Última atualização: 28/06/2018
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Prólogo

Observei o prédio branco com alguns detalhes laranja em minha frente e suspirei. Você não pode desistir, disse a mim mesma, fechando os olhos firmemente. As letras ACCESS, em inglês “acesso”, estavam até que discretas para o prédio de seis andares em Boston, longe do centro. Afinal, nenhum prédio de assessoria gostaria de ser um ponto no meio da cidade com luzes neons apontando para ele com a frase “estou aqui”, para quem tivesse o interesse de ir lá e encher o saco de alguns dos astros e empresas mais famosas e lucrativas da atualidade.
Verifiquei o horário em meu relógio e, como sempre, estava 15 minutos adiantada. Conferi em minha mão a pasta transparente com alguns de meus releases mais recentes, um portfólio e também algumas cópias atualizadas do meu currículo. Chequei se todos os botões da minha blusa social branca estavam fechados e se a calça social preta não possuía nenhum resquício do meu almoço. Meus saltos pretos estavam ajeitados e meu rabo de cavalo não aparentava ter nenhum fio arrepiado saindo dele. Respirei fundo, 10 minutos. Hora de entrar.
As portas se abriram assim que coloquei o pé mais próximo a elas, sentindo o ar gelado em comparação ao quente de Boston naquela segunda-feira à tarde. Obriguei meus pés a andarem até o balcão da recepcionista, apoiei levemente a pasta que estava em minhas mãos e recebi um sorriso simpático da ruiva com sardas no rosto.
- Olá, posso te ajudar? – Ela falou com a maior simplicidade do mundo, mantendo o sorriso branco em seu rosto.
- Eu tenho uma entrevista às 14 horas com Kelly Stephens. – Falei, tentando manter a confiança em meu peito, mas minhas pernas pareciam uma gelatina e estavam prontas para despencar e, devido à minha altura, não seria uma queda muito pequena.
- Claro, , certo? – Confirmei com a cabeça, mantenha-se sorrindo, sorria. – Irei chamá-la, fique à vontade!
Virei meu corpo de lado e vi que dos dois lados da porta havia sofás de couro branco vazios, só eu estava lá. Andei calmamente até um dos sofás e me sentei, apoiando a pasta em meu colo e a bolsa por cima.
- Senhorita Carvalho? – Ergui meu rosto, dando de cara com uma mulher de cabelos bem curtos e loiros, possuía um sorriso gracioso e um terninho executivo roxo em seu corpo. Não deveria ter mais de 55 anos.
- Sou eu! – Falei e ela abriu um sorriso estendendo a mão para mim. Fiquei um pouco confusa se eu me levantava, apertava a mão dela, ou se pegava minhas coisas. Escolhi por apertar sua mão e depois levantar.
- Me acompanhe, por favor!
A segui, passando pelos detectores de metais, pelos seguranças e por alguns olhos curiosos que eu tinha certeza que pensavam que eu era um peixe fora d’água e que realmente não deveria estar ali. Confiança, , confiança. Fui levada para uma sala com um ar condicionado mais forte ainda e agradeci mentalmente por ter escolhido uma camisa de manga comprida. Só espero que eu não esteja suando pelo pouco tempo que fiquei lá fora.
- Fique à vontade! – Ela apontou para uma das cadeiras na ponta da mesa e eu me sentei, vendo-a fazer o mesmo do outro lado. Apoiei a pasta na mesa de mogno escuro e minha bolsa se manteve em meu colo.
- Então, ... Conte-me um pouco sobre você, o que uma brasileira faz perdida em Boston? – Achei a pergunta engraçada, já que Boston é um dos lugares com maior foco de brasileiros no mundo, mas não me deixei abalar. Senti meus ombros relaxarem e tentei fazer com que minha voz saísse o mais normal possível.
A conversa fluiu. Dei graças à Deus pelo meu inglês não falhar ou que ela pudesse fazer alguma pergunta que confundisse as palavras e desse algum vexame. Me mantive calma... Até ela fazer a última pergunta.
- Por que eu devo contratar você, uma jornalista e não os RPs que eu entrevistei essa manhã? – Eu não sabia me vender e não esperava por aquela pergunta. Suspirei e tentei me lembrar das aulas de assessoria na faculdade, onde a discussão Jornalista x Relações Públicas era constante. Minha voz saiu calmamente, minha descendência italiana descansou, fazendo com que minhas mãos não se mexessem tanto e, assim, pude formular com calma a resposta que estava guardada há uns nove anos em minha boca. Ela sorriu.



Capítulo 1

(Não importa aonde a vida me leve, eu irei te encontrar – Simple Plan, Meet You There)

Assim que as portas de vidro se abriram, uma cabeça com cabelos ruivos cacheados e um rosto cheio de sardas já sorriam para mim, me esperando de pé.
- Vamos? Senhora Stephens quer falar contigo antes de você começar. – Afirmei com a cabeça, ajeitei minha bolsa vinho no braço e acompanhei Genevive, a ruiva, pelo corredor com detector de metais e seguranças. Os homens balançaram a cabeça, me cumprimentando, e eu retribuí, repetindo o gesto.
Caminhamos pelos longos corredores da ACCESS até estarmos dentro de um elevador. Genevive pressionou o botão seis e a porta se fechou atrás de mim.
Não falamos nada enquanto subíamos. Quando chegamos ao andar desejado, Genevive me deu um sorriso empolgado e eu saí do mesmo, vendo as portas se fecharem rapidamente e notei que ela não havia saído comigo. É agora que eu fico nervosa?
Dei passos lentos em direção à enorme sala que se estendia pelo sexto andar. Não havia portas de divisão, somente uma que deveria ser o banheiro. Em compensação, o material das paredes era um vidro fosco, o que garantia privacidade à senhora Stephens.
Ela estava lá, com os óculos escuros no rosto, um novo vestido e os mesmos saltos que eu já reconhecia em seus pés. Assim que eu dei um passo um pouco mais forte, ela ergueu os olhos, abrindo um sorriso, indicando uma das cadeiras em sua frente para que eu me sentasse.
- Fico feliz que esteja aqui conosco, . Primeiramente, bem vinda! Espero que goste da ACCESS, e claro, que se sinta confortável para tirar quaisquer dúvidas que possam surgir em sua carreira ou em seu ambiente de trabalho. É muito bom ter alguém mais jovem aqui, fazia um tempo já. – Ela deu uma risada e eu me senti confortável em segui-la.
- Obrigada, senhora Stephens, é um prazer estar aqui, eu sempre gostei de assessoria, então é muito bom poder trabalhar no que eu gosto.
- Nada de senhora, me chame de Kelly, por favor. – Assenti com a cabeça concordando. - Vamos dar uma volta e te apresentar algumas pessoas? – Ela falou, se levantando de sua cadeira e eu repeti o gesto. Ela já estava me esperando com as portas do elevador abertas.
Passamos por todos os andares da empresa de assessoria. Os primeiros quatro andares eram salas de alguns dos assessores que trabalhavam em Boston ou de suas equipes, o quinto andar era um estúdio fotográfico e, no sexto, era a sala de Kelly, junto com um espaço para os seguranças e sala de reuniões. Após toda a apresentação, voltamos ao quarto andar, com ela falando sobre meu novo trabalho.
- Bem, como sabe, temos várias equipes, com assessores chefes em cada uma. Analisando seu currículo e suas respostas na entrevista, achamos que você deve ficar na equipe da Melina Parks, ela é só alguns anos mais velha que você e cuida de vários artistas, mas o principal é o ator . – Abri um sorriso discreto de lado, eu era, secretamente, fã do D e viciada em filmes da Produtora Máxima, mas me contive em compartilhar. – Boa parte da equipe de Melina fica em Los Angeles, tirando uma parte que fica aqui em Boston, cuidando de diversos assuntos, especialmente do senhor , já que ele é daqui. – Assenti com a cabeça.
No quarto andar havia três portas, em uma delas o nome Melina Parks – Equipe estava em destaque. Foi nesta porta que entramos. Era uma pequena sala, com as paredes brancas, e os sofás de couro preto. No meio, tinha uma mesinha de centro de madeira escura com alguns papéis jogados em cima dela. À direita, havia uma pequena copa, com alguns utensílios culinários. Na sala, havia mais quatro portas e somente duas estavam abertas, incluindo uma com os dizeres – Jornalista, que aparentava ter sido recém-adicionada na porta escura.
- Seja bem-vinda, senhorita ! – Uma voz mais grossa soou atrás de nós e me virei, um rapaz alto e moreno, em um terno escuro e com a barba cheia, estava parado atrás de nós, mantendo as duas mãos em frente ao corpo e um sorriso até que fofo nos lábios.
- , esse é Derek, ele faz parte da equipe de Melina aqui em Boston, mas cuida de casos um pouco mais tensos, as atrizes. – Kelly falou o fim em um sussurro.
- Você deu sorte, novata, vai ficar com os atores, eles são menos rebeldes do que as atrizes de Hollywood. – Ele falou acariciando de leve meu ombro e abrindo um largo sorriso.
- Exatamente por isso, Derek. Não queremos assustar a menina, certo? – Kelly falou e ao mesmo tempo mexeu no bolso de seu terninho, pegando um celular preto, que agora era possível ouvir o barulho dele vibrando em sua mão. – Com licença. – Ela falou se afastando. E mesmo há poucos centímetros do meu lado, não conseguia mais ouvir sua voz.
- Seja bem vinda, ... Posso te chamar de , certo?! – Abri um sorriso de lado e confirmei com a cabeça. – Somos quatro aqui, contando com a Melina, mas ela passa muito tempo em Los Angeles. Tem também a Ruth, mas hoje ela não veio, foi fazer um ultrassom para saber o sexo do bebê, estou muito empolgado com isso. – Ele abriu a porta que havia meu nome e entramos no pequeno espaço. Eu abri um sorriso largo, porque ele sorriu ao meu lado e me empurrou de leve com o ombro.
A sala tinha as paredes brancas, e a que ficava de costas para a porta, era metade de vidro, igual à de Kelly. Todos os móveis eram nas cores preto e branco. Havia uma escrivaninha branca com detalhes pretos exatamente no meio da sala, juntamente com uma poltrona preta. Em frente à mesa, duas poltronas aparentemente macias. Um pouco a diagonal, um armário e um cabideiro também pretos completavam a sala. Em cima da mesa ainda havia um notebook fechado, alguns post-its, blocos, telefone e algumas coisas que eu achei que seriam necessárias.
- Isso é demais! – Falei um pouco mais alto, ouvindo Derek sorrir ao meu lado.
- Que bom que gostou, senhorita ! – Kelly falou atrás de mim, tocando meus ombros levemente. – Eu preciso sair, é uma emergência familiar. Derek, por favor, mostre o resto do local para e depois fale um pouco sobre suas responsabilidades. – Ele acenou com a cabeça, e eu também, os dois sorrindo. – E ... – Nossos olhos subiram para ela. – Seja bem vinda, mais uma vez, à ACCESS.
Entrei e apertei o interruptor, vendo toda a sala se iluminar com as luzes do teto e de um abajur alto ao lado da escrivaninha. Andei pelo local e parei em frente ao vidro que cobria metade da extensão da sala. Apoiei minhas mãos no batente e encarei a cidade lá embaixo, por mais que estivéssemos um pouco longe do centro, o movimento ainda era intenso, nada muito exagerado, mas era possível ouvir o barulho dos carros e da cidade, mesmo com as janelas fechadas.
- Melina deu uma olhada em seu currículo e realmente ficou interessada por alguém que tenha conhecimentos em códigos HTML, redes sociais, sites, edições e alguns segredos a mais que seu portfólio nos mostrou. – Eu me virei para encará-lo parado no batente da porta.
- Vou cuidar da parte online, então? – Ele abriu um largo sorriso, e eu ri também.
- Sim, mais ou menos, na verdade, aqui fazemos de tudo um pouco, espero que você goste, somos quase uma família aqui, espero que possa se sentir parte dela, brasileirinha.
- Obrigada, Derek, é muito bom estar aqui, muito mesmo. Eu sempre gostei de assessoria e poder trabalhar nisso, depois de sete anos formada, é bom demais! É finalmente se sentir livre, independente, é a...
- Melhor sensação do mundo? – Ele completou minha frase, e eu dei uma risada.
- Pois é! – Derek riu e me estendeu a mão.
- Hoje você não vai trabalhar porque Melina está em Los Angeles cuidando de algumas coisas do . Então, café? – Olhei para ele meio em dúvidas e ele riu mantendo a mão estendida. – Eu estou no comando aqui agora e, você realmente parece precisar de um café para relaxar. – Abri um sorriso de lado e segurei sua mão.

Havia uma cafeteria na esquina da ACCESS, estava um pouco vazia quando chegamos. Reconheci algumas pessoas que eu vi pela agência, mas que não se deram ao trabalho de me cumprimentar, e eu não o fiz para não ficar com a mão erguida.
Sentamos em uma mesa próxima a uma das janelas e fizemos nossos pedidos. Pedi um café com creme e um muffin para acompanhar e ele pediu só o café. Assim que nossos pedidos chegaram, Derek se interessou na minha história.
- O que uma brasileira veio fazer em Boston? Você não veio para tentar uma vida melhor, que eu sei. – Ele me encarou dando um gole em seu café.
- Consegui uma bolsa para fazer pós-graduação aqui com um ano de duração. Eles bancaram tudo e, nesse meio tempo, trabalhei na assessoria da faculdade, mas falta somente um mês para minhas aulas acabarem e eu realmente não quero ir embora de Boston agora, acho que essa cidade me cativou. – Sorri brevemente. - Então eu saí distribuindo currículos pela cidade, até cair aqui na ACCESS. Achei que seria um passo maior que minhas pernas, pelo fato de ser uma agência de assessoria bem ampla, mas pelo jeito não. – Sorri, dando uma pequena mordida no muffin de chocolate com chocolate branco.
- Precisamos de pessoas novas, sabe? Renovar o estoque um pouco, pessoas que não enlouqueçam logo na primeira semana quando derem de cara com algum famoso em crise. Ao mesmo tempo, precisamos de pessoas com o pensamento diferente, e como você é brasileira, aposto que tem diferentes meios de pensar. – Ele suspirou e apoiou o copo na mesa.
- Espero que eu possa colaborar com isso. – Ergui meu copo e ele fez o mesmo, tocando no meu, em um rápido brinde.
Pude conhecer Derek um pouco. 27 anos, a mesma idade que a minha, formado em jornalismo também, nascido e criado em Boston. Cuida dos casos mais complicados, como artistas em surto e, às vezes, acompanha as clientes em eventos. Ele era casado com Rupert, há pouco mais de três anos, e descobri que era igual a ele, mas ruivo e um pouco mais alto e velho.
Contei um pouco sobre minha mãe e irmã que ficaram no Brasil. Falei também de meu pai que já era falecido e sobre algumas antigas experiências amorosas. Todas desastrosas, preferi frisar, fazendo-o rir. Falei um pouco de meus gostos, de experiências anteriores, até que o assunto passou a ser ele.
Derek parecia ser uma ótima pessoa. Não aparentava ser superficial e muito menos interesseiro, era o tipo de pessoa que eu gostaria de ter por perto, um amigo, talvez? Eu não havia feito nenhum laço muito forte na pós, somente com alguns brasileiros que vieram comigo, que acabaram se tornando meus amigos por conveniência.

Os dois primeiros meses passaram voando. Eu arrumei sites e redes sociais de todos os famosos da seção de Melina, e acabei conhecendo um pouco mais do comportamento deles, e projetos futuros que eu deveria ficar atenta. Melina era uma pessoa legal, deveria ser no máximo 10 anos mais velha que eu e era um pouco mais baixa. Tinha os cabelos loiros um pouco desbotados e usava óculos de grau, como eu. Vestia-se um pouco mais informal do que eu e Derek. Acabei percebendo, com o tempo, que poderia vir mais confortável para o trabalho.
No começo do terceiro mês, os trabalhos de campo finalmente começariam. interpretava o deus Poseidon no filme “Os 12 Deuses do Olimpo” da Produtora Máxima, e gravava o segundo filme solo do seu personagem. E, por isso, estava ficando muito em Washington e Cleveland, mas Melina não poderia ficar muito tempo com ele, tendo que se dividir entre seus outros clientes. Então adivinha quem sobrou? Pois é, fui designada para essa viagem, e agora?
- Você pode ficar bem tranquila, , não se preocupe. Você deverá cuidar da agenda dele e certificar que ele estará no set e nos compromissos na hora e local exato. Terá um carro à disposição de vocês. - Melina falava enquanto andava pela sua sala e eu ouvia parada da porta. – Com o contrato da Máxima, já passou por isso várias vezes, ele sabe o que deve fazer e, mais importante, sabe o que não deve fazer. – Ela parou em minha frente entregando uma pasta grossa com escrito à caneta na capa, acho que era o arquivo mais longo que eu já havia visto na minha vida. – Mas relaxa, nunca se envolveu em escândalos, ele mal sai de casa na verdade. – Ela suspirou – Ele precisa sair. – A última parte ela falou um pouco mais baixo.
- E como vai ser? Como eu faço? Devo estar me confundindo. – Falei tentando procurar as palavras exatas.
- está aqui em Boston hoje, visitando sua família. À noite vamos nos encontrar para vocês se conhecerem e eu vou passar as últimas informações, horário de viagens, hotel, compromissos e tudo mais...
- Você precisa falar mais devagar, Melina! – A interrompi, fazendo-a rir.
- Eu sei, mas não consigo, é simplesmente viciante. – Ela abriu um sorriso e olhou para o relógio. – Bem, são quase cinco horas, acho que você pode ir para sua casa. - Ela acrescentou um tablet onde a imagem do novo hotsite de estava sendo montado. – Parabéns, está tudo aprovado! – Eu sorri, desligando o aparelho e colocando tudo em minha mesa, livrando um espaço no corredor.
- Obrigada! – Ambas sorrimos. – Bem, então, a gente se vê às 19h30min no restaurante, certo?
- Certo. Qualquer imprevisto eu te ligo, mas não creio que vá ter. Se ele se atrasar dois minutos, ele sabe que é um homem morto! – Ela afirmou com a cabeça, me fazendo soltar uma risada fraca.
Juntei todos os materiais em minha mesa e desliguei o computador. Já fazia dois meses que eu trabalhava lá e ainda parecia um sonho. Eu tinha conhecido alguns dos famosos tanto da equipe da ACCESS, como da equipe pessoal de Melina. Na minha porta não havia mais só meu nome e minha formação, mas sim, algo um pouco mais intimidador: as palavras Equipe .
Essas palavras foram acrescentadas somente alguns dias depois de eu conhecer Melina, já que precisava se tornar mais presente nas redes sociais. Porém, essa noite seria a primeira vez que eu conheceria o próprio . Assumo que estava um pouco nervosa com a situação, mas não é como se eu fosse fugir das minhas responsabilidades.
Melina havia me recebido muito bem. Me contara que quando meu currículo apareceu nas mãos dos assessores principais, ela ficou realmente louca atrás de mim devido aos meus conhecimentos específicos de informática. Claro que ela poderia falar isso só para me agradar, mas suas palavras aparentaram ser sinceras, e eu estava me sentindo muito bem recepcionada naquele meio todo.
Além de Melina, Derek e eu, o quarto nome da equipe era Ruth, uma estagiária de 21 anos, mas que gostava muito dessa área e era extremamente feliz por poder trabalhar nesse campo. Ela só trabalhava na parte da tarde e não assumia grandes responsabilidades. Na maioria das vezes, seu texto passava pelas minhas mãos, nas de Derek ou nas de Melina, antes da publicação, em qualquer lugar que fosse. Além disso, ela cuidava da parte de recebimento e encaminhamento de e-mails, fazendo com que só os relevantes caíssem nas mãos de nós três. Por mais nova que ela fosse, tinha tirado uma licença, devido à sua gravidez. Quando Derek me contou sobre, pensei que ela fosse um pouco mais velha.

Ouvi a porta destravar atrás de mim, e a empurrei, quase caindo no chão de meu apartamento. Coloquei as pastas e papéis em cima da mesa do telefone que ficava ao lado da porta, e antes de fechá-la, pendurei a bolsa no cabideiro acima da mesa do telefone. Andei mais um pouco, largando a chave em cima da mesa e corri para minha larga cozinha para beber um pouco de água antes de suspirar demoradamente. Eu tinha 27 anos e ainda sentia um orgulho enorme quando alguém elogiava algum trabalho que eu fazia bem. Parecia uma aluna no primário que recebia uma estrela dourada ou uma nota 10 e um parabéns escrito na prova, e isso era algo que talvez nunca mudasse.
Eu havia alugado um apartamento quando minha pós-graduação acabou. Na teoria era para eu voltar para o Brasil e é isso aí, mas com o emprego, consegui um visto de trabalho e aluguei um apartamento há algumas quadras da agência, em um condomínio familiar. Não era muito grande, mas como eu morava sozinha, não era me importava.
Era composto de uma suíte, aonde eu tinha uma grande e alta cama de casal, decorada em tons de rosa e vermelho, além de um armário e uma cômoda nas laterais. O outro quarto era menor, transformei em um escritório. Claro que cabia tudo isso em meu quarto, mas como era só meu, eu gostava de espaços abertos, preferi por fazer assim. Além da suíte, havia mais um banheiro, ao lado do escritório. Tinha também uma sala de estar aberta que eu havia tornei uma sala de estar com TV... Se isso fizer algum sentido. E ao fundo a minha cozinha, em formato de corredor, com uma janela que dava de frente para o fogão, e podia ver o nascer do sol de uma forma espetacular.
Joguei minhas roupas no cesto e peguei os arquivos, colocando-os em meu escritório. Peguei alguns para saber por pelo menos quantos dias eu ficaria em Washington, porque eu precisava fazer mala. Logo na primeira página havia as palavras “última semana de gravações” e, com isso em mente, eu fiz a mala para pouco mais de sete dias. Como teria alguns eventos, acrescentei alguns vestidos mais elegantes. Com alguma dificuldade, consegui fechá-la. Eu precisava de uma mala maior.
Assim que estava pronta, notei em meu relógio que já passara das 18h30min e estava relativamente atrasada, levando em conta o trânsito de Boston. Droga! Puxei um vestido branco e azul com detalhes em vermelho no meu armário, além de saltos nude e saí correndo para o banheiro. Arrumei-me rápido até, levando em conta que só precisava secar meu cabelo, fazer uma maquiagem e claro, me vestir. Conferi o relógio de novo. Que droga!
Enquanto descia as escadas do meu prédio, sim, escadas, porque o elevador estava quebrado e eu morava no nono andar, peguei meu telefone e liguei para um táxi. Eu estava muito atrasada.
- Deixa para lá! – Falei para o senhor no telefone quando um táxi freou em frente ao condomínio assim que eu estendi a mão. – Para o centro, por favor! – Pedi rapidamente, ajeitando minha bolsa em meu colo e conferindo se meus documentos e carteira estavam lá.

O táxi estacionou em frente ao hotel em que o restaurante ficava. Paguei o taxista rapidamente, acho que acabei agradecendo em português por engano. Só notei que estava quase correndo quando o segurança na porta do restaurante me olhou com uma cara um pouco suspeita.
- Desculpa! – Sussurrei, entrando mais devagar e dando de cara com uma maître bonita em um vestido preto e muito bem maquiada.
- Boa noite! – Ela falou exibindo um belo sorriso branco.
- Boa noite, é... – Interrompi um pouco me perdendo nas palavras – Reserva no nome de Melina Parks.
- Senhora ? – Confirmei com a cabeça. – Me siga, por favor.
A maître mudou de postura rapidamente, parecia mais rígida e eu realmente não sabia se ficava da mesma maneira ou não. Caminhamos até o fundo do restaurante e subimos por uma escada em espiral, onde as luzes não tinham o tom mais branco e sim um pouco amarelado, quase vintage.
Assim que eu coloquei meus pés no último degrau do lance de escadas pude ver Melina. Ela estava como a Melina que eu conhecia de sempre, um vestido azul bem escuro, sem decote nenhum, com seus cabelos soltos ao lado dos olhos e uma maquiagem leve, quase imperceptível. Ao seu lado, um deus grego, até lembrar seu nome.
- ! – Melina levantou assim que a maître nos deixou e eu abri um sorriso, sentindo seus braços passarem por meu corpo em um rápido abraço.
- Desculpa o atraso. – Falei de modo que só ela ouvisse e ela riu próximo ao meu ouvido.
- Relaxa... Você está um arraso! – Ela falou e eu soltei uma risada ao mesmo tempo em que ela me soltou. – Quero te apresentar uma pessoa! – Ela não falava comigo, mas com ele.
Ele, que estava com uma calça jeans clara, um tênis no pé e uma simples camiseta azul, com uma pequena abertura na gola V. Ele se levantou ao meu lado e pude medir nossa altura rapidamente. De salto, eu ficava da mesma altura que ele. Aquele cheiro de perfume caro foi o que me deu certeza de quem realmente estava ao meu lado. E era ele que eu acompanharia a partir daquele momento.
- Ela vai cuidar de você por um tempo. Por favor, é uma das melhores em nossa equipe, não seja chato, ok?! – Ouvi a risada de ambos e senti a mão de Melina em minhas costas esquentarem. Respirei devagar e deixei meus ombros caírem um pouco, relaxando.
Seu olhar encontrou com o meu e eu precisei abaixar a cabeça por um momento ou eu desmaiaria. Ele estava loiro, por causa do papel de Poseidon, e sua barba começava a crescer de novo. Ele estendeu a mão e eu fiz o mesmo, sentindo o choque da minha mão gelada com a sua incrivelmente quente.
- Essa é , nossa nova assessora, ela vai cuidar de você por um tempo! – Ela tirou a mão das minhas costas.
- Oi! – Falei, me sentindo uma boba dois segundos depois.
- Oi, ! – Ele falou abrindo um largo sorriso.

Minha mão ficou segurando a dele por um tempo e, sendo bem sincera, eu não sabia se não a havia soltado por estar perdida naqueles olhos azuis, em seu sorriso branco, na brecha da sua blusa onde uma tatuagem podia ser vista ou se ele não havia soltado minha mão mesmo e mantinha aquele sorriso lindo para mim. Um pigarro de Melina me fez voltar para a realidade em rápidos segundos, me destravando.
- Sou ! – Ele manteve o sorriso largo e nos sentamos nas cadeiras, eu à sua frente e Melina à minha esquerda. Ok, agora você tenta relaxar, , é um jantar de negócios.
Eu tentei prestar atenção no cardápio que o garçom havia colocado em minha frente. Busquei analisar as diversas opções de carnes, frangos e peixes, mas estava quase impossível. Eu juro, esse homem cheirava a perfume e cheirava muito bem. Enquanto escolhíamos, todos ficaram em silêncio, não sei se era em respeito a mim ou se era comum assim, mas logo o garçom nos interrompeu e a atenção foi mudada para mim novamente.
- Gostariam de beber alguma coisa, senhores? – O senhor de meia idade se aproximou com um guardanapo pendurado em seu braço.
- Eu bebo um vinho! – Melina falou, direcionando o olhar para mim. O que ela queria que eu falasse?
- Eu aceito também, um vinho tinto, por favor! – Ouvi a voz de e tentei prender a respiração por alguns segundos. – Você aceita, ? – Ergui meus olhos um pouco arregalados do cardápio, tentando assimilar se era comigo mesmo.
- Claro! – Abri um sorriso de lado. – Por favor! – Me direcionei ao garçom.
- Por favor! – falou acenando para o garçom.
Ok, , tá tudo certo!
Demorou poucos minutos até que nossas taças estivessem cheias do líquido avermelhado e que eu me segurasse para não virar aquela taça inteira goela abaixo... Era só eu ou estava realmente quente ali?
O silêncio estava realmente me incomodando. Eu sou comunicativa, não conseguia ficar quieta por muito tempo. Porém, antes que eu pudesse falar alguma outra coisa, o garçom apareceu de novo para anotar nossos pedidos. Desta vez eu fui a primeira a falar, pedi um salmão com um risoto e voltei a ficar muda em meu canto, passando os olhos desde a contagem de dentes em cada garfo sobre a mesa e quantas flores havia nos arranjos do restaurante inteiro.
- Então... – Ouvi minha voz sair e me assustei por um segundo, relaxando os ombros.
- Vamos falar de negócios, então? – Melina falou apoiando as mãos sobre a mesa.
- Espera a comida chegar antes, Melina, não rola falar de compromisso de barriga vazia! – falou se espreguiçando em minha frente e eu soltei uma risada fraca discreta. – Vamos falar de você, !
- Oi? – Me assustei um pouco, tendo que encarar aqueles olhos azuis em minha frente e tentei me manter calma. – Ah sim, eu, bem, não é como se eu tivesse muito para contar da minha vida!
- Bem, você está aqui em Boston, e eu sei que é brasileira. Alguma história você tem, e eu gostaria de ouvir! – Ele apoiou os cotovelos na mesa, se ajeitando na cadeira e ficando um pouco mais perto.
- Ok! – Falei tentando me manter mais relaxada.
Contei rapidamente sobre meu último ano e últimos meses na ACCESS. Creio que havia falado um pouco rápido demais, mas quando cheguei ao fim, acho que já falava mais como uma pessoa normal... Mais como eu mesma.
manteve sua atenção em mim esse tempo todo, enquanto Melina ficava dividida entre minhas palavras e o celular. Às vezes ela fazia alguns comentários para tentar descontrair. Quando a comida chegou, seu celular tocou e ela precisou se retirar para atender.
- Então, ... – me encarou por um tempo antes de encarar sua comida – Estive no Brasil ano passado, realmente gostei de lá! – Esperei minha boca estar bem vazia antes de responder.
- Por mais que eu esteja aqui a trabalho, não troco aquele país por nada, é meu xodó! – Ele deu uma risada de lado.
- Os fãs são bem... – Ele pareceu medir as palavras com bastante cautela.
- Loucos? – Falei soltando uma risada de lado.
- Eu diria intensos. – Ele acompanhou minha risada e me encarou por alguns segundos.
- Quando eu era mais nova, fazia parte desses fãs “intensos” – Fiz aspas com os dedos na palavra e ele riu. – Somos meio loucos, mas acho que é nosso jeito de demonstrar que nos importamos. – Ergui meus ombros rapidamente e ele riu.
- Me assustei no primeiro dia, mas acho que consegui entender um pouco, é um povo muito caloroso. – Sua atenção estava em seu prato.
- Pode dizer louco, eu entendo! Não vai me magoar, não! – Ele deu uma gargalhada, tentando esconder a boca e eu me senti confortável em acompanhá-lo. Isso, , pode se soltar, você está se saindo bem,.
Melina apareceu ao meu lado rapidamente, falando algo sobre alguma atriz e algum evento que aconteceria. Como não era meu departamento, não focamos muito no assunto, afinal, meu departamento estava na minha frente.
- Então, qual era o papo? – Melina falou antes de dar uma garfada em seu prato.
- Os fãs brasileiros são loucos. – falou e eu abri a boca levemente, como se eu estivesse ofendida. – Mas você disse...
- Eu estou brincando! – Falei, rindo da cara de assustado que ele fez.
- É a , , não precisa levar suas brincadeiras a sério! – Melina falou dando uns tapas de leve em meu ombro. – Olha o nome dela! – Ri fraco, balançando a cabeça.
- Acontece! – Descansei meus talheres em cima do prato e limpei minha boca rapidamente com o guardanapo que estava em meu colo, e dei mais um gole em minha taça.
logo me acompanhou e esperamos quietos por alguns segundos enquanto Melina terminava de comer, algo que não seria muito demorado, pois já havia notado que ela realmente preferia comer mais rápido e resolver seu trabalho, do que ficar batendo papo sobre assuntos aleatórios da vida.
- Vamos falar de Washington! – Melina falou descansando os garfos em cima do prato e puxando uma pasta preta, com algumas informações sobre a viagem.
A viagem seria de somente uma semana, algumas regravações de “Poseidon 2: A Maldição dos Mares”, dentro de estúdio, e uma entrevista em um programa local. Meu trabalho? Seguir, guiar e ajudar na ida e volta das gravações, passar algumas respostas de perguntas antes das entrevistas e aconselhá-lo quase 24 horas por dia sobre qualquer passo que ele fosse dar fora do set ou do hotel, e alguns assuntos mais que poderiam rolar no caminho.
Notei que quando começamos a falar de trabalho, tomou uma posição mais rígida em sua cadeira. Sua cabeça estava baixa nos papéis que Melina havia lhe dado, iguais aos que eu já havia recebido essa tarde, e dava para notar que seus ouvidos estavam focados nas palavras de Melina. Ele realmente prestava atenção, mesmo sabendo que ele já deveria ter ouvido aquele discurso milhares de vezes, já que Melina era sua assessora desde seus primeiros projetos.
Porém, acabei notando que as instruções eram mais para mim do que para ele: assédio da mídia. Para quem o conhece, sabe que é raramente visto na mídia, ninguém nunca soube exatamente o porquê e eu sempre me perguntava isso. Contudo, a resposta ficou clara logo nas primeiras palavras. não era do tipo que gostava de uma farra gratuita ou de aparecer só para dizer que apareceu.
- Relaxa, dá tudo certo! – falou fechando a pasta e apoiando-a onde antes estavam nossos pratos e relaxando um pouco o corpo na cadeira. – Você tá comigo!
- Você ouviu o chefe, não é?! – Melina falou e eu soltei uma risada sem graça, quase tímida. – Bem, crianças, eu preciso ir, porque minha noite ainda não acabou. – Ela falou se levantando e eu ia fazer o mesmo, quando ela apoiou a mão em meu ombro com força, me obrigando a sentar novamente. – Conversem um pouco, se conheçam. Veja a como Melina 2.0, pode ser? – Ela virou para o e ele acenou com a cabeça. – Ou como o Derek, quem sabe?
- Nunca vou vê-la como você, muito menos como o Derek. – Ele falou. Melina riu e eu senti meu rosto esquentar um pouco.
Melina pediu a conta, e juro que a vi acertar a conta da mesa inteira. Eu preferi não falar nada. Ainda estava tentando me acostumar com essa vida de assessora de famosos, mas sabia que quase todos os gastos à parte eram acertados pela ACCESS, ou seja, quem havia pagado o jantar, no fim das contas, foi . Simples assim.
Outra garrafa de vinho tinto apareceu na mesa e o papo acabou ficando mais descontraído, por favor, diga que eu não estava bêbada. O papo da garota do interior do Brasil acabou e agora falávamos de um garoto nascido e criado em Boston que hoje em dia fazia Poseidon.
Ele falava de um jeito bem descontraído, suas mãos se mexiam e era nítida a felicidade em ter conseguido realizar seus sonhos. Talvez a falta de foco em aparecer na mídia e não ter muito contato com as redes sociais fosse só um obstáculo, mas quando ele falava sobre os testes, filmes e todos os trabalhos que já havia feito, sentia como se eu estivesse falando com um garoto de sete anos, que esperava o melhor presente de Natal, e o ganhara por último, depois que todos os embrulhos haviam sumido debaixo da árvore.
- É bom ouvir falar sobre sua paixão por atuação, minha única experiência como atriz foi quando eu tinha cinco anos de idade... – Falei descontraidamente e notei que ele se manteve quieto, pedindo para que eu continuasse. – Era uma peça da escola, eu era uma rainha e sabia todas as falas de cor, até as dos outros personagens. – Falei um pouco mais baixo a segunda parte e notei um sorriso abrir em seus lábios.
- E quando você se apaixonou pelo jornalismo? – Ele pousou a taça vazia novamente em cima da mesa.
- Não sei bem se eu me apaixonei ou se ele simplesmente me puxou pelas pernas e eu acabei convivendo bem ao lado dele. – Dei de ombros e ouvi meu suspiro.
- Mas pela conversa hoje, dá para notar que você é feliz com o que faz. – Seu corpo veio para frente um pouco, apoiando os cotovelos na mesa.
- Agora que eu tenho um emprego na área que eu gosto e ganho bem, sim, sou muito feliz. Mas é que não é fácil ter sucesso nessa área, não é fácil nem ter um emprego nessa área. – Dei de ombros mais uma vez. - Mas eu tinha alguns planos em minha mente, caso o jornalismo não desse muito certo.
- Qual seriam seus outros planos?
- Eu gosto de cozinhar, muito. Então talvez meu plano B estaria ligado à gastronomia ou algo do gênero. – Levei a taça novamente aos lábios e entornei o pouco que restara do vinho. Já chega por hoje!
O silêncio se instalou por alguns segundos e o desconforto começou a me incomodar. Eu comecei a contar as flores nos arranjos novamente e vi que o restaurante estava bem mais vazio e menos barulhento também. Bati os olhos em meu relógio e já passava das 11 horas.
- Acho melhor eu ir... – Falei puxando minha bolsa para meu colo. – Fico meio emburrada quando não durmo as horas que preciso. – Falei calmamente e ele riu.
- Então, é melhor irmos, dois emburrados em uma viagem que não dá tempo de dormir, não vai ser uma boa! – Ele falou rindo e eu me levantei.
Fomos andando até a porta e ele estava a dois passos atrás de mim, quase podia ouvir sua respiração. Assim que passamos pela maître, pude vê-la assentir para o e o vi imitar o gesto de relance. É nessa hora que eu pergunto se a conta está realmente paga ou se saio e deixo por isso mesmo? Não tive tempo de ter resposta para essa pergunta, porque se eu virasse de costas, daria de cara com bem perto de mim.
- Precisa de uma carona? – Ele falou quando estávamos no lobby do hotel. Lá fora estava ventando e calmo, nenhum sinal de pessoas loucas gritando por ele, por mais que ele fosse de Boston, raramente sabiam quando ele estava por lá.
- Não precisa se incomodar, vou pegar um táxi para casa. - Eu falei, sentindo o vento bater forte em minhas costas, quando a porta de vidro do hotel foi aberta.
- Tem certeza? – Afirmei com a cabeça mais uma vez e saímos para o vento.
- É totalmente fora de mão onde eu moro e onde você mora. – Falei observando alguns táxis em fila na porta do hotel. – A gente se vê amanhã de manhã no aeroporto? – Fiz um gesto com a cabeça.
- Pode deixar, ! – Sorri me aproximando do táxi, mas parando logo em seguida.
- ! – Gritei para ele, mas não foi necessário, já que ele havia dado só alguns passos para o lado, em direção à cabine do valet em frente ao hotel. Ele se virou automaticamente e eu ri dessa reação. – Eu não vou me segurar! – Falei e me aproximei dele novamente.
- O quê? – Seus olhos se arregalaram por um momento.
- Posso tirar uma foto com meu ator favorito? – Falei com a mão já dentro da bolsa para pegar o celular. Ele abriu um lindo sorriso e vi suas bochechas ficarem vermelhas por um tempo, mas logo relaxou e se aproximou de mim novamente.
- Se eu sou seu ator favorito, você pode! – Peguei o celular e rapidamente o destravei, colocando na câmera, me aproximei um pouco dele, até os nossos rostos estarem dentro do quadrado da foto.
Notei seu sorriso tímido na foto, era o mesmo que ele fazia em todas as fotos de fãs que eu já vi. Os dentes brancos à mostra, mas parecia um pouco mais discreto dos que ele havia dado durante o jantar, um pouco mais profissional. Tentei dar um sorriso não tão alegre, mas foi quase impossível, pois minha mente ficava gritando: Você está conhecendo ! Você está conhecendo ! Apertei o botão da foto umas três vezes, e logo abaixei o celular, soltando uma risada em seguida.
- Se eu quiser ficar nesse mundo, acho que preciso aprender a me controlar. – Falei dando passos para perto do ponto de táxi.
- Acho que não. Ser tietado faz parte do trabalho de artista, não? – Ele deu de ombros pegando a chave da mão do valet.
- É o que eu acho também! – Dei um rápido sorriso, acenando para o taxista à minha frente. – Até amanhã, senhor ! – Assenti com a cabeça e o vi fazer o mesmo gesto antes de eu entrar no táxi.
Indiquei o endereço para o motorista e me afundei no banco de trás do táxi branco com listras marrom de Boston. Peguei meu celular e fui direto para a galeria de fotos. Passei pelas três fotos que eu havia tirado e escolhi a que eu estava mais bonita. Era um sorriso sincero. Não o sorriso de , assessora de , mas sim, o sorriso de conhecendo o , seu ator favorito. Senti-me uma criança, assistindo aos primeiros filmes dele de novo. Ali eu era só uma fã.
Fã ou assessora? A realização do sonho é a mesma! # #Jornalismo”, escrevi essas palavras rapidamente no Instagram, fiz questão de não colocar filtro nenhum na foto e postei, compartilhando-a no Facebook, Twitter, Tumblr e todas as redes sociais ligadas à minha conta. Sorri para a foto novamente e me senti satisfeita. Talvez escolher jornalismo como profissão fosse uma boa! Apesar de falar isso agora, na época da faculdade, o “não viver do jornalismo” era uma opção muito mais prazerosa, mas é o que sempre me disseram: as coisas acontecem quando a gente menos espera.
Guardei meu celular novamente e após alguns minutos o taxista parou na frente do meu adorável condomínio. Entreguei o dinheiro para ele, agradeci e saí, logo entrando e acenando para o porteiro.
Entrei em casa e senti o calor do meu apartamento. Fui rapidamente me preparando para dormir. Apesar de o meu apartamento estar quente, meu corpo ainda estava frio. Após me cuidar e me trocar, deitei em minha cama e fechei os olhos, sentindo meu corpo relaxar dentro do edredom e logo estava dormindo.

Abri os olhos com dificuldade quando meu celular tocou e tive vontade de jogá-lo na parede. Fazia duas horas que o sol havia nascido, e isso era considerado cedo para mim. Desliguei o despertador, ativei o Wi-Fi do celular e fui para o banheiro. Em poucos segundos, ouvi meu celular tocar com as diversas notificações. Isso que dá colocar foto com famosos. Fiz minha higiene matinal rapidamente e corri para a cozinha para tomar um café da manhã... Ou pelo menos, um café que me mantivesse em pé até chegar ao aeroporto. Passei manteiga rapidamente na torrada que acabara de pular da torradeira e a prendi entre meus dentes, enquanto voltava para o quarto.
A cada peça de roupa que eu colocava, era uma mordida que eu dava em minha torrada. Quando terminei de comê-la, vesti minha camisa polo roxa de meia manga. Fiz uma maquiagem rápida e conferi meu celular. Tinha 10 minutos antes do carro passar em casa, pelo menos cinco aplicativos gritando e a setinha para o lado indicava que mais alguns estavam escondidos. Abri um sorriso de lado.
Conferi em minha mala se algo estava faltando, chequei minha bolsa e estava pronta para viajar para Washington, D.C. Faltando alguns minutos até eu ter que descer, sentei em minha cama e abri a notificação mais importante de todas, da minha mãe.
“Bom dia filha... Acho que para você ainda não, não é?! Vi sua foto com , realizou seu sonho? Está feliz? Me ligue. Beijos, te amo.”

“Oi mãe, agora é bom dia aqui! Estou bem feliz, foi difícil manter a seriedade, mas precisei tirar minha foto. Estou indo para Washington com ele e equipe para uma gravação, a gente vai se falando. Amo você, beijos”.

Enviei a mensagem e abri o Instagram rapidamente. A foto já tinha pouco mais de 50 curtidas e alguns comentários surtados, incluindo da minha irmã. Ri e bloqueei o celular, deixando para responder depois. Levantei e calcei meu peep toe preto. Ajeitei a mala em um ombro e a bolsa em outro, conferi se todas as luzes estavam desligadas e tranquei a casa. Assim que saí pelos portões do condomínio, um carro preto da ACCESS estava parado com um motorista conhecido me esperando pelo lado de fora.
- Bom dia, Jason! – Falei entregando minha mala para ele.
- Bom dia, senhorita. Pronta para viajar? – Ele respondeu educado.
- Não muito! – Soltei uma risada e entrei no carro. Não mesmo, eu tinha medo de voar.
O caminho para o aeroporto foi até que curto. Também, não é todo mundo que está acordado às oito horas da manhã de um sábado. Conferi rapidamente a pasta com as instruções que Melina havia me dado e logo já estava fazendo check-in no balcão e despachando minha mala. Passei em um balcão de doces para comprar chicletes e uma água e tomei um calmante antes de entrar na sala de embarque.
Eu havia esquecido como aquilo era grande. Caminhei para perto do portão de embarque à procura de e não o encontrava em nenhum lugar. Devo ter dado umas três voltas, o que estava começando a me deixar envergonhada. Até que avistei um boné azul escuro no canto da sala de embarque, com óculos escuros e a boca levemente aberta, o que me deu a impressão de que mais alguém estava com sono além de mim
. Aproximei-me devagar, tentando me manter calma. Não era porque eu tinha conhecido ele, que eu tinha me tornado íntima. Apoiei minha bolsa na mesa em que seu pé estava apoiado e sentei em uma cadeira ao seu lado.
- Bom dia! – Falei em um tom de voz normal e tomei um susto quando ele se mexeu, assustado com a minha fala. - Oh, calma!
- Ah! – Ele falou passando a mão nos olhos por baixo dos óculos escuros. – Como você sabia?
- Não se esqueça de que eu estou cuidando do seu site e afinal... Você só tem esse boné? Seu aniversário tá chegando, acho que já sei o seu presente! – Ele riu tirando os óculos e colocando a haste na gola de sua blusa.
- Há, há, há engraçadinha! – Ele falou com a voz de sono.
Mantivemos-nos em silêncio por um tempo e notei que ele estava cochilando novamente quando sua cabeça pendeu para o meu lado. Ri baixo e peguei meu celular para conferir as notificações, e responder mensagens e comentários na foto, até que chamaram para o nosso voo. Eu levantei e fui pegando minhas bolsas, mas ele ficou só olhando para a fila que se formava.
- Não vai entrar? – Perguntei apontando para a fila.
- Por mais esnobe e até idiota que pareça, somos os últimos a entrar – Ele falou colocando os óculos novamente.
- Ah sim. – Suspirei, não entendendo muito, mas me sentei novamente.
E foi o que aconteceu. Assim que todas as pessoas passaram pelos portões, foi nossa vez. A mulher da companhia aérea balançou a cabeça em nossa direção e nos levantamos. Ela estava com uma feição muito nervosa. Eu entendo, amiga, já passei por essa. Enfim fomos liberados. Entramos no avião pelas portas de trás e logo sentamos em nossa fileira, que era a última. Como era voo doméstico, não havia divisões de classes.
Ajeitei minha bolsa no compartimento de carga, me sentei na cadeira e prendi o cinto o mais firme possível e segurei firmemente as laterais da poltrona, pude vê-lo me encarando ao lado. Respira, .
Quando o capitão liberou a decolagem, eu senti meu corpo enrijecer como sempre fazia. Segurei mais forte as laterais da poltrona e pude ouvir o barulho das turbinas do avião. Respira, , vai dar tudo certo. Quando os nós dos meus dedos começaram a ficar brancos e poucas lágrimas rolarem por minhas bochechas, eu senti uma mão quente em cima da minha e uma voz baixa perto de meu ouvido.
- Também não gosto de voar. – E, notei, pelo embaçado de meus olhos, que ele estava com um sorriso nervoso nos lábios.
A aeronave correu pista e senti as rodas saírem do solo. Minhas mãos firmaram por mais alguns segundos nas laterais da poltrona e depois se soltaram como sempre acontecia, quando eu já me sentia segura. Passei minhas mãos em minha bochecha, secando as lágrimas e soltei a respiração bem devagar.
- Eu não consigo gostar. – Falei simplesmente, não quis dividir minhas experiências com ele, pois ele ainda era um desconhecido para mim. – Não consigo me acostumar.
- Eu entendo isso. Eu não gosto de voar, mas é uma obrigação no meu trabalho, então com o tempo eu fui me acostumando. – Ele estava sem seus óculos escuros e me encarava com seus olhos.
- Se eu viajasse com frequência, creio que já teria perdido meu medo. – Falei simplesmente, apoiando minha cabeça na poltrona.
A viagem correu sem mais conversas, ligaram a televisão, então pude caçar algum filme que estivesse passando e ficar assistindo até chegarmos a Washington. O voo de Boston para Washington durava menos de uma hora.
Assim que chegamos, peguei minha mala e logo nos deparamos com um carro e responsáveis da Máxima nos esperando. Eu entrei com ele e fomos levados a um hotel no centro da cidade. Não havia nenhum fã esperando, mas pelo que eu havia entendido, teria alguns no set. Porém ele não iria para o set hoje, seria somente prova de roupas, ensaio e discussão de roteiro. E eu acompanharia tudo isso. Tente não surtar, ... Era impossível.

Ficamos no último andar do hotel, em que várias pessoas do elenco também estavam. Eu fiquei em um quarto e ficou no da frente. No momento em que chegamos, tinha somente Jackson Jones que interpretava o deus Cronos, pai de Zeus, Poseidon e Hades, e Malcon Adams, que interpretava Demétrio, a versão masculina da deusa Deméter. Jackson tem cara de ser aquela pessoa séria e tudo mais, pela interpretação de Cronos, mas na vida real é uma pessoa muito amorosa e foi quem saiu me apresentando para o resto do elenco e equipe. Malcon é uma figura, era impossível ficar dez segundos com ele sem que você risse, em um dos jantares com o elenco, saiu refrigerante pelo meu nariz, o que não foi muito legal com o povo da Máxima na mesa, mas causou boas risadas.
Três dias antes de irmos embora, Julie Stewart, intérprete de Afrodite, e Stefan Taylor, intérprete de Ares, chegaram para fazer a grande cena de luta nas ruas de Washington. Honestamente, foi cansativo ver aquela cena ser feita. Era quase como se cada segundo fosse um take, e, depois eles mudavam para os atores, depois para os dublês, depois dublês e atores, atores e dublês, nossa. Juro que quase dormi na cadeira do set.
Julie e Stefan também eram pessoas incríveis. Julie é uma ótima pessoa, eu sabia que ela e são amigos desde o primeiro filme deles juntos lá atrás, então ou ela estava sendo incrivelmente simpática e fofa, ou ela queria ficar ok comigo por eu ser a assessora dele, nem que provisória. Stefan é uma pessoa totalmente diferente de Ares, ele tem aquela pose toda que te faz perder o fôlego, mas ele é incrivelmente tímido com pessoas novas, então demorou um pouco para batermos um papo, mas depois ele se mostrou um incrível piadista.
Eu juro que tentei, mas tive que dar uma surtada, era a Máxima, eram os atores da Máxima, e eu sou uma pessoa viciada nisso desde que eu me conheço por gente... Mentira, desde que o filme “Os 12 Deuses do Olimpo” foi lançado e trabalhar com algo relacionado a isso é maravilhoso. Desses sete dias que ficamos lá, teve que gravar em cinco, e nos dias em que ele não gravava, dormia metade do dia e, na outra metade, ficava na academia. Às vezes batíamos um papo na hora do jantar para falarmos sobre o dia anterior, mas nada mais que isso.
É o que eu havia falado. Ele quando falava de trabalho, era incrível, mas quando realmente trabalhava, tinha uma felicidade, uma energia e uma seriedade de dar inveja em qualquer um. Nem eu que trabalhava em um escritório era tão séria quanto ele. Então, devido a isso, fazer piadinhas não era uma boa ideia para tentar deixar o clima menos tenso.
Não sei como ele era com Melina, mas aparentemente ele estava gostando de me ter lá. Quando chegávamos ao set, ele gostava de me mostrar tudo por lá, cada detalhe, apresentava pessoas novas, mostrava a magia do cinema, camarins, trailer e todas as partes obscuras da Máxima.
Enquanto estávamos lá, tinha esse tom mais sério, mas no último dia, assim que ele tirou o uniforme de Poseidon e se permitiu relaxar, ele já era o novamente. Nesse dia teve mais um jantar com o elenco, fomos a uma pizzaria. Os garotos fizeram competição de quem comia mais e, acredite, eu estava fora da competição, mas creio que eu poderia ter empatado com algum deles de tanto que comi. O mais engraçado era a cara de quando eu falava para o garçom que ele podia servir os vários pedaços que chegavam de uma vez só. Eu olhava para ele, ele tinha os olhos arregalados, eu ria, ele também, e eu dava de ombros e continuava normalmente. “Comer é bom, sabia?”, era o que eu dizia. No fim daquela noite eu pedi para tirar uma grande selfie, com todos os presentes, atores e produtores, e ficou muito boa e é uma das fotos mais curtidas em meu Instagram.
Fomos embora no oitavo dia de manhã, mas nos separamos ali. Eu fui para Boston e ele para Los Angeles. Melina o encontraria lá. Ele me agradeceu por ter ido e acompanhado tudo e também falou que eu lidei com tudo muito bem. Não sei o que isso quer dizer, mas fiquei feliz. Cheguei em casa e finalmente pude relaxar. Com Melina em Los Angeles, eu só teria que cuidar do novo site do senhor , fazer algumas matérias e nada mais, então minhas horas de trabalho se reduziram pela metade, e eu agradeci pois era bem cansativo fazer isso.



Capítulo 2

(Um beijo, você já está apaixonado, está preparado para isso? – Little Mix, Is Your Love Enough?)

Despertei sentindo meu corpo pesar, mas quando abri os olhos notei que não era eu que estava pesada e sim um braço passado em volta da minha barriga e, ao meu lado dormia pesadamente, um corpo que não estava lá quando fui dormir na noite anterior. Mantive meus olhos fechados por um momento e visualizei os olhos castanhos dela e o movimento de sua boca em uma risada, suspirei, encarando o teto branco de meu quarto, estava me sentindo um idiota. Isso não podia acontecer, eu não acreditava em amor à primeira vista.
Encarei a pessoa ao meu lado, o cabelo era parecido, mas não era a mesma que eu estava pensando, além de que aquela da cama já deveria ter ido embora há muito tempo. Mexi-me desconfortável na cama, fazendo questão de me movimentar bastante, senti as mãos saírem de meu corpo e pude me levantar. Andei pesadamente até o banheiro e fiz minha higiene matinal, encarando meu rosto no espelho. Estava com os cabelos loiros desbotados, sem barba e dava para ver um pouco do castanho aparecendo, devido a algumas cenas que estavam sendo refeitas de Poseidon.
Saí do banheiro e puxei minha blusa ao lado da cama, vestindo-a rapidamente, antes de encarar a pessoa que se espreguiçava. Ela deve ter notado que eu não estava muito feliz, pois quando virou o rosto para mim, seu sorriso sumiu rapidamente.
- É nessa brincadeira que a gente vai ficar? – Falei cruzando os braços involuntariamente.
- Não sei do que está falando. – Ela resmungou ajeitando a blusa
- Eu terminei contigo, Martha. – Ela bufou. – E quando se termina um relacionamento, normalmente as pessoas não devem mais entrar na casa das outras desse jeito.
- Mas eu não sei se quero terminar, , estávamos indo tão bem.
- Foi um acordo, íamos terminar porque não estava dando mais...
- Devíamos tentar de novo. – Ela me cortou.
- Martha, eu não quero mais.
- Mas, ...
- Eu estou em outra fase da minha vida – A interrompi – À procura de outras coisas também.
- Tem alguém nessa história? Estávamos tão bem, acomodados...
- Eu não quero estar acomodado, eu quero romance, amor, paixão. E não quero que seja contigo... – Falei a última parte mais baixo, mas não deixando de encará-la. - Achei que já tinha deixado isso claro.

Passei a mão em meus cabelos após ouvir a batida da porta e segurei a chave firme em minha mão, mentalizando que precisava dar fim o mais rápido possível, mas também queria um relacionamento sério.
Com a chegada dos meus 32 anos no meio do mês, estava com esses pensamentos de velho: eu queria uma família ao meu lado, pois não importa ter todo esse sucesso, se eu vou ter que ligar para minha mãe para contar. Eu queria uma pessoa ao meu lado, que eu pudesse contar em todas as horas, que me fizesse rir, chorar, que me fizesse sentir alguma coisa.
Há quatro semanas eu tinha conhecido , ela era a nova assistente da minha assessora. Cuidava mais das minhas redes sociais e fazia o relacionamento com a mídia, mas às vezes me acompanhava nas gravações, como aquela e que ela foi comigo para Washington, na gravação de “Poseidon 2”. Recentemente eles haviam decidido me integrar mais nas redes sociais, para eu ter mais contato com os fãs, e decidiram a criação de um hotsite, mas não seria atualizado por mim, mas sim por , ela atualizaria todas as informações.
Havíamos combinado de nos encontrar na casa dela no dia seguinte para falar sobre isso. O site estava pronto e só faltava colocar no ar. Melina disse expressamente que era para eu dar opinião no layout em si e ordenar tudo, não que eu entendesse dessas coisas, mas fui mandado para fazer isso, então não era como se eu tivesse muita escolha.
Mas antes, eu iria para Nova York, num talk show, o tópico era meu mais novo filme. Encarei minha mochila no pé da cama e tirei as roupas que estavam lá dentro e notei que só tinha algumas blusas extras, mas pelo mens as roupas sujas já haviam sido tiradas de lá. Andei rapidamente até meu closet e escolhi algumas peças de roupa aleatoriamente, incluindo algumas para levar para Boston. Ajeitei tudo na mochila e a joguei na poltrona mais próxima.
Passei pelas portas do quarto que davam para o quintal e encarei a manhã em Los Angeles, o tempo estava um pouco nublado ainda, mas era possível ver alguns raios de sol escapando das nuvens.

Encarei meu rosto no espelho do camarim do talk show e ajeitei os cabelos com um pouco de gel, mantendo-os arrepiados. Ergui as mangas da minha blusa azul quadriculada até a altura dos cotovelos e me certifiquei que pelo menos parte da blusa estava presa dentro da calça azul escura, em que um cinto marrom escuro o prendia. Agachei por um momento para amarrar meu tênis e conferi o relógio em meu pulso.
- Cinco minutos, . – Melina apareceu na porta do camarim. – Vamos repassar?
- Vamos falar do meu filme novo e provavelmente de “Poseidon 2”. Certo? – Encarei Melina.
- Certo, então ele vai chamar o outro convidado e o assunto vai virar ele. Provavelmente vão te envolver, mas nada demais, só jogar conversa fora.
- Ok! – Falei antes de bocejar, denunciando meu sono.
- E acorda! – Ela comentou.
- Com licença. – Uma mulher loira da produção apareceu na porta – Vamos?
- ...Mas antes dele aparecer, vamos ver alguns dos filmes que ele já fez. – Ouvi a voz do apresentador e, em seguida, o som de uma rápida introdução, quando começou a passar cenas de alguns dos meus filmes. – Por favor, recebam !
Ouvi as vozes e palmas, e apareci pelas portas do cenário, acenando para os fãs ao longe e logo virando para o apresentador Mark Malcon, cumprimentando-o. Assim que eu sentei, os gritos e música cessaram, e Mark não economizou tempo.
- É bom ter você aqui novamente, !
- Muito obrigado por me receber! – Sorri e ele seguiu com a entrevista.
A entrevista fluiu, Mark tinha a habilidade de toda entrevista se transformar em uma conversa, o que fazia com que eu me sentisse mais à vontade. As perguntas eram simples, nada sobre vida pessoal, só sobre meu trabalho atual e alguns assuntos de quando eu era mais novo, nada demais. Até chegar no assunto mais importante: Máxima.
- Então, me diga, temos filme novo chegando por aí! – Ele falou.
- Sim, estou bastante empolgado! – Falei feliz. – Esse filme vai abordar uma temática mais sombria.
- Você pode nos falar mais um pouco sobre? – Ele perguntou.
- Bem, depois de vocês terem a apresentação do deus Poseidon, de toda a questão da criação no primeiro filme sobre seus irmãos e Cronos, além da junção de outros deuses para defender o mundo, tudo ainda é muito novo para Poseidon que sempre viveu excluído no mar. Então, dessa vez, nós teremos problemas mais reais abordados, a poluição das cidades, que afetam todo o ecossistema e tudo mais, além de vilões verdadeiros que ainda querem tirar os deuses dos poderes. – Mark sorriu.
- É um tema muito atual...
- Sim, estamos falando disso há anos, mas ninguém nunca realmente fala, vemos os tratados sendo feitos, medidas sendo tomadas, mas não é uma conscientização, então esperamos que esse filme ajude nisso também. – Ele concordou.
- E temos personagens novos?
- Sim, além do retorno de Cronos e de Ares, que é um parceiro de luta improvável para Poseidon, teremos a presença de deusa Afrodite e do deus Demétrio que é a versão masculina de Demeter. – Ele afirmou com a cabeça.
- Eu li sobre isso, achei interessante eles alterarem a sexualidade de um dos deuses. – Ri fraco, balançando a cabeça. – Qual a real intenção deles?
- Bem, nós temos uma visão dos deuses como seres gigantes e poderosos que já foram apresentados de outras formas em outras histórias, filmes e tudo mais, então a questão principal é que um deus é uma forma mítica, inalcançável. – Ele confirmou.
- Sim, com certeza, não é algo que você encontra na esquina. – Eu e a plateia rimos.
- Sim, exatamente, e a mudança do sexo desse personagem é para mostrar que não importa se você é homem ou mulher, você pode e deve lutar pelo que você acredita, além de que um ser mítico é como se fosse um anjo, não tem gênero, não tem sexo.
- Interessante vocês abordarem isso. – Confirmei com a cabeça.
- Será abordado também em outros filmes essa questão, deuses metamórficos, ou outros deuses com troca de gênero. É realmente interessante.
- Muito bom, senhor , estamos cada vez mais animados com esse filme. – Abri um sorriso. – Vamos para o intervalo que depois teremos uma brincadeira e a presença de outro convidado. – Ele se virou para a câmera. – Fiquem ligados! – Ele esticou a mão e apertou a minha quando a vinheta começou a tocar ao fundo.
Enquanto o programa estava no intervalo, a maquiadora veio fazer um retoque na minha maquiagem e eu desliguei um pouco. Minha cabeça foi direto para Boston. Eu voaria para lá ainda naquela noite e encontraria para a aprovação do hotsite, e, também repassar algumas perguntas de outras entrevistas que eu teria em Boston durante a semana. Mas meu foco não era esse, era que eu iria encontrá-la, o que já me deixava levemente empolgado.

Assim que o avião pousou em Boston, eu só tive tempo de tirar minha blusa social azul do corpo, deixando a camiseta cinza por baixo e tomar um energético. Estava com o sono atrasado, mas não seria agora que eu colocaria em dia. Como estava sem carro e Melina não havia voltado comigo, peguei um táxi e pedi para que me levasse até o condomínio de , o porteiro logo me anunciou e ela liberou minha entrada. Encarei o relógio em meu pulso e era quase meia noite.
Assim que abri a porta do elevador no nono andar, umas das quatro portas estavam abertas e, dentro da mesma podia ver algumas luzes acesas, não tinha dúvidas de que essa era a casa. Bati na porta duas vezes e vi uma cabeça aparecer da cozinha, com um sorriso no rosto.
- Ei! – Ela falou, voltando o corpo para a cozinha. – Entra!
- Com licença! – Falei antes de fechar a porta atrás de mim e parar na porta da cozinha. Ela estava com um cortador de pizza na mão e tinha uma pizza com um cheiro delicioso apoiada no balcão à sua frente, além de duas taças com um líquido avermelhado.
- Pizza? – Ela falou apontando para a mesma. – Vinho?
- Sim, pros dois! – Falei ao entrar na cozinha, virando de costas e apoiando no balcão. Assisti cortar a pizza, depois colocar um pedaço em cada prato e também distribuir guardanapos.
- Vem, tenho que te mostrar o site! – Ela segurou o prato com uma mão, pegou a taça com a outra e saiu da cozinha, só nesse momento notei sua roupa. Parecia que ela ainda estava na agência. Usava uma calça social escura, uma blusa social branca, mas os pés estavam descalços e seu rosto limpo. Segurei o prato, a taça, e a segui. Ela já tinha sentado no sofá e um notebook estava colocado à sua frente. O prato no colo e a taça no canto do sofá, no chão. – Vem, senta aqui! – Ela bateu ao seu lado do sofá e mexeu em algumas teclas antes de dar uma mordida na pizza.
Assim que me sentei no sofá e olhei para a tela, pude ver meu rosto em uma das sessões de fotos feita especialmente para o site, ainda me pergunto o porquê disso, mas preferi ficar quieto. Melina e estavam empolgadas com a situação e não seria eu que acabaria com o ânimo delas. No menu principal haviam poucas coisas, principalmente sobre mim, o tom das páginas era meio azulado, um logo simples foi elaborado e colocado no topo e, pelos meus conhecimentos gerais, estava tudo muito bonito.
- Gostei! – Falei simplesmente, olhando para ela. Ela demorou um tempo e ficou me encarando. – O que? – Perguntei.
- Só isso? – Ela perguntou e soltou uma risada.
- Eu disse! Não sou bom com essas coisas.
- Mexe nele, vê as páginas, vê se quer mudar algo, se quer que tire, se alguma coisa é mentira, fica à vontade. Eu me baseei em informações que estavam na internet e no dossiê da empresa. – Ela se afastou do computador e encostou o corpo no sofá, dando atenção à sua pizza.
Mexi rapidamente, abri cada página e li sua descrição, olhei os arquivos e, demorei um pouco mais na minha biografia que era algo mais pessoal, mas estava bem superficial, nada que eu quisesse mudar. Conversamos rapidamente sobre o assunto, mudamos algumas fotos, acrescentamos alguns outros textos e, quando vi já tinha deixado de lado a esportiva e focado no profissional de novo, eu sempre fazia isso, não sabia se era algo bom, ou ruim.
agia da mesma maneira. Ela ouvia, mudava os códigos, atualizava as postagens, me mostrava para aprovação e quando notei a pizza em meu colo já havia esfriado, não que eu tivesse me importando muito com isso.
- Bem, caso você não queira mudar mais nada, é isso! – Ela falou virando o rosto para mim.
- Não, está ótimo, ! Está bem legal! – Fiz o mesmo para ela e ficamos nos encarando por um tempo, ela suspirou e virou para o computador.
Não sei o porquê de eu agir dessa maneira, sei lá, era pura atração, quando falávamos de trabalho, focávamos em trabalho, mas quando o papo estava mais descontraído, eu queria continuar. Ela tinha um bom papo, conhecia as coisas do mundo, tinhas suas opiniões e convicções e nunca tinha dado em cima de mim, talvez era por isso. Burro, burro, burro, todo mundo fala que os homens ficam atraídos pelas mulheres que menos lhe dão bola, burro! Apesar de que... Se fosse profissional do jeito que aparentava, tudo aquilo era uma simples carcaça, fechada, reclusa.
Ouvi o barulho do computador desligando e me livrei dos meus pensamentos, se eu compartilhasse isso com meu irmão Seth, até ele falaria que eu estava ficando louco por falar daquele jeito.
- Bem, é melhor eu deixar você dormir então! – Falei, me preparando para levantar. - Nem pensar, você vai me ajudar a terminar essa pizza, pelo menos! – Ela falou se colocando em pé. Soltei uma risada e fiz o mesmo, ouvindo um barulho de vidro se espatifar no chão.
- Droga! – Falei, me virando a tempo de ver a taça vazia se transformar em alguns pedaços. – Desculpa, ! – Coloquei o prato no sofá, mas ela foi mais rápida e já estava colocando os pedaços de vidro na palma da sua mão.
- Relaxa, ! – Ela soltou uma risada fraca. – Até que essas taças duraram demais. – Ela falou como se concluísse um pensamento antigo e eu a olhei sem entender. Já quebrei quatro dessas, agora só sobrou uma. – Ela segurou os pedaços na mão e se levantou.
- Cuidado para não se cortar – Falei e a acompanhei até a cozinha. Ela colocou um pano sobre a bancada e despejou todos os cacos de vidro no mesmo e, ligando a torneira, pude ver um fio vermelho correr junto da água.
- Tarde demais! – Ela falou rindo. – Pega as coisas lá na sala, por favor? – Confirmei com a cabeça e fiz o que ela pediu, trazendo rapidamente para a cozinha de novo. Ela mantinha um dedo pressionado em cima do corte e as duas mãos embaixo d’água. Ajeitei os pratos ao lado dela, e vi que ela desligou a torneira, puxando outro pano de prato em sua frente. Ela o enrolou em sua mão e o manteve preso com os dedos por um tempo.
- Quer que eu lave? – Falei, em partes para ajudar, e, em partes porque meus pensamentos estavam me desconcentrando.
- Não, que isso, eu lavo e você pode tratar de comer! As gravações de Poseidon já acabaram, pode dar uma relaxada na dieta! – Seu rosto se virou para o meu por um tempo e ela me serviu outro pedaço de pizza.
- Obrigado! – Falei baixo e dei uma mordida no pedaço.
Ela se manteve com o corpo encostado no balcão enquanto lavava a pouca louça que havíamos usado e eu mantinha meu quadril encostado no mesmo, comendo a pizza rapidamente. Assim que eu coloquei o prato vazio na bancada, ela fechou a torneira. Nos encaramos por um tempo e vi suas sobrancelhas se arquearem.
- Sério? – Ela falou rindo.
- Deixa que eu lavo, vai. – Falei tentando empurrá-la para o lado, mas ela se mantinha parada na frente da pia, tentando me tirar do caminho com o corpo.
- Para, , eu estou brincando! – Ela me empurrou com o ombro, já que suas mãos estavam molhadas.
- Não, deixa, vai! Você nem deveria ter pedido pizza! – Apoiei minhas mãos em seu ombro, empurrando-a de leve.
- Eu estava com fome, ok?! – Ela soltou uma gargalhada, fazendo uma careta depois e parou de me empurrar, tentando conter a risada. Aproveitei a deixa e me coloquei em sua frente, mas de costas para ela, colocando a mão na torneira e a girando.
- Ei! – Ela falou! – Sai, ! – Sua voz se tornou manhosa, como a que eu fazia quando a brincadeira havia perdido a graça para ela.
- Ok, culpado! – Desliguei a torneira novamente e me virei, encontrando seu rosto próximo demais do meu.
- Obrigada! – Ela falou e ergueu seu rosto.
Seus olhos focaram no meu em poucos segundos e meu mundo parou de girar por um instante, seus olhos castanhos fitaram meu rosto, em mim, só em mim. Aos poucos, sua risada foi cessada e ela não tinha mais um sorriso em seus lábios, que estavam entreabertos e eu podia sentir o ar saindo por eles. Minhas mãos subiram até encontrar a mecha de cabelo solta em sua bochecha e colocá-la atrás de sua orelha, um toque suficiente para um rubor subir por suas bochechas. Entreabri meus lábios involuntariamente e por um momento não sabia o que eu deveria fazer, mas mesmo assim o fiz.
Encostei meus lábios nos dela delicadamente e no mesmo instante ela fechou seus olhos, era o que eu precisava. Encostei meu polegar em seu queixo e mantive nossos lábios encostados por um tempo, eu queria aproveitar o momento. Com a mão livre eu toquei sua cintura e a trouxe para mais perto de mim.
Aprofundei o beijo no mesmo momento em que suas mãos tocaram minha nuca. Seus pés descalços faziam seu corpo ficar um pouco mais baixo que o meu e minha nuca ter que se inclinar levemente para frente para que eu pudesse alcançar seus lábios. Passei a língua levemente por seu lábio e isso deu poucos segundos para que respirássemos. Suas mãos faziam um carinho gostoso em minha nuca e suas unhas arranhavam a pele. Apertei mais seu corpo contra o meu, caminhei minha mão para suas costas, agarrando o pano de sua blusa social, e ouvi um pequeno gemido vindo de . Suas mãos desceram de minha nuca até encontrar meu peito e me empurrou levemente para trás, descolando nossos lábios.
- Eu não posso fazer isso! – Ela falou ofegante, procurando espaço para sua respiração e mantendo suas mãos em meu peito. Eu precisava respirar também, mas não naquele momento.
- Pode sim! – Falei e colei nossos lábios novamente, não antes de ouvir um pequeno riso abafado dela.

Passei meus braços pelas suas costas e a puxei contra meu corpo um pouco mais, depositando pequenos beijos em sua cabeça, enquanto ela mantinha o queixo encostado em meu ombro. Ela não tinha falado nada depois do acontecido e eu também preferi não falar nada, honestamente, eu não saberia o que dizer, tinha sido bom? Sim. Era errado? Depende, mas creio que na cabeça dela a resposta era sim. Foi planejado? Em partes. Eu queria de novo? Com certeza.
Suspirei com esses pensamentos e a senti se mexer levemente, quando afrouxei meus braços em volta dela, e ela continuava a se mexer... Isso era um mau sinal, não?
- Fala algo! – Ouvi sua voz rouca e abri um riso de lado, sentindo meu corpo mais leve. Ela não iria embora.
- O que você quer que eu diga? – Senti seu corpo relaxar entre meus braços e vi seu rosto descolar de meu ombro, me encarar com aqueles olhos castanhos.
- Qualquer coisa! – Seu rosto era sereno e calmo, assim como sua voz, um lado que eu não conhecia muito bem, um lado medroso, talvez. – O que acha...
- Eu quero te beijar de novo. – Falei encostando nossos lábios rapidamente, por rápidos segundos. – E de novo! – Fiz o mesmo novamente. – E de novo! – Mantive nossos lábios encostados por um tempo, até que eu senti sua mão fazendo um carinho leve em meu rosto.
Ficamos assim por pouco tempo, até que ela aprofundou o beijo novamente, agora não era mais delicado como antes, eu sentia suas unhas raspando pelas minhas costas por cima da blusa e minhas mãos também se moviam com agilidade do seu quadril para suas costas e de vez em quando para seus cabelos.
Em um momento ela parou bruscamente, se afastando o que podia, por estar encostada na pia, e soltou o ar pesadamente, respirando rápido depois disso. Vi seu peito subindo e descendo e sabia que dividia aquela sensação com ela. Eu podia sentir o suor descer pela minha nuca e, de repente, o lugar estava abafado.
Ela passou as mãos nos cabelos, os tirando do rosto, e ajeitou o corpo, arrumando o primeiro botão de sua blusa que havia aberto, e puxou a barra para baixo, ajeitando-a no corpo, nesse momento eu me afastei um pouco e me aproximei da janela. A madrugada estava quieta, mesmo para um sábado, as únicas luzes visíveis eram as da cidade e algum carro andando acelerado pela avenida em frente ao seu apartamento.
- Eu tenho que dormir! – Ouvi sua voz e me virei rapidamente em sua direção. – Vou viajar amanhã cedo... Ou hoje, sei lá! – Ela coçou a cabeça, enquanto encarava o chão em sua frente.
- Viajar? – Ouvi minha voz sair e ela ergueu o rosto. – Você não vai comigo para as últimas entrevistas?
- Não dessa vez. Derek vai contigo. Eu preciso visitar minha família. Não os vejo desde que comecei a pós. Melina me deu a próxima semana de folga. – Ela abriu um sorriso de lado e eu tive que sorrir também, pelo que eu sabia, fazia mais de um ano que ela não visitava sua família.
- Ok! – Falei e me aproximei dela novamente. – Mas quando voltar quer sair comigo? – Segurei suas mãos, vendo-a erguer os olhos levemente arregalados para mim.
- Sair? Contigo?
- Sim! – Falei simplesmente. – Um encontro, se quiser chamar de alguma coisa. – Ela afirmou com a cabeça, mantendo os lábios colados em um sorriso.
- A gente se fala, então! – Ela disse, enquanto eu caminhava até o sofá e pegava minha mochila.
- Com certeza! – Ela abriu a porta e eu caminhei até o hall, apertando o botão do elevador. Ela acenou da porta de seu apartamento.
Assim que a porta do elevador se abriu, ela deu passos rápidos até mim e, ficando rapidamente na ponta dos pés, encostou seus lábios nos meus novamente, voltando para dentro do apartamento e fechando a porta. Fiquei parado por alguns segundos encarando a porta fechada e soltei um riso fraco. Entrei no elevador e apertei o botão do térreo.

Seria mentira dizer que eu não pensava nela, principalmente nas duas últimas semanas, quando tive que voltar para Cleveland para gravar as últimas cenas de “Poseidon 2: A Maldição dos Mares”. Estávamos no meio de junho e minha mãe insistia para eu largar a festa do meu aniversário em alguma boate de Hollywood para que fosse comemorar em Boston, contigo, com meus amigos de lá e também junto com meu sobrinho, que fazia aniversário no começo do mês que vem.
Eu já tinha pensado nessa possibilidade, mas não por esse motivo. Eu precisava ter certeza dos meus sentimentos, fazia um bom tempo que aqueles sentimentos não me atrapalhavam, meu último relacionamento havia sido mais questão de comodidade do que de sentimentos, realmente. Era alguém que eu conhecia, já tinha me envolvido, mas não a pessoa que eu queria, mas uma opção confiável e divertida para ocupar o tempo e nem isso acabou dando certo. Como romântico que eu era, eu queria mais, eu precisava de mais, nada de comodidade. Se fosse comodidade, que fosse com uma pessoa que eu amasse e que estaria lá, sorrindo quando eu chegasse em casa tarde ou uma pessoa que brigasse comigo por chegar tarde, por trabalhar demais, por qualquer motivo, alguém que tivesse uma posição comigo.
Então eu iria para Boston e voltaria, com alguma desculpa, à agência para falar com ela... Eu precisava de alguma desculpa, por mais boba que fosse.

- Filho! – Minha mãe falou ao abrir a porta de casa e se deparar comigo. Logo ela me envolveu em um abraço e não deu nem tempo de eu tirar os óculos escuros que já haviam entortado com seu abraço de urso. – Meu aniversariante! Feliz 32 anos, meu amor! – Ela falou enquanto segurava meu rosto em suas mãos.
- Obrigada, mãe! – Falei rindo. Todo ano era exatamente a mesma situação. Eu ia para Boston ou ela ia para Los Angeles, ela sempre segurava meu rosto em suas mãos, me dava parabéns e me abraçava. Era assim desde que eu me lembrava.
- Vem, entra! O almoço já está saindo! – Ela me puxou e eu entrei.
Sua casa em Boston tinha uma sala gigante que incluía sala de estar, cozinha e sala de jantar e atrás desta, uma parede de vidro que dava para o quintal. A mesa já estava posta, para oito pessoas.
- Quem não vem? – Perguntei contando novamente os pratos postos.
- Seth! Ele está preso em Nova York, mas falou para te preparar, que tem uma surpresa para você à noite. – Ela falou enquanto colocava uma grande vasilha na mesa.
- Eu deveria ter medo?
- É seu irmão, o que você acha? – Dei uma risada enquanto roubava uma batata frita da mesa. – ! Longe da mesa, agora!
- Irmão! – Cady apareceu na porta do quintal com minha sobrinha no colo.
- Cady! – Falei me aproximando dela. Ela me apertou fortemente com um braço enquanto segurava Annie com o outro braço.
- Feliz aniversário, meu irmão! Muita paz, saúde, felicidades e mais sucesso ainda na sua vida! Que Deus sempre te abençoe e que você encontre o amor da sua vida! – Ela me olhou com um sorriso no rosto. – E logo! – Soltei uma risada.
- Obrigado, Cady! – Senti sua mão acariciando meu rosto. Fiquei em silêncio por algum tempo, seus olhos me encaravam com ternura. – E bem... – Falei devagar. – Talvez... Só talvez, eu esteja com alguém agora. – Sua boca se escancarou rapidamente.
- Como assim? – Ela falou em um tom mais cochichado.
- Depois a gente conversa. – Falei baixo pegando minha sobrinha que acordava em seu colo. – Oi, Annie! – Segurei-a em meus braços e beijei sua bochecha, fazendo-a soltar uma risada.
- Crianças, almoço está na mesa! – Minha mãe falou colocando uma grande travessa na mesa e chamando o resto do pessoal na varanda, os outros dois filhos de Cady vieram correndo com o marido dela atrás. Sharon, minha outra irmã, vinha ao seu lado.
- Tio ! – Cada um abraçou uma perna e eu soltei uma gargalhada. – Feliz aniversário! – Eles falaram em coro.
- Obrigado, meninos! – Me abaixei com Annie no colo e cada um deu um beijo em cada bochecha minha e logo me levantei.
- ! – Sharon vinha logo atrás, entreguei Annie para Cady e abracei minha irmã fortemente. – Tudo de bom, meu irmão! Que você seja muito feliz! Sempre! – A cada palavra que ela falava, me abraçava mais forte, até que soltou!
- Obrigado, Sharon! – Dei um beijo em sua cabeça.
- Feliz aniversário, , tudo de bom! – O marido de Cady me abraçou rapidamente e trocamos um aperto de mão.
- Venham, gente, vamos comer! – Minha mãe insistiu.
Sentamo-nos à mesa e notei que minha mãe tinha feito macarrão com almôndegas, meu favorito. O almoço correu normalmente, cada um contando sobre os últimos acontecimentos, eu falei um pouco da minha última semana, mas sem mencionar , se eu contasse sobre um possível novo relacionamento para minha família, eu teria que estar preparado para responder um monte de perguntas da senhora e, como eu ainda não tinha certeza sobre o que aconteceria entre a gente após aquele beijo, preferi ficar quieto. Minha irmã mais velha, Cady, olhava toda hora para mim, eu soltava um riso fraco e voltava o rosto para meu prato, podendo só imaginar as milhares perguntas que se passavam pela sua mente. Era sempre assim.
Cady sempre foi a mais próxima, tínhamos somente dois anos de diferença, então, com o passar do tempo, enquanto crescíamos, Cady me ensinava várias coisas, que depois eu repassei para o Seth. Mas com Cady eu tinha uma relação mais de carinho, quase como se ela fosse uma segunda mãe para mim, além de ser minha irmã, amiga e cuidar de mim, ela me inspirava também, tanto que me inspirou a ser ator.
Seth era meu parceiro, quando juntava eu e ele, a casa ia abaixo. Desde pequeno aprontávamos um com o outro – eu mais, é claro – e, nossa relação sempre foi ótima. Como irmão mais velho eu tinha o dever e a vontade de ajudá-lo em tudo, aconselhá-lo, apoiá-lo, então, quando ele revelou para mim que era homossexual, a reação instantânea foi de susto, pois Seth tinha só 14 anos e, na minha cabeça, não era como se ele tivesse certeza, eu com 16 não tinha muita certeza do que queria fazer da minha vida, mas eu o apoiei. Quando se é adolescente, não é algo fácil de fazer, principalmente, porque as pessoas podem e são malvadas, ainda mais quando se é diferente, mas Seth não estava interessado, ele queria viver sua vida e só pensava nele.
Minha mãe reagiu da forma mais irônica possível “Eu já sabia”, foram as palavras que saíram da boca dela quando eu contei. Não, eu não deveria ter contado, mas Seth estava começando a ter namorados e minha mãe precisava saber, as mães precisam saber. Ela me contou que pelo modo que Seth agia algumas vezes, o modo que ele falava, alguns dos seus gestos, deixavam isso na cara e, comigo, nada mudou, nossa irmandade e amizade continuou a mesma, ele vai continuar sempre sendo meu irmãozinho, uma das pessoas que eu mais amo nesse mundo.
Sharon chegou um pouco depois, ela é a mais nova de nós quatro, tem só 25 anos, e chegou em casa tarde. Minha mãe a adotou quando ela tinha nove anos, eu tinha 17, e sei que essa adoção fez com que minha mãe realizasse um sonho. Ela conta que desde que era pequena, tinha o sonho de adotar uma criança, mas como teve facilidade para ter filhos deixou esse sonho de lado quando Cady chegou, depois quando eu nasci e depois com Seth, mas quando ela e meu pai se separaram, pouco antes dos meus 17 anos, ela estava machucada, ferida. Eu já falava sobre sair de casa e Cady já morava fora para fazer faculdade, então, ela ficaria com Seth e, como também estava seguindo a carreira de ator da família logo sairia de casa também.
Sharon era muito quieta quando éramos crianças, mas eu ir morar fora, após quase dois anos sem vê-la, fez com que ela entrasse nos eixos da família , ela era mais solta, tinha mais facilidade em comunicação e se tornou uma pessoa incrível. Ela tentava mostrar de todas as maneiras o quão grata era por minha mãe ter a adotado, agora não demonstra mais, mas às vezes ela fica um pouco abalada com seu passado. Passado que não sabemos muito, apenas que quando ela tinha quatro anos, seus pais faleceram em um acidente de carro e ela foi morar em um abrigo de crianças de Boston, até que foi adotada e como normalmente os pais preferem bebês, ela já tinha até perdido as esperanças. Quando apareceu minha mãe, uma pessoa que não queria outro bebê, já que tinha passado por três e, realmente não queria mais trocar fraldas de ninguém, “somente dos netos”, Sharon se irradiou novamente.
Após a separação, meu pai e minha mãe raramente ficavam no mesmo cômodo por muito tempo, não que eles tivessem ódio um por outro, mas sempre que meu pai estava perto, sua nova esposa estava junto e, essa nova esposa, era com quem meu pai havia traído minha mãe, então ficava sempre um clima chato. Eu, Cady e Seth ficamos bem chateados com meu pai quando aconteceu, mas com o tempo, não era como se quiséssemos excluí-lo de nossa família, então o contato ficou mais frequente, mas não tanto como voltar para casa da minha mãe. Ele sempre estava lá para me apoiar, lançamentos, filmes, ele sempre estava presente.
- Bem, eu tenho que passar na agência ainda. – Falei passando a mão em minha barriga em sinal de satisfação. – Estava uma delícia mãe! – Falei sorrindo.
- Que bom que gostou, filho! – Ela sorriu. – Bolo e presentes só no domingo, ok?!
Afirmei com a cabeça rindo, então no domingo teríamos a família inteira reunida e meus amigos na casa da minha mãe para o almoço.
- Eu vou passar na agência e depois vou para casa, fala pro Seth me ligar, quero saber que horas vamos sair. - Naquela hora só sobrou eu à mesa, e minha mãe do outro lado da bancada, lavando a louça.
- Provavelmente ele vai passar na sua casa umas 11 horas, como sempre, então, fica pronto. - Soltei uma gargalhada.
- Isso provavelmente é verdade, mas como você o conhece, ele provavelmente vai aprontar alguma.
- Seu irmão? O Seth? – Ela falava com um tom sarcástico. - Ah, filho, imagina! – Gargalhamos juntos.

Bati a porta do meu carro e encarei o prédio em minha frente, com as letras ACCESS, ajeitei o boné em minha cabeça e entrei pelas portas, acenando rapidamente para a ruiva na recepção.
- Feliz aniversário, ! – Ela falou enquanto eu caminhava para os elevadores.
- Obrigado, Genevive! – Entrei no elevador e apertei o botão do andar que eu já estava acostumado.
Assim que as portas se abriram, eu caminhei até a sala com o nome de Melina, a porta estava fechada, mas como sempre, entrei sem bater.
- Surpresa! – Foi o coro que eu ouvi.
Soltei uma risada, encostando a porta atrás de mim e caminhando até a pequena mesa na sala, em que tinha um cupcake com cobertura azul e uma vela acesa sobre ele. Melina, Derek e sorriam para mim. Me abaixei, peguei o bolo em minhas mãos e assoprei a vela, dando uma risada fraca.
- Obrigado, galera! – Melina saltitou em minha direção e me deu um abraço apertado.
- Feliz aniversário, querido! – E logo se afastou. Derek fez o mesmo movimento que ela, me dando um forte abraço. vinha logo atrás.
- Feliz aniversário! – Ela disse com um sorriso tímido e me deu um abraço, se afastando rapidamente. – Come. – Ela apontou para o cupcake. – Eu que fiz, espero que goste! – Ela se afastou e encontrou Melina no meio do caminho com uma caixa cheia de cupcakes iguais ao meu e um em sua outra mão, mordendo-o e sujando sua boca de cobertura azul.
- Então, vocês estão escondendo o ouro? – Falei, tirando a vela do meu cupcake e mordendo-o pela metade.
- Estamos escondendo nada, não! – Derek falou com a boca cheia enquanto saía da cozinha.
- Isso está muito bom, ! – Falei, passando a mão no queixo, limpando a cobertura.
- É porque você não chegou ao recheio ainda! – Melina falou, no mesmo tempo em que eu dei mais uma mordida no bolo, puxando o chocolate do recheio.
- Oh meu Deus! – Falei, mastigando devagar o recheio. – Isso é uma delícia! É chocolate? – Encarei que tinha um sorriso sapeca no rosto.
- Quase! – Ela falou antes de engolir o último pedaço do bolo. – É brigadeiro. Um doce brasileiro!
- É um doce muito bom... Mas que eu prefiro não tentar falar! – Ela soltou uma risada fraca e se mexeu, puxando o celular do bolso e logo colocando em sua orelha.
- Oi! – Ela falou antes de caminhar a passos apressados até sua sala e fechar a porta.
- Hora de voltar para o trabalho! – Derek falou seguindo o mesmo caminho da , mas entrando na porta da frente.
Peguei mais um cupcake e o engoli rapidamente, tempo em que pude ouvir abrir novamente a porta de sua sala, mas sem sair de lá. Limpei minha boca rapidamente e caminhei pelo corredor, ficando em frente à porta de sua sala. Lá dentro ela estava sentada próxima à mesa, digitando algumas coisas rapidamente no notebook, assim que eu bati na porta seu olhar subiu para mim e suas bochechas automaticamente ficaram vermelhas.
- Oi! – Falei entrando na sala.
- Oi! – Ela repetiu, apoiando os braços sobre a mesa.
- Como está o site? – Me vi falando, dei uma olhada rápida no corredor e encostei a porta delicadamente atrás de mim e encostei-me à mesma.
- Sério? – Ela falou arqueando as sobrancelhas e eu dei de ombros.
- Estou tentando puxar papo. – Falei encarando seus olhos. – A gente não conversou depois... Daquele dia.
- Temos algo para falar sobre aquele dia? – Ela falou com um tom de voz mais baixo. Ela estava zoando comigo, né?!
- Se depender de mim, temos. – Falei no mesmo tom baixo dela e me aproximei da mesa, sentando em uma das cadeiras à sua frente.
- O quê, por exemplo? – Vi que ela engoliu em seco.
- Eu gostei e, tenho certeza que você gostou também. – Ela abriu um sorriso de lado, afirmando com a cabeça.
- Então sim, talvez tenhamos algo para conversar. – Ela soltou uma risada e eu sorri.
- Eu quero mais. – Falei simplesmente me aproximando da mesa e a imitei, apoiando os braços sobre ela.
- Acho que é possível. – Ela sorriu e comecei a sentir sua respiração bater em meu rosto.
- Eu tenho certeza disso. – Terminei a frase encostando meus lábios nos dela. Pela mesa em nosso caminho, não deu para aprofundar o beijo, nem deixá-lo mais forte, mas sentir seus lábios sobre os meus, já me satisfazia.
- Aqui não, . – Ela falou baixo, com os lábios colados aos meus também. – A Melina está na sala do lado. – Ela cochichou a última parte.
- Xi! – Falei arrastando minha cadeira ao lado da dela e a abracei de lado, encarando a tela do computador. – O que você está fazendo? – Ela automaticamente fechou algumas janelas.
- Surpresa! – Ela falou e eu a beijei novamente. Dessa vez deu para aprofundar o beijo... Mas não por muito tempo, já que o telefone em sua mesa tocou.
- Carvalho. – Ela falou imediatamente. – Ok! – Ela arregalou os olhos e colocou o telefone de volta no gancho. – Melina quer a gente na sala dela... Agora!
- Ok?! – Falei me levantando e estendendo minha mão a ela que também levantou.
Assim que eu abri a porta da sala, soltamos as mãos, mesmo se estivéssemos juntos, estava cedo para oficializar alguma coisa. foi quem entrou primeiro na sala de Melina, se posicionou em um dos lados da mesa e eu entrei ao seu lado.
- Fecha a porta, por favor, ! – Ok, fodeu. Fiz o que ela pediu e voltei à minha posição.
- Aconteceu algo, Melina? – perguntou mantendo as mãos ao lado do corpo, enquanto eu cruzei meus braços.
- Creio que estamos com uma crise, ! E precisamos resolvê-la imediatamente. – encarou Melina meio confusa, cuidava da minha comunicação, me assessorava eu não estava com nenhuma crise...
- Crise? Mas que crise, Meg... – Ela foi interrompida.
- Vocês dois! – Eu arregalei os olhos e pude sentir tensa ao meu lado.
- Mas...
- Eu sou tipo mãe, , e sabe disso. Não há nada que vocês façam que eu não saiba. Você estava tensa essa semana inteira, sempre que eu falava o nome do você tentava agir como se não importasse. Já o , sumido a semana inteira e quando ligava para cá, sempre perguntava de você, inventava alguma desculpa para perguntar sobre você. Acredite, ele não é assim. – Ela falou se virando e colocando vários papéis em sua mesa.
- Melina, eu... - Fui interrompido.
- E outra, tem câmeras em todas as salas. – Ela riu ironicamente e escondeu o rosto com as mãos. - Eu não ligo, honestamente. – Ela falou séria, mas logo abriu um sorriso. – Vocês dois ficam fofos juntos. E ela é uma pessoa decente, , alguém que eu conheço e sei que vai te fazer feliz.
- Melina, acho que você está adiantando as coisas demais.
- Não, , eu não estou. Vocês podem ficar à vontade, fazer o que quiserem, mas, por favor, se não for nada sério, não me deem dor de cabeça. – Ela falou colocando as mãos na cabeça. – É trabalhoso cuidar de relacionamentos, ainda mais com alguém que trabalha lado a lado contigo, , é mais complicado ainda. Então, por favor, caso isso não for sério, peço que acabem com essa brincadeirinha agora, porque eu não vou perder nem meu cliente e nem minha melhor assessora. – Ela bateu a mão na mesa, nos assuntando. – Mas se for sério, o que eu sei que é, façam valer a pena. – Olhei para o lado e afirmava com a cabeça. – Entendidos?
- Sim, chefe! – falou fazendo Melina rir e se encaminhou para a porta.
- É sério! – Falei olhando para Melina e pude ver de lado, parando na porta. – Vai ser sério. – Afirmei com a cabeça encarando Melina. – Ela vale a pena. – Melina abriu um largo sorriso, fazendo o mesmo movimento com a cabeça.
Assim que eu virei em direção à porta, deu um sorriso e saiu pela mesma. A segui.
- Obrigada! – Ela falou com a voz baixa assim que entrou em sua sala de novo. – Pelo que disse.
- Só disse a verdade. – Falei com o mesmo tom de voz que ela.

- Então... – Falei quebrando o silêncio que ficou entre nós. – Meu irmão provavelmente vai querer ir a alguma boate hoje, comemorar e tudo mais. Quer ir com a gente? – Cocei a nuca.
- Eu queria ir, mas não posso. – Ela soltou uma risada, arqueei a sobrancelha. – Seu irmão está preparando algo bem divertido e, acredite, eu prefiro ficar fora disso.
- Ele falou alguma coisa? – Ela gargalhou.
- Falou para Derek! E é melhor que eu não vá junto.
- Você está me deixando com medo. – Assumi.
- É melhor você ficar, mesmo! – Ela deu de ombros, e encostou-se à mesa atrás dela.
- O que Seth está preparando? – Me peguei pensativo e ela riu.
- Só digo uma coisa, se eu sou alguém que ‘vale a pena’, – Ela fez aspas com as mãos. – é melhor se comportar. – Soltei uma gargalhada, colando meus lábios rapidamente nos dela e senti suas mãos subirem para meu pescoço. - Tem alguma coisa vibrando. – Ela falou descolando os lábios dos meus. Puxei o celular para fora do bolso, atendendo.
- É melhor que esteja na sua casa, se arrumando. – Ouvi a voz de Seth e soltei uma risada.
- Seth! – soltou uma risada e foi sentar em frente ao computador novamente.
- Estou aqui na ACCESS.
- Espero que ninguém tenha revelado nada. – Ele falou alto, tinha um som tocando onde quer que ele esteja.
- Não. Tentei tirar algo do povo aqui, mas nada. – ria em seu canto.
- Bom mesmo! – E desligou.
- Deu para ouvir tudo que ele disse, sério! – falou em um tom descontraído.
- Bem, melhor eu ir! – Falei apontando para porta.
- É, hoje eu trabalho até mais tarde. Prefiro finalizar algumas planilhas e eu me perco muito com elas. – Ela falou fazendo uma careta ao final.
- Eu te ligo, ok?! – Falei e ela confirmou.
- Leva os cupcakes para casa, esqueci seu presente, então, é meu presente para você. Sei que gosta de sobremesas.
- De fato, eu gosto! – Ela riu. – Até mais! – Acenei.
- Feliz aniversário! – Ela gritou, e eu gargalhei.
Dirigi calmamente até minha casa em Boston. Assim que cheguei, tirei minhas botinas e me joguei na cama, precisava dormir.

Acordei com meu celular tocando... Seth.
- Passo aí em 20 minutos. – Foram suas palavras. Mas era cedo ainda, não?!
Passei rapidamente pelo banho e coloquei uma calça jeans clara, uma blusa de manga comprida preta e minhas conhecidas botinas. Passei um pouco de gel, deixando meus cabelos para trás. Coloquei minha carteira em um bolso e o celular no outro e saí de casa.
Todo ano Seth preparava algo especial para o meu aniversário e, como disse, é bom que eu ficasse com medo mesmo. Desde que saí de casa, Seth fazia questão de ir me ver, não importava onde eu estivesse, e preparar uma surpresa de aniversário para mim. Tive algumas situações interessantes e algumas realmente estranhas, em um ano ele fechou um aquário e fez um jantar para a família, a parte mais estranha foi que o jantar era peixe também, enfim... Teve outro ano que comemorei na Playboy Mansion, com direito às coelhinhas e o Hugh Hefner em pessoa me congratulando, entre outros, mas há uns três anos, que foi quando eu definitivamente deixei essa vida de festas e baladas de lado.
As festas ficaram mais comuns, Seth provavelmente deveria ter fechado alguma casa noturna de Boston para comemorar meu aniversário, com direito a open bar, provavelmente meus amigos estariam também e talvez, algumas dançarinas e, claro, muita mulher bonita. Não o culpo, a única que sabia alguma coisa de era Cady e só porque eu contei a ela esta manhã. E para minha mãe falar para eu ter medo, é que Seth realmente aloprava nessas festas, ele era do tipo fraco para bebida, alguns goles e já falará coisas meio sem sentido e gritar “Party Hard” para todo mundo.

Coloquei os pés para fora do meu condomínio em Boston, uma SUV preta parou na rua e por trás do vidro estava meu irmão. As luzes do carro se apagaram e um Seth sorridente veio me abraçar.
- Feliz aniversário, irmão! – Ele me abraçou apertado.
- Obrigado, Sethy! – Dei tapas em suas costas e nos afastamos.
- Seu presente! – Ele me estendeu uma caixa preta com um laço dourado.
- Pensei que todo mundo me daria presentes só no domingo! – Fomos andando até o carro.
- Se eu te desse o presente no domingo, não valeria de nada! – Ele falou rindo e entrou no lado do motorista. – Abre!
- Tá brincando! – Falei ao abrir a caixa e dar de cara com dois ingressos para o jogo Boston Celtics contra Los Angeles Lakers, um dos jogos mais esperados da temporada de basquete, um jogo que tinha sido esgotado há muitos meses. – Como você conseguiu isso?
- Não foi fácil, mas quando eu vi a data, tinha que conseguir esses ingressos. – Ele falou olhando para a rua. – Seus amigos vão nos encontrar lá.
- Isso que é surpresa. – Falei rindo.
Conversamos um pouco até chegarmos ao estádio TD Garden, casa dos Celtics. As ruas estavam fervendo, as pessoas procuravam lugares para estacionar, os fãs tentando entrar e a duas torcidas ficavam bem separadas. Era uma das maiores rivalidades do basquete.
Assim que estacionamos, dois amigos meus de Boston se juntaram a nós.
O jogo foi simplesmente fantástico, meus grandes amigos comigo, cerveja e amendoim, a galera aloprada por causa dos resultados, a agitação, e o jogo estava muito acirrado. Para ficar melhor, meu time ganhou, nos últimos segundos, com uma cesta de três pontos, foi o ponto máximo da noite.
Saímos do jogo com uma sensação ótima. Passamos em uma lanchonete e cada um comeu um combo gigante de lanche com fritas e muito refrigerante. Estava me sentindo com 14 anos de novo, a primeira vez que eu tinha ido a um jogo na vida.
Seth me deixou em casa pouco antes da meia noite, perguntei se ele queria subir, mas ele falou que passaria na casa da mamãe antes, que não tinha conseguido vê-la ainda e estava há quase dois meses fora da cidade.
Arrumei-me para deitar e faltando cinco minutos para a meia noite eu já estava deitado, fiz uma rápida oração em silêncio, agradecendo por tudo, por mais um aniversário, pela família e amigos que eu tenho e pelas oportunidades. Eu não tinha nada a reclamar.
Juntei dois travesseiros atrás da minha cabeça e ouvi o celular vibrar na cômoda ao lado da cama, era uma mensagem:

“Feliz aniversário! Tudo de bom, muita paz, saúde, felicidades, amor e mais sucesso na sua vida. Beijos, <3”.

Suspirei. Fazia algum tempo que eu não me sentia assim, sei lá, umas cócegas na boca do estômago, é uma sensação liberta, uma sensação de querer voar, uma sensação de leveza. Reli as palavras algumas vezes e quando notei já estava discando para , precisava falar com ela e se ela havia me mandado essa mensagem, era porque ainda estava acordada.
- Normalmente as pessoas respondem uma mensagem com outra mensagem. – Foram as palavras que eu ouvi assim que ela atendeu.
- Ah, não! Muito impessoal isso. Não me dou muito bem com mensagens.
- Não só com mensagens, mas com nada que seja prático, você quer dizer. – Ela gargalhou do outro lado da linha, me fazendo rir.
- Isso é sacanagem comigo! – Falei, me sentindo ofendido.
- Brincadeira! – Ela falou ficando em silêncio por um tempo, mas logo gargalhando em seguida.
- Qual é, !
- Ok, eu paro! – Ela falou ficando em silêncio.
Fiquei ouvindo sua respiração por um tempo e era bom. Ela não falava nada, eu não falava nada, o silêncio era nosso aliado. A noite também.
- Como foi o trabalho hoje? – Me vi perguntando.
- Estou zonza de tanto ver planilha. É por essas que eu fiz comunicação, muitos números me confundem! – Ela falou fazendo birra. – Pelo menos tenho o dia de folga amanhã! Bem, em partes. – Pude imaginá-la mordendo o lábio inferior e fazendo uma careta.
- Por que em partes? – Falei rindo.
- Essa casa não vai se limpar sozinha, acredite!
- Seth não fez nada louco hoje, não teve strippers, nem dançarinas exóticas! – Falei ouvindo sua gargalhada novamente.
- Sério? Do jeito que Derek falou pareceu que seria a balada do ano.
- Não, fomos ao jogo dos Celtics hoje. – Falei me mexendo na cama e virando de lado.
- Basquete?
- Sério?! – Perguntei.
- Que foi? Brasil é país do futebol, não sou muito ligada em outros esportes, ok?
- Vou pensar no seu caso!
- Sem graça! – Ela ficou em silêncio de novo.
- Eu estava pensando aqui... – Falei meio pensativo.
- O quê? – Ela perguntou.
Fiquei em silêncio por um tempo, pois precisava saber se o passo que eu estava prestes a dar era maior que minhas pernas, se seria o começo de algo novo, se seria algo que eu estava preparado para entrar de novo, e se era realmente o que eu queria.
- ? – Ouvi sua voz baixa do outro lado. – Está aí ainda? – Saí do transe.
- Você quer sair comigo, ? Sério! Um encontro?
Foi como se eu prendesse minha respiração e o tempo passasse mais devagar. Fechei meus olhos e passei meus dedos sobre eles, esperando.
- Quero! – Ouvi sua voz do outro lado da linha e sorri.



Capítulo 3

(Eu mal posso esperar para te pegar para nosso primeiro encontro. Tudo bem se eu segurar sua mão? - Blink 182, First Date)
- Por que você não faz o que eu estou mandando? – Falei clicando pelo menos umas 20 vezes na tecla enter, encarando a página que continuava travada.
- Ei, o que o computador te fez? – Ergui a cabeça e encontrei Derek parado na minha porta.
- Ah, isso já travou umas 500 vezes só hoje! – Ele entrou na sala e se aproximou de mim. – Toda vez que eu vou postar no site, ele trava e, depois quando destrava, o link quebra.
- Deve ser a internet, desde a hora que eu cheguei, nem no meu e-mail eu estou conseguindo entrar. – Ele puxou a cadeira perto da porta e se sentou ao meu lado, quando a tela destravou.
- Mas isso precisa ficar on-line hoje. – Suspirei. – Mais uma vez. – Falei e comecei o processo novamente, ouvindo o telefone ao meu lado tocar – Ah, espera! – Gritei para o telefone, ouvindo Derek rir. - Pega o link, digita o código, coloca o link no código... – Peguei o telefone e cliquei enter. – Mas que inferno! – Falei colocando o telefone no ouvido. – , boa tarde?
- Nossa, calma, o que eu te fiz? – Ouvi a voz do do outro lado da linha e fiz uma careta.
- É ele? – Derek sussurrou ao meu lado e eu concordei com a cabeça.
- Não, nada. – Suspirei e abaixei a tela do computador. – O processo tá meio lento aqui hoje, sabe? – Apoiei minhas costas na cadeira e vi Derek aproximar o ouvido do telefone. – Mas e aí, como você está? – Respirei. – Onde você está, na verdade? – Ele soltou uma risada antes de responder.
- Cheguei em Los Angeles agora, finalmente posso tirar esse loiro do cabelo. – Ele riu e eu o acompanhei.
- Como foram as gravações? - Perguntei, me levantando da cadeira e vi Derek me seguir de novo, o encarei, mas ele deu de ombros.
- O de sempre, explosões que não existem, tridentes que não existem e até pessoas que não existem. - Eu ri e pude ver em minha mente ele sorrindo. - Mas enfim, vou estar em Boston amanhã, depois de duas semanas. Me desculpa, mas podemos sair?
- É seu trabalho, , não tem problema. – Suspirei. - Sair? Amanhã? É... Acho que dá! - Falei procurando desesperadamente o calendário no celular, o qual Derek tomou da minha mão e abriu rapidamente.
- ...Pro nosso encontro. - Eu abri um sorriso gigante no rosto, fechando os olhos.
- Você se lembrou. - Minha voz saiu baixa, quase num sopro.
- Você achou que eu me esqueceria? - Sua voz parecia meio brava.
- Ah, sei lá, foram quase duas semanas sem se falarmos, só por algumas mensagens esporádicas. - O ouvi suspirar.
- Eu disse que não me dou muito bem com celular. - Abri um sorriso de lado. - Mas combinado amanhã?
- Claro! O que tem em mente? - Abri um sorriso longo e voltei a me sentar na cadeira próxima à escrivaninha.
- Isso você só vai descobrir amanhã às 17 horas, quando eu te pegar na sua casa. - Podia ver seu sorriso em minha mente.
- 17 horas? , você sabe que eu sou uma pessoa normal, com um trabalho normal, não? Saio às 18h e chego em casa quase 19h, e ainda preciso de uma hora mais ou menos para ficar pronta. Antes das oito, não dá!
- É, mas você tem a Melina como chefe. Relaxa, te pego as 17h. Até amanhã.
- Espera... ! - Falei, mas ouvi a linha no telefone desligada.
- Ele pode ser bem convincente. - Derek falou se levantando de onde estava anteriormente.
- Convincente? Ele quer que eu seja demitida, certo? - Suspirei. – Melina está razoavelmente calma com a situação, mas eu não posso simplesmente largar meu emprego para sair com o cliente dela!
- Quem disse que é você que vai pedir para faltar amanhã para “sair com o cliente dela”? - Ele fez aspas no final da frase, o olhei sem entender. - Ele que vai falar, queridinha. E, se acalma, hoje você tá muito irritada. - Me joguei na minha cadeira, soltando fortemente a respiração.
- Desculpa... Eu só... - Suspirei de novo. - Sei lá, estou rabugenta hoje.
- Então relaxa, bem! - Ele se colocou atrás de mim. - Endireita as costas! - Ele falou e eu me ajeite na cadeira e senti suas mãos em meus ombros. - Pensa assim: “eu vou sair com um dos homens mais gostosos e famosos do planeta”... - Franzi o cenho e ergui o rosto para ele. - Xiu, vai, repete.
- “Eu vou sair com um dos homens mais gostosos e famosos do planeta”. - Falei de má vontade.
- E eu vou me divertir muito e beijar muito, porque gosto dele. - A cada palavra ele apertava meus ombros, massageando.
- “E eu vou me divertir muito e beijar muito, porque gosto dele”. - Falei abrindo um leve sorriso nos lábios.
- E vou estar linda e maravilhosa para ele ficar babando o tempo todo. - Arregalei os olhos.
- Meu Deus, eu preciso de roupa nova! - Falei empurrando a cadeira e me levantando, ouvindo um gemido de dor vindo de Derek, por ter empurrado a em cima de seu pé. - Eu preciso de cabelo, maquiagem, manicure! - Falei pegando minha bolsa e puxando cartões da mesma, procurando alguns telefones. - Ai meu Deus, eu não posso sair com “um dos homens mais gostosos e famosos do planeta” assim! Meu cabelo está seco, minhas unhas horríveis e... - O encarei e senti segurar meus ombros, me parando.
- Calma, mulher! Relaxa! - Ele encarou fundo em meus olhos. - Calma!
- Tá tudo certo, gente? - Ruth, a estagiária, apareceu também na porta da minha sala.
- Só a , se dando conta que vai sair com um cara lindo e famoso! - Derek falou ironicamente.
- Só agora, ? - Ruth riu.
- Ah, eu não tinha me dado conta disso ainda, ok?! Sei lá, é tudo novo isso para mim. - Falei suspirando. - E outra, agora que ele realmente marcou, ok?! - Ruth riu.
- Bem, divirta-se. - Ruth falou acenando. - Eu vou cuidar do meu bebê!
- E como ela está Ru? - Falei e ela abriu um largo sorriso.
- Ah, ela está ótima, linda e crescendo mais a cada dia. Todo mundo lá em casa está feliz.
- Tem que trazer ela logo para a gente conhecer, ok?! - Ela acenou com a cabeça. - E o pai?
- Ele está indo bem, sua mãe meio que o obrigou a participar das coisas, mas parece que ele está realmente gostando disso tudo.
- E vocês dois? - Perguntei um pouco mais sútil.
- Não, nada. Sei lá, a gente só teve um filho juntos, totalmente não planejado, era para ser só uma noite de diversão e isso acabou nos unindo de alguma maneira. Não penso nele desse jeito e pelo jeito ele também não.
- Ah, pelo menos ele está te ajudando – Derek comentou ainda atrás da minha cadeira.
- Sim, já é alguma coisa. Ele começou a trabalhar, está ajudando a pagar algumas coisas... Estamos indo bem. - Ela sorriu.
- Ah, fico feliz, Ru! Você realmente merece! Você é linda, estudiosa, realmente se preocupa. Você tem tudo para dar certo, querida! - Dei um rápido abraço nela e um beijo em sua bochecha. - Agora vai lá cuidar da sua pequena.
- Tchau gente. Até amanhã! - Ruth gritou enquanto deixava o local, colocando sua mochila nas costas.
- Agora somos eu e você de novo, dona ! - Derek falou cruzando os braços.
- Prometo que não surto mais! - Falei erguendo as mãos. – E, desculpa pelo pé!
- Não é isso! - Ele balançou as mãos. - É sobre a parte de roupas, maquiagem, manicure e cabelo.
- Ok? – Falei em tom de pergunta.
- Acho que está na hora de você conhecer meu marido!
- Não que eu esteja reclamando, mas acho que não entendi. - Mantive meu olhar no dele.
- Que horas são? - Continuei encarando-o desentendida. - Bem, são quase 18 horas. Termina o que tem que fazer e me encontra no meu carro o mais rápido possível.
- Ok? – Falei novamente, mas ele já havia saído da sala.
Suspirei e arrastei minha cadeira até a escrivaninha novamente. Essas últimas duas semanas haviam sido realmente complicadas para mim. Fazia muito tempo que eu não ficava com alguém e muito menos que esse alguém se importasse comigo. Desde que eu havia chegado à Boston, eu não fiquei com ninguém, meu foco estava nos estudos e em fazer turismo pelos estados ali perto, Nova York, Vermont, Rhode Island. E eu também não tive tantos relacionamentos e, o último, foi pouco antes de eu vir para Boston, quando tinha 25 anos, mas que também havia durado pouco mais de seis meses, ele estava se divertindo ainda, e eu já começava a pensar em meu futuro, tanto que foi com isso em mente que eu vim para os Estados Unidos.
Então, o beijo de e ele ter me chamado para sair, foi algo que descongelou meu coração, me fez ficar mais leve novamente, precocemente apaixonada, talvez. E quando ele sumiu essa semana com Melina para gravar em Cleveland, eu fiquei pelo menos uns cinco dias sem receber nenhuma notícia dele, somente os relatórios de Melina falando das gravações e alguns comentários do tipo “Ele fala de você”, ou “Se preocupa não, ele está ocupado”. No começo eu não acreditava, achava que ela só estava agindo como amiga, até que recebi um SMS dele com um simples oi para que pudéssemos conversar e, foi naquela noite, que ficamos conversando por SMS a noite toda, mas depois passou mais alguns dias sem nenhuma mensagem. Então, isso tinha me deixado brava, sim, brava, e eu comecei a imaginar milhares de coisas que pudessem ter acontecido e, claro, começava a criar milhares de situações, chegando até a xingá-lo por achar que tinha saído com outra, ou algo assim, mas pelo pouco que eu o conhecia, eu sabia que ele não faria isso. Ele não era assim, se ele me chamou para sair, era porque ele realmente queria, ele queria sair comigo.
E, agora esse encontro, por mais que eu quisesse sair com o , havia uma parte que ficava martelando algo na minha cabeça. Ele não era um dos meus ex-namorados que simplesmente me levaria para jantar e era isso aí, era o que me levaria para jantar, uma figura pública com milhares de fãs ao redor do mundo e que era simplesmente de tirar o fôlego. Ficar perto dele algumas vezes, causava certo transe em mim, ele agia com a maior naturalidade quando eu estava perto e, às vezes, eu o olhava como aquela fã do primeiro dia que eu havia o conhecido. Aquela fã que o amava de uma maneira, mas que agora estava passando a amá-lo como mulher. Uma mulher que mais parecia uma menina ao pensar no beijo em minha casa naquele fatídico sábado.
Encarei minha mão esquerda e notei a pequena marca branca que havia sido causada pela taça quebrada, a marca era menos visível agora, quase imperceptível, mas era algo que eu sempre gostava de olhar, porque aí eu saberia que realmente tinha sido real.
- Só espero que estejamos no mesmo capítulo, ! - Suspirei e àquela hora consegui fazer rapidamente upload de um vídeo de um evento da noite passada, o divulguei nas redes sociais da ACCESS e adicionei ao hotsite dele. Abaixei a tela do notebook, peguei minha bolsa que estava jogada na cadeira em frente à escrivaninha, joguei meu celular e meu pen drive dentro dela e puxei a porta, tanto da minha sala, quanto da seção de Melina.

Derek estava sentado no banco do motorista de seu carro e cantava baixo uma música do Queen, assim que eu entrei no carro, ele, com um sorriso animado deu partida no carro, saindo do estacionamento subsolo da ACCESS.
- Não quer me levar para casa? - Falei meio manhosa, forçando um bocejo.
- Ah , ânimo! - Apoiei a cabeça no encosto do carro e escorreguei o corpo um pouco para baixo. - Ei, o que foi? - Ele falou virando o rosto por um tempo, antes de olhar para a rua novamente.
- Sei lá, tô meio... - Fiz uma pausa por um minuto. - Incerta sobre isso!
- Por quê? O que há de incerto nisso? Você gosta dele, ele gosta de você, um encontro, possível relacionamento, hein?! - Suspirei fechando meus olhos por um momento.
- Ele realmente gosta de mim? Eu não sei, Derek! Ainda não aprendi a ler sentimentos.
- Claro que gosta, ! - Ele freou o carro em um sinal vermelho e se virou para mim. - E ele já deixou isso claro naquela semana do aniversário dele, ele ligava toda hora para cá!
- É... Mas e essa semana? Ele me ligou hoje, só ficava mandando mensagem. - Continuei com meu rosto abaixado.
- O não mistura trabalho com relacionamentos, ! Você viu isso! - Ele suspirou e continuou a dirigir. - Quando ele estiver longe, liga para ele, faça uma surpresa.
- Eu não tenho esse costume! - Falei baixo.
- Aprenda a ter. Homens também gostam disso. É bom saber que a pessoa que a gente gosta lembra da gente. - Abri um sorriso de lado, ele tinha razão. - Deixa as coisas rolarem, se for para ser, elas vão rolar do jeito certo.
- Obrigada, Derek!
- Estou aqui para isso, ! - Ele segurou minha mão que estava apoiada no painel e abriu um largo sorriso. - E para te apresentar sua fada madrinha também. - Soltei uma gargalhada.

Assim que Derek estacionou o carro, avistei um sobrado com as paredes pintadas de branco e alguns detalhes em preto. Ele tinha um tom meio moderno e, de longe passava despercebida de todas as casas da vizinhança, mas quando entrei, notei que era um ateliê.
- O que estamos fazendo aqui? - Comentei quando ele atravessou a cortina em nossa frente e puxou minha mão para acompanhá-lo.
- Rupert? Está aqui? - Ele gritou e foi quando notei o local, araras com os mais diversos tipos de vestidos se espalhavam pelo primeiro andar. Quem olhasse de fora, não diria que aquele sobrado tinha todo aquele tamanho. Desde vestidos simples, até vestidos de festa, curtos até longos, do mais escuro, até o mais branco vestido de noiva que eu já havia visto. Vestidos simples de algodão, até vestidos de tafetá e renda guipir. Era o paraíso dos vestidos.
- Derek, é você? - Um ruivo surgiu do segundo andar. Ele tinha o mesmo porte de Derek, mas era maior e mais malhado, possuía uma barba cheia da mesma cor de seus cabelos, sua pele era bem clara e algumas sardas podiam ser vistas de longe em seu rosto. - Oi!
- Uma pessoa aqui precisa da sua ajuda! - Eu soltei uma risada e passei a mão nos meus cabelos castanhos soltos, um tanto envergonhada. – Rupert desceu as escadas e apareceu no primeiro andar do ateliê rapidamente.
- Oi, tudo bem? Rupert! - Ele falou me dando um rápido abraço e um beijo em minha bochecha.
- ! - Sorri e ele foi cumprimentar Derek e ficaram lado a lado me encarando.
- Qual é a emergência? - Rupert perguntou nos encarando.
- Ela vai sair com o . – Derek falou – Um encontro, amanhã no fim da tarde.
- ? - Encarou Derek. - ? - Derek confirmou. – Então, você é a garota que o está apaixonado? - Nessa hora eu quis cavar um buraco e sumir.
- Acho que sim! - Eu ri e ele me acompanhou. - Derek me trouxe aqui e agora entendo o porquê. Você que desenha os vestidos? São lindos!
- Que bom que gostou. Sim, sou eu! - Ele soltou uma risada e se aproximou de mim, passando a mãos em meus cabelos. – E aqui tem um pequeno salão. Usamos para preparar noivas, mas também para outras coisas. - Ele deu uma piscadela para mim e eu senti que fiquei vermelha. - Então, vamos começar?
- Mas espera! Eu acho que não estou entendendo. - Encarei os dois, um de cada lado meu, e ambos riram cúmplices.
- Você disse que não tinha roupas, certo? - Derek falou sugestivamente e eu comecei a entender.
- Ah, sim! - Comecei a rir e fui puxada por Derek para as diversas araras que tinha no primeiro andar.
Ter uma loja inteira de vestidos só para mim era algo que nem em mil sonhos eu podia imaginar! A quantidade de opções que Rupert tinha lá tirava meu fôlego, cores, tecidos, comprimentos, tudo era separado em seções. Ao fundo, atrás das araras, tinha um espaço grande como se fosse uma passarela cheia de espelhos e uma larga porta para os provadores, pela qual passei várias vezes. Por mais que eu quisesse mexer e remexer naqueles cabides e descobrir tudo que eles seguravam, Rupert e Derek não deixaram. Eles me colocaram sentada em um sofá e fizeram perguntas sobre que tipo de cor eu mais gostava, curto ou longo, renda ou couro, enfim, tudo. E anotaram isso em um bloquinho. Quando terminaram me largaram sozinha por uns 10 minutos.
Quando eles surgiram novamente, cada um trazia um vestido e enquanto eu provava o de um deles, outro já corria atrás de mais alguns, que foram surgindo em minha mão conforme o tempo passava. Eu já tinha ficado até confortável por eles me verem de lingerie, porque não bastava eles procurarem os vestidos, eles também me ajudavam a provar e conversavam entre si sobre roupas, sapatos, maquiagem... A mulher de lá era eu, mas me sentia um peixe fora d'água, tentando acompanhar tudo. Havia perdido a conta depois do 15º vestido, e, outros surgiram após isso. Quando surgi em um roupão fora do provador, vi uma arara com uns 12 vestidos, todos curtos.
- E aí? - Derek falou me olhando.
Suspirei e comecei a passar os cabides novamente, como se eu não tivesse visto nenhum daqueles vestidos. Eu olhava detalhes, o que sobressaía deles e fui selecionando.
- Acho que é esse! - Falei tirando o cabide da arara em minha frente.
- Não poderia ter escolhido melhor! - Rupert falou e trocamos um sorriso cúmplice.
Enquanto eu colocava minha roupa do trabalho de volta, Rupert sumiu novamente com Derek, vesti minha calça social preta e minha blusa azul e peguei os sapatos de salto na mão, podia sentir meus pés latejando, já que me fizeram desfilar com ele a cada prova de vestido, se já não bastasse passar oito horas por dia em cima deles. Saí do provador pronta para ir embora, quando Rupert acenou para mim do andar de cima.
- Vem cá! - Soltei meus saltos no chão novamente, próximo ao balcão, onde estava minha bolsa e segui para as escadas.
O segundo andar não era um simples salão como Rupert havia dito, estava mais para um SPA, tinha espaço para cabelo, manicure, maquiagem, depilação, massagem e ainda um banheiro com uma hidromassagem gigante.
- É aqui que preparamos as noivas! - Derek falou folheando uma revista à sua frente e notei a mulher ao seu lado. - Essa é Denise, vai cuidar das suas unhas agora.
Olhei a mulher com a pele acobreada, ela tinha cabelos pretos cacheados que estavam presos em um rabo de cavalo. Usava as roupas parecidas com a de Rupert, jeans e blusa preta, estava muito bem maquiada e tinha luvas nas duas mãos.
- Agora? - Olhei para Derek.
- Você por acaso tem algo melhor para fazer? - Ele disse com desdém. - Por favor, hein?! - Rupert gargalhou ao meu lado e eu empurrei seu ombro com o meu.
Arregacei as mangas da blusa e a barra da calça e me sentei em frente à Denise.

Ali eu fiquei por muito tempo, eu conversava com Derek e Denise, enquanto a segunda fazia minhas unhas, pintando a das mãos de vermelho escuro e a dos pés com um branco delicado. Rupert havia soltado meu cabelo e mexia nele tentando fazer alguns penteados, pegava a chapinha e o baby liss, fazia e desfazia. Nem que ele tivesse que ir à ACCESS amanhã de tarde para que eu tivesse meu cabelo feito, meu rosto maquiado e, que levasse o vestido junto para ficar pronta no tempo, ele o faria, porque segundo eles, eu ia sair às 17 horas de lá com o , nem se fosse por cima do 'cadáver deles'. Quero só ver se Melina ouvisse isso!
- Seu cabelo é bonito, , só está mal cuidado! - Eu fiz uma careta. - Que tal fazer uma hidratação, aí eu faço uma escova, prendo essa parte aqui... - Ele falou puxando a frente do meu cabelo para trás. - Assim... - E pegou os lados e cruzou, prendendo com grampos, e colocou um pouco de spray. – Assim ele não escapa e como seu cabelo já faz algumas ondas naturalmente, dá para a gente só firmar elas.
- Vai ficar muito bonita, senhorita ! - Denise falou e eu fiquei me encarando no espelho.
- Vocês não acham demais? - Falei soltando um suspiro.
- , você tem que mostrar para ele que é muito superior àquelas famosinhas que ele namorou. Você é muito mais que elas, ok? Tirando a parte de ser uma menina estudada, mas isso a gente não precisa nem comentar! - Derek falou com seus olhos focados na revista em sua frente.
- Obrigada por massagear meu ego, Derek, mas eu não estava falando nesse sentido. - Ele baixou a revista e me encarou. - Mas essa é a questão, sabe? Eu não sou famosa. E não quero aparentar uma. Quero ser aquela pessoa que ele conheceu naquele restaurante há três meses. Aquela menina que saiu com o cabelo molhado e esperou que ele secasse e armasse ao vento, a menina que saiu calçando os sapatos no hall dos elevadores, sabe? - Suspirei, sentindo Denise passar um creme em meus pés e massageá-los.
- Você ainda vai ser essa pessoa, ! - Derek falou me olhando. - Mas, por favor, mulher, você é um mulherão, nada de menina, ok?! - Soltei uma risada e confirmei com um aceno de cabeça.
- E , isso não tem nada a ver. Toda mulher gosta de se arrumar, não?! Comprar roupas novas, fazer as unhas, ir ao cabeleireiro, estou certo, não? - Rupert falou enquanto segurava todos os meus fios de cabelo em uma mão só. - Ou um rabo de cavalo alto, se você preferir. - Eu olhei no espelho novamente e dei uma risada, essa era a quando ficava em casa o dia inteiro, mas poderia ser a de um encontro também.
- Sou de vocês! - Falei me dando por vencida!
Na verdade, eu já saberia que sairia perdendo, porque eu era minoria ali e, é como Rupert falou, que mulher não gosta de se arrumar? Por mais cansada que eu estivesse do trabalho, estava me divertindo provando todos aqueles vestidos, fazendo as unhas e mexendo no cabelo. Era como quando eu era mais nova e brincava de salão com minhas amigas, só que dessa vez eu ganhava vestidos de verdade, as maquiagens eram bonitas e uma escova não ficava presa no meu cabelo armado.
Assim que Denise terminou de fazer minhas unhas, eles ligaram o ar condicionado e fecharam as janelas do segundo andar e da mesma maneira que Denise sumiu, ela apareceu novamente com várias maletas, que só mais tarde eu descobri que estavam cheias de maquiagem. Eu sentei em uma cadeira de salão e ela inclinou-a um pouco, me deixando quase deitada, desabotoaram alguns botões da minha blusa e colocaram uma toalha na altura do meu peito.
- Que horas é o encontro? - Denise perguntou passando um produto para limpar minha pele.
- Às 17 horas. - Falei enquanto ela passava o algodão em meus lábios.
- Então, dá para fazer uma maquiagem mais leve! - Ela falou passando base em meu rosto. - E usar um batom vermelho, seus lábios são pequenos, vai chamar a atenção para eles.
- Eu gosto de batom vermelho. - Falei rindo.
- Perfeito! - Denise falou antes de pedir para eu fechar meus olhos.

- Sei lá, o falou que daria um jeito de eu sair mais cedo, mas não foi muito específico no caso! - Falei enquanto Rupert dobrava o vestido azul e o colocava em uma sacola preta com as iniciais RVS em branco.
- Bem, qualquer coisa me liga, mas se você não ligar até às 15 horas a gente aparece lá! - Rupert falou enquanto Denise concordava ao seu lado.
- Ok! Derek me passa seu número! - Falei puxando minha carteira da bolsa. - Quanto te devo, Rupert?
- Nada! - Olhei com a testa franzida.
- Não, sério, Rupert! - Abri a carteira puxando meu cartão. - Eu realmente gostei dos seus vestidos, vou voltar aqui mais vezes.
- Então, faremos o seguinte, quando você e o forem um dos casais mais cobiçados do mundo, prometa que vai usar minhas criações nos eventos! - Revirei os olhos, mas não pude segurar uma risada. - Ou quando se casarem! - Não pude conter uma gargalhada.
- Vamos focar no primeiro encontro, ok?! - Falei tocando seu ombro. - Um passo de cada vez. - Ele deu de ombros e mostrou a língua.
- Bem, estamos combinados, então? - Concordei com a cabeça e peguei a sacola que ele entregava.
- Sim, qualquer mudança eu ligo. - Coloquei meus saltos novamente.
- Vamos, , eu te levo. - Derek falou puxando a chave do carro do bolso.
- Não precisa. Eu pego um táxi. Já atrapalhei vocês o suficiente por hoje. - Eles riram e acenaram enquanto eu saía pela porta.

Assim que passei pelo batente da porta de entrada do meu apartamento, fui deixando as coisas pelo caminho, começando pelos meus sapatos, depois a bolsa, a blusa, as calças e por último, minha roupa íntima que ficou em cima da pia do banheiro antes que eu ligasse o jato de água frio em cima do meu corpo. Fisicamente eu ainda estava elétrica, mas mentalmente, não aguentava mais. Precisava de comida e da minha cama. Passei o sabonete em meu rosto fortemente, tentando tirar a maquiagem e passei as mãos nos rolinhos cacheados, tirando os nós. Coloquei uma quantidade exagerada de condicionador e penteei mecha por mecha com o produto no cabelo, deixando-o escorrer enquanto saía junto da água.
Saí do banho e enrolei a toalha em meus cabelos enquanto passava um creme pelo meu corpo, não que eu fosse muito de cremes, mas estava merecendo me cuidar um pouco mais, e sim, isso tinha a ver com certo ator famoso que eu encontraria no dia seguinte. Fiquei deitada um pouco em minha cama enquanto o creme secava e logo joguei uma camisola por cima, calcei meus chinelos e montei dois mistos-quentes e coloquei-os no grill. Procurei um copo no escorredor, me servi de um pouco de suco gelado e o tomei em um único gole, soltando um suspiro antes de colocar o copo dentro da pia. Peguei um prato, coloquei os lanches nele e andei até o sofá de três lugares, me sentando de lado, coloquei as pernas para cima e o prato em cima da minha barriga, enquanto procurava os controles da TV. Zapeei os canais brasileiros na TV à cabo, mas desisti da programação de novelas e coloquei em algum canal de filmes qualquer.
Quando dei a primeira mordida em meu lanche vi o rosto conhecido de um ator da Máxima e franzi a testa, tentando reconhecer o filme, e arregalei os olhos no instante seguinte, quando o rosto retangular de apareceu, os cabelos tingidos de um tom puxado para o laranja e raspados nas laterais, com somente um grande topete em cima, o cavanhaque propositalmente engraçado e os óculos de grau redondos completavam o personagem. Soltei uma risada irônica e larguei o controle novamente no sofá. Esse era, definitivamente, um dos meus filmes favoritos dele. Era um filme totalmente despretensioso, mas muito engraçado. Sempre me fazia rir.
O filme já estava no fim, então, terminei de comer meus lanches e esperei acabar, antes de lavar a louça que estava acumulada desde o dia anterior.
Foquei meus olhos no horário e vi que precisava dormir logo, porque se demorasse um pouco mais, não dormiria tempo suficiente e ficaria reclamando de sono o dia inteiro e, eu podia ter tudo amanhã, menos sono. Andei até meu quarto e puxei o celular da bolsa vendo algumas notificações de mensagem no Facebook e no WhatsApp e deitei na cama. Liguei o abajur ao meu lado e bati a mão no interruptor, ao lado da cama. Abri o WhatsApp e o nome estava em negrito, denunciando uma mensagem dele.
“Te vejo amanhã?” - às 19:33.
“Já falei com a Melina, amanhã ela fala contigo” - às 20:17.
“Como eu sei se você já viu a mensagem?” - às 21:03.
“Esquece x)” - às 21:05.
Não pude conter o riso com as mensagens, a proximidade dele com os programas tecnológicos era engraçada, ele não tinha nenhum conhecimento, nenhuma agilidade. Olhei o horário atual e já passava da meia-noite, não sei se ele já estava dormindo, mas achei que merecia uma resposta.
“Estou pensando em você” foram as palavras que eu escrevi e pensei um pouco antes de apertar a tecla para enviar. Soltei um suspiro e, antes que eu partisse para a próxima notificação, o telefone vibrou novamente em minha mão.
“Eu pensei em você o dia inteiro... Todos esses dias” . Abri um sorriso largo e fiquei encarando a foto dele lá no topo da conversa e a palavra on-line ao lado.
“Eu deveria estar indo dormir agora” Digitei, inclui um emoji de sono ao lado e enviei.
“Só te deixo dormir porque tenho vários planos para a gente amanhã” Sua resposta veio um pouco mais rápida agora.
“Que planos?” Respondi sabendo que a pergunta seria em vão e já mandei outra mensagem “Bom mesmo, você não ia querer me ver com sono... Eu fico meio chata” .
“Não vou contar e vai dormir, te quero desperta amanhã” mordi o lábio inferior involuntariamente, deixando meus pensamentos irem longe. “Boa noite, linda!”
“Boa noite, Olhei as três palavras e acrescentei um coração ao lado e o apaguei em seguida, mandando somente a mensagem.
- Pense em mim. - Sussurrei desativando o Wi-Fi do celular e o conectando no carregador acoplado na parede.

O dia na ACCESS foi incrivelmente louco. Assim que eu passei pelas portas do elevador, tinha assessores correndo por todos os lados, pastas em suas mãos, folhas espalhadas por todas as mesas e alguns flyers voando pelo chão por qualquer lugar que eu pisava. Algum tempo depois descobri que teria um evento na mansão de um famoso cantor que havia morrido ano passado, para o lançamento de algumas músicas que foram produzidas post-mortem e a maioria dos famosos foram convidados.
Mesmo que isso, aparentemente, não envolvesse , eu acabei entretida no assunto. Fazendo ligações, confirmando a presença de algumas pessoas, em especial da imprensa. Devo de ter dado, pelo menos, uns 300 telefonemas, meu pescoço já estava ficando dolorido. Se continuasse assim até o fim do dia, o pegaria uma mulher com torcicolo fenomenal, que não poderia nem endireitar a cabeça para beijá-lo. Passei a mão no pescoço e estralei o mesmo, virando para todos os lados possíveis, ouvindo um estalo que eu tanto gostava de fazer, uma mania e tanto.
- Gente, vou sair para almoçar, preciso de um tempo para o meu pescoço destravar. - Falei arrastando a cadeira de perto da mesa e pegando a bolsa no cabideiro quando passei por ele.
- ! - Melina gritou e eu coloquei a cabeça para dentro de sua sala. - Vai almoçar e não precisa mais voltar por hoje! - Ela piscou um olho e voltou a falar com a pessoa na linha. Virei o corpo e dei de cara com um Derek sorridente atrás de mim.
- Vou ligar pro Rupert! - Ele falou já entrando para sua sala e colocando sua carteira dentro do bolso. – Vamos! Eu almoço contigo.
O caminho até o restaurante foi preenchido por eu contando à Derek sobre as mensagens do na noite passada. Podia notar que a cada palavra que eu falava, soltava um suspiro curto, o que me denunciava, e muito.
- Ele tá tão na sua, ! - Ele falou apertando minha mão que estava em meu colo.
- Ei, nada de ficar dando uma de Greg Wuliger, esse é outro , hein?! -
- Ok, me expressei mal! - Ele voltou a mão para o volante. - Ele gosta muito de você! Qual é?! Ele está aprendendo a mexer em redes sociais para falar contigo! Mensagens! Isso nunca aconteceu! - Soltei uma gargalhada, sendo acompanhada por ele.
- Ah, sei lá! Eu estou muito nervosa, você não tem noção. – Suspirei, me afundando no banco do passageiro ao seu lado.
- Tenho sim. Sua mão está congelada! Tirando o fato de que você estava toda estabanada hoje. - Ele me encarou e eu ergui uma sobrancelha. – Sério! Você derrubou seu telefone umas quatro vezes... Depois eu parei de contar! - Dei um tapa em seu braço.
- Ok, eu estou apavorada. Acho que isso define muito bem o que eu estou sentindo. - Ele passou a mão na minha e a apertou, mostrando confiança. - Algum conselho?
- Seja você mesma! - Bufei, me mostrando contrariada. - Ele gostou de você assim, não foi? Ele te beijou como , pós-trabalho? Ele te beijou durante seu trabalho como você, não?! Ele te chamou para um encontro sem ao menos estar te vendo. - Abri um sorriso tímido de lado. - Para de se preocupar com as pequenas coisas e se preocupe em se divertir, porque depois que os momentos passarem, eles não vão voltar. - Ele estava certo, esse momento podia acabar rapidamente.

- Eu quero saber de tudo! Não se esqueça de me ligar assim que você estiver sozinha, ok? Mas também não some, não me deixa preocupado. - Derek falava dentro de seu carro enquanto uma fila de carros buzinava atrás dele. - Não esquece!
- Eu te ligo, pode deixar! - Gritei de volta e ele avançou com o carro. Soltei uma risada e acenei para ele enquanto via o carro se afastar pela rua e uma fileira o seguir. - Ele é louco!
Passei a porta do meu apartamento pouco depois das duas horas da tarde, eu tinha muito tempo para me arrumar e Rupert não tinha dado sinal de vida ainda, então, programei quarenta minutos em meu relógio e tentei tirar uma soneca.
Soneca em vão, pois eu não conseguia pregar os olhos com medo de Rupert chegar ou que a campainha ou o telefone tocasse, e eu não ouvisse. Enfim, o máximo que eu consegui foi ficar três minutos de olhos fechados em minha cama, até que eu havia lembrado que não tinha decidido que sapato usar naquela noite.
Pulei da cama, abrindo a porta do meu armário que dava para os sapatos e puxei as cinco caixas fechadas de lá, com os sapatos que eu usava menos e os joguei em cima da cama, abrindo um de cada vez, até dar de cara com meu scarpin preto de bico arredondado e aveludado, não era tão alto e era bastante confortável... A não ser que eu fosse para uma caminhada, o que não deveria ser o caso. Coloquei-os nos pés e me encarei no espelho preso na parede por alguns segundos. Suspirei e os tirei, conferindo se o par estava limpo e o joguei em cima da cama, partindo para minha caixa de joias em cima da penteadeira à esquerda da cama. Escolhi um par de brincos que eu havia ganhado no meu aniversário de quinze anos. Peguei meu anel de formatura, com um rubi solitário no meio e separei um relógio grafite.
Separei também um conjunto de lingerie preto, o conjunto era simples, com somente alguns detalhes de renda tanto no sutiã como na calcinha. Rendas quase imperceptíveis, a não ser quando estava no corpo e a cor da pele a realçava. Com tudo que eu pudesse separar pronto, liguei na portaria do prédio e avisei que estava esperando por Rupert, que caso ele chegasse, era para liberar sua entrada, destravei a porta e fui para o banho.
Aquele foi o banho mais longo que eu tomei em muito tempo. Eu tomava cuidado para não arrancar parte do meu esmalte enquanto massageava minha cabeça. Esfreguei cada parte do meu corpo pelo menos umas três vezes e conferi se minha perna e axilas não tinham nenhum pelo. E, os pelos que insistiam em crescer eu raspei rapidamente com a gilete, me certificando que não faria cortes na extensão da minha perna. Quando saí do banho passei o creme mais cheiroso que tinha em meu armário e já aproveitei para escovar os dentes.
Saí do banheiro com uma toalha enrolada no corpo e outra no cabelo e fui para meu quarto, coloquei a lingerie, me certificando que ela não estava enrolada em nenhuma parte do meu corpo e soltei os cabelos da toalha, voltando para o banheiro. Passei um pente pelos fios, tornando o que antes era um emaranhado de fios em algo mais parecido com meu cabelo.
- Você está um arraso! - Rupert falou, apoiando o corpo no batente da porta do meu banheiro.
- Rupert! - Pulei de susto, procurando pela toalha em cima da pia, tentando cobrir meu corpo o máximo que eu conseguisse.
- Ah mulher, deixa disso! - Ele deu de ombros e caminhou até a sala. - Já vi tudo isso e, você sabe, eu não jogo nesse time! - Soltei uma gargalhada e o segui, enrolando a toalha de volta no corpo.
- Oi, ! - Denise também estava lá, em pé ao lado do meu sofá, onde meu vestido estava estendido, e segurava uma maleta em cada mão.
- Ei! - Falei rindo. - Você veio também.
- Não podia te arrumar sem minha equipe, certo? - Rupert falou e colocou duas maletas em cima da minha pequena mesa de jantar e, abriu ambas, mostrando várias opções de maquiagem em uma e vários apetrechos capilares na outra. - E aí, pronta para sair com um gato? - Eu ri e dei de ombros.
- Sei lá! - Apertei meus olhos com as mãos e suspirei.
- Vai apanhar, hein? - O ruivo falou e eu lhe mostrei a língua. - Tira essa toalha e senta aqui, não temos muito tempo para te deixar divina, tá?!
Puxei a poltrona que ficava em meu escritório e sentei. Havia desenrolado a toalha do meu corpo e a prendido na minha cintura, deixando meu tronco coberto somente pelo sutiã. Denise esticou uma toalha em meu peito e barriga para que não caísse cabelo nem maquiagem em meu corpo. Ambos colocaram luvas e aventais pretos com as siglas RVS, mostrando o uniforme deles.
Eles começaram pelo meu cabelo, secando-o para ser mais exata. Rupert trabalhava de um jeito despreocupado, jogava meu cabelo para todos os lados e, de vez em quando, puxava com uma escova. Ele deixou os fios ondularem na ponta e desligou o secador. Como planejado no dia anterior, segurou todo meu cabelo no alto e o prendeu em um rabo de cavalo, usando uma mecha do meu cabelo para esconder o laço preto, quase imperceptível em meus cabelos castanhos. Ele pegou uma parte do meu cabelo que seria a franja e o escovou de modo que formasse uma onda e o colocou de lado, encaixando atrás da minha orelha com um grampo. Ele escovou a ponta do meu rabo, fazendo com que ele fizesse algumas voltas e não ficasse totalmente liso e, por fim, jogou bastante laquê para que tudo ficasse no lugar até o fim da noite.
Denise trocou de lugar com Rupert e começou a preparar minha pele, mesmo que eu tivesse acabado de tomar banho, ela fez questão de tirar todo tipo de oleosidade e possível sujeira que talvez tivesse ficado em meu rosto e começou a delinear meus olhos. Ela optou por uma maquiagem até que discreta, a parte de dentro era um tom marrom claro e a parte de fora esfumaçada por um tom mais escuro, deixando-o bem marcado. Passou lápis preto bem forte em meus olhos e alongou ainda mais meus cílios com rímel da mesma cor. Com um blush cobre marcou minhas bochechas discretamente e passou um batom vermelho em meus lábios, cor que eu já tinha costume de usar quando saía à noite. Era um tom de vermelho mais puxado para o tomate, deixando meus lábios em um tom quase alaranjado.
Eles me ajudaram a vestir, o vestido jeans com as mangas cobrindo os ombros e um pequeno decote nas costas, todo fechado por botões. Ele era incrivelmente simples, mas eu tinha amado. Não tinha a mínima ideia para onde ele me levaria, mas acreditava que era um vestido que poderia ser usado tanto em um restaurante chique, como também para comer pizza na mão no píer de Boston.
Rupert fechou os botões, enquanto Denise ajeitava o cinto vermelho que ia por cima. Não que eu não pudesse fazer isso, mas eu fico feliz que eles tenham feito por mim, pois eu passava mentalmente palavras que pudesse dizer, sem que eu dissesse besteira durante o encontro, besteiras que pudessem fazer com que esse fosse nosso único encontro. Mas que merda, , um pouco mais de confiança em si mesma, você não é assim. Suspirei, essa não era eu até um cara lindo e famoso me chamar para sair. Fechei os olhos por um segundo.
- Está pronta, querida! - Denise falou e eu abri os olhos novamente. - O que acha? - Andei da sala até meu quarto e me encarei no espelho novamente, eu estava feliz com o resultado. O cabelo estava maravilhoso, era um cabelo que eu usava sempre, só que Rupert o fez de uma forma um pouco melhor do que eu faria. A maquiagem também, se não fosse a preparação da pele, era uma maquiagem que eu tinha o costume de usar, às vezes eu passava uma sombra cor da pele só para poder usar meus batons vermelhos que eu tanto amava, mas claro que Denise tinha conhecimento e eu poderia ir a um baile de gala assim que estaria adequado. Peguei os sapatos em cima da cama e calcei-os, encarando meu corpo de cima a baixo no reflexo no espelho, virei de costas e fiz o mesmo, abrindo um largo sorriso.
- Acho que temos alguém satisfeita. - Rupert falou parado na porta do meu quarto e eu sorri para ele.
- Muito satisfeita. - Me aproximei dele e passei os braços pelo seu pescoço, trazendo-o para mim em um terno abraço. - Obrigada, Rup! – Falei, me afastando dele.
- Sempre que quiser! - Ele beijou superficialmente minha bochecha. - E quando for casar com o , por favor, não se esqueça que eu faço vestidos por encomenda também, ok?!
- Nossa! Vocês já estão pensando mesmo em casamento, gente? O Derek está louco! - Falei rindo e abracei Denise da mesma forma que abracei Rupert. – Obrigada, gente, por tudo! - Sorri e voltei para meu quarto, separando uma bolsa de mão preta, em que coloquei meus documentos, dinheiro, cartão de crédito e celular. - Acho que estou pronta! - Suspirei. - Que horas são? - Perguntei.
- São quase cinco horas. - Denise falou erguendo o pulso para ver em seu relógio, mas o som do meu interfone tocando denunciou o horário. Rupert correu para o aparelho colocado na cozinha e o atendeu.
- Sim, ela já está descendo! - Ele falou e desligou, soltando um grito histérico. - Ele está aí! - Ele falou olhando para mim.
- Oh, meu Deus, respira ! - Falei me encarando no espelho mais uma vez e atravessei o corredor, voltando para a sala. - Vocês fecham tudo para mim? – Perguntei, olhando suas coisas espalhadas pela sala ainda.
- Não se preocupa, ! - Rupert falou. - Deixamos a chave na portaria. - Assenti com a cabeça e atravessei a porta, apertando o botão do elevador, vendo-o se acender.
- Obrigada, gente, por tudo! - Falei piscando para ambos que acenavam de dentro do meu apartamento.
- Divirta-se! E não faça nenhuma besteira, hein?! - Denise gritou e eu ri.
- Pode fazer besteira sim! Aproveita! - Rupert já falou e Denise deu um soco fraco nele.
O elevador abriu em minha frente e eu entrei no mesmo, apertando o botão do térreo. Aquele elevador nunca esteve tão lento. No espelho conferi relógio, brinco, anel, bolsa, vestido, sapatos, tudo. Observei a maquiagem no espelho, meus lábios vermelhos e meus olhos levemente amarronzados. Suspirei. Saí do elevador e caminhei até a portaria. Acada passo, parecia que o barulho dos saltos ficava cada vez mais baixo e eu ficava cada vez mais hipnotizada pelo que me esperava do outro lado dos portões.
Apertei o botão para abrir o portão e assim que passei por ele, o fechei e olhei para frente. Eu poderia derreter a qualquer momento.
estava lá.
Ele estava lindo, a camiseta azul colada no corpo com as mangas arregaçadas, a calça jeans escura um pouco larga, o cinto vermelho preso na cintura e nos pés um sapatênis. Na cabeça um boné virado para trás e seu Ray Ban pendurado na gola da camiseta. Ele mexia em alguma coisa no celular enquanto estava apoiado em seu carro preto. Assim que eu bati o portão da frente do condomínio, pelo barulho, ele ergueu os olhos e pude sentir seu olhar seguir desde a ponta dos meus pés, até o último fio de cabelo. Mas seu olhar não sustentou em meu corpo por muito tempo, ele focou em meus olhos rapidamente, tirando meu ar por alguns segundos.

Dei alguns passos e pude notar que seus olhos me seguiam a cada passo que eu dava. Parei a dois passos dele e, por um momento, eu não sabia que palavras usar e nem como respirava. Ergui meus olhos do chão para seu rosto e pude ver sua boca entreaberta e seus olhos encarando os meus.
- Oi! - Falei com a voz baixa.
- Oi! - Ele respondeu enquanto mordia seu lábio inferior e dava mais uma olhada em meu corpo. - Você está incrível! Linda! - Ele aproximou o rosto do meu e encostou seus lábios levemente em minha bochecha, fazendo meu corpo denunciar e se arrepiar inteiro. Fechei meus olhos por um breve tempo.
- Você também. – Respondi, reabrindo os olhos e encarando seus olhos azuis em minha frente.
Ficamos naquele silêncio por um tempo. Ele não falava nada, muito menos eu. Era como se nenhum dos dois quisesse quebrar aquele clima entre nós dois. Ele possuía aquele sorriso reto nos lábios e eu sabia que não estava muito diferente. Sentia minhas bochechas queimando, enquanto seus olhos desciam para meu corpo. Eu não tenho o corpo muito em forma, mas eu era brasileira e o considerava bonito, claro que eu odiava fazer exercícios físicos e amava comer, então ficar em forma era definitivamente um desafio para mim. Troquei minha bolsa de uma mão para outra e mexi minhas pernas, descruzando-as uma da outra.
- ! - O chamei firme, fazendo-o erguer seus olhos para mim e soltar uma risada nervosa. - Devo te chamar para subir e a gente deixa o jantar para outro dia? - Falei apontando para trás.
- Não! - Ele riu passando as duas mãos no boné, ajeitando ele. - Vamos! - Ele se desencostou da porta e a abriu, dando espaço para eu passar. Achei esse fato realmente engraçado, porque, por um minuto, ele tinha perdido aquela pose que tem e se tornou um pouco mais comum.
Passei por ele, me apoiando na porta do carro para entrar e coloquei a bolsa em meu colo. Assim que ele fechou a porta, não durou mais que cinco segundos para que ele entrasse pela porta do motorista e se acomodasse ao meu lado. Puxei o cinto de segurança e o travei com um clique. Enquanto dava partida comecei a reparar no interior do carro.
Espaçoso ele era, essa foi a primeira constatação que eu fiz ao entrar nele. Como eu não era do tipo baixinha, minhas pernas se esticaram confortavelmente em frente ao banco. E meu corpo também, o banco de couro cinza claro era incrivelmente delicioso. O painel tinha detalhes em preto, cinza e partes em madeira também. Uma parte com uma tela de LED, outra com um relógio analógico pequeno e, embaixo disso tudo, os comandos normais de um carro, incluindo marcha e um espaço confortável entre os dois bancos.
dirigia de forma despreocupada, ele olhava para frente e, em alguns momentos, virava o rosto para mim e dava um sorriso lindo. Sua mão esquerda ficava o tempo inteiro apoiada no volante e a direita apoiada no espaço acolchoado entre o meu banco e o dele. Em alguns momentos ele apoiava a mão direita em sua coxa e eu encarava aquilo por um tempo, achando incrivelmente sexy. Mordia delicadamente meus lábios e soltava a respiração devagar pela boca, no maior silêncio. Eu passava uma mão na outra, tentando ser o mais discreta possível e notava que elas suavam, mesmo com o ar-condicionado ligado. Não surte, .
- Então... - Falamos juntos e eu ri, olhando para seu rosto que encarava a rua. - Pode falar! - Falei mais rápido que ele.
- Tá tudo certo? - Ele perguntou e eu abri um sorriso de lado confirmando com a cabeça. - Você não é tão quieta.
- Xi! – Falei, dando um leve tapa em seu braço, o fazendo rir. - Tá tudo certo sim... Aonde vai me levar? - Perguntei e ele virou o rosto para mim.
- Eu estava pensando... - Ele começou e trocou as mãos no volante. - Quanto você conhece de Boston?
- Universidade de Boston, casa; casa, Universidade de Boston. ACCESS, casa, Boston Harbor Hotel para reuniões, supermercado, alguns shoppings e todo o caminho inverso. - Ele soltou uma gargalhada gostosa. - Sério, agora que posso fazer turismo por Boston, eu não tenho tempo e, quando tenho, só penso em descansar. - Fiz um bico involuntário e ele sorriu timidamente para mim.
- Resumindo, você não conhece nada de Boston.
- Culpada! - Falei dando de ombros.
- Eu vou te levar em um lugar que costumo ir quando vou encontrar meus amigos aqui. É ainda um dos lugares que eu mais me sinto em casa. - Ele falou com o tom de voz mais baixo agora. - Gostaria de dividir com você. - Soltei um suspiro e senti sua mão quente segurar a minha, que estava em meu colo.
- Eu vou gostar disso. - Apertei sua mão com a minha e ele entrelaçou nossos dedos, um toque simples, mas que me fez abrir um largo sorriso.
Consegui ficar em silêncio mais um tempo e isso estava me incomodando muito. Eu não era assim e eu falava que nenhum homem me deixaria assim, mas parece que eu estava errada.
Eu estava muito nervosa, espero que ele não tenha notado minhas mãos suadas, minha cabeça quente, meu pé batendo de leve no tapete do chão ou talvez a força com que eu apertava minha bolsa de mão. Espero que ele não tenha notado nada disso. Você precisa se acalmar, minha mente gritou para mim e, se eu não me acalmasse logo, eu gritaria de verdade e não seria nada legal. Respirei fundo e apertei a mão de entre meus dedos, espero que ele tenha notado que eu não tinha intenção nenhuma em soltar.
dirigiu para o sul da cidade, indo como se fosse para o interior de Massachusetts. Devido ao horário, o trânsito estava um pouco caótico, carros para todos os lados, indo para todas as direções, principalmente para fora da cidade. Era igual São Paulo, as pessoas moravam no interior, mas trabalhavam na cidade grande. Como eu não conhecia muito o estado, não sabia para onde as pessoas iam.
No meio do trânsito, pude observar , ele soltou minha mão por um tempo e manteve as duas no volante, o trânsito estava lento, mas eu notava que ele estava calmo, ou aparentava estar. Ele também dirigia em uma velocidade normal, um pouco mais rápido nas avenidas e um pouco mais devagar nos entroncamentos.
Quando chegamos a uma avenida parecida com aquelas que vemos em filmes, larga, com carros passando por todos os lados, ele começou a ir mais devagar. Com a mão esquerda, ele diminuiu a marcha e se aproximou do meio fio, fazendo uma baliza perfeita. Pressionei meus lábios um no outro e segurei uma risada, ele pode não fazer por querer, mas estava tentando me surpreender.
- Você já foi a um diner? - Ele perguntou me olhando, franzi a testa.
- Diner? - Ele confirmou com a cabeça. - É aqueles lugares conhecido por servir café da manhã em filmes, não? - Ele virou a chave e puxou o freio de mão.
- Algo assim! Esse é parecido com isso, mas serve lanches e jantar também. Além de ficar no meio da cidade. - Ele tirou o boné da cabeça, jogou no banco de trás e abriu a porta do carro, saindo do mesmo.
Fiquei meio perdida por um tempo, mas não demorou dois segundos e ele já estava abrindo a porta do meu lado e estendia a mão para mim. Segurei a mão dele e me apoiei para sair do carro. Assim que saí, pude sentir o vento bater em meu rosto e jogar meus cabelos presos para trás. Coloquei os pés no chão e parei ao seu lado, ouvindo a porta bater.
- Espero que não fique decepcionada. - Ele falou e eu soltei uma risada. Encostei minhas mãos de leve em seu rosto e o vi fechar os olhos por alguns segundos.
- Fica quieto, . Qualquer lugar que você quiser me levar, eu vou ficar grata em você querer dividir comigo. - Ele abriu os olhos novamente, me encarou e sorriu.
- Vem! - Ele segurou minha mão e caminhamos um pouco em direção à esquina do quarteirão, quando vi uma construção com tijolos à vista. À frente dele tinha algumas janelas amplas e, em cada uma, um toldo preto acima. Do meio, podia ser lido Tom’s City Diner. De fora, não dava para dizer que era um diner, e sim, um restaurante bem descolado.

Ele abriu a porta de vidro e deu passagem para mim. Por dentro ele já era mais parecido com os famosos diners que víamos nos filmes. Tinha um longo corredor logo na entrada, com bancadas dos dois lados em que várias pessoas estavam sentadas e algumas garçonetes passavam com pratos diversos nas bandejas. passou na frente e segurou minha mão firme, me puxando para o local. Fomos para o lado esquerdo do restaurante, colado na bancada, com várias mesas de dois ou quatro lugares em um pequeno espaço. Lá não tinha mais que doze mesas. Devido ao horário, ainda estava um pouco vazio. Ele seguiu para uma mesa próxima à janela e indicou a cadeira para mim, sentei, não antes de encostar meus lábios rapidamente em sua bochecha. Ele sentou na cadeira da frente e a puxou para frente. Pude sentir seus joelhos encostados no meu, mas não fiz objeção nenhuma àquilo.
Na mesa já estavam postos talheres para cada pessoa, e, também, uma caneca branca e ao lado um conjunto com sal, açúcar, pimenta, ketchup e palitos de dente em frascos separados.
- É igualzinho nos filmes! – Falei, observando o lugar rapidamente.
- Eu vinha muito aqui quando era mais novo. Se você for reto nessa rua, cai em Medford, onde eu nasci, então quando queríamos variar o cardápio um pouco, a gente dava um pulo para cá. - Ele apoiou os cotovelos na mesa e encostou o rosto entre as mãos, achei aquilo extremamente fofo.
- E por que esse lugar em especial hoje? - Apoiei minhas mãos na mesa.
- Não sei. - Ele suspirou e coçou a cabeça por alguns segundos. - Eu tenho bastante história com esse lugar.
- E aí, ! Quanto tempo, cara! - Um homem com a blusa roxa do local se aproximou e cumprimentou , que se levantou quando ele apareceu.
- Faz tempo que não passo por aqui mesmo, Louis! - Eles se abraçaram rapidamente.
- E ela, quem é? - Ele se virou para mim, é agora que eu cavo um buraco e sumo?
- Essa é a ! - Ele falou abrindo um sorriso para mim e ambos trocaram um olhar cúmplice e um sorriso, isso era bom, não?
- Prazer, ! - Ele falou estendendo a mão para mim.
- Prazer! - Abri um sorriso discreto.
- , Louis é filho do dono, nós crescemos juntos, praticamente! - Eles estavam abraçados de lado.
- É! Esse cara é da família! - Louis falou e eu ri, então estou conhecendo seus amigos de infância, ? - Já foram atendidos? - negou com um muxoxo com a boca e eu ri.
Louis deu uma inclinada no balcão atrás da gente e pegou alguns cardápios. Deu um para e estendeu outro aberto para mim, dando um sorriso.
- Divirtam-se! - Ele falou e ambos trocaram um olhar que só foi entendido pelos dois e eu senti minha bochecha ficar vermelha.
- Valeu, cara! - falou e se sentou novamente.
- Então, amigos de infância, hein?! - Falei olhando para o cardápio, para a variedade de comidas gordas no mesmo.
- Louis e eu temos a mesma idade, a mãe dele é de Medford, então, era com ele que eu vinha muito aqui! - Ele falou apoiando o cardápio na lateral da mesa.
- Me deixa adivinhar, o pai dele é o “Tom”? - Perguntei e riu.
- Quase! É o avô dele! - Mostrei a língua para ele e ele gargalhou.
- Sem graça! - Abaixei meu rosto novamente e fiquei observando as opções. - O que você come normalmente aqui? – Perguntei, ficando totalmente indecisa sobre o que escolher. Tudo no cardápio eu gostava, tudo mesmo!
- Eu sempre peço um lanche triplo de carne. - Rodei rapidamente o cardápio e notei que era um lanche bem grande. - E você, o que te chamou atenção?
- Honestamente? Tudo! - Falei o fazendo rir. - Eu sou boa de garfo, você sabe!
- Sei! Isso é algo bom. - Ele falou simplesmente.
- Acho que eu vou querer essas panquecas com maple syrup e manteiga! - Ele abriu um sorriso. - O quê?
- Nada! É que você escolheu o que eu esperava que escolhesse! - Franzi a testa. - Isso não tem no Brasil.
- Exato! Eu quero conhecer, nunca comi isso. Acredite, eu estou aqui há mais de um ano e nunca experimentei o tal do maple syrup.
- O que você toma de café da manhã? - Ele falou como se tivesse sido um crime eu ter falado que nunca tinha experimentado.
- Pão com manteiga e café com leite, ué! - Dei de ombros e ele riu.
- Foi o que eu comi quando fui pro Brasil! - Ele comentou descontraído e o garçom se aproximou.
fez nossos pedidos, o garçom perguntou quantas panquecas eu queria e logo respondeu que eu queria o maior prato, não sabia se ria ou se ficava brava, mas ele usou a desculpa que eu estava experimentando e precisava ter certeza, tonto! Para beber, eu acabei escolhendo um milk-shake, alguns copos haviam passado por mim e tinham me deixado com muita vontade. Eram copos de quase um litro com muito chantili e uma cereja, eu tinha que beber aquilo, me acompanhou.
O jantar, ou lanche da tarde, correu sem muitas surpresas. Conversamos sobre tudo, honestamente. Desde como havia sido nossas semanas, até sobre como eu havia passado a minha vida inteira sem experimentar algumas coisas boas da vida.
- Ah , fica quieto! Você nunca experimentou feijoada que eu sei! - Ele franziu a testa com a palavra brasileira e eu ri. - Ou coxinha, ou pão de queijo, ou feijão tropeiro, ou tapioca, ou cuscuz, ou quindim, ou caipirinha, ou brigadeiro... Não, brigadeiro você já experimentou. - Falei uma comida atrás da outra, vendo seu rosto se confundir com tantas palavras diferentes.
- Ei! Calma! - Ele falou estendendo as duas mãos para frente, me parando. - Me perdi já!
- Só estou mostrando um lado, tá?! - Dei uma última garfada na minha panqueca e coloquei os talheres para o lado, mostrando que havia terminado. – E pão com manteiga é muito mais gostoso. - Dei um gole em meu milk-shake enquanto gargalhava em minha frente.
- Me mostra, então! - Ele falou arqueando as sobrancelhas em sinal de desafio.
- Um dia eu vou mostrar e você vai ver que eu tenho razão. - Arqueei as sobrancelhas como a dele e voltei o copo vazio para a mesa. - Só não pode ter estômago sensível. – Adicionei, fazendo uma careta.
- Já experimentei umas coisas bem estranhas, viu?! Principalmente quando fui para Coreia!
- E eu te beijei?! - Falei fazendo uma careta e ri logo em seguida.
- Sem graça! – Fiz uma careta para ele e apoiei as mãos na mesa.
estendeu as mãos em cima das minhas e ficou fazendo um carinho leve nelas. Virei o rosto rapidamente para a rua e notei que ela estava menos movimentada e que o sol já tinha se posto. Virei o rosto para frente novamente e pude ver me olhando, era um olhar simples, mas firme, que me deixou envergonhada por alguns segundos.
- Você é tão linda! - Ele falou e eu soltei uma risada nasalada, permanecendo em silêncio.
Ele inclinou o corpo um pouco para frente e eu senti a necessidade de fazer o mesmo, pude sentir sua respiração em meu rosto por alguns segundos e depois seus lábios gelados sobre o meu, creio que parte disso era culpa da nossa bebida. Ele só pressionou nossos lábios por alguns segundos, não tentou aprofundar o beijo até porque com uma mesa entre nós, ele não conseguiria. Ele se afastou por um tempo, abrindo os olhos, mas manteve o rosto colado ao meu, próximo o suficiente para eu sentir sua respiração, mas também o bastante para eu olhar em seus olhos azuis.
- Tenho mais um lugar para te levar. - Ele falou, quebrando o silêncio.
- Onde? - Ele riu e não respondeu.
Levantamos e foi para o balcão, tentei me aproximar, mas ele mantinha a mão na minha, em sinal de distância, ele não queria que eu pagasse a conta. Suspirei e me aproximei da porta, encarando o céu novamente. O dia estava incrivelmente bonito. Boston costumava ficar um pouco gelada no fim do dia e, como sempre, eu havia esquecido meu casaco, não que eu fosse precisar de casaco pouco depois das sete da noite, mas eu não estava indo para casa, certo?
- Vamos? - perguntou ao meu lado e segurou minha mão, caminhamos lado a lado para fora do diner.
Naquele momento eu já estava um pouco mais relaxada, havíamos feito algumas piadas e brincadeiras durante o lanche e eu consegui me soltar, as coisas simplesmente fluíram, nada difícil ou complicado, ele era o e eu era a , não tinha nada lá fora que nos fizesse agir de forma diferente. Ele abriu a porta do carro novamente para mim e enquanto ele dava a volta para entrar, coloquei o cinto de segurança.
- Vai demorar um pouco para chegar, ok?! - Ele falou e eu só confirmei com a cabeça.
Ele retornou pelo lugar de onde viemos, passou próximo a ACCESS e meu condomínio e contornou a cidade novamente, durante todo o caminho, ficamos em silêncio. Eu queria saber para onde estávamos indo e eu sabia que se perguntasse, ele não responderia. Pouco tempo depois da dúvida surgir em minha mente, caímos na estrada, não existiam mais luzes, nem barulho de cidade e nem movimento. Era só eu, ele e uma estrada para algum lugar.
Não prestei atenção em quanto tempo durou a viagem. O caminho inteiro foi ocupado por conversas. Eu sempre fui do tipo livro aberto e mesmo que ele não aparentasse, estava se abrindo completamente comigo, o que me deixava feliz. No caminho, ele segurava o volante com a mão esquerda, e o olhar estava focado na estrada, mas ele mexia mão esquerda enquanto falava, fazendo os gestos exagerados que eu conhecia de algumas entrevistas. Algumas vezes ele virava o rosto para mim, dava uma rápida piscada e voltava o olhar para a estrada.
Eu já estava confortável no carro, havia largado o pé esquerdo do sapato no chão, dobrado essa perna para cima do banco e estava com o braço esquerdo encostado no banco, em que supostamente deveria estar minhas costas. Eu olhava a silhueta de seu rosto iluminada um pouco com a luz que vinha do painel do carro e dos faróis, seu perfil podia ser definido e uma palavra só, suspiro, porque essa era a reação que eu tinha quando não o via há algum tempo, sempre suspirava, acho que não importava quanto tempo ficaremos juntos, eu suspiraria toda vez que olhasse para ele.
Os cabelos levemente arrepiados, a testa longa, sobrancelhas curtas e grossas, o olhar pequeno, mas de tirar o fôlego de qualquer um, o nariz com uma marcação no meio, a orelha levemente avermelhada, a boca carnuda, mas fina, o queixo bem marcado e alguns pontos de barba querendo nascer nas laterais de seu rosto. Soltei um suspiro um pouco alto demais e o vi virar o rosto para mim, desviei o olhar ao fechar os olhos e voltei à posição normal, a tempo de ver uma placa escrita Cape An, MA, próxima entrada a 5 milhas. E não demorou muito para que entrasse lá.

Nesse momento eu me endireitei no banco, joguei as pernas para o chão do carro novamente e abri um pouco do vidro preto até que ficasse na altura de meus olhos. Cape Ann era conhecida como uma das praias mais bonitas em Massachusetts, nunca tinha ido para lá, mas era um lugar conhecido por qualquer universitário que quisesse fazer uma festa no fim do ano. Quando estava na minha pós-graduação, todo fim de semana alguma pessoa da turma combinava de vir para Cape Ann, mas como eu estudava pelo governo e não tinha muito dinheiro para extras, nunca havia ido, algo que me deixava frustrada, principalmente porque eu tinha um amor especial por praias. Será que sabia disso?
Assim que ele entrou na cidade, eu pude sentir o cheiro de água do mar e o vento em meu rosto. Eu amo praia, desde que eu era pequena, não tinha felicidade maior em entrar de férias e minha mãe falar que iríamos para a praia, eu sempre estava pronta, e sempre fui daquelas que ficava no mar o dia inteiro, odiava ficar tomando sol e caminhar na praia, mas assim que eu entrasse na água, seria difícil me tirar de lá.
Enquanto eu estava entretida com a paisagem, as cores, o aroma, o vento e tudo relacionado à longa porção de água e terra de Cape Ann, atravessou quase que a cidade inteira até chegar a um local mais alto e rochoso. Ele estacionou o carro e logo saímos do mesmo. Assim que bati a porta eu fiquei parada por um tempo, tinha uma sensação meio extasiada na praia, eu poderia ficar ali parada o dia inteiro e nada me abalaria.
O local que estacionamos estava quieto, de um lado havia grossas rochas e do outro areia fina e branca. O vento estava forte, o que bagunçava meu cabelo e também fazia alguns fios rebeldes voarem no topo da cabeça, mesmo com a quantidade de laquê que Rupert havia passado. O mar também estava agitado. Ondas altas e barulhentas batiam contras às rochas e chegavam calmas até a areia branca.
Destravei quando segurou minha mão e, em um quase susto, virei meu rosto para ele, encontrando-o com um sorriso largo e risonho para mim, ele estava me observando. Retribui o sorriso e entrelacei nossos dedos.
- Vem! – Ele falou fazendo um movimento com a cabeça indicando o mar.
Havia uma pequena mureta de um metro de altura que separava o estacionamento da areia branca. Antes de pular a mesma, tirou seus sapatos e suas meias, deixou-os no alto da mureta e pulou para a areia fofa. Tirei meus saltos, deixando ao lado de seus sapatos e senti suas mãos na minha cintura me ajudando a descer. Suas mãos subiram pelas minhas costas, deslizando meu corpo para baixo, até que eu estivesse com os dois pés fincados na areia macia e as mãos quentes de firmes no meio das minhas costas.
Seus olhos me encararam por poucos segundos antes de acabar com o pouco espaço que tinha entre a gente. Seu rosto abaixou levemente e pude sentir seu nariz roçando delicadamente no meu. Ergui o braço direito e segurei sua nuca com a ponta dos dedos, ele aproximou o rosto do meu e mordeu meu lábio inferior, me fazendo soltar um gemido baixo, esse homem me tira do sério, apertei minha mão em sua nuca e subi a outra mão para seu ombro, apertando-o de leve. Ele escorregou uma das mãos nas minhas costas até que a ponta dos seus dedos encostassem em meu bumbum, prendi a respiração por poucos segundos e amarrotei a parte da blusa em seu ombro com meus dedos, sentindo a respiração sair pelo meu nariz.
Ergui-me na ponta dos pés e colei nossos lábios com certa urgência e rapidamente entendeu meu recado e pude sentir sua língua sob a minha em um carinho delicioso, existe alguma coisa que esse homem faça mal? Ele sugou meu lábio, nos separando, e fez uma trilha de curtos beijos até meu pescoço, uma de suas mãos desceu para minha coxa. Escorreguei minha mão de sua nuca para suas costas, raspando a ponta das unhas, sentindo-o se arrepiar ao meu toque. Cheguei minha mão até o cós da sua calça e a coloquei por baixo de sua blusa, usando suas costas como apoio. suspirou entre meu pescoço e deu uma pequena mordida no mesmo, antes de subir novamente os lábios para minha boca.
Minha respiração estava falha e a boca entreaberta, o ar que saía da mesma era quente, diferente do ar gelado que batia em nossos corpos. Minha mão que estava em seu ombro subiu para seus cabelos e enrolei meus dedos sobre os fios. Entreabri os olhos e notei que mordia seu lábio inferior, fiz o mesmo e logo senti seus lábios pressionados nos meus, me obrigando a fechar os olhos novamente e aproveitar o momento.
Quando senti que o ar estava me faltando, forcei mais meus dedos nos cabelos do e nos afastei por alguns segundos. Minha respiração estava pesada e eu sentia meu peito subir e descer com rapidez. Os lábios de estavam mais avermelhados do que o normal e suas pálpebras abriam e fechavam, forçando a mesma. Suas mãos subiram para as minhas costas e permaneceram lá em um abraço. Ele encostou a bochecha na lateral do meu rosto e ficou assim por um tempo. Passei meus braços pelo seu pescoço e relaxei meu corpo um pouco em seus braços. Além do quebrar das ondas, o único barulho naquela cidade era de nossas respirações descompassadas.
- Ah! – Deixei escapar pelos meus lábios e trouxe seu rosto para o meu novamente e pude encarar seus olhos azuis próximos do meu. Ele encostou nossos lábios novamente, selando-os por poucos segundos e manteve assim por um tempo que eu não consegui determinar. - Você está me deixando encabulada. – Falei com um tom de voz baixo e ele abriu um sorriso sapeca.
- Encabulada? Depois desse beijo? – Dei um tapa de leve em seu ombro e seus braços se afrouxaram em meu corpo, nos afastando um pouco.
- Eu tenho meus momentos!
- E eu estou gostando deles! – Ele se colocou ao meu lado e entrelaçou um de nossos braços e colocou a mão em seu bolso. Com o braço entrelaçado, eu apoiei ambas as mãos em seu braço e caminhamos mais à frente da praia.
- Por que me trouxe aqui? Tem algum significado especial para você? – Falei enquanto andava afundando meus pés na areia, fazendo questão de sentir a areia passando pelos meus dedos.
- Fiquei sabendo que gosta de praia. – Ele virou o rosto para mim e abriu um sorriso simples, franzindo suas bochechas. - Mas agora vai ter um significado especial.
Apertei mais seu braço sobre o meu e com um vento gelado, senti os pelos de meus braços e minhas pernas arrepiarem. Vi colocar a outra mão no bolso da calça e encolher os ombros um pouco. Antes que chegássemos à areia molhada, parou e ficou olhando para frente. Encarei-o com o canto dos olhos e seu rosto estava sério, os olhos levemente franzidos por causa do vento e a postura reta, bem diferente da minha, eu estava com queixo apoiado em seu ombro e minhas costas estavam levemente arqueadas para frente, mas não por muito tempo.
Desentrelacei nossos braços e puxei o ar fortemente para dentro dos meus pulmões, sentindo o cheiro de praia, água salgada e areia, combinação quase perfeita. Contei cinco passos até sentir meus pés na areia molhada e coloquei as mãos nos bolsos do meu vestido, arqueando minhas costas e forçando as mãos no bolso. Dobrei os dedos dos pés rapidamente, quando vi a onda se quebrar e a água correr pela areia, encontrando meus pés. Abri um largo sorriso e fechei os olhos. Eu poderia ficar ali para sempre. Eu e o mar, sem pressa, sem compromissos. Senti dois braços passarem pelo meu pescoço, em um abraço quente. Bem, eu, o mar e ele.
manteve suas mãos em meu corpo e encostou sua bochecha na minha, não pude conter um sorriso. Tirei minhas mãos do bolso e as coloquei em cima de seus braços, próximo a meu rosto, fazendo um carinho delicado com a ponta das mãos.
- Você gosta daqui? – Ouvi o sussurrar essas palavras em meu ouvido, fazendo meu pescoço se arrepiar e não foi preciso palavras para a minha resposta, eu só abri um sorriso. – A gente pode vir sempre que você quiser. – Concordei com a cabeça e virei meu corpo para o dele, sentindo seus braços se afrouxarem de meu corpo.
- Obrigada! – Falei baixo com a boca próxima a sua.
- Pelo o quê? – Ele franziu a testa.
- Por me mostrar que eu tinha razão. – Sua testa se manteve franzida. – Você é especial. – Ele abriu um sorriso, dando um curto beijo em minha testa. – Você vale a pena.

Não notei que o tempo havia passado com tanta rapidez. Ficamos abraçados boa parte desse tempo, trocamos alguns beijos, algumas carícias, palavras de carinho e até algumas piadas, o que fazia com que nossas risadas escandalosas ecoassem pela avenida silenciosa de Cape Ann. Só notamos que era bom voltar para Boston quando seu celular vibrou em seu bolso denunciando uma mensagem de seu irmão e pudemos ver o horário, que já passava das dez 10 horas da noite. Soltamos uma risada e caminhamos de volta para o carro. me ajudou a subir pela mureta e logo subiu atrás de mim.
Peguei meus sapatos e ele fez o mesmo com os dele. Ele abriu o porta-malas e puxou uma mochila preta lá de dentro, a abriu e puxou uma toalha azul escura, me entregando para secar e limpar os pés. Me aproximei de seu carro, sentei de lado no lugar do passageiro e passei a toalha levemente sobre meus pés, tentando tirar toda a areia do mesmo, me certificando que não entraria areia no carro de e muito menos em meu apartamento. Assim que finalizou, já estava do mesmo jeito atrás de mim, no banco do motorista, esperando pela toalha. Virei os pés para dentro do carro e estendi a toalha para ele. Puxei a porta e passei o cinto pelo meu corpo. foi mais rápido que eu e jogou os sapatos no banco de trás.
Ele ligou o carro e deu marcha ré, saindo da vaga e voltando para o caminho que tínhamos ido. Puxei um dos pés para cima do banco e virei de lado novamente, encarando-o dirigindo, era algo que eu tinha gostado de observar, o deixava incrivelmente sexy. ligou o som baixo e o ar quente para ver se nossos corpos esquentavam um pouco, não me importei muito com isso, sua mão em cima da minha já era o suficiente.
- Foi divertido! – Falei, vendo seu rosto se virar para o meu rapidamente.
- Fazia tempo que eu não me divertia assim. – Ele falou seguido de uma risada e apertou minha mão.
- Precisa parar de trabalhar tanto!
- O problema não é o trabalho, é a companhia! – O vi piscar para mim e voltar à atenção para a estrada.
- Companhia?
- Sim, você! – Ele sorriu e mordi meu lábio fortemente.
Meu corpo estava cansado. Trabalhar, me arrumar, fazer uma viagem curta, ter um dia perfeito havia sido incrivelmente prazeroso, mas fisicamente eu estava acabada, sentia meus olhos pesando, mas os forçava a ficar aberto. Olhei para o perfil de mais uma vez antes de sentir meus olhos fecharem.

Sentia meu corpo encaixado perfeitamente em uma superfície macia, o virei para um lado, abraçando melhor o travesseiro e suspirei. Mexi as pernas, sentindo-as fora da coberta e senti um vento frio passar por elas, tateei a cama e procurei o lençol, em vão. Suspirei e abri um de meus olhos, encontrando um quarto diferente do que eu estava acostumada.
Sentei na cama em um susto, sentindo uma rápida dor de cabeça ao fazer isso. Eu estava em uma cama de casal mais alta que a minha e em um quarto com poucas decorações, as poucas coisas que tinham estavam em preto e branco. O quarto era amplo, com janelas de vidro cobrindo boa parte de uma das paredes, com cortinas brancas balançando por causa do vento que passava por elas. Na cabeceira da cama podia ver uma foto de com seus irmãos. Estavam os quatro, fazendo uma escadinha do mais alto ao mais baixo. Segurei a foto por alguns segundos e abri um sorriso.
Notei a roupa que vestia e vi que estava com a mesma do dia anterior, incluindo meus acessórios. Sentia que podia morrer sufocada naquele vestido a qualquer momento. Como eu fui parar ali? Passei a mão nos meus cabelos que estavam sem o efeito do laquê e os deixavam bagunçados. Saí da cama e com passos discretos passei por uma das portas, procurando o banheiro. Fiz um rápido bocejo, escovando o dente com o dedo, só para tentar tirar o possível bafo matinal. Com alguma dificuldade, passei a mão em meus cabelos, desfazendo o penteado e vi que parte da minha maquiagem ainda estava em meu rosto. Peguei um dos sabonetes no banheiro e tirei a maquiagem, principalmente o rímel que já tinha colado meus cílios. Sequei meu rosto e baguncei meus cabelos rapidamente, o vendo armar um pouco por causa do laquê, mas ignorei. Voltei para o quarto, à procura dos meus sapatos e não os encontrei.
Saí do quarto, dando de cara com um escritório na primeira porta à direita e, logo em seguida, uma escada larga em espiral. Desci por ela e me vi na sala, que possuía grandes sofás de couro preto, em que era possível ver uma coberta e um travesseiro bagunçado, denunciando onde, provavelmente, tinha dormido aquela noite, e mais algumas decorações discretas e porta-retratos dele e de sua família.
Puxei a respiração e senti um cheiro de algo gostoso e um barulho de algo caindo logo em seguida, passei por uma porta, dando de cara com em calças de moletom e sem blusa, o que me deu uma visão perfeita de suas costas e de seu braço direito, em que onde podia ver a tatuagem ‘Família’ escrita. Ele estava em frente ao fogão, tirando uma panqueca da frigideira e colocando em um prato ao seu lado.
- Bom dia! – Falei baixo, me aproximando dele. Ele virou o rosto e seu sorriso literalmente iluminou meu dia.
- Bom dia! – Ele deixou a frigideira no fogão e virou o corpo para mim, fechei os olhos por um tempo, soltando uma risada ao poder encarar as duas tatuagens em seu tronco. Uma próxima ao seu pescoço com uma frase de um autor que ele gostava e outra na altura do seu estômago com as iniciais de seus irmãos. – O quê? – Ele perguntou e eu revirei os olhos, sentindo seus lábios encostados no meu por um tempo.
- Nada! – Falei passando a mão no rosto rapidamente e abaixei a cabeça. Notei seu olhar firme em mim. – Você não tem noção que é bonito para caramba, não é?! Para não usar outras palavras.
- Só eu?! – Dei de ombros e senti seus braços se envolverem em meu corpo em um forte abraço.
- O que aconteceu ontem à noite que eu não lembro?
- Você capotou na volta de Cape Ann, eu não queria te acordar, então, te trouxe para cá. Relaxa, eu dormi no sofá! – Ele falou antes que eu pudesse interrompê-lo.
- Eu não ia falar nada. – Me aproximei de onde estava o prato com as panquecas. – Mesmo se tivesse dormido comigo. – Falei a última parte baixo e ouvi uma risada nasalada vindo dele. - Fala que eu não ronquei. – Virei meu corpo para ele novamente e encarei seus olhos.
- Se quiser eu não falo! – Ele cruzou os braços em cima do corpo. Ah, , para, não sei o que tá mais difícil, olhar para o seu corpo ou seus olhos.
- Eu ronquei? – Falei em um tom de voz mais alto.
- Estava uma gracinha. – Virei meu corpo ao mesmo tempo em que fechei os olhos, fazendo uma careta.
- Ninguém é uma gracinha roncando, ! – Falei e senti seus braços em volta do meu corpo, pegando os pratos na minha frente.
- Vem comer! – Ele sussurrou, pegou os pratos, deu um beijo rápido em minha cabeça e se afastou, passando por uma porta que ia para a varanda.
O segui e vi uma mesa quadrada para quatro pessoas posta à beira de uma piscina, jardim e uma área de lazer ao lado, o sol que iluminava a piscina estava forte, me forçando a fechar os olhos por alguns segundos. Na mesa tinha algumas outras coisas além das panquecas, como ovos, bacon e pão com manteiga. Não contive o sorriso.
- Eu amo bacon, mas não consigo entender como vocês conseguem comer no café da manhã isso. – Falei enquanto sentava ao seu lado.
- Costume! – Ele falou quando não achou outra explicação melhor.
Me servi de café com leite e foi no café. Primeiro peguei um pão e o separei em dois pedaços, passando manteiga no mesmo e o mordendo com gosto, não tinha nada melhor que aquilo, me permiti até soltar um suspiro, o que fez rir ao meu lado.
Dei de ombros e voltei a encarar sua varanda. Não sabia que tinha uma casa em Boston, achava que tinha um apartamento ou algo assim, mas ele tinha uma casa muito bem montada em Boston, isso sim. Após o pão, ainda comi uma panqueca e me permiti atacar um pouco do ovo mexido, o fazendo rir enquanto eu tentava parecer uma pessoa delicada, coisa que eu não sou e pelo jeito ele sabia disso.
Terminamos o café da manhã falando sobre o lanche no diner e eu fiz questão de comentar que virei freguesa do lugar, era um lugar bom, quieto, gostoso e com comida boa, coisas que eu não dispensava. Enquanto ele tirava a mesa, eu lavei a louça, dessa vez sem briguinhas sobre quem lavaria, ele estava mais preocupado em fazer meus pelos se arrepiarem com os diversos beijos em meu pescoço, filho da mãe.
- Quero repetir a dose de ontem. – Ele falou com a boca colada em meu ouvido. – O que tem para fazer hoje?
- Aceito ir a qualquer lugar contigo! – Falei, virando meu rosto e sentindo um beijo em meus lábios. Nós dois estávamos sorrindo iguais tontos, isso estava claro, eu estava no ápice da minha felicidade. – Contanto que eu tenha o direito de ir para casa, tomar um banho e me trocar. Estou me sentindo sufocada dentro desse vestido já! – mordeu os lábios e eu soltei uma gargalhada nervosa, senti minhas bochechas corarem, pensando em coisas impuras.
- Cinema? – Ele falou logo em seguida.
- Eu quero ver seu filme novo! Não vi ainda. – Falei, me lembrando de seu filme que estava nos cinemas.
- Ah, não! – Ele falou soltando as mãos de meu corpo.
- Por que não? – Soltei uma risada.
- Porque tem eu! – Ele falou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
- Então teremos um pequeno problema, eu adoro seus filmes. – Falei passando as mãos no pano de prato, o acompanhei pela porta da sala e me joguei no sofá ao seu lado.
Ele ficou quieto por um tempo e pegou minha mão, acariciando-a por um período, notei que ele passou o dedo na palma da mesma, em cima da quase imperceptível marca branca.
- É daquele dia? – Confirmei com a cabeça.
- Resultado do nosso primeiro tempo juntos. – Ele gargalhou.
- Já tivemos outros antes daquele dia.
- Esse foi o primeiro sem supervisão adulta. – O lembrei e ele franziu o rosto em uma risada silenciosa.
Ele levou minha mão até sua boca e deu um pequeno beijo, entrelaçando nossos dedos novamente e eu sorri, fechando os olhos por um tempo.
- E então, cinema? – Falei, voltando ao assunto do filme e ele riu.
- Vou pensar no seu caso. – Ele falou emburrado e eu encostei meu rosto em seu ombro, fechando os olhos, mas dessa vez sem dormir.



Capítulo 4

(Diga que me ama, eu preciso de alguém em dias assim. Você pode ouvir meu coração dizer: “você não é ninguém até ter alguém”. – Tell Me You Love Me)
Ouvi meu suspiro alto ecoar pelo meu quarto e abaixei a cabeça por alguns segundos, ouvindo o telefone tocar novamente. Imediatamente apertei o botão para que fosse diretamente para a secretária eletrônica e puxei o fio do telefone da parede. Minha vontade era de jogar tudo para o alto e mandar à merda. Peguei o roteiro que estava em cima da mesa com as palavras “O Último Trem – ” em letras garrafais e me joguei na cama. Eu podia ouvir ao longe os outros telefones da casa tocando, mas ignorei.
Apoiei o roteiro em meu travesseiro, virei de bruços e olhei a primeira página, lá continha o nome de algumas atrizes em potencial que tinham feito o teste para o primeiro filme que eu dirigiria. A produção já havia pré-selecionado algumas pessoas, mas restava minha palavra final, o que estava me matando. Por ser novo nessa área de direção, eu tinha muitas indecisões, não sabia definir o que estava certo e o que estava errado, então uma decisão simples se tornava maçante e algo que eu podia decidir em poucas horas, era protelado durante dias.
Dias... Eu ainda tinha alguns dias para entregar a relação de tudo para a produção, para que eles pudessem começar a preparar os outros detalhes, como figurino e datas de gravação em Nova York. E também tinha esse título, que não estava deixando a equipe, muito menos eu, feliz.
Joguei o papel para o lado e afundei meu rosto no travesseiro. Estava mentalmente cansado há algum tempo. Desde que eu voltei de Boston, era só nisso que estava focado. Filme, filme, filme. Mas eu precisava voltar para Boston e ver novamente.
Soltei um suspiro e peguei o celular da mesa de cabeceira ao meu lado e o desbloqueei digitando a senha. Nossa conversa da noite anterior ainda estava aberta. A última mensagem era um áudio dela, me desejando boa noite. Áudio, algo que eu tinha aprendido recentemente como usar, mas que estava sendo muito útil.
Saí da conversa e fui para a agenda, procurando saber quando seriam meus próximos compromissos. Estávamos quase no fim de julho, a Convenção de Quadrinhos estava chegando e também a estreia do meu novo filme na Coreia, dois eventos que eu não poderia nem pensar em faltar, como também um evento da Máxima em agosto. Eu poderia resolver o que tinha para resolver nos próximos dois dias e, antes de ir para San Diego, dar uma passada em Boston para vê-la. Seria algo rápido, mas era o que eu estava precisando no momento. Mas... Será que ela não iria para San Diego?
era, definitivamente, algo que eu estava precisando no momento, alguém que fizesse com que eu me sentisse mais leve, feliz e confortável comigo mesmo. Alguém que eu já tinha feito alguns planos em minha cabeça... Alguém para amar... É, acho que era isso. Amor. Ela entrou na minha vida de um jeito tão simples, tão tímido e delicado, mas, ao mesmo tempo, muito arrebatador. Seu sorriso fazia com que minha perna amolecesse, seu toque fazia meus pelos se arrepiarem e seu olhar fazia com que eu me sentisse querido. Querido de um jeito que eu não me sentia há muito tempo.
Pode parecer idiota ou um pouco esnobe, mas de uns tempos para cá eu não sentia a vontade para me abrir com as pessoas. Isso fazia com que eu ficasse com a imagem de tímido, o que nem sempre é verdade. Só sou tímido com quem não me conhece, pergunta para ! Assim que a pessoa dá liberdade para eu conhecê-la, automaticamente dou liberdade para ela me conhecer e, isso, normalmente acontece em cinco minutos de conversa. E, com , não sei, parece que aquele encontro... Ou melhor, reunião de trabalho, tornou as coisas tão fáceis, ali já tinha ficado claro que aquela mulher mudaria minha vida. E ela mudou. Ela trouxe de volta o romântico que eu era quando tinha meus 21 anos e estava conhecendo as maravilhas do amor, da paixão e do romance. Essa mulher tinha feito isso com um cara de 32 anos que já estava perdendo a esperança em achar aquele lendário amor verdadeiro. Que eu havia descoberto que não era lendário coisa nenhuma.

Voltei para realidade quando o celular começou a tocar em cima da cama. Virei de barriga para cima, sentando na cama e encarei o nome e foto dela sorrindo no visor do meu celular. E deslizei a tela para atender.
- Sábado é o painel da Máxima na Convenção de Quadrinhos, certo?! - Foram as primeiras palavras que eu ouvi, precisei parar e processar um pouco para saber se eu realmente tinha ouvido certo, pela rapidez com que ela falou.
- Calma! - Ouvi sua risada ao fundo e sorri. - Máxima, Convenção, sábado? Sim! - Falei passando as informações na minha mente e ri.
- Droga! Meus planos acabaram de ir por água abaixo. - Ela suspirou e ouvi algumas coisas batendo do outro lado da linha. - Pensei que fosse dia 27. E Melina me avisa só agora. Esse povo não conhece comunicação, não?! - Ela falou em tom de brincadeira e eu suspirei, ficava feliz em ouvir sua voz.
- Planos, é?!
- Você ouviu o que eu disse?
- Não, parei na palavra planos. - Fui sincero e ela ficou quieta por um tempo, soltando uma risada.
- Planos que não vão acontecer, porque você tem compromisso, senhor Poseidon.
- Eu estava pensando em dar uma passada aí antes de ir para San Diego, mas se você não quiser, tá tudo bem também!
- Mas o drama tá no sangue, hein?! Não tem como duvidar que você é ator! - Ela falou ironicamente e uma gargalhada saiu involuntária. - Mas enfim, quer passar aqui antes? Quando? Eu já comprei metade das coisas e a outra metade vai chegar do Brasil em até... - Ela deu uma pausa no meio da frase como se procurasse alguma coisa. - ...Dois dias.
- Brasil? Quê?! , do que você está falando? - Ela riu.
- De algo que você vai descobrir quando vier para Boston. - Ela falou o nome da minha cidade do mesmo jeito que eu costumo falar, aberto, um pouco mais caipira, se assim pudesse dizer.
- Boston? - Repeti o nome da cidade.
- É, Boston, , de onde você acha que eu estava falando? - Eu soltei uma risada e ela ficou quieta.
- Não! É que você está começando a falar igual a mim. - Ela ficou quieta do outro lado da linha e suspirou.
- Afeta, sabia? Eu sempre tive esse problema. Bastava falar com uma pessoa por três, quatro dias, que eu ficava com o sotaque ou as gírias dela. Ainda mais no Brasil, que, praticamente, cada cidade tem seu sotaque. Nos Estados Unidos que não seria diferente.
- Eu gosto de te ouvir falar. - Soltei depois de um bom tempo.
- Boston? - Ela repetiu e eu dei uma risada.
- Sim, Boston! - Eu falei e ela riu.
- Ah, enfim, me deixa terminar, minha outra linha tá tocando. - Ela suspirou. - Quarta ou quinta? Acha que dá?!
- Quarta e quinta. Sexta eu já tenho que estar em San Diego. - Falei pegando o roteiro no espaço vazio da cama.
- Quarta, então! - Ela falou confirmando. - Te vejo em casa umas 20 horas, tá?!
- Ei, não era à tarde?
- Tarde de sábado, quarta eu trabalho, espertinho. – Ela disse e eu coloquei meus pensamentos para funcionar. - E nada de pedir para eu sair mais cedo de novo. - Ela falou quase como um sussurro gritado.
- Ok, não está mais aqui quem falou. - Soltei um riso em seguida. – Quarta, então! - Ela fez um barulho de confirmação com a boca e eu sorri.
- A gente se vê então. - Ela falou suspirando. - Tchau, .
- Tchau, ! Te ligo à noite. - Senti a necessidade de dizer.
- Ok! - Pude ver em minha mente ela morder o lábio inferior, como sempre fazia quando estava esperando alguma coisa. - Vou esperar! Tchau! - E ouvi a linha muda do outro lado.
Soltei um suspiro e encarei o celular desligado na minha frente e passei o dedo clicando na galeria de fotos, procurando a foto tirada há algumas semanas. Era uma selfie minha e de no cinema, pouco antes da sessão do meu filme naquele sábado, sim, ela tinha me convencido a ver o filme. Logo à frente eu podia ser visto com meu boné, que com o flash, causou sombra em parte do meu rosto. E atrás de mim segurava um balde de pipoca, tinha um sorriso largo no rosto, um par de óculos de grau com armação preta, os cabelos soltos e molhados e suas pernas podiam ser vistas um pouco descobertas devido ao short que ela usava. Eu tirei essa foto espontaneamente, na teoria não era para ter olhado, mas assim que o flash foi ativado, ela virou e a foto ficou engraçada, mas nunca foi para nenhuma rede social, era cedo ainda.
Suspirei por um tempo e peguei o roteiro ao meu lado, caminhando rapidamente para meu escritório. Abri meu notebook e coloquei o DVD com testes de cena de todas as possíveis atrizes para meu filme e dei play no vídeo. Analisar as pessoas era algo chato. Atuar era meu trabalho e, em algumas situações era ruim quando a pessoa ficava avaliando cada vírgula, mesmo sabendo que cada um tem seu estilo. Então era uma parte que eu realmente ficava tenso em analisar. Por isso, eu havia colocado uma meta para mim, que seria: a pessoa que eu achasse que combinasse mais seria a escolhida. Eu e minha equipe tínhamos um perfil para a personagem principal, que já havia sido pré-selecionado. Os vídeos que tinham ido para esse DVD, eram da pré-seleção da equipe, faltava apenas eu dar o veredito final.
“Evelyn Anders” foi o nome que eu escrevi. Assinei meu nome e fechei o arquivo, jogando-o dentro do meu armário em seguida. Voltei novamente para meu quarto e me joguei na cama, pegando o celular na mão. Nenhuma notificação. Meu Deus, eu estava ficando viciado nisso. Era como dizia, afeta.
- Agora... Passar o tempo! – Me joguei na cama, fechando os olhos.

Freei o carro em frente ao tão conhecido condomínio e saí do mesmo, puxando minha jaqueta de couro que estava no banco ao meu lado e ajeitando a carteira no bolso. Em dois passos, já havia colocado a jaqueta no corpo, por cima da blusa cinza que vestia, era eu, ou estávamos em julho e estava frio? Balancei a cabeça e toquei o interfone, sendo rapidamente liberado para entrar no condomínio.
Desci as escadas que davam para o conjunto com três prédios e entrei no que eu já estava acostumado. Entrei no elevador que estava no térreo e apertei o número nove. Tirei as mãos do bolso e me olhei no espelho do elevador, passei as mãos nos meus cabelos castanhos arrepiados e ao lado nas costeletas, abaixando os fios arrepiados. Encarei meu rosto o suficiente para ver o corte meio avermelhado do lado esquerdo, resultado de fazer a barba na pressa. Baguncei os cabelos e saí do elevador para um hall de quatro apartamentos.
Um rápido barulho de porta se abrindo e batendo na parede. Uma pessoa já tinha os braços envoltos em meu pescoço e o peso solto em meus braços. A risada e o perfume eram inconfundíveis. Ela soltou os braços do meu pescoço e quando colocou os pés no chão, pude ver seu rosto. Encostei meus lábios nos dela por um momento e pude sentir suas mãos mexendo em meus cabelos. Sua língua tocou na minha rapidamente e uma mordida em meu lábio inferior fez com que nos separássemos. Encarei seu rosto por um momento e a respiração quente batendo em meu queixo me fez sorrir.
- Oi! – Ela falou ainda rindo e eu tive que rir. Ela estava tão linda.
- Oi. – Eu sorri e ela suspirou, apertando os braços em meu pescoço novamente e escondendo o rosto. Ela ficou em silêncio por um tempo, e eu passei meus braços pela sua cintura, sentindo sua pele quente na minha e ela suspirou.
- Entra! – Ela mexeu com a cabeça e entrou saltitante em seu apartamento, onde a luz da cozinha iluminava o local e algumas outras deixavam a sala com um tom meio escuro. - Fica à vontade! – Ela gritou e eu entrei em seu apartamento, fechando a porta atrás de mim e parando na porta da cozinha, quando pude ver mexer em um caldo branco dentro de uma panela funda.
Sua cozinha não era tão grande, mas naquele momento estava cheia de coisas para tudo quanto é canto e um delicioso cheiro de fritura misturado com vinho enchia o ambiente, fazendo minha barriga gritar por comida. Encarei-a novamente e notei sua roupa. Uma calça jeans escura colada no corpo, um moletom canguru cinza escuro e botas de cano baixo. Os cabelos castanhos estavam presos em um rabo de cavalo alto e o rosto aparentemente limpo. Ela passava um pano em cima do fogão e o fechava, colocando um pano estampado em cima e depois de acomodar os refratários vazios dentro da pia, e virou o rosto para mim novamente.
- E esse frio que virou?! – Perguntei, não tendo nada muito melhor para falar ou fazer.
- Foi sorte, meu querido! Porque comer feijoada no calor, não dá! – Ela riu e estendeu um prato para mim, com alguns salgadinhos fritos. – Coloca na mesa, por favor?
- Feijoada? – Perguntei confuso. Indo até o outro cômodo, em que uma mesa muito bem posta nos esperava. Os pratos, os talheres, as taças, até um pequeno arranjo com gérberas vermelhas ocupavam o meio da mesa retangular. Na lateral, outra mesa retangular estava colocada, com seis panelas e potes fechados enfileirados. Coloquei o prato em minha mão no meio da mesa principal. Notei também que o motivo da sala estar meio escura eram as diversas velas acesas em vários lugares, iluminando parcialmente o local.
- Comprou mais taças, é?! – Perguntei, vendo duas taças iguais na mesa. surgiu dando uma risada.
- Dei uma passadinha no mercado e encontrei essas duas. Agora, por favor, nada de quebrar, tá?! – Ela gritou da cozinha e riu.
- Ficarei longe delas, então! – Falei e ela deu outra risada.
- No nosso primeiro encontro, eu joguei na sua cara um monte de nome de comidas brasileiras, certo?! – Ela apareceu ao meu lado segurando uma garrafa de água em uma mão e uma de vinho na outra e as colocou na mesa, estendendo o abridor de vinhos para mim.
- É, tenho uma vaga lembrança disso. Certo tom de “Brasil é melhor”, sabe?! – Ela riu e voltou para a cozinha, pude ver a luz ser apagada e ela aparecer novamente na sala, enquanto eu mexia na rolha do vinho com o abridor, a tirava e servia as duas taças com o líquido escuro.
- Então! – Ela parou ao meu lado e segurou uma taça com a sua mão e eu fiz o mesmo, após deixar a garrafa aberta em cima da mesa. - Eu preparei uma coisinha para você! – Ela se encostou em mim. – Para nós, na verdade.
- Uma coisinha? – Falei em tom irônico e virei meu rosto para ela, que segurava uma risada. – Isso está ótimo, ! – Encostei meus lábios em sua cabeça.
- Acho que sou um pouco romântica. – Ela sussurrou.
- Fico feliz em saber disso. – Falei baixo e ela se silenciou, encarando a mesa posta por um tempo. Estendi minha taça para ela e ela abriu um sorriso largo, aproximando a dela na minha e um tilintar baixo soou do tocar de nossas taças.
- Por nós! – Falei e ela mordeu seu lábio inferior por um tempo e vi suas bochechas ficarem vermelhas. Ela deu um gole em sua bebida e eu fiz o mesmo.
- Bem, vamos comer?! – Afirmei com a cabeça e a vi saltitar em direção a mesa.
Dei dois passos rápidos e puxei a cadeira para ela se sentar, pude ouvir sua risada nasalada, enquanto se sentava e apoiava sua taça ao lado de seus pratos corretamente arrumados.
- Eu sou educado, ok?!
- Não estou dizendo nada, ! – Ela beijou minha bochecha e foi minha vez de rir.
Eu fui à sua frente, onde a mesa estava posta e me sentei, ela tinha as mãos ágeis, tirando a tampa de todas as panelas que estavam na mesa paralela à nossa. Reconheci uma travessa com arroz branco, outra com um caldo espesso marrom, quase preto, com algumas carnes como bacon, calabresa e outras não conhecidas, couve refogada com pedaços pequenos de bacon, uma farinha meio bege temperada que não reconheci o que era, um prato com algumas laranjas descascadas e outro caldo com cebola e tomate em pedaços.
- Como eu como isso?! - Foi à pergunta que saiu da minha boca, e soltou uma risada em minha frente.
- Calma! Você come tudo junto, do jeito que você quiser, não tem dificuldade. Mas antes da gente partir para a feijoada, você tem que conhecer a coxinha.
- Cox... O quê? - Ela riu e apontou para o prato que eu havia trazido à mesa.
- Coxinha! Uma massa de batata, recheada de frango com catupiry e frita, simples! - Ela pegou uma num guardanapo e me entregou. - É um dos sucessos brasileiros, pode-se comer em qualquer lugar e todo mundo ama, espero que goste também!
- Vamos ver então!
Encarei a massa meio amarelada e crocante e senti o cheiro dela. Era bom. Ela era arredondada embaixo e pontuda em cima, tudo o que podia ser visto era a massa frita por fora, nenhum dos recheios que ela havia falado, era mostrado.
- Por onde eu começo?
- Depende, tem gente que começa pelo bico, tem gente que começa pela bunda. - Ela pegou uma com o guardanapo e a virou de bunda para cima. - Eu começo direto no recheio. - E deu uma mordida no salgado, mastigando um pouco antes de voltar a falar. - É a sua primeira vez, então acho melhor começar pelo bico. - Olhei a de rapidamente e vi que era bem recheada. – Tem gente que brinca que não se pode confiar em quem começa a coxinha pela bunda.
- Por quê? – Perguntei rindo.
- Sei lá, falam que é tradição começar pelo bico, vai saber! – Ela soltou uma risada e fez sinal para que eu mordesse logo o salgado.
- Saúde! - Falei brincando e dei uma grande mordida no bico, sentindo o gosto da batata e do frango invadir minha boca. se mantinha quieta, com os olhos divididos em sua coxinha e em mim, já que quando eu fiz a mesma coisa, podia ver as laterais da sua boca se erguerem em um sorriso. - Isso é bom! - Falei, com a boca um pouco estufada, devido à quantidade de recheio que eu havia mordido.
- Ponto para o Brasil! - falou com a voz cantada, soltando uma risada em seguida.
- Mas isso é só uma coisa, tá?!
- Relaxa, amor! Tem muito mais! - Ela piscou o olho e eu soltei uma risada, quando na verdade, minha cabeça tinha ido longe e, eu preferi pegar outra coxinha, antes que eu falasse alguma das coisas inapropriadas que passaram em minha mente.

- Na verdade, não tem um jeito certo para comer feijoada, você junta tudo dentro do prato e come, é isso. - falava, enquanto me servia de todas as delícias que compunham uma feijoada.
- E o que é essa coisa aí, essa areia meio amarelada? - Falei a vendo colocar em cima do que seria a feijoada em si, o que eu havia aprendido que era o conjunto, mas que o nome feijoada vinha do feijão.
- Isso é farofa, feita de farinha de mandioca ou de milho, fica bom em tudo. - Ela me entregou o prato e eu o coloquei em minha frente, enquanto ela se servia. - E eu não estou brincando. Na carne de churrasco, então! Fica uma delícia! - Ela começou a se servir.
- E essa mistura de cebola e tomate?
- Vocês não conhecem vinagrete? Também fica bom no churrasco ou em tudo. - Ela deu uma curta risada e colocou seu prato em sua frente.
- Alguma coisa não fica boa com churrasco? - Ela parou um tempo, tombou a cabeça para o lado um pouco.
- Não, afinal, você pode fazer churrasco com o que você quiser. - Continuou a se servir e logo estávamos jantando.
A definição perfeita para essa junção de coisas era gororoba, sabe, quando juntam um monte de coisas diferentes no mesmo prato? Mas ela não era ruim, muito pelo contrário, era deliciosa. Claro, tinha que ter um paladar bem apurado, porque eram muitos sabores diferentes, coisa que eu não negava, mas do tanto de coisas que eu já havia comido nesse mundo, essa estava entre uma das melhores. Acabei repetindo algumas vezes, em porções menores.
- Ó Deus, eu não deveria comer tanto assim! - Falei me espreguiçando, enquanto mexia em algumas coisas na cozinha, já que pude ouvir algumas coisas batendo.
- Ainda não acabou. - Ela falou, voltando para a sala, batendo os pés no chão e surgiu com dois potes de vidro, com algum creme branco dentro dele.
- O que você tá aprontando, ?! - Falei e a puxei pela cintura, fazendo com que ela se sentasse em uma das minhas pernas, e colocasse os potes na mesa.
- Sobremesa! - Ela falou em um sussurro e encostou a boca em minha cabeça, enquanto abria os dois potes.
O líquido era branco e espesso e, podiam ser vistos algumas sementes brancas retangulares, como também um tipo de farofa mais espesso e coco ralado. Aproximei a mão do pote e vi que ele estava quente, como se tivesse acabado de sair do fogo, mas não estava borbulhando.
- Canjica com paçoca e coco ralado. Normalmente servido em festas juninas e... Ah, come! Não precisa de explicação para comer coisas boas. – Ela pegou uma colher, pegou seu pote e mexeu tudo, misturando a tal da paçoca, o coco e a canjica.
- Paçoca, ou qualquer coisa que você disse, é tipo a farofa que a gente comeu com a feijoada?
- Não, nem um pouco! - Ela falou direta e soltou uma gargalhada em seguida. - Paçoca é feita de amendoim, farofa é feita de farinha de mandioca, um é doce, outro salgado. Os dois são bons! - Ela deu de ombros e eu peguei uma colher, vendo pegar a colher, enchê-la com o líquido e colocá-la na boca. Tirei a mão de suas costas e fiz o mesmo, vendo seu olhar fixo em meus movimentos.
Maravilhoso. Essa é a única definição que eu posso fazer disso. Você fazia mais uma gororoba com aquilo e o sabor era divino, não tem porque questionar.
- Eu vou engordar contigo! - Falei encostando a mão na barriga.
- Pior que vai mesmo! - Ela falou dando uma piscada. – Sinto lhe dizer.
- Eu não me importo! - Devolvi a piscadela e ela riu.

- Quer ajuda para arrumar as coisas? Que a resposta não seja 'não', por favor. - Falei, entregando as coisas para ela, que as colocava na pia.
- Acho que hoje a resposta é sim! - Ela falou. - Hoje eu deixo você lavar a louça, enquanto vou guardando as coisas que sobraram. Depois podemos assistir a um filme. - Concordei com a cabeça e tirei a jaqueta, colocando-a em cima da geladeira e abri a torneira, começando pelas louças de cima.
Enquanto eu lavava as louças, podia ouvir os pés de indo e voltando da sala várias vezes. Ela pegava tudo que estava lá e trazia para a cozinha. Dividia as sobras de comida em recipientes ou jogava fora e deixava os potes vazios ao meu lado para que eu lavasse. Não tinha muitas coisas para lavar, mas eu não tinha tanta experiência na situação e era um pouco lento no serviço. Então, enquanto eu fazia algo, fazia no dobro ou triplo do tempo.
Quando ela desapareceu por um tempo mais longo, voltou sem o moletom cinza, e arregaçando as mangas de uma blusa em um tom avermelhado de manga comprida, colada ao corpo. Sem dizer nada, pegou um pano e começou a secar as louças que ficavam por cima do escorredor, talvez prevenindo um belo de um desastre, caso tudo aquilo caísse.
- Até que você não é tão ruim! - Ela comentou, me empurrando levemente com o ombro.
- "Tão"? - Repeti o movimento, esbarrando nela.
- Se nada der certo na vida, dá para você ser dono de casa! - Ela falou guardando uma tigela dentro do armário.
- Ah, que bom, não é?! - Desliguei a torneira e entreguei o último prato para ela que secou e guardou.
- Nunca se sabe o dia de amanhã! - Ela deu de ombros.
- Quem sabe você não vira uma modelo da Victoria's Secret amanhã? - Falei entrando na brincadeira.
- Não iluda uma sonhadora, ok?! - Ela enrolou a toalha rapidamente e bateu na lateral da minha perna.
- Oi?! - Virei para ela.
- Toda mulher, bem, a maioria, sonha em ser modelo da Victoria's Secret, tá? Não seria diferente comigo! - Ela deu de ombros e pendurou a toalha.
- Você daria certo, sabia? Você é alta e brasileiras são sempre um show à parte! - Passei as mãos pela sua cintura enquanto voltávamos para a sala.
- Claro! Quem sabe se eu perder metade do meu peso? - Ela abanou as mãos e soltou uma risada fraca. - Ser modelo nunca daria certo para mim, minha fome é eterna! - Ela deu uma risada e tirou minhas mãos do seu corpo.
- Você daria certo no que quisesse fazer, você é persistente, mas não nota isso! - Me joguei no sofá.
- Sem conversas motivacionais agora, por favor! - Ela falou. - Escolhe um filme que eu vou ao banheiro! - Ela falou e sumiu pelo curto corredor e ouvi uma porta bater.

- E quais são as opções? - Ela falou passando as mãos na calça jeans e começou a assoprar as velas que estavam na sala, já que algumas estavam no fim. Ela pegou os porta-velas vazios, colocou todos em cima da mesa e se sentou ao meu lado.
- Temos... - Falei mudando os canais da TV. - Procurando Nemo. - Passei pelo canal da Disney. - O quarto Harry Potter. - Passei pela Warner. - E temos em um canal, Encontro de Amor...
- Deixa! - Ela deu um grito ao meu lado e eu a olhei enquanto ela tapava a boca com a mão. - É meu filme de romance favorito, deixa! - Ela deu um pulo ao meu lado, rapidamente tirou as botas e jogou os pés de meia em cima do sofá.
- Favorito?
- Sim, ! - Ela falou em um tom irônico. - ! É o nome do personagem principal, só que ele é senador, e é o Ralph Fiennes. - Ela falou seguida de um suspiro e eu virei meu rosto para ela.
Ela deu de ombros e se virou para a TV, encostando a cabeça em meu ombro. Passei meu braço pelos seus ombros. Ela ficou em silêncio rapidamente, suspirando em algumas partes do filme e repetindo algumas frases que ela tanto conhecia, partes que eu começava a dar risada, pois em algumas situações eu fazia igualzinho.
- Se formos ver esse filme descreve perfeitamente a gente! - Ela falou com o tom de voz baixo, já deitada, com a cabeça em meu colo. - Você é o senador gostosão e eu sou a trabalhadora...
- Gostosona, também! - Falei antes que ela pensasse em um adjetivo. - Ei! Quer dizer que eu não sou trabalhador? - Ela soltou uma gargalhada.
- Seu trabalho é um pouco mais glamoroso, convenhamos. - Ela comentou.
- Vou te mostrar algumas cicatrizes de gravações.
- Ah, coitado! - Ela falou fazendo bico e logo estava rindo da minha cara.
Ela fechou os olhos por um tempo, o suficiente para eu ver suas bochechas ficarem vermelhas rapidamente. Ela passou a mão no rosto e abriu os olhos novamente, voltando sua atenção para a TV, ficando quieta boa parte do filme. Minhas mãos ficaram em seus cabelos, enquanto ela soltava curtos suspiros, que eu não sabia se era do filme ou do meu carinho. O local estava um pouco mais frio, já que as velas haviam sido apagadas e a única luz do local era a da televisão.

No começo da cena em que a camareira vai ao baile de gala no MET com o senador, se ajeitou e manteve os olhos fixos na TV, com um sorriso em seu rosto. Aquele momento era dela e somente dela, não precisava de mais ninguém. Ela estava assistindo ao seu filme favorito, sozinha, um momento o qual ela já deveria ter passado inúmeras vezes, pela repetição de frases, palavras e comentários que fazia ao longo dele. Foi naquele momento, ali, em seu pequeno apartamento em Boston, que eu tive uma certeza. Uma certeza que veio rápido e forte como um trovão.
- ...I need your love in my life… - Ouvi sua voz ao meu lado, que me tirou do transe e a encarei, notando em seguida que ela cantava junto com o filme na parte em que a Marisa entrava no baile e meu xará ignorava todos à sua volta e a avistava. - I wanna spend time till it ends, I wanna fall in you again, like we did when we first met... – Era assim que eu me sentia. - I wanna fall with you again... – Ela virou o rosto para mim e sua voz sumiu, soltando uma risada nasalada em seguida. – O quê? – Ela perguntou e eu encarei profundamente aqueles olhos castanhos que eu tanto adorava.
- Eu te amo, ! – Ouvi minha voz confirmar o que eu já sabia há muito tempo, mas que não tinha interpretado ainda.
Ela reagiu da melhor forma possível. Manteve os olhos fixos nos meus por um tempo, mas logo pude notar que sua boca se abria lentamente, abismada ou assustada pelo que eu havia dito e seus olhos se mantinham fixos em mim, sem piscar. Quando sua boca abriu o máximo possível, foi como se a ficha tivesse caído, já que sua feição relaxou e pude ver um sorriso se formar em seus lábios, que tremiam um pouco. Seus olhos se fecharam por um tempo e algumas lágrimas escaparam. Ela colocou as mãos na boca, soltando uma risada silenciosa.
Eu vi essa cena em câmera lenta, provavelmente, pois no segundo seguinte, o tempo voltou ao normal, seus braços já estavam em meu pescoço e seus lábios colaram nos meus.
Minha mão direita encostou-se à lateral de sua barriga, como um suporte para seu corpo, que se mantinha ajoelhado no sofá. Uma de suas mãos fazia um carinho gostoso em meu rosto, o polegar acariciava minha bochecha e a outra mão arranhava meu pescoço. No início, seus lábios eram mais apressados, mas agora se movimentavam em sincronia com os meus.
Senti seu corpo cair em meu colo e passei meu outro braço por cima do mesmo, para que eu pudesse segurar em uma de suas coxas, próximo à sua bunda, apertando-a fortemente, sentindo sua respiração falhar com o movimento. A mão que antes estava em meu ombro, desceu para meu peito, amassando a blusa que eu usava e escorregando novamente para minha cintura, movimentando os dedos pela mesma.
Soltei um suspiro pela boca que fez com que ela se afastasse por alguns segundos e abrisse um sorriso que durou pouco, pois logo depois, meus lábios já estavam colados no seu novamente, dando pequenas mordidas em meu lábio inferior e explorando minha boca com sua língua. Minha mão adentrava a blusa justa que ela usava. Ela se ajeitou em meu colo, se colocando de joelho, com uma perna de cada lado do meu corpo e se sentou sobre as minhas coxas, aquele momento fez com que minha ereção começasse a dar sinais de vida e notava isso, pois parecia que ela fazia questão em manter-se ali.
A cada movimento e a cada suspiro, os lábios ficavam mais urgentes, as mãos ficavam mais rápidas, os suspiros mais altos e o ar faltava mais rápido. Quando ela deslizou seus lábios pelo meu queixo até meu pescoço, meu corpo estremeceu. O ar saía falhado da minha boca, aquilo era maravilhoso. Ela intercalava entre beijos e chupadas sobre a pele e a única coisa que eu podia fazer era apertar sua cintura a cada movimento dela e suspirar.
De repente suas mãos estavam em minha cintura e minha blusa deslizava para fora do meu corpo, ajudei, livrando as mãos da manga comprida rapidamente. Não tinha mais volta, mas eu não queria voltar para lugar nenhum mesmo. Seus lábios desceram para meu peito e alguns beijos foram depositados em cima da minha tatuagem. Já que ela não conseguia fazer nenhum movimento mais abaixo, sentada em meu colo, ela apertou as mãos na lateral da minha barriga, na região da outra tatuagem em meu tronco. Soltou um suspiro contra minha pele e ergueu o rosto novamente, com um sorriso totalmente novo no rosto, provavelmente o mesmo sorriso que eu estava, ela findou seus suspiros com uma mordida no lábio inferior.
Meus dedos dançavam pela barra da sua blusa e tocavam sua pele quente, mas eu não aguentava mais, essas preliminares já estavam me enlouquecendo. Puxei sua blusa em um movimento rápido e por um momento ela pareceu surpresa, mas só pareceu, pois ela desfez da blusa com as suas mãos e a jogou no chão ao meu lado. Eu não sabia se encarava seus olhos ou se olhava para o par de seios dentro do sutiã azul escuro. Mas, naquele momento ela queria minha atenção só para ela, pois em um movimento rápido de sua cabeça e olhar para trás, eu sabia que ela queria sair dali.
Firmei minhas mãos em suas coxas e em um rápido movimento tirei as botinas dos meus pés, jogando-as no tapete de e me impulsionei para cima. Ela rapidamente colocou as duas mãos em meu pescoço e se apoiou em mim. Seu corpo encostou-se ao meu e suas mãos bagunçavam meus cabelos. Andei até o último cômodo do corredor e adentrei seu quarto. Nunca havia entrado ali, mas não seria naquele momento que eu o analisaria. Segui reto até que minhas duas pernas não pudessem prosseguir por causa da cama de casal e a deitei delicadamente sobre a superfície macia. Ela escorregou o corpo sobre a cama, até que sua cabeça estivesse entre os dois travesseiros, com seus cabelos arrepiados, devido ao laço de que os prendia.
Fixei meus olhos nos dela de forma diferente. Ela passou as mãos nos lençóis de forma chamativa e eu desafivelei meu cinto, deixando-o em algum lugar pelo cômodo. Em seguida, foi à vez do botão e zíper da calça, que foram abertos e fez com que o jeans escorregasse pelas minhas pernas.
- Ok, esse corpo é injusto! – Ela soltou uma risada fraca, mordendo os lábios em seguida, tentando controlar a respiração.
Ajoelhei sobre a cama e posicionei as duas mãos na lateral do seu corpo e encostei meu corpo no seu, dando um curto beijo em seus lábios. Suas mãos imediatamente subiram para minhas costas e suas unhas deslizaram por elas, causando um arrepio.
Desci minhas mãos pela lateral do seu corpo, distribuindo beijos desde seus seios até passar pela sua barriga, vendo-a se contrair de diversas maneiras e suspiros baixos escaparem de seus lábios. Coloquei minhas mãos sobre sua calça jeans e soltei o botão, desci o zíper tentando manter a calma, mas minha ereção não estava com tanta calma assim. Puxei a calça pelas laterais e ela estendeu as pernas e levantou o quadril, colaborando comigo. Por um momento, eu tive que parar o trabalho e tirar as meias dos seus pés e jogá-las para trás. Sua calça se soltou em minhas mãos e ela juntou as pernas uma na outra.
Por um momento eu não sabia o que fazer a seguir, só queria olhá-la. Seu corpo combinando perfeitamente dentro daquele conjunto de lingerie, a pele arrepiada por causa do frio, os cabelos também, os lábios avermelhados e algumas marcas vermelhas que eu havia deixado em sua barriga. Ela tinha as coxas mais gostosas que eu já havia visto, lembro em alguns jantares que ela as cruzava e me fazia ter alguns pensamentos inapropriados. Ela ergueu uma das mãos e passou em seus cabelos, soltando-os do laço que caiu ao seu lado na cama. Ela sentia vergonha quando eu ficava olhando muito, mas não era minha culpa se ela chamava bastante atenção.
- Você precisa parar de fazer isso! – Ela comentou o que eu pensava e eu ri.
- E você precisa parar de ler meus pensamentos! – Falei para descontrair e ela chacoalhou a cabeça.
Deixei que meu corpo caísse lentamente, encaixando minhas pernas entre as dela. Uma mão se apoiou na cama e a outra se manteve firme em sua cintura, dando pequenos apertões, enquanto minha boca passeava pelo seu pescoço e pelos seus seios cobertos pelo sutiã. Suas mãos faziam o mesmo movimento em minha cintura e seus lábios tocavam minha cabeça levemente, enquanto uma de suas pernas se mantinha entrelaçada em minha cintura.
Com uma arqueada em suas costas e um movimento de suas mãos, seu sutiã saiu voando para o chão. Ajeitei-me sobre seu corpo, dando um curto beijo em cada um de seus seios e ergui meu rosto para perto do seu. Meu nariz tocou o seu por um tempo e pude notar que sua respiração estava descompassada, igual a minha. Seus olhos focaram nos meus e eu movimentei a cabeça, em sinal de permissão, e ela, sem dizer uma palavra, fechou os olhos delicadamente e fez um movimento afirmativo com a cabeça. Coloquei as duas mãos na lateral de sua calcinha e a puxei lentamente para baixo, fechou os olhos por um momento e eu suspirei, vendo a reação que eu causava nela, pois era a mesma que ela causava em mim.
Distribuí alguns beijos em suas pernas enquanto descia a peça e, no fim, joguei-a para o lado, vendo ela se misturar com as outras. Coloquei meus dois pés no chão e, desajeitadamente, procurei pela minha calça rapidamente, achando a mesma e pegando uma camisinha dentro da minha carteira. tirou o envelope da minha mão e puxou sua ponta com o dente e logo tinha a camisinha de plástico em sua mão. Ela ajoelhou sobre a cama e eu fiz o mesmo. Ela colocou as mãos no cós da minha cueca e a abaixou lentamente até meus joelhos, eu me livrei da mesma em um movimento rápido. Seus olhos se fixaram nos meus por um tempo e procurei seus lábios urgentemente. Passei minhas mãos pelo seu corpo e a deitei novamente na cama.

Fiquei encarando seu peito subindo e descendo embaixo do lençol, enquanto seus olhos se mantinham fechados. Ergui uma mão e tirei uma mecha de cabelo que caía em seu rosto. Ela se mexeu ao meu lado e virou o corpo em minha direção, abrindo seus olhos lentamente.
- Não dormiu? – Ouvi sua voz baixa e ela passou um dos braços pela minha barriga e suspirou, encostando seu corpo nu sobre o meu.
- Não! – Falei simplesmente e coloquei minha mão sobre a sua, entrelaçando nossos dedos.
- Que horas são? – Ela perguntou meio sonolenta.
- Quase quatro. – Falei olhando rapidamente o relógio ao meu lado.
- Ah! – Ela deu uma gemida descontente ao meu lado e eu ri. – Não quero ir trabalhar. Não quero sair daqui! – Apertei um dos meus braços em seu corpo e ela sorriu.
- Não precisa. – Ela sorriu e fechou os olhos novamente.
- Quem dera fosse fácil assim. - Ela falou baixo.
Suas mãos faziam um carinho gostoso em meu peito, sua mão sumia por debaixo das cobertas e aparecia logo em seguida. Ela depositou um beijo na lateral do meu corpo e ergueu os olhos encontrando os meus. Sua cabeça estava em meu braço, e minha mão caía em suas costas, acariciando sua pele levemente.
- Eu não disse, , acho que estava muito extasiada para falar alguma coisa. – Ela falou e eu franzi a testa. - Mas eu também te amo! – Ela falou com os olhos fechados e eu abri um sorriso largo.
Ela abriu os olhos e se levantou, sentando ao meu lado. Suas costas ficaram descobertas e uma de suas mãos segurava a coberta que cobria seus seios, eu achava isso engraçado, depois de tudo que havia acontecido, ela ainda fazia questão de esconder seu corpo.
- Eu tenho que te contar uma coisa. – Ela falou e virou seu rosto para mim. – Quando eu te conheci, era sua fã! – Ela começou. – Ou seja, eu te amava como uma fã. Então, naquele jantar no hotel, e na viagem para Cleveland, estava extasiada, meio idiota também. Era mais ou menos “nossa, meu ator favorito, meu ídolo”. – Ri com ela. Então eu meio que te amava já, mas era de um jeito diferente. – Ela comentou e soltou uma risada, como se risse de si mesma. – Mas quando você apareceu em casa e teve aquela tensão toda, o trabalho, as piadas, as risadas, outra coisa nasceu dentro de mim. – Ela virou o rosto para mim, erguendo as pernas. – Até que você me beijou. – Ela suspirou, lembrando o fato. – Não era meu ator favorito que estava me beijando. Era outra pessoa, muito parecida com meu ator favorito, por sinal! – Soltei uma risada. – Eu estava beijando o . Então, posso dizer, que eu não te amo só como , eu te amo como também. É diferente, sabe?! – Ela soltou uma gargalhada, escondendo o rosto no meio das pernas. – Isso tá confuso demais! – Eu gargalhei junto dela.
- Não está! – Eu me sentei à sua frente e coloquei um dedo em seu queixo, erguendo seu rosto e a vi rir. – Eu te entendo... Bem, eu acho. – Ela soltou uma risada e estalou seus lábios em minha bochecha. – Não importa, ! – Falei. – Eu te amo como minha assessora e como essa pessoa estranha que você é!
- Obrigada! – Ela falou irônica, me dando um tapa no ombro.
- Essa brasileira divertida, inteligente, linda, sexy. – Ela balançou a cabeça e eu ri. – Você não precisa escolher, você pode ter ambos. – Falei e ela sorriu, virando de costas para mim e encostando suas costas em meu corpo, quando a abracei pela cintura. – Tanto o como o te amam. – Sussurrei ao pé do seu ouvido.
- Eu os amo também! – Ela falou encostando a cabeça em meu ombro e fechando os olhos novamente.

Abri meus olhos e me vi sozinho em sua cama, seu lado estava bagunçado, o relógio já passava das nove horas da manhã de uma quinta-feira. Ela deveria estar no trabalho. Ergui meu corpo sentando na cama e me espreguicei, ouvindo os ossos das minhas costas estralarem, passei a mão em meu rosto e joguei as cobertas bagunçadas para frente. Dei uma olhada geral no quarto e peguei minha cueca que estava ao lado da cama. A vesti e caminhei até o banheiro, fechando a porta do mesmo. Fiz minha higiene matinal e encarei meu rosto no espelho, eu estava ridiculamente feliz, o sorriso não sumia, passei a mão em meu rosto e cabelos e o sequei.
Abri a porta e voltei para o quarto, pegando minha calça e vestindo-a, afivelando o cinto. Andei até a sala, procurando o resto das minhas roupas e minha blusa não estava no sofá, mas sim na pessoa que vinha deslizando no piso só de meias. Ela tinha o celular apoiado em seu ombro, enquanto mexia em um pouco da canjica da noite passada.
- Isso, por favor, Derek! – Ela soltou uma risada, com algo que Derek falou. – Isso, por favor. Não! Fala que eu estou com intoxicação alimentar e não consigo levantar da cama, e... – soltou uma gargalhada. – Pode ser por isso também, mas melhor não contar à Melina. – Ela mordeu o lábio inferior. – Isso, ok, amanhã ela vai estar em San Diego e teremos folga, podemos sair para almoçar. – Ela confirmou algumas coisas com a boca. – Claro, chama o Rupert também. Ok, me deixa ir, ele acordou. – Ela falou, erguendo os olhos para mim e piscou. – Ok, obrigada. Tchau! – E desligou o aparelho, o colocando na mesa. - Se alguém te perguntar, estou com uma péssima intoxicação alimentar, ok?! Culpa da feijoada! – Ela falou dando de ombros e virando o que sobrava da canjica em um gole só.
- E a Melina caiu nessa? – Perguntei me aproximando dela.
- Isso o Derek vai contar para gente depois! – Ela riu e eu encostei meus lábios em sua testa.
- Bom dia, ! – Falei e ela colocou o pote vazio na mesa e passou os braços pelo meu corpo.
- Bom dia, ! – Ela riu e encostou os lábios nos meus rapidamente.
- Eu quero minha blusa de volta. – Estendi minha mão para ela.
- Você já sabe onde isso vai dar, certo?! – Ela me encarou. – E, definitivamente, não estava pensando muito em roupas hoje.
- Preciso estar em San Diego só amanhã mesmo.
- O que é muito bom por sinal. – Ela deu de ombros e riu. – Eu não vou trabalhar hoje, então, pode escolher o que quiser fazer e onde também.
- Posso escolher “com quem” também?
- Se essa pessoa for eu, pode! – Ela riu e deu de ombros, virando o corpo, voltando para a cozinha.
- Pelo jeito você não vai para San Diego. - A segui, parando na porta da cozinha, vendo-a lavar o pote e a colher que usava.
- Não vai ser dessa vez. - Ela virou o rosto para mim. - Eu queria muito ir, não só para te acompanhar, mas pela Convenção mesmo, mas alguém precisa soltar as informações, certo?! - Ela deu de ombros. - Sexta eu não trabalho, mas sábado sim, vou ficar de plantão.
- Que droga! - Comentei e ela riu.
- É, mas ainda temos um tempo só para nós. - Ela piscou.

soltou um suspiro e eu me levantei da cama, me livrando da camisinha no banheiro. Passei uma água em meu rosto e voltei para o quarto, vendo-a, com a respiração acelerada, soltar uma risada, quando eu coloquei uma perna em cada lado do seu corpo e passei meus lábios em sua barriga, entre seus seios, e dei uma mordida em seu pescoço, subindo para seu queixo e lábios, deixando meu corpo cair ao seu lado. Ela virou o corpo para baixo, ficando de bruços na cama e abraçou o canto do travesseiro, encostando a cabeça no mesmo.
- Eu vou ficar mal acostumada. – Ela comentou com a voz manhosa e eu ri.
- Sabe... Eu gostei dessa cama! – Ela soltou uma risada e eu virei meu corpo, passando minha mão em suas costas.
- Queria que você ficasse, mas também quero saber as novidades de “Poseidon 2”. – Soltei uma risada e ela aproximou seu rosto do meu. – Você não precisa ir.
- Ah, eu tenho, viu?! – Ela fez um bico e soltou uma risada logo em seguida. - Eu vou viver em Boston, você vai ver. – Encostei meus lábios nos dela.
- Por favor, não consigo ficar mais longe de você. – Subi minha mão para seus cabelos e pressionei meus lábios nos seus.
- A gente vai fazer isso dar certo. – Falei e ela sorriu.
- Quais são seus próximos compromissos? – Ela perguntou.
- Tenho estreia de “À Procura do Amanhã”, vou para Coreia na semana que vem. – Falei e ela entortou a boca. – E tenho que dar uma passada em Los Angeles antes para algumas reuniões do filme que eu vou dirigir.
- Melina comentou. Sobre o que vai ser o filme? – Ela perguntou de olhos fechados.
- Dois estranhos desolados se encontram na estação central de Nova York e começam a compartilhar experiências.
- Você já aprendeu a tocar trompete para o personagem? – Ela perguntou e eu ri.
- Ainda não!
- Essa vai ser interessante! – Ela comentou em deboche.
- Ri mesmo, dona , ri mesmo! – Ela abriu um sorriso torto, devido ao travesseiro pressionado à sua bochecha e eu ri.
- E depois? Qual compromisso você tem?
- Tenho que ir para uma reunião em Nova York e depois tem a convenção da Máxima!
- Já tá perdendo a graça isso! – Ela falou sem graça.
- Vem comigo! – Comentei.
- Onde? – Ela franziu a testa.
- Tudo, posso tentar pedir para Melina tirar umas férias e você me acompanha em algum evento.
- Tem certeza? – Ela perguntou e eu concordei com a cabeça.
- Depois de hoje, estou pronto para seguir qualquer passo que você quiser dar. – Ela abriu os olhos e levantou o rosto com um largo sorriso.
- Qualquer um? – Ela perguntou.
- Qualquer um! – Confirmei e senti seus lábios pressionados nos meus rapidamente.



Capítulo 5

(Eu encontrei uma mulher mais forte do que qualquer pessoa. Ela compartilha meus sonhos, espero um dia compartilhar a casa dela. Encontrei um amor para levar mais do que meus segredos, para levar amor, carregar nossas próprias crianças - Perfect, Ed Sheeran)

- O que você acha, Derek? - Melina cruzou os braços em cima do corpo e dividiu o olhar de Derek à mim algumas vezes.
- Você sabe que pode confiar nela, Melina, nos dois, na verdade. - Derek disse ao meu lado e ouvi um suspiro de Melina. Meu corpo estava tenso na cadeira e eu podia sentir o suor dentro dos meus sapatos.
- É, eu realmente confio em você, ! E nele também. - Suspirei e ela se levantou da cadeira. - Sobre o relacionamento dos dois, vocês que vão decidir quando vão aparecer para a mídia, sobre isso eu não faço nenhuma objeção, afinal, a vida é de vocês e vocês já estão grandinhos demais para tomar suas próprias decisões. - Assenti com a cabeça. - Só, por favor, te peço duas coisas.
- Pode dizer, Melina! Eu faço o que você achar melhor! - Aproximei meu corpo da ponta da cadeira.
- A primeira é assim, ele não pode faltar em nenhum evento, a não ser que esteja morrendo, ok?! - Afirmei com a cabeça. - Mas isso ele já sabe, a agenda que você recebe, é exatamente a mesma da dele. E, você já deve ter notado que ele é a pessoa mais preparada da sala, não?! Às vezes mais que a gente. - Confirmei com a cabeça, soltando uma risada fraca.
- Pode deixar. - Falei.
- Ele só tem que estar na coletiva de imprensa do filme na parte da tarde e, à noite, ir à première do filme. Combinado? - Confirmei com a cabeça. – E também vou te liberar para ir com ele para Nova York para as reuniões de “O Trem da Meia-Noite” que ele tem, está bem?
- Está bem! - Confirmei, sentindo um sorriso meio exagerado se formar em meu rosto, o qual eu não podia demonstrar. Melina se sentou novamente em sua cadeira, apoiando as costas no encosto.
- E tem uma segunda coisa, que eu vou pedir como amiga dele. - Ela apoiou os cotovelos na mesa e suspirou. - Trate-o bem, ok?! Ele já teve vários relacionamentos e nenhum que eu realmente tenha gostado, mas agora é diferente, você não é nenhuma atriz, modelo ou cantora que eu precise me preocupar com a sanidade ou algo assim. - Soltei uma risada nasalada. - Na verdade, você é tudo o que eu tenho pedido para que ele seja feliz, faz um bom tempo. - Pressionei meus lábios um no outro, sentindo meu rosto encher de lágrimas. - Trate-o bem, tá bem? Porque eu sei que ele vai te tratar. - Estendi minha mão e segurei as dela sobre a mesa.
- Eu vou, Melina! - Suspirei. - Eu o amo. - Ela abriu um sorriso e Derek deu um pulo ao meu lado.
- Opa, opa, opa! - Ele falou e encostou a mão em meu ombro, fazendo com que eu virasse o rosto para ele. - Você não me disse isso! - Melina soltou uma risada.
- Desculpa, mas isso me interessa também! - Ruth apareceu na porta de Melina e eu soltei uma gargalhada.
- Ei! Minha vida romântica interessa a todo mundo? - Perguntei afastando a cadeira um pouco para poder olhar para todos.
- A sua um pouco, a do , bastante, viu?! Já sofremos um pouco com essa situação toda. - Derek comentou irônico e eu balancei a cabeça. - Mas já aconteceu? Você já disse?
- Nós já dissemos. - Comentei e os três explodiram de felicidade a minha volta, se aproximando o máximo possível para que eu continuasse a história. - Sério?! - Perguntei rindo.
- Sério! Agora continua. - Ruth comentou.
- Ele passou em casa, antes de ir para Convenção, na quarta passada. A gente tinha combinado de se encontrar, eu fiz um jantarzinho só para nós dois, enfim... - Pulei essa parte. - Depois, a gente sentou para ver um filme e tal, eu estava prestando atenção no filme e uma hora eu notei que ele estava me observando, aí eu olhei para ele e ele disse. - Fui falando mais baixo, lembrando o momento em que ouvi aquelas três palavras, que eu tinha medo de falar por não saber se ele sentia o mesmo.
- Ele disse antes?! - Derek quase gritou na minha orelha, eu confirmei com a cabeça. - E aí?! - Ele continuou gritando.
- E aí que eu fiquei tão extasiada que uma coisa levou à outra e quando eu vi...
- Essa parte eu já sei! - Derek abanou a mão e eu ri.
- O que aconteceu? - Melina apertou as mãos na mesa.
- Eles transaram! - Derek voltou a gritar.
- A história é de quem, por favor? - Perguntei dando um tapa em sua perna.
- Sua, mas é tão bonitinho ver você toda envergonhada! - Ele sorriu e passou os braços pelo meu corpo, me abraçando.
- Você não disse? - Ruth perguntou atrás de mim.
- Disse! Depois. - Suspirei. - Eu estava tão extasiada que as coisas foram rolando e só depois eu me toquei que eu havia pensado, mas não havia dito. - Suspirei. - Aí eu disse. - Suspirei novamente, passando a mão na trança em meu cabelo, sentindo meu rosto esquentar novamente.
- Ah, , que vocês sejam muito felizes, mesmo, mesmo! - Ruth passou os braços pelo meu pescoço, me abraçando.
- Vou tentar! - Abri um sorriso.
- Vai conseguir! - Melina falou e se levantou em um pulo da cadeira. - Vamos trabalhar galera! Um, dois! – E saiu expulsando todo mundo da sala dela, enquanto batia uma mão na outra. - Daqui a pouco eu te entrego a agenda, ! O avião para Los Angeles sai amanhã depois do almoço, ok?! - Melina falava enquanto eu entrava na minha sala. - Tem quarto reservado num hotel que a gente tem afiliação, mas creio que você vai ficar em Hollywood Hills. - Soltei uma risada, sentando na minha cadeira.
- Vou falar com ele hoje à noite, qualquer coisa eu ligo no hotel.
- Combinado, então! A gente vai se falando. Vou ficar em Boston essa semana. - Melina disse e eu afirmei com a cabeça.

Entrei em casa, ouvindo a porta bater com o chute que eu havia dado e larguei tanto a papelada, quanto minha bolsa no escritório e caminhei até meu quarto, me livrando dos sapatos de salto e deitei na cama. Eu estava acabada, quebrada, trabalhar no fim de semana havia me detonado, pelo menos teria folga na manhã do dia seguinte e mais algumas ao longo da semana. Eu também viajaria para a Coréia do Sul! Não que fosse meu sonho ir para a lá, mas eu iria para outro país, além de Brasil e Estados Unidos. Isso já era alguma coisa.
Puxei o travesseiro com a mão e o abracei, ainda sentindo o cheiro do perfume de impregnado nele. Cara, que perfume delicioso. Afundei o rosto no travesseiro e suspirei, sentindo meus olhos fecharem devido ao cansaço. Podia ficar assim por pouco tempo, mas meu celular vibrou dentro do bolso da calça jeans. Rolei na cama, ficando de barriga para cima e arranquei o celular do bolso apertado e, sem mesmo olhar, deslizei o botão verde e coloquei no viva voz.
- Alô? - Falei com a voz abafada.
- ? - Ouvi a voz dele e dei um pulo na cama, ficando de bruços e colocando o celular entre meus braços.
- Ei! - Falei com a voz mais animada.
- Tá tudo certo? - Ele perguntou preocupado.
- Só estou cansada. Então, se eu dormir, tá tudo certo! - Falei e bocejei em seguida.
- Vou falar rápido para te deixar dormir, então, ok?!
- Não, pode falar. Gosto de ouvir sua voz. - Falei, seguido de um suspiro.
- Só quero deixar claro que você ficará aqui em casa amanhã, ok?! - Ele falou e eu abri um largo sorriso.
- Isso não deveria ser um convite? - Perguntei, seguindo de uma risada nasalada.
- Não! - Ele falou direito. – Está mais para convocação mesmo.
- Ah, é assim agora?! - Ele gargalhou do outro lado da linha.
- Ah é! - Eu ri. - Não, falando sério agora. Você nunca veio para L.A. e nada mais justo do que conhecer minha casa. - Soltei uma risada.
- Casa, ? Eu moro em uma casa! - Falei frisando a palavra. - Você mora no... Lugar dos meus sonhos, tá?! - Frisei a última palavra novamente.
- Não existe surpresa ou segredo para você, não é?!
- Me demita da sua equipe que vai ter. - Falei debochando.
- Vai ser mais difícil para a gente se ver, melhor não. - Ele comentou e eu gargalhei. - Precisamos disso.
- Com certeza. - Falei e joguei meu corpo na cama, ficando de barriga para cima.
- Preciso levar alguma coisa para ai? - Perguntei dando uma olhada geral em meu quarto.
- Se trazer é uma coisa boa! - Revirei os olhos.
- Estou falando sério, !
- Traz roupa de banho. - Ele falou suspirando. - Podemos passar à tarde na piscina.
- Aí vi vantagem, hein?! - Falei rindo e ouvi sua gargalhada. - Pode deixar, vou colocar na mala agora.
- Eu vou ter uma reunião e não sei que horas ela acaba, mas te encontro em casa? - Ele perguntou.
- Sem problemas, vai saber onde me encontrar. Estarei abusando da sua piscina. - Ele riu.
- Vou avisar para o segurança que você tem livre acesso. - Abri um sorriso.
- Acho bom mesmo! - Suspirei, ouvindo somente sua respiração pelo telefone.
- Vou deixar você descansar. - Ele comentou. - A gente se vê amanhã? - Ele perguntou.
- Com certeza! - Suspirei, mordendo meu lábio inferior. - Eu te amo, ! - Suspirei novamente.
- Eu te amo, ! - E desliguei a ligação, apertando o celular na minha mão, soltando um suspiro alto.

- Obrigada! - Falei para o taxista, recebendo o troco e guardando-o de qualquer jeito no bolso da calça.
Saí do carro, fechei a porta e encarei o muro de madeira que circundava toda a "casa" de . O muro não era muito alto, mas a casa também só tinha um andar. Então, do lado de fora, só era possível ver o telhado. Em uma parte tinha um portão largo e descendo um pouco a rua, também preenchida com o muro de madeira, uma porta e ao passar por ela, a campainha. Passei pela primeira porta que estava destrancada e toquei a campainha, rezando para que alguém atendesse.
- Olá, quem é? - A voz do outro lado falou.
- Oi, sou ...
- Ah sim, namorada do senhor ! - A voz falou novamente, me fazendo arregalar os olhos. - Pode entrar, te encontro aqui. - E em um estralo, o portão de dentro destravou.
Ajeitei a mochila nas costas, a bolsa no braço e empurrei o portão preto, dando de cara com uma construção baixa, um caminho à minha frente, um jardim à esquerda e dois bancos à direita. O mato era levemente alto, mas de um jeito rústico, não largado. Passei pelo caminho a passos lentos e parei em frente da porta de madeira que um homem alto, magro e negro a abriu, ele chegava facilmente a dois metros de altura.
- Oi! - Falei, abrindo um sorriso.
- Olá, senhorita ! Entre! - Ele falou dando espaço para eu passar.
Um curto e largo corredor sem decoração se abria para o que seria a cozinha e a sala de estar de . A cozinha inteira era feita de móveis de madeira e pedra branca sobre a madeira. Ela estava muito bem arrumada, como se alguém não mexesse nela há tempos. Na bancada ficava o fogão e algumas gavetas e armários e, colado na parede, outros eletrodomésticos que eu só conhecia em sonhos.
Passando a cozinha, uma sala de estar com sofás cinza, mesa preta e tapete branco ocupavam o espaço. À frente da sala, longas portas abertas mostravam um pouco do quintal. Algumas espreguiçadeiras colocadas em frente as portas e, ao lado, podia-se ver o começo de uma piscina. O sol em Los Angeles estava ótimo e, devido ao horário, ele começava a se por.
- pediu para eu te mostrar a casa, depois você pode ficar à vontade, ele volta só mais tarde. - Afirmei com a cabeça.
- Qual o seu nome? - Perguntei, enquanto ele passava por mim e ia para a esquerda, passando pela sala de estar e a cozinha, quando pude ver outra sala, dessa vez com móveis brancos, e uma mesa de vidro que decorava o local com um vaso grande sobre a mesma. Em cima, a lareira, uma televisão colada na parede e janelas fechadas nas laterais.
- Sou Jordan, senhorita.
- Não precisa dessa formalidade toda, Jordan, por favor! - Soltei uma risada nasalada e ele afirmou com a cabeça.
- Como quiser! - Sorri.
Ele me acompanhou por todos os cômodos da casa, desde a sala de cinema e os quartos de hóspedes, até que andamos por um longo corredor, com somente duas portas, uma à direita e outra no fim do corredor.
- À frente tem mais um quarto de hóspedes e aqui é o quarto do senhor , senho... ! - Confirmei com a cabeça, olhando o quarto da porta, não me ousando entrar no mesmo.
O quarto tinha a parede em tons acinzentados, uma cama alta com diversos travesseiros, um banco largo aos pés da cama, uma poltrona de cada lado, uma porta aberta que dava para um closet e outra que deveria ser um banheiro. À frente da cama, nas portas de correr, um deque com duas poltronas uma de frente para outra, com uma aparência muito confortável e uma pequena mesa entre as duas, do tamanho de um tabuleiro de xadrez. As portas estavam abertas, então um vento gostoso passava por elas.
- Nada mal, ! - Falei baixo, soltando uma risada sozinha.
- Ele pediu que a senhora ficasse aqui. - Virei para o lado e arregalei os olhos.
- Aqui? - Jordan afirmou com a cabeça. - Ah, que ótimo! - Falei em um tom irônico na voz.
- Ele pediu para que ficasse à vontade. Qualquer coisa você pode me chamar, ou ao outro segurança, Larry, pelo número sete do telefone. - Ele me entregou um aparelho que parecia muito com meu celular, mas era um pouco mais fino e mais comprido.
- Ah, sim! Obrigada, Jordan! – Ele saiu pelo corredor me deixando parada na porta do quarto de .
Por um momento fiquei parada na porta, pensando exatamente o que fazer. Entrei no quando, coloquei minha bolsa e mochila em cima do banco largo em frente à cama e sentei na ponta que sobrou. Estendi a mão pela colcha branca e a acariciei, abrindo um sorriso pela maciez do tecido. Em um pulo, eu me joguei de costas no meio da cama, sentindo meu corpo afundar sobre a superfície macia, rindo comigo mesma pela situação. O cheiro denunciava que passava muito tempo ali. Ouvi meu celular apitar e o tirei do bolso, encontrando uma mensagem do dono daquela cama:
"Aproveitando a piscina? Aqui vai demorar mais que o planejado, mas pretendo aproveitar contigo um pouco, beijos."

Balancei a cabeça, cogitando a ideia, e me levantei da cama em um pulo, alisando a colcha, tentando não parecer que uma louca havia pulado nela. Abri minha mochila rapidamente e puxei minha toalha e um biquíni roxo que eu havia levado a pedido do senhor .
Entrei no banheiro, quase tendo um infarto com o tamanho dele, aquilo facilmente era do tamanho de metade do meu apartamento em Boston. À direita uma longa pia de mármore branco e armários pretos, à frente, uma longa banheira e, ao lado, uma poltrona, à esquerda um boxe largo que deveria ser três vezes o tamanho do meu cubículo em Boston e ao lado dele, o vaso sanitário.
Me aproximei da janela e dei uma risada com a vista. Eu estava em outro mundo. Tirei meu vestido, dobrando-o delicadamente, deixando em cima da pia e dobrei a calcinha em cima de tudo. Coloquei a parte de baixo do biquíni, ajeitando nas laterais e no bumbum, amarrei a parte de cima nas costas e depois no pescoço, apertando para que não caísse. Me olhei no espelho e soltei meus cabelos, que estavam bagunçados e os amarrei novamente em um rabo de cavalo. Voltei para o quarto, peguei minha toalha e saí pelo corredor, atravessando-o. Chegando na sala, aos passar pelas portas de vidro, pude sentir o vento de L.A. já espetar alguns fios do meu cabelo. Andei até uma das espreguiçadeiras e estendi minha toalha e deitei, fechando os olhos.
A vista que eu tinha daquele lugar era incrível, eu estava, literalmente, no topo de Hollywood Hills, podia ver algumas mansões, a vegetação, e também o sol começando a se pôr na cidade dos anjos. Jesus, eu estava na Califórnia, só tinha me dado conta daquilo agora. Eu definitivamente podia ficar um bom tempo assim. Sol, vento, piscina, essa vista, só estava faltando o...
- ! - Ouvi uma voz vindo de dentro de casa e me assustei, me sentando na espreguiçadeira e virando meu rosto para trás, quase caindo. - ! - Me levantei e reconheci o irmão mais novo de passando pelos cômodos à procura do irmão. Ferrou. Puxei a toalha, amarrando-a apressadamente na cintura e vi Seth voltar do corredor dos quartos e me ver, isso não estava nos meus planos. - Ah, então é você! - Ele falou deixando sua mochila no sofá e se aproximando de mim. - Me deixa adivinhar, você é a nova namorada do meu irmão? - Franzi a testa e balancei a cabeça.
- O que ele te contou? - Perguntei, o vendo sorrir.
- Que ele está apaixonado por uma mulher incrível! - Não pude conter um sorriso gigante que apareceu no meu rosto.
- Eu vou jogar tanto isso na cara dele. - Falei e ele riu. - Se for de mim que ele está falando, sou .
- É, bem que ele tinha me dito um nome diferente. - Ele se aproximou e me abraçou apertado e, por um momento, eu não sabia o que fazer. - Sou Seth.
- Oi! - Falei rindo e ele me soltou.
- Olha, eu não te conheço, mas com certeza ele escolheu bem. - Ele falou apontando para meu corpo e eu soltei uma risada. - E você também é bem humorada. - Dei de ombros, rindo novamente.
- Para mim tudo tem graça, viu?! Honestamente. - Ele soltou uma risada nasalada.
- Cara, eu estou me perguntando como isso aconteceu. - Ele falou exagerando nos movimentos das mãos.
- O quê?
- Como ele não está com alguma atriz. Você deve ter realmente roubado o coração dele e o está mantendo muito bem escondido.
- Olha, isso eu não sei! - Falei, mexendo as mãos. - Mas se isso aconteceu, ele deve estar com o meu.
- Ah, que lindo! - Ele falou com sua voz mais fina. - Já gostei de você. - E me abraçou novamente, me prendendo em seus braços. Seth deveria ser exatamente da mesma altura que eu, o que facilitava essa demonstração de afeto por mim.
- Isso significa muito para mim, sabia? - Falei olhando para ele.
- Pontos comigo você já tem, pode ter certeza. - Ele me soltou. - Quando for conhecer a família, eu estarei do seu lado.
- Ah, com certeza vou precisar. - Ele riu. - É verdade que sua mãe nunca gostou de nenhuma namorada dele? - Seth balançou a cabeça, fazendo uma careta, mas sem dizer nenhuma palavra, eu franzi a testa, imitando sua careta. - Então! Uma ajuda com certeza vem a calhar.
- Eu gostei de você, , mesmo! - Ele voltou para dentro de casa, pegando sua mochila.
- Você estava atrás do ? Faço meio período namorada e meio período assessora, posso te ajudar? - Ele riu, colocando a mochila nas costas.
- Na verdade, eu estou na cidade encontrando uns amigos, só passei para irritar mesmo. Sabe que horas ele volta?
- Realmente não sei, estou esperando também. - Coloquei as mãos na cintura.
- Fala para ele que eu passei aqui, amanhã vocês vão para Coréia, certo?! - Afirmei com a cabeça. - Qualquer coisa eu passo aqui mais à noite.
- Fica à vontade, provavelmente ficaremos aqui. - Falei e soltei uma risada. – Meu Deus! Estou me sentindo a dona da casa, já!
- Aqui está precisando de uma mesmo, viu?! - Senti meu rosto esquentar e ri. - A gente se fala depois. - Ele se aproximou de mim e beijou minha bochecha. - Prazer em te conhecer, ! Que vocês dois deem certo. - Afirmei com a cabeça.
- Espero também, Seth! Prazer. - Sorrimos cúmplices. Ele passou pelo corredor, e pude ouvir a porta bater.
Um suspiro alto e forte saiu do meu corpo, meu Deus, eu acabei de conhecer o Seth. Passei as mãos desesperadas no rosto e notei que elas estavam tremendo. Meu Deus! Isso estava planejado? Honestamente, eu não sei o porquê do surto, ele tinha gostado de mim, não?! Bem, em cinco minutos de conversa, não é como se ele tivesse descoberto meu RG e meu tipo sanguíneo, mesmo assim,eu e o éramos algo meio secreto ainda, não?! Mas ele havia contado para o Seth, não era como se fosse muito segredo, ele só não tinha me visto ainda, certo? Ah, meu pai, eu estou surtando de novo.

Respirei fundo e voltei para a varanda, vendo o céu em um tom alaranjado se misturando com o azul claro. Larguei a toalha novamente na espreguiçadeira e caminhei até a beirada da piscina, me sentando na borda mais alta que tinha em algumas partes e coloquei as pernas na água morna, sentindo quase um alívio, pois pelo meu pequeno surto eu estava nervosa, tremendo e, possivelmente, gelada.
Estendi os braços para trás e os coloquei no piso frio, jogando meu corpo para trás, e fechei os olhos, sentindo minha perna se movimentar em círculos dentro da água. Ouvi um rápido barulho e, antes que eu pudesse abrir meus olhos, senti um beijo gostoso em minha bochecha, que me fez sorrir.
- Ei! – Falei com a voz baixa e senti seus lábios encostarem novamente em minha pele, dessa vez em meu ombro descoberto.
- Creio que estou um pouco atrasado, não é?! – Abri os olhos e o olhei de esgueio para trás, vendo seus olhos azuis bem próximos aos meus.
- Tá tudo bem! – Falei, me sentindo extasiada por estar perto dele, era sempre assim. Ele se movimentou, tirando os sapatos, e sentou atrás de mim, me deixando no meio de suas pernas. Antes que ele encostasse seu tronco em minhas costas, puxou sua camiseta de meia manga em um movimento e a jogou para o lado também, próximo a seus sapatos. Suas mãos estavam frias quando entraram em contato com a minha barriga, fazendo com que meu tronco arrepiasse, mas me fazendo relaxar, a sensação era ótima, era... Perfeita?!
Coloquei minhas mãos sobre as dele e acariciei suas mãos e seus braços com a ponta dos dedos, algumas vezes, até passando a unha sobre sua pele. Seu queixo estava apoiado em meu ombro e seus lábios passeavam pela minha pele de vez em quando.
- Como foi a reunião? – Perguntei em um tom de voz baixo.
- Nada de muito útil, na verdade. Desisti pelo cansaço, eu adiei uma parte, queria te ver. – Ele falou e eu suspirei. – Esperou muito?
- Um pouco. – Falei e suspirei. – Seu irmão passou aqui.
- Seth? – Ele falou em um tom de voz assustado e eu afirmei com a cabeça, soltando uma risada fraca. – Você conheceu o Seth?
- Conheci! – Falei simplesmente e ele apertou os braços em minha barriga.
- Conheceu, tá, e ai?! – Ele falou apressado.
- Ainda prefiro o irmão dele! – Falei brincando e ele bufou, afastando o corpo do meu e vindo sentar ao meu lado. – , calma! – Ergui a mão para seu rosto e o acariciei, sentindo os pelos que cresciam pinicar a palma da minha mão. – A conversa foi rápida, ele estava te procurando, falou que você tinha contado sobre mim, algo que eu gostei muito de saber. – Ele riu e colocou sua mão por cima da minha. – Disse que gostou de mim e que se eu precisar de um apoio quando for conhecer sua família, eu vou ter. – Senti um beijo na palma da minha mão e vi sorrindo.
- Você já tem a aprovação do meu irmãozinho, isso já é algo muito bom! – Afirmei com a cabeça e deslizei minha mão pelo seu rosto, levando meu polegar até seu lábio, fazendo o contorno dele com o dedo, pude ver fechar os olhos.
- Olhos sexy, boca sexy, corpo sexy, essa barba sexy, você tem algo de errado? – Perguntei em um tom de voz baixo e ele riu, abrindo os olhos.
- Isso você vai ter que descobrir. – Assenti com a cabeça, sentindo uma felicidade meio engraçada com aquilo, quer dizer que realmente tínhamos algo a mais? E abaixei minha mão.
- Estou ansiosa para isso. – Falei e em um impulso na borda da piscina, mergulhei, deixando todo meu corpo submergir na água e subir alguns segundos depois, passando a mão em meu rosto e abrindo os olhos novamente. – Vem, estava te esperando para aproveitar. – Falei, apoiando os braços na borda da mesma e minha cabeça nos braços, encarando ao meu lado.
se levantou da beirada e deu alguns passos para trás, correndo até a piscina e, em um impulso, mergulhou, espalhando água para os lados. Ele subiu para a superfície do outro lado e voltou devagar em minha direção, enquanto eu me afastava da borda e ia até o seu encontro também, parando no meio da piscina.
- Até parece uma criança! – Comentei quando me aproximei dele.
- Como você diz: eu tenho meus momentos. – Balancei a cabeça, soltando uma risada fraca.
- Afeta, é?
- Com toda certeza. - Passei minhas mãos pelo seu pescoço e passei a ponta dos dedos no mesmo, ouvindo um gemido baixo escapar de seus lábios. Elee colocou suas mãos no fim das minhas costas e fazia movimentos leves embaixo d’água. Encostei minha cabeça em seu ombro e fechei os olhos.
- Parece certo, sabia? – Falei baixo, contra sua pele.
- O quê? – Ouvi sua voz próxima a meu ouvido.
- Isso! – Falei simplesmente e o apertei mais em meu corpo.
Seu corpo se abaixou um pouco, fazendo sua testa encostar-se à minha e senti suas mãos apertarem firmemente minhas coxas e me puxar para cima, na altura de sua cintura. Pressionei minhas mãos em seus ombros, apertando-os fortemente com o movimento repentino, o vi rindo a minha frente e senti meu rosto esquentar um pouco.
- Não precisa me tratar como uma boneca, sabia? – Falei mordendo meu lábio inferior.
- Não consigo me conter. – Me aproximei, colando os corpos e toquei nossos lábios rapidamente, em uma brincadeira até que sem graça. Só um roçar de lábios.
mordeu meu lábio inferior, me permitindo apertar mais meu corpo no dele e o soltou em seguida.
- Sabe de uma coisa? – Ele falou após soltar meu lábio. – Isso é certo! – Ele continuou, se referindo à gente e eu sorri, tocando meus lábios nos dele mais uma vez, antes de soltar meus braços de seu pescoço e deitar sobre a água, com as pernas entrelaçadas em sua cintura e suas mãos firmes na minha.

O despertador do meu celular tocou exatamente na mesma hora que relógio do apitou ao seu lado, então, o meu sonho havia sido duplamente interrompido. Senti seus braços me soltarem e ouvi sua mão bater forte no relógio, enquanto eu desativava meu celular.
Como de costume, eu imediatamente virei meus pés para fora da cama e me levantei, seguindo em passos rápidos para o banheiro, quase antes de sequer abrir meus olhos, e quando passei pela porta, fechei-a. Encarei meu corpo nu no espelho do banheiro de e soltei um riso sozinha ao lembrar-me da noite passada. Aquilo estava me deixando mal acostumada, mas o que me acalmava era que aquilo chegaria em algum lugar.
Fiz minhas necessidades rapidamente e escovei os dentes com a mesma agilidade, abrindo a porta do boxe e ligando a torneira gelada, como eu havia feito na noite passada antes de deitar na cama de . Procurei pelo meu xampu, que estava próximo ao dele, na bandeja de vidro presa na parede dentro do boxe, e despejei um pouco em minha mão, levando imediatamente até meu cabelo, fazendo o máximo de espuma que consegui, antes de entrar de corpo inteiro embaixo do chuveiro novamente, ouvindo um bater fraco na porta e passando pela mesma, bocejando mil vezes por segundo e esfregando as mãos nos olhos.
- Meu Deus, você é rápida! – Ele comentou, se enrolou em uma das toalhas do boxe e pegou sua escova de dente dentro do armário, enchendo de pasta, e a colocou na boca, me encarando dentro do boxe embaçado.
- Isso é rotina de quem acorda cedo todo dia, amor! – Comentei e ele riu, segurando um bocejo e se virou para a pia para cuspir e passar a escova pelos dentes novamente. Tomei meu banho rapidamente, enquanto ele me encarava do lado de fora do boxe.
- Sua vez, dorminhoco! – Falei, abrindo a porta do boxe e torci meu cabelo mais uma vez antes de pisar no tapete felpudo que tinha à frente.
desencostou o corpo e se aproximou de mim, coloquei uma de minhas mãos em cima do nó de sua toalha e o puxei em minha direção, fazendo-o dar dois curtos passos até mim com um sorriso travesso nos lábios.
- Só quero a toalha, bonitinho! – Comentei e ele riu, apoiando uma mão de cada lado do meu corpo, me mantendo presa entre ele e o vidro do boxe. Ele se aproximou do meu rosto e, ignorando totalmente meus lábios, desceu o rosto para meu pescoço e deu um beijo nele, afastando-se de mim novamente e fazendo a toalha cair de seu corpo em minhas mãos. - Tem muitos hormônios por aqui. - Ele soltou uma risada.
- Acho que você quer dizer tensão sexual! – Ele falou e um sorriso tímido apareceu em meus lábios, eu ergui a toalha para meu rosto, secando-o e esfregando nos cabelos.
- Não demora. Temos que estar no aeroporto em duas horas. – Comentei e ele afirmou com a cabeça, passando por mim e entrando no boxe do banheiro, onde logo ouvi o som do chuveiro forte bater contra sua pele.
Me sequei somente para que eu parasse de pingar, amarrei a toalha no cabelo e saí do banheiro, deixando se banhar em paz.

Voltei para o quarto, sentindo minha pele se arrepiar com a temperatura baixa do ar condicionado e encarei o chão, vendo a parte de cima do meu biquíni, a de baixo, a bermuda e a cueca de jogadas em alguns pontos do carpete de seu quarto, mostrando pequenas manchas de água embaixo delas. Fiz uma careta e puxei minha mochila em uma das poltronas e procurei por um conjunto de lingerie, vestindo-o rapidamente. Tirei a toalha do meu cabelo e a coloquei nas costas, procurando pela minha escova de cabelo e passando delicadamente nos cabelos, tirando os possíveis nós e guardei de volta na mochila. Peguei meu vestido preto básico de alças largas até o joelho e o vesti, ajeitando a alça do sutiã embaixo do mesmo.
Andei pelo quarto, pegando as peças de roupas jogadas no chão e notei que elas estavam quase secas. Nessa hora, apareceu na porta do banheiro, com minha toalha roxa de florzinhas enrolada na cintura e eu abri um sorriso, tentando segurar a risada.
- Ri mesmo, dona ! - Ele comentou, saindo do banheiro e entrando no closet.
- Não fiz nada! - Comentei, soltando uma risada e parando na porta de seu closet, o vendo vestir uma boxer cinza e pegar a primeira calça jeans que ele viu, vestindo-a também.
- O que é isso na sua mão? - Ele perguntou voltando para perto de mim, quando peguei a toalha em sua mão.
- Nossas roupas de ontem, que molharam todo o carpete. - Comentei e ele deu de ombros.
- Seca! - Ele passou desodorante.
- E fica um cheiro de cachorro molhado delicioso! - Falei irônica, e o vi pegar o frasco preto e verde, do perfume que ele era garoto propaganda, e espirrar um pouco em seu corpo. Me virei para o quarto novamente, colocando tudo na cama.
Dobrei as peças de roupa, separando as minhas das dele, e pendurei as duas toalhas no banheiro e voltei para o quarto, encontrando-o vestindo uma camisa branca e depois começou a calçar as meias, para colocar suas botinas bege.
Fechei minha mochila novamente, me certificando que a única coisa que ficaria em L.A. seria minha toalha e imaginei se faltaria alguma coisa. Check! Andei até a poltrona e me sentei, calçando meus peep toe preto e levantando novamente, fez o mesmo.
- Temos um tempo ainda, quer comer alguma coisa? - Afirmei com a cabeça.
- Sim, por favor! - Ele estendeu a mão para mim e a segurei, saindo do quarto logo atrás dele.
Me sentei em um dos bancos próximo à bancada, enquanto preparava um café e lanches para a gente. Apoiei os braços na bancada e a cabeça sobre os braços, soltando um suspiro baixo, só ouvindo os barulhos que fazia do outro lado da bancada.
- Alguém está cansada. - Ele comentou, apoiando um prato ao meu lado e eu ergui o rosto, dando um sorriso de lado.
- Desculpa, alguém me ocupou até tarde ontem! - Comentei e ele abriu um sorriso, pegando duas xícaras nos armários.
- Café? Ou prefere leite? - Puxei uma xícara para perto.
- Vai café hoje! - E ele serviu o líquido preto para mim.
- Pronta para ir para a Coréia do Sul? - Arregalei os olhos e suspirei.
- Tenho que estar. - Ele riu e deu a volta na bancada, sentando ao meu lado e pegando seu sanduíche.
- Vamos fazer isso! - Soltei uma risada e o vi morder o sanduíche quente e eu o imitei.

Larry, o outro segurança de apareceu logo que eu terminei de lavar o último prato, anunciando que o carro que nos levaria para o aeroporto havia chegado. Fui rapidamente até o quarto dele e peguei minha mochila, colocando-a nas costas, e minha bolsa, mantendo-a pendurada em meu antebraço.
- Pode ir, já vou! – Ele falou e entrou em seu closet.
Acompanhei Larry para fora da casa e assim que coloquei o pé na rua, pude notar algo que eu não tinha notado antes, mesmo sendo um bairro residencial, alguns paparazzis tinham certa liberdade nas ruas, como eu não era ninguém importante, ou pelo menos não aparentava ser, já que parecia profissional, eles simplesmente me ignoraram.
- Bom dia, Jason! – Falei para a motorista que eu já conhecia.
- Bom dia, senhorita , tudo certo? – Afirmei com a cabeça e entreguei minha mochila para ele, que a colocou no porta malas.
- Tudo certo! – Ele sorriu e olhei para a porta, vendo passar pelos portões da sua casa, arrastando uma pequena mala de viagem, com uma bolsa menor apoiada em cima. Agora ele havia colocado um óculos escuro no rosto e os paparazzis começaram a trabalhar. Ignorei o fato e entrei no carro, ao lado do motorista.
- Bom dia, senhor , tudo bem? – Ouvi Jason falar e apoiei minha cabeça no encosto do banco, ignorando as conversas paralelas, logo Jason fechou o porta-malas, sentou ao meu lado, atrás de mim, e estávamos a caminho do LAX.
Percorremos o caminho em silêncio. Chegando ao aeroporto foi uma zona um pouco menos organizada do que quando saímos de sua casa. Assim que notaram que estava dentro de um carro, os flashes começaram, eu respirei fundo e saí antes do carro, para fazer o trabalho de uma assessora consciente e contei até dez, tentando manter a calma, fui rapidamente para o porta-malas, pegando minha bagagem e acenei para Jason pelo retrovisor, que retribuiu.
- Te encontro lá dentro. – Comentei rapidamente para que acenou com a cabeça enquanto pegava suas malas.
Tracei uma linha reta para dentro do LAX e entrei no mesmo, sentindo um ou dois flashes em meu rosto, o que foi rapidamente ignorado em detrimento de quem vinha atrás e segui em direção ao guichê da companhia. Entreguei meu passaporte para a atendente, junto de meus documentos, e ela digitou rapidamente em seu computador, retirando minha passagem e despachando minha bagagem. Ela entregou todos os meus documentos de volta e eu juntei tudo, dando espaço para o próximo passageiro.
Passei por na fila do guichê que deu um sorriso um tanto quanto pervertido para mim. Balancei a cabeça e passei pelas portas do salão de embarque de voos internacionais. Ele não estava cheio, o que era comum, poucos voos internacionais saiam às 10 da manhã, então, pude procurar calmamente o portão e me sentar, esticar as pernas na poltrona da frente e, pegar meu celular rapidamente, enviando uma mensagem para minha mãe que respondeu com o usual ‘Boa viagem, se cuida, beijos’, sorri o e guardei em minha bolsa.
Abri os olhos quando chamaram pelo nosso voo e não estava ao meu lado, nem perto de mim. Ele apareceu meio apressado, sem nada nas mãos, e eu franzi a testa.
- Onde você estava? – Perguntei um tanto quanto rude.
- Algumas fãs me pararam, me desculpa. – Revirei os olhos e ajeitei a bolsa em meu ombro.
Entramos no avião e seguimos para a primeira classe, finalmente, foi meu pensamento e eu ri comigo mesma. Nossas poltronas eram na última fileira, as duas do meio do avião. Eu guardei minha bolsa no pequeno armário embaixo da poltrona e sentei, sentindo sua maciez, eu acho que ficaria bem confortável ali durante as 13 horas e meia de voo.
- Tá tudo certo? – Ele perguntou, guardando seus pertences no armário embaixo de sua poltrona.
- Tá sim, só nervosismo da viagem. – Ele confirmou com a cabeça.
Antes que a aeromoça pudesse começar as instruções de segurança, eu já havia afivelado meu cinto fortemente e pedido água para uma das comissárias para que eu pudesse tomar meu calmamente. Como sempre, só observava meus movimentos e eu tentava ignorar isso. Peguei a cartela de calmante em minha bolsa, e destaquei logo dois em minha mão e tomei um grande gole de água, tentando manter a respiração compassada.
Eu mexia minhas mãos na garrafa d’água, fazendo algum barulho de vez em quando, sendo um tanto quanto irritante, provavelmente estava atrapalhando outras pessoas, mas eu realmente não ligava para elas naquele momento. Encostei minhas costas inteiras na poltrona, apoiei minhas mãos nos encostos de braço e fechei os olhos. A mão quente de surgiu em cima da minha, em um aperto de apoio, e suspirei. Abri meus olhos novamente e olhei para o lado, ele se mantinha do mesmo jeito que eu, mas com um sorriso leve nos lábios. Tentei retribuir, mas deve ter ficado ridículo pelo meu nervosismo, voltei meu rosto para frente e suspirei.
- Você sabe por que eu odeio voar? – Ouvi minha voz saindo e senti meu corpo relaxar. Eu estava contando isso para alguém.
- Não. – Ele falou em um tom de voz baixo e pela visão periférica, notei que ele me olhava.
- Eu perdi meu pai quando eu era pequena, tinha somente sete anos. – Falei baixo, sentindo minha voz embargar. – Ele era piloto civil. – Fechei meus olhos. – Era uma viagem de testes, uma coisa boba. – Puxei o ar fortemente. – Morreu todos que estavam a bordo. Depois disso, eu simplesmente não consigo deixar de imaginar que algo ruim pode acontecer enquanto eu estiver em um avião. – Pressionei meus lábios uns no outro. – Mas nada acontece duas vezes da mesma maneira, não é?! Deus não me levaria da mesma maneira que levou meu pai, certo?! – Senti meus olhos se encherem de lágrimas e eu puxei o ar fortemente. – Ou talvez sim, é meio egocêntrico pensar dessa maneira, não?! – Fechei meus olhos fortemente e senti as lágrimas rolar pela minha bochecha. – Talvez pensar assim seja um jeito Dele realmente me levar do mesmo jeito. – apertou minha mão fortemente e sua outra tocou meu rosto, me fazendo o virar para ele e abrir os olhos, com a visão meio embaçada.
- Eu não sabia! – Ele comentou. – Você nunca disse nada. – Dei um sorriso fraco e soltei o ar fortemente sentindo minhas narinas entupirem, dificultando a respiração.
- A gente não tinha essa intimidade antes. – Falei baixo e ele abriu um sorriso, acariciando minha bochecha.
- Eu sinto muito, ! – Ele encostou meu rosto no seu e eu suspirei, fechando os olhos.
- Tá tudo bem! – Comentei, respirando devagar.
- Você pode contar comigo para tudo, qualquer coisa que te atormentar, qualquer coisa. – Ele falou baixo próximo ao meu ouvido. – Eu sempre estarei aqui! – Um beijo estalou em minha testa e eu abri um sorriso.
Uma aeromoça surgiu com mais uma garrafa d’água e um pacote de lenços, eu agradeci somente com um movimento de cabeça e ela se afastou. retirou um lenço do pacote e passou levemente pela minha bochecha, e depois me entregou o mesmo, com o qual eu sequei as lágrimas e me contive para assuar o nariz, isso não se faz na frente de namorados. Bebi alguns goles de água e apoiei a garrafa no braço da poltrona.
O capitão deu as boas vindas ao voo de Los Angeles a Seul na Coréia do Sul, agradeceu por termos escolhido aquela companhia aérea e disse também o tempo de voo e temperatura dos dois locais. Sua voz ficou de um jeito diferente, pedindo para todos os comissários tomarem seu lugar pelo rádio e logo eles sumiram, agarrei minhas mãos na poltrona.
- Aeronave pronta para partir. – Fechei meus olhos e pude ouvir o som das turbinas aumentarem em meu ouvido e me assustei quando soltou uma de minhas mãos da poltrona e a agarrou, abri um sorriso nervoso para ele.
Eu não sei a força que eu usava para tentar tirar meu medo do corpo e mandá-lo para longe, mas espero, honestamente, que eu não estivesse machucando . Eu sabia que os nós dos meus dedos ficavam brancos, a ponta vermelha e as lágrimas caíam pelas minhas bochechas sem permissão, mas eu nunca tive ninguém segurando minha mão nesse momento. Bem, eu nunca tinha deixado ninguém segurar minha mão, minha irmã já tentara, minha mãe também e eu sempre soube que ia machucá-las.
O avião tirou as rodas do solo e aquela sensação de vertigem passou por mim rapidamente, fechei os olhos novamente, tentando me manter em um local plano, o que eu com certeza não estava. Quando o avião nivelou e o capitão liberou para que as pessoas andassem pela aeronave, eu soltei a mão de e também a poltrona ao meu lado.
- Tá tudo bem! – Ele comentou e eu olhei para seu rosto, abrindo um largo sorriso, se eu pudesse, o beijava naquele momento, mas era melhor não tentar a sorte. Peguei a mão de que segurou a minha e vi algumas marcas fundas e finas, das minhas unhas.
- Me desculpa! – Comentei, fazendo uma careta.
- Tá tudo bem! – Ele riu e eu o acompanhei, notando meu rosto começar a secar devido às lágrimas.
- Acho que eu preciso ir ao banheiro. – Comentei e ele afirmou com a cabeça. – Porque definitivamente eu vou dormir em breve, esses calmantes dão sono.
- Tem perigo de você dormir ou desmaiar entre essa ida e volta no banheiro? – Ri fracamente.
- Espero que não. – Comentei, o fazendo rir.

Fui ao banheiro rapidamente e, quando voltei, procurava alguma coisa de útil para assistir na televisão. Me sentei ao seu lado novamente e assim que coloquei as mãos nas laterais da poltrona ele a segurou novamente, sem falar nada. Inclinei um pouco a poltrona para trás e larguei meus saltos no chão, puxando os pés para cima. me copiou, para ficar exatamente da mesma maneira.
Ele acabou optando por algum filme de ação com bastantes explosões, até me ofereceu o fone de ouvido, o que eu simplesmente neguei com a cabeça, encostando-a em seu ombro e fechei os olhos.
Quando abri os olhos novamente, o avião estava escuro e lá fora já era noite, não sabia que dia era, ou em que fuso estávamos, mas eu suspirei. dormia meio desajeitado ao meu lado, seu rosto estava virado para o meu, mas o corpo para outro lado, soltei uma risada fraca com isso. Fiquei em silêncio um pouco, somente olhando para o rosto de , com os fones ainda colocados em sua orelha, mas a televisão estava desligada. Ergui uma mão e passei pelos seus cabelos, jogando os poucos fios para trás e desci a mão pela sua bochecha, acariciando-o levemente. Um suspiro acabou escapando.
Virei meu corpo para frente, tentando mudar de posição um pouco e fechei os olhos novamente, me espreguiçando na poltrona. se mexeu ao meu lado e eu o olhei novamente, agora seus olhos estavam abertos e o mesmo sorriso de quando ele acordou em casa naquele dia estava estampado em seu rosto, junto dos olhos pequenos, de quem acabou de acordar. Sem dizer nada, ele passou um braço pelo meu corpo, encostando em minha barriga e eu suspirei. Quer saber? Foda-se, não seria eu quem ficaria escondendo uma coisa boa. Aproximei meu rosto do seu e encostei meus lábios nos dele levemente, vendo um sorriso de formar. Retribui o sorriso e ele fechou os olhos novamente, fazendo um carinho gostoso em minha barriga. Senti a preguiça vencer e fechei os olhos também.
A próxima vez que os abri, já estávamos em solo coreano, era dia e o sol entrava fortemente pelas janelas da aeronave. estava acordado em meu lado, seus olhos focados em algum programa de TV coreano e, em sua mão, um sanduíche, o que me fez notar que eu estava morrendo de fome.
- Você precisa se arrumar, vamos chegar em cima da hora! - Comentei e ele concordou com a cabeça, tentando terminar o lanche o mais rápido possível. - Se quiser deixar um pedaço para mim, não me importo! - Comentei e ele riu, chamando a aeromoça com a mão.
- Ela quer o mesmo que eu. - E ele virou para mim. - Algo para beber?
- Água! - Falei para a aeromoça que confirmou com a cabeça.

Se eu achava que o Brasil era um país com fãs loucos, a Coréia do Sul ficava em segundo lugar. Assim que as portas de vidro se abriram e uma pessoa de boné azul passou por elas na minha frente eu quase fiquei surda. Uma massa de fãs coreanos gritavam por . Homens, mulheres, principalmente adolescentes, e algumas mães com crianças menores sacudiam o filho para ver se o “Poseidon” dava alguma atenção a elas. Atenção que eu e nenhum dos seguranças permitimos. Eu arrumei as alças da minha mochila e vi as seis duplas de seguranças se colocarem em forma de um casulo ao nosso redor. Eu simplesmente troquei meus óculos por um escuro e olhei para meus pés, seja a assessora, seja a assessora.
Sentei nos bancos de couro do carro que nos levaria a uma passada rápida ao hotel, já que havia amassado toda sua roupa da coletiva de imprensa e eu simplesmente quis mata-lo por isso. No carro, ele passou seu braço sobre meu corpo e nos mantivemos em silêncio o caminho inteiro, já que minha visão estava mais para as paisagens do novo país que estava visitando, e eu fazia questão de registrar tudo com meu celular, pensando em qual eu colocaria no Instagram, para minha mãe surtar mais tarde, ri com esse pensamento.
Eu me debrucei sobre o balcão do Conrad Hotel, conversando com a atendente em um inglês, que eu posso prometer, estava péssimo. Assim que ela liberou as chaves, joguei a primeira que eu vi em e ele sumiu pelos corredores do hotel, se adiantando ao processo. Recebi meus documentos de volta, agarrei minha chave entre os dedos e segui até o elevador.
- 25º andar. – Falei e cliquei o botão no elevador, o último do prédio. As portas se fecharam automaticamente e aquele conhecido frio na barriga quando o elevador sobe muito rápido bateu, vendo as portas se abrirem novamente. Uma porta, com uma entrada para cartão apareceu na minha frente, olhei para a chave em minhas mãos e a inseri, ouvindo um clique baixo e uma luz verde brilhar entre as portas do elevador, fazendo com que elas se abrissem. – Legal! – Ri e olhei para o apartamento em minha frente.
Eu estava literalmente no paraíso.
Para onde olhasse eu podia ver o céu, onde o sol começava a se pôr. Uma grande sala aberta e espaçosa estava logo à frente com sofás de couro e tapetes persas. Um balcão separava uma cozinha da sala e, mais atrás, uma sacada com pisos em madeira mostrava um bar para o lado de fora, com uma jacuzzi. Se eu não soubesse tudo o que aquela tecnologia estranha fazia, eu poderia jurar que estava no Hawaii e não na Coréia do Sul.
Na lateral direita, um corredor dava para duas portas, cada uma com uma entrada de chave, uma com a letra A e outra com a letra B, encarei a minha letra, “A” e inseri sobre a porta, ouvindo o clique e a mesma luz verde, vinda da letra em metal, e a porta se abriu. Ao que eu abri a porta e entrei, ela automaticamente se fechou atrás de mim. O quarto possuía uma grande cama de casal, com um armário na lateral, uma cabeceira com vários botões tecnológicos e uma poltrona com aparência confortável, na qual joguei minha mochila.
Aproveitei que tínhamos ido para o hotel e renovei o desodorante, o perfume e a maquiagem, e também troquei de roupa, já que havia notado que o tempo estava meio gelado. Coloquei uma calça social preta, uma blusa social branca, ajeitando-a dentro da calça. Calcei meus peep toe novamente e arregacei um pouco as mangas da blusa. Procurei um laço de cabelo e fiz um rabo de cavalo bem alto, abaixando os fiozinhos arrepiados com um pouco de spray. Coloquei o celular no bolso, peguei meu iPad e uma caneta, e saí do quarto, puxando a chave de volta.
Ouvi a porta de bater e olhei para trás, dando de cara com ele encarando meu corpo de cima a baixo.
- Gostosa! – Revirei os olhos e soltei uma risada fraca, dando um tapa de leve em seu ombro.
- Vamos! – Falei e andei em sua frente, voltando para o elevador, ouvindo os pés de bater atrás de mim. Ele havia escolhido uma blusa social azul, calça jeans escura e sapatênis preto para os pés, havia penteado os cabelos para trás e eu podia ver alguns pelos finos crescer em seu queixo.
Assim que a porta do hotel se fechou atrás de mim, encostou seus lábios em minha bochecha, o que fez que eu abrisse um sorriso.
- Você precisa relaxar! – Ele comentou e eu ri.
- Só quando esse dia acabar. – Ele abriu um sorriso safado e eu revirei os olhos. – Não desse jeito. – Falei e passei pelas portas do elevador, vendo um segurança se levantar e se aproximar de nós como escolta.
A coletiva seria no hotel que estávamos, mas na seção de escritórios, que era na parte da frente do hotel. Caminhamos até lá, atravessando as duas faixas de trânsito e entramos no conglomerado da frente dele. Era um prédio mais baixo, mas tão luxuoso quanto. Dessa vez ficamos no térreo, seguindo para uma das salas de coletiva livres, encontrando a porta da coletiva de “À Procura do Amanhã”, a encarou por um tempo e abriu a do lado, o segui com um ponto de interrogação no rosto.
- , mas... – Fechei a boca assim que encontrei uma sala de espera com outros atores do elenco sentados nas poltronas disponíveis, todos acompanhados de seu assessor. Por um segundo, me senti estúpida por não saber que eles não entrariam simplesmente.
foi calorosamente recebido pelos companheiros de elenco, eu fui apresentada a cada um deles rapidamente, quando me dirigi para os outros assessores. Alguns falavam mais, outros menos, mas todos menos comunicativos que eu. Uma mulher coreana apareceu por uma porta ao nosso lado e falou que estavam prontos para começar. Nessa hora cada ator foi para seu assessor e veio perto de mim, se agachando ao meu lado, já que eu estava bem acomodada em uma poltrona.
- Você sabe o que fazer, não?! – Falei e ele soltou uma risada, confirmando com a cabeça. – Eles só vão perguntar sobre o filme mesmo, diga o que você achou, sua experiência com o elenco, blá, blá, blá!
- Fácil assim, não?! – Soltei uma risada fraca, vendo-o se levantar e fiz o mesmo.
- Até parece! – Ele riu e a porta foi aberta novamente, onde os atores começavam a sair. – Eu entro por trás, né?! – Ele confirmou com a cabeça. – Arrase!
Ele abriu um sorriso discreto e, em dois segundos, encostou seus lábios nos meus,, saindo pela porta, me largando na sala sozinha. Peguei minhas coisas na poltrona e saí da sala, entrando pela porta do lado na escura sala com carpetes pretos, um pequeno palco à frente e banners do filme para todos os lados.
A sala estava pilhada de jornalistas, a maioria deles coreano, mas também uns quatro ou cinco internacionais. Eu me sentei em uma cadeira livre, próxima ao corredor, desbloqueei meu iPad, abrindo o bloco de notas, e coloquei o gravador do celular para funcionar.
Essas coletivas não duram mais que uma hora e essa não foi diferente, as perguntas eram passadas de pessoa para pessoa. Perguntas sobre o filme, a produção, atuação, história, enredo, efeitos especiais, figurino. Tudo o que pudesse passar pela boca dos atores, passou!
, como sempre, realmente sabia o que estava fazendo. Eu estava, praticamente, em uma viagem com tudo pago para Coréia do Sul e isso, na minha cabeça, soava muito bem. Eu anotava algumas coisas no bloco de notas, como informações sobre possíveis filmes, projetos e lançamentos que talvez a imprensa pudesse vir atrás de informações depois que a coletiva acabasse.
Várias perguntas passaram pela minha cabeça enquanto outras eram respondidas, perguntas que não havia passado na cabeça de ninguém ali, e que só quem prestasse atenção de fora conseguiria elaborar. Coletivas são ruins por isso, pois se você estiver sozinha com seu bloco e gravador, vários furos são perdidos e você não tem nem noção, mas não seria eu quem daria pauta para a imprensa hoje, então eu anotava a pergunta e ficava na minha.
Ao fim das perguntas e respostas, os fotógrafos pediram por algumas fotos da equipe toda, uma risada aqui, um comentário ali, até que eles estavam se divertindo. Assim que deram por encerrada a coletiva, os vários lugares ocupados esvaziaram, os atores voltaram para a sala ao lado e eu entreguei um cartão de visita para todas as pessoas da imprensa, junto com os outros assessores, me colocando disponível para tirar toda dúvida que pudessem haver sobre o que foi dito e o que não foi dito ali, mas ninguém pareceu muito interessado nisso e logo a sala esvaziou.
Dei de ombros e me levantei, saindo da sala de coletiva, encontrando no corredor, conversando com um de seus companheiros de cena. Assim que ele me viu rapidamente se despediu e seguimos todos para o mesmo caminho pelo que havíamos ido, com o segurança em nossos pés.
- O que achou? – Ele perguntou ao meu lado.
- Eu preciso ver o filme antes para saber do que vocês estavam falando. – Ele soltou uma risada e passou um braço sobre meus ombros, caminhando para fora do complexo empresarial do Conrad Hotel e entrando novamente no hotel.
- Quanto tempo para a première? – Ele perguntou e eu chequei meu relógio.
- Temos umas duas horas e meia, mais ou menos. – Ele suspirou ao meu lado e entramos no elevador.
- Dá tempo de tirar uma soneca! – Abri um sorriso e segurei sua mão que caía ao lado do meu corpo e entrelacei os dedos, vendo-o encaixar o cartão na entrada do quarto e logo ele estava jogado no sofá da sala que antecedia os quartos.

Me levantei do sofá que havia deitado e caminhei até a cozinha, procurando alguma coisa para comer na geladeira. Acabei pegando uma lata de Coca Cola e alguns salgadinhos de uma marca coreana que me pareciam até gostosos. Sentei na bancada e a cada gole do refrigerante era um punhado de salgadinhos que eu colocava na boca. Joguei os pacotes de ambos na lata do lixo poucos minutos depois. Lavei minhas mãos na pia e encarei os pés de saindo do sofá e abri um sorriso.
Caminhei até o sofá novamente e vi que sua cabeça estava um pouco para baixo do encosto e eu ergui a mesma delicadamente e sentei no sofá, passando os dedos pelos fios castanhos de seus cabelos. Ele dormia suspirando, fazendo com que um ronco baixo aparecesse e eu estava tão apaixonada que até nisso eu o achava bonito. Meu celular vibrou no meu bolso e eu ignorei, mas fez com que se mexesse no sofá, virando o rosto para o lado do encosto, abrindo os olhos e sorrindo logo em seguida.
- Ei! – Falei e ele espremeu os olhos, rindo.
- Ei! – Abaixei o rosto e encostei meus lábios nos seus delicadamente.
- Você precisa de um banho e se arrumar, seu terno chegou enquanto estava dormindo. – Ele afirmou com a cabeça, bocejando novamente, um pouco impossibilitado de falar.
- O que achou? – Ele perguntou.
- Legal! – Falei e ele franziu a testa.
Ele mostrou a língua em seguida, passando-a pelos meus lábios novamente e logo meu corpo estava em cima do seu, sentindo fortes apertões em minhas coxas, onde suas mãos estavam espalmadas e meus estavam colados em seu pescoço, dividindo entre mordidas e chupadas.
Uma rápida olhada no relógio fez com que eu me levantasse rapidamente de cima dele, saindo desajeitadamente do sofá, quase caindo por cima da mesa de centro e ele me olhou com uma interrogação no olhar.
- Banho, se arrumar e vamos! – Falei e ele fez uma continência rapidamente e logo se levantou.
- Toma banho comigo? – Ele perguntou sensualmente na porta do seu quarto.
- Hoje não! – Falei firme e entrei no meu quarto, batendo a porta, ouvindo-o reclamar do lado de fora.

Me encarei no espelho com meu vestido preto e um sorriso de formou em meus lábios. Ele possuía uma manga só, com rendas detalhando totalmente o corpete, formando desenhos de flores no busto até a cintura. Dali para baixo a saia tinha um pano firme, mas ao mesmo tempo leve, que caía sobre minhas pernas, até a altura do joelho. Coloquei meus saltos pretos novamente e andei pelo quarto, para saber se aguentaria. Coloquei vários curativos nos meus pés, pois a tarde já tinha deixado algumas bolhas nas laterais e nos calcanhares.
Retoquei meu rímel e passei novamente um gloss nos lábios, pegando meu iPad e saí do quarto. estava jogado no sofá, com o corpo coberto pelo terno que eu havia visto hoje mais cedo, a blusa azul clara por baixo, com o último botão solto, o paletó e a calça social azul escura e nos pés sapatos sociais pretos. Ele abotoou a manga da blusa e eu andei em sua direção, fazendo com que meus saltos ecoassem pelo chão de madeira.
- Eu sei que a Melina vai um pouco mais desleixada, mas, por favor, eu não consigo ir a um evento desses de calça social, camisa e botas. – Falei, já me defendendo, quando ele olhou para mim.
- Você está ótima! – Ele falou com os olhos brilhando para mim.
- Continuo com cara de assessora? – Ele confirmou com a cabeça. – Ótimo! – Falei e ele riu.
- Hora de ir? – Olhei no relógio e confirmei com a boca.
- É! Vamos ver um filme! – Falei ironicamente e ele riu se levantando do sofá.
Aproximei-me dele e segurei o botão de seu paletó e fechei-o, passando a mão sobre seus ombros, alisando o pano macio.
- Obrigado. – Ele falou e eu afirmei com a cabeça sorrindo, seguindo novamente para o lobby do hotel.

No caminho para a première, ficou matutando uma das mãos na minha perna e olhando a paisagem pela qual passávamos. Eu só conseguia repassar os mapas do local, imprensa que estaria presente, contatos de pessoas que poderiam falar comigo e, acredite, não era fácil quando a maioria dos nomes era em coreano, se tudo fosse João ou Maria, seria muito melhor.
A première seria na Times Square da Coréia do Sul, em um dos shoppings, honestamente, eu não tinha a mínima ideia como aquilo rolaria, pelas fotos que eu havia visto do local, era quase uma estação de trem gigante. Às vezes, a falta de experiência pode te pegar e era o que estava acontecendo naquele momento. Na minha cabeça uma luz vermelha e brilhante, junto de um alerta alto começava a apitar, eu fiz o certo em vim?
Enquanto encarava o dia lá fora, abri o WhatsApp e rapidamente enviei uma mensagem para Melina, um grande e capitular SOS e bloqueei o celular novamente, tentando passar algumas técnicas básicas de respiração, o ar ruim sai e o bom entra, esse era meu novo mantra.
O carro parou no tapete vermelho, eu podia ouvir os gritos lá fora, e apertei o celular em minha mão, Melina?! Eu realmente precisava dela naquele momento. , em seu momento relaxado, encostou seus lábios nos meus novamente, eu estendi um marcador permanente para ele e a porta foi aberta, trazendo para dentro a claridade que Seul oferecia. Nesse mesmo momento meu celular vibrou, mostrando uma ligação internacional de Melina.
- Eu já vou! – Falei para quando ele virou para mim novamente, vendo meu celular se iluminar em minha mão.
- Tá tudo certo, ? – Mordi meu lábio inferior.
- Só estou nervosa. Você sabe o que fazer. – Tentei dar meu sorriso mais carinhoso possível, porque a luz que havia acendido em mim estava fazendo com que meu cérebro quisesse explodir. – Não é como se nunca tivesse feito isso.
Ele confirmou com a cabeça e fechou a porta, seguindo em direção ao tapete vermelho. Eu deslizei o botão verde rapidamente e coloquei na orelha.
- Aconteceu alguma coisa? – Ouvi a voz de Melina.
- Eu estou surtando, foi uma péssima ideia eu vir. – Senti o carro se movimentar e andar um pouco mais para frente, para dar espaço aos outros convidados.
- Mas o que foi? Aconteceu alguma coisa?
- Não, está seguindo tudo conforme os planos, mas eu estou, literalmente, surtando, não sei porque, nunca fiz isso antes. – Melina soltou uma risada e um suspiro em seguida.
- Já esperava por isso, sabia? – Ela riu fraco. – , relaxa. Eles não estão aí para você, estão aí para o e só. Você simplesmente acompanha, fica há uma distância de...
- 5 metros, eu sei. Para não sair nas fotos. Mas sei lá...
- Se recomponha, mulher! Você é uma das profissionais mais jovens e uma das melhores que eu conheci nessa profissão. Cultura, cinema, isso é contigo, ok?! Você sabe muito melhor que essas pessoas o que eles estão falando. – Suspirei. – Agora vai lá humilhá-las. – Não me contive e soltei uma gargalhada. – Isso, essa é a que eu gosto, agora me deixa dormir. – E a ligação foi finalizada.
- Obrigada, Melina! – Falei para o telefone e ri. O motorista viu que eu havia terminado e desceu do carro, abrindo a porta para mim, agradeci com a cabeça e segui para o tapete vermelho, mostrando o crachá de imprensa que eu havia pendurado em meu pescoço, tendo a passagem livre para o evento. já havia passado pela sessão de fãs e a atriz morena que estava na coletiva de imprensa dava alguns autógrafos.
Passei reto nessa seção e também por todos os repórteres que entrevistavam outra atriz e o diretor do filme. Eu abaixei a cabeça e passei por trás, próximo ao painel, focando na pessoa que estava à minha frente, posando para algumas fotos. Seu olhar encontrou com o meu e eu dei um sorriso de lado, apoiando meu iPad na mão e até sentindo alguns flashes em meu rosto, eu sei, eu estou bonita nesse vestido.
acenou para os fotógrafos e fez um movimento com a cabeça e eu fechei os olhos por dois segundos, o que ele entendeu que era para ele continuar andando e entrar no evento, para sair da mira dos paparazzi e eu o segui a passos lentos, olhando para os lados, à procura de algo que eu pudesse fazer: nada.
Assim que eu saí do relento e passei por debaixo da marquise, o tapete vermelho continuava, dando em uma sala no térreo, havia parado depois das portas para me esperar, mantive minhas duas mãos coladas no iPad e caminhamos lado a lado até entrar em uma sala de cinema.
- Foi difícil lá fora? – Ri fraco.
- Só estava nervosa, tive um pequeno surto, mas está tudo certo. – Falei e ele confirmou com a cabeça.
- Mesmo? – O empurrei levemente com o ombro.
- Não precisa se preocupar! – Ele concordou com a cabeça, mexendo as mãos dentro do bolso.
- Vamos! – Ele seguiu pelo pequeno corredor da sala e notei que estávamos em uma comum sala de cinema. Ele rapidamente começou a subir os degraus e eu fui atrás, tentando não cair do salto.
havia sido o primeiro ator do elenco a chegar. Então, ele seguiu para a última fileira e se sentou em uma das poltronas vermelhas no meio da sala, que continha seu nome, e apontou para a do lado, onde tinha um ‘mais 1’ escrito, o qual eu me sentei rapidamente.
Os próximos minutos foram mais agitados. Os atores chegavam, conversavam sobre o filme, ria e eu ficava ao lado, participando da conversa, rindo junto e tudo mais. Assim que deu oito horas na Coréia do Sul, a tela do cinema se iluminou com o logo do filme e todos seguiram para seus lugares, até a imprensa que ficava nos degraus mais abaixo rapidamente se acomodou, com seus bloquinhos em mãos. Eu estava despreocupada, não era como se eu precisasse fazer uma reportagem sobre, então, eu simplesmente apoiei minhas costas no encosto, coloquei o iPad no colo, os braços na lateral da poltrona e relaxei. Só faltava a pipoca.
As luzes foram apagadas e o filme começou a rodar. relaxou ao meu lado, já sabendo o que o esperava, levantou uma mão e a colocou sobre a minha, entrelaçando nossos dedos. Um sorriso com certeza não passou despercebido por ele, mas não me virei para descobrir se ele estava me olhando.
OH MEU DEUS! Essa é a única reação que eu posso ter desse filme inteiro, sem brincadeiras, eu acho que esse é um dos melhores filmes do e se não for um dos melhores a sua atuação com certeza é. Nem parecia que o filme se passava em um trem, com a diversidade de cenários que eles usavam e a grandiosidade do elenco.
soltava risadas fracas ao meu lado a cada cena que eu me empolgava, já que eu, literalmente, apertava a mão dele e pulava. Era assim que eu demonstrava minha empolgação ou nervosismo. Teve uma cena em que eu tive certeza que esse filme, se for bem divulgado, terá muito futuro, principalmente se deixassem a aparência de Poseidon do de lado, mostrando seu lado dramático. A emoção simplesmente pega a gente e, por mais que o ator estivesse ao meu lado, a gente quase acreditava que era real.
Quando os créditos do filme subiram, a reação que eu tive foi a mesma da sala de cinema lotada: levantar e aplaudir aquele filme incrível. Eu estava pouco me lixando se o elenco estava ao meu redor, se o diretor e estrela do filme estavam ao meu lado, eu só precisava mostrar, de algum jeito, que o filme estava magnífico.
se levantou, com um sorriso nervoso no rosto, e eu passei meus braços pelo seu pescoço, abraçando-o fortemente.
- Está incrível, ! – Falei, com uma risada em meus lábios. – Perfeito! Você foi incrível!
- Obrigado! – Ele riu, apertando os braços em meu corpo e logo o soltei, cumprimentando também o diretor do filme que estava ao meu lado. Falei exatamente as mesmas palavras que falei para , vendo um largo sorriso se formar nos lábios dele também.
- Vamos, ? – O diretor falou e eu voltei a me sentar na cadeira, ligando meu iPad, já que agora rolaria um rápido perguntas e respostas da imprensa e de alguns fãs que tiveram o direito de assistir a estreia.
Não me dei ao trabalho de ligar o gravador. Da distância que eu estava, com certeza não pegaria, mas abri o bloco de notas, escrevendo “Pós-filme” e fazendo o mesmo da coletiva, a cada pergunta ou discurso que passava por eu anotava, e anotava além de sua resposta, por precaução.
, como sempre, fazendo piadas e brincadeiras com as perguntas dos fãs, se mostrando descontraído, mas quando a pergunta era da imprensa, o lado da brincadeira sumia e surgia o lado sério. Era incrível como ele saía de um personagem e ia para outro, ok, piadinha infame.
As perguntas logo acabaram e a imprensa começou a se retirar, mas permaneci lá em cima, pois agora os fãs, tirariam fotos e tudo mais, aproveitariam o momento com o ídolo. era o mais assediado e, tenho que admitir que achava até engraçado, por mais que uma pontinha minha ficasse com ciúmes de ver várias pessoas abraçando e beijando ele, mas eu tinha que aprender a lidar com isso, era parte do trabalho, parte da fama. Suspirei e bloqueei o iPad, me levantando, e me despedi dos assessores que começavam a se dissipar. Profissionalmente trocamos contatos, mas pessoalmente as chances de nos encontrarmos de novo seriam poucas, então, foi por questão de educação.
tirava foto com um casal quando eu pisei no último degrau que dava para o palco e parei ao seu lado, vendo os flashes piscarem.
- Oi, licença! – Uma menina coreana de uns 20 anos me cutucou. – Você é a nova assessora do ?
- Oi, sou sim. ! – Estendi minha mão e ela apertou, abrindo um largo sorriso.
- A Melina Parks ainda continua? – Ri fraco.
- Continua, eu trabalho na equipe dela, ela precisava de umas férias. – Foi a vez da menina rir.
- É que eu tenho um fã-site coreano do e a gente queria algum tipo de parceria, para ficar por dentro das notícias, como saber de algum evento quando ele vier. Eu só estou aqui porque meu pai é jornalista, mas ele nem cobre cultura, foi bem sorte mesmo, eu meio que insisti para vir. Vocês tem algo parecido assim?
- Claro que sim. – Afirmei. Isso foi uma mentira, mas agora teríamos. – Faz o seguinte, eu vou te passar meu e-mail e você me manda todas as informações do seu fã-site, link, quanto tempo foi criado, número de visitas, quais notícias que vocês tem preferência, vídeos, fotos, etc. E aí eu converso com a equipe sobre o tipo de parceria podemos fazer, o que acha?
- Acho ótimo! – Ela riu e eu tirei um cartão de visita da capa do iPad e entreguei a ela. – Eu posso demorar a responder, mas de uma semana não passa e, independente da resposta, você terá uma, ok?!
- Ok! – Ela deu dois pulinhos, feliz. – Isso é muito mais do que eu esperava, mesmo! – Abri um sorriso. – Eu entrarei em contato contigo... ?! – Ela olhou no cartão e eu confirmei com a cabeça.
- Sou brasileira! – Ela abriu um sorriso e riu.
- Que legal! – Ela foi saindo. – Obrigada, mandarei o e-mail hoje mesmo.
- Vou esperar. – E ela desceu das escadas correndo, indo de encontro a um homem mais velho que deveria ser seu pai.
- Fazendo amigos? – perguntou nas minhas costas.
- Trabalhando. – Falei, fazendo uma pose de orgulho e ele riu. – Para onde agora? Algum cocktail?
- Não, para o hotel, pedir uma pizza gigante e descansar.
- Pizza? Eu estou na Coreia, quero comida coreana! – Falei descendo as escadas do palco e ele riu atrás de mim.

A vista do Conrad Hotel dava para o Rio Han, o rio que cortava Seul de uma ponta à outra. Enquanto estava jogado no sofá, pedindo nossa comida, eu me debrucei sobre o vidro da sacada, e aproveitava um pouco da minha curta viagem a um país diferente.
Meu celular já devia estar cheio de fotos daquela mesma paisagem, mas eu precisava postar alguma coisa. E foi o que eu fiz, quando abri meu Instagram.
"Sabia que esse trabalho me levaria longe, mas não tanto ¨SouthKorea #Seul ". Digitei e postei a foto na minha rede social e fui para a página de aprovação de seguidores, pelo menos umas 60 pessoas estavam pedindo para me seguir. Depois daquela primeira foto que eu havia postado com o , praticamente assumindo para o mundo todo que eu era assessora dele e, como eu deixava as pessoas me seguirem, recebia novos seguidores quase diariamente, chegando a quase três mil.
- Vamos deixar claro que yakissoba não é comida coreana, ok?! - falou passando pela porta da sacada e eu soltei uma risada, apoiando o celular no balcão de um bar que tinha ao lado.
- Eu sei, mas honestamente eu olhei o cardápio e fiquei perdida, aí eu fui no básico. - Falei e dei de ombros.
- Yakissoba, rolinho primavera e batata frita?
- Estou no básico, não?! - Ri e virei de volta para a vista, fazendo meus cabelos molhados baterem nas minhas costas. - E nem vem, tenho certeza que você pediu alguma carne do tamanho da sua cabeça e muita cerveja para acompanhar.
- Ah lá, acha que me conhece! - Ele falou irônico e passou os braços pela minha barriga, encostando seu peitoral em minhas costas.
- E não? - Ele riu e apoiou o queixo em meu ombro.
- Você tem razão. - Ele falou com o tom de voz baixo e eu gargalhei.
- Sabe, eu nunca pensei que eu viria para a Coréia, tem tantos país que eu quero conhecer, cidades, mas Coréia do Sul, realmente não estava na lista.
- Que lugares você quer conhecer? - Soltei minhas mãos da beirada da sacada e coloquei por cima das dele.
- Itália. - Comentei.
- Roma?
- Não, Veneza.
- Interessante! - Soltei uma risada fraca e virei meu rosto, sentindo meu nariz tocar em sua bochecha. - Acho que nunca fui para Veneza! - Soltei uma risada e virei meu corpo para o seu, passando meus braços pelo seu pescoço.
- Um dia vamos juntos. - Falei e ele confirmou com a cabeça, aproximando seu rosto do meu.
Uma campainha nos distraiu, fazendo com que ele fizesse uma careta e eu ri, abaixando minhas mãos e o vi se virar para a sala novamente. Peguei meu celular na mesa e entrei, fechando a porta de vidro atrás de mim e pude ver um mordomo empurrando um carrinho e saindo do quarto, não antes de depositar uma gorjeta em sua mão.
empurrou o carrinho até ficar ao lado da mesa redonda, de tampo de vidro e quatro poltronas de couro, e abriu a tampa da bandeja, revelando nossos pedidos. Um yakissoba completo, um prato com rolinhos primavera, uma porção bem generosa de batatas fritas, o bife gigante de e um prato com um risoto de frutos do mar, tudo em pratos separados.
- Bife e frutos do mar, sério?! – Falei ele deu risada, mostrando a língua do jeito mais infantil e sexy que eu conhecia.
- O risoto é bom, mas falta uma carne vermelha aí no meio.
- Já pensou em pedir algum que venha, sei lá, bacon? – Falei olhando para ele.
- Ah, xi!
- Você é uma incógnita, ! – Falei e me sentei em uma das poltronas, enquanto ele tirava os pratos do carrinho e os colocava na mesa. Ele abaixou e pegou também o balde de gelo com uma garrafa de champanhe na mesma.
- Vamos celebrar alguma coisa? – Perguntei, separando os hashi, vulgo pauzinhos, em dois.
- Talvez! – Ele apoiou a garrafa na mesa e tirou o lacre, até que ele estivesse livre e pudesse se livrar da rolha, em um estouro.
- Isso é Dom Perignon? - afirmou com a cabeça. – Você tem ideia do quanto custa essa garrafa? – O vi rindo e me dei conta de algo. – Bem, minha viagem e meu salário estão vindo do seu pagamento para a ACCESS, então...
- Engraçadinha!
- Não, falando sério agora! – Ele se sentou na cadeira à minha frente. – Se a gente for ver, você é meu chefe. A ACCESS oferece um serviço a você, você contratou nossos serviços, então você é meu chefe, pelo menos o chefe econômico da ACCESS, um dos...
- Chefe? – O vi tirar duas taças do carrinho e colocar na mesa. – Eu consigo ter uns ótimos fetiches com isso, sabia? – Juntei os hashis na minha mão e gargalhei.
- Pelo menos não sou a única! – Abri um sorriso de lado e voltei a atenção para minha comida.
- Interessante, !
- Fica quieto e come! – Falei e ele me imitou, encarando seus pedidos e também beliscando alguns pedaços da minha batata frita enquanto comia.
O resto da refeição ocorreu em silêncio, porque eu estava A) com fome, não comia desde o avião e B) fazia muito tempo que eu não comia um yakissoba e isso estava uma delícia, já , porque... Bem, provavelmente a alternativa A também.
Juntei os hashis para o lado no prato e peguei um guardanapo, largando os modos de lado e pegando o rolinho com a mão mesmo, vendo me encarar.
- Que foi? A gente está se pegando há um bom tempo para eu ficar de frescuras, não acha?!
- Você tem um ponto.
- Eu sempre tenho. – Falei e pude ver movimentando os lábios juntos, me imitando. – Sem graça!
- Ok, você tem vários pontos e hoje você me deu dois! Só hoje!
- Só hoje? Você me conhece desde abril. – Ele movimentou os ombros. – Deveria ter aprendido mais coisas.
- , quieta! Estou tentando ser romântico. – Franzi a testa e o encarei, apoiando o rolinho novamente no prato.
- Por quê?
- Porque, primeiro, realmente você me conhece muito bem, não só o lado pessoal, mas também sabe muito sobre mim, sobre o ator, isso é incrível, conhecer alguém que realmente admira meu trabalho. – Abri um sorriso de lado, sentindo minhas bochechas queimarem. – E também como , você sabe pequenos detalhes da minha vida, meus gostos, meus desgostos, qualquer coisa. – Ponderei a cabeça para os lados, mantendo o sorriso no rosto. – E realmente, já tivemos muitas refeições e encontros para ficarmos preocupados se tem algo no dente ou se estamos suando de nervosismo. Não tenho mais nervosismo... Bem, tanto nervosismo em te encontrar, eu simplesmente quero estar contigo. – O encarei, mordendo meu lábio inferior. – O que eu quero dizer é que acho que está na hora de levar isso para outro nível.
- O que você quer dizer, ? – Falei baixo.
- Quando você conhece uma pessoa, sabe se ela vai mudar sua vida ou não. Você eu sabia que mudaria, mas não desse jeito, quando eu notei, já estava apaixonado por você. E depois, amando você. – Ele se levantou e segurou minhas mãos, me fazendo levantar também. – Ironicamente, você não virou minha vida de cabeça para baixo, você a organizou, a completou.
- Você vai chegar a algum lugar com isso? – Falei e o vi rir.
- Não dá para ser romântico contigo?
- Romântico sim, devagar não. Sou curiosa, fala! – Ele riu e segurou meu rosto com as duas mãos.
- Eu quero que você seja oficialmente minha namorada, mesmo, com direito a você mudar status de relacionamento do Facebook e tudo mais. – Soltei uma gargalhada e encostei meus lábios nos dele, pressionando-os fortemente e logo nos separei.
- Se isso for uma pergunta, eu com certeza quero namorar você! – Ele passou os braços pela minha cintura e eu em seu pescoço, em um abraço forte. – E eu nunca mudei meu status de relacionamento do Facebook! – O ouvi rir próximo a minha orelha. – Eu te amo, !
- Eu te amo, ! – Ele repetiu e eu sorri, me sentindo em casa nos seus braços. Aqueles braços. – Podemos celebrar agora?
- Acho que sim! – Passei a mão de seu pescoço para seu peito, abaixando-as até que estivessem ao lado do meu corpo novamente.
pegou as duas taças e serviu o líquido meio esbranquiçado, ele me entregou uma e ergueu a dele, repeti o movimento.
- A nós? – Ele perguntou e eu ri, abrindo um largo sorriso.
- A nós e a nossa felicidade. – Falei e tocamos nossas taças em um tilintar e cada um bebeu um gole.
passou um braço pelas minhas costas, segurando em minha cintura e eu apoiei minha cabeça em seu ombro, descolando somente para dar curtos goles no líquido. Nunca fui muito fã de champanhe, mas esse era incrível.
Terminamos de comer a batata frita enquanto assistíamos algum filme que passava na TV a cabo, não que estivéssemos prestando atenção, suas mãos passeavam pela minha perna e a outra só não se movimentava, pois estava ocupada levando a batata até sua boca, como eu fazia. Eu havia encostado meu rosto em seu braço e olhava de vez em quando para o filme e de vez em quando para sua mão em minha coxa. Realmente não tinha nada mais lá, nada mesmo, éramos somente nós na madrugada escura de Seul, comendo batatas fritas e bebendo Dom Perignon como namorados.
Namorados. Eu e ele. É, soa bem.



Capítulo 6

(Você tem aquele brilho nos olhos como se ninguém soubesse sobre nós. Caso essa seja a última coisa que eu veja, eu quero que saiba que é suficiente para mim, porque tudo que você é, é tudo que eu sempre precisarei. - Ed Sheeran, Tenerife Sea)

Virei meu corpo na cama king size do Four Seasons Hotel em Nova York e senti que nada impediu que eu o virasse. Abri um olho, vendo alguns raios de sol entrando pelo blackout levemente aberto, soltei um suspiro e puxei a coberta mais para cima, cobrindo até o pescoço.
Ao fundo, podia ouvir alguns sons ambientes, o barulho do ar condicionado ligado no máximo, os dedos de batendo fortemente contra o teclado do notebook e sua voz apressada em português com alguém no telefone, pelo menos parecia português, porque tenho uma vaga lembrança de ela ter dito que não sabia espanhol. O som foi ficando mais baixo até que ela ficou quieta novamente e voltou a bater rapidamente nas teclas, resmungando algumas coisas.
Ergui meu corpo e esfreguei meu rosto com as mãos. Sentei na cama e olhei para frente, encontrando de costas para mim com uma regata branca e um short jeans curto, debruçada, olhando alguma coisa em seu notebook. Uma perna estava dobrada embaixo do seu corpo e outra apoiada na cadeira ao seu lado. Os cabelos estavam presos em um coque mal feito, já que vários fios longos caíam pelo seu pescoço. Seu corpo estava inclinado para frente e, de vez em quando ela digitava e apoiava as mãos aos lados da mesa, lendo alguma coisa.
Joguei o lençol para o lado e me levantei da cama, escorregando meu corpo para fora. Ajeitei a barra da calça de moletom e andei pelo quarto espaçoso, do 45º andar do hotel. Peguei uma torrada na mesa em que seu notebook estava apoiado e sentei ao seu lado, tirando sua perna da cadeira e a esticando em meu colo, quando sentei no lugar. Ela desviou os olhos da tela rapidamente e se debruçou sobre mim, dando um rápido e estalado beijo em minha bochecha e voltou sua atenção à tela.
Me servi com um pouco de café, algumas torradas e ovo mexido. digitava um texto que passava de duas páginas no documento e mudava, com as teclas, de uma tela para outra, na qual seu e-mail estava aberto e logo voltava para o documento, digitando algumas informações rápidas, fazendo todos os movimentos com os dedos. Ela finalizou o texto como "ACCESS - Assessoria de Imprensa" salvou-o rapidamente, enviou para uma aba em que pude ler o e-mail de Melina e fechou o notebook em um forte baque, me fazendo pular de susto.
- Bom dia? - Falei virando para ela.
- O dia não começou muito bom não, mas você não tem culpa de nada, então, bom dia! - Ela falou e jogou o notebook na outra poltrona livre e abaixou a perna do meu colo, pegando sua xícara de leite e bebeu um longo gole. - Já até esfriou. – Ela fez uma careta.
- O que aconteceu?
- Ah, um ator está largando a ACCESS, então temos que lançar um release para a imprensa falando isso, é basicamente um aviso para "não nos mandem perguntas dele", e aí a Melina está com virose, foi para o hospital. O irmão dela quem ligou, nem sabia que ela tinha irmão, enfim, ela pediu para eu escrever isso, Derek tá me mandando todas as informações que tem sobre, desde que ele entrou, até sua saída, porque ele também está lotado de coisas para fazer, uma crise com alguma atriz, ou sei lá. - Ela respirou, pegou uma torrada e passou manteiga na mesma e deu uma grande mordida. - Aí eu tive que selecionar tudo e escrever esse release de um cliente que nem é meu. - Ela engoliu a comida. – E para ajudar, minha mãe me ligou para falar sobre nosso relacionamento, meu e seu, não meu e dela. Faz quase dois anos que eu estou aqui. Ela não entende que essa é minha casa agora? - Ela suspirou e se apoiou na poltrona. - E não são nem dez da manhã ainda. - Ela se serviu um pouco de café e virou a caneca quase em um gole, me fazendo arregalar os olhos. – Ah, e para ajudar, suas reuniões acabaram e eu volto para Boston hoje à noite.
- Calma, respira! - Falei passando a mão em sua cabeça e com a outra arranquei a caneca da sua mão, ela fechou os olhos por um minuto e encostou a cabeça em meu ombro, soltando um suspiro alto. - Quer falar sobre isso?
respirou, ficou quieta por alguns segundos e logo ergueu sua cabeça, levantando o corpo da cadeira, andando até o meio do quarto e parando em frente à cama.
- Desde que eu cogitei a ideia de fazer o concurso para ter a chance de vir fazer minha pós-graduação em Boston, minha mãe sempre falava para eu tentar não me envolver com outra pessoa, porque quando eu voltasse para o Brasil, poderia ter sentimentos, situações não resolvidas e talvez até um filho. – Ela suspirou erguendo as mãos na cabeça. – Ah, nessa parte ela sempre surtava. “Imagina se você tiver um filho? Você sabe o quão diferente são as leis? Você vai querer perder seu filho para aquele país?” – Ela suspirou e olhou para mim, dando uma risada fraca. – Ela sempre dizia isso e disse de novo recentemente, quando eu disse que tínhamos algo, antes disso eu acho que não tinha mencionado que estávamos tendo algo, acho que por não saber o que rolaria no dia seguinte. – Ela caminhou em minha direção e passei um braço pela sua cintura, trazendo-a para perto de mim. – Mas aqui é minha casa, não? Boston! – Ela abriu um sorriso e sentou em meu colo, com as pernas de lado. – Eu estou feliz aqui. – Ela suspirou. – Sim, ela pode ter razão sobre tudo, mas se eu pensar sempre no futuro, eu nunca terei o presente, certo? – Ela deu um sorriso de lado e eu encostei meus lábios em sua bochecha.
- Você pode ter o que quiser, eu aceito qualquer passo que você quiser dar, lembra? – Sussurrei com a boca encostada em sua bochecha e ela soltou uma risada fraca.
- Eu sei! – Ela virou o rosto e encostou a boca em minha testa. – Eu sou muito feliz por ter você. Estamos, oficialmente, juntos há pouco mais de uma semana, mas é incrível, , você está me mostrando tantas coisas diferentes, coisas que eu nunca conheceria na minha vida. Parte disso vem do emprego, mas você torna tudo especial, tudo diferente. Certo.
- Fico feliz em saber que não sou o único que me sinto assim. – Ela franziu a testa e eu ri. – As maiores surpresa da minha vida, , são as coisas que você me apresenta, coisas simples aos olhos de uma pessoa que tem essa vida corrida, mas na minha, são simplesmente incríveis. O modo como você cozinha, reclama que algo não dá certo, ri das coisas bobas do dia a dia, mas também como você age da maneira mais profissional possível, sem perder a essência que você tem. Você ri de tudo, você brinca com os atores, com os assessores, com todos. Isso que faz com que eu me apaixone por você cada dia mais. – Ela sorriu e apertou um braço em volta do meu pescoço.
- Não sabia que você era tão romântico assim, ! – Soltei uma risada e ela se levantou do meu colo.
- Eu gosto de surpreender um pouco, . – Ela piscou com um olho, andou até a cama e se sentou na beirada da mesma.
- Mas apesar dos surtos da minha mãe – Ela falou retomando o assunto. – Ela está feliz por mim e quer te conhecer na oportunidade mais próxima.
- Avise-a que será uma honra. – Ela soltou uma risada e deitou de novo na cama, puxando a coberta novamente até a cintura.
- Você e minha mãe? Ah, como eu quero ver isso! – Ela falou olhando para o teto. Eu me levantei da poltrona e me aproximei dela, sentando na beirada da cama, ao seu lado, pousando a mão em sua barriga.
- Sobre isso... – Ela suspirou. - Eu vou para Boston contigo hoje. – Ela abriu um sorriso. – É aniversário da minha mãe no fim de semana, todo ano ela faz uma festa para família, amigos e tudo mais. – ergueu o corpo na cama, ficando sentada ao meu lado.
- ...? – Ela falou e eu ri.
- Eu quero te levar, conhecer minha família e tudo mais. – Ela abriu um sorriso de lado, passou os braços pelo meu pescoço e tocou seus lábios nos meus.
- Mesmo? – Ela falou e eu ri, afirmando com a cabeça.
- Pode estar meio cedo e tudo mais, mas parece que Seth abriu a boca para todo mundo, falando que te encontrou em Los Angeles e eu estou recebendo mensagens de todos, principalmente da Cady, que querem te conhecer. – Passei a mão em suas costas e ela riu. – E minha mãe, bem... – Eu ri. – Ela quer saber em que campo minado eu estou entrando.
- Posso te garantir que é um que pode explodir a qualquer momento. – Ela falou e deitou novamente na cama, colocando o braço embaixo da cabeça.
- Ah, é assim? – Ela riu e confirmou com a cabeça.
- É assim que a banda toca, namorado. – Ela riu e fechou os olhos, os abrindo logo em seguida. – Tem como eu tirar uma soneca antes do voo? – Olhei o relógio na mesa de cabeceira.
- Se você não for almoçar, dá para dormir por umas três horas. – Ela ponderou a cabeça para os lados.
- Acho que eu vou aproveitar. Pode trazer alguma coisa para mim do almoço? Ou pedir algo? – Afirmei com a cabeça.
- O que vai querer? – Ela já tinha fechado os olhos.
- Estou querendo uma comidinha brasileira, arroz, feijão, bife, ovo frito e batata frita, na verdade. – Soltei uma risada. – Mas se não tiver, pode ser um hambúrguer, a típica comida americana. Que coisinha sem graça, hein?! – Ela deu de ombros, virou o corpo para o meio da cama, abraçou a ponta do travesseiro e suspirou.
Ergui a coberta até seus ombros e encostei meus lábios em sua testa, vendo um pequeno sorriso se formar em seus lábios. Ajeitei o ar condicionado, deixando-o um pouco mais quente e dei uma rápida ajeitada na mesa do café da manhã, facilitando para as camareiras, e sentei em uma poltrona, pegando o computador de e apoiando no colo, erguendo a tela.
Imediatamente uma foto dela, com sua mãe e irmã surgiu na tela de fundo, a foto era de corpo inteiro e as três usavam um vestido longo. usava um incrível vermelho. Ela parecia mais nova na foto. O vestido era de alcinha, com somente um detalhe em renda no decote. estava no meio, sendo abraçada pela mãe e irmã de cada lado, talvez alguma festa importante, algo assim, algo de , pelo modo que ela era abraçada. Aquela foto deveria ter alguns anos, já que a ponta de seus cabelos estavam tingidos de loiro e, hoje em dia, sua cor natural ficava à mostra, sem contar que o cabelo hoje, estava bem mais curto que o escorrido da foto. Tive um momento de felicidade ao ver a foto e saí da mesma, abrindo o navegador.
O Facebook de estava aberto, algumas postagens rolavam no feed de notícias e, por um momento, eu senti curiosidade em fuçar sua rede social. Comecei pelo seu perfil. No momento que ele carregou, uma foto que eu havia tirado dela aparecia, tinha sido colocado há pouco mais de um mês, não consegui lembrar onde estávamos. A foto da capa era ela de costas, olhando para o Boston Harbour Hotel, um local que sempre íamos para reuniões da ACCESS, foi lá que havíamos nos conhecido e, também era um lindo ponto turístico da minha cidade.
Em sua cidade atual, estava Boston, MA, EUA, já em sua cidade de nascimento estava uma com um nome comprido que eu não consigo falar, em SP, Brasil. E, mais abaixo, seu status de relacionamento estava namorando, me fazendo sorrir. Franzi a testa. Abrindo suas fotos. Os álbuns eram separados por anos, anos anteriores, mas o desse ano não existia, então, abri o álbum do seu Instagram. A única foto que tinha de nós dois juntos, era a do dia que ela havia me conhecido, somente isso, com várias curtidas e comentários em português. Por um momento, eu não sabia se ficava feliz, pelo fato dela não querer esfregar para todo mundo que estava comigo, ou triste, pelo mesmo motivo. Não a culpo, porque eu, honestamente, também não sabia o que fazer com essa situação.
Fazia muito tempo que eu não namorava alguém como ela, e como ela, eu digo alguém comum e não famoso. Alguém que chegou ao cargo que estava pelos seus conhecimentos, seus desejos e mérito próprio. Eu namorei poucas pessoas em toda minha vida, mas depois que comecei a atuar, a maioria das namoradas foram parceiras de elenco ou que eu havia conhecido em algum evento e as coisas rolaram do jeito que deveriam. Mas, parando para pensar, em meus namoros eu não sabia se teria sido por paixão, comodidade ou realmente amor, só sei que na época parecia tudo certo.
Entrei em meu Twitter rapidamente, fazendo uma postagem rápida e logo fechei o computador de em um baque novamente, aproveitei e coloquei dentro de sua mochila, já livrando ela de fazê-lo.

Um toque leve na porta me interrompeu de guardar minhas roupas dentro da mochila. Era um dos mordomos, empurrando o carrinho de comida para dentro do quarto, depositei uma gorjeta em sua mão e agradeci, vendo-o sair logo em seguida. Olhei rapidamente por debaixo das tampas e vi os dois lanches que eu havia pedido, ficaria decepcionada.
Pensei em comer antes, mas esperaria . Então, me livrei da calça de moletom, meu pijama improvisado, e entrei de cabeça no banho quente, sentindo o choque térmico do quarto frio com a água quente. Saí do banheiro com a toalha enrolada na cintura e alguns pingos de água caíram de meu cabelo, fui até minhas roupas separadas e vesti a calça jeans, uma camiseta preta e calcei minhas botinas.
Alguma coisa começou a vibrar e se mexeu na cama e, meio sonolenta, começou a tatear a mesma, até bater com a mão forte na mesa de cabeceira e colocar o celular na orelha.
- Alô? – Ela falou e se sentou na cama, deixando os cabelos caírem em seu rosto. – Ah, droga! – Ela pegou o celular, deslizou a tela e o colocou de novo na orelha. – Alô? aqui. – Ela suspirou e passou a mão no rosto. – Sim, minha parte está toda certa. – Ela esfregava a mão no rosto e bocejava, confirmando com a cabeça de vez em quando. – Certo! Tá, ok! Se cuida! – Ela abriu os olhos e me encarou, já que estava próximo da cama. – Sim, chego em Boston às cinco, amanhã eu chego cedo e a gente conversa. Beijos. – E desligou o celular, jogando o corpo na cama de novo. – Que belo jeito de acordar.
- Melina? – Ela concordou com a cabeça, virou as pernas para fora da cama e levantou, calçando seus chinelos.
- Nem doente essa mulher descansa, tá louco! – Ela falou e suspirou. – Era sobre o release, tá tudo certo. – Ela falou e, ainda coçando os olhos, puxou sua mochila, separou uma troca de roupa e entrou no banheiro.
Pelo reflexo do espelho eu a vi se trocar. Ela puxou sua blusa regata, fazendo seus cabelos bagunçarem um pouco, ajeitou as alças do sutiã e se abaixou, tirando os shorts. Um vestido branco foi jogado pela sua cabeça e ela saiu do quarto. Assim que saiu, com os pés arrastando pelo chão, pude ver que a barra do vestido possuía flores em um rosa chamativo, subindo em degrade pelo corpo. Ela se sentou na beirada da cama e puxou seus chinelos, os guardando dentro da mochila e calçou os tão conhecidos sapatos pretos, que eu já estava acostumado.
- Vai ficar me encarando? – Ela comentou, ajeitando os sapatos e se levantando, mantendo seu rosto reto, mas os olhos fixos nos meus.
- Você tem esse efeito em mim.
- Você tem noção do efeito que causa nas mulheres? Nas meninas? Nas fãs? – Ela apoiou as mãos em meus ombros.
- Efeito? – Franzi a testa.
- Não se faça de desentendido. Você é gostoso, . Seu corpo, seus braços, suas pernas. – A cada palavra ela apertava meus ombros e escorregou as mãos pelo meu peito, espalmando eles. – Você tem noção que eu sei.
- Honestamente, eu não tenho. – Ela revirou os olhos e suspirou.
- Você realmente precisa entrar no Tumblr de vez em quando. – Soltei uma risada e aproximei meu rosto do dela, passando minha língua pelos seus lábios. – Tem certeza que vai me levar para conhecer sua mãe? – Suspirei, me afastando dela.
- Sério que vamos colocar minha mãe no meio do nosso momento?
- Você sabe que não temos tempo para uma transa agora, não é?! – Ela falou e eu ri. – Por sinal, estou com fome, o que pediu?
- Você joga mil perguntas e não deixa que eu responda nenhuma. – Ela riu e levantou a tampa, fazendo uma careta.
- Sem arroz e feijão?
- Não dessa vez. – Me sentei na cadeira sob a mesa e tirei a tampa do meu prato, revelando o lanche. – E sim, eu vou te levar para conhecer minha mãe, minhas irmãs, possivelmente meu pai, meus avós e alguns amigos de infância.
- Ah, que ótimo, é uma reunião da família e agregados? – Ela se sentou ao meu lado e pegou um garfo e faca para comer o lanche, enquanto eu já o havia pegado com a mão.
- Com medo? – Perguntei empurrado ela levemente com o ombro.
- Medo? – Ela suspirou. – Morrendo! – Soltei uma risada e a ouvi largar os talheres na mesa e virar o corpo para mim. – Eu nunca conheci a família de meus namorados, . Eu só namorei uma vez e ainda foi na faculdade, não posso dizer que foi um namoro exatamente, foi um peguete e, com meu desemprego depois que eu me formei, voltei para minha cidade no interior, e não é como se eu fosse conhecer pessoas novas, eu sempre convivi com as mesmas pessoas. E esse ano em Boston, eu não poderia imaginar me apaixonar e depois ir embora, então, eu não permiti isso e deu certo. Então, eu estou, literalmente, em um campo minado, .
- Eu acho que eles vão gostar de você. – Ela franziu a testa e colocou um pedaço de hambúrguer na boca. – Eu acho que minha mãe vai gostar de você.
- Ah é, e por que você acha isso? – Ela falou enquanto mastigava e eu ri.
- Porque você é tudo que eu tenho pedido. – Ela ficou quieta e eu achei que deveria continuar. – Alguém legal, não famosa, porque não aguento mais esses dramas, alguém que possa manter minha mente sã nessa loucura que eu vivo.
- Você sabe que eu não posso te dar muito, não é?
- Você me dá tudo que eu preciso, ! Eu não preciso de nada mais, contanto que você me ame.
- I don't care who you are, where you're from, what you did, as long as you love me. - cantarolou e eu ri.
- Backstreet Boys, sério? – Comentei.
- Eu te amo, . Posso estar me precipitando em dizer que vai durar para sempre, mas eu vou lutar para que seja. Quem sabe eu namorei pouco porque achei que não era certo, mas agora eu sei que isso é. – Ela suspirou e eu sorri. – E eu acho que você precisa parar de fazer isso.
- O quê? – Perguntei enquanto mordia um pedaço do lanche.
- Fazer eu me apaixonar cada vez mais por você só com as palavras que diz. – Ela abriu um sorriso de lado, fazendo suas bochechas ruborizarem e ela voltou sua atenção para o lanche.

- Como vamos fazer? – perguntou dentro do elevador do hotel em Nova York, enquanto eu colocava meu casaco vermelho e o fechava pela metade.
- A gente vai se ver amanhã? – Perguntei.
- Duvido muito. – Ela suspirou, arrumando a bolsa no ombro quando as portas do elevador se abriram. – Com essa história toda de hoje os veículos devem estar loucos atrás de informações.
- Mas não é para impedir isso que você escreveu um release? – Ela riu e parou no lobby do hotel.
- Deveria, mas eles acham perguntas para fazer ainda, acredite se quiser. – Ela deu de ombros e seguiu para o balcão do hotel, para fazer o checkout e eu peguei meu celular, para passar o tempo.
- ! – Ouvi uma voz ao meu lado e virei meu rosto, encontrando minha ex, Martha Candice, deslizando em um vestido longo estampado de um ombro só, segurando uma bolsa vermelha, os cabelos ajeitados e o rosto maquiado. Ih, ferrou.
- Ei, tudo bem? – Me levantei e ela me abraçou fortemente, me mataria.
- Tudo bem e você? O que faz por aqui? – Ah, Deus, sem puxar papo.
- Estou com algumas reuniões para um novo filme. E você?
- Première do meu novo filme. – Ela falou, passando as mãos nos cabelos.
- Ah sim, boa sorte com esse filme, ouvi muitas pessoas elogiando.
- Obrigada. – Ela sorriu colocando a mão em meu ombro.
- Vamos embora, ! – Tomei um susto com a voz de atrás de mim, respira e conta até dez. – Ah, oi! – Ela falou parando ao meu lado e vendo Martha.
- , essa é Martha, minha ex-namorada. – Franzi a testa enquanto falava. – Martha, essa é a ...
- Sua nova assessora, certo? – Ouvi a respiração forte de ao meu lado.
- Namorada, na verdade! – abriu um largo sorriso, apoiando o braço em meu ombro. – Mas assessora também, acontece. – Ela franziu o rosto em um sorriso fofo, mas eu sabia que ela não estava contente por estar ali. – Vamos, ? Temos um avião para pegar. – Ela perguntou. – Tchau. – Ela falou para Martha, ajeitou a mochila no ombro e tornou a andar em direção às portas do hotel.
- Isso é sério? – Martha perguntou ao meu lado, segurando meu braço.
- Eu falei que estava à procura de coisas novas. – Falei simplesmente.
- Honestamente, espero que você seja feliz. Mesmo.
- Você também, Martha! – Afirmei com a cabeça e ela saiu na minha frente do hotel, não me restou segui-la.
já havia entrado em um táxi que nos esperava, enquanto um paparazzi tirava fotos minha na entrada do hotel. Fico imaginando se eu e Martha sairmos na mesma foto, os boatos que sairiam, me mataria, Melina mais ainda, imagina se eles soubessem que eu e éramos um casal, soltei uma risada fraca.
Guardei minhas coisas dentro do porta-malas e entrei no carro, sentando ao lado de , que se mantinha abraçada em sua mochila.
- Só para deixar claro, eu não gostei dela. – comentou e eu suspirei. – E desculpa, a gente não falou para ninguém que estamos juntos e ela tem fama de fofoqueira entre os fãs, mas escapou.
- Fico feliz que você tenha dito, . – Ela sorriu. – Porque eu falaria, você só foi mais rápida. – Ela soltou uma risada, fazendo uma careta em seguida. - Não somos nenhum segredo, deixa as coisas acontecerem como devem.
- Bom! – Ela falou e eu ri.
- Mas e aí, o que mais? – Falei voltando ao assunto de seu trabalho e ela se virou para mim.
- Bem, como eu cuidei do release, o carro chefe para responder sou eu, como se fosse ele, no caso, e eu estivesse cuidando dele, entende? - Afirmei com a cabeça. – No fim da tarde terá uma coletiva de imprensa e tudo mais e eu tenho que acompanhar, pelo menos por interesse da ACCESS, como se estivéssemos passando a tocha, nenhum rancor, só finalizando o trabalho.
- Então alguém vai trabalhar até tarde na sexta-feira? – Ela riu e encostou-se em meu corpo enquanto íamos em direção ao aeroporto JFK de Nova York.
- Espero que até não tão tarde, eu preciso passar no Rupert e escolher minha roupa, não é?! Tenho que fazer uma ótima primeira impressão para a sogra. – Dei um beijo em sua testa. – E em toda a família, é claro! – Ela soltou uma risada gostosa. – Você pode me pegar no sábado?
- Pode deixar! – Falei. – Por volta de uma da tarde eu passo lá. E você tenta relaxar, eles vão te amar.
- Deus! – Ela falou e riu, fechando os olhos.

Assim que chegamos em Boston, ela veio para minha casa e ficamos, literalmente, enrolando o dia inteiro, dividindo o tempo entre conversar e aproveitar a piscina. Nós dois estávamos cansados. A viagem para a Coréia do Sul havia detonado nosso fuso horário, principalmente o de , que não estava acostumada e, depois ir diretamente para Nova York, com reuniões exaustivas todos os dias realmente mata, são pequenas decisões, desde locação de câmeras até reservas e permissões para gravar em locais da cidade. Mas logo levei para casa, já que ela dormia sentada em meu sofá.
Minha sexta-feira passou da forma mais chata possível, sozinho, na minha cama, recebendo ligações esporádicas da minha mãe, perguntando se eu ia e se levaria para seu aniversário, Seth falando que mamãe estava agitada e louca para conhecê-la. Medo. Até Cady e Sharon, ambas agitadas, falando que nossa mãe estava feliz, cantarolando pela casa, o que seria pelo seu aniversário ou pela nossa visita? E havia me mandado uma mensagem, por volta das sete da manhã, falando que já estava na ACCESS, com um copo gigante de café, tentando permanecer acordada. Espero que isso tenha dado certo, pois sua última mensagem foi por volta das nove horas da noite, dizendo que nos viríamos no dia seguinte, já que ela precisava entrar no mundo dos sonhos o mais rápido possível.
Vesti uma calça jeans escura e calcei meus tênis pretos, amarrando os cadarços. Peguei uma camiseta azul dentro do armário e a vesti, ajeitando-a no corpo. Passei as mãos nos cabelos arrepiados, coloquei a carteira dentro do bolso da calça e peguei as chaves do carro. Saí do quarto e desci as escadas rapidamente, parando somente para pegar meu casaco. Joguei-o no banco de trás e conectei a chave na ignição, ouvindo o ronco do motor.
Parei em frente ao conhecido condomínio de e puxei o freio de mão, pulando do carro. O porteiro abriu o portão sem que eu ao menos me anunciasse e andei a passos rápidos para dentro, entrei no elevador, apertei o número nove e tirei os óculos escuros no rosto, antes que o elevador parasse no andar. Empurrei a porta e dei dois toques nela.
- Quem é? – Ouvi a voz de lá dentro.
- Sou eu, !
- Tá aberto! – Ela gritou e eu girei a maçaneta, abrindo a porta de seu apartamento e encontrando-a decorando vários cupcakes com um creme branco.
Parei para encarar sua roupa, ela usava um vestido azul, a parte de cima era colada ao corpo e tinha alguns detalhes plissados nos ombros e na barriga, a saia era estampada na barra. Nos pés ela havia trocado seus famosos sapatos pretos por um branco, de bico redondo e salto grosso. E uma maquiagem em seu rosto. Seus cabelos estavam soltos, com aquelas ondas que eu tanto gostava e a franja estava presa por uma presilha.
- O que você está fazendo? – Me aproximei dela, vendo-a segurar um saco de confeiteiro e cobrir pequenos bolos de chocolate com um creme branco, meio bege por cima.
- Cupcake de chocolate, recheado de beijinho, que nada mais é do que um creme de coco, e brigadeiro branco de cobertura. – Ela comentou e finalizou o último, erguendo o corpo e depositando um rápido beijo em meus lábios.
- Deus, isso deve estar uma delícia! – Falei aproximando minha mão de um dos bolos, recebendo um tapa na mesma. – Ai!
- Isso não é para você! – Ela comentou e eu fiz bico. – Nem tente. – Ela riu se livrando do saco plástico no lixo e lavando a mão rapidamente.
- Por que fez então? – Perguntei a vendo pegar uma caixa larga de papelão.
- Para levar hoje, ué. – Ela falou e começou a colocar os cupcakes dentro da caixa e eu a ajudei.
- Você não precisa levar nada, sabia disso? É um aniversário, normalmente o aniversariante dá a comida. – Ela franziu a testa.
- Eu sei, mas é que eu fui criada de um jeito que quando se vai pela primeira vez na casa de alguém deve-se levar algo e por que não levar algo que eu sou boa, como cupcakes?
- Você é realmente boa neles. – Passei o dedo na cobertura de um bolo e ela me deu um olhar feio e eu ri, colocando o dedo na boca, sentindo o sabor do brigadeiro branco, tão bom quanto o preto.
- Vamos então? – Falei vendo-a fechar a caixa e me entregar.
- Vamos! Só me deixa pegar o presente da sua mãe. Me diz, ela usa brincos? – Franzi a testa.
- Não precisava ter comprado presente.
- Já entendi a parte que era para eu ir de mãos vazias. Mas responde, ela usa brinco? – Ela me deixou sozinho na cozinha e ouvi seus saltos quicarem pelo apartamento e voltar com uma pequena caixa dourada e quadrada na mão e uma pequena bolsa preta na outra.
- Acho que usa, não presto muita atenção nisso.
- Que decepção de filho, hein?! – falou rindo e eu aproximei meu rosto do seu e beijei a ponta de seu nariz.
- Vamos! – Falei e saí do apartamento, a vi tirar a chave da porta e fechar do outro lado, enquanto esperava o elevador chegar. – Você fica linda de azul, sabia? – Ela virou o rosto com um sorriso.
- Você também. – Ela falou e abriu a porta do elevador para que eu entrasse e entrou atrás de mim.
Coloquei a caixa no porta-malas enquanto ela entrava no carro, entrei ao seu lado e a vi prender o cinto. Fiz o mesmo e liguei o carro. Fomos o caminho inteiro em silêncio, algumas músicas na rádio tocavam baixo ao fundo. De vez em quando batucava o pé no chão do carro e eu suspirava, tinha que admitir que também estava nervoso por isso.
Minha mãe não havia gostado de nenhuma namorada minha e eu não falo isso exagerando, ela realmente não gostava, com Martha foi a que ela ficou mais próxima já que namoramos duas vezes, mas realmente gostar, não, nem a pau. Ela sempre falava que queria alguém de Boston, não famoso, que tivesse um trabalho comum, que me mostrasse às maravilhas da vida, que me tornasse mais responsável, mais sério. Isso conseguira quase completamente, havia a conhecido em Boston, mas meu medo era o fato da ser brasileira, não sabia como minha mãe reagiria, o que me deixava milhões de vezes mais medroso. Eu queria sua aprovação, porque pensava em um futuro com .
Cumprimentei o porteiro do condomínio de casas e entrei nele, dirigindo pelas ruas. Virei para a esquerda, esquerda e direita, dando de cara com uma longa rua de casas de dois andares. Entrei no caminho da garagem de uma casa branca, com o jardim colorido impecável e o telhado marrom, minha casa de infância, e puxei o freio de mão, virando para que parecia segurar a respiração.
- Pronta? – Ela fechou os olhos e respirou fundo, apoiando a cabeça no encosto do carro.
- Vamos, já que não tenho como fugir. – Ela virou o rosto para mim e eu sorri. – Estou pronta.
- Mesmo? – Encostei meus lábios nos seus, sentindo-a pressionar sobre os meus.
- Se você perguntar de novo, eu vou desistir. – Ela disse e eu gargalhei, abrindo a porta do carro e pulando para fora.

desceu do carro devagar, todos seus movimentos eram lentos. Enquanto eu desci do carro, pegado a caixa de cupcakes no porta-malas e a esperava parado ao lado do carro, ela caminhou lentamente a passos curtos, seu salto mal fazia barulho.
- , sem drama! No fim do dia você vai ver que correu tudo bem.
- Ah, só no fim do dia? – Ela comentou e eu suspirei, equilibrando a caixa em uma mão e segurei sua mão livre, entrelaçando os dedos, pude notar que sua mão estava gelada. Dei um aperto forte na mesma e ela virou o rosto para mim, com um sorriso de lado no rosto.
Caminhei à frente pelo caminho de pedra feito na grama, conhecido por mim por anos, não largando sua mão. Eu sempre pisava na grama, o que fazia minha mãe querer arrancar meus cabelos quando eu era mais novo. Paramos em frente à porta de madeira e eu soltei sua mão para tocar a campainha, o barulho alto e estridente soou, fazendo franzir a testa ao meu lado.
- Eu prometo que vou relaxar. – Ela falou e soltou a respiração fortemente pela boca.
Não passou dez segundos até que eu pudesse ouvir algumas conversas dentro da casa, alguns passos apressados, o trinco da porta e a porta se abriu, até eu vi isso em câmera lenta.
Minha irmã Cady estava do outro lado da porta, os cabelos lisos e loiros soltos, a camiseta de manga ¾ preta, calças jeans e sapatilhas, seu estilo de sempre. O olhar de Cady passou por mim e logo por , fazendo com que ela abrisse um sorriso, um verdadeiro sorriso. Um de cinco.
- Irmão! – Ela falou, me deu um rápido beijo na bochecha e se virou para . – Você deve ser .
- Sim, eu sou! – falou quase imediatamente, abrindo um sorriso sem mostrar os dentes.
-Vem, me dá um abraço! – Cady falou e abraçou , que soltou uma risada, envolvendo a mais baixa em seus braços. – Você é alta, você é bonita! – Cady comentou quando se soltaram. – Vem, entra! – Ela abriu espaço e eu entrei primeiro, vendo atrás.
- Com licença. – Ela falou e eu sorri.
- Onde posso colocar isso, Cady? – Falei tentando dar uma relaxada no clima e apontei para a caixa em minhas mãos.
- O que é isso? – Cady comentou abrindo uma fresta da caixa. – Cupcakes! – Ela falou com felicidade na voz. – Você comprou?
- Não, fez! – Comentei e ela olhou para com os olhos arregalados.
- Você? – Ambas riram quando confirmou com a boca. – Tá com uma cara deliciosa. – Ela pegou a caixa da minha mão. - Vem, vamos levar lá na cozinha... A mãe está lá.
Eu e nos entreolhamos e ela soltou uma risada fraca, dando de ombros e eu estendi minha mão para ela que pegou, e acompanhamos Cady lado a lado. A casa que minha mãe morava era simples de entender. Você entrava pela porta da frente e dava para uma longa sala, que seguia pela largura inteira da casa, dando em uma parede com portas de correr e altas janelas de vidro, que dava para o quintal, que tinha várias pessoas conversando e rindo. Do lado direito havia uma escada vermelha, que dava para o segundo andar e embaixo dela um banheiro de visitas e o quarto de minha mãe. Seguindo pela esquerda, um longo corredor dava para a cozinha. A cozinha da minha mãe era a típica cozinha americana, um balcão retangular no meio e nas laterais os armários e gavetas e, em uma mesma parede, de costas para a porta, uma geladeira e o fogão e mais para o lado uma mesa com seis lugares.
Passei pela porta, segurando para passar e o cheiro de comida estava incrível. Uma mistura de pasta com peixe grelhado.
- Olha quem está aqui. – Cady falou, chamando a atenção não só de minha mãe, como também de Sharon, que mexia algum creme no balcão. Senti se enrijecer ao meu lado, quando o olhar de Lindsay pairou sobre ela. Tanto eu, como Cady e Sharon nos entreolhamos.
Isso passou em câmera lenta para mim, minha mãe se virou do fogão e encarou de cima abaixo, sem nenhuma discrição. Ela passou as mãos no avental colocado em sua cintura, tirou o mesmo, jogou em cima do balcão e se aproximou a passos lentos de , que se mantinha estática ao meu lado, uma mão segurando a bolsa e a pequena caixa dourada e a outra segurando fortemente na minha, pelo modo que ela segurava, parecia que eu poderia contê-la caso ela desmaiasse, só segurando sua mão.
- Aí está ela! – Minha mãe falou, fazendo todos do cômodo soltar um suspiro relaxado e abriu um sorriso.
- Mãe, essa é minha namorada, . – Falei, olhando para , que mantinha seu olhar em minha mãe.
- Ela é bonita, filho! – Minha mãe falou para mim e eu concordei com a cabeça. – Eu sou Lindsay, a mãe dele. – Ela falou e soltou minha mão, se aproximando de minha mãe, encarei Cady e Sharon e ambas arregalaram os olhos para mim e eu fiz uma careta.
- Oi, tudo bem? – falou e ambas trocaram um beijo, até que carinhoso, nas bochechas e um rápido abraço.
- Ótima, querida, e você? – Minha mãe falou, mantendo a mão na cintura de .
- Bem, muito bem! – Ambas riram cúmplices, eu tinha conseguido?
- Então você é jornalista? – Minha mãe comentou e concordou com a cabeça. – Trabalha com a Melina?
- Trabalho! Acho que namorar seu filho me fez quebrar algumas regras do código de ética. – Minha mãe soltou uma gargalhada e eu interrompi.
- trouxe cupcakes, mãe. – Falei e peguei a caixa na mão de Cady e apoiei no balcão.
- Ah, sério, querida? – Minha mãe olhou para .
- É, eu faço, achei chato chegar de mãos vazias.
- Ah, obrigada! – Minha mãe espiou dentro da caixa e mordeu os lábios. – Devem estar deliciosos.
- Ah, afinal, feliz aniversário! – comentou e mostrou a caixa dourada e os olhos de minha mãe brilharam. – Espero que goste! – Ambas sorriram.
- Obrigada, querida! – Minha mãe apoiou a pequena caixa no balcão e abriu a mesma, puxando um brinco em formato de gota, tenho certeza que gastou uma graninha neles, quis matá-la. – São lindos.
- Que bom que gostou. – sorriu e minha mãe segurou seu braço, delicadamente.
- Querido, por que não vai procurar seu irmão e deixa as meninas a sós, hein?! Vai pegar uma cerveja e falar com a família, já, já vamos. – Minha mãe falou e eu arregalei os olhos para , que somente confirmou com a cabeça, com um sorriso sereno no rosto.
- A gente se encontra lá. – Ela falou e eu fui empurrado por Sharon até a porta.
- Eu e Cady cuidamos dela. – Sharon sussurrou em meu ouvido antes de eu ouvir a porta se fechar atrás de mim.

Eu, Seth, minha amiga de infância Trish, meu amigo Joshua e meu outro amigo Michael estávamos sentados em uma mesa redonda, encarando a janela de vidro que dava para a cozinha, onde podíamos ver as quatro mulheres da minha vida conversando. O clima parecia bom, ria, ajudava em algumas coisas na cozinha, mas na maior parte do tempo elas somente conversavam sobre algo que eu não podia ouvir do lado de fora. Eu virava um gole da minha cerveja quase involuntariamente, encarando aquela cena.
- Ela parece ser legal, . – Trish comentou ao meu lado.
- Ela é legal! – Eu e Seth falamos juntos e rimos cúmplices.
- Você deve ter feito uma bela propaganda da , Seth, a mãe nem surtou. – Comentei e bebi outro gole da cerveja.
- Ela trouxe cupcakes e presente, convenhamos que ela já foi melhor que muita ex sua, hein?! – Joshua comentou e eu ponderei a cabeça, confirmando.
- É, isso é verdade! – Comentei e nós cinco suspiramos.- Eu realmente quero que isso dê certo. – Falei apontando para a janela em que Sharon dava um meio abraço em e ambas riam. – Eu realmente gosto dela.
- Pensando no futuro? – Trish falou e eu afirmei com a cabeça sem dizer uma palavra, mas com um sorriso gigante em meu rosto. – Mesmo? – Ela gritou ao meu lado e eu ri.
- Sério! – Suspirei, me ajeitando na cadeira. – Ela é especial.
- Bem, já posso colocar alguns prós para ela, só dessa conversa com a sua mãe. – Michael falou ao meu lado. – Ela parece estar se divertindo lá e não colada em você, como suas ex faziam. Ela está aguentando bem o tranco.
- Muito bem, por sinal! – Seth comentou ao meu lado. – Faz o quê? Meia hora que elas estão lá dentro?
- E ninguém morreu ainda. – Joshua comentou e nós cinco rimos. – E nada pegou fogo.
Pude ver segurar sua bolsa novamente entre suas mãos e uma tigela com a outra e sair da cozinha, sendo seguida por minhas irmãs e minha mãe, cada uma com uma travessa na mão. Me levantei quase em um pulo, deixando a garrafa de cerveja sobre a mesa e os outros quatro me seguiram. Pude ver esperar todas as mulheres passar em sua frente antes de sair para o quintal movimentado. Tirando meus amigos, só parentes estavam lá, entre minha avó por parte de mãe, meu pai, alguns irmãos de minha mãe, meus primos e alguns dos meus sobrinhos correndo pelo quintal, enquanto a filha mais nova de Cady estava em um carrinho ao lado de meu pai.
Elas colocaram as tigelas na mesa e Cady foi pegar sua filha no carrinho, minha mãe segurou pela mão e começou a apresentá-la de mesa em mesa, enquanto Sharon veio em nossa direção.
- E aí, qual foi o veredicto? – Perguntei passando o braço pelos ombros de minha irmã.
- Parece que a mãe gostou dela. Não teve nenhuma atravessada, nenhuma pergunta muito íntima, ela queria saber mais do trabalho, afinal, acho que já estávamos cansadas de ouvir quais filmes incríveis a pessoa fez. – Sharon deu uma risada de lado e eu revirei os olhos, rindo junto.
- Deixa o passado no passado. – Falei e ela riu, apertando o braço na lateral do meu corpo.
- Acho que vai vingar, . – Abri um largo sorriso, dois de cinco. – Bem, ela está apresentando-a para todo mundo da família, normalmente você faz isso. – Soltei uma risada fraca.
- E você, o que achou dela?
- Eu realmente gostei, irmão, ela parece ser uma pessoa maravilhosa e ela realmente gosta de você. – Isso! Três de cinco!
- Isso é incrível. – Michael reapareceu ao meu lado, com um prato de comida na mão, fazendo com que todos à nossa volta soltassem uma risada.
- Ela falou algo sobre ela ser brasileira? – Perguntei me virando para Sharon novamente.
- Disse “que interessante!” e perguntou como era o país e o que ela veio fazer aqui. – Suspirei.
- E aí, já incluiu um pouco da história de vida dela?
- Sim, um pouco sobre ela, seu trabalho, sua educação e tudo mais. – Concordei com a cabeça e virei para meus amigos. – Quando minha mãe soltar dela, eu a apresento a vocês. – Falei e meus amigos concordaram com a cabeça.

surgiu ao meu lado, com um sorriso largo no rosto, enquanto eu me servia da comida de minha mãe. Passei minha mão livre por seus ombros, apertando-a contra meu corpo.
- Eu estou viva! – Ela falou em um sussurro e um sorriso no rosto, e eu ri, depositando um beijo em sua testa.
- Como foi? – Perguntei encarando-a.
- Esperava algo pior, bem pior. Sua mãe é ótima! – Ela comentou e eu entreguei um prato a ela que também começou a se servir ao meu lado.
- É porque ela gostou de você, podia ser bem pior. - Comentei e ela me empurrou de leve com seu ombro.
- É por essa zoeira que eu te amo. – Ela comentou e eu peguei talheres para nós dois. - Preparada para conhecer meus amigos?
- Depois que eu passei pela sua mãe, acho que estou preparada para salvar o mundo. – Ela comentou e eu ri. – Poseidon tá precisando da minha ajuda? – Ambos rimos e eu segui com ao meu lado de volta à mesa que estava antes, mas agora o marido de Trish havia se juntado a nós.
- Gente! – Chamei a atenção de todos e olhei para ao meu lado. – Essa é minha namorada, . – Apoiei o prato na mesa e segurei o dela também, já que Trish já havia se levantado e abraçava fortemente , ambas riram. A aprovação da minha mãe era importante, mas a de Trish chegava ao mesmo patamar, já que éramos amigos desde crianças, era uma das pessoas que eu conhecia há mais tempo na minha vida.
- falou muito sobre você! – Trish falou e eu franzi a testa, procurando qual parte dessa frase era verdade e riu. – Então você é jornalista? Parece que temos um casal em lados opostos da mídia agora.
- Acredite, eu prefiro estar do lado de cá. – comentou e eu e ela nos olhamos cúmplices.
- Pode dar espaço para os outros, Trish, por favor? – Michael falou aparecendo junto de Joshua e o marido de Trish e todos cumprimentaram com rápidos abraços e cumprimentos de mão.
- Muito bom conhecer todos vocês. – falou após abraçar Seth. – Apesar de que esse eu já conheço. – Ela e Seth se abraçaram de lado e todos riram.
- Ela é ótima! – Seth comentou e me sentei à mesa, com ao meu lado. – E acho que a história do corpo brasileiro é verdade.
- Até parece! – comentou ao meu lado e eu me segurei para não cuspir a cerveja na mesa com a vontade que me deu de rir. – Vocês precisam conhecer outros brasileiros, eu saio totalmente da reta de ‘gostosona brasileira’. – Ela comentou e a mesa riu.
- Fala isso para suas curvas, madame. – Seth comentou e ambos riram.
- Ok, isso até pode ser, mas não sou a modelo do estereótipo brasileiro. – Ela deu de ombros e Trish fez uma pergunta sobre como nos conhecemos e as duas começaram a conversar, com alguns comentários feitos por Seth e Michael, perguntas de Joshua e risadas da mesa inteira.
Senti meu corpo relaxar e sorri, apertando a mão de sobre a mesa que virou o rosto e devolveu o sorriso para mim. Eu estava feliz.

- Obrigada por ter vindo, Robert! – Minha mãe falou do jeito de sempre com seu ex-marido e meu pai, enquanto eu mantinha meus braços passados pelos ombros de que tinha a mão passada pela minha cintura com nossos corpos colados.
- Sem problemas, Lindsay. – Ele respondeu e veio em nossa direção. – Não a deixe escapar, . – Meu pai falou para mim e eu soltei , abraçando-a fortemente. – Um imenso prazer te conhecer. – sorriu e acenou para meu pai que virou em direção a seu carro, junto de outros familiares.
- Não some de novo, ! – Trish falou saindo de casa e apontando para mim. – , você é das minhas, hein?! Traga-o sempre para Boston. – soltou uma gargalhada para mim e ambas se abraçaram como velhas amigas.
- Pode deixar que daqui ele não some mais. – falou e piscou para mim.
- Tchau, gente, até mais. – Ela falou, deu a mão para seu marido, e ambos foram para o carro também.
- Vocês duas se deram bem. – Comentei para e ela confirmou com a cabeça.
- Parece que sim. – Ela suspirou e me abraçou pela cintura.
- Acho que já vamos também, mãe. – Falei e minha mãe se virou.
- Ah, fique mais um pouco, sobrou bolo, sorvete, cupcakes! – Minha mãe falou se aproximando da gente.
- Cupcakes? – Seth apareceu com um mordido na mão e a boca suja de creme branco. – Esse é o último. – Ele comentou e gargalhou ao meu lado, colocando a mão na boca.
- Eu não tenho hora para ir embora. – Ela falou para mim.
- A gente fica então. – Falei e entrei com ao meu lado, enquanto minha mãe entrava e fechava a porta atrás de si.
Seth se sentou no sofá e eu me joguei ao lado dele, colocando os pés em cima da mesinha de centro, igual meu irmão mais novo.
- Bem, crianças, eu vou arrumar a cozinha. – Minha mãe falou e eu e Seth confirmamos com a cabeça.
- Deixa eu te ajudar, Lindsay. – falou e, com seus pés batendo no chão, ela sumiu no corredor.
- Melhor do que você esperava, hein? – Seth comentou e eu ri.
- Você não tem ideia do quão nervosa estava. – Ele riu e virou o rosto.
- Nossa mãe pode ser cruel com nossos namorados. – Ele comentou e eu ri.
- Não deixe ela te escutar! – Sharon falou entrando do quintal, com pratos empilhados nas mãos.
Seth colocou em algum jogo de futebol americano e meus sobrinhos entraram correndo do quintal, com Cady atrás, pedindo para eles pararem de correr. Ethan, o mais velho, correu até o sofá e se jogou ao meu lado, encostando seu rosto em meu corpo e Mike, o mais novo, fez o mesmo ao lado de Seth.
- Tio ? – Ethan perguntou, não tirando os olhos da TV.
- Oi, Et. – Falei.
- Essa moça de hoje, ela é sua nova namorada? – Ri baixo.
- É sim, você gostou dela?
- Gostei, ela é legal! – Dei um beijo em sua cabeça e sorri.
- Eu também gostei dela. – Mike falou ao lado de Seth.
- Eu também, tio . – Seth falou tirando sarro e eu dei um cutucão em sua barriga com o cotovelo. – Ah, essa doeu! – Ele choramingou e meus sobrinhos riram.

- Fechem as janelas! – Minha mãe gritou, aparecendo na sala e Seth rapidamente se levantou e subiu as escadas, e eu corri para o quintal, pegando alguns presentes na mesa de fora.
Imediatamente vi o céu preto lá fora, o vento forte chacoalhando as árvores e plantas de minha mãe, e pude sentir as gotas fortes de chuva bater contra meu corpo. Dei de cara com na volta, correndo para a mesma mesa. Joguei os presentes no sofá pequeno da sala e virei o rosto, vendo com o resto dos presentes e andando na ponta dos pés, com os saltos do seu sapato branco cheios de barro. Cady a ajudou com os presentes e eu segurei sua mão, ajudando a entrar em casa. Ela apoiou a mão em meu ombro e tirou os sapatos, finalmente pisando no chão de casa.
- Já era! – Ela comentou me mostrando os sapatos sujos.
- A gente dá um jeito. – Tirei os sapatos de suas mãos e andei até a lavanderia, colocando eles dentro do tanque. Vi uma toalha presa no pequeno varal e trouxe para . Passei a toalha em suas costas e ela agradeceu, se enrolando na mesma.
- Parece que tem um tornado nos arredores da cidade. – Sharon comentou com o celular na mão e na mesma hora as luzes e a televisão apagaram, fazendo com que Ethan e Mike agarrassem em Seth no sofá, com medo.
- Não perguntei, meninas, cadê o namorado? Cadê o marido? – Falei olhando para ambas que riram.
- Trabalhando, escala de fim de semana. – Cady falou e eu afirmei com a cabeça, o marido de Cady e namorado de Sharon eram bombeiros, e amigos de infância, faziam quase tudo juntos.
- Espero que não precisem deles. – Comentei e Sharon confirmou com a cabeça, mas sabia que o pensamento estava longe.
- Vamos se acalmar, crianças! – Minha mãe falou, aparecendo um pouco encharcada também. – Cady, leve os meninos lá para cima, acalme-os. – Minha irmã concordou com a cabeça e os meninos logo levantaram.
- Eu te ajudo. – Sharon falou e pegou Annie que dormia no carrinho e começaram a subir as escadas.
- E , sobe com a , tem roupas no armário, tomem um banho e se aqueçam. Eu vou fazer o mesmo, depois preparo um lanche para a gente. E relaxa, , vamos dar um jeito no seu sapato. – soltou uma risada e segurei sua mão. – Ah, e , os filhotes nasceram e eu os coloquei no seu quarto, ok?!
- Por que ninguém me disse isso? – Falei e puxei escada acima.
No segundo andar havia quatro portas, depois de uma pequena reforma que minha mãe fez, pois antes eram somente três e não tinha o quarto do andar de baixo. Eu e Seth dividíamos um quarto e Cady e Sharon dividiam o outro. E após a reforma os quartos das pontas do corredor eram meus e de Seth e os do meio eram de Cady e Sharon.
- Filhotes? – perguntou e eu virei para a esquerda, abrindo a porta do meu quarto.
Meu quarto, e de todos nessa casa, eram brancos, todos os móveis brancos, mas o que diferenciava cada um deles eram os pôsteres na parede, o meu continha alguns de filmes clássicos que eu gostava, algumas fotos coladas na parede, minha e de meus amigos, e o que havia sido recém-colocado era a cama de casal, no lugar do beliche que ocupava o quarto. E a colcha azul diferenciava meu quarto do Seth, que era verde, lilás de Sharon e rosa de Cady.
- Esse é seu quarto? – perguntou dando uma olhada ao redor, mantendo a toalha presa em suas costas.
- É, teve algumas mudanças, mas foi aqui que eu cresci. – Comentei e olhei no canto do quarto, encontrando um cercadinho de uns 50x50 centímetros, em que pequenas criaturinhas dormiam.
- Oh, buldogues! – comentou, com os olhos brilhando e se aproximou do cercadinho, ajoelhando no chão. – São seus?
- Na verdade, é uma longa história. – Falei e me agachei ao seu lado. – Eu tinha um cachorro...
- Eu soube. – Ela comentou me olhando.
- É! – Suspirei. - Ele faleceu em maio desse ano, de velhice mesmo. – Respirei fundo. – Mas ele era meu companheiro, teve filhotes e tudo mais. – Vi um filhote bocejar e sorri. – E os filhotes ficaram na família, entre minha mãe, minha irmã, eu não fiquei com um, porque ainda dói um pouco, sabe? – Suspirei e segurou minha mão em meu colo. – E aí um dos filhotes dele cruzou com um buldogue inglês e nasceram esses cinco filhotes. – acariciou um com a mão, que rolou por cima dos irmãos, gostando do carinho. – A gente está vendo o que fazer com eles ainda.
- Cruzamento de buldogue americano com inglês, é?! – riu. – Sempre quis ter um buldogue inglês.
- Você realmente gosta de cachorros? - Perguntei.
- Você não tem nem ideia! - Ela soltou uma risada.
- Você tem cachorros no Brasil? – Ela riu e fez bico.
- Não, sempre quis, mas eu era pequena, depois fui para faculdade e uma coisa leva à outra e minha mãe nunca quis cuidar, aí com o tempo eu desisti de ter, e aqui em Boston eu mal fico em casa, então... – Ela terminou e soltou uma risada fraca.
- Meio sem chances de ter um. – Finalizei a frase e ela sorriu. – Entendo, esse sou eu em Los Angeles.
- Posso tomar um banho? Estou realmente com frio. – Soltei uma risada e me levantei, puxando ela pelas mãos para se levantar também.
- Claro, eu vou separar uma troca de roupa para você e ligar o aquecedor aqui, está bem?! – Ela me encarou e abriu um sorriso fofo de lado. – Apesar de que estou gostando desse look molhado. – Apoiei uma mão de cada lado de seu rosto e a vi fechar os olhos no momento em que toquei nossos lábios, fiz o mesmo.
Ela passou os braços pela minha cintura, fazendo um carinho gostoso em minhas costas. Desci uma mão para sua nuca e ouvi seu suspiro. Dei uma mordida leve em seu lábio inferior e escorreguei a mão pelas suas costas, sentindo sua perna se mexer entre as minhas. Ela afastou seu rosto e espalmou as mãos em meu peitoral e eu soltei a respiração forte, vendo-a a poucos centímetros de meu.
- Não me excite, . – Ela suspirou. - Não na casa da sua mãe. - Ela falou brava e eu soltei uma risada, vendo-a abrir a porta do quarto e parar na mesma. – Leve as roupas para mim, por favor. – E bateu a porta atrás de si.

havia voltado para o quarto com uma boxer estampada minha e uma blusa de manga comprida que eu não usava há anos, mas que ainda fazia com que ficasse larga nas laterais e que chegassem quase à altura do joelho, os cabelos amarrados na toalha e o rosto limpo.
Eu já havia ligado o aquecedor e me levantei para tomar meu banho enquanto ela ficou dentro do quarto. Tomei meu banho rapidamente, por conta da fila de três sobrinhos e três irmãos para tomar banho no único banheiro no andar, já que ninguém queria ir tomar banho no de minha mãe. Coloquei uma calça de moletom, aos gritos de Seth na porta para que eu saísse logo e joguei a toalha nas costas, indo colocar a blusa no quarto.
- Filho! – Minha mãe falou antes que eu colocasse a mão na maçaneta. Ela também já havia tomado banho e trocado de roupa. – Vem cá, um minuto.
Segurei a mão de minha mãe e segui com ela pelas escadas, até que estivéssemos no andar de baixo, quando pude ouvir um trovão alto estourar lá fora.
- Aconteceu algo? – Perguntei encostando as costas no corrimão da escada.
- Eu só quero dizer que estou muito feliz, filho. – Ela segurou minhas mãos. – Não a deixe escapar! – Abri um sorriso largo e passei meus braços pelas suas costas, abraçando-a.
- Mesmo?
- Querido, só pelo fato dela ter conversado com todo mundo, só com isso ela já teria me ganhado. Ela conversou comigo, suas irmãs, seu irmão, seus amigos, seu pai, seus primos, ela falou até com sua avó. – Minha mãe soltou uma risada fraca. – Eu não tenho dúvidas de que ela vai fazer de tudo para te fazer feliz, querido. – Ela suspirou. – E isso me deixa feliz. Uma mãe só quer ver o filho feliz.
- Eu sou feliz, mãe. Eu estou feliz! – Suspirei. – Desde o momento que eu a conheci acho que soube que ela mudaria minha vida e ela está mudando. – Minha mãe segurou meu rosto e deu um beijo em minha bochecha.
- Faça as coisas devagar, então. Respeite-a, como eu te ensinei, que ela vai ser sua para sempre. – Afirmei com a cabeça, com um sorriso gigante no rosto.
- Eu estou surpreso por você ter gostado dela, se quer saber. – Minha mãe gargalhou.
- Acho que uma mãe sabe quando o filho encontrou o amor da sua vida. – Depositei um beijo em sua cabeça e ela sorriu. – Agora vai lá com ela, vou ver se Cady precisa de ajuda com a Annie. – Afirmei com a cabeça e subi a passos rápidos escada acima. Encontrei Sharon no corredor e baguncei seus cabelos, vendo-a rir e franzir a testa ao mesmo tempo.
- O que foi? – Ela perguntou seguindo para seu quarto.
- Senhora acabou de aprovar meu relacionamento! – Sharon abriu a boca surpresa.
- Brincou, né?!
- Não! – Falei e ela riu.
- Isso é demais, . – Ela falou e me abraçou rapidamente. – Ela é uma ótima pessoa, mesmo. – Ela empurrou a porta do seu quarto. – Cuide bem dela. – Afirmei com a cabeça e virei o rosto para a porta do quarto e girei a maçaneta.
Coloquei minha camiseta e senti o ar quente do quarto bater contra meu corpo. estava sentada no carpete, do mesmo jeito que eu a havia visto voltar do banho, um dos filhotes estava aos seus pés e ela fazia carinho em suas costas, vendo o pequeno animal se mexer de vez em quando e bocejar, querendo mais carinho. Me aproximei dela e a vi erguer o rosto para mim, com um sorriso. Aproximei meu rosto do dela e colei nossos lábios por poucos segundos, sentindo-a acariciar meu rosto com a ponta dos dedos.
- Minha mãe gostou de você. – Falei com os lábios colados e ela os separou imediatamente, afastando meu rosto com a mão. Ela tinha um sorriso largo em seus lábios e seus olhos brilharam. – É sério! – Passei minha mão pelas suas costas e um de seus braços veio para meu pescoço, apertando seu corpo desajeitadamente contra o meu.
Um som fino veio dos nossos pés e o pequeno filhote gordinho se mexia lentamente pelo carpete e raspava os pés de com sua pequena unha. soltou uma risada e o pegou em suas mãos, o colocando próximo a seu peito, com uma mão ela o segurava e com a outra ela acariciava-o.
- Ela é sapeca. – comentou. – A única fêmea em todos os machos e ela é a mais sapeca. – Soltei uma risada, passando a mão no pelo macio e cheio de dobrinhas do filhote.
- Ela gostou de você. – Comentei e riu. – Por que você não fica com ela? – virou o rosto para mim.
- Pelo mesmo motivo de mais cedo. – Ela riu. – Eu fico o dia inteiro fora de casa. – Ela suspirou. – Mas ela é linda.
- A gente pode fazer isso juntos. – Comentei e ela se virou, olhando para mim.
- Você sabe que é um grande comprometimento, não sabe? – Ela suspirou e colocou o filhote sonolento no cercadinho de novo. – Maior que um relacionamento.
- Eu sei! – Sorri. – A gente pode começar por isso e ver no que vai dar.
- Eu não tenho tempo, . – Ela suspirou e eu me levantei do chão, dando as mãos para ela fazer o mesmo, fazendo a toalha cair de sua cabeça.
- A gente divide isso. – Ela suspirou e passou as mãos nos cabelos bagunçados e molhados.
- Como se você mora em Los Angeles? – Sorri e sentei na minha cama.
- Só quando é filhote que você não pode deixar muito tempo sozinho e ela está mamando, então não vai poder sair daqui pelo próximo mês, pelo menos. – suspirou, pendurando a toalha em uma cadeira. – Quando crescer você pode deixar sozinha com água e comida, eu te ajudo, alguns dias eu levo para Los Angeles, alguns dias a gente fica aqui. Podemos fazer dar certo. – suspirou e se sentou ao meu lado.
- Eu nunca cuidei de um cachorro antes. – Ela comentou e eu ri.
- Então, isso é medo.
- É, um pouco, confesso.
- Eu te ajudo. – Ergui a mão e toquei seus cabelos molhados, jogando-o para trás.
- Você tem certeza disso? – Ela perguntou e eu concordei com a cabeça.
- Tenho, ! – Ela suspirou.
- Ok, a gente faz isso. – Um sorriso largo abriu em seu rosto.
- A gente só precisa de um nome agora. – Comentei e ela riu, fazendo uma careta e deitou em minha cama, aquilo pareceu tão certo.
- Leslie! – disse em um pulo, se sentando na cama novamente. – O que você acha?
- Leslie? – Pensei por um segundo. – Estranho, mas pode ser. – abriu um sorriso e se deitou novamente na cama, e eu fiz o mesmo, passando meu braço pela sua cintura.
- Hoje foi divertido. – Ela comentou. – Tirando a parte do tornado. – Ri fracamente. – Nesses quase dois anos que eu estou aqui em Boston nunca vi neve, nem tornado, ou qualquer tipo de acontecimento natural. – Ela riu e colocou a cabeça em meu peito, ficando de lado na cama.
Uma batida fraca na porta e ela sendo aberta fez com que eu e erguêssemos a cabeça para ver Seth na porta.
- Vem comer! – Ele comentou, se levantou e eu fiz o mesmo. Assim que passamos da porta, começou a gargalhar com Seth que a encarava.
- Eu sei, Seth. Estou bem fashion! – Nós três gargalhamos e vi Cady e Sharon aparecer pelas portas dos quartos também.
- Os garotos dormiram. – Cady comentou e ela e Sharon foram à frente nas escadas e Seth logo atrás, escorregando pelo corrimão como fazia sempre.
- Obrigada! – falou ao meu lado e eu olhei para ela, franzindo a testa. - Por me apresentar a eles. – Ela segurou minha mão, entrelaçando nossos dedos. – Eles são demais!
- Considere-os sua segunda família. – Comentei e ela depositou um beijo rápido em minha bochecha, antes de começar a descer as escadas, já que minha mãe chamava todos enquanto batia as mãos, nos apressando.
- Todos os meus filhos juntos aqui, vamos aproveitar esse momento! – Ela comentou e segurou a mão de , guiando-a até a mesa. – Venha, querida. Você é nossa convidada de honra! – Ela comentou e sorriu, abraçando a mais baixa de lado, o que me fez rir com a diferença de altura.
Olhei aquela cena por um momento, havia sentado na cadeira entre Seth e minha mãe, ambos se empurraram com os ombros e eu ri. Em poucos segundos as bandejas de pães e bolos, jarras de leite, suco e café começaram a ser passadas e fazia tudo no automático, já que seu olhar se focou no meu por um tempo. Um sorriso largo se formou em meus lábios e, involuntariamente, eu sorri, descendo o resto das escadas e ocupando o lugar em frente a e ao lado de minha mãe e de Sharon, recebendo um pedaço de pão no rosto, de Seth, fazendo a mesa inteira gargalhar.



Capítulo 7

(Não precisa mudar, vou me adaptar ao seu jeito, seus costumes, seus defeitos, seus ciúmes, suas caras, pra que mudá-las? Não precisa mudar, vou saber fazer o seu jogo, saber tudo do seu gosto, sem deixar nenhuma mágoa, sem cobrar nada. – Ivete Sangalo e Saulo Fernandes, Não Precisa Mudar)

- Relaxa, ! – Falei pela milésima vez, ouvindo-o bufar do outro lado da linha enquanto Denise mexia em meus cabelos e passava creme.
- Que horas você chega?
- Ah, sei lá, meu voo acho que é o último da noite, devo chegar aí quase meia-noite.
- Tem como você ver isso para mim?
- Tenho, mas estou aqui no Rupert, só Deus sabe que horas chego em casa e de lá é correr pro aeroporto. – Falei e tirei o telefone da orelha, ouvindo sua voz mais baixa do outro lado da linha. – Ah, que inferno! Qualquer coisa eu te espero na varanda, já que você tem tanta coisa para fazer. – Falei, respirando fundo e desliguei o celular.
- Brigando de novo? – Denise comentou.
- Ah, são sempre assuntos tontos e idiotas. Eu sou esquentada, o deixo esquentado, dá nisso. – Suspirei, vendo o celular vibrar na minha mão de novo e rejeitei a ligação. – Só vou atender quando ele estiver mais calmo. – Suspirei.
- Quanto tempo que vocês estão juntos?
- Agora no fim de novembro dá quatro meses, Dê! – Suspirei e abri um sorriso quando ela riu.
- Viu?! – Ela amarrou meu cabelo em uma touca e me deixou sentar na cadeira. – Vocês brigam, mas ele te faz bem. Você está muito feliz, ! – Abri um sorriso para ela e passei a ponta da toalha em minha orelha. – Agora, para de ser orgulhosa e atende ele, você tem que ficar com o creme no cabelo por pelo menos meia hora. – Sorri para ela que desceu as escadas do ateliê de Rupert e suspirei.
Peguei meu celular e o senti vibrando em minha mão, vendo uma foto minha e de aparecer. Respirei fundo e me sentei no sofá mais próximo, deslizando o botão verde. Assim que coloquei o celular no ouvido, pude ouvir um suspiro longo pelo bocal, meu corpo produziu o mesmo som.
- Vamos parar com isso. – Ele falou e eu soltei a respiração forte pelo nariz.
- A gente precisa. – Falei e passei a mão na testa. – É ridículo. – Soltei uma risada fraca e ele riu do outro lado da linha.
- Só um pouco. – Ele comentou e eu encostei a cabeça no sofá.
- Meu voo é à noite, por volta da meia noite. – Falei ouvindo minha barriga roncar.
- Você está no Rupert? – Ele perguntou.
- Denise, na verdade, ela está dando um jeito no meu cabelo. – Comentei e passei a mão na ponta da toalha. – Preciso estar bonita para visitar meu namorado, certo?! – Ele deu uma risada do outro lado da linha. – Se você estiver um compromisso ou alguma coisa, você pode ir, só pede pro Larry ou pro Jordan abrir para mim. Eu me viro, você sabe. – Ele suspirou do outro lado da linha.
- É, mas a gente não se vê há mais de um mês. Vou ver o que faço. – Ele falou e eu confirmei com a boca.
- Não se preocupe comigo. – Suspirei. – Vai se divertir. – Ele afirmou com a boca, sem falar mais nada. – Você sabe que se sair alguma foto de você ao menos olhando para alguém, você tá ferrado. – Ele soltou uma gargalhada.
- Com isso você não precisa se preocupar. – Ouvi um grito próximo de onde ele estava.
- Onde você está?
- No LAX, acho que Melina se esqueceu de mandar alguém me buscar. – Soltei uma risada.
- Coitado. – Comentei e ele riu. – Vou checar isso para você e te mando mensagem.
- Ok, obrigado, ! – Ele falou e eu ri.
- Te vejo mais tarde, . Tenho que terminar aqui e ir logo para o aeroporto. – Ele fez um muxoxo com a boca e eu sorri.
- Eu te amo, .
- Nunca vou esquecer. – Comentei. – Te amo também, irritadinho!
- Tá! – Ele comentou e ficou em silêncio.
- Câmbio e desligo. – Falei e desliguei o celular.
- De volta aos trilhos? – Denise perguntou.
- A gente nunca realmente sai dos trilhos, nossa montanha-russa é calma. – Dei de ombros e ela riu.
- Vou fazer uma maquiagem em você, ok?!
- Não precisa, Dê! – Falei rindo.
- Você não o vê faz tempo, prepare uma surpresinha para ele. – Soltei uma risada.
- Uma espinha no meio da testa é uma delas. – Falei passando a mão no ponto vermelho levemente alto em meu rosto.
- Escondo isso facinho. – Ela pegou a maleta de maquiagens e a colocou ao lado da cadeira que eu estava antes. – Vamos tirar isso do cabelo e te deixar estonteante.
- Desculpa, Dê, mas isso eu já sou! – Comentei e ambas gargalhamos.
- Você é, , você é!

Dei uma ajeitada na minha roupa antes de passar pelos portões cinza, fechando meu sobretudo preto e ajeitando o cachecol em meu pescoço. Arrumei minha bolsa em cima da minha pequena mala e entrei. Agradeci a Jordan pelo interfone e fechei o primeiro portão. Assim que passei pelo segundo portão, vi uma pessoa, com a roupa muito parecida com a minha sendo iluminada pela pouca luz acima da porta de entrada.
Suas mãos estavam colocadas dentro do casaco pesado e um largo sorriso apareceu quando eu o encarei com meus olhos. Soltei minha bolsa no chão, tirei a mochila das costas e a deixei cair no chão. Fiz o caminho a passos rápidos e passei meus braços pelo seu pescoço, sentindo suas mãos imediatamente irem para as minhas coxas, me erguendo e eu passei as pernas pela sua cintura, sentindo nossos cachecóis impedirem que nos encostássemos.
- Não foi à festa? - Falei sentindo seus lábios se chocarem nos meus diversas vezes, ele soltou uma risada fraca.
- Na verdade não e, mesmo se tivesse ido, já passam das três da manhã, o que houve? Estava ficando preocupado, te ligava e ninguém atendia.
- Ah! - Suspirei, apertando mais meus braços em seu pescoço. – O voo atrasou, aí depois a tripulação estava chegando em outro voo. Nossa! - Suspirei e soltei minhas pernas de sua cintura, colocando os pés no chão. - Então não tinha táxi as duas e pouco da madrugada, como não tem táxi no aeroporto de Los Angeles? - Ele deu uma risada fraca.
- Nós dois com problemas em aeroportos hoje. - Soltei uma risada fraca.
- Nem fala. - Suspirei e ergui minhas mãos para tocar suas bochechas, onde uma grossa camada de pelos cobria as mesmas. - Eu gostei! - Falei e aproximei meus lábios nos dele, sentindo os pelos colarem no meu rosto.
Soltei um suspiro fraco e abaixei minhas mãos até que ambas estivessem em seu pescoço. Sua mão passeava pelas minhas costas, procurando alguma brecha para colocar a mão embaixo do pesado sobretudo. Senti uma leve mordida em meu lábio inferior e afastei nossos rostos levemente.
- Prefiro ficar assim dentro do seu quarto, com o aquecedor ligado, depois de um banho quente. - Cochichei e ele riu.
- Já deixei tudo pronto para você! - Ele falou e um largo sorriso apareceu em meu rosto.
Ele pegou minha mochila no chão e eu peguei minha bolsa, me colocando ao seu lado. Ele empurrou a porta de casa, me deixando passar e imediatamente o ar quente do aquecedor fez com que eu relaxasse, coloquei minha bolsa no balcão da cozinha e comecei a tirar meu cachecol azul, as luvas e o sobretudo e joguei em cima da bolsa. Um latido fino fez com que eu me alertasse, vendo a ainda pequena buldogue branca e cor de mel correr meio desajeitada em minha direção.
- Leslie! – Gritei me abaixando até ela, e a vi pular em minhas pernas. – Sua linda! – Passei minhas mãos em seu pelo, acariciando suas dobrinhas. – Se comportou? – riu ao meu lado e eu a peguei em meu colo, vendo-a se acomodar em meus braços.
- Tenho que perguntar isso quando ela fica contigo, ok?! – Ele falou e deu um beijo em minha bochecha. – Vem! Até seu rosto tá gelado.
O acompanhei até seu quarto e coloquei a pequena bolinha de pelos em um almofadão gigante para ela, que ficava aos pés de uma cadeira no quarto de . Ela deu um latido fino, mas logo se aquietou, se deitando no local macio. estava na porta do banheiro e eu o segui. Dentro do banheiro, sua larga banheira estava cheia e espuma podia ser vista por cima da água, como também sentir um divino cheiro de lavanda no ar.
- Espuma e sais de banho? – Comentei e ele abriu um sorriso de lado, confirmando com a cabeça. – Acho que mereço isso!
- Também acho. – Ele falou em meu ouvido e passou a mão em minha cintura, caminhando até o centro do banheiro e fechou a porta em um chute leve.
Os vidros e espelhos do banheiro estavam embaçados e o lugar meio esfumaçado. Suas mãos começaram a tocar as laterais do meu corpo e, como sempre, eu havia esquecido como respirar. Sua respiração estava em meu pescoço, minha blusa foi enrolada para cima até que parou abaixo de meus seios. Ele deslizou a mão para minha barriga, até que eu fechei os olhos. Uma mão subiu para o meu queixo e ergueu meu rosto, fazendo com que meus olhos castanhos, focassem nos seus azuis.
Suas mãos abaixaram novamente e seguraram a barra da minha blusa de manga comprida, puxando-a para cima, fazendo com que meus cabelos caíssem desajeitados em meus ombros e minhas costas. Minha mão subiu para seu cachecol e o puxei, fazendo com que ele caísse no chão, silenciosamente. soltou uma risada fraca e eu suspirei, colocando as mãos em seus ombros, por dentro do casaco, e empurrei o mesmo para trás, até que ele se juntasse ao cachecol no chão.
Aquele momento não precisava de palavras, a saudade não podia ser descrita, ela tinha que ser sentida. As roupas foram jogadas no chão uma a uma, primeiro eu e depois ele. Seu braço foi para trás de minhas costas e a outra para minhas pernas, até que meu corpo nu estava em seus braços, sendo colocado delicadamente na água quente, onde meu corpo imediatamente relaxou.
puxou sua cueca clara para baixo e entrou na banheira, se acomodando atrás de mim, fazendo com que eu me encostasse-se a seu peitoral. Apoiei minhas mãos em suas coxas e suspirei, sentindo meu corpo encaixar no lugar que ele pertencia. Suas mãos passeavam pela minha barriga, fazendo com que eu a contraísse diversas vezes.
Deus! Aquela sensação era boa. Não tinha aquela vontade de sexo no ar, nenhum estava tentando excitar o outro, estávamos quietos. Sua mão passeava calmamente pela minha barriga, e eu me forçava para não encostar em nada. Tirando minhas mãos que estavam espalmadas em suas coxas.
- Sem querer estragar esse momento, mas já estragando. - Ele riu. - Isso está uma delícia, mas eu estou com sono. - Comentei, ouvindo-o gargalhar próximo a meu ouvido.
- Vamos dormir então! Temos até o fim de semana para aproveitar. - Ele falou e estalou os lábios em minha bochecha.

Espreguicei-me na cama e abri os olhos, vendo os poucos raios de sol passar pela cortina fechada. Passei a mão ao lado da minha cama, sentindo o espaço vazio e suspirei. Joguei minhas pernas para o lado e vesti a camiseta escura de em meu corpo, passei rapidamente no banheiro, sentindo o cômodo frio e fiz uma careta ao ligar a água que demorou para esquentar. Escovei rapidamente os dentes e, na volta para o quarto, puxei uma calça de moletom da minha mochila e a vesti, abrindo a porta do quarto e sentindo o ar quente se misturar com o frio.
Cheguei à cozinha e posso jurar que todos os armários estavam abertos e me surpreendi por não ter nada neles. passava por todos os armários, incluindo a geladeira, com um bloco de anotações e uma caneta, e fazia uma lista.
- Acho que se você colocar 'tudo', é mais fácil de lembrar. - Falei e passei pela geladeira, encontrando uma embalagem com pouco mais de um dedo de suco de laranja.
- Eu realmente preciso fazer compras. - Peguei um copo no armário e despejei o pouco de suco que restava.
- Isso está pior que a minha casa e olha que eu almoço fora todo dia. - Virei o copo de suco para dentro e suspirei. - Não tem alguém que faça compras para você, não? - Perguntei e franzi a testa.
- Me senti ofendido agora. - Soltei uma risada fraca. - Eu posso fazer minhas próprias compras.
- É. Só não com muita frequência. - Comentei e ele riu.
- Eu estive ocupado ultimamente! - Ele bateu uma porta do armário.
- Coçando? - Ele deu de ombros e eu ri.
- Engraçadinha! - Ele bateu mais algumas portas. - O que acha de sairmos para almoçar, porque já são quase meio dia e depois a gente passa no mercado?
- Sou visita, amor. Você decide. - Andei pela sala, vendo Leslie erguer a cabeça de sua almofada e começar a me seguir.
- Visita? Tá! - Me agachei e acariciei o pelo mesclado de Leslie, que soltava finos latidos por causa disso. - Ok, eu vou me arrumar e a gente sai em 30 minutos. Combinado? - Ele perguntou passando em minha frente.
- Fico pronta em dez. - Passei por ele, estalando um beijo em sua bochecha e caminhei até seu quarto com Leslie desfilando a meu encalço.
- Ela gosta mais de você do que de mim. - Ele comentou andando atrás de mim, brincando com Leslie entre seus pés.
- Mulheres tem que permanecer juntas. - Entrei em seu quarto, já puxando minha mochila da poltrona e a apoiei na cama, ouvi os latidos da pequena Leslie enquanto ela tentava subir na poltrona alta. a pegou e a colocou rapidamente na poltrona, fazendo-a se aquietar.
tirou sua calça de moletom e vestiu uma calça jeans escura, colocou uma camiseta branca e uma camisa social azul clara por cima, fechando somente os botões de baixo. Um par de botas escuras estava em seus pés, enquanto eu ainda puxava a blusa que eu havia dormido para cima e a jogava na cama. Vesti calças jeans e uma blusa de manga comprida verde escura, colada ao corpo, calcei as botas do dia anterior e passei no banheiro para dar um jeito na minha cara de sono, passando lápis no olho e um batom nos lábios.
Quando voltei do banheiro, estava com seus óculos de sol no rosto e colocava sua carteira no bolso de trás da calça. Abri minha bolsa e puxei minha carteira, pegando meu cartão e colocando no bolso da calça, fazendo o mesmo com o celular. Soltei meu cabelo bagunçado e chacoalhei o mesmo, torcendo para que ele tenha melhorado.
- Vamos deixá-la aqui? - Perguntei virando o rosto para Leslie.
- Larry e Jordan estão aqui, eles ficam de olho. - Afirmei com a cabeça, e ele me deu sua mão, caminhando até o quintal, onde entramos em seu carro e eu bati a porta, ouvindo um baque alto demais.
- Desculpa. – Falei, sabendo seu amor por aquele carro. Tanto que ele já tinha trocado três vezes pelo mesmo modelo.
- Relaxa! - Sorri. - Onde quer comer?
- Estou em dúvida entre comida mexicana e comida americana. - Falei e ele soltou uma risada.
- Tem um lugar que eu vou sempre de comida mexicana, caso queira conhecer. - Ponderei com a cabeça.
- Tenho certeza que você já levou outras namoradas lá, mas minha fome não está se importando com esse fato. - Ele gargalhou e engatou a ré no carro, apertando o botão no controle do portão.
- Tacos, então. - Puxei o cinto de segurança e senti o carro dar ré.

gargalhava, sentado em minha frente, quando quase todo o recheio do meu taco caiu de minha mão para o prato e eu tive que pegar os garfos para finalizar meu almoço. Ele já havia terminado faz tempo e ria do meu desentendimento com a comida mexicana. Não é que eu nunca havia comido, era só que eu queria colocar mais comida do que cabia na minha boca e isso não dava certo!
Soltei os pedaços que sobraram do taco em minha mão e limpei-as no guardanapo, pegando o garfo em seguida. ainda me encarava, os braços cruzados em cima do peito, um sorriso brincalhão no rosto e as costas encostadas completamente na cadeira. Equilibrei a casca do taco e a coloquei na boca, dando um sorriso cínico para .
- Não sei por que você tá me olhando assim, eu ainda quero sobremesa. - Dei de ombros e comecei a caçar o guacamole, sour cream e afins no meu prato.
- O que você quer? - Ele desencostou da cadeira e apoiou os ombros na mesa.
- Churros, é claro.
- Com chocolate? - Fiz uma careta.
- O melhor é com doce de leite, mas vocês meros mortais não sabem o gosto desse doce delicioso. - Dei um sorriso irônico e juro que se estivéssemos sozinhos, ele mostraria o dedo do meio para mim.
- O que é esse doce de leite? - Soltei uma risada e coloquei o garfo vazio na boca. - Segredo de estado?
- É que assim, os doces brasileiros dito como “clássicos” são simples de fazer e vocês nem ao menos conhecem. - Apoiei o garfo no prato. - Doce de leite nada mais é do que leite condensado cozido. - Suspirei. - Você coloca na panela de pressão, conta 40 minutos e voilá.
- Tá que é fácil assim!
- Te juro. - Encarei profundamente seus olhos azuis. - E você pode comer com... Bem, qualquer coisa. Adoro com queijo ou banana, ou na pizza, ou... Com churros. - Abri um sorriso e ele esticou o dedo, chamando a garçonete. – E dá para misturar várias coisas, como coco ralado, amendoim ou frutas secas, sei lá.
- Uma porção de churros, por favor. - Abri um largo sorriso, a moça anotou e se afastou. - Você vai ter que fazer para mim. - Ele falou com um sorriso no rosto.
- Você tem uma panela de pressão por acaso? - Ele fechou o sorriso na hora. - Foi o que eu pensei.
- Iremos comprar uma, então. - Revirei os olhos e o ouvi rir.
- Ok. - Desapoiei os braços da mesa, vendo a garçonete retirar meu prato e outra colocar uma porção com doze churros em nossa frente e um copo cheio de chocolate derretido, peguei o primeiro, molhei no chocolate e coloquei na boca.
- Não tenho nem humor para fazer compras agora. - Ele comentou, colocando um churros na boca.
- Eu tenho! - Abri um sorriso e coloquei outro churros na boca.

- Isso é maldade! - comentou após bater a porta de seu carro, enquanto eu ajeitava a barra da minha blusa, puxando e cobrindo minhas mãos.
- Da próxima vez vê se não deixa acabar toda a comida da sua casa, quem sabe isso não seja necessário. - Ele soltou uma risada e segurou minha mão, entrelaçando nossos dedos.
- Não quer fazer isso para mim, não?! – Ele comentou andando em direção as portas do mercado.
- Por que homem odeia fazer compras? – O vi esticar a mão livre para a fila de carrinhos e pegar um, fazendo com que eu soltasse sua mão para ele empurrar o mesmo, mas me mantive ao seu lado.
- É coisa do gênero, sabia? Ou sei lá! – Soltei uma gargalhada, sentindo o ar quente do supermercado bater contra meu corpo, me fazendo soltar as mãos de meus braços.
- Agora o “gênero” – Fiz aspas com as mãos. – tem a ver com comida? – Revirei os olhos. – Rá, rá, rá! Larga de preguiça! – Ele suspirou, apoiando os braços no carrinho e se debruçando sobre o mesmo, empurrando enquanto eu andava na frente. – Você precisa de tudo, certo? Então, eu pego e você paga! – Ele gargalhou.
- Sem problemas!
A primeira coisa que foi colocada no carrinho foi uma panela de pressão. Honestamente, eu só mexia em uma daquelas quando minha mãe estava por perto, eu tinha um pequeno medo daquela coisa explodir, mas a que pegamos era muito mais tecnológica do que aquelas de válvula que minha mãe tinha.
Algo que eu descobri com no mercado: ele falava que odiava fazer compras, mas ele amava umas guloseimas, e claro, cerveja. Ele pegava aqueles sacos de balas de gelatina e lotava o carrinho, tirando as barras de chocolate, os sorvetes e sei lá mais o quê, se eu já achava difícil ficar com o corpo pelo menos saudável, imagina ele que tinha que ficar totalmente em forma. Me desculpe o palavreado, mas porra parecia que para homens era tão mais fácil.
- Leite condensado! – Falei dando um pulo ao ver as diversas marcas de leite condensado, pegando duas latas, conferindo se não estava amassada, e coloquei em cima de tudo no carrinho, que já cobria o topo. – Mais alguma coisa? Mais algum doce? Glicose no sangue? Algo assim? – mordeu minha bochecha e parou no caixa, começando a colocar tudo na esteira, eu tomei seu lugar atrás do carrinho, e me debrucei sobre o mesmo.
- Eu acho que você está zoando com a minha cara.
- Ah! – Fiz uma voz fofa. – Ainda bem que você só acha. – Pressionei meus lábios em sua bochecha, e passei atrás dele, apertando as mãos na lateral de sua barriga, vendo ele se contorcer.
- Daqui para onde? – Ele perguntou enquanto eu abria as sacolas de papel, começando a ensacar as coisas.
- Sua casa? Agora que temos comida, posso pensar em uma janta, vinho, eu e você, aquela fogueira que você tem no quintal, quem sabe? – Falei em um tom de voz baixo enquanto ele entregava o cartão de crédito para a atendente e ele somente confirmou com a cabeça.
- Você e suas comidas deliciosas? - Ele perguntou.
- Exatamente. - Coloquei a última sacola dentro do carrinho e ele guardou sua carteira no bolso.
- O que você tem em mente? - Ele colocou as mãos no carrinho e saímos juntos do mercado.
- Você já comeu a tradicional comida brasileira? - Perguntei, pegando um pacote de bolachas na sacola mais próxima e abri o mesmo, mordiscando a primeira.
- Só o que você fez e, claro, churrasco. Por quê? - Ele perguntou e apontou para a bolacha, abrindo a boca.
- Porque tem uma comida brasileira que assim, é a coisa mais fácil de fazer. - Falei e peguei uma bolacha, colocando na sua boca, o vendo mastigá-la por inteiro. - É a famosa comida brasileira. - Senti a luz de fora bater em meu rosto e o frio bagunçar meus cabelos. - Arroz, feijão, bife e batata frita. - Falei e coloquei outra bolacha na minha boca.
- Tenho uma pergunta, quero outra bolacha, você sabe fazer algo que não seja brasileiro? - Franzi a testa para ele e coloquei outra bolacha em sua boca.
- Por acaso eu sei, ok? Só me dar a receita. Mas sei lá é questão de costume mesmo. - Dei de ombros. - Merda! - Falei ao ver uma pessoa parada ao lado de um dos carros no estacionamento e nos seguir a cada passo que a gente dava, com uma câmera profissional nas mãos. Instintivamente, abaixei o rosto, deixando os cabelos cair no mesmo.
- Não se preocupe. - falou, seguindo em direção ao carro normalmente.
- Eu não... Eu... ! - Falei em tom firme.
- Preocupada? - Minhas armas caíram naquela hora com aquele sorriso fofo que ele deu.
- Eu não tenho que ter preocupação nenhuma. - Falei simplesmente. - Você que tem.
- Acho que você ainda não entendeu. - Ele destravou o carro, fazendo o porta-malas se abrir em um clique. - Se eu estou saindo em público contigo, é porque eu quero que o público te veja, entendeu? Ou quer que desenhe? Eu não tenho que esconder minha felicidade. - Soltei uma risada fraca e passei por ele, entrando no carro, para esconder o sorriso gigante que eu tinha no rosto.
Logo eu pude ouvir o barulho do porta-malas batendo e demorar um pouco, mas logo voltar e entrar no carro.
- O que você pensou? - Ele ligou o carro.
- Como assim?
- Da gente, você pensou que isso não aconteceria? - Suspirei e apoiei minha cabeça no encosto do carro.
- Eu não sabia o que pensar, ! Eu nunca namorei alguém famoso. - Falei elevando meu tom de voz. - Eu mal namorei, para falar a verdade. Como você quer que eu saiba como agir?!
- Eu disse que topava tudo contigo, não disse? - Ele manteve seu tom de voz normal e eu suspirei. - Não disse, ? - Ele aumentou um pouco seu tom de voz também, e só afirmei com a cabeça. - Me responda.
- É, falou. - Suspirei.
- Então?!
- Então, sei lá. - Me ergui no banco do carro. - Honestamente, eu não tenho argumentos para essa.
- Só quero saber se você entendeu que eu estou levando a sério e, com o tempo, só vou levar mais ainda.
- Entendi! - Abri um sorriso e ele riu, olhando para mim por poucos segundos e depois virou o rosto para a rua novamente. - Vamos falar da nossa janta agora...
- Ah, parece que alguém odeia perder.
- Próximo assunto, por favor. - Falei e ele riu.
- Você tem sorte de eu ser mais calmo. - Ele comentou, apertando o botão do controle remoto.
- Sei, super calmo! - Falei ironicamente e ele nem se abalou. - Quem não gosta de perder agora? - Ele mostrou a língua, o carro entrou no quintal e o portão se fechou novamente atrás de nós.

- Enfim, o que eu ia dizer. - Ele falou enquanto voltava com as últimas sacolas e apoiava na bancada. - Eu posso te dar um descanso e fazer alguma coisa para gente.
- E o que você sabe fazer, senhor ? – Falei, me virando no banquinho, fazendo com que ele girasse.
- Sou muito bom com panquecas, por sinal. - Soltei uma risada e apoiei meus cotovelos na bancada.
- Sei! - Suspirei. - Sabe o que eu vou fazer? - Girei novamente no banco. - Eu vou deixar você se virar com a janta, vou tomar um banho quente e colocar um pijama mais quente ainda. - Me debrucei sobre a bancada e encostei meus lábios nos dele rapidamente e o vi sorrir. - Por favor, não queime a casa.
- Pode deixar! - Ele riu e eu girei novamente no banco, pulando para fora do mesmo e fui em direção ao seu quarto, ouvindo as patas da pequena Leslie tentarem me acompanhar.
Saí do banho e fiz um coque desajeitado que soltou logo em seguida, coloquei meu pijama de manga comprida azul. Dei uma franzida na testa, ao ver uma espinha bem avermelhada e suspirei, com preguiça de passar algo em meu rosto. Chequei meu celular e vi que não havia nenhuma mensagem importante, somente algumas notificações do Facebook e do Instagram.
- E aí, folgada?! – Falei com uma voz fina que fez Leslie erguer a cabeça da cama, onde ela estava deitada no meio.
Me sentei ao seu lado, vendo-a caminhar desajeitadamente por cima da cama macia e deitar novamente, colocando a cabeça em meu colo. Ela abriu a boca, bocejando, soltou um grunhido fofo e fechou os olhos. Coloquei a mão sobre seu pelo e o esfreguei levemente, fiz um carinho próximo a seus olhos e suspirei, abrindo um sorriso de criança.
- Eu tenho um cachorro! – Comemorei baixo e tirei meu celular da cintura e coloquei na câmera fotográfica.
Curvei meu corpo, tentando me mexer pouco para que a bolinha de pelos não acordasse e enquadrei nós duas na foto e cliquei, abrindo rapidamente o Instagram. “Meet Leslie”, essa foi minha legenda, intercalando emojis de corações e rostinhos com corações no lugar dos olhos, enviei a foto e poucos segundos depois já tinha a primeira curtida. Franzi a testa.
Cliquei nos seguidores e vi que passava dos sete mil seguidores e a cada nova foto, várias pessoas que eu não conhecia postavam comentários sobre mim, ou sobre , a maioria coisas boas, as ruins eu simplesmente ignorava. Ninguém destruiria minha felicidade. Me afastei um pouco de Leslie e vi sua cabeça escorregar da minha perna e ser apoiada na cama novamente. Calcei um par de meias e meu chinelo de dormir que estava na beirada da cama, agarrei o celular entre os dedos e voltei patinando para a cozinha, onde um delicioso cheiro de chocolate reinava no ar.
No balcão tinham três pratos dispostos, todos com grandes pilhas de panquecas. Uma estava coberta com uma grossa camada de mel, outra com uma grossa camada de chocolate derretido e a terceira estava sem nenhuma cobertura. Eu morri e fui para o céu? Duas taças muito bem lustradas ocupavam espaço em cima do jogo americano, onde dois pratos pequenos estavam colocados junto. E no meio do balcão, um pequeno vaso de lírios, minha flor favorita. Ele sabia disso.
- O que é tudo isso? – Falei, vendo-o de costas para o balcão, lavando a louça acumulada dentro da pia. Seu rosto virou imediatamente.
- Seu jantar, madame. – Ele comentou e eu ri. – Ou lanche da tarde, na verdade. – Soltei uma risada e passei a mão pelo balcão, contornando o mesmo e parando atrás dele.
- E esse prato sem cobertura? O que vai fazer? - Passei minhas mãos pela sua cintura, em um carinho leve, até que eu chegasse em sua barriga.
- Você disse que doce de leite fica bom com quase tudo, não?! – Fiz um movimento com a cabeça, o qual meu queixo batia em suas costas.
- Falei! E fica. – Ele riu fracamente.
- Acha que ficaria bom com panquecas? – Soltei uma risada alta.
- Com certeza! – Falei e dei uma mordida de leve em seu pescoço, sugando aquela porção de pele por alguns segundos, até que eu visse um pequeno avermelhado no mesmo.
- Deixando marcas agora? – Soltei uma risada fraca e soltei os braços de seu corpo, me colocando ao seu lado e avistando um pote de morangos.
- Só delimitando meu espaço. – Soltei uma risada e peguei um morango, mordendo-o.
- Isso é sexy, sabia? – Engoli a parte mordida e soltei uma risada.
- Mas definitivamente fica melhor em filmes, não gosto de morango puro! – Fiz uma careta e riu, ergui a fruta e ele o mordeu, deixando somente o cabinho verde em minha mão. – Um leite condensado aqui cairia muito bem. – Dei de ombros e lambi o dedo indicador e o médio, me direcionando as sacolas que ainda estavam no canto do balcão.
Procurei rapidamente a lata e a assim que a encontrei, puxei a mesma. Voltei para o lado de e com um rápido movimento no quadril, ele se afastou para o lado um pouco e eu coloquei a lata embaixo d’água, esfregando com a ponta da unha para que o rótulo saísse quase inteiro após uns segundos.
- Sempre tire o rótulo, falam que se não tirar tem perigo do papel dissolver e entupir o bico, não sei o que pode rolar se isso acontecer, mas se dizem, não é por bobeira. – Ele soltou uma risada e passou as mãos molhadas na calça, e foi em direção à panela de pressão ainda na caixa. Ele tirou o grande saco da caixa e tirou a panela, olhou meio estranho para a mesma que fez com que eu risse.
- E aí? – Ele trouxe para perto de mim e eu tirei a tampa da mesma, colocando a lata dentro da panela e a coloquei embaixo da água, enchendo-a até cobrir a lata e coloquei mais um pouco, desligando a torneira.
- Agora você fecha e coloca no forno. Quando começar a chiar, você conta quarenta minutos. – Dei de ombros e ele riu debochado.
- Só isso?
- Só isso. – Repeti. – O tempo que você deixa varia a cor e acho que o gosto, eu nunca deixei menos que 40 minutos, então assim, se deixar menos, ele fica um doce de leite mais claro e mais mole. Se você deixa os 40 minutos, que é o tempo que eu gosto, ele fica um cor de abóbora queimada e a consistência mais firme, perfeita para rechear cupcakes. E se você deixar quase uma hora, ele fica mais escuro, e não sei o gosto, nem a textura. – Ele balançou a cabeça como se entendesse e se aproximou de seu fogão super chique, conhecidos como cooktop. Ele o ligou e colocou a panela sobre o mesmo. – Só avisando, se acontecer alguma coisa, a culpa é sua. – Cochichei para ele e ele riu, passando um braço pelos meus ombros e me puxando para o outro lado do balcão, onde ele puxou o banco, e abriu espaço para que eu sentasse.
- Espero que goste. Fiz panquecas todos os dias durante toda minha adolescência de café da manhã, e todo mundo comia com gosto, então... – Ele deixou a frase no ar e o vi pegar uma faca e cortar a pilha de panquecas em quatro, como se fosse um bolo e colocou um pedaço de cada uma para mim, fazendo-as desempilharem no meu prato.
Peguei o garfo e espetei o primeiro pedaço de chocolate e coloquei na boca. Não era simplesmente chocolate aquilo, era uma calda de chocolate, açucarada e deliciosa, que escorreu pelo meu queixo e só via gargalhando ao meu lado, não tinha nem com o que eu zoasse com ele, aquela cena deveria estar realmente hilária.
Meu celular vibrou na outra ponta do balcão e eu me estiquei para pegá-lo.
- É a Melina! – Anunciei e descansei o garfo, podendo deslizar o botão que atende a chamada. – Quem perturba minha janta? – Falei e ela riu do outro lado.
- Janta? , são cinco e meia da tarde. – Soltei uma risada e ela me acompanhou.
- Reclame com seu cliente. – Troquei o telefone de lado. – Qual o motivo da ligação? – Passei a mão em meu cabelo molhado, colocando uma mecha atrás da orelha.
- Temos uma reunião amanhã sobre o filme do , ele pode falar? – Sem ao menos perguntar, eu tirei o telefone da orelha e coloquei no viva-voz.
- Ele está te ouvindo, Melina. – Anunciei e abaixou o garfo também.
- Oi, Melina! – Ele falou.
- E aí, !
- Quais as novidades? – Ele perguntou e eu apoiei meu cotovelo na mesa, prestando atenção.
- Eu tenho o roteiro final, os gastos totais do filme e também datas e liberações para gravar em Nova York. Precisamos discutir isso. – O encarei que me encarou de volta, abri um sorriso de leve.
- Quando podemos nos encontrar? – perguntou.
- Pode ser amanhã? Sei que você está na sua folga, , você não precisa...
- Eu vou, pode ter certeza. – Falei rapidamente.
- Prometo que depois ajeitaremos suas folgas, ok?! – Instintivamente afirmei com a cabeça e fiz um barulho com a boca.
- Que horas amanhã? – Perguntei.
- Para o almoço?
- Se formos nos encontrar em algum lugar e não tivesse comida, aí sim me surpreenderia. – Nós três rimos. – Pode ser para você, ? – Ergui os olhos para meu namorado.
- Confirmado, então! Nos vemos amanhã, no lugar de sempre. – afirmou com a boca. – Tchau, crianças! – E desligou.
Soltei o celular, o empurrei para longe do balcão e peguei o garfo novamente.
- Empolgado? – Perguntei a ele.
- Com o quê? – Ele falou com a boca suja de chocolate.
- Dirigir um filme, colocar sua sorte em algo novo. – Falei de forma fofa e ele abriu um sorriso.
- Estou empolgado, mas estou nervoso também.
- Faz parte quando vamos começar algo que nunca fizemos, não?! – Abri um sorriso de lado e ele afirmou com a cabeça.
- Você está certa.
- E relaxa, caso algo não dê certo, saiba que eu estarei perto para recuperar suas forças. – Ele apoiou sua mão em cima da minha na mesa e eu escorreguei o corpo para o lado, encostando minha cabeça em seu braço.
- Obrigada, por tudo. – Ele depositou um beijo em minha cabeça.
- Por favor, diz que você não acabou de lambuzar meus cabelos de chocolate. – Comentei, passando a mão levemente no meu coro cabeludo e olhando a mesma.
- Não, mas relaxa, ninguém notaria com esses cabelos pretos aí. – Fiz uma careta.
- Castanho escuro, por favor. Tem uma grande diferença e eu me orgulho demais dessa cor, ok?! – Mostrei a língua e ele riu.
- Ok, chefe! – Ele disse e voltamos a comer em silêncio.

saiu, literalmente, desesperado de dentro de casa, com as chaves do carro nas mãos. Ele destravou o carro e ambos entramos correndo. Mal deu tempo de travar o cinto de segurança, que já estava dando ré com o carro, já estávamos atrasados e a culpa era dele. Era exatamente esse o motivo dele estar quieto, com os olhos escondidos pelos óculos de sol, focados na rua e as feições duras, fazia quase uma hora que eu estava pronta e ele insistindo em terminar de ver o jogo de basquete que estava passando. Não seria eu que ficaria insistindo, quando ele se tocou do horário, saiu correndo e gritando, e eu só disse a frase que todo mundo odeia ouvir “eu avisei”.
O valete abriu a porta para mim quando chegamos ao Huntley Hotel em Santa Monica. Como ele estava de mau humor, me coloquei a frente e comecei a caminhar, ouvindo meus saltos baterem fortemente no chão. Passei pelas portas do restaurante e me seguiu lado a lado.
- Chegaram! - O amigo de , Joshua, foi o primeiro a se levantar da mesa, com Melina e mais um homem de uns 35 anos que os acompanhava.
- Desculpe, alguém queria ver o jogo. - Falei enquanto eu abraçava Melina e Joshua e dava um cumprimento de cabeça para a terceira pessoa.
- Minha culpa! - falou, deu um sorriso de lado, cumprimentando todos e se sentou à mesa.
- Gostariam de beber alguma coisa? - O garçom se aproximou de nós e nos entregou cardápios.
- Uma água, por favor. - Falei.
- O mesmo. - falou e eu franzi a testa, assustada por ele não pedir vinho ou uma cerveja.
- Então, agora podemos falar. - Melina comentou e se ajeitou na cadeira. - , esse é Bill, é da nossa equipe em Los Angeles; Bill, da equipe de Boston. - Acenei com a cabeça para o terceiro homem, agora identificado.
- É um prazer, senhorita. - Ele falou com um olhar sedutor e eu virei o rosto para Melina que escondia o rosto para não denunciar sua risada e eu franzi a testa e abri um sorriso para o Bill.
- Já escolheram o que vão comer? - perguntou com os olhos no cardápio.
- Que tal salmão? - Josh comentou.
- É, pode ser! - deu de ombros e fechou o cardápio, fazendo os amigos rirem, exceto eu, que sabia que algo estava errado.
- Senhorita? - Bill perguntou e eu senti vontade de socá-lo. Ele estava me cantando, mas do jeito totalmente errado.
- Super topo! - Falei para mesa e entreguei o cardápio para o garçom que acabara de voltar com minhas bebidas e de . - Me vê o drink mais doce que você tiver, por favor. - Falei e garçom afirmou com a cabeça. - Vamos falar de negócios?
- não é fã de falar de negócios de barriga va... - Bill foi interrompido.
- Não, podemos falar. - Na mesma hora, todos que estavam jogados nas cadeiras, incluindo eu, se ajeitaram, focando os olhos em Melina. - Quais são as novidades?
- Bem, eu basicamente tenho documentos para te entregar. - Melina falou e pegou uma pasta em seu colo e estendeu para .
- O estrago é muito grande? - perguntou abrindo a pasta.
- Menor do que achávamos. - Bill falou. - Mas eu acho que dá, baseado nas estatísticas de lucro para o segundo Poseidon.
- Isso quer dizer o quê? – Perguntei, apoiando meus cotovelos na mesa e ignorando os modos.
- Como a produção é totalmente independente, vai ter que colocar a mão no bolso para pagá-lo. Isso inclui equipe, locações, aluguéis de câmeras, figurino, enfim, tudo que pode ser revertido se o filme conseguir algum tipo de divulgação depois do lançamento.
- Por falar em lançamento, conseguimos o Festival de Toronto, uma empresa de joias vai patrocinar. – Melina falou e abriu um sorriso.
- Você mencionou Poseidon 2, certo? – Virei os olhos para Bill, me forçando a encará-lo e ele sorriu, afirmando com a cabeça. – Qual é a relação? – Suspirei quando a ficha caiu e me encostei à cadeira novamente. – Se o filme for um sucesso, o lucro de vai ser equivalente ao gasto, não dando muita diferença no final das contas.
- Exatamente. – Ele falou e eu virei o rosto para que olhava os papéis em cima de seu prato.
- Mas você tem que lembrar que Carl Kayne está contigo, querido. – Melina falou. – Os gastos são divididos.
- Em partes. – Bill falou. – Ele como produtor executivo fica com ¼ dos gastos, mas já dá uma aliviada.
fechou a pasta e encostou-se à poltrona. Suas mãos mexiam freneticamente, quase como um tique que ele tinha, coisa que eu fazia muito parecida. Pude ouvir sua respiração sair pelo nariz, com a força que ele expelia o ar. Até que ele virou o rosto para mim.
- O que você acha? – Arregalei os olhos, oi, eu tenho voto nisso?
- Assim, eu não sei os números, não sei quanto tem na sua conta corrente, nem seus lucros pessoais dos filmes. Mas eu acho que se não tem nada monetariamente ou tecnicamente te impedindo você tem que fazer. – Falei diretamente. – Desde que eu te conheço sei que você quer dirigir um filme, então, por que parar, agora que já está na porta? – Ele abriu um sorriso de canto. – Abre essa porta e vai.
- Eu acho que a está certa. – Joshua falou. – Há quanto tempo nos conhecemos? Esse roteiro está na gaveta há uns oito anos
- Vocês dois? – Ele olhou para Melina e Bill.
- Eu só dou conselhos. – Bill falou e olhou para mim, dando uma rápida piscadela, dei um sorriso para não ficar feio.
- Você sabe que eu não palpito sobre essa parte. Está em suas mãos. – Melina disse, se encostando à cadeira novamente. deu uma longa respirada e soltou o ar forte.
- É. Vamos fazer isso. – Ele abriu a pasta novamente e tirou um papel do mesmo, Melina lhe estendeu uma caneta, o papel logo foi preenchido pela assinatura elegante de , como mais três vias do contrato.
- Nada de fugir mais, hein?! – Joshua falou brincando e todos da mesa riram.

Não demorou muito e o jantar foi servido, postas gigantes de salmão, com um risoto de queijos e ervas delicioso. O papo descontraiu, tinha ficado menos ranzinza, mas eu sei que as cantadas meio forçadas de Bill não estavam deixando só a mim irritada e sem graça, estavam deixando-o também, e isso não era nada bom. Bill não fazia por mal, ele não sabia que e eu estávamos juntos, e parecia que até queria judiar um pouco dele, deixando que ele desse algumas indiretas diretas para mim, mas isso estava me judiando, eu estava rezando para que a refeição acabasse logo, para que eu pudesse ir embora, porque aquilo estava demais.
Assim que as grandes travessas esvaziaram, as pessoas começaram a cogitar de ir embora, até que Joshua, o salvador da pátria, se levantou, fazendo com que todos levantassem junto. A conta foi dividida entre os homens, o que eu e Melina já estávamos acostumadas.
- Valeu, gente. – falou, cumprimentando os amigos. – Até a próxima.
- Até mais, . Eu aviso se tiver alguma mudança. – Melina falou.
- Combinado! – Ele falou.
- , você quer uma carona? – Adivinha quem disse isso.
- Obrigada, Bill, mas o já ofereceu. – Falei com a maior educação do mundo. Cada um foi para um lado, sobrando eu e na porta do hotel em Santa Monica.
- O que foi aquilo? – Ele perguntou se aproximando de mim.
- O que foi o quê? – Perguntei franzindo a testa.
- Você e Bill.
- Ah, meu pai. – Soltei uma risada fraca. – Sério?! Não sei se notou, mas eu estava tão desconfortável quanto você. – Falei brava.
- É, não parecia, com os risinhos.
- Se eu fosse grossa com ele, você também não gostaria. – Falei. – E olha que eu estava quase estourando naquela mesa, queria que um buraco abrisse para eu sumir, ok?! – Ele bufou e eu revirei os olhos. Andei dois passos em sua direção e segurei seu rosto com minhas mãos. – Eu estou com você, se eu quisesse outro eu já teria dito, não?! – Falei com a voz mais calma agora, seguida de um longo suspiro. – É você, . Só você. – Encostei nossas testas. – Vamos parar de brigar por besteira, eu prometo que tento, mas você não tem dado brecha. – Ouvi o longo suspiro dele e o ar sair pelo seu nariz.
- Ok, se você promete, eu prometo também. – Ele ergueu um dedo e tocou meu queixo, erguendo meu rosto para que seus lábios tocassem levemente nos meus, enquanto sua mão trazia meu corpo para perto do seu. – Vamos para casa! – Um vento forte bateu em nossos rostos, bagunçando meus cabelos. – Entrar embaixo das cobertas e...
- Aposto que tem gente te ouvindo. – Falei baixo e ele soltou uma risada.
- Se elas não têm uma vida sexual ativa, a culpa não é minha! – Soltei uma risada e ele afastou o rosto e segurou minha mão, entrelaçando nossos dedos e me puxando em direção ao carro que o valete já havia retirado do estacionamento.

Acordei de madrugada novamente naquela noite. me abraçava, mantendo meu corpo nu quente na cama, seu corpo estava colado ao meu, me dando certeza que eu estava em casa enquanto seus braços me apertavam. O quarto estava quente devido ao aquecedor ligado, o edredom pesado e o corpo de me proporcionava mais calor ainda. Soltei a mão de e coloquei o braço dele levemente para trás, para que eu pudesse levantar. Eu não estava com sono.
Coloquei uma calcinha que eu puxei da minha mochila, ainda jogada na poltrona do quarto e peguei a blusa de que estava embolada na mesma poltrona. Andei a passos lentos até a porta do quarto, ouvindo um ranger enquanto eu a abria, me fazendo olhar rapidamente para , que nem se mexeu. Saí do quarto e fui direto para cozinha, onde eu parei, vendo Leslie confortável no grande almofadão jogado para ela, mas ela também não se mexeu.
Peguei um pote de batatas chips no armário e me sentei no sofá onde meu iPad estava, o destravei, começando a mexer nas minhas redes sociais, responder alguns comentários no meu Facebook, e-mails da minha mãe e da minha irmã e fuçar um pouco no Instagram, mas algo me surpreendeu enquanto eu passava pelas fotos. Uma foto minha e de , em uma das contas fãs que eu seguia dele, para que eu ficasse de olho sobre como as notícias eram divulgadas pelos fãs, e nesse momento eu quase gritei.
Abri o navegador e entrei rapidamente no site Just Jared, achando já no histórico a página direta do e quase caí do sofá quando vi duas postagens novas, uma de ontem e uma de poucas horas atrás. A primeira era a foto do mercado, nada muito revelador, eu e o saindo do mercado, enquanto ele empurrava o carrinho, mas a outra era bem reveladora, era do hotel. Tinha pelo menos sete fotos ali, como uma sequência. Não aparentava ser uma briga, o que eu fiquei muito feliz. Imagina só, fazer barraco na rua? E pelo menos umas três fotos nossa se beijando. E claro, a básica matéria sobre a nova garota misteriosa.
Soltei um suspiro, não sabendo se eu ria ou se eu sorria, eu sabia quem era a garota misteriosa, essa garota era eu. Deslizei pelos comentários e vi alguns fãs tristes como sempre, outros já me chamando de vadia, e outros comentando que eu era bonita e, o clássico, se ele está feliz eu também estou. Mas pelo menos três em particular chamara minha atenção. “Essa é a , namorada dele há um tempo, e também trabalham juntos” e afins. Senti vontade de acordar e mostrar aquilo para ele, mas eu me contive, ainda não sabia como ele reagiria, mas se a intenção era me mostrar para todo mundo, bem, ele conseguiu.
Salvei a foto em que eu e estávamos com o rosto muito próximos um do outro e abri meu Instagram novamente, selecionei a foto e na legenda dela, só coloquei um coração. Pensei em escrever “Mãe, estou no Just Jared”, mas seria zoado demais, e um pouco metido da minha parte. Então, só coloquei o pequeno coração. Coloquei para compartilhar em meu Facebook e meu Twitter e publiquei, esperando alguns segundos. Era de madrugada no Brasil também, mas tinha gente acordada porque logo as curtidas começaram, o Twitter começou a me mandar notificações de pessoas retwetando e no Instagram pessoas curtindo, comentando e começando a me seguir loucamente. Ok, por essa eu não esperava.
- Agora não dá mais para voltar atrás, . – Falei baixo para mim mesma e suspirei, fechando a capa do iPad e me contendo para não ver o que as pessoas comentavam.
Abaixei meu rosto por um tempo e vi Leslie com os olhos esbugalhados para mim, abaixei e a peguei, colocando-a em cima do sofá, ao meu lado. Passei a mão em seu pelo e virei o corpo no sofá. Abri a batata e com uma mão eu a acariciava e com a outra eu colocava batatas em minha boca, esperando impacientemente o sol aparecer em Los Angeles.



Capítulo 8

(Mesmo sabendo que você me ama não consigo me segurar. Estou pronto para te enfrentar, pode me chamar de obcecado. Não é sua culpa que eles ficam rondando, não quero te desrespeitar. É meu direito implicar. Eu ainda sinto ciúmes - Nick Jonas, Jealous).

Oh, Deus. Ela me mataria. Eu sinto isso, eu realmente sinto isso. E com certeza não era o frio que me fazia tremer, muito menos a falta de casaco sobre meu corpo. Ela já queria me matar ontem, imagina hoje em que eu tive a cara de pau em vir pegá-la em seu trabalho em plena terça-feira. É, ela me mataria.
Descruzei os braços de cima do peito e virei o corpo de costas para o prédio branco com detalhes laranja e suspirei, conferindo o relógio que já passava das seis horas da tarde. Virei o corpo e apoiei os braços no capô do carro, batendo levemente a cabeça no mesmo e soltando um suspiro alto. Merda!
- Olhe, Derek, é o ator famoso ! - Ouvi a voz dela, mais sarcástica impossível, e virei meu rosto para encarar que saia da ACCESS acompanhada de Derek. – Ele está gravando um filme novo, não?! – Ela arqueou as sobrancelhas como sempre fazia.
- Me tira dessa briga, . Estou fora! – revirou os olhos e Derek se aproximou de mim. – E aí, cara, tudo certo?
- Tudo certo, Derek, e contigo? – Perguntei, o cumprimentando.
- Tudo certo! – Ele afirmou e ambos olhamos para , como ela estava linda.
sempre trabalhava do jeito básico, uma calça social preta e, na maioria das vezes, uma blusa social branca, e claro, um sapato de salto alto preto e o seu rabo-de-cavalo, prendendo seus cabelos escuros. Mas quando chegava o inverno, ela ficava estonteante. Colocava um casaco ou um sobretudo por cima de tudo, uma bota que subia pelas aquelas pernas e soltava os cabelos ondulados deixando-o cair ao lado dos ombros. Isso está ficando pornográfico já.
- Oi, !
- ! – Foi sua resposta curta e seca, eu suspirei.
- Bem, temos uma tensão não convencional aqui. – Derek comentou e revirou os olhos.
- Você não pode ficar tenso, Derek! – comentou e o abraçou fortemente. – Eu quero saber tudo, ok?! E vai dar certo, tenha fé que dá!
- Ah, nem fala! – Ele apertou a amiga e ambos riram. – Quem sabe o que o ano que vem nos aguarda? – riu fracamente. – Um bom natal para vocês dois, ótimo ano novo, e pare de brigar à toa, eu hein! – revirou os olhos e Derek a apertou mais uma vez.
- Vai lá. Me conte tudo! – o abraçou. – Nos vemos ano que vem.
- Até ano que vem. – Derek me cumprimentou mais uma vez e eu acenei com a mão depois.
- Boas festas, Derek! – Falei.
- Para você e sua família também, . Para vocês também. – Ele olhou para nós e suspirou, escondendo as mãos nos bolsos. – Tchau. – Ele acenou e seguiu para seu carro.
Em poucos segundos, uma buzina fez com que acenasse com um sorriso no rosto e assim que seu olhar caiu sobre o meu senti meu rosto queimar, dentro da jaqueta de couro eu estava literalmente queimando.
- Podemos conversar? – Perguntei, aproximando dois passos dela, que se manteve parada.
- Acho que já conversamos demais pelo telefone. – Ela falou. – Não estou no clima para começar a brigar de novo.
- A gente não precisa brigar. – Falei.
- Ah, não?! – Ela debochou com a boca. – Então, por que não me explica o que estava fazendo com aquela mulher, sozinhos em um restaurante italiano em Nova York?
- Eu já expliquei...
- Quer saber, não quero ouvir, não quero brigar, eu vou para casa. – Ela suspirou, ajeitou a bolsa azul no braço e se dirigiu à esquerda, e não para a porta do meu carro.
- Aonde você vai?
- Embora! – Ela gritou há uns dez passos de mim.
- Mas como...? – Ela parou e se virou, pude ver raiva em seu rosto.
- Do mesmo jeito que eu vou toda vez que você não está aqui. Você acha o quê? Minha vida não muda quando você está aqui, ela só se acomoda a você. – Ela suspirou e fechou os olhos por alguns segundos.
- Você vai mesmo pegar o ônibus? – Perguntei, batendo a mão na lataria do carro.
- Vou! – Ela falou firmemente e eu suspirei.
- Não faz isso.
- Já fiz! – Ela gritou de volta e virou de costas para mim, seguindo pelo quarteirão até virar à direita.
- Merda!

morava próximo a ACCESS. De carro, era coisa de cinco minutos, quando não tinha trânsito. De ônibus ela demorava uns 40 minutos, já que, como morava em uma rua paralela a uma avenida, o caminho era mais lento. Mas eu sabia que ela não se importava e eu ainda fazia grande caso com pouca coisa.
Dei uma batucada no volante do carro e olhei para fora, onde um paparazzi estava parado em frente ao condomínio de ajeitando sua máquina. Depois que a foto nossa saiu na internet ela começou a ser seguida por eles também e, pelo fato dela ser bonita, vestir bem e ter uma carreira no meio do mundo dos famosos, ela podia ser considerada até uma pequena famosa para eles.
Assim que ela surgiu na calçada, o paparazzi, em um pulo, ajeitou sua câmera e começou a tirar fotos dela. Nesse momento eu saí do carro, batendo a porta e colocando minha jaqueta por cima da blusa. O paparazzi ficou meio em dúvida por nos ver aparecer por dois lugares diferentes e tirou algumas fotos minhas também, e logo se aproximou também.
- Boa noite, Daniel! – Ela falou ao paparazzi, o que criou uma confusão em meu rosto.
- Boa noite, senhorita !
- Te vejo em Nova York? – Ela brincou, fazendo o tal Daniel soltar uma gargalhada.
- Não é minha área. – Ela riu.
- Até mais, Daniel! – falou, seguindo para o portão de seu condomínio.
- Até! – Cumprimentei o paparazzi com o olhar e segui , antes que ela fechasse o portão na minha cara. O que por pouco, não aconteceu.
Bati o portão atrás dela e simplesmente a segui, já que a única coisa que saía da sua boca, era a fumaça, causada pela baixa temperatura naquela noite. No elevador, seu foco ficou no espelho daquele cubículo, vendo o quão interessante eram os fios mais longos, dos fios mais curtos, mas quando chegou ao apartamento, ela me deixou entrar.
- Vamos conversar! – Falei, a seguindo pelo pequeno corredor de sua casa, enquanto ela se livrava das coisas em seu corpo. Bolsa na mesa da sala, casaco em seu quarto e seus sapatos teriam ficado no meio do corredor, se não fossem mais complicado de tirar.
- Não! – Ela olhou firme para mim. – Eu estou na minha casa e acho que tenho direito de não querer falar disso.
- Você vai comigo amanhã, para Nova York, e não quer falar sobre isso?
- Talvez eu não vá! – Ela jogou um pé da bota no chão.
- ! - Falei com o tom de voz mais forte.
- Não quero falar, não quero falar, não quero falar. – Ela falou rápido, como se fosse um mantra.
- Não aconteceu nada, pelo amor de Deus. – Falei parado no batente da porta do seu quarto, vendo outro pé da bota voar.
- Então, me diz, por que você estava em um restaurante, em meio a Nova York nevando, com uma menina chorando? – Ela falou se levantando, com o indicador da mão direita apontado em minha direção. – Ah, e melhor, uma mulher que vai ser sua co-estrela no primeiro filme que você dirige? – Ela se aproximou de mim, dando um leve empurrão em meu peito com a unha muito bem pintada e passou por mim, arrastando suas meias brancas até o meio das canelas, que estavam prendendo a barra da calça, me fazendo rir.
- Eu tenho que fazer reuniões, e não estava só nós dois, Carl também estava, e os outros produtores.
- E você tinha que levá-la de volta para o hotel? – Ela falou bufando e sumiu na cozinha por alguns segundos, reaparecendo de volta, com alguns respingos de água em sua blusa de manga comprida vermelha.
- Eu gosto de você de vermelho. – Comentei alheio.
- Eu não ligo! – Ela falou firmemente e voltou para o quarto, ligando seu aquecedor e puxando as meias, quase se desequilibrando ao tirá-las.
- Para! – Falei entrando no quarto e segurando seus ombros quando ela se levantou de novo. – Para! Isso está ficando ridículo, e mais um pouco um dos dois vai sair realmente magoado daqui. – Ela fechou os olhos e passou as mãos no rosto, fazendo seus cabelos castanhos serem jogados para os lados.
- Eu não gosto quando eu começo a desconfiar. Eu não devo, mas eu desconfio. – Ela falou, erguendo seus olhos escuros para mim. – Por que você fez isso, se sabia que eu ficaria assim?
- Eu não sei. – Falei sincero. – Eu acho que sou legal demais. – Ela soltou uma risada nasalada.
- Você não tem ideia da vontade que eu estou em te bater agora. – Ela comentou, me fazendo sorrir.
- Se isso fizer com que você se sinta melhor, pode bater! – Ela abriu um sorriso de lado, fechou a mão direita em um punho e deu um soco em meu peito, no local que ela mais gostava do seu corpo, a região da tatuagem. Meu corpo foi levado levemente para trás, mas ela permaneceu com o sorriso desanimado.
- Não ajudou. – Ela comentou e eu sorri, passando meus braços pelo seu corpo, trazendo-a para mais perto de mim.
- Me desculpa. – Falei e senti seu pescoço se movimentar positivamente, encostado no meu.
- Só não faz de novo, ok?! – Afirmei com a cabeça. – Eu sou ciumenta, mas quando começo a achar que tem motivo para eu ser, eu não gosto do que eu me transformo.
- Não vai ter necessidade disso. – Beijei o topo de sua cabeça.
Ela se manteve em meu corpo por um bom tempo, sua respiração estava acelerada e seu rosto estava gelado. Notei que fazia algum tempo, quando ambos voltaram a seu comportamento natural.
- Eu preciso de um banho. – Ela falou, sua voz saiu abafada.
- Vai lá! Eu vou preparar algo para comer. – Falei soltando minhas mãos de seu corpo.
- Tem que pedir alguma coisa. - Ela comentou. – Com a viagem para Nova York, fui esvaziando tudo ao longo da semana. – Você vai achar leite e algumas bolachas sem graça.
- Ih! – Fiz careta.
- Pois é! – Ela riu. – Você sabe onde estão os cardápios, fique à vontade.
- Comida chinesa? – Perguntei.
- Eu nunca nego! – Ela falou antes de tocar seus lábios em minha bochecha barbuda e entrar em seu quarto, batendo porta do banheiro de sua suíte.

- Quero saber o que é aquilo que você e o Derek estavam conversando. – Comentei, após um tempo em silêncio, já que ela lia um livro, quieta ao meu lado em sua cama.
- Ah, é um pouco complicado! – Ela falou, fechando o livro e virando seu corpo sobre o meu na cama, de modo que seu rosto ficasse próximo ao meu e suas mãos apoiadas em meu peitoral, protegido pela blusa do pijama. – Derek e Rupert estão na fila de adoção. – Arregalei os olhos. – Pois é, e eles foram selecionados para visita do assistente social, e seria hoje à noite. Rupert estava arrumando tudo, porque o Derek realmente precisou trabalhar hoje, fechamento de contas, fim do mês, e pior, fim do ano, enfim... – Ela suspirou. – E eles querem muito isso. Eu não quero ligar para não atrapalhar, mas eu também quero saber a resposta logo! – Ela soltou uma risada.
- Eles têm preferência de gênero, idade, raça? – Ela negou com a cabeça.
- Eles só querem um filho. – Ela deu de ombros, apoiando a cabeça em meu peito, uma pergunta escapou de minha garganta.
- E você, quer? – Fiquei surpreso com minha própria pergunta, vendo-a erguer a cabeça novamente.
- Quero. – Ela falou, simplesmente. – Eu quero todo tipo de felicidade que eu tiver direito. – Ela se ergueu, sentando na cama, cruzando as pernas. – E com certeza, ser mãe, vai ser uma grande felicidade. – Abri um sorriso, me sentando igual a ela, passando as mãos em suas pernas cobertas pela calça de moletom.
- Posso perguntar “e você”? – Soltei uma risada fraca. - E você? – Ela perguntou, me fazendo rir.
- É o sentido da vida, não é?! – Ela revirou os olhos.
- Não me trate como uma daquelas jornalistas que acham que vida pessoal de famoso é pauta. – Franzi a testa. – O que seu coração quer?
- Bancando a jornalista comigo, ? – Franzi a testa.
- Não, bancando a jornalista boa contigo. – Comprimi meus lábios e afirmei com a cabeça, surpreso. – Responda! – Ela falou.
- Eu quero ser feliz. E eu quero ser contigo. O que você quiser, eu topo. – Ela deu um sorriso de lado e virou seu corpo novamente, deitando na cama.
Ela colocou sua cabeça sobre meu braço e pegou o livro novamente, folheando as páginas enquanto eu sentia o sono chegando. Eu estava fazendo carinho nela, e era eu que estava ficando com sono, até que um estalo veio em mim.
- EI! – Falei, fazendo-a virar o rosto para mim. – Que história é aquela de cumprimentar paparazzi? – Ela soltou uma gargalhada, apoiando o livro fechado em sua barriga. Sem brincadeira, a gargalhada dela conseguia superar a minha.
- É que... – Ela riu mais um pouco. – Depois da foto e tudo mais, ele começou a surgir aqui na frente. E eu perguntei por que eu, aí ele simplesmente disse que porque foto minha estava vendendo. – Ela deu de ombros. – Aí a cada dia eu vou conhecendo ele. Às vezes tem outros, mas normalmente é só ele mesmo. – Ela deu de ombros.
- Você é surpreendente! – Comentei.
- Por quê? Fiz algo de errado?
- Não, é que... Nunca em mil anos que eu esperaria isso, sei lá! – Soltei uma risada.
- Eu posso ser surpreendente de vez em quando, ! – Ela piscou e eu ri, já ouvindo aquela frase antes.

- Ok, vou começar a mudar minhas opiniões sobre o frio. – falou ao meu lado, com as mãos enterradas no bolso de seu casaco, e uma fumaça branca saía de seus lábios avermelhados pelo frio. – Eu deveria ter colocado mais uma calça.
- Mais uma? – Peguei a mala da mão no taxista, agradecendo com a cabeça, e virei o rosto para minha namorada, bem que ela diz que as pessoas se vestem melhor no frio, ela está linda. – Você já está com duas.
- Duas eu usava no frio do Brasil, imagina aqui em Nova York! – Ela deu alguns pulinhos, fazendo os saltos de sua bota ecoar pelo set de filmagens. – Eu quero minha cama. – Ela choramingou e eu toquei meus lábios nos dela, sentindo-os gelado.
- Aqui não vai levar mais que duas horas, ok?! – Ela afirmou com a cabeça, fazendo um pequeno bico com os lábios.
- Mas quanto mais tarde, mais frio. – Ri fracamente.
- Seja forte. – Ela me mostrou a língua.
- Tá fácil não, ! – Ela comentou.
- Vamos! Quanto mais rápido formos, mais rápido terminamos. – Ela concordou com a cabeça e passou um braço pelo meu enquanto caminhávamos por aquele quarteirão em direção aos trailers. O quarteirão que seria gravado mais uma cena do meu filme.
- Um segundo, ! – Ela me parou. – Se eu começar a ser mal educada ou grossa com a Evelyn, me dá um cutucão, ok?! – Afirmei com a cabeça.
- Pode deixar. – Ela sorriu e eu depositei um beijo em sua testa.
Caminhamos pelos trailers dispostos no meio da rua, naquele pequeno quarteirão de Nova York que conseguimos para a gravação do filme. Não um espaço muito grande, mas suficiente para a cena que precisávamos.
- Melina! – gritou para a colega de trabalho e saltitou, de frio ou de alegria, e abraçou firmemente a loira. – Está frio, Melina! – Ela suspirou para a mais velha
- Bem vinda à Nova York, ! – Melina comentou, soltando-a e deu de ombros.
- Eu já estive em Nova York, mas não no frio. – Ela resmungou.
- Vai lá, , eu cuido da friorenta aqui! – Melina falou.
- Rá, rá, rá! – falou, apertando as mãos no bolso do casaco.
- A gente se vê daqui a pouco! – Falei, apertando meus lábios nos dela rapidamente.
- Bom trabalho! – Ela falou sorrindo e eu retribuí.
- Vamos, ! – Melina puxou pelos ombros e eu segui para outro lado, encontrando Carl Kayne próximo aos trailers.
- Preciso de alguma coisa quente para beber! – Ouvi falar longe e soltei uma risada fraca.
- E aí, Carl! – Cumprimentei meu amigo rapidamente e ele me ajudou com algumas das bolsas que eu carregava.

Passei pelo trailer/camarim para colocar a roupa de meu personagem. Nada mais que uma roupa comum, uma calça mais social e um casaco pesado por cima da roupa. Terminando de me arrumar, saí do trailer, passando para o que estava na frente, o de maquiagem.
Abrindo a porta do mesmo já pude notar as fortes luzes claras contrastantes com as fracas da rua. Evelyn estava sentada em uma cadeira com a roupa parecida com a minha, com alguns prendedores no cabelo, enquanto a maquiadora fazia uma maquiagem nela.
- Boa noite! – Falei cumprimentando ambas.
- Boa noite, ! – Elas responderam.
- Lavou o cabelo? – Andrew, o cabeleireiro perguntou se levantando do banco que ficava quase escondido.
- Rá, rá, rá! – Falei e sentei na cadeira vazia, recebendo um olhar fulminante dele. – Isso é um sim! – O vi relaxar e ouvi as duas mulheres rindo ao meu lado. – A ideia era vocês fazerem milagre, não?! – Soltei uma risada fraca.
- Com pouco tempo, as coisas complicam. – Janice, a maquiadora, falou. – Está pronta Evelyn, não saia no vento agora ou vai, literalmente, tudo para os ares. – Ela soltou uma risada fraca.
- Vai ser só aquela cena mesmo, diretor? – Soltei uma risada irônica, era estranho ser chamado assim.
- Sim! A gente não tem muito tempo com essa locação. É coisa de poucas horas, amanhã nada disso pode estar aqui mais.
- Que... Merda! – Evelyn falou lentamente e eu ri.
- Vamos dar uma penteada nessa barba, arrepiar os cabelos, tirar o brilho do rosto e mandar vocês de volta para o frio. – Andrew comentou pegando um pente fino.
- Manda bala! – Comentei.

estava pálida, com um cachecol que ela tinha arranjado não sei de onde, o pouco que se via das bochechas estavam fortemente avermelhadas, a mão escondida dentro da luva e a luva dentro dos bolsos dos casacos. A mão livre tinha um copo que saía uma fumaça excessiva, mas que logo se dissipava no ar. Ela estava sentada em uma das poltronas espalhadas embaixo do toldo montado próximo ao set, ou seja, a calçada. Meus três produtores estavam lá, todos com roteiros nas mãos e telas montadas próximo a eles, minha cadeira de diretor ficava bem em frente a um desses monitores.
- Como combinado? – Mary, uma das produtoras presentes perguntou.
- Sim, a gente já saiu muito do roteiro nas gravações da semana passada. – Falei com firmeza na voz. Já tínhamos gravado quase o filme inteiro, essa era a última cena. E cara, eu ainda achava complicado isso.
- Vamos fazer de uma vez só? – Carl perguntou.
- Vamos tentar! – Olhei para em uma das últimas cadeiras, ao lado de Melina que mexia em seu celular e abri um sorriso para ela que retribuiu, não pude ver seus lábios, mas suas bochechas deram uma leve enrugada e saiu fumaça de suas narinas.
deu uma olhada rápida na loira atrás de mim, fechou os olhos por um momento e relaxou o corpo novamente na cadeira. Dei um sorriso de lado, minha garota.
- Em suas posições! – Falei mais alto que minha voz permitia e Evelyn me seguiu, arrumando sua bolsa na lateral. – Carol, é contigo! – O vi confirmar com a cabeça.
Essa era a cena principal do filme. Onde os dois personagens estão andando por Nova York conversando, fazendo insinuações tanto na voz quanto nos movimentos e acabam se beijando.
O problema era o seguinte minha namorada, era ciumenta e já estava nervosa por causa de Evelyn, então realmente não sei como seria. Que Deus me ajude!
- Vamos começar! – Carl falou e eu acenei para os dois câmeras e para o ajudante segurando o microfone e depois para Carl. – Ação!

- Muito bom, gente! – Falei me aproximando dos produtores, virando o monitor para mim e começando a assistir a cena novamente. – Bem, depois de 17 vezes. – Todos ao redor riram e logo ficaram em silêncio para que eu pudesse assistir a cena. – Acho que acertei em cheio! – Meus companheiros de produção riram e eu virei meu rosto para trás, encontrando Melina sentada no lugar de antes, mas com uma cadeira vazia ao seu lado, franzi meu rosto e Melina só deu de ombros. – Muito bom, galera! Obrigado pela dedicação, e pelo apoio nesse trabalho, foi muito bom trabalhar com todos vocês. Acabamos!
Aquele momento caloroso de palmas e abraços do pessoal da produção e do elenco não pode faltar, até que, para uma pequena produção era algo bom. Eu tenho a visão que não importava o tamanho do trabalho, ele sempre deveria ser lembrado e prestigiado.
- Aproveitem as festas de fim de ano, que a gente volta a se falar no ano que vem. – Comentei com os produtores e todos afirmaram com a cabeça. Por mais que as gravações tivessem acabado, havia um longo caminho pela frente na edição, pós-produção e uma possível divulgação.
- Obrigada pela oportunidade. – Virei, encontrando Evelyn, já com outra roupa e os cabelos presos.
- Não é nenhum blockbuster, mas é alguma coisa. – Comentei e ela deu uma risada fraca.
- Não importa, um papel é um papel, grande ou pequeno! – Ela falou o que penso e eu afirmei, nos abraçamos rapidamente. – Não tive a chance de conhecer sua namorada.
- Ela não está acostumada com muito frio, não estava passando muito bem. – Falei e Evelyn ponderou por alguns segundos.
- Desculpa se isso causou alguma coisa. – Ela falou e eu ri.
- Você não é o problema. – Suspirei. – É a distância. – Ela afirmou com a cabeça.
- Torne essa distância menor. – Ela deu uma piscadela e eu acenei com a mão.
- Vou tentar!
- E aí?! – Tomei um susto com Melina aparecendo atrás de mim.
- Nunca pensei que podia receber um conselho amoroso de um dos objetos de ciúmes da .
- A gente aprende todos os dias. – Melina comentou e eu fiquei de frente para ela.
- Cadê ela? – Falei meio ríspido e Melina arregalou os olhos, relaxando-os em seguida.
- Na verdade, foi um conjunto de vários motivos... – Ela começou.
- Melina!
- Ok, ela não estava muito feliz em ver você beijando ninguém, então ela... Como ela diz? – Ela colocou a mão na testa, pensando um pouco. – Ah sim, deu no pé! Acho que ela não está muito acostumada a isso. – Revirei os olhos, e soltei um suspiro alto. – Olha, igualzinho a ! – Soltei uma risada fraca e abracei minha assessora pelos ombros, levando-a para os trailers. Eu não sairia correndo atrás de , terminaria o que tinha que fazer antes.

Parei na porta do quarto do hotel em Nova York com Melina ao meu lado e ela deu um tapa de leve em minhas costas. Tirei a mochila da mesma e a pendurei em meus dedos, soltando um suspiro.
- Sabia que nunca pensei que em com um frio desses, eu conseguiria ficar com calor? – Comentei com a loira ao meu lado.
- Boa sorte! – Ela falou e colocou a chave na fechadura no quarto ao lado do meu e entrou. – Tchau! – Franzi a testa e ouvi a porta bater.
Coloquei meu cartão-chave no quarto que eu e dividíamos e ouvi o terrível som dele liberando minha entrada e abri a porta de uma vez só. O quarto estava vazio, pelo menos a cama. Mas pela força do aquecedor, ela estava lá. Larguei a mochila na mesa em que seu computador estava e sentei na ponta da cama, tirando meus sapatos e o casaco pesado. Pensei por um segundo se entraria no banheiro ou se esperava ela sair. Preferi esperar.
A cortina mexeu e apareceu de trás dela, saindo da sacada com o celular na mão e um... Largo sorriso no rosto? Seus cabelos estavam molhados e bagunçados, e seu corpo estava coberto com um moletom vermelho queimado, calça, casaco e um tênis de corrida nos pés. Acho que nunca tinha visto-a assim antes.
- Ei?! – Falei, cumprimentei ou perguntei olhando para ela, com um pouco de dúvida.
- Ei! – Ela falou, escondendo as mãos nos bolsos canguru do casaco e fazendo seu sorriso feliz sumir e aparecer um sorriso tímido no local.
- Por que você estava sorrindo? – Ela franziu os lábios, esfregando um no outro.
- Derek ligou! – Ela falou, fazendo o sorriso aparecer novamente.
- É? – Me levantou da cama. – Novidades pelo jeito.
- Sim! – Ela soltou uma risada fraca, pude notar um brilho em seus olhos, lágrimas. – Foi aprovado! – Uma lágrima solitária deslizou pela sua bochecha. – Eles vão ter um filho. – Ela fechou os olhos por um tempo e me permiti aproximar, envolvendo seu corpo com meus braços, que retribuiu, apertando seu rosto em meu peito. – Estou tão feliz por eles, eles merecem muito. – Ela suspirou, chorando baixo, se afastando de mim e passando as mãos no rosto.
- Merecem mesmo. – Comentei e ela abriu um sorriso tímido.
Ela puxou a porta de correr, e fechou a persiana, seus pés no carpete do quarto de hotel nem faziam barulho, mas ela andou de um lado a outro do quarto, até chegar na mesa redonda. Ela puxou uma cadeira, sentou e pegou uma bala que estava no pote de vidro e a colocou na boca.
- A gente precisa conversar, eu sei. – Me aproximei da mesa e puxei a cadeira na sua frente, apoiando meus braços na mesa após sentar. – Mas, eu não sei o que falar. Eu não tenho nenhum argumento que explique o que eu fiz.
- Você fugiu.
- Ok, não precisa jogar na cara. – Ela falou irônica e eu ri, estendendo minhas mãos para as dela na mesa.
- O que aconteceu? – Perguntei, sentindo suas mãos frias acariciarem as minhas.
- Eu não sei. – Ela suspirou. – Não estou acostumada a isso. É ficção, mas também é real. É... – Ela soltou uma risada fraca. – Complicado. – Suspirei.
- Isso te machuca? – Ela ponderou com a cabeça.
- Na verdade não, porque eu sei que não tem sentimento, não tem desejo, vontade. – Ela ergueu os olhos para mim. – Não tem amor. Não tem, certo?! – Ela riu fracamente.
- Tem por você!
- É engraçado isso. – Ela comentou. – Não seu amor por mim. – Ri fracamente. – Eu vejo seus filmes, você com seus pares românticos e tudo mais, e eu não sinto nada, nem ciúmes, raiva, nada. Mas ver ao vivo... Foi diferente. – Abri a boca. – Me deixa terminar. É só questão de costume. Não é sempre, mas eu vou pedir para não vir em algumas gravações. – Ela suspirou. – Eu vou tentar controlar meus ciúmes.
- Seria bom! – Ela apertou minha mão.
- Ei, você também! – Ela falou sarcasticamente. – Ou devo te lembrar do último jantar? – Ela piscou e eu ri, me levantando da cadeira e puxando-a para perto de mim.
- Ok! Combinado! – Ela passou os braços pelo meu corpo, encostando a cabeça em meu peito. – Quero saber qual é desse look? Largou o salto? – Ela riu fracamente.
- Quando eu era pequena e fazia bastante frio, eu costumava ficar assim. – Ela deu de ombros. – Minha mãe meio que me obrigava, eu vivia ficando doente, rinite, bronquite, sinusite. – Ri fracamente. – E aí me acostumei, quando o frio começa e eu posso ficar em casa, moletom e tênis, sempre! – Apertei minhas mãos em seu casaco.
- Sua mãe ficaria muito triste se você não ficasse com essas roupas? – Perguntei na inocência.
- Na verdade sim! – Ela se afastou alguns centímetros de mim. – Porque eu ainda tenho que te contar uma coisa. – Ela apontou para mim e se afastou, se sentando na cama, no meio do colchão macio.
- O que é?
- Sobre o Natal.
- Ah sim, o Natal...
- Ei, eu falo! – Ela se levantou rapidamente. – Você não tem direitos aqui!
- Ok, madame!
- Você já me convidou para conhecer sua família, fazer parte dela e tudo mais. Agora está na hora de eu fazer isso. – Abri um sorriso de lado. – Acho que está na hora de você conhecer minha família. – Suspirei. – São quase seis meses de namoro, as coisas já ficaram sérias do seu lado, acho que está na hora de ficarem sérias do meu lado.
- E isso envolve o Natal? - Ela suspirou.
- Isso envolve o Natal no Brasil. – Ela riu fracamente e eu arregalei os olhos. – Não tem neve, nem essas decorações todas, mas tem amor, carinho, felicidade e muito mais. – Ergui minha mão e toquei seu rosto, acariciando-o levemente. – Você está pronto para isso?
- Conhecer sua família? Conhecer onde você cresceu? – Ela sorriu. – Eu estou pronto! Vai ser um dos maiores desafios da minha vida. – Ela riu fracamente. – Mas é... Eu estou pronto. – Ela franziu as bochechas, aproximando seu rosto e tocando os lábios com os meus delicadamente. – Oh meu Deus, eu vou para o Brasil de novo! – Ela riu e encostou sua testa na minha.
- Para o país de "loucos". - Ela fez aspas com as mãos.
- Você ainda não se esqueceu disso? - Ela gargalhou.
- , eu nunca vou esquecer.



Capítulo 9

(Você pode mudar seu estilo, você pode mudar seus jeans. Você pode aprender a voar, você pode perseguir seus sonhos. Você pode rir e chorar, mas todo mundo sabe, você sempre encontrará o caminho de volta para casa. - Hannah Montana, You'll Always Find Your Way Back Home).

- Para, Leslie! – Gritei para a cadela de três meses e tentei firmar os pés no chão e as mãos na coleira. – Você é pequena, aja como tal, por favor! – Gritei e ela parou, olhando para meu rosto. – Para! – Falei e continuei andando pela calçada da rua da casa de , com Leslie um pouco mais devagar, mas ainda puxando, já que ela sabia aonde íamos. – Pronto, sua chata! – Falei na porta da casa de em Boston e em dois segundos o portão foi destravado e eu logo passei pelas portas, sentindo Leslie puxar de novo. – Ah, para! – Me agachei e soltei a coleira de Leslie e ela começou a correr pela casa, passando da sala para a cozinha, da cozinha para o quintal e voltando para a sala de novo, eu só observava. – Ei, sua boba! – Falei, olhando para ela que parou. – Ele está lá em cima. – Apontei para cima e como se me entendesse, ela veio saltitante até mim e eu a peguei no colo, subindo as escadas da casa de . Passando o portãozinho que ele havia instalado no andar de cima, eu a coloquei no chão novamente, que voltou a correr.
Suspirei e andei pelo segundo andar da casa dele, ouvindo os saltos da minha bota de cano alto bater contra o piso de madeira, até que parei na porta de seu quarto, onde uma mala estava na cama, junto de vários casacos e camisetas de frio espalhados pelo mesmo. Leslie já tinha encontrado e ele acariciava sua cabeça com uma mão e a segurava com a outra.
- Ela sabe que a gente vai viajar? – Perguntei a ele que ergueu o rosto para mim. – Ela está impossível hoje. – Falei tirando a mochila das costas e a coloquei no chão, ao lado da cama.
- Está triste que você vai largar ela aqui! – Ele falou e se aproximou de mim, colando seus lábios nos meus, me fazendo querer abraçá-lo, mas uma chata começou a latir para nós dois, nos separando impacientes.
- Pois é! Só eu que vou viajar, não é?! – Ele riu fracamente e colocou Leslie no chão que logo se acomodou em sua almofada ao lado da cama e eu me sentei na beirada da mesma. – Onde você pensa que vai? – Perguntei, passando a mão em uma blusa pesada de frio que estava separada na cama.
- Brasil? – Franzi a testa e peguei a blusa.
- ! – O chamei. – Isso é roupa para se usar aqui em Boston, em tempo de neve, coisa que até aqui não chegou ainda. – Suspirei. – No Brasil, você precisa de mais camisetas e bermudas. – Me levantei da cama em um pulo e entrei em seu closet, abrindo algumas gavetas.
- Mas...! – veio atrás de mim.
- , amor! – Virei para ele. – Aqui está um frio do caramba. – Olhei para ele. – Agora pensa essa temperatura ao contrário, no calor, lá do Brasil, no hemisfério sul... – Olhei para cara dele. – Você entende um pouco de geografia?!
- Na escola eu preferia história, para falar a verdade. – Coloquei a mão na cabeça, frustrada.
- Tá. Então, vou ser prática. – Suspirei, tirando algumas bermudas da gaveta. – Se aqui é inverno, lá é verão. – Coloquei as bermudas na mão dele. – E um verão acima dos 30 graus. – Abri um sorriso para ele.
- Resumindo, eu tenho que fazer essa mala tudo de novo? – Afirmei com a cabeça e dei um beijo delicado em sua bochecha, largando-o no closet.
- E logo, porque ainda temos que passar na casa da sua mãe para deixar essa peste aqui. – Apontei para Leslie com a cabeça.
- Saímos em quinze minutos. – Ele disse e eu afirmei com a cabeça, voltando a me sentar na cama, observando-o tirar as blusas de frio da mala, deixando somente um casaco e guardando de volta no closet. Pegando camisetas e colocando na mala. – Eu vou manter os jeans, ok?! - Soltei uma risada fraca.
- Vergonha de mostrar os cambitos finos? – Abri um sorriso largo para a cara feia que ele fez. – Até os meus são mais grossos que os seus. – Fingi que olhava as unhas e o ouvi bufar. – Para de graça, . Você vai precisar de bermudas! – Entortei a boca e ele riu, voltando para o closet e eu me deitei em sua cama. – Aconselharia a tirar essa barba também, mas você está muito gostoso com ela. – Ouvi sua gargalhada do closet e ele jogando as roupas em cima da minha barriga.
- Quer que eu tire ou não? – Sentei na cama novamente.
- Não se atreva. – Falei e ele sorriu do outro lado da cama.
- Pretendo mantê-la por um bom tempo ainda. – Ele piscou para mim e eu ri.
- Tonto! – Falei baixo em português e o ouvi puxar o zíper da mala, me fazendo levantar novamente.

- Acho que a ideia é simples, - Lindsay falou - quando ela fica muito tempo contigo, ela sente saudades do . Quando ela fica muito tempo com ele, ela sente saudades de você! - Ela acariciou a cabeça de Leslie que estava em seu colo.
- Se você ver, isso faz muito sentido. - Olhei para que estava encostado no carro.
- Na volta veremos de quem ela realmente gosta. - Ele falou e eu revirei os olhos.
- Já não era para ter amadurecido, Lindsay? - Me aproximei dela novamente e acariciei os pelos curtos de Leslie.
- ? Ah, com certeza! - Soltei uma risada e Leslie foi para o chão. - Boa viagem! Se cuidem, se divirtam! - Ela me abraçou e eu retribuí, me esquentando nos braços de minha sogra. - Me liguem no natal e no ano novo, por favor! - Ri fracamente e me afastei, dando espaço para abraçar a mãe e dei atenção à Leslie aos meus pés.
- Fala para o Seth te mostrar o Instagram, eu posto várias coisas! - Acariciei as orelhas de Leslie. - Até a volta, garota!
- Vamos, precisamos ir! - passou ao meu lado, acariciando Leslie rapidamente.
- Divirtam-se! - Lindsay falou, pegando a agitada Leslie no colo, enquanto dava a volta no carro. - Fala para sua mãe que precisamos marcar de nos encontrar.
- Pode deixar! - Soltei uma risada fraca e entrei no carro, batendo a porta, enquanto fazia o mesmo. - Se você sobreviver. - Comentei aleatoriamente e olhou para mim. - O quê? Pode acontecer! - Ele arregalou os olhos.
- Valeu por me acalmar. - comentou.
- Temos algumas horas de viagem ainda, relaxa! - Beijei a bochecha de e ele ligou o carro, em direção ao aeroporto General Edward Lawrence Logan de Boston.

- Obrigada. - Agradeci para a atendente e segui para dentro da sala de embarque, segurando sua mão, e, com a outra minha bolsa.
- Duas paradas? - perguntou enquanto sentava em uma poltrona e eu na sua frente. Coloquei minha bolsa na cadeira atrás de mim e permaneci em pé, verificando o relógio.
- Nova York e Rio de Janeiro! - Meus olhos quase brilharam quando falei, já que eu havia morado dois anos na cidade maravilhosa quando criança.
- Rio? - Ele perguntou interessado.
- Rio! - Sorri. - Vai ter troca de avião lá, então, dá para olhar um pouco, se fosse ao aeroporto Santos Dumont daria para ver mais, mas como é no Galeão, fica mais complicado.
- É engraçado ver você falar palavras em português no meio de uma frase em inglês. - Revirei os olhos e ele me puxou pela mão, me colocando no meio das suas pernas.
- Eu fico pensando de todas as nossas viagens, mas as atuais são as que eu mais gosto. - Suspirei.
- Eu tenho uma pequena ideia do por que! - Falei e ele riu. – Isso aqui está lotado! – Falei, olhando em volta rapidamente.
- Natal. – Foi só o que falou e eu ri, afirmando com a cabeça.
Me sentei na cadeira ao seu lado e me encostei nele, bocejando e sentindo meus olhos lacrimejarem, eu estava cansada. Para conseguir tirar minhas férias a tempo da última sexta-feira antes do Natal, eu havia corrido bastante, resolvendo assuntos pendentes, fechando as contas desse ano, para quando voltar começar o ano com o pé direito.
Eu estava com saudades de casa, da minha mãe, da minha irmã, dos meus amigos, da minha cama, do meu quarto, do meu banheiro. Ah, como é bom estar indo para casa. Acho que não voltava para lá desde julho, estamos em dezembro! Eu precisava um pouco de colo de mãe.
Logo entramos no avião. Dessa vez iríamos em um voo doméstico até Nova York, já que era coisa de uma hora e meia de viagem, e depois teríamos que trocar de avião, para o próximo voo, que demoraria algumas horas mais.

- Então, como eles são? – perguntou para mim, virando na poltrona, antes mesmo que o avião nivelasse após a decolagem sentido Nova York.
- Oi? – Eu ainda estava meio perdida no que estava acontecendo.
- Sua família. – Ele falou, com um sorrisinho nos lábios e eu soltei uma risada fraca.
- O que você quer saber? – Perguntei, virando meu corpo de lado na poltrona e apoiando uma mão na lateral da minha cabeça.
- Um pouco sobre quem eu vou conhecer lá no Brasil. – Senti meu corpo se contrair um pouco com um riso que ficou preso na garganta.
- Você não me deu nenhuma aula do que eu encontraria quando conhecesse sua família. – Retruquei, fazendo seus lábios se fecharem, formando um bico.
- É diferente! – Ele respondeu, ajeitando a cadeira. - Você já sabia da minha família.
- Mas eu não sabia como sua mãe reagiria.
- E eu não sei como a sua vai reagir. – Ele respondeu, subindo uma perna para o assento do avião.
- Eu sei! – Falei simplesmente, pegando sua mão que estava colocada no encosto de braço.
- Como? – Soltei uma risada fraca.
- Ela até pode te odiar. – O vi arregalar os olhos, sabendo que tinha começado pelo lugar errado. – Mas ela vai te tratar como a melhor coisa do mundo, com carinho, amor, dedicação, mas o que vai importar no final, é como você me trata. – Abri um sorriso de lado, vendo os ombros de relaxar. – Não se preocupe. Acho que ela já gosta de você.
- É? – Ele encostou-se ao assento novamente.
- Você me faz feliz, . – Suspirei. – Creio que é só o que importa para as mães: alguém que faça os filhos felizes. – ponderou com a cabeça por um momento e sorriu.
- Quem mais eu vou conhecer? – Ele falou após um tempo em silêncio.
- Bem, minha irmã, parte da minha família de casa, alguns parentes mais distantes, meu melhor amigo, meus pr...
- Melhor amigo? – me cortou.
- É! – Abri um sorriso largo. – Eu tenho um melhor amigo. Desde meus dez anos. Homem. – Finalizei, olhando para ele. – Igual à Trish é para você, o Rodrigo é para mim.
- Isso é... Muita coincidência. – Soltei uma risada fraca.
- Sinto um ciúme pairando no ar?
- Talvez? – Ele respondeu.
- Ele é gay. – Falei logo de cara, ouvindo um suspiro vindo de . – E também, 18 anos de amizade, se fosse para rolar algo, já teria, certo?! – Bati levemente em sua testa, o que o fez rir. – Como você e Trish.
- Ninguém nunca zoou que vocês iriam casar ou algo assim? – Soltei uma gargalhada, colocando as mãos na boca imediatamente.
- Sempre! – Suspirei. – Os pais do Rodrigo sempre zoaram, ainda zoam na verdade, mas é tudo brincadeira, a gente sabe. Ainda sim, é bom dar umas risadas. – Virei meu corpo na poltrona novamente. – Mas é impossível sentir um tipo diferente de amor por ele, o afeto fala mais alto. – Sorri, tendo alguns flashes de momentos com meu melhor amigo. – É bom ter liberdade para falar com uma pessoa sobre tudo, sem medo, sem vergonha, sem...
- Julgamentos. – finalizou minha frase e eu virei meu rosto para ele, afirmando com a cabeça. - Eu não sabia que você tinha alguém assim também.
- Sim, e é uma parte de mim que eu realmente não quero esquecer. Passamos por problemas diversos. Agora é só manter até o final da vida.
- Você vai. – ergueu a mão em cima do seu corpo e acariciou meu rosto levemente, me fazendo fechar os olhos.
- Na minha cidade, você vai conhecer o melhor de mim. – Suspirei. – Eu sou assim por causa deles. – Abri um largo sorriso, voltando a encarar os olhos azuis de .

O voo até Nova York foi rápido, um voo que eu já estava acostumada, na verdade. Era uma ponte aérea, então, o tempo literalmente voou. Ao chegar à cidade, já passara da hora do jantar, mas estávamos com fome, já que nenhum dos dois quis nada no voo. Fizemos check-in e despachamos as malas novamente, procurando alguma coisa pelo aeroporto.
Algumas pessoas nos pararam para tirar fotos e eu tirei fotos de com alguns fãs, devolvendo o celular na mão deles logo em seguida. segurou minha mão e entrelaçou os dedos, voltando a caminhar pelo aeroporto que já estávamos carecas de conhecer.
Acabamos indo no que conhecíamos. Eu peguei uma porção de espaguete ao pesto e um contra filé para acompanhar. Teria que ser suficiente até o Rio de Janeiro, já que eu pretendia dormir a viagem inteira. optou por um prato grande de macarrão com almôndegas e acabou o devorando na mesma velocidade que eu. Durante o jantar, ficamos nos encarando de vez em quando, soltando risadas silenciosas, enquanto sugávamos os fios do macarrão, deixando marcas pelo rosto.
Terminamos de comer e já seguimos para portão de embarque, apresentando nossas passagens e passaportes. Dessa vez o salão de embarque estava mais lotado, principalmente por famílias. Todos encapuzados, tentando se proteger do frio, igual a mim e .
Achamos um espaço perto do nosso portão e encostei-me à parede, enquanto apoiava um dos braços na parede e ficava com o rosto a poucos centímetros do meu, me fazendo sentir sua respiração tocar em meu rosto.
- Me provocando? – Perguntei, erguendo meus olhos para olhar para ele.
- Não intencionalmente, na verdade. – Ele respondeu, me olhando nos olhos. – Falta de espaço. – Soltei uma risada fraca.
- É Natal, querido. – Sussurrei e ele soltou uma risada fraca.
- Deus pai, já é Natal! – Ele falou abismado.
- Está no espírito. – Falei brincando com as expressões que ele usara.
- Não acredito que estamos aqui, juntos, a caminho do Brasil, indo conhecer sua família. – Soltei um riso fraco e encaixei minha cabeça na curva de seu pescoço.
- Não acredito que estamos realmente juntos. – Falei, vendo-o rir, erguendo a cabeça um pouco. – Nos conhecemos em abril, certo? – Ele fez um muxoxo com a boca. – Maio, junho, julho... A gente se conhece há oito meses.
- Mas não faz tanto tempo que estamos juntos. – Suspirei.
- Não. – Respondi, soltei uma risada fraca. - A gente começou a ficar junto, oficialmente, em julho. – Suspirei, erguendo a cabeça. – Desde a première de À Procura do Amanhã na Coréia do Sul. Dia 29 de julho, para ser mais exata.
- Como você decora tudo isso?
- Momentos importantes, datas importantes. – Pisquei com um olho para ele que riu.
- Não faz nem seis meses então! – Ele falou meio chocado.
- Não! – Confirmei com ele. – Pior que parece...
- Muito mais. – Ele terminou a frase comigo.
- Principalmente por essa sincronia de falar as coisas juntos. – Apoiei meu corpo totalmente na parede e estiquei meu corpo na parede, me espreguiçando.
- Vamos para a outra parte da nossa viagem? – perguntou, conferindo o horário no relógio, quase sincronizado com a atendente, informando do voo.
- Ou a sua sincronia com a atendente. Você tem algo para me contar? – Ele gargalhou alto e seguimos para a fila.

Após entrar no avião e ajeitar nossas bagagens de mão no devido lugar, eu apertei o cinto de segurança ao redor do meu corpo e esperei as instruções da comissária de bordo. Talvez pelo fato de estar cheio de voos saindo, ela terminou de passar as instruções enquanto o avião já taxiava pela pista.
segurou minha mão forte novamente durante a decolagem e, igual à decolagem de Boston, eu me senti protegida. Com a mesma pressa das comissárias para darem as instruções, elas passaram oferecendo algo para comer, beber, cobertas e kits para o voo ser mais confortável. Como eu estava de primeira classe, eu pedi somente uma coberta, já que o ar condicionado estava ligado e eu ainda estava no clima de Nova York, e uma garrafa de água, para eu engolir dois comprimidos para que me fizessem dormir pelo menos durante a noite.
Larguei minhas botas de cano alto no chão e subi os pés para a poltrona que eu havia reclinado e me cobri com a coberta azul, segurando-a próximo a meu pescoço.
- Vai dormir? – perguntou ao meu lado, desenrolando o fone de ouvido que ele puxara de sua mochila, guardando o que o avião havia dado.
- É o melhor jeito de passar o tempo. – Respondi. – E você?
- Está passando um jogo do New England Patriots, vou ver. – Ele respondeu. – Talvez eu durma depois.
- Tente não acordar ninguém se eles ganharem. – Comentei e ele fez uma careta.
- Vou me conter. – Ele falou, encostando seus lábios em minha testa por um minuto. – Boa noite, amor.
- Boa noite! – Retribuí e fechei os olhos.

Eu abri os olhos e senti a luz me cegar, me fazendo fechá-los rapidamente em seguida. Abri os olhos devagar, dessa vez empurrando a coberta para fora de mim, já que agora eu começava a sentir calor. Como previsto, o Brasil estava quente em dezembro.
Desinclinei a poltrona um pouco e passei a mão nos cabelos, tentando ajeitar um pouco e olhei para o lado. dormia com os fones esticados, prendendo nas orelhas, o corpo sentado na cadeira e uma coberta colocada em suas pernas. Estiquei meu corpo na poltrona e tirei delicadamente os fones da orelha, deixando-os cair em seu peito. Nesse momento se mexeu, levando a mão para o rosto inconscientemente, como ele fazia quase todas as vezes.
- Onde estamos? – falou, se ajeitando na cadeira e eu pude ouvir vários estalos vindo de seus ossos, me fazendo arrepiar com o barulho.
- Pelo sol e pelo calor que eu estou sentindo, creio que estamos no Brasil. – Respondi, me arrependendo de não ter pegado as poltronas da janela, para poder olhar o litoral do meu país.
- Oba! – falou feliz, mas com o tom de preguiça na voz ainda.
- Com licença. – Chamei a comissária que passava. – Onde estamos?
- Estamos sobrevoando o estado de Minas Gerais, senhorita, no Brasil. – Afirmei com a cabeça, achando meio óbvio ela falar para mim que Minas Gerais fica no Brasil, mas ignorei, agradecendo com a cabeça.
- É, estamos no Brasil mesmo. – Respondi para . – Chegaremos ao Rio rapidinho. – Me levantei da poltrona, ajeitando meu sobretudo e subindo minhas calças. – Eu vou me trocar e dar um jeito no cabelo.
- Ok, depois eu vou! – Ele falou, encostando a cabeça na poltrona novamente.
- Não durma de novo! – Falei arisca, pegando minha bolsa no bagageiro e caminhando até o banheiro.
Entrei no banheiro e fechei a porta atrás de mim, me olhando no espelho. Estava um caco. Meu rosto estava um pouco pálido e com uma marca avermelhada na bochecha, o rímel preto manchara um pouco o rosto e não existia mais lápis de olho à vista, muito menos batom. Prendi meu cabelo com o lacinho que estava em meu punho e o joguei para trás, colocando o rosto na pia e jogando água gelada no mesmo.
Lavei o rosto, tirando o resto da maquiagem que continha no mesmo, escovei os dentes, jogando uma bala de menta na boca e comecei de novo. Passei rímel e lápis de olho preto e um batom rosa nos lábios. Soltei meus cabelos e penteei os mesmos, puxando para trás e prendendo com o lacinho preto novamente.
Sentei sobre a tampa do vaso sanitário e puxei minhas botas de cano alto para fora e tirei minha calça jeans, puxando a outra calça preta por baixo e vestindo os jeans novamente, ajeitando o cinto pelo passador. Tirei o sobretudo e o apoiei no cabide que tinha na parede e puxei minha blusa de manga comprida para cima também, pendurando também. Puxei na mochila uma camiseta branca com o escrito “I’m not weird. I’m limited edition” em rosa e puxei meu tênis de cano médio azul marinho e o joguei no chão, sentindo o avião balançar um pouco e me apoiei nas laterais da cabine, respirando fundo novamente. Dobrei minhas roupas e coloquei na mochila novamente, e puxei meu moletom da faculdade com a palavra “Jornalismo” escrito e o amarrei na cintura. Com dificuldade, coloquei meu tênis no pé e escondi os cadarços dentro do mesmo e, com uma última olhada no espelho, saí da cabine, quase sendo jogada para fora.
Caminhei novamente para meu assento e coloquei a mochila no bagageiro e virei novamente para meu namorado que me olhava abismado. Franzi a testa e ele mexeu a cabeça, saindo de algum transe e eu soltei uma risada fraca, me sentando ao seu lado e desinclinando a cadeira.
- Acho que nunca te vi assim. – Ele comentou ao meu lado e estalou um beijo em minha bochecha.
- Não se pode usar salto sempre. – Respondi e ele riu, assentindo com a cabeça.
- Senhores passageiros, peço para colocarem as poltronas na vertical, pois estamos nos preparando para pouso.
- Bem vindo ao Rio de Janeiro! – Cochichei para ele e prendi meu cinto de segurança novamente.

- Eu estou no Brasil! – falou abobalhado ao meu lado e eu ri, ajeitando minha mochila nas costas e seguindo para o despacho de bagagens, com ele ao meu lado.
- Bem vindo! – Falei e ele sorriu para mim, tocando as mãos na minha. – E cuidado!
- Por quê?
- Porque fãs aqui é o que não falta, e teremos três ou quatro meninas querendo falar contigo em três... Dois...
- ! – As meninas gritaram, e eu franzi a testa para ele e abri espaço.
- Não, não, você fica. – Ele tentou me segurar e eu ri. - Oi! – falou para as meninas e abriu um sorriso.
Elas estavam em quatro, quatro meninas viajando, aparentemente. Uma era mais nova, não deveria ter mais que dez anos, outras duas eram adolescentes e a quarta aparentava ser jovem adulta já e era a única que falava em inglês.
- Que surpresa! O que está fazendo aqui? – A mais velha falou olhando para ele e olhou para mim.
- Vim passar o Natal com a família da minha namorada. – Ele olhou para mim e eu sorri, acenando para as meninas.
- Oi! – Ela falou para mim com um largo sorriso. – Vocês tiram uma foto com a gente?
- Deixa que eu tiro! – Falei esticando minha mão para o celular que ela tirava do bolso.
- Não, não! – Ela respondeu. – Você sai na foto com a gente.
- Ah, que isso... – me puxou pelos ombros e me abraçou.
- Isso, vai ser demais! – falou e eu ri, vendo as meninas se juntarem em nós dois e a mais velha esticar a mão para a foto e eu sorri.
- Obrigada! – Elas falaram, algumas em português, outras em inglês e, após abraçarem , saíram rindo.
- Ok?! – Falei não entendendo nada, finalmente me aproximando do bagageiro onde nossas malas já estavam passeando pela esteira, puxando a minha pequena e a grande dele.
- O povo te conhece, ! – falou, pegando as duas malas nas mãos e nos separamos na imigração, parando na fila logo em seguida. Embarcaríamos em outro voo, de outra empresa, para ir para São Paulo.
- Próximo! – Fui chamada e segui para o balcão, estendendo meus documentos e meu passaporte brasileiro para a mulher que me atendia. – Bem vinda de volta, senhorita . – Ela falou e carimbou meu passaporte, fazendo um arrepio passar pelo meu corpo.
Eu estava em casa.
- Obrigada! – Respondi e segui em frente, me juntando a , que saía da fila de estrangeiros, do outro lado da linha.
Parei por um segundo na linha que dividia a sala da imigração e o Rio de Janeiro e senti meu corpo ficar mais leve. Ver aquela miscigenação de pessoas, diferentes cores de pele, diferentes cores, cabelo e olhos, fazia com que eu me sentisse em casa e era a melhor sensação do mundo. Soltei um suspiro longo, relaxando meus ombros e dei mais um passo.
- Está tudo certo? – me encarou.
- Está! – Sorri. – É bom estar em casa.
Ele abriu um largo sorriso e, desajeitadamente, passou um braço sobre o meu corpo, fazendo com que eu derrubasse algumas lágrimas do rosto, que passaram despercebidas por ele. Senti alguns leves empurrões por estarmos no meio do caminho, mas não importava, eu estava no meu país, na minha terra.

Dessa vez ficamos andando pelo aeroporto e demos uma passada pela porta de frente, já que eu tentava mostrar alguma coisa do Rio de Janeiro para . A única coisa que ele realmente conseguiu pegar foi um pouco da Igreja da Penha em sua câmera profissional, que ele pendurara no braço e andava comigo pelo aeroporto, além de tirar algumas fotos minhas.
Andando pelo aeroporto, eu havia notado que os dois aeroportos do Rio de Janeiro haviam sido trocados. O aeroporto que deveria fazer uma ótima impressão para os estrangeiros, assim que chegassem ao país, ou seja, o que estamos, não mostrava nada do Rio. A vista era feia, sem graça e você só conseguia ver a Igreja à distância, depois de andar muito pelo aeroporto. Já o Santos Dumont, que recebe voos domésticos, tem uma vista maravilhosa, desde o passeio que ele leva para pousar, até quando você sai do aeroporto, dando de cara com o Cristo Redentor.
Enfim, impossível chegar de um voo internacional no Santos Dumont, mas ok, erros de cálculo acontecem. Meio frustrada com a situação, eu e decidimos por fazer o check-in novamente, despachar as malas e dar uma passada no banheiro, antes de entrar novamente na sala de embarque. Muitos fãs estavam atrás de e, quando eu digo muitos, não é exagero. Foi como se alguma banda estivesse vindo fazer turnê aqui e alguém fosse avisado. Paramos por uns quarenta minutos só para que pudesse falar com alguns fãs. Crianças, adolescentes, adultos e, quanto mais gente se aproximava, mais gente queria saber o que estava acontecendo. Pessoas de todos os tipos queriam falar com ele, a maioria gritava pelo Poseidon, mas dessa vez eu preferi ficar longe do movimento, me escondendo atrás dos meus cabelos.
- Nossa! – falou esticando o corpo e se sentando em uma das cadeiras livres na sala de embarque. – Estou quebrado!
- Isso é pela viagem ou pela loucura lá fora? – Perguntei, tirando a mochila das mãos e colocando no chão, esticando as costas um pouco.
- Um pouco dos dois? – Ele falou como uma pergunta e suspirou. – Quanto tempo mais de viagem?
- 40 minutos até São Paulo e mais duas horas e meia até minha cidade. – Respondi, me colocando em sua frente em uma tentativa de esconder seu rosto.
- Como vamos até lá? – Suspirei, passando a mão em meus cabelos.
- Carro. – Sorri de lado.
- Alguém vai buscar a gente?
- Não, querido, vamos alugar um carro e eu nos levarei até lá! – Falei, me sentando em uma cadeira ao seu lado.
- Você sabe dirigir? – Franzi a testa, olhando para ele.
- Licença?
- É que eu nunca te vi dirigir, você não tem carro em Boston e...
- Não é porque eu não tenho carro em Boston, que eu não dirija. – Virei meu rosto para ele. – Na verdade, eu não tenho carta de motorista nos Estados Unidos. Não tenho carro mesmo, então, economizo nisso. – Falei o vendo soltar uma risada fraca.
- Bom argumento. – Ele falou aparentemente com medo de mim.

Eu aproveitei a viagem para São Paulo para comer todas as guloseimas que eles ofereceram: torradas, cookies, gomas de gelatina e um copo gelado de refrigerante. Estava quente tanto no Rio, como em São Paulo, e eu só conseguia olhar para o suéter preto quente que ainda estava usando e as bonitas em seus pés. Ele estava derretendo dentro daquela roupa, mas eu que não falaria nada, queria provocá-lo mais um pouco.
Ele até tentou ficar acordado, mas não durou mais que vinte minutos para que seu rosto caísse para o lado de meu ombro e um ronco baixo começasse a soar pelo carro. Liguei o som baixo e permiti que algumas músicas brasileiras tocassem pela rádio e eu fui seguindo para o interior, com o sol forte batendo na lateral do carro e o céu azul na minha frente. Dirigir sozinho pode ter seu lado bom, eu consegui pensar um pouco.
Parecia que eu estava calma e tudo mais, aqui ó! Na real eu estava surtando. Quando eu disse que minha mãe se preocupava que eu pudesse namorar alguém famoso por causa de leis que pudessem atrapalhar o futuro, eu falei sério, ela realmente tinha essa preocupação na cabeça. Casar com algum estrangeiro, talvez não fosse o sonho dela, então, eu realmente não sabia como ela reagiria com os outros. Educada ela seria, mas gostar de ? Deus! Isso era complicado, porque fazia um bom tempo que eu assistia filmes com minha mãe em casa e vários com o . Então, eu havia conhecido o lado famoso dele e depois o lado pessoal e eu já estava acostumada com essa história toda, mas e minha mãe?
Minha irmã parecia mais confortável com a situação. A única certeza que eu tinha era que ela ficaria nervosa, mas bem, até eu fiquei no primeiro dia. Depois era questão de costume. Mas hoje seria o primeiro dia com a família inteira... Meu Deus, me ajuda!
Assim que eu virei o carro para a direita, entrando na minha cidade com pouco mais de 70 mil habitantes, eu acordei . Ele observava tudo curioso, as casas, os locais, a quantidade de verde, tudo!
- Não tem prédios, shoppings, baladas, cinema ou qualquer tipo de diversão para jovens, mas eu gosto! – Falei olhando para ele que sorriu. – É bom para relaxar! – Dei de ombros.
- Não importa! É a sua cidade. – Ele retribuiu.
- É meu lar! – Falei baixo, segurando a lágrima que embaçara meu olho.

Eu estacionei em frente a uma construção de um andar só, com as paredes pintadas de amarelo claro, dentro de um bairro residencial na minha cidade e coloquei o carro em primeira, puxei o freio de mão, desliguei-o e olhei para .
- É agora? – Ponderei com a cabeça, soltando uma risada fraca e baixa. – Agora bateu o nervosismo.
- Que bom que eu não sou a única! – Ele olhou para mim! – Pois é, povo brasileiro, eu estou surtando! – Respondi e empurrei a porta do carro, saindo pela mesma e vendo me seguir.
Batemos as portas do carro e seguimos para o porta-malas, abrindo o mesmo e começando a tirar as malas do mesmo, quando um barulho de portão chamou minha atenção. Ergui o rosto e encontrei minha mãe saindo pelo portão eletrônico de casa e só dela olhar para mim e abrir os braços, meus olhos se encheram de lágrimas.
Larguei alguma bolsa que estava em minha mão no chão e segui a passos rápidos até a mulher de 56 anos parada em minha frente, os curtos cabelos castanho claro, a pele com poucas rugas, apesar da idade, os olhos escuros, as bochechas rosadas e os olhos com lágrimas acumuladas também. Seus braços me apertaram em seu corpo e eu desabei. Chorei, suspirei, a apertei em meus braços e relaxei. Afrouxando os braços dela, que pegou meu rosto entre as mãos, me olhou nos olhos e beijou minha testa.
- Bem vinda, minha filha! – Ela disse em português e eu sorri, retribuindo o beijo. – Cadê ele?
Passei a mão no rosto, secando as lágrimas e com um sorriso desajeitado eu virei para que olhava a cena há alguns metros de nós, com um sorriso tímido no rosto.
- Mãe, esse é o , meu namorado. – Falei a frase em inglês, estendendo a mão para que sorriu, se aproximando.
- Oi, senhora! – Ele falou em inglês e eu franzi o rosto, esperando a resposta de minha mãe.
- Ah, querido, vem cá, me dê um abraço! – Ela falou em inglês, enquanto ficava na ponta dos pés e abraçava . Eu tinha um ponto de interrogação no rosto. – Como você está? – Ela perguntou, tentando manter um diálogo com ele que acenava com a cabeça, respondendo com respostas curtas.
- Como assim? – Perguntei, olhando para ela, quando soltou .
- Fiz intensivo de inglês só para esse momento, não me subestime! – Ela sussurrou para mim, me fazendo rir. – Vamos entrando! – Ela voltou para o inglês.
- Vai! - Falei para . – Eu pego as malas! – Abri um sorriso para ele que arregalou os olhos para mim. Dei de ombros e virei o corpo em direção ao carro novamente.

Bati o porta-malas, travei o carro, guardei a chave no bolso e fiz como eu estava acostumada na faculdade, equilibrei minha mochila, bolsa e mala minha e de nos braços e, meio arrastada, levei até o hall de casa, soltando-as ali mesmo e pegando fôlego. Nossa, estou mal mesmo, não havia sido nem dez metros do carro até a porta e eu já estava sem fôlego. Precisava voltar para academia o mais rápido possível.
Fechei o portão com um baque e fechei a porta de madeira, passando a chave. Ajeitei as malas e mochilas em cima do sofá marrom de três lugares da sala de jantar e segui para o corredor que dava para a cozinha à direita, onde minha mãe preparara uma mesa maravilhosa de café da tarde para gente. Essa mulher! A cozinha era inteira planejada com móveis brancos e uma mesa redonda de vidro para seis pessoas.
Minha mãe servira com uma xícara de café e um pedaço de bolo de cenoura. Eles até que se comunicavam bem. O bom de era que o sotaque é americano, era bem mais fácil que o britânico ou australiano, eles falavam de forma mais aberta, mais fácil de entender. Tenho certeza que minha mãe tinha feito várias horas diárias de inglês para lembrar o que ela havia aprendido quando mais nova.
Assim que eu sentei-me à mesa, o papo se virou para mim, como estava meu trabalho, minha vida, minha casa, minhas responsabilidades. Eu e minha mãe conversávamos em inglês, para que pudesse fazer parte da conversa, mas algumas coisas minha mãe esquecia e falava em português, o que eu tinha que traduzir para que balançava a cabeça e comia mais um pedaço de bolo, que era no que ele realmente estava interessado.
Ouvi o barulho do portão da garagem se abrindo e empurrei a cadeira, fazendo barulho e segui para a sala de jantar novamente, onde ficava a porta para a garagem, que eu podia ver minha irmã entrando com o carro. No momento que ela olhou para mim, eu estiquei a mão, acenando, vendo-a fazer uma feição de surpresa.
Ela desligou o carro e a passos rápidos correu até a porta, fazendo com que o espaço entre nós sumisse, deixando que nós duas nos abraçássemos no batente da porta.
- Que saudades de você, sua gorda! – Ela me abraçava pela cintura e eu a segurava pelo pescoço.
- De você também, sua feia! – Respondi, fazendo com que ambas déssemos risada quando nos separamos.
- Cadê ele? – Ela perguntou. – Quero conhecer o namorado famoso da minha irmã, que é só o que ela fala. – Ela falou brincalhona e eu dei de costas, seguindo para a cozinha, onde minha mãe e já esperavam em pé. – Meu Deus, é ele mesmo! – Ela falou em inglês e eu coloquei a mão no rosto, revirando os olhos. – Ela é muito boa no Photoshop, sabia? Vai que... – Minha irmã falou para que balançou a cabeça, dando risada. – É um prazer te conhecer! – Lílian falou se aproximando de e o abraçando também.
- Minha irmã, Lílian! – Falei para , que a abraçou com um sorriso no rosto.
- Gostando daqui? – Minha irmã perguntou, continuando o papo em inglês.
- É tudo maravilhoso! – Ele respondeu e eu senti um orgulho interno, rindo baixo.

Acabamos emendando o café da tarde com a janta, fazendo com que a gente saísse da mesa só no fim do dia, conversando sobre o que eu tinha perdido nesses últimos meses ou como estava as coisas em Boston e tudo mais. Minha mãe foi a primeira a deixar a mesa, dizendo que estava cansada e precisava acordar cedo para comprar os ingredientes para as coisas do Natal. Minha irmã foi em seguida, querendo aproveitar o chuveiro da minha mãe, enquanto minha mãe não dormia, porque assim que ela dormisse, nada de barulhos, por causa do sono leve que ela tinha.
- Você sobreviveu! – Falei para , começando a guardar as coisas da mesa nos lugares corretos.
- Parece que sim! – Ele respondeu, bocejando.
- Quero ver no Natal! – Coloquei os pratos na pia.
- Como assim? – Virei o rosto para ele.
- Bem, tem ainda várias pessoas da minha família que você vai conhecer. Meus tios, tias, primos, avó. – Dei de ombros e ele colocou as mãos na cabeça.
- Oh, Deus! – Ele suspirou.
- “Oh, Deus” nada, você me apresentou para todo mundo. – Sequei minhas mãos no pano pendurado. – Eu farei isso, só que por partes.
- Sabia que curativo dói menos quando tirado de uma vez só? – Ele me perguntou, me seguindo pelo corredor.
- Sabia que para ter curativo precisa ter machucado? Coisa que não tem. – Respondi seguindo para a sala de jantar, onde pegamos nossas coisas. – Depois você acostuma, amor. – Falei olhando para ele.
- É, talvez! – Ele falou e eu suspirei.
- Vem! Vamos pro meu quarto, tomar um banho e descansar.
- É, estou precisando! – Ele falou, seguido de outro bocejo.
Passamos pelo corredor e a primeira porta à esquerda era o quarto da minha irmã, a segunda porta era o banheiro, a porta da frente era meu quarto e ao meu lado o da minha mãe, que era suíte também. Falei rapidamente sobre o que era cada porta para e entrei na porta da frente do corredor, acendendo a luz.
Meu quarto era simples, assim que entrava tinha uma cama box na parede da porta, imitando um sofá encostado. Na parede da direita uma escrivaninha em “L” até a parede da frente, onde estava a janela e um espelho, na parede do fundo tinha meu armário, cobrindo a parede inteira. Na parede da escrivaninha tinha um pôster meu dos meus 15 anos, algumas prateleiras com meus filmes, livros e CDs, acima da cama um pôster de “À Procura do Amanhã”, que eu havia ganhado na première do filme na Coreia. Encostado no armário também tinha um colchão, que minha mãe já deixara separado. Soltei uma risada baixa. Mães!
entrou no quarto observando todos os detalhes. Eu aproveitei para colocar minha mochila, mala e bolsa em cima da cama e fechei as janelas e persiana.
- Você tem um pôster de “À Procura do Amanhã” no seu quarto? – perguntou, colocando sua mala no chão, próximo ao espelho.
- Não é um pôster de “À Procura do Amanhã”, é o pôster do momento. – Respondi para ele, que deu uma risada baixa. – Eu troco pelo filme da estação.
- Você está linda nessa foto. – falou olhando minha foto na moldura dourada e eu sorri.
- Eu tinha 15 anos aí! – Falei e ele arregalou os olhos, olhando de mim para a moldura, da moldura para mim.
- Você não mudou nada! – Ele respondeu! – Só o cabelo.
- Ali era chapinha, aqui é natural! – Respondi apontando para os cabelos ondulados, enquanto falava!
- Isso é demais! – Ri baixo. – Você é a você de 15 anos, ! – Ele disse.
- Bem, a eu de 15 anos não tinha espinhas, a de 28 tem! – Respondi e ele riu.
- Sério que você não tinha espinhas? – Ele perguntou.
- Não tive na adolescência, bom por um lado, ruim por outro. – Suspirei, pendurando minha bolsa no gancho em formato de flor próximo ao guarda-roupas. – Enquanto todos tinham espinhas, eu não tinha. Quando ninguém tinha, eu tinha! – Dei de ombros. – Mas foi tudo fase! – Ele sorriu. – Enfim, vamos aos trabalhos. Por que você não vai tomar banho enquanto eu desfaço minhas malas e depois trocamos, que tal?
- Eu topo! – Ele respondeu, se agachando ao lado da sua mala, pegando uma troca de roupa.
- Aqui! – Entreguei a toalha de banho que minha mãe havia separado na mão dele. – No banheiro é assim, torneira da esquerda é quente, da direita é fria. Entendeu?
- Esquerda quente, direita fria, saquei! – Ele respondeu e eu afirmei com a cabeça, vendo-o sair do quarto.
Aproveitei para desfazer minhas malas. As roupas da mochila, que eram sujas, eu joguei dentro do cesto de roupa que ficava dentro do armário e já guardei a mochila junto. Peguei a mala pequena e, tirando todas as coisas dela, decidi guardar nos armários já que estavam limpas, e a maioria eram vestidos que eu poderia usar aqui no Brasil.
saiu do banheiro logo em seguida. Passando a toalha nos cabelos, com uma calça de flanela cinza e uma camiseta branca.
- Não vai passar calor? – Perguntei.
- Talvez. Mas em respeito a sua família, eu prefiro ficar assim. – Afirmei com a cabeça, com um sorriso nos lábios.
- Qualquer coisa eu ligo o ar condicionado. – Falei. - Usa esse espaço ali para você, a escrivaninha, fica à vontade. – Falei para ele que afirmou com a cabeça.
Peguei um pijama curto no armário junto de uma calcinha e fui para o banho. Se fosse mais cedo, eu lavaria a cabeça, mas não estava a fim de secar o cabelo àquela hora da noite. Senti a água quente relaxar meu corpo e o sabonete subir o cheiro de banho de bebê, mas logo saí do mesmo. Coloquei o pijama e penteei meus cabelos que já pareciam um ninho com tantos nós.
Saí do quarto e encontrei arrumando o colchão ao lado da cama e abri um sorriso de lado. Fechei a porta e peguei o controle da TV no apoio atrás da cama e liguei a TV, colocando na TV a cabo, zapeando algum filme que estivesse passando, mas acabei parando em um canal de séries.
Me sentei sobre a cama e puxei o lençol para cima das minhas pernas, vendo se aproximar de mim e passar a mão no meu rosto delicadamente, me fazendo soltar um suspiro leve.
- Um passo de cada vez. – Ele disse e eu afirmei com a cabeça.
Passei meus braços por seus ombros, o abraçando, sentindo meu corpo relaxar. Eu me sentia confortável com aqueles abraços. Acariciei a barba dele, ajeitando os fios arrepiados e toquei seus lábios com a ponta dos polegares, tocando seus lábios com os meus em seguida.
- Eu vou deixar você dormir hoje! – Ele falou, quando nos afastamos. – Você precisa dormir.
- E você não? – Perguntei vendo-o se sentar sobre o colchão. – Está tão cansado quanto eu, tenho certeza.
- Talvez! – Ele falou, puxando o travesseiro e encostando a cabeça no mesmo, o imitei.
- Boa noite! – Falei, programando a televisão para desligar.
- Boa noite, amor! – Ele respondeu ao mesmo tempo em que apaguei a luz, deixando somente que a luz da televisão iluminasse o quarto.

Acordamos tarde no dia seguinte, nós dois. Eu acordei e olhei o quarto escuro, o relógio próximo à cama mostrava que passava das dez da manhã e eu levantei num pulo, vendo erguer o rosto logo em seguida. A casa estava vazia, um bilhete dizia que minha mãe e minha irmã foram ao mercado e nos encontraríamos para comer no restaurante de massas do centro. Bom, era uma delícia. Confirmei o número e mandei uma mensagem para Rodrigo, meu melhor amigo, perguntando se ele estaria em casa após o almoço, ele respondeu rapidamente com um “Espero vocês”.
Eu e nos arrumamos rapidamente, deixando o quarto arrumado. Comemos um bolo com café que minha mãe deixara separado na mesa posta e saímos de casa rapidamente. Dessa vez, saí com o carro da minha irmã que estava na garagem. Quanto menos usássemos o carro alugado, menos pagaria no final da viagem.
Levei para dar uma volta na cidade. A parte mais movimentada de sábado de manhã era a avenida principal do centro, onde juntavam diversos tipos de lojas sobre qualquer coisa, desde bugigangas para casa, até joias e móveis. mais andava ao meu lado, do que comprava algo. A ideia era basicamente andar, porque, devido ao Natal que se aproximava, as pessoas haviam aloprado atrás dos últimos preparativos para o feriado. Ainda bem que minha mãe e minha irmã foram no mercado e eu me livrei dessa tarefa. Se em dias normais já era impossível, imagina nessa época do ano.
Eu parei somente em dois lugares, primeiro foi em uma loja de perfumes famosa aqui no Brasil, onde eu peguei meu pacote que já estava separado, conversei um pouco com a vendedora que estudara comigo na escola, paguei e logo saí de lá. Depois passei na joalheria, onde eu tinha encomendado um chaveiro em aço em formato de claquete, para juntar com o terceiro presente que estava comigo em casa já.
Mesmo o centro da cidade lotado, pouquíssimas pessoas reconheceram , creio que três vieram tirar foto com ele, e alguns que olhavam com surpresa do tipo “O que ele faz aqui?”, mas passavam reto e outros, alguns até conhecidos meus, paravam e cumprimentavam a gente meio que “Nossa, é o Poseidon”, mas era rápido.
Pouco depois da uma hora, recebemos uma ligação de minha mãe, falando para irmos logo para o restaurante que estava cheio já e daqui a pouco não poderiam mais guardar a mesa. E quando chegamos lá, a situação estava um pouco caótica. Pedimos nossos pratos e ficamos conversando sobre as compras. Eu tive que ser um pouco vaga, falando que havia pegado o que minha mãe pediu na rua, o que foi a maior mentira deslavada que eu contara naquele dia, mas minha irmã pegou a ideia e o assunto já mudou.
Comemos até que rápido, acho que a agitação de fim de ano atacou em todos nós. Não enrolamos para sair de lá, minha mãe e irmã foram para casa e eu e seguimos para o lado oposto, para a casa do meu melhor amigo.

Estacionei o carro em frente à construção de dois andares bege, com um letreiro em neon escrito “Sorveteria”, tranquei o carro e veio ao meu lado. Passei a porta da entrada do local e subi em uma escada na lateral para o andar de cima, batendo na porta quando cheguei.
- Ei! – Um garoto da minha altura, de cabelos pretos e uma barba por fazer apareceu. Meu amigo apareceu e eu passei meus braços pelo seu pescoço, abraçando-o fortemente, sentindo-o me apertar da mesma maneira. – Que saudades! Como está? – Ele falou em inglês, me fazendo franzir a testa.
- Bem, qual é a desse povo todo sabendo falar em inglês? – Perguntei, me afastando dele.
- Sei lá, acho que uma conhecida nossa está namorando um estrangeiro e a gente não está a fim de fazer feio na frente dele. – Ele falou olhando para . – Olá, tudo bem? Rodrigo.
- Oi, e aí? – Eles trocaram um aperto de mão. – .
- Sei tudo sobre você. – Ele movimentou os lábios e rimos.
- E aí, como está tudo por aqui? – Dei uma olhada no grande espaço que ele tinha no segundo andar, junto de algumas caixas de som espalhadas pelo mesmo.
- Tudo indo muito bem, na verdade. – Ele pegou uma caixa de sapatos na mão, colocando em uma das prateleiras dispostas ali. – Estou com três turmas de ballet, quatro de street dance, uma de sapateado e uma de localizada para idosos. Estou bem feliz! – Ele comentou.
- Isso é muito bom! Você finalmente achou o que você queria. – Falei, me sentando na mureta que dava de costas para a escada. – E a sorveteria?
- Minha irmã cuida da administração, depois daquela reforma que a gente fez com a sua ideia, as coisas mudaram bastante aqui.
- Pois é! Estou sabendo que virou o point da cidade. – soltou uma risada fraca ao meu lado. – Rodrigo é filho dos donos da sorveteria aqui de baixo, e dá aulas de dança, que é o que ele realmente gosta.
- Dança? Cara, isso é demais! – falou realmente interessado no assunto.
- Você gosta? – Rodrigo perguntou.
- Adoro! Eu cresci dançando, na verdade, antes de virar ator. – cruzou os braços sobre o peito. – Minha mãe foi professora de dança por muito tempo, então, eu e meus irmãos crescemos dançando um pouco de tudo, mas o que eu gostei mesmo foi do sapateado. – falou e eu sorri.
- Isso é demais, cara! Eu não sabia! – Abri um sorriso largo, suspirando. – Tentei trazer essa daqui de volta para dança, mas não rolou. – Ele comentou, apontando para mim. – Ela preferiu sair do país e ser trabalhadora.
- Licença, eu sou muito boa no que faço! – Respondi.
- E, eu não sei? A assessoria daqui e da sorveteria ainda é sua! – Soltei uma risada fraca.
- Falando nisso, vocês já implantaram aquele projeto empresarial que eu mandei? – Cruzei os braços.
- Estou trabalhando com a sua irmã para fazer a publicidade do estúdio de dança, porque a sorveteria não está dando problema para chamar pessoal, o estúdio sim, porque eu sou novo, sem muita experiência e por aí vai.
- Mas não estou vendo problema nenhum com alguém que está com várias turmas. – Falei, mostrando a língua para Rodrigo.
- Cortando um pouco. – falou. – Ela dançava? – Ele olhou para Rodrigo e apontou para mim.
- Ah não! – Falei, escondendo o rosto nas mãos.
- Dançava, ela fez street dance por uns dois anos, acho.
- Eu sou muito ruim! – Falei, me defendendo. – Sou muito travada para dançar! Era péssimo, sério! Eu parecia uma pata. – Falei, fazendo rir. – Me deixa no jornalismo mesmo.
- Ou na gastronomia, porque isso ela é boa também. – Rodrigo comentou.
- Pior que é! Ela tem futuro para caramba nisso! – respondeu e eu suspirei.
- Vamos parar de falar de mim?
- Vamos e vamos falar de sorvete! – falou e eu gargalhei. – Você nunca me disse que seu melhor amigo tinha uma sorveteria. Eu amo sorvete, cara!
- Ah meu pai! – Passei a mão nos cabelos.
- Vamos lá embaixo, então. – Rodrigo falou e eu ri, balançando a cabeça.

A sorveteria lá embaixo tinha um tom meio anos 60. As mesas eram sofás virados de frente para outro, a pintura era avermelhada com listras brancas, o balcão com detalhes relacionados aos anos 60 e até os apetrechos. O local era bem aconchegante, deveria ter no máximo dez mesas, cabendo seis pessoas em cada, deixando aquele lugar fervendo quando chegasse o fim do dia ou caso fizesse muito calor.
Agora, logo após o almoço, estava vazio, até os atendentes estavam no fundo. Eu pedi o que eu estava acostumada, o sorvete de limão deles, que parecia chiclete de tão puxa-puxa que ficava. já aproveitou a experimentou todos os sabores possíveis que existiam ali e não ficou satisfeito até ter pelo menos cinco bolas de sorvetes variados na cestinha em que ele comia, junto de alguns confeitos coloridos. Fiquei imaginando como seria se todos aqueles sabores derretessem, mas era rápido. Quando ele falava que amava sorvete, eu pensava que era brincadeira, mas não, ele realmente gostava.
- Esse lugar é bem legal! – comentou, mordendo os pedaços da cestinha aos poucos.
- Foi meu primeiro projeto pago de comunicação. – Respondi, fazendo rir. – É sério!
- Sério? –Afirmei com a cabeça.
- É! Eu estava formada há uns três anos já, quando os pais do Rodrigo decidiram que precisava mudar, porque estava dando menos freguesia. Eu elaborei essa ideia de fazer um espaço anos 60. Trazer de volta os tradicionais sorvetes de massa e deu certo. – Soltei uma risada fraca.
- Aí deu tão certo que meus pais viajam por São Paulo montando matrizes iguais. – Rodrigo completou e eu sorri.
- Recebo comissão disso até hoje. – Falei animada e abriu a boca levemente surpreso.
- E quantas são no total? – Rodrigo ponderou com a cabeça.
- Acho que meus pais estão abrindo a 12ª agora. – arregalou os olhos.
- E não era assim antes?
- Não. A gente chegou a ter três sorveterias na cidade, mas fechamos todas e permanecemos somente com essa, com o tempo fomos trocando os sorvetes de massa por picolés e até que a situação ficou crítica. – Rodrigo comentou. – Gastamos um pouco mais, mas teve retorno!
- Me dá um orgulho ouvir você falar isso. – Falei e ele sorriu.
- Me dá orgulho de você, amiga! – Ele falou segurando minha mão sobre a mesa. – Você está fazendo tudo que você disse que faria. – Ele sorriu. – E o melhor, você tem alguém para dividir isso.
- Eu sempre tive! – Comentei o encarando.
- Mas agora você pode dormir com ele. – Gargalhei e me acompanhou.
- É, é muito bom! – Sorri. – E, você? Alguém na sua vida?
- Meu coração até que está ocupado, mas não da forma que eu queria. – Ele franziu a testa.
- Quando for para acontecer, vai acontecer. – Falei.
- Você é a prova perfeita disso. – Ele rebateu e eu ri.
Ficamos conversando um pouco mais, e Rodrigo engataram em um papo sobre dança e teatro, que eu me senti um pouco deslocada do local, mas logo a irmã de Rodrigo chegou para me fazer companhia, me fazendo rir um pouco com ela e com sua barrigona de seis meses.
- Eu quero ser madrinha dele, ok?! – Falei e ela riu. O dia foi passando e o tempo começou a escurecer. - Quanto é Rodrigo? – Falei pegando a bolsa ao meu lado no banco.
- Não é nada, .
- Ai, para de graça. – Rebati.
- Não é nada, para de graça você! – Ele empurrou minha mão.
- Eu não pago um sorvete há 18 anos, se quer saber. – Falei, olhando para que soltou uma risada.
- Acho bem legal isso! – comentou rindo. – Prazer te conhecer, cara! – cumprimentou Rodrigo novamente e cumprimentou sua irmã de longe.
- Vão ficar na cidade até quando? – Rodrigo perguntou, me abraçando.
- Preciso voltar a trabalhar dia 6 de janeiro, mas estamos pensando se vamos passar o ano novo em Nova York. – Dei de ombros.
- Nada mal, hein?! – Rodrigo comentou.
- Vamos junto? – Ele gargalhou. – Nova York está sendo quase como uma terceira casa para mim lá nos Estados Unidos.
- Até que queria, mas a aula de localizada dos velhinhos não para. – Ele comentou.
- Não tem férias? – Ele perguntou.
- Não, acredita nisso? Esse povo tem mais fôlego que a gente. – Ele comentou na porta da sorveteria. – E também vou fazer uma gincana de férias, animar o pessoal já que não tem muito que fazer aqui. Vou alugar uma chácara ali na saída da cidade e colocar todo mundo para acampar.
- Se eu tiver aqui, até eu participo! – Falei rindo.
- E eu não sei? – Ele respondeu.
- Continue fazendo isso, Rodrigo, porque é o que você faz de melhor.
- Vocês também. – Ele respondeu.

O dia seguinte era domingo. A família inteira se juntou para um churrasco. pode conhecer minha tia, irmã da minha mãe, meu tio, marido dela, minha prima, que era um pouco mais velha que eu e minha avó, mãe da minha mãe. Aquilo não estava nos planos, a ideia era que conhecesse todo mundo junto no Natal, mas foi até que bom, apesar da questão da comunicação.
Meus tios não eram muito bons em inglês, mas por meio de mímicas, traduções simultâneas e afins, até que o almoço não foi totalmente desastroso. E o churrasco, que era o mais importante, foi bastante elogiado por , afinal, quem não gosta de churrasco brasileiro?
Na segunda-feira fizemos o dia do tédio, ficamos o dia inteiro sem fazer nada. Minha irmã teve que trabalhar, então eu ajudei minha mãe em algumas coisas, fiquei com um pouco, assistimos alguns filmes, tiramos um cochilo a tarde e, mesmo o dia demorando para terminar, ele terminou.

Minha mãe deixou a gente dormir quanto quiséssemos aquela manhã. Eu acordei com se levantando da minha cama de solteiro e finalmente tive um pouco de espaço para me mexer na cama, já que dormimos abraçados a noite inteira e o corpo doía um pouco, éramos grandes, e não tinha tanto espaço na cama, ainda mais eu que era espaçosa e me mexia bastante. Aí quando levantou, eu aproveitei para dormir mais um pouco.
Quando eu levantei da cama, ajudava minha mãe na cozinha. Sim, ele tinha alguma utilidade na cozinha. Ele ajudava minha mãe a fazer um peru recheado, já que era costume nos Estados Unidos de rechear perus. Ele estava indo bem, e eu estava um tanto quanto surpresa com isso.
- Ele sabe rechear perus! – Falei para minha mãe, após dar um beijo em sua bochecha.
- Seu namorado é mil e uma utilidades, querida! – Minha mãe falou, olhando dentro da panela.
- Bom dia! – falou dando um beijo em minha bochecha.
- Bom dia! – Respondi com um sorriso no rosto. – E aí, precisa da minha ajuda?
- Preciso, ! Preciso muito. – Minha mãe respondeu.
- Como sempre você está ansiosa, certo? – Ela afirmou com a cabeça.
- Sua irmã está cuidando da decoração. está me ajudando com as carnes e você cuida dos doces, como sempre! – Soltei uma risada baixa, sabendo que era o óbvio.
- Pode deixar! – Respondi. – O que eu faço? O sorvete e a da uva? – Minha mãe afirmou com a cabeça. – Fechado!
- Mas tira esse pijama antes, ! – Ouvi a frase mais comum e soltou uma risada ao meu lado e eu dei meia volta para o quarto.
Fui ao meu quarto e troquei a roupa por um short e uma regata azul. Prendi meu cabelo em um coque alto, e voltei pelo caminho contrário, esbarrando em minha irmã, já suando, dei um rápido beijo em sua bochecha e ela me segurou, antes que eu voltasse a andar.
- Eu gostei dele! – Ela falou e eu abri um sorriso. – E, posso dizer, pela forma que ele olha para você, que ele te ama . – Passei meus braços pelo seu corpo, encostando minha cabeça em seu ombro. – Aí tem futuro, irmãzinha. – Suspirei.
- Não vamos falar do futuro. – Comentei e ela riu.
- Podemos não falar, mas acho que você já pode se preparar para passar sua vida inteira com ele. –Soltei uma risada fraca.
- Você acha? – Perguntei.
- Você não? – Ela olhou em meus olhos.
- Na verdade, eu acho que nunca parei para pensar nisso.
- Seis meses não é muito tempo e eu também não sou nenhuma expert em amor, mas eu vejo futuro aí. – Ela sorriu. – E também não vejo nenhuma objeção no caso. – Franzi a testa. – A família dele gostou de você, não? – Ela piscou os olhos. – E aqui, por mais que a linguagem seja um degrau um pouco alto, também gostaram dele. – Dei de ombros. – Pensa nisso!
- Agora eu não vou pensar em outra coisa! – Comentei e ela riu.
- Vamos voltar ao trabalho.
- Porque hoje é véspera de Natal! – Gritei, dando uns pulinhos, eu amo o Natal.
Voltei para a cozinha e já havia tirado as mãos do peru e agora manejava um facão, limpando uma peça de carne que minha mãe pediu. Eu fui para o fogão. Fazendo o brigadeiro branco que ia em cima da uva, mexendo a panela rapidamente no fogo alto, fazendo o creme se formar rapidamente e peguei o pano pendurado, colocando-o em meu ombro.
Enquanto o brigadeiro branco esfriava, eu segui para a primeira camada do sorvete, leite condensado, leite e gemas, transformei tudo em um creme homogêneo até esfriar e derrubei sobre o refratário de vidro, colocando no freezer enquanto ainda estava quente, abaixando a temperatura do mesmo para congelar mais rápido.
Peguei outro refratário e coloquei as uvas verdes sem semente, que minha mãe já tinha lavado, coloquei o brigadeiro branco por cima das uvas, fazendo uma parede contra as uvas. Me aproximei da bancada em que trabalhava e em outro refratário comecei a fazer a ganache que cobria o brigadeiro. Chocolate meio amargo, creme de leite e alguns segundos no micro-ondas. Joguei a mistura em cima do brigadeiro branco e cobri com papel filme, colocando na geladeira, seguindo para a pia esperando terminar de lavar as mãos.
- Terminaram? – Minha mãe perguntou, voltando para a cozinha.

- Tem que esperar para fazer as outras camadas do sorvete agora, mas o doce da uva está pronto.
- Vocês podem buscar alguma coisa para comer? – Ela perguntou, dando uma olhada dentro das panelas.
- Claro, o que a gente pega?
- Pega um lanche para gente. – Ela falou.
- O de sempre?
- Pode ser.
- Pede para colocar bastante salada. – Minha irmã gritou da varanda que dava para a sala de jantar.
- Ok, então a gente já volta. - Respondi, seguindo para a garagem com atrás de mim.

O resto do dia passou rápido. Eu e fomos rapidamente em uma lanchonete e logo voltamos para casa. Almoçamos cada um em um canto na sala de TV, assistindo “Um Natal muito, muito Louco”, um dos melhores filmes de Natal que eu já tinha visto.
Depois eu terminei as outras duas camadas do sorvete, enquanto minha mãe e minha irmã tomavam banho. Com tudo pronto, eu entrei no banho, lavando meu cabelo porque eu pretendia fazer uma chapinha nele, para dar uma diminuída no volume. Passava das sete horas, quando foi para o banho e eu comecei a fazer chapinha meio desajeitada nos meus cabelos ondulados.
saiu do banheiro e começou a se trocar no quarto, ele colocou uma calça jeans escura, passou o tão conhecido perfume pelo corpo e deu uma secada no cabelo, dando uma bagunçada nos fios e ajeitando a barba. Ele colocou uma camiseta branca, meio acinzentada sobre o peito com dois botões abertos perto do pescoço. Calçou tênis e sentou na cama, olhando para mim enquanto eu me maquiava, usando somente um conjunto de lingerie preta sobre o corpo.
- Vai usar esse vestido? – Ele perguntou, deitando o corpo na cama e vendo o vestido pendurado no armário.
- O que acha? – Perguntei.
- Acho que vai ficar linda demais. – Ele devolveu e eu sorri.
Terminei de fazer minha maquiagem e coloquei o vestido azul curto com as mangas pretas de couro e o meu tão conhecido peep toe preto nos pés. Finalizei a maquiagem com um batom claro e joguei meus cabelos para o lado.
- Vem, vamos tirar uma foto! – O chamei para ficar ao meu lado na frente do espelho.
Ele pegou seu celular que estava mais perto e tirou uma foto nossa, me abraçando pela cintura, enquanto eu o abraçava pelas costas, sorrindo para a foto.
- Feliz Natal, ! – Falei e ele sorriu.
- Feliz Natal, amor! – Ele beijou minha testa. – Que venham muitos mais. – Sorri, fechando os olhos por alguns segundos, ouvindo uma batida na porta.
- Venham, o pessoal chegou, vamos fazer a troca dos presentes. – Ouvi minha mãe gritar do outro lado da porta e vi os olhos de se arregalar por um momento.
- Relaxa! Eu já dei um jeito nos presentes. – Falei para ele, pegando os presentes de dentro do armário e ele pegou um embrulho dentro da mala.
- Eu nem pensei nisso, na verdade.
- Eu sei! Com a gravação do filme você não pensava em mais nada. – Respondi e ele sorriu. – Eu comprei para gente. – Ele afirmou com a cabeça.
- Obrigado! – Ele falou um tanto aliviado.

Na troca de presentes as coisas aconteceram até que um pouco surpreendentes, eu ganhei uma bolsa bege com preto da minha mãe para trabalhar, um sapato de salto alto dos meus tios, um liquidificador novo da minha avó para Boston, já que o meu havia quebrado, e um estojo de maquiagem da minha irmã. ganhou algumas coisas também, um conjunto de barbear dos meus tios, uma camisa xadrez muito bonita da minha mãe e uma camiseta da minha irmã.
Eu dei presentes para todos, joias para minha mãe, tia e avó, maquiagem para minha irmã e prima e um tênis para o meu tio. Era bom ganhar bem. Eu e deixamos nossos presentes por último, enquanto toda a bagunça rolava solta.
começou, me entregando uma caixa preta, grande, onde pude ver em cima escrito Bvlgari. Nessa hora eu gelei totalmente. Minha irmã dividiu a minha surpresa. Abri a caixa e encontrei um colar com uma corrente de ouro branco e diversas pedras roxas e lilás em volta da mesma, me fazendo ficar desnorteada por um momento.
- , isso...
- Não é nada. – Ele falou olhando para mim.
- Mas isso...
- Posso colocar em você? – Ele perguntou, desviando da conversa.
- Pode! – Minha irmã respondeu por mim e eu ri, virando o corpo, sentindo-o colocar aquela delicadeza em meu colo, soltando um suspiro quando ele fechou e passou as mãos em meus ombros.
- Agora eu estou com vergonha de dar meu presente. – Ele soltou uma risada baixo e eu peguei os dois embrulhos que sobraram embaixo da árvore de natal.
- Para de graça, ! – Ele falou baixo e eu sorri.
- Um é mais útil e o outro é mais emocional. – Estendi os dois embrulhos quadrados, para , um mais alto que o outro. Ele começou pelo mais alto, mais útil.
tirou a caixa do embrulho e abriu a mesma, abrindo um largo sorriso em seguida.
- Obrigado, ! Você não precisava! – Ele falou, tirando o relógio prateado da caixa.
- Você também não precisava. – Toquei no colar delicadamente e eu sorri.
- Obrigado! – Ele encostou os lábios nos meus delicadamente. – Me deixa ver o outro.
- Eu acho que é mais importante esse. – Ele tirou o papel do embrulho, revelando uma caixa de veludo, parecido com de joias.
Fiquei tensa no momento que ele abriu a caixa, revelando o chaveiro de aço em formato de claquete de filmes e uma cópia da minha chave do apartamento de Boston presa no mesmo.
- , isso é...?
- A chave do meu apartamento em Boston! – Respondi.
- Isso é incrível! – Ele respondeu, passando os braços pelo meu corpo. – Isso é muito importante para mim. Obrigado!
- Obrigada por esse meio ano. – Respondi sorrindo e ele me abraçou fortemente.

Levamos todos os presentes para o quarto e o resto do pessoal começou a chegar. Acredite de se quiser, minha avó foi quem ficou encarregada em apresentar para as pessoas, eu fiquei ajudando minha mãe na cozinha, enquanto o pessoal entrava. Os mais novos reconheciam ele logo de cara, outros não sabiam falar em inglês, bem, nem minha avó, então, para quem estava de fora, o papo era até engraçado. Minha avó falava que era o namorado estrangeiro da , ele dava um oi, cumprimentava com a mão, um abraço e as coisas começavam a andar.
Minhas primas mais novas ficaram em volta de mim um pouco, então, eu nem fiquei muito ao lado de , mas ele pegou uma cerveja e ficou perto dos homens, conversando com um dos meus tios que viajava sempre e integrava-o no papo. Em um momento a cara de pânico dele sumiu.
Próximo à meia noite, nos juntamos na sala de jantar em volta da mesa e fizemos uma oração, agradecemos por mais um ano, por estarmos juntos ali, pelas pessoas novas em nossa família, e também lembramos das pessoas que já foram como meu pai, meu avô e alguns parentes distantes. À meia noite me deu um beijo e um abraço apertado de feliz Natal, o que fez com que eu me sentisse em casa. Passei cumprimentando a todos, enchi o prato com todas as diversas guloseimas que havíamos preparado, e depois arranjei um lugar no sofá para comer.
- Quem sabe no próximo Natal você vai estar com crianças, ? – Uma tia minha me perguntou enquanto dava mamadeira para seu neto.
- Ah, tia, não, ainda não, por favor. É um relacionamento recente. – Respondi e ela afirmou com a cabeça.
- Mas seja feliz, minha filha.
- Eu já sou. – Respondi, enquanto estava alheio à conversa, colocando um pedaço de costela na boca.
Deixando a comida descer um pouco, por volta da uma da madrugada, minha mãe serviu as sobremesas, e eu fiz questão de colocar um bocado da sobremesa de uva e do sorvete para , não porque eu havia feito, mas porque eu sabia que ele ia gostar. E ele gostou, repetindo em seguida.

Aos pouco as pessoas começaram a se acomodar pelos cantos, enquanto o sono começava a aparecer em cada um. Antes das três da madrugada, a casa estava vazia de novo. Deixando com que ficasse eu, , minha mãe e irmã em casa novamente.
- Nossa, parece que passou tão rápido! – Minha mãe comentou, suspirando.
- Pois é! – falou e eu ri.
- Deixa eu te ajudar, mãe. – Me levantei do sofá meio com preguiça, deixei meu salto no tapete da sala e levantou ao meu lado, me ajudando a dar fim nas latas de cervejas, garrafas de refrigerante, colocar os pratos, talheres e copos na pia para minha mãe que começara a lavar a louça e eu fui lá fora colocar o lixo.
Depois eu dei um jeito nas comidas, juntando pratos parecidos, para reduzir a quantidade de refratários que as pessoas haviam trazido, lacrei todos com papel filme, os que precisavam de geladeira eu dei um jeito de caber dentro da nossa e os que não precisavam, eu deixei na mesa de jantar mesmo.
- Vai dormir, querido. Parece que você está cansado. – Ouvi minha mãe falar com , que estava na cozinha com ela e soltei uma risada fraca, trancando a porta que dava para a varanda.
- Vai, , eu vou também. – Toquei suas costas.
- Vai sim, filha! Vai tirar essa roupa, maquiagem, depois vem me dar boa noite.
- Boa noite, feliz Natal. – falou para minha mãe.
- Boa noite, querido, feliz Natal. Dorme bem! – Ela respondeu e ele seguiu para o quarto, enquanto eu segui para o banheiro.
- Você está cansada também.
- Demais. – Respondi e ele riu, encostando a porta do quarto.
No banheiro eu escovei os dentes, lavei meu rosto para tirar minha maquiagem e fui para o quarto. já estava trocado e trocou de lugar comigo no banheiro, indo se cuidar. Eu tirei meu vestido, pendurando na cadeira em frente à escrivaninha e coloquei meu pijama, deitando em minha cama, por cima das cobertas, sentindo meu corpo estralar e suspirei.
- Tudo bem? – perguntou, voltando para o quarto e me encarando de cima.
- Tudo certo! – Respondi.
- Boa noite, gente! – Minha irmã passou pelo quarto, falando com a gente.
- Boa noite! – Eu e gritamos juntos.
- Vai deitando, eu vou dar tchau para minha mãe. – Falei, passando a mão em seu cabelo. – Deita aqui na cama.
- Certeza? Você dormiu bem mal essa noite.
- Tenho. – Me levantei. – Vou dormir em cima de você hoje! – Ele abriu um sorriso largo e eu revirei os olhos.
- Vai lá! – Ele falou e eu segui para a cozinha, onde minha mãe já terminava de ajeitar a pia.
- Vai dormir? – Ela perguntou.
- Vou sim, parece que hoje cansou mais que o normal.
- É porque tem pessoa nova no grupo! – Ela respondeu e eu ri. – E a idade está chegando também.
- Ah, Jesus! Eu falava isso com 20, agora já chegou de vez!
- Mas chegou bem, querida. – Ponderei com a cabeça.
- Chegou. – Suspirei. – Se continuar assim, eu vou estar bem com 30.
- Ah, não fala isso, você com 30 sou eu mais perto dos sessenta. – Ri baixo. – Eu acho que você vai estar casada aos trinta e muito feliz.
- O que achou dele? – Perguntei, movimentando a cabeça.
- Acho que ele é digno de fazer minha filha feliz. – Ela sorriu. – O que eu falei aquela vez sobre não arranjar namorados estrangeiros e tal, esse medo ainda permanece, mas se ele continuar te olhando com esse olhar admirado, não vai ter problema nenhum. – Ela finalizou.
- Obrigada, mãe! – A abracei, recebendo um beijo em minha cabeça.
- Estou aqui para isso, querida. Para te apoiar, te aconselhar, você sempre vai ter seu lugar aqui em casa, não importa se estiver em São Paulo, Boston ou no fim do mundo. – Ela falou baixo.
Minha mãe seguiu lado a lado comigo e entrou em seu quarto, e eu entrei no meu, encontrando sentado na cama, com as costas encostadas na cabeceira da cama. Encostei a porta e sentei ao lado de , esticando as pernas na cama e encostando as costas no peito de , suspirando.
- Qual o próximo passo? – Perguntei para .
- Como assim? – Ele olhou para mim.
- Bem, sua mãe gostou de mim, minha mãe gostou de você. Não temos problemas familiares. – Falei e ele sorriu.
- Isso é demais! – Ele falou, encostando os lábios em minha cabeça.
- Isso é mentira demais para ser verdade. – Falei.
- Por quê? – Soltei uma risada.
- Você tem noção do que é ter aqui, na minha cidade do interior, no Brasil, passando o Natal com a minha família? – Perguntei, virando meu rosto para ele.
- Não é o que está aqui. É o . Seu . – Ele respondeu e eu ri fracamente.
- Você é os dois, e eu me apaixonei pelos dois. – Respondi de volta, fazendo-o ficar quieto por alguns segundos. Desliguei a luz do quarto e fechei os olhos, suspirando, sentindo o corpo começar a relaxar.
- É, acho que já sei qual é o próximo passo. – respondeu baixinho, deixando um beijo em minha cabeça.





Continua...



Nota da autora: Qual será o próximo passo que nosso pp está pensando, hein?! O próximo ano vai ser cheio de surpresa para nossos pps! <3
Espero que vocês tenham gostado e não se esqueçam de deixar seu comentário aqui embaixo! <3
Caso queira saber novidades dessa fanfic ou das próximas, você pode me encontrar no meu grupo do Facebook
E caso queira conhecer todas as minhas fanfics, venha na minha página de autora.




Nota da beta: Ambos conquistaram as famílias, será que rola um leve pedido de casamento? Se for isso, caraaaa <3 Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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