Última atualização: 28/04/2018
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Prólogo

Observei o prédio branco com alguns detalhes laranja em minha frente e suspirei. Você não pode desistir, disse a mim mesma, fechando os olhos firmemente. As letras ACCESS, em inglês “acesso”, estavam até que discretas para o prédio de seis andares em Boston, longe do centro. Afinal, nenhum prédio de assessoria gostaria de ser um ponto no meio da cidade com luzes neons apontando para ele com a frase “estou aqui”, para quem tivesse o interesse de ir lá e encher o saco de alguns dos astros e empresas mais famosas e lucrativas da atualidade.
Verifiquei o horário em meu relógio e, como sempre, estava 15 minutos adiantada. Conferi em minha mão a pasta transparente com alguns de meus releases mais recentes, um portfólio e também algumas cópias atualizadas do meu currículo. Chequei se todos os botões da minha blusa social branca estavam fechados e se a calça social preta não possuía nenhum resquício do meu almoço. Meus saltos pretos estavam ajeitados e meu rabo de cavalo não aparentava ter nenhum fio arrepiado saindo dele. Respirei fundo, 10 minutos. Hora de entrar.
As portas se abriram assim que coloquei o pé mais próximo a elas, sentindo o ar gelado em comparação ao quente de Boston naquela segunda-feira à tarde. Obriguei meus pés a andarem até o balcão da recepcionista, apoiei levemente a pasta que estava em minhas mãos e recebi um sorriso simpático da ruiva com sardas no rosto.
- Olá, posso te ajudar? – Ela falou com a maior simplicidade do mundo, mantendo o sorriso branco em seu rosto.
- Eu tenho uma entrevista às 14 horas com Kelly Stephens. – Falei, tentando manter a confiança em meu peito, mas minhas pernas pareciam uma gelatina e estavam prontas para despencar e, devido à minha altura, não seria uma queda muito pequena.
- Claro, , certo? – Confirmei com a cabeça, mantenha-se sorrindo, sorria. – Irei chamá-la, fique à vontade!
Virei meu corpo de lado e vi que dos dois lados da porta havia sofás de couro branco vazios, só eu estava lá. Andei calmamente até um dos sofás e me sentei, apoiando a pasta em meu colo e a bolsa por cima.
- Senhorita Carvalho? – Ergui meu rosto, dando de cara com uma mulher de cabelos bem curtos e loiros, possuía um sorriso gracioso e um terninho executivo roxo em seu corpo. Não deveria ter mais de 55 anos.
- Sou eu! – Falei e ela abriu um sorriso estendendo a mão para mim. Fiquei um pouco confusa se eu me levantava, apertava a mão dela, ou se pegava minhas coisas. Escolhi por apertar sua mão e depois levantar.
- Me acompanhe, por favor!
A segui, passando pelos detectores de metais, pelos seguranças e por alguns olhos curiosos que eu tinha certeza que pensavam que eu era um peixe fora d’água e que realmente não deveria estar ali. Confiança, , confiança. Fui levada para uma sala com um ar condicionado mais forte ainda e agradeci mentalmente por ter escolhido uma camisa de manga comprida. Só espero que eu não esteja suando pelo pouco tempo que fiquei lá fora.
- Fique à vontade! – Ela apontou para uma das cadeiras na ponta da mesa e eu me sentei, vendo-a fazer o mesmo do outro lado. Apoiei a pasta na mesa de mogno escuro e minha bolsa se manteve em meu colo.
- Então, ... Conte-me um pouco sobre você, o que uma brasileira faz perdida em Boston? – Achei a pergunta engraçada, já que Boston é um dos lugares com maior foco de brasileiros no mundo, mas não me deixei abalar. Senti meus ombros relaxarem e tentei fazer com que minha voz saísse o mais normal possível.
A conversa fluiu. Dei graças à Deus pelo meu inglês não falhar ou que ela pudesse fazer alguma pergunta que confundisse as palavras e desse algum vexame. Me mantive calma... Até ela fazer a última pergunta.
- Por que eu devo contratar você, uma jornalista e não os RPs que eu entrevistei essa manhã? – Eu não sabia me vender e não esperava por aquela pergunta. Suspirei e tentei me lembrar das aulas de assessoria na faculdade, onde a discussão Jornalista x Relações Públicas era constante. Minha voz saiu calmamente, minha descendência italiana descansou, fazendo com que minhas mãos não se mexessem tanto e, assim, pude formular com calma a resposta que estava guardada há uns nove anos em minha boca. Ela sorriu.



Capítulo 1

(Não importa aonde a vida me leve, eu irei te encontrar – Simple Plan, Meet You There)

Assim que as portas de vidro se abriram, uma cabeça com cabelos ruivos cacheados e um rosto cheio de sardas já sorriam para mim, me esperando de pé.
- Vamos? Senhora Stephens quer falar contigo antes de você começar. – Afirmei com a cabeça, ajeitei minha bolsa vinho no braço e acompanhei Genevive, a ruiva, pelo corredor com detector de metais e seguranças. Os homens balançaram a cabeça, me cumprimentando, e eu retribuí, repetindo o gesto.
Caminhamos pelos longos corredores da ACCESS até estarmos dentro de um elevador. Genevive pressionou o botão seis e a porta se fechou atrás de mim.
Não falamos nada enquanto subíamos. Quando chegamos ao andar desejado, Genevive me deu um sorriso empolgado e eu saí do mesmo, vendo as portas se fecharem rapidamente e notei que ela não havia saído comigo. É agora que eu fico nervosa?
Dei passos lentos em direção à enorme sala que se estendia pelo sexto andar. Não havia portas de divisão, somente uma que deveria ser o banheiro. Em compensação, o material das paredes era um vidro fosco, o que garantia privacidade à senhora Stephens.
Ela estava lá, com os óculos escuros no rosto, um novo vestido e os mesmos saltos que eu já reconhecia em seus pés. Assim que eu dei um passo um pouco mais forte, ela ergueu os olhos, abrindo um sorriso, indicando uma das cadeiras em sua frente para que eu me sentasse.
- Fico feliz que esteja aqui conosco, . Primeiramente, bem vinda! Espero que goste da ACCESS, e claro, que se sinta confortável para tirar quaisquer dúvidas que possam surgir em sua carreira ou em seu ambiente de trabalho. É muito bom ter alguém mais jovem aqui, fazia um tempo já. – Ela deu uma risada e eu me senti confortável em segui-la.
- Obrigada, senhora Stephens, é um prazer estar aqui, eu sempre gostei de assessoria, então é muito bom poder trabalhar no que eu gosto.
- Nada de senhora, me chame de Kelly, por favor. – Assenti com a cabeça concordando. - Vamos dar uma volta e te apresentar algumas pessoas? – Ela falou, se levantando de sua cadeira e eu repeti o gesto. Ela já estava me esperando com as portas do elevador abertas.
Passamos por todos os andares da empresa de assessoria. Os primeiros quatro andares eram salas de alguns dos assessores que trabalhavam em Boston ou de suas equipes, o quinto andar era um estúdio fotográfico e, no sexto, era a sala de Kelly, junto com um espaço para os seguranças e sala de reuniões. Após toda a apresentação, voltamos ao quarto andar, com ela falando sobre meu novo trabalho.
- Bem, como sabe, temos várias equipes, com assessores chefes em cada uma. Analisando seu currículo e suas respostas na entrevista, achamos que você deve ficar na equipe da Melina Parks, ela é só alguns anos mais velha que você e cuida de vários artistas, mas o principal é o ator . – Abri um sorriso discreto de lado, eu era, secretamente, fã do D e viciada em filmes da Produtora Máxima, mas me contive em compartilhar. – Boa parte da equipe de Melina fica em Los Angeles, tirando uma parte que fica aqui em Boston, cuidando de diversos assuntos, especialmente do senhor , já que ele é daqui. – Assenti com a cabeça.
No quarto andar havia três portas, em uma delas o nome Melina Parks – Equipe estava em destaque. Foi nesta porta que entramos. Era uma pequena sala, com as paredes brancas, e os sofás de couro preto. No meio, tinha uma mesinha de centro de madeira escura com alguns papéis jogados em cima dela. À direita, havia uma pequena copa, com alguns utensílios culinários. Na sala, havia mais quatro portas e somente duas estavam abertas, incluindo uma com os dizeres – Jornalista, que aparentava ter sido recém-adicionada na porta escura.
- Seja bem-vinda, senhorita ! – Uma voz mais grossa soou atrás de nós e me virei, um rapaz alto e moreno, em um terno escuro e com a barba cheia, estava parado atrás de nós, mantendo as duas mãos em frente ao corpo e um sorriso até que fofo nos lábios.
- , esse é Derek, ele faz parte da equipe de Melina aqui em Boston, mas cuida de casos um pouco mais tensos, as atrizes. – Kelly falou o fim em um sussurro.
- Você deu sorte, novata, vai ficar com os atores, eles são menos rebeldes do que as atrizes de Hollywood. – Ele falou acariciando de leve meu ombro e abrindo um largo sorriso.
- Exatamente por isso, Derek. Não queremos assustar a menina, certo? – Kelly falou e ao mesmo tempo mexeu no bolso de seu terninho, pegando um celular preto, que agora era possível ouvir o barulho dele vibrando em sua mão. – Com licença. – Ela falou se afastando. E mesmo há poucos centímetros do meu lado, não conseguia mais ouvir sua voz.
- Seja bem vinda, ... Posso te chamar de , certo?! – Abri um sorriso de lado e confirmei com a cabeça. – Somos quatro aqui, contando com a Melina, mas ela passa muito tempo em Los Angeles. Tem também a Ruth, mas hoje ela não veio, foi fazer um ultrassom para saber o sexo do bebê, estou muito empolgado com isso. – Ele abriu a porta que havia meu nome e entramos no pequeno espaço. Eu abri um sorriso largo, porque ele sorriu ao meu lado e me empurrou de leve com o ombro.
A sala tinha as paredes brancas, e a que ficava de costas para a porta, era metade de vidro, igual à de Kelly. Todos os móveis eram nas cores preto e branco. Havia uma escrivaninha branca com detalhes pretos exatamente no meio da sala, juntamente com uma poltrona preta. Em frente à mesa, duas poltronas aparentemente macias. Um pouco a diagonal, um armário e um cabideiro também pretos completavam a sala. Em cima da mesa ainda havia um notebook fechado, alguns post-its, blocos, telefone e algumas coisas que eu achei que seriam necessárias.
- Isso é demais! – Falei um pouco mais alto, ouvindo Derek sorrir ao meu lado.
- Que bom que gostou, senhorita ! – Kelly falou atrás de mim, tocando meus ombros levemente. – Eu preciso sair, é uma emergência familiar. Derek, por favor, mostre o resto do local para e depois fale um pouco sobre suas responsabilidades. – Ele acenou com a cabeça, e eu também, os dois sorrindo. – E ... – Nossos olhos subiram para ela. – Seja bem vinda, mais uma vez, à ACCESS.
Entrei e apertei o interruptor, vendo toda a sala se iluminar com as luzes do teto e de um abajur alto ao lado da escrivaninha. Andei pelo local e parei em frente ao vidro que cobria metade da extensão da sala. Apoiei minhas mãos no batente e encarei a cidade lá embaixo, por mais que estivéssemos um pouco longe do centro, o movimento ainda era intenso, nada muito exagerado, mas era possível ouvir o barulho dos carros e da cidade, mesmo com as janelas fechadas.
- Melina deu uma olhada em seu currículo e realmente ficou interessada por alguém que tenha conhecimentos em códigos HTML, redes sociais, sites, edições e alguns segredos a mais que seu portfólio nos mostrou. – Eu me virei para encará-lo parado no batente da porta.
- Vou cuidar da parte online, então? – Ele abriu um largo sorriso, e eu ri também.
- Sim, mais ou menos, na verdade, aqui fazemos de tudo um pouco, espero que você goste, somos quase uma família aqui, espero que possa se sentir parte dela, brasileirinha.
- Obrigada, Derek, é muito bom estar aqui, muito mesmo. Eu sempre gostei de assessoria e poder trabalhar nisso, depois de sete anos formada, é bom demais! É finalmente se sentir livre, independente, é a...
- Melhor sensação do mundo? – Ele completou minha frase, e eu dei uma risada.
- Pois é! – Derek riu e me estendeu a mão.
- Hoje você não vai trabalhar porque Melina está em Los Angeles cuidando de algumas coisas do . Então, café? – Olhei para ele meio em dúvidas e ele riu mantendo a mão estendida. – Eu estou no comando aqui agora e, você realmente parece precisar de um café para relaxar. – Abri um sorriso de lado e segurei sua mão.

Havia uma cafeteria na esquina da ACCESS, estava um pouco vazia quando chegamos. Reconheci algumas pessoas que eu vi pela agência, mas que não se deram ao trabalho de me cumprimentar, e eu não o fiz para não ficar com a mão erguida.
Sentamos em uma mesa próxima a uma das janelas e fizemos nossos pedidos. Pedi um café com creme e um muffin para acompanhar e ele pediu só o café. Assim que nossos pedidos chegaram, Derek se interessou na minha história.
- O que uma brasileira veio fazer em Boston? Você não veio para tentar uma vida melhor, que eu sei. – Ele me encarou dando um gole em seu café.
- Consegui uma bolsa para fazer pós-graduação aqui com um ano de duração. Eles bancaram tudo e, nesse meio tempo, trabalhei na assessoria da faculdade, mas falta somente um mês para minhas aulas acabarem e eu realmente não quero ir embora de Boston agora, acho que essa cidade me cativou. – Sorri brevemente. - Então eu saí distribuindo currículos pela cidade, até cair aqui na ACCESS. Achei que seria um passo maior que minhas pernas, pelo fato de ser uma agência de assessoria bem ampla, mas pelo jeito não. – Sorri, dando uma pequena mordida no muffin de chocolate com chocolate branco.
- Precisamos de pessoas novas, sabe? Renovar o estoque um pouco, pessoas que não enlouqueçam logo na primeira semana quando derem de cara com algum famoso em crise. Ao mesmo tempo, precisamos de pessoas com o pensamento diferente, e como você é brasileira, aposto que tem diferentes meios de pensar. – Ele suspirou e apoiou o copo na mesa.
- Espero que eu possa colaborar com isso. – Ergui meu copo e ele fez o mesmo, tocando no meu, em um rápido brinde.
Pude conhecer Derek um pouco. 27 anos, a mesma idade que a minha, formado em jornalismo também, nascido e criado em Boston. Cuida dos casos mais complicados, como artistas em surto e, às vezes, acompanha as clientes em eventos. Ele era casado com Rupert, há pouco mais de três anos, e descobri que era igual a ele, mas ruivo e um pouco mais alto e velho.
Contei um pouco sobre minha mãe e irmã que ficaram no Brasil. Falei também de meu pai que já era falecido e sobre algumas antigas experiências amorosas. Todas desastrosas, preferi frisar, fazendo-o rir. Falei um pouco de meus gostos, de experiências anteriores, até que o assunto passou a ser ele.
Derek parecia ser uma ótima pessoa. Não aparentava ser superficial e muito menos interesseiro, era o tipo de pessoa que eu gostaria de ter por perto, um amigo, talvez? Eu não havia feito nenhum laço muito forte na pós, somente com alguns brasileiros que vieram comigo, que acabaram se tornando meus amigos por conveniência.

Os dois primeiros meses passaram voando. Eu arrumei sites e redes sociais de todos os famosos da seção de Melina, e acabei conhecendo um pouco mais do comportamento deles, e projetos futuros que eu deveria ficar atenta. Melina era uma pessoa legal, deveria ser no máximo 10 anos mais velha que eu e era um pouco mais baixa. Tinha os cabelos loiros um pouco desbotados e usava óculos de grau, como eu. Vestia-se um pouco mais informal do que eu e Derek. Acabei percebendo, com o tempo, que poderia vir mais confortável para o trabalho.
No começo do terceiro mês, os trabalhos de campo finalmente começariam. interpretava o deus Poseidon no filme “Os 12 Deuses do Olimpo” da Produtora Máxima, e gravava o segundo filme solo do seu personagem. E, por isso, estava ficando muito em Washington e Cleveland, mas Melina não poderia ficar muito tempo com ele, tendo que se dividir entre seus outros clientes. Então adivinha quem sobrou? Pois é, fui designada para essa viagem, e agora?
- Você pode ficar bem tranquila, , não se preocupe. Você deverá cuidar da agenda dele e certificar que ele estará no set e nos compromissos na hora e local exato. Terá um carro à disposição de vocês. - Melina falava enquanto andava pela sua sala e eu ouvia parada da porta. – Com o contrato da Máxima, já passou por isso várias vezes, ele sabe o que deve fazer e, mais importante, sabe o que não deve fazer. – Ela parou em minha frente entregando uma pasta grossa com escrito à caneta na capa, acho que era o arquivo mais longo que eu já havia visto na minha vida. – Mas relaxa, nunca se envolveu em escândalos, ele mal sai de casa na verdade. – Ela suspirou – Ele precisa sair. – A última parte ela falou um pouco mais baixo.
- E como vai ser? Como eu faço? Devo estar me confundindo. – Falei tentando procurar as palavras exatas.
- está aqui em Boston hoje, visitando sua família. À noite vamos nos encontrar para vocês se conhecerem e eu vou passar as últimas informações, horário de viagens, hotel, compromissos e tudo mais...
- Você precisa falar mais devagar, Melina! – A interrompi, fazendo-a rir.
- Eu sei, mas não consigo, é simplesmente viciante. – Ela abriu um sorriso e olhou para o relógio. – Bem, são quase cinco horas, acho que você pode ir para sua casa. - Ela acrescentou um tablet onde a imagem do novo hotsite de estava sendo montado. – Parabéns, está tudo aprovado! – Eu sorri, desligando o aparelho e colocando tudo em minha mesa, livrando um espaço no corredor.
- Obrigada! – Ambas sorrimos. – Bem, então, a gente se vê às 19h30min no restaurante, certo?
- Certo. Qualquer imprevisto eu te ligo, mas não creio que vá ter. Se ele se atrasar dois minutos, ele sabe que é um homem morto! – Ela afirmou com a cabeça, me fazendo soltar uma risada fraca.
Juntei todos os materiais em minha mesa e desliguei o computador. Já fazia dois meses que eu trabalhava lá e ainda parecia um sonho. Eu tinha conhecido alguns dos famosos tanto da equipe da ACCESS, como da equipe pessoal de Melina. Na minha porta não havia mais só meu nome e minha formação, mas sim, algo um pouco mais intimidador: as palavras Equipe .
Essas palavras foram acrescentadas somente alguns dias depois de eu conhecer Melina, já que precisava se tornar mais presente nas redes sociais. Porém, essa noite seria a primeira vez que eu conheceria o próprio . Assumo que estava um pouco nervosa com a situação, mas não é como se eu fosse fugir das minhas responsabilidades.
Melina havia me recebido muito bem. Me contara que quando meu currículo apareceu nas mãos dos assessores principais, ela ficou realmente louca atrás de mim devido aos meus conhecimentos específicos de informática. Claro que ela poderia falar isso só para me agradar, mas suas palavras aparentaram ser sinceras, e eu estava me sentindo muito bem recepcionada naquele meio todo.
Além de Melina, Derek e eu, o quarto nome da equipe era Ruth, uma estagiária de 21 anos, mas que gostava muito dessa área e era extremamente feliz por poder trabalhar nesse campo. Ela só trabalhava na parte da tarde e não assumia grandes responsabilidades. Na maioria das vezes, seu texto passava pelas minhas mãos, nas de Derek ou nas de Melina, antes da publicação, em qualquer lugar que fosse. Além disso, ela cuidava da parte de recebimento e encaminhamento de e-mails, fazendo com que só os relevantes caíssem nas mãos de nós três. Por mais nova que ela fosse, tinha tirado uma licença, devido à sua gravidez. Quando Derek me contou sobre, pensei que ela fosse um pouco mais velha.

Ouvi a porta destravar atrás de mim, e a empurrei, quase caindo no chão de meu apartamento. Coloquei as pastas e papéis em cima da mesa do telefone que ficava ao lado da porta, e antes de fechá-la, pendurei a bolsa no cabideiro acima da mesa do telefone. Andei mais um pouco, largando a chave em cima da mesa e corri para minha larga cozinha para beber um pouco de água antes de suspirar demoradamente. Eu tinha 27 anos e ainda sentia um orgulho enorme quando alguém elogiava algum trabalho que eu fazia bem. Parecia uma aluna no primário que recebia uma estrela dourada ou uma nota 10 e um parabéns escrito na prova, e isso era algo que talvez nunca mudasse.
Eu havia alugado um apartamento quando minha pós-graduação acabou. Na teoria era para eu voltar para o Brasil e é isso aí, mas com o emprego, consegui um visto de trabalho e aluguei um apartamento há algumas quadras da agência, em um condomínio familiar. Não era muito grande, mas como eu morava sozinha, não era me importava.
Era composto de uma suíte, aonde eu tinha uma grande e alta cama de casal, decorada em tons de rosa e vermelho, além de um armário e uma cômoda nas laterais. O outro quarto era menor, transformei em um escritório. Claro que cabia tudo isso em meu quarto, mas como era só meu, eu gostava de espaços abertos, preferi por fazer assim. Além da suíte, havia mais um banheiro, ao lado do escritório. Tinha também uma sala de estar aberta que eu havia tornei uma sala de estar com TV... Se isso fizer algum sentido. E ao fundo a minha cozinha, em formato de corredor, com uma janela que dava de frente para o fogão, e podia ver o nascer do sol de uma forma espetacular.
Joguei minhas roupas no cesto e peguei os arquivos, colocando-os em meu escritório. Peguei alguns para saber por pelo menos quantos dias eu ficaria em Washington, porque eu precisava fazer mala. Logo na primeira página havia as palavras “última semana de gravações” e, com isso em mente, eu fiz a mala para pouco mais de sete dias. Como teria alguns eventos, acrescentei alguns vestidos mais elegantes. Com alguma dificuldade, consegui fechá-la. Eu precisava de uma mala maior.
Assim que estava pronta, notei em meu relógio que já passara das 18h30min e estava relativamente atrasada, levando em conta o trânsito de Boston. Droga! Puxei um vestido branco e azul com detalhes em vermelho no meu armário, além de saltos nude e saí correndo para o banheiro. Arrumei-me rápido até, levando em conta que só precisava secar meu cabelo, fazer uma maquiagem e claro, me vestir. Conferi o relógio de novo. Que droga!
Enquanto descia as escadas do meu prédio, sim, escadas, porque o elevador estava quebrado e eu morava no nono andar, peguei meu telefone e liguei para um táxi. Eu estava muito atrasada.
- Deixa para lá! – Falei para o senhor no telefone quando um táxi freou em frente ao condomínio assim que eu estendi a mão. – Para o centro, por favor! – Pedi rapidamente, ajeitando minha bolsa em meu colo e conferindo se meus documentos e carteira estavam lá.

O táxi estacionou em frente ao hotel em que o restaurante ficava. Paguei o taxista rapidamente, acho que acabei agradecendo em português por engano. Só notei que estava quase correndo quando o segurança na porta do restaurante me olhou com uma cara um pouco suspeita.
- Desculpa! – Sussurrei, entrando mais devagar e dando de cara com uma maître bonita em um vestido preto e muito bem maquiada.
- Boa noite! – Ela falou exibindo um belo sorriso branco.
- Boa noite, é... – Interrompi um pouco me perdendo nas palavras – Reserva no nome de Melina Parks.
- Senhora ? – Confirmei com a cabeça. – Me siga, por favor.
A maître mudou de postura rapidamente, parecia mais rígida e eu realmente não sabia se ficava da mesma maneira ou não. Caminhamos até o fundo do restaurante e subimos por uma escada em espiral, onde as luzes não tinham o tom mais branco e sim um pouco amarelado, quase vintage.
Assim que eu coloquei meus pés no último degrau do lance de escadas pude ver Melina. Ela estava como a Melina que eu conhecia de sempre, um vestido azul bem escuro, sem decote nenhum, com seus cabelos soltos ao lado dos olhos e uma maquiagem leve, quase imperceptível. Ao seu lado, um deus grego, até lembrar seu nome.
- ! – Melina levantou assim que a maître nos deixou e eu abri um sorriso, sentindo seus braços passarem por meu corpo em um rápido abraço.
- Desculpa o atraso. – Falei de modo que só ela ouvisse e ela riu próximo ao meu ouvido.
- Relaxa... Você está um arraso! – Ela falou e eu soltei uma risada ao mesmo tempo em que ela me soltou. – Quero te apresentar uma pessoa! – Ela não falava comigo, mas com ele.
Ele, que estava com uma calça jeans clara, um tênis no pé e uma simples camiseta azul, com uma pequena abertura na gola V. Ele se levantou ao meu lado e pude medir nossa altura rapidamente. De salto, eu ficava da mesma altura que ele. Aquele cheiro de perfume caro foi o que me deu certeza de quem realmente estava ao meu lado. E era ele que eu acompanharia a partir daquele momento.
- Ela vai cuidar de você por um tempo. Por favor, é uma das melhores em nossa equipe, não seja chato, ok?! – Ouvi a risada de ambos e senti a mão de Melina em minhas costas esquentarem. Respirei devagar e deixei meus ombros caírem um pouco, relaxando.
Seu olhar encontrou com o meu e eu precisei abaixar a cabeça por um momento ou eu desmaiaria. Ele estava loiro, por causa do papel de Poseidon, e sua barba começava a crescer de novo. Ele estendeu a mão e eu fiz o mesmo, sentindo o choque da minha mão gelada com a sua incrivelmente quente.
- Essa é , nossa nova assessora, ela vai cuidar de você por um tempo! – Ela tirou a mão das minhas costas.
- Oi! – Falei, me sentindo uma boba dois segundos depois.
- Oi, ! – Ele falou abrindo um largo sorriso.

Minha mão ficou segurando a dele por um tempo e, sendo bem sincera, eu não sabia se não a havia soltado por estar perdida naqueles olhos azuis, em seu sorriso branco, na brecha da sua blusa onde uma tatuagem podia ser vista ou se ele não havia soltado minha mão mesmo e mantinha aquele sorriso lindo para mim. Um pigarro de Melina me fez voltar para a realidade em rápidos segundos, me destravando.
- Sou ! – Ele manteve o sorriso largo e nos sentamos nas cadeiras, eu à sua frente e Melina à minha esquerda. Ok, agora você tenta relaxar, , é um jantar de negócios.
Eu tentei prestar atenção no cardápio que o garçom havia colocado em minha frente. Busquei analisar as diversas opções de carnes, frangos e peixes, mas estava quase impossível. Eu juro, esse homem cheirava a perfume e cheirava muito bem. Enquanto escolhíamos, todos ficaram em silêncio, não sei se era em respeito a mim ou se era comum assim, mas logo o garçom nos interrompeu e a atenção foi mudada para mim novamente.
- Gostariam de beber alguma coisa, senhores? – O senhor de meia idade se aproximou com um guardanapo pendurado em seu braço.
- Eu bebo um vinho! – Melina falou, direcionando o olhar para mim. O que ela queria que eu falasse?
- Eu aceito também, um vinho tinto, por favor! – Ouvi a voz de e tentei prender a respiração por alguns segundos. – Você aceita, ? – Ergui meus olhos um pouco arregalados do cardápio, tentando assimilar se era comigo mesmo.
- Claro! – Abri um sorriso de lado. – Por favor! – Me direcionei ao garçom.
- Por favor! – falou acenando para o garçom.
Ok, , tá tudo certo!
Demorou poucos minutos até que nossas taças estivessem cheias do líquido avermelhado e que eu me segurasse para não virar aquela taça inteira goela abaixo... Era só eu ou estava realmente quente ali?
O silêncio estava realmente me incomodando. Eu sou comunicativa, não conseguia ficar quieta por muito tempo. Porém, antes que eu pudesse falar alguma outra coisa, o garçom apareceu de novo para anotar nossos pedidos. Desta vez eu fui a primeira a falar, pedi um salmão com um risoto e voltei a ficar muda em meu canto, passando os olhos desde a contagem de dentes em cada garfo sobre a mesa e quantas flores havia nos arranjos do restaurante inteiro.
- Então... – Ouvi minha voz sair e me assustei por um segundo, relaxando os ombros.
- Vamos falar de negócios, então? – Melina falou apoiando as mãos sobre a mesa.
- Espera a comida chegar antes, Melina, não rola falar de compromisso de barriga vazia! – falou se espreguiçando em minha frente e eu soltei uma risada fraca discreta. – Vamos falar de você, !
- Oi? – Me assustei um pouco, tendo que encarar aqueles olhos azuis em minha frente e tentei me manter calma. – Ah sim, eu, bem, não é como se eu tivesse muito para contar da minha vida!
- Bem, você está aqui em Boston, e eu sei que é brasileira. Alguma história você tem, e eu gostaria de ouvir! – Ele apoiou os cotovelos na mesa, se ajeitando na cadeira e ficando um pouco mais perto.
- Ok! – Falei tentando me manter mais relaxada.
Contei rapidamente sobre meu último ano e últimos meses na ACCESS. Creio que havia falado um pouco rápido demais, mas quando cheguei ao fim, acho que já falava mais como uma pessoa normal... Mais como eu mesma.
manteve sua atenção em mim esse tempo todo, enquanto Melina ficava dividida entre minhas palavras e o celular. Às vezes ela fazia alguns comentários para tentar descontrair. Quando a comida chegou, seu celular tocou e ela precisou se retirar para atender.
- Então, ... – me encarou por um tempo antes de encarar sua comida – Estive no Brasil ano passado, realmente gostei de lá! – Esperei minha boca estar bem vazia antes de responder.
- Por mais que eu esteja aqui a trabalho, não troco aquele país por nada, é meu xodó! – Ele deu uma risada de lado.
- Os fãs são bem... – Ele pareceu medir as palavras com bastante cautela.
- Loucos? – Falei soltando uma risada de lado.
- Eu diria intensos. – Ele acompanhou minha risada e me encarou por alguns segundos.
- Quando eu era mais nova, fazia parte desses fãs “intensos” – Fiz aspas com os dedos na palavra e ele riu. – Somos meio loucos, mas acho que é nosso jeito de demonstrar que nos importamos. – Ergui meus ombros rapidamente e ele riu.
- Me assustei no primeiro dia, mas acho que consegui entender um pouco, é um povo muito caloroso. – Sua atenção estava em seu prato.
- Pode dizer louco, eu entendo! Não vai me magoar, não! – Ele deu uma gargalhada, tentando esconder a boca e eu me senti confortável em acompanhá-lo. Isso, , pode se soltar, você está se saindo bem,.
Melina apareceu ao meu lado rapidamente, falando algo sobre alguma atriz e algum evento que aconteceria. Como não era meu departamento, não focamos muito no assunto, afinal, meu departamento estava na minha frente.
- Então, qual era o papo? – Melina falou antes de dar uma garfada em seu prato.
- Os fãs brasileiros são loucos. – falou e eu abri a boca levemente, como se eu estivesse ofendida. – Mas você disse...
- Eu estou brincando! – Falei, rindo da cara de assustado que ele fez.
- É a , , não precisa levar suas brincadeiras a sério! – Melina falou dando uns tapas de leve em meu ombro. – Olha o nome dela! – Ri fraco, balançando a cabeça.
- Acontece! – Descansei meus talheres em cima do prato e limpei minha boca rapidamente com o guardanapo que estava em meu colo, e dei mais um gole em minha taça.
logo me acompanhou e esperamos quietos por alguns segundos enquanto Melina terminava de comer, algo que não seria muito demorado, pois já havia notado que ela realmente preferia comer mais rápido e resolver seu trabalho, do que ficar batendo papo sobre assuntos aleatórios da vida.
- Vamos falar de Washington! – Melina falou descansando os garfos em cima do prato e puxando uma pasta preta, com algumas informações sobre a viagem.
A viagem seria de somente uma semana, algumas regravações de “Poseidon 2: A Maldição dos Mares”, dentro de estúdio, e uma entrevista em um programa local. Meu trabalho? Seguir, guiar e ajudar na ida e volta das gravações, passar algumas respostas de perguntas antes das entrevistas e aconselhá-lo quase 24 horas por dia sobre qualquer passo que ele fosse dar fora do set ou do hotel, e alguns assuntos mais que poderiam rolar no caminho.
Notei que quando começamos a falar de trabalho, tomou uma posição mais rígida em sua cadeira. Sua cabeça estava baixa nos papéis que Melina havia lhe dado, iguais aos que eu já havia recebido essa tarde, e dava para notar que seus ouvidos estavam focados nas palavras de Melina. Ele realmente prestava atenção, mesmo sabendo que ele já deveria ter ouvido aquele discurso milhares de vezes, já que Melina era sua assessora desde seus primeiros projetos.
Porém, acabei notando que as instruções eram mais para mim do que para ele: assédio da mídia. Para quem o conhece, sabe que é raramente visto na mídia, ninguém nunca soube exatamente o porquê e eu sempre me perguntava isso. Contudo, a resposta ficou clara logo nas primeiras palavras. não era do tipo que gostava de uma farra gratuita ou de aparecer só para dizer que apareceu.
- Relaxa, dá tudo certo! – falou fechando a pasta e apoiando-a onde antes estavam nossos pratos e relaxando um pouco o corpo na cadeira. – Você tá comigo!
- Você ouviu o chefe, não é?! – Melina falou e eu soltei uma risada sem graça, quase tímida. – Bem, crianças, eu preciso ir, porque minha noite ainda não acabou. – Ela falou se levantando e eu ia fazer o mesmo, quando ela apoiou a mão em meu ombro com força, me obrigando a sentar novamente. – Conversem um pouco, se conheçam. Veja a como Melina 2.0, pode ser? – Ela virou para o e ele acenou com a cabeça. – Ou como o Derek, quem sabe?
- Nunca vou vê-la como você, muito menos como o Derek. – Ele falou. Melina riu e eu senti meu rosto esquentar um pouco.
Melina pediu a conta, e juro que a vi acertar a conta da mesa inteira. Eu preferi não falar nada. Ainda estava tentando me acostumar com essa vida de assessora de famosos, mas sabia que quase todos os gastos à parte eram acertados pela ACCESS, ou seja, quem havia pagado o jantar, no fim das contas, foi . Simples assim.
Outra garrafa de vinho tinto apareceu na mesa e o papo acabou ficando mais descontraído, por favor, diga que eu não estava bêbada. O papo da garota do interior do Brasil acabou e agora falávamos de um garoto nascido e criado em Boston que hoje em dia fazia Poseidon.
Ele falava de um jeito bem descontraído, suas mãos se mexiam e era nítida a felicidade em ter conseguido realizar seus sonhos. Talvez a falta de foco em aparecer na mídia e não ter muito contato com as redes sociais fosse só um obstáculo, mas quando ele falava sobre os testes, filmes e todos os trabalhos que já havia feito, sentia como se eu estivesse falando com um garoto de sete anos, que esperava o melhor presente de Natal, e o ganhara por último, depois que todos os embrulhos haviam sumido debaixo da árvore.
- É bom ouvir falar sobre sua paixão por atuação, minha única experiência como atriz foi quando eu tinha cinco anos de idade... – Falei descontraidamente e notei que ele se manteve quieto, pedindo para que eu continuasse. – Era uma peça da escola, eu era uma rainha e sabia todas as falas de cor, até as dos outros personagens. – Falei um pouco mais baixo a segunda parte e notei um sorriso abrir em seus lábios.
- E quando você se apaixonou pelo jornalismo? – Ele pousou a taça vazia novamente em cima da mesa.
- Não sei bem se eu me apaixonei ou se ele simplesmente me puxou pelas pernas e eu acabei convivendo bem ao lado dele. – Dei de ombros e ouvi meu suspiro.
- Mas pela conversa hoje, dá para notar que você é feliz com o que faz. – Seu corpo veio para frente um pouco, apoiando os cotovelos na mesa.
- Agora que eu tenho um emprego na área que eu gosto e ganho bem, sim, sou muito feliz. Mas é que não é fácil ter sucesso nessa área, não é fácil nem ter um emprego nessa área. – Dei de ombros mais uma vez. - Mas eu tinha alguns planos em minha mente, caso o jornalismo não desse muito certo.
- Qual seriam seus outros planos?
- Eu gosto de cozinhar, muito. Então talvez meu plano B estaria ligado à gastronomia ou algo do gênero. – Levei a taça novamente aos lábios e entornei o pouco que restara do vinho. Já chega por hoje!
O silêncio se instalou por alguns segundos e o desconforto começou a me incomodar. Eu comecei a contar as flores nos arranjos novamente e vi que o restaurante estava bem mais vazio e menos barulhento também. Bati os olhos em meu relógio e já passava das 11 horas.
- Acho melhor eu ir... – Falei puxando minha bolsa para meu colo. – Fico meio emburrada quando não durmo as horas que preciso. – Falei calmamente e ele riu.
- Então, é melhor irmos, dois emburrados em uma viagem que não dá tempo de dormir, não vai ser uma boa! – Ele falou rindo e eu me levantei.
Fomos andando até a porta e ele estava a dois passos atrás de mim, quase podia ouvir sua respiração. Assim que passamos pela maître, pude vê-la assentir para o e o vi imitar o gesto de relance. É nessa hora que eu pergunto se a conta está realmente paga ou se saio e deixo por isso mesmo? Não tive tempo de ter resposta para essa pergunta, porque se eu virasse de costas, daria de cara com bem perto de mim.
- Precisa de uma carona? – Ele falou quando estávamos no lobby do hotel. Lá fora estava ventando e calmo, nenhum sinal de pessoas loucas gritando por ele, por mais que ele fosse de Boston, raramente sabiam quando ele estava por lá.
- Não precisa se incomodar, vou pegar um táxi para casa. - Eu falei, sentindo o vento bater forte em minhas costas, quando a porta de vidro do hotel foi aberta.
- Tem certeza? – Afirmei com a cabeça mais uma vez e saímos para o vento.
- É totalmente fora de mão onde eu moro e onde você mora. – Falei observando alguns táxis em fila na porta do hotel. – A gente se vê amanhã de manhã no aeroporto? – Fiz um gesto com a cabeça.
- Pode deixar, ! – Sorri me aproximando do táxi, mas parando logo em seguida.
- ! – Gritei para ele, mas não foi necessário, já que ele havia dado só alguns passos para o lado, em direção à cabine do valet em frente ao hotel. Ele se virou automaticamente e eu ri dessa reação. – Eu não vou me segurar! – Falei e me aproximei dele novamente.
- O quê? – Seus olhos se arregalaram por um momento.
- Posso tirar uma foto com meu ator favorito? – Falei com a mão já dentro da bolsa para pegar o celular. Ele abriu um lindo sorriso e vi suas bochechas ficarem vermelhas por um tempo, mas logo relaxou e se aproximou de mim novamente.
- Se eu sou seu ator favorito, você pode! – Peguei o celular e rapidamente o destravei, colocando na câmera, me aproximei um pouco dele, até os nossos rostos estarem dentro do quadrado da foto.
Notei seu sorriso tímido na foto, era o mesmo que ele fazia em todas as fotos de fãs que eu já vi. Os dentes brancos à mostra, mas parecia um pouco mais discreto dos que ele havia dado durante o jantar, um pouco mais profissional. Tentei dar um sorriso não tão alegre, mas foi quase impossível, pois minha mente ficava gritando: Você está conhecendo ! Você está conhecendo ! Apertei o botão da foto umas três vezes, e logo abaixei o celular, soltando uma risada em seguida.
- Se eu quiser ficar nesse mundo, acho que preciso aprender a me controlar. – Falei dando passos para perto do ponto de táxi.
- Acho que não. Ser tietado faz parte do trabalho de artista, não? – Ele deu de ombros pegando a chave da mão do valet.
- É o que eu acho também! – Dei um rápido sorriso, acenando para o taxista à minha frente. – Até amanhã, senhor ! – Assenti com a cabeça e o vi fazer o mesmo gesto antes de eu entrar no táxi.
Indiquei o endereço para o motorista e me afundei no banco de trás do táxi branco com listras marrom de Boston. Peguei meu celular e fui direto para a galeria de fotos. Passei pelas três fotos que eu havia tirado e escolhi a que eu estava mais bonita. Era um sorriso sincero. Não o sorriso de , assessora de , mas sim, o sorriso de conhecendo o , seu ator favorito. Senti-me uma criança, assistindo aos primeiros filmes dele de novo. Ali eu era só uma fã.
Fã ou assessora? A realização do sonho é a mesma! # #Jornalismo”, escrevi essas palavras rapidamente no Instagram, fiz questão de não colocar filtro nenhum na foto e postei, compartilhando-a no Facebook, Twitter, Tumblr e todas as redes sociais ligadas à minha conta. Sorri para a foto novamente e me senti satisfeita. Talvez escolher jornalismo como profissão fosse uma boa! Apesar de falar isso agora, na época da faculdade, o “não viver do jornalismo” era uma opção muito mais prazerosa, mas é o que sempre me disseram: as coisas acontecem quando a gente menos espera.
Guardei meu celular novamente e após alguns minutos o taxista parou na frente do meu adorável condomínio. Entreguei o dinheiro para ele, agradeci e saí, logo entrando e acenando para o porteiro.
Entrei em casa e senti o calor do meu apartamento. Fui rapidamente me preparando para dormir. Apesar de o meu apartamento estar quente, meu corpo ainda estava frio. Após me cuidar e me trocar, deitei em minha cama e fechei os olhos, sentindo meu corpo relaxar dentro do edredom e logo estava dormindo.

Abri os olhos com dificuldade quando meu celular tocou e tive vontade de jogá-lo na parede. Fazia duas horas que o sol havia nascido, e isso era considerado cedo para mim. Desliguei o despertador, ativei o Wi-Fi do celular e fui para o banheiro. Em poucos segundos, ouvi meu celular tocar com as diversas notificações. Isso que dá colocar foto com famosos. Fiz minha higiene matinal rapidamente e corri para a cozinha para tomar um café da manhã... Ou pelo menos, um café que me mantivesse em pé até chegar ao aeroporto. Passei manteiga rapidamente na torrada que acabara de pular da torradeira e a prendi entre meus dentes, enquanto voltava para o quarto.
A cada peça de roupa que eu colocava, era uma mordida que eu dava em minha torrada. Quando terminei de comê-la, vesti minha camisa polo roxa de meia manga. Fiz uma maquiagem rápida e conferi meu celular. Tinha 10 minutos antes do carro passar em casa, pelo menos cinco aplicativos gritando e a setinha para o lado indicava que mais alguns estavam escondidos. Abri um sorriso de lado.
Conferi em minha mala se algo estava faltando, chequei minha bolsa e estava pronta para viajar para Washington, D.C. Faltando alguns minutos até eu ter que descer, sentei em minha cama e abri a notificação mais importante de todas, da minha mãe.
“Bom dia filha... Acho que para você ainda não, não é?! Vi sua foto com , realizou seu sonho? Está feliz? Me ligue. Beijos, te amo.”

“Oi mãe, agora é bom dia aqui! Estou bem feliz, foi difícil manter a seriedade, mas precisei tirar minha foto. Estou indo para Washington com ele e equipe para uma gravação, a gente vai se falando. Amo você, beijos”.

Enviei a mensagem e abri o Instagram rapidamente. A foto já tinha pouco mais de 50 curtidas e alguns comentários surtados, incluindo da minha irmã. Ri e bloqueei o celular, deixando para responder depois. Levantei e calcei meu peep toe preto. Ajeitei a mala em um ombro e a bolsa em outro, conferi se todas as luzes estavam desligadas e tranquei a casa. Assim que saí pelos portões do condomínio, um carro preto da ACCESS estava parado com um motorista conhecido me esperando pelo lado de fora.
- Bom dia, Jason! – Falei entregando minha mala para ele.
- Bom dia, senhorita. Pronta para viajar? – Ele respondeu educado.
- Não muito! – Soltei uma risada e entrei no carro. Não mesmo, eu tinha medo de voar.
O caminho para o aeroporto foi até que curto. Também, não é todo mundo que está acordado às oito horas da manhã de um sábado. Conferi rapidamente a pasta com as instruções que Melina havia me dado e logo já estava fazendo check-in no balcão e despachando minha mala. Passei em um balcão de doces para comprar chicletes e uma água e tomei um calmante antes de entrar na sala de embarque.
Eu havia esquecido como aquilo era grande. Caminhei para perto do portão de embarque à procura de e não o encontrava em nenhum lugar. Devo ter dado umas três voltas, o que estava começando a me deixar envergonhada. Até que avistei um boné azul escuro no canto da sala de embarque, com óculos escuros e a boca levemente aberta, o que me deu a impressão de que mais alguém estava com sono além de mim
. Aproximei-me devagar, tentando me manter calma. Não era porque eu tinha conhecido ele, que eu tinha me tornado íntima. Apoiei minha bolsa na mesa em que seu pé estava apoiado e sentei em uma cadeira ao seu lado.
- Bom dia! – Falei em um tom de voz normal e tomei um susto quando ele se mexeu, assustado com a minha fala. - Oh, calma!
- Ah! – Ele falou passando a mão nos olhos por baixo dos óculos escuros. – Como você sabia?
- Não se esqueça de que eu estou cuidando do seu site e afinal... Você só tem esse boné? Seu aniversário tá chegando, acho que já sei o seu presente! – Ele riu tirando os óculos e colocando a haste na gola de sua blusa.
- Há, há, há engraçadinha! – Ele falou com a voz de sono.
Mantivemos-nos em silêncio por um tempo e notei que ele estava cochilando novamente quando sua cabeça pendeu para o meu lado. Ri baixo e peguei meu celular para conferir as notificações, e responder mensagens e comentários na foto, até que chamaram para o nosso voo. Eu levantei e fui pegando minhas bolsas, mas ele ficou só olhando para a fila que se formava.
- Não vai entrar? – Perguntei apontando para a fila.
- Por mais esnobe e até idiota que pareça, somos os últimos a entrar – Ele falou colocando os óculos novamente.
- Ah sim. – Suspirei, não entendendo muito, mas me sentei novamente.
E foi o que aconteceu. Assim que todas as pessoas passaram pelos portões, foi nossa vez. A mulher da companhia aérea balançou a cabeça em nossa direção e nos levantamos. Ela estava com uma feição muito nervosa. Eu entendo, amiga, já passei por essa. Enfim fomos liberados. Entramos no avião pelas portas de trás e logo sentamos em nossa fileira, que era a última. Como era voo doméstico, não havia divisões de classes.
Ajeitei minha bolsa no compartimento de carga, me sentei na cadeira e prendi o cinto o mais firme possível e segurei firmemente as laterais da poltrona, pude vê-lo me encarando ao lado. Respira, .
Quando o capitão liberou a decolagem, eu senti meu corpo enrijecer como sempre fazia. Segurei mais forte as laterais da poltrona e pude ouvir o barulho das turbinas do avião. Respira, , vai dar tudo certo. Quando os nós dos meus dedos começaram a ficar brancos e poucas lágrimas rolarem por minhas bochechas, eu senti uma mão quente em cima da minha e uma voz baixa perto de meu ouvido.
- Também não gosto de voar. – E, notei, pelo embaçado de meus olhos, que ele estava com um sorriso nervoso nos lábios.
A aeronave correu pista e senti as rodas saírem do solo. Minhas mãos firmaram por mais alguns segundos nas laterais da poltrona e depois se soltaram como sempre acontecia, quando eu já me sentia segura. Passei minhas mãos em minha bochecha, secando as lágrimas e soltei a respiração bem devagar.
- Eu não consigo gostar. – Falei simplesmente, não quis dividir minhas experiências com ele, pois ele ainda era um desconhecido para mim. – Não consigo me acostumar.
- Eu entendo isso. Eu não gosto de voar, mas é uma obrigação no meu trabalho, então com o tempo eu fui me acostumando. – Ele estava sem seus óculos escuros e me encarava com seus olhos.
- Se eu viajasse com frequência, creio que já teria perdido meu medo. – Falei simplesmente, apoiando minha cabeça na poltrona.
A viagem correu sem mais conversas, ligaram a televisão, então pude caçar algum filme que estivesse passando e ficar assistindo até chegarmos a Washington. O voo de Boston para Washington durava menos de uma hora.
Assim que chegamos, peguei minha mala e logo nos deparamos com um carro e responsáveis da Máxima nos esperando. Eu entrei com ele e fomos levados a um hotel no centro da cidade. Não havia nenhum fã esperando, mas pelo que eu havia entendido, teria alguns no set. Porém ele não iria para o set hoje, seria somente prova de roupas, ensaio e discussão de roteiro. E eu acompanharia tudo isso. Tente não surtar, ... Era impossível.

Ficamos no último andar do hotel, em que várias pessoas do elenco também estavam. Eu fiquei em um quarto e ficou no da frente. No momento em que chegamos, tinha somente Jackson Jones que interpretava o deus Cronos, pai de Zeus, Poseidon e Hades, e Malcon Adams, que interpretava Demétrio, a versão masculina da deusa Deméter. Jackson tem cara de ser aquela pessoa séria e tudo mais, pela interpretação de Cronos, mas na vida real é uma pessoa muito amorosa e foi quem saiu me apresentando para o resto do elenco e equipe. Malcon é uma figura, era impossível ficar dez segundos com ele sem que você risse, em um dos jantares com o elenco, saiu refrigerante pelo meu nariz, o que não foi muito legal com o povo da Máxima na mesa, mas causou boas risadas.
Três dias antes de irmos embora, Julie Stewart, intérprete de Afrodite, e Stefan Taylor, intérprete de Ares, chegaram para fazer a grande cena de luta nas ruas de Washington. Honestamente, foi cansativo ver aquela cena ser feita. Era quase como se cada segundo fosse um take, e, depois eles mudavam para os atores, depois para os dublês, depois dublês e atores, atores e dublês, nossa. Juro que quase dormi na cadeira do set.
Julie e Stefan também eram pessoas incríveis. Julie é uma ótima pessoa, eu sabia que ela e são amigos desde o primeiro filme deles juntos lá atrás, então ou ela estava sendo incrivelmente simpática e fofa, ou ela queria ficar ok comigo por eu ser a assessora dele, nem que provisória. Stefan é uma pessoa totalmente diferente de Ares, ele tem aquela pose toda que te faz perder o fôlego, mas ele é incrivelmente tímido com pessoas novas, então demorou um pouco para batermos um papo, mas depois ele se mostrou um incrível piadista.
Eu juro que tentei, mas tive que dar uma surtada, era a Máxima, eram os atores da Máxima, e eu sou uma pessoa viciada nisso desde que eu me conheço por gente... Mentira, desde que o filme “Os 12 Deuses do Olimpo” foi lançado e trabalhar com algo relacionado a isso é maravilhoso. Desses sete dias que ficamos lá, teve que gravar em cinco, e nos dias em que ele não gravava, dormia metade do dia e, na outra metade, ficava na academia. Às vezes batíamos um papo na hora do jantar para falarmos sobre o dia anterior, mas nada mais que isso.
É o que eu havia falado. Ele quando falava de trabalho, era incrível, mas quando realmente trabalhava, tinha uma felicidade, uma energia e uma seriedade de dar inveja em qualquer um. Nem eu que trabalhava em um escritório era tão séria quanto ele. Então, devido a isso, fazer piadinhas não era uma boa ideia para tentar deixar o clima menos tenso.
Não sei como ele era com Melina, mas aparentemente ele estava gostando de me ter lá. Quando chegávamos ao set, ele gostava de me mostrar tudo por lá, cada detalhe, apresentava pessoas novas, mostrava a magia do cinema, camarins, trailer e todas as partes obscuras da Máxima.
Enquanto estávamos lá, tinha esse tom mais sério, mas no último dia, assim que ele tirou o uniforme de Poseidon e se permitiu relaxar, ele já era o novamente. Nesse dia teve mais um jantar com o elenco, fomos a uma pizzaria. Os garotos fizeram competição de quem comia mais e, acredite, eu estava fora da competição, mas creio que eu poderia ter empatado com algum deles de tanto que comi. O mais engraçado era a cara de quando eu falava para o garçom que ele podia servir os vários pedaços que chegavam de uma vez só. Eu olhava para ele, ele tinha os olhos arregalados, eu ria, ele também, e eu dava de ombros e continuava normalmente. “Comer é bom, sabia?”, era o que eu dizia. No fim daquela noite eu pedi para tirar uma grande selfie, com todos os presentes, atores e produtores, e ficou muito boa e é uma das fotos mais curtidas em meu Instagram.
Fomos embora no oitavo dia de manhã, mas nos separamos ali. Eu fui para Boston e ele para Los Angeles. Melina o encontraria lá. Ele me agradeceu por ter ido e acompanhado tudo e também falou que eu lidei com tudo muito bem. Não sei o que isso quer dizer, mas fiquei feliz. Cheguei em casa e finalmente pude relaxar. Com Melina em Los Angeles, eu só teria que cuidar do novo site do senhor , fazer algumas matérias e nada mais, então minhas horas de trabalho se reduziram pela metade, e eu agradeci pois era bem cansativo fazer isso.



Capítulo 2

(Um beijo, você já está apaixonado, está preparado para isso? – Little Mix, Is Your Love Enough?)

Despertei sentindo meu corpo pesar, mas quando abri os olhos notei que não era eu que estava pesada e sim um braço passado em volta da minha barriga e, ao meu lado dormia pesadamente, um corpo que não estava lá quando fui dormir na noite anterior. Mantive meus olhos fechados por um momento e visualizei os olhos castanhos dela e o movimento de sua boca em uma risada, suspirei, encarando o teto branco de meu quarto, estava me sentindo um idiota. Isso não podia acontecer, eu não acreditava em amor à primeira vista.
Encarei a pessoa ao meu lado, o cabelo era parecido, mas não era a mesma que eu estava pensando, além de que aquela da cama já deveria ter ido embora há muito tempo. Mexi-me desconfortável na cama, fazendo questão de me movimentar bastante, senti as mãos saírem de meu corpo e pude me levantar. Andei pesadamente até o banheiro e fiz minha higiene matinal, encarando meu rosto no espelho. Estava com os cabelos loiros desbotados, sem barba e dava para ver um pouco do castanho aparecendo, devido a algumas cenas que estavam sendo refeitas de Poseidon.
Saí do banheiro e puxei minha blusa ao lado da cama, vestindo-a rapidamente, antes de encarar a pessoa que se espreguiçava. Ela deve ter notado que eu não estava muito feliz, pois quando virou o rosto para mim, seu sorriso sumiu rapidamente.
- É nessa brincadeira que a gente vai ficar? – Falei cruzando os braços involuntariamente.
- Não sei do que está falando. – Ela resmungou ajeitando a blusa
- Eu terminei contigo, Martha. – Ela bufou. – E quando se termina um relacionamento, normalmente as pessoas não devem mais entrar na casa das outras desse jeito.
- Mas eu não sei se quero terminar, , estávamos indo tão bem.
- Foi um acordo, íamos terminar porque não estava dando mais...
- Devíamos tentar de novo. – Ela me cortou.
- Martha, eu não quero mais.
- Mas, ...
- Eu estou em outra fase da minha vida – A interrompi – À procura de outras coisas também.
- Tem alguém nessa história? Estávamos tão bem, acomodados...
- Eu não quero estar acomodado, eu quero romance, amor, paixão. E não quero que seja contigo... – Falei a última parte mais baixo, mas não deixando de encará-la. - Achei que já tinha deixado isso claro.

Passei a mão em meus cabelos após ouvir a batida da porta e segurei a chave firme em minha mão, mentalizando que precisava dar fim o mais rápido possível, mas também queria um relacionamento sério.
Com a chegada dos meus 32 anos no meio do mês, estava com esses pensamentos de velho: eu queria uma família ao meu lado, pois não importa ter todo esse sucesso, se eu vou ter que ligar para minha mãe para contar. Eu queria uma pessoa ao meu lado, que eu pudesse contar em todas as horas, que me fizesse rir, chorar, que me fizesse sentir alguma coisa.
Há quatro semanas eu tinha conhecido , ela era a nova assistente da minha assessora. Cuidava mais das minhas redes sociais e fazia o relacionamento com a mídia, mas às vezes me acompanhava nas gravações, como aquela e que ela foi comigo para Washington, na gravação de “Poseidon 2”. Recentemente eles haviam decidido me integrar mais nas redes sociais, para eu ter mais contato com os fãs, e decidiram a criação de um hotsite, mas não seria atualizado por mim, mas sim por , ela atualizaria todas as informações.
Havíamos combinado de nos encontrar na casa dela no dia seguinte para falar sobre isso. O site estava pronto e só faltava colocar no ar. Melina disse expressamente que era para eu dar opinião no layout em si e ordenar tudo, não que eu entendesse dessas coisas, mas fui mandado para fazer isso, então não era como se eu tivesse muita escolha.
Mas antes, eu iria para Nova York, num talk show, o tópico era meu mais novo filme. Encarei minha mochila no pé da cama e tirei as roupas que estavam lá dentro e notei que só tinha algumas blusas extras, mas pelo mens as roupas sujas já haviam sido tiradas de lá. Andei rapidamente até meu closet e escolhi algumas peças de roupa aleatoriamente, incluindo algumas para levar para Boston. Ajeitei tudo na mochila e a joguei na poltrona mais próxima.
Passei pelas portas do quarto que davam para o quintal e encarei a manhã em Los Angeles, o tempo estava um pouco nublado ainda, mas era possível ver alguns raios de sol escapando das nuvens.

Encarei meu rosto no espelho do camarim do talk show e ajeitei os cabelos com um pouco de gel, mantendo-os arrepiados. Ergui as mangas da minha blusa azul quadriculada até a altura dos cotovelos e me certifiquei que pelo menos parte da blusa estava presa dentro da calça azul escura, em que um cinto marrom escuro o prendia. Agachei por um momento para amarrar meu tênis e conferi o relógio em meu pulso.
- Cinco minutos, . – Melina apareceu na porta do camarim. – Vamos repassar?
- Vamos falar do meu filme novo e provavelmente de “Poseidon 2”. Certo? – Encarei Melina.
- Certo, então ele vai chamar o outro convidado e o assunto vai virar ele. Provavelmente vão te envolver, mas nada demais, só jogar conversa fora.
- Ok! – Falei antes de bocejar, denunciando meu sono.
- E acorda! – Ela comentou.
- Com licença. – Uma mulher loira da produção apareceu na porta – Vamos?
- ...Mas antes dele aparecer, vamos ver alguns dos filmes que ele já fez. – Ouvi a voz do apresentador e, em seguida, o som de uma rápida introdução, quando começou a passar cenas de alguns dos meus filmes. – Por favor, recebam !
Ouvi as vozes e palmas, e apareci pelas portas do cenário, acenando para os fãs ao longe e logo virando para o apresentador Mark Malcon, cumprimentando-o. Assim que eu sentei, os gritos e música cessaram, e Mark não economizou tempo.
- É bom ter você aqui novamente, !
- Muito obrigado por me receber! – Sorri e ele seguiu com a entrevista.
A entrevista fluiu, Mark tinha a habilidade de toda entrevista se transformar em uma conversa, o que fazia com que eu me sentisse mais à vontade. As perguntas eram simples, nada sobre vida pessoal, só sobre meu trabalho atual e alguns assuntos de quando eu era mais novo, nada demais. Até chegar no assunto mais importante: Máxima.
- Então, me diga, temos filme novo chegando por aí! – Ele falou.
- Sim, estou bastante empolgado! – Falei feliz. – Esse filme vai abordar uma temática mais sombria.
- Você pode nos falar mais um pouco sobre? – Ele perguntou.
- Bem, depois de vocês terem a apresentação do deus Poseidon, de toda a questão da criação no primeiro filme sobre seus irmãos e Cronos, além da junção de outros deuses para defender o mundo, tudo ainda é muito novo para Poseidon que sempre viveu excluído no mar. Então, dessa vez, nós teremos problemas mais reais abordados, a poluição das cidades, que afetam todo o ecossistema e tudo mais, além de vilões verdadeiros que ainda querem tirar os deuses dos poderes. – Mark sorriu.
- É um tema muito atual...
- Sim, estamos falando disso há anos, mas ninguém nunca realmente fala, vemos os tratados sendo feitos, medidas sendo tomadas, mas não é uma conscientização, então esperamos que esse filme ajude nisso também. – Ele concordou.
- E temos personagens novos?
- Sim, além do retorno de Cronos e de Ares, que é um parceiro de luta improvável para Poseidon, teremos a presença de deusa Afrodite e do deus Demétrio que é a versão masculina de Demeter. – Ele afirmou com a cabeça.
- Eu li sobre isso, achei interessante eles alterarem a sexualidade de um dos deuses. – Ri fraco, balançando a cabeça. – Qual a real intenção deles?
- Bem, nós temos uma visão dos deuses como seres gigantes e poderosos que já foram apresentados de outras formas em outras histórias, filmes e tudo mais, então a questão principal é que um deus é uma forma mítica, inalcançável. – Ele confirmou.
- Sim, com certeza, não é algo que você encontra na esquina. – Eu e a plateia rimos.
- Sim, exatamente, e a mudança do sexo desse personagem é para mostrar que não importa se você é homem ou mulher, você pode e deve lutar pelo que você acredita, além de que um ser mítico é como se fosse um anjo, não tem gênero, não tem sexo.
- Interessante vocês abordarem isso. – Confirmei com a cabeça.
- Será abordado também em outros filmes essa questão, deuses metamórficos, ou outros deuses com troca de gênero. É realmente interessante.
- Muito bom, senhor , estamos cada vez mais animados com esse filme. – Abri um sorriso. – Vamos para o intervalo que depois teremos uma brincadeira e a presença de outro convidado. – Ele se virou para a câmera. – Fiquem ligados! – Ele esticou a mão e apertou a minha quando a vinheta começou a tocar ao fundo.
Enquanto o programa estava no intervalo, a maquiadora veio fazer um retoque na minha maquiagem e eu desliguei um pouco. Minha cabeça foi direto para Boston. Eu voaria para lá ainda naquela noite e encontraria para a aprovação do hotsite, e, também repassar algumas perguntas de outras entrevistas que eu teria em Boston durante a semana. Mas meu foco não era esse, era que eu iria encontrá-la, o que já me deixava levemente empolgado.

Assim que o avião pousou em Boston, eu só tive tempo de tirar minha blusa social azul do corpo, deixando a camiseta cinza por baixo e tomar um energético. Estava com o sono atrasado, mas não seria agora que eu colocaria em dia. Como estava sem carro e Melina não havia voltado comigo, peguei um táxi e pedi para que me levasse até o condomínio de , o porteiro logo me anunciou e ela liberou minha entrada. Encarei o relógio em meu pulso e era quase meia noite.
Assim que abri a porta do elevador no nono andar, umas das quatro portas estavam abertas e, dentro da mesma podia ver algumas luzes acesas, não tinha dúvidas de que essa era a casa. Bati na porta duas vezes e vi uma cabeça aparecer da cozinha, com um sorriso no rosto.
- Ei! – Ela falou, voltando o corpo para a cozinha. – Entra!
- Com licença! – Falei antes de fechar a porta atrás de mim e parar na porta da cozinha. Ela estava com um cortador de pizza na mão e tinha uma pizza com um cheiro delicioso apoiada no balcão à sua frente, além de duas taças com um líquido avermelhado.
- Pizza? – Ela falou apontando para a mesma. – Vinho?
- Sim, pros dois! – Falei ao entrar na cozinha, virando de costas e apoiando no balcão. Assisti cortar a pizza, depois colocar um pedaço em cada prato e também distribuir guardanapos.
- Vem, tenho que te mostrar o site! – Ela segurou o prato com uma mão, pegou a taça com a outra e saiu da cozinha, só nesse momento notei sua roupa. Parecia que ela ainda estava na agência. Usava uma calça social escura, uma blusa social branca, mas os pés estavam descalços e seu rosto limpo. Segurei o prato, a taça, e a segui. Ela já tinha sentado no sofá e um notebook estava colocado à sua frente. O prato no colo e a taça no canto do sofá, no chão. – Vem, senta aqui! – Ela bateu ao seu lado do sofá e mexeu em algumas teclas antes de dar uma mordida na pizza.
Assim que me sentei no sofá e olhei para a tela, pude ver meu rosto em uma das sessões de fotos feita especialmente para o site, ainda me pergunto o porquê disso, mas preferi ficar quieto. Melina e estavam empolgadas com a situação e não seria eu que acabaria com o ânimo delas. No menu principal haviam poucas coisas, principalmente sobre mim, o tom das páginas era meio azulado, um logo simples foi elaborado e colocado no topo e, pelos meus conhecimentos gerais, estava tudo muito bonito.
- Gostei! – Falei simplesmente, olhando para ela. Ela demorou um tempo e ficou me encarando. – O que? – Perguntei.
- Só isso? – Ela perguntou e soltou uma risada.
- Eu disse! Não sou bom com essas coisas.
- Mexe nele, vê as páginas, vê se quer mudar algo, se quer que tire, se alguma coisa é mentira, fica à vontade. Eu me baseei em informações que estavam na internet e no dossiê da empresa. – Ela se afastou do computador e encostou o corpo no sofá, dando atenção à sua pizza.
Mexi rapidamente, abri cada página e li sua descrição, olhei os arquivos e, demorei um pouco mais na minha biografia que era algo mais pessoal, mas estava bem superficial, nada que eu quisesse mudar. Conversamos rapidamente sobre o assunto, mudamos algumas fotos, acrescentamos alguns outros textos e, quando vi já tinha deixado de lado a esportiva e focado no profissional de novo, eu sempre fazia isso, não sabia se era algo bom, ou ruim.
agia da mesma maneira. Ela ouvia, mudava os códigos, atualizava as postagens, me mostrava para aprovação e quando notei a pizza em meu colo já havia esfriado, não que eu tivesse me importando muito com isso.
- Bem, caso você não queira mudar mais nada, é isso! – Ela falou virando o rosto para mim.
- Não, está ótimo, ! Está bem legal! – Fiz o mesmo para ela e ficamos nos encarando por um tempo, ela suspirou e virou para o computador.
Não sei o porquê de eu agir dessa maneira, sei lá, era pura atração, quando falávamos de trabalho, focávamos em trabalho, mas quando o papo estava mais descontraído, eu queria continuar. Ela tinha um bom papo, conhecia as coisas do mundo, tinhas suas opiniões e convicções e nunca tinha dado em cima de mim, talvez era por isso. Burro, burro, burro, todo mundo fala que os homens ficam atraídos pelas mulheres que menos lhe dão bola, burro! Apesar de que... Se fosse profissional do jeito que aparentava, tudo aquilo era uma simples carcaça, fechada, reclusa.
Ouvi o barulho do computador desligando e me livrei dos meus pensamentos, se eu compartilhasse isso com meu irmão Seth, até ele falaria que eu estava ficando louco por falar daquele jeito.
- Bem, é melhor eu deixar você dormir então! – Falei, me preparando para levantar. - Nem pensar, você vai me ajudar a terminar essa pizza, pelo menos! – Ela falou se colocando em pé. Soltei uma risada e fiz o mesmo, ouvindo um barulho de vidro se espatifar no chão.
- Droga! – Falei, me virando a tempo de ver a taça vazia se transformar em alguns pedaços. – Desculpa, ! – Coloquei o prato no sofá, mas ela foi mais rápida e já estava colocando os pedaços de vidro na palma da sua mão.
- Relaxa, ! – Ela soltou uma risada fraca. – Até que essas taças duraram demais. – Ela falou como se concluísse um pensamento antigo e eu a olhei sem entender. Já quebrei quatro dessas, agora só sobrou uma. – Ela segurou os pedaços na mão e se levantou.
- Cuidado para não se cortar – Falei e a acompanhei até a cozinha. Ela colocou um pano sobre a bancada e despejou todos os cacos de vidro no mesmo e, ligando a torneira, pude ver um fio vermelho correr junto da água.
- Tarde demais! – Ela falou rindo. – Pega as coisas lá na sala, por favor? – Confirmei com a cabeça e fiz o que ela pediu, trazendo rapidamente para a cozinha de novo. Ela mantinha um dedo pressionado em cima do corte e as duas mãos embaixo d’água. Ajeitei os pratos ao lado dela, e vi que ela desligou a torneira, puxando outro pano de prato em sua frente. Ela o enrolou em sua mão e o manteve preso com os dedos por um tempo.
- Quer que eu lave? – Falei, em partes para ajudar, e, em partes porque meus pensamentos estavam me desconcentrando.
- Não, que isso, eu lavo e você pode tratar de comer! As gravações de Poseidon já acabaram, pode dar uma relaxada na dieta! – Seu rosto se virou para o meu por um tempo e ela me serviu outro pedaço de pizza.
- Obrigado! – Falei baixo e dei uma mordida no pedaço.
Ela se manteve com o corpo encostado no balcão enquanto lavava a pouca louça que havíamos usado e eu mantinha meu quadril encostado no mesmo, comendo a pizza rapidamente. Assim que eu coloquei o prato vazio na bancada, ela fechou a torneira. Nos encaramos por um tempo e vi suas sobrancelhas se arquearem.
- Sério? – Ela falou rindo.
- Deixa que eu lavo, vai. – Falei tentando empurrá-la para o lado, mas ela se mantinha parada na frente da pia, tentando me tirar do caminho com o corpo.
- Para, , eu estou brincando! – Ela me empurrou com o ombro, já que suas mãos estavam molhadas.
- Não, deixa, vai! Você nem deveria ter pedido pizza! – Apoiei minhas mãos em seu ombro, empurrando-a de leve.
- Eu estava com fome, ok?! – Ela soltou uma gargalhada, fazendo uma careta depois e parou de me empurrar, tentando conter a risada. Aproveitei a deixa e me coloquei em sua frente, mas de costas para ela, colocando a mão na torneira e a girando.
- Ei! – Ela falou! – Sai, ! – Sua voz se tornou manhosa, como a que eu fazia quando a brincadeira havia perdido a graça para ela.
- Ok, culpado! – Desliguei a torneira novamente e me virei, encontrando seu rosto próximo demais do meu.
- Obrigada! – Ela falou e ergueu seu rosto.
Seus olhos focaram no meu em poucos segundos e meu mundo parou de girar por um instante, seus olhos castanhos fitaram meu rosto, em mim, só em mim. Aos poucos, sua risada foi cessada e ela não tinha mais um sorriso em seus lábios, que estavam entreabertos e eu podia sentir o ar saindo por eles. Minhas mãos subiram até encontrar a mecha de cabelo solta em sua bochecha e colocá-la atrás de sua orelha, um toque suficiente para um rubor subir por suas bochechas. Entreabri meus lábios involuntariamente e por um momento não sabia o que eu deveria fazer, mas mesmo assim o fiz.
Encostei meus lábios nos dela delicadamente e no mesmo instante ela fechou seus olhos, era o que eu precisava. Encostei meu polegar em seu queixo e mantive nossos lábios encostados por um tempo, eu queria aproveitar o momento. Com a mão livre eu toquei sua cintura e a trouxe para mais perto de mim.
Aprofundei o beijo no mesmo momento em que suas mãos tocaram minha nuca. Seus pés descalços faziam seu corpo ficar um pouco mais baixo que o meu e minha nuca ter que se inclinar levemente para frente para que eu pudesse alcançar seus lábios. Passei a língua levemente por seu lábio e isso deu poucos segundos para que respirássemos. Suas mãos faziam um carinho gostoso em minha nuca e suas unhas arranhavam a pele. Apertei mais seu corpo contra o meu, caminhei minha mão para suas costas, agarrando o pano de sua blusa social, e ouvi um pequeno gemido vindo de . Suas mãos desceram de minha nuca até encontrar meu peito e me empurrou levemente para trás, descolando nossos lábios.
- Eu não posso fazer isso! – Ela falou ofegante, procurando espaço para sua respiração e mantendo suas mãos em meu peito. Eu precisava respirar também, mas não naquele momento.
- Pode sim! – Falei e colei nossos lábios novamente, não antes de ouvir um pequeno riso abafado dela.

Passei meus braços pelas suas costas e a puxei contra meu corpo um pouco mais, depositando pequenos beijos em sua cabeça, enquanto ela mantinha o queixo encostado em meu ombro. Ela não tinha falado nada depois do acontecido e eu também preferi não falar nada, honestamente, eu não saberia o que dizer, tinha sido bom? Sim. Era errado? Depende, mas creio que na cabeça dela a resposta era sim. Foi planejado? Em partes. Eu queria de novo? Com certeza.
Suspirei com esses pensamentos e a senti se mexer levemente, quando afrouxei meus braços em volta dela, e ela continuava a se mexer... Isso era um mau sinal, não?
- Fala algo! – Ouvi sua voz rouca e abri um riso de lado, sentindo meu corpo mais leve. Ela não iria embora.
- O que você quer que eu diga? – Senti seu corpo relaxar entre meus braços e vi seu rosto descolar de meu ombro, me encarar com aqueles olhos castanhos.
- Qualquer coisa! – Seu rosto era sereno e calmo, assim como sua voz, um lado que eu não conhecia muito bem, um lado medroso, talvez. – O que acha...
- Eu quero te beijar de novo. – Falei encostando nossos lábios rapidamente, por rápidos segundos. – E de novo! – Fiz o mesmo novamente. – E de novo! – Mantive nossos lábios encostados por um tempo, até que eu senti sua mão fazendo um carinho leve em meu rosto.
Ficamos assim por pouco tempo, até que ela aprofundou o beijo novamente, agora não era mais delicado como antes, eu sentia suas unhas raspando pelas minhas costas por cima da blusa e minhas mãos também se moviam com agilidade do seu quadril para suas costas e de vez em quando para seus cabelos.
Em um momento ela parou bruscamente, se afastando o que podia, por estar encostada na pia, e soltou o ar pesadamente, respirando rápido depois disso. Vi seu peito subindo e descendo e sabia que dividia aquela sensação com ela. Eu podia sentir o suor descer pela minha nuca e, de repente, o lugar estava abafado.
Ela passou as mãos nos cabelos, os tirando do rosto, e ajeitou o corpo, arrumando o primeiro botão de sua blusa que havia aberto, e puxou a barra para baixo, ajeitando-a no corpo, nesse momento eu me afastei um pouco e me aproximei da janela. A madrugada estava quieta, mesmo para um sábado, as únicas luzes visíveis eram as da cidade e algum carro andando acelerado pela avenida em frente ao seu apartamento.
- Eu tenho que dormir! – Ouvi sua voz e me virei rapidamente em sua direção. – Vou viajar amanhã cedo... Ou hoje, sei lá! – Ela coçou a cabeça, enquanto encarava o chão em sua frente.
- Viajar? – Ouvi minha voz sair e ela ergueu o rosto. – Você não vai comigo para as últimas entrevistas?
- Não dessa vez. Derek vai contigo. Eu preciso visitar minha família. Não os vejo desde que comecei a pós. Melina me deu a próxima semana de folga. – Ela abriu um sorriso de lado e eu tive que sorrir também, pelo que eu sabia, fazia mais de um ano que ela não visitava sua família.
- Ok! – Falei e me aproximei dela novamente. – Mas quando voltar quer sair comigo? – Segurei suas mãos, vendo-a erguer os olhos levemente arregalados para mim.
- Sair? Contigo?
- Sim! – Falei simplesmente. – Um encontro, se quiser chamar de alguma coisa. – Ela afirmou com a cabeça, mantendo os lábios colados em um sorriso.
- A gente se fala, então! – Ela disse, enquanto eu caminhava até o sofá e pegava minha mochila.
- Com certeza! – Ela abriu a porta e eu caminhei até o hall, apertando o botão do elevador. Ela acenou da porta de seu apartamento.
Assim que a porta do elevador se abriu, ela deu passos rápidos até mim e, ficando rapidamente na ponta dos pés, encostou seus lábios nos meus novamente, voltando para dentro do apartamento e fechando a porta. Fiquei parado por alguns segundos encarando a porta fechada e soltei um riso fraco. Entrei no elevador e apertei o botão do térreo.

Seria mentira dizer que eu não pensava nela, principalmente nas duas últimas semanas, quando tive que voltar para Cleveland para gravar as últimas cenas de “Poseidon 2: A Maldição dos Mares”. Estávamos no meio de junho e minha mãe insistia para eu largar a festa do meu aniversário em alguma boate de Hollywood para que fosse comemorar em Boston, contigo, com meus amigos de lá e também junto com meu sobrinho, que fazia aniversário no começo do mês que vem.
Eu já tinha pensado nessa possibilidade, mas não por esse motivo. Eu precisava ter certeza dos meus sentimentos, fazia um bom tempo que aqueles sentimentos não me atrapalhavam, meu último relacionamento havia sido mais questão de comodidade do que de sentimentos, realmente. Era alguém que eu conhecia, já tinha me envolvido, mas não a pessoa que eu queria, mas uma opção confiável e divertida para ocupar o tempo e nem isso acabou dando certo. Como romântico que eu era, eu queria mais, eu precisava de mais, nada de comodidade. Se fosse comodidade, que fosse com uma pessoa que eu amasse e que estaria lá, sorrindo quando eu chegasse em casa tarde ou uma pessoa que brigasse comigo por chegar tarde, por trabalhar demais, por qualquer motivo, alguém que tivesse uma posição comigo.
Então eu iria para Boston e voltaria, com alguma desculpa, à agência para falar com ela... Eu precisava de alguma desculpa, por mais boba que fosse.

- Filho! – Minha mãe falou ao abrir a porta de casa e se deparar comigo. Logo ela me envolveu em um abraço e não deu nem tempo de eu tirar os óculos escuros que já haviam entortado com seu abraço de urso. – Meu aniversariante! Feliz 32 anos, meu amor! – Ela falou enquanto segurava meu rosto em suas mãos.
- Obrigada, mãe! – Falei rindo. Todo ano era exatamente a mesma situação. Eu ia para Boston ou ela ia para Los Angeles, ela sempre segurava meu rosto em suas mãos, me dava parabéns e me abraçava. Era assim desde que eu me lembrava.
- Vem, entra! O almoço já está saindo! – Ela me puxou e eu entrei.
Sua casa em Boston tinha uma sala gigante que incluía sala de estar, cozinha e sala de jantar e atrás desta, uma parede de vidro que dava para o quintal. A mesa já estava posta, para oito pessoas.
- Quem não vem? – Perguntei contando novamente os pratos postos.
- Seth! Ele está preso em Nova York, mas falou para te preparar, que tem uma surpresa para você à noite. – Ela falou enquanto colocava uma grande vasilha na mesa.
- Eu deveria ter medo?
- É seu irmão, o que você acha? – Dei uma risada enquanto roubava uma batata frita da mesa. – ! Longe da mesa, agora!
- Irmão! – Cady apareceu na porta do quintal com minha sobrinha no colo.
- Cady! – Falei me aproximando dela. Ela me apertou fortemente com um braço enquanto segurava Annie com o outro braço.
- Feliz aniversário, meu irmão! Muita paz, saúde, felicidades e mais sucesso ainda na sua vida! Que Deus sempre te abençoe e que você encontre o amor da sua vida! – Ela me olhou com um sorriso no rosto. – E logo! – Soltei uma risada.
- Obrigado, Cady! – Senti sua mão acariciando meu rosto. Fiquei em silêncio por algum tempo, seus olhos me encaravam com ternura. – E bem... – Falei devagar. – Talvez... Só talvez, eu esteja com alguém agora. – Sua boca se escancarou rapidamente.
- Como assim? – Ela falou em um tom mais cochichado.
- Depois a gente conversa. – Falei baixo pegando minha sobrinha que acordava em seu colo. – Oi, Annie! – Segurei-a em meus braços e beijei sua bochecha, fazendo-a soltar uma risada.
- Crianças, almoço está na mesa! – Minha mãe falou colocando uma grande travessa na mesa e chamando o resto do pessoal na varanda, os outros dois filhos de Cady vieram correndo com o marido dela atrás. Sharon, minha outra irmã, vinha ao seu lado.
- Tio ! – Cada um abraçou uma perna e eu soltei uma gargalhada. – Feliz aniversário! – Eles falaram em coro.
- Obrigado, meninos! – Me abaixei com Annie no colo e cada um deu um beijo em cada bochecha minha e logo me levantei.
- ! – Sharon vinha logo atrás, entreguei Annie para Cady e abracei minha irmã fortemente. – Tudo de bom, meu irmão! Que você seja muito feliz! Sempre! – A cada palavra que ela falava, me abraçava mais forte, até que soltou!
- Obrigado, Sharon! – Dei um beijo em sua cabeça.
- Feliz aniversário, , tudo de bom! – O marido de Cady me abraçou rapidamente e trocamos um aperto de mão.
- Venham, gente, vamos comer! – Minha mãe insistiu.
Sentamo-nos à mesa e notei que minha mãe tinha feito macarrão com almôndegas, meu favorito. O almoço correu normalmente, cada um contando sobre os últimos acontecimentos, eu falei um pouco da minha última semana, mas sem mencionar , se eu contasse sobre um possível novo relacionamento para minha família, eu teria que estar preparado para responder um monte de perguntas da senhora e, como eu ainda não tinha certeza sobre o que aconteceria entre a gente após aquele beijo, preferi ficar quieto. Minha irmã mais velha, Cady, olhava toda hora para mim, eu soltava um riso fraco e voltava o rosto para meu prato, podendo só imaginar as milhares perguntas que se passavam pela sua mente. Era sempre assim.
Cady sempre foi a mais próxima, tínhamos somente dois anos de diferença, então, com o passar do tempo, enquanto crescíamos, Cady me ensinava várias coisas, que depois eu repassei para o Seth. Mas com Cady eu tinha uma relação mais de carinho, quase como se ela fosse uma segunda mãe para mim, além de ser minha irmã, amiga e cuidar de mim, ela me inspirava também, tanto que me inspirou a ser ator.
Seth era meu parceiro, quando juntava eu e ele, a casa ia abaixo. Desde pequeno aprontávamos um com o outro – eu mais, é claro – e, nossa relação sempre foi ótima. Como irmão mais velho eu tinha o dever e a vontade de ajudá-lo em tudo, aconselhá-lo, apoiá-lo, então, quando ele revelou para mim que era homossexual, a reação instantânea foi de susto, pois Seth tinha só 14 anos e, na minha cabeça, não era como se ele tivesse certeza, eu com 16 não tinha muita certeza do que queria fazer da minha vida, mas eu o apoiei. Quando se é adolescente, não é algo fácil de fazer, principalmente, porque as pessoas podem e são malvadas, ainda mais quando se é diferente, mas Seth não estava interessado, ele queria viver sua vida e só pensava nele.
Minha mãe reagiu da forma mais irônica possível “Eu já sabia”, foram as palavras que saíram da boca dela quando eu contei. Não, eu não deveria ter contado, mas Seth estava começando a ter namorados e minha mãe precisava saber, as mães precisam saber. Ela me contou que pelo modo que Seth agia algumas vezes, o modo que ele falava, alguns dos seus gestos, deixavam isso na cara e, comigo, nada mudou, nossa irmandade e amizade continuou a mesma, ele vai continuar sempre sendo meu irmãozinho, uma das pessoas que eu mais amo nesse mundo.
Sharon chegou um pouco depois, ela é a mais nova de nós quatro, tem só 25 anos, e chegou em casa tarde. Minha mãe a adotou quando ela tinha nove anos, eu tinha 17, e sei que essa adoção fez com que minha mãe realizasse um sonho. Ela conta que desde que era pequena, tinha o sonho de adotar uma criança, mas como teve facilidade para ter filhos deixou esse sonho de lado quando Cady chegou, depois quando eu nasci e depois com Seth, mas quando ela e meu pai se separaram, pouco antes dos meus 17 anos, ela estava machucada, ferida. Eu já falava sobre sair de casa e Cady já morava fora para fazer faculdade, então, ela ficaria com Seth e, como também estava seguindo a carreira de ator da família logo sairia de casa também.
Sharon era muito quieta quando éramos crianças, mas eu ir morar fora, após quase dois anos sem vê-la, fez com que ela entrasse nos eixos da família , ela era mais solta, tinha mais facilidade em comunicação e se tornou uma pessoa incrível. Ela tentava mostrar de todas as maneiras o quão grata era por minha mãe ter a adotado, agora não demonstra mais, mas às vezes ela fica um pouco abalada com seu passado. Passado que não sabemos muito, apenas que quando ela tinha quatro anos, seus pais faleceram em um acidente de carro e ela foi morar em um abrigo de crianças de Boston, até que foi adotada e como normalmente os pais preferem bebês, ela já tinha até perdido as esperanças. Quando apareceu minha mãe, uma pessoa que não queria outro bebê, já que tinha passado por três e, realmente não queria mais trocar fraldas de ninguém, “somente dos netos”, Sharon se irradiou novamente.
Após a separação, meu pai e minha mãe raramente ficavam no mesmo cômodo por muito tempo, não que eles tivessem ódio um por outro, mas sempre que meu pai estava perto, sua nova esposa estava junto e, essa nova esposa, era com quem meu pai havia traído minha mãe, então ficava sempre um clima chato. Eu, Cady e Seth ficamos bem chateados com meu pai quando aconteceu, mas com o tempo, não era como se quiséssemos excluí-lo de nossa família, então o contato ficou mais frequente, mas não tanto como voltar para casa da minha mãe. Ele sempre estava lá para me apoiar, lançamentos, filmes, ele sempre estava presente.
- Bem, eu tenho que passar na agência ainda. – Falei passando a mão em minha barriga em sinal de satisfação. – Estava uma delícia mãe! – Falei sorrindo.
- Que bom que gostou, filho! – Ela sorriu. – Bolo e presentes só no domingo, ok?!
Afirmei com a cabeça rindo, então no domingo teríamos a família inteira reunida e meus amigos na casa da minha mãe para o almoço.
- Eu vou passar na agência e depois vou para casa, fala pro Seth me ligar, quero saber que horas vamos sair. - Naquela hora só sobrou eu à mesa, e minha mãe do outro lado da bancada, lavando a louça.
- Provavelmente ele vai passar na sua casa umas 11 horas, como sempre, então, fica pronto. - Soltei uma gargalhada.
- Isso provavelmente é verdade, mas como você o conhece, ele provavelmente vai aprontar alguma.
- Seu irmão? O Seth? – Ela falava com um tom sarcástico. - Ah, filho, imagina! – Gargalhamos juntos.

Bati a porta do meu carro e encarei o prédio em minha frente, com as letras ACCESS, ajeitei o boné em minha cabeça e entrei pelas portas, acenando rapidamente para a ruiva na recepção.
- Feliz aniversário, ! – Ela falou enquanto eu caminhava para os elevadores.
- Obrigado, Genevive! – Entrei no elevador e apertei o botão do andar que eu já estava acostumado.
Assim que as portas se abriram, eu caminhei até a sala com o nome de Melina, a porta estava fechada, mas como sempre, entrei sem bater.
- Surpresa! – Foi o coro que eu ouvi.
Soltei uma risada, encostando a porta atrás de mim e caminhando até a pequena mesa na sala, em que tinha um cupcake com cobertura azul e uma vela acesa sobre ele. Melina, Derek e sorriam para mim. Me abaixei, peguei o bolo em minhas mãos e assoprei a vela, dando uma risada fraca.
- Obrigado, galera! – Melina saltitou em minha direção e me deu um abraço apertado.
- Feliz aniversário, querido! – E logo se afastou. Derek fez o mesmo movimento que ela, me dando um forte abraço. vinha logo atrás.
- Feliz aniversário! – Ela disse com um sorriso tímido e me deu um abraço, se afastando rapidamente. – Come. – Ela apontou para o cupcake. – Eu que fiz, espero que goste! – Ela se afastou e encontrou Melina no meio do caminho com uma caixa cheia de cupcakes iguais ao meu e um em sua outra mão, mordendo-o e sujando sua boca de cobertura azul.
- Então, vocês estão escondendo o ouro? – Falei, tirando a vela do meu cupcake e mordendo-o pela metade.
- Estamos escondendo nada, não! – Derek falou com a boca cheia enquanto saía da cozinha.
- Isso está muito bom, ! – Falei, passando a mão no queixo, limpando a cobertura.
- É porque você não chegou ao recheio ainda! – Melina falou, no mesmo tempo em que eu dei mais uma mordida no bolo, puxando o chocolate do recheio.
- Oh meu Deus! – Falei, mastigando devagar o recheio. – Isso é uma delícia! É chocolate? – Encarei que tinha um sorriso sapeca no rosto.
- Quase! – Ela falou antes de engolir o último pedaço do bolo. – É brigadeiro. Um doce brasileiro!
- É um doce muito bom... Mas que eu prefiro não tentar falar! – Ela soltou uma risada fraca e se mexeu, puxando o celular do bolso e logo colocando em sua orelha.
- Oi! – Ela falou antes de caminhar a passos apressados até sua sala e fechar a porta.
- Hora de voltar para o trabalho! – Derek falou seguindo o mesmo caminho da , mas entrando na porta da frente.
Peguei mais um cupcake e o engoli rapidamente, tempo em que pude ouvir abrir novamente a porta de sua sala, mas sem sair de lá. Limpei minha boca rapidamente e caminhei pelo corredor, ficando em frente à porta de sua sala. Lá dentro ela estava sentada próxima à mesa, digitando algumas coisas rapidamente no notebook, assim que eu bati na porta seu olhar subiu para mim e suas bochechas automaticamente ficaram vermelhas.
- Oi! – Falei entrando na sala.
- Oi! – Ela repetiu, apoiando os braços sobre a mesa.
- Como está o site? – Me vi falando, dei uma olhada rápida no corredor e encostei a porta delicadamente atrás de mim e encostei-me à mesma.
- Sério? – Ela falou arqueando as sobrancelhas e eu dei de ombros.
- Estou tentando puxar papo. – Falei encarando seus olhos. – A gente não conversou depois... Daquele dia.
- Temos algo para falar sobre aquele dia? – Ela falou com um tom de voz mais baixo. Ela estava zoando comigo, né?!
- Se depender de mim, temos. – Falei no mesmo tom baixo dela e me aproximei da mesa, sentando em uma das cadeiras à sua frente.
- O quê, por exemplo? – Vi que ela engoliu em seco.
- Eu gostei e, tenho certeza que você gostou também. – Ela abriu um sorriso de lado, afirmando com a cabeça.
- Então sim, talvez tenhamos algo para conversar. – Ela soltou uma risada e eu sorri.
- Eu quero mais. – Falei simplesmente me aproximando da mesa e a imitei, apoiando os braços sobre ela.
- Acho que é possível. – Ela sorriu e comecei a sentir sua respiração bater em meu rosto.
- Eu tenho certeza disso. – Terminei a frase encostando meus lábios nos dela. Pela mesa em nosso caminho, não deu para aprofundar o beijo, nem deixá-lo mais forte, mas sentir seus lábios sobre os meus, já me satisfazia.
- Aqui não, . – Ela falou baixo, com os lábios colados aos meus também. – A Melina está na sala do lado. – Ela cochichou a última parte.
- Xi! – Falei arrastando minha cadeira ao lado da dela e a abracei de lado, encarando a tela do computador. – O que você está fazendo? – Ela automaticamente fechou algumas janelas.
- Surpresa! – Ela falou e eu a beijei novamente. Dessa vez deu para aprofundar o beijo... Mas não por muito tempo, já que o telefone em sua mesa tocou.
- Carvalho. – Ela falou imediatamente. – Ok! – Ela arregalou os olhos e colocou o telefone de volta no gancho. – Melina quer a gente na sala dela... Agora!
- Ok?! – Falei me levantando e estendendo minha mão a ela que também levantou.
Assim que eu abri a porta da sala, soltamos as mãos, mesmo se estivéssemos juntos, estava cedo para oficializar alguma coisa. foi quem entrou primeiro na sala de Melina, se posicionou em um dos lados da mesa e eu entrei ao seu lado.
- Fecha a porta, por favor, ! – Ok, fodeu. Fiz o que ela pediu e voltei à minha posição.
- Aconteceu algo, Melina? – perguntou mantendo as mãos ao lado do corpo, enquanto eu cruzei meus braços.
- Creio que estamos com uma crise, ! E precisamos resolvê-la imediatamente. – encarou Melina meio confusa, cuidava da minha comunicação, me assessorava eu não estava com nenhuma crise...
- Crise? Mas que crise, Meg... – Ela foi interrompida.
- Vocês dois! – Eu arregalei os olhos e pude sentir tensa ao meu lado.
- Mas...
- Eu sou tipo mãe, , e sabe disso. Não há nada que vocês façam que eu não saiba. Você estava tensa essa semana inteira, sempre que eu falava o nome do você tentava agir como se não importasse. Já o , sumido a semana inteira e quando ligava para cá, sempre perguntava de você, inventava alguma desculpa para perguntar sobre você. Acredite, ele não é assim. – Ela falou se virando e colocando vários papéis em sua mesa.
- Melina, eu... - Fui interrompido.
- E outra, tem câmeras em todas as salas. – Ela riu ironicamente e escondeu o rosto com as mãos. - Eu não ligo, honestamente. – Ela falou séria, mas logo abriu um sorriso. – Vocês dois ficam fofos juntos. E ela é uma pessoa decente, , alguém que eu conheço e sei que vai te fazer feliz.
- Melina, acho que você está adiantando as coisas demais.
- Não, , eu não estou. Vocês podem ficar à vontade, fazer o que quiserem, mas, por favor, se não for nada sério, não me deem dor de cabeça. – Ela falou colocando as mãos na cabeça. – É trabalhoso cuidar de relacionamentos, ainda mais com alguém que trabalha lado a lado contigo, , é mais complicado ainda. Então, por favor, caso isso não for sério, peço que acabem com essa brincadeirinha agora, porque eu não vou perder nem meu cliente e nem minha melhor assessora. – Ela bateu a mão na mesa, nos assuntando. – Mas se for sério, o que eu sei que é, façam valer a pena. – Olhei para o lado e afirmava com a cabeça. – Entendidos?
- Sim, chefe! – falou fazendo Melina rir e se encaminhou para a porta.
- É sério! – Falei olhando para Melina e pude ver de lado, parando na porta. – Vai ser sério. – Afirmei com a cabeça encarando Melina. – Ela vale a pena. – Melina abriu um largo sorriso, fazendo o mesmo movimento com a cabeça.
Assim que eu virei em direção à porta, deu um sorriso e saiu pela mesma. A segui.
- Obrigada! – Ela falou com a voz baixa assim que entrou em sua sala de novo. – Pelo que disse.
- Só disse a verdade. – Falei com o mesmo tom de voz que ela.

- Então... – Falei quebrando o silêncio que ficou entre nós. – Meu irmão provavelmente vai querer ir a alguma boate hoje, comemorar e tudo mais. Quer ir com a gente? – Cocei a nuca.
- Eu queria ir, mas não posso. – Ela soltou uma risada, arqueei a sobrancelha. – Seu irmão está preparando algo bem divertido e, acredite, eu prefiro ficar fora disso.
- Ele falou alguma coisa? – Ela gargalhou.
- Falou para Derek! E é melhor que eu não vá junto.
- Você está me deixando com medo. – Assumi.
- É melhor você ficar, mesmo! – Ela deu de ombros, e encostou-se à mesa atrás dela.
- O que Seth está preparando? – Me peguei pensativo e ela riu.
- Só digo uma coisa, se eu sou alguém que ‘vale a pena’, – Ela fez aspas com as mãos. – é melhor se comportar. – Soltei uma gargalhada, colando meus lábios rapidamente nos dela e senti suas mãos subirem para meu pescoço. - Tem alguma coisa vibrando. – Ela falou descolando os lábios dos meus. Puxei o celular para fora do bolso, atendendo.
- É melhor que esteja na sua casa, se arrumando. – Ouvi a voz de Seth e soltei uma risada.
- Seth! – soltou uma risada e foi sentar em frente ao computador novamente.
- Estou aqui na ACCESS.
- Espero que ninguém tenha revelado nada. – Ele falou alto, tinha um som tocando onde quer que ele esteja.
- Não. Tentei tirar algo do povo aqui, mas nada. – ria em seu canto.
- Bom mesmo! – E desligou.
- Deu para ouvir tudo que ele disse, sério! – falou em um tom descontraído.
- Bem, melhor eu ir! – Falei apontando para porta.
- É, hoje eu trabalho até mais tarde. Prefiro finalizar algumas planilhas e eu me perco muito com elas. – Ela falou fazendo uma careta ao final.
- Eu te ligo, ok?! – Falei e ela confirmou.
- Leva os cupcakes para casa, esqueci seu presente, então, é meu presente para você. Sei que gosta de sobremesas.
- De fato, eu gosto! – Ela riu. – Até mais! – Acenei.
- Feliz aniversário! – Ela gritou, e eu gargalhei.
Dirigi calmamente até minha casa em Boston. Assim que cheguei, tirei minhas botinas e me joguei na cama, precisava dormir.

Acordei com meu celular tocando... Seth.
- Passo aí em 20 minutos. – Foram suas palavras. Mas era cedo ainda, não?!
Passei rapidamente pelo banho e coloquei uma calça jeans clara, uma blusa de manga comprida preta e minhas conhecidas botinas. Passei um pouco de gel, deixando meus cabelos para trás. Coloquei minha carteira em um bolso e o celular no outro e saí de casa.
Todo ano Seth preparava algo especial para o meu aniversário e, como disse, é bom que eu ficasse com medo mesmo. Desde que saí de casa, Seth fazia questão de ir me ver, não importava onde eu estivesse, e preparar uma surpresa de aniversário para mim. Tive algumas situações interessantes e algumas realmente estranhas, em um ano ele fechou um aquário e fez um jantar para a família, a parte mais estranha foi que o jantar era peixe também, enfim... Teve outro ano que comemorei na Playboy Mansion, com direito às coelhinhas e o Hugh Hefner em pessoa me congratulando, entre outros, mas há uns três anos, que foi quando eu definitivamente deixei essa vida de festas e baladas de lado.
As festas ficaram mais comuns, Seth provavelmente deveria ter fechado alguma casa noturna de Boston para comemorar meu aniversário, com direito a open bar, provavelmente meus amigos estariam também e talvez, algumas dançarinas e, claro, muita mulher bonita. Não o culpo, a única que sabia alguma coisa de era Cady e só porque eu contei a ela esta manhã. E para minha mãe falar para eu ter medo, é que Seth realmente aloprava nessas festas, ele era do tipo fraco para bebida, alguns goles e já falará coisas meio sem sentido e gritar “Party Hard” para todo mundo.

Coloquei os pés para fora do meu condomínio em Boston, uma SUV preta parou na rua e por trás do vidro estava meu irmão. As luzes do carro se apagaram e um Seth sorridente veio me abraçar.
- Feliz aniversário, irmão! – Ele me abraçou apertado.
- Obrigado, Sethy! – Dei tapas em suas costas e nos afastamos.
- Seu presente! – Ele me estendeu uma caixa preta com um laço dourado.
- Pensei que todo mundo me daria presentes só no domingo! – Fomos andando até o carro.
- Se eu te desse o presente no domingo, não valeria de nada! – Ele falou rindo e entrou no lado do motorista. – Abre!
- Tá brincando! – Falei ao abrir a caixa e dar de cara com dois ingressos para o jogo Boston Celtics contra Los Angeles Lakers, um dos jogos mais esperados da temporada de basquete, um jogo que tinha sido esgotado há muitos meses. – Como você conseguiu isso?
- Não foi fácil, mas quando eu vi a data, tinha que conseguir esses ingressos. – Ele falou olhando para a rua. – Seus amigos vão nos encontrar lá.
- Isso que é surpresa. – Falei rindo.
Conversamos um pouco até chegarmos ao estádio TD Garden, casa dos Celtics. As ruas estavam fervendo, as pessoas procuravam lugares para estacionar, os fãs tentando entrar e a duas torcidas ficavam bem separadas. Era uma das maiores rivalidades do basquete.
Assim que estacionamos, dois amigos meus de Boston se juntaram a nós.
O jogo foi simplesmente fantástico, meus grandes amigos comigo, cerveja e amendoim, a galera aloprada por causa dos resultados, a agitação, e o jogo estava muito acirrado. Para ficar melhor, meu time ganhou, nos últimos segundos, com uma cesta de três pontos, foi o ponto máximo da noite.
Saímos do jogo com uma sensação ótima. Passamos em uma lanchonete e cada um comeu um combo gigante de lanche com fritas e muito refrigerante. Estava me sentindo com 14 anos de novo, a primeira vez que eu tinha ido a um jogo na vida.
Seth me deixou em casa pouco antes da meia noite, perguntei se ele queria subir, mas ele falou que passaria na casa da mamãe antes, que não tinha conseguido vê-la ainda e estava há quase dois meses fora da cidade.
Arrumei-me para deitar e faltando cinco minutos para a meia noite eu já estava deitado, fiz uma rápida oração em silêncio, agradecendo por tudo, por mais um aniversário, pela família e amigos que eu tenho e pelas oportunidades. Eu não tinha nada a reclamar.
Juntei dois travesseiros atrás da minha cabeça e ouvi o celular vibrar na cômoda ao lado da cama, era uma mensagem:

“Feliz aniversário! Tudo de bom, muita paz, saúde, felicidades, amor e mais sucesso na sua vida. Beijos, <3”.

Suspirei. Fazia algum tempo que eu não me sentia assim, sei lá, umas cócegas na boca do estômago, é uma sensação liberta, uma sensação de querer voar, uma sensação de leveza. Reli as palavras algumas vezes e quando notei já estava discando para , precisava falar com ela e se ela havia me mandado essa mensagem, era porque ainda estava acordada.
- Normalmente as pessoas respondem uma mensagem com outra mensagem. – Foram as palavras que eu ouvi assim que ela atendeu.
- Ah, não! Muito impessoal isso. Não me dou muito bem com mensagens.
- Não só com mensagens, mas com nada que seja prático, você quer dizer. – Ela gargalhou do outro lado da linha, me fazendo rir.
- Isso é sacanagem comigo! – Falei, me sentindo ofendido.
- Brincadeira! – Ela falou ficando em silêncio por um tempo, mas logo gargalhando em seguida.
- Qual é, !
- Ok, eu paro! – Ela falou ficando em silêncio.
Fiquei ouvindo sua respiração por um tempo e era bom. Ela não falava nada, eu não falava nada, o silêncio era nosso aliado. A noite também.
- Como foi o trabalho hoje? – Me vi perguntando.
- Estou zonza de tanto ver planilha. É por essas que eu fiz comunicação, muitos números me confundem! – Ela falou fazendo birra. – Pelo menos tenho o dia de folga amanhã! Bem, em partes. – Pude imaginá-la mordendo o lábio inferior e fazendo uma careta.
- Por que em partes? – Falei rindo.
- Essa casa não vai se limpar sozinha, acredite!
- Seth não fez nada louco hoje, não teve strippers, nem dançarinas exóticas! – Falei ouvindo sua gargalhada novamente.
- Sério? Do jeito que Derek falou pareceu que seria a balada do ano.
- Não, fomos ao jogo dos Celtics hoje. – Falei me mexendo na cama e virando de lado.
- Basquete?
- Sério?! – Perguntei.
- Que foi? Brasil é país do futebol, não sou muito ligada em outros esportes, ok?
- Vou pensar no seu caso!
- Sem graça! – Ela ficou em silêncio de novo.
- Eu estava pensando aqui... – Falei meio pensativo.
- O quê? – Ela perguntou.
Fiquei em silêncio por um tempo, pois precisava saber se o passo que eu estava prestes a dar era maior que minhas pernas, se seria o começo de algo novo, se seria algo que eu estava preparado para entrar de novo, e se era realmente o que eu queria.
- ? – Ouvi sua voz baixa do outro lado. – Está aí ainda? – Saí do transe.
- Você quer sair comigo, ? Sério! Um encontro?
Foi como se eu prendesse minha respiração e o tempo passasse mais devagar. Fechei meus olhos e passei meus dedos sobre eles, esperando.
- Quero! – Ouvi sua voz do outro lado da linha e sorri.



Capítulo 3

(Eu mal posso esperar para te pegar para nosso primeiro encontro. Tudo bem se eu segurar sua mão? - Blink 182, First Date)
- Por que você não faz o que eu estou mandando? – Falei clicando pelo menos umas 20 vezes na tecla enter, encarando a página que continuava travada.
- Ei, o que o computador te fez? – Ergui a cabeça e encontrei Derek parado na minha porta.
- Ah, isso já travou umas 500 vezes só hoje! – Ele entrou na sala e se aproximou de mim. – Toda vez que eu vou postar no site, ele trava e, depois quando destrava, o link quebra.
- Deve ser a internet, desde a hora que eu cheguei, nem no meu e-mail eu estou conseguindo entrar. – Ele puxou a cadeira perto da porta e se sentou ao meu lado, quando a tela destravou.
- Mas isso precisa ficar on-line hoje. – Suspirei. – Mais uma vez. – Falei e comecei o processo novamente, ouvindo o telefone ao meu lado tocar – Ah, espera! – Gritei para o telefone, ouvindo Derek rir. - Pega o link, digita o código, coloca o link no código... – Peguei o telefone e cliquei enter. – Mas que inferno! – Falei colocando o telefone no ouvido. – , boa tarde?
- Nossa, calma, o que eu te fiz? – Ouvi a voz do do outro lado da linha e fiz uma careta.
- É ele? – Derek sussurrou ao meu lado e eu concordei com a cabeça.
- Não, nada. – Suspirei e abaixei a tela do computador. – O processo tá meio lento aqui hoje, sabe? – Apoiei minhas costas na cadeira e vi Derek aproximar o ouvido do telefone. – Mas e aí, como você está? – Respirei. – Onde você está, na verdade? – Ele soltou uma risada antes de responder.
- Cheguei em Los Angeles agora, finalmente posso tirar esse loiro do cabelo. – Ele riu e eu o acompanhei.
- Como foram as gravações? - Perguntei, me levantando da cadeira e vi Derek me seguir de novo, o encarei, mas ele deu de ombros.
- O de sempre, explosões que não existem, tridentes que não existem e até pessoas que não existem. - Eu ri e pude ver em minha mente ele sorrindo. - Mas enfim, vou estar em Boston amanhã, depois de duas semanas. Me desculpa, mas podemos sair?
- É seu trabalho, , não tem problema. – Suspirei. - Sair? Amanhã? É... Acho que dá! - Falei procurando desesperadamente o calendário no celular, o qual Derek tomou da minha mão e abriu rapidamente.
- ...Pro nosso encontro. - Eu abri um sorriso gigante no rosto, fechando os olhos.
- Você se lembrou. - Minha voz saiu baixa, quase num sopro.
- Você achou que eu me esqueceria? - Sua voz parecia meio brava.
- Ah, sei lá, foram quase duas semanas sem se falarmos, só por algumas mensagens esporádicas. - O ouvi suspirar.
- Eu disse que não me dou muito bem com celular. - Abri um sorriso de lado. - Mas combinado amanhã?
- Claro! O que tem em mente? - Abri um sorriso longo e voltei a me sentar na cadeira próxima à escrivaninha.
- Isso você só vai descobrir amanhã às 17 horas, quando eu te pegar na sua casa. - Podia ver seu sorriso em minha mente.
- 17 horas? , você sabe que eu sou uma pessoa normal, com um trabalho normal, não? Saio às 18h e chego em casa quase 19h, e ainda preciso de uma hora mais ou menos para ficar pronta. Antes das oito, não dá!
- É, mas você tem a Melina como chefe. Relaxa, te pego as 17h. Até amanhã.
- Espera... ! - Falei, mas ouvi a linha no telefone desligada.
- Ele pode ser bem convincente. - Derek falou se levantando de onde estava anteriormente.
- Convincente? Ele quer que eu seja demitida, certo? - Suspirei. – Melina está razoavelmente calma com a situação, mas eu não posso simplesmente largar meu emprego para sair com o cliente dela!
- Quem disse que é você que vai pedir para faltar amanhã para “sair com o cliente dela”? - Ele fez aspas no final da frase, o olhei sem entender. - Ele que vai falar, queridinha. E, se acalma, hoje você tá muito irritada. - Me joguei na minha cadeira, soltando fortemente a respiração.
- Desculpa... Eu só... - Suspirei de novo. - Sei lá, estou rabugenta hoje.
- Então relaxa, bem! - Ele se colocou atrás de mim. - Endireita as costas! - Ele falou e eu me ajeite na cadeira e senti suas mãos em meus ombros. - Pensa assim: “eu vou sair com um dos homens mais gostosos e famosos do planeta”... - Franzi o cenho e ergui o rosto para ele. - Xiu, vai, repete.
- “Eu vou sair com um dos homens mais gostosos e famosos do planeta”. - Falei de má vontade.
- E eu vou me divertir muito e beijar muito, porque gosto dele. - A cada palavra ele apertava meus ombros, massageando.
- “E eu vou me divertir muito e beijar muito, porque gosto dele”. - Falei abrindo um leve sorriso nos lábios.
- E vou estar linda e maravilhosa para ele ficar babando o tempo todo. - Arregalei os olhos.
- Meu Deus, eu preciso de roupa nova! - Falei empurrando a cadeira e me levantando, ouvindo um gemido de dor vindo de Derek, por ter empurrado a em cima de seu pé. - Eu preciso de cabelo, maquiagem, manicure! - Falei pegando minha bolsa e puxando cartões da mesma, procurando alguns telefones. - Ai meu Deus, eu não posso sair com “um dos homens mais gostosos e famosos do planeta” assim! Meu cabelo está seco, minhas unhas horríveis e... - O encarei e senti segurar meus ombros, me parando.
- Calma, mulher! Relaxa! - Ele encarou fundo em meus olhos. - Calma!
- Tá tudo certo, gente? - Ruth, a estagiária, apareceu também na porta da minha sala.
- Só a , se dando conta que vai sair com um cara lindo e famoso! - Derek falou ironicamente.
- Só agora, ? - Ruth riu.
- Ah, eu não tinha me dado conta disso ainda, ok?! Sei lá, é tudo novo isso para mim. - Falei suspirando. - E outra, agora que ele realmente marcou, ok?! - Ruth riu.
- Bem, divirta-se. - Ruth falou acenando. - Eu vou cuidar do meu bebê!
- E como ela está Ru? - Falei e ela abriu um largo sorriso.
- Ah, ela está ótima, linda e crescendo mais a cada dia. Todo mundo lá em casa está feliz.
- Tem que trazer ela logo para a gente conhecer, ok?! - Ela acenou com a cabeça. - E o pai?
- Ele está indo bem, sua mãe meio que o obrigou a participar das coisas, mas parece que ele está realmente gostando disso tudo.
- E vocês dois? - Perguntei um pouco mais sútil.
- Não, nada. Sei lá, a gente só teve um filho juntos, totalmente não planejado, era para ser só uma noite de diversão e isso acabou nos unindo de alguma maneira. Não penso nele desse jeito e pelo jeito ele também não.
- Ah, pelo menos ele está te ajudando – Derek comentou ainda atrás da minha cadeira.
- Sim, já é alguma coisa. Ele começou a trabalhar, está ajudando a pagar algumas coisas... Estamos indo bem. - Ela sorriu.
- Ah, fico feliz, Ru! Você realmente merece! Você é linda, estudiosa, realmente se preocupa. Você tem tudo para dar certo, querida! - Dei um rápido abraço nela e um beijo em sua bochecha. - Agora vai lá cuidar da sua pequena.
- Tchau gente. Até amanhã! - Ruth gritou enquanto deixava o local, colocando sua mochila nas costas.
- Agora somos eu e você de novo, dona ! - Derek falou cruzando os braços.
- Prometo que não surto mais! - Falei erguendo as mãos. – E, desculpa pelo pé!
- Não é isso! - Ele balançou as mãos. - É sobre a parte de roupas, maquiagem, manicure e cabelo.
- Ok? – Falei em tom de pergunta.
- Acho que está na hora de você conhecer meu marido!
- Não que eu esteja reclamando, mas acho que não entendi. - Mantive meu olhar no dele.
- Que horas são? - Continuei encarando-o desentendida. - Bem, são quase 18 horas. Termina o que tem que fazer e me encontra no meu carro o mais rápido possível.
- Ok? – Falei novamente, mas ele já havia saído da sala.
Suspirei e arrastei minha cadeira até a escrivaninha novamente. Essas últimas duas semanas haviam sido realmente complicadas para mim. Fazia muito tempo que eu não ficava com alguém e muito menos que esse alguém se importasse comigo. Desde que eu havia chegado à Boston, eu não fiquei com ninguém, meu foco estava nos estudos e em fazer turismo pelos estados ali perto, Nova York, Vermont, Rhode Island. E eu também não tive tantos relacionamentos e, o último, foi pouco antes de eu vir para Boston, quando tinha 25 anos, mas que também havia durado pouco mais de seis meses, ele estava se divertindo ainda, e eu já começava a pensar em meu futuro, tanto que foi com isso em mente que eu vim para os Estados Unidos.
Então, o beijo de e ele ter me chamado para sair, foi algo que descongelou meu coração, me fez ficar mais leve novamente, precocemente apaixonada, talvez. E quando ele sumiu essa semana com Melina para gravar em Cleveland, eu fiquei pelo menos uns cinco dias sem receber nenhuma notícia dele, somente os relatórios de Melina falando das gravações e alguns comentários do tipo “Ele fala de você”, ou “Se preocupa não, ele está ocupado”. No começo eu não acreditava, achava que ela só estava agindo como amiga, até que recebi um SMS dele com um simples oi para que pudéssemos conversar e, foi naquela noite, que ficamos conversando por SMS a noite toda, mas depois passou mais alguns dias sem nenhuma mensagem. Então, isso tinha me deixado brava, sim, brava, e eu comecei a imaginar milhares de coisas que pudessem ter acontecido e, claro, começava a criar milhares de situações, chegando até a xingá-lo por achar que tinha saído com outra, ou algo assim, mas pelo pouco que eu o conhecia, eu sabia que ele não faria isso. Ele não era assim, se ele me chamou para sair, era porque ele realmente queria, ele queria sair comigo.
E, agora esse encontro, por mais que eu quisesse sair com o , havia uma parte que ficava martelando algo na minha cabeça. Ele não era um dos meus ex-namorados que simplesmente me levaria para jantar e era isso aí, era o que me levaria para jantar, uma figura pública com milhares de fãs ao redor do mundo e que era simplesmente de tirar o fôlego. Ficar perto dele algumas vezes, causava certo transe em mim, ele agia com a maior naturalidade quando eu estava perto e, às vezes, eu o olhava como aquela fã do primeiro dia que eu havia o conhecido. Aquela fã que o amava de uma maneira, mas que agora estava passando a amá-lo como mulher. Uma mulher que mais parecia uma menina ao pensar no beijo em minha casa naquele fatídico sábado.
Encarei minha mão esquerda e notei a pequena marca branca que havia sido causada pela taça quebrada, a marca era menos visível agora, quase imperceptível, mas era algo que eu sempre gostava de olhar, porque aí eu saberia que realmente tinha sido real.
- Só espero que estejamos no mesmo capítulo, ! - Suspirei e àquela hora consegui fazer rapidamente upload de um vídeo de um evento da noite passada, o divulguei nas redes sociais da ACCESS e adicionei ao hotsite dele. Abaixei a tela do notebook, peguei minha bolsa que estava jogada na cadeira em frente à escrivaninha, joguei meu celular e meu pen drive dentro dela e puxei a porta, tanto da minha sala, quanto da seção de Melina.

Derek estava sentado no banco do motorista de seu carro e cantava baixo uma música do Queen, assim que eu entrei no carro, ele, com um sorriso animado deu partida no carro, saindo do estacionamento subsolo da ACCESS.
- Não quer me levar para casa? - Falei meio manhosa, forçando um bocejo.
- Ah , ânimo! - Apoiei a cabeça no encosto do carro e escorreguei o corpo um pouco para baixo. - Ei, o que foi? - Ele falou virando o rosto por um tempo, antes de olhar para a rua novamente.
- Sei lá, tô meio... - Fiz uma pausa por um minuto. - Incerta sobre isso!
- Por quê? O que há de incerto nisso? Você gosta dele, ele gosta de você, um encontro, possível relacionamento, hein?! - Suspirei fechando meus olhos por um momento.
- Ele realmente gosta de mim? Eu não sei, Derek! Ainda não aprendi a ler sentimentos.
- Claro que gosta, ! - Ele freou o carro em um sinal vermelho e se virou para mim. - E ele já deixou isso claro naquela semana do aniversário dele, ele ligava toda hora para cá!
- É... Mas e essa semana? Ele me ligou hoje, só ficava mandando mensagem. - Continuei com meu rosto abaixado.
- O não mistura trabalho com relacionamentos, ! Você viu isso! - Ele suspirou e continuou a dirigir. - Quando ele estiver longe, liga para ele, faça uma surpresa.
- Eu não tenho esse costume! - Falei baixo.
- Aprenda a ter. Homens também gostam disso. É bom saber que a pessoa que a gente gosta lembra da gente. - Abri um sorriso de lado, ele tinha razão. - Deixa as coisas rolarem, se for para ser, elas vão rolar do jeito certo.
- Obrigada, Derek!
- Estou aqui para isso, ! - Ele segurou minha mão que estava apoiada no painel e abriu um largo sorriso. - E para te apresentar sua fada madrinha também. - Soltei uma gargalhada.

Assim que Derek estacionou o carro, avistei um sobrado com as paredes pintadas de branco e alguns detalhes em preto. Ele tinha um tom meio moderno e, de longe passava despercebida de todas as casas da vizinhança, mas quando entrei, notei que era um ateliê.
- O que estamos fazendo aqui? - Comentei quando ele atravessou a cortina em nossa frente e puxou minha mão para acompanhá-lo.
- Rupert? Está aqui? - Ele gritou e foi quando notei o local, araras com os mais diversos tipos de vestidos se espalhavam pelo primeiro andar. Quem olhasse de fora, não diria que aquele sobrado tinha todo aquele tamanho. Desde vestidos simples, até vestidos de festa, curtos até longos, do mais escuro, até o mais branco vestido de noiva que eu já havia visto. Vestidos simples de algodão, até vestidos de tafetá e renda guipir. Era o paraíso dos vestidos.
- Derek, é você? - Um ruivo surgiu do segundo andar. Ele tinha o mesmo porte de Derek, mas era maior e mais malhado, possuía uma barba cheia da mesma cor de seus cabelos, sua pele era bem clara e algumas sardas podiam ser vistas de longe em seu rosto. - Oi!
- Uma pessoa aqui precisa da sua ajuda! - Eu soltei uma risada e passei a mão nos meus cabelos castanhos soltos, um tanto envergonhada. – Rupert desceu as escadas e apareceu no primeiro andar do ateliê rapidamente.
- Oi, tudo bem? Rupert! - Ele falou me dando um rápido abraço e um beijo em minha bochecha.
- ! - Sorri e ele foi cumprimentar Derek e ficaram lado a lado me encarando.
- Qual é a emergência? - Rupert perguntou nos encarando.
- Ela vai sair com o . – Derek falou – Um encontro, amanhã no fim da tarde.
- ? - Encarou Derek. - ? - Derek confirmou. – Então, você é a garota que o está apaixonado? - Nessa hora eu quis cavar um buraco e sumir.
- Acho que sim! - Eu ri e ele me acompanhou. - Derek me trouxe aqui e agora entendo o porquê. Você que desenha os vestidos? São lindos!
- Que bom que gostou. Sim, sou eu! - Ele soltou uma risada e se aproximou de mim, passando a mãos em meus cabelos. – E aqui tem um pequeno salão. Usamos para preparar noivas, mas também para outras coisas. - Ele deu uma piscadela para mim e eu senti que fiquei vermelha. - Então, vamos começar?
- Mas espera! Eu acho que não estou entendendo. - Encarei os dois, um de cada lado meu, e ambos riram cúmplices.
- Você disse que não tinha roupas, certo? - Derek falou sugestivamente e eu comecei a entender.
- Ah, sim! - Comecei a rir e fui puxada por Derek para as diversas araras que tinha no primeiro andar.
Ter uma loja inteira de vestidos só para mim era algo que nem em mil sonhos eu podia imaginar! A quantidade de opções que Rupert tinha lá tirava meu fôlego, cores, tecidos, comprimentos, tudo era separado em seções. Ao fundo, atrás das araras, tinha um espaço grande como se fosse uma passarela cheia de espelhos e uma larga porta para os provadores, pela qual passei várias vezes. Por mais que eu quisesse mexer e remexer naqueles cabides e descobrir tudo que eles seguravam, Rupert e Derek não deixaram. Eles me colocaram sentada em um sofá e fizeram perguntas sobre que tipo de cor eu mais gostava, curto ou longo, renda ou couro, enfim, tudo. E anotaram isso em um bloquinho. Quando terminaram me largaram sozinha por uns 10 minutos.
Quando eles surgiram novamente, cada um trazia um vestido e enquanto eu provava o de um deles, outro já corria atrás de mais alguns, que foram surgindo em minha mão conforme o tempo passava. Eu já tinha ficado até confortável por eles me verem de lingerie, porque não bastava eles procurarem os vestidos, eles também me ajudavam a provar e conversavam entre si sobre roupas, sapatos, maquiagem... A mulher de lá era eu, mas me sentia um peixe fora d'água, tentando acompanhar tudo. Havia perdido a conta depois do 15º vestido, e, outros surgiram após isso. Quando surgi em um roupão fora do provador, vi uma arara com uns 12 vestidos, todos curtos.
- E aí? - Derek falou me olhando.
Suspirei e comecei a passar os cabides novamente, como se eu não tivesse visto nenhum daqueles vestidos. Eu olhava detalhes, o que sobressaía deles e fui selecionando.
- Acho que é esse! - Falei tirando o cabide da arara em minha frente.
- Não poderia ter escolhido melhor! - Rupert falou e trocamos um sorriso cúmplice.
Enquanto eu colocava minha roupa do trabalho de volta, Rupert sumiu novamente com Derek, vesti minha calça social preta e minha blusa azul e peguei os sapatos de salto na mão, podia sentir meus pés latejando, já que me fizeram desfilar com ele a cada prova de vestido, se já não bastasse passar oito horas por dia em cima deles. Saí do provador pronta para ir embora, quando Rupert acenou para mim do andar de cima.
- Vem cá! - Soltei meus saltos no chão novamente, próximo ao balcão, onde estava minha bolsa e segui para as escadas.
O segundo andar não era um simples salão como Rupert havia dito, estava mais para um SPA, tinha espaço para cabelo, manicure, maquiagem, depilação, massagem e ainda um banheiro com uma hidromassagem gigante.
- É aqui que preparamos as noivas! - Derek falou folheando uma revista à sua frente e notei a mulher ao seu lado. - Essa é Denise, vai cuidar das suas unhas agora.
Olhei a mulher com a pele acobreada, ela tinha cabelos pretos cacheados que estavam presos em um rabo de cavalo. Usava as roupas parecidas com a de Rupert, jeans e blusa preta, estava muito bem maquiada e tinha luvas nas duas mãos.
- Agora? - Olhei para Derek.
- Você por acaso tem algo melhor para fazer? - Ele disse com desdém. - Por favor, hein?! - Rupert gargalhou ao meu lado e eu empurrei seu ombro com o meu.
Arregacei as mangas da blusa e a barra da calça e me sentei em frente à Denise.

Ali eu fiquei por muito tempo, eu conversava com Derek e Denise, enquanto a segunda fazia minhas unhas, pintando a das mãos de vermelho escuro e a dos pés com um branco delicado. Rupert havia soltado meu cabelo e mexia nele tentando fazer alguns penteados, pegava a chapinha e o baby liss, fazia e desfazia. Nem que ele tivesse que ir à ACCESS amanhã de tarde para que eu tivesse meu cabelo feito, meu rosto maquiado e, que levasse o vestido junto para ficar pronta no tempo, ele o faria, porque segundo eles, eu ia sair às 17 horas de lá com o , nem se fosse por cima do 'cadáver deles'. Quero só ver se Melina ouvisse isso!
- Seu cabelo é bonito, , só está mal cuidado! - Eu fiz uma careta. - Que tal fazer uma hidratação, aí eu faço uma escova, prendo essa parte aqui... - Ele falou puxando a frente do meu cabelo para trás. - Assim... - E pegou os lados e cruzou, prendendo com grampos, e colocou um pouco de spray. – Assim ele não escapa e como seu cabelo já faz algumas ondas naturalmente, dá para a gente só firmar elas.
- Vai ficar muito bonita, senhorita ! - Denise falou e eu fiquei me encarando no espelho.
- Vocês não acham demais? - Falei soltando um suspiro.
- , você tem que mostrar para ele que é muito superior àquelas famosinhas que ele namorou. Você é muito mais que elas, ok? Tirando a parte de ser uma menina estudada, mas isso a gente não precisa nem comentar! - Derek falou com seus olhos focados na revista em sua frente.
- Obrigada por massagear meu ego, Derek, mas eu não estava falando nesse sentido. - Ele baixou a revista e me encarou. - Mas essa é a questão, sabe? Eu não sou famosa. E não quero aparentar uma. Quero ser aquela pessoa que ele conheceu naquele restaurante há três meses. Aquela menina que saiu com o cabelo molhado e esperou que ele secasse e armasse ao vento, a menina que saiu calçando os sapatos no hall dos elevadores, sabe? - Suspirei, sentindo Denise passar um creme em meus pés e massageá-los.
- Você ainda vai ser essa pessoa, ! - Derek falou me olhando. - Mas, por favor, mulher, você é um mulherão, nada de menina, ok?! - Soltei uma risada e confirmei com um aceno de cabeça.
- E , isso não tem nada a ver. Toda mulher gosta de se arrumar, não?! Comprar roupas novas, fazer as unhas, ir ao cabeleireiro, estou certo, não? - Rupert falou enquanto segurava todos os meus fios de cabelo em uma mão só. - Ou um rabo de cavalo alto, se você preferir. - Eu olhei no espelho novamente e dei uma risada, essa era a quando ficava em casa o dia inteiro, mas poderia ser a de um encontro também.
- Sou de vocês! - Falei me dando por vencida!
Na verdade, eu já saberia que sairia perdendo, porque eu era minoria ali e, é como Rupert falou, que mulher não gosta de se arrumar? Por mais cansada que eu estivesse do trabalho, estava me divertindo provando todos aqueles vestidos, fazendo as unhas e mexendo no cabelo. Era como quando eu era mais nova e brincava de salão com minhas amigas, só que dessa vez eu ganhava vestidos de verdade, as maquiagens eram bonitas e uma escova não ficava presa no meu cabelo armado.
Assim que Denise terminou de fazer minhas unhas, eles ligaram o ar condicionado e fecharam as janelas do segundo andar e da mesma maneira que Denise sumiu, ela apareceu novamente com várias maletas, que só mais tarde eu descobri que estavam cheias de maquiagem. Eu sentei em uma cadeira de salão e ela inclinou-a um pouco, me deixando quase deitada, desabotoaram alguns botões da minha blusa e colocaram uma toalha na altura do meu peito.
- Que horas é o encontro? - Denise perguntou passando um produto para limpar minha pele.
- Às 17 horas. - Falei enquanto ela passava o algodão em meus lábios.
- Então, dá para fazer uma maquiagem mais leve! - Ela falou passando base em meu rosto. - E usar um batom vermelho, seus lábios são pequenos, vai chamar a atenção para eles.
- Eu gosto de batom vermelho. - Falei rindo.
- Perfeito! - Denise falou antes de pedir para eu fechar meus olhos.

- Sei lá, o falou que daria um jeito de eu sair mais cedo, mas não foi muito específico no caso! - Falei enquanto Rupert dobrava o vestido azul e o colocava em uma sacola preta com as iniciais RVS em branco.
- Bem, qualquer coisa me liga, mas se você não ligar até às 15 horas a gente aparece lá! - Rupert falou enquanto Denise concordava ao seu lado.
- Ok! Derek me passa seu número! - Falei puxando minha carteira da bolsa. - Quanto te devo, Rupert?
- Nada! - Olhei com a testa franzida.
- Não, sério, Rupert! - Abri a carteira puxando meu cartão. - Eu realmente gostei dos seus vestidos, vou voltar aqui mais vezes.
- Então, faremos o seguinte, quando você e o forem um dos casais mais cobiçados do mundo, prometa que vai usar minhas criações nos eventos! - Revirei os olhos, mas não pude segurar uma risada. - Ou quando se casarem! - Não pude conter uma gargalhada.
- Vamos focar no primeiro encontro, ok?! - Falei tocando seu ombro. - Um passo de cada vez. - Ele deu de ombros e mostrou a língua.
- Bem, estamos combinados, então? - Concordei com a cabeça e peguei a sacola que ele entregava.
- Sim, qualquer mudança eu ligo. - Coloquei meus saltos novamente.
- Vamos, , eu te levo. - Derek falou puxando a chave do carro do bolso.
- Não precisa. Eu pego um táxi. Já atrapalhei vocês o suficiente por hoje. - Eles riram e acenaram enquanto eu saía pela porta.

Assim que passei pelo batente da porta de entrada do meu apartamento, fui deixando as coisas pelo caminho, começando pelos meus sapatos, depois a bolsa, a blusa, as calças e por último, minha roupa íntima que ficou em cima da pia do banheiro antes que eu ligasse o jato de água frio em cima do meu corpo. Fisicamente eu ainda estava elétrica, mas mentalmente, não aguentava mais. Precisava de comida e da minha cama. Passei o sabonete em meu rosto fortemente, tentando tirar a maquiagem e passei as mãos nos rolinhos cacheados, tirando os nós. Coloquei uma quantidade exagerada de condicionador e penteei mecha por mecha com o produto no cabelo, deixando-o escorrer enquanto saía junto da água.
Saí do banho e enrolei a toalha em meus cabelos enquanto passava um creme pelo meu corpo, não que eu fosse muito de cremes, mas estava merecendo me cuidar um pouco mais, e sim, isso tinha a ver com certo ator famoso que eu encontraria no dia seguinte. Fiquei deitada um pouco em minha cama enquanto o creme secava e logo joguei uma camisola por cima, calcei meus chinelos e montei dois mistos-quentes e coloquei-os no grill. Procurei um copo no escorredor, me servi de um pouco de suco gelado e o tomei em um único gole, soltando um suspiro antes de colocar o copo dentro da pia. Peguei um prato, coloquei os lanches nele e andei até o sofá de três lugares, me sentando de lado, coloquei as pernas para cima e o prato em cima da minha barriga, enquanto procurava os controles da TV. Zapeei os canais brasileiros na TV à cabo, mas desisti da programação de novelas e coloquei em algum canal de filmes qualquer.
Quando dei a primeira mordida em meu lanche vi o rosto conhecido de um ator da Máxima e franzi a testa, tentando reconhecer o filme, e arregalei os olhos no instante seguinte, quando o rosto retangular de apareceu, os cabelos tingidos de um tom puxado para o laranja e raspados nas laterais, com somente um grande topete em cima, o cavanhaque propositalmente engraçado e os óculos de grau redondos completavam o personagem. Soltei uma risada irônica e larguei o controle novamente no sofá. Esse era, definitivamente, um dos meus filmes favoritos dele. Era um filme totalmente despretensioso, mas muito engraçado. Sempre me fazia rir.
O filme já estava no fim, então, terminei de comer meus lanches e esperei acabar, antes de lavar a louça que estava acumulada desde o dia anterior.
Foquei meus olhos no horário e vi que precisava dormir logo, porque se demorasse um pouco mais, não dormiria tempo suficiente e ficaria reclamando de sono o dia inteiro e, eu podia ter tudo amanhã, menos sono. Andei até meu quarto e puxei o celular da bolsa vendo algumas notificações de mensagem no Facebook e no WhatsApp e deitei na cama. Liguei o abajur ao meu lado e bati a mão no interruptor, ao lado da cama. Abri o WhatsApp e o nome estava em negrito, denunciando uma mensagem dele.
“Te vejo amanhã?” - às 19:33.
“Já falei com a Melina, amanhã ela fala contigo” - às 20:17.
“Como eu sei se você já viu a mensagem?” - às 21:03.
“Esquece x)” - às 21:05.
Não pude conter o riso com as mensagens, a proximidade dele com os programas tecnológicos era engraçada, ele não tinha nenhum conhecimento, nenhuma agilidade. Olhei o horário atual e já passava da meia-noite, não sei se ele já estava dormindo, mas achei que merecia uma resposta.
“Estou pensando em você” foram as palavras que eu escrevi e pensei um pouco antes de apertar a tecla para enviar. Soltei um suspiro e, antes que eu partisse para a próxima notificação, o telefone vibrou novamente em minha mão.
“Eu pensei em você o dia inteiro... Todos esses dias” . Abri um sorriso largo e fiquei encarando a foto dele lá no topo da conversa e a palavra on-line ao lado.
“Eu deveria estar indo dormir agora” Digitei, inclui um emoji de sono ao lado e enviei.
“Só te deixo dormir porque tenho vários planos para a gente amanhã” Sua resposta veio um pouco mais rápida agora.
“Que planos?” Respondi sabendo que a pergunta seria em vão e já mandei outra mensagem “Bom mesmo, você não ia querer me ver com sono... Eu fico meio chata” .
“Não vou contar e vai dormir, te quero desperta amanhã” mordi o lábio inferior involuntariamente, deixando meus pensamentos irem longe. “Boa noite, linda!”
“Boa noite, Olhei as três palavras e acrescentei um coração ao lado e o apaguei em seguida, mandando somente a mensagem.
- Pense em mim. - Sussurrei desativando o Wi-Fi do celular e o conectando no carregador acoplado na parede.

O dia na ACCESS foi incrivelmente louco. Assim que eu passei pelas portas do elevador, tinha assessores correndo por todos os lados, pastas em suas mãos, folhas espalhadas por todas as mesas e alguns flyers voando pelo chão por qualquer lugar que eu pisava. Algum tempo depois descobri que teria um evento na mansão de um famoso cantor que havia morrido ano passado, para o lançamento de algumas músicas que foram produzidas post-mortem e a maioria dos famosos foram convidados.
Mesmo que isso, aparentemente, não envolvesse , eu acabei entretida no assunto. Fazendo ligações, confirmando a presença de algumas pessoas, em especial da imprensa. Devo de ter dado, pelo menos, uns 300 telefonemas, meu pescoço já estava ficando dolorido. Se continuasse assim até o fim do dia, o pegaria uma mulher com torcicolo fenomenal, que não poderia nem endireitar a cabeça para beijá-lo. Passei a mão no pescoço e estralei o mesmo, virando para todos os lados possíveis, ouvindo um estalo que eu tanto gostava de fazer, uma mania e tanto.
- Gente, vou sair para almoçar, preciso de um tempo para o meu pescoço destravar. - Falei arrastando a cadeira de perto da mesa e pegando a bolsa no cabideiro quando passei por ele.
- ! - Melina gritou e eu coloquei a cabeça para dentro de sua sala. - Vai almoçar e não precisa mais voltar por hoje! - Ela piscou um olho e voltou a falar com a pessoa na linha. Virei o corpo e dei de cara com um Derek sorridente atrás de mim.
- Vou ligar pro Rupert! - Ele falou já entrando para sua sala e colocando sua carteira dentro do bolso. – Vamos! Eu almoço contigo.
O caminho até o restaurante foi preenchido por eu contando à Derek sobre as mensagens do na noite passada. Podia notar que a cada palavra que eu falava, soltava um suspiro curto, o que me denunciava, e muito.
- Ele tá tão na sua, ! - Ele falou apertando minha mão que estava em meu colo.
- Ei, nada de ficar dando uma de Greg Wuliger, esse é outro , hein?! -
- Ok, me expressei mal! - Ele voltou a mão para o volante. - Ele gosta muito de você! Qual é?! Ele está aprendendo a mexer em redes sociais para falar contigo! Mensagens! Isso nunca aconteceu! - Soltei uma gargalhada, sendo acompanhada por ele.
- Ah, sei lá! Eu estou muito nervosa, você não tem noção. – Suspirei, me afundando no banco do passageiro ao seu lado.
- Tenho sim. Sua mão está congelada! Tirando o fato de que você estava toda estabanada hoje. - Ele me encarou e eu ergui uma sobrancelha. – Sério! Você derrubou seu telefone umas quatro vezes... Depois eu parei de contar! - Dei um tapa em seu braço.
- Ok, eu estou apavorada. Acho que isso define muito bem o que eu estou sentindo. - Ele passou a mão na minha e a apertou, mostrando confiança. - Algum conselho?
- Seja você mesma! - Bufei, me mostrando contrariada. - Ele gostou de você assim, não foi? Ele te beijou como , pós-trabalho? Ele te beijou durante seu trabalho como você, não?! Ele te chamou para um encontro sem ao menos estar te vendo. - Abri um sorriso tímido de lado. - Para de se preocupar com as pequenas coisas e se preocupe em se divertir, porque depois que os momentos passarem, eles não vão voltar. - Ele estava certo, esse momento podia acabar rapidamente.

- Eu quero saber de tudo! Não se esqueça de me ligar assim que você estiver sozinha, ok? Mas também não some, não me deixa preocupado. - Derek falava dentro de seu carro enquanto uma fila de carros buzinava atrás dele. - Não esquece!
- Eu te ligo, pode deixar! - Gritei de volta e ele avançou com o carro. Soltei uma risada e acenei para ele enquanto via o carro se afastar pela rua e uma fileira o seguir. - Ele é louco!
Passei a porta do meu apartamento pouco depois das duas horas da tarde, eu tinha muito tempo para me arrumar e Rupert não tinha dado sinal de vida ainda, então, programei quarenta minutos em meu relógio e tentei tirar uma soneca.
Soneca em vão, pois eu não conseguia pregar os olhos com medo de Rupert chegar ou que a campainha ou o telefone tocasse, e eu não ouvisse. Enfim, o máximo que eu consegui foi ficar três minutos de olhos fechados em minha cama, até que eu havia lembrado que não tinha decidido que sapato usar naquela noite.
Pulei da cama, abrindo a porta do meu armário que dava para os sapatos e puxei as cinco caixas fechadas de lá, com os sapatos que eu usava menos e os joguei em cima da cama, abrindo um de cada vez, até dar de cara com meu scarpin preto de bico arredondado e aveludado, não era tão alto e era bastante confortável... A não ser que eu fosse para uma caminhada, o que não deveria ser o caso. Coloquei-os nos pés e me encarei no espelho preso na parede por alguns segundos. Suspirei e os tirei, conferindo se o par estava limpo e o joguei em cima da cama, partindo para minha caixa de joias em cima da penteadeira à esquerda da cama. Escolhi um par de brincos que eu havia ganhado no meu aniversário de quinze anos. Peguei meu anel de formatura, com um rubi solitário no meio e separei um relógio grafite.
Separei também um conjunto de lingerie preto, o conjunto era simples, com somente alguns detalhes de renda tanto no sutiã como na calcinha. Rendas quase imperceptíveis, a não ser quando estava no corpo e a cor da pele a realçava. Com tudo que eu pudesse separar pronto, liguei na portaria do prédio e avisei que estava esperando por Rupert, que caso ele chegasse, era para liberar sua entrada, destravei a porta e fui para o banho.
Aquele foi o banho mais longo que eu tomei em muito tempo. Eu tomava cuidado para não arrancar parte do meu esmalte enquanto massageava minha cabeça. Esfreguei cada parte do meu corpo pelo menos umas três vezes e conferi se minha perna e axilas não tinham nenhum pelo. E, os pelos que insistiam em crescer eu raspei rapidamente com a gilete, me certificando que não faria cortes na extensão da minha perna. Quando saí do banho passei o creme mais cheiroso que tinha em meu armário e já aproveitei para escovar os dentes.
Saí do banheiro com uma toalha enrolada no corpo e outra no cabelo e fui para meu quarto, coloquei a lingerie, me certificando que ela não estava enrolada em nenhuma parte do meu corpo e soltei os cabelos da toalha, voltando para o banheiro. Passei um pente pelos fios, tornando o que antes era um emaranhado de fios em algo mais parecido com meu cabelo.
- Você está um arraso! - Rupert falou, apoiando o corpo no batente da porta do meu banheiro.
- Rupert! - Pulei de susto, procurando pela toalha em cima da pia, tentando cobrir meu corpo o máximo que eu conseguisse.
- Ah mulher, deixa disso! - Ele deu de ombros e caminhou até a sala. - Já vi tudo isso e, você sabe, eu não jogo nesse time! - Soltei uma gargalhada e o segui, enrolando a toalha de volta no corpo.
- Oi, ! - Denise também estava lá, em pé ao lado do meu sofá, onde meu vestido estava estendido, e segurava uma maleta em cada mão.
- Ei! - Falei rindo. - Você veio também.
- Não podia te arrumar sem minha equipe, certo? - Rupert falou e colocou duas maletas em cima da minha pequena mesa de jantar e, abriu ambas, mostrando várias opções de maquiagem em uma e vários apetrechos capilares na outra. - E aí, pronta para sair com um gato? - Eu ri e dei de ombros.
- Sei lá! - Apertei meus olhos com as mãos e suspirei.
- Vai apanhar, hein? - O ruivo falou e eu lhe mostrei a língua. - Tira essa toalha e senta aqui, não temos muito tempo para te deixar divina, tá?!
Puxei a poltrona que ficava em meu escritório e sentei. Havia desenrolado a toalha do meu corpo e a prendido na minha cintura, deixando meu tronco coberto somente pelo sutiã. Denise esticou uma toalha em meu peito e barriga para que não caísse cabelo nem maquiagem em meu corpo. Ambos colocaram luvas e aventais pretos com as siglas RVS, mostrando o uniforme deles.
Eles começaram pelo meu cabelo, secando-o para ser mais exata. Rupert trabalhava de um jeito despreocupado, jogava meu cabelo para todos os lados e, de vez em quando, puxava com uma escova. Ele deixou os fios ondularem na ponta e desligou o secador. Como planejado no dia anterior, segurou todo meu cabelo no alto e o prendeu em um rabo de cavalo, usando uma mecha do meu cabelo para esconder o laço preto, quase imperceptível em meus cabelos castanhos. Ele pegou uma parte do meu cabelo que seria a franja e o escovou de modo que formasse uma onda e o colocou de lado, encaixando atrás da minha orelha com um grampo. Ele escovou a ponta do meu rabo, fazendo com que ele fizesse algumas voltas e não ficasse totalmente liso e, por fim, jogou bastante laquê para que tudo ficasse no lugar até o fim da noite.
Denise trocou de lugar com Rupert e começou a preparar minha pele, mesmo que eu tivesse acabado de tomar banho, ela fez questão de tirar todo tipo de oleosidade e possível sujeira que talvez tivesse ficado em meu rosto e começou a delinear meus olhos. Ela optou por uma maquiagem até que discreta, a parte de dentro era um tom marrom claro e a parte de fora esfumaçada por um tom mais escuro, deixando-o bem marcado. Passou lápis preto bem forte em meus olhos e alongou ainda mais meus cílios com rímel da mesma cor. Com um blush cobre marcou minhas bochechas discretamente e passou um batom vermelho em meus lábios, cor que eu já tinha costume de usar quando saía à noite. Era um tom de vermelho mais puxado para o tomate, deixando meus lábios em um tom quase alaranjado.
Eles me ajudaram a vestir, o vestido jeans com as mangas cobrindo os ombros e um pequeno decote nas costas, todo fechado por botões. Ele era incrivelmente simples, mas eu tinha amado. Não tinha a mínima ideia para onde ele me levaria, mas acreditava que era um vestido que poderia ser usado tanto em um restaurante chique, como também para comer pizza na mão no píer de Boston.
Rupert fechou os botões, enquanto Denise ajeitava o cinto vermelho que ia por cima. Não que eu não pudesse fazer isso, mas eu fico feliz que eles tenham feito por mim, pois eu passava mentalmente palavras que pudesse dizer, sem que eu dissesse besteira durante o encontro, besteiras que pudessem fazer com que esse fosse nosso único encontro. Mas que merda, , um pouco mais de confiança em si mesma, você não é assim. Suspirei, essa não era eu até um cara lindo e famoso me chamar para sair. Fechei os olhos por um segundo.
- Está pronta, querida! - Denise falou e eu abri os olhos novamente. - O que acha? - Andei da sala até meu quarto e me encarei no espelho novamente, eu estava feliz com o resultado. O cabelo estava maravilhoso, era um cabelo que eu usava sempre, só que Rupert o fez de uma forma um pouco melhor do que eu faria. A maquiagem também, se não fosse a preparação da pele, era uma maquiagem que eu tinha o costume de usar, às vezes eu passava uma sombra cor da pele só para poder usar meus batons vermelhos que eu tanto amava, mas claro que Denise tinha conhecimento e eu poderia ir a um baile de gala assim que estaria adequado. Peguei os sapatos em cima da cama e calcei-os, encarando meu corpo de cima a baixo no reflexo no espelho, virei de costas e fiz o mesmo, abrindo um largo sorriso.
- Acho que temos alguém satisfeita. - Rupert falou parado na porta do meu quarto e eu sorri para ele.
- Muito satisfeita. - Me aproximei dele e passei os braços pelo seu pescoço, trazendo-o para mim em um terno abraço. - Obrigada, Rup! – Falei, me afastando dele.
- Sempre que quiser! - Ele beijou superficialmente minha bochecha. - E quando for casar com o , por favor, não se esqueça que eu faço vestidos por encomenda também, ok?!
- Nossa! Vocês já estão pensando mesmo em casamento, gente? O Derek está louco! - Falei rindo e abracei Denise da mesma forma que abracei Rupert. – Obrigada, gente, por tudo! - Sorri e voltei para meu quarto, separando uma bolsa de mão preta, em que coloquei meus documentos, dinheiro, cartão de crédito e celular. - Acho que estou pronta! - Suspirei. - Que horas são? - Perguntei.
- São quase cinco horas. - Denise falou erguendo o pulso para ver em seu relógio, mas o som do meu interfone tocando denunciou o horário. Rupert correu para o aparelho colocado na cozinha e o atendeu.
- Sim, ela já está descendo! - Ele falou e desligou, soltando um grito histérico. - Ele está aí! - Ele falou olhando para mim.
- Oh, meu Deus, respira ! - Falei me encarando no espelho mais uma vez e atravessei o corredor, voltando para a sala. - Vocês fecham tudo para mim? – Perguntei, olhando suas coisas espalhadas pela sala ainda.
- Não se preocupa, ! - Rupert falou. - Deixamos a chave na portaria. - Assenti com a cabeça e atravessei a porta, apertando o botão do elevador, vendo-o se acender.
- Obrigada, gente, por tudo! - Falei piscando para ambos que acenavam de dentro do meu apartamento.
- Divirta-se! E não faça nenhuma besteira, hein?! - Denise gritou e eu ri.
- Pode fazer besteira sim! Aproveita! - Rupert já falou e Denise deu um soco fraco nele.
O elevador abriu em minha frente e eu entrei no mesmo, apertando o botão do térreo. Aquele elevador nunca esteve tão lento. No espelho conferi relógio, brinco, anel, bolsa, vestido, sapatos, tudo. Observei a maquiagem no espelho, meus lábios vermelhos e meus olhos levemente amarronzados. Suspirei. Saí do elevador e caminhei até a portaria. Acada passo, parecia que o barulho dos saltos ficava cada vez mais baixo e eu ficava cada vez mais hipnotizada pelo que me esperava do outro lado dos portões.
Apertei o botão para abrir o portão e assim que passei por ele, o fechei e olhei para frente. Eu poderia derreter a qualquer momento.
estava lá.
Ele estava lindo, a camiseta azul colada no corpo com as mangas arregaçadas, a calça jeans escura um pouco larga, o cinto vermelho preso na cintura e nos pés um sapatênis. Na cabeça um boné virado para trás e seu Ray Ban pendurado na gola da camiseta. Ele mexia em alguma coisa no celular enquanto estava apoiado em seu carro preto. Assim que eu bati o portão da frente do condomínio, pelo barulho, ele ergueu os olhos e pude sentir seu olhar seguir desde a ponta dos meus pés, até o último fio de cabelo. Mas seu olhar não sustentou em meu corpo por muito tempo, ele focou em meus olhos rapidamente, tirando meu ar por alguns segundos.

Dei alguns passos e pude notar que seus olhos me seguiam a cada passo que eu dava. Parei a dois passos dele e, por um momento, eu não sabia que palavras usar e nem como respirava. Ergui meus olhos do chão para seu rosto e pude ver sua boca entreaberta e seus olhos encarando os meus.
- Oi! - Falei com a voz baixa.
- Oi! - Ele respondeu enquanto mordia seu lábio inferior e dava mais uma olhada em meu corpo. - Você está incrível! Linda! - Ele aproximou o rosto do meu e encostou seus lábios levemente em minha bochecha, fazendo meu corpo denunciar e se arrepiar inteiro. Fechei meus olhos por um breve tempo.
- Você também. – Respondi, reabrindo os olhos e encarando seus olhos azuis em minha frente.
Ficamos naquele silêncio por um tempo. Ele não falava nada, muito menos eu. Era como se nenhum dos dois quisesse quebrar aquele clima entre nós dois. Ele possuía aquele sorriso reto nos lábios e eu sabia que não estava muito diferente. Sentia minhas bochechas queimando, enquanto seus olhos desciam para meu corpo. Eu não tenho o corpo muito em forma, mas eu era brasileira e o considerava bonito, claro que eu odiava fazer exercícios físicos e amava comer, então ficar em forma era definitivamente um desafio para mim. Troquei minha bolsa de uma mão para outra e mexi minhas pernas, descruzando-as uma da outra.
- ! - O chamei firme, fazendo-o erguer seus olhos para mim e soltar uma risada nervosa. - Devo te chamar para subir e a gente deixa o jantar para outro dia? - Falei apontando para trás.
- Não! - Ele riu passando as duas mãos no boné, ajeitando ele. - Vamos! - Ele se desencostou da porta e a abriu, dando espaço para eu passar. Achei esse fato realmente engraçado, porque, por um minuto, ele tinha perdido aquela pose que tem e se tornou um pouco mais comum.
Passei por ele, me apoiando na porta do carro para entrar e coloquei a bolsa em meu colo. Assim que ele fechou a porta, não durou mais que cinco segundos para que ele entrasse pela porta do motorista e se acomodasse ao meu lado. Puxei o cinto de segurança e o travei com um clique. Enquanto dava partida comecei a reparar no interior do carro.
Espaçoso ele era, essa foi a primeira constatação que eu fiz ao entrar nele. Como eu não era do tipo baixinha, minhas pernas se esticaram confortavelmente em frente ao banco. E meu corpo também, o banco de couro cinza claro era incrivelmente delicioso. O painel tinha detalhes em preto, cinza e partes em madeira também. Uma parte com uma tela de LED, outra com um relógio analógico pequeno e, embaixo disso tudo, os comandos normais de um carro, incluindo marcha e um espaço confortável entre os dois bancos.
dirigia de forma despreocupada, ele olhava para frente e, em alguns momentos, virava o rosto para mim e dava um sorriso lindo. Sua mão esquerda ficava o tempo inteiro apoiada no volante e a direita apoiada no espaço acolchoado entre o meu banco e o dele. Em alguns momentos ele apoiava a mão direita em sua coxa e eu encarava aquilo por um tempo, achando incrivelmente sexy. Mordia delicadamente meus lábios e soltava a respiração devagar pela boca, no maior silêncio. Eu passava uma mão na outra, tentando ser o mais discreta possível e notava que elas suavam, mesmo com o ar-condicionado ligado. Não surte, .
- Então... - Falamos juntos e eu ri, olhando para seu rosto que encarava a rua. - Pode falar! - Falei mais rápido que ele.
- Tá tudo certo? - Ele perguntou e eu abri um sorriso de lado confirmando com a cabeça. - Você não é tão quieta.
- Xi! – Falei, dando um leve tapa em seu braço, o fazendo rir. - Tá tudo certo sim... Aonde vai me levar? - Perguntei e ele virou o rosto para mim.
- Eu estava pensando... - Ele começou e trocou as mãos no volante. - Quanto você conhece de Boston?
- Universidade de Boston, casa; casa, Universidade de Boston. ACCESS, casa, Boston Harbor Hotel para reuniões, supermercado, alguns shoppings e todo o caminho inverso. - Ele soltou uma gargalhada gostosa. - Sério, agora que posso fazer turismo por Boston, eu não tenho tempo e, quando tenho, só penso em descansar. - Fiz um bico involuntário e ele sorriu timidamente para mim.
- Resumindo, você não conhece nada de Boston.
- Culpada! - Falei dando de ombros.
- Eu vou te levar em um lugar que costumo ir quando vou encontrar meus amigos aqui. É ainda um dos lugares que eu mais me sinto em casa. - Ele falou com o tom de voz mais baixo agora. - Gostaria de dividir com você. - Soltei um suspiro e senti sua mão quente segurar a minha, que estava em meu colo.
- Eu vou gostar disso. - Apertei sua mão com a minha e ele entrelaçou nossos dedos, um toque simples, mas que me fez abrir um largo sorriso.
Consegui ficar em silêncio mais um tempo e isso estava me incomodando muito. Eu não era assim e eu falava que nenhum homem me deixaria assim, mas parece que eu estava errada.
Eu estava muito nervosa, espero que ele não tenha notado minhas mãos suadas, minha cabeça quente, meu pé batendo de leve no tapete do chão ou talvez a força com que eu apertava minha bolsa de mão. Espero que ele não tenha notado nada disso. Você precisa se acalmar, minha mente gritou para mim e, se eu não me acalmasse logo, eu gritaria de verdade e não seria nada legal. Respirei fundo e apertei a mão de entre meus dedos, espero que ele tenha notado que eu não tinha intenção nenhuma em soltar.
dirigiu para o sul da cidade, indo como se fosse para o interior de Massachusetts. Devido ao horário, o trânsito estava um pouco caótico, carros para todos os lados, indo para todas as direções, principalmente para fora da cidade. Era igual São Paulo, as pessoas moravam no interior, mas trabalhavam na cidade grande. Como eu não conhecia muito o estado, não sabia para onde as pessoas iam.
No meio do trânsito, pude observar , ele soltou minha mão por um tempo e manteve as duas no volante, o trânsito estava lento, mas eu notava que ele estava calmo, ou aparentava estar. Ele também dirigia em uma velocidade normal, um pouco mais rápido nas avenidas e um pouco mais devagar nos entroncamentos.
Quando chegamos a uma avenida parecida com aquelas que vemos em filmes, larga, com carros passando por todos os lados, ele começou a ir mais devagar. Com a mão esquerda, ele diminuiu a marcha e se aproximou do meio fio, fazendo uma baliza perfeita. Pressionei meus lábios um no outro e segurei uma risada, ele pode não fazer por querer, mas estava tentando me surpreender.
- Você já foi a um diner? - Ele perguntou me olhando, franzi a testa.
- Diner? - Ele confirmou com a cabeça. - É aqueles lugares conhecido por servir café da manhã em filmes, não? - Ele virou a chave e puxou o freio de mão.
- Algo assim! Esse é parecido com isso, mas serve lanches e jantar também. Além de ficar no meio da cidade. - Ele tirou o boné da cabeça, jogou no banco de trás e abriu a porta do carro, saindo do mesmo.
Fiquei meio perdida por um tempo, mas não demorou dois segundos e ele já estava abrindo a porta do meu lado e estendia a mão para mim. Segurei a mão dele e me apoiei para sair do carro. Assim que saí, pude sentir o vento bater em meu rosto e jogar meus cabelos presos para trás. Coloquei os pés no chão e parei ao seu lado, ouvindo a porta bater.
- Espero que não fique decepcionada. - Ele falou e eu soltei uma risada. Encostei minhas mãos de leve em seu rosto e o vi fechar os olhos por alguns segundos.
- Fica quieto, . Qualquer lugar que você quiser me levar, eu vou ficar grata em você querer dividir comigo. - Ele abriu os olhos novamente, me encarou e sorriu.
- Vem! - Ele segurou minha mão e caminhamos um pouco em direção à esquina do quarteirão, quando vi uma construção com tijolos à vista. À frente dele tinha algumas janelas amplas e, em cada uma, um toldo preto acima. Do meio, podia ser lido Tom’s City Diner. De fora, não dava para dizer que era um diner, e sim, um restaurante bem descolado.

Ele abriu a porta de vidro e deu passagem para mim. Por dentro ele já era mais parecido com os famosos diners que víamos nos filmes. Tinha um longo corredor logo na entrada, com bancadas dos dois lados em que várias pessoas estavam sentadas e algumas garçonetes passavam com pratos diversos nas bandejas. passou na frente e segurou minha mão firme, me puxando para o local. Fomos para o lado esquerdo do restaurante, colado na bancada, com várias mesas de dois ou quatro lugares em um pequeno espaço. Lá não tinha mais que doze mesas. Devido ao horário, ainda estava um pouco vazio. Ele seguiu para uma mesa próxima à janela e indicou a cadeira para mim, sentei, não antes de encostar meus lábios rapidamente em sua bochecha. Ele sentou na cadeira da frente e a puxou para frente. Pude sentir seus joelhos encostados no meu, mas não fiz objeção nenhuma àquilo.
Na mesa já estavam postos talheres para cada pessoa, e, também, uma caneca branca e ao lado um conjunto com sal, açúcar, pimenta, ketchup e palitos de dente em frascos separados.
- É igualzinho nos filmes! – Falei, observando o lugar rapidamente.
- Eu vinha muito aqui quando era mais novo. Se você for reto nessa rua, cai em Medford, onde eu nasci, então quando queríamos variar o cardápio um pouco, a gente dava um pulo para cá. - Ele apoiou os cotovelos na mesa e encostou o rosto entre as mãos, achei aquilo extremamente fofo.
- E por que esse lugar em especial hoje? - Apoiei minhas mãos na mesa.
- Não sei. - Ele suspirou e coçou a cabeça por alguns segundos. - Eu tenho bastante história com esse lugar.
- E aí, ! Quanto tempo, cara! - Um homem com a blusa roxa do local se aproximou e cumprimentou , que se levantou quando ele apareceu.
- Faz tempo que não passo por aqui mesmo, Louis! - Eles se abraçaram rapidamente.
- E ela, quem é? - Ele se virou para mim, é agora que eu cavo um buraco e sumo?
- Essa é a ! - Ele falou abrindo um sorriso para mim e ambos trocaram um olhar cúmplice e um sorriso, isso era bom, não?
- Prazer, ! - Ele falou estendendo a mão para mim.
- Prazer! - Abri um sorriso discreto.
- , Louis é filho do dono, nós crescemos juntos, praticamente! - Eles estavam abraçados de lado.
- É! Esse cara é da família! - Louis falou e eu ri, então estou conhecendo seus amigos de infância, ? - Já foram atendidos? - negou com um muxoxo com a boca e eu ri.
Louis deu uma inclinada no balcão atrás da gente e pegou alguns cardápios. Deu um para e estendeu outro aberto para mim, dando um sorriso.
- Divirtam-se! - Ele falou e ambos trocaram um olhar que só foi entendido pelos dois e eu senti minha bochecha ficar vermelha.
- Valeu, cara! - falou e se sentou novamente.
- Então, amigos de infância, hein?! - Falei olhando para o cardápio, para a variedade de comidas gordas no mesmo.
- Louis e eu temos a mesma idade, a mãe dele é de Medford, então, era com ele que eu vinha muito aqui! - Ele falou apoiando o cardápio na lateral da mesa.
- Me deixa adivinhar, o pai dele é o “Tom”? - Perguntei e riu.
- Quase! É o avô dele! - Mostrei a língua para ele e ele gargalhou.
- Sem graça! - Abaixei meu rosto novamente e fiquei observando as opções. - O que você come normalmente aqui? – Perguntei, ficando totalmente indecisa sobre o que escolher. Tudo no cardápio eu gostava, tudo mesmo!
- Eu sempre peço um lanche triplo de carne. - Rodei rapidamente o cardápio e notei que era um lanche bem grande. - E você, o que te chamou atenção?
- Honestamente? Tudo! - Falei o fazendo rir. - Eu sou boa de garfo, você sabe!
- Sei! Isso é algo bom. - Ele falou simplesmente.
- Acho que eu vou querer essas panquecas com maple syrup e manteiga! - Ele abriu um sorriso. - O quê?
- Nada! É que você escolheu o que eu esperava que escolhesse! - Franzi a testa. - Isso não tem no Brasil.
- Exato! Eu quero conhecer, nunca comi isso. Acredite, eu estou aqui há mais de um ano e nunca experimentei o tal do maple syrup.
- O que você toma de café da manhã? - Ele falou como se tivesse sido um crime eu ter falado que nunca tinha experimentado.
- Pão com manteiga e café com leite, ué! - Dei de ombros e ele riu.
- Foi o que eu comi quando fui pro Brasil! - Ele comentou descontraído e o garçom se aproximou.
fez nossos pedidos, o garçom perguntou quantas panquecas eu queria e logo respondeu que eu queria o maior prato, não sabia se ria ou se ficava brava, mas ele usou a desculpa que eu estava experimentando e precisava ter certeza, tonto! Para beber, eu acabei escolhendo um milk-shake, alguns copos haviam passado por mim e tinham me deixado com muita vontade. Eram copos de quase um litro com muito chantili e uma cereja, eu tinha que beber aquilo, me acompanhou.
O jantar, ou lanche da tarde, correu sem muitas surpresas. Conversamos sobre tudo, honestamente. Desde como havia sido nossas semanas, até sobre como eu havia passado a minha vida inteira sem experimentar algumas coisas boas da vida.
- Ah , fica quieto! Você nunca experimentou feijoada que eu sei! - Ele franziu a testa com a palavra brasileira e eu ri. - Ou coxinha, ou pão de queijo, ou feijão tropeiro, ou tapioca, ou cuscuz, ou quindim, ou caipirinha, ou brigadeiro... Não, brigadeiro você já experimentou. - Falei uma comida atrás da outra, vendo seu rosto se confundir com tantas palavras diferentes.
- Ei! Calma! - Ele falou estendendo as duas mãos para frente, me parando. - Me perdi já!
- Só estou mostrando um lado, tá?! - Dei uma última garfada na minha panqueca e coloquei os talheres para o lado, mostrando que havia terminado. – E pão com manteiga é muito mais gostoso. - Dei um gole em meu milk-shake enquanto gargalhava em minha frente.
- Me mostra, então! - Ele falou arqueando as sobrancelhas em sinal de desafio.
- Um dia eu vou mostrar e você vai ver que eu tenho razão. - Arqueei as sobrancelhas como a dele e voltei o copo vazio para a mesa. - Só não pode ter estômago sensível. – Adicionei, fazendo uma careta.
- Já experimentei umas coisas bem estranhas, viu?! Principalmente quando fui para Coreia!
- E eu te beijei?! - Falei fazendo uma careta e ri logo em seguida.
- Sem graça! – Fiz uma careta para ele e apoiei as mãos na mesa.
estendeu as mãos em cima das minhas e ficou fazendo um carinho leve nelas. Virei o rosto rapidamente para a rua e notei que ela estava menos movimentada e que o sol já tinha se posto. Virei o rosto para frente novamente e pude ver me olhando, era um olhar simples, mas firme, que me deixou envergonhada por alguns segundos.
- Você é tão linda! - Ele falou e eu soltei uma risada nasalada, permanecendo em silêncio.
Ele inclinou o corpo um pouco para frente e eu senti a necessidade de fazer o mesmo, pude sentir sua respiração em meu rosto por alguns segundos e depois seus lábios gelados sobre o meu, creio que parte disso era culpa da nossa bebida. Ele só pressionou nossos lábios por alguns segundos, não tentou aprofundar o beijo até porque com uma mesa entre nós, ele não conseguiria. Ele se afastou por um tempo, abrindo os olhos, mas manteve o rosto colado ao meu, próximo o suficiente para eu sentir sua respiração, mas também o bastante para eu olhar em seus olhos azuis.
- Tenho mais um lugar para te levar. - Ele falou, quebrando o silêncio.
- Onde? - Ele riu e não respondeu.
Levantamos e foi para o balcão, tentei me aproximar, mas ele mantinha a mão na minha, em sinal de distância, ele não queria que eu pagasse a conta. Suspirei e me aproximei da porta, encarando o céu novamente. O dia estava incrivelmente bonito. Boston costumava ficar um pouco gelada no fim do dia e, como sempre, eu havia esquecido meu casaco, não que eu fosse precisar de casaco pouco depois das sete da noite, mas eu não estava indo para casa, certo?
- Vamos? - perguntou ao meu lado e segurou minha mão, caminhamos lado a lado para fora do diner.
Naquele momento eu já estava um pouco mais relaxada, havíamos feito algumas piadas e brincadeiras durante o lanche e eu consegui me soltar, as coisas simplesmente fluíram, nada difícil ou complicado, ele era o e eu era a , não tinha nada lá fora que nos fizesse agir de forma diferente. Ele abriu a porta do carro novamente para mim e enquanto ele dava a volta para entrar, coloquei o cinto de segurança.
- Vai demorar um pouco para chegar, ok?! - Ele falou e eu só confirmei com a cabeça.
Ele retornou pelo lugar de onde viemos, passou próximo a ACCESS e meu condomínio e contornou a cidade novamente, durante todo o caminho, ficamos em silêncio. Eu queria saber para onde estávamos indo e eu sabia que se perguntasse, ele não responderia. Pouco tempo depois da dúvida surgir em minha mente, caímos na estrada, não existiam mais luzes, nem barulho de cidade e nem movimento. Era só eu, ele e uma estrada para algum lugar.
Não prestei atenção em quanto tempo durou a viagem. O caminho inteiro foi ocupado por conversas. Eu sempre fui do tipo livro aberto e mesmo que ele não aparentasse, estava se abrindo completamente comigo, o que me deixava feliz. No caminho, ele segurava o volante com a mão esquerda, e o olhar estava focado na estrada, mas ele mexia mão esquerda enquanto falava, fazendo os gestos exagerados que eu conhecia de algumas entrevistas. Algumas vezes ele virava o rosto para mim, dava uma rápida piscada e voltava o olhar para a estrada.
Eu já estava confortável no carro, havia largado o pé esquerdo do sapato no chão, dobrado essa perna para cima do banco e estava com o braço esquerdo encostado no banco, em que supostamente deveria estar minhas costas. Eu olhava a silhueta de seu rosto iluminada um pouco com a luz que vinha do painel do carro e dos faróis, seu perfil podia ser definido e uma palavra só, suspiro, porque essa era a reação que eu tinha quando não o via há algum tempo, sempre suspirava, acho que não importava quanto tempo ficaremos juntos, eu suspiraria toda vez que olhasse para ele.
Os cabelos levemente arrepiados, a testa longa, sobrancelhas curtas e grossas, o olhar pequeno, mas de tirar o fôlego de qualquer um, o nariz com uma marcação no meio, a orelha levemente avermelhada, a boca carnuda, mas fina, o queixo bem marcado e alguns pontos de barba querendo nascer nas laterais de seu rosto. Soltei um suspiro um pouco alto demais e o vi virar o rosto para mim, desviei o olhar ao fechar os olhos e voltei à posição normal, a tempo de ver uma placa escrita Cape An, MA, próxima entrada a 5 milhas. E não demorou muito para que entrasse lá.

Nesse momento eu me endireitei no banco, joguei as pernas para o chão do carro novamente e abri um pouco do vidro preto até que ficasse na altura de meus olhos. Cape Ann era conhecida como uma das praias mais bonitas em Massachusetts, nunca tinha ido para lá, mas era um lugar conhecido por qualquer universitário que quisesse fazer uma festa no fim do ano. Quando estava na minha pós-graduação, todo fim de semana alguma pessoa da turma combinava de vir para Cape Ann, mas como eu estudava pelo governo e não tinha muito dinheiro para extras, nunca havia ido, algo que me deixava frustrada, principalmente porque eu tinha um amor especial por praias. Será que sabia disso?
Assim que ele entrou na cidade, eu pude sentir o cheiro de água do mar e o vento em meu rosto. Eu amo praia, desde que eu era pequena, não tinha felicidade maior em entrar de férias e minha mãe falar que iríamos para a praia, eu sempre estava pronta, e sempre fui daquelas que ficava no mar o dia inteiro, odiava ficar tomando sol e caminhar na praia, mas assim que eu entrasse na água, seria difícil me tirar de lá.
Enquanto eu estava entretida com a paisagem, as cores, o aroma, o vento e tudo relacionado à longa porção de água e terra de Cape Ann, atravessou quase que a cidade inteira até chegar a um local mais alto e rochoso. Ele estacionou o carro e logo saímos do mesmo. Assim que bati a porta eu fiquei parada por um tempo, tinha uma sensação meio extasiada na praia, eu poderia ficar ali parada o dia inteiro e nada me abalaria.
O local que estacionamos estava quieto, de um lado havia grossas rochas e do outro areia fina e branca. O vento estava forte, o que bagunçava meu cabelo e também fazia alguns fios rebeldes voarem no topo da cabeça, mesmo com a quantidade de laquê que Rupert havia passado. O mar também estava agitado. Ondas altas e barulhentas batiam contras às rochas e chegavam calmas até a areia branca.
Destravei quando segurou minha mão e, em um quase susto, virei meu rosto para ele, encontrando-o com um sorriso largo e risonho para mim, ele estava me observando. Retribui o sorriso e entrelacei nossos dedos.
- Vem! – Ele falou fazendo um movimento com a cabeça indicando o mar.
Havia uma pequena mureta de um metro de altura que separava o estacionamento da areia branca. Antes de pular a mesma, tirou seus sapatos e suas meias, deixou-os no alto da mureta e pulou para a areia fofa. Tirei meus saltos, deixando ao lado de seus sapatos e senti suas mãos na minha cintura me ajudando a descer. Suas mãos subiram pelas minhas costas, deslizando meu corpo para baixo, até que eu estivesse com os dois pés fincados na areia macia e as mãos quentes de firmes no meio das minhas costas.
Seus olhos me encararam por poucos segundos antes de acabar com o pouco espaço que tinha entre a gente. Seu rosto abaixou levemente e pude sentir seu nariz roçando delicadamente no meu. Ergui o braço direito e segurei sua nuca com a ponta dos dedos, ele aproximou o rosto do meu e mordeu meu lábio inferior, me fazendo soltar um gemido baixo, esse homem me tira do sério, apertei minha mão em sua nuca e subi a outra mão para seu ombro, apertando-o de leve. Ele escorregou uma das mãos nas minhas costas até que a ponta dos seus dedos encostassem em meu bumbum, prendi a respiração por poucos segundos e amarrotei a parte da blusa em seu ombro com meus dedos, sentindo a respiração sair pelo meu nariz.
Ergui-me na ponta dos pés e colei nossos lábios com certa urgência e rapidamente entendeu meu recado e pude sentir sua língua sob a minha em um carinho delicioso, existe alguma coisa que esse homem faça mal? Ele sugou meu lábio, nos separando, e fez uma trilha de curtos beijos até meu pescoço, uma de suas mãos desceu para minha coxa. Escorreguei minha mão de sua nuca para suas costas, raspando a ponta das unhas, sentindo-o se arrepiar ao meu toque. Cheguei minha mão até o cós da sua calça e a coloquei por baixo de sua blusa, usando suas costas como apoio. suspirou entre meu pescoço e deu uma pequena mordida no mesmo, antes de subir novamente os lábios para minha boca.
Minha respiração estava falha e a boca entreaberta, o ar que saía da mesma era quente, diferente do ar gelado que batia em nossos corpos. Minha mão que estava em seu ombro subiu para seus cabelos e enrolei meus dedos sobre os fios. Entreabri os olhos e notei que mordia seu lábio inferior, fiz o mesmo e logo senti seus lábios pressionados nos meus, me obrigando a fechar os olhos novamente e aproveitar o momento.
Quando senti que o ar estava me faltando, forcei mais meus dedos nos cabelos do e nos afastei por alguns segundos. Minha respiração estava pesada e eu sentia meu peito subir e descer com rapidez. Os lábios de estavam mais avermelhados do que o normal e suas pálpebras abriam e fechavam, forçando a mesma. Suas mãos subiram para as minhas costas e permaneceram lá em um abraço. Ele encostou a bochecha na lateral do meu rosto e ficou assim por um tempo. Passei meus braços pelo seu pescoço e relaxei meu corpo um pouco em seus braços. Além do quebrar das ondas, o único barulho naquela cidade era de nossas respirações descompassadas.
- Ah! – Deixei escapar pelos meus lábios e trouxe seu rosto para o meu novamente e pude encarar seus olhos azuis próximos do meu. Ele encostou nossos lábios novamente, selando-os por poucos segundos e manteve assim por um tempo que eu não consegui determinar. - Você está me deixando encabulada. – Falei com um tom de voz baixo e ele abriu um sorriso sapeca.
- Encabulada? Depois desse beijo? – Dei um tapa de leve em seu ombro e seus braços se afrouxaram em meu corpo, nos afastando um pouco.
- Eu tenho meus momentos!
- E eu estou gostando deles! – Ele se colocou ao meu lado e entrelaçou um de nossos braços e colocou a mão em seu bolso. Com o braço entrelaçado, eu apoiei ambas as mãos em seu braço e caminhamos mais à frente da praia.
- Por que me trouxe aqui? Tem algum significado especial para você? – Falei enquanto andava afundando meus pés na areia, fazendo questão de sentir a areia passando pelos meus dedos.
- Fiquei sabendo que gosta de praia. – Ele virou o rosto para mim e abriu um sorriso simples, franzindo suas bochechas. - Mas agora vai ter um significado especial.
Apertei mais seu braço sobre o meu e com um vento gelado, senti os pelos de meus braços e minhas pernas arrepiarem. Vi colocar a outra mão no bolso da calça e encolher os ombros um pouco. Antes que chegássemos à areia molhada, parou e ficou olhando para frente. Encarei-o com o canto dos olhos e seu rosto estava sério, os olhos levemente franzidos por causa do vento e a postura reta, bem diferente da minha, eu estava com queixo apoiado em seu ombro e minhas costas estavam levemente arqueadas para frente, mas não por muito tempo.
Desentrelacei nossos braços e puxei o ar fortemente para dentro dos meus pulmões, sentindo o cheiro de praia, água salgada e areia, combinação quase perfeita. Contei cinco passos até sentir meus pés na areia molhada e coloquei as mãos nos bolsos do meu vestido, arqueando minhas costas e forçando as mãos no bolso. Dobrei os dedos dos pés rapidamente, quando vi a onda se quebrar e a água correr pela areia, encontrando meus pés. Abri um largo sorriso e fechei os olhos. Eu poderia ficar ali para sempre. Eu e o mar, sem pressa, sem compromissos. Senti dois braços passarem pelo meu pescoço, em um abraço quente. Bem, eu, o mar e ele.
manteve suas mãos em meu corpo e encostou sua bochecha na minha, não pude conter um sorriso. Tirei minhas mãos do bolso e as coloquei em cima de seus braços, próximo a meu rosto, fazendo um carinho delicado com a ponta das mãos.
- Você gosta daqui? – Ouvi o sussurrar essas palavras em meu ouvido, fazendo meu pescoço se arrepiar e não foi preciso palavras para a minha resposta, eu só abri um sorriso. – A gente pode vir sempre que você quiser. – Concordei com a cabeça e virei meu corpo para o dele, sentindo seus braços se afrouxarem de meu corpo.
- Obrigada! – Falei baixo com a boca próxima a sua.
- Pelo o quê? – Ele franziu a testa.
- Por me mostrar que eu tinha razão. – Sua testa se manteve franzida. – Você é especial. – Ele abriu um sorriso, dando um curto beijo em minha testa. – Você vale a pena.

Não notei que o tempo havia passado com tanta rapidez. Ficamos abraçados boa parte desse tempo, trocamos alguns beijos, algumas carícias, palavras de carinho e até algumas piadas, o que fazia com que nossas risadas escandalosas ecoassem pela avenida silenciosa de Cape Ann. Só notamos que era bom voltar para Boston quando seu celular vibrou em seu bolso denunciando uma mensagem de seu irmão e pudemos ver o horário, que já passava das dez 10 horas da noite. Soltamos uma risada e caminhamos de volta para o carro. me ajudou a subir pela mureta e logo subiu atrás de mim.
Peguei meus sapatos e ele fez o mesmo com os dele. Ele abriu o porta-malas e puxou uma mochila preta lá de dentro, a abriu e puxou uma toalha azul escura, me entregando para secar e limpar os pés. Me aproximei de seu carro, sentei de lado no lugar do passageiro e passei a toalha levemente sobre meus pés, tentando tirar toda a areia do mesmo, me certificando que não entraria areia no carro de e muito menos em meu apartamento. Assim que finalizou, já estava do mesmo jeito atrás de mim, no banco do motorista, esperando pela toalha. Virei os pés para dentro do carro e estendi a toalha para ele. Puxei a porta e passei o cinto pelo meu corpo. foi mais rápido que eu e jogou os sapatos no banco de trás.
Ele ligou o carro e deu marcha ré, saindo da vaga e voltando para o caminho que tínhamos ido. Puxei um dos pés para cima do banco e virei de lado novamente, encarando-o dirigindo, era algo que eu tinha gostado de observar, o deixava incrivelmente sexy. ligou o som baixo e o ar quente para ver se nossos corpos esquentavam um pouco, não me importei muito com isso, sua mão em cima da minha já era o suficiente.
- Foi divertido! – Falei, vendo seu rosto se virar para o meu rapidamente.
- Fazia tempo que eu não me divertia assim. – Ele falou seguido de uma risada e apertou minha mão.
- Precisa parar de trabalhar tanto!
- O problema não é o trabalho, é a companhia! – O vi piscar para mim e voltar à atenção para a estrada.
- Companhia?
- Sim, você! – Ele sorriu e mordi meu lábio fortemente.
Meu corpo estava cansado. Trabalhar, me arrumar, fazer uma viagem curta, ter um dia perfeito havia sido incrivelmente prazeroso, mas fisicamente eu estava acabada, sentia meus olhos pesando, mas os forçava a ficar aberto. Olhei para o perfil de mais uma vez antes de sentir meus olhos fecharem.

Sentia meu corpo encaixado perfeitamente em uma superfície macia, o virei para um lado, abraçando melhor o travesseiro e suspirei. Mexi as pernas, sentindo-as fora da coberta e senti um vento frio passar por elas, tateei a cama e procurei o lençol, em vão. Suspirei e abri um de meus olhos, encontrando um quarto diferente do que eu estava acostumada.
Sentei na cama em um susto, sentindo uma rápida dor de cabeça ao fazer isso. Eu estava em uma cama de casal mais alta que a minha e em um quarto com poucas decorações, as poucas coisas que tinham estavam em preto e branco. O quarto era amplo, com janelas de vidro cobrindo boa parte de uma das paredes, com cortinas brancas balançando por causa do vento que passava por elas. Na cabeceira da cama podia ver uma foto de com seus irmãos. Estavam os quatro, fazendo uma escadinha do mais alto ao mais baixo. Segurei a foto por alguns segundos e abri um sorriso.
Notei a roupa que vestia e vi que estava com a mesma do dia anterior, incluindo meus acessórios. Sentia que podia morrer sufocada naquele vestido a qualquer momento. Como eu fui parar ali? Passei a mão nos meus cabelos que estavam sem o efeito do laquê e os deixavam bagunçados. Saí da cama e com passos discretos passei por uma das portas, procurando o banheiro. Fiz um rápido bocejo, escovando o dente com o dedo, só para tentar tirar o possível bafo matinal. Com alguma dificuldade, passei a mão em meus cabelos, desfazendo o penteado e vi que parte da minha maquiagem ainda estava em meu rosto. Peguei um dos sabonetes no banheiro e tirei a maquiagem, principalmente o rímel que já tinha colado meus cílios. Sequei meu rosto e baguncei meus cabelos rapidamente, o vendo armar um pouco por causa do laquê, mas ignorei. Voltei para o quarto, à procura dos meus sapatos e não os encontrei.
Saí do quarto, dando de cara com um escritório na primeira porta à direita e, logo em seguida, uma escada larga em espiral. Desci por ela e me vi na sala, que possuía grandes sofás de couro preto, em que era possível ver uma coberta e um travesseiro bagunçado, denunciando onde, provavelmente, tinha dormido aquela noite, e mais algumas decorações discretas e porta-retratos dele e de sua família.
Puxei a respiração e senti um cheiro de algo gostoso e um barulho de algo caindo logo em seguida, passei por uma porta, dando de cara com em calças de moletom e sem blusa, o que me deu uma visão perfeita de suas costas e de seu braço direito, em que onde podia ver a tatuagem ‘Família’ escrita. Ele estava em frente ao fogão, tirando uma panqueca da frigideira e colocando em um prato ao seu lado.
- Bom dia! – Falei baixo, me aproximando dele. Ele virou o rosto e seu sorriso literalmente iluminou meu dia.
- Bom dia! – Ele deixou a frigideira no fogão e virou o corpo para mim, fechei os olhos por um tempo, soltando uma risada ao poder encarar as duas tatuagens em seu tronco. Uma próxima ao seu pescoço com uma frase de um autor que ele gostava e outra na altura do seu estômago com as iniciais de seus irmãos. – O quê? – Ele perguntou e eu revirei os olhos, sentindo seus lábios encostados no meu por um tempo.
- Nada! – Falei passando a mão no rosto rapidamente e abaixei a cabeça. Notei seu olhar firme em mim. – Você não tem noção que é bonito para caramba, não é?! Para não usar outras palavras.
- Só eu?! – Dei de ombros e senti seus braços se envolverem em meu corpo em um forte abraço.
- O que aconteceu ontem à noite que eu não lembro?
- Você capotou na volta de Cape Ann, eu não queria te acordar, então, te trouxe para cá. Relaxa, eu dormi no sofá! – Ele falou antes que eu pudesse interrompê-lo.
- Eu não ia falar nada. – Me aproximei de onde estava o prato com as panquecas. – Mesmo se tivesse dormido comigo. – Falei a última parte baixo e ouvi uma risada nasalada vindo dele. - Fala que eu não ronquei. – Virei meu corpo para ele novamente e encarei seus olhos.
- Se quiser eu não falo! – Ele cruzou os braços em cima do corpo. Ah, , para, não sei o que tá mais difícil, olhar para o seu corpo ou seus olhos.
- Eu ronquei? – Falei em um tom de voz mais alto.
- Estava uma gracinha. – Virei meu corpo ao mesmo tempo em que fechei os olhos, fazendo uma careta.
- Ninguém é uma gracinha roncando, ! – Falei e senti seus braços em volta do meu corpo, pegando os pratos na minha frente.
- Vem comer! – Ele sussurrou, pegou os pratos, deu um beijo rápido em minha cabeça e se afastou, passando por uma porta que ia para a varanda.
O segui e vi uma mesa quadrada para quatro pessoas posta à beira de uma piscina, jardim e uma área de lazer ao lado, o sol que iluminava a piscina estava forte, me forçando a fechar os olhos por alguns segundos. Na mesa tinha algumas outras coisas além das panquecas, como ovos, bacon e pão com manteiga. Não contive o sorriso.
- Eu amo bacon, mas não consigo entender como vocês conseguem comer no café da manhã isso. – Falei enquanto sentava ao seu lado.
- Costume! – Ele falou quando não achou outra explicação melhor.
Me servi de café com leite e foi no café. Primeiro peguei um pão e o separei em dois pedaços, passando manteiga no mesmo e o mordendo com gosto, não tinha nada melhor que aquilo, me permiti até soltar um suspiro, o que fez rir ao meu lado.
Dei de ombros e voltei a encarar sua varanda. Não sabia que tinha uma casa em Boston, achava que tinha um apartamento ou algo assim, mas ele tinha uma casa muito bem montada em Boston, isso sim. Após o pão, ainda comi uma panqueca e me permiti atacar um pouco do ovo mexido, o fazendo rir enquanto eu tentava parecer uma pessoa delicada, coisa que eu não sou e pelo jeito ele sabia disso.
Terminamos o café da manhã falando sobre o lanche no diner e eu fiz questão de comentar que virei freguesa do lugar, era um lugar bom, quieto, gostoso e com comida boa, coisas que eu não dispensava. Enquanto ele tirava a mesa, eu lavei a louça, dessa vez sem briguinhas sobre quem lavaria, ele estava mais preocupado em fazer meus pelos se arrepiarem com os diversos beijos em meu pescoço, filho da mãe.
- Quero repetir a dose de ontem. – Ele falou com a boca colada em meu ouvido. – O que tem para fazer hoje?
- Aceito ir a qualquer lugar contigo! – Falei, virando meu rosto e sentindo um beijo em meus lábios. Nós dois estávamos sorrindo iguais tontos, isso estava claro, eu estava no ápice da minha felicidade. – Contanto que eu tenha o direito de ir para casa, tomar um banho e me trocar. Estou me sentindo sufocada dentro desse vestido já! – mordeu os lábios e eu soltei uma gargalhada nervosa, senti minhas bochechas corarem, pensando em coisas impuras.
- Cinema? – Ele falou logo em seguida.
- Eu quero ver seu filme novo! Não vi ainda. – Falei, me lembrando de seu filme que estava nos cinemas.
- Ah, não! – Ele falou soltando as mãos de meu corpo.
- Por que não? – Soltei uma risada.
- Porque tem eu! – Ele falou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
- Então teremos um pequeno problema, eu adoro seus filmes. – Falei passando as mãos no pano de prato, o acompanhei pela porta da sala e me joguei no sofá ao seu lado.
Ele ficou quieto por um tempo e pegou minha mão, acariciando-a por um período, notei que ele passou o dedo na palma da mesma, em cima da quase imperceptível marca branca.
- É daquele dia? – Confirmei com a cabeça.
- Resultado do nosso primeiro tempo juntos. – Ele gargalhou.
- Já tivemos outros antes daquele dia.
- Esse foi o primeiro sem supervisão adulta. – O lembrei e ele franziu o rosto em uma risada silenciosa.
Ele levou minha mão até sua boca e deu um pequeno beijo, entrelaçando nossos dedos novamente e eu sorri, fechando os olhos por um tempo.
- E então, cinema? – Falei, voltando ao assunto do filme e ele riu.
- Vou pensar no seu caso. – Ele falou emburrado e eu encostei meu rosto em seu ombro, fechando os olhos, mas dessa vez sem dormir.



Capítulo 4

(Diga que me ama, eu preciso de alguém em dias assim. Você pode ouvir meu coração dizer: “você não é ninguém até ter alguém”. – Tell Me You Love Me)
Ouvi meu suspiro alto ecoar pelo meu quarto e abaixei a cabeça por alguns segundos, ouvindo o telefone tocar novamente. Imediatamente apertei o botão para que fosse diretamente para a secretária eletrônica e puxei o fio do telefone da parede. Minha vontade era de jogar tudo para o alto e mandar à merda. Peguei o roteiro que estava em cima da mesa com as palavras “O Último Trem – ” em letras garrafais e me joguei na cama. Eu podia ouvir ao longe os outros telefones da casa tocando, mas ignorei.
Apoiei o roteiro em meu travesseiro, virei de bruços e olhei a primeira página, lá continha o nome de algumas atrizes em potencial que tinham feito o teste para o primeiro filme que eu dirigiria. A produção já havia pré-selecionado algumas pessoas, mas restava minha palavra final, o que estava me matando. Por ser novo nessa área de direção, eu tinha muitas indecisões, não sabia definir o que estava certo e o que estava errado, então uma decisão simples se tornava maçante e algo que eu podia decidir em poucas horas, era protelado durante dias.
Dias... Eu ainda tinha alguns dias para entregar a relação de tudo para a produção, para que eles pudessem começar a preparar os outros detalhes, como figurino e datas de gravação em Nova York. E também tinha esse título, que não estava deixando a equipe, muito menos eu, feliz.
Joguei o papel para o lado e afundei meu rosto no travesseiro. Estava mentalmente cansado há algum tempo. Desde que eu voltei de Boston, era só nisso que estava focado. Filme, filme, filme. Mas eu precisava voltar para Boston e ver novamente.
Soltei um suspiro e peguei o celular da mesa de cabeceira ao meu lado e o desbloqueei digitando a senha. Nossa conversa da noite anterior ainda estava aberta. A última mensagem era um áudio dela, me desejando boa noite. Áudio, algo que eu tinha aprendido recentemente como usar, mas que estava sendo muito útil.
Saí da conversa e fui para a agenda, procurando saber quando seriam meus próximos compromissos. Estávamos quase no fim de julho, a Convenção de Quadrinhos estava chegando e também a estreia do meu novo filme na Coreia, dois eventos que eu não poderia nem pensar em faltar, como também um evento da Máxima em agosto. Eu poderia resolver o que tinha para resolver nos próximos dois dias e, antes de ir para San Diego, dar uma passada em Boston para vê-la. Seria algo rápido, mas era o que eu estava precisando no momento. Mas... Será que ela não iria para San Diego?
era, definitivamente, algo que eu estava precisando no momento, alguém que fizesse com que eu me sentisse mais leve, feliz e confortável comigo mesmo. Alguém que eu já tinha feito alguns planos em minha cabeça... Alguém para amar... É, acho que era isso. Amor. Ela entrou na minha vida de um jeito tão simples, tão tímido e delicado, mas, ao mesmo tempo, muito arrebatador. Seu sorriso fazia com que minha perna amolecesse, seu toque fazia meus pelos se arrepiarem e seu olhar fazia com que eu me sentisse querido. Querido de um jeito que eu não me sentia há muito tempo.
Pode parecer idiota ou um pouco esnobe, mas de uns tempos para cá eu não sentia a vontade para me abrir com as pessoas. Isso fazia com que eu ficasse com a imagem de tímido, o que nem sempre é verdade. Só sou tímido com quem não me conhece, pergunta para ! Assim que a pessoa dá liberdade para eu conhecê-la, automaticamente dou liberdade para ela me conhecer e, isso, normalmente acontece em cinco minutos de conversa. E, com , não sei, parece que aquele encontro... Ou melhor, reunião de trabalho, tornou as coisas tão fáceis, ali já tinha ficado claro que aquela mulher mudaria minha vida. E ela mudou. Ela trouxe de volta o romântico que eu era quando tinha meus 21 anos e estava conhecendo as maravilhas do amor, da paixão e do romance. Essa mulher tinha feito isso com um cara de 32 anos que já estava perdendo a esperança em achar aquele lendário amor verdadeiro. Que eu havia descoberto que não era lendário coisa nenhuma.

Voltei para realidade quando o celular começou a tocar em cima da cama. Virei de barriga para cima, sentando na cama e encarei o nome e foto dela sorrindo no visor do meu celular. E deslizei a tela para atender.
- Sábado é o painel da Máxima na Convenção de Quadrinhos, certo?! - Foram as primeiras palavras que eu ouvi, precisei parar e processar um pouco para saber se eu realmente tinha ouvido certo, pela rapidez com que ela falou.
- Calma! - Ouvi sua risada ao fundo e sorri. - Máxima, Convenção, sábado? Sim! - Falei passando as informações na minha mente e ri.
- Droga! Meus planos acabaram de ir por água abaixo. - Ela suspirou e ouvi algumas coisas batendo do outro lado da linha. - Pensei que fosse dia 27. E Melina me avisa só agora. Esse povo não conhece comunicação, não?! - Ela falou em tom de brincadeira e eu suspirei, ficava feliz em ouvir sua voz.
- Planos, é?!
- Você ouviu o que eu disse?
- Não, parei na palavra planos. - Fui sincero e ela ficou quieta por um tempo, soltando uma risada.
- Planos que não vão acontecer, porque você tem compromisso, senhor Poseidon.
- Eu estava pensando em dar uma passada aí antes de ir para San Diego, mas se você não quiser, tá tudo bem também!
- Mas o drama tá no sangue, hein?! Não tem como duvidar que você é ator! - Ela falou ironicamente e uma gargalhada saiu involuntária. - Mas enfim, quer passar aqui antes? Quando? Eu já comprei metade das coisas e a outra metade vai chegar do Brasil em até... - Ela deu uma pausa no meio da frase como se procurasse alguma coisa. - ...Dois dias.
- Brasil? Quê?! , do que você está falando? - Ela riu.
- De algo que você vai descobrir quando vier para Boston. - Ela falou o nome da minha cidade do mesmo jeito que eu costumo falar, aberto, um pouco mais caipira, se assim pudesse dizer.
- Boston? - Repeti o nome da cidade.
- É, Boston, , de onde você acha que eu estava falando? - Eu soltei uma risada e ela ficou quieta.
- Não! É que você está começando a falar igual a mim. - Ela ficou quieta do outro lado da linha e suspirou.
- Afeta, sabia? Eu sempre tive esse problema. Bastava falar com uma pessoa por três, quatro dias, que eu ficava com o sotaque ou as gírias dela. Ainda mais no Brasil, que, praticamente, cada cidade tem seu sotaque. Nos Estados Unidos que não seria diferente.
- Eu gosto de te ouvir falar. - Soltei depois de um bom tempo.
- Boston? - Ela repetiu e eu dei uma risada.
- Sim, Boston! - Eu falei e ela riu.
- Ah, enfim, me deixa terminar, minha outra linha tá tocando. - Ela suspirou. - Quarta ou quinta? Acha que dá?!
- Quarta e quinta. Sexta eu já tenho que estar em San Diego. - Falei pegando o roteiro no espaço vazio da cama.
- Quarta, então! - Ela falou confirmando. - Te vejo em casa umas 20 horas, tá?!
- Ei, não era à tarde?
- Tarde de sábado, quarta eu trabalho, espertinho. – Ela disse e eu coloquei meus pensamentos para funcionar. - E nada de pedir para eu sair mais cedo de novo. - Ela falou quase como um sussurro gritado.
- Ok, não está mais aqui quem falou. - Soltei um riso em seguida. – Quarta, então! - Ela fez um barulho de confirmação com a boca e eu sorri.
- A gente se vê então. - Ela falou suspirando. - Tchau, .
- Tchau, ! Te ligo à noite. - Senti a necessidade de dizer.
- Ok! - Pude ver em minha mente ela morder o lábio inferior, como sempre fazia quando estava esperando alguma coisa. - Vou esperar! Tchau! - E ouvi a linha muda do outro lado.
Soltei um suspiro e encarei o celular desligado na minha frente e passei o dedo clicando na galeria de fotos, procurando a foto tirada há algumas semanas. Era uma selfie minha e de no cinema, pouco antes da sessão do meu filme naquele sábado, sim, ela tinha me convencido a ver o filme. Logo à frente eu podia ser visto com meu boné, que com o flash, causou sombra em parte do meu rosto. E atrás de mim segurava um balde de pipoca, tinha um sorriso largo no rosto, um par de óculos de grau com armação preta, os cabelos soltos e molhados e suas pernas podiam ser vistas um pouco descobertas devido ao short que ela usava. Eu tirei essa foto espontaneamente, na teoria não era para ter olhado, mas assim que o flash foi ativado, ela virou e a foto ficou engraçada, mas nunca foi para nenhuma rede social, era cedo ainda.
Suspirei por um tempo e peguei o roteiro ao meu lado, caminhando rapidamente para meu escritório. Abri meu notebook e coloquei o DVD com testes de cena de todas as possíveis atrizes para meu filme e dei play no vídeo. Analisar as pessoas era algo chato. Atuar era meu trabalho e, em algumas situações era ruim quando a pessoa ficava avaliando cada vírgula, mesmo sabendo que cada um tem seu estilo. Então era uma parte que eu realmente ficava tenso em analisar. Por isso, eu havia colocado uma meta para mim, que seria: a pessoa que eu achasse que combinasse mais seria a escolhida. Eu e minha equipe tínhamos um perfil para a personagem principal, que já havia sido pré-selecionado. Os vídeos que tinham ido para esse DVD, eram da pré-seleção da equipe, faltava apenas eu dar o veredito final.
“Evelyn Anders” foi o nome que eu escrevi. Assinei meu nome e fechei o arquivo, jogando-o dentro do meu armário em seguida. Voltei novamente para meu quarto e me joguei na cama, pegando o celular na mão. Nenhuma notificação. Meu Deus, eu estava ficando viciado nisso. Era como dizia, afeta.
- Agora... Passar o tempo! – Me joguei na cama, fechando os olhos.

Freei o carro em frente ao tão conhecido condomínio e saí do mesmo, puxando minha jaqueta de couro que estava no banco ao meu lado e ajeitando a carteira no bolso. Em dois passos, já havia colocado a jaqueta no corpo, por cima da blusa cinza que vestia, era eu, ou estávamos em julho e estava frio? Balancei a cabeça e toquei o interfone, sendo rapidamente liberado para entrar no condomínio.
Desci as escadas que davam para o conjunto com três prédios e entrei no que eu já estava acostumado. Entrei no elevador que estava no térreo e apertei o número nove. Tirei as mãos do bolso e me olhei no espelho do elevador, passei as mãos nos meus cabelos castanhos arrepiados e ao lado nas costeletas, abaixando os fios arrepiados. Encarei meu rosto o suficiente para ver o corte meio avermelhado do lado esquerdo, resultado de fazer a barba na pressa. Baguncei os cabelos e saí do elevador para um hall de quatro apartamentos.
Um rápido barulho de porta se abrindo e batendo na parede. Uma pessoa já tinha os braços envoltos em meu pescoço e o peso solto em meus braços. A risada e o perfume eram inconfundíveis. Ela soltou os braços do meu pescoço e quando colocou os pés no chão, pude ver seu rosto. Encostei meus lábios nos dela por um momento e pude sentir suas mãos mexendo em meus cabelos. Sua língua tocou na minha rapidamente e uma mordida em meu lábio inferior fez com que nos separássemos. Encarei seu rosto por um momento e a respiração quente batendo em meu queixo me fez sorrir.
- Oi! – Ela falou ainda rindo e eu tive que rir. Ela estava tão linda.
- Oi. – Eu sorri e ela suspirou, apertando os braços em meu pescoço novamente e escondendo o rosto. Ela ficou em silêncio por um tempo, e eu passei meus braços pela sua cintura, sentindo sua pele quente na minha e ela suspirou.
- Entra! – Ela mexeu com a cabeça e entrou saltitante em seu apartamento, onde a luz da cozinha iluminava o local e algumas outras deixavam a sala com um tom meio escuro. - Fica à vontade! – Ela gritou e eu entrei em seu apartamento, fechando a porta atrás de mim e parando na porta da cozinha, quando pude ver mexer em um caldo branco dentro de uma panela funda.
Sua cozinha não era tão grande, mas naquele momento estava cheia de coisas para tudo quanto é canto e um delicioso cheiro de fritura misturado com vinho enchia o ambiente, fazendo minha barriga gritar por comida. Encarei-a novamente e notei sua roupa. Uma calça jeans escura colada no corpo, um moletom canguru cinza escuro e botas de cano baixo. Os cabelos castanhos estavam presos em um rabo de cavalo alto e o rosto aparentemente limpo. Ela passava um pano em cima do fogão e o fechava, colocando um pano estampado em cima e depois de acomodar os refratários vazios dentro da pia, e virou o rosto para mim novamente.
- E esse frio que virou?! – Perguntei, não tendo nada muito melhor para falar ou fazer.
- Foi sorte, meu querido! Porque comer feijoada no calor, não dá! – Ela riu e estendeu um prato para mim, com alguns salgadinhos fritos. – Coloca na mesa, por favor?
- Feijoada? – Perguntei confuso. Indo até o outro cômodo, em que uma mesa muito bem posta nos esperava. Os pratos, os talheres, as taças, até um pequeno arranjo com gérberas vermelhas ocupavam o meio da mesa retangular. Na lateral, outra mesa retangular estava colocada, com seis panelas e potes fechados enfileirados. Coloquei o prato em minha mão no meio da mesa principal. Notei também que o motivo da sala estar meio escura eram as diversas velas acesas em vários lugares, iluminando parcialmente o local.
- Comprou mais taças, é?! – Perguntei, vendo duas taças iguais na mesa. surgiu dando uma risada.
- Dei uma passadinha no mercado e encontrei essas duas. Agora, por favor, nada de quebrar, tá?! – Ela gritou da cozinha e riu.
- Ficarei longe delas, então! – Falei e ela deu outra risada.
- No nosso primeiro encontro, eu joguei na sua cara um monte de nome de comidas brasileiras, certo?! – Ela apareceu ao meu lado segurando uma garrafa de água em uma mão e uma de vinho na outra e as colocou na mesa, estendendo o abridor de vinhos para mim.
- É, tenho uma vaga lembrança disso. Certo tom de “Brasil é melhor”, sabe?! – Ela riu e voltou para a cozinha, pude ver a luz ser apagada e ela aparecer novamente na sala, enquanto eu mexia na rolha do vinho com o abridor, a tirava e servia as duas taças com o líquido escuro.
- Então! – Ela parou ao meu lado e segurou uma taça com a sua mão e eu fiz o mesmo, após deixar a garrafa aberta em cima da mesa. - Eu preparei uma coisinha para você! – Ela se encostou em mim. – Para nós, na verdade.
- Uma coisinha? – Falei em tom irônico e virei meu rosto para ela, que segurava uma risada. – Isso está ótimo, ! – Encostei meus lábios em sua cabeça.
- Acho que sou um pouco romântica. – Ela sussurrou.
- Fico feliz em saber disso. – Falei baixo e ela se silenciou, encarando a mesa posta por um tempo. Estendi minha taça para ela e ela abriu um sorriso largo, aproximando a dela na minha e um tilintar baixo soou do tocar de nossas taças.
- Por nós! – Falei e ela mordeu seu lábio inferior por um tempo e vi suas bochechas ficarem vermelhas. Ela deu um gole em sua bebida e eu fiz o mesmo.
- Bem, vamos comer?! – Afirmei com a cabeça e a vi saltitar em direção a mesa.
Dei dois passos rápidos e puxei a cadeira para ela se sentar, pude ouvir sua risada nasalada, enquanto se sentava e apoiava sua taça ao lado de seus pratos corretamente arrumados.
- Eu sou educado, ok?!
- Não estou dizendo nada, ! – Ela beijou minha bochecha e foi minha vez de rir.
Eu fui à sua frente, onde a mesa estava posta e me sentei, ela tinha as mãos ágeis, tirando a tampa de todas as panelas que estavam na mesa paralela à nossa. Reconheci uma travessa com arroz branco, outra com um caldo espesso marrom, quase preto, com algumas carnes como bacon, calabresa e outras não conhecidas, couve refogada com pedaços pequenos de bacon, uma farinha meio bege temperada que não reconheci o que era, um prato com algumas laranjas descascadas e outro caldo com cebola e tomate em pedaços.
- Como eu como isso?! - Foi à pergunta que saiu da minha boca, e soltou uma risada em minha frente.
- Calma! Você come tudo junto, do jeito que você quiser, não tem dificuldade. Mas antes da gente partir para a feijoada, você tem que conhecer a coxinha.
- Cox... O quê? - Ela riu e apontou para o prato que eu havia trazido à mesa.
- Coxinha! Uma massa de batata, recheada de frango com catupiry e frita, simples! - Ela pegou uma num guardanapo e me entregou. - É um dos sucessos brasileiros, pode-se comer em qualquer lugar e todo mundo ama, espero que goste também!
- Vamos ver então!
Encarei a massa meio amarelada e crocante e senti o cheiro dela. Era bom. Ela era arredondada embaixo e pontuda em cima, tudo o que podia ser visto era a massa frita por fora, nenhum dos recheios que ela havia falado, era mostrado.
- Por onde eu começo?
- Depende, tem gente que começa pelo bico, tem gente que começa pela bunda. - Ela pegou uma com o guardanapo e a virou de bunda para cima. - Eu começo direto no recheio. - E deu uma mordida no salgado, mastigando um pouco antes de voltar a falar. - É a sua primeira vez, então acho melhor começar pelo bico. - Olhei a de rapidamente e vi que era bem recheada. – Tem gente que brinca que não se pode confiar em quem começa a coxinha pela bunda.
- Por quê? – Perguntei rindo.
- Sei lá, falam que é tradição começar pelo bico, vai saber! – Ela soltou uma risada e fez sinal para que eu mordesse logo o salgado.
- Saúde! - Falei brincando e dei uma grande mordida no bico, sentindo o gosto da batata e do frango invadir minha boca. se mantinha quieta, com os olhos divididos em sua coxinha e em mim, já que quando eu fiz a mesma coisa, podia ver as laterais da sua boca se erguerem em um sorriso. - Isso é bom! - Falei, com a boca um pouco estufada, devido à quantidade de recheio que eu havia mordido.
- Ponto para o Brasil! - falou com a voz cantada, soltando uma risada em seguida.
- Mas isso é só uma coisa, tá?!
- Relaxa, amor! Tem muito mais! - Ela piscou o olho e eu soltei uma risada, quando na verdade, minha cabeça tinha ido longe e, eu preferi pegar outra coxinha, antes que eu falasse alguma das coisas inapropriadas que passaram em minha mente.

- Na verdade, não tem um jeito certo para comer feijoada, você junta tudo dentro do prato e come, é isso. - falava, enquanto me servia de todas as delícias que compunham uma feijoada.
- E o que é essa coisa aí, essa areia meio amarelada? - Falei a vendo colocar em cima do que seria a feijoada em si, o que eu havia aprendido que era o conjunto, mas que o nome feijoada vinha do feijão.
- Isso é farofa, feita de farinha de mandioca ou de milho, fica bom em tudo. - Ela me entregou o prato e eu o coloquei em minha frente, enquanto ela se servia. - E eu não estou brincando. Na carne de churrasco, então! Fica uma delícia! - Ela começou a se servir.
- E essa mistura de cebola e tomate?
- Vocês não conhecem vinagrete? Também fica bom no churrasco ou em tudo. - Ela deu uma curta risada e colocou seu prato em sua frente.
- Alguma coisa não fica boa com churrasco? - Ela parou um tempo, tombou a cabeça para o lado um pouco.
- Não, afinal, você pode fazer churrasco com o que você quiser. - Continuou a se servir e logo estávamos jantando.
A definição perfeita para essa junção de coisas era gororoba, sabe, quando juntam um monte de coisas diferentes no mesmo prato? Mas ela não era ruim, muito pelo contrário, era deliciosa. Claro, tinha que ter um paladar bem apurado, porque eram muitos sabores diferentes, coisa que eu não negava, mas do tanto de coisas que eu já havia comido nesse mundo, essa estava entre uma das melhores. Acabei repetindo algumas vezes, em porções menores.
- Ó Deus, eu não deveria comer tanto assim! - Falei me espreguiçando, enquanto mexia em algumas coisas na cozinha, já que pude ouvir algumas coisas batendo.
- Ainda não acabou. - Ela falou, voltando para a sala, batendo os pés no chão e surgiu com dois potes de vidro, com algum creme branco dentro dele.
- O que você tá aprontando, ?! - Falei e a puxei pela cintura, fazendo com que ela se sentasse em uma das minhas pernas, e colocasse os potes na mesa.
- Sobremesa! - Ela falou em um sussurro e encostou a boca em minha cabeça, enquanto abria os dois potes.
O líquido era branco e espesso e, podiam ser vistos algumas sementes brancas retangulares, como também um tipo de farofa mais espesso e coco ralado. Aproximei a mão do pote e vi que ele estava quente, como se tivesse acabado de sair do fogo, mas não estava borbulhando.
- Canjica com paçoca e coco ralado. Normalmente servido em festas juninas e... Ah, come! Não precisa de explicação para comer coisas boas. – Ela pegou uma colher, pegou seu pote e mexeu tudo, misturando a tal da paçoca, o coco e a canjica.
- Paçoca, ou qualquer coisa que você disse, é tipo a farofa que a gente comeu com a feijoada?
- Não, nem um pouco! - Ela falou direta e soltou uma gargalhada em seguida. - Paçoca é feita de amendoim, farofa é feita de farinha de mandioca, um é doce, outro salgado. Os dois são bons! - Ela deu de ombros e eu peguei uma colher, vendo pegar a colher, enchê-la com o líquido e colocá-la na boca. Tirei a mão de suas costas e fiz o mesmo, vendo seu olhar fixo em meus movimentos.
Maravilhoso. Essa é a única definição que eu posso fazer disso. Você fazia mais uma gororoba com aquilo e o sabor era divino, não tem porque questionar.
- Eu vou engordar contigo! - Falei encostando a mão na barriga.
- Pior que vai mesmo! - Ela falou dando uma piscada. – Sinto lhe dizer.
- Eu não me importo! - Devolvi a piscadela e ela riu.

- Quer ajuda para arrumar as coisas? Que a resposta não seja 'não', por favor. - Falei, entregando as coisas para ela, que as colocava na pia.
- Acho que hoje a resposta é sim! - Ela falou. - Hoje eu deixo você lavar a louça, enquanto vou guardando as coisas que sobraram. Depois podemos assistir a um filme. - Concordei com a cabeça e tirei a jaqueta, colocando-a em cima da geladeira e abri a torneira, começando pelas louças de cima.
Enquanto eu lavava as louças, podia ouvir os pés de indo e voltando da sala várias vezes. Ela pegava tudo que estava lá e trazia para a cozinha. Dividia as sobras de comida em recipientes ou jogava fora e deixava os potes vazios ao meu lado para que eu lavasse. Não tinha muitas coisas para lavar, mas eu não tinha tanta experiência na situação e era um pouco lento no serviço. Então, enquanto eu fazia algo, fazia no dobro ou triplo do tempo.
Quando ela desapareceu por um tempo mais longo, voltou sem o moletom cinza, e arregaçando as mangas de uma blusa em um tom avermelhado de manga comprida, colada ao corpo. Sem dizer nada, pegou um pano e começou a secar as louças que ficavam por cima do escorredor, talvez prevenindo um belo de um desastre, caso tudo aquilo caísse.
- Até que você não é tão ruim! - Ela comentou, me empurrando levemente com o ombro.
- "Tão"? - Repeti o movimento, esbarrando nela.
- Se nada der certo na vida, dá para você ser dono de casa! - Ela falou guardando uma tigela dentro do armário.
- Ah, que bom, não é?! - Desliguei a torneira e entreguei o último prato para ela que secou e guardou.
- Nunca se sabe o dia de amanhã! - Ela deu de ombros.
- Quem sabe você não vira uma modelo da Victoria's Secret amanhã? - Falei entrando na brincadeira.
- Não iluda uma sonhadora, ok?! - Ela enrolou a toalha rapidamente e bateu na lateral da minha perna.
- Oi?! - Virei para ela.
- Toda mulher, bem, a maioria, sonha em ser modelo da Victoria's Secret, tá? Não seria diferente comigo! - Ela deu de ombros e pendurou a toalha.
- Você daria certo, sabia? Você é alta e brasileiras são sempre um show à parte! - Passei as mãos pela sua cintura enquanto voltávamos para a sala.
- Claro! Quem sabe se eu perder metade do meu peso? - Ela abanou as mãos e soltou uma risada fraca. - Ser modelo nunca daria certo para mim, minha fome é eterna! - Ela deu uma risada e tirou minhas mãos do seu corpo.
- Você daria certo no que quisesse fazer, você é persistente, mas não nota isso! - Me joguei no sofá.
- Sem conversas motivacionais agora, por favor! - Ela falou. - Escolhe um filme que eu vou ao banheiro! - Ela falou e sumiu pelo curto corredor e ouvi uma porta bater.

- E quais são as opções? - Ela falou passando as mãos na calça jeans e começou a assoprar as velas que estavam na sala, já que algumas estavam no fim. Ela pegou os porta-velas vazios, colocou todos em cima da mesa e se sentou ao meu lado.
- Temos... - Falei mudando os canais da TV. - Procurando Nemo. - Passei pelo canal da Disney. - O quarto Harry Potter. - Passei pela Warner. - E temos em um canal, Encontro de Amor...
- Deixa! - Ela deu um grito ao meu lado e eu a olhei enquanto ela tapava a boca com a mão. - É meu filme de romance favorito, deixa! - Ela deu um pulo ao meu lado, rapidamente tirou as botas e jogou os pés de meia em cima do sofá.
- Favorito?
- Sim, ! - Ela falou em um tom irônico. - ! É o nome do personagem principal, só que ele é senador, e é o Ralph Fiennes. - Ela falou seguida de um suspiro e eu virei meu rosto para ela.
Ela deu de ombros e se virou para a TV, encostando a cabeça em meu ombro. Passei meu braço pelos seus ombros. Ela ficou em silêncio rapidamente, suspirando em algumas partes do filme e repetindo algumas frases que ela tanto conhecia, partes que eu começava a dar risada, pois em algumas situações eu fazia igualzinho.
- Se formos ver esse filme descreve perfeitamente a gente! - Ela falou com o tom de voz baixo, já deitada, com a cabeça em meu colo. - Você é o senador gostosão e eu sou a trabalhadora...
- Gostosona, também! - Falei antes que ela pensasse em um adjetivo. - Ei! Quer dizer que eu não sou trabalhador? - Ela soltou uma gargalhada.
- Seu trabalho é um pouco mais glamoroso, convenhamos. - Ela comentou.
- Vou te mostrar algumas cicatrizes de gravações.
- Ah, coitado! - Ela falou fazendo bico e logo estava rindo da minha cara.
Ela fechou os olhos por um tempo, o suficiente para eu ver suas bochechas ficarem vermelhas rapidamente. Ela passou a mão no rosto e abriu os olhos novamente, voltando sua atenção para a TV, ficando quieta boa parte do filme. Minhas mãos ficaram em seus cabelos, enquanto ela soltava curtos suspiros, que eu não sabia se era do filme ou do meu carinho. O local estava um pouco mais frio, já que as velas haviam sido apagadas e a única luz do local era a da televisão.

No começo da cena em que a camareira vai ao baile de gala no MET com o senador, se ajeitou e manteve os olhos fixos na TV, com um sorriso em seu rosto. Aquele momento era dela e somente dela, não precisava de mais ninguém. Ela estava assistindo ao seu filme favorito, sozinha, um momento o qual ela já deveria ter passado inúmeras vezes, pela repetição de frases, palavras e comentários que fazia ao longo dele. Foi naquele momento, ali, em seu pequeno apartamento em Boston, que eu tive uma certeza. Uma certeza que veio rápido e forte como um trovão.
- ...I need your love in my life… - Ouvi sua voz ao meu lado, que me tirou do transe e a encarei, notando em seguida que ela cantava junto com o filme na parte em que a Marisa entrava no baile e meu xará ignorava todos à sua volta e a avistava. - I wanna spend time till it ends, I wanna fall in you again, like we did when we first met... – Era assim que eu me sentia. - I wanna fall with you again... – Ela virou o rosto para mim e sua voz sumiu, soltando uma risada nasalada em seguida. – O quê? – Ela perguntou e eu encarei profundamente aqueles olhos castanhos que eu tanto adorava.
- Eu te amo, ! – Ouvi minha voz confirmar o que eu já sabia há muito tempo, mas que não tinha interpretado ainda.
Ela reagiu da melhor forma possível. Manteve os olhos fixos nos meus por um tempo, mas logo pude notar que sua boca se abria lentamente, abismada ou assustada pelo que eu havia dito e seus olhos se mantinham fixos em mim, sem piscar. Quando sua boca abriu o máximo possível, foi como se a ficha tivesse caído, já que sua feição relaxou e pude ver um sorriso se formar em seus lábios, que tremiam um pouco. Seus olhos se fecharam por um tempo e algumas lágrimas escaparam. Ela colocou as mãos na boca, soltando uma risada silenciosa.
Eu vi essa cena em câmera lenta, provavelmente, pois no segundo seguinte, o tempo voltou ao normal, seus braços já estavam em meu pescoço e seus lábios colaram nos meus.
Minha mão direita encostou-se à lateral de sua barriga, como um suporte para seu corpo, que se mantinha ajoelhado no sofá. Uma de suas mãos fazia um carinho gostoso em meu rosto, o polegar acariciava minha bochecha e a outra mão arranhava meu pescoço. No início, seus lábios eram mais apressados, mas agora se movimentavam em sincronia com os meus.
Senti seu corpo cair em meu colo e passei meu outro braço por cima do mesmo, para que eu pudesse segurar em uma de suas coxas, próximo à sua bunda, apertando-a fortemente, sentindo sua respiração falhar com o movimento. A mão que antes estava em meu ombro, desceu para meu peito, amassando a blusa que eu usava e escorregando novamente para minha cintura, movimentando os dedos pela mesma.
Soltei um suspiro pela boca que fez com que ela se afastasse por alguns segundos e abrisse um sorriso que durou pouco, pois logo depois, meus lábios já estavam colados no seu novamente, dando pequenas mordidas em meu lábio inferior e explorando minha boca com sua língua. Minha mão adentrava a blusa justa que ela usava. Ela se ajeitou em meu colo, se colocando de joelho, com uma perna de cada lado do meu corpo e se sentou sobre as minhas coxas, aquele momento fez com que minha ereção começasse a dar sinais de vida e notava isso, pois parecia que ela fazia questão em manter-se ali.
A cada movimento e a cada suspiro, os lábios ficavam mais urgentes, as mãos ficavam mais rápidas, os suspiros mais altos e o ar faltava mais rápido. Quando ela deslizou seus lábios pelo meu queixo até meu pescoço, meu corpo estremeceu. O ar saía falhado da minha boca, aquilo era maravilhoso. Ela intercalava entre beijos e chupadas sobre a pele e a única coisa que eu podia fazer era apertar sua cintura a cada movimento dela e suspirar.
De repente suas mãos estavam em minha cintura e minha blusa deslizava para fora do meu corpo, ajudei, livrando as mãos da manga comprida rapidamente. Não tinha mais volta, mas eu não queria voltar para lugar nenhum mesmo. Seus lábios desceram para meu peito e alguns beijos foram depositados em cima da minha tatuagem. Já que ela não conseguia fazer nenhum movimento mais abaixo, sentada em meu colo, ela apertou as mãos na lateral da minha barriga, na região da outra tatuagem em meu tronco. Soltou um suspiro contra minha pele e ergueu o rosto novamente, com um sorriso totalmente novo no rosto, provavelmente o mesmo sorriso que eu estava, ela findou seus suspiros com uma mordida no lábio inferior.
Meus dedos dançavam pela barra da sua blusa e tocavam sua pele quente, mas eu não aguentava mais, essas preliminares já estavam me enlouquecendo. Puxei sua blusa em um movimento rápido e por um momento ela pareceu surpresa, mas só pareceu, pois ela desfez da blusa com as suas mãos e a jogou no chão ao meu lado. Eu não sabia se encarava seus olhos ou se olhava para o par de seios dentro do sutiã azul escuro. Mas, naquele momento ela queria minha atenção só para ela, pois em um movimento rápido de sua cabeça e olhar para trás, eu sabia que ela queria sair dali.
Firmei minhas mãos em suas coxas e em um rápido movimento tirei as botinas dos meus pés, jogando-as no tapete de e me impulsionei para cima. Ela rapidamente colocou as duas mãos em meu pescoço e se apoiou em mim. Seu corpo encostou-se ao meu e suas mãos bagunçavam meus cabelos. Andei até o último cômodo do corredor e adentrei seu quarto. Nunca havia entrado ali, mas não seria naquele momento que eu o analisaria. Segui reto até que minhas duas pernas não pudessem prosseguir por causa da cama de casal e a deitei delicadamente sobre a superfície macia. Ela escorregou o corpo sobre a cama, até que sua cabeça estivesse entre os dois travesseiros, com seus cabelos arrepiados, devido ao laço de que os prendia.
Fixei meus olhos nos dela de forma diferente. Ela passou as mãos nos lençóis de forma chamativa e eu desafivelei meu cinto, deixando-o em algum lugar pelo cômodo. Em seguida, foi à vez do botão e zíper da calça, que foram abertos e fez com que o jeans escorregasse pelas minhas pernas.
- Ok, esse corpo é injusto! – Ela soltou uma risada fraca, mordendo os lábios em seguida, tentando controlar a respiração.
Ajoelhei sobre a cama e posicionei as duas mãos na lateral do seu corpo e encostei meu corpo no seu, dando um curto beijo em seus lábios. Suas mãos imediatamente subiram para minhas costas e suas unhas deslizaram por elas, causando um arrepio.
Desci minhas mãos pela lateral do seu corpo, distribuindo beijos desde seus seios até passar pela sua barriga, vendo-a se contrair de diversas maneiras e suspiros baixos escaparem de seus lábios. Coloquei minhas mãos sobre sua calça jeans e soltei o botão, desci o zíper tentando manter a calma, mas minha ereção não estava com tanta calma assim. Puxei a calça pelas laterais e ela estendeu as pernas e levantou o quadril, colaborando comigo. Por um momento, eu tive que parar o trabalho e tirar as meias dos seus pés e jogá-las para trás. Sua calça se soltou em minhas mãos e ela juntou as pernas uma na outra.
Por um momento eu não sabia o que fazer a seguir, só queria olhá-la. Seu corpo combinando perfeitamente dentro daquele conjunto de lingerie, a pele arrepiada por causa do frio, os cabelos também, os lábios avermelhados e algumas marcas vermelhas que eu havia deixado em sua barriga. Ela tinha as coxas mais gostosas que eu já havia visto, lembro em alguns jantares que ela as cruzava e me fazia ter alguns pensamentos inapropriados. Ela ergueu uma das mãos e passou em seus cabelos, soltando-os do laço que caiu ao seu lado na cama. Ela sentia vergonha quando eu ficava olhando muito, mas não era minha culpa se ela chamava bastante atenção.
- Você precisa parar de fazer isso! – Ela comentou o que eu pensava e eu ri.
- E você precisa parar de ler meus pensamentos! – Falei para descontrair e ela chacoalhou a cabeça.
Deixei que meu corpo caísse lentamente, encaixando minhas pernas entre as dela. Uma mão se apoiou na cama e a outra se manteve firme em sua cintura, dando pequenos apertões, enquanto minha boca passeava pelo seu pescoço e pelos seus seios cobertos pelo sutiã. Suas mãos faziam o mesmo movimento em minha cintura e seus lábios tocavam minha cabeça levemente, enquanto uma de suas pernas se mantinha entrelaçada em minha cintura.
Com uma arqueada em suas costas e um movimento de suas mãos, seu sutiã saiu voando para o chão. Ajeitei-me sobre seu corpo, dando um curto beijo em cada um de seus seios e ergui meu rosto para perto do seu. Meu nariz tocou o seu por um tempo e pude notar que sua respiração estava descompassada, igual a minha. Seus olhos focaram nos meus e eu movimentei a cabeça, em sinal de permissão, e ela, sem dizer uma palavra, fechou os olhos delicadamente e fez um movimento afirmativo com a cabeça. Coloquei as duas mãos na lateral de sua calcinha e a puxei lentamente para baixo, fechou os olhos por um momento e eu suspirei, vendo a reação que eu causava nela, pois era a mesma que ela causava em mim.
Distribuí alguns beijos em suas pernas enquanto descia a peça e, no fim, joguei-a para o lado, vendo ela se misturar com as outras. Coloquei meus dois pés no chão e, desajeitadamente, procurei pela minha calça rapidamente, achando a mesma e pegando uma camisinha dentro da minha carteira. tirou o envelope da minha mão e puxou sua ponta com o dente e logo tinha a camisinha de plástico em sua mão. Ela ajoelhou sobre a cama e eu fiz o mesmo. Ela colocou as mãos no cós da minha cueca e a abaixou lentamente até meus joelhos, eu me livrei da mesma em um movimento rápido. Seus olhos se fixaram nos meus por um tempo e procurei seus lábios urgentemente. Passei minhas mãos pelo seu corpo e a deitei novamente na cama.

Fiquei encarando seu peito subindo e descendo embaixo do lençol, enquanto seus olhos se mantinham fechados. Ergui uma mão e tirei uma mecha de cabelo que caía em seu rosto. Ela se mexeu ao meu lado e virou o corpo em minha direção, abrindo seus olhos lentamente.
- Não dormiu? – Ouvi sua voz baixa e ela passou um dos braços pela minha barriga e suspirou, encostando seu corpo nu sobre o meu.
- Não! – Falei simplesmente e coloquei minha mão sobre a sua, entrelaçando nossos dedos.
- Que horas são? – Ela perguntou meio sonolenta.
- Quase quatro. – Falei olhando rapidamente o relógio ao meu lado.
- Ah! – Ela deu uma gemida descontente ao meu lado e eu ri. – Não quero ir trabalhar. Não quero sair daqui! – Apertei um dos meus braços em seu corpo e ela sorriu.
- Não precisa. – Ela sorriu e fechou os olhos novamente.
- Quem dera fosse fácil assim. - Ela falou baixo.
Suas mãos faziam um carinho gostoso em meu peito, sua mão sumia por debaixo das cobertas e aparecia logo em seguida. Ela depositou um beijo na lateral do meu corpo e ergueu os olhos encontrando os meus. Sua cabeça estava em meu braço, e minha mão caía em suas costas, acariciando sua pele levemente.
- Eu não disse, , acho que estava muito extasiada para falar alguma coisa. – Ela falou e eu franzi a testa. - Mas eu também te amo! – Ela falou com os olhos fechados e eu abri um sorriso largo.
Ela abriu os olhos e se levantou, sentando ao meu lado. Suas costas ficaram descobertas e uma de suas mãos segurava a coberta que cobria seus seios, eu achava isso engraçado, depois de tudo que havia acontecido, ela ainda fazia questão de esconder seu corpo.
- Eu tenho que te contar uma coisa. – Ela falou e virou seu rosto para mim. – Quando eu te conheci, era sua fã! – Ela começou. – Ou seja, eu te amava como uma fã. Então, naquele jantar no hotel, e na viagem para Cleveland, estava extasiada, meio idiota também. Era mais ou menos “nossa, meu ator favorito, meu ídolo”. – Ri com ela. Então eu meio que te amava já, mas era de um jeito diferente. – Ela comentou e soltou uma risada, como se risse de si mesma. – Mas quando você apareceu em casa e teve aquela tensão toda, o trabalho, as piadas, as risadas, outra coisa nasceu dentro de mim. – Ela virou o rosto para mim, erguendo as pernas. – Até que você me beijou. – Ela suspirou, lembrando o fato. – Não era meu ator favorito que estava me beijando. Era outra pessoa, muito parecida com meu ator favorito, por sinal! – Soltei uma risada. – Eu estava beijando o . Então, posso dizer, que eu não te amo só como , eu te amo como também. É diferente, sabe?! – Ela soltou uma gargalhada, escondendo o rosto no meio das pernas. – Isso tá confuso demais! – Eu gargalhei junto dela.
- Não está! – Eu me sentei à sua frente e coloquei um dedo em seu queixo, erguendo seu rosto e a vi rir. – Eu te entendo... Bem, eu acho. – Ela soltou uma risada e estalou seus lábios em minha bochecha. – Não importa, ! – Falei. – Eu te amo como minha assessora e como essa pessoa estranha que você é!
- Obrigada! – Ela falou irônica, me dando um tapa no ombro.
- Essa brasileira divertida, inteligente, linda, sexy. – Ela balançou a cabeça e eu ri. – Você não precisa escolher, você pode ter ambos. – Falei e ela sorriu, virando de costas para mim e encostando suas costas em meu corpo, quando a abracei pela cintura. – Tanto o como o te amam. – Sussurrei ao pé do seu ouvido.
- Eu os amo também! – Ela falou encostando a cabeça em meu ombro e fechando os olhos novamente.

Abri meus olhos e me vi sozinho em sua cama, seu lado estava bagunçado, o relógio já passava das nove horas da manhã de uma quinta-feira. Ela deveria estar no trabalho. Ergui meu corpo sentando na cama e me espreguicei, ouvindo os ossos das minhas costas estralarem, passei a mão em meu rosto e joguei as cobertas bagunçadas para frente. Dei uma olhada geral no quarto e peguei minha cueca que estava ao lado da cama. A vesti e caminhei até o banheiro, fechando a porta do mesmo. Fiz minha higiene matinal e encarei meu rosto no espelho, eu estava ridiculamente feliz, o sorriso não sumia, passei a mão em meu rosto e cabelos e o sequei.
Abri a porta e voltei para o quarto, pegando minha calça e vestindo-a, afivelando o cinto. Andei até a sala, procurando o resto das minhas roupas e minha blusa não estava no sofá, mas sim na pessoa que vinha deslizando no piso só de meias. Ela tinha o celular apoiado em seu ombro, enquanto mexia em um pouco da canjica da noite passada.
- Isso, por favor, Derek! – Ela soltou uma risada, com algo que Derek falou. – Isso, por favor. Não! Fala que eu estou com intoxicação alimentar e não consigo levantar da cama, e... – soltou uma gargalhada. – Pode ser por isso também, mas melhor não contar à Melina. – Ela mordeu o lábio inferior. – Isso, ok, amanhã ela vai estar em San Diego e teremos folga, podemos sair para almoçar. – Ela confirmou algumas coisas com a boca. – Claro, chama o Rupert também. Ok, me deixa ir, ele acordou. – Ela falou, erguendo os olhos para mim e piscou. – Ok, obrigada. Tchau! – E desligou o aparelho, o colocando na mesa. - Se alguém te perguntar, estou com uma péssima intoxicação alimentar, ok?! Culpa da feijoada! – Ela falou dando de ombros e virando o que sobrava da canjica em um gole só.
- E a Melina caiu nessa? – Perguntei me aproximando dela.
- Isso o Derek vai contar para gente depois! – Ela riu e eu encostei meus lábios em sua testa.
- Bom dia, ! – Falei e ela colocou o pote vazio na mesa e passou os braços pelo meu corpo.
- Bom dia, ! – Ela riu e encostou os lábios nos meus rapidamente.
- Eu quero minha blusa de volta. – Estendi minha mão para ela.
- Você já sabe onde isso vai dar, certo?! – Ela me encarou. – E, definitivamente, não estava pensando muito em roupas hoje.
- Preciso estar em San Diego só amanhã mesmo.
- O que é muito bom por sinal. – Ela deu de ombros e riu. – Eu não vou trabalhar hoje, então, pode escolher o que quiser fazer e onde também.
- Posso escolher “com quem” também?
- Se essa pessoa for eu, pode! – Ela riu e deu de ombros, virando o corpo, voltando para a cozinha.
- Pelo jeito você não vai para San Diego. - A segui, parando na porta da cozinha, vendo-a lavar o pote e a colher que usava.
- Não vai ser dessa vez. - Ela virou o rosto para mim. - Eu queria muito ir, não só para te acompanhar, mas pela Convenção mesmo, mas alguém precisa soltar as informações, certo?! - Ela deu de ombros. - Sexta eu não trabalho, mas sábado sim, vou ficar de plantão.
- Que droga! - Comentei e ela riu.
- É, mas ainda temos um tempo só para nós. - Ela piscou.

soltou um suspiro e eu me levantei da cama, me livrando da camisinha no banheiro. Passei uma água em meu rosto e voltei para o quarto, vendo-a, com a respiração acelerada, soltar uma risada, quando eu coloquei uma perna em cada lado do seu corpo e passei meus lábios em sua barriga, entre seus seios, e dei uma mordida em seu pescoço, subindo para seu queixo e lábios, deixando meu corpo cair ao seu lado. Ela virou o corpo para baixo, ficando de bruços na cama e abraçou o canto do travesseiro, encostando a cabeça no mesmo.
- Eu vou ficar mal acostumada. – Ela comentou com a voz manhosa e eu ri.
- Sabe... Eu gostei dessa cama! – Ela soltou uma risada e eu virei meu corpo, passando minha mão em suas costas.
- Queria que você ficasse, mas também quero saber as novidades de “Poseidon 2”. – Soltei uma risada e ela aproximou seu rosto do meu. – Você não precisa ir.
- Ah, eu tenho, viu?! – Ela fez um bico e soltou uma risada logo em seguida. - Eu vou viver em Boston, você vai ver. – Encostei meus lábios nos dela.
- Por favor, não consigo ficar mais longe de você. – Subi minha mão para seus cabelos e pressionei meus lábios nos seus.
- A gente vai fazer isso dar certo. – Falei e ela sorriu.
- Quais são seus próximos compromissos? – Ela perguntou.
- Tenho estreia de “À Procura do Amanhã”, vou para Coreia na semana que vem. – Falei e ela entortou a boca. – E tenho que dar uma passada em Los Angeles antes para algumas reuniões do filme que eu vou dirigir.
- Melina comentou. Sobre o que vai ser o filme? – Ela perguntou de olhos fechados.
- Dois estranhos desolados se encontram na estação central de Nova York e começam a compartilhar experiências.
- Você já aprendeu a tocar trompete para o personagem? – Ela perguntou e eu ri.
- Ainda não!
- Essa vai ser interessante! – Ela comentou em deboche.
- Ri mesmo, dona , ri mesmo! – Ela abriu um sorriso torto, devido ao travesseiro pressionado à sua bochecha e eu ri.
- E depois? Qual compromisso você tem?
- Tenho que ir para uma reunião em Nova York e depois tem a convenção da Máxima!
- Já tá perdendo a graça isso! – Ela falou sem graça.
- Vem comigo! – Comentei.
- Onde? – Ela franziu a testa.
- Tudo, posso tentar pedir para Melina tirar umas férias e você me acompanha em algum evento.
- Tem certeza? – Ela perguntou e eu concordei com a cabeça.
- Depois de hoje, estou pronto para seguir qualquer passo que você quiser dar. – Ela abriu os olhos e levantou o rosto com um largo sorriso.
- Qualquer um? – Ela perguntou.
- Qualquer um! – Confirmei e senti seus lábios pressionados nos meus rapidamente.



Capítulo 5

(Eu encontrei uma mulher mais forte do que qualquer pessoa. Ela compartilha meus sonhos, espero um dia compartilhar a casa dela. Encontrei um amor para levar mais do que meus segredos, para levar amor, carregar nossas próprias crianças - Perfect, Ed Sheeran)

- O que você acha, Derek? - Melina cruzou os braços em cima do corpo e dividiu o olhar de Derek à mim algumas vezes.
- Você sabe que pode confiar nela, Melina, nos dois, na verdade. - Derek disse ao meu lado e ouvi um suspiro de Melina. Meu corpo estava tenso na cadeira e eu podia sentir o suor dentro dos meus sapatos.
- É, eu realmente confio em você, ! E nele também. - Suspirei e ela se levantou da cadeira. - Sobre o relacionamento dos dois, vocês que vão decidir quando vão aparecer para a mídia, sobre isso eu não faço nenhuma objeção, afinal, a vida é de vocês e vocês já estão grandinhos demais para tomar suas próprias decisões. - Assenti com a cabeça. - Só, por favor, te peço duas coisas.
- Pode dizer, Melina! Eu faço o que você achar melhor! - Aproximei meu corpo da ponta da cadeira.
- A primeira é assim, ele não pode faltar em nenhum evento, a não ser que esteja morrendo, ok?! - Afirmei com a cabeça. - Mas isso ele já sabe, a agenda que você recebe, é exatamente a mesma da dele. E, você já deve ter notado que ele é a pessoa mais preparada da sala, não?! Às vezes mais que a gente. - Confirmei com a cabeça, soltando uma risada fraca.
- Pode deixar. - Falei.
- Ele só tem que estar na coletiva de imprensa do filme na parte da tarde e, à noite, ir à première do filme. Combinado? - Confirmei com a cabeça. – E também vou te liberar para ir com ele para Nova York para as reuniões de “O Trem da Meia-Noite” que ele tem, está bem?
- Está bem! - Confirmei, sentindo um sorriso meio exagerado se formar em meu rosto, o qual eu não podia demonstrar. Melina se sentou novamente em sua cadeira, apoiando as costas no encosto.
- E tem uma segunda coisa, que eu vou pedir como amiga dele. - Ela apoiou os cotovelos na mesa e suspirou. - Trate-o bem, ok?! Ele já teve vários relacionamentos e nenhum que eu realmente tenha gostado, mas agora é diferente, você não é nenhuma atriz, modelo ou cantora que eu precise me preocupar com a sanidade ou algo assim. - Soltei uma risada nasalada. - Na verdade, você é tudo o que eu tenho pedido para que ele seja feliz, faz um bom tempo. - Pressionei meus lábios um no outro, sentindo meu rosto encher de lágrimas. - Trate-o bem, tá bem? Porque eu sei que ele vai te tratar. - Estendi minha mão e segurei as dela sobre a mesa.
- Eu vou, Melina! - Suspirei. - Eu o amo. - Ela abriu um sorriso e Derek deu um pulo ao meu lado.
- Opa, opa, opa! - Ele falou e encostou a mão em meu ombro, fazendo com que eu virasse o rosto para ele. - Você não me disse isso! - Melina soltou uma risada.
- Desculpa, mas isso me interessa também! - Ruth apareceu na porta de Melina e eu soltei uma gargalhada.
- Ei! Minha vida romântica interessa a todo mundo? - Perguntei afastando a cadeira um pouco para poder olhar para todos.
- A sua um pouco, a do , bastante, viu?! Já sofremos um pouco com essa situação toda. - Derek comentou irônico e eu balancei a cabeça. - Mas já aconteceu? Você já disse?
- Nós já dissemos. - Comentei e os três explodiram de felicidade a minha volta, se aproximando o máximo possível para que eu continuasse a história. - Sério?! - Perguntei rindo.
- Sério! Agora continua. - Ruth comentou.
- Ele passou em casa, antes de ir para Convenção, na quarta passada. A gente tinha combinado de se encontrar, eu fiz um jantarzinho só para nós dois, enfim... - Pulei essa parte. - Depois, a gente sentou para ver um filme e tal, eu estava prestando atenção no filme e uma hora eu notei que ele estava me observando, aí eu olhei para ele e ele disse. - Fui falando mais baixo, lembrando o momento em que ouvi aquelas três palavras, que eu tinha medo de falar por não saber se ele sentia o mesmo.
- Ele disse antes?! - Derek quase gritou na minha orelha, eu confirmei com a cabeça. - E aí?! - Ele continuou gritando.
- E aí que eu fiquei tão extasiada que uma coisa levou à outra e quando eu vi...
- Essa parte eu já sei! - Derek abanou a mão e eu ri.
- O que aconteceu? - Melina apertou as mãos na mesa.
- Eles transaram! - Derek voltou a gritar.
- A história é de quem, por favor? - Perguntei dando um tapa em sua perna.
- Sua, mas é tão bonitinho ver você toda envergonhada! - Ele sorriu e passou os braços pelo meu corpo, me abraçando.
- Você não disse? - Ruth perguntou atrás de mim.
- Disse! Depois. - Suspirei. - Eu estava tão extasiada que as coisas foram rolando e só depois eu me toquei que eu havia pensado, mas não havia dito. - Suspirei. - Aí eu disse. - Suspirei novamente, passando a mão na trança em meu cabelo, sentindo meu rosto esquentar novamente.
- Ah, , que vocês sejam muito felizes, mesmo, mesmo! - Ruth passou os braços pelo meu pescoço, me abraçando.
- Vou tentar! - Abri um sorriso.
- Vai conseguir! - Melina falou e se levantou em um pulo da cadeira. - Vamos trabalhar galera! Um, dois! – E saiu expulsando todo mundo da sala dela, enquanto batia uma mão na outra. - Daqui a pouco eu te entrego a agenda, ! O avião para Los Angeles sai amanhã depois do almoço, ok?! - Melina falava enquanto eu entrava na minha sala. - Tem quarto reservado num hotel que a gente tem afiliação, mas creio que você vai ficar em Hollywood Hills. - Soltei uma risada, sentando na minha cadeira.
- Vou falar com ele hoje à noite, qualquer coisa eu ligo no hotel.
- Combinado, então! A gente vai se falando. Vou ficar em Boston essa semana. - Melina disse e eu afirmei com a cabeça.

Entrei em casa, ouvindo a porta bater com o chute que eu havia dado e larguei tanto a papelada, quanto minha bolsa no escritório e caminhei até meu quarto, me livrando dos sapatos de salto e deitei na cama. Eu estava acabada, quebrada, trabalhar no fim de semana havia me detonado, pelo menos teria folga na manhã do dia seguinte e mais algumas ao longo da semana. Eu também viajaria para a Coréia do Sul! Não que fosse meu sonho ir para a lá, mas eu iria para outro país, além de Brasil e Estados Unidos. Isso já era alguma coisa.
Puxei o travesseiro com a mão e o abracei, ainda sentindo o cheiro do perfume de impregnado nele. Cara, que perfume delicioso. Afundei o rosto no travesseiro e suspirei, sentindo meus olhos fecharem devido ao cansaço. Podia ficar assim por pouco tempo, mas meu celular vibrou dentro do bolso da calça jeans. Rolei na cama, ficando de barriga para cima e arranquei o celular do bolso apertado e, sem mesmo olhar, deslizei o botão verde e coloquei no viva voz.
- Alô? - Falei com a voz abafada.
- ? - Ouvi a voz dele e dei um pulo na cama, ficando de bruços e colocando o celular entre meus braços.
- Ei! - Falei com a voz mais animada.
- Tá tudo certo? - Ele perguntou preocupado.
- Só estou cansada. Então, se eu dormir, tá tudo certo! - Falei e bocejei em seguida.
- Vou falar rápido para te deixar dormir, então, ok?!
- Não, pode falar. Gosto de ouvir sua voz. - Falei, seguido de um suspiro.
- Só quero deixar claro que você ficará aqui em casa amanhã, ok?! - Ele falou e eu abri um largo sorriso.
- Isso não deveria ser um convite? - Perguntei, seguindo de uma risada nasalada.
- Não! - Ele falou direito. – Está mais para convocação mesmo.
- Ah, é assim agora?! - Ele gargalhou do outro lado da linha.
- Ah é! - Eu ri. - Não, falando sério agora. Você nunca veio para L.A. e nada mais justo do que conhecer minha casa. - Soltei uma risada.
- Casa, ? Eu moro em uma casa! - Falei frisando a palavra. - Você mora no... Lugar dos meus sonhos, tá?! - Frisei a última palavra novamente.
- Não existe surpresa ou segredo para você, não é?!
- Me demita da sua equipe que vai ter. - Falei debochando.
- Vai ser mais difícil para a gente se ver, melhor não. - Ele comentou e eu gargalhei. - Precisamos disso.
- Com certeza. - Falei e joguei meu corpo na cama, ficando de barriga para cima.
- Preciso levar alguma coisa para ai? - Perguntei dando uma olhada geral em meu quarto.
- Se trazer é uma coisa boa! - Revirei os olhos.
- Estou falando sério, !
- Traz roupa de banho. - Ele falou suspirando. - Podemos passar à tarde na piscina.
- Aí vi vantagem, hein?! - Falei rindo e ouvi sua gargalhada. - Pode deixar, vou colocar na mala agora.
- Eu vou ter uma reunião e não sei que horas ela acaba, mas te encontro em casa? - Ele perguntou.
- Sem problemas, vai saber onde me encontrar. Estarei abusando da sua piscina. - Ele riu.
- Vou avisar para o segurança que você tem livre acesso. - Abri um sorriso.
- Acho bom mesmo! - Suspirei, ouvindo somente sua respiração pelo telefone.
- Vou deixar você descansar. - Ele comentou. - A gente se vê amanhã? - Ele perguntou.
- Com certeza! - Suspirei, mordendo meu lábio inferior. - Eu te amo, ! - Suspirei novamente.
- Eu te amo, ! - E desliguei a ligação, apertando o celular na minha mão, soltando um suspiro alto.

- Obrigada! - Falei para o taxista, recebendo o troco e guardando-o de qualquer jeito no bolso da calça.
Saí do carro, fechei a porta e encarei o muro de madeira que circundava toda a "casa" de . O muro não era muito alto, mas a casa também só tinha um andar. Então, do lado de fora, só era possível ver o telhado. Em uma parte tinha um portão largo e descendo um pouco a rua, também preenchida com o muro de madeira, uma porta e ao passar por ela, a campainha. Passei pela primeira porta que estava destrancada e toquei a campainha, rezando para que alguém atendesse.
- Olá, quem é? - A voz do outro lado falou.
- Oi, sou ...
- Ah sim, namorada do senhor ! - A voz falou novamente, me fazendo arregalar os olhos. - Pode entrar, te encontro aqui. - E em um estralo, o portão de dentro destravou.
Ajeitei a mochila nas costas, a bolsa no braço e empurrei o portão preto, dando de cara com uma construção baixa, um caminho à minha frente, um jardim à esquerda e dois bancos à direita. O mato era levemente alto, mas de um jeito rústico, não largado. Passei pelo caminho a passos lentos e parei em frente da porta de madeira que um homem alto, magro e negro a abriu, ele chegava facilmente a dois metros de altura.
- Oi! - Falei, abrindo um sorriso.
- Olá, senhorita ! Entre! - Ele falou dando espaço para eu passar.
Um curto e largo corredor sem decoração se abria para o que seria a cozinha e a sala de estar de . A cozinha inteira era feita de móveis de madeira e pedra branca sobre a madeira. Ela estava muito bem arrumada, como se alguém não mexesse nela há tempos. Na bancada ficava o fogão e algumas gavetas e armários e, colado na parede, outros eletrodomésticos que eu só conhecia em sonhos.
Passando a cozinha, uma sala de estar com sofás cinza, mesa preta e tapete branco ocupavam o espaço. À frente da sala, longas portas abertas mostravam um pouco do quintal. Algumas espreguiçadeiras colocadas em frente as portas e, ao lado, podia-se ver o começo de uma piscina. O sol em Los Angeles estava ótimo e, devido ao horário, ele começava a se por.
- pediu para eu te mostrar a casa, depois você pode ficar à vontade, ele volta só mais tarde. - Afirmei com a cabeça.
- Qual o seu nome? - Perguntei, enquanto ele passava por mim e ia para a esquerda, passando pela sala de estar e a cozinha, quando pude ver outra sala, dessa vez com móveis brancos, e uma mesa de vidro que decorava o local com um vaso grande sobre a mesma. Em cima, a lareira, uma televisão colada na parede e janelas fechadas nas laterais.
- Sou Jordan, senhorita.
- Não precisa dessa formalidade toda, Jordan, por favor! - Soltei uma risada nasalada e ele afirmou com a cabeça.
- Como quiser! - Sorri.
Ele me acompanhou por todos os cômodos da casa, desde a sala de cinema e os quartos de hóspedes, até que andamos por um longo corredor, com somente duas portas, uma à direita e outra no fim do corredor.
- À frente tem mais um quarto de hóspedes e aqui é o quarto do senhor , senho... ! - Confirmei com a cabeça, olhando o quarto da porta, não me ousando entrar no mesmo.
O quarto tinha a parede em tons acinzentados, uma cama alta com diversos travesseiros, um banco largo aos pés da cama, uma poltrona de cada lado, uma porta aberta que dava para um closet e outra que deveria ser um banheiro. À frente da cama, nas portas de correr, um deque com duas poltronas uma de frente para outra, com uma aparência muito confortável e uma pequena mesa entre as duas, do tamanho de um tabuleiro de xadrez. As portas estavam abertas, então um vento gostoso passava por elas.
- Nada mal, ! - Falei baixo, soltando uma risada sozinha.
- Ele pediu que a senhora ficasse aqui. - Virei para o lado e arregalei os olhos.
- Aqui? - Jordan afirmou com a cabeça. - Ah, que ótimo! - Falei em um tom irônico na voz.
- Ele pediu para que ficasse à vontade. Qualquer coisa você pode me chamar, ou ao outro segurança, Larry, pelo número sete do telefone. - Ele me entregou um aparelho que parecia muito com meu celular, mas era um pouco mais fino e mais comprido.
- Ah, sim! Obrigada, Jordan! – Ele saiu pelo corredor me deixando parada na porta do quarto de .
Por um momento fiquei parada na porta, pensando exatamente o que fazer. Entrei no quando, coloquei minha bolsa e mochila em cima do banco largo em frente à cama e sentei na ponta que sobrou. Estendi a mão pela colcha branca e a acariciei, abrindo um sorriso pela maciez do tecido. Em um pulo, eu me joguei de costas no meio da cama, sentindo meu corpo afundar sobre a superfície macia, rindo comigo mesma pela situação. O cheiro denunciava que passava muito tempo ali. Ouvi meu celular apitar e o tirei do bolso, encontrando uma mensagem do dono daquela cama:
"Aproveitando a piscina? Aqui vai demorar mais que o planejado, mas pretendo aproveitar contigo um pouco, beijos."

Balancei a cabeça, cogitando a ideia, e me levantei da cama em um pulo, alisando a colcha, tentando não parecer que uma louca havia pulado nela. Abri minha mochila rapidamente e puxei minha toalha e um biquíni roxo que eu havia levado a pedido do senhor .
Entrei no banheiro, quase tendo um infarto com o tamanho dele, aquilo facilmente era do tamanho de metade do meu apartamento em Boston. À direita uma longa pia de mármore branco e armários pretos, à frente, uma longa banheira e, ao lado, uma poltrona, à esquerda um boxe largo que deveria ser três vezes o tamanho do meu cubículo em Boston e ao lado dele, o vaso sanitário.
Me aproximei da janela e dei uma risada com a vista. Eu estava em outro mundo. Tirei meu vestido, dobrando-o delicadamente, deixando em cima da pia e dobrei a calcinha em cima de tudo. Coloquei a parte de baixo do biquíni, ajeitando nas laterais e no bumbum, amarrei a parte de cima nas costas e depois no pescoço, apertando para que não caísse. Me olhei no espelho e soltei meus cabelos, que estavam bagunçados e os amarrei novamente em um rabo de cavalo. Voltei para o quarto, peguei minha toalha e saí pelo corredor, atravessando-o. Chegando na sala, aos passar pelas portas de vidro, pude sentir o vento de L.A. já espetar alguns fios do meu cabelo. Andei até uma das espreguiçadeiras e estendi minha toalha e deitei, fechando os olhos.
A vista que eu tinha daquele lugar era incrível, eu estava, literalmente, no topo de Hollywood Hills, podia ver algumas mansões, a vegetação, e também o sol começando a se pôr na cidade dos anjos. Jesus, eu estava na Califórnia, só tinha me dado conta daquilo agora. Eu definitivamente podia ficar um bom tempo assim. Sol, vento, piscina, essa vista, só estava faltando o...
- ! - Ouvi uma voz vindo de dentro de casa e me assustei, me sentando na espreguiçadeira e virando meu rosto para trás, quase caindo. - ! - Me levantei e reconheci o irmão mais novo de passando pelos cômodos à procura do irmão. Ferrou. Puxei a toalha, amarrando-a apressadamente na cintura e vi Seth voltar do corredor dos quartos e me ver, isso não estava nos meus planos. - Ah, então é você! - Ele falou deixando sua mochila no sofá e se aproximando de mim. - Me deixa adivinhar, você é a nova namorada do meu irmão? - Franzi a testa e balancei a cabeça.
- O que ele te contou? - Perguntei, o vendo sorrir.
- Que ele está apaixonado por uma mulher incrível! - Não pude conter um sorriso gigante que apareceu no meu rosto.
- Eu vou jogar tanto isso na cara dele. - Falei e ele riu. - Se for de mim que ele está falando, sou .
- É, bem que ele tinha me dito um nome diferente. - Ele se aproximou e me abraçou apertado e, por um momento, eu não sabia o que fazer. - Sou Seth.
- Oi! - Falei rindo e ele me soltou.
- Olha, eu não te conheço, mas com certeza ele escolheu bem. - Ele falou apontando para meu corpo e eu soltei uma risada. - E você também é bem humorada. - Dei de ombros, rindo novamente.
- Para mim tudo tem graça, viu?! Honestamente. - Ele soltou uma risada nasalada.
- Cara, eu estou me perguntando como isso aconteceu. - Ele falou exagerando nos movimentos das mãos.
- O quê?
- Como ele não está com alguma atriz. Você deve ter realmente roubado o coração dele e o está mantendo muito bem escondido.
- Olha, isso eu não sei! - Falei, mexendo as mãos. - Mas se isso aconteceu, ele deve estar com o meu.
- Ah, que lindo! - Ele falou com sua voz mais fina. - Já gostei de você. - E me abraçou novamente, me prendendo em seus braços. Seth deveria ser exatamente da mesma altura que eu, o que facilitava essa demonstração de afeto por mim.
- Isso significa muito para mim, sabia? - Falei olhando para ele.
- Pontos comigo você já tem, pode ter certeza. - Ele me soltou. - Quando for conhecer a família, eu estarei do seu lado.
- Ah, com certeza vou precisar. - Ele riu. - É verdade que sua mãe nunca gostou de nenhuma namorada dele? - Seth balançou a cabeça, fazendo uma careta, mas sem dizer nenhuma palavra, eu franzi a testa, imitando sua careta. - Então! Uma ajuda com certeza vem a calhar.
- Eu gostei de você, , mesmo! - Ele voltou para dentro de casa, pegando sua mochila.
- Você estava atrás do ? Faço meio período namorada e meio período assessora, posso te ajudar? - Ele riu, colocando a mochila nas costas.
- Na verdade, eu estou na cidade encontrando uns amigos, só passei para irritar mesmo. Sabe que horas ele volta?
- Realmente não sei, estou esperando também. - Coloquei as mãos na cintura.
- Fala para ele que eu passei aqui, amanhã vocês vão para Coréia, certo?! - Afirmei com a cabeça. - Qualquer coisa eu passo aqui mais à noite.
- Fica à vontade, provavelmente ficaremos aqui. - Falei e soltei uma risada. – Meu Deus! Estou me sentindo a dona da casa, já!
- Aqui está precisando de uma mesmo, viu?! - Senti meu rosto esquentar e ri. - A gente se fala depois. - Ele se aproximou de mim e beijou minha bochecha. - Prazer em te conhecer, ! Que vocês dois deem certo. - Afirmei com a cabeça.
- Espero também, Seth! Prazer. - Sorrimos cúmplices. Ele passou pelo corredor, e pude ouvir a porta bater.
Um suspiro alto e forte saiu do meu corpo, meu Deus, eu acabei de conhecer o Seth. Passei as mãos desesperadas no rosto e notei que elas estavam tremendo. Meu Deus! Isso estava planejado? Honestamente, eu não sei o porquê do surto, ele tinha gostado de mim, não?! Bem, em cinco minutos de conversa, não é como se ele tivesse descoberto meu RG e meu tipo sanguíneo, mesmo assim,eu e o éramos algo meio secreto ainda, não?! Mas ele havia contado para o Seth, não era como se fosse muito segredo, ele só não tinha me visto ainda, certo? Ah, meu pai, eu estou surtando de novo.

Respirei fundo e voltei para a varanda, vendo o céu em um tom alaranjado se misturando com o azul claro. Larguei a toalha novamente na espreguiçadeira e caminhei até a beirada da piscina, me sentando na borda mais alta que tinha em algumas partes e coloquei as pernas na água morna, sentindo quase um alívio, pois pelo meu pequeno surto eu estava nervosa, tremendo e, possivelmente, gelada.
Estendi os braços para trás e os coloquei no piso frio, jogando meu corpo para trás, e fechei os olhos, sentindo minha perna se movimentar em círculos dentro da água. Ouvi um rápido barulho e, antes que eu pudesse abrir meus olhos, senti um beijo gostoso em minha bochecha, que me fez sorrir.
- Ei! – Falei com a voz baixa e senti seus lábios encostarem novamente em minha pele, dessa vez em meu ombro descoberto.
- Creio que estou um pouco atrasado, não é?! – Abri os olhos e o olhei de esgueio para trás, vendo seus olhos azuis bem próximos aos meus.
- Tá tudo bem! – Falei, me sentindo extasiada por estar perto dele, era sempre assim. Ele se movimentou, tirando os sapatos, e sentou atrás de mim, me deixando no meio de suas pernas. Antes que ele encostasse seu tronco em minhas costas, puxou sua camiseta de meia manga em um movimento e a jogou para o lado também, próximo a seus sapatos. Suas mãos estavam frias quando entraram em contato com a minha barriga, fazendo com que meu tronco arrepiasse, mas me fazendo relaxar, a sensação era ótima, era... Perfeita?!
Coloquei minhas mãos sobre as dele e acariciei suas mãos e seus braços com a ponta dos dedos, algumas vezes, até passando a unha sobre sua pele. Seu queixo estava apoiado em meu ombro e seus lábios passeavam pela minha pele de vez em quando.
- Como foi a reunião? – Perguntei em um tom de voz baixo.
- Nada de muito útil, na verdade. Desisti pelo cansaço, eu adiei uma parte, queria te ver. – Ele falou e eu suspirei. – Esperou muito?
- Um pouco. – Falei e suspirei. – Seu irmão passou aqui.
- Seth? – Ele falou em um tom de voz assustado e eu afirmei com a cabeça, soltando uma risada fraca. – Você conheceu o Seth?
- Conheci! – Falei simplesmente e ele apertou os braços em minha barriga.
- Conheceu, tá, e ai?! – Ele falou apressado.
- Ainda prefiro o irmão dele! – Falei brincando e ele bufou, afastando o corpo do meu e vindo sentar ao meu lado. – , calma! – Ergui a mão para seu rosto e o acariciei, sentindo os pelos que cresciam pinicar a palma da minha mão. – A conversa foi rápida, ele estava te procurando, falou que você tinha contado sobre mim, algo que eu gostei muito de saber. – Ele riu e colocou sua mão por cima da minha. – Disse que gostou de mim e que se eu precisar de um apoio quando for conhecer sua família, eu vou ter. – Senti um beijo na palma da minha mão e vi sorrindo.
- Você já tem a aprovação do meu irmãozinho, isso já é algo muito bom! – Afirmei com a cabeça e deslizei minha mão pelo seu rosto, levando meu polegar até seu lábio, fazendo o contorno dele com o dedo, pude ver fechar os olhos.
- Olhos sexy, boca sexy, corpo sexy, essa barba sexy, você tem algo de errado? – Perguntei em um tom de voz baixo e ele riu, abrindo os olhos.
- Isso você vai ter que descobrir. – Assenti com a cabeça, sentindo uma felicidade meio engraçada com aquilo, quer dizer que realmente tínhamos algo a mais? E abaixei minha mão.
- Estou ansiosa para isso. – Falei e em um impulso na borda da piscina, mergulhei, deixando todo meu corpo submergir na água e subir alguns segundos depois, passando a mão em meu rosto e abrindo os olhos novamente. – Vem, estava te esperando para aproveitar. – Falei, apoiando os braços na borda da mesma e minha cabeça nos braços, encarando ao meu lado.
se levantou da beirada e deu alguns passos para trás, correndo até a piscina e, em um impulso, mergulhou, espalhando água para os lados. Ele subiu para a superfície do outro lado e voltou devagar em minha direção, enquanto eu me afastava da borda e ia até o seu encontro também, parando no meio da piscina.
- Até parece uma criança! – Comentei quando me aproximei dele.
- Como você diz: eu tenho meus momentos. – Balancei a cabeça, soltando uma risada fraca.
- Afeta, é?
- Com toda certeza. - Passei minhas mãos pelo seu pescoço e passei a ponta dos dedos no mesmo, ouvindo um gemido baixo escapar de seus lábios. Elee colocou suas mãos no fim das minhas costas e fazia movimentos leves embaixo d’água. Encostei minha cabeça em seu ombro e fechei os olhos.
- Parece certo, sabia? – Falei baixo, contra sua pele.
- O quê? – Ouvi sua voz próxima a meu ouvido.
- Isso! – Falei simplesmente e o apertei mais em meu corpo.
Seu corpo se abaixou um pouco, fazendo sua testa encostar-se à minha e senti suas mãos apertarem firmemente minhas coxas e me puxar para cima, na altura de sua cintura. Pressionei minhas mãos em seus ombros, apertando-os fortemente com o movimento repentino, o vi rindo a minha frente e senti meu rosto esquentar um pouco.
- Não precisa me tratar como uma boneca, sabia? – Falei mordendo meu lábio inferior.
- Não consigo me conter. – Me aproximei, colando os corpos e toquei nossos lábios rapidamente, em uma brincadeira até que sem graça. Só um roçar de lábios.
mordeu meu lábio inferior, me permitindo apertar mais meu corpo no dele e o soltou em seguida.
- Sabe de uma coisa? – Ele falou após soltar meu lábio. – Isso é certo! – Ele continuou, se referindo à gente e eu sorri, tocando meus lábios nos dele mais uma vez, antes de soltar meus braços de seu pescoço e deitar sobre a água, com as pernas entrelaçadas em sua cintura e suas mãos firmes na minha.

O despertador do meu celular tocou exatamente na mesma hora que relógio do apitou ao seu lado, então, o meu sonho havia sido duplamente interrompido. Senti seus braços me soltarem e ouvi sua mão bater forte no relógio, enquanto eu desativava meu celular.
Como de costume, eu imediatamente virei meus pés para fora da cama e me levantei, seguindo em passos rápidos para o banheiro, quase antes de sequer abrir meus olhos, e quando passei pela porta, fechei-a. Encarei meu corpo nu no espelho do banheiro de e soltei um riso sozinha ao lembrar-me da noite passada. Aquilo estava me deixando mal acostumada, mas o que me acalmava era que aquilo chegaria em algum lugar.
Fiz minhas necessidades rapidamente e escovei os dentes com a mesma agilidade, abrindo a porta do boxe e ligando a torneira gelada, como eu havia feito na noite passada antes de deitar na cama de . Procurei pelo meu xampu, que estava próximo ao dele, na bandeja de vidro presa na parede dentro do boxe, e despejei um pouco em minha mão, levando imediatamente até meu cabelo, fazendo o máximo de espuma que consegui, antes de entrar de corpo inteiro embaixo do chuveiro novamente, ouvindo um bater fraco na porta e passando pela mesma, bocejando mil vezes por segundo e esfregando as mãos nos olhos.
- Meu Deus, você é rápida! – Ele comentou, se enrolou em uma das toalhas do boxe e pegou sua escova de dente dentro do armário, enchendo de pasta, e a colocou na boca, me encarando dentro do boxe embaçado.
- Isso é rotina de quem acorda cedo todo dia, amor! – Comentei e ele riu, segurando um bocejo e se virou para a pia para cuspir e passar a escova pelos dentes novamente. Tomei meu banho rapidamente, enquanto ele me encarava do lado de fora do boxe.
- Sua vez, dorminhoco! – Falei, abrindo a porta do boxe e torci meu cabelo mais uma vez antes de pisar no tapete felpudo que tinha à frente.
desencostou o corpo e se aproximou de mim, coloquei uma de minhas mãos em cima do nó de sua toalha e o puxei em minha direção, fazendo-o dar dois curtos passos até mim com um sorriso travesso nos lábios.
- Só quero a toalha, bonitinho! – Comentei e ele riu, apoiando uma mão de cada lado do meu corpo, me mantendo presa entre ele e o vidro do boxe. Ele se aproximou do meu rosto e, ignorando totalmente meus lábios, desceu o rosto para meu pescoço e deu um beijo nele, afastando-se de mim novamente e fazendo a toalha cair de seu corpo em minhas mãos. - Tem muitos hormônios por aqui. - Ele soltou uma risada.
- Acho que você quer dizer tensão sexual! – Ele falou e um sorriso tímido apareceu em meus lábios, eu ergui a toalha para meu rosto, secando-o e esfregando nos cabelos.
- Não demora. Temos que estar no aeroporto em duas horas. – Comentei e ele afirmou com a cabeça, passando por mim e entrando no boxe do banheiro, onde logo ouvi o som do chuveiro forte bater contra sua pele.
Me sequei somente para que eu parasse de pingar, amarrei a toalha no cabelo e saí do banheiro, deixando se banhar em paz.

Voltei para o quarto, sentindo minha pele se arrepiar com a temperatura baixa do ar condicionado e encarei o chão, vendo a parte de cima do meu biquíni, a de baixo, a bermuda e a cueca de jogadas em alguns pontos do carpete de seu quarto, mostrando pequenas manchas de água embaixo delas. Fiz uma careta e puxei minha mochila em uma das poltronas e procurei por um conjunto de lingerie, vestindo-o rapidamente. Tirei a toalha do meu cabelo e a coloquei nas costas, procurando pela minha escova de cabelo e passando delicadamente nos cabelos, tirando os possíveis nós e guardei de volta na mochila. Peguei meu vestido preto básico de alças largas até o joelho e o vesti, ajeitando a alça do sutiã embaixo do mesmo.
Andei pelo quarto, pegando as peças de roupas jogadas no chão e notei que elas estavam quase secas. Nessa hora, apareceu na porta do banheiro, com minha toalha roxa de florzinhas enrolada na cintura e eu abri um sorriso, tentando segurar a risada.
- Ri mesmo, dona ! - Ele comentou, saindo do banheiro e entrando no closet.
- Não fiz nada! - Comentei, soltando uma risada e parando na porta de seu closet, o vendo vestir uma boxer cinza e pegar a primeira calça jeans que ele viu, vestindo-a também.
- O que é isso na sua mão? - Ele perguntou voltando para perto de mim, quando peguei a toalha em sua mão.
- Nossas roupas de ontem, que molharam todo o carpete. - Comentei e ele deu de ombros.
- Seca! - Ele passou desodorante.
- E fica um cheiro de cachorro molhado delicioso! - Falei irônica, e o vi pegar o frasco preto e verde, do perfume que ele era garoto propaganda, e espirrar um pouco em seu corpo. Me virei para o quarto novamente, colocando tudo na cama.
Dobrei as peças de roupa, separando as minhas das dele, e pendurei as duas toalhas no banheiro e voltei para o quarto, encontrando-o vestindo uma camisa branca e depois começou a calçar as meias, para colocar suas botinas bege.
Fechei minha mochila novamente, me certificando que a única coisa que ficaria em L.A. seria minha toalha e imaginei se faltaria alguma coisa. Check! Andei até a poltrona e me sentei, calçando meus peep toe preto e levantando novamente, fez o mesmo.
- Temos um tempo ainda, quer comer alguma coisa? - Afirmei com a cabeça.
- Sim, por favor! - Ele estendeu a mão para mim e a segurei, saindo do quarto logo atrás dele.
Me sentei em um dos bancos próximo à bancada, enquanto preparava um café e lanches para a gente. Apoiei os braços na bancada e a cabeça sobre os braços, soltando um suspiro baixo, só ouvindo os barulhos que fazia do outro lado da bancada.
- Alguém está cansada. - Ele comentou, apoiando um prato ao meu lado e eu ergui o rosto, dando um sorriso de lado.
- Desculpa, alguém me ocupou até tarde ontem! - Comentei e ele abriu um sorriso, pegando duas xícaras nos armários.
- Café? Ou prefere leite? - Puxei uma xícara para perto.
- Vai café hoje! - E ele serviu o líquido preto para mim.
- Pronta para ir para a Coréia do Sul? - Arregalei os olhos e suspirei.
- Tenho que estar. - Ele riu e deu a volta na bancada, sentando ao meu lado e pegando seu sanduíche.
- Vamos fazer isso! - Soltei uma risada e o vi morder o sanduíche quente e eu o imitei.

Larry, o outro segurança de apareceu logo que eu terminei de lavar o último prato, anunciando que o carro que nos levaria para o aeroporto havia chegado. Fui rapidamente até o quarto dele e peguei minha mochila, colocando-a nas costas, e minha bolsa, mantendo-a pendurada em meu antebraço.
- Pode ir, já vou! – Ele falou e entrou em seu closet.
Acompanhei Larry para fora da casa e assim que coloquei o pé na rua, pude notar algo que eu não tinha notado antes, mesmo sendo um bairro residencial, alguns paparazzis tinham certa liberdade nas ruas, como eu não era ninguém importante, ou pelo menos não aparentava ser, já que parecia profissional, eles simplesmente me ignoraram.
- Bom dia, Jason! – Falei para a motorista que eu já conhecia.
- Bom dia, senhorita , tudo certo? – Afirmei com a cabeça e entreguei minha mochila para ele, que a colocou no porta malas.
- Tudo certo! – Ele sorriu e olhei para a porta, vendo passar pelos portões da sua casa, arrastando uma pequena mala de viagem, com uma bolsa menor apoiada em cima. Agora ele havia colocado um óculos escuro no rosto e os paparazzis começaram a trabalhar. Ignorei o fato e entrei no carro, ao lado do motorista.
- Bom dia, senhor , tudo bem? – Ouvi Jason falar e apoiei minha cabeça no encosto do banco, ignorando as conversas paralelas, logo Jason fechou o porta-malas, sentou ao meu lado, atrás de mim, e estávamos a caminho do LAX.
Percorremos o caminho em silêncio. Chegando ao aeroporto foi uma zona um pouco menos organizada do que quando saímos de sua casa. Assim que notaram que estava dentro de um carro, os flashes começaram, eu respirei fundo e saí antes do carro, para fazer o trabalho de uma assessora consciente e contei até dez, tentando manter a calma, fui rapidamente para o porta-malas, pegando minha bagagem e acenei para Jason pelo retrovisor, que retribuiu.
- Te encontro lá dentro. – Comentei rapidamente para que acenou com a cabeça enquanto pegava suas malas.
Tracei uma linha reta para dentro do LAX e entrei no mesmo, sentindo um ou dois flashes em meu rosto, o que foi rapidamente ignorado em detrimento de quem vinha atrás e segui em direção ao guichê da companhia. Entreguei meu passaporte para a atendente, junto de meus documentos, e ela digitou rapidamente em seu computador, retirando minha passagem e despachando minha bagagem. Ela entregou todos os meus documentos de volta e eu juntei tudo, dando espaço para o próximo passageiro.
Passei por na fila do guichê que deu um sorriso um tanto quanto pervertido para mim. Balancei a cabeça e passei pelas portas do salão de embarque de voos internacionais. Ele não estava cheio, o que era comum, poucos voos internacionais saiam às 10 da manhã, então, pude procurar calmamente o portão e me sentar, esticar as pernas na poltrona da frente e, pegar meu celular rapidamente, enviando uma mensagem para minha mãe que respondeu com o usual ‘Boa viagem, se cuida, beijos’, sorri o e guardei em minha bolsa.
Abri os olhos quando chamaram pelo nosso voo e não estava ao meu lado, nem perto de mim. Ele apareceu meio apressado, sem nada nas mãos, e eu franzi a testa.
- Onde você estava? – Perguntei um tanto quanto rude.
- Algumas fãs me pararam, me desculpa. – Revirei os olhos e ajeitei a bolsa em meu ombro.
Entramos no avião e seguimos para a primeira classe, finalmente, foi meu pensamento e eu ri comigo mesma. Nossas poltronas eram na última fileira, as duas do meio do avião. Eu guardei minha bolsa no pequeno armário embaixo da poltrona e sentei, sentindo sua maciez, eu acho que ficaria bem confortável ali durante as 13 horas e meia de voo.
- Tá tudo certo? – Ele perguntou, guardando seus pertences no armário embaixo de sua poltrona.
- Tá sim, só nervosismo da viagem. – Ele confirmou com a cabeça.
Antes que a aeromoça pudesse começar as instruções de segurança, eu já havia afivelado meu cinto fortemente e pedido água para uma das comissárias para que eu pudesse tomar meu calmamente. Como sempre, só observava meus movimentos e eu tentava ignorar isso. Peguei a cartela de calmante em minha bolsa, e destaquei logo dois em minha mão e tomei um grande gole de água, tentando manter a respiração compassada.
Eu mexia minhas mãos na garrafa d’água, fazendo algum barulho de vez em quando, sendo um tanto quanto irritante, provavelmente estava atrapalhando outras pessoas, mas eu realmente não ligava para elas naquele momento. Encostei minhas costas inteiras na poltrona, apoiei minhas mãos nos encostos de braço e fechei os olhos. A mão quente de surgiu em cima da minha, em um aperto de apoio, e suspirei. Abri meus olhos novamente e olhei para o lado, ele se mantinha do mesmo jeito que eu, mas com um sorriso leve nos lábios. Tentei retribuir, mas deve ter ficado ridículo pelo meu nervosismo, voltei meu rosto para frente e suspirei.
- Você sabe por que eu odeio voar? – Ouvi minha voz saindo e senti meu corpo relaxar. Eu estava contando isso para alguém.
- Não. – Ele falou em um tom de voz baixo e pela visão periférica, notei que ele me olhava.
- Eu perdi meu pai quando eu era pequena, tinha somente sete anos. – Falei baixo, sentindo minha voz embargar. – Ele era piloto civil. – Fechei meus olhos. – Era uma viagem de testes, uma coisa boba. – Puxei o ar fortemente. – Morreu todos que estavam a bordo. Depois disso, eu simplesmente não consigo deixar de imaginar que algo ruim pode acontecer enquanto eu estiver em um avião. – Pressionei meus lábios uns no outro. – Mas nada acontece duas vezes da mesma maneira, não é?! Deus não me levaria da mesma maneira que levou meu pai, certo?! – Senti meus olhos se encherem de lágrimas e eu puxei o ar fortemente. – Ou talvez sim, é meio egocêntrico pensar dessa maneira, não?! – Fechei meus olhos fortemente e senti as lágrimas rolar pela minha bochecha. – Talvez pensar assim seja um jeito Dele realmente me levar do mesmo jeito. – apertou minha mão fortemente e sua outra tocou meu rosto, me fazendo o virar para ele e abrir os olhos, com a visão meio embaçada.
- Eu não sabia! – Ele comentou. – Você nunca disse nada. – Dei um sorriso fraco e soltei o ar fortemente sentindo minhas narinas entupirem, dificultando a respiração.
- A gente não tinha essa intimidade antes. – Falei baixo e ele abriu um sorriso, acariciando minha bochecha.
- Eu sinto muito, ! – Ele encostou meu rosto no seu e eu suspirei, fechando os olhos.
- Tá tudo bem! – Comentei, respirando devagar.
- Você pode contar comigo para tudo, qualquer coisa que te atormentar, qualquer coisa. – Ele falou baixo próximo ao meu ouvido. – Eu sempre estarei aqui! – Um beijo estalou em minha testa e eu abri um sorriso.
Uma aeromoça surgiu com mais uma garrafa d’água e um pacote de lenços, eu agradeci somente com um movimento de cabeça e ela se afastou. retirou um lenço do pacote e passou levemente pela minha bochecha, e depois me entregou o mesmo, com o qual eu sequei as lágrimas e me contive para assuar o nariz, isso não se faz na frente de namorados. Bebi alguns goles de água e apoiei a garrafa no braço da poltrona.
O capitão deu as boas vindas ao voo de Los Angeles a Seul na Coréia do Sul, agradeceu por termos escolhido aquela companhia aérea e disse também o tempo de voo e temperatura dos dois locais. Sua voz ficou de um jeito diferente, pedindo para todos os comissários tomarem seu lugar pelo rádio e logo eles sumiram, agarrei minhas mãos na poltrona.
- Aeronave pronta para partir. – Fechei meus olhos e pude ouvir o som das turbinas aumentarem em meu ouvido e me assustei quando soltou uma de minhas mãos da poltrona e a agarrou, abri um sorriso nervoso para ele.
Eu não sei a força que eu usava para tentar tirar meu medo do corpo e mandá-lo para longe, mas espero, honestamente, que eu não estivesse machucando . Eu sabia que os nós dos meus dedos ficavam brancos, a ponta vermelha e as lágrimas caíam pelas minhas bochechas sem permissão, mas eu nunca tive ninguém segurando minha mão nesse momento. Bem, eu nunca tinha deixado ninguém segurar minha mão, minha irmã já tentara, minha mãe também e eu sempre soube que ia machucá-las.
O avião tirou as rodas do solo e aquela sensação de vertigem passou por mim rapidamente, fechei os olhos novamente, tentando me manter em um local plano, o que eu com certeza não estava. Quando o avião nivelou e o capitão liberou para que as pessoas andassem pela aeronave, eu soltei a mão de e também a poltrona ao meu lado.
- Tá tudo bem! – Ele comentou e eu olhei para seu rosto, abrindo um largo sorriso, se eu pudesse, o beijava naquele momento, mas era melhor não tentar a sorte. Peguei a mão de que segurou a minha e vi algumas marcas fundas e finas, das minhas unhas.
- Me desculpa! – Comentei, fazendo uma careta.
- Tá tudo bem! – Ele riu e eu o acompanhei, notando meu rosto começar a secar devido às lágrimas.
- Acho que eu preciso ir ao banheiro. – Comentei e ele afirmou com a cabeça. – Porque definitivamente eu vou dormir em breve, esses calmantes dão sono.
- Tem perigo de você dormir ou desmaiar entre essa ida e volta no banheiro? – Ri fracamente.
- Espero que não. – Comentei, o fazendo rir.

Fui ao banheiro rapidamente e, quando voltei, procurava alguma coisa de útil para assistir na televisão. Me sentei ao seu lado novamente e assim que coloquei as mãos nas laterais da poltrona ele a segurou novamente, sem falar nada. Inclinei um pouco a poltrona para trás e larguei meus saltos no chão, puxando os pés para cima. me copiou, para ficar exatamente da mesma maneira.
Ele acabou optando por algum filme de ação com bastantes explosões, até me ofereceu o fone de ouvido, o que eu simplesmente neguei com a cabeça, encostando-a em seu ombro e fechei os olhos.
Quando abri os olhos novamente, o avião estava escuro e lá fora já era noite, não sabia que dia era, ou em que fuso estávamos, mas eu suspirei. dormia meio desajeitado ao meu lado, seu rosto estava virado para o meu, mas o corpo para outro lado, soltei uma risada fraca com isso. Fiquei em silêncio um pouco, somente olhando para o rosto de , com os fones ainda colocados em sua orelha, mas a televisão estava desligada. Ergui uma mão e passei pelos seus cabelos, jogando os poucos fios para trás e desci a mão pela sua bochecha, acariciando-o levemente. Um suspiro acabou escapando.
Virei meu corpo para frente, tentando mudar de posição um pouco e fechei os olhos novamente, me espreguiçando na poltrona. se mexeu ao meu lado e eu o olhei novamente, agora seus olhos estavam abertos e o mesmo sorriso de quando ele acordou em casa naquele dia estava estampado em seu rosto, junto dos olhos pequenos, de quem acabou de acordar. Sem dizer nada, ele passou um braço pelo meu corpo, encostando em minha barriga e eu suspirei. Quer saber? Foda-se, não seria eu quem ficaria escondendo uma coisa boa. Aproximei meu rosto do seu e encostei meus lábios nos dele levemente, vendo um sorriso de formar. Retribui o sorriso e ele fechou os olhos novamente, fazendo um carinho gostoso em minha barriga. Senti a preguiça vencer e fechei os olhos também.
A próxima vez que os abri, já estávamos em solo coreano, era dia e o sol entrava fortemente pelas janelas da aeronave. estava acordado em meu lado, seus olhos focados em algum programa de TV coreano e, em sua mão, um sanduíche, o que me fez notar que eu estava morrendo de fome.
- Você precisa se arrumar, vamos chegar em cima da hora! - Comentei e ele concordou com a cabeça, tentando terminar o lanche o mais rápido possível. - Se quiser deixar um pedaço para mim, não me importo! - Comentei e ele riu, chamando a aeromoça com a mão.
- Ela quer o mesmo que eu. - E ele virou para mim. - Algo para beber?
- Água! - Falei para a aeromoça que confirmou com a cabeça.

Se eu achava que o Brasil era um país com fãs loucos, a Coréia do Sul ficava em segundo lugar. Assim que as portas de vidro se abriram e uma pessoa de boné azul passou por elas na minha frente eu quase fiquei surda. Uma massa de fãs coreanos gritavam por . Homens, mulheres, principalmente adolescentes, e algumas mães com crianças menores sacudiam o filho para ver se o “Poseidon” dava alguma atenção a elas. Atenção que eu e nenhum dos seguranças permitimos. Eu arrumei as alças da minha mochila e vi as seis duplas de seguranças se colocarem em forma de um casulo ao nosso redor. Eu simplesmente troquei meus óculos por um escuro e olhei para meus pés, seja a assessora, seja a assessora.
Sentei nos bancos de couro do carro que nos levaria a uma passada rápida ao hotel, já que havia amassado toda sua roupa da coletiva de imprensa e eu simplesmente quis mata-lo por isso. No carro, ele passou seu braço sobre meu corpo e nos mantivemos em silêncio o caminho inteiro, já que minha visão estava mais para as paisagens do novo país que estava visitando, e eu fazia questão de registrar tudo com meu celular, pensando em qual eu colocaria no Instagram, para minha mãe surtar mais tarde, ri com esse pensamento.
Eu me debrucei sobre o balcão do Conrad Hotel, conversando com a atendente em um inglês, que eu posso prometer, estava péssimo. Assim que ela liberou as chaves, joguei a primeira que eu vi em e ele sumiu pelos corredores do hotel, se adiantando ao processo. Recebi meus documentos de volta, agarrei minha chave entre os dedos e segui até o elevador.
- 25º andar. – Falei e cliquei o botão no elevador, o último do prédio. As portas se fecharam automaticamente e aquele conhecido frio na barriga quando o elevador sobe muito rápido bateu, vendo as portas se abrirem novamente. Uma porta, com uma entrada para cartão apareceu na minha frente, olhei para a chave em minhas mãos e a inseri, ouvindo um clique baixo e uma luz verde brilhar entre as portas do elevador, fazendo com que elas se abrissem. – Legal! – Ri e olhei para o apartamento em minha frente.
Eu estava literalmente no paraíso.
Para onde olhasse eu podia ver o céu, onde o sol começava a se pôr. Uma grande sala aberta e espaçosa estava logo à frente com sofás de couro e tapetes persas. Um balcão separava uma cozinha da sala e, mais atrás, uma sacada com pisos em madeira mostrava um bar para o lado de fora, com uma jacuzzi. Se eu não soubesse tudo o que aquela tecnologia estranha fazia, eu poderia jurar que estava no Hawaii e não na Coréia do Sul.
Na lateral direita, um corredor dava para duas portas, cada uma com uma entrada de chave, uma com a letra A e outra com a letra B, encarei a minha letra, “A” e inseri sobre a porta, ouvindo o clique e a mesma luz verde, vinda da letra em metal, e a porta se abriu. Ao que eu abri a porta e entrei, ela automaticamente se fechou atrás de mim. O quarto possuía uma grande cama de casal, com um armário na lateral, uma cabeceira com vários botões tecnológicos e uma poltrona com aparência confortável, na qual joguei minha mochila.
Aproveitei que tínhamos ido para o hotel e renovei o desodorante, o perfume e a maquiagem, e também troquei de roupa, já que havia notado que o tempo estava meio gelado. Coloquei uma calça social preta, uma blusa social branca, ajeitando-a dentro da calça. Calcei meus peep toe novamente e arregacei um pouco as mangas da blusa. Procurei um laço de cabelo e fiz um rabo de cavalo bem alto, abaixando os fiozinhos arrepiados com um pouco de spray. Coloquei o celular no bolso, peguei meu iPad e uma caneta, e saí do quarto, puxando a chave de volta.
Ouvi a porta de bater e olhei para trás, dando de cara com ele encarando meu corpo de cima a baixo.
- Gostosa! – Revirei os olhos e soltei uma risada fraca, dando um tapa de leve em seu ombro.
- Vamos! – Falei e andei em sua frente, voltando para o elevador, ouvindo os pés de bater atrás de mim. Ele havia escolhido uma blusa social azul, calça jeans escura e sapatênis preto para os pés, havia penteado os cabelos para trás e eu podia ver alguns pelos finos crescer em seu queixo.
Assim que a porta do hotel se fechou atrás de mim, encostou seus lábios em minha bochecha, o que fez que eu abrisse um sorriso.
- Você precisa relaxar! – Ele comentou e eu ri.
- Só quando esse dia acabar. – Ele abriu um sorriso safado e eu revirei os olhos. – Não desse jeito. – Falei e passei pelas portas do elevador, vendo um segurança se levantar e se aproximar de nós como escolta.
A coletiva seria no hotel que estávamos, mas na seção de escritórios, que era na parte da frente do hotel. Caminhamos até lá, atravessando as duas faixas de trânsito e entramos no conglomerado da frente dele. Era um prédio mais baixo, mas tão luxuoso quanto. Dessa vez ficamos no térreo, seguindo para uma das salas de coletiva livres, encontrando a porta da coletiva de “À Procura do Amanhã”, a encarou por um tempo e abriu a do lado, o segui com um ponto de interrogação no rosto.
- , mas... – Fechei a boca assim que encontrei uma sala de espera com outros atores do elenco sentados nas poltronas disponíveis, todos acompanhados de seu assessor. Por um segundo, me senti estúpida por não saber que eles não entrariam simplesmente.
foi calorosamente recebido pelos companheiros de elenco, eu fui apresentada a cada um deles rapidamente, quando me dirigi para os outros assessores. Alguns falavam mais, outros menos, mas todos menos comunicativos que eu. Uma mulher coreana apareceu por uma porta ao nosso lado e falou que estavam prontos para começar. Nessa hora cada ator foi para seu assessor e veio perto de mim, se agachando ao meu lado, já que eu estava bem acomodada em uma poltrona.
- Você sabe o que fazer, não?! – Falei e ele soltou uma risada, confirmando com a cabeça. – Eles só vão perguntar sobre o filme mesmo, diga o que você achou, sua experiência com o elenco, blá, blá, blá!
- Fácil assim, não?! – Soltei uma risada fraca, vendo-o se levantar e fiz o mesmo.
- Até parece! – Ele riu e a porta foi aberta novamente, onde os atores começavam a sair. – Eu entro por trás, né?! – Ele confirmou com a cabeça. – Arrase!
Ele abriu um sorriso discreto e, em dois segundos, encostou seus lábios nos meus,, saindo pela porta, me largando na sala sozinha. Peguei minhas coisas na poltrona e saí da sala, entrando pela porta do lado na escura sala com carpetes pretos, um pequeno palco à frente e banners do filme para todos os lados.
A sala estava pilhada de jornalistas, a maioria deles coreano, mas também uns quatro ou cinco internacionais. Eu me sentei em uma cadeira livre, próxima ao corredor, desbloqueei meu iPad, abrindo o bloco de notas, e coloquei o gravador do celular para funcionar.
Essas coletivas não duram mais que uma hora e essa não foi diferente, as perguntas eram passadas de pessoa para pessoa. Perguntas sobre o filme, a produção, atuação, história, enredo, efeitos especiais, figurino. Tudo o que pudesse passar pela boca dos atores, passou!
, como sempre, realmente sabia o que estava fazendo. Eu estava, praticamente, em uma viagem com tudo pago para Coréia do Sul e isso, na minha cabeça, soava muito bem. Eu anotava algumas coisas no bloco de notas, como informações sobre possíveis filmes, projetos e lançamentos que talvez a imprensa pudesse vir atrás de informações depois que a coletiva acabasse.
Várias perguntas passaram pela minha cabeça enquanto outras eram respondidas, perguntas que não havia passado na cabeça de ninguém ali, e que só quem prestasse atenção de fora conseguiria elaborar. Coletivas são ruins por isso, pois se você estiver sozinha com seu bloco e gravador, vários furos são perdidos e você não tem nem noção, mas não seria eu quem daria pauta para a imprensa hoje, então eu anotava a pergunta e ficava na minha.
Ao fim das perguntas e respostas, os fotógrafos pediram por algumas fotos da equipe toda, uma risada aqui, um comentário ali, até que eles estavam se divertindo. Assim que deram por encerrada a coletiva, os vários lugares ocupados esvaziaram, os atores voltaram para a sala ao lado e eu entreguei um cartão de visita para todas as pessoas da imprensa, junto com os outros assessores, me colocando disponível para tirar toda dúvida que pudessem haver sobre o que foi dito e o que não foi dito ali, mas ninguém pareceu muito interessado nisso e logo a sala esvaziou.
Dei de ombros e me levantei, saindo da sala de coletiva, encontrando no corredor, conversando com um de seus companheiros de cena. Assim que ele me viu rapidamente se despediu e seguimos todos para o mesmo caminho pelo que havíamos ido, com o segurança em nossos pés.
- O que achou? – Ele perguntou ao meu lado.
- Eu preciso ver o filme antes para saber do que vocês estavam falando. – Ele soltou uma risada e passou um braço sobre meus ombros, caminhando para fora do complexo empresarial do Conrad Hotel e entrando novamente no hotel.
- Quanto tempo para a première? – Ele perguntou e eu chequei meu relógio.
- Temos umas duas horas e meia, mais ou menos. – Ele suspirou ao meu lado e entramos no elevador.
- Dá tempo de tirar uma soneca! – Abri um sorriso e segurei sua mão que caía ao lado do meu corpo e entrelacei os dedos, vendo-o encaixar o cartão na entrada do quarto e logo ele estava jogado no sofá da sala que antecedia os quartos.

Me levantei do sofá que havia deitado e caminhei até a cozinha, procurando alguma coisa para comer na geladeira. Acabei pegando uma lata de Coca Cola e alguns salgadinhos de uma marca coreana que me pareciam até gostosos. Sentei na bancada e a cada gole do refrigerante era um punhado de salgadinhos que eu colocava na boca. Joguei os pacotes de ambos na lata do lixo poucos minutos depois. Lavei minhas mãos na pia e encarei os pés de saindo do sofá e abri um sorriso.
Caminhei até o sofá novamente e vi que sua cabeça estava um pouco para baixo do encosto e eu ergui a mesma delicadamente e sentei no sofá, passando os dedos pelos fios castanhos de seus cabelos. Ele dormia suspirando, fazendo com que um ronco baixo aparecesse e eu estava tão apaixonada que até nisso eu o achava bonito. Meu celular vibrou no meu bolso e eu ignorei, mas fez com que se mexesse no sofá, virando o rosto para o lado do encosto, abrindo os olhos e sorrindo logo em seguida.
- Ei! – Falei e ele espremeu os olhos, rindo.
- Ei! – Abaixei o rosto e encostei meus lábios nos seus delicadamente.
- Você precisa de um banho e se arrumar, seu terno chegou enquanto estava dormindo. – Ele afirmou com a cabeça, bocejando novamente, um pouco impossibilitado de falar.
- O que achou? – Ele perguntou.
- Legal! – Falei e ele franziu a testa.
Ele mostrou a língua em seguida, passando-a pelos meus lábios novamente e logo meu corpo estava em cima do seu, sentindo fortes apertões em minhas coxas, onde suas mãos estavam espalmadas e meus estavam colados em seu pescoço, dividindo entre mordidas e chupadas.
Uma rápida olhada no relógio fez com que eu me levantasse rapidamente de cima dele, saindo desajeitadamente do sofá, quase caindo por cima da mesa de centro e ele me olhou com uma interrogação no olhar.
- Banho, se arrumar e vamos! – Falei e ele fez uma continência rapidamente e logo se levantou.
- Toma banho comigo? – Ele perguntou sensualmente na porta do seu quarto.
- Hoje não! – Falei firme e entrei no meu quarto, batendo a porta, ouvindo-o reclamar do lado de fora.

Me encarei no espelho com meu vestido preto e um sorriso de formou em meus lábios. Ele possuía uma manga só, com rendas detalhando totalmente o corpete, formando desenhos de flores no busto até a cintura. Dali para baixo a saia tinha um pano firme, mas ao mesmo tempo leve, que caía sobre minhas pernas, até a altura do joelho. Coloquei meus saltos pretos novamente e andei pelo quarto, para saber se aguentaria. Coloquei vários curativos nos meus pés, pois a tarde já tinha deixado algumas bolhas nas laterais e nos calcanhares.
Retoquei meu rímel e passei novamente um gloss nos lábios, pegando meu iPad e saí do quarto. estava jogado no sofá, com o corpo coberto pelo terno que eu havia visto hoje mais cedo, a blusa azul clara por baixo, com o último botão solto, o paletó e a calça social azul escura e nos pés sapatos sociais pretos. Ele abotoou a manga da blusa e eu andei em sua direção, fazendo com que meus saltos ecoassem pelo chão de madeira.
- Eu sei que a Melina vai um pouco mais desleixada, mas, por favor, eu não consigo ir a um evento desses de calça social, camisa e botas. – Falei, já me defendendo, quando ele olhou para mim.
- Você está ótima! – Ele falou com os olhos brilhando para mim.
- Continuo com cara de assessora? – Ele confirmou com a cabeça. – Ótimo! – Falei e ele riu.
- Hora de ir? – Olhei no relógio e confirmei com a boca.
- É! Vamos ver um filme! – Falei ironicamente e ele riu se levantando do sofá.
Aproximei-me dele e segurei o botão de seu paletó e fechei-o, passando a mão sobre seus ombros, alisando o pano macio.
- Obrigado. – Ele falou e eu afirmei com a cabeça sorrindo, seguindo novamente para o lobby do hotel.

No caminho para a première, ficou matutando uma das mãos na minha perna e olhando a paisagem pela qual passávamos. Eu só conseguia repassar os mapas do local, imprensa que estaria presente, contatos de pessoas que poderiam falar comigo e, acredite, não era fácil quando a maioria dos nomes era em coreano, se tudo fosse João ou Maria, seria muito melhor.
A première seria na Times Square da Coréia do Sul, em um dos shoppings, honestamente, eu não tinha a mínima ideia como aquilo rolaria, pelas fotos que eu havia visto do local, era quase uma estação de trem gigante. Às vezes, a falta de experiência pode te pegar e era o que estava acontecendo naquele momento. Na minha cabeça uma luz vermelha e brilhante, junto de um alerta alto começava a apitar, eu fiz o certo em vim?
Enquanto encarava o dia lá fora, abri o WhatsApp e rapidamente enviei uma mensagem para Melina, um grande e capitular SOS e bloqueei o celular novamente, tentando passar algumas técnicas básicas de respiração, o ar ruim sai e o bom entra, esse era meu novo mantra.
O carro parou no tapete vermelho, eu podia ouvir os gritos lá fora, e apertei o celular em minha mão, Melina?! Eu realmente precisava dela naquele momento. , em seu momento relaxado, encostou seus lábios nos meus novamente, eu estendi um marcador permanente para ele e a porta foi aberta, trazendo para dentro a claridade que Seul oferecia. Nesse mesmo momento meu celular vibrou, mostrando uma ligação internacional de Melina.
- Eu já vou! – Falei para quando ele virou para mim novamente, vendo meu celular se iluminar em minha mão.
- Tá tudo certo, ? – Mordi meu lábio inferior.
- Só estou nervosa. Você sabe o que fazer. – Tentei dar meu sorriso mais carinhoso possível, porque a luz que havia acendido em mim estava fazendo com que meu cérebro quisesse explodir. – Não é como se nunca tivesse feito isso.
Ele confirmou com a cabeça e fechou a porta, seguindo em direção ao tapete vermelho. Eu deslizei o botão verde rapidamente e coloquei na orelha.
- Aconteceu alguma coisa? – Ouvi a voz de Melina.
- Eu estou surtando, foi uma péssima ideia eu vir. – Senti o carro se movimentar e andar um pouco mais para frente, para dar espaço aos outros convidados.
- Mas o que foi? Aconteceu alguma coisa?
- Não, está seguindo tudo conforme os planos, mas eu estou, literalmente, surtando, não sei porque, nunca fiz isso antes. – Melina soltou uma risada e um suspiro em seguida.
- Já esperava por isso, sabia? – Ela riu fraco. – , relaxa. Eles não estão aí para você, estão aí para o e só. Você simplesmente acompanha, fica há uma distância de...
- 5 metros, eu sei. Para não sair nas fotos. Mas sei lá...
- Se recomponha, mulher! Você é uma das profissionais mais jovens e uma das melhores que eu conheci nessa profissão. Cultura, cinema, isso é contigo, ok?! Você sabe muito melhor que essas pessoas o que eles estão falando. – Suspirei. – Agora vai lá humilhá-las. – Não me contive e soltei uma gargalhada. – Isso, essa é a que eu gosto, agora me deixa dormir. – E a ligação foi finalizada.
- Obrigada, Melina! – Falei para o telefone e ri. O motorista viu que eu havia terminado e desceu do carro, abrindo a porta para mim, agradeci com a cabeça e segui para o tapete vermelho, mostrando o crachá de imprensa que eu havia pendurado em meu pescoço, tendo a passagem livre para o evento. já havia passado pela sessão de fãs e a atriz morena que estava na coletiva de imprensa dava alguns autógrafos.
Passei reto nessa seção e também por todos os repórteres que entrevistavam outra atriz e o diretor do filme. Eu abaixei a cabeça e passei por trás, próximo ao painel, focando na pessoa que estava à minha frente, posando para algumas fotos. Seu olhar encontrou com o meu e eu dei um sorriso de lado, apoiando meu iPad na mão e até sentindo alguns flashes em meu rosto, eu sei, eu estou bonita nesse vestido.
acenou para os fotógrafos e fez um movimento com a cabeça e eu fechei os olhos por dois segundos, o que ele entendeu que era para ele continuar andando e entrar no evento, para sair da mira dos paparazzi e eu o segui a passos lentos, olhando para os lados, à procura de algo que eu pudesse fazer: nada.
Assim que eu saí do relento e passei por debaixo da marquise, o tapete vermelho continuava, dando em uma sala no térreo, havia parado depois das portas para me esperar, mantive minhas duas mãos coladas no iPad e caminhamos lado a lado até entrar em uma sala de cinema.
- Foi difícil lá fora? – Ri fraco.
- Só estava nervosa, tive um pequeno surto, mas está tudo certo. – Falei e ele confirmou com a cabeça.
- Mesmo? – O empurrei levemente com o ombro.
- Não precisa se preocupar! – Ele concordou com a cabeça, mexendo as mãos dentro do bolso.
- Vamos! – Ele seguiu pelo pequeno corredor da sala e notei que estávamos em uma comum sala de cinema. Ele rapidamente começou a subir os degraus e eu fui atrás, tentando não cair do salto.
havia sido o primeiro ator do elenco a chegar. Então, ele seguiu para a última fileira e se sentou em uma das poltronas vermelhas no meio da sala, que continha seu nome, e apontou para a do lado, onde tinha um ‘mais 1’ escrito, o qual eu me sentei rapidamente.
Os próximos minutos foram mais agitados. Os atores chegavam, conversavam sobre o filme, ria e eu ficava ao lado, participando da conversa, rindo junto e tudo mais. Assim que deu oito horas na Coréia do Sul, a tela do cinema se iluminou com o logo do filme e todos seguiram para seus lugares, até a imprensa que ficava nos degraus mais abaixo rapidamente se acomodou, com seus bloquinhos em mãos. Eu estava despreocupada, não era como se eu precisasse fazer uma reportagem sobre, então, eu simplesmente apoiei minhas costas no encosto, coloquei o iPad no colo, os braços na lateral da poltrona e relaxei. Só faltava a pipoca.
As luzes foram apagadas e o filme começou a rodar. relaxou ao meu lado, já sabendo o que o esperava, levantou uma mão e a colocou sobre a minha, entrelaçando nossos dedos. Um sorriso com certeza não passou despercebido por ele, mas não me virei para descobrir se ele estava me olhando.
OH MEU DEUS! Essa é a única reação que eu posso ter desse filme inteiro, sem brincadeiras, eu acho que esse é um dos melhores filmes do e se não for um dos melhores a sua atuação com certeza é. Nem parecia que o filme se passava em um trem, com a diversidade de cenários que eles usavam e a grandiosidade do elenco.
soltava risadas fracas ao meu lado a cada cena que eu me empolgava, já que eu, literalmente, apertava a mão dele e pulava. Era assim que eu demonstrava minha empolgação ou nervosismo. Teve uma cena em que eu tive certeza que esse filme, se for bem divulgado, terá muito futuro, principalmente se deixassem a aparência de Poseidon do de lado, mostrando seu lado dramático. A emoção simplesmente pega a gente e, por mais que o ator estivesse ao meu lado, a gente quase acreditava que era real.
Quando os créditos do filme subiram, a reação que eu tive foi a mesma da sala de cinema lotada: levantar e aplaudir aquele filme incrível. Eu estava pouco me lixando se o elenco estava ao meu redor, se o diretor e estrela do filme estavam ao meu lado, eu só precisava mostrar, de algum jeito, que o filme estava magnífico.
se levantou, com um sorriso nervoso no rosto, e eu passei meus braços pelo seu pescoço, abraçando-o fortemente.
- Está incrível, ! – Falei, com uma risada em meus lábios. – Perfeito! Você foi incrível!
- Obrigado! – Ele riu, apertando os braços em meu corpo e logo o soltei, cumprimentando também o diretor do filme que estava ao meu lado. Falei exatamente as mesmas palavras que falei para , vendo um largo sorriso se formar nos lábios dele também.
- Vamos, ? – O diretor falou e eu voltei a me sentar na cadeira, ligando meu iPad, já que agora rolaria um rápido perguntas e respostas da imprensa e de alguns fãs que tiveram o direito de assistir a estreia.
Não me dei ao trabalho de ligar o gravador. Da distância que eu estava, com certeza não pegaria, mas abri o bloco de notas, escrevendo “Pós-filme” e fazendo o mesmo da coletiva, a cada pergunta ou discurso que passava por eu anotava, e anotava além de sua resposta, por precaução.
, como sempre, fazendo piadas e brincadeiras com as perguntas dos fãs, se mostrando descontraído, mas quando a pergunta era da imprensa, o lado da brincadeira sumia e surgia o lado sério. Era incrível como ele saía de um personagem e ia para outro, ok, piadinha infame.
As perguntas logo acabaram e a imprensa começou a se retirar, mas permaneci lá em cima, pois agora os fãs, tirariam fotos e tudo mais, aproveitariam o momento com o ídolo. era o mais assediado e, tenho que admitir que achava até engraçado, por mais que uma pontinha minha ficasse com ciúmes de ver várias pessoas abraçando e beijando ele, mas eu tinha que aprender a lidar com isso, era parte do trabalho, parte da fama. Suspirei e bloqueei o iPad, me levantando, e me despedi dos assessores que começavam a se dissipar. Profissionalmente trocamos contatos, mas pessoalmente as chances de nos encontrarmos de novo seriam poucas, então, foi por questão de educação.
tirava foto com um casal quando eu pisei no último degrau que dava para o palco e parei ao seu lado, vendo os flashes piscarem.
- Oi, licença! – Uma menina coreana de uns 20 anos me cutucou. – Você é a nova assessora do ?
- Oi, sou sim. ! – Estendi minha mão e ela apertou, abrindo um largo sorriso.
- A Melina Parks ainda continua? – Ri fraco.
- Continua, eu trabalho na equipe dela, ela precisava de umas férias. – Foi a vez da menina rir.
- É que eu tenho um fã-site coreano do e a gente queria algum tipo de parceria, para ficar por dentro das notícias, como saber de algum evento quando ele vier. Eu só estou aqui porque meu pai é jornalista, mas ele nem cobre cultura, foi bem sorte mesmo, eu meio que insisti para vir. Vocês tem algo parecido assim?
- Claro que sim. – Afirmei. Isso foi uma mentira, mas agora teríamos. – Faz o seguinte, eu vou te passar meu e-mail e você me manda todas as informações do seu fã-site, link, quanto tempo foi criado, número de visitas, quais notícias que vocês tem preferência, vídeos, fotos, etc. E aí eu converso com a equipe sobre o tipo de parceria podemos fazer, o que acha?
- Acho ótimo! – Ela riu e eu tirei um cartão de visita da capa do iPad e entreguei a ela. – Eu posso demorar a responder, mas de uma semana não passa e, independente da resposta, você terá uma, ok?!
- Ok! – Ela deu dois pulinhos, feliz. – Isso é muito mais do que eu esperava, mesmo! – Abri um sorriso. – Eu entrarei em contato contigo... ?! – Ela olhou no cartão e eu confirmei com a cabeça.
- Sou brasileira! – Ela abriu um sorriso e riu.
- Que legal! – Ela foi saindo. – Obrigada, mandarei o e-mail hoje mesmo.
- Vou esperar. – E ela desceu das escadas correndo, indo de encontro a um homem mais velho que deveria ser seu pai.
- Fazendo amigos? – perguntou nas minhas costas.
- Trabalhando. – Falei, fazendo uma pose de orgulho e ele riu. – Para onde agora? Algum cocktail?
- Não, para o hotel, pedir uma pizza gigante e descansar.
- Pizza? Eu estou na Coreia, quero comida coreana! – Falei descendo as escadas do palco e ele riu atrás de mim.

A vista do Conrad Hotel dava para o Rio Han, o rio que cortava Seul de uma ponta à outra. Enquanto estava jogado no sofá, pedindo nossa comida, eu me debrucei sobre o vidro da sacada, e aproveitava um pouco da minha curta viagem a um país diferente.
Meu celular já devia estar cheio de fotos daquela mesma paisagem, mas eu precisava postar alguma coisa. E foi o que eu fiz, quando abri meu Instagram.
"Sabia que esse trabalho me levaria longe, mas não tanto ¨SouthKorea #Seul ". Digitei e postei a foto na minha rede social e fui para a página de aprovação de seguidores, pelo menos umas 60 pessoas estavam pedindo para me seguir. Depois daquela primeira foto que eu havia postado com o , praticamente assumindo para o mundo todo que eu era assessora dele e, como eu deixava as pessoas me seguirem, recebia novos seguidores quase diariamente, chegando a quase três mil.
- Vamos deixar claro que yakissoba não é comida coreana, ok?! - falou passando pela porta da sacada e eu soltei uma risada, apoiando o celular no balcão de um bar que tinha ao lado.
- Eu sei, mas honestamente eu olhei o cardápio e fiquei perdida, aí eu fui no básico. - Falei e dei de ombros.
- Yakissoba, rolinho primavera e batata frita?
- Estou no básico, não?! - Ri e virei de volta para a vista, fazendo meus cabelos molhados baterem nas minhas costas. - E nem vem, tenho certeza que você pediu alguma carne do tamanho da sua cabeça e muita cerveja para acompanhar.
- Ah lá, acha que me conhece! - Ele falou irônico e passou os braços pela minha barriga, encostando seu peitoral em minhas costas.
- E não? - Ele riu e apoiou o queixo em meu ombro.
- Você tem razão. - Ele falou com o tom de voz baixo e eu gargalhei.
- Sabe, eu nunca pensei que eu viria para a Coréia, tem tantos país que eu quero conhecer, cidades, mas Coréia do Sul, realmente não estava na lista.
- Que lugares você quer conhecer? - Soltei minhas mãos da beirada da sacada e coloquei por cima das dele.
- Itália. - Comentei.
- Roma?
- Não, Veneza.
- Interessante! - Soltei uma risada fraca e virei meu rosto, sentindo meu nariz tocar em sua bochecha. - Acho que nunca fui para Veneza! - Soltei uma risada e virei meu corpo para o seu, passando meus braços pelo seu pescoço.
- Um dia vamos juntos. - Falei e ele confirmou com a cabeça, aproximando seu rosto do meu.
Uma campainha nos distraiu, fazendo com que ele fizesse uma careta e eu ri, abaixando minhas mãos e o vi se virar para a sala novamente. Peguei meu celular na mesa e entrei, fechando a porta de vidro atrás de mim e pude ver um mordomo empurrando um carrinho e saindo do quarto, não antes de depositar uma gorjeta em sua mão.
empurrou o carrinho até ficar ao lado da mesa redonda, de tampo de vidro e quatro poltronas de couro, e abriu a tampa da bandeja, revelando nossos pedidos. Um yakissoba completo, um prato com rolinhos primavera, uma porção bem generosa de batatas fritas, o bife gigante de e um prato com um risoto de frutos do mar, tudo em pratos separados.
- Bife e frutos do mar, sério?! – Falei ele deu risada, mostrando a língua do jeito mais infantil e sexy que eu conhecia.
- O risoto é bom, mas falta uma carne vermelha aí no meio.
- Já pensou em pedir algum que venha, sei lá, bacon? – Falei olhando para ele.
- Ah, xi!
- Você é uma incógnita, ! – Falei e me sentei em uma das poltronas, enquanto ele tirava os pratos do carrinho e os colocava na mesa. Ele abaixou e pegou também o balde de gelo com uma garrafa de champanhe na mesma.
- Vamos celebrar alguma coisa? – Perguntei, separando os hashi, vulgo pauzinhos, em dois.
- Talvez! – Ele apoiou a garrafa na mesa e tirou o lacre, até que ele estivesse livre e pudesse se livrar da rolha, em um estouro.
- Isso é Dom Perignon? - afirmou com a cabeça. – Você tem ideia do quanto custa essa garrafa? – O vi rindo e me dei conta de algo. – Bem, minha viagem e meu salário estão vindo do seu pagamento para a ACCESS, então...
- Engraçadinha!
- Não, falando sério agora! – Ele se sentou na cadeira à minha frente. – Se a gente for ver, você é meu chefe. A ACCESS oferece um serviço a você, você contratou nossos serviços, então você é meu chefe, pelo menos o chefe econômico da ACCESS, um dos...
- Chefe? – O vi tirar duas taças do carrinho e colocar na mesa. – Eu consigo ter uns ótimos fetiches com isso, sabia? – Juntei os hashis na minha mão e gargalhei.
- Pelo menos não sou a única! – Abri um sorriso de lado e voltei a atenção para minha comida.
- Interessante, !
- Fica quieto e come! – Falei e ele me imitou, encarando seus pedidos e também beliscando alguns pedaços da minha batata frita enquanto comia.
O resto da refeição ocorreu em silêncio, porque eu estava A) com fome, não comia desde o avião e B) fazia muito tempo que eu não comia um yakissoba e isso estava uma delícia, já , porque... Bem, provavelmente a alternativa A também.
Juntei os hashis para o lado no prato e peguei um guardanapo, largando os modos de lado e pegando o rolinho com a mão mesmo, vendo me encarar.
- Que foi? A gente está se pegando há um bom tempo para eu ficar de frescuras, não acha?!
- Você tem um ponto.
- Eu sempre tenho. – Falei e pude ver movimentando os lábios juntos, me imitando. – Sem graça!
- Ok, você tem vários pontos e hoje você me deu dois! Só hoje!
- Só hoje? Você me conhece desde abril. – Ele movimentou os ombros. – Deveria ter aprendido mais coisas.
- , quieta! Estou tentando ser romântico. – Franzi a testa e o encarei, apoiando o rolinho novamente no prato.
- Por quê?
- Porque, primeiro, realmente você me conhece muito bem, não só o lado pessoal, mas também sabe muito sobre mim, sobre o ator, isso é incrível, conhecer alguém que realmente admira meu trabalho. – Abri um sorriso de lado, sentindo minhas bochechas queimarem. – E também como , você sabe pequenos detalhes da minha vida, meus gostos, meus desgostos, qualquer coisa. – Ponderei a cabeça para os lados, mantendo o sorriso no rosto. – E realmente, já tivemos muitas refeições e encontros para ficarmos preocupados se tem algo no dente ou se estamos suando de nervosismo. Não tenho mais nervosismo... Bem, tanto nervosismo em te encontrar, eu simplesmente quero estar contigo. – O encarei, mordendo meu lábio inferior. – O que eu quero dizer é que acho que está na hora de levar isso para outro nível.
- O que você quer dizer, ? – Falei baixo.
- Quando você conhece uma pessoa, sabe se ela vai mudar sua vida ou não. Você eu sabia que mudaria, mas não desse jeito, quando eu notei, já estava apaixonado por você. E depois, amando você. – Ele se levantou e segurou minhas mãos, me fazendo levantar também. – Ironicamente, você não virou minha vida de cabeça para baixo, você a organizou, a completou.
- Você vai chegar a algum lugar com isso? – Falei e o vi rir.
- Não dá para ser romântico contigo?
- Romântico sim, devagar não. Sou curiosa, fala! – Ele riu e segurou meu rosto com as duas mãos.
- Eu quero que você seja oficialmente minha namorada, mesmo, com direito a você mudar status de relacionamento do Facebook e tudo mais. – Soltei uma gargalhada e encostei meus lábios nos dele, pressionando-os fortemente e logo nos separei.
- Se isso for uma pergunta, eu com certeza quero namorar você! – Ele passou os braços pela minha cintura e eu em seu pescoço, em um abraço forte. – E eu nunca mudei meu status de relacionamento do Facebook! – O ouvi rir próximo a minha orelha. – Eu te amo, !
- Eu te amo, ! – Ele repetiu e eu sorri, me sentindo em casa nos seus braços. Aqueles braços. – Podemos celebrar agora?
- Acho que sim! – Passei a mão de seu pescoço para seu peito, abaixando-as até que estivessem ao lado do meu corpo novamente.
pegou as duas taças e serviu o líquido meio esbranquiçado, ele me entregou uma e ergueu a dele, repeti o movimento.
- A nós? – Ele perguntou e eu ri, abrindo um largo sorriso.
- A nós e a nossa felicidade. – Falei e tocamos nossas taças em um tilintar e cada um bebeu um gole.
passou um braço pelas minhas costas, segurando em minha cintura e eu apoiei minha cabeça em seu ombro, descolando somente para dar curtos goles no líquido. Nunca fui muito fã de champanhe, mas esse era incrível.
Terminamos de comer a batata frita enquanto assistíamos algum filme que passava na TV a cabo, não que estivéssemos prestando atenção, suas mãos passeavam pela minha perna e a outra só não se movimentava, pois estava ocupada levando a batata até sua boca, como eu fazia. Eu havia encostado meu rosto em seu braço e olhava de vez em quando para o filme e de vez em quando para sua mão em minha coxa. Realmente não tinha nada mais lá, nada mesmo, éramos somente nós na madrugada escura de Seul, comendo batatas fritas e bebendo Dom Perignon como namorados.
Namorados. Eu e ele. É, soa bem.





Continua...



Nota da autora: Agora é oficial, então?! Vamos ver quais próximos passos esse casal lindinho terá!
Espero que vocês tenham gostado e não se esqueçam de deixar seu comentário aqui embaixo! <3
Caso queira saber novidades dessa fanfic ou das próximas, você pode me encontrar no meu grupo do Facebook
E caso queira conhecer todas as minhas fanfics, venha na minha página de autora.





Nota da beta: Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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