Última atualização: 16/07/2019
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Prólogo

Pulei na cama quando o despertador tocou o refrão de Love de um trio de meninas que estourou durante a copa e só tive vontade de jogar o celular lá embaixo e dormir por mais alguns minutos, pena que eu não podia. Precisava me arrumar e ir trabalhar. Era segundona de novo, o fim de semana já tinha acabado e era hora de voltar à realidade de novo.
Joguei o lençol para o lado e saí ainda um pouco cambaleante da cama, desligando o ventilador em cima da minha escrivaninha e segui direto para o banheiro. Tomei um banho rápido o suficiente para me despertar e molhar um pouco. Não estava no pique para lavar o cabelo e o sol que já entrava pela janela do banheiro denunciava o inferno do Rio de Janeiro, mesmo que estivéssemos no outono.
Saí do banheiro checando se a porta de Bernardo ainda estava fechada e me arrumei rapidamente com as mesmas roupas que eu usei durante esses quase 50 dias de trabalho, treinamento e Copa do Mundo. Só optei por tênis nos pés dessa vez, acho que havia abusado do meu poder de usar saltos e não queria senti-los em meus pés tão cedo.
Passei um lápis e um batom, só para não falar que eu não passei nada e fiz um alto rabo de cavalo. Com tudo pronto, comecei a juntar todas as coisas que deveria devolver na CBF hoje, diversos aparelhos eletrônicos: notebook, iPad, celulares, câmeras, cartões, HDs e outras coisas que eu me responsabilizei durante a Copa e fechei muito bem a mochila também da empresa.
Peguei meu celular quase escondido embaixo do travesseiro e o desbloqueei, encontrando a conversa do WhatsApp ainda aberta em Alisson e algumas mensagens não lidas:
“Você dormiu, fiquei encarando o teto por alguns minutos até perceber isso. Durma bem, meu amor. Te amo”. – Sorri com essa mensagem e ri fracamente, provavelmente acabei soltando o celular eventualmente. Passei para a próxima que tinha embaixo.
“Bom dia! Você deve acordar só em algumas horas, mas estamos voltando para a Itália, preciso organizar algumas coisas antes de ir para Sardenha, queria que estivesse aqui. Bom trabalho hoje, pensa que em menos de dois meses estaremos juntos novamente”. – Soltei um suspiro involuntário, erguendo meus olhos para a data e percebendo que era dia nove de julho ainda, eu o veria só em setembro agora, se tudo desse certo. Soltei um longo suspiro e digitei para ele novamente.
“Segundona e a realidade já bateu forte pelo fato do meu quarto não ser um hotel cinco estrelas e você não estar ao meu lado. Como faço para voltar? Partiu CBF, conversa de vídeo mais tarde?” – Escrevi e guardei o celular dentro da bolsa.
Fiz um café de máquina rapidamente enquanto chamava o Uber. Não estava a fim de andar pelo coletivo do Rio com mais de 30 mil reais em equipamentos eletrônicos comigo, então me permiti ter preguiça por mais uns minutos e fui de carro para o trabalho. Assim que cheguei lá, sorri feliz. Eu estava feliz com esse trabalho, ele tinha me proporcionado a viagem mais incrível da minha vida e, de quebra, eu tinha encontrado um namorado.
Agradeci ao motorista, juntei minhas coisas e segui para dentro do prédio, mostrando meu crachá na portaria e segui pela entrada, vendo que ali estava incrivelmente comum. Nem parecia que havíamos passado por uma Copa do Mundo e que ainda tinha alguns dias para ela acabar. Meu sorriso se alargou quando encontrei Lucas esperando o elevador.
- Bom dia! – Falei e ele sorriu, passando os braços pelos meus ombros.
- E aí, garota? Como você está? – Ele perguntou e eu suspirei.
- Cansada! Fuso-horário está matando e os horários do Alisson ainda me enlouquecem. – Ele riu fracamente.
- Como está depois da Rússia? – Ponderei com a cabeça.
- Conversamos quando dá, ele está tendo muitas reuniões com os empresários dele sobre Liverpool, mas é recente ainda, o calor ainda está forte, vamos ver quando voltarmos para a rotina. – Dei de ombros, entrando no elevador junto dele.
- Relacionamento à distância já é foda, ainda mais depois do calor da Copa. – Ri fracamente.
- Não me faça querer te bater logo no primeiro dia, Lucas. – Aproximei meu rosto do dele. – Além de que o campo está minado, fala baixo.
- Você acha que eles ainda não sa...
- Xí! – Falei rapidamente e o elevador se abriu na comunicação de novo.
- Depois a gente conversa melhor. – Ele falou e eu assenti com a cabeça.
- Ei! – Nos assustamos com bexigas estourando quando entramos na sala da comunicação e nos entreolhamos rindo.
- Ei, o que está acontecendo aqui? – Perguntei, sentindo Michele me abraçar rapidamente e outros colegas de trabalho nos cumprimentarem.
- Bem-vindos de volta! – Michele falou sorrindo. – De volta à realidade!
- Argh! – Eu e Lucas gememos juntos e eles riram.
- Queremos saber tudo, mas vamos devagar. – Michele falou.
- Eita, que festa! – Vinícius apareceu pela porta e o pessoal gritou animado também, nos fazendo rir e eu abracei fortemente meu grande companheiro.
- Como você está? – Cochichei e ele sorriu.
- Tudo certo. E você? – Ponderei com a cabeça.
- Indo! – Sorri e ele riu.
- Espero que não estejamos perdendo a festa! – Bianca e Angelica apareceram juntas e nós rimos, dando de ombros.
- Bem-vindos de volta, gente! – Michele falou. – Temos que organizar muitas coisas antes de vocês voltarem a trabalhar normalmente, mas antes gostaria de falar individualmente com cada um de vocês, pode ser? – Nos entreolhamos, assentindo com a cabeça.
- Claro! – Dei de ombros.
- Se importa em começar, ? – Arregalei os olhos.
- Não, claro que não! – Me livrei rapidamente das minhas coisas na mesa e a segui para a sala dela, abraçando e beijando rapidamente Bianca e Angelica que estavam no meio do caminho.
- Sente-se, ! – Michele falou e eu fechei a porta, seguindo-a até sua mesa. – Como você está?
- Extasiada! – Falei rindo e sentei-me. – Difícil acordar e perceber que não estou em um quarto cinco estrelas, com um café magnífico e aquele clima Copa na cabeça. – Ela riu fracamente.
- Eu entendo esse sentimento, é horrível. – Assenti com a cabeça. – Se tivéssemos ganhado as situações mudariam de figura, mais trabalho, mais folgas, ainda aquele clima Copa, mas por causa da derrota... – Ela abanou a cabeça. - Enfim, ficamos bem tristes aqui. Imagino como tenham sido para vocês.
- Bem depressivo! – Falei rindo fracamente. – Mas não sei, alguma coisa me dizia que ia acontecer, eu ficava mais nervosa que o normal, os sentimentos ainda estavam amplificados, eu estava totalmente dedicada... Parece que estourou um balão e acabou. – Ela assentiu.
- É o clima Copa, ele deixa tudo amplificado, é normal. – Assenti com a cabeça. - Mas bem, teremos outras oportunidades em breve. Eu queria falar contigo rapidamente sobre três coisas.
- Ok. – Falei.
- A primeira é sobre a experiência Copa, temos uma pesquisa que gostamos de fazer com quem foi para alinhar as informações. Sei que vocês têm o relatório da última semana para entregar ainda, mas já queremos alinhar tudo e dar como encerrado esse ciclo.
- Ok, sem problemas. Eu faço assim que me organizar. – Ela assentiu com a cabeça.
- A segunda coisa é sobre você. – Franzi a testa. – , você não tem noção de como os relatórios da equipe técnica foram positivos sobre você. – Sorri. – Eles adoraram muito a sua presença na Copa, na Granja, nos treinamentos, Tite diz que não via algo assim há muito tempo, você conseguiu fazer até com que Bianca, que é meio retraída, se abrisse. Eles adoraram você. – Mordi meu lábio inferior. – Os jogadores disseram que se sentiram muito confortáveis com sua presença e que suas brigas e conselhos os ajudaram muito a pensar nisso de outra forma... – Ela riu fracamente. – Eu estava com medo em mandar alguém tão novo para algo tão importante, mas foi muito melhor que a encomenda.
- Obrigada, Michele! – Assenti com a cabeça. – Eu adorei cada momento disso.
- Depois eu te passo os relatórios para você ler, tem da equipe técnica, dos jogadores, está bem bacana. – Assenti com a cabeça. – Por isso, eu tenho uma oferta para te fazer.
- Oferta? – Perguntei receosa.
- Sim. – Ela sorriu.
- Você entrou aqui como social mídia, responsável por cuidar das redes sociais da CBF. Durante a Copa, precisamos de uma assessora e você aguentou o tranco muito bem e, agora, caso você aceite, gostaríamos de te promover à Assessora Chefe de Viagens Internacionais. – Arregalei os olhos.
- Isso existe? – Ela riu fracamente.
- Existe, é o que Angelica e Bianca são. Elas cuidam da parte geral de assessoria das seleções e acompanham durante viagens. – Suspirei.
- Uau! – Ri fracamente.
- Claro que seu trabalho muda, tem alteração nas responsabilidades, o salário aumenta, além das diárias de viagens que também são mais frequentes... Aceitando essa posição, você fica responsável não só pela assessoria e acompanhamento da Seleção Masculina Principal, mas também pela feminina, sub-15, sub-17, sub-20 e alguns torneios estaduais importantes... – Suspirei.
- Meu Deus, Michele. – Ri fracamente. – Tem certeza? – Falei. – Digo, eu estou aqui há menos de dois meses, é loucura pensar que não existem outra pessoa melhor para isso.
- Acredite, eu pensei muito nisso. – Ela sorriu. – Todos os relatórios que eu recebia tinha seu nome nele e sempre de forma positiva. – Relaxei na cadeira. – Nem o chefão da CBF conseguiu discordar. Você seria uma ótima escolha. – Suspirei.
- Oh, meu Deus! – Rimos juntas. – Sim, é claro que sim! Você está me oferecendo assessoria da Seleção que é a coisa que eu mais amo nessa área e ainda acompanhamento em viagens, eu não posso negar. Eu me jogaria da ponte Rio-Niterói se negasse. – Ela sorriu.
- Parabéns, então! – Sorrimos. – Depois de todas as reuniões, eu vou falar mais detalhadamente contigo sobre a vaga, principalmente porque Angelica deve se aposentar das viagens, já que ela também completou três Copas do Mundo, chega uma hora que cansa, sabe? – Assenti com a cabeça.
- Entendo. E o que é a terceira coisa? – Ela suspirou.
- É um pouco mais complicada. – Tive receio. – Alisson Becker.
- Oh! – Reagi e ela assentiu com a cabeça. – Você já está sabendo?
- Já sim! – Ela falou.
- Me desculpe, Michele. Eu não sei o que aconteceu, ele me cantou, eu devolvi, as coisas foram aumentando, até que eu me vi apaixonada por ele. – Ela sorriu.
- E foi retribuída, pelo jeito. – Assenti com a cabeça. – Eu não estou aqui para te julgar, principalmente porque não é a primeira vez que acontece.
- Mesmo? – Perguntei animada.
- Roberto Carlos, Copa de 2002, longa história. – Ri fracamente. – Mas não acabou bem. – Ela abanou a cabeça. – Enfim, eu não estou aqui para falar o que você fez de certo ou errado, eu só quero que você seja discreta, ok?! – Assenti com a cabeça. – Vocês passaram 50 dias juntos, os sentimentos estavam à flor da pele, mas agora serão quase dois meses sem se ver, imagino eu, então analise essa situação com cuidado, ok?! Veja se esse relacionamento vai para frente, se esse garoto realmente está comprometido ou se era só algo Copa. – Assenti com a cabeça. - Depois, quando tudo isso estiver decidido, vocês podem abrir para o público, pode ser? Prometo que ajudarei no que for necessário para que isso dê certo sem afetar as vidas profissionais de ambos.
- Obrigada, Michele! – Falei honesta. – Eu estou um tanto receosa sobre isso tudo, lá na Rússia foram juras de amor e de comprometimento, mas é o que você falou, 50 dias juntos, agora que as coisas realmente vão começar. – Ela assentiu com a cabeça.
- Agora é a vida real. – Suspirei. – Mas vá com calma, veja como esse relacionamento vai andar e me avise, ok?! – Assenti com a cabeça.
- Pode deixar. – Sorri.
- Bom, o que eu tinha para falar é isso. Pode ir ajeitar suas coisas, mais tarde nos falamos. – Me levantei. – Pode chamar o Vinícius, por favor?
- Claro! Obrigada! – Falei e ela assentiu com a cabeça.
Saí da sala, vendo a pequena festinha na parte de fora, com alguns salgadinhos e guloseimas para petiscar e senti que estava com fome. Peguei um pedaço de bolo de cenoura e me aproximei de Vinícius.
- Sua vez! – Falei e ele assentiu com a cabeça, arrastando sua cadeira de rodas e se levantando em seguida.
- E aí, como foi? – Lucas perguntou, bebendo um gole de refrigerante.
- Foi bem interessante. – Falei rindo.
- Eita!
- Foi bom, mas teve o papo Alisson no meio. – Abanei a cabeça e ele riu fracamente.
- Você não ia conseguir fugir dessa.
- Sabia, mas achei que demoraria mais. – Ele riu.
- Almoçamos juntos? – Ele perguntou e eu assenti com a cabeça. – Você aproveita e conhece minha família.
- Combinado! – Falei rindo e ele assoprou uma língua de sogra em minha frente, me fazendo gargalhar e puxá-la de sua boca. – Me dá esse pão de calabresa aí, vai! – Apontei para o prato na sua lateral e ele me passou o mesmo.
- Come, come bastante que isso é saudade de casa. – Rimos juntos e neguei com a cabeça.



