Nebulosa

Última atualização: 20/10/2021

Prólogo


"O que é preciso para se sentir em casa?"


ERA NO QUE estava pensando quando entrou no seu apartamento e se dirigiu para a varanda enquanto olhava o céu noturno. Seu telescópio estava posicionado na direção de sua constelação preferida: cassiopeia.
Ela adorava o desenho que esse conglomerado formava e a história por trás daquelas estrelas. Se alguém estivesse ali com ela, ouviria ela recitar uma de suas mais apaixonantes explicações. Mas não havia ninguém, era sempre e o telescópio.
Ela saiu da varanda e voltou para sua sala, caminhou até a bancada que separava a sala da cozinha e apertou o botão da secretária eletrônica do seu telefone. Ela sempre aguardava por uma mensagem da NASA, sempre aguardaria. Mas seu último programa de exploração espacial havia sido há dois anos e eles não a chamariam tão cedo.
"Dra. Rudolph, aqui é Edward Taylor, da revista científica New World. Lemos o seu último artigo sobre o futuro da civilização humana e gostaríamos de marcar uma entrevista e apresentar a matéria em uma próxima edição. Por favor, retorne o contato para mais detalhes.”
E havia outras quatro mensagens de revistas e fóruns científicos. Apenas uma mensagem pessoal para , que, como sempre, era de Chloe:
" Hwan Rudolph! Eu juro que se não me responder dentro de 24 horas, eu vou reportar o seu desaparecimento para a polícia! Faz seis semanas que você não me responde. " — Houve uma pausa, como se Chloe estivesse tentando dizer algo. — "Quero te contar tanta coisa, ." — E desligou.
Rudolph estava prestes a fazer uma ligação para Chloe, mas antes que apertasse o botão do telefone uma nova mensagem inesperada soou:
"Bom dia, Dra. Rudolph. Aqui é um velho amigo, Reed Richards. Espero que ainda se lembre do seu orientador de doutorado. Comecei uma nova pesquisa e preciso de uma boa equipe para realizar a coleta de dados. Ninguém conhece o Espaço com tanto entusiasmo como você. Mandei todas as informações junto com o plano de pesquisa para o seu e-mail. Aguardo seu retorno.”
No mesmo instante, esqueceu que deveria telefonar para Chloe. Ela tirou seu notebook da mesa da sala e sentou no sofá, acessou o e-mail e abriu os arquivos de Reed.
— Radiação espacial e seu papel na genética humana... — Ela leu em voz alta enquanto se atentava para o objetivo e o método do trabalho. — Arriscado e ousado, Reed Richards. — Ela murmurou, tomando um gole de café da sua xícara. Iria precisar ficar acordada naquela noite.
pegou o telefone e ligou para Reed. Foram três toques até ele atender.
— Estou lendo o plano de pesquisa agora e fazendo algumas alterações. — Ela disparou quando ele atendeu. — Quero que me explique a quem vai recorrer já que sua proposta foi recusada pela NASA.
— Meu Deus, ! Quanto tempo! — Ele exclamou do outro lado da linha com a voz carregada de sono. — Espera! Isso quer dizer que você está dentro?!
— Claro, se eu não estivesse não teria me dado o trabalho de ler o material. — Ela disse com um sorriso para si. — Estou arriscando minha carreira, mas as descobertas que mudaram o rumo da sociedade nunca foram seguras. Uma vez você me disse que vale a pena correr alguns riscos.
Reed suspirou orgulhoso da ex-aluna.
— Certo, Rudolph. Agora vem a parte desagradável. — Ele murmurou e ela esperou que ele continuasse a falar. — Como a NASA recusou custear o trabalho, tive que recorrer a um patrocinador um pouco inusitado….
— E com um senso moral um tanto deturpado, eu presumo... — Alguém que aceitasse cobrir as despesas de um trabalho considerado perigoso pela NASA, deveria ser alguém que desse conta de todas as críticas e suposições negativas da mídia.
— Victor Voon Dom aceitou financiar nossa pesquisa. — Reed falou no tom desapontado, mas tentando soar otimista.
— De todos os ricos babacas, só tinha esse? — Ela murmurou e Reed deu uma risada baixa. — Olha, eu entendo. Vamos trabalhar com o que temos. Como posso te encontrar?
— Teremos a primeira reunião de equipe amanhã no prédio corporativo da empresa. Você pode ir? — Reed perguntou em meio a um bocejo.
— Estarei lá, professor. — Ela confirmou e, quando ele encerrou a ligação, ela se voltou para os arquivos. Agora sim se sentia em casa, tinha um trabalho cientifico pra desenvolver.
Droga! Ela pensou depois de algumas horas revisando os cálculos de Reed. Eu devia ter ligado para a Chloe!


Capítulo 1

"Se você acertasse depois de mil vezes errando e soubesse que iria conseguir, desistiria por conta de todas as vezes que errou?”



A SALA DE REUNIÕES era grande, mas o clima nela parecia um tanto sufocante. Victor estava sentado na ponta da mesa, sua cadeira sendo a maior de todas. Ele estava com as mãos cruzadas e um sorriso convencido que, deixava claro que ele só havia concordado com a pesquisa de Reed, porque se sentia com o ego satisfeito ao ver o antigo colega se rebaixar e pedir ajuda para ele.
Ben estava ao lado de Reed, o que de certa era reconfortante, estar ao lado do melhor amigo que acreditava em suas ideias o deixava mais confiante para liderar a proposta. Depois de tanto ser rejeitado pela comunidade científica, aquele momento era importante para ele. Ainda mais na frente de Sue, sua ex-namorada.
Ela estava linda e o tratava com uma postura educada e distante, a tensão entre eles era palpável. Não esperava vê-la como Diretora de Pesquisa em Genética e muito menos como a namorada de Victor. Mas Von Doom tinha que ter tudo. Para Reed, era ótimo ver Sue feliz e realizada, mesmo que não fosse com ele.
Victor olhou no relógio como se estivesse entediado, mas Reed sabia que ainda faltava cinco minutos para o horário marcado. Sue parecia estar contendo uma certa apreensão que ele não sabia identificar o que era.
A porta da sala se abriu e a Dra. Rudolph entrou. Ela estava com o cabelo preso, calça e camisa social. Usava um casaco longo e os óculos escuros apoiados na cabeça. No braço, ela trazia vários papéis, provavelmente ela já havia começado o trabalho na noite anterior. Pelo menos alguém ali estava tão empolgado quanto Reed.
Ela se virou para Sue e estendeu a mão livre:
— Sue Storm, é um prazer! — Ela disse e Sue apertou sua mão. — Eu sou a Dra. Rudolph.
A expressão de Sue foi de surpresa para contentamento.
— É um prazer conhecê-la…. — Sue olhou para Victor como se esperasse pela reação dele. Mas o momento foi interrompido quando a porta da sala foi aberta novamente.
Um jovem rapaz entrou, seu cabelo era loiro e curto. Ele usava uma jaqueta, jeans folgados e coturnos. A camiseta era de alguma banda que Reed não conhecia. Seus óculos escuros pareciam caros e quando ele os tirou para olhar bem todos na sala, Reed percebeu com pavor que conhecia ele.
— Ah, creio que já conhecem o meu irmão, Johnny. — Sue disse enquanto Johnny se aproximava na direção de Rudolph. A apreensão em Sue suavizou, então ela estava com receio de que o irmão chegasse atrasado.
— Eu não a conheço. — Johnny disse, estendendo a mão para . — Eu teria me lembrado.
— Prazer, Senhor Storm. — disse com uma frieza calculada depois de observar a expressão de Johnny e se afastou dele sem apertar a sua mão.
Johnny pareceu surpreso e depois riu consigo mesmo, pelo visto não estava acostumado a ser rejeitado daquela maneira.
Ben não escondeu sua risada de contentamento. Ela se virou para ele e eles trocaram um aperto de mãos.
— Ben! É um prazer revê-lo! — Ela disse enquanto Ben afagava-lhe o ombro carinhosamente. Reed olhou ao redor e percebeu que Victor tinha uma expressão sombria, enquanto Johnny parecia ter encontrado algo muito interessante em Rudolph.
Ela então viu Reed e ele abriu os braços para ela, que caminhou energicamente em sua direção e o abraçou.
! Quanto tempo, até me esqueci que você continua jovem. — Ele disse brincando. Ela era a garota prodígio de sua sala de alunos, na época havia acabado de atingir a maioridade e já era uma das mentes mais ativas nas pesquisas da NASA.
Sue observou por um longo segundo, afinal aquele havia sido o momento mais caloroso da reunião.
Reed e se olharam e ele percebeu que de certa forma ela havia crescido, amadurecido - não era mais uma adolescente - e se sentiu orgulhoso da antiga pupila.
Então, olhou para Victor; só olhou, sem mover um músculo em sua direção.
— Victor. — Ela cumprimentou, mas soou mais como nojo, e se sentou.
— Podemos começar, Reed? — Victor disse, olhando o relógio novamente. Ele sempre parecia muito mais impaciente em seu terno caro.
Ben e Sue escolheram seu lugar, Johnny sentou na cadeira em frente a com a intensão de lhe direcionar alguns olhares furtivos. Ela não olhou na direção dele, nem por um instante.
As luzes da sala diminuíram e um holograma foi exibido sobre a mesa. A imagem tridimensional mostrava o planeta e a rota da nave que utilizariam. A imagem se movia devagar conforme Reed explicava seus elementos.
— De acordo com os meus cálculos, uma tempestade próxima das coordenadas irá gerar ondas de radiação cósmicas. O objetivo é estudar os efeitos da radiação sem entrar em contato direto com a tempestade. — Reed caminhou ao redor da mesa e o holograma o acompanhou, mostrando imagens ilustrativas da radiação. — Colocaremos nossas amostras em campo antes da tempestade e colheremos os dados depois para estudos dos resultados. Durante a tempestade, ficaremos na nave que possui escudos de proteção.
— Então você está interessado nos meus brinquedos caros? — Victor parecia não conseguir evitar um sorriso de contentamento.
O holograma apagou e as luzes voltaram a ficar acesas. Victor se levantou e caminhou até Reed dizendo:
— Eu fico com 75% dos lucros, quero a patente dos resultados. — Ele disse com segurança, sabia que o trabalho de Reed tinha um grande potencial, mas que ninguém se arriscaria tanto por aquela pesquisa.
Reed ia ceder, afinal não tinham escolha. Então, se levantou e caminhou na direção dos dois.
— Você tem a grana, Victor. Mas não o cérebro. Os cientistas à frente da pesquisa que levam a patente, mas não se preocupe, os livros de história vão citar o nome da sua empresa para explicar que fundo de garantia utilizamos. — Ela disse encarando Victor nos olhos. A expressão dele se alterou com impaciência.
— Fundo de garantia? Estou disponibilizando 1 bilhão para vocês!
— Para uma pesquisa desse porte deveria ser bem mais. Mas tudo bem, você não deve ter peito para encarar o conselho e os investidores da companhia para desembolsar mais. — Ela murmurou enquanto Victor parecia prestes a explodir. — Então faça o seu trabalho, que é liberar o dinheiro e lidar com a mídia, enquanto a gente cuida do resto.
— O que ela quis dizer, Victor.... — Reed falou chamando a atenção dos dois. — É que esperamos trabalhar de igual para igual.
— Reed, uma pequena porcentagem de um bilhão já dá para pagar a hipoteca do Edifício Baxter. — Victor jogou sua última carta, a expressão de Reed era de vergonha. Ben e compartilhavam uma raiva contida enquanto Johnny assistia a tudo como se visse sua novela mexicana favorita.
— Quanto a você, Senhorita Ruldolph... — Começou Victor, os olhos eram como os de uma cobra pronta para dar o bote. — Espero que nossas desavenças do passado não interfiram no nosso trabalho.
Aquilo era uma provocação mal educada muito bem disfarçada. Até Sue se virou para ele, pedindo para que encerrassem ali.
— Felizmente, eu sou uma pessoa profissional, tanto que eu nem ia citar nosso triste desentendimento. — Ela deu ênfase na — Conversei com o meu advogado, terei cláusulas especificas nesse contrato para que nenhuma injustiça se repita. Mas isso vai ser bom pra aliviar sua imagem.
— Eu não esperaria menos de você, Rudolph. — Ele sorriu educadamente. — Talvez isso ajude a imagem de Tom também.
— Eu nunca ajudaria Tom. — disse em voz baixa, ela e Victor trocaram um longo olhar até ele ceder e caminhar para fora da sala.
— Acertem os detalhes com Susan. — Ele disse ao sair.
— Eu os acompanho até a saída. — Ela disse se virando e os outros a seguiram até o elevador.
Susan apertou o botão do térreo e entregou um cartão para , Ben e Reed.
— Este é o meu telefone, entrem em contato quando precisar.
— Eu tenho o número. — Disse Reed.
— Eu mudei de número. — Susan disse, entregando o cartão.
Johnny tentou não rir da situação de constrangimento entre os dois.
— Podemos começar o treinamento na semana que vem. — Disse Susan, conforme o elevador ia descendo os andares.
Ben olhou para Reed o lembrando de um detalhe.
— Ah, estava contando que Ben fosse o nosso piloto. — Reed disse a Susan.
— Na verdade, Johnny vai ser o nosso piloto. Mas você é bem-vindo para o cargo de co-piloto, Ben. — Susan sorriu como se desculpasse em minar as expectativas dele.
Todos olharam para Johnny, que exibiu um meio sorriso convencido.
— Espero que a gente não exploda no espaço. — Rudolph disse quando o elevador chegou no térreo. — Até mais. — Ela disse a caminho da saída sem esperar pelos outros.
— Foi um prazer te conhecer também, . — Johnny gritou, acenando.
Ela gritou de volta, mas sem se virar para olhar:
— Pra você é Dra. Rudolph.
Ben sorriu, percebendo que, pelo menos, alguém iria colocar Johnny em seu devido lugar.



Capítulo 2

A CAFETERIA ERA UM dos lugares favoritos de , um dos poucos que ela frequentava. Era muito difícil ela sair de casa quando estava em Nova York, mais ainda difícil quando ela estava no Texas em algum programa de estudo da NASA. Mas ela precisava abrir uma exceção e finalmente encontrar Chloe.
Ela enxergou a amiga assim que entrou no local, elas sempre escolhiam a mesma mesa. Chloe tinha o cabelo loiro dourado, olhos claros e lábios rosas como o casaco que estava usando. se aproximou e se sentou na cadeira de frente para a amiga.
— Quem é vivo sempre aparece! — Ela murmurou, a expressão dizia que estava bastante zangada. já conhecia aquele padrão: iria levar um sermão, elas iriam rir e chorar e se abraçar pra matar a saudade. Mas, antes, ela teria que enfrentar a fúria de Chloe.
— Eu diria que sinto muito, mas na verdade não sinto. — disse e imediatamente Chloe chutou sua perna por debaixo da mesa. Rudolph se inclinou, sibilando com dor, mas as duas riram em seguida. — Não precisa ficar preocupada, eu sempre faço isso.
— Eu só acho que você se isola demais. — Chloe entregou para ela um prato com os croissants que ela havia pedido antes da amiga chegar. — Deveria conhecer gente nova, sair, viver.
— Viver uma vida comum?! Parece muito banal. — murmurou de boca cheia. — Eu quero mais, o universo tem milhões de possibilidades.
— E você não está aproveitando nenhuma delas. — Chloe murmurou.
Aquilo foi um tapa para .
— Por que está dizendo isso?
— Eu só quero ter certeza de que está bem. Ter certeza de que você superou.... — A loira murmurou de um jeito carinhoso e muito cuidadoso, mas, ainda assim, contorceu o rosto em irritação.
— Eu estou ótima. E eu não preciso estar saindo com alguém pra mostrar que eu superei, Chloe! — Rudolph afastou o prato com croissants.
— Eu só quero ter certeza de que está tudo bem se o Tom seguir em frente…
suspirou.
— Eu sinceramente não me importo com o Tom. Não tem como eu me importar depois do que ele fez. — tentou ser paciente com a amiga. — Já faz um ano, não nos falamos e eu prefiro assim. Não quero sair e curtir, quero continuar o meu trabalho. E eu tenho amigos, eu tenho você e o Reed.
— Reed é tão doido quanto você, ele não conta! — Chloe brincou.
— Falando nisso, preciso te contar uma coisa. — tomou um gole do café. — Estou saindo em missão dentro de algumas semanas.
Chloe arregalou os olhos.
— A NASA te chamou de novo ?
— Não, é um trabalho com Reed Richards e….
limpou a garganta, Chloe arregalou ainda mais os olhos.
— Com Victor Von Doom. — Ela completou.
Chloe soltou um palavrão. As pessoas ao redor encararam.
— Só tinha esse rico babaca pra financiar?!
— Eu disse a mesma coisa! — exclamou.
— Você vai precisar encontrar o Tom? — Chloe perguntou e pareceu ter ficado sem graça e desviou o olhar.
— Ele não está na equipe principal, então acho que não. — observou os olhos apreensivos de Chloe, mas não parecia que era uma preocupação direcionada a ela. — Você disse que tinha algo a me dizer. O que foi?
— O quê?! — Ela perguntou, sobressaltada.
— Você deixou uma mensagem na minha secretária eletrônica, disse que tinha algo a me dizer.
— Ah.... Coisas do cotidiano. — Chloe sorriu e pegou a mão de . — Senti falta de conversar com você.
— Eu também.

As semanas de preparação foram intensas. Horas na academia, horas de cálculos, horas em simuladores de vôo, horas de planejamento. Era difícil equilibrar toda a rotina e ainda ter as horas de sono indicadas para manutenção da saúde. O relógio biológico precisava estar intacto.
já havia passado por aquele processo três vezes e, mesmo quando não era chamada para alguma missão, ela procurava manter o corpo e a mente em forma. Assim sempre estaria preparada para se dedicar um pouco mais e alcançar os resultados necessários.
Sua área de especialidade era a neurociência e o comportamento humano, ela sabia muito bem o que uma viagem ao espaço poderia causar na mente humana. Também sabia de cor como as células e os neurônios poderiam ser afetados a longo prazo. Agora saberia quais segredos o universo tinha guardado sobre a formação das primeiras células e só aquele pensamento arrepiava seu corpo.
Ela era uma boa observadora, mas péssima para se aproximar. Percebeu que Sue olhava Reed com frequência, ele parecia alheio, mas frequentemente perdia a concentração perto dela. Ben era amigável e às vezes parecia ser o paizão do grupo, também era muito fiel à esposa Debbie. Falava dela sempre que podia.
E havia Johnny, jovem, bonito e insuportável. Felizmente as horas de prática com ele eram raras, porque Johnny sempre se atrasava. A cada semana, ele estava com uma garota nova e olhava para de um jeito que a deixava irritada.
Johnny respirava e pronto, ela queria socar a cara dele.
— Ele foi expulso do programa da NASA, porque levou duas modelos de lingerie para o simulador de vôo. — Ben uma vez lhe confidenciou. — Eles se chocaram contra a parede.
— Ele vai ser nosso piloto?! — Ela disse, incrédula, mas logo descobriu que Johnny era bom.
Ele vivia saindo com várias garotas, era estúpido o bastante pra ter sido expulso do programa da NASA, mas conseguia ter os melhores resultados na preparação. o detestava.
Em uma tarde, Sue verificou o resultado das avaliações de cada um.
e Johnny, o desempenho de vocês é incrível. — Ela disse, depois que eles terminaram a corrida na esteira.
Johnny parou ao lado de e ofereceu para ela uma garrafa de água.
— Mas nós dois sabemos quem é o melhor. — Ele deu uma piscadinha e tomou a garrafa da mão dele.
— Claramente sou eu. — Ela declarou.
Ele surpreendentemente respondeu:
— Estou de acordo, você é a melhor.
Ela não respondeu, ele geralmente respondia com uma outra provocação irritante. Aquilo era um elogio? só sabia que um dia acertaria a cara dele.
Susan entregou a cada um um traje especial, o material do tecido se adaptava muito bem ao corpo. Era uma espécie de macacão azul. passou o dedo pelo tecido, era um uniforme diferente do que estava acostumada a usar.
— O que achou, space girl ? — Johnny perguntou ao seu lado.
— Para você é Dra. Rudolph. — Ela murmurou, jogando o traje para Johnny e se afastou.
Ele sorriu, segurando o próprio traje. Ela era tão chata e centrada o tempo todo que lhe dava nos nervos. Irritá-la havia sido o melhor passatempo que ele encontrara durante horas de treinamento.
Ao lado dele, Ben grunhiu com uma risada.
— Não se encanta, garoto. Ela não é como essas garotas que você fica por aí. — Ele disse com um sorriso satisfeito. — Ela detesta você.
— Ótimo. Eu também odeio ela. — Johnny disse em um tom que não convenceu nem a ele mesmo.
Os dois seguiram para fora da sala de treinamento, andaram pelo corredor até chegar à sala de reunião. Tudo naquele lugar era tão grande quanto o ego de Victor Von Doom. A sala de reuniões tinha o conceito de espaço aberto, todas as paredes eram de vidro e a luz do dia inundava o local.
A mesa oval tinha aproximadamente dez cadeiras. Susan estava em pé, distribuindo papéis. Johnny se sentou com Ben e encarou as cinco outras pessoas na mesa, ele não conhecia nenhuma. A não ser um rapaz que lhe pareceu vagamente familiar, talvez fosse a maneira que ele ajeitou o relógio no pulso ou como ele ergueu o rosto quando e Reed entraram na sala.
Algo nas postura de Sue não pareceu tão mais confiante, ele olhou para como se esperasse algo. O rapaz na sala também parecia ter certa expectativa, mas foi por um breve momento.
— Qual é a dessa galera nova? — Johnny perguntou para Ben.
— O bonitão ali é o Tom Von Doom, irmão mais novo do Victor. — Ben explicou. — Ex-noivo da . Não é flor que se cheire.
— Caramba, alguém já quis casar com a ?! — Ele murmurou de volta, forçando uma expressão de choque.
caminhou na direção de Johnny e sentou ao lado dele. Por um momento, ele achou que tinha avançado um passo e que, de alguma forma, ela tinha escolhido ficar perto dele. Mas depois de observar que só havia dois lugares vagos e a outra opção era próxima de Tom, ele se sentiu irritado.
— Montamos uma equipe de apoio que também poderá ser usada em uma emergência ou situação de resgate. – Sue disse após todos receberem o relatório. — Tom Von Doom irá liderar a equipe de apoio…
Sue continuou a apresentação. Tom observava a todos, os traços de seu rosto e o cabelo escuros eram prefeitos e ele parecia mais carismático que Victor. Mas era difícil dizer se algum dos irmãos Von Doom poderia pior, parecia desgostar dos dois.
A reunião prosseguiu e Johnny percebeu que Rudolph não olhou para Tom nenhuma vez. Não era como se ela estivesse de cara fechada, como uma criança fazendo birra, parecia natural. Era um distanciamento mais frio e seguro, como se Tom não significasse nada. Era diferente de como ela ignorava Johnny.
Era diferente. O que significava que Johnny Storm não era tão ruim assim.



Capítulo 3


"A realização de um sonho é a prova de que precisamos para acreditar que a vida pode ser melhor e assim começar um sonho novo”.



