iam fazendo sentido, mais ela e as leoas fechavam os olhos em sinal de luto. e tiveram algo em comum naquele momento - não sabiam de onde tinham vindo tantas lágrimas nem como haviam terminado. - Mas perder , que mal começou a viver, é para mim uma perda muito pessoal.
- E é com profunda tristeza que eu assumo o trono - declarou. E então ele abriu os olhos, não parecendo mais tão abalado. - Mas é das cinzas desta tragédia que levantamos para saudar o alvorecer de uma nova era - Ao ouvir aquelas palavras, todas as leoas levantaram suas cabeças, tentando identificar que passos estranhos eram aqueles que ouviam tão próximos. - …Na qual leões e hienas estarão juntos num grande e glorioso futuro! - Elas viram, atônitas, Scar subir na pedra do rei enquanto dezenas e dezenas de hienas aparecendo atrás dele e de todas as direções, entrando nas Terras do Reino e começando a dominar o que sempre havia sido o lar delas.
O que foi que deixamos acontecer? Como é que não percebemos os sinais? foi tudo o que conseguiu pensar ao ver as odiadas hienas tomando conta de seu reino.


O Legado dos Caídos

Nos primeiros meses, foi como se um grande buraco tivesse se aberto no coração de . Absolutamente tudo, desde o nascer do sol até a mais pesada chuva, a fazia lembrar de seu melhor amigo. Ela também via a falta que fazia, mas para ela ele era como um mentor distante. Não havia dado tempo de ela conhecer a sabedoria pela qual o falecido rei era tão conhecido.
viu como o semblante das leoas, principalmente de , havia mudado desde aquele fatídico anoitecer. Todas pareciam mais sérias e mais agitadas, pareciam perder a paciência com mais facilidade, até mesmo sua mãe, que sempre havia sido a mais relaxada do bando. Pelo contrário: elas repetiam incontáveis vezes que as hienas não eram confiáveis e que nunca deveria dar as costas para elas. Todas as leoas também haviam redobrado os cuidados com o único filhote que restava. não podia mais sair da caverna desacompanhada e mesmo lá dentro ela sempre estava rodeada de pelo menos três leoas que vigiavam, incansáveis, a entrada da caverna no caso de visitantes indesejados.
A pequena leoa nem mesmo questionava aquelas medidas que lhe pareciam tão extremas. Depois daquele dia no cemitério de elefantes, ela sabia que as hienas poderiam matá-la com apenas uma mordida ou patada. Ela concordava com todos os cuidados que as mais velhas tomavam e observava com atenção, procurando aprender o que fazer e como se comportar em caso de perigo.
Enquanto crescia e deixava de ser um filhote para se tornar uma jovem leoa, a chuva e a seca acabaram trazendo muitas mudanças para as Terras do Reino. Scar quase não saía da Pedra do Rei, parecendo muito satisfeito no trono. Ele passou a deixar que as hienas comandassem todo o reino, dando apenas algumas poucas instruções e aconselhando-as. Por estarem em menor número, as leoas foram destituídas de suas posições, ficando apenas com a tarefa de caçar para todos, algo em que as hienas pareciam ser eficientes - pois matavam rápido e trabalhavam em grupo - porém péssimas na organização, pois sempre traziam muito mais que o necessário. começou a perceber como a maioria delas destruía as savanas e todos os lugares pelos quais passavam, sem a menor consideração por aquelas terras. A leoa acabou aprendendo a caçar ao ver o que não deveria fazer.
Embora ainda fosse tecnicamente a rainha, Scar não lhe dava conhecimento e a única função a que ela parecia querer se dedicar era a liderança do grupo de caça. Conforme os anos foram passando, o semblante da rainha renegada começou a mudar, enquanto ela ficava mais robusta e séria. Ela se importava cada vez menos com as hienas, chegando ao ponto de considerá-las vermes insignificantes. E assim ela resistia, não quebrada, resiliente.
Todas as leoas olhavam para como o derradeiro exemplo de resistência -- mas nunca poderiam negar que, por vezes, ainda viam uma tristeza naquele olhar ardente e feroz. Até mesmo , que estava mais preocupada com aprender a caçar do que admirar leoas experientes, às vezes notava aquela tristeza, que parecia abrir de novo o buraco em seu coração.
Com o passar dos anos, a dor dela foi ficando menor, até se tornar algo minúsculo, enquanto ela se desenvolvia. passou a lhe dizer que, ao invés de lamentar pelos mortos, ela deveria se concentrar em aprender tudo que podia para ser forte e sobreviver. Afinal, aquele não era mais um jogo de gato e rato. As leoas nunca saberiam quando as hienas poderiam se voltar contra elas, e por isso ficavam o tempo todo alertas, fazendo turnos de vigia todas as noites por muitos e muitos anos. sabia que não poderia participar até se tornar uma leoa adulta, por isso nem questionava aquela regra. Elas diriam que ela deveria conservar sua energia para ficar grande e forte. Um dia, ela traria orgulho a todas elas.
E foi em meio àquele cenário de horrores e de hienas com o dobro de seu tamanho que cresceu, sempre próxima às suas iguais. Havendo passado tanto tempo, ela não via mais em todos os lugares nem pensava no que ele diria ou sentiria. Até mesmo havia parado de falar tanto sobre os ensinamentos de - algo que ela havia começado a fazer para motivar as leoas - e havia se tornado mais reservada, apenas dirigindo a palavra ocasionalmente à e às leoas, para dar instruções e recomendações.
Quando acordou naquele dia chuvoso, não se sentiu animada nem nervosa. Já havia algum tempo que ela sentia que as Terras do Reino estavam se deteriorando, sem dúvida pelo descontrole das hienas, às quais o rei não impunha limites. Aquele sentimento de insegurança lhe impedia de sentir qualquer alegria em uma ocasião que deveria ser o mais importante para uma jovem leoa. Afinal, era o dia de sua primeira caça - um desafio que, se executado com sucesso, a transformaria na mais nova caçadora do reino.
Mesmo com tanto por se preocupar, suas companheiras não haviam esquecido daquela data. ficou surpresa ao sair da caverna naquela manhã e se deparar com as leoas sentadas em círculo, com todos os olhares fixados nela. Um pouco hesitante, caminhou naquela direção, acabando por ficar dentro do círculo.
- A primeira caça é um ritual importante para qualquer leoa - começou a falar, atraindo a atenção do grupo. - É o momento em que usamos tudo que aprendemos por muito tempo e toda nossa força para abatermos a presa por nós mesmas e trazer aquele alimento para casa. Tenho certeza que todas vocês se recordam do seu próprio dia. - Aquilo causou um burburinho entre as leoas e só conseguia olhar para e , que se encontrava ao lado dela. Ela era a única que ostentava um semblante mais tranquilo. - Nestes tempos sombrios, a conclusão dessa prova se faz ainda mais relevante, pois mais uma leoa treinada significa mais resistência.
- E é por isso, , que estamos reunidas aqui. Nós queremos te cumprimentar e te ver partir para este desafio como um sinal de esperança. Temos certeza que você irá prevalecer. Por tantos anos, você não mostrou nada além de um talento indiscutível. Não temos dúvidas de que você será uma grande caçadora. - tomou a frente e finalizou o discurso de , ao que todas as leoas inclinaram as cabeças como em um cumprimento.
parecia colada ao chão. Ela não imaginava que sua família colocaria tanta fé nela, sendo tão inexperiente e a última jovem da manada. Deve ser por isso mesmo que acreditam tanto em mim. Eu sou tudo o que resta dos mais jovens, concluiu. Por fim, sentindo a chuva fina começando a encharcar seu pelo, ela se levantou e foi até sua mãe e , esfregando sua cabeça nas delas como um filhote afetivo faz com um de seus pais. “Temos muito orgulho de você. Você vai conseguir,” sussurrou em seu ouvido após retribuir o cumprimento. assentiu e pela primeira vez desceu a Pedra do Rei sozinha, desaparecendo na chuva fina.

não tinha certeza se era por causa da chuva ou do domínio das hienas, porém de uma coisa estava certa: as manadas pareciam mais esparsas e assustadiças. Bastava ela se aproximar, ainda que silenciosa, que elas corriam ao menor sinal de movimento. Ao patrulhar os terrenos vastos do reino foi que foi percebendo que a grama rasteira estava seca em muitas partes e que as águas pareciam mais rasas - se surpreendeu ao não ver nenhum hipopótamo naquelas redondezas. Ela começou a correr, acelerando seu ritmo enquanto seu corpo pegava velocidade e se guiava pelos pequenos sons que ainda conseguia ouvir de alguns animais mastigando a relva, ainda presente em algumas partes da savana.
A leoa correu por muito tempo, chegando aos limites das Terras do Reino ao rastrear um pequeno grupo de impalas. Por fim sentindo a emoção da caçada, a adrenalina correndo por suas veias ao perceber o quão próxima estava deles e o quão desatentos estavam, ela se abaixou atrás da relva mais alta que conseguiu encontrar. se concentrou, controlando sua respiração e saltou para o meio do grupo com um rugido, já começando a correr antes de perder o elemento surpresa.
As presas começaram a correr e a se dispersar, como se tentassem confundi-la. rosnou e focou sua atenção em um animal ligeiramente menor que os outros, e passou a seguir todos os passos dele. Por mais que ele corresse em direções diferentes, ela não se deixava enganar nem se cansava.
quase o tinha encurralado quando um som estridente fez todos seus pelos se arrepiarem. Ela observou, atônita, três hienas gargalhando e correndo no meio do bando das impalas, assustando-os ainda mais. demorou um pouco para perceber que havia parado de correr e perdido sua presa. Observou, chocada, enquanto a maior das hienas quebrou o pescoço do impala que ela havia escolhido e perseguido. E pela primeira vez desde o cemitério de elefantes, tomou uma decisão sem pensar: rugindo, correu até a hiena e a atacou com suas garras à mostra. Ouviu um grito de dor da hiena, que com o impacto, acabou derrubando o impala morto. se ergueu, furiosa, ofegante, agora com suas garras e presas à vista. Firmou suas patas no chão, determinada a não se afastar até confrontar a hiena. Seus olhos se desviaram, por um momento, para o corpo da presa jogado ao lado do animal cinzento.
- Ei, o que foi isso, seus idiotas? - Ela se referia às suas duas companheiras, que ainda perseguiam o resto do grupo, gargalhando como se estivessem brincando. Então a hiena levantou a cabeça, percebendo na sua frente e dando uma risada debochada. - Ah, foi você, leoazinha? Ficou bravinha porque roubei sua comida? Acha que não te reconheci, ?
- Saiam daqui. - rosnou, reconhecendo também aquela voz estridente. Era a líder das hienas que quase mataram a ela e a tantos anos atrás. - Eu me lembro de você, Shenzi. Mas eu não tenho medo. Não mais.
Shenzi deu risada, não parecendo se importar muito com seu focinho ensanguentado com marcas de garras e começou a se aproximar de , que não se mexeu. Pelo contrário, fixou seu olhar na hiena.
- E o que você vai fazer se não formos, me arranhar? Você está em menor número, gatinha, você e as suas iguais.
- O que não significa que eu não possa matar você. Vão embora, vocês estão atrapalhando a minha caçada. - Ela começou a acompanhar os movimentos de Shenzi com seu próprio corpo, assim impedindo que ela a encuralasse.
- Você, me matar? - Shenzi se jogou no chão e gargalhou mais que seus companheiros. - Ora, por favor, além de estar por si só, você é menor e mais fraca. Além disso, essas terras nos pertencem agora. Passaram a nos pertencer quando Scar se tornou rei.
- Nem todo mundo pensa assim. Você ficaria surpresa... - se limitou a dizer, sem se intimidar.
Antes que Shenzi pudesse responder, as risadas das outras duas hienas chamaram sua atenção e ela se virou, vendo haviam desistido do grupo de impalas e corriam atrás de um grupo de zebras, assustando-as e dispersando os animais. Ela deixou ali mesmo, correndo atrás deles e gritando “Ei! Me esperem! Onde pensam que vão?”.
rosnou alto de frustração, observando que alguns pássaros levantaram voo, assustados. Em sua pressa, Shenzi havia deixado o corpo do impala ali na relva. Shenzi… sua reputação a precede, pensou e revirou os olhos enquanto pegava a presa do chão, carregando-a pelo pescoço. E assim fez o longo caminho de volta para a Pedra do Rei, agora como uma verdadeira caçadora.


Terra Sombria

Aquelas terras ancestrais foram se deteriorando com o passar das chuvas e das secas. Na visão das leoas, ou Scar não conhecia o ciclo da vida ou não se importava com ele, apenas com seu trono. De fato, se no início do reinado ele já deixava as hienas comandarem, agora as leoas estavam completamente cercadas e cerceadas na Pedra do Rei. A função delas estava agora relegada às caçadas, e cada vez estava mais difícil de encontrar presas. Com as terras tão secas e desertas quando o cemitério de elefantes, as manadas haviam ido embora e a cada vez que caçavam, as leoas precisavam ir mais longe, muito além das fronteiras.
já parecia haver perdido a esperança que tinha no início. De algum modo, apesar da tragédia vinda com a morte seu companheiro e seu filho, ela esperava que Scar fizesse jus ao reinado de seu irmão e também se tornasse um rei justo e sábio. Ele havia mostrado somente o contrário, no entanto. Aos poucos dias de reinado havia ordenado que ninguém mencionasse o nome de em sua presença e não havia tomado nenhuma medida para manter os outros animais dentro do reino.
Com , eles ficavam porque se sentiam seguros e porque tinham muita água e terras férteis, e os carnívoros também tinham acesso às manadas. , então, tinha cada vez mais raiva e instruía as leoas a resistirem e a ignorarem as provocações das hienas e também quando roubavam as poucas caças que conseguiam. As leoas ainda protegiam com vigor, embora ela já fosse uma jovem adulta crescida e possivelmente tão ou mais forte - mas não mais experiente - do que as leoas mais velhas.
compreendia a preocupação de sua mãe, de e das outras leoas, então nunca havia questionado aquelas medidas. Depois daquele encontro com as hienas em sua primeira caça, havia aprendido que era melhor ficar longe delas. Desde aquele dia, ela sempre ia caçar acompanhada de outras leoas, ao menos de sua mãe e de mais duas – assim, se fossem surpreendidas por alguém, estariam em vantagem caso uma luta ocorresse. Na verdade, o que mais a deixava indignada era como , e também a sua mãe, haviam envelhecido muito em alguns anos. O peso da liderança e das constantes preocupações para manter o grupo vivo eram o que mais tirava a energia delas. , nos últimos tempos, parecia se preocupar mais com a resistência -- e menos com o passado. Já havia muito tempo que ela não citava nem e, para , aquela dor já estava adormecida desde o final de sua infância.
A caçada daquela tarde havia sido a mais difícil desde que havia se tornado uma caçadora. Elas corriam e corriam, procuravam, até subiam em árvores, mas não conseguiam ver nada. Não havia um único animal nas redondezas e elas já estavam muito distantes da fronteira oeste. Tudo o que elas viam eram as terras estéreis e secas em que as Terras do Reino e seus arredores haviam se transformado.
- Foi tudo porque não agimos antes - repetia pelo que parecia ser a milésima vez, enquanto andava mais devagar por causa da idade. - Nós deveríamos ter lutado mais. Não podíamos ter deixado Scar chegar a este ponto. - Ela olhava para o chão ao falar, sem dúvida tentando esconder sua expressão de tristeza.
se aproximou, a amparou com sua cabeça e argumentou:
- Não, . Você não fez nada de errado. Nada disso é culpa nossa, nós estamos fazendo apenas o melhor que podemos com o que nos resta.
- O culpado é Scar e seu reinado patético - disse outra leoa mais jovem, porém mais velha do que , fazendo com que ela e todas a olhassem. - Estamos fazendo tudo que podemos para sobreviver.
- , você é nossa líder e temos muito orgulho de você. Estamos vivas graças à sua liderança. - complementou, falando pela primeira vez em muito tempo. Todas aquelas palavras gentis fizeram com que desse um pequeno sorriso. pensou, por um momento, ter visto um lampejo da antiga na expressão da rainha. Ela levantou a cabeça e se endireitou.
- Então vamos, guerreiras. Temos um tirano ao qual resistir.

Estava anoitecendo quando terminaram de subir na Pedra do Rei. Mais uma vez e mais uma caçada sem frutos. As leoas não teriam nada para comer aquela noite e tinham apenas um dos riachos ali perto não havia secado. Ao menos não ficariam com sede também -- a falta de nutrição havia se tornado uma companheira constante das leoas nos últimos tempos, enquanto elas viam as hienas comendo as poucas sobras que encontravam. E por mais que as leoas detestassem as hienas, sabiam que elas também estavam sofrendo com a falta de comida. Apontar culpados não vai adiantar nada agora, era o que repetia para si mesma sempre que sentia raiva delas.
- Não podemos apenas resistir. - falou alto e se levantou de supetão, chamando atenção de sua família. Estavam agora reunidas na caverna onde sempre dormiam e já havia dado o relatório do dia ao rei. Antes que alguém pudesse interromper , ela continuou: - O que estamos fazendo de fato além de ir cada vez mais longe para encontrar presas? Nós temos que fazer alguma coisa. Se vocês não vão enfrentar Scar, então eu vou.
Ela correu até a saída, mas levantou quase ao mesmo tempo, bloqueando o caminho com seu corpo.
- Filha, não! - lhe suplicou em tom urgente. - Você não pode simplesmente enfrentar Scar! Ele vai fazê-la em pedaços e nós não vamos poder interferir! Estamos em menor número!
- Eu não planejo lutar com ele, mãe. - arqueou as sobrancelhas - Mas se chegar a isso, lutarei e morrerei feliz por ter feito algo para ajudar o meu povo. - E então sua expressão se transformou em escárnio ao pensar no rei. parecia paralisada. - E ele não é mais forte do que eu, é só um leão envelhecido. Tenho certeza que posso derrotá-lo quando quiser. Sou muito jovem e tenho a prática da caça, enquanto ele passa dias deitado e sem fazer nada naquela caverna dele. Até parece que vocês não sabem disso!
Foi a vez de se levantar e se prostrar ao lado de . Ela sustentava uma expressão severa no olhar.
- , querida, eu admiro muito a sua coragem. Porém, mesmo que você vença Scar, ele nunca vai reconhecer a liderança de uma leoa. Tradicionalmente um reino é composto de um rei e uma rainha...
- Eu não quero liderar! Só quero evitar que morramos de fome! E se para salvar a vida de todas vocês eu tiver que morrer, então morrerei com orgulho! Será que não entendem?! - não pareceu se importar com a interrupção de sua súdita.
- É claro que nós iríamos reconhecer a sua vitória - ao redor delas, todas assentiram, inclusive . - As hienas te fariam em pedaços caso Scar fosse derrotado ou morto. Elas são muito leais a ele.
- Eu tenho certeza que consigo matar algumas delas antes de sucumbir, minha rainha. - abaixou um pouco a cabeça. - Sei que elas estão em maior número, mas até quando vamos viver assim? Vamos morrer de fome se não fizermos alguma coisa. - Ela voltou seu olhar para a mãe, que não havia saído do lugar. - Por isso eu digo: deixem-me tentar. Não vou desapontá-las.
suspirou e saiu do caminho da filha. Ela lambeu a cabeça de , como um carinho.
- Espero que saiba o que está fazendo, filha.

se dirigiu rapidamente para o topo da Pedra do Rei, encontrando algumas hienas pelo caminho. Ela foi até a caverna onde Scar ficava com Zazu, que havia se tornado seu mordomo. Estava se aproximando ao mesmo tempo que viu as Shenzi, Banzai e Ed entrando na caverna. Ela se escondeu atrás de uma rocha e os viu entrar, tentando escutar o que se passava lá dentro.
- Ô chefe? - aquela voz estridente só podia pertencer a Banzai. conseguia ouvi-la bem, então imaginava que ainda estavam entrando na caverna.
- Ah, o que é desta vez? - uma voz mais grossa e e tom de irritação respondeu. Scar, é claro, negando suas responsabilidades, foi o que pensou.
- Queremos levar um papo com o senhor... - Banzai continuou dizendo, apenas para ser interrompido por uma voz feminina, que era a de Shenzi, dizendo que iria tomar a frente. Na opinião de , ela era a mais esperta das três.
- Scar, não há comida nem água.
- É, é hora do jantar e não sentimos nem o mau cheiro da comida!
- Banzai falou de novo, e ouviu alguém balançando a cabeça, que deveria ser a terceira hiena. Ela ouviu um suspiro seguido da resposta de Scar.
- Ora essa, é função das leoas tratar da caça... - endireitou seu corpo ao ouvir aquelas palavras. - E é a SUA função nos liderar e se assegurar de que tenham as condições mínimas para caçar!, ela estava com tanta raiva que estava a ponto de rugir.
- É, mas elas não vão caçar… - Banzai argumentou. - É porque vocês destruíram tudo! E não é como se não estivéssemos tentando!, ela respondeu de novo em sua mente.
- Vocês estão me culpando? - Ela ouviu um rosnado de Scar e ganidos das hienas. Sem aguentar mais aquela situação, ela se levantou de um pulo e começou a entrar na caverna, sem se importar que os estava interrompendo. Ela tinha que fazer alguma coisa e aquele era o momento.
- Não, são as leoas... - Shenzi e Banzai terminavam de dizer quando entrou. Tomou um momento para ver o estado lamentável daquela caverna, cheia de ossos e de carcaças de animais. Scar estava deitado numa pedra lisa e ao seu lado, empoleirado dentro dos ossos da costela de algum animal, estava Zazu, que assistia a discussão em silêncio, porém visivelmente em alerta. lançou um olhar triste a ele ao vê-lo preso daquela maneira, e se lembrou do modo travesso que o tratava na infância -- agora desejava que aquilo tivesse sido diferente. Ele retribuiu o olhar, suspirando ao vê-la, conseguindo notar os sinais de fome.
A chegada dela, que ostentava uma expressão muito séria, fez com que as hienas e Scar parassem de conversar. A tensão naquele ambiente era perceptível.
- Scar. - Disse com simplicidade, encarando os olhos verdes e traiçoeiros do rei, demorando o olhar na cicatriz.
- Ah, ... seu timing não poderia ser mais perfeito. Como você cresceu... - Ele a olhou de um modo condescendente e ao mesmo contemplativo. Ela começou a se arrepender ali mesmo de ter ido encontrá-lo. Não gostou da sensação que aquele olhar lhe provocou. Porém, não esqueceu porque estava ali.
- Scar, você tem que fazer alguma coisa. Estamos sendo forçadas a caçar demais da conta. As manadas estão indo embora.
- Você acabou de me dar uma ideia brilhante. - Ela viu Zazu estremecer pelo canto do olho. É claro que uma ideia de Scar não poderia ser uma boa ideia. Scar se levantou e ficou firme em seu lugar
- Você é o rei. Controle as hienas. - Falou rápido, antes que ele continuasse.
- A solução para o meu desespero... - Ele começou a andar de um lado para o outro, e deu alguns passos para trás, mantendo sua distância.
- Elas estão destruindo as Terras do Reino! - exclamou, olhando com ressentimento para as hienas, que permaneceram quietas.
- ... É um herdeiro! - Ela sentiu um arrepio ao ouvir aquilo, mas tentou ignorar.
- Se pararmos agora, temos uma chance de tudo dar certo de novo... você está me ouvindo? - Ela o viu chegar perto demais e continuou se afastando, tentando não ficar encurralada. Por quê nenhum dos presentes fazia algo para ajudá-la? Onde estava Zazu com sua argumentação?
- É hora deste rei ter uma rainha - Ele se aproximou de novo e não conseguiu afastá-lo.
- Do que você está falando?! - O desespero dela aumentou quando se viu encurralada. Scar estava na frente dela e ela não conseguia sair sem passar na frente dele.
- Saia de perto de mim! - Ela gritou, e bateu na cara dele com tanta força que o derrubou no chão. Viu como saiu sangue do local do ferimento, só então percebendo que estava com suas garras à mostra.
- Oh , você sabe como eu detesto violência... - ele pôs uma pata no ferimento - mas de uma maneira ou de outra, você não poderá escapar do seu destino!
- NUNCA, SCAR! - gritou o máximo que seus pulmões permitiam e correu para fora da caverna, sem olhar para trás. Ela correu tanto que estava ofegante quando chegou à caverna das leoas. Ao vê-la chegando, se aproximou, mas não conseguiu dizer nada ao ver o estado de angústia da filha.
- As hienas estão vindo atrás de mim. Scar quer que eu me torne rainha ao lado dele. Eu... eu tenho que fugir. - Ela abaixou a cabeça, sentindo as lágrimas inundando seus olhos fechados. a afagou com sua cabeça. Percebendo o que estava prestes a acontecer, todas as outras leoas também saíram da caverna e ficaram agrupadas na frente de .

(A/N: Coloque a música para tocar!)

começou, seguida por e pelas outras leoas.
Fatshe leso lea halalela
Fatshe leso lea halalela
(A terra de nossos ancestrais é sagrada)

sabia que elas não queriam que ela fosse, mas agora todas percebiam que precisavam de mais ajuda. Ela era forçada a fugir para preservar sua vida.

Shadowland (Terra sombria)
The leaves have fallen (As folhas caíram)
This shadowed land (Esta terra sombria)
This was our home (Este era nosso lar)
The river's dry (O rio está seco)
The ground has broken (O chão está quebrado)
So I must go (Então eu devo ir)
Now I must go (Agora eu devo ir)

olhou para as leoas de uma curta distância, e viu que todas choravam também. não tinha conseguido conter as lágrimas desde percebeu o que a filha faria. se curvou a elas, e ao se levantar olhou em volta, olhando sua terra amada pela última vez.

And where the journey may lead me (E onde quer que a jornada me leve)
Let your prayers be my guide (Deixem suas orações me guiarem)
I cannot stay here, my family (Não posso ficar aqui, minha família)
But I'll remember my pride (Mas vou me lembrar do meu reino)

entoou o coro novamente e deu alguns passos na direção de .

I have no choice (Pride Land) (Não tenho escolha) (Terra do Reino)
I will find my way (My land)
(Encontrarei meu caminho) (Minha terra)

Era como se a estivesse abraçando enquanto entoava. As leoas seguiram cantando. Ninguém conseguia impedir as lágrimas de continuarem caindo, molhando aquela terra seca.

Lea halalela (Tear-stained, dry land) (È sagrada (Terra seca, cheia de lágrimas)
Take this prayer (Take this with you)
(Leve esta oração) (Leve-a com você)
What lies out there (Fatshe leso) (O que está por lá) (Esta terra)
Lea halalela (É sagrada)

abriu os olhos, se preparando para sair, quando viu uma figura em sua frente. Era Rafiki, um velho macaco que era amigo da família real. Ele estava da mesma maneira que ela se lembrava, ainda com seu bastão. Havia quantos anos que ele não aparecia por ali?

parou na frente dele, e todas perceberam que ele já sabia o que tinha acontecido e estava ali para se despedir. Quando ele começou a entoar um canto, assentou e se abaixou, se curvando na frente dele, ainda entoando:

Fatshe leso (Esta terra)
Fatshe leso (Esta terra)
Lea halalela (É sagrada)
Fatshe leso (Esta terra)
Lea halalela (É sagrada)

As leoas continuaram cantando a uma só voz, enquanto Rafiki abençoava :

And where the journey may lead you (And where the journey may lead me)
(E onde quer que a jornada possa te levar) (E onde quer que a jornada possa me levar)

se levantou, assentiu para Rafiki e começou a andar até a borda da Pedra do Rei enquanto via as hienas à distância.

Let this prayer be your guide (Let your prayers be my guide)
(Deixe esta oração te guiar) (Deixem suas orações me guiarem)
Though it may take you so far away (Though it may take me so far away)
(Embora [a jornada] possa levá-la tão longe) (Embora [a jornada] possa me levar tão longe)
Always remember your pride (I'll remember my pride)
(Sempre lembre-se do seu reino) (Vou me lembrar do meu reino)
And where the journey may lead you (Giza buyabo, giza buyabo)
(E onde a jornada possa levá-la) (A escuridão está com eles)

Let this prayer be your guide (I will return, I will return, beso bo)
(Que essa oração a guie) (Eu voltarei, eu voltarei, minhas irmãs)
Though it may take you so far away (I will return)
(Embora [a jornada] possa levá-la tão longe) (Eu voltarei)
Always remember your pride (Giza buyabo)
(Sempre lembre-se do seu reino) (Minhas irmãs)

começou a descer para a terra morta, enquanto Rafiki e as leoas acompanhavam sua saída, caminhando até a borda das pedras. Todos sentiram um vento no rosto, como se os ancestrais os estivessem consolando.

Giza buyabo (A escuridão está com eles)
Beso bo, my people (Minhas irmãs, meu povo)
Beso bo (Minhas irmãs)

correu e correu para dentro da noite, sem jamais olhar para trás. Ela não queria saber se as hienas estavam atrás dela -- tudo o que queria era sobreviver e trazer esperança para seu povo.


Exílio

jamais saberia estimar por quanto tempo correu, mas alguns dias depois tinha coberto uma boa distância da Pedra do Rei. Ela passou pelo cemitério de elefantes, tropeçando em carcaças e ossadas e também por um grande deserto. estava com o coração apertado desde o confronto com Scar.
Além disso, sentia uma dor muito grande por ter deixado sua família em uma situação tão desesperadora. Ela não tinha ideia do que as hienas e Scar poderiam fazer ao descobrir que as leoas cobriram para ela e a ajudaram a fugir. Ela só esperava que se elas sofressem algum tipo de punição, que houvesse um pouco de clemência. Estou fazendo isso por elas. Vamos, tenho que ser forte, era o que pensava quando se cansava e sentia vontade de desistir.
tinha uma fome avassaladora, se alimentando de todo animal pequeno que encontrava pela frente. Ela ainda tomava cuidado para não caçar demais como sua mãe havia ensinado, porém aquelas caçadas eram para seu sustento e sobrevivência. De fato, ela havia passado tanto tempo sem se alimentar que se sentia capaz de comer até mesmo um elefante inteiro.
Ela não havia visto nenhum outro leão desde seu exílio - o que a deixava aliviada, pois não teria que responder perguntas inquisitivas nem corria o risco de que alguém conhecesse seu reino -- e estava encontrando espécies que não via havia anos ou mesmo que nunca havia visto. Ela também bebia água cada vez que se aproximava de um rio ou lagoa, compensando a falta de água que também lhe afligia, embora não fosse tão séria quanto a fome.
demorou alguns dias para sair do deserto, passando por uma vegetação rasteira e verdejante. Naquela noite, ela se deitou na grama e dormiu sob as estrelas, sem deixar de pensar no que estaria acontecendo no reino. Ela esperava que todas estivessem bem e que aguentassem mais um pouco. Era dever dela buscar ajuda e retornar antes que fosse tarde demais. Mas a pergunta que assolava sua mente era: haverá tempo? Estará tudo acabado quando eu voltar?
A jovem leoa tinha acabado de se alimentar de novo, mas ainda sentia fome. Ela ainda estava com a mandíbula suja de sangue quando se levantou da relva naquela manhã, sem nenhum rastro de criatura que tinha acabado de devorar a não ser algumas poucas manchas de sangue na grama. Depois de beber água num riacho próximo, o que limpou seu pelo manchado, adentrou uma floresta tropical, e assim que pisou naquele solo cheio de folhas começou a ouvir um barulho de água corrente, o que indicava um rio ou possivelmente corredeiras, talvez uma cachoeira.
prosseguiu com cuidado, sem pisar em pedras nem em galhos secos, pois estava sentindo o cheiro de algum animal próximo. Ela estava parcialmente satisfeita, mas pensava que um pouco mais de comida seria bom. Por fim, ao caminhar mais alguns metros, o cheiro ficou mais forte e ela se escondeu detrás da primeira grama alta que encontrou. Na sua frente, em frente a um tronco caído e podre, estava um javali de pelo bem escuro. Não fazia ideia de quanto tempo não via um daqueles, ainda mais um tão grande. Ele estava bem distraído, de costas para ela, e parecia procurar alguma coisa do outro lado do tronco. , se agachou, paciente, aguardando o momento de atacar. Ela precisava do caminho livre para pegá-lo, e aquele tronco no caminho não ajudava. Alguns minutos depois, ela conseguiu a abertura que precisava quando ele se afastou do tronco e se virou de frente para ela.
deu impulso para correr quase ao mesmo tempo que o javali gritou e correu para a floresta de onde tinha vindo. rugiu alto, sentindo a emoção da caçada, e pulou sobre o tronco, caindo na floresta atrás dele. Ela o perseguiu mata adentro, até que passaram por dentro de uma árvore gigantesca, onde o javali quase perdeu o equilíbrio. começou a ouvir alguém gritando, mas não deu atenção, de tão concentrada que estava.
Saindo de dentro da árvore, o javali tentou passar por baixo de uma raiz grande e bifurcada, mas ficou preso ali dentro por causa de seu tamanho avantajado. Ele ficou se debatendo, mas sem sucesso. teria rido se não estivesse gostando tanto daquela perseguição. Ao se aproximar da raiz, viu que havia uma espécie de roedor com o javali, tentando tirá-lo de lá. Ao ver que ela se aproximava, ele gritou por socorro. estendeu suas garras para dar o bote, ainda a grande velocidade, quando...
Do nada, um leão grande saltou em sua direção do outro lado do tronco, rosnando para ela e mostrando suas garras. parou de correr por um momento, surpreendida, mas voltou ao normal antes que sua surpresa lhe desse alguma vantagem. Ele não havia deixado que ela atacasse aquelas criaturas, provavelmente havia chegado antes e as queria para si. No entanto, ela havia calculado mal - o peso e o ataque daquele leão a derrubaram com tudo no chão, com ele em cima, tentando atingi-la.
rosnou de volta para ele e deu impulso, conseguindo se levantar e tentando atingi-lo na jugular. Os dois rosnaram e se atacaram várias vezes, mas sem causar ferimentos sérios. arranhou o leão na região da juba e conseguiu manter uma boa distância dele, até que ele deu um salto e a derrubou de novo, mas consegui usar o peso de seu corpo para imobilizá-lo, colocando uma pata sobre seu peito e rosnando mais. A expressão do leão mudou um pouco ao ver que estava imobilizado. Em vez de lutar, ele olhou para ela, todos os traços de agressividade não mais presentes em sua expressão. Em uma voz grossa e surpresa, ele falou o nome dela. Ela parou por um momento o que estava fazendo, surpresa e um pouco assustada - como aquele leão estranho podia saber seu nome? Seria ele um conhecido de Scar que a tinha seguido por todo aquele tempo? Ela saiu de cima dele e deu alguns passos para trás, desconfiada, se sentando na frente de algumas pedras. Ele se levantou e se aproximou com cautela, olhando-a com curiosidade. Havia algo quase... doce em seu olhar. Não... não podia ser. Se aquele leão quisesse lhe fazer algum mal, já estaria arrastando-a pelo pescoço. Mas ainda não havia abaixado a guarda.
- É você mesmo? - perguntou, ainda curioso. Tinha um jeito gracioso de andar e de falar, quase com a inocência de um filhote.
- Quem é você? - ela por fim questionou, inclinando a cabeça para um lado.
- Sou eu... .
O mundo dela quase caiu naquele momento. Não, não podia ser. Aquele leão, o melhor amigo dela, que todos achavam que estava morto há tanto tempo... estava vivo? E ali, conversando com ela como se fossem velhos amigos?
- ? - repetiu, só para confirmar que não estava com os ouvidos entupidos. Ele assentiu, a surpresa sendo substituída por uma expressão muito alegre. e exclamaram ao mesmo tempo. Era verdade! estava vivo! Eles se aproximaram e bateram suas cabeças uma na outra de leve, em um gesto afetivo, e então começaram a correr um na frente do outro como filhotes fariam.
- Mas como você... - falaram juntos, muito animados e sem parar de sorrir um para o outro.
- De onde você veio? - exclamou de novo, sem perceber que o roedor havia saído de perto do javali e se aproximava deles. Ele gritou alguma coisa que ela não conseguiu ouvir.
- O que você está fazendo aqui?
- Por que me pergunta o que eu faço aqui? O que você está fazendo aqui?! - Ela perguntou, ainda incrédula. Eles não paravam de se olhar e de pular na frente do outro. não sentia aquele tipo de alegria havia muito tempo. O roedor se pôs no meio deles e gritou no tom mais alto que pode:
- Ei, o que está acontecendo aqui?! - Ele chamou a atenção de e de , que se sentaram e olharam para ele. Agora ela via que ele era um pequeno suricato. sorriu e olhou do suricato para .
- Timão, esta é ! Ela é minha melhor amiga!
- Amiga? - ele parecia confuso, colocando dois braços na cintura.
- É... Pumbaa, venha até aqui! - viu o javali se soltar da raiz onde ainda estava entalado e se aproximar deles com cuidado.
- , esse é Pumbaa. - A fome que ainda restava em tinha passado no momento em que viu vivo e bem. Ela olhou para o javali com simpatia, sem mais fome no olhar. - Pumbaa, . - Os dois assentiram.
- É um prazer que me conheça! - O javali disse, simpático, com uma voz muito rouca. riu e retornou o cumprimentou.
- Espera aí, espera aí, dá um tempo! - exclamou o suricato de voz estridente, fazendo um gesto com as patas. - Deixe-me esclarecer. Você a conhece, ela te conhece... mas ela quer nos comer... e todo mundo concorda com isso? Eu perdi alguma coisa? - Ele gritou, pulando no ar.
- Calma, Timão. - pediu, abaixando a cabeça até a altura dele.
- Eu não vou comer ninguém, não se preocupem. - declarou para deixá-los tranquilos. E continuou, agora focada em : - Imagine quando souberem que esteve aqui todo este tempo. E a sua mãe... o que ela vai pensar?
viu como pareceu inseguro quando ela mencionou . Pelo contrário, ela não conseguia imaginar o quanto ela ficaria feliz ao ver seu filho de novo. - Ela não tem que saber... ninguém tem que saber disso...
- Mas é claro que tem, todos pensam que você está morto! - se animou ainda mais, imaginando tudo que poderia acontecer quando ela o levasse de volta para as Terras do Reino.
- É mesmo? - ele perguntou, incrédulo, inclinando a cabeça em confusão. Naquele momento, baixou um pouco o olhar, lembrando-se daquela fatídica noite.
- Sim, Scar nos contou sobre a debandada. - parecia um pouco preocupado, talvez inseguro quando respondeu.
- Sei... e o que mais ele contou a vocês? - Para , aquilo não importava mais. Tudo que importava era que ele estava ali, vivo.
- E o que mais importa? Você está vivo! E isso significa que você é o rei! - Ela exclamou, sem conseguir conter sua alegria. Scar poderia não reconhecer a liderança de uma leoa, mas ele não podia ignorar a liderança de . Timão se apoiou em uma das patas de , rindo para .
- Rei? Olha, você já está exagerando... - ele riu e debochou da fala dela.
- Rei? Oh majestade, eu me afasto a seus pés! - O javali, Pumbaa, também debochou e se jogou na frente de , tentando beijar suas patas, ao que ele reclamou. Timão deu um empurrão leve em Pumbaa, fazendo com que ele parasse.
- Não é afasto, é arrasto, e não, ele não é o rei! - Chamou a atenção de Pumbaa, que se sentou, e os dois olharam para . - Você é?
- Não! - ele respondeu, ainda incrédulo. Como se tivesse falado um grande absurdo.
- ! - lhe chamou a atenção, encarando-o com um olhar de reprovação. - Eu não sou o rei. - mudou o peso de uma pata para outra, visivelmente desconfortável. - Talvez devesse ser, mas isso já foi há muito tempo.
- Deixe-me entender... você é rei? E nunca nos contou? - Timão perguntou de novo, balançando os braços, agitado. riu e se virou para ele, mexendo um pouco seu corpo. Ele olhou seus amigos com simpatia.
- Olha, ainda sou o mesmo cara! - Ele sorriu, como se aquela revelação não mudasse nada. sabia que aquilo não iria acabar bem. Ela tinha que interferir.
- Poderiam nos dar licença por uns minutos? - Perguntou, dando um sorriso amarelo para Timão e Pumbaa. Timão bufou, parecendo ofendido.
- Ora, o que ela tiver que dizer, pode dizer na nossa frente, não é, ? - olhou em volta, ainda um pouco desconfortável antes de responder.
- Olha, é melhor vocês saírem. - olhou para o chão enquanto falava. poderia jurar que ele estava nervoso. Seria porque ele estava na presença dela depois de tanto tempo?
- Começou, e diz que é o mesmo cara. - Timão disse e Pumbaa concordou.
Os dois bufaram, irritados, e saíram do meio da floresta pelo mesmo lugar que tinham vindo. Por mais que tivesse gostado dos amigos de , não podia negar que estava um pouco aliviada por eles terem saído. Agora ela poderia conversar com ele mais a sério e sem interrupções. riu, balançando sua juba, e comentou algo sobre seus amigos, ao que não prestou atenção. Agora que estavam sozinhos, ela sentia a dor adormecida em seu coração por fim se dissipar. Seu amigo estava vivo. Havia estado vivo por todos aqueles anos, como ela, mas tão longe. Ela não conseguia parar de pensar no que teria sido diferente se ele tivesse ficado nas Terras do Reino. Não à toa, ela sentia um misto de tristeza e alegria. Ela fechou os olhos, quase sentindo lágrimas de novo. viu que ela se afastava e se aproximou, parecendo preocupado.
- É como se você tivesse voltado da morte. - Se surpreendeu quando as lágrimas não vieram. - Não sabe o quanto isso significa para todas nós... ou para mim. - ficou bem perto dela, e ainda parecido animado.
- Ei, está tudo bem. Estou bem. - Ele encostou a cabeça na dela com muita delicadeza. - E você - você até me venceu de novo!
não conseguiu prestar atenção no que ele dizia. Não depois de tantas emoções conflitantes em poucas horas. Depois de tanto tempo separados, tudo que ela queria era abraçá-lo e ficar com ele e foi o que fez -- ainda com os olhos fechados, ela se aconchegou no pescoço dele, ronronando satisfeita. pareceu paralisado por um momento, mas logo retribuiu o gesto, ronronando também.
- Eu senti muito a sua falta. - Ela disse, um pouco sonolenta, e bem mais tranquila por estar ao lado dele.
- Eu também senti sua falta. - respondeu de imediato. Após alguns momentos de tranquilidade, e se olharam com uma ternura que nunca haviam sentido. Os dois caminharam juntos para a saída da floresta, entrando em uma parte mais escondida dela, de onde saía um barulho alto de água. Eles podiam não saber o que lhes aguardava ali -- mas tinham certeza que era bom, pois estavam juntos.


Sinto um novo amor em mim

*Capítulo especial baseado na música Can you feel the love tonight?
Havia um mundo escondido detrás daquelas plantas, e o barulho da água corrente ficava mais alto conforme caminhavam. jamais havia pensado que poderia existir um lugar tão bonito dentro de uma floresta tropical. E se ela fosse julgar pela expressão de , também diria que ele pensava o mesmo, pois não parava de olhar para os lados e comentar o quanto aquele lugar era bonito. Era possível, então, que ele tampouco tivesse imaginado existir um lugar como aquele em tantos anos vivendo naquela floresta com Timão e Pumbaa.
e caminharam juntos pelo chão de terra batido, esmagando folhas conforme pisavam em cima delas. O ar estava agradável, sem ser úmido demais, e o clima estava propício para uma caminhada ao entardecer. Os dois prosseguiram em frente e quanto mais se olhavam mais percebiam que tinham saído do terreno da infância e adentrado outro território. Um lugar que era apenas dos dois.
(N/A: Dê play na música!)
Kann es wirklich Liebe sein? Im sanften Abendwind?
(Pode mesmo ser amor? Na brisa suave da noite?)

Pareciam ter chegado ao fim do caminho cheio de folhas e terra. tomou a frente e, onde o barulho das águas era mais forte, encontrou um caminho que passava por baixo da cachoeira. Bastava descer por uma enorme rocha cheia de musgo. Ela desceu com cuidado, olhando para a todo momento, curiosa para saber se ele a estava acompanhando - e ele não saía do lado dela. Ele tinha uma expressão um tanto sonhadora nos olhos, que ela não sabia definir, e ela sentia algo em seu coração que não sabia definir.

Die Harmonie, voll tiefer Friedlichkeit
(A harmonia, cheia de paz)
Mit allem, was wir sind
(Com tudo que nós somos)

seguia os passos de e, com lentidão, os dois desceram pela rocha até que suas patas tocaram um caminho de pedras, e em cima deles havia a cachoeira e embaixo havia muita água também, na forma de uma lagoa cristalina. Em circunstâncias normais teria pensado no que seu povo diria ao ver tanta água, mas ali ela não conseguia pensar em nada. Havia apenas , e aqueles momentos eram eternos.
olhou para andando em sua frente. Ele se posicionou na borda da lagoa à sua frente, vendo que ela fazia o mesmo a alguns passos de distância. Ele se abaixou para saciar sua sede, sem deixar de olhar para ela. Ali, naquele momento, nenhum vento batia. Então deixou os pensamentos correrem soltos -

Wie soll ich’s ihr erklären?
(Como posso explicar a ela?)
Ob sie es auch versteht?
(Será que ela vai entender?)
Sie will die Wahrheit, die Vergangenheit,
(Ela quer a verdade, o passado,)
Wer weiß ob sie dann geht?
(Mas quem sabe se ela irá me deixar?)

Ainda refletindo, ele se levantou, vendo-a copiar seus movimentos. Ele negou com a cabeça. Parecia ter certeza de que ela não acreditaria se ele contasse sobre as circunstâncias da morte de seu pai. Ele ainda notava o olhar de saudade, presente nos olhos dela desde o reencontro. Sentiu um aperto no coração, a indecisão o consumindo. Valia a pena colocar tudo a perder?
observava os movimentos e a expressão de com curiosidade.

Was will er nur verbergen?
(O que ele está escondendo?)
Er tuts die ganze Zeit.
(Ele faz isso o tempo todo.)

Ela observou os movimentos sincronizados dos dois. se levantou e ela fez o mesmo, notando os movimentos delicados dele. Olhou para ele, confusa, quando ele passou na frente dela balançando sua juba. Ela se virou para ver o que estava acontecendo - estava pegando um pedaço de cipó com os dentes?

Warum will er kein König sein?
(Porque ele não quer ser rei?)
Denn als König wär’ er frei
(Pois como rei ele seria livre)

Ela deu alguns passos para trás, surpresa, quando ele correu e se balançou, caindo na lagoa com um grande estrondo e espalhando água para todos os lados. se aproximou da borda, se abaixando para tentar encontrá-lo. Mas ela não teve tempo de formar seu próximo pensamento antes que ele pulasse para fora d’água e a puxasse para baixo.
O mundo de se encheu de água cristalina e gelada. Ela jogou a cabeça para fora da água, tentando respirar, e no minuto seguinte saiu da lagoa, observando seu pelo encharcado. emergiu ao seu lado, sem conseguir parar de rir, com toda a juba cobrindo seus olhos. estreitou os olhos, se divertindo, e o empurrou de volta com sua pata.
Por vários momentos eternos, os dois nadaram juntos naquele lugar escondido, rindo como filhotes. Todos os problemas haviam sido esquecidos naquele dia. Mas já sentia que aquela não era uma simples tarde com seu melhor amigo. Era também o mesmo que diziam os olhos de -- havia algo diferente ali, entre os dois.

Kann es wirklich Liebe sein?
(Pode mesmo ser amor?)
Im sanften Abendwind?
(Na brisa suave da noite?)
Die Harmonie, voll tiefer Friedlichkeit
(A harmonia, cheia de paz)
Mit allem was wir sind
(Com tudo que nós somos)

Algum tempo depois - ninguém, nem naquele mundo escondido nem em milhares de outros - poderia saber quanto, os dois corriam juntos pela relva, espantando pássaros e rindo ainda mais. tomava a frente, dizendo o quanto era lento. Ele, porém, não a deixou vencer. Competitivo, correu na frente dela, e ela o passou, até que entraram para dentro da floresta de novo. Eles pularam em direção um ao outro, e acabaram rolando barranco abaixo até que acabou deitada na grama escura, com em cima dela, sem conseguir parar de rir. Ela inclinou a cabeça, olhando-o com ternura, e se aproximou, lambendo a pelagem embaixo de seu olho. parou o que estava fazendo e a olhou, paralisado, como se se perguntasse se estava sonhando.

Kann es wirklich Liebe sein?
(Pode mesmo ser amor?)
Spürst du Sie Überall?
(Você o sente em todo lugar?)

Nenhuma palavra foi trocada entre os dois. Não foi necessário. suspirou, hipnotizada por ele, por estarem juntos ali e por tudo que aquilo representava. Ela balançou a cabeça uma vez e se deitou mais na grama. a olhou com mais ternura ainda, e entendeu.

'Endlich eins, im Schutz der Dunkelheit
(Finalmente um, no abrigo da escuridão)
Liebe ist erwacht
(O amor despertou)

Quando mais nova, nunca havia pensado em como seria quando crescesse. Nem esperava que fosse se apaixonar por seu melhor amigo, mas aquilo era tão certo que ela preferiu não questionar. Naqueles momentos fugazes, ele foi o mundo dela e ela foi o mundo dele.
só conseguia se lembrar de como o amor entre os dois havia crescido desde que haviam se reencontrado. Ela sentia aquele novo amor em si, enquanto os dois ficavam em silêncio, com as cabeças encostadas nos ombros um do outro, envolvidos no que poderia ser um abraço. Como se fossem um.

Lembre-se de quem você é

Aquela tarde eterna no reino escondido parecia estar quase no fim. e caminhavam por partes antes inexploradas da mata, admirando árvores que nunca haviam visto e escutando o suave som das águas. Caminhando lado a lado e olhando um para o outro às vezes, eles se perguntavam como tudo aquilo havia acontecido tão rápido -- como os momentos fugazes haviam ido e vindo sem aviso.
mostrava todo o lugar a , falando de onde havia crescido e o que gostava de fazer com seus pais adotivos. A única coisa que não fazia sentido para ela era o fato de ele comer insetos. Talvez sua mãe não tivesse tido tempo de ensiná-lo a caçar da maneira correta antes da trágica morte do rei. pensava que aquela era a única explicação razoável para a dieta estranha de . Bem, conhecendo ... tudo é possível, pensou, resignada, dando uma risadinha.
- Não é um belo lugar? - perguntou, animado, sua voz grave tirando de sua linha de raciocínio. Eles andavam por cima de um tronco velho e cheio de musgo.
- É muito bonito - concordou, olhando a vegetação em volta.
- E há muito mais que você ainda não viu - ele apontou com a cabeça para a folhagem abaixo deles. Aquilo fez com que se lembrasse de algo importante.
- , há uma coisa que não entendo. - Ele parou de andar e olhou para ela, esperando. - Você esteve vivo todo este tempo. Por que não voltou para a Pedra do Rei?
Ele pareceu um pouco reticente, talvez nervoso, na hora de responder e deu alguns passos enquanto falava. - Ah, eu queria viver minha vida, ter a minha liberdade - o seguiu, sem deixar que ele mudasse de assunto. Ela observou quando ele se deitou de costas em vários cipós amarrados e ela se sentou no tronco ao lado dele. - Eu consegui, e é ótimo! - Ele deu risada, se acomodando nos cipós. Aquilo não podia estar acontecendo. Ela teria que convencê-lo? Contar a ele em detalhes sobre o que havia sobrado das Terras do Reino?
- Nós realmente precisamos de você em nossa terra. - Ela deixou escapar, a tristeza tomando conta de suas feições.
- Ora, ninguém precisa de mim. - Ele debochou de si mesmo, revirando os olhos. sentiu sua pulsação acelerando. Era raiva que ela estava sentindo crescer dentro de si?
- É claro que sim! Você é o rei! - Levantou um pouco a voz em meio a um rugido baixo.
- , já conversamos sobre isso. E eu já superei isso. Não sou o rei, Scar é. Ela se inclinou na direção dele, apoiando duas patas na rede de cipós.
- , ele deixou as hienas dominarem as Terras do Reino! Elas controlam tudo lá! - após uma exclamação dele, ela continuou. - Tudo está destruído, não há comida nem água... se retornarmos juntos, poderemos fazer algo sobre isso.
- Não posso retornar. - Ele parecia tocado pelo relato dela, mas não a ponto de concordar. Ele se virou, pulando para fora da rede, e o seguiu, perguntando o porquê. - Você não entenderia.
- O que eu não entenderia? - ela deixou sua voz se elevar mais um pouco. Como ele poderia assumir aquilo? Ele não sabia quem ela havia se tornado após estarem separados por tanto tempo. prosseguiu, e não desistiu de segui-lo.
- Isso não importa. Hakuna Matata. - conhecia tão bem que sabia pelo seu tom de voz que ele ficava cada vez mais nervoso e inseguro quanto mais era questionado. A face dela se contorceu em uma carranca. Não sabia o que aquilo significava, nem queria saber.
- É algo que eu aprendi aqui. - Ele começou a explicar, ainda se distanciando dela. - Veja, às vezes coisas ruins acontecem e não há nada que a gente possa fazer. Então, por que se preocupar?
- Porque é a sua responsabilidade! - praticamente gritou enquanto corria atrás dele.
- Bom, e o que me diz de você? Você foi embora! - Ele se virou para ela, também levantando a voz. Como ele ousava acusá-la? Depois de todos os anos, e de tudo que havia passado com Scar...
- Não mude de assunto! Eu saí para buscar ajuda! - havia notado que mostrava os dentes enquanto falava, como se o estivesse ameaçando. - Se você soubesse... tudo que passamos... a fome, o medo e a violência, por todos esses anos... seu tio tentou me tornar rainha à força, ! Será que entende a seriedade de tudo isso? Scar nunca vai reconhecer a liderança de uma leoa! Você precisa derrotá-lo!
havia parado de argumentar por um momento e olhava para ela enquanto parecia absorver todas aquelas informações. Sua expressão se alterava entre raiva e compaixão, tristeza e culpa. Apesar daqueles sentimentos conflitantes tão fáceis de ler em seu rosto, a resposta dele fez o sangue de ferver.
- Eu lamento.
- O que aconteceu com você? Não é o que me lembro. Você era tão corajoso na nossa infância...
- Tem razão, não sou - suas feições eram sem dúvida de raiva agora. - Agora está satisfeita?
- Não! Estou decepcionada. - queria ter dito mais, queria tê-lo colocado em seu lugar, mas aquilo era tudo que conseguiu dizer. Decepção era o que melhor definia seus sentimentos.
- Sabe de uma coisa? - Ele balançou os ombros e pulou do tronco para um caminho cheio de folhagem escura com um movimento fluido. - Você está começando a falar como o meu pai.
- Que bom. - exalou o ar que não sabia que estava prendendo. - Pelo menos um de nós se parece com ele!
Aquilo foi a gota d’água. sabia disso porque no momento seguinte, se virou em sua direção em um só movimento, também mostrando seus dentes, como se fosse atacá-la. Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, no entanto, rosnou e saiu, tomando o caminho oposto ao dele.
Em meio à grama alta, com a lua minguante no céu, ela começou a dar voltas, andando de um lado para o outro. Os mesmos pensamentos se repetiam em sua cabeça, pensamentos que ela também falava em voz alta.
- Não, ele está errado. Como pode ser tão irresponsável e nos abandonar à nossa própria sorte? Será que ele não percebe que todas nós precisamos da ajuda dele? De que adianta eu ter vindo até tão longe para nada?
suspirou e olhou para cima, para a multidão de estrelas que brilhavam naquela noite fresca. Em vez de encontrar alguma orientação, como esperava, tudo que viu foram aqueles pontos distantes e silenciosos. Uma movimentação na grama fez com que ela virasse todo seu corpo na direção do ruído, se surpreendendo ao ver Rafiki cortando caminho por ali, usando seu bastão como apoio.
- Rafiki? O que está fazendo aqui?
Ele se aproximou, sorrindo, e ela se curvou na direção dele, vendo-o repetir o movimento.
- Eu vim ver o rei. Sei que ele está vivo. - Ele deu uma risadinha e ela revirou os olhos à menção de .
- Então boa sorte com isso. Eu já o encontrei e ele se recusa a me escutar. não quer nos ajudar, prefere ficar escondido aqui, enquanto seu povo morre de fome! - Rafiki assentiu e lhe assegurou que colocaria um pouco de juízo na cabeça dele.
- Mas eu também estou aqui para falar com você, . Você andaria um pouco comigo, certo? A noite está tão agradável...
estranhou aquele pedido, mas concordou e começou a caminhar com Rafiki pela relva. Ela deixou que ele guiasse o caminho enquanto tentava adivinhar o propósito daquilo. Os dois caminharam por vários minutos até chegarem à beira de uma lagoa rasa, e parou na frente dela quando viu Rafiki fazer isso. Ele se aproximou e pôs uma mão no ombro dela, com um semblante um pouco triste.
- Você sentiu que os ventos estão mudando, ? A começar pelo reencontro, e depois por sua discussão com ? - Ela não questionou como ele sabia, já que era típico dele, desde que se lembrava. Rafiki sempre parecia ser o único que entendia tudo que estava se passando.
- Eu... não entendo o que isso significa. - Em um gesto afetivo, Rafiki gesticulou para que se aproximasse da água. Ela o fez, olhando-o de soslaio, sem entender o propósito daquilo.
- Houve... mudanças nas Terras do Reino desde o seu exílio, . Será difícil, mas você deve compreender que essa é a natureza do Ciclo da Vida. - Ele a abraçou por um curto momento e ela, sem entender, seguiu a orientação dele e olhou para dentro da lagoa.
- Do que está falando? - perguntou em voz alta, ainda com o olhar fixo na água parada. - Eu não vejo nada aqui. Rafiki? - Levantou a cabeça e olhou para os lados, sem conseguir encontrá-lo. suspirou depois de se certificar que o velho macaco não estava mais ali e, ao voltar seu olhar para a água, sentiu um vento no rosto e viu a água ficando agitada, tomando uma forma conhecida. apertou os olhos, mas sua visão não a estava enganando. Ali, na sua frente, estava a imagem de , sua mãe.
Lembre-se... ela vive em você. - ouviu a voz de Rafiki ecoando em sua cabeça. Foi então que ela sentiu o vento, cada vez mais forte, bater em seu rosto e agitar seu pelo. Lembrando de uma conversa que havia tido durante a sua infância, olhou imediatamente para o céu e ali, entre as estrelas, viu uma forma conhecida. Então ela se lembrou daquele longínquo ensinamento, e a percepção a atingiu quase ao mesmo tempo que as lágrimas.
- Mãe... não, não pode ser... - quanto mais ela murmurava, mais as lágrimas inundavam sua visão. - MÃE!
- Minha querida filha. Senti sua falta.
E ali, na sua frente, apareceu , igual à última vez que se lembrava. Porém, havia algo de diferente -- ao olhar a mãe, soube no mesmo momento que ela não estava ali de verdade. correu na direção dela, mas ao tentar tocá-la sentiu apenas o ar.
- Mãe. - disse novamente, como um mantra, e se abaixou, deitando às patas de como fazia quando filhote. - Me diga, o que eu fiz de errado? Eu não estava lá para te defender. Foi Scar ou as hienas?

(A/N: Coloque a música para tocar, e esta segunda música no fundo. Quando a primeira acabar, ouça a segunda música até o final).

Night (Noite)
And the spirit of life calling (E o espírito da vida chamando) Mamela (Escute)

- Eles não são os culpados. Eu apenas cumpri meu papel no Ciclo da Vida.
- pensou ver lágrimas nos olhos de sua mãe também, mas nunca poderia ter certeza.
- Você precisou de mim e eu não estava. Quando você mais precisava. - Ela abaixou a cabeça, por fim entendendo as palavras de Rafiki. Suas lágrimas escorriam tanto que ela pensava que acabaria por inundar a grama, e não se importaria. se aproximou e fez menção de afagá-la, porém em vão.
- Meu tempo já estava chegando quando você teve que nos deixar. Ninguém pode controlar essas coisas, filha. Mesmo que você tivesse estado presente, eu ainda assim teria partido. - sorria, o que fez com que se acalmasse um pouco.

And a voice
(E uma voz) With the fear of a child asking
(Com o medo de uma criança, pergunta) Mamela (Escute)
Wait (Espere) There's no mountain too great (Não há montanha grande demais)
Hear these words and have faith (Ouça estas palavras e tenha fé) Have faith (Tenha fé)


- E eu fico feliz que tenha sido assim, apesar de não ter podido me despedir. - não conseguia responder. Apenas ouvia, sedenta por uma solução. - Você partiu e encontrou . - falava com orgulho na voz. - Você está certa ao pressioná-lo para desafiar Scar, . Você vai salvar todas nós.
- Por favor, mãe. Diga-me que isto não é real e que eu vou te encontrar junto a na Pedra do Rei.
- Eu gostaria que fosse assim também. Gostaria muito, mas meu tempo se acabou. Olhe para mim. - obedeceu e levantou a cabeça. - Eu sei que é difícil, mas você deve aceitar para poder seguir em frente. E você conseguirá, eu sempre soube. Diga-me, filha, qual é a coisa mais importante que te ensinei?
- Que eles vivem nós. Os ancestrais. Todos os nossos ancestrais vivem em nós e nos guiam em nossa jornada pela vida.

They live in you (Eles vivem em ti)
They live in me (Eles vivem em mim)
They're watching over (Eles estão observando)
Everything we see (Tudo que vemos)
In every creature (Em cada criatura)
In every star (Em cada estrela)
In your reflection (Em seu reflexo)
They live in you (Eles vivem em ti)


assentiu, e mais uma vez parecia orgulhosa.
- Sempre uma ouvinte atenta. - sorriu entre lágrimas com o elogio. - Eu vivo em você e sempre estarei contigo, não importa quais desafios enfrente. Assim será, até o fim dos tempos. - A jovem leoa repetiu aquela última frase.
- Cada vez mais eu vejo como o seu caminho pelo Ciclo da Vida está se desenrolando. Todas as suas ações estão estão te levando por esse caminho, continue assim. Você me deixará cada vez mais orgulhosa.
- E eu de você. Se me tornei uma caçadora e uma boa filha, é graças a você.

They live in you (Eles vivem em ti)
They live in me (Eles vivem em mim)
They're watching over (Eles estão observando)
Everything we see (Tudo que vemos)


- Eu te amo muito, filha. Nunca se esqueça disso, não importa a dor que esteja sentindo.
- Eu também te amo, mãe. Para sempre. Levo comigo seu amor e sabedoria.
De um modo tão efêmero como havia aparecido, sorriu pela última vez e desapareceu, deixando sozinha embaixo da lua. O vento parou no mesmo momento e se sentiu triste, porém reconfortada. Ela deixou as lágrimas secarem enquanto procurava abrigo para a noite.

In every creature (Em cada criatura)
In every star (Em cada estrela) In your reflection (Em seu reflexo)
They live in you (Eles vivem em ti)


Quando acordou na manhã seguinte, poderia ter pensado que tinha visto a mãe em sonho, mas aquelas memórias estavam gravadas com tanta tristeza em sua mente que ela sabia que havia sido tudo verdadeiro. Ela não pensou naquilo enquanto se espreguiçava e retornava para a floresta, pelo mesmo caminho que tinha vindo. Rafiki havia dito que falaria com , certo? Talvez ela pudesse ajudar a convencê-lo.
Ela apenas encontrou Timão e Pumbaa ainda adormecidos no chão, entre as árvores, no mesmo lugar onde ela havia perseguido o javali dias atrás. Tudo havia acontecido com tanta rapidez que ela não acreditava que faziam apenas algumas semanas desde que ela havia deixado o reino. Ela se aproximou dos dois animais, cutucando-os para que se levantassem.
- Ei, pessoal - falou baixo. Timão e Pumbaa, diferente do que ela esperava, se assustaram com a visão de uma leoa inclinada sobre eles. Eles começaram a gritar antes que ela conseguisse acalmá-los.
- Está tudo bem, está tudo bem, acalmem-se! Sou só eu...
- Esses carnívoros... - Timão resmungou colocando uma pata sobre o peito para acalmar sua respiração. - Nunca mais faça isso, ‘gata. - assentiu e perguntou sobre .
- Pensamos que ele estava com você - Pumbaa respondeu com sua voz arrastada, os dois já acordados.
- Sim, mas nós brigamos e... enfim - ela balançou a cabeça. - Agora eu não consigo encontrá-lo. Vocês o viram? Onde ele está?
Naquele momento, alguns passos leves fizeram com que se virasse para onde tinha vindo. Rafiki, se apoiando no seu bastão e sorrindo para eles.
- Vocês não vão encontrá-lo aqui. - Ele deu uma piscada para ela. - O rei retornou. - Com aquela fala, ele saiu antes que alguém pudesse questioná-lo.
- Quem é o macaco? - Pumbaa perguntou antes que falasse.
assentiu e sorriu para seus novos amigos.
- Eu não acredito, ele conseguiu! - Ela ia sorrindo mais conforme falava as palavras. - voltou para desafiar Scar!
- Quem é que tem uma escarra?
- Não, o voltou para desafiar seu tio e tomar seu lugar como rei! - Timão e Pumbaa ficaram de boca aberta ao entenderem.
- Vamos lá! - ela gritou, entusiasmada, correndo na frente deles e mostrando o caminho.


Capítulo 8: O retorno do rei


A viagem de retorno pareceu muito mais tranquila e rápida para do que havia sido quando era uma fugitiva. Talvez o sentimento de voltar para casa para fazer a coisa certa mudasse tudo, ou talvez a distância não fosse tão grande assim quando é atravessada por uma leoa, um suricato e um javali apressados. Ela não sabia, e não se importava em saber.
Assim que deram os primeiros passos no território das Terras do Reino, notou com tristeza que tudo estava mais deserto e, porque não, morto do que se lembrava. Por isso, não ficou surpresa quando passaram por aquelas terras sem ver nenhum corpo d’água nem nenhum animal, por menor que fosse. De certo modo, ela tinha um alívio mórbido ao saber que sua mãe não havia vivido para ver seu reino ainda mais deteriorado. Ela suspirou ao se lembrar da mãe, esperando, desejando que aquela dor passasse algum dia. Pelo momento, no entanto, tentou adormecê-la. Havia um reino pelo qual lutar.
Os três passaram grande parte da viagem em silêncio - porque precisava se concentrar para guiá-los por todo o caminho, e Timão e Pumbaa provavelmente porque estavam chocados demais com aquela terra que estavam pisando para fazer qualquer comentário. Quando por fim chegaram ao grande cume de rochas que era a Pedra do Rei, viu mais hienas do que se lembrava patrulhando as áreas mais próximas da savana acinzentada. Ela ajudou Timão e Pumbaa a subir nas pedras escorregadias enquanto esticava a cabeça para procurar algum sinal de ou das leoas. Por fim, ela conseguiu ver parte da juba dele ao longe e seguiu na frente, quase rastejando até lá.
se esgueirou pelos cantos mais sombrios da Pedra do Rei até chegar ao lado de . Ao vê-la, murmurou o nome dela e se aconchegou no ombro dela. Ela suspirou de alívio ao vê-lo bem.
- É horrível, não é? - Ela suspirou, olhando em volta e vendo nada além de ossos e carcaças de animais. Era como uma versão piorada do cemitério de elefantes, apenas com muito mais hienas e sem tanto calor.
- Eu não quis acreditar em você. - Ele assentiu, também suspirando.
- O que fez você voltar? - falou em um sussurro.
- O bom senso finalmente bateu em mim, e eu tenho a marca para provar isso. - Ele deu um sorriso amarelo, que entendeu. Ele só podia estar falando de Rafiki e seus métodos pouco ortodoxos. - Afinal, este é meu reino. Se eu não lutar por ele, quem lutará?
- Eu lutarei. - Ela se ajeitou, levantando-se com orgulho ao lado dele, enquanto o vento fustigava a juba dele e arrepiava os pelos dos dois.
- Pode contar conosco também. - Uma voz estridente fez com que eles se virassem, e sorriu ainda mais ao ver seus amigos chegando.
- Ao seu serviço, majestade. - Pumbaa brincou, fazendo uma reverência.


Os quatro caminharam mais alguns metros até conseguirem se encolher contra uma grande rocha, ficando escondidos das três hienas adormecidas logo em frente. Eram, sem dúvida, Shenzi, Banzai e Ed. Pela primeira vez desde sua infância, não sentiu ódio ao vê-las ali - talvez um pouco de pena, no máximo. Por piores que fossem ao estarem descontroladas, elas eram também vítimas de Scar tanto quanto ela e as leoas. Como havia crescido, conseguia entender.
- Vamos combater o seu tio por isso? - Timão falou de novo com sua voz estridente, mexendo os braços para mostrar ao que se referia.
- Sim, Timão. Está é a minha terra... nossa terra. - sorriu, referenciando .
- Precisamos dar um jeito nisso... e olhe só quantas hienas tem por aqui, eu odeio hienas! - estava percebendo que o suricato tinha o mau hábito de tagarelar quando estava nervoso ou assustado, ou no caso, os dois. - E qual é o plano ‘pra nos livrarmos delas?
- Eu já sei. - parecia haver planejado tudo, apesar da surpresa de vê-los ali, ajudando. - , reúna as leoas. Vocês dois, criem uma distração.
- Cuidado. - Foi tudo que disse antes de sumir e se misturar às hienas.
Como a maioria das hienas estava adormecida naquele início de noite, não foi difícil para se esgueirar entre elas, silenciosa como costumava ser. Em silêncio, ela conseguiu chegar à caverna onde costumava dormir com as leoas. Elas estavam lá, deitadas juntas para encontrar um pouco de calor. Uma das leoas mais velhas, que era a segunda em comando abaixo de , se levantou para confrontar a visitante, ficando com o coração na boca ao notar que era .
- ! Mas como você... - Ela olhou para as outras leoas no fundo da caverna. - Podem vir, está tudo bem! voltou!
- Estou em casa, Mgunzi. - sorriu, apesar da situação complicada em que estavam. Naquele breve momento, todas as leoas a cumprimentaram de volta. sentiu outro aperto no coração ao notar a ausência de sua mãe. Em algum lugar obscuro de sua mente, ela ainda esperava que estivesse lá para recebê-la.
- , sobre a sua mãe... - Outra leoa começou a dizer, mas parou de falar quando notou a expressão resignada da leoa mais nova. apertou os olhos, mas não conseguiu impedir que duas lágrimas caíssem no chão gelado.
- Eu fiquei sabendo. - Respondeu com um fio de voz, olhando para o chão. - Posso lidar com a minha dor depois. - Ela engoliu o choro, fitando as leoas com um olhar ardente. - Depois eu explico. Venham comigo. está de volta e vai desafiar Scar!
- Chegou a hora de lutarmos por nossa terra - Mgunzi mostrou suas garras. - Devemos nos apressar, Scar está chamando enquanto conversamos. - as guiou para fora da caverna no tempo certo para verem Scar com um grupo de hienas, subindo no topo da Pedra do Rei enquanto as hienas ficavam na parte de baixo para mostrar apoio. As leoas caminharam para o canto do planalto, vendo por meio das sombras.
- !- Scar gritou, sua voz ecoando nas pedras.
entrou de cabeça erguida, passando pelo meio de todas as hienas que, muito hostis, rosnavam e tentavam mordê-la. Ela caminhou com calma, e viu que ela estava mais envelhecida do que se lembrava. caminhou com orgulho, ignorando as ameaças e, com calma, subiu na pedra para confrontar Scar.
- Onde estão suas caçadoras? Elas não estão fazendo o seu trabalho direito! - Ele ameaçou, tentando andar em círculos ao redor dela, mas o ignorou, apenas o olhando com desdém. sabia que ela não desceria ao nível do rei falso.
- Scar, não há comida. - Ela falou também com bastante calma, como se o velho rei não tivesse inteligência o suficiente para compreender a situação. - As manadas se foram.
- Não! Vocês não estão procurando o suficiente! - Ele respondeu, com mais raiva na voz. deixou um rosnado muito baixo escapar ao ser interrompida - de fato, tão baixo que Scar parecia não haver escutado, ou mesmo que tivesse escutado, parecia não se importar.
- Acabou. Não nos resta mais nada aqui. - Ela fechou os olhos por um momento, o pesar claro em suas feições. - Nossa única escolha é deixar as Terras do Reino, como mencionei antes.
- Não vamos a lugar nenhum!
- Você está nos sentenciando à morte! - rosnou mais alto, os anos de opressão finalmente haviam sido suficientes para ela quebrar aquela máscara de calma e resignação.
- Que assim seja! - Ele retrucou no mesmo tom.
- Você não pode fazer isso! - Ela começou, até que foi interrompida de novo, com Scar declarando algo que o rei anterior jamais teria dito: - Eu sou o rei, posso fazer tudo que quero!
- Se você fosse metade do rei que era -
- Eu sou dez vezes o rei que foi! - Scar se virou para acertá-la com suas garras, mas foi mais rápida e desviou do golpe, porém acabou caindo no chão. Os dois foram interrompidos por um rugido poderoso, e viu descer de onde estava escondido, indo em direção à , tocando o queixo dela com sua cabeça. Ela abriu os olhos e o fitou, um pouco confusa.
- ...! Não pode ser, você está morto! - Scar quase pareceu assustado naquele momento, como se estivesse vendo um fantasma.
- Não. Sou eu, mãe. . - não deu atenção ao tio, apenas se dirigindo a .
- , você está vivo! - O alívio tomou as feições de com aquela notícia. suspirou e não percebeu que estava sorrindo. Se ela havia sentido seu coração se regenerar ao reencontrar , nem podia imaginar o que a mãe dele estava sentindo naquele momento. - Mas como pode ser?
- Não importa. Estou de volta. - Ele sorriu e a ajudou a levantar, e então os dois se abraçaram por um longo momento. As leoas ao lado de também suspiraram com alívio ao ver que suas esperanças estavam renovadas. A tensão, porém, não deixou de tomar conta de todas elas.
- ...? ! - Scar deu um meio sorriso e uma risada nervosa. - Estou surpreso em ver você... vivo! - ele lançou um olhar feroz para Shenzi, Banzai e Ed, que estavam na plataforma elevada acima dos leões. notou aquilo com receio -- teria ele mandado aquelas hienas matarem em algum momento? Ela não teve mais tempo para ponderar aquela questão, pois no momento seguinte, começou a se aproximar de Scar da mesma maneira que ela costumava fazer com suas presas.
- Me dê uma boa razão para eu não te partir em pedaços.


Capítulo 9: A honra de um rei


- Me dê uma boa razão para eu não te partir em pedaços. - rosnou, e Scar foi pego de surpresa, dando vários passos para trás até acabar encurralado contra uma grande pedra lisa. Lembrando do que Scar tinha feito com ela, ficou satisfeita ao ver aquilo. Como seria para aquele rei atroz se sentir como a presa? Uma curiosidade mórbida a assaltou, mas ela e as leoas não saíram do lugar, apenas deixaram as garras à mostra e retesaram seus músculos, como faziam antes de uma grande caçada. Elas tinham que estar prontas para a batalha prestes a ocorrer.
- , você deve compreender, as pressões de reger um reino... - Scar tentava ganhar tempo, porém pareceu perceber a estratégia do tio.
- ...Já não são mais suas. Renuncie, Scar.
Ele deu mais risadinhas nervosas, enquanto tentava achar algum ponto de apoio, mas continuava encurralado.
- Ora, eu até renunciaria, é claro... - Ele começou a tagarelar, gesticulando e fazendo questão de mostrar suas garras. - No entanto há um pequeno problema. Está vendo as hienas? - Ele apontou para a plataforma diretamente acima deles, onde dezenas ou mesmo centenas de hienas os observavam, algumas rosnando e outras com sorrisos cruéis, apenas esperando o momento de atacar. - Elas pensam que eu sou o rei. - Terminou, apontando para si mesmo. soube que aquele era o momento de intervir, e todas as leoas a seguiram quando ela se pôs ao lado de .
- Bem, nós não! - gritou, fazendo com que e Scar parassem de falar e olhassem para elas. - é o rei verdadeiro!
- Veja só, a gatinha voltou. - Scar respondeu, quase ronronando, e pareceu confuso por um momento, mas pareceu se lembrar do que lhe havia dito.
- Eu mesma vou te dar outra cicatriz se não renunciar agora. Assim como já fiz antes, miserável! - nunca havia falado com tanto veneno na voz, e até seu companheiro pareceu surpreso ao vê-la rugir daquela maneira.
- Você está dificultando tudo. Não vai sobrar nada de você se encostar nela de novo. - ameaçou, e assentiu, agradecida pelo apoio. E então ele se voltou na direção do tio, parecendo mais confiante com o apoio das leoas. - A escolha é sua, Scar: ou renuncia ou luta.
Scar havia encontrado uma brecha, e por isso passou por , sem estar mais encurralado. o olhou com desdém, acompanhando seus movimentos com os olhos.
- Ora, mas tudo tem que terminar em violência? Eu odiaria ser responsável pela morte de um membro da família... você não concorda, ?
- Isso não me afeta, Scar. O passado está morto.
Scar continuou andando a passos largos, até que chegou perto de .
- Ah, e suas fiéis súditas? Para elas também está morto? - Naquele momento, todas as leoas desejavam poder partir a garganta do leão em duas.
- , do que ele está falando? - questionou, e pareceu nervoso e um pouco inseguro.
- Então ele não lhes contou seu segredinho? - Scar deu um sorriso cruel e deu algumas voltas ao redor de , com o intuito de deixá-lo mais nervoso. - Ora , eis a sua chance de contar a elas. Diga a elas quem foi responsável pela morte de . - A voz dele pareceu mais alta com o som de um trovão ao longe. As leoas voltaram toda sua atenção ao jovem leão.
- Eu. Fui eu. - admitiu, hesitante, dando alguns passos na direção delas. sentiu outro aperto no coração. Ele não podia ter matado o próprio pai, certo? Ela havia observado uma relação tão boa entre eles... não, havia algo errado.
- É verdade isso? - abaixou a cabeça e pensou ver uma lágrima caindo. - Diga-me que não é verdade! - interrompeu, deixando as leoas e se aproximando do filho.
- É verdade. - Ele admitiu com um grande suspiro, sem coragem de olhar nos olhos.
- Estão vendo? Ele admitiu! É um assassino! - Scar gritou ao mesmo tempo que um trovão estourou. sabia que algo estava errado. Scar devia estar manipulando a todos, mas ela não conseguia achar forças para se manifestar.
- Não, foi um acidente! - gritou de volta, mas foi interrompido novamente, enquanto o leão mais velho o circundava. E então tudo aconteceu muito rápido.
- Se não fosse por você, ainda estaria vivo! Por sua culpa está morto! Você nega essa acusação? - respondeu logo que não. - Então você é culpado!
- Não, eu não sou um assassino! - falou com um fio de voz, não parecia ter mais forças para gritar. e as leoas estavam paralisadas com aquela reação. Não conseguiram se mover quando viram Scar sussurrando alguma coisa para enquanto começava a encurralá-lo em direção à ponta da Pedra do Rei, onde metros abaixo havia inúmeras pedras pontiagudas. Se não morresse da queda, com certeza encontraria seu fim naquelas pedras. Algumas hienas começaram a seguir o velho rei, dando-lhe apoio. não teria como pular por cima delas e cair na plataforma mais baixa, onde era seguro. só teve forças para gritar o nome dele quando o viu escorregar, ficando pendurado na pedra, suas garras dando toda a sustentação. Elas ouviram o barulho mais alto de outro trovão estourando na grama seca e morta, o que causou o inconfundível crepitar do fogo. Um incêndio estava se alastrando pela terra morta.


Capítulo 10: Quando finda a tempestade


Ao ouvir o crepitar do fogo, as leoas se agruparam na frente das hienas, sem nenhum sinal dos dois leões por momentos agonizantes. Elas viram, porém, e Scar caírem na frente delas na plataforma rebaixada, com segurando o tio no chão e quase cortando a respiração dele com uma de suas patas enormes. O crepitar do fogo estava cada vez mais alto, assim como o cheiro de terra queimada.
- ASSASSINO! - gritou, e as leoas olharam, atônitas. - Confesse!
- A verdade? Ela é relativa, depende do ponto de vista… - apertou ainda mais a garganta do tio, até que ele começou a sufocar. - Eu matei Mufasa!
não precisou ouvir mais nada. Ela rugiu alto e pulou na direção deles e das hienas, sendo seguida de perto por , que parecia muito mais furiosa, e pelas demais leoas. Um grupo de hienas pulou em cima de , o que fez com que Scar escapasse dali. investiu contra as hienas mais próximas, agarrando-as, cortando-as furiosamente com suas garras afiadas. Era como uma grande caçada, mas sem a parte de correr atrás da presa. Aquele era o momento de ela se vingar das hienas e toda a destruição, de tudo que tinham feito com sua terra ancestral. Ela sentia gosto de sangue e de carne a cada mordida, e parecia gostar.
As leoas atacavam qualquer hiena que passasse na frente delas, e se ajudavam, matando ou ferindo um número considerável delas em pouco tempo. viu pelo canto de olho Timão e Pumbaa atingindo algumas hienas também, enquanto , graças à ajuda delas, estava livre. Ele procurava Scar, olhando por todos os lados, e conseguia repelir hienas com facilidade, jogando-as para cima com os dentes ou dando pancadas com suas garras. viu até mesmo Rafiki dando cabo de um grupo de hienas com seu bastão. Ela também viu uma figura ao longe, que só podia ser Scar, pois rugiu e correu atrás dela. As chamas se alastraram pela Pedra do Rei, lambendo as pedras e queimando os ousados que se aproximavam. viu muitas hienas com partes do corpo queimadas, que ou continuavam lutando ou se rendiam. De acordo com os ensinamentos sobre o Ciclo da Vida, não matou sem razão naquele dia. Pelo contrário, deixava de lado as hienas que lhe pediam clemência. Ela via as outras leoas fazendo o mesmo.
viu ao longe, em outro penhasco, e da maneira que se movia, ele de fato parecia estar duelando. Os dois leões trocavam golpes e arranhões, enquanto as chamas chegavam perto demais deles. O próprio céu estrelado estava vermelho, como se também estivesse queimando. E naquele momento, quando o ar ficou apertado e impossível de respirar, foi quando caiu de costas devido a uma patada violenta do leão mais velho. derrubou outra hiena com uma de suas patas e viu Scar caindo do penhasco, sem saber o que teria causado aquilo. Era provável que o tivesse empurrado.
Ela ouviu o barulho daquele corpo magro caindo e batendo nas pedras, uma por vez, e se juntou às leoas quando viu que as hienas restantes - ainda eram dezenas - haviam parado de lutar e se dirigiram ao lugar onde o velho leão tinha caído. Mais e mais hienas desceram o penhasco com cuidado, com Shenzi e Banzai na linha de frente. A fumaça estava mais densa e o crepitar do fogo atrapalhava, mas as leoas ainda assim conseguiram ver quando Scar chegou ao chão. Ele ainda estava vivo, como elas puderam ver quando ele abriu os olhos com um grunhido e fitou seus arredores, porém estava manco. se resignou ao ver as hienas tomando suas posições atrás de uma coluna de fogo, como um bom exército disciplinado, prontas para ajudá-lo e se levantar e quem sabe escapar -- mas nunca estivera tão errada em toda sua vida.
Scar se endireitou e se sentou, e deu um sorriso.
- Ah, minhas amigas, vocês vieram me ajudar…
Shenzi deu uma risada histérica, e as outras hienas ouviram a decisão dela em silêncio.
- Amigas? Acho que você disse que éramos inimigas. - Ela deu um sorriso cruel como jamais havia visto. Banzai riu junto com ela.
- É, foi o que eu ouvi. - Ele concordou. A terceira hiena riu, lambendo a própria boca, e no momento seguinte, legiões de hienas se aproximaram, os olhos brilhando entre o fogo ardente e o céu vermelho. As desculpas e os pedidos de misericórdia de Scar se perderam conforme as hienas e o fogo o esconderam o consumiram.
desviou o olhar e suspirou assim que começou a ouvir os gritos. E naquele momento, com a morte de Scar, o incêndio também terminou. Assim que Scar deu o primeiro grito, uma chuva pesada começou a cair, lavando as chamas em questão de minutos, e ensopando todos ali presentes. As leoas saíram da plataforma, procurando por sobreviventes, e logo viram Timão e Pumbaa, que se juntaram a elas. se aproximou de , afagando e lambendo a cabeça dela.
- Eu sempre soube que você voltaria, . Estou muito aliviada que você esteja bem, mas você deve saber o que aconteceu com . Ela era como uma irmã para mim. - Ao mencionar aquele nome, abaixou a cabeça em respeito à companheira morta.
- Eu já sei, minha rainha. - abaixou a cabeça também, e por um momento as duas leoas compartilharam aquela dor. As lágrimas das duas passaram junto com a chuva, que agora parecia mais suave. - Minha mãe morreu de causas naturais um pouco antes de eu voltar. Ela apareceu para mim e me contou… graças a Rafiki e seus métodos. Eu só me arrependo de não ter estado aqui com ela nos últimos momentos. Eu desejo… eu queria poder ter me despedido dela.
- Ela se foi em paz, querida. Não pudemos fazer nada para evitar. - confortou enquanto ainda chorava. - Mas saiba de uma coisa: ela nunca deixou de falar o quanto se orgulhava de você. - sorriu entre lágrimas, não se sentindo capaz de proferir nenhuma palavra. - Assim como foi para mim, a dor se dissipará com o tempo e restarão apenas as boas lembranças. Ela não foi uma rainha, mas tenho certeza que nos vê de algum lugar.
- Minha mãe pediu que você cuidasse de mim, não é mesmo? - balançou a cabeça, provavelmente se perguntando como a filha de sua amiga sabia. - Fico feliz por isso. Você sempre foi como uma mãe para mim. - Dizendo aquilo, as duas se abraçaram por muito tempo, até que se afastou dela com um sorriso, tomando a frente quando viu seu filho descendo com cuidado de algumas pedras já na direção delas. Ele parecia machucado, tinha alguns ferimentos feitos por garras e um pouco de sangue pisado, mas estava bem. Zazu estava livre e empoleirado numa pedra, e se curvou quando passou por ele, os dois trocando um olhar amigável. Todas as leoas se agruparam ao redor de , e correu para abraçá-lo. Palavras não foram necessárias, todos podiam ver o orgulho nos olhos e até mesmo nos movimentos fluidos de . Depois que aquele momento entre mãe e filho terminou, se aproximou e sorriu para os dois, mostrando seu apoio.
Nenhum dos dois entendeu como ela sabia. abraçou seu companheiro, se sentindo mais tranquila ao sentir seu pelo encharcado, assim como o dela. Um barulho de chocalho atraiu a atenção deles, e todos olharam para Rafiki, que apontava para a Pedra do Rei com seu bastão, em meio à chuva.

(A/N: Coloque a música para tocar!)

- Está na hora - Rafiki disse, se curvando em direção a , que o puxou para um abraço apertado.
Um pouco hesitante, subiu na Pedra do Rei, ocupando o lugar que costumava ser de . olhou, surpresa, a visão de seu companheiro dando passos elegantes em meio à chuva, até que chegou no topo. Dando uma última olhada para o céu estrelado, rugiu -- e segundo a tradição, conforme se lembrou, ela e as outras leoas rugiram de volta, aceitando o novo rei.
acenou para com a cabeça, e sussurrou que ela deveria acompanhá-lo. subiu com lentidão, se curvando quando Rafiki pôs uma mão em sua cabeça. a abraçou quando ela chegou no topo, e apontou para o céu.
Sabendo o que deveria fazer, rugiu, e novamente todos abaixo dela rugiram, aceitando-a como rainha. Foi então que a chuva se dissipou, e ela sentiu um vento muito suave no rosto e uma presença reconfortante, como um carinho.
- Muito bem, minha filha. Vida longa à Rainha Leoa.




Fim



Nota da autora: Sem nota.





Outras Fanfics:
Timişoara (Originais/Shortfic)
MV: Élan (Especial Music Video/Rock)
Mixtape: He Lives in You (Awesome Mix: Vol 7 “Disney”)


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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