Capítulo 1: Voltando à Realidade

- Como foi acordar essa manhã? – Bianca perguntou quando bocejei pela terceira vez naquela manhã.
- Triste. – Fui honesta e ela riu. – Eu não estava uma cama king size, eu não estava mais na Rússia e eu não tinha um cara lindo fazendo carinho em minha cabeça.
- Balde de água fria, hein?! – Suspirei.
- Sim, mas ok, eu ainda tenho o melhor trabalho do mundo e acabo de ser promovida. – Rimos juntos.
- Vai ter bom te ter na nossa equipe, . – Angelica apareceu e eu sorri. – Apesar de que você já faz parte dela há um tempinho. – Rimos juntas.
- Ouvi dizer que não vai trabalhar mais com a gente. – Falei, girando a cadeira.
- Internamente sim, só não vou mais em viagens, vou colocar a Diana para ir com vocês. – A morena acenou e sorrimos de volta.
- Oi, Diana! – Falamos juntas, acenando para ela.
- É bom que essa turma de mulheres se mantenha firme. - Ela disse.
- Vai sim, em um mundo machista como o do futebol, precisamos fazer tudo para que as mulheres ganhem espaço. – Bianca disse e eu pisquei, sorrindo.
- Bom, vamos trabalhar? – Angelica falou após engolir mais um pão de queijo e rimos.
- O que eu faço? – Perguntei, me levantando da cadeira que eu ocupava de Lucas, já que ele estava falando com Michele.
- Vem conversar comigo antes. – Angelica estendeu a mão e eu me levantei, sentindo Vinícius me abraçar rapidamente pela cintura quando passei por ele e a segui até a sala dela.
Era uma sala tão grande quanto a de Michele, mas diferente da nossa chefe, tinha várias mesas e computadores para que pudéssemos trabalhar juntos. Poucas vezes o pessoal dessa área ficava alocado na CBF, então era bem bacana ter um espaço diferente.
- Senta, . – Ela disse e eu me sentei em frente à uma mesa. – Primeiro de tudo: feliz com seu novo cargo?
- Feliz? Eu estou nas nuvens, Angelica! Isso é incrível! – Falei rindo fracamente. – Como isso aconteceu? – Ela somente piscou. – Você?
- , eu e a Bianca, tirando os meninos, vimos de perto seu auxílio na Copa do Mundo, como você desenrolou todos os trabalhos que foram jogados a você sem ter medo de errar ou de tirar dúvidas. Não tinha como você não vir para essa equipe. – Ela suspirou. – Além de que eu quero ajudar você e o Alisson a fazer isso dar certo. Eu o conheço desde a primeira convocação, ele é uma ótima pessoa e eu tenho certeza que vai valorizar esse relacionamento de vocês. Então, por que não unir o útil ao agradável e ajudar vocês a fazer esse relacionamento dar certo? – Ri fracamente.
- Mas mesmo assim, Angelica. Isso é loucura! Eu estou aqui há dois meses. E detalhe: já fui promovida duas vezes.
- Mostre seu valor que devolveremos na mesma moeda ou em alguma melhor. – Ela deu de ombros.
- Quem disse isso? – Perguntei.
- Um antigo treinador que eu conheci há alguns anos. Você chegou humilde e foi mostrando que merece esse trabalho, porque não? Além disso, um “obrigada” já seria o bastante. – Suspirei convencida.
- Obrigada, Angelica! Isso significa muito para mim. – Ela assentiu com a cabeça.
- Agora sim! – Rimos juntas. – Bom, a Michele pediu para eu te explicar como funciona esse trabalho, mas não é nada diferente do que fazíamos lá na Rússia, só que em todas as viagens que fazemos, tanto com a seleção masculina, quanto a feminina e as sub-15, sub-17 e sub-20 dos dois gêneros. – Assenti com a cabeça.
- Legal! – Falei sorrindo.
- Muito legal! Só que, diferente da Copa, aqui a gente vai cuidar de tudo e de todos ao mesmo tempo. Nós temos mais algumas pessoas na equipe, junto do pessoal da foto e da filmagem, e precisamos de equipe em todas as competições, amistosos, torneios e treinamentos que podem haver. Isso nacional ou internacional. – Assenti com a cabeça. – Ou seja, amanhã posso te mandar para o Ceará para acompanhar o Campeonato do Nordeste, depois você pode ir para França acompanhar a seleção feminina, depois ir para o Catar com a masculina e ver Grêmio e Internacional em Porto Alegre. – Arregalei os olhos. – É bagunçado assim.
- Pelo menos é agitado, adoro coisas agitadas. – Ela riu.
- Me diga novamente quando você ficar três dias com a mesma troca de roupa porque não deu para ir para casa pegar mudas novas. – Rimos juntas. – É sério, isso acontece, principalmente porque, da mesma forma na Rússia, precisamos de relatórios semanais, imagina três competições diferentes na mesma semana? É complicado! – Suspirei.
- Bem, eu sempre quis uma vida agitada assim, só conseguia trabalhos convencionais e nada empolgantes. – Dei de ombros. – Acho que chegou minha hora.
- Eu falo por experiência própria: é legal! É muito legal, é o clima Copa quase sempre, mas é cansativo. – Ela foi sincera. – Por isso que também temos uma escala, para que vocês possam folgar dois dias, não necessariamente dois fins de semana por causa dos campeonatos nacionais, mas dois dias seguidos para você fazer o que quiser da vida. – Assenti com a cabeça. – E eu sugiro manter algumas trocas de roupa no seu armário lá no vestiário já que nunca sabemos como vai ser a semana, não é mesmo? – Sorri.
- Providenciarei uma mala hoje mesmo. – Sorrimos.
- Sobre suas ocupações, no geral, enquanto alocados aqui, nós cuidamos da agenda da CBF, incluindo convocação, treinamentos, viagens, acompanhamento de reuniões de equipes técnicas, fazemos contato prévio com os jogadores brasileiros e seus empresários, além de entregar relatórios semanais sobre essas decisões.
- Certo. – Assenti com a cabeça.
- Agora fora, como equipe, varia da equipe que for e para aonde for. Por exemplo, se formos em compromisso da principal masculina, você provavelmente vai continuar cuidando da imagem deles, agora das outras seleções nós fazemos as separações mais para frente. Tem pessoas que já estão acostumados com cada equipe, o que facilita muito. – Assenti com a cabeça. – Além de pessoas novas, você, a Diana e tudo mais.
- Perfeito. – Sorri.
- Mas o bom é que você vai conhecendo outras turmas, cuidando de outras responsabilidades, entre outros. Confesso para você que amo fazer agenda, selecionar voos, viagens, etc... Ah, falando nisso, vou te colocar em contato com os assessores internacionais.
- Quem? – Perguntei.
- Aonde temos jogadores importantes para convocação, temos um assessor que acompanha mais de perto, repassa informações, etc. Itália, França, Inglaterra, Alemanha, são alguns países, fica mais fácil fazer contato com esse assessor, do que com cada assessor de cada jogador.
- Ah, legal! Não sabia dessa.
- É um trabalho mais quieto e menos divulgado, porque são eles que vão inicialmente acompanhar jogos internacionais para análise do jogador, nem sempre o técnico ou a equipe técnica podem ir. – Assenti com a cabeça. – É um trabalho meio solitário, mas é legal porque você acompanha quase tudo sozinho. – Ela deu de ombros.
- Deve ser legal você acompanhar todos os jogos da Champions League, por exemplo. – Ela assentiu com a cabeça.
- Toda ocupação tem suas vantagens. Agora falando sobre vantagens monetárias.
- Tem mudanças? – Perguntei.
- Obviamente! – Ela riu. – Baseado no seu último salário, que é o equivalente à assessoria durante a Copa do Mundo, ele vai duplicar até você completar um ano na empresa e depois pode até triplicar. – Arregalei os olhos e a boca.
- O quê? – Falei um tanto alto. – Isso é...
- Muito dinheiro, eu sei. – Ela sorriu. – Continuando. Você continua ganhando seus vales convencionais, diária por viagens, variando o valor para nacionais e internacionais, estadias em hotéis, entre outros, o que dá uma alterada nessa parte é um motorista para você enquanto estiver trabalhando. Caso você esteja aqui e precise ir do nada para a Granja Comary, tem um motorista para te levar até lá. Para te levar ao aeroporto, andar com você para seus compromissos pessoais e tudo mais. Resumindo: seu vale-transporte é para chegar e ir embora.
- Eu estou chocada com o valor ainda. – Ela riu fracamente.
- Vá se acostumando, . Aqui é a elite e posso te garantir que aqui o dinheiro anda e bastante. – Assenti com a cabeça.
- Mais alguma informação pequena ou grande que eu precise saber?
- Acho que inicialmente não, caso eu vá lembrando ou você tenha dúvidas, a gente vai se falando.
- Ok! – Suspirei, ainda agarrada nos braços da cadeira.
- Quanto tempo vai demorar para você sair desse choque? – Suspirei.
- Acho que estou bem, ele vai vir e voltar algumas outras vezes. – Sorrimos.
- Bom, vamos continuar, então. – Ela se levantou. – Eu vou chamar a Diana, a novata, para conversar e depois eu junto a equipe inteira e começamos a nos organizar.
- O que posso fazer enquanto isso? – Me levantei atrás dela.
- Você pode dar uma olhada nos relatórios da equipe técnica e dos jogadores, vários mencionaram seu nome. – Ri fracamente.
- Tem algo que não deveria ser lido em voz alta?
- Não, nenhum. Inclusive, o do Alisson foi bastante conciso e discreto. – Suspirei.
- Você acha que isso vai dar certo? – Perguntei.
- Você e Alisson? – Assenti com a cabeça.
- Michele disse para eu ir devagar, analisar o terreno antes, ver como ficaremos afastados, sei lá... – Suspirei.
- Bom, vocês já ficarão afastados alguns meses, pelo menos até o próximo amistoso, se depender da CBF, você pode analisar isso. – Ela deu de ombros.
- É, acho que vai ter que ser isso mesmo. – Suspirei.
- Mas se você realmente gosta dele, . Aproveita. – Ela suspirou. – Vocês são jovens, está na hora de cometer erros.
- Não sou do tipo que gosta de cometer erros, muito menos sou o tipo de pessoa que faz as coisas sem pensar meticulosamente. – Rimos juntas.
- Bom, você fez várias nesses últimos dias, agora é viver com as consequências. – Sorri. – Um dia de cada vez, menina. Fica na paz. – Sorri, assentindo com a cabeça. – Aproveita, porque eu acho que ele realmente gosta de você. – Suspirei. – Agora vai, vai! – Ela falou e eu saí da sala, ouvindo-a chamar Diana.

