Última atualização: 24/09/2018

VERSE 1.

“Você tem planos para esta noite?”
“Que tipo de pergunta é essa?” Eu ri da maneira apressada de iniciar a conversa por telefone.
“Estava pensando em te ver.”
, eu estou do outro lado do mundo.”
“Só preciso pegar um voo.”

Continuei a rir. Era uma amizade de anos. Nos conhecemos na infância, através de nossos pais. Agora era uma pessoa famosa. Cantava e muitos gritavam por sua atenção. Eu estava em um intercâmbio… no Japão, há seis meses.

“Eu sei que parece loucura. Mas eu só quero te ver.”
“Nos veremos no Natal”

Nossas famílias costumavam se reunir para ceia no Natal, naquele ano não seria diferente.

“É sério, . Ainda é cedo por aí, não é? Algumas horas e eu chego.”
“Você pirou, só pode.”
“Me manda a localização. Vou chegar de madrugada. Vê se não dorme. Eu to saindo.”

Desligou. costumava brincar tanto sobre as coisas que eu nunca acreditaria no que estava dizendo. Mandei a localização de meu apartamento, que ficava próximo à Tokyo Skytree, com um complemento: “dúvido você chegar com comida japonesa”. Havia decidido jogar seu jogo, sem saber que várias horas depois tocaria o interfone sem parar. Eu estava dormindo. Obviamente. Acordei e atendi com raiva.

“Caiu no sono, acertei?”

Sua voz me invadiu tão prontamente quanto o susto. “Não é possível”, pensei. Coloquei um roupão de banho. Liberei o portão através do interfone. Lavei o rosto, já havia me visto em piores condições, então não havia preocupação. Dois toques na minha porta, abri para encarar comida japonesa embalada para viagem.

- Sorte sua que no Japão tem comida japonesa pra todo lado. - Uma piscada enquanto entrava.

Eu estava em paralisia. realmente viera. Saíra do outro lado do mundo e viera parar aqui.

- O que diabos deu em você?
- Você. - Foi a resposta. - Não conseguia te tirar da cabeça.

Flertávamos assim às vezes, mas sempre era na brincadeira. Era amizade. Só amizade? Brincadeira com fundo de verdade, eu diria, da minha parte pelo menos. Fiz uma careta e revirei os olhos, fechando a porta.

- Eu estou só estresse ultimamente. Aquelas pessoas que só pensam no marketing para o meu trabalho. Eu queria algo simples por uma noite pelo menos. Eu queria você.
- Eu sou simples então. - Dei uma gargalhada.
- Você entendeu.

Nos jogamos no sofá e comemos sushis enquanto conversávamos. Parecia que estava em algum estranho sonho com a pessoa que eu mais gostava no universo.

- Não acredito que você veio.


VERSE 2.

- Me leva para o melhor lugar em Tokyo que você conhece.
- São três da manhã, .
- Melhor ainda. As ruas serão só nossas.

Ri de seu entusiasmo.

- Vaaamos! Vai ser divertido.

Aproximei-me ao máximo. Nossos rostos ficaram a centímetros um do outro. Eu podia sentir a tensão que se instalou em nossos corpos. Deixei que um sorriso provocativo tomasse conta de meu rosto e depois de alguns segundos apenas me afastei levando comigo a embalagem vazia de comida que estava ao lado.

- É melhor pegar mais de um casaco. - Completei.

Nos animamos por fim. Caminhar pelas ruas de Tokyo a noite não era nem tão deserto e nem tão gelado como parecia. Talvez porque inventávamos de apostar pequenas corridas, nos empurrar para lá e para cá, ou andar somente em pulando. Não estávamos fazendo nada além de tentar manter a temperatura de nossos corpos em meio àquele inverno, mas eu nunca sentira tamanho conforto. Fomos observar o monte Fuji de longe. Ventava gelado e neve começou a cair. fez algumas bolinhas de neve e começamos a nos atacar. Meu abdômen doia de tanto rir naquele frio. Era sempre assim quando se tratava de mim e .

- Quero conhecer o distrito da luz vermelha. - disse depois de uma hora e meia de nada a fazer.
- Aaaah, agora está explicado. - Brinquei. - Você queria curtir uma balada sem paparazzi.

fez uma careta dando um novo empurrãozinho em meu ombro.

- Okay. Eu te levo para conhecer Kabukicho. - Me convenci.

Andávamos a pé durante todo o tempo, mas para ir até Kabukicho precisaríamos pegar o metrô. Poderíamos alugar um veículo, já que no Japão tudo geralmente era bastante prático e não tão caro para alugar, não era necessário nem mesmo falar com pessoas, apenas pagar e retirar cartão de desbloqueio em máquinas.

