Última atualização: 04/09/2019
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Prólogo

A barreira estava formada. Os jogadores do Internacional estavam alinhados na entrada da grande área e hora ou outra o árbitro precisava separar o início de confusão entre os atletas dos dois times. 1x1 em plena Arena do Grêmio aos 44 minutos do segundo tempo.

O camisa 7 do Grêmio respirava ofegante, visivelmente cansado. Seu olhar revezava entre a bola e o goleiro bem atrás da barreira. Ele sabia que não podia errar ou isso custaria o segundo rebaixamento da história do tricolor gaúcho.

respirou fundo, pegou impulso e chutou de pé esquerdo a bola bateu na cabeça de um dos zagueiros do Colorado e foi direto para a linha de fundo. Escanteio. não podia acreditar que havia perdido aquela chance.
Seu colega de time foi até a bandeirinha do lado esquerdo do campo. Sem delongas cobrou o escanteio que foi direto para a pequena área mas o goleiro Marcelo Lomba foi mais rápido e pegou a bola com as mãos passando a adiante para que o Internacional armasse um contra ataque.

recuou tentando ajudar o time como podia mas quando viu o atacante adversário, Paolo Guerrero, sozinho e em posição legal, sabia o que aconteceria depois.
Guerrero deixou o arqueiro gremista pra trás e um simples toque na bola foi o suficiente para que ela entrasse no gol antes que qualquer zagueiro chegasse para cortar.

Diante de um estádio silencioso, viu seu time rebaixado pela segunda vez na história do clube. Junto com o apito final, ele desabou em campo. Preferia a morte do que ter que enfrentar aquilo em pleno estádio gremista na frente de uma torcida apaixonada mas que naquele momento estava sendo contida pela polícia.

se levantou e caminhou para sair de campo. Não ouviu seus colegas de clube, não ouviu seu treinador e nem comissão técnica, apenas correu em direção ao vestiário.
Torcia para que fosse apenas um pesadelo ruim e que tudo ia ficar bem.

⚽🖤📱

- Eu sinto muito - Dantas disse com sinceridade - eu fiz o que pude mas a diretoria não quer mais.
- Como assim "não quer mais"? O que eles pensam que sou? Um amador? - o rapaz perguntou indignado.
- , você perdeu a chance de ouro de salvar o time. Eu e o Renato tentamos, ele gosta de você, mas não conseguimos nada. A torcida quer, literalmente, matar você e o resto do elenco. Deixar Porto Alegre é o melhor pra você.
- Mas eu... Eu cresci no Grêmio - ele baixou a voz, estava sem ar.
- O Grêmio não te quer, e acho que você não tem mais espaço aqui.
- Mas pra onde eu vou?
Dantas colocou alguns documentos em cima da mesa.
- Esses três ainda têm interesse em você. Eu não deveria mas vou deixar você escolher pra qual quer ir.

leu o primeiro. Um gigante carioca mas que não conquistava um título notório há muito tempo com um salário inferior ao seu atual.

- É ridículo. Não vou jogar no Botafogo. Nada contra mas não quero morar no Rio de Janeiro nunca - entregou o papel para Dantas que rasgou como se fosse um bilhetinho.
- Certo, tudo bem. Nada de Botafogo.

O segundo era o clube mexicano Chívas. não conteve um riso, conhecia muito bem o histórico negativo daquele clube.

- Não foi por causa do Chívas que a Conmebol baniu os clubes mexicanos da Libertadores?
- Supera, , isso já faz tempo.
- Claro, tanto é que nunca mais jogaram o campeonato. Não, esquece - devolveu o documento para o empresário.
- Parece que temos um campeão.

pegou o último papel e uma leve careta se formou no seu rosto. Era um dos quatro grandes paulistas, muitos jogadores prestigiados já haviam demonstrado algum interesse em jogar lá algum dia, mas não .

- Não.
- Dá uma chance, !
- Eu não vou jogar no...
- Você queria que fosse o Barcelona? Mas deixa eu te dizer: o Barcelona não contrata jogador que erra uma falta importante aos quarenta e quatro do segundo tempo e termina de afundar o time!

olhou incrédulo para o homem. Sentia vontade de chorar mas não ia demonstrar de forma alguma.

- Quer jogar com o Messi, Suarez e Coutinho? Tá com saudade do seu amiguinho Arthur? Primeiro você precisa ser trinta vezes melhor. Indo jogar em São Paulo você vai conseguir isso, . Esse clube tem uma das melhores estruturas do país.
- O salário é menor. Vamos sair no prejuízo.
- Só se o Barcelona não te contratar depois.
não conteve o sorriso.
- Não se preocupa, eu não te mandaria pra um lugar que eu sei que te matariam. Então, posso fazer a ligação?
- Pode.
- Que bom, o Emerson vai ficar feliz em te receber. Bem-vindo ao Sport Club Corinthians Paulista, .

Capítulo 1 - Bem Vindo à Sampa!

assinou seu nome na linha pontilhada sobre o olhar curioso do diretor de futebol Emerson Sheik e atrás da câmera o presidente do clube, Andres Sánchez junto com Dantas, olhavam atentos.

- Seja bem-vindo, - Emerson disse sorrindo - veste a camiseta para a foto.

pegou a camiseta emprestada por Sheik e vestiu. Parou atrás do gigante escudo na parede e sorriu para a foto, depois tirou outra acompanhado pelo diretor, o presidente e o empresário.

- Você quer ir até o campo agora? O elenco tá treinando e o Fábio pode te apresentar os rapazes se você quiser.
olhou para Dantas que concordou.
- Tudo bem.

seguiu Emerson para fora da sala. Pegaram um dos carrinhos motorizados do clube e foram até o campo onde o time fazia o aquecimento do primeiro treino da temporada.

- Ele chegou, professor - Emerson se apressou na direção do treinador.

O mesmo se virou e viu completamente estático. estava nervoso, afinal, só conhecia Fábio Carille como rival mas o sorriso acolhedor no rosto do homem o tranquilizou. Ele definitivamente não se parecia em nada com o Renato.

- Estávamos te esperando, - Carille cruzou os braços.
- Ele acabou de assinar, eu trouxe pra conhecer você e os rapazes.
- Professor, eu...
-, vou ser sincero. Não vai ser fácil, o Grêmio caiu e o Corinthians foi quase, o time é quase o mesmo e eu vou ter que me virar pra fazer dar certo. Eu preciso contar com você.
- Hum... É claro, estou à disposição.
- Ótimo.

Carille assoprou o apíto tão alto que fez dar um passo pra trás. Todos os atletas pararam de treinar e se aproximaram do seu treinador.

- Como vocês sabem, o chegou do Grêmio pra reforçar o time. Talvez vocês se conheçam de se cumprimentar em campo mas vamos fazer com que ele se sinta bem-vindo aqui. , o time titular é o Cássio - ele apontou para o goleiro de um metro e noventa que sorriu receptivo para - Fagner é o lateral direito, o Bruno e o Gil são os zagueiros e o Danilo é lateral esquerdo. O Bruno chegou ano passado e cobriu o Fagner quando ele foi pra seleção e o Gil voltou da China agora, então você não é o único novo por aqui. O meio campo ainda não tá definido mas aqui estão o Ralf, Urso, Gabriel, Pedrinho, o Mateus e o Ramiro. O Jadson tá machucado, depois vocês vão ser apresentados. Por fim, tem o Gustavo, o Vagner, o Mauro e o Clayson como atacantes. Tem mais alguns jogadores pra te apresentar mas eles não estão aqui.

foi bem recebido pelos colegas de clube. Ramiro saiu do Grêmio e na temporada seguinte entrou então não puderam se conhecer mas era bom ter alguém pra compartilhar as experiências.

- O Cássio jogou lá também, você pode falar com ele depois - o meia sussurrou ao cumprimentar o rapaz - bem-vindo, .
- Obrigado.
- Ei , você sabe como um cachorro corinthiano late? - Pedrinho perguntou fazendo alguns jogadores revirarem os olhos, apenas Mateus Vital começou a rir.
- Tenho medo de perguntar.
- Ralf Ralf Ralf - o garoto disse com a voz grave fazendo Mateus soltar uma gargalhada alta e outros jogadores conterem o riso. Emerson também não conteve a risada. Ralf revirou os olhos mas riu.
- O Pedro é o engraçadinho do grupo, você vai rir bastante com ele, ou talvez não - Carille disse ao ver que Vital se contorcia de rir - tirando o Vital. Eu te recomendo andar bastante com o Fagner, ele assusta o Pedrinho. Evita o Jadson, também.
- Anotado.
- Se você quiser, , pode começar a treinar com a gente agora, eles estão aquecendo.
- Na verdade eu vou terminar de apresentar as instalações pra ele - Emerson se pronunciou antes que pudesse terminar - ele vai estar por aqui amanhã bem cedo. Prometo.

⚽🖤📱

conhecia apenas o departamento médico do clube mas lhe foi apresentado todo o CT Joaquim Grava. Emerson era um bom guia turístico, além de fazer se sentir mais confortável e menos inseguro.

- Então nós já estamos apresentados, certo? E você já conhece o CT, só vai ficar faltando o Parque São Jorge e a Arena. Se bem que eu tenho certeza que você conhece a Arena muito bem - Emerson riu, foi obrigado a concordar.

Na ultima temporada o Grêmio ganhou do Corinthians por 1x0 na Arena Corinthians com um gol do próprio .

- Ah cara, eu te odeio tanto, a gente precisava daqueles pontos!
- É, a gente também... Bom, agora eu visto outra camisa.
- Sinto muito pelo que aconteceu com o Grêmio.
- Eu também...
- Sei que você tá se culpando mas não se preocupa, aqui as coisas vão melhorar. O Fábio não tem o temperamento do Renato, vocês vão se dar bem.
- Com certeza, eu espero que sim.

se encontrou com Dantas e foi liberado para ir pra casa, começaria apenas no dia seguinte e ele não pensou duas vezes antes de voltar para o aconchego da sua nova casa.

- Esse carro tá silencioso demais até pra você - Dantas disse após algum tempo em silêncio - vamos, conta aqui pro Dan-dan o que tá acontecendo.
- Nada, eu só... Não sei, não sei mesmo.
- Eu sei e vou listar. Primeiro de tudo, você ainda tá se culpando, segundo você não queria estar aqui e terceiro, você tem medo de não conseguir proposta da Europa estando aqui.
- Acha que eu ainda tenho alguma chance? Nem que seja no Napoli ou no Villareal, não me importo. Meu sonho é a Europa.
- Quer saber? Acho. Você é bom, , ótimo batedor de falta e só está em um momento delicado, mas também acho que você deveria repensar seus objetivos.
- Como assim?
- Bem... O Adenor ainda é bem próximo do Corinthians, se é que você me entende.
- Como assim?
- Pensa um pouquinho, , o que mais tem naquele time é jogador da seleção, o Tite realmente presta atenção no ex clube dele. No Grêmio você não teria a menor chance, mas aqui a história é diferente.

sabia que Dantas estava certo. No seu antigo clube Everthon e Arthur já eram titulares na seleção de Tite, além de que Arthur estava no lugar onde mais desejava estar. analisou um pouco e sabia que um caminho podia levar a outro.

- Ok, você tem razão.
- Eu sei. Próxima parada: Granja Comary.

⚽🖤📱

Em casa, tomou um banho demorado e se deitou na cama, um teto nunca pareceu tão convidativo para se encarar. E ali estava ele, em um apartamento em São Paulo e sendo a nova contratação de um dos maiores times do país. E da mesma forma que Arthur vivia o que sempre quis, ele sabia que estava vivendo o sonho de outros jovens atletas.
Mas por qual motivo estava tão infeliz quando tudo estava perfeitamente normal?

não sabia explicar, só sabia que não queria estar ali. Não queria conhecer pessoas novas, não queria um novo técnico, uma nova casa ou uma torcida nova e se tratando de torcida, ele sabia que estava com problemas, afinal, estava diante de uma das mais numerosas do Brasil, que podia amá-lo ou odiá-lo do dia pra noite.

Ele não fazia a mínima ideia de como a torcida estava reagindo à sua contratação e tinha medo de saber, mas para seu azar, sempre foi absurdamente curioso e quando se deu conta, lá estava ele olhando a página do Facebook do clube onde estava sua foto com a camisa do time e uma mensagem de saudação.

"Bem-vindo, !
O Corinthians assinou na manhã de hoje com o volante . O meia fechou com o Timão por duas temporadas e já está à disposição do treinador."

Uma das poucas coisas que o confortavam naquele momento era saber que estava sendo bem recebido pelo clube. No CT foi cumprimentado desde o guarda da guarita até pelo presidente e isso o fazia se sentir melhor.

"Parabéns, Corinthians, mais um volante e já pode abrir uma montadora!"

"Esse não é o cara que rebaixou o Grêmio? É sério isso?

"Ainda é muito cedo pra botar fogo no carro desse maluco?"

Alguns dos comentários eram extremamente maldosos e isso fez o estômago do rapaz revirar como se estivesse em uma montanha-russa. Sabia as ameaças que vinha sofrendo de torcidas organizadas do seu ex clube, tinha medo de que acontecesse o mesmo e uma pessoa ameaçando por fogo no seu carro não o deixava muito feliz.

"Boa! Finalmente um batedor de falta nesse time."

"Corinthians fazendo uma boa contratação? Tenho medo."

"Ele foi importante na conquista da Libertadores do Grêmio e jogou contra o Real Madrid de igual pra igual. Não espero menos do que isso por aqui."

Desde que deixou o sul, não sabia exatamente o que estava sentindo, uma única palavra não era o suficiente para descrever os múltiplos sentimentos que estavam dentro dele naquele momento. Raiva, medo, tristeza, ansiedade... Raiva do seu desempenho em campo, medo das ameaças, tristeza por ser dispensado e ter que deixar tudo para trás, ansiedade pelo que estava por vir porque ele sabia que não tinha uma vaga garantida no time titular e o futuro era totalmente incerto.

Ele esfregou as mãos pelo rosto, tentando segurar a emoção mas era inevitável, era apenas um humano e chorava como todos os outros. Não tinha ninguém ali para apontar e ele se permitiu chorar e por pra fora tudo o que estava sentindo.
Se sentia injustiçado e rejeitado pelas pessoas que gostava, tinha medo de encontrar um torcedor do Grêmio na rua, qualquer camisa azul fazia o seu corpo inteiro tremer, suas redes sociais choviam críticas e ameaças e os tablóides questionavam a contratação.

Desde que se tornou profissional, aos 17 anos, nunca tinha presenciado algo assim, nem mesmo nas duas temporadas que passou na Argentina ele foi tão criticado quanto agora. Estava vivendo o pior momento da sua carreira e não conseguia ver uma saída para aquela situação.

Se aquele túnel tinha uma luz, ele mal podia esperar para encontrar o final.

⚽🖤📱

No dia seguinte, começou suas atividades logo pela manhã. Ao entrar no gramado, viu que praticamente todos os jogadores já estavam ali esperando começar o aquecimento. Foi cumprimentado por alguns jogadores e também pessoas da comissão até ser parado pelo seu treinador.

- Bom dia, .
- Bom dia, professor.
- Eu preciso conversar um pouco com você. Vem comigo, por favor.

O rapaz acompanhou o técnico até o banco coberto na beira do gramado. Carille estava com uma prancheta na mão com um campo desenhado e o nome de cada um dos seus atletas.

- Não posso te garantir a titularidade.
- Eu sei.
- Eu te analisei muito antes de ter certeza que queria você no time e a sua técnica me impressiona. Você é disciplinado e um ótimo batedor de falta. Além de você, só tenho o Jadson e o Sornoza como batedores, então acho que você é o que eu precisava, mas não dá pra negar que o seu rendimento caiu na última temporada e os chutes já não eram tão certeiros assim.
- É... - se sentiu envergonhado, sabia que não tinha feito uma boa temporada.
- É por isso que enquanto não começa o Paulista, eu quero fazer algo diferente com você. Por enquanto você vai treinar com o time reserva mas eu quero que você treine sem parar as cobranças de falta, escanteio e pênalti, você vai treinar até não aguentar mais. Não tô dizendo que você vai ser titular por causa disso mas você também vai ter o seu momento. Perdi jogadores importantes e você é o primeiro a chegar, outros virão mas eu confio em você. Faça por merecer.

O jeito calmo do treinador fez se sentir melhor e saber que ele tinha chance de ir pro time titular o animou um pouco de certa forma. Estava disposto à dar o seu melhor para conquistar a vaga. Daria um passo de cada vez até alcançar o seu objetivo.

- Eu vou, professor. Muito obrigado pela confiança.
- Sei que você e o Renato se davam bem e que eu não tenho nada a ver com ele, mas eu procuro ter uma boa relação com os meus jogadores. Quero que você se sinta em casa aqui.

Ele olhou para o campo, viu os jogadores se aquecendo e dando risada, percebeu o quanto eram unidos e assim como se dava bem com todos no Grêmio, esperava ter a mesma sorte de agora em diante.

- Eu estou em casa.
- Ótimo. Vamos.
Eles se levantaram e foram até o meio do campo onde o treinador chamou seus jogadores.
- Façam uma roda, vamos dar as boas vindas devidas para o .

Imediatamente uma roda grande se formou e quando ia para o lado dos goleiros, o terceiro goleiro Caique apontou para o centro.
- Você fica lá.

entendeu na hora e foi para o meio dando risada. Ele era o bobinho e tinha que pegar a bola.