- Esses são os relatórios? – Me aproximei da mesa de Lucas aonde tinha vários envelopes pardos espalhados e ele mantinha os pés para cima.
- Sim! – Ele abaixou os pés e eu me sentei na cadeira livre ao seu lado. – Indico fazer o seu antes de ler, tem cada coisa que eles citam aqui que é para dar risada. – Ele falou e eu peguei o primeiro da pilha.
- O meu já está pronto, só imprimir. Dediquei uns minutos da minha conversa com Alisson para fazer exatamente isso.
- E como ele está? Já conversaram hoje? – Suspirei.
- Ele me mandou mensagem quando acordou e eu respondi, mas depois disso nem olhei o celular, mas combinamos de conversar mais à noite.
- O amor é lindo! – Neguei com a cabeça.
- Para você também! Todo mundo já está me fazendo pensar se devemos dar certo ou não. – Suspirei.
- Por que? Vocês são ótimos! Ele é ótimo, você é ótima! É perfeito.
- Ah, a distância, jogador de futebol, fama, enfim, todos aqueles problemas. – Ele deu de ombros.
- Se eu fosse você não ficaria procurando pelo em ovo. Faz somente dois dias que a gente voltou, não se estressa. – Suspirei, assentindo com a cabeça.
- Eu sei, eu sei. Mas da mesma forma que durante a Copa eu já tinha dúvidas e eu já não sabia sobre nosso futuro, longe eu vou ter muito mais dúvidas.
- Um dia de cada vez, garota! Relaxa! Com esse trabalho novo você vai ter tudo, menos tempo de ficar fazendo conjeturas sobre seu relacionamento. Aproveite e pare com isso. – Ele jogou outro envelope em meu colo. – Respira fundo e começa a ler. – Suspirei, rindo fracamente. – E vamos almoçar sushi hoje.
- Você que manda! – Falei e rimos juntos.
Peguei o envelope em meu colo e puxei as folhas do mesmo, encontrando o nome Alisson Ramses Becker, me fazendo rir fracamente e olhei para Lucas, vendo-o dar de ombros e voltar a focar em seus papéis.
A folha era dividida em um cabeçalho sobre as informações do jogador e embaixo tinha alguns espaços para que ele desse suas opiniões sobre a competição de forma geral: jogos, locais, aposentos, atendimento, alimentação, treino e auxílio de equipe, dividido em técnica e comunicação.
Na primeira parte ele era o mais vago possível, adjetivos bastante vagos, tipo: sério que estão me perguntando o que eu achei do hotel? Só na parte de treino e auxílio das equipes que eles escreveram mais. Passei o dedo rapidamente pela letra cursiva de Alisson até encontrar meu nome, era relevante as outras informações? Talvez, mas estava mais interessada em saber o que meu namorado falou em um relatório oficial do trabalho.
“Creio que o que diferenciou dessa vez foi a presença da assessora . Ela não teve medo em nos ajudar e nos colocar na linha em todas as situações, tornando esse tempo da Copa mais leve, mas também mais sério”.
Sorri com isso, negando com a cabeça, ele havia conseguido falar sobre mim da forma mais simples e profissional de todas. Desci os olhos pelo papel, vendo que ele comentava também de Bianca, Angelica e de outros da comunicação e ri fracamente, vai ver ele fez isso para despistar, apesar de todos já saberem, obviamente.
Segui pegando relatório por relatório, dando uma rápida lida em todos os 10 da equipe técnica e dos outros 22 jogadores. Todos me mencionavam de alguma forma, citando meu nome ou só falando da comunicação em geral, mas em relatórios como de Neymar, Jesus, Fernandinho, Éderson e Thiago, eles me agradeciam individualmente pela minha colaboração na Copa. Ajudando-os de forma individual ou como equipe.
Tite e Taffarel me mencionaram em seus relatórios também. O primeiro dizia que minha ajuda foi essencial durante o mundial, fazendo com que a equipe se entrosasse e mantivessem o pensamento alinhado ao principal objetivo, e o segundo até fez uma brincadeirinha sobre me incluir na equipe técnica. Foi engraçado!
Eu perdi minha manhã inteira nisso, quando finalizei tudo e passei para Bianca, já era quase hora do almoço e Lucas me cutucou. Na CBF tinha três diferentes horas de almoço: a primeira era da 11 ao meio dia e meia, a segunda das 11 e meia até uma da tarde e a terceira do meio dia a uma e meia da tarde. Eu e Lucas coincidíamos o último horário, o que era muito melhor, sendo bem honesta.
Saímos a pé em direção ao Barra Shopping, encontrando diversas pessoas no elevador voltando do horário do almoço e seguimos para o nível lagoa, entrando no Benkei Sushi. Era segunda-feira na hora do almoço, então foi fácil encontrar uma mesa, além de que Mariana, esposa de Lucas, já estava lá nos esperando, junto de sua pequena Joana.
- Você deve ser a que Lucas tanto falou. – Ela me abraçou rapidamente após entregar Joana para Lucas.
- É um prazer te conhecer, Mariana. É tão estranho pensar no Lucas casado que eu nem lembro disso. – Rimos juntos.
- Eu tenho 32 já, ok?! Você que é nova. – Ele reclamou e eu virei para sua filha.
- E essa pequena, aí? – Perguntei, fazendo um carinho na Joana, vendo-a abrir um largo sorriso desdentado para mim. – Ah, meu Deus. – Sorri, ouvindo-a rir. – Ela é uma linda.
- Minha joaninha! – Lucas disse, beijando sua cabeça com os cabelos arrepiados.
- Quantos meses, gente? – Perguntei e nos ajeitamos nas cadeiras do restaurante, colocando os guardanapos no colo.
- Quase cinco. – Lucas falou, ajeitando sua filha no bebê conforto.
- Como vocês lidam com isso? – Virei para eles.
- Um dia de cada vez. – Lucas suspirou.
- É difícil, mas é um trabalho muito bom. – Mariana falou. – A gente se vira em qualquer momento, tenta almoçar juntos sempre, se encontrar o máximo possível, porque não é fácil.
- E você foi para Copa com ela praticamente pós-gravidez? – Virei para Lucas.
- Eu pensei em não ir...
- Mas eu não o deixaria fazer isso, é algo muito importante para a carreira dele. – Sorri, assentindo com a cabeça para Mariana. – Além das diárias que ganha, a gente não pode negar o dinheiro, principalmente agora trocando de oito a 12 fraldas por dia. – Rimos juntas.
- É uma boa desculpa! – Rimos.
- Vamos pedir, então? – Lucas perguntou e checamos nossos cardápios rapidamente, pedindo um combinado que agradasse a mim e a ele, e Mariana pediu um yakissoba, já que ainda estava amamentando, além de bebidas.
- Então, , Lucas disse que você e Alisson estão juntos? – Mariana perguntou e eu ri fracamente.
- Pois é! Aconteceu! – Ri fracamente. – Sei nem explicar como foi tudo aquilo, as vezes parece mentira na minha cabeça. – Ela riu.
- É muito bom, não é? – Ela perguntou.
- Eu não sei. Eu nunca namorei à distância. Muito menos com um oceano entre nós, então estou bem receosa.
- O que Michele disse mais cedo? – Lucas perguntou, brincando com os hashi.
- Bom, ela me deixou bem receosa, para começar. Disse para eu analisar o que eu queria com esse relacionamento, quais as verdadeiras intenções de Alisson, antes de tomar qualquer atitude precipitada. Se eu visse que realmente vale à pena, ela até ajuda na hora da gente se abrir para os outros. Ou seja, quando ele quiser me divulgar na imprensa. – Dei de ombros.
- Ela não está de tudo errada, você sabe, né?!
- Eu sei. – Suspirei. – É difícil, preciso confiar na palavra dele acima de tudo, mas eu realmente gosto dele. Quero que dê tudo certo, sabe? – Suspirei. – Mas eu entendo o receio dela, eu também tenho esse receio. – Cocei a cabeça.
- Você vai ter que viver um dia de cada vez e descobrir. – Mariana falou. – E vocês terão que dar um jeito juntos. Com muita confiança e paciência. – Assenti com a cabeça.
- Bom, a vantagem é que você foi promovida e já tem encontro garantido com ele, porque aposto que ele ainda continua sendo o goleiro do Tite, e você vai trabalhar para caramba, mal vai ter tempo para dormir, quiçá ficar triste pelos cantos pensando no seu namorado! – Gargalhei com ele, negando com a cabeça.
- Já é alguma coisa. – Dei de ombros, sorrindo para o garçom quando ele colocou os pratos e bebidas na mesa. – Obrigada.
- Foi promovida, ? Mas já? Que bacana! – Mariana falou e eu ri.
- Assessora de viagens agora. – Suspirei. – É bem estranho já ser promovida de novo em dois meses, mas confesso que adorei! Nunca fui muito fã de social mídia, até gosto de editar e tal, mas métricas, engajamento, essas coisas me irritam, mas quem negaria trabalhar na CBF, certo? Até entregando toalha para os jogadores. – Rimos juntos. – Então estou bem feliz com isso. – Suspirei. – Vai ser legal.
- Mas o trabalho é bem pior, acredite. Quando junta todo mundo naquela sala especial, nossa, você sente a tensão pesar e agora logo após da Copa tem muitas coisas para lidar, principalmente com a seleção feminina. – Lucas falou.
- Nunca tive medo de trabalho. – Dei de ombros e eles riram.
- Bom, vamos fazer um brinde à , então? – Mariana ergueu seu copo e fiz o mesmo. – À sua nova posição e ao novo namorado. – Ri fracamente.
- À . – Lucas falou.
- A mim! – Falei sorrindo e tocamos os copos, rindo em seguida.

- Bê, cheguei! – Falei entrando no apartamento, pendurando as chaves do porta-chaves e seguindo pelo corredor.
- E aí, garota? – O encontrei na porta do seu quarto no fim do corredor. – Como foi voltar?
- Foi muito bom, tenho que admitir. – Dei um beijo rápido em seu rosto e entrei em meu quarto, largando a bolsa na escrivaninha.
- O que aconteceu? – Ele se sentou na minha cama e eu suspirei.
- Bom, ficamos repassando os relatórios e finalizando o protocolo de despedida, nada muito empolgante, para falar a verdade. Quase uma queima de arquivo. – Ele riu fracamente. – Mas eu fui promovida! – Falei ritmado.
- O quê? Já? – Ele se levantou apressado. – Que ótimo, meu amor! – Ele me abraçou fortemente. - Promovida para quê?
- Assessora de viagens, vou acompanhar todas as seleções, masculina, feminina, subs. Ah, vai ser demais! – Falei rindo.
- Isso quer dizer, mais Alisson? – Dei de ombros.
- Provavelmente sim. Minha chefe disse que vai tentar fazer com que eu sempre esteja na equipe da seleção masculina, mas isso são detalhes, pelo jeito o trabalho é muito puxado. – Rimos juntos.
- Mas isso é muito bom, . Eles valorizam seu trabalho! E tem alguma regalia com isso?
- Muitas, incluindo aumento de salário. Quem sabe eu não consigo dar entrada em um apartamento mais cedo do que o esperado? – Ele sorriu.
- Ah, vai ser demais, ! Me leva para morar contigo e eu pago aluguel. – Revirei os olhos.
- Paga as contas que já está de bom tamanho. – Falei e ele sorriu. – Bom, eu vou tomar banho, quero tentar falar com o Alisson ainda hoje, e já é quase meia noite para ele. – Suspirei. – Está de folga hoje?
- Estou, mas minha pós voltou, então estou fazendo os resumos dos textos. – Assenti com a cabeça.
- Eu preciso fazer uma, mas agora vai me faltar tempo! – Rimos juntos. – A gente se encontra quando eu terminar para fazer algo para jantar, combinado?
- Fechou! – Ele falou e eu segui para o banheiro.
Tomei um banho rápido, fazendo um coque para não molhar o cabelo no banho e logo saí enrolada na toalha. Enquanto terminava de me secar, deixei o notebook ligando e mandei mensagem para Alisson perguntando se ele ainda estava acordado.
“Ainda acordado? Parei agora”. – Mandei e corri até a lavanderia para pendurar a toalha e fechei a porta do quarto quando voltei.
“Ainda aqui, mas não por muito tempo”. – Ele respondeu e eu sorri.
“Entrando agora”. – Falei e coloquei minhas senhas no computador, esperando o Skype carregar, mal deu tempo de a página carregar e já recebi a notificação de ligação de Alisson. Soltei meus cabelos rapidamente e apertei para aceitar ligação.
- Oie! – Falei animada, vendo seu rosto com a pouca iluminação do local.
- Oi, meu amor! – Ele abriu um sorriso sonolento. – Desculpa pela minha cara, hoje o dia foi pauleira. – Vi a tela mexer e ele apareceu em um lugar com um pouco mais de luz e que fazia seus cabelos sacudirem.
- Que tanto vocês fizeram hoje? – Apoiei os braços na escrivaninha, colocando o queixo em uma das mãos.
- Ficamos na praia quase o dia inteiro, depois viemos para a piscina do hotel aonde dá para brincar um pouco com a Helena mais solta. – Assenti com a cabeça.
- E como está todo mundo? – Suspirei.
- Ah, tudo bem. Natália foi embora sábado também, então estamos só a família mesmo. Meus pais estão adorando.
- Eu vi as fotos que você divulgou no Insta ontem e parece ser um lugar de tirar o fôlego. – Suspirei.
- Eu já tinha vindo para cá outras vezes, mas cada vez é mais surpreendente. – O vi sorrir.
- Seus olhos estão muito pequenos, vai dormir, a gente conversa outra hora. Eu posso acordar um pouco antes amanhã e a gente conversa pela manhã. – Falei.
- Não, não, eu aguento mais um pouco. – Ele disse.
- Alguma novidade da transferência? – Perguntei.
- Ainda não, meu empresário está cuidando disso. Provavelmente vai sair só depois do final da Copa, tem alguns dias ainda, né?! – Ele fez uma careta e eu ri fracamente.
- Sim, quem será que vai ficar, hein? – Perguntei.
- Aposto que a final vai ser Inglaterra e França. – Ele falou. – Não quero a Bélgica por motivos óbvios e a Croácia... Quem é a Croácia? – Ele perguntou e eu ri fracamente.
- Ei, eles ainda estão na Copa. – Ele sorriu. – Mas vamos ver, tem jogo amanhã e quarta, capaz de vermos lá da CBF mesmo. – Dei de ombros.
- E como foi voltar hoje? Alguma novidade? – Abri um largo sorriso, rindo em seguida. – O quê?
- Muitas novidades, para falar a verdade. – Falei sorrindo. – Ah, Alisson, quando eu falo que parece que a CBF quer unir a gente, eles só me dão mais motivos.
- O que eles fizeram agora? – Ele apoiou a tela em algum lugar e se sentou.
- Eles me promoveram. – Falei, gargalhando em seguida.
- O quê? – Ele gritou, colocando a mão na boca em seguida.
- Agora eu sou Assessora de Viagens Internacionais. – Seu sorriso se desfez e ele franziu a testa.
- O que é isso? – Ele perguntou e eu ri.
- É o que a Bianca e a Angelica são, é a equipe que acompanha vocês e todas as outras seleções, seja feminina ou jovens, para os eventos internacionais.
- Isso quer dizer que você vai nas próximas viagens? – Ele perguntou animado e eu assenti com a cabeça animadamente.
- Bom, eu acho, Angelica disse que vai sempre tentar em colocar na equipe da principal masculina, mas tudo pode acontecer. – Sorri.
- , isso é incrível!
- E eu vou acompanhar outras seleções também, isso é muito bom. – Suspirei, passando a mão embaixo do olho quando notei uma lágrima solitária. – Eu estou feliz, não posso negar. Parece que eu finalmente cheguei onde queria. – Suspirei.
- Queria te abraçar agora. – Ri fracamente. – Estou muito feliz por você.
- Obrigada! Agora vamos ver o que vai ser, falaram que é muito mais trabalho e muito mais corrido, pelo menos me faz esquecer de você um pouco.
- Ai! – Ele disse e eu ri fraco.
- Você me entendeu, vai. – Suspirei. – Ainda Michele ficou colocando caraminholas na minha cabeça... Ah, está tudo uma bagunça.
- O que ela disse? – Ele perguntou e eu suspirei.
- Deixa para lá, não é importante para agora. – Abanei a mão.
- Eu me comprometi com você, . – Ele falou sério. - E eu fiz isso porque eu realmente gosto de você. Porque eu acredito em um futuro contigo, e eu não faço com qualquer um. – Suspirei. – Nos dê uma chance. Me dê uma chance, eu vou provar para você. – Dei um pequeno sorriso.
- Você não precisa me provar nada, eu aceitei, certo? – Ele sorriu. – Nós dois fomos loucos em aceitar isso, mas mal posso esperar para ver aonde isso vai dar.
- Espero que bem alto e muito longe. – Ele falou e eu sorri, vendo-o bocejar em seguida.
- Vai dormir, criatura! – Falei. – Eu preciso ir jantar também.
- Não vou negar, mas eu estou surpreso como uma criança de 15 meses cansa tanto. – Sorri.
- Acho que essa é a época em que ela mais vai te cansar. – Dei de ombros e ele balançou a cabeça. – Afinal, conheci a lindinha do Lucas. – Falei animada.
- Que lindinha?
- A esposa, que também é bonita, e a filha de quatro meses. Ela é uma fofura. Se abriu toda para mim. – Ele riu fracamente.
- Um dia eu coloco a Helena no Skype. – Assenti com a cabeça.
- Ela vai voltar com seus pais?
- Vai sim, principalmente agora que eu não sei para aonde eu vou. – Ele deu de ombros. – Mas acho que Roma não vai rolar mais. – Assenti com a cabeça.
- Você sabe minha opinião: vá para aonde te fizer feliz. – Ele sorriu.
- Eu sei, eu sei! Não se preocupe com isso. Te informo sobre o que for acontecendo.
- Ok, agora vai dormir. Se seus pais forem iguais aos meus, sete horas todo mundo vai estar de pé querendo voltar para praia! – Ele gargalhou, confirmando com a cabeça.
- Isso é muito verdade! – Ele disse. – Dorme bem, ok?!
- Ok, você também. – Falei.
- Eu te amo, . Não menti sobre isso. – Assenti com a cabeça, mandando um beijo.
- Eu sei! Eu também não menti. Fica bem! Mande notícias.
- Você também. – Ele assentiu com a cabeça.
Ficamos nos encarando algum tempo para ver quem desligaria, até que rimos juntos. Neguei com a cabeça e mandei mais um beijo.
- Tchau! – Falei e desliguei a ligação, respirando fundo, com um pequeno sorriso nos lábios. – Vai dar certo, . Vai sim. – Suspirei e me levantei da cadeira, abrindo a porta do quarto. – Bernardo, o que vai ter de janta, meu filho? – Gritei, sentindo cheiro de tempero invadir o apartamento.

Depois desse primeiro dia na minha nova ocupação, eu realmente entendi o que todo mundo falava sobre falta de tempo para a vida pessoal. Eu me sentia a Andy de O Diabo Veste Prada, confesso. As coisas bagunçaram em um jeito que eu só funcionava na inércia, as pessoas pediam e eu fazia.
Tinha muitos eventos acontecendo ou para acontecer simultaneamente. Para começar que ainda cuidávamos do final da Copa do Mundo, tínhamos até domingo para a final e muita coisa para acontecer, principalmente olhar janela de transferência dos jogadores brasileiros. Também tínhamos a final da Copa do Nordeste, o que requeria uma equipe para esse evento. A equipe montada já estava lá, mas precisávamos fazer repasse de informações, postagens, atualização do site e afins até o final dela.
Também tínhamos a seleção feminina que tinha sido convocada logo no dia 10 para o Torneio das Nações que teria nos Estados Unidos no fim de julho. Além da feminina, também teríamos a Sub-20 feminina em treinamento na Granja e a Sub-17 em viagem para a África do Sul para o Torneio BRICS. Como eu tinha que acompanhar as informações de Tite ficar na CBF ou da vinda de um novo treinador, eu viajaria com a Sub-17 para a África do Sul no dia 18 e já estaria de volta no dia 24.
Os compromissos eram corridos assim, eu estava acostumada com a Copa do Mundo, 46 dias longe de casa, muitos deles em um lugar só, mas a realidade era realmente mais difícil, mas não importa, estava indo para a África do Sul, deveria ser sensacional. Espero só que meu jet lag não fosse tão afetado, eu não estava acostumada com viagens assim.
Na terça-feira, depois de acompanharmos a coletiva da Seleção Feminina com o técnico Vadão, além de fazer aquele básico reconhecimento entre equipe técnica e de comunicação, juntamos toda a equipe de comunicação as três horas para assistir a semifinal entre Croácia e Inglaterra e, milagrosamente, ver a Croácia ir para a final da Copa do Mundo.
Eu fiquei chocada, confesso. Ontem Alisson tinha me falado “Quem é Croácia no futebol?” e eu concordei com ele, mas agora, entre sorte ou azar, eles estavam na final junto da França. Ambos os jogos não tiveram grandes revelações, mas foi bom ver a Bélgica cair fora depois de nos tirar da competição. Sim, existe certo rancor em meu coração. Acontece.
O resto da semana se seguiu nessa mesma loucura. A sexta-feira até que foi calma, tudo estava chegando aos finalmentes, então a gente podia pisar no freio um pouco, apesar de eu ainda estar pegando um pouco das minhas ocupações. Mas foi legal, porque eu finalmente descobri sobre algo chamado “Projeto de Esportes da CBF”.
- O que é isso? – Olhei de Michele para o papel.
- Toda pessoa que trabalha na CBF precisa dedicar pelo menos duas horas da semana para fazer atividades físicas, é uma forma de incentivo ao esporte. Nós temos filiação com várias academias e clubes aqui em volta, então escolha o que te agrada mais e participe! – Ela disse e eu suspirei.
- E se eu faltar em casos de viagem? – Perguntei.
- Não se preocupe com isso, são mais formalidades, mas é legal, todo mundo aqui faz alguma coisa, depende do gosto da pessoa. – Assenti com a cabeça e ela saiu.
- Acho que é por isso que todo mundo aqui é magrinho. – Falei brincando e Vinícius riu ao meu lado.
- Em partes, né?! – Ele deu de ombros. – A gente mais falta do que vai, mas é legal.
- O que vocês fazem? – Perguntei vendo somente os fotógrafos e filmadores na sala.
- Eu faço crossfit e tênis. – Lucas falou e eu ponderei com a cabeça.
- Crossfit não! – Neguei com a cabeça. – Mas tênis é interessante. Eu vejo alguns jogos da Serena, mas nunca pensei em fazer isso.
- Vem fazer uma aula comigo, você vai gostar. É legal, cansa bastante, mas é bom! – Ele disse.
- Ok, farei uma aula contigo, depois eu decido. – Suspirei. – E você, Vini? – Virei para ele.
- Eu só faço zumba. – Ele disse e Lucas riu ao meu lado.
- Zumba? – Falei um tanto surpresa.
- Para de rir, cara! – Vinícius falou. – É bom, oh! É muito bom.
- Sabe o pior de tudo? Ele é bom! – Lucas disse rindo. – Eu dou risada porque é engraçado, mas ele é muito bom, cara.
- Eu gosto de dançar. – Suspirei. – Danço bastante naquele Just Dance. – Ponderei com a cabeça.
- Vem comigo, você vai gostar, o professor é ótimo. – Assenti com a cabeça.
- Mas e os horários? Não batem? – Perguntei.
- Tênis de terça e quinta das sete e meia as oito e meia da manhã na academia atravessando a rua. Tomo banho aqui e entro as nove folgadamente. – Lucas falou e eu ponderei com a cabeça.
- E a zumba? – Perguntei para Vinícius.
- Segunda e quarta das seis e meia as sete e meia aqui na frente também. Trago roupa e vou direto.
- Ok, acho que dá para fazer! – Falei para os dois e eles sorriram. – E você, Leandro, o que faz? – Gritei para Leandro, ele era da equipe de São Paulo e havia sido transferido para cá durante a Copa.
- Boxe! – Ele falou se levantando.
- Ei, seria legal dar uns socos, aprender defesa pessoal e tudo mais. – Lucas franziu a testa.
- Por que você precisa de defesa pessoal? – Ele perguntou.
- Porque eu sou mulher, porque eu moro no Rio de Janeiro, porque meu salário é muito bom, posso baixar a lista de motivos se quiser. – Ele negou com a cabeça.
- Acho que já foram motivos o suficiente. – Ele disse e eu confirmei com a cabeça.
- O horário é meio ruim, faço sábado oito da manhã, duas horas direto. É pesado, mas eu gosto.
- Eu estou precisando perder uns quilinhos mesmo, principalmente namorando o Alisson. – Bati a mão na testa. – Meu Deus! O Alisson. – Peguei o celular correndo na bolsa.
- O que houve? – Vinícius perguntou.
- Ficamos de conversar ontem à noite, mas saímos para jantar depois do trabalho e eu nem me lembrei de avisá-lo. Cheguei em casa e fui direto para cama. – Abri a conversa dele correndo no WhatsApp, vendo que tinha algumas mensagens dele. – Caralho! – Suspirei.
“Já estou por aqui”.
?”
“Acho que alguém se esqueceu do nosso horário”.
“Nos falamos amanhã, ok?! Amo você, boa noite”.
– Suspirei.
- Caramba! – Balancei a cabeça, colocando os dedos para digitar.
“Me desculpe, amor! Eu acabei saindo com o pessoal da empresa e me esqueci totalmente de você – isso não deveria ser dito, mas foi um erro meu. Sinto muito, muito mesmo. Hoje à noite? Desculpa mesmo”.
- Mancada, hein, ? – Lucas falou.
- Não precisa jogar na cara, ok?! Eu não sei namorar à distância. É estranho! – Coloquei as mãos na cabeça. – Na verdade, eu não sei nem namorar, sendo bem honesta. Meu único outro namoro durou três semanas, porque eu não aguentei. Ele era muito grudento.
- Ah, então você está no relacionamento ideal para você! – Vinícius falou. – Se seu ex era muito grudento, seu atual e você estão há um oceano inteiro de distância, além de que ambos trabalham o dia inteiro e normalmente em horários informais. – Suspirei.
- Eu sei, isso é ideal para mim, mas eu preciso me lembrar de que ambos os lados precisam fazer força para isso dar certo. – Neguei com a cabeça.
- Se acalma, mulher! Só passou uma semana. – Lucas disse.
- Me diga, você sente a mesma coisa que sentia por ele na Copa, depois dessa passada uma semana? – Ele perguntou.
- Acho que eu gosto dele ainda mais. – Suspirei. – Estou com saudades.
- Então, pronto. Caso resolvido! – Ele deu de ombros. – Vou te mandar uma foto, edita para eu mandar para o pessoal de social mídia? – Ele perguntou.
- Fácil para vocês, não é mesmo? – Eles riram.
- Não é fácil, é uma forma de te distrair sobre isso mesmo. – Vinícius disse e eu assenti com a cabeça.
- Ok, obrigada! – Sorri. – E sim, Lucas, manda aí, estou livre agora! – Ele assentiu com a cabeça e Vinícius me abraçou rapidamente de lado. – Não se esquece que eu preciso levar isso para a Michele quando sair para o almoço.
- Eu estou indo! – Vinícius se levantou. – Até já.
- Até! – Acenei e ele saiu, deixando a mim, Lucas e Leandro na sala.
Eu achei essa ideia muito boa, para ser bem honesta, era uma forma de incentivo ao esporte, e eu também estava precisando reduzir alguns quilinhos, ou, pelo menos, dar uma torneada nas coxas e panturrilhas.

Sábado chegou logo e combinamos um almoço coletivo em casa para acompanhar a disputa do terceiro lugar. Foram só algumas pessoas mais próximas: Lucas, Vinícius, Bianca, Angelica, Diana, Leandro, as esposas, maridos e filhos, e Bernardo, por motivos óbvios. Foi divertido juntar a galera no meu apartamento. Ele nem era tão pequeno assim! Pena que a Inglaterra não prestou nem para ganhar em terceiro lugar, mas ok, por mais que eu odiasse admitir, a Bélgica fez uma ótima campanha durante essa Copa e merecia ganhar.
Aproveitamos e combinamos de ver a final no dia seguinte na casa de Lucas, ele morava em casa, então tinha um espaço maior para aproveitar, além de que ele tinha um pouco mais de amigos na CBF para convidar para sua casa e, o mais importante, ele tinha uma churrasqueira! Cada um levou o que bebia e o que comia e ficamos quase até oito horas da noite comemorando a vitória da França.
Bom, comemorando é um tanto exagerado, mas seria difícil a Croácia bater a França que ganhou seis dos sete jogos da competição e que tinha o jovem Kylian Mbappé no ataque! Aquele garoto era sensacional, estava atropelando todos e só tinha 19 anos. Era surreal! A festa no Lucas só acabou quando percebemos que no dia seguinte era segunda-feira e que as viagens começariam. Era agora que as coisas ficariam um pouco mais interessantes.
Segunda e terça passaram voando, no segundo dia antes do fim do expediente eu peguei todos os materiais necessários para trabalho e ainda tive uma reunião com a equipe que iria. Era bem menor do que a da Copa, eu de assessora, Anna de fotógrafa e Leandro da filmagem. A equipe era pequena, mas era bom. Quando cheguei em casa à noite, eu organizei minha mala. Acho que depois da Copa eu já estava bem mais prática na arrumação, afinal, a roupa era praticamente dada pela CBF e o resto eram coisas do dia a dia.
Quarta antes de sair de casa, eu dei um grande abraço em Bernardo e disse que logo voltaria. Encontrei na entrada do prédio o motorista e Anna já estava lá dentro. Passamos para pegar Leandro e seguimos direto para o aeroporto. A Seleção Sub-17 demorou um pouco para chegar, afinal, eles estavam treinando na Granja fazia alguns dias.
No aeroporto eu encontrei Luana, a assessora que estava de vigília com as meninas na Granja. Trocamos rapidamente algumas informações e nos preparamos para o voo. Durante ele eu me apresentei rapidamente para as meninas, falando sobre nosso trabalho, sobre o nosso foco na África do Sul e nossos compromissos lá.
Foi fácil se enturmar, elas já conheciam Anna, e a maioria das meninas convocadas da Sub-17, já haviam sido convocadas para a Sub-15 antes, então foi fácil se acostumar com elas. Claro que não era nada parecido com a Seleção Principal masculina, elas eram bem mais jovens, contidas, um pouco abismadas com tudo, mas foi legal! Me senti bem tiazona perto delas.
Johanesburgo é uma cidade muito bonita, a cultura, as pessoas, eu achei tudo incrível, bem diferente do que estamos acostumados com Brasil. Era interessante como a parte nova e a velha se juntavam. Nos poucos dias que eu tive folga, afinal, eu estava sozinha lá, eu consegui conhecer alguns pontos turísticos da cidade: o museu do Apartheid, o qual todo mundo foi junto, a casa de Nelson Mandela e o jardim botânico. Aposto que tinha muitas coisas para conhecer, mas eu não estava lá a turismo.
No primeiro jogo contra a China, nós ganhamos com placar final de três a um, com gols da Vitória Ferreira e da Júlia que fez dois, depois teve o jogo contra a sede, África do Sul, o qual acabou em empate zero a zero. Na terceira rodada elas deram uma lavada na Rússia de cinco a zero e depois repetiram esse placar contra a Índia na final, ganhando o torneio.
Claro que as coisas não eram tão glamorosas quanto com a seleção principal, mas eu pude assistir aos jogos do banco de reservas e foi muito bom ver a vitória dessas meninas! Claro que eu tive minha parte de nostalgia, já que foi nessa época que eu comecei a jogar na faculdade e se eu tivesse seguido em frente, poderia ter sido uma delas um dia. Elas eram tão novas, mas elas poderiam vir a ser alguém muito mais no futuro. Além de serem mulheres! Eu adorava ver toda a desconstrução de “futebol é para homem” acontecer bem na minha frente.
Outra parte boa dessa viagem, foi que eu e Alisson pudemos conversar no mesmo fuso-horário! Johanesburgo e Sardenha estavam na mesma reta e nenhum dos dois precisou ficar acordado até de madrugada ou muito cedo para podermos nos ver, nem que por alguns minutos.
Claro que isso só aconteceu depois de ele ir para Liverpool fechar seu contrato multimilionário com eles.
- 62 milhões e 500 mil euros? – Gritei na tela do computador, gargalhando em seguida. – Alisson, isso é...
- Maior que o Buffon.
- Maior que o Buffon! – Gritei novamente, vendo-o rir na tela e senti meus olhos marejados. – Eu não consigo acreditar nisso. – Suspirei.
- O que você acha? – Ele perguntou.
- Você está me perguntando? Você que tem que se perguntar. Você está feliz com isso? Com essa oferta? Com a ideia de morar em Liverpool sendo que você não fala um “hi” em inglês? – Ele gargalhou na tela, negando com a cabeça.
- Eu estou abismado, . Mas eu estou feliz. – Ele assentiu com a cabeça. – Sei que você fala que ninguém assiste o campeonato inglês...
- Nem os ingleses! – Brinquei e ele riu.
- Mas eu estou feliz! – Ele suspirou. – Eles chegaram na final da Champions, fizeram uma ótima campanha, além de que estão fazendo de tudo para me ter, sinto que serei mais valorizado lá. E no acordo diz que não ficarei no banco, então é uma boa escolha. – Sorri, assentindo com a cabeça.
- Eu só consigo estar feliz por você. – Passei a mão embaixo do olho, limpando a lágrima. – Eu estou muito feliz. – Senti minha voz afinar.
- Não chore! – Ele falou e eu ri fracamente.
- É inevitável, me desculpe. Meu namorado passou meu ídolo e se tornou o goleiro mais caro da história. – Suspirei. – Só queria te abraçar agora. – Ele assentiu com a cabeça.
- Em breve! – Sorri.
- Você vai para lá quando?
- Daqui a pouco. Vim para Roma ontem para me arrumar. – Ele olhou no relógio e se levantou, pude notar que ele estava de terno.
- Uau! Você está um arraso! – Falei e ele riu, dando uma volta ao redor do corpo.
- Farei todos os testes e tudo mais, no final do dia já devem me anunciar. – Assenti com a cabeça. – Salah não para de me mandar mensagem perguntando quando eu vou.
- Eu estou sem palavras, só quero te desejar muita sorte, ok?! Isso é demais! – Suspirei. - E eu te dou umas aulinhas de inglês depois. – Rimos juntos. – Ah, Alisson, como eu te amo! – Falei, respirando fundo. – Como essas saudades me mata aqui dentro.
- Eu também te amo, . É incrível como dói. – Coloquei a mão na tela do computador e respirei fundo. – Como está aí?
- Tudo bem, por enquanto. Mas não é nada comparado a vocês, elas são mais quietas, mais novas. – Abanei a mão. – É bem diferente. – Dei de ombros.
- Em breve estaremos juntos. – Sorri e ouvimos um barulho de campainha. – Deve ser meu empresário. A gente se fala mais tarde, ok?! – Confirmei com a cabeça.
- Vai lá, e arrasa, goleiro mais caro do mundo! – Pisquei e ele sorriu. – Toda sorte do mundo para ti. – Ele assentiu com a cabeça e respiramos.
- E todo amor para você! – Sorrimos e desligamos a ligação quase juntos, me fazendo suspirar.
Sabe quando você sente algo esquentar dentro do seu peito? Algo que não queima, nem machuca, mas te faz abrir um largo sorriso? Era o que eu estava sentindo agora. Alisson, meu namorado, havia se tornado o goleiro mais caro da história, passando o meu grande ídolo, Gianluigi Buffon. Era loucura. As lágrimas não paravam de cair de meu rosto e eu só conseguia sentir orgulho desse garoto.
Acho que mesmo que não tivéssemos nos envolvido, eu sentiria tudo isso. Ninguém podia negar que ele era um grande goleiro e que tinha um grande futuro pela frente, afinal, ele só tem 25 anos, tem muitos anos de carreira pela frente ainda.
Assim que ele fechou o contrato, ele me mandou uma foto com a camisa do Liverpool e eu confesso que acho a cor da Roma mais bonita, mas o sorriso em seu rosto não escondia sua felicidade. Ele estava bem, era tudo o que importava! Depois desse dia ele voltou para Sardenha, para passar mais alguns dias com sua família, ele teria que se apresentar para o Liverpool no dia 31 de julho, então aproveitaria mais alguns dias com sua família antes de precisar ajeitar sua mudança.

Na volta para o Brasil as coisas não ficaram mais calmas, muito pelo contrário, na noite antes de voltar para o Brasil, recebi uma notícia de Lucas de que Tite finalmente havia feito sua decisão e que renovaria o contrato com a CBF por mais quatro anos, pelo menos até a Copa do Catar. Além da equipe técnica, obviamente.
Eu tinha dois dias de folga, depois de voltar da África do Sul, principalmente por estar trabalhando nove dias seguidos sem folgas, mas eu precisei adiar minha folga. Eu era da equipe da seleção principal masculina, então precisaria acompanhar esse momento. Além de que seria ótimo rever Tite, eu não o via desde a final da Copa e ele foi muito à CBF durante esses dias para discutir sobre essa renovação.
- Você não poderia perder isso, não é mesmo? – Lucas falou baixo quando entramos no elevador, a caminho da sala da imprensa.
- Espero que isso não tenha sido irônico. – Virei para ele que riu.
- Nunca! Vai ser bom para você, você sabe disso. Já é um passo mais perto do Alisson. – Assenti com a cabeça.
- Espero que sim, mas prometi a mim mesma que não iria intervir nas decisões dele. Ele já tem muitas pessoas para fazer isso por ele, não precisa de mais um. – Saímos do elevador, seguindo em direção à sala de imprensa do prédio.
A presença na sala de imprensa era só para as fotos, a CBF não marcou nenhuma coletiva para esse evento, seria só a assessoria da CBF, representada por mim, algumas fotos de Lucas e Tite estava com contrato renovado por mais quatro anos. Assim que entramos na sala, notamos a presença de todo mundo da equipe técnica, o que foi uma festa para ambos os lados, mas Tite parecia bem empolgado em me ver.
- Aqui está ela! – Ele disse e eu abri um largo sorriso.
- Tite! – O abracei fortemente. – Que bom que aceitou. – Ele segurou meu rosto com as mãos.
- Eu pensei muito sobre o que você disse, conversamos bastante aqui também e parece que é a coisa certa a fazer. – Dei de ombros.
- Chegamos nas quartas de final, Tite. Estava claro que nem iríamos para a competição, eu vejo isso como uma vitória. – Ele riu fracamente. – Para que mexer em time que está ganhando?
- Espero que tenha razão. – Ele sorriu. – E você? Aceitou sua promoção?
- Você sabe? – Ele ponderou com a cabeça.
- Da mesma forma que você me deu um conselho, eu dei para a equipe de comunicação. Com você foi tudo diferente, , ninguém pode negar isso. Se te tivéssemos em outros amistosos, nas eliminatórias, aposto que tudo teria sido diferente. – Neguei com a cabeça.
- Não encha tanto minha bola, Tite, ficarei mal-acostumada. – Rimos juntos. – Mas talvez eu tenha dado um pouco de sorte.
- Só um pouquinho. – Ele brincou e me abraçou novamente, me fazendo gargalhar. – E como estão as coisas? Você e Alisson?
- Um dia de cada vez, mensagens, Skype, fotos no Instagram, a gente tá aprendendo a namorar à distância. – Ele assentiu com a cabeça.
- Fiquei feliz com a escolha dele, ele vai se dar bem. – Sorri, assentindo com a cabeça.
- Bom e os outros? – Virei para o lado, vendo quase toda a equipe técnica da Copa, com algumas adições e algumas retiradas, mas Edu, Sylvinho, Rodrigo, Cléber, Taffarel e Matheus, filho de Tite, estavam lá.
- É bom te ver, garota! – Taffarel disse após me dar um forte abraço. – Parece que você está mais cansada do que na Copa. – Gargalhei.
- Eu voltei ontem da África do Sul com a Sub-17 feminina, era para eu estar de folga, mas não poderia perder esse momento. – Ele sorriu, beijando o topo da minha cabeça.
- Vamos oficializar, então? - Edu perguntou e sorrimos.
- Tite, por favor, suba no palco, pegue o contrato, finja que está assinando, dê uns sorrisos para o Lucas e logo finalizamos isso. – Falei.
- Depois podemos tomar algumas cervejas? – Ele perguntou.
- Só se eu estiver incluído. – Lucas falou e gargalhamos.
- Podemos fazer um acordo! – Tite disse e sorrimos.

Depois da renovação de Tite as coisas ficaram mais calmas, tirando um dia em que acompanhamos a Sub-15 masculina em um treino aberto para Granja, não tivemos muitas preocupações. Claro que ainda estávamos cuidando das preparações, principalmente com a aproximação dos primeiros amistosos da masculina após a Copa, então a expectativa era enorme e a imprensa já começava a matar assim que agosto entrou, sendo que os amistosos seriam só em setembro.
Lucas e Vinícius foram com a Seleção Feminina para os Estados Unidos para o Torneio da Nações, mas eu não fui, fui escalada para outro evento da Feminina no começo do mês, mas da Sub-20 dessa vez. Os dias estavam agitados e a gente não podia parar.
Dia 31 de julho foi o dia em que Alisson se apresentou em Melwood para seu primeiro treino com o Liverpool após a Copa. Cheguei em casa e fui correndo para a frente do computador, querendo saber tudo sobre seu dia. Agora estávamos há quatro horas de diferença. Era um pouco melhor, mas ainda assim. Ele sempre estava à frente e provavelmente sempre mais cansado.
- Hello! – Falei animada quando ele apareceu na tela e ele abriu um largo sorriso.
- Ei! How are you? – Ele entrou na brincadeira e eu sorri.
- Como foi seu primeiro dia? Como é o pessoal? Se divertiu?
- Você está me perguntando como se eu fosse um aluno de três anos começando na escola. – Gargalhei sozinha.
- Eu não sei como essas coisas funcionam. – Dei de ombros e ele sorriu.
- Foi muito bom, na verdade! – Ele disse. – Começamos devagar, obviamente, mas foi bom voltar. É legal vestir o vermelho deles. – Sorri.
- Agora até eu estou seguindo os “reds”, só para te ver, obviamente.
- Obviamente. – Ele me copiou e sorrimos.
- Mas e aí? O pessoal é legal? Teve muita transferência?
- Ah, é bacana sim, o Klopp, o técnico, ele é bem bacana, bem animado, bem simpático, nem parece que é alemão. – Gargalhei. – Ele faz com que a gente se sinta bem enturmado. E o resto do pessoal é bacana. Tem o Salah, que eu joguei um tempo na Roma, Firmino e Fabinho do Brasil, então já é alguma coisa, sabe?
- Ah, que bom, me deixa feliz! – Sorri. – O que mais?
- Ah, essa semana vai ser mais leve, depois vamos para Evian, na França, para os treinamentos da pré-temporada. Lá vai ter uns trotes umas coisas mais, tem outros jogadores novos, Shaqiri Keita, Fabinho, vai ser legal. – Sorri.
- E você já tem data para sua estreia? – Perguntei curiosa. – Afinal, agora vou ter que acompanhar o campeonato inglês, não é mesmo? Já até pedi para a TV a cabo aumentar meu pacote. – Ele gargalhou.
- Vai ser dia quatro de agosto, em Dublin, contra o Napoli. – Fiquei confusa.
- Liverpool jogando na Irlanda contra um time italiano? – Franzi a testa e ele riu.
- É a pré-temporada, são amistosos entre clubes. – Sorri.
- Bom, eu te desejo muita sorte e que você aproveite. Estarei torcendo por ti, sempre.
- Eu sei. É isso que me conforta. – Rimos juntos.
- E o resto da equipe? Outros goleiros? Como te receberam? – Perguntei e ele coçou a cabeça.
- Esse é um assunto delicado. – Ele suspirou.
- O que aconteceu?
- Bom, em meu contrato eu só viria para cá se fosse para jogar, eu não ficaria no banco igual fiquei na Roma, afinal, para ficar no banco, eu ficaria na Roma. – Assenti com a cabeça. – O Karius, goleiro atual...
- Conheço. – Falei e ele riu.
- É óbvio! – Sorrimos. – Então, ele fez uns erros muito feios na final da Champions e muitos o culpam por isso...
- Eu li que ele teve uma concussão na semi, Alisson. Como as pessoas o culpam por isso? – Ele deu de ombros.
- É esse o motivo que o Liverpool procurou outro goleiro, por isso me chamaram. – Assenti com a cabeça. – Mas é estranho, parece que estão querendo livrar ele de tudo, sabe? Eu até senti o local pesar, sabe? Ninguém fala, ninguém demonstra, mas você nota que tem algo de errado.
- Ah, que horror! Deve ser muito chato isso. Já não basta ele saber que errou. – Alisson assentiu com a cabeça.
- Pois é! Sei muito bem o que é isso! – Ele suspirou. - E tem o Mignolet, ele sempre esperou pela saída do Karius para se tornar o titular e as coisas mudaram de figura. Ele não me parece muito feliz e nem foi muito receptivo. – Ri fracamente.
- Ingleses são naturalmente frios... – Falei.
- Ele é belgo! – Fiz uma careta, fazendo Alisson rir.
- Acho que isso explica algumas coisas. – Rimos juntos.
- Talvez! Eles também perderam a Copa, né?! – Ele deu de ombros.
- Mas e sua casa? Já se organizou? Está tudo pronto? – Ele pegou o celular, andando pela casa que estava vazia.
- Ainda não chegou nada. – Ele falou rindo. – Eu tenho a cama que eu comprei aqui e uma mala. É só. – Ele voltou a tela para seu rosto.
- Você deveria ter ficado em um hotel. – Ele ponderou com a cabeça.
- Eu pensei, mas estou precisando criar raízes de novo. – Sorri.
- Você vai criar logo, você vai ver. – Ele assentiu com a cabeça.
- E você? Quais as novidades? – Suspirei.
- Ah, hoje nada. – Falei. – Estamos preparando para os próximos eventos. – Suspirei. – Eu devo ir na semana que vem para a França, acompanhar a preparação da feminina Sub-20 para o campeonato no Uruguai no fim do mês.
- A CBF é totalmente inconstante, não é mesmo? – Ele comentou. – Treinar na França para uma competição no Uruguai? – Dei de ombros.
- Estados Unidos para jogar contra El Salvador? – Perguntei. – Não faz sentido.
- Pelo menos vamos jogar contra os donos da casa antes. – Suspirei.
- Ainda assim, é estranho, muito gasto de dinheiro, mas atualmente nem reclamo. – Rimos juntos. – Posso carimbar cada vez mais meu passaporte.
- E eu posso te ver. – Sorri, mandando um beijo para tela.
- Eu te amo, tá? Não se esqueça disso.
- Difícil! – Ele disse e eu sorri.
- Vou te deixar dormir e eu preciso de um banho. – Puxei a blusa, mostrando o brasão da CBF da mesma. – Não deu tempo.
- Vai lá, eu vou deitar também, amanhã é um novo dia.
- Com novos desafios. – Pisquei e ele sorriu.
- Eu te amo, senhorita .
- Eu sei, senhor Becker. – Falei rindo e me levantei.

No dia quatro de agosto foi eu, Anna e Leandro para a França acompanhar a Seleção Feminina Sub-20 na Copa do Mundo da categoria. Começaria amanhã e finalizaria só no dia 24, então fomos prontos para ficar esses longos 20 dias. Pena que ficamos somente uma semana! As meninas haviam ido uma semana antes para começar os treinamentos, diferente da atenção dada para as seleções masculinas, só acompanharíamos a competição e com uma equipe bem reduzida.
Eu estava começando a notar os padrões dentro da CBF. Seleção Masculina na terra e Deus no céu, e as femininas? A não ser que a Marta estivesse no meio, a atenção não era muito reforçada.
Agora, falando sobre a competição das meninas, elas até que foram bem, mas não o suficiente para passar para a segunda fase. O primeiro jogo foi contra o México no estádio du Clos Gastel, em Dinan. Perdemos de três a dois para as mexicanas. Ao menos as mexicanas femininas não me davam vontade de matá-las durante o jogo.
Já no segundo jogo, no dia oito, no mesmo estádio do primeiro, empatamos contra a Inglaterra. Era difícil trabalhar com elas, porque meu foco era a imagem e não era como se eu tivesse um Neymar para xingar por ações erradas ou desrespeitosas, elas dando tudo de si, só que a bola não entrava. Então meu trabalho com elas era mais incentivador do que puxar algumas orelhas.
Depois desse dia, o treinador deu um descanso para elas, nada muito grandioso, mas eu fiquei no hotel. Estava um fuso na frente de Alisson e gostava de aproveitar esses momentos aonde nenhum dos dois estavam morrendo de sono. Mas o que ele me contou não foi exatamente muito agradável.
- E aí? Como as meninas estão? – Ele perguntou e eu ri fracamente.
- É muito mais fácil de trabalhar com elas do que com vocês, acredite. – Falei e ele riu.
- Eu sei, depois dizem que mulher é complicado. – Suspirei.
- Neymar é complicado. – Cocei a cabeça. – Adoro ele, mas é difícil, parece que estou lidando com várias patricinhas com unhas quebradas. – Ele riu fracamente.
- Gosto do Ney também, mas entendo a dificuldade, isso quando o pai dele não se mete. – Bufei.
- Ah, nem fala no pai dele, ele estava querendo processar a CBF por causa dos xingos que eu dei no filho dele. – Revirei os olhos.
- Fala sério?! – Alisson se ajeitou na cadeira e eu dei de ombros.
- A Michele só rasgou o papel no meio e falou que se ele quisesse continuar fazendo parte dessa equipe ele teria que entrar nos eixos e obedecer às regras. – Falei e ele gargalhou.
- Mentira! – Dei de ombros.
- Eu tenho a melhor chefe do mundo, e o mais interessante: ela confia em mim. Então, ela acredita que o que eu fiz foi necessário para o bom andamento da competição.
- Pior que o Ney gostou dos seus toques, acho que todo mundo que quer crescimento na carreira aceitou seus toques gentilmente. – Suspirei.
- Vamos ser sinceros que eu exagerei algumas vezes, mas vocês me tiraram do sério. – Ele fez uma careta.
- Culpado! – Sorri.
- Em campo você foi o menor dos meus problemas...
- Agora fora... – Sorri, mandando um beijo para a tela. – Tá sabendo da novidade?
- Qual delas? – Franzi a testa.
- Eu não sou o goleiro mais caro do mundo mais.
- O quê? – Falei um tanto alto demais.
- É, o Chelsea comprou o Kepa Arrizabalaga por 80 milhões de euros e passou minha transferência. – Franzi a testa.
- Quem? – Perguntei alto ainda.
- Não conhece? – Neguei com a cabeça.
- Nunca ouvi falar, e de goleiros eu entendo. – Rimos juntos.
- Ele é espanhol, foi substituto do De Gea na Copa do Mundo...
- E um substituto que foi eliminado nas oitavas de final bateu o meu namorado? – Revirei os olhos. – Que decadência! – Falei e ele riu.
- Eu não conheço muito o trabalho dele, mas é o Chelsea, segundo cochichos, eles tentam sempre superar o Liverpool de alguma forma. – Ele deu de ombros. – Eu não me incomodo com isso.
- Pois deveria! Você foi merecedor dessa transferência, esse daí ninguém sabe quem é! – Ele riu do meu nervosismo.
- Para, , não vale a pena.
- Não estou dizendo que vou entrar em briga por ele, mas... Quem é Kepa? – Ele sorriu.
- Ah, acho que é por isso que eu gosto tanto de você. – Ele disse.
- Eu sou um amor, vai! – Suspirei e vi uma notificação cobrir minha tela.
“Vou dar umas filmadas pela cidade, quer vir?” – Era de Leandro.
- Leandro me mandou mensagem, ele vai filmar pela cidade, acho melhor eu ir com ele. – Suspirei.
- Esse é o cara que veio de São Paulo? – Ele perguntou.
- Sim, ele é bacana! Meio quietão, mas é legal! – Ele assentiu com a cabeça. – É com ele que eu faço boxe. – Ele riu.
- Queria te ver lutando boxe.
- Prometo que filmo um dia. – Suspirei. – Nos falamos mais tarde? – Perguntei.
- Acho que amanhã, vou jantar no Firmino. – Assenti com a cabeça.
- Isso é bom, vai lá e manda um beijo para ele, para a Lari e para aquelas crianças lindas dele. – Ele riu fracamente.
- Pode deixar! – Ele sorriu. – Eu te amo, ok?!
- Eu também, ok?! – Rimos juntos e logo desligamos a ligação, depois de trocar risos de quem desligaria primeiro.
Depois desse acontecimento com o tal Kepa, as meninas fizeram seu último jogo no dia 12, no estádio de Guy Piriou, na cidade de Concarneau e perderam de dois a um para a Coreia do Norte. Isso fez com que elas finalizassem a competição em último da tabela e viéssemos embora mais cedo para o Brasil.

Para mim até que veio a calhar, pois as preparações para o amistoso da Seleção Principal Masculina já estavam começando e dia 17 teria convocação. Eu não tinha nenhuma informação privilegiada sobre os nomes que seriam convocados dessa vez, tudo dependia de Tite. Sabia sim que Tite estava em contato com Alisson para saber como ele estava se saindo no Liverpool e alguns detalhes extras, mas isso eram informações que o Alisson me passava, não a equipe técnica.
Mesmo sem essa informação privilegiada, eu encontrei bastante Tite e o resto da equipe técnica pelos corredores da CBF para algumas decisões de última hora, principalmente decisões sobre qual equipe de comunicação acompanharia a equipe técnica e questões sobre hotéis, locais de treinamento, jogos, entre outros.
Vou admitir que achei bem fraco as equipes contra a qual competiríamos nesses primeiros amistosos: Estados Unidos e El Salvador. Dois países com zero tradição do futebol. Não era um desafio para nós, eram só mais dois jogos, outra viagem de 10 dias com tudo pago para os Estados Unidos. A diferença dessa vez era que eu nunca tinha ido para lá e estava empolgada em fazer parte da equipe.
Não tínhamos fechado a equipe ainda, mas, baseado na minha promoção, eu tinha bastante esperança em ser chamada para participar dessa equipe, mas como sempre, tudo poderia mudar de um dia para o outro, eu só precisava esperar pelo melhor.
O dia 17 chegou e eu estava nervosa novamente com a suposição do Alisson não ser convocado. Assim, eu achava muito difícil, ele era a transferência mais cara de goleiro da história – nem que tenha sido por somente oito dias –, além de que tinha uma das melhores taxas de goleiro na Copa e já era considerado de alto nível, mas, mesmo assim, eu estava nervosa com a opção do “e se”.
Desci com os outros assessores para a convocação com o coração na mão, mas todos tentavam me garantir de que ele estava dentro, eles tinham certeza, eles diziam. Mas eu não sabia disso, meu coração só pôde respirar aliviado quando eu entrei na antessala para chamar Tite, Edu e Fábio que a coletiva ia chamar.
- Oi, gente! – Entrei na sala e eles sorriram.
- E aí, garota? – Tite me abraçou rapidamente.
- Prontos? – Perguntei.
- Sim, vamos lá! – Eles se levantaram e eu abri a porta, deixando espaço para que eles seguissem para o palco.
- Sabe de uma coisa, ? – Tite ficou por último, apoiando a mão em meu ombro.
- O quê? – Perguntei, franzindo a testa.
- Eu adoro uma história de amor. – Ele disse isso, piscou para mim e saiu para o palco, me deixando confusa.
Mas depois da confusão sumir, eu acreditava que podia acalmar meu coração um pouco. Afinal, Tite foi um dos grandes incentivadores do meu relacionamento lá na Copa. Ele não mudaria de ideia de uma hora para outra... Ou mudaria?
- Amistosos nos Estados Unidos nos dias sete e 11 de setembro contra Estados Unidos e El Salvador. – Murilo, das relações públicas, começou a falar. – Passo a palavra para Edu para prosseguirmos com a convocação. – Ele falou e eu me coloquei ao lado de Vinícius que fazia a transmissão.
- Vamos lá? – Ele cochichou para mim e segurou minha mão.
- Vamos ver se existem chances do meu relacionamento se manter firme. – Rimos juntos.
- Como de costume, faço uma pequena introdução antes da lista do Tite, e queria passar os agradecimentos da comissão técnica sobre o início de um novo ciclo, uma fase muito importante para a seleção brasileira, uma fase que estamos mais experientes, mais refletidos individualmente e em grupo, com um bom horizonte pela frente, animados em dar continuidade a esse trabalho. Então, em nome da comissão técnica, é uma satisfação de iniciar esse novo ciclo.
- Eu não tenho o dia todo, Edu! – Cochichei baixinho e Vinícius riu.
- E para que vocês possam entender esse novo ciclo, vou passar a ideia da comissão técnica para as convocações. Porque quando se olha esses quatro anos e meio, aparecem muitas datas, muitos jogos, muitas observações e dividimos esse novo ciclo em três fases. A primeira é a curto prazo, a segunda a médio e a terceira a longo prazo. O que seria? O curto prazo seria as convocações que terão uma característica como uma observação, para que possamos analisar nossa equipe até a Copa América. Isso será até janeiro, seis jogos e três convocações. – Assenti com a cabeça. – O médio prazo caracterizamos o final de dezembro, até o final da Copa América, terá uma característica de menos observações e o foco na competição. E o longo prazo será da Copa América em diante. – Peguei meu celular rapidamente, desligando um pouco das palavras de Edu.
“O que for para ser, será”. – Era a última mensagem de Alisson quando estávamos falando sobre ontem a noite e respirei fundo. Esperava que ele estivesse certo.
- Algumas observações antes de passar a lista: teremos um jogador da Sub-20 convocado para a principal, vocês podem fazer perguntas sobre isso no final. Nós liberaremos o Ederson que estava na lista do Tite por um motivo pessoal. – Vinícius franziu a testa.
- A esposa dele está para ganhar bebê. Falei com ele esses dias, é para nascer no dia 10 ou 11. – Expliquei para Vinícius que assentiu com a cabeça.
- Nossas próximas convocações serão dia 21 de setembro e 26 de outubro. – Passei mentalmente rapidamente as datas, anotando em meu celular. – Para que vocês possam se programar. Passo agora a palavra para o professor para que ele passe a lista. – Suspirei, apertando fortemente a mão de Vini.
- Bom dia, reitero aquilo que o Edu colocou agora, se nós colocamos e, lembro da primeira vez que eu tive aqui, que falamos de transparência. Vocês perguntem tudo aquilo que quiserem a respeito de qualquer assunto. Compete a mim, a comissão técnica passar para vocês. Como foi a primeira oportunidade pós-Copa do Mundo naquele momento de entrevista oficial, é a primeira vez que eu estou aqui publicamente, então façam as perguntas que vocês acreditam ser importante. É meu dever profissional e conduta pessoal responder. – Assenti com a cabeça.
- Sensato! – Falei para Vini.
- Desculpe, professor, mas antes, gostaria de salientar também que tivemos uma preocupação para os clubes que estão jogando o Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil, por esse motivo nós fizemos a seguinte análise: convocaremos apenas um atleta por clube do Brasil. Caso vocês queiram perguntar também mais tarde. – Edu assentiu e Tite pegou o papel.
- Convocação! – Ele falou e eu engoli em seco. – Alisson, Liverpool. – Respirei aliviada, vendo Vinícius rir ao meu lado. – Hugo, Flamengo. Neto, Valencia. Goleiros. Defensores: Alex Sandro, Juventus. Dedé, Cruzeiro. Fabinho, Liverpool. Fagner, Corinthians. Felipe, Porto. Filipe Luís, Atlético de Madrid. Marquinhos, PSG. Thiago, PSG. Meio-campistas: Andreas Pereira, Manchester United. Arthur, Barcelona. Casemiro, Real Madrid. Fred, Manchester United. Lucas, Paquetá, Flamengo. Philipe Coutinho, Barcelona. Renato Augusto, Beijing. Atacantes: Douglas Costa, Juventus. Everton, Grêmio. Firmino, Liverpool. Neymar, PSG. Pedro, Fluminense. Willian, Chelsea.
- Daqui uns minutos começamos as perguntas para a equipe. – Murilo falou e Vinícius me abraçou de lado.
- Feliz? – Suspirei.
- Aliviada! Agora vamos ver se eu vou! – Falei e ele riu.
- Não tenha nem dúvidas. – Ele riu e eu abri o WhatsApp para mandar mensagem para Alisson.
“Você está dentro! Parabéns”. – Escrevi animada, enviando um monte de emojis e gifs juntos e recebi uma notificação de Angelica.
“Quero vocês aqui em cima assim que a coletiva acabar”.
- Teve bastante mudança, não é mesmo? – Perguntei para Vinícius sobre a convocação.
- Muita! – Ele falou. – Preciso ver a lista de novo, mas parece que metade é cara nova.

