Capítulo Único
O avô de Maria null sempre lhe dizia que os dezoito anos não mudava a vida de um jovem, que era depois dos vinte que a vida realmente começava. “No mundo de hoje, null, vai ser ainda mais legal. Você vai ver que só se conhece o mundo depois dos vinte.” Pode-se dizer que ele estava certo, mas como ele mesmo deixou claro, ela conheceu de um jeito que ele não esperava.
O mundo de null mudou perto do final dos seus vinte anos. Estava no último ano do curso de Direito, tinha um futuro promissor e namorava um dos caras mais lindos que conhecia. Então veio a mudança. Gabriel.
Gabriel tem cinco anos e é a criança mais linda e inteligente que o mundo tem. Gabriel foi sua grande mudança.
aMudou de casa, de bairro e de status de relacionamento, além de se tornar uma pessoa bem mais feliz. E o resumo de sua vida era este: até os vinte era uma Maria null, depois sua vida foi virada de cabeça para baixo e como presente de vinte e um anos null pôde tocar na melhor pessoa do mundo. Desde então nunca foi mais a mesma.
— null? null? — Escutou Tina lhe chamar enquanto analisava um processo e virou para ela. — Seu celular está tocando — avisou e null viu a foto de sua vó no visor.
— Oi, vó. Benção. — Falou assim que atendeu.
— Oi, null. Já peguei o Gabriel na escola, tá bem? — Sua vó, Dona Marta, a mulher mais legal do mundo na visão de null, perguntou e null deu um risinho.
— Vó, já te falei para mandar mensagem no Whatsapp em vez de ligar, eu podia estar em uma reunião. — Comentou, talvez, pela milésima vez.
— Você sabe que odeio aquele negócio. E eu te prometi que não falaria contigo até que seu visto por último estivesse mostrando novamente.
Ela sabia que se deixasse aquele debate iria longe, então cuidou de encurtar a conversa.
— Almoçamos juntos, então?
— Claro que sim. Hoje é quarta.
— Então até logo, vó. Avisa ao Gabriel que já, já eu chego. Amo vocês.
— Também amo você, null.
Então deligou o celular e antes de conseguir voltar para os processos, Tina falou:
— Sua vó nunca vai usar o Whatsapp, null. Esqueceu do juramento dela?
— Claro que não. — Riu. — Ela lembrou agorinha mesmo sobre o assunto.
— Eu amo sua vó. — Tina comentou rindo. — Vai almoçar com ela hoje?
— Sim. Hoje não é quarta, mas quero te ver.
Desde que seu avô se fora, ano passado, que era assim. Almoçavam juntas todas as quartas-feiras.
— Quer ir conosco? Já está quase na hora do nosso almoço.
— Não, null, mas obrigada. Hoje estou a fim de comer no Mc e ninguém me tira esse prazer. — Tina comentou rindo e null riu junto.
— Então deixa eu voltar para esse processo para não deixar o Gabriel e a vó esperando.
Cerca de meia hora depois null havia terminado e estava seguindo para a casa da sua vó.
Graças ao fato de trabalhar em Casa Forte, mesmo bairro da sua vó e bairro vizinho ao seu, null quase sempre conseguia almoçar com ela ou em casa. Esse era um dos motivos de gostar tanto do seu trabalho: lhe deixava próxima do Gabriel. Trabalhando no centro, no trânsito do Recife, jamais conseguiria comer com ele.
— Ooooooi. — Falou de braços abertos assim que entrou na casa de Dona Marta e viu Gabriel.
— Mainha! — Ele gritou, vindo se encaixar nos seus braços. — Benção.
— Deus te abençoe. — Falou enquanto beijava sua testa.
Poderia se passar anos e null ainda seria fascinada pelo cheiro do filho. Gabriel tinha cheiro de casa e de calma.
— Posso saber por que ainda não tomou banho? — Indagou assim que lhe viu ainda com a farda da escola.
— Bisa disse que só por hoje eu podia tomar banho mais tarde.
— Engraçado que isso se repete várias vezes fora hoje. — Comentou enquanto olhava para vó de forma repreensiva e ela só dava de ombros.
Dona Marta sempre fazia isso. Era como se dissesse: não adianta discutir, não vou mudar.
— Ele queria brincar. Iria ficar todo soado do mesmo jeito.
— Você sabe que toda vez que ele brinca no jardim fica super cansado durante o curso de inglês, né?
— Mas ele me prometeu que não vai fazer isso hoje, não é, Gabriel? — Dona Marta indagou toda derretida e null segurou o riso.
— Ele sempre promete, vó. Vocês dois nunca tomam jeito. — Falou enquanto ia abraçá-la.
Dona Marta era uma senhora de setenta anos que transpirava jovialidade. Era vaidosa, risonha e um amor de pessoa.
— Vamos almoçar? Só vou poder levar o Gabriel no curso se almoçarmos agora, já que ele ainda vai tomar banho.
— Boraaaaa. Não quero atrasar e deixar o tio null triste. — Gabriel gritou e as duas riram.
Dona Marta, assim como muita gente que morava em Casa Forte, tinha muito mais dinheiro do que null poderia querer ter. Fora graças a ela e ao seu avô que null tinha seu apartamento em Apipucos e também seu carro. O carro fora presente de dezoitos anos e ela só precisou trocar anos depois, já o apartamento foi presente para poder fazer sua vida ao lado de Gabriel e longe dos julgamentos dos seus pais.
— Essa semana ele vai passar o fim de semana com os avós paternos? — A senhora perguntou quando Gabriel saiu para o banho.
— Vai sim.
— Espero que o pai apareça por lá. Ele falou bastante dele hoje.
— Também espero. Mas quanto chegar sexta vou tentar trabalhar no Gabriel a possibilidade que isso não aconteça. Da última vez que isso aconteceu ele teve febre o domingo inteiro e tive que buscá-lo. E você sabe que eles não gostam disso.
— Deveriam culpar o filho em vez de culpar você. Ai, null, espero que isso não aconteça novamente.
null também esperava, mesmo sabendo que tinha muitas chances de acontecer. Guilherme, seu ex, era um dos caras mais irresponsáveis e incapazes de manter laços afetivos que ela conhecia. Infelizmente nem mesmo Gabriel conseguiu ser um laço na vida dele.
null levou Gabriel ao curso de inglês e voltou para o trabalho logo depois. O dia seguiu sem muitos problemas e logo já era quarta-feira.
— Hoje vou conseguir te buscar, tá bem? — null falou para o Gabriel assim que chegaram em frente ao curso de inglês.
— Tá certo, mainha. Amo você.
— Também amo você. — Respondeu e então abriu a porta do carro e deu-lhe um beijo antes de vê-lo partir.
Aquele dia no escritório seria o que a Tina chamava de dia de ressaca. Onde faziam pouca coisa ou nada. E mesmo que ela amasse o que fazia, o dia de ressaca era tudo que ela precisava.
— Você parece apreensiva. — Tina comentou enquanto via null guardar uns papéis na gaveta.
As duas eram amigas desde que Tina, dois anos mais nova que null, havia entrado ainda como estagiária no escritório. Não demorou muito para que o jeito atencioso de Tina e o sempre realista de null fossem atraídos um pelo outro e elas se tornassem melhores amigas.
— Guilherme me mandou uma mensagem enquanto eu vinha para cá. Perguntou se era esse ou o próximo fim de semana que o Gabriel ia para casa dos pais dele e já emendou falando que era porque talvez pintasse um lance legal pra ele nesse.
— Já percebeu que quase todo final de semana que o Gabriel vai pra lá pinta um lance legal para o Guilherme? E o mais inacreditável é que sempre consome dois dias inteiros dele. — Tina disse claramente irritada. Já não aguentava mais ver o ex da amiga fazer aquilo.
— Pior que o Gabriel só fala sobre um jogo que eles tinham combinado por telefone, sabe? Não acredito que o Guilherme esqueceu da data.
— Aí é que tá, null. — Tina falou, levantando os braços sem paciência. — O babaca e, infelizmente, pai do seu filho não esqueceu. Ele só priorizou outra coisa e esperava que você adiasse a ida do Gabriel. Afinal, o mundo sempre gira em torno do Guilherme e a gente é que não sabe.
— Será que algum dia ele vai virar um pai?
— Já faz cinco anos, null. É mais fácil aceitar que o Gabriel não tem pai e ponto final.
— O maior problema não é eu aceitar isso, mas explicar para o Gabriel. Queria poder fazer algo. — null falou enquanto tentava segurar a vontade de chorar.
Era frustrante se sentir tão impotente para ajudar a maior razão de sua vida.
— E você já faz, Maria null. — Tinha falou, usando os dois nomes da amiga para deixar claro que falava muito sério. — Você é uma das mulheres que eu mais admiro na vida. O Gabriel tem a melhor mãe que ele poderia ter, sabe? Você batalha todos os dias aqui por ele e embora trabalhe a beça é super presente na vida dele. Eu não conseguiria fazer metade do que você fez e faz por ele. E você faz algo sobre esse problema. Você se faz presente e prova para ele que ninguém precisa de Guilherme se tem uma mãe como você.
null não conseguiu dizer uma palavra e nem percebeu quando começou a chorar, porém chorava.
Ter um filho exigia de você tanta coisa e te fazia sentir tanto medo de fracassar com quem mais se ama. Ter um filho de forma inesperada e criá-lo sozinha causava mais medo ainda. null se sentia grata por escutar que se me saía melhor do que sua mente falava.
— Amo você, Tina.
— Também te amo, null. Mesmo você me chamando de Tina. — Ela respondeu rindo, daquele jeito bem Cristina de melhorar o clima.
Antes mesmo de estacionar o carro em frente ao curso do Gabriel, null pôde lhe ver correndo e logo depois abrindo a porta.
— Mainha, o tio null vai trazer umas medalhas na próxima aula. Eu tô falando bem, né? — Gabriel entrou falando e ela quase não conseguiu entender suas palavras por causa da rapidez e da pouca idade. — My name is Gabriel. — Ele disse e esperou a aprovação da mãe.
— Está perfeito, filho. — null confirmou enquanto se esgueirava para poder dar um abraço cheio de amor e orgulho no filho.
— O tio null disse que se eu ganhar do meu pai no jogo de bola, ele vai me dar uma medalha também.
E então o sorriso que estava no rosto de null rosto por ver seu filho tão empolgado, sumiu.
— Filho, talvez o Guilherme esteja ocupado, você sabe...
— Não, mainha. Ele me jurou. A gente não pode mentir, não é?
null olhou para Gabriel e quase não soube o que dizer.
Gabriel lembrava muito o pai em sua fisionomia, tinha apenas os olhos mais escuros da mãe. Às vezes null sentia como se estivesse falando com Guilherme mais novo, mas então Gabriel falava coisas como aquela e ela tinha certeza que não. Guilherme jamais teria o coração tão puro.
— É sim, meu filho. É sim.
O medo do fim de semana fez com que null usasse todo seu tempo livre, e até mesmo o que não deveria ser livre, para passar com o Gabriel. Jogaram, videogame, brincaram, treinaram o inglês para ele ganhar a tal medalha e assistiram mais desenhos do que os dois poderiam contar. No fundo ela esperava esquecer que o sábado chegaria, mas cedo demais ele chegou e então ela estava lá, na frente do prédio dos pais de Guilherme, esperando vó de Gabriel descer.
— Oi, null. — A dona Carmem falou com um sorriso nos lábios.
— Oi, dona Carmem. Tudo bem?
— Claro que está tudo bem, olha só quem chegou para alegrar meu dia! — Ela disse enquanto dava um abraço tão apertado em Gabriel que fez mãe e filho sorrirem. — Tudo bem, meu amor?
— Tudo sim, vovó. Benção. — E antes que ela pudesse responder, Gabriel emendou — O meu pai já chegou?
— É que o Guilherme prometeu que eles jogariam bola. Ele está ansioso desde o início da semana. — null explicou já esperando uma desculpa.
E ela meio que veio.
Primeiro Dona Carmem deu um sorriso sem jeito, como quem se desculpa, e voltou a beijar o Gabriel na tentativa de mudar o rumo da conversa.
— Acho que vou indo, filho. Promete que vai se comportar o obedecer aos seus avós?
— Prometo. — Ele respondeu erguendo o mindinho para mãe. — Promete que vai ficar feliz?
Segurando a vontade de lhe puxar para um abraço antes de finalizar a promessa, null entrelaçou seu mindinho no dele e prometeu.
— Prometo. — E então lhe puxou para um abraço. — Amo você, filho.
— Também amo você. Benção.
— Deus te abençoe.
null deu mais um abraço no Gabriel, se despediu da dona Carmem e então seguiu para casa dos seus pais com o coração apertado.
— O Gabriel só volta segunda? — A mãe de null, Roberta, perguntou e a filha confirmou com a cabeça.
— Ele vai direto para escola. Como tem roupas dele lá, não precisa levar muita coisa.
— E como vai a ideia de abrir seu escritório? — Seu pai perguntou e null quase rolou os olhos.
— Vai bem, painho. A Tina e eu estamos nos programando.
— Mas faz tanto tempo que vocês se programam, Maria. — Ele disse, seguindo sendo a única pessoa que a chamava só de Maria.
— Eu sei. Mas a Tina tem as obrigações dela e eu tenho o Gabriel. Não posso dar um paço maior que a perna.
— Ai, Maria null, nunca vou perdoar a vida por ter estragado todos os seus planos. — Foi a vez da sua mãe falar, sendo, também, a única que lhe chamava pelo primeiro e segundo nome em qualquer hora.
null odiava ambos os jeitos. O fato de ser só Maria para o seu pai e o tom que sua mãe usava ao chegar no null lhe tiravam do sério.
— A vida não fez nada, mãe. Eu me descuidei. E foi o Gabriel que nasceu. Ele não estragou nada.
Nada magoava mais null do que o olhar de pena quando sabiam que ela ainda estava na faculdade quando teve uma gravidez indesejada e a forma como muita gente deixava claro que achavam que sua vida tinha acabado. Como se Gabriel, seu filho, fosse uma doença incurável degenerativa.
— É que você tinha um futuro tão promissor. Agora só tem uma casa porque sua vó lhe deu.
Foi a gota d’água.
— E eu sou muito grata à vovó por isso. Mas meu futuro não deixou de existir. Ainda que não seja do jeito que você sonhou. Sou umas das melhores do escritório e isso não foi meus avós que me deram, muito menos vocês. Fui eu. E o melhor de tudo é que fui eu sendo a mãe do Gabriel.
Os pais de null se olharam como se repetissem: olha ela surtando por nada, novamente.
— Sua mãe só quis dizer...
— Ela só quis dizer, mais uma vez, sobre uma vida que não é a minha, um futuro que não é o meu. Minha vida hoje sou eu sendo mãe, minha vida é o Gabriel. Acho melhor eu ir indo. — Falou enquanto pegava sua bolsa.
— Pelo amor de Deus, Maria null, pare de drama! A Sandra já preparou sua comida preferida, não faça a desfeita de ir embora. Você sabe que ela faz de tudo por você. — Sua mãe disse sem paciência.
— Vou para o quarto do Guto. — Ela falou enquanto seguia para o quarto do seu irmão que continuava sem ninguém desde que ele tinha se mudado para fazer faculdade.
De modo geral null sabia que tinha que ser grata aos pais. Eles fizeram muito mais do que alguns pais fazem quando descobrem que sua filha está grávida. Mas esse privilégio teve um preço que ela nunca deixava de pagar.
Assim que voltou para casa, null mandou mensagem para dona Carmem que disse que Gabriel estava brincando com o avô. Como sempre faziam aos sábados, ela mandou apenas um áudio para a senhora mostrar a Gabriel, ou caso contrário havia muitas chances dele chorar de saudade e querer vir para casa. Depois disso ela se permitiu ter uma boa noite de sono.
No dia seguinte null mandou uma mensagem para Guilherme perguntando se ele já estava com Gabriel, mas ele não respondeu. Isso bastou para ela saber o que tinha acontecido: ele não havia aparecido.
Esperou a noite para ligar e antes mesmo disso viu a foto de Dona Carmem aparecer no visor do celular.
— Mainha? — Ouviu a voz de Gabriel do outro lado da linha.
— Oi, meu amor. Como você está?
— Meu pai não veio. — Foi a única coisa que ele disse.
— Mas você está bem? — null insistiu na pergunta.
— Estou com saudades dele. E de você também, tá?
null acabou rindo do cuidado dele com ela.
— Mainha também está com muita saudade, meu amor. Mas amanhã a gente mata essa saudade, está bem?
— Tá certo. Amo você.
— Também amo você.
Gabriel saiu da ligação e ela pôde escutar sua vó lhe pedindo o celular.
— O Guilherme precisou trabalhar, null. — Dona Carmem tentou explicar e null balançou a cabeça mesmo que a senhora não pudesse ver.
— Eu suspeitava que ele não iria, Dona Carmem. Mas prefiro não falar disso. Fique com Deus.
Não precisava e não queria escutar as desculpas da mãe de Guilherme, estava cansada de todas elas. Guilherme não valia nada e o fato de todos sempre darem desculpas para justificar seus erros faziam dele uma pessoa ainda pior. Se não podia mudar nada, ao menos se manteria distante.
Assim que desligou o telefone null respirou fundo. Ao menos Gabriel estava bem. Era isso que importava.
Depois de uma boa noite de sono, null acordou renovada e pronta para o trabalho. O plano era terminar todo seu trabalho para não arriscar não poder ver Gabriel na hora do almoço, porém assim que chegou lá viu que havia bem mais coisas do que esperava e infelizmente teve que comer junto com Tina perto do escritório. Mas assim que terminou o expediente, null apressou os passos até o carro e logo estava em frente ao curso de inglês do filho.
null achou estranho não ver Gabriel correr assim que visse seu carro e mais estranho ainda perceber que ele não estava na recepção já lhe esperando.
— Oi, Clara. Tudo bem? O Gabriel está bem?
Clara, a recepcionista simpática e com um sorriso amigável, sorriu antes de responder.
— Oi, null, tudo bem sim. O Gabriel está ótimo. Tá lá dentro agarrado ao null, que de acordo com ele, é mais legal ainda que eu. — E Clara voltou a sorrir.
— Ele fala muito do tio null em casa, para ser sincera é chocante que a gente ainda não se conheça.
— null é reservado, costuma ficar só com as crianças, mas espera aí que já, já você vai acabar conhecendo-o. — Clara falou apontando para a cadeira.
null então sentou e esperou, mas logo percebeu que se não fosse buscar Gabriel na sala, ele certamente não sairia de lá.
— Acho que vou ter que buscá-lo. — Ela disse antes de seguir para sala.
Assim que null entrou encontrou uma cena que apesar de saber o quanto null era querido por Gabriel não esperava, e que lhe encantou. O rapaz que certamente era null estava com Gabriel no colo e desenhava vários animais — que pouco lembravam animais de verdade — e depois ensinava ao garoto o nome de cada um deles. Cada vez que Gabriel acertava a pronúncia, eles batiam as mãos em comemoração. null não sabia quanto tempo passou observando aquela cena com um sorriso encantando nos lábios, mas só se deu conta que tinha estancado na posta quando ouviu seu filho gritar:
— Mainha!
Se null não fosse tão rápido para segurar o garoto, certamente Gabriel poderia ter se machucado ao pular do colo dele para ir direto para o da mãe.
— Meu Deus, filho, cuidado!
— Tava com saudade. — O garoto falou enquanto a mãe pegava impulso para colocá-lo no colo mesmo usando salto.
— Também estava com muita saudade, meu amor. Como você está?
— Eu ganhei uma estrelinha. — Gabriel respondeu, deixando claro que isso era suficiente para ela entender como ele estava. — O tio null disse que eu sou muito bom no inglês.
E só então null, que se encontrava encantando demais com a mãe de Gabriel, se apresentou.
— Oi. Bom, eu sou o tio null. — Comentou rindo e com as mãos no bolso da calça.
— Oi. Sou Maria null, null só. O Gabriel fala muito de você. — null respondeu enquanto recebia alguns beijos do filho no rosto.
null sorriu sem jeito de saber que Gabriel falava tanto dele.
— Bom, ele também fala muito de você para mim. Tanto que sinto que te conheço.
Foi a vez de null ficar sem jeito.
— Espero que não seja para reclamar quando não deixo que ele use o tablet ou o coloco de castigo.
— Algumas vezes sim, - null confessou rindo — mas na maioria das vezes é para falar como a mãe é legal, brinca com ele e pra dizer que ela é a mãe mais bonita do mundo.
Assim que null terminou a frase se amaldiçoou. Por que raios havia falado aquilo? Olhou para null que estava um pouco vermelha e então só conseguiu reagir falando:
— Bom, tenho que resolver umas coisas com a Clara e já está tarde. Vocês vêm?
— Claro.
null usou o caminho até Clara para achar algum assunto importante, caso null ainda demorasse lá, mas não conseguiu pensar em nada. Graças aos céus ela logo se despediu e ele pôde respirar aliviado.
— Esta é a mina mais linda que já vi a minha vida toda! — Exclamou assim que ficou a sós com a amiga.
Clara gargalhou.
— É, meu amigo, tenho que concordar. Se ela gostasse de garotas, eu seria uma pretendente. Mas já que ela não gosta, vou te ajudar a conquistá-la.
— O que? Como? Eu...
— Pare de ser chato. Em tanto tempo aqui nunca te vi caidinho por ninguém, pensei até que fosse padre, sei lá. Se você se interessou por ela, é oficial: vou te ajudar.
null estava há alguns minutos olhando o Instagram de Maria null Albuquerque sem saber se deveria lhe seguir, ou não.
Clara, quando insistiu para que ele pegasse o user dela, lhe garantiu que ela não era casada nem nada disto, mas ele mesmo assim olhou suas fotos para poder ter certeza. Ela era linda e parecia a mulher dos sonhos dele, mas jamais entraria em problemas por causa de mulher.
Agora ele tinha certeza de que a amiga estava certa, mas estava na dúvida se lhe seguia ou não. E se ela o achasse um stalker? Preferiu não seguir.
Era melhor dormir que o dia seguinte começava cedo. Iria cedo para Gravatá ver os pais e se perdesse a hora sua mãe reclamaria até não aguentar mais.
No dia seguinte, quando acordou na hora certa, null atribuiu essa conquista a decisão de não ter seguido null. Uma decisão certa puxa outra. Pegou um Uber e seguiu para a rodoviária para assim poder ir até seus pais.
Assim que chegou lá e viu a dona Maria e o seu Severino, lembrou, mais uma vez, a si mesmo como todo esforço na capital valia a pena. Toda correria que era fazer mestrado e ainda trabalhar, a casa pouco confortável que alugara e suas inúmeras noites de sono perdidas para escrever mil e um artigos onde seu orientador levaria o maior mérito, mesmo não tendo escrito uma linha.
— Eu estava com tantas saudades, meu filho. Você demorou para vir. — Dona Maria disse, enquanto avaliava o filho para ver se muita coisa havia mudado dentro de dois meses. — Você emagreceu? Tá comendo direito?
Antes de ser bombardeado por mais perguntas, seu Severino correu ao seu amparo.
— Tenho umas coisas para te mostrar. Fiz uma nova prateleira. — O senhor disse e null sorriu em agradecimento.
null recebeu tantos mimos aquele dia que quase não arranjou coragem para dizer aos pais que voltaria no dia seguinte. Mas a noite já havia chegado e precisava contar:
— É tão bom ver vocês, uma pena que eu tenha que voltar amanhã.
Dona Maria soltou o controle da tevê e olhou para o filho parecendo prestes a chorar, mas em vez disso virou para o marido agora com raiva.
— Você está vendo, Severino? Eu lhe disse que ele pegou amor por aquela cidade. Ele não quer mais saber da gente!
— Mã... — null tentou intervir.
— Não se atreva falar nada quando veio em um dia para voltar no outro.
— Eu tenho trabalho, mãe. Eu...
— E por que não veio no fim de semana? — Ela perguntou, consternada.
— Tenho um encontro com meu orientador sexta e não sei o que ele pode me pedir, quis garantir que teria tempo para ver vocês.