- Isso é injusto, são uns trinta contra um! - ele se defendeu.
- Tem razão... Pedrinho, vai pro meio com ele.
- Por que eu, professor?
- O Bruno vai também.

O zagueiro uruguaio foi sem reclamar enquanto o meia murmurava que estava há anos no clube e não merecia aquilo.

- Três bolas, , você só precisa pegar uma. Só o Walter, o Cássio e o Caique podem usar as mãos. Valendo.

As bolas iam de um lado para outro da roda e ia pra cima como se estivesse marcando um adversário. Conseguiu dar uma cabeçada na bola mas ela foi parar direto nas mãos de um dos goleiros.

- Ei, eu encostei na bola!
- Foi mal, novato, aqui não tem VAR pra te ajudar - Walter riu e jogou a bola para o outro lado da roda.

viu a bola indo parar nos pés do atacante Gustavo, ele correu para pegar, mas a única coisa que conseguiu foi que a bola passasse pelo meio das suas pernas fazendo o próprio rir do mico.

- Você ganhou uma Libertadores assim? - o atacante perguntou rindo.
- Eu já parei o Cristiano Ronaldo, me respeita - disse rindo e correu para a direção da bola.
- Já ganhou um título pela seleção, fera? - Pedrinho perguntou atrás dele.
- Nunca fui convocado - foi atrás do lateral Carlos Augusto mas perdeu a bola.
- Que pena, eu já e ganhei pela seleção olímpica e agora tô sendo feito de bobinho.
- Cállate ustedes dos, soy un defensor de mi equipo uruguayo - Bruno foi com agilidade e recuperou a bola.

Logo em seguida também recuperou a bola enquanto Pedrinho reclamava o quanto era injusto aquilo.

⚽🖤📱

O treino na parte da manhã foi para os jogadores se readaptarem após as férias, mas na parte da tarde as atividades voltaram ao normal. foi chamado pelo seu treinador para o outro campo junto com mais alguns jogadores.

- Vocês vão treinar cobrança de falta até a perna cair. São meus batedores e já faz tempo que não sai um gol de falta.

Montaram uma barreira de bonecos à uma distância considerável do gol. alinhou quatro bolas no chão e começou a chutar em sequência, mas das quatro apenas uma entrou no gol. Ele sabia que estava totalmente fora de ritmo mas errar algo em que sempre foi bom, o deixava frustrado. Alinhou mais três e chutou em sequência, dessa vez duas entraram no gol. Satisfeito, deu a vez para o próximo jogador e se afastou para observar.

Ele olhou para o outro lado do campo e viu que o fotógrafo do clube estava tirando algumas fotos do treino. A câmera revezava entre o jogador que cobrava a falta e o goleiro que fazia boas defesas. A garota ao lado observava e anotava freneticamente em uma prancheta e mesmo que não fosse nada demais, isso prendeu toda a atenção de .

- O que eles estão fazendo? - perguntou para Mateus, embora soubesse quanto ao fotógrafo.
- Ele é o fotógrafo do time, tá sempre com a gente e ela fica no Parque São Jorge, não sei o que tá fazendo aqui hoje.
- E o que ela tanto anota?
- Esquece, , nem o Andrés mexe com ela - o rapaz riu e se afastou para bater as cobranças de falta.

Pouco depois foi a vez de realizar novas cobranças e esse foi o tempo para que o fotógrafo e a garota não estivessem mais lá e sim no campo onde o resto do time treinava.

Capítulo 2- Insegurança

colocou os fones de ouvido e a mochila nas costas enquanto saía do vestiário, ainda não tinha decorado o caminho de volta para a saída do CT então se limitou a seguir os colegas de elenco em direção ao estacionamento, mas parou quando sentiu uma mão no seu ombro, se virou para ver quem era e ficou supreso ao ver que era o fotógrafo, a garota das anotações e um terceiro com uma câmera de filmagem profissional.

- É, rápido, prometo. Sou o Junior, fotógrafo do time, esse é o Tobias que faz os vídeos da Corinthians TV pro YouTube e ela é a , cuida das mídias do clube. Primeiro a gente quer te dar boas vindas e a gente só queria uma mensagem sua pra torcida pra poder colocar nas redes sociais, tudo bem pra você?
- Hum... Claro, tudo bem.
- Perfeito. Quando o Tobias der o sinal, você pode começar a falar.
- Espera, o que eu falo?

entregou sua prancheta para com um ar de impaciência que não passou despercebido pelo rapaz.

- Lê o que está escrito aí e pronto.

leu rapidamente as três linhas de apresentação e devolveu a prancheta para .
Tobias fez um sinal de ok com a mão e começou a falar.

- Primeiro de tudo, estou muito feliz pela oportunidade de poder jogar aqui... Obrigado ao Andrés e ao Emerson pela proposta, eu fiquei bem supreso e... Ter a maior torcida do país me apoiando é muito importante pra mim - essa parte estava grifada e ele entendeu que era obrigado a falar - prometo dar o meu melhor e não decepcionar o torcedor corinthiano e... bom, é isso, muito feliz pela oportunidade.
- Corta - Tobias parou de gravar - muito obrigado, , ficou ótimo.
- Ainda bem que não dá pra rebaixar um vídeo também, se não ele estava ferrado - disse atraindo olhares de censura de Junior e Tobias, ficou confuso - não me olhem assim, não ficou nem um pouco convincente.
- Isso não te dá o direito de fazer esse tipo de piada sobre mim - o meia cruzou os braços - você não sabe o que eu aconteceu no ano passado.
- Sei que você errou a cobrança de falta e rebaixou o seu time - a garota esboçou um sorriso irônico - e se o Carille não abrir o olho, vai acontecer a mesma coisa aqui.
- Bom, eu não sabia que o time só tem um jogador.
- , já chega - Junior alertou e olhou para - desculpa, ela não está em um dia bom.
- Eu acho que ela não está em um ano bom, na verdade. De qualquer forma, foi um prazer conhecer vocês, licença.

deu meia volta e seguiu em direção à saída ainda perplexo com o que havia acabado de acontecer. Esperava isso de qualquer torcedor mas nunca de um funcionário do clube, algo que nunca aconteceu no Grêmio. Se lembrava muito bem do momento em que abandonou o campo aos prantos e foi consolado por funcionários do clube ainda no túnel de acesso o parabenizando por ter tentado até o último lance.

Em passos rápidos ele seguiu para o estacionamento e cumprimentou alguns dos colegas de elenco que também estavam indo embora. Quando abriu a porta do seu carro, ouviu alguém chamando seu nome e se virou para ver quem era. Viu Bruno Méndez vindo na sua direção.

- Oi.
- Hola, , los chicos te preguntaron si también irías al estadio.
- Ir al estadio? Porque la pregunta?
- Habla español?
- Sí, viví en Argentina durante dos años, pero por qué los chicos quieren ir al estadio?
- Es una conmemoración por el comienzo de la temporada y el consejo se fue para usar el camarote.
- No lo sé, no parece una buena idea.
- Vamos, será genial y podrás conocer mejor el estadio.
- Está bien, me voy.
- Bueno!
- Sí, bueno... Hum... Bruno?
- Sí?
- Debería aprender un poco de portugués, mi español es horrible.
- Así está melhor? Hablo um pouco de portugués.
- Está ótimo - o rapaz sorriu e abriu a porta do carro - até mais tarde.
- Hasta la vista, baby! - Bruno respondeu se distanciando e riu, a referência era ótima.

⚽🖤📱

tinha o resto da tarde livre mas para o seu azar, no fim da tarde Dantas foi até o seu apartamento para passar alguns compromissos que o atleta tinha nos próximos dias.

- E então? Como foi o primeiro dia?
- Foi... Bom, eu acho. Até o momento em que uma pessoa totalmente aleatória veio dizer que se o Carille não abrir o olho, vou rebaixar o Corinthians também. Tirando esse fato, está tudo ok.
- Quem disse isso?
- A operadora de mídia do clube.
- Eu vou falar com o Emerson.
- Não precisa, deixa pra lá, eu sei o meu potencial... E o que você tem aí pra mim? - ele esticou o pescoço na tentativa de ver as anotações no caderno do empresário.
- Amanhã no horário do almoço você vai fazer a primeira entrevista coletiva, quarta-feira é certeza que você vai ser, pelo menos, relacionado para o jogo e eu pensei que na quinta-feira você poderia ir assistir uma partida do time feminino. Vai ser no Parque São Jorge e é depois do treino.
- Por que tenho que ir ver o time feminino?
- Olha, rapaz, sua imagem está meio queimada com a torcida. Você pode ir ver outra modalidade, talvez o futsal ou o basquete, mas em época de igualdade, o futebol feminino vai ser perfeito.
- Não sei nada sobre futebol feminino, no mínimo vou ter que assistir uns jogos.
- Não precisa, não tem diferença nenhuma em relação ao masculino - Dantas mexeu na sua pasta e entregou alguns papéis para - aqui, eu listei o nome de todas as jogadores e a posição de cada uma, eu quero que você preste atenção na lateral esquerda e na zagueira que jogarão a Copa do Mundo na França. Na folha de trás tem um resumo das últimas temporadas do time. Elas são as atuais campeãs paulistas, brasileiras e da Libertadores.
- Uol - disse surpreso ao ver a foto do time erguendo a taça do torneio continental - não é um time, é uma máquina de ganhar títulos.
- Assim como você. Também presta atenção na atacante, ela é tipo a sua versão feminina.
- Eu sou meia.
- Tanto faz, só dá uma lida nesse material porque eu tô tentando muito melhorar a sua imagem. É importante.
- Eu sei, obrigado... Acho que também seria interessante visitar as categorias de base ou alguma instituição que o time apoia... Só pra garantir.
- Anotado, eu vou providenciar isso para a próxima semana - Dantas se levantou do sofá - ah! Já ia me esquecendo, você também vai gravar uma matéria pro Globo Esporte e uma pro canal do time no YouTube junto com outro jogador, vou confirmar a data mas acho que fica pra próxima semana também.
- Tudo bem, combinado.
- Eu já vou, tenho impressão de que você tem um compromisso daqui a pouco.
- Não vou sair com nenhuma garota, se é o que está pensando, Dantas.
- , ... - o empresário riu, os ombros subiam e desciam de forma exagerada - eu te conheço desde que você tinha dezessete anos, acho que é tempo suficiente pra eu saber que você é...
- Não sou gay - respondeu prontamente, embora não acharia nenhum absurdo se fosse.
- Comportado, eu ia dizer comportado. Eu sei que você está indo pro estádio.
- Não quer ir também?
- Não sou sua babá, acho que você pode sobreviver sem mim só por essa noite.
- Você é tão humilde - rolou os olhos - então tchau pra você, ainda preciso tomar um banho.

⚽🖤📱

Depois de um banho demorado para relaxar o corpo após um dia longo de treino, ficou pensativo sobre qual roupa deveria vestir. Não sabia se era algo grandioso ou intimista, não sabia se deveria vestir uma camisa do clube ou o que quisesse usar. Costumava ser muito prevenido para todas as situações, então separou a polo preta oficial do time para deixar no carro caso fosse necessário. Por roupa optou por uma camisa social brança, calça jeans e tênis, o relógio que foi presente dos seus pais não poderia faltar e ao se olhar no espelho, agradeceu mais uma vez por não ter nascido mulher e não precisar passar horas se arrumando.

Satisfeito consigo mesmo, pegou a polo, as chaves e o celular e então saiu. Colocou o endereço do estádio no GPS e seguiu para Itaquera, estava ansioso por pisar no estádio pela primeira vez como parte do time e não como rival.

O caminho foi um pouco demorado devido ao trânsito em São Paulo mas ele conseguiu chegar sem dificuldades. Apenas abaixou o vidro do carro para se identificar na entrada do estacionamento subterrâneo.

- .
- Você tem credencial, ? - o homem de terno e gravata com o brasão do clube perguntou.
- Credencial? Hum... ainda não, cheguei essa semana no time.
- Pede pra diretoria providenciar uma, tudo bem? Vou deixar passar porque te conheço, mas é melhor garantir, certo?
- Claro, tudo bem. Obriga...

mal terminou de falar quando o carro que parou atrás dele começou a buzinar freneticamente e ele olhou para trás para ver o que era.

- Já arrumou confusão, chico? - era Bruno e estava com um sorriso bem-humorado no rosto.
- Quer dizer que você fala português?
- Sei xingar tambiém. Vamos logo.

deu risada e entrou no estacionamento. Optou por uma vaga perto da saída e Bruno estacionou ao seu lado. O meia ficou aliviado quando viu que o uruguaio não estava vestido com roupas do clube.

- Por que tá me olhando así?
- Eu não sabia se deveria vestir uma camisa do clube ou não. Era só pra ter certeza, você não faz o meu tipo, Méndez.
- Bueno, você tambiém não faz o meu.
- Bueno, muy bueno. Onde fica o camarote?
- Fica do lado oeste, um pouco longe. Vamos.

Alguns minutos depois e eles estavam no camarote e pela quantidade de pessoas, sabiam que eram quase os últimos a chegar. olhou ao redor e reconheceu boa parte dos atletas, acompanhados por esposas que conversavam entre si e filhos que brincavam juntos. Ele também viu que outros dois jogadores que não conhecia, provavelmente recém contratados assim como ele, então sentiu a necessidade de cumprimentar e se enturmar.

Um era um atacante chamado Joel, tinha dezoito anos e havia saído do Fortaleza e o outro era lateral direito Alberto, vindo do Pelotas. Este em especial, reconheceu, pois já havia enfrentado o Pelotas algumas vezes no campeonato Gaúcho.

- Quando vocês vão assinar? - perguntou se servindo do seu drink.
- Eu assino na sexta - Joel respondeu com o olhar disperso no campo abaixo - como o foco do clube é você essa semana, eles acharam melhor eu assinar na sexta, mas o Emerson me convidou pra vir hoje pra conhecer o time.
- E eu na semana que vem, achei melhor assim - Alberto deu de ombros - não que faça alguma diferença, já que eu sou mais um reserva do Fagner. Eu tinha proposta de um time da segunda divisão da Inglaterra mas o meu empresário me aconselhou a ficar no Brasil e esperar uma proposta melhor. Então aqui estou.

percebeu que o rapaz não gostaria de estar ali, estava igual ele alguns dias atrás. Ele se lembrou do dia intenso que teve e como se divertiu, a forma como foi bem recebido pelo elenco, treinador e comissão técnica. Um dia no clube foi o suficiente para enxergar tudo aquilo com bons olhos.

- Talvez você pense que eu vou ser titular porque vim do Grêmio mas o que mais tem nesse time é jogador na mesma posição que eu, mas eu não tenho a mínima ideia de como o Carille vai me usar. Estamos todos no mesmo barco, sabe? A gente tem que fazer por merecer essa vaga e eu tenho o mesmo sonho que você de jogar na Europa, então vamos tentar juntos.
- Quer jogar em que time, ? - Joel perguntou.

encolheu os ombros, nunca falava sobre isso em voz alta porque acha a possibilidade de jogar na Espanha algo impossível e inalcançável.

- Barcelona - respondeu baixo e viu a surpresa no rosto dos rapazes - eu sei que é sonhar alto demais mas acompanho o time desde que eu era moleque e o Messi é o meu ídolo no futebol... Não sei se um dia vou conseguir mas nunca vou saber se eu não tentar.

Eles continuaram conversando mais um pouco até que os três foram convidados a se apresentar em voz alta como novas contratações do clube. subiu na cadeira que Pedrinho empurrou pra cima dele. Os coletas de time aplaudiam freneticamente e gritavam elogios e embora soubesse que era apenas uma brincadeira, decidiu fazer parte daquilo.

- Obrigado, obrigado, sei que sou lindo e também o melhor do time, com todo o respeito ao Cássio e ao Gustavo - apontou para o goleiro e o atacante e deu uma piscadinha, fazendo todos darem risada - brincadeiras à parte, vou me apresentar. Meu nome é , eu tenho vinte e quatro anos, comecei na base do Santos e subi para o profissional aos dezessete anos, joguei uma temporada lá e fui vendido para o Rosário da Argentina, fiquei duas temporadas por lá e depois o Grêmio me contratou, fiquei lá por quatro temporadas e o resto vocês conhecem, agora eu tô aqui e prometo ser o artilheiro do time, com todo o respeito aos meus colegas atacantes - arrancou ainda mais risadas - Ou melhor, vamos apostar? Vamos ver quem vai ser o artilheiro, e olha que eu nem sou atacante, já tô em desvantagem... Mas enfim, prometo dar o meu melhor e dar umas aulas de português pro Méndez porque ninguém merece esse portuñol horroso dele - olhou para o uruguaio que mandou o dedo do meio mas acabou dando risada - tem crianças aqui, seu aprendiz de Luízito Suarez. Bom, é isso, quem é o próximo?
- Ei, novato! - olhou mais ao fundo e viu que o também meia, Jadson, ergueu a mão para ser notado - nem pensa em descer, ainda tem que cantar.
- Cantar o quê?
Ele não teve resposta, apenas os gritos uníssonos de canta, canta, canta.
- Ok, então eu vou fazer que nem o nosso colega de seleção e cantar Insegurança do Pixote porque eu tô inseguro.

nunca foi de cantar, especialmente em público. Sentiu o nervosismo tomar conta de todo o seu corpo e achou melhor descer da cadeira antes de cair.

- Como eu falei, tô inseguro... Então vamos lá...