Eu sabia que essa mensagem de Angelica queria dizer que: agora que a equipe de jogadores foi convocada, podemos fechar a nossa. Estava sendo assim depois de toda convocação, seja de que equipe for. Assim que acabou, ajudei Vinícius com os materiais e subimos para nossa sala particular, encontrando já algumas pessoas lá dentro.
- E aí, como foi? – Ela perguntou quando nos sentamos na mesa.
- Achei de boa! – Assenti com a cabeça. – O Tite não manda recado, vocês sabem. – Eles riram.
- Bom, então vamos lá. Agora que temos a equipe e comissão técnica que vão, vamos ver quem de vocês vai também, beleza? – Ela perguntou e afirmamos com a cabeça. – Como sabem, chega de viagens para mim, mas precisamos alinhar três equipes para esses acontecimentos, ok?! A que vai com a principal masculina, a que vai com a feminina sub-20 para o Uruguai e quem vai começar a fazer alguns trabalhos para o Brasileirão, tá?
- Beleza! – Falamos meio juntos.
- Temos uma equipe de São Paulo e outra de Brasília vai que vai nos auxiliar no Brasileirão, pensei no Leandro que já está acostumado. – Ele assentiu com a cabeça. – Roberto, pronto para viajar? Faz tempo que você não sai.
- Sem problemas! Vamos voltar! – Ele fez um polegar com as mãos.
- Bruna? Pode incluir na equipe?
- Adoro! – Ela disse e rimos.
- Fechado. – Angelica disse. – Equipe da sub-20 para o Uruguai: Daniela, quero você filmando para gente, Anna, que já está acostumada com as meninas e... – Ela deu uma olhada na sala e estava parecendo o Harry Potter pedindo para não ser selecionado. – Débora?
- Fechado! – Ela disse e eu suspirei aliviada.
- E para a principal masculina vamos manter a equipe que deu certo na Copa: Lucas, Vinícius, Bianca e . – Abri um discreto sorriso. – E Diana, você vai junto, quero que comece a ter já experiência em viagens e nada melhor do que começar com a principal. – Sorrimos e Lucas apertou minha mão por baixo da mesa, me dando um largo sorriso. – Ao trabalho! Passagens, reservas, documentos. Vocês sabem o caminho! – Ela disse e nos levantamos sorrindo.
Eu cheguei em casa toda alegre para conversar com Alisson sobre isso. Nos veríamos em alguns dias, isso era surreal! Ah, mal podia acreditar que isso estava realmente acontecendo, parecia que eu não o via há uma eternidade e agora estava há menos de 20 dias de encontrá-lo.
- Oie! – Falei animada, acenando para a tela, vendo-o quase dormindo.
- Oi. – Ele falou fraco.
- Meu Deus, que ânimo. – Brinquei e ele riu.
- Hoje o dia foi meio cansativo, meu corpo está todo dolorido, estou na base de analgésicos, posso não estar respondendo por mim hoje. – Sorri.
- Bom, então vamos falar rápido para você poder dormir. – Suspirei.
- Nós sempre falamos rápido, isso me irrita! – Ele comentou e eu sorri.
- Eu valorizo sua profissão e seu sono, da mesma forma que valorizo o meu. Estamos em fase de crescimento, é importantíssimo. – Rimos fracamente.
- Engraçadinha. Me diga, por que está feliz?
- Fico feliz que tenha perguntado! – Fui irônica. – Nosso encontro está marcado para o dia dois de setembro. – Abri um largo sorriso.
- Mesmo? – Ele perguntou se ajeitando na cama, fazendo uma cara de dor em seguida e eu assenti com a cabeça.
- Sim, eles convocaram você hoje, também me confirmaram na viagem. Está tudo acontecendo como planejado. – Suspirei.
- Vai ser perfeito! – Ele falou.
- São só 10 dias, mas é alguma coisa. – Suspirei.
- Farei cada minuto valer à pena. – Sorri.
- Não se esqueça de que ainda estamos indo a trabalho, ok?! – Ele riu.
- Tentarei me lembrar. – Ele brincou. – Quando vocês chegam?
- Acho que dia dois à noite. Todo mundo junto.
- Chegarei antes, então. – Ele falou. – Tenho jogo dia primeiro, o organizador da CBF aqui na Inglaterra nos indicou a ir logo depois do jogo já. Capaz de chegarmos um dia antes.
- Me espere, por favor.
- Como se fosse um desafio. – Sorri.
- Agora, me diga, como estão as coisas?

Esses últimos dias passaram mais lentos do que o normal. Eu estava nervosa, pilhada, querendo que essa viagem chegasse logo para que eu encontrasse Alisson novamente. Faziam quase dois meses. Era muito tempo, além de que, com o trabalho corrido dos dois lados, era difícil tirar longas horas para botar o papo em dia. Até de fim de semana era difícil, porque era normalmente quando ele viajava e se preparava para um jogo.
Nós estávamos sabendo lidar. Ainda era novidade, tudo muito novo, mas eu queria saber quando nos encontrássemos de novo, se tudo seria como foi na Copa do Mundo. Essa era minha maior preocupação. Conversar através de uma tela era fácil, falar como foi o dia e tudo mais, agora se reencontrar, acho que seria a maior dificuldade de todas.
Sábado de manhã eu faltei do boxe para arrumar minhas malas e finalizar tudo para a viagem. Almocei com Bernardo no Outback, já que ele estava trabalhando, e nos despedimos lá mesmo. Não que fosse diferente das outras viagens, mas ele fez questão de me desejar sorte com o boy. Voltei para casa e esperei a van que nos levaria para o aeroporto. Ela passou no começo da noite, voaríamos de madrugada.
- Oi, senhora . – O motorista falou, pegando minha mochila e mala.
- Tudo bem? – Perguntei rapidamente e ele abriu a porta aonde vi já quase todos lá dentro.
- E aí, garota? – Tite me ajudou a subir e eu me sentei no lugar vago ao lado de Bianca.
- Como vocês estão? – Sorri, dando a mão rapidamente para os mais próximos.
- E aí, pronta para encontrar o amor da sua vida? – Taffarel perguntou, fazendo todo mundo gargalhar e eu senti meu rosto queimar um pouco.
- Mais que pronta! – Sorri e eles gritaram e bateram palmas, me deixando cada vez mais ansiosa por esse momento.



