Última atualização: 02/07/2018

[Capítulo Um]

Sabe aquele carinha gato do colégio que faz você sentir mil borboletas eufóricas querendo voar em seu estômago só por te olhar? Ou faz sua respiração parar por segundos somente por passar ao seu lado? Era sempre assim quando eu via . Ele não era o mais popular, mas conhecia grande parte do colégio. Também não era o mais lindo, mas tinha uma beleza diferenciada, e foi essa beleza que me chamou atenção...

Eu até tinha algumas amizades na turma e as melhores amigas do mundo! e eram e ainda são como irmãs para mim. Mas, nunca fui próxima de . O máximo que ele já falou comigo foi: "Me empresta um lápis?" e essa pequena pergunta me fez cair da cadeira. Claro que foi vergonhoso, mas me aproveitei do meu lado dramático e eu fingi uma lesão no tornozelo. podia rir de mim, como a maior parte da turma fez. Mas, para minha surpresa, ele veio em minha direção com uma expressão preocupada e me pegou no colo, levando-me à enfermaria.
Claro que eu não podia contar a ele que era tudo fingimento, mas o que fazer nessa situação? Fingir um desmaio? Exatamente! Senti sua mão em meu rosto enquanto ele dizia: "Hey, acorda... Por favor, acorda! E agora, o que eu faço, Deus?". Sim, eu fiquei com dó, ele estava desesperado. O que eu poderia fazer? Isso mesmo, "acordar" do desmaio.

Quando abri os olhos e levantei meu olhar até seu rosto, o vi sorrindo e ele disse: "Graças a Deus! Eu não saberia como agir com você desacordada em meus braços. Você tá legal?", eu sorri e o respondi: "Estou sim, obrigada. Não precisa me levar à enfermaria, foi só um susto!". Ele se levantou e ajudou-me a fazer o mesmo, e perguntou: "Ok! Você tem algo para fazer depois das aulas?". Franzi o cenho e respondi: "Tenho uma redação para fazer e entregar na sexta-feira, mas não farei hoje, então estou livre. Por quê?". Ele pigarreou um pouco, parecia desconcertado e disse: "Ah, o sinal já vai bater, gostaria de tomar um sorvete comigo?". Eu podia ter me feito de difícil, mas, não perderia a chance de estar mais perto dele, e imediatamente, respondi: "Eu adoraria!". voltou à sala, pegou nossas mochilas e saímos da escola, rumo à sorveteria... Esse dia foi inesquecível!

ficou cada vez mais próximo de mim, e consequentemente, de e também. Com toda essa proximidade, veio a confiança... E um segredo. Segredo esse que durou 3 meses.
Insisti para que me contasse, porém ele não quis, então tentei com minhas amigas e elas me contaram, cada detalhe. Ai delas se não me contassem! O segredo era que, me pediria em namoro na noite do baile. Sim, ele já tinha me convidado para o nosso Baile de Formatura e eu não pude e nem quis recusar.

[Capítulo Dois]

Enfim, o grande dia chegou! Meu cabelo tinha um penteado lindo, mas estava preso para não tirar a atenção da maquiagem que não era tão forte, mas também não era fraca. O vestido era verde com detalhes bem delicados, enfeites bem discretos, mas que valorizava cada curva do meu corpo e minha sandália era de cor prata.
usava o cabelo de lado com um enfeite discreto. Sua maquiagem era forte, mas não tirava o glamour do seu vestido, que era roxo com detalhes também delicados, mas que a deixava com uma aparência bem mais madura, apesar de seu rosto de menininha. Sua sandália era de cor preta.
O penteado de possuía uma linda trança embutida com enfeites prateados sobre. Sua maquiagem era bem leve, dando destaque ao seu vestido azul turquesa, com detalhes elegantes e sua sandália era da cor de sua pele.
Como era amigo de Travis e Nick, os namorados de e , fomos todos juntos para o baile.

Assim que chegamos ao colégio, os olhares foram voltados para nós. Eu não gostava de muita atenção, mas naquela noite, foi uma exceção.

Depois de algumas horas, Travis e foram indicados e nomeados rei e rainha do baile. Eles ficaram radiantes! e Nick pareciam estar num mundo só deles, quando cantaram Sweater Weather para os casais dançarem no lugar da valsa.
Eu e estávamos dançando no corredor porque queríamos ficar afastados da bagunça. Começou a tocar Everybody, e eu quis voltar para o ginásio, mas praticamente, me arrastou até a sala de teatro e trancou a porta.

Fiquei o olhando sem entender sua atitude de andar de um lado à outro da sala, pensativo, até aproximar-se de mim e surpreender-me com um beijo.
Segundos depois, afastou-se um pouco, olhando em meus olhos e disse: " , sei que ficamos amigos há pouco tempo. Mas, eu estou completamente apaixonado por você e não consigo mais esconder isso. E, agora que isso já não é mais um segredo... Você aceita namorar comigo?".

O encarei, estática e fiquei lembrando de todas as vezes que ele me fez sorrir, do quanto ele me fazia bem e do quanto eu gostava dele. Fixei os meu olhos nos dele, engoli em seco e respondi: "Sim, , eu aceito namorar contigo.".
Ele sorriu abobalhado e me beijou, mais uma vez. O beijo foi tomando mais intensidade, as carícias também, e o que nós não havíamos planejado, aconteceu...

Depois de conscientizar-me sobre a gravidade das consequências de nosso ato, levantei-me rapidamente com certo desespero. Já estava vestindo-me quando se levantou, logo vestiu-se e me perguntou: ", o que houve?". Não o respondi, não sabia realmente o que dizer. Destranquei a porta da sala e corri até a entrada do colégio, veio atrás de mim e segurou levemente em meu braço. Já estava prestes a dizer algo, mas eu não o dei tempo para isso e fui mais rápida: "Sei que é estranho, mas eu estou muito confusa e, tudo que mais quero agora é ir para casa.". Ele assentiu com um pesar no olhar, soltando o meu braço e, mesmo sem entender, respeitou minha decisão.

Duas semanas após o baile, eu já tinha me resolvido com e apesar de ainda me torturar com alguns pensamentos negativos sobre aquela noite, nada aconteceu.
Estávamos bem, até minha mãe contar que o meu pai havia sido transferido no trabalho para outra cidade e teríamos que nos mudar. Não queria ficar longe das minhas amigas e do meu namorado. Tudo bem, a faculdade iria nos afastar por um tempo e sabíamos disso, mas eu não queria que esse dia chegasse.
Infelizmente, não pude fazer nada quanto a isso, e três meses depois, me mudei.

Para diminuir minha tristeza, eu, e fomos aceitas na mesma universidade, que fica na minha nova cidade. Conversei com os meus pais e pedi para as meninas morar conosco; eles até concordaram, mas impuseram algumas de suas regras.
Já os meninos, foram aceitos em universidades diferentes e foi quem mais ficou distante. Porém, ainda nos encontrávamos... Até ele ir estudar em uma universidade fora do país e ficar morando lá por tempo indeterminado, e assim eu perdi totalmente o contato com ele e sua família.

[Capítulo Três]

No meu primeiro dia de aula na faculdade, tive um mal-estar terrível e na mesma semana, tive passei mal durante os outros dias. Em um dia comum, tive um enjoo fortíssimo e, apesar de ter sido apenas um susto, professor Chang me liberou de sua aula, garantindo que eu não receberia falta pela ausência, então fui embora. O que eu não esperava era encontrar minha mãe em casa, já que estava no seu horário de trabalho.
Mal adentrei a casa e já ouvi reclamações: "Você passa mal na faculdade, não me fala nada e ainda tenho que ficar sabendo pelo seu professor, que ainda teve a consideração de ligar e me avisar sobre seus desmaios?! Vamos agora mesmo para o hospital!".

Assim que cheguei ao local, fui direto para a sala de exames. Aguardamos 1h até o médico chegar com os resultados e... BOOM! " , você está grávida. Meus parabéns! Sei que esta notícia é muito emocionante, porém, precisamos fazer uma ultrassonografia agora mesmo. Mas não se assuste, é só para sabermos como está a saúde do seu bebê.".
Não entendia como eu poderia estar grávida, estava sem ver o há um tempo e mesmo assim, não tínhamos tempo nem em pensamento para fazer algo que resultasse numa gravidez. Mas então-me lembrei do que fizemos na noite do Baile de Formatura, e a consequência de nosso ato foi esta; um bebê.
Fui para uma sala assustadora e fiz os exames. Descobrimos que eu já estava com 4 meses de gestação e esperando por uma menina.

Voltamos para casa e minha mãe ligou para o meu pai, que estava no trabalho e pediu sair mais cedo, pois havia um problema gigantesco para resolver. Ele chegou preocupado e minha mãe o deu a notícia, primeiro eu recebi dele uma tapa no rosto tão forte que até hoje não esqueço, mas logo após, recebi o olhar mais triste e decepcionado que já vi vindo dele. Meu pai repetiu por diversas vezes o quanto eu fui irresponsável e minha mãe, só fazia chorar e me lançar olhares de decepção.
Meus pais ficaram tão desapontados comigo, que desejei nunca ter tido nenhum contato físico com ... Tarde demais!

No fim das contas, não fui morta pelos meus pais, mas os decepcionei muito e esta é uma ferida que ainda dói um pouco. Meu pai só dirigia a palavra à mim para exigir que eu encontrasse com para contar sobre a gravidez, porque ele não arcaria com as despesas do bebê, sozinho, e eu não tirava a sua razão. Mas, como eu perdi o contato com e, da última vez que nos falamos ele ainda estava para viajar e não sabia quando voltaria, tive que trancar minha matrícula na faculdade e conseguir um trabalho para ajudar meu pai.
Claro que e me ajudaram muito, em tudo que eu precisei, mas a responsabilidade era minha. Totalmente minha. E no meu último mês de gestação, foi bem difícil de continuar no trabalho, então eu conversei com minha mãe e com as meninas, expliquei que não estava mais conseguindo trabalhar pelo cansaço contínuo. E como sempre, elas me compreenderam e concordaram que o final da gravidez é mais complicado.

Em uma tarde de sábado, eu estava saindo do mercado com e , quando senti uma pontada abaixo da barriga. Senti um líquido escorrer entre as minhas pernas e as pontadas que antes estavam fracas, começaram a se intensificar em uma velocidade incrível. , que dirigia o carro da minha mãe, me levou até o hospital e ligou para minha mãe no meio do caminho, e eu, não suportava mais a dor forte que só aumentava a frequência.

Mal chegamos ao hospital e eu já fui levada para a sala de parto. Prepararam-me rapidamente, e eu lembro, como se fosse ontem, de doutor Kim me dizendo para fazer força, mas eu não aguentava mais de tanto dor que sentia. E eu sabia que algo estava errado, pois já havia se passado bastante tempo e eu continuava fazendo força, mas o bebê não vinha.
Os obstetras intercalaram os olhares do relógio para uns aos outros, visivelmente preocupados com a demora do parto. Uma das enfermeiras tentava me acalmar, pois o meu desespero estava atrapalhando a mim mesma. Eu já não aguentava mais sentir tanta dor, porém doutor Kim pressionou a minha barriga para baixo e me pediu para continuar fazendo força, pois já conseguia visualizar a cabeça do bebê. Assenti com muita dificuldade e fiz força por mais algumas vezes, e finalmente nasceu.
Quando me trouxeram a minha filha, fiquei receosa de pegá-la de forma errada e acabar machucando-a, entretanto, o medo logo passou quando a segurei. Ter em meus braços a minha princesa e ver o seu rostinho lindo pela primeira vez, definitivamente, foi a melhor sensação de toda a minha vida!

[Capítulo Quatro]

Sabe aquela princesinha linda da qual eu estava falando? Ela mesmo, a , está completando os seus 16 anos hoje e eu estou tão feliz que nem consigo me expressar.
Minha filha não é do tipo de menina que sonha em ter uma "Sweet 16", mas como era tradição em nossa família, minha mãe a impulsionou a fazer. Claro que a princípio ela relutou muito, mas, com jeitinho eu a convenci.

– MÃE - gritou-me de seu quarto.
– Está me gritando por quê, ? - eu perguntei, enquanto caminhava até seu quarto, fazendo-a rir.
– Também te amo, mamãe! - disse sorrindo debochada enquanto levantava da cama.
– Fala logo, filha. Ainda tenho muitas coisas para organizar antes da festa começar.
– Nem me fale dessa festa, você sabe que eu não queria isso. - eu suspirei derrotada – Poxa, mãe, eu preferia mil vezes fazer uma viagem com você, Lauren e Jake - ela choramingou. E confesso que partiu o meu coração ver que ela estava descontente.
– Filha, eu sei que você não queria essa festa. Mas pense, você deixará sua vovó tão feliz, sua mamãe também. Seu vovô vai vir só para te ver, e você sabe o quanto ele é chato e não gosta de sair. - ela assentiu com a cabeça – Seus amigos estarão lá para se divertir contigo. E eu tenho certeza que você irá gostar da festa, tentamos fazer todo o possível para a festa sair do seu jeitinho. - eu disse ainda insegura. Essa menina tem um gênio forte, é igualzinha ao avô.
– Mãe, não apela, ok?! Você tem noção que todos estarão lá se divertindo e eu fingindo estar feliz para não magoar a todos? - ela revirou os olhos impaciente.
– Você tem razão, eu não devia ter insistido para você fazer essa festa. - suspirei alto, profundamente arrependida por ter sido induzida pela minha mãe a fazer a festa, mesmo sabendo que não estava animada para isso. – Como sua mãe, eu devia ter respeitado a sua decisão acima de tudo.
– Mas, você quis agradar a minha avó.
– E acabei desagradando você. - ela balançou a cabeça – Me desculpe por isso, filha. Se você quiser cancelar tudo agora, assim faremos.
– Não, tudo bem, eu não quero desperdiçar todo o dinheiro que você investiu nisso. - ela cruzou os braços e fez uma carinha emburrada. – Ninguém irá descobrir a minha falta de ânimo para esta festa, eu fingirei estar bem o tempo inteiro.
– Filha, você não precisa...
– Mas, só farei isso porque eu realmente amo vocês!
– Oh, meu amor, você é tão especial. Desculpa fazer você passar por isso. - eu a abracei forte – Mas, eu nem acredito que a minha bonequinha de porcelana está completando os seus 16 aninhos! Parece que foi ontem que vi esse rostinho lindo pela primeira vez... - eu apertei suas bochechas, logo a envolvendo novamente no abraço.
– Mãe, se continuar me apertando assim, você vai me quebrar. Está me sufocando - disse melancólica, enquanto se remexia, tentando soltar-se do abraço – Não vai mesmo me soltar? - eu não lhe dei ouvidos e continuei apertando-a – Ai! Acho que você quebrou uma das minhas costelas, então, teremos que cancelar a festa.
– Você venceu! - ergui os braços em sinal de rendição. – Agora, vá logo para o banho porque daqui a pouco o pessoal está chegando. Hoje você vai precisar de cabeleireira, manicure e pedicure, maquiadora...
– Já entendi, mãe. A cambada vai chegar daqui a 10 minutos, okay. Já vou para o banho. - ela disse, entrando no banheiro.
– Qualquer coisa grita, estarei na cozinha - eu disse, saindo do quarto.
– MÃE...
– O que houve, ? - perguntei do corredor.
– Nada demais, só gosto da palavra mãe.
– Menina, eu ainda preciso terminar de organizar algumas coisas, então pare de me chamar à toa.
– MÃE!
- eu retornei ao quarto – Se você me gritar mais uma vez, eu...
– Te amo - ela disse de forma tão espontânea que fez o meu coração se derreter.
– Oh, eu também te amo, meu amor - eu disse chorosa, invadindo o banheiro.
– MÃE, SAIA DAQUI! - ela gritou, empurrando-me porta afora.
– Não sei por que está tão irritada, já te vi assim por tantas vezes. Ou você se esqueceu que não nasceu sabendo tomar banho, sozinha? - perguntei, com uma sobrancelha arqueada.
– Eu não nasci sabendo, porém, ao longo dos anos eu fui aprendendo. Muito obrigada por ter cuidado de mim, mas agora eu já sei como tomar banho, sozinha. - ela fechou a porta antes mesmo de me dar o direito de resposta.
– Crianças... - eu disse, já saindo do quarto. Mas, pude ouvi-la gritar: "Eu ouvi isso, hein!".


[Capítulo Cinco]

Eram 19h00 quando recebi a ligação de uma amiga do trabalho dizendo que a decoração da festa era perfeita e que estava ansiosa para ver , comecei a ficar nervosa a partir dali, já que todos deveríamos estar no salão às 19h30 e minha filha ainda estava se maquiando e nem o vestido havia colocado.

– Se acalme, minha filha, festas nunca começam no horário planejado. E eu duvido muito que algum convidado vá embora sem antes comer um docinho. - minha mãe disse, me fazendo rir.
– Oh, mãe, só você para me fazer rir num momento como este. - falei, dando-lhe um abraço.
– Vai dar tudo certo! - tentou me acalmar, dando-me um beijo na bochecha.
– Tia , o carro que vai levar a chegou. - Jake avisou, sorridente.
– Me faça um favor, Jake? - ele assentiu – Diga à e que eu já vou tirar o carro da garagem e se elas não descerem em 3 minutos, irão perder a carona.
– Que maldade! - ele disse surpreso e eu dei de ombros – Mas, seria engraçado. - Jake saiu rindo, sozinho.

Fui até o quarto da minha filha, que já estava colocando o seu vestido, e eu me despedi. Ainda estava um pouco chateada por ela querer apenas Lauren e Jake na limusine,. Oras, sou a mãe dela, eu deveria estar ao lado dela o tempo inteiro, ainda mais neste momento tão especial. Mas deixei prevalecer a vontade dela, afinal, nem queria essa festa. Só estava tentando agradar a mim e a avó.

Chegando à festa com e , encontrei com meus pais saindo do carro deles. Pude ver como a decoração do salão havia ficado exatamente como imaginei, e também da forma que gostaria. Ou não.
Cumprimentei alguns parentes mais próximos, de nossa convivência, como minhas primas Nana e Rosé. Também saudei outros parentes mais distantes, alguns amigos da família e amigos da ... Até avistar um convidado inesperado, que fez tudo ao meu redor paralisar por alguns segundos.

, você está estranha assim por quê? - perguntou ao notar.
– É ele. - eu respondi, já perdendo o ar.
– Ele quem? Por que você está assustada? – indagou, com uma expressão preocupada e desviou o seu olhar de mim para o convidado, que conversava sorridente com Travis e Nick. – Não acredito que ele veio! Nicki me contou algo sobre tê-lo convidado quando se encontraram, mas não tinha me confirmado nada. - pus a mão na cabeça – De qualquer forma, me desculpe por não ter falado nada com você sobre isso antes, amiga.
– E agora, o que eu faço? - comecei a ter uma crise de nervos – Ele não podia ter voltado, não agora. O que eu vou falar para a minha filha? - minhas amigas estavam tão perdidas quanto eu.
, a chegou. - minha mãe avisou-me, fazendo o meu desespero aumentar. – Filha, o que houve com você?
– Mãe - ela me olhava atentamente – está aqui na festa. - surtei, e pude notar o espanto em seu rosto.
? Qual ? Eu só conheci um em toda minha vida e ele é o... - ela arregalou os olhos, espantada. – O pai da minha neta está aqui? - eu fiz sinal com a cabeça para ela olhar em direção à Nick e Travis.

Minha mãe pôs as mãos sobre o peito e o olhava como se estivesse vendo um fantasma, e no mesmo momento, adentrou o salão, fazendo a atenção de todos se direcionar a ela.
Seu vestido era longo; os detalhes prata estavam sobre o corpete rosa choque com decote coração, que era listrado de azul e abaixo da cintura, havia babados de mesma cor. Seu cabelo estava preso e desgrenhado, com uma pequena coroa do lado direito da cabeça. Sua maquiagem não era pesada, mas também nada discreta. Ela estava ainda mais linda. Minha bonequinha de porcelana é uma verdadeira princesa!

Olhei de relance para e percebi que ele me observava. Imediatamente, voltei meu olhar para a aniversariante. sorriu para mim e estendeu seu braço em minha direção, mas, quando eu estava prestes a ir ao seu encontro, fui surpreendida por , que segurou levemente em meu braço. Meu coração deu um grande salto.


, quanto tempo! - ele sorriu largamente e me olhou de cima à baixo – Você está ainda mais linda do que sempre foi.
– Mãe - me chamou sorridente, parecia bem animada – Eu sei que a festa só está começando, mas até que não está tão chata e você tinha razão quando disse que eu iria gostar. - ela me abraçou forte e eu senti um súbito aperto no coração ao perceber que me olhava confuso. Talvez, o que eu mais temia estava prestes a acontecer.
– Você tem uma filha e ela é a aniversariante? – ele continuou me olhando com um misto de confusão e surpresa – Espere, esta festa é de 16 anos. Há exatamente 16 anos, nós éramos namorados. Ou essa menina é minha filha, o que eu suponho que nem de longe seja verdade, porque nós nunca nem... - olhou para e respirou fundo, tentando manter a calma – Ou você me traiu no nosso curto tempo de namoro. - eu engoli em seco aquelas palavras, já temerosa pelas próximas. – , você me traiu?
– Claro que não, ! - eu falei um tanto alterada – Você sempre soube que o meu sentimento foi verdadeiro e eu jamais faria isso contigo!
– Hey, vocês dois, se acalmem. Agora não é hora de discutir sobre isso. - pediu quase em um sussurro.
, você sabia disso e não me falou nada?
, este é um assunto que só cabe a te explicar.
– Você sabe que...
– Não, , eu não sei de mais nada. - ele me interrompeu, visivelmente transtornado – Só o que consigo dizer é que eu estou realmente assustado pelo que está acontecendo agora. - eu suspirei alto, o vendo passar as mãos pelo cabelo de um jeito frenético – Há alguma chance dessa menina ser minha filha?
– Mãe, quem é esse cara? Por que ele está falando assim contigo? – indagou, me apertando ainda mais no abraço. Parecia assustada.
– Você sabe que sim, ! - eu estava tão nervosa quanto ele.
– Eu sei? - ele se aproximou de mim e disse quase em um sussurro: – , nós nunca...
– Lembra do nosso Baile de Formatura? - franziu o cenho e eu continuei: – Especificamente do fim daquela noite?
– O que? - ele arregalou os olhos e paralisou.
– Mãe, o que está acontecendo?
– Depois eu te explico, filha. - a olhei sem saber ao certo o que dizer – E , vamos parar por aqui.
– Nada disso, agora eu quero saber direitinho dessa história. - ele exigiu, cruzando os braços.
– Gente, não é hora para isso. - Travis se aproximou com , tentando acalmar a situação. – Vocês estão assustando a e alguns convidados já estão percebendo o clima pesado aqui.
– Travis, a está insinuando que...
– Você é o pai da , eu sei.
– Quer dizer que todo mundo sabia dessa possibilidade, menos eu? - não conseguia conter a sua incredulidade.
– Não é uma possibilidade, é um fato. Você não tem como fugir disso, !
, calma, também não é assim. - falou com cautela – está assustado, dê um tempo para ele tentar entender tudo isso.
– Tio Nick, por que vocês estão brigando?
– Não estamos brigando, minha flor. Só estamos conversando em um tom mais elevado. - Nicki abraçou , ela estava confusa e emotiva.
– Nick, leve a para um lugar mais calmo, não é bom que ela fique presenciando isso aqui. - disse ao noivo, que atendeu ao seu pedido, imediatamente.
– Vocês precisam esfriar a cabeça porque a história não envolve só os dois, há uma adolescente envolvida nisso também. A filha de vocês.
– Não fale dessa forma, eu não tenho como ter certeza disso. - me olhou com profundidade e disse, sem remorso: – Eu nem acredito que essa menina realmente seja a minha filha.
– Olha só, você deixa de ser babaca - Travis precisou segurar , ela estava decidida a me defender, mesmo que precisasse da agressão para isso. – Porque você foi o único homem com quem ...
, não continue. É sobre a intimidade da que você está falando. - a alertou. – De qualquer forma, não irá acreditar em tudo que o dissermos.
– Por que eu deveria acreditar?
– Porque desde que você decidiu ir estudar em outro país, eu fiquei te esperando voltar. Mas, você nunca retornou... - mesmo com os olhos marejados, eu o olhei na mesma intensidade – Até agora.

Eu saí do meio de todos, indo em direção ao banheiro. Não consegui mais conter as lágrimas que já escorriam pelo meu rosto.

– Isso não poderia estar acontecendo, não agora! - eu falei comigo mesma em um tom elevado, chorando ainda mais forte pela complexidade da situação. – Depois de tanto tempo sem dar notícias, ele reaparece. E justo hoje?!


[Capítulo Seis]

Depois de me recompor, saí do banheiro e fui até a pista de dança procurar por , mas não a encontrei. Direcionei-me até o jardim, que fiz na parte de trás do salão, e vi sentada na beira da piscina. Ela estava com uma expressão tão triste que partiu meu coração só de ver.
Caminhei devagar até ela e me sentei ao seu lado, já me preparando para o que viria.

– Filha - ela não respondeu. – Fale comigo, meu amor.
– Finalmente conheci o amor da sua adolescência, você fala tanto sobre ele. - continuei a olhando – Ele não acredita que é o meu pai.
, eu quero te explicar tudo.
– Então, explique - ela disse, simples.
– É complicado, filha.
– Você sabe que eu sempre compreendi muito bem as coisas. Se me explicar, tentarei entender o seu lado. - me encarou.
– Tudo bem - respirei fundo e comecei. – Aquele barbudo que me parou no meio do salão há alguns minutos era o cara por quem eu me apaixonei loucamente no colegial, ele tinha uma beleza tão diferenciada - ela fez careta – Enfim, na noite do nosso Baile de Formatura ele me pediu em namoro e, nós passamos do limite... - eu a lancei um olhar significativo e arregalou os olhos, surpresa.
– Vocês foram bem rápidos, hein! - eu parei um pouco para pensar e a dei razão – E logo com aquele barbudo, mãe? Que nojo! - ela simulou vômito.
– Filha, a barba dá um charme. - ela continuou fazendo careta.
– Eu continuo achando nojento. - eu ri fraco com a forma como falava – Ainda bem que os garotos da minha idade não querem ter esse tipo de charme.
– Você que pensa. - ela me olhou um tanto assustada e eu ri novamente – Mas, não se preocupe com isso agora.
– É - ela pensou um pouco – Fale sobre o seu barbudo. - eu suspirei fraco, ficando um pouco pensativa. "Seu barbudo". foi meu por tão pouco tempo, que eu nem sei se realmente deveria considerar tanto o tempo que ficamos juntos, apesar de eu não querer esquecer nem mesmo os mínimos detalhes.
– Ele não era barbudo antes, . Mas, mesmo se fosse, nada teria afetado em nada a beleza dele.
– Você sempre fala dele de um jeito tão apaixonado - eu a olhei surpresa e ela franziu a testa – Ainda gosta do barbudo?
– Não. - eu menti descaradamente – Não mesmo.
– Sei... - me lançou um olhar desconfiado.
– Estou falando a verdade, ok?!
– Não precisa mentir para mim, mãe. Eu sei identificar uma pessoa apaixonada. - ela deu de ombros e eu a olhei ainda mais espantada – Mas, continue me explicando.
– Certo. Eu, seus avós, e viemos morar aqui em Trainsturn três meses depois do baile. vinha me visitar vez ou outra, mas, ele viajou por tempo indeterminado e nunca mais nos encontramos. Bem, até hoje. - ela assentiu, atenta às minhas palavras – E houve um dia de aula na faculdade em que eu me senti muito mal e voltei para casa, quando cheguei sua avó me obrigou a ir ao hospital.
– É incrível como a minha avó gosta de nos obrigar a fazermos o que ela quer. - disse, revirando os olhos.
– Não deixa de ser verdade. - nós rimos um pouco – Mas, isso foi bom. Eu fiz exames e descobri que já estava com 4 meses de gestação, esperando uma menininha. - ela franziu o cenho. – Depois que eu soube da gravidez, tranquei a minha matrícula na faculdade e comecei a trabalhar, mas no último mês da gestação eu passei muito mal e foi bem complicado, por isso, tive que largar o emprego. Não demorou muito, você nasceu e foi a maior felicidade da minha vida.
– Então o barbudo...
– É realmente o seu pai - eu disse de uma vez, mas ela já parecia preparada.
– E-eu não sei o que dizer.
– Me desculpe, filha. - pedi, deixando uma lágrima rolar.
– Essa história é bem rápida e louca, confusa também.
– Filha, eu sei que errei em não te contar, mas...
– Mas? Existe um mas? Você foi egoísta e ponto. - ela me encarou, com um olhar cheio de fúria. – Você só pensou em você o tempo todo.
– Isso não é verdade! - eu disse nervosa e se encolheu. – Desde que eu descobri a minha gravidez, tudo que faço é pensando em você. Eu nunca te contei sobre isso porque achei que você sofreria menos se não soubesse de nada, eu jamais faria algo para te entristecer. - eu já não conseguia mais conter as lágrimas e também. – Filha, eu também sofri, puxa. No momento em que eu mais quis ter ao meu lado, não pude tê-lo, e isso foi triste demais. Eu quis muito contar a ele sobre você, mas eu não pude. - enxuguei as lágrimas que teimaram em cair. – Não existe culpado nessa história, simplesmente aconteceu.
– Ainda não sei o que dizer. - disse, sincera.
– Eu sei, meu amor. Me desculpe por ter escondido esta história de você.
– Por mais que eu não seja a filha sentimental que um dia você sonhou ter, eu sempre quis ter um pai. - ela disse, quase num sussurro.
– Filha, eu não tive muito tempo para sonhar porque você chegou muito rápido em minha vida. Mas, nem se eu tivesse sonhado com isso todas as noites, teria imaginado que seria mãe de uma princesa tão linda quanto você! - ela engoliu o seco e eu beijei o topo de sua cabeça. – E eu te amo do jeitinho que você é, sem tirar nem pôr.
– Por que ele não acredita em você? - perguntou, se referindo ao comportamento de .
– Eu não sei, filha. No momento, ele acha que eu o traí. - me encarou. – Mas, não se preocupe, as coisas irão se resolver!
– Promete? - ela perguntou chorosa e eu a abracei.
Every word I say is true, this I promise you. - cantarolei, enquanto afagava seu cabelo.
– Não sabia que você cantava. - ela disse, franzindo a testa.
– Nem eu - confessei, fazendo-a rir fraco. – Vamos voltar para a festa?
– Não quero vê-lo.
– Não deixe que as coisas chatas da vida a entristeça, princesa. Hoje é o seu dia, ainda dá tempo de se divertir!
– Estou sem ânimo, mãe. Só quero ir para casa. - disse sincera, me fazendo a abraçar forte.
– Me desculpe por ter acabado com a sua noite, não foi a minha intenção.
– Eu sei. - ela respondeu baixo. – Acho que fui injusta com você.
– Você não sabia de nada, meu anjo.
– Pode soar falso, independente de qualquer coisa, eu te amo. Você é minha mãe, não tenho como mudar isso. E mesmo que eu tivesse a chance, jamais o faria. - ela se afastou para me olhar. – Sei que tentou proteger os meus sentimentos, só não deu certo. - assenti.
– Oh, filha, você não sabe o quanto tentei... Mas de nada valeu.
– Valeu a sua intenção. - ela sorriu de lado.
– Palavras nunca irão descrever o amor que eu sinto por você - a apertei ainda mais e beijei sua bochecha.
– E agora, como vai ser? - ela perguntou, receosa.
– Eu não sei, meu amor - enxuguei o seu rosto já quase seco. – Mas, vamos encarar, juntas. - nos levantamos com coragem e seguimos até o centro da festa.

[Capítulo Sete]

Chegando ao meio do salão, veio em minha direção.

– Amiga, retoque a maquiagem de , por favor. - pedi e assentiu.
– Não precisa, mãe, eu estava mesmo querendo que todo aquele pó saísse do meu rosto. - respondeu e correu em direção à Lauren e Jake.
– Pela carinha de choro, você explicou tudo a ela. - suspeitou e eu assenti. – Tente relaxar agora. - minha amiga me abraçou forte, mas logo foi de encontro à Travis.

Vi os meus pais comendo em uma das mesas do canto e fui sentar-me com eles, mas antes que eu pudesse concluir o meu destino final, senti alguém puxar meu braço de leve. Virei-me para ver quem teve a ousadia de me interromper, mas eu tive uma grande surpresa.

– Uma dama linda e especial como você não deveria ficar aqui apenas observando os outros se divertirem. - soltou o meu braço e estendeu sua mão para mim, em um gesto convidativo – Dançar comigo?
– Me desculpe, , mas não estou no clima.
– Vai sim, filha. Você ainda é jovem, vá se divertir! - minha mãe se intrometeu – Todo casal briga. Isso não significa que falta amor na relação, talvez sim, mas a maior falta é a da sabedoria. - ela soltou uma risadinha e deu-me uma piscadela.
– Quem é esse? - meu pai perguntou, olhando feio para .
– Querido, deixe a viver a vida dela. Nossa filha já está bem grandinha. - disse minha mãe, fazendo meu pai bufar.
– Tudo bem, , mas que seja rápido! - eu disse, num tom imperativo e ele assentiu, sorrindo.

Chegamos à pista de dança e todos abriram espaço para nós. Desejei que ficasse por mais tempo na área de jogos, porque não queria que minha filha me visse dançando com , não enquanto ela sofre com tudo que soube. Mas, resolvi deixar um pouco os pensamentos longe, e por um breve momento, senti que havia retornado aos meus 17 anos. E como se o DJ tivesse atendido mentalmente ao meu pedido, começou a tocar Dancing Queen.
De repente, me abraçou e todo aquele sentimento guardado há anos, estava borbulhando dentro de mim.

You are the dancing queen. Young and sweet, only seventeen - cantarolou animado – Dancing queen, feel the beat from the tambourine. You can dance, you can jive, having the time of your life. See that girl, watch that scene, dig in the dancing queen. - se afastou um pouco para me olhar – Toda vez que ouço essa música, lembro de você. - ele disse, fixando seus olhos nos meus.
– É sério? - perguntei empolgada até demais, fazendo-o rir fraco. – Bem, eu amo essa música, você sabe. - eu disse mais contida e um tanto envergonhada.
– Sei sim. - ele sorriu de um jeito meigo.
, está pedindo para você dar fim a festa. - nos interrompeu.
– Que horas são?
– 02h55. - respondeu, olhando em seu relógio de pulso.
– Já? - perguntei, espantada e ela assentiu. – Tudo bem, alguns convidados já foram embora mesmo. - eu disse, dando de ombros.
– CRIANÇAS, FIM DE FESTA! - gritou, fazendo os mais jovens reclamarem. – Palavras da titia aqui - apontou para mim.
– Me desculpem, meus amores, mas a titia precisa descansar. - os jovens bufaram e sussurrou um "obrigada".
? - me chamou. – Vou ali falar com Travis e Nick.
– Okay. - ele sorriu, logo se afastando.

Fui ao banheiro dar um "jeitinho" no cabelo antes de ir para casa e saí rápido. Corri em direção à ).

– Estávamos te esperando - ela disse em tom de cansaço – Vai levar as sobras?
– Não, eu pedi para a equipe da Lilly fazer a entrega das sobras, até paguei mais por isso.
– Então, vamos. - seguimos até a porta principal.
– Espere, já foi?
– Acha mesmo que ele iria embora sem se despedir de você? - arqueou uma sobrancelha. – Ele está te esperando.

Fomos para a garagem, o restante dos convidados já estavam indo embora e a minoria estavam em seus carros, prestes a ir.

, eu vou com o Nick, tá? - assenti. – A festa foi incrível, estava linda! - disse, me abraçando.
– Obrigada pela ajuda, amiga. - ela sorriu largo e correu até o carro de Nick. – Espere, a foi embora mesmo sem falar comigo? - eu perguntei indignada e assentiu, rindo fraco. – Diga a àquela cabrita que depois nós conversamos, seriamente! - ela assentiu e entrou no carro, ainda rindo.
– Te vejo em casa, mãe. - disse e logo fechou a porta da limusine.
? - meu pai me chamou.
– Obrigada por ter vindo, pai. - o abracei.
– Por que achou que eu não viria? - perguntou, dando tapinhas em minhas costas. – Leve a minha neta lá em casa!
– Preciso tirar um dia em que a não tenha aula para ir.
– Só não espere suas férias acabar para visitar os seus pais, como você fez ano retrasado. - disse rancoroso.
– Vai mesmo me lembrar disso toda vez que me chamar para visitar vocês? - ele revirou os olhos. – Ano retrasado ficou doente nas minhas férias, ela só melhorou quando voltei a trabalhar.
– Tá ok, . Não adianta falar mesmo. - disse de forma dramática. – Se precisar de algo, me ligue. - ele beijou o topo da minha cabeça.
– Não quero te causar aborrecimentos. - abanei a mão.
– Sou seu pai e estou te mandando me ligar!
– Querido, nossa filha é uma mulher ocupada. - minha mãe disse, me abraçando.
– E eu não sei? Nem para me ligar ela tem tempo. - meu pai bufou e saiu em direção ao seu carro. – Mas, isto é só acontece porque eu estou velho! - ele saiu resmungando.
– Okay, pai, eu te ligo. - eu disse, mas ele fingiu não escutar.
– Não liga para ele. - minha mãe pediu e eu assenti, rindo fraco – Estava tudo tão lindo, filha! A minha neta é uma princesa mesmo. - disse a vovó coruja.
– Obrigada por tudo, mãe. Se não fosse pela sua insistência, essa festa jamais teria acontecido.
– Não precisa agradecer, querida - ela abanou a mão – é dramática e difícil de lidar, igualzinha ao avô, porém, tem um coração de ouro. - minha mãe acariciou meu rosto. – Você fez um ótimo trabalho como mãe! - emocionei-me profundamente com suas palavras.
– Mas, sem a sua ajuda, eu não saberia o que fazer. - nos abraçamos.
– É claro que saberia, filha. - ela sorriu – Agora eu já vou. Cuide-se! - recebi por mais uma vez o seu abraço e ela seguiu em direção ao carro.

Olhei tudo ao meu redor, procurando por uma pessoa em especial, mas não havia mais ninguém por perto, então desisti. Mas quando eu estava prestes a entrar no meu carro, pela terceira vez naquela noite, senti alguém puxar o meu braço, levemente.

– Achou mesmo que eu iria embora sem me despedir de você? - repetiu a pergunta que havia me feito.
– Eu não sei, você sumiu.
– É verdade, eu sumi por 16 anos... - ele riu sem humor.
– Não diga isso como se fossem apenas alguns dias - falei, sem pensar – Você sumiu por 16 longos anos, .
– Eu sei - ele disse cabisbaixo. – Mas, agora que te reencontrei, não quero me afastar de você, novamente. - engoli o seco.
– Acho que você perdeu sua carona. - desconversei, olhando ao meu redor.
– Não tem problema, eu pego um táxi. - respondeu, dando de ombros.
– Você vai ficar em qual hotel?
– Na verdade, não tenho lugar para ficar. - franzi o cenho. – Eu só vim porque reencontrei Travis há umas três semanas e ele me chamou para essa festa, eu nem sabia que o Nick viria e muito menos que você é a mãe da aniversariante. Só sabia que você estaria presente. - me olhou com mais intensidade.
– Entendi. - pisquei algumas vezes, freneticamente. – Quer que eu ligue para o Travis e avise que você vai para a casa dele? - ele assentiu.

Fiquei tentando ligar para Travis e por mais ou menos 15 minutos, mas nenhum deles me atendeu. Tentei falar com e Nick também, porém, eles só vivem com os celulares desligados.

– Me desculpe, mas eu desisto de tentar. - desliguei o celular e ele assentiu.
– Tudo bem, eu me viro.
– Bem, na minha casa tem um quarto de hóspedes, você pode passar essa noite lá. - fui educada, sim, mas supliquei mentalmente para que ele não aceitasse.
– Tem certeza? - perguntou, receoso e eu assenti, mesmo querendo negar. – Então, eu aceito o seu convite. - forcei um sorriso e entramos no carro.

Calamo-nos a partir do momento em que adentramos o carro. E até chegarmos à minha casa, não dirigimos se quer uma palavra ao outro.
Estacionei o carro na garagem e saímos ainda calados, logo adentrando a casa.

– Só não repare a bagunça que fizemos antes de ir para a festa. - eu disse, enquanto trancava a porta.

De nada valeu o meu pedido, reparava em todos os cômodos do primeiro andar, mas com olhar de admiração. Subi alguns degraus, e ele nem percebeu.

– Quer tomar uma ducha? - ele arregalou os olhos e sorriu malicioso, subindo rápido – Pode tirando esse sorrisinho do rosto, okay?! Este é o quarto de hóspedes e o seu banho você toma aqui, sozinho. - acendi a luz.
– Me desculpe. - ele pediu e fez uma linha com a boca.
– Vou te deixar à vontade, mas qualquer coisa, pode bater na porta ao lado. - me virei em direção à porta, mas me segurou.
– Sei que está sendo muito generosa me deixando passar algumas horas aqui, depois de tanto tempo sem nos encontrarmos. Mas, você sabe que precisamos conversar, não é mesmo? - perguntou receoso.
– Sim. - dei um longo suspiro. – Mas agora não, tá? Estou muito cansada e, acredito que você também esteja. - respondi sincera. Ele assentiu, logo soltando o meu braço e eu saí.

Fui para o meu quarto e tirei minha roupa, juntamente com a sandália. Meu Deus, que alívio! Mas então, lembrei-me de dizer a que as toalhas estariam no armário. Então vesti a camisola mais comportada que eu tenho e voltei ao quarto de hóspedes.
Depois de bater algumas vezes na porta e não obter resposta, a abri sem receio.

– Se quiser toal... - não consegui terminar a frase.

estava apenas de cueca boxer e me olhou surpreso, até ele reparar em minha roupa e seu olhar se tornar malicioso. Tentei não mirar o olhar em seu corpo incrivelmente definido, mas, sem sucesso.
Se aproveitando da situação, ele foi se aproximando lentamente e logo fixou o olhar em meus lábios, dando mais alguns passos à frente e acabando com a distância entre nós. Colocou sua mão direita em minha nuca e foi levando-me para trás, até me prensar contra a parede. pousou sua mão esquerda em minha cintura e aproximou ainda mais o seu rosto do meu, mas prestes a me beijar, ele se afastou.

– O quê? Por que você... Quer saber, esquece. - bufei de raiva e andei a passos duros até a porta.
– Nós até poderíamos, mas depois eu não quero ouvir: "Sei que é estranho, mas eu estou muito confusa e, tudo que mais quero agora é que você saia da minha casa." - ele afinou a voz, tentando me imitar, mas só conseguiu deixar-me com ainda mais raiva.
– Eu não tenho mais 17 anos, . - eu disse, tentando controlar o nervosismo.
– Mas iria se comportar como se ainda tivesse. - ele arqueou uma sobrancelha. – , eu te conheço.
– Não, , você não me conhece mais! - encarou-me um tanto surpreso, mas eu dei as costas para ele e saí do quarto.

Fui ao quarto de para saber se estava tudo bem e a vi com metade do corpo fora da cama, Lauren por cima dela e Jake de cabeça para baixo no pequeno sofá. Peguei a câmera dentro do meu armário para tirar uma foto daquela cena. Sorri sozinha ao analisar a imagem. Pendurei a câmera no pescoço e desci até a cozinha para beber água. Não me incomodei muito com a escuridão, pois a luz lunar que invadia a janela, iluminava um pouco o cômodo.
Peguei minha garrafinha de água e bebi o líquido como se não houvesse amanhã. surgiu na cozinha, de repente, e com o susto, eu me engasguei. Ele correu em minha direção desesperado e deu alguns tapinhas em minhas costas.

– Quer me matar? - perguntei, recuperando o meu fôlego.
– Me desculpe, não foi a minha intenção te assustar, eu só vim beber água.
– Tudo bem. - me afastei dele.
– Mãe? - parou na escada ao ver – O que ele está fazendo aqui? - perguntou nervosa.
– Ele não tinha lugar para ficar, então eu o convidei para dormir aqui. - respondi receosa e ela desviou o seu olhar de para mim.
– Fique tranquila, é só por algumas horas. - ele disse receoso.
– Você sabe como eu estou me sentindo, e no entanto, trouxe ele. Por que fez isso? - ignorou e me encarou com um misto de tristeza, confusão e revolta no olhar. – Você só está pensando em si mesma.
– Me descul... - ela não esperou pela minha resposta e foi para o seu quarto.
, se for melhor para você, eu posso ir embora. - disse preocupado – Com certeza tem algum quarto de hotel disponível a essa hora.
– Não, tudo bem, pode ficar. Amanhã eu converso com ela. - o olhei derrotada e ele assentiu.

Direcionei-me para o meu quarto e tomei um banho bem demorado. Não queria ter tempo para pensar em tudo o que aconteceu então me sentei na cama com o notebook em mãos e fiquei fazendo algumas pesquisas sobre novos exercícios para as minhas sessões. Sou formada em Psicologia desde os 5 anos da , mas foi com muita ajuda que eu consegui concluir o curso. Poucos meses depois do nascimento da minha filha, eu destranquei a minha matrícula na faculdade e só então pude vivenciar a vida de mãe solteira e estudante, foi bem difícil, mas, eu tive muita ajuda dos meus pais e das minhas amigas. Sou muito grata a eles por tudo.
Fui ao banheiro para lavar o meu rosto, na tentativa de esquecer tudo que aconteceu na festa, pelo menos, por uma noite. Voltei ao quarto, deitando-me novamente, mas dessa vez demorei alguns minutos, até ser vencida pelo sono.

[Capítulo Oito]

– Mãe, está viva? - ouvi a voz de invadir o quarto.
– Estou sim, filha. - espreguicei-me, logo após sentar-me na cama – Como passou a noite?
– Bem. - ela deu de ombros – Vim te chamar porque já são 13h30 e você não acordava, o que não é normal.
– O quê? - perguntei incrédula. – 13h30?
– 13h31, agora - ela respondeu, olhando para o relógio em cima do criado-mudo.
– Nossa, não é normal mesmo eu acordar tão tarde, mesmo sendo domingo. - dei um pulo da cama. – Eu estava muito cansada. Ainda estou, para falar a verdade.
– Vou para o meu quarto - já ia saindo.
– Filha - ela me encarou, com uma sobrancelha erguida. – já foi embora?
– Não passei pelo quarto de hóspedes, justamente, para não vê-lo. Só saí do meu quarto para te acordar, caso ele precise de algo, você dá assistência. - engoli o seco.
– Prepare o almoço. - pedi e ela arregalou os olhos.
– Você que acorda tarde e sobra para mim fazer o almoço? - perguntou indignada.
– Huh? Por que você não pode me ajudar? Eu te ensinei a cozinhar e você faz isso muito bem, deixe de ser preguiçosa! - eu disse firme e ela bufou – E eu estou com muita dor de cabeça.
– Se ele aparecer na cozinha, eu não vou saber como agir. - percebi sua aflição ao se referir à .
– É só o tempo de eu tomar banho e descer, prometo que serei rápida. - juntei as mãos e sorri largo.
– Não quero vê-lo.
– Eu sei que não, mas uma hora ou outra vocês irão se encontrar.
– Mãe, eu realmente estou com medo do que vai acontecer. - fez uma carinha de choro.
– Já disse que enfrentaremos isso, juntas. - a abracei forte e ela soltou um suspiro tão profundo, que fez meu coração palpitar. – Se não quiser descer...
– Não, tudo bem. - me interrompeu, se afastando. – Eu preparo o almoço, pode tomar seu banho.
– Tem certeza? - ela assentiu. – Okay.
– Só não se esqueça de uma coisa - franzi o cenho, sem entender. – Escove os seus dentes! - ela abanou a mão perto do nariz, fazendo careta e a lancei um olhar mortal. saiu do quarto rindo. Minha filha é tão engraçadinha!

Peguei no armário um short jeans branco e uma camiseta azul safira, escrita: "Super Mom" entrei no banheiro. Tomei uma ducha rápida, o que não é de meu costume, mas eu precisei acelerar.
Desci para ver a gororoba que estava fazendo, e a encontrei de touca e avental.

– Uau, que dedicação! - bati palmas a provocando – Já pode casar.
– Deus me livre!
– Sim, Deus nos livre disso agora!
- apareceu na cozinha, ficou meio descontrolada e derrubou alguns legumes. – Agradeço pela hospedagem, mas nós...
– Disponha. - o interrompi, sem encará-lo.
– Desta vez, não tente fugir, . Já está passando da hora de conversarmos. - o olhei receosa.
, pode nos dar licença?
– Até posso, mas não quero.
– Não irei perguntar, novamente.
– Que bom, porque eu não vou sair daqui. - me aproximei dela. – Você disse que estamos juntas nessa.
– Vá agora para o seu quarto e só saia de lá quando souber usar os bons modos que eu te ensinei! - eu a ordenei e a mesma subiu batendo os pés como um soldado raivoso. – Vamos para a sala, .
– Pode começar - o encarei com as sobrancelhas erguidas – Quando você quiser, claro.
– Eu sei que na festa nós dois estávamos muito exaltados e, por isso, estava difícil de assimilarmos o que falamos. Então agora, eu quero te explicar tudo com calma para você não ter dúvidas. - ele concordou com a cabeça – Você se lembra do nosso Baile de Formatura?
– Como eu poderia me esquecer? Eu te pedi em namoro naquela noite.
– Sim. - eu suspirei com as lembranças – Você também se lembra que nós... - o lancei um olhar significativo e ele riu fraco.
– Sim, eu me lembro como se fosse ontem da nossa primeira vez juntos - mordeu o lábio inferior e eu desviei o olhar de sua boca.
– Três meses depois do baile, eu me mudei para Trainsturn e comecei a faculdade. Mas eu estava muito mal, sentia náuseas e enjoos muito fortes, cheguei a desmaiar. - ele franziu o cenho. – Minha mãe me obrigou a ir ao hospital mais próximo e eu fiz alguns exames.
– O que você tinha? - respirei fundo.
– Um bebê em formação.
, eu não quero te ofender, mas, eu já tinha viajado.
– Eu sei, mas engravidei na noite do Baile de Formatura, só que...
– Isso é loucura!
– Não, é a verdade.
– Isso não tem cabimento. - ele parecia transtornado – Como você tem coragem de inventar algo do tipo?
, estou dizendo a verdade!
– Você me traiu e quer que eu assuma a filha de outro?
– Eu nunca te traí! - eu disse com firmeza e aproximei-me dele. – , acredite em mim.
– Vou acreditar no exame de DNA. - ele se afastou.
– Lembra quando o Nick deu aquela festa para comemorarmos a nossa entrada na universidade? - assentiu, bufando. – Quando estava me levando para casa, você me contou que sua bisavó tinha uma manchinha de nascença na nuca, que parecia uma folha de uva. Você até me mostrou uma foto.
– Aonde você quer chegar, ?
tem uma manchinha de nascença na nuca, exatamente como...
– Não quero mais ouvir isso. Agradeço a hospedagem, mas agora eu preciso ir. - saiu rápido, mas eu o segui.
– Estou dizendo a verdade a você, - ele parou no portão. – é...
– Sua filha, . Sua. - se virou para mim. – Não faço ideia de quem seja o pai, mas com toda certeza, não sou eu!
– Por que não acredita em mim? - não consegui conter as lágrimas.
– Foi bom rever você, .
– ENTÃO É ASSIM? VOCÊ VAI SUMIR DA MINHA VIDA, NOVAMENTE? - gritei, sentindo a revolta corroer o meu interior, mas me ignorou. – E QUAL SERÁ A DESCULPA DESSA VEZ?

Não consegui conter o choro e adentrei a casa em prantos. Queria poder colocar toda aquela dor para fora em forma de lágrima, mas eu precisava me recompor para ver minha filha.
Fiquei alguns segundos no corredor tomando coragem para ir conversar com . Tentei abrir a porta do seu quarto, mas estava trancada.

– Filha, vamos conversar? - ouvi o barulho de algo se quebrando e estranhei – , o que foi isso?. - bati forte na porta.
– Mãe, eu quero ficar sozinha. - ela disse, num tom alterado. – Será que posso? - respirei fundo, deixando-a de uma vez por todas, e fui para o meu quarto.

Tomei um banho bem quente e demorado, na tentativa de relaxar e tomei meu analgésico, pois minha dor de cabeça havia se intensificado. Eu não queria chorar, novamente, mas estava realmente difícil de segurar as lágrimas. Saber que não acreditara em mim doía mais do que vê-lo partir para a sua viagem, mas eu o compreendia, em partes. O choque da notícia o fez bloquear a realidade. Ele não queria acreditar na realidade. Achou que fazendo isso iria voltar a sua vida normal, mas agora não tem volta. Ou ele assume , ou sai da minha vida, definitivamente.

Acordei sentindo cheiro de queimado, mas quando dei por mim, notei que o quarto estava infestado de fumaça preta. Dei um pulo da cama e tentei correr até o quarto da , mas a fumaça havia tomado conta de tudo e eu mal conseguia respirar e enxergar as coisas à minha frente. Fui recuando rápido e cheguei à cozinha, onde a fumaça mais se concentrava, então corri para o meio da rua, logo avistei alguns bombeiros e junto à eles estava .

– Eu tentei ir ao quarto da minha filha, mas está tudo tomado pela fumaça, eu não consegui. - eu disse ao bombeiro que se aproximou.
! - me abraçou, estava nervoso. – Você está bem?
– Faremos o possível para salvar a menina, senhora! Agora, peço que se afastem.
– Will, entre na casa e retire a menina de lá! Os outros já estão tentando cessar o fogo. - um outro homem ordenou ao que falava comigo. – Senhora, sabe o que pode ter ocasionado o incêndio?
– Eu não sei, minha filha estava preparando o almoço e depois... - arregalei os meus olhos lembrando de tudo e empurrei com muita fúria.
– HOMENS, SEJAM RÁPIDOS, HÁ RISCO DE EXPLOSÃO! - o mais velho gritou e meu coração acelerou ainda mais.
– Eu sinto muito - se pronunciou.
– CALE A SUA BOCA, EU NÃO QUERO OUVIR A SUA VOZ!
– Por favor, .
– SAIA DE PERTO DE MIM - gritei, começando um choro descontrolado – A CULPA É TODA SUA!

Afastei-me de todos e sentei-me na calçada, chorando intensamente. Eu não poderia perder a minha filha, não mesmo.

– Senhor, não pode ultrapassar o limite da faixa. É perigoso. - ouvi um dos bombeiros dizer e levantei minha face, para tentar ver o que estava acontecendo. O homem tentava impedir , mas não foi o suficiente. Ele correu até a casa e eu senti o meu coração acelerar ainda mais.
– NÃO - gritei em total desespero – AI MEU DEUS!
– Senhora, você precisa de cuidados. - outro bombeiro disse.
– EU SÓ PRECISO DA MINHA FILHA E DO PAI DELA AQUI COMIGO. - naquele momento, qualquer briga que eu tive com fora esquecida, e o sentimento de revolta e indignação foram substituídos pelos de compaixão e preocupação.
– Por favor, senhora... - afastei-me ignorando o homem. Sentia dificuldades para respirar, mas eu não queria dizer nada a ninguém. Eu queria estar sã quando retirassem a minha filha da casa.

Depois de algum tempo que não consegui contar, eu já não aguentava mais aquela espera. Alguns bombeiros diziam que não teriam como prosseguir e eu ficava cada vez mais preocupada, pois não havia sinal de e nem de .

– Capitão, pelo tempo, já era para ele ter retornado. - eu disse, me aproximando.
– Me desculpe por dizer isso, mas ele cometeu suicídio!

No exato momento em que eu acabara de ouvir as palavras que mais me causaram medo em toda a minha vida, avistamos com desmaiada em seus braços. Minhas pernas falharam e eu caí de joelhos, não controlando o choro forte que há minutos escorria pelo meu rosto e quase pude sentir um certo alívio no coração... Até se aproximar do portão e a casa explodir.

[Capítulo Nove]

Eu estava em um quarto, fazendo nebulização, quando vi um médico passando pelo corredor. Pulei da cama sem nem pensar duas vezes e corri atrás dele.

– Doutor, como está a minha filha? O nome dela é . E o pai dela se chama...
. Eu já sei de todo o caso, e bem, ele ainda está inconsciente, mas por conta dos medicamentos. Acredito que em breve ele irá se recuperar, o caso dele não foi tão grave, porém, precisamos saber como estão os seus pulmões e como irão reagir sem os remédios.
– Certo. - respirei fundo. – Mas, e quanto à minha filha?
– O caso é mais delicado - cocei a cabeça, deixando uma lágrima escapar – Mas, por favor, peço que tenha calma.
– Desculpe, mas isso agora é pedir demais.
– Tenho um filho de 17 anos, também ficaria louco se algo acontecesse a ele, novamente, então eu posso compreender a sua preocupação. Mas eu preciso ser sincero com você - engoli a seco aquelas palavras e assenti – foi quem mais sofreu nesse incêndio. A fumaça que ela inalou era tóxica e quente, por isso sofreu queimaduras internas e está respirando com a ajuda de aparelhos. - senti uma forte tontura ao ouvi-lo – Está tudo bem com você?
– Não, eu não estou bem.
– Não devia ter saído do quarto, você também inalou muita fumaça e precisa de cuidados. - eu estava com dificuldade para respirar – Vamos, irei te acompanhar até o quarto.

O médico generosamente ajudou-me a chegar ao quarto, precisei do amparo dele para manter meus passos firmes. Deitei-me com cuidado, tornando a fazer a nebulização.

– Obrigada. - ele sorriu fraco – Por favor, continue me falando sobre o estado de .
– Eu não acho muito prudente agora...
– Por favor. - insisti, aflita e ele assentiu. – Ela está com um ferimento profundo no pulso direito, parece ter sido causado por vidro ou algo do tipo. Fizemos uma sutura no local, mas ela perdeu muito sangue e isso agravou ainda mais o seu quadro.
– Ferimento profundo no pulso? - perguntei retoricamente, lembrando-me do barulho de algo se quebrando em seu quarto. Respirei fundo, tentando manter a calma. – Minha filha deve estar sofrendo muito.
– Bem, tentamos dar um jeito nisso - arregalei os olhos – Assim que chegou ao hospital, nós fizemos sua sedação, que é um coma induzido.
– Vocês a induziram ao coma? - eu já me preparava para reclamar.
– Foi necessário. precisa de ventilação mecânica, seus pulmões não estão bem e seu corpo está frágil, ela sentiria dores fortíssimas.
– Ela corre risco de vida? - respirei fundo.
– Não quero que fique mais preocupada.
– Sem rodeios, doutor, por favor. - eu disse impaciente.
– Nos casos mais graves, como o dela, sempre há a possibilidade do paciente vir à óbito.
– Mas isso não vai acontecer, não é mesmo? - perguntei, já descontrolando-me – é forte e saudável, irá resistir.
– Por favor, se acalme.
– Eu quero vê-la! - me alterei, saindo da cama e correndo pelo corredor do hospital, procurando pelo quarto em que minha filha estava – Eu quero ver a minha filha, agora!
? - me puxou pelo braço e eu parei por alguns segundos.
corre risco de vida, amiga. - eu pus as mãos na cabeça, enquanto chorava desesperadamente – Eu posso perder a minha filha.
– É verdade? - pediu confirmação ao médico.
– Eu sinto muito, mas há essa possibilidade.
– O que está acontecendo? - se aproximou, confusa.
– Nós faremos o possível...
– Eu não quero mais te ouvir! - toquei no peitoral do médico com o dedo indicador e arqueei uma das sobrancelhas – Tudo que você irá fazer agora mesmo será levar-me para ver a minha filha e cuidar dela até que a mesma acorde desse coma!
– ALGUÉM PODE TRAZER UM TRANQUILIZANTE PARA ESSA LOUCA? - uma mulher saiu gritando de um dos quartos e foi o suficiente para eu partir para cima dela, com muita fúria e violência.
– É A SUA FILHA QUE ESTÁ EM COMA? É A SUA FILHA QUE CORRE RISCO DE VIDA? - fechei as minhas mãos em seu pescoço – RESPONDA!
– N-não. - ela respondeu quase num sussurro.
– Por que será que eu já imaginava?! - eu disse para mim mesma, rindo sem humor.
, pare! - pediu, tentando afastar-me da mulher. Suspirei alto, tentando controlar-me.
– Não ouse chamar de loucura a minha dor! - depositei ainda mais força nas mãos, enquanto chorava de raiva.
– Isto irá acalmá-la - fui puxada para longe da mulher e vi uma das enfermeiras, segurando uma seringa. Olhei para o médico, que me segurava com força.
– Não deixe que eles façam isso comigo, por favor! - pedi desesperada.
– É para o seu próprio bem, . - tentei soltar-me de todas as formas, mas falhei.
? ? Não permitam que façam isso comigo, por favor! - elas me olharam, sem reação alguma.

Alguns enfermeiros aproximaram-se de mim e ajudaram o médico a me segurar, logo injetaram-me um líquido estranho em meu braço.

– Não! - tentei me debater, novamente, porém eu já não tinha mais força em meu corpo – Por que estão fazendo isso comigo? - perguntei de um jeito meio embolado, fiquei grogue muito rápido e, de repente, tudo foi ficando escuro à minha frente.

Acordei no mesmo quarto de antes, vendo e conversando à minha frente.

– Como está? Eu quero vê-la! - eu já ia saindo da cama, mas me empurrou, fazendo-me deitar, novamente.
– Se acalme, . está se recuperando. - disse, segurando as minhas mãos.
– Meu coração está tão apertado. - eu disse, chorando fraco.
– Podemos imaginar, mas vamos pensar positivo, okay? - disse, indo em direção à porta.
– O que você vai fazer? - perguntei, franzindo o cenho.
– Chamar o médico. - ela respondeu, saindo do quarto.
– Acho que vou surtar! - bufei.
– Na verdade, você já surtou. - riu fraco.
– Fui desrespeitosa com alguém?
– Sim, com várias pessoas. - arregalei meus olhos – Você chegou a agredir uma mulher.
– Está brincando?! - ela negou com a cabeça – Quem é essa mulher? Quem são as outras pessoas?
– Acompanhante de um paciente idoso, o médico da sua filha e os enfermeiros que te acalmaram. Mas, foi incômodo para todos no hospital, já que é um local de silêncio. - fiz uma careta, demonstrando a minha insatisfação com minha atitude.
– Que vergonha! - eu disse em um sussurro – Preciso desculpar-me com todos.
– Já fizemos isso por você - ergui as sobrancelhas e ela assentiu – Todos compreenderam a sua situação, exceto a mulher que te chamou de louca.
– Agora estou me lembrando. - suspirei, lembrando-me da mulher e da raiva que senti ao ouvir suas palavras – Estou muito envergonhada.
– Você só não soube lidar com as notícias, acontece. - me acalmou.
– Vejo que já está mais calma. - o médico disse, assim que adentrou o quarto.
– Doutor, eu quero desculpar-me pelo constrangimento que causei a todos.
– Nós já nos encarregamos de fazer isso, fique tranquila. - assenti – Está pronta para ver ?
– É sério? - ele assentiu.
– Não é o que você tanto quer? - concordei – Então, vamos. - minhas amigas me acompanharam.

Passamos pelo corredor e entramos em um elevador, que nos deixou quase em frente ao quarto. Quando o adentramos, me deparei com intubada, cheia de aparelhos e totalmente incapaz de tudo. Senti como se meu coração estivesse se despedaçando.

– Bom, vou deixá-las à vontade. Qualquer coisa me chamem o mais rápido possível, tudo bem? - assentimos.
– Olhem como ela está fraca, desprotegida. - me aproximei de – Minha filha não merecia passar por isso!
, quer ficar a sós com ela? - perguntou.
– Vocês se importam?
– De maneira nenhuma. - respondeu, me dando um beijo na bochecha. – Qualquer coisa, estaremos na recepção.
– Obrigada. - abri um sorriso limitado e tornei a olhar para – Oh, minha princesa! Se eu pudesse, trocaria de lugar com você agora, só para não vê-la assim...
– Desculpe por voltar agora - o médico adentrou o quarto, me dando um leve susto – Preciso verificar a pressão arterial dela.
– E como está? - perguntei aflita.
– Um pouco baixa, mas estamos observando, fique tranquila.
– Peço desculpas, mais uma vez, pela forma como o tratei. E aos outros também. - ele me olhou – Pode parecer que não, mas estou muito grata por tudo que estão fazendo por minha filha. - me emocionei, ao voltar meu olhar para – Dá para perceber o quão debilitada ela está, é visível. Mas, está sendo bem cuidada.
– Faremos tudo que estiver em nosso alcance para que se recupere logo!
– Eu acredito nisso. - sorri fraco e ele se retirou.
Continuei a observando e segurei em sua mão direita, com o curativo.
– Minha princesa, por que você fez isso, filha? - beijei sua mão, ainda encarando o curativo – Eu não quero te perder, meu amor. Eu nem gosto de pensar nesta possibilidade! - acariciei seu rosto, que estava pálido – Fique bem logo, meu anjo. Eu te amo tanto.
– Desculpe, mas poderia nos dar licença? Precisamos fazer mais alguns exames na paciente. - um dos enfermeiros pediu, já adentrando o quarto.
Olhei mais uma vez para e me retirei, seguindo até a recepção, encontrando minhas amigas.

- o doutor me chamava – Pelo tempo que você esteve sob o efeito do tranquilizante, não houve nenhum tipo de complicação em sua respiração, mas você ainda precisa ficar em observação.
– Isto quer dizer que ela deve voltar para o quarto? - perguntou.
– Sim.
– Podemos ficar com ela? - perguntou.
– Bem, o horário de visita ainda não terminou.
Elas me acompanharam até o quarto e eu me deitei, após sentir uma leve tontura.
– Amiga, nos conte o que aconteceu. - pediu.
– Depois da festa, eu convidei para passar a noite lá em casa. - elas arregalaram os olhos – Sei o que estão pensando, mas não. Ele iria ficar na casa do Nick ou Travis, eu tentei ligar para vocês, porém ninguém atendia e...
– Era só ele ter reservado um quarto de hotel, oras. - disse simples.
– Sim, eu acho que errei o convidando para ficar lá em casa. - ela assentiu, nervosa – Por que está agindo assim?
– Porque você fez uma besteira das grandes e eu nem sei como te ajudar, só por isso! - andou pelo quarto, impaciente – é uma menina com gênio forte, não vai...
, se acalme! - pediu – também é sensível e emotiva, vai entender as razões da .
– Ela já me perdoou por ter escondido a verdade sobre o pai dela, mas não sabe como agir perto dele. está realmente confusa.
– Travis fez muito mal em chamar para a festa. - disse .
– Tenho certeza que foi com a melhor das intenções. Travis é como um pai para , jamais faria algo para magoá-la. - eu disse.
tem razão, amiga. - concordou e se aproximou de mim.
– Desculpe - respirei fundo. – Eu também estou muito abalada com tudo isso e fui um tanto egoísta, não pensei em como você está se sentindo. - ela enxugou algumas lágrimas de seu rosto – também é como uma filha para mim e eu só quero que ela se recupere logo. Vamos pensar apenas na melhora dela, okay?
– Acho que fiz besteira atrás de besteira.
– Por que diz isso? - perguntou preocupada.
– Depois da festa, no dia seguinte, eu tentei novamente conversar com sobre a .
– E o que ele fez? - se empolgou.
– Agradeceu pela hospedagem e foi embora.
– Mas ele não disse nada? - foi a vez de perguntar.
– Disse o que vocês ouviram, que eu o traí, porque não é filha dele. - respirei fundo – Depois de 16 anos, longe um do outro, foi como se ele nem tivesse sentido a minha falta. - elas se entreolharam – Eu fui ao quarto da para saber como ela estava e ouvi o barulho de algo se quebrando, mas ela não quis falar comigo. Eu estava chateada e com raiva de mim mesma, o que resultou num aumento de dor de cabeça. Então, eu fui para o meu quarto e tomei um remédio que me fez dormir rápido, quando acordei só vi fumaça. - fechei os meus olhos, lembrando da cena – Eu tentei ir ao quarto da minha filha, mas não consegui. Saí de casa e encontrei com os bombeiros, o culpei por tudo que estava acontecendo e ele entrou na casa para tentar salvar .
– Eu não acredito que ele duvidou de você, ! - disse, visivelmente indignada – Eu sei que você está se sentindo culpada, mas não fique assim. Tentar salvar a vida da filha era a obrigação dele, naquele momento!
– Não queria admitir, mas está certa, então não se sinta culpada. - olhei para – Foi um gesto muito bonito da parte dele tentar tirar da casa.
– Com licença - o médico adentrou o quarto. – Desculpe interromper, mas o horário de visita já terminou.
– Tudo bem.
– Quer que eu ligue para os seus pais? - tirou o celular de sua bolsa.
– Não, agora não.
, não é certo esconder isso deles.
– Eu só estou preservando a saúde deles. - eu disse, convicta – Agora, venham me abraçar.
– Amanhã eu volto com o Nick, ele quer muito ver vocês. - disse, caminhando até a porta.
– Travis também virá, okay? - avisou e eu assenti – Fique bem.
– Você tem boas amigas! - o médico comentou e eu sorri fraco, concordando com a cabeça – Agora, descanse e use o nebulizador. Talvez você receba alta amanhã depois de mais alguns exames.
– Obrigada. - ele saiu do quarto e eu me virei para o lado oposto, dormindo em seguida.

Acordei com uma das enfermeira abrindo a janela, a claridade logo incomodou os meus olhos.
– Ah, me desculpe - ela se virou para mim – O médico disse que seria bom você acordar bem cedo e sentir a brisa.
– Tudo bem, eu agradeço.
– Daqui a pouco ele vem te ver. Agora, se me der licença, tenho que medicar alguns pacientes. - sorri em agradecimento.
Eu queria poder usar minhas roupas, mas lembrei-me que perdi todas no incêndio. Não tive escolha, tomei um banho bem rápido e vesti a roupa do hospital, em seguida, fui até a janela e fiquei admirando a vista e aproveitando o ar puro da manhã. Ouvi o barulho da porta se abrindo, mas nem me movi, sabia que era o médico.
– Espero não estar incomodando. - olhei para o lado e ele sorriu para mim.
– De maneira alguma. - dei espaço para ele se achegar à janela.
– Como se sente hoje?
– Não sinto tanta dificuldade para respirar.
– Isso é muito bom.
– Mas, meu coração ainda está apertado. - olhei para ele, esperançosa – teve alguma melhora?
– Bem, ainda estamos a observando...
– Por favor, seja sincero. - ele assentiu e desviou seu olhar da janela para mim.
– Ela ainda não apresentou melhora - apertei meus olhos para não deixar as lágrimas escaparem – Seu quadro ainda é grave, mas precisamos manter a esperança.
– Agradeço pelo seu cuidado com minha filha.
– Não só por ela, mas também por você. - ele tocou em minha mãeo, que estava sobre a janela e eu arregalei os meus olhos – Vejo o quanto está preocupada e isso me comove. - eu sorri fraco e me afastei da janela, envergonhada por seu gesto.
– Já posso receber alta? - sentei-me na cama.
– Talvez depois de mais alguns exames, uma equipe de enfermeiros virá para te dar assistência. - assenti – Agora, eu vou ver como está o seu marido. - ele se retirou.
"Seu marido". Há anos eu sonhava em ter como marido, realmente, até fazíamos planos. Mas, tudo mudou e eu não espero que isso aconteça. Minha prioridade é e, se o pai não aceitá-la, então farei o possível para manter distância dele.
– Com licença, faremos alguns exames em você. - suspirei alto, enquanto os enfermeiros entravam no quarto – Está pronta? - concordei com a cabeça.

Passadas duas semanas do ocorrido, eu já havia recebido alta, mas não saí do hospital para ficar com . Ainda não havia criado coragem para visitar e o agradecer pelo que fez com nossa filha, e até me sentia mal por isso. Eu não queria parecer ingrata.
- Nick adentrou o quarto com euforia – Como ela está? Dei uma fugidinha do trabalho para vê-la.
– O médico disse que seu organismo está recebendo bem os remédios.
– E quanto ao coma? - Nick observava . – Já fazem duas semanas.
– Eu não sei - olhei para ele – Às vezes, ela mexe os olhos, aperta a minha mão, mas nada além disso.
– Antes de voltar ao trabalho, conversarei com o médico. - ele disse firme.
– Só não o ameace ou algo do tipo. - ele me olhou, indignado – Não me olhe assim, eu te conheço, Nick!
– Só quero que ele saiba que nos preocupamos com essa menina.
– Você se preocupa até demais. - nós rimos baixo.
é a minha princesinha - ele beijou sua testa – Tenho que zelar por sua vida.
– E sempre foi assim, não é mesmo?! - Nick me olhou, concordando com a cabeça – Desde que ela era bebezinha, tem você e Travis como os seus protetores. Vocês são como um pai para ela.
– Mas nós a temos como nossa filha - eu sorri ou ouvi-lo – é a filha que eu sempre quis ter.
– Não pensa em ter outra? - ele fez uma careta e eu já sabia do que se tratava – não quer mesmo uma criança.
– Ela nem mesmo aceitou o meu pedido de casamento, imagine ter um filho comigo. - senti uma leve frustração em seu tom de voz.
– Nick, ela aceitou o seu pedido, só não quer juntar as escovas, por enquanto.
– Até e Travis, que são os menos ajuizados entre nós, inventaram de se casar e o fizeram rapidamente.
– É, foi bem de repente! - eu ri fraco, lembrando da loucura que foi para os ajudarmos com os preparativos do casamento, que aconteceu apenas um mês depois do pedido de Travis. – Mas Nicki, gosta da liberdade dela de ir e vir sem precisar dar satisfações a alguém. Acredito que ela tenha medo de perder isso.
– A liberdade dela? - eu assenti – , eu sou o cara mais compreensível que vocês conhecem, acha mesmo que eu implicaria com ela por causa disso?
– O problema não é esse, Nick, tem medo da vida à dois.
– Mas então, o que eu faço?
– Vocês já são noivos, é um passo bem grande até o altar. Vocês tem total liberdade para conversarem sobre qualquer coisa - ele assentiu – Aproveite isso e fale com ela sobre o quanto você se sente frustrado por não terem casado ainda, e ao mesmo tempo, deixe que ela fale sobre as suas inseguranças em relação à vida de casado.
– Você acha que vai darcerto? - ele me olhou esperançoso.
– Tentar não custa e, a conversa é a base de tudo.
– Vou seguir o seu conselho. - ele deu uma piscadela.
– Certo. - eu sorri pela animação dele – Nick, você pode ficar um pouquinho a sós com a ?
– Você vai visitar o ?
– Eu já devia ter feito isso. - ele assentiu.

Saí do quarto tão rápido, que acabei esbarrando em alguém no corredor.
– Nossa - olhei para a pessoa e arregalei os olhos, ao perceber que suas mãos se encontravam em minha cintura. Ele me soltou, rapidamente.
– Desculpe - o médico pediu, meio encabulado – Eu estava meio distraído.
– Não, tudo bem - sorri fraco – Doutor...
– Por favor, me chame pelo nome.
– Me desculpe a ignorância, mas eu ainda não sei como você se chama. - mordi o lábio e ele riu.
– Samuel Henderson. Mas, por favor, me chame de Sam.
– Ok, Sam. - ri envergonhada – Será que eu posso conversar com agora? É que eu não quero atrapalhar o trabalho de vocês. - ele me olhou, confuso – , o...
– Seu marido, agora eu lembrei. - Sam ficou sério, repentinamente.
– Na verdade, ele é só o pai da minha filha. - eu afirmei e ele ergueu as sobrancelhas – Posso ir?
– Claro, sem problemas. - assenti e adentrei o quarto.
Para a minha surpresa, encontrei com uma mulher, que não aparentava ser uma das enfermeiras.
? - ele me chamou, quando eu estava prestes a me retirar.
– Desculpa atrapalhar, eu pensei que estivesse sozinho. - ergueu um pouco o seu corpo – Mas eu volto em outra hora.
– Espere, , você não me atrapalha em nada. - ele sorriu – Esta é Carly, uma amiga dos tempos da faculdade.
– Prazer, Carly - forcei um sorriso para a mulher – Eu sou...
, a mãe da menina por quem quase perdeu a vida tentando salvá-la, por desencargo de consciência.
– Como é? - ergui as sobrancelhas.
– Você está querendo forçar a assumir a paternidade da filha de outro homem, para não desconfiarem da sua traição. - ela revirou os olhos – Confesse!
– A única coisa que vou confessar, e isso é bem verdade, é que eu estou prestes a cravar as minhas mãos em seu pescoço. - ela deu um passo para trás – Primeiro: você não precisa tomar as dores do , acredito que ele já tenha maturidade suficiente para saber lidar com as situações da vida dele. Segundo: você não sabe nada sobre nós dois, sobre o que vivemos, e muito menos sobre a minha vida, que não te diz respeito. Terce...
– Sei sim, mais do que você imagina...
, sobre o que ela está falando?
– Diga logo a ela que tivemos um relacionamento assim que você se mudou para o campus da universidade. - eu o encarei, mas ele desviou o olhar – Diga também que recusou todas as oportunidades que teve de ir visitá-la para me levar à casa de seus pais. Isso quando você não visitava os meus pais.
– O quê? - eu não queria acreditar no que acabara de ouvir – , isso é mentira, não é?
...
– Então é verdade. - os meus olhos já estavam marejados, mas eu engoli o choro e respirei fundo. – Você diz que eu o traí, mas, na verdade, foi você quem fez isso comigo. - olhei para Carly, que sorria debochada. – Nossa, como eu fui idiota de esperar por você!
– Eu tenho que concordar. - a mulher disse num tom superior.
– Cale a sua boca! - eu ameacei aproximar-me dela, mas a mesma foi para o lado oposto da cama.
, precisamos conversar com calma.
– Não precisamos, não . Não importa mais.
– Mas você...
– Eu só vim para pedir desculpas por não tê-lo visitado durante essas duas semanas, queria agradecer pelo que fez por , queria tentar esclarecer alguns fatos do passado... - o encarei – Mas agora, tanto faz, não é mesmo?!
Eu me recusei a ouvir qualquer tentativa de explicação sobre o assunto, e principalmente, a continuar na presença daquela mulher. Eu não merecia isso, de forma alguma!

Voltei ao quarto de , quase tombando a porta.
- Nick se assustou. – Que é isso?!
– Desculpe Nick, eu estou muito nervosa.
– Percebi - ele veio em minha direção – Mas fale, o que aconteceu?
– Descobri que é um babaca!
– Explica isso.
– Olha, Nick. Eu não consigo nem falar sobre isso agora, estou muito nervosa.
– Respire fundo, vou buscar um calmante para você.
Olhei para minha filha e relembrei-me de tudo que fiz por ela, até hoje, sem a ajuda do pai. Tenho certeza que, se ele tivesse me procurado, naquele tempo, tudo teria sido diferente. Tudo.
, seu amigo me chamou e pediu calmantes - Sam parecia preocupado – É algo com ?
– Não é nada com ela.
– Então o que houve?
– Estou muito aborrecida, mas não quero falar sobre isso. Não agora. - ele assentiu.
– Tudo bem, mas tome este remédio, vai te relaxar. - ele me entregou o comprimido.
– Obrigada. - eu disse e Nick adentrou o quarto.
– Preciso voltar ao trabalho agora, mas amanhã eu venho novamente para ver a minha princesinha. - ele disse, beijando a testa de virá mais tarde com e Travis.
– Obrigada por ter ficado com , Nick.
– Não foi nada. - o abracei – Fique bem, okay?! - eu forcei um sorriso e ele saiu do quarto.
– Sam - o médico me olhou curioso – Nick conversou com você?
– Sim, ele me fez muitas perguntas sobre sua filha - Sam se aproximou de – Ele quer saber quando iremos retirá-la da sedação.
– E quando será?
– Queremos ver como ela reagirá aos testes, mas até agora, não obtemos respostas.
– Mas ela já forçou os olhos, apertou a minha mão.
– Nick me falou e eu gostei de saber disso. - Sam suspirou – Se ela continuar assim, em breve será retirada da sedação.
– Espero que não demore. - beijei a mão da minha filha e acariciei seu rosto.
– Adoraria ficar te fazendo companhia, mas preciso dar alta a um paciente.
– Tudo bem, não quero atrapalhar o seu trabalho.
– Você nunca atrapalha! - ele sorriu e colocou uma mecha de seu cabelo atrás da orelha. Tão charmoso! Retribui o sorriso, enquanto ele se retirava do quarto.
Sentei-me na poltrona de frente para a cama de e fiquei a observando, até eu adormecer.

- acordei assustada – Que sono pesado, hein!
– Que susto, . Credo! - olhei ao meu redor, mas só ela estava no quarto – Você não viria com Travis e ?
saiu cedo do trabalho para visitar a mãe.
– O que aconteceu?
– Ela caiu no banheiro enquanto tomava banho e fraturou a perna esquerda. - me olhou com uma sobrancelha erguida – Quando você irá contar aos seus pais sobre ?
– Eu não sei, eles estão viajando.
– Não acredito que você irá usar a viagem como desculpa para não contar a eles sobre o que aconteceu! - eu neguei com a cabeça – , eu te conheço.
– Esqueça isso, . - ela bufou – Por que Travis não veio?
– Ele veio, mas está no quarto de . - revirei os olhos ao ouvir o nome dele – O que houve?
– Eu não quero te encher com assuntos relacionados à .
– Já estou envolvida nisso há anos - ela se sentou ao meu lado – Conte tudo.
– Tinha uma mulher no quarto dele, uma amiga de faculdade, dizendo que eu o traí, por isso não é filha dele.
– O que? Quem essa vagab...
– O pior não é isso - cocei minha cabeça, suspirando alto – A mulher, cujo nome é Carly, disse que, naquele tempo, deixou de me visitar para ficar com ela.
– Então... - eu olhei nos olhos da minha amiga.
me traiu com ela, .
– Filho da... - minha amiga respirou fundo e olhou para – Se ele tivesse voltado antes, tudo teria sido diferente.
– Eu sei, mas agora não importa mais. E eu só quero distância dele.
– A minha vontade é de... - Travis adentrou o quarto.
– Por que está tão brava? - me olhou e eu fiz sinal para que ela não contasse nada sobre o assunto. Travis veio me abraçar. – Como você está?
– Já estive melhor.
– Vai melhorar! - ele sorriu – E ?
– Está na mesma, mas o médico ainda precisa de tempo para retirá-la da sedação.
– Mais tempo? Ela já está assim por tempo demais!
– Travis, o médico sabe o que é melhor para , no momento. - disse .
– Tem razão.

Quase terminando o horário de visita, chegou.
e Travis já foram?
– Sim. - ela assentiu – Como está sua mãe?
– Por sorte não vai precisar de cirurgia. - suspirou aliviada – Acredita que ela caiu porque estava dançando no banho?
– O quê? - nós rimos fraco – Ela sempre foi muito agitada, tente entender.
– Ela parece criança, isso sim!
– O importante é ela se recuperar logo.
– Por falar em recuperação, se você quiser, eu fico aqui hoje com a .
– Obrigada, amiga, mas imagina se vou te dar esse trabalho!
– Que trabalho? só está recebendo cuidado dos médicos e enfermeiros, no momento, eu nem irei me esforçar. Pode ir para o meu apartamento.
– Mas...
– O Nick vai dormir na casa dele, nós já tínhamos conversado.
– E se...
, pare de arrumar desculpas! - ela ergueu as mãos – Eu sei que não quer sair de perto de sua filha, mas você precisa descansar.
– Eu só temo que algo de ruim aconteça novamente e eu não esteja perto dela.
– Eu te entendo, amiga - me abraçou – Mas na sua ausência, eu sou a mãe da , então a protegerei.
– Espere só até te ouvir falando assim. - nós rimos – Tudo bem, eu vou para a sua casa.
– Aqui estão as chaves - ela tirou da bolsa – Só não se esqueça de alimentar meu filhote.
– Aquele sanguinário! Tinha até me esquecido dele.
– Dino é só um cachorrinho agitado, não fale assim dele! - revirei os olhos – Vai com o meu carro e dirija com cuidado.
– Pode deixar. - dei um beijo em minha filha – Obrigada, amiga.
– Não precisa agradecer. Você sabe que pariu , mas o cuidado com ela também é responsabilidade minha. - ergui as sobrancelhas – E eu falo sério.
– Eu sei, boba. - a abracei.

Enquanto dirigia, coloquei Wannabe para tocar, havia tempos que não a escutava e eu precisava me distrair um pouco, nem que fosse por minutos.
Não demorou muito para eu chegar ao apartamento de . Assim que adentrei, Dino pulou em cima de mim; ele é até um cachorro amigável, mas sanguinário quando quer.
Me recompus, mas deixei a bolsa jogada no chão. Abri a geladeira, certa de que teria sorvete, sempre compra. Peguei um pote pela metade e me deitei no sofá, ligando a TV.

Passaram-se 40 minutos do filme e eu já sentia sono, acho que pelo efeito do remédio. Fui para o quarto de e peguei um de seus pijamas, entrei no banheiro e afundei meu corpo na banheira quente e espumada.
Demorei um pouco no banho, porém me senti mais leve e relaxada. Aproveitei essa reação do meu corpo para deitar-me, e logo adormeci.

No dia seguinte, acordei mais dispostas, não queria que nada abalasse o meu psicológico. Ouvi o latido de Dino e lembrei-me que eu não havia o alimentado, me mataria se soubesse. Peguei uma de suas roupas no armário, ela não se incomodaria de qualquer forma, ainda mais sabendo que é caso de necessidade.

Saí do banho e fui à cozinha, peguei um copo qualquer, despejando suco de laranja. Prestes a dar a primeira golada, meu celular tocou, era .
– O que houve? - perguntei preocupada.
Nada de ruim! - suspirei aliviada e bebi o suco.
– Você me assustou ligando tão cedo, achei que o pior tinha acontecido.
Na verdade aconteceu algo, sim - pus a mão no peito.
– Fale de uma vez, !
acordou. - ao ouvir a notícia, engasguei-me com o suco – , está tudo bem?
– Quando foi que isso aconteceu? - perguntei, enquanto recuperava o fôlego.
Pela madrugada. Mas agora estão fazendo novos exames nela.
– E como ela está?
Eu não sei, ainda não pude vê-la. - corri para pegar a ração de Dino – Quando você vai vir para o hospital?
– Agora.
Dirija com cuidado! Beijo. - finalizei a chamada.

Peguei minha bolsa que estava no chão da sala desde a hora em que eu cheguei e corri para o quartinho de Dino, ele mal esperou eu misturar sua ração com leite e já foi devorando tudo. o acostumou a comer dessa forma.

Já estava dentro do elevador, quando uma senhora entrou, me lançando um olhar de compaixão.
– Bom dia, jovem.
– Bom dia.
– Está tudo confuso demais, não é mesmo? - franzi o cenho e ela me olhou – Pode estar complicado agora, mas tudo irá se resolver! - arregalei os olhos.
– Como assim, senhora? Eu nem te co...
– Eu sei, querida - ela sorriu – Você só precisa deixar as coisas acontecerem, é tudo uma questão de tempo.
– Senhora, qual é o seu nome?
A porta do elevador se abriu e ela saiu à frente, sem responder-me. Fiquei a observando até lembrar que eu precisava ligar para o taxista, peguei meu celular na bolsa e me virei para olhá-la, novamente, mas não a vi.
Carlitos chegou em 15 minutos e me levou ao hospital, rapidamente.

– Muito obrigada, Carlitos! - o paguei, permitindo que ficasse com o troco.
– Qualquer coisa, é só me ligar.
– Bom saber, porque eu devo precisar de táxi por mais um bom tempo. - eu disse, enquanto saía do veículo e ele riu.
– Desejo melhoras a . - eu assenti, agradecida e me afastei.
Adentrei o hospital, indo direto ao balcão.
– Olá, bom dia. - sorri para a recepcionista – Vim visitar a paciente .
– Bom dia. - ela sorriu, gentilmente – Não sei se a senhora poderá subir agora, o horário de visita é apenas pela tarde.
– A minha filha acabou de acordar de um coma - suspirei, sentindo-me frustrada – Por favor, me deixe vê-la.
– Acho que não terá problema, já que a senhora é a mãe da paciente. - ela fez uma ligação e eu esperei tranquilamente – Senhora, pode subir. - sorriu simpática.
– Ah, obrigada. - corri até o elevador, a euforia era imensa.
Chegando ao corredor, vi minhas amigas e meus pais.
– O que fazem aqui? - perguntei aos meus pais – Não estavam viajando?
– Minha neta foi vítima de um incêndio, que resultou em uma explosão, entra e sai de um coma induzido e você não nos avisa, ?! - meu pai estava realmente nervoso. Eu tentei me explicar, mas ele não permitiu – É melhor você nem abrir sua boca se for para inventar desculpas sem cabimento! O que pensou que estava fazendo quando nos escondeu algo assim?
– Acalme-se, querido.
– Não vou me acalmar coisa nenhuma! - ele disse a minha mãe – Você sempre encobriu os erros da menina e olha o resultado disso.
– Querido, já é uma mulher adulta. - minha mãe disse firme – E cabe a ela tomar as decisões que achar melhor para sua vida.
– Não é bem assim, não. Se não fosse por nos ligar e contar a verdade, nós continuaríamos achando que estava tudo bem, enquanto nossa neta estava quase morta. - olhei para minha amiga, mas ela abaixou a cabeça.
– Me desculpe, pai. As coisas aconteceram rápido demais, depois da festa.
, eu não quero ouvir a sua voz. - arregalei os olhos – Já está sendo difícil olhar para você agora.
– Mas eu sou sua filha, tente me entender.
– Querido, está exagerando!
– Não estou, não. - meu pai aproximou-se de mim – Você lembrou que é minha filha quando estava quase morrendo naquela cama, enquanto eu e sua mãe estávamos em uma viagem, e em todas as vezes que nós ligávamos, preocupados, você dizia que estava tudo bem? - minhas lágrimas foram caindo sem eu perceber.
– Assim que a explosão aconteceu, nós viemos para o hospital, eu já acordei em um dos quartos e não sabia o estado de . Depois que conversei com o médico, tive um surto e eu precisei ser sedada, fiquei assim até o dia seguinte. Passaram-se duas semanas, tive preocupações e aborrecimentos aqui dentro do hospital, percebeu o meu estado de esgotamento físico e mental, e me deixou passar a noite no apartamento dela. Hoje cedo, ela me ligou dizendo que a tinha acordado, eu não perdi tempo e aqui estou. - respirei fundo – Não contei nada a vocês porque eu sabia que deixariam de curtir a viagem e ficariam aqui comigo o tempo todo, não seria justo.
– Filha, é claro que ficaríamos aqui com vocês - minha mãe abraçou-me – Meu Deus do céu, vocês são a minha vida!
– Mãe, por favor - limpei meu rosto e afastei-me do abraço – Eu que sou mais nova já estava no meu limite, imaginem vocês como ficariam.
– E ainda está nos chamando de velhos - meu pai bufou.
– Minha intenção era poupar vocês, pelo menos até acordar.
– Você conseguiu - disse meu pai – Já até a visitamos.
– Querido, por favor! - minha mãe lançou o seu típico olhar de reprovação ao meu pai e ele se afastou – Conseguimos ver , de longe, mas fomos expulsos pelos enfermeiros.
– Como conseguiram ficar aqui? As visitas são permitidas apenas pela tarde.
– Você não conhece o meu poder de persuasão? - minha mãe ergueu uma sobrancelha – Filha, como eu e seu pai voltamos agora da viagem, precisamos descansar um pouco.
– Eu entendo, mas se vocês não puderem voltar à tarde...
– Sim, nós voltaremos - ela sorriu – Eu só preciso de um tempo para os meus pés desincharem.
– Me desculpe, mais uma vez.
– Está tudo bem, o durão aqui é o seu pai.
– E, mais uma vez, eu o decepcionei.
– Não é bem assim, . Seu pai compreende as suas razões, só está chateado. - ela me abraçou – Mais tarde eu volto.
Minha mãe foi se afastando e se aproximou.
– Tudo bem - a olhei – Já era para eu ter feito isso.
– Mas eu não tinha esse direito, desculpe-me.
– Pelo menos agora eles sabem - ela entortou a boca – E eu não quero que você fique se sentindo mal por isso.
– Vou tentar. - nós rimos – Queria muito ficar e ver , mas preciso trabalhar.
– Claro, eu entendo.
– Não sei se conseguirei voltar ainda hoje - ela pegou sua bolsa. – Mas, eu dou um jeito de voltar amanhã.
– Obrigada por ter ficado aqui com . - ela abanou a mão.
– Não precisa agradecer. Esse é o trabalho de uma segunda mãe. - eu ri.

Fiquei mais um bom tempo esperando por notícias de , mas nada novo. Vi Sam se aproximar.
, como está?
– Muito ansiosa para ver minha filha! - confessei e ele sorriu.
– Ela está bem, na medida do possível. - franzi o cenho – Seu quadro ainda é delicado e necessidade de bastante cuidado.
– Ah, sim, eu compreendo. - forcei um sorriso.
– Não fique assim, ela irá se recuperar logo.
– Assim espero. - suspirei – Posso vê-la, agora?
– Sim.

Segui Sam até o quarto de e assim que adentrei, não consegui segurar as lágrimas.
– Filha - aproximei-me, mas ainda continuava inconsciente – Ela não estava acordada?
– Sim, porém, ainda está sobre o efeito da sedação.
– Mas é estranho! - olhei para Sam, aflita. – Quero dizer, ela estava acordada há poucos minutos.
– Sua filha só está dormindo, . - eu engoli o seco – É até melhor para a recuperação dela.
– Então por que a tiraram do coma? - cruzei os braços, arqueando uma sobrancelha. Eu estava realmente nervosa.
– O estímulo espontâneo de sua respiração estava entrando em conflito com o estímulo dos aparelhos, por isso, aumentamos os sedativos. - olhei para minha filha.
– A minha vontade é de gritar, agora - passei as mãos pelo rosto, freneticamente – Mas não farei isso, em respeito a.
– Eu espero que você possa compreender a situação, . Além do sedativo, ela precisa de analgésico.
– O que eu posso fazer por ela nesse momento? - olhei para Sam.
– Continue acompanhando a sua recuperação de perto, acredito que ela sinta sua presença. - assenti, suspirando alto – Preciso atender outro paciente agora, te vejo mais tarde.

Assim que Sam saiu do quarto, tornei a olhar para e fiquei a observando durante um longo tempo.
Fiquei lembrando-me de tudo que aconteceu antes do incêndio, e depois também. Sinto-me culpada. Como se já não bastasse a culpa de ter escondido de que ela tem um pai, carregarei para sempre a culpa de ter feito minha filha sofrer tanto, física e mentalmente.

[Capítulo Dez]

Depois de dois meses, deixou o hospital e seguia com sua recuperação em casa. Ainda não estava totalmente bem, mas o suficiente para estarmos aliviados pelo pior não ter acontecido. Precisei voltar ao trabalho e a maior parte do tempo de era com minha mãe, que cuidava dela enquanto eu não podia. Eu ainda não tinha o suficiente para comprar uma nova casa, e nem recuperar tudo que perdemos, por isso ficamos na casa dos meus pais. No início foi difícil para mim e , mas até que ela está gostando de ser mimada pelos avós.

Era quarta-feira de manhã, eu já estava no trabalho e recebi uma ligação da minha mãe.
– Oi, mãe. Aconteceu algo?
está reclamando de dificuldade em respirar.
– É só ela fazer uma nebulização.
Tem certeza, filha? Não acha melhor levar ela ao hospital?
– Não acho que seja necessário. - mordi o lábio, olhando minhas anotações – Sam disse que ser comum essas sensações de falta de ar, mas com a nebulização aliviaria.
Tudo bem, . - suspirei calmamente, enquanto ouvia minha mãe – Depois vou dar um chiclete de menta para ela, pode ser que também alivie a sensação de asfixia.
– Até porque, pode ser apenas a ansiedade excessiva dela. - olhei para a janela, que estava aberta – Tenho que continuar o meu trabalho, mas qualquer coisa me ligue.
Pode deixar. Bom trabalho! - ela finalizou a chamada.

Poucos minutos depois, o telefone comercial tocou; sabia que era Suri, minha secretária.

Doutora, seu paciente das 08h35 chegou. - pigarreei – Posso pedir para que ele entre?
– Por favor, faça isso. - finalizei a chamada e sentei-me de uma forma mais aconchegante.

Atendi mais alguns pacientes ao longo do dia, mas preferi ir para casa mais cedo. Apesar de, ter transmitido tranquilidade a minha mãe, confesso que estava preocupada com .
Carlitos demorou um pouco até chegar à casa dos meus pais, o que não era de costume, mas o trânsito não estava cooperando. Aproveitei esse tempo para ler meus novos e-mails.

20 minutos se passaram, e eu finalmente consegui chegar à casa dos meus pais.

, chegou tão cedo por quê? - perguntou meu pai, indo para a cozinha.
– Fiquei preocupada com . - ele assentiu – Eu estaria aqui mais cedo se o trânsito não estivesse tão lento.
– Um caminhão tombou na Avenida Pesadelo e ainda não foi retirado da pista, com certeza é esse o motivo do congestionamento no trânsito. - ele pegou alguns legumes de uma sacola.
– Onde minha mãe está?
– Me passe aquela faca - ele apontou para trás de mim. O entreguei o objeto, observando a habilidade dele em cortar os alimentos. – Sua mãe está em seu quarto, com .
– Precisa de ajuda? - ele negou com a cabeça – Tudo bem, então eu vou vê-la.
Assim que cheguei ao quarto, tirei dos meus pés doloridos os sapatos apertados e pendurei a bolsa. estava fazendo nebulização e minha mãe cochilava ao seu lado.
– Está tudo bem, filha?
– Estou me sentindo meio cansada, sabe? - assenti.
– Quando você inspira seu peito dói?
– Não, só me sinto cansada. - mordi o lábio – Muitas coisas estão me esgotando.
– Quais coisas? - sentei-me na poltrona à sua frente – Pode se abrir comigo.
– Mãe, você me conhece! - ela desviou o olhar para a porta.
, não é bom guardar tudo para si. Isso faz mal a nossa saúde mental e física. - desliguei o nebulizador e ela me olhou.
– Minha avó não para de roncar. - ela sussurrou e eu ri baixo.
– Mãe - mexi em seu braço e ela despertou. – Há quanto tempo ficou aí entregue ao sono, hein?
? - ela olhou para – Chegou mais cedo hoje.
– É, fiquei preocupada com essa mocinha aqui. - apertei as bochechas da minha filha e as beijei.
– Está melhor? - perguntou a , que assentiu – Fico mais aliviada. Espero que o seu avô já esteja aprontando o jantar.
– Ele estava cortando alguns legumes. - minha mãe se levantou.
– Vou ajudá-lo. - ela se retirou, fechando a porta. Olhei para .
– Eu pensei bastante em tudo que aconteceu, mas não consigo entender porque comigo. - ela passou a mão no rosto – Estou com problema no pulmão, sinto dificuldade em respirar, posso pegar uma infecção a qualquer momento e morrer por conta disso.
– Filha, eu não quero te amedrontar, mas nós não viveremos para sempre aqui nesta terra. Claro que isso não é desculpa para vivermos de qualquer forma, temos que nos cuidar e tudo mais, só que, se não for de um jeito, será de outro. Está me entendendo?
– Sim, se eu não morrer de algo relacionado ao pulmão, morro por outra coisa. - ela me encarou – Mas se você sabe disso, por que teve um surto no hospital? Por que ficou tão desesperada com a possibilidade da minha morte?
, eu não imagino a minha vida sem você! - ela ergueu as sobrancelhas – Não faça essa cara, você sabe que é verdade.
– Mãe, você deveria ser mais controlada, já que é psicóloga e entende dessas coisas.
– Quando nós temos um problema e sabemos que, mesmo sendo trabalhoso podemos resolver, conseguimos encará-lo. Mas, quando nós temos um problema tão grande, que até foge do nosso controle, em muitas das vezes, não sabemos como lidar. - suspirei – Eu sei que pirei, mas, algumas pessoas têm comportamentos diferentes, outras têm comportamentos iguais, . - pigarreei – ficou muito estressada, já ficou mais sensível, enquanto Nick e Travis queriam te proteger de tudo e todos, inclusive do médico. - ela arregalou os olhos – Eu estou dizendo a verdade. - nós rimos alto – Como é bom te ver sorrindo assim, filha!.
– Desculpe, mãe. Acho que eu exagero, às vezes. - assenti – Mas, eu não entendi por que você, sendo uma pessoa tão doce e tranquila, pôde ficar tão descontrolada.
– Eu não soube lidar com a situação inicialmente, mas precisei me equilibrar e ser forte, por você.
– Você ainda se sente mal pelo o que aconteceu?
– Por que está me perguntando isso? - franzi a testa – Eu me sinto muito alegre por você estar aqui comigo, em casa.
– Acho que eu estou me sentindo melhor quanto à isso. - ela confessou, suspirando.
– Há algo mais te perturbando? - ela meio que paralisou – Já disse que você pode se abrir comigo, filha.
– Você contou a àquele homem que ele é o meu pai? - foi a minha vez de paralisar.
– Esse assunto de novo, ?
– Sim. Porque não faz sentido um homem arriscar sua própria vida em um incêndio para salvar alguém que ele mal conhece.
– Muitas pessoas solidárias fazem essa boa ação, filha. - ela rolou os olhos – Um bombeiro, por exemplo, esse é o trabalho dele e...
– Mãe, pare de tentar me enrolar, mãe. Eu tenho o direito de saber a verdade.
– E eu tenho o direito de tomar um banho antes. - beijei sua bochecha – Conversamos sobre isso depois do jantar.

Levantei-me, ignorando todas as reclamações de e peguei minhas roupas, indo para o banheiro, rapidamente.
Afundei meu corpo na banheira e fiquei pensando. Eu sempre fazia isso, mas desta vez, os pensamentos não eram agradáveis.
é emotiva e sempre sofre calada, eu não gosto disso, sei que não é bom para ela. A minha felicidade é vê-la feliz, mas se eu não demonstro isso, ela se sente culpada. Eu não quis dizer a ela, mas não há um dia em que eu não me culpe pelo ocorrido, e conhecendo minha filha, sei que ela iria transferir a minha culpa para si.
O assunto é sempre delicado demais para se conversar, ainda mais com . Eu não posso simplesmente dizer que o pai a rejeitou, ainda mais agora que ela está se recuperando.

- minha mãe interrompeu meus pensamentos – Responda logo ou vou arrombar essa porta, achando que você se afogou na banheira.
– Que desespero é esse, mãe?
– O jantar está pronto, seja rápida.
Nem adiantaria eu agradecer a ela pelo aviso, minha mãe não gosta de esperar.
Precisei apenas de mais 10 minutos e já estava na sala de jantar.
– Achei mesmo que tinha se afogado. - minha mãe disse, passando por mim com uma tigela.
– Que exagero! - meu pai disse, me fazendo rir – , como foi no trabalho hoje?
– Não foi tão cansativo - preparei meu prato – Mas me impressiono a cada dia mais com as histórias de vida dos pacientes.
– Eu não teria paciência pra ficar sentado ouvindo as pessoas falando sobre seus problemas - rolei os olhos – Já tenho os meus, que são suficientes para encher minha cabeça.
– Não seja tão ignorante, homem! - minha mãe se irritou – Acho lindo quem tem essa disposição e empenho para ajudar ao próximo, independente do sacrifício.
– Minha mãe gosta de ser boazinha, não é sacrifício algum. - provocou.
– Acho bom você ser também, se não quiser ficar sem o notebook que ganhou recentemente. - ela abriu a boca, incrédula e eu apenas tomei um gole do suco.
, não faz isso com a menina. - meu pai sempre defendia .
– Não se intrometa na educação de sua neta, querido. sabe o que faz.
– Será que nós podemos jantar, tranquilamente? - pediu. Arqueei as sobrancelhas. – Paz e amor, mãe. - ela sorriu, erguendo os dedos indicador e médio.
Eu tentei fazer o meu típico olhar de desaprovação a ela, mas não o mantive por muito tempo e comecei a rir, mesmo sem querer. me acompanhou e acabou contagiando meus pais com sua risada escandalosa.

Depois do jantar, fiquei na cozinha lavando a louça.
– Já estamos indo dormir - meu pai disse, saindo da cozinha com minha mãe – Boa noite para vocês.
– Boa noite - eu e dissemos em uníssono.
– Mãe, quer ajuda? - perguntou, já pegando um pano seco.
– Por que pergunta se nem espera a minha resposta? - pus as mãos na cintura.
– Porque eu sei que a respostas seria: "não". - continuei lavando os pratos e ela ia secando os copos – Mãe, você está tão ocupada, ultimamente.
– Eu aumentei a minha carga horária de trabalho - ela me olhou, confusa – Antes que me pergunte, fiz isso para acrescentar a nossa renda, precisamos comprar logo outra casa.
– Mas nós vivemos tão bem aqui. - terminei de lavar a louça.
– Só que a casa não é nossa. - ela rolou os olhos – Filha, eu amo ficar aqui, é tão aconchegante. Mas, nós precisamos da nossa privacidade, assim como seus avós.
– Tem razão. - terminou de secar a louça e eu a ajudei a andar – Mãe, não precisa. Estou conseguindo caminhar melhor.
– Se você se desequilibrar, estarei bem atrás de você.
A segui caminhando devagar em direção ao quarto. ficou dois meses na cama do hospital, sem andar nem um pouco, e isso atrofiou um pouco os seus músculos. Foi necessário fisioterapia para ela tornar a andar, antes mesmo de sair de lá. Nos fins de semana, ela continua fazendo os seus exercícios, mas está melhorando.
– Vá logo escovar os seus dentes - a acompanhei até o banheiro – Ficarei aqui na porta te esperando.
– Mãe, eu não sou mais um bebê! - bufou – O máximo que pode acontecer é eu cair.
– E se machucar - ela rolou os olhos – Só saio daqui para levá-la à cama.

Passaram-se alguns minutos e já estava deitada, peguei meu notebook e deitei-me ao seu lado.
– Já tomou o seu remédio hoje?
– Não, eu me esqueci. - ela confessou, fazendo careta – Agora deixe para amanhã, estou com muito sono.
– Tudo bem. - a olhei, séria – Mas que isso não se repita!
– Okay. - respondeu.
Abri meu notebook e fiquei lendo dois novos e-mails. Reparei que continuava me olhando.
– O que você quer? - perguntei em um tom tranquilo.
– A sua atenção. Mas, claro, se não for um incômodo. - respirei fundo, não queria começar uma discussão com ela.
– Sou toda ouvidos. - respondi calmamente e ela continuou me olhando – Tudo bem. - fechei o notebook e me virei em sua direção.
– Sinto falta de Jake e Lauren - ela balançou a cabeça em negação. – Não consigo entender por que até agora eles não me visitaram, nem no hospital.
– Filha, aconteceu tudo rápido demais.
– Isso não é desculpa, mãe - ela cruzou os braços – Eles jamais me deixariam, pelo menos, era o que diziam.
– Eles te visitaram, filha - ela me olhou, surpresa – Mas você estava desacordada, o máximo de reação que obtida era o forçar dos olhos.
– Nossa! - ficou pensativa – Que droga!
– Se você parar para pensar, não há tanto tempo que recebeu alta. - ela assentiu – Procurei saber com a diretora da sua escola como você poderia recuperar as aulas perdidas, mas ela disse que não há muito que fazer.
– Nesse período é sempre uma droga repor as aulas, mas eu tenho certeza que consigo.
– Não é pelas faltas, mas pelas notas. - ela passou as mãos no rosto – Eu darei um jeito de contratar um professor particular para você, mas agora...
– É tarde demais, mãe! - eu a abracei de lado.
– Você ainda não pode frequentar o colégio, também não sei se está em condições de ter aulas particulares. - acariciei o seu cabelo – Você precisa focar na sua recuperação, a fisioterapia exige muito do seu esforço, os remédios te deixam desacelerada e sonolenta.
– Eu já melhorei.
– Mas pode melhorar ainda mais! - respondi empolgada – É tudo uma questão de tempo, filha.

Lembrei-me da senhora que encontrei no elevador, quando saía do apartamento de . Confesso que fiquei surpresa e um tanto assustada com suas palavras, afinal, eu não a conheço. Mas, de certa forma, me senti reconfortada.
Dei-me conta de que estava pensando demais quando virou-se de costas para mim, já adormecida. Tirei meu braço debaixo de sua barriga com cuidado e sentei-me, tornando a abrir meu notebook, não para ler os e-mails, mas para fazer acontecer o que há poucos eu estava planejando.

", preciso de um favor!" - mandei a mensagem.

"Aconteceu algo com ? Pelo amor de Deus! Diz logo!" - ela respondeu, imediatamente.
"Ela está bem, dormindo inclusive, rs... Mas o que eu quero é relacionado à ela!"
"Você está me deixando aflita, vá direto ao ponto."
"Preciso do número de ! Por favor, não me faça perguntas." - respirei fundo e mandei de uma vez.
"Sei que normalmente eu não faria isso, mas dessa vez, sem perguntas!" - respirei aliviada.
"Pedi para você porque desde que voltou, Travis teve mais contato com ele que o Nick, mas não quero que nenhum deles saibam."
"Pode ficar tranquila, vou te enviar amanhã bem cedo. Travis está se aproximando! Beijos."
Difícil acreditar em que minha mente estava planejando, seria uma tortura para mim, mas, por minha filha, eu passo por cima do meu orgulho.
Desliguei meu notebook e deitei-me de frente para , fiquei a observando, até eu adormecer.

– Mãe - acordei com chacoalhando meu braço – Desligue esse despertador!
– O que é isso, garota?! - sentei-me e desliguei o barulhento – Isso é jeito de me acordar?
– Eu não sou obrigada a ficar de pé às 05h30, junto com você, não acha? - ela disse irritada, se virando de costas para mim.
– Eu acho que você pode abaixar o seu tom de voz, já que eu sou a sua mãe e exijo o mesmo respeito que eu te dou. - a ouvi bufar – E, já que está acordada, levante e tome o seu remédio. - eu saí da cama, indo pegar minhas roupas – E não quero ouvir reclamações.
– Sim, senhora. - ela bateu continência e eu a olhei séria.

Entrei no banheiro e, desta vez, o banho foi rápido. Nem demorou muito para eu estar pronta. Retornei ao quarto, logo pegando o meu notebook e celular, pus na minha bolsa. Olhei em volta certificando-me de não ter esquecido nada.

– Esqueceu do meu beijo. - disse, me fazendo rir fraco.
– Esqueci nada. - andei em sua direção e beijei o topo de sua cabeça – Se sentir qualquer coisa que você julgue anormal, fale com a sua avó.
– Ok. - respondeu ainda sonolenta.
– É para falar mesmo, ! - eu disse firme.
– Tá bom, mãe. - suspirei.
– Tenha um bom dia - beijei sua bochecha – Te amo.

Fui direto para a cozinha, sem fazer muito barulho, preparei o meu café. Ouvi uma buzina muito barulhenta e sabia que era o táxi a minha espera, imediatamente, saí de casa.
Diferente do dia anterior, o trânsito estava mais rápido e eu não demorei a chegar ao trabalho. Paguei Carlitos e entrei no prédio.
– Bom dia, Suri. - cumprimentei a minha secretária.
– Bom dia, doutora. - ela sorriu – Marquei um paciente para 07h30, tudo bem?
– Sim - assenti – Eu vou para minha sala.

Já adentrei pendurando minha bolsa e jaqueta, abri a janela, sentindo a brisa invadir o lugar. Acomodei-me em minha cadeira e liguei para .

– Por que está demorando tanto para me mandar o número de ?
Então, eu tive uma noite cansativa com Travis, se é que me entende.
– Poupe-me de qualquer detalhe. - rolei os olhos.
Eu não ia contar mesmo. - eu ri sozinha – Então, eu vou te enviar como mensagem e depois apago. Travis não sabe de nada, peguei o celular de escondido.
– É melhor ser rápida!
Acabei de te enviar.
– Muito obrigada.
, eu sei que não devo me intrometer nos seus assuntos, mas cuidado com o que você vai fazer.
– Eu agradeço a preocupação, amiga, mas pode ficar tranquila - ela suspirou alto.
Preciso me arrumar para o trabalho, agora. Beijos.
– Beijos.

Assim que finalizei a chamada, dei uma olhada nas mensagens, meu coração deu uma leve acelerada ao ver uma delas com o número de .
O telefone comercial tocou, forçando-me a desviar meu pensamento para o trabalho.
– Oi, Suri.
Doutora, sua paciente de 07h30 já chegou, posso pedir para que ela suba?
– Por favor.
Ok, ela já está indo.
– Obrigada.

Depois de 40 minutos de conversa...
– Eu tentarei encarar esse medo. - ela disse firme.
– Todos nós temos receio por algo, é normal. Mas quando percebemos que este receio está tomando está nos dominando, precisamos começar a freá-lo, entende? - a jovem mulher parecia meio perdida – Mas não se preocupe, nós trabalharemos essa parte do medo excessivo.
– É difícil - ela suspirou – Em todas as vezes que eu passo por uma crise, sinto como se eu fosse morrer.
– O medo é uma sensação que faz o seu cérebro entender que algo de ruim irá acontecer, por isso, ele entende que você precisa estar em estado de alerta para qualquer situação, causando essas reações terríveis. - ela franziu a testa – Porém, essas reações do seu corpo não passam de uma impressão, o nosso psicológico também faz isso. Mas, quero que você pense positivo. Todas as vezes que o seu corpo reagir dessa forma, lembre que você é saudável, que isso tudo não passa de pensamentos negativos, é tudo uma ilusão da sua própria mente. Nada disso é real, você está bem e é assim que irá continuar, bem.
– Confesso que não será fácil.
– Não será, não é fácil controlar a nossa mente, você pode e vai conseguir. - ela sorriu para mim. – Leva um certo tempo até você entender tudo o que está acontecendo contigo, com a sua mãe, com o seu corpo, é complexo. Mas, trabalharemos isso, juntas.
– Obrigada, doutora. - nos levantamos e caminhamos até a porta – Semana que vem eu volto, e espero que melhor.
– Não se preocupe com isso, a melhora virá, independente do tempo. Aliás, dê tempo a você mesma, certo? - ela assentiu e eu despedi-me dela.

Fiz algumas anotações no meu notebook e recebi outra ligação de Suri.

Doutora, tem dois adolescentes eufóricos aqui querendo falar com a senhora.
– Suri, sem tanta formalidade entre nós. - ela sabe que eu não faço questão de ser chamada de "doutora" ou "senhora", somos colegas de trabalho há anos.
Desculpe doutora, mas é força do hábito e eu sempre preferi me referir à senhora desta forma na presença dos pacientes.
– E na ausência deles também, não é mesmo? - ela riu fraco – Mas ok, conversamos sobre isso em outra hora.
E quanto aos adolescentes, posso deixá-los subir?
– Pode sim, obrigada. - desliguei o telefone.
Os aguardei entrarem e para a minha não surpresa, eram Lauren e Jake.
– Tia , que saudade! - Lauren foi a primeira a me abraçar.
– Menina, você está com piolho? - ela fez careta e Jake riu.
– Foi a mesma coisa que pensei quando a vi de cabelo curto! - ele disse, recebendo um olhar fulminante de Lauren.
– E você não vem me abraçar? - ele veio em minha direção, todo preguiçoso.
– Meu cabelo está ainda mais lindo! - Lauren afirmou, de braços cruzados.
– Tenho que concordar. - ela sorriu – Aliás, os dois estão ótimos!
– Já a ... - Jake disse, recebendo uma cotovelada de Lauren.
– Ela está melhorando, mas sente falta de vocês.
– Também sentimos falta dela, e é por isso que matamos aula para vir aqui falar com você. - pus as mãos na cintura.
– Não estou acreditando que fizeram isso! - eles abaixaram a cabeça – Lauren, você sempre teve mais juízo que Jake e . O que aconteceu?
– Tia, relaxa - Jake andou até a janela – Um dia só, ninguém vai sentir nossa falta.
– Nós viemos te pedir para visitarmos a - ergui as sobrancelhas, enquanto Lauren falava – Podemos ajudá-la com as matérias da escola, ainda dá tempo de recuperar as notas.
– Agradeço o que querem fazer por ela, mas isso tomaria muito o tempo de vocês e...
– Tia, já nos organizamos - olhei para Jake – E nós estamos decididos a ajudar .
– Venham me abraçar, agora! - eles riram, me abraçando forte – Estou muito feliz com a atitude de vocês, e tenho certeza que ficará ainda mais.
– Demoramos tempo demais para fazer isso. - Lauren disse arrependida.
– E ela é como nossa irmã. - Jake completou.
– E vocês como meus filhos emprestados. Por isso ordeno que retornem agora para o colégio!
– Mas nós...
– Tudo bem, tia - Lauren deu outra cotovelada em Jake, que reclamou – Nós vamos voltar para a escola. - eles foram caminhando até a porta.
– Juí... - antes mesmo de eu terminar a minha fala, Lauren fechou a porta. – Zo.
Essas crianças sempre me alegram. A visita deles irá fazer muito bem à .
Sentei-me novamente na cadeira mais confortável que eu já tive, olhei para o meu celular e finalmente tomei coragem de ligar para .

Já estava quase desistindo de esperar ele atender, até que ouvi sua voz do outro lado da linha e meu coração acelerou.
Alô? - eu congelei ao ouvi-lo, não consegui nem mesmo pronunciar uma palavra – Não vai me responder? Isso é algum trote? - eu engoli o seco – Quem é que está...
– Sou eu, . - disse de uma vez, respirando fundo – Não reconhece mais a minha voz?
Sim, eu reconheceria sua voz em qualquer lugar deste mundo. - apertei os meus olhos ao ouvi-lo.
– Sei que deve estar se perguntando o porquê de eu ter ligado, mas eu preciso muito falar com você.
O que aconteceu dessa vez? - pude perceber a preocupação em seu tom de voz.
– Podemos conversar, pessoalmente?
Claro! - ele respondeu, imediatamente – Tudo bem se nos encontrarmos na Toca da Tia Jô?
– Na Toca da Tia Jô? - minha voz saiu um tanto alterada.
Algum problema?
– Nenhum. Só estou surpresa com a escolha do lugar, mas ok. - engoli o seco.
Quando você po...
– Ainda hoje. - o interrompi, olhando para fora da janela.
Qual horário?
– Agora.

– Te encontro lá, . - finalizei a chamada.

Minhas mãos suavam, como no dia em que eu falei com ele pela primeira vez. Tantos lugares para nos encontrarmos e sugere logo a Toca da Tia Jô; esse era o nosso ponto de encontro quando ele ainda me visitava, antes de viajar. Serão tantas lembranças que virão à tona, que eu não sei se estou preparada. Mas preciso ser forte. Por , eu preciso.
Fechei a janela, vesti minha jaqueta e peguei a bolsa, logo saindo da sala, quase que correndo.
– Preciso sair agora, Suri, é urgente!
– Mas, e quanto aos pacientes já marcados? - Suri levantou-se de sua cadeira, preocupada – A Senhora Jocasta chega daqui a 20 minutos, ela irá me tratar muito mal se eu disser que a doutora teve um imprevisto de última hora e precisou sair.
– Desculpe Suri, eu entendo a sua posição, essa senhora é muito grosseira, realmente. - ela fez uma expressão de derrotada. – Mas, não permita que ela te trate mal, ainda mais na frente de outras pessoas.
– Não posso fazer isso, doutora, eu sou apenas...
– Uma pessoa maravilhosa que merece respeito como qualquer outra. - ela sorriu tímida – Eu me responsabilizo por qualquer consequência disso, mas não permita que ela te destrate.
– Obrigada, doutora. - sorri, enquanto arrumava minha jaqueta.
– Suri, por que não vai para casa? - ela ergueu as sobrancelhas – É, fique com o dia livre.
– Mas...
– Eu não tenho hora para voltar e provavelmente não terei condições de continuar o trabalho hoje. - ela assentiu – Não atenda a mais ligações, deixe tudo como está e vá para casa, certo?
Antes que ela pudesse me agradecer, como sempre fazia, saí do prédio e entrei no primeiro táxi que vi à minha frente, não esperaria por Carlitos, já havia demorado demais.

Cheguei a Toca da Tia Jô, olhando ao redor, procurando por .
- olhei para trás e ele me observava.
– Demorei? - ele negou com a cabeça, mas eu sabia que estava mentindo – Desculpe, eu vim do trabalho e...
– Tudo bem, não precisa se explicar. - eu assenti e ele sorriu – Podemos nos sentar no lugar de sempre, o que acha?
– Péssimo. Este lugar me traz muitas lembranças, eu não quero ter que lidar com mais isso agora. - respirei fundo, sentindo minhas mãos suarem – Espero que entenda.
– Claro. Vamos ficar em um local mais afastado, então.
Passei à sua frente e ele me seguiu em direção a um banco de madeira, que ficava abaixo da árvore. Aquele lugar era o nosso ponto de encontro, mas sempre ficávamos dentro de uma das "tocas", desta vez, preferi ficar ao ar livre.
– Qual é o assunto de hoje? - perguntou interessado.
– Você já deve imaginar.
– Olha, , não quero brigar com você. Eu vim porque quero resolver o mal entendido do hospital - ele fixou os seus olhos nos meus – E também porque queria te ver, novamente.
– Não houve mal entendido algum, pelo contrário, ficou tudo bem esclarecido. - desviei meu olhar para uma das tocas – Mas, uma coisa não podemos mudar, querendo ou não, você é o pai da .
, eu não vou acreditar nisso, se é o que você espera. Ela não se parece com você e muito menos comigo. - ele afirmou. Peguei o meu celular de dentro da bolsa. – O que vai fazer?
– Olhe bem para esta imagem - o mostrei uma foto de sorrindo de lado, como ele costumava fazer quando estava aborrecido e eu tentava animá-lo – Vai me dizer que não há semelhança entre você e ela?
– É coisa da sua cabeça.
– Então, assista - pus o celular em sua mão e ele observou, a contragosto. No vídeo, estava tentando se esconder da câmera e virou de costas, mostrando sua manchinha. – Olhe bem para a nuca dela.
– E-essa manchinha... É idêntica a da minha bisavó, como uma folha de uva. - ele disse incrédulo – Não pode ser!
– Assuma a paternidade de , estou te pedindo.
– Que diferença isso vai fazer agora, ? - ele me encarou – Depois de tanto tempo, o que você quer de mim? - segurou em meus braços.
– Que você seja o pai que nunca foi.
– A CULPA NÃO É MINHA! - ele se levantou nervoso, passando as mãos pelo cabelo – E-EU...
- me aproximei dele, segurando em sua mão – Acalme-se. - o puxei de leve e ele me seguiu, sentando-se novamente.
– Não consigo acreditar que isso esteja acontecendo comigo! - ele abaixou a cabeça, chorando – Por que você não procurou os meus pais, eles certamente teriam me contado.
– Sua mãe nunca gostou de mim, você sabe. - lembrei-me das vezes que aquela mulher me ofendeu – Acho que ela era capaz de me pedir para abortar.
– Não diga isso, - ele me olhou, irritado – Minha mãe jamais faria isso!
– Quando penso que tudo podia ter sido diferente... - suspirei, tentando segurar o choro – Eu sinto tanta culpa.
– Não se culpe por nada, as coisas simplesmente acontecem.
– Eu disse a que não há culpado nessa história, apenas aconteceu. - ele suspirou – Mas, agora penso que, as coisas acontecem por conta das nossas escolhas.
– Você tem razão. Se eu tivesse procurado por você antes, não estaríamos passando por isso agora. - confessou, e eu não consegui conter a minha vontade de chorar – Carly...
, não mencione o nome daquela mulher, por favor. - pedi, irritada.
– Você está certa, eu fui um babaca e nem sei como me desculpar.
– Eu não quero que...
– Mas irei tentar! - olhei para baixo, não queria encará-lo, no momento – Me perdoe por ter sido um pai ausente para , me perdoe por ter sumido durante esses 16 anos e ter te deixado sozinha nos momentos em que você mais precisou, me perdoe por ter te causado tanta dor. - pus as mãos no rosto, estava muito emocionada – Eu te a...
– Não, eu não quero ouvir esta frase. Não de você. - enxuguei minhas lágrimas – Se quer o meu perdão, comece ir à casa dos meus pais para visitar .
...
– Comece a ser o pai que nunca foi a ela.
– E depois disso? - perguntou confuso.
– A sua consciência te dirá o que fazer. - ele assentiu, dando um meio sorriso – Pense nos sentimentos de , ela não é uma pessoa de se expressar muito, apesar de ser bastante emotiva, mas ficou me perguntando o porquê de você ainda não ter a visitado. Sei que no fundo ela quer conhecer melhor o pai.
quer me ver? - fiz que sim com a cabeça e ele suspirou – Você contou a ela que eu a rejeitei?
– Não, por isso estou aqui. - disse a verdade.
– Podemos fazer o exame de DNA? - a pergunta de me deixou um tanto ofendida – Desculpe-me, eu não quero...
– Se esta é a sua vontade, assim faremos. - peguei minha bolsa.
– Por favor, fique. - ele segurou em meu pulso, mas eu apenas mantive o olhar à minha frente – Eu jamais faria algo para te magoar!
– Você já fez.
– Eu sei, mas... Não foi por mal, . - tornei a me sentar – Tente compreender a minha situação, depois de 16 anos eu descubro que tenho uma filha, com você. Entre nós, só rolou uma vez, e foi no Baile de Formatura.
– Exatamente, - o olhei, percebendo seu espanto – Não te contei antes da sua viagem porque eu também não sabia, só descobri quando já estava com quatro meses de gestação.
– Me tire uma dúvida - confirmei com a cabeça – Se eu tivesse voltado para te visitar por mais vezes, depois que viajei, teria acompanhado a sua gravidez desde o começo?
– Pelo menos, desde quando eu descobri.
– Que merda eu fiz! - assenti, percebendo o arrependimento em seus olhos.
– A minha vontade é de te dizer: "bem feito!", por tudo que você me fez sentir. Uma mistura de raiva, com frustração, culpa e arrependimento. - ele me olhou, incrédulo – Mas eu não te desejo o mal.
– Você me perdoa? - fiz que sim com a cabeça.
– Eu já te perdoei, apesar de nunca ter compreendido a sua ausência.
– Eu espero que possamos continuar de onde paramos.
– Não espere por isso, . - franziu o cenho – Para mim, você será apenas o pai da .
– Você não quer voltar comigo? ele me olhou intensamente – Depois de tudo que dissemos um ao outro, você não quer ficar comigo?
– Você mudou demais, ! Eu nem te reconheço.
– Sim, eu amadureci ao longo dos anos - ele segurou em minha mão – Mas nunca deixei te amar.
– Chega - tentou continuar, mas eu pus a mão delicadamente sobre sua boca. – Eu não quero mais ouvir isso.
– Eu sei que você também me a...
, eu estou feliz por você ter aceitado a situação, mas isso não muda nada entre nós dois.
– Tudo bem. - ele soltou minha mão – Eu comprei uma casa aqui perto, acho que vai ser de fácil acesso para .
– Você pode visitá-la na casa dos meus pais quando quiser - sorriu de lado. Eu me levantei, pronta para ir embora.
- me virei para ele – Posso visitar , agora?
– Agora? - ele assentiu – Eu acho que...
– Por favor. - suspirei.
ainda está muito fragilizada física e psicologicamente - ele assentiu – Mas acredito que ela ficará feliz com sua visita.
– Posso te pedir mais uma coisa? - respirei fundo, consentindo. – Me dá um abraço?
Fiquei pensando por alguns segundos, mas não me custava dar um abraço nele, depois de toda essa conversa, senti que ficou muito sensibilizado. Aproximei-me dele e o abracei, sentindo o calor de seus braços em volta do meu corpo, descansei minha cabeça em seu peito. Acredito que, tanto eu quanto ele, estávamos aproveitando cada segundo desse abraço, até meu celular tocar.
– Desculpe, preciso atender - peguei o celular na bolsa – Pode ser minha mãe para falar da .
Filha, quer ir à casa da Lauren.
– Mãe, hoje não. Tenho uma surpresa para ela.
Ela vai ficar uma fera, mas tudo bem. - imaginei o quanto a mocinha iria reclamar. – Você já está vindo?
– Sim, até daqui a pouco. - ela finalizou a chamada – queria ir à casa da amiga.
– Ela vai me culpar por você não ter deixado?
– Provavelmente. - nós rimos – Me esqueci de ligar para o taxista.
– Não precisa, meu carro está aqui perto. - passou por mim, tirando a chave do bolso, fiquei o observando. Ele continua tão charmoso quanto em sua adolescência, ou talvez, até mais agora, com o passar dos anos. – O que houve?
– O quê? - franzi a testa, me fazendo de desentendida.
– Você continua parada no mesmo lugar. - eu ajeitei a minha sandália, como uma forma de disfarce e fui até ele, que abriu a porta para mim.
– Obrigada.

Não nos falamos durante todo o caminho, estava muito tenso, preferi deixá-lo pensar em como agiria.
– Nossa, a casa dos seus pais continua da mesma forma!
– Sim, nada mudou por aqui. - nos aproximamos da porta – Está nervoso?
– Demais! - soltei uma risada – Espero que goste de mim.
– Não se preocupe com isso. - adentramos a casa e minha mãe nos olhou, surpresa.
– Ai meu Deus! - ela apertou seu próprio rosto – !
– Mãe, se acalme. - dei passagem para , que estava desconfortável.
– Como vai, ? - ela perguntou por educação.
– Bem, obrigado. - ela assentiu – E a senhora?
– Agora, estou preocupada. Porém, mais tarde, eu espero não estar pior que isso.
– Mãe, por favor! - a lancei um olhar de reprovação – está no quarto?
– Sim, se preparem para a rebeldia.
– Vamos ao quarto, . - eu disse e ele me acompanhou, meio tímido.
– Estou realmente nervoso.
– Eu entendo, mas é normal, depois você vai se sentir mais confortável. - toquei a maçaneta – Preparado? - ele respirou fundo e me olhou, negando com a cabeça.
– Vamos fazer assim, eu entro primeiro e falo com ela, depois te chamo aqui.
– Tudo bem. - adentrei o quarto.
– Filha - tirei minha jaqueta e a pendurei, junto com a bolsa. – Como se sente hoje?
– Irritada. - tirei as minhas sandálias e me aproximei de – Você podia ter me deixado ir para a casa da Lauren, Jake também estaria lá.
– Você ainda não está podendo sair, ainda mais só com os seus amigos.
– Eu tenho 16 anos, sei me cuidar. - ela ergueu as sobrancelhas – Já tomei os meus remédios hoje, mas se eu sentisse qualquer coisa anormal, tia Renée me levaria ao hospital.
– Eu sei disso, mocinha - segurei em sua mão – Mas eu tenho uma surpresa para você.
– E não poderia me surpreender mais tarde ou em um outro dia?
, deixe o papel de rabugento para o seu avô! - dei uma leve tapa em sua perna e ela riu fraco – É especial, tenho certeza que você irá gostar.
– Me surpreenda. - ela deu de ombros.
Levantei-me rápido e segui até a porta.
– Pode vir. - suspirou e entrou, logo após.
. - ele a chamou e os seus olhos quase saltaram.

Emocionei-me ao presenciar a cena. Olhei para a minha filha e sua expressão que antes era de tédio, se transformou em espanto.

[Capítulo Onze]

Ela não obteve reação alguma, me olhou.

– Será que foi uma boa ideia? - ele perguntou num sussurro, e eu a olhei.
- ela desviou o olhar para mim – Está tudo bem?
– Sim, eu só... - engoli o seco – Não sei o que dizer.
– Não precisa dizer nada. - sorriu, fazendo sinal para aproximar-se dela. – Posso?
– Claro. - respirou fundo.
– Fico feliz que esteja melhor, depois daquele susto. - ele disse, sentando-se na cama – Olha, eu não sei como te contar...
– Que você é o meu pai? - arqueei as sobrancelhas – Minha mãe já fez isso por você.
... - ela me olhou.
– O quê? - eu sabia o que ela estava tentando fazer. – Só quero que ele saiba que, por mais essa vez, foi você quem fez algo por mim, no lugar dele. Logo, eu não preciso de um pai.
! - olhei para . – Ela não quis dizer isso, o maior desejo dela é ter um pai.
– Mãe, pare de tentar falar por mim. - desviei o meu olhar para ela. – Estou sendo sincera, não sei qual será a utilidade dele agora que já tenho os meus 16 anos. - ela o olhou – Ou ainda dá tempo de me ensinar algo? Porque a andar eu já aprendi, a falar também, a andar de bicicleta, foi moleza, a não ter um pai… Hum, isso eu aprendi desde cedo.
– Filha, por favor - estava constrangido e eu me sentia mal por ele – Pegue leve!
– A esconder os meus sentimentos, também aprendi bem . Inclusive, a raiva que estou sentindo agora, você provavelmente nem está notando. - ela tombou a cabeça, franzindo a testa – Ou está?
– Filha, não era isso que você queria? - aproximei-me dela. – Por que está agindo assim? -
– Porque eu realmente não sei qual será a serventia dele agora que já sou quase uma jovem adulta.
– Bem - se levantou. – Acho melhor eu ir para casa.
– Não. Fique, por favor. - ele me olhou chateado, tornando a sentar-se – Precisamos ter essa conversa. - assentiu.
– Tudo bem. - desviou seu olhar a – Como...
– Eu estou? - ela o interrompeu – Acamada, como você mesmo pode perceber. Mal posso me levantar e caminhar, sozinha, e a culpa é sua. - fechei os meus olhos, respirando fundo – Mais alguma dúvida?
– Por que está me culpando por isso? - parecia irritado.
– Estou nessa situação, graças a você. - ela riu, sem humor.
– Preferia ter morrido? - ele perguntou, deixando sem resposta. – Existem tantas pessoas em situações piores que a sua, que teriam o direito de reclamar por isso, mas elas apenas levantam as mãos para o céu e dão graças a Deus por estarem vivas. - olhei para ele – Então, pare com esse drama e rebeldia, e agradeça por não ter sido carbonizada até a morte.
– Bem, eu - ela desviou seu olhar para mim e eu fiz sinal para que continuasse – Não quero que pense que não sou grata por ter salvado a minha vida.
– Olha, eu não sabia que tinha uma filha, até o dia do incêndio.
– E depois que soube? - perguntou.
– Eu confesso que não quis acreditar em sua mãe e fui embora. - ele suspirou – Na verdade, eu fiquei na rua, sentado no meio-fio, pensando... Até que vi a fumaça e o fogo consumindo toda a casa.
– Por isso te encontrei com os bombeiros. - franzi o cenho e ele assentiu.
– Eu os chamei.
– Então, por que entrou na casa? - estava curiosa.
– Eu culpei pelo que estava acontecendo. - eu respondi cabisbaixa – Por isso, ele se arriscou.
– Confesso que me senti realmente culpado, mas também tive outro motivo para ter feito aquilo. - ergui a minha cabeça para o olhar, ele fez o mesmo – Sabia que você jamais mentiria para mim, , então eu não podia perder a minha filha sem nem ter tido a oportunidade de conhecê-la melhor. Precisava salvá-la, mesmo que isso custasse a minha própria vida. - senti algumas lágrimas escorrerem pelo meu rosto, involuntariamente.
– Então, por que você...
– Sou um covarde, . Sempre fui. - suspirou – A começar pelo meu erro de te deixar por uma garota que eu mal conhecia, na época.
– Você estava grávida quando isso aconteceu? - assenti à pergunta de , ainda olhando para .
– Sim, mas nós não sabíamos. - eu disse a verdade – Só tomei conhecimento da gravidez quando já não tinha mais contato com .
– Mas, a verdade é que, se eu tivesse voltado para encontrar sua mãe, não estaríamos tendo esta conversa. - ele assumiu a culpa.
– Essa história toda é muito complicada de se explicar e de se entender também - passei a mão pelo cabelo de – Mas, conforme você for amadurecendo, compreenderá.
– Mãe, eu já sou bem madura, consigo entender a situação de vocês... Mais ou menos. - eu ri fraco, beijando sua bochecha. Ela olhou para – Acredita mesmo que sou sua filha?
– Se ainda me restasse dúvida, a manchinha que você tem na nuca, que mais parece uma folha de uva, me daria a certeza.
estava meio confusa, mas eu conheço minha filha o suficiente para saber que ela estava liberando o perdão ao pai, afinal, ele não teve culpa do que aconteceu. E não dá para mudar o passado, agora é encarar as mudanças que estão por vir.
- a chamou – Quero que você saiba que pode contar comigo de agora em diante, eu irei protegê-la, sempre.
– Não se preocupe com isso, - me levantei e os dois me olharam – Eu sempre protegi minha filha, e isso nunca irá mudar.
– Sim, eu sei. Mas agora ela tem um pai presente, e eu também zelarei por sua vida. - ele disse um tanto firme, me fazendo o encarar.
– Mãe - chamou minha atenção – Por que está agindo assim?
– Como assim? Eu estou agindo normalmente. - cocei a cabeça e respirei fundo.
– Mãe, eu só quero conhecê-lo melhor. - encarei os seus olhos, que estavam marejados.
– Eu te entendo. - caminhei em sua direção e a apertei num abraço.
– Será que eu também posso receber um abraço apertado assim? - pediu, apontou para nós.
– Ah... - ela me olhou como se esperasse por uma aprovação e eu assenti, encorajando-a – Sim.

Eu nem lembro quando foi a última vez que imaginei conhecendo , mas imaginação nenhuma se compara a real sensação e emoção que senti ao presenciar este momento. A cena dos dois abraçados, demonstrando o princípio de afeto, não sairia da minha memória jamais.

– Não me aperte tanto. - a soltou do abraço – Tô ficando sem fôlego. - ela riu fraco.
– Respire fundo. - ela assentiu, me obedecendo.

Fiquei a observando, aflita e parou ao meu lado. Parecia nervoso.

, não é melhor levá-la ao hospital?
– São apenas alguns dos sintomas que ela sente quando está ansiosa. - disse sem certeza – Melhorou? - me olhou, dando de ombros.
– Desta vez, eu não sei dizer. Sinto-me fraca e não consigo respirar bem. - ela dizia, estava ofegante. Respirei fundo, tentando manter a calma.
– Tome - liguei o nebulizador e o entreguei a ela – Faça a nebulização. Se você não melhorar, te levaremos ao hospital.
– Acha que a nossa conversa pode ter a deixado assim? - me perguntou num sussurro, e eu assenti. Ele se surpreendeu. – Acho melhor eu ir embora.
– Embora para onde? - seu tom de voz deu uma leve alterada. estava preocupada.
– Filha, não é bom para você ficar assim tão agitada, se acalme. - ela continuou olhando para , esperando por sua resposta.
– Eu comprei uma casa aqui em Trainsturn, fica bem perto.
– Bem, eu pensei que você... - ela riu de nervoso – Deixa para lá.
– Eu já entendi. - me olhou e eu ergui as sobrancelhas. – Não quero que pense que me afastarei de você, , isso não irá acontecer novamente!
– É bom saber disso. - ela disse, sem graça.
– Também acho. - cruzei os braços. me olhou torto, parecia irritada.
– Mãe, será que você pode nos dar licença? - fiquei boquiaberta com o seu pedido. Sério que eu ouvi isso?
– Como é?
– Só por um instante.
– Tudo bem. - olhei para , se eu pudesse, o fuzilava com os olhos neste exato momento – Vou deixá-los a sós.

Saí do quarto ainda incrédula pelo pedido de .
Não queria parecer egoísta, estava feliz por minha filha, mas senti uma súbita tristeza dentro de mim. Como se eu fosse perdê-la... Mas para .
Pus a mão na boca e desatei a chorar, enquanto caminhava devagar até a sala. Não queria que ouvissem meu o choro, mas fui descoberta por minha mãe.

– Filha? - ela me observava.
– Estou perdendo a minha bonequinha de porcelana. - sentei-me no sofá, chorando como costumava fazer, quando menor.
– Você sabe que não é bem assim.
– Ela pediu para ficar a sós com . - suspirei – Talvez eu estivesse sendo invasiva, ou inconveniente. Eu não sei dizer. - minha mãe continuou me observando – Só achei que poderia participar disso, afinal, a história envolve a mim também.
precisa desse tempo com , é normal. Você só não pode impedi-los.
– É normal? Ela é mais minha do que dele. - minha mãe soltou uma risada ao me ouvir – Eu falo sério, mãe.
– Sinto em lhe dizer, mas está sendo imatura e egoísta. - olhei para ela, que se sentou ao meu lado – Minha filha, se coloque no lugar de , ela acabou de descobrir que tem um pai. Você sabe o quanto ela desejava tê-lo, mesmo sem saber quem ele era. Essa menina raramente tocava no assunto, mas sempre deixou claro o seu desejo de conhecer o pai.
– Sim, eu sei. - eu disse chorosa. – Mãe, eu não estava preparada.
– Minha filha, nós nunca estamos preparados para os acontecimentos da vida. - fiz uma linha com a boca – Você achou que estava, mas, agora sente o verdadeiro impacto da realidade.
– Sim - suspirei frustrada – Às vezes, penso que me conheço bem, mas você sempre...
– Filha, eu te conheço há 33 anos. - ela sorriu – E, além disso, tenho muito mais experiência que você nessa vida. Sei exatamente sobre o que estou falando.
– Então, sabe também que eu não quero alimentar nenhum tipo de sentimento ruim em relação a tudo isso,não sabe?
– Sim, e eu entendo que você esteja se sentindo jogada para escanteio - assenti – Mas, este é o momento de os dois descobrirem os defeitos e qualidades um do outro, no que eles se parecem, do que gostam, do que não gostam... De agora em diante, eles irão se descobrir, juntos. E, você não pode ficar no meio disso sendo implicante, só atrasará ainda mais o processo e irá irritar a sua filha.
– E quanto a mim? - minha mãe riu, novamente. – Não tem graça, mãe!
– Tem sim. Sua carinha de choro fez-me lembrar de quando você era pequenina - ela suspirou – De quando você se irritava, quando suas primas pegavam sua boneca favorita e diziam que levariam para casa.
– Mãe, por que está se lembrando disso?
– Porque você fazia essa mesma expressão e dizia: "Mamãe, Nana e Rosé pegaram a minha boneca para levar à casa delas, e quanto a mim? Irei ficar sem boneca?" - minha mãe ria – Então eu disse: "Filha, você tem outras bonecas tão lindas quanto a que elas querem levar", mas você irredutível respondeu: "Mas eu não deixei elas levarem". - ela fixou seu olhar no meu – Eu olhei dentro de seus olhos e disse: "Filha, hoje mesmo você ganhou uma bonequinha de porcelana da Dona Clotilde, mas, há quanto tempo as suas primas não ganham uma boneca nova? Não seja egoísta!".
– E então? - queria continuar ouvindo.
– Você ficou pensativa, pois sabia que as suas primas tinham uma condição financeira bem menor que a nossa, e depois me respondeu: "Eu tenho tantas bonecas e nem brinco com todas... Acho que não terá problema se elas levarem aquela, mesmo que seja a minha favorita." - respirei fundo. – Você esteve com durante todos esses anos, mas ela e não tiveram um ao outro. Ele não teve condição circunstancial de estar com ela.

Por mais difícil que estivesse sendo ouvir minha mãe me dizer todas aquelas palavras, eu me vi obrigada a concordar, pois eram a verdade. E quanto a isso eu nada posso fazer, além de aceitar. Seria mais fácil aceitar.

– Mesmo que seja sua bonequinha de porcelana favorita - eu ri ao ouvi-la – Deixe que ela e o pai aproveitem o momento. Quanto tempo há que essa menina espera por este dia?
– A vida toda.
– Então, mais uma vez, eu te digo: não seja egoísta! - assenti, compreendendo a história. – Me dê um abraço.
– Obrigada, mãe. - a apertei – Eu não sei o que seria da minha vida sem você.
– Uma hora eu não vou mais estar entre vocês. - ela me soltou e ficou me olhando.
– Eu não quero nem pensar nisso - minha mãe riu – Você ainda tem muito o que viver com a gente.
– Tem razão. - ela disse animada, se levantando – Por isso, irei com o seu pai no aniversário da Dona Clotilde, será como um Bailinho da 3º Idade.
– E como ela está? - perguntei curiosa. Dona Clotilde já tinha uma idade meio avançada quando ainda éramos vizinhas, antes de nos mudarmos.
– Com disposição para dar e vender. - minha mãe disse, enquanto ia até a cozinha. Eu ri fraco. Dona Clotilde sempre foi uma mulher muito agitada e não se deixava abater por qualquer situação, todos na antiga vizinhança sabiam disso. – Aquela mulher é uma inspiração para todos nós.
– Há anos que eu não a vejo - eu disse me lembrando da última vez que a visitei. – Uma pena Dona Clotilde não poder ter vindo à festa de .
– Ela estava recém-operada, e mesmo assim quis vir. - minha mãe voltou da cozinha, despejando um pouco de água em suas plantinhas. – Mas, eu disse para ela se recuperar melhor e depois nós iremos marcar outro dia para nos vermos.
– Fez bem. - minha mãe assentiu, trocando a água de suas flores.
– Imagino que você não queira ir à festa dela. - ela me olhou, de sobrancelhas erguidas.
não está se sentindo muito bem hoje - respirei fundo. – E eu não estou no clima de festa.
– Entendo. - sorri de lado – Bem, irei aprontar o almoço, quer me ajudar?
– Claro - levantei-me.
irá almoçar conosco? - quando eu ia responder, ele apareceu à minha frente.
– Não, eu já estou de saída. - sorriu, me encarando – Mas, agradeço a preocupação.
– Quero que saiba que você pode voltar aqui para visitar minha neta quando quiser. Imagino que vocês tenham muito que aproveitar da companhia um do outro! - minha mãe disse, segurando as mãos de e ele enlargueceu o sorriso, ainda me olhando.
– Isso é tudo que eu mais quero! - minha mãe o abraçou. Respirei fundo, olhando para o chão, até chamar minha atenção e eu levantar o meu olhar – Podemos conversar um pouco, a sós?
– Ah, eu já estou de saída para a cozinha - minha mãe sabia que eu iria recusar. – Não precisa se preocupar em me ajudar, .
– Tem certeza? - a lancei um olhar significativo, mas a mesma fingiu que não foi com ela.
– Sim, você sabe que eu dou conta, sozinha. - me deu uma piscadela e saiu da sala.
– Só quero deixar claro que...
– Não precisa se preocupar, - o olhei – Não farei nada para atrapalhar a sua aproximação da . - ele assentiu.
– Bem, eu tenho que ir.
– Te acompanho até a porta.

Ele foi à minha frente, e antes de sair, me olhou novamente.

– Ela é tão linda quanto você! - disse abobalhado e eu segurei a risada.
– Mas quando fica com raiva...
– Parece com o seu pai. - eu fiz que sim com a cabeça, ainda rindo. – Eu percebi.
– Você ainda perceberá muitas coisas vindas dela.
– Eu mal posso esperar por isso! - estava realmente empolgado e, de certa forma, sua alegria estava me contagiando. – Bem, agora está dormindo.
– São os remédios, o efeito deles a deixa meio sonolenta. - ele assentiu – Foi bom ter ver, .
– Melhor ainda foi ver você e minha filha - ele franziu a testa e me olhou, sorrindo – É meio engraçado dizer: "minha filha".
– Mais engraçado ainda é descobrir, de repente, que tem uma, não é mesmo? - ele riu.
– Eu diria que é emocionante. Demais até. - eu sorri – Só queria dividir a felicidade que eu estou sentindo com alguém.
– Você pode contar para...
– Não diga o nome dela. - engoli o seco – Quero dividir este momento apenas com pessoas importantes para mim, como você.
– Está querendo demais! - eu disse rapidamente.
– Eu sei. - ele ficou cabisbaixo – Tudo bem.
estava na cidade, sozinho, os seus pais moram distante, os únicos amigos que ele tem aqui em Trainsturn são Nick e Travis. Eu sabia o que ele estava sentindo porque me senti da mesma forma quando tive , a diferença era que eu tive todas as pessoas que eu amo ao meu redor. Todas, menos ele.
– Se quiser conversar ou desabafar, pode contar comigo. - aproximei dele-me, segurando em sua mão.
– No momento, eu me contento com um abraço seu, que para mim, significa muito. - ele disse sincero e eu o apertei num abraço. Como eu senti falta disso! – Ainda não sei como consegui passar tanto tempo longe de você.
– Não vamos falar sobre isso agora, não é mesmo?! - me afastei para olhá-lo – Nosso foco é , certo?
– Sim - ele assentiu, sorrindo fraco – Eu já vou, me ligue para dizer se ela melhorou, ok?

Fiquei pensativa durante um tempo, agora nossa vida seria assim, por mais que eu não quisesse tanta aproximação com , teria que fazer isso, por . Como pai e mãe, temos o dever de nos manter informados.

– Claro. - sorri e ele foi. Adentrei a casa.
– Vai ter que se acostumar! - minha mãe disse, passando pelo corredor e adentrando a cozinha. Eu a segui.
– Eu sei. - estava prestes a mexer na panela, quando levei uma tapa na mão – Eu só quis ajudar.
– Eu já disse que dou conta, sozinha. - ri fraco, enquanto saía da cozinha.
Estava passando pelo corredor quando vi que meu pai havia chegado.
– Hoje a sobremesa é por minha conta. - ele disse animado, levantando a sacola que estava segurando.
– Quer aju...
– Não. Já basta a sua mãe se intrometendo na minha cozinha. - eu ri com o mau-humor dele.
– Vocês dois hoje, hein. - ele deu de ombros e eu revirei os olhos – Vou ficar com a minha filha.

Fui para o quarto e ainda estava cochilando, aproveitei o momento para tomar um banho e colocar uma roupa mais casual.
Quando retornei, já estava acordada e mexendo em meu celular.

– Eu ia te pedir, mas achei que você fosse demorar no banho, como sempre. - ergui as sobrancelhas – Relaxa, eu só estou contando a novidade para Lauren e Jake. Se eles tivessem ficado mais um pouco, veriam tudo.
– Eles estavam aqui? - ela fez uma careta e esbugalhou os olhos – Tudo bem, eu já tinha desconfiado, porém, não acho certo que eles tenham faltado aula para vim te visitar. Eu cheguei a pedir que voltassem para o colégio.
– Você falou com eles?
– Sim, eles queriam te ver e ajudar com as matérias da escola. - ela parecia surpresa – Mas, não me falaram que viriam.
– Normal. - ela deu de ombros – Mas, mudando de assunto, não está brava comigo? - franzi a testa. – Mãe, não disfarce, eu sei que você sabe do que estou falando!
– Claro que não. - parecia confusa – Eu só não estava preparada para esse acontecimento. - a olhei – Sempre achei que estivesse, mas nunca estive.
– Eu acho mesmo que ele quer ser um pai para mim. - ela disse, sem disfarçar o sorriso largo que abriu. – Agora entendo que ele não teve culpa.
– Fico feliz que você esteja feliz, porque a minha felicidade é ver a sua felicidade. - ela riu – Parece redundante, mas é a verdade.
– Eu sei. - ela confessou – Mas é que você estava sendo meio dramática.
– Drama é o meu segundo nome, meu amor - ela riu – Como eu disse, eu não estava preparada para isso e ver com você me fez ter medo de te perder, porque você aceitou tudo muito rápido, você o perdoou mesmo. E como te conheço bem, eu sei que você realmente quer se aproximar dele.
– Sim, é verdade. - ela segurou minha mão – Mas não vou te amar menos só porque agora eu terei que ser dividida entre você e meu pai.
– Eu te amo, minha bonequinha de porcelana - a abracei – Mais que tudo nessa vida.
– Me desculpe por estragar o momento dramático que a tanto gosta - minha mãe invadiu o quarto, nos interrompendo e fazendo rir de mim – Mas o almoço está pronto e à mesa.
– Finalmente! Eu estou com muita fome. - disse, se levantando, a ajudei.

Depois do almoço, passou a tarde assistindo séries e os meus pais, dormindo.

À noite se aproximou, rapidamente, e eu ainda estava organizando e atualizando as evoluções dos meus pacientes, em meu notebook. Por mais que eu pudesse tirar o dia de folga, não acho certo fugir das minhas responsabilidades, e, essas atualizações são necessárias. Toda semana eu avalio evolução ou involução de cada paciente, assim eu tenho noção se os métodos que aplico estão sendo eficazes; dependendo do paciente, e se realmente for o caso, isso tudo pode variar.

– Filha - minha mãe me chamou da porta – A pode ir comigo na festa da Dona Clotilde?
– Eu não sei é uma boa ideia, ela não estava muito bem hoje cedo.
– Mãe, deixa - apareceu atrás da avó – Eu sei, só terão velhos na festa.
– Mais respeito com a maior idade, menina! - minha mãe a repreendeu.
– Eu sei, só terão pessoas de idade avançada na festa - se corrigiu olhando para minha mãe, que assentiu – Mas, pelo menos, vou sair um pouco de casa. Eu não aguento mais ficar aqui, trancada.
– Acabo de ter uma ideia - minha mãe disse animada.
– Que perigo! - eu disse a fazendo me lançar um olhar de reprovação.
– Por que você não chama os seus amigos para ir conosco, ? - minha mãe sugeriu, fazendo a neta abrir um sorriso enorme.
– Não é má ideia. - peguei meu celular. – Vou ligar para os pais deles e pedir, enquanto isso, você vai tomando banho. - apontei para e ela assentiu.

Fiz a ligação e falei com a mãe de Jake e Lauren, que permitiram no mesmo instante. Nossos filhos são amigos desde quando começaram na escolinha, por isso a maior parte do tempo deles é juntos, mas ainda assim, é sempre bom ter o consentimento dos pais.

Meus pais e estavam esperando por Lauren e Jake, que atrasaram um pouco, devido ao convite inesperado, porém assim que chegaram aqui, já seguiram viagem para a festa.
Não esperei por eles, estava cansada demais para isso. Aproveitei o silêncio e tranquilidade para dormir, eu precisava disso.


[Capítulo Doze]

Algumas semanas depois, e já começaram a ter certa intimidade, o que me deixava alegre. Já não sentia mais ciúmes ou algo parecido, só mantinha a minha mente ocupada com outro assunto: trabalho e mais trabalho.

– Mãe?
– Oi, filha - entrei no corredor de massas – Eu estou no mercado, quer algo daqui?
– Chamei o meu pai para jantar com a gente hoje, tem problema? - respirei fundo – Estaremos sozinhas na casa, de qualquer forma.
, por que você só me pergunta as coisas depois que já fez?
– Porque eu já sei que sua resposta sempre será "não", mas, se você souber depois, não tem volta. - bufei, enquanto andava com o carrinho até o corredor de guloseimas.
– Olha, eu nem vou...
– Não se esqueça das minhas balas e sorvete! - finalizou a chamada. Eu já devia estar acostumada.

Não demorei muito. Comprei tudo que seria necessário para o jantar e sobremesa, além de outras coisas que eu já ia comprar. Passei rápido pelo caixa.
Saí do mercado, Carlitos estava a minha espera.

? - a chamei, colocando as sacolas em cima da mesa.
– Ah, você chegou rápido. - ela cruzou os braços, se encostando entre a parede – Trouxe o sorvete?
– Nossa, quantas perguntas, filha! Sim, eu estou bem, hoje o trabalho foi tranquilo, o meu dia foi ótimo, estou até mais disposta a fazer esse jantar surpresa. - eu disse, a fazendo rolar os olhos. Retirei os alimentos das sacolas. – E o seu dia, como foi?
– Não tão legal como o seu, mas, pelo menos, meu pai estará aqui para alegrar a minha noite. - ela já ia saindo da cozinha, mas parou e me olhou – Por falar nisso, ele chega daqui a pouco.
– Como assim? Eu nem comecei a preparar nada. - a olhei, séria.
– Eu sei, mas eu fico fazendo companhia a ele até você terminar tudo.
– Suma da minha frente! - a ordenei, irritada e ela saiu da cozinha rindo. Tem horas que essa menina passa do limite!

Deixei tudo que eu precisaria em cima da mesa..

, venha aqui. - lavei as minhas mãos, enquanto ela se aproximava devagar. – Vai adiantando as coisas aqui para mim, enquanto eu tomo um banho.
– Você sabe o que aconteceu da última vez que eu cozinhei, a casa foi incendiada.
– Sim, eu sei - enxuguei minhas mãos – Mas, não é porque aconteceu uma vez que vá acontecer, novamente.
– Mas, e se acontecer de novo? - a olhei, preocupada. Não preocupada com o que poderia acontecer, mas com ela, que parecia um tanto nervosa. – E se acontecer e for da mesma forma?
– Filha - me aproximei dela – Nós sempre estamos sujeitos a tudo nessa vida, mas não podemos viver pensando nisso, só nos causa mais medo e insegurança, e, às vezes, até nos prejudica. - suspirei.
– Parece impossível.
– Aparentemente, sempre é. Mas só, aparentemente, mesmo. - ela abaixou o olhar – Eu também fiquei abalada, foi um susto muito grande para mim, mas há coisas na vida que não podemos deixar de fazer. Qualquer casa está sujeita ao que aconteceu com a nossa, por qualquer motivo, até os mais bobos. - respirei fundo – Pense um pouco, eu vou tomar banho daqui a pouco, e por um descuido, eu posso acabar deixando o chuveiro ligado por muito tempo, enfraquecendo a resistência e causando um curto-circuito, que pode resultar em um incêndio.
– Mas, não é você que diz que as pessoas têm reações diferentes?
– Sim, eu digo isso porque é a verdade.
– Então a minha é diferente da sua, não fique me amedrontando.
– Não quero te amedrontar. - ela assentiu. – O que eu quis dizer é que eu não posso...
– Deixar de tomar banho por conta disso, blá blá blá... - a olhei, séria.
– Eu entendo que você passou por um grande trauma, seu comportamento é compreensível - pousei minhas mãos em seu rosto – Filha, esquecer você não vai, a menos que tenha amnésia, mas, você pode superar esse trauma e viver melhor daqui para frente, sim - ela arqueou as sobrancelhas – Mas, claro, vai levar um tempo.
– Ok. - a abracei forte.
– Desculpe se pareço insensível ou meio áspera, mas não faço por mal. Eu te amo demais e só quero o seu bem. - beijei sua bochecha e me afastei, ouvindo a campainha. – Só pode ser o seu pai.
– Então eu atendo. - ela tentou caminhou mais rápido para atender a porta.

Suspirei forte, a noite seria longa...

– Oi, - me cumprimentou e eu notei que ele estava sem barba. Ele parecia desanimado.
– Ficou muito bem também sem a barba - ele sorriu tímido.
– É, foi o que eu disse a ele.
– Sabia que tinha dedo seu! - ela riu fraco.
– Eu só disse ao meu pai que ele ficaria com uma aparência mais jovem - ela deu de ombros – E deu certo.
– Sinceramente, eu também gostei do resultado. - se pronunciou, passando as mãos pelo rosto – Você não?
– B-bem, eu achei que ficou ótimo. - pigarreei ao perceber que minha filha me olhava curiosa – , você pode ajudar a ir preparando algumas coisas por aqui enquanto eu tomo um banho rápido?
– Claro, nem precisa perguntar. - ele sorriu bobo.
– Então , encha aquela panela de água e a deixe no fogo alto - apontei para a panela. – Corte isto aqui desta forma - a mostrei como faz – Depois lave tudo e despeje na panela.
– E depois? - ela perguntou.
– Faça o mesmo com os outros. - ela assentiu.
, fique observando as panelas no fogão, ok? - ele deu uma piscadela e eu sorri, antes de sair da cozinha.
Já fui para o meu quarto, tirando minhas roupas. Pendurei jaqueta e bolsa, e coloquei a sandália num canto qualquer. Tomei um banho revigorante, porém rápido, eu confio em , mas como mãe, eu tenho minhas preocupações com . Ela não está muito bem hoje, mas essa visita do pai pode melhorar seu humor.
Vesti-me, sem demora e voltei à cozinha.
Eles estavam tão distraídos na conversa que nem perceberam quando eu adentrei a cozinha, fiquei os observando. tirou de seu bolso uma pequena barra de chocolate.
– Acha que levaríamos uma bronca da sua mãe se comermos antes do jantar? - mostrou o chocolate a .
– Não se comermos antes de perguntar a ela. - sorriu cúmplice. – Sério, dá muito certo fazer isso.
!
– Ela não precisa saber. - estava a ponto de ceder. – Por favor, pai.
Eu tive a certeza de que iria ceder. Chamá-lo de pai amolece o seu coração e sabe bem disso.
– Isso é golpe baixo - ele suspirou – Mas, tudo bem.
– Sério que eu não vou receber um pedacinho? - eu perguntei, os assustando.
– AH! - gritaram juntos.
– Que é isso, ?! - pôs a mão no peito.
– Não podia anunciar que estava entrando na cozinha? - vez da . Eu só conseguia rir. – Vou até sair daqui. - ela foi para a sala.
– Me desculpe, . - ele riu fraco. – Eu não pretendia esconder de você que...
– Sem problemas! - abanei a mão, me aproximando da panela. – sempre faz isso com o meu pai.
– Com você ela consegue? - o olhei, negando com a cabeça e rindo. – Então, eu que sou bobo mesmo. - disse decepcionado.
– É compreensível. - ele forçou um sorriso – , está tudo bem com você?
– Sim, eu já pedi transferência para a empresa filial aqui de Trainsturn, eu começo a executar minha função na próxima semana.
– Fico feliz por você, acredito que tenha sido uma decisão muito difícil. - ele assentiu – Mas, está amando ter você por perto.
– Essa era a minha intenção, ficar por perto. - mais uma vez forçou o sorriso.
- ele levantou o olhar para mim – É só isso?
– Na verdade, eu estou tendo dias meio conturbados, mas vai passar.
– Eu posso te ajudar em algo? - franzi o cenho.
– Ah, eu não sei. Prefiro não te incomodar com os meus assuntos. - ele respirou fundo – Não me entenda mal, é que eu só quero te poupar disso. - sorri para ele, assentindo.
, não precisa se explicar. Não mesmo. - sorri para ele e continuei cozinhando. – Mas, se precisar de algo, pode contar comigo.
– Eu agradeço, . - o olhei – Ouvindo você falar assim, até tenho vontade de contar, mas eu não quero estragar a nossa noite.
– É grave? - fiquei um tanto preocupada.
– Bem...
– Pai - nos interrompeu – Esse livro parece ser muito bom.
– Qual livro? - perguntei curiosa, mas ainda pensando no que diria.
– Enviada. - respondeu empolgada.
disse que gosta de ler, então resolvi comprar o livro - ele disse, a olhando – Espero que goste.
– Já tô gostando. - me virei para o fogão, estava tudo pronto – Terminou?
– Sim, vai preparando a mesa. - ela assentiu, e, por mais incrível que pareça, sem reclamar. – ...
, não se preocupe, ok?! - engoli o seco – Eu quero apenas esquecer os problemas, pelo menos por enquanto, e aproveitar o resto da noite ao lado de vocês.
– Tudo bem. - ele deu uma piscadela e fomos para a sala.

Tivemos um jantar tranquilo e divertido, já se sentia mais à vontade e estava amando isso. Era bom ter ele por perto, mesmo que apenas como o pai da minha filha.

– Mãe - a ouvi me chamar – Meu pai tá indo embora, não irá se despedir?
– Sim - levantei-me do sofá, preguiçosamente, e a olhei, estava ofegante e pálida – Você está bem?
– Sim, vamos. - ela me puxou pela mão até o portão, me largou e deu uma breve corridinha em direção a . Antes de chegar até ele, caiu desmaiada.
– Oh meu Deus! - pus as mãos na boca, de olhos arregalados. a pegou no colo.
, abra a porta do meu carro. - me deu a chave e assim o fiz. Ele a colocou deitada no banco de trás. Sentou-se no banco da frente, já ligando o veículo – Entre logo.

Ele dirigia, rapidamente, mas pareceu uma eternidade até chegarmos ao hospital.
pegou no colo e adentrou o local, desesperadamente.

– Por favor, a minha filha precisa ser atendida, é urgente! - ele disse à recepcionista.
– Senhor, hoje é o dia de folga do médico dela, mas...
Não esperamos por resposta, invadimos a sala de emergência.
– Vocês devem esperar como todos os outros. - um enfermeiro tentou nos barrar.
– Por favor, é urgente! - eu disse.
– Aqui todos os casos são urgentes, senhora.
– Tá brincando comigo? A minha filha está desmaiada. - o enfermeiro deu de ombros – segurou em um braço e com o outro puxou a gola da camisa do homem – Eu juro que se a minha filha morrer, eu me encarregarei, pessoalmente, de garantir que você seja o próximo!

Vimos um homem com aparência de médico, largou o enfermeiro, pegando em minha mão e correndo.

– Doutor, a minha filha...
– Eu já sei do caso dela. - ele disse a olhando – O meu nome é Dean, em que posso ajudar?
desmaiou, repentinamente. - eu disse aflita.
– Ela sentiu falta de ar ou algo do tipo?
– Ah, ela só correu e… Mas por que, doutor? - perguntou, preocupado – É grave?
– Com licença - o médico apalpou o pescoço de e parou o olhar em seu tórax. – Sua frequência cardíaca está caindo, assim como a frequência respiratória. - olhei para , que apenas mantinha sua expressão de preocupado. – ME AJUDEM A LEVÁ-LA PARA O BALÃO DE OXIGÊNIO, DEPRESSA! - o médico gritou e uma aglomeração de enfermeiros levou até a maca, correram para uma sala.
– Doutor, o que vai acontecer com a minha filha? - perguntei chorando e me abraçou.
– Ela não está respirando normalmente, por isso o desmaio. - me desesperei. – Não se preocupem, cuidaremos dela. - assentiu e o médico se afastou, com pressa.
– E agora? - me olhou triste, e beijou o topo da minha cabeça.
– Calma, vamos manter a esperança. - ele sussurrou.
– Preciso ligar para os meus pais, para as meninas e nem estou com meu celular.
– Acho que não seria uma boa ideia ligar para eles agora - o olhei confusa – Vamos esperar para ter mais notícias. - assenti.
? - olhei na direção da voz.
– Sam - ele se aproximou – Ainda bem que chegou, teve um desmaio.
– Já estou ciente do ocorrido, vim o mais rápido que pude.
– Muito obrigada. - ele sorriu fraco, me olhando.
– Será que você pode atender a minha filha? Ou vai continuar aqui secando a mãe dela com os olhos? - estava me envergonhando.
– Me desculpe por isso, Sam.
– Tudo bem, a verdade é que eu também estou aqui por você.

Não tive tempo de me surpreender com sua resposta, pois o socou no rosto. Pensei que Sam revidaria, mas ele apenas manteve a mão sobre o nariz.

– Oh, meu Deus! Desculpe por isso também. - pedi nervosa. – Você está bem? Quer que eu chame alguém? - perguntei, preocupada.
– Agradeço a preocupação, mas não será necessário. - seu nariz sangrava.
– Deixe-me dar uma olhada nisso - me aproximei, retirando sua mão do nariz. – Está com um pequeno corte.
, pare com esse drama. Ele é médico, sabe se cuidar. - estava nervoso demais, e por isso, me irritando.
– Acho melhor você ir embora.
– Vou ficar aqui até receber notícias da minha filha, afinal, estou aqui por ela. - ele cruzou os braços.
fez algum esforço? - Sam perguntou, preocupado.
– Ela só correu, mas já estava ofegante e pálida.
– Há quanto tempo que a levaram?
– Não tem muito tempo. - ele apertou os olhos. – Por quê?
– Preciso ir. - Sam correu, procurando a sala que haviam levado .

Sentei-me na poltrona, junto a . Estava irritada com ele, mas ainda preocupadíssima com .

– Não me faça ficar com mais raiva de você.
, se ele está interessado em você e gosta de demonstrar isso, ok. Você é linda, gentil, uma pessoa incrível, eu não o culpo. - o olhei surpresa – Mas, com a minha filha desfalecida numa maca, precisando de cuidados, eu acho desrespeito.
– Mas não precisava daquela reação.
– Desculpe. - ele me olhou nos olhos.
– Quer saber, tudo bem. Não quero discutir sobre isso, agora.
– Eu só não...
, esqueça isso! - suspirei.

Depois de um longo tempo, Dean e Sam voltaram, com expressões nada agradáveis.

– Como ela está? - perguntou, se levantando.
– Devido a inalação da fumaça, com uma pequena sequela. - olhei para , que abaixou a cabeça. – precisará de medicamentos para sustentar seu pulmão e usar aparelho respiratório sempre que necessário, por enquanto. Também não poderá realizar certas atividades que antes faria sem problemas, a menos que seja com a instrução de um profissional. - disse Dean.
– Ela precisará manter sua rotina com a fisioterapia normal, mas, principalmente, com fisioterapia respiratória. - Sam disse, olhando para mim – Também recomendo aulas de natação, irá melhorar o seu condicionamento físico e ao mesmo tempo, irá trabalhar a sua respiração. Os benefícios são ótimos.
– E quanto à escola? Ela poderá frequentar as aulas, normalmente? - perguntei.
– A princípio eu prefiro que ela comece com o tratamento adequado e depois de um tempo, retorne às aulas. A menos que ela ainda esteja com muita dificuldade na respiração. Mas, para esses casos, eu indicaria um aparelho respiratório portátil. - Sam dizia com tranquilidade – Caso ela retorne, avise a escola sobre sua atual situação e não permita que ela faça aulas de educação física, a menos que seja na piscina, sem muito esforço, e com um profissional a observando e orientando, constantemente.
– A minha filha não poderá mais ter uma vida normal? - levantou sua cabeça.
– Por enquanto, precisará de cuidados que a maioria das pessoas não necessita - Sam o respondeu – Com o tempo, o tratamento contínuo terá seus efeitos positivos e vocês notarão a diferença na rotina dela, então vai melhorar.
– E não dava para descobrir isso antes? - estava nervoso – Precisava desmaiar e quase morrer?
– Bem, ela ficou dois meses internada e não teve muitos problemas aqui, mesmo assim recomendamos medicamentos para ingerir em casa mesmo. Não nos foi informada nenhuma anormalidade. - respondeu Sam.
– Bem, sempre estava sentindo tonturas, fraquezas, respiração falha... Enfim, eu dizia para ela fazer nebulização, e melhorava.
– Por que não a trouxe ao hospital, em pelo menos, uma das vezes que ela sentiu esses sintomas? - perguntou, meio alterado.
– Porque sei que tem problemas psicológicos e quando as crises são muito fortes, ela fica assim. - olhei para os médicos – Sei que esses são alguns dos sintomas, eu lido com isso, diariamente.
– Você devia ter sido mais prudente. Não podia ter vindo ao hospital para ter certeza que ela estava bem? Porque não estamos falando dos seus pacientes, estamos falando da sua filha. - me olhou, franzindo a testa – Que tipo de mãe é você?
– O tipo de mãe que não precisa do pai da filha para lhe dizer o que fazer. - Sam disse com um tom um tanto elevado. – Ela simplesmente vai e faz.
– Samuel, não entre nesta situação, o assunto é pessoal, de família. - Dean o aconselhou.
– Ouça ao seu amigo, doutorzinho. - disse de sobrancelhas erguidas.
– Quem está sendo desrespeitoso agora, ? - o olhei firme.
– Aonde você vai? - perguntou, elevando seu tom de voz.
– Apenas se preocupe em ficar com , porque o que eu faço da minha vida já não lhe diz respeito.

Saí do hospital a passos firmes, não aguentava mais toda essa confusão na minha mente.
Todas essas emoções que eu precisava controlar, mas que já não aguentava mais ter que controlar! Precisava espairecer antes que eu enlouquecesse.

– Oh, ! - ouvi alguém me chamar e parei de andar – Você está muito nervosa, tente relaxar.
– Todos os dias, o mesmo estresse de sempre, isso está acabando comigo! - me virei para a pessoa, era Samuel. – O que está fazendo aqui?
já está sendo cuidada, melhorou bastante e, sim, está consciente. - respirei aliviada – Ainda estou de folga, mas Dean cuidará dela.
– Agradeço por ter vindo, mas é melhor você aproveitar o resto da sua noite. - disse sincera – Se já é estressante para mim, imagine para você, se poupe disso por pelo menos hoje.
– Eu gosto de estar perto de você. - ele fixou os olhos nos meus.
Ainda me sentia um tanto envergonhada todas as vezes que percebia algum tipo de intenção a mais da parte de Sam, mas confesso que gostava, apesar de estar sempre pensando muito em e não dar espaço para mais ninguém, além dela, na minha vida.
– Se quiser fico aqui com você - ele disse.
– Ah, eu agradeço, mas não quero ficar por perto. - suspirei – Sei que minha filha precisa de cuidados, mas, no momento, eu não posso fazer muito por ela, e se eu continuar estressada assim, só a irei prejudicar, mesmo que sem intenção.
– Eu entendo, mas insisto em dividir o meu fim de noite contigo. - estava surpresa com sua insistência, não que fosse ruim. – Como já disse, eu gosto de estar perto de você.
– É muita gentileza de sua parte, Sam. - disse sincera e sorri fraco.
– Seu sorriso me encanta - ele disse, de repente e olhou para os meus lábios. – Oh, me desculpe por isso.
– Tudo bem.
– Então, não quero parecer atrevido, mas nós podemos sair agora, se você quiser. - ele sugeriu. – Apenas como amigos, claro.
– Ok - passei as mãos pelo cabelo – Mas, para onde vamos?
– Se me permite, farei uma surpresa.

Estava curiosa durante todo o trajeto até o local da surpresa. Tentei descobrir para onde Sam me levaria, porém, ele só dizia: ,i>"não se preocupe, você irá gostar".
Depois de uns 15 minutos, chegamos.

– Não acredito! Você me trouxe para a sua casa? - perguntei incrédula.
– Ah, não gostou da surpresa? - percebi sua decepção.
– Não é isso... Mas, nós nem...
– Fique tranquila, não é o que está pensando. - forcei um sorriso, sem graça.
– Não tinha outro lugar para irmos?
– Tinha, mas achei que você ficaria mais à vontade num lugar aconchegante. - assenti ainda intrigada – Quer comer algo?
– Não se incomode comigo, eu estou sem fome.
– Nada disso - o olhei – Vamos pedir algo para comer ou nós vamos cozinhar? - ele perguntou, enquanto retirava seu jaleco.
– Com licença. - pedi e me sentei no sofá – Por que não pedimos apenas um lanche, já que faz tanta questão que eu coma?
– Pizza?
– Prefiro hambúrguer.
– Por mim, tudo bem. - ele deu de ombros.

Eu estava me sentindo um pouco receosa, não tinha intimidade com Samuel, sempre conversávamos sobre e sobre como ela estava, mas nada além disso. Confesso que criei uma defesa dentro de mim, principalmente contra homens e me aproximar tanto de um, depois desses 16 anos, era quase impossível.
Depois que foi viajar, eu me fechei de tal forma que não me envolvi com mais ninguém. E a dúvida que eu sentia dentro de mim era se eu poderia dar uma chance a Sam, ou se estava sendo imprudente e egoísta, já que eu tenho em minha vida e precisava pensar nela antes de tudo.
Enquanto Sam fazia os pedidos, com sua permissão, andei um pouco pela casa, e me deparei com um quarto bem exótico, no 2º andar. Adentrei o local e vi algumas fotos num mural verde escuro.

Havia fotos de Sam com um menino de cabelos negros e pele bronzeada, outras apenas do menino andando de skate, porém uma foto em especial me chamou atenção. Sam estava ao lado do menino, que se encontrava num lugar parecido com um quarto de hospital. O menino estava de bandana azul e sem o dente frontal, mas sorria para Sam, que fazia uma careta divertida. Distraí-me tanto observando a foto, que nem percebi quando Sam adentrou o quarto.

– Esse é Logan, meu filho. - dei um pulinho devido ao susto, o fazendo rir.
– Acho que você já mencionou que tinha um filho. - ele assentiu.
– Sim, no dia do seu surto, no hospital. - me lembrei da vergonha que foi aquele dia, apenas suspirei.
– Ele não parece muito com você - desviei o assunto – Quero dizer, os olhos e sorriso sim, mas nada além.
– Geralmente, as pessoas dizem que ele é a minha cara. - riu fraco.
– Exagero. - ele se fez de ofendido, me fazendo rir.
– Mas, parecendo ou não, meu filho é lindo. - ele disse orgulhoso.
– Tão lindo quanto você, não dá para negar isso. - ele alargou o sorriso, então me dei conta do que havia dito.
– Não precisa se envergonhar por dizer a verdade. - revirei os olhos e ele riu forte.
– Vocês estavam em algum hospital? - apontei para a foto.
– Sim - ele fixou o olhar na imagem – Quando Logan fez 7 anos, eu e a minha mãe fizemos uma festinha para ele, em casa mesmo. Chamamos todos os seus coleguinhas de escola, e eu estava feliz por ver meu pequeno brincando e se divertindo. Até que ele subiu a escadinha que levava até sua casinha da árvore, e de repente, o vi cair. Ele começou a chorar e gritar muito forte. Corri, desesperadamente, em sua direção e o peguei no colo, quando olhei para sua perna, estava quebrada em dois lugares. Imediatamente, o levei para um hospital. Chegando lá o levaram para a sala de emergência, antes de fazerem a cirurgia, o médico me perguntou como ele havia se machucado e eu o expliquei. - assenti, atenta a história – Depois da cirurgia, o médico me chamou e disse que teria uma notícia nada boa, Logan estava com metástase óssea, mas estava no primeiro estágio da doença. - fiquei boquiaberta e sem reação – Ele perguntou se havia caso parecido na família, então lembrei que a mãe de Logan morreu de câncer com metástase na mama. Logan começaria uma sessão de radioterapia rapidamente, e essa foto foi tirada no dia em que o médico deu alta permanente para ele.
– Posso imaginar como você se sentiu.
– Quando olho para esta foto, lembro que a maior felicidade do meu filho foi saber que não precisaria mais passar por todo aquele sofrimento, novamente. Eu me emociono até hoje. - confessou, enxugando algumas lágrimas – Por isso eu me empenhei tanto na minha profissão. Eu queria que as pessoas sentissem a mesma sensação de alívio que eu senti, e sinto todos os dias. - ele me olhou – Entende por que eu me envolvi tanto no caso de , apesar de ser diferente?
– Entendo sim, e não vou me cansar de agradecer a você por cuidar tão bem da minha filha. - disse sincera – Imagino o quão difícil foi para você ter que ver seu filho sofrendo. Meu coração se aperta só de pensar.
– Sim, mas agora Logan já têm seus 17 anos, graças a Deus, é um garoto saudável. Mas eu não descuido, estou sempre pedindo minha mãe para levá-lo ao hospital, fazer novos exames é indispensável. - assenti – Os casos são totalmente diferentes, mas assim como Logan, também ficará bem, conforme for se tratando.
– Sim, obrigada pela força.
– Você não se cansa de me agradecer? - perguntou num tom de brincadeira.
– Não mesmo. - nós rimos.

Voltamos ao 1º andar, Sam estava no banheiro quando, de repente, a campainha tocou.

, atende para mim, por favor. Deve ser o entregador.

Abri a porta esperando pelo lanche, mas não parecia ser o entregador.

– Oi, meu pai tá aí? - um menino alto, de voz grossa, cabelo negro até os ombros e pele bronzeada, perguntou.
– Se está falando de Samuel, sim, ele está. - ele assentiu – Você é o Logan?
– Sim, sou eu. - sorriu simpático.
– Entre. - dei lugar para ele passar e fechei a porta – Seu pai tem razão, você é muito bonito, Logan.
– Ah, obrigado. - ele sorriu largamente.
– Vejo que já conheceu . - Sam adentrou a sala, abraçando o filho.
– Dessa vez você acertou em cheio pai, ela é linda. - Logan disse, deixando o pai envergonhado.
– Garoto, fique quieto. - ele sorriu sem graça, me olhando – O que te traz aqui hoje, filho?
– Eu estava com saudade. - Logan respondeu, e pude notar a expressão de Sam se transformar. Sentamo-nos no sofá.
– Filho, eu sei que não estou tendo muito tempo para ir te visitar na casa da minha mãe, mas é que tenho trabalhado muito. - Logan fez uma linha com a boca – Você me entende, não é mesmo?
– C-Claro. - Logan não foi convincente em sua resposta – Eu posso dormir aqui hoje?
– Você nem precisa perguntar! - Sam o apertou no abraço – Está emocionada, ?
– Ah, me desculpe - sequei a lágrima que escorreu – Eu me lembrei de e . Eles se conheceram há pouco tempo, você não sabia até hoje.
– Você tem filhos? - Logan perguntou curioso.
– Eu tenho uma filha, é o seu nome. é o pai dela.
– Eles não se conheciam? - neguei com a cabeça – Nossa, que esquisito!
– Menino, fica na sua. - Sam disse, me fazendo rir.
– O mais estranho agora é ver a forma como os dois se tratam. - suspirei – Parece que se conhecem desde o nascimento de .
– Como você se sentiu? - Sam perguntou, me olhando nos olhos.
– Parecia que eu estava perdendo a minha filha para ele, mas esse sentimento passou. - ele sorriu – Eu fico muito feliz em vê-los dessa forma.
– Não temos nada para comer? - Logan perguntou, esfregando a mão na barriga – Estou com fome.
– Pedimos hambúrgueres, mas até agora não chegou. - Sam pegou seu celular – De qualquer forma, tenho que pedir mais um para você.
– Não precisa. - eles me olharam – Eu estou sem fome, dê o meu para Logan.
– Ah, eu não posso aceitar. - Logan falou olhando para o pai.
– Eu já havia jantado antes de ir ao hospital.
– Você estava passando mal?
– Eu não, minha filha. - suspirei, pensando se estava bem com . É claro que estaria!
– Por quê? O que ela tem? - Logan perguntou curioso.
– Filho, não seja inconveniente. Vamos mudar de assunto. - Sam piscou para o menino e ele assentiu.
– Na verdade, eu preciso voltar ao hospital - olhei para Sam – Por mais que eu tente, não consigo parar de pensar em , quero vê-la.
– Tudo bem, eu te levo. - Sam se levantou e Logan já estava subindo a escada.
– De forma alguma, fique com seu filho. - eu disse.
– Não tem problema, estou acostumado a ficar longe do meu pai. - Sam fechou seus olhos, os abrindo em seguida e respirou fundo.
– Vou levar ao hospital - Logan parou na escada e assentiu – Não saia daqui enquanto eu não chegar.
– Tchau, Logan - ele acenou e sorriu – Você além de bonito é muito simpático.
– Obrigado, foi bom ter você aqui. - eu sorri e ele subiu.

Não demorou muito para chegarmos ao hospital, o trânsito estava tranquilo.
Sam estacionou o carro e ficamos um tempo em silêncio, senti que ele me olhava, mas eu não tinha coragem de encará-lo.

– Está com vergonha de mim? - ele perguntou, rindo fraco e o olhando, assenti – Por quê?
– Sou uma boba.
– Eu diria que você é encantadora. - sorri fraco.
– Agradeço pela sua companhia, e a de Logan também.
– Você não se cansa de me agradecer? - eu balancei a cabeça em negação, nós rimos.
– Seu filho é um garoto muito especial. - ele suspirou.
– Eu gostaria de dar mais atenção a ele, mas meu trabalho não permite.
– Também tenho passado pela mesma situação. - Sam se virou em minha direção – É difícil!
– Não vamos pensar nisso agora - assenti, sorrindo – Seu sorriso é tão lindo, que me deixa desnorteado, toda vez que o vejo.
– Que exagero! - Sam olhava fixamente para a minha boca, meu coração acelerou – Acho melhor eu ir ver .
– Tem razão. - soltei-me do cinto de segurança – Até... - ele olhou para seu relógio de pulso – Daqui a pouco.
– Até. - nós rimos – Dirija com cuidado! - ele assentiu e eu saí do carro.


[Capítulo Treze]

Adentrando o hospital, cumprimentei as recepcionistas e fui até o elevador. Vi alguns familiares de pacientes chorando pelo corredor, meu coração se apertou.

Cheguei ao quarto de , ela estava dormindo. Olhei para e o chamei para o lado de fora.

– Não quero brigar com você na frente , então quando ela acordar, por favor, não me provoque.
– Não era para você estar mais relaxada?
– Acontece que quando eu te olho, sinto o meu sangue ferver. - ele desfez o sorriso cínico – Por , não vamos discutir. Não na frente dela.
– Claro. - assenti – De qualquer forma, eu não tenho a intenção de discutir com você.
– Melhor assim. - olhei pela porta – Ela acordou. Já sabe!
Adentramos o quarto, observando nossa filha. Ela parecia meio confusa e grogue, estava usando um aparelho respiratório.
– Como está se sentindo, filha? - perguntei, enquanto a abraçava.
– Além de sonolenta, com raiva. Não acredito que estou aqui, de novo! - ela me olhou, começando um choro baixo.
– Oh, meu amor, não chore. - a apertei ainda mais – Você sabe que eu jamais te deixaria ficar aqui sem um motivo forte, mas é para o seu bem!
– Meu pai... - ela olhou para os lados e encontrou – Pelo menos desta vez, você está aqui comigo.
– Eu não te deixaria, de qualquer forma. - ele se aproximou dela, beijando o topo de sua cabeça – Você vai melhorar logo, apenas espere mais um pouco.
– Isso me cansa! - disse irritada, secando as lágrimas que não paravam de escorrer.
– Eu sei. - revirou os olhos.
– Não. Você não sabe. - arqueei as sobrancelhas – Quem fica deitada aqui o tempo todo, com o braço cheio de furinhos das agulhas, e tendo que usar esses aparelhos, é eu.
, eu vou relevar o que você está dizendo desta vez, mas...
– Ah, por favor! To cansada de você também! - a olhei firme – Já falei com meu pai que vou morar com ele.
– O quê? Enlouqueceu? Tomou o remédio errado? - tentou me acalmar – Fique longe de mim! Está fazendo a cabeça dela? Há quanto tempo estava tramando isso pelas minhas costas?
– Mãe, eu não sou mais criança, posso muito bem tomar decisões sobre a minha vida, já que sou quase uma jovem adulta.
– Disse bem, você é quase, mas ainda não chegou lá. E, por enquanto, você está sob a minha responsabilidade. - respirei fundo – Jamais permitirei isso!
– Eu sei disso e por isso não te pedi, falei diretamente com meu pai.
– Percebe a merda que está fazendo? - olhei de para , estava a ponto de socar os dois.
– Percebo que você deixou sua filha doente no hospital para se encontrar com o médico dela. - engoli o seco.
– Você fez isso? - começou de histeria. Fechei os olhos, respirando fundo mais uma vez – Que tipo de mãe você é? - perguntou, alterando a voz.
– Diminua o seu tom de voz para falar comigo, menina - a ordenei com firmeza – Sou o tipo de mãe trouxa que cria uma filha, sozinha, e faz tudo pensando nela, para receber em troca a ingratidão da mesma. - bufei – Mas a culpa é minha, eu te mimei demais.
– Você sempre escondeu de mim quem era o meu pai, então não comece com seu drama agora que quero ter convívio com ele. - já estava a ponto de explodir – Como você mesma disse, a culpa é sua!
– Não seja tão imatura, ! - ela arqueou uma sobrancelha – Não tem nem um mês que você conheceu o seu pai, quer mesmo ir morar com ele?
, as coisas simplesmente acontecem. É a vida.
, cale a sua boca antes que eu mesma faça isso por você! - ele engoliu suas palavras e eu voltei meu olhar para – E quanto a mim, menina? Sempre te dei amor e carinho, fiz tudo que estava ao meu alcance para te ver bem.
– A verdade é que, você nunca me deu tanta atenção. - cruzei meus braços, para não usá-los a golpeando – E agora menos ainda, já que tudo o que importa na sua vida é o seu emprego.
– Eu não te dou atenção? - ela negou com a cabeça – Então, por que estou aqui agora, ouvindo tanta besteira ao mesmo tempo, enquanto poderia estar em casa continuando o meu trabalho, que nunca acaba ou até mesmo relaxando? - ela se ajeitou na cama, olhando para o pai – Pense um pouco sobre isso e depois me dê sua resposta.

Saí do quarto me segurando para não gritar. veio atrás de mim.
... - me virei para ele.
– Qual é a sua, ?
– Como assim? - ele franziu a testa – Eu não fiz nada. - arqueei as sobrancelhas.
– Ah, você não sabe? Deixe-me refrescar a sua memória. - o mesmo continuou me olhando, confuso – "Já falei com meu pai que vou morar com ele", te lembra de algo?
, até mencionou isso em uma de nossas conversas, mas eu achei que ela estivesse brincando. - assenti, sem acreditar – Eu jamais permitiria isso, não porque eu não queira, mas porque não seria justo com você.
– Tá bom. Só saia da minha frente antes que eu despeje em você toda raiva que estou sentindo agora. - falei em meio ao choro e ele tentou se aproximar – Saia!
Sentei-me na poltrona fora do quarto e tentei me acomodar, ainda chorando. Estou tão cansada de tudo e todos.

Acordei com a claridade forte sensibilizando ainda mais as minhas vistas e, como um bônus, dor nas costas. Levantei-me devagar e olhei para o relógio, 06h23.
Lembrei que precisava ligar para os meus pais, mas estava sem telefone. Fui ao banheiro do quarto, lavei meu rosto, que por sinal estava meio inchado e dei um "jeitinho" no cabelo. Saí do banheiro, olhando para , parecia estar bem. ainda dormia, então apenas saí do quarto.

Fui até a recepção para tomar uma xícara de café, precisava me manter acordada durante o dia inteiro.
Quando voltei, já havia acordado e me chamou para conversar.
, eu quero mesmo me desculpar por ontem, não medi as palavras quando disse aquelas coisas na frente da . - virei o rosto, bufando – Eu também estava irritado, tente me entender.
– Você se irritou por ter me visto com Sam. - o olhei firme – Dá próxima vez, apenas confesse. Não use a sua filha para tentar me atingir, ou para camuflar a sua covardia.
– Você tem razão, me desculpe. - ele que mantinha seu olhar baixo, mas levantou o rosto e me encarou – Eu ainda gosto de você, , é difícil para mim te ver com outro homem. - revirei os olhos – Sei que você não acredita, mas é a verdade. É o que eu sinto.
– Por que estamos conversando sobre isso aqui no hospital mesmo?
– Porque fora daqui você sempre tenta fugir do assunto, como está tentando fazer agora. - engoli o seco. fixou seu olhar no meu e eu apenas suspirei, sentindo meu coração pulsar mais forte – Nós ainda podemos ser como éramos antes.
– Nada mais será como antes. - ele acariciou meu rosto, o segurando com leveza e aproximando-se – , por favor.
– Me desculpe por atrapalhar - eu vi Sam parado na porta do quarto. apenas se afastou, bufando – Só queria desejar um bom dia a você, .
– Obrigada, Sam. - ele sorriu – Te desejo o mesmo.
– Obrigado. - ele se aproximou de – Durante a madrugada ela teve uma pequena complicação, então eu prefiro que ela continue usando o aparelho.
– Durante a madrugada? - ele assentiu – Você ouviu algo?
– Não, eu estava em um sono pesado. respondeu incrédulo.
– Eu percebi. - Sam provocou, deixando ainda mais irritado – Bem, quando acordar, ela precisará ingerir este comprimido - colocou em cima da pequena mesinha – Mas não se preocupem, eu volto para vê-la tomando o medicamento.
– Agradecemos por sua atenção à . - ele sorriu, saindo do quarto.
me olhou sério.
– Você não tem noção do quanto esse médico me tira a paciência! - confessou, sentando-se – Ele atrapalhou, propositalmente.
– E foi bom.
– Claro, para você foi ótimo.
, aqui não é lugar para discutirmos sobre isso, você sabe. - ele assentiu – Não fique assim tão irritado.
– Coloque-se em meu lugar. - pediu, arqueando as sobrancelhas.
– Faça o mesmo, coloque-se em meu lugar. - desviamos nossa atenção à , que se espreguiçava. – Filha, está se sentindo bem?
– Bom dia? - ela ergueu uma sobrancelha, me provocando.
– Bom dia, mocinha. - se aproximou.
– O médico disse que você não estava bem pela madrugada. - ela me olhou.
– Eu não lembro de nada. - respondeu ainda sonolenta.
– Ele pediu para você tomar esse comprimido assim que acordasse - a entregou o medicamento.
– Não é melhor esperar por Sam?
– Já quer vê-lo? - olhei séria para .
– Na verdade, sua mãe já o viu. - me olhou – Mas concordo, melhor esperar o médico avaliar como você irá reagir tomando o comprimido.
– Voltei exatamente para isso - Sam adentrou o quarto, novamente – Como se sente, ?
– Eu tenho sentido tantas coisas que nem sei mais identificar. - Sam riu fraco – Posso? - mostrou o medicamento e ele assentiu.

Assim que ela ingeriu o comprimido, se engasgou. Coloquei a mão no peito, sem saber o que fazer. Sam inclinou um pouco o corpo de para frente, e pediu para ela tossir mais forte.
– O que foi isso? - perguntou. Estava realmente assustado, era visível.
– Apenas um engasgo, eu já sabia que aconteceria. - disse tranquilamente – A boca dela estava seca, o que é normal em seu caso, e por tomar a água rapidamente, sofreu o engasgo. É comum que aconteça, mas eu tinha certeza que vocês teriam essa reação, por isso preferi vir.
– Oh, nossa! - olhou para Sam – Obrigado por isso.
– Só fiz o meu trabalho - Sam sorriu e me olhou – já está liberada para ir embora, mas já sabem minhas recomendações, nada de esforço a menos que esteja com a fisioterapeuta. Não esqueçam que é essencial que ela faça aulas de natação.
– Graças a Deus! Eu não aguentava mais ficar aqui. - disse animada – Agora, me deem licença, vou me trocar. - foi para o banheiro.
– Muito obrigada, Sam. - sorri – Você foi muito atencioso com minha filha, comigo. - bufou, saindo do quarto.
– Ainda nos veremos?
– Claro. Sempre que necessário eu trarei aqui. - tentei desconversar.
– Você entendeu. - ele lançou um olhar significativo.
– Se você me ligar, nos veremos mais vezes. - dei meu número a ele.
– Mãe, estou pronta - saiu do banheiro, arrumada – Vamos?
Saímos do quarto, encontrando de braços cruzados, nos olhando.
– Mais uma vez obrigada, Sam. - ele sorriu satisfeito.
Fiz sinal para e ele nos seguiu, saindo do hospital.

Quando chegamos à casa dos meus pais, levou para o seu quarto e voltou para a sala.

, eu...
– Agora não, . - disse, me sentando no sofá e fechando meus olhos.
– Vai mesmo tentar fugir, novamente? - suspirei.
– Eu não estou com cabeça isso agora.
– Você nunca está! - bufei. – Eu só quero que você me diga se ainda podemos ser como antes.
– Não tem como! - mexi em meu cabelo – As coisas mudaram, eu e você mudamos, não dá pra sermos como antes.
– Você tem razão - o olhei de relance, fechando os olhos, novamente – Nós mudamos bastante, mas e o nosso sentimento um pelo outro? Mudou? - senti sua respiração perto do meu rosto.
...
– Olhe em meus olhos e responda. - abri os olhos devagar, fixando no olhar dele – Você não sente mais nada por mim? Porque eu ainda sinto por você. - ele se aproximou ainda mais de mim, fazendo meu coração acelerar e minha respiração ficar falha.

Não tive tempo de responder, pois surpreendeu com um beijo. O beijo longo e não tão calmo, que eu tanto sentia falta. O sentimento de borboletas eufóricas querendo voar em meu estômago, a respiração que parava por segundos. Era como se fosse o nosso primeiro beijo. Bem, de certa forma, depois de 16 anos, era o nosso primeiro beijo.

prensava o seu corpo contra o meu, e me beijava com mais intensidade a cada segundo, eu estava em uma situação perigosa e precisava ser salva, mesmo que contra a minha vontade.

Meu celular, que estava em cima da mesa, começou a tocar. parou o beijo e me olhou, mordendo o lábio e erguendo as sobrancelhas.

– É melhor você atender. - se afastou.
Levantei-me, indo em direção ao celular. Fui salva pela minha mãe.
– Filha, está tudo bem com você e ?
– Agora sim. passou a noite no hospital, mas agora está bem.
– O que ela teve?
– Está com sequelas, lembra que havia essa possibilidade?
– Lembro, mas por que não me ligou?
– Na verdade, eu estava sem celular, mas também não queria deixar você e meu pai nervosos. - a ouvi bufar de raiva – Mas, ela está bem agora.
ficou com vocês no hospital?
– Sim.
Menos mal. - pigarreei – Quer que eu volte para casa?
– Não é necessário, aproveite o restante da viagem.
Mande um beijo para minha neta. - ela suspirou – Amo vocês.

Antes mesmo que eu pudesse responder minha mãe já havia finalizado a chamada. Desliguei a tela do celular e me virei, encontrando me observando.

– O que é? - sentei-me novamente no sofá.
– Só estou te admirando. - sorri fraco, sem o olhar – Está com vergonha?
– Eu? Com vergonha de você? - ele riu.
– Vai negar? - eu apenas revirei os olhos, bufando. se sentou ao meu lado e puxou meu rosto levemente para si – Por que não continuamos?
– Porque se continuarmos daqui a 9 meses teremos uma segunda versão da vindo ao mundo. - ele riu forte.
– Não seria ruim! - dei uma tapa em seu peito. segurou meu braço e empurrou seu corpo contra o meu, me fazendo deitar.
, sério, melhor pararmos por aqui. - ele beijou o canto da minha boca.
, desde quando eu voltei tento me controlar perto de você, mas está sendo cada vez mais difícil. - ele sussurrava em meu ouvido.

Tentava manter minha consciência sã, porém não conseguia já que tentava me beijar a cada suspiro que eu dava. Meus sentidos não me obedeciam mais, pelo contrário, só correspondiam às investidas dele.
Num impulso, afastei seu rosto do meu e o empurrei, deixando claro que eu não iria a fundo com aquilo. Ajeitei-me no sofá e ele ficou me olhando, confuso.

– Antes que me pergunte eu já vou lhe responder de uma vez, estamos indo rápido demais. - o olhei, abaixando sua camisa que mostrava uma pequena parte de seu abdômen.
– Achei que você queria tanto quanto eu, e digo isso em todos os sentidos. - fiz uma linha com a boca – Eu sinto sua falta, .
– É isso que me intriga - o olhei firme – Depois de todo esse tempo, só agora você sente a minha falta.
– Não, claro que não. - ele respirou fundo, desviando seu olhar para o outro lado – Mas, só agora estou tendo coragem de lidar com tudo que vem me acontecendo. A verdade é que o sentimento que eu tinha por você estava adormecido, confesso.
– É a forma que encontramos de continuar convivendo com o sentimento sem nos machucarmos tanto, eu entendo. - voltou sua atenção para mim.
– Sim, mas esse sentimento adormecido está se despertando cada vez mais, e com mais força. - respirei fundo ao ouvi-lo.

Queria acreditar em , queria mesmo, mas eu tinha receio de ser muito ingênua, de cair de cabeça novamente, e sofrer tanto quanto ou, talvez até mais que antes.

– Eu preciso de um tempo.
– Precisa de um tempo para dizer que não quer me dar uma chance? - seu tom de voz estava mais baixo – Tenho certeza que durante esse tempo aquele médico vai investir pesado para me tirar do seu caminho, e você vai permitir, porque ainda está indecisa. - eu fechei meus olhos, suspirando – Você está com receio de conhecer alguém diferente, mas também tem receio por continuar alimentando um sentimento antigo.
– Desculpe, mas é exatamente por isso que eu não posso te dar uma resposta definitiva agora. - disse sinceramente – A verdade é que não sei como agir, eu estou confusa. - passei as mãos pelo rosto.
– Por mais quanto tempo terei que esperar? - abri meus olhos e o encarei.
– Até quando você acha que esse sentimento pode durar? - eu já me preparava pela resposta que não gostaria de ouvir.
– Se for necessário te esperar por mais 16 anos, então eu esperarei.

Fui surpreendida por , contendo o sorriso de satisfação. Ouvir aquelas palavras era o que eu precisava para poder soltar o suspiro de alívio, um problema a menos na minha mente.
aproximou seu rosto do meu, eu já me preparava para beijá-lo, quando o mesmo se afastou.

– Esqueci que você quer um tempo, desculpe. - ele disse de um jeito sonso e eu bufei de raiva. Então seria assim?
– Escute aqui - ele aproximou o rosto do meu, novamente. Eu apenas tentei manter meu olhar e voz firmes – Não vou ceder às suas provocações, ok?!
– Provocações? - soltou uma risada gostosa e eu fui obrigada a mirar o olhar em seus lábios. – Eu só estou respeitando o seu pedido, eu irei me controlar ao máximo para que continuemos assim. - suspirei. – Mas antes... - Agilmente, segurou meu rosto e roubou-me um beijo.

– Mãe? - olhei para o lado e vi de olhos arregalados, incrédula. Desviou seu olhar de mim para – Pai?

Entreolhamos-nos, incrédulos e ela pôs as mãos na cintura, como se esperasse por uma explicação.

[Capítulo Quatorze]

– Filha?! - empurrei – O que você acabou de ver foi...
– Um beijo, eu sei.
– Bem - me olhou, sem saber o que responder. – , me ajude!
- me ajeitei no sofá. – Não foi nada demais.
– Como não? - franzi a testa. – Até pouquíssimo tempo eu descubro que tenho um pai, e de repente, o vejo beijando você. É estranho.
– O que há de estranho nisso? Eu e sua mãe nos conhecemos há anos. Nós éramos namorados.
, isso não quer dizer nada. - o olhei – E, tem razão em estranhar, nunca me viu em um relacionamento antes.
– Não? - ele me olhou de olhos arregalados e eu neguei. – Você não se envolveu com mais ninguém?
– Não. Eu não quis mais me envolver, me sinto bem pensando só em minha filha. - respondi simples. – E eu te disse que estávamos indo rápido demais.
– Mas, foi só um beijo. - ele se explicou.
– Não deixa de ser estranho. - arqueou as sobrancelhas.
– Filha, vai descansar um pouco mais - ela me olhou – Conversamos melhor sobre isso em outra hora.
– Tá tudo bem, eu não quero atrapalhar vocês dois. - ela estava meio aérea, parecia tentar encontrar as palavras certas a dizer. – Só que é diferente. Eu nunca vi minha mãe beijar alguém antes, daí acontece tudo muito rápido, e... Bang, eu descubro que tenho um pai, o conheço, finalmente, e, de repente, os meus pais estão juntos. - suspirei, atenta a cada palavra. – Depois de todo esse tempo sem ver um ao outro, é confuso. Eu não to entendendo mais nada. - ela passou a mão pelo seu cabelo.
– Filha, nós não estamos juntos. - eu disse.
– Por enquanto - disse, me olhando firme – Mas, nós temos a pretensão de ficarmos juntos, sim.
– Por que parece que só você quer isso, pai? - perguntou . Ele desviou seu olhar de mim para ela.
– Talvez, porque só eu realmente queira. - respirei fundo, o vendo levantar do sofá.
– Quem é que está fugindo agora? - ele me olhou, meio impaciente.
– Continua sendo você. - respondeu simples.
– Olha, acho que vou voltar para o quarto. - tentou escapar, mas a interrompeu. – Vocês vão ficar mais à vontade pra conversar.
– Não precisa, eu já estou de saída. - ele beijou o topo de sua cabeça. – De qualquer forma, sua mãe não quer continuar essa conversa.
, fique mais um pouco - pedi.
– Sinceramente, eu não...
– Pai - olhamos para – Fique, almoce com a gente e depois eu te libero.
– Tudo bem, eu posso fazer isso - ele olhou para mim, mas desviou o olhar para ela – Por você.

Engoli a seco todas as palavras que me vieram à mente para dizer a , mas não o fiz em respeito à nossa filha. Os deixei na sala e fui para o meu quarto.

Tomei um banho demorado e um tanto relaxante. Os últimos dias têm sido uma loucura! Não é sempre que posso ter um momento mais tranquilo, estou sempre na correria e de cabeça cheia, mas aproveito, pelo menos, a hora do banho para aliviar o estresse.

Deixei ficar o restante da manhã com o pai, não queria mesmo ter que encará-los. Confesso que me senti um tanto envergonhada, minha filha jamais me viu tão próxima de algum homem, além do meu pai, Nick e Travis, mas é totalmente diferente. Minha relação com foi tão boa, porém tão rápida, que eu não queria passar por isso, novamente. A verdade é que, eu não abro espaço para esse tipo de relacionamento. Às vezes, me sinto hipócrita, tento ajudar pessoas com os conhecimentos que eu tento não limitar, e, no entanto, não consigo aplicar em minha vida. É frustrante.

Juntei-me a e para almoçarmos, eu não quis cozinhar, então fiz o pedido para entrega, na Toca da Tia Jô.

Terminamos nossa refeição, estava tudo silencioso demais, isso me incomodava um pouco, mas não seria eu a primeira a quebrar o silêncio. Principalmente, por saber que o faria.

– Não gosto desse silêncio - ela resmungou – E vocês estão agindo como dois adolescentes.
!
– Mãe, você quer ou não ficar com meu pai? - ela me interrompeu – Porque às vezes parece que você gosta do médico.
– Ah, por favor - respirei fundo. – Por que temos que falar sobre isso, agora?
– Se não agora, quando?
– Eu não sei, por isso não quero falar sobre. - confessei.
– Tudo bem. - ela suspirou, olhando para – Pai, eu posso entender a sua frustração, mas minha mãe precisa de um tempo. Você percebe o quanto ela está confusa? - a olhei de sobrancelhas erguidas.
– Sim, mas...
– Apenas respeite o momento dela. - ela o interrompeu.
– Como eu vou saber...
– Ela não vai ficar com o médico.
– Como você pode ter certeza se nem a sua mãe tem? - olhei séria para .
– Eu não estou pedindo um tempo para ficar com Sam e, se der errado, voltar para você, . Quero apenas colocar meus pensamentos no lugar para tomar decisões, sem pressa. Até mesmo porque eu não posso pensar somente em mim, tendo em minha vida, e ela é a minha prioridade.
– Mas, mãe - olhei-a – Por que você saiu com o médico na noite em que eu voltei ao hospital?
– Eu não tinha essa pretensão.
– Sei. - provocou.
– Será que eu posso continuar? - bufei, o olhando. Ele fez sinal para eu prosseguir. – Como já disse, eu não tinha a pretensão de sair com Sam, mas sozinha. Porém, ele me chamou e fez a gentileza de passar o restante da noite de sua folga comigo. - e arquearam as suas sobrancelhas – Não houve nada demais, ele me levou à sua casa, conheci Logan, seu filho, e conversamos o suficiente para eu conseguir aliviar um pouco da tensão que sentia.
– Foi só isso? - indagou incrédula.
– Queria mais?
– Sinto-me mais aliviado ao ouvir isso. - confessou, respirando fundo. Fiquei o observando, sabia que ele tinha mais a falar. – Mas, ele não vai parar por aí, esse médico irritante gosta de você, . - suspirei forte.
– Pelo que você teme, ?
– Você sabe bem! - respondeu firme.
– Olhando pra vocês agora, eu me sinto no colégio - fiquei confusa ao ouvir – Parece que to assistindo as cenas dos casaizinhos chatos de lá quando ficam discutindo, sempre pelo mesmo motivo: os garotos ficam revoltados com suas namoradas porque os outros meninos se fazem de amiguinhos delas pra finalmente conseguir conquistá-las.
– Não tem nada a ver.
– Tem tudo a ver, porque é desta forma que o seu novo amiguinho está agindo para se aproximar de você. - nem escondia seu ciúme.
– Mas tem diferença, pai - ela riu – Você e minha mãe não estão juntos, então o caminho tá livre para...
– Não tem caminho nenhum livre. - massageei minhas têmporas – Sam é muito atencioso e gentil, mas eu não tenho pretensão.
– E quanto a mim? - me olhou esperançoso.
– Apenas espere, sem me pressionar - ele fez careta – Não faça essa cara, isso nem é pedir muito.
– É pai, você aguenta. - deu duas tapinhas no ombro do pai. – Agora eu vou para o quarto, me sinto um pouco cansada.
– Tudo bem, eu já vou para casa mesmo. - a abraçou, e ela saiu da sala. – Eu não contava com a aparecendo aqui.
– Você sabia do risco!
– Você também, e no entanto, se rendeu aos meus beijos. - apertei meu olhar.
– Sai daqui! - o lancei uma almofada.
– Não vai se despedir? - abriu os braços.
– É realmente necessário? - ele rolou os olhos e veio em minha direção, selando seus lábios nos meus. – Ei!
– Se pensar em mim - arqueei uma sobrancelha – Pense com carinho. - ele riu fraco e se afastou, saindo.
– Ah, esse homem... - sussurrei para mim mesma.

Ouvi meu celular tocar e fui até a mesa para pegá-lo.

– Oi, Suri.
– Me desculpe por ligar a essa hora, mas aconteceu algo? - pelo seu tom de voz, sabia que ela estava receosa em perguntar – Bem, a senhora não costuma faltar, ainda mais sem avisar antes.
– Eu que peço desculpas, Suri. - caminhei até o quarto – Tive que levar ao hospital e acabei esquecendo o celular em casa. Voltamos hoje cedo.
– Ela está bem?
– Está sim, agradeço a preocupação. - suspirei – Desculpe-me por não avisar.
– Tudo bem, doutora, eu compreendo. - adentrei o quarto, encontrando cochilando. – Quer que eu remarque as sessões de hoje para qual dia?
– Então Suri, eu estava mesmo querendo conversar com você sobre isso. Descobri que está com sequela e isso é meio delicado, eu sinto que preciso estar mais perto da minha filha agora, para acompanhar seu tratamento, entende?
– Claro, eu entendo. A senhora irá entrar de férias?
– Eu bem que gostaria, mas não posso. Terei gastos maiores a partir de agora, então nem me dou ao luxo de pensar em férias, por enquanto. - fui à cozinha – Mas quero, pelo menos, duas semanas em casa.
– Bem, eu posso remarcar as sessões de hoje e dos próximos dias para daqui a duas semanas. - suspirei aliviada – Já vou começar agora.
– Aproveite esses dias para descansar, Suri - peguei um potinho de sorvete. – Fique tranquila, não vou descontar em nada o seu salário.
– Agradeço, senhora. - sua voz estava mais suave que de costume. – Bem, agora preciso desligar, vou começar a remarcar as sessões. Ah, desejo melhoras à .
– Tudo bem, eu não quero te atrapalhar. - ri fraco – Muito obrigada por tudo, Suri. Beijos. - finalizei a chamada.

Meu restante do dia foi assistindo TV, lendo alguns e-mails novos e indo observar no quarto. Também procurei pela internet aulas de natação, eu não queria atrasar o tratamento da dela, quanto antes melhor.

Fiz sopa de legumes para jantarmos, mas não se agradou tanto, já que não é o que ela costuma comer.
Logo após, nós fomos dormir. Eu, porque ainda estava cansada do dia anterior, e minha filha, por conta dos medicamentos.

Acordei às 10h21, com me chacoalhando.

– Mãe?
– O que aconteceu? Está sentindo algo?
– Só o meu coração batendo - ela riu me fazendo rolar os olhos – Mas, você está atrasada para o trabalho.
– Filha, eu só volto a trabalhar daqui a duas semanas.
– Por minha causa? - sentei-me na cama preguiçosamente, olhando-a – Mãe, eu sei me cuidar.
– Ah, sabe? - ela assentiu. – Já tomou o remédio hoje?
– Bem, eu - cruzei os braços, arqueando as sobrancelhas – Esqueci.
– Não me surpreendo. - ela bufou – Você sabe a importância desse medicamento.
– Para limpar e fortalecer meus pulmões, eu sei.
– Filha, se eu trabalhasse, teria que te deixar sozinha em casa, e isso eu não posso fazer, não agora. - respirei fundo. – Seu pai começa a trabalhar na próxima semana, seus avós ainda estão viajando, e têm as suas vidas. E mesmo que algum deles fique com você por um dia ou dois, eu não posso passar a responsabilidade de cuidar de você para outra pessoa.
– Você não faria isso, de qualquer forma. - fez sua típica expressão de tédio.
– De jeito nenhum! - afirmei, levantando-me. – Tome o seu remédio.
– Podemos sair hoje?
– Nós vamos sair, encontrei uma academia de natação pela internet, mas quero ir para conhecer o lugar e me informar melhor. Talvez eu te matricule ainda hoje. - peguei uma saia longa estampada e um cropped branco em meu armário.
– Ah, só pra isso? - a olhei de relance.
– O que mais você quer? - estiquei as roupas na cama e entrei no banheiro.

Tomei um banho rápido e saí do banheiro apenas de lingerie, vestindo minha saia e cropped. Logo após, procurei por minha sandália rasteirinha cor de pele.

– Já tomou seu remédio?
– Já, mãe - disse impaciente – Eu posso pelo menos convidar o meu pai pra ir com a gente?
– Pra que, ? - peguei meu calçado nas coisas dela. – O que minha sandália está fazendo no seu lado do armário? – Por que você tá nervosa? Eu só acho que seria legal sairmos, juntos. - respirei fundo – Sua sandália tava comigo porque eu a usei por último.
– Não estou nervosa, mas sei o que você está tentando fazer e não quero isso. - calcei as sandálias – E não mexa nos meus calçados.
– Não to tentando fazer nada. - arqueei as sobrancelhas – Tá sendo egoísta, mãe.
– Ok, . - peguei minha bolsa – Já está pronta?
– Eu não sei qual roupa usar.
– Como não? Você nunca teve esse tipo de problema. - ela me olhou esperando por uma sugestão – Que tal o conjuntinho que a te deu?
– Aquele short e blusa azul rendado? - assenti. pegou no armário e vestiu, colocando um arco preto no cabelo e calçando as sapatilhas pretas. – Bem, eu gostei. - ela disse ao se olhar no espelho.
– Eu também - a olhei, admirada – Agora vamos. - peguei minha bolsa e saímos.

Depois de conhecermos o local e todos os professores, matriculei na academia de natação, era apenas para crianças e adolescentes. A minha primeira impressão do lugar foi ótima, os professores demonstraram ser muito atenciosos com os alunos, e isso me agradou bastante, já que precisa de uma atenção um pouco maior.

Uma semana havia se passado e eu só tentava aproveitar ao máximo esse tempo em casa, com minha filha. começou suas aulas de natação, e parecia estar gostando, sempre chegava empolgada e ansiando pela próxima aula.

Ouvi a campainha tocar, enquanto eu estava na cozinha, analisando a dispensa. Corri para atender.

– Por que demorou tanto para abrir a porta? - reclamou, enquanto eu dava espaço para a mesma adentrar a casa.
– Eu estava ocupada, ora. - ela deu de ombros – O que faz aqui tão cedo?
! - se fez de ofendida.
, você não gosta de acordar cedo e tem preguiça de vir aqui. - ela se sentou no sofá – Qual é o motivo desta vez?
– Quero levar a um passeio.
– Ah, ela está na natação agora - pensei um pouco – Mas eu também não acho que seja uma boa ideia.
– Amiga, eu sei que você tem preocupação excessiva quando se trata da nossa filha, mas ela é jovem e precisa sair de vez em quando.
– Ela não está tão bem a ponto de sair para lugares distantes.
está se sentindo sufocada. - franzi a testa. – Nós conversamos um pouco durante os últimos dias, e ela me contou como se sente. - respirei fundo, me sentando no sofá, de frente para – Sei que você só quer protegê-la, mas vá com calma.
– Você tem razão.
– Eu sempre tenho. - disse convencida. Joguei uma almofada em sua direção. – Bem, Travis teve a ideia de ir acampar, acho que vai ser bom para . Pensamos em chamar Jake e Lauren também, eu amo àquelas crianças.
– Ainda não quer filhos? - ela negou com a cabeça.
– Não mesmo, me contento com essas três doçuras que não se desgrudam. - eu ri – Espero que possam ir comigo.
– Bem, converse com os pais deles, com certeza eles irão permitir.
– Queremos chegar antes do anoitecer.
– Tudo bem, quando chegar, nós vamos arrumar as coisas e eu te ligo. - se levantou – Ah, ela precisa tomar o remédio pela manhã e noite. Por favor, não a deixe esquecer.
– Como segunda mãe de , eu também me preocupo com ela, por isso cuidarei de sua saúde. Deixa comigo! - deu uma piscadela e eu sorri – Você não quer ir também?
– Na verdade, eu prefiro ficar e me organizar. Na próxima semana eu já retorno à minha rotina de trabalho normal, então quero me preparar.
– Ok, eu já vou indo então - a acompanhei até a porta – À noite eu volto para levar os inseparáveis. - ela me abraçou – Até.
– Dirija com cuidado! - fechei o portão.

Terminando de regar as plantinhas da minha mãe, na varanda, observei um carro que estava parado em frente a minha casa, era . Ele saiu ajeitando seu blazer azul escuro e carregando uma bolsa transversal, deu uma corridinha em minha direção e me beijou, brevemente.

– Ah, esses lábios macios - dei uma tapa em seu braço, arqueando uma sobrancelha – Não brigue comigo agora, preciso te contar algo.
– É grave? - ele ficou pensativo – Entre, vamos conversar.

Guardei o regador e me sentei ao seu lado, no sofá.

– Bem, não é grave, mas preocupante - engoli o seco – Ainda não contei à minha família sobre .
– Meu Deus, isso é grave! - ele suspirou forte – Já imaginou a reação da sua mãe quando ela descobrir?
– Então, ela virá à Trainsturn e ficará na minha casa. - assenti – Neste exato momento, minha mãe já deve estar chegando.
– O quê?
– Quero que minha mãe saiba a verdade ainda hoje, mas eu gostaria de ter sua compan...
- me levantei. Aflita, fiquei andando de um lado para o outro – Eu não estou psicologicamente preparada.
– Eu entendo, mas preciso da sua ajuda! - ele me parou – Não fique assim, eu estarei com você, o tempo todo.
– Tudo bem, mas irei sem .
– Por quê? - perguntou confuso.
– Ela vai acampar com seus amigos, e Travis - ele assentiu – E eu não quero que ela passe por mais esse estresse. Conheço sua mãe, ela não hesitaria em rejeitar e magoar .
– Sei que minha mãe é uma pessoa difícil, mas ela jamais faria isso.
– Faria sim! - afirmei – E nós dois sabemos disso. - ele respirou fundo.
– Bem, eu preciso ir trabalhar agora, devo chegar um pouco atrasado.
– Podia ter me ligado.
– Não, eu queria te ver - fiz que sim com a cabeça, rindo fraco – Nos vemos mais tarde?
– Sim. - ele ia selar nossos lábios, mas eu virei meu rosto. – Nada de beijos aleatórios.
– Ah, - ele suspirou, fixando seu olhar em meus olhos – Você me enlouquece, sabia disso?!
– Acho que sei, sim - ele fez careta – Agora, tchau. - resmungando, ele se foi.

Busquei na academia e já que estávamos no mesmo caminho, aproveitamos para almoçar na Toca da Tia Jô.

Terminamos a nossa refeição e na saída, avistamos tia Jô.

– Nossa! - ela deu uma leve requebrada com o quadril e descansou uma das mãos na cintura – Mas essa boneca está tão grande - nos abraçou, calorosamente – E cada vez mais linda! - elogiou , que ficou um tanto envergonhada.
– Obrigada, tia - ela respondeu meio acanhada.
– A titia ficou tão preocupada quando soube que você estava no hospital, bebê - disse sincera.

Tia Jô me conhece desde os meus 17 anos, porque assim que me mudei, eu e sempre frequentamos o seu estabelecimento. Então, ela acompanhou a minha gravidez e toda infância de , até agora na adolescência.

A Toca da Tia Jô era o ponto de encontro dos casais da minha época, e por mais incrível que pareça, continua sendo. O que mais chama a atenção no local são as tocas que foram construídas, especialmente, para os casaizinhos, mas também há alguns banquinhos junto às árvores, para quem gosta de ficar ao ar livre.
Atualmente, tia Jô vem expandindo o espaço e construindo lojinhas e, recentemente, inaugurou seu tão sonhado restaurante de comida caseira, com seu tempero único.

– Puxa, nem fale! Foi muito difícil lidar com todo esse estresse - ela assentiu, pesando o olhar – Mas está se recuperando, aos poucos.
– Graças a Deus! - ela beijou a testa de – Você vai melhorar logo, logo.
– Agora precisamos ir, tia.
– Tudo bem, filha. Mande um beijo para a sua mãe.
– Mando sim - ela sorriu.

Não nos demoramos mais e seguimos para casa. Eu e arrumamos todos os seus pertences, ligamos para e esperamos por Jake e Lauren.

– Finalmente! - disse ao atender a porta – Por que demoraram tanto?
– Lauren me obrigou a ir à sorveteria com ela - disse Jake.
– Desculpa gente, mas é que eu não aguento mais fazer dieta. - Lauren ficou chorosa – Aproveitei que eu estava longe da minha mãe e fui à sorveteria.
– Ah, agora entendi. - disse, abanando as mãos no ar.
– Mas eu não - franzi o cenho – Que história é essa?
– A mãe da Lauren a obriga a fazer dieta. - explicou Jake. – Vive dizendo que ela está gorda e feia.
– Mas eu não me sinto assim. - confessou – Quero dizer, sei que estou acima do meu peso ideal, mas não me sinto feia por isso.
– E nem deve se sentir, por nada. - ouvimos uma buzinada, com certeza era – Conversamos melhor sobre isso quando vocês voltarem.
– Não esquenta com isso, tia - Lauren disse – Já estou acostumada com as ofensas da minha mãe.
– Eu não vou deixar isso passar despercebido, Lauren. Não vou mesmo.

Os acompanhei até a porta. Eles foram à minha frente, sem nem se despedir.

– Eu não ganho um abraço? - eles se entreolharam – Ainda estão pensando se irão ou não me abraçar? - eles deram de ombros – Quer saber, eu não quero mais.
– É muito dramática mesmo - ouvi dizer de dentro do carro.
– Ah, estamos falando da , a rainha do drama - disse Travis, me fazendo bufar – Foi mal aí! - ele acenou e riu.
– Tá tudo bem tia, nós te amamos mesmo assim - Lauren me abraçou junto a Jake.
– E você, mocinha?
– Mãe, por favor.
– Deixa de ser chata , é só um abraço - Jake disse, a fazendo rolar os olhos.
– Tá bom. - a contragosto, ela me abraçou e eu a apertei ainda mais – Mãe, você tá me sufocando.
– Eu te amo. - beijei sua bochecha.
– Vamos crianças - os chamou – Aproveite esse tempo para relaxar, tá?! - disse antes de Travis arrancar com o carro.

Assim que eles foram, passei o restante da tarde fazendo uma limpeza caprichada na casa, excesso de poeira nunca é bom, ainda mais para e na situação em que ela se encontra.

Sentia todo o meu corpo dolorido devido ao esforço exagerado que fiz na limpeza e confesso que pensei nisso como uma desculpa para não ir à casa de , a ideia de ter que encontrar com sua mãe não me agradava em nada.

Meu celular começou a tocar, era .

– Estou saindo agora do trabalho, daqui a meia hora chego aí.
– Tudo bem, esse é o tempo para eu tomar um banho e me arrumar. - andei preguiçosamente até o meu armário.
– Ok, até logo. - finalizei a chamada.

Tirei do armário uma calça jeans clara e uma camiseta qualquer, estiquei a roupa na cama e fui ao banheiro. Tomei um banho breve, porém revigorante.

Saí do banheiro e me vesti rápido, não fiz minha maquiagem usual, apenas usei um batom claro, calcei o tênis e vesti minha jaqueta.

Ouvi a campainha, sabia que era . Peguei minha bolsa e joguei o celular dentro dela, dei uma leve bagunçada no cabelo e saí do quarto.

Abri o portão, encontrando me olhando admirado.

– Você está...
– Normal, eu sei. - ele bufou, abrindo a porta do carro para mim – Obrigada.
– Na verdade - ele deu a volta e se sentou, já ligando a carro – Quero dizer que você está linda.
– Eu estou sempre assim, fora do trabalho.
– Então, eu te acho linda sempre - disse, me fazendo rir – Por que está rindo?
– Só lembrei que você sempre dizia isso no colegial - ele riu junto – Aquele uniforme escolar era horrível.
– Eu gostava - o olhei franzindo o cenho – É sério, aquele tempinho era ótimo.
– Sim, era. - fiquei pensativa – Você me levava em casa todos os dias.
– É verdade, e eu adorava quando ficavam nos olhando - riu fraco – Nós éramos um casal invejável.
– Sim, nós éramos. - ele me olhou rapidamente, desfazendo o seu sorriso.
– Ainda podemos ser - parou no sinal e fixou seu olhar em mim.
- aproximou seu rosto do meu e me beijou suavemente.
– Desculpa - ele se afastou, tornando a dirigir e me deixando um tanto desnorteada.

– Chegamos. - estacionou o carro e já ia saindo, sem nem me olhar.

– Espera - puxei seu braço de leve e ele tornou a se sentar, me olhando confuso – Por que está agindo assim?
– É difícil controlar meus sentimentos e desejos quando estou perto de você, mas eu sei que isso te causa confusão - ele respirou fundo – Você me pediu um tempo, preciso respeitar.
, eu sei que te pedi um tempo, mas tem sido difícil para mim também. - desviei meu olhar para frente – A verdade é que eu cedo aos seus beijos, porque desejo-os tanto quanto você deseja os meus.
– O que está tentando me dizer? - o olhei novamente e seu celular tocou. – Já estou indo, mãe.
– Melhor não fazer sua mãe esperar mais. - eu já ia saindo do carro, mas me puxou.
– Quando poderíamos terminar essa conversa?
– Não fique ansioso, . Não agora. - ele assentiu e eu saí do carro.
– Está preparada? - fiz que não com a cabeça, ele segurou minha mão – Calma, eu estarei com você, o tempo todo.

Respirei fundo ao ouvir suas palavras e o acompanhei, adentrando a casa. Mas, quando vi sua mãe sentada em uma poltrona e me olhando com fúria, gelei.

[Capítulo Quinze]

- sussurrei seu nome, enquanto apertava a sua mão, levemente.
– Calma, eu estou com você. Fique tranquila. - ele sussurrou de volta e me guiou até o sofá, se sentando ao meu lado. – Bem, acho que não precisamos ser tão formais hoje.
– Até porque nunca soube se portar com formalidade, a começar pelas roupas que sempre vestiu. - ela me observou dos pés à cabeça – E parece que o mau gosto continua firme e forte.
– Dona Ravina, é bom te ver também.
– Oh, por favor, eu não queria estar aqui com você, esperava por Carly. - eu respirei fundo, me esforçando para não voar no pescoço da bruxa velha que o chama de mãe. – Aliás, por que você ? Sabe que eu nunca gostei dela.
– Mãe, por favor, temos um assunto sério para tratar.
– É mesmo? E por que essa mulherzinha está fazendo parte disso?
– Querido - encarei Ravina por alguns segundos – Se essa sessão de ofensas continuar, eu não responderei por mim, mesmo que esta criatura velha e amargurada seja a avó da nossa filha.
– Que história é essa? - ela franziu a testa e encarou .
– Mãe, eu descobri que tenho uma filha com a , conheci ela recentemente e…
– Como isso aconteceu? - a mulher parecia confusa.
– Já esqueceu como se faz bebês?
, por favor, sem provocações agora. - pediu, parecia preocupado com a reação da mãe.
– Certo. - eu ergui as mãos em sinal de rendição.
teve a menina quando ainda era uma adolescente, na época, em que eu viajei para estudar, então tínhamos perdido contato.
– E como você sabe que a criança realmente é sua? Ficou tanto tempo longe dessa ai, ela pode estar tentando fazer você assumir a paternidade de um filho que é de outro.
– Escute aqui…
, releve as palavras da minha mãe, ela está tão chocada quanto eu fiquei.
– Não vou relevar ofensas, de jeito nenhum! Ainda mais vindas dela. - eu desviei o olhar dele para Ravina – é sim filha de , ela é muito parecida com ele. Aliás, ela é muito parecida com a família de vocês.
– Que bom então, ser sua filha já deve ser como carregar uma cruz pesada nas costas. Algo tinha que ser de bom, não é mesmo?!
– Quer saber, chega! - peguei minha bolsa e levantei-me do sofá, já saindo da casa.
– Fique, por favor, eu preciso de você aqui comigo. - segurou de leve em meu pulso, fazendo-me parar frente à porta para o olhar. – Eu sei que minha mãe é uma pessoa difícil, mas ela está realmente abalada. Sua saúde não é das melhores, por favor, tente relevar. Eu tenho medo que a notícia chocante e mais o estresse de vocês brigando a faça ter um troço.
, a sua mãe não me suporta, sempre foi assim. Eu posso tentar me controlar, mas ela precisa parar de me provocar. Não sou de ferro.
– Tudo bem. Mas, vamos voltar e tentar conversar, civilizadamente?
– Se ela souber se comportar como um ser humano, sim. - arqueou as sobrancelhas e engoliu o seco – Desculpa, eu sei que é a sua mãe.
– Bem - ele tentou dizer algo, mas desistiu e guiou-me de volta à sala.
– Ah, você voltou - Ravina disse entediada. – Se eu realmente tenho uma neta, quero conhecê-la.
– Não mesmo, não quero que você a ofenda como faz comigo!
– Por que eu faria isso? Como eu já disse, ser sua filha deve ser como carregar uma cruz pesada nas costas, eu quero é aliviar o fardo da menina. - ela ajeitou o seu cabelo para trás das orelhas, deixando escapar alguns fios mais curtos. – Além do mais, você não pode me dar uma notícia dessa e depois querer simplesmente me esconder a… Como ela se chama mesmo?
- respondeu rapidamente – Ela é uma menina muito linda e esperta.
– Assim como o pai. - Ravina disse, me olhando de forma debochada. – Bem, ela se parece comigo?
– Sim, ela se parece muito com você aos seus 16 anos.
– Ah, Deus realmente foi generoso com essa menina! - Ravina disse, colocando a mão sobre o peito.
– Ela também possui uma manchinha na nuca no formato de uma folha de uva, assim como a sua avó. - os olhos dela começaram a brilhar, repentinamente.
– Você só pode estar brincando comigo, ?!
– É verdade, eu tenho um vídeo de que prova o que seu filho acabou de dizer. - tirei o celular da bolsa e dei "play" no vídeo, mostrando a ela.
– Ela é uma princesa, ! - eu me surpreendi com sua exclamação e sorriso que ia de orelha à orelha. – Me conte como ela é.
– Bem, é bem reservada; não gosta muito de se mostrar, e às vezes até prefere se isolar, quando não está com Jake e Lauren, seus melhores amigos. Principalmente depois do incêndio e do tempo que ela ficou no hospital, minha filha estava muito calada e cabisbaixa, isso me deixou bastante preocupada. Mas, ultimamente ela tem estado bem mais animada, desde que entrou em sua vida. - ele sorriu satisfeito.
só me traz alegria, mãe. A cada dia mais.
– Incêndio? Hospital? O que aconteceu? - Ravina perguntou num tom amedrontado. Olhei para e ele assentiu, como se me aprovasse a contar toda a história.

As duas semanas de descanso se passaram rápido e eu retornei à minha rotina de trabalho. não queria que eu contratasse um professor particular, de jeito nenhum, pois dizia que estava sendo bem instruída por Lauren e Jake. Realmente, pelo que percebi em seus trabalhos para recuperação de nota e entre nossas conversas, ela realmente se esforça para aprender.

Depois que minha filha conheceu Ravina, ela ficou ainda mais empolgada com os últimos acontecimentos. Chegou a passar o sábado passado na casa dos avós paternos e isso me deixou preocupada, claro, por dois motivos: sua saúde e a recepção da família de . Mas deu tudo certo e pelo que ela contou, amou cada minuto do dia. Foi a primeira vez que a levou para passear; eu não podia adiar mais isso, ele pedia tanto e ela também. Tenho que me acostumar que agora tem o seu pai presente em sua vida e que eu tenho que dividir tarefas com ele, mesmo que eu me sinta um tanto enciumada, às vezes. Até que tenho me saído bem em aprender a como incluir a cada vez mais em nossa vida.

Meu celular tocou de repente, despertando-me dos meus pensamentos que estavam longe.
– Oi, mãe.
Tudo bem, filha? – Sim, mas o seu tom de voz me preocupa um pouco. - eu franzi a testa.
Olha, não quero que fique nervosa, mas estou ligando para avisar que a foi escondida para a escola. - levantei-me em um pulo e abri mais as janelas.
– O que? Como? Eu a acordei para tomar remédio e a vi pegar no sono, novamente. - suspirei forte, tentando controlar a minha respiração, depois de me dar conta do quão ingênua eu estava sendo. é muita esperta, esperta até demais, às vezes. – Como ela passou por vocês? Meu pai já estava acordado quando eu desci, foi ele quem fez o café.
Eu ainda estava no quarto e o seu pai veio me ver, acredito que foi nessa hora que ela conseguiu escapar. - eu apertei os meus olhos, pensando na ousadia de . Ousadia na hora errada.
– Finja que nada aconteceu e peça ao meu pai que faça o mesmo, quando eu chegar do trabalho, terei uma conversa séria com ela.
Como você achar melhor. - sentei-me novamente em minha cadeira – Mas, tente trabalhar com a cabeça fria. Não fique tão nervosa, ela só queria voltar a estudar junto com os colegas de sala.
– Eu sei, mas ela não devia ter feito isso sem avisar. Aliás, como você soube?
Ela deixou uma carta avisando. - eu ri sem humor algum, realmente sabe como me confrontar.
– Tudo bem, eu converso com ela mais tarde. Obrigada por avisar, mãe.
Bom trabalho, filha. Beijo.
– Beijo.

Eu não podia negar o quão brava eu estava pela atitude de . Reconheço que posso tê-la sufocado pelo excesso de cuidado, ela me pediu para voltar a escola muitas vezes, mas eu não podia simplesmente passar por cima de uma recomendação do médico e atender ao seu pedido, eu só queria garantir a sua melhora.

Penso que é melhor eu, ela e conversarmos depois sobre a forma como ela agiu, apesar de ter deixado um bilhete avisando onde estava, não quero que isso se repita. Sempre dialogamos muito, não acho que há necessidade de tomar uma atitude do tipo, ela tem liberdade para se abrir comigo. Mas, se a minha filha sentiu que fugir para a escola e deixar um bilhete seria a forma mais fácil de falar comigo, há algo errado. Talvez ela tenha muito mais para falar, mas por algum motivo, não consegue. E eu como mãe, me sinto mal só em pensar nisso, mas irei ajudá-la em tudo que eu puder.

Ouvi algumas batidas fortes na porta e estranhei um pouco, mas pedi que a pessoa entrasse.
– Desculpe doutora - Suri adentrou a sala, um tanto encolhida – Eu liguei para o seu telefone comercial, mas só chamou e como a senhora sempre atende na primeira chamada, vim ver se estava tudo bem.
– Ah sim, está tudo bem. Eu só estava com o pensamento longe, realmente não dei-me conta que o telefone havia tocado. - eu disse, passando as mãos pelo cabelo – Desculpe pela desatenção, Suri.
– Sem problemas, doutora! - ela deu um sorriso limitado – Gostaria de avisá-la que o seu paciente de 10h00 desmarcou por motivo pessoal, eu espero que ele ligue novamente para remarcar?
– Eu estava esperançosa, mas ele já havia me dito que talvez não viria. - Suri assentiu – Bem, se alguém ligar e perguntar sobre alguma desistência, marque para o horário dele.
– Na verdade, uma jovem ligou e pediu para marcar uma consulta o mais rápido possível porque ela está precisando muito. - eu assenti com a cabeça e bebi um gole d’água.
– Então, ligue para ela e confirme se é da vontade dela que a consulta possa ser hoje às 10h00, por gentileza.
– Tudo bem, farei isso agora. Com licença.
– Toda, Suri. - ela sorriu, saindo da sala com certa urgência.

Eu até pensei que o meu dia seria estressante, por estar com a cabeça cheia e tudo mais, porém, para a minha surpresa, o dia foi ótimo. Atendi pessoas maravilhosas, com histórias distintas, mas basicamente com as mesmas sensações. Não é sempre que isso acontece no dia, contudo estes pacientes estavam abertos e dispostos a trabalharmos em conjunto para encontrarmos a raíz do problema, ainda que ela apareça em um momento ou outro; este dia de trabalho foi um dos mais produtivos e satisfatórios que eu já tive.

Chegando a minha casa, encontrei minha mãe na entrada, regando algumas de suas plantas e me olhando com certo temor.

está lá em cima desde que chegou da escola e não saiu nem para comer. - disse preocupada – , não brigue tanto com a menina, ela só estava com saudade da escola, dos amigos…
– Teremos uma conversinha tranquila, não se preocupe. - minha mãe assentiu, logo adentrando a casa.
- eu ouvi a voz de e olhei em direção à rua, ele estava atravessando a rua – Você chegou rápido! - abri o portão para ele.
– Carlitos pisou fundo no acelerador hoje - eu ri um pouco – Venha, precisamos ter uma conversa com .
– O que ela fez? Você não me contou na mensagem que enviou cedo.
– Foi escondida para a escola.
– Mas ela deixou algum aviso? - ele franziu a testa.
– Sim.
– Então?
– Eu não quero que ela aja desta forma toda vez que sentir vontade. - assentiu com a cabeça – Com certeza eu errei de alguma forma em nossa comunicação, por isso não quero brigar com ela, quero deixá-la livre para conversarmos. Nós precisamos ter um bom relacionamento com , não quero que ela se sinta temerosa em dialogar conosco.
– Eu entendo - disse com a voz um pouco rouca – Só quero que a gente resolva logo essa situação. Tenho um pedido para você.
– Um pedido? - eu abri a porta principal, dando passagem para o mesmo adentrar a casa.
– Sim - ele confirmou e eu cruzei os braços. riu um pouco – Janta comigo hoje?
– Isso é sério? Você está…
– Te convidando para um jantar, sim, é sério. - interrompeu-me com sua fala firme e sorriu de lado. Continuei mantendo a minha expressão de surpresa – A minha mãe já voltou para casa, então eu pensei que poderíamos ficar lá. Sei que gosta de lugares aconchegantes, mas eu gostaria que estivéssemos a sós.
– Você não está tramando…
– Oh , que bom vê-lo novamente! - minha mãe interrompeu-me para cumprimentá-lo. – Espero que vocês tenham uma conversa amigável com a minha neta.
– Sim, é o que pretendemos. - ele retribuiu ao abraço e me olhou sorridente.
– Vocês lançam olhares apaixonados um ao outro, o tempo inteiro - ela comentou sem nem pensar duas vezes – Quero muito saber no que isso vai dar. Mas, o meu apoio vocês já tem.
– Mãe, por favor - eu disse um tanto irritada com a sua intromissão.
– Só quero que saibam que eu sempre shippei vocês.
– Sempre nos "shippou"? - ela assentiu e eu ri fraco – E desde quando você sabe o que é "shippar" alguém?
– Filha, ter jovens em casa é ótimo! Sempre ajuda a nos mantermos atualizados, e eu só estou aproveitando isso. e seus amigos têm me ensinado bastante.
– Queria que a minha avó pensasse o mesmo nos meus tempos de adolescência.
– Eu vou fingir que nem estou ouvindo isso.
– Não seja tão enjoada, menina! - minha mãe bateu-me com o pano de prato que estava em seu ombro e saiu da sala, retornando à cozinha e deixando rindo de mim.
– Se você ficar rindo, eu não…
, apenas diga que sim - interrompeu-me, segurando em minhas mãos. aproximou-se ainda mais e me olhou com profundidade – Eu não estou planejando nada absurdo, apenas quero que a gente tire esta noite para jantarmos juntos, mas só nós dois. E que possamos conversar abertamente sobre tudo o que está nos acontecendo.
– Em relação a nós dois?
– Sim.
– Tudo bem, eu aceito. - respondi tentando conter o sorriso ao vê-lo comemorar com uma dancinha bem engraçada. – Ok, dançarino, vamos subir.

A cada degrau que eu pisava tentava colocar a cabeça no lugar e respirava fundo, para manter a calma na hora que eu mais precisasse. nem sempre se mantém calada quando eu a dou uma bronca, geralmente ela responde, mas de um jeito meio agressivo. Nessas horas, eu a deixo extravasar um pouco e converso com ela depois, sem julgá-la, apenas tento resolver a situação na base da conversa.
Mas, a questão é que passou um pouco do seu limite e eu quero que ela pise no freio, antes que se acidente.

Bati na porta do nosso quarto e esperei alguns segundos, até abri-la. pareceu surpresa ao ver o pai ao meu lado, distanciou-se do seu notebook e ficou nos olhando, meio impaciente.

– Eu já sei por que vocês estão aqui - sentei-me na cama, batendo no colchão em sinal para que sentasse ao meu lado, e assim ele fez, enquanto me olhava – Só acho que não precisava ter chamado o meu pai.
– É mesmo?! - eu disse, vendo-a erguer as sobrancelhas e assentir, como se fosse óbvio.
– E por que não? - perguntou, a fazendo o olhar da mesma forma.
– Eu só fui para o colégio, não há nada demais nisso. - ele me olhou de relance – Muitos adolescentes fogem da escola, mas eu não, fugi para ir à escola. Vocês deveriam se sentir orgulhosos por isso.
– Por que eu teria orgulho de saber que você fugiu quando podia ter pedido para ir?
– Mãe, você não me deixaria ir de qualquer forma, sabe que eu só fugi por esse motivo.
, nós entendemos que você sinta falta da sua escola e dos seus amigos - concordei com – Mas, nós nos preocupamos com você, a sua saúde ainda está debilitada e requer cuidados. Não pense que sentimos prazer em deixá-la em casa o tempo inteiro, claro que não. Só estamos zelando por você, queremos te ver bem e para que isso aconteça o mais rápido possível, você precisa também compreender o nosso lado e colaborar com a gente.
– Filha, desculpa se eu te sufoco na maior parte do tempo, mas a verdade é que eu temo pela sua saúde. É difícil para mim como mãe ver que a minha bonequinha de porcelana está tão debilitada; você sempre foi muito ativa e agora precisa de cuidados e isso exige de nós compreensão e paciência.
– Eu entendo, mãe, só me sinto cansada de ter que ficar aqui sem fazer nada. Às vezes, eu só quero sair um pouco, mas para todo lugar que vou, preciso carregar esse troço - ela apontou para o aparelho respiratório portátil – Isso é muito chato!
– Eu sei, meu amor. Eu sei. - aproximei-me mais dela e a abracei forte – Mas vai dar tudo certo. Você está fazendo as suas aulas de natação, está fazendo fisioterapia, está melhorando o desempenho nos estudos.
– Como você sabe? - ela me encarou, surpresa.
– Antes de vir para casa, passei em sua escola e conversei com a diretora, ela me contou como os seus trabalhos tem agradado aos professores e até os deixaram impressionados, pela complexidade de cada disciplina. Você tem feito um bom trabalho se dedicando aos estudos. - ela sorriu meio sem graça – Eu e o seu pai conversamos com Sam e Dean, os médicos que lidam com o seu caso, pessoalmente, e eles disseram que se você continuar com o tratamento, sem interrupções, poderá voltar a frequentar às aulas. - ficou boquiaberta e me olhou, sorrindo satisfeito.
– Eu nem sei o que dizer - ela pôs as mãos sobre o rosto e sorriu largamente – Obrigada. Muito obrigada. - apertou eu e em um abraço mais que espontâneo.
– Mas, filha - chamou sua atenção – Não podemos nos descuidar e nem cometer exageros, você foi liberada pelo médico a voltar às aulas, mas nada de se cansar demais. Você não pode abusar, hein!
– Verdade. Se sentir falta de ar ou qualquer outro sintoma, não hesite em falar com a diretora, já a avisei. Sempre que algo acontecer, ela irá nos ligar. - eu disse, pensando em mais avisos – E sobre a Educação Física, seu professor é experiente e já ligou com outros alunos com problemas pulmonares, ele saberá como lidar contigo.
– Sim, mas qualquer coisa mesmo, não deixe de nos avisar, . Por favor! - reforçou o meu pedido.
– Eu sei, gente. Fiquem tranquilos! - ela nos soltou do abraço, rindo fraco – Vocês estão se preocupando demais.
– Depois de descobrir que você é minha filha e após todos os nossos momentos juntos, eu comecei a te amar tanto, que eu já nem me imagino longe de você. - me olhou, tentando conter o sorriso. Eu sabia que ela estava sem ação com as palavras que ela tanto esperava ouvir do seu pai, aliás, ela finalmente está recebendo o amor paterno pelo qual tanto desejou. – Quero muito que sejamos uma família.
– Mas nós somos. - ela respondeu imediatamente, nos fazendo rir. – Não entendi essas risadas.
– Seu pai se refere a nos reconciliarmos como casal e então vivermos juntos, com nossa filha, como uma família. - eu disse e ela finalmente pareceu entender.
– Eu ficaria muito feliz - nós assentimos – Mas, eu não quero que vocês fiquem juntos por minha causa. Vocês devem se amar primeiramente.
– Nós sabemos disso, filha. - disse compreensivo – E, por isso, vamos conversar sobre o assunto, ainda hoje. - franziu a testa, confusa.
– Eu vou jantar na casa do seu pai. - eu disse um tanto envergonhada, já que me lançou um olhar significativo e ficou rindo. – Garota, cuidado com os seus pensamentos, você só tem 16 anos.
– Ah, por favor, não sou mais criança e sei muito bem como eu fui concebida. - me olhou um tanto desesperado e eu ri de sua expressão.
– Bem - ele se levantou, ainda sem saber o que dizer – Vou para casa agora.
– Não quer ficar mais? - perguntei ainda rindo.
– Eu preciso ajeitar as coisas para começar a cozinhar, e bem - ele olhou para o seu relógio – Já são 17h20.
– Mas ainda é cedo. - disse , o olhando sem entender.
– É que eu gosto de preparar tudo com calma, então prefiro me adiantar. - respondeu, secando com a própria mão algumas gotas de suor que brotava de sua testa. – Nos vemos mais tarde?
– Fique tranquilo, ela estará lá. - minha filha respondeu por mim e eu a encarei, com uma sobrancelha erguida. sorriu satisfeito, claro, sabe que já tem o apoio da minha mãe e, agora, o da .
– Então - aproximou-se de e depositou um beijo em sua testa, mas logo desviou o seu olhar para mim e me deu um beijo no canto da boca – Te espero ansiosamente - sussurrou em meu ouvido, logo erguendo o seu corpo e voltando à sua postura impecável.
– Às 20h00? - perguntei.
– Por mim, tudo bem. - ele respondeu empolgado – Até mais.
– Tchau, pai. - acenou com a mão e sorriu para ela. – Vocês parecem adolescentes.
– Você sempre diz isso. - revirei os olhos – E desde quando você responde por mim?
– Mãe, você precisava de um empurrãozinho, como eu disse, fica agindo como uma adolescente.
– É sério mesmo? - eu franzi um pouco o cenho, meio preocupada e assentiu. – Ah, você deve estar exagerando.
– Não estou, não. - a olhei ainda mais preocupada – Não estou mesmo!
– Tudo bem, não quero pensar nisso agora. - levantei-me da cama e retirei o meu celular da bolsa. Ouvi uma risada debochada bem fraquinha, mas foi alta o suficiente para eu saber de quem se tratava, , claro. Minha filha é tão engraçadinha. – Você tem trabalho de casa?
– Hoje não, eu fiz tudo na aula e já entreguei. - arregalei os olhos, enquanto a olhava pegar o seu notebook. – Antes que me pergunte, o trabalho era muito fácil, eu já sabia como o fazer.
– Tá certo. - pigarreei ainda pasma com as habilidades de , ela é tão inteligente que chega a me assustar. – Filha, quando você for à casa da Lauren, peça a Renée para vir aqui, por gentileza.
– O que você quer com a mãe da Lauren? - perguntou meio intrigada, me olhando por cima do notebook.
– Eu não posso ter uma tarde agradável com uma amiga de longa data? - eu tirei meu blazer azul marinho e passei as mãos pelo meu pescoço, estava meio enrijecido. – Além do mais, há muito tempo que não a vejo.
– É que ela é muito ocupada, mãe. Ao que parece, a vida de uma modelo é difícil.
– Sim, mas tenho certeza que ela terá um tempinho para mim. - dei um longo suspiro, já pensando no quão difícil será a conversa que eu terei com Renée. Ela não aceita bem conselhos, nunca aceitou, e sempre que tem oportunidade, diz a todos o quão bem sucedida é em sua carreira de modelo. – Acho que já vou me arrumando.
– Não acha que está cedo? - perguntou, sem tirar os olhos da tela do notebook.
– Não, ainda estou indecisa sobre qual roupa usar - eu abri o armário, encarando algumas vestimentas – Mas, enquanto eu penso, prefiro ir tomar meu banho logo.
– E não se esquece dos cremes e perfumes. - eu franzi a testa, olhando para que riu. Joguei uma camiseta em cima dela e fui para o banho.

Com toda certeza, eu irei me perfumar da cabeça aos pés; minha mania de exagerar no uso de perfume nunca esteve tão presente em minha vida. E hoje, não poderia ser diferente. Apesar de estar com um friozinho bem chato na barriga, eu quero muito conversar com o sobre nosso futuro relacionamento, acho que já está na hora de darmos uma nova chance à nós dois e, agora, já me sinto pronta para isso.

[Capítulo Dezesseis]

Saí do banho e vesti minha lingerie preta com bordado rosa, retornei ao quarto não encontrando , ela provavelmente estaria conversando com a minha mãe sobre meu "relacionamento" com , as duas adoram fazer isso.
Peguei a minha vestimenta mais antiga, porém, a que eu guardo com muito mais carinho; o vestido verde com detalhes delicados e enfeites discretos, que tanto valoriza as curvas do meu corpo, nunca fora tão apropriado. Sim, o vestido do meu Baile de Formatura, que precisou de alguns ajustes para os tempos modernos e para a minha atual silhueta, seria o ideal para a noite de hoje. O vesti com cuidado e fiquei admirando-me em frente ao espelho por alguns minutos, mesmo com as mudanças que eu fiz, este vestido me traz muitas lembranças…

– Mãe - adentrou o quarto – A minha avó está te chamando… - minha filha arregalou os olhos, boquiaberta. – Uau!
– Ainda tenho que me preparar melhor.
– Você está incrível! - ela se aproximou de mim e observou-me com mais atenção – Este vestido lhe caiu muito bem, eu mal posso acreditar que passou por ajustes.
– Mas acredite, ele não era assim tão…
– Ousado? - eu pensei um pouco, passando as mãos pelo meu quadril perfeitamente delineado pelo vestido tubinho curto, ressaltando as minhas coxas.
– Sim, este vestido nunca fora tão ousado. - desviei o olhar para o meu decote transpassado, que eu particularmente amo, e dei um leve sorriso. – E, sinceramente, o prefiro assim.
– Bem, eu não consigo imaginá-lo de outra forma. Com certeza, não era tão bonito antes. - falou, enquanto retirava a sua maletinha de maquiagem de dentro do armário. – Venha.
– O que você pensa que vai fazer? - eu a olhei com uma sobrancelha erguida e ela pôs a maleta em cima da cama.
– Te maquiar?! - respondeu em um tom óbvio.

– Mãe, relaxa, eu assisti alguns vídeos de tutoriais, já sei como farei sua maquiagem. - eu a lancei um olhar significativo e ela pigarreou, desviando o olhar de mim para os seus acessórios. – Mas só fiz isso para te ajudar mesmo.
– Sei… - ela suspirou fingindo não se importar com aquilo, mas eu sabia que ela não queria admitir seu mais novo interesse em maquiagens. demora quase mil anos para assumir que gosta de algo, quando na verdade, ela detestava.
– Venha logo, mãe, você precisa estar impecável.
, não exagere em sua fala e nem na maquiagem - eu me sentei na cama, de frente para ela – Hoje será uma noite normal. Eu e o seu pai iremos apenas jantar e...
– Decidir o futuro de vocês dois, juntos - ela me interrompeu com empolgação – Eu fico feliz só com a possibilidade de o meu desejo se concretizar.

Reparei que sorria sem nem perceber, o que não era de seu costume. Desde que entrou em sua vida, a mesma começou a demonstrar mais seus sentimentos. Ela já não se envergonha mais de suas reações, que são sempre muito espontâneas e, por este motivo, tentava não esboçá-las, mas agora, minha filha tem se permitido ser ela mesma, sem medo de ser julgada. E com isso, percebo que foi a melhor coisa que já aconteceu à ela, e tenho certeza que ela foi a melhor coisa que aconteceu a ele.

– Prontinho. - terminou de passar o batom vermelho em meus lábios – Acho que esse batom pode ser seu, ficou melhor em você do que em mim!
– Tem certeza? - a mesma assentiu.
– Sim, eu nem gosto mesmo de maquiagem. - ela deu de ombros, fingindo indiferença.
– Sei - eu disse, me aproximando do espelho – Filha, eu estou…
– Ainda mais linda do que já é - eu a olhei, emocionada, e ela se aproximou.
– Oh, meu amor - eu a apertei em um abraço.
– Mãe, não estrague o meu trabalho - ela disse, se referindo a maquiagem, eu estava prestes a chorar. – Solte o cabelo e apenas o jogue para frente e para trás, fica lindo assim.
– Bagunçado?
– Não está bagunçado, mãe, mesmo se estivesse, isso é estilo e charme.
– Se você, diz… - fiz o que ela disse e me olhei novamente no espelho, até que estava bom.

Terminei de me arrumar mais rápido que de costume e me perfumei bastante, como sempre fazia. Antes de sair de casa, me olhava tão admirada que eu não sabia o que dizer a ela, parecia depositar uma confiança imensa de que eu e voltaríamos, mesmo eu não tendo tanta certeza do rumo em que aquele jantar tomaria.

Pedi para que Carlitos me levasse até a casa de , já que o mesmo iria cozinhar e, eu queria dar a ele tempo suficiente para não se sentir pressionado e acabar nos matando com a comida.

– Obrigada, Carlitos. - eu disse, enquanto saia do carro, depois de guardar o meu troco em minha bolsa.
– Estou sempre à ordens! - ele bateu continência, me fazendo rir fraco e logo arrancou com o carro.

Senti um leve frio na barriga, as borboletas eufóricas já queriam voar, mas assim tão rápido? Eu ainda nem me encontrei com . Mas, como se o mesmo pudesse ouvir a minha respiração ofegante do lado de fora da casa, ele abriu a porta, fazendo uma expressão de surpresa.
Sorri como forma de aliviar o nervosismo, que parecia vir das duas partes, e ele, mais que depressa, deu-me passagem para adentrar a casa. Bastante moderna para quem costumava gostar de arquitetura antiga, mas, assim como nós, as nossas preferências também vão mudando, não que isso seja algo ruim. Só é bem verdade que eu já não conheço mais tão bem o pai da minha filha.

, você está incrivelmente linda! - ele disse, sem conseguir tirar os seus olhos de mim.
– Obrigada, , você também se superou hoje. - respondi, tentando firmar a voz – Até tirou a barba.
– Ah, isso foi ideia da . - ele passou a mão pelo rosto.
– Eu sabia!
– Não gostou?
– Não - ele fechou o sorriso – Quero dizer, sim, eu gostei muito. Me lembra de quando ainda éramos jovenzinhos.
– Pensei que te lembraria do tempo em que ainda éramos um casal.
– Também. - eu sorri, simples, tentando não deixá-lo sem jeito. – , você também está sentindo um cheiro de queimado?
– Ah, não! - ele correu até a cozinha e eu o acompanhei, vendo o seu desespero em tirar a panela do fogo – Droga, acho que não temos como aproveitar o arroz.
– Calma - eu peguei a travessa de porcelana vermelha, que estava sobre a mesa, e transferi a metade do arroz para a mesma, deixando apenas a parte queimada na panela – Acho que ainda dá para recuperar nosso jantar. - eu o olhei, rindo fraco, e ele respirava fundo.
– Obrigado, , você me salvou!

Depois de termos um jantar bastante agradável, acompanhado de conversas carregadas de doces lembranças da nossa juventude, parecíamos estar em um outro universo. As trocas de olhares se tornaram constantes, a admiração no olhar um do outro era nítida, os sorrisos tímidos pela presença um do outro ali chegava a ser até engraçado. Estávamos nos comportando como adolescentes apaixonados.

– Eu sinto como se estivesse bêbado. - disse, fazendo-me encará-lo, confusa.
– Fomos bem cautelosos com o vinho, já que nós queríamos ter a conversa mais importante de todas. - ele assentiu – Como poderia estar bêbado?
– Talvez eu esteja apenas nervoso, mas tentando jogar a culpa na bebida. - admitiu.
– Eu percebi.
– Também percebi que você está impaciente, assim como eu - soltei uma risadinha fraca, ele estava certo – Eu quero muito que a gente tente novamente, .

– Eu não quero parecer chato e ficar insistindo se você não quiser - eu assenti, respirando fundo e ele mirou seu olhar, com muita intensidade, sobre os meus olhos – Mas, você nunca diz o que realmente quer.
– E-eu… - estava sendo difícil tentar dizer a ele o que eu realmente sentia – Eu fiquei tanto tempo esperando por você, que agora parece não ser real. Este momento, esta conversa, parece um sonho. Eu sinto que estou me iludindo.
– Mas é real, está acontecendo, você só precisa ser sincera comigo. - ele segurou em minhas mãos, se ajeitando no sofá. – Você quer me dar uma nova chance?
quer muito que isso aconteça.
, eu amo a nossa filha e fico muito feliz que ela deseje a nossa felicidade como casal, mas, eu não quero que façamos isso por ela. Quero dizer, é claro que também pensamos em , mas quero fazer isso pelo motivo certo.
– E qual seria o motivo certo?
– Ficarmos juntos porque ainda temos sentimento um pelo outro, porque ainda nos amamos.
– É difícil para mim.
– Eu sei.
– Você me diz todas essas coisas, mas preferiu ficar com a Carly.
– Vamos esquecer isso.
– Não. Eu preciso falar sobre o passado. - eu puxei as minhas mãos de volta, as encolhendo um pouco. Respirei fundo, sentindo que a qualquer momento poderia começar um choro forte – Depois de tanto tempo, , por que só agora você voltou? Por que só agora sentiu minha falta?
– Eu sempre senti a sua falta.
– E achou que ficando com a Carly iria suprir a falta que eu fazia em sua vida?
– Não, eu nunca pensei assim, apesar de ter achado que não veria mais você, sempre fui sincero com a Carly, assim como estou sendo contigo agora. Eu jamais usaria alguém para preencher o vazio que outra pessoa me deixou, até porque isso jamais seria possível. Jamais alguém iria preencher o seu lugar em meu coração, pois você o domina por inteiro. - o olhei muito desconfiada, não estava acreditando tanto naquela conversa – , era você que estava constantemente em minha mente, eu pensava em você à toda hora. E mesmo que essas palavras sejam duras de serem ditas, eu senti a sua falta como nunca pensei que iria sentir. - as minhas lágrimas caíram, involuntariamente e tornou a segurar as minhas mãos, com total delicadeza – Todo dia eu relembro da nossa história de amor, que pensávamos ser apenas um passado… Como nos acostumamos a ficar quando estávamos você e eu? Como tudo desapareceu tão rápido? Há dias que eu não posso esquecer, há coisas que agora eu me arrependo; eu não estava lá por você, quando você estava lá por mim. Toda noite quando estou deitado em minha cama, ouço sua voz dando voltas em minha cabeça… Penso em todas as coisas que eu poderia ter feito, em todas aquelas coisas que eu poderia ter dito. E, se eu pudesse voltar no tempo, faria realmente tudo isso por você.
, por que só agora está me dizendo tudo isso?
– Sei que levou bastante tempo para eu criar coragem e te dizer tudo que sinto, sei também que você pode me odiar por isso, mas só agora eu realmente percebo o quanto sinto sua falta e o quanto quero você ao meu lado. - ele levou as suas mãos para o meu rosto, acariciando a minha pele – Vamos esquecer o passado, não podemos mudar nada do que aconteceu, talvez não antes era o tempo de ficarmos juntos. Mas, olhe para nós, estamos mais maduros, mudamos bastante, sinto que nós iremos nos decidir melhor agora. - eu encarei os seus olhos, tentando buscar neles ainda mais intensidade – Eu sei que você ainda me ama, consigo sentir isso em todas as vezes que estamos juntos.
– Eu não irei negar - ele ergueu as sobrancelhas, consequentemente arregalando os olhos, boquiaberto – Não desta vez.
– Você sabe o que eu sinto, , nunca escondi o meu amor por você. - ele deslizou sua mão, que antes acariciava o meu rosto, até o meu pescoço, fazendo-me sentir um leve arrepio pelo corpo. Tentei resistir ao seu toque, porém, desceu sua outra mão até a minha cintura e uniu ainda mais os nossos corpos.
… - fechei os meus olhos, involuntariamente, aproveitando aquela sensação boa de estar tão perto dele.
– Eu sei que você também quer a nossa união.
– É tudo tão recente - ele soltou um breve suspiro.
– O nosso amor não é recente, pelo contrário, ele é duradouro. Suportou tantas coisas, inclusive a distância, não será agora que irá falhar.
– Tem razão. - eu abri os meus olhos, logo olhando diretamente nos seus. – E eu te amo tanto, que estou disposta a esquecer o passado para focar em nosso futuro, juntos.

sorriu largo, me fazendo o abraçar como se não houvesse um amanhã. Depois de tanto tempo sem um momento apenas nosso, aquilo parecia um sonho, estar com ele parecia um sonho, do qual eu não queria acordar.

– Quer dançar comigo?
– É sério?
– Sim, quando foi a última vez que dançamos, juntos?
– Na festa da ?! - ele abriu a boca para me responder, mas eu sabia que não o faria. – Mas, tudo bem, dançar é sempre bom.
– Ainda mais com você! - eu dei um sorriso contido, observando-o se afastar para ligar o aparelho de som. Closer To Me começou a tocar, fazendo o meu coração disparar ao reconhecer a canção. – Eu sei que já escutamos esta música por diversas vezes, desde o nosso tempo de colegial, mas, preciso que você relembre cada frase dela, porque é como eu realmente me sinto.

estendeu sua mão para mim e eu a segurei, sentindo a outra repousar sobre as minhas costas, aproximando-me mais dele. Segurei também em seu ombro e começamos a nos movimentar, de um lado à outro, sem quebrar o nosso contato visual, aproveitando aquela sensação boa de estar novamente no calor da paixão.
A cada frase da canção, eu me emocionava mais; era realmente uma linda declaração em forma de música. Mesmo que não dissesse com os seus próprios lábios, eu sabia que era tudo o que tinha a me dizer. Era como um desabafo, através de um cântico que nos identificamos desde sempre, mas nunca antes fez tanto sentido.

Não esperamos que a música terminasse para começarmos um beijo intenso e cheio de sentimentos, entre carícias que há tempos não trocamos. me levou até o seu quarto, deitando-me gentilmente sobre a sua cama e, sem interromper o nosso beijo, deslizou sua mão sobre a minha pele, deixando-me completamente ouriçada.

– Hum, déjà vu. - eu disse, com a voz falha.
– Está tendo um? - perguntou, em meio aos curtos beijos que depositava sobre o meu pescoço. – Por que diz isso?
– Nossa noite do Baile de Formatura.
– Nossa primeira noite, juntos. - eu suspirei fraco, quando me olhou com profundidade. – Foi tão especial que nos rendeu um presente para a vida inteira. - disse, se referindo a .
– O melhor de todos que já recebemos! - ele sorriu de lado – E, agora, depois de 16 anos, a nossa primeira noite, juntos, novamente.
– Está sendo tão incrível quanto foi - selou os nossos lábios – Eu te amo, demais, . Sempre te amei.
– Eu também te amo, , sempre amei. - roubei-lhe um beijo – Eu sei que o momento não é para isso, mas, não posso deixar de perguntá-lo - ele ergueu as sobrancelhas, curioso e eu engoli o seco – Ainda quer o exame de DNA?
– Não. Não mesmo, eu acredito em você. - ele disse com firmeza – Além disso, é a minha cópia, não tem como não acreditar que ela é realmente a minha filha.
– Eu fico feliz e aliviada por saber que você acredita em mim.
– Me desculpe por ter duvidado de você. - eu suspirei – Na verdade, não duvidei de você, eu só não queria acreditar que aquilo estava acontecendo comigo. Eu pirei na hora, mas depois não tive como fugir da realidade, precisava encarar e foi a melhor coisa que fiz.
– Eu entendo… - desviei o olhar dele para qualquer outro lugar que não fossem os seus olhos.
– Hey, vamos esquecer tudo isso e aproveitar a nossa noite. - ele puxou o meu queixo levemente, fazendo-me encará-lo – Estamos juntos novamente, é o nosso momento, não vamos estragá-lo com o passado.
– Tem razão. - ele assentiu e eu puxei o seu rosto para mais perto do meu – Esperei 16 anos por isso, não quero desperdiçar mais tempo!

Beijei como se esse fosse o nosso último beijo, ou o primeiro de muitos outros, seguidos de uma noite de puro amor. Uma noite carregada de saudades, sentimentos reprimidos, sensações enjauladas, fogo e desejo. Muito desejo.

No dia seguinte, acordei com os braços de envolvidos sobre mim e, sinceramente, poderia parar o tempo só para aproveitar por completo esse momento. Mas, entrei em desespero ao ver no relógio que já eram 10h20 e, provavelmente, Suri deveria estar enlouquecendo com o meu super atraso.

, acorda! - ele se remexeu, resmungando e apertou-me ainda mais contra o seu corpo – Estamos atrasados.
– Ah, , vamos ficar aqui só mais um pouquinho, há quanto tempo não ficamos assim?
– Na verdade, nunca chegamos a ficar assim. - eu parei para pensar um pouco – , eu adoraria ficar aqui com você até mais tarde, mas não posso.
– Tudo bem - ele beijou o meu braço e eu me levantei, a contragosto, pegando o meu celular e chamando Carlitos, por mensagem, para me levar ao trabalho.
– 5 chamadas perdidas da Suri e 3 da minha mãe. - respirei fundo, derrotada, não pelo atraso no trabalho, acontece, mas por ainda estar morando com os meus pais. As minhas economias ainda não são o suficiente para eu comprar a minha casa. – Que frustrante!
– Quer vir morar comigo? - ele perguntou, de repente, enquanto eu vestia a minha roupa.
– O quê? Ficou maluco?
– Não, eu falo sério.
, tudo é recente demais, vamos esperar… - eu corri para o banheiro, precisava me higienizar rapidamente.
– Esperar mais o quê? Nós esperamos tempo demais para que isso acontecesse, já sabemos o que cada um quer: ficar junto de uma vez por todas. Não vamos entardecer ainda mais a realização do nosso desejo.
– Podemos conversar sobre isso depois? - eu saí do banheiro e calcei as minhas sandálias, logo guardando o celular na bolsa.
– Tudo bem, mas não vai ficar nem para tomar um café?
– Eu bem que queria, mas não posso, estou muito atrasada. - eu selei os nossos lábios. – Não irá se arrumar para o trabalho?
– Hoje é a minha folga. - eu assenti, afastando-me para olhar-me no espelho do armário – Então, nos vemos mais tarde?
– Eu não sei se hoje vai dar, preciso me encontrar com uma amiga, a mãe da Lauren.
– Lauren?
– Amiga inseparável da , ela já deve ter te falado sobre.
– Ah, sim. - ele pareceu pensativo – Achei que você só tivesse e de amigas.
– Também não é assim, não é mesmo?! - eu ri fraco – E, por falar nelas, estamos há um tempo sem entrar em contato uma com a outra…
– Vocês brigaram?
– Não, só estamos muito ocupadas, ultimamente. - o celular vibrou e eu o tirei da bolsa, lendo a mensagem de Carlitos, ele havia chegado – Mas, agora preciso ir.
– Não quer que eu te leve ao trabalho?
– Não precisa, fique e descanse, a noite foi bem cansativa. - eu ri fraco, mordiscando o meu lábio, enquanto o via sorrir malicioso.

Cheguei ao consultório com a maior velocidade que podia e logo me encarreguei de pegar uma xícara de café, eu precisava realmente despertar. Beberiquei o líquido, enquanto Suri me passava as últimas informações.

– Doutora, o senhor Olavo já deve estar chegando e os demais pacientes devem vir, sim, não houve nenhuma desistência.
– Tudo bem, mas, e quanto aos pacientes de mais cedo?
– Fiz as remarcações, mas para a próxima semana, essa já está lotada. - eu assenti, terminando de beber o café e enchendo a xícara com mais do líquido.
– Obrigada, Suri, tente relaxar um pouco, agora está tudo sob controle. - ela assentiu – Qualquer coisa estarei em minha sala.

– Senhor Olavo, acho que está em ótima forma e, apesar do tempo em que viveu o seu luto, pode tentar, sim, se abrir a um novo amor, se for da sua escolha.
– Será que consigo mesmo?
– Tenho certeza que sim. Não será fácil, mas, esse sentimento de traição à sua falecida esposa é algo inconsciente. E o senhor não precisa aceitar isso como uma verdade em sua vida, pois há, sim, a possibilidade de encontrar alguém que o compreenda e o respeite e que queira viver uma nova história de amor com o senhor. - o homem, não tão jovem, me olhava com certa malícia, o que me deixava um tanto desconfortável.
– Acha que qualquer mulher se renderia ao meu charme?
– Bem, muitas mulheres teriam interesse pelo senhor, já que é tão… Jovial. - ele olhava diretamente para o meu decote, o que me fazia lembrar de elogiando o vestido por ser bastante ousado. – Mais alguma pergunta para fechar a nossa sessão?
– A doutora está solteira?

Depois de atender ao senhor Olavo e ter que recusar, educadamente, a todas as suas investidas, me encontrei com Renée na Toca da Tia Jô, para almoçarmos juntas e falarmos um pouco sobre o comportamento de Lauren. Não queria ter que desmarcar esse encontro.

– Alô? - eu disse, enquanto já adentrava o lugar.
Mãe, está tudo bem? - me perguntou, mas, seu tom de voz era tranquilo – Eu só estou perguntando porque a minha avó me obrigou, mas eu sei que você dormiu na casa do meu pai.
– Sim, eu dormi na casa do seu pai.
Certo, eu vou dizer isso a ela. - suspirei fraco, já pensando na comemoração da minha mãe. Ela realmente quer como genro. – Mas, por favor, poupe-me de qualquer detalhe. Não sou criança, mas vocês são os meus pais, é estranho e nojento.
, eu não te contaria nada de qualquer forma, ok?! - eu disse a verdade – Agora preciso desligar, irei conversar com Renée.
Tudo bem, até mais tarde.
– Beijo. - bloqueei a tela do celular e o guardei na bolsa.

Cumprimentei tia Jô, que sempre me pergunta sobre a saúde de , graças a Deus, está melhorando aos poucos. Mas, não me demorei muito em nossa conversa, logo avistei Renée em uma das mesas mais escondidas e estranhei esse fato, já que ela não é do tipo de mulher que gosta de discrição, pelo contrário, quanto mais holofotes, melhor para ela.
Até me espantou não estar procurando por fotógrafos, sempre gostou tanto de ser o foco de toda atenção.

– Ah, meu Deus, , você está tão ousada! Gostei de ver! - ela sorriu largo, me observando dos pés à cabeça – Eu não te vejo assim desde… Aliás, eu nunca te vi assim.
– É bom inovar, às vezes. - eu me sentei à sua frente.
– O que as senhoritas irão pedir? - a garçonete perguntou, sorrindo largo.
– Eu quero uma salada simples e suco de laranja, sem açúcar.
– Eu gostaria de experimentar a mais nova receita da tia Jô: Cry Baby, por favor, não economizem na pimenta - a menina, que não deveria passar de seus 25 anos, assentiu, sem tirar o sorriso do rosto – Acompanhada do suco de maracujá e, ao contrário da minha amiga, com bastante açúcar.
– Anotado, o pedido já, já chega.
– Obrigada - eu sorri da mesma forma e a garçonete saiu, para atender outra mesa.
– Se soubesse o tanto de calorias que isso tudo possui, não teria pedido. - Renée disse, horrorizada, e eu ri fraco de seu exagero.
– Está tudo bem?
– Tirando a obesidade da Lauren, sim.
– É exatamente sobre isso que eu gostaria de conversar com você.
– Por que? Ela está comendo demais os lanchinhos que sua mãe sempre prepara para o trio inseparável?
– Não, pelo contrário, ela é muito obediente a você e recusa tudo que a oferecemos para comer. - Renée sorriu, satisfeita – Mas, isso me preocupa, Lauren acha que não é bonita, acha que está gorda demais e, por isso, não come.
– Eu a entendo - arqueei uma sobrancelha, a observando falar sem cuidado algum, afinal, é sobre a filha dela que estamos conversando – Com um corpo daquele, na idade dela, eu também não me sentiria bonita.
– Eu, sim, estou entendendo tudo - Renée me olhou, curiosa – É você que está enfiando na cabeça da menina que ela não é bonita.
, olhe para mim, eu sou uma supermodelo, estou no meu auge mesmo após os 35 anos, o nome e rosto de Renée Stefani estão estampados nas revistas mais famosas da atualidade, meu corpo ainda é o de uma garotinha de 20 anos, mesmo depois de ter Lauren. Mas, aquela menina, aos 16 anos, é maior que eu e você, juntas. E, quando eu digo "maior", é para os lados. - ela pigarreou e a minha atenção continuou nela – Eu não me alegro em dizer essas coisas para a minha filha, mas é necessário que ela saiba em que ponto chegou sendo tão nova.
– Ah, não?!
– É claro que não, mas, como mãe, eu preciso dar a ela um choque de realidade. - eu ergui uma sobrancelha – Eu sonhava com uma carreira linda no mercado da moda para aquela menina, , mas ela destruiu tudo comendo feito esfomeada e ganhando tantos quilos.
– Renée, você não tem noção do quanto as suas palavras pesam na vida daquela menina - ela franziu a testa – Lauren já recebe muitas críticas na escola e em todos os lugares por onde passa, ela sofre bullying constantemente, ouvir mais coisas do tipo vindas de você, como mãe dela, faz tudo soar bem mais cruel.
– Mas, eu só quero o bem da minha filha. - eu assenti – É a saúde e o bem estar dela que estão em jogo.
– Não, você quer o bem da sua carreira, da sua imagem, mas não está se importando com os sentimentos da Lauren. Caramba, ela é sua filha! - eu elevei um pouco o tom da minha voz e ela olhou ao nosso redor, talvez um pouco envergonhada – Aquela menina é uma das pessoas mais incríveis que eu já conheci, ela tem um coração enorme, é prestativa e bondosa, além de ser generosa, é linda e tem tantas outras qualidade. Por que você não enxerga isso?
– Eu sei disso tudo, , eu sei mesmo. Lauren também é muito inteligente!
– Então diga isso a ela; profira palavras positivas, pare de baixar a autoestima da garota.
– Eu não faço isso com intenção de magoá-la.
– Aquela menina tem a maior admiração por você, Renée, mostre a ela que você a vê da mesma forma. Dê a ela a chance de saber que você também a admira mais que qualquer outra pessoa nesse mundo. - minha amiga deixou algumas lágrimas escaparem, ainda assim, se manteve firme em sua postura. Segurei em suas mãos e ela me olhou, como se pedisse ajuda.
– Como eu posso ser uma boa mãe para a minha filha?
– Quem disse que você não é? - ela deu de ombros, negando com a cabeça e tentando controlar suas próximas emoções – Afinal, quem de nós não erramos enquanto mães? Somos falhos, Renée, cometemos erros também. Só não pense que durante a vida toda você errou.
– Mas, eu já errei muito com Lauren - ela reconheceu, finalmente se rendendo aos seus sentimentos – Já passou da hora de eu começar a acertar.
– Eu tenho certeza que você vai!
– Obrigada por ter me chamado aqui para esta conversa, , você fez-me finalmente reconhecer as minhas falhas, sem me julgar ou algo do tipo. - ela apertou as minhas mãos e eu sorri, assentindo, queria demonstrar total apoio – Agora, o que eu mais quero é aproveitar esse nosso almoço, voltar para casa e esperar minha filha chegar da escola; quero dizê-la o quanto é especial em minha vida, o quanto a amo e a quero bem, o quanto eu me arrependo por tê-la feito sentir que não é linda e encantadora, quando, sim, ela é, isso e muito mais. - as suas lágrimas sinceras não paravam de escorrer sobre o seu rosto, ela nem mesmo estava preocupada com os olhares confusos e intrigados de todos sobre nós – Quero pedi-la perdão, quero abraçá-la bem forte, quero cobri-la de amor e mimos, quero que ela sinta, todos os dias, o quanto ela merece tudo de melhor que irá lhe acontecer. Quero que ela saiba e reconheça a garota maravilhosa que ela é.
– Mãe?! - olhei para trás e vi Lauren, paralisada, ao lado de Jake e – É verdade que você pensa isso de mim?
– Oh, meu amor, é verdade, sim - Renée levantou-se em uma velocidade incrível e abraçou a filha, como há tempos eu não a via fazer – Me desculpe por todas as palavras horrorosas que eu lhe disse, filha, não percebi o quanto estava te fazendo mal.
– Você não me faz mal, mãe – Lauren disse, com o seu jeitinho meigo, e eu sabia que estava sendo sincera – É só que era difícil ouvir tantas críticas vindas de você, mas, eu sei que você quer o meu melhor.
– Eu quero o seu melhor, mas, não creio que estava fazendo o melhor para você. - Renée disse, enxugando as lágrimas da filha – Me perdoe, meu amor, por tudo. Eu preciso do seu…
– Tudo bem, mãe, eu já te perdoei. - Lauren sorriu, tímida, e Renée a abraçou, mais uma vez, chorando tão forte que a filha precisou ampará-la.

Assistindo aquela cena, não tive como não me emocionar; aliás, todos naquele lugar se emocionaram com o que presenciamos. Olhei para Jake, que era a pessoa mais revoltada nessa história toda pelo jeito como Renée tratava a sua amiga, e sorri largamente, ele vibrava de tanta felicidade pela Lauren.
Desviei o olhar para , que veio caminhando, com certa dificuldade, em minha direção. A abracei de lado, já sabendo que isso era obra dela.

– Como fez isso acontecer?
– Você não finalizou a chamada, por isso, eu coloquei o celular no viva-voz e deixei Lauren ouvindo a parte em que a mãe dela se arrependia de tudo. - eu franzi a testa, confusa – Ela e Jake estavam lá em casa.
– Então, você teve a ideia de trazer Lauren aqui?
– Sim, e eu fico feliz em ver que deu certo. - ela sorria, olhando a amiga ainda abraçada à mãe.
– Por que não almoçamos todos juntos? - Renée sugeriu, levando Lauren para a nossa mesa – Venha, Jake, você também é da família. - o garoto sorriu, dando uma corridinha para se sentar ao lado da amiga.
– Ah, que bom que teve essa ideia, tia Renée, estávamos mesmo famintos! - disse, enquanto eu a ajudava a sentar-se à mesa.

Depois de quase meia hora para os jovenzinhos decidirem o que iriam escolher, fizeram os seus pedidos e o meu e de Renée chegou, abrindo ainda mais o nosso apetite com o aroma gostoso que exalava dos pratos.

– Esse é por conta da casa. - tia Jô disse ao se aproximar de nossa mesa, descansando as mãos na cintura.
– Ah, não precisa, tia…
– Eu faço questão! - ela interrompeu-me, logo saindo para atender a outros clientes.

Despedimo-nos de todos, incluindo tia Jô e alguns de seus filhos, que também são seus funcionários, e saímos satisfeitos pelo almoço agradável que tivemos. Renée levou Jake com ela, certamente o deixaria em casa e eu chamei Carlitos para levar eu e para a casa dos meus pais.

Depois de tomar um bom banho, porque eu realmente queria e merecia, meu pai me levou de carro à clínica.
Terminei de atender a todos os meus pacientes do dia, e graças a Deus, não foi tão cansativo quanto os dias passados.


[Continua…]


Nota da autora: Aaaaa, finalmente saiu essa atualização e eu espero muito que vocês gostem! E, por favor, não se esqueçam de comentar, saber o que vocês estão achando da história é muito importante para mim. 💚
É isso, galera, obrigada por tudo e até a próxima att, BJoo 😽❤

*Não se esqueçam que agora nós temos um grupinho no fb, então vamos interagir por lá, vai ser bem legal!




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