Última atualização: 08/01/2026

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Prólogo


Nunca se sabe quando sua vida pode mudar. Em um dia você está em um hospital dando adeus à sua mãe, e 10 anos depois você está em um cemitério, do outro lado do mundo, dando adeus ao seu pai e sua madrasta.

Era o que passava pela pela mente dela, quando via todas aquelas pessoas diferentes chorando a morte de seu pai, e olhava para a única pessoa que importava ali.
? — Escuto uma voz chamando meu nome e me viro para ver quem era, era um rapaz que aparentava ter quase a mesma idade que ela. Um homem alto e com um sorriso gentil nos olhos. — Me chamo Park Sung-hoon, era vizinho de seus pais. — Ele estende a mão e eu aperto em cumprimento.
— Prazer. — Digo, sorrindo forçado.
— Eu considero o Yoon-jae como um irmão mais novo, se precisar de alguma ajuda com ele… — Ele se oferece para ajudar e de repente me dou conta que todos esperam que eu fique na Coreia. Apesar de achar mais fácil uma criança reconstruir a vida do que uma adulta, não acho que devo causar mais isso ao Yoon-jae.
— Obrigada. — Aceno com a cabeça e ele se afasta.

Me aproximo do garoto, que recém havia completado 10 anos, e me abaixo ao seu lado.
— Oi, Yoon-jae. — Sorrio, ele olha em meus olhos, um pouco confuso. — Sou sua irmã mais velha, . — Ele rapidamente me abraça.
Noona. — Diz, com voz de choro. Acalento meu irmão e suspiro, enquanto todos nos encaram. Me entregam uma braçadeira, que eu não entendo bem o que significa, mas coloco. Quando tudo finaliza, vou para a casa onde meu pai costumava morar, acompanhada de Yoon-jae. Ele se senta em um sofá e encara a televisão desligada.
— Quer assistir alguma coisa? — Pergunto e ele nega com a cabeça. — Está com fome? — Ele assente.

Abro a geladeira e vejo o que tem, muitas coisas que não sei bem como preparar, mas faço carne com alguns legumes. Nos sentamos à mesa e comemos em silêncio, pego o celular e vejo os e-mails, enquanto Yoon-jae me olha curioso. Percebo sua curiosidade, abaixo o celular e olho para ele.
— Apliquei em algumas vagas de emprego, assim que soube da notícia. Estou olhando as respostas das entrevistas. — Explico, ele assente, comendo devagar.

Durante a semana, Yoon-jae tem interagido mais comigo. Tenho acordado cedo para levá-lo até a escola e preparar seu lanche. Não imaginava que teria esse tipo de responsabilidade tão cedo em minha vida. Uma semana se passou e tenho uma entrevista de emprego em uma revista, estudei moda nos Estados Unidos, pensei em procurar algo que se encaixasse na minha formação. Impressionados com meu currículo, sou contratada como estagiária.

Um mês se passa e Yoon-jae já havia se adaptado à minha presença, Sung-hoon estava sendo uma ótima ajuda durante toda a minha mudança, me ensinando tudo que eu precisava saber e me levando de um lado para o outro. Yoon-jae realmente via ele como um irmão mais velho e isso facilitava as coisas para mim. Meu salário ainda era pouco, mas o dinheiro que meu pai havia deixado estava nos ajudando a segurar as pontas.

Em 3 anos eu já havia sido promovida a chefe da equipe de moda da revista. Yoon-jae tinha 13 anos e vivia se metendo em confusões com um menino da mesma idade que estudava em sua escola. Sung-hoon se tornou um grande amigo e sempre nos apoiava em meio às dificuldades.

Em 4 anos eu chamei a atenção da diretora da revista, mas não da forma que eu queria. Quando finalmente a conheci, ela era uma mulher extravagante e gostava de ser paparicada, havia demitido a última secretária por causa da aparência da mesma. Quando fui convidada para ir em sua sala, fiquei surpresa e estava aguardando uma promoção.
— Sim, senhora diretora. — Digo, ao entrar na sala.
— Ah, a estrangeira. — Diz, se levantando e me olhando dos pés à cabeça, ela estava analisando cada detalhe meu. — Vai servir. — Disse, se sentando em sua cadeira novamente.
— Sim, senhora? — Pergunto novamente.
— Saiba que eu gostei de você, descobri que é a funcionária mais competente da revista, entende muito de moda e é muito bonita também. — Sorri com as palavras dela. — Por isso, te darei uma oportunidade incrível, à partir de hoje você será minha secretária. — Meu sorriso se desmanchou na hora, meu currículo e todo meu trabalho durante esses 4 anos serviram para ser secretária? Eu apenas engoli seco, sabia que não podia questioná-la e eu precisava do dinheiro. E foi nesse dia que meu inferno começou.

Em 1 ano de trabalho, meu salário e meu tempo diminuíram, e acabei dependendo mais de Sung-hoon do que queria. Tive que me mudar para um apartamento em Sillim-dong, que mal tinha espaço para nós dois. Perdemos a casa do meu pai para o banco, eu vivia sobrecarregada e com raiva por toda minha dedicação ter sido jogada fora.

Havia um novo subdiretor na revista, mas nós sabíamos que na verdade, ele era o responsável por tudo. A diretora não tinha competência, foi contratada por puro nepotismo e todos sabiam disso. Eu ainda não tinha conhecido o subdiretor, nunca tive tempo para isso.

Todos haviam saído para uma sessão de fotos e eu estava colocando os documentos em cada mesa, entrei na sala do subdiretor e coloquei os papéis em sua mesa, me virei, esbarrando em um homem.
— Desculpe. — Disse, ajeitando minha roupa.
— Não se preocupe, o que faz aqui? — Pergunta ele, levanto meu olhar, finalmente olhando para ele.
— Vim deixar esses papéis na mesa do subdiretor, ele não está, se estiver procurando por ele. Todos saíram para a sessão de fotos. — Explico e ele apenas sorri, saio da sala e volto para meu setor, notando que o homem me seguiu com o olhar.

Havia sido um dia exaustivo, estava me preparando para ir embora e me sentei na calçada, à caminho do ponto de ônibus.
— Argh, que dia! — Resmungo.
— Dia difícil? — Escuto uma voz atrás de mim e concordo com a cabeça.
— E como. — Suspiro.
— Também tive um dia cansativo, trabalhou demais?
— Eu sempre trabalho demais, desde que aquela megera me reduziu à secretária. — Murmuro, me virando para ele. Era o homem de mais cedo no escritório, então torço para ele não ter me escutado.
— Você é a secretária da diretora? Que era da equipe de moda? — Concordo em silêncio. — Não tivemos chance de nos conhecer antes, meu nome é Park Seo Joon.
— Park Seo Joon?! — Me levanto rapidamente. — O subdiretor? — Ele ri e assente. — Me desculpe senhor Park, eu não quis ofender a diretora. — Me curvo levemente.
— Não se preocupe. — Ele sorri. — Não é como se eu discordasse. E eu realmente já queria te conhecer, recebi sua solicitação de transferência e queria entender o motivo de uma pessoa tão competente ter sido rebaixada à uma simples secretária. — Ele continua sorrindo para mim, com um tom gentil. Sempre escutei todos dizerem que ele era arrogante e implacável, estava sempre irritado com tudo e todos. Olho para o relógio e vejo a hora.
— Desculpe, senhor. Eu tenho que ir pegar o ônibus. — Digo, me afastando devagar. Ele arqueia uma sobrancelha.
— Ônibus? — Ele parecia confuso.
— Sim.
— Não te pagam o suficiente para ter um carro? — Ele parece confuso.
— Quando era da equipe de moda, sim, mas tive que vender meu carro quando virei secretária. — Minha resposta pareceu irritá-lo. — Com licença. — Me viro e caminho em direção ao ponto de ônibus.

Percebo que ele me acompanha em silêncio durante todo o trajeto, quando finalmente chego no ponto, me viro para ele.
— Senhor?
— Huh? — Ele sorri. — Ah, não me senti confortável em te deixar vir caminhando sozinha nesse horário.
— Ah… — Sorrio tímida. — Eu sempre faço isso, mas agradeço a preocupação, tropeço enquanto ando de costas, meio sem jeito, e ele me puxa para que eu não caísse.
— Essa foi por pouco. — Diz ele, rindo. Sinto um vento forte passar nas minhas costas e me viro rapidamente.
— Não!!! — Ameaço correr atrás do ônibus e ele me segura.
— Não se preocupe, eu te dou uma carona. — Diz gentilmente. — É bom que podemos conversar sobre seu emprego.


Capítulo 1

Park Seo-joon

Volto para o escritório da revista, à procura de minhas chaves. Entro em minha sala e tem uma mulher parada lá, antes que eu possa dizer algo, ela se vira e esbarra em mim.
— Desculpe. — Diz ela, ajeitando a roupa.
— Não se preocupe, o que faz aqui? — Pergunto, enquanto ela levanta a cabeça para olhar para mim. Sorrio ao notar sua beleza e como suas roupas caíam tão bem em seu corpo. Era alguém que tinha presença, parecia ser elegante e posturada.
— Vim deixar esses papéis na mesa do sub-editor, ele não está, se estiver procurando por ele. Todos saíram para a sessão de fotos. — Ela explica e eu apenas sorrio, observando-a enquanto sai da minha sala e caminha até a sala da diretora. Como eu ainda não a conhecia? Por que uma mulher como ela estava escondida? Me lembro de um nome estrangeiro em um e-mail de solicitação de transferência e ligo à ela, já que era a única ali que não era coreana.

Encontro minhas chaves e vou para o estúdio. Realmente havia sido um dia estressante e eu estava de péssimo humor, nada estava bom nessa revista. Saindo do prédio, observei uma mulher sentada na calçada a alguns metros dali e ri ao perceber que era a mulher de mais cedo. Caminhei até ela, e quando me aproximei percebi que estava suspirando.
— Argh, que dia! — Pude escutá-la resmungar.
— Dia difícil? — Pergunto, parado atrás dela e ela assente.
— E como. — Respondeu em um suspiro, me fazendo sorrir.
— Também tive um dia cansativo, trabalhou demais? — Pergunto, esperando escutar mais sobre ela.
— Eu sempre trabalho demais, desde que aquela megera me reduziu à secretária. — Ela murmura baixinho, como se não quisesse dizer aquilo em voz alta, mas eu escuto perfeitamente. Ela se virou assim que terminou de falar e parecia surpresa em me ver.
— Você é a secretária da editora-chefe? Que era da equipe de moda? — Ela assente, em silêncio. — Não tivemos chance de nos conhecer antes, meu nome é Park Seo Joon. — Estendo a mão para cumprimentá-la.
— Park Seo Joon?! — Ela se levanta rapidamente, falando com um tom de desespero. — O sub-editor? — Não consigo deixar de rir do desespero dela.
— Me desculpe senhor Park, eu não quis ofender a diretora. — Ela se curva levemente e eu sorrio.
— Não se preocupe. Não é como se eu discordasse. E eu realmente já queria te conhecer, recebi sua solicitação de transferência e queria entender o motivo de uma pessoa tão competente ter sido rebaixada à uma simples secretária. — Sorrio para ela, tentando ser gentil. Queria que ela se sentisse confortável para falar comigo e me fizesse entender a situação dela, mas ela parecia desconcertada e fica olhando para o relógio.
— Desculpe, senhor. Eu tenho que ir pegar o ônibus. — Ela realmente parecia apressada, começou a se afastar ainda falando.
— Ônibus? — Fiquei confuso, o salário podia não ser tão bom como secretária, mas realmente não dava para comprar um carro?
— Sim.
— Não te pagam o suficiente para ter um carro?
— Quando era da equipe de moda, sim, mas tive que vender meu carro quando virei secretária. — Fico irritado ao escutar isso — Com licença. — completa, caminhando em direção ao ponto de ônibus.

Fico parado observando enquanto ela caminha, me viro para caminhar até meu carro, mas um impulso faz meu corpo virar para o lado oposto. Sigo caminhando ao lado dela, que por algum motivo me fazia querer estar por perto. Quando finalmente chegamos no ponto, ela se vira para mim.
— Senhor? — Ela parece estar esperando que eu lhe diga algo que justifique acompanhá-la.
— Huh? — Não consigo evitar de sorrir. — Ah, não me senti confortável em te deixar vir caminhando sozinha nesse horário. — Explico.
— Ah… — Ela sorri, com um pouco de timidez. — Eu sempre faço isso, mas agradeço a preocupação — Ela começa a se afastar, andando de costas e, toda atrapalhada, acaba tropeçando em uma pedra e cambaleia, mas a seguro antes que caia.
— Essa foi por pouco. — Digo, rindo. Vejo ônibus passar atrás dela e me pergunto se era aquele que ela iria pegar. Ela se vira rapidamente, em desespero.
— Não!!! — Quando percebo que ela iria correr atrás do ônibus, seguro seu braço. Era óbvio que o motorista iria vê-la e parar, mas não queria que ela fosse de ônibus.
— Não se preocupe, eu te dou uma carona. — Ofereço gentilmente. — É bom que podemos conversar sobre seu emprego.

Depois de insistir várias vezes que eu não precisava fazer isso, ela entrou no carro.
— Para onde vamos? — Pergunto, abrindo o gps do carro. Ela digita o endereço.
— Sillim-dong. — Sorrio para ela.
— É um pouco longe, você deve ficar cansada no trajeto. — Ela assente e suspira. — Me diz uma coisa, você chegou na chefia da equipe de moda por mérito, analisei seu currículo e sua trajetória, é tudo muito impressionante. Por que ela te rebaixou? — Ela parece surpresa com a minha pergunta e suspira novamente.
— A rotina realmente tem sido cansativa. — Ela sorri forçado. — Mas sou grata de ter um emprego. — Nego com a cabeça.
— Por favor, seja sincera. — Sorrio. — Tudo que for dito aqui, morre aqui. — Brinco para tentar aliviar a tensão e ela dá um longo suspiro. Realmente deve estar cansada.
— Eu não entendi mesmo, Sr. Park, mas basicamente ela queria uma secretária bonita. — Ela simplifica.
— E encontrou. — Ela realmente era muito bonita. — Mas esse foi o único motivo?
— Acho que sim, ela demitiu todas as secretarias anteriores por causa da aparência delas. — Bufo ao escutar tudo.
— E seu salário diminuiu? — Ela assente.
— O suficiente para perder a casa para o banco e ter que me mudar para um apartamento minúsculo em Sillim-dong que mal cabe uma pessoa, tive que vender o carro para dar de entrada, aliviou o aluguel por uns meses. Mal dá para me sustentar, imagina sustentar um adolescente. — Ela parecia frustrada. — Se continuar assim, eu não terei escolha a não ser ir para o Brasil. — Fico surpreso.
— Por que para tão longe?
— Minha família está lá. — Ela murmura.
— Achei que você tivesse vindo dos Estados Unidos. — Digo me lembrando do currículo dela.
— Sim, eu estudei lá. — Ela suspira. — Mas de todo modo, não há nada que possa ser feito. Minha solicitação de transferência foi negada, se eu não encontrar um emprego melhor, terei que me mudar. — Ela parecia cabisbaixa, fico confuso com o que ela diz.
— Mas eu não neguei nada. — Arqueio uma sobrancelha.
— Recebi um e-mail hoje cedo informando que foi negada. — Ela diz e fica séria, o que me faz não dizer mais nada. Imagino que ela deve sentir raiva de mim do mesmo jeito que sente da editora-chefe.

Permanecemos em silêncio durante todo o trajeto, até que chegamos no local indicado. Assim que estaciono, ela parece esperar que eu diga algo para encerrar nosso assunto.
— Farei o possível para que não seja pejudicada no trabalho. — Digo, realmente farei, não é justo desperdiçar um talento, principalmente quando a revista não está indo bem depois que ela saiu da equipe.
— Obrigada, Sr. Park, e obrigada pela carona. — Ela sorri, meio sem jeito, confesso que entendo. Deve ser estranho aceitar carona de um dos chefes, principalmente um que acabou de conhecer. Antes que eu pudesse dizer algo, um adolescente aparece próximo ao carro, machucado e ensanguentado. — O que… — Ela observa minha reação e se vira para o adolescente, descendo do carro na mesma hora que colocou os olhos nele.
— Yoon-jae! — Ela exclama, desço atrás dela e me aproximo dos dois. — Quem fez isso? Foi o Ji-seok? O que aconteceu??? — Ela estava bem nervosa.
Noona… — O garoto começa a chorar e ela o abraça.
— Temos que levá-lo ao hospital. — Digo, e ela parece ter se lembrado que eu estava ali.
— Eu farei isso, Sr. Park, não se incomode. — Percebo o nervosismo em sua fala e sinto que devo ajudar. — Não se preocupe, Yoon-jae, vou ligar para Sung-hoon… — Ela pega seu celular e eu puxo seu braço, virando-a pra mim.
— Você está nervosa demais, e nem tem carro para levá-lo. — Sorrio. — Me deixa ajudar. — Ela hesita por um instante, mas guarda o celular e suspira.
— Tudo bem, vamos Yoon-jae. — Ela puxa o irmão pelo braço e leva ele até meu carro, entrando logo em seguida. Eu corro para o carro e me sento no banco do motorista, dando partida. — Obrigada, Sr. Park. — Apenas sorrio e aceno com a cabeça.

Não demora muito para chegarmos no hospital, mas vejo que ela parece incomodada quando chegamos.
— Esse hospital não é público. — Ela roe as unhas e eu suspiro. — Estamos com o seguro atrasado no momento, pode nos levar para outro hospital? — Nego com um aceno.
— Não se preocupe, eu pago. — Sorrio e ela balança a cabeça, negando minha oferta.
— Realmente não precisa, tem um hospital público aqui perto… — Eu a interrompo.
— É responsabilidade da empresa que você receba tão pouco para seu seguro estar atrasado, me deixe cuidar disso, por favor. — Eu insisto, ela hesita por um momento, mas acaba concordando.
— Tudo bem, você está certo. — Sinto que ela tem uma pitada de irritação em sua voz, mas fico aliviado por ela aceitar a ajuda, me desanima ver o quanto a revista não está cuidando dela como cuida dos outros funcionários.

O garoto recebeu atendimento e não foi nada demais, buscamos os remédios e eu os levei de volta para casa.
— Quem é você? — Pergunta o garoto, sentado no banco de trás.
— Kim Yoon-jae! — Ela murmura, o repreendendo.
— É namorado da minha irmã? — Apesar de novo, ele é bem direto.
— Kim Yoon-jae!!! — Ela se vira para ele, que se encolhe no banco de trás, me fazendo rir.
— Não se preocupe. — Digo para ela. — Sou um amigo, só quis ajudar.
— Mas ela já é amiga do Sung-hoon. — Yoon-jae cerrou os olhos. — E eu nunca vi você antes.
— Yoon-jae! Chega, ele é meu chefe. — O garoto fica em silêncio após escutá-la. — Sinto muito pelo meu irmão, Sr. Park. — Aceno com a cabeça após escutá-la.
— Não se preocupe com isso. — Sorrio — Você cuida dele sozinha?
— Sim, desde que meus pais morreram. — Yoon-jae ainda parece desconfiado de mim, com os braços cruzados e me respondendo rapidamente com cortes secos. — E se você é mesmo chefe dela, deveria parar de explorá-la. — A expressão de se torna fria e ela olha para o irmão, que rapidamente se encolhe no banco de trás e fica em silêncio.
— Tem razão, não se preocupe com isso. — Estaciono na frente do prédio deles e Yoon-jae desce correndo do carro ao enxergar um homem parado no local.
— Mais uma vez, muito obrigada, Sr. Park! E desculpe pelo comportamento do meu irmão. — Ela abaixa a cabeça fazendo uma leve reverência.
— Não precisa de nada disso, foi um prazer ajudar e te conhecer. — Sorrio, ela sorri de volta, parecendo meio tensa.
— Boa noite. — Ela abre a porta do carro e sai, fazendo uma reverência antes de ir na direção de Yoon-jae e do homem que estava junto com seu irmão. Sorrio e dou partida no carro, dirigindo até meu apartamento.

Chego em casa e abro a geladeira, pegando uma garrafa d’água para beber. Checo novamente a ficha de funcionária da e me surpreendo com a forma que ela cresceu por esforço próprio na empresa. Pego o notebook e envio uns e-mails, esperando que minha decisão acarrete no melhor para a revista. Não posso controlar minha curiosidade de saber mais sobre ela, procuro seu nome no Instagram e acabo encontrando seu perfil. Algumas fotos no trabalho, outras com o irmão, mas quanto mais eu descia, via suas viagens e sua vida antes de se mudar para a Coreia. Lembro de como a minha vida mudou quando decidi seguir outro rumo, mas imagino que para ela tenha sido muito mais difícil. Comparando as fotos antigas com a pessoa que vi hoje, ela parecia ter perdido seu brilho, apesar de ainda ser dona de uma beleza estonteante.
— Será que… — Falo comigo mesmo, pensando se devo seguir ou não. Eu hesito em alguns instantes e finalmente aperto o botão de seguir, bloqueando o celular e jogando no sofá. Não entendo porque estou com frio na barriga, mas acabo curtindo a sensação.

Volto a mexer no notebook, organizando o que eu acredito que deva mudar na revista. Analisando os gráficos percebo que estava certo, o desempenho da equipe de moda diminuiu muito quando virou secretária. Isso me faz lembrar dela, pego o celular novamente e olho se tem alguma notificação, não tem nada. Volto ao trabalho e a cada notificação olho de lado para o celular, quero muito fingir que não me importo, dou o meu melhor para isso, mas não consigo. Levanto e vou até a geladeira, pegando mais água. Saio do notebook e me sento no sofá, encarando meu painel de notificações, suspiro e me rendo ao sono. Caminho até o quarto e coloco o celular na mesa de cabeceira, fecho os olhos e rolo para o lado algumas vezes, até que meu celular vibra. Abro os olhos e pego o celular rapidamente.
seguiu você no instagram”

Leio a notificação e sorrio, finalmente dormindo em paz.


Capítulo 2 – Salva?

:


Após descer do carro, consigo observar Yoon-jae abraçado com Sung-hoon.
— Vocês dois estão bem? — Pergunta Sung-hoon quando me aproximo.
— Estamos sim. — Concordo com a cabeça.
— O de sempre? — Sung-hoon encara Yoon-jae.
— Nem preciso dizer, né? — Sorrio e Sung-hoon bagunça o cabelo do meu irmão.
— Aish, quando vai parar de dar trabalho para a sua irmã, hein pirralho? — Ele abraça Yoon-jae de lado, com facilidade, por ser bem mais alto do que ele. Sung-hoon levanta umas sacolas. — Trouxe a janta! — Sua fala me faz suspirar aliviada, porque estávamos com quase nada na despensa, simplesmente por eu nunca ter tempo e sempre acabar comprando comida em lojas de conveniência. Subimos as escadas do prédio até o terceiro andar, destranco a porta e dou espaço para que entrem, Sung-hoon arruma as coisas na mesa e nos sentamos.
— Obrigada, Sung-hoon oppa, você sempre nos salva. — Sorrio, abrindo um dos potes de marmita que ele trouxe, Sung-hoon retribui o sorriso.
— Amanhã vou fazer algumas compras para cá. — Diz ele e eu nego com a cabeça.
— Não precisa, vou dar um jeito de ir ao mercado amanhã. — Sorrio, pegando uma colherada da comida, Sung-hoon faz menção a dizer algo, mas apenas concorda com a cabeça e sorri.
— Tudo bem, mas me avise se não conseguir, estou sempre disposto a ajudar. — Sorrio para ele, mesmo sabendo que não consigo corresponder aos seus sentimentos, Sung-hoon sempre foi meu apoio desde que cheguei à Coreia. Jantamos juntos durante a noite e Sung-hoon tem uma conversa séria com Yoon-jae sobre Ji-seok, enquanto lavo tudo. Nos despedimos e eu começo a organizar a casa, porque estava parecendo que apenas um adolescente morava no lugar, sem uma adulta responsável. Depois, abro meu notebook e começo a organizar a agenda da Editora-chefe com as mudanças do dia, olho ao redor e reflito que talvez deva procurar outro emprego. Olho para o relógio e vejo que já é tarde e eu já deveria estar dormindo. Fecho o notebook e pego meu celular, vejo que tem uma notificação no Instagram, desbloqueio o celular enquanto caminho para o banheiro e vejo “Park Seo Joon começou a seguir você”, coço a cabeça e arqueio uma sobrancelha, é realmente de bom tom seguir meu chefe? Dou de ombros e aperto em seguir de volta, depois de hoje, acho que seria falta de educação não seguir. Tomo uma ducha quente e escovo os dentes, me deito e logo adormeço.
No dia seguinte, coloco Yoon-jae no ônibus escolar e corro para o ponto de ônibus, abro o Google Maps para procurar supermercados que me permitam fazer compras no horário de almoço, com tempo de comer algo. Enquanto espero pelo ônibus, vejo um carro se aproximando e escuto som de buzina, olho para os lados para ver se tinha mais alguém, mas aparentemente só eu estava ali, olho para o carro e vejo o Sub-editor acenando para mim. Me levanto e caminho até o carro, o vidro do passageiro se abre e eu me inclino para falar com ele.
— Sr. Park? O que faz aqui? — Pergunto, olhando ao redor para tentar encontrar uma justificativa.
— Esperava te encontrar aqui! Preciso que você chegue no trabalho mais cedo hoje, mas não daria tempo de te avisar, então vim te buscar. — Ele sorri e se inclina, esticando o braço para abrir a porta. — Entra aí. — Eu apenas concordo com a cabeça e entro no carro.
— Aconteceu alguma coisa? — Pergunto.
— Aconteceu sim, mas você vai descobrir quando chegar lá. — Ele tem um sorrisinho nos lábios, parece estar se sentindo vitorioso por algo, concordo com a cabeça e vou em silêncio até chegarmos no prédio da revista. Ele desce do carro rapidamente, enquanto tiro o cinto, e abre a porta para mim. — Me acompanhe, Srta. . — Diz ele, com um sorriso largo. Concordo com a cabeça e o acompanho até o elevador, ele aperta o botão do 8º andar e logo chegamos no andar da equipe editorial. Ainda não tinha ninguém lá, sinto um frio na espinha, pensando que talvez eu tenha falado demais no dia anterior e isso tenha custado meu pescoço, mas ele me buscaria para me demitir? E com aquele sorriso nos lábios? Ele aponta para a minha mesa antiga, e aponta para a atual ao lado da sala da Editora-chefe, subindo uma escada. — Limpe suas coisas lá de cima, te trouxe aqui antes que todos chegassem para que você tivesse tempo, mas você só tem alguns minutos.
— Então… eu… — Tento digerir a informação.
— Sim, você voltou ao seu lugar de chefe da equipe de moda. — Suspiro aliviada ao escutar a frase que saiu de sua boca, sinto meu coração acelerar.
— Tem certeza? Mas, e a editora chefe? — Pergunto, ele nega com a cabeça.
— Não se preocupe, cuidarei disso. Não é aceitável que uma funcionária competente fique de lado quando a revista precisa de ajuda. — Ele sorri e faz uma reverência, caminhando para sua sala. Olho ao redor e me apresso para arrumar tudo antes que a Editora-chefe chegue, coloco minhas coisa – que não eram muitas – em uma caixa organizadora e levo de volta para minha mesa antiga. Assim que desço, vejo meus colegas olhando para mim, as meninas da minha equipe já estavam em seus lugares, em mesas próximas à minha.
— Sunbaenim, você voltou? — Pergunta Han Yoo-na, que estava quebrando um galho para a equipe no meu lugar. Coloco a caixa sobre minha mesa.
— Parece que sim. — Sorrio, todos os meus colegas saem dos seus lugares para vir falar comigo. “Sério???” “Que notícia maravilhosa!!!” “Que bom que voltou!” eram falas que se repetiram por um longo tempo, olhei para a sala do Subeditor Park, e pude perceber que ele estava sorrindo, agradeceria a ele depois. A felicidade logo acabou quando a Editora-chefe entrou no local, com um sorriso nos lábios, que logo se desfez ao olhar para mim, arrumando minhas coisas.
— O que está fazendo, Cherie? — Pergunta ela, sem ao menos nos cumprimentar.
— Fui transferida de volta para a minha função. — Respondo, com um sorriso, e ela gargalha.
— E quem te transferiu, se eu sou a chefe? — Pergunta com sarcasmo.
— Eu. — A voz de Park Seo Joon ecoa pelo local, com seriedade.
— O senhor, subeditor Park? — Ela estava perplexa.
— Sim, e não quero que a troque de posição novamente, ela conquistou esse cargo por mérito próprio, e seria um desperdício manter uma funcionária tão competente como secretária, tenho certeza que encontrará uma secretária como quer, mas não mexa na minha equipe. — Todos ficam em silêncio e eu me sento em minha cadeira. — Gostaria de dar as boas vindas de volta à chefe da equipe de moda! — Todos sorriem animados. — Reunião de alinhamento em 20 minutos. — Diz ele, com seriedade, mas com um leve sorriso de canto. A editora-chefe caminha irritada atrás dele e nós podemos ver que os dois tiveram uma breve discussão, antes que as persianas se fechem.
Abro o material para a nova edição da revista e leio rapidamente, me preparando para a reunião. Discordo com praticamente tudo, mas não tenho muito tempo para mudar o arquivo até a reunião. Vejo o subeditor caminhando para a sala de reunião, e todos o acompanham, faço o mesmo. Mantenho meus olhos no arquivo da equipe de moda e realmente não posso julgar as meninas, até ontem elas eram estagiárias.
— Então, equipe de saúde? — Pergunta o subeditor, eu continuo focada no que apresentar para ele, então nem escuto as outras equipes apresentarem suas ideias, até que ele chama por mim. — Equipe de moda? — Olho para ele e suspiro. — Tudo bem se não tiver o que apresentar, entendemos que voltou hoje. — Nego com a cabeça.
— Na verdade, tem um arquivo extenso de ideias a serem apresentadas, mas eu discordo. Discordo das edições anteriores também. — Fecho o notebook e ele se inclina, prestando atenção no que tenho a dizer. — Falar de marcas como Chanel, Louis Vitton, Gucci… todos falam. Não que eu acredite que não podemos falar, mas para mim é mais do mesmo. — Ele concorda com a cabeça.
— Sim, concordo. — O Sr. Park faz um sinal com as mãos para que eu continue a falar.
— Os anos 2000 estão voltando com tudo, o estilo de roupa, as câmeras digitais e maquiagens. Talvez seja algo que possa ser feito junto com a equipe de beleza, pensei em falarmos de marcas sim, mas trazendo eras do estilo de cada uma, como inspiração. Poderíamos fazer as fotos com efeitos de câmeras digitais, e trazer tendências da época. — Concluo e ele assente.
— Eu gosto da ideia, considerando que foi uma ideia que acabou de ser pensada. Pode passar para o papel e se organizar com a equipe de beleza e de fotografia? — Concordo com a cabeça. — Ótimo, então tivemos uma ideia aprovada de 5, parabéns equipe, foi um número maior do que ontem. — Ele brinca. — Bom te ter de volta, Srta. , os demais, aguardo a reformulação das ideias. — Sr. Park se levanta e sai da sala, deixando todos com cara de enterro.
— Pelo menos uma ideia foi aprovada! , sinto que a sua volta vai mudar as coisas por aqui! Já me sinto até inspirado para criar uma nova ideia. — Brinca o Repórter Cha, fazendo os outros rirem.
— Bom, agora temos de volta a nossa dupla de piadas auto-depreciativas para ser um alívio cômico no fim do dia. — Disse a Srta. Han, chefe da equipe de beleza. Sorrio e me levanto, segurando o notebook e caminhando de volta para a minha mesa.
Ao longo do dia, dou a missão para a minha equipe de reunir os artigos, as fotos e tudo que precisaríamos para entregar a ideia para o subeditor até o final do dia. Todos vão embora às 20:00 e eu continuo na minha mesa, no escuro. Escuto passos na minha direção, mas mantenho o olhar fixo na tela do notebook.
— Você realmente pode me entregar isso até a próxima reunião. — Levanto meu olhar, enxergando o Sr. Park apoiado na beirada da minha mesa e sorrio, surpresa.
— Achei que todos já tinham ido embora. — Respondo e ele concorda com a cabeça.
— Você deveria ir, não é? — Dou um pulo na cadeira ao me tocar que passei o dia focada e hoje teríamos que comer comida de loja de conveniência de novo.
— Meu Deus, eu tinha que ir ao mercado comprar comida fresca. — Levanto depressa, desligo o notebook e pego meu casaco e minha bolsa.
— Calma. — Ele faz um gesto com as mãos tentando me tranquilizar. — Não vai encontrar nada aberto, só lojas de conveniência e restaurantes. — Ele segura o meu braço. — Improvisa algo hoje, mas se acalma.
— Estou com a despensa vazia. — Dou risada. — Não por falta de dinheiro, de tempo mesmo. Priorizo a alimentação do Yoon-jae, mas hoje era meu prazo para levar comida de verdade pra casa. — Pego meu celular, discando o número de Sung-hoon.
— Vamos. — Ele pega meu celular e me puxa pelo braço, em direção à saída.
— Para onde? — Pergunto, confusa. Entramos no elevador e ele tem um sorrisinho em seus lábios, o mesmo sorrisinho de mais cedo.
— O que seu irmão gosta de comer? — Ele pega o celular dele.
— A pergunta certa seria o que ele não gosta, mas acho que nem para essa teria resposta. — Brinco. — Por que?
— Vou levar o jantar de vocês hoje. — Ele sorri e eu me surpreendo.
— Não… não precisa, Sr. Park, já fez muito por mim. E eu nem tive tempo de agradecer, resolvi focar no arquivo das ideias como agradecimento por ter voltado ao trabalho, por favor, não faça isso. Nós não estamos com falta de comida, eu compro um tteokbokki no caminho e amanhã abasteço a despensa. — Insisto e ele nega com a cabeça.
— Não se preocupe com isso, por tentar me agradecer você acabou esquecendo de fazer compras, me sinto responsável por isso. Me deixe levar uma comida boa hoje, enquanto te dou uma carona para casa. — Ele é insistente, e eu fico morrendo de vergonha de parecer que estamos passando necessidade, quando eu apenas sou uma responsável descuidada. Acho que deixo transparecer demais. — Não precisa se sentir envergonhada, estou apenas sendo gentil. — Ele sorri e a porta do elevador se abre, o acompanho em silêncio. Caminhamos até o estacionamento e ele abre a porta do carro para mim. Entro no carro, coloco o cinto de segurança e me sento, ainda em silêncio, ele faz o mesmo e olha para mim.
— Por que está tão quieta? — Pergunta ele, dando partida no carro.
— Desde que nos encontramos na calçada eu tenho te dado trabalho, e você é meu chefe. — Sorrio amarelo e ele ri.
— Você não me deu trabalho algum! Acredite, é um prazer poder cuidar de você. — Sinto meu rosto queimar com o que ele diz e engulo seco, não estava esperando escutar algo assim.
— Bom… — Minha voz sai quase como um sussurro. — …junte-se a nós, pelo menos… digo, para jantar. — Ele sorri.
— E quem disse que eu já não iria fazer isso? — Estacionamos na frente de um restaurante chique. — Espere um minuto, vou buscar nosso pedido. — Fico esperando no carro, envio uma mensagem para Yoon-jae pedindo que arrume a casa e se prepare para receber visita. Logo o Sr. Park volta para o carro e se senta no banco do motorista, me entregando uma sacola grande de papel. — Acho que vai ser o suficiente. — Diz ele, colocando o cinto de segurança e dando partida no carro, espio com um olho só o que tem dentro da sacola e percebo que é mais do que suficiente.
Fico a maior parte do percurso em silêncio, até que ele resolve quebrar o gelo.
— Por que ficou até mais tarde trabalhando na proposta? Poderia ter feito isso amanhã e me entregue no final do expediente. — Nada no semblante dele me remete ao chefe implacável que todas as pessoas dizem que ele é.
— Bem… eu achei meio urgente, as últimas edições não estão muito boas e pensei em me empenhar para melhorar a parte de moda. — Sorrio, sentindo a sacola quente nas minhas coxas, ele inclina a cabeça de leve, logo voltando o olhar para o trânsito.
— Isso não está te queimando? — Pergunta, parando no semáforo.
— Ah, não… — Respondo, ele se inclina e pega um paletó no banco de trás.
— Dobra e coloca em cima das suas pernas. — Ele estende a mão e me entrega, eu pego o paletó e aceno com a cabeça.
— Obrigada. — Faço o que ele sugeriu e sorrio. Olho pela janela ainda me sentindo incomodada pela situação de ter meu chefe me fazendo tantos favores em um curto período de tempo. Não conseguia não me sentir desconfortável pela situação, e eu não entendia o motivo, mas ele parecia estar confortável até demais.
Logo chegamos na frente do meu prédio, ele estacionou em uma das vagas e nós descemos do carro. Meu prédio não é muito chique, fico um pouco constrangida por ele ter tanta classe. Subimos as escadas até o terceiro andar e eu destranco a fechadura eletrônica, a porta se abre emitindo um som de que a fechadura foi destrancada, e assim que a abro, me deparo com Yoon-jae de pé com os braços cruzados.
— Cheguei. — Digo, como de costume. Yoon-jae inclina a cabeça para observar Park Seo-joon atrás de mim, ele acena para meu irmão e sorri.
— Boa noite. — Fecho a porta atrás de nós, Yoon-jae desce o olhar para as sacolas de comida nas mãos do Sr. Park.
— Por que você trouxe comida? Você, por acaso, é o novo namorado da minha noona? — Me engasgo com a pergunta do meu irmão, enquanto o Sr. Park ri.
— Por minha causa, sua noona acabou esquecendo de ir ao mercado, então, quis compensá-la. — Explicou ele, levantando as sacolas. Yoon-jae cerrou os olhos.
— Então, você não vai casar com ela? — Senti meu rosto queimar, tendo a certeza de que estava vermelha, me aproximei de Yoon-jae e apertei seu braço.
— Por enquanto, não. — Brinca o Sr. Park, me viro rapidamente para ele, que logo cai na risada.
— Vamos comer antes que esfrie. — Mudo de assunto, deixando minha bolsa na mesa de centro e caminhando até a cozinha. — Yoon-jae, venha ajudar a arrumar a mesa. — Lavo minhas mãos e Yoon-jae guia o Sr. Park até a cozinha, me ajudando a arrumar a mesa. Encontrei uma garrafa de vinho que estava guardando para um momento especial e resolvi servir, era um momento especial, recuperei meu cargo e estávamos recebendo meu chefe na minha casa. Coloco duas taças e a garrafa de vinho ao lado dos pratos.
— Achei que estava guardando para um momento especial. — Yoon-jae arqueia uma sobrancelha, enquanto tira as comidas de dentro das sacolas, com a ajuda do Sr. Park.
— Considerando que estamos recebendo a pessoa que me devolveu meu emprego e é meu chefe, acho que é a ocasião ideal. — Respondo, com um sorriso nos lábios, o rosto de Yoon-jae se iluminou.
— Recuperou seu cargo? — Perguntou, empolgado, respondo que sim e sorrio, o Sr. Park também sorri. — Obrigado. — Ele se vira para o Sr. Park. — Como é mesmo seu nome?
— Park Seo-joon. — Responde, estendendo a mão para meu irmão, que a aperta.
— Obrigado, Seo-joon-ssi. — Meu irmão sorri e eu bato em sua cabeça.
— Não chame o Sr. Park pelo primeiro nome! — Resmungo.
— Na verdade, eu prefiro assim. Sr. Park é apenas no trabalho, da porta para fora me chame de Seo-joon. — Ele tinha uma expressão tão simpática em seu rosto que era quase impossível negar qualquer coisa para ele.
— Tudo bem, vou tentar. — Sorrio, colocando os talheres na mesa e me sentando. — Vamos comer.
— Vamos! — Os dois me respondem em coro.
Durante o jantar, Yoon-jae bombardeia Seo-joon com perguntas sobre a vida dele e ele parece se divertir respondendo. Yoon-jae expressa sua vontade de ser bem sucedido e pede conselhos ao Seo-joon, me fazendo sorrir. Bebemos algumas taças de vinho e não vemos a hora passar. Até que Yoon-jae começa a fazer algumas perguntas constrangedoras.
— Você ronca? — Perguntou ele, do nada.
— Na verdade, eu não sei! Ninguém nunca dormiu do meu lado para me dizer se ronco ou não. — Brincou ele.
— Hmmm. — Yoon-jae ficou pensativo por alguns segundos, enquanto eu bebia meu vinho. — Você já beijou minha noona? — A pergunta de Yoon-jae faz Seo-joon rir e faz com que eu me engasgue com o vinho, ficando impossibilitada de intervir. — Aish, noona, estamos tentando conversar aqui! — Yoon-jae ignora o fato de eu ter me engasgado e encara Seo-joon, aguardando uma resposta.
— Não, eu não beijei a sua noona. — Respondeu ele, bebendo mais um gole de vinho.
— Por que não beijou? — Assim que eu estava recuperando meu fôlego, ele disparou outra pergunta, me fazendo engasgar de novo. Yoon-jae estava se irritando com meu desconforto, enquanto Seo-joon ria e dava tapinhas de leve nas minhas costas. — Você vai dormir aqui, Seo-joon hyung? — Perguntou ele, olhando para o relógio. Me recomponho e olho a hora.
— É, está tarde. Você já deveria estar dormindo, por sinal, ao invés de estar falando tanta asneira. — Franzo o cenho e Yoon-jae dá de ombros.
— Mas meu hyung vai dormir aqui? — Ele repete a pergunta, dessa vez para mim, que fico sem resposta.
— É melhor eu ir, já está tarde. — Seo-joon pareceu ter percebido meu desconforto e começou a se levantar.
— Você bebeu umas quatro taças de vinho e já está bem tarde… — Yoon-jae levanta enquanto eu falo e caminha até a janela.
— Está chovendo muito lá fora. — Disse ele, olhando pela janela.
— É, durma aqui essa noite. — Sugiro e Seo-joon sorri. — Pela sua segurança, você bebeu e está chovendo muito, não é uma casa muito luxuosa, mas pelo menos estará seguro. — Ele mantém o sorriso enquanto eu falo e assente.
— Tudo bem, obrigado. — Responde ele e eu retribuo o sorriso.
— Yoon-jae, escove os dentes e já para a cama. — Me viro para meu irmão, que estava comemorando no canto da sala, e abaixa a cabeça no momento que eu falo com ele, me obedecendo.
— Boa noite, Seo-joon hyung. — Ele sorri e acena, entrando no quarto.
Volto até a cozinha para guardar as comidas que sobraram e lavar a louça.
— Pode ficar à vontade, eu só vou arrumar aqui e já arrumo um lugar para você dormir. — Digo, meio sem jeito.
— Ah, eu te ajudo! — Ele arregaça as mangas, me seguindo até a cozinha.
— Obrigada. — Respondo, colocando as sobras em potes e guardando na geladeira, enquanto ele se prepara para lavar a louça.
— Seu irmão é uma figura. — Disse ele, quebrando o silêncio.
— Ah, ele é sim. — Dou risada, fechando a geladeira e me aproximando da pia.
— São só vocês dois? — Pergunta ele e eu concordo com a cabeça, pegando um pano de prato para secar a louça. — Imagino que deva ser difícil.
— É terrível. — Confesso baixinho. — Quero dizer… — Enxugo um prato que ele me entrega. — … virei mãe de uma criança de 10 anos do dia para noite, saí do país que eu morava, e eu nem me refiro ao Brasil. A mudança para os Estados Unidos ainda estava sendo algo que eu estava aprendendo a lidar, mas mudar para cá foi totalmente diferente. — Percebo que ele me escuta atentamente e sorrio. — Desculpe.
— Não, pode falar, eu quero saber. Quero te conhecer. — Eu não sei explicar o motivo, mas o sorriso dele me fazia sentir confortável para falar sobre qualquer coisa.
— Eu nunca falei disso com ninguém, nem mesmo com o Sung-hoon, meu melhor amigo aqui. — Sorrio enquanto enxugo os pratos. — Mas tem momentos que eu sinto vontade de gritar, parece que eu não existo mais, só quem existe é a irmã que tem que cuidar bem do irmão e sustentar a casa. E na maior parte do tempo, eu estou falhando nisso. — Termino de secar os pratos e coloco no lugar, suspirando.
— Vem cá. — Ele estende a mão para mim e eu fico confusa, ele sacode a mão e eu seguro, ele me puxa pela mão e abre a porta do meu apartamento. Me guia pelas escadas e eu apenas acompanho, em silêncio e confusa. Chegamos ao terraço, a chuva caindo forte e as luzes da cidade iluminando nossos rostos, ele me puxa para a chuva e fecha os olhos, como se sentisse a água cair sobre o seu corpo. — Pronto, pode gritar. — Me surpreendo com o que ele diz, ele acena com a cabeça como se me dissesse para fazer isso. Sinto a água gelada da chuva em meu corpo e fecho meus olhos também, encho meu pulmão de ar e solto um grito que estava guardado por muito tempo. Sinto como se meu corpo estivesse um pouco mais leve e Seo-joon grita também.
— Obrigada. — Sorrio e ele retribui o sorriso.
— Não precisa agradecer, eu sei o quanto a pressão pode nos sufocar às vezes. — Ele se aproxima de mim e escova uma mecha do meu cabelo para trás da minha orelha. — Parece que os seus olhos brilham mais do que todas as luzes de Seul. — Disse, com um sorriso. Sinto meu rosto queimar e meu coração palpitar por alguns segundos, e dou um passo para trás, sem perceber. Olho para seu rosto por um momento e um silêncio toma conta do lugar, ele permanece com os olhos fixos em mim, até que um relâmpago ilumina o céu e um barulho de trovão interrompe o silêncio.
— Acho melhor entrarmos. — Digo e ele assente, abrindo a porta para mim. Descemos as escadas rapidamente, com frio, e entramos no meu apartamento, encharcados.
— Não pensei nas consequências. — Disse ele, olhando para as roupas molhadas e rindo, me fazendo rir também.
— Vou pegar algo de Yoon-jae para você, ele está na fase de usar roupas maiores do que o tamanho dele. — Respondo. Vou até o banheiro e pego uma toalha limpa. — Aqui. — Estendo a mão e entrego para ele, me enrolo em uma toalha e entro no quarto de Yoon-jae, que já estava dormindo. As únicas roupas que encontro do tamanho de Seo-joon é um pijama do homem de ferro. Chego na sala e entrego à ele. — Desculpe, mas não acho que tenha mais nada que caiba em você. — Seguro a risada, enquanto ele examina.
— Acho que vou ficar bem estiloso, obrigado. — Ele tira a camisa molhada e eu me perco por alguns segundos, não havia percebido que seu corpo era definido. Ele me entrega a camisa e eu desperto dos meus pensamentos. — Pode colocar para secar? — Eu concordo com a cabeça.
— Tome um banho e se troque, vou preparar um lugar para você no meu quarto. — Sorrio.
— Eu posso dormir no sofá. — Nós dois olhamos para o sofá ao mesmo tempo, onde mal cabiam duas pessoas.
— Não se preocupe, durma comigo… — Sua expressão se torna de surpresa. — …quero dizer, no meu quarto. Tenho um colchão, eu durmo nele e você dorme na cama.
— Não, eu durmo no colchão, isso eu não vou aceitar. — Ele cruza os braços, os cabelos molhados e seu abdômen exposto me faziam querer encerrar a conversa rapidamente.
— Tudo bem, tome um banho antes que se resfrie. Vou tomar o meu no banheiro de Yoon-jae. — Me viro de costas e caminho para o quarto do meu irmão, sem olhar para trás. Tomo um banho morno e me troco, colocando um pijama de botão, calça e blusa de manga. Saio do banho e vejo Seo-joon sentado no sofá com um pijama do homem de ferro, me seguro para não rir e ele solta uma gargalhada no momento em que olha para mim.
— Pode rir, eu deixo. — Diz ele, eu nego com a cabeça.
— Vem, vamos dormir. — Respondo, abrindo a porta do quarto e ainda segurando o riso. Puxo o colchão que estava embaixo da cama e coloco lençóis novos, com coberta e pego um travesseiro no meu armário, Seo-joon se senta na minha cama observando enquanto eu troco a fronha e coloco o travesseiro em cima do colchão.
— Obrigado por me deixar ficar… — Ele se levanta e caminha até o colchão, sentando-se. — …e principalmente, por confiar em mim. — As palavras dele me deixam sem resposta, eu me deito na minha cama e me cubro com a coberta.
— Boa noite. — Sorrio, sem saber como responder o que ele disse.
— Boa noite. — Responde ele, com um sorriso. Me viro de costas para ele, sentindo meu rosto arder e meu coração bater mais forte. Não. Não posso gostar do meu chefe.

Capítulo 3 – Isso realmente está acontecendo?

Park Seo-joon


Acordo pela manhã com as costas doendo e a claridade externa invadindo o quarto, escuto vozes vindo da sala e me levanto, percebo que já havia levantado, então caminho até a sala para ver o que está acontecendo. Quando chego no local, percebo Yoon-jae e discutindo sobre algo.
— Bom dia! — Digo, ainda sonolento.
— Bom dia. — Os dois dizem em coro, se virando para mim. Yoon-jae solta uma gargalhada e eu me lembro do pijama do Homem de ferro que estou vestindo.
— Hyung, esse pijama é meu, mas ficou mais bonito em você — Brinca Yoon-jae. olha para ele, uma expressão séria.
— Não desvie o assunto. — Ela cruza os braços e o encara.
— O que aconteceu? — Pergunto, me aproximando.
— Recebi uma ligação da diretora da escola dele me dizendo que ele está se vestindo inadequadamente para a aula, sendo que ele sai daqui de uniforme. — bufa, batendo os dedos nos braços, que ainda estão cruzados.
— Não sei que necessidade é essa de usar uniforme. — Yoon-jae retruca.
— Regras são regras. — Respondo, os dois se viram para mim ao mesmo tempo. — Você me disse que queria se tornar alguém bem sucedido, acha que quebrar as regras vai te levar para esse caminho? — Yoon-jae engole seco com a minha pergunta. — Deveria escutar a sua irmã. — parece surpresa, os braços que antes estavam cruzados, estavam na cintura. Como se esperasse uma resposta do irmão.
— Sinto muito. — Ele abaixou a cabeça e o rosto de se torna cada vez mais surpreso. — Não vou quebrar as regras.
— Quando isso ficou tão fácil? — Perguntou ela, parecendo meio incrédula com o modo que seu irmão se rendeu tão facilmente. A campainha toca e Yoon-jae levanta a cabeça.
— Deve ser o Sung-hoon hyung. — Diz ele, ficando animado. Por um momento ele olha para mim e para a porta. — Aish, decisão difícil.
caminha até a porta, olha pelo olho mágico e destranca a fechadura, dando espaço para o homem entrar.
— Bom dia, Sung-hoon oppa. — Diz ela, seu rosto se iluminando. Oppa. Oppa? Sinto meu rosto queimar pela simples menção à palavra oppa. Sendo direcionada para outro homem.
— Bom dia! — Ele sorri ao entrar na casa, mas seu rosto se fecha ao olhar para mim. — O que ele está fazendo aqui? — Ele pergunta diretamente, sem rodeios, com a expressão fechada.
— Ah, esse é o Sr… Park Seo-joon, ele trabalha comigo. — Explica , eu me levanto para cumprimentar Sung-hoon e ele arqueia uma sobrancelha.
— Homem de ferro? Pensei que só o Yoon-jae gostasse disso. — Seu tom de voz soa sarcástico e ele não faz menção à apertar minha mão, então me endireito, observo caminhando para cozinha ainda de pijama e Yoon-jae rindo.
— Eu tenho um gosto bem extenso. — Respondo sarcasticamente. — Mas o pijama é o Yoon-jae, ele me emprestou para passar a noite aqui. — Sorrio e o rosto de Sung-hoon parece se enfurecer.
— Dormiu aqui? — Sung-hoon cruza os braços.
— Sim, mas ele dormiu no quarto da minha noona… — Yoon-jae tenta explicar, mas Sung-hoon interrompe.
— O que?! — Ele se vira na direção da cozinha e caminha até , puxando-a pelo braço. Ameaço a ir até lá, mas Yoon-jae segura meu braço.
— Não se preocupe, minha noona só vê o Sung-hoon hyung como amigo. — Ele acena com a cabeça, me assegurando disso. Me puxa para um cantinho na sala onde conseguimos ouvir a conversa dos dois.
— Podemos conversar? — Sung-hoon pergunta enquanto prepara o café.
— Pode falar. — Responde ela, tranquilamente.
— Por que esse cara está dormindo na sua casa? — O tom de voz dele é de irritação.
— Não é da sua conta. — retruca, tranquilamente.
— Você realmente acha certo que esse homem durma na sua casa? Com seu irmão aqui? O que seu irmão vai pensar? — Ele insiste.
— Na verdade, o Yoon-jae se deu muito bem com ele. E eu já disse, não é da sua conta. — Dou uma risadinha ao perceber a tranquilidade que lida com Sung-hoon, escuto ele bufando.
— Achei que a gente se entendia. — A voz dele se torna baixa.
— Mas a gente se entende, só que isso não significa que você possa se meter na minha vida. — O silêncio permanece por alguns segundos e escuto passos para a sala. Disfarço caminhando até o banheiro.
— Seo-joon! — Escuto a voz de e me viro para ela, sorrindo. — Venha tomar café, vou pegar suas roupas para você. Já estão secas. — Ela sorri, prendendo o cabelo, fico em silêncio e observo cada detalhe dela, como se ela estivesse em câmera lenta. Volto à realidade quando escuto Sung-hoon pigarreando e faço uma careta.
— Tudo bem. — Sorrio e caminho para a mesa, ela serve o café da manhã e percebo que Sung-hoon arruma alguns mantimentos na cozinha. — Você quer ajuda? — Pergunto à .
— Não precisa, você nos ajudou muito ontem! — Ela sorri, colocando uma porção de arroz para mim. — Coma à vontade.
— Obrigado. — Pego os hashis e como uma porção de arroz.
— Eu comprei algumas coisas a mais. — Diz Sung-hoon. — Tem certeza que consegue ir no mercado hoje? — assente.
— Vou passar no mercado antes do trabalho, agora não preciso entrar tão cedo. — Ela sorri e se senta na mesa.
— Verdade, hyung! O Seo-joon hyung devolveu o cargo da noona! — Yoon-jae fala com a boca cheia e Sung-hoon olha para mim.
— Você devolveu o cargo dela? — Eu concordo com a cabeça e ele franze o cenho, enquanto mastigo. — Então, você é chefe dela? Por acaso está se aproveitando disso para algo mais? — Sung-hoon aumenta o tom de voz e estende a mão, o interrompendo com os hashis, sem dizer nenhuma palavra, ela faz com que Sung-hoon abaixe a cabeça. — Desculpe, obrigado por isso. — Ele volta a comer.
— Você quer carona? — Pergunto à , desviando o assunto.
— Seria bom, você pode me deixar em um mercado e eu vou de lá para a revista. — Ela sorri, me fazendo sorrir também. É impossível não sorrir vendo o sorriso dela, e por mais que exista algo que me segure para trás, parece que tem algo muito mais forte me empurrando na direção dela. E a cada sorriso, eu sinto isso se tornando mais forte. Percebo que fiquei encarando por muito tempo e volto a comer.
Depois de tomar café da manhã, vou até o banheiro e uso uma escova de dentes nova que Yoon-jae me dá, dizendo que vai deixar guardada para uma próxima vez. Troco de roupa e observo conferindo a mochila de Yoon-jae e colocando um lanche, Sung-hoon apoiado na parede e olhando com um sorrisinho nos lábios. Ele definitivamente estava afim dela, e isso me incomodava muito. Me sento no sofá e me despeço de Yoon-jae que sai com Sung-hoon, enquanto aguardo se arrumar. Em alguns minutos ela aparece na sala, um terninho preto, cabelos soltos e maquiagem suave. Sinto meu coração palpitar e sorrio.
— Vamos? — Pergunta ela, com um sorriso. Respondo que sim em um aceno e me levanto, pegando minhas chaves. Caminho na frente dela e abro a porta para que ela saia, ela mantém aquele sorriso lindo no rosto, e eu não consigo evitar de sorrir também. Ao fechar a porta, a fechadura emite um som notificando que trancou. Descemos as escadas e chegamos até o meu carro, molhado e com muitas folhas em cima.
— Aish… — Resmungo baixinho, me aproximando.
— Desculpe, não temos uma garagem decente nesse prédio. — Brinca ela, e eu sorrio.
— Não se preocupe. — Abro a porta do carro para que ela entre, logo em seguida vou até o lado do motorista e entro no carro, colocando o cinto de segurança.
— É… — A voz de é baixa, mas consigo escutar claramente. — Obrigada. — Seu tom se torna um pouco mais alto e um sorriso largo toma conta do seu rosto, que se ilumina. — Por ontem, por hoje, por tudo. Não entendo muito bem o motivo, mas sou grata por tudo que têm feito por mim. — Aperto o volante, minha vontade é dizer que nem eu mesmo entendo muito bem o motivo, mas sinto essa vontade de cuidar dela, de estar por perto e me sinto feliz de vê-la feliz. Mas não digo, apenas sorrio e aceno com a cabeça para não parecer um maluco. Dou partida no carro.
— Não precisa agradecer, fico feliz em ajudar. — Ela sorri e se encolhe um pouco no canto do carro, como se quisesse dizer algo, mas estivesse com vergonha. Fico em silêncio para que ela diga, mas somos tomados por um silêncio profundo.
Passamos a maior parte do caminho em silêncio e eu continuo com a sensação de que quer me dizer algo, mas ela apenas olha pela janela, como se estivesse pensativa. Chegamos próximos à empresa e ela aponta para um mercado em uma esquina.
— Pode me deixar aqui, eu vou comprar algumas coisas e o Sung-hoon vai passar para buscar. — Ela solta o cinto de seguranças, a ideia de Sung-hoon ajudá-la sempre me incomoda, apesar de saber que é bom para ela.
— Me liga quando terminar, eu mesmo levo para você. — Sugiro e ela nega com a cabeça.
— Eu sou muito grata por toda a ajuda, mas consigo me virar daqui. Você já fez demais. — Eu estaciono o carro e ela faz menção a abrir a porta, mas eu seguro seu braço.
— Espera. — Digo, um tom de voz firme e decidido.
— Sim? — Vejo seus olhos brilharem e me desmonto completamente, esquecendo o que iria dizer. — O que foi? Por que me segurou? — Ela olha para mim como se tivesse esperança de escutar algo, mas eu solto seu braço. — Não… não me afaste. — Meu tom de voz sai mais baixo do que o normal. — Não vou. — Ela sorri. — Não vou me esquecer do que fez por nós, obrigada. — Completa, saindo do carro. Fico observando-a andando pela calçada e me arrependo de não ter dito tudo que pensei em dizer, mas me pergunto se seria realmente apropriado, se não estou agindo muito por impulso e se não estou assustando-a, então decido dar espaço para ela. Meu celular toca, a editora-chefe solicitando minha presença imediata na revista. Ligo o carro e dirijo rapidamente para a revista.
Sequer percebo a hora passar após a reunião mais estressante da minha semana, a revista correndo risco de fechar a qualquer momento e eu nem tive tempo de ir em casa me trocar. Estou na minha sala analisando uma papelada quando olho ao redor e percebo que todos já estão em seus lugares trabalhando. A proposta da equipe de moda está sob a minha mesa e eu nem percebi quem a deixou lá, olho para a capa e seguro firme na minha mão. Me levanto e vou até a mesa de , que está com o olhar fixo na tela do computador. Na medida que caminho até ela, percebo todos me olhando estranho.
— Bom dia. — Digo ao lado dela, que vira o rosto para mim e sorri.
— Bom dia, Sr. Park, posso ajudar? — Responde ela.
— Você deixou a proposta na minha mesa? — Pergunto, ela arqueia uma sobrancelha.
— Foi a Yoo-na, por que? Algum problema? — Ela se vira totalmente para mim, rodando a cadeira.
— Não, nenhum. — Suspiro. — Vou analisar. — Completo e me viro, voltando para a minha sala. Logo em seguida a porta se abre e o repórter Cha entra.
— Sr. Park… — Ele me olha de cima à baixo. — Por que está com a mesma roupa de ontem? — Pergunta, cerrando os olhos e cruzando os braços.
— Eu… bem… — Me atrapalho um pouco para responder.
— Tem a ver com o fato da estar saindo do seu carro hoje cedo? — Pergunta ele, me fazendo dar um pulo de susto com a pergunta.
— O que… — Ele me interrompe.
— Sem querer me meter, Sr. Park, mas vai entrar nessa briga com o Sung-hoon? — O repórter inclina a cabeça, olhando para mim.
— Você conhece o Sung-hoon? — Fico curioso com o nome de Sung-hoon sendo mencionado.
— E quem não conhece? Vive de um lado para o outro tentando conquistar ela, mas nunca funcionou. — Ele se joga na poltrona da minha sala, como se estivesse à vontade. Pego o controle e fecho as persianas, me sentando na minha cadeira.
— Me conta tudo o que sabe. — Fico sério, ele sorri e começa e me contar sobre todas as vezes que se encontrou com Sung-hoon desde que começou a trabalhar na revista, sobre como ele é insistente e nunca sai do lado dela. Ele diz que acredita que ela veja como uma grande amizade, mas que para ele seja mais do que isso, e eu concordo. Por um momento, esqueço de todas as preocupações do trabalho e me preocupo apenas com uma coisa: ela. Mas isso desaparece quando a lembrança da revista correr risco de fechar volta, peço que o repórter Cha saia e volto o olhar para a papelada.
Não sei quanto tempo fiquei na minha sala, só percebi que o tempo havia passado quando minha barriga roncou. Abri as persianas e todos estavam em suas mesas, indicando que já haviam almoçado. Ouço batidas na minha porta, que logo se abre, não consigo evitar sorrir quando vejo entrando com uma sacola na mão.
— Oi, Sr. Park. — Ela sorri. — Nós todos saímos para almoçar, mas como suas persianas estavam fechadas não quisemos incomodar, mas eu trouxe um pouco de tteokbokki para o senhor. — Ela deixa a sacola na minha mesa e se afasta, fazendo uma reverência.
— Obrigado. — Respondo, soltando um suspiro. Ela sai da sala sem olhar para trás e volta para sua mesa, vejo que ela está tão focada quanto eu, sem nem saber da crise que a revista enfrenta. Depois de tudo que ela passou para recuperar seu cargo, não era justo que isso acontecesse com ela logo agora, na verdade, com nenhum deles. Fecho as persianas e como o tteokbokki enquanto vejo alguns slides com estatísticas de outras revistas. Termino de comer e decido parar um pouco para respirar, saio do escritório sem olhar ao redor e entro no elevador, subo até o terraço e abro a porta, vou até a beirada do prédio e olho para baixo.
— Não está pensando em pular, está? — Reconheço a voz de e olho para trás, ela está sentada em uma cadeira, com um tablet na mão e uma xícara em uma mesinha. Sorrio com sua pergunta.
— Não. — Respondo enquanto caminho até ela.
— Aconteceu alguma coisa, não aconteceu? — Ela inclina a cabeça, seus cabelos caindo sobre os ombros.
— Sempre acontece. — Puxo uma cadeira e me sento ao lado dela. — Mas eu já sabia que seria assim quando aceitei o cargo, a pressão só aumenta e eu tenho que cuidar de todos. — Sorrio com os lábios, tentando minimizar o que disse e ela assente.
— Sei como é. — Ela bebe um gole do café. — Mas quem cuida de você? Passou o dia apenas com aquele café da manhã, não sentiu fome? — Solto um riso fraco e nego com a cabeça.
— Na verdade, fico bem sem comer. — Sorrio, ela cerra os olhos.
— Precisa se cuidar se quiser evitar que a revista feche. — Penso em responder, mas percebo o que ela acabou de dizer, olho para ela surpreso e ela assente. — Eu era secretária da editora-chefe, recebi o mesmo e-mail que ela pela manhã. Não se preocupe, se você não contar, eu não conto. — Ela sorri de modo que me conforta, me sinto um pouco aliviado por poder dividir a pressão com alguém e suspiro.
— Por isso parecia tão focada? Poderia estar procurando outro emprego. — Pergunto.
— Aguentei tanta coisa aqui, certamente consigo outro emprego no pior dos casos, mas eu mereci esse cargo e trabalhei muito para conquistá-lo. Ficarei até o final. — Ela sorri e mostra seu tablet para mim. — Pensei em colocarmos algo sobre o dia dos namorados na revista, já que é amanhã. A edição vai sair no final de semana, poderíamos fazer algo temático, não sei. — Analiso o arquivo com recortes no tablet dela e concordo com a cabeça.
— Podemos discutir sobre isso em uma reunião amanhã, mas vou enviar um e-mail para que já preparem as propostas. — Sorrio. — Obrigado, de certa forma, você aliviou meu fardo.
— Não tem que ser um fardo. — Ela sorri. — Encare como um desafio na sua carreira, mas se eventualmente não der para evitar que se torne um fardo, pode dividir comigo.
— Você já tem muitos fardos para carregar. — Seguro sua mão que estava sobre a mesa.
— Alguns diminuíram, graças a você! Então, não vejo problemas em dividir unzinho com você. — Ela sorri e aperta minha mão, meu coração parece se inchar de um sentimento desconhecido, é difícil de descrever, mas é algo bom. Algo que eu nunca havia sentido.
— Você… — Olho em seus olhos por um momento, analiso cada detalhe do seu rosto e sorrio, admirando sua beleza. — Você é muito especial. — Percebo o rosto dela corando, meu coração batendo cada vez mais forte. Isso realmente está acontecendo? Eu… realmente gosto dela?

Capítulo 4 — O dia em que nossas vidas mudaram (de repente).

Narrador:


Existem momentos na nossa vida que viram uma chave que muda tudo, da noite para o dia. Naquela manhã de dia dos namorados, acordou como de costume e preparou o café, o lanche de Yoon-jae e se arrumou para o trabalho. Pegou o ônibus, chegou na revista, cumprimentou todos e foi trabalhar. Do outro lado, Seo-joon já havia chegado na empresa desde cedo, saiu apenas com um copo de café americano no estômago e observou todos chegando na sua sala. Esperou por e sorriu ao vê-la chegar, de longe, imaginando que naquele momento ela era a única coisa que o fazia sorrir. O horário da reunião foi marcado e todos estavam na sala de Seo-joon, que estava visivelmente abatido. Durante a reunião, o assunto da edição especial de dia dos namorados foi debatido entre eles, algumas ideias foram aprovadas e outras precisavam de ajustes, mas o tema foi definido: amor verdadeiro. Todos começaram a pesquisar sem parar de acordo com suas respectivas equipes, Seo-joon observava e de certa forma sua dedicação trazia conforto ao seu coração. Ele abriu o calendário e encarou a data do dia por alguns segundos, se dando conta que era dia dos namorados. Decidiu que iria convidá-la para um encontro no horário do almoço.
Quando saiu da sua sala, procurou por ela e não a encontrou, resolveu ir até o terraço e a encontrou lá, sentada na mesma mesa do dia anterior, um tablet nas mãos e um pote de lámen na mesa.
— Por que está almoçando aqui? — Perguntou ele, se aproximando dela, que levantou a cabeça para olhar para ele.
— Ah… — Ela sorriu para ele. — …estava trabalhando nisso, e a copa estava meio barulhenta. — Explicou, Seo-joon puxou uma cadeira e sentou-se ao lado dela.
— Você pode parar para comer. — Ele cerrou os olhos e ela franziu o cenho.
— Você também! Parece que não tocou em comida nenhuma o dia todo, está abatido. — Ela pega um pouco de lámen com os hashis.
— Na verdade, só tomei um expresso… — Antes que ele termine de falar, ela coloca o lámen na boca dele. — Ei! — Disse ele, com a boca cheia e ela riu.
— Coma um pouco, vai desmaiar desse jeito! — Os dois riem juntos e o celular dela toca. — Alô? — Disse ao atender, sua expressão sorridente de repente se fechou, Seo-joon sabia que algo estava acontecendo. Suas mãos ficaram trêmulas e o seu celular caiu no chão.
— O que foi? — Perguntou ele, preocupado, enquanto se abaixava para pegar o celular.
— O Yoon-jae… — A voz de saiu trêmula, Seo-joon se levantou e segurou as mãos dela. — …sofreu um acidente… o ônibus escolar… — Parecia que ela estava perdendo o ar, então, Seo-joon se aproximou dela e a abraçou.
— Tudo bem, estou com você. Foi do hospital? Em qual ele está? — enterrou a cabeça no peito de Seo-joon, tentando buscar algum conforto que a fizesse manter a calma nessa situação.
— O central de Seul. — As palavras saíram da sua boca quase como em um sussurro, Seo-joon se afastou e a conduziu para o elevador, ele parou no andar do escritório e pegou a bolsa dela, voltando para o elevador e descendo até a garagem. sentia que as forças de sua perna estavam desaparecendo, Seo-joon a segurava firme na medida em que percebia sua dificuldade para andar. A colocou dentro do carro, ela parecia não saber o que estava fazendo, como se tentasse processar a notícia. Ele deu partida no carro e dirigiu rapidamente para o hospital.
Ao chegar no hospital, Sung-hoon já estava lá. correu na direção dele, que sem dizer nada apenas a guiou até a cama que Yoon-jae estava deitado. Seo-joon observou de longe a interação de Sung-hoon com e se perguntou se realmente deveria estar ali, se os seus sentimentos por ela realmente fariam valer a pena intervir entre ela e Sung-hoon. Ele viu o momento em que o médico se aproximou, falou algo com e ela desabou, puxando Sung-hoon pela camisa. No momento em que pensou em ir embora, Sung-hoon olhou para ele como se pedisse ajuda, e ele entendeu.
… — Seo-joon se aproximou dela e apoiou a mão em seu ombro, ela afundou a cabeça em seu peito enquanto afundava em lágrimas. — O que aconteceu? — Ele olhou para Sung-hoon, que não conseguia esconder a tristeza que sentia.
— O Yoon-jae precisa fazer uma cirurgia, o seguro só cobre uma parte dos gastos e o valor é muito alto. — Explicou ele, dando um passo para trás como se esperasse que fizesse algo, mas ela não fez.
— Qual é o valor? Talvez eu possa ajudar! — Seo-joon mordeu o lábio inferior, em um ato de preocupação.
— ₩300 milhões de wons! — Sung-hoon suspira. — Mas o médico disse que estamos correndo contra o tempo, nem se eu e ela pegássemos empréstimos daria certo, nenhum banco liberaria um valor tão alto para nós dois. — Seo-joon pega o celular no bolso e liga para o banco, faz sinal para que Sung-hoon aguarde um momento e se afasta deles. Sung-hoon abraça , sabendo exatamente o que sugerir para resolver essa situação, mas seus sentimentos por ela parecem segurá-lo.
— Mesmo vendendo parte das ações, não conseguiríamos liquidez em tempo hábil. — Seo-joon suspira, enquanto se aproxima e bagunça o próprio cabelo.
, sente-se um pouco ao lado de Yoon-jae… — Sung-hoon acomodou em uma cadeira, as lágrimas não paravam de escorrer pelo seu rosto e suas mãos tremiam muito, ele sinaliza para que Seo-joon o acompanhe e os dois se afastam de . — Você é rico, não é? — Seo-joon arqueia uma sobrancelha com a pergunta de Sung-hoon.
— Sim, por que? — Ele cruzou os braços e Sung-hoon suspirou.
— Deve ter um bom seguro. — Sung-hoon murmura.
— Sim, o melhor… — Seo-joon percebe onde Sung-hoon queria chegar. — Está sugerindo…
— Estou sugerindo, implorando, contra tudo que eu sinto, deve ter um motivo para você ter entrado na vida dela, e talvez seja isso. Salve o Yoon-jae, salve a , eles só tem um ao outro. — Os olhos de Sung-hoon brilhavam com lágrimas não derramadas.
— Mas… — Seo-joon afrouxou a gravata e bagunçou o cabelo. — Ela concordaria? — Ela vai fazer qualquer coisa para salvar o irmão, você faria isso? — Sung-hoon juntou as mãos, como se estivesse implorando.
— Eu faria qualquer coisa por ela. — Seo-joon sussurrou, alto o suficiente para que Sung-hoon escutasse. Ele ia contra todos os seus sentimentos entregando de bandeja para Seo-joon, mas nada o faria sofrer mais do que vê-la perdendo mais alguém. Os dois caminharam juntos até , que estava com a cabeça deitada sobre a cama de Yoon-jae.
— Você vai se casar com o Seo-joon. — A voz de Sung-hoon fez com que levantasse a cabeça, se perguntando se havia escutado certo.
— O que disse? — As lágrimas haviam parado de cair, mas seus olhos estavam vermelhos, seu rosto inchado e molhado.
— Meu seguro é bom, se não cobrir tudo, vai cobrir a maior parte dos custos e vai ser menos dinheiro para pagar. — Explicou Seo-joon.
— Eu não… não posso aceitar isso. — Ela ficou de pé. — Vou dar um jeito! Pedir emprestado, se eu me demitir hoje consigo uma rescisão boa… — Seo-joon a interrompe.
— Não precisa disso, e nós estamos correndo contra o tempo, eu quero te ajudar. — O sorriso gentil de Seo-joon aquecia o coração de , mas ela não achava que aquilo era justo com ele.
— Mas… Não é certo… Com você. — Ela estava em um conflito interno naquele momento, queria salvar o irmão a todo custo, mas não queria que precisasse sacrificar a felicidade de outra pessoa.
— Eu quero fazer isso. — Ele acariciou a bochecha dela. — Me deixe te ajudar. — bagunçou o próprio cabelo.
— Mas não vai ser fraude de seguro? Vão desconfiar! — Por um momento ela voltou a ser racional, considerando mesmo aquilo como uma ideia, Sung-hoon negou com a cabeça.
— No começo, sim. Podem até visitar a sua casa, mas vamos arrumar tudo depois da cirurgia, agora precisamos ir ao cartório mais próximo. Hoje é dia dos namorados, não vai ter tanta burocracia para casar. — Sung-hoon vestiu seu casaco e puxou Seo-joon pelo braço.
— Você tem certeza? — Os olhos dela brilhavam com as lágrimas não derramadas, o que fez Seo-joon ter mais certeza ainda. Ele queria dizer em voz alta que faria qualquer coisa por ela, mas apenas assentiu e segurou a mão dela.
Os três foram no carro de Seo-joon, ele dirigiu o mais rápido que podia. Em um dos semáforos que parou, ele olhou para o lado e enxergou uma loja com manequins em uma vitrine. Encostou o carro e desceu, sem dizer uma palavra, e Sung-hoon se entreolharam e observaram enquanto ele foi até a loja. Não demorou muito para que voltasse com uma sacola na mão e entregasse à , que estava no banco de trás. Ele entrou no carro e colocou o cinto de segurança.
— O que foi isso? — Sung-hoon perguntou, olhando para e para Seo-joon. Seo-joon deu partida e seguiu em silêncio, enquanto abria a sacola e olhava o conteúdo, Seo-joon tinha um sorrisinho no canto dos lábios e Sung-hoon franziu o cenho.
— Um… — ficou em silêncio e tirou o vestido da sacola. — …um vestido branco?
— Achei que você merecia pelo menos isso. — Seo-joon manteve o olhar fixo no trânsito e Sung-hoon sorriu de lado, olhou para Seo-joon com tristeza, mas sentindo-se grato pelo cuidado que Seo-joon demonstrou.
Eles estacionaram no lugar indicado por Sung-hoon, os três entraram juntos no cartório, e foi se trocar. Seo-joon foi na frente para adiantar as coisas e Sung-hoon esperou por ela. No momento em que ela saiu do banheiro, com aquele vestido branco de uma loja de grife qualquer, os olhos de Sung-hoon brilharam de emoção.
— O que foi? — Perguntou ela, meio sem jeito.
— Você… está linda. — Sung-hoon não conseguia controlar os próprios sentimentos ao vê-la assim, ele tinha vontade de abraçá-la e levá-la para longe, para o casamento incrível que ela merecia. Mas ele se recompôs, aquele era o casamento que ela .
— Obrigada. — sorriu, meio sem jeito. Seo-joon se aproximou e a encarou por alguns segundos, sem dizer uma única palavra. — E então?
— Você está… — Seo-joon suspirou, não conseguia colocar um elogio em palavras, porque não existiam palavras que pudessem descrever o quanto ela é linda. Mas, ao vê-la naquele vestido, simples e um pouco apertado para ela, ele se sentiu triste. Sentiu que ela merecia mais, sentiu que tudo estava errado, aquele jamais poderia ser o casamento deles, mas era.
— Não, sobre o casamento… — Murmurou ela.
— Ah, verdade! Tem um juíz realizando casamentos de última hora por causa do dia dos namorados, o Sung-hoon estava certo.
Caminharam até uma sala pequena, com algumas decorações colocadas de qualquer jeito, do dia dos namorados. Flores artificiais, com as cores desbotando, sentindo o vestido apertando seus ombros, sentindo-se deslocada dentro dele, como se não pertencesse à ela. Seo-joon ajeitou seu colarinho e Sung-hoon se posicionou atrás deles, o juiz chegou na sala com uns papéis em mãos, e os documentos de Seo-joon e , que haviam sido entregues por ele quando chegaram. O juiz conferiu se os dados estavam certos e posicionou o papel sobre a mesa. O juiz olhou para eles com cansaço. Era o quinto casamento daquele dia, a data do Dia dos Namorados sempre lotava o cartório.
— Park Seo-joon e , estão aqui por vontade própria? — Perguntou o juiz, sem cerimônia. Ela hesitou. Por um segundo, olhou para Seo-joon. Ele não hesitou.
— Sim. — Respondeu ele.
— Sim. — Respondeu ela logo depois, com a voz um pouco embargada.
O juiz continuou com a leitura formal, enquanto os dois mal escutavam as palavras. “Na saúde e na doença”, “em todos os bens e responsabilidades legais”. sentiu o peso de cada sílaba, como se assinasse um contrato invisível com a própria vida.
— Podem assinar aqui. — Disse o juiz, deslizando os papéis pela mesa. Os dois se inclinaram e assinaram o papel, um de cada vez. — Testemunha?
— Eu. — Sung-hoon se aproximou e assinou no local indicado pelo juiz. Minutos depois, uma funcionária chegou ao local com a certidão de casamento.
— A partir de agora, estão legalmente casados. — Declarou o juiz, sem emoção. — Podem se retirar. — Ninguém se mexeu, por um momento, buscava algum conforto em Sung-hoon, que encarava os próprios pés. Seus olhos se encontraram com os de Seo-joon, que ofereciam para ela todo conforto que ela sentia que precisava naquele momento, aquele olhar gentil que ele sempre tinha. E naquele momento, ela percebeu que era com ele que ela poderia contar agora, independente de ser mentira ou não, ele era seu marido e estava fazendo aquele sacrifício por ela. Seo-joon segurou a mão dela e olhou em seus olhos.
— Vamos? — Perguntou ele, sua voz firme e serena, assentiu e os dois saíram da sala. Sung-hoon permaneceu lá dentro por um tempo, deixando que os dois fossem na frente, observou Seo-joon conduzindo para fora e seu coração foi se despedaçando na medida em que os dois caminhavam para fora, ele nunca imaginou assisti-la se casando com outro homem, decidiu que não iria se despedir e nem voltar junto com eles, iria dali direto para o hospital para que pudesse relaxar pelo menos um pouco.
e Seo-joon chegaram ao hospital em seguida, encontrando Sung-hoon sentado ao lado de Yoon-jae.
— Por que não veio conosco? — Perguntou , se aproximando dele. — Quis vir na frente para dar um momento à vocês. — Explicou ele, Seo-joon e se entreolharam, o trajeto até o hospital foi completamente em silêncio.
— Vamos resolver logo a autorização da cirurgia. — Seo-joon caminha até a recepção, com a certidão de casamento em mãos.
— Vocês foram no local que eu indiquei para tirarem a foto de casamento? — Perguntou Sung-hoon e assentiu, enquanto olhava para Seo-joon resolvendo toda a burocracia. Não demorou muito para que Seo-joon viesse com um papel em uma prancheta. — Precisamos assinar aqui como marido e mulher para que a cirurgia seja autorizada, como ainda não falamos diretamente com o seguro para incluí-lo como seu dependente, o hospital vai encaminhar esse documento para o seguro. — confirmou com a cabeça e assinou como “ Park”.
— Pronto. — Ela entregou a prancheta para Seo-joon que voltou até a recepção. Um grupo de enfermeiros se reuniu próximo à Yoon-jae. — Ele já vai para a cirurgia? — Perguntou , se aproximando.
— Vamos levá-lo para um quarto e começar a prepará-lo. — Explicou a enfermeira, assentiu e pegou sua bolsa, os acompanhando até o quarto. Não demorou muito para que o preparassem para a cirurgia e o levassem, sentou-se na sala de espera, roendo as unhas, Sung-hoon sentou de frente para ela, os olhos fechados e repetindo orações em sua mente. Um tempo depois, Seo-joon se juntou à eles.
— Burocracia resolvida, por enquanto. — Disse Seo-joon, soltando um suspiro ao sentar-se. Sung-hoon permanecia de olhos fechados, Seo-joon percebeu que as mãos de tremiam e suas pernas estavam inquietas. Ele colocou uma mão sobre sua coxa e segurou sua mão com a outra. — Vai ficar tudo bem. — Ele sorriu e assentiu, olhou para ele com os olhos marejados, mas respirou fundo e acenou com a cabeça.
Horas depois, quando o médico confirmou que a cirurgia havia sido um sucesso, desabou nos braços de Seo-joon. Chorou sem se conter, dessa vez de alívio.
— Ele vai ficar bem. — Ela repetia, como se ainda não acreditasse.
— Eu te disse. — Sussurrou Seo-joon, com um sorriso pequeno e os olhos brilhando.
Quando tudo se acalmou e Yoon-jae foi levado ao quarto, ele virou-se para ela.
— Vem comigo. Só um pouquinho.
— Pra onde?
— Não é nada demais. Só quero te tirar daqui por uma hora. Você precisa respirar… e eu também. Ela assentiu, ainda com os olhos marejados, e foi com ele sem fazer perguntas. Seo-joon a levou até o terraço do hospital, onde funcionava uma cafeteria. — Terraço é meio que nossa coisa, né? — Brincou ele e ela sorriu, concordando com a cabeça. Ele a acomodou em uma cadeira, sentando-se do outro lado, antes que pudesse começar a falar, escutaram gritos e aplausos; alguém estava sendo pedida em casamento bem ali. observou a cena, com um sorriso nos lábios e uma empolgação visível, Seo-joon cerrou os punhos ao vê-la assim. De certa forma, isso quebrava seu coração, vê-la assistir a um pedido de casamento de verdade, tendo acabado de se casar de mentira, olhou o relógio e viu que era 23:36.
— Vamos. — Ele se levantou sem esboçar nenhuma expressão e estendeu a mão para ela, que piscou duas vezes, confusa.
— Para onde? — Ela se levantou e segurou sua mão, se deixando ser conduzida por ela.
— Ainda é dia dos namorados, e o dia do nosso casamento, você merece mais do que uma cafeteria de hospital. — Respondeu ele, sem olhar para ela enquanto a levava para longe dali. Ela apenas sorriu, sentindo um pouco de alívio após aquilo tudo. O hospital disse que Yoon-jae demoraria para acordar, mas que estava fora de perigo, isso a permitia respirar um pouco.
Os dois entraram no carro e Seo-joon dirigiu pela cidade, todas as luzes iluminando seus rostos dentro do carro, os dois em silêncio. Apenas a música do BTS tocando no rádio, que tornava aquele silêncio ainda mais intenso. Seo-joon estacionou em uma vaga de frente para um restaurante que estava todo iluminado, desceu do carro depressa e abriu a porta para . Os dois entraram no restaurante lotado e a recepcionista veio recebê-los.
— Boa noite, sejam bem-vindos! O casal tem uma reserva? — Ela sorriu.
— Não. — Seo-joon olhou ao redor e não viu nenhuma mesa disponível. — Mas nós acabamos de nos casar, não pode abrir uma exceção? — A recepcionista sorriu amarelo.
— Vou ver com o gerente o que posso fazer. — Respondeu ela, caminhando para longe, alguns minutos depois a recepcionista voltou acompanhada do gerente.
— Ah! — O rosto do gerente se iluminou quando olhou para Seo-joon, ele sempre frequentava aquele restaurante. — Sr. Park! O senhor se casou? — Perguntou o homem, com um sorriso no rosto.
— Sim, essa é minha esposa, . — sorriu para o gerente que retribuiu o sorriso.
— É um prazer, Sra. Park! Infelizmente estamos lotados, mas pedi para que preparassem uma mesa especial para os recém-casados no terraço! Geralmente, nós alugamos o terraço para pedidos de casamento, mas como é para o senhor, não iremos cobrar preço de aluguel! O espaço é nosso presente de casamento, tudo bem para vocês? — Perguntou ele.
— Sim. — Respondeu Seo-joon, com um sorriso.
— Um terraço é bem a nossa cara. — Brincou e Seo-joon deu uma risadinha.
Os dois foram conduzidos para o terraço e o espaço era lindo, todo decorado com lírios brancos e rosas vermelhas e com luzes baixas, apenas luminárias em formatos de velas acesas e um lustre acima da mesa, com uma luz fraca para iluminar apenas os pratos. Todas as luzes de Seul brilhavam, Seo-joon puxou a cadeira para que se sentasse, e ela o fez. Fizeram seus pedidos e conversaram, finalmente aquele clima estranho que havia entre eles, se desfez. Os dois voltaram a conversar como se estivessem se conhecendo, rindo e esquecendo todo o fardo que carregavam naquele momento. Seo-joon estava feliz de estarem ali, mas havia uma guerra interna dentro dele. Ele tinha sentimentos por ela, mas seu peito doía só de imaginar que tudo seria visto como fingimento graças ao casamento falso. Mas, por esses sentimentos, ele não poderia deixá-la desamparada naquele momento. Seus pensamentos se dispersaram quando os garçons trouxeram um bolo com velas e um buquê, cantando parabéns pelo casamento. O buquê foi entregue a e eles levaram o bolo até a mesa, para que os dois soprasse as velas.
— Façam um pedido! — Disse um dos garçons, que estava gravando. Os dois sopraram as velas ao mesmo tempo, desejou que tivesse força para cuidar do irmão até que estivesse melhor. Seo-joon desejou o mesmo, desejou que tivesse força para lidar com toda essa situação, e desejou que ela pudesse encontrar algo para ficar feliz mesmo naquela situação. Assim que os garçons saíram, os dois trocaram um olhar profundo.
— Feliz dia dos namorados. — Disse Seo-joon, um sorriso nos lábios e os olhos brilhando com lágrimas não derramadas.
— Feliz dia dos namorados. — Respondeu , segurando o buquê com força, sorrindo. Ela não sabia como seria dali em diante, mas o olhar de Seo-joon fazia com que ela acreditasse que seria mais fácil do que pensava, porque ele era… ele.

Capítulo 5 — Sozinha?

Caroline:


Ver meu irmão mais novo sofrendo em cima de uma cama era dilacerante — ainda mais estando completamente sozinha. Seo-joon e Sung-hoon estavam tão focados em fazer o casamento parecer real que parte de mim entendia que era o mais racional a se fazer, mas, ao mesmo tempo, eu me sentia tão sozinha quanto cercada. Apertei a mão de Yoon-jae e sussurrei uma prece. Ouvi a porta se abrir e senti uma mão repousar sobre meu ombro — reconfortante.
— Não está cansada? — A voz de Seo-joon ecoou, me fazendo suspirar involuntariamente.
— Estou bem. — Virei-me para ele e sorri de leve.
— Por que não vai para casa um pouco? — sugeriu, com um olhar gentil. Apenas neguei com a cabeça. — O que posso fazer para te ajudar? — insistiu. O celular vibrou. Dei uma olhada rápida na notificação, revirei os olhos e o joguei de volta na bolsa.
— Tá tudo bem. — Sorri, forçada. Ele inclinou a cabeça.
— O que era no celular? Trabalho? — perguntou, como se já soubesse a resposta. Apenas assenti.
— Vou resolver. — Ele tirou o próprio celular do bolso; a testa franzida deixava clara a irritação.
— Não se preocupe. — Respondi, a voz baixa devido ao cansaço. Ele apertou meu ombro e saiu da sala.
— Oi, algum problema na revista? — Escutei sua voz do lado de fora do quarto, por mais que tentasse abafar, eu conseguia escutar. — Se não há nenhum problema, por que estão incomodando uma funcionária que está de licença familiar? Não, espero que não se repita mesmo. — O escutei bufar e seus passos se tornaram cada vez mais próximos.
— Não precisava, mas obrigada. — Sorri com os lábios, ele respondeu com uma expressão um tanto tímida. Antes que ele pudesse responder, Yoon-jae se mexeu na cama, nós dois olhamos para ele — apreensivos.
— Mmmh… — Murmurou ele, fazendo com que eu apertasse sua mão com mais força. — Noona…
— Sim?
— Dói… — Resmungou baixinho.
— Onde dói? — Perguntei, preocupada.
— A minha mão. — Sua voz soou mais clara. — Vai acabar arrancando… — Ainda falava baixo, mas era o suficiente para escutarmos. Sorri, enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto, ouvi o som da risada de Seo-joon atrás de mim.
— Como está se sentindo? — Perguntou Seo-joon.
— Com sede… — Murmurou ele. Seo-joon caminhou até o outro lado do quarto e encheu um copo d’água, colocando um canudo para ele, que o segurou com dificuldade. — O que aconteceu?
— Você sofreu um acidente. — Expliquei.
— Eu sei, eu me lembro. — Ele pigarreou, afastando o canudo de sua boca. Seo-joon levou o copo até a bancada. — Como… com quê dinheiro… esse quarto… — Observei sua tentativa frustrada de formular uma pergunta, entendi sua confusão e apenas acenei com a cabeça.
— Não se preocupe. Preocupe-se em melhorar. — Sorri e segurei sua mão, Seo-joon sorriu e assentiu.
Alguns dias se passaram entre as idas frequentes ao hospital e a tentativa de organizar essa nova realidade que havia se instalado entre nós. Concordamos que convencer qualquer pessoa de que éramos casados, morando na minha casa, não funcionaria. E, após muitas discussões com Seo-joon e Sung-hoon, concordei em nos mudarmos para o apartamento dele. De alguma forma, Seo-joon me fazia acreditar que tudo ficaria bem, mas eu estava cansada demais para sentir algo além disso. Carregamos algumas caixas para seu apartamento, quando a porta de abriu, foi como um vislumbre. Não era como se eu não soubesse, mas ficou claro a diferença das nossas realidades no momento em que a porta se abriu. Só a sala daquela cobertura era do tamanho do meu apartamento inteiro. Talvez eu estivesse exagerando, mas era como eu me sentia.
— Aqui… — Ele pegou a caixa da minha mão. — …eu te ajudo. — Sorriu.
— É um belo lugar para se viver. — Disse a única coisa que veio na minha mente e ele riu fraco.
— Costuma ser solitário, vai ser bom ter companhia por um tempo. — Respondeu, com um sorriso nos lábios, ele sempre me olhava de um jeito que me fazia acreditar que as coisas poderiam melhorar e dar certo. Por mais que eu sentisse uma vontade enorme de retribuir de algum modo, eu estava exausta o suficiente para não esboçar nenhum sinal de carisma.
— Onde coloco essa caixa? — A voz de Sung-hoon soou atrás de mim.
— Pode deixar comigo! — Seo-joon caminhou até ele e pegou a caixa. — Obrigado pela ajuda, eu assumo daqui. — Ouvi a risada sarcástica de Sung-hoon soar e rolei os olhos, caminhando até um enorme sofá.
— Sinceramente? Fique à vontade. Amanhã me diz como foi. — Ele acenou antes de sair e eu me sentei cuidadosamente no sofá.
— Sinto que seu amigo não vai gostar de mim nunca. — Brincou Seo-joon.
— Você se acostuma. — Sorri. — Desculpe, estou tão cansada e ainda tenho que voltar no hospital… — Ele me interrompeu.
— Tome um banho e durma, eu vou ficar com Yoon-jae. — Antes que eu pudesse responder, ele levantou um dedo e apontou para um corredor. — Tem um quarto de hóspedes esperando por você, toalhas limpas e uma cama confortável. É uma suíte, então pode ficar à vontade. Depois que estiver descansada, continuamos a organizar tudo e você pode voltar ao hospital. Eu disse que assumo daqui. — Não tive reação, apenas assenti e me levantei. Ele se virou e caminhou em direção à porta.
— Obrigada. — Minha voz soou mais como um desabafo, ele se virou e olhou para mim por um tempo, não disse nada, apenas assentiu e saiu pela porta.
Caminhei até o quarto e pude enxergar exatamente o que ele havia descrito, uma cama confortável, toalhas e um banheiro. Peguei as toalhas e caminhei até o banheiro, abri a torneira e regulei a temperatura para que a água caísse fria, era exatamente o que meu corpo precisava. Eu estava tão exausta que meus olhos ardiam, e o simples ato de abrir a torneira já parecia esforço demais. Quando a água bateu na minha pele, o choque foi imediato — um frio cortante que me fez prender a respiração, como se meu corpo tivesse esquecido por um segundo como funcionar. Senti meus músculos se encolherem, cada parte de mim reagindo ao impacto. O coração acelerou, um susto involuntário, e um arrepio subiu rápido pela coluna.
Por alguns instantes, tudo em mim pediu pra sair dali. Mas, conforme a água escorria, o cansaço pesado começou a se soltar. O frio puxava de mim o torpor, arrancava a sensação de estar carregando o dia inteiro nas costas. Minha mente, que antes parecia um nó, foi clareando aos poucos, como se a água estivesse lavando não só a pele, mas o resto também. Quando finalmente fechei a torneira, minhas mãos ainda tremiam um pouco, mas eu respirava melhor. O corpo ainda doía, mas a exaustão tinha perdido aquele peso sufocante. Fiquei ali, parada, sentindo a pele arder de frio — e, curiosamente, me sentindo mais viva do que antes.
Vesti o roupão que estava pendurado no banheiro e caminhei até a cama. Sentei-me por um instante, só para recuperar o fôlego, e não sei dizer exatamente em que momento aconteceu — apenas senti meu corpo ceder, como se todo o cansaço acumulado finalmente tivesse encontrado uma brecha. Antes que eu percebesse, afundei no colchão e o sono profundo simplesmente me levou. Abri os olhos quando escutei batidas na porta, a luz do sol invadia o quarto, parecia que eu havia dormido um sono de dias, mas ainda era dia. Me sentei na cama e olhei para a porta.
— Pode entrar. — Respondi, com a voz arrastada.
— Oi. — Seo-joon sorriu. — Não queria te incomodar, mas o médico passou no quarto de Yoon-jae agora pela manhã e informou que ele será levado para um quarto de enfermaria e terá alta nos próximos dias.
— Alta? Espera, você disse pela manhã? Que horas são??? — Despertei no momento em que processei as palavras dele.
— São quase 12:00. — Respondeu ele, olhando para o relógio em seu pulso.
— Eu dormi mais de 12 horas seguidas! — Eu estava incrédula, mas ele apenas sorriu.
— Você mereceu. Vou fazer algo para você comer, depois podemos começar a preparar a casa para Yoon-jae, que tal? — Sugeriu ele, com um sorriso. Retribuí seu sorriso e assenti, observando a porta se fechar.
Fiquei parada por alguns segundos, encarando a porta fechada enquanto a realidade finalmente alcançava meu corpo ainda lento pelo sono. Doze horas. Eu realmente tinha apagado. O banho gelado, o cansaço, o peso dos últimos dias — tudo me derrubou de um jeito quase misericordioso. Respirei fundo e me levantei devagar, sentindo as pernas protestarem levemente, como se tivessem sido esquecidas por muito tempo. Caminhei até a janela e puxei a cortina por completo. A luz inundou o quarto, quente e incômoda, mas também reconfortante. O mundo lá fora seguia, independente do meu colapso silencioso.
Vesti algo confortável e fui até a cozinha. Encontrei Seo-joon de costas, arrumando a mesa com uma concentração quase exagerada — como se estivesse tentando disfarçar o fato de que também estava preocupado comigo. Ele levantou o olhar quando ouviu meus passos.
— Ah, você veio. — Sorriu, suave. — Senti que, se eu demorasse muito, você voltaria a dormir.
— Provavelmente. — Murmurei, me aproximando. — O que você está fazendo?
— Nada demais. — Ele deu de ombros, colocando um prato na mesa. — Só algo leve pra você não desmaiar enquanto a gente arruma tudo. — Sentei-me e deixei que o cheiro da comida me despertasse um pouco mais. Só quando dei a primeira garfada percebi o quanto estava faminta.
— Obrigada… de verdade. — Falei depois de um tempo, sem conseguir segurar. Seo-joon apoiou as mãos na mesa e inclinou levemente a cabeça.
— Por cozinhar? Ou por não te deixar continuar dormindo eternamente? — Soltei um riso fraco.
— Pelos dois. — Ele retribuiu o riso, mas seus olhos tinham aquela suavidade que aparecia quando ele se preocupava demais. Quando terminei de comer, ele recolheu os pratos antes que eu pudesse levantar. Caminhou até a pia, mas me olhou por cima do ombro.
— Depois disso, vamos começar pelo quarto do Yoon-jae. Ele vai precisar de um ambiente tranquilo. — Ele hesitou um segundo. — E você também. — Fiquei em silêncio. Não porque discordasse, mas porque ouvir em voz alta tornava tudo mais real.
Yoon-jae estava voltando.
O pensamento apertou meu peito de um jeito estranho, um misto de ansiedade e esperança.
— Certo. — Respondi, finalmente. — Vamos deixar tudo pronto. — Seo-joon sorriu de novo, satisfeito, como se só a minha disposição já fosse suficiente. Terminei de beber a água, respirei fundo e me levantei. Caminhei até as caixas com as coisas e Yoon-jae na sala, e um sentimento forte me atingiu. Fiquei de pé encarando as caixas e Seo-joon se aproximou.
— Tudo bem? — Ele colocou a mão em meu ombro, o que foi o suficiente para em fazer soltar tudo que eu estava segurando. Toda a pressão em meus ombros, por mais que ele sempre fizesse parecer que tudo ia ficar bem, eu não conseguia relaxar sabendo que meu irmão estava em um hospital e agora… ele voltaria para casa. Ele teria uma casa decente por causa de um acordo, mas mesmo que por um tempo, ele teria uma boa casa. Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto incontrolavelmente, Seo-joon me puxou para um abraço, afundei minha cabeça em seu peito. Era a primeira vez, desde o acidente, que meu choro não era de tristeza e preocupação; era de alívio.
Me permiti ficar ali, escondida no peito dele, enquanto as lágrimas continuavam a cair sem que eu tivesse qualquer controle sobre elas. Era como se uma comporta tivesse se aberto — toda a tensão, o medo e o peso que eu vinha carregando sozinha finalmente encontraram uma saída. O abraço de Seo-joon era firme, cálido, quase um porto seguro que eu nem sabia que precisava até o momento em que me encontrei nele.
— Tá tudo bem… — Ele murmurou contra o topo da minha cabeça, a voz baixa, quase um sussurro pensado só para mim. — Você fez tudo que podia. Ele vai ficar bem agora. — As palavras dele não resolviam tudo, não apagavam as memórias dos últimos dias, mas tinham o poder de me fazer respirar um pouco mais fundo. E eu precisava disso. Muito mais do que admitia. Aos poucos, as lágrimas foram diminuindo. Minha respiração, antes trêmula, começou a se estabilizar. Fiquei envergonhada por um instante, consciente demais da forma como minhas mãos agarravam a camisa dele, mas não me afastei de imediato. Era como se meu corpo ainda precisasse daquele momento. Quando finalmente ergui o rosto, ele passou os polegares abaixo dos meus olhos, secando o que restava das lágrimas com uma delicadeza que quase me desmontou de novo.
— Desculpa… — Murmurei, mesmo sem saber exatamente pelo quê.
— Não peça desculpas. — Ele respondeu, sério, mas com um olhar suave. — Você aguentou tanta coisa sozinha. Deixa alguém segurar um pouco desse peso com você. — Baixei os olhos, respirando fundo. Era estranho, quase desconcertante, ter alguém ao meu lado de verdade depois de tanta coisa. Mas reconfortante também. Olhei novamente para as caixas de Yoon-jae. Dessa vez, o aperto no peito ainda existia, mas havia algo novo ali também — esperança. Uma esperança frágil, mas real.
— Acho que… — Limpei a garganta. — Acho que estou pronta. — Seo-joon assentiu e deu um passo para trás, mas sua mão deslizou pela minha, um toque breve, como se quisesse garantir que eu ainda estava ali.
— Então vamos começar. — Ele disse, com aquele meio sorriso que sempre conseguia me puxar de volta pra terra firme. Respirei fundo mais uma vez e segui até as caixas ao lado dele. Com cuidado, abri a primeira, revelando objetos familiares de Yoon-jae — coisas simples, mas que tinham sido nossa vida inteira nos últimos anos.
E, pela primeira vez desde o acidente, eu não senti medo de olhar para elas.
Senti… que estávamos retomando o caminho.
E não estávamos mais sozinhos.
Eu não estava sozinha.



Continua...



Nota da autora: eu espero MUITO que tenham gostado desse capítulo, dei o meu melhor para entregar sentimento nele! não esqueçam de comentar para me incentivar a continuar escrevendo, beijos!





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AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA EU TO BERRANDO DO COMEÇO AO FIM DESSE CAPÍTULO.

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