Capítulo 2: Party, or Work, in the USA

Sorri discretamente ao passar pela aeromoça e acompanhei o resto do pessoal de cabeça baixa para os assentos do fundo da primeira classe. Vi o pessoal da equipe técnica se ajeitar e entrei na mesma fileira que Lucas e me joguei na confortável poltrona ao seu lado, suspirando.
- Preparada? – Ele perguntou e eu virei para o lado, rindo fracamente.
- Claro, porque 14 horas dentro de um avião é tudo que eu preciso para acalmar minha ansiedade. – Rimos juntos e eu me levantei, pegando meu iPad e fone de ouvido dentro da mochila e coloquei no meu assento antes de erguer a mochila e colocá-la no compartimento de carga.
- Coloca a minha, por favor? – Lucas perguntou e eu assenti com a cabeça, pegando sua bolsa igualmente pesada e colocando ao lado da minha, antes de me jogar na poltrona novamente, puxando os aparelhos de baixo da minha bunda. - Acho que tenho ludo aqui, se você quiser passar o tempo. – Ele falou mexendo em seu celular e eu assenti com a cabeça.
- Pode ser, mas preciso só fazer uma checagem dos novos nomes, com a correria do visto eu nem tive tempo de checar os novos nomes de Tite. – Ele debruçou na minha poltrona. – Além de que o Tite vai convocar o Militão no lugar do Fagner e Renato Augusto disse que não vai por problemas pessoais. – Suspirei. – Esse povo avisa em cima da hora.
- Eu nem pensei nisso também, para ser bem honesto. Quem temos de interessante? – Suspirei, abrindo meu arquivo de notas aonde tinha a lista da Copa do Mundo e a atual lado a lado.
- De novo temos Hugo e Neto, Fabinho, Alex Sandro, Dedé, Felipe, Arthur, Andreas Pereira, Paquetá, Éverton e Pedro. – Cocei a cabeça. – E agora o Militão.
- Ah, para mim está fácil, são nomes novos agora, mas no geral é gente conhecida pelo futebol nacional e internacional. – Suspirei.
- Bom para você. – Fui irônica. – Antes da Copa do Mundo eu acompanhava pouco do futebol nacional, meu trabalho não tinha como ocupação assistir aos jogos. – Ele riu ao meu lado. – Estou bem para trás nas caras novas do futebol. – Suspirei. – Pelo menos conheço o Fabinho pelo Alisson e Alex Sandro pela Juventus, né?!
- Já é alguma coisa, mas você também não conhecia nem o Alisson, caso não se lembre, e parece que deu tudo certo. – Ri fracamente.
- Bem até demais. – Suspirei.
- Relaxa, garota! Você está só há algumas horas de vê-lo. – Assenti com a cabeça.
- Eu sei, é agora que eu fico mais nervosa. – Suspirei e bloqueei o iPad, colocando-o no bolso lateral da poltrona ao ver a aeromoça tomar seu lugar para as instruções.
- Ah, qual é, , isso é empolgante! – Ri fracamente.
- Sim, é, mas também um pouco aterrorizante. Fazem quase dois meses, Lucas, não posso evitar em pensar que talvez as coisas tenham mudado. – Ele suspirou. – Muita coisa mudou nesse tempo.
- Sim, talvez você tenha razão, mas você mesma me disse que tudo está bem entre vocês, por que pessoalmente seria diferente? – Ele virou para mim e eu fiquei pensativa.
- Porque é pessoalmente. – Suspirei, apertando a fivela do cinto de segurança.
- Nada que você diga fará com que ela mude essa cabecinha, Lucas. – Ouvi a voz de Tite da poltrona da frente. – Ela só vai acreditar que nada mudou quando encontrá-lo. – Dei um pequeno sorriso.
- Estamos no caminho para isso. – Falei e eles riram.
- Tente dormir, o tempo passa mais rápido. – Ouvi Tite falar e mordi meu lábio inferior.
- Até parece que eu vou conseguir. – Falei e ele, Lucas e Cléber riram juntos.
A aeromoça finalizou as instruções e logo estávamos no céu do Rio de Janeiro com destino à Nova York. Ou melhor, à Atlanta, teria uma escala que não conseguimos evitar. Enquanto todos ao meu redor desmaiaram minutos depois do avião sair do chão, eu fiquei conhecendo um pouco mais sobre os novos convocados. Eu realmente estava fora de forma no quesito futebol e minha correria nessa nova ocupação tinha piorado tudo, então eu estava realmente em desvantagem. Abri os briefings montados e fiquei lendo um a um, tentando fazer com o que o tempo passasse.
Eventualmente eu acabei tirando um cochilo, não horas de sono, o que seria ideal, já que chegaríamos trabalhando já em Nova Jersey, mas o suficiente para passar duas horas do meu sono. Quando o negócio estava bom, fui acordada por Lucas, já que estávamos chegando em Atlanta.
Depois foi realmente impossível dormir de novo, eu entrei no modo hard e não havia quem me tirasse. Provavelmente só quando eu encontrasse meu namorado mesmo. Sabia que eles tinham chegado na noite anterior lá, eles tiveram jogo no dia primeiro e logo seguiram viagem. Era para termos chegaso ontem, mas algumas decisões de última hora fizeram com que precisássemos atrasar nosso voo.
Não precisamos trocar de avião ao pousar em Atlanta, então esperamos que os passageiros saíssem e logo estávamos no ar novamente por mais algumas horas. Abri um sorriso ao espiar pela janela ao lado de Lucas a Grande Maçã. Aquilo era demais, eu estava em Nova York. Talvez eu conseguisse relaxar das minhas saudades de Alisson por alguns minutos ao pensar que eu estava na maior cidade do mundo.
Assim que pousamos, fomos os primeiros a sair do avião e seguimos os caminhos e placas para a imigração e, na fila, já fui separando todos os papéis e meu passaporte, abrindo-o na folha da foto.
- . – Ouvi a voz de Tite e parei um pouco, vendo os outros membros das equipes nos ultrapassarem.
- Oi! – Falei e, assim que ele me alcançou, começamos a andar juntos.
- Não sei o que foi combinado com a equipe de comunicação lá no Rio, mas quero você na mesma ocupação que na Rússia, ok?
- Ficou assim mesmo, eu vou cuidar da relação com os jogadores e Bianca com a imprensa, não tem FIFA para nos encher aqui, então fica mais fácil. E Diana veio mais para observar e iniciar como minha antiga posição, de social mídia.
- Agora você é a chefe, não é mesmo? – Rimos juntos, parando na fila da imigração.
- Eu sempre fui, não é mesmo? – Ele riu, negando com a cabeça.
- O ego está bem alto, hein? – Dei de ombros.
- Vocês que me deram esse posto, agora aguenta! – Ele sorriu.
- Com todo prazer.
Esperamos em silêncio a longa fila de pessoas para a imigração de um dos maiores aeroportos do mundo. Quando chegou minha vez, eu segui para o guichê numerado e já entreguei os papéis e passaporte ao oficial.
- Bom dia, veio a trabalho ou lazer? – Ele perguntou.
- Trabalho, por 10 dias. – Respondi e ele checou os documentos.
- Trabalha para a Seleção Brasileira de Futebol?
- Sim, temos dois amistosos dia sete e dia 11. – Ele assentiu com a cabeça.
- Tudo está ok, senhorita. Bem-vinda à Nova York. – Ele carimbou meu passaporte e devolveu meus documentos.
- Obrigada! – Peguei tudo de volta, guardando na pasta de forma desajeitada e joguei o passaporte de volta na bolsa. Atravessei os guichês e encontrei Bianca do outro lado, esperando por todos.
- Empolgada? – Ela me perguntou e vi Lucas, Vinícius e Diana nos encontrando.
- Você sabe que sim. – Dei um pequeno sorriso. – Eu não o vi depois da Copa do Mundo.
- Nada? – Ela perguntou.
- Tirando chamadas de vídeo, fotos e vídeos esporádicos, não. – Ri fraco. – Eu voltei para o Rio e acompanhei as coisas com vocês, o que você sabe a correria que foi com os campeonatos. Ele ficou uns 10 dias de férias com a família em Sardenha, depois aceitou o contrato com o Liverpool e está jogando pela Premier League desde então. – Dei de ombros. – Não teve feriado ou folga até o sete de setembro, que vamos nos encontrar... – Me virei para ela. – Mas a trabalho.
- Mas isso não os impediu na Copa, não é?! – Vinícius passou o braço pelos meus ombros e eu ri.
- Obviamente! – Falei rindo.
- Vamos seguir, gente! – Edu apareceu e ajeitei a mochila nas costas e segui a equipe técnica e de comunicação.
- Vamos fazer esses pombinhos se reencontrarem! – Lucas falou, me apertando pelos ombros e eu revirei os olhos.
- Você ao menos conseguiu dormir durante a viagem? – Diana perguntou e eu suspirei, passando pelo aeroporto de Newark, vendo que nossas malas já começavam a deslizar pela esteira.
- Pouco, a ansiedade não aguenta. – Respirei fundo, puxando minha mala da esteira.
- Segura ela mais um pouco. – Ouvi Tite comentar um pouco mais à frente e eu ri.
- O que são duas horas comparadas há dois meses? – Falei e ele sorriu.
- Vamos seguir, gente! O ônibus nos espera! – Sylvinho falou e ficamos quietos enquanto atravessávamos o aeroporto lotado de Nova York.
Eu nunca tinha estado lá, mas parecia que eles sabiam muito bem para aonde estávamos indo. Quando reparei, já tínhamos saído do aeroporto e um ônibus nos esperava, sua única designação era o logo da CBF colado no para-brisa.
Entreguei minha mala para o motorista, dando um sorriso simpático e entrei no ônibus. Cada um podia ir em dois bancos confortavelmente que ainda sobrava uns 30 lugares, mas me joguei ao lado de Lucas e coloquei meu iPod na orelha, selecionando a playlist que Alisson havia me mandado com todos os seus sertanejos e modas de viola favoritos.
Apoiei a cabeça no encosto de pescoço e fechei os olhos, ouvindo as músicas começarem a tocar e olhei pela janela, vendo o pôr do sol transformar o céu azul de Nova York em alaranjado.
“Estamos em Nova York”. – Mandei para Alisson, não esperando nem 10 segundos pela sua resposta.
“Estou te esperando ansiosamente”. – Sorri. – “Todos estamos, na verdade”. – Ele respondeu, se referindo aos outros jogadores e eu suspirei, ouvindo Lucas rir ao meu lado.
- Só mais um pouco, . – Ri fraco e assenti com a cabeça.
Pareceu que essas duas horas passaram mais devagar do que as 14 de voo e eu não consegui pregar os olhos nem por alguns segundos, então só deixei com que as músicas da playlist passassem uma por uma e fechei os olhos me lembrando de seus toques e de seu beijo, nem prestei atenção nas maravilhas dos Estados Unidos, sempre fora um sonho ir para lá, mas agora eu tinha outro foco.
Percebi somente quando o ônibus parou novamente e eu olhei para o lado, percebendo que havíamos parado na frente do hotel The Westin, em Nova Jersey e mordi meu lábio inferior, soltando um forte suspiro.
- Vamos lá! – Lucas falou e eu ri nervosa.
Fui a primeira a me levantar, foi como se a equipe esperasse que eu saísse primeiro e eu os encarei, vendo-os rirem. Pareciam que todos estavam empolgados com esse reencontro, da mesma forma que eu. Saí a passos lentos do ônibus, respirando diversas vezes. Assim que segui em direção ao bagageiro, Tite mudou meus ombros de direção e me fez ir direto para a entrada do hotel. Alguns paparazzi e fãs estavam dispostos ali, mas ninguém pareceu se importar muito naquele momento. Entrei empolgada no lobby do hotel, mas só tinha alguns hóspedes e diversos seguranças.
- Na sala de conferência. – Tite disse apontando em alguma direção e fui quase saltitante até a mesma.
Os seguranças abriram a porta quando chegamos mais perto e respirei fundo antes de entrar no cômodo, parando dois passos para dentro. Passei os olhos pelo local, encontrando os 23 jogadores convocados à mesa do café da manhã, além de alguns assessores pessoais e trabalhadores do hotel. O encontrei distraído na ponta da mesa, mas Neymar o cutucou fortemente.
- Olha quem está aí! – Ele falou um tanto alto, chamando atenção do meu namorado e de todos ao nosso redor.
Ele se levantou e eu coloquei meus pés para correrem em sua direção e ouvi os saltos ecoarem na sala silenciosa. Ele abriu os braços para me esperar e eu pulei entre os mesmos, apertando os braços em seu pescoço, sentindo suas mãos apertarem fortemente em minha bunda.
Tirei o rosto da curvatura de seu pescoço e ele colou nossos lábios, acabando com aqueles dois meses de saudades em um beijo apressado e bagunçado. Nos separamos rindo e suas mãos deslizaram pela minha cintura, fazendo com que eu voltasse a fincar os pés no chão, mantendo meus braços bem apertados em seu corpo.
- Finalmente! – Ele falou baixo, me fazendo rir e apoiar uma das mãos em seu peito.
- Eu não sei nem explicar quantas saudades senti. – Falei e ele assentiu com a cabeça, suspirando.
- Tenho uma leve ideia. – Ele falou, me abraçando novamente e eu colei nossos lábios novamente por poucos segundos, ouvindo os gritos e aplausos ao fundo do pessoal que sabiam dessa história.
- Vai começar! – Falei e ele riu, me soltando lentamente, mas mantendo a mão firme em minha cintura.
- Como se não estivéssemos acostumados. – Ele cochichou em meu ouvido, me fazendo rir.
- Oi, gente! Que saudades! – Falei sorrindo e os 10 conhecidos se levantaram rapidamente para me cumprimentar.
- Pensou que ia se livrar da gente? – Firmino perguntou, me fazendo rir. – A gente traz seu garoto, mas vai ter que nos aguentar também. – Apertei-o fortemente.
- Espero que esteja cuidando bem dele em Liverpool. – Falei, vendo-o rir.
- Está tudo bem! – Ele disse. – Os torcedores ingleses que são chatos! – Sorri.
- Ah, garota! – Neymar me abraçou fortemente e eu segui para Thiago Silva, vendo-o rir.
- Meu capitão! – Falei rindo, abraçando-o fortemente.
- Bom te ver! – Ele respondeu.
- Ah, que saudades! – Coutinho me abraçou, me fazendo abrir um largo sorriso.
- Como você está? – Perguntei para ele e fui passando pelos outros: Fagner, Filipe Luís, Marquinhos, Casemiro, Fred, Douglas Costa e Willian.
Alguns me cumprimentavam mais contidamente, outros me davam fortes abraços, me tiravam do chão e queriam saber novidades durante aqueles dois meses, mas não tínhamos tempo para passar toda a lista de acontecimentos em alguns minutos.
Após os cumprimentos dos veteranos, partimos para cumprimentar os novos jogadores. Lucas foi quem começou, então passei pelos outros 10 jogadores dando rápidos acenos e curtos abraços.
- Oi, tudo bem? Arthur. – O jogador do Barcelona se apresentou e eu sorri, dando um rápido cumprimento de mão.
- Então, finalmente nos conhecemos cara a cara? – Fabinho perguntou e eu sorri, abraçando-o fortemente.
- Que bom te ver aqui, Fábio. – Falei e ele riu.
- Prazer em te conhecer pessoalmente. – Sorri.
- O prazer é meu. – Alisson apareceu ao meu lado novamente, apoiando a mão na minha cintura e eu sorri para o mesmo, sentindo-o estalar alguns beijos em minha bochecha.
- Vocês vão ter que aproveitar muito nesses dias. – Firmino falou, me fazendo rir e suspirar.
- Se tudo certo, os tempos sem se ver serão bem menores. – Falei para ele, olhando para Alisson e joguei seus cabelos para trás, acariciando sua barba.
- Se der tudo certo. – Alisson disse para me provocar, dando um largo sorriso e eu neguei com a cabeça.
- Vai dar tudo certo! – Falei e os três riram.
- Falou a pessoa que ficou nervosa com essa convocação. – Alisson respondeu contra meu ouvido e eu suspirei.
- Ah, nem vem, e outra, faltam muitas pessoas aqui, ok?! Pensei que teria o Ederson para me encher! – Falei e ambos riram.
- Relaxa, eu ainda estou aqui! – Thiago falou me fazendo rir.
- Vai começar tudo de novo. – Suspirei, fazendo todos gargalharem.
- , faça às honras? – Tite perguntou e eu me afastei um pouco de Alisson, seguindo para a prancheta que Tite me entregou.
- Ok, vamos lá! – Respirei fundo. - Olá, gente, tudo bem? – Perguntei, vendo todos me encararem. – Eu sou , a atual assessora chefe da CBF nessa viagem. Sou eu quem vai cuidar da imagem de vocês nesses próximos amistosos. – O pessoal comemorou gritando. – Para os novatos, eu comecei na Copa do Mundo da Rússia e criei um grande laço com os jogadores, o que permitiu um trabalho mais relaxado e divertido durante aquele tempo e espero que aconteça da mesma forma com os novos jogadores. Afinal, sejam bem-vindos e espero que gostem de usar o verde amarelo da Seleção! – Eles aplaudiram, me fazendo sorrir.
- Além disso... – Bianca falou um pouco mais alto, olhando para Alisson.
- Ah, além disso, temos, além da equipe técnica, nós cinco da equipe de comunicação. – Apoiei para o pessoal com as camisas azuis igual dos jogadores. – Que auxiliaremos em todos os momentos dessa viagem. Em breve falaremos mais sobre isso tudo.
- Eu não estava falando disso, mas ok. – Bianca comentou e eu franzi a testa e ela olhou sugestivamente para Alisson.
- Ah sim, claro. – Falei rindo. – Para quem ficou perdido sobre aquela cena estilo Dirty Dancing ali, eu e Alisson criamos um laço um pouco mais divertido na Copa e estamos juntos. – Neymar assoviou, me fazendo rir. – Somos bem profissionais, mas se a CBF apostou na gente, pode ter certeza que vamos nos divertir um pouco, ok?! – Dei de ombros e ouvi Tite gargalhando ao meu lado e vi Alisson ficar vermelho de vergonha. – Vamos começar os preparativos. – Sorri, olhando a prancheta. – Ficaremos aqui até o dia sete, depois iremos para Washington, após o jogo contra El Salvador, cada um vai para o seu canto novamente, então aproveitem, porque dia 26 de setembro tem outra convocação e vai ser assim até o fim do ano. – Suspirei. – Como vocês já estão acomodados, alguns desde ontem, nós vamos nos organizar e depois faremos uma pequena reunião antes do trabalho de verdade começar. – Finalizei e eles aplaudiram, dispersando novamente.
- Quanto tempo temos para matar a saudade? – Alisson perguntou e eu suspirei.
- 10 dias! – Disse, passando meus braços em seu pescoço, encarando seus olhos verdes.
- Bom, pelo menos os quartos são individuais e não vou precisar pedir para ninguém me dar licença para namorar minha garota! – Ele falou, colando nossas testas.
- Adoro! – Sorri. – Mas eu ainda não sei como vai ser em Washington! – Cochichei e ele riu.
- Não vamos sofrer por antecipação. – Ele disse, colando os lábios nos meus novamente, me fazendo rir entre dentes.
- Vamos trabalhar, ! – Dei um pulo ouvindo Lucas voltando com sua mala e me afastei de Alisson.
- Quem sabe mais tarde? – Pisquei para Alisson, seguindo para fora para pegar minha mala.
- Vai ter que ser! – Ele respondeu, me fazendo rir, abrindo um largo sorriso.

Seguimos para fora para buscar nossas bagagens novamente e Alisson e os meninos voltaram a se esconder dentro da sala reservada para a CBF, as janelas da frente do hotel eram espelhadas, mas mesmo assim não queríamos exposição de nenhuma forma. Peguei minha mala e mochila e me debrucei sobre o balcão da recepção para fazer o check-in das nossas equipes. Isso foi rápido, eles já tinham tudo preparado.
Subi com minha equipe ao meu lado e não sabia dizer se os meninos, ou Alisson, estavam no mesmo andar que a gente, então escolhi uma chave de forma aleatória e entrei no quarto do terceiro andar. Não preciso nem dizer que o quarto era maravilhoso, não é mesmo? Ele tinha uma cama de casal no meio, uma escrivaninha e uma televisão na frente da mesma, um sofá confortável na frente da larga janela de vidro e aqueles banheiros de tirar o fôlego.
Me livrei dos meus materiais e me sentei na cama por alguns minutos, eu estava cansada das semanas que antecederam essa viagem, foram muitas coisas que aconteceram ao mesmo tempo e muito rápido, e a falta de sono durante a viagem só tinha piorado meu humor. Queria tomar um banho e deitar nessa cama por algumas horas.
- Ei! – Bianca passou pela porta aberta.
- Fala aí! – Me levantei.
- Tite perguntou se podemos fazer uma reunião para alinhar as informações agora. Depois ele deixa a gente descansar um pouco, eles vão para o campo na parte da tarde.
- Nossa, sim! Eu só preciso trocar os sapatos. – Puxei a mala para cima da cama, já abrindo-a.
- A gente se encontra lá embaixo, então. – Ela falou e eu assenti com a cabeça.
Procurei pelos meus chinelos e deixei os saltos próximo à janela para tomarem um pouco de sol, tinha ficado com esse negócio enfiado no pé por quase 20 horas, ele precisava respirar. Dei uma olhada rápida em minha cara de sono e peguei meu celular, caçando o wi-fi do hotel, precisava checar a Sub-20 que deveria estar treinando na Granja hoje e se Michelle precisava de algo.
Encontrei Vinícius no corredor e descemos juntos novamente. Seus olhos também estavam pequenos iguais os meus, outro que não tinha dormido na viagem. Realmente, precisávamos ter vindo ontem. Entramos juntos na sala novamente e percebi o cheiro de comida nela, eles já estavam começando a servir o almoço e isso me deixava muito feliz.
- Gente, vamos sentar um pouco? Precisamos alinhar umas últimas coisas. – Tite falou e o pessoal em pé começou a buscar seus lugares, sobrou alguns espaços na mesa da equipe técnica e imaginei que seriam nossos lugares, mas eu e Bianca já nos colocamos ao lado de Tite. – Vocês querem começar? – Ele perguntou e negamos com a cabeça.
- Pode falar. – Bianca deu a deixa para ele.
- Bom, gente. Primeiro, bem-vindos a Seleção. Para o pessoal antigo: é bom ver vocês, e para o pessoal novo, gostaria de parabenizar por essa oportunidade de representar o Brasil no futebol. É difícil fazer a escolha dos convocados, mas como viemos de uma Copa do Mundo muito positiva, apesar do resultado final, precisamos colocar caras novas na equipe, jogadores novos para sempre tentar evoluir. – Olhei para Alisson na cabeceira de uma das mesas, me encarando e dei um pequeno sorriso. – Esse time está bem mesclado, veteranos e novatos e queremos testar todo nosso potencial aqui. – Vinícius puxou uma salva de palmas e todos o acompanharam, me fazendo rir. – Vamos às informações importantes que serão repassadas por e Bianca, que são nossas assessoras responsáveis.
- Uhul! – Douglas puxou o coro e eu revirei os olhos.
- Ok, galera, vamos fingir que temos um pouco de maturidade e prestar atenção aqui. – Falei, respirando fundo. – Bom, o esquema funciona da seguinte forma: vocês têm treino todos os dias na Arena Red Bull das oito até o meio dia, depois das duas até as sete da noite. Os ônibus estarão disponíveis para levar e trazer vocês dