Capítulo 22
Estava exausto.
Mais uma vez voltando para casa sem a princesa ao meu lado; estava me causando mais trabalho do que imaginava. Doía não ter seu humor áspero por perto, ou suas piadinhas sem graça e suas queimaduras planejadas. Às vezes eu ia até seu quarto só para sentir de novo o seu cheiro, para que ele não saísse da minha mente. Já fazia semanas que ela fora levada e ainda não sabíamos por quem. Contudo, desconfiávamos. Os nossos inimigos mais próximos eram os de países que queriam acabar com a monarquia feiticeira: Elementares que não aguentavam ter alguém acima deles. O pior erro do ser humano. A ganância estava dominando absolutamente tudo, porque não existia nada maior que um feiticeiro. E éramos poucos, mas ainda assim, presentes; para o desespero deles e a nossa alegria e satisfação.
A Corte feiticeira escondia bem as crises, mas não significava que estávamos tranquilos com esses ataques constantes contra a Coroa. Muitos feiticeiros caíram e nada impedia que fôssemos os próximos. Entretanto, com essa aliança com Howslan, ambos estávamos protegidos e esperançosos sobre termos novos controles. Byron não podia ser o mais afetado em tudo isso: eu odiava olhar para o seu rosto fingido de quem havia acabado de perder a filha e estava preocupado ou triste, mas eu sabia que era tudo atuação, ele só estava preocupado mesmo com nossa colaboração. A jogada de mestre do meu pai o impediu de cantar a vitória no dia do noivado, mas não me impediu de continuar lutando por e sua volta. Charles era um idiota arrependido e todas as vezes que nos encontrávamos, era para brigar um com o outro, afinal, ele achava que era o único que entendia o que estava acontecendo. Como se a gente realmente soubesse de fato: ele entendia de guerra, assim como eu, só que não entendia a mente de um sequestrador — ou sequestradores. Não saber o motivo do sequestro de estava nos matando, qualquer pessoa entraria em contato em alguns dias, mas eles não davam sinal algum sobre a princesa. Charles acreditava que era coisa de algum país inimigo. Uttara era um dos principais suspeitos, mas eu não achava que fosse. Eles descartaram a possibilidade de ter sido os insurgentes, menosprezam a capacidade dos Cinzas, só que eu não. Eu sabia que havia sido eles. Contudo, mesmo sendo um príncipe renomado, de nada valia a minha voz em Howslan sem ao lado. Era difícil receber ordens quando, em meu país, eu quem as dava. Me casar com me faria ser assim para sempre: sem voz. Mas eu gostava dela o suficiente para aceitar isso, afinal, não me importava com os títulos destinados a mim.
— Céus, eu não aguento mais esse clima de enterro. — Jade falou no meio do nosso jantar.
Byron ainda mantinha isso todos os dias desde que perdemos . Alguns agiam como se tudo estivesse normal, como Jade. O dono do castelo de Aseena também parecia esquecer que a filha estava desaparecida.
— É difícil não ter aqui, Lady Jade. — minha mãe respondeu com toda a delicadeza — Comer enquanto não sabemos como ela está, é complicado.
— Mas o mundo não acabou por causa disso. — ela retrucou. Encarei Charles, esperando uma resposta à altura, mas o rapaz ficou quieto. Frouxo.
— Se quer um clima melhor, volte para o seu país. — falei, sem conseguir controlar minhas palavras. Senti minha mãe me dando um chute por debaixo da mesa. — Esqueci que lá também está com o clima de enterro, depois do ataque que vocês sofreram de Vancur.
Os ataques continuavam em países com monarcas feiticeiros, mas estávamos surpresos pelo país de Jade ter sido atacado da forma que foi: invadidos na surdina, colocaram fogo em uma cidade inteira. Nossa teoria era de que Vancur estava punindo os monarcas LaMontagne por estarem se envolvendo com nós, ainda mais os . Para o meu alívio, Lennox estava bem protegido depois de tanto esforço para fortalecermos as fronteiras.
— Você foi completamente antiético com seu comentário, .
— E você não foi com o seu? — dei de ombros. — Estou cansado dos seus afrontes contra , mesmo com ela sequestrada e desaparecida! Estou cansado até do seu noivo não fazer nada para controlar essa sua língua de cobra! Até quando vocês vão agir assim?
— Pelo menos Charles me ama. O que você recebeu de ? — ela se levantou e eu comecei a rir.
Aquilo era cômico.
— Jura? — encarei Charles. Havia pegado o sucessor de em um dos quartos esquecidos com uma das melhores amigas da minha noiva. Pelo que me lembrava, havia me dito que Candance e Charles sempre foram próximos. — Bom, posso te garantir que uma coisa eu sempre tive de : respeito. Já não posso dizer o mesmo sobre... vocês
— Já chega. — Byron interviu — Controle sua noiva! — ele rosnou para Charles. Lembrei de quem puxou essa mania horrível. — Ou eu mesmo controlarei. Não se esqueça que é o futuro rei de Howslan e de Lennox. Deve ser tratado como tal.
— Perdão, majestade. — Jade respondeu, vermelha de raiva.
— E Jade ainda é uma dama. Também deve ser respeitada como tal.
— Certo, sinto muito. — falei apenas por falar. Não me importava com os sermões de Byron.
— Estamos à procura de e não descansarei até encontrar minha filha. — ele falou, encarando todos da mesa.
— Viva ou morta? — questionei.
Quando o silêncio se instalou, eu me levantei e me retirei do recinto.
Estava em meu quarto, sentado na minha cama, quando decidi que iria sair daquele castelo que tanto me sufocava e me fazia mal. Decidi também que iria usar das táticas de para escapar de lá. Os corredores secretos e o bar que ela me levava, seria o meu próximo destino para me distrair de todo esse circo e quem sabe ver se conseguia alguma pista de seu paradeiro.
Como não estava nem um pouco a fim de socializar com qualquer um do castelo, acabei por não pedir uma troca de roupas mais simples e usei as mais parecidas com as dos cinzas que eu tinha: uma calça jeans preta, uma camiseta polo cinza e uma jaqueta de couro também preta. Cores neutras, esperava que me camuflassem na escuridão da noite.
Feito o caminho até o estábulo, minha mente foi bombardeada com as memórias que aquele lugar me trazia, e por um momento me vi encarando a salinha em que tive minha primeira noite com a princesa. Consegui até rir um pouco da ironia que era, futuros rei e rainha de Howslan tendo sua primeira transa num chão sujo e empoeirado de um estábulo. Com toda certeza fora a mais especial de todas!
Cheguei perto da parte onde Lavender ficava e passei a mão em sua cabeça, alisando os fios brancos de seu pelo enquanto a égua relinchava de satisfação ao me reconhecer. Com certeza sentia falta de sua dona!
— Eu a trarei de volta, é a nossa promessa!
Pude jurar que havia um brilho diferente em seu olhar, mas não fiquei por muito mais tempo para não dar na telha que sairia do castelo naquela noite, indo direto para meu cavalo.
A vila não havia mudado muito desde a última vez em que estivera aqui; tampouco a pequena cabana onde costumava deixar Lavender. Parecia tudo normal desde o desaparecimento e eu estava cansado de só pensar nisso. Deixei meu cavalo no lugar de sempre e logo tratei de ir em direção ao bar que conhecia. O vilarejo me parecia bem mais movimentado do que das últimas vezes em que eu vim para cá e muito me surpreendia isso, já que muitos dos Cinzas estavam sofrendo ainda mais com a Crise monetária. Podia não parecer, mas depois que desapareceu, Byron e Charles abaixaram ainda mais a renda deles. batia o martelo e lutava para que eles tivessem um valor rentável melhor — mesmo que fosse um pouco mais do que recebiam agora — e agora, o rei fez questão de cortar as coisas que a filha fizera pela minoria. Isso, obviamente, revoltou os Cinzas e com total razão. A rebelião que havia nos atacado na Base vermelha quando cheguei no país, tinha voltado a dar as caras e os animais com Coroa insistiam em ignorá‐los.
Entrei no bar conhecido e cumprimentei a senhora que ficava no caixa, ela sempre fora simpática e receptiva. E nunca deixei de reparar na forma que sorria para ela, uma das poucas pessoas que tinham isso da princesa e eu a admirava por isso. Essa senhora devia ser um anjo para conseguir o mínimo de afeto da futura rainha. Me sentei no balcão e ela logo me serviu com uma cerveja gelada. Fiquei escutando a música fraca que invadia o ambiente e fazendo uma breve varredura do local: havia um grupo de adolescentes (que duvidava ter idade o suficiente para frequentar aquele tipo de bar) bêbados, jogando algum tipo de jogo com cartas, uns alcoólatras espalhados aleatoriamente e, do lado oposto à eles, um casal de idosos que conversavam animadamente enquanto dividiam uma porção de batatas fritas. Gastei uns minutos a mais os encarando, desejando que eu pudesse ter uma vida e uma velhice tranquila e simples como eles, mas o universo era muito irônico e eu infelizmente não teria esse privilégio! Ao menos, uma coisa parecida eu poderia ter se lutasse: uma parceira ao meu lado. Alguém com que compartilharia minhas aventuras e faria história em um país que reconstruiríamos do zero, cheio de ajuda e privilégio àqueles que não possuem muito. Voltei a olhar para a senhora, que sorria ao encarar algo atrás de mim e não pude evitar sentir algo fraco me atingindo, um frio diferente.
Não estava frio dentro do bar!
Olhei em volta mais uma vez e fiquei atento quanto aquilo, afinal, brisa fria no pescoço não era normal. Não para mim. Eu ainda era o futuro rei de Lennox e consequentemente, de Howslan; poderia ser reconhecido por algum Cinza e essa pessoa poderia me achar igual aos seus Superiores, mesmo eu não sendo como Byron ou Charles.
— Sabe... É difícil receber uma visita real, Alteza! — alguém falou se sentando ao meu lado, bebendo um gole da própria cerveja. Olhei calmamente de canto de olho para o indivíduo e não o reconheci de primeira. Ele tinha olhos azuis, que se mostravam dessa cor graças à luz fraca que havia em cima dele. As roupas não pareciam de um Cinza comum. — Vou ter que admitir que é uma surpresa.
— Não sei do que você está falando. — respondi tranquilamente, dando um sorriso de canto e virando meus olhos para frente novamente.
— Você acha que trocando de roupa vai anular o rostinho de príncipe que você tem? — o homem riu e se virou para mim, curioso com o que eu falaria.
— Vou levar como um elogio ser comparado a um príncipe. — encarei o rapaz, que estava arqueando a sobrancelha. — Agora, se me der licença... Preciso ir ao toilet!
— Nem o jeito de falar você consegue disfarçar, é ridículo! — ele se levantou, impedindo que eu me levantasse. — Nem as roupas ou o modo de andar! Qualquer um que olhar para você, vai perceber que você não é um Cinza.
— Sem falar que, essas roupas que ele está já pagam a mensalidade do bar por dois meses. — uma mulher, muito bonita por sinal, falou aparecendo atrás do balcão que estávamos — Foi sua noiva desaparecida que sugeriu que assim você se pareceria mais com a escória? — senti minha cadeira esquentar, afinal, não suportava o deboche que faziam para com . Contudo, não me descontrolei: queria saber até onde eles iriam. — Acha mesmo que ninguém vai perceber?
— Por sorte, são todos bêbados que não conseguem saber o próprio nome quando se olham na frente do espelho! — dei de ombros. O Cinza riu e bufou, querendo controlar sua raiva. — Vou dar uma gorjeta para a dona do bar, gosto daqui, mesmo não sendo muito bem... frequentado. — sorri, encarando a garota. Ela revirou os olhos e bateu com força um copo no balcão, que eu não sabia como não havia quebrado. — Vou poupar vocês: o que querem? Vão tentar me matar? Vão me denunciar e arriscar que eu acabe com esse lugar com um simples estalar de dedos? — os dois se encararam e ficaram assim por um tempo. — Se puderem pensar enquanto eu vou ao banheiro...
— Engraçadinho, não é? — a moça sorriu. Tentei sair da cadeira, mas um redemoinho ameaçou me prender e eu não contive a minha magia para silenciá-la.
— Não se aproxime e nem tente fazer nada. — ameacei o homem. Os olhos brancos da menina se apagaram quando eu a silenciei. — Uma elementar de Ar? E você? O que é?
— É só um Cinza! Apenas um Cinza! — ela respondeu, apressada. Não pude deixar de notar a troca de olhares entre os dois.
— O que você está fazendo, ? — a senhora apareceu atrás do rapaz, que estava prestes a tirar uma arma da cintura. — Guarde isso imediatamente!
— Mãe, se afaste. — a garota falou, ainda silenciada. Mãe? Aquela mulher era Cinza, como poderia ser mãe dela? — , deixe-o ir.
— Angelique... — o tal sussurrou. Parecia que eles tinham algum acordo e que estavam conversando por telepatia. Sabia que aquilo era impossível.
— Ele é um dos meus melhores clientes! — a senhora falou para os dois, completamente brava.
— Ele é ! É claro que é seu melhor cliente. — sussurrou. Ela me encarou, assustada.
— Sabia que conhecia você de algum lugar...
— Não vim aqui para causar nenhum desconforto a ninguém. — tratei logo de falar para os três — Em todas as minhas escapadas do castelo, nunca incomodei e nem tive a intenção disso. A senhora bem sabe! — encarei a dona do bar.
— Como eu disse, você é o meu melhor cliente e não digo apenas pelas gorjetas — ela encarou os filhos — Deixem que o príncipe se vá, em paz e em segurança. — frisou a última frase para a filha e para o rapaz. — A não ser que vocês queiram arranjar problemas comigo.
Nada como uma mãe para colocar ordem na casa.
— Certo. Vá. — Angelique falou entredentes. Aquilo me deixou contente, no fundo.
— Volte para mais uma cerveja qualquer dia. — sorriu, com muita ironia, se sentando novamente e dando de ombros.
Não seria burro o suficiente de deixar a garota livre enquanto eu estivesse ali. Tirei algumas notas do bolso e entreguei para a senhora, que não quis aceitar.
— Não, não precisa. Peço desculpas pelos meus filhos, alteza, e...
— Eu insisto. — sorri. A mulher pegou alguns segundos depois — Ainda é o melhor bar do vilarejo. — pisquei e ela sorriu. — Uma boa noite a todos vocês.
Fui me retirando do lugar devagar e andando de costas por precaução e, quando cruzei a porta, não pude deixar de escutar a última frase antes de sair por completo do bar:
— Apague esses olhos azuis, ! Deixe-o em paz.
O caminho de volta para o castelo foi um pouco mais longo que o normal, afinal, eu poderia estar sendo seguido. Estava preparado para uma luta depois daqueles dois estranhos me reconhecerem e tentarem me atacar. Se estivesse aqui, estaria orgulhosa de como me saí com ambos. Na realidade, ela teria destruído o bar.
Fiquei um pouco pensativo graças a informação de que Angelique era filha de uma Cinza. Não era comum Elementares se envolverem com Cinzas, tampouco nascer um elementar dentro de um relacionamento entre ambos. Havia histórias de que uma criança que fosse fruto de relações desse tipo, não teria tantos poderes; não seriam fortes como um Elementar e nem fracas como um Cinza. Contudo, Angelique era forte com o pouco que pude sentir. Havia alguma coisa ali. E eu descobriria.
Na manhã seguinte, acordei (após 2 horas de sono, como em toda noite desde que se fora) sendo bombardeado com a falta de informação sobre a princesa de Howslan. Estava de saco cheio de todos os comentários e de agir como quem ainda tinha que manter a classe e ser fino. Eu não aguentava mais.
Não entendia o motivo, mas eu estava com a cabeça quase explodindo e parecia que iria entrar em colapso. Não consegui nem mesmo terminar de tomar o café com os nossos familiares. Não sabia se aquilo era bom ou ruim.
Tudo parecia estranho e desconexo.
O ar rarefeito do castelo parecia que iria me sufocar e fazia minha cabeça doer ainda mais, tendo tonturas conforme eu andava.
— Querido, você precisa descansar! — minha sogra falou assim que entrou em meu quarto.
— Não vou descansar até encontrá-la, Louise! — respondi, tentando não parecer que estava quase morrendo com as pontadas na cabeça.
— Meu amor, você não vai conseguir encontrá-la se estiver duro no chão, sem forças porque não descansa regularmente. Nós iremos prosseguir com as buscas pela noite e, quando acordar, vai ter um relatório completo no seu escritório. — minha mãe falou, me levando até a cama. Mesmo ela sendo elegante como sempre, tinha uma expressão cansada e preocupada no rosto.
— Você sabe que eu não vou conseguir dormir, mãe! — me sentei na cama, passando a mão em meu rosto completamente desolado. — está sumida há dias e nem sinal dos insurgentes nós temos! Como você quer que eu durma com isso na cabeça?
— Filho, se ela estivesse morta, seria a primeira coisa que eles esfregariam na nossa cara. — minha mãe tinha razão. — Estão a mantendo como refém para conseguirem algo em troca. Creio que essa procura toda pela nem seja tão necessária, já que eles devem entrar em contato com a gente quanto à negociação em breve. — era estranho: parecia que minha cabeça iria entrar em erupção a cada segundo que passava.
.
Alguma coisa sussurrou na minha mente.
— Outra coisa, , eu te disse para confiar em mim e em . Ela vai sair dessa! — Louise segurou minha mão, dando uma piscadinha. — Não se esqueça de que é da minha filha que estamos falando.
.
Não era mais um sussurro, a voz falava mais alto. E eu conhecia aquela voz de algum lugar.
— Está tudo bem? ? — minha mãe perguntou. Vendo que eu realmente não estava bem. Grunhi alto, sentindo meus joelhos tocaram no chão e, em um segundo, já estava caído.
!
Escutei mais uma vez, antes de apagar por completo.
Capítulo 23
Quando a corneta soou e o salão ficou todo em silêncio, comecei a me perguntar onde que eu estava com a cabeça quando aceitei esse desafio. Luta corporal nunca fora meu forte — e nem precisava ser, já que num estalar de dedos eu poderia acabar com qualquer um — e minha flexibilidade não era lá das melhores, mas fugir de um desafio estava fora de cogitação. Ainda mais um desafio feito pela Angelique.
Essa garota já havia enchido totalmente a minha paciência Real este mês.
E por falar nela, quando caminhei até o centro do ginásio, ela já me esperava com um sorriso sarcástico estampado no rosto. Se eu pudesse usar minha magia, já havia tirado ele dali há tempos. A roupa preta com listras brancas colada ao corpo fazia um bom contraste com o cabelo ruivo; sua beleza não era como a de , mas não podia negar que existia.
Por uma fração de segundos e uma adrenalina que veio do além, desviei de seu primeiro soco e me joguei no chão, rolando para longe dela.
Vadia! Me atacou enquanto eu estava ocupada demais a odiando com os olhos!
Novamente me arrependi de ter aceitado esse duelo sem nexo quando, por conta do sedentarismo, ouvi um torcer de joelho que eu me proibi sentir a dor até segunda ordem. Era algo que eu não estava acostumada e me amaldiçoava por isso, afinal, como um Reino poderoso como o meu nunca pensou em focar também em treinamentos corporais? Aquilo era burrice demais.
Antes de deixá-la dar mais um golpe e usando a vantagem de já estar no chão, usei minhas pernas para derrubá-la — o que foi feito com muita glória àquela altura do campeonato. Escutei as vozes surpresas ao fundo e não pude evitar encarar após isso, já que, o insurgente quem me dera dicas para lutar contra sua irmã — ou para minha própria sobrevivência.
Seja o que for, eu estava grata.
Mas, diferente de mim, que havia decidido que o chão estava muito confortável, ela logo deu um pulo — daqueles bem profissionais sabe? Coisa de filme — e, quando olhei para cima, vi a insurgente se preparando para pular em cima de mim, tentando cravar o cotovelo em meu estômago; mas eu rolei novamente para o lado no momento exato que aquilo iria acontecer.
Escutei-a urrando de dor. Lesionar aquela área com a força que ela fez, era realmente complicado.
Minha perna direita foi de encontro com a cabeça dela, aproveitando que ela ainda se encontrava ajoelhada. Naquele instante, não poupei força alguma para chutar e socar Angelique. Eu estava descontando toda a minha raiva nela e aquilo não me aliviava, só me trazia mais fúria e estímulo.
Nem mesmo parei para achar estranho a súbita força e rapidez que eu adquiri do nada, podendo desferir golpes em alguém que visivelmente tinha mais habilidades nesse tipo de coisa do que eu.
Logo após de dar mais um soco que acertou o osso de seu maxilar (o que deixou um corte), me afastei minimamente dela para me queixar da mão dolorida e já machucada. Meu segundo erro!
Em uma fração de segundos, o que antes era uma Angelique de joelhos e machucada, virou uma Angelique de pé, furiosa e machucada.
— Você me pegou desprevenida! — murmurou, logo após cuspir um pouco de sangue. — Isso não irá acontecer de novo!
E, antes mesmo que eu pudesse elaborar qualquer frase cheia de deboche e ofensas, me vi esquivando de outro soco dela, que usou do movimento e do meu rabo de cavalo todo desgrenhado, para me puxar para baixo, me fazendo ir de encontro ao chão novamente. No chão comecei e no chão terminarei, eu sentia isso!
A partir do momento que senti seu quadril se chocar ao meu quando ela se sentou sobre mim, percebi que eu não teria mais nenhuma escapatória. Será que vão avisar meu pai sobre o trágico falecimento da única filha dele? Espero que façam no mínimo um velório decente!
O primeiro soco foi no olho, deixando claro que ela queria me marcar. Baixo, Angelique, golpe bem baixo! Ela botava uma pressão sobrenatural sobre meu corpo, fazendo com que eu não tivesse forças nem para me mover um centímetro.
não deixaria ela me matar, certo?
— Vamos quebrar esse narizinho real? Quem sabe assim ele não abaixa um pouco, huh?
Antes mesmo de digerir o que ela falava, senti minhas narinas jorrando algo que eu conhecia muito bem: sangue! E depois disso, perdi as contas de quantos golpes na cara eu levei, ouvindo a gritaria das pessoas que torciam para a insurgente enquanto eu me agarrava à voz do me dando conselhos de como acabar com a irmã dele, minutos antes de ir pra execução. Era a única coisa que me mantinha de “pé” ainda.
Não.
Eu ainda era orgulhosa o suficiente para não abaixar a cabeça para aquela garota.
Em um segundo de distração de Angelique, quando ela achou que eu tinha me rendido, usei um dos truques que Charlie me ensinou quando criança nas nossas lutas e forcei minha perna entre as suas, lhe acertando na virilha. Não a machucou como Charlie, obviamente, mas foi o suficiente para que ela saísse de cima de mim. Já estava de saco cheio dessa luta sem poderes.
Me levantei e me movia rapidamente contra seus golpes, não permitindo que ela me acertasse. Nesse meio tempo, eu não conseguia nem respirar direito, tamanha era a minha concentração, mas isso durou apenas alguns segundos.
As vozes à nossa volta me deixavam irritada, pois sabia que não torciam por mim e aquilo só me dava mais forças para acabar com a vadia. Quando minhas mãos grudaram no rabo de cavalo de Angelique, puxei sua cabeça para o chão sem dó alguma, afinal, ela não se preocupou em quebrar meu nariz.
Por conta do leve desnortear que o golpe a causou, tive tempo o suficiente para montar sobre ela e a prender no chão, do mesmo jeito que havia feito comigo. Só que agora eu não teria pena!
Antes mesmo que pudesse dar o segundo soco, senti uma rajada de vento muito forte balançando o meu cabelo e aquilo não era natural.
— Sério? Seu ato de desespero? — questionei, vendo a roda de vento rodopiando ao longe, se formando para me atingir.
— É meu momento de te destruir — ela sorriu. Seus dentes sangravam e aquela cena pareceu muito mais diabólica do que deveria. Azar o dela: eu lidava com o diabo todo dia lá em casa. Isso aqui não era nada.
— Não vou cair sozinha, Angelique — peguei em seu braço quando minhas pernas já estavam sendo sugadas pelo redemoinho gigante. — Você vem comigo. Vamos acabar com isso juntas!
Aquilo não a afetaria como me afetava, no entanto, daria um belo de um cansaço na megera. Até porque ficar girando várias vezes rapidamente cansava qualquer um. Meu estômago estava se embrulhando e eu queria vomitar.
