Finalizada em: 03/09/2018

Prólogo

França em 1955;
:

Passava a mão por minha franja a cada cinco segundos, contados por mim em um costume irreparável, principalmente na hora do tédio. Também sorria, concordando sobre alguma coisa que falava. Ela tinha as ideias meio que fora do lugar e quando se juntava com Brigitte, parecia que as duas falavam uma língua desconhecida por mim. A verdade era que tínhamos que nos manter longe dos caras, mas elas sempre se entregavam de alguma forma a eles e eu não era assim, já que eu não gostava que me olhassem como um pedaço de carne e eles também não eram chocolates. Mamãe sempre disse que isso era uma atitude feia, de menina pecaminosa, e papai nem podia sonhar que eu andava com Bri, que era falada pela Paris toda, e se duvidasse, alguns outros lugares da França.
Nosso ponto de encontro e único lugar que podia visitar até, no máximo, o entardecer, era a soda shop que meu tio era gerente e muitas vezes ajudou-me com álibis. Famoso por seus milk-shakes, trazia um pouco dos Estados Unidos à França, o que alegrava meu coração por sonhar em viver em terras americanas um dia.
— Ficaram sabendo? — Interrompeu minha linha de raciocínio.
Nunca gostei muito da Giselle, gostava de deixar claro para não me chamarem de antipática por sempre sair de perto quando ficava por muito tempo ao meu lado. Sua voz era enjoada e parecia estar constantemente cuidando da sua vida de todas as formas e lados. Ou fofocando sobre a dos outros.
Brigitte, curiosa que só ela, esticou os ouvidos e deu-lhe atenção, perguntando qual era a boa do momento. Desde que tivesse farra, não importava quem era a pessoa, Bri virava melhor amiga no momento para poder usufruir da diversão.
— Um circo novo está chegando na cidade. Ouvi algo sobre serem fugitivos da guerra... — mascava o chiclete com força. — Todos estão bem empolgados, parece que passou até na televisão!
“Uau!”, minhas amigas exclamaram. Assumo que estava impressionada também, papai e mamãe andavam trabalhando demais e podia assistir só quando estavam por perto, e por mais que os aparelhos televisores existissem havia certo tempo, não era como se fosse fácil passar neles, ainda mais sendo um circo fugitivo.
abriu um sorriso imenso, adorava todas as cores e animais das apresentações, ali, já soube que sua presença estava confirmada. Bri, como sempre, vivia na rua e a acompanharia. E foi aí que me encararam ao mesmo tempo, perguntando pelos olhares minha resposta; dei de ombros, precisava da permissão lá em casa. Talvez conseguisse convencer minha mãe, que confiava nela de olhos fechados, para a minha sorte.
— Eu dou um jeito! — Seu olho piscando em minha direção, confirmou minha presença no momento.
E com isso, sorri abertamente, feliz demais para pensar nas consequências; como o meu medo de palhaço, que, naquele momento de empolgação, nem parecia mais existir.



Parte I

França em 1955;
:

Passaram por ele comentando que pelo menos metade da cidade encontrava-se debaixo da tenda montada no centro. Sob as luzes e cores, aquele lugar era a sua vida e saber sobre a empolgação de todos, enchia o seu coração de orgulho.
Em meio a tantas desgraças que cercavam o mundo, sentia que, por mais que aquela vida não o agradasse tanto quanto antes, quando era apenas um pupilo, ser o motivo dos sorrisos em inúmeros rostos desconhecidos era uma benção que muitos não possuíam.
Se a ideia de crescer em um circo não parecia uma tarefa fácil de longe, podia provar de perto que definitivamente não era, mas que também podia ser muito mais do que isso, se você abrisse a mente, desse amor ao que fazia e considerasse cada pessoa que viajava ao seu lado como parte da família.
Apesar de ter perdido seus pais aos dez anos por uma fatalidade na estrada, o circo deu-lhe a oportunidade de rodear a Eurásia e conhecer os melhores lugares com uma das pessoas mais importantes da sua vida: Marie.
Marie, em seu colã vermelho e sua maioridade, encantou-o com toda sua destreza, requinte e experiência no auge de seus quinze anos. Quando a viu pela primeira vez, sentada em uma zebra que a obedecia e parecia escorrer respeito, sua pele tão clara quanto a luz da lua e seus cabelos escuros como uma noite sem estrelas, — pois essas encontravam-se em seus olhos, que brilhavam mais do que uma constelação inteira junta — fê-lo vomitar. Brincadeirinha! Fê-lo tremer e se sentir como nunca havia se sentido na vida.
Foi por ela e com ela que se abriu ao amor, e também foi graças à francesa, que não desistiu da arte no pico de sua decisão. Foi por causa daquelas lonas que encontrou o suposto amor da sua vida e soaria ingrato, largá-las às traças por um simples capricho cansado seu.
Finalizou a maquiagem e treinou alguns sorrisos em frente ao espelho, preparando-se para a noite de estreia da cidade mais linda de toda a França — caham!. Pena que sem a ilustre presença minha e de minhas amigas.

🎪

Os alto-falantes berravam elogios ao circo e fazia sua propaganda, que empolgava a todos. O cheiro de pipoca e o barulho das buzinas dos vendedores de algodão doce, disparavam meu coração de uma forma que poucas coisas eram capazes de fazer. Eu amava tanto circo, que Giselle que não parar de falar sobre seu cabelo e garotos não me incomodava tanto quanto à , por exemplo. Minha amiga a comparava mentalmente com um disco riscado — ou quebrado por ela mesma —, visto que repetia tantas vezes as mesmas coisas que se tornava chata.
Tentava permanecer neutra, porque foi graças a ela que conseguimos os ingressos que haviam se esgotado dentro de uma hora, e não podia mandá-la ficar quieta nas entrelinhas, como de costume, porque era capaz de me mandar embora e eu não podia perder esse espetáculo por nada. Por isso, tentávamos de todas as formas não deixar ela perceber que era o ser mais chato que tivemos o desprazer de conhecer.
Assim que o tio da nos deixou no terreno onde o circo estava, avistamos uma bela moça montada em uma zebra e soltamos uma admiração coletiva. Ela vestia azul, os cabelos estavam presos em rabo de cavalo e calçava botas brilhantes, que se tivesse como, pediria de presente. Totalmente maravilhosa!
— Será que se eu fugir com o circo, terei um corpo como o dela? — Perguntou entre mascadas no chiclete que sempre estava em sua boca.
— Se você o fizer, o seu pai para a guerra do Vietnã e mobiliza todos até te encontrarem! — Bri respondeu, brincalhona.
Era praticamente a única que tinha paciência para as baboseiras que Giselle falava todas as vezes que nos acompanhava. Eu amava Brigitte, mas às vezes ela forçava demais só para se manter popular e isso me chateava.
Ignorando os outros comentários, fomos caminhando até o arco de entrada, apresentamos nossos ingressos a um senhor muito simpático que usava uma cartola clássica no topo de sua cabeça quase sem cabelos aparentes. Meu coração continuava no mesmo ritmo frenético de quando ouvi pela primeira vez o anúncio pelo bairro.
E foi ao atravessar o fim do arco que a magia aconteceu.
Era tudo simplesmente fantástico: todas as cores, luzes, a alegria contagiante que pairava no ar... todos estavam incrivelmente animados! Praticamente a cidade toda estava debaixo daquela grande lona vermelha e branca.
De onde eu estava sentada, podia ver o padeiro da padaria de perto de casa, além do rapaz que passava todos os dias pela manhã jogando jornais em sua bicicleta azul e a Sra. Moreau, uma mulher de idade avançada, que vivia olhando por sua janela a vida das pessoas que passavam na rua — tinha dias que desconfiava ser a mãe perdida da Giselle.
Bri estava paquerando algum broto que viu algumas fileiras à frente, enquanto Giselle devorava um grande algodão doce azul que havia comprado antes de entrarmos.
No momento em que as luzes se apagaram, senti um frio na barriga. No mesmo instante, as mãos de minha amiga, que até então se mantinha totalmente calada e até um pouco verde, relaram em meu braço. Nelas, senti sua ansiedade e seus dedos gelados, assim como palmas totalmente molhadas em nervosismo, essa que refletiu em meus pelos que se arrepiaram instantaneamente.
A sensação que eu sentia era que algo estava acontecendo naquela noite, algo que mudaria a nossa vida para sempre. E não de uma forma boa.
Mais tarde, descobri que minha melhor amiga sentia o mesmo e se soubesse, tentaria de alguma forma não permitir isso tudo.

Algo estava diferente naquele ar, pensava . Na realidade, aquela cidade havia despertado-lhe algo muito diferente, começando pela sonsa — porém linda, porém sonsa — da Marie, que com todo o seu charme mais velho havia invadido seu trailer e de alguma forma aquilo não o agradou, fazendo-o demonstrar zero interesse em sua companhia, ocasionando em uma discussão que provavelmente a levaria ficar por dias sem sequer olhar em sua cara por pura pirraça.
Do outro lado das cortinas, perdido em pensamentos, sentia-se nervoso. Suava em bicas embaixo da fantasia de palhaço e não havia água gelada no pescoço e pulsos que tirava essa sensação de seu corpo. Não entendia o que estava acontecendo, não era calor aquilo... mas, de qualquer forma, tinha que fazer seu trabalho e descobrir de acordo com o que foi preparado pelo destino. Acreditava muito nele, aliás.
Antes do início do suspense para a sua entrada, fez uma breve oração, sentindo os pensamentos embaralhados e um frio na barriga que não sentiu nem em sua primeira vez como artista — ou com a sua, até então, amada.
O ser palhaço era muito mais do que a figura engraçada que dava o ar cômico após o domador quase ser morto por um leão, era sua função fazer com que as pessoas nunca mais se esquecessem daquela composição de lona, ensaios, pessoas e animais; além de fazer chorar de rir, precisava despertar emoções positivas que fossem marcantes o suficiente para ansiarem pelo próximo espetáculo.
Assim que as contorcionistas adentraram a cortina, fazendo-nos ansiar pelo próximo espetáculo, respirei fundo numa sincronia com e , que praticamente me tirava o antebraço com suas unhas, e então, finalmente, o porta-voz do circo assumiu o palco, olhando para todos os lados e observando a maior quantidade de rostos que a luz permitia.
E foi quando a viu. Sua mente parou por alguns instantes, o coração finalmente acalmou e a bica de suor deu uma pausa, como um indicador que a partir daquele momento muito mudaria ali.
Meus olhos lacrimejaram em dor, entretanto. não media sua força, aparentemente inconsciente do que fazia. Minha mão dormia, claramente sem circulação sanguínea daquele ponto abaixo, Giselle fazia comentários desnecessários sobre a bunda do palhaço e Bri ria, totalmente sem noção sobre o que acontecia bem na sua cara.
Ele pareceu piscar mais forte, cobrando-se profissionalismo e postura, a postura de quem deveria divertir e não virar estátua. Ainda não era o momento.
O show deu início e não demorou mais do que dez minutos para finalizar, logo dando espaço ao trapezista, minha parte favorita, mas que incrivelmente não foi tão aproveitado assim. Estava preocupada e incomodada com algo que não tinha consciência sobre o que era, mas que me cobrava atenção demais.
Algo estava errado!

A ansiedade que sentia podia ser apalpada, com sorte, logo mais seria a vez de sua namorada e com isso, não conseguiriam trocar olhares fumegantes no trailer. Não saberia disfarçar e nem tentar “reconquistá-la”. Não com os pensamentos tão confusos e brilhosos como aqueles novos olhos curiosos.
Seu olhar de surpresa com tudo o que estava acontecendo no circo era surpreendente e inspirador, sentia que poderia dedicar um espetáculo apenas para ela só para sentir os glóbulos em sua direção por uma noite toda. Precisava fazê-la voltar aos demais dias para suprir essa necessidade sufocante.
Era finalmente o intervalo e em passos apressados, colocou-se em um ponto estratégico que o permitiria ter a visão de todo o espaço composto pelas barracas de comes e bebes, mas que não era possível o contrário. Sabia que como estrangeiro, todos queriam saber seu nome e um pouco mais sobre sua história, o que não estava com cabeça para repetir no momento.
Foram dez minutos em pé, com dores nos dedos, até finalmente encontrá-la. Estava sozinha, não conseguia olhar apenas para um ponto, sua cabeça e olhos viajavam para os lados, observando cada detalhe desde as barracas à terra, que várias pessoas pisoteavam sem preocupação alguma. Claramente se tratava de uma curiosa pura, exploradora e questionadora. Talvez tivesse uma boquinha ácida que estava louco para ser vítima.
Sem pensar direito no que estava fazendo, caminhou em sua direção e estendeu-lhe a mão, puxando-a ao canto escondido e a convidando para se juntar a ele no centro do picadeiro mais tarde. Claro que não tinha necessidade, mas precisava, de alguma forma, garantir que seria aceito. Não queria passar vergonha, certo?
não sabia seu nome e nem se atentou em pedi-lo. Tudo o que queria era que minha amiga falasse as palavras certas, que daí seria capaz de destruir o mundo por ela.
“Sim!”, tímido e todo rubro, mas numa luta interna que suas bochechas coradas não refletiam o suficiente.
Um piscar de olhos o fez se afastar, sumindo pelo caminho que dava até os trailers tremendo dos pés à cabeça. Sentia-se ferrado.
Segundos mais tarde, encontramo-la no mesmo lugar, em choque, ainda mais calada do que quando chegamos. E mais uma vez, ela fez um mistério e fingiu uma dor de cabeça.
Certa ela, eu também temia Giselle e seu olho gordo.

No momento que aquele palhaço segurou sua mão, próximo do fim, seus mundos estremeceram e o céu ficou escuro. Mas não no mau sentido. Muito pelo contrário, seus corações pareciam bater tão forte, que nem perceberam quando já se encontravam ao centro do picadeiro sob os olhares de centenas de pessoas.
Anteriormente, imaginaram uma moto e era a passageira, que precisava abraçá-lo por trás para andarem em círculos, imitando os movimentos do palhaço como na brincadeira “siga ao mestre”. Em algum momento, um anão aparecia e tentava flertar com minha amiga, o que fazia correr atrás dele, dando chutes em seu traseiro com o intuito de expulsá-lo dali.
estava quase morrer de rir, assim como os demais telespectadores, e não tardou para o palhaço segurar novamente em sua mão e ajoelhar-se em sua frente.
Giselle a chamava de sortuda, berrava loucamente e eu, temia.
Ele vai me pedir em casamento?, se perguntava. Já havia visto isso em outros espetáculos, mas este palhaço parecia especial em sua cabeça. Por trás daquela maquiagem branca com detalhes coloridos, haviam olhos contentes, ao contrário da maioria das pessoas que moravam e trabalhavam em circos.
Ela nunca iria esquecer aqueles olhos, por mais bobo que isso parecesse.
Enquanto encarava os glóbulos azulados, ele colocou uma rosa na sua frente e, no momento que pensou em dizer algo, foi atacada por um jato de água gelada no meio do rosto. Todos riram, mas de longe, sentia o constrangimento de minha amiga. Era para ser uma piada, algo divertido, mas sabia que seu coração e educação não esperavam por isso.
Foi então que, sem pensar direito no que estava fazendo, gentilmente apresentou sua mão direta à bochecha do palhaço. O estalo ecoou a tenda toda e mais uma onda de gargalhadas atingiu o público. Eu, entretanto, estava em choque, assim como minhas amigas.
Ainda com a cabeça confusa, deixou o palco, o palhaço que tentava reverter o acontecimento em algo premeditado, e também nós sozinhas em meio à arquibancada. Correu tanto que o seu coração, que antes estava batendo freneticamente, agora parecia estar sofrendo uma bradicardia.
Estava tão nervosa, tão envergonhada e se sentindo tão culpada, que voltou para casa mais cedo, sem dar satisfações a ninguém e indo ao seu quarto direto, sem nem mesmo tomar a água que sua garganta implorava por.

O espetáculo tinha sido dado como encerrado. Infelizmente, não supriu minha ansiedade em meio a tantos acontecimentos, mas também não podia dizer que havia sido de todo mal. A moça das zebras era o ser mais lindo e encantador que tive o desprazer de assistir, não dormiria direito nos próximos cinco dias sentindo-me ridícula comparado a sua graciosidade.
Merda!
Graças a Deus ela não estava na fileira de artistas que se dispuseram a cumprimentar os clientes, porque senão, seria obrigada a cuspir na sua cara com a ajuda de Brigitte.
Apertava meu casaquinho contra o peito, havia esfriado e ele não era mais o suficiente, caminhando em direção à saída. Minhas acompanhantes foram atrás do trapezista e incrivelmente não estava disposta a babar ovo de ninguém.
Foi quando ouvi alguém assobiando e diminui os passos, olhando para trás, pensando ser a moleque da Bri, mas não, lá estava o palhaço correndo atrás de mim, com cerca dificuldade por conta dos sapatos grandes.
— Oi? — Tentou, ao notar minha feição não tão feliz assim.
— Você é um besta! — Foi a primeira coisa que veio a minha cabeça quando ele se aproximou. — Humilhou a minha amiga e nem sequer se desculpou, isso é ridículo!
— E-eu...
— Você nada, palhaço de meia-tigela! — Ralhei, interrompendo-o. — Ela tinha medo de palhaços, sabia? Mas ela veio! Passou por cima de qualquer repulsa e ainda tentou interagir com você!
— Fala um pouco devagar, por favor.
Contive-me, tentando entender o que queria dizer com isso, pronta para voar em sua direção e enfiar minhas unhas em sua jugular caso me ofendesse.
— Eu não consigo entender francês muito bem... — constrangido, coçou a nuca.
— Ainda por cima é acéfalo. — Bufei. — Se bem que com uma ideia merda dessas, eu esperava o quê?
— Uou, você é bem brava, não? — Parecia surpreso, confuso um pouco até. — Vim atrás de você, porque queria me desculpar, mas aparentemente ela já se foi...? — Olhava ao redor, procurando-a.
— Sim, né? Esperava o quê? — Cruzei os braços.
— Olha, eu entendo que você está bem brava e ela se chateou, mas não era a minha intenção fazê-la se sentir humilhada como provavelmente se sentiu, então, por favor, se possível, faça-a retornar amanhã?
Ainda na mesma posição, olhei ao redor, tentada a negar de ódio por minha amiga, mas eu sabia que isso não dizia respeito a mim, apesar de querer protegê-la dessa composição de bosta que estava em minha frente. Ele sabia fazer uma carinha de cachorro abandonado muito bem... e eu amava cachorros.
— O que eu ganho com isso? — Tentei.
estava em uma mistura de indignação e esperança, podia até ver um pequeno sorriso escapando do canto de seus lábios. E os meus, traidores, acompanharam.
Hm... — pensou. — Ingressos para todos os dias e acesso ao camarim em um deles? — Um de seus olhos fechou-se com medo da proposta não ter sido tão boa assim.
Fingi ponderar por alguns instantes, até estender a mão em sua direção em um acordo secreto.
— Mas só tem um problema... — lembrei. — Os ingressos esgotaram.
— Ai, que susto! — Colocou a mão sobre o peito. — Pensei que fosse algo pior. — E como se não estivesse com o sonho de várias pessoas em suas mãos, tirou de um enorme bolo que estava em seu bolso pelo menos trinta ingressos e estendeu em minha direção. — Esses são os seus. E esses, os da... — tentou.
— Não é da sua conta. Não agora.
Bufou.
— Ok. — E por fim, mais um bolinho de ingressos para .
Guardei-os rapidamente na bolsa, para as meninas não verem e não me encherem para virem junto. Eu não estava disposta a fechar acordo com Brigitte e muito menos Giselle naquele momento.
— Peça para ela me esperar após o fim no mesmo lugar de hoje. Ela vai saber onde. — E em uma piscadinha de olho, me deixou ali, com o coração na mão e a esperança que o desculpasse como eu desculpei, visto que não me sentiria uma boa amiga “traindo-a” desse jeito.
Mas, bom, qualquer coisa era só ficar em silêncio...

🎪

Com um sorriso no rosto, ele retirou o chapéu que usava e estendeu a flor que havia a jogado água. Com medo de levar outro jato, recuou um pouco, fazendo-o achar graça e soltar uma gargalhada agradável aos seus ouvidos.
— Não vou repetir, estou apenas oferecendo-lhe a minha flor como um pedido de desculpas. — Explicou, aproximando-se mais alguns passos.
Naquele momento, não houve como seu coração não acelerar. Pobre, só naquela noite era a terceira forte emoção que sofria.
Primeiro, havia contado tudo poucos minutos antes de sair arrastando-a em direção ao local. Em seguida, havia deixado-a sozinha apenas com o recado de esperá-lo logo ali e agora ele se redimia por algo tão pequeno — concluiu isso ao acordar no dia seguinte, após dormir chorando.
Aceitou de bom grado, com um sorriso involuntário que se formou em seus lábios. Tão boba...
— Qual é o seu nome, palhaço? — Questionou.
— Me chamo , senhorita...? — Tentou novamente, dessa vez com a pessoa certa.
mordeu o lábio, toda vermelha e indecisa.
Não responde, não responde...
.
Infeliz.
fez uma reverência, como se ela fosse da realeza ou algo do tipo. E era mesmo, uma princesa.
Ela riu toda encantada, recebendo os gracejos dele sobre seu nome de bom grado, mas curiosa como era, não aceitaria conversar com alguém que não se revelava como devia, e, com isso, buscou em sua pequena bolsa um lenço que sempre carregava, estendendo em direção ao rapaz.
— Não posso aceitar o lenço de uma dama, não é algo muito respeitoso. — Negou, dando um passo para trás.
Sorriu, achando graça em sua cordialidade, e unindo toda sua petulância de uma vida toda, levou as mãos até o rosto de , passando, com cuidado, o tecido sobre as pinturas em sua pele. Aos poucos, a maquiagem foi saindo e revelando um rapaz lindo, com traços fortes em seu rosto, adoráveis sardas e um sorriso tortinho, porém encantador, que nunca seria capaz de se esquecer.
Em uma análise mútua, seus sorrisos não saíram de suas faces e em algum momento, sem sequer perceberem, caminharam até um dos camarins do velho trailer, aconchegando-se ali e dando início a uma conversa sobre a vida do rapaz, que apesar de nada interessante a ele, era fascinante aos meros mortais. perguntava coisas absurdas como, por exemplo, qual era a mutação que aquela mulher com barba sofreu. E ele riu horrores, explicando que aquilo era só pelo e cola.
Horas se passaram, enquanto ficavam trocando histórias, e só notaram o quão tarde era, quando me ouviram chamando-a do lado de fora do cercado, visto que o circo tinha sido fechado havia muito tempo.
Antes da despedida, pediu que esperássemos um segundo, entrando novamente em um dos trailers e voltando com um bilhete em mãos. Com a ponta dos dedos congelando de nervoso, sentiu a mão dele relar a sua em um toque suave e carinhoso, passando-a um bilhete para, em seguida, depositá-la um beijo na bochecha que a freira da minha amiga classificou como “muito respeitoso”.
Não precisava de um espelho para perceber que corou e em meio as minhas roladas de olhos, a caminho de casa, leu as palavras em um tom médio, que me nauseou instantaneamente.

“Te espero aqui amanhã, depois do espetáculo. Preciso te ver de novo.
Com carinho, seu palhaço favorito.”

Para e seu coração, ler essas palavras era como uma explosão de uma bomba de nêutrons dilacerando-lhe. O meu e eu, por sua vez, só sentia enjoo mesmo.
— Você sabia que, na verdade, eles vieram para cá por causa do Beeching Axe?
Após a guerra, esse era um dos assuntos que mais falavam sobre atualmente. Algo como fechamento de ferrovias para virarem rodovias, desemprego e Reino Unido indo à lama.
— O circo teme que as taxas ferroviárias subam muito mais do que já subiram, fora os planos de fecharem muitas mais ferrovias, então, decidiram mudar para outro país até tudo se acalmar por lá.
Fazia sentido, eu só não sabia por que discutir sobre esse assunto plena meia-noite, um quarteirão antes de casa.
— Então isso quer dizer que...?
— Eles não vão embora tão cedo!
O sorriso feliz e esperançoso dela me dizia que naquela cabecinha santa passava era muito pecado. Eu tinha até medo! E olha que eu não era nem crismada!
Bati com a mão na testa e ela gargalhou, chamando-me de boba. E eu queria ser... ô, como eu queria ser!

🎪

Assim como na noite seguinte a que conhecemos , retornamos ao circo durante duas semanas seguidas e em cada uma delas foi incrível — mais para , mas ainda assim. Inclusive, em uma das noites que passou no trailer de , ele contou sobre seu passado e como havia perdido os pais.
Foi quando se deu conta de que já sabia sobre toda a sua vida e ele mal sabia sobre a dela, e, com isso, começou a contar sobre meus pais, principalmente sobre seu pai e seu controle excessivo sobre sua vida. Todas as noites que saía, tinha que trancar a porta e janela do quarto para que ninguém notasse seu sumiço, principalmente sua irmã, pois, caso isso acontecesse, não gostava nem de pensar no que ele faria.
Sua mãe sempre foi um pouco mais tranquila, sempre as orientou a “se dar respeito” e ressaltava como deviam ser tratadas, tanto quanto Louise, que era uma cobra das grandes — apesar de tentar acreditar que nem sempre.
Depois contou sobre a escola, a lanchonete do tio George e como gostávamos de estar lá todas as tardes, nossas comidas favoritas do cardápio e sobre a futilidade da Gi. E dando total importância a esse relato, o palhaço pediu para visitar no dia seguinte, vestido como uma pessoa normal, como se não fosse a pessoa mais falada na cidade e estivesse criando raízes ali.
A felicidade da minha amiga sobre esse simples pedido foi o motivo para nos reunirmos em meu quarto para arrumá-la lindamente e darmos o apoio que merecia. Ela estava tão ansiosa e eu e Bri, que foi totalmente inteirada sobre os acontecimentos até o momento, não ficávamos para trás. Torcíamos tanto pela , que não estava escrito.
Nesse dia, daríamos espaço a ela e não tomaríamos o milk-shake merecido. Ficaríamos a sua espera em outra lanchonete e como era final de semana, dormiria em casa desde que voltasse a tempo do almoço sagrado em família no dia seguinte.
Conferindo uma última vez seu rosto no espelho, saímos juntas, depositando beijos no rosto da minha mãe e prometendo manter nossa integridade intacta — ainda bem que nos conhecia o suficiente para saber que era vaga a nossa promessa e se fazia de sonsa perfeitamente bem.
Na esquina, esgueiramo-nos enquanto nossa amiga continuava a caminhar em direção ao rapaz parado e meio perdido. vestia calças jeans, camiseta branca e um topete meio falho, por não possuir tanto cabelo quanto deveria. Era adorável sua tentativa fajuta de James Dean. Sorriu abertamente quando avistou , não sem antes analisá-la dos pés à cabeça, e abraçou-a com tanta força que chegou a tirá-la do chão, girando-a no ar, fazendo-a gargalhar pedindo por socorro.
Ao meu lado, Brigitte riu sapeca, logo voltando-se para mim, dizendo que era nossa deixa, pois estava muito em bons braços.

assumiu-se chocólatra naquela noite, pedindo tanto sua torta, quanto o milk-shake do mesmo sabor. Ela, por sua vez, assumiu preferir morango. E ele, instantaneamente, perguntou-se se esse era o sabor de seus lábios. Chocolate e morango poderiam ser uma dupla e tanto, dependendo do ponto de vista.
Minha amiga, sob seu olhar, não voltava a cor normal das bochechas, e seu tio, de longe, assistia com felicidade o fato. Não podia discordar mais da educação que seu irmão dava às filhas e, com isso, não hesitou ao correr avisar ao novo casal de que a irmã da mais nova estava circulando o estabelecimento e que já havia recebido a ligação de seus pais pedindo pela sua vigia. Era sempre assim: ao saírem de casa, Henry ligava e informava o irmão, para, assim, controlar todos os acontecimentos da vida de e Louise.
Não que ele passasse o recado ou algo assim, mas, às vezes, tinha o azar de seus funcionários atenderem primeiro e, com isso, não tinha como acobertar nenhuma das duas.
Entregou uma sacolinha com algumas tortas para a sobrinha, explicando rapidamente como escapariam pelos fundos sem serem vistos. A chave de sua casa também foi entregue, preferia ambos confortáveis e embaixo do seu teto, do que na rua e sem para onde ir. Não conhecia o rapaz, mas sentia de longe que um destruiria o mundo pelo outro se fosse preciso e para ele, era o suficiente.
Com os copos de vidro em mãos, tentando não derramar a bebida gelada, escaparam pela porta dos funcionários a tempo da cobra adentrar o estabelecimento olhando para todos os lados possíveis como se soubesse.
Não dessa vez, piranha!
Suspirando aliviado, o tio foi em direção à menina, cumprimentando-a com um abraço não muito confortável, que ela também não fazia questão de tornar familiar. Louise era alguém muito difícil, mas era desse jeito mesmo que havia sido treinada, então, ignorou-a e continuou seu trabalho como se ela não estivesse ali.

O casal estava a sós e seguro, a casa era bem pequena e comum, com aquelas fachadas que os livros e filmes retratavam. Encontravam-se sentados no sofá, recuperando o fôlego da fuga misturada a risos de minutos atrás. As tortas esperavam sobre a mesinha de centro e os milk-shakes estavam finalizados, vítimas da sede que os atingiu.
... — chamou, sem sequer saber se esse era mesmo o apelido da moça.
A atenção dela tomou seu rosto instantaneamente, as sardas ainda mais ressaltadas sobre as bochechas coradas de calor dele e a boca entreaberta, tomando fôlego. O lábio foi umedecido e delicadamente, deu início às palavras mais difíceis de sua vida:
— Nós vamos para o sul.
Em uma forma extremamente adorável, sua feição transformou-se em pura dúvida. não sabia sobre o que o rapaz dizia e sua confusão deixava-o morrendo de vontade de enchê-la de beijos por toda a bochecha.
— Nós? Nós quem? — Uniu as sobrancelhas.
— Eu e o circo...
Sua vez de molhar os lábios. Os cílios subiam e desciam freneticamente, como se tal ato fizesse sua mente clarear e as lágrimas não saírem.
— Então isso quer dizer que...
— Não. Não, nem fala! — Interrompeu-a. — Há uma maneira de darmos um jeito, não há?
Jogando-se contra o móvel, tentava pensar em todas elas... que sempre terminavam com não. Seu desapontamento refletiu em seu rosto, a primeira lágrima escorreu e o desespero atingiu ambos.
— Não diga que não, , por favor.
Ela fechou os olhos, negando com a cabeça em puro lamento. Doía tanto. Por que tinha que ser assim? Por que a vida tinha que ser uma vadia bem quando ela começou a dar certo? Nenhum de nós três fomos capazes de responder.
Em total desespero, praticamente lançou-se em direção a . Seus lábios como imãs se grudaram, as mãos dela amparando as bochechas dele e as dele, apertando-a em um abraço carinhoso.
As línguas se entrelaçando, o carinho transbordando e em algum momento, lágrimas se misturaram, tornando tudo ainda mais melancólico e como uma despedida silenciosa.
Eles não faziam ideia de quanto tempo teriam, tanto até o dia seguinte, quanto ali, no momento, até o tio George chegar, entretanto, suas roupas que iam de encontro ao chão retratavam quanto não se importavam, desde que estivessem juntos pelo máximo de tempo possível.

🎪

Tio George, tão querido como era, logo pela manhã, preparou um banquete em uma bandeja, deixando avisado a que poderia tornar tudo aquilo em algo romântico no nível que desejasse e fosse necessário. Aproveitando da bondade, o palhaço abusado pediu para encontrar-lhe uma flor, que rapidamente foi retirada do jardim da vizinha que nunca notaria, de tantas.
Era pequena e arroxeada, ficou ao lado de um dos pratos para que visse assim que batesse os olhos no objeto de metal... Eles eram tão fofos!
Com beijinhos por toda sua face, minha amiga despertou, abrindo um sorriso envergonhado e todo amassado, rapidamente colocou-se em pé para fazer sua higiene, não sem antes notar que o rapaz havia tomado um banho e emprestado algo provavelmente de seu tio, visto que não havia trazido consigo trocas limpas de roupas.
Após se sentir limpa, voltou à cama e sorriu em direção a , que a analisava de todos os ângulos e formas possíveis. Envergonhada, depositou sua atenção à bandeja, logo tomando em mãos o pequeno, porém fofo, agrado. Mordeu os lábios para conter o grito de amor e no mesmo instante, ele tocou sua mão que ainda segurava a flor.
Si j’étais un objet, j’aimerais être un livre, pour que tes mains me touchent et que tes yeux me dévorent.
(Se eu fosse um objeto, eu seria um livro, de modo que suas mãos me tocassem e os teus olhos me devorassem.)
O sorriso de tocava de uma orelha a outra, era tão bonito o seu francês amador. Estava tão encantada que quase que, por um momento, esqueceu-se do que os aguardava quarto afora. Eram tantos sentimentos para serem administrados, despedida e corações partidos que doeriam por muito tempo, isso se não para sempre.
, por sua vez, preferia não pensar. Acreditava no destino, mas não aceitava o que fora proposto assim, tão facilmente. Se o destino colocou ali, por que a tiraria?
Incógnitas...
— Vem embora comigo!
— Como é?
Ele realmente havia a pego desprevenida com a proposta.
Os pensamentos estavam tão perdidos, revivendo o recitar anterior do poema, que demorou a voltar a vida e ver que havia a proposto algo tão grande.
— Vamos, eu e você! O mundo pode ser nosso se quisermos, ! — O olhar dela deu-lhe forças. — Diga as palavras mágicas, meu sol, que eu sou capaz de destruir o mundo se estiver ao meu lado! — Dizia entusiasmado, enquanto segurava as mãos dela próximas ao seu peito, ainda sentados sobre a cama.
Ele parecia tão decidido, destemido, mas ela não era assim, ela era a , a menina que ia às missas fielmente, obedecia aos pais e não se arriscava tanto quanto no momento.
— Eu não sei muito bem, ...
E apesar de se sentir triste, ele sabia que acima de qualquer coisa, ela precisava pensar, afinal, foi pela envergonhada e retraída que havia se encantado, e não seria do dia para noite que ela deixaria de ser tão ela e se jogaria de cabeça em algo que não lhe passasse segurança extrema.
— Pense, , está tudo bem para mim. E caso opte pelo sim, a gente se encontra onde tudo começou.

🎪

— Mas, no final das contas, você vai ou não?
Essa era a terceira vez que Giselle perguntava à , entre uma tragada e outra do seu cigarro. Estávamos todas no quarto da segunda, usávamos camisolas e comíamos doces, mas como sempre, Gi e Brigitte trouxeram cigarros, e com sorte, os pais da não estavam em casa para verem elas sentadas na janela como de costume.
— Não sei, Giselle... — minha amiga respondeu, jogando-se na cama e passando as mãos no rosto. Seus cabelos tinham grampos que seguravam os cachos modelados que usaria durante o dia.
Apesar da falta de simpatia, éramos um quarteto e isso era um fato inegável, entretanto, éramos um grupo com duas duplas: Giselle e Bri sempre foram mais descoladas, tinham mais amigos garotos, enquanto e eu estávamos sempre na cola das duas, porém felizes em sermos uma a companhia da outra, além de melhores amigas.
Quando sentíamos a necessidade de conversar e ter diversas opiniões sobre um determinado assunto, reuníamo-nos, como neste momento, em que havia acabado de nos contar sobre o convite de de fugir da cidade. Prontamente, Giselle disse que se fosse ela, iria sem nem olhar para trás; já Bri disse que não iria, que não tinha coragem de largar sua boa vida na França para viver de migalhas sem nenhuma certeza.
Eu ainda não havia dado minha opinião, queria ouvir e entender o que minha amiga estava sentindo, para dar-lhe o melhor conselho possível, afinal, estávamos falando sobre a vida dela. Era seu futuro, provavelmente nunca mais iríamos nos ver e, no fundo do meu coração, isso doía, mas sua felicidade era o foco.
e teriam um futuro cheio de amor pela frente. Talvez um dia com filhos, quem sabe uma casa no interior? Com um gato ou um cachorro?
... — respirei fundo e segurei em sua mão. — Você sabe que, seja lá qual for a sua decisão, seremos amigas para sempre, certo? — Senti meus olhos enchendo-se de lágrimas, mas segurei e continuei: — Do fundo do meu coração, acho que você ir com seria o melhor caminho para a sua felicidade. Aquele palhaço... literalmente... — rimos. — Te ama e você o corresponde na mesma intensidade. Vá em direção ao seu amor, minha amiga!
Ao terminar de falar, olhei para Giselle e Bri, que já haviam largado a janela e agora estavam na cama do outro lado de , com os olhos avermelhados.
— Eu tenho tanto medo... — começou. — E se ele perceber que não sou o amor da vida dele? E se acabarmos, o que irei fazer? — Limpou a lágrima que escorreu. — Meu pai nunca me aceitaria de volta dentro de casa, a cidade inteira falará de mim, serei motivo de chacota na rua e me conhecerão como “a menina que fugiu com o palhaço e depois foi descartada”.
— Ah, mas eu bato na cara de cada rapariga que apontar o dedo para você. — Ouvi Giselle falar algo de útil pela primeira vez em muito tempo. — A única sirigaita deste grupo sou eu e assim continuarei sendo. Ai de quem tentar ofender as minhas amigas com ofensas que, ao meu ver, são belos adjetivos! — Finalizou com um sorriso no rosto e alisou o cabelo de . — Ela tem razão, você precisa ir de encontro ao seu amor. Nem todas as garotas tem o privilégio de sentir o amor e ser retribuída a altura. Você tem muita sorte.
— As duas estão certas e eu concordo plenamente com elas! Caso você volte para a cidade, sempre terá uma cama para dormir na minha casa. Estaremos juntas para sempre!
E com a frase final de Bri, parecia ter tomado a sua decisão e, a partir daquele momento, não tinha mais como nada dar errado. Em um abraço conjunto, apoiaram-se uma na outra, umas às outras, felizes e de corações cheios.

🎪

Quando acordou naquele dia, uma quarta-feira, levantou da cama e demorou um pouco para conseguir associar tudo o que estava acontecendo em sua vida.
, doce , havia tomado o coração do palhaço de todas as formas.
Haviam combinado de se encontrarem às quatro horas da tarde, independentemente da decisão da moça, para se despedirem ou recomeçarem. Seria o horário que quase toda a cidade estaria na missa, um dos moradores do bairro havia morrido e com isso aproveitariam para rezar ao seu sétimo dia de falecimento. De acordo com seus pensamentos, ninguém notaria a ausência dos dois por lamentarem muito a perda do senhor Antoine.
olhou para o seu trailer e começou a repassar cada momento vivido ali dentro. Cada momento ao lado dos seus pais, antes deles morrerem, as piadas e brincadeiras que seu pai havia ensinado. Todas as vezes que a mãe os encarava com o olhar feio, porque estavam rindo demais e muito alto. E a última decisão que havia tomado no dia anterior: a de terminar tudo com Marie.
Lembranças antigas aqueciam seu coração, mas estava na hora de construir lembranças novas e ao lado de quem realmente amava. E esperava, do fundo de seu coração, ser correspondido à altura e nível de loucura.
Arrumou as coisas que tinha, que não eram muitas, e deixou o trailer em ordem para o próximo que fosse usar. Planejava seguir um novo rumo com após chegarem ao sul.
Ao sair do trailer para esticar as pernas, deu de cara com Ramon, o dono do circo.
— Bom dia, jovem . Estava atrás de você mesmo!
— Bom dia! — Cumprimentou-o com um aperto de mãos. — Pois então diga... — sua pose e tom despreocupados fazia o senhor sorrir.
O homem robusto com uma pequena pança salientada informou que o principal jornal da cidade, assim como rádio, desejava uma entrevista com o circo e que seria o principal entrevistado às duas e meia, antes de começarem a se locomover ao terço anterior à missa.
sentiu o corpo gelar com a possibilidade de qualquer erro no plano dele e de , mas não transpareceu, apenas pensou rápido em uma solução e aceitou conversar com quem quer que fosse.
Assim que Ramon foi cuidar de outros problemas do circo, procurou Charlie, o filho do casal de malabaristas que, por onde passava, fazia amizades com o seu sorriso travesso de criança.
— Charlie, amigão, preciso muito da sua ajuda!
Dobrando os joelhos até ficar na altura do menino, pediu que ele fosse até o endereço de e reforçasse o combinado de se encontrarem às quatro horas em ponto no primeiro lugar em que se viram. Ressaltou também, que devia falar apenas com ela e que não voltasse ao circo sem ter dado o recado.
Como se fosse um pombo correio, Charlie concordou com a cabeça e saiu correndo em direção ao quarteirão o mais rápido possível.

Sentada ao lado de um rapaz que usava uma boina cinza e insistia em fazer barulhos com a boca, enquanto comia suas batatas, eu tentava me concentrar em um livro de poesias, quando ouvi meu nome sendo chamado em tom de desespero. Havia preparado um palavrão raivoso, quando notei ser tio George e em alerta, pus-me de pé, preparando-me para o que fosse jogado em meu colo.
— Ela está indo embora! — O tio estava com suas bochechas rosadas e apoiava as mãos nos joelhos, tentando respirar.
É o quê? — Amparei-o pelos ombros, pronta para um teatro.
— Meu irmão descobriu que ela e iriam fugir, parece que Louise ouviu vocês duas conversando na última noite e dedurou que foram todos os dias no circo para que ela se encontrasse com o palhaço.
No momento em que ouvi suas palavras, senti meu coração bater mais devagar. Eu achava que dizia sobre ela estar indo embora com , não que iria para sempre a um lugar desconhecido a mando do pai.
Aquela cobra mal-amada! Como pôde fazer isso com a própria irmã? Sabia que o pai iria castigá-la de maneira cruel! Sádica era a definição do nome Louise.
— E para onde ela está indo?
— Para alguma cidade da Inglaterra, foi tudo que Donna soube me informar. Ela estava aos prantos por sua filha estar sendo levada para longe daqui e de mãos atadas por ser tão manipulada por meu irmão. — Suspirou, enquanto negava com a cabeça. — Ele não tem um pingo de misericórdia em seu coração e Louise é exatamente como ele.
Saí da lanchonete aos tropeços, prometendo tentar dar um jeito, e corri até a casa de , mas ao chegar, obviamente ela já não estava mais lá, apenas sua mãe chorando e se perguntando o motivo do marido ser tão maldoso com a filha.
Não havia mais o que ser feito, já havia sido mandada para fora do país, o que deixaria o coração de partido em diversos pedaços. Não fazia ideia de como dá-lo essa notícia e, por isso, levei Brigitte comigo que só sabia chorar enquanto contava o ocorrido.
Pronto, dois corações partidos para lidar agora!


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O barulho que a caneta fazia no papel cada vez que a jornalista escrevia uma palavra, estava me dando nos nervos. Além do jornal local, estava presente também a rádio da cidade e diversos cidadãos curiosos ficaram assistindo, enquanto eu respondia diversas perguntas chacoalhando a perna e batendo o pé em pura ansiedade. Não cansava de tirar o relógio do bolso para ver que horas eram, com medo de chegar no meio da entrevista e todos suspeitarem de algo.
E Charlie não havia voltado até agora com notícias. Isso me preocupava mais ainda.
No momento em que a jornalista chamou o rapaz com a câmera para uma foto, ouvi uma voz feminina chamando pelo meu nome aos gritos.
! ! Ela se foi, ela se foi!
Olhei para atrás e vi mais avermelhada que o normal, o tom de suas bochechas poderia ser confundido com o tom de seus cabelos. A outra amiga, que desconhecia, parecia em choque e se mantinha de boca aberta.
— Peço licença… — saí de perto da jornalista e fui até ela, que apoiava as mãos nos joelhos e respirava fundo. — , o que houve?
, o pai dela a enviou para a Inglaterra! George, o tio, me contou agora pouco que Louise contou ao pai que iria fugir com o circo hoje e ele a enviou para a Inglaterra, quando descobrimos, já era tarde demais. Eu sinto muito, ! — Finalizou com as palavras enroladas em meio às lágrimas que começavam a cair de seus olhos.
Por alguns minutos, encontrei-me como a moça desconhecida que acompanhava . Sentia que a qualquer momento encontraria o chão e ficaria por ali, jogado, apenas sentindo a dor que dilacerava meu coração.
Despertei quando senti braços me circulando e ouvi o choro das duas, que me apertavam em um abraço de consolo que precisava no momento sem sequer ter consciência.
Sem pensar duas vezes, inconsciente e gentilmente, separei-me dos braços das moças e ainda tentando assimilar que possivelmente a única mulher que eu já havia amado tivesse sido tirada de mim, peguei o pequeno gravador do rádio e comecei a falar, enquanto sentia as câmeras ainda me tendo como foco.
Atenção, por favor! Interrompemos a programação com notícias perturbadoras! — Todos pareciam confusos, mas eu só sabia seguir meu coração que batia na garganta, seco, e dizer o que sentia: — , onde você está? Por favor, se estiver me vendo ou escutando, volte! Estou te pedindo, implorando, vamos enfrentar isso juntos, eu faria qualquer coisa que você pedisse! — A primeira lágrima escorreu e embargado, segurando com menos força o aparelho, finalizei. — Preciso te abraçar, sentir seu cheiro, sua pele e o seu toque...
Minhas mãos caíram ao lado do meu corpo, em pura derrota. Não adiantava implorar, não era sua escolha, era de seu pai; e ele definitivamente não mudaria sua cabeça por causa de uma declaração malfeita no desespero.
Sem entender o que estava acontecendo, Ramon me puxou para o lado.
— Está louco, rapaz? Quem é ? O que está havendo?
Comecei contando como nos conhecemos e, conforme a história ia se desenrolando, notei que a jornalista escrevia cada vez mais em seu papel e que o rapaz do rádio aproximava o gravador de mim, assim como as câmeras que nunca foram desligadas captavam-me em sede.
E foi então que contei, em rede nacional e para toda a cidade, a minha história de amor com . Desde o tapa na cara que levei, até o nosso primeiro-último beijo.

🎪

:

O coração de parecia ter se partido em diversos pedaços desde o fatídico dia em que sua amada havia sido mandada para a Inglaterra. Pensou em ir atrás de , mas iria para onde? Encontrava-se no escuro sobre seu paradeiro, não fazia ideia da cidade, escola ou sobre como começar a procurá-la.
A família da garota havia ido embora da cidade no dia seguinte ao que todos os jornais e rádios do distrito de l’Elysée e região noticiaram a história de amor entre e , com cada detalhe importante e delicado que o palhaço havia retratado.
Toda a cidade se sensibilizou pelo amor dos dois e, por algum tempo, até tentaram encontrar pistas do possível paradeiro de , mas após um mês de buscas sem sucesso algum, desistiram e se contentaram com a história de um amor impossível entre uma jovem francesa e um palhaço de circo itinerante.


Inglaterra em 1955;
:

Seus olhos ardiam todos os dias, por conta das lágrimas e do sentimento de perda, de abandono. Desde o dia em que pisara seus pés naquele internado, apesar de ter sido recebida de braços abertos por cada irmã que ali lecionava, não conseguia parar de pensar em e em como tudo deu errado do dia para a noite, tudo por culpa de sua irmã.
Não entendia por qual motivo Louise havia contado para o pai o que ia fazer, qual era a razão para tanto ódio?
Era o seu terceiro mês na Inglaterra e, até então, havia recebido a visita de sua mãe apenas uma vez e nenhuma de seu pai e Louise. Não que quisesse encarar os olhos daqueles que haviam a feito sofrer tanto, mas não deixavam de ser sua família e isso a fazia se sentir jogada em um país longe deles e de seus amigos.
E de .
Não havia se passado um dia em que não quisesse sentir os braços de tomando seu corpo com o calor que ele emanava, com todo o sentimento e carinho que cabia em seu coração.
Com a repercussão do que houve, praticamente a Europa toda estava sabendo sobre o caso do amor impossível entre a jovem e o palhaço. Quando ouviu as irmãs e outras garotas do internato comentando, não acreditou que era mesmo sobre ela que estavam falando. Mal conseguiu acreditar quando a contaram que ele expôs para toda a cidade a história do casal, desde o primeiro olhar até o último beijo.
Sentia vontade de fugir daquele lugar, onde ficava presa todos os dias, e ir em direção ao seu amado, porém na única visita de sua mãe, Donna veio com a notícia de que iria se casar. Ela não soube informar ao certo como aconteceu, pois, sua família havia se mudado da cidade, mas o palhaço havia ficado famoso aos arredores e era reconhecido por onde passava com o circo.
Apesar de não conseguir acreditar no amor de por Marie, era dela que ele estava noivo e a ela, só cabia aceitar que este seria o seu destino. Seu e da pequena junção de amor, que estava carregando em seu ventre.



Parte II

França em julho de 2016;
:

De cima do palco, conseguia observar cada um que estava assistindo-me contar a história de e . Conseguia ver a quantidade de garotas que ali estavam ao lado de seus namorados e familiares para mais um ano de comemoração do aniversário do distrito dos amores impossíveis.
Foi assim que l’Elysée ficou conhecida para o resto do mundo, após presenciar um dos mais lindos amores já vistos na história do país.
— Cada vez que conto para alguém sobre , meu peito se enche de saudades e meus olhos de lágrimas. — Contei para a organizadora do evento da comemoração, que estava ao meu lado e que tinha seus olhos inchados. — Reencontrei-a havia mais de quarenta anos, após ter sido enviada para a Inglaterra por seu pai, que morreu cinco anos depois, sem nem saber que a filha havia dado à luz a uma bela e saudável menina, que recebeu o nome da cidade.
Todos pareciam extremamente surpresos. E eu não esperava menos, era quase como um segredo de Estado.
— Elysée hoje vive na Inglaterra, tem uma vida saudável ao lado de um marido que a ama muito, e que, assim como disse que faria por , é capaz de destruir o mundo para estar ao seu lado.
— Pena que não foi capaz de cumprir sua palavra para estar ao lado de , . — A moça segurou minha mão e a apertou em consolo.
— Minha querida... — voltei a falar, olhando para a câmera que me filmava. — Quando somos jovens, pensamos que não existem limites, que o mundo é uma longa estrada para se percorrer sem correr risco algum, não temos medo e a adrenalina nos move. Porém, apesar de possuírem todos os motivos para estarem juntos, minha querida e não conseguiram por conta da maldade humana, maldade essa sem fundamento algum.
Lembro-me até hoje que, no fatídico dia em que tudo deu errado, era final da primavera, pois haviam diversas flores espalhadas pelas ruas da cidade. Todos os anos, em junho, sentia saudades da minha amiga e, incrivelmente, do palhaço petulante que ela havia escolhido para viver.
Neste ano, infelizmente, a saudade partiu para outro nível no momento em que descobri que ambos haviam deixado esse plano para viverem juntos no paraíso.



Epílogo

Inglaterra em 1956;
:

, , aguente firme, meu amor! — Uma das madres pediu. Ela se chamava Joanna e seu sorriso era como o de minha mãe.
Eu sentia tanta falta de minha mãe! Sua única visita foi seis meses atrás, escondida, para me pedir desculpas por não conseguir estar presente em minha vida.
Minha mãe também me contou que havia se declarado em rede nacional e que a cidade toda estava a minha procura, mas que meu pai obrigou ela e minha irmã a mudarem de cidade para que eles não ficassem conhecidos como “a família da sirigaita que fugiria com o circo”. Ouvir isso dela me doeu mais ainda a alma. Então era mesmo verdade...
Todos haviam me abandonado a pedido de meu pai e se não fossem as irmãs do internato, que realmente seguiam ao Deus que acreditavam e tanto liam e ensinavam sobre, talvez eu estivesse na rua com apenas dezessete anos e um bebê nos braços.
Elas prometeram cuidar da minha filha pelo tempo que precisasse até me formar e eu confiava nessas mulheres até mais do que em mim mesma. E só tinha a agradecer por todo o apoio e carinho que nem meus pais eram capazes de oferecer.
Fiz força como haviam me pedido, meus olhos ardiam em lágrimas e meu ar faltava, eu tinha medo de não sobreviver a essa dor que era perder uma família e ganhar outra, que não saía de jeito nenhum de dentro de mim.
Minha pressão caiu em algum dos empurrões e só voltei a consciência quando o choro foi ouvido e caí exausta na maca. Naquele momento, chorei tudo o que havia segurado para conseguir finalizar o parto.
E quando finalmente me senti pronta, olhar Elysée e tomá-la em meus braços foi a melhor coisa que poderia fazer. O amor eternizado em seus olhos e composição, era algo que não trocaria nunca na vida. Por nada e por ninguém. E eu sentia pena de quem perderia.



Fim!



Nota da autora: Olá, pessoal!
Essa história é bem especial para nós duas e tomara que seja para vocês também!

Um beijo e até uma próxima,
— Valen Lee.





Outras Fanfics:
Personal Friend (One Direction)
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Personal Friend 3 (One Direction)

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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