Última atualização: 08/11/2018
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Prólogo


— Vovó, será que você poderia contar de novo a história dos deuses? — pediu, juntando as mãos. — Por favor, por favor!
— Mas é claro, minha linda. — Agatha se sentou na cama da sua neta e começou a contar uma de suas histórias favoritas.
— Há muitos séculos, quando os deuses ainda dominavam a Terra e andavam entre nós, uma grande guerra se alastrou pelo mundo. Hades e Zeus tiveram uma grande briga que resultou em uma das maiores batalhas conhecida pelos deuses. Zeus trouxe o seu exército, composto de deuses e homens, enquanto Hades convocou um exército dos mortos. A Terra se tornou o campo de batalha dessa guerra, que se alastrou pelo mundo trazendo destruição em todo canto que ela passava. Gaia, Mãe-Terra, vendo os seus dois filhos destruindo tudo o que ela criou e amava, decidiu criar uma nova linhagem de homens que teriam um sangue tão poderoso que seriam capazes de matar seres divinos e até mesmo os deuses, se fosse preciso. Não se sabia da onde eles vieram ou quais eram os seus nomes, tudo o que se sabia era que, por onde eles passavam, eles traziam destruição consigo. Eles ficaram conhecidos como “Os Fávlos”, incapazes de sentir remorso, dor ou compaixão, e o pior, tinham sede de sangue e poder. Gaia se arrependeu amargamente do que fez quando os viu destruindo e matando tudo o que viam pela frente, aumentando o seu exército e marchando em direção ao Olímpio, prontos para trazer uma nova “Idade das Trevas” para a Terra, onde eles seriam os reis. E, quando tudo parecia sem esperança, Gaia viu todos os deuses, principalmente Zeus e Hades, voltando todos os seus exércitos para o exército dos Fávlos e travando uma batalha de mais de dez dias conhecida como “O Cerco dos Deuses”.
— Os deuses ganharam dos homens maus, não foi, vovó? — agarrou-se mais ao seu urso de pelúcia. — Os deuses são muito legais!
— Sim, Hades e Zeus conseguiram derrotar todos os homens maus. — ela acariciou os cabelos da sua neta. — Mas reza uma lenda que um deles fugiu, a princesa Alala Fávlos, e, com ela, a linhagem desses guerreiros foi passada de geração em geração e, hoje em dia, ela está aqui.
— Ela é que nem os homens maus? — disse, arregalando os olhos.
— Não, a princesa Alala era muito mais inteligente que os homens maus e ela sabia que ir contra os deuses era um ato terrível, então ela fugiu para proteger a sua vida e a da sua filha.
— Você disse que ela está aqui, vovó? Onde? — ela olhou para os lados. A avó de sorriu e disse:
— Ela está mais perto do que você imagina. — ela fez carinho na cabeça de sua neta.
— Vovó, o papai e a mamãe voltam amanhã, certo?
— Sim, junto com sua nova irmãzinha.
— Eu não vejo a hora de conhecer ela! Eu vou ser a melhor irmã do mundo.
— E eu não tenho dúvida disso. — ela beijou a testa da sua neta. – Durma com os anjos, meu amor.


Capítulo I


— Você tem um bonitão na sua sessão, . — Emma, minha chefe, disse, fazendo com que eu levantasse meu olhar. Já se passavam das seis da noite de uma sexta-feira, normalmente esse era um dos horários onde a lanchonete não ficava tão cheia, especialmente quando se tratava de homens que pareciam ter saído de uma campanha da Calvin Klein.
— Nossa! E bota bonitão nisso. — Macy, a sobrinha mais nova da minha chefe, disse, fazendo com que eu rolasse os olhos. — Eu faço questão de atendê-lo.
— Eu ainda me pergunto porquê eu te dei esse emprego, o que a gente não faz pela nossa família. — Emma disse, fazendo com que eu segurasse o riso. — , por favor, vá atendê-lo.
— Sim, comandante! — me afastei do balcão, pegando meu bloco de notas e o cardápio. Andei a passos largos até a mesa dele, ignorando todos os meus instintos que diziam para eu dar meia volta. — Olá, bom dia! Bem-vindo à Lanchonete da Emma, como eu posso servi-lo hoje? — eu estendi o cardápio para ele, que virou sua cabeça em minha direção. Ele me olhou de cima para baixo antes de pegar o cardápio.
— O que você recomendaria? — ele perguntou, virando as páginas do cardápio, desinteressado.
— Bem, eu recomendaria o café da manhã completo à moda casa. É uma das especialidades do chefe e um dos mais famosos da lanchonete.
— Ótima escolha. — ele fechou o cardápio e estendeu para mim. — Vocês servem café? — ele estendeu a xícara para mim.
— Sim, trago já a sua garrafa, senhor.
— Muito obrigado, m?? (senhorita) — peguei o cardápio, me virando de volta para o balcão. Emma me entregou uma garrafa e eu coloquei em cima de sua mesa, ele murmurou um obrigado e nem sequer olhou para mim.
— Ele é um pedaço de mau caminho. — Macy começou, fazendo com que eu virasse pra ela. — Quantos anos você acha que ele tem?
— Velho demais para você, Macy. — ela rolou os olhos e cruzou os braços.
— Será que você não poderia ser mais divertida?
— Não! — eu sorri sem os dentes. — Oh, falando em diversão, hoje nós vamos comemorar o aniversário de Millie e, como vocês duas são amigas, você não gostaria de ir?
— Sim! — Macy respondeu, batendo palmas. — Se minha tia deixar, é claro.
— Não se preocupe, querida sobrinha, eu também vou. — o sorriso de Macy desapareceu. Emma levantou a mão e eu bati na mesma.
— Então a gente vai sair com uma dupla de velhas?
— Ei! — eu e Emma falamos ao mesmo tempo.
— Nós estamos muito bem, obrigada. — Emma completou. — Agora vai atender os novos clientes que chegaram, pirralha! — Macy se deu por vencida e seguiu para sua seção.
— Você vai mesmo comemorar o aniversário da Millie? Com direito a álcool e tudo?
— Não se é todo dia que se completa 18 anos, Emma, e Millie tem se aplicando tanto para entrar em uma faculdade.
— Com você como irmã, é capaz de ela ter mestrado e doutorado antes dos 30.
— Millie merece um pouco de diversão na vida, mesmo me colocando a louca algumas vezes.
— Você vai contar a verdade para ela? — Emma disse, fazendo com que eu olhasse para ela.
— Logo depois que ela se formar, hoje eu só quero comemorar o aniversário da minha irmã. — me virei para ela, me apoiando no balcão.
— O pedido está pronto, ! — o chefe disse e Emma pegou o prato e me entregou. Eu andei em passos largos até a mesa do cara de terno florido e coloquei o mesmo à sua frente.
— Mais alguma coisa, senhor?
— Será que seria pedir muito um pouco da sua companhia? — ele tirou os óculos, olhando diretamente para mim. Seus olhos tinham um tom de âmbar que mais pareciam duas pedras preciosas.
— Eu estou trabalhando.
— A lanchonete não está tão cheia, serão apenas cinco minutos. — ele se apoiou na mesa, olhando para mim parecendo que estava desvendando todos os meus segredos com apenas um olhar.
— Deixa a garota em paz, ade?f?? (irmão). — uma voz disse atrás de mim, fazendo com que eu me virasse.
Se o homem sentado já era lindo, o cara que estava atrás de mim ganhava dele facilmente. Ele era alto – o que já era minha eterna fraqueza quando estávamos tratando de homens –, tinha cabelos tão pretos que aparentavam pintados e, claro, perfeitamente bagunçado como se ele não tivesse feito nenhum esforço para que ficasse dessa maneira. Um maxilar tão marcado que poderia cortar algo, os olhos pareciam que tinham duas tempestades dentro deles de tão cinzas que eram. E o que era mais peculiar — além do terno florido que caia perfeitamente em seu corpo, os sapatos que brilhavam como se fosse diamantes e os anéis que ocupavam a maioria dos seus dedos — era a bengala que ele segurava e que claramente não precisava. É, um cara como esse não aparecesse mais de uma vez na vida.
— Oi, irmãozinho, que bom que você veio. — o outro bonitão que estava sentado disse, fazendo com que eu voltasse a realidade. — Eu estava com saudades, vem me dar um abraço. — ele abriu os braços, o que fez com que o outro rolasse os olhos e se sentasse também.
— Desculpe pelo comportamento do meu irmão, ele é carente e precisa de bastante atenção.
— Assim você fere meus sentimentos.
— Você supera. — o bonitão de terno disse, sorrindo largamente. — Será que eu você pode me trazer outra xícara? — ele sorriu para mim e eu apenas assenti com a cabeça, voltando para o balcão.
— Se o que estava sentado já é lindo, o que acabou de chegar é a personificação de deus grego. Uau! — Macy disse, se abanando com um dos cardápios.
— Macy, parece até que você nunca viu homem na vida. — balancei a cabeça, pegando uma xícara. Andei em direção à mesa novamente, colocando a xícara em cima da mesma e me virei para ir embora sem nem ao menos esperar um sorriso de agradecimento.
Para a minha sorte, nas próximas horas, uma onda de clientes passou pela lanchonete, fazendo com que minha mente focasse em outra coisa do que um par de homens bonitos. Nesse meio tempo, os dois foram embora sem nem ao menos pedir a conta e deixaram uma quantidade enorme de dinheiro em cima da mesa, tornando a minha gorjeta maior do que o eu tinha recebido no dia anterior. Eu, claro, não reclamei nem um pouco, mas não podia deixar de me perguntar quem eram aqueles homens.
— Adivinha quem tirou 10 em Álgebra?! — Millie, minha irmã, entrou na lanchonete correndo. Já passavam das dez e, pelo vestido e o salto alto, ela estava pronta para sua festa.
— Verdade? — eu disse, fazendo cara de surpresa. — Não faz mais do que sua obrigação. — ela fez uma cara emburrada e eu a abracei forte pelo pescoço.
— Você é uma sem graça, . — ela se afastou de mim, me olhando da cabeça aos pés. — Por que você ainda não está arrumada?
— Ah, meu turno ainda não acabou, Millie, e como assim não estou arrumada? Eu só preciso tirar o avental e estou pronta para ir. — eu não sei ao certo o que eu disse para deixar Millie, Macy e até Emma ofendidas, mas as três olharam para mim como se eu tivesse cometido o maior erro do mundo.
— Você vai usar isso? — Macy perguntou, fazendo careta e apontando para a minha roupa.
— O que é que tem? É só uma festa. — dei de ombros.
— O quê? — Millie gritou, batendo na bancada. — Só uma festa? É a minha festa de aniversário, , e você vai usar esses trapos?
— Não são trapos, Melinda. Emma, me dá uma ajudinha aqui.
— Impossível, eu ainda estou chocada com sua revelação.
— Ei! Minhas roupas não são tão ruins assim, o que há de errado em uma calça, camiseta e um tênis? Desde quando usar isso para uma festa é crime? — as três olharam para mim como se eu viesse de outro planeta em um silêncio que estava me deixando completamente desconfortável. — Tudo bem, talvez elas não sejam apropriadas para uma balada.
— Não é nenhuma balada qualquer, , é o meu aniversário! O dia mais importante da sua vida! Lembra quando você, toda alegre, soube que ia ganhar esse presentinho dos deuses como irmã? — Millie deu uma volta, com os braços abertos.
— Vagamente, porém, em alguns momentos me arrependo amargamente. — Millie jogou um dos cardápios em mim. — Você quer que eu faça o quê, Millie? Não é como se eu tivesse um arsenal de vestidos à minha disposição aqui e agora!
Sabe aquele ditado que tudo que você fala uma vez volta para te assombrar? Emma, minha chefe e única amiga, era o tipo de pessoa que adorava comprar qualquer tipo de coisa que estivesse em promoção, por exemplo, ela tinha um kit inteiro de esquiagem sendo que nem de frio ela gosta e nem esquiar ela sabe e, como uma boa consumista, ela tinha um guarda-roupa lotado de roupas que ela não precisava.
— Macy? — Emma disse, cruzando os braços e sorrindo para mim. — Fecha a lanchonete que eu tenho uma missão impossível para realizar.
— Missão impossível? Me senti um pouco ofendida, porém sigo firme.
— Fecha a matraca e vem comigo!
Emma me levou ao apartamento que ficava em cima da lanchonete, onde ela e Macy moravam. Depois de um banho digno de uma rainha, Emma, Macy e Millie me ajudaram no quesito maquiagem, cabelo e roupa, o que se resume em eu tirando um cochilo enquanto elas faziam todo o trabalho. Não era primeira vez que isso acontecia e, com certeza, não seria a última.
Quando nós saímos, já era quase meia-noite, o bar que nós tínhamos escolhido era um perto da lanchonete, Inferno era o seu nome e, excepcional essa noite, a maioria das músicas seriam latinas. Depois de uma boa quantidade de drinques, todas já tínhamos um lugar marcado na pista de dança, fazia meses que eu não saia para me divertir e poder finalmente aproveitar uma noite em que a minha maior preocupação era que horas chegava a próxima rodada, era quase uma dádiva divina.
, Emma! — Macy correu até a nossa mesa, segurando dois drinques na mão. — Você não vai acreditar em que eu acabei de ver no bar.
— Quem? — nós perguntamos ao mesmo tempo. Macy e Millie tinham arrumado uma mesa para a gente sentar.
— Os dois bonitões que estavam na lanchonete hoje mais cedo.
— O quê? — perguntei, terminando de tomar a minha bebida. — Sério?
— Que bonitões? — Millie perguntou, meio tonta.
— Antes de você chegar, sua irmã atendeu dois caras que mais pareciam deuses gregos. — Macy se abanou, se encostando na cadeira. — Eu ainda me pergunto como ela não deu em cima de algum deles.
— É porque a é uma velha antiquada que nunca sai de casa para conhecer gente. — Millie me deu língua, antes de soltar uma gargalhada. — Acho que ela nem se lembra mais como é beijar na boca.
— Alguém tinha que criar uma pirralha extremamente irritante e encrenqueira como você. — tirei a bebida de sua mão e tomei o resto. — E, para sua informação, não é só porque você não me vê com alguém, que quer dizer que não acontece. Acontece, muito mais do que você imagina. — me levantei, ajeitando o decote do meu vestido.
— Onde você vai? — Emma perguntou, me olhando surpresa.
— Pegar mais uma bebida. — olhei em direção ao bar, avistando os dois bonitões conversando animadamente. O de olhos azuis continuava com a mesma roupa, mas o de terno parecia que tinha deixado a jaqueta em algum lugar, abandonado a gravata e tinha rolado as mangas até os cotovelos. Se ele já ficava sexy vestido com o conjunto completo, ele ficava melhor ainda sem uma boa parte dele. Que os deuses estejam do meu lado nesse momento, porque eu estou prestes a fazer uma loucura.
Me apoiei no bar ao lado dele, que pareceu não perceber minha presença, acenei ao barman para me trazer uma bebida. O bar estava lotado e parecia que todo mundo tinha decidido fazer seus pedidos na mesma hora, fazendo com que o barman quase ficasse louco e me ignorasse completamente.
— Mas que merda, hein?! — eu disse baixinho, balançando minha cabeça. — Oh, barman! — juntei minhas mãos, assobiando alto, tentando chamar sua atenção, o que foi totalmente em vão. — Pelo amor de Hades, o que uma mulher tem que fazer para conseguir uma bebida nesse bar, hein?!
— Hades? — o bonitão ao meu lado se virou para mim com um sorriso no rosto. — Normalmente, as pessoas chamam por Zeus, Deus, Budah e até Beyoncé, mas você chamou por Hades?
— Eu sempre achei Zeus superestimado, Hades parece ser um cara de boas que foi injustiçado por causa de um filme da Disney. — eu disse, sorrindo de lado enquanto o bonitão apenas me olhava curioso. — Aliás, se Hades é como o Diabo, ele também adora atentar os outros, e hoje parece uma noite cheia de tentações, não acha?
— Definitivamente. — ele se aproximou e continuou: — O que você vai querer beber?
— Se o barman me der bola, um “crown and coke”.
Ele estalou os dedos e o barman parou o que estava fazendo e andou em nossa direção.
— Luke, por favor, traga tudo o que essa senhorita quiser e pode colocar na minha conta.
— Nesse caso, eu quero uma garrafa de champanhe e uma de tequila, hoje é aniversário da minha irmã. — eu disse, me apoiando no balcão e olhando para ele de lado.
— Eu sou . — ele estendeu a mão para mim, que a apertei. — Você se chama , certo?
— Como você sabe? — perguntei, sentindo meu corpo ficar tenso e me afastando dele.
— Eu vi seu nome no crachá hoje mais cedo.
— Oh, é claro. — balancei a cabeça enquanto Luke trazia suas bebidas.
— Está tudo bem? — ele procurou meu olhar, e eu tomei um pouco do meu drinque. — Você ficou tensa de repente.
— Desculpa, é só que... Deixa pra lá. — dei de ombros.
— Não me parece algo pra deixar pra lá. Alguma coisa te incomoda, talvez alguns fantasmas que podem vir te assombrar?
— Algo do tipo.
— Sabe o que é bom para espantar fantasmas?! — ele disse, pegando a minha bebida e colocando em cima do balcão. — Dançar!
— Eu não achei que você fosse o tipo de cara que gostasse de dançar.
— Eu estou prestes a te surpreender, .
Ele me pegou pela mão e me guiou pela pista de dança enquanto eu sorria largamente. Em outra situação, eu não deixaria uma cara que eu nem ao menos tive uma conversa decente me arrastar para a pista de dança, porém, exalava uma aura de positividade, como se tudo ficasse bem se você apenas respirasse fundo e do jeito que as coisas andavam nos últimos dias, ele era o tipo de pessoa que eu precisava naquele momento.
Ao som de Chantaje, da Shakira com Maluma, nós dois dançamos agarradinhos, com uma das suas mãos segurando uma das minhas enquanto a outra se encontrava na minha cintura, nos separando apenas quando tinha a brilhante ideia de me rodopiar pela pista. Claro que, com a quantidade de álcool no meu sistema e o cansaço da jornada de trabalho, fez com que eu quase tropeçasse e gargalhasse alto com a cara de pânico que fazia. E o que falar do cara que parecia mais um deus grego deliciosamente atraente?
Ele era lindo, é claro, um gostoso com um corpo daqueles caras que frequentavam a academia frequentemente e fugia dos estereótipos dos caras que eu conhecia quando sabia todas as letras das músicas que tocavam.
— Você parece saber todas as músicas.
— O que eu posso fazer, eu sou um homem de muitos talentos. — ele deu de ombros.
— Você é realmente um tipo de cara que a gente não encontra todo dia.
— Você não imagina o tanto, . — eu sorri de lado, passando os dois braços ao redor do seu pescoço, o puxando para perto. desceu suas mãos da minha cintura para os meus quadris, me puxando para perto. Eu já podia sentir sua respiração perto do meu rosto assim que nossos narizes se tocaram, meus olhos pareciam hipnotizado pelos seus e eu não consegui desviar o olhar. Eu sabia pelo jeito que ele olhava que ele estava esperando que eu desse o primeiro passo e, como eu não sou nem boba nem nada, coloquei uma das minhas mãos em seu rosto, colando nossos lábios em um selinho demorado.
Eu estava prestes a aprofundar o beijo quando o barulho de vidro quebrando ecoou pela boate e a gritaria começou. Em um impulso, me afastei de e procurei freneticamente por Millie, ela, junto com Emma e Macy, estava de queixo caindo olhando para o cara caído no chão.
— Merda! — disse ao meu lado, fazendo com que eu me virasse para ele. — ??????? (Idiota)! — virei meu rosto para onde ele olhava fixamente para o cara que estava com ele na lanchonete. — Esse idiota que não consegue ficar longe confusão. — balançou a cabeça, começando a andar em direção ao seu irmão, porém, no meio do caminho, ele se virou e andou em minha direção. — Você fez minha noite valer a pena. — ele segurou minha mão, dando um beijo na mesma, antes de voltar a andar em direção ao seu irmão. Entretanto o que me deixou mais chocada não foi o fato de eles dois estarem brigando com mais de dez homens ao mesmo tempo, foi quando, um a um, foram caindo no chão e eu pude ver as tatuagens em seus pescoços. Fávlos.

Andei a passos largos, empurrando Millie e Macy em direção a saída. Emma me olhou confusa e eu apenas sussurrei em seu ouvido a minha recente descoberta.
— Ei, eu quero ver a briga! — Millie protestou, tentando olhar por cima do seu ombro.
— Vamos, Millie, você não deveria estar interessada na briga dos outros.
— Mas eu sempre quis que dois caras brigassem por mim. — Millie fez bico, fazendo com que eu balançasse a cabeça.
— Como assim? Do que você está falando, Melinda?
— O bonitão da lanchonete foi o cavalheiro que me salvou de um desses idiotas de terno, foi por isso que ele entrou em uma briga. — ela riu, me abraçando pelos ombros. — E sabe qual a parte mais engraçada de tudo? Ele estava afim de você, ! Até seu nome ele chamou. — ela gargalhando enquanto eu a colocava dentro do táxi, Emma já estava no banco da frente enquanto Macy estava dormindo encostada na janela. — Como é que alguém confunde o pedacinho do céu que sou eu com você.
— Eu também não sei, Millie. — respondi, vendo-a encostar sua cabeça em meu ombro e fechar seus olhos. Emma olhou pra mim por cima do ombro e eu apenas encostei minha cabeça no banco respirando fundo.
...
— Amanhã a gente conversa, agora será que a gente podia fingir que a noite teve um final feliz?
— Se é isso que você quer.
— Na verdade, é disso que eu preciso no momento.
Amanhã eu terei que encarar uma realidade que eu preferia esquecer. Era como minha avó sempre dizia, você não pode fugir do seu destino, não importa o quão rápido você corra e se esconda, ele sempre te alcança.


Capítulo II


— Promete que vai direto para casa depois que você terminar de comer, Millie? — perguntei, começando a recolher os pratos enquanto segurava o celular entre minha orelha e o ombro.
Prometo. — ela respirou fundo e respondeu.
— Millie, eu estou falando sério.
E eu também, . Nossa! Você está paranoica esses últimos dias.
— Eu estou tentando te proteger, Millie.
De que? De quem? Faz uma semana que você diz que nós precisamos conversar, mas continua evitando o assunto.
— Eu não estou evitando o assunto! — me defendi, colocando os pratos em cima da bancada. Emma olhou para mim e balançou a cabeça em desaprovação. — Tudo bem, talvez um pouco. — respirei fundo, me sentando em um dos bancos. — Mas o que eu tenho para dizer não é algo fácil.
O que foi, ? Você está grávida?
— Não, é claro que não!
Matou alguém? Bateu em alguém? Empurrou alguém da escada?
— Nós conversamos quando você chegar em casa, Millie. Direto. Para. Casa. Entendeu?
Tudo bem, Sargenta.
— Na verdade, General. — olhei para o celular, vendo que Millie tinha desligado na minha casa. — Pirralha marrenta, desligou na minha cara! — coloquei o celular no bolso e me virei para Emma. — Você acredita nisso?
— Me pergunto de quem ela puxou isso.
— Nem tente dizer que ela puxou isso de mim, eu culpo o lado da família da minha mãe.
— Você não os culpa só disso. — Emma disse, fazendo com que meu sorriso desaparecesse. — Você vai mesmo contar a verdade para ela? Você não precisa fazer isso, faz uma semana e ninguém apareceu atrás de vocês.
— Eu já adiei muito, Emma, eu tive muita sorte que eles entraram numa briga com os dois gatos que vieram aqui no outro dia.
— Falando nisso, você não achou isso estranho?
— Não tanto, Giles e Baltazar não são conhecidos por serem discretos e adoram arrumar brigas por onde passam. Deve ser alguma coisa sobre afirmar sua masculinidade.
— Homens! — Emma disse, fazendo com que nós duas déssemos algumas gargalhadas. Na mesma hora, o sino da lanchonete anunciou novos clientes e nós duas viramos para a porta apenas para dar de cara com um dos gatos do outro dia. deu uma piscadela para mim antes de andar em direção a uma das mesas do fundo, ele ainda estava mais atraente do que da última vez que eu o vi, dessa vez seu conjunto era completamente preto e dourado com ilustrações de mulheres pelo terno e calça, sua camisa assim como seus sapatos e sua gravata eram pretos, porém hoje ele segurava uma bengala. Pelos deuses, que homem era esse?! Ele não é desse mundo!
Andei a passos largos em direção a sua mesa com o meu melhor sorriso.
— Boa noite.
— Boa noite. Olá, . — disse, fazendo com que eu voltasse meu olhar para ele. — Gostou da festa?
— Muito mais do que eu imaginava. — ele sorriu de lado e eu mordi o lábio tentando esconder o sorriso. — Você já sabe o que vai pedir?
— Sim, eu vou querer um especial do dia e, claro, uma garrafa de café.
— Tem certeza? Não é muito tarde para tomar café?
— Pode até ser, mas, como um bom viciado em café, eu não posso ficar sem o meu café.
— Tudo bem, sem problema, eu volto já com o seu pedido.
— Obrigada, .
— De nada.
— Na verdade, , eu tenho mais um pedido. — segurou meu braço, fazendo com que eu me virasse para ele novamente.
— O que seria? — respondi, puxando minha caderneta outra vez.
— Que você diga onde estão seus pais.
— O quê? — olhei para ele, surpresa, guardando minha caderneta dentro do meu avental. — Meus pais?
— Sim, seus pais. — ele apoiou os cotovelos em cima da mesa. — Adelaide e Lucian, esses são os nomes dos seus pais, certo? — olhei para Emma, que fez cara de confusa, antes de voltar meu olhar para , tentando manter minha afeição neutra.
— Eu já volto com o seu pedido. — me virei para ir embora, porém ele segurou meu braço mais uma vez.
— É uma simples pergunta, , que, infelizmente, só você pode responder.
— Você quer saber onde estão meus pais? — apoiei minhas mãos na mesa, olhando para ele. — Cemitério Hali, pode procurar à vontade. Agora, se você me der licença, eu tenho que voltar ao trabalho.
Me virei para ir embora, porém ele segurou em meu braço, me puxando e fazendo com que eu chocasse contra seu peitoral. Ele me olhava sério, com um maxilar travado, e, pelos seus olhos, eu podia ver que ele estava segurando sua raiva dentro de si. Ele estava a ponto de perder o pingo de paciência que lhe restava.
— Olha aqui, garotinha, paciência não é uma das minhas virtudes, especialmente em tempos como esse, então eu vou perguntar só uma vez: onde estão os seus pais?
— Eu não sei do que você está falando, meus pais morreram em um acidente de carro há dez anos. E, para sua informação, eu não sou nenhuma garotinha.
Les! (Mentira!) Você sabe que isso não é verdade, .
— Mentira ou não, é tudo que você vai conseguir. — puxei meu braço de volta, me afastando dele. — Eu não vou te contar nada, nem mesmo que você me torture.
— Isso pode ser providenciado. Agora, eu vou perguntar mais uma vez e eu espero a resposta que eu quero: onde estão os seus pais?
Eu estava pronta para respondê-lo com uma série de palavras de baixo calão e um dedo do meio quando algo passou de raspão por mim e acertou em seu ombro. Ele fechou os olhos lentamente e fez uma careta, virando a cabeça para o lado, antes de retirar a adaga de seu ombro e a jogar de volta para o lugar que ela veio. O barulho de metralhadora e vidro quebrando tomou conta do local, fazendo com que eu tampasse meus ouvidos. chutou uma mesa, fazendo com que ela caísse de lado no chão, e passou o braço por meus ombros, me puxando para baixo. Na mesma hora, o outro bonitão apareceu do meu outro lado, fazendo com que eu o olhasse assustada.
— Oh, oi, .
— Como você sabe meu nome também?
— De onde nós viemos, você é quase uma celebridade.
— E de onde seria?
— Se eu te contasse, você não acreditaria. — ele sorriu de lado, porém o mesmo logo desapareceu quando ele olhou para o seu irmão.
— O que você fez agora? — perguntou entre os dentes.
— Para a minha defesa, eles que começaram.
— E a sua função é não dar continuidade, seu imbecil! Esse é um dos meus ternos favoritos!
— Você supera. E, além do mais, é da minha natureza não fugir de uma briga. — balancei minha cabeça, olhando para baixo. Ótimo! Agora eu estava presa em uma lanchonete no meio de uma briga que eu nem ao menos sabia por que tinha começado e não tinha nada a ver comigo. Sua vida não tem mesmo como piorar, .
... — meus pensamentos com certeza eram traiçoeiros, pois logo em seguida escutei a voz de Millie me chamar quase como um sussurro. Olhei para o vidro à minha frente, tentando ver algum reflexo do que estava acontecendo. — , por favor, eu estou com medo. — eu pude ver Millie com uma arma apontada a sua cabeça enquanto alguém a segurava pela camisa. Pelo jeito que seus ombros estavam balançando, ela estava chorando. Droga! Tudo o que eu mais temia estava acontecendo diante dos meus olhos! Oh, meu Deus, como é que eu vou explicar tudo isso para Millie?
— Cala a boca, sua pirralha! — escutei a voz de um dizer antes de continuar: — Ah, há quanto tempo, minha querida , sentiu minha falta?! Eu com certeza senti a sua! — ele soltou uma gargalhada. — Eu tenho certeza que você sabe como isso funciona, me responde onde seus pais estão e nós deixamos a pirralha ir.
— Por que todo mundo acha que meus pais estão vivos? Ou melhor, que eu sei onde eles estão?! — eu gritei, jogando minhas mãos para o alto.
— Porque você sabe onde eles estão, , e se fazer de tola nunca te caiu muito bem. Você sempre foi a minha favorita!
— Se o que você diz é verdade, quem me garante que você só não vai nos matar quando eu disser? — eu gritei de volta, respirando fundo. Eu precisava de uma saída e de preferência uma rápida, em que Millie não se machucasse.
— Você sabe que é muito mais importante do que isso, . — o mesmo cara falou e a minha vontade foi de levantar e fazê-lo engolir cada palavra. — Você tem 60 segundos para decidir.
— Merda! — olhei para baixo, balançando a cabeça. Estúpida, ! Como você pode ter sido tão estúpida de ficar no mesmo lugar por tanto tempo? Se algo acontecer com Millie, eu nunca vou me perdoar.
— Eu estou perdendo a paciência, ! 45 segundos.
Foi naquele momento que eu a vi, como uma luz no final do túnel, no calcanhar de , refletindo como o sol que trazia um raio de esperança. Me estiquei, puxando a adaga e fazendo com que ele me olhasse confuso.
— Me diz que você tem outra dessas. — ele se esticou, pegando outra adaga na sua outra perna e estendendo para mim.
— 25 segundos, ! Ou eu corto o pescoço da sua irmãzinha.
— Quantos você viu? — perguntei, olhando para o irmão de .
— Dez: dois no telhado da loja do outro lado da rua; quatro lá fora e mais quatro aqui dentro.
— Não me diga que você está planejando lutar com esse bando de homens só com duas adagas? — perguntou, surpreso. — Eu sabia que humanos eram estúpidos, mas não a certo ponto. — Ele olhou para o seu irmão. — Ares, você sabe o que fazer.
— Pode ir, eu cuido do resto. Foi um prazer te conhecer, , você é demais. — Ares disse, sorrindo, antes de estalar os dedos e desaparecer em frente aos meus olhos, deixando apenas um rastro de fumaça. Olhei para ainda assustada, porém ele apenas sorriu de lado.
— 10 segundos, ! — balancei minha cabeça, me ajoelhando no chão em frente à mesa e segurando as adagas em minhas mãos.
— O que você planeja fazer com isso? — perguntei, vendo-o segurar sua bengala com suas mãos.
— Muito mais do que você pode imaginar, . O que você planeja fazer com essas duas adagas?
— Algo que eu prometi a mim mesma que nunca mais faria. — me levantei, analisando meu alvo e colocando minhas mãos para trás, escondendo as adagas.
— Ah, minha linda , você ainda está mais linda do que eu me lembro. — Ezequiel bateu continência com sua mão livre, fazendo com que os outros homens que estavam vestido igual a ele fazerem o mesmo. — É um prazer revê-la, General.
— Algo que não posso dizer o mesmo sobre você. — virei as adagas nas minhas mãos, segurando a ponta. — Como sempre é um desprazer estar no mesmo recinto que você, Ezequiel.
— Do meu ponto de vista, eu ainda tenho uma arma apontada na cabeça da sua irmã. — ele puxou o gatilho, fazendo com que Millie fechasse os olhos. — Ops! Não precisa chorar, garotinha, nada vai acontecer com você. A não ser que sua irmã não queira cooperar, aí eu vou ter que fazer algo que eu realmente não queria fazer.
— O que você quer?
— Que você me diga onde Lucian e Adelaide estão, nós precisamos bater um bapo.
— Eu não sei do que você está falando, meus pais morreram em um acidente de carro e você sabe disso.
— Eu odeio joguinhos, .
— Mas eu estou falando a verdade! — eu defendi. — Eu não sei do que você está falando.
Giagiá não vai ficar muito feliz que você não cooperou com sua família, . Nós sentimos sua falta.
— Sentem minha falta? Bem, se dependesse de mim, todos vocês podem ir para o inferno.
— Mas que coisa terrível de se dizer, , nós precisamos de você. — ele puxou Millie para mais perto dele. — Eu aposto que Millie vai ser uma ótima recruta para o nosso exército.
— Só por cima do meu cadáver. — joguei uma das adagas, acertando exatamente no ombro de Giles, fazendo com que ele desse um passo para trás, ele olhou para mim com um sorriso no rosto e eu joguei a outra em sua coxa fazendo com que ele caísse no chão. Pulei por cima da mesa, começando a correr em direção a Millie quando um dos capangas de Giles pulou em minha frente. Ele tentou me acertar, mas desviei com meu antebraço, virando para o lado e acertando seu joelho com meu pé. Ele caiu no chão ajoelhado, tentando me acertar novamente, porém eu segurei seu pulso fazendo com que ele me olhasse assustado enquanto eu o acertava com minha outra mão. Ele caiu desacordado na mesma hora.
— Vejo que você não perdeu o jeito, General. — Giles disse, se levantando e sorrindo. Peguei Giles pelo colarinho, aproximando seu rosto do meu. — Vai me matar, ? Pelo o que eu me lembro, esse era um dos pontos fortes.
— Olha aqui, Giles, eu vou falar apenas uma vez e eu espero que você fique inteiro para poder passar o recado: fiquem longe de mim, da minha irmã e dos meus pais. Se vocês vierem atrás de mim outra vez, eu juro por tudo o que é mais sagrado que eu acabo com cada um de vocês.
— Você pode passar esse recado você mesma. — ele balançou a cabeça e depois me olhou confuso. — Espero que você fique inteiro como assim, ?
Eu apenas sorri de lado, me afastando um pouco de Giles, dei um chute no tronco do seu corpo fazendo com que ele fosse jogado para fora da lanchonete quebrando o vidro da vitrine no meio do caminho.
, desde quando você é o Superman? — Millie perguntou, entre seus soluços enquanto me olhava assustada.
— Por que tem que ser Superman? Por que não a Mulher-Maravilha? — eu rolei os olhos, me aproximando dela. — Isso é história para outra hora. — Me abaixei à sua frente e continuei: — Você está bem? — ela assentiu com a cabeça. — Bom. Agora vamos, nós temos que sair daqui o mais rápido possível.
— Pra onde nós vamos? Quem são esses homens? O que está acontecendo, ?
Antes que eu pudesse responder, nossa atenção foi distorcida quando um grito ecoou pela lanchonete, fazendo com que nós olhássemos de onde ele veio. Segurando o último do bando pelo pescoço, estava , com um sorriso malicioso no rosto. O homem começou a tremer da cabeça aos pés e seus olhos e ouvidos começaram a sangrar enquanto as mãos de ficavam pretas e suas veias douradas, parecendo que ele estava sugando a vida do cara e, como um passe de mágica, em questão segundos o cara que ele segurava virou pó, literalmente.
Ele tirou o pó das mãos da mesma maneira que tirou do resto do seu terno antes de se virar para nós duas.
— Graça aos deuses que não foi mais sangue, essas são manchas difíceis de tirar. — ele ajeitou seu terno enquanto andava em nossa direção. — Esses ternos me custaram muito caro para desperdiçá-los. — ele olhou para seu ombro e pareceu perceber o corte que tinha e grunhiu alto. — Droga, eu já tinha esquecido desse pequeno detalhe!
Então, em um impulso, eu peguei uma adaga no chão e joguei em sua direção, porém, como uma rapidez que eu nunca tinha visto, ele a pegou em suas mãos. Ele me olhou com uma sobrancelha arqueada antes de sorrir de lado.
— Belas habilidades que você tem, , mas vai precisar mais do que isso para acabar com alguém como eu. — ele se abaixou em minha frente, segurando meu queixo para que eu olhasse para ele. — Como você pode fazer isso depois de eu te ajudar a salvar sua irmã? — ele aproximou o seu rosto do meu. — Eu pensei que nós tínhamos algo especial.
— O que você quer? — eu perguntei, me levantando e levando outra adaga junto comigo.
— Com o tempo você vai saber, agora nós precisamos sair daqui. Não é seguro para nenhum de nós.
— E quem disse que eu vou para algum lugar com você? Eu nem te conheço!
— Você não estava reclamando ontem quando nós dançávamos agarrados durante a noite inteira.
— Não, eu não estava. — me aproximei dele, segurando a adaga em minhas mãos. — Então espero que você não se importe do que eu vou fazer a seguir. — Passei a lâmina da faca na palma da minha mão e logo depois agarrei seu pescoço, sorriu, olhando para minha mão e depois de voltando para mim, porém, quando eu comecei a apertar, seu sorriso desapareceu e ele colocou suas mãos no meu pulso tentando tirá-la. Seus joelhos cederam enquanto ele tentava se soltar. Quando eu retirei minha mão, ele automaticamente levou suas mãos ao seu pescoço e me olhou surpreso.
— Se você chegar perto de mim outra vez, eu juro que te mato. — cerrei um de meus punhos e, com toda força que eu tinha, dei um soco nele, fazendo com que ele caísse desacordado. Eu estava certa, esse homem não é desse mundo. Literalmente.
! — Emma entrou pela porta de trás com uma Macy assustada ao seu lado, as duas seguravam submetralhadoras. — Você está bem? — ela olhou ao redor, vendo sua lanchonete completamente destruída e vários homens caídos desacordados no chão.
— Desculpa, eu pago pelo conserto depois.
— Ah, tá. — ela pegou a submetralhadora que Macy segurava e jogou para mim, que a peguei no ar. — O Cafofo está pronto, eu consegui pegar algumas roupas para vocês.
— Você está com o furgão?
— Sim, eu acho melhor nós sairmos daqui antes que os amigos deles comecem a vir.
, mais deles estão vindo. — Millie disse, fazendo com que eu levantasse e olhasse para o lado de fora da lanchonete. — Quem são eles?
— Fávlos. — os olhos de Emma se arregalaram. — Nós temos que sair daqui. Agora!
— Quem são Fávlos? — Millie perguntou, confusa.
— Eu te explico tudo depois, Millie, agora eu só preciso que você me obedeça.
— Você realmente acha que eu vou pra algum lugar com você depois de tudo que eu vi?! Você jogou um cara contra uma vitrine como a porcaria de um super-herói de quadrinho e ainda enforcou outro, o deixando desacordado. E não vamos esquecer que você se cortou de propósito! — ela pegou minha mão e estendeu para Emma e Macy. — , cadê seu corte? — ela procurou o corte na minha mão, levantando meu braço e me olhando assustada. Olhei para Emma, que apenas segurava o riso.
— Oh, Millie, você tem tanto para aprender. — Emma soltou uma gargalhada, fazendo com que eu balançasse minha cabeça.
, o que está acontecendo? Isso é uma espécie de brincadeira? Eu não vou sair daqui sem uma explicação! O que você é, afinal de contas? Você é minha irmã de verdade?
— Melinda! — eu gritei, fazendo com que ela ficasse calada. — Eu já disse que explico depois, agora você vai entrar dentro daquele carro e não vai reclamar de nada.
— Se você acha...
— Cala a boca, Millie! Você não percebeu que isso tudo que aconteceu é mais sério do que você imagina?! Você acha que eu queria que tudo isso acontecesse?! Que eu gostei das coisas que eu fiz?! Eu fiz tudo isso pra te proteger e pra que você tivesse uma vida melhor, porque eu não queria que você se tornasse como alguém como eu! — Millie me olhou com lágrimas nos olhos. — Eu só preciso que você me escute, pelo menos uma vez, e não faça perguntas. Eu vou te contar tudo, mas primeiro eu preciso que você fique segura.
— Tudo bem. — Millie respondeu, sussurrando.
— É melhor nós irmos antes que mais deles cheguem.
Nós seguimos Emma até a parte de trás da loja, onde um furgão antigo estava parado com um logo de alguma loja de construção que Emma provavelmente tinha achado na internet. Segundo ela, um bom carro de fuga era um que passaria despercebido por todos. Eu entrei no carro no banco do passageiro, ao lado de Emma, enquanto Macy e Millie entraram no banco de trás. O Cafofo era um prédio velho que a família de Emma tinha deixado para ela antes de voltarem para sua terra natal. Ele ficava na parte mais afastada da cidade, perto do porto, e na parte de cima parecia apenas mais um armazém enorme com coisas velhas e antigas, mas, na verdade, tinha uma parte subterrânea que serviria de esconderijo se caso um dia nós precisássemos, então, caso esse dia chegasse, nós decidimos equipá-lo com tudo que achávamos necessário, como computadores, camas, comidas e, claro, os mais diversos tipos de armas.
Quando nós chegamos ao Cafofo, eu desci para abrir o portão e logo depois Emma entrou com o carro, fechei o mesmo, checando se não tínhamos sido seguidas e, pelo visto, a sorte estava ao nosso lado. Emma, Macy e Millie desceram do carro e logo depois Emma colocou algumas coisas em cima para aparentar que eles estavam ali há algum tempo. Nós seguimos em direção à parede, onde Emma puxou algum produto de limpeza na prateleira ao lado, fazendo com que um velho elevador de carga aparecesse, nós todas entramos e depois que eu e Emma colocamos nossas digitais, ele começou a se mover.
— Isso é parece um filme de ação assustador e surpreendentemente incrível! Quem sabia que minha tia e sua irmã seriam tão descoladas?! — Macy disse, fazendo com que eu olhasse para ela surpresa. — O quê? É super incrível! — me virei para Emma, que apenas deu de ombros e disse:
— Ela ama filmes de ação, deve ser por isso que não deve ser um choque assim tão grande. — ela cruzou os braços, se virando para mim. — O que eles querem com vocês, ? Eles pareciam saber exatamente onde você estava todo esse tempo e o pior é que sabem que seus pais estão vivos.
— O quê? Nossos pais estão vivos? — Millie perguntou, trêmula, segurando meus ombros. — Mas eu pensei...
— Sim, eles estão, Millie. — me afastei dela. — E, se nós tivermos sorte, você pode falar com eles depois.
— Por que você não me disse antes, ?! Por que deixou que eu pensasse que nossos pais estavam mortos todo esse tempo?
— Eu fiz o que tinha que fazer pra te proteger. — soltei o ar pela boca, olhando para o teto. — Eu nunca deveria ter ficado na mesma cidade por muito tempo.
— Ei, não se culpa por querer ter uma vida normal, se lembra que nada disso é sua culpa. — Emma acariciou meu braço. — O que a gente vai fazer agora?
— Honestamente? Eu não tenho a menor ideia, eu preciso dormir pra colocar minha cabeça no lugar.
Emma empurrou a porta do elevador e logo depois empurrou a alavanca, trazendo energia ao local. No meio tinha um tablado com cadeiras e alguns computadores, Emma fez questão de comprar os de última geração, já que ela era apaixonada por tecnologia e uma hacker de primeira. Do lado esquerdo tinham alguns armários que guardavam alguns tipos de armas, como facas, espadas, arco e fechas e armas automáticas; já do lado direito, nós tínhamos um tatame, alguns sacos de areias com aparadores e luvas e também alvos para arco e flecha. Depois do tablado tinha uma mesa com mais de dez lugares, uma cozinha completa com armários e duas geladeiras, e logo depois o corredor que levava a um espaço do qual pareciam mais um quarto gigante com guarda-roupas médios, várias camas e uma espécie de banheiro coletivo.
— Como vocês conseguiram esse lugar? — Macy perguntou, se jogando em uma das cadeiras.
— Pertencia à nossa família. — Emma respondeu, cruzando os braços. — Os Callas eram aliados da família de Millie e .
— Então vocês duas se conhecem há muito tempo? — Millie perguntou.
— Desde que sua irmã dava as ordens.
sempre foi mandona mesmo. — Millie sorriu. Talvez sua irmã não te odeie tanto assim.
— Você não sabe o quanto. — Emma soltou uma gargalhada. — Que tal vocês duas irem dormir? Vocês devem estar cansadas pela noite agitada, se vocês seguirem pelo corredor, vocês vão achar um quarto enorme, lá tem algumas roupas que vocês podem usar e, se quiserem tomar banho, o banheiro fica ao lado.
— Nós vamos fazer isso, sim. — Macy se levantou, arrastando Millie pelo corredor.
— Bem, elas aceitaram melhor do que eu imaginava.
— Isso é porque eu ainda não contei nada pra Millie, ela me odeia, certeza. — me joguei em uma das cadeiras.
— Quando você contar tudo pra ela, tenho certeza que ela vai entender. Millie é muito mais inteligente do que você imagina, , você só precisa dar um pouco de crédito a ela.
— Eu só não queria que ela se tornasse alguém como eu, Emma.
— Correção: você não queria que ela se tornasse a pior versão que existe de você. — ela se sentou ao meu lado. — O que a gente faz agora, General?
— A gente tenta achar meus pais.


Capítulo III


Fazia anos que eu não tinha uma noite completa de sono e não seria agora, em tempos como esse em que a vida das pessoas mais próximas a mim estava em perigo, que eu ia começar. Quando acordei de um dos piores pesadelos que eu já tive em nos últimos anos, vi que no relógio não se passavam das cinco da manhã. Sabendo que eu não conseguiria dormir novamente, pulei da cama a fim de ocupar minha mente com alguma coisa. Ontem à noite, Emma e eu tentamos de todos os modos possíveis contatar meus pais, nós tínhamos uma linha segura da qual usávamos para nos comunicar caso precisássemos, foi a única maneira que achamos para nos manter informados e ao mesmo tempo não levantar suspeitas, afinal de contas, era mais fácil despistá-los estando em dois lugares diferentes.
Eu sempre imaginei que o dia que eu fosse contar tudo para Millie seria o mesmo dia em que eu não teria mais que fugir e, junto com os nossos pais, nós poderíamos ser uma família completa novamente. Nós explicaríamos o porquê de nós mentirmos todos esses anos, ela ficaria com raiva por um tempo até que um dia ela entenderia e nós seguiríamos com uma vida normal. Claro que nesses anos eu treinei para os piores cenários na frente do espelho depois do banho, porém, lá no fundo, eu tinha a esperança de que nenhum deles aconteceria. Esperança é a última que morre e essa danada deixava você com aqueles gostinhos que as coisas seriam melhores, porém a realidade vinha como um tapa doloroso e aqui estava eu, esmurrando um saco de areia enquanto pensava na melhor estratégia de explicar o quão problemática nossa família realmente é.
— Eu não consegui falar com seus pais. — a voz de Emma fez com que eu virasse para ela e parasse. — Nós não podemos ficar escondidas para sempre. — ela continuou enquanto eu recomeçava a esmurrar o saco, dessa vez com mais força. — O que nós vamos fazer agora, ? Fugir novamente? Tentar encontrar seus pais? , você está me escutando?! — eu dei o ultimo soco no saco, fazendo com que o fundo estourasse e ele começasse a vazar pelo tatame. — Não está mais aqui quem perguntou.
— Eu não sei, Emma. — eu disse, retirando minhas luvas. — Pela primeira vez desde que eu fugi, eu não sei o que fazer, qual é o próximo passo, e o pior, como eu vou contar tudo para Millie.
— Você pode começar contando a verdade. — me virei para o lado, dando de cara com Macy e Millie ambas com os braços cruzados. — Você pode contar como você sabe lutar como a Natasha Romanoff, como você pode arremessar uma pessoa pela janela e estourar um saco de luta com apenas suas mãos. E também não vamos esquecer do mais bizarro: por que diabos você se cortou e usou o seu sangue pra poder enforcar um cara bem maior do que você?!
Theoí?! (Deuses?!) — Emma perguntou e eu assenti a cabeça. — Poia (Qual?)
Den xéro, allá den tha milísoume ta onómatá tous. Boroún na akoúsoun. (Eu não sei, mas vamos evitar falar seus nomes. Eles podem escutar.)
— O que vocês duas estão falando aí, hein?! E desde quando você sabe russo?
— Não é russo, é grego.
— Desde quando você sabe falar grego?!
— Eu falo oito línguas, incluindo insolência, que parece ser sua especialidade.
— Olha quem fala! — ela riu sem humor. — Eu posso ser fluente em insolência, mas é mentira a que você tem mais desenvoltura, você a domina como ninguém. — arqueei as sobrancelhas para Millie e depois para Emma, que segurava o riso.
— Uau! Eu acho que você herdou mais do que sua aparência da mamãe. — eu disse, sorrindo de lado. — Às vezes, nas mais pequenas ações, você lembra bastante as coisas que ela fazia.
— Sério? — eu assenti e ela deu um sorriso triste. — Então por que você mentiu pra mim, ? Por que você deixou que eu pensasse que eles estavam mortos?
— Porque às vezes mentiras são mais fáceis de suportar. A gente nunca quis que você crescesse muito rápido ou que tivesse que passar por tudo que eu e mamãe passamos, por isso a melhor maneira que nós achamos pra que você tivesse uma vida normal foi nos separar. — andei em sua direção, parando em sua frente. — Você tem que saber, Millie, que deixar nós duas sozinhas pelo mundo foi a coisa mais difícil que nossos pais fizeram, mas foi um preço que a gente teve que pagar pelos pecados da nossa família.
— Eu sempre achei que você estava brincando quando disse que eles eram os piores.
— Gostaria eu que eles fossem apenas parentes chatos que fazem perguntas inoportunas, quando eu digo que eles são os piores é porque, literalmente, eles são cruéis. Não é à toa que eles são chamados de Fávlos.
— Fávlos?
— É, esse é o nosso verdadeiro sobrenome. e Melinda Fávlos, vem do grego e, traduzindo para o nosso idioma, “que apresenta perversão de caráter; erro, adulteração ou defeito.”
— Ouch! Isso não soa nada bom.
— Porque não é. — retirei minhas bandagens. — Quando nossos ancestrais foram criados por Gaia, ela tinha uma ideia completamente diferente do que eles deveriam ser, ela pensou que estaria criando uma nova linhagem de humano que não cometeria os mesmos erros dos deuses. Eles eram a linhagem perfeita: meio humano e meio deus, porém, a sede por poder falou mais alto e na primeira oportunidade eles se viraram contra ela pra tomar o poder.
— Essa história parece aquele conto de fadas que a vovó contava pra gente, o Cerco dos Deuses.
— Não era um conto de fadas, Millie, isso realmente aconteceu. Todas as histórias sobre os deuses, sobre os caras maus que querem conquistar o Monte Olimpo, são verdade e esses caras maus são a nossa família. — Millie me olhou assustada e depois soltou uma gargalhada.
— Muito engraçado, , por um momento eu achei que você estivesse falando sério.
— De todas as vezes que eu me imaginei te contando a verdade, nenhuma delas incluía você rindo na minha cara. — Ri sem humor, balançando a cabeça. — Acho que eu não me preparei para os piores como eu havia pensado.
— Você quer realmente que eu acredite que nós somos de uma linhagem de semi-deuses e que Zeus, Hades, Ares e todos aqueles deuses realmente existem?
— Não fala nos nomes deles, eles podem nos ouvir! — Emma falou, balançando a cabeça.
— Eles podem nos ouvir? Isso só pode ser algum tipo de palhaçada! — Millie começou a andar de um lado pro outro. — Parou de brincadeira, ! Eu quero que você me conte a verdade, não algum conto de fadas que você tirou de algum livro qualquer que você leu. Os nossos pais são fugitivos, é isso? É por isso que tem tanta gente atrás deles? Eles cometeram algum crime? Essa história não pode ser verdade, deuses, semi-deuses, família macabra, tudo isso parece muito surreal. Essas coisas não existem!
— Pior que existem, Millie, e nós fazemos parte delas. — andei em direção à parede onde algumas facas estavam penduradas. — Você nunca se perguntou por que seus sentidos são tão aguçados? — me virei para ela, me apoiando no balcão atrás de mim. — Por que você consegue ouvir o choro do bebê no décimo quarto andar mesmo dormindo no primeiro andar? Por que você consegue entender qualquer matéria com mais facilidade do que os seus colegas, mesmo sendo uma adolescente chata, que prefere dez mil vezes ficar no celular do que fazer o dever de casa? Tudo isso tem uma razão, Melinda, você é uma descendente dos Fávlos, parte deus e parte humana, e eu posso provar.
— Como?
Eu apenas joguei a faca que eu estava segurando na direção de Millie, que a segurou pela lâmina com as duas mãos antes que ela acertasse seu rosto. Ela olhou assustada para a faca, deixando a cair no chão logo em seguida e depois virou seu rosto para mim.
— Você está louca? Por que você fez isso? Você está querendo me matar?
— Você não queria uma prova?! Aí está! Nenhum ser humano conseguiria pegar a faca a tempo, já você, descendente dos Fávlos, conseguiu sem nem ao menos piscar os olhos.
— E se eu não conseguisse pegar a faca, ?!
— Eu venho observando você há algum tempo, Millie, eu vi você passar pelas mesmas mudanças que eu passei.
— Isso não te dá o direito de jogar uma faca na minha cara!
— Você acha que eu faria alguma para te machucar intencionalmente? — andei até ela a passos largos. — A única coisa que eu fiz foi te proteger todos esses anos, você não sabe as coisas que eu tive que passar pra que eles não te descobrissem, você acha que foi a única que sentiu falta dos nossos pais? Você acha que eu queria viver uma vida de constante medo, angústia e mentira? Eu não queria, eu nunca quis, porém eu fiz tudo isso porque eu sempre quis que você tivesse um futuro melhor que o meu e não tivesse que passar pelas coisas que eu passei. — eu ri sem humor. — Mas continue acreditando que tudo isso é brincadeira, leva a pagode, porque eu honestamente estou cansada! Quando você quiser escutar toda a verdade, eu estarei no meu quarto.
Me virei para ir embora, porém logo parei quando escutei um som o qual eu não escutava fazia um bom tempo.
? Melinda? — eu poderia estar no meio de uma multidão, mas eu reconheceria a voz da minha mãe de longe, especialmente quando eu sentia tanto a sua falta. Me virei para a tela do computador e andei a passos lentos em sua direção, Millie estava sentando em frente ao computador com os olhos cheios de lágrimas e com a mão na boca. — Meu Deus, Melinda, você está uma mulher tão linda! — minha mãe disse, sorrindo em meio às lágrimas. A última foto que eu tinha mandado de Millie para os meus pais foi no seu aniversário de 17 anos, antes de nós perdemos contato, então faziam meses que eu não os via nem que fosse na tela do computador. Eu podia dizer que, mesmo nos meus vinte e cinco anos, já vivendo essa vida de fugitiva desde os 15 anos, não tinha me acostumado nem um pouco a ficar longe dos meus pais.
— Olá, minhas korítsia(meninas)! — meu pai apareceu atrás da minha mãe com um sorriso no rosto. Seu cabelo estava longo, chegando até os ombros, sua barba estava comprida e ainda por cima usava óculos, fazendo com que ele ficasse completamente diferente. Minha mãe também tinha mudado: seus cabelos, que antes estavam pretos, agora estavam azuis e na altura do queixo. Eu sabia que os dois mudavam constantemente de aparência por conta de estarem sempre fugindo, era uma das estratégias que eles usavam para despistar quem estava atrás deles. Até eu, uma vez ou outra, mudava um pouco o meu visual apenas por precaução. — Uau! Melinda, você cresceu tanto. Você está bem, filha? — meu pai sorriu de lado, fazendo com que Millie também sorrisse e assentisse. — Como anda na escola? Tirando notas boas?
— Apenas nove e dez.
— Que bom, minha filha. Já pensou em qual faculdade vai cursar?
— Eu estava pensando em fazer medicina, eu sempre gostei de cuidar dos outros, e biologia é minha matéria favorita. — olhei para Millie um pouco assustada. Ela sempre me disse que estava indecisa em relação ao qual faculdade ela queria fazer, porém, acho que ela já tinha decidido.
— Medicina, uau! — meu pai olhou para mim. — Isso é incrível!
— Não olha pra mim, eu não sabia de nada. — respondi, me encostando na cadeira atrás de mim.
— Não tente negar tudo o que você fez todos esses anos, , se Millie está aqui pensando em cursar uma faculdade, está indo bem na escola e ainda por cima está segura, foi graças a você. Nós estamos orgulhosos de você, ou melhor, de vocês duas. — meu pai abraçou minha mãe de lado. — já te contou tudo, Millie? Sobre os Fávlos?
— Contei e ela riu na minha cara, disse que não passava de uma história de um livro qualquer.
— Bem, se você contar o fato de que eu estava escrevendo esse livro até conhecer sua mãe.
— Então é verdade? — Millie olhou para mim antes de voltar o olhar para a tela do computador. — estava falando a verdade? Nós somos mesmo semi-deuses?
— Nós queríamos estar aí com vocês pra te contar tudo, mas agora, mais do que nunca, nós precisamos que vocês fiquem seguras.
— Aconteceu alguma coisa? — eu comecei, me aproximando da tela do computador. — Eles conseguiram achar vocês também?
— Por pouco nós conseguimos escapar.
— Fávlos? Que família?
— Sim, Martin Giles e alguns outros recrutas que eu não reconheci. — minha mãe cerrou os olhos, virando sua cabeça para o lado. — ? Como assim “também”? Eles conseguiram achar vocês?
— Ezequiel Giles, irmão mais velho de Martin, conseguiu nos achar.
— Vocês conseguiram escapar, pelo visto.
— Os Fávlos são os menores dos nossos problemas agora.
— Como você pode dizer isso, , quando é por conta deles que nós estamos separados.
— Você não vai gostar nada do que eu vou dizer a seguir. — respirei fundo e continuei: — Deuses, eles estão atrás de nós também.
— Deuses? — minha mãe gritou do outro lado da tela. — Você tem certeza, ? Você tem que ter absoluta certeza do que você está dizendo.
— Eu nunca tive tanta certeza na minha vida. Um deles desapareceu na minha frente em um piscar de olhos enquanto outro, literalmente, sugou a vida de um homem na nossa frente. Eu não sei quem são eles, mas eles também estão atrás de vocês. Eu acho que ele sabe o que vocês estão fazendo e, como eles não conseguiram achar vocês, eles vieram atrás da gente.
, chegou a hora.
— Mãe...
, ela é a única que pode te ajudar e eles são a sua única maneira de chegar até ela.
— Mãe, se você acha que eu vou confiar em algum deus, você está completamente enganada. Eu não vou pedir ajuda pra um bando de deuses meia boca que se acham o centro do mundo. Foram eles que começaram toda essa história, se eles não tivessem sido tão imaturos, nada disso teria acontecido e nós poderíamos ser uma família de verdade. E quem me garante que eles não são que nem os Fávlos? Ou até pior do que eles?
— Assim você fere meus sentimentos, .
Em um piscar de olhos, eu estava em pé com uma adaga em cada mão enquanto Millie estava ao meu lado, segurando a adaga que eu tinha jogado nela. Emma segurava uma espingarda enquanto Macy apenas nos olhava, assustada. levantou os braços como sinal de que estava se rendendo enquanto seu irmão segurava uma espada em sua mão. Deuses com toda certeza, mas quais?
— Eu vim em missão de paz. — ele afastou um pouco a cabeça, olhando para o computador atrás de nós. — Olá, Lucian e Adelaide, exatamente quem nós estávamos procurando.
— Quem são vocês? — minha mãe perguntou. — O que vocês querem?
— Acho que vocês já sabem quem nós somos. E nós queremos a mesma coisa que vocês: colocar um fim nessa história para que todos nós possamos seguir com as nossas vidas.
— Desde quando os deuses se importam com o bem-estar dos outros além deles mesmos?
— Desde que o mundo é mundo e muito antes de você nascer, .
— Bem, deveriam ter pensado nisso antes de sair por aí brigando pelos quatro cantos do mundo, obrigando Gaia a criar uma nova raça de humanos. Se nós estamos nessa situação, a culpa é completamente de vocês. — o sorriso de desapareceu, fazendo com que eu sorrisse de lado. — O que foi, , meu querido?! Eu toquei em alguma ferida? Ou será que a verdade dói muito mais quando se é culpado?
— Você não sabe do que está falando.
— Eu sei exatamente do que eu estou falando. — comecei a andar em sua direção, apertando a lâmina da adaga na palma da minha mão. — Afinal de contas, é a história da minha família. — parei em sua frente, fazendo com que seu irmão levantasse sua espada. — E sabe o que mais eu aprendi, que até deuses podem cair de joelho pedindo misericórdia. — deixei a adaga cair e estendi meu braço em direção ao pescoço de . Ele foi mais rápido e segurou meu pulso. Ele me puxou para perto, fazendo com que eu chocasse contra seu peito, colocando meus braços para trás.
— Não tão rápido, Fávlos. — ele sorriu de lado, vendo meu sorriso desaparecer. — Você não tem ideia de com que está se metendo.
— Me solta e a gente pode tirar a prova.
— Uau! Eu sabia que não deveria ter me voluntariado pra vir. — o irmão de disse, guardando sua espada e olhando para o seu irmão. rolou os olhos e me soltou, se afastando de mim enquanto eu fiquei entre ele e seu irmão. — Olha, nós não viemos aqui pra desafiá-los e muito menos ameaçá-los. Tanto vocês, Adelaide e Lucian, quantos nós estamos procurando a mesma coisa: um jeito de acabar com os Fávlos. — ele olhou para a tela do computador, falando diretamente com meus pais. — É difícil admitir, acho que tanto pra nós como pra vocês, mas chegou a hora de nos juntarmos pra destruir o nosso inimigo em comum.
— Quem garante que nós podemos confiar em vocês?
— Ninguém. — ele deu de ombros e continuou: — Do mesmo jeito que ninguém garante que nós podemos confiar em vocês. Afinal de contas, sua família vem tentando acabar conosco e ficar no poder muito antes mesmo de vocês nascerem.
— Se nós nos ajudarmos, vocês garantem que vão proteger nossas filhas? — minha mãe perguntou, apreensiva.
— Nós não precisamos de guarda-costas, nós podemos nos cuidar muito bem, obrigada. — eu respondi antes que ele pudesse responder.
— Eu sei disso, , você fez um trabalho incrível, mas até as melhores pessoas tem que admitir quando precisam de ajuda.
Mãe... — minha fala foi interrompida pelo o barulho de explosão vindo do andar de cima, fazendo com que todos nós tomássemos um susto. Olhei para Emma, que já estava sentada, teclando loucamente no computador.
— Eles conseguiram nos achar. — ela olhou para mim antes de voltar seu olhar para a tela novamente. — Desligaram nossos alarmes e estão entrando no nosso elevador. — ela olhou para mim. — Nós estamos sem saída.
— Não exatamente. — me pegou pelo braço, me levando em direção aos computadores. — Vocês vão nos ajudar? — Ele perguntou, olhando para os meus pais.
— Vocês garantem a segurança das nossas filhas?
Échete to lógo mou. (Você tem minha palavra.)
— Como é que eu posso confiar nisso se nem ao menos sabemos seu nome? — dessa vez foi a hora do meu pai se manifestar.
— Hades, vocês podem me chamar de Hades. — olhei para ele com os olhos arregalados.
— O deus do submundo.
— Seu irmão? — minha mãe perguntou.
— Ares, deus da guerra.
— Eu sempre desconfiei que Ares e Hades eram mais unidos, eu acho que estava certo no final das contas. — meu pai disse, rindo de lado. Outra explosão fez com que os computadores balançassem. — Acho que está na nossa hora. Millie, foi incrível finalmente contar a verdade pra você, minha filha. Nós te amamos muito.
— Eu também amo vocês.
— E, , nós estamos muito orgulhosos de você. Nós te amamos muito.
— Cuide da sua irmã e deixe as pessoas te ajudarem, minha filha. — minha mãe disse, sorrindo para mim. — Conte tudo para eles, okay?! — a tela do computador à nossa frente apagou ao mesmo tempo em que o elevador começou a se mover.
— Agora o que a gente faz? — Millie perguntou, fazendo com que eu me virasse para ela.
— Nós levamos vocês pra um lugar seguro. — disse e depois se virou para mim. — E depois sua irmã pode começar a contar tudo o que ela sabe.
— E onde seria esse lugar oh, tão seguro que você tem em mente? — sorriu de lado antes de olhar para o seu irmão. O elevador parou no nosso andar e Ezequiel saiu do mesmo com vários homens atrás dele. segurou minha mão e deu uma piscadela.
— Está pronta, ? — ele perguntou, fazendo com que eu rolasse os olhos.
! — Ezequiel gritou meu nome na mesma hora em que seus homens começaram a invadir o cafofo. Ares sorriu antes de estender a mão para e, quando as mãos deles se tocaram, tudo ficou preto.


Continua...



Nota da autora: (17/05/2018)
Grupo: Fanfics da Rô





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