Angelique aproveitava os rodopios para me socar e era aquele o momento em que eu não tinha o que fazer a não ser me defender. Estava em sua armadilha, estava nas suas regras.
Aquilo era humilhante.
Consegui chutar seu peito por puro reflexo, fazendo com que o redemoinho perdesse a força e ameaçasse a se desfazer, mas continuou me girando por uns belos minutos.
Já incapacitada de respirar direito ou de usar qualquer outro de meus 5 sentidos, comecei a chutar e a dar socos no ar, a fim de contar com a sorte de acertar algo.
O que, ao meu ver, estava muito ao meu favor hoje: quando senti uma pancada muito forte no meu joelho dobrado, nós duas caímos direto no chão duro. Rolei algumas vezes até finalmente parar e não vi qual foi a forma que Angelique aterrissou.
Sentia partes do meu corpo se quebrando e queria fazer algo que não sentia vontade há muito tempo: chorar.
Não era por que eu tinha medo, ou por que havia desistido da luta: era de cansaço. Estava cansada de tudo e todos. Em um certo momento, a voz de Ophelia veio em minha cabeça e eu grunhi: "— Não precisa ser forte o tempo inteiro. Por trás de toda essa carcaça, tem uma adolescente que não merecia toda essa responsabilidade de ser rainha."
Mas eu tinha! Era a minha responsabilidade e agora eu tinha mais uma para acrescentar: a princesa insurgente. Provaria a eles do que eu era capaz.
Fechei meus olhos, torcendo para que, de alguma forma, eu ativasse meu processo de cura. Pensei na forma que via os curadores curando as pessoas, em suas mãos mágicas e leves, até mesmo lembrei da sensação de ser curada por eles. Contudo, não aconteceu. Poucos feiticeiros tinham esse dom. Não é engraçado o fato de podermos controlar todos os elementos, mas não termos o dom da Cura?
Meu ouvido fazia um zumbido irritante e tudo estava meio embaçado, mas conseguia ver a silhueta de Angelique em pé, se aproximando de mim. Grunhi, fraca demais para levantar. Era como se meu corpo não tivesse mais vida e a minha mente ainda continuasse consciente: eu mandava o comando para me mover, mas nada acontecia. Provavelmente minha perna estava quebrada e meu braço fora do lugar.
Apertei meus olhos tentando me levantar e me concentrei em meus pensamentos mais uma vez: eu ainda tinha direito de usar meu poder. Quase havia me esquecido.
Foquei no meu elemento principal: o fogo. Me concentrei nele como nunca tinha feito antes, vendo as chamas aquecerem minha visão. Estava fraca demais para algo grandioso, mas se eu focasse em alguma coisa, seria o suficiente para acabar com a comemoração que eu imaginava que Angelique já fazia. Naquela altura, eu não queria mais uma vitória, só queria que ela ficasse tão derrubada quanto eu.
Respirei fundo e não pensei em nada específico, apenas imaginei ela correndo com medo de mim. Isso já seria o bastante para o meu ego frágil.
Escutei as pessoas chamando a atenção da insurgente e fechei minhas mãos, mantendo o que eu estava fazendo — seja lá o que fosse.
Do nada, ainda presa em meu próprio consciente, imaginei um círculo de fogo no chão, torcendo para que aquilo estivesse mesmo acontecendo e não apenas sendo fruto da minha imaginação fértil. Àquela altura eu já nem sabia mais o que estava acontecendo e o porquê eu me sentia assim… tão inerte, mas tão “acordada”.
As chamas altas, vermelhas e laranjas, dançando com uma sincronização perfeita bem em frente aos meus olhos de telespectadora. Havia um símbolo no meio do círculo, mas eu não conseguia identificar o que era, meus olhos estavam embaçados pela fumaça, mesmo que isso tudo estivesse acontecendo somente na minha cabeça.
Quando escutei Angelique rir, achando que era só aquilo, fechei os olhos mais forte e me concentrei ainda mais. E foi como se eu tivesse mergulhado ainda mais em meus pensamentos; como se estivesse acessando o fundo do meu baú de memórias. Agora o porquê e como, eu já não saberia responder.
"— , abre os olhos! — Charles dizia, me chacoalhando. Estávamos em uma de nossas lutas e eu estava caída no chão, depois que ele me acertou com uma pedra gigante. Nós não tínhamos decidido qual elemento iríamos focar, então era de se esperar que tivesse de tudo. Um dos guardas corria desesperado enquanto gritava, não consegui ver muito bem o motivo. — !
Não abri os olhos e não reagi. Parecia que eu estava em transe nos meus pensamentos e aquilo me assustava de alguma forma, pois eu queria abrir os olhos. Eu o escutava, mas não reagia. Não sentia mais suas mãos nas minhas, nem escutava sua voz por perto, era como se ela continuasse distante. Abri os olhos de supetão, ainda concentrada, e vi uma cena que jamais imaginaria ver: tudo estava pegando fogo. Chamas num tom de azul, vermelho e laranja se erguiam e dançavam por todo o local em que estávamos; os guardas que ainda não tinham fugido tentavam apagar e conter e, no meio disso tudo, tinha um dragão feito de fogo vermelho e laranja. Ele era relativamente pequeno para um dragão, mas mesmo assim fazia um estrago. Estava maravilhada com aquilo, pensando em quem fora capaz de algo tão grandioso. Talvez tenha sido minha mãe, mas nunca tinha a visto fazer algo do tipo.
Senti mãos firmes e pesadas pegarem em meu rosto e a vi me encarando, mas algo estava diferente. Ela estava diferente, mais nova eu diria. Seus olhos tremiam assim como ela.
— ! — ela chamou. — !
— Mamãe — respondi, meio grogue.
— Querida, você precisa acordar. Você precisa parar.
Parar? Parar com o quê? Eu quem estava fazendo tudo isso? Eu só tinha onze anos. Nem mesmo meu pai havia feito um dragão na vida, e olha que ele era muito poderoso.
— Eu estou dormindo — resmunguei. Não acreditava que aquilo era só um sonho. — Me deixe sonhar, mamãe!
— Querida, eu deixo. Eu deixo tudo o que você quiser, mas agora preciso que você acorde e pare com isso antes que destrua tudo e todos — abri os olhos mais uma vez e dei uma olhada em volta, o dragão vinha na minha direção. Eu sabia que ele não faria nada a mim e, se aquilo era meu sonho, eu o comandava. Estava tão cansada e dominada que meus olhos não conseguiam ficar abertos. — O sonho é seu, . Domine ele!
Com a confirmação que eu precisava, abri novamente os olhos e o dragão estava sentado na minha frente, totalmente contido e amigável. As mãos de minha mãe tremiam enquanto ela me abraçava.
Eu sorri quando ele fez uma reverência.
Era o meu dragão. Eu havia criado um dragão de fogo.
Pena que era apenas um sonho."
— ! — escutei gritos e senti uma quentura em cada centímetro do meu corpo. Vozes ao fundo chamavam meu nome, mas não sabia distingui-las. Não abri os olhos. Não conseguia. — !
— Mande essa vadia parar! — consegui ouvir Angelique ao fundo. Parecia agoniada.
— ! — era , reconheceria sua voz de longe. Senti suas mãos em volta de mim, tentando me fazer ficar de pé. A luta já devia ter acabado e eu havia sido nocauteada pela megera, certeza. Abri os olhos e encontrei os dele, azuis e brilhantes como nunca, mas beiravam ao desespero. Nunca tinha visto esse olhar e aquilo me assustou. — Preciso que você pare. Você venceu já.
— Venci o quê? — questionei meio grogue, tentando ao menos sentar.
Ainda estava desnorteada, não sabendo o que estava acontecendo ou em que ponto da luta eu apaguei e fui para o chão. Olhei em volta e vi fumaça em todo o recinto que me encontrava, pessoas gritando e correndo para todos os lados; a maioria dos insurgentes que estavam na arquibancada já não estavam mais lá. Angelique também corria, mas ela corria para escapar de algo que ia em sua direção. Levei um tempo para assimilar o que estava acontecendo e até mesmo me assustei ao ver um dragão grande e comprido a perseguindo. Ele era todo feito de chamas vermelhas, laranjas e amarelas, mas o fogo que ele soltava da própria boca era numa tonalidade clara de azul, beirando ao Lilás. A minha cor, o meu dragão!
O mesmo dragão do meu sonho, só que maior. Mais velho.
— , por favor... Pare! — ele suplicou em meu ouvido.
— Eu... eu não consigo parar.
— Como não consegue? Ficou maluca? — segurou meu rosto. — Domine isso! Domine sua magia!
Era como se eu estivesse escutando a minha mãe no meu sonho. Encarei o dragão e por mais que eu gostasse de ver Angelique desesperada, sabia que era o momento em que tinha que parar.
Precisava dominá-lo assim como ele me dominou, só não sabia como. E teria de ser rápido, pois as minhas forças já estavam acabando. Parecia que ele drenava minha energia para sobreviver, e aí eu entendi o porquê eu mal consegui levantar do chão antes.
Fiz um esforço sobrenatural para me sentar e passei a acompanhar a corrida por sobrevivência de Angelique com os olhos e, quando os olhos roxos dele encararam os meus, foi como se tudo tivesse parado: não existia nada e nem ninguém ali, só nós dois. Suas asas de fogo vinham em minha direção. Ele era enorme e lindo. Algo que ninguém nunca viu ou imaginou.
Senti as mãos fortes de me apertando, tentando me passar segurança e apoio, mas isso não me distraiu. A conexão mais do que exaltada ali naquele momento era única. O dragão tinha toda a minha atenção.
Logo após de fazer uma reverência para mim, sua cabeça, quente, chegou perto de mim. Minha vontade de chorar cresceu, o aperto no peito com a emoção e nostalgia quase me fizeram ceder, mas apenas consegui soltar um sorriso. Estava tão fraca e meus braços doíam tanto que nem conseguia fazer um movimento brusco sequer. Como se ele entendesse o que eu queria, majestosamente caminhou até o círculo de fogo atrás de mim e entrou ali, sumindo conforme as chamas do círculo se desfaziam até só restar o chão todo queimado e preto do ginásio.
Não era um sonho, era real, e eu quase botei fogo em tudo!
Não me lembro muito bem do que aconteceu nos instantes seguintes, creio que desmaiei de cansaço ainda nos braços de , que não me largou um segundo sequer mesmo depois de já ter “recobrado” a consciência. Creio que por medo de eu criar um monstro de lava ainda mais imbatível enquanto ainda estava em um estado sensível.
É, creio que eu teria muitas perguntas quando acordar, mas, infelizmente, só uma pessoa poderia respondê-las. Ou melhor, duas: meus pais!
Capítulo 24
Estava aflito enquanto via a cena que se passava à minha frente.
Angelique era cruel com seus redemoinhos, mas eu sabia que aquele era seu truque de desespero. Lembro-me perfeitamente que ela o usava em nossas brigas e eu o odiava com todas as forças. não estava indo tão mal quanto eu imaginava, muito me surpreendia que alguém poderosa como ela não tivesse treinamento corporal. Contudo, entendia. Afinal, não precisavam se preocupar com isso na corte real.
Até agora.
Observei apenas se defendendo enquanto Angel dava seus golpes contra a feiticeira, com as duas ainda no meio da corrente de ar, até que ela reagiu: chutou o peito da minha irmã, que se distraiu com o ato e fez com que o redemoinho perdesse força, ameaçando a se desfazer, mas não aconteceu. Ficou girando por mais um tempo e eu sabia que já estava exausta, tonta, no entanto, ela chutava e socava o ar como se aquilo fosse lhe favorecer... Que erro. Isso só a cansaria.
O redemoinho só se desfez quando o bateu com tudo em um dos pilares da arena, mas nessa altura do campeonato, as duas já estavam no chão depois de um forte golpe da princesa na minha irmã. Olhei para os Curadores e eles já estavam à postos, esperando por um comando meu. Me levantei para analisar e não arriscar a vida de mais ninguém.
rolou várias vezes até parar no meio da quadra e não se levantou mais. Sabia que tinha quebrado vários ossos naquela queda. Não muito diferente de Angelique, mas minha irmã não deu o braço a torcer: caiu brutalmente no chão, sua testa sangrando e segurava seu próprio ombro, porém, em poucos segundos, ela se levantou, sorrindo. Seus dentes vermelhos por causa do sangue davam medo, mas os insurgentes estavam amando aquilo.
Estavam amando ver sofrer.
Não podia acabar com a luta ainda. Eram as regras: um dos lutadores tinham que estar à beira da morte. Nenhuma das duas estava. Contudo, não podia permitir que Angelique a machucasse ainda mais.
— Já chega, Angelique! — gritei. Minha irmã me encarou, se aproximando devagar da feiticeira, que estava de olhos fechados.
— Conhece as regras, h! — ela sorriu. — Sua protegida tem que dizer que não aguenta mais para que a gente pare... Ou eu tenho que deixá-la à beira da morte!
— Ela já está no chão! — bati com força no vidro que me separava delas.
Minha irmã se divertia com o meu desespero e gostava do barulho do nosso povo comemorando e incentivando a violência contra . Angelique, se aproveitando da queda de , não se deu conta do círculo de fogo que se formava logo atrás dela. As chamas brincavam com o ar e um símbolo se formou no meio dele. Estava maravilhado com aquilo, mas parecia ser o único com essa sensação. Os insurgentes começaram a gritar quando vimos uma movimentação estranha dentro do círculo.
estava desacordada e estava fazendo aquilo.
Me preparei para entrar dentro da arena caso tudo saísse do controle, não tirando os olhos da cena por um minuto sequer. Era engraçado o fato de que eu era o único capaz de controlar naquela situação: fogo e água.
Angelique estava parada próxima ao círculo, desdenhando dele, incerta do que fazer. Não demorou muito para os gritos que antes eram de incentivo a luta, virarem gritos de puro medo e desespero.
Mas não era para menos: um dragão, grande, saiu de lá de dentro do círculo.
Ele era... lindo. Majestoso.
Nunca duvidei de seres místicos, afinal, em um mundo onde existia feiticeiros e elementares, era burrice ser cético. No entanto, dragões estavam extintos há anos.
Só que esse não era qualquer dragão.
Era o dragão de .
Ele era todo feito de chamas vermelhas, laranjas e amarelas. Seus olhos eram de um tom roxo escuro muito diferente dos feiticeiros que conhecíamos. Não era lilás. Era roxo.
O fogo, que ardia os olhos se o encarássemos por muito tempo, cobria toda a extensão de seu corpo; suas asas majestosas batiam e levavam a quentura para todos os cantos, sua calda era longa. Arregalei os olhos quando vi minha irmã correndo desesperadamente enquanto o dragão voava atrás dela e cuspia fogo.
Não era fogo normal.
Era um fogo diferente, beirava o azul de tão quente que era. Mas, quando o azul e o vermelho de misturavam, podíamos ver traços de um fogo lilás.
A cor de .
A arena era grande, tínhamos um espaço enorme, mas não era grande o suficiente para ele. Ele voava majestosamente, mas com cuidado para não bater em algo que o prejudicasse.
Entrei na arena e corri até . A princesa estava de bruços e grunhiu ao sentir meus braços puxando-a para mim. Ali, tive a confirmação de que ela não estava totalmente em si.
— ! — chamei quando a virei para mim. Seu rosto estava todo ensanguentado e sua boca sangrava também. — ! — a chacoalhei, não me importando se aquilo a machucaria ainda mais ou não.
— Mande essa vadia parar! — Angelique gritou, tentando apagar o fogo de seu rabo de cavalo enquanto corria e tentava, em vão, conjurar algumas rajadas de vento para apagar as chamas do dragão.
— ! — a puxei para mais perto, tentando deixá-la em pé. Não consegui levantá-la, e isso só piorou quando olhei em seus olhos e vi a cor deles: não eram roxos como o de seu dragão e não eram lilases como deveriam ser. Estavam em um tom de rubi que eu nunca havia visto na minha vida. E a pior parte era que ela provavelmente nem imaginava. Encontrei minha voz novamente quando escutei um grito de longe. — Preciso que você pare. Você venceu já!
— Venci o quê? — ela questionou, ainda transtornada, tentando se sentar, mas em vão.
ainda estava desnorteada, olhava em volta e parecia não entender o que se passava. Não era para menos, beirava a destruição: civis gritando e correndo para todos os cantos, ninguém restou na arquibancada, e seu dragão ainda perseguia minha irmã. não fazia ideia do que estava acontecendo ou eu podia jurar que ela estava atuando. Ela analisava o dragão assim como eu havia feito há alguns minutos. E, se não estivesse tão entretida com o que havia feito e com tanta dor, tinha certeza de que estaria sorrindo ao ver minha irmã correndo com medo daquilo.
— , por favor... pare! — aproximei minha boca de seu ouvido e supliquei.
— Eu... eu não consigo parar. — meu coração pareceu ter um treco quando vi Angelique tropeçar. Ela estava tão cansada e não sei quanto tempo aguentaria fugir. Não podia perdê-la.
— Como não consegue? Ficou maluca? — segurei seu rosto, ainda não estava acreditando na tonalidade de seus olhos e agradecia que ninguém estava preocupado com ela naquele instante. Tinha medo do que os outros poderiam fazer com essa informação. não era nenhuma santa, mas eu sentia que precisava cuidar dela. Ainda mais agora que ela ficou intrigante. Uma feiticeira que não doma sua própria magia era um perigo para a sociedade, e bota magia nisso! Uma feiticeira que tinha uma nova tonalidade de olhos não poderia cair nas mãos erradas. — Domine isso! Domine sua magia!
Como se ela tivesse acordado de vez, encarou sua criatura e focou em alguma coisa. Eu via e sentia tendo uma luta interna e aquilo, por alguma razão, me incomodava tanto quanto eu me incomodava de ver Angelique sendo perseguida com fogo roxo. Minhas mãos tremeram quando vi o animal se aproximando de nós. Eu não existia ali, sentia isso. A conexão dos dois era surreal e... linda. E por mais que aquele bicho desse um baita medo, ele era lindo. Nunca vi ou imaginei algo assim. Ninguém nunca viu ou imaginou algo assim. Respirei fundo e tentei passar segurança para ela. Olhei para minha irmã, que estava caída bem longe de onde estávamos, encarando com medo. não ligava para ela, não ligava para ninguém.
Era apenas ela e o seu dragão.
A criatura se aproximou ainda mais de nós e fez uma reverência. Não conseguia respirar e a quentura que subiu não era apenas dele. também pegava fogo. Não literalmente. Me surpreendi quando vi seus olhos rubis marejados e um sorriso sincero surgir em seus lábios. A feiticeira não precisou falar nada. Os olhares trocados ali eram o suficiente para que o dragão — antes furioso e amedrontador, agora manso e calmo — caminhasse de volta para o círculo e entrasse ali, sumindo conforme as chamas se desfaziam até só restar o chão todo queimado e preto do ginásio.
A princesa soltou o ar pelo nariz e eu deixei a respiração, que prendi sem nem perceber, sair. Ela levantou o rosto para mim novamente e seus olhos rubis sumiram quando ela piscou e sorriu, como se não acreditasse no que acabara de acontecer.
Eu queria sorrir também, mas não pude. Não quando a vi fechando os olhos, sem forças para continuar ali.
As energias que ela gastou naquela arena foram demais para ela. Imediatamente ordenei que algum Curador se apresentasse e assim foi feito: eles curavam por completo. Precisou de quatro deles para que ela ficasse cem por cento, mas seus olhos não abriram.
E eu sabia que demoraria para abrir.
— Você enlouqueceu? — escutar os berros do Coronel não era uma das coisas que estavam nos meus afazeres do dia. Obrigado, Angelique e .
— Tem noção do que ela... do que aquele monstro...
— . Uma feiticeira. Sua aliada no crime — corrigi, me sentando na cadeira à frente. Aquela conversa estava longe de acabar. — Nossa, quem diria que uma feiticeira trancafiada perderia o controle no meio de uma Arena sem Painite?
— Me poupe do seu sarcasmo, ! Sua conduta foi a pior no dia de hoje... — o velho continuou berrando, mas eu não o ouvia mais.
Algo me intrigava com tamanha força de de uma hora para a outra, veja só: ela, por si só, já é poderosa; uma feiticeira puro sangue. No entanto, não tem controle de sua força, sempre vivera de maneira controlada. Magia no limite, força no limite.
Poder controlado.
Nada me tirava da cabeça que estava sendo controlada.
Os seus olhos rubis não saíam da minha cabeça, foi algo... de dar medo. Algo lindo. sempre fora intrigante, mas agora ela não saia da minha cabeça. Eu faria o impossível para fazê-la entender sobre si mesma.
Mesmo eu mesmo não entendendo.
— Você me escutou? — ele bateu na mesa. Arqueei uma sobrancelha e sorri.
— Acho que todos escutaram. — era Angelique.
Meu sorriso desapareceu, se ela soubesse do trato que fiz com e tivesse visto aqueles malditos olhos rubis, jamais a provocaria tanto.
— Era quem estava faltando. Pode se juntar ao número um! — minha irmã parecia bem: os Curadores fizeram o trabalho deles, mas o cansaço dela parecia ser interno. Tinha plena certeza de que todas as suas energias foram sugadas, assim como as de . — O que te deu na cabeça?
— Era um combate besta!
— Você tem que entender que não é a mais poderosa desse lugar, Angelique! Por mais que escutar isso faça seu ego se partir ao meio, entenda que aquela garota não tem controle da sua maldita força!
– Eu tenho o controle da minha e sei usá-la muito bem, obrigada! — pude sentir um vento frio na nuca e aquilo era sinal de que Angelique estava furiosa.
— Se algum papel dessa sala sair do lugar, eu vou entender que você está mentindo — ótimo, o Coronel também percebeu. — Nunca duvidei de você. Nem mesmo de você, ! Sabem que são meus melhores soldados e que eu confio em suas escolhas. Eu treinei vocês, merda! — essa última parte nós entendemos muito bem. O Coronel ensinou tudo que sabemos e nos ensinou a controlar nossa força sem nem ao menos saber lidar com Elementares como nós. — é jovem, uma feiticeira sem controle e agora sabe tirar a porra de um dragão, que cospe fogo lilás, de um círculo de fogo! Ela não sabe lidar com si mesma.
— Não queria te decepcionar — Angelique parecia estar arrependida, mas eu sabia que não estava. Minha irmã faria de tudo para matar aquele dragão e a dona dele.
— Ajude-a a controlar a força. Façam treinos com ela que não envolvam a porra da destruição do meu batalhão!
— Não acho que Angelique seja a melhor pessoa para lidar com a bruxinha — falei sem me arrepender das consequências. Angelique cravou seus olhos em mim no mesmo instante. — Você a odeia! Nem mesmo se eu tivesse maluco deixaria você lidar com no auge do desconhecimento da sua magia.
— E você é o melhor para isso? — minha irmã questionou. Sabia aonde ela chegaria se a conversa seguisse esse rumo.
— Ela não me odeia como odeia você. E Água e Fogo são melhores combinações do que Fogo e Ar — foi o que me veio em mente.
— Ótimo. É isso que eu queria! — Coronel se sentou, era um sinal que estávamos livres. — Fique ao lado dela vinte e quatro horas, cuide para que não conjure nenhum outro ser místico extinto; e você, Angelique, fique fora do radar daquela feiticeira! Cuide das coisas que seu irmão é responsável.
Não.
— São ordens — Angelique sorriu antes mesmo de eu protestar. — Vá ficar com a sua bruxinha, .
— Ela não é a minha...
— Tente enganar a si mesmo, mas sabe onde essa história acaba e eu tenho certeza que não é vocês dois juntos. Você é uma piada! Está se apaixonando pela inimiga.
Não tive chance de resposta. Meu paiger apitou: tinha acordado. Angelique sorriu, se virando. Cada um foi para um lado e aquelas palavras me acertaram em cheio.
Quando acordei, percebi que estava tomando soro pelas veias.
Me sentia fraca.
Parecia que eu estava no castelo de novo, a mesma energia que me rodeava lá, eu sentia aqui. Minha magia não estava tão forte como algumas horas atrás: eu queria chorar. Não entendia o motivo daquilo e só queria me sentir como antes.
A merda de uma imbatível sem controle. Mas imbatível.
Os Curadores passavam por mim como se eu fosse um bicho, ainda não tinha certeza do motivo, mas desconfiava. Ninguém tinha coragem de falar comigo sobre, mal direcionavam o olhar a mim. Meu sonho era nítido e eu via minhas unhas com Cinzas.
Talvez não tenha sido sonho.
– Bruxinha — parou na porta. Eu nunca imaginei ficar tão aliviada por vê-lo. — Achei que você fosse se confundir com a princesa errada e dar uma de Bela Adormecida.
— E quem iria me fazer acordar com um beijo? Você? — tentei me sentar, mas foi em vão. sorriu e cruzou os braços.
— Você não é esse tipo de princesa... você é do tipo que conjura círculo de fogo e tem um dragão de estimação — toucheé. Estava aí a minha resposta. Não era um sonho: eu fiz aquilo.
De novo.
— Alguém se feriu? — não me lembrava muito. No fundo, eu queria ter ao menos arranhado o olho daquela maldita.
— Ninguém. Todos fugiram antes do bicho começar a voar — respirei, aliviada. me encarava, me analisava, estava me olhando em todos os detalhes. — Você quase quebrou nosso trato hoje.
— Não é como se eu tivesse planejado aquilo, se você não percebeu — minha resposta ríspida fora o suficiente para ele sorrir sem mostrar os dentes. Babaca. Odiava que ele não se abalava com meu humor, assim como . Que droga, a menção do príncipe me trouxe um sentimento que há tempos eu não tinha: saudade. — Eu nunca me senti tão forte. Invencível é a palavra certa. Eu me senti uma feiticeira de verdade!
— Não se sentia assim no castelo? — neguei com a cabeça, só me senti assim quando era criança, a primeira vez que conjurei aquilo.
— Já conjurei esse dragão uma vez. Ele era muito menor, mas era tão destruidor quanto. Estou confusa, não entendo como sou capaz de fazer algo desse tipo, mas... ... aquele dragão de hoje era o mesmo de quando eu era criança — o olhar dele agora estava em meus olhos. Seus olhos verdes brilhavam e eu não sentia a pena que meu irmão me encarava quando éramos pequenos.
— Vou te ajudar a lidar com tudo isso. Vamos entender juntos.
No fundo, me assustava ser como era. No fundo, eu temia por ela. Eu não conseguiria me afastar mesmo se quisesse, no entanto. Suas últimas declarações para mim foram arrepiantes, não por conta do dragão já ter sido conjurado uma vez, era visível a conexão dos dois naquela Arena, mas sim pelo fato de ela estar quebrada e perdida.
— Seus olhos mudaram de cor hoje — me sentei na beirada da cama.
— Às vezes eles ficam roxos quando uso muita magia, é normal — ela deu de ombros. Foram cinco segundos decisivos.
Contar ou não contar.
Deixá-la ainda mais confusa sobre quem é ou não?
— É, acho que usou magia demais — era o melhor a se fazer. Ninguém tinha visto, apenas eu. Enquanto a gente não aprendesse a lidar com ela, não falaria nada.
"A gente"? Meu inconsciente gargalhava de mim e eu tentava não escutar essa voz no fundo da minha cabeça.
"Você só está tentando fingir que é para a Causa", eu odiava meu cérebro.
— Angelique se machucou? — sorri ao escutar a pergunta. Era a pergunta que eu esperava escutar.
— Qual resposta vai te agradar? — a garota deu de ombros
— Que ao menos a fiz gritar um pouco — sorriu.
— Ela gritou... muito!
— Ótimo — ela não estava tão animada quanto eu esperava.
— O que foi?
— Estou confusa sobre minha força. Minha magia. É bizarro eu achar que tenho controle de tudo quando na verdade, não tenho controle de nada — cruzei os braços. Não me agradava vê-la naquela maca. — Em uma hora eu estou conjurando dragões e na outra eu simplesmente estou... Estou fraca de novo.
— Você está em uma maca com soro — tentei acalma-la. Olhei o soro com calma, sabia que tinha painite ali, ordens diretas do Coronel. — Remédios para dor e também Painite para te...
— Controlar — suspirou. Não tinha o que eu falar, ela entendia muito bem do que se tratava. — É pela segurança de vocês.
— Um pouco pela sua também — continuei olhando para o soro quando um Curador entrou para verificar — Quanto tempo mais para ficar aqui?
— Sr. ... — o rapaz, eu o conhecia. Se chamava Yan Pushy, aceitou entrar nos Insurgentes quando percebeu que os Cinzas não tinham como sobreviver em uma sociedade desigual. — Bom, colocamos ela no soro para que fique mais forte. Depois de perder tanta magia, ficou desidratada e... Painite. O Coronel deixou ordens para que ela fique aí por tempo indeterminado.
Agradeci pelo fato do Painite. Tenho certeza que teria fervido absolutamente tudo apenas pela sua cara de indignação. Entendia sua fúria, no entanto.
— Vão me controlar com painite? — sua voz era firme. Acredito que ela usava aquele tom com seu pai ou quem a contrariava.
— Acho que você não está entendendo nosso lado, Bruxinha... — tentei acalmá-la. Sabia exatamente como ela se sentia, tentaria a todo modo mudar a ordem do Coronel.
— Não me chame assim!
— Você conjurou um dragão e não sabia como controlar ele! — respondi da mesma forma. — Merda — passei a mão nos olhos.
Realmente, a gente não conseguia falar baixo um com o outro. Nossa trégua não durou cinco minutos.
— Há quanto tempo vocês estão me controlando com Painite? — seu nariz empinado estava enrugado enquanto ela tentava tirar as agulhas do braço, com raiva.
— Pare com isso — tentava segurar seu braço enquanto ela se debatia. — ! — sua raiva era tanta que seu joelho acertou minha virilha. Queria xingá-la de todos os nomes possíveis, mas apenas fechei o punho e o apoiei na minha boca, respirando o máximo possível para que a dor passasse logo. Olhei para que ainda estava com o nariz enrugado. — Nós nunca te demos painite em nenhum dos dias aqui — respondi, ainda eufórico. — Nos seus primeiros dias nós te deixamos com as algemas, que você conseguia facilmente sair já que seus poderes são incontroláveis…
— Eu estou me sentindo fraca que nem eu me sentia naquela merda de castelo — ela sussurrou, mais para ela do que para mim. — Não pode ser...
— Que diabos você está falando? — resmunguei, arrumando seu braço enquanto ela parecia perdida nos próprios pensamentos.
— Eu era controlada — seus olhos Cinzas estavam ficando violetas. Por mais que o painite seja forte, não controlava o tom dos seus olhos. — Alguém controlava minha magia na minha própria casa e agora eu sinto isso. A sensação boa que tive na arena, era só a minha verdadeira força se mostrando.
Touché.
Capítulo 25
👑
Silêncio.
Não escutava a voz de há dias.
Não por falta de tentar tirar ela de seu mundinho desde que percebera que era drogada dentro da própria casa, não. Ela simplesmente se recolheu em seu quarto e não deu mais as caras. Não me surpreendia as descobertas que fizemos, no entanto; levando em consideração o fato de que seu pai tem medo dela e de seu poder. A feiticeira era mais poderosa do que ele. Do que qualquer outra pessoa que eu havia conhecimento.
Todavia, algumas contas não batiam.
Não entendia como ele pôde ter jogado ela para e seu país sendo que ela, por si só, carrega poderes que ele mesmo nunca se aprofundou e poderia ter acabado com a guerra em um piscar de olhos. era descontrolada e não sabia metade do poder que tinha. Bom — Nem a gente — pensei, dando uma risada.
Meus dias viraram uma enorme rotina na qual eu estava entediado e completamente arrependido de seguir ordens do Capitão, afinal, eu era o único que sabia lidar com o temperamento da feiticeira. Ironia. Nós brigávamos na maior parte do tempo. Ela é incrivelmente irritante, até mesmo quando está ignorando tudo e todos presa naquele maldito quarto.
— Se eu quisesse falar sozinho, eu ficava em meu quarto na frente de um espelho. – cruzei os braços na porta do quarto dela. estava com um livro nas mãos e usava calças Cinzas e uma camiseta curta preta que mostrava um pouco da sua barriga chapada devido aos inúmeros treinamentos que fazia no castelo. Me olhou de canto e voltou sua atenção para o livro. O quarto dela era simples, afinal, dividia com as sobrinhas do Capitão. Tinha vários pôsteres de alguns famosos jovens e eu, particularmente, acreditava que tinha uma queda por um dos cantores cabeludinhos. – Temos um treinamento e estamos atrasados. – Silêncio. – ! – resmunguei, estava começando a ficar irritado – Certo, aqui não é seu castelo e você não é a princesinha que pode dar ordens! Vamos, levante-se e lute! – caminhei até seu guarda-roupa e puxei uma roupa de treinamento, uma das muitas que foram feitas para ela e seus poderes - que ninguém sabia exatamente o que poderia ser - e joguei em cima dela. — Anda logo, . – Mais silêncio. Grunhi e caminhei em sua direção, dando de cara com uma parede invisível. Arregalei os olhos com a dor que senti ao bater naquilo e encarei a feiticeira, segurando meu nariz – O que... que merda é essa? – A princesa sorria levemente de canto sem me encarar. Com um movimento simples de virar a página de seu livro, senti minha mão formigando: um papel apareceu ali.
'Estou treinando e você não me dá ordens. Me deixe em paz'
— Como... como você...? – sussurrei. Olhei novamente para minha mão e o papel tinha sumido. Com mais uma olhada para ela e sem entender, de fato, como ela estava fazendo aquelas brincadeiras comigo, saí daquele quarto resmungando.
Foi a primeira vez que tentei falar com ela e desde então estamos assim. Ela com seus dons de feitiçaria e usando seu silêncio como birra, e eu, tentando inutilmente que ela saísse de lá. tinha a função de me tirar do sério e eu tinha a função de treiná-la. Somente um de nós conseguimos atingir nosso objetivo, aparentemente.
De lá, eu tentava concentrar minha atenção em outros problemas: Angelique destruindo meus soldados com seus treinamentos brutais e sem nexo. Não era guerra e meus elementares e Cinzas não precisavam sangrar, principalmente se tivermos uma luta eminente; Capitão que insistia em recrutar mais pessoas, afinal, o rei tinha irritado alguns súditos ao não estar dando tanta atenção à filha desaparecida e sim focar no casório do filho. Àquela altura, eles estavam desesperados por qualquer tipo de aliança. Voltei para o meu quarto e fechei os olhos, sentindo o que eu poderia ver a seguir.
Eu tinha pesadelos com aqueles olhos da cor de rubi, tão vermelhos quanto nosso sangue; tão brilhante quanto uma joia rara; tão perigosos quanto a mais venenosa serpente. Porém, únicos. Todo santo dia que eu conseguia pregar os olhos em minha cama, eu me sentia preso. Maravilhado e com medo. Aqueles olhos tentavam destruir tudo em meu sonho, mas também me salvavam. Minha água a controlava, meu poder. Eu.
Ela não me deixava acabar o mundo em água e eu não deixava com que ela queimasse tudo.
Acorda.
... pode acordar agora.
Aquela mesma voz…
Abri os olhos num ímpeto, assustado.
Olhei em volta e tudo estava molhado: o chão, a cama, as paredes. Água escorria por toda parte e olhos em um tom quase lilás me encaravam.
.
— Estava... estava dando uma volta e por algum motivo... por algum motivo eu vim parar aqui. – era uma explicação e tanta. estava com vergonha ao admitir aquilo e eu também estava, afinal, ela me vira em um momento completamente vulnerável. – Não sabia que era o seu quarto. A água estava saindo para fora e eu tive que entrar. Você estava... tendo um pesadelo.
— Sorte a nossa de você ter me encontrado antes de eu alagar esse lugar. – me sentei e passei a mão em meu pescoço. Eu estava ensopado. Observei que suas mãos tentavam atrair lentamente a água para si. estava tentando drenar a água do meu quarto, por isso que seus olhos estavam lilases. Comecei a ajudá-la. Eu dominava a água totalmente, ela dominava todos os elementos; mas não tinha afinidade com todos eles. Drenar aquela água poderia desestabilizar o Fogo por um tempinho. – Deixe comigo.
A feiticeira arqueou uma sobrancelha enquanto a água vinha até mim com rapidez. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo alto e eu podia sentir a energia dela me ajudando a drenar a água também. Depois de alguns minutos, não parecia que eu tinha inundado meu quarto. Não sobrou uma gota para contar história.
— Você saiu do quarto. – a encarei. Ela estava sentada na beirada da minha cama enquanto eu estava em pé. Observei seu olhar recaindo em meu corpo descoberto, eu usava apenas um short para dormir. – Se quiser, eu tiro tudo para que analise melhor...
— Eu saio quando você está dormindo exatamente pelo fato de eu não suportar essa sua autoestima elevada demais. – retrucou. Se levantou e ameaçou ir em direção a porta, mas eu não a deixei sair. – De nada. Eu salvei esse lugar de uma morte horrível: afogamento enquanto dormem. Me deixe ir agora.
— Por que fez isso? – nossos olhos se encontraram. Eu segurei seu braço.
— Já disse. – ela falou, entredentes – Eu sai para caminhar e algo me atraiu até aqui. — sorri sem mostrar os dentes, vendo que ela estava desconfortável com aquela aproximação – Me solte se não quiser que eu devolva toda essa água que drenei.
— Por que ficou dias sem falar ou treinar? – reformulei a pergunta. ficou quieta. Analisou cada detalhe de meu rosto, como se pensasse se deveria me responder ou não.
— Precisava de um tempo para mim. – fechou os olhos ao dizer e em seguida abriu novamente – Quando eu precisava ficar pensativa, eu costumava sumir para a cabana dos meus avôs, ninguém ousava me incomodar. Não posso fazer isso aqui. – sorrisinho sarcástico. tinha uma covinha na bochecha direita que eu nunca havia notado. Obviamente se dava ao fato de ela não sorrir sempre. – Também estou treinando feitiços que fui proibida de fazer no castelo. Aquela vez com o papel? Nunca tinha feito. A parede invisível? Também não. Estava treinando. Só não que nem vocês. Como eu já disse, meu treinamento é muito mais psíquico e mental do que físico.
Encarei-a uma última vez, totalmente vencido pela exaustão. Nós dois não precisamos nos desgastar trocando farpas quando já estamos esgotados. Antes que ela pudesse sair de vez do quarto, agarrei sua mão.
— Eu vou conversar com o Capitão, para ver se podemos adicionar umas horas extras nos seus treinos diários para a gente estudar mais sobre esses novos dons então, pode ser?
— Por que está fazendo isso? - me encarou, esperando uma resposta que nem mesmo eu poderia dar. Aparentemente nós dois não estávamos acostumados com atitudes bondosas.
— Porque eu não quero ter de lidar com outros incidentes como aquele com o fogo… - ela encarou nossas mãos ainda juntas e, como se esperasse algo a mais, bufou sem paciência. - … e também não quero você tendo que lidar com isso. - Sozinha, pensei. completei a frase, mas já era tarde demais. já havia revirado os olhos e saído do meu quarto.
👑
Não contei pra que eu não estava andando distraidamente pelo local, ele estaria surtando ao imaginar que eu me levantei e apareci em seu quarto apenas porque uma luz me levou até ele. Não foi uma mentira completa. Me assustou vê-lo tão vulnerável daquele jeito. Quanta água saia de todos os lugares do quarto. Seu rosto estava relaxado, mas suas mãos... Suas mãos apertavam tanto o colchão que achei que pudesse rasgar tudo. O peitoral malhado estava exposto e ele se mexia e sussurrava algo que eu não entendia. Quando eu acordei, seus olhos estavam tão azuis que eu tentei não me afastar de susto. Estavam em um tom royal tão vivo e brilhante.
Lindo e... assustador.
Não estávamos acostumados com Elementares de Água, todos foram mortos por conta de uma lenda de que eles poderiam acabar com os Fogos. Eram uma ameaça.
Queria que soubesse controlar e saber mais sobre o seu poder assim como eu. Tínhamos muitas coisas em comum.
Eu o ajudei a drenar a água e senti meu fogo me queimar por dentro. Quando pegou em minha mão e falou aquela última frase sobre o episódio do dragão, não me contive. Preferia que ele tivesse tentado me ofender de outras maneiras.
Não queria que ele tivesse tocado em minha mão, não queria ter desejado que ele calasse a boca de qualquer maneira que fosse e nem que ele estivesse quase nu. Corpo maldito, homem maldito, poderes malditos. Não queria pensar na maldita Angelique gritando por ajuda quando meu dragão, Hage, a perseguiu.
Era doloroso admitir a vergonha que eu sentia por não ter me controlado no dia da minha luta com Angelique. Era doloroso pensar que eu poderia ter matado aquelas pessoas inocentes, até mesmo Angelique e quebrado o trato que tinha feito com . Era doloroso pensar que fui prisioneira no meu próprio lar.
Fui manipulada, usada e contida por todos esses anos. Fui enganada por quem eu mais amei na vida – minha mãe, Ophelia, Charlie. Meu pai não entrava na lista, mas eu ainda tinha empatia por quem me trouxe a esse mundo. Contudo, por mais que eu esperasse algo de ruim dele, nunca imaginei que ele poderia me prender dessa maneira.
Algumas peças iam se encaixando, no entanto.
Sempre me senti mais fraca que os outros. Eu era imbatível na magia, mesmo que ela fosse contida; mas nunca fora cem por cento. Eu nunca fui a melhor como deveria.
Feiticeira. Herdeira de Howslan. Primeira mulher a governar um país. Princesa dos elementos e dominadora do fogo. E... uma piada.
Uma piada por não saber de fato o que eu podia fazer.
Eu sempre fui contida e não sei controlar minha força. Meu poder.
Eu não queria ser temida por não ter controle. Eu queria ser respeitada.
Por Angelique, , os Cinzas, e o velho que comandava aquele circo – meu pai.
Ser respeitada. Era tudo que eu podia pedir.
Estava disposta a conquistá-lo.
Depois que eu havia descoberto que conseguia projetar coisas – como a parede invisível, que me rendeu muitas risadas e o bilhete – fiquei ainda mais surpresa e tentada a descobrir mais sobre mim. Sobre meu poder. Eu tinha que me controlar para não colocar fogo nos lugares, dependendo do meu temperamento aquilo poderia ficar feio; mas eu me sentia mais próxima dos outros elementos também. Contudo, comecei a perceber que quando eu focava nos outros elementos, meu fogo diminuía. Parecia que as chamas se sentiam enciumada e se recusavam a aparecer.
Ninguém ali poderia me ajudar.
Ninguém ali era um feiticeiro. Ou conviveram com algum. Ainda mais um como eu: um lobo em pele de cordeiro.
. Precisava tanto de .
Fechei os olhos, me imaginei ao lado dele. Fui até aquela noite antes do nosso casamento que acabara mal. Naquela noite que suas mãos percorriam pelo meu corpo inteiro: pescoço, seios, barriga, coxas... aquela noite que a gente aceitou um ao outro sem plateia ou títulos: apenas nós dois. Meus pensamentos foram para o dia que fui levada, o qual foi seu último olhar para mim. O dia que eu o vira gritar quando eu estava dentro de sua mente.
Queria vê-lo. Senti-lo.
Queria sentir seu cheiro. Queria tentar tirar do sério e falhar, já que ele gostava de mim mesmo sendo... difícil.
Senti meu corpo se aquecer. Senti minha mente formigar. Fui levada para um lugar diferente. Estava chovendo, mas eu não me molhava. A água não me acertava. Eu via pessoas – soldados – passando por mim sem se importar ou notar que eu estava ali. Havia uma batalha ali. Howslan contra... os insurgentes. Não conhecia nenhum deles. Nenhum rosto era conhecido, mas eu reconhecia meus soldados – soldados de meu pai – corrigi.
Uma explosão aconteceu, mas não era fogo, era muita poeira.
Painite. Drenou o poder de qualquer um ali. Tanto insurgentes, quanto soldados do rei.
O lugar que me abrigava, tinha uma estratégia tão boa quanto eu poderia pensar. Meu irmão e Conrad estavam ali e não poderiam lutar com seus poderes. A estratégia era boa, mas os dois lutam tão bem quanto eles. Meu coração parou ao ver meu irmão, a armadura prateada brilhante estava em seu corpo. Ele estava com o cabelo mais longo e tinha um pouco de barba. Pegou sua espada e começou a travar sua própria batalha. O Rei de Lennox berrava ordens ao norte e seus soldados faziam o que o homem gritava. Os insurgentes estavam mascarados, alguns. Ninguém havia me avisado que os insurgentes estavam atacando minha família de maneira tão brutal assim. Eu tremia mesmo sabendo que mesmo pelos desprevenidos, meu irmão daria conta.
Então senti.
Senti ele.
Explodindo tudo em terra. O painite não havia pegado ele por algum motivo. Talvez ele estivesse longe quando a bomba explodiu, talvez... não sabia. mexia levemente a mão enquanto a terra por baixo dos pés dos insurgentes explodia. Era poeira para todos os cantos.
Ele estava... lindo. Lindo e brutal.
A armadura Dourada brilhava no sol de fim de tarde, seu cabelo estava bagunçado e sua barba por fazer. Olhos lilases brilhavam em fúria. Nunca o vira tão bravo. Queria entender o motivo daquela batalha terrível. Havia uma cidade próxima e eu não gostava das proporções que aquilo estava tomando. Um homem forte, alto e com uma bandana cinza no rosto se aproximou por trás de . Ele não o vira. Ninguém me sentia.
Afinal, eu não estava ali de verdade.
Que pesadelo horrível.
— . – falei. Ele continuou concentrado em destruir qualquer um que tentasse algo contra meu irmão ou seu pai. O homem se aproximava com cautela. Meu coração parecia prestes a explodir a cada passo. – ! – chamei novamente. Me aproximando. Estava me desesperando, estava com medo, não podia fazer nada. — , atrás de você! – gritei com tanta força que meu noivo piscou duas vezes e, para o meu alívio, sentiu algo atrás dele e logo tratou do inimigo.
O insurgente parou, subitamente e encarou o herdeiro de Lennox. o encarou de volta e suspirei com o que o feiticeiro estava fazendo: afogando o rapaz. De dentro para fora. Cruel e terrível.
Talvez eu tivesse me esquecido que era uma máquina criada para ser invencível. Lutou em inúmeras batalhas e sabe como matar. Eu fui criada para ser um fantoche.
– Por favor... solte-o e fujam. – Sussurrei. O homem se debatia, mas ele já estava quase morto. Sua energia estava indo embora.
O feiticeiro soltou o homem e olhou em volta. Eles tinham a vantagem, era o elemento surpresa sem o Painite. Havia homens caídos por todas as partes, meu irmão tinha manchas de sangue por todos os lados da armadura.
— Se querem sobreviver, espero que aceitem a oferta de paz e nos deixem livres para ir. – Sua voz era potente e parecia que tremia tudo. As árvores pareciam se encolher, assim como os sobreviventes dos insurgentes — Caso contrário, não me importo em massacrar cada um que restou apenas com o estalar dos dedos! – silêncio. Armas ao chão, uma por uma. — Preparar para evacuação. — Ele ordenou. Seus guardas trataram de recuperar tudo e marcharem para o oeste.
Estavam indo para o Palacete da água.
O que diabos estavam indo fazer lá?
Aquele lugar estava completamente abandonado há anos, desde que os elementares de água foram extintos, na verdade.
Prendi a respiração quando o olhar de encontrou o meu. O príncipe balançou a cabeça levemente e... sorriu. Sorriu timidamente e o suficiente para que ninguém percebesse e abaixou a cabeça marchando para seu cavalo.
Abri os olhos puxando o ar que eu sabia que estava prendendo. Olhei em volta e ainda estava no quarto, mas estava sozinha. Ivy e Luna deviam estar em aula, no Bunker, as crianças ficavam em uma parte do Complexo até a hora do jantar. Olhei para o relógio e vi que tinha dormido a tarde inteira – para o desespero de e o Coronel. Estava tão aflita e assustada, que me levantei em um ímpeto e me troquei com a primeira roupa que encontrei e avancei rapidamente em direção ao que me daria respostas. Não poderia ser apenas um sonho.
Se aquilo fosse uma premonição ou um tipo de visão do que pode ter acontecido com aquelas pessoas que eu amo, os Insurgentes estavam infligindo a maior condição do Acordo: deixar e Charles em paz. Aquela pulga de sonho em meu cérebro não me deixaria em paz até que eu me certificasse de que eu sou apenas uma feiticeira descontrolada e paranóica.
Sinto falta de e Charles, era o que eu pensava para me acalmar. Não sei mesmo do que sou capaz.
O complexo tinha tantas divisões que eu me perdia sempre, mas não hoje. Não agora. Meus instintos me enviaram diretamente para onde eles estavam: na sala de reunião onde eu obtive meus poderes de volta e fiz o maldito acordo com aqueles rebeldes. Quando o Coronel sentiu medo de mim. Que eles não estejam querendo ver esse meu lado de novo. O local estava com poucas pessoas, todos pareciam bem preocupados, inclusive, . Angelique estava em pé, no canto da parede observando todos os movimentos com uma expressão aflita. Quando por fim prestaram a atenção em mim, todos se calaram e pareceram prender a respiração. Soube ali que tinha algo errado.
Tentei agir na maior naturalidade possível, controlando o animal que dentro de mim habitava e estava prestes a explodir. Me sentei em uma das cadeiras e fiz minha melhor expressão de curiosa. E estava mesmo, afinal, o silêncio se instalou.
— Finalmente saiu da sua toca. – deu um sorriso ladino, mas não durou muito. — Alguma novidade durante minha ausência, meu bem? – minha voz era suave. Quase um carinho para quem escutava.
— Achei que você não estivesse interessada nos assuntos da ralé, bruxinhai>… – observei calmamente todos ali. Um por um. Havia uma onda de poderes ali, poderes não fortes o bastante para me derrubar, mas fortes o suficiente para me manter em alerta. — Afinal de contas, você está ocupada demais mandando bilhetinhos para o meu irmão e fazendo paredes invisíveis... volte para seu quarto, princesinha. Aqui não é seu lugar – encarei , que trincou a mandíbula ao fuzilar a irmã. Todos riam e debochavam. Senti raiva dele, mais do que antes.
— Não deveria me tratar dessa maneira, Angel... – me levantei lentamente e arqueei uma sobrancelha ao encarar o elementar de Água – Nessa madrugada vocês poderiam estar mortos se não fosse por mim. – me fuzilou, sorri para ele ao chegar mais perto e arrumar a gola de seu uniforme preto. Estávamos tão próximos que sentia seu corpo estremecer, tinha quase certeza que de raiva.
— Do que você está falando? – Angelique me encarou.
— Que feio, >… espalha os meus segredos, mas não conta sobre os seus? – balancei a cabeça, fingindo estar ofendida com aquilo. Suspirei longamente e encostei minha cabeça no ombro dele, enquanto fazia círculos pequenos com os dedos no peitoral de . — Bom, conversem sobre isso mais tarde... quero saber sobre minha família. Novidades? – pareceu relaxar um pouco, mas Angel não se deu por vencida, estava se preparando para dar seu golpe.
— Não temos notícias. – o Coronel deu de ombros – Você deve se preocupar com o seu papel no Forte.
— Terá minha atenção total assim que me informar sobre eles. – Aquele tom que eu usei... fui criada há anos para agir assim. – Ou querem que eu teste um de meus novos truques? Sabiam que consigo fazer alguém me dizer tudo que quero ouvir?
— Isso é impossível. — Angelique riu e caminhou lentamente em direção a uma das cadeiras. Parece que esqueceram do que fiz com Lucas.
— Você não tem permissão de usar poderes aqui. Não com a gente. Esse foi o combinado. Eu estou relevando as pequenas magias, mas não vou tolerar isso. — a voz do Coronel era tão forte e grotesca, que poderia colocar medo em qualquer um ali, o que aconteceu mesmo; eles só não contavam que eu fosse filha do homem mais irritante do planeta.
— Eu quero saber sobre minha família. — retruquei, calmamente – Estou pedindo... por enquanto. — dei de ombros. me encarou e com o olhar pediu para que eu não continuasse com aquilo.
— Você não vai ter notícia alguma! – Angelique gargalhou novamente, se sentando na cadeira. Encarei o Coronel que não estava disposto a ceder.
Certo, então.
Com um movimento dos dedos, fiz a cadeira de Angelique deslizar até onde eu estava. e todos se assustaram com aquilo. Angelique ameaçou usar seu poder contra mim, mas silenciei ela. Silenciei todos. Criei uma bolha onde ninguém conseguia entrar. Minha mente formigava e eu sentia meu corpo esquentar.
– Não diga que eu não falei com jeitinho. – o símbolo da Verdade brilhou em sua testa, dourado como ouro. Fiz aquilo com Lucas uma vez. – Nosso querido Lucas já lhe contou como funcionou esse feitiço com ele, certo?
— Vadia. – ela sussurrou e eu ri.
— Ótimo, você entendeu o espírito da coisa! Quando você diz Verdades, você não sofre. Agora se mente... – balancei a cabeça e encarei . Ele socava a bolha de ar que eu fiz com tanta força que eu a sentia tremer. — Quero saber sobre minha família, conte-me tudo!
— Vá se fode... – ela urrou, colocando as mãos no estômago. – Sua mãe está ajudando nos preparativos do casamento de Charles e Jade. – não expressei nada, mas por dentro estava querendo chorar. – Sua sogra voltou para Lennox e não sabemos o motivo. Seu pai não sai do Palácio Dourado há semanas e seu noivo... – ela riu e me encarou com aqueles olhos afiados.
– Há boatos que o gostosinho está tentando um acordo com Vancur... sabia que lá tem princesas gêmeas também? Um mais um é igual a...? - por mais que eu soubesse que ela estava me provocando da pior maneira, vi que aquilo não doía nela; pelo simples fato de que para ela, aquilo era Verdade.
— E o que mais? – ela ficou em silêncio e depois berrou. Eu estava furiosa. Furiosa e ferida— Vocês estão cumprindo sua parte do Acordo? — gritos. Gritos e socos na parede invisível que eu havia criado. Sentia suor escorrendo na minha testa. – Angelique...
— Um grupo de insurgentes esbarraram com seu namorado, irmão e sogro... – ela choramingava ao dizer aquelas palavras – Eles... eles não esperavam encontrar eles indo para o Palacete da Água... está abandonado há anos e... e...
— ! – urrou. Estava tão furioso que podia ver seus olhos ficando levemente azuis. Estava ficando fraca ao fazer tantos feitiços ao mesmo tempo.
— Houve uma batalha, mas... mas não foi planejado. Não era pra eles terem atacado!
— Como foi a batalha? – meu coração doía, eu sabia como tinha sido. Havia um misto de sentimentos e eu não estava raciocinando direito.
Eu tinha previsto aquilo? Minha mente me avisou? Poderia ter evitado?
— foi misericordioso. - ela relutava ao dizer aquilo, não por doer por ser mentira; mas por ser Verdade e ela não poder falar mal de um Feiticeiro. Da realeza. — Ficaram bem. Perdemos muitos homens. Fomos avisados a pouco tempo, esse era o motivo da reunião. – ela suspirou aliviada quando sentiu que a bolha tinha sumido. Eu permiti que se aproximasse. Mesmo furioso, não ousaria encostar em mim. Nenhum deles.
— Tínhamos um acordo! – eu urrei. As luzes tremeram. Encarei o Coronel. Meus olhos estavam lilases. — Tentaram quebrar a minha ÚNICA condição!
— Eu não sou responsável pela área oeste! – ele respondeu, não estava bravo. Sentia o cheiro deles, ultimamente eu sentia mais cheiros e sentia mais coisas do que deveria. Havia medo ali, mas também tinha um pouco de... aflição. – Demos as ordens e os avisos... não consigo contato com o Bunker deles! Eu... eu estou tentando, . Eu juro que estou. – tentei detectar mentira, mas só encontrei cheiro de medo. Mentira fedia. - Vou punir o responsável por ter tentado nos trair. Não somos como...
— Como quem? — rosnei, meu corpo esquentando novamente. — Vocês julgam tanto minha Casta, nos pintaram como os inimigos quando quem, por fim, tentou arruinar um Acordo...
— Não deixarei quem fez isso passar impune. — Herris disse, seus olhos estavam brilhando por trás dos óculos escuros e finalmente fiquei curiosa para saber que tipo de Cinza ele era. Nunca que ele deixou transparecer qual o tipo. Fiquei em silêncio, nós nos encarávamos como dois bichos e eu nem precisava ver por trás de seus óculos, só sua postura denunciava aquilo, afinal, sua Palavra foi colocada em jogo. Sua índole.
— Quero ir até lá. – Estava ajudando a irmã, que se recuperava lentamente do feitiço. Não queria nunca experimentar aquilo, lendas antigas dizem que os órgãos se exprimiam todas as vezes. O insurgente largou a irmã e veio até mim, ficando cara a cara.
— Ficou maluca?
— Eu quero ver os sobreviventes e conversar com todos. Quero que me conheçam. Que sintam o que sou e o que farei se eu descobrir que tentaram matar minha família novamente!
— Você pode ir. – Coronel falou, fazendo todos o encararem com surpresa. Até mesmo eu. — Negociaremos as condições depois que nos acalmarmos — O Coronel se sentou novamente, Angelique estava vermelha e com os olhos arregalados. — Mas só depois da sua primeira missão.
— Acha mesmo que eu vou respeitar esse maldito Acordo depois disso tudo? – gargalhei.
— Ninguém morreu, então nada foi quebrado. — estava falando aquilo entredentes. Talvez eu não seja a única que tenho que controlar o animal interior.
— Que missão é essa? – questionei. Coronel encarou o Insurgente, que suspirou e concordou levemente com a cabeça. Parecia que relutava com aquilo
— Você vai nos levar para Taaffeith.
Capítulo 26
Taaffeith.
Comecei a rir quando escutei aquela palavra. Aquela cidade esquecida e abandonada, sempre que citada era quase uma maldição, se não até mais que isso.
Quando eu era pequena, depois de uma das aulas de história que tínhamos com o nosso professor mais antigo de Howslan, Thomassian, o grande manipulador da Terra e um ótimo ilusionista, nos fazia ver os horrores que poderia ter em Taaffeith.
Veja bem, poderia.
Ninguém ousava pisar em Taafeith há séculos, muitos que foram nunca voltaram e quem voltou, contou o que vira e nunca mais foi o mesmo, enlouqueciam e morriam com sua cabeça fervendo com as assombrações que os perturbavam. A maioria eram presos que barganhavam com o Rei, mas o último foi um soldado renomado de meu tataravô, o coitado conseguiu voltar e em um dos seus surtos um feiticeiro conseguiu ver suas memórias. Os ilusionistas de Terra conseguem transmitir para outras pessoas esses fatos históricos, isso não significa que esses fatos sejam agradáveis de serem vistos.
— Só podem estar de brincadeira comigo. — olhei para , o mesmo abaixou o olhar. Canalha. — Se querem me matar, é mais fácil tentarem isso de maneira mais honrosa.
— Ninguém está tentando te matar... dessa vez – o Coronel deu de ombros e se sentou. – Precisamos de você para entrarmos em Taaffeith.
— E o que te faz pensar que eu consigo fazer tal coisa? – falei entredentes, já sentindo meu corpo esquentar.
— Você é filha do seu pai. – as palavras baixas de saíram mais como uma maldição do que uma resposta simples, por mais que fosse algo óbvio.
— As projeções em volta de Taaffeith foram feitas pela sua família. – Angelique falou com uma careta. – Isso significa que precisamos de uma para entrar em segurança.
— Ou vocês precisam de mim para assinar a sentença de morte. Meu sangue é a chave para o caos daquele lugar! – não conseguia esconder meu desespero àquela altura da conversa, eles não tinham ideia da onde estavam se metendo.
— Quanta prepotência, bruxinha... – sorriu de canto e cruzou os braços.
— O que querem em Taaffeith? – tentei falar sem parecer tão amedrontada, mas não conseguia esconder totalmente o pavor na minha voz. – Não ousem esconder algo quando claramente vocês necessitam mais de mim do que eu de vocês.
Eles se entreolharam. O Coronel, Angelique, e todos os outros. Aquilo era desconfortável para todos nós.
— Se quer saber sobre seu irmão e seu adorável príncipe, é bom colaborar com a Causa. Sem perguntas, ... não temos obrigação alguma com você! – Angelique falou no canto da sala.
— Se esqueceu do que eu fiz com você há cinco minutos? – arqueei uma sobrancelha, aquilo era engraçado, ela engoliu seco só que manteve a compostura – Se quiser, eu aqueço sua memória. – levantei a mão apontando um dedo em sua direção, apenas aquele movimento, mesmo que eu não fosse fazer nada por estar quase esgotada; fez com que me prendesse contra a parede, sua mão apertando meu pescoço.
Seu corpo estava gelado, frio e úmido por conta do seu poder e o meu estava fervendo, podia sentir vapor saindo do nosso atrito. Seus olhos estavam azuis, não do jeito que eu encontrei em seu quarto, mas o tom turquesa brilhava. Os meus não estavam diferentes. A gente se encarava com tanta raiva que o vapor que subia se tornou uma grande bolha, escondendo de todos o que de fato acontecia ali dentro entre nós.
— Canalha. – falei, lhe dando um empurrão, mal se moveu.
— Megera. – ele respondeu, se aproximando mais de mim. Se eu não estivesse tão furiosa, estaria rindo daquilo.
— Como ousa fazer isso comigo? Como ousa esconder de mim coisas que eu preciso saber? – fiquei na ponta dos pés para que ele sentisse de perto o sentido quase literal da frase “soltando fogo pela boca”.
— Você também não está cumprindo sua parte no trato. – sua voz era quase tão fria quanto o seu corpo, seu hálito batia em meu rosto e eu conseguia sentir o cheiro de menta.
— Não é como se sua irmã fosse uma grandíssima e adorável querida, . – sorri, o sarcasmo escorrendo dos meus olhos. O insurgente passou os olhos para minha boca, ninguém estava acostumado com meu sorriso por ali. Parei de sorrir no mesmo instante.
— Você também não é. – ele falou quase em um sussurro, seus olhos ainda estavam turquesa, mas agora eles não paravam em um lugar só em meu rosto, analisava cada parte minha. – Droga, .
— Me conte o que está acontecendo. – ordenei. Ignorando totalmente o fato dele estar furioso e desorientado. – Eu mereço saber a verdade, .
— Isso está acima de mim. – suspirou e afrouxou um pouco a mão do meu pescoço, mas não saiu de lá. – Você pode ler minhas memórias se quiser saber, , mas eu não posso falar nada.
— Eu não vou fazer isso. – por mais que eu quisesse. Eu poderia matá-lo com a magia proibida, ainda mais descontrolada da maneira que eu estava. Não tinha controle de mim. Quando fiz Lucas me dizer coisas, fora usando símbolos proibidos que me geraram as Verdades que eu queria saber, contudo, me aventurar na magia proibida Mentais não era cabível ali. Ainda mais com ele.
— Ora ora, a megera está com medo de me machucar? – diz ele como se tivesse lido meus pensamentos. Seus olhos brilhavam, aquele jeito que me fez lembrar de . Ele me olhava assim. – Se não fizer comigo, não permitirei que faça com qualquer outro.
— Agora entendo um dos motivos para que os Elementares de Água terem como destino a extinção... – arqueei uma sobrancelha, sorrindo quando ele apertou meu pescoço novamente com a lembrança de que ele era o único que restava. – São extremamente detestáveis. – o brilho sumiu. – Que fique claro o seguinte, : nós temos um acordo. Eu aceitei ajudar a Causa e até o momento a única coisa que eu pedi foi que vocês ficassem longe da minha família e me dessem informações sobre eles! – falei entredentes, me controlando para não dizer a eles o que eu tinha visto ou pressentido, aquilo poderia ser uma arma que eu não estava disposta a fornecer. Meu coração parou de bater por um instante ao imaginar que tinha o dom de minha mãe e que talvez isso foi ofuscado quando eles me drogavam para que meu poder não fosse cem por cento. Doeu lembrar que fui traída por ela. – Isso mostra que eu sou parte dessa patifaria! – minha voz saiu de maneira tão furiosa que por um momento, senti medo de mim. – E exijo respostas!
— Vamos para Taaffeith e terá suas respostas. – ele deixou claro ali que não confiava em mim. Tudo bem, também não confiava neles.
— Posso destruir esse lugar se eu quiser, mas ainda permaneço aqui. Isso deveria ser motivo o suficiente para que vocês me respeitassem. – em nenhum momento a gente deixou de se encarar, nossas respirações ofegantes o suficiente para que o vapor subisse mais e mais. – Vamos para Taaffeith, na direção da morte... só não me obriguem a fazer algo que eu não queira, ainda mais fora desse lugarzinho que me cerca de painite – sorri sem mostrar os dentes, passando a mão em seu rosto com a barba por fazer – Vai ser realmente muito bom sair daqui, ... ótima ideia de um grupo tão astuto!
— Não somos tão tolos quanto você pensa. E você não destruiu esse lugar ainda porque você pensa nas pessoas inocentes que vivem aqui! – Aquilo me atingiu bem no estômago – Você pode fingir para qualquer pessoa que é um monstro, , mas não para mim! Eu sei que você não faria tal coisa.
— Jamais pensaria algo desse tipo sobre esse grupo. – a frase saiu em tom de ironia. Obriguei meu corpo a resfriar, me obriguei a não deixar minha fúria sair da forma que estava saindo. pareceu perceber o vapor diminuindo e seus olhos foram relaxando, contudo, sua mão ainda não me soltava; mesmo eu baixando a guarda, ele tinha medo de mim. Aquilo me deixou ainda mais furiosa. O insurgente não tinha o direito de me ler daquela forma e fingir que não se importava. – Tire suas mãos do meu pescoço.
— Apague esses malditos olhos lilases. – ele queria ter o controle. Esse era o enorme problema de todas as pessoas. Todo mundo sempre quer estar com o poder. De fato, no nosso mundo, quem tem mais poder é quem dita o controle; e ali, eu poderia ser uma marionete para eles e para o meu pai.
Mas sou eu a que controla todos os elementos. E são eles que precisam de mim.
Respirei fundo, fechei meus olhos e tentei controlar o monstro que tinha dentro de mim. Tentei me convencer de que não precisava fazer nada para machucar aquele homem que estava apenas protegendo as pessoas que ele ama – eu queria que alguém lutasse por mim daquela forma, mas no fundo, sempre lutei por mim mesma. Contudo, não consegui. Eu precisava deixar claro a todos ali presentes que eles quem precisavam de mim. Precisava deixar claro que não tinha medo de usar meus poderes contra qualquer um que tentasse se colocar no meu caminho.
Eu fui tola ao querer que me respeitassem sem usar minha força.
Cansei de não ser respeitada. Não ligo para os meus títulos, mas ligo para o meu poder. Se não vou ser respeitada por bem... que seja de outra forma.
— O que você est... – o insurgente fechou os olhos, se segurando para não urrar de dor. Minha mão esquerda estava apoiada em seu peitoral, eu estava sugando sua energia. – ...
— Eu falei para você tirar suas mãos de mim. – falei entredentes. tinha tirado as mãos do meu pescoço e agora já conseguíamos ver os outros insurgentes nos observando. Era o que eu queria: que vissem o que eu podia fazer até mesmo com . – Nunca mais encoste em mim sem permissão de novo. – ele estava de joelhos, com as mãos segurando o próprio pescoço, em busca de ar.
— Solte-o. – Coronel falou entredentes, apontando uma arma para mim. – Solte-o e vamos conversar.
— Ah... então é assim que consigo sua atenção? – coloquei uma mão na cintura, afrouxando um pouco o poder em , não queria que ele se machucasse de verdade, mas queria que me contassem o que aconteceu em Provance, perto do Palacete de água com os meus. – Que bom que agora podemos conversar, Coronel. – soltei . O moreno respirou fundo, buscando o ar que tinha perdido. Tentei controlar meu rosto para que ninguém percebesse o quanto fazer aquilo tinha me incomodado.
Eu tive que fazer isso, me desculpe, pensei. Nunca falaria aquilo em voz alta.
me olhou em seguida, balançou a cabeça levemente e se levantou com a ajuda de Angelique, que me encarava com raiva. Nada fora do normal.
— Esteja pronta para sairmos de madrugada. Temos uma longa viagem de três dias até Taaffeith. – o insurgente falou secamente, virou o rosto e caminhou em direção a porta. Segurei um suspiro. Era mais fácil assim.
— Quero ficar a sós para essa conversa. – encarei o coronel, o homem estava vermelho. – Não quero ter que machucar mais ninguém, nem mesmo você.
— Certo, que seja feita sua vontade, vossa alteza! – a reverência falsa me fez ter embrulhos no estômago. Aquilo, de fato, me fez lembrar dos dias no castelo, quando meu pai zombava de mim. Todos da sala saíram, um por um. Restando apenas nós dois e Landon, que fez questão de ficar ali.
Eu no fundo eu sabia que ele ficaria ali por mim. Não por medo de eu machucar seu irmão, mas tinha medo de me deixar sozinha e eu fizesse algo que me arrependesse.
Tarde demais, Landon.
Não consegui pregar os olhos desde que voltei na sala de reunião dos Insurgentes. Estava tão aterrorizada com tudo que tinha feito e sentido que quando cheguei nos aposentos de Landon e suas filhas, me enfiei no quarto das meninas e fingi que dormia quando elas chegaram para descansar. Não queria machucar mais ninguém.
A conversa com o Coronel foi mais difícil do que eu pensava e por incrível que pareça, ele me contou tudo que tinha acontecido – tudo que ele sabia e que estava em seu alcance para me dizer, até porque, ele ainda não tinha conseguido contato com ninguém daquela área para que fosse informado todos os detalhes. No mais, o que eu tinha pressentido era de fato algo que aconteceu mais cedo em Provance. Eu não conseguia entender como isso era possível, mas aparentemente eu soube que eles estavam em perigo por algum motivo e aquilo me desesperava.
Eu tinha herdado isso de minha mãe?
Minha mãe, uma vidente tão poderosa e eu, a feiticeira sem controle.
Ou, era algo da conexão que eu tinha com ?
Nunca saberia.
Coronel Herris me disse pontos que me deixaram apreensiva sobre o que minha família fazia em Provance, mas também deixou claro que os Insurgentes que fizeram tal coisa seriam punidos. Eu também entendia o fato de que poderiam ter feito aquilo para se defender, mas não foi assim que aconteceu. Cercaram meu irmão e os atacaram cruelmente, não podia falar que sabia veemente o que tinha acontecido ali. Até porque, foi misericordioso. O que eu também não entendia, já que eles poderiam ter capturado um Insurgente para tortura-lo e descobrirem meu paradeiro. Tinham desistido de mim?
desistiu de mim?
Consegui entrar em um acordo com Herris e tentamos, juntos – ele, pensando como um Insurgente e eu, pensando como a próxima rainha – em possibilidades do que estava acontecendo ali. Pude perceber que mesmo nós dois sendo totalmente opostos e de certa maneira, inimigos, nós fazíamos uma bela dupla quando não tinha plateia. Quando tentávamos desvendar coisas, até funcionava; mas se nossa opinião mudava para outro assunto, era um desastre.
‘’— Você está sendo descuidada, criança. – Coronel falou, tirando a caneta de minha mão enquanto eu fazia anotações no painel gigante que ele tinha ali. – Nós estamos com um posto em todas as províncias de Howslan. Somos muitos!
— E como foram pegos desprevenidos dessa forma? – questionei, colocando as mãos na cintura. – Se são muitos, como não viram que tinha uma Caravana do Rei indo em uma das províncias?
— Talvez algum feitiço de encantamento... – ele passou a mão na barba gigante e tirou os óculos. Pude ver novamente seus olhos e fiquei curiosa de novo sobre sua casta. – Aquele que você usou para tirar nosso carro daqui.
— Provance fica muito longe do Palácio... nenhum feiticeiro aguentaria tanto tempo de magia. E feitiços são iguais, mas a maneira que são manuseados são diferentes, ainda mais por feiticeiros diferentes. e Charlie... bem, são opostos. – e não é como se Charlie praticasse muito esse tipo de magia, ele era um guerreiro, dominava artes da guerra.
— Mas são fortes e juntos são imbatíveis. – concordei com a cabeça. Ele estava certo. – foi muito... generoso quando não matou ninguém, nem capturou. Deixou eles fugirem. O que me deixa curioso, pois claramente tem algo por trás disso. – eu também me questionava aquilo.
— Nem todos são como meu pai. – via claramente na minha cabeça explodindo tudo em terra, forte e poderoso.
— Nem todos... – ele concordou e me encarou nos olhos. – Mas vocês foram criados para matar e serem servidos. Não nos culpe por acreditar no contrário.
— Olha, temos uma grande ironia aqui, Herris... você não quer que eu julgue vocês e sua maldita Causa, mas julga qualquer um que tem uma Coroa na cabeça!
— São séculos de insatisfações com a monarquia, ! – respondeu calmamente, bebericando seu café – Você sabe como funciona. Volto a repetir, não nos culpe por querermos a Revolução.
— Sabe, Coronel... no fundo meu pai e você são bem parecidos. – o homem arregalou os olhos, furioso com a comparação – Ele acha que a verdade dele é universal e vocês também.
— Sua família mata inocentes há séculos! – ele berrou, batendo na mesa. Não me movi. – Não somos iguais! Eu luto por igualdade e vocês lutam por poder!
— Não pertenço a esse lugar, tampouco a monarquia! – respondi entre dentes – E para mim, vocês dois são iguais, só lutam por coisas diferentes.
— Como pode pensar tal coisa depois de vivenciar tudo por aqui? – Ele estava inconformado. Surtando. Eu me segurava para não ficar da mesma forma.
— Não me peça para ser condescendente com vocês, quando me fazem prisioneira por ser filha do meu pai. – Respondi da mesma maneira. O Coronel ficou em silêncio, aquilo tinha ficado desconfortável. Landon não dizia uma palavra, apenas lia seu livro no canto enquanto discutíamos. – Continuo sendo uma marionete, só que fora daquele maldito castelo.
— Agradeço por colaborar com a Causa – ele pigarreou e ajeitou o colarinho. – Descanse para sua primeira missão aqui no Forte. Amanhã saberá mais informações sobre Taaffeith. ’’
Já era tarde e todos dormiam, minha cabeça fervilhava e fervilhava e nada fazia sentido.
O Palacete de Água não era mais um foco do reino e ninguém cuidava dali, de fato. Não existia mais elementares que dominavam aquele elemento, todos foram extintos. Exceto , mas ninguém sabia. Na verdade, sabiam. sabia, Charlie sabia. Meu pai também sabia.
Algo me diz que minha mãe sabe mais do que aparenta.
Uma parte minha queria muito que me encontrassem, mas outra parte, não.
Eu entendia a Causa. Eu queria igualdade. Eu desejava um mundo melhor. Odiava meu pai com a Coroa. Também queria que aquilo acabasse.
Passei os últimos trinta minutos no banheiro, com dor de barriga e vomitando tudo que eu podia – e não tinha, dentro do estômago – por imaginar que eu iria pisar em Taaffeith. A maldita lenda. Ia morrer naquele lugar e jamais ninguém descobriria, não iria ver minha mãe e Ophelia, Thomas e Charlie, não beijaria uma última vez.
Sofreria todos os meus pecados naquele lugar aterrorizante. Odeio os Insurgentes. Odeio meu maldito cérebro por não lembrar de tudo que tinha de importante naquele lugar, talvez se eu não estivesse com tanto medo na época, eu lembraria de algo e tentaria barganhar com eles, afinal, eu temia pela minha vida miserável. Não queria morrer em Taaffeith. Não sem antes ver Ophelia de novo, não sem antes ter algum conselho de Debbie sobre algo que eu precisava ouvir de verdade, ou sentir minha mãe acariciando meu cabelo, ou ver Charlie com seus filhos. Não queria morrer sendo uma covarde que não falou para como me sentia em relação a ele.
E, obviamente, não sem descobrir quem sou de verdade.
Inferno de vida!
Me deitei próxima as meninas tentando não acordar elas e fiquei mentalizando memórias boas para me acalmar até conseguir pegar no sono, mas não durou muito quando senti um vento frio em meu rosto.
Angelique.
Ela não estava dentro do quarto, mas estava dentro dos aposentos de Landon, o que permitia que ela conseguisse fazer tais coisas. Me levantei e saí do quarto, dando de cara com ela com seu salto alto e o cabelo enrolado em volta da cabeça. A roupa preta colada em seu corpo dava muita ênfase em como ela era bonita. Angel sorriu e se sentou no sofá.
— Você está horrível. – ainda estava de pijama e meu cabelo provavelmente estava todo bagunçado, fora as olheiras e a desidratação. – Minha futura rainha está com... medo de Taffeith?
— Não somos mais crianças, Angelique, ter medo não me torna fraca e assumir isso não me faz ter vergonha. – ela fez careta e me atacou uma mochila. – Vocês podem estar bem agora, mas quando chegarmos lá, vão perceber que foi a pior coisa que poderiam fazer.
— Não sofro por antecedência. – deu de ombros – Nessa mochila estão coisas que você vai precisar para a viagem. – não foi me levar aquilo. não foi me ver. Não deveria estar surpresa, afinal, fiz ele sofrer na frente de todos, mas Angelique estava ali. Talvez fosse a maneira do insurgente me punir. – Roupas, barras de cereais, água, alguns shots de energia... enfim, sua roupa para aguentar a jornada está pronta. Se arrume e saia. Um guarda vai te levar até o ponto de encontro. vai com você.
— Você não vai? – perguntei, estranhando como ela estava calma.
— Acharam melhor não nos colocarem fora do Forte juntas. – ela controlou a respiração, pelo menos concordávamos nisso. Nossos egos poderiam nos matar – Precisam de um Elementar aqui de qualquer maneira. Eu tomarei conta das coisas enquanto vocês estiverem fora...
— Ótimo. – me virei para começar a me trocar ali mesmo, Landon estava no banheiro e eu não iria acordar as meninas.
— Sei que você não machucou meu irmão de propósito.
— Com certeza sabe – ri pelo nariz, tentando não demonstrar que aquilo tinha me atingido de maneira desprevenida.
— Fez aquilo para conseguir o que queria. Foi ardilosa, . – aquele salto horrendo dela estava me deixando irritada. Aquelas palavras também. Meu silêncio também era resposta para a sua frase. – E ele também sabe, porque está agindo como se nada tivesse acontecido.
— Além de manipuladores do Ar e Água, também sabem ler mentes? – a ruiva deu um sorriso quase que imperceptível. – Não me importo com os achismos de vocês. Pense o que quiser. – Estava tentando fechar o maldito zíper das costas e ela pareceu perceber aquilo quando se aproximou.
— Taffeith é uma grande lenda, mas fiquei um pouco... preocupada com a sua reação, até mesmo pelo fato de que sabe mais coisas do que aparenta. Como sua consequência, nos levará até lá. – revirei os olhos ao mesmo tempo que meu estômago embrulhou. – , eu prometo te dar uma folga se proteger meu irmão de qualquer coisa. – gargalhei. Ri tão alto que tive que cobrir a boca com a mão e me virei para ela, com os olhos brilhando de tanto que queria explodir. – Não estou vendo outra palhaça aqui além de você, porque diabos está rindo tanto?
— Você me pedindo algo? Tem que ter muita coragem depois de me infernizar tanto!
— Não finja que não se importa com meu irmão, sei que você o protegeria de qualquer coisa. – arqueei a sobrancelha e respirei fundo.
— Se acredita tanto nisso, porque se deu o trabalho de me pedir para proteger aquele traste? – a insurgente ficou em silêncio por alguns segundos e pude perceber que seu orgulho estava destruído por ter que dizer o que quer que fosse.
— Não sei o que vão enfrentar pelo caminho! – ela explodiu – E eu preciso do meu irmão de volta! Ele não é egoísta como eu, ele morreria por todos os insurgentes que estão nessa missão e sei que ele também daria a vida por você. Preciso que alguém faça isso por ele também. Eu faria, mas não estarei lá e eu tentei muito trocar de lugar com ele, mas ele nunca permitiria!
— Malditos irmãos . – bufei enquanto ela fechava aquele zíper ridículo. – Ele me pedindo pra não te matar e você me pedindo para morrer por ele! Inacreditável!
— Posso contar com você, ?
— Vai me deixar em paz se eu voltar viva desse inferno?
— Tentarei ao máximo. – já era alguma coisa.
— Tentarei ao máximo também. – não queria ter que contar para ela que se eu conseguisse sobreviver a magia para abrir o portal já era um ponto importante.
Dois carros do Forte estavam prontos para a caravana de Taffeith. Sentia a magia dos Cinzas ali presentes, eram os mais fortes que tinham; reconhecia Lucas no carro que provavelmente seria o meu. Sentia , mas não via o Elementar. Estava acompanhada por um Cinza que não conhecia e ainda tinha correntes de Painite em meu braço.
Estava escuro e apenas algumas lanternas me davam a visão de tudo que acontecia e claro, a lua.
Os homens fizeram um círculo em volta dos carros e pude ver o Coronel saindo de dentro do Forte. Céus, eu nem tinha me dado conta de que tinha saído de dentro do Forte.
A brisa da noite em meu rosto, o barulho dos bichos, a floresta falando com a gente. Eu estava fora do Forte de verdade. Minha felicidade foi interrompida quando o Coronel começou a falar. estava ao seu lado, com seu uniforme e uma faixa azul escura em seu braço; era um uniforme novo. O insurgente me encarou e eu sustentei o olhar.
— Vocês, Insurgentes, já deram o passo para a Revolução quando aceitaram virar um de nós! Agora, vocês foram escolhidos para algo muito importante e crucial para a nossa Causa! São nossos melhores homens...
— E eu. – tossi, tirando alguns risinhos de quem estava ali. – Caso tenham se esquecido...
— Nossos melhores homens e nossa maior arma, a Princesa . – sorri com desdém e acenei para todos. – Vocês foram treinados para isso! Vocês estão prontos!
Houve uma comemoração e eu sabia que tinha tido um jantar para comemorar a missão que seria iniciada hoje, o qual não tinha sido convidada. Era bom que eles comemorassem mesmo um dos últimos dias de suas vidas.
— Sigam o seu capitão. – Coronel encerrou o discurso – Que a missão seja abençoada e que vocês retornem para nós.
— Somos o futuro dos nossos filhos e netos. – começou a falar com a voz grossa, ali ele parecia um líder; de fato ele era. — Agradeço a todos vocês por aceitarem a nossa Causa, por escolherem a mudança; por lutarem por um mundo melhor. Nesse mundo onde somos divididos por nossos poderes, onde servimos os elementares e feiticeiros com nosso sangue... é esse mundo que queremos mudança! É para acabar com essa desigualdade. Chega de servir a realeza. Chega de reis e coroas. Chega de sermos as malditas peças desse jogo doentio.
Me encolhi ao ouvir suas palavras sendo aplaudidas e enaltecidas pelos insurgentes ali presentes. Eu fazia parte da Coroa e também era peça do jogo doentio de ambas as partes. Inferno de vida. Em poucos segundos senti o guarda me empurrando bruscamente para o carro, apenas o encarei com os olhos brilhando e senti o cheiro do medo do mesmo.
Sim, com certeza os mais corajosos e mais fortes soldados para Taffeith.
estava terminando de conversar com algumas pessoas e o Coronel quando eu entrei no carro, no banco de trás. Lucas estava no banco da frente ao lado do Cinza que estava me empurrando. Benção! Fechei meus olhos e encostei no vidro do automóvel. Era igual ao que eu roubei, um pouco mais avançado, talvez tenha vindo de um dos camburões novos do Reino projetado com a tecnologia do país de e Jade. Eu sentia os poderes ali, mas não era um carro normal. Estava tudo muito forte perto do que estava acostumada.
Ou talvez eu só estivesse muito atordoada por respirar ar de verdade e meus sentidos estavam confusos.
Não precisei abrir os olhos para saber que finalmente havia entrado no carro, então os mantive fechados até que a porta batesse e escutasse os motores ligando. Controlei a respiração e tentei acalmar meu coração. Não ousei encarar o insurgente depois do que fiz com ele mais cedo, mas também não consegui ficar quieta.
— Não fomos.
— O que? – perguntou.
— Não fomos treinados para Taffeith. Ninguém aqui está preparado para isso. – fechei meus olhos e encostei minha cabeça no vidro do carro.
Todos eles escondiam bem, mas eu sentia o medo de todos, assim como eles poderiam sentir o meu.
Capítulo betado por Carolina Mioto
Capítulo 27
👑
— Vamos, Vossa Alteza... – a voz ao fundo me causava arrepios, afinal, o que eu estava fazendo era proibido. – Mostre-nos o que quer ver!
Gotas de suor escorriam pelo meu pescoço e eu sentia que meu corpo esquentava tanto que poderia explodir a qualquer minuto. Todos os meus esforços estavam sendo em vão para conseguir localizar , parti para o lado ruim da coisa. A ligação de sangue tinha que ter alguma solução. Minha energia estava voltada para isso logo depois de eu ter desmaiado a primeira vez.
— Ele vai queimar! – a voz feminina que eu conhecia bem falava ao fundo, um pouco assustada. – Solte-o!
— Estamos quase...
As lembranças eram desconexas, me atingiram como um soco e vinham em flashes, pude ver que ela estava com o vestido de noiva sujo e rasgado, ela estava ferida dentro de uma cela e tinha ratos com ela. Sentia o que sentia: medo, frio, raiva, o choro preso na garganta e a sensação de estar sozinha. Vi um dragão enorme perto dela e ali ela sentiu paz depois de muito tempo. Senti sua fúria quando algo aconteceu. Contudo, nunca via rostos além do dela. Isso dificultava tudo quando eu tentava localizar a herdeira do trono.
— Você está quase o matando! – senti um balde de água fria cair em minha cabeça, me tirando totalmente do transe o qual eu tinha entrado. Abri os olhos, assustado, dando de cara com a figura ruiva: Candance, a elementar de fogo melhor amiga de . – Já chega disso.
— Eu estava quase conseguindo! – a anciã, com a pele enrugada e orelhas pontudas falava enquanto jogava no chão o balde com ervas proibidas que ferviam, aparentemente junto com o meu cérebro.
— Você é uma grande golpista. – Candance revirou os olhos, me puxando bruscamente da cadeira; estava um pouco tonto ainda. – Mate o príncipe e vire um alvo da Coroa.
— Não me ofenda e ameace dentro da minha toca! – a anciã rosnou, apontando o dedo velho e enrugado para a ruiva. – Vocês me procuraram e não o contrário! E já me irritaram o bastante... crianças malditas. Paguem o que prometeram e saiam daqui!
Aquilo fez com que eu levantasse uma mão para que Candance ficasse quieta. Era verdade. Nós tínhamos ido até a divisa de Howslan com Hergohn, o lugar onde os exilados ficavam, muitos como a Anciã viviam ali. O exílio da sociedade comum, a junção de elementares falidos e Cinzas que não tinham uma casta de fato, a Anciã era uma classe que fazia magia negra, agora mais contida. Uma das poucas pessoas que conseguiram a misericórdia da Coroa para viver em paz no limbo, com um acordo de não agir com seus malfeitos.
Fomos para Hergohn em busca de respostas, mas voltamos do mesmo jeito. Nada que de fato me levasse para . Candence prova todos os dias sua fidelidade pela melhor amiga e está tão disposta a encontrar a princesa quanto eu, a ruiva está tão irritada e insatisfeita com a maneira que o Rei está lidando com o sumiço da filha quanto eu. Byron finge e quando meu pai e minha mãe começam a cobrá-lo por mais, ele tenta o mínimo para que a parceria continue. Por incrível que pareça, é querida pelos súditos, isso traz um retorno financeiro muito grande para Howslan, visitas constantes na Capital do povo de Howslan e os curiosos de outros reinos. Quanto mais dinheiro, mais poder.
Charles e Jade são os mais novos pombinhos apaixonados para o país. Jade é intragável e Charles sempre está procurando outros rabos de saia enquanto finge amor eterno pela princesa de Philcon. Eu sei de tudo, afinal, as damas me amam e me atualizam de cada detalhe pertinente. Depois do ataque que sofremos dos insurgentes, Charles percebeu que tinha razão na Base Vermelha, após nosso primeiro ataque. Os insurgentes são os primeiros da lista de suspeitos. Me lembrar daquele dia era como se eu assistisse a um filme de terror. Fechei meus olhos e aquele pesadelo retornou durante a volta para o castelo.
“Chovia durante a caravana para o palacete de água. Charles precisava visitar o seu novo lar e fui designado a acompanhar meu cunhado ao Palacete da água, não me incomodei com isso, talvez pudesse ter alguma pista sobre . Charles escolheu o palacete mais próximo ao Centro de Guerra, o qual comandava; o lugar estava abandonado há anos, mas sempre muito bem cuidado. Conforme a história escrita, os elementares de água foram extintos e cada palacete é cuidado por uma família de grandes poderes; logo, Charles ganhou um belo lugar para morar com sua querida noiva megera.
— , o que achou do Palacete? – Charles me tirou do transe.
— Bem longe do seu pai... – ele sorriu e eu ri. Ultimamente não tínhamos momentos assim, já que estamos sempre brigando. – Eu acho que Lady Jade não ficará tão contente com a província calma, já que está acostumada com a vida agitada da Capital.
— Estou ferrado, não estou? – ele passou a mão no rosto, rindo. – Lá se vai todo o meu ouro para manter essa mulher entretida, principalmente quando eu estiver fora.
— Por que você não vai viver no Palácio Dourado? – questionei, sentindo minha pele começar a formigar e mais uma das inúmeras pontadas na cabeça; aquilo estava ficando mais normal do que eu poderia admitir.
— Você e vão morar lá. – Charles disse aquilo sorrindo de canto e olhando para a janela, a chuva caía lá fora. – Não desisti de encontrá-la, ... e não quero a Coroa. vai retornar para nós e vai governar Howslan do jeito que nosso povo merece.
— Fico feliz por escutar isso de você, Charls. – o formigamento foi subindo para os meus braços e eu sentia que tinha algo estranho. Minha cabeça parecia que ia explodir a qualquer instante.
— As dores de novo? – meu cunhado puxou para si uma garrafa de água e me ofereceu enquanto eu massageava as têmporas.
— Tem algo errado comigo. – meu tom de voz pareceu fazer com que Charles adotasse de fato a posição de General. Quando por fim eu decidi pegar a água, Charles pediu para que os carros parassem e meu pai, no carro da frente, desceu para conversar com o Príncipe de Howslan para que eu pudesse ter um tempo e me recuperar da mais nova crise que estava tendo.
Saí do carro forte indo em direção a floresta, sem me importar com a chuva, ninguém ali estava preocupado. Soldados faziam as devidas rondas e Lennox e Howslan mantinham a devida paz e sociedade como combinado no altar e assinado por pacto de sangue entre e eu. Minhas veias formigavam e minha cabeça latejava e conforme eu andava, mais fortes ficavam e as imagens de me acertavam precisamente.
Flashes da princesa em uma sala de reunião com pessoas desconhecidas, mas todos os rostos estavam ofuscados. Sentia que ela estava comigo. Ajoelhei próximo a uma árvore e encarei a poça de água que tinha no chão. Via o meu reflexo naquela água e enxergava um homem com olheiras e desgastado, fechei os olhos e respirei fundo, tentando me concentrar; eu dominaria aquela sensação. Os curadores não tinham uma maneira certa de lidar comigo, nada resolvia meu problema então tudo estava relacionado ao pacto de sangue e isso era algo que eu teria que dominar.
Cada pacto é de uma forma.
Não existia uma fórmula ou uma regra. Cada pessoa era diferente e cada casal tem os seus desafios.
A única coisa que igual é para todos é essa: ou você domina seus sentimentos ou eles vão dominar você.
E é assim que acaba tudo.
Abri os olhos no mesmo instante que escutei uma explosão. Olhei para a poça e vi o reflexo de atrás de mim. Me levantei no mesmo instante e olhei em direção de onde os carros estavam. Fomos atacados. Senti uma enorme raiva surgindo de dentro de mim. Estava farto dos Insurgentes. Respirei fundo e fui em direção ao caos, mas não me joguei nele.
Escutava meu pai dando ordens conforme eu chegava perto, escutava o barulho das espadas e lutas corporais, mas não sentia poderes; conforme a poeira ia abaixando, pude ver que era a mesma bomba de painite que usaram no meu casamento. O ódio chegou nos meus olhos, minhas veias formigavam mais do que nunca e eu não sentia mais minha cabeça latejar; mas meus dedos tremiam. Meu poder ardia em meu corpo inteiro. Saí de trás das árvores e com apenas um movimento das mãos, explodi tudo em terra.
Charles e meu pai travavam as próprias batalhas, mas a explosão e a poeira não atrapalharam o desempenho de ambos e eu cuidava para que ninguém os ferissem. Toda minha raiva estava sendo usada ali. Ninguém machucaria o irmão da minha esposa ou meu pai ou meus soldados. Eles pagariam por tudo e aquele seria o meu recado para os Insurgentes.
. Alguém falou de longe. Senti um arrepio na nuca e meus pelos se arrepiaram.
, atrás de você!
Olhei para trás e um homem alto com bandana cobrindo o rosto estava pronto para me atingir com uma espada. Não me movi e com apenas um olhar, o insurgente parou e me encarou. Pude ver o medo em seus olhos junto com uma raiva gigante. Drenei toda a água que tinha no rapaz e fiz o que era mais doloroso: afogamento de dentro para fora. A água começava a sair dos olhos do rapaz.
Por favor... solte-o e fujam.
. Era na minha mente, ou seja lá o que fosse, mas era a voz dela. Eu a sentia. Poderia ser algum delírio, ou algo do tipo, mas estava ali.
O homem caiu no chão, ainda vivo quando eu por fim o soltei. Olhei em volta enquanto todos estavam parados, assistindo o meu grande momento de fúria. A vantagem era nossa e eu poderia destruir tudo ali. A minha voz saiu alta e eu sentia que minhas veias estavam tremendo junto com o chão.
— Se querem sobreviver, espero que aceitem a oferta de paz e nos deixem livres para ir. Caso contrário, não me importo em massacrar cada um que restou apenas com o estalar dos dedos! – silêncio. Armas ao chão, uma por uma. — Preparar para evacuação. — Ordenei. Vendo que meus guardas pegaram tudo que tinha de cada insurgente que restou, os deixando sem absolutamente nada. Os insurgentes que restaram, quase meia dúzia, estavam agachados com o rosto no chão, era essa a maneira de rendição, só iriam sair daquela posição quando a gente tiver de fato, partido. Eu me certifiquei daquilo quando fiz uma projeção ilusória de que estávamos indo para o Palacete da Água novamente, mas estávamos partindo para o Palácio Dourado.
Antes de entrar no carro forte, senti um novo arrepio na nuca e sorri. Tive aquela sensação de “casa” que eu só senti com e agora estava sentindo de novo.
Não tive dúvidas ali. esteve comigo.
De alguma maneira, eu sabia e eu sentia. Ela salvou minha vida.
— Peguei dois homens que estavam nas últimas, vamos torcer para que aguentem com nossos esforços de cura até que consigamos algum Curador de verdade. – Charles entrou no carro, com sangue nas mãos. O encarei surpreso. – Sei da política da tal promessa que fazemos e que isso deve ser seguido, mas quem fez a promessa foi você e quem pegou os homens fui eu.
— Acredita que eles quem pegaram sua irmã? – encarei Charles enquanto ele pegava um pano para limpar as mãos.
— Não, mas você acredita nisso e eu confio em você – senti um enorme alívio no peito – Eles usaram painite... , eles estão tentando nos deixar em desvantagem.
— Vou iniciar um protocolo corpo a corpo com os Elementares e ir em busca de um cientista para me ajudar com algo que diminua o dano do painite contra nós e nossos poderes. – o encarei e ele concordou.
— O painite não afetou você – Charles sussurrou. Eu não tinha me tocado até então
— Eu estava longe da poeira, não inalei que nem vocês – era isso ou eu tinha algum problema.
— Estamos lidando com algo mais perigoso do que imaginávamos. Eles tendo sequestrado ou não.”
Os insurgentes não acordaram ainda, estão tão fracos que os Curadores acham difícil se recuperarem, a dor da cura era forte demais para ambos. Tem que doer para curar. Ossos do ofício, eu sabia bem como era doloroso ser curado, tantas vezes em inúmeras batalhas ou treinamentos me garantiam muita cautela em qualquer situação.
Voltamos para o Palacete de Água depois do ataque, a intenção era voltar ao Palácio Dourado, mas com o ataque e tantos feridos, o certo era voltar ao local mais próximo para a recuperação de todos. Byron estava a caminho com uma caravana aérea depois de receber o nosso aviso. Já imaginava a fúria dele ao saber que o ataque foi feito por Insurgentes, os quais ele insistia em ignorar. Não conseguia parar de pensar em como ele abaixaria aquela notícia, como ele ocultaria dessa vez.
Qual mentira Byron contaria aos seus súditos?
Estava sentado na mesa de reunião enquanto aguardava a presença do Rei de Howslan, eu sentia que estava próximo. Não conseguia parar de pensar que esteve comigo durante o ataque e que aquilo foi real. Agora, com a adrenalina fora do meu corpo, eu podia pensar com mais clareza e posso afirmar que não foi minha imaginação. Era ela. De alguma maneira, nossa ligação prevalecia e era ela. Eu só precisava fazer com que ela aparecesse de novo.
A gente se encontraria de novo e seria logo.
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— Preciso de ar puro – cutuquei com o pé.
— Abra a janela, princesa. – o insurgente deu de ombros. Era nossa primeira troca de palavras depois que entramos no carro. Já estávamos viajando há horas, beirava quase um dia.
— Como você é engraçado, que bom que seu senso de humor ainda existe. – resmunguei, esticando meu pé no rapaz, que estava respirando fundo para não dar um piti. – É sério, como quer que eu abra algum portal em Taffeith se eu estiver exausta?
— Tem tempo para dormir, bruxinha, que tal aproveitar? – a impaciência em sua voz foi o suficiente para me fazer dar um leve sorriso, aquela viagem seria incrível.
— Eu estou pensando de que maneira quero passar os últimos momentos da minha existência... escolhi te irritar até conseguir o que eu quero. – ele arqueou a sobrancelha escura e então fechou os olhos se deitando no banco.
— Não vamos parar. Você pode muito bem ter planos para explodir tudo assim como seu noivinho irritadiço.
— deixou seus homens saírem ileso depois do ataque e você o chama de irritadiço? – minha voz saiu mais afetada do que eu imaginava, o que fez o insurgente soltar ar pelo nariz e sorrir. – Diferente de vocês, eu estou cumprindo minha parte desse acordo.
— Já explicamos que não tivemos nada a ver com o ataque! – disse entredentes. – Você fez o maldito Pacto de Sangue, sabe que isso teria matado o Coronel e...
— Agora que estamos ligados diretamente, nada impede vocês de ocultarem ele da linha de frente dos planos criados entre si. – Aquilo o ofendeu tanto que se levantou do banco e ficou mais perto de mim do que eu gostaria, com seus olhos fuzilantes sobre mim – Seu rostinho bonito não me amedronta, .
— Não está em posição de me ofender, ! – e era ali, naquele momento, que falaríamos sobre o que eu fiz com ele no nosso último encontro. – Sua pose de feiticeira poderosa também não me amedronta.
— Não foi o que pareceu – comecei a sentir meu corpo esquentando e um pouco de vapor subindo, já que o insurgente aparentemente também estava perdendo a paciência
— Não fez aquilo para me machucar de verdade, mas fiquei completamente ofendido por você me usar para ter poder. – Sua voz era fria. Seu hálito saia tão gelado que eu não tinha noção de que um manipulador de Água poderia ter tais reações. Éramos opostos, literalmente. – Não sou seu bonequinho que você faz o que bem entende apenas por pirraça e...
— Pare de ser uma marica! – rosnei – Se me escutassem, se me respeitassem, eu não teria que usar minha força para ser ouvida! Se você não fosse tão condescendente com as atitudes dos seus líderes, eu não teria feito tal coisa.
— Minha voz não é tão potente quanto pensa.
— Pois trate de usá-la mais. – o tom azulado começou a brotar em seus olhos – Você é a porcaria de um Elementar de Água, uma das criaturas mais raras e temidas em nosso mundo, até então, o único de sua espécie. Você tem mais poder do que pensa. – Encostei minhas costas no banco novamente, tentando me acalmar.
— Ao menos você controlou seu temperamento dessa vez. – murmurou, como se eu não pudesse ouvir
— Isso é de esperar vindo de mim, mas de você, esperava mais controle. – ele sorriu de leve e me encarou.
— Talvez sua magia me desestabilize mais do que eu gostaria de admitir.
— Quanto tempo mais para chegarmos em Taffeith? – tentei mudar de assunto. Não queria me desculpar por uma atitude que tive que tomar para conseguir o que eu precisava.
— Algumas horas de carro e depois um dia e meio andando pelo Bosque Leshy. – fechei os olhos, querendo gritar com ele novamente. – Era nossa melhor opção!
— Passar pelos guardiões? É a melhor opção? – peguei um papel e projetei o mapa de Howlan.
Ali tinha a capital, o palacete de água, a base vermelha e todo o restante das províncias do nosso país. Para chegar em Taffeith, tínhamos três opções: as montanhas de Hashvah, o Bosque Leshy e o Pântano. Nosso destino tinha vários empecilhos de todas as maneiras para chegar, mas a mais burra seria o Bosque. Ter que passar pelos guardiões seria difícil, ainda mais sem ser dedurado para o Rei.
— Como vai fazer para evitar os Guardiões? – perguntei. me encarou com uma superioridade que me fez querer socar seu rosto.
— Se esquece que somos muitos e que temos parceiros em todos os cantos? – revirei os olhos – Você é feiticeira, pode fazer um encantamento para ser ocultada.
— Os guardiões vão sentir minha presença.
— Prefere escalar as montanhas naquela neve furiosa? Ou encontrar o monstro do pântano?
— Sou poderosa, mas não burra. – dei de ombros – Preferia não ir. – pude ver que o Insurgente achou graça, pois tentou não rir da minha frase. – Certo então, vocês são inteligentes e bacanas, capazes de tudo e... – o carro parou bruscamente, fui com tudo para frente, em cima de , que me segurou enquanto girávamos na pista, quando por fim paramos, ele estava no chão do carro me segurando forte na cintura. Meus cabelos, mesmo presos em uma trança, estavam em meu rosto com a intensidade. – Não me olhe assim, eu não tive nada a ver com isso! – rosnei enquanto via os olhos afiados do Insurgente em cima de mim.
— Você estava me distraindo! – ele estava chocado, como se de fato eu tivesse feito tal coisa.
— Me solte, seu cretino burro! – tentei me levantar. – Estou ofendida por você achar que eu faria isso e o pior de tudo... – fiz uma careta – Dessa maneira ridícula.
— Maneira ridícula, mas você se jogou em meus braços para que eu te protegesse, está certo, princesa. – ele retrucou, minhas mãos levantaram para ir de encontro com o seu rosto, mas a porta abriu bruscamente.
— Comandante! Você está bem? – não precisei virar o rosto para sentir uma arma apontada para a minha cabeça.
— Sugiro que você abaixe essa arma se não quiser que eu a vire contra você, insurgente. – concordou com a cabeça e sorriu ao companheiro.
— Está tudo certo por aqui, obrigado, Marv. – o tal soldado estava pensando se me ajudava a levantar e a sair do carro ou se corria dos meus olhos lilases. – O que houve?
— Um lobo gigante na estrada, entrou na frente da primeira caravana e eles tentaram desviar. A pista está um pouco lisa e...
— Inacreditável. – resmunguei, com os olhos lilases brilhando ao sentir uma onda enorme de magia que não estava acostumada. O primeiro carro estava tombado, mas os soldados não se machucaram. O nosso estava atravessado, quase batemos em uma árvore. O terceiro, atrás do nosso, ilesos no meio da pista, conseguiram parar a tempo.
A magia ali era diferente. Uma mistura dos insurgentes Cinzas ali, os quais eram fortes o suficiente para lutar com qualquer um que aparecesse, juntando com o Elementar de água; mas algo estranho fazia meu sangue vibrar. O Bosque Leshy estava próximo. Os animais ali já eram diferentes dos animais normais, com uma força maior do que imaginávamos e o tamanho normalmente dez vezes mais do que o esperado. O Bosque é uma terra santa, o qual somente os Merecedores poderiam entrar, não era à toa, já que os Guardiões tinham a função de proteger aquele solo. Taffeith é um lugar com criaturas poderosas proibidas em viver no nosso mundo. Chegava a ser um pouco cômico, talvez até irônico... os Guardiões deixam os merecedores passar e eles morrem antes mesmo de entrarem em Taffeith.
— Apague esses olhos lilases, princesa. – ignorei as risadas dos guardas próximos, e continuei atenta, olhando em volta.
— Nós não estamos sozinhos. – sussurrei. foi até o carro tombado, que um dos Cinzas estava manipulando-o para que ele voltasse com os quatro pneus no chão. Manipulador de metal.
— Nós, as vozes da sua cabeça e os animais da floresta. – o motorista do carro que tombou falou ao lado de , achando que aquilo faria com que todos rissem. O insurgente podia fazer aquele tipo de comentário, mas não o fez. O que significava que...
Um som terrível grunhiu no meio da floresta à nossa volta. O rugido fez com que se colocasse na minha frente prontamente, os soldados fizeram um círculo em volta de mim, todos procurando e esperando a criatura que estava nos caçando.
— Eu falei que encontraríamos ele. – Marv falou para outro insurgente, nenhum dos dois estavam felizes. – Estão me devendo um barril de cerveja.
— Isso é uma lenda, você tem que parar de ler os contos de terror do Forte! – o segundo retrucou, com a arma apontada para frente. Outro rugido, mais perto dessa vez, fez com que os pelos do meu braço se arrepiassem. Eu sabia que a magia que estava presente ali não era uma loucura.
— A Besta de Orvach. – falei baixo, mais pra mim do que para eles, talvez para aceitar o fato de que as lendas eram reais.
— Isso não existe. – o insurgente engraçadinho que debochou de mim, retrucou. Eu sentia o seu medo e a Besta também. Ela se alimentava daquilo.
— Escutem bem o que eu vou dizer. – comecei a dizer e encarei , ele estava com os olhos azuis turquesas brilhando. – A lenda diz... – engoli seco, sem coragem de dizer em voz alta. Sabia que tinha grandes chances de conseguir entrar na mente de alguém, mas não ao mesmo tempo que entrava na mente de um grupo, mesmo que pequeno. Teria que servir, de qualquer forma. Respirei fundo e tentei projetar na mente de cada um deles a lenda recitada inúmeras vezes antes de dormir. Fora do campo de Painite eu podia usar o meu poder ao meu favor, mesmo que aquilo me deixasse mais fraca depois.
Mesmo usando a magia proibida de novo.
E para a minha surpresa, consegui.
Surge a Besta, e o silêncio se arrasta.
Corpo de tigre, ágil e feroz,
Rabo de raposa, que a noite se esconde em sua voz.
Sua juba, de leão, incendeia o ar,
E suas presas de javali, prontas a rasgar
Dentes de tubarão, afiados com a dor,
Patas de urso, que destroem com furor.
Ela rasteja, alimenta-se da angústia e do medo,
Sua sede insaciável é um tormento sem segredo.
A cada passo, o chão treme, a floresta chora,
Pois quem cruzar seu caminho não verá a aurora.
Amaldiçoada, em sua forma mista,
É a lenda da noite nunca vista.
Com sangue e medo, a Besta de Orvach se sacia,
E quem a enfrenta sabe que é sua última agonia.”
— Vamos todos morrer. – alguém sussurrou.
— Não demonstrem medo. Não se mexam. Não respirem. – falou pela primeira vez. Ele se aproximava, sentíamos os passos da Besta igual a lenda. O chão parecia tremer e as árvores davam passagem para ela se aproximar.
Era a coisa mais estranha que eu já vi, contudo, grandioso. O seu rugido poderia estourar meus tímpanos, fechei os olhos e respirei fundo, tentando esconder o meu cheiro, tentando esconder o medo dos insurgentes.
Mas medo fedia.
— Não. Se. Mexam. – falei entredentes. Ela se aproximava mais e mais. O cheiro dela era horrível, fedia tanto que dava vontade de vomitar ali mesmo, nas patas estranhas de urso. se aproximou mais de mim, como se pudesse me proteger. Vi que água rodopiava em seus dedos, a chuva ameaçando cair com os relâmpagos desenhando o céu ajudavam o seu elemento, mas não imaginava como aquilo nos ajudaria ali.
A besta se aproximou de nós o suficiente para abaixar a cabeça do insurgente debochado e ficar ali, sentindo o cheiro dele.
Até rugir de novo.
O insurgente não se aguentou, apontou a arma e atirou na besta. Aquilo fez com que eu puxasse para o chão e a gente rolasse para longe dos dentes de tubarão da Besta. Os outros insurgentes correram também, mas só se afastaram o suficiente para poder atirar na coisa. Aquilo desestabilizava ela, mas ela continuava forte. tentou afogá-la com uma bolha de água, mas não foi o bastante. O insurgente debochado estava caído em uma árvore depois de ser jogado contra elas com as presas de javali da Besta. Ela encarava e ia atacá-lo com tudo que tinha depois da provocação com a água.
Meus olhos brilharam. Meu corpo esquentou. Olhei para as minhas mãos e fogo roxo surgia.
O meu fogo.
A Besta me encarou. Seus olhos prateados brilharam e aquilo foi o suficiente para tirar a atenção dela de . As patas vinham na minha direção. Uma bola de fogo lhe acertou bem no rosto e a outra em seu rabo, o rugido de dor foi quase ensurdecedor, mas não deixei de atacar as bolas de fogo. Oryach correu até mim tão rápido que previ que seria jogada longe como um bicho vermelho em uma tourada. Minhas costas atingiram a árvore e tive que me obrigar a ficar acordada depois do trauma, vi os insurgentes atirando e atirando, ainda com os truques de água; ela estava em desvantagem, mas continuava forte.
Um raio cobriu o céu, pisquei com força e encarei , que lutava.
— . – gritei, chamando sua atenção. – Os raios.
— Não consigo conjurar raios, princesa! – rosnei, um Elementar de água que não conseguia conjurar coisas básicas da sua natureza, talvez eu não seja a única que deve treinar os poderes. Respirei fundo e me obriguei a ficar em pé. Tudo gritava em mim.
Olhei para o céu. Obriguei a água a dançar sob meus dedos, meu corpo soltava fumaça logo após conjurar fogo. me encarou, formando uma bola de água nas mãos, grande o suficiente para cobrir a Besta. Ele tinha entendido o que eu queria fazer, pelo menos.
Estávamos exaustos.
Quando um raio cruzou o céu, apontei um dedo pra cima, chamando as partículas de energia para o meu corpo. Tinha feito aquilo duas vezes na vida, nunca controlei muito bem a minha mira, mas dessa vez eu tinha que acertar. Era isso ou morte.
Era a morte. O raio atingiu a árvore atrás da besta. E depois um carro do Forte. E depois o chão próximo de .
— Acerta essa porra, , eu não vou aguentar muito tempo! – ele rosnou, os olhos em um azul tão turquesa que eu jamais vira.
Na quarta tentativa, o raio roxo e cinza atingiu a bolha de água com excelência. A besta rugiu de dor e caiu, dura e cheirando a coisa queimada. Caí de joelhos, sentindo toda a eletricidade dos raios passando pelo meu corpo, mas não me machucando. As únicas coisas que conseguia escutar, eram os sons das nossas respirações, ofegantes e aliviados.
Vencemos a Besta de Oryach.
veio de encontro comigo, me ajudou a levantar. Analisando em silêncio tudo que eu fazia e todos os meus ferimentos. Pela primeira vez lutamos juntos contra alguma coisa e fomos uma boa equipe. O grunhido de um dos insurgentes tirou do transe, o que fez com que fosse de encontro com ele e eu o seguisse. O insurgente debochado, que tinha escutado ser chamado por Nahori.
— O que achou das vozes da minha cabeça? – cruzei os braços encostada no carro, com um sorriso irônico, tentando ignorar a dor que me atingia.
— Você nos salvou, alteza... eu... – escutar aquele termo depois de tanto tempo e sem o deboche que estava acostumada me incomodou mais do que eu podia admitir.
– Nunca mais me menospreze, na próxima vez eu deixo você ser lanche de rato. – Antes de me virar para entrar em um dos carros, falei – Vamos embora antes que alguma outra fera nos encontre.
— Ele está muito machucado, precisamos curá-lo. – Marv encarou .
— Vamos limpar as feridas e encontrar o Guardião, ele vai nos ajudar e... – cheguei perto de , me agachando ao lado dele. Podia sentir a magia fraca de Nahori e sabia que a morte daquele homem arrasaria .
— Você consegue curá-lo. – falei baixo, me encarou sem entender.
— Li que elementares de Água podiam curar feridas com água corrente. – era verdade, havia registros, mas nunca encontrei com um para comprovar. – Eu não consigo fazer isso, nunca consegui curar sequer feridas pequenas em mim, esse poder não é para qualquer um, a não ser que seja um Curador.
— Tem que parar de colocar tanta expectativa em cima de mim, princesa, fica muito chato ter que ver seu rostinho bonito decepcionado depois. – revirei os olhos – Vamos seguir viagem e Nahori, aguente até chegarmos. Por favor.
— Achem água corrente. – os insurgentes que estavam ali estavam se movendo em direção aos dois carros para seguirmos viagem, mas pararam quando eu falei. Tinha toda a atenção para mim. – Não duvide de mim depois da Besta de Oryach, . Salve o seu parceiro e vamos seguir essa maldita viagem.
— Arrumem tudo para seguirmos nosso caminho! – ele ordenou, me encarando.
— Marv, Poloch e Igen, procurem um riacho, qualquer coisa com água corrente, o restante continuem a organizar tudo para prosseguirmos viagem. – os insurgentes ficaram divididos do que fazer, agora eu tinha uma voz mais forte ali. – A não ser que queiram deixar o corpo de Nahori no caminho.
No mesmo instante, Nahori gritou de dor. Os três saíram caçando a salvação do amigo enquanto eu tinha os olhos de cravados em mim, com raiva.
— Eu sou o líder dessa missão. – falou, com a voz séria. – Aqui você não dá as ordens!
— Estou farta de líderes burros, não seja mais um. – Nahori deu um pequeno sorriso e depois desmaiou. Aquilo sim me preocupava. Tentei sugar um pouco de sua dor para mim, mas meus poderes estavam escassos.
— Não acredito que vamos perder um homem antes mesmo de chegar ao Bosque! – tentava limpar os ferimentos com um pano.
— Não vamos perdê-lo, você vai salvar Nahori. – eu acreditava muito naquilo. – Se... sobrevivermos a tudo isso, posso te ensinar o que sei sobre o seu poder.
— Sei tudo que preciso. – A ignorância de um homem era algo que custava muito de ouvir, ainda mais sendo de um homem que eu achava que era inteligente.
— Não sabe conjurar raios de uma tempestade, . – tentava falar de uma maneira que não soasse tão ofensiva, os olhos vermelhos dele me mostrava que o homem também estava cansado. – Olha... você quer me ensinar a ter autocontrole e que eu esteja em forma, deixe-me te ajudar a lidar com seu poder.
— Achamos! – Marv gritou, saindo do meio das árvores. – Poucos metros daqui, vamos!
— Está preparada para ser responsável pela morte de um homem? – estava assustado e pela primeira vez, o vi na defensiva por conta do que poderia fazer. Eu me via nele agora.
— Está preparado para ser responsável pela cura de um homem? – rebati e me levantei, observando os homens de carregarem Nahori. Coloquei minha mão no ombro de e o encarei – Nahori já está fadado a morte, você pode mudar isso.
— Sua confiança em mim está ficando sufocante.
— Se alguém tivesse confiado em mim, eu saberia quem sou e o que posso fazer. – Suspirei e tentei não deixar minha voz fraquejar, colocou a mão sobre a minha e se levantou, sem tirar os olhos dos meus – Você é insuportável, mas tem um poder único e... por Astralis, , o seu potencial é gritante! Sinto o seu poder.
— Vamos logo com isso, você estava indo bem até me chamar de insuportável. – não contive a risada e o alívio ao ver o sorriso ladino na cara carrancuda de . – Astralis, sério?
— Não duvido que Ele existe depois da Besta.
Os minutos para chegar até o local onde Nahori estava demorou mais do que eu imaginava, talvez a ansiedade e desespero por ter que salvar a vida de alguém me sufocasse um pouco; imagino que para seja ainda pior. Talvez eu não deveria ter falado na frente de todos os homens da caravana, talvez ele não consiga lidar com o fardo de perder um homem quando eu dei a esperança de que daria certo.
O riacho tinha a água cristalina, tinha borboletas azuis e amarelas sobrevoando as flores em volta. Com tudo que tinha acontecido, não tínhamos visto a beleza do lugar que estávamos.
Nahori estava deitado, com a mão na água, gemendo de dor, Igen e Mary estavam ao lado dele, fiz sinal para que saíssem. não precisava de plateia. Me aproximei do homem ferido e o encarei.
— Feche os olhos, soldado. – ele deu um pequeno sorriso.
— Ao menos você é uma última visão bonita antes de morrer.
— Como faremos isso, ? – se ajoelhou ao meu lado, ignorando a cantada barata do amigo.
— Mantenha-se calmo. Confia em mim e siga minha voz. – meu tom era leve, rezava para que os livros que li não fossem mentira. No fim das contas, temos que acreditar em nós mesmos. — Agora é você com seu poder. Faça a água tomar o rumo do que você quer! Você a domina, , não é ela que te domina. Concentre-se.
👑
Respirei fundo, várias e várias vezes. Minha intimidade com a água vem desde que me entendo por gente, tinha uma intimidade como se ela fosse... meu lar. Sempre correu pelas minhas veias. Comecei a sentir a energia da água corrente, a serenidade do riacho que contrastava com a urgência do momento. Fechei os olhos me concentrando no fluxo constante e tranquilo da água cristalina.
Estendi a mão sobre a superfície e, mesmo de olhos fechados, sabia exatamente que pequenos redemoinhos suaves refletiam a luz do sol. Visualizei a energia vital da água indo para Nahori, torcendo para que ela curasse suas feridas e restaurasse sua força.
— Isso é fascinante. – escutei sussurrar. – Continue, , mantenha a calma. Canaliza a energia da água, o poder de cura está nela. Você é o intermediador. Deixa-a fazer todo o trabalho. – a voz dela me acalmava mais do que eu poderia admitir.
Podia sentir a água fluir em direção a ferida de Nahori, envolvendo seu corpo. Os gemidos de dor se transformaram em alívio.
— Respire. – não sabia se ela falava comigo ou com ele, mas nós dois respiramos – Nahori, deixe a energia da água restaurar seu corpo.
Abri os olhos, a cor da pele pálida estava saindo do rosto de Nahori, voltando a cor de antes lentamente. O corte e hematomas estavam desaparecendo mais rápido do que eu conseguia acreditar, ele não sofreu como sofreria se estivesse com um Curador. Aquilo era quase como uma mágica. A água ao redor brilhava com uma luz suave.
— Você conseguiu, – murmurou, em êxtase. – Ele está se recuperando. – sorri, exausto, sentindo o suor escorrendo pela minha testa, meu corpo implorando por um lugar para dormir. — Eu te disse que daria certo!
— Precisamos... levá-lo para os carros, precisa se recuperar totalmente e...
— Vamos montar o acampamento por aqui. – pude ver um brilho dourado nos olhos da feiticeira, mas poderia ser minha imaginação, estava cansado demais – Não vamos seguir viagem até vocês dois estarem bem para isso. – Ia protestar, mas a princesa não permitiu nem que eu pensasse na resposta – Você canalizou hoje. Isso acabou com tudo que você tem e não serve nem para um combate corpo a corpo. Confie em mim agora: vamos descansar. – tinha razão. Precisamos descansar. Já vai escurecer e é de uma irresponsabilidade sem tamanho seguirmos a viagem nessas condições. – Eu... eu também preciso descansar.
— Fomos uma boa dupla hoje. – me sentei ao lado de Nahori, que respirava melhor, mas ainda com olhos fechados. – Você lutou bem.
— Não quero lutar com outra Besta, vamos logo montar o acampamento e levantar os escudos – ela sorriu e se levantou – Fico no primeiro turno.
— Genrick pode fazer o escudo e Igen faz o encantamento... Mary fica no primeiro turno. – falei, me levantando e com ajuda de , levantamos Nahori, que pareceu acordar sem ar nos encarando assustados. – Bem-vindo de volta, soldado.
— Tethyron. – ele sussurrou e desmaiou de novo. pareceu estar em choque por alguns minutos até que eu tive coragem de chamar sua atenção.
— O que diabos...
— Vamos... chega de magia por hoje. – nos arrastamos juntos para os carros, o grupo estava ali. Todos apreensivos. Logo Igen e Ganrick vieram até nós para carregarem Nahori – Abram o mapa, vamos atrás de uma clareira e descansaremos para seguirmos viagem. – encarei a Besta caída e exalando o fedor de queimada. Não acredito que vencemos isso.
— Não seguimos suas ordens – Mary cruzou os braços.
— Ela salvou sua vida, soldado. – falei entredentes, sentindo minha voz sair mais enfurecida do que eu pensava – provou estar ao nosso lado, salvando-nos quando poderia fugir e encontrar uma brecha no Tratado. – encarei a feiticeira ao meu lado, que mantinha a expressão neutra e inabalável – Você conseguiu o meu respeito, princesa.
— Conseguiu mais do que meu respeito, . – Nahori falou, baixinho, ainda sendo escoltado por Igen e Ganrick – Você ganhou a minha gratidão e a minha... lealdade. Custe o que custar, protegerei você até o fim. – Nahori encarava e em seguida, me encarou – Você sempre teve minha gratidão e lealdade, Comandante, mas agora... eu te devo minha vida.
— Obrigada, soldado. – respondeu depois de alguns segundos em silêncio e encarou o restante do grupo. Cada soldado presente naquela estrada abaixou a cabeça, o máximo de reverência que conseguiam fazer. Éramos contra a Coroa, mas esse sinal mínimo era um respeito que qualquer um merecia logo após uma atitude heroica.
Não pude deixar de notar um suspiro de alívio, quase imperceptível.
Algo mudou hoje.
Pra todos nós.
Capítulo 28
👑
— Ah, não, eu não quero você aqui! — resmunguei, entrando na tenda improvisada, ainda encharcada após meu banho no rio próximo ao acampamento. A água fria tinha sido revigorante, mas agora, com os pés cansados e o corpo exausto, eu mal podia manter os olhos abertos. Forcei os escudos de ilusão ao redor do acampamento, uma medida necessária para garantir a nossa segurança. Embora o campo estivesse protegido, e os outros cinzas também estavam em ação, lançando suas pequenas magias de abafamento e escudos, reforçando a barreira que nos cercava.
Nahori estava deitado na tenda ao lado, ainda inconsciente. Deixei ordens claras para que me chamassem assim que ele acordasse. Eu precisava de um pouco de paz, nem que fosse por alguns minutos. Mas esse era um luxo que eu sabia que não teria por muito tempo.
— A liderança fica com a liderança, meu bem. — A voz de soou com uma leve provocação, como sempre. Revirei os olhos, irritada, enquanto começava a me vestir. Coloquei a armadura sobre a blusa branca e gigante que usava para dormir, tentando ignorar o cansaço que me consumia.
— O que aconteceu com o seu uniforme? — perguntou ele, me virei e notei que a armadura dele estava no chão. Ele parecia... diferente. Exausto também, mas com uma confiança que eu não podia ignorar.
— Está secando. Não tenho a mínima vontade de ficar cheirando a baba de Besta. — Eu disse com um sorriso travesso. Coloquei minhas armas ao lado do colchão de ar e me sentei ali, começando a pentear os cabelos, tentando organizar meus pensamentos. – E você está podre! — O desafiei, sentindo o peso da luta do dia e da tensão acumulada.
— Seu cheiro há dez minutos também não estava muito diferente. — Ele respondeu, fazendo careta, e não pude deixar de rir, mesmo que fraco. Eu sabia que estava tão cansada quanto ele, e provavelmente com o mesmo cheiro de terra e suor há dez minutos. – Irei tomar meu banho gracioso para poder recuperar as energias e ficar com o cheiro agradável para a vossa alteza e...
— Nosso momento de trégua já passou, , ainda te odeio e... – falei, me virando pra ele e o encontrando com um sorriso malicioso nos lábios.
— Não me odeia, não. — Ele cortou, sua expressão cheia de presunção. — Se me odiasse, não teria me ajudado a salvar o insurgente que estava duvidando de você!
— Como já disse inúmeras vezes, mas vocês insistem em ignorar, cretino... Sou poderosa, mas não sou burra. O que significa que eu tento não tomar atitudes burras. Ou seja, te ajudar a salvar a vida de Nahori foi também um teste, para ver se você só faz showzinho com água ou se consegue realmente usá-la para algo mais. — Respondi, com um sorriso de canto, tentando manter a calma, mas ele havia tirado a parte superior de seu uniforme e, com isso, exibindo seus músculos bronzeados, um corpo perfeitamente esculpido pelos deuses. Era impossível não olhar, mas me forcei a não fixar o olhar.
— Sou o único da minha espécie, sem mentor para me ajudar a me aprofundar no meu poder, e seu povo queimou tudo que eu poderia usar ao meu favor. Então não seja tão soberba ao falar sobre o que eu posso ou não fazer com minhas mãos... te garanto que não sabe nem a metade. — A forma como ele disse aquilo, com um tom de desafio, fez uma risada escapar de mim antes que eu pudesse segurar. Coloquei uma mão sobre a barriga, rindo de verdade, como se fosse a primeira vez em dias que algo realmente me fazia sorrir. Quando finalmente parei, vi o olhar desconcertado de .
— O que foi? — Perguntei, ainda com um sorriso nos lábios.
— É estranho te ver... sorrindo. Ou rindo de verdade. — A confissão dele me pegou desprevenida, e confesso que me diverti com sua reação. Ele parecia um pouco... perturbado, o que só aumentava minha diversão.
— Conheço uma pessoa que poderia te ajudar bastante com os seus poderes. — Falei calmamente, voltando minha atenção para o que realmente importava. — . — Ele franziu a testa, esperando que eu explicasse. — Ele também sabe fazer coisas incríveis com as mãos.
— O engomadinho feiticeiro? — se soltou em uma gargalhada que quase me fez revirar os olhos. O nome "" sempre gerava reações assim, mas eu sabia a verdade. Ele não entendia, e provavelmente nunca entenderia.
— Ele é o único que domina a água com maestria, . Nem mesmo meu pai é tão gracioso com esse elemento. — Terminei de pentear meus cabelos e os deixei soltos, encarando , tentando ser o mais sincera possível. — Eu domino o fogo, e mesmo assim, tenho facilidade em usar outros elementos. O pouco que sei sobre o seu elemento, farei com que você saiba também, , mas é o único que pode realmente te ajudar.
Ele me observou em silêncio por um momento, como se tentasse pesar minhas palavras. Vi a frustração se espalhar em seus olhos, e eu sabia que ele estava lutando contra a ideia de confiar em mais alguém. Não seria fácil para ele, assim como não seria para mim.
— Uma pena que não saberei muito sobre mim então. — Ele disse, a voz baixa, a frustração ainda visível. — Fico grato por estar disposta a me mostrar o que sabe sobre o meu povo.
— E eu por você me ajudar no autocontrole. — Respondi com sinceridade. Ele deu um sorriso sem mostrar os dentes, o que de alguma forma me fez confiar um pouco mais nele.
— Vá logo se livrar desse jeito horrível, está deixando a cabana impregnada de fedor de Besta. — Brinquei, tentando aliviar a tensão que pairava entre nós. Ele sorriu, talvez pela primeira vez sem a sombra de sarcasmo, e saiu da tenda sem mais palavras.
👑
— Comandante , fizemos a ronda noturna. Está tudo sob controle, sem ameaças à vista. — Lucas falou por trás de mim, logo após eu sair do lago, ainda com a água escorrendo pelo meu corpo.
— Não me chame assim. — Resmunguei, movendo-me com a familiaridade de quem já não precisava de muito esforço para manipular a água ao redor. Com um simples gesto, as gotas se desprenderam de minha pele, caindo suavemente, como se soubessem o que fazer. Era uma habilidade que eu dominava desde os cinco anos.
— Sinto muito por não ter feito mais no campo, com a Besta. — Ele disse, com uma frustração evidente em sua voz, mesmo sem me encarar. — Mas estou ajudando nos encantamentos do alojamento, pelo menos.
— Você fez o suficiente por não ter se machucado, meu amigo. — Sorri para ele enquanto me vestia com a túnica. O céu estava tingido com nuances de roxo e laranja, sinalizando o fim do dia. A noite se aproximava e, naquele momento, o céu parecia mais bonito do que qualquer outro que eu já tivesse visto. Não se comparava ao do Forte, que sempre tinha algo de pesado e cinza.
— Não queria ter que lidar com a fúria de Angelique caso te perdesse. Não me perdoaria.
— Bom, agora você consegue curar os feridos também. — Lucas sorriu e colocou a mão sobre meu ombro, um gesto de apoio. — E sem dor. Isso é enorme, . Você é grande demais.
— Não acredito nisso até agora. Parece que Nahori vai acordar com sequelas ou morrer a qualquer momento. — Balancei a cabeça, ainda em choque pelas sensações que senti ao curá-lo com a água. A energia pulsava dentro de mim como nunca antes, cristalina e poderosa. Era como se cada partícula do meu corpo estivesse repleta de uma força desconhecida. A experiência me deixou abalado.
— Ele está bem e respirando. — Lucas sorriu, mas seus olhos estavam fixos na água à nossa frente, como se procurasse algo mais profundo nela. — Eu escutei o que falou sobre o príncipe.
— Ela só disse aquilo porque está com saudade do noivo! — Respondi, revirando os olhos. Eu sabia que era mais do que isso, mas preferia não falar sobre os sentimentos de naquele momento.
— Não acho que seja só isso. — Lucas balançou a cabeça, pensativo. Ele não era um homem de muitos poderes, mas era o melhor estrategista que eu conhecia. Por isso, tinha sido escolhido para nos acompanhar. Sua inteligência em planejar nossa logística era inquestionável. Ele se achava minúsculo, mas para mim, ele era gigantesco. Gigantesco para a Causa. — A princesa estava tão disposta a te ajudar com seu poder. Ela também viveu anos de desconhecimento, . tem o poder dentro de si, mas ninguém pode ensiná-la a domá-lo. No fundo, ela tem quem pode te ajudar. Acho que é algo que devemos levar para a nossa liderança, e...
— Não podemos sequestrar outro membro da realeza só para me transformarem em uma arma. — Interrompi, a voz baixa, mas firme. Eu sabia o que Lucas queria sugerir, mas isso estava além do que eu estava disposto a aceitar.
— Você já é a arma. — A resposta dele foi seca, direta. — Todos nós somos armas dentro dessa Causa, mas você e Angelique são os únicos grandes o bastante.
— Temos outros elementares em outros fortes, Lucas. — Sussurrei, olhando ao redor para me certificar de que ninguém pudesse ouvir. Eu não queria que mais gente soubesse dos nossos planos.
— Como é? — Ele parecia atordoado.
— Outros membros da liderança estão recrutando elementares. — Olhei para ele, meus olhos vazios, sabendo bem o que aquilo significava. — Ainda não estamos fazendo isso no Forte, mas é só uma questão de tempo.
— Então vamos esperar a missão acabar. — Lucas me encarou, sério. — Quando tudo terminar, pedimos que indique nomes para o recrutamento do Forte.
— Ela não vai ajudar nisso. — Respondi com um tom quase impaciente. Eu sabia que Lucas odiava esses sequestros tanto quanto eu. Mas era a única forma. Por mais que nos custasse a alma. — Não quando... quando matamos quem não quer participar.
— Temos que tentar. Esse é o próximo passo. — Ele cruzou os braços, apoiando-se contra uma árvore, seus olhos focados no horizonte. — Não podemos nos atrasar perante aos outros Fortes de Howslan.
— nunca vai nos perdoar por isso, Lucas. Não pedirei isso a ela. — Falei com firmeza, os olhos ameaçando se tornar turquesa. Eu sentia uma raiva crescente dentro de mim, mas não deixei transparecer. Lucas podia não entender, mas eu sabia exatamente o que estava em jogo.
— As perdas estão sendo grandes demais para não recrutarmos elementares. — Lucas balançou a cabeça, perdido em seus próprios pensamentos, com certeza calculando as possibilidades para melhorar nossa estratégia. Eu podia ver o conflito em seus olhos, mas ele também sabia o que isso significava para a Causa.
— Nós lutamos sem poderes! — Eu disse, com uma frieza que cortava. Ele engoliu em seco, o impacto das minhas palavras caindo sobre ele. — Não pedirei isso para , e quem fizer isso, vai se ver diretamente comigo.
— Não precisa ser o defensor dela, . A princesa sabe se defender muito bem sozinha. — Lucas soltou um suspiro pesado e passou a mão pelo rosto, como se estivesse tentando se acalmar. — Angelique tem razão.
— Razão em quê? — Perguntei, sem conseguir esconder o desconforto na minha voz.
— Você tem que parar de sentir o que quer que seja que sente por ela. — Lucas falou com uma seriedade desconcertante. Eu congelei por um instante, mas ele continuou. — A princesa já tem o noivo. Eles estão vinculados por sangue, e ainda não sabemos como o pacto deles funciona. Além disso, sabemos que, para destruirmos a Coroa, um membro real tem que morrer.
— Sim, Byron. — Falei, tentando ignorar tudo o que ele disse antes. Eu já estava em outro lugar. A raiva e o desgosto que sentia por aquele pacto ainda queimavam dentro de mim.
— O mais forte dos feiticeiros vence, . — Ele disse, seus olhos agora sombrios. Fechei os meus por um momento, tentando encontrar algum tipo de clareza. Quando os abri, vi vapor subindo da água.
— Obrigado. Ao menos tomarei um banho na água quente. — Eu sorri sem humor, tentando esconder a tensão que se acumulava dentro de mim.
— Espere para entrar quando eu não quiser socar sua cara. Não quero que morra cozido. — Ouvi a risada dele ao fundo, mas a leveza não me alcançou. Não estava com o bom humor necessário para suportar aquilo.
— Não sou seu inimigo aqui, somos irmãos, . — Respondeu, com a voz baixa, mas cheia de verdade. — Crescemos juntos, inseparáveis. Quero o seu bem, mas ... ela é a sua destruição.
O silêncio se fez pesado entre nós, e por um momento, eu não sabia mais o que pensar.
👑
— Isso é um ultraje! — A voz de meu pai ecoou pelos corredores do Palacete de Água, seu grito rompendo a calma que sempre reinava naquele lugar. Seus olhos, agora tomados por um brilho branco que eu detestava, estavam fixos em Byron. — Seus rebeldes atentaram contra a vida do seu herdeiro, do meu herdeiro e da minha Coroa! Eles estão por toda parte, agindo de todas as maneiras possíveis contra você e os seus, e não vejo nenhuma ação sua para evitar isso.
A pressão no ar parecia densa, quase palpável. O ambiente, que antes estava imerso na tranquilidade das pedras preciosas e cristais que decoravam a sala, agora transbordava tensão.
— Tomo medidas todos os dias, Conrad! — Byron respondeu, os dentes cerrados, mas sem perder a compostura. — Fique grato, ao menos, que no seu país essa raça ainda não atacou. Se soubesse o quão sorrateiros eles são, talvez estivesse agindo diferente.
A fúria de meu pai parecia crescente, suas palavras mais afiadas a cada segundo. Ele não gostava de ser confrontado, especialmente não por Byron. Aquele homem tinha sido escolhido para ser nosso aliado, mas a desconfiança que meu pai nutria por ele era quase palpável desde o desaparecimento de .
— Capturamos alguns, e vamos torcer para que vivam e nos digam algo. — Charles interveio, buscando trazer uma espécie de equilíbrio para a discussão. Ele parecia compreender a importância de cada palavra dita naquele momento. — Conrad tem toda a razão de estar furioso. Poderíamos ter morrido.
Aquilo fez o ambiente se acirrar ainda mais. Eu sabia o quanto ele se preocupava com os soldados, com todos ao seu redor, mas meu pai não se deixava comover tão facilmente. Não quando a Coroa estava em risco.
Fui até a mesa, os cristais sob meus pés parecendo brilhar com uma intensidade irreal. Respirei fundo antes de finalmente falar.
— Devemos entrar com um protocolo de treinamento corpo a corpo, sem poderes, para nossos soldados e elementares. — A voz saiu firme, carregada de urgência. — O povo de Howslan e o povo de Lennox, até mesmo o povo de Jade. Não somos nada sem nossos poderes, e eles conseguem inibir qualquer traço de poder de qualquer um de nós.
A sala silenciou por um momento, todos os olhares agora voltados para mim. Sabia que minha sugestão não seria bem recebida, especialmente por Byron, mas a realidade das batalhas recentes não podia mais ser ignorada. O poder dos inimigos estava crescendo e, sem a habilidade de nos defender fisicamente, seríamos facilmente derrotados.
Roger, com os olhos pensativos, foi o primeiro a reagir.
— Implantarei essa regra. — Ele disse, e eu senti um alívio momentâneo. — Determinem seus melhores soldados para a luta corporal, e que eles façam com que o combate corporal seja letal no campo de batalha. — Seus olhos se fixaram em Charles e em mim, como se esperasse nossa confirmação.
Concordei com um aceno, mas algo ainda estava em minha mente, algo que eu precisava esclarecer.
— Também quero acesso direto com o melhor Sábio do seu reino. — Meu olhar se encontrou com o de Roger. Ele parecia não esperar por essa demanda, e uma expressão desconcertada passou por seu rosto. — Devemos procurar um antídoto contra o painite.
O nome da substância era como uma lâmina afiada, cortando a tensão no ar. O painite era a principal ameaça ao nosso povo. Sem poder sobre nossos elementos, éramos praticamente indefesos. Não podíamos permitir que continuassem utilizando esse veneno contra nós.
— Isso pode levar anos, ! — Byron balançou a cabeça, com um tom de frustração evidente enquanto Trinidis anotava tudo. — E nos custará muito dinheiro e tempo!
A sala estava tão silenciosa que o som de sua respiração parecia ecoar. Eu sabia que essa era uma proposta arriscada, mas não podíamos esperar mais.
— Cada minuto sem ação é um passo mais perto da nossa queda! – minha voz saiu fria, como o elemento que eu dominava, a temperatura da sala abaixou, como uma geleira. Trinidis se remexeu na cadeira, desconfortável. – Você é inútil sem o seu poder, e sua Coroa não te ajudará se um dia te silenciarem de novo. — A dureza em minha voz fez todos os olhos se voltarem para mim. Não queria ser agressivo, mas a situação exigia isso. — Toda tentativa é válida. E tentaremos todas as possibilidades.
Aquelas palavras saíram com mais força do que eu imaginara, mas não podia mais voltar atrás. Meu pai, apesar de seu temperamento explosivo, parecia perceber a gravidade da situação. Ele não respondeu imediatamente, mas seus olhos ainda estavam furiosos.
— Está certo, todas as possibilidades. — Ele finalmente murmurou, como se estivesse cedendo a uma pressão interna que não podia mais ignorar. A tensão na sala diminuiu um pouco, mas não o suficiente para aliviar a carga emocional que cada um de nós carregava. Mesmo sabendo que aquilo era apenas uma forma de acalmar o temperamento de meu pai, eu me senti aliviado por, ao menos, termos conquistado essa vitória em meio a tantas derrotas.
Mas a luta estava longe de acabar. O que quer que acontecesse a seguir, eu sabia que as decisões que tomássemos agora moldariam o futuro de todos nós. E o peso da responsabilidade sobre meus ombros nunca pareceu tão grande.
— Agora, precisamos de mais informações sobre os rebeldes. — Charles falou, quebrando o silêncio que se seguiu. — Se conseguirmos infiltrados, talvez possamos virar o jogo a nosso favor.
— Sim, mas não podemos subestimar o inimigo. — Byron respondeu, com um olhar determinado. — Precisamos ser mais estratégicos do que nunca.
E assim, a reunião continuou. O destino do nosso reino dependia de cada uma das palavras trocadas ali, e a pressão só aumentava. O que quer que acontecesse, estávamos em um caminho sem volta. E finalmente, sentia que estávamos no caminho certo para encontrar .
Quando a reunião terminou, dirigi-me para um dos quartos. Não pude deixar de admirar a grandiosidade do local. Os cristais cintilavam, e o chão de vidro, com a água fluindo sob nossos pés, criava um efeito hipnotizante. As esculturas, meticulosamente esculpidas, e os animais com pelos brancos e olhos penetrantes pareciam ter saído de um conto encantado. Era tudo deslumbrante.
Eu viveria ali sem hesitar, mesmo sabendo que provavelmente derreteria aquele lugar na primeira oportunidade. Mas, com nossos temperamentos tão opostos — quente e frio — talvez fosse a opção mais sensata. Longe de Byron. Embora fosse irônico que aquele refúgio perfeito fosse o mesmo escolhido para Charles.
A vida de um futuro rei ou rainha raramente está realmente nas mãos de quem a carrega. e eu fomos destinados um ao outro desde o momento em que ela nasceu. Não era uma escolha nossa, mas, ao que parece, o destino tinha outros planos. E cá estamos nós. Alguns têm sorte, outros não. Eu prefiro acreditar que tivemos sorte.
Deitei-me na cama e, quase sem perceber, o sono me tomou.
👑
Cosmic Love - Florence + The Machine (tradução/legendado) - YouTube, coloque para tocar.
O ar estava frio, muito frio, mas, de fato, eu não o sentia. Permanecia de pé em um lugar que não conseguia identificar. Estava escuro, iluminado apenas pela luz da lua, que se espalhava sobre o cenário, revelando uma visão tênue de torres de cristal ao longe, um lago gigantesco, árvores e um belo jardim traçando o caminho.
Olhei para cima — e, por um instante, meu coração parou.
Eu estava no Palacete de Água.
Não costumava visitá-lo com frequência, mas, na infância, esse era um dos nossos destinos favoritos. E agora ele estava exatamente como eu me lembrava.
Um assobio cortou o silêncio, e os pelos do meu pescoço se arrepiaram.
Era . Ele estava ali.
Vasculhei o lugar com o olhar, ansiosa, desesperada para encontrá-lo, rezando a todos os deuses que conhecia para que, desta vez, pudesse vê-lo e tocá-lo. Era o meu maior desejo.
Sem hesitar, corri entre os arbustos, o coração batendo descompassado, a sensação de proximidade crescendo a cada passo. Mais um assobio — e desta vez, não consegui conter o sorriso ao vê-lo. Lá estava ele, deitado sobre o gramado verde, à beira da água.
O cabelo bagunçado pelo vento, a camisa social branca amassada e solta para fora da calça preta. Descalço. Lindo. Extremamente lindo.
— ... — minha voz saiu fraca, enquanto tropeçava em uma pedra.
Eu estava tendo outro daqueles sonhos reais. Sonhos que me transportavam para o momento presente, mas que não me permitiam pertencer ao cenário. A frustração era habitual, mas, desta vez, o fato de ter tropeçado me deixava inquieta. Aquilo parecia... diferente.
— Quem está aí? — ele perguntou, com frieza, sem mover um músculo, exatamente como o feiticeiro letal que sempre foi.
— Quase fiquei com medo — respondi, sem esconder o sorriso, desejando com cada fibra do meu ser que ele pudesse me ouvir.
O príncipe se sentou de súbito, paralisando, como se o ar lhe tivesse sido arrancado. E eu fiz o mesmo, caindo de joelhos atrás dele. Os olhos marejaram e minha garganta ardeu. abaixou a cabeça, sussurrando algo, convencido de que estava enlouquecendo. Eu, por outro lado, apenas o encarei. Ali, diante das costas largas do homem por quem ainda era apaixonada — o homem que eu deixara no altar.
Hesitante, levantei a mão para tocá-lo. E, ao fazer isso, senti um alívio imediato. Sorri, de novo. Eu o sentia. Não como antes, não como se estivéssemos realmente no mesmo espaço, como nos dias de castelo. Mas o sentia.
— Estou louco. Alucinando. — ele sussurrou, balançando a cabeça, passando a mão pelo rosto, buscando uma explicação.
Minhas mãos vagaram do ombro até o pescoço dele, tão lentamente quanto o tempo que parecia ter congelado.
— Estamos loucos e alucinando juntos, Rei medroso. — sussurrei.
se virou para mim. Seus olhos azuis brilhavam. A barba por fazer, o rosto mais maduro — ou apenas mais marcado pelo peso dos últimos três meses de sequestro. Ainda era ele. O meu .
— Oi, .
— Como... como isso é possível? — ele murmurou, ainda em choque, examinando cada traço do meu rosto. — Isso não é real.
— Eu te sinto — respondi, levando sua mão até meu rosto. Ele não desviava o olhar. Eu tremia, meus olhos marejados, mas o coração batia firme. Era real. — É muito leve, quase imperceptível... mas te sinto.
— Não existe nenhum registro de pactos de sangue permitindo teletransporte entre cônjuges — ele murmurou, cético, balançando a cabeça, tentando negar o que seus próprios sentidos já confirmavam.
— Não somos quaisquer cônjuges, — sorri, tocando seu rosto, me aproximando. — Somos eu e você. O casal mais poderoso do nosso século. Surpreende que seja possível, mas não que nós sejamos os primeiros.
— Isso não importa agora. Eu só quero aproveitar o tempo que temos — ele sussurrou, encostando a mão em meu rosto e se aproximando ainda mais, sem desviar o olhar. — Depois descobrimos o porquê. Agora... você está aqui.
— Você está aqui — repeti, sentindo seu toque, mesmo que sutil, aquecer minha pele.
Quando ele me puxou para um abraço, a força do gesto me fez esquecer qualquer dúvida. Não importava se aquilo era real ou não — eu não trocaria aquele momento por nada.
— Onde você está? Diga-me. Eu vou te resgatar, . Destruirei o mundo se for preciso — ele disse, afastando-se o suficiente para que eu pudesse ver a sinceridade em seus olhos.
Ali, senti o peso da traição. A história dos Insurgentes, o meu pacto com a Causa... e, diante de mim, estava o homem que eu amava, o homem que eu havia deixado no altar, e a quem eu não podia contar a verdade.
— ?
— São tantas coisas, ... — desviei o olhar, tentando não fraquejar. — Preciso que confie em mim. Estou bem, para todos os efeitos.
— Isso não basta pra mim. Alivia, mas não basta — ele disse, e o tom frio voltou. Eu compreendia. Se fosse o contrário, eu teria destruído reinos para salvá-lo. — Eu confio em você, mas preciso saber. O que está acontecendo?
— Eu sou mais útil onde estou do que ao lado da Coroa — respondi, baixando os olhos. — Eu sou... muito poderosa.
— Isso não é novidade, meu amor — ele sorriu, o sorriso que sempre tirava meu fôlego, ajeitando minha franja atrás da orelha.
— Não, . Eu sou muito poderosa — insisti, e meus olhos marejaram ao sentir o gosto amargo da traição de meus pais no próprio castelo. — Eu era controlada. Alguém me dopava, impedindo que eu acessasse todo o meu poder. E agora...
— Você é uma bomba. — Ele entendeu imediatamente, como se tivesse lido meus pensamentos. — Eu vi você conjurando aquele dragão. Sempre senti as mesmas coisas que você quando algo grande acontecia. Nunca soube onde você estava, nunca vi um rosto, uma pista, nada. Mas eu te senti. Cada vez mais forte. Imbatível.
— E eu vi você, . Em campo. Contra os Insurgentes. Saindo do Palacete — sussurrei, arregalando os olhos, percebendo que não era alucinação. Era real. Nosso pacto estava ativo.
— Eu te senti — ele disse, sorrindo antes de beijar minha testa, demorando-se ali.
— Eu preciso tanto de você.
— Nós vamos dar um jeito. Eu vou encontrar você. E, até lá, vou descobrir quem te dopava, e como te ajudar a controlar esse poder — ele me puxou de volta para seu peito, me envolvendo em seu abraço seguro.
Sempre disse que o castelo não era meu lar, que não pertencia à realeza, que era uma peça deslocada tanto ali quanto entre os Insurgentes. Mas, ali, nos braços de , eu entendi o verdadeiro significado de lar. Ele era o meu lar.
— Te prometo dar mais informações quando nos encontrarmos de novo — murmurei, sabendo que encontraria um jeito de dizer algo sem me queimar por traição. — Mas não conte a ninguém sobre isso.
— Pelo menos preciso acalmar nossas mães e seu irmão — ele disse, e meu peito se apertou ao lembrar de Ophelia, Thomas, Candace e Claire. Meu time. — Eles precisam saber que não estamos nos destruindo por não suportar o Pacto.
— Não ainda, — segurei firme sua mão. — Não até eu ter certeza de que vocês estão realmente seguros.
— São os Insurgentes, não é? — O silêncio que se seguiu foi doloroso.
— Qualquer coisa que eu disser pode me matar. E também a vocês. Não quero perder ninguém, . Por favor, não faça mais perguntas. Não me obrigue a mentir para você.
Ele suspirou, sentindo minha pele aquecer, mesmo à distância.
— Que as estrelas apaguem, que as sombras avancem... — ele começou encarando-me com resignação.
— Meu caminho sempre te alcança — respondi, recitando o juramento inacabado que não dissemos no altar. — Que o tempo quebre, que o mundo sangre...
— Minha busca nunca cessa. Que as coroas caiam, que os deuses silenciem...
— Meu juramento é você — ele sussurrou, tocando minha têmpora com os lábios. — Que o céu se parta, que o chão desabe...
— Meus passos seguem teu nome.
levantou meu queixo com delicadeza e disse:
— Que a eternidade seja o castigo, que a ruína seja o preço...
— E ainda assim, eu te escolho.
Ele sorriu — aquele sorriso que me fazia esquecer do mundo — e, então, me beijou.
Capítulo 29
👑
Quando abri meus olhos, percebi que tudo não se passava de mais um sonho — ou seria uma projeção astral? — e eu ainda dormia na tenda do acampamento improvisado. Uma sensação estranha se instalou em meu corpo quando percebi que algo poderia estar errado no Palacete de água. Mas o que, eu já não sabia responder. Bom, de qualquer forma, eu teria que descobrir como controlar esse tipo de... situação.
Imagina só as coisas que poderíamos conquistar tendo o do nosso lado? — tendo em mente que, para isso acontecer, eu teria de convencê-lo a se juntar a Causa.
Me levantei do saco de dormir, me sentando no chão e estralando meu pescoço, e logo avistei o elementar de água de costas para mim deitado em outro canto. Provavelmente dormindo.
Um sorriso ladino se fez presente em minha boca quando, em um movimento das minhas mãos, fiz a terra sob seu corpo como areia movediça, o engolindo aos poucos. Um truque dos elementares verdes, mas que eu poderia fazer até certo ponto. Sabia que aquilo seria uma tortura para o insurgente.
— Está na hora de acordar, bela adormecida! — falei alto, após perceber que o insurgente continuava dormindo. Depois de alguns segundos sem resposta, fiz o chão voltar ao normal e cheguei mais perto. O saco de dormir à sua volta estava encharcado; sua testa, franzida, continha gotas de suor e eu podia jurar estar vendo fumaça saindo de seu corpo. Quando coloquei a mão em sua testa, ela estava pegando fogo. –— ? — Em um dado momento, comecei a ficar preocupada com o que poderia estar acontecendo.
Estava dando leve socos em seu corpo, a fim de acordá-lo de seja lá qual transe ele estava, quando, em um momento muito estranho, algo me puxou para dentro de seu sonho.
Estávamos de volta na floresta, atravessando-a com a intenção de chegar a Taffeith quando um estrondo ao longe chamou nossa atenção. Por um momento, tudo ficou meio desconexo, mas logo avistei ao meu lado, em posição de defesa como se estivesse esperando por algo.
— Estávamos te esperando, vossa Alteza!
Uma voz grave, que causou um arrepio na minha espinha, falou para nós. Olhei para frente, tentando reconhecer a pessoa — ou criatura, não conseguia identificá-la, afinal, ela era um grande borrão escuro — que se dirigia a nós, quando percebi que ela não olhava para mim.
Ela falava com .
Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, fui puxada de volta à realidade.
— , o que você está fazendo?
Ao abrir os olhos, assustada e sem entender muito o que houve percebi que, na verdade, eu não havia levantado do saco de dormir, tudo ainda estava no mesmo lugar, , com seus olhos verdes; me encarava, tão assustado quanto eu. Talvez ele tivesse percebido que algo estranho havia acontecido.
Eu tinha entrado no sonho dele.
O que diabos estava acontecendo comigo?
Em um momento eu encontrava em um tipo de sonho-vínculo e no outro, invadia sonhos alheios?
Aquilo era um presságio? Encontraríamos aquilo em Taffeith?
— O que houve, ? — perguntei, tentando parecer menos abalada do que de fato eu estava.
— Me diz você. — Ele arqueou a sobrancelha. — Você estava no meu sonho. — ainda me fitava como se pudesse arrancar as respostas direto da minha alma. Os olhos verdes dele estavam intensos, mas havia algo mais, uma sombra de medo que ele tentava disfarçar. — Você estava no meu sonho, — repetiu, mais baixo desta vez, como se o simples ato de nomear aquilo desse poder ao ocorrido.
— Eu… não sei como aconteceu — minha voz saiu mais firme do que eu esperava, embora por dentro eu me sentisse em frangalhos. — Achei que era só mais uma projeção. Mas havia algo… alguém… lá dentro com você.
Os ombros de enrijeceram. Ele desviou o olhar, como se buscasse no silêncio da madrugada uma resposta que não ousava dividir comigo.
— O borrão escuro? — perguntei, forçando-o a encarar a verdade que ambos testemunhamos.
Ele fechou os olhos, respirando fundo, e por um instante o ar do acampamento pareceu ficar mais pesado.
— Não era apenas um borrão — disse por fim. — Aquilo tem um nome. Já o encontrei antes, nos corredores mais sombrios da minha mente. É um arauto… e não deveria ter me alcançado aqui.
Um arrepio percorreu minha espinha. Arauto. A palavra parecia pulsar no ar, carregada de presságio, um sinal de que algo maior está vindo.
— Erebus? — arrisquei, lembrando-me das histórias sussurradas pelos feiticeiros, de como certas presenças podiam assombrar os vivos mesmo sem corpo físico. Mais uma das milhões de lenda, igual a Besta.
não respondeu de imediato. Quando o fez, sua voz estava impregnada de um peso que não combinava com sua idade:
— Se foi ele… então Taffeith não será apenas um destino. Será um julgamento. — Ele odiava admitir que acreditava nas lendas.
O silêncio que se seguiu foi sufocante. O fogo baixo da fogueira crepitou como se tivesse medo de se apagar.
Eu me aproximei um pouco mais, instintivamente. Apesar da provocação inicial, havia algo em que me inquietava — e agora, essa conexão forçada entre nossos sonhos nos unia de uma forma que eu não conseguia nomear.
— … — minha voz quase se quebrou, mas consegui sustentar o olhar dele. — O que exatamente esse arauto quer de você?
Ele demorou a responder, e nesse intervalo percebi o suor escorrendo pela sua têmpora, o punho cerrado sobre o lençol encharcado. Quando enfim falou, foi em um sussurro que me gelou os ossos:
— Ele disse que estava me esperando.
👑
O amanhecer chegou devagar. A neblina ainda abraçava o acampamento, dando ao lugar uma aura de silêncio e expectativa. se manteve próxima, observando cada gesto meu, mas não disse nada sobre o que havia ocorrido durante o sono. Talvez fosse melhor assim; no fundo, eu também não tinha respostas para tudo.
O cheiro da terra molhada misturava-se com o aroma da fumaça residual da fogueira. Cada passo nosso sobre o solo úmido fazia um som abafado, e o movimento da caravana atrás de nós parecia se dissolver na quietude da floresta. Havíamos passado a noite reforçando defesas, cuidando de ferimentos e garantindo que a Besta — ou o que restava dela — não pudesse nos surpreender de novo. Eu podia sentir o olhar dela, , como se tentasse adivinhar cada pensamento meu, mas também como se estivesse avaliando o próprio impacto de ter invadido meu sonho. Um gesto sutil, uma tensão no ombro, e percebia que algo dentro dela mudara. Algo mais profundo que uma simples curiosidade.
Segurando a adaga no cinturão, avancei primeiro, abrindo caminho com passos firmes. O bosque diante de nós parecia menos amigável do que na memória de qualquer mapa ou roteiro: árvores retorcidas, troncos irregulares e sombras que se prolongavam como dedos sobre o chão úmido. Cada ruído me deixava alerta. Havia algo na serenidade dessa manhã que me parecia errada. Havíamos largado os carros-fortes assim que nos aproximamos da área perigosa que o mapa indicava, escutava Lucas reclamar no fundo, mas sempre observando atento, igual nossos parceiros.
Foi quando o sentimos.
Primeiro como um calafrio que subiu pela coluna, depois como um silêncio absoluto que engoliu até o som de nossos próprios passos. Ele estava à nossa frente.
O guardião.
Quando o vimos pela primeira vez, achei que era frágil, quase despretensioso. Pequeno, magro, curvado, seus olhos completamente brancos refletiam nada. Nenhuma íris, nenhuma pupila. Olhei de relance para e notei a respiração dela prender, mas ela manteve a compostura. Aparentemente inofensivo, com a pele pálida e ossos delicados sob a túnica escura e simples, ele se apoiava numa vara de madeira que mais parecia um cajado de andarilho do que uma arma. Mas havia algo no ar — um peso, quase tangível, que dizia: não subestime.
Ele falou, e a voz era baixa, suave, quase monótona. Mas cada palavra carregava uma força que me fez estremecer.
— Vejo que chegaram. — Não olhou diretamente para nós. — O bosque conhece suas intenções, mas não se engana facilmente. Sentimos vocês.
Cada sílaba era um golpe, não físico, mas moral e mágico. A sensação era de que se eu ousasse pensar em enganar ou forçar qualquer caminho, ele saberia antes que minha mente ousasse formular o plano.
— Sou — falei, tentando não demonstrar a inquietação que a presença dele provocava. Mantive os ombros eretos, a adaga firme no cinturão. — Estamos a caminho de Taffeith. Precisamos passar.
O guardião moveu a cabeça lentamente, como se estudasse não só minhas palavras, mas minha alma.
— Taffeith não é lugar de viajantes apressados. Não por caminhos fáceis ou florestas densas, mas por julgamentos que cada um carrega consigo. — Ele fez uma pausa, e mesmo o silêncio carregava autoridade e encarou , ou a alma dela. — Muitos entram; poucos entendem o preço de cada passo.
respirou fundo ao meu lado. Senti sua mão quase tocando a minha, mas não se moveu. A tensão entre nós era silenciosa, mas palpável.
— Estamos prontos — disse eu, com firmeza, e a cada palavra, a floresta pareceu responder. Um vento leve percorreu o bosque, como se o próprio lugar ouvisse e testasse nossa determinação.
O guardião sorriu, mas não um sorriso de gentileza. Era o tipo de expressão que prometia julgamento, um aviso silencioso de poder absoluto.
— Então sigam. Mas saibam: o que encontram adiante não responderá a desejos, medos ou dúvidas. Responderá ao que vocês são. — e sumiu. Simplesmente sumiu. Uma trilha se abriu diante aos nossos olhos.
— Fácil assim? — sussurrou para mim. Lucas e os outros foram nos seguindo, atentos. Nahouri estava cem por cento, melhor até que eu e . Igen e Mary estavam cobrindo as laterais. Ganrick e Lucas estavam à nossa frente, logo atrás do Guardião. Nahouri protegia , como havia prometido.
Atravessamos o primeiro tronco caído, e senti o peso da responsabilidade. estava ao meu lado, ainda silenciosa, seus olhos um pouco lilases brilhando com determinação e receio. A cada passo, sentia o arauto, a sombra escura que me esperava no sonho, assombrando minha mente. E, agora, este guardião cegamente implacável parecia o eco daquele presságio.
Eu conduzia a caravana com cuidado, atento a cada som e sombra, enquanto a neblina da manhã se dissipava lentamente, revelando o bosque em toda sua estranha grandiosidade. O caminho até Taffeith não seria apenas físico. Seria uma prova de nosso poder, nossa vontade, e daquilo que estávamos dispostos a sacrificar.
E eu sabia, com cada fibra do meu ser, que nem nem eu poderíamos nos permitir falhar.
👑
O bosque se tornava mais denso a cada passo. A neblina da manhã dissipava-se devagar, revelando troncos cobertos de musgo, raízes que pareciam braços esperando para nos prender, e sombras que se estendiam como mãos inquietas pelo chão úmido. Eu caminhava à frente, sentindo cada detalhe, cada cheiro, cada som — como se pudesse pressentir o que estava à espreita. Mas desta vez o peso não era só físico: havia algo antigo ali, algo que avaliava cada pensamento meu.
estava ao meu lado, atento como sempre, mas o ar ao redor de nós dois vibrava de tensão. Eu podia sentir que o bosque nos testava, nos observava, e não tinha intenção de ser indulgente.
— Eu espero que ninguém tropece — resmunguei, mais para mim do que para qualquer um. — Ou vai ser feio.
Atrás de nós, Igen, Mary, Ganrick, Lucas e Nahouri seguiam em silêncio. Lucas, claro, tentava se manter perto de , sem desgrudar, enquanto Nahouri lançava olhares preocupados para mim, como se a dívida que sentia me colocasse em prioridade.
E então, ele surgiu de novo: o guardião.
Imóvel entre duas árvores antigas, parecendo ter surgido do próprio ar, ele era cego, mas de alguma forma me atravessava com o olhar. Sua presença não era ameaçadora à primeira vista — até você sentir o peso da energia que emanava dele. Segurava uma vara simples, mas eu podia jurar que ela era mais poderosa do que qualquer lâmina que já vi.
— Antes de prosseguir... — a voz dele era baixa e firme, como um eco do próprio bosque — Vocês devem provar de que são dignos.
— Provar? — eu perguntei — Como pretende testar guerreiros de Howslan?
Ele sorriu de forma quase imperceptível, os lábios curvando-se de modo sutil, mas carregado de ameaça.
— Não com força bruta, nem sua magia, Vossa Alteza. — Ele sabia quem eu era. — O seu sangue não a libertará do que está por vir — senti um arrepio após uma folha verde e seca voar em meu rosto, propositalmente. se aproximou de mim. — O Discernimento. A Coragem. A Verdade. São essas coisas que vão provar que são dignos.
— Merda... — escutei Igen resmungar. a calou apenas com um olhar.
— Estamos juntos nisso — disse ele, não sei se mais pra mim ou pra ele.
De repente, o bosque começou a girar. Pequenas ilusões surgiam: sons de vozes familiares, vultos que lembravam rostos de pessoas queridas, até mesmo o aroma de coisas esquecidas. Eu tive a ilusão do meu maior pesadelo: eu explodindo tudo em cinzas e fogo roxo, minha família morrendo por minha causa e minha falta de controle.
O grito de Mary foi o suficiente para me tirar do transe. Aquilo era uma distração. A tentativa de nos dividir ou enfraquecer. Respirei fundo, fechando os olhos tentando me alinhar com meus pensamentos reais e verdadeiros, com a minha energia.
Abri os olhos e sim, era um teste. Os olhos brancos e mortos do Guardião me encaravam no fundo da alma.
— Bom... Apenas dois de vocês passarão — sua voz cortou o silêncio como uma lâmina. — Os demais ficarão aqui.
— O que? Não! — Lucas avançou um passo. Meu estômago apertou, mas a raiva logo tomou conta.
Como ousava decidir por todos nós?
— Eu sou o Guardião. Eu decido pelo Bosque. Eu protejo Taffeith.
Que diabos... ele leu minha mente?
Como uma confirmação, ele sorriu. Os dentes amarelados e podres.
— Não é algo discutível. Observei seus corações e intenções. Apenas dois vão atravessar. Apenas dois estão prontos.
Os outros insurgentes se entreolharam, confusos e preocupados. Nahouri fechou o punho em sua adaga, um juramento silencioso pairando sobre ele: proteger-me e a com a própria vida. Ganrick e Igen estavam tensos; Mary apertava a ponta do seu manto, seu rosto molhado de lágrimas.
Respirei fundo, sentindo meu poder pulsando — imprevisível, indomável, mas contido apenas pelo medo de machucar quem estava ao meu redor.
— Quem são os dignos? — perguntou, firme. — Diga-nos e veremos se aceitamos os termos.
— Apenas quem compreende o seu próprio poder, sua coragem e tem discernimento... — ele repetiu, como se fosse óbvio. — Os outros permanecerão aqui... petrificados... por ousarem entrar no Bosque sem o devido preparo.
Antes que qualquer um pudesse reagir, raízes surgiram do chão, envolvendo Igen, Mary, Ganrick, Lucas e Nahouri. Não os machucava ainda, mas os prendia como se a própria terra os tivesse empedrado e quanto mais eles se mexiam, tentavam lutar... mais preso ficavam.
— Solte eles! — berrou , escutei um trovão. Talvez eu não fosse a única descontrolada ali.
— Parem de se mexer — ordenei a eles, que me encararam. — Confiem em mim.
Eles fizeram um gesto de aceitação, os olhos cheios de determinação e preocupação. Lucas, perto de , resmungou algo, mas a raiz o manteve firme. Eu sabia o que passava pela mente deles: não aceitariam ser abandonados, mas também não poderiam arriscar quebrar as regras do guardião.
Eu olhei para , que estava com os olhos brilhando em um turquesa ameaçador.
— Vamos resolver isso — garanti. Eu era uma herdeira da Coroa. Sabia negociar e os Guardiões são frutos dos meus ancestrais. — Que tal um trato? Solte os insurgentes, deixe-me seguir até Taffeith e lidar com as consequências dos desafios. Ninguém se machuca, eles não levam nada daqui, apenas o ensinamento de que precisam estar prontos para lidar com algo como o Bosque.
— Eu não vou te deixar sozinha — grunhiu, me encarando como se aquilo fosse o maior absurdo que existisse.
— Um trato, princesa? — o Guardião balançou a cabeça. A expressão impassível. — Ninguém ousa fazer tal coisa.
— Não sou como os que passaram — falei, acreditando naquilo. — Sou melhor.
— Está certo... — ousei ficar calma, mas ele não deu trégua. — Apenas se houver cumprimento de um desafio.
— Outro? — resmungou.
— Aceito desde que eles fiquem seguros — ele riu. O Guardião riu.
— Nem escutou meus termos, . — Dei de ombros e bufei, impaciente. — Você vai atravessar o bosque sem que a verdade do seu poder cause destruição. Em circunstância alguma, sem hesitar, sem arrependimento. Independente do que encontrar no caminho.
Respirei fundo, sentindo o poder tremendo dentro de mim. Aquele lugar aflorava as energias na minha veia, sabia que tinha algo grande ali, a energia de cada um ali me eletrizava. Contudo, eu estava determinada. Era isso ou a morte.
— Você disse que apenas dois passariam — não permitiu que eu respondesse. — Eu vou junto.
— Não imaginei que você a deixaria, Thetyron — o Guardião suspirou. — Duas passagens para o Bosque, endereçadas a e .
— Você deve ficar seguro com os outros — resmunguei, apertando seu braço.
— Não vou deixar você sozinha — retrucou da mesma forma. — Aceitamos o trato.
— Fechado. Seus amigos ficam seguros e vocês seguem. — O guardião ergueu a vara e uma leve onda de energia percorreu o bosque, liberando os amigos. Eles caíram ao chão, respirando aliviados, mas ainda chocados. Lucas me lançou um olhar de reprovação misturado com gratidão; Nahouri sorriu de forma torta, ainda sentindo a dívida de gratidão. — Muito bem, — disse o guardião, os lábios se curvando em um quase sorriso — o acordo está selado. Cumpram o desafio, e Taffeith será seu destino. Falhem, e os laços que os prendem ao mundo se romperão.
Eu olhei para , sentindo a tensão vibrando entre nós dois.
— Então é agora — murmurei, o sorriso travesso voltando. — Ou controlamos o poder… ou morremos tentando.
Continua...
Nota das autoras: Os fãs estão felizes? Ta aí o refresquinho... Aguardo aqueles comentários que fazem a gente ficar feliz, entenderam?? Beijos, Mari e Mi.
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