Última atualização: 16/08/2018

Capítulo 1
Welcome.

Acordei com o barulho alto de engrenagens que se movimentavam rapidamente. Estava escuro e meu corpo ainda não respondia corretamente a meus comandos. Senti frio na barriga antes de a coisa parar por completo. O teto se abriu, cegando minha visão. Coloquei um dos braços sobre os olhos para fazer sombra, a fim de enxergar. Ouvi murmúrios preocupados. “Outra garota!” uma voz disse. Pisquei várias vezes antes de distinguir um grupo de meninos olhando para mim. Um deles, de cabelos loiros e fios lisos, pulou onde eu estava. Apoiei-me para ficar de pé e percebi que havia um papel em minha mão. O garoto loiro o pegou e abriu antes que eu mesma pensasse em fazer. Olhou para os demais com a expressão preocupada.

- Ela é a última. - Ele leu.

Voltei-me aos meninos acima novamente, agora enxergando com clareza. O assombro em seus olhares era indiscutível. Foi aí que o vi: Thomas.

- Ah meu Deus! Thomas!

Os garotos fitaram-no com curiosidade.

- O que as garotas têm com você, afinal? - Debochou um garoto dos olhos puxados.
- Quem é você? - O loiro ao meu lado perguntou com o cenho franzido em desconfiança.
- . - Continuei encarando Thomas, mas ele não parecia me reconhecer. Como isso era possível?
- Você já sabe seu nome? - Um garoto negro perguntou lá de cima.
- Mas é claro que sei. - Me irritei. - Tá de brincadeira, Tommy? Sou eu! - Direcionei-me novamente a ele balançando os braços com impaciência. - Sua irmã!

Todos soltaram expressões de espanto.

- Eu... - Thomas começou, mas balançou a cabeça negativamente repetidas vezes e não completou a frase.
- Me ajudem a sair daqui. - Bradei, deixando de encarar meu irmão.

O loiro me ajudou com um impulso em meu pé e os demais segurando minha mão.

- Você não se lembra de mim? - Perguntei a Thomas reprimindo a vontade de abraçá-lo.
- Nenhum de nós se lembra de nada antes do Labirinto. - O garoto loiro explicou.
- Labirinto. - Repeti encarando o chão e pensando que agora eu sabia o que aconteceu ou parte do que aconteceu.

O garoto assentiu. Thomas olhou de mim para o garoto e repetiu o movimento em uma visível dúvida interna.

- Mas eu me lembro de algumas coisas... - Thomas disse. - Eu me lembro da Teresa. - Ele fixou o olhar no loiro.
- Teresa está aqui também? - Me espantei.
- Você conhece ela? - Um garoto alto de dura expressão me perguntou de maneira rude.
- É claro. Ela e Thomas meio que... - Olhei para Thomas e depois para os outros garotos em volta e decidi que era melhor não terminar a frase. - Não importa. Posso falar com Thomas a sós por um momento?
- Ok. Vai nessa. - O garoto loiro disse, me encarando com uma das mãos nos lábios com a expressão analítica. - Vamos! - Ele convidou os demais a se afastarem. Deixando-me a sós com Thomas.
- Você é minha irmã? - Ele perguntou, confuso, parecia querer confirmar algo que, para ele, era impossível.
- E você é meu irmãozinho. - Eu ri.

Ele fez uma expressão de “não-pode-ser”.

- É somente um ano. - Expliquei o fato de ele ser mais novo que eu.
- Como posso não me lembrar de você se me lembro da Teresa?
- Ficamos um longo tempo sem nos vermos, Tommy. Você se lembra da WCKD?
- É a mesma coisa que nos manda suprimentos. Esse mesmo nome está nos Verdugos. E ainda hoje eu e Minho saímos cedo para investigar a área de onde eles vêm e encontramos novamente esse nome pelos muros, mas não sabemos muito mais que isso.
- WCKD nos colocou aqui. E colocaram os Verdugos também. Eles querem nos testar, eu já não me lembro para quê, minha mente está confusa. Sei que eu fugi, Tommy, conheci outras pessoas, pessoas que me ajudaram. - Fiz alguns segundos de pausa. - Quando soube que você foi colocado no Labirinto eu vim para te ajudar, mas... acredito que o que você está vendo agora foi o resultado.

Thomas contou sobre seus flashes de memória. Sobre a frase que ele e Teresa conhecem da mesma maneira. Não conseguimos encaixar o que precisávamos para entender exatamente o que estava acontecendo, mas sabíamos que havia grandes problemas pela frente.

- Precisamos dar o fora daqui. - Eu disse. Ele concordou com um aceno de cabeça.
- Mas primeiro vamos te dar algo pra comer.
- É bom te ver de novo irmãozinho. - Eu disse com um sorriso leve e o abracei, ele hesitou, mas me abraçou de volta no fim.
- Ouvi sobre a nova garota. - Ouvi a voz de Teresa.
- Teresa! Esqueci que você também estava aqui. - Aproximei-me dela de braços abertos. Ela me afastou.
- Hey, o que está fazendo? - Ela disse.

Respirei fundo e Thomas se apressou em explicar que eu era a irmã que ele não sabia que tinha, e que eu conhecia ambos. Me senti estranha, era como se todos me considerassem delirante de certa forma. Mas afinal o que não era delirante em tudo aquilo?

- Vou encontrar algo para comer. - Eu disse deixando os dois e escutando Thomas gritar para mim onde ficava a cozinha.

Encontrei o garoto loiro no meio do caminho.

- Acredito que não nos apresentamos corretamente. - Ele disse. - Eu sou Newt. - Ele estendeu a mão para mim e eu a apertei. - Esses são Minho, Caçarola, Winston, Chuck...
- E você provavelmente vai ser uma fedelha problemática tanto quanto o trolho que você diz ser seu irmão. - Disse o mesmo garoto alto e carrancudo de antes.
- E quem é você?
- Gally.
- Bom saber, assim posso utilizar um outro nome para definir ignorante.

Newt riu levemente.

- Não se meta com coisas que você não conhece, mértila! Já temos problemas suficientes. - Ele disse e continuou seu caminho, colidindo com meu ombro ao passar. Eu ri para os outros enquanto revirava os olhos.
- Está com fome? - Caçarola perguntou.
- Faminta!
- Então vem comigo. - Ele sorriu.

Caçarola me serviu uma bela refeição e, quando terminei, Newt veio me avisar sobre o teste para saber que função eu desempenharia. Tentei algumas coisas das quais eu sabia que eu teria um péssimo desempenho somente para não causar alvoroço, pelo menos não por enquanto.

- Construtora então será! - Newt disse e aplaudiu, sendo acompanhado por alguns outros. Sorri porque sabia que era a função na qual eu me encaixava. Percebi Gally bufar.

Teresa apareceu correndo em nossa direção. Alby - um garoto que parecia importante para todos, mas que eu ainda não conhecia - havia acordado, ela anunciou. Thomas, Minho, Newt, Caçarola, Gally e Teresa correram até lá e eu os acompanhei afinal queria saber o que estava acontecendo. Alby, o garoto que eu acabara de conhecer, disse que se lembrava de Thomas e o acusara de ser o favorito de alguém, eu apostava que da WCKD. Olhares desconfiados foram lançados a Thomas antes que Newt fizesse com que todos saíssem, alegando que por hoje bastava. Uma rodinha de pessoas ao ar livre começou a discutir se os problemas que meu irmão trouxe para a clareira eram realmente problemas. Ninguém estava gritando com ninguém, mas me afastei, não queria dar opinião em algo que cai de cabeça e que ainda não havia compreendido por completo. Observei o céu estrelado e as portas fechadas do Labirinto.

- Elas fecham durante a noite e abrem pela manhã. – Minho disse às minhas costas.
- O que é que tem lá?
- Chamamos de Verdugos. Você não vai querer conhecer um.
- Você provavelmente os conhece, já que é um Corredor.
- Thomas matou um na minha frente. Seu irmão é um trolho corajoso.

Sorri, lembrando-me da coragem que Thomas sempre teve para as coisas, observei que ele ainda continuava na roda de pessoas. Newt também, porém estava mais interessado em nos observar com aquele olhar de análise que ele lançava para tudo à sua volta, uma das mãos nos lábios e a outra cruzada abaixo como apoio. Ele desviou quando nossos olhares se encontraram.

- Bom. Acho que preciso descansar. Boa noite. – Eu disse a Minho. Ao passar pelos demais desejei um boa noite geral.

Acordei de um sono mal dormido. Encontrei com o pessoal indo e vindo já bem cedo. Thomas e os demais Corredores já estavam dentro do Labirinto. Aguentei Gally falando durante uma hora, em que meia hora se dedicou a me explicar meus afazeres como Construtora e a outra meia hora a reclamar de ter que me explicar.

- Não é possível que você seja assim o tempo inteiro. – Soltei depois de certo tempo.

Ele desembestou a reclamar ainda mais sobre ter que trabalhar comigo. Seus discursos não negavam que a raiva que ele continha de mim era originária apenas de meu parentesco com Thomas. Para mim, Gally vivia em um modo de defensiva que ninguém queria quebrar, mas eu não estava com medo algum de confrontá-lo. Naquela noite, dediquei um tempo para organizar melhor o espaço destinado a mim, que por sinal era junto de Teresa.

- Se acomodou bem? – Meu irmão perguntou, me assustando.
- Tommy do céu, se você se lembrasse do quanto a gente já brigou por você entrar sem se anunciar antes. – Eu ri quando ele pareceu se sentir culpado. – Estou bem, gostei de ficar junto de Teresa, apesar de ela não acreditar que a conheço de verdade.
- Ela é desconfiada, mas todos somos, afinal nossas memórias estão bem mais precárias que a sua. – Ele riu. – Você disse algo sobre mim e ela quando chegou...

Ele não teve chance de continuar. Um alvoroço lá fora fez com que saíssemos verificar. Percebi as portas do Labirinto ainda abertas. Um som alto e estridente me fez olhar em volta. Outras portas começaram a se abrir do lado oposto. Outro barulho, outra porta. Todos os lados se abriram. Thomas já havia saído do meu campo de visão. Um pressentimento ruim crescia dentro de mim. Corri para o meio da Vila e procurei por algo com o qual eu pudesse me defender. Encontrei uma lança talhada em madeira. Um brado estrondoso atingiu meus ouvidos. Encontrei o olhar de outras pessoas próximas a mim que confirmaram o meu desespero: Verdugos. Corri para fora onde conseguia ter melhor visualização da Clareira, apesar da escuridão. Tochas sendo carregadas e vasos com fogo iluminavam precariamente a região. Percebi as massas negras enormes se movimentando para lá e para cá. Estavam em todos os lugares. Gritos ressoavam. Decidi correr para a Sede, onde aconteciam todas as reuniões da Clareira, mas no meio do caminho enxerguei Thomas. Um Verdugo se aproximava e meu irmão estava a frente dos demais preparado a batalha com seja-lá-o-que na mão. Corri o mais rápido que já corri em toda minha vida.

- AHHHH! - Gritei antes de utilizar toda minha força para arremessar a lança com a ponta virada para o Verdugo.

Ela cravou ao lado direito do corpo do monstro, logo abaixo de sua cara horrenda. Percebi outras duas lanças cravarem uma ao lado esquerdo e outra mais acima. Voltei a correr quando percebi que as demais lanças vinham de Newt e Minho, Caçarola também estava com eles, segurando uma tocha. Agora todos nós corríamos juntos. O Verdugo ficou para trás. Eu suava e tentava encher os pulmões de ar sem muito sucesso. Chuck acenou para nós da entrada da Sede. Quando achei que a alcançaria, um Verdugo cortou o nosso meio e uma de suas hastes mecânicas me empurrou para longe. Ouvi alguém gritar o meu nome. Meu corpo arrastou pelas pedras e senti meus braços arderem, levantei já correndo novamente quando percebi que o monstro continuava na minha direção. Com dificuldade, meus olhos encontraram a grade semiaberta da caixa pela qual cheguei na Clareira no primeiro dia. Apertei o passo e me joguei lá dentro antes de Gally fechá-la sem condições de abrir novamente. Levantei de minha aterrisagem nada agradável com dores por todo o corpo. Todos os olhares assustados continuavam a observar o nada que se era possível entender do massacre que acontecia acima de nós. Depois de certo tempo, sem poder fazer nada além de esperar, o bradar dos Verdugos pareceu diminuir e os gritos de socorro a cessar. Gally abriu o teto da caixa e saímos um por um de lá. Só percebi que estava segurando a respiração de nervoso quando a soltei ao enxergar meu irmão, junto de Teresa, Newt, Caçarola, Minho, Jeff, Winston e Chuck. Gally seguia a toda naquela direção, fui logo atrás dele e acabei presenciando de camarote o soco que encheu o rosto de Thomas. Os meninos correram segurar Gally. Apressei-me para ajudar meu irmão a levantar, mas Teresa deu conta. Gally tomou a palavra, acusando meu irmão de ser o responsável por toda a destruição. Thomas parecia afetado, por isso coloquei a minha mão sobre seu ombro.

- A culpa não é sua. - Murmurei para que somente ele ouvisse e provavelmente Teresa, que estava ao nosso lado.

Thomas pegou o instrumento da mão de Chuck, que os Verdugos utilizavam para "picar". Eu sabia o que ele queria, ele queria se lembrar de antes do Labirinto, como garoto Alby lembrou.

- Thomas... – Ouvi Teresa adverti-lo.
- Preciso me lembrar.

Ele olhou para mim e eu o encorajei a continuar assentindo. Era a única maneira de ele saber. Então enfiou a agulha em sua própria perna e caiu no chão no mesmo instante. Os outros voltaram a atenção para ele gritando para que ele não fizesse isso. Tarde demais. Teresa pediu que Chuck fosse buscar a seringa de cura.



Capítulo 2
The Plan.

Suspiros foram ouvidos de todos os lados. Gally se aproximou tanto de Newt que achei que iria dar um soco nele também.

- Vocês escolhem... - Ele começou de maneira agressiva colocando a ponta do dedo indicador próximo ao ombro de Newt. - Ou vocês se juntam a mim ou são banidos ao pôr do sol junto desse mértila. - Ele agora apontou para Thomas o mesmo dedo.

Outros que haviam se aproximado apoiaram a imposição.

- Todos sabemos que ele é o culpado de tudo isso! - Outros aprovaram com murmúrios e olhares não amigáveis.

Gally saiu irritado mandando que colocássemos Thomas no Amansador. Nos entreolhamos, éramos minoria. Depois de Chuck voltar com a seringa e Teresa aplicar o conteúdo com todo o cuidado em Thomas, Newt e Minho o carregaram para o Amansador. Perguntei por Alby, o garoto que conheci mais cedo, porém ele fora levado pelos Verdugos. Não se sabia quando meu irmão acordaria, assim o que restou foi arrumar outras coisas para fazer - naquele momento, com a clareira completamente destruída, havia muitas. Teresa permaneceu com Thomas, aconchegando a cabeça dele em seu colo. Chuck também ficou ali, porém do lado de fora. O restante de nós começou a limpar a clareira, recolhendo os destroços. Eu não via corpos em lugar algum, provavelmente os Verdugos levaram todos com eles.

- Sinto muito por tudo entre Gally e Thomas. - Newt se aproximou enquanto eu arrastava destroços da Sede para uma grande pilha. - Sabemos que ele não tem culpa.
- Não sinta muito, Thomas de alguma maneira sabe contra o que está lutando, mesmo que em seu subconsciente. Ele nunca foi uma pessoa ruim, disso eu sei bem.
- Fico imaginando como deve ser para você ele não se lembrar.
- Eu espero que ele se lembre.
- Você se lembra de tudo? - Ele perguntou e minha expressão foi de dúvida. - Antes do Labirinto.
- Não. - Respondi com sinceridade. - Me lembro de muitas coisas, me lembro que houve pessoas que me ajudaram, mas já não me lembro de seus rostos, não me lembro o porquê de estarmos aqui ou o que eles querem de nós. Eu acho que eles mexeram com minha mente, assim como mexeram com a de vocês.

Depois de certo tempo, sentei no chão para descansar por um minuto e acabei cochilando ali mesmo, com as costas apoiadas em uma árvore. Eu não havia dormido por muito tempo, pois o céu já começara a levemente clarear quando parei para descansar, mas agora o sol já nascera por completo. Pisquei várias vezes. Uma jaqueta marrom estava arrumada sobre o meu corpo, como um cobertor, mas ela não estava ali quando adormeci, estava com Newt, que a vestiu quando a noite ficou levemente fria enquanto trabalhávamos na limpeza. Dei um leve sorriso analisando a gentileza. Escutei um murmúrio atrás da grande árvore na qual eu me encostara.

- Não vai adiantar nada. - A voz de Gally sussurrava com um tom de ameaça. - Bani-los não vai afastar os Verdugos, precisamos usá-los como oferenda.

"Desgraçado" pensei, não movi um dedo sequer antes que os passos se afastassem. Observei o Amansador e Chuck continuava lá, mas agora Minho e Newt o acompanhavam. Franzi o cenho e me levantei para ir até eles. Thomas havia acabado de acordar. Quando me aproximei, Newt explicava sobre Gally ter tomado o controle e dado duas opções a nós. Thomas começou a explicar sobre as memórias que havia recordado depois de afirmar que Gally tinha razão.

- ... - Percebi ele me chamar pelo apelido, seu tom agora não me tratava mais como uma desconhecida. - Você disse que estávamos sendo testados. Você tinha razão. Tudo começou quando éramos crianças. Eu me lembro de você agora, . Eu me lembro que você foi embora no momento em que percebeu do que aquilo se tratava. Você não aprovou aquilo. Você queria que eu fosse junto, mas eu não fui. As pessoas começaram a desaparecer.

Então, Thomas explicou que ele era um deles. Ele observara eles todo esse tempo em que ficaram no Labirinto, e Teresa também. Todos estavam atônitos, até mesmo Teresa. Eu me lembrava de ter fugido da WCKD ainda bem nova, eu me lembrava que estive longe de Thomas por muito tempo, mas eu não acreditava que Thomas era um deles, ele nunca faria algo assim.

- Thomas é importante para eles. - Eu disse e todos me olharam. - Eu me lembro antes de fugir que eles queriam algo de você. De todos vocês. Quando ouvi sobre o Labirinto e fui para te resgatar, soube que você não queria mais fazer isso a eles. - Indiquei com a cabeça os que estavam próximos a mim.

Newt tomou a palavra afirmando que não importava o que houve antes do Labirinto e que precisávamos fazer alguma coisa agora.

- Podemos nos armar, recolher suprimentos e simplesmente sair ao lado de Thomas quando Gally o banir. - Minho disse.
- Gally não vai bani-los. - Olhares confusos me acertaram.
- Como assim? - Newt perguntou.
- Ele pretende usá-lo como oferenda aos Verdugos, para que eles parem de vir. E Teresa também pelo que eu entendi.
- Como sabe disso? - Teresa questionou.
- Eu o ouvi sussurrando para alguém.

Mantivemos o silêncio por alguns segundos. Minha cabeça me apresentou um plano que poderia dar certo.

- Eu tenho um plano.

Expliquei o que tinha em mente rapidamente. Combinamos que Chuck e Minho espalhariam o plano para apenas quem imaginávamos que iriam aderir. Eu e Newt nos certificaríamos do restante.

- Hey, Newt. - Chamei discretamente quando os outros já não estavam mais por perto. Estendi a jaqueta marrom até as mãos dele. - Obrigada.

Sorri e ele abriu levemente a boca para dizer algo, mas nada saiu.

- Vamos achar essa maldita saída. - Eu disse, me afastando.

Ao meio dia, todos se reuniram para o almoço, exceto Thomas e Teresa, que continuavam no Amansador. Sinalizei para Newt quando reparei que os demais estavam distraídos o suficiente com a comida de Caçarola. Libertamos Thomas e Teresa com facilidade. Minho e Chuck logo apareceram com suprimentos e os demais participantes da fuga. Não éramos muitos. Cada um foi responsável por conseguir uma arma para si – lança, faca, facão, o que for. Guardei um facão em minha mochila mais cedo naquele dia enquanto ninguém estava por perto para ver. Nos separamos para disfarce e nos encontramos novamente nas portas do Labirinto. As armas estrategicamente guardadas para uma necessidade de uso rápido, meu irmão agora à frente.

- Vocês acham que eu sou idiota. – Disse Gally às nossas costas.

Empunhamos as armas. Ele e seus apoiadores nos pegaram de surpresa. Meu coração disparou. Não era bem aquilo que esperávamos que acontecesse, apesar de ser uma possibilidade. Olhei em volta e Minho discretamente sinalizou como se dissesse: “não-perca-a-cabeça”. Me acalmei. Olhei para Newt e ele continuava preparado para entrar no Labirinto ou lutar.

- Gally, apenas deixe que quem quiser ir que vá. – Newt falou.
- Com nossas armas e nossos suprimentos já escassos. – Gally retrucou.
- Não seja absurdo, não pegamos nem metade, ninguém é obrigado a passar toda vida aqui à mercê dos Verdugos. - Tomei a palavra. - Venha com a gente, você sabe que ficar aqui vai acabar matando todos.

Thomas falou depois e discursou de maneira firme sobre termos todos a escolha de sair. Que ele também tinha medo, mas que era melhor arriscar a vida no labirinto do que passar o resto da vida na clareira.

- Nós podemos sair daqui. – Ele fez uma pausa.

Winston então passou para o nosso lado da formação. Jeff logo após ele. Outros começaram a vir e, quando percebemos, já éramos maioria. Baixamos as armas. Esperamos mais um pouco, a fim de trazer Gally conosco e os poucos que permaneceram ao lado dele. Ele se recusou. Suspirei e me virei para o labirinto. Não podíamos perder mais tempo. Troquei um rápido olhar com Newt, que também parecia pensar a mesma coisa. Então, todos entramos no temido corredor, Thomas por último, deixando os que decidiram ficar para trás. Thomas ultrapassou a todos e tomou a liderança, colocando uma das mãos em meu ombro ao passar e assentindo com a cabeça, assenti de volta. Estávamos prontos. Corremos sem diminuir o ritmo. Thomas de vez em quando gritava para encorajar a todos, eu sempre o considerei um ótimo líder, era tão natural para ele quanto o ato de respirar. Não houve sinal de Verdugos ainda, o que mais me preocupava do que tranquilizava, isso não poderia ser bom sinal. Quando chegamos a um cruzamento no qual deveríamos passar, as paredes do Labirinto moveram-se em um estridente rangido metálico.

- Fuck! – Proferi olhando em volta. O Labirinto estava mudando.
- CORRAM! – Gritou Thomas tomando o caminho ao qual deveríamos seguir.

As paredes fechavam-se rapidamente ao nosso redor, a curva pela qual pretendíamos atravessar também estava se fechando pouco a pouco. Thomas chegou até o outro lado e gritava para que todos nos apressássemos. Percebi ele tentar segurar a passagem sem êxito algum. Eu, Chuck e Newt éramos os últimos e a quase um passo da passagem havia pequenas pedras no chão. Me desequilibrei, mas consegui me recuperar sem cair. Chuck escorregou. Parei no mesmo instante voltando para ajudá-lo, percebi Newt voltar também. Puxei Chuck pelo braço voltando a correr e o empurrei pela passagem um segundo antes dela se fechar por completo. Eu e Newt ficamos para trás. Dei um soco de leve na parede a nossa frente.

- THOMAS! – Tentei. Mas nada em resposta. – Temos que encontrar outro caminho.
- Como? – Newt pareceu levemente nervoso. – Quem conhece o Labirinto são os Corredores. Sem Thomas e Minho... – Ele balançou a cabeça negativamente.
- Eu vi o mapa do Labirinto na Clareira. O mapa que Minho e os outros fizeram. Vamos ter que arriscar com o que me lembro.

Newt assentiu. Não havia outra escolha. Recomeçamos a correr. Eu tentava me lembrar das marcações e de coisas que Thomas comentara, mas parecíamos perdidos. Paramos ofegantes em uma bifurcação. Não sabia que caminho seguir mais. Newt apoiou as mãos nos joelhos em derrota, mas um ruído assombroso o fez voltar a se posicionar.

- Verdugo. – Eu disse e Newt compreendeu.

Corremos na direção do som. Agora escutamos gritos, gritos de guerra, gritos de nossos amigos. Encontramos o corredor ao qual procurávamos no instante em que os demais avançavam em um Verdugo. Minho em suas mãos a peça que Minho retirara do Verdugo dias atrás, a qual chamamos de chave. Corria atrás de todos e ao lado de Teresa. Eu e Newt nos entreolhamos antes de desatinarmos a correr para junto dos outros. Acompanhando os gritos que impulsionavam a coragem.


Capítulo 3
The Grievers.

Era terrivelmente assustador ir de encontro a um Verdugo e ao mesmo tempo libertador. Eu estava pronta para “sair dali ou morrer tentando”. Avançamos todos da forma que conseguimos, quando o monstro mecânico se desvencilhava de um, logo outro já cravava a arma onde conseguia. Meu facão incialmente acertou o meio de seu corpo e mesmo com os movimentos bruscos do Verdugo eu não o larguei. Ele me acertou no rosto com uma de suas garras, o que me afastou para mais longe, sem que eu perdesse meu facão. O facão tinha sangue escuro de Verdugo e um líquido quente desceu pelo rosto onde ele acertara. Thomas e Minho gritavam para os demais algum tipo de instrução. Voltei a acertá-lo em outro ponto com toda minha força, ignorando o ardor que se instalara acima da minha bochecha. O Verdugo utilizou sua calda para tentar nos acertar duas vezes, mas todos abaixamos em sincronia, um de nossos amigos foi pego e arremessado para longe, para o abismo do qual o corredor era cercado em ambos os lados.
Percebi mais Verdugos correndo atrás de Teresa e Chuck, que haviam se afastado. Escalavam do abismo para o corredor estreito no qual lutávamos. Investi meu facão em um deles. Olhando rapidamente para trás quando percebi os garotos empurrarem o outro Verdugo para o abismo. Voltei minha atenção novamente para os que estavam a minha frente, eu corria de costas e atacava os Verdugos. Chuck gritou por Thomas e todos avançaram junto de mim nos Verdugos, enquanto Chuck e Teresa corriam para a porta aos fundos. Ela se abriu atrás de nós. Coloquei meu facão entre uma das garras de um Verdugo quando ele ia acertar Newt no estomago, travando-o em seu movimento por um momento. Newt aproveitou para cravar uma lança no peito do monstro. Sorrimos rapidamente um para o outro.

- JUNTOS! – Algum deles gritava. Formamos uma barreira para os Verdugos enquanto nos afastávamos todos juntos em direção a porta. Um dos garotos foi arremessado como o primeiro para o abismo. Escutei Teresa gritar sobre uma combinação e Thomas perguntar a Minho qual era. Eles conversavam aos gritos enquanto todos segurávamos os Verdugos. Minho começou a gritar a sequência.
- CUIDADO! – Newt gritou.

Um Verdugo veio de cima inesperadamente. Sem pensar duas vezes, agarrei a camiseta de Minho pelas costas e o puxei tomando seu lugar. O Verdugo me levou ao chão. Apoiei a parte não cortante do facão na outra mão, impedindo que ele me abocanhasse. O facão machucou a boca do Verdugo, mas o impacto também fez com que arrancasse sangue de minha mão. Gritei. Todos se afastaram e quem veio em cima do Verdugo foi Jeff. Ele cravou uma lança na parte superior da cabeça do bicho, fazendo com que ele me largasse. Enfiei meu facão com toda força abaixo da boca do monstro, mas isso não o impediu de abocanhar Jeff. Empurrei meu corpo com os pés para sair debaixo dele, Thomas e Newt me ajudaram a levantar. Vi Jeff ser sacudido, mordido e levado pelo Verdugo que me atacara. Winston gritou, mas já não havia nada o que fazer.

- A SEQUÊNCIA! – Chuck gritou e Minho continuou de onde parara. Teresa é quem digitava.

Os meninos ainda afastavam os demais Verdugos com as lanças e facões. Agora eu estava desarmada, pois meu facão ficara cravado no Verdugo. Corri para perto de Teresa e Chuck para tentar ajudar, mas já haviam terminado de digitar o código. Os muros a nossa frente, acima dos Verdugos começaram a baixar. O que fez vários deles recuar. Um deles quebrou a lança de Newt, que então veio na minha direção, observei-o rasgar parte da própria camiseta e enrolar sobre o ferimento em minha mão. Amarrou o pano com força e eu soube que com a intenção de estancar o sangramento. Tudo fechou de repente e ficamos no escuro por um momento, até outra porta se abrir, onde Teresa digitara o código. Ela a empurrou. Saímos em um corredor inicialmente escuro, mas várias luzes iluminaram ambos os lados, uma por uma. Acompanhei-as com os olhos. Seguimos na direção em que elas acenderam. Todos pareciam tão exaustos quanto eu agora. Toquei a região de minha bochecha e um ardor me provocou uma careta. O sangue já estava seco, mas o ferimento incomodava. Chegamos a uma porta em que se lia: SAÍDA.

- Sério? – Caçarola zombou

Thomas segurou a maçaneta e hesitou por um segundo. Segurei por cima de sua mão e acenei com a cabeça como se disse “juntos?”, ele assentiu e abrimos a porta juntos, como costumávamos fazer tudo quando éramos crianças. Havia pessoas mortas no chão, sangue e luzes de alerta piscando. Encarei corpos cobertos atrás de um vidro e senti o estômago embrulhar, senti mãos pousarem sobre meus ombros, era Newt me incentivando a continuar.

- O que houve aqui? – Minho questionou.

Dei de ombros, pois também não fazia ideia. Continuamos a caminhar, havia vidro no chão e o que parecia ser uma sala de controle que fora destruída. Alguns cabos ainda davam curto, o que dava a impressão de que tudo acontecera recentemente. Observei meu irmão e Teresa se encarando, antes de Thomas pressionar um botão que piscava em um painel. Uma grande tela exibiu a imagem de uma mulher loira bem mais velha que qualquer um de nós, vestida toda de branco. Ela explicou sobre o fim do mundo que antes se conhecia e o início de uma era marcada por um vírus chamado Fulgor. Nós éramos os sobreviventes desse vírus.

- Por isso os testes. Desde crianças. – Eu disse.

Uma grande porta se abriu atrás de nós. “Finalmente livres” pensei. Escutei uma movimentação atrás de nós.

- Gally? – Perguntei ao vê-lo transtornado e percebendo em sobressalto a arma que ele tinha nas mãos.

Ele fora picado como observou Teresa e agora apontou a arma diretamente a Thomas, meus músculos enrijeceram. Thomas tentava acalmá-lo, mas ele continuava repetindo que pertencíamos ao Labirinto. Observei quase em câmera lentar o dedo dele se movimentar no gatilho. Gritos abafados romperam atrás de mim e meu corpo se movimentou não em um comando direto, mas como se meu subconsciente tivesse ordenado que o fizesse. Cai no chão sentindo uma dor excruciante que parou segundos depois. O rosto desesperado de Thomas acima de mim começou a virar um blur. Pontos escuros invadiram minha visão até que eu já não enxergasse nada além da vasta escuridão.


Capítulo 4
Safe Place?

Minhas pálpebras levantaram vagarosamente e uma luz clara invadiu minha visão. Fechei os olhos antes de abri-los novamente. A sala era de um tom branco intenso e bem iluminada, eu estava deitada em uma cama com os lençóis também brancos. Tentei me levantar e senti uma pontada de dor no ombro. Observei um curativo impecável por baixo de minha camiseta. Minha atenção se voltou para a seringa ligada à minha veia, que conduzia o medicamento transparente pendurado em um suporte ao meu lado. Olhei para os lados e vi ampolas com amostras de sangue em um pequeno refrigerador e Teresa deitada na cama ao meu lado. Arranquei de qualquer jeito a seringa de meu braço, utilizando um algodão para estancar o sangue.

- Teresa! – Sacudi-a, mas nada. Provavelmente esses medicamentos também continham sedativos.

Escutei alguém se aproximar. Peguei o suporte de metal ao lado da cama fazendo com que a bolsa transparente cheia de medicamento líquido fosse ao chão. Algumas pessoas vestidas de branco, como enfermeiros entraram já em alerta. Apontei o suporte cheio de pequenos ganchos na direção deles, como uma arma.

- Quem são vocês?
- , mantenha a calma. – Uma mulher começou a dizer.
- Onde estou? Onde estão os outros? Onde está Thomas? – Eu não queria me acalmar. Algo parecia errado. Por que estava sedada?
- Thomas e os demais estão bem, você e Teresa precisavam de mais alguns exames. Vocês escaparam do Labirinto, mas precisavam de maiores cuidados médicos. Você foi baleada. – Ela apontou para o curativo em meu ombro.

Lembrei-me da última coisa que estava fazendo antes de estar ali. Havíamos saído do Labirinto e Gally apontava uma arma para Thomas. Eu pulei na frente para protegê-lo quando percebi a movimentação do gatilho.

- Ótimo. Me sinto muito bem agora. Quero ver Thomas.
- Isso não vai ser possível. – Ela e alguns outros tentaram se aproximar. Movimentei o suporte ameaçadoramente. Não havia porquê não me deixarem ver meu irmão se tudo estivesse bem como ela dissera.
- Quero ver meu irmão, agora! – Elevei um pouco o tom de voz. A mulher pareceu pensar por um segundo antes de suspirar de maneira irritada.
- Contenham-na, ela já está pronta.
- Espere. O que? – Vários “enfermeiros” e “enfermeiras” começaram a se aproximar rapidamente enquanto a mulher com quem eu conversava virava as costas. Acertei vários deles com o suporte, mas três me agarraram enquanto a mulher vinha com uma seringa. – ME LARGA! SEUS DESGRAÇADOS, ME DEIXEM EM PAZ!

Debatia-me furiosamente, porém ela aplicou o líquido da seringa mesmo assim. Comecei a perder os sentidos, meu corpo ficou mole e minha voz já não queria mais sair.

- Eu preciso... encontrá-los. – Eu murmurava agora quase sem noção do que estava fazendo. Imagens de Thomas, Newt e da WCKD rondavam minha mente. – Thomas... Newt.

Escuridão novamente. Quando acordei pela segunda vez estava com o corpo todo molhado. Tossi algumas vezes. No chão a minha volta havia muita água. Cacos de vidro me cercavam arranhando meus braços conforme eu tentava me apoiar. Um calafrio perpassou meus ossos.

- Vamos, , você tá me ouvindo? - Escutei a voz de Thomas. Reparei que mais de uma pessoa tentava me levantar do chão. - Aris, me ajude.
- Estou tentando. - Outro garoto respondeu.

Estava vestida apenas com uma regata e uma calcinha-short, tudo branco. Eles me ajudaram a encostar na parede. Meu corpo ainda variava entre entender a situação ou ter forças para se movimentar. Simplesmente segui Thomas e o garoto Aris para as tubulações.

- O que está acontecendo? - Perguntei ao garoto completamente estranho para mim, cujo nome eu escutara que era Aris, quando saímos em outra pequena sala. Thomas desapareceu por uma porta.
- Você foi colocada em um tanque ou coisa assim. Nesta sala que tinha seu nome. Estava sendo drenada. Thomas te encontrou. Os outros já estão mais a frente. Precisamos achar a outra garota de quem ele fala. Teresa é o nome. Estava uma confusão no salão por causa dos Cranks.
- Cranks? – Eu já ouvira aquela palavra, provavelmente antes de mexerem com meu cérebro, pois não lembrava seu significado.

O garoto não parecia assustado, nem espantado. Sua expressão era neutra ao me explicar coisas das quais eu ainda não compreendera nada. Minha mente estava alerta agora novamente e recordei-me do episódio com a enfermeira, no quarto de lençóis brancos, onde também estava Teresa. Coloquei a mão sobre o ombro baleado. Não doía mais. Não fazia ideia de quanto tempo ficara desacorda. Não houve tempo para que Aris me respondesse, pois Thomas reapareceu acompanhado de Newt e Minho. Meu corpo continuava molhado e eu sentia um frio crescendo em meus músculos. Thomas me trouxera uma calça de flanela azul-claro, igual à que todos usavam, e um par de tênis. Vesti a calça por cima do shortinho minúsculo e enfiei rapidamente nos pés os sapatos mais largos que o adequado. Minho me deu tapinhas nos ombros, sorrindo.

- Tá viva, fedelha. – Ele brincou antes de Newt me abraçar com força ao se aproximar.
- Você foi... baleada. Achei... – Ele falou pausadamente.

No segundo seguinte já estávamos entrando pela porta de onde os meninos vieram e encontrando os demais, que se prepararam um a um para seguir pelas tubulações novamente. Percebi a ausência de Chuck.

- O que está acontecendo? Onde está Chuck? – Sussurrei para Newt, fazendo com que ficássemos por último. Parecia que eu havia dormido durante um tempo longo demais. Ele me observou com o olhar intenso e preocupado.
- Gally atirou mais de uma vez antes que Minho o acertasse. – Ele baixou o olhar e um gelo subiu pelo meu estômago. Senti tontura. – Ele se foi. Achávamos que você também.

Lágrimas subiram aos meus olhos e eu as segurei sentindo uma pressão ruim na garganta.

- As pessoas que nos resgataram estavam todas mortas, um tipo de doença. Mas desapareceram. Thomas te encontrou quando o Homem-Rato falou para que seguíssemos pela tubulação, ele disse que é da WCKD. E aquele garoto, - Ele apontou para Aris com a cabeça. – disse que existiu um grupo B que estava em outro labirinto, só garotas além dele. – Isso me fez sentir algo familiar que eu não entendia de onde vinha. - O Homem-Rato disse que todos nós temos o Fulgor agora. Que deveríamos escolher entre encontrar a cura em um Refúgio depois de atravessar um deserto que ficava por esse caminho ou sermos executados. Eu não entendo porque aplicar o Fulgor e nos obrigar a encontrar uma cura se somos supostamente imunes. Está tudo uma bagunça. Continua sendo os mesmos mértilas que nos colocaram no Labirinto. Não nos livramos deles.
- Homem-Rato? – Fiquei ainda mais confusa.
- Foi como Minho o chamou. – Ele disse já distraído com a nossa vez de entrar nos tubos claustrofóbicos.

O que encontramos após as tubulações era um túnel de uma escuridão absurda. Encarei Tommy por alguns segundos, aquele olhar só podia dizer uma coisa: entrar ali significava morte de alguma maneira.

- Só nos resta entrar. – Disse Caçarola.
- Obrigado pela sentença óbvia, gênio. – Debochou Minho. – Vamos nessa galera, fiquem atentos e o principal: não morram. - Uma pausa tensa se fez.
- Beleza. Estamos todos divinamente inspirados. – Disse Newt, me arrancando um riso que mais pareceu um suspiro nervoso.

Adentramos a escuridão e a porta atrás de nós fechou. Desesperadora era a sensação de nada enxergar. Senti-me sufocada, o ar estava empoeirado e a sensação era de que as paredes se fechavam a nossa volta. Minho deu a largada para que continuássemos em frente, alguns sugeriram voltar, aos quais ele repreendeu com certa impaciência. Após uns tropeçarem nos outros durante alguns passos, foi possível sentir uma noção de espaço. Algo tocou minha mão e institivamente recuei, só depois percebi o calor do corpo de alguém próximo de mim, o toque se repetiu e eu conhecia aquele jeito receoso e de certa forma acolhedor. Os dedos de Newt entrelaçaram-se nos meus.

- Quero ter certeza que... – Uma pausa, um suspiro. - Ficaremos bem. – Ele sussurrou abaixo do tom do burburinho que se instalou entre todos, tão baixo que me esforcei para distinguir as palavras.

Sorri mesmo que ele não tivesse como enxergar e apertei a mão dele contra a minha. Andamos de mãos dadas um percurso exaustivo. Adrenalina surgiu novamente quando se ouviu um grito e alguém me empurrou ainda para mais perto de Newt. Percebi que era Thomas abrindo espaço para passar quando ele começou a falar. Um barulho metálico se misturou aos gritos. Newt soltou minha mão para investigar a situação. Aproximei-me deles tateando, o escuro abraçando minha curiosidade, deixando-a muito mais acentuada que o de costume.

- Uma esfera metálica. – Ouvi comentarem depois de os gritos pararem.

“Sangue” percebi ao colocar a mão também na esfera, Newt e Thomas constatando isso em voz alta. O tom de voz de meu irmão demonstrava claramente o seu desespero. Bolas metálicas que arrancavam cabeças em plena escuridão. Eles haviam sido avisados pelo Homem-Rato, Thomas comentou. Entramos em formação para conseguirmos correr. Desta vez eu tomei a iniciativa de segurar novamente a mão de Newt. Corremos aflitivamente. A pressão das trevas sobre meus olhos. A mão livre eu levei a frente, a fim de ganhar mais confiança na corrida, no entanto me sentia vulnerável. Mais gritos e sons metálicos. Corríamos curvados a fim de proteger nossas cabeças. Meus pulmões latejavam quando Minho tropeçou em algo e fez todos pararmos. Newt, que estava um centímetro a frente de mim, também tropeçou em alguém e eu nele. Levantei e senti meu corpo queimar sem saber se era pela corrida intensa ou pela proximidade extrema com Newt quando cai. Provavelmente por ambos. Os fios lisos perpassaram meu rosto. O não enxergar não me permitiu entender se eu me aproximei da parte da frente de seu rosto, ou de sua nuca, eu achava que da segunda opção. De qualquer forma me senti estranha e afastei-me com rapidez. Ele não pareceu perceber, mesmo que eu não conseguisse ver sua expressão. Eram escadas o motivo da parada. Ao subirmos Minho se deparou com um teto, que parecia sem saída até que ele encontrasse uma trava. Empurrou a porta para cima, como se estivéssemos saindo de um porão. Uma claridade se fez enxergar, como a luz da lua. Areia caiu sobre nossos ombros e um vento invadiu o local. Ouve certa hesitação em sair, mas quando percebemos um metal líquido se formando acima de nossas cabeças, sabíamos que estava na hora de nos apressarmos. Saímos. Depois de nossos olhos acostumarem com a nova e ainda escura iluminação percebemos dunas. Estávamos no Deserto.


Capítulo 5
The Desert.

Fui a frente e escutei Thomas gritar para que eu não me afastasse demais. Percebi o que pareciam edificações destruídas, soterradas pela areia. Era possível adentrar uma delas.

- AQUI! – Gritei para os demais e eles se juntaram a mim.

Entrei sem esperar que os outros dissessem algo. Era um lugar amplo. Winston observou pegadas na areia do chão. Coisas abandonadas. Roupas. Parecia que alguém já estivera ali e saíra às pressas. Alguma coisa estava errada em tudo aquilo. Procurei uma blusa de frio e encontrei, chacoalhei a fim de retirar a sujeira maior, mas não estava realmente preocupada, queria meus braços quentes novamente.

- Tommy. – Me aproximei de meu irmão quando o percebi pensativo a um canto. – Teresa?

Ele balançou a cabeça negativamente, indicando que não sabia o que havia acontecido com ela.

- Vamos encontrá-la. – Tentei ser otimista. – Você está bem?
- Vou ficar. – Ele foi sincero e algumas lágrimas rolaram silenciosas em seu rosto. Ninguém se aproximou, eu acreditava que por educação. Abracei meu irmão como se fossemos crianças de novo, ele enterrou o rosto em meu ombro, como quando ralava o joelho e precisava de um conforto, mas aquela dor era real, imensa, impenetrável. Eu sabia que ter visto Chuck morrer provavelmente é algo que ainda o assombrava, assim como Teresa desaparecer. – Que bom que te encontrei, mana. – A voz abafada e baixa. Fechei os olhos deixando as lágrimas que segurei mais cedo rolarem agora também. Minho se aproximou.
- Acho que deveríamos dar uma olhada no lugar, porque está me dando arrepios. Se encontrarmos qualquer coisa que faça luz eu agradeceria para sempre ao universo. – Ele disse em seu tom brincalhão de sempre, quase como se não notasse o mórbido momento em que estávamos eu e meu irmão.

As piadas de Minho sempre ajudavam a quebrar a tensão constante, e isso era bom, muito bom. Thomas o acompanhou concordando e eu fiquei sozinha por alguns minutos antes de Caçarola se aproximar.

- Eu gostaria muito de ter alguma coisa muito boa de cozinhar e comer agora. – Ele disse distraído em vasculhar as coisas do local, somente com a luz fraca da lua que entrava por grandes frestas e buracos da edificação destruída e soterrada.
- Eu também. – Concordei começando a tatear em volta.
- Encontrei uma lanterna! – Gritou Aris. – Acho que é uma lanterna.

Escutei algumas batidinhas e alguns “cliques”. Mais batidinhas. Um raio fraco de luz transpassou o salão em que estávamos. Devido a escuridão a qual nos submetemos dentro do confinamento daquele corredor com bolas metálicas mortíferas e até mesmo naquele universo de areia com a ajuda da lua, esse faixo de luz pareceu a coisa mais brilhante que eu já vira na vida. Pisquei várias vezes desviando os olhos e comemorei junto dos demais batendo algumas palmas. Meus olhos procuraram por Newt quase involuntariamente. Eu queria enxerga-lo em detalhes novamente. Encontramos alguns lençóis e os colocamos nas mochilas com pouco espaço e poucos suprimentos que os meninos haviam recebido do Homem-Rato. Havia muitas e muitas coisas espalhadas por ali, como quando muitas pessoas abandonam uma casa. Luzes amareladas e fracas de repente iluminaram o local. Provavelmente Minho e Thomas encontraram algum meio de fazer aquilo. Newt encontrou mais uma lanterna. Continuamos com elas acesas, afinal as luzes estavam fracas, várias delas queimadas. Um barulho diferente fez com que todos nos entreolhássemos em alerta.

- HEEEY!! – Escutei o eco da voz de Thomas. - CORRAM! - Aris e Newt apontaram a luz branca em direção a voz, mais luzes de encontro.

Minho e Thomas carregavam, cada um, uma pequena lanterna também como a que Newt e Aris encontraram. O barulho antes distante e agora ameaçadoramente próximo e animalesco acompanhava o grito de meu irmão. Ele e Minho corriam como se estivessem fugindo de um Verdugo. Pessoas começaram a apontar atrás deles, sim, pessoas. Mas não pessoas normais, elas pareciam famintas, pareciam doentes, desesperadas, primitivas. Manchas negras em contornos como veias subiam por toda pele. Inchadas. Olhos esbranquiçados no meio e avermelhados ao redor. Meus ossos congelaram por um instante tentando entender o que estava acontecendo.

- Mas que mértila... – Comecei a sussurrar com o palavreado que eles utilizavam saindo quase como se eu tivesse nascido falando assim, convivência é algo a ser levado a sério. Parei quando a mão de meu irmão encontrou meu braço sem diminuir o passo, me arrastando junto dele em uma fuga desesperada.
- CRAAAAANKS! – Gritou Caçarola.
- CORRE, TROLHO!! – Vez de Minho.

Aqueles eram os Cranks. Minha mente clareou, me fazendo recordar de já ter lidado com aquilo antes e foi aí que me desesperei. Cranks. Pessoas modificadas sem chance de retorno pelo Fulgor, o vírus do qual Ava Paige falou no vídeo, o vírus que devastou o que conhecíamos como vida na Terra. O barulho que eles faziam aumentou de todos os lados. Parecia que surgiam mais e mais a cada segundo. O grupo se dividiu ao meio quando um Crank apareceu de um lado inesperado. Continuamos a correr em lados opostos do local, escadas à nossa frente agora, que subimos pulando degraus, mas tentando não perder um ao outro de vista. Todos voltaram a se encontrar em um ponto a frente, sem parar. Um dos Cranks estourou um vidro ao lado, empurrando Newt ao chão. Meus pés frearam no mesmo instante. Voltei alguns passos, procurando algo no chão para me armar. Meus olhos vasculhavam o chão empoeirado e passavam a encarar Newt novamente de segundo em segundo. Meu coração batia tão rápido que eu já não sabia como respirar. Ele se contorcia com o Crank acima dele, segurando-o para não ser atacado por toda aquela ferocidade. Encontrei um pedaço pesado de ferro, mas que era possível de levantar. Balancei a ponta no ar para um lado e depois para o outro, encontrando impulso suficiente para acertar a cabeça do Crank e fazê-lo rolar ao andar de baixo. Joguei o ferro que agora parecia pesado demais de volta ao chão e observei os meninos ajudarem Newt. Agarrei a jaqueta que ele usava e logo soltei quando consegui ver em seus olhos que estava assustado, porém inteiro. Demos de encontro a uma porta grande e emperrada. Estávamos cercados. Minho, Thomas e mais alguns investiram com chutes na porta, os acompanhei. Pensei que a morte nos encontraria quando minhas pernas já doíam de tanto chutar e os Cranks estavam próximos a ponto de fazer meu corpo tremer, mas a porta se abriu, nos jogando brutalmente do outro lado. Os que não chutavam tiveram tempo de tentar fechar a porta, porém Winston foi agarrado e arrastado pela metade pela fresta que ainda restava aberta. Um empurra-empurra se instalou entre nós e os Cranks, com Winston ao meio. Quando finalmente puxaram-no para o nosso lado alguns se adiantaram correndo e carregando o garoto. Eu, Minho e Thomas seguramos a porta mais um pouco, para dar vantagem a eles. Soltamos quando a multidão de Cranks já não permitia mais que segurássemos. Thomas foi o último a soltar e queria matá-lo por isso. Eu não conseguia mais enxergar os outros, nem mesmo Minho, que saíra a pouco na minha frente. Estava escuro demais agora.
Desci por alguns entulhos e senti algo me puxar para o lado e me envolver de lado, quase gritei, mas uma mão se pôs sobre meus lábios, em forma de concha, sem realmente encostar. Newt logo soltou quando sinalizei que havia entendido que era para manter silêncio. O braço dele a minha volta relaxou sem me soltar por completo. Thomas também havia se juntado a nós em meio a isso. Entulhos nos escondiam agora. Lanternas desligadas. Ali a areia invadia novamente, estávamos próximos à saída do prédio. Me senti exausta. Tentei controlar a respiração. Minha mente estava em devaneio, meus olhos ainda procurando por outros pontos seguros, agora apenas na luz da lua novamente. Estava aterrorizada e meu corpo ainda tremia com a adrenalina. Gritos ainda reverberavam em minha cabeça, mesmo estando todos em completo silêncio agora, até mesmo Winston que tinha o corpo rasgado e mordido pelos Cranks. Observei Caçarola enrolar alguns panos não tão sujos envolta dos ferimentos de Winston. Prosseguimos com cuidado quando o barulho dos Cranks se dispersou, até estarmos aos arredores do prédio novamente. Encontramos um lugar entre as construções devastadas para nos acomodarmos, ainda entre a areia e o vento congelante, precisávamos descansar. Estendemos lençóis e prendemos com força alguns onde era possível a fim de criar a ideia de uma precária grande tenda. Winston não parecia estar bem, nem sequer um pouco. Troquei um olhar preocupado com meu irmão mesmo na escuridão.
Tentei me ajeitar para descansar. Não estava confortável, mas a canseira consumia meus músculos e entranhas. Thomas estava de um lado e Minho estendera um lençol mais afastado do meu outro lado, mas escutei ele e Newt cochicharem antes dele ficar no lugar que Minho escolhera. Ri para mim mesma sem achar graça alguma com o corpo virado de costas para Newt, pensando em como aquilo poderia soar infantil na situação que estávamos, mas ele parecia interessado em se manter por perto de mim. Não me privei de sentir certa satisfação, mas eu sabia que não era um bom momento para me deixar iludir pela ideia de um romance. Parecia infantil e egoísta. No que eu acreditava ser o meio do dia seguinte já emanava um calor insuportável do chão e de todos os lados. Utilizávamos os lençóis agora para cobrir os rostos. O calor não me deixava respirar direito e tentávamos poupar a água que o Homem-Rato providenciou em nossas mochilas, mas a garganta queimava em poucos passos de caminhada.

- Nunca imaginei que acabaria no inferno. – Disse Minho em seu infinito senso de humor.

Escalamos dunas de areia. Meu irmão com sua mania de proferir palavras de incentivo de tempos em tempos, eu queria manda-lo calar a boca, mas eu sabia que esta era uma maneira de ele também tentar se sentir otimista e não quis estragar isso. Eu tentava encher meus pulmões de ar, mas eu só conseguia sentir o calor sufocante preencher o espaço. Ofegava, assim como todos, quando de súbito percebi o corpo de Winston desmoronar em direção ao chão. Eu e Aris tentamos segurá-lo pelos braços, mas ainda assim ele atingiu o chão com certa violência. Desmaiara. Retirei apressadamente o pequeno galão térmico de água em minha mochila e despejei um pouco da água em sua nuca e rosto. Voltei a guardar o galão antes de elevar os pés de Winston acima da altura de seu corpo inerte no chão.

- PESSOAL! – Aris gritou e todos se viraram correndo para mais perto.
- Não fiquem tão em cima. – Tentei instruir os outros sobre algo que eu não fazia ideia que conhecia. – Já está esse calor infernal e ele precisa respirar. - Não me importei em parecer grossa, pois não havia tempo para pensar em algo mais sutil. Pedi que Aris segurasse os pés do garoto. Dirigi minhas mãos ao rosto de Winston dando batidinhas de leve. – Winston! Winston! – Chamei até ele acordar. – Mantenha os olhos abertos está bem, olhe para mim, preciso saber que está acordado. Winston, olhe para mim. – Repeti quando ele ameaçou fechar os olhos novamente.

Ainda havia alguns destroços aqui e ali, vindos das ruínas dos prédios pelas quais passamos. Thomas e Newt se apressaram em encontrar algo para utilizar como maca, que na verdade era um grande pedaço de madeira, que um dia talvez tenha sido uma porta. Agora nos revezávamos para carregá-lo. Era pesado mesmo que estivéssemos cada um em uma ponta. A sensação de fraqueza corporal com o calor e a falta de suprimentos e abrigo também não ajudava.
Observei o horizonte laranja em um de meus turnos de ajudar a carrega-lo e nada se via além das montanhas que pareciam longe demais. Todos concordávamos que se havia um Refúgio onde estava a cura, devia ser lá. Minho e Thomas haviam decidido que seria possível chegar até elas em alguns dias de caminhada se nos esforçássemos, mas eu confesso que começara a duvidar. As mordidas e arranhões dos Cranks na região abdominal de Winston pareciam ter acelerado a evolução do vírus. O que me disseram foi que o Homem-Rato afirmou que todos nós tínhamos a doença agora, mas depois de Winston ter sido atacado, veias negras começaram a surgir na pele de seu pescoço e braços, em uma visível intensificação. Seus olhos agora estavam vermelhos em volta, ele não tinha forças para andar e nem para comer.
Um vento tranquilo no meio da areia escaldante logo se tornou uma tempestade de areia que não permitia que abríssemos os olhos com totalidade. Cobríamos a boca e o nariz com o que tínhamos, mas precisávamos de abrigo.

- Não enxergo quase nada. – Disse Caçarola. – Vamos achar um abrigo.
- Ali! – Apontou Thomas para um local que parecia escondido do vento. Paredes de concreto soltas no meio do nada, um mundo anterior soterrado e castigado pelo tempo era aquele Deserto.

Tentava me lembrar de que aquilo era um teste da WCKD, que precisávamos escapar não da maneira como esperavam como no Labirinto, mas de uma maneira a nos livrarmos deles, mas eu não sabia como. Ficamos nos escondendo do vento fustigante até que diminuísse e logo parasse. Voltando a deixar tudo extremamente parado, com ondas de calor invadindo a visão. Thomas havia se afastado um pouco e estava de costas para nós, encarando o horizonte. Eu o observei pensando no garotinho despreocupado e feliz de quem eu cuidei em certos momentos da vida. Meu irmãozinho, que agora era preenchido de dor e culpa, ele se culpava por tudo eu sabia, ele sempre fora assim.
Thomas olhou para trás diretamente em meus olhos, sua expressão era de assombro, ele olhou de volta para o horizonte e voltou a me encarar em segundos. “Teresa” seus lábios projetaram ao longe, me levantei num salto quando ele já começara a correr em direção ao que distingui como a silhueta de uma pessoa no mar de areia.

- THOMAS! – Gritei ao parar onde antes ele estivera.
- TERESA! – Escutei, agora com clareza, ele gritar sem olhar para trás.

Os demais já me alcançaram. Ameacei correr atrás dele, mas alguém me segurou sutilmente pelo pulso. Newt balançou a cabeça como se indicasse para que eu deixasse Thomas a encontrar sozinho. “Isso se for realmente ela”, pensei, mas decidi acatar o conselho silencioso de Newt. Os garotos voltaram para a sombra do destroço, onde Winston permanecia deitado em sua dor, mas eu só me mexi quando percebi as silhuetas se misturarem em um abraço no horizonte. Newt aguardou estes segundos de confirmação comigo e voltamos juntos nos encarando. “Como ela estava sozinha no Deserto todo aquele tempo? Ela saiu da mesma forma que a gente?” minha mente martelava vários questionamentos. Estavam todos alarmados quando nos aproximamos. Winston segurava uma arma.

- Que mértila tá acontecendo aqui? – Newt disse.
- Winston acordou e pegou a arma. Ele... – Caçarola não conseguiu continuar. Winston vomitou sangue tão escuro que parecia preto e depois deitou no chão, vencido.

Meus olhos se arregalaram quando percebi o que ele queria com a arma. Minha cabeça balançou negativamente e involuntariamente. Ele levantou a camiseta e retirou com dificuldade as ataduras que Caçarola havia feito, para nos mostrar como o vírus havia se alastrado e dominado seu corpo. Parecia um organismo vivo, mas ao mesmo tempo podre e definhado. Meus olhos já se encheram de lágrimas. Segurei o choro e percebi que todos encaravam Winston e uns aos outros, como se perguntassem como deveriam reagir.

- Não vou conseguir. – Ele disse.

Ele pediu pela arma novamente, alegando que não queria se tornar uma daquelas coisas. Ajoelhei na areia ao lado dele e coloquei uma das mãos em seu ombro. Newt foi quem tirou a arma da mão de Caçarola e a entregou para Winston.

- Não! – Empurrei Newt, mas Winston segurou a mão que eu ainda apoiava em seu ombro.
- Tá tudo bem. – Ele disse tentando sorrir. Não deixei as lágrimas caírem, mas também não consegui dizer uma palavra sequer de volta. Afastei-me observando a compaixão nos olhos de Newt, mas também a neutralidade para lidar com a situação. Ele conseguia respeitar a decisão de Winston, mas para mim aquilo parecia doloroso demais, fosse com quem fosse. Eles eram meus amigos. Minha família. Winston agradeceu e Newt se despediu. Precisei ser a primeira a me afastar, pois não conseguia mais segurar as lágrimas.

- Fala para ela que vai ficar tudo bem. – Escutei Winston ainda sussurrar com o que lhe restava de forças para Newt e chorei ainda mais intensamente, afastada dos demais, sem emitir som algum.

Thomas passou por mim como um raio, percebi alguém tentar segurá-lo, mas sem sucesso. Abri os olhos e vi Teresa. Intacta. Sem um arranhão. Seu cabelo estava brilhoso e solto. Franzi o cenho enquanto ela me encarava com ar de desaprovação quanto ao que estava acontecendo.

- Tudo bem. – Ouvi a voz de Winston novamente, dizendo a mesma coisa que disse a mim, provavelmente agora para Thomas.

Peguei minha mochila do chão e passei a acompanhar os demais, que já estavam mais à frente, passando por Teresa sem dizer nada. Quando ouvimos o disparo paramos, era como se nunca mais poderíamos seguir em frente novamente. Pensei em Chuck, não consegui me despedir de Chuck e não consegui dizer adeus a Winston também. Eu não queria, como conseguiria?


Capítulo 6
Lightnings.

Tivemos que continuar a caminhada, com Thomas dando o primeiro passo. As montanhas agora já não tão distantes, há apenas algumas horas de caminhada, as dunas de areia ficaram para trás e deram lugar a um chão seco, rachado. As ruínas também já não existiam, apenas uma paisagem lúgubre de seca e esquecimento. Estávamos ficando sem água e comida. Pelo menos, durante o percurso até aquela nova paisagem, havíamos conseguido juntar madeira suficiente nos escombros para armar uma fogueira a noite, a fim de não congelarmos. Aris sabia produzir fogo com pedras, o que eu nunca aprendera na vida. Meu rosto queimava e eu observava todos com os rostos vermelhos e ressecados do sol ardente do dia, em conjunto ao frio congelante da noite.

- Achava que éramos todos fucking imunes. – Disse Minho quando estávamos todos reunidos próximo a fogueira. – A mértila da raça que sobreviveu.
- Nem todos. – Disse Teresa. Analisei sua expressão e era como se soubesse mais do que quisesse transmitir. Ela estava estranha, mas minha cabeça não conseguia se concentrar o suficiente nisso.
- Nunca pensei que diria isso, mas... sinto falta da Clareira. – Disse Caçarola. Observei Thomas e seu olhar vidrado, parecia tentar controlar a culpa dentro de si.

Alguns já roncavam a minha volta quando me sentei em meio àquela vastidão. Não conseguia dormir. Meus olhos não enxergavam nada além do limite do brilho da fogueira. Estrelas tremulavam insistentes no céu acima. Chorei em silêncio.

- Hey, trolha. – Sussurrou Newt, apoiando o corpo em um braço no chão. Limpei rapidamente as lágrimas e sussurrei um "hey" de volta. Ele se arrastou e sentou bem ao meu lado, uma das pernas encostada lado a lado com a minha. – Sabe, você não precisa ser inabalável sempre.

Os olhos misteriosos e avaliadores me encaram, não sustentei seu olhar fitando o chão. Inabalável, forte, invencível, pensei, refletindo o quanto eu não era nenhuma destas coisas nos últimos dias.

- Eu não quero... - Fiz uma pausa. - Que Tommy se sinta culpado por...

Minha voz esganiçada do esforço em não continuar a chorar me fez sentir frustrada. Balancei a cabeça em negativa, não conseguia dizer mais nada. Ele passou um braço por debaixo do meu, sua mão encontrando a minha. Ficamos em silêncio por alguns segundos enquanto brincávamos com nossos dedos antes de entrelaça-los. Voltei meus olhos a Newt novamente, os fios louros alaranjados pela luz da fogueira.

- Só ele mesmo pode evitar isso. – Ele disse. - Tommy sabe que confiamos nele.

Deixei que lágrimas rolassem silenciosas pelo meu rosto e assenti. Ele me envolveu de lado, apoiando o braço em meu ombro e a mão em minha cabeça, onde acariciou com sutileza. Encostei minha cabeça em seu ombro. Afastei-me quando consegui me controlar novamente.

- Você deveria voltar a dormir. – Eu disse.

Ele sorriu, raramente via Newt sorrir tão abertamente, senti um frio em minha espinha. Ele deitou novamente, ali mesmo, abrindo o braço em um convite para que me juntasse a ele. Encarei-o por alguns segundos, avaliando se aceitaria ou não o convite silencioso. Deitei com um leve sorriso insistente em meu rosto. Ficamos abraçados por um tempo, até que ele se revirou dormindo. Suas costas agora estavam a frente de minha visão. Deixei que meus dedos passeassem devagar pela camiseta dele na extensão da nuca à lombar. "Não é hora para me apaixonar", pensei. O dia amanheceu nublado e uma tempestade torrencial parecia iminente. Começamos a caminhar novamente. Exaustos. Fiquei lado a lado com Teresa.

- Como nos encontrou? – Perguntei em tom de voz baixo e curioso.
- Eu fui colocada na direção de vocês. – Foi o que ela disse.
- E você está bem?

Teresa assentiu com a cabeça e deu um leve sorriso.

- Me lembro de tudo agora. – Observei-a atentamente com a sobrancelha franzida. – Me lembro quando você e Thomas chegaram. Lembro da nossa amizade. – Ela fez uma pausa antes de parar de caminhar e me olhar nos olhos. Parecia querer manter certa distância dos demais. – Precisamos voltar.
- Voltar? – Perguntei sem entender.
- Precisamos levar Thomas, nós podemos salvar todos.
- Como voltar pode salvar todos?
- Você... – Ela suspirou. – Nunca entendeu. Por isso foi embora.

A conversa mais estranha que tivera na vida foi interrompida por Minho, que apressava a todos dizendo que não tinha bons pressentimentos sobre aquela tempestade.

- Estou desesperado por água, mas não desse jeito. – Debochou ele em voz alta.

Aceleramos o passo. Teresa passou a caminhar mais próxima de meu irmão. Observei ela e Aris se encararem estranhamente de vez em quando, pareciam receosos. Raios começaram a cair ao longe, se aproximando cada vez mais. Passos compassados e apressados sobre a planície seca mostrava que estávamos todos preocupados em encontrar abrigo, afinal éramos os pontos mais altos existentes e convidativos para os raios. As montanhas quase desapareceram em uma névoa densa e nuvens de chuva, os pingos começaram aos poucos.

- O que é aquilo? - Thomas apontou estreitando os olhos. Estreitei os meus também.
- LUZES! - Constatou Caçarola.
- Deve ser o Refúgio! - Newt proferiu o que todos pensamos.

Nisso um barulho absurdo e um clarão me fez sair do chão. Os raios haviam chegado até nós, os escassos pingos de chuva agora formaram uma cortina de água que mal permitia que enxergássemos as luzes.

- VAI! VAI! VAI! - Escutei Thomas gritar.

O que antes classificavam como Corredores na Clareira, agora éramos todos nós, correndo desesperadamente desde que tomamos a decisão de sair daquele Labirinto. Mais clarões. Meus tímpanos zuniam após cada estralo agudo. Os raios caiam tão próximos que eu podia sentir uma onda energética. Estava apavorada de novo, não conseguia me lembrar de estar confortável, o medo era um companheiro constante agora. As luzes ficaram de repente mais forte e próximas. “Só mais alguns passos” pensei e encarei quem quer que estivesse correndo a minha frente, quando um raio caiu bem diante de meus olhos, acertando quem eu consegui identificar como Minho. Não sabia dizer como, ou se foi realmente em cheio, mas o corpo dele foi jogado de lado. Vi o clarão ricochetear e acertar Thomas de alguma maneira, que também foi ao chão. Corri para tentar arrastá-lo para as coberturas que os clarões me permitiam enxergar de tempos em tempos. Chuva, clarões, mais chuva. As coberturas estavam bem à frente de nós. Alguns vieram comigo perto de Thomas, enquanto outros ajudavam Minho. Thomas estava consciente, mas percebi ao longe que Minho não.

- VOCÊ ESTÁ BEM? – Gritei em meio a trovões e água corrente, quando ele tentou se levantar. Fez que sim com a cabeça e já apontou para Minho.

Corri para junto dos que ajudavam nosso amigo. Conseguimos levantá-lo e apoiá-lo em Newt e Aris. Continuamos correndo, raios caíam em todo lugar explodindo coisas. "Redes elétricas?", pensei com esperança. Caçarola abriu a porta de um galpão a frente e escorregou quase indo ao chão, entrei sem medo, mesmo com a possibilidade de Cranks agora entrando em minha mente. Tudo ficou escuro quando Caçarola fechou a porta. O barulho da chuva agora abafado. Eu tinha uma das lanternas que encontramos anteriormente guardada em minha mochila. Tateei até encontrá-la. Iluminei onde colocaram Minho no chão. Thomas o chacoalhava. Arfávamos. Meu coração batia tão forte quanto os estrondos das trovoadas do lado de fora.

- Vamos, cara! – Newt disse encarando Minho quando Thomas havia desistido de chacoalha-lo e ele ainda permanecia imóvel.

“Acorda Minho, vamos”, pensei apreensiva. Mais um minuto de silêncio e ele resmungou. Só ai percebi que havia segurado a respiração por alguns segundos, inspirei sentindo os pulmões falharem, inspirei de novo para normalizar. Algumas palavras de incentivo soaram de meus amigos direcionadas a Minho e ele perguntou o que havia acontecido. Meu irmão explicou a ele que um raio o havia atingido. Minho riu e rimos com ele, antes de os meninos o levantarem devagar. Dei um tapinha nas costas dele.

- Espero que agora você tenha super velocidade. – Ele me olhou como se aquilo não fizesse sentido, mas escutei Caçarola rir.
- Ah, fala sério. The Flash! – Eu disse como se fosse impossível que ele não conhecesse, mas, na verdade, nem eu mesma sabia como me lembrava daquilo. Os meninos se afastaram um pouco e Minho apoiou a mão em meu ombro quando tentou andar e cambaleou, o segurei para que ele não caísse, os meninos fizeram o mesmo. Ele sinalizou que estava bem com a mão e os demais foram soltando, ele ria debochadamente para mim. – Existiu um mundo antes de estarmos nessa mértila. – Eu disse e ele agora gargalhou.

Uma das mãos, com que antes eu o segurei, passei por detrás das costas dele em um rápido abraço lateral, que ele retribuiu com o braço atrás de meu pescoço, a mão alcançando agora o outro ombro. Percebi as pontas de suas roupas queimadas, a pele provavelmente havia queimado em algum ponto também, mas ele estava inteiro, “uma fucking sorte”, pensei.

- Desse jeito, eu estou mais para Super Lentidão. Mas eu ainda posso ganhar de Thomas em uma corrida.

Gargalhei em tom baixo, agora longe dele. Thomas também riu. Percebi Teresa encarar o lado escuro do galpão murmurando algo para si mesma, os cabelos dela grudados no rosto pela chuva, antes de um Crank surgir com sua raiva insana para cima dela. Estava acorrentado. Ela se afastou a tempo. Toquei seu braço e perguntei se estava tudo bem, ela acenou dizendo que sim e nos distraímos com muitos outros Cranks que surgiram gritando de todos os lados, despertos pelo barulho. Estavam todos acorrentados o que me fez suspirar em alivio e ao mesmo tempo me perguntar que lugar era aquele. Uma garota apareceu do outro lado do salão, dizendo algo que nem consegui prestar atenção no que era. Ela caminhou até nós sem medo algum dos Cranks que tentavam loucamente alcança-la. Pediu que a seguíssemos. Olhei para os demais, realmente ninguém parecia saber o que fazer.

- A menos que queiram continuar aqui com eles. – Ela disse com um sorriso sarcástico.

Nos entreolhamos novamente esperando que qualquer um tivesse a coragem de dar o primeiro passo.


Capítulo 7
Run Run Run.

Thomas foi o primeiro a decidir segui-la. Adentrando a construção, o que encontramos foi várias outras pessoas e um local de habitação imenso. Algumas das pessoas tinham veias negras por suas peles, como as que vimos em Winston. O Fulgor tomava conta aqui e ali, mas estes não agiam como zumbis desvairados, nem estavam em situação adoecida. Trabalhavam e se movimentavam normalmente. Escutei a garota falar que iríamos encontrar com Jorge, seja lá quem ele fosse. Que ele estava curioso sobre nós. Ela afirmou que também estava curiosa e disse isso encarando Thomas da cabeça aos pés, com um sorriso misterioso. Evitei encarar Teresa, mas não pude evitar em desejar que aquilo não se tornasse um problema. As pessoas, que antes pareciam distraídas, agora nos seguiam. Olhares interessados e de certa forma sedentos. Um medo cresceu dentro de mim, aquilo não poderia ser boa coisa. Ela nos anunciou a Jorge, um homem mais velho que nós, mas não tão velho assim. Estava inicialmente de costas para nós e ao se levantar nos encarando, perguntou “como chegamos ali, para onde íamos e como isso o beneficiaria”.

- Quem você pensa que é afinal? – Disse Minho com sua ousadia em momentos desnecessários. Virei o rosto encarando-o em repreensão, ele deu olhada rápida, mas voltou a encarar Jorge.
- Eu sou o Crank que comanda esse lugar.
- Crank? – Eu disse e escutei a garota misteriosa rir ao lado. Jorge também riu.
- Não se preocupe, não vou comer o cérebro de vocês, apesar de que não seria má ideia. – Ele disse sarcástico. Minho fez uma careta. – Existem diversos níveis do Fulgor. Nem todos chegamos ao estado alucinado. Vejo que vocês não sabem nem metade das coisas e eu não sou quem vai explicar.
- Fala como se fôssemos crianças, mas não faz ideia do que passamos. Mértila. – Minho novamente. Dei uma cotovelada nele. Thomas o encarou com os olhos arregalados e eu sabia que ele queria dizer que poderíamos todos morrer ali mesmo.

Em dois segundos, Jorge saltou rolando sobre uma mesa que o separava de nós, caiu com perfeição do outro lado e ainda acertou Minho na perna. Ele gritou. Sua pele estava castigada por queimaduras em diversos pontos, pois ele fora atingido por nada mais, nada menos que um raio.

- PARE! – Gritei com as mãos estendidas a frente e Jorge me encarou como se fosse me acertar com um chute também. Percebi Thomas engolir em seco.
- Estamos procurando o Refúgio. – Eu disse e ele riu.
- Não existe Refúgio por aqui.
- Depois do Deserto, foi o que nos disseram. – Thomas insistiu.
- Precisamos subir às montanhas. – Eu completei, raciocinando que talvez este não fosse o Refúgio, mas que ainda houvesse um no caminho a frente.
- Quem disse essas coisas a vocês?

Nos entreolhamos. Haviam várias pessoas bloqueando o lugar de onde antes viemos e não havia saída a frente. Estávamos cercados e talvez não fosse uma boa resposta dizer que viemos da WCKD.

- Isso é da nossa conta. – Disparou Minho novamente, recuperado do chute. Jorge tentou agredi-lo novamente, mas ele defendeu e deferiu um soco no rosto de Jorge. As pessoas às nossas costas se agitaram. Jorge o olhou com um sorriso assustador no rosto.
- Chega Minho! – Newt disse.

Quando Jorge deu um sinal de cabeça várias pessoas nos agarraram pelos braços. Meu irmão e Minho começaram a gritar para que os soltassem.

- VIEMOS DA WCKD! – Eu disse, as mãos que nos apertavam afrouxaram instantaneamente. Jorge arqueou uma sobrancelha sorrindo.
- Alguém entre vocês é inteligente. Parabéns, hermana, você acaba de me fazer desistir de matar todos vocês. Se vieram da WCKD, isto quer que dizer que são muito valiosos... – Ele fez uma pausa. – Se os entregar de volta para eles.

Mais um sinal de cabeça e fomos agarrados novamente e arrastados. Fechei a cara para Jorge.

- EU TENHO UMA OFERTA MELHOR. ME ESCUTE. – Me chacoalhei nas mãos que me agarravam e soltei um braço, apontei-o para Jorge com a mão aberta em sinal de paz. – Por favor.
- Levem os outros. Deixe-a aqui. – Ele disse.

Encarei meus amigos por alguns segundos. Jorge voltou para detrás da mesa e me convidou a sentar em uma cadeira à frente. Agora restávamos apenas eu, ele e a garota que nos levou até ali.

- Você disse que é um Crank. – Comecei antes de ele dizer alguma coisa. Sentia os olhos da garota sobre mim, assim como os de Jorge. – E que o Fulgor tem vários níveis diferentes. Bom... nós também temos o Fulgor. Um dos funcionários da WCKD, que nos mandou ao Deserto, disse que a doença foi aplicada em todos nós. O Deserto é um teste, para saberem como nossos corpos reagem ao vírus, porque somos supostamente imunes. – Ele encarou rapidamente a garota e voltou a prestar atenção em mim. – Mas descobrimos que nem todos nós. Um não resistiu ao caminho. Não temos como saber quem é e quem não é, já que o vírus está demorando para se manifestar. Eles nos disseram que precisávamos encontrar um Refúgio no fim do Deserto. Lá encontraríamos a cura. Se o Refúgio não é aqui, provavelmente é nas montanhas, pois é o único lugar que consigo compreender como fim do Deserto.

Jorge não esboçou reação, mas continuava quieto para que eu prosseguisse.

- Se você é um Crank, então eu suponho que você também precise da cura. E se a WCKD diz que tem cura para todos nós, provavelmente tem mais do que somente sete doses. – Percebi como éramos poucos agora, perto da quantidade que éramos no Labirinto. - Podemos todos nos beneficiar com isso. Se você ir conosco até as montanhas, dividimos a cura e nenhum de nós dependerá mais da WCKD.

Ele encarou a garota por um momento maior agora. Olhei para ela também. Pareciam ambos avaliar a proposta.

- Não conheço nenhuma história sobre um Refúgio nas montanhas. - Suspirei em nervosismo. - Mas... você me convenceu, hermana. É o seguinte, só vamos eu e Brenda para esta missão, - Agora eu soube que o nome dela era Brenda. – e posso assegurar que se algo nessa história divergir, nós saberemos. Se não houver cura para nós, você e todos os seus amigos sofrerão as consequências.

Levei as mãos ao alto, a fim de demonstrar que não havia fingimento. Em minha mente eu implorava para que houvesse mesmo uma cura e não somente para nós, mas de qualquer maneira ganharíamos tempo.

- Os outros não vão querer se arriscar. São muitos. Vão querer entregá-los para a WCKD. – Disse Brenda.
- É por isso que vamos fingir entregá-los. – Jorge sorriu com malícia e piscou um olho.

Ele me explicou quase em códigos, para não corrermos perigo, o plano de fuga que teríamos que realizar. Jorge convenceria os demais que deveríamos ser bem tratados para sermos entregues a WCKD, a fim de que estes ficassem satisfeitos o suficiente para lhes dar alguma recompensa. Ele e Brenda nos escoltariam até um galpão onde depositavam a comida ali próximo, com a desculpa de que precisávamos nos alimentar. Na verdade, realmente precisávamos, me sentia fraca, como se fosse desmaiar a qualquer instante e parecia haver um buraco oco onde antes era meu estômago. Realmente nos alimentaríamos para ganhar forças e já aproveitaríamos o momento para escapar sem que os demais nos seguissem.

- Vocês acreditam que o resto dos Cranks não vão desconfiar? – Eu disse em um sussurro quase inaudível.
- Vamos ter que tentar. – Disse Brenda dando de ombros.

Concordei com a cabeça. Então nos levantamos para ir até meus amigos, que soube que estavam pendurados de cabeça para baixo sobre um buraco profundo, observados por todos os outros Cranks. Pareciam muito mais assustadores que Brenda e Jorge para mim agora, com seus olhares perversos. Eu e Brenda paramos ao longe, enquanto Jorge se fazia visível para todos, discursando em voz alta e firme. Explanava exatamente o que combinamos, sobre como a WCKD seria criteriosa em receber sua “mercadoria” em boas condições. Thomas me encarou, ainda pendurado. Fiz que “sim” com a cabeça levemente, como se dissesse: “confie em mim” e eu sabia que ele havia compreendido.

- Namorado? – Brenda perguntou me encarando, percebendo que eu estava me comunicando com Thomas. Ela era observadora e não sei se isso me assustava ou me admirava. Fiz que não com a cabeça.
- Irmão.
- Ele é uma gracinha. – Ela disse com o início de um sorriso.
- Melhor não ir por esse caminho. – Aconselhei pensando em Teresa. Brenda fingiu não escutar.
- Mas, por que somente você e Brenda? Eles estariam em vantagem e poderiam acabar com vocês dois. – Disse um dos homens do grupo quando Jorge dissera que somente ele e Brenda nos acompanhariam até o galpão.
- Olhe bem pra eles. Estão um trapo. Não vão ter força para nada. E além disso, - Jorge apontou para Brenda ao meu lado, que retirou com destreza e rapidez o facão do suporte na perna e o colocou sobre a minha garganta, segurando meu corpo que se retraiu institivamente. – Brenda vai retalhar a garota em pedacinhos se alguém tentar alguma coisa.

Meus amigos se agitaram. Thomas me encarou novamente, parecia confuso, eu tentei demonstrar firmeza e não medo, mas a verdade é que não confiava 100% em qualquer um dos nossos novos amigos.

- Seu mértila. – Disse Minho.
- Calma, hermano. É melhor agradecer por ter a oportunidade de encher esse estômago vazio.

Jorge utilizou uma alavanca para que o suporte precário onde eles estavam amarrados se movesse para o lado e depois os soltassem com um baque surdo no chão. Alguns arfaram com a pequena queda, afinal nossos corpos estavam vulneráveis a qualquer tipo de contusão. Fomos conduzidos por Brenda e Jorge para fora de onde estávamos, ela mantinha o facão em minha garganta, caminhando a frente de todos. Quando nos afastamos completamente dos demais Cranks, ela me soltou e guardou de volta o facão. Assenti em um agradecimento silencioso e ela respondeu da mesma maneira. Thomas se aproximou e me abraçou. Newt, Teresa e os demais logo se aproximaram também.

- O que disse a ele?
- Vamos logo! – Jorge nos apressou. – Precisamos ser rápidos.

Concordei em um sinal para Jorge, recomeçando a caminhar.

- Não importa. – Eu disse olhando nos olhos de Thomas. – Eles vão nos ajudar a escapar.

Continuamos caminhando até chegarmos ao galpão. Nos acomodamos para comer comidas enlatadas que pareciam a coisa mais deliciosa que eu já comera na vida. Thomas e Teresa sentaram-se próximos e me sentei próxima de Newt. Não liguei para a dor aguda em meu estômago toda vez que engolia um tanto exagerado de comida. Comemos e conversamos até que percebi Brenda e Jorge se alarmarem, comecei a prestar atenção e pedi que os outros fizessem silêncio. Um helicóptero.

- Aqui é o Diretor Assistente Janson. – Falou uma voz pelo que parecia um megafone. Percebi Minho sussurrar “Homem-Rato” com as sobrancelhas franzidas. - Entreguem os garotos e vão ter o que procuram.

De repente uma explosão no galpão. Deitei no chão para evitar ser atingida por qualquer coisa. A fumaça e a terra invadiram o ar, me fazendo tossir freneticamente. Não enxergava meus amigos, nem meu irmão.

- TOMMY! – Gritei. – Inferno. – Bradei para mim mesma depois. Enxerguei Aris e corri até ele. Perguntei se ele estava bem e ele afirmou que sim. Aos poucos fui enxergando os demais.

Os Cranks lúcidos que antes pareciam ter acreditado na história de Jorge agora se aproximavam. Provavelmente se comunicaram com a WCKD. Jorge atirou em alguns deles, fazendo outros recuarem, e eu nem sabia que ele tinha uma arma de fogo. Isso nos deu tempo de correr para onde ele estava.

- Sigam-me. – Ele disse.

Olhei em volta e enxerguei Brenda puxando Tommy pela gola da camiseta segundos antes de o teto desabar sobre onde ele estava agachado. Os destroços tamparam não somente minha visão dos dois, mas a passagem para alcançá-los. Os demais estavam todos juntos e agora a única alternativa era seguir Jorge. Teresa provavelmente fora jogada para o lado oposto de Thomas pelo impacto da bomba, que me pareceu vir da porta do galpão, próximo de onde os dois estavam antes. Ela agora corria junto conosco. Os homens furiosos nos perseguiam, mas estávamos com vantagem. Jorge conhecia o lugar tão bem quanto eles e muito melhor que o pessoal da WCKD, que percebi uniformizados ao longe. O helicóptero ainda pairava por perto. O entardecer começava a dar lugar a escuridão. Fomos de construção em construção até termos distância o bastante para mudar de direção sem que eles percebessem. Entramos em um local escuro e escutei Jorge pedir silêncio. Andamos cautelosamente mais fundo na escuridão. Ouvi os perseguidores tomarem outro rumo. Outro barulho passou a despertar minha atenção: Cranks, do tipo sem controle. Jorge gritou para que corrêssemos. Tropecei algumas vezes, a luz forte da lua e as luzes ao redor do lugar iluminavam alguns pontos e faziam sombras em outros. Um Crank ensandecido partiu para cima de mim, deixando-me contra a parede. Usei a colher em mãos que antes eu havia utilizado para comer a comida enlatada, mas nada efetivo. Quem me ajudou foi Caçarola e Minho, ambos chutaram o Crank em sincronia, que se desequilibrou e me deu espaço para correr. Sons vinham de toda parte e eu não conseguia me localizar. Ninguém mais conseguiu correr quando nos deparamos com um penhasco de rochas que não havia como escalar. Viramos de frente para os Cranks que se aproximavam sem diminuir o passo. Jorge tentou liderar o grupo por outro lado, utilizando as últimas munições de sua arma. Mais Cranks. Estávamos cercados e desarmados.


Capítulo 8
The Right Arm.

Encontrei o olhar de Newt antes de fechar os olhos. Pensei em como morreria sem saber o que havia acontecido com meu irmão. Em como morreria sem me recordar do que eu era antes do Labirinto. Pensei sobre morrer sem antes vencer a WCKD. E por último, egoísta e imaturamente, pensei nos lábios de Newt, pensei em como morreria sem ter saciado essa vontade crescente de beijá-lo. Escutei tiros. Abri os olhos e os Cranks desvairados caíam imóveis no chão a nossa frente. Sentia meu coração em meus ouvidos. Avistei pessoas penhasco acima. Snipers, muito bem equipados, mas não usavam máscaras ou roupas pretas como os funcionários da WCKD. Nos dirigimos ao lado escalável do penhasco quando se abriu um espaço entre os Cranks abatidos. Subimos. Minhas mãos e pernas tremiam quando cheguei ao topo. Fui ajudada a finalizar a escalada por uma garota que logo depois me abraçou. Fiquei sem reação alguma.

- VOCÊ CONSEGUIU! – A garota disse.
- Como? – Perguntei e ela se afastou confusa.

Quando seu rosto entrou em meu campo de visão senti minha mente embaralhar. Eu conhecia aquela garota.

- ARIS! – Ouvi outra voz que agora parecia muito familiar gritar.

Um calafrio perpassou meu corpo e me senti zonza. Cai de joelhos. A garota se agachou ao meu lado e chamava pelo meu nome, mas tudo estava abafado agora. Um flashback tomou conta da minha mente por completo. Braço Direito. Harriet, Sonya, Vince, Mary. Eu sabia onde estávamos, eu já estivera ali antes. Fui colocada de pé por Newt, que manteve os braços ao meu redor para que minhas pernas não falhassem de novo.

- ! – Escutei ele dizer ainda com os ouvidos abafados. – ! – Ele me chacoalhou agora e senti como se minha mente voltasse ao lugar certo. A tontura amenizou, mas meu estômago ainda revirava.
- Estou bem. – Eu disse encarando a expressão preocupada de Newt. – Obrigada...

Virei e encarei Harriet, a garota que havia me abraçado.

- Harriet? – Perguntei.
- E quem mais poderia ser? – Ela disse rindo.
- Ah meu Deus, eu me lembro de você! – Estava surpresa com tudo o que havia agora em minha memória, olhei em volta. – Sonya, Vince! – Os abracei e eles sorriram.
- O que deu em você? – Perguntou Minho de repente.
- Eu os conheço! Pessoal, eu lembrei! Lembrei de antes do Labirinto.

Newt franziu a sobrancelha. Minho e Caçarola pareceram surpresos, mas Teresa não esboçou qualquer reação. Jorge parecia mais confuso que qualquer outra pessoa.

- Esse não é o melhor lugar para conversamos. – Disse Vince, um homem próximo da idade de Jorge, mais velho que todos nós. – Venham. Conversamos no acampamento.

Caminhamos com pressa seguindo os passos de Vince. Newt se aproximou e não precisou dizer nada para que eu entendesse que ele esperava uma explicação. Minho, Caçarola, Teresa e Jorge também se aproximaram.

- Quando a vi, lembrei. – Falei para ele. – Eu era... – Fiz uma pausa. – Sou parte do Braço Direito. Somos a resistência.

Eles pareceram satisfeitos por hora, mas eu sabia que teria que explicar melhor depois. Um sorriso se alargou em meu rosto. Agora eu entendia tudo. Entendia que, quando mais nova, consegui a ajuda necessária para fugir das instalações da WCKD e encontrar um grupo contrário às suas ações. Denominavam-se Braço Direito. Eram liderados por Vince e agora também por sua esposa Mary. Tornaram-se minha família por todo aquele tempo. Saí em busca de Thomas quando acreditei ser o momento certo, mesmo que todos pensassem que era uma missão suicida. Agora eu me lembrava de Harriet e Sonya, amigas que fiz no Braço Direito. Elas também viveram em um Labirinto e fugiram ainda novas. Eram o Grupo B, Aris estava com elas antes, mas não teve tanta sorte. Eu conhecia o nome do garoto das histórias que elas me contavam. Porém, isso e todo o resto havia sido bloqueado em minha mente pela WCKD quando fui mandada ao Labirinto. Eu me recordava agora de planejar para que me colocassem lá, para chegar a Thomas. Antes, apenas informações básicas, como meu nome e minha proximidade com meu irmão, permaneciam em minha mente. Eram memórias complexas demais para serem afastadas em um curto espaço de tempo. E eu sabia que WCKD não possuía esse tempo. Tudo estava de volta em um instante. Respirei fundo sem desfazer o sorriso. Sabia que agora estávamos no caminho certo. Quando chegamos ao acampamento corri abraçar Mary.

- Onde está Thomas? – Ela me perguntou olhando em volta.
- Você o conhece? – Caçarola perguntou.
- Conheço. E conheço Teresa também. – Ela disse. – Só eram pequenos demais para se lembrarem de mim.

Mary havia trabalho para a WCKD. Mas fugira comigo. Ela me ajudou a chegar onde estávamos agora, onde estivemos por todo o tempo. Ali ela conheceu Vince, que agora era seu esposo. Caçarola fez uma careta em confusão, eu ri e Mary também.

- Eu o encontrei, May. – Sorri e me preocupei ao mesmo tempo. – Mas o perdemos de vista lá atrás. Ele ficou com uma amiga. – Olhei para Jorge e ele pela primeira vez também esboçou preocupação. – Precisamos encontrá-los. – Agora olhei de Mary para Vince.
- Havia centenas de Cranks atrás de vocês. – Disse Vince. – Tiveram sorte de estarmos patrulhando o lugar em busca de suprimentos. Escutamos os helicópteros da WCKD. As meninas avistaram você e Aris. Não podemos voltar lá. Talvez a WCKD os tenha pegado ou algum dos Cranks.
- Brenda é muito esperta. – Jorge proferiu ganhando atenção de todos. – Não se deixaria abater assim tão fácil.
- Não posso deixá-lo para trás outra vez. – Eu disse a eles. - Nem Brenda.
- Okay, mas não podemos sair todos novamente. Não com a WCKD tão perto. Precisamos que o acampamento esteja seguro. – Disse Vince.
- Harriet, eu, e você vamos. – Ele apontou para Jorge. - Os demais fiquem, descansem e protejam o acampamento.

Meus amigos protestaram. Queriam todos ir. Queriam todos encontrar Thomas.

- Gente! – Eu disse, mas continuaram a protestar. – GENTE! – Agora ficaram todos em silêncio. – Fomos salvos e precisamos retribuir o favor. Jorge e Vince conhecem isso aqui como ninguém. Thomas é meu irmão e Harriet sabe acertar um alvo a quilômetros de distância. Vocês precisam descansar e o acampamento precisa estar seguro. Vamos usar a cabeça e aceitar o trato, por favor.

Eles se entreolharam. Pensei que Teresa se posicionaria contra, mas se manteve em silêncio.

- Okay. – Assenti com a cabeça para Vince.

Mary começou a mostrar o lugar aos demais. Harriet me armou com uma pistola. Eu me recordava de já a ter usado. Ela também me deu um facão.

- Vamos nessa, sua maluca. – Ela falou para mim sorrindo, sorri de volta.

Quando estava para partir novamente Teresa se aproximou com urgência.

- Eu também vou.
- E eu também. – Newt também se aproximou. – Falamos com os outros.

Observei os demais ao longe, que assentiram com a cabeça, provavelmente concordando que Newt e Teresa também fossem.

- Ainda tem bastante gente para cuidar do acampamento. – Eu disse encarando Vince e ele aceitou com um aceno. Sorri levemente para Newt e para Teresa. Harriet os armou também, explicando rapidamente como usar as armas.
- Sei onde Brenda foi. Sempre combinamos um plano de fuga. – Ele falava com Vince agora. – Ela foi até Marcus. Sabemos que ele é um agente duplo da WCKD e do Braço Direito, só não sabia que vocês eram mais do que uma lenda. Em caso de um avanço inesperado da WCKD, nosso plano envolvia forçá-lo a dizer se vocês eram uma escapatória real ou não.
- Gostamos de nos manter em segredo. – Foi o que disse Vince.

"Serão bons amigos”, pensei. Fomos até o que me pareceu ser uma danceteria. Sim, uma danceteria em meio a um mundo pós-apocalíptico. Parecia surreal. Parecia até ridícula a ideia agora. Aprendemos sobre o mundo anterior dentro da WCKD. Já ouvira falar naquele conceito, assim como já ouvira falar em The Flash. Algo que foi popular para meus pais e que eles me contavam com nostalgia. Eu e Thomas fomos separados cedo demais deles, mas algumas memórias permaneciam intactas. Marcus se recusou a falar se Brenda e Thomas estiveram ali, mas quando Jorge perdeu a paciência e deferiu alguns socos, ele confessou que os dois estavam lá dentro da multidão. Entramos naquele mar de gente. A condição da entrada era beber algum tipo de alucinógeno, explicou Jorge, assim Marcus atraia jovens imunes e os entregava a WCKD quando estavam fora de si. Vince explicou que negociava armamento e suprimento com Marcus, quando Newt o questionou sobre. Lembrei que mudávamos o acampamento de posição sempre que houvera negócios com Marcus no passado. Provavelmente em razão do alucinógeno foi que Teresa avistou Thomas jogado ao chão completamente delirante.

- Finalmente o tão procurado Thomas. – Disse Harriet para mim.

Vasculhei os arredores e encontrei Brenda. Ela também estava um pouco delirante, porém consciente. Os levamos conosco para o acampamento por um atalho que Vince, Harriet e eu conhecíamos. Nos revezamos em ajudar a carregar Thomas. No meio do caminho Brenda já parecia 100% recuperada. Quando chegamos, Mary auxiliou Vince a deitar Thomas em uma cama improvisada. Ali ela tinha uma espécie de enfermaria.

- Vai demorar um pouco para acordar. Mas ele está bem. – Ela disse.

Todos rodeavam Thomas dentro do lugar pequeno. Eu estava começando a me sentir sufocada.

- Quero saber sobre a cura. – Jorge exigiu a mim quando o grande grupo começara a dispersar, mas voltaram a prestar atenção.
- Cura? – Mary perguntou.
- O Homem-Rato... – Comecei. – Na verdade, Diretor Janson da WCKD, disse que encontraríamos uma cura para o Fulgor, injetado em todos nós, quando chegássemos ao fim do Deserto. Mas... começo a desconfiar que a ideia era apenas nos capturar de volta depois do teste. – Olhei para Brenda e Jorge que estavam lado a lado.
- Isso quer dizer que você nos enganou. - Brenda avançou com a mão em meu pescoço, irritada.

Engasguei e todos vieram para cima dela, inclusive Jorge, a fim de afastá-la.

- ESPERE! EXISTE UM SORO! – Mary disse puxando-a para longe de mim. Tossi várias vezes.

Todos encararam Mary. A esperança é uma coisa poderosa, mesmo um pingo dela já fez os olhos de todos brilharem, provavelmente o meu também, pois esperava com o coração palpitante as próximas informações.

- Mas não é nem de longe uma cura. Ele retarda a infecção.
- Por quanto tempo? – Brenda perguntou.
- Meses. Em alguns casos até anos, se aplicado regularmente. Nada certo. – Mary respondeu. – Mas o Fulgor sempre sai vencedor.
- Vocês têm para todos? – Foi a vez de Caçarola perguntar.
- Não. Não somos a WCKD. – Ela enfatizou. Percebi a onda de esperança que pairava se esvair tão rápido quanto surgiu. Mary queria mostrar que eles não tinham nada a ver com o fim do teste que a WCKD preparara para nós. Eu sabia disso agora, mas os outros ainda tinham dúvidas, como era de se imaginar. - Mas, conseguimos alguns em negociações com Marcus. Podemos racioná-los para aplicar em todos vocês.
- Já é alguma coisa. – Disse Jorge encarando Brenda.
- Desculpe. - Ela disse a mim e eu balancei a cabeça sinalizando que estava tudo bem.

Ele e mais alguns seguiram Mary para saber mais sobre o soro. Deixei Thomas aos cuidados de Teresa. Fui tomar um banho onde eu sabia que havia um chuveiro improvisado, montamos alguns anos atrás com galões que armazenavam água das chuvas e tubos em PVC para conduzi-la. Como era bom sentir a água sobre a cabeça e corpo. A terra cair. Dar adeus ao sangue seco de machucados aqui e ali. Não era como as instalações da WCKD, mas era incrível. As meninas arranjaram algumas roupas para mim. Eu me sentia a antiga e a nova eu, ao mesmo tempo. Era engraçado. Parecia que havia sido duas pessoas diferentes, em tempos diferentes. Peguei algumas frutas e sentei em uma rede afastada dos demais. Senti os músculos relaxarem de verdade, pela primeira vez em muito tempo. Percebi a presença de Minho.

- E aí, trolha. Não queria incomodar.
- Está tudo bem. – Sorri.

Ele veio se sentar ao meu lado na rede.

- Você salvou nossa pele conhecendo esse pessoal. – Ele disse. – Queria agradecer.
- Todos salvamos a pele um do outro. Várias vezes.
- É, - Ele balançou a cabeça parecendo pensar. - Mas nem todo mundo faz piadas que ninguém entende, que envolvem super velocidade e... flashes? – Ele disse fazendo careta. Gargalhei com a maneira como ele se referiu a The Flash. Ele gargalhou junto.
- Não tenho culpa se minha memória é melhor que a de vocês. – Dei de ombros sarcasticamente.
- Isso é jogo sujo. – Ele continuou rindo. – Saiba que é uma mértila perder a piada por ter as memórias apagadas.
- Não deveríamos estar brincando com isso.
- Se não brincarmos vai ser ruim do mesmo jeito. Então... - Minho não costumava demonstrar, mas seu jeito divertido sempre foi um meio de lidar com a dor.
- Você tomou o soro? - Perguntei.
- Sim e você?
- Ainda não. Preciso ir até Mary ver isso.
- Ela disse que conseguiu dividir para todos nós. Mas que, se algum de nós não for imune, a doença vai aparecer cedo ou tarde.

Assenti agora em silêncio.

- Agora vou te deixar descansar antes que você invente alguma coisa nova.

Ri enquanto ele se afastava. Eu não pretendia descansar de verdade. Minha mente ainda rodava em uma órbita que procurava escapatórias para situações adversas.

- Acho que ele está apaixonado. – Escutei a voz de Newt às minhas costas. Um tom superficial de sarcasmo. Não sabia se ele estava falando sério ou brincando.
- Está com ciúmes? – Soltei, me levantando, concentrada em deixá-lo sem jeito por estar escutando a conversa, e não no sentido da pergunta em si. Foi o que me veio à mente. Sobre deixa-lo constrangido: consegui.
- Eu... C-Claro que não. – Ele se enroscou.
- Não deveria escutar conversas nem que estivesse. – Eu disse satisfeita. Sorri levemente arqueando uma só sobrancelha, quando ele pareceu entender o recado. Era a primeira vez em tempos que conversávamos sobre qualquer coisa que não fosse nossa densa corrida contra WCKD.
- Foi sem querer. Estava só passando. – Agora ele realmente parecia estar com ar de brincadeira.

Encarei-o para demonstrar que sabia que aquilo não era verdade e não consegui reprimir o riso. Newt não sabia como disfarçar a culpa nem na brincadeira. Ele acabou rindo de volta.

- Culpado. – Ele disse. – Mas na verdade não estava aqui para escutar a conversa. Vim falar com você. Mas Minho chegou primeiro.
- Acho que tenho tempo para você na minha agenda agora.

Ele riu de novo, abertamente agora. Como era bom vê-lo assim, leve. Sem aquele gesto comum de sobrancelhas cerradas em preocupação e análise.

- Como você conhece essas pessoas? – Ele perguntou quando assenti para que ele prosseguisse. A conversa voltara ao cunho da realidade. Tive a confirmação quando o gesto, que eu acabara de recordar, surgiu: ele cerrara as sobrancelhas. Já havia imaginado que ele iria querer saber mais.

Comecei a explicar tudo desde o início, quando eu e Thomas fomos afastados de nossos pais ainda crianças, para sermos criados em laboratórios da WCKD. Conhecemos Teresa e algumas outras crianças. Não conseguia identificar em minhas lembranças qualquer um dos demais que agora eu conhecia e disse isso a Newt. Talvez tivessem chegado mais tarde, após a minha fuga.

- Mary me contava histórias sobre um grupo heroico que salvava crianças das mãos da WCKD. Eram reais e por isso Mary acreditava que conseguiria tirar todas as crianças de lá, mas não havia como. A descobriram. – Fiz uma pausa. – Como eu sempre estava junto dela, fiquei encarregada de conseguir avisar os demais que estávamos fugindo, enquanto ela preparava tudo às pressas. Não consegui. Bom... consegui chegar a Thomas e esconder a nós dois. Mas os outros foram trancafiados de forma impossível de alcançar. Quando chegamos a Mary, Thomas decidiu que continuaria com a WCKD, que não fugiria. Porque mesmo com dez anos, ele não queria deixar ninguém para trás. Eu que fui a egoísta. Deixo-o voltar sozinho e me arrependi no segundo seguinte, mas já não havia mais tempo para nada.
- Você era uma criança. Fez o que achava que precisava fazer. Não se culpe por isso. – Newt disse.
- Não sei... – Baixei a cabeça em reprovação a mim mesma. – Enfim, eu e Mary chegamos a Vince. Prometi ao meu interior que eu voltaria para buscar Tommy no momento certo. Que demorou anos para acontecer. Como ele já contou a vocês, ele e Teresa passaram a trabalhar para WCKD e, conforme eu crescia, aprendi a obter todas essas informações de um jeito ou de outro. Mas tinha medo agora, medo de ele estar complemente ao lado deles. Tudo mudou de alguma maneira que não sei como foi e nem vocês quando soube que ele e Teresa foram parar no Labirinto. Algo entre eles e a WCKD havia divergido.

Continuei a contar até o ponto em que cheguei ao Labirinto. Fomos caminhando lado a lado, até sentarmos em umas elevações rochosas da montanha.

- Você se lembrou de tudo isso assim tão de repente? – Ele parecia desconfiado, mas Newt sempre parecia desconfiado.
- Sim, quando vi Harriet. Meu palpite é que a WCKD não teve tempo suficiente para afastar minhas memórias com precisão como fizeram com a de vocês. Vocês me contaram, quando cheguei no Labirinto, que Thomas havia mudado as coisas. Gally o detestava por causa disso. Acredito que tudo começou a acontecer enquanto eu estava inconsciente na WCKD, tendo as memórias apagadas. Precisavam se livrar de mim logo para continuarem focados no procedimento de estudar vocês. Mas meu sangue e o de Thomas é o mesmo, ou seja, eu também poderia ser imune. Então, acredito eu, que a melhor opção que encontraram foi me jogar no Labirinto também. Imaginei que fariam isso desde o início, como eu já te disse, por isso simplesmente me entreguei.

Newt apenas balançou a cabeça algumas vezes.

- Você é uma trolha maluca, sabia?

Eu ri, pensando em como Harriet costumava dizer quase a mesma coisa sempre.

- É o que dizem. – Dei de ombros.
- E extraordinária. – Ele manteve o olhar fixo no meu. Sorri sem jeito.
- O que importa é que agora temos certeza que não é mais a WCKD. Que temos reforços de verdade. – Foi o que respondi.

Nunca soube lidar com elogios, mas os de Newt me deixavam sem reação. Pensei novamente em beijá-lo. Isso não ajudou. Um calor se instalou em meu corpo com fervor. Eu queria dizer tudo isso a ele, mas havia um constrangimento esquisito impedindo. “Isso não deveria ser uma preocupação em meio a tudo isso”, era o que minha mente me forçava a analisar, mas meus olhos se recusavam a ignorar os lábios de Newt.

– É bom contar tudo isso. Dizer em voz alta. – Silêncio por alguns segundos. Meus olhos iam de seus lábios a seus olhos. - Há mais coisas que eu... – Parei sentindo o coração acelerar. – Gostaria de falar em voz alta.

Não soube se ele entendeu o que eu realmente quis dizer com aquela frase, pois Teresa apareceu dizendo que Thomas havia acordado.


Capítulo 9
Betrayal.

Fomos até a tenda que funcionava como enfermaria e lá estava ele, novo em folha, mas ainda enjoado, segundo o que disse.

- Parece que você se divertiu. – Newt caçoou. Thomas fez uma careta colocando a mão sobre o estômago.
- Você precisa repousar mais. – Teresa disse. A mão dela acariciava o ombro de Thomas. Ele assentiu para ela.
- O nome disso é ressaca. – Brinquei, sorrindo para eles.
- Onde estamos? – Thomas disse depois de rir.

Todos direcionaram os olhares a mim. Expliquei o mais sucintamente possível. Os outros acrescentaram uma coisa ou outra. Deixei-os ali conversando quando Mary me chamou a um canto afastado, discretamente.

- Apliquei o soro em Thomas antes de ele acordar. – Mary disse e eu assenti com a cabeça. – Mas me lembro bem que a WCKD classificou vocês dois como imunes. Provavelmente a seus amigos também.
- Eu sei, mas... – Suspirei. – Um dos que estavam no Labirinto com a gente foi tomado pelo Fulgor no Deserto.

Mary parecia em choque com a informação.

- Nós também não entendemos. Acho que a WCKD quer comparar os imunes aos não imunes. Não sei como. Mas sei que isso significa que não estamos todos salvos. – Eu disse tentando juntar as peças soltas em minha mente.
- Vindo da WCKD isso seria completamente possível. – Mary concordou. – , - Ela fez uma pausa densa. Algo estava errado. – Racionei o máximo possível, mas não houve soro para todos. Sei que você não tomou dose alguma, mas eu te conheço, sei que me pediria para priorizar Thomas e seus amigos. Me desculpe.
- Não se desculpe. – Eu disse sorrindo e segurando as mãos dela. – É exatamente o que eu iria te dizer. – Ela sorriu de volta, mas parecia transtornada. – Alguns de seus amigos, a propósito Brenda, se recusaram a tomar para que sobrasse aos outros.
- Brenda não quis? Ela me tirou o ar por causa disso! – Eu disse em um sussurro exasperado.
- Aparentemente ela estava mais preocupada com Jorge do que com ela mesma, porque pediu para que a dose que separei para ela fosse dada a ele, sem que ele soubesse que ela não havia tomado.

Suspirei novamente. Esquecera da importância que Jorge e Brenda davam um ao outro. Era como se fosse eu com Vince ou Mary. O estado do Fulgor no corpo de Jorge deveria estar evidente de alguma maneira, pois ele mesmo fazia piadas sarcásticas com isso o tempo todo. Mas Brenda provavelmente conhecia a gravidade.

- Quem mais não aceitou tomar?
- O garoto loiro. – Ela apontou discretamente para Newt ao longe, que ainda estava junto de Thomas conversando. – E Teresa, ela afirmou que eles não aplicaram a doença nela como em vocês.

Senti meu estômago pesar e minhas pernas bambearem. Teresa realmente não havia adentrado o Deserto como a gente. Mas Newt. Eu não estava preparada para correr esse risco mesmo que ele estivesse. Vasculhei o cérebro em busca de soluções, mas não encontrei nenhuma.

- Como consigo mais desse soro? – Perguntei em uma ânsia repentinamente dolorosa.
- Somente a WCKD pode produzir mais. O soro é feito a partir do sangue dos imunes, mas eu não sei exatamente como.
- Precisamos tentar produzir mais. – Minha voz demonstrava meu desespero. Minha respiração tornou-se entrecortada.
- ...
- Pode usar meu sangue para os testes, se eu for imune vai funcionar. – Continuei não a deixando falar.
- , se acalme. – Ela me segurou pelos ombros. – Entendo que ele deve significar muito para você. – Ela já compreendera e eu nem tentei protestar o contrário. – Mas mesmo que eu faça testes com seu sangue, não temos equipamentos para produzir o soro como deveria. Não há como fazer nada a não ser esperar.

Xinguei mentalmente. Eu não conseguia sustentar a ideia de ter que esperar para saber. Não quando se tratava dele. Fiquei com isso remoendo meus neurônios quando sai da tenda. Decidi caminhar em volta do acampamento. Subi mais alto a montanha para poder ficar a sós com meus pensamentos.

- Ouvi você e Mary conversando. – Teresa se aproximou depois de alguns minutos, enquanto eu encarava o pôr do sol. Virei-me para ela. – ... - Ela me chamou pelo apelido pela primeira vez durante todo aquele tempo. - Talvez seja possível que você e Thomas salvem todos nós.
- Okay, já tivemos essa conversa antes sobre Thomas. Agora eu também? Não fez sentido algum antes. Continua sem fazer. – Estressei-me.
- Eu conversei com a WCKD. – Ela disse determinada. – Antes de encontrar com vocês no Deserto. Eles me devolveram minhas memórias. Eu te falei aquele dia que eu me lembrava de tudo. Me disseram que você e Thomas eram a resposta. Vocês não somente são imunes, como algo no cérebro de vocês reage diferente dos demais ao Fulgor.
- Teresa, eles sempre nos empurraram um monte de ilusões, porque seria diferente agora?
- Eu vi por mim mesma. Nos testes. Escuta, eu preciso que você e Thomas compreendam.
- Compreendamos o que? – Ouvi Thomas dizer, surgindo atrás de nós.
- Vocês se lembram da mãe de vocês? – Ela perguntou. Não respondi, mas Thomas afirmou que achava que se lembrava.

Então com lágrimas escorrendo dos olhos ela contou como se lembrava de ter perdido a própria mãe para o Fulgor. Me senti mal. Havia alguma coisa que ela ainda estava escondendo por trás de tudo aquilo. Ela disse que não poderia negligenciar todas as histórias que eram como a dela.

- O que quer dizer? – Thomas perguntou também com os olhos marejados.

Ela repetiu que esperava que ele entendesse.

- Entender o que? – Meu irmão perguntou. Agora parecia desconfiado.

Um sentimento de alerta cresceu dentro de mim também. Ela havia feito algo.

- Porque eu fiz isso. – Ela disse.

Ao longe se fez ouvir, ameaçadoramente, o som dos helicópteros de patrulha da WCKD. Onde antes eu encarava o pôr do sol, agora despontavam luzes e luzes voadoras vindo em nossa direção.

- Não. – Eu disse olhando de volta para Teresa.

Os olhos de Thomas continuavam cheios de lágrimas, mas em conjunto a elas uma expressão desacreditada se materializou.

- Teresa. – Ele disse. Eu podia quase sentir o peso da traição em meu irmão.

Ela pediu para que não lutássemos contra eles. Segurei o braço de Thomas.

- Tommy, vamos. – Eu disse com pressa na voz. Precisávamos fugir. Avisar os demais.
- Eles prometeram não machucar ninguém. – Ela disse ainda chorando.
- O que você fez? – Ele indagou dolorosamente a Teresa. – O que você fez?
- Tommy! – Puxei-o novamente e desta vez ele me seguiu.
- Merda! – Ele xingou.

Saímos correndo montanha abaixo. Encontramos com Aris no caminho.

- Esperem! – Ele segurou meu braço, fazendo-me parar. - Vocês precisam aceitar. É o melhor para todos nós. – Ele disse.

Foi nesse instante que entendi todos os sussurros aos quais flagrei Teresa e Aris.

- Você passou informações para WCKD esse tempo todo, não é mesmo, seu mértila! – O empurrei, mas ele não revidou. – Você passou nossas localizações para que colocassem Teresa em nosso caminho. Estavam armando juntos.
- NÃO TEMOS TEMPO! – Thomas gritou para mim já mais à frente.

Balancei a cabeça em negativo.

- Elas confiavam em você. – Eu disse referindo-me a Harriet e Sonya que sempre se lamentaram por não terem conseguido trazê-lo junto delas quando crianças.

Fui de encontro a meu irmão, que já havia sumido de vista, a fim de chegar ao acampamento. Corri tanto. Durante todo aquele tempo, mesmo com tudo o que passamos, essa foi a corrida mais árdua de toda minha vida. Escutei Thomas gritar. Os helicópteros não só chegaram primeiro, como lançaram bombas direcionadas ao acampamento. Parei abruptamente com o choque. Minha respiração acelerou-se e eu já não sabia como prosseguir.

- Não. Não. Não. – Murmurei. Escutei gritos dos meus amigos lá embaixo.

Agentes da WCKD agora desciam dos helicópteros, armados. Voltei a correr em direção ao acampamento e em meio a fumaça observei meus amigos cercados. Minho, Newt, Caçarola. Todos manejando armas que nunca haviam utilizado. “Estamos perdidos”, pensei. Vince estava em cima da caçamba de uma caminhonete junto a uma metralhadora. Harriet buscava munição. Eu não via Mary em lugar algum, nem Thomas. Nem os demais. Ao encarar a metralhadora, lembrei-me de outras duas caminhonetes reservas, em cada uma delas também continha uma metralhadora. Vince as mantinha em local separado, abastecidas em caso de emergência. Voltei a correr, mas em direção a elas. Encontrei Jorge e Brenda no caminho.

- HEY! ONDE ESTÃO INDO? – Gritei quando percebi que eles se distanciavam. Brenda com uma arma na mão.
- PRECISAMOS SAIR DAQUI, NÃO ADIANTA IRMOS ATÉ LÁ! – Jorge gritou.
- ESPEREM! – Cheguei mais perto. – Eu sei como ajuda-los. Por favor.

Implorei com o olhar para que não me deixassem sozinha nessa. Brenda me apoiou ao acenar que sim para Jorge. Ele cedeu e levei-os até as caminhonetes com certo custo. A fumaça das explosões e a noite mudavam o cenário completamente. Por fim, as encontramos. Retiramos as lonas que as escondiam. Jorge foi ao volante de uma, enquanto Brenda preparou-se para manejar a metralhadora. Ela me passou a arma que tinha em mãos, que eu deixei no banco do carona da caminhonete que eu iria dirigir. Fui ao volante. Teria que descer para manejar a metralhadora quando fosse o momento.

- VOCÊ PELA ESQUERDA E EU PELA DIREITA. – Gritei a Jorge indicando com os dedos. – ESPEREM O MOMENTO CERTO! - Ele assentiu e tomamos direções opostas.

Esperava que considerássemos o momento certo ao mesmo tempo. Dirigi quase sem frear mesmo em meio ao íngreme terreno montanhoso. Destroços das explosões causadas pela WCKD me fizeram virar o volante brutalmente várias vezes. Olhei pelo retrovisor e a arma continuava posicionada. “Obrigada por ser uma arma pesada”, eu pensei. Desacelerei ao chegar próximo do acampamento. Mantive-me nas sombras, observando todos os meus amigos colocados de joelhos em fileiras. Observei Thomas se entregar e levar um soco de Janson, bem no estômago.

- Merda! – Bradei para mim mesma socando levemente o volante.

Um Berg gigantesco chegou sobrevoando. E pousou logo a frente de todos. Ava Paige, a mulher loira inteira de branco, que aparentemente havia se suicidado no vídeo de encerramento do Labirinto, foi quem saiu dele, rodeada de mais agentes da WCKD. Teresa e Aris se juntaram a ela e eu respirei fundo para não gritar. Estava tentando pensar, mas não conseguia colocar os pensamentos em ordem. Aguardei. Precisávamos que eles baixassem a guarda. Começaram a embarcar todos que viviam no acampamento dentro do Berg. Meu corpo se agitava, mas eu sabia que aquele ainda não era o momento. Vi uma tensão se estabelecer entre Mary e Ava, que se encontravam novamente pela primeira vez. Tudo o que aconteceu um milésimo de segundo depois me fez perder os sentidos. Janson apontou a arma a Mary e atirou à queima roupa. Eu via tudo como se estivesse em uma arquibancada. Mary foi ao chão e Vince jogou-se para segurá-la. O vi abrir a boca para gritar, mas eu não ouvia um ruído sequer além do eco devastador do disparo em minha mente. Lágrimas rolaram pelo meu rosto que parecia estar em chamas.

- Não, não. Por favor. – Implorei ao nada. Não conseguia me mexer. Meus músculos travaram. Havia esperado demais. Mary estava morta.

Observei Thomas ameaçar acender uma bomba nas próprias mãos e meus sentidos voltaram.

- NÃOOOO!!! – Gritei e acelerei com toda a força que ainda me restava.

Jorge também soube que era a hora certa, pois o vi dirigir em sincronia a mim do lado oposto. Estavam todos concentrados em Thomas. As armas todas apontadas na direção dele. Brenda disparou algumas vezes para o alto, o que fez uma confusão se instalar no meio de todos. Meus amigos deitaram no chão. Percebi Vince correr de volta a metralhadora de antes. Parei o carro tão de repente que minha cabeça quase atingiu o para-brisa. Escalei a lateral da caminhonete, com a arma, que Brenda deixara comigo, a tira colo e cheguei até a metralhadora já preparada. Atirei mirando os uniformes pretos e principalmente o sobretudo cinza de Janson. O perdi de vista quando Thomas jogou a bomba em suas mãos em direção a outros agentes uniformizados. Preparei a arma com mira a distância. Ava, Teresa e Aris já haviam corrido para dentro do Berg. Encontrei Janson novamente na multidão e ele apontava a arma para a cabeça de Thomas. Mirei com precisão a cabeça dele e atirei. Fui empurrada da caminhonete ao chão nesse mesmo instante. Senti uma dor lancinante no ombro direito, mesmo assim me inclinei para ver se acertara Janson, mas ele havia sumido do meu campo de visão. Meu irmão estava em pé e correndo em minha direção agora. O agente da WCKD que me derrubara prestava atenção em Thomas, o que permitiu Harriet se aproximar e derrubá-lo com um só tiro. Não conseguia me apoiar para levantar do chão. Thomas tentou me ajudar, mas teve que se abaixar mais de uma vez devido aos disparos de todos os lados. Quando conseguiu me por sentada me senti zonza.

- Hey! Hey! Você está bem? – Ele se agachou a minha frente.
- Não consigo mover meu braço. – Eu disse segurando o braço direito.

Ele segurou sem muita força, mas a dor em meu ombro não só me fez lançar uma careta, como querer golfar.

- Pare. – Eu disse segurando com gentileza a mão dele. – Não dá para mexer. Meu ombro. – Reclamei.
- Precisamos sair daqui. – Ele disse.

Harriet agora ajudava Vince. Brenda e Jorge atiravam também. Caçarola se aproximou e ajudou Thomas a me colocar de pé. Minho e Newt nos acobertaram. Quando a munição de Newt acabou ele jogou a arma longe e se junto a nós, que agora nos escondíamos atrás de containers.

- DÊEM O FORA DAQUI! – Minho gritava enquanto ainda atirava.

Então o acertaram com armas de choque. Seus movimentos foram paralisados e ele caiu no chão, sendo imediatamente arrastado pelos agentes da WCKD. Os meninos tentaram correr até ele, mas foram impedidos por mais tiros. Jorge segurou Thomas e o protegeu. Avistei Janson segurando o próprio ombro. Era ali que eu havia acertado. Vince, Brenda e Harriet miravam os helicópteros já no ar com as metralhadoras das caminhonetes. Estavam batendo em retirada, mas levavam várias pessoas com eles. Inclusive Minho e Sonya. Fomos conduzidos por Jorge para longe. Vimos o Berg fechar as portas com uma Teresa que não conhecíamos nos encarar assustada. Se foram. O que restou foi destruição, chamas, morte. Fui de joelhos ao chão, vencida. Vince se aproximou e a imagem de Mary ensanguentada em minha mente me fez cair em lágrimas.

- Me desculpe. – Eu disse. Ele me abraçou. – Me desculpe. Não agi a tempo.
- A culpa não é sua. – Ele disse. – Venha, vamos dar funeral que ela merece.

Acompanhei Vince. Ele reparou que eu segurava o outro braço.

- Vamos arrumar isso primeiro. – Ele disse e eu tentei protestar, mas ele já apalpou meu ombro me fazendo curvar em dor. – Quebrado. – Concretizou.

Ele retirou a própria blusa de frio e preparou uma tipoia tão bem-feita que meu ombro ficou completamente imobilizado.

- Você vai ficar bem, pequena. – Ele disse, como costumava dizer quando eu ainda era criança.

Caminhamos juntos até o corpo de Mary. Chorei muito mais agora, mas não deixei de ajudá-lo a enrolá-la em um cobertor. Ele a levantou no colo e fomos até o jardim que tínhamos no acampamento. Estava arruinado, mas ainda era um local de boas lembranças. Vince, com a ajuda de Newt, fez uma cova, com as pás que ainda estavam ali. Colocamos ela vagarosamente dentro do espaço e empurramos a terra sobre seu corpo imóvel e coberto. Encontrei uma margarida, arrancada pela destruição. A preferida de Mary. Coloquei sobre seu túmulo. Lágrimas corriam silenciosas. Vince colocou a mão sobre meu ombro bom.
Noite adentro ajudamos a juntar corpos, destroços e suprimentos. Estávamos exaustos pela manhã. O sol nascera forte, sem uma nuvem sequer para cobri-lo, mas o vento ainda era gélido.

- O que faremos agora? – Caçarola perguntou quando sentamos para descansar.

- Pegamos os que sobraram. – Vince começou. Ele sabia ser um ótimo líder, mesmo em luto. – E recomeçamos, eu acho. Um novo refúgio seguro.

Thomas se levantou preparando uma mochila às costas.

- Não vou com vocês. – Todos permaneceram em silêncio. – Fiz uma promessa a Minho e vou buscá-lo.
- Thomas. – Comecei.
- Não estou pedindo para que ninguém venha comigo. – Ele me interrompeu.
- Tommy, me escuta. – Disse Newt.

Ele disse que conhecia Minho desde sempre e que se esse fosse o melhor jeito de resgatá-lo, ele com certeza estaria ao lado de meu irmão.

- Mas isso que você está falando, - Ele continuou. – É impossível.
- Pode ser. – Thomas insistiu. – Mas preciso fazer isso, não só pelo Minho, mas por todos nós. Porque isso nunca vai acabar se eu não os parar. Vou matar Ava Paige.

Harriet confessou que adoraria uma vingança e, no fundo, eu também queria me vingar.

- Acredite irmão, não é uma má ideia. - Eu disse. - Vamos com você, mas não sem um plano. - Encarei Thomas por alguns segundos. - Não seremos úteis mortos.
- Ela tem toda razão. – Disse Newt.



Capítulo 10
Fresh Start.

Meu irmão acalmou os nervos, mas foi sentar-se ao longe. Sabia que ele estava sofrendo. Todos estávamos, mas não podíamos meter os pés pelas mãos. Fui me sentar ao lado dele. Ficamos em silêncio por alguns segundos.

- Eu não sei o que pensar. – Ele finalmente disse. Ele queria falar sobre aquilo, mas dizer em voz alta fazia parecer real demais até para mim.
- Na verdade nem eu. – Suspirei. – Devíamos ter desconfiado.
- Aris soube esconder. Teresa ainda mais. – Ele rebateu abaixando a cabeça. – Me disse que era para confiar nela, no Deserto, quando nos encontramos. Ela me beijou.
- Puta merda. – Lamentei com sinceridade. Ela era importante para mim, para ele ainda mais.
- Brenda também me beijou. - Ele confessou.
- O QUE? - Eu disse sem realmente gritar, mas fingindo que sim.
- Quando estávamos naquele lugar esquisito do Marcus.
- Ual.
- Eu disse que não era ela.
- Disse a Brenda que ela não era Teresa? – Perguntei tentando entender melhor. Ele disse que sim com a cabeça. – Nossa. – Eu nem imaginava como aquilo poderia ter soado para Brenda.
- Eu estava fora de mim. Eu gosto da Brenda, não queria ter sido rude, mas... - Ele não conseguiu terminar. - E Teresa agora...

Ele parecia confuso. Teresa e Aris magoaram todos nós. Mas para ele aquilo tudo tinha um significado maior.

- Não se cobre demais, Tommy. Nenhum de nós esperava por isso.

Vince chamou a todos para continuar a recolher as coisas. Precisávamos encontrar um novo local de instalação. Precisávamos nos recompor. Estava irritada ou cansada, já não sabia distinguir. Com raiva por não ter avançado antes de Janson atirar em Mary, por não ter conseguido me vingar, por Teresa e Aris terem nos traído, por todos que perdemos no caminho até ali por causa da WCKD, por Newt não ter tomado o soro, por Minho e Sonya serem capturados, por tudo. Evitei conversar com qualquer pessoa pelo resto do dia, principalmente com Newt. Não era algo exatamente planejado. Eu só estava com tanta raiva que qualquer conversa poderia virar uma briga. E eu não queria brigar.
Quando tudo estava preparado para partida, fui ao túmulo de Mary. Sozinha. Sussurrei algumas palavras que nem eu mesma prestava atenção. Absorta em lembranças. Eu não estaria ali se não fosse por ela. Novas lágrimas rolaram pelo meu rosto.

- Vamos honrá-los. - Escutei a voz de Newt às minhas costas. Sequei as lágrimas sem me virar. - Vamos resgatar Minho e vamos honrar todos eles. Mary, Alby, Winston, Chuck.
- Eu sei. - Virei-me para ele e tentei sorrir. Tentei parecer otimista. Mas não era um bom momento para atuação.
- Você está me evitando. O que houve? - Ele me confrontou com as típicas sobrancelhas cerradas.
- É só que... - Suspirei. - Por que você não tomou o soro? - Não conseguia desviar minha mente da possibilidade de ele acabar morto.
- Não havia suficiente para todos.
- É, mas, - Procurei as palavras certas em meio a raiva angustiante. - você poderia ter dividido com alguém, tomado uma dose menor que fosse, por precaução. Sei lá, qualquer coisa! - Levantei e abaixei os braços rapidamente.
- Eu não estou com medo do Fulgor.
- Mas eu estou! - Rebati com o tom de voz elevado.
- A decisão é minha. - Ele continuou firme.
- EU NÃO QUERO PERDER VOCÊ TAMBÉM, NEWT. - Gritei.

Ele olhou para baixo e depois para os lados, com os olhos semicerrados, os lábios tortos, como sempre fazia em dias de sol forte. Voltou a me olhar. Respirei fundo e desviei o olhar.

- Escuta, . Não sabemos nem se o vírus vai se manifestar ou não.
- Você é teimoso. - Eu disse ainda olhando para baixo.
- E você com certeza não é, não é mesmo?

Ele se aproximou como nunca se aproximara antes. Colocou o dedo indicador abaixo do meu queixo e conduziu meu olhar ao dele. Deixe-me levar, já não queria protestar sobre nada, estava cansada. A mão dele em meu queixo passou à maçã de meu rosto e depois se retirou, em um carinho rápido. Os olhos tão próximos dos meus e os lábios. Droga. Aqueles lábios. Ele tinha um corte acima da bochecha por causa dos últimos acontecimentos, mas isso não retirava nem uma mínima porcentagem de seu charme. Os fios loiros brilhavam dourados ao sol. Tão lindo. Minha mente ansiava por uma distração para tudo aquilo. Me perdi em desejos por alguns segundos. Então pensei em como eu deveria estar ridícula com aquela tipoia improvisada. Senti-me egoísta, como sempre. Mas, “por que me sentir mal por sentir algo por ele?”, pensei. “Por que nunca me permitia preocupar-me com alguns dos meus próprios desejos?”

- Vamos conseguir. Juntos. - Ele disse.

Sorri, mesmo que os sorrisos parecessem um ultraje naquele momento.

- OH CASAL! - Brenda chamou ao longe, dentro de um dos Jeeps. Eu e Newt a encaramos, sem nos preocuparmos em discordar do apelido. - Precisamos ir.
- Vamos nessa, trolha! - Newt respondeu, segurando a minha mão boa e acelerando o passo para chegarmos a nossa carona.

Levou cerca de um mês para realmente nos reestabelecermos. Passamos por diversos resquícios de civilização. Destroços. Vidas abandonadas às pressas. Depois de encontrarmos um lugar que parecia realmente seguro, longe dos Cranks, longe da WCKD e que nos dava vantagem geográfica de defesa, passamos a reconstruir tudo que era necessário para viver. Determinados grupos para busca de suprimentos e para defesa ao acampamento. Revezávamos turnos. Construíamos novas coisas todos os dias. Ficamos castigados pelo trabalho árduo, pelo sol ou tempestades devastadoras, mas nada nos impedia. Estávamos determinados. Nos momentos em que não estávamos nos dedicando a coisas do acampamento, estávamos nos dedicando a um plano para salvar Minho e Sonya.

- Você consegue fazer milagre com tão pouco. – Eu disse a Caçarola quando inventamos de utilizar frutas na receita do dia.
- Nós dois conseguimos. – Ele disse modesto. – Você ajudou.
- Até parece. - Gargalhei. – Eu tentei você quer dizer né.

Todos riram agora. Costumávamos nos reunir em um horário certo para almoçar e jantar. Como era na clareira. Porém, poucas eram os assuntos dispersos. A maior parte deles envolvia planos e mais planos sobre como seguir em frente. Os dias eram opressivos. O luto por aqueles que não chegaram até ali caminhava com a gente. Todo segundo torturando nossos subconscientes. O peso em nossas mentes em salvar Minho, Sonya e outros. Mas nos reconstruímos. Estávamos revigorados. Mais cautelosos, mais estrategistas, mais cheios de vontade para dar o que a WCKD merecia. Três meses passaram como vento. Meu braço estava curado, eu sentia uma pequena pontada com movimentos muito bruscos para trás, mas nada que fosse um incômodo.

- Parece que virá uma tempestade. – Eu disse a Newt em uma noite que estávamos encarregados de vigiar os arredores do acampamento.
- Pelo menos agora as tendas aguentam a ventania. – Ele disse se referindo aos suportes de madeira que fizemos em cada uma das tendas.

Havia duas tendas para quem ficava de vigia, uma em cada extremidade do acampamento. Nelas havia somente alguns suprimentos, lanternas, armas e um colchonete para troca de turno. De dia apenas uma dupla se revezava em um dos lados do acampamento, pois enquanto todos estavam acordados era mais seguro. Já de noite eram quatro vigias. Duas duplas. Uma em uma extremidade, uma em outra. Cada semana pessoas diferentes eram escaladas para a tarefa. Eu e Newt sempre fazíamos os turnos juntos. Era para supostamente um descansar enquanto o outro vigia, mas nós sempre ficávamos acordados a noite inteira juntos. Jogando conversa fora. As noites de tempestade eram complicadas. Precisávamos ficar dentro da tenda, devido aos raios, com as lanternas acesas para afastar o breu. Tentando prestar atenção a qualquer coisa que se tornasse esquisita a nossos ouvidos lá fora ou à nossa percepção. Precisávamos manter afastados os Cranks desvairados, a WCKD e os estranhos indesejados. Porém raramente alguma dessas coisas aparecia. Em todo esse tempo apenas um Crank ou outro. Tiro e queda: aquela era uma noite de tempestade. Nos escondemos dentro da tenda, chacoalhando a roupa já ensopada. Newt respirou fundo enquanto passava uma blusa seca para mim e pegava uma para ele.

- Você está bem? – Perguntei e ele já sabia que eu me referia ao Fulgor, pois fez uma careta.
- Vamos precisar falar disso toda vez? – Ele se irritou.

Um raio lá fora fez o interior da tenda brilhar. Eu me assustava toda vez.

- Tá bom, tá bom. – Levantei os braços na defensiva.

Retirei as duas blusas encharcadas. Usava um top por baixo, mesmo assim Newt virou o rosto para o outro lado. Minha mente pensava na possibilidade de confessar que eu queria que ele olhasse. Ao invés disso, coloquei a que ele me passara. Ele também tirava as roupas encharcadas, de costas para mim. As costas nuas e o cabelo molhado. Suspirei. Era início de inverno e estava um frio absurdo. Todas as noites costumavam ser frias, mas aquela estava insuportável. Não havíamos preparado roupas secas suficientes para nos esquentar do vento gelado que batia na emenda do tecido na entrada da tenda. Eu tremia.

- Vamos usar o cobertor. – Ele sugeriu.
Sentamos lado a lado no colchonete. Ele passou o cobertor pelos próprios ombros e depois pelos meus.

- Melhor? – Ele perguntou também com os lábios roxos.
- Não sinto minhas mãos. – Confessei soprando nelas e ri. – E você?
- Ainda parece que vou quebrar em pedacinhos se me mexer. – Ele disse. O ar gelado entrava em meus pulmões.
- Acho que precisamos abastecer melhor o estoque de agasalhos. – Continuei rindo e ele também agora.

Nos encaramos um pouco e desatamos a rir novamente. Gargalhar. Newt estava gargalhando. Sem motivo aparente além do congelamento vagaroso.

- Preciso mudar de posição, acho que minhas pernas adormeceram. – Eu disse depois de algum tempo. O vento diminuíra e eu já não tremia, mas a tempestade continuava forte.

Decidimos deitar no colchonete, para conseguirmos esticar o corpo mantendo o cobertor sobre nós. Achei que seria mais confortável deitarmos de frente um para o outro, mas a situação continuava constrangedora. Olhei nos olhos dele e ele sustentou o olhar. Ficamos assim por alguns segundos.

- ... Eu... – Ele disse.
- Shh. – Eu interrompi colocando delicadamente a mão sobre seus lábios. Não queria perder a coragem de estar ali. Levei a mesma mão ao cabelo de Newt. Úmido em alguns pontos ainda.

Ignorei todos os pensamentos que me diziam que não. Beijei-o. Rapidamente, em uma piscada, porque não houve coragem suficiente para continuar. Ele pareceu surpreso. Percebi seu olhar mirar meus lábios. Foi ele quem avançou agora. Fechei meus olhos e deixei minhas emoções tomarem conta. Uma de suas mãos passou por debaixo de meu pescoço, que encostava no colchonete, e alcançou minha nuca. A outra a minha cintura. Mantive meus braços e mãos em seu tórax. Um beijo ansioso de início. Urgente. Condicionei seu corpo para que eu ficasse por cima, encaixando minhas pernas nas laterais de suas pernas. Nossas respirações aceleraram sincronizadas. Me aproximei mais dele, puxando o cobertor acima de nós, que ameaçara cair. Encontramos nossos lábios de maneira afobada pela terceira vez. O beijo abrandou e tornou-se lento aos poucos. Apaixonado. Intimista. A sensação da pressão de seus lábios macios nos meus, do seu hálito quente e cuidado com cautela, mesmo com a insuficiência de suprimentos. Tudo tinha gosto de hortelã, pois eu aderi a um velho hábito de mastigar folhas de hortelã da horta. Em meio a nossos corpos agora quentes debaixo das blusas finas e do cobertor pesado, eu me perguntei se aquilo estava realmente acontecendo ou era uma invenção da minha cabeça. Seus lábios passaram ao meu pescoço. Seus dedos deslizam por debaixo de minha blusa. Senti um calafrio. Ajudei a retirar. Meu coração batia forte. Eu queria mais. Queria mais dele. Senti medo, mas lembrei dos preservativos que encontrei em um dos locais abandonados que averiguamos. Isso me acalmou um pouco. Mary me contou tudo que eu precisava saber sobre como fazer sexo corretamente. Preservativos se tornaram frequentes quando a WCKD começou a tomar as crianças para si. Mulheres não queriam dar à luz para correr o risco de suas crianças serem levadas. Guardei todos os que encontrei. Não sabia porque exatamente, mas acredito que pessoas da minha idade pensam em sexo. É normal sentir vontade de experimentar coisas que nunca experimentara, principalmente quando se está constantemente à beira da morte. Queria deixar aquilo acontecer, mas disse a ele que tínhamos como nos prevenir de surpresas não desejáveis. Havia um preservativo no bolso da blusa que tirei. Ele assentiu.
Antes de continuarmos, Newt me abraçou e beijou devagar, acariciando meu rosto. Nenhum sinal do Fulgor, nem em mim e nem nele. Eu precisava esquecer tudo aquilo. Então esqueci. Esqueci as ansiedades iniciais. Meu corpo se libertou. Estava preparada. Esquecemos a tempestade e o frio. Esquecemos a cautela. Esquecemos o mundo.

- Hey. – Escutei um sussurro em meu ouvido quando abri os olhos. – Bom dia.

Sorri sentindo o calor do corpo de Newt.

- Bom dia. – Respondi agora olhando nos olhos dele.

O dia amanheceu com um céu azul como o mar. Sem nuvem alguma. Nem parecia que uma tempestade havia derramado tão fortemente durante a noite. Levantamos cedo. Na realidade, nem dormimos, apenas cochilamos por algum tempo. Eu não conseguia parar de sorrir toda vez que o encarava. Ele fazia o mesmo para mim, com aquele sorriso torto, os olhos semicerrados por causa do sol. Juntamos nossas coisas e voltamos para o acampamento falando sobre coisas aleatórias. Porém a sensação da noite passada pairava sobre nós como um segredo divertido. Encontramos Brenda e Harriet que se dirigiam à tenda de vigia para o turno da manhã e tarde. Cumprimentamos com um aceno. Newt aproximou a mão várias vezes da minha enquanto caminhávamos. Nossas mãos encostavam, mas não chegavam a se entrelaçar. Acredito que ele queria manter as aparências tanto quanto eu. Avistei Thomas apressado, correndo em nossa direção.

- EU SEI COMO PODEMOS RESGATAR MINHO! – Ele disse com esperança nos olhos.



Capítulo 11
The Rescue.

Thomas nos explicou o plano ao qual havia chegado depois de todas as considerações que fizemos durante aquele tempo. Era perigoso. Alguém poderia acabar morto. Mas era possível.

- Como sabe que eles serão transferidos por trem? - Caçarola questionou Vince.
- Fontes confiáveis, meu amigo.

Vince sabia como encontrar informações. Mesmo que nunca contasse a nós de que maneira. Talvez fosse melhor assim. Encarei Thomas. Aquela era nossa chance de recuperar Minho e muitos outros. Ele parecia agitado, mesmo que aquela transferência dos imunes estivesse marcada para dali seis meses.

- E como é que vamos roubar um Berg? – Jorge questionou.
- Eles estarão atrás de nós. – Thomas disse. – E vamos preparar uma armadilha.
- E se mais de um Berg vier atrás de nós? – Vez de Newt.
- Não vão estar esperando que a gente roube um vagão de trem, Newt. – Thomas disse. – Não vai ter mais de um Berg porque temos o elemento surpresa. Vão ser seis meses a partir daqui e já faz quatro meses que estamos fora da mira da WCKD. Eles não esperam que a gente retorne com um plano maluco.
- Ok. – Disse Vince. – Convincente, mas e depois? Precisamos ter para onde escapar.
- E se formos para o litoral? – Eu disse. – Existem vários barcos abandonados por causa das tentativas de fuga e da guerra. Um deles pelo menos deve funcionar, se o consertarmos. Fugimos pelo oceano. WCKD nunca mais nos verá.
- Isso vai levar tempo demais. – Vince disse.
- Temos seis meses, Vince. – Insisti. – Se não conseguirmos nesse tempo nunca conseguiremos. Esse pessoal construiu coisas do zero muito mais rápido. A patrulha da WCKD chega mais perto do acampamento a cada dia.
- Pode funcionar. – Brenda me apoiou.

Vince respirou fundo. Era realmente uma ideia absurda, mas era a menos absurda até agora.

- Juntem suas coisas. – Vince ordenou. – Vamos para o litoral.

Sorri e dei um empurrãozinho em meu irmão para comemorar. Encontrei o olhar de Newt e ele sorriu. A lembrança da noite passada gelou meu estômago.

- E Thomas... – Vince o segurou pelo ombro. – Eu vou arriscar tudo uma vez, entendeu? Uma única vez. Seja quem for que consigamos ou não salvar.

Thomas assentiu com a cabeça. Eu compreendia Vince, ele não queria arriscar tudo que tínhamos em missões de salvamento, pois a WCKD era muito bem equipada. A chance de perdermos era imensa. Então era agora ou nunca. Mas é claro que a teoria é sempre mais fácil que a prática. Não foi fácil chegar ao litoral e muito menos achar um barco que funcionasse. Na verdade, encontramos um navio que poderia funcionar. Não era tão grande, mas seria muito mais difícil para reconstruí-lo do que um simples barco. Trabalhamos todos os momentos que aguentávamos trabalhar. Vince sempre organizava tudo com precisão, não deixava escapar um detalhe sequer. Grupos para buscar suprimentos, grupos para reconstrução do navio, grupos para vigilância. Newt e eu não tivemos tempo suficiente sozinhos. Estávamos sempre ocupados. Porém, em um momento ou outro nos esbarrávamos nos corredores e nos lançávamos um contra o outro. Encostados nas paredes. Ele sempre me beijava com desejo e eu de volta. Ríamos toda vez, pois sempre aparecia alguém e precisávamos fingir que estávamos só conversando. Ele passava a ponta da língua sobre os dentes às vezes, tentando disfarçar o riso, e eu costumava suspirar ao observá-lo. Nem sempre eram amassos. Na maioria das vezes estávamos preocupados com o tempo que nos restava. Ou em sermos pegos pela WCKD ou pelo Fulgor.

- Você acha que vamos conseguir algum dia? – Perguntei quando tivemos um momento sozinhos enquanto todos estavam na fogueira jantando.

Estrelas brilhavam forte no céu. Estávamos deitados com as costas sobre a areia gelada, os corpos contrários um ao outro, apenas as cabeças lado a lado. Ele parou de encarar o céu para olhar para mim com aquele ar de análise.

– Viver em paz. – Completei, virando meu rosto para o dele também.

O enxergava de ponta cabeça, devido à maneira que estávamos deitados. Meus olhos estavam na altura de seus lábios, mas eu conseguia visualizar todo seu rosto, tão próximo do meu. Ele deu ombros, os braços cruzados acima do corpo, voltando a encarar o céu. As sobrancelhas cerradas agora, como de costume. O cabelo havia crescido e fazia uma grande onda para o lado, e não pequenas ondulações como na Clareira.

- Eu não sei. – Foi o que respondeu.

O observei mais um pouco antes de olhar novamente para as estrelas. Não sabia se iríamos expor aquilo para as pessoas, mas a verdade é que não precisávamos. Estávamos bem assim, sem pressões, sem rótulos. Mas eu o amava. Eu sabia que o amava.
O grande dia chegou. Seis meses voaram como a areia das dunas do deserto distante. Nos separamos naquela manhã, para estar nos lugares certos. Dei um beijo rápido em Newt, ainda quando preparávamos as coisas. Eu iria com Caçarola, Harriet e outros.

- Se cuida. – Ele disse a mim.
- Você estará com maiores problemas. – Sorri desafiadora. Ele riu.

Fui até meu irmão e o abracei, assentimos um para o outro em um desejo de boa sorte silencioso. Brenda e Jorge tinham a responsabilidade de levar o Berg até meus amigos e eu, que estaríamos escondidos, prontos para cercá-los quando pousassem e descessem para os interceptar. Os dois já haviam partido de carro para se posicionar próximo a linha do trem e causar a distração. Thomas e Vince também iriam para o trem, porém subiriam nos vagões pela parte trás, teriam que saltar do carro para o último vagão. Iriam cuidar de desprender parte dos vagões, em que sabíamos que talvez Minho e Sonya estivessem, com uma bomba. Calcularam certa distância até onde fariam isso, em que pudessem parar e ter a ajuda de Newt e outros, que também escondidos esperariam pelo sinal para soltar com um soldador a emenda do vagão nos trilhos. Thomas planejou que poderiam gritar por Minho e esperar uma reposta para escolher o vagão correto. Se não houvesse reposta, teria de ser escolhido um aleatoriamente. De qualquer forma eu não estive lá para saber como tudo ocorreu. Nos escondemos e esperamos por Brenda e Jorge. E eles realmente apareceram, com um Berg em sua cola. Quando os agentes da WCKD desembarcaram, nós os surpreendemos, todos armados e os cercando. Harriet foi para dentro do Berg encurralar o piloto.

- Não se mexam! – Gritei armando o rifle.
- Hey pessoal! Bom ver vocês. – Caçarola brincou para Brenda e Jorge.

Amarramos os agentes nos suportes que colocamos no chão. Retiramos suas armas e comunicadores.

- Tchauzinho, desgraçados. – Eu disse mostrando o dedo do meio a eles enquanto entrávamos todos no Berg.
- Jorge, tem certeza que sabe pilotar essa coisa? – Disse Harriet.
- Saca só, hermana. – Ele disse levantando voo, porém fazendo uma careta.

Comecei a rir e todos também, mas na verdade estávamos nervosos. Aquele era apenas um dos passos. Quando nos aproximamos do trem agentes da WCKD se aproximavam de Vince, Thomas, Newt e s outros com armas nas mãos. Eles pararam por alguns segundos quando viram o Berg se aproximar e Jorge abriu fogo sobre eles. Brenda foi apertar o botão que liberava a corrente na qual prenderiam ao vagão. Os garotos haviam prendido ganchos de ferro nas quatro extremidades do vagão, que estavam ligados a fortes cabos de aço que terminavam em emendas também de ferro. Esperávamos que fosse suficiente para levantar voo com o vagão e todos em cima dele. A munição acabou rápido demais, provavelmente porque o piloto havia usado sobre Brenda e Jorge antes. Não fora suficiente para deter todos os agentes, mas para ganhar tempo sim. Newt e Thomas prenderam o gancho da corrente na emenda de ferro. Percebi que Vince ainda estava no chão. Os agentes voltaram a atirar e os garotos atiravam de volta. "Vamos Vince, vamos", pensei.

- Beleza, estão prontos! – Caçarola gritou para Jorge que forçou o Berg para cima.

Observei Vince subir pela escada lateral do vagão no último segundo e respirei, aliviada. Eles continuaram atirando nos agentes até que a distância fosse suficiente para que não os acertassem mais. Comemoramos com gritos.

- Vamos para casa, baby. – Jorge disse.

Arranquei o rastreador que havia dentro do Berg, a fim de que não nos encontrassem. Quando deixamos o vagão no chão, descemos e Jorge foi deixar o Berg em um lugar bem longe, indicando estrategicamente o lado contrário para qual iríamos. Abracei Newt e depois Thomas.

- Você conseguiu. – Eu disse parabenizando-o.
- Nós conseguimos. – Thomas sorriu.

Newt soldou a trava da porta do vagão e entramos. Vários jovens da mesma idade que a nossa estavam sentados e presos a correntes. Avistei Sonya e ao seu lado, para surpresa de todos, Aris. Seu rosto estava cheio de hematomas. Thomas olhou com desdém para Aris, mas Harriet foi abraçar tanto ele como Sonya.

- Aris? O que está fazendo aqui? – Perguntei.
- Eu lutei contra eles. – Ele me respondeu baixando o olhar. Franzi as sobrancelhas, confusa.
- É verdade. – Sonya disse. – Logo após tudo aquilo.
- Não era aquilo que eu queria. Não era o que disseram que fariam. Eu... – Ele fez uma pausa. – Sinto muito.

Segurei seu ombro como se dissesse que tudo bem, eram tempos confusos. Thomas passou a andar pelo vagão, dizendo a quem estava ali que estavam a salvo. Newt o acompanhou. Ajudei Harriet a começar a soltar as correntes. Não avistei Minho. Percebi a decepção no rosto de meu irmão e de Newt. Fomos todos caminhando de volta ao litoral. Agora seríamos um grupo bem maior. Quando chegamos Vince os reuniu para combinar o plano de fuga com o navio, que estava marcado para acontecer dali a dois dias. Eu e mais alguns, inclusive Thomas, fomos até a enfermaria onde Sonya tratava os ferimentos de Aris. Eles pareciam um casal agora, não só amigos. Pensei se as atitudes entre eu e Newt também poderiam estar nos entregando tanto quanto Sonya e Aris se entregavam. Mas isso não era importante agora. Meu irmão queria saber o que aconteceu. Ele parecia com menos raiva de Aris agora, eu sabia que ele era uma pessoa que perdoava facilmente e eu também. Sonya disse que eles viviam mudando os imunes de lugar. Aris disse que eles falavam o tempo todo sobre uma cidade.

- Achava que não haviam mais cidades. – Harriet disse. Brenda confirmou que não haviam cidades que ainda permaneciam intactas. Mas Aris e Sonya não tinham mais informação que isso.

Thomas perguntou sobre Minho. Queria saber se ele estava no trem. Aris disse que estava e que sentia muito.

- Merda. – Thomas disse e saiu. Fui atrás dele.
- Tommy, hey. – Ele parou já fora da tenda. – Nós tentamos, okay. Você tentou.
- Eu não posso deixar Minho para trás, . – Ele disse com súplica nos olhos. – Foi ele quem me ajudou no Labirinto, a acabar com o Verdugo, a fazer as pessoas acreditarem que podíamos sair.

Suspirei e fiz carinho em seu braço demonstrando que estaria com ele em qualquer situação.

- Estou com você, irmãozinho. – Eu disse. – Seja qual for seu plano.


Capítulo 12
Plan B.

Durante a noite, Thomas reuniu o pessoal para argumentar com Vince. Contou para onde acreditava que levariam Minho, de acordo com o que ouviu de Aris e com a direção dos trilhos do trem. Thomas afirmou que conseguiria o que queria em uma semana. Vince rebateu os argumentos de Thomas, obviamente. Eu já imaginava, tínhamos muito mais a perder agora. A WCKD estaria em alerta, resgatamos um grupo grande de pessoas que precisavam se recuperar e não lutar. Jorge contou que conhecia o lugar para onde provavelmente estavam levando Minho. Conhecia de anos atrás. O lugar era chamado de A Última Cidade. Entretanto, concordou com Vince sobre não ser uma boa ideia ir até lá. Thomas insistiu, mas Vince tirou suas palavras quando disse que da última vez que a WCKD havia nos alcançado, ele havia perdido tudo. Baixei o olhar pensando em Mary. Uma dor que eu tentava reprimir, mas que sempre me assombraria. Eu entendia que para Vince também. Abruptamente eu já não prestava mais atenção na conversa, um barulho ao longe me alertara e logo percebi que estava próximo demais. Avistamos fortes luzes, eram Bergs. Olhamos assustados um para o outro.

- Apaguem as luzes! - Thomas disse.

Sabíamos que a WCKD vinha patrulhando os arredores, mas nunca haviam chegado perto o suficiente para nos amedrontar. Jorge desligou a fonte do sistema de iluminação. Sai correndo atrás de Vince e meu irmão, dizendo para as pessoas alvoroçadas lá fora que ficassem calmas. Observamos dois Bergs tomarem o caminho contrário à nossa direção por muito pouco. Não podíamos ficar ali por muito tempo. Precisávamos zarpar o navio. Mas e Minho? Vince não havia aceitado o novo plano de Thomas para tentar uma nova missão de resgate e sabíamos que ele tinha razão em suas ponderações, mas meu irmão não desistiria.

- Não podemos mais ficar aqui. Vince tem razão. - Ele disse a mim depois do episódio com os Bergs.

Nos encaramos por alguns segundos antes de ele ir em direção à tenda na qual ficavam seus pertences. Encontrei o olhar analista de Newt, que estava por perto. Assenti para ele, sabia o que estava pensando. Tommy tentaria ir sozinho, mas não deixaríamos isso acontecer. Caminhei em direção à tenda onde ficavam minhas coisas e comecei a juntar o necessário em uma mochila. Peguei um dos rifles, tínhamos mais agora, não faria tanta falta. Encontrei com Newt e Caçarola no estacionamento onde estavam os veículos que conseguimos durante todo aquele tempo. Caçarola já estava ao volante.

- E ai, trolha! - Ele disse sorrindo. Caçarola parecia estar sempre de bom humor e era contagiante. Sorri.
- Seja qual for o plano de Tommy, ele passará por aqui antes. - Disse Newt encostado no carro e arqueando levemente as sobrancelhas. Ah, ele me deixava maluca.

Encostei no carro ao lado dele e aguardamos. Thomas apareceu 10 min depois, com uma mochila às costas. Newt acendeu uma lanterna, fazendo com que ficássemos visíveis a Thomas, que fez um gesto negativo com a cabeça.

- Nem adianta protestar. Estamos dentro. - Disse Newt a ele. - Começamos tudo isso juntos e vamos terminar juntos.

Caçarola abriu a porta do passageiro. Thomas ameaçou entrar, mas Newt o deteve.

- Eu vou na frente. – Ele disse e sentou no banco ao lado de Caçarola.

Meu irmão me encarou como se houvesse alguma coisa errada entre mim e Newt, dei de ombros. Também achei que Newt iria nos bancos detrás comigo, mas não era o momento para questionamentos.

- Vamos trazê-lo de volta! – Thomas disse.

Meu irmão havia trazido um mapa e a maior parte do caminho foi tranquila. Ruínas e mais ruínas, como já estávamos acostumados. Uma viagem silenciosa. Algumas palavras aqui e ali sobre o trajeto, mas nenhum de nós sabia exatamente o que enfrentaríamos. A preocupação tomava conta de nossos pensamentos. Chegamos a um túnel e Caçarola parou o carro. Saímos para averiguar, mas a escuridão era tamanha lá dentro que não havia nem como imaginar o que estava a um palmo de distância.

- Se eu fosse um Crank, este é exatamente o lugar onde eu estaria. – Newt disse com sua pose de quem sabe tudo.

Thomas analisava o mapa e afirmou que não havia outra escolha. Newt tinha os olhos semicerrados e a língua passeava sobre os dentes. Ele parecia evitar olhar na minha direção. Alguma coisa talvez estivesse realmente errada, ele não costumava me evitar. Tão charmoso e ao mesmo tempo tão teimoso. Eu estava ferrada mesmo.

- Beleza. Vou na frente. – Ele disse.

Caçarola voltou ao volante. Encarei Thomas por alguns segundos, nossos olhares sempre comunicavam tudo que precisávamos, e seu olhar agora dizia que aquilo não seria nada fácil, confirmando todas minhas teorias. O segui até o carro. Quando Caçarola acelerou, Newt acendeu um farolete, eu e Thomas lanternas, o que nos permitiu ter um pouco mais de visibilidade, além da que os faróis do Jeep nos proporcionavam. Preparei o rifle. Entre Newt e Caçarola havia uma espingarda. O carro avançava devagar, mas meu coração estava à mil. Alguns buracos no chão fizeram o carro balançar, mas nada à vista.

- Wow. Wow. Wow. – Disse Newt antes de Caçarola frear com toda força.

Um Crank se contorcia alguns metros à frente. O barulho que emitia era assustador. Eu e Thomas fechamos os vidros de trás, Newt fez o mesmo com o da frente. Todos encaramos Thomas.

- Está tudo bem. É só um. – Ele disse. – Vá devagar. Dê a volta. Ficaremos bem.

Caçarola repetiu o “vá devagar” mais de uma vez, estava claramente apavorado e eu também. Segurava o rifle como se isso fosse a última coisa que eu faria na vida, sem colocar o dedo no gatilho, para não disparar em qualquer susto. Talvez fosse realmente a última coisa que eu fosse fazer, pois quando Thomas encostou novamente no banco, percebi uma mulher nos encarando do lado de fora com as mãos no vidro. Nossos corpos se retesaram em sobressalto. O susto foi tamanho que precisei lembrar meus pulmões de respirar. Seu aspecto era horrendo. Parecia um dos Cranks desvairados e sem consciência, mas ela falou, o que deixou tudo ainda mais horripilante.

- Por favor. – Uma pausa. – Me ajude.

Foi o que a mulher disse tentando abrir a porta trancada do carro. Senti um arrepio. Me assustei novamente quando um homem bateu sobre o vidro da porta atrás de mim, mexendo a boca em palavras incompreensíveis. Um líquido preto e viscoso saia de sua boca e olhos. A voz da mulher repetia: “deixe-me entrar”. Outros Cranks começaram a despontar de todos os cantos, se amontoando sobre o carro. Eu não sabia para que lado olhar.

- MAS QUE MERDA! – Gritei por fim. - ACELERA!
- VAI LOGO! – Thomas gritou também. Caçarola fez os pneus cantarem ao acelerar com todo o desespero.

Um Crank pulou sobre o capô do Jeep e abriu uma boca que misturava sangue e resquícios do Fulgor, nos encarando. Senti vontade de abrir fogo e de vomitar ao mesmo tempo, mas aquilo não era o correto a fazer. Ele começou a socar o para-brisa e a força que tinha era espantosa. Logo o vidro rachou.

- Derrube-o! – Eu disse.

Caçarola passou a jogar o carro de um lado para o outro, tentando se livrar daquela coisa. O Crank não desistia. Eu só conseguia pensar: “mértila, mértila, mértila.”

- SEGUREM! – Caçarola gritou ao jogar o carro sobre alguns escombros enquanto o Crank se pendurava na porta a seu lado.

Ele conseguiu se livrar do Crank e nos manter a uma boa distância dos demais, mas ao mesmo tempo que meu irmão gritava “cuidado”, o carro se inclinou em uma rampa feita por escombros e capotou. Senti minha cabeça bater em alguma coisa e fiquei zonza. Eu só conseguia escutar o barulho de vidro se quebrando. Minha consciência foi retornando quando a terra e poeira do chão me fez ter o ímpeto de tossir. Escutei os meninos tossirem também e resmungarem.

- Tommy? – Chamei e percebi que minha voz saiu mais fraca do que eu imaginava.
- Tudo bem? , - Ele chacoalhou um de meus ombros. – Tudo bem?
- Sim, sim. – Consegui responder.

Meus sentidos voltaram, mas com eles uma dor de cabeça excruciante. Coloquei a mão no início de minha testa e me arrependi devido a intensificação da dor. Havia sangue escorrendo, que agora também manchava a minha mão. Eu estava de ponta cabeça, porque o carro também estava. Tentamos forçar as portas, mas não abriram, estávamos em meio a outros escombros. Percebi Thomas quebrar uma janela com os pés, fiz o mesmo com a outra e saímos nos arrastando. Ajudei Caçarola e Thomas ajudou Newt, que correu para perto de mim passando a mão sobre onde escorrera sangue, abaixo do machucado.

- Não foi nada. – Eu disse.

Todos estávamos aparentemente bem apesar dos pequenos ferimentos. Os Cranks emitiam seus gritos aterrorizantes e vinham em nossa direção. Agora já estavam visíveis novamente. A espingarda e o rifle haviam sido deixados no carro. Eu e Caçarola nos encaramos e corremos para pegá-las.

- GENTE, TEMOS QUE IR AGORA! – Thomas gritou.

Logo só se ouvia uma gritaria de Thomas e Newt para nos apressarmos, misturada aos sons mais próximos dos Cranks, mas a espingarda estava emperrada. O rifle eu tive que entrar quase completamente no carro capotado para alcançar. Os cacos de vidro no chão não ajudavam. Empurrei a espingarda com uma das mãos para ajudar Caçarola a desemperrá-la e ele conseguiu sair acertando um Crank bem no momento que chegara próximo aos meninos. Nisso saí do carro já atirando. Agora corríamos de costas enquanto atirávamos, o que não nos dava a mira mais certeira do universo. Paramos de atirar para correr mais rápido e logo fomos impedidos por mais um grupo de Cranks à nossa frente. Estávamos cercados novamente. Atiramos até acabar as munições.

- Estou zerado! – Disse Caçarola.
- Eu também. – Completei. – São muitos.

Outra vez visualizei nosso fim, porém o barulho do motor de um carro preencheu meus ouvidos e a esperança cresceu novamente. Faróis de uma caminhonete surgiram de onde viemos atropelando a multidão de Cranks. Avistei Brenda que agora nos dava cobertura com uma pistola.

- ENTREM! – Ela disse e nos apressamos. Jorge estava no volante. Sorri dando um tapinha em seu ombro e ele sorriu de volta.

Deixamos os Cranks para trás a toda velocidade. Finalmente o fim do túnel. Jorge disse estar impressionado por termos sobrevivido quase o dia todo. Eu ainda respirava com dificuldade. Newt checou novamente meu ferimento, mas ainda evitava olhar em meus olhos. Brenda girou o corpo para encarar Tommy e balançou a cabeça negativamente com um sorrisinho que parecia querer surgir em seu rosto. Eu ri. Thomas se desculpou e disse que não queria coloca-los naquela situação. Caçarola corrigiu dizendo que na verdade estávamos agradecidos por eles terem nos salvado. Ri novamente.

- Por nada. – Disse Brenda com a força de seu sarcasmo.

A Última Cidade se fez visível enquanto Jorge ponderava que se o caminho estava cheio de Cranks, talvez a cidade também estivesse.

- É, a menos que tenham descoberto uma maneira de manter os Cranks longe. – Newt disse e Jorge freou.

Observamos ao longe muros gigantescos erguidos ao redor de uma cidade repleta de prédios. Trocamos algumas palavras sobre como muros eram a resposta da WCKD para tudo. Newt até brincou quanto ao fato de ter estado preso por três anos atrás de muros e agora querer entrar novamente. Eu só pensava em uma coisa ao encarar aquele lugar e acreditava que meu irmão também: se Minho estivesse lá dentro, Teresa também estaria.


Capítulo 13
The Last City.

Quando chegamos próximo a cidade percebemos que havia muitas pessoas ao redor daqueles muros. Cranks talvez, que ainda não tinham chegado à loucura, assim como Jorge, ele parecia sempre bem, o que me fazia questionar se eu perceberia caso Newt não fosse imune. Descemos da caminhonete, era quase impossível entrar com ela nos arredores da cidade, devido à multidão. Não queríamos chamar atenção. Caminhamos sendo obrigados a desviar ou esbarrar em pessoas a todo momento. Elas nem pareciam perceber. Um carro cheio de pessoas mascaradas passou apertado na rua fazendo com que tivéssemos que parar de caminhar para dar passagem. Uma das pessoas em cima do carro encarou Thomas a ponto de segui-lo com a cabeça. Talvez fossem da WCKD, ou não, pois não pararam para vir até nós. Havia drones voando por toda parte e no fundo eu sabia que não demoraria para saberem que estávamos ali. Nos aproximamos mais dos muros e havia uma barreira. Pessoas gritavam enraivecidas, acusando a WCKD de ter a cura somente para eles. Pensei no quanto seria perigoso se alguém ali soubesse que éramos imunes. Encarei Tommy e ele também parecia preocupado, mas não parou de avançar. Quando chegamos à barreira não sabíamos mais como avançar. Jorge comentou que algo parecia errado e Newt veio nos avisar que estávamos sendo seguidos pelas pessoas mascaradas. Realmente se aproximavam cada vez mais, porém nossa atenção se voltou novamente aos muros à nossa frente, quando armas foram acionadas. Meus olhos arregalaram ao observar as armas mirarem em nossa direção.

- TOMMY! – Gritei, puxando o ombro dele.
- Temos que sair daqui! – Newt gritou.

Uma bomba explodiu tão perto de nós que me fez ficar zonza por alguns segundos. Não fomos ao chão, mas vários corpos ao nosso redor foram.

- CORRE! CORRE! – Meu irmão começou a gritar.
- Mértila! – Ouvi a voz de Caçarola, mas já não entendia onde cada um estava.

Corri às cegas pela poeira e pelo mundo de pessoas amontoadas. Mais bombas. A sensação era de que o mundo estava acabando ali mesmo. Encontrei Brenda com o olhar e a segui. Percebi que ela seguia Thomas. Paramos contra uma parede com o choque de mais uma bomba, tentei mexer nos ouvidos para que o zumbido que se instalou sumisse, mas nada adiantava.

- HEY! – Brenda me sacudiu. – Vamos!

Assenti em agradecimento por ela ter feito com que eu voltasse a prestar atenção na fuga. Segurei sua mão e, antes de soltá-la, ela me orientou ao começarmos a correr. Quando viramos uma esquina nossos amigos estavam sendo agarrados e levados a força pelas pessoas mascaradas de antes. Alguém alto me agarrou pelos braços com força.

- ME LARGA! – Debati.

Escutava Jorge gritando por Brenda e foi preciso mais de uma pessoa para segurá-lo. Brenda foi empurrada para dentro de uma Van junto de Thomas. Não vi os demais. Fui empurrada para um Jeep sozinha com várias pessoas mascaradas à minha volta. Colocaram-me um saco de pano sobre a cabeça e tudo ficou escuro. Senti o carro acelerar. Eu não conseguia respirar direito com aquele saco na cabeça misturado à tosse que a poeira de fora me causou. “Eu não posso morrer”, pensei. “Não posso morrer”. Logo o saco foi retirado da minha cabeça. Tossi e tossi, antes de recuperar o fôlego. Agora estávamos em um lugar coberto. Todos saíram do Jeep sem me segurar como antes. Estava livre para andar por mim mesma. Saí do veículo e percebi Vans sendo abertas e libertando meus amigos. Me aproximei deles. A última Van chacoalhava como se estivessem em guerra lá dentro. Só se ouvia a voz de Jorge gritando por Brenda. A porta de trás se escancarou com um corpo voando por ela e indo parar no chão. Era um dos mascarados, logo apareceu Jorge, acertando-o com socos. Continuava a perguntar por Brenda e ela começou a gritar para que ele parasse. Nunca o vi com tanta raiva, até sua feição mudara. Talvez fossem esses os sinais que o Fulgor dava em seus pontos de intensidade. Todos fomos para cima de Jorge, a fim de ajudar Brenda a pará-lo, mas os mascarados nos afastaram apontando armas. Foi difícil fazê-lo se acalmar, mas Brenda conseguiu.

- Relaxem. Estamos todos do mesmo lado aqui. – Uma voz disse e no início ignorei, mas quando observei quem a pronunciou percebi que já ouvira aquela voz antes e já tinha visto aquela maneira de se movimentar. Tentei enxergar através da máscara, mas não dava para ver nada.
- Do mesmo lado? Mas que merda é você? – Thomas se alterou.

A forma como a pessoa o encarou segurando uma arma e com o rosto escondido me fez lembrar de alguém. “Não pode ser”, pensei. “Impossível.” Encarei Newt e por sua expressão ele parecia pensar o mesmo que eu. Quando o garoto retirou a máscara eu não acreditei em meus olhos, mesmo que confirmassem a teoria em minha cabeça.

- Hey, fedelho. – Ele disse a Thomas.
- Gally? – Meu irmão respondeu.
- Filho da p... – Não terminei minha frase, pois Thomas investiu em Gally com um soco que o fez ir ao chão.

Ele pretendia continuar se Newt não tivesse intervindo. Apontavam armas novamente na nossa direção e Thomas estava sobre Gally preparado para lhe dar outro soco. Gally não reagiu.

- Ele matou Chuck. Quase matou minha irmã. – Meu estômago embrulhou ao ouvir Tommy dizer aquilo em voz alta.

Recordei seu rosto transformado pela picada de um Verdugo. Uma arma apontada para meu irmão. Um borrão depois de eu entrar na frente para protegê-lo. Chuck havia feito o mesmo. Enquanto Newt argumentava com Thomas sobre como ele lembrava de Gally estar completamente fora de si, eu me recordava dele me contando que Minho o havia acertado no peito, que estava morto. Mas agora ele estava bem ali. Chuck não. Minho não. Mas ele estava ali. Caçarola colocou a mão sobre meu ombro. O encarei e seu olhar que dizia: “está tudo bem.” Só aí percebi que meus olhos estavam marejados. Me contive. Percebi que Newt questionava a ele como estava vivo.

- Na verdade, vocês me deixaram para morrer. – Ele disse. – Se eu não tivesse sido encontrado, eu...

Ele suspirou. Parecia o mesmo Gally cheio de marra da Clareira e ao mesmo tempo um cara completamente diferente. O que eu conhecia nunca manteria toda a calma que ele mantinha. Ele perguntou porque estávamos aqui e Newt respondeu a verdade. Minho era razão.

- Procuramos uma maneira de entrar. – Newt completou se referindo aos muros da WCKD.
- Eu posso ajudar com isso. – Gally disse. Sua expressão era de surpresa tanto quanto a de todos nós.

Ninguém gostou muito da ideia, era claramente perceptível isso. Mas estávamos sem muitas opções. Como eu já analisara com Aris antes, estávamos em um mundo louco e isso dificultava ponderar o que era perdoável ou não.

- Eu consigo colocá-los atrás daqueles muros. – Gally afirmou. - Sigam-me. – Decidimos em silêncio acatar a ideia.

Dei o primeiro passo, já que eu sabia que esperavam por uma reação de quem havia levado uma bala no ombro. Gally nos levou a um homem chamado Lawrence. Mesma idade de Jorge eu diria, mas completamente desfigurado. O Fulgor havia tomado conta do homem por completo e sua aparência refletia isso. Seu jeito agressivo de nos avaliar também, mas ao mesmo tempo estava lúcido. Carregava consigo um suporte com uma bolsa plástica de remédio, ligada à sua veia por uma agulha. Era o soro da WCKD. Eu sabia, pois tinha a mesma coloração. Isso o impedia de ir à loucura, deduzi, porém estava no fim. Acabaria em alguns dias talvez. Gally começou a dizer a ele que entrar na WCKD agora era possível por causa de Thomas, ele era a única maneira. Pensei em Teresa. Só podia ter a ver com isso, mas meu irmão não pareceu relacionar as coisas. Lawrence e meu irmão trocaram algumas delicadas palavras, cada uma delas pensada, como uma negociação. Thomas garantiu que se confiasse nele, conseguiria o que Lawrence queria. Mais soro, mais tempo. O homem permitiu que apenas dois acompanhassem Gally na continuidade do plano, o resto de nós ficaria ali, como garantia. Nos entreolhamos e eu não concordava nem um pouco com essa ideia, mas era isso ou nada. Newt e Thomas decidiram ir.

- Cuidado. – Sussurrei a meu irmão e ele apenas assentiu, dando um tapinha no meu ombro.

Newt se afastou um pouco, discretamente, se agachando para arrumar os sapatos e percebi ele encarar as próprias mãos, elas tremiam e eu não acreditava que aquilo era de nervoso. Alguma coisa estava errada. Tentei me aproximar, mas ele se esquivou seguindo Thomas, sem nem mesmo olhar para mim. Eles sumiram por um buraco no subsolo e Lawrence nos indicou um local para ficar, vários de seus guardas estavam de olho em nós.

- Merda. – Me sentei à um canto, enrolando um pedaço de pano sobre um machucado no cotovelo.
- Problemas no paraíso? – Brenda sentou ao meu lado.
- O que quer dizer?
- Você e Newt.

Eu ri com a maneira direta dela tocar no assunto. Sempre gostei da coragem que ela tinha. Talvez eu quisesse ter um pouco daquilo.

- Pra falar a verdade. – Suspirei ainda rindo. – Eu não faço a mínima fucking ideia.

Ela riu junto.

- Você e Tommy? – Rebati. Ela negou silenciosamente.
- A cabeça dele está em outro lugar. – Disse ela por fim.

Somente suspirei. Eu sabia que Thomas ainda amava Teresa, Brenda sabia também. Ficamos fazendo uma série de suposições sobre o que poderia acontecer com Newt e Thomas durante o restante do dia. Pelo menos nos ofereceram o que comer e beber. Estava em um sono leve quando escutei a voz de Thomas, Newt e Gally novamente. Estava tão cansada. Meus olhos abriram devagar, o sol já nascera. Eles demoraram a noite toda para voltar. Gally nos direcionou a uma sala fechada com uma mesa ao meio. Deixou que meu irmão e Newt nos contassem o que haviam visto. A descrição me deixou nervosa. Segurança espalhada por toda parte. A WCKD já sabia que estávamos ali. Quando Gally disse qual era o plano para entrarmos, apenas encarei Thomas. Ele estava relutante. Todas os meus pensamentos confirmados.

- Tem que ter outra maneira. - Thomas disse.
- Não há outra maneira. - Gally disse.
- Thomas é da garota que nos traiu que estamos falando! O que há com você? - Lançou Brenda quando Teresa se tornou o tema da discussão.

Gally apenas observava. Um ar de ansiedade perpassava sua expressão, mas ele com certeza se tornara uma pessoa muito mais controlada. Já Newt, o cara mais controlado que já conheci, encarava a mesa como se fosse socá-la. Pensei que o universo estava brincando com a minha mente.

- O quê? - De repente ele lançou olhando para Thomas. - Está com medo da sua namoradinha se machucar? - Ele fez uma pausa ameaçadora e nunca vira aquele olhar.

Ele foi para o lado de Thomas, fazendo com que ficasse encurralado pela parede. Dizendo que Teresa era a razão de Minho ter sido capturado, que era para meu irmão confessar que ele só não queria fazer isso porque tem sentimentos por ela. Eu olhava para os demais assustada. Thomas ficou claramente constrangido e quando tentou ponderar em um sussurro, Newt o empurrou contra a parede gritando para que ele não mentisse. Ele repetiu pressionando Thomas ainda mais. Brenda levou a mão à boca com o susto.

- NEWT! - O repreendi. Ele soltou Thomas sem me olhar, mas eu via sua expressão de repente transtornada.

Pediu desculpas tão baixo que nem parecia a mesma pessoa que estava aos berros no segundo anterior. Depois olhou para nós e pediu desculpas novamente, saindo da sala. Nos entreolhamos. Thomas ameaçou ir atrás dele, mas eu sinalizei que não e fui no lugar. Encontrei-o lá fora, sentado sobre uma das construções. O sol da manhã fazendo seu cabelo brilhar. Parei ao seu lado em pé. Ele demorou a me encarar, mas finalmente o fez.

- Desculpe por aquilo. - Ele disse. Balancei a cabeça apenas para dizer que eu não me importava. Sentei ao seu lado.
- Acho que não dá mais para esconder isso. - Ele disse subindo a manga da jaqueta marrom.

Suas mãos tremiam como antes, uma delas mais. No antebraço subiam marcas escuras até quase à altura de seu ombro. Fechei os olhos e senti lágrimas escorrerem sobre o meu rosto. “Tão injusto”, pensei com raiva. Eu havia parado de perguntar a ele sobre o Fulgor, pois sempre que eu o fazia ele ficava ríspido, mas eu não deveria ter parado.

- É por isso que tem me afastado. - Afirmei.
- Me desculpe. Eu não quero... - Ele fez uma pausa. - Te machucar. De maneira alguma.
- Tarde demais. - Eu disse suspirando. Ele olhou para o braço, cobrindo-o novamente. - Me afastar não diminui o que sinto por você, só me faz sofrer mais. Você não está transformado. Estamos indo em direção a WCKD, pegamos o soro...
- Eu não quero ser a prioridade. Minho é a prioridade.
- Eu sei, caramba, mas custa pensar um pouco em você mesmo? Podemos salvar vocês dois.
- Não. - Ele disse, calmamente. “Teimoso”, pensei. - Minho me salvou. - Esperei ele continuar para entender aonde queria chegar. - Quando cheguei no Labirinto eu não acreditei que conseguiria lidar com tudo aquilo. Eu me sentia vazio, o tempo todo. Então eu subi no muro mais afastado da Clareira. E me joguei.

Parei de respirar por um momento. Precisei me lembrar de fazer o movimento com os pulmões novamente. Eu não conseguia materializar aquilo em minha mente.

- Cai em pé. Não morri na hora. Teria morrido agonizando se Minho não tivesse me encontrado. É por isso que corro mais devagar que todo mundo, que preciso parar para descansar mais que todo mundo. Eu me quebrei inteiro, mas Minho me salvou. Por isso ele é a prioridade. Ele precisa de mim agora. - Lágrimas surgiram em seus olhos e automaticamente nos meus também.
- Deveria contar isso à Tommy. – Eu disse constatando que isso o convenceria a ir até Teresa. Newt concordou com a cabeça.
- Estou me perdendo para esse vírus maluco. – Ele disse após uma longa pausa. - Eu não queria te arrastar para isso. Eu... quero que você esteja feliz. Não sou bom o bastante.
- Newt... - Acariciei seu rosto e limpei suas lágrimas. Ele estava constrangido, mas o conduzi a olhar em meus olhos. - Você é muito mais que bom o bastante. Você não está morto, não haja como se estivesse. - Ele balançou negativamente a cabeça, mas ainda insisti que olhasse para mim. - Ainda assim, eu prefiro ter meu coração quebrado ao sentir o que sinto com você, do que não sentir nada disso.

Um leve sorriso. Consegui arrancar um leve sorriso dele. Então ele me beijou. Aquele beijo quente. O puxei para mais perto e a mão dele foi à minha nuca. Estava fria como o frio em meu estômago. Respiramos por um segundo e reatamos o beijo longo, que buscava todo o tempo que não tínhamos. O Fulgor não ia tirá-lo de mim. Não podia.


Capítulo 14
Here She Comes Again.

Fui chamar meu irmão para que ele e Newt pudessem conversar a sós. Fiquei junto dos demais na mesma sala de antes.

- O que é que foi aquilo? – Caçarola disse claramente preocupado.
- Ele está estressado. Todos nós estamos. – Respondi. Não cabia a mim contar aos demais sobre o Fulgor. – Thomas vai precisar encontrar Teresa sozinho. Ela nunca virá se perceber mais algum de nós. – Continuei encarando Gally, para desviar o assunto. Ele assentiu.
- Alguém terá que estar preparado para pegá-la. – Brenda completou.
- Acho que Gally pode tomar conta dessa parte. – Fiz uma pausa. – Ele é quem conhece melhor as entradas e saídas. – Terminei e todos concordaram.
- Acha que Thomas vai ceder? – Gally perguntou.
- Newt consegue ser bem persuasivo quando quer. – Balancei a cabeça encarando o chão, pensando em como ele era bom com argumentos.

Observei Gally concordar com a cabeça, ele provavelmente conhecia Newt ainda melhor que eu, considerando o tempo que passaram juntos na Clareira.

- Vamos descansar um pouco. – Jorge disse e concordei. Estávamos todos exaustos.

Nos espalhamos pela sala. Escutei Jorge dizer a Brenda que não entraria no covil da WCKD, que voltaria para o litoral e gostaria que ela voltasse com ele. Escutei ela dizer que não iria sair agora. Parei de prestar atenção e olhei em volta em busca de algum lugar para descansar. Senti alguém tocar meu ombro gentilmente.

- ... – Escutei a voz de Gally e me virei um pouco na defensiva. Ele se afastou por causa da minha reação. Levou uma mão à cabeça sem jeito.

Eu não pude evitar. Sabia que ele estava fora de si quando atirou em mim e em Chuck. Não o culpava, mas meu subconsciente ainda me impulsionava a ficar apreensiva.

- Me desculpe. – Ele disse me olhando diretamente nos olhos. – Por tudo.

Controlei a sensação ruim. Repeti em minha mente o fato de que naquele dia ele estava sob efeito da picada de um Verdugo. Consegui sorrir levemente.

- Você mudou. – Foi o que saiu da minha boca.

Ele jogou as sobrancelhas para cima, a pose de líder era algo que com certeza não mudara.

- É porque vocês não estavam aqui para me dar nos nervos, fedelha. – Ele sorriu sarcasticamente.
- Okay, retiro o que disse. - Ri também. Assentimos um para o outro em um gesto que indicava que havíamos feito as pazes.

Depois disso me aproximei de Brenda e Jorge, eles já haviam terminado a conversa. Ela me emprestou um dos sacos de dormir e ficou com outro. Acordei depois de algumas horas. Thomas estava sentado em um canto da sala, os demais ainda dormiam, inclusive Newt agora. Ele suava. Aproximei-me e coloquei a mão em sua testa. Sua pele estava quente, mas o suor era frio. Suspirei. “Maldito vírus”. Fui me sentar ao lado de meu irmão, que mal pareceu perceber minha presença.

- Você não dormiu? – Perguntei.
- Newt me contou. – Ele disse ainda encarando o chão.
- Podemos salvar os dois.
- Não sei, . Não sei se teremos tempo suficiente. – Ele fez uma pausa. – Newt disse que depois do primeiro sinal do Fulgor, foram apenas dias para piorar.

Newt não havia me contado essa parte, mas eu imaginei considerando como ele havia ficado estranho comigo de uma hora para a outra. Coloquei a mão sobre o ombro de Thomas. Agora ele me olhou e eu só enxergava aflição.

- Vamos até ela essa noite. – Ele disse.
- Qual o plano?
- Vou atraí-la, durante o toque de recolher da cidade. Eu sei que ela virá atrás de mim. – Ele já não olhava mais para mim novamente. – Gally vai pegá-la de surpresa, cobrir a visão com algo na cabeça, assim ela não reconhecerá onde está. Gally diz conhecer um lugar próximo, mas bem escondido. Vocês estarão esperando lá. Vamos precisar que ela colabore para entrar no prédio. Se ela não colaborar... Eu não sei.
- Tommy, eu sei que é difícil. Mas... – Fiz uma pausa. – Não vamos machucá-la, não se sinta culpado.
- Eu tenho raiva, mas ao mesmo tempo... – Ele suspirou.
- Eu sei. – Encarei Newt deitado a certa distância. Eu entendia bem o que meu irmão sentia. – Eu sei.

Não consegui dormir mais. Esperei que todos estivéssemos prontos para agir. Gally nos direcionou para um galpão mais próximo da cidade. Ele e Thomas seguiram para encontrar Teresa. Gally havia conseguido roupas dos agentes da WCKD há algum tempo. Três delas. Apenas três de nós teriam como entrar disfarçados depois de Teresa concordar em ajudar. Isso se ela concordasse. Sentei-me próxima a Newt e segurei uma de suas mãos, que tremia novamente. Ele me encarou com aqueles olhos pelos quais eu me perdera completamente. Meus dedos fizeram carinho nos dele como naquele dia no deserto. Os entrelaçamos por fim. Já não importava mais que os outros estivessem ali para olhar. Percebi pela visão periférica Caçarola nos apontar com a cabeça e dar um sorrisinho para os demais.

- Não se preocupe. Tommy vai ficar bem. – Ele sussurrou próximo a meu ouvido. Senti mais confiança em nosso plano, mas ainda tinha medo que meu irmão saísse ainda mais machucado dessa.

Quando ele e Gally voltaram com Teresa, a colocaram em uma cadeira de frente para todos nós. Retiraram o capuz de sua cabeça. Ela pareceu assustada de início, mas depois relaxou. Thomas tinha no rosto uma expressão descontente, porém decidida. Gally foi quem dirigiu as perguntas a ela, mandando que não olhasse para Thomas. Havia 28 imunes no prédio. Minho estava entre eles. Brenda disse que saberia como lidar com a fuga e eu sorri para ela. Teresa insistiu que era impossível entrar sem os acessos por digital. Meu irmão explicou que era exatamente por isso que precisávamos dela e se irritou com Gally quando ele ameaçou dizer que não precisávamos dela inteira.

- Quase todos vocês estão rotulados pela WCKD. Existem chips que detectam vocês como propriedade deles.

Arregalei os olhos. Agora estava explicado a facilidade que eles tinham em saber quando estávamos por perto.

- Como um GPS? – Perguntei.
- Não. Não tem localização, mas os sensores do prédio e dos drones os detectariam.
- Você consegue retirar? – Voltei a perguntar.

Ela suspirou.

- Consegue? – Thomas reforçou.

Ela afirmou que sim com a cabeça. Ainda nos informou que o chip estava em nossas nucas, não tão profundamente sob a pele, mas era imperceptível. Com um pequeno corte retiraria facilmente. Ela concordou em fazer. Sabia que estava em desvantagem e provavelmente não queria se machucar, mas, no fundo, todos sabíamos que Teresa ainda sentia algo por Thomas. Sempre que se tratava dele suas reações eram amenas. Fizemos fila, fui a primeira. Tantos anos e eu nem imaginava que havia aquilo em mim. Pensei em Mary. Ela provavelmente não sabia também, não passou tempo suficiente trabalhando para a WCKD. O corte de Teresa em minha nuca não doeu quase nada, já havia passado por coisas bem piores. Jorge decidiu que se despedir, de agora em diante estaríamos avançando a algo com o qual ele não concordava. Eu esperava que ele ainda pudesse encontrar com Vicent e o restante do pessoal. Brenda ficou conosco.
O pescoço de Newt sangrou por mais tempo que os demais. O Fulgor não permitia que as feridas cicatrizassem como deveriam. Newt havia pedido discretamente a Teresa que utilizasse algo diferente nele para fazer o corte. Ela concordou sem perguntar o porquê. Uma coisa eu sempre gostei em Teresa: ela sabia respeitar o espaço dos outros. Nunca era invasiva sobre a vida pessoal de ninguém. Alguns a viam como insensível, mas eu não. Quando vi o pequeno corte ainda sangrando mesmo depois de ele desistir de tentar estancar, puxei uma cadeira próxima à dele e limpei o que já escorria até sua camiseta. Segurei o pano sobre o machucado por um tempo e empurrei com carinho alguns fios de cabelo em sua nuca. Ele olhou rapidamente para mim e seus lábios se curvaram em um sorriso. Aquele sorriso charmoso. Sorri de volta e ele deu uma nova olhadinha rápida. Como eu gostava daquele flerte silencioso entre nós. Percebi Gally nos observando. Nossa proximidade nunca foi tão explícita. Ri internamente com a curiosidade que nos rodeava, mas ninguém chegava a falar nada.
Gally levantou e conduziu Teresa para longe de Thomas quando eles começaram a sussurrar demais. Percebi ela guardar discretamente um algodão com sangue de meu irmão. Decidi que não iria dedurá-la. Queria saber o que ela pretendia. Newt, Thomas e Gally acompanhariam Teresa vestidos com as roupas da WCKD. O traje continha máscaras, quase como capacetes, então não haveria problema. Eu e Brenda estávamos encarregadas de roubar qualquer veículo grande o suficiente para transportar nós e os 28 imunes na fuga. Se isso parecia complicado, a parte de Caçarola então parecia impossível. Iria conduzir um dos guindastes que havia na cidade, a fim de que estivesse preparado para que eu e Brenda enganchássemos o veículo que escolheríamos. Usaríamos o guindaste como um guincho, Caçarola suspenderia o veículo e só soltaria quando estivesse próximo à saída dos muros da cidade. Loucura, porém possível. Faríamos aquilo naquela madrugada mesmo. Não havia mais tempo, não podíamos arriscar que dessem falta de Teresa. Estávamos todos nos preparando para a execução do plano. Sentei-me junto a Teresa.

- Eu vi o que você pegou. – Sussurrei e ela ficou tensa. – Tudo bem. Eu não vou falar.

Ela cerrou as sobrancelhas me encarando.

- Eu quero saber mais. – Continuei em um tom audível somente para nós duas, observando se ninguém prestava atenção. – Sobre o Fulgor.
- É por causa de Newt não é?

Encarei o chão por alguns segundos sem dizer nada. Teresa era uma ótima observadora.

- Você pode salvá-lo. Eu já te disse isso antes. Precisamos voltar pra WCKD. Com você e Thomas, eu consigo...
- Não. – Eu a interrompi. – Não adianta vir com isso de novo. Eu não quero a WCKD, eu não penso como você. Quero saber como posso salvá-lo, mas eu nunca mais vou voltar e muito menos fazer Thomas voltar. Entrar lá é uma missão de resgate e não de retorno.
- Não temos a cura ainda. Precisamos de mais testes.
- Precisam continuar torturando imunes. – A repreendi. – Não somos testes de laboratório, Teresa. Somos pessoas. Tenho certeza que deve haver outra maneira e eu vou descobrir.

Teresa balançou a cabeça negativamente.

- Existe uma Zona de Conflito Letal do vírus. É nela que o Fulgor age, é nela que os efeitos debilitantes se instalam.

Gally passou por perto de nós, disfarcei, fingindo estar apenas de olho nela. Teresa também fingiu bem-estar desinteressada sobre minha presença. Quando ele estava longe o bastante, ela continuou a sussurrar.

- Os testes são para estudar os efeitos mais profundos do vírus diante das reações que a mente manda ao corpo, para entender como ele se desenvolve e afeta todo o resto.
- Então a Zona de Conflito Letal é o cérebro, certo? É onde o vírus se instala.

Teresa respirou fundo e concordou.

- É preciso estimular o cérebro para produzir enzimas e por meio delas produzir o soro, que apenas atrasa o vírus. Acredito que a resposta para o vírus retroceder por completo esteja em apenas alguns de nós. Em você e em Thomas. Ava também acha isso.
- Isso não dá o direito de nos aprisionar para testes para sempre. – Reforcei.

Agora eu entendia porque Thomas era tratado como prioridade. Mary me contara muitas coisas sobre o Fulgor, mas o que eles sabiam na época em que ela trabalhava lá não chegava nem perto do que sabiam agora. Conheciam os efeitos que o cérebro de meu irmão produzia e sabiam que eram diferentes, mas não concluíram os estudos a ponto de chegar à cura. Thomas poderia fazer o vírus regredir e talvez eu também, mas isso significava que a WCKD iria expor nossos cérebros a situações extremas para descobrir o que precisava. Situações que poderiam nos levar à morte. Quantos imunes a WCKD já levara a este estágio em procura da cura? Não seríamos suficientes para salvar o mundo de qualquer maneira. Levantei para afastar-me de Teresa, mas ela segurou meu braço.

- O seu sangue pode salvá-lo. – Ela disse, olhei em seus olhos e parecia sincera. – Pode salvá-lo se seu cérebro estiver produzindo as enzimas necessárias e enviando-as pelo seu corpo, pode salvá-lo se não for tarde demais e se produzir o efeito correto sobre o Fulgor... Mas também pode acelerar o processo da infecção, eu já vi isso acontecer em uma garota infectada, ou até causar a morte dele. Eu não sei. Eu juro que não sei exatamente o que pode acontecer.

Em minha mente passavam todas essas possibilidades que ela acabara de me dizer. Eu precisava salvá-lo, mas eu poderia matá-lo tentando. Não podia voltar para a WCKD e nem submeter todos nós a viver tudo aquilo de novo.

- Obrigada. – Eu disse com sinceridade, porque eu sabia que ela havia sido sincera sobre tudo pela primeira vez desde que nos encontramos. Não parecia ter omitido detalhes. Ela assentiu.

Fui até Newt que já estava vestido com as roupas de agente da WCKD, mas ainda sem o capacete. Os demais estavam mais para o meio do galpão.

- Você parece um herói.

Ele sorriu, mas percebi que continuava suando. Tossiu. Os sintomas estavam piorando. O calor da febre em seu corpo emanava até mim.

- Pareço um mértila da WCKD. – Ele resmungou quando a tosse passou.

Limpei o suor em sua testa.

- Queria poder dizer para não ir.
- Você sabe porque preciso ir. – Ele disse com a expressão séria, mas o olhar acolhedor.

Ele se aproximou segurando minha cintura e me beijou. Apenas pousou os lábios sobre os meus por alguns segundos. Coloquei minhas mãos nas laterais de seu rosto e acariciei.

- Isso não é uma despedida. – Eu disse.
- Eu sei. – Ele sorriu levemente e me deu outro beijo rápido.

Sentia alguns olhares sobre nós e virei para encarar o pessoal, todos fingiram muito mal não estar observando. Exceto Thomas, ele manteve os olhos em nós e sorriu. Depois o vi observar Teresa. Não fazíamos ideia de como aquilo ia acabar.

- VAMOS NESSA PESSOAL! – Bati palmas e me juntei a Brenda. Era hora de pôr o plano em prática.


Capítulo 15
Invasion.

Teresa nos explicou onde havia um estacionamento de ônibus na cidade. Eu e Brenda teríamos que nos arriscar a encontrar. Gally nos fez um mapa a partir do que ele conhecia.

- Boa sorte. – Ele me disse e eu desejei o mesmo.

Uma última olhada em Newt, que agora tinha o rosto coberto pelo capacete.

- Hora do show. – Brenda disse.

Adentramos a cidade através do esgoto, assim como os garotos haviam feito da primeira vez. Não cheirava nada bem. Nos separamos e eu sabia que Thomas entraria pela porta da frente do prédio com Teresa. Newt e Gally os encontrariam, entrando por outros lados, para não parecer suspeito. A cidade era ainda mais inacreditável a meus olhos agora que eu caminhava ao lado dos prédios cheios de luz. Estava tão habituada à destruição que parecia estar sonhando no momento. Carregávamos walkie-talkies para nos comunicar quando necessário. Porém não havia suficiente para todos, consequentemente, apenas Brenda carregava um. Eu e ela seguimos o mapa de Gally. Havia carros de segurança da WCKD patrulhando sem sossego. Andávamos agachadas e com as pistolas preparadas, ainda assim da maneira mais rápida possível. Uma das ruas que precisávamos atravessar era larga o bastante para nos deixar expostas mais tempo do que gostaríamos. Troquei um olhar com Brenda. Assentimos com a cabeça uma para a outra. Ela foi primeiro quando a rua ficou deserta, eu estava logo atrás, porém o farol de um carro surgiu do outro lado da rua. Estávamos no meio do caminho e eu rolei de volta ao beco para me esconder, enquanto Brenda se arriscou a continuar. Observei ela conseguir chegar do outro lado no instante que cheguei ao beco e vi o carro passar entre nós. Minhas costas estavam contra o concreto gelado, respirava forte e segurava a pistola com as duas mãos. “Tudo bem, é agora”, disse a mim mesma em pensamentos quando Brenda fez sinal que estava tudo limpo novamente. Corri até ela.

- Desculpe...
- Você foi ótima. – Ela interrompeu. Sorri e continuamos.
- Drones! – Sussurrei em sobressalto enquanto puxei-a para baixo do toldo de um dos prédios. O farolete iluminou precisamente o local onde ela pisara um segundo atrás.
- Valeu. – Brenda inspirou profundamente.

Alguns passos e avistamos os ônibus. Não eram tão grandes, mas seriam perfeitos. Quando nos aproximamos escutei a voz de meu irmão pelo walkie-talkie, perguntando qual era nosso status. Brenda respondeu que o status era: “quase lá”. Eu ri. Ele pediu que o avisássemos quando conseguíssemos. Observamos o estacionamento e havia alguns agentes da WCKD.

- Vamos nos separar. – Sugeri. - Assim consigo distraí-los, se precisarmos.

Ela concordou. Fomos uma para cada lado. Reparei Brenda levar o walkie-talkie à boca mais uma vez, mas não prestei atenção. Não podíamos ser vistas, se isso acontecesse estragaríamos o elemento surpresa. Me posicionei de forma a enxergar o local onde Brenda trabalhava para arrombar a porta de um dos ônibus. Até ali tudo tranquilo. Quando ela conseguiu destravar a porta o barulho, mesmo mínimo, chamou a atenção de dois agentes, que passaram a caminhar em sua direção, sem tanta pressa. Olhei para os lados. Tudo que encontrei foram pedras. Peguei a maior e joguei contra uma placa mais à frente. O barulho foi bastante para atraí-los. Corri até Brenda enquanto ela já entrava no ônibus.

- Onde aprendeu a fazer isso?
- Jorge me ensinou. – Ela sorriu. – Assim como me ensinou isso.

Ela deu a partida no ônibus juntando os fios que cortara com uma pequena faca. Apesar de ter tentado mais de uma vez, ela fez tudo com uma agilidade assustadora.

- Você precisa me ensinar essas coisas. – Rimos.

Ela dirigiu com pressa, evitando ruas que deduzíamos como principais, afinal os únicos carros que haviam na rua naquele momento eram os da WCKD. Fiquei atenta para saber se não estávamos sendo seguidas e para guiá-la pelo resto do mapa até um estacionamento subterrâneo que Gally dissera ser mais seguro. Esperaríamos ali pelos garotos, que voltariam somente quando encontrassem Minho e o restante dos imunes. Tivemos que parar em becos e desligar todas as luzes mais de uma vez. Eu me perguntava onde a WCKD encontrava tanta gente para apoiar sua causa.

- Não podemos nos atrasar. – Brenda resmungava.
- Não se preocupe, estaremos lá a tempo. – Incentivei.

Não fora muito fácil seguir o mapa desenhado às pressas. Parecia que estávamos indo na direção errada em alguns momentos, mas um ou outro elemento acabava nos situando. Brenda fez uma curva tão de repente que até cantara pneu, a fim de nos escondermos de outro carro da WCKD.

- Por que esse lugar tem que ser tão grande? – Bradei.

Por sorte, haviam poucos drones. Seria impossível se sua quantidade fosse como a dos carros. Desviamos apenas de mais um pelo caminho. Chegamos ao estacionamento subterrâneo no instante que a voz de Gally perguntava por nós pelo walkie-talkie. Brenda freou com força ao vê-lo com a roupa da WCKD, porém com o capacete aberto e acompanhado de outros. Imunes. Mais novos que qualquer um de nós. Eu e Brenda abrimos todas as portas e incentivamos todos a entrar.

- Onde está Thomas? – Ela perguntou.
- E Newt? – Completei.
- Achei que estivessem com vocês. – Gally disse.

Brenda ameaçou sair do ônibus.

- Espere, espere. Fiquem aqui com as crianças. – Gally disse. Sua respiração estava acelerada e sua expressão era de uma preocupação quase palpável. – Esperem aqui, eu... Encontro eles. Apenas... esperem a gente.
- Não vamos a lugar nenhum. - Brenda confirmou.
- Ah... – Ele parou por um segundo. – O soro, pegamos o soro para Newt, está com uma das crianças. – Ele voltou a correr antes que eu dissesse qualquer coisa.

Fui até o meio do ônibus.

- Está tudo bem pessoal. – Eu disse. – Vamos tirar vocês daqui. Vamos levar vocês para longe da WCKD.

Estavam todos quietos e assustados. Tão novos. Como Teresa podia ter conseguido fazê-los de cobaias? Avistei um garoto agarrado à um pacote preto com toda força.

- Tudo bem, você pode me dar isso agora. – Eu disse me aproximando, só poderia ser o soro. Pareceu que não ia soltar inicialmente, mas depois cedeu.
- O rapaz me pediu para cuidar disso com minha vida... eu... – O garoto disse ainda tentando proteger o pacote. Sorri.
- Você fez um ótimo trabalho. Muito obrigada. – Levantei e levei comigo checando o que havia dentro. Várias seringas de rápida aplicação carregavam vidrinhos repletos de soro.

Guardei o pacote na mochila que eu levara, onde estava também o sinalizador que precisaríamos para informar nossa posição a Caçarola, no momento certo. Provavelmente Gally, Thomas e Newt se separaram no meio do caminho. Talvez não tivessem encontrado Minho junto dos demais imunes. Teria Teresa mentido? Eu acreditava que não, afinal todos os outros 28 imunes estavam ali. Talvez foram descobertos e tiveram problemas para escapar dos agentes? Precisaríamos aguarda para saber. Eu não consegui sentar. Andava de um lado para o outro.

- Não se preocupe. – Brenda disse. – Eles vão aparecer.

Concordei, mas a verdade é que eu estava preocupada. Decidimos não tentar contato por meio do walkie-talkie, poderíamos causar mais problemas a eles estivessem se escondendo. Sentei em um dos bancos, mas minha perna se movia quase automaticamente com a ansiedade. Esperamos pelo que pareceram décadas. Ao invés dos meninos aparecerem, um carro de patrulha da WCKD entrou fazendo barulho.

- ABAIXEM-SE! – Brenda gritou e todos fomos para o chão do ônibus. Esperamos, mas ao darmos uma nova olhada, percebemos que dois agentes se aproximavam. Eles estavam sempre em duplas.
- Merda. – Eu disse. – O que vamos fazer?
- Precisamos sair daqui. Vamos ao local combinado com Caçarola.
- Mas e os outros? – Perguntei.
- Não tem jeito, vamos ter que esperá-los no ponto B.

Todos havíamos combinado que se algo saísse do plano e não conseguíssemos nos encontrar, voltaríamos até o esconderijo de Lawrence. Aquele era o ponto de encontro B. Tentaríamos fazer contato de lá.

- Me dê cobertura. – Ela disse e entregou a pistola que segurava para mim. Enquanto sentou novamente no banco do motorista e arrancou com tudo em cima dos agentes da WCKD.

Aqueles ficaram para trás, mas assim que saímos do estacionamento outros carros perceberam o problema e começaram a nos perseguir. Alguns tentavam atirar, mas Brenda jogava o ônibus de um lado para o outro. Abri a janela ao meu lado e coloquei as duas pistolas para fora. Um carro nos perseguia lado a lado.

- MERDA! – Brenda gritava.

Atirei algumas vezes e percebi que era blindado. Mirei com ambas nos pneus. O carro voou sobre o detrás quando acertei.

- ISSO! – Gritei.
- BELO TIRO! – Brenda respondeu.

Outros se aproximavam. Brenda jogou o ônibus em cima de um que nos perseguia do lado em que ela enxergava. Segurou-o enquanto gritava até que ele se despedaçasse contra uma divisória de concreto na rua. As crianças gritavam ao fundo.

- Segurem-se pessoal! – Gritei.

Brenda fez o caminho que eu lembrava de termos repassado algumas vezes para memorizar, mesmo assim não conseguia dizer se era o lugar certo quando Brenda freou cercada de agentes de todos os lados.

- Saiam do veículo! – Ouvi uma voz anunciar por um megafone. Apontavam as armas para nós.
- É agora ou nunca. – Ela disse levantando e levando com ela o sinalizador. – Não se movam. - Ela disse para os demais e os elogiou por estarem aguentando firme.

Fui atrás dela. Deixando a mochila presa debaixo do banco. Olhei para cima e lá estava o guindaste que Caçarola iria manusear para nos tirar dali. Mais e mais carros chegavam. Mandaram que nos afastássemos do veículo. Ordenaram que Brenda soltasse a arma, que na verdade era o sinalizador. Não tinham ordens de nos matar diretamente, do contrário já estaríamos mortas. O trabalho de anos da WCKD estava inteiro ali. Nós, imunes. Brenda andou devagar até a frente do ônibus, acompanhei. As pistolas enroscadas na parte detrás de minha calça. Sabia que usá-las seria um erro, mas eu não pretendia atirar. Quando Brenda ergueu lentamente a mão para o alto colocando o dedo sobre o gatilho do sinalizador, apontei as pistolas para os agentes e caminhei para frente de Brenda, fazendo com que se concentrassem apenas em mim. Nisso o gancho que veio do guindaste caiu entre mim e Brenda. Ela se apressou em enganchar o ônibus da melhor maneira possível, os agentes da WCKD começaram a avançar a pé, mas não estavam tão próximos assim. Atiraram quando Brenda correu de volta ao ônibus. Atirei de volta sem poupar munição, um tiro atrás do outro, atrasando-os.

- ! – Brenda gritou quando o ônibus começou a ficar suspenso.

Pulei sobre o degrau da porta da frente e quase escorreguei de volta ao chão, mas Brenda me segurou.

- Valeu. – Agradeci quando estava dentro novamente.

Tudo o que escutava agora eram gritos e o rangido incessante do ônibus. Obviamente não fora feito para ficar suspenso daquele jeito. Sentíamos a corrente nos elevar, o balançar do ônibus nos fez atingir um prédio.

- ISSO É LOCURA! – Gritei.

“Rápido Caçarola, rápido”, pensava conforme a lataria parecia se destruir a cada rangido. Já estávamos a uma altura que eu não conseguia calcular. O frio em meu estômago era tanto que eu achei que iria vomitar. Caçarola direcionou o guindaste para a entrada da cidade, que no caso serviria como nossa saída. Porém percebemos que o guindaste não estava tão bem posicionado assim. Passamos o ponto certo. Caçarola não parou, percebemos que decidiu nos conduzir por cima do muro que cercava a cidade.

- BRENDA! – Apontei para o muro à nossa frente.

Passamos rapidamente por cima dele e então o guindaste parou, mas o ônibus ainda balançava. Rimos com o sucesso. Cedo demais. Um tranco repentino e brutal trouxe de volta a sensação de enjoo. O local onde Brenda enganchara o ônibus estava se soltando. Nos encaramos. Sentia meu coração em minhas costas. Estávamos na altura do muro ainda e isso era muito. Não sobreviveríamos se o ônibus despencasse.

- CAÇAROLA DESCE A GENTE! DESCE AGORA! – Gritei dessa vez para o walkie-talkie.

Um segundo depois o gancho desceu com toda velocidade. Gritamos agarrados aos ferros do veículo. Caíamos rapidamente e de súbito um novo tranco, o gancho havia parado novamente. Um segundo. Estávamos caindo de novo, mas um baque logo em seguida nos fez perceber que havíamos chegado ao chão. A peça se soltou de vez com a parada brusca do gancho, mas os segundos em que ainda nos segurou diminuiu o impacto ao chão, que estava próximo. Caçarola calculou extremamente bem a distância. Ainda não movíamos um músculo, pois o ônibus estava literalmente em pé, as rodas suspensas e a parte da frente apontada para o céu. As luzes piscavam. Eu suava agora. Novos rangidos, oscilamos para frente e para trás.

- Melhor cairmos... de frente, os pneus vão... amortecer. – Eu disse pausadamente, com medo até de mover os lábios.
- FORCEM PARA FRENTE! – Brenda gritou destemida.

Assim fizemos e os pneus foram ao chão com um grande estrondo e impacto. Bati o lado direito do rosto em um dos ferros na colisão.

- Argh. – Resmunguei colocando a mão na região próxima ao olho. – Isso vai dar um baita hematoma.

Começamos a rir. Lembrei-me dos vidros com soro e me apressei a checar a mochila. Alguns haviam se quebrado, mesmo dentro do suporte. Sobraram três. Suspirei em alívio.

- Todo mundo bem? – Elevei a voz. Ouvi murmúrios afirmando que sim.
- Todos pra fora! – Brenda completou.

Saímos e procuramos um lugar fora de vista para esperar por Caçarola. Ele logo apareceu. Provavelmente pegara o atalho que Gally explicara. Ele foi até o ônibus e acenamos para ele ao longe. Corri abraçá-lo quando ele se aproximou.

- Que bom que estão bem! Desculpe os improvisos.
- Você arrasou! – Elogiei.

Brenda deu um tapinha no ombro dele sorrindo e depois disse que precisávamos ir. Mesmo com a exaustão já nos rodeando, corremos o mais rápido possível até o esconderijo de Lawrence. Entramos às pressas com as crianças no nosso encalço. Percebi que estava tudo muito quieto. Olhamos em volta e todos haviam sumido. Brenda gritou por Lawrence e Caçarola por Thomas, mas o único som que retornou foi o eco de suas vozes.

- Foram todos embora! – Eu disse confusa. – Não tem ninguém aqui.

O som estrondoso do que pareceu uma explosão me fez tremer.

- O que foi isso? – Caçarola perguntou e voltamos para fora checar.
- Puta merda. – Foi o que eu disse ao enxergar a entrada da cidade em chamas ao longe. Uma multidão marchava lançando mais bombas. - Ainda bem que não saímos por lá.
- Lawrence vai derrubar a cidade toda. – Brenda disse mais para ela mesma do que para nós.
- Precisamos chegar até os meninos. – Eu disse desesperada com a ideia de eles estarem no meio da guerra.
- Não podemos, não vamos conseguir entrar. Precisamos esperá-los aqui, esse é o plano. Não sabemos onde eles estão. – Brenda segurou meu ombro enquanto falava e eu sabia que ela tinha razão, mas meu coração palpitava.

Inspirei para me controlar. Voltamos para dentro e fizemos uma fogueira a fim de nos aquecermos e aos novos integrantes do grupo também. Tirei o walkie-talkie da mochila e os soros. Mantive um em mãos. Não conseguia parar de pensar em Newt. O Fulgor teria piorado? Nesse instante o walkie-talkie começou a emitir um som. Era a voz de Thomas, chamava nossos nomes. Brenda se apressou e pegou primeiro o aparelho.

- Estamos aqui, Thomas! – Ela respondeu se afastando um pouco. Segui seus passos.

“Não vamos conseguir”, foi o que escutei em sua voz chiada que saía do aparelho. Balancei a cabeça negativamente. Brenda o questionou sobre. Ele pediu que tirássemos todo mundo, que fôssemos embora. Lágrimas encheram meus olhos. Gesticulei como se estivesse socando alguma coisa, pois era exatamente o que eu queria fazer naquele momento. Lágrimas também escorreram dos olhos de Brenda. Ela disse que não o deixaria.

- Tommy. – Peguei gentilmente o walkie-talkie da mão dela. – Você não vai morrer aí. Eu não vou deixar, okay? Onde vocês estão?
- Está uma guerra aqui. Não podem vir, está tudo bem. Mana, eu sempre estarei com você...
- Me escuta, Tommy. Pare de se despedir e vá até o primeiro ponto de encontro, custe o que custar, entendeu? Vamos até vocês.

Escutamos o barulho de algo grande se aproximar pelo ar. Um Berg. Não podiam estar ali, estavam muito ocupados com a invasão de Lawrence e seu exército. Encarei Brenda e nós duas saímos correndo para verificar. O Berg pousou no terraço. Agora Caçarola e o restante vieram atrás de nós. Quando chegamos lá encontramos nada mais nada menos que Jorge e Vince. Corri abraçar Vince, enquanto Brenda foi até Jorge. Depois abracei Jorge também.

- Parece que temos muito mais integrantes. - Vince apontou para os outros imunes.
- Vocês salvaram o dia! - Eu disse.

Com um Berg em mãos não somente seria fácil entrar sobre os muros, como chegar rapidamente ao local combinado. Só precisaríamos contornar a zona de guerra. Explicamos rapidamente isso a eles enquanto já sobrevoávamos. Couberam todos os novos imunes.

- Vamos buscá-los! - Jorge se animou.

Segurei o soro em minhas mãos com a esperança correndo vívida novamente em minhas veias. “Aguentem firme”, pensei.


Capítulo 16
"Kill me, please."

Chegamos ao local de encontro e esperamos. Pousar foi difícil. Explosões eclodiam ao nosso redor a todo instante e estávamos começando a ficar preocupados. Se os rebeldes vissem o Berg, com certeza nos explodiriam. Continuamos esperando.

- Tem certeza que virão? - Jorge perguntou a Brenda.
- Eles virão. - Brenda afirmou.

Meu coração batia como nunca. Não havia ar para os pulmões naquela fumaça. Meu estômago retorcia. De repente surgiram Minho e Gally correndo em nossa direção. Onde estavam Thomas e Newt? Pensei o pior, mas Minho gritou pelo soro. Corri até ele.

- Me mostre o caminho! - Eu disse e ele assentiu. - É bom te ver de novo. - Completei enquanto corríamos, ele sorriu, mas sua expressão ainda era de preocupação.

Previ que Newt não estaria bem, era o único motivo de ele ter perguntado do soro. Corremos, muito. Uma voz encheu nossos ouvidos através de alto-falantes espalhados pela cidade. Demorei um pouco para perceber que era Teresa. Ela pedia que Thomas voltasse. Disse que ele poderia salvar Newt. “Não, Tommy, não volte”, pensei. Aceleramos pelo caminho. Destroço, fumaça e fogo bloquearam nosso caminho mais de uma vez.

- CUIDADO! - Minho gritou ao agarrar meus braços e me puxar para trás. Fomos ao chão enquanto um imenso pedaço de concreto em chamas tomava a rua. Só aí percebi que ele estava descalço, seus pés sujos e feridos.
- Obrigada. - Sussurrei enquanto já levantávamos.
- Vem. - Ele começou a escalar os escombros e me estendeu a mão.
- Minho, seus pés! - Me preocupei, mas segurei sua mão.
- Não temos tempo para pegar outro caminho.

Respirei escalando as estruturas quentes. Só conseguia pensar em Newt. Quando passamos a parte mais difícil consegui avistá-lo junto de meu irmão ao longe. A situação era pior que eu imaginei. Newt atacava Thomas em uma fúria desvairada. Mesmo de longe eu enxergava veias escuras pelo seu rosto. Precisava me apressar. Deixei Minho para trás. Mais escombros pelo caminho. Ofegava quando finalmente me aproximei. Newt estava sobre Thomas. Parecia consciente, não o atacava mais, em vez disso, forçava a arma nas mãos de Thomas contra a própria cabeça. Conseguia escutá-los agora. Lágrimas escorriam dos olhos de meu irmão. “Por favor, Tommy. Por favor”, escutei Newt dizer com os olhos fechados. Meu irmão tinha o dedo no gatilho. Minha respiração parou por alguns segundos, achei que minha voz ficaria presa em luta contra o comando de meu cérebro, mas ela saiu, mesmo com o choque e a rouquidão.

- NÃAAAAAAO! - Gritei. Joguei-me sobre Newt. O soro ainda em minha mão, que estava livre foi por cima da arma, forçando-a para baixo. Escutei o disparo. Fechei os olhos. Chorei.

Tudo ficou abafado. Escuro. Achei que tinha morrido ou desmaiado, mas o cheiro de coisas queimadas ainda invadia minhas narinas. Voltei a abrir os olhos quando percebi algo me empurrar desesperadamente. Newt se debatia. Tentei segurá-lo. Seus olhos amarelos. Percebi que o tiro acertara sua perna, um pouco acima do joelho, eu havia conseguido desviar. Ele nem parecia perceber, tentava morder qualquer parte vulnerável de mim. Pela boca escorria algo escuro. Estava fora de si. Meu cérebro foi tomado por uma clareza momentânea, já não tínhamos mais nada a perder. Era tudo ou nada.

- TOMMY! SEGURE-O! - Eu disse. Meu irmão parecia devastado. - THOMAS!

Ele acordou de seu transe e me ajudou a manter Newt contra o chão. Logo Minho chegou e ajudou com essa parte também. Brenda e Caçarola se aproximaram logo depois.

- Me dê sua faca Brenda! - Pedi lembrando do que Teresa havia me contado sobre meu sangue. Já não ponderava mais nada, fazia tudo quase que automaticamente.

"Posso matá-lo, mas também posso salvá-lo", meus pensamentos repetiam. Não havia outra alternativa. Era a única possibilidade de trazê-lo de volta. Teresa havia dito que eu precisava das enzimas certas e elas estavam no soro em minhas mãos, mas apenas o soro não funcionaria. Não naquele estado. Retirei o vidrinho do aparelho de aplicação com logo da WCKD, retirei um dos selos com cuidado suficiente para não derrubar uma gota. Eu tremia e isso não ajudava. O aparelho de aplicação tinha como função perfurar os selos de ambos os lados do pequeno vidro dando passagem para o soro pela seringa, assim que acionasse o botão acima. Cortei a palma da mão com a faca de Brenda o bastante para pingar sangue. Apertei próximo ao ferimento, a fim de conseguir que uma boa quantidade completasse o vidro. Recoloquei o selo ao vidro e este de volta ao aparelho. Tudo pareceu demorar tempo demais, mas ninguém soltara Newt. Teresa voltou a falar nos alto-falantes, mas meus ouvidos zuniam. Abri o colete que Newt usava e o macacão da WCKD, que por sorte era de zíper, revelando seu tórax tomado pelas reações do Fulgor. Ele ainda se debatia. Enfiei a seringa em seu peito com força, na região do coração. Apliquei todo o conteúdo, imediatamente ele relaxou. Meus amigos o soltaram, seu corpo agora imóvel no chão. Os olhos abertos começaram a retornar a cor normal, as veias negras regrediam, sumindo sob sua pele. Tudo ficou quieto por um momento. Eu estava de joelhos a seu lado, os demais estavam em pé.

- Vamos, Newt. Reaja. - Eu sussurrei.

De repente seu corpo convulsionou e logo parou. Seu peito parou de se mover. Coloquei a mão sobre seu nariz. Nada. Parara de respirar.

- Não, não, não, não… - Eu o chacoalhei. - VAMOS! - Gritei. Coloquei meu ouvido sobre seu tórax. Estava molhado e gelado.
...
Nada.
Nenhum movimento. Comecei a chorar novamente.

- Thomas. - Ouvi Brenda dizer. Levantei meus olhos para observar meu irmão partir, com lágrimas nos olhos, em direção ao prédio da WCKD, que estava sendo derrubado aos poucos pela rebelião.

Eu perdera a noção do tempo, não sabia se tudo havia acontecido em segundos ou em horas. Confusão, apenas isso me preenchia naquele momento, eu já não prestava mais atenção a minha volta. "Você não vai morrer", pensei. Limpei as lágrimas. Determinada. Comecei uma massagem cardíaca em Newt, reunindo toda a força ainda existente em meu corpo. Inclinei sua cabeça, tampei seu nariz com os dedos e coloquei minha boca sobre a dele. Assoprei. Voltei a massagear. Não me importava com a gosma preta do Fulgor, com sangue, com nada. Queria ele de volta.

- VOCÊ NÃO VAI ME DEIXAR! VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI! - Eu gritava. Mais uma vez. E outra. Meu subconsciente sabia dos olhares sobre mim. - VAMOS!

Ele tossiu. Me assustei, porém não deixei de virar seu corpo de lado. Ele vomitou sem parar por alguns segundos. Tossiu novamente e o escutei respirar profundamente. Respirei junto. Ele nos observou, confuso. Não consegui dizer nada, apenas o abracei. O segurei contra o meu corpo para que não caísse, sentia seu corpo fraco. Escutei vivas à minha volta.

- Você está bem? - Consegui dizer por fim, olhando em seus olhos com a cor natural.

Ele fez que sim com a cabeça, porém desmaiou logo em seguida. Coloquei sua cabeça sobre o meu colo. Chequei novamente a respiração, mas eu conseguia ver seu peito se mover. Estava respirando. Lembrei do ferimento em sua perna. Muito sangue.

- Precisamos estancar isso. Ele não pode perder mais sangue. - Eu disse.

Minho encontrou algo para fazer um torniquete e Caçarola enrolou um pano sobre o corte em minha mão, que também espalhava sangue para todo lado. Brenda voltou e trouxe Jorge e Vince até ali.

- Obrigada. - Agradeci a todos. Pensei em Mary e em como eu era grata por ter aprendido tanto com ela também. E em Teresa.

Jorge pousou o Berg o mais próximo possível. Os meninos carregaram Newt para dentro. Aconcheguei ele a um canto.

- Consegue se aproximar do prédio? - Perguntei a Jorge.
- É arriscado. - Ele disse.
- Precisamos encontrar Tommy.

Ele concordou. Não íamos sair sem ele. Ainda esperava que Teresa mudasse de ideia e viesse conosco. Peguei um binóculo que havia no Berg. WCKD sempre preparada. Jorge pilotou ao redor do prédio. Não dava para ver nada lá dentro. Fogo consumia a maior parte da instalação. Mais uma volta. Pairamos em frente aos lados com menos destruição. Nenhum sinal de meu irmão.

- Mértila, Thomas. - Minho resmungou.

Jorge foi mais alto para desviar de algumas explosões menores.

- Ali! - Apontei para o topo do prédio em chamas. Teresa tinha ele no colo e suas bocas estavam seladas em um beijo.

Quando Jorge aproximou o Berg a fumaça se dissipou e eles perceberam nossa presença. Brenda abriu a parte de trás do transporte e ficamos todos na beirada. Thomas sangrava. Teresa o ajudou a dar alguns passos para chegar até nós. Ela tinha o braço de Thomas sobre os ombros.

- MAIS PERTO! - Brenda gritou.

Jorge se aproximou, mas o fogo nos rodeava. Estava muito quente. Teresa conseguiu empurrar Thomas para nossos braços e o puxamos para dentro. O Berg se afastou demais com o impacto. Me pendurei para alcançar a mão de Teresa. Minho e Caçarola seguraram meus pés. Ela tinha as mãos esticadas. "Vamos, vamos, vamos", pensei. O fogo e a fumaça tomavam conta do lugar. Encostei meus dedos nos dela...
Um estrondo fez minha respiração falhar. Os dedos dela escaparam dos meus. Escutei Thomas gritar. Gritei também. Teresa caiu, o prédio desmoronou com ela junto. Desapareceu na fumaça. Fiquei ali por alguns segundos, paralisada, com o braço estendido. Quando Thomas começou a chorar virei-me para abraçá-lo. Sua mão tampava o ferimento na barriga. Ele me abraçou de volta.

- Sinto muito. Sinto muito. - Chorei também.

Nossos amigos deixaram que tivéssemos nosso momento, mas Jorge afastou o Berg da zona de perigo. Quando nos acalmamos voltamos para o centro do Berg e a porta foi fechada.

- Newt? - Thomas o avistou e chegou perto se arrastando.
- Ele vai ficar bem. - Eu disse a Thomas. Ele respirou fundo. Estava claramente transtornado. Voltou a chorar.
- Me desculpe. – Ele murmurou. - Ele tinha me deixado um bilhete, pedindo que o matasse se fosse realmente amigo dele. Matá-lo se o Fulgor o tomasse.
- Está tudo bem. – Acariciei sua testa, que estava molhada como a de Newt. - Está tudo bem.
- Janson matou Ava. - Ele continuou me olhando. Lágrimas e mais lágrimas. Eu segurava as minhas agora. - Ela nunca quis machucar imunes, ela só queria achar uma cura. Teresa também.
- Eu sei, eu sei. - Tentei confortá-lo. - Teresa conseguiu Tommy, - Sussurrava como se estivesse tentando fazer o pequeno Thomas dormir outra vez. - Newt está vivo graças a ela. O esforço dela não foi em vão.

Ele me olhava com ternura e tristeza. Estava cansado demais e continuava perdendo sangue. Pressionei o ferimento para ele com um pano. Ele fechou os olhos. Não demorou tanto assim para chegarmos ao litoral com o Berg a toda velocidade. O navio nos esperava, pronto para desembarcar. O restante do pessoal se prontificou a cuidar dos ferimentos de todos nós. Gally estava conosco. Gostaria que Teresa também estivesse, que muitos que perdemos estivessem.



EPÍLOGO
Safe Haven.

Abri os olhos com dificuldade com a claridade que invadia minha visão. Céu azul, foi o que enxerguei. Olhei em volta, estava em uma tenda construída como as da Clareira. Meu corpo e minhas roupas estavam limpos. Alguns pontos juntavam ferimentos que antes estavam abertos. Toquei minha testa e resmunguei, havia um ali também. Sentei na cama improvisada. Não me lembrava direito quando havia dormido. Thomas... Newt... Foi o que pensei e corri para fora. Mar. Um mar esplêndido se estendia diante de mim, o navio ancorado não tão longe, pessoas trabalhando.

- Hey. – Escutei a voz de Vince.
- Conseguimos. – Disse enquanto meus olhos encheram de lágrimas.

Um sorriso que há muito tempo eu não via no rosto de Vince se abriu com sinceridade. Abracei-o.

- O que houve? Depois de chegarmos ao Litoral?
- Você não queria descansar, então...
- Eu te dei uma anestesia. – Harriet chegou sorrindo. Mais abraços.
- Obrigada. – Eu disse. – Esse lugar é incrível!
- Não é? – Ela concordou.

Observei meus amigos à certa distância, trabalhando em hortas e pequenas construções.

- Quanto tempo eu apaguei?
- Um dia e meio. – Vince me informou. Fiz cara de assustada. – Você merecia um descanso... Thomas ainda não acordou.
- Ele está bem?
- Sim. Tivemos que retirar uma bala na região de sua barriga, por isso utilizamos o que tínhamos de anestésicos. Parece estar se recuperando bem.

Concordei com a cabeça.

- Vocês são incríveis. Eu posso vê-lo?
- Não precisa nem perguntar. – Me levaram a uma cabana, construída com palha e madeira.

Thomas respirava com uma tranquilidade que eu só me lembrava de quando éramos crianças. Coloquei minha mão sobre seu ombro e sorri.

- Logo ele estará apostando corrida com Minho novamente. – A voz fez meu corpo arrepiar por completo. Foi como levar um choque, mas não se incomodar com isso. Virei-me.

Newt estava parado no vão da porta. Encontrei seus olhos intensos. A luz do sol fazia seu cabelo loiro brilhar, como já fizera outras vezes. Um sorrisinho torto e charmoso tomava seu rosto, as sobrancelhas levemente arqueadas. Lágrimas escorreram silenciosas em meu rosto e um sorriso incontrolável surgiu. Só então percebi que ele estava apoiado em muletas improvisadas. Lembrei do tiro acima de seu joelho e direcionei meu olhar para o local. Não estava lá. Nada estava.

- Tiveram que amputar. Essa galera é ótima para cirurgias, sabe. – Ele apontou para trás, para indicar meus amigos lá fora que agora estavam todos ali. - Espero que não se importe em ter um namorado com uma perna e mei...

Não deixei que ele terminasse a frase. Corri jogando meus braços por cima de seus ombros e entrelaçando-os atrás de seu pescoço. Quase derrubei nós dois, mas não importava. Beijei-o com toda a vontade que existia em mim. Só parei para deixá-lo respirar. Ele riu quando me afastei.

- Eu te amo. Eu te amo. – Sussurrei enquanto dava outros pequenos beijos em volta de sua boca, em suas bochechas, acariciando seu rosto com as duas mãos.
- Eu também te amo. – Ele disse de volta.

Escutei aplausos e olhei para meus amigos. Eu ri, algumas lágrimas ainda escorriam. Encarei Newt novamente.

- Vai lá. – Ele disse indicando com a cabeça. O sorriso em meu rosto cresceu ainda mais, o que parecia impossível. Dei um último beijinho rápido nele e passei a mão em seu cabelo. Ele sorria. Fui até o pessoal para um abraço em grupo.

Ao anoitecer, enquanto todos jantavam e conversavam em volta da fogueira, me afastei o bastante para observar as estrelas, como em outros momentos. Newt se aproximou deitando com dificuldade ao meu lado de maneira contrária ao sentido que eu estava, como fazíamos sempre.

- Ouvi dizer que você me salvou.
- Teresa te salvou. – Eu disse.

Percebi ele virar o rosto em direção ao meu. Nem precisava olhar para dizer que estava com a sobrancelha franzida.

- Ela me disse tudo que eu precisava saber.

Suspiramos e continuamos a observar as estrelas. Próximo ao pôr do sol do dia seguinte eu estava ajudando com a horta quando vi Thomas caminhando em nossa direção. Larguei tudo e corri até ele. Percebi os demais me acompanharem. Parei para encará-lo por um segundo. Lágrimas novamente em meus olhos, mas estas eu não sabia se eram de felicidade por vê-lo tão bem ou por estar me desculpando por Teresa. Eu me culpava por não ter conseguido salvá-la. Ele assentiu com um aceno de cabeça, também tinha lágrimas nos olhos. Apressei-me para abraçá-lo com força.

- Me desculpe. – Eu disse.
- Você não tem culpa, mana. Sei que fizemos o que podíamos. – Ele disse e eu pensei em quando que meu irmãozinho passara a ser tão adulto.

Deixei que ele fosse cumprimentar os demais. Ele parecia não acreditar ao ver Newt.

- Eu soube desde o início que você era um fedelho corajoso. – Newt disse em toda sua elegância para conversar. - Obrigado, Tommy, por tudo. - Eles riram e se abraçaram.
- É bom ter você com a gente. – Thomas disse.

Depois Newt se juntou a mim. Segurei uma de suas muletas e deixei que ele apoiasse o braço livre acima de meus ombros, passei meu braço por trás de suas costas e assim ficamos. Observando nossa nova vida. Nosso novo lar. Nossos amigos. Nossa família.
Uma nova fogueira ao cair da noite, isto havia se tornado um costume. Eu estava sentada entre Thomas e Newt. Vince fez um discurso inspirador. Um brinde a todos que perdemos. Ele falou sobre nosso novo lar e utilizou uma rocha que havia ali na praia para entalhar o nome de Mary. Deixou o instrumento que utilizou próximo da rocha e pediu para que todos escrevêssemos os nomes de quem perdemos, em nosso tempo. Aquele seria nosso memorial.

- BEM-VINDOS AO NOSSO REFÚGIO!

Vibramos e tomamos nossos drinks, que na verdade era nada mais do que suco feito com as frutas que encontramos ao redor. Naquele momento, no calor quente que vinha da fogueira e entre o cheiro de comida fresca, finalmente me senti segura. Finalmente sem tensões. Agora poderíamos viver de verdade. Recomeçar de verdade.

- Sabe... – Newt travou a atenção de todos. – Se eu pudesse fazer tudo novamente para chegarmos aqui, eu faria.
- Um pouquinho a menos de fome pelo caminho seria bom. – Minho brincou e todos rimos.

Passamos a noite toda conversando. Eu nunca pensei que teríamos um momento como aquele. Parecia um sonho, mas era real. O mar, a areia e a tranquilidade. Pela manhã, Thomas foi até o memorial e esculpiu o nome de Teresa. Descansei minha cabeça em seu ombro, segurando seu braço, o mar alcançava nossos pés.

- Queria que ela estivesse aqui. – Meu irmão disse.
- Ela sempre estará, Tommy. Aqui. - Coloquei o dedo indicador sobre a área de seu coração e depois em sua cabeça. – E aqui.

Ele sorriu levemente. Despedi-me, me dirigindo às tendas para poder descansar.

- Alguma chance existente de a garota mais extraordinária do universo dividir a tenda comigo? – Newt chegou em suas muletas. Ele estava radiante, nunca o vi tão otimista e sorridente.
- Hmmmm... – Quebrei a distância e o envolvi em meus braços. – Talvez uma pequena chance.

Rimos e nos beijamos, o barulho do mar em meus ouvidos, o vento balançando nossas roupas, a pressão dos lábios quentes de Newt. Não havia jeito melhor de terminar uma jornada ou, na realidade, de iniciar outra.



THE END



Nota da autora: Estou aos prantos por alegria e também por tristeza em encerrar essa aventura. Obrigada por tornarem isso possível. Cada comentário, cada sugestão, cada detalhe do que vocês me trouxeram fizeram desta fic uma realização pessoal e continuará fazendo. Muito obrigada por acompanharem tudo que escrevi com carinho. Maze Runner é uma saga maravilhosa e criar uma personagem para viver tudo isso foi uma experiência incrível. Deixe um comentário sobre o que você achou, todas as opiniões maravigold de vcs me fazem a autora mais feliz do universo <3 beijocas de luz.

Venham conhecer minhas outras fics e me acompanhem. Ter vocês comigo é magnífico!





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Lost In Japan - SHAWN MENDES/SONGFIC


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