— Eu vou dormir. — Dona Maria disse, mal olhando para o filho.
Foi então que seu Severino respirou fundo e finalmente falou.
— Maria, vamos ficar todos aqui, por favor. Nessa família a gente não resolve as coisas dessa maneira.
— Eu não vou ficar aqui com um filho que não me ama. — Ela respondeu claramente magoada.
null respirou fundo e lembrou a si mesmo que ela só estava chateada e que era natural, havia sido uma mãe protetora e com toda certeza doía ver o filho voando.
— Para de besteira, você sabe que o null ama a gente. Não ama, null?
— Vocês são tudo que tenho de mais importante na minha vida. — null disse, suspirando.
— Desde quando a gente cria filho pra gente, Maria? Filho é pra o mundo. Nosso menino já é um homem. O homem mais inteligente do mundo. — Seu Severino falou e null não conseguiu segurar o sorriso, o pai sentia muito orgulho dele.
— Eu sei disso. — A mãe concordou, meio emburrada.
— Então pronto, vamos parar com esse drama todo e deixar nosso menino viver a vida dele. Imagina só quando ele casar, se ficarmos assim vamos morrer quando isso acontecer. E eu tenho quase certeza que a mulher dele vai ser de lá, é onde ele vive.
Dona Maria e seu Severino olharam para o filho de maneira curiosa, tentando mostrar-lhe que era a deixa para ele falar de uma possível namorada.
— Eu não estou com ninguém, gente. Isso vai demorar. — Ele respondeu rindo, e tentando tirar da sua mente a imagem da bela null.
— Pois deveria, quem sabe assim se cuida mais um pouco. — Dona Maria disse.
— A senhora certamente teria ciúmes dela. — null brincou e a mãe rolou os olhos.
— Chega parece que tenho essas coisas. — Dona Maria desdenhou e tanto o filho quanto o marido riram.
— null, se um dia você resolver seguir sua vida e nunca mais olhar na cara da gente, eu vou continuar te amando. Vou sentir saudades todos os dias, mas vou te amar e tenho certeza que a Maria também. Só que eu sei que você não é disso. Então, tente arrumar um tempinho pra esses dois velhos babões que te amam muito. Ah, e nós dois entendemos você ir amanhã.
E então tanto o senhor como null olharam para a mãe que novamente rolou os olhos, mas confirmou.
— Eu entendo.
Logo cedo, no dia seguinte, null já estava novamente em Recife. Aproveitou as horas que faltavam para sua aula e dormiu mais um pouco até que se arrumou para o trabalho.
Assim que chegou, encontrou Gabriel sentado no canto parecendo triste.
— Oi, Gabriel. Tá tudo bem?
O garoto, um dos mais falantes da turma, apenas balançou a cabeça em um sim.
— Ei, — null tentou, tocando no braço do menino — sabe que pode me contar tudo, né?
— Meu pai não ligou para marcar o jogo. Ele não vai ligar. — Ele disse, prestes a chorar.
— Mas ele ainda pode ligar.
— Ele não vai. — Gabriel afirmou.
— Como você sabe?
— Vovó disse a mainha hoje, eu escutei. Mainha também disse. Vovó disse que ele nunca liga.
null parou um pouco sem saber o que dizer. Gabriel falava pouco do pai, mas sempre que tocava no nome dele havia devoção em sua voz. Não fazia ideia de que o pai do garoto era ausente.
— Entendi. Mas não fica triste, eu aposto que sua mãe vai gostar de jogar bola com você. Já chamou ela?
O garoto pareceu ponderar e null lhe incentivou.
— Eu acho que você deveria chamar. Vai ser divertido.
Conforme as outras crianças foram chegando, Gabriel voltou a ser o Gabriel de sempre e se enturmou, mas null fez uma nota mental de, caso visse null, falar disso com ela.
Como null entrou no curso aquele dia, null acabou lhe vendo e indo falar com ela. Obviamente aquele encontro só ocorreu por causa disto, não tinha nada a ver com o fato de que ele seguiu para a recepção assim que a aula acabou com medo de estar na sala e não vê-la.
— Oi, Clara. — null saudou. — Oi, null.
— Oi, null. Tudo bem? Hoje o null está aqui, mas o Gabriel não. — Clara disse rindo e null ficou um pouco confusa.
— Ele está arrumando as coisas dele. — null explicou. — Será que poderíamos nos falar rapidinho, null?
Clara olhou curiosa e com um sorrisinho que fez null e null ficarem sem graça.
— Claro. — null respondeu mesmo assim.
Os dois seguiram para o canto e então null falou:
— É sobre o Gabriel.
— O que aconteceu? — null perguntou já alarmada e null tentou acalmá-la.
— Bom, primeiro relaxa, não queria parecer que era tão sério. É só que o Gabriel hoje estava bem triste e conversei com ele.
Cuidadosa e com um olhar que null só tinha visto na mãe, null falou:
— E você sabe o que foi?
— Eu não quero se intrometido, nem nada. Mas tem a ver com pai dele. Ele estava triste porque o pai dele não ligou para jogarem. E bom, eu não vou te sugerir o que fazer, mas só queria te contar. O Gabriel é meu aluno mais falante e o vi calado hoje, então, queria que você soubesse, para o caso dele não te contar.
null não conseguiu esconder a aflição que ficou ao escutar aquilo e null acabou ficando um pouco envergonhado. Não se sentia mal por ter conversado, mas quando a viu pela primeira vez e até mesmo poucos minutos antes ela parecia tão mulher, tão pronta para tudo, e então aquela conversa pareceu lhe despir de tudo e em sua frente estava alguém completamente vulnerável.
null não sabia se ela queria que alguém lhe visse assim.
— Eu... eu vou conversar com ele. — null disse depois de certo esforço. — Obrigada por ter contado.
Ela parecia mesmo grata, mas ainda assim o coração de null continuava apertado ao vê-la daquele jeito.
— Sei que você deve achar coisa de professor, mas eu gosto muito do Gabriel. Ele é uma criança adorável.
Ainda atordoada, null concordou e agradeceu mais uma vez antes de sair sem nem entender direito porque seu filho disse “até domingo” ao professor.
Assim que chegou no carro, null queria socar alguma coisa ou xingar muito, mas Gabriel estava ali e não faria nada disso. Apenas pegou o celular e digitou uma breve mensagem para seu ex.
“Gabriel está ansioso esperando sua ligação.”
Leu antes de enviar e pensou que já podia mandar várias coisas para ele, mas lhe daria ao menos mais uma chance de fazer as coisas certas.
Naquela noite null usou de toda sua animação para brincar com o filho e evitar o assunto Guilherme. Mesmo com poucas esperanças, havia escolhido dar uma chance e não adiantaria as coisas até que o amanhã chegasse.
— Podemos fazer um piquenique? — Gabriel perguntou já quase caindo de sono após o banho.
— Claro que sim. — null concordou enquanto lhe colocava na cama.
— Amo você, mainha.
— Eu também amo você.
No dia seguinte null seguiu para o trabalho sem nem olhar o celular. Havia perdido a hora e por pouco não chegou atrasada.
Assim que chegou encontrou Tina com um sorriso diferente nos lábios.
— O que foi que houve com você? — Perguntou a amiga antes mesmo de lhe dar bom dia.
— Bom dia para você também, null. — Cristina respondeu sarcástica. — E essa pergunta quem faz sou eu. Por que você está toda esbaforida?
— Perdi a hora. Estava preocupada com umas coisas e acabei perdendo o sono, sei nem que horas fui dormir. Acabou que na hora certa de levantar parecia pouco tempo para mim.
Rapidamente o sorriso que estava nos olhos de Cristina morreu e assumiram tons de preocupação.
— Tá tudo bem?
— Está sim. Quer dizer, eu espero. Ontem o professor de inglês do Gabriel veio falar comigo. Disse que o Gabriel estava triste e calado e que lhe contou que era porque o pai não havia ligado como prometera.
— Ai, null. Imagino como deva estar sendo ruim para o Gabriel. Por experiência própria, ter pai ausente é uma merda. Sorte dele que ainda tem você.
null sabia dos problemas familiares que Tina tinha. Pais ausentes e que achavam que dinheiro comprava tudo. Mas percebeu que a amiga não tinha lhe dito isso para falar de si, ela estava mesmo mostrando compreensão.
— Mandei mensagem para o Guilherme, espero que ele ligue. E passei a noite brincando com o Gabriel.
Tina olhou para null e depois baixou o olhar.
null sabia bem o que aquilo queria dizer.
— Desembucha. — Pediu quase que mandando.
Não precisou de mais que isso para que Tina falasse.
— É que eu acho isso lindo, sabe? O que você faz pelo Gabriel. Mas eu conheço essa cara, conheço esse tom de voz, você está fazendo o que mais odeio que faça: está tomando para si toda a responsabilidade sobre o que acontece na vida do Gabriel. A noite de ontem foi isso. Se o Gabriel não ficar bem você vai achar que não fez o suficiente, sendo que sabemos que o único culpado é o Guilherme.
— Eu não faço isso. — null se defendeu.
— Me diz uma coisa, quando foi a última vez que você paquerou? A última vez que saiu para se divertir? Eu duvido muito que você tenha perdido todos os seus desejos sexuais, mas aposto que você não chegou em cara nenhum que te chamou atenção. E sabe por quê? Porque você acha que como o Guilherme é um merda de pai, você precisa ser perfeita e não viver sua vida, caso contrário vai estar fazendo errado.
null queria, mas não conseguiu esconder o quanto aquelas palavras acabaram com ela. A verdade era que Tina não estava mentindo, ela fazia mesmo isso e para ela sempre foi tudo bem, mas parecia tão digno de pena quando ouvido.
— Eu amo você, null. E acredite em mim quando te digo que você é uma ótima mãe. E vai continuar sendo mesmo quando viver sua vida. Você mal sabe quem é a null longe desse escritório e do Gabriel.
— Me desculpa, Tina, mas eu não quero escutar sobre como isso é culpa do Gabriel. — null disse enquanto limpava com força uma lágrima que caía. — Porque... — tentou encontrar forças para falar sem chorar — acredite ou não, não é.
Tina sorriu de forma doce e compreensiva.
— Eu jamais culparia uma criança por isso, null. O que estou querendo te dizer é justamente isso: não há culpados, nem ele, nem você. Ele é o seu filho, o seu grande amor, e tenho certeza de que você é mais maravilhosa hoje do que antes dele. Mas você também é humana, e como qualquer humana, não é capaz de abraçar o mundo com as pernas e ser perfeita.
null sorriu enquanto olhava para cima na intenção de conter as lágrimas.
— É uma droga ser chorona. — Brincou, antes de pegar o celular para ver se isso lhe distraía.
Havia uma notificação no Instagram e clicou.
— Ué. — Acabou falando alto quando viu que a notificação era por null ter lhe seguido.
— O que houve?
— O professor do Gabriel me seguiu. Eu nem sei como ele me achou.
Isso deixou Tina automaticamente interessada na história.
— Eita! Me deixa ver ele.
Antes mesmo que null soltasse o celular, Tina já estava ao seu lado clicando nas fotos.
— null, ele é um gato! Vou seguir ele de volta, tá? Talvez você já tenha uma paquera. — Disse empolgada e null rolou os olhos.
— Nem vem.
— null, você tem que se conhecer melhor como mulher. O Guilherme ferrou com o seu psicológico e você se fechou, depois do Gabriel foi que se fechou ainda mais. Olha, está decidido, enquanto o tal null não te chama para sair, nos duas sairemos. Sábado vamos jantar fora, certo?
null sabia que não adiantaria insistir para o contrário, então, apenas concordou.
— Ótimo. — Tina disse, já pensando em lugares.
Assim que null chegou em casa, Gabriel lhe recebeu com um abraço e uma pergunta:
— Meu pai ligou?
E antes que pudesse responder, Érica, a moça que ajudava com Gabriel, falou:
— Hoje foi dia de brincadeira na escola, então ele chegou morrendo de fome. Começamos a almoçar.
— Tudo bem, Érica. — null disse e depois virou para o filho. — Seu pai não ligou, meu amor. Mas porque você não termina seu almoço com a tia Érica? Mainha precisa fazer uma coisa.
null deu um beijo rápido no rosto do filho e seguiu para o quarto sentindo seu sangue pulsar até nas orelhas.
Pegou o celular e ligou para Guilherme que de primeira não atendeu, mas ela estava determinada a tentar até que ele atendesse. Na terceira tentativa, ouviu a voz do rapaz do outro lado da linha.
— Oi, null.
Ela odiava que ele a chamasse pelo apelido, como se fossem íntimos como eram antes.
— Você viu minha mensagem? — Ela perguntou tentando manter o controle da voz.
— Vi sim, é que estou um pouco ocupado. — Ele falou com uma tranquilidade que sempre tirava null do sério.
— Por que você sempre faz isso, Guilherme? Por que sempre mente para o Gabriel fazendo promessas que nunca vão ser cumpridas e deixando ele ansioso por isso? — Isso era outra coisa que null odiava em Guilherme, o fato dele nunca se preocupar com o que prometia.
— Já disse que estou ocupado. — Respondeu simplesmente.
— Ocupado com o quê? Com as mulheres ou com a banda que nunca dá em nada, mas ainda assim você finge que é seu trabalho?
Há anos a banda, que era formada por um bando de homens desocupados e sem nenhuma responsabilidade, estava para decolar. Essa era sempre a desculpa de Guilherme.
— Ela está...
— Prestes a decolar? Meu Deus, Guilherme. Escuto isso há mais de cinco anos. Por que não assume que isso não é verdade, arruma um emprego de verdade e, o mais importante, aprende a ser um pai de verdade?
— Você não...
null não queria deixá-lo falar, estava cansada de todas as frases prontas dele.
— Por favor, se você não consegue ser um pai de verdade, então ao menos seja esse lixo de pai de maneira correta. Se vai ficar longe, não prometa ligações ou visitas. Até você rever suas prioridades, seja um lixo, mas seja um lixo longe do meu filho.
Sem esperar uma resposta ou qualquer coisa, null apenas desligou e deixou o celular na cama. Precisava de um banho demorado e um almoço rápido antes de voltar para o trabalho, e não abriria mão disto para ficar discutindo com Guilherme.
A tarde no trabalho, como já esperado, não rendeu como deveria. O que significava trabalho em casa, já que no dia seguinte null teria uma audiência.
Assim que chegou à manhã do dia seguinte, Gabriel acordou falando sobre o piquinique que a mãe havia lhe prometido para o dia seguinte e que null lembrava vagamente.
— Tem que ser amanhã, filho? — null perguntou, lembrando que havia marcado com Tina de sair na noite de sábado.
— Sim. Ele falou que no domingo não podia.
null virou-se para o filho confusa. De quem ele estava falando?
— Ele quem, Gabriel?
O filho lhe olhou como se ela fosse tonta.
— O tio null, mainha. Ele vai com a gente.
— E por que você não me contou isso? Você o chamou?
— Chamei. E eu tava com sono — Gabriel finalizou respondendo a primeira pergunta.
null acabou rindo.
— Olha só, filho, você precisa falar comigo antes de chamar as pessoas, está bem?
— Ele não pode ir? — Gabriel perguntou, parecendo instantaneamente prestes a chorar.
— Claro que ele pode. Mas da próxima fale comigo antes.
Agora null precisava desmarcar a tal noite de meninas que tinha com Tina, porque definitivamente não estava disposta a passar o dia em um piquenique e ainda sair à noite. Mas tudo isso teria que esperar até o fim de audiência, ela sim era prioridade naquele dia.
Embora tenha sido cansativa, a audiência também fora um sucesso. E null não podia estar mais orgulhosa de si mesma. Era em momentos de vitória como aquele que ela lembrava que todo o esforço valia a pena e que nascera para aquela profissão.
— Já soube que você arrasou. — Tina falou com um sorriso orgulhoso no rosto assim que null pisou no escritório.
— Estou aliviada. Sinto que agora de fato posso começar meu dia. — null disse enquanto se jogava na cadeira e respirava aliviada.
— E amanhã vamos comemorar!
Tina fez a tal dancinha que null sempre chamava de ridícula, mas a amiga pouco se importava e no fim arrancava sorriso das duas.
— Sobre isso... — null começou incerta sabendo que a amiga falaria que era mais uma de suas desculpas — não vai dar.
Tina já estava pronta para começar mais um de seus monólogos sobre como null não aproveitava a vida e como aquilo era errado, mas foi interrompida por ela antes mesmo de começar.
— O Gabriel chamou o tal professor dele para ir conosco e eu só fiquei sabendo hoje. E o cara só pode amanhã.
Tudo bem, aquilo era uma boa causa. E só por isso Tina não foi contra.
— Então o carinha gato vai sair contigo amanhã?
Cristina sendo Cristina, foi o que null pensou.
— Ele foi convidado pelo meu filho e aceitou o pedido de uma criança. Só isso.
Bom, ela esperava que fosse só isso.
— Segunda eu vou querer saber de todos os detalhes. — Tina avisou.
— Não duvido, não duvido.
Assim que chegou em casa null mandou uma mensagem via Instagram para null. Queria saber se ele realmente iria ou havia sido apenas uma forma de não dizer não a Gabriel. A resposta veio rápido.
“Eu já ia te mandar mensagem para saber se realmente iria rolar. Pensei em irmos ao Jardim Botânico, o que acha? Eu acho mais calmo que a Jaqueira, por exemplo.”
Era exatamente isso que null também pensava.
“Penso do mesmo jeito. Podemos chegar lá às onze. Passamos alguns minutos por ali, comemos e depois relaxamos. Não precisa levar nada, já comprei tudo.”
Em casa null riu da resposta dela.
“Você sempre programa as coisas tão milimetricamente assim?”
Era uma boa pergunta, isso null tinha que concordar. Seria sincera então.
“Não costumo sair muito e gosto de otimizar meu tempo, então digamos que sim.”
“Chegamos às onze, então. Não costumo atrasar e pelo jeito você também não. Então, até lá. Manda um beijo para o Gabriel.”
Algo dentro de null não gostava da ideia de fazer um piquenique com alguém que era quase um estranho, e muito menos com um estranho que Tina insista em dizer que poderia sair algo. Naquele momento mesmo, a amiga já estava lhe mandando mensagem dizendo que ela não hesitasse em dar uns beijinhos sem compromisso. Mas decidiu esperar o outro dia sem grandes julgamentos ou expectativas. Era só esperar o dia seguinte chegar.
Fazia tempo que null não via Gabriel tão elétrico, sua felicidade chegava a ser desconcertante e causou um pouco de culpa em null, que pensou que não saía com ele tantas vezes quanto o filho merecia.
— Já podemos ir? — Ele perguntou pelo que deveria ser a vigésima vez.
— Não, Gabriel. E não importa quantas vezes pergunte, o tempo não vai passar mais rápido por causa disso. Por que não brinca um pouco?
A sugestão não adiantou e por pouco null não cedeu e foi embora mais cedo, mas sabia que não podia alimentar aquele desespero do filho por mais que lhe tirasse do sério.
Quando finalmente — para a felicidade de ambos — chegou a hora de ir, Gabriel entrou animado no carro parecendo fora de si e algo dizia a null que aquela felicidade só aumentaria quando ele visse null.
Dito e feito, assim que Gabriel viu null — que chegou pontualmente como prometera — correu para dar-lhe um abraço e programar mil coisas. null aproveitou o tempo para tirar as coisas do carro, assim que o rapaz viu, foi ao seu encontro para ajudar.
— Você trouxe bastante coisa. — null disse quando viu três bolsas.
— Sair com filho pequeno é assim mesmo. Você tem que ter de tudo.
Poucos minutos depois e já estavam dentro do Jardim Botânico do Recife.
null não lembrava da última vez que tinha ido lá, mas todo aquele verde lhe fazia bem. Enquanto passeavam pelo caminho que agora era adaptado para cadeirantes, — o que null achou muito correto — null se ofereceu para levar as coisas e null lhe passou, escolhendo carregar apenas uma.
Como eles não tinham agendado uma visita, não havia guias para lhe mostrar a coisas, mas mesmo assim estava sendo ótimo. E quando chegaram ao orquidário, lugar que tanto null quando null reconheciam que deveria ser mais bem estruturado, um rapaz se ofereceu para mostrar mais coisas a eles.
— Meu nome é Lucas e a gente pode ir ver as abelhas e também posso contar umas coisas para vocês.
Foi o tal Lucas que lhes explicou que as abelhas nativas não possuem ferrão e que também teve que explicar a Gabriel que isso não significava que ele podia procurar abelhas por aí. Depois o rapaz contou algumas curiosidades sobre as arvores ali presentes e advertiu sobre como era errado dar de comida aos animais que passavam.
— Além de criar um hábito que pode ser perigoso para vocês, mexe também na alimentação deles. Eles não precisam de comidas como as nossas para sobreviverem, não faz bem.
Quando finalmente pararam para comer já havia passado das uma da tarde e por isso a comida pareceu voar de tão rápido que eles comeram. Gabriel então pediu alguns de seus brinquedos e ficou brincando apenas um pouco distantes deles.
— Ele é um ótimo menino. — null falou para null enquanto viu o garoto brincar.
— É sim. E muito ansioso também. Quase me tirou do sério hoje. — null disse rindo e fez null rir também.
— Ele estava meio triste e eu falei que em vez de jogar bola ele podia ir para um piquenique. Então ele meio que me convidou e meio que decretou minha presença. — null disse rindo enquanto lembrava da criança já fazendo os planos contando com ele. — Fiquei com medo da sua reação, mas não consegui negar.
— Na verdade foi um choque, porque ele só lembrou de me contar esse detalhe ontem. Fiquei até com medo de você ter dito por dizer.
— Eu não faria isso com ele. — null logo explicou.
— Fico feliz. Ele já anda bem frustrado.
null então se remexeu, parecendo desconfortável, mas também curioso. null percebeu isso e não tinha muita certeza se queria saber o motivo do desconforto, mas já que eles teriam não sei quanto tempo juntos, era melhor evitar desconfortos. Então lhe encarou, encorajo-o.
— O pai dele... bom... — null começou, ainda incerto — vocês... bom...
— Se a gente já viveu juntos e se ele é um bom pai? Se foi isso, é não para ambas as perguntas. — null respondeu dando e ombros.
— Entendi. Sinto muito por vocês.
— Não sinta por mim, Guilherme já deixou de importar faz tempo. Pelo Gabriel, talvez todos menos o pai dele sintam por isso.
— Quantos anos vocês tinham?
— Tinhamos vinte e um quando o Gabriel nasceu e vinte quando descobrimos a gravidez.
— Sinta-se à vontade para parar minhas perguntas, tá bem? É só que...
— Quer saber a história toda? Se sim, posso contar.
— Conte o que quiser.
Então, por causa de todo estresse que Guilherme tinha causado nos últimos dias e pelo alívio que era ver o filho feliz, null sentiu que precisava conversar.
— Nos conhecemos na faculdade. Eu achava que tinha tirado a sorte grande. Ele era lindo de morrer e estava comigo. Entre muita paixão e alguns descuidos, um belo dia comecei a sentir enjoos e não demorou muito para que eu suspeitasse. O Guilherme estava com sua banda, focado nela e quase desistindo da faculdade, então mantive a suspeita em segredo até o exame de sangue sair, foi quando contei a ele.
— Vocês ainda ficaram um tempo juntos?
— Um mês e meio de forma geral, mas eu diria que de verdade só uns quinze dias. Depois ele começou a surtar. “Meu Deus, eu sou um garoto ainda. Eu tenho planos demais. Isso vai mudar muito minha vida.” Como se a grande mudança no corpo, na saúde e na faculdade estivesse acontecendo nele, não em mim. Empurramos por mais um mês até que um belo dia ele pediu para que o pai ligasse para mim e falasse que ele precisou viajar, ele era só um menino, coitado. — null falava enquanto era visível sua revolta. — Ele não estava pronto, mas eu precisava estar. E de certa forma me orgulho de falar que mesmo surtando, eu estava. Quer dizer, ninguém está exatamente pronto para uma gravidez indesejada perto de terminar a faculdade e sem o apoio de muitos, mas eu fui mais forte do que até mesmo eu esperava. Então, quando ele resolveu voltar falou que a banda estava prestes a decolar e precisava focar nela.
null esperou um tempo. Sabia que null precisava respirar antes de continuar.
— E qual desculpa ele dá hoje?
— A banda.
— Viajam muito?
null riu.
— Não. É que ela continua prestes a decolar, mesmo quase seis anos depois.
null riu também. Embora os dois estivessem dando risos de revolta.
— Como foi com seus pais?
— Difícil, mas acho que tive bem mais suporte do que boa parte das meninas tem. Meus pais sabiam que foi cedo, mas não tão cedo assim. Não me deram um baita apoio, mas não viraram as costas, entende?
— Mais ou menos. — null respondeu sincero.
— Eles continuaram pagando minha faculdade e não me expulsaram de casa nem nada do tipo. Pagaram até o advogado para que a pensão que os pais do Guilherme pagam ficasse certinha. Fora que também ajudaram na hora que me mudei. Eu já tinha um carro e meus avós me deram um apartamento. Meus avós deixaram o apartamento mobilhado e meus pais fizeram o quarto do Gabriel. Eu não posso falar que eles viraram as costas para mim. Claro que criar o Gabriel lá não era bem uma opção, mas eles ainda me deram algum suporte. Sou mais sortuda que a maioria das garotas.
null olhou para Gabriel brincando e então uma dúvida lhe veio à mente.
— Como você fez para cuidar dele enquanto se formava?
null acabou rindo só de lembrar de como aquela época havia sido estressante.
— Passei a fazer trabalhos acadêmicos de outras pessoas e comecei a vender doces. Eu estava estagiando quando descobri a gravidez e eles resolveram me manter por lá, só que remotamente. Deixei de trabalhar com a parte do direito e me tornei secretária, para virar CLT, mas era alguma coisa e tive a chance de ser contratada depois como advogada, onde trabalho até hoje. Foi extremamente estressante e achei que fosse surtar várias vezes, mas trabalhar remoto tanto no escritório como fazendo os trabalhos me deixavam perto do Gabriel e com tempo para não precisar de babá sempre. Quando saí da faculdade comecei a ganhar bem melhor e pude deixar os bicos de lado.
— Você faz parecer mais fácil. — null falou, admirado com a calma que ela falava.
null riu. Não havia sido nem mesmo um pouco fácil.
— Não foi. — Ela confessou — Foi mais difícil do que eu imaginava para ser sincera, principalmente a parte de criar de fato o Gabriel. Mas eu reconheço meus privilégios, sabe? Não é toda garota que ganha um apartamento para viver com o filho, por exemplo. Mas foi a fase mais difícil e assustadora da minha vida. Ainda é assustador, mas ao menos não é mais tão difícil assim.
null então viu a postura mais calma de null dar lugar a uma vulnerável e na intensão de lhe passar conforto, tocou carinhosamente sua mão. Então ele sentiu que também deveria abraçá-la, e assim fez. E null, embora um pouco sem jeito, se sentiu bem com aquilo. Foi reconfortante e bom.
Os três ainda demoraram um pouco mais por lá e só na saída null descobriu que null não tinha carro e havia ido de Uber. Ofereceu então uma carona até a casa dele, mas null disse que até a casa dela já estava ótimo.
Assim que chegaram lá null até perguntou se ele queria entrar, mas null, que pouco havia falado sobre a vida naquele dia, contou que fazia mestrado e que precisava ir pra casa estudar.
— Ah, então tá certo. Se despede do tio null, filho.
Gabriel correu e deu um abraço de urso no rapaz e recebeu um abraço na mesma intensidade como resposta.
— Obrigado, tio null. — E então entrou rápido para dentro de casa.
— Até qualquer dia então? — null indagou sem saber o que dizer.
— Sobre isso, — null começou a frase e segundos depois se remexeu enquanto colocava a mão no bolso da calça — não me entenda mal, nem nada. ¬— E novamente pareceu se perder nos pensamentos, mas voltou a falar. — Será que a gente não poderia sair qualquer dia?
Eles podiam? Era ético sair com o professor de inglês do filho? null suspeitava que não, mas a tarde havia sido tão boa e Tina falava tanto que ela precisava sair...
— Claro.
— Sei que o sábado é melhor, mas só posso no domingo, pode ser?
Geralmente a resposta seria não, mas Gabriel estaria com os avós e ela não morreria se saísse um dia antes de trabalhar.
— Ótimo, então.
Tina amara saber que finalmente null iria sair com alguém e gastou vários dias repetindo para a amiga que não tinha nada demais em sair com o professor de inglês do filho. Ainda conseguiu convencer a amiga a sair no sábado para comemorar o fato de que agora null havia acordado para vida, como ela amava repetir.
Por causa do trabalho, null não conseguiu buscar Gabriel no curso nenhum dos dois dias e isso fez null pensar em mil coisas.
— Ela é uma mulher ocupada, idiota. — Clara falou. — Você realmente é péssimo com essas coisas, então vou te ajudar. Manda mensagem para ela dizendo onde vocês vão e espera a resposta dela.
— Eu ainda não sei onde vamos.
— Eu sei um lugar legal. Fui com uma garota uma vez, é comida mexicana. Vão lá.
Guiado por Clara, null mandou a mensagem e ficou feliz de receber a resposta positiva de null.
“Desculpa o sumiço, a propósito. Estou atolada de trabalho.” null mandou para tentar puxar conversa.
Quando leu o que o amigo tinha acabado de receber, Clara gritou:
— Tá vendo!
null lhe olhou torto.
— Vou para sala. Um pouco de privacidade não faz mal a ninguém.
A conversa durou pouco porque como null mesmo disse: estava atolada de trabalho, mas foi o suficiente para manter null mais confiante.
O sábado tinha chegado e null se perguntava onde estava com a cabeça ao decidir que seria legal sair dois dias seguidos. Naquela noite, já que houve imprevistos e os avós paterno não puderam pegar Gabriel, null deixara Gabriel aos cuidados de Érica, já no dia seguinte ele dormiria com dona Marta e duas noites um pouco longe do filho deixava null mais culpada do que imaginava.
— E se o Gabriel adoecer amanhã de saudade? — null indagou Tina.
Cristina, daquele jeito só dela, rolou os olhos teatralmente e bufou.
— Gabriel dorme na casa dos avós paternos e não morre. Fora que é só amanhã, para de arrumar desculpa para farrapar.
— Mas você sabe que sair hoje foi muita folga minha. Não tinha grandes motivos.
— Você está aqui hoje porque é uma boa amiga, pequena null. E o que tem demais? Eu precisava sair e você tá aqui.
— Desde quando você precisa de mim para sair? — null perguntou brincando, já que Tina viva saindo.
— Mas eu precisava relaxar, conhecer gente nova, beijar gente nova...
— Epa! — null interrompeu. — Que você sai eu sei, mas desde quando tu beijas? — Falou e começou a rir.
— Tentei esses dias, não deu muito certo e preciso relaxar. — Tina deu de ombros. — Falando nisso, vou a banheiro. Já volto.
null aproveitou a ida de Tina ao banheiro para olhar o celular e ver se Érica tinha mandado algo, mas em vez disso tinha uma mensagem de null no Instagram que vinha acompanhada até de foto dos estudos dele.
“Sei que deveria estar estudando/trabalhando, mas pensei que ainda não trocamos número e seria bom conversar por lá. Beijos.”
null riu e achou fofo a cara dele desanimada em meio aos livros e o computador. Decidiu então mandar o número e depois outra mensagem agora com uma foto dela sentada na mesa do restaurante.
“Pena que não poderemos conversar agora. Minha amiga me arrastou.”
A reposta acabou já vindo pelo Whatsapp.
“Com todo respeito, mas caramba, você tá absurdamente linda.”
Antes que pudesse ir além do sorriso bobo que deu com a mensagem, null foi interrompida por Tina e um rapaz que ela não conhecia.
— Vamos pedir nossa comida para a noite das meninas, Maria null?
Maria null? Noite das meninas? E quem era aquele cara do lado dela?
— Oi, não quero incomodar, mas é que a Cristina me falou coisas ótimas de você dia desses, quis conhecer essa amiga dela.
Aquilo ainda era confuso, mas mesmo assim null respondeu:
— Que bom! Amo essa garota — e então olhou confusa para amiga.
— Ele está um pouco bêbado e já está de saída, não é? Xau.
Assim que o rapaz saiu, null já ia perguntar quem era ele, quando Tina disse:
— A gente encontra cada doido. — E deu o assunto por encerrado.
A noite acabou sendo mais divertida que o esperado e como Tina havia prometido, acabara cedo e assim null pode pegar o filho acordado. Depois ela aproveitou a mensagem de null, mas ele devia estar ocupado, já que só apareceu no dia seguinte já próximo da hora do jantar.
Seria mentira dizer que ambos não se olharam milhares de vezes no espelho antes de saírem de casa e também seria mentira dizer que os dois não estavam um pouco nervosos. Mas uma coisa era fato: eles estavam gostando do jantar.
— Esse lugar é ótimo. — null disse entre a conversa com um sorriso.
— A Clara quem sugeriu. Também achei ótimo.
— Havia um deles perto do Plaza, mas fechou e eu nem fui. Estou amando.
— Que bom, confesso que eu estava com medo.
null riu.
— Está tudo ótimo, null. Embora eu tinha tido mil receios para vir.
— Como assim?
— Professor do meu filho e tals. — Ela disse tentando soar normal.
— Mas o que tem de errado em jantar com o professor?
null riu e null riu também.
— Né? Que bobagem a minha! Esse jantar não tem nada demais.
Se ele queria fingir demência, ela faria o mesmo.
— Apenas dois amigos saindo para jantar. — Ele continuou.
— A gente não é amigos. — null constatou o óbvio.
— Mas podemos ser, ué! — Ele falou com a mão no peito.
Novamente os dois riram.
— Podemos? — Ela indagou dando um gole na bebida e sorrindo.
— Sim. Mais que isso, até! — null falou sem nem mesmo saber de onde estava vindo aquela confiança.
— E é? — null perguntou agora rindo de verdade.
— Sim. Você quer?
— Vamos pedir tacos? Quero mais! — null desconversou enquanto dava uma risada que arrancou outra de null.
O resto do jantar ocorreu sem fletes, mas o clima continuava ali. E continuou no trajeto até a casa de null e também dentro do elevador. Nenhum ousava falar dele, mas o clima estava presente e a atração quase palpável.
— Bom, chegamos. — Ela falou quando pegou a chave do apartamento. — Não faço o convite para entrar porque tenho que trabalhar cedo.
— Eu entendo. — null falou enquanto ela abria a porta. — Chegamos.
— Foi o que eu disse. — null falou rindo agora com a porta aberta, mas virada para ele. — Obrigada pelo jantar.
— Obrigado também. — null respondeu dando um sorriso de lábios fechados. — null, você vai achar ruim se eu te beijar agora?
Quem fazia uma pergunta dessa? null pensou, mas respondeu:
— Não. E antes de você me beijar, queria dizer que pode me chamar de null.
— Tá certo, null. Agora eu vou te beijar, null.
E então null colou seus lábios no dela, que estava com um sorriso. O beijo foi calmo, mas bom e intenso. E o melhor, satisfez os dois.
Na segunda, quando estava indo para o almoço, null recebeu mensagem dos pais falando que queriam almoçar com ela e Gabriel, e mesmo ela achando estranho aceitou. Assim que chegou com o filho lá, entendeu o motivo do convite.
— Quem é null? — A mãe perguntou sem rodeios.
— Como?
— Fomos na casa da sua vó ontem e o Gabriel estava lá. Disse que você tinha saído com esse rapaz.
— É um rapaz que ensina o Gabriel no inglês. Saímos, os três, semana passada, Gabriel o convidou.
— E o que vocês têm? — Foi a vez do meu pai perguntar.
— Nada. — E não era mentira, beijar ainda não era algo.
— Se preserve, está bem, Maria?
— Me preservar, como assim?
Roberta olhou para o marido com um olhar cauteloso.
— Ele só quer dizer que da última vez a gente viu no que deu. Gabriel dormiu na casa da sua vó, não sabemos o que vocês fizeram ontem.
null olhou ao redor a procura do filho e viu que ele estava longe, então aproveitou e falou
— Isso é sobre sexo?
— É sobre o fato de que você um belo dia apareceu com um filho, Maria null. — Sua mãe falou como se fosse óbvio.
null riu de raiva, sem conseguir acreditar na situação.
— E sou muito grata por tudo que fizeram ou deixaram de fazer na época, mas, bom, agora eu tenho casa, me mantenho e não vou atrapalhar a vida de vocês com isso. Mas só para sanar a curiosidade, não fizemos absolutamente nada.
Por causa do clima que acabou ficando, o almoço foi silencioso. Aqueles silêncios que parecem gritar no meio do ambiente.
— Eu não quis te chatear, Maria. Só queria que você fechasse as... — Humberto começou, mas fora impedido pela esposa.
— Humberto!
— Eu acho melhor irmos embora. Vamos, Gabriel?
— Mas vocês nem terminaram...
— E não vamos terminar, mainha.
null saiu da casa dos pais se sentido humilhada, mas também com muita raiva. Desde quando ser pais lhes dava o direito de falar aquilo?
Como chegou cedo demais em frente ao curso, para que deixasse Gabriel sem que fosse inconveniente, levou o filho para a praça que ficava perto para matar o tempo. Pensou em mandar mensagem para null e falar sobre o que ocorreu, já que eles vinham conversando muito dessa forma, mas ficou na dúvida se já era o momento para dividir mais coisas. Então, como se fosse capaz de adivinhar as coisas, ela ouviu a voz dele lhe chamar do outro lado da rua.
— Oi. — Ele saudou com um sorriso. — O que vocês estão fazendo aqui?
Gabriel que brincava de correr não parou a brincadeira, mas correu rápido para dar um abraço em null antes de voltar ao circuito imaginário.
— Estava na casa dos meus pais, mas digamos que o almoço não saiu como esperado. — null deu de ombros.
— Serei enxerido se perguntar o motivo? — Ele perguntou preocupado.
null respirou fundo e despejou logo tudo de uma vez. Se aquilo fosse para frente, era bom ele saber como era a família dela.
— Eles foram na casa da minha vó ontem e viram o Gabriel lá, ele acabou comentando de você e hoje eles queriam saber das coisas e de forma resumida, me mandaram fechar as pernas.
— O que? — null quase gritou, indignado.
null baixou a cabeça meio envergonhada de confessar aquilo.
— Eu sei. — Ela disse depois. — É ainda pior ouvir da boca do seu pai.
— Eu... eu... — null também parecia envergonhado — sinto muito.
null sentiu a mão do rapaz segurar a sua e foi o que bastou para ela falar de vez como se sentia.
— É como se eu tivesse que viver do jeito deles como gratidão, sabe? Um eterno servir por não ter sido expulsa de casa. E não ache que não sou grata — null disse negando com a cabeça e prestes a chorar — porque sou muito grata, muito mesmo. Mas são humilhações constantes que me deixam com a sensação de que meu erro nunca será perdoado. Eu tomo cuidado, null, eles sabem disso. Todos sabem! O Gabriel é o amor da minha vida, mas eu sei as coisas que tive e tenho que passar, e eu não vou repetir isso. Eu nunca nem precisei desse conselho porque nunca cheguei perto de precisar.
null levantou a cabeça confuso.
— Durante todos esses anos você nunca se envolveu com ninguém?
— Tive algumas poucas tentativas, mas se chegarmos ao terceiro encontro, você será o vencedor. Nada passou de poucos beijos e no máximo dois encontros.
— Tudo isso por eles? — null perguntou chocado e temendo a resposta. Não queria isso para ela.
— Não. Você sabe, filho pequeno, receio de quem vou colocar na minha casa, preconceito com quem cria o filho sozinha, falta de tempo por causa do trabalho, traumas com o ex e muito medo de ver minha vida virar de cabeça para baixo novamente.
null queria ter mais tempo com ela. Queria que ela se deitasse em um sofá, apoiasse a cabeça em sua perna e contasse tudo.
— Você não é a mesma de antes. Não vai fazer as mesmas coisas. — Foi o que pôde dizer levanto em conta tempo e lugar.
— E ainda tem o fato de que não quero colocar mais alguém passageiro na vida do Gabriel. Disto já basta o pai dele, que ainda é minimamente presente por causa do laço sanguíneo.
Todos os medos dela, mesmo os questionáveis, null sabia que faziam muito sentido para ela. E por isso não bateu de frente, mas lhe fez uma pergunta.
— O que te fez aceitar esse meu segundo convite e cogitar mais?
— O Gabriel confia em você e você fez por ele muito mais do que precisava, isso já me deixa mais confiante. Fora que parece fácil. E eu preciso que as coisas sejam fáceis. Além do mais, você não parece temer criar laços.
Ao ouvir aquilo null sorriu e puxou null para trás de uma árvore o suficiente para que Gabriel não os visse, então falou:
— Eu não sei no que vai dar tudo isso, mas acredite em mim quando digo que eu adoraria criar laços com vocês.
E então ele a beijou. Um beijo calmo e cheio de carinho, como aquele momento precisava. E mesmo com toda calma algo dentro de null se agitou, algo que não agitava faz tempo. Agitou-se dentro de null algo que ela bem sabia ser esperança, esperança no amor.
A semana passou voando e foi regada a trabalho tanto para null quanto para null, mas também foi cheia de mensagens trocadas entre os dois. Quando o sábado chegou, null deixou Gabriel na casa de dona Carmem e depois se permitiu voltar e dormir novamente, para no fim da tarde sair ao encontro de null, que propôs que eles tomassem um café no DeltaExpresso do Cais do Imperador e depois pensassem em para onde seguir. E ninguém nega comer algo gostoso em um lugar com uma vista daquela, não é mesmo?
Assim que chegou ao local null respirou fundo e sorriu, feliz de estar lá e olhar aquela vista do Rio Capibaribe. Ela amava aquele lugar, mesmo que fosse tão pouco.
— Oi, null. — null falou atrás delas antes de virá-la e lhe dar um selinho.
— Eu já disse que amei sua ideia de vir pra cá? — Ela falou antes de também lhe dar um selinho.
— Já sim. E eu juro que dessa vez não foi ideia da Clara. — Ele disse e os dois riram.
Os momentos que passaram ali foram recheados de histórias da infância que fizeram os dois rirem, e quando decidiram ir embora perceberam que já estavam cheios demais para irem comer em outro lugar.
— Podemos ir pra casa. — null sugeriu e viu null travar, mas não se chateou com isso. — Podemos ficar lá embaixo no prédio conversando mais um pouco, o que acha?
null sabia que ele estava tentando respeitar os limites dela e ficou feliz com isso.
null chegou ao final da noite feliz e satisfeita. null tinha ficado lá com ela por horas conversando sobre tudo. Foi tão bom vê-lo falando dos planos futuros, da paixão pela faculdade e do seu trabalho para conseguir terminar o mestrado e começar logo o doutorado. Podia ser um pouco de ignorância, mas só agora, depois de null, é que ela entendeu como fazer mestrado era trabalhoso, não era “apenas estudar” como muitos diziam, era um trabalho de fato, e um trabalho que consumia muito do dia dele. Óbvio que havia acontecido alguns beijos, mas não havia sido o foco dos dois. Tanto null quanto null estavam entregues aquele momento porque queriam muito mais que beijos, mas a companhia um do outro.
Infelizmente o fim da noite, depois que null já estava sozinha em casa, não foi bom como ela desejava. Quando já estava perto de dormir, recebeu a ligação de um Guilherme possesso.
— Como assim você está colocando um homem na sua casa e não me diz nada? — Ouviu Guilherme gritar do outro lado da linha.
Confusa, null tirou o celular do ouvido e viu que tinha inúmeras mensagens dele.
— O que está acontecendo? — Ela indagou ainda confusa.
— Consegui ir ver o Gabriel, quem é tio null? — Perguntou com desprezo.
null balançou a cabeça em negação, mesmo que ele não visse.
— E o que você tem a ver com isso?
— Eu sou o pai dele, você deveria ter me contado...
— Pelo amor de Deus, Guilherme! Faça-me favor. Se toque! — Ela esbravejou possessa também. — Veja só, a merda do nosso relacionamento acabou faz tanto tempo que eu nem lembro, você não tem mais nada a ver com isso. Vá se ferrar!
E então null desligou na cara dele. Desde que Tina tinha lhe dado esta ideia, que não escutava mais nada que não quisesse.
“É uma ligação, null. Desligue. Você não precisa ouvir as merdas se não quiser.”
Olhou para as próprias mãos e viu que elas tremiam. Tantos anos depois e Guilherme ainda conseguia acabar com as coisas em sua vida.
No dia seguinte null torceu para que finalmente o orientador de null se desse por satisfeito e eles pudessem sair, mas não foi isso que ocorreu. Então, para a tristeza de ambos, não puderam passar o domingo juntos. Como não iriam se ver, null dividiu por mensagem então a conversa que teve com Guilherme, null foi pragmático: ele não manda na sua ou na minha vida, não se deixe abalar.
Na segunda, conseguiu ver Gabriel no almoço e aproveitou para levá-lo ao inglês e fazer um convite a null.
— Queria que você fosse lá em casa hoje, se tiver tempo. Posso preparar algo.
null ponderou e depois encolheu os ombros.
— Eu tenho um monte de trabalho, mas vale a pena. Chego às sete.
— Combinado então.
Para o alívio de ambos, Gabriel parecia o mesmo com null e tirou da mente dos dois a possibilidade do pai do garoto ter tentando mexer com a cabeça dele, porém, ao chegar a noite, perceberam estar enganados.
— Por que você tá aqui, tio null? — Gabriel perguntou encarando-o.
— Sua mãe me chamou, Gabriel. E é sempre bom te ver.
O garoto, que de bobo não tinha quase nada, o avaliou e calou-se.
Para que Gabriel também participasse, decidiram assistir um episódio de Jovens Titãs em Ação e null percebeu que o filho não a soltava.
— Filho, assim mainha não vai conseguir pegar comida. — Falou rindo.
— Eu não quero outro pai, não quero que o tio null seja meu pai! — O garoto praticamente gritou e tanto null quanto null ficaram sem reação. — Meu pai se chama Guilherme, eu só quero ele.
— Ei... — null começou a falar, mas null fez sinal para que parasse.
Com todo cuidado do mundo, null virou o filho para sua frente e lhe olhou nos olhos.
— Ei, calma. Quem lhe disse que o null será seu pai?
— Meu pai. — Ele confessou com lágrimas nos olhos. — Mas eu jurei que não vou querer.
Fazer aquilo com uma criança era baixo até para Guilherme.
— O null não vai ser seu pai, Gabriel, não se você não quiser.
— Mas se ele namorar com...
— Mesmo que ele namore comigo, ele não vai ser seu pai. Ele vai continuar sendo o tio null, aquele que brinca e que sai com você. O null deixa você feliz, mas também me deixa feliz, e é por isso que talvez mainha namore com ele. Só que eu prometo que ele vai continuar sendo o tio null.
— É que meu pai...
— Te disse que não seria assim? Ele não entende, meu amor. Mas eu já menti pra você? — Ela indagou e viu Gabriel negar com a cabeça. — Então pronto, não precisa ter medo. Você vai continuar vendo seu pai, só vai ganhar o null ainda mais perto de você. Fora isso, nada muda.
Gabriel olhou então para null como se esperasse a confirmação dele.
— Eu juro. — null falou levantando o mindinho para o garoto que entrelaçou o próprio no dele.
null sorriu com a cena e colocou seu dedo agora entrelaçando o dos dois.
— Juramos. — Falou com os olhos cheios de lágrimas, sem conter a gratidão de ver aquelas mãos entrelaçadas.
No dia seguinte null narrou tudo para Tina, que parecia em dúvida se soltava fogo pelo nariz com raiva de Guilherme, ou vomitava arco-íris com a resolução da história.
— Eu fico muito feliz que tudo tenha corrido bem, embora eu ache que o Guilherme ainda vai tentar muita coisa.
— Pior que eu também acho. Mas uma batalha de cada vez, né?
— Só me promete que você não vai deixar o Guilherme ganhar mais essa. Quer dizer, esse cara te traumatizou de tantas formas e não cumpre com o papel de pai dele, deixando tudo nas suas coisas. Quantas vezes eu te vi recuando na vida por medo de tudo se repetir ou por não dar conta já que não tem ajuda? Não deixa o Guilherme ditar sua vida.
— Não vou deixar. Cansei de deixar. Acho que está na hora de ser feliz, né?
— Você é maravilhosa, Maria null Barreto de Albuquerque. Estava mais que na hora. — Falou com um sorriso e recebeu um abraço da amiga.
— Amo você.
— Eu também amo você. Vai ver o null mais vezes essa semana?
null fez um biquinho.
— Além dele trabalhar muito, eu acho sempre meio perigoso ele ir pra casa sem carro, além de, sei lá, é pouco cômodo.
Tina riu um pouco e null lhe olhou confusa.
— Um monte de gente se vira sem carro, null. — Ela falou, explicando a risada. — Mas entendo que você esteja pouco acostumada, já que sempre teve. Mas bom, por que é que ele ainda não tem um? Ele trabalha e ainda recebe a bolsa do mestrado, não?
— Sim, mas ele ajuda os pais e também junta para o doutorado. Tem um doutorado que é dos sonhos dele, mas é fora do país e bom, ainda que ele ganhe bolsa, os custos com estadia e tudo mais são com ele. E não é como se ele ganhasse rios de dinheiro, se viver de pesquisa já é difícil no Brasil, imagina viver disso na área de educação.
— É um bom ponto. — Tina concordou meio triste com a realidade.
— Acho que me envolver com null está sendo uma aula, sabia? Essas pessoas estudam muito, Tina, muito mesmo, e na maioria do tempo a gente nem faz ideia disso.
Desta vez Tina sorriu. Satisfeita com o que a amiga falou.
— Eu fico muito feliz, null. Muito mesmo. O null anda te fazendo mesmo bem.
Como já havia dito a Tina, null e null chegaram à quinta apenas trocando mensagens e só se viram quando ela levou e buscou Gabriel no inglês.
null: Seria bobagem dizer que sinto sua falta?
null: Não sei, faz tempo que não paquero kkkkk.
null: Sinto sua falta. Esse último mês vem sendo maravilhoso. Eu definitivamente não estava esperando por você, mas foi ótimo te encontrar.
null: Sinto a mesma coisa.
null sorriu em casa ao perceber que era verdade. Tudo verdade.
null, embora estivesse amando o momento, sentia que precisava falar também outra coisa.
null: Não sei se é meio que um tabu, já que não falamos disso no dia nem depois, mas o que houve com o Gabriel segunda. Não acha que precisamos conversar sobre?
Estavam indo rápido e null sabia que se seguissem no mesmo ritmo, não demorariam até oficializar algo. Então, não podiam deixar lacunas.
null respirou fundo em busca de palavras. Depois de muito pensar, mandou:
null: Gabriel sempre será minha prioridade e acredito que saiba disso, mas tudo aquilo foi um jogo do Guilherme e eu não vou deixá-lo acabar com o que estamos construindo.
null: E se ele tentar outra coisa?
Ele iria tentar, os dois sabiam.
null: Ame meu filho e deixe que me resolvo com o pai dele. Isso será o suficiente.
null não sabia se aquilo era uma conversa suficiente para a situação, mas aceitou as palavras e decidiu fazer o que ela pedira, amar Gabriel não era esforço.
Quando chegou a sexta null recebeu uma ligação inesperada de dona Carmem.
— Sei que esse final de semana é seu, mas a festinha foi decidida hoje, em cima da hora. Será amanhã.
— É que o Gabriel não anda numa fase muito boa desde a última visita que fez a vocês. — null foi sincera.
— Como assim? — Dona Carmem perguntou alarmada.
— O Guilherme falou besteiras para ele e isso o deixou inseguro. Não sei se me afastar dele agora seria bom.
Dona Carmem calou-se por um tempo, o que deixou null em dúvida se ela não sabia do que o filho havia feito.
— Não sei direito o assunto, mas talvez eu faça ideia. Prometo ser mais atenta, null, mas por favor deixe. A Camile é a prima dele e o Gabriel ficaria triste em perder.
Isso era verdade. Então, mesmo meio incerta, null respondeu:
— Tudo bem.
— Prometo levá-lo no domingo. Muito obrigada.
null sabia que não seria justo privar o filho de ir à festa da prima que ele amava, mas ainda assim se perguntou se tinha tomado a decisão certa.
Como combinado, dona Carmem chegou perto das onze para buscar um Gabriel super animado com a ideia de comemorar o aniversário da prima. Ela novamente agradeceu a ex-nora e prometeu seguir com o combinado.
— Vou prestar atenção. Prometo.
— Assim espero, dona Carmem. — null falou, mostrando não acreditar muito.
Quando o filho saiu, ela mandou uma mensagem para null.
null: Por que será que sinto que arrumei problema?
null: Fica calma, tá bem? Ela prometeu tomar cuidado, não foi? Vamos pensar positivo. Estou com você.
E null sabia que ele estava, porém, ela o queria ali, perto dela.
null: Vem pra cá. Você pode trabalhar daqui. A gente pode fazer algo e ver alguma coisa no seu tempo livre.
null: Você sabe que dificilmente eu iria ter cabeça para pensar em dissertação kkkk.
null podia não querer admitir, mas sabia que era verdade e riu disto. Quando ela já estava prestes a fingir que não acreditava naquilo, recebeu outra mensagem dele.
null: Mas... eu topo. Faço na madrugada quando chegar em casa.
null: YEEEEAHHHH!
Às seis e meia em ponto null chegou à casa de null e ela lhe recebeu com um abraço apertado e um beijo.
— Boa noiteee! — null saudou um pouco empolgada e null riu.
— O que te deu? — Ele perguntou ainda sorrindo e dando outro beijo nela.
— Digamos que eu esteja um pouco nervosa porque vi que o Guilherme está na festa e agora estou com medo dele fazer alguma merda.
Não precisou de mais uma palavra para que null percebesse que aquilo estava mexendo demais com ela. Mais do que os dois queriam.
— Ei, — ele chamou, tocando o queixo dela com cuidado — você me disse que se eu amasse o Gabriel, daríamos um jeito. Então, vai dar tudo certo, null.
— E se... — começou a falar nervosa se remexendo.
— Daremos um jeito, null. — null disse segurando a mão dela.
null olhou para própria mão entrelaçada na dele e sentiu um frio na barriga. E era bom. Bom como jamais esperava que fosse.
— Que bom ter você aqui. — null disse grata.
Mesmo já sendo um pouco tarde, null decidiu que queria cozinhar como combinado, então, depois de olharem o armário por muito mais tempo que o que pretendiam, ficou combinado macarrão com carne moída e torradas de alho.
— Podemos fazer juntos. — null falou enquanto colocava os ingredientes na mesa. — Sou um ótimo cozinheiro.
— Tem certeza? — null perguntou desconfiada com uma sobrancelha arqueada.
null sorriu e caminhou preguiçosamente até null e lhe deu um beijo carinhoso.
— Claro que sim. Desde que esse processo seja regado a muitos beijos.
null não respondeu com palavras, apenas puxou null pela blusa e deu um beijo apaixonado no rapaz.
— Isso é um sim? — Ele perguntou fingindo não entender.
null então puxou null para um beijo ainda mais quente que fez os dois esquecerem o que estavam fazendo. Em poucos segundos se viu empresada entre o corpo de null e a pia, mas não reclamou, em vez disso puxou ele para ainda mais perto, se é que isso fosse possível, e subiu a camisa do rapaz que entendeu o recado e cuidou de tirá-la rapidamente. null estava prestes a fazer o mesmo com null quando ela respirou forte e falou:
— Vamos cozinhar? — Ela perguntou sorrindo e piscando o olho.
null respirou fundo para encontrar forças e voltar ao normal. E ainda meio confuso respondeu:
— Vamos cozinhar. — Disse sorrindo.
A noite estava sendo ótima. Regada a muita comida, Friends e Coca-cola.
— Eu ainda não acredito que ele fez isso com a Rachel, uma lista é tão infantil. — null falou e null concordou.
— A Rachel é bem mimada, mas o Ross foi tão babaca com ela.
— Então a mina que eu estou, além de linda, inteligente, independente, mãe do caramba e maravilhosa também ama Friends como eu? — null perguntou do nada e null não sabia bem o que dizer. — Eu nunca achei que fosse tão sortudo.
null terminou a frase olhando fundo nos olhos de null que não conseguiu fazer outra coisa que não fosse retribuir o olhar. Não precisou de mais palavras. Aos poucos os dois foram chegando perto um do outro até que suas respirações se misturassem e segundos depois, pudesse juntar suas línguas também.
null sabia, pelo que houve na cozinha, que null não estava pronta para algumas etapas, mas isso não significava que seria ruim. Passou a mão vagarosamente pelo corpo de null e com um beijo apaixonado lhe disse que não precisavam de mais que aquilo para ficarem bem.
Entre beijos, amassos, sorrisos, palavras doces e outras muito mais quentes, null e null acabaram pegando no sono ali mesmo no sofá. Embriagados pela sensação boa, nenhum dos dois lembrou que null teria que acordar cedo no outro dia para buscar Gabriel na casa dos avós. Também acabaram não ouvindo o celular dela — que vivia na vibração — tocar tanto com dona Carmem, como com Guilherme ligando. Só se deram conta disto quando escutaram alguém na porta.
— Tem alguém chamando? — null perguntou antes de lhe dar um selinho.
— Hã? — null perguntou ainda confusa ao acordar.
— null! — Escutaram a voz de Guilherme e só então null se deu conta do que estava acontecendo.
— Ai, meu Deus. Perdi a hora de buscar o Gabriel! Que horas são?
Antes que null pudesse lhe responder, ela olhou no próprio celular e viu as chamadas e também mensagens pouco amigáveis e cheias de insinuações que Guilherme havia lhe mandando.
— Pode vestir a camisa? — Ela perguntou meio nervosa.
— Quem está aí? — null perguntou, mesmo fazendo ideia.
— No mínimo o Guilherme, no máximo os pais dele com o Gabriel também.
Sem dizer mais nada null passou a mão nos cabelos e correu para abrir a porta, antes que pudesse se desculpar viu Guilherme invadir sua casa e parar bem em frente a null que arrumava a camisa.
— Então eu estava certo. É por isso que agora você esqueceu que é mãe?
— Olha... — null começou, mas foi cortado por null.
— Guilherme, acho que já lhe disse que você não é bem vindo aqui.
— Tá vendo, filho, eu falei que sua mãe ia virar a cabeça por causa de homem. Ela nem lembrou de você.
— Guilherme! — Dona Carmem exclamou, tentando fazer o filho parar.
— Mainha... — Gabriel chamou encarando a mãe parecendo magoado.
— Você sabe o que conversamos, não sabe? Não tem nada disso, seu pai está...
— Seu pai está lhe falando que sua mãe esqueceu de você, filho. — Guilherme tornou a dizer e null lhe encarou furioso.
Como aquele cara se achava no direito de falar aquilo?
— Escuta aqui, Guilherme, primeiro eu quero que você saia da minha casa. Segundo eu quero que você lave sua boca antes de falar qualquer merda de mim. Eu faço o que posso e o que não posso pelo Gabriel enquanto você é um lixo de pai e não cumpre nenhuma promessa que faz ao seu filho. Eu não vou deixar você entrar na minha casa e tentar fazer a cabeça do meu filho contra mim quando nós dois sabemos que eu sou a única pessoa que cuida de verdade dele.
Ela não queria ter que falar tudo aquilo, ao menos não na frente de Gabriel. Sabia que o filho, embora novo, entenderia o peso daquelas palavras e ela preferia que ele não entendesse, pelo menos por agora. Mas não ia deixar Guilherme lhe envenenar contra ele.
— Quando você disse que nunca mais se envolveria comigo ou com alguém como eu, achei que fosse melhorar então, null. Mas um pé rapado de um professor de inglês? Esse cara não tem eira nem beira.
null continuava no canto, tentando se controlar. Guilherme não seria o primeiro cara mimado e rico que iria diminuí-lo. Isso não lhe afetaria.
— Capaz dele estar tentando um golpe, sabia? Depois vai deixar vocês dois na mão, igual já fez você deixar o Gabriel.
— Guilherme... — null falou entre dentes, mas o sorrisinho sarcástico de Guilherme não deixou seu rosto.
— Se era para você abrir as pernas para um pé rapado como esse, ao menos abrisse para mim, no fim, se tiver outro filho, vai ter uma pensão boa.
Aquilo era demais!
Antes que null pudesse revidar, null falou:
— O que você disse sobre ela? — Perguntou sentindo o sangue ferver.
— null, por favor... — null pediu.
Guilherme não se deu ao trabalho de olhar para null, mas continuou:
— Isso é carência, null? Se quer sexo, escolha melhor seus parceiros.
Basta, null pensou.
O resto aconteceu sem que ele mesmo pudesse prever. Quando deu por si, já tinha dado um soco que acertou em cheio o rosto de Guilherme e que acabou jogando o rapaz no chão.
Antes que Guilherme pudesse revidar ou null bater mais, Gabriel correu ao encontro do pai.
— Papai! — O garoto se abaixou e tocou no queixo cheio de sangue do pai.
null encarou null sem acreditar naquilo. Ele não podia ter feito isso.
— null, vai embora. — Pediu com os olhos cheios de lágrimas.
— null... — Ele tentou argumentar, mas ela lhe cortou levantando a mão.
— Vai embora. — Repetiu com lágrimas nos olhos.
null então, mesmo furioso, pegou sua carteira, chaves e saiu em silêncio.
Quando chegou ao saguão do condomínio, null decidiu que não podia deixar null lhe escapar daquela forma. Porque, do jeito que ela o havia olhado, sem uma conversa ela certamente lhe escaparia. Esperou então ver Guilherme e a mãe irem embora para subir novamente.
Quando bateu na porta, null, parecendo exausta, rapidamente atendeu e suspirou ao encontrá-lo lá.
— Eu te pedi para ir embora. — Ela disse enquanto encostava a porta atrás de si.
— null, aquele cara é um babaca, olha o que ele falou! Desculpa, mas eu não consegui ficar parado. — Tentou argumentar.
— E eu entenderia tudo, de verdade, se eu não tivesse dito várias vezes para deixar esse assunto comigo. O Gabriel estava presente, null!
null não podia ter exposto o filho dela aquilo. Ele não podia.
— E viu aquelas coisas horríveis que ele falou de você!
— É, mas logo você cuidou de transformar o Guilherme em mocinho. É o pai dele, null! O Gabriel é uma criança e viu você batendo no pai dele. De qual lado você acha que ele vai ficar? — null queria gritar.
— Ele vai te escutar. — null tentou.
— Até isso você dificultou, já que eu estava com o cara que bateu no pai dele. — null disse cansada.
— Desculpa. — Foi tudo que null conseguiu dizer, mesmo que quisesse mais.
— Olha, — null começou passando as mãos nos cabelos — sabe quantas caras nem chegaram a entrar na minha vida por saber que crio o Gabriel sozinha? Vários. E eu sei que você sempre disse que isso não era problema, e talvez você realmente não veja. Mas hoje fui eu quem vi. Você pode até não se importar, mas não está pronto para lidar.
null lhe encarou confuso.
— O que você quer dizer?
— Que seja lá o que temos, acaba aqui. — Ela disse com lágrimas.
— null, olha...
— Não vou mudar de opinião, null. Você é um ótimo cara, vamos parar antes que a gente se envolva e se machuque de verdade.
— A quem você quer enganar? — Ele perguntou forçando um sorriso. — Já estamos envolvidos e machucados.
null não negou, mas não mudou de opinião.
— Vamos parar antes que o Gabriel se machuque mais. Fica com Deus, null. Preciso entrar para cuidar de quem é minha prioridade.
null não esperou null falar mais nada. Entrou e precisou de quase um minuto até ter forças de procurar Gabriel. Podia ter perdido a única pessoa que realmente fez parecer dar certo, mas não perderia o homem que era de verdade o homem da sua vida: Gabriel.
Já havia se passado semanas desde que tudo ocorrera. Foi um pouco difícil para Gabriel separar o professor do homem que bateu em seu pai, ainda mais com Guilherme colocando coisas em sua cabeça, mas depois de uma conversa de dona Marta com ele e também depois de Guilherme finalmente perceber que null havia mesmo acabado com null e então cansar de brincar de ser pai, as coisas haviam voltado ao normal. Vez ou outra, inclusive, o garoto perguntava se null voltaria a ir lá e null sempre resumiu em “provavelmente não.”
Tina, embora entendesse o lado da amiga, não concordava e deixava isso claro.
— Foi a única coisa que te pedi: não deixe o Guilherme ditar sua vida. Mas olha o que você está fazendo!
— Tina, eu já te expliquei. É melhor assim, ninguém se magoa.
— Você já está magoada! — Tina exclamou, exasperada. — Para de ser fingida.
— Eu preciso cuidar de quem importa.
— O Gabriel até pergunta por ele. Ele é uma criança, null! O garoto vai entender.
— É só que...
— Olha, eu não deveria me meter mais do que já me meto, mas eu não vou deixar você fazer isso.
— Do que você está falando? — null perguntou confusa.
— Eu tenho um amigo que por acaso comentou de um tal amigo chamado null que já fazia mais de um mês que estava na merda por causa de uma mina aí. Achei suspeito e perguntei mais.
— Quem é esse amigo seu? — null perguntou e Tina bufou.
— Não que isso seja importante, mas é aquele que vimos.
— O cara que você mal deixou ficar perto da gente? Quem é ele?
Tina rolou os olhos.
— Vamos focar em quem é importante, que tal? Bom, ele comentou que esse tal null conseguiu uma bolsa de doutorado e vai embora daqui há um mês, ou algo assim, para Portugal. Achei que seria bom dizer a você. Você tem pouco tempo antes desse cara ir para o outro lado do mundo sem saber que você também não esqueceu ele.
O coração de null acelerou. Primeiro de orgulho pela conquista que ela sabia que null tanto queria, depois de um medo de talvez perdê-lo para sempre.
— Esse cara foi um recomeço para você, amiga. E pelo que ouvi falar dele, que só vivia de estudar e trabalhar, você foi um recomeço para ele também. Não perde essa chance de recomeçarem a vida juntos.
null não conseguia pensar direito. Por isso, após pegar Gabriel na escola, seguiu para a casa da vó, mesmo que não fosse o dia de almoçarem juntas. Assim que chegou lá, dona Marta logo percebeu que a neta queria conversar e cuidou de colocar Gabriel para brincar no jardim, longe delas.
— Pode falar. — A senhora disse e null lhe encarou confusa. — Eu praticamente criei você, minha filha. Acho que te conheço.
— Ele conseguiu uma bolsa de doutorado em Portugal, e ele ainda sente minha falta. Não sei como lidar com isso. — null disse sem fôlego.
— Que tal falar para ele que se ele quiser, você também quer que ele vá para Portugal comprometido na certeza de que você está o esperando?
— Mas começar algo já distante? Será que isso dará certo? Fora que tem o Gabriel e tudo que houve, eu não sei se...
— O Gabriel melhorou depois que conversamos, não foi? — null apenas balançou a cabeça em um sim. — E sabe o que eu disse a ele, meu amor? Falei apenas que adultos brigam e que o mais importante era que o null fazia a mãe dele muito feliz. Foi o que bastou, null. E se eu tenho certeza de uma coisa é que o null vai continuar te fazendo feliz caso você o procure.
— Ah, vó! — null exclamou antes de correr para os braços de dona Marta e lhe dar um abraço apertado. — Eu vou atrás dele. — Falou mais para si do que para a vó.
— Vá, minha filha. — Dona Marta mesmo assim respondeu.
— Eu vou!
null nunca havia ido na casa de null, mas como ele tinha usado o seu celular para pedir um Uber quando estava sem bateria, não foi tão difícil de achá-lo. Certificou-se com Clara que ele estaria em casa e então seguiu até lá, ainda que não soubesse bem o que dizer ou fazer.
Agora ela estava em frente à casa dele procurando coragem para chamar, só que não precisou. Quando estava prestes a bater palma viu null, junto com um casal de senhores, sair de dentro de casa. Pensou em correr, óbvio, quem não faria isso? Porém não deu.
— null! — null chamou, claramente surpreso.
— Oi. — null respondeu sem jeito e batendo uma mão na outra sem explicação.
— O que você está fazendo aqui? — Ele perguntou confuso, mas com um sorriso no rosto que mexeu com cada parte de null.
— Ér... — null não voltaria para casa sem falar, mas precisava fazer aquilo sem plateia — Será que posso falar contigo rapidinho?
null olhou para os pais que lhe encararam confusos e cedeu.
— Vocês poderiam me esperar lá dentro?
O pai aceitou fácil, mesmo curioso, mas a mãe precisou de mais um pedido.
— Por favor, mãe.
Assim que os dois ficaram a sós, null olhou curioso para null que mesmo tentando se acalmar, ainda estava nervosa.
— É engraçado como consigo falar no meio de um júri, mas fico feito idiota aqui. Sei nem o que falar...
null sorriu de lado.
— Que tal contar o motivo de ter vindo até aqui?
null então lembrou de como venceu sua timidez para apresentar trabalhos, lá na terceira série. Era só falar tudo de uma vez. E foi o que fez.
— Eu sinto sua falta, null. Muita! E hoje eu descobri que você também sente a minha. E eu também descobri que você conseguiu seu tão sonhado doutorado, e bom, eu sei que falar que sinto sua falta quando descubro que você vai sair do país é meio louco, mas eu posso explicar. — null achou que ela nesse momento pararia para que ele falasse, mas ela continuou. — Você não sabe o orgulho que eu fiquei ao saber da sua conquista e também não faz ideia de como eu queria ter podido saber de você, e tudo isso me fez perceber que sinto ainda mais sua falta. Eu quase não vinha por saber que você daqui uns tempos irá embora, mas então eu percebi que sinto sua falta na minha vida, mas que eu posso te ter comigo igual eu estava tendo todas as vezes mesmo com nossos horários de trabalhos não batendo. E não importa se só te verei nas férias, eu sinto sua falta. E caso você se interesse, eu te quero de volta na minha vida.
— null... — null tentou falar, mas null voltou a falar.
— E você sabe que minha vida é meio bagunçada e cheia de complicações. Crio meu filho sozinha, meu ex é um babaca, trabalho demais e meu tempo livre é cheio de Gabriel nele. Mas caso você queria, estou disposta a recomeçar tudo e descobrir uma nova vida com você. Porque desde que você apareceu, tudo parece meio novo.
null não sabia se null iria falar mais alguma coisa — suspeitava que sim — porque lhe calou com um beijo que esperava que respondesse a pergunta que estava subtendida nas palavras dela. null então retribuiu o beijo na mesma intensidade e talvez até um pouco mais devido ao nervosismo. Pretendiam ficar assim para sempre, mas então ouviram dona Maria pigarrear.
null soltou null envergonhada, mas ele era só sorrisos.
— null, esses são meus pais: Maria e Severino, os meus maiores amores desse mundo. Dona Maria, seu Severino, essa é a null a minha namorada, caso ela diga sim nesse exato momento.
null então virou sorrindo para null, esperando a resposta. A garota, mesmo com vergonha, sorriu de volta. Não deixaria a felicidade ir embora por nada nesse mundo. Olhou para a mão de null e então entrelaçou à sua.
— Boa tarde. Tudo bem? E sou a namorada do filho de vocês. E eu sou muito grata por vocês terem criado ele tão bem. Quanta sorte é poder chegar nessa vida com ele.
— Podemos mudar de planos? Quero que vocês conheçam o Gabriel, filho da null e a criança mais fofa do mundo. — null disse já saindo do terraço de casa.
Cada suspiro é gratidão
De ver entrelaçar as mãos
Que juntas podem muito mais
O mundo de null mudou perto do final dos seus vinte anos. Estava no último ano do curso de Direito, tinha um futuro promissor e namorava um dos caras mais lindos que conhecia. Então veio a mudança. Gabriel.
Gabriel tem cinco anos e é a criança mais linda e inteligente que o mundo tem. Gabriel foi sua grande mudança.
aMudou de casa, de bairro e de status de relacionamento, além de se tornar uma pessoa bem mais feliz. E o resumo de sua vida era este: até os vinte era uma Maria null, depois sua vida foi virada de cabeça para baixo e como presente de vinte e um anos null pôde tocar na melhor pessoa do mundo. Desde então nunca foi mais a mesma.
— null? null? — Escutou Tina lhe chamar enquanto analisava um processo e virou para ela. — Seu celular está tocando — avisou e null viu a foto de sua vó no visor.
— Oi, vó. Benção. — Falou assim que atendeu.
— Oi, null. Já peguei o Gabriel na escola, tá bem? — Sua vó, Dona Marta, a mulher mais legal do mundo na visão de null, perguntou e null deu um risinho.
— Vó, já te falei para mandar mensagem no Whatsapp em vez de ligar, eu podia estar em uma reunião. — Comentou, talvez, pela milésima vez.
— Você sabe que odeio aquele negócio. E eu te prometi que não falaria contigo até que seu visto por último estivesse mostrando novamente.
Ela sabia que se deixasse aquele debate iria longe, então cuidou de encurtar a conversa.
— Almoçamos juntos, então?
— Claro que sim. Hoje é quarta.
— Então até logo, vó. Avisa ao Gabriel que já, já eu chego. Amo vocês.
— Também amo você, null.
Então deligou o celular e antes de conseguir voltar para os processos, Tina falou:
— Sua vó nunca vai usar o Whatsapp, null. Esqueceu do juramento dela?
— Claro que não. — Riu. — Ela lembrou agorinha mesmo sobre o assunto.
— Eu amo sua vó. — Tina comentou rindo. — Vai almoçar com ela hoje?
— Sim. Hoje não é quarta, mas quero te ver.
Desde que seu avô se fora, ano passado, que era assim. Almoçavam juntas todas as quartas-feiras.
— Quer ir conosco? Já está quase na hora do nosso almoço.
— Não, null, mas obrigada. Hoje estou a fim de comer no Mc e ninguém me tira esse prazer. — Tina comentou rindo e null riu junto.
— Então deixa eu voltar para esse processo para não deixar o Gabriel e a vó esperando.
Cerca de meia hora depois null havia terminado e estava seguindo para a casa da sua vó.
Graças ao fato de trabalhar em Casa Forte, mesmo bairro da sua vó e bairro vizinho ao seu, null quase sempre conseguia almoçar com ela ou em casa. Esse era um dos motivos de gostar tanto do seu trabalho: lhe deixava próxima do Gabriel. Trabalhando no centro, no trânsito do Recife, jamais conseguiria comer com ele.
— Ooooooi. — Falou de braços abertos assim que entrou na casa de Dona Marta e viu Gabriel.
— Mainha! — Ele gritou, vindo se encaixar nos seus braços. — Benção.
— Deus te abençoe. — Falou enquanto beijava sua testa.
Poderia se passar anos e null ainda seria fascinada pelo cheiro do filho. Gabriel tinha cheiro de casa e de calma.
— Posso saber por que ainda não tomou banho? — Indagou assim que lhe viu ainda com a farda da escola.
— Bisa disse que só por hoje eu podia tomar banho mais tarde.
— Engraçado que isso se repete várias vezes fora hoje. — Comentou enquanto olhava para vó de forma repreensiva e ela só dava de ombros.
Dona Marta sempre fazia isso. Era como se dissesse: não adianta discutir, não vou mudar.
— Ele queria brincar. Iria ficar todo soado do mesmo jeito.
— Você sabe que toda vez que ele brinca no jardim fica super cansado durante o curso de inglês, né?
— Mas ele me prometeu que não vai fazer isso hoje, não é, Gabriel? — Dona Marta indagou toda derretida e null segurou o riso.
— Ele sempre promete, vó. Vocês dois nunca tomam jeito. — Falou enquanto ia abraçá-la.
Dona Marta era uma senhora de setenta anos que transpirava jovialidade. Era vaidosa, risonha e um amor de pessoa.
— Vamos almoçar? Só vou poder levar o Gabriel no curso se almoçarmos agora, já que ele ainda vai tomar banho.
— Boraaaaa. Não quero atrasar e deixar o tio null triste. — Gabriel gritou e as duas riram.
Dona Marta, assim como muita gente que morava em Casa Forte, tinha muito mais dinheiro do que null poderia querer ter. Fora graças a ela e ao seu avô que null tinha seu apartamento em Apipucos e também seu carro. O carro fora presente de dezoitos anos e ela só precisou trocar anos depois, já o apartamento foi presente para poder fazer sua vida ao lado de Gabriel e longe dos julgamentos dos seus pais.
— Essa semana ele vai passar o fim de semana com os avós paternos? — A senhora perguntou quando Gabriel saiu para o banho.
— Vai sim.
— Espero que o pai apareça por lá. Ele falou bastante dele hoje.
— Também espero. Mas quanto chegar sexta vou tentar trabalhar no Gabriel a possibilidade que isso não aconteça. Da última vez que isso aconteceu ele teve febre o domingo inteiro e tive que buscá-lo. E você sabe que eles não gostam disso.
— Deveriam culpar o filho em vez de culpar você. Ai, null, espero que isso não aconteça novamente.
null também esperava, mesmo sabendo que tinha muitas chances de acontecer. Guilherme, seu ex, era um dos caras mais irresponsáveis e incapazes de manter laços afetivos que ela conhecia. Infelizmente nem mesmo Gabriel conseguiu ser um laço na vida dele.
null levou Gabriel ao curso de inglês e voltou para o trabalho logo depois. O dia seguiu sem muitos problemas e logo já era quarta-feira.
— Hoje vou conseguir te buscar, tá bem? — null falou para o Gabriel assim que chegaram em frente ao curso de inglês.
— Tá certo, mainha. Amo você.
— Também amo você. — Respondeu e então abriu a porta do carro e deu-lhe um beijo antes de vê-lo partir.
Aquele dia no escritório seria o que a Tina chamava de dia de ressaca. Onde faziam pouca coisa ou nada. E mesmo que ela amasse o que fazia, o dia de ressaca era tudo que ela precisava.
— Você parece apreensiva. — Tina comentou enquanto via null guardar uns papéis na gaveta.
As duas eram amigas desde que Tina, dois anos mais nova que null, havia entrado ainda como estagiária no escritório. Não demorou muito para que o jeito atencioso de Tina e o sempre realista de null fossem atraídos um pelo outro e elas se tornassem melhores amigas.
— Guilherme me mandou uma mensagem enquanto eu vinha para cá. Perguntou se era esse ou o próximo fim de semana que o Gabriel ia para casa dos pais dele e já emendou falando que era porque talvez pintasse um lance legal pra ele nesse.
— Já percebeu que quase todo final de semana que o Gabriel vai pra lá pinta um lance legal para o Guilherme? E o mais inacreditável é que sempre consome dois dias inteiros dele. — Tina disse claramente irritada. Já não aguentava mais ver o ex da amiga fazer aquilo.
— Pior que o Gabriel só fala sobre um jogo que eles tinham combinado por telefone, sabe? Não acredito que o Guilherme esqueceu da data.
— Aí é que tá, null. — Tina falou, levantando os braços sem paciência. — O babaca e, infelizmente, pai do seu filho não esqueceu. Ele só priorizou outra coisa e esperava que você adiasse a ida do Gabriel. Afinal, o mundo sempre gira em torno do Guilherme e a gente é que não sabe.
— Será que algum dia ele vai virar um pai?
— Já faz cinco anos, null. É mais fácil aceitar que o Gabriel não tem pai e ponto final.
— O maior problema não é eu aceitar isso, mas explicar para o Gabriel. Queria poder fazer algo. — null falou enquanto tentava segurar a vontade de chorar.
Era frustrante se sentir tão impotente para ajudar a maior razão de sua vida.
— E você já faz, Maria null. — Tinha falou, usando os dois nomes da amiga para deixar claro que falava muito sério. — Você é uma das mulheres que eu mais admiro na vida. O Gabriel tem a melhor mãe que ele poderia ter, sabe? Você batalha todos os dias aqui por ele e embora trabalhe a beça é super presente na vida dele. Eu não conseguiria fazer metade do que você fez e faz por ele. E você faz algo sobre esse problema. Você se faz presente e prova para ele que ninguém precisa de Guilherme se tem uma mãe como você.
null não conseguiu dizer uma palavra e nem percebeu quando começou a chorar, porém chorava.
Ter um filho exigia de você tanta coisa e te fazia sentir tanto medo de fracassar com quem mais se ama. Ter um filho de forma inesperada e criá-lo sozinha causava mais medo ainda. null se sentia grata por escutar que se me saía melhor do que sua mente falava.
— Amo você, Tina.
— Também te amo, null. Mesmo você me chamando de Tina. — Ela respondeu rindo, daquele jeito bem Cristina de melhorar o clima.
Antes mesmo de estacionar o carro em frente ao curso do Gabriel, null pôde lhe ver correndo e logo depois abrindo a porta.
— Mainha, o tio null vai trazer umas medalhas na próxima aula. Eu tô falando bem, né? — Gabriel entrou falando e ela quase não conseguiu entender suas palavras por causa da rapidez e da pouca idade. — My name is Gabriel. — Ele disse e esperou a aprovação da mãe.
— Está perfeito, filho. — null confirmou enquanto se esgueirava para poder dar um abraço cheio de amor e orgulho no filho.
— O tio null disse que se eu ganhar do meu pai no jogo de bola, ele vai me dar uma medalha também.
E então o sorriso que estava no rosto de null rosto por ver seu filho tão empolgado, sumiu.
— Filho, talvez o Guilherme esteja ocupado, você sabe...
— Não, mainha. Ele me jurou. A gente não pode mentir, não é?
null olhou para Gabriel e quase não soube o que dizer.
Gabriel lembrava muito o pai em sua fisionomia, tinha apenas os olhos mais escuros da mãe. Às vezes null sentia como se estivesse falando com Guilherme mais novo, mas então Gabriel falava coisas como aquela e ela tinha certeza que não. Guilherme jamais teria o coração tão puro.
— É sim, meu filho. É sim.
O medo do fim de semana fez com que null usasse todo seu tempo livre, e até mesmo o que não deveria ser livre, para passar com o Gabriel. Jogaram, videogame, brincaram, treinaram o inglês para ele ganhar a tal medalha e assistiram mais desenhos do que os dois poderiam contar. No fundo ela esperava esquecer que o sábado chegaria, mas cedo demais ele chegou e então ela estava lá, na frente do prédio dos pais de Guilherme, esperando vó de Gabriel descer.
— Oi, null. — A dona Carmem falou com um sorriso nos lábios.
— Oi, dona Carmem. Tudo bem?
— Claro que está tudo bem, olha só quem chegou para alegrar meu dia! — Ela disse enquanto dava um abraço tão apertado em Gabriel que fez mãe e filho sorrirem. — Tudo bem, meu amor?
— Tudo sim, vovó. Benção. — E antes que ela pudesse responder, Gabriel emendou — O meu pai já chegou?
— É que o Guilherme prometeu que eles jogariam bola. Ele está ansioso desde o início da semana. — null explicou já esperando uma desculpa.
E ela meio que veio.
Primeiro Dona Carmem deu um sorriso sem jeito, como quem se desculpa, e voltou a beijar o Gabriel na tentativa de mudar o rumo da conversa.
— Acho que vou indo, filho. Promete que vai se comportar o obedecer aos seus avós?
— Prometo. — Ele respondeu erguendo o mindinho para mãe. — Promete que vai ficar feliz?
Segurando a vontade de lhe puxar para um abraço antes de finalizar a promessa, null entrelaçou seu mindinho no dele e prometeu.
— Prometo. — E então lhe puxou para um abraço. — Amo você, filho.
— Também amo você. Benção.
— Deus te abençoe.
null deu mais um abraço no Gabriel, se despediu da dona Carmem e então seguiu para casa dos seus pais com o coração apertado.
— O Gabriel só volta segunda? — A mãe de null, Roberta, perguntou e a filha confirmou com a cabeça.
— Ele vai direto para escola. Como tem roupas dele lá, não precisa levar muita coisa.
— E como vai a ideia de abrir seu escritório? — Seu pai perguntou e null quase rolou os olhos.
— Vai bem, painho. A Tina e eu estamos nos programando.
— Mas faz tanto tempo que vocês se programam, Maria. — Ele disse, seguindo sendo a única pessoa que a chamava só de Maria.
— Eu sei. Mas a Tina tem as obrigações dela e eu tenho o Gabriel. Não posso dar um paço maior que a perna.
— Ai, Maria null, nunca vou perdoar a vida por ter estragado todos os seus planos. — Foi a vez da sua mãe falar, sendo, também, a única que lhe chamava pelo primeiro e segundo nome em qualquer hora.
null odiava ambos os jeitos. O fato de ser só Maria para o seu pai e o tom que sua mãe usava ao chegar no null lhe tiravam do sério.
— A vida não fez nada, mãe. Eu me descuidei. E foi o Gabriel que nasceu. Ele não estragou nada.
Nada magoava mais null do que o olhar de pena quando sabiam que ela ainda estava na faculdade quando teve uma gravidez indesejada e a forma como muita gente deixava claro que achavam que sua vida tinha acabado. Como se Gabriel, seu filho, fosse uma doença incurável degenerativa.
— É que você tinha um futuro tão promissor. Agora só tem uma casa porque sua vó lhe deu.
Foi a gota d’água.
— E eu sou muito grata à vovó por isso. Mas meu futuro não deixou de existir. Ainda que não seja do jeito que você sonhou. Sou umas das melhores do escritório e isso não foi meus avós que me deram, muito menos vocês. Fui eu. E o melhor de tudo é que fui eu sendo a mãe do Gabriel.
Os pais de null se olharam como se repetissem: olha ela surtando por nada, novamente.
— Sua mãe só quis dizer...
— Ela só quis dizer, mais uma vez, sobre uma vida que não é a minha, um futuro que não é o meu. Minha vida hoje sou eu sendo mãe, minha vida é o Gabriel. Acho melhor eu ir indo. — Falou enquanto pegava sua bolsa.
— Pelo amor de Deus, Maria null, pare de drama! A Sandra já preparou sua comida preferida, não faça a desfeita de ir embora. Você sabe que ela faz de tudo por você. — Sua mãe disse sem paciência.
— Vou para o quarto do Guto. — Ela falou enquanto seguia para o quarto do seu irmão que continuava sem ninguém desde que ele tinha se mudado para fazer faculdade.
De modo geral null sabia que tinha que ser grata aos pais. Eles fizeram muito mais do que alguns pais fazem quando descobrem que sua filha está grávida. Mas esse privilégio teve um preço que ela nunca deixava de pagar.
Assim que voltou para casa, null mandou mensagem para dona Carmem que disse que Gabriel estava brincando com o avô. Como sempre faziam aos sábados, ela mandou apenas um áudio para a senhora mostrar a Gabriel, ou caso contrário havia muitas chances dele chorar de saudade e querer vir para casa. Depois disso ela se permitiu ter uma boa noite de sono.
No dia seguinte null mandou uma mensagem para Guilherme perguntando se ele já estava com Gabriel, mas ele não respondeu. Isso bastou para ela saber o que tinha acontecido: ele não havia aparecido.
Esperou a noite para ligar e antes mesmo disso viu a foto de Dona Carmem aparecer no visor do celular.
— Mainha? — Ouviu a voz de Gabriel do outro lado da linha.
— Oi, meu amor. Como você está?
— Meu pai não veio. — Foi a única coisa que ele disse.
— Mas você está bem? — null insistiu na pergunta.
— Estou com saudades dele. E de você também, tá?
null acabou rindo do cuidado dele com ela.
— Mainha também está com muita saudade, meu amor. Mas amanhã a gente mata essa saudade, está bem?
— Tá certo. Amo você.
— Também amo você.
Gabriel saiu da ligação e ela pôde escutar sua vó lhe pedindo o celular.
— O Guilherme precisou trabalhar, null. — Dona Carmem tentou explicar e null balançou a cabeça mesmo que a senhora não pudesse ver.
— Eu suspeitava que ele não iria, Dona Carmem. Mas prefiro não falar disso. Fique com Deus.
Não precisava e não queria escutar as desculpas da mãe de Guilherme, estava cansada de todas elas. Guilherme não valia nada e o fato de todos sempre darem desculpas para justificar seus erros faziam dele uma pessoa ainda pior. Se não podia mudar nada, ao menos se manteria distante.
Assim que desligou o telefone null respirou fundo. Ao menos Gabriel estava bem. Era isso que importava.
Depois de uma boa noite de sono, null acordou renovada e pronta para o trabalho. O plano era terminar todo seu trabalho para não arriscar não poder ver Gabriel na hora do almoço, porém assim que chegou lá viu que havia bem mais coisas do que esperava e infelizmente teve que comer junto com Tina perto do escritório. Mas assim que terminou o expediente, null apressou os passos até o carro e logo estava em frente ao curso de inglês do filho.
null achou estranho não ver Gabriel correr assim que visse seu carro e mais estranho ainda perceber que ele não estava na recepção já lhe esperando.
— Oi, Clara. Tudo bem? O Gabriel está bem?
Clara, a recepcionista simpática e com um sorriso amigável, sorriu antes de responder.
— Oi, null, tudo bem sim. O Gabriel está ótimo. Tá lá dentro agarrado ao null, que de acordo com ele, é mais legal ainda que eu. — E Clara voltou a sorrir.
— Ele fala muito do tio null em casa, para ser sincera é chocante que a gente ainda não se conheça.
— null é reservado, costuma ficar só com as crianças, mas espera aí que já, já você vai acabar conhecendo-o. — Clara falou apontando para a cadeira.
null então sentou e esperou, mas logo percebeu que se não fosse buscar Gabriel na sala, ele certamente não sairia de lá.
— Acho que vou ter que buscá-lo. — Ela disse antes de seguir para sala.
Assim que null entrou encontrou uma cena que apesar de saber o quanto null era querido por Gabriel não esperava, e que lhe encantou. O rapaz que certamente era null estava com Gabriel no colo e desenhava vários animais — que pouco lembravam animais de verdade — e depois ensinava ao garoto o nome de cada um deles. Cada vez que Gabriel acertava a pronúncia, eles batiam as mãos em comemoração. null não sabia quanto tempo passou observando aquela cena com um sorriso encantando nos lábios, mas só se deu conta que tinha estancado na posta quando ouviu seu filho gritar:
— Mainha!
Se null não fosse tão rápido para segurar o garoto, certamente Gabriel poderia ter se machucado ao pular do colo dele para ir direto para o da mãe.
— Meu Deus, filho, cuidado!
— Tava com saudade. — O garoto falou enquanto a mãe pegava impulso para colocá-lo no colo mesmo usando salto.
— Também estava com muita saudade, meu amor. Como você está?
— Eu ganhei uma estrelinha. — Gabriel respondeu, deixando claro que isso era suficiente para ela entender como ele estava. — O tio null disse que eu sou muito bom no inglês.
E só então null, que se encontrava encantando demais com a mãe de Gabriel, se apresentou.
— Oi. Bom, eu sou o tio null. — Comentou rindo e com as mãos no bolso da calça.
— Oi. Sou Maria null, null só. O Gabriel fala muito de você. — null respondeu enquanto recebia alguns beijos do filho no rosto.
null sorriu sem jeito de saber que Gabriel falava tanto dele.
— Bom, ele também fala muito de você para mim. Tanto que sinto que te conheço.
Foi a vez de null ficar sem jeito.
— Espero que não seja para reclamar quando não deixo que ele use o tablet ou o coloco de castigo.
— Algumas vezes sim, - null confessou rindo — mas na maioria das vezes é para falar como a mãe é legal, brinca com ele e pra dizer que ela é a mãe mais bonita do mundo.
Assim que null terminou a frase se amaldiçoou. Por que raios havia falado aquilo? Olhou para null que estava um pouco vermelha e então só conseguiu reagir falando:
— Bom, tenho que resolver umas coisas com a Clara e já está tarde. Vocês vêm?
— Claro.
null usou o caminho até Clara para achar algum assunto importante, caso null ainda demorasse lá, mas não conseguiu pensar em nada. Graças aos céus ela logo se despediu e ele pôde respirar aliviado.
— Esta é a mina mais linda que já vi a minha vida toda! — Exclamou assim que ficou a sós com a amiga.
Clara gargalhou.
— É, meu amigo, tenho que concordar. Se ela gostasse de garotas, eu seria uma pretendente. Mas já que ela não gosta, vou te ajudar a conquistá-la.
— O que? Como? Eu...
— Pare de ser chato. Em tanto tempo aqui nunca te vi caidinho por ninguém, pensei até que fosse padre, sei lá. Se você se interessou por ela, é oficial: vou te ajudar.
null estava há alguns minutos olhando o Instagram de Maria null Albuquerque sem saber se deveria lhe seguir, ou não.
Clara, quando insistiu para que ele pegasse o user dela, lhe garantiu que ela não era casada nem nada disto, mas ele mesmo assim olhou suas fotos para poder ter certeza. Ela era linda e parecia a mulher dos sonhos dele, mas jamais entraria em problemas por causa de mulher.
Agora ele tinha certeza de que a amiga estava certa, mas estava na dúvida se lhe seguia ou não. E se ela o achasse um stalker? Preferiu não seguir.
Era melhor dormir que o dia seguinte começava cedo. Iria cedo para Gravatá ver os pais e se perdesse a hora sua mãe reclamaria até não aguentar mais.
No dia seguinte, quando acordou na hora certa, null atribuiu essa conquista a decisão de não ter seguido null. Uma decisão certa puxa outra. Pegou um Uber e seguiu para a rodoviária para assim poder ir até seus pais.
Assim que chegou lá e viu a dona Maria e o seu Severino, lembrou, mais uma vez, a si mesmo como todo esforço na capital valia a pena. Toda correria que era fazer mestrado e ainda trabalhar, a casa pouco confortável que alugara e suas inúmeras noites de sono perdidas para escrever mil e um artigos onde seu orientador levaria o maior mérito, mesmo não tendo escrito uma linha.
— Eu estava com tantas saudades, meu filho. Você demorou para vir. — Dona Maria disse, enquanto avaliava o filho para ver se muita coisa havia mudado dentro de dois meses. — Você emagreceu? Tá comendo direito?
Antes de ser bombardeado por mais perguntas, seu Severino correu ao seu amparo.
— Tenho umas coisas para te mostrar. Fiz uma nova prateleira. — O senhor disse e null sorriu em agradecimento.
null recebeu tantos mimos aquele dia que quase não arranjou coragem para dizer aos pais que voltaria no dia seguinte. Mas a noite já havia chegado e precisava contar:
— É tão bom ver vocês, uma pena que eu tenha que voltar amanhã.
Dona Maria soltou o controle da tevê e olhou para o filho parecendo prestes a chorar, mas em vez disso virou para o marido agora com raiva.
— Você está vendo, Severino? Eu lhe disse que ele pegou amor por aquela cidade. Ele não quer mais saber da gente!
— Mã... — null tentou intervir.
— Não se atreva falar nada quando veio em um dia para voltar no outro.
— Eu tenho trabalho, mãe. Eu...
— E por que não veio no fim de semana? — Ela perguntou, consternada.
— Tenho um encontro com meu orientador sexta e não sei o que ele pode me pedir, quis garantir que teria tempo para ver vocês.
— Eu vou dormir. — Dona Maria disse, mal olhando para o filho.
Foi então que seu Severino respirou fundo e finalmente falou.
— Maria, vamos ficar todos aqui, por favor. Nessa família a gente não resolve as coisas dessa maneira.
— Eu não vou ficar aqui com um filho que não me ama. — Ela respondeu claramente magoada.
null respirou fundo e lembrou a si mesmo que ela só estava chateada e que era natural, havia sido uma mãe protetora e com toda certeza doía ver o filho voando.
— Para de besteira, você sabe que o null ama a gente. Não ama, null?
— Vocês são tudo que tenho de mais importante na minha vida. — null disse, suspirando.
— Desde quando a gente cria filho pra gente, Maria? Filho é pra o mundo. Nosso menino já é um homem. O homem mais inteligente do mundo. — Seu Severino falou e null não conseguiu segurar o sorriso, o pai sentia muito orgulho dele.
— Eu sei disso. — A mãe concordou, meio emburrada.
— Então pronto, vamos parar com esse drama todo e deixar nosso menino viver a vida dele. Imagina só quando ele casar, se ficarmos assim vamos morrer quando isso acontecer. E eu tenho quase certeza que a mulher dele vai ser de lá, é onde ele vive.
Dona Maria e seu Severino olharam para o filho de maneira curiosa, tentando mostrar-lhe que era a deixa para ele falar de uma possível namorada.
— Eu não estou com ninguém, gente. Isso vai demorar. — Ele respondeu rindo, e tentando tirar da sua mente a imagem da bela null.
— Pois deveria, quem sabe assim se cuida mais um pouco. — Dona Maria disse.
— A senhora certamente teria ciúmes dela. — null brincou e a mãe rolou os olhos.
— Chega parece que tenho essas coisas. — Dona Maria desdenhou e tanto o filho quanto o marido riram.
— null, se um dia você resolver seguir sua vida e nunca mais olhar na cara da gente, eu vou continuar te amando. Vou sentir saudades todos os dias, mas vou te amar e tenho certeza que a Maria também. Só que eu sei que você não é disso. Então, tente arrumar um tempinho pra esses dois velhos babões que te amam muito. Ah, e nós dois entendemos você ir amanhã.
E então tanto o senhor como null olharam para a mãe que novamente rolou os olhos, mas confirmou.
— Eu entendo.
Logo cedo, no dia seguinte, null já estava novamente em Recife. Aproveitou as horas que faltavam para sua aula e dormiu mais um pouco até que se arrumou para o trabalho.
Assim que chegou, encontrou Gabriel sentado no canto parecendo triste.
— Oi, Gabriel. Tá tudo bem?
O garoto, um dos mais falantes da turma, apenas balançou a cabeça em um sim.
— Ei, — null tentou, tocando no braço do menino — sabe que pode me contar tudo, né?
— Meu pai não ligou para marcar o jogo. Ele não vai ligar. — Ele disse, prestes a chorar.
— Mas ele ainda pode ligar.
— Ele não vai. — Gabriel afirmou.
— Como você sabe?
— Vovó disse a mainha hoje, eu escutei. Mainha também disse. Vovó disse que ele nunca liga.
null parou um pouco sem saber o que dizer. Gabriel falava pouco do pai, mas sempre que tocava no nome dele havia devoção em sua voz. Não fazia ideia de que o pai do garoto era ausente.
— Entendi. Mas não fica triste, eu aposto que sua mãe vai gostar de jogar bola com você. Já chamou ela?
O garoto pareceu ponderar e null lhe incentivou.
— Eu acho que você deveria chamar. Vai ser divertido.
Conforme as outras crianças foram chegando, Gabriel voltou a ser o Gabriel de sempre e se enturmou, mas null fez uma nota mental de, caso visse null, falar disso com ela.
Como null entrou no curso aquele dia, null acabou lhe vendo e indo falar com ela. Obviamente aquele encontro só ocorreu por causa disto, não tinha nada a ver com o fato de que ele seguiu para a recepção assim que a aula acabou com medo de estar na sala e não vê-la.
— Oi, Clara. — null saudou. — Oi, null.
— Oi, null. Tudo bem? Hoje o null está aqui, mas o Gabriel não. — Clara disse rindo e null ficou um pouco confusa.
— Ele está arrumando as coisas dele. — null explicou. — Será que poderíamos nos falar rapidinho, null?
Clara olhou curiosa e com um sorrisinho que fez null e null ficarem sem graça.
— Claro. — null respondeu mesmo assim.
Os dois seguiram para o canto e então null falou:
— É sobre o Gabriel.
— O que aconteceu? — null perguntou já alarmada e null tentou acalmá-la.
— Bom, primeiro relaxa, não queria parecer que era tão sério. É só que o Gabriel hoje estava bem triste e conversei com ele.
Cuidadosa e com um olhar que null só tinha visto na mãe, null falou:
— E você sabe o que foi?
— Eu não quero se intrometido, nem nada. Mas tem a ver com pai dele. Ele estava triste porque o pai dele não ligou para jogarem. E bom, eu não vou te sugerir o que fazer, mas só queria te contar. O Gabriel é meu aluno mais falante e o vi calado hoje, então, queria que você soubesse, para o caso dele não te contar.
null não conseguiu esconder a aflição que ficou ao escutar aquilo e null acabou ficando um pouco envergonhado. Não se sentia mal por ter conversado, mas quando a viu pela primeira vez e até mesmo poucos minutos antes ela parecia tão mulher, tão pronta para tudo, e então aquela conversa pareceu lhe despir de tudo e em sua frente estava alguém completamente vulnerável.
null não sabia se ela queria que alguém lhe visse assim.
— Eu... eu vou conversar com ele. — null disse depois de certo esforço. — Obrigada por ter contado.
Ela parecia mesmo grata, mas ainda assim o coração de null continuava apertado ao vê-la daquele jeito.
— Sei que você deve achar coisa de professor, mas eu gosto muito do Gabriel. Ele é uma criança adorável.
Ainda atordoada, null concordou e agradeceu mais uma vez antes de sair sem nem entender direito porque seu filho disse “até domingo” ao professor.
Assim que chegou no carro, null queria socar alguma coisa ou xingar muito, mas Gabriel estava ali e não faria nada disso. Apenas pegou o celular e digitou uma breve mensagem para seu ex.
“Gabriel está ansioso esperando sua ligação.”
Leu antes de enviar e pensou que já podia mandar várias coisas para ele, mas lhe daria ao menos mais uma chance de fazer as coisas certas.
Naquela noite null usou de toda sua animação para brincar com o filho e evitar o assunto Guilherme. Mesmo com poucas esperanças, havia escolhido dar uma chance e não adiantaria as coisas até que o amanhã chegasse.
— Podemos fazer um piquenique? — Gabriel perguntou já quase caindo de sono após o banho.
— Claro que sim. — null concordou enquanto lhe colocava na cama.
— Amo você, mainha.
— Eu também amo você.
No dia seguinte null seguiu para o trabalho sem nem olhar o celular. Havia perdido a hora e por pouco não chegou atrasada.
Assim que chegou encontrou Tina com um sorriso diferente nos lábios.
— O que foi que houve com você? — Perguntou a amiga antes mesmo de lhe dar bom dia.
— Bom dia para você também, null. — Cristina respondeu sarcástica. — E essa pergunta quem faz sou eu. Por que você está toda esbaforida?
— Perdi a hora. Estava preocupada com umas coisas e acabei perdendo o sono, sei nem que horas fui dormir. Acabou que na hora certa de levantar parecia pouco tempo para mim.
Rapidamente o sorriso que estava nos olhos de Cristina morreu e assumiram tons de preocupação.
— Tá tudo bem?
— Está sim. Quer dizer, eu espero. Ontem o professor de inglês do Gabriel veio falar comigo. Disse que o Gabriel estava triste e calado e que lhe contou que era porque o pai não havia ligado como prometera.
— Ai, null. Imagino como deva estar sendo ruim para o Gabriel. Por experiência própria, ter pai ausente é uma merda. Sorte dele que ainda tem você.
null sabia dos problemas familiares que Tina tinha. Pais ausentes e que achavam que dinheiro comprava tudo. Mas percebeu que a amiga não tinha lhe dito isso para falar de si, ela estava mesmo mostrando compreensão.
— Mandei mensagem para o Guilherme, espero que ele ligue. E passei a noite brincando com o Gabriel.
Tina olhou para null e depois baixou o olhar.
null sabia bem o que aquilo queria dizer.
— Desembucha. — Pediu quase que mandando.
Não precisou de mais que isso para que Tina falasse.
— É que eu acho isso lindo, sabe? O que você faz pelo Gabriel. Mas eu conheço essa cara, conheço esse tom de voz, você está fazendo o que mais odeio que faça: está tomando para si toda a responsabilidade sobre o que acontece na vida do Gabriel. A noite de ontem foi isso. Se o Gabriel não ficar bem você vai achar que não fez o suficiente, sendo que sabemos que o único culpado é o Guilherme.
— Eu não faço isso. — null se defendeu.
— Me diz uma coisa, quando foi a última vez que você paquerou? A última vez que saiu para se divertir? Eu duvido muito que você tenha perdido todos os seus desejos sexuais, mas aposto que você não chegou em cara nenhum que te chamou atenção. E sabe por quê? Porque você acha que como o Guilherme é um merda de pai, você precisa ser perfeita e não viver sua vida, caso contrário vai estar fazendo errado.
null queria, mas não conseguiu esconder o quanto aquelas palavras acabaram com ela. A verdade era que Tina não estava mentindo, ela fazia mesmo isso e para ela sempre foi tudo bem, mas parecia tão digno de pena quando ouvido.
— Eu amo você, null. E acredite em mim quando te digo que você é uma ótima mãe. E vai continuar sendo mesmo quando viver sua vida. Você mal sabe quem é a null longe desse escritório e do Gabriel.
— Me desculpa, Tina, mas eu não quero escutar sobre como isso é culpa do Gabriel. — null disse enquanto limpava com força uma lágrima que caía. — Porque... — tentou encontrar forças para falar sem chorar — acredite ou não, não é.
Tina sorriu de forma doce e compreensiva.
— Eu jamais culparia uma criança por isso, null. O que estou querendo te dizer é justamente isso: não há culpados, nem ele, nem você. Ele é o seu filho, o seu grande amor, e tenho certeza de que você é mais maravilhosa hoje do que antes dele. Mas você também é humana, e como qualquer humana, não é capaz de abraçar o mundo com as pernas e ser perfeita.
null sorriu enquanto olhava para cima na intenção de conter as lágrimas.
— É uma droga ser chorona. — Brincou, antes de pegar o celular para ver se isso lhe distraía.
Havia uma notificação no Instagram e clicou.
— Ué. — Acabou falando alto quando viu que a notificação era por null ter lhe seguido.
— O que houve?
— O professor do Gabriel me seguiu. Eu nem sei como ele me achou.
Isso deixou Tina automaticamente interessada na história.
— Eita! Me deixa ver ele.
Antes mesmo que null soltasse o celular, Tina já estava ao seu lado clicando nas fotos.
— null, ele é um gato! Vou seguir ele de volta, tá? Talvez você já tenha uma paquera. — Disse empolgada e null rolou os olhos.
— Nem vem.
— null, você tem que se conhecer melhor como mulher. O Guilherme ferrou com o seu psicológico e você se fechou, depois do Gabriel foi que se fechou ainda mais. Olha, está decidido, enquanto o tal null não te chama para sair, nos duas sairemos. Sábado vamos jantar fora, certo?
null sabia que não adiantaria insistir para o contrário, então, apenas concordou.
— Ótimo. — Tina disse, já pensando em lugares.
Assim que null chegou em casa, Gabriel lhe recebeu com um abraço e uma pergunta:
— Meu pai ligou?
E antes que pudesse responder, Érica, a moça que ajudava com Gabriel, falou:
— Hoje foi dia de brincadeira na escola, então ele chegou morrendo de fome. Começamos a almoçar.
— Tudo bem, Érica. — null disse e depois virou para o filho. — Seu pai não ligou, meu amor. Mas porque você não termina seu almoço com a tia Érica? Mainha precisa fazer uma coisa.
null deu um beijo rápido no rosto do filho e seguiu para o quarto sentindo seu sangue pulsar até nas orelhas.
Pegou o celular e ligou para Guilherme que de primeira não atendeu, mas ela estava determinada a tentar até que ele atendesse. Na terceira tentativa, ouviu a voz do rapaz do outro lado da linha.
— Oi, null.
Ela odiava que ele a chamasse pelo apelido, como se fossem íntimos como eram antes.
— Você viu minha mensagem? — Ela perguntou tentando manter o controle da voz.
— Vi sim, é que estou um pouco ocupado. — Ele falou com uma tranquilidade que sempre tirava null do sério.
— Por que você sempre faz isso, Guilherme? Por que sempre mente para o Gabriel fazendo promessas que nunca vão ser cumpridas e deixando ele ansioso por isso? — Isso era outra coisa que null odiava em Guilherme, o fato dele nunca se preocupar com o que prometia.
— Já disse que estou ocupado. — Respondeu simplesmente.
— Ocupado com o quê? Com as mulheres ou com a banda que nunca dá em nada, mas ainda assim você finge que é seu trabalho?
Há anos a banda, que era formada por um bando de homens desocupados e sem nenhuma responsabilidade, estava para decolar. Essa era sempre a desculpa de Guilherme.
— Ela está...
— Prestes a decolar? Meu Deus, Guilherme. Escuto isso há mais de cinco anos. Por que não assume que isso não é verdade, arruma um emprego de verdade e, o mais importante, aprende a ser um pai de verdade?
— Você não...
null não queria deixá-lo falar, estava cansada de todas as frases prontas dele.
— Por favor, se você não consegue ser um pai de verdade, então ao menos seja esse lixo de pai de maneira correta. Se vai ficar longe, não prometa ligações ou visitas. Até você rever suas prioridades, seja um lixo, mas seja um lixo longe do meu filho.
Sem esperar uma resposta ou qualquer coisa, null apenas desligou e deixou o celular na cama. Precisava de um banho demorado e um almoço rápido antes de voltar para o trabalho, e não abriria mão disto para ficar discutindo com Guilherme.
A tarde no trabalho, como já esperado, não rendeu como deveria. O que significava trabalho em casa, já que no dia seguinte null teria uma audiência.
Assim que chegou à manhã do dia seguinte, Gabriel acordou falando sobre o piquinique que a mãe havia lhe prometido para o dia seguinte e que null lembrava vagamente.
— Tem que ser amanhã, filho? — null perguntou, lembrando que havia marcado com Tina de sair na noite de sábado.
— Sim. Ele falou que no domingo não podia.
null virou-se para o filho confusa. De quem ele estava falando?
— Ele quem, Gabriel?
O filho lhe olhou como se ela fosse tonta.
— O tio null, mainha. Ele vai com a gente.
— E por que você não me contou isso? Você o chamou?
— Chamei. E eu tava com sono — Gabriel finalizou respondendo a primeira pergunta.
null acabou rindo.
— Olha só, filho, você precisa falar comigo antes de chamar as pessoas, está bem?
— Ele não pode ir? — Gabriel perguntou, parecendo instantaneamente prestes a chorar.
— Claro que ele pode. Mas da próxima fale comigo antes.
Agora null precisava desmarcar a tal noite de meninas que tinha com Tina, porque definitivamente não estava disposta a passar o dia em um piquenique e ainda sair à noite. Mas tudo isso teria que esperar até o fim de audiência, ela sim era prioridade naquele dia.
Embora tenha sido cansativa, a audiência também fora um sucesso. E null não podia estar mais orgulhosa de si mesma. Era em momentos de vitória como aquele que ela lembrava que todo o esforço valia a pena e que nascera para aquela profissão.
— Já soube que você arrasou. — Tina falou com um sorriso orgulhoso no rosto assim que null pisou no escritório.
— Estou aliviada. Sinto que agora de fato posso começar meu dia. — null disse enquanto se jogava na cadeira e respirava aliviada.
— E amanhã vamos comemorar!
Tina fez a tal dancinha que null sempre chamava de ridícula, mas a amiga pouco se importava e no fim arrancava sorriso das duas.
— Sobre isso... — null começou incerta sabendo que a amiga falaria que era mais uma de suas desculpas — não vai dar.
Tina já estava pronta para começar mais um de seus monólogos sobre como null não aproveitava a vida e como aquilo era errado, mas foi interrompida por ela antes mesmo de começar.
— O Gabriel chamou o tal professor dele para ir conosco e eu só fiquei sabendo hoje. E o cara só pode amanhã.
Tudo bem, aquilo era uma boa causa. E só por isso Tina não foi contra.
— Então o carinha gato vai sair contigo amanhã?
Cristina sendo Cristina, foi o que null pensou.
— Ele foi convidado pelo meu filho e aceitou o pedido de uma criança. Só isso.
Bom, ela esperava que fosse só isso.
— Segunda eu vou querer saber de todos os detalhes. — Tina avisou.
— Não duvido, não duvido.
Assim que chegou em casa null mandou uma mensagem via Instagram para null. Queria saber se ele realmente iria ou havia sido apenas uma forma de não dizer não a Gabriel. A resposta veio rápido.
“Eu já ia te mandar mensagem para saber se realmente iria rolar. Pensei em irmos ao Jardim Botânico, o que acha? Eu acho mais calmo que a Jaqueira, por exemplo.”
Era exatamente isso que null também pensava.
“Penso do mesmo jeito. Podemos chegar lá às onze. Passamos alguns minutos por ali, comemos e depois relaxamos. Não precisa levar nada, já comprei tudo.”
Em casa null riu da resposta dela.
“Você sempre programa as coisas tão milimetricamente assim?”
Era uma boa pergunta, isso null tinha que concordar. Seria sincera então.
“Não costumo sair muito e gosto de otimizar meu tempo, então digamos que sim.”
“Chegamos às onze, então. Não costumo atrasar e pelo jeito você também não. Então, até lá. Manda um beijo para o Gabriel.”
Algo dentro de null não gostava da ideia de fazer um piquenique com alguém que era quase um estranho, e muito menos com um estranho que Tina insista em dizer que poderia sair algo. Naquele momento mesmo, a amiga já estava lhe mandando mensagem dizendo que ela não hesitasse em dar uns beijinhos sem compromisso. Mas decidiu esperar o outro dia sem grandes julgamentos ou expectativas. Era só esperar o dia seguinte chegar.
Fazia tempo que null não via Gabriel tão elétrico, sua felicidade chegava a ser desconcertante e causou um pouco de culpa em null, que pensou que não saía com ele tantas vezes quanto o filho merecia.
— Já podemos ir? — Ele perguntou pelo que deveria ser a vigésima vez.
— Não, Gabriel. E não importa quantas vezes pergunte, o tempo não vai passar mais rápido por causa disso. Por que não brinca um pouco?
A sugestão não adiantou e por pouco null não cedeu e foi embora mais cedo, mas sabia que não podia alimentar aquele desespero do filho por mais que lhe tirasse do sério.
Quando finalmente — para a felicidade de ambos — chegou a hora de ir, Gabriel entrou animado no carro parecendo fora de si e algo dizia a null que aquela felicidade só aumentaria quando ele visse null.
Dito e feito, assim que Gabriel viu null — que chegou pontualmente como prometera — correu para dar-lhe um abraço e programar mil coisas. null aproveitou o tempo para tirar as coisas do carro, assim que o rapaz viu, foi ao seu encontro para ajudar.
— Você trouxe bastante coisa. — null disse quando viu três bolsas.
— Sair com filho pequeno é assim mesmo. Você tem que ter de tudo.
Poucos minutos depois e já estavam dentro do Jardim Botânico do Recife.
null não lembrava da última vez que tinha ido lá, mas todo aquele verde lhe fazia bem. Enquanto passeavam pelo caminho que agora era adaptado para cadeirantes, — o que null achou muito correto — null se ofereceu para levar as coisas e null lhe passou, escolhendo carregar apenas uma.
Como eles não tinham agendado uma visita, não havia guias para lhe mostrar a coisas, mas mesmo assim estava sendo ótimo. E quando chegaram ao orquidário, lugar que tanto null quando null reconheciam que deveria ser mais bem estruturado, um rapaz se ofereceu para mostrar mais coisas a eles.
— Meu nome é Lucas e a gente pode ir ver as abelhas e também posso contar umas coisas para vocês.
Foi o tal Lucas que lhes explicou que as abelhas nativas não possuem ferrão e que também teve que explicar a Gabriel que isso não significava que ele podia procurar abelhas por aí. Depois o rapaz contou algumas curiosidades sobre as arvores ali presentes e advertiu sobre como era errado dar de comida aos animais que passavam.
— Além de criar um hábito que pode ser perigoso para vocês, mexe também na alimentação deles. Eles não precisam de comidas como as nossas para sobreviverem, não faz bem.
Quando finalmente pararam para comer já havia passado das uma da tarde e por isso a comida pareceu voar de tão rápido que eles comeram. Gabriel então pediu alguns de seus brinquedos e ficou brincando apenas um pouco distantes deles.
— Ele é um ótimo menino. — null falou para null enquanto viu o garoto brincar.
— É sim. E muito ansioso também. Quase me tirou do sério hoje. — null disse rindo e fez null rir também.
— Ele estava meio triste e eu falei que em vez de jogar bola ele podia ir para um piquenique. Então ele meio que me convidou e meio que decretou minha presença. — null disse rindo enquanto lembrava da criança já fazendo os planos contando com ele. — Fiquei com medo da sua reação, mas não consegui negar.
— Na verdade foi um choque, porque ele só lembrou de me contar esse detalhe ontem. Fiquei até com medo de você ter dito por dizer.
— Eu não faria isso com ele. — null logo explicou.
— Fico feliz. Ele já anda bem frustrado.
null então se remexeu, parecendo desconfortável, mas também curioso. null percebeu isso e não tinha muita certeza se queria saber o motivo do desconforto, mas já que eles teriam não sei quanto tempo juntos, era melhor evitar desconfortos. Então lhe encarou, encorajo-o.
— O pai dele... bom... — null começou, ainda incerto — vocês... bom...
— Se a gente já viveu juntos e se ele é um bom pai? Se foi isso, é não para ambas as perguntas. — null respondeu dando e ombros.
— Entendi. Sinto muito por vocês.
— Não sinta por mim, Guilherme já deixou de importar faz tempo. Pelo Gabriel, talvez todos menos o pai dele sintam por isso.
— Quantos anos vocês tinham?
— Tinhamos vinte e um quando o Gabriel nasceu e vinte quando descobrimos a gravidez.
— Sinta-se à vontade para parar minhas perguntas, tá bem? É só que...
— Quer saber a história toda? Se sim, posso contar.
— Conte o que quiser.
Então, por causa de todo estresse que Guilherme tinha causado nos últimos dias e pelo alívio que era ver o filho feliz, null sentiu que precisava conversar.
— Nos conhecemos na faculdade. Eu achava que tinha tirado a sorte grande. Ele era lindo de morrer e estava comigo. Entre muita paixão e alguns descuidos, um belo dia comecei a sentir enjoos e não demorou muito para que eu suspeitasse. O Guilherme estava com sua banda, focado nela e quase desistindo da faculdade, então mantive a suspeita em segredo até o exame de sangue sair, foi quando contei a ele.
— Vocês ainda ficaram um tempo juntos?
— Um mês e meio de forma geral, mas eu diria que de verdade só uns quinze dias. Depois ele começou a surtar. “Meu Deus, eu sou um garoto ainda. Eu tenho planos demais. Isso vai mudar muito minha vida.” Como se a grande mudança no corpo, na saúde e na faculdade estivesse acontecendo nele, não em mim. Empurramos por mais um mês até que um belo dia ele pediu para que o pai ligasse para mim e falasse que ele precisou viajar, ele era só um menino, coitado. — null falava enquanto era visível sua revolta. — Ele não estava pronto, mas eu precisava estar. E de certa forma me orgulho de falar que mesmo surtando, eu estava. Quer dizer, ninguém está exatamente pronto para uma gravidez indesejada perto de terminar a faculdade e sem o apoio de muitos, mas eu fui mais forte do que até mesmo eu esperava. Então, quando ele resolveu voltar falou que a banda estava prestes a decolar e precisava focar nela.
null esperou um tempo. Sabia que null precisava respirar antes de continuar.
— E qual desculpa ele dá hoje?
— A banda.
— Viajam muito?
null riu.
— Não. É que ela continua prestes a decolar, mesmo quase seis anos depois.
null riu também. Embora os dois estivessem dando risos de revolta.
— Como foi com seus pais?
— Difícil, mas acho que tive bem mais suporte do que boa parte das meninas tem. Meus pais sabiam que foi cedo, mas não tão cedo assim. Não me deram um baita apoio, mas não viraram as costas, entende?
— Mais ou menos. — null respondeu sincero.
— Eles continuaram pagando minha faculdade e não me expulsaram de casa nem nada do tipo. Pagaram até o advogado para que a pensão que os pais do Guilherme pagam ficasse certinha. Fora que também ajudaram na hora que me mudei. Eu já tinha um carro e meus avós me deram um apartamento. Meus avós deixaram o apartamento mobilhado e meus pais fizeram o quarto do Gabriel. Eu não posso falar que eles viraram as costas para mim. Claro que criar o Gabriel lá não era bem uma opção, mas eles ainda me deram algum suporte. Sou mais sortuda que a maioria das garotas.
null olhou para Gabriel brincando e então uma dúvida lhe veio à mente.
— Como você fez para cuidar dele enquanto se formava?
null acabou rindo só de lembrar de como aquela época havia sido estressante.
— Passei a fazer trabalhos acadêmicos de outras pessoas e comecei a vender doces. Eu estava estagiando quando descobri a gravidez e eles resolveram me manter por lá, só que remotamente. Deixei de trabalhar com a parte do direito e me tornei secretária, para virar CLT, mas era alguma coisa e tive a chance de ser contratada depois como advogada, onde trabalho até hoje. Foi extremamente estressante e achei que fosse surtar várias vezes, mas trabalhar remoto tanto no escritório como fazendo os trabalhos me deixavam perto do Gabriel e com tempo para não precisar de babá sempre. Quando saí da faculdade comecei a ganhar bem melhor e pude deixar os bicos de lado.
— Você faz parecer mais fácil. — null falou, admirado com a calma que ela falava.
null riu. Não havia sido nem mesmo um pouco fácil.
— Não foi. — Ela confessou — Foi mais difícil do que eu imaginava para ser sincera, principalmente a parte de criar de fato o Gabriel. Mas eu reconheço meus privilégios, sabe? Não é toda garota que ganha um apartamento para viver com o filho, por exemplo. Mas foi a fase mais difícil e assustadora da minha vida. Ainda é assustador, mas ao menos não é mais tão difícil assim.
null então viu a postura mais calma de null dar lugar a uma vulnerável e na intensão de lhe passar conforto, tocou carinhosamente sua mão. Então ele sentiu que também deveria abraçá-la, e assim fez. E null, embora um pouco sem jeito, se sentiu bem com aquilo. Foi reconfortante e bom.
Os três ainda demoraram um pouco mais por lá e só na saída null descobriu que null não tinha carro e havia ido de Uber. Ofereceu então uma carona até a casa dele, mas null disse que até a casa dela já estava ótimo.
Assim que chegaram lá null até perguntou se ele queria entrar, mas null, que pouco havia falado sobre a vida naquele dia, contou que fazia mestrado e que precisava ir pra casa estudar.
— Ah, então tá certo. Se despede do tio null, filho.
Gabriel correu e deu um abraço de urso no rapaz e recebeu um abraço na mesma intensidade como resposta.
— Obrigado, tio null. — E então entrou rápido para dentro de casa.
— Até qualquer dia então? — null indagou sem saber o que dizer.
— Sobre isso, — null começou a frase e segundos depois se remexeu enquanto colocava a mão no bolso da calça — não me entenda mal, nem nada. ¬— E novamente pareceu se perder nos pensamentos, mas voltou a falar. — Será que a gente não poderia sair qualquer dia?
Eles podiam? Era ético sair com o professor de inglês do filho? null suspeitava que não, mas a tarde havia sido tão boa e Tina falava tanto que ela precisava sair...
— Claro.
— Sei que o sábado é melhor, mas só posso no domingo, pode ser?
Geralmente a resposta seria não, mas Gabriel estaria com os avós e ela não morreria se saísse um dia antes de trabalhar.
— Ótimo, então.
Tina amara saber que finalmente null iria sair com alguém e gastou vários dias repetindo para a amiga que não tinha nada demais em sair com o professor de inglês do filho. Ainda conseguiu convencer a amiga a sair no sábado para comemorar o fato de que agora null havia acordado para vida, como ela amava repetir.
Por causa do trabalho, null não conseguiu buscar Gabriel no curso nenhum dos dois dias e isso fez null pensar em mil coisas.
— Ela é uma mulher ocupada, idiota. — Clara falou. — Você realmente é péssimo com essas coisas, então vou te ajudar. Manda mensagem para ela dizendo onde vocês vão e espera a resposta dela.
— Eu ainda não sei onde vamos.
— Eu sei um lugar legal. Fui com uma garota uma vez, é comida mexicana. Vão lá.
Guiado por Clara, null mandou a mensagem e ficou feliz de receber a resposta positiva de null.
“Desculpa o sumiço, a propósito. Estou atolada de trabalho.” null mandou para tentar puxar conversa.
Quando leu o que o amigo tinha acabado de receber, Clara gritou:
— Tá vendo!
null lhe olhou torto.
— Vou para sala. Um pouco de privacidade não faz mal a ninguém.
A conversa durou pouco porque como null mesmo disse: estava atolada de trabalho, mas foi o suficiente para manter null mais confiante.
O sábado tinha chegado e null se perguntava onde estava com a cabeça ao decidir que seria legal sair dois dias seguidos. Naquela noite, já que houve imprevistos e os avós paterno não puderam pegar Gabriel, null deixara Gabriel aos cuidados de Érica, já no dia seguinte ele dormiria com dona Marta e duas noites um pouco longe do filho deixava null mais culpada do que imaginava.
— E se o Gabriel adoecer amanhã de saudade? — null indagou Tina.
Cristina, daquele jeito só dela, rolou os olhos teatralmente e bufou.
— Gabriel dorme na casa dos avós paternos e não morre. Fora que é só amanhã, para de arrumar desculpa para farrapar.
— Mas você sabe que sair hoje foi muita folga minha. Não tinha grandes motivos.
— Você está aqui hoje porque é uma boa amiga, pequena null. E o que tem demais? Eu precisava sair e você tá aqui.
— Desde quando você precisa de mim para sair? — null perguntou brincando, já que Tina viva saindo.
— Mas eu precisava relaxar, conhecer gente nova, beijar gente nova...
— Epa! — null interrompeu. — Que você sai eu sei, mas desde quando tu beijas? — Falou e começou a rir.
— Tentei esses dias, não deu muito certo e preciso relaxar. — Tina deu de ombros. — Falando nisso, vou a banheiro. Já volto.
null aproveitou a ida de Tina ao banheiro para olhar o celular e ver se Érica tinha mandado algo, mas em vez disso tinha uma mensagem de null no Instagram que vinha acompanhada até de foto dos estudos dele.
“Sei que deveria estar estudando/trabalhando, mas pensei que ainda não trocamos número e seria bom conversar por lá. Beijos.”
null riu e achou fofo a cara dele desanimada em meio aos livros e o computador. Decidiu então mandar o número e depois outra mensagem agora com uma foto dela sentada na mesa do restaurante.
“Pena que não poderemos conversar agora. Minha amiga me arrastou.”
A reposta acabou já vindo pelo Whatsapp.
“Com todo respeito, mas caramba, você tá absurdamente linda.”
Antes que pudesse ir além do sorriso bobo que deu com a mensagem, null foi interrompida por Tina e um rapaz que ela não conhecia.
— Vamos pedir nossa comida para a noite das meninas, Maria null?
Maria null? Noite das meninas? E quem era aquele cara do lado dela?
— Oi, não quero incomodar, mas é que a Cristina me falou coisas ótimas de você dia desses, quis conhecer essa amiga dela.
Aquilo ainda era confuso, mas mesmo assim null respondeu:
— Que bom! Amo essa garota — e então olhou confusa para amiga.
— Ele está um pouco bêbado e já está de saída, não é? Xau.
Assim que o rapaz saiu, null já ia perguntar quem era ele, quando Tina disse:
— A gente encontra cada doido. — E deu o assunto por encerrado.
A noite acabou sendo mais divertida que o esperado e como Tina havia prometido, acabara cedo e assim null pode pegar o filho acordado. Depois ela aproveitou a mensagem de null, mas ele devia estar ocupado, já que só apareceu no dia seguinte já próximo da hora do jantar.
Seria mentira dizer que ambos não se olharam milhares de vezes no espelho antes de saírem de casa e também seria mentira dizer que os dois não estavam um pouco nervosos. Mas uma coisa era fato: eles estavam gostando do jantar.
— Esse lugar é ótimo. — null disse entre a conversa com um sorriso.
— A Clara quem sugeriu. Também achei ótimo.
— Havia um deles perto do Plaza, mas fechou e eu nem fui. Estou amando.
— Que bom, confesso que eu estava com medo.
null riu.
— Está tudo ótimo, null. Embora eu tinha tido mil receios para vir.
— Como assim?
— Professor do meu filho e tals. — Ela disse tentando soar normal.
— Mas o que tem de errado em jantar com o professor?
null riu e null riu também.
— Né? Que bobagem a minha! Esse jantar não tem nada demais.
Se ele queria fingir demência, ela faria o mesmo.
— Apenas dois amigos saindo para jantar. — Ele continuou.
— A gente não é amigos. — null constatou o óbvio.
— Mas podemos ser, ué! — Ele falou com a mão no peito.
Novamente os dois riram.
— Podemos? — Ela indagou dando um gole na bebida e sorrindo.
— Sim. Mais que isso, até! — null falou sem nem mesmo saber de onde estava vindo aquela confiança.
— E é? — null perguntou agora rindo de verdade.
— Sim. Você quer?
— Vamos pedir tacos? Quero mais! — null desconversou enquanto dava uma risada que arrancou outra de null.
O resto do jantar ocorreu sem fletes, mas o clima continuava ali. E continuou no trajeto até a casa de null e também dentro do elevador. Nenhum ousava falar dele, mas o clima estava presente e a atração quase palpável.
— Bom, chegamos. — Ela falou quando pegou a chave do apartamento. — Não faço o convite para entrar porque tenho que trabalhar cedo.
— Eu entendo. — null falou enquanto ela abria a porta. — Chegamos.
— Foi o que eu disse. — null falou rindo agora com a porta aberta, mas virada para ele. — Obrigada pelo jantar.
— Obrigado também. — null respondeu dando um sorriso de lábios fechados. — null, você vai achar ruim se eu te beijar agora?
Quem fazia uma pergunta dessa? null pensou, mas respondeu:
— Não. E antes de você me beijar, queria dizer que pode me chamar de null.
— Tá certo, null. Agora eu vou te beijar, null.
E então null colou seus lábios no dela, que estava com um sorriso. O beijo foi calmo, mas bom e intenso. E o melhor, satisfez os dois.
Na segunda, quando estava indo para o almoço, null recebeu mensagem dos pais falando que queriam almoçar com ela e Gabriel, e mesmo ela achando estranho aceitou. Assim que chegou com o filho lá, entendeu o motivo do convite.
— Quem é null? — A mãe perguntou sem rodeios.
— Como?
— Fomos na casa da sua vó ontem e o Gabriel estava lá. Disse que você tinha saído com esse rapaz.
— É um rapaz que ensina o Gabriel no inglês. Saímos, os três, semana passada, Gabriel o convidou.
— E o que vocês têm? — Foi a vez do meu pai perguntar.
— Nada. — E não era mentira, beijar ainda não era algo.
— Se preserve, está bem, Maria?
— Me preservar, como assim?
Roberta olhou para o marido com um olhar cauteloso.
— Ele só quer dizer que da última vez a gente viu no que deu. Gabriel dormiu na casa da sua vó, não sabemos o que vocês fizeram ontem.
null olhou ao redor a procura do filho e viu que ele estava longe, então aproveitou e falou
— Isso é sobre sexo?
— É sobre o fato de que você um belo dia apareceu com um filho, Maria null. — Sua mãe falou como se fosse óbvio.
null riu de raiva, sem conseguir acreditar na situação.
— E sou muito grata por tudo que fizeram ou deixaram de fazer na época, mas, bom, agora eu tenho casa, me mantenho e não vou atrapalhar a vida de vocês com isso. Mas só para sanar a curiosidade, não fizemos absolutamente nada.
Por causa do clima que acabou ficando, o almoço foi silencioso. Aqueles silêncios que parecem gritar no meio do ambiente.
— Eu não quis te chatear, Maria. Só queria que você fechasse as... — Humberto começou, mas fora impedido pela esposa.
— Humberto!
— Eu acho melhor irmos embora. Vamos, Gabriel?
— Mas vocês nem terminaram...
— E não vamos terminar, mainha.
null saiu da casa dos pais se sentido humilhada, mas também com muita raiva. Desde quando ser pais lhes dava o direito de falar aquilo?
Como chegou cedo demais em frente ao curso, para que deixasse Gabriel sem que fosse inconveniente, levou o filho para a praça que ficava perto para matar o tempo. Pensou em mandar mensagem para null e falar sobre o que ocorreu, já que eles vinham conversando muito dessa forma, mas ficou na dúvida se já era o momento para dividir mais coisas. Então, como se fosse capaz de adivinhar as coisas, ela ouviu a voz dele lhe chamar do outro lado da rua.
— Oi. — Ele saudou com um sorriso. — O que vocês estão fazendo aqui?
Gabriel que brincava de correr não parou a brincadeira, mas correu rápido para dar um abraço em null antes de voltar ao circuito imaginário.
— Estava na casa dos meus pais, mas digamos que o almoço não saiu como esperado. — null deu de ombros.
— Serei enxerido se perguntar o motivo? — Ele perguntou preocupado.
null respirou fundo e despejou logo tudo de uma vez. Se aquilo fosse para frente, era bom ele saber como era a família dela.
— Eles foram na casa da minha vó ontem e viram o Gabriel lá, ele acabou comentando de você e hoje eles queriam saber das coisas e de forma resumida, me mandaram fechar as pernas.
— O que? — null quase gritou, indignado.
null baixou a cabeça meio envergonhada de confessar aquilo.
— Eu sei. — Ela disse depois. — É ainda pior ouvir da boca do seu pai.
— Eu... eu... — null também parecia envergonhado — sinto muito.
null sentiu a mão do rapaz segurar a sua e foi o que bastou para ela falar de vez como se sentia.
— É como se eu tivesse que viver do jeito deles como gratidão, sabe? Um eterno servir por não ter sido expulsa de casa. E não ache que não sou grata — null disse negando com a cabeça e prestes a chorar — porque sou muito grata, muito mesmo. Mas são humilhações constantes que me deixam com a sensação de que meu erro nunca será perdoado. Eu tomo cuidado, null, eles sabem disso. Todos sabem! O Gabriel é o amor da minha vida, mas eu sei as coisas que tive e tenho que passar, e eu não vou repetir isso. Eu nunca nem precisei desse conselho porque nunca cheguei perto de precisar.
null levantou a cabeça confuso.
— Durante todos esses anos você nunca se envolveu com ninguém?
— Tive algumas poucas tentativas, mas se chegarmos ao terceiro encontro, você será o vencedor. Nada passou de poucos beijos e no máximo dois encontros.
— Tudo isso por eles? — null perguntou chocado e temendo a resposta. Não queria isso para ela.
— Não. Você sabe, filho pequeno, receio de quem vou colocar na minha casa, preconceito com quem cria o filho sozinha, falta de tempo por causa do trabalho, traumas com o ex e muito medo de ver minha vida virar de cabeça para baixo novamente.
null queria ter mais tempo com ela. Queria que ela se deitasse em um sofá, apoiasse a cabeça em sua perna e contasse tudo.
— Você não é a mesma de antes. Não vai fazer as mesmas coisas. — Foi o que pôde dizer levanto em conta tempo e lugar.
— E ainda tem o fato de que não quero colocar mais alguém passageiro na vida do Gabriel. Disto já basta o pai dele, que ainda é minimamente presente por causa do laço sanguíneo.
Todos os medos dela, mesmo os questionáveis, null sabia que faziam muito sentido para ela. E por isso não bateu de frente, mas lhe fez uma pergunta.
— O que te fez aceitar esse meu segundo convite e cogitar mais?
— O Gabriel confia em você e você fez por ele muito mais do que precisava, isso já me deixa mais confiante. Fora que parece fácil. E eu preciso que as coisas sejam fáceis. Além do mais, você não parece temer criar laços.
Ao ouvir aquilo null sorriu e puxou null para trás de uma árvore o suficiente para que Gabriel não os visse, então falou:
— Eu não sei no que vai dar tudo isso, mas acredite em mim quando digo que eu adoraria criar laços com vocês.
E então ele a beijou. Um beijo calmo e cheio de carinho, como aquele momento precisava. E mesmo com toda calma algo dentro de null se agitou, algo que não agitava faz tempo. Agitou-se dentro de null algo que ela bem sabia ser esperança, esperança no amor.
A semana passou voando e foi regada a trabalho tanto para null quanto para null, mas também foi cheia de mensagens trocadas entre os dois. Quando o sábado chegou, null deixou Gabriel na casa de dona Carmem e depois se permitiu voltar e dormir novamente, para no fim da tarde sair ao encontro de null, que propôs que eles tomassem um café no DeltaExpresso do Cais do Imperador e depois pensassem em para onde seguir. E ninguém nega comer algo gostoso em um lugar com uma vista daquela, não é mesmo?
Assim que chegou ao local null respirou fundo e sorriu, feliz de estar lá e olhar aquela vista do Rio Capibaribe. Ela amava aquele lugar, mesmo que fosse tão pouco.
— Oi, null. — null falou atrás delas antes de virá-la e lhe dar um selinho.
— Eu já disse que amei sua ideia de vir pra cá? — Ela falou antes de também lhe dar um selinho.
— Já sim. E eu juro que dessa vez não foi ideia da Clara. — Ele disse e os dois riram.
Os momentos que passaram ali foram recheados de histórias da infância que fizeram os dois rirem, e quando decidiram ir embora perceberam que já estavam cheios demais para irem comer em outro lugar.
— Podemos ir pra casa. — null sugeriu e viu null travar, mas não se chateou com isso. — Podemos ficar lá embaixo no prédio conversando mais um pouco, o que acha?
null sabia que ele estava tentando respeitar os limites dela e ficou feliz com isso.
null chegou ao final da noite feliz e satisfeita. null tinha ficado lá com ela por horas conversando sobre tudo. Foi tão bom vê-lo falando dos planos futuros, da paixão pela faculdade e do seu trabalho para conseguir terminar o mestrado e começar logo o doutorado. Podia ser um pouco de ignorância, mas só agora, depois de null, é que ela entendeu como fazer mestrado era trabalhoso, não era “apenas estudar” como muitos diziam, era um trabalho de fato, e um trabalho que consumia muito do dia dele. Óbvio que havia acontecido alguns beijos, mas não havia sido o foco dos dois. Tanto null quanto null estavam entregues aquele momento porque queriam muito mais que beijos, mas a companhia um do outro.
Infelizmente o fim da noite, depois que null já estava sozinha em casa, não foi bom como ela desejava. Quando já estava perto de dormir, recebeu a ligação de um Guilherme possesso.
— Como assim você está colocando um homem na sua casa e não me diz nada? — Ouviu Guilherme gritar do outro lado da linha.
Confusa, null tirou o celular do ouvido e viu que tinha inúmeras mensagens dele.
— O que está acontecendo? — Ela indagou ainda confusa.
— Consegui ir ver o Gabriel, quem é tio null? — Perguntou com desprezo.
null balançou a cabeça em negação, mesmo que ele não visse.
— E o que você tem a ver com isso?
— Eu sou o pai dele, você deveria ter me contado...
— Pelo amor de Deus, Guilherme! Faça-me favor. Se toque! — Ela esbravejou possessa também. — Veja só, a merda do nosso relacionamento acabou faz tanto tempo que eu nem lembro, você não tem mais nada a ver com isso. Vá se ferrar!
E então null desligou na cara dele. Desde que Tina tinha lhe dado esta ideia, que não escutava mais nada que não quisesse.
“É uma ligação, null. Desligue. Você não precisa ouvir as merdas se não quiser.”
Olhou para as próprias mãos e viu que elas tremiam. Tantos anos depois e Guilherme ainda conseguia acabar com as coisas em sua vida.
No dia seguinte null torceu para que finalmente o orientador de null se desse por satisfeito e eles pudessem sair, mas não foi isso que ocorreu. Então, para a tristeza de ambos, não puderam passar o domingo juntos. Como não iriam se ver, null dividiu por mensagem então a conversa que teve com Guilherme, null foi pragmático: ele não manda na sua ou na minha vida, não se deixe abalar.
Na segunda, conseguiu ver Gabriel no almoço e aproveitou para levá-lo ao inglês e fazer um convite a null.
— Queria que você fosse lá em casa hoje, se tiver tempo. Posso preparar algo.
null ponderou e depois encolheu os ombros.
— Eu tenho um monte de trabalho, mas vale a pena. Chego às sete.
— Combinado então.
Para o alívio de ambos, Gabriel parecia o mesmo com null e tirou da mente dos dois a possibilidade do pai do garoto ter tentando mexer com a cabeça dele, porém, ao chegar a noite, perceberam estar enganados.
— Por que você tá aqui, tio null? — Gabriel perguntou encarando-o.
— Sua mãe me chamou, Gabriel. E é sempre bom te ver.
O garoto, que de bobo não tinha quase nada, o avaliou e calou-se.
Para que Gabriel também participasse, decidiram assistir um episódio de Jovens Titãs em Ação e null percebeu que o filho não a soltava.
— Filho, assim mainha não vai conseguir pegar comida. — Falou rindo.
— Eu não quero outro pai, não quero que o tio null seja meu pai! — O garoto praticamente gritou e tanto null quanto null ficaram sem reação. — Meu pai se chama Guilherme, eu só quero ele.
— Ei... — null começou a falar, mas null fez sinal para que parasse.
Com todo cuidado do mundo, null virou o filho para sua frente e lhe olhou nos olhos.
— Ei, calma. Quem lhe disse que o null será seu pai?
— Meu pai. — Ele confessou com lágrimas nos olhos. — Mas eu jurei que não vou querer.
Fazer aquilo com uma criança era baixo até para Guilherme.
— O null não vai ser seu pai, Gabriel, não se você não quiser.
— Mas se ele namorar com...
— Mesmo que ele namore comigo, ele não vai ser seu pai. Ele vai continuar sendo o tio null, aquele que brinca e que sai com você. O null deixa você feliz, mas também me deixa feliz, e é por isso que talvez mainha namore com ele. Só que eu prometo que ele vai continuar sendo o tio null.
— É que meu pai...
— Te disse que não seria assim? Ele não entende, meu amor. Mas eu já menti pra você? — Ela indagou e viu Gabriel negar com a cabeça. — Então pronto, não precisa ter medo. Você vai continuar vendo seu pai, só vai ganhar o null ainda mais perto de você. Fora isso, nada muda.
Gabriel olhou então para null como se esperasse a confirmação dele.
— Eu juro. — null falou levantando o mindinho para o garoto que entrelaçou o próprio no dele.
null sorriu com a cena e colocou seu dedo agora entrelaçando o dos dois.
— Juramos. — Falou com os olhos cheios de lágrimas, sem conter a gratidão de ver aquelas mãos entrelaçadas.
No dia seguinte null narrou tudo para Tina, que parecia em dúvida se soltava fogo pelo nariz com raiva de Guilherme, ou vomitava arco-íris com a resolução da história.
— Eu fico muito feliz que tudo tenha corrido bem, embora eu ache que o Guilherme ainda vai tentar muita coisa.
— Pior que eu também acho. Mas uma batalha de cada vez, né?
— Só me promete que você não vai deixar o Guilherme ganhar mais essa. Quer dizer, esse cara te traumatizou de tantas formas e não cumpre com o papel de pai dele, deixando tudo nas suas coisas. Quantas vezes eu te vi recuando na vida por medo de tudo se repetir ou por não dar conta já que não tem ajuda? Não deixa o Guilherme ditar sua vida.
— Não vou deixar. Cansei de deixar. Acho que está na hora de ser feliz, né?
— Você é maravilhosa, Maria null Barreto de Albuquerque. Estava mais que na hora. — Falou com um sorriso e recebeu um abraço da amiga.
— Amo você.
— Eu também amo você. Vai ver o null mais vezes essa semana?
null fez um biquinho.
— Além dele trabalhar muito, eu acho sempre meio perigoso ele ir pra casa sem carro, além de, sei lá, é pouco cômodo.
Tina riu um pouco e null lhe olhou confusa.
— Um monte de gente se vira sem carro, null. — Ela falou, explicando a risada. — Mas entendo que você esteja pouco acostumada, já que sempre teve. Mas bom, por que é que ele ainda não tem um? Ele trabalha e ainda recebe a bolsa do mestrado, não?
— Sim, mas ele ajuda os pais e também junta para o doutorado. Tem um doutorado que é dos sonhos dele, mas é fora do país e bom, ainda que ele ganhe bolsa, os custos com estadia e tudo mais são com ele. E não é como se ele ganhasse rios de dinheiro, se viver de pesquisa já é difícil no Brasil, imagina viver disso na área de educação.
— É um bom ponto. — Tina concordou meio triste com a realidade.
— Acho que me envolver com null está sendo uma aula, sabia? Essas pessoas estudam muito, Tina, muito mesmo, e na maioria do tempo a gente nem faz ideia disso.
Desta vez Tina sorriu. Satisfeita com o que a amiga falou.
— Eu fico muito feliz, null. Muito mesmo. O null anda te fazendo mesmo bem.
Como já havia dito a Tina, null e null chegaram à quinta apenas trocando mensagens e só se viram quando ela levou e buscou Gabriel no inglês.
null: Seria bobagem dizer que sinto sua falta?
null: Não sei, faz tempo que não paquero kkkkk.
null: Sinto sua falta. Esse último mês vem sendo maravilhoso. Eu definitivamente não estava esperando por você, mas foi ótimo te encontrar.
null: Sinto a mesma coisa.
null sorriu em casa ao perceber que era verdade. Tudo verdade.
null, embora estivesse amando o momento, sentia que precisava falar também outra coisa.
null: Não sei se é meio que um tabu, já que não falamos disso no dia nem depois, mas o que houve com o Gabriel segunda. Não acha que precisamos conversar sobre?
Estavam indo rápido e null sabia que se seguissem no mesmo ritmo, não demorariam até oficializar algo. Então, não podiam deixar lacunas.
null respirou fundo em busca de palavras. Depois de muito pensar, mandou:
null: Gabriel sempre será minha prioridade e acredito que saiba disso, mas tudo aquilo foi um jogo do Guilherme e eu não vou deixá-lo acabar com o que estamos construindo.
null: E se ele tentar outra coisa?
Ele iria tentar, os dois sabiam.
null: Ame meu filho e deixe que me resolvo com o pai dele. Isso será o suficiente.
null não sabia se aquilo era uma conversa suficiente para a situação, mas aceitou as palavras e decidiu fazer o que ela pedira, amar Gabriel não era esforço.
Quando chegou a sexta null recebeu uma ligação inesperada de dona Carmem.
— Sei que esse final de semana é seu, mas a festinha foi decidida hoje, em cima da hora. Será amanhã.
— É que o Gabriel não anda numa fase muito boa desde a última visita que fez a vocês. — null foi sincera.
— Como assim? — Dona Carmem perguntou alarmada.
— O Guilherme falou besteiras para ele e isso o deixou inseguro. Não sei se me afastar dele agora seria bom.
Dona Carmem calou-se por um tempo, o que deixou null em dúvida se ela não sabia do que o filho havia feito.
— Não sei direito o assunto, mas talvez eu faça ideia. Prometo ser mais atenta, null, mas por favor deixe. A Camile é a prima dele e o Gabriel ficaria triste em perder.
Isso era verdade. Então, mesmo meio incerta, null respondeu:
— Tudo bem.
— Prometo levá-lo no domingo. Muito obrigada.
null sabia que não seria justo privar o filho de ir à festa da prima que ele amava, mas ainda assim se perguntou se tinha tomado a decisão certa.
Como combinado, dona Carmem chegou perto das onze para buscar um Gabriel super animado com a ideia de comemorar o aniversário da prima. Ela novamente agradeceu a ex-nora e prometeu seguir com o combinado.
— Vou prestar atenção. Prometo.
— Assim espero, dona Carmem. — null falou, mostrando não acreditar muito.
Quando o filho saiu, ela mandou uma mensagem para null.
null: Por que será que sinto que arrumei problema?
null: Fica calma, tá bem? Ela prometeu tomar cuidado, não foi? Vamos pensar positivo. Estou com você.
E null sabia que ele estava, porém, ela o queria ali, perto dela.
null: Vem pra cá. Você pode trabalhar daqui. A gente pode fazer algo e ver alguma coisa no seu tempo livre.
null: Você sabe que dificilmente eu iria ter cabeça para pensar em dissertação kkkk.
null podia não querer admitir, mas sabia que era verdade e riu disto. Quando ela já estava prestes a fingir que não acreditava naquilo, recebeu outra mensagem dele.
null: Mas... eu topo. Faço na madrugada quando chegar em casa.
null: YEEEEAHHHH!
Às seis e meia em ponto null chegou à casa de null e ela lhe recebeu com um abraço apertado e um beijo.
— Boa noiteee! — null saudou um pouco empolgada e null riu.
— O que te deu? — Ele perguntou ainda sorrindo e dando outro beijo nela.
— Digamos que eu esteja um pouco nervosa porque vi que o Guilherme está na festa e agora estou com medo dele fazer alguma merda.
Não precisou de mais uma palavra para que null percebesse que aquilo estava mexendo demais com ela. Mais do que os dois queriam.
— Ei, — ele chamou, tocando o queixo dela com cuidado — você me disse que se eu amasse o Gabriel, daríamos um jeito. Então, vai dar tudo certo, null.
— E se... — começou a falar nervosa se remexendo.
— Daremos um jeito, null. — null disse segurando a mão dela.
null olhou para própria mão entrelaçada na dele e sentiu um frio na barriga. E era bom. Bom como jamais esperava que fosse.
— Que bom ter você aqui. — null disse grata.
Mesmo já sendo um pouco tarde, null decidiu que queria cozinhar como combinado, então, depois de olharem o armário por muito mais tempo que o que pretendiam, ficou combinado macarrão com carne moída e torradas de alho.
— Podemos fazer juntos. — null falou enquanto colocava os ingredientes na mesa. — Sou um ótimo cozinheiro.
— Tem certeza? — null perguntou desconfiada com uma sobrancelha arqueada.
null sorriu e caminhou preguiçosamente até null e lhe deu um beijo carinhoso.
— Claro que sim. Desde que esse processo seja regado a muitos beijos.
null não respondeu com palavras, apenas puxou null pela blusa e deu um beijo apaixonado no rapaz.
— Isso é um sim? — Ele perguntou fingindo não entender.
null então puxou null para um beijo ainda mais quente que fez os dois esquecerem o que estavam fazendo. Em poucos segundos se viu empresada entre o corpo de null e a pia, mas não reclamou, em vez disso puxou ele para ainda mais perto, se é que isso fosse possível, e subiu a camisa do rapaz que entendeu o recado e cuidou de tirá-la rapidamente. null estava prestes a fazer o mesmo com null quando ela respirou forte e falou:
— Vamos cozinhar? — Ela perguntou sorrindo e piscando o olho.
null respirou fundo para encontrar forças e voltar ao normal. E ainda meio confuso respondeu:
— Vamos cozinhar. — Disse sorrindo.
A noite estava sendo ótima. Regada a muita comida, Friends e Coca-cola.
— Eu ainda não acredito que ele fez isso com a Rachel, uma lista é tão infantil. — null falou e null concordou.
— A Rachel é bem mimada, mas o Ross foi tão babaca com ela.
— Então a mina que eu estou, além de linda, inteligente, independente, mãe do caramba e maravilhosa também ama Friends como eu? — null perguntou do nada e null não sabia bem o que dizer. — Eu nunca achei que fosse tão sortudo.
null terminou a frase olhando fundo nos olhos de null que não conseguiu fazer outra coisa que não fosse retribuir o olhar. Não precisou de mais palavras. Aos poucos os dois foram chegando perto um do outro até que suas respirações se misturassem e segundos depois, pudesse juntar suas línguas também.
null sabia, pelo que houve na cozinha, que null não estava pronta para algumas etapas, mas isso não significava que seria ruim. Passou a mão vagarosamente pelo corpo de null e com um beijo apaixonado lhe disse que não precisavam de mais que aquilo para ficarem bem.
Entre beijos, amassos, sorrisos, palavras doces e outras muito mais quentes, null e null acabaram pegando no sono ali mesmo no sofá. Embriagados pela sensação boa, nenhum dos dois lembrou que null teria que acordar cedo no outro dia para buscar Gabriel na casa dos avós. Também acabaram não ouvindo o celular dela — que vivia na vibração — tocar tanto com dona Carmem, como com Guilherme ligando. Só se deram conta disto quando escutaram alguém na porta.
— Tem alguém chamando? — null perguntou antes de lhe dar um selinho.
— Hã? — null perguntou ainda confusa ao acordar.
— null! — Escutaram a voz de Guilherme e só então null se deu conta do que estava acontecendo.
— Ai, meu Deus. Perdi a hora de buscar o Gabriel! Que horas são?
Antes que null pudesse lhe responder, ela olhou no próprio celular e viu as chamadas e também mensagens pouco amigáveis e cheias de insinuações que Guilherme havia lhe mandando.
— Pode vestir a camisa? — Ela perguntou meio nervosa.
— Quem está aí? — null perguntou, mesmo fazendo ideia.
— No mínimo o Guilherme, no máximo os pais dele com o Gabriel também.
Sem dizer mais nada null passou a mão nos cabelos e correu para abrir a porta, antes que pudesse se desculpar viu Guilherme invadir sua casa e parar bem em frente a null que arrumava a camisa.
— Então eu estava certo. É por isso que agora você esqueceu que é mãe?
— Olha... — null começou, mas foi cortado por null.
— Guilherme, acho que já lhe disse que você não é bem vindo aqui.
— Tá vendo, filho, eu falei que sua mãe ia virar a cabeça por causa de homem. Ela nem lembrou de você.
— Guilherme! — Dona Carmem exclamou, tentando fazer o filho parar.
— Mainha... — Gabriel chamou encarando a mãe parecendo magoado.
— Você sabe o que conversamos, não sabe? Não tem nada disso, seu pai está...
— Seu pai está lhe falando que sua mãe esqueceu de você, filho. — Guilherme tornou a dizer e null lhe encarou furioso.
Como aquele cara se achava no direito de falar aquilo?
— Escuta aqui, Guilherme, primeiro eu quero que você saia da minha casa. Segundo eu quero que você lave sua boca antes de falar qualquer merda de mim. Eu faço o que posso e o que não posso pelo Gabriel enquanto você é um lixo de pai e não cumpre nenhuma promessa que faz ao seu filho. Eu não vou deixar você entrar na minha casa e tentar fazer a cabeça do meu filho contra mim quando nós dois sabemos que eu sou a única pessoa que cuida de verdade dele.
Ela não queria ter que falar tudo aquilo, ao menos não na frente de Gabriel. Sabia que o filho, embora novo, entenderia o peso daquelas palavras e ela preferia que ele não entendesse, pelo menos por agora. Mas não ia deixar Guilherme lhe envenenar contra ele.
— Quando você disse que nunca mais se envolveria comigo ou com alguém como eu, achei que fosse melhorar então, null. Mas um pé rapado de um professor de inglês? Esse cara não tem eira nem beira.
null continuava no canto, tentando se controlar. Guilherme não seria o primeiro cara mimado e rico que iria diminuí-lo. Isso não lhe afetaria.
— Capaz dele estar tentando um golpe, sabia? Depois vai deixar vocês dois na mão, igual já fez você deixar o Gabriel.
— Guilherme... — null falou entre dentes, mas o sorrisinho sarcástico de Guilherme não deixou seu rosto.
— Se era para você abrir as pernas para um pé rapado como esse, ao menos abrisse para mim, no fim, se tiver outro filho, vai ter uma pensão boa.
Aquilo era demais!
Antes que null pudesse revidar, null falou:
— O que você disse sobre ela? — Perguntou sentindo o sangue ferver.
— null, por favor... — null pediu.
Guilherme não se deu ao trabalho de olhar para null, mas continuou:
— Isso é carência, null? Se quer sexo, escolha melhor seus parceiros.
Basta, null pensou.
O resto aconteceu sem que ele mesmo pudesse prever. Quando deu por si, já tinha dado um soco que acertou em cheio o rosto de Guilherme e que acabou jogando o rapaz no chão.
Antes que Guilherme pudesse revidar ou null bater mais, Gabriel correu ao encontro do pai.
— Papai! — O garoto se abaixou e tocou no queixo cheio de sangue do pai.
null encarou null sem acreditar naquilo. Ele não podia ter feito isso.
— null, vai embora. — Pediu com os olhos cheios de lágrimas.
— null... — Ele tentou argumentar, mas ela lhe cortou levantando a mão.
— Vai embora. — Repetiu com lágrimas nos olhos.
null então, mesmo furioso, pegou sua carteira, chaves e saiu em silêncio.
Quando chegou ao saguão do condomínio, null decidiu que não podia deixar null lhe escapar daquela forma. Porque, do jeito que ela o havia olhado, sem uma conversa ela certamente lhe escaparia. Esperou então ver Guilherme e a mãe irem embora para subir novamente.
Quando bateu na porta, null, parecendo exausta, rapidamente atendeu e suspirou ao encontrá-lo lá.
— Eu te pedi para ir embora. — Ela disse enquanto encostava a porta atrás de si.
— null, aquele cara é um babaca, olha o que ele falou! Desculpa, mas eu não consegui ficar parado. — Tentou argumentar.
— E eu entenderia tudo, de verdade, se eu não tivesse dito várias vezes para deixar esse assunto comigo. O Gabriel estava presente, null!
null não podia ter exposto o filho dela aquilo. Ele não podia.
— E viu aquelas coisas horríveis que ele falou de você!
— É, mas logo você cuidou de transformar o Guilherme em mocinho. É o pai dele, null! O Gabriel é uma criança e viu você batendo no pai dele. De qual lado você acha que ele vai ficar? — null queria gritar.
— Ele vai te escutar. — null tentou.
— Até isso você dificultou, já que eu estava com o cara que bateu no pai dele. — null disse cansada.
— Desculpa. — Foi tudo que null conseguiu dizer, mesmo que quisesse mais.
— Olha, — null começou passando as mãos nos cabelos — sabe quantas caras nem chegaram a entrar na minha vida por saber que crio o Gabriel sozinha? Vários. E eu sei que você sempre disse que isso não era problema, e talvez você realmente não veja. Mas hoje fui eu quem vi. Você pode até não se importar, mas não está pronto para lidar.
null lhe encarou confuso.
— O que você quer dizer?
— Que seja lá o que temos, acaba aqui. — Ela disse com lágrimas.
— null, olha...
— Não vou mudar de opinião, null. Você é um ótimo cara, vamos parar antes que a gente se envolva e se machuque de verdade.
— A quem você quer enganar? — Ele perguntou forçando um sorriso. — Já estamos envolvidos e machucados.
null não negou, mas não mudou de opinião.
— Vamos parar antes que o Gabriel se machuque mais. Fica com Deus, null. Preciso entrar para cuidar de quem é minha prioridade.
null não esperou null falar mais nada. Entrou e precisou de quase um minuto até ter forças de procurar Gabriel. Podia ter perdido a única pessoa que realmente fez parecer dar certo, mas não perderia o homem que era de verdade o homem da sua vida: Gabriel.
Já havia se passado semanas desde que tudo ocorrera. Foi um pouco difícil para Gabriel separar o professor do homem que bateu em seu pai, ainda mais com Guilherme colocando coisas em sua cabeça, mas depois de uma conversa de dona Marta com ele e também depois de Guilherme finalmente perceber que null havia mesmo acabado com null e então cansar de brincar de ser pai, as coisas haviam voltado ao normal. Vez ou outra, inclusive, o garoto perguntava se null voltaria a ir lá e null sempre resumiu em “provavelmente não.”
Tina, embora entendesse o lado da amiga, não concordava e deixava isso claro.
— Foi a única coisa que te pedi: não deixe o Guilherme ditar sua vida. Mas olha o que você está fazendo!
— Tina, eu já te expliquei. É melhor assim, ninguém se magoa.
— Você já está magoada! — Tina exclamou, exasperada. — Para de ser fingida.
— Eu preciso cuidar de quem importa.
— O Gabriel até pergunta por ele. Ele é uma criança, null! O garoto vai entender.
— É só que...
— Olha, eu não deveria me meter mais do que já me meto, mas eu não vou deixar você fazer isso.
— Do que você está falando? — null perguntou confusa.
— Eu tenho um amigo que por acaso comentou de um tal amigo chamado null que já fazia mais de um mês que estava na merda por causa de uma mina aí. Achei suspeito e perguntei mais.
— Quem é esse amigo seu? — null perguntou e Tina bufou.
— Não que isso seja importante, mas é aquele que vimos.
— O cara que você mal deixou ficar perto da gente? Quem é ele?
Tina rolou os olhos.
— Vamos focar em quem é importante, que tal? Bom, ele comentou que esse tal null conseguiu uma bolsa de doutorado e vai embora daqui há um mês, ou algo assim, para Portugal. Achei que seria bom dizer a você. Você tem pouco tempo antes desse cara ir para o outro lado do mundo sem saber que você também não esqueceu ele.
O coração de null acelerou. Primeiro de orgulho pela conquista que ela sabia que null tanto queria, depois de um medo de talvez perdê-lo para sempre.
— Esse cara foi um recomeço para você, amiga. E pelo que ouvi falar dele, que só vivia de estudar e trabalhar, você foi um recomeço para ele também. Não perde essa chance de recomeçarem a vida juntos.
null não conseguia pensar direito. Por isso, após pegar Gabriel na escola, seguiu para a casa da vó, mesmo que não fosse o dia de almoçarem juntas. Assim que chegou lá, dona Marta logo percebeu que a neta queria conversar e cuidou de colocar Gabriel para brincar no jardim, longe delas.
— Pode falar. — A senhora disse e null lhe encarou confusa. — Eu praticamente criei você, minha filha. Acho que te conheço.
— Ele conseguiu uma bolsa de doutorado em Portugal, e ele ainda sente minha falta. Não sei como lidar com isso. — null disse sem fôlego.
— Que tal falar para ele que se ele quiser, você também quer que ele vá para Portugal comprometido na certeza de que você está o esperando?
— Mas começar algo já distante? Será que isso dará certo? Fora que tem o Gabriel e tudo que houve, eu não sei se...
— O Gabriel melhorou depois que conversamos, não foi? — null apenas balançou a cabeça em um sim. — E sabe o que eu disse a ele, meu amor? Falei apenas que adultos brigam e que o mais importante era que o null fazia a mãe dele muito feliz. Foi o que bastou, null. E se eu tenho certeza de uma coisa é que o null vai continuar te fazendo feliz caso você o procure.
— Ah, vó! — null exclamou antes de correr para os braços de dona Marta e lhe dar um abraço apertado. — Eu vou atrás dele. — Falou mais para si do que para a vó.
— Vá, minha filha. — Dona Marta mesmo assim respondeu.
— Eu vou!
null nunca havia ido na casa de null, mas como ele tinha usado o seu celular para pedir um Uber quando estava sem bateria, não foi tão difícil de achá-lo. Certificou-se com Clara que ele estaria em casa e então seguiu até lá, ainda que não soubesse bem o que dizer ou fazer.
Agora ela estava em frente à casa dele procurando coragem para chamar, só que não precisou. Quando estava prestes a bater palma viu null, junto com um casal de senhores, sair de dentro de casa. Pensou em correr, óbvio, quem não faria isso? Porém não deu.
— null! — null chamou, claramente surpreso.
— Oi. — null respondeu sem jeito e batendo uma mão na outra sem explicação.
— O que você está fazendo aqui? — Ele perguntou confuso, mas com um sorriso no rosto que mexeu com cada parte de null.
— Ér... — null não voltaria para casa sem falar, mas precisava fazer aquilo sem plateia — Será que posso falar contigo rapidinho?
null olhou para os pais que lhe encararam confusos e cedeu.
— Vocês poderiam me esperar lá dentro?
O pai aceitou fácil, mesmo curioso, mas a mãe precisou de mais um pedido.
— Por favor, mãe.
Assim que os dois ficaram a sós, null olhou curioso para null que mesmo tentando se acalmar, ainda estava nervosa.
— É engraçado como consigo falar no meio de um júri, mas fico feito idiota aqui. Sei nem o que falar...
null sorriu de lado.
— Que tal contar o motivo de ter vindo até aqui?
null então lembrou de como venceu sua timidez para apresentar trabalhos, lá na terceira série. Era só falar tudo de uma vez. E foi o que fez.
— Eu sinto sua falta, null. Muita! E hoje eu descobri que você também sente a minha. E eu também descobri que você conseguiu seu tão sonhado doutorado, e bom, eu sei que falar que sinto sua falta quando descubro que você vai sair do país é meio louco, mas eu posso explicar. — null achou que ela nesse momento pararia para que ele falasse, mas ela continuou. — Você não sabe o orgulho que eu fiquei ao saber da sua conquista e também não faz ideia de como eu queria ter podido saber de você, e tudo isso me fez perceber que sinto ainda mais sua falta. Eu quase não vinha por saber que você daqui uns tempos irá embora, mas então eu percebi que sinto sua falta na minha vida, mas que eu posso te ter comigo igual eu estava tendo todas as vezes mesmo com nossos horários de trabalhos não batendo. E não importa se só te verei nas férias, eu sinto sua falta. E caso você se interesse, eu te quero de volta na minha vida.
— null... — null tentou falar, mas null voltou a falar.
— E você sabe que minha vida é meio bagunçada e cheia de complicações. Crio meu filho sozinha, meu ex é um babaca, trabalho demais e meu tempo livre é cheio de Gabriel nele. Mas caso você queria, estou disposta a recomeçar tudo e descobrir uma nova vida com você. Porque desde que você apareceu, tudo parece meio novo.
null não sabia se null iria falar mais alguma coisa — suspeitava que sim — porque lhe calou com um beijo que esperava que respondesse a pergunta que estava subtendida nas palavras dela. null então retribuiu o beijo na mesma intensidade e talvez até um pouco mais devido ao nervosismo. Pretendiam ficar assim para sempre, mas então ouviram dona Maria pigarrear.
null soltou null envergonhada, mas ele era só sorrisos.
— null, esses são meus pais: Maria e Severino, os meus maiores amores desse mundo. Dona Maria, seu Severino, essa é a null a minha namorada, caso ela diga sim nesse exato momento.
null então virou sorrindo para null, esperando a resposta. A garota, mesmo com vergonha, sorriu de volta. Não deixaria a felicidade ir embora por nada nesse mundo. Olhou para a mão de null e então entrelaçou à sua.
— Boa tarde. Tudo bem? E sou a namorada do filho de vocês. E eu sou muito grata por vocês terem criado ele tão bem. Quanta sorte é poder chegar nessa vida com ele.
— Podemos mudar de planos? Quero que vocês conheçam o Gabriel, filho da null e a criança mais fofa do mundo. — null disse já saindo do terraço de casa.
Fim!
Nota da autora: Ah, gente. Como foi bom escrever essa história e ver a Malu e o André se encontrarem. Eu espero que vocês tenham gostado do casal tanto quanto eu.
Pretendia escrever outra história sobre a Tina, mas não deu, mas quem sabe um dia, né?
Eu torço muito para que essa fic esteja a altura da música e também de vocês.
Beijos!
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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Pretendia escrever outra história sobre a Tina, mas não deu, mas quem sabe um dia, né?
Eu torço muito para que essa fic esteja a altura da música e também de vocês.
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