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Última atualização: 31/05/2017

Capítulo I



Eu pensei que quando eu decidi me demitir do meu emprego onde eu ganhava uma fortuna pra abrir minha própria editora, eu tinha perdido completamente a cabeça. Só que o destino tinha esse negócio de pregar uma peça nas pessoas e sempre mostrar que o que está ruim pode piorar. A parte financeira da minha vida estava indo de vento em popa, minha editora era uma das maiores do ramo e eu tinha os melhores escritores publicando seus livros por ela. Eu tinha um apartamento incrível, um carro que eu sempre trocava de ano em ano e uma mulher linda ao meu lado. Bem, não mais, pra falar a verdade.
- O senhor quer mais um copo de uísque? – a aeromoça perguntou.
- Por favor, e se puder, pode trazer a garrafa.
- Creio que não posso fazer isso, senhor. – ela respondeu, pegando o copo de minha mão. – Porém, posso trazer um copo maior com uma quantidade boa de bebida.
- Isso ajudaria muito. – respondi, encostando a cabeça na poltrona.
Minha vida em menos de vinte quatro horas tinha virado de cabeça pra baixo. Pra começar, a minha namorada, ou melhor, ex-namorada, estava de caso com uma das secretárias da minha empresa bem debaixo do meu nariz. Tudo bem, eu gostava dela, mas não tanto assim a ponto de afogar minhas mágoas. O verdadeiro problema foi a ligação que eu recebi horas depois, da minha mãe dizendo que estava na porta da minha casa.
Veja bem, a relação com minha família sempre foi boa, contando que eu estivesse no meu canto e eles no deles. Eu fazia questão de mandar presente pra todos justamente pra ninguém sentir minha falta e não exigir minha presença nessas festas de família. Só que ultimamente, minha mãe tem exigido muito a minha presença nas festas familiares, me ligava constantemente para que eu fosse pra casa. Até que um dia ela parou de ligar e resolveu aparecer em minha casa.
- Mãe? O que a senhora está fazendo aqui? – perguntei, abrindo a porta.
- , meu filho, o que foi que aconteceu? – ela perguntou, me segurando pelos ombros. – Você está com uma aparência horrível. Aquela sua namorada não está cuidando de você direito não?
- Isso se chama ressaca, mãe. – respondi me afastando dela. – Ah, e minha namorada tem namorada, então acho que ela não é mais minha namorada.
- O quê?
- É, mãe, Lia estava me chifrando bem debaixo do meu nariz. – fechei a porta e andei até a cozinha.
- Se você tivesse nos apresentado a ela, com certeza não estaria sofrendo agora.
- Ah, claro. Porque a senhora é uma expert em relacionamentos. – cruzei os braços vendo-a abaixar a cabeça. – Desculpe.
- ...
- O que a senhora veio fazer aqui mesmo?
- Quero que passe o feriado conosco, faz tempo que você não vem em casa.
- Eu não posso ir, já disse. Eu tenho muito trabalho.
- Eu sei que você está mentindo, , você está de recesso por conta dos feriados. – ela respirou fundo. – Por que você não vem pra casa?
- Como se eu precisasse responder, você sabe o porquê.
- Ele é seu pai.
- E você acha que eu não sei? Todos os dias eu desejo não ter parentesco com aquele homem, infelizmente a gente não escolhe a família, mas eu posso escolher não ter que olhar para a cara dele.
- ...
- Eu não vou, não adianta insistir, além do mais, eu tenho planos. – Muito bem, ! Quero ver como é que você vai sair dessa, parece até que não sabe que sua mãe sabe quando você está mentindo.
- É mesmo?
- Sim. – olhei para o lado vendo os manuscritos revisados, – Eu vou passar o feriado com a família da , eu prometi.
- Prometeu?
- Prometi.
- Oh, tudo bem então. – ela andou até a porta e, antes de sair, virou-se pra mim. – Saiba que sempre vai ter um canto pra você na mesa. Até logo, meu filho. – ela saiu batendo à porta. Eu sabia que ela não iria desistir, amanhã ela provavelmente estaria aqui novamente tentando me convencer a ir para casa. Oh, mas dessa vez ela não iria me achar.
Peguei o celular em cima da mesa e disquei o número que eu já sabia decor.
- ?
apareceu na minha vida no seu penúltimo ano de faculdade, eu estava à procura de uma assistente, já que a última tinha se apaixonado por mim. O que eu posso dizer, várias noites revisando manuscritos, um jantar aqui, um barzinho ali, uma coisa levava a outra. Só que com foi diferente, no dia da sua entrevista, eu tinha marcado um almoço com uns investidores e pedi que os concorrentes me encontrassem na cafeteria. Quando ela entrou no recinto, todos os caras – e devo arriscar algumas mulheres – tinham parado para vê-la passar, o que já era de se esperar, já que ela andava como se todos tivessem abaixo dela. Posso dizer que eu fiquei um pouco intimidado, mas mesmo assim continuei com a entrevista como se ela não tivesse tanto efeito assim em mim.
A entrevista tinha sido ótima, eu já tinha até separado o currículo dela para analisar, até que eu dei um sorriso de lado e coloquei a mão em cima da sua e momentos depois ela despejou todo o conteúdo do seu chá gelado na minha cabeça me chamando de imbecil, aproveitador e me mandando pro inferno. Ela saiu furiosa de dentro da cafeteria e eu posso confirmar que eu nunca ri tanto na minha vida, tanto que semanas depois eu a chamei para trabalhar comigo.
Por um momento, eu pensei que tinha perdido a cabeça por ao menos ter cogitado a ideia por tê-la como minha assistente, mas algo me dizia que ela não era o tipo de pessoa que eu não deveria deixar escapar. Aos poucos, ela foi me mostrando que eu tomei a decisão certa. Seus professores a encheram de cartas de recomendações assim como seus outros estágios. Ela nunca me pediu desculpas pelo chá que derramou na minha cabeça, nem mesmo depois que eu apresentei minha namorada para ela, e quando eu comentei, ela apenas disse que eu mereci e que da próxima seria café quente.
Nesses cinco anos trabalhando juntos, eu conheci muito sobre ela e vice-versa, posso até arriscar que viramos bons amigos. No começo foi difícil, só falava de trabalho comigo e nunca deixava escapar nada sobre sua vida pessoal, até que um dia, depois do expediente, eu decidi ir ao bar onde todos os meus empregados frequentavam depois do trabalho, apenas pra encontrá-la com o cabelo amarrado em um coque, rindo alto em uma mesa de bar. Todo mundo ficou sério depois de me ver, menos ela. expulsou um cara que estava ao seu lado dizendo que ele não queria saber sobre os seus sete cachorros e disse pra eu sentar ao seu lado. Foi naquele momento que eu descobri que minha assistente não me odiava do jeito que eu pensava que ela odiava, ela só era muito séria quando o assunto era trabalho. Aos poucos as coisas foram mudando e nossa relação foi progredindo, hoje posso dizer que é meu braço direito e eu confio a minha vida a ela. Era um relacionamento para a vida toda e eu posso afirmar que eu não imagino minha vida sem ela. Ela comemora as minhas vitórias do mesmo jeito que eu comemoro as suas, ela sabe dos meus piores da mesma maneira que eu sei dos seus. E por isso eu estava pegando o avião direto para a cidade natal para passar o feriado com ela e sua família.
Quando ela atendeu, ela grunhiu tão alto que eu juro que até os monges dos Alpes mais altos ouviram e antes mesmo que ela pudesse me mandar pro inferno, eu disse que era um emergência e aterrissava na sua cidade natal em algumas horas. Ela não disse nada, só pediu o número do voo e disse que ia mandar alguém me buscar no aeroporto.
- É aqui, meu rapaz. – o motorista parou em frente a uma mansão. Eu sempre soube que vinha de uma família rica, também sabia que ela era muito apegada a todos e sempre que tinha tempo, vinha passar um tempo com eles. Ela nunca quis um centavo do dinheiro deles, sempre disse que preferia trabalhar pelo seu próprio dinheiro, mas eu sei que sua avó ainda mandava uma mesada mensal pra ela, mesmo que ela insistisse que não precisava. não gostava de contrariar a avó por isso doava uma parte do dinheiro pra caridade sem que ela soubesse. era uma daquelas pessoas que era toda durona e marrenta, mas tinha o coração mole, bastava só uma carinha de cachorro sem dono pra conseguir sua ajuda. E eu sabia fazer essa carinha como ninguém.
Falando nela, ela estava parada na varanda, com os braços cruzados e com sua avó do lado. Eu sabia que ela estava furiosa, não era pra tanto, era a primeira vez que ela tirava férias e aqui estava eu, a perfeita lembrança de trabalho.
- Desce logo desse carro, , eu não tenho o dia todo! – escutei ela gritar enquanto eu abria a porta. Sua avó deu-lhe um beliscão e ela grunhiu.
- , isso é jeito de se tratar uma visita? – escutei sua avó falar enquanto eu pegava minha mala. – Oh, querido, pode deixar que Carlos leva.
- Não, vó, o já é bem grandinho, gasta rios de dinheiro naquela academia de riquinho que ele frequenta, ele pode levar sua própria mala.
- Não precisa se preocupar, eu levo. Obrigado. – falei para o senhor antes de subir a pequena escada.
- Oh, então você é o famoso . Eu sou Carmen, avó da . – a senhora me segurou pelos ombros e me puxou para um abraço. – Você é bem mais bonito do que eu esperava.
- Eu sou famoso por aqui? – perguntei, me separando dela.
- Claro, não para de falar de como você não a deixa em paz.
- O que eu posso dizer, eu não sei viver sem ela. – me virei pra , que sorria sem mostrar os dentes. Era estranho vê-la em roupas casuais, não era todo dia que ela usava um jeans detonado e um all star. Normalmente eram saias lápis, blusas sociais e saltos que eu sabia que eram suas fraquezas.
- E quem consegue, né?! – sua avó olhou pra ela. – , você não vai dar um abraço no seu chefe?
- O que é dele está guardado. Vamos logo, eu vou te mostrar onde fica seu quarto. – ela se virou andando em direção a casa. Quando eu entrei na casa, pude escutar a música alta vindo do quintal, sempre me disse que sua família gostava de dar festas perto dos feriados, um jeito de reunir a família, já que a maioria deles tinham que se dividir em vários quando chegava o natal.
A casa da sua avó era grande e antiga também, tinha aquele cheiro de casa de avó que faz você querer esquecer que um dia já pensou em fazer dieta e comer até explodir.
- Desculpa o barulho, , é a festa anual dos Alencar e não é todo dia que todos se reúnem debaixo do mesmo teto. – Carmen riu, segurando em meu braço. – Espero que você não se incomode.
- Claro que não, se tem alguém incomodando aqui, sou eu, invadindo sua casa sem nem ao menos ser convidado.
- Qualquer amigo da é parte da família também. Todo mundo está muito ansioso pra finalmente te conhecer, fala tanto de você que às vezes acho que lhe conhecemos tão bem quanto ela. – parou no primeiro degrau da escada, se virando pra nós. Ela cruzou os braços, me olhando de um jeito que eu sabia que ela estava apenas esperando o momento pra ficarmos sozinhos só pra poder me matar.
- Espero que eu possa conhecê-la melhor nesse tempo que vou passar aqui. – beijei sua mão, fazendo Carmen sorrir e rolar os olhos.
- Entendo por que não veio passar esses feriados conosco, você é um rapaz muito charmoso.
- Não acredito que você vai cair nesse papinho dele. – falou, rolando os olhos.
- O sujo falando do mal lavado. Aposto que basta só um olhar de cachorro sem dono dele pra você ficar. – ficou séria e começou a subir as escadas.
- Vamos logo, ! Eu tenho mais o que fazer. – ela gritou mesmo da escada.
- Foi um prazer conhecê-la, Carmen.
- Se você não estiver muito cansado, pode se juntar a nós na festa.
- Vou fazer o meu melhor. Muito obrigado por me receber.
- O prazer é meu, querido. Agora vai lá, não gosta de ficar esperando.
- E a senhora não acha que eu não sei? – ela riu, antes de desaparecer pelo corredor. Subi as escadas, avistando encostada no batente da porta, segurando a maçaneta.
- E você mora naquele apartamento de quinta por que mesmo? – perguntei, me aproximando dela.
- Só porque eu não moro na cobertura, não quer dizer que meu apartamento é de quinta. – ela abriu a porta do quarto que eu ia ficar. – Esse daqui vai ser seu quarto, em frente ao meu.
- Sabia que você não podia ficar longe de mim. – falei, entrando no quarto, sendo seguido por ela. O quarto era grande, tinha uma cama de casal e era todo decorado em preto e branco.
- O que você tem na cabeça? – ela perguntou furiosa, fazendo com que eu me virasse pra ela.
- Isso é jeito de falar com o seu chefe?
- Aqui você não é meu chefe.
- Por que você está sendo tão dura comigo?
- Porque você não me dá um segundo de paz! – ela passou as mãos pelo cabelo, frustrada. – Porra, , pensei que ia passar meu feriado sem trabalho e aí você me vem com uma emergência.
- Quem disse que é sobre trabalho?
- Não é?
- Não.
- Então por que diabos você me ligou?
- Eu precisava de um lugar pra ficar.
- Então por que não usou a tua grana e alugou uma casinha no fim do mundo? O que é tão importante?
- Minha mãe. – a sua expressão mudou. Ela sabia que eu não aguentaria passar o feriado com minha família, não quando a minha relação com meu pai era tão conturbada – Ela quer que eu passe o feriado com a família.
- Com a família inclui o seu pai também?
- Principalmente com ele. – me sentei na cama, vendo-a se aproximar. – Ela veio com aquele papo de que eu não tenho passado tempo suficiente com minha família e que faz tempo que eu não vou em casa.
- Não é como se ela estivesse mentindo, né? Talvez você devesse ir. , faz quanto tempo que você não vê sua família?
- Muito tempo.
- E você não sente falta deles?
- Às vezes, sim. Mas você sabe, eu detesto o cara. Ele pode ser meu pai, mas eu prefiro nunca mais ter que vê-lo na vida.
- Mas você vai ter que vê-lo um dia, não acha? Ele é seu pai, e por mais que ele tenha errado, você não pode esquecer que ele existe.
- Na verdade, eu posso sim.
- Então você decidiu que passar o feriado comigo era a melhor solução? E sua namorada veio também? Vou logo dizendo que se ela veio, não vai ter suíte pro casal.
- Por que não?
- Minha família é bem legal, mas eles são bem caretas em alguns aspectos, então é melhor não testar a bondade deles.
- Tudo bem, mas não precisa se preocupar, eu e Joselie não estamos mais juntos.
- Por que não? Não vai me dizer que ela estava te traindo com uma das secretárias?
- Pior que estava, e com a mais feia.
- O quê? Ela não... Ai meu Deus, ! Eu ganhei a aposta então. – ela balançou a cabeça. – Quer dizer, eu sinto muito.
- Que aposta?
- Hum... – ela se fez de desentendida.
- ...
- Ah , – ela se sentou ao meu lado. – ela sempre foi muito amiguinha comigo pro meu gosto. Eu ainda lembro do dia em que ela me chamou pra dançar naquele boate quando estávamos comemorando seu aniversário.
- Eu lembro desse dia. Todos os marmanjos daquela boate queriam levar vocês pra casa. – me virei pra ela. – Eu posso afirmar que eu tive uns desejos bem loucos sobre vocês duas aquele dia. – e tive mesmo, não vou mentir. era linda, marrenta e mandona, mas extremamente linda e talentosa.
- Idiota! – ela disse, se levantando. – Agora levanta daí!
- Pra quê?
- Minha família quer te conhecer.
- Eu não posso conhecê-los outra hora?
- É você quem sabe, se você não for agora, capaz deles invadirem seu quarto só pra ver como você é.
- Eles não fariam isso.
- Sabe a palavra limite, ? Ela não existe nessa família, é todo mundo se metendo na vida de todo mundo.
- Menos na sua, você não mora aqui.
- Aí que você se engana. Minha avó me ligou um dia desses me dizendo que eu não deveria ir em um segundo encontro com aquele bancário porque ele era um mal educado e mulherengo.
- Como sua avó descobriu isso?
- Eu não sei, mas ela descobriu. – ela abriu a porta, encostando na mesma. – E aí, bonitão, vamos?
Quando disse que sua família não tinha limites, ela não estava exagerando. No meio tempo em que ela me apresentou, todos os membros da sua família me apertaram as bochechas, pediram pra eu mostrar os músculos, os dentes e perguntaram se meu cabelo era peruca. se divertiu com tudo, é claro, enquanto eu tentava ser o mais educado possível e desviar das tias muito fogosas que ela tinha.
Agora ela estava sentada na mesa enquanto eu colocava comida pra nós dois, segundo ela, eu a tinha estressado um pouco que agora estava exausta, ou, como eu gosto de dizer, ela estava com preguiça e me fazendo de empregado dela.
- Ali não é a conversando com o Aaron? – levantei o olhar das panelas avistando conversando com um cara que estava em pé ao seu lado.
- Quem é Aaron? – me peguei perguntando em voz alta, chamando a atenção das senhoras que estavam conversando.
- Aaron é a estrela da cidade. Ele era capitão do time de futebol no colégio em que estudava, eles tiveram uma relação de amor e ódio por um bom tempo até que o amor falou mais alto. Eles namoraram por quatro anos até que ele ganhou uma bolsa de estudos pra jogar futebol do outro lado do país, enquanto ela foi pra Nova York. – riu de alguma coisa que o tal Aaron falou, fazendo com que eu me sentisse um pouco desconfortável. – Você não precisa ficar com ciúmes, , o coração da já não bate forte por Aaron por um bom tempo, você sabe disso.
- Sei? – perguntei, olhando para elas.
- Sabe, você só precisa enxergar. – E com isso as duas saíram, rindo baixinho, enquanto eu fiquei confuso. Peguei os pratos em cima da mesa e fui em direção a . Ela ainda estava conversando com o tal do Aaron, mas logo desviou o olhar dela, olhando pra mim.
- Finalmente! – ela jogou os braços pro alto. – Pensei que você tinha se perdido pelas panelas.
- Muito engraçadinha. – empurrei o prato pra ela, sentando-se a sua frente. me olhou confusa, e disse:
- , o que você está fazendo aí? Senta aqui do meu lado, eu quero comer um pouco da sua salada.
- Se você quiser, eu pego pra você.
- Não, lindinho, eu só quero se for da sua. Agora senta aqui! – ela se afastou e bateu no espaço do banco ao seu lado. Eu me levantei, indo em direção a e sentando ao seu lado. – Oh, Aaron, esse é , esse é o Aaron. – ela falou pegando um pouco da salada do meu prato. Aaron estendeu a mão pra mim e eu a apertei.
- Prazer em te conhecer, . Agora eu tenho que ir, minha mãe está me chamando. Tchau, .
- Tchau, Aaron. – ela sorriu e voltou a comer do meu prato. Aaron se afastou ainda olhando pra trás duas vezes, mas estava muito ocupada comendo para ver.
- Você sabia que você deveria criar o costume de colocar salada no prato?
- Por que eu faria tal ato monstruoso quando eu tenho a sua pra roubar? – ela riu, começando a comer do seu prato.
- Vai ter um dia que eu não vou deixar você comer da minha comida.
- Nós dois sabemos que isso é uma total mentira. – ela disse, voltando a atenção para o seu prato. Eu juro que eu tentei segurar, mas eu não sei o que me deu, quando eu menos pensei, já estava dizendo.
- Então, foi bom reencontrar seu namoradinho de colégio? – parou de comer e olhou pra mim.
- Quem te contou?
- Umas senhorinhas estavam conversando sobre vocês na mesa. – voltei a atenção para a minha comida. – Nunca pensei que você fosse do tipo clichê que se apaixonava pela estrela da cidade.
- Se fosse só esse clichê que eu tenho na vida. – ela resmungou.
- O quê?
- Nada. – ela empurrou o prato para o meio da mesa e virou-se para mim. – Eu era nova e Aaron, como você pôde ver, é um gostoso. A gente sempre se bicava, mas lá no fundo era só tensão sexual de dois adolescentes deixando os hormônios falarem mais alto. Eu sempre pensei que a gente não ia passar de um mês, aliás, eram só dois adolescente deixando os hormônios falarem mais alto, imagina minha surpresa quando ficamos juntos por quatro anos. Nós nos apaixonamos, foi inevitável. É claro que virou a história favorita de toda a cidade, quem não gosta de uma boa e velha comédia romântica, hein?!
- Foi difícil ir embora?
- Uma das coisas mais difíceis que eu já fiz, mas isso está no passado, eu superei.
- Foi mesmo? Como?
- Arrumei um novo clichê pra mim.
- Um novo clichê?
- Tia ! – uma garotinha, em seus seis anos mais ou menos, abraçou pela cintura fazendo a mesma virar pra ela.
- Oi, meu amorzinho! Olha como você cresceu, o seu cabelo está enorme.
- Mamãe disse que eu posso deixar crescer até que batesse no chão, igual a Rapunzel. – a garotinha voltou seu olhar pra mim – É seu namorado, tia ?
- Não, Stacy. Ele é meu chefe, meu amigo, .
- Ele é muito bonito.
- Não fala isso não, se não é capaz do ego dele inflar e ele sair flutuando.
- Igual a um balão? – afirmou com a cabeça – Então eu vou falar sim, eu adoro balões ainda mais um bonito como esse.
- Tá vendo? Sua prima acha que eu sou bonito.
- Ela acha todo mundo bonito, baixa a sua bola que você não é tudo isso. – ela se virou para a mulher que estava se aproximando segurando um urso na mão. – Oi, Olivia.
- Oi, . – se levantou e elas se abraçaram. – Esse é seu namorado?
- Que obsessão é essa em me fazer arrumar um namorado?
- É porque você nunca traz ninguém e agora trouxe esse rapaz. Eu sou Olivia, prima da . – ela estendeu a mão e eu a apertei.
- Muito prazer, eu sou .
- Seu chefe ? – olhei pra , confuso. Ela realmente falava tanto assim de mim pra sua família? Carmen, eu entendia, elas se falavam todos os dias, mas o resto era um pouco estranho. – fala muito de você.
- Pelo jeito você também não consegue viver sem mim. – olhei pra ela, que rolou os olhos. – Então, Olivia, conte-me mais sobre o que a fala de mim, o que pelo jeito é muita coisa.
- Ela fala...
- Que você é um chefe malvado que não me deixa visitar minha família. – se levantou, se virando pra mim.
- Ele não é malvado, tia. Olha pra ele. – a garotinha, Stacy, segurando meu rosto apertando minhas bochechas. – Ele é fofinho, igual meu ursinho de pelúcia.
- Está vendo, , eu sou fofinho, a malvada aqui é você. – respondi, fazendo Stacy rir e apertar minhas bochechas mais uma vez.
- Sou mesmo, uma bruxa que vai colocar uma praga em você se você não começar a correr. – começou a me cutucar fazendo com que eu me levantasse. Ela sabia que eu detestava isso, eu era aquele tipo de pessoa que sentia cócegas muita facilidade. – Stacy, sabe o que o mais odeia?
- , não. – comecei a andar pra trás enquanto Stacy olhava pra com um sorriso no rosto.
- Ele odeia cócegas, e o que a gente mais gosta de fazer? – Stacy olhou pra mim com um sorriso malicioso no rosto.
- Cócegas. – Stacy respondeu e então as duas começaram a correr atrás de mim.



Capítulo II



Pra dizer que eu passei quase uma hora correndo e me escondendo de e Stacy, era um começo. Eventualmente, as duas me acharam, me jogando no chão pra começar o seu ataque de cócegas, minutos depois pareciam que todas as crianças da festa decidiram se juntar à brincadeira e me torturaram mais um pouquinho. Porém, Stacy, que era tão diabólica quanto a tia, empurrou pro chão e fez todas as crianças pularem em cima dela também. Claro que eu não fiquei de fora, ver a gargalhando alto não era uma coisa que se via todo dia, porém era uma das imagens que eu guardaria na minha cabeça pra lembrar que ela não era um robozinho viciado em trabalho e era capaz de perder o controle uma vez ou outra.
Depois do ataque de cócegas, disse que eu poderia ir dormir já que toda sua família já tinha me conhecido. Eu não sabia que estava tão cansado até que eu me joguei na cama e acordei só no outro dia com me chamando de folgado e dizendo que era hora do almoço.
- Finalmente, hein?! Não sei pra que tanto demora dentro de um banheiro, parece até que vai casar. – estava jogada na minha cama, mexendo em seu celular. Eu ainda não tinha me acostumado com esse lado de , o lado mais despojado dela, ainda era novidade pra mim que ela usava algo além de roupas sociais. Com certeza vê-la de short, com um all star nos pés e um boné na cabeça era algo diferente, um diferente que eu tinha acabado de descobrir que gostava.
- Pensei que você tinha ido com sua avó pro supermercado. – falei, andando em direção a minha mala pra procurar uma camisa, eu estava vestido apenas da cintura pra baixo.
- Não, ela decidiu que nós deveríamos te esperar pra você conhecer um pouco da cidade. Ela até guardou um pouco do almoço pra você. – ela se levantou da cama, colocando o seu celular no bolso. Ela pegou o meu celular em cima da cama e o estendeu pra mim. – Sua mãe ligou.
- Você atendeu? – perguntei, pegando o celular de suas mãos.
- Apenas pra dizer que você não estava mentindo. – olhei para ela confuso. – Ela mandou uma mensagem dizendo que tinha certeza que você estava mentindo sobre vir pra cá, então eu atendi pra provar que não. Desculpa ter feito isso, mas acho que foi bem melhor eu falar com ela do que você, era bem capaz de vocês entrarem numa briga.
- É, foi melhor mesmo. – respondi, colocando o celular no bolso de trás. cruzou os braços e começou a boca para os lados. 1, 2, 3...
- ...
- Não , eu não vou. E não adianta tentar me convencer que isso não vai acontecer. – interrompi, andando em direção à porta.
- Mas eu não falei nada. – ela respondeu, me seguindo em direção ao corredor.
- Mas pensou. – falei, me virando pra ela. – Eu te conheço muito bem, eu sei o que você ia dizer. Eu não acredito que você ao menos cogitou a ideia que eu poderia passar o natal com eles.
- Desculpe se eu estou em ótimo humor e o espírito natalino tomou conta de mim e eu quero todas as famílias juntas mesmo que um membro dela seja um idiota. Não está mais aqui quem falou. – ela passou por mim, começando a descer as escadas – Ou melhor, que não falou, mas você recebeu o recado do mesmo jeito.
Entrei na cozinha avistando Carmen conversando com outra senhora, se não me engano, ela era uma de suas irmãs. Carmen abriu o maior sorriso quando me viu, o que fez balançar a cabeça.
- , meu querido. – ela me abraçou forte – Dormiu bem?
- Como um anjo. – respondi me separando dela.
- Algo que é bem difícil quando se é a encarnação do capeta. – disse, sentando-se na bancada perto da pia.
- Mas você adora implicar com ele, hein, ?! – Carmen disse, passando por ela, indo em direção ao fogão.
- É uma das categorias mais importantes do meu currículo: implicar com . Sabia que dá mais empregos que cartas de recomendações dos professores das maiores universidades do país?
- Você não deveria fazer isso com o garoto, .
- Você tem noção de que está falando de um homem que está beirando a casa dos trinta anos, não sabe?!
- Aqui, , eu guardei o almoço pra você. – ela ignorou e colocou o prato na minha frente, em cima da mesa. – disse que você gosta muito de salada então eu fiz um prato caprichado.
- Obrigado, Carmen, você é simplesmente incrível.
Carmen puxou uma cadeira e sentou-se à minha frente, sua irmã sentou-se ao seu lado enquanto eu comia em silêncio.
- Então, , você tem alguma namorada? – olhei pra e depois pra senhoras a minha frente.
- Até tinha, mas as coisas não deram certo.
- Oh, que pena, meu querido, tenho certeza que você ainda vai encontrar a mulher certa pra você. – ela olhou para e depois para mim. – Foi por isso que você decidiu vir passar o natal conosco, por que sua namorada partiu seu coração?
- Na verdade, não. Eu gostava muito dela, mas não ao ponto de ter meu coração partido.
- Hum, sei. E sua família, querido, por que não vai passar o natal com eles? – olhei para , que desceu do balcão, sentando-se na cadeira ao meu lado.
- Vó, a senhora não acha que está bom o interrogatório com o ?
- Oh, claro. Desculpe.
- Não, Carmen, tudo bem. – coloquei os talheres de lado – Eu nunca passo os natais com minha família.
- Por que não? Eles...
- Não, eles não morreram. É só que meu pai é um, me perdoe a palavra, imbecil.
- , você não precisa falar nada. – me interrompeu.
- Não, tudo bem, nada mais justo que sua avó saber. – me virei para Carmen – Meu pai é um homem de negócios, sempre teve tudo que quis, do jeito que quis, na hora que quis. Minha mãe era uma dessas socialites quando conheceu ele, acho que eu nunca vi duas pessoas mais diferentes do que eles dois, porém eles se apaixonaram e, como dizem, o amor supera todas as barreiras e toda essa baboseira. Quando eu nasci, os dois ficaram muito felizes, mas à medida que eu fui crescendo, as coisas foram mudando. Meu pai esperava que eu fosse o filho perfeito, mas eu sempre fui tudo que ele nunca gostou. Começou quando eu era criança, por causa do meu peso.
- Seu peso?
- É. Meus pais sempre foram muito ausentes e na minha casa sempre teve muita fartura, assim por dizer, então eu tentava preencher o vazio comendo tudo o que eu queria. Pro meu pai, tudo sempre é e sempre será questão de aparência, então ter um filho acima do peso era um vergonha pra ele. Então ele me obrigou a ir pra esses acampamentos pra crianças acima do peso por anos, até que um dia eu decidi que não ia aguentar calado e comecei a responder cada insulto, foi ai que ele começou a tornar as coisas mais... Físicas.
- Ele te batia?
- Sim, quando ele viu que as palavras não me machucavam mais, ele decidiu partir pra algo permanente. Só que dessa vez, eu não deixei ele ganhar. Eu comecei a levar um jeito de vida mais saudável, entrei pra academia, até fiz umas aulas de defesa pessoal pra da próxima vez que ele decidisse descontar as frustrações dele em mim, eu tivesse como me defender. Eu não fiz só por ele, eu fiz por mim também.
- E sua mãe?
- Ele nunca encostou um dedo nela, ele realmente a ama. O problema dele sempre foi comigo, só comigo. – eu não tinha percebido, mas a mão de estava nas minhas costas, fazendo movimentos repetitivos pra me acalmar. Eu realmente não sabia como ela fazia, mas eu já sentia uma calma dentro do peito mesmo falando de um assunto do qual eu decidia evitar.
- Eu sinto muito, meu querido.
- Está tudo bem, Carmen, nem todo mundo aprende a amar os filhos dos jeitos que eles são. – Carmen olhou pra , que abaixou a cabeça, se escondendo atrás do seu boné. De repente, se levantou e foi em direção à porta, falando antes de sair:
- Estou esperando vocês no carro. – olhei confuso para Carmen, que apenas eu de ombros.
- Vamos, , nós não queremos pegar o supermercado lotado.
foi o caminho inteiro calada e escondida debaixo do seu boné, eu tentei puxar assunto com ela, que apenas sorriu em resposta. Olhei pra Carmen, tentando conseguir alguma informação dela, mas ela apenas sorriu fraco.
Quando chegamos no supermercado, desceu do carro e depois ajudou sua avó a fazer o mesmo. Andamos lado a lado até os carrinhos e, quando chegamos lá, Carmen anunciou que ia na frente enquanto eu e ficamos pra trás.
- Então, vai me dizer por que você ficou triste do nada? – perguntei logo quando entramos no supermercado.
- Eu não estou triste.
- Às vezes eu acho que você esquece que eu te conheço tão bem quanto você me conhece. – comecei a encará-la esperando que ela falasse. olhou pra mim algumas vezes antes de me dar um empurrão.
- Por que você só não ignora?
- Porque eu não consigo.
- Não é nada, é só que... Ai meu saco! – grunhiu. – Me mata!
- O quê?
- Essas garotas ali. – ela apontou para umas garotas que estavam no final do corredor que estávamos prestes a entrar. – Pegavam no meu pé durante o colégio. – ela me puxou para o próximo corredor. – Vamos procurar minha avó pra ver se ela precisa da nossa ajuda.
- Pegavam no seu pé? Como? Você não deixa ninguém sair por cima.
- Por isso mesmo, por sempre "não deixar barato", elas se vingaram.
- Se vingaram?
- É. Me deixaram trancada do lado de fora da escola em um dia de chuva, me fazendo perder um debate pra uma bolsa pra estudar Irlanda.
- Eu não acredito.
- E tudo isso porque eu namorava a estrela do colégio. – ela cruzou os braços – Na época, eu chorei tanto e não apareci na escola por dias. Aaron descobriu tudo e contou pra diretora, mas ela já não podia fazer mais nada, então eu fiz o que eu sei fazer de melhor: usei a minha determinação e botei esse bando de desmioladas no lugar delas. Se não pode vencê-las, junte-se a elas e transforme suas vidas em um inferno.
- Você se vingou? Pensei que você fosse o tipo de pessoa que não acreditasse nisso.
- E não acredito, o mundo dá voltas e o que você diz ou faz hoje definitivamente vai vir no futuro em forma de um belo tapa moral na sua cara. Eu só infernizei a vida social delas, não foi bem difícil, já que todo mundo já gostava de mim. Antes, eu pouco me importava com toda a popularidade que vinha por ser namorada de Aaron, até que eu descobrir que bater ou xingar não ia adiantar de nada, eu poderia matá-las em seu próprio mundo. Eu praticamente virei a Lady Di dessa cidade, menos a parte de morrer, é claro. Ganhei todos os concursos de beleza que elas participavam, fui a todos os jogos de Aaron e ainda usei a camisa dele, ganhei rainha do baile e até miss simpatia.
- Parece trabalhoso.
- Foi um pouco, mas valeu a pena. As mulheres da minha família adoravam, está finalmente virando mocinha. Nossa, chega, me deu náuseas agora.
- Devo presumir que você sempre foi uma garota moleca então?
- É, só que agora em vez de só ter um coleção de All Stars, eu tenho uma de sandálias também. – ela me puxou pelo braço em direção à seção que sua avó estava.
- Oh, vocês estão aí! – Carmen estava conversando com outra mulher enquanto pegava algumas coisas na prateleira. – Vera, esse é o amigo da que veio passar o feriado conosco.
- , muito prazer. – estendi a mão para a senhora que apertou.
- O prazer é meu, eu sou Vera.
- Vera estava falando da quermesse hoje, ela diz que vendemos todos os ingressos.
- Isso é incrível! – falou.
- Isso foi tudo possível graças a você, querida. – Vera falou, olhando pra , que ficou vermelha. – Você pode trazer seu amigo, ele pode entrar de graça, é o mínimo que nós podemos fazer.
- Eu não acho que o gostaria de ir.
- Eu adoraria.
- Então está resolvido, espero vocês lá. Tchau. – Vera desapareceu pelo corredor enquanto começou a empurrar seu carrinho na direção oposta.
- Vera estava me contando que Oli vai ficar na barraca do beijo e não tem ninguém pra substituí-la. Você deveria considerar pegar o lugar dela. – Carmen começou a andar com a gente logo atrás.
- Eca!
- É por uma boa causa.
- Ainda eca.
- Não adianta só doar o dinheiro, , você precisa participar também.
- Eu vou, dando mais dinheiro. E o do meu chefinho também. – ela segurou em meu braço.
- Espere um segundo, você financiou essa festa? – interrompi-as.
- Foi.
- Mas uma festa como essa não deveria ser cara?
- E é. – Carmen respondeu. – Nós conseguimos uma parte de dinheiro com doações e da prefeitura, mas a que deu a maioria.
- Foi por isso que você não comprou aquelas sandálias mês passado, não foi?
- O quê?
- Aquelas sandálias que custam uma fortuna que você juntou um bocado de dinheiro pra comprar, porque elas iam completar sua coleção, você doou o dinheiro pra sua avó.
- O que você queria que eu fizesse? Ela não tinha dinheiro pra colocar a festa pra frente, era o mínimo que eu podia fazer. E, pra falar a verdade, os sorrisos delas fez valer a pena.
- Então quer dizer que você não precisa daquelas sandálias?
- Querer, eu queria muito, mas precisar, eu nunca precisei mesmo. – ela se virou pra mim – Por quê?
- Por nada. – o que não sabia era que ela não tinha comprado as suas sandálias dos seus sonhos, mas eu, no mesmo dia que descobri que ela não tinha comprado, fui na primeira loja da marca e comprei as sandálias que ela tanto queria. Era o meu presente de Natal para ela, eu sabia que quando eu as entregasse, ela daria o maior sorriso e me abraçaria forte. E, pra falar a verdade, eu não via a hora disso acontecer.
- , tem como você ir pegar os molhos pra mim? – Carmen falou.
- Claro. – comecei a seguir , mas Carmen me segurou pelo braço.
- Você pode ficar , eu preciso de você pra pegar as coisas nas prateleiras mais altas. – ela apontou para as prateleiras do meu lado.
- Claro, quantos a senhora quer?
- Uns cinco sacos daquela lá de cima. – ela disse e eu comecei a pegar um saco um por um – Você e parecem muito... ligados um ao outro.
- Como assim?
- Só parece que vocês sabem muito sobre a vida um do outro.
- Bem, e eu nos conhecemos há uns cinco anos, quatro deles foram construído a amizade que temos hoje.
- E esse um que sobrou? – ela apontou pra outra prateleira no final do corredor. – Pode pegar umas doze garrafas de vinho.
- Doze? – perguntei, andando em direção ao final do corredor.
- É, doze. Se tem uma coisa que a nossa família sabe fazer bem, é comer e beber muito. – comecei a pegar as garrafas e colocar no carrinho. – Então , o um ano que sobrou?
- Oh, claro. Sua neta não é a pessoa mais aberta do mundo, você já deve ter percebido isso, no primeiro ano eu pensei que ela me odiava. intimida todo mundo por onde ela passa, não fala pra ela, mas até eu me sentia um pouco intimidado quando a conheci.
- Então o que aconteceu?
- Eu descobri que ela não me odiava, só é extremamente profissional e acha que escritório não é lugar pra ficar de papinho. Tanto que nossa amizade começou na mesa de um bar e aqui estamos. – terminei de colocar as garrafas no carrinho.
- Fico feliz que você tenho conseguido derrubar um pouco das muralhas que ela construiu.
- Não foi fácil, mas se me perguntassem, eu faria tudo de novo. Sua neta é incrível. – Carmen sorriu e balançou a cabeça.
- Você pode chamá-la? Eu encontro vocês no caixa.
- Claro.
Comecei a procurar por cada um dos corredores, até que eu a avistei com as garotas de mais cedo junto dela. Pelo punho cerrado, eu sabia que ela estava a ponto de pular em cima do pescoço de uma delas. Então eu andei até ela, colocando um braço ao redor dos seus ombros, dando um beijo na sua bochecha.
- Então, achou o que estava procurando, amor? – olhou pra mim confusa até que eu sorri de lado, olhando para as garotas a minha frente, e ela entendeu o que eu estava fazendo.
- Achei sim, querido. Eu só parei um pouco pra conversar com as minhas antigas amigas do colégio, não é, garotas?!
- Vocês são amigas da ? Muito prazer em conhecê-las, eu sou , o namorado dela. – estendi a mão para elas.
- Namorado? – cada uma delas apertou minha mão enquanto a do meio perguntou.
- É, se vocês não se importam, nós temos que ir.
- Namorado? – uma das outras perguntou. – Namorado?
- É sim.
- Como vocês podem ver, eu tenho que ir. Tchau meninas, foi ótimo vê-las novamente. – viramos para o lado oposto do corredor, em direção aos caixas, mas antes de chegarmos lá, pudemos escutar uma delas dizer:
- Como é que ela consegue sempre pegar os caras mais gatos?
Olhei pra , que segurava o riso tanto quanto eu.
- Do que vocês dois estão rindo? – Carmen perguntou quando chegamos ao caixa.
- Nada. – respondeu.
- Sei. Podem deixar de papinho então e me ajudar a levar as coisas para o carro.
- Seu pedido é uma ordem, alteza, nós somos seus meros servos.
- Odeio seu sarcasmo, neta querida, por isso você vai ajudar na organização.
- Ah, não. – grunhiu, batendo o pé no chão – Eu não...
- Muito obrigada por se oferecer, . Por isso eu te amo tanto.
Já era quase noite quando chegou dos preparativos da quermesse. Claro que eu me ofereci para ajudá-la, mas recusou, me deixando sozinho o resto da tarde com a sua família. Acho que eu nunca me diverti tanto escutando as mais loucas histórias que essas mulheres tinham pra contar, nem mesmo quando eu estava com minha própria família. Por sorte, dessa vez, eu não era o único homem no meio de tantas mulheres. O pai de Stacy decidiu apareceu para visitar a filha, ele e Olivia já não estavam juntos, mas algo dentro dos olhos deles toda vez que ele falava dela me dizia que não era o que ele queria de verdade. Drew trabalhava em outra cidade e por isso dificultava a sua relação tanto com a Olivia quanto com Stacy, porém, em algum momento da nossa conversa, ele chegou a dizer que estava fazendo o possível para se mudar de volta para a sua cidade natal pra ficar perto da sua filha e de algum modo, reconquistar seu antigo amor. Algo me dizia que ia acontecer essa noite enquanto Olivia estivesse na barraca do beijo.
Agora aqui, estava eu esperando que e Olivia descessem o resto dos degraus para que nós pudéssemos ir.
- Cadê seus saltos? – perguntei assim que desceu o último degrau da escada.
- Você acha que eu vou colocar minhas sandálias que custam mais de quinhentos dólares na lama? Eu estou ficando velha, não louca. – ela respondeu, colocando a jaqueta.
- Acho que você não está tão certa no quesito louca.
- Só posso ser louca mesmo pra continuar trabalhando pra você.
- Você me ama, pode dizer. – ela fez uma careta, cruzando os braços. Eu ri, puxando-a para um abraço – Eu gosto quando você usa salto, mas eu também estou gostando dessa mais casual, você fica menos intimidadora.
- Me lembre de nunca usar roupas casuais outra vez. – ela me abraçou pela cintura – Eu te odeio, sabia?!
- Bem que você gostaria que isso fosse verdade, não gostaria, tampinha?! – apertei seu nariz, coisa que ela detestava e quando eu estava afastando minha mão, ela tentou morder a mesma.
- Só porque eu estou dois centímetros mais baixa não quer dizer que eu sou uma tampinha.
- Dois centímetros? Boa tentativa, tampinha, tem pelo menos uns quinze. Desculpe te informar, mas você não é alta.
- Isso só prova que eu preciso usar saltos mais altos.
- Ainda assim, você é uma tampinha. – olhei pra frente vendo a família de toda reunida na frente da porta, olhando para nós com um sorriso nos lábios.
- Vocês têm certeza que não são um casal?! – uma das tias dela perguntou.
- Não. – ela se separou de mim. – Vamos logo com isso, não quero pegar metros de filas. – saiu em disparada pela porta sem nem ao menos me esperar.
A quermesse ficava em um terreno um pouco fora da cidade, disse que ele pertencia ao seu tataravó e com toda a cidade interessada na quermesse, era o único lugar que cabia o público esperado. O lugar parecia um sonho, lembrava o píer que ficava na Califórnia que minha mãe costumava me levar quando eu era mais novo e estava lotado. Quando descemos do carro, todos desapareceram na multidão deixando eu e sozinhos.
- Aonde você quer ir primeiro? Eu voto na roda gigante, faz tanto tempo que eu não ando em uma. – disse, me puxando em direção a roda gigante. Eu estava prestes a responder, quando meu celular vibrou dentro do bolso e quando eu olhei no visor, desejei que o tivesse deixado em casa – É sua mãe?
- Pior, meu pai. – desliguei o celular, colocando-o no bolso.
- ...
- Eu não vou, , eu já te disse. Por que você fica insistindo? Você nem gosta dele.
- Eu só não quero que você se arrependa.
- Eu não vou.
- Tudo bem então. – soltou meu braço fazendo com que eu olhasse para ela.
- Desculpa, eu não queria falar daquele jeito com você.
- Eu que não deveria me meter na sua vida. – ela olhou para o lado, evitando o meu olhar e eu sabia que ela estava chateada comigo. Mas demorou apenas um segundo antes que visse seus olhos brilharem outra vez – Olha aquele panda gigante, ! Ai meu Deus, eu quero um! – segurei-a pela mão, arrastando-a até a barraca de tiro ao alvo. Eu sabia o que tinha que fazer pra colocar um sorriso em seu rosto outra vez. – O que você pensa que está fazendo?
- Eu vou ganhar aquele urso pra você.
- Quando eu disse que queria o urso, eu não estava dizendo pra você ganhar pra mim.
- Mas eu vou fazer de qualquer jeito. – paramos em frente à barraca – Quantos eu tenho que acertar pra ganhar o panda?
- Todos. – paguei ao senhor, enquanto ele colocava a quantidade de balas na espingarda, me entregando logo em seguida.
Olhei pra , que estava segurando o riso.
- O quê?
- Quantas vezes você já jogou tiro ao alto, ?
- Nenhuma.
- E como você pretende acertar todos?
- Sorte de principiante?
- Boa sorte então.
Mirei nos alvos e respirei fundo, tiro ao alvo era mais difícil do que parecia, o máximo que eu consegui foram três.
- Não foi dessa vez, rapaz, aqui um chiclete pelo esforço. – o senhor me entregou um chiclete e eu virei pra , que sorria. Andei até ela, estendo-lhe o chiclete.
- Não foi dessa vez.
- Você que pensa. – ela andou em direção ao cara, dando-lhe algumas notas e pegou a espingarda em cima do balcão. ajeitou a mesma, mirando nos alvos. Meu queixo literalmente caiu quando acertou todos os alvos e, pelo barulho da sirene, em menos de um minuto, o qual era tempo recorde.
- Aqui, senhorita. E você ganha uma pulseira por bater o tempo recorde. – ele entregou o urso pra ela e depois uma pulseira.
- Muito obrigada. – ela pegou o urso e o apertou. Ela se virou pra mim e eu voltei para a realidade.
- Como? – perguntei, vendo-a começar a andar novamente – Como você fez isso? – perguntei, andando ao seu lado.
- Minha avó. Ela costumava caçar com meu tataravô, eu não gosto de caçar, mas não recusei aprender a atirar.
- E você deixou que eu fosse lá me humilhar?
- Você que foi dizendo que ia ganhar o panda pra mim. – ela riu.
- Depois dessa, me lembre de nunca te deixar irritada.
- Não se preocupe, , eu não vou te matar.
- Fico feliz em saber disso.
- Não antes de fazer você passar sua empresa pro meu nome. – ela se virou pra mim, sorrindo. – Estica seu braço.
- O quê?
- Só estica seu braço, . – fiz o que ela me pediu, esticando o braço pra ela. pegou a pulseira que tinha acabado de ganhar e colocou em meu braço.
- Pra você não dizer que eu nunca te dei nada.
- Obrigado.
- De nada, chefinho. – disse e acenou para o condutor da roda gigante. Ela passou direto pela fila, parando em frente a ele – Oi Sam, será que tem um lugar pra mim e meu amigo aqui irmos agora?
- Claro.
- , você não pode furar a fila. – falei, segurando seu braço.
- Você está vendo alguém reclamar? – olhei para a fila e ninguém estava reclamando, pra falar a verdade alguns estavam até sorrindo.
- Eu não estava brincando quando eu disse que eu virei a Lady Di desse lugar. Agora vamos logo. – ela me puxou para a roda gigante e se sentou em uma das cabines com o urso em seus braços. Sentei-me ao seu lado colocando a barra de segurança.
- Cidades pequenas são bizarras.
- São bizarras pra você que o máximo de cidade pequena foi algum chalé na França.
- Você não esquece?
- Não. Esse é um dos meus piores defeitos.
- Não acho que seja um defeito.
- Acredite, também não é uma benção. – a roda gigante começou a se mover nos levando para o topo onde podíamos ver a quermesse inteira. O lugar ficava ainda mais bonito de cima, as várias cores das luzes, dos brinquedos e das barracas davam vida ao lugar.
- Isso aqui é incrível. – eu disse depois de algumas voltas na roda gigante.
- Você acha?
- Sempre o tom de surpresa.
- Não sei, sempre achei que como você cresceu em uma família rica, tudo isso aqui não passava de uma coisa de gente caipira.
- Você pensa muito pouco de mim.
- Você sabe que isso não é verdade, você sabe que eu te acho incrível. – ela olhou pra mim – É só que sua realidade foi diferente da minha.
- Talvez eu gostaria de ter uma realidade igual à sua. Eu entendo porque você gosta tanto deles, sua família é incrível.
- Famílias são famílias, . Todas têm problemas, todas têm seus dias ruins, acontece com todo mundo. Sua família não é ruim só porque um membro dela é um babaca.
- Basta uma maçã podre pra empestar uma árvore inteira.
- Isso não é verdade, ! Sua mãe é um amor, suas tias também, sua avó então, é uma comédia. Você deveria ir visitá-los por causa delas, não por causa de um babaca que fazia bullying com o próprio filho por causa do peso. – ela olhou pra mim e respirou fundo – Desculpa, eu sei que você não gosta de falar sobre esse assunto. – ela segurou minha mão – Não vou mais falar sobre sua família enquanto você estiver aqui.
- Nós deveríamos falar sobre a sua, a sua família incrível.
- Acredite, nós também temos a nossa maçã podre. – ela olhou para suas mãos e depois para mim – , eu tenho que te contar uma coisa. Na verdade, duas. Bem, se eu pensar bem, são três.
- Estou a todos ouvidos.
- A primeira coisa...
- , sai dessa cabine agora! – viramos os dois para o lado vendo Olivia ao lado do condutor. – Eu preciso da sua ajuda.
- Agora?
- É, agora. E antes que você fale alguma coisa, você me deve uma, então vem logo.
- Odeio quando você usa os favores que fez pra mim quando estávamos no colégio. – se levantou e eu fui atrás. – Eu vou ter que passar minha vida inteira pagando por isso?
- Sim.
- O que foi dessa vez, Olivia? – Roberts perguntou, enquanto Olivia cortava caminho pela multidão.
- Drew quer conversar comigo. – ela falou por cima do ombro.
- E você me quer como testemunha pra quê? Já basta ter pegado vocês dois enquanto concebiam Stacy. – balançou a cabeça. – Eu ainda tenho a imagem na minha cabeça.
- E eu não? – Olivia olhou para a prima que estava vermelha como um pimentão.
- Diz logo o que você quer.
- Eu preciso que você fique na barraca do beijo por alguns minutos enquanto eu e Drew conversamos. – ela se virou pra nós – E eu quero que você leve Stacy pra piscina de bolinhas. – ela olhou pra mim – Todas as amiguinhas do colégio dela estão lá junto com vovó e nossas tias, você pode fazer isso?
- Claro.
- Está vendo, , até seu namorado vai cooperar.
- Olivia, eu vou te matar! – estava a ponto de pular em cima de Olivia quando Stacy e Drew se aproximaram.
- Mamãe, eu posso ir agora pra piscina de bolinhas? – ela abraçou a mãe pelas pernas.
- Pode sim, o que vai te levar.
- Verdade? Tudo bem então. – ela se soltou da mãe e parou ao meu lado, segurando minha mão – Vamos tio , eu quero ir logo.
- Então não vamos perder mais tempo. – peguei Stacy do chão e a coloquei em meus braços.
- Tia , você não vai com a gente?
- Não, eu vou substituir sua mãe na barraca do beijo.
- Vai ver você acha o seu príncipe encantado do mesmo jeito que mamãe achou quando conheceu papai.
- Talvez. – sorriu uma última vez antes de andar em direção a barraca beijo. A piscina de bolinhas ficava do outro lado da quermesse então era uma longa caminhada até lá. Stacy foi o caminho inteiro falando sobre o quanto seu pai e ela tinham se divertido até agora, ela também disse o quanto sentia falta dele e quanto esperava que seus pais voltassem a ficar juntos.
- Como você pode ter tanta certeza que eles querem ficar juntos? – perguntei, sem nem ao menos pensar antes.
- Porque eles se olham do mesmo que você e a tia se olham, e segundo a vovó, isso é amor.
- Mas eu e a sua tia somos amigos. – Stacy olhou pra mim e riu.
- Por enquanto.
- Quem fica colocando essas coisas na sua cabeça? – perguntei, fazendo cócegas nela e vendo-a se contorcer em meus braços.
- A vovó. – ela respondeu logo quando chegamos à piscina de bolinhas. Stacy quase pulou do meu colo quando avistou a avó.
- Pode colocar ela no chão, , as amiguinhas de Stacy já estão todas lá dentro.
- Tudo bem então. – coloquei Stacy no chão, que correu em direção a piscina de bolinhas e se juntou a um grupo de garotas da sua idade.
- Onde está ?
- Teve que substituir Olivia na barraca do beijo. – Carmen olhou pra suas irmãs e depois pra mim.
- E você está esperando o quê? – olhei pra ela, confuso – Não vai fazer companhia a minha neta não? Olivia deve estar com Drew a essa hora e todas nós sabemos o quanto essa reconciliação vai demorar. odeia esperar, se você estiver lá, pode ser que ela não mate alguém antes que Olivia volte.
- Você tem razão.
- Não se preocupe, nós cuidamos de Stacy a partir daqui. – acenei com a cabeça antes de voltar pelo caminho que eu tinha vindo. estava com cara de poucos amigos, encarando as unhas. Esperar nunca foi uma das virtudes de , principalmente quando ela estava presa em uma situação na qual não estava em seu poder sair dela.
- Gostando de ficar na barraca do beijo?
- Eu quero morrer! – ela me puxou para ficar ao seu lado na bancada – Oli disse que ia demorar quinze minutos e já fazem mais de vinte. Eu sei que ela e Drew fizeram as pazes, mas eu não tenho que pagar o pato por ela.
- Ela já está chegando.
- , eu estou temendo pela minha vida! Tem um velho que já passou por aqui umas três vezes e me deu uma piscadela, acho que ele vai comprar ficha pra tentar me beijar.
- Mas esse é o intuito da barraca do beijo!
- Ai meu Deus! Olha , está ali ele – ela apertou o meu braço na hora que um senhor meio esquisito estava passando.
- Ele é meio estranho mesmo.
- Estranho e meio você quer dizer. – grunhiu. – Senhor, eu me arrependo todos os dias de pedir ajudar a Olivia. Aquela bruxinha nunca esquece de nada.
- Vai ver o senhor não beija tão mal assim. – olhou incrédula pra mim. – Só toma cuidado com a dentadura, pra não sair do lugar.
- Eu te odeio! – ela me deu um empurrão.
- . – olhamos os dois pra frente vendo Aaron parado na nossa frente – Barraca do beijo?
- É, Oli teve que resolver algumas coisas e me deixou aqui. Dá pra acreditar na minha má sorte?
- Não tão má sorte pra alguns. – ele respondeu, sorrindo de lado e eu já sabia o que ele estava aprontando – Te vejo em breve. – ele saiu, mas não antes de olhar pra mais uma vez.
Só o pensamento de beijando outro cara acendeu uma faísca dentro de mim, e saber que esse cara poderia ser Aaron foi o que foi preciso pra um fogo acender dentro de mim. Eu não sabia por que, mas eu tinha que acabar com qualquer chance deles dois se beijarem e eu sabia exatamente o que fazer.
- Eu volto já! – falei, antes de sair correndo em direção a bilheteria. Agradeci mentalmente pela fila está pequena e apenas crianças estivessem em minha frente.
- O que eu posso fazer por você, senhor?
- Eu vou querer todas as fichas da barraca do beijo. – eu respondi e a mulher olhou pra mim assustada.
- Você vai querer todas as fichas da barraca do beijo?
- É, todas.
- Mas isso são 920 dólares, você vai querer realmente?
- Vou.
- Tudo bem! Como prefere pagar?
- Vocês aceitam cartão?
- Claro. – entreguei o cartão para ela, que passou o mesmo e depois me entregou a máquina – Aqui suas fichas e seu cartão. – ela me entregou o cartão e uma sacola de fichas – Essa garota deve ter te pegado de jeito, hein?!
- Ah, você não imagina o quanto.
Voltei para a barraca vendo falar com alguém em seu celular, e assim que me viu se aproximando, desligou o mesmo.
- Você estava falando com quem?
- Com ninguém.
- Eu sei que você está mentindo.
- Era só aquele banqueiro idiota tentando falar comigo.
- Verdade?
- Verdade. – ela respondeu colocando o celular no bolso de trás – , o que é isso? – ela apontou pra sacola.
- Todas as fichas da barraca do beijo.
- O quê? – ela olhou pra mim com a boca meio aberta.
- Eu quero ajudar sua avó e quero te ajudar. – ainda estava de boca aberta olhando pra mim, procurando o que dizer.
- Você é o melhor chefe do mundo! – pulou em meus braços. – Meu Deus, muito obrigada! Eu não vou ter que beijar nenhum velho tarado.
- Dá pra você repetir isso?
- Pra que?
- Pra eu poder gravar e toda vez que você reclamar, eu te mostrar.
- Não se preocupe, eu não vou esquecer disso. – ela se apoiou no balcão e eu me apoiei ao seu lado.
- Você acha que eles fizeram as pazes? – eu perguntei, olhando pra frente.
- Com certeza. Oli e Drew se amam tanto que chega a ser até aqueles amores de comédia romântica.
- Se eles se amam tanto, por que separaram?
- Drew sempre quis dar o melhor de tudo pra elas, ele sempre foi muito ligado ao dinheiro então trabalhava como um condenando pra dar tudo que ele achava que elas precisavam, se esquecendo de dar o essencial: amor. Até que Oli não aguentou mais e saiu de casa, ela sempre disse que Drew era o amor da sua vida, mas ele precisava aprender a amá-la e não tentar tampar sua ausência com coisas materiais. Acho que agora ele apreendeu a lição.
- Comédia romântica mesmo.
- Não é tão mal assim, se você for pensar. Nos filmes tudo parece fácil porque é, o ser humano que tem a mania de complicar tudo porque secretamente adora um drama.
- Então você queria viver um amor de comédia romântica?
- Não. – ela olhou pra mim – Só um amor já tá de bom tamanho. – desviei meus olhos dos seus por uma fração de segundos para seus lábios e eu percebi o quão convidativos eles eram, não era primeira vez que isso acontecia, tinha uma velha mania de morder os lábios que parecia até um convite para beijá-los. Talvez eu pudesse, nem que fosse por alguns segundos, beijá-los, só pra saber como é.
- Senhor? – uma voz me tirou do transe fazendo com que eu olhasse pra frente.
- S-sim. – limpei a garganta e me desencostei da bancada. – Em que posso ajudá-los?
- Esse senhor me disse que você comprou todos os itens da barraca do beijo, mas não cobrou nenhum deles.
- É verdade, eu ainda não os cobrei.
- A barraca de beijo está tendo muita procura, não teria como o senhor usar alguma dessas fichas?
- Tudo ao seu tempo.
- Se o senhor não for usar as fichas creio que vou ter que pegá-las de volta.
- Por que? Eu paguei por elas.
- Qual o intuito de comprar as fichas se você não vai beijar a moça?
- Ele vai me beijar, mas não agora. – falou, cruzando os braços.
- Eu só saio daqui com uma prova que ele vai usar as fichas. – o senhor falou, nos encarando.
- Como assim?
- Vocês vão ter que se beijar.
- O quê? Claro que não.
- Está vendo, ele comprou as fichas pra impedi-la de beijar outros caras. Isso é injusto! Eu vou falar com a organização desse evento, essa barraca...
- Ah, cala boca, seu velho idiota! – então fez o inesperado: me segurou pelo rosto e me beijou.
No começo eu fiquei surpreso, porém quando estava prestes a se afastar eu coloquei uma mão em seu pescoço e outra em sua cintura, aprofundando o beijo. Por mais que eu tivesse expectativas de como seria beijá-la, a realidade superava todas as expectativas. Se eu soubesse que beijar era tão maravilhoso, eu já teria lhe roubado um beijo muito antes. Talvez daqui pra frente eu o faça.
- E então, prova o suficiente? – se virou para o velho, que estava de boca aberta.
- Uou! – Olivia falou, fazendo com que virássemos pra ela. – E bota prova nisso.



Capítulo III



Me revirar na cama inúmeras vezes foi um sinal de que o sono não viria tão cedo. O beijo de me deixou desnorteado e a única coisa que eu conseguia pensar desde a quermesse era o quanto eu queria beijá-la novamente. Não era que eu nunca tivesse reparado que era uma mulher atraente, claro que eu tinha, mas eu não sentia aquela atração. Ou talvez eu estava apenas com medo de admitir que essa atração existia desde o primeiro dia que eu a vi porque eu sabia que poderia acabar com nossa amizade e perder não estava em meus planos. Eu honestamente não sabia o que faria sem ela, então eu decidi que iria fingir que o nosso beijo não aconteceu e iria seguir em frente. Só que tudo isso ficava ainda mais difícil com ao meu lado usando apenas um biquíni, sorrindo pra mim toda vez que ela tinha a oportunidade.
- Desculpa te acordar cedo – ela começou – é que vovó decidiu reviver a velha tradição de virmos ao lago já que está todo mundo aqui.
- Tudo bem, eu não me importo, eu até gostei da ideia de tomar banho de lago.
- Tudo bem então. – olhei pra , que colocava os caroços das uvas em cima do prato enquanto pegava outra. Ela olhou pra mim, notando que eu estava encarando-a.
- O quê?
- Nada. – ela colocou os caroços novamente e pegou outra uva, olhando pra mim de novo.
- Para de me encarar, idiota!
- Não dá! Não quando você fica linda desse jeito. – ela sorriu abaixando a cabeça e, quando ela levantou, eu lhe roubei um selinho. Pra quem estava falando de não beijá-la há dois segundos atrás, você está fazendo um péssimo trabalho, .
- ! O que você que está fazendo?
- Nada mais justo eu roubar um beijo seu já que você roubou um beijo meu. – falei, vendo-a abaixar a cabeça. – E se depender de mim, esse só é o primeiro de muitos. – afastei seu cabelo de seu ombro e coloquei minha mão em seu rosto. levantou o rosto e se aproximou de mim, ficando apenas a alguns centímetros do meu rosto.
- Olha que eu vou cobrar. – ela riu, olhando para os meus lábios.
- Pode cobrar cada um deles, eu vou ficar mais do que feliz em pagá-los. – riu alto antes de juntar nossos lábios. Beijá-la me dava uma sensação que eu não sentia há muito tempo: a de pertencer. Me encaixar foi sempre algo que eu procurei a minha vida toda, e pensando bem, era com que eu mais sentia que eu pertencia em algum lugar. Simplesmente era certo quando trabalhávamos juntos, quando conversávamos ou saíamos pra tomar umas, eu já sabia que aqueles momentos eu iria guardar e não os trocariam por nada.
Seus beijos foram tudo que foi preciso pra eu jogar toda a razão pro ar. Se a noite toda eu estava deliberando sobre o que fazer, agora eu tinha certeza que ficar longe de não era uma opção, principalmente sem seus beijos.
- Eu sei que provavelmente a pegação tá muito boa – Olivia nos interrompeu, fazendo com que nós nos separássemos – mas vovó disse que você tem uma visita, . – arregalou os olhos e resmungou baixinho:
- Merda!
- , está tudo bem? – perguntei, procurando seu olhar. Ela levantou a cabeça e sorriu.
- Claro. – se levantou, pegando o short e o vestindo. Logo em seguida pegou o boné e colocou em sua cabeça. Oh não, alguma coisa estava prestes a acontecer e não era das boas.
- ...
- , só vamos. Quando nós voltarmos você vai entender.

foi o caminho inteiro calada, eu tentei ao menos procurar os seus olhos a fim de ver se eu conseguia tirar alguma informação deles, porém escondida debaixo daquele boné ficava difícil saber o que ela estava pensando. Quando chegamos à casa, Olivia disse que a visita estava esperando no salão de jogos, eu estavas prestes a subir pra tomar um banho quando me puxou pela mão em direção ao salão em questão. Primeiro, eu pensei que ela estava com medo de encarar quem é que fosse a pessoa que estava no salão de jogos, porém, logo percebi que não se tratava disso e sim de uma armação, porque do lado da janela estava minha mãe.
- Olá, ! – ela disse, sorrindo, enquanto fechava a porta.
- O que minha mãe está fazendo aqui? – me virei pra ela.
- ... – começou.
- Não, , você não tinha esse direito.
- Mas ...
- Você sabe, você sabe que eu não quero saber nada deles.
- , pelo menos escuta a sua mãe...
- Não ! Eu pensei que eu podia confiar em você, mas estou vendo que não.
- ...
- Eu não acredito que você fez isso comigo, não depois de tudo.
- Dá pra você calar a boca um segundo? – ela gritou jogando as mãos pra cima. – Porra, , larga de ser esse playboy mimado e escuta a sua mãe.
- Playboy mimado?
- É, você é um mimado! Não só mimado, um egoísta também! Você só tem uma família na vida e nem todo mundo tem a oportunidade de conviver com a sua, por Deus, tem umas que nem ligam pros filhos que botaram no mundo, então aprecia a sua com defeitos ou não, porque se o relacionamento de vocês está desse jeito é porque a culpa é sua também. – ela gritou apontando o dedo na minha cara. se recompôs e abaixou a cabeça – Eu vou deixar vocês dois sozinhos. Com licença.
- Ela te ama muito, sabia? – minha mãe disse, depois que saiu.
- O que você está fazendo aqui?
- disse que eu podia vir, ela me ligou dizendo que você sentia falta da sua família.
- Aquela pequena bruxinha! – murmurei, abaixando a cabeça. Olhei para minha mãe novamente. – Ela não poderia estar mais enganada.
- ...
- Eu não acredito que você duas estavam de segredinho pelas minhas costas. Eu não acredito que você trouxe a para os problemas da nossa família.
- , eu não arrastei a pra canto nenhum, ela que ligou me chamando pra vir na esperança que você viesse pra casa comigo.
- Ela não tinha nada que se meter nos meus assuntos.
- Ela só fez isso porque ela se importa com você e sabe que mesmo que você não admita, você sente falta da sua família. – ela se aproximou de mim, colocando as mãos em meu rosto, fazendo com que eu olhasse pra ela – Vem pra casa comigo, querido, todos estão esperando por você.
- Eu só faço isso com uma condição.
- E qual seria essa condição?
- Seu divórcio com Nicolai.
- ...
- Eu só volto pra casa quando ele já não estiver lá. – eu me afastei dela – Eu não sei como você consegue amar um homem daquele, especialmente depois de tudo que ele fez comigo.
- Nicolai só queria o seu bem.
- Diga isso para as várias costelas quebradas, cicatrizes, sem falar nos anos de terapia que eu tive que fazer. – andei até a porta, abrindo-a – Você já sabe minha condição, sem ela, eu não volto pra casa.
- , meu filho.
- É só isso que eu tenho pra dizer, Marion.

Fechei a porta antes de correr pra escada na esperança de não ter que ver minha mãe outra vez. Eu sabia que o que eu estava pedindo era algo impossível de se acontecer, minha mãe amava Nicolai com todas as forças, e dentro da mente doente dele, de alguma forma ele também a amava. O problema dele sempre foi comigo, como se nada que eu fizesse fosse bom o suficiente para o bom e grande Nicolai. No começo, eu até tentei agradá-lo das mais distintas maneiras possíveis, porém, depois de um tempo, você aprende que agradar os outros nunca vai te fazer feliz, então você começa a agradar a si mesmo e o meu primeiro agrado foi me distanciar do homem que um dia eu chamei de pai.
Entrei no quarto vendo sentada na minha cama.
- E aí? – ela perguntou se levantado.
- E aí o quê?
- Você vai passar o feriado com eles?
- Mas é claro que não, !
- ...
- O que você acho que ia acontecer trazendo ela aqui? Que eu simplesmente ia esquecer de todas merdas que meu pai fez e ia correndo pra eles? Tudo que ele fez comigo está guardado dentro de mim e eu prefiro mil vezes nunca mais ver minha família do que ter que olhar pra cara dele.
- Vem comigo!
- O quê?
- Vem comigo!
- Você está louca se você acha que eu vou com você outra vez, o que você fez foi inaceitável.
- E eu não me arrependo nem um pouco de ter feito, faria de novo. Agora deixa de cu doce e vem comigo.
mandou que eu fosse tomar banho dizendo que me esperaria na varanda daqui uma hora, ela também disse que se eu não aparecesse, me pegaria pela orelha e me arrastaria com a roupa do corpo. Como eu sabia que ela faria isso – ou pior – decidi escutá-la. Pra dizer que ela estava com cara de poucos amigos foi um começo, pra piorar, ela decidiu se esconder debaixo do seu boné e de um par de óculos escuros pra não ter que me olhar nos olhos.
O caminho foi silencioso, o único baralho vinha do som do carro, cheguei até a cogitar a ideia de que ela me largaria no meio do mato e só viria me buscar quando eu estivesse de cabeça fria do mesmo jeito que ela fazia quando me encontrava estressado e decidia me trancar dentro do meu escritório até que ela achasse que eu estava aceitável para viver em sociedade outra vez. Só que ela não o fez, na verdade, ela parou em frente a uma casa, tirando o cinto, o boné e os óculos, e se virando pra mim.
- O que nós estamos fazendo aqui, ?! – perguntei, tirando o cinto também.
- Você está vendo aquela mulher cuidando daqueles duas meninas? – ela apontou para as duas meninas que estavam brincando no gramado enquanto uma mulher as observava.
- Sim. O que é que tem? – ela abaixou a cabeça.
- É minha mãe.
- Sua mãe? – olhei pra ela – Eu pensei que ela tinha ido embora.
- Eu menti, ela nunca saiu daqui. – ela olhou pra mim – Eu descobri aos 16 anos que ela ainda morava aqui, eu fiquei tão furiosa com minha avó quando descobri. Ela sempre disse que eu estava melhor sem ela, mas eu nunca acreditei, você sabe, eu sempre vejo o lado bom das coisas mesmo sendo um pouco pessimista. Eu queria conhecer minha mãe, apesar dela ter ido embora, eu queria saber por que ela tinha me abandonado do jeito que ela fez. Eu queria respostas e eu pensei que se eu confrontasse-a, eu finalmente conseguiria, só que você sabe, a realidade é bem diferente da imaginação. Quando eu apareci na sua porta, ela não me reconheceu. Quando eu disse que eu era sua filha, ela simplesmente disse que as suas duas filhas estavam lá dentro. – ela respirou fundo – Levou alguns minutos pra ela lembrar que eu existia, e no final, sabe o que foi que ela disse? – ela olhou pra mim – Por favor, não estrague a minha vida. Nenhum "como você está?" ou "ai meu Deus, ?", ou até um "o que você pensa que está fazendo aqui?", ela me tratou como se eu fosse alguma espécie de doença que veio pra destruir tudo que ela já amou. – ela limpou as lágrimas – Depois disso eu chorei durante semanas sem parar, até que eu percebi que não valia a pena. Eu tinha várias mulheres que me criaram, fizeram de tudo pra que eu seguissem meus sonhos e não perdesse a esperança, eu não precisava – ou melhor, eu não preciso – dela. Eu não tinha só uma mãe, eu tinha várias.
- Ela não veio atrás de você depois?
- Eventualmente seu marido descobriu que ela tinha outra filha, ele fez questão de me conhecer. Ele é bom homem, bom pai, fez questão de que eu convivesse com as duas meninas, Sophie e Colbie. Elas são adoráveis, Sophie quer ser astronauta, enquanto Colbie quer ser cozinheira.
- Mas e sua mãe?
- Nossa relação não passa de pura educação. Não adianta forçar, sabe? Jarvis, seu marido, até tentou, mas eu conversei com ele e estamos em bons termos. Ela pediu desculpa, mas foi sincera quando disse que não me considerava uma filha pra ela. – ela se aproximou de mim e pegou minha mão. – O que eu quero dizer é que você tem que tentar. Eu sei que seu pai foi um belo idiota, mas e o resto da sua família? Você vai se privar de vê-los só porque não gosta de um deles? Eu sei que você tenta esconder, mas eu vejo que você sente saudades deles. Então, eu acho que você deveria ir visitá-los, não estou dizendo pra você perdoar tudo que seu pai fez, mas pelo menos tentar ter uma relação de respeito, pelo bem da sua família, da sua mãe principalmente. Às vezes a gente tem que fazer um sacrifício pelas pessoas que a gente ama. O meu é visitar aquelas duas garotinhas e ter que encarar a mulher que me abandonou, e o seu, qual é?
- Eu te amo, sabia? – eu falei sem pensar, mas era o que eu estava sentindo. Deus, eu amava essa garota.
- Então, o que vai ser, ?
- Você me leva pro aeroporto?
- Seu pedido é uma ordem.

Colocar as coisas de volta na mala não foi a pior parte, ter que me despedir da família da , sim. Quando eu desci com todas as minhas coisas, a maioria dos membros da família de já estavam na sala de estar esperando que eu descesse. Abracei cada uma escutando vários pedidos para que eu não fosse um estranho e viesse visitá-las sempre quando pudesse, olhei para que deu de ombros e sorriu pra mim.
foi o caminho inteiro calada, escondida debaixo do seu boné. Eram momentos como esses que me faziam pensar que ainda era um mistério pra mim, quando eu estava prestes a me dar por vencido que eu já sabia tudo sobre ela, ela ia lá e me mostrava algo novo fazendo com que todos as minhas certezas desaparecessem. Quero dizer, não todas, porque eu sempre tive a certeza que eu gostaria de ficar conhecendo cada pedaço dela.
- Sua mãe está te esperando no portão de embarque. – falou quando entramos no aeroporto.
- Ela não foi embora?
- Não, ela ainda tinha esperança que eu fizesse você mudar de ideia. – ela disse, acenando para minha mãe que acenou de volta – Ela é uma mulher incrível, sabia?!
- Vejo que as duas viraram amiguinhas pelas minhas costas.
- Fazer o que se eu não consigo resistir aqueles olhos de cachorro sem dono que ela faz do mesmo jeito que você faz? Eu sou apenas um ser humano, é praticamente impossível de resistir.
- Eu que o diga. – paramos em frente à Marion, que tinha um sorriso no rosto e lágrimas nos olhos.
- Muito obrigada, . – minha mãe abraçou , quase esmagando a mesma.
- Se eu me lembro corretamente, a decisão de vir ainda foi minha.
- Mas com grande ajuda dessa menina aqui. – ela se separou dela e olhou pra mim – Fico muito feliz que você tenha decidido vir, todo mundo sente a sua falta, especialmente a sua avó.
- Ela ainda faz aquela torta maravilhosa de chocolate?!
- E todo ano ela guarda um pedaço na esperança de que você venha. – ela colocou as mãos em meu rosto – Dessa vez, ela não vai precisar.
Antes que eu pudesse responder, a chamada para o nosso voo ecoou pelo aeroporto.
- Acho que essa é a nossa deixa, hein filho?! – ela disse, arrumando sua bolsa – Aqui sua passagem, eu te espero lá dentro. – ela deu um último abraço em antes de entrar no portão de embarque.
- Acho que isso é um adeus, hein, ?! – ela disse sorrindo fraco, abaixando a cabeça.
- Na verdade não é um adeus, é um até logo, mas eu tenho uma mera impressão que meu até logo é diferente do seu.
- , do que você está falando? Às vezes você não faz senti... – eu não a deixei terminar, tirei o boné da sua cabeça e a puxei pela cintura, colando nossos lábios. ficou surpresa, mas logo eu senti suas mãos entrelaçarem em meus cabelos – Atrevo a dizer que eu gosto mais da sua versão de "até logo". – ela disse, assim que partimos o beijo, sorrindo pra mim.
- ...
- Sim.
- O que nós estamos fazendo?
- Não sei, mas acho melhor você ir antes de que você perca seu voo. – eu a beijei novamente e disse:
- Você sabe que nós dois está longe de acabar. – eu disse, me afastando dela, andando para trás para que eu pudesse vê-la.
- Pode ter certeza disso, . Pode ter certeza. – ela respondeu, com um sorriso maroto nos lábios.



Capítulo V



A única coisa que as festas da família da tinham em comum com a da minha família era o número de pessoas convidadas, todo o resto era diferente. Enquanto as festas da família da eram feitas de gente simpáticas, prontas para lhe prender em um abraço de urso e uma conversa quase sem fim que lhe fazia rir desde os primeiros minutos, as da minha família eram cheias de pessoas esnobes, que só lhe paravam para fazer comentários sobre a sua aparência ou perguntar o quanto você estava ganhando no mês. Sem falar naquelas amigas das minha mãe e tias que depois que descobriram que eu era dono da minha própria empresa e ainda herdeiro da do meu pai, só enxergavam notas de cem quando olhavam para mim e tentavam me empurrar suas filhas. Eu quase, – e quando eu digo quase, quer dizer que minha paciência estava por um fio – joguei as mãos para o alto e saí daquela festa sem nem ao menos olhar para trás, porém toda vez que eu ao menos pensava nisso, as palavras de vinham na minha cabeça dizendo que eu pelo menos tentasse. Então foi isso que eu fiz: eu tentei o máximo que eu pude, tentando focar no lado bom dessa festa, e posso dizer que não eram muitos.
Aos poucos eu fui conversando com alguns parentes, uns que eu não via há muito tempo, para então começar ao menos a me divertir. que não me escutasse agora, mas ela tinha completa razão quando disse que fazer sacrifícios pelas pessoas que a gente ama pode trazer uma espécie de gratificação no final. Vai ver comparecer em festas de famílias possa voltar ao meu calendário de eventos daqui para a frente, talvez pudesse até me acompanhar em alguma delas. Eu já podia até imaginar rolando os olhos a torto e a direita pedindo, por favor, que eu acabasse com essa tortura.
- Quem olha pro céu e sorri desse jeito é porque está apaixonado. – A voz de minha mãe fez com que eu virasse para trás. A festa estava bombando na cobertura de meus pais, mas qualquer um tinha seu limite de pessoas esnobes por metro quadrado, então eu decidi ir para a varanda respirar um pouco.
- Eu só estava precisando de um pouco de ar. – respondi, olhando pra frente outra vez.
- Vou fingir que acredito em você. – Ela andou até mim e se apoiou nos ferros da varanda ao meu lado – Seu pai ficou surpreso porque você veio.
- Deu pra ver na cara dele quando eu cheguei, parecia que você tinha visto um fantasma.
- Não um fantasma, mas uma fotocópia dele mesmo nos seus anos mais jovens. – ela passou a mão por minhas costas – Vocês são muito parecidos em vários aspectos, fisicamente principalmente, mas eu nunca conheci duas pessoas tão diferentes. Seu pai, por exemplo, é frio e calculista, só eu sei o quanto eu lutei pra conseguir tirar uma emoção daquele coração de gelo. – Ela riu sem humor – Já você, é transparente, dá pra saber o que você está sentindo em seus olhos. – Olhei para ela – Eu quero que você saiba que eu não espero que você e seu pai sejam os melhores amigos do mundo, mas eu fico muito feliz por você tentar, pelo menos pela sua família.
- Você deveria agradecer a , se não fosse por ela mostrando pra mim que na vida a gente faz sacrifícios pelas pessoas que a gente ama, eu provavelmente não estaria aqui.
- Ela é uma garota muito especial né, filho?!
- Ela é simplesmente incrível, sabe? – soltei todo o ar pela minha boca, me virando pra ela – Ela me surpreende a cada dia me deixando conhecer um pouco mais sobre ela. é uma pessoa reservada, horrível quando se trata de pessoas, ela não deixa quase ninguém entrar em sua vida por conta do que sua mãe fez. Ela mesma diz que não nasceu pra conviver com gente, por isso passava uma boa parte do seu tempo com a cabeça enterrada em livros. Só que às vezes, eu acho que ela não sabe o quanto ela é boa quando se trata de pessoas, ela simplesmente conquista todo mundo por onde passa e não faz um nenhum esforço pra isso. Ela é mandona, marrenta, às vezes até mimada, mas ela também adora ajudar ao próximo, é engraçada, e fala na cara. Eu já perdi as contas de quantas vezes ela já me colocou no meu lugar, na verdade, não só eu, mas qualquer pessoa que se comporta como um imbecil perto dela.
- Você fala como se...
- Eu estivesse apaixonado? Bem, mãe, eu estou. No começo eu pensei que fosse só admiração, companheirismo, respeito... e então eu percebi que amor é tudo isso e aquela vontade enorme de ter aquela pessoa por perto.
- Você já disse isso pra ela?
- Não, mas eu pretendo. Vai ser a primeira coisa que eu vou fazer quando eu vê-la outra vez. Pra falar a verdade, eu preparei uma surpresa pra ela que pode ter certeza de que ela vai amar. Eu pretendo pedi-la em namoro, ela não vai ter que recusar.
- Senhora . – Uma das mulheres que trabalham no buffet que minha mãe contratou disse chamando nossa atenção – Tem uma convidada na recepção que não está na lista.
- Deve ser mais um das socialites sem noção amigas da sua tia. – Ela bufou – Eu volto já, filho. – ela saiu e eu voltei meu olhar para o horizonte outra vez. O que será que estava fazendo? Será que se eu ligar pra ela, ela atende?
- , tem uma visita pra você. – virei-me para trás esperando mais algum parente que eu não via há anos, mas quem eu encontrei foi bem melhor. -? – Perguntei, começando a andar até ela.
- Oi, ! – Ela respondeu, sorrindo sem os dentes.
- Eu vou deixar vocês dois sozinhos. É sempre um prazer vê-la, .
- Você também, senhora . E feliz natal.
- Pra você também, querida. – Minha mãe saiu, mas antes deu uma piscadela pra mim.
- Festa de gente rica é outro nível. – Ela disse, mexendo em seus dedos. – Na minha casa todo mundo fica de pijama a noite inteira e ai de quem usar algo além disso. – ela riu sem graça – ! Fala alguma coisa, eu odeio quando você me dá tratamento de silêncio.
- Eu não acredito que você está aqui. – Eu sorri, andando até ela em passos largos, a puxando pela cintura e a beijando profundamente. ficou surpresa no começo, mas logo ela respondeu ao meu beijo, entrelaçando seus dedos nos meus cabelos – O que você está fazendo aqui? – Eu me separei dela, encostando nossas testas – Você não tinha que passar o Natal com sua família?
- É, mas sua mãe me ligou dizendo que você ia precisar de um apoio, então eu vim. Mas se você quiser, eu vou embora, eu não vou ficar muito tempo mesmo.
- Você é extraordinária, sabia?
- Sim! E vê se não esquece de linda. – Ela jogou o cabelo por cima do ombro.
- Como eu poderia esquecer?! Então, pronta para conhecer minha família?
- Não.
eu disse que era maravilhosa com as pessoas, eu não estava mentindo, ela simplesmente conquistou todos os membros da minha família que eu apresentei, até minha avó, que não gostava muito de pessoas novas, já a tinha chamado pra jantar depois do ano novo. Eu estava mais feliz que pinto no lixo, saber que tinha conquistado os meus familiares, tinha feito com que eu não parasse de sorrir. Melhor ainda foi vê-la aceitando a torto e a direita convites de aniversários, jantares e festas dos meus familiares, tudo isso sem negar nenhuma vez quando eles a chamaram de namorada de .
transformou uma das piores festas de finais de ano em uma das melhores em questão de minutos.
- Eu vou buscar alguma coisa pra beber. – disse no meu ouvido.
- Você quer que eu vá com você?
- Deixa a garota respirar, , nenhuma mulher gosta de se sentir sufocada. – Minha avó disse, segurando minha mão.
- É isso mesmo, senhora . – Ela levantou sua mão e minha avó bateu – Eu já volto, amor. – Ela me deu um selinho e desapareceu pela multidão.
- Eu estou feliz por você, meu neto. – Me virei para minha avó novamente – Anos sem aparecer nas festas de família, e quando aparece é com um sorriso no rosto e com uma garota incrível ao seu lado e com um sorriso no rosto? Já posso esperar o convite do casório?
- Daqui a alguns anos, quem sabe. – Eu sorri, colocando as mãos no bolso.
- Quem diria que você estaria na minha frente falando de casamento. – Eu estava prestes a falar quando o sorriso da minha avó desapareceu enquanto seu olhar estava atrás de mim. Me virei pra trás a tempo de ver jogando champanhe na cara do meu pai, eu não pensei duas vezes antes de sair andando a passos largos até a cozinha apenas pra ver correndo pra fora da festa.
- Que porra você fez agora? – Eu disse, me aproximando de meu pai que passava o lenço na cara – O que você disse para ela?
- Namorando a secretária, ? Honestamente, você não poderia ser mais clichê.
- O que você fez com ela?
- Eu a mandei de volta pro lugar dela. – ele olhou pra mim – Honestamente, , você não pode estar falando sério? Aquela garota é uma mal-educada, jogou champanhe na minha cara.
- O. Que. Você. Disse. Pra. Ela? – Eu disse, lentamente, tentando manter minha paciência.
- Eu a mandei de volta pro lugar dela, é claro. Aquela garota não tem requinte nenhum para fica com você.
- Olha, Nikolai, eu vou falar isso uma vez, e como eu sei que você é um homem bom de negócio, não vai esquecer: aquela garota que acabou de sair daqui foi a melhor coisa que me aconteceu, eu a amo mais do que tudo e nem você, nem ninguém vai atrapalhar o que a gente tem. Eu quero que você se exploda com seu preconceito que só machuca os outros e eu estou pouco me fodendo para o que você acha da minha vida, você não manda mais em mim.
- Eu sou seu pai, você não pode falar comigo dessa maneira!
- Eu falo com você do jeito que eu quiser, Nikolai. Saiba que a única razão eu estar nessa festa olhando pra sua cara desagradável foi porque a me convenceu, porque ela é melhor pessoa do que você jamais foi. Eu não quero que você nem olhe pra , está me entendendo?
- Isso é uma ameaça?
- Eu não sou homem de ameaças, sou um homem de promessas, e eu tendo a cumpri-las. – Virei-me em direção a porta, ignorando os gritos de minha mãe. Quase quebrei o botão do elevador e fui o caminho inteiro batendo o pé no chão, imaginando vários cenários nos quais já tinha ido embora sem nem ao menos se despedir. Quando eu cheguei lá fora, estava fazendo sinal tentando arrumar um táxi.
- . – Eu disse, parando atrás dela.
- Que susto, assombração! – deu um pulo colocando a mão no coração e virando pra mim.
- O que meu pai disse pra você? – Eu perguntei, passando minhas mãos por seus braços.
- Feliz Natal e um próspero ano novo. – Ela disse, cruzando os braços e dando de ombros.
- Mentira!
- Claro que é mentira, ele me chamou de secretariazinha que quer chegar ao topo.
- E o que você disse?
- Oh, que eu queria sim ficar no topo, principalmente se fosse do filho dele. – Ela deu de ombros novamente, e eu soltei uma gargalhada jogando a cabeça para trás – Aí eu joguei bebida na cara dele e disse que era o pior champanhe que eu já tinha tomado na vida. Gente rica tem mesmo péssimo gosto.
- Você não existe, . – Coloquei meus braços ao redor da sua cintura, a puxando para a perto.
- Eu fiz mais pelos anos acumulados de raiva que eu senti por tudo que ele fez com você. Eu nunca consegui tirar nenhuma das histórias da minha cabeça, para falar a verdade.
- Por quê?
- Hum...Você lembra quando nós estávamos na roda gigante e eu te disse que precisava te contar três coisas?
- Lembro. Uma era sobre minha mãe, segunda sobre a sua e a terceira...
- Eu te amo. – Ela disse, abaixando a cabeça – E quando a gente ama, não quer ver a pessoa sofrendo, e saber que seu próprio pai fez tudo aquilo me deixava com muita raiva porque eu queria estar lá para tirar a sua dor. – Ela levantou a cabeça – Mas aí eu lembro que todo o seu sofrimento te fez a pessoa maravilhosa que você é hoje, e isso não justificava, mas pelo menos me dá uma espécie de alívio, sabe?! – Eu sorri antes e beijá-la. sempre parecia surpresa com meus beijos, mas sempre se derretia nos meus braços enquanto eu me perdia nela.
- Vem comigo. – Eu disse, me separando dela e a pegando pela mão.
- , pra onde você está me levando? – Ela perguntou.
- Só vem comigo. – abri a porta do táxi esperando passar pra eu poder entrar. Sussurrei o endereço no ouvido do taxista, fazendo com que me olhasse curiosa.
- Você vai me dizer do que se trata? – Ela perguntou, se virando pra mim.
- Não.
- Vai me deixar curiosa?
- Vou.
- ! – Ela deu um soco em meu braço fazendo com que eu risse. Eu apenas pisquei pra ela e voltei minha atenção pra ela, o que fez bufar alto.
No caminho até o meu apartamento, passou o tempo inteiro fazendo perguntas: Onde a gente vai? Por que você não fala? E sua família? E sua mãe? Por que você não diz para onde estamos indo? E entre outras, porém eu apenas a ignorei. odiava ser ignorada.
Quando nós paramos em frente ao meu apartamento, eu paguei o taxista e ajudei a sair do carro.
- O que nós estamos fazendo no seu apartamento? – perguntou, enquanto nós entrávamos pelo hall.
- Você vai ver.
- ...
- Você confia em mim, ? – Perguntei, entrando no elevador com ela ao meu lado.
- Claro que sim.
- Então apenas espere um pouco. – O elevador parou em meu andar – E agora fecha os olhos. – balançou a cabeça antes de fechar os olhos e se deixar levar por mim. Parei na porta, abrindo a mesma e a ajudando a entrar em meu apartamento. No meio da sala havia o presente do qual eu pretendia dar a , era uma coisa que ela queria muito, porém eu sabia que ela nunca iria comprar.
- Eu posso olhar agora?
- Pode sim. – abriu os olhos lentamente e logo seu queixo caiu no chão. Ela olhou para mim antes de voltar o seu olhar novamente para a árvore. No meio da sala tinha uma árvore de natal de quase três metros de altura feita apenas com sapatos com o número de .
- , isso é o que eu penso que é?
- Se você acha que é uma árvore de natal feita de sapatos com o seu número, então você está pensando correto.
- Como você fez isso? Por que você fez isso?
- Eu vi na loja e comprei. – Coloquei meus braços ao redor da sua cintura – Lembra quando você levou Francis e eu para escolher um sapato pra mulher dele e você disse que queria uma árvore dessas?! Então, no mesmo dia eu comprei essa árvore e os sapatos para colocar nelas. Eu ia mandar entregar na sua casa, mas aí você foi passar o natal com sua família.
- Eu estava brincando! – Apertei meus braços ao redor da sua cintura – Tudo bem, não estava brincando tanto assim, mas eu não esperava que você realmente comprasse a árvore. E ainda mais com todos os sapatos. – Ela olhou para a árvore – Você realmente não pertence a esse mundo, . – Ela se virou para mim.
- É verdade, eu pertenço ao seu. – Eu sorri, dando um selinho nela.
- Na verdade, eu também tenho um presente pra você. – Ela disse, se afastando de mim, começando a andar para trás.
- É mesmo?
- Sim. – Ela tirou os sapatos – Só que dessa vez, você vai ter que lutar por ele.
- E quando é que eu não tenho que lutar quando se trata de você, ? – Comecei a andar em direção a ela.
- Acho que você está certo. Uma garota tem que fazer o necessário para conquistar um chefinho marrento que nem você.
- Retira o que disse agora!
- Não!
- Eu vou contar até três. – Eu disse, rindo de lado – Três! soltou um gritou e começou a correr pela casa. E naquele momento, quando eu finalmente consegui pegá-la e carregá-la até o quarto, fazendo amor com ela até altas horas da noite, eu finalmente senti que tinha achado o meu lugar.



Fim..



Nota da autora: Flawless Curse[Mcfly/Finalizadas]
Come Away With Me [Outros/Finalizadas]
03. Hands To Myself [Ficstape Revival]
Time Heals Wounds [Restritas/Finalizada]
14. Easy Way Out [Ficstape Mcfly]
09. Young Volcanoes [Ficstape Fall Out Boy]
06. The Mighty Fall [Ficstape Fall Out Boy]
Reminiscência [Outros/Andamento]

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