Essa noite eu notei que você demorou pra dormir
Caminhou pela casa, ligou a TV eu ouvi
Você sussurrando, chorando baixinho pra não me acordar
Se tiver precisando de amigo pra desabafar
Se for alguma coisa comigo vamos conversar
Eu não quero correr o perigo de um dia você me deixar
Escolhi você pra ser minha mulher
E sou tão fiel à nossa relação
Pelo amor de Deus se for insegurança
Tira do teu coração


Ele nem precisou continuar cantando alto, sua voz foi abafada por todos ali cantando junto e ele agradeceu mentalmente, pois apenas mexia os braços no ar animando os colegas, mas a sua voz pouco se ouvia.

Já é tarde vamos nos deitar
Se quiser conversar na nossa cama
Porque sei que tudo isso passa
Você me abraça e a gente se ama
Eu não vou te trair com ninguém
Meu amor você tem minha palavra
Porque tudo que um homem precisa eu tenho em casa


se deixou levar pelo momento e se permitiu a diversão pelo menos uma vez. Já fazia tempo que não se divertia assim, estava há pouco mais de duas semanas em São Paulo e ainda não conhecia lugar nenhum então pensou que ali era o melhor lugar para se estar e com as pessoas que ele veria todos os dias. podia garantir que naquele momento estava feliz, uma campanha ruim e um time rebaixado ficaram pra trás, ele sabia que precisava viver o presente.

E viver o presente significava, para ele, ser o artilheiro da temporada.

Capítulo 3 - Futebol Delas.

prestava atenção no jogo, aos mínimos detalhes. Aos trinta e cinco minutos do segundo tempo, o time feminino do Corinthians vencia por um impressionante placar de 5x1. Embora o ritmo de jogo fosse um pouco mais lento do que o do futebol masculino, ele estava satisfeito com o que estava vendo. O time tinha entrosamento e técnica. Um dos gols foi em uma cobrança de falta de longa distância e isso deixou admirado, pois nem ele já tinha feito um gol tão bonito quanto o que ele presenciou. Ficou mais surpreso ainda quando alguns torcedores pediram para tirar fotos com ele. O estádio não estava cheio, apenas alguns torcedores espalhados pelas arquibancadas e uma concentração um pouco maior do outro lado do campo. reconheceu a faixa da torcida organizada Gaviões da Fiel, mas também percebeu que a maioria da torcida era formada por mulheres que cantavam e apoiavam o time vque retribuiu o apoio em campo.

estava tão entretido com o jogo, que quando saiu o sexto gol, ele se levantou e ergueu os braços em comemoração, o que atraiu alguns olhares das poucas pessoas ao redor dele e também dos repórteres que faziam a cobertura do jogo. Não demorou muito para que um deles se aproximasse.

- Tudo bem? Eu sou o Juan, trabalho pra Globo, você se importa de dar umas palavrinhas sobre o jogo?
- Hum... Não, claro que não.

O repórter fez sinal para que o câmera se aproximasse. No sinal do homem, o repórter começou a falar.

- O jogo pode até ser delas, mas eles fazem questão de apoiar. , eu vi que você comemorou bastante o gol, você acompanha o futebol feminino?
- Pra falar a verdade, eu só assistia os jogos da Seleção, via a Marta, Cris, Formiga... Acabei de chegar aqui e é o primeiro jogo que eu assisto, mas espero que tenha outras oportunidades.
- E o que você está achando da partida?
- Muito boa, a gente tem que incentivar, não é? Tenho certeza que muitas meninas assistem e se inspiram, e o time é muito bom, por sinal.
- Tem algum recado pras crianças que estão assistindo?
- Bom... Acho que o mais importante é nunca desistir do seu sonho, né? Correr atrás sempre. Pras meninas, não pode levar a sério quando alguém diz que futebol é coisa de homem, é pra mulher também, tem uma Marta dentro de cada menina. E para os meninos, tem um Ronaldo em cada um também, continuem correndo atrás do sonho. Todos merecem uma oportunidade.
- E falando em oportunidade, quando vamos te ver jogando?
- Eu não sei, não sei mesmo - riu - Tem que ver com o professor.
- , muito obrigado e boa sorte.
- Eu que agradeço.
- E... Corta - o câmera fez sinal.

O repórter agradeceu e se afastou enquanto continuou assistindo a partida com os olhos atentos. Ao final da partida, a torcida aplaudiu o time que se reuniu no meio do campo para um abraço coletivo e para agradecer a torcida. Ele tirou uma foto do momento para postar nas redes sociais depois, sabia que seria um ponto extra que ganharia com Dantas.

Ele observou o repórter da Globo entrevistando as jogadoras e se surpreendeu quando ele apontou para a sua direção e a jogadora fez sinal para que ele fosse até lá. ficou surpreso mas acabou indo, um segurança abriu o acesso ao campo para ele.

cumprimentou algumas atletas pelo desempenho e foi até a jogadora que ele reconheceu como a lateral Tamires. A atleta agradeceu o apoio em frente à câmera e no final ele se juntou ao time inteiro para uma foto com as jogadoras. Ele sabia que a foto iria parar nas redes sociais do clube porque o fotógrafo em questão era Junior, o mesmo que ele encontrou dois dias atrás saindo do CT.

- Oi, Junior. Eu não sabia que você cobria o futebol feminino também.
- Não cubro, mas hoje vim dar uma força pro pessoal da equipe junto com o Tobias, já que somos só uma agência. Parece que elas gostaram de você - o fotógrafo disse enquanto caminhavam para fora do campo.
- E eu gostei delas - o meia sorriu - foi legal.
- Isso sem contar que vai aumentar a sua popularidade com a torcida.
- Até parece o meu empresário falando - os dois riram.
- Junior, podemos ir?

olhou para o lado e viu , a garota mal educada, vindo na direção deles.

- É claro, mas primeiro acho que você deve desculpas ao pelo seu comportamento.
- Isso é sério?
- Já conversamos sobre isso, .
- Ok, ok, então me desculpa pelo que eu te disse naquele dia.
- Tudo bem, desculpas aceitas.
- Ótimo, fico muito feliz com isso – esboçou um sorriso amarelo e retribuiu da mesma forma.
- Vamos, . Tchau, .

Junior se afastou, mas continuou ali parada como se o que estava prestes a dizer fosse a maior blasfêmia de todas.

- O que é?
- Continuo não gostando de você.
- Entra na fila, gatinha. Você e toda a torcida do Grêmio.
- Eu não terminei ainda. Como eu estava falando, continuo não gostando de você mas o que você fez pelas meninas foi legal, deu visibilidade para o time.
- Hum... Obrigado? A melhor parte é que não precisei rebaixar as meninas também - ele riu mas sentiu o olhar dela o fuzilando - Não me olhe assim, você que começou.
- Eu já me desculpei! - esbravejou e começou a rir - Qual é a graça?
- Me desculpa, é que você parece um pinscher com raiva.

mexia a boca mas não saía palavra alguma, ela estava incrédula com o sarcasmo do jogador.

- Você é uma pessoa horrível.
- Mas não sou eu quem fica humilhando as pessoas por aí. Os outros podem tolerar suas maldades, mas eu não. Licença - ele deu meia volta e saiu de lá.

⚽🖤📱

- Ah, cara! Eu te amo demais! - Dantas falava no telefone enquanto zapeava os canais da TV.
- Quantas vezes já te falei que não sou gay, Ernesto? Além disso, só fiz o que você mandou.
- Não, meu caro. Você deu entrevista, alimentou o sonho de milhares de garotinhas pelo Brasil, entrou em campo, tirou foto até com as árvores... Você não existe! Você não tem ideia de como está facilitando a minha vida.
- Me agradeça depois. Qual é o próximo passo?
- Vou ver, ainda não processei o que aconteceu hoje.
- Então pensa aí e me liga depois. Tchau.

desligou e voltou a atenção para a TV enquanto jantava. Deixou no canal esportivo afim de assistir a reprise de um jogo do Golden State Warriors pela NBA no qual sempre foi um grande fã. No intervalo do jogo, ele pegou o celular e procurou pela página de futebol feminino do time no Instagram e de primeira já encontrou sua foto com as jogadoras onde o clube agradecia a parceria do time masculino. De bom grado ele comentou agradecendo e incentivando o futebol feminino no país, o que de repente, parecia ser uma ótima ideia pra ele.

Embora estivesse feliz com a iniciativa, a sua conversa com não saía da cabeça. Por mais que a piada do pinscher ainda parecesse extremamente engraçada, ele sabia que tinha pegado pesado mesmo a garota tendo se desculpado.
Ele aproveitou que Junior estava marcado na foto, entrou no perfil do fotógrafo na esperança de encontrar alguma rede social de e depois de procurar um pouco no perfil dele, encontrou o perfil da garota no Instagram. Imaginou que talvez ela tivesse muitos seguidores ou conta verificada mas se surpreendeu ao ver que parecia mais uma torcedora comum do que funcionária do clube.
Ele pensou se aquilo era realmente uma boa ideia mas quando se deu conta, já estava digitando um pedido de desculpas.

@.07: Me desculpa pela forma como te tratei hoje à tarde. Foi inapropriado e eu fui um estúpido. Na próxima vez que a gente se esbarrar por aí, vou me apresentar novamente.

Ele deixou o seu celular de lado e voltou a atenção para o jogo. Se empolgava a cada jogada de Stephen Curry ou Klay Thompson. Por mais que o futebol fosse a sua maior paixão, o basquete vinha logo atrás e ele sempre soube que seria atleta de uma das modalidades, era mais habilidoso com os pés, mas sempre que tinha tempo praticava cestas e jogadas apenas por diversão.

Após o final da partida, ele pegou o celular novamente e viu que tinha respondido. Pelo pouco que sabia dela, ele tinha certeza de que uma resposta bem irônica estava o esperando.

@.: Eu nunca conheci alguém tão estúpido na vida que nem você, senhor , mas admito que a piada do pinscher foi boa. Espero no mínimo que honre essa camisa ou eu te mato.

não conteve o riso, a piada do pinscher era sempre infalível e se até uma pessoa ranzinza como gostou, era sinal de que estava tudo bem. , como um cidadão de boa índole, achou melhor parar por ali e não abusar da boa vontade de em o perdoar.

@.07: Vindo de você, eu não duvido nada. Não se preocupa, não sou nenhum amador.
@.: Eu sei que não.


entendeu que a conversa tinha acabado ali, então ele pegou seu prato e pôs na lavadora. Arrumou a bagunça que fez na sala e foi tomar banho para finalmente dormir após um dia longo. Quando o rapaz se deitou na cama após o banho, seu celular começou a tocar e ele viu que era uma chamada de vídeo da sua irmã.

- Lembrou que tem outro irmão além do Rony? - falou ao atender - Como vai, Maria Aparecida?
- Não me chama de Maria Aparecida, , sabe que eu odeio esse nome.
- É tão lindo quanto os seus olhos, Cida - ele sorriu e viu a irmã revirar os olhos - Como estão as coisas aí?
- Ótimas, tirando o fato de que as meninas estão me deixando louca porque estão com saudades do titio .
No mesmo instante dois rostinhos curiosos apareceram na tela do celular e sorriu ao ver as sobrinhas.
- Oi, tio! - as duas disseram juntas.
- Oi, meus amores - o rapaz sorriu e sentiu lágrimas se formando nos seus olhos. Suas sobrinhas eram as pessoas que mais amava na vida.
- Tô com saudade, tio - Maia, a mais velha de seis anos, choramingou.
- Também estou com saudades de vocês duas.
- Tio, quando você vai vir ver a gente? - Belinda, a mais nova de quatro anos, perguntou.
- Assim que eu puder - respondeu com um sorriso, embora não tivesse a mínima ideia de quando realmente poderia - estão se comportando?
- Sim! - as meninas responderam juntas.
- Que ótimo, espero que continue assim.
Ele continuou conversando com as meninas até Cida pedir o celular de volta.
- Eu estava pensando em levar elas em algum jogo pra ver se isso passa.
- Vocês poderiam ficar uns dias por aqui... Tem espaço no meu apartamento.
- Não sei, , é muita coisa pra pensar de uma vez só...
- Só vem, deixa que eu cuido de tudo.

Cida morava em Porto Alegre assim como a maioria da família de e para ele a pior parte foi ter que ir e ficar longe da família, principalmente das sobrinhas.
Eles continuaram conversando pela hora seguinte até explicar que tinha treino outro dia e precisava descansar, então ele desligou e finalmente conseguiu descansar.


Capítulo 4 - Amistoso

estava produzindo alguns modelos prontos de artes que seriam utilizadas nas redes sociais para a partida daquela tarde. O jogo em questão seria um amistoso contra o Santos em Itaquera para abrir a temporada antes de começar o Campeonato Paulista. A divulgação do jogo estava a todo vapor e estava montando a escalação do time conforme havia chegado nela e era comum ela sempre escolher um jogador para colocar na arte. Analisou alguns e gostou da foto de onde o meia estava de braços cruzados e uma cara séria que não combinava com ele, mas que definitivamente combinava com o time e por isso a possibilidade de o escolher passou pela cabeça dela, mas logo descartou a ideia pois não seria titular naquela partida, então ela optou por escolher o goleiro Cássio. Ela iria ao estádio para assistir ao jogo e mandar a arte em tempo real. Costumava fazer isso em casa mas queria ver o time jogar antes que os jogos fora de casa começassem pra valer.

Para , estar no estádio era algo muito além de pisar no gramado ou sentar na arquibancada e torcer. Estar no estádio era estar livre de julgamentos, livre dos seus problemas e preocupações cotidianas. Era gritar e torcer durante noventa minutos que pareciam segundos, era rasgar a voz ao comemorar um gol como se fosse um título, era abraçar um desconhecido simplesmente pelo calor do momento. O estádio era o seu lugar favorito de se estar, fosse dentro ou fora de campo e embora o campo já não fosse mais uma opção viável para ela, ainda sim parecia ser o melhor lugar do mundo para se estar. Se não era ela ali, ao menos estava feliz por ter outras pessoas honrando a camisa que ela sempre fez questão de amar e apoiar incondicionalmente.

⚽🖤📱

atravessou o túnel do estádio e ao colocar os pés no gramado, os gritos da torcida o fizeram olhar admirado por um instante o lugar em que estava. Já fazia mais de um mês que não pisava em um gramado e da última vez saiu chorando e escoltado, mas agora era completamente diferente, não estava sob pressão e sim tendo a chance de recomeçar.

Recomeço. Era essa a palavra que ele procurava para descrever o que estava sentindo naquele momento.

Mas seu recomeço teria que esperar um pouco, afinal, ele não era titular naquele jogo, lhe cabia apenas ir para o banco de reservas esperar pela oportunidade e foi exatamente isso que ele fez. Se sentou no banco de reservas enquanto seus colegas titulares entraram em campo. Apenas ele próprio sabia o quanto gostaria de poder jogar. Por mais que estivesse feliz com o recomeço, era inevitável para pensar que antes era titular absoluto e ídolo do time, a torcida vibrava cada vez que ele encostava na bola e cada gol era comemorado como uma nova conquista, mas ali estava ele, um desconhecido no banco de reservas. O time tinha outros destaques e ele sabia que seria muito mais difícil voltar ao topo agora, do que jamais fora.

- Eu devo estar ficando maluco mesmo - murmurou para si mesmo enquanto se levantava para o hino nacional em reverência.

Após o hino nacional, ele voltou para o seu lugar no banco e esperou a partida começar. Estava inquieto, as pernas imploravam para ele correr, tinha que conter os braços para não erguer como se estivesse pedindo a bola e conforme o decorrer da partida, os erros bobos que seu time cometia o deixavam cada vez mais irritado. O time do Santos atacava e dominava a partida enquanto o treinador gritava para o time recuar. não conseguia entender aquilo, pois ninguém passava do meio campo, nem mesmo Gustavo que era o homem mais à frente tinha chances claras de gol. Até o atacante voltava para marcar e isso deixava frustrado pois seu antigo treinador nunca mandaria o time jogar recuado como ele estava vendo naquele momento.

- É sempre assim ou é só porque é o primeiro jogo do ano? – ele perguntou para o meia Gabriel ao seu lado.
- Um pouco dos dois – Gabriel respondeu sem tirar os olhos do campo – Já faz algum tempo que isso tem dado certo. Fecha, joga retrancado e na única falha do adversário, a gente não perdoa e faz um gol. Isso sempre deu certo.
- Não parece que está dando muito certo agora – murmurou se afundando no banco.

Ele sabia que aquele esquema de jogo não estava funcionando e não ia demorar para o gol adversário sair, coisa que aconteceu aos quarenta minutos do primeiro tempo, deixando todo um estádio nervoso e não só um jogador. viu o momento em que Cássio gritava com a defesa, mas ele não achava que tinha sido culpa de Bruno ou Gil e sim do meio campo que não conseguiu roubar uma bola com um pouco mais de velocidade e sempre atrasava as jogadas, dando vantagem ao alvinegro praiano.

No intervalo, o time titular tomou uma bronca do treinador que esbravejava que não queria que cometessem os mesmos erros da temporada anterior.

- Agora pro intervalo, vai entrar o pela esquerda mais recuado no lugar do Urso no meio-campo e o Pedrinho pela ponta direita pra dar velocidade e mais criação pro time - Carille explicou desenhando na sua prancheta.

ouvia, mas não prestava atenção, estava totalmente em êxtase ao ouvir que iria pisar no campo novamente, após quarenta e cinco dias.

- Eu acredito em vocês, eu sei que eu tenho o melhor elenco do Brasil, então façam por merecer. Vamos, saiam daqui com a virada, confio em vocês.

tirou o colete rapidamente e entregou para o substituído Júnior Urso e então seguiu com o time para o túnel. Na entrada do campo sentiu uma mão no seu ombro.

- Boa sorte - era Bruno.
- Obrigado.
- Ajuda a gente, pelo amor de Deus.
- Vou fazer o meu melhor.

entrou no gramado no momento em que seu nome foi anunciado como substituição e ele ficou aliviado por ouvir os aplausos da torcida, sinal de que estava fazendo as pazes com os deuses do futebol.

Com o apito do árbitro, veio junto a sensação de liberdade que tanto sentia falta, as pernas estavam livres para correr o quanto quisessem e ele não sairia dali sem ao menos dar um chute ao gol e caso a bola entrasse, seria ainda melhor.

Na primeira oportunidade que teve, avançou pelo meio campo em alta velocidade, deixando um jogador santista para trás. Tocou para Vital no meio que passou para Pedrinho do lado direito conforme avançavam. Pedrinho não podia avançar, então cruzou para o lado esquerdo bem na direção de , que correu em direção à entrada da grande área, mas foi marcado e, quando se deu conta, estava caído no chão com o time e a torcida gritando por pênalti e abraçou a ideia. Apesar da marcação forte, ele se levantou prontamente e foi marchando até o árbitro.

- Foi dentro da área, foi pênalti! Não foi na bola, foi em mim! - seguia o árbitro apontado para si mesmo.
- Foi fora - o árbitro disse marcando a região da falta com spray e gesticulou – Falta.

não foi capaz de controlar uma risada sarcástica enquanto seus companheiros de time o defendiam e os rivais insistiam que não era pênalti. Como o VAR não era utilizado em amistosos, a decisão do juiz era a que realmente contava e para o azar do time corinthiano, o juiz apenas marcou falta do lado esquerdo da entrada da grande área, falta essa que o próprio iria bater.
Mais do que concentrado, olhava atentamente para a bola e imaginava o caminho que ela faria até o gol santista, o mesmo caminho que ele quis que a bola fizesse um mês antes no jogo mais importante da sua vida e por um instante, sentia como se tivesse voltado no tempo e a barreira estava formada por jogadores de camisa vermelha enquanto ele vestia a azul listrada, mas isso não importava mais. Ele respirou fundo e deu três passos para trás, contou mentalmente até três e correu para chutar a bola que passou por cima da barreira e se encaixou, milimetricamente, no canto esquerdo da rede.

Gol do Corinthians, aos quinze do segundo tempo.

, completamente cego de adrenalina e tomado pelos gritos ferozes do mar negro nas arquibancadas, correu para trás do gol em direção à torcida e saltou erguendo o punho no ar, uma clara alusão ao Doutor Sócrates, ídolo do clube. Seus companheiros vinham logo atrás em um abraço em grupo, mas estava eufórico demais para entender que era um abraço. Ele batia com força no escudo que cobria seu peito dizendo a plenos pulmões: Voltei.

E de fato ele havia voltado e em boa forma. Voltava para marcar e conseguia correr para atacar, tudo em velocidade e em questão de segundos. Por mais que quisesse marcar outro gol, não era fominha, deixou Gustavo na cara do gol duas vezes, mas o atacante perdeu a oportunidade de virar o jogo. Na última, ele olhou para que fez um sinal de que estava na frente como artilheiro do time, o que fez o atacante rir. Logo em seguida, olhou em direção ao banco onde seu treinador fazia sinal para que ele voltasse ao seu lugar e recuasse para marcar, algo que não concordava de forma alguma e simplesmente ignorou o pedido de Carille.

Após o gol, o time cresceu e passou a dominar a partida fazendo com que o ritmo de jogo aumentasse e as chances de gol se tornassem cada vez mais claras, o que exigia ainda mais de , que já estava extremamente cansado e com as pernas pesadas. Apesar de ter se cuidado nas férias, percebeu estava um pouco fora do ritmo no final do segundo tempo.
Cansado, mas ainda disposto a continuar tentando, aos quarenta minutos do segundo tempo, ele recebeu um passe de Danilo Avelar pela lateral esquerda e avançou pelo campo até o ataque sendo marcado com acidez, mas sempre conseguindo passar. Ele fez um cruzamento e enquanto via Vagner Love cabecear para dentro do gol, caiu com a mão direto na panturrilha que ele tinha a sensação de que estava saindo do lugar e sem sucesso ele tentava colocar no lugar. A dor tomou conta de cada membro seu e ele só conseguia gritar.

Enquanto uma parte do time comemorava o gol, outra parte veio ajudar, incluindo Bruno que correu da zaga do outro lado do campo até o colega que gritava e se contorcia no chão. O zagueiro percebeu que era cãibra e puxou a perna do amigo para esticar enquanto gritava e batia as mãos no gramado, sentido as lágrimas saindo dos olhos como se estivessem queimando seu rosto. Nunca sentiu uma cãibra tão forte quanto aquela e parecia que os esforços de Bruno em o ajudar não estavam dando certo.

O médico do clube entrou em campo, tiraram a chuteira e o meião de e com a massagem do médico, a dor ia amenizando até que aos poucos ela passou, embora a perna ainda estivesse latejando.
fechou os olhos e respirou fundo, sentindo seu corpo se aliviar da tensão enquanto o coração batia acelerado dentro do peito.
- Você tá bem? - o médico perguntou o ajudando a se sentar.
apenas concordou com a cabeça enquanto sentia a água gelada que o médico jogava escorrendo pela sua nuca e entrando por dentro da camisa, sentindo uma sensação de prazer inexplicável, em seguida o spray gelado na perna o fez se sentir ainda melhor.

- Consegue voltar?
- Consigo.

Ele se levantou e quando pisou com a perna que latejava, ele sentiu o nervo ainda esticado e não conseguiu firmar fazendo com que se apoiasse em Bruno para não cair. olhou para o médico que já fazia o sinal para o banco de que seria necessário fazer uma substituição e aquilo foi o suficiente para que fosse do céu ao inferno em menos de cinco minutos.

- Vamos, - Bruno ajudou o amigo a se apoiar - Não adianta resistir.

concordou e também se apoiou no médico para sair do campo mancando e foi substituído por Gabriel que teria que desenvolver algo preciso no meio de campo, assim como estava fazendo. Ao chegar no banco, foi cumprimentado pelos colegas e pelo treinador enquanto o médico cuidava da sua panturrilha.

- Precisamos conversar - Carille disse sentado ao seu lado - Depois.
- Eu sei - fez feição de dor quando o médico esticou sua perna.
- Nunca mais tenta jogar em todas as posições de novo ou eu te mando pra algum time da série C - o treinador se levantou e foi para a beira do gramado quando o jogo normalizou.
jogou a cabeça pra trás e respirou fundo. Sabia que estava sendo o melhor da partida, mas que por conta de uma cãibra estúpida, estava fora do resto do jogo e agora compartilhava a artilharia com Love.

⚽🖤📱

No dia seguinte, passou boa parte da manhã no departamento médico do clube fazendo exames para garantir que não tinha qualquer sinal de lesão na sua perna e para sua sorte, não passou de uma cãibra.
Após ser liberado, o meia foi para a academia onde o time fazia uma atividade regenerativa. não teve a chance de escapar de uma bela bronca, pois ao colocar os pés na academia, seu treinador veio na sua direção.

- Vem, . Vamos conversar.

Ele o seguiu para fora do ambiente.

- Como foi lá?
- Nenhuma lesão, só cãibra.
- Ótimo, eu fico feliz por isso mas o que você fez ontem, por mais que tenha dado certo, não foi bom.
- Professor, o time tava jogando na retr... - ele percebeu que o treinador mudou a feição - Recuado, o time estava recuado e tomando sufoco, eu tinha que fazer alguma coisa!
- Sua função é do meio pro ataque. Você não é lateral e nem zagueiro, você só não jogou no gol porque o Cássio já vale por dois... Olha, eu acho você um jogador acima da média, a prova disso foi as suas estatísticas de ontem, foi realmente incrível, mas por favor, não vai além do seu limite, ok?
- Tudo bem, me desculpa... E quais foram as estatísticas?
- Noventa e cinco por cento de acerto de passes, uma assistência, uma finalização concluída, acertou um cruzamento e mais de trinta roubadas de bola... Foi impressionante pra quarenta minutos, continue assim.
- Obrigado, professor. Pretendo continuar assim.
- E talvez a vaga seja sua se realmente continuar, pensa bem nisso.

parou para pensar nas palavras de Fabio e sabia que o técnico tinha razão. Por mais que tivesse jogado bem, sua pressa em fazer tudo de uma vez quase lhe custou alguns dias afastados por lesão e não era isso o que ele queria. Ao seu ver, precisava melhorar sua disciplina e posição dentro de campo, caso contrário nunca teria a confiança de Carille para a titularidade no time e sem vaga, poderia dar adeus ao seu sonho de jogar na Europa e um "Olá" para algum clube da série C.

Isso definitivamente não estava nos planos dele.

Capítulo 5 - El Clasico.

Os dias foram avançando e, ao final de tudo, teve uma semana agitada entre entrevistas e participações em programas de mesa redonda enquanto revezava com a rotina de treinos que ia se intensificando conforme o campeonato paulista se aproximava. Ainda tinha mais um amistoso antes do início do campeonato e o time já se preparava, inclusive que estava treinando entre os titulares.

Naquela tarde, ao final do treino, ele iria participar de uma matéria para o canal do YouTube, um jogo de perguntas e respostas sobre o clube, o que custou ao rapaz boas horas estudando sobre o time. Se sentiu mais à vontade quando viu que Tobias e Junior estariam lá como parte da equipe.

- A menina ranzinza vai participar? - perguntou enquanto Tobias o ajudava com o microfone preso na camisa.
- ? Vai, está vindo do Parque São Jorge.
- Por quê?
- Porque ela trabalha lá, ué - o homem riu e se afastou para ajustar a câmera. - Ela só vem pro CT pra conhecer as caras novas e vai pro estádio em dias de jogo. Quando ela quer, na verdade.
- Ah... Deve ser cansativo.
- E é, por isso a diretoria está procurando outra pessoa pra trabalhar com ela.

não conseguia imaginar uma pessoa como dividindo o espaço com outra pessoa.

- Isso parece meio improvável.
- É mesmo, mas vamos ver no que vai dar. Ela é uma boa pessoa, tem um coração enorme, só sofreu muito na vida.

estava pronto para perguntar o que aconteceu quando a garota chegou aos tropeços e com uma mochila enorme nas costas, além de barras de ferro e um pedaço grande de madeira nas mãos. Ele se perguntou o que ela poderia fazer com aquelas barras de ferro e teve medo da resposta.

- Desculpem o atraso, não é muito fácil andar de metrô com barras de ferro na mão.

Ela tirou a mochila das costas com cuidado e começou a juntar as barras no que se formou uma mesinha com a madeira por cima como apoio, o que deixou os homens presentes com um ar surpreso. A garota tirou da mochila o seu notebook e colocou em cima da mesa afim de ligá-lo.

- Então, já vão começar?
- Trouxe as perguntas? - Tobias perguntou e concordou, tirando da mochila e segurando com firmeza nas mãos. – Espera, pra que você trouxe esse improviso de mesa?
- Não sei – deu de ombros. - Vamos ver o que esse tiriça sabe sobre o nosso time.
- Mais do que você imagina - olhou para ela com o olhar desafiador. - Sou uma enciclopédia corinthiana, pode perguntar qualquer coisa.
- Qual é o nome do guardinha que fica ali na guarita da entrada? - cruzou os braços e fez uma cara pensativa. - Eu sabia.
- Touché... Erm... Robson?
- Edmilson. Além de ser perna de pau, é burro.
- Viraram amigos, por acaso? - Junior perguntou e os dois fizeram careta.
- Odeio ela.
- Odeio esse pé de rato.
- Ok, ok, já entendi que vocês se amam, agora vamos começar. No meu sinal a vai começar a fazer as perguntas e o vai responder em seguida. Um, dois, agora.
- Em que ano o Corinthians conquistou o seu primeiro campeonato paulista?
- Meu Deus... - riu. - Dá uma pista?
- Não.
- Ok, é... mil novecentos e... - ele fazia um esforço pra se lembrar, tinha estudado - quatorze?

A comemoração das pessoas ao redor fez ele se sentir aliviado por ter acertado.

- Quantos anos consecutivos o Corinthians ficou sem ganhar um título se quer?
- Vinte e três anos.
- Quem eliminou o Corinthians na Libertadores de 1999 e foi o campeão daquela edição? Dica: é paulista.
- São Paulo? Eu não lembro.
- Palmeiras! - Tobias gesticulava atrás da câmera.
- Foi mal, foi mal.
- Qual foi o time que eliminou o Corinthians na pré-libertadores de 2011?
- Tolima - não conteve uma risada, mas viu todos os olhares ao seu redor ficarem sérios. - O que foi? Eu assisti, foi engraçado. Eu zoava os meus amigos corinthianos na escola.
- Corta isso da edição - Junior disse um tanto desesperado. - Tá maluco? Quer que a torcida te mate?
- É por isso que eu não gosto dele... Mas continuando, qual foi o ano da conquista do primeiro campeonato brasileiro do clube?
- Essa eu vi... 1991?
- Errou, foi em 1990... Qual foi a defesa que Cássio fez na Libertadores de 2012 contra um time brasileiro que entrou para a história do clube?
- Oitavas de final, Vasco e Corinthians, o Diego Souza estava sozinho e o Cássio defendeu. Eu assisti esse jogo.
- Cite o máximo de jogadores desse time campeão que você consegue lembrar.
- Cássio no gol, Chicão e Paulo André na zaga, Alessandro e Fábio Santos nas laterais. Eu não lembro muito bem do meio campo pra frente, mas acho que tinha Ralf, Paulinho, Emerson Sheik, Danilo e Guerrero? Desculpa, realmente não me lembro.
- Está faltando alguns, mas vamos considerar. Continuando...

respondeu várias outras perguntas e pelo menos metade ele tinha certeza de que havia acertado. Ao final de vinte perguntas, ele acertou quatorze e errou apenas seis. Para finalizar, pediram para que ele tentasse fazer um freestyle com a bola, mas o meia falhou miseravelmente alegando que um jogador como ele, acostumado a ser um marcador, nunca chegaria naquele nível.

Ao final, enquanto conversava com Junior e Tobias, ele observou um pouco afastada deles e seus olhos se prenderam nela quando viu a garota fazendo embaixadinhas e brincando com a bola. Ela chutou para o alto e dominou de peito, chutou para o alto de novo logo em seguida e equilibrou na cabeça.

- Uau - falou admirado. - Vocês viram aquilo?
- Ela é ótima com a bola no pé - Junior olhou para a amiga e sorriu. - Ganha de muito jogador por aí.
- Ela deveria ser jogadora, olha esse domínio de bola! - ele sorriu impressionado ao ver ela dominando de peito de novo. - Incrível.

Junior e Tobias se entreolharam com olhares de desesperança porque conheciam aquela história muito bem.

- A ama o futebol desde menina, mas a vida foi injusta com ela, é melhor deixar assim - Junior explicou e Tobias concordou fazendo sorriso de se desmanchar no seu rosto.
- O que aconteceu?
- É melhor que ela te explique um dia e no tempo dela, até lá... Bom, deixa pra lá, eu estava pensando de a gente sair daqui e ir tomar uma gelada, o que acham? - Tobias sugeriu tentando desconversar para mudar de assunto e Junior concordou. - Você também, .
- Eu?
- Tem outro aqui? - Junior riu e olhou para . - Ei, aprendiz da Marta! Hora de ir, vamos tomar uma cerveja.
- Vocês sempre estragam a minha felicidade - se aproximou com a bola no mão. - Aonde vamos?
- Que tal minha casa? - sugeriu quando finalmente abraçou a ideia – Eu não posso ficar saindo com frequência, assim nenhum jornalista pode dizer que eu estou na farra ao invés de treinar até a morte.
- Por mim tudo bem – Tobias falou animado e olhou para os colegas.
- Tô dentro - Junior também concordou.

Os três olharam para .

- O que? Como vou saber se ele não vai me sequestrar e me mandar para a Turquia? Eu não vou na casa de pessoas que eu não conheço.
- Turquia? Você tem problemas, garota, vai se tratar - fez uma cara séria, mas acabou rindo. - Sua louca.
- Se não tiver ninguém me esperando lá pra me sequestrar, então eu vou.

⚽🖤📱

Durante a saída do CT até a casa do jogador, eles passaram no mercado para comprar cerveja e chegaram no apartamento de quando anoiteceu. Tobias sugeriu de pedirem pizza pra acompanhar e a ideia foi muito bem recebida pelos outros três.

- O pior é que eu nem deveria comer pizza e tomar cerveja - disse enquanto abria a cerveja. - O Fábio me mata se descobrir.
- É o nosso segredinho - Tobias riu.

abriu as cervejas e distribuiu para as visitas.

- São suas filhas? - Junior perguntou ao reparar no porta retrato sobre o painel da TV.

Na foto, estava com as sobrinhas no gramado do estádio do Grêmio na conquista da Libertadores, Belinda estava com a medalha enquanto Maia estava ao lado da taça e agachado no meio das duas.

- Não, não sou casado. Elas são as minhas sobrinhas - sorriu ao olhar a foto. - Mas são como se fossem minhas filhas, entravam comigo em quase todos os jogos. Sinto falta delas, moram em Porto Alegre com a minha irmã.
- Elas são lindas, mas não com essa camisa do Grêmio - ponderou. - Odeio o Grêmio.
- Então você odeia elas, porque as duas são gremistas apaixonadas e quem mexer com as minhas meninas, mexe comigo também. A propósito, , você por um acaso não odeia alguém ou alguma coisa?
- Eu não odeio o Corinthians e nem a minha mãe, de resto eu só tolero.
- Obrigado pela parte que nos toca - Junior disse fazendo todos rirem.

Entre conversas e risadas, o tempo passou rápido e não demorou muito para que as pizzas chegassem e também não demorou para que todos estivessem satisfeitos. Logo estavam jogando pife na mesa da cozinha, jogo no qual era ótimo e já tinha ganhado duas vezes só naquela noite.

- Aí o Renato disse: se eu ver qualquer um de vocês chegando perto da minha filha, mato um por um ou mando ir jogar no Japão, vocês decidem. É claro que entre eu explicar que eu nunca tive nada com a filha dele e ele entender, levou um tempo. Daquele dia em diante jurei nunca mais cumprimentar filha de treinador nenhum a não ser que ela tenha de dez anos de idade pra baixo.
- , essa história não me convence, pode contar a verdade pra gente – Tobias disse bebericando sua cerveja.
- Eu juro, Tobias! A minha namorada quase terminou comigo na época, eu fiz a filha do Renato ir falar com ela, foi a maior confusão e tinha gente no Grêmio que me olhava torto por causa disso.
- Então deixa eu ver se entendi: além de você ser o maior tiriça e burro, ainda pega a filha do treinador? Nossa, você é pior do que eu imaginava.
- Pra sua informação, mocinha, eu sou mais inteligente do que imagina, não sou pegador de filhas de treinador e pra fechar, o tiriça aqui ganhou uma Libertadores e jogou a final do Mundial contra o Real Madrid.
- E perdeu com um gol de pênalti do Cristiano Ronaldo.
- Calada! Você não sabe a emoção que foi apertar a mão do Robozão. Eu juro que sou fã do Messi e torcedor número um do Barcelona, mas eu quase desmaiei naquela hora. Aquele cara não é humano, é sério.
- Mas e o resto do time? Fala sério, você jogou contra o Real Madrid! – Júnior sorriu demonstrando a sua empolgação.
- Eu sou fã do Marcelo, ele foi super gente fina comigo. Teve também o Navas, Kroos, Modrić, Asensio, Benzema, Bale e o Sergio Ramos... Eu tentei ser o mais profissional possível, mas quando o Sergio me estendeu a mão quando eu caí no campo, eu me senti a pessoa mais feliz do mundo. No fim do jogo, o Bale veio me parabenizar e o Cristiano... Ah, não, eu preciso mostrar pra vocês.

deixou as cartas sobre a mesa de modo que mostrava que faltava apenas um par para ele vencer, o que deixou os outros frustrados. Ele foi até o segundo quarto onde guardava os troféus e medalhas junto com sua coleção de camisas e pegou na parede o quadro com a camisa emoldurada para levar até a cozinha.

- Ele me deu a camisa dele. Eu só lavei porque minha mãe obrigou, caso contrário nem isso. Eu não canso de olhar pra ela.

Ele passou o quadro para Junior que olhou admirado.

- É incrível. Ele disse alguma coisa?
- Me parabenizou pelo jogo e a gente trocou as camisas. Foi o melhor dia da minha vida.
- Ele ficou com pena de você por ser tão ruim, só isso.
- Mas você não perde a oportunidade, né?
- Jamais.

⚽🖤📱

iria viajar para o interior no fim de semana para o amistoso em Araraquara, então se despediram cedo, pois pela manhã o atleta tinha que se apresentar ao clube. Tanto Tobias quanto Junior estavam alterados o suficiente para não dirigir, então achou melhor levar os três para suas casas e no dia seguinte um deles voltava para pegar o carro de Tobias.

Ele deixou os dois em casa e por fim colocou no GPS o trajeto até a Vila Matilde onde ela morava. O silêncio no carro no tempo que se seguiu era incômodo e por mais que soubesse que ela não era muito de conversar com ele, decidiu puxar assunto.

- Eu vi o que você estava fazendo com a bola no CT hoje... Fiquei impressionado.
- Ah... Aquilo... Às vezes eu me empolgo – respondeu sem dar muita importância, não queria conversar com ele.
- Você tem técnica, deveria ser jogadora.

Nesse momento, ele sentiu o olhar dela pesar sobre ele e se enrijeceu porque parecia que ele havia acabado de insultar a mãe dela. Sabia que coisa boa não iria sair daquela boca.

- E eu não tô implicando com você. Eu jogo como profissional desde os dezessete anos, eu sei do que tô falando.
- É complicado - desviou o olhar para a janela do carro, era difícil para ela tocar no assunto.
- Acho que temos tempo.
- Ok, eu te conto, mas isso não significa que eu goste de você. Eu... Eu sempre joguei futebol, acho que desde os cinco ou seis anos, e quando eu fiz dezoito, assinei contrato com o Corinthians feminino por dois anos, eu era atacante. Em um jogo contra o Sport eu já tinha marcado três gols e o time do Sport estava totalmente bagunçado, as jogadoras estavam apelando para o emocional e em um contra ataque meu, a zagueira veio sem piedade e colocou a perna na frente sem intenção de ir na bola. Eu tentei pular, mas a minha perna ficou... Até hoje não entendi muito bem como que aconteceu, mas basicamente eu quebrei a perna e... Bom, você sabe o que acontece quando um atleta quebra a perna - concordou sentindo um nó se formar na garganta. – Eu até tinha esperanças de voltar porque sempre existe um caso à parte e o Corinthians me deu todo o suporte médico e emocional necessário, mas de qualquer forma, eu não posso mais jogar futebol como antes.

se lembrou da vez em que rompeu o ligamento do joelho direito na Argentina e passou boa parte da temporada afastado, ficou seis meses em recuperação após a cirurgia e levou mais três meses até voltar cem por cento e em ritmo de jogo. Aquela lesão quase lhe custou a sua carreira, mas felizmente ele conseguiu se recuperar. Ver que não teve a mesma sorte o deixou chateado.

- Nossa, eu... Eu nem sei o que dizer, eu sinto muito...
- Tá tudo bem, essas coisas acontecem com gente azarada.
- , você jogou no melhor time feminino do país, isso não é coisa de gente azarada, eu te garanto.
- E perdi a oportunidade. É raro um atleta quebrar a perna, mas aconteceu e foi logo comigo... Dois anos atrás eu era parte disso tudo e agora eu só... Mexo nas redes sociais, é patético.
- Não é patético, você estudou pra fazer isso também – concordou e ele continuou a falar. - Você é parte de uma instituição e parece que todo mundo ali gosta de você.
- Tirando você.
- Sim, tirando eu - eles riram. - E eu acho que o Vital também não.
- Ah, o Vital... Eu meio que já dei um fora nele, então eu entendo.
- Por que? Ele parece que saiu de um comercial de sabão em pó, chega a ser bonitinho.
- Por isso mesmo. Ele é fofinho demais pra mim.
- Concordo.
- É aqui, chegou - apontou para a sua casa alguns metros à frente. - Obrigada, .
- Pode mandar o valor da corrida pelo meu empresário, ele é honesto. Ou você achou que seria de graça?
- Você é ridículo, garoto, só se eu der o cu pra pagar - disse abrindo a porta do carro.
- Graças a Deus você vai viajar e eu não vou precisar te tolerar nos próximos dias.
- Tá, não precisa ser em dinheiro e nem com o cu, eu quero que você faça aquela escalação antes do jogo com a minha foto.
- Eu só faço isso com os titulares - a garota sorriu triunfante.
- Surpresa...
-Ai meu Deus, você tem um caso com o Carille, não é? - ela fez cara de nojo. - Isso é prostituição, ! - Depende do ponto de vista.
- Tá bom, tá bom. Vou colocar essa sua cara feia lá na foto.
- Obrigado, sua dívida está paga. Boa noite.
- Boa noite.

esperou entrar e então fez o retorno para voltar para sua casa.

⚽🖤📱

No dia seguinte, se apresentou no clube por volta das seis horas da manhã onde os atletas e comissão técnica saíram do CT em direção à Araraquara no interior de São Paulo para o amistoso contra o Ferroviário no dia seguinte. Ele procurou um lugar na janela e se sentou, logo em seguida Bruno se sentou ao seu lado.

- Buenos dias, .
- Buenos dias - o rapaz respondeu bocejando. - Que covardia me tirar da cama esse horário...
- Sí, pero yo...
- Porra, Bruno! Acha que eu entendo espanhol às seis horas da manhã de um sábado? Vai estudar português ou eu não falo mais com você!
- Desculpa, desculpa, seu grosso.
- Bom dia, novato! Buenos dias, Méndez.
- Bom dia, Jadson - riu com o bom humor matinal do colega que estava passando pelo corredor.
- Ei, , você entende alguma coisa que o Bruno fala? Juro que entendia melhor os caras lá na China do que esse argentino.
- Yo soy uruguayo!
- Viu? Não entendi nada.
- Sim, eu falo a língua dos idiotas e ele disse que é argentino com orgulho.

Os dois começaram a rir enquanto Bruno reclamava e xingava em um espanhol frenético.

- Esto es absurdo, soy uruguayo con gran orgullo! Tengo diecinueve años y he jugado una copa del mundo, conozco a Luizito Suárez! Y usted?isso é um absurdo! Sou uruguaio com muito orgulho! Tenho dezenove anos e já joguei uma Copa do Mundo, conheço o Luizito Suárez! E vocês?

fazia a tradução simultânea na sua mente e tentava segurar sua risada, o que parecia bem engraçado.

- Jogou a copa, que legal... Mas tem quantas Libertadores, parceiro? Jogou aonde além do Corinthians? - Jadson perguntou.
- Se quiser eu trago a minha medalha e esfrego na cara do Bruno - falou se referindo à Libertadores conquistada no Grêmio.
- Combinado.
- Odeio vocês dois - Bruno murmurou se encolhendo no banco. - Calláte porque eu quero dormir.
- Isso ainda não acabou - Jadson disse por fim e foi para o seu lugar.

perdeu o sono após a brincadeira e enquanto Bruno adormeceu rapidamente, ele se limitou a olhar pela janela enquanto os prédios da cidade iam sendo substituídos pelas árvores conforme o ônibus seguia pela Rodovia dos Bandeirantes.

Ele pegou o celular no bolso para colocar uma música e acabou abrindo o Instagram também. Tinha desativado as notificações e por isso não percebeu que havia lhe mandado uma mensagem de madrugada. A mensagem em questão era a escalação do jogo com a foto dele em destaque conforme eles combinaram.

@. : tá bom pra você ou precisa de photoshop nessa cara feia?

conteve a risada para não acordar Bruno e respondeu.

@. 07: está perfeito, o melhor jogador do time tem que ter destaque. Obrigado.

Ele sabia que pelo horário, ela ainda estaria dormindo, então esperar por uma resposta era inútil. Ele colocou os fones de ouvido e se limitou a olhar a paisagem pela janela enquanto Wonderwall do Oasis ecoava pelos seus ouvidos lhe dando a maravilhosa sensação de paz, pois tudo estava perfeitamente bem.

Ele seria titular no jogo do dia seguinte devido ao bom desempenho na partida anterior, a torcida do Corinthians passou a gostar dele e demonstrar apoio nas redes sociais e a torcida do Grêmio estava aos poucos o deixando em paz. Para a melhor parte era ter ido contra sua vontade, mas ter mudado de ideia depois e agora se sentia parte da família porque o time todo o acolheu, assim como a comissão técnica e outros funcionários do clube, ele não tinha do que reclamar e seus dias estavam ficando melhores e mais fáceis. Em apenas duas semanas de clube ele já se sentia como em quatro anos de Grêmio. pôde fechar os olhos e descansar, finalmente estava em casa.

⚽🖤📱

@. : VOCÊ É UM TIRIÇA, PÉ DE RATO. PARA DE SE ACHAR PELO AMOR DE DEUS!!!

@. : vou trocar e colocar o Ralf, eu prefiro mil vezes ele do que você.

@. : VOCÊ É TÃO RUIM, MAS TÃO RUIM, QUE SERIA O ARTILHEIRO DO TIME DE 2007!

@. : Meu Deus, como eu odeio você.


As mensagens chegavam sem parar no celular de e ele não era capaz de parar de rir. Sempre foi do tipo de jogador que respondia as críticas dentro de campo, mas com lhe parecia muito mais divertido simplesmente provocar, algo que era extremamente imaturo do seu ponto de vista. Por mais que fosse funcionária do clube e tivesse sido extremamente mal-educada e grossa com ele no dia em que se conheceram, ele sabia que no fundo ela era apenas mais uma torcedora preocupada com o seu time.

- Qual é a piada? Quero rir tambiém - Bruno entrou no quarto do hotel que eles dividiam com mais dois jogadores.
- É essa louca - entregou o celular para o amigo. - Faz eu me sentir o pior jogador do mundo.
- ? Está saindo com a ?
- O que? Claro que não, ela me odeia - Bruno olhou para ele com uma cara de quem não estava acreditando e devolveu o celular. - Qual é, Méndez? É só uma brincadeira.
- Sí, sí, e minha mãe é virgem.
- Olha, ela falou horrores pra mim no meu primeiro dia no clube, e eu fiquei chateado, se não fosse o Junior e o Tobias para interferir, eu nem falaria com ela.
- Eu vou fingir que acredito, é assim que vocês costumam falar por aqui, não é? Só não deixa o resto do time descobrir, principalmente os engraçadiños... Pedriño, Vital, Jadson, Gustavo... Eles vão acabar com a sua vontade de viver.
- Eles podem falar o que quiserem, não tenho nada com ninguém, principalmente com alguém que me culpa pelo rebaixamento do meu ex clube.
- Mas não foi sua culpa.
- Sinceramente? Acho que sim - se levantou da cama. - Eu perdi a chance de empatar o jogo e dois minutos depois tomamos um gol, então sim, foi minha culpa também.
- , eu não me culpei quando o Uruguai foi eliminado na Copa do Mundo, mesmo a jogada tendo saído de uma falha do meu lado do campo... O que eu podia fazer? Somos um time, todos temos culpa. Era o Messi do outro lado, eu não podia fazer nada.
- Mas são situações diferentes, Bruno.
- Não são. Não importa se foi o Grêmio ou a Seleção uruguaia, são só times. Eu vi você jogar contra a gente no ano passado, você deu trabalho pra gente, fez um dos gols mais bonitos que eu já vi, deixou eu e o Gil para trás... Para de se culpar pelo fracasso dos outros.
- Uau, você virou poeta, e eu nem lembrava disso ou que você já estava no time naquela época.
- É sério, .
- Tudo bem, eu tento não pensar nisso, mas com alguém reforçando isso toda hora, fica meio difícil de esquecer.
- Acho que você deveria deixar isso pra lá e chamar essa menina pra sair.
- Não, muito obrigado.
- Depois não reclama se perder ela pro Vital.
- Vai ser uma honra.

Antes que Bruno pudesse responder, a porta do quarto se abriu e Pedrinho e Vital entraram no quarto.

- Ei, sei que vocês estão tendo uma DR, mas tá na hora do treino - Mateus informou. - O ônibus já tá ligado pra gente ir pro estádio.
- Não era depois do almoço? - perguntou tentando se lembrar mentalmente da agenda.
- Não se você quiser ser tricampeão paulista - Pedrinho disse. - O professor disse que vai ser rápido, depois temos o resto do dia livre e amanhã vamos concentrar o dia todo.

e Bruno se trocaram em questão de dois minutos, colocaram as chuteiras na mochila e correram para o ônibus onde o time inteiro estava esperando.

- Eu vou colocar vocês dois na reserva da reserva se atrasarem de novo - Carille disse do primeiro banco.
- Desculpa, professor, achei que fosse depois do almoço e o Bruno ficou me atrasando.
- Eu não fiz nada!

Os dois foram para o fundo onde os dois últimos lugares estavam livres. Love e Gustavo se viraram para trás para falar com eles.

- Amanhã eu vou empatar com vocês na artilharia, pode anotar - Gustavo disse. - O Gustagol voltou.
- Vocês sabem que não é justo, não é? Sou volante, é óbvio que eu não finalizo tanto quanto vocês.
- Mas quem deu a ideia foi você - Love se defendeu. - Eu, o Gustavo e até o Mauro concordamos com a ideia, o Pedrinho, Vital e Jadson também, se deixar até o Cássio tá nessa, quer ver? Ei, Cássio, tá participando da competição de artilharia também?

esticou o pescoço e viu o goleiro erguendo o braço e fazendo um ok em aprovação.

- Viu só?
- Ok, então que vença o melhor.
- Ainda bem que sou zagueiro - Bruno se afundou no banco. - Nunca gostei de atacantes.
- Vocês ficam com o trabalho sujo e nós com as garotas. É a lei da vida, meu amigo - Gustavo disse por fim se virando para frente junto com Love.

⚽🖤📱

O treino foi mais curto do que o de costume, apenas preparação para o dia seguinte onde os jogadores revisaram algumas jogadas que treinaram durante a semana e após o almoço os atletas estavam liberados até o final do dia. Enquanto alguns optaram por sair para conhecer a cidade, outros voltaram para o hotel afim de descansar para o jogo do dia seguinte e se encaixou melhor naquele grupo. Passou horas em vídeo chamada com a família que morava no sul e só então percebeu o quanto sentia falta de todos.

Naturalmente mantinha mais contato com a irmã por conta das suas sobrinhas e seu irmão Ronald era tão ocupado quanto ele, mas ver os irmãos e a mãe mesmo que por uma tela de celular o fazia se sentir mais próximo da família. Seus pais eram separados e o pai morava no Rio de Janeiro há alguns anos com a nova esposa e ainda mantinha o contato hora ou outra.

Depois de encerrar a vídeo chamada, ele voltou para o seu quarto no hotel onde ele pelo menos ou seis jogadores estavam reunidos jogando FIFA no vídeo game. Gustavo e Vital sequer piscavam enquanto olhavam para a televisão enquanto os colegas faziam torcida.

- A Arena não é tão barulhenta quanto vocês - ele se esquivou dos colegas no chão e foi até a sua cama. - Cabe mais gente aqui ou já tá bom?
- A gente convidou os outros, mas o Cassio está tipo num retiro religioso, o Ralf junto com o Gil e o Mauro foram pra academia e sabe-se Deus aonde foram parar os outros - o goleiro Caíque disse - Certeza que o Jadson arrastou eles pra algum lugar.

No quarto estavam Caíque, Gabriel, Gustavo, Vital, Pedrinho e Bruno. Vital e Gustavo disputavam o El Classico sendo Gustavo com o Barcelona e Mateus com o Real Madrid. A torcida estava dividida em dois contra dois. Caíque e Gabriel torciam por Gustavo enquanto Pedrinho e Bruno torciam por Mateus.
, como árduo torcedor do time catalão fora dos gramados, começou a puxar um grito de torcida do Barcelona.

- Traidor! - Mateus murmurou sem tirar os olhos da TV.
- Ole-le, Ola-la! Ser del Barça és el millor que hi ha! - começou a incentivar os colegas com um antigo grito de torcida do time catalão, que em tradução livre significava “Ser do Barça é o melhor que há”, enquanto do outro lado eles respondiam também.
- Hala Madrid y nada más!

Para o azar do time e torcida merengue, Gustavo estava em um dia inspirado e abriu o placar com um gol de Suárez, fazendo os colegas que torciam ao seu favor irem ao delírio e começaram a cantar ainda mais, liderados por que conhecia os gritos de torcida do time catalão.

- A primeira coisa que fiz quando consegui juntar um dinheiro como profissional, foi ir pra Espanha assistir um jogo do campeonato espanhol, foi incrível - disse após os ânimos dos colegas se acalmarem. - Um Camp Nou lotado cantando sem parar, não sei nem explicar o que senti.
- , se algum torcedor descobre que você não torce pro Corinthians, você será um homem morto - Caíque falou naturalmente.
- Então é melhor eu bloquear o meu Instagram - ele riu. - Nunca torci pra nenhum time brasileiro, não tenho culpa.
- Aqui eu aprendi que ou você torce pro Corinthians, ou você morre - Pedrinho disse. - O Fenômeno era flamenguista de nascimento e virou corinthiano, sabia? Sempre torci pro Vitória da Bahia, aí o Vitória simplesmente me dispensou e aqui estou eu, depois eu te ensino uns gritos de torcida do Corinthians pra você pelo menos disfarçar.
- Pois eu sou corinthiano de berço – Gabriel esboçou um sorriso malandro nos lábios.
- Eu acho que é possível se manter neutro – disse em um tom reflexivo demais até pra ele. – Quero dizer, joguei quatro anos no Santos e mais quatro pelo Grêmio, mas não consigo me considerar santista ou gremista. Tenho a maior consideração pelos dois, mas torcer por algum? Que exagero.
- Calem a boca! Não consigo me concentrar! - Gustavo disse. - Vão cantar no estádio.

Os cinco sentados nas camas se entreolharam e pensaram a mesma coisa, então Pedrinho pegou seu celular para gravar e começou a puxar um grito de torcida do Corinthians.

- É sangue no olho! É tapa na orelha! É o jogo da vida e o Corinthians não é brincadeira!

não conhecia os gritos de torcida do clube, mas entrou na brincadeira até aprender a música e eles cantavam cada vez mais alto afim de fazer os colegas desistirem e darem pausa no jogo pra ficar esperando a cantoria passar.
pegou o celular e também começou a gravar para postar nas redes sociais, sabia que isso o faria ganhar bônus com a torcida e com o seu empresário.

- A gente já pode voltar a jogar? - Gustavo perguntou impaciente.
- Nossa, é verdade, já tinha esquecido de vocês - Caique disse se sentando na cama. - Pode jogar.

⚽🖤📱

- O acabou de chegar e já sabe as músicas do Timão, esse cara honra a camisa demais - lia os comentários do vídeo em voz alta junto com Pedrinho.
- Além de lindo e habilidoso, sabe todas as nossas músicas. Pedrinho, eu te amo! - Pedrinho leu rindo. - As garotas me adoram, simplesmente.

Já tinha anoitecido quando os sete ainda estavam no quarto jogando ou simplesmente lendo os comentários de torcedores nas redes sociais e se divertindo com isso. Os momentos de descontração faziam os jogadores se esquecerem, pelo menos por um tempo, de que estavam a uma semana do início do campeonato paulista e dali em diante estariam concentrados dia e noite para os jogos, principalmente para os clássicos contra os maiores rivais.

"MÁXIMO R-E-S-P-E-I-T-O!
Olha os nossos atletas em clima de jogo cantando as nossas músicas. Que homens, Fiel, que homens!

#VaiCorinthians #ÉOJogoDaVida"

viu na página oficial do clube no Facebook o vídeo que ele havia postado horas antes. Ele sabia que havia postado aquele vídeo e por mais que tentasse ignorar, o seu eu interno de doze anos de idade queria chamar a atenção e provocar de alguma forma, então de repente a ideia imatura parecia ser ótima para o seu eu de vinte e quatro.

@. 07: então a madame presta atenção nas minhas redes sociais?

@. : de todos vocês. Larga mão de ser otário, eu só gostei do vídeo.

@. 07: Então por que não postou o do Pedrinho também? Acho que é porque sou mais bonito do que ele.

@. : por favor, , do fundo do meu coração, vai tomar no meio do cu porque só estou fazendo a droga do meu trabalho :)

@. 07: você ainda me odeia tanto assim?

@. : sim, ainda te odeio.

@. 07: ainda.

pensava no que responder, mas as palavras simplesmente sumiram da mente naquele instante. Ela já não sabia se era uma simples brincadeira ou ainda não gostava dele. Sabia que, de fato, há duas semanas atrás, estava xingando em segredo a diretoria pela contratação do volante gremista, mas agora já estava acostumada com a presença dele nos arredores e instalações do clube.

Ela não costumava manter contato frequente com os atletas por pura timidez e também por conta do seu afastamento dos gramados, mas a partir do momento em que Junior e Tobias se deram muito bem com , ela passou a conviver com ele indiretamente, pois até já tinha visitado o apartamento dele e viu a camisa do Cristiano Ronaldo emoldurada na parede. Ela sabia que isso não era nem um pouco comum entre duas pessoas que se odeiam.

Então pela primeira vez ela abriu o perfil dele no Instagram. Apenas as três fotos mais recentes eram no Corinthians e para baixo atuações em campo pelo Grêmio. Também tinha muitas fotos com duas garotinhas que ela reconheceu com as sobrinhas dele, fotos nas quais ele modelava para algum patrocinador, além de fotos em viagens de férias, jogos do Barcelona no Camp Nou e celebrações com a família e amigos. Já estava enjoada de ver o escudo do Grêmio quando o azul, preto e branco do tricolor gaúcho foi substituído pelo azul e amarelo do Rosário Central da Argentina e descendo mais um pouco o branco e preto do Santos e um de dezoito anos que não levava muito jeito para fotografias, mas não o julgou como normalmente faria, pois achava que ninguém era fotogênico em dois mil e doze.

ficou tão entretida em olhar o perfil de que se esqueceu de responder o próprio, mas pelo horário ela nem iria mais responder, pois ele provavelmente já estava dormindo e descansando para no dia seguinte se preparar para o amistoso em Araraquara.

- E você também, .

colocou o celular para carregar e o deixou de lado. Não demorou muito para pegar no sono e adormecer.

Capítulo 6 - Happy Hour

A semana foi resumida em concentração total para os jogadores do time alvinegro, pois naquele fim de semana, seria o início do Campeonato Paulista, no qual o Corinthians buscava seu terceiro título consecutivo e todo o time estava empenhado em vencer. O jogo em questão seria contra o São Caetano no estádio do próprio clube citado, na região do ABC paulista.

sempre odiou as concentrações, embora soubesse o quanto era necessário para garantir o desempenho de alto nível dos atletas. Passou a semana inteira regrado entre boa alimentação, horas de sono adequadas e treinos mais intensos do que os de costume, tudo para que o time pudesse vencer a primeira partida da competição. Por mais que tivesse um pequeno tempo livre durante o fim da tarde e começo da noite, ele se sentia sufocado pelo confinamento constante, mas procurava manter um bom relacionamento com seus colegas de elenco apesar disso.

No seu tempo livre, procurava assistir filmes, ler livros, se divertir com os outros jogadores e tentar manter o contato constante com a família. Em uma das conversas com seu irmão, Rony, o mesmo contou para que iria se apresentar em São Paulo e convidou o irmão para ir vê-lo.

Ronald era três anos mais novo do que e estava tentando a sorte na carreira musical há alguns anos. Se apresentava em pequenas casas de shows e bares no Rio Grande do Sul e aquela seria a primeira vez dele em São Paulo com a sua banda de apoio. não pensou duas vezes antes de aceitar o convite do irmão.

- Meu Deus, isso é incrível, Rony! Quando vai ser? - ele perguntou encarando o teto do quarto, mas não era capaz de parar de sorrir.
- No domingo. Eu sei que você tem jogo em outra cidade, então se não puder ir, não tem problema, eu vou entender.
- Que besteira, Ronald, é óbvio que eu vou! São Caetano é, literalmente, aqui do lado. Consigo chegar em tempo... Posso chamar umas pessoas?
- Claro... Hm... São jogadores? É que o lugar é pequeno.
- Não, talvez um deles, mas não é certeza. São uns amigos meus, funcionários do clube.
- Então tudo bem, vai ser ótimo ter vocês lá.

⚽🖤📱

- Um bar? - Junior perguntou e concordou. - Até onde eu sei, você não pode ficar bebendo, .
- Não vou pra beber, Junior, só quero ver o meu irmão. Não vejo ele faz uns dois meses - disse tentando não parecer tão emocional, sentia muito a falta do seu irmão menor. - E eu não queria ir sozinho, pensei em chamar você, o Tobias e o Bruno.
- Eu adorei a ideia, de verdade, mas a minha filha vem me visitar no fim de semana, também não vejo ela há algum tempo porque ela estuda em outro estado.
- Por que você não convida ela também? - ele sugeriu e só então processou a informação. - Espera, você tem uma filha?
- Sim, ela tem vinte anos - Junior riu da expressão de espanto no rosto do jogador. - Não sou tão novo assim, , mais alguns anos e eu teria idade para ser o seu pai também.
- Uau! Realmente não parece, mas ainda acho que você deveria levar ela. Vê com o Tobias se ele pode ir também.
- Claro, claro. Vai chamar a também?
- Hum... Não sei, ainda acho que ela me odeia, acho que ela não iria aceitar. Ela diria que um de mim não seria suficiente para infernizar a vida dela e por isso existe outro no mundo - os dois riram.
- É verdade... Bom, vou convidar por desencargo de consciência. Obrigado pelo convite, .
- De nada. Vou voltar antes que o Carille venha me buscar aqui - o meia disse por fim, ao se afastar da lateral do gramado, e correu para o meio do campo.

Por mais que os treinos fossem árduos naquela semana, conseguiu lidar com os últimos dias de concentração de uma forma mais tranquila ao saber que veria o seu irmão no domingo. Estava empolgado em mostrar para ele sua nova rotina, sua nova casa e seu novo clube. Ele sabia o quanto seu irmão era talentoso e há quanto tempo estava tentando um espaço na música enquanto para , as coisas se encaminharam naturalmente desde subir para o profissional com dezessete anos até o seu momento atual em grandes clubes brasileiros. Por mais que sua passagem pela Argentina não tivesse sido tão boa, ele ainda podia considerar como uma parte importante da carreira, pois foi a única vez que jogou no exterior. torcia para que as coisas encaminhassem para Ronald da mesma forma.

E por falar em coisas dando certo naturalmente, a estreia do Corinthians no Campeonato Paulista no final daquela semana foi de modo satisfatório para todo o elenco. O time venceu por 1x0 o São Caetano fora de casa e convenceu com o futebol apresentado, embora um leve descontentamento da torcida era visível nas redes sociais por um placar magro diante de um time relativamente menor na opinião dos torcedores.

concordava em partes com as reclamações da torcida, mas estava satisfeito com seu futebol. Embora não tenha feito o gol, a jogada saiu dos seus pés até finalizar na rede adversária e isso foi mais do que suficiente para ele e seu treinador que estava confiando nele cada dia mais para fazer parte do elenco titular e isso era tudo o que queria naquele momento.

Após a vitória em São Caetano, o ônibus levou a delegação de volta para o CT e então os jogadores foram dispensados até a tarde do dia seguinte quando voltariam às suas atividades rotineiras. Pelo horário, não teria tempo de passar em casa para trocar de roupa e sim vestir uma das que trouxe para a concentração, então ele se trocou rapidamente e, antes de sair, se lembrou de pegar na mala o presente para o seu irmão. Conseguiu internamente uma de suas camisas utilizada em outra partida para presentear o irmão. Por mais que Ronald não fosse totalmente adepto ao futebol, sabia que ele iria gostar, pois o mais novo costumava colecionar camisas de times por onde jogava.

- , vou buscar a minha filha e a , ela disse que vai também. Me passa o endereço e eu te encontro lá, ok? - Junior disse quando os dois junto com Tobias já estavam no estacionamento do CT.
- Tudo bem. Parece que é na Augusta, eu te mando uma mensagem. Tobias, você vem comigo?
- Claro, vamos logo para pegar um lugar bom.
- Somos convidados especiais, é claro que a gente merece um lugar bom, meu amigo - disse e os dois riram enquanto entravam no carro do jogador. - Ronald disse que separou uma mesa mais reservada pra gente.
- Isso é ótimo. Não é bom você ficar saindo depois do jogo porque a torcida e a mídia esportiva podem não gostar.
- Eu sei, só tô indo por causa do meu irmão. Vinte e quatro anos e posso contar nos dedos às vezes que andei fora da linha - deu ré para sair do estacionamento e em seguida do CT.
- Você é disciplinado, , eu fico feliz de ver que ainda existem jogadores que realmente levam o trabalho a sério.
- Não é fácil, Tobias, principalmente quando você é muito novo e começa a acumular dinheiro de repente. Do nada todo mundo vira seu amigo e todas as garotas te querem.
- Eu imagino a tentação que deve ser...
- Pois é... Depois do meu último namoro, há três anos, ficou mais fácil, sabe? Me desiludi muito, meu rendimento caiu e eu perdi a vaga no time titular. O Renato tinha acabado de chegar no time e me deu o sermão mais longo e rígido da vida, mas também me aconselhou muito e depois disso eu foquei totalmente na minha carreira. De repente mulheres, festas e dinheiro não pareciam tão legais pra mim.
- E a sua ex?
- Não sei, não sei mesmo - ele riu. - Eu apaguei ela da minha vida e ela sumiu por aí. Ouvi dizer um tempo atrás que ela tinha se mudado para Orlando, mas não fui atrás pra saber e ela também nunca mais me procurou, talvez a consciência tenha pesado demais.
- Desculpa, eu preciso perguntar, mas o que...
- Ela me traiu - interrompeu prontamente. - Com um membro da comissão técnica do Internacional logo depois que o Grêmio perdeu um Grenal... Na verdade, já estava acontecendo antes, mas eu só descobri depois do jogo porque eu vi um vídeo que um dos jogadores do Inter postou depois do jogo em uma festa e dava pra ver ela bem no fundo com a camisa do Inter e com o cara - ele riu, depois de tantos anos em silêncio sobre o assunto, a história havia se tornado engraçada. - Eu só tirei um print, mandei pra ela e terminei um namoro de cinco anos.
- Nossa, , eu sinto muito.
- Tá tudo bem, só não era pra ser. A parte que me toca até hoje é que eu não conseguia treinar direito e fiz partidas muito ruins, até cartão vermelho eu tomei por brigar em campo. Ela quase acabou com a minha carreira e se não fosse pelo Renato, eu nem estaria aqui hoje. Jurei pra mim mesmo nunca mais deixar nada atrapalhar meu rendimento.
- Quer saber? Eu acho que você tem razão. Se continuar jogando assim, vai ainda mais longe. O Carille te adora e ele pode até não dizer isso pra você, mas você nem tem ideia de como ele amou ter você no time, um meia de criação era o que ele queria, mas aí você chegou criando, marcando e finalizando... Você é o colírio dos olhos dele.
- Hum... Obrigado? - riu.

Eles continuaram conversando sobre vida pessoal e futebol até chegarem ao bar na Rua Augusta. deixou o carro estacionado na rua por falta de opção e então eles entraram. O pequeno palco estava preparado, mas não tinha nenhum músico ainda, o que acabou com as esperanças de encontrar o seu irmão assim que chegasse.

- Com licença - uma mulher baixa e de roupa social se aproximou deles. - Você é o irmão do cantor, certo?
- Certo. Sou o .
- É claro, ele avisou - ela sorriu. - Sou a Matilde, sou a dona do estabelecimento e o seu irmão me pediu pra te receber e levar até a mesa... São só vocês dois?
- Não, tem mais três pessoas pra chegar.
- Tudo bem. Me sigam, por favor.

e Tobias acompanharam Matilde até a primeira mesa do lado direito do palco. Eles pegaram mais três cadeiras enquanto Matilde juntava outra mesa para eles, então se acomodaram.

- Vocês vão pedir alguma coisa agora?
- Ainda não, vamos esperar nossos amigos, muito obrigado - Tobias disse ao ver que olhava para os lados distraído, então Matilde pediu licença e se afastou. - O que foi, ?
- Nada, só estava procurando o meu irmão, mas acho que não vai dar. O Ronald é do tipo que gosta de fazer suspense - ele sorriu. - É só esperar.

Eles continuaram conversando e não demorou muito para Junior chegar acompanhado por sua filha, Bel, e por . Por mais que e Tobias já conhecessem Bel, ainda conseguia ficar surpreso por Junior ter uma filha adulta, embora tentasse não demonstrar surpresa alguma no rosto e também esconder o fato de que achou Bel extremamente bonita. A pele negra e os cabelos compridos e cacheados da garota prenderam a sua atenção por um instante até ele voltar para a realidade.

- Pega leve ou o Junior te mata - Tobias sussurrou quase inaudível para o jogador.
- Mas eu não...
- Eu não nasci ontem, . Acalma o seu amigo aí, ok?
- Então, , quer dizer que tem outro de você no mundo? - perguntou se apoiando na mesa, estava na direção contrária à de .
- Sim, tem na versão cantor e também uma versão feminina e mãe - ele respondeu com bom humor.
- Cruzes! Espero que o seu irmão seja mais bonito, porque você é feio que dói.
- Espera pra ver.
- , que horror - Bel disse rindo, tentando interagir. - Não conhecia seu lado cruel.
- Você ainda não viu nada. Ela me odeia desde o dia em que eu cheguei aqui.
- E o que você fez de tão ruim pra ela te odiar assim? Porque a é a pessoa mais legal que eu conheço.
- Simples, eu nasci.
- É que ele é o maior tiriça, pé de rato, e eu não gosto de jogador ruim no meu time, Bel, só isso.
- Vou ser obrigado a defender o , , a jogada do gol de hoje saiu de uma criação dele pela ponta esquerda - Junior disse e pôde ver um sorriso vitorioso se formando no rosto do atleta - Foi incrível a visão de jogo dele.
- Pra mim não muda nada.
- Acho que vou no próximo jogo pra ver se concordo com a ou com o meu pai.
- Junior, posso levar a Bel para o jogo pra poder esfregar na cara da que eu sou um bom jogador? – olhou para que retribuiu com uma careta.
- Quarta-feira ela estará lá - Junior respondeu prontamente e Bel concordou.

olhou de relance para Tobias que mantinha um olhar desconfiado nele e isso fez sentir o rosto ganhar cor.

- Golaço - Tobias mexeu os lábios de forma lenta e entendeu claramente.
- Para.

Antes que a conversa pudesse se estender, um garçom veio anotar os pedidos deles e logo em seguida Rony entrou no palco acompanhado de sua banda e as pessoas presentes o aplaudiam, inclusive que se levantou para prestigiar o irmão aplaudindo o máximo que podia e isso não passou despercebido por Ronald, que agradeceu e fez sinal de que depois iria até ali falar com ele.

O rapaz se sentou no seu banco alto e pegou o violão. Ajustou o pedestal do microfone na sua altura, o testou e então se apresentou para o público e começou a tocar Azul da Cor do Mar do Tim Maia.

- Ele é muito fã do Tim Maia - disse aos amigos na mesa. - Desde sempre.
- E quem não é? - Tobias perguntou pegando o celular para gravar.
- Eu gostei do seu irmão porque ele gosta do Tim Maia - disse olhando para . - E também porque ele é talentoso e um gato.
- Achei ele idêntico a você, - Bel disse sorrindo.
- Vou levar como um elogio porque ele é demais - respondeu sorrindo para a garota e então olhou para . - Se ferrou, babaca, as pessoas perguntam se somos gêmeos.
- Impossível, ele é bonito e você, não. Depois me passa o telefone dele.
- Não vou deixar o meu irmão menor namorar com gente idiota.
- E quem disse que eu pedi a sua permissão?
- Se vocês dois não calarem a boca, eu juro que vou embora - Junior disse em um tom paternal demais, fazendo e olharem confusos pra ele. - Não me olhem assim, só quero prestar atenção.

A discussão na mesa acabou para poderem apreciar o show. Ronald passeou entre Tim Maia, Lenine e até Cazuza. Mesmo sendo um grande adepto da música nacional, ele acrescentou ao seu repertório Thinking Out Loud do Ed Sheeran, Stand By Me na versão de Louis Armstrong e também Wish You Were Here do Pink Floyd até voltar aos artistas Brasileiros e começar a cantar a música Garotos do cantor Leoni.

Quase que em sintonia, e bateram as mãos na mesa e fizeram cara de surpresa de quem realmente não esperava aquela música.

- Eu amo essa música! - disseram juntos, fazendo Junior, Tobias e Bel olharem para eles.
- Que bom que vocês concordam com alguma coisa - Tobias riu quando os dois fizeram cara de nojo um para o outro. - Antes que alguém diga que não gosta mais, por que a gente simplesmente não ouve ela, que tal?

e concordaram e se limitaram a ouvir a canção e prestar atenção na letra.

Seus olhos e seus olhares
Milhares de tentações
Meninas são tão mulheres
Seus truques e confusões
Se espalham pelos pêlos
Boca e cabelo
Peitos e poses e apelos
Me agarram pelas pernas
Certas mulheres como você
Me levam sempre onde querem

Garotos não resistem
Aos seus mistérios
Garotos nunca dizem não
Garotos como eu
Sempre tão espertos
Perto de uma mulher
São só garotos

sussurrava as palavras da música para que ninguém pudesse o ouvir cantando, algo que ele passou a odiar depois que Jadson o obrigou a cantar na frente de todo o time, então ele se limitou a murmurar as palavras, mas não pôde deixar de reparar que não tirava os olhos do palco e realmente estava aproveitando a música, a voz dela era audível mas não estridente e ele se sentiu levemente feliz por perceber que tinham algo em comum.

- Tô ficando louco - sussurrou para si mesmo mas se assustou ao ver que Bel, ao seu lado, olhou para ele.
- O que disse?
- Nada, só tô cantando - ele sorriu de lado.
- Eu não conheço essa música, mas gostei muito dela.

sorriu e aumentou um pouco a voz para que ela pudesse o ouvir cantando.

Seus dentes e seus sorrisos
Mastigam meu corpo e juízo
Devoram os meus sentidos
Eu já não me importo comigo
Então são mãos e braços
Beijos e abraços
Pele, barriga e seus laços São armadilhas e eu
não sei o que faço
Aqui de palhaço
Seguindo seus passos

Garotos não resistem
Aos seus mistérios
Garotos nunca dizem não
Garotos como eu sempre tão espertos
Perto de uma mulher
São só garotos...

Ele sabia que era verdade o fato de que estava encantado com a beleza dela. O jeito calmo e sutil que a garota falava acompanhada por um sorriso nos lábios dificultavam o trabalho de em não olhar para ela o tempo todo. Tentava prestar atenção no irmão no palco, mas a bela garota ao seu lado o deixava nervoso sem a menor explicação.

- Bela voz - Bel sussurrou e sorriu novamente, tentando agradecer, mas estava envergonhado o suficiente para não conseguir dizer nada.

olhou rapidamente ao ouvir a voz de Bel a tempo de ver sorrindo para ela. Até que o sorriso dele é bonito, ela pensou, mas não esboçou reação. Ela entendeu que um clima entre os dois era eminente e torcia para que Junior, do seu lado esquerdo, não percebesse naquele momento que o braço de estava esticado para o lado de Bel como se sua mão tocasse a dela por debaixo da mesa. não podia ver, mas imaginou que fosse exatamente isso que estava acontecendo ao ver que Bel abriu um sorriso para ele. sentiu o estômago revirar e se voltou rapidamente a olhar para Rony no palco. A ideia de que talvez, depois dali, e Bel pudessem se encontrar parecia um pouco sem nexo para ela, pois haviam acabado de se conhecer e ela também achou grande a diferença de idade deles, além de que Bel morava em outro estado e passava a maior parte do seu tempo dedicado ao time.

Meu Deus! Por que estou agindo como se realmente me importasse com isso? Ela pensou e percebeu que fez uma cara confusa, mas que por sorte ninguém notou.

Garotos não resistem
Aos seus mistérios
Garotos nunca dizem não
Garotos como eu
Sempre tão espertos
Perto de uma mulher
São só garotos...

Ao final da música, muitos aplausos foram ouvidos e então Ronald se levantou para fazer uma reverência. Ele deixou o violão de lado em seguida e pegou o microfone no pedestal.

- Uau! Esse deve ser meu show favorito até hoje - ele disse rindo. - Muito obrigado por terem vindo aqui hoje mesmo sem me conhecer... Bom, a próxima música vai fugir um pouco do que foi apresentado até agora, mas eu garanto que é muito conhecida. Eu escolhi ela porque mais de dez anos atrás o meu melhor amigo e irmão foi embora de casa na busca de realizar o sonho dele - ele olhou na direção de e viu que o irmão não sabia como reagir, estava apenas com uma expressão surpresa no rosto. - Não faz essa cara, , você sabe muito bem que eu tô falando de você... Só queria compartilhar com vocês que faz dois meses que eu não via o meu irmão e hoje ele está aqui, veio de outra cidade correndo pra me ver e ainda trouxe amigos - ele caminhou no palco até a mesa de atraindo todos os olhares para aquela direção. - Obrigado por ter vindo, obrigado aos seus amigos também, isso significa muito pra mim. Eu amo você, irmão, e sinto a sua falta todos os dias, mas tô feliz demais em ver você conquistando tudo o que sempre quis... Quando você foi embora de casa a nossa mãe ouvia essa música dia e noite e não parava de chorar, então eu quero que você se sinta em casa agora. Por favor, não dá risada por causa da música, juro que não encontrei outra melhor.

Rony se sentou no palco de frente para a mesa e começou a cantar

No dia em que eu saí de casa
Minha mãe me disse
Filho, vem cá!
Passou a mão em meus cabelos
Olhou em meus olhos
Começou falar

Por onde você for eu sigo
Com meus pensamentos
Sempre onde estiver
Em minhas orações
Eu vou pedir a Deus
Que ilumine os passos seus

À esta altura, Rony estava com seus olhos cheios de lágrimas enquanto cantava com a voz embargada pela emoção, então se levantou e começou a cantar alto o refrão para que as pessoas o acompanhasse e assim aconteceu.

tentava se manter firme contra à vontade de chorar, mas nunca tinha parado pra pensar naquela música e em como ela descrevia também o dia em que deixou o Rio Grande do Sul para ir viver em um alojamento em Santos, litoral paulista. Saiu de casa com treze anos e nunca mais voltou para ficar, mas mesmo depois de doze anos se lembrava daquele dia e do quanto chorou junto com sua mãe antes de ir. Foi difícil, mas ele achava que todo o sacrifício tinha valido a pena, pois ali estava ele no auge da carreira e bem sucedido, mas ainda com os pés no chão e a cabeça no lugar.

Ele então saiu do seu lugar e foi até o palco para se sentar ao lado de Rony que voltou a cantar mesmo com a voz embargada. Não se importava se estava no centro das atenções ou se tinha algum torcedor ali, pois ele estava com o seu irmão novamente e isso era tudo o que importava para ele naquele momento.

Ele viu que na sua mesa, Tobias e estavam com os celulares apontados para o palco tirando fotos e gravando o momento. se surpreendeu ao ver que as bochechas de estavam vermelhas, assim como nariz e olhos, sinal de que ela estava chorando. Ela olhou pra ele ao perceber o olhar dele pesar sobre ela e tentou secar a lágrima que escorreu quase que imediatamente, mas apenas sorriu para ela como se dissesse que estava tudo bem, que ele daria uma trégua naquele momento e ela pareceu entender, pois sorriu e se permitiu derrubar mais algumas lágrimas.

Ao final da música e sobre muitos aplausos e assobios, os irmãos se levantaram e se abraçaram forte por pelo menos dois minutos até se separarem, então se lembrou do presente e pediu para que Tobias jogasse a camisa no palco para ele. tomou a liberdade de pegar o microfone da mão do irmão e abriu a camisa para que todos vissem.

- Eu ia entregar depois, mas não me aguentei. Mais uma pra sua coleção. Pra quem não sabe, o Roniquito coleciona as camisas dos clubes que eu já joguei.
- Pra quem não sabe, o é jogador de futebol e é ótimo - Rony disse pegando o microfone de volta. - Eu adorei, obrigado.

percebeu que haviam alguns torcedores no bar com os celulares apontados para o palco, mas ao invés de se esconder, ele não se sentiu culpado, pois não viu nada de errado no que estava fazendo. Já Ronald pegou a camisa e vestiu, causando aplausos principalmente de torcedores corinthianos ali presentes.

- Obrigado, , eu amei. Agora vaza porque o show é meu e eu ainda não terminei - Ronald disse causando risos em todos, inclusive que concordou e desceu do palco.

Rony voltou para o meio do palco e começou a cantar uma música animada do Ed Motta enquanto todos na mesa de se viraram para ele.

- Isso foi lindo - Bel foi a primeira a falar. - Meu pai estava chorando e disse que ouviu essa música quando me mudei e também chorou.
- É verdade, nunca vai ser fácil ver um filho sair de casa - Junior concordou. - Não importa se é logo ali ou muito longe de casa, a sensação é a mesma.
- Por isso eu moro com os meus pais - disse por fim fazendo todos rirem.

⚽🖤📱

Após o fim do show, Rony foi muito aplaudido pelas pessoas presentes que também pediram pra tirar fotos com ele. , ao perceber que o irmão estava no centro das atenções, não ousou se levantar do seu lugar pois não queria chamar a atenção para si e embora alguns torcedores pedissem fotos com ele também, ele conseguiu se manter discreto.

Esperaram até o bar esvaziar para então Ronald e poderem se ver de verdade e apresentou seu irmão aos seus amigos.

- Vai ficar aqui até quando? - perguntou ao irmão.
- Até quarta-feira.
- Você poderia ir no jogo de quarta-feira - sugeriu empolgado. - É em Campinas mas fica a um pouco mais de uma hora daqui, não é muito longe.
- Eu vou ver o horário do voo de volta e te confirmo.
- Gente, eu não queria ser chato e atrapalhar, mas a gente tem que ir, tenho muito trabalho pra amanhã - Junior disse se colocando ao lado dos irmãos. - Mas foi um prazer, Rony, a gente se divertiu muito.
- Que bom que gostaram - Rony sorriu. - É melhor irem, não quero que cheguem tarde - ele olhou para . - Vou na sua casa amanhã, pode ser?
- É claro, pode ser.
- Ótimo, então até amanhã.

Após as despedidas, eles foram embora. se ofereceu para levar Tobias e para casa, mas quem dirigiu o caminho de volta foi Tobias, pois estava cansado o suficiente para não o fazer.

- Eu só quero a minha cama, não sinto as minhas pernas. - o jogador disse quando o carro já estava em movimento.
- Você vai chegar em casa, dormir imediatamente e acordar novinho em folha de manhã, não quero treinador e preparador físico falando que te levei para a farra - Tobias falou.
- Eu só me apresento de tarde pra fazer trabalho regenerativo na academia - disse bocejando em sinal de sono. - Tranquilo.

O caminho de volta até a casa de Tobias foi em silêncio. Ao chegar, quem tomou o volante foi até a própria casa. Para manter acordado, ela procurou manter assunto com ele. Era estranho, pois ainda tinha aquela pulga atrás da orelha como qualquer outro torcedor, mas estava se mostrando ser uma boa pessoa e ela já não tinha mais certeza se o odiava mesmo ou apenas estava brincando.

- O seu irmão parece ser bem legal.
- Com certeza. Ele é mil vezes mais legal do que eu.
- Disso eu não tenho dúvidas - os dois riram. - Ok, talvez eu não te odeie tanto assim. Você até que é legalzinho e cria umas jogadas legais.
- Minha nossa senhora, é o fim do mundo, você me elogiou.
- Não abusa, . Ainda pareço um pinscher com raiva pra você?
- Às vezes - ele riu. - Mas se você estiver disposta a ceder, então eu vou ceder também e paro de implicar com você.
- Ok, vou te deixar em paz um pouco.
- Eu agradeço.
- Então já que a gente não se odeia mais, preciso te perguntar uma coisa porque a curiosidade matou o gato.
- Pergunte.
- Tá interessado na Bel?
- O que? De onde você tirou isso?
- É que tava meio na cara - ela riu um pouco envergonhada por tocar no assunto. - Tipo, você tava babando nela.
- Estava tão óbvio assim?
- Com certeza estava.
- Ah... Bom... Ela é linda, né? Foi inevitável não olhar para ela de vez em quando.
- Inevitável vai ser o soco que você vai levar do Junior depois - ela riu. - Só seja discreto.
- Não é porque eu gostei dela que vá acontecer alguma coisa. Só quer dizer que achei ela bonita. Meu único foco é minha carreira.
- Ótimo, porque um errinho seu que prejudique o time e eu volto a te odiar.
- Muito obrigado pela parte que me toca, .

Eles continuaram conversando até chegar à casa de . À esta altura, não estava mais com sono e podia se manter acordado até chegar em casa, então saíram do carro para ele ir para o volante.

- Droga, esqueci a chave - murmurou e foi até o portão chamar pela mãe. - Você pode ir se quiser.
- De forma alguma - ele se apoiou no carro e cruzou os braços. - Eu vou esperar.
- Ah, nossa! Que gentil! Se o bandido for assaltar a gente, vai fazer o quê?
- Do pescoço pra baixo, pra mim é canela - riu, mas revirou os olhos. - Eu só não acho certo te deixar sozinha do lado de fora.

ia responder, mas sua mãe chegou em tempo para abrir o portão.

- , acho que você não tem mais idade para ficar esquecendo a chave de casa quando for chegar tarde - a mulher disse abrindo o portão.
- Foi mal, mãe, saí atrasada - ela se virou para . - Valeu.
- De nada, e na próxima vez que esquecer a chave, vai ficar trancada pra fora - respondeu usando o mesmo tom de voz da mãe de e riu, em seguida olhou para a mulher. - Está entregue.
- Obrigada - ela agradeceu sorrindo e assentiu com a cabeça, então entrou no carro.
- Ei, , se puder me mandar as fotos, eu agradeço.
- Ok, vou mandar.
- Valeu.

ligou o carro e foi embora enquanto entrou em casa fugindo do olhar curioso de sua mãe.

- Não me olha assim, dona Rose.
- Ele é jogador, não é? Assisti o jogo de hoje com o seu pai.
- É, mas não é nada do que você tá pensando, não estou saindo com jogador nenhum.

explicou todo o contexto para sua mãe e ela acreditou, mas o fato de que um homem trouxe em casa deixou a sua mãe empolgada até demais.

- Não queria dizer nada, mas ele é muito bonito.
- O ? Credo, mãe, ele é muito chato - torceu o nariz, mas o olhar firme de sua mãe a fez ceder. - Ok, ele é bonitinho e com um sorriso de dar inveja, mas e daí? A gente briga desde o dia em que ele chegou no time. Ser bonito ou não, não vai mudar nada.
- Ele parece ser tão educado, até ficou esperando eu abrir o portão. Isso é raro hoje em dia.
- Mãe... Para... Não tenho nada com o , é sério...
- Não estou dizendo que tenha, mas eu não acharia ruim se tivesse.
- Muito obrigada pela bênção e boa noite.

subiu as escadas rapidamente até o seu quarto para trocar de roupa. Colocou o seu pijama mais confortável e se deitou na cama. Se lembrou de mandar as fotos e vídeos para antes de dormir, embora não tivesse certeza se ele iria responder. Para a sua surpresa, ele respondeu agradecendo.

"Valeu, ficaram ótimas"
"Custa 100 reais"
"Sua mercenária, não vou pagar nada kkkk"
"Se você fizer um gol na próxima partida, não vou cobrar"
"Faço até três... Preciso ir dormir, tô exausto... Boa noite, , vê se não esquece a chave de novo"
"Kkkkk pode deixar, boa noite"


deixou o celular de lado carregando e, quando se deu conta, estava rindo no escuro por causa da mensagem dele. Não sabia o que era mais improvável, ela esquecendo a chave ou achando que não era tão ruim assim, pior ainda era sua mãe insistindo na aparência dele, algo que nunca realmente prestou atenção.

Quando se deu conta das suas ações de novo, estava novamente olhando o Instagram dele e reparando melhor dessa vez, ela olhou mais para as fotos em que ele estava modelando para a Umbro durante apresentações de uniformes do Grêmio na temporada anterior e também notou que no meio de todas aquelas fotos não havia nenhuma com garotas que não fossem da família. Ele parecia ter uma vida bem discreta quanto a isso.

- Ok, ele definitivamente não é feio - ela falou baixo para si mesmo olhando para as fotos. - Mas que porra eu tô fazendo?

Ela deixou o celular de lado quando percebeu o que estava fazendo e se sentiu ridícula. Por mais que tivesse feito as pazes com ele, não achava que era necessário ir direto nas redes sociais dele e olhar foto por foto.

- Mas ele não é feio - ela riu consigo mesmo novamente. - Acho que eu tô pirando. Maluquinha...

⚽🖤📱

No dia seguinte, se apresentou no CT logo após o almoço e foi direto para a academia onde o time titular iria passar a tarde fazendo o trabalho regenerativo. Cumprimentou alguns colegas que o parabenizaram pela jogada que originou o gol e também o preparador físico quando foi parado pelo seu treinador.

- Vem aqui, , quero falar com você em particular.

sabia que era de se preocupar quando um treinador dizia isso, mas pelo tom de voz calmo e postura de Fabio Carille, ele teve a sensação de que não iria tomar uma bronca.

Eles foram até o fundo da academia e o técnico mostrou para sua prancheta.

- Olha isso. As áreas em vermelho são onde você mais atuou ontem, pelo lado esquerdo e mais perto do ataque do que do meio de campo.
- Bom, eu...
- Eu não acho isso ruim, - Fabio interrompeu antes que pudesse se explicar. - Se você fosse atacante, é claro... Eu fui dormir tarde ontem e passei uma parte da manhã vendo uns jogos seus. Vi um jogo na base dos Santos, depois no profissional, um pelo Rosário e um no Grêmio... , você não nasceu pra ser meio-campista.
- Mas eu jogo no meio campo desde...
- Desde o primeiro ano no Grêmio, eu sei, mas antes disso você era atacante e eu fiquei impressionado. Eu já tinha percebido que você é mais ofensivo do que marcador.
- Eu cheguei no Grêmio como atacante, mas o treinador me colocou de improviso no meio-campo e eu acabei ficando, tomei gosto.
- Isso é ótimo, que bom que você é flexível, mas nesse time você se encaixa muito melhor no ataque. Você é criativo, tem visão de jogo, e por mais que seja um bom marcador, você é muito ofensivo e eu gosto disso - ele virou a folha e mostrou o esboço. - Quero você no ataque como o meu ponta-esquerda.

observou melhor e viu seu nome formando a linha de ataque. Ele, pelo lado esquerdo, podendo ser substituído por Clayson ou Sornoza, Jadson ou Vital pelo meio e Pedrinho do lado direito.

- Você acha que eu consigo?
- Eu tenho certeza, com isso o time vai ficar mais ofensivo. Eu acho que vai dar muito certo você e o Pedrinho pelas pontas porque tanto o Gustavo quanto o Mauro e o Vagner são bons finalizadores, vão ter entrosamento com vocês. Eu não te colocaria nessa posição se eu não tivesse certeza, .
- Então tudo bem, eu posso jogar de ponta se for melhor para o time.
- Perfeito. Amanhã você vai começar a treinar pela frente, eu vou desenvolver algumas atividades pra você se acostumar.
- Obrigado, professor, vou dar o meu melhor.
- Assim espero.

A tarde foi tranquila para o elenco regular que passou o tempo na academia enquanto os reservas treinaram em campo e, quando já estava anoitecendo, foram liberados. não perdeu tempo e foi o mais rápido que pôde para sua casa afim de receber Ronald em tempo. Ele tomou um banho rápido, ligou para o irmão para passar o endereço e naquele meio tempo ele ainda teve tempo de ligar para Bel, pois haviam trocado os telefones na noite anterior.

- Meu pai reservou um quarto pra mim no mesmo hotel, então eu vou poder ver o jogo na quarta-feira.
- Isso é ótimo, que bom que ele conseguiu.
- Bom vai ser se você fizer um gol, então talvez a viagem vai ter valido à pena.
- Você e a estão me pressionando, não tô gostando disso - disse rindo. - Agora eu tenho a obrigação de fazer um gol.
- Por que a ?
- Ah... Foi uma aposta, uma brincadeira... Ela tirou umas fotos no bar e cobrou cem reais ou um gol pelo serviço.
- E o Corinthians paga tão mal assim pra você não querer pagar cem reais pra ela? - os dois riram.
- Não, o teto salarial do clube é ótimo, mas pra mim cem reais ainda é cem reais e eu não vou pagar por isso.
- Seria indelicado eu perguntar o valor do teto?
- Não - ele sorriu mesmo que ela não visse. – Mais de meio milhão para jogadores como o Cássio, Boselli ou o Gil.
- E você?
- Eu não posso falar, mas é menos do que isso e menos do que eu recebia no Grêmio... Foi mal, eu não posso ficar falando de valores com ninguém.

podia, mas não gostava de falar sobre os valores. Chegou no Corinthians beirando o teto salarial, mas ninguém sabia disso além do seu empresário e sua família, então ele não via razão para divulgar.

- Tudo bem, eu entendo.
- De qualquer forma, se eu fizer uma temporada acima da média, eu recebo um aumento no ano que vem, tudo depende de mim.
- Então eu espero que você consiga.
- Depende... Se eu tiver uma torcida me apoiando, talvez eu possa melhorar.
- É por isso que eu vou na quarta-feira.

Eles continuaram conversando mais um pouco até Rony chegar. desligou o telefone e desceu imediatamente até a portaria do edifício para receber pessoalmente o seu irmão.

- Definitivamente, aqui não se parecesse em nada com a nossa casa em Porto Alegre - Rony disse quando pegaram o elevador. - Eu deveria ter virado jogador também.
- Lembra que a gente dividia um quarto minúsculo? Depois que eu fui embora deve ter sobrado mais espaço.
- Ah, claro! Só se for mais espaço pra eu chorar escondido. Era eu chorando em um quarto, a Cida em outro e a nossa mãe na cozinha.
- E eu no alojamento do Santos - riu, embora aquilo ainda fosse uma lembrança dolorosa. - Mas valeu a pena.
- É claro, agora você é do meio-campo de um dos maiores times do Brasil. Eu tô muito orgulhoso.
- Obrigado, mas não sou mais meio-campista - ele tentou conter um sorriso, mas falhou. - Fui promovido a atacante. Ponta esquerda.
- Meu Deus! Quando isso aconteceu?
- Hoje, o professor me fez a proposta porque acha que eu sou muito ofensivo para ficar no meio campo e quer me testar no ataque.
- , isso é incrível! Meus parabéns, você merece demais.
- Valeu, valeu... Bom, agora é trabalhar em dobro, não é? Não posso decepcionar.
- Não se preocupa, vai dar tudo certo.

Eles chegaram ao penúltimo andar onde morava e entraram. mostrou para o irmão toda a casa, inclusive o quarto que ele preparou para abrigar sua coleção de camisas de times internacionais e seus troféus e medalhas que ganhou ao longo dos seus oito anos como profissional.

- Não canso de admirar - Ronald disse olhando os troféus. - Quantos faltam?
- Quatro, mas considerando que eu quero muito ganhar o Paulistão, então faltam cinco. Então falta o Paulistão, Brasileirão e, se me permite sonhar alto, Champions League, Mundial de Clubes e Copa do Mundo.
- Acho que você é capaz.
- Talvez, mas não dá pra ganhar uma Champions League no Corinthians - eles riram. - Eu tô amando ficar aqui, mas... Você sabe, meu sonho é jogar na Europa e eu já tô ficando velho pra isso. Tenho medo de não conseguir.
- Todas as coisas têm o seu tempo, , só se mantenha firme no seu objetivo.

Eles passaram as horas seguinte conversando, bebendo cerveja e jogando vídeo game até Ronald decidir ir embora para que pudesse descansar. Embora tivesse ido embora de casa muito cedo, sua relação com o irmão nunca foi abalada. Eram como melhores amigos inseparáveis, um sempre apoiaria o outro e isto nunca iria mudar.

Devido aos anos separados, não podia se ver sempre. Nos tempos de Grêmio, foi fácil para manter a família perto, visto que as casas ficavam no mesmo condomínio, mas tudo parecia um tanto mais difícil agora. Amava a cidade de São Paulo, passou a respeitar e gostar do Corinthians como um grande clube, se sentia em casa, mas trocaria tudo aquilo por mais momentos em família, tentando compensar os anos perdidos vivendo em um alojamento e também na Argentina. Chegou ao Grêmio com apenas vinte anos de idade, mas os anos longe fizeram com que tudo fosse muito mais intenso de lidar.

- Ah! Já ia me esquecendo! - Rony parou ao abrir a porta. - Com qual das duas meninas você tá ficando?
- O que? Que horror, Rony! Com nenhuma das duas, se quer saber.
- É sério? Parecia que elas estavam competindo pelo olhar.
- Como assim competindo?
- Nossa, , como você é devagar - Rony riu. - Bel e , certo? - concordou. - Você estava olhando pra Bel e ela pra você, mas a simplesmente não tirava os olhos de você.
- A ? Ok, Ronald, você pirou. É real e oficial, vou ligar pro hospício.
- Qual é, ? Eu sei o que eu vi! Era aquele olhar... Aquele de quando a pessoa que você tá olhando chama a sua atenção de uma forma... Diferente. Mais do que você gostaria, na verdade. Mas acho que você já está ocupado com a Bel.
- Não aconteceu nada entre a Bel e eu... Ainda - ele deu de ombros. - E quanto à , você tá ficando louco. Ela faz questão de me tirar do sério desde o momento em que eu pisei em São Paulo.
- A gente só faz isso quer chamar a atenção de alguém, você sabe.
- Ok, ok. Eu entendi que arraso corações... Você fala tanta merda que eu já ia me esquecendo também - colocou a mão no bolso e pegou os ingressos do jogo para entregar ao irmão. - Aqui, ingressos pro jogo de quarta-feira pra você levar a banda também.
- Valeu, cara.
- Vem, eu te levo até lá em baixo.

Eles saíram juntos do apartamento e acompanhou o irmão até a portaria. Eles não sabiam se ainda iam se ver após o jogo, então se despediram com um abraço apertado e Rony foi embora, enquanto subiu novamente e tratou de preparar a mala para a viagem do dia seguinte para Campinas pela manhã.

Enquanto preparava a mala com roupas o suficiente para dois dias, refletia seriamente sobre as palavras do irmão, mas não conseguia ver a lógica no meio de tudo, afinal, tinha um interesse físico em Bel, mas nunca tinha realmente notado as características físicas de para além da habilidade dela com uma bola no pé, que por acaso, ele achava incrível uma mulher ter um domínio perfeito como o dela, algo pouco comum na opinião dele.

- Será mesmo? - perguntou para si próprio mais alto do que gostaria ao cogitar a hipótese que algo além de ódio e rancor habitasse no coração da ex-jogadora - Não, sem chance... Ou talvez? Meu Deus, , só cala a boca.

Tentando ignorar os próprios pensamentos, terminou de fazer a mala e logo em seguida ligou para sua irmã afim de poder falar com suas sobrinhas também e matar a saudade do restante da família. Ele contava os dias para poder ir ao Sul e visitar seus parentes, mas enquanto isso não acontecia, se contentava com vídeo chamadas e ligações, afinal, sempre concordou com o ditado que diz que o lar é onde o coração está e naquele momento seu coração estava dividido entre São Paulo e Porto Alegre. Sendo assim ele tinha dois lares para chamar de seu e, naquele instante, o lar e a recepção sulista pareciam ser tão convidativos quanto o paulista. Ele mal podia esperar para voltar.



Continua...



Nota da autora: DEIXA EU CONTAR COMO SURGIU ESSE CAPÍTULO! Minha mãe estava assistindo altas horas e eu escrevendo no quarto, comecei a ouvir ela cantando alto a música do Zezé de Camargo e pensei: eu PRECISO escrever isso. Esse foi o resultado hahaha pensei mil vezes nesse capítulo e como eu poderia melhorar, mas acho que fiquei satisfeita com o resultado. Amei a Bel e a pp espreitando os dois pelo canto do olho ahahahah muito eu na vida.
Quero muito agradecer por sempre deixarem comentários e interagirem com a história, muito obrigada por terem dado uma chance pra minha fic. Sei que tem tantas outras fanfics boas no site e com times relativamente maiores como o Real Madrid, mas eu dou pulinhos de alegria com cada comentário recebido, significa demais pra mim! Tudo o que faço é por amor às fanfics e também ao Corinthians, encontrei uma maneira de juntar duas coisas que amo e tô amando o retorno. Muito obrigada mesmo! Ainda tem muita história pela frente e os próximos capítulos são os meus preferidos, espero que gostem também.
Pra finalizar, vamos desejar boas férias pra Carol porque ela merece ahahahah valeu muito pelas dicas! Então esse mês vai ser um pouquinho mais longo, mas a partir do próximo capítulo, os updates passarão a ter um padrão.

Nota permanente:
Desde já, peço desculpas se em algum momento você possa ter se sentindo ofendido (a) com algo relacionado ao seu time caso ele tenha sido mencionado em algum momento da narração. Apesar de a fic se passar no Corinthians, eu tento ser o mais imparcial possível para não ofender ninguém, afinal, o que importa mesmo é o nosso amor pelo futebol. Lembre-se: rivais sim, inimigos nunca. ☺



Nota da Scripter: Ahhh! O que dizer desse capítulo? Com certeza o meu favorito até agora. A cena deles no bar da Augusta, a Anna chegando em casa. A visita do Rony. Já estou amando todos os novos personagens. E Lucas, deixa a Bel pra lá porque além de ter a nossa Anna, ainda vai levar um soco. Do Junior.

Essa fanfic é de total responsabilidade da autora, apenas faço o script. Qualquer erro, somente no e-mail.


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