- Isso é tecnologia demais para minha cabeça. - disse quando eu comentei.
- Você queria conhecer o Japão, não queria? - Eu ri, mas decidimos pelo metrô.

Fomos até Shinjuku, centro comercial de Tokyo, onde ficava Kabukicho e as coisas mais malucas da vida noturna que se pode imaginar. A estação de metrô era muito próxima. Caminhamos pelo mar de luzes que era Kabukicho e nos divertimos comentando coisas aleatórias. Eu fora ali poucas vezes, mas sempre me espantava. Estava sempre apinhado de gente, turistas. Uma loucura, mas inacreditável. Nunca havia realmente entrado em uma das casas noturnas. Era tudo muito caro por ali.

- Vamos entrar em alguma?
- Até parece! - Eu ri. - Acredite em mim, nada nesse lugar é no valor que meu estágio pode pagar, nem que a gente dividisse!

Eu fazia estágio no mesmo lugar em que fazia meu curso de língua japonesa e ganhava alguns ienes por isso. Uma bolsa auxílio.

- Eu posso pagar. - Esquecia às vezes que tinha fama e dinheiro. Para mim era apenas a mesma pessoa que conheci aos oito anos de idade. Levantei uma sobrancelha. já ergueu os braços para o alto. - Retiro o que disse.
- Podemos ir ao Champions Bar, no Golden Gai. Fica a uns 3 min daqui. - Aquele lugar eu conhecia, era engraçado: tinha bebida barata e karaokê.

Golden Gai era um espaço underground, eu diria. Não tinha as luzes e modernidades de Kabukicho. Era um beco cheio de pequenos bares e alguns deles não aceitavam turistas, mas o Champions era ótimo. Eu era horrível no karaokê, ao contrário de , que afinal já cantava como profissão. Eu nunca me importei com isso. Conseguia arrancar muitas gargalhadas com minha incapacidade para cantar. Bebemos sem chegar ao ponto de passar mal ou perder a consciência, mas estávamos alegres o suficiente para soltarmos a voz. Não que precisasse disso para cantar. Depois caminhamos de volta e conseguiu um mini-ursinho em uma daquelas máquinas de brinquedos que existem por toda Tokyo. Me deu de presente. Adentramos o metrô novamente, rindo mais que o normal e quando chegamos ao apartamento mal conseguimos subir as escadas de canseira. Pelo menos eu já nem sentia mais o frio. Os cantos dos meus olhos estavam molhados das risadas. Havíamos pegado uma pizza no caminho, sim existe muita pizza em Tokyo. Nos perdemos por um tempo, até que encontrarmos o rumo novamente, nos rendendo ao GPS. E ali estávamos, no chão de meu quarto minúsculo, dividindo um cobertor. Estava quase amanhecendo.

- Essa pizza é a melhor pizza que eu já comi. - suspirou.
- A minha também. - Suspirei junto e rimos mais.

Caímos no sono depois disso, ali mesmo nas almofadas no chão. Sonhei que ia embora. Minha mente insistia em mostrar, até mesmo em sonhos, que aquilo tudo não iria longe. Não teria como ir.


CHORUS.

Acordei e me esforcei para não fazer muito barulho. Ainda era antes do meio-dia, porém o cansaço já não tomava mais conta de mim. Comecei a preparar o café da manhã e creio que o cheiro de comida despertou . Sempre despertava.

- Café da manhã? – Sua voz preencheu meus ouvidos. Ri. Ainda vestíamos as roupas do dia anterior.
- Preciso muito de um banho. – Eu disse. – Você termina aqui?

não discutiu. Fazíamos as coisas cooperativamente quase de modo automático, talvez por termos crescido assim. Tomei um banho rápido, mas relaxante. Quando retornei, vasculhava o próprio celular enquanto já beliscava a comida.

- Já somos notícia outra vez? – Perguntei. Depois da fama de não havia mais como estar em sua companhia sem que isso virasse algum tipo de notícia com uma manchete de “namoro ou amizade?”.
- Aparentemente não. Estou me sentindo como quem trabalha para a CIA nos filmes, que mudam de identidade.

Gargalhamos. Novamente minha mente lembrava que o nosso normal nunca seria o normal. Era sábado, então nada de estágio. Estava livre o dia todo.

- Quando é o próximo show?
- Amanhã a noite. – Percebi encarar o chão.
- Não tem medo de desmaiar em cansaço?
- Sabe, isso pode com certeza acontecer. A culpa vai ser toda sua.
- Minha? – Desdenhei.
- É claro, eu já disse que só estou aqui porque não consigo te tirar da cabeça.

Novos risos. A comida quente descia pelo meu sistema digestivo com a mesma sensação de satisfação que sentia ao encarar os olhos de à minha frente.

- Podemos fazer uma trilha. No Monte Fuji. - lançou, erguendo e abaixando as sobrancelhas.
- A possibilidade mais curta tem 4 horas de subida e 2 horas de descida, isso sem chegar na estação mais alta. Até porque no inverno isso nem é permitido. Você realmente quer passar frio todo esse tempo?
- “Do you want to build a snowman? Come on, let's go and play!” cantou, referenciando Frozen da Disney.

Revirei os olhos, mas ri ao mesmo tempo.

- Gostaria de dizer que isso foi ridículo. - Eu ria enquanto falava.
- Ninguém vai nos procurar lá. – desafiou.
- Ahhhh, tenho certeza que deve haver um paparazzi que te perseguirá até nas alturas. Um não, mais. - Continuei rindo. Não entendia o porquê da fuga desesperada de das câmeras e da mídia. Nunca havia fugido. - Você realmente quer escapar, não é?

Nossos olhares se sustentaram por alguns segundos.

- Okay. – Quebrei o silêncio. Lá vamos nós, trilha Fujinomiya.
- Eu estava prestes a dizer que me sinto uma pessoa normal ao seu lado, mas quem é que faz intercâmbio em Tokyo e conhece as trilhas do Monte Fuji?

engoliu o último pedaço de omelete enquanto terminava a piada, dando de ombros. Empurrei seu braço de brincadeira. Fujinomiya era a trilha mais curta, porém a mais íngreme. Eu já havia subido e descido algumas vezes, porém não contava com tamanha dificuldade...

- Eu... preciso... respirar. – Ofegava, quando chegamos ao meio do caminho. Comecei a gargalhar e como vingança levei uma bola de neve no rosto.
- DE NOVO NÃO! – Uma nova guerra de neve, depois sentei ao seu lado. Era difícil respirar já naquela pequena altitude, o frio não ajudava. - Quer descer?
- Nem pensar! – levantou, mas ainda ofegava.
- Okay. – Dei de ombros rindo.

Adorava trilhas, sabia disso. Estendi a mão para lhe dar suporte quando chegamos a outra estação. A altitude já nos permitia enxergar tudo pequenininho lá embaixo. Tampei meu nariz com o cachecol por certo tempo. Estava gelado. Havíamos caminhado por três horas.

- Acho que aqui já está bom. - Eu disse. assentiu. Observávamos a paisagem.

Com aquele frio poucos se arriscavam a subir, principalmente os turistas, então a tranquilidade do passeio era aconchegante. Não percebi ninguém tirando fotos nossas, mas com as câmeras de hoje nem era mais uma regra estar próximo para que o fizessem. Encarei . A sensação que eu tinha era que só havíamos nós no mundo. Adeus câmeras, adeus paparazzi. Nossos olhares se encontraram e desviei observando novamente o que parecia ser a miniatura de Tokyo. se aproximou e passou um dos braços por cima de meus ombros. Era um daqueles momentos eternizados, que você sente que pode vencer o mundo.
Já era noite quando estávamos de volta ao apartamento com os corpos aquecidos. Colocamos nosso filme favorito para rodar e dividimos uma manta. No entanto, prestávamos mais atenção ao chocolate que havia derretido no micro-ondas.

- Tem chocolate até no seu nariz. - Gargalhei apontando a mancha marrom bem na ponta do nariz de que tentou alcançar com a língua, mas não conseguiu.
- Eu nunca vou conseguir fazer isso. - Disse em desistência.

O que seguiu foi um silêncio perturbador se comparado ao ânimo do dia.

- Vai pegar um voo amanhã de manhã? - Perguntei.
- Yeap.

Mais silêncio. Nem eu e nem queríamos que acabasse.

- Era isso que eu queria, sabe. Me perder no seu paraíso.
- Meu paraíso?
- É. Essa cidade. Seu riso.

acariciou meu rosto e se aproximou. "Perto demais", pensei. Desviei o olhar prestando atenção na manta que cobria minhas pernas.

- para.
- Parar o quê?
- Com isso.
- Isso o quê?
- Você sabe. - Suspirei. - Não podemos ir por esse caminho.

...
Silêncio.

- Sabemos que isso é mais que uma amizade. - nunca havia dito isso. Mesmo que pairasse ao nosso redor toda vez que nos encontrávamos, nunca falara de maneira audível.
- Mas não pode ser.
- Por que não? - Sua voz era quase um sussurro agora.
- Você vai voltar para suas turnês amanhã. E eu para minhas coisas. Vamos nos ver de ano em ano, no Natal, e olhe lá! Isso nunca vai funcionar.
- Você tem medo de tentar. Igual com a fotografia.

jogou uma verdade contra a qual eu não tinha argumentos. Adorava fotografar, mas meus pais me empurraram para a faculdade de Engenharia Elétrica com direcionamento em Robótica a vida inteira. Eram donos de uma empresa do ramo. Justamente por essa razão estava em intercâmbio no Japão. Nunca mais houve tempo para as fotos. Levantei sem dizer nada com as louças em mãos, deixando no sofá. Quando voltei dei de cara com o ser de luz no corredor. Fechei a cara.

- Desculpe. Fui idiota. Não vamos brigar. - disse. Abriu o sorriso que iluminava corações por todo o mundo.

Me abraçou. O cheiro de seu perfume tomando meus pulmões. O aconchego de seu corpo quente em minha pele. Permanecemos algum tempo assim, depois voltamos para o sofá. Finalizamos o filme em silêncio. Segurei uma mão de e a mantive em meu colo, acariciando-a.

- Mas preciso dizer... amo suas fotografias. - disse quando já tinha os olhos fechados e a voz embargada de sono.

Sorri desejando que fosse mais fácil ter a coragem para fazer tudo o que eu queria fazer de verdade. Deixei que descansasse no sofá e fui ao resgate de minha Instax no fundo do guarda-roupa. Tirei uma foto de em seu mundo profundo de sonhos.

- Hey. - Sussurrei chacoalhando .
- O que houve? - Seus olhos apertados de sono me observaram.
- Você vai dormir na cama. Precisa estar bem para amanhã.

tentou protestar, mas insisti. Ajudei com o trajeto e, antes de sair do quarto em direção novamente ao sofá, guardei a câmera e enrosquei a pequena foto - revelada instantaneamente - no espelho que havia ali. Encarei-a. Um flashback de escolhas se fez diante de meus olhos. Seriam aquelas as que realmente me fariam uma pessoa feliz?


VERSE 3.

Na manhã que ainda despontava rosada no horizonte eu e fomos ao aeroporto. Algumas pessoas nos pararam por lá, para tirar fotos, não comigo obviamente. Talvez eu tenha até visto alguns paparazzi de longe. Ignorei. Na fila para embarcar ficamos frente a frente para nos despedir.

- Queria poder ficar. - disse em certa melancolia.

Inspirei o ar gelado devagar e retirei um chaveiro do bolso. Eu guardara a algum tempo em minhas chaves, mas sempre pensei que seria a cara de . Pendurei-o com meu dedo indicador estendido depois de desprendê-lo das chaves, bem em frente ao rosto de .

- O que é isso? - Aquele sorriso de novo.
- Para você continuar sem me tirar da cabeça.
- Oh... Você tem que parar com isso! - O tom de brincadeira tomou conta de sua voz.
- O que? – Eu ri.
- Jogar esse charme em cima de mim.

Gargalhamos. Peguei sua mão e depositei a pequena palheta de plástico ligada a um ganchinho. Fechei seus dedos. Dei-lhe um beijo na bochecha.

- Te vejo por aí. - Eu disse.
- É... - suspirou, se afastando ainda de frente para mim. A mão segurando forte o chaveiro. - Te vejo por aí.

Fui embora caminhando quando sumiu de vista. Aquela cor rosada no céu mesclada ao azul me fez pensar nas fotografias e na vida. “Você tem medo de tentar”, a voz de ecoou em minha mente.

- Talvez eu tenha... - Sussurrei para que apenas meus próprios ouvidos escutassem.

Não era nem de longe com aquela rotina que eu sonhava, meus sonhos eram bem diferentes, meus sonhos tinham aventuras, registros fotográficos. Meus sonhos tinham . Passei a semana fazendo tudo de maneira automática. Mecanizada. O estágio, as aulas da faculdade. Toda noite em meu apartamento me deparava com a Polaroid de enroscada no canto do espelho. Depois daqueles oito dias pensando em como aquela não era minha vida, decidi ligar para .

“Hey, aqui é . Deixe sua mensagem.”

Desliguei, porém, decidi ligar novamente e deixar a mensagem de voz. A impressão que eu tinha sobre nós é que nos falávamos sempre e ao mesmo tempo esporadicamente. Acredito que aquele era nosso paradoxo. A distância. Porque distâncias são feitas para avaliar constâncias e éramos constantes, mesmo sem ser.

“Você tinha razão.”

Disse quando retornei do fundo dos meus pensamentos.

“Eu tenho medo. Medo de muitas coisas.”

Pausa. Não sabia bem o que dizer simplesmente por não saber direito o que eu estava fazendo.

“Mas quero ter coragem, então acho que vou desistir de tudo. Recomeçar. Você disse que gosta de se perder e talvez eu também esteja me perdendo. Nesse país, em você. E gosto disso, mas acho que quero me perder em novos lugares também. Vou levar a câmera comigo. A Polaroid e a Digital. Bom... tenha uma boa viagem. Te vejo... por aí.”

Os telefonemas e visitas que fiz depois disso desafiaram todo tipo de decisão que eu havia feito até o momento. Cancelei minha faculdade. Pedi a conta no estágio. Encerrei o contrato imobiliário do apartamento. Tinha salvo algum dinheiro durante todo aquele tempo e estava indo embora com o que cabia em uma mochila de camping, inclusive os equipamentos de trilha e fotografia. Tempo? Indefinido. Liguei para meus pais. Tensão. Disse que sairia pelo mundo fotografando. Protestos e muitos. No entanto, era aquilo que eu iria fazer e deixei bem claro. Não foi uma briga, uma discussão talvez, mas sem concordância alguma. Comprei uma passagem em bom preço pela internet para Yakushima, uma ilha ainda no Japão. Começaria com os cedros de mais de 1000 anos e depois disso não havia um destino. Iria para onde o vento me levasse. Filipinas, Tailândia, Austrália, Nova Zelândia, Taiti, Hawaii, Califórnia. Muito mais. De um em um. Trabalharia em qualquer coisa que fosse possível trabalhar e faria a manutenção com o dinheiro que já tinha, que provavelmente daria para um ano de viagem se eu soubesse economizar. “Obrigada , pensei. sempre foi inspiração em minha vida, exalava isso, talvez daí viera sua fama desenfreada. Tinha talento e inspirava as pessoas. me ligou depois de alguns dias, quando eu já estava em Yakushima.

“Vou querer ver essas fotos. Você não vai se livrar de mim.”

Foi assim que terminou nossa conversa de quarenta minutos. Não voltei para o Natal e nem para nenhuma data comemorativa durante dois anos seguidos. Mantive contato com meus pais e em algum momento eles aceitaram que aquela era minha nova vida. Trabalhos temporários e estadias temporárias. Eu já sabia escalar e acampar, mas aprendi a surfar, a mergulhar, a velejar. Aprendi a gostar de coisas que nunca imaginei que gostaria. A provar de tudo. A pular de penhascos em direção a águas cristalinas. A me comunicar sem qualquer noção sobre a outra língua. Aprendi a passar por perrengues. E quantos. Em alguns cheguei a acreditar que chegara ao fim de minha vida, mas não. Ainda não. Conheci tantas pessoas. Tirei tantas fotos. Tantas. Guardei em um álbum as Polaroid. Ainda assim no fim de cada dia o que me vinha a mente era . Observava a foto daquele dia... no Japão. Parecia tão distante e tão próxima. Paradoxo. Nos falávamos de vez em nunca agora. Às vezes eu recebia uma mensagem que dizia: “sinto sua falta” e eu dizia que sentia de volta. estava sempre na correria e eu sempre em lugares que o sinal não existe. É claro que quando eu arranjava internet me atualizava, mas a maior parte das informações vinha de meus pais. Eles e a família de se juntaram nos fins de ano que não compareci, como de costume. Mandei cartões postais e algumas de minhas Polaroid, o que eu acreditava ser retrô suficiente para ser interessante. Decidi voltar para casa de meus pais para visitá-los em novembro daquele ano, três anos desde que me visitara no Japão. Parecia estranho retornar e... feliz também. Quando cheguei abracei forte meus pais e ao invés de críticas recebi curiosidade. Mostrei quase todas as infinitas Polaroid. E algumas das fotos digitais.

- Você mudou tanto. - Minha mãe me disse. – Cresceu tanto.

Sorri por perceber que ela não dizia de maneira pejorativa. Seus olhos estavam marejados e os meus também.

- Bom. Acredito que devo a vocês minha presença para o fim de ano. - Eu disse e eles riram.

Tudo foi planejado. A família de viria e claro que meus pais só falavam sobre meu retorno.

“Será que ainda vou te reconhecer?”

Mandei uma mensagem para com emojis de risos um dia antes. Não conseguia ignorar as batidas mais forte em meu coração. A expectativa. Era a primeira mensagem em provavelmente oito meses. Minhas mãos suavam frio. O celular quando apitou.

“Com certeza, não.”

Gelei no mesmo nível de frieza da resposta. Depois de um minuto uma nova mensagem.

“Minha beleza se elevou um milhão de vezes.”

Ri em alívio. Podia parecer idiota ou até infantil, mas eu tinha receio de nossa amizade ter se esvaído, com o tempo, com a distância. Mandei vários risos. Eu era outra pessoa e tinha certeza que também. Nossas experiências nestes anos foram completamente distintas apesar de termos conhecido igualmente diferentes lugares. Eu vivera sempre com pouco. Pouco dinheiro, o suficiente para sobreviver e ir para o próximo lugar, poucas pessoas, aqui e ali o que somava um bom total, mas nem perto das aglomerações que viu. Seria quase uma loucura juntar tudo isso. Nossa infância foi conjunta, seria quase uma nova vida para contarmos os novos detalhes. Mas ali estava... o barulho da campainha que para mim agora era nostalgia a ser desfrutada.


VERSE 4.

Quem veio correndo me abraçar foi a irmãzinha de , que agora havia crescido tanto que poderia não reconhecê-la. Me contou que comemorou os 14 anos e deixei que ela soubesse de meu espanto. Ela sempre fora uma criança que tinha ânsia em crescer, mal sabia que a melhor fase era na qual estava. Apesar do abraço caloroso, já não tinha mais interesse em nos rodear ou brincar. Travei quando me deparei com .

- Hey. - Consegui dizer.
- Hey. - respondeu.

Nos abraçamos sem realmente nos abraçar. A reunião familiar se estendeu até o começo da madrugada, então os pais de decidiram que era hora de ir. perguntou se poderia ficar mais um pouco e minha mãe se prontificou dizendo que poderia até dormir ali se quisesse. Meu coração acelerou quando aceitou o convite. A distração anterior não me deixou perceber, mas eu ansiava por um momento a sós. Finalmente tivemos a oportunidade quando meus pais foram dormir.

- Acho que ninguém vai reparar se finalizarmos a garrafa de champanhe, certo? - Perguntei, nos servindo.
- Se repararem, negarei até o fim! - Rimos.
- Feliz Natal. - Ergui meu copo no ar e fez o mesmo.
- Feliz Natal.

Batemos nossos copos em um brinde. Uma neve fina começou a cair paciente lá fora.

- ESTÁ NEVANDO! - Me animei.

Corri para a varanda com a garrafa de champanhe em mãos. me seguiu. Acertei uma bola de neve em sua cabeça no momento em que se distraiu.

- Isso me fez lembrar do Japão. - comentou devolvendo com outra bola de neve.

Desviei o olhar com medo que percebesse minha melancolia. Eu sempre pensava sobre minha vontade de ter assentido quando mencionou, naquela noite, que o que tínhamos era mais que uma amizade. Para tentar reprimir-me de voltar a pensar sobre isso deixei que minha mente viajasse a coisas bem mais antigas. Recordei-me das brincadeiras em poças durante os dias chuvosos e a lama que nem as galochas impediam que chegassem às nossas roupas. Comentei. Gargalhamos.

- Há boatos que banho de lama é ótimo para a pele. - disse.
- É, aquela lama com certeza fez bem para nossas peles. - Caçoei e riu alto demais.
- Shhhh... - Segurei seu riso colocando as mãos desajeitadamente sobre seus lábios.

Senti certo desconforto sobre esse gesto automático e percebi que a pele de meu rosto queimava. Como era estranho trazer de volta aquele contato físico involuntário e intimista que antes era tão comum entre nós. O contato visual e físico mudara completamente, estávamos sempre nos esbarrando quando crianças, nos abraçando e nos olhando olho no olho. Agora a distância física era a mesma de duas pessoas desconhecidas. Os olhares eram tímidos o bastante para não se demorarem demais. Cordiais. Eu me perguntava como conseguíamos ser tão livres desses limites um tempo atrás. Apesar de todo meu constrangimento momentâneo, não pareceu se importar. Bebemos mais alguns goles de champanhe.

- Okay, talvez a gente não devesse se alterar demais na casa dos seus pais.
- Parece que temos quinze anos de novo e tentamos entrar tarde da noite, sem que percebam, depois de beber demais. - Respondi.

Rimos mais, agora abafando o som.

- Igual aquele luau que fomos uma vez. - lembrou.
- Seu sucesso já começou naquele dia!
- Não exagera.
- Um ano depois você estava “estourando na Billboard”. - Fiz aspas com os dedos. Rimos, mas o silêncio que se seguiu combinava bem com os anos que passaram após aquele tempo. No início ainda conseguíamos manter contato constante, mas isso foi diminuindo gradativamente. - Você levou aquele seu violão velhinho naquele luau.

Um ar nostálgico pairou sobre nós.

- Era para supostamente estarmos contando as novidades. - disse e gargalhamos outra vez.

Conversar nunca era frio ou distante com . Mesmo que nossos ombros ou pernas não se esbarrassem mais e mesmo com os olhares vacilantes, estar com era sempre aconchegante. Tinha cheiro de casa, não importava quantos anos passassem.

- Você parece feliz... De verdade... - observou com o tom de voz manso. Aquele sorriso voltara, aquele do qual não conseguia me desvencilhar mesmo a milhas de distância.
- Sim. Finalmente estou feliz com quem sou.
- Você conheceu muita coisa, não é?
- Você também, aposto.
- Quero ver as fotografias.

Trouxe o álbum para a varanda, onde sentávamos ao chão, abri-o tentando evitar a primeira página, a qual dediquei àquela imagem de dormindo no sofá de meu apartamento no Japão, mas percebeu e insistiu em ver.

- Sou sua primeira página? - Maldito sorriso, maldita sensação em meu estômago.
- Não fique se achando. – Apontei o dedo indicador de brincadeira.
- Guardei seus cartões postais. - admitiu sem me olhar. - Só pra me lembrar de como você é muito mais vintage que eu.

Minha vez de sorrir.

- Comprei seu novo álbum. - Admiti. Quando soube que tinha um novo lançamento, procurei desesperadamente uma loja de CDs só para comprar um e escutar onde fosse possível.
- Você gostou? Quer dizer, não é , mas...
- Tá de brincadeira? É claro que gostei. - Eu ri. com certeza era um dos meus mais profundos deleites musicais, mas era meu mais profundo deleite pessoal, o que tornava qualquer coisa que soasse em sua voz um prazer. - Suas músicas tocaram em ilhas por aí mais de uma vez.

parecia radiante, provavelmente eu também parecia assim, porque era exatamente como me sentia.

- Quem é? Está em várias fotos.

perguntou sobre um romance de minha caminhada e seus olhos indicavam curiosidade.

- Um romance de verão, eu diria.
- Ah vamos... - riu encontrando mais fotos. Algumas usávamos suéteres de natal. - Não me parece só de verão. Conte mais.
- Nos conhecemos na Tailândia, no verão. Me ensinou a velejar e fizemos isso por algum tempo. Uns seis meses. Depois do fim de ano seguimos rotas diferentes. Foi só.
- Vocês combinavam.

Gargalhei debochadamente. Havia tido esse breve romance com alguém que sabia pouco sobre. Foi legal por um tempo. Decidi parar depois de perceber que se tratava mais de ter uma companhia do que realmente sentir alguma coisa. Precisava me libertar dos sentimentos antigos e me relacionar, eu pensava na época, mas era mais fácil do que realmente o fazer.

- E você?
- Eu o quê? - devolveu naquele jogo de fingir desinteresse que jogávamos a muito tempo.
- Conheceu alguém?
- Sim e não... - riu quando fiz uma expressão de “fala sério”. - É complicado...
- Complicado como? - Insisti. Nunca havia pensado realmente em tendo um relacionamento amoroso. Já havíamos ficado com outras pessoas, mas nunca nada que durasse como experiência válida de relacionamento. Não sabia que aquela ideia me causava certa ansiedade.
- Não era exatamente compromisso assumido. Não sei bem o que era. Fomos e voltamos várias vezes. Escondendo da mídia, mas fizeram especulações, você sabe.
- Posso imaginar. – Pensei nas vezes que nós havíamos virado notícia sem realmente ser. – É da música também?
- Não. Modelo. Mas enfim, faz um tempinho que não nos falamos, então acho que acabou... - parecia em uma confusão interna angustiante. - Na verdade, nunca nem começou. Acho que minha cabeça estava em outro lugar.

olhou diretamente em meus olhos sem sinal de que desistiria pela primeira vez desde nosso “hey” na porta de entrada. Decidi encarar a neve ao chão, branquinha por cima onde acaba de cair, mas já castigada em baixo, suja, onde estava por mais tempo. Senti que muito do que não era superficial em nós não precisaria ser dito para que compartilhássemos. Era como se lêssemos nossas mentes em um acordo telepático e silencioso, mesmo depois de tanto tempo. Conversamos sobre as infinitas novidades de três anos, quase a noite inteira, só ao amanhecer voltamos para dentro de casa e nos jogamos no sofá para assistir o mesmo filme de sempre: . Cobrimos nossas pernas com uma manta. Se fechasse os olhos estaria de volta àquela noite no Japão que marcara a jornada que decidira fazer, não fosse pelos muffins feitos com carinho pela mãe de , que estavam sobre a mesinha central. O filme mal havia começado e já estava de olhos fechados. Acariciei seu cabelo.

- Sabe... – murmurou ainda de olhos fechados. – Continuo sem te tirar da cabeça.

Abri um sorriso silencioso e terminei o carinho. dormira. Suspirei.

- Você nunca saiu da minha também... – Sussurrei tão baixo que duvidei que alguém, além de mim, poderia ter escutado.

Em cada pôr do sol que presenciei, em cada canção de amor que escutei, em cada desespero, em cada sossego, era quem eu via. Em minha jornada sem rumo, quando encontrava sinal para o celular me segurava para não ligar dizendo: “acho que amo você”. Tantas vezes guardei essa vontade, precisei escondê-la de meus próprios pensamentos. Agora, lado a lado com , dividindo uma manta no sofá, a vontade se desprendera, avassaladora. Invadiu todos os muros que construí contra, por tanto tempo. Já não éramos mais adolescentes, mas ainda nos adorávamos em segredo. Não havia mais tempo de sobra, mas era como se tivéssemos todo tempo do universo. Porém, isso acabaria no primeiro dia do novo ano. Sempre acabava.
Deliciosos e torturantes foram os dias seguintes. Estava com o tempo inteiro. Qualquer tipo de barreira que a distância criara entre nós fora quebrada, enquanto tocava e murmurava qualquer canção no violão e eu lia um livro ao seu lado. Hora na casa dos meus pais, hora na casa dos pais de .

“Você tem planos para esta noite?”

A voz de soou em meu celular pela manhã. Pisquei lentamente com o sono ainda me fazendo variar. Da última vez que perguntara aquilo, havia mudado completamente o curso da minha vida. Decidimos que naquela noite gelada de 31 de dezembro, depois da comemoração em família, iríamos até a pequena serra de nossa pequena cidade, para ver os fogos, como na infância. Algumas pessoas costumavam encarar o frio para isso. Da família, somente nós porque nossos pais e a irmã de afirmaram que não sairiam naquele frio por nada. Nevou o dia todo e camadas de gelo faziam o chão ficar escorregadio. Vivi em lugares quentes na maior parte dos últimos anos e agora estanhava todo aquele frio. Subimos com certa dificuldade a superfície rochosa escorregadia. Estava quase deserto o lugar a não ser por um ou outro casal que se arriscava a se enroscar às escondidas.

- Bom, é quase o Monte Fuji... - Brinquei quando observamos as luzes da cidade.
- Eu diria que é até melhor. – brincou.

Estava quase na hora dos fogos, então nos preparamos para a contagem regressiva.

- 10... 9... 8... - Gritávamos para o nada. – 3... 2... 1...

Escuridão e silêncio. Contamos antes do tempo. Gargalhamos e de repente cores vivas explodiram no céu acima de nós. Gritamos em satisfação. Fomos nos abraçar em comemoração e inventei de dar um pulinho de alegria enquanto estendia meus braços à . Não deu certo.

- Aí. – Fiz uma careta quando percebi que bati a cabeça e levara ao chão comigo. Escorreguei lindamente na camada de neve e usei como apoio, que não estava em alerta suficiente.

se ajeitou sobre um dos braços e estendeu uma mão ao meu rosto esboçando preocupação, porém comecei a rir gradativamente, ainda sentia uma pequena dor na cabeça, mas nada demais. Gargalhei e a expressão preocupada de deu lugar ao riso que me enchia de sensações. Quando nossas gargalhadas se tornaram apenas desenhos alegres em nossos lábios, fez carinho nas maçãs de meu rosto. Estava tão gelada, mas não importava. Nuvens esbranquiçadas saiam com o ar quente de nossas bocas. Nossos narizes se encostavam. As respirações aceleradas e já não sabia se por causa do tombo ou pela proximidade. aproximou ainda mais seu rosto do meu, sua boca da minha, hesitei. Talvez tivéssemos bebido um pouco demais e perdido a capacidade de analisar das consequências. Ou talvez fosse exatamente disso que precisássemos.

- A única coisa que tenho pensado é em você e eu. – começou em um sussurro próximo ao meu ouvido. O barulho dos fogos de artifício agora parecia distante. - Posso ouvir você pensando sobre isso também.

Ficamos em silêncio novamente. Coloquei uma de minhas mãos em sua nuca. Nossos lábios se encontraram em uma dança ritmada, logo também nossas línguas. Era como um daqueles filmes musicais, onde se voa entre estrelas quando se dá o primeiro beijo em quem se espera por tempo demais. Não medi a duração daquele momento, mas quando acabou eu queria mais. Ao invés disso, respirei fundo. me ajudou a levantar. Caminhamos de volta sem dizer nada, mas nossos braços roçavam um no outro e lançávamos sorrisinhos. Arruinamos a amizade. Como isso parecia encaixar tão certo? Fingimos que nada demais tinha acontecido para nossos pais, mas quando nos despedimos corri para meu quarto e encostei-me na porta fechada deslizando o corpo até o chão, como nos filmes de drama. Só conseguia pensar em como queria beijar novamente.

Continua...



Nota da autora: Agradeço muito por estarem aqui lendo o que escrevi com amor. Shawny me inspirou com esta linda música e quis trazer algo que vocês pudessem desfrutar sem limitações. Sabemos que a língua portuguesa infelizmente nos faz obrigatórias imposições de gênero. Meu desejo é driblar isso para que seja uma história de amor livre. Se houver deslizes, eu já peço perdão, mas sei que cada comentário irá enriquecer mais e mais minha decisão de escrita. Quebrem esses couple hundred miles entre nós <3 beijoquinhas.







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