ERA O GRANDE DIA. Johnny mal podia acreditar, seu sangue estava fervendo de excitação, o que significava que ele estava mais irritante e é claro, mais lindo. Mal podia esperar para pilotar a nave que os levaria direto para o espaço e, melhor ainda, mal podia esperar para ser lindo no espaço. Johnny sabia bem que não era todo homem que conseguia um feito daquele.
Eles fariam história e Johnny sabia que nascera para viver aquilo. Dane-se a NASA e seu simulador de vôo, ele pensou enquanto se vestia. O traje era azul escuro, se adaptava bem à forma do corpo e, ao se olhar no espelho, Johnny sabia que beijaria a si mesmo se pudesse. precisava ver ele assim.
Ele arrumou a bagagem que seria despachada para dentro da nave, lá tinha um traje a mais e um macacão. Ainda tinha um traje espacial para ficar no vácuo do imenso espaço caso fosse necessário. Senhoras e Senhores, Johnny Storm era oficialmente um astronauta.
Ele saiu do vestiário, colocou seu óculos escuros e pendurou a jaqueta sobre um dos ombros. Andou pelo corredor à procura de algum dos seus companheiros de equipe.
Havia alguns funcionários da base de pesquisa caminhando pelo local. O complexo era como um grande campo de futebol coberto, as paredes eram todas de vidro e não importava onde você estava no complexo, iria ter uma maravilhosa vista da plataforma de lançamento.
Ele e os outros membros da sua tripulação — Johnny gostava de pensar assim, já que ele era o piloto — , tinham uma sala para se preparar e esperar até a hora de embarcarem. Ele seguiu até lá e entrou, encontrando todos os outros já vestidos.
Sua irmã, Sue, conversava com Ben e mantinha aquela postura reta e educada para não se aproximar muito de Reed, que relia suas anotações sem parar. Eles haviam terminado o relacionamento há anos, mas ainda parecia que tinham acabado de brigar.
Johnny riu consigo mesmo, era por isso que ele não se apegava.
Ele viu entrar na sala. Os cabelos escuros estavam perfeitamente presos em um rabo de cavalo, os fios tão organizados que dava vontade de soltá-los. O traje azul também caiu bem nela, ela segurava a jaqueta em um braço e a mochila na outra. Estava mais séria que o comum.
Então Johnny fez o que sabia fazer de melhor: se aproximou para irritá-la.
— Olha lá aqueles dois. — Ele disse, indicando Sue e Reed, e encostou na parede ao lado dela. nem ergueu os olhos para ele. — Nunca vão se acertar.
— Isso é ruim. — Ela disse, olhando para o cadarço dos coturnos que estavam calculadamente bem amarrados. — O protocolo dessa missão tem muitos furos.
Johnny revirou os olhos fingindo tédio, mas, no fundo, a maneira como ela falava era quase agradável de ouvir.
— Quais procedimentos deixamos de seguir, princesinha da NASA?
Ela respirou fundo, como se se recusasse a perder a paciência com ele naquele momento:
— Os procedimentos das agências para missões espaciais existem para nossa segurança, Storm. — Ela disse, arrumando as mangas da jaqueta. A maneira que ela não o olhava diretamente o fazia ter vontade de fazer com que ela olhasse. A qualquer custo. — Não selecionamos parentes de primeiro grau para sair para o espaço juntos, ou pessoas com histórico de relações amorosas com os colegas, ou pilotos que foram expulsos de programas de outras agências… — ela acrescentou e dessa vez o olhou nos olhos.
Johnny levou a mão ao peito e cambaleou levemente para trás.
— Nossa, space girl. Essa doeu. — Ele fingiu uma cara de magoado. E então se aproximou dela, o bastante para sua boca sussurrar em seu ouvido: — Não se preocupe, eu cuido da gente lá em cima.
se virou para sair de perto dele e, ao ajeitar a mochila, bateu ela em Johnny de propósito. Ele sorriu, divertindo-se, sua primeira missão do dia já fora cumprida, faltava mais uma. Ele olhou para Ben e caminhou em direção à sua próxima vítima.
Só com a sua aproximação, Ben já fez cara feia.
— E aí, co-piloto ?! — Johnny piscou um dos olhos para ele. Ben não precisou se dar o trabalho de responder, porque naquele momento Victor Von Doom entrou na sala e estava com o mesmo traje que o restante. Ao lado dele estava Tom, o irmão mais novo que ele havia visto em uma das reuniões.
— O momento se aproxima. — Disse Victor, observando cada um. — Vejo que estão todos prontos. A sala ao lado está reservada para se despedirem de seus familiares ou de amigos, eles poderão assistir ao lançamento.
Victor então se virou para :
— Todos já viram seus familiares, Dra. Rudolph. Falta só você. — Ele disse e algo naquilo fez Johnny sentir que era outra frase cruel disfarçada. Tom olhou para o irmão com a expressão de surpresa contida.
Ben balançou a cabeça de forma negativa e murmurou algo para Reed, que pareceu levemente revoltado.
Sue desviou os olhos de forma apreensiva. Naquele momento, Johnny se arrependeu de não ter lido toda a ficha dos colegas, mas isso foi antes de ele saber quem era Rudolph. Pensou em talvez pedir para Susan passar os arquivos de novo, assim ele entenderia melhor o que acontecia com os irmãos Von Doom e Rudolph.
Enquanto todos menos Johnny pareciam desconfortáveis, olhou para Victor com a expressão mais plena que ele já havia visto.
— Já me despedi de quem precisava. Agora não vamos perder mais tempo. — Ela disse, ajeitando a jaqueta, e se aproximou de Victor com aquela postura imponente e com o olhar superior que irritava Johnny e ao mesmo tempo era muito atraente. — Você pode estar indo conosco por que tem o dinheiro para isso, mas o restante de nós são cientistas que precisam seguir os cálculos à risca, não temos tempo a perder.
E, então, ela direcionou o olhar para Tom. Ele encarou de volta, mas não conseguiu disfarçar que tinha um efeito sobre ele.
— Sua gravata está torta. — Ela disse simplesmente e se virou em direção à porta.
Ao passar por Johnny, ela murmurou só para que ele pudesse ouvir:
— Rico babaca metendo o nariz na nossa pesquisa é o maior dos furos.
E ele riu, a seguindo para fora da sala.
Tom Von Doom ajeitou a gravata e se retirou da sala, ele passou pela porta e seguiu e Johnny pelo corredor.
, espera. — Ele disse, se aproximando dos dois. A princípio, pensou que ela o ignoraria, mas ela parou e se virou na direção dele.
Johnny parou ao lado dela, com a expressão de quem estava se divertindo ao ver a raiva de Rudolph ser direcionada à outra pessoa.
— Eu sinto muito pelo que Victor disse. — Ele se aproximou mais um passo e ela cruzou os braços, um sinal de que ele não deveria se aproximar mais.
— Você sempre sente muito pelo que Victor diz e faz, mas nunca pelos seus erros. — Ela se virou para continuar pelo corredor. — Estou cansada das suas desculpas.
Tom respirou frustrado. Depois da separação, ele nunca conseguia ter um diálogo decente com ela.
— Nada nunca é bom o bastante pra você, ! — Ele disparou, alto o bastante para ela e Johnny ouvirem.
suspirou como se estivesse perdendo tempo com tudo aquilo e se virou uma última vez:
— Você era, Tom. — Ela disse sem o sarcasmo, sem a irritação. Era sincero. — O problema era que você não se achava bom o bastante para o seu irmão.
Tom pareceu que ia continuar a discussão e aquilo estava começando irritar até Johnny.
— Olha, cara, estamos prestes a ir para o espaço! — Ele disse com o seu melhor olhar. — Então não corta o nosso barato.
E ele se virou, acompanhando até a plataforma de lançamento, e pelo canto do olho viu que ela segurava um sorriso.

**

Em meia hora eles já estavam dentro da nave. Johnny e Ben ocupavam os assentos na frente como pilotos, realizando o check up dos painéis de controle. Atrás de si, estava Reed, à sua direita estava e por último estavam Sue e Victor.
— Todos os comandos estão operando. — Johnny disse, pressionando o comunicador em seu ouvido. — Prontos para iniciar.

“Iniciando a preparação dos combustíveis” — A voz no comando da equipe de reforço era de Tom. — “Contagem regressiva para lançamento”.

O foguete na base da nave pareceu despertar e inundar o corpo de Johnny. Ao seu lado, Ben estava atento aos comandos. Todos seguraram em seus cintos ou nos suportes de seus assentos. A ansiedade do momento fazia todo o seu corpo arrepiar.

“Vinte segundos para o lançamento”.

— Vamos nessa, galera! — Johnny gritou.

“Dez segundos”.

Ele respirou fundo. Reed fechou os olhos.
contava junto com a operação.
Sue e Victor pareciam que estavam prestes a embarcar em uma montanha russa.
Ben segurou o próprio cinto de segurança.

“Cinco segundos. Foguete ativado”.

Tudo tremeu como se um enorme vulcão em erupção estivesse acordando abaixo deles. Johnny quase sentiu os dentes baterem um nos outros.

“Três, dois, um. Lançamento iniciado. O foguete deixou o chão e seguiu em direção à atmosfera”.

O barulho era enorme, parecia que estavam sendo sugados para trás enquanto iam em direção ao céu. Johnny não pode evitar gritar de contentamento. Eles subiam cada vez mais alto, mais rápido e livres. Johnny vivia buscando adrenalina, mas nunca tinha encontrado nada daquele nível antes.
Passaram a atmosfera, finalmente alcançaram o espaço. A parte de frente e a traseira se desconectaram da nave e caíram em direção à Terra, liberando eles para orbitar pelo planeta. Aquele momento foi um dos mais impactantes da sua vida. Em um segundo eles estavam voando e no outro a microgravidade os atingira.
Johnny e os outros levitaram nos assentos, estavam presos pelos cintos, mas era possível ver que ao redor tudo mudara. Era como ser livre pela primeira vez, como pular de paraquedas e descer uma montanha russa sem fim. O frio na barriga, a pele arrepiada e a sensação física de completa liberdade.
O Espaço os abraçou, já apresentando sua vasta imensidão. A Terra agora ficava distante e parecia até insignificante vista daquela perspectiva. Pela primeira vez, Johnny se sentiu inebriado com a própria existência. Ele olhou para Ben, que arregalava os olhos ao seu lado.
Reed observava toda a visão à sua frente como se avaliasse uma obra de arte, com um meio sorriso convencido, como se ele já pressentisse que aquele momento chegaria. Victor tinha a feição de quem havia acabado de gastar bilhões e estava satisfeito.
Sue parecia hipnotizada. E então Johnny viu .
deu o primeiro sorriso verdadeiro que ele havia visto desde que a conhecera. Ela sorria como se tivesse acabado de voltar para casa.



Capítulo 4


AQUI VAI UMA CURIOSIDADE: depois de três dias se alimentando de coisas pastosas, reciclando urina para beber como água e tendo o relógio biológico bagunçado depois de ver o sol quinze vezes, ser astronauta parecia bem menos glamoroso.
O que Johnny fazia era checar a estabilidade e os recursos da estação espacial, ouvir Rudolph e Reed debaterem sobre termos que só os dois entendiam, aturar a cara feia e rica de Victor e, por fim, irritar um pouco Ben.
Mas o começo havia sido sensacional. Ele pilotava a pequena nave deles até a estação espacial melhor do que já pilotou qualquer carro ou moto na vida. Ele acrescentaria os jatos de vôo nessa lista, mas teve um acidente com a aeronáutica uma vez... Não vem ao caso.
O momento mais emocionante foi quando chegaram na estação e sua pequena comitiva foi acoplada à Estação Von Doom. Era como fazer uma baliza no espaço, estacionar e acertar cada milímetro para que pudessem passar da nave para a estação. Até havia sorrido para Johny.
havia sorrido para ele. Praticamente um milagre.
Mas ele sabia que não ia demorar muito até ele impressioná-la de alguma forma. Afinal, ele era Johnny Storm.
Uma coisa que ele achou incrível era o recurso de gravidade da estação. Era um mecanismo inovador, já que as estações espaciais não contavam com um sistema de ajustar a microgravidade para uma gravidade próxima do planeta Terra. Por isso, os astronautas ficavam no ar dando piruetas no espaço.
Mas não na Estação Von Doom, lá eles caminhavam como caminhavam na Terra. Johnny queria um pouco mais de emoção e até planejou girar Ben no ar até que ele vomitasse, mas, pensando bem, era melhor assim.
No terceiro dia, eles estavam no compartimento principal da estação, Johnny encarava o próprio prato, que continha uma pasta verde que supostamente deveria ser espinafre.
— Depois de um tempo você começa a achar gostoso, Storm. — disse depois de ter comido a pasta de batata dela.
Johnny revirou os olhos:
— Ah, mas é claro que você adora a ração de astronauta. Esse cardápio da NASA é uma bela porcaria. — Ele disse e depois engoliu o alimento segurando a cara feia, não queria dar aquele luxo à Rudolph.
Ninguém havia levantado ainda, Johnny e sempre dormiam um pouco depois ou acordavam antes dos outros. Eles checavam os relatórios de pesquisa para serem enviados à base. Depois da primeira refeição do dia, Victor os encontrou no compartimento central.
Ele olhou para Johnny como se não contasse com o fato de que ele estivesse ali também e então se virou para dizendo:
— Dra. Rudolph, como você deve saber há um compartimento fechado abaixo deste andar. Gostaria que fosse dar uma olhada na estrutura do local. — Ele disse enquanto o observava atentamente. — Se for do seu agrado, peço que notifique seu advogado sobre a parte cumprida do acordo.
Ela apenas acenou positivamente a cabeça e Victor se retirou.
— O que ele quis dizer com isso? — Johnny perguntou, engoliu em seco na tentativa de se livrar do gosto de espinafre preso na garganta.
— Vou descobrir agora. Vou verificar o compartimento. — Ela disse, se levantando.
— Eu vou com você. Ele pode estar tramando alguma coisa. — Ele resmungou, seguindo Rudolph pelas estreitas passagens para fora do compartimento central. — Ele pode ter colocado o Alien naquele compartimento.
— Esse filme é terrível. — Ela disse, indo na frente.
Eles seguiram para o corredor de intersecção de compartimentos da estação. No corredor, ao chão, havia uma escotilha com uma placa de metal.
Ele e Rudolph se aproximaram para ler o que estava escrito e abaixaram a cabeça.

“Compartimento Olho de Zeus. Em Homenagem à Dra. Hwan Rudolph. Para grandes mentes que observam o Universo”.

Johnny leu em voz alta e acrescentou:
— Caramba, Rudolph. Vamos entrar, eu quero ver. — Ele disse, colocando a mão na porta da escotilha enquanto se agachava, mas lhe deu um leve tapa no braço o fazendo se afastar.
Ela se agachou ao seu lado e abriu a porta da escotilha.
— Tudo bem, pode ir primeiro! — Ele resmungou em tom sarcástico enquanto ela descia pela escada do tubo ao qual a escotilha dava acesso. Ele a seguiu pela escada e fechou a portinhola de aço. Desceu os poucos degraus e chegou ao chão do compartimento ao lado dela.
Era uma sala oval toda de aço e vazia. No centro havia uma pequena mesa de vidro com outra placa de aço dizendo “Olho de Zeus” e havia um botão metalizado logo abaixo.
Johnny estava doido para apertar o botão, mas esperou que o fizesse. Era a primeira vez que ele via os olhos dela tão cheios de expectativa.
E então ela apertou o botão e toda a estrutura de metal se abriu, revelando paredes de vidro. Era como se a estrutura de metal fosse só uma embalagem, que se abriu mostrando pela camada de vidro todo o espaço ao redor deles.
As paredes, o chão e até uma parte do teto os inundou com a via láctea, milhares de estrelas se estendiam sob seus pés. À direita deles estava a Terra flutuando. Era como se eles estivessem voando sobre toda a imensidão.
Era lindo e assustador.
Johnny podia ver o quanto ele era pequeno diante de tudo aquilo. Ele se aproximou de e os dois, deslumbrados, observaram a grandeza daquilo. Ela parecia não conseguir respirar e quando Johnny a olhou, viu as estrelas refletidas em seus olhos.
— Victor te deu esse compartimento? — Ele perguntou e percebeu que estava sussurrando, como se qualquer som alto ou movimento brusco pudesse lhe fazer acordar. Aquilo era bonito demais para ser real.
— Eu projetei esse compartimento. Projetei toda essa estrutura e o controle de microgravidade. — Ela sussurrou de volta olhando para a Terra. — Tom roubou o meu projeto e o deu para Victor.
— Tom fez isso?! — Johnny arquejou surpreso ao perceber que era bom ter um motivo pra socar aquele cara, não gostou dele desde o primeiro instante.
— Então nós terminamos, cancelamos o casamento e eu processei ele. — Ela disse e suspirou profundamente, como se estivesse cansada daquilo e agora pudesse renovar as energias ali. — Tom foi obrigado a ressarcir um bilhão de dólares para mim e dar os créditos na estação.
— Que babaca. — Johnny murmurou com um suspiro. — Você parece feliz agora.
— Ficou lindo, não ficou? — Ela perguntou, abrindo um sorriso.
E, ali, observando a galáxia como deuses com as constelações sob seus pés, Johnny pensou: Merda, ela é linda. Então ele se aproximou mais dela, o rosto se inclinando para vendo o reflexo do planeta em seus olhos.
E ela olhou de volta para ele.
— Eu nunca senti isso antes, só sinto quando estou aqui. — Ela sussurrou e parecia como se eles estivessem trocando segredos em meio às estrelas. — É aqui no espaço, a milhões de quilômetros da Terra, que eu me sinto em casa.
Johnny sentiu algo dentro de si, como se aquele não fosse qualquer momento. Como se pressentisse que ia sonhar com aquela imagem por anos. sobre o universo e ao alcance de seus lábios. Mas ela bem que poderia estar em seus braços. E Johnny, como não se apaixonava, achou que era desejo. E Johnny, como não passava vontade, deslizou uma das mãos pela cintura dela e a apertou gentilmente contra o seu abraço.
— Então, quer dar uns amassos no espaço? — Ele perguntou, encarou os olhos dele enquanto a mão direita dela o abraçava de volta.
O coração de Johnny acelerou como nunca antes, mais um aviso de que não era qualquer momento. Ele inclinou o rosto para ela, os lábios se aproximavam. Até que o conector ao seu ouvido chiou.
“Storm, Rudolph. Retornem ao compartimento central. As ondas de radiação cósmica aumentaram consideravelmente, houve alterações. A tempestade está prevista para daqui duas horas”. Era a voz de Tom. Johnny não teria deixado isso o parar, mas abriu os olhos e se afastou se virando para a escada.
Ele segurou em sua mão e a puxou para perto de novo.
— Se deixar o momento passar, vai se arrepender depois. — Ele direcionou o seu melhor olhar Johnny Storm, mas não funcionou. O momento já havia passado.
Rudolph soltou sua mão e ajeitou o rabo de cavalo.
— Não seja tão convencido, Storm. — Ela disse, subindo a escada e abrindo a escotilha para saltar para fora. — Isso não foi nada.
Ele suspirou, lamentando que não tivesse sido daquela vez. Seria uma boa recordação. Já havia beijado várias garotas, mas nunca uma no espaço.
Ele apertou o botão abaixo da placa de metal e toda a estrutura voltou a cobrir o vidro. Quando ele se virou para subir a escada, reparou na pequena câmera no canto superior do compartimento e então lembrou que eles estavam sendo monitorados pela base o tempo todo. O que o levou a perceber que Tom Von Doom estava observando e podia tê-los interrompido de propósito.
Agora Johnny tinha dois motivos para socar o cara.
Ele murmurou enquanto saía do compartimento:
Filho da



Capítulo 5


QUANDO ELE CHEGOU no compartimento central, Reed, Sue e Victor já estavam checando os dados de pesquisa. Sue separava as amostras de plantas a serem colocadas do lado de fora da estação para entrar em contato com a nuvem da tempestade.
— Tivemos algumas alterações, mas nada que não tenha sido previsto. — Reed explicava à base pelo conector. — É uma singularidade, é comum que não tenhamos os dados exatos. É para isso que estamos aqui, para observar….
Johnny passou por eles e seguiu até a câmara onde Ben se preparava para sair da nave. Ele estava com um macacão especial leve e colado ao corpo enquanto checava o traje espacial que ele iria vestir.
Johnny se aproximou dela e começou ajudá-la a abrir todos os fechos. O traje era pesado e levava vários minutos até ser colocado no astronauta.
— Quero ver quando Reed vai perceber que não tem a menor chance com a minha irmã. — Ele comentou com Ben e quis ver se respondia também, nem parecia que um instante atrás eles estavam falando de beijo sob as estrelas.
— Entre ele e Victor, ela deveria escolher Reed. — Ben disse enquanto Johnny e subiam a parte de baixo do traje pelas suas pernas.
Rudolph checava os fechos dos tornozelos e das panturrilhas, enquanto ele checava o da cintura.
— Victor é rico, famoso, tem o carro do ano e está caidinho por ela. — Johnny enumerou os fatos. — Reed é um cientista falido.
e ele pegaram a parte superior do traje e o colocaram sobre o tronco de Ben, fechando todos os lacres e botões elaborados. Ela parecia muito concentrada, como se Johnny nem mesmo estivesse ali.
— Aquele cara não presta. — Ben argumentou, franzindo a testa quando sentiu o peso do traje sobre si. — E, Johnny, talvez não sejam só os sentimentos do Reed. Talvez ela queira algo também.
— Posso garantir que todo luxo dos Von Doom não passa de lixo. — falou, se afastando alguns passos para observar melhor o traje de Ben. E então olhou para Johnny. — Sua irmã só faria bem a si mesma se deixasse aquele idiota.
— Como foi com o Tom? — Johnny chegou no ponto em que queria. Ben olhou para ele como se estivesse o alertando para não perguntar demais, porém sorriu. — Começamos bem. Temos a mesma idade, a mesma paixão por descobertas. Ele parecia só um garoto rico e mimado, ficava com todas as garotas. — Ela disse e se aproximou de Ben para ajustar a parte do colarinho onde encaixavam o capacete. — Então me fez acreditar que tínhamos algo de especial. Namoramos e noivamos. Ele precisava apresentar um novo projeto para o irmão e ajudar na empresa, já que as ações estavam caindo. — Ela pegou o capacete transparente da bancada ao lado e se virou para Johnny. — Achou que poderia pegar o meu projeto e vendê-lo sem me consultar. Quando eu descobri, achou que “estava tudo bem, porque eu faria aquele sacrifício pelo meu noivo”.
— Babaca. — Disse Ben, recebendo o capacete de .
— Tirou um bilhão dele e o acertou nas bolas, eu espero. — Johnny deu um sorriso brincalhão e até Ben se surpreendeu quando retribuiu.
— Infelizmente, eu não havia pensado na segunda parte. — Eles seguraram Ben pelos braços e o ajudaram a se posicionar em frente à abertura da nave. — Quem sabe na próxima.
Johnny riu ao pensar em Tom os interrompendo pelo comunicador:
— Talvez na próxima seja eu quem vai chutá-lo.
Sue se aproximou, segurando as amostras em frascos que colocaram em uma mala aberta e adaptada para ser encaixada no traje de Ben. Ela a entregou para , que, com cuidado, prendeu a maleta transparente na parte frontal do traje de Ben e verificou se as amarras estavam firmes.
Sue observou a colega, notando a atenção e o cuidado com que ela executava a ação, repassando os passos para ter certeza de que não ocorreriam falhas.
Johnny sabia que os filmes nunca mostravam como era realmente a manutenção e a preparação para vestir um traje espacial. Na realidade, levava até quarenta e cinco minutos para o astronauta estar completamente pronto e vestido. Cada detalhe precisava de cuidado, qualquer falha no espaço era mortal.
E Rudolph, experiente como era, sabia muito bem que se houvesse qualquer erro na colocação, por menor que fosse, Ben iria para o espaço. Literalmente.
Johnny quase riu com seu próprio pensamento.
— Para de graça, Storm, e me ajuda com o SAFER. — Rudolph disse, o fazendo perceber que ele realmente havia deixado uma risada baixa escapar.
Ele e checaram o SAFER, que era o cabo e o controle ligados ao traje que permitiam que o astronauta não ficasse muito longe da nave e pudesse retornar em caso de algum incidente.
Por último, eles checaram os níveis de oxigênio, hidrogênio e água armazenados na mochila do traje. Tinha o bastante para manter Ben por sete horas fora da nave, mesmo que não fosse necessário todo esse tempo.
— Tudo certo, grandão. Agora é só não se perder lá fora. — Johnny disse, dando um tapinha no ombro de Ben, que nem sentiu o gesto, já que sua roupa tinha quatorze camadas super finas de fibras especiais.
Reed entrou na câmara para dar uma olhada.
— Tudo certo, Ben? — Ele perguntou pelo comunicador para testá-lo.
— Sim, estou pronto. Rudolph já checou todos os instrumentos.
Ele sorriu para , que seguiu para o lado de Reed. Ele, carinhosamente, lhe afagou as costas e Johnny percebeu que ele era a única pessoa que a tocava assim. Às vezes, Ben bagunçava o cabelo dela de um jeito carinhoso também, mas só de vez em quando. Johnny não soube o porquê reparara logo naquilo.
Johnny e os outros saíram da câmara e passaram para o compartimento central, onde tinha uma enorme tela de vidro pela qual era possível ver Ben. Ele fechou o capacete e, com o comando em sua mão direita, ajustou o visor. Sue e Reed seguiram para o computador central onde Victor estava guiando a comunicação com a base.
e Johnny ficaram na intersecção da câmara com o compartimento, onde havia o controle de fechamento das comportas, eram duas: uma que separava a câmara do compartimento central e outra que separava a câmara do espaço sideral.
— Vamos começar a contagem. — Reed anunciou e Johnny pôde ouvi-lo também pelo comunicador em seu ouvido.
— Vai ser rápido, duas horinhas... — Bem respondeu brincando. Pelo comunicador, Rudolph reconheceu os sinais de excitação de quem estava prestes a flutuar no vácuo da existência. Era aterrorizador e magnífico. Ela queria que tivesse sido ela.
— Não se engane, Ben. — Ela disse, o observando com Johnny ao lado dela. — A gente sente o tempo diferente no espaço. Se atente à sua lista de tarefas no braço esquerdo.
— Começando a contagem. — Reed anunciou. — 5, 4, 3…
Johnny apertou o botão de controle e a comporta entre a câmara e o compartimento central foi fechada.
— 2, 1... — Continuou Reed. Johnny acionou o outro botão e a comporta de aço entre a câmara e o Espaço foi aberta.
Ben tomou impulso e flutuou para fora da nave.
— Astronauta Benjamin Grimm está fora da nave. — Confirmou Reed para a base.
De onde Johnny e estavam era possível ver Ben e seu traje branco caindo na imensidão enquanto o cabo SAFER se esticava aos poucos.
Johnny olhou para ela até ela perceber que estava sendo observada.
— O que foi, Storm? — Rudolph se virou para ele, vendo os olhos azuis sugestivos dele e aquele meio sorriso debochado.
— A oferta dos amassos ainda está de pé. — Ele disse e mordeu os lábios.
— Não, obrigada. — Ela disse, se virando novamente para observar Ben que era um ponto branco distribuindo amostras genéticas pela estrutura exterior da nave.
— Tudo bem, estou à disposição quando precisar. — Ele piscou para ela. Era um idiota e ele bem sabia disso, mas pelo menos era um idiota bonito.
— Vou precisar que você execute bem a sua função. Não quero ter que pedir ao meu ex-namorado para nos resgatar caso você exploda essa nave. — Ela murmurou.
— Mas eu bem poderia explodir todo o resto e deixar só nós dois sob as estrelas. Prejuízo de bilhões para os Von Doom e um pouco de romance no espaço para você. — Ele sugeriu com aquele olhar brincalhão que podia muito bem ser sério.
Cala a boca, Storm! – Rudolph acertou um soco no ombro dele, era a primeira vez que ela o batia diretamente sem disfarçar sua impaciência com ele. O que significava que ela estava muito irritada.
— Humm, então é disso que você gosta... — Ele murmurou, voltando seus olhos para a silhueta distante de Ben. — Romance no espaço.
Rudolph revirou os olhos e o ignorou pelos trinta minutos seguintes. Reed fazia o monitoramento de dados, Sue preparava as próximas amostras e Victor mantinha o contato com a base descrevendo o andamento em tempo real.
e Johnny observavam Ben e dialogavam com ele para manter os níveis de ansiedade e de estresse baixos. era quem monitorava os dados do metabolismo dele, como respiração e batimentos cardíacos, enquanto Johnny checava os dados do traje, como exposição à radiação, temperatura, oxigênio e etc.
Rudolph e Johnny alinhavam os seus dados para garantir a segurança de Ben. Por um momento, até ficaram lado a lado com os braços se tocando. Ela notara que o nível de ansiedade aumentara um pouco e Johnny precisou fazer alguma piada ridícula para Ben rir.
Até que um som alto soou pela mesa de controle de Reed. Os radares e medidores de radiação apitaram, Johnny sentiu Rudolph ficar tensa ao seu lado.
— O que é isso, Reed? — Ela olhou para trás na direção da mesa de controle onde Reed encarava as telas com uma expressão alarmada.
— Tem algo errado, a tempestade de radiação cósmica se aproxima. — Ele disse, checando os dados na tela novamente.
— Mas os cálculos indicavam que isso ocorreria só daqui a nove horas. — Victor murmurou e, em seguida, tocou o comunicador em seus ouvido. — Aqui é da estação Von Doom, permissão para emitir chamado de auxílio às outras estações espaciais, tempestade de radiação se aproximando em...
— Quanto tempo, Reed? — Sue perguntou, o seguindo para olhar os telões.
— Cinco minutos! — Gritou Reed.
e Johnny olharam para o ponto distante que era Ben. Mais distante ainda no vácuo escuro do espaço, algo começava a tomar a forma de uma névoa cheia de energia. Era como se uma nuvem de fragmentos do universo começasse a se formar anunciando uma tempestade.
— A singularidade se desloca vários metros por segundo, ele não vai conseguir. — sussurrou e ativou o comunicador em seu ouvido, levantando o indicador para que os outros fizessem silêncio.
Ela estava no comando agora. B — Ben, consegue me ouvir? Isso é uma emergência, precisamos que volte para a nave imediatamente. — A voz dela estava séria de um jeito que Johnny nunca tinha ouvido antes. E Rudolph sempre era séria.
— Ainda não terminei de colocar todas as amostras. — Ben disse pelo comunicador.
— Precisamos que retorne agora. Isso é uma ordem. — Ela disse com a seriedade um pouco mais autoritária. — Preciso que chegue aqui em cinco minutos contando a partir de agora.
Ben se movimentou ao longe, já virando seu corpo em direção à nave. Atrás dele, ao longe, a tempestade crescia tomando cores aterrorizantes, como se um pequeno sol tivesse se misturado a um pequeno planeta e dançasse em forma de uma nuvem linda e mortal.
— Você está indo muito bem. — Ela continuou a dizer pelo comunicador e sinalizou para que Johnny abrisse a comporta de metal para a câmara. — Mas eu preciso que use o SAFER para ter mais impulso.
Ben estava mais próximo da nave, apenas alguns metros. Mas a nuvem atrás dele era claramente mais rápida.
Johnny viu uma gota de suor escorrer pela têmpora de , mas ela não demonstrava nervosismo em sua voz. Era porque precisava passar segurança a Ben e não aterrorizá-lo sobre a possível morte nos próximos três minutos.
Ela olhou para o traje espacial na câmara e Johnny soube o que ela estava pensando.
, não dá tempo de você ir lá fora. — Johnny disse e surpreendeu a si mesmo com o tom firme e confiante. — Precisamos de você aqui para guiar Ben.
Johnny ativou o botão para abrir a comporta de metal. A entrada estava livre, aguardando Ben. Todos encaravam pelo vidro enquanto ele ativava o jato de nitrogênio do traje e avançava mais rápido.
— Aqui é a estação Von Doom para a base de operações. Risco de contato com radiação cósmica... Repito. — Victor continuava no controle central. Se virou para outros furioso e gritou: — Deixem-o lá! Fechem as portas e ativem o escudo da nave.
— Isso mesmo, continue Ben! — incentivou e Johnny deixou a mão sobre o comando pronto para fechar a porta.
Só mais alguns centímetros e ele conseguiria entrar. Mas no mesmo instante em que Ben alcançou a nave, a tempestade também alcançou.
Ben entrou e no mesmo instante Johnny acionou o fechamento das portas. Mas um microssegundo e a falta dos escudos de proteção não impediu a nuvem de radiação cósmica os atingisse.
Ben foi arremessado contra o vidro e mesmo estando fora da câmara, Johnny e os outros foram atingidos. A nuvem de radiação cósmica invadiu a nave como uma grande massa de energia, sacudiu as estruturas de metal, sacudiu as células de seu corpo. Ele sentiu como se tudo fosse uma enorme fogueira.
, que estava ao seu lado, foi arremessada para trás, Reed caiu ao chão e Sue, de alguma maneira, se manteve em pé, mas seu corpo estranhamente parecia estar desaparecendo.
A sensação de ser queimado vivo consumiu Johnny até que ele perdesse o controle e a consciência.


Capítulo 6

>JOHNNY ACORDOU SENTINDO A CABEÇA LEVE DEMAIS. Já fazia uma semana que ele acordava sem ressaca, algo inédito de acontecer quando ele estava em terra firme. Nada de noitadas, bebedeira e principalmente nada de garotas, porque ele estava em quarentena.
Ele achava que devia ser considerado um crime federal impedir o mundo de sua ilustre presença. Mas depois do fiasco que havia sido a missão espacial, ele fora obrigado a ficar em constante monitoramento até que a equipe médica tivesse a certeza de que estava tudo bem.
Então, ele e os outros ficavam em uma base que mais parecia um resort. Claro que Victor estava bancando tudo aquilo. Cada um tinha seu próprio quarto, havia uma sala de jogos e uma vista maravilhosa para as montanhas cobertas de neve. Johnny estava louco para dar uma escapada e ir esquiar.
Sua rotina consistia em tomar café da manhã (bem melhor que a comida da nave, pelo menos), passear pelo resort, pensar em formas de escapar daquela prisão e ainda adormecer jogando o videogame que havia em seu quarto particular.
Como os exames e a observação eram individuais, ele só ouviu os médicos assegurando que todos estavam bem e que logo poderiam se ver. Foi depois de uma semana que ele encontrou Reed no almoço e ficou até aliviado por finalmente ver algum conhecido.
Ele passou pelas mesas até chegar na de Reed, que ergueu o olhar para ele, claramente aliviado também.
– Cara, eu achei que iriam me fazer de cobaia. Estava começando a ficar preocupado. – Johnny disse, puxando uma cadeira para ele se sentar ao lado de Reed, e pegou uma batata frita do prato dele.
– Eles precisavam ter certeza de que seria seguro. – Reed disse e Johnny fez um gesto para ele parar, havia escutado aquela porcaria todo dia. – Como está se sentindo?!
– Péssimo, sem liberdade. Quero ir esquiar.
– Não, Johnny! Depois do acidente…
– Ah, nunca estive melhor! – Ele disse, piscando um dos olhos para Reed. – Mas esse lugar é terrivelmente quente, estou morrendo de calor. Um passeio nessas montanhas iria me refrescar! Quer ir comigo?!
Reed suspirou naquela pose de adulto responsável.
– Não podemos sair, Johnny!
– Acha que sairia para esquiar?!
?! Claro que não…
– Claro que não. Ela é um pé no saco igual a você. – Johnny quase ficou constrangido consigo mesmo por ter pensado nela como primeira opção para uma companhia, mas a expressão de Reed o deixou curioso.
– Ela não iria, porque não acordou ainda. – Reed completou.
– Faz uma semana desde que voltamos e ela ainda não acordou?! – Johnny murmurou, um dos raros momentos em que deixou o tom brincalhão.
– Todos acordamos. Sue demorou um pouco mais. Mas estamos bem, nada fora do esperado… Mas, … Johnny, eu acho que tem alguma coisa. – Ele murmurou, estalando os dedos. Era possível ver a culpa corroendo o cientista. – E se ela não se recuperar?! E se permanecer sequelas?! A NASA não aceitaria ela assim e esse trabalho é tudo para ela.
– Reed…
– Eu pedi acesso aos registros médicos, mas Victor está furioso e não permitiu que eu soubesse…
– Meu Deus, Reed! Não foi culpa sua. – Johnny passou a mão pelo cabelo curto, nunca foi bom em consolar outras pessoas. – sabia muito bem dos riscos e, pelo que eu saiba, ela é a mais experiente de nós. Ela é tão forte como é chata, então ela vai aguentar. Vai acordar e fazer o que faz de melhor: encher o meu saco.
Reed o olhou meio boquiaberto e Johnny se levantou, roubando a última batata.
– Agora, se me dá licença, eu vou planejar minha fuga para fora deste lugar.
E ele saiu antes que pudesse vacilar e demonstrar sua preocupação.

**


A manhã e boa parte da tarde já haviam passado e Johnny deixou o plano de escapar de lado e focou em outra coisa que ajudaria a acalmar a sua mente. Primeiro, precisou convencer uma enfermeira bonita a lhe deixar espiar os registros de Rudolph.
“– Somos melhores amigos de infância e eu estou muito preocupado. Ela tem meio que uma quedinha por mim e eu vivo dizendo que nada vai rolar, mas ela é minha amiga e quero saber se ela está bem.” – Johnny havia dito naquele tom de voz que dizia algo doce, mas com olhos intensos demais, e ele sabia que iria dar certo.
A enfermeira havia deixado ele olhar a pasta por alguns segundos. Johnny achava engraçado como as pessoas não esperavam que ele também fosse um gênio. Suspeitava de que seus olhos eram tão lindos que faziam as pessoas esquecerem que ele era um garoto prodígio. Tinha sido expulso do programa da NASA? Sim, maaas… Havia sido aceito e havia sido convocado para ser o piloto do projeto de Reed.
Johnny tinha suas habilidades e uma delas era a memória fotográfica. Graças a isso, ele tinha as melhores notas sem precisar estudar e assim usava o resto do seu tempo para curtir. Coisa que deixava sua irmã, Susan, abismada, já que ela sempre fora a gêmea nerd.
Ao olhar os registros de Rudolph, Johnny captou algumas informações breves como tipo sanguíneo, nenhuma doença crônica, alergia a castanhas e p fato de seu estado de inconsciência não ter apresentado melhoras.
– Ouvi o médico dizer que vão liberar as visitas esta noite para a Dra. Rudolph. – Disse a enfermeira, se aproximando demais de Johnny. A informação o deixou tão atônito que ele nem mesmo se importou em continuar o flerte.
Johnny passou os olhos brevemente pelo histórico familiar para ter uma pista de quem iria visitá-la. O campo de “nomes dos pais” estava vazio, as únicas informações eram “ascendência coreana e alemã comprovada por exames de DNA, pais desconhecidos”. Mais abaixo, havia o contato de pessoas mais próximas para casos de emergências: uma delas era Reed, a outra era o ex nojento do Tom Van Doom e, por último, estava o contato de Chloe.
Jhonny não entendeu porque somente essas pessoas estavam listadas. Rudolph podia ser irritante, mas mesmo assim ele esperava que ela tivesse outros amigos e quem sabe uma família. Ele se sentiu incomodado com a sensação de preocupação crescendo em seu peito, afinal Johnny Storm só se preocupava em curtir. E aquela situação estava longe de ser uma curtição.
– Obrigado, boneca. – Ele disse, devolvendo a ficha para enfermeira, e novamente se afastou para buscar algo que pudesse ajudar sua mente no momento.
E por que diabos estava tão calor?!
Ele murmurava para si enquanto andava pelo corredor da enfermaria. Aquele local deveria estar com o ar condicionado ligado para que evitasse a proliferação de bactérias (sim, ele entendia dessas coisas também, e estava orgulhoso disso).
Entrou no quarto de Reed e o encontrou debruçado sobre uma pilha de anotações.
– Quais as flores preferidas da Rudolph? – Ele perguntou, sabendo que Reed daria a resposta sem olhar para ele, sempre ficava distraído com o trabalho.
– Não sei, mas eu e Ben demos a ela violetas quando ela foi aprovada no programa da NASA. – Ele murmurou, revirando a pilha e, antes que ele pudesse perguntar o motivo, Johnny se apressou em sair do quarto.
Violetas, fazia sentido, pensou Jhonny. não ia gostar de algo extravagante.
Ele não podia sair daquela prisão disfarçada de prédio/resort, mas ainda conseguia fazer encomendas.
O pequeno vaso de Violetas chegou logo no horário das visitas noturnas. A enfermeira que havia dado a ficha para Johnny mais cedo bateu na porta do seu quarto e entregou o vaso com violetas. Ele tinha um laço prateado e um cartão para Johnny assinar. As violetas eram roxas e o faziam lembrar de toda a imensidão do universo e suas nuvens nebulosas.
Ele escreveu no cartão uma coisa que Rudolph entenderia e, orgulhoso de sua audácia, saiu em direção ao quarto dela. Era no mesmo andar, porém a ala era grande e ele precisou atravessar o corredor.
Quando chegou no quarto, encontrou uma equipe de três enfermeiras. Uma estava ajeitando a cortina, outra estava arrumando os cobertores de e a última estava organizando sobre a mesa do quarto três vasos de flores. Ao redor do quarto, havia vários vasos de flores. Orquídeas, rosas de todas as cores, lírios, margaridas… Todas espalhadas pelo local.
Johnny se aproximou da cama de e olhou para ela. Fazia mais de uma semana desde que a vira pela última vez. Ela estava pálida, a respiração era tão fraca que seu peito mal parecia estar se movendo. Ele colocou as violetas sobre a mesinha ao lado da cama e sentou na cadeira mais próxima de .
– Quem trouxe todas essas flores? – Ele perguntou para a enfermeira, que colocava mais um cobertor sobre Rudolph.
– Tom Von Doom enviou todas elas. – Respondeu a enfermeira. Ela tocou o braço de para ajeitar o corpo dela sobre a cama e paralisou assim que encostou na pele dela.
A enfermeira tremeu e subitamente desmaiou, Johnny se levantou para ajudar, mas as outras duas já haviam se aproximado e a seguraram.
– Está tudo bem? – Johnny perguntou, surpreso.
– Sim, vamos levá-la para fora. A pressão deve ter caído. – Disse uma delas enquanto dava apoio para a outra caminhar para fora da sala. A enfermeira que estava sendo guiada parecia atordoada, prestes a desmaiar de novo.
Como as enfermeiras pareciam ter resolvido a situação, Johnny se permitiu voltar a sentar na cadeira e cruzou os braços sobre o peito encarando todas aquelas flores.
– Espero que você coloque fogo nelas. – Ele murmurou, lembrando da cara de Tom.
Seus olhos azuis se voltaram para . Agora que não havia mais ninguém no quarto, ele não precisava esconder a ruga de preocupação que se formava em sua testa toda vez que pensava nela.
Johnny observou seu rosto, parecia mais suave e corado do que alguns minutos atrás quando tinha entrado no quarto. A cor estava voltando aos seus lábios e até a respiração estava se tornando mais firme e ritmada.
Johnny encarou e se inclinou na direção dela. A pele estava deixando o tom pálido, ela mexeu os dedos da mão sobre o cobertor. Ele se levantou subitamente animado, nervoso e desacreditado.
Por um instante não soube o que fazer, deveria sacudi–la?! Deveria dar um tapa pra ver se ela responderia?! Ela acordaria furiosa, seria engraçado. Mas o correto – e menos divertido – seria chamar o médico. Então, ele se virou na direção da porta e antes que conseguisse alcançar a maçaneta, a voz de soou pelo quarto:
– Para que todas essas flores? – Ela estava rouca e cansada. – Parece um funeral.
Ele se virou novamente para ela, que agora estava com os olhos piscando. A cientista passou a mão pelo cabelo escuro e liso.
– Estou muito cansada. Devo estar horrível. – Ela murmurou com a voz quase sumindo.
– Está mesmo. – Johnny mentiu. Ele de fato gostava de como o cabelo dela deslizava pelo seu rosto e destacava seus olhos.
Ela o encarou com aquele ar severo.
– O que você está aprontando? Por que está no meu quarto, Storm?
– Eu estava entediado e faz uma semana que você está assim. – Ele voltou a se sentar na cadeira com o sorriso brincalhão no rosto, escondendo seu alívio.
– Uma semana?! – repetiu com um suspiro cansado. – Minha nossa, eu me sinto horrível.
Ela virou o rosto para ele e seus olhos viram o vaso de violetas na mesinha.
– Eu gostei dessas. – Ela disse e levantou a mão em direção ao vaso, mas o movimento era fraco e descoordenado. Johnny segurou o vaso, orgulhoso, e o colocou no colo dela.
pegou o cartão com dificuldade e leu a mensagem nele.
“Espero que você melhore para lembrar para sempre que deveríamos ter dado uns amassos no espaço”.

Rudolph bufou.
– Cai fora do meu quarto, Storm! – Ela murmurou.
Ele riu, satisfeito.
– Você vai me obrigar?! Não consegue nem falar, Rudolph.
– Você é insuportável. – Ela murmurou, irritada, mas as mãos continuavam a segurar o vaso mesmo assim. – É um calor terrível! Você é muito quente!
Johnny a olhou surpreso.
– Eu não esperava que você fosse admitir tão cedo que eu sou quente.
– Não, seu idiota! Você realmente está quente, como se fosse uma nuvem de calor ambulante. Eu consigo sentir.
Johnny revirou os olhos, lembrando que havia desistido de esquiar só para estar ali.
– É esse lugar horroroso, parece uma sauna. – Ele reclamou e observou esticar a mão até ele.
– Acho que você está mal, com febre ou algo assim…
A mão dela alcançou a dele e algo no interior de Johnny sacudiu. Como se o cronômetro de uma bomba tivesse chegado no zero e tudo fosse sair pelos ares.
Ele olhou nos olhos e foi ali que as chamas surgiram.
O quarto pegou fogo.
E não no sentido que Johnny usava para descrever suas noitadas. Era um incêndio real saindo de todo o corpo de Johnny, passando por como um imenso catalisador e atingindo as paredes do quarto.


Capítulo 7

AS CHAMAS COMEÇARAM A TOMAR conta da cama de . Ela se levantou, segurando o vaso de violetas, e correu em direção à porta. As chamas começavam a envolver as paredes como uma grande fornalha e o mais assustador era que Johnny estava completamente coberto delas.
Não queimava, apesar de ser muito quente. Era como se ele estivesse aliviando a pressão que estava presa dentro de si durante o dia todo. pegou o pequeno extintor da parede da porta e se virou para ele. Johnny jurava que ela iria sair do quarto, mas ao invés disso, ela ligou o extintor contra seu peito.
Tudo que ele podia sentir era uma incrível sensação refrescante enquanto olhava para o seu corpo, incrédulo; as chamas haviam ido embora e ele continuava intacto. direcionou o jato do extintor para as paredes do quarto, tentando conter as chamas. O sensor de incêndio estava apitando insistentemente e ela extinguiu até a última chama.
Ele não sabia o que dizer. Não conseguiu conceber o que tinha acontecido, sua roupa inteira havia se desfeito em fiapos que caíram do seu corpo. Ele encarou o próprio corpo nu e olhou para .
Ela estava com aquela costumeira expressão de preocupação, franzia a testa e seu olhar vidrado estava no corpo de Johnny. Ela jogou o extintor para um canto qualquer, deixou o vaso de violetas sobre a cama, que soltava fumaça do colchão queimado.
Ela se aproximou de Johnny e tocou seus braços, tocou seu peito e por fim seu rosto, olhando finalmente nos olhos dele.
O toque dela era quente, quente de um jeito diferente do incêndio de instantes atrás.
— O que foi isso, Johnny? Você está bem?
— Estou ótimo! — Ele disse, olhando para os próprios braços mais uma vez. — Eu estava completamente...
— Em chamas. — Ela completou em voz baixa. As mãos dela ainda seguravam a pele dele, o toque quente estava ficando mais gelado agora.
Johnny sentiu a energia se esvair rapidamente pela sua pele, estava com frio e de repente muito sonolento.
, tem algo errado... — Ele murmurou, tentando manter os olhos abertos, sentindo a pele doer onde ela estava tocando.
Ela olhou para ele, confusa, e depois para as próprias mãos que o tocavam. Ela imediatamente o soltou e Johnny cambaleou à procura de algo para se apoiar.
Reed e Sue entraram no quarto, atônitos. Havia um grupo de enfermeiros atrás deles.
— Vocês estão bem? — Reed se aproximou, olhando ao redor todo o quarto, que agora tinha manchas pretas nas paredes, cheiro de queimado e fumaça, que o fez tossir.
— Johnny, você está bem? — Sue se aproximou do irmão e ele deixou que ela sustentasse o peso do seu corpo.
— Eu estava pegando fogo, completamente em fogo. — Ele murmurou.
Reed se aproximou de com a mão estendida, mas ela se encolheu contra a parede.
— Não me toca, Reed! Não me toca! — A voz dela soou com um desespero contido.
, o quê…?
Mas a pergunta parou no ar quando Johnny perdeu a consciência e caiu sobre Sue, que tentou segurá-lo da melhor maneira possível. Dois dos enfermeiros se aproximaram para pegar Johnny. Ele estava pálido e seus lábios haviam perdido a cor.
Sue, desesperada, tentou segurar a mão do irmão enquanto o levavam para fora do quarto. Mas, assim que alcançou os dedos frios de Johnny, sua mão clareou até desaparecer por completo. Em um primeiro instante, ela pensou que o problema fosse seus olhos, mas quando ela se virou para Reed, viu que ele também estava confuso.
Os dois se viraram para , que estava no canto da parede com os braços cruzados sobre o próprio corpo. Ela olhava para a porta por onde os enfermeiros haviam levado Johnny.
Reed tinha uma teoria e, para testá-la, ele se aproximou de devagar.
Ela balançou a cabeça de forma negativa para ele.
Reed parou na frente dela e estendeu a mão:
— Só um toque. Eu quero ver.
Ela ergueu a mão trêmula e hesitante, só com o indicador ela tocou levemente na palma da mão de Reed. O toque durou um segundo e no começo era apenas uma sensação de formigamento, como se a mão de Reed estivesse coçando. Até que o incômodo começou a se estender pelo braço todo.
Reed sentiu o braço cansado, como se ele tivesse acabado de fazer uma série de exercícios; tão cansado a ponto de não conseguir controlar os próprios músculos. Seu braço direito esticou como uma borracha derretida até chegar ao chão.
Sue sufocou um grito.
se encolheu ainda mais, como se fosse fazer um buraco na parede e se prender dentro dela.
— Reed, você está bem? — Sue disse, hesitando em tocá-lo.
— Eu estou bem, eu estou bem. — Ele se virou para com uma calma que só Reed Richards teria no momento. — Está tudo bem. Precisamos contar ao Victor.
Como se Reed tivesse invocado o diabo, Tom Von Doom entrou no quarto.
Seus passos eram calmos, seus olhos esquadrinharam cada canto do local e repousaram em .
— O que houve?
— Estamos apresentando os efeitos colaterais por ter entrado em contato com a radiação cósmica. — Reed disse enquanto seu braço voltava ao normal em um ritmo lento.
nunca tinha visto Tom com o olhar alarmante desde o fim do noivado.
— Meu irmão está se sentindo indisposto, mas eu tomarei as providências necessárias. — Ele disse, observando as manchas escuras nas paredes e nos vasos de flores queimadas.
— Victor também apresentou algum sintoma? Precisamos examiná-lo também. — Reed disse, preocupado, mas Tom dispensou seu comentário com um gesto rápido com a mão. — Ele está recebendo o melhor atendimento da nossa equipe. Precisamos nos preocupar com outra coisa agora. — Ele colocou as mãos no bolso da calça social. O cabelo estava um pouco comprido, chegando à orelha. sabia que Tom sempre esquecia que precisava cortar o cabelo.
— Seu amigo, Ben, fugiu. Precisamos encontrá-lo, não sabemos o que pode acontecer com ele. —Tom continuou, deixando Reed tão alarmado a ponto de se calar.
— Alguém sabe para onde ele pode ter ido? — Sue perguntou.
— Ele foi ver a esposa dele. —Reed disse, passando a mão pelo cabelo, bastante apreensivo. — Eu preciso recriar a tempestade com os mesmos padrões para possivelmente reverter...
— Reed. —Tom o interrompeu, colocando a mão sobre o seu ombro. — Não podemos recriar a tempestade cósmica. Se der errado, a cidade de Nova York ou até mesmo o planeta poderiam ser engolidos por ela. Não faremos isso.
— O que faremos, então? — Questionou Sue, irritada. — Estamos sob a jurisdição da Von Doom e agora estamos doentes ou sei lá e está me dizendo que não temos como reverter?
— Estou dizendo que encontraremos outra maneira. —Tom tentou amenizar. — Olha, com o fiasco da missão, perdemos bilhões e os investidores deixaram de nos apoiar. Não temos condições de bancar o risco que é recriar um fenômeno astronômico dentro da cidade de Nova York!
— Então, eu vou fazer essa merda sozinho. — Reed disse, se retirando, e Sue o seguiu.
se moveu até a porta, sentindo o olhar de Tom sobre ela. E pela primeira vez em muito tempo, ela parou e o olhou nos olhos.
Foi tão inesperado que Tom esqueceu como reagir por um momento.
— Onde deixaram o Johnny?
Era a primeira vez que ela lhe dirigia a palavra em um ano. A primeira vez que não brigavam e que estavam sozinhos e ela não estava o evitando. Tudo para perguntar por outra pessoa.
Tom suspirou, olhando para as flores queimadas.
— Ele está no quarto dele, não pareceu grave. A enfermeira disse que ele só tem uma febre insistente e que não passa. — Ele murmurou.
se virou para sair, mas Tom limpou a garganta.
— Chloe está preocupada. Deveria falar com ela. — Ele acrescentou.
se virou para ele.
— E como é que você sabe disso?
— Ela ligou algumas milhões de vezes para nosso centro de estudos. — Ele disse sem a olhar nos olhos.
conhecia Tom bem demais para saber que ele estava mentindo. Mas já havia passado da fase de tentar entendê-lo para a fase de não se importar mais. Então, ela saiu e fechou a porta, deixando Tom Von Doom com as cinzas de suas flores.

**


Quando Johnny abriu os olhos, se viu dentro do seu quarto novamente. Havia uma bolsa de soro ligada ao seu braço e Sue estava no pé de sua cama. Ela não estava mais com o pijama do hospital, havia trocado para um blazer e uma calça social.
Ela se aproximou no instante em que o viu se mexer.
— Johnny, você está...
— Estou bem, maninha. — Ele disse antes que ela terminasse de perguntar.
Ele se sentou na cama, lembrando-se da sensação de ser sugado para fora do seu corpo e olhar nos olhos confusos e assustados de . Ele nunca a tinha visto assustada antes, ela era sempre muito segura de si para mostrar esse tipo de reação.
está bem? — Johnny olhou para a irmã.
— Na medida do possível, sim. — Sue disse, pegando a mão dele. — Todos nós estamos confusos agora.
— O que houve?
— Todos nós estamos apresentando algum tipo de alteração no nosso DNA. Reed está disposto a descobrir o que fazer para reverter a situação, mas não vamos ter o apoio de Victor. — A irmã explicou, se sentando mais perto de Johnny.
— Eu sabia que ele era um cuzão, mas não esperava tudo isso.
— Reed acha melhor ficarmos no Edifício Baxter. Ele tem seu laboratório particular e podemos descobrir juntos o que tem acontecido. — Sue tentava tranquilizá-lo, mas, na verdade, Johnny não se sentia tão nervoso assim. — Quem sabe até reverter?
— Por que reverter? Eu estava em chamas e não me machuquei. — Ele franziu a testa. — Ganhamos um dom.
— Olha, Johnny, não sabemos nada sobre isso ainda. te tocou e sugou boa parte da sua energia. Reed descobriu que mais cedo uma enfermeira tocou nela e continua fraca e desacordada até agora. — Sue diminuiu o tom de voz preocupado. — Graças a Deus você está bem.
não me machucou porque quis. — Ele disse imediatamente.
— Não foi isso o que eu quis dizer. Estou dizendo que não sabemos mais o que somos capazes de fazer. E agora Ben fugiu e precisamos saber se ele está bem.
— Ele fugiu? Esse lugar está cheio de câmeras e seguranças. — Por um instante, Johnny queria ter pensado no plano quando queria esquiar lá fora.
— De alguma forma, ele quebrou a parede do quarto dele e desapareceu. — Sue suspirou. — Reed sugeriu que o procurássemos e em seguida ficássemos no Baxter até entender o que está acontecendo.
— Eu tenho outra opção? — Johnny arqueou uma das sobrancelhas.
Sue revirou os olhos.
—Você está a fim de sair daqui ou não?
Johnny suspirou como se estivesse fazendo um grande esforço.
— Vamos, então.
— Consegue levantar?
Às vezes, Sue conseguia ser muito superprotetora e Johnny detestava isso, porque eventualmente decepcionava a irmã.
— Estou bem, sério.
Ele retirou a agulha que levava soro até sua veia e levantou da cama do hospital. Já que o bando de cientistas chatos queria descobrir o que estava acontecendo, Johnny os ajudaria e ainda garantiria que iria se divertir.
Sempre disseram que quem brinca com fogo pode se queimar. Mas Johnny Storm estava começando a achar que ele era uma exceção.

**


Johnny não entendeu muito bem como eles eram resultado de um terrível acidente espacial, estavam em dívida com a Von Doom Enterprises e ainda assim saíram pela porta da frente normalmente.
Mais estranho era Victor não ter aparecido para humilhá-los e jogar na cara de todo mundo quantos bilhões havia perdido investindo naquilo. Reed havia comentado que ele estava "indisposto" e que Tom, o babaca mais novo, havia sido mais compreensível.
Johnny apostava que a cara de Victor havia derretido no espaço e que era quem havia deixado Tom "mais flexível".
Mas qual fosse a razão que os levou à entrada do grande resort Von Doom, lá estavam eles brigando para ver como iriam atrás de Ben.
— Um táxi só é o suficiente. — Reed disse, contrariando Sue.
Ela estava com uma expressão extremamente mal humorada. Johnny sabia que Victor não tinha nem ligado para saber como ela estava.
Mas também, como ele faria isso se estava com a cara derretida?
—Eu vou na frente e os três vão atrás! —Insistiu Reed. —Um táxi é o suficiente.
Eles eram dois cientistas, uma astronauta e um bonitão, e nenhum deles tinha um carro disponível. A situação toda era ridícula. Sem falar no piloto que quebrou a parede do próprio quarto e fugiu.
Será que Ben tinha um carro? Pelo menos não teriam que suportar a mesma briga na volta.
— Na verdade, Reed... — se pronunciou pela primeira vez no que parecia anos. — Eu prefiro que a gente se divida, para ter mais espaço, não quero acidentalmente tocar em alguém.
havia os encontrado na entrada do prédio e assistira a discussão até o momento. Ela olhou nos olhos de Johnny por um breve momento, com suas mãos estavam escondidas dentro do casaco.
— Tudo bem. Dois táxis então. — Reed finalmente cedeu e foi até a calçada dar o sinal para o carro amarelo que passava.
— Eu disse. — Sue murmurou, cruzando os braços.
— Eu e vamos no próximo. — Johnny informou quando o táxi parou no meio fio.
Reed abriu a porta e Sue pareceu meio relutante em ter que ir o caminho todo com ele.
Mas Johnny não estava a fim de ouvir todas as teorias que Reed tinha e não estava a fim de ouvir todas as reclamações de Sue. Sua melhor opção era .
Ele esticou a mão para puxar para perto e dar ênfase no que havia dito, mas ela rapidamente desviou do quase contato e foi até o meio fio para dar sinal ao próximo táxi.
Sue e Reed entraram no primeiro carro, e Johnny seguiram para o segundo.

**


— Brooklyn. — disse ao motorista e lhe deu os detalhes do endereço.
Johnny percebeu que ela havia tirado as mãos do bolso do casaco, mas elas estavam cobertas por um par de luvas pretas. A única parte de que não estava coberto era seu rosto.
— É o endereço do Ben?
— Sim, dele e da noiva, Debbie. — olhou pela janela, deixando claro que dificilmente olharia para Johnny durante o caminho. — Seria um bom local para começar. Tentamos ligar para ela, mas ela não atende.
Johnny se pegou imaginando o que havia acontecido com Ben. Ele realmente esperava que se alguém estivesse com o rosto derretido, que fosse Victor.
O motorista felizmente não era do tipo que tentava puxar assunto. O carro deixava para trás a área de árvores e seguia pelas ruas, que pareciam abrir caminho entre residências. Pela janela do carro, já era possível ver os grandes prédios do centro aguardando por eles.
Nova York era grande, bagunçada e imponente, mas depois que se vivia na cidade, parecia ser impossível pensar em qualquer outro lugar como casa. Entretanto, com tanta coisa ao mesmo tempo, ela também parecia solitária.
Pensar nisso deixou Johnny inquieto. O clima no carro estava pesado, não havia dito mais nada e nem mesmo olhado em sua direção. Pelo menos, era o que Johnny pensava, já que não havia percebido os olhares dela.
Ela estava sentada o mais longe possível dele. Ela sempre havia sido reservada, mas algo estava diferente. Johnny estava convencido de que estava apenas estressado e não incomodado com o distanciamento dela.
— Você está bem? — Ela finalmente disse quando o carro chegou em uma grande avenida, que logo daria acesso à ponte do Brooklyn.
— Sim, melhor impossível. — Ele disse, tentando parecer descontraído, mas seus dedos não paravam de tamborilar o encosto do banco à sua frente.
— Me desculpe por mais cedo. Eu não queria te machucar. — Ela murmurou.
Então, Johnny percebeu que todo o afastamento era culpa dele. E estava imóvel do seu lado do carro para não tocá-lo acidentalmente de novo.
Os olhos dele encararam as luvas que cobriam as mãos dela.
— Está tudo bem. — Ele disse. — Sei que não me odeia tanto assim.
Ela deu um meio sorriso, mas Johnny queria poder fazer mais por ela. E em um momento, sem pensar duas vezes, ele esticou o braço e alcançou as mãos dela.
Ele nunca tinha feito isso antes, um ato de afeto sem segundas intenções. Mas já que havia lhe mostrado como estava se sentindo, então talvez ele pudesse fazer o mesmo por um instante.
não evitou o toque e respirou fundo.
O carro parou e o motorista se virou para trás:
— Está tudo parado. Tem algo acontecendo, um acidente talvez.
olhou pela janela e viu as pessoas ao redor saindo dos carros e correndo para a frente. Johnny soltou a mão dela e saiu do carro.
Alguns veículos à frente, ele viu Sue sair do táxi com Reed.
Reed estava com a testa franzida e começou a caminhar na mesma direção que as outras pessoas.
Rudolph saiu do carro, olhando para eles se deslocando à frente.
— Onde esses malucos estão indo? — Johnny resmungou, fechando a porta do táxi e passando pelas pessoas apressadas, na tentativa de alcançar a irmã.
Rudolph seguia atrás dele.
Havia uma barreira formada por carros da polícia. Uma parte dos policiais tentava conter o grupo de pessoas, pedindo para elas se afastarem, e o restante havia cercado um dos caminhões parados. Eles tinham sacado as armas e era possível ver que estavam apontando para uma figura perto do caminhão.
O caminhão tinha avisos de possuir produtos químicos e tanques de gás em sua carga. O motorista descia do caminhão e parecia estar sendo auxiliado por outra pessoa.
Bem, achava que era outra pessoa. Mas havia algo de diferente.
Ele era grande e todo o seu corpo parecia ser um aglomerado de rochas que se moviam de forma brusca. Seu rosto era como uma montanha íngreme, que curiosamente parecia se mover em uma expressão de dor ao ver os policiais apontando as armas contra ele.
Ao lado de , Reed sussurrou o nome dele. E ao olhar nos olhos da coisa, percebeu.
— Ben.
Ela e Reed disseram juntos.
— Abaixem as armas. — Reed gritou para os policiais.
tentou avançar.
Sue tentava conversar com um dos policiais. E Johnny fazia alguma pergunta idiota como:
— Cadê as orelhas dele?
— Senhora, por favor, se afaste. — O policial na frente de segurou nos pulsos dela, bem onde a manga do casaco havia descido e deixado uma parte da pele exposta.
Ela se afastou com rapidez quando sentiu sua pele sugar uma energia incomum. O policial cambaleou para o lado, para cima de outro colega. Depois de checar que ele não havia a tocado tempo o bastante para perder a consciência, ela aproveitou para caminhar até Ben.
Ele baixou a cabeça quando ela se aproximou e olhou para o chão.
— Eu fui até a Debbie. — Ele murmurou encarando o chão. — Eu achei que ela era a única que poderia entender, mas... Ela me mandou embora.
seguiu o olhar de Bem e viu no asfalto a aliança de noivado.
Ele abriu a mão direita para e ela viu somente quatro dedos grandes e rochosos que dariam duas ou três de sua mão.
— Eu não consigo pegar.
se agachou e pegou a aliança com seus dedos cobertos pela luva escura e deixou a joia na palma da mão de Ben.
— Ei, cara... — Disse o motorista do caminhão, tentando falhamente não encarar muito Ben. — Obrigado.
Ben balançou a cabeça e olhou para os policiais.
— Eu não queria causar confusão, eu só ajudei parando o caminhão antes que ele batesse.
Reed passou pelos policiais e os alcançou, olhando para Ben com a culpa marcada em seus olhos.
— Ben, eu sinto muito. Mas eu posso reverter. — Ele murmurou. — Eu vou dar um jeito nisso, sem parar até conseguirmos.
— Reed, a responsabilidade não é só sua. — teria lhe afagado no braço, mas não podia mais. — Vamos começar a trabalhar.
Eles se viraram para voltar para perto de Johnny e Sue. Os dois irmãos eram o oposto em suas expressões, Johnny parecia alarmado e animado enquanto Sue parecia preocupada.
— Cara... — Começou Johnny, provavelmente pronto para alguma piadinha.
— Cala a boca, Storm! — e Ben disseram juntos.
Quando ela ergueu o olhar e viu todas as pessoas e os policiais os encarando de volta, desejou que pudesse ter segurado a mão de Johnny naquela hora.


Capítulo 8

SENTIU ALGO MUITO incomum. Sua mente estava tão agitada que ela não conseguia se concentrar. Ao mesmo tempo em que levantava hipóteses sobre os efeitos da radiação sobre em relação ao DNA de cada um, ela tentava desesperadamente não tocar em alguém.
Toda vez que um deles se aproximava, ela dava um passo para longe. Todo o clima estava tenso, começando por Ben que não cabia em nenhum táxi e precisou de uma carona do caminhão de bombeiros. Reed continuava com o olhar perdido e a cabeça entre as hipóteses e a culpa.
Sue chegou a tentar fazê-lo falar sobre o que estava pensando, mas no fim das contas só o irritou ainda mais. Ela continuava constantemente ligando para Victor, mas não obtinha nenhuma resposta.
O caminho até o Edifício Baxter não poderia ter parecido mais longo. Quando o grupo finalmente passou pela porta giratória e colocou os pés no hall de entrada, foi como se finalmente tivessem chegado em casa.
De fato, havia passado mais tempo lá do que em sua própria casa. O prédio era grande e luxuoso, nem ela lembrava quantos andares eram no total. Reed era proprietário dos três últimos andares e ele havia os adaptado para servir como uma espécie de oficina/laboratório/apartamento. Era uma bagunça científica adorável.
— Boa tarde, Sr. Richards. — Disse Rodney, acenando de trás do balcão da recepção, ele tocou a aba do chapéu. — E Senhorita Rudolph, que bom revê-la!
acenou com um sorriso enquanto esperavam pelo elevador.
— Olá, Rodney. — Sue cumprimentou, mas ele não respondeu.
Rodney havia acabado de notar Ben que passara pela porta giratória com bastante dificuldade e estava respirando forte demais, o que fazia parecer que ele estava prestes a esmagar alguma coisa.
E um cara grande feito de pedra realmente podia esmagar qualquer coisa.
O elevador chegou ao térreo e as portas se abriram. Felizmente, o elevador era grande: cabia Ben e ainda permitia que tivesse espaço para evitar contato físico com todos eles.
Ela reparou que Ben parecia ter crescido um metro a mais. Johnny não parava de o encarar, como se estivesse disposto a entender onde as orelhas de Ben tinham ido parar. estava pronta para socá-lo se ele fizesse algum comentário maldoso e estava considerando não usar sua luva para isso.
O elevador fechou as portas e apitou um alarme de aviso. No painel eletrônico apareceu a mensagem de "peso acima do recomendado“. Todos involuntariamente olharam para Ben Grimmes.
— Acho que é você, grandão. — Johnny disse num tom casual. — Vai ter que ir de escada.
— São mais de vinte andares. — protestou, perdendo a paciência com toda a situação incômoda. — Deve haver um jeito.
— Só se contratarmos um guindaste para o erguer pelo lado de fora e ele entra pela janela. — Sugeriu Johnny em tom sarcástico.
A sorte dele era que no elevador não tinha nenhum objeto que pudesse usar para jogar na cara dele.
— Eu vou de escada. — Ben murmurou entre o desânimo e a irritação.
— Não. — disse em um tom imperativo, sobressaltando a todos. — Você sobe sozinho, Ben. O resto de nós vai esperar o próximo elevador.
Ela apertou o botão para abrir as portas.
Johnny bufou revirando os olhos.
— O elevador não vai aguentar o peso dele. — Ele resmungou enquanto seguia os outros de volta para o hall de entrada.
Assim que eles saíram a porta do elevador fechou e ele subiu, carregando Ben.
Johnny ficou calado ao ver que tinha razão.
— Não é possível que Ben tenha tanta massa a ponto de o elevador não conseguir carregá-lo. Se fosse assim, ele iria se mover em uma velocidade extremamente baixa se considerarmos a força da gravidade. — recitou enquanto eles entravam no outro elevador.
— É só uma questão de física. — Murmurou Reed.
— Nerds. — Johnny murmurou enquanto fingia um espirro.
Reed suspirou em resposta enquanto Johnny sorria para si mesmo como se fosse muito engraçado.
O Edifício tinha tantas dezenas de andares que nem mesmo tentava contá-los ou memorizar a quantidade exata. Até chegar na cobertura, foram longos segundos desconfortantes com Sue e Reed evitando qualquer tipo de contato.
Ao contrário deles, Johnny parecia bem determinado a estar pronto para prender os olhos de caso ela olhasse em sua direção, coisa que aconteceu por um instante e ele aproveitou para piscar um dos olhos. Ela fingiu que não viu e olhou para seu relógio de pulso, como se tivesse acabado de perder um segundo e nunca mais pudesse recuperá-lo na vida.
Quando a porta do elevador se abriu, Reed tomou a frente e o grupo o seguiu pelo grande hall de entrada. Pelas paredes havia certificados e capas de revistas emolduradas, todas as conquistas científicas e acadêmicas estavam lá. Também havia uma mesa de vidro e, sobre ela, um jarro e vários envelopes.
Quando passou por ela, pôde ler o aviso vermelho que estavam nas cartas: "hipoteca". Percebeu o que a falha do projeto poderia significar financeiramente para Reed. Se ele já estava com problemas antes, então corria o risco de perder o prédio se não tivesse financiamento para suas pesquisas.
Ela se perdeu nesse pensamento por um instante enquanto eles seguiam para a sala.
Era bem maior que uma sala normal. Era como um enorme saguão de um laboratório e uma oficina espacial. Cheio de equipamentos, mesas, computadores atuais e avançados, que dificilmente estariam disponíveis no mercado para um público comum. Muitos papéis, relatórios, peças, máquinas inacabadas.
Céus! No meio, havia uma grande câmara fechada, que só Reed sabia para que seria útil. Aos olhos de todos, parecia uma grande bagunça de bugigangas científicas, mas todos sabiam que Reed seguia uma ordem que fazia sentido para ele.
Reed indicou a passagem à esquerda, que levava para a sala de jantar e para os quartos.
— Posso mostrar onde vocês podem ficar. Eu tenho toalhas e roupas... — Ele disse enquanto Sue e Johnny o seguiam. Então, ele parou e olhou para , que permanecera na entrada.
— Eu vou depois, quero ver o que temos disponível por aqui. — Ela disse se aproximando de uma das mesas.
Reed conduziu Sue e Johnny pelo corredor.
tirou o casaco e o pendurou sobre a cadeira e se sentou. Ela começou a reunir os papéis e separá-los por categoria. Separou o que era teoria, resultados de testes e o que eram os gastos que tiveram no decorrer do projeto.
Enquanto ela mexia nos papéis, Ben entrou no saguão de cara fechada e com os punhos cerrados.
— Aquele maldito elevador demorou mil anos. Todo mundo que entrava e me via saía correndo. — Ele resmungou, olhando ao redor. — Esse lugar é enorme, tem todo tipo de máquina. Mas não tem uma porcaria de cadeira onde eu possa sentar.
olhou ao redor e realmente todas as cadeiras eram pequenas demais para comportar o novo corpo grande e rochoso de Ben.
— Vou colocar isso na lista de prioridades, Ben. — retirou um papel e começou a anotar. — Você vai ser nossa prioridade.
Com o que ela disse, ele respirou fundo e abriu as mãos.
— Mas pode algo por mim, Ben? — Ela o olhou nos olhos, a única parte que a radiação espacial não havia alterado. — Descanse por hoje. Se alimente e tente se manter saudável. Quero que a primeira rotina de testes e coleta de dados seja com você, vou organizar tudo para começarmos amanhã de manhã.
, você precisa descansar também... — Ele disse com a voz rouca.
Reed entrou no saguão parecendo já ter ouvido o que foi dito antes.
— Eu e podemos esperar. Você não. — Reed disse e indicou o corredor para Ben. — Vem, você pode ficar com o sofá na sala de jogos.
Ele guiou Ben enquanto arregaçava as mangas da camisa social e começava e estabelecer as necessidades mais urgentes do grupo.
Alguns instantes depois, Reed se juntou à e começou a separar os dados coletados para montar as hipóteses.
— Precisamos criar um ambiente seguro para a análise de Johnny. Talvez aquela câmara possa ajudar, vamos precisar revesti-la... — murmurou, acrescentando anotações em seu computador.
Reed estava com a camisa amarrotada, tinha uma caneta atrás de cada orelha e encarava a lousa branca onde estavam seus cálculos.
Depois de um tempo, nenhum dos dois sabia dizer há quantas horas estavam ali. pensou em ter ouvido Ben gritar com Johnny, mas continuou calculando o que ainda lhes restava de fundo.
— Eu vou tomar um café e já volto. — Disse Reed.
— Você deveria dormir. — mal ergueu os olhos dos papéis. Seu olhar só desviava deles para ver a tela do computador. — Amanhã vai ser pior, precisa estar descansado.
— Certo... — Ele disse relutante. — Se precisar de algo, pode chamar.
— Não vou chamar.
Ele soltou uma risada fraca e cansada e seguiu em direção ao quarto.
Ela não queria dizer a ele que estavam com o fundo extremamente comprometido. Dificilmente, Victor iria colaborar, tendo em vista que a missão fora considerada um fracasso. Pensando na correspondência sobre a hipoteca que ela havia visto mais cedo, estava considerando se eles teriam que recorrer ao investimento do próprio bolso.
Não seria problema para ela ajudar. O problema era o orgulho de Reed, mas uma hora ele cederia. Ben e todos eles precisavam de uma resposta.
Ela, pela primeira vez, olhou no relógio e percebeu que já passava da meia-noite. bocejou e viu Sue e Johnny entrarem no salão.
Sue estava com roupas largas e o cabelo preso; segurava uma bandeja com um prato de comida e um copo de suco. Johnny estava de camisa, calça moletom e o cabelo loiro molhado do banho.
— Reed já foi deitar? — Sue disse, estranhando a ausência dele, sabendo que ele sempre virava a noite trabalhando.
— Eu o mandei ir. — disse, escondendo outro bocejo.
Sue deixou a bandeja sobre sua mesa e ela a encarou surpresa. — Você devia comer alguma coisa e descansar também. — Sue disse com uma voz doce, que quase deixou sem jeito.
Mesmo suspeitando que a comida era, na verdade, para Reed, ela agradeceu.
Johnny tirou a mão do bolso e mexeu na pilha de papéis, afastou a mão dele.
— Eu vou dormir agora. — Sue disse depois de ver os dois trocando faíscas de irritação pelo olhar.
Ela saiu para o quarto e Johnny puxou uma cadeira para ficar de frente para .
— Você sempre foi assim? — Ele perguntou.
— Assim como?
— Nerd.
olhou séria para ele:
— Sim. E você?
— Se eu sempre fui lindo? Sim.
— Na verdade, eu ia dizer "idiota". — Ela riu.
— Meu Deus. Você acabou de rir. — Johnny sorriu e pegou o copo de suco dela e levou até a boca, mas o tirou de sua mão antes que conseguisse beber o líquido.
— É que eu estou cansada e com fome. Meu cérebro não está processando mais como antes. — Ela começou a comer.
Sue tinha preparado tacos, fazendo o que podia com os poucos ingredientes que tinha na cozinha. Johnny havia insistido que ela levasse algo para , que não havia parado para comer o dia todo.
tinha tirado o casaco e dobrado as mangas da camisa até o cotovelo. Seu cabelo longo e escuro estava preso em um coque, como se ela não quisesse que algo tão banal quanto seus fios atrapalhassem sua concentração.
— Você já avisou sua família? Devem estar preocupados com o que aconteceu.
Ele se lembrava de que a ficha dela não indicava o contato de parentes. Então, jogou verde para ver se ela falaria sobre aquilo.
— Não. Eu não tenho família. — Ela disse com uma naturalidade que Johnny não estava esperando. — Eu cresci em orfanatos, passei de um lar adotivo para outro, nunca fiquei em um lugar só. Tenho uma amiga chamada Chloe, ela é quem se preocupa em situações assim.
— Ah, eu... Não fazia ideia. — Ele disse em voz baixa, passando a mão pelo cabelo loiro.
Era a primeira vez que Johnny Storm parecia sem graça na frente de alguém.
— Mas, no fim, isso acabou me fazendo ser quem eu sou. Nunca senti que alguém me quisesse aqui na Terra, então gosto de explorar o espaço. — Ela murmurou, colocando um fio solto atrás da orelha, então o encarou com seus olhos de traços asiáticos, que pareciam marcar o peito de Johnny com uma martelada.
— Eu nunca pensei muito sobre isso, sobre o porquê eu gosto de voar.
— Você e pensamento parecem ser duas coisas que não combinam.
Johnny sorriu.
— Não mesmo. Não gosto de complicar as coisas, talvez por isso eu goste de ver tudo lá de cima. — Ele sussurrou, pela primeira vez admitindo algo tão pessoal. — Quando você vê de longe, parece mais fácil.
olhou para todos os dados e papéis que precisavam lidar e compreender até a última vírgula.
— Sempre é mais complicado do que parece.
— Tipo o que aconteceu com a gente. Não é estranho que cada um tenha um poder diferente? — Ele pareceu subitamente mais animado a falar disso do que das motivações pessoais.
— Poder? Não sei se podemos chamar assim. — bocejou e apoiou o rosto sobre a mão. — Mas cada corpo vai reagir de maneira diferente à reação.
— O que exatamente você faz? Eu estava pensando, antes de você acordar, uma enfermeira encostou em você e logo depois desmaiou. — Johnny franziu a testa, os olhos azuis estavam escuros com a luz do saguão.
Ele cheirava a banho fresco e sabonete.
— Você estava no meu quarto há quanto tempo antes de eu acordar?
Johnny ignorou a pergunta e continuou:
— Logo depois, eu te toquei e explodi! Era como se eu tivesse levado uma sobrecarga. Ao contrário da enfermeira. Será que você sugou a energia dela e depois me recarregou?
— Suguei a energia? Eu sei lá, Johnny. Não sei se sou uma espécie de Dementador. — Ela resmungou, olhando para o rosto dele e se perguntando se ele ainda pareceria tão bonito depois de levar um soco.
Johnny riu e seus olhos azuis brilharam.
— É um bom codinome.
— Cala a boca. Você não vai me chamar de Dementador, caso contrário, você vai ser o Cabeça de Fósforo.
— Prefiro Vulcão. É mais poderoso. — Ele piscou um dos olhos para ela.
— É ridículo.
— E Espectro? Soa como uma energia misteriosa, algo sobrenatural. — Ele sugeriu, encostando um dos dedos no lábio inferior.
Tão lindo e irritante. queria socá-lo.
— Esse é menos pior. Mas esquece. Nada de codinomes, Cabeça de Fósforo.
Ele deu uma risada baixa e decidiu parar por ali, era o bastante para implicar com ela por uma noite.
Depois de comer, acabou cedendo ao cansaço e foi com Johnny até o corredor.
— Até amanhã... — Ele disse parando na porta do quarto. Fez uma pausa dramática como se estivesse pensando em como chamá-la agora.
— Eu juro que se me der um apelido, eu quebro a sua cara, Storm.
— Como você fica selvagem com sono. Eu a convidaria para o meu quarto... — Johnny abriu a porta, os olhos azuis brincando como estrelas no escuro.
— Vai sonhando, Vulcão. — o empurrou para dentro do quarto e ela mesma fechou a porta, deixando Johnny sozinho dentro do cômodo.
Resmungando, ela seguiu até a sala de jogos.
Ben estava no sofá que quase parecia confortável, mas ainda assim ele parecia dormir bem. Havia uma poltrona reclinável na outra extremidade do quarto, e foi onde ela decidiu que passaria aquela noite. tirou os sapatos e se jogou na poltrona, deixando todo o seu corpo mergulhar nas estrelas em seus sonhos.




Continua...



Nota da autora: Olá, galera! Tudo supimpa? Lá vem eu surtada pelo universo marvel com mais uma fic. Espero que gostem do Johnny e da pp e toda essa vibe espacial que eles trazem. Essa fic faz parte da minha série que se passa no universo da Marvel, se ainda não leu as outras, eu recomendo para entender algumas pequenas referências.





Outras Fanfics:
The Ghost of You - [Avengers/Finalizadas]
The Ghost of You - [X-men/Finalizadas]
Spiderman: Supernova - [Heróis - Marvel - Andamento]

Nota da beta: EU PASSEI TODOS ESSES MESES ESPERANDO POR ESSE MOMENTO! Socorro, que emoção liberar essa ATT nesse site, meu coração tá completamente derretido (tipo o rosto do Victor?) de amor! Sinceramente, sem comentários além de: EU JÁ PRECISO DE MAIS! <3 Esses diálogos entre a e o Johnny me deixam com um sorrisinho pendurado nos lábios e uma sensação agradável no peito - uma certeza de que a vida é bonita. Pri, por favor, tá? Manda mais e mais e mais e mais, e nunca (jamais) pare! O mundo é seu <3

O Disqus está um pouco instável ultimamente e, às vezes, a caixinha de comentários pode não aparecer. Então, caso você queira deixar a autora feliz com um comentário, é só clicar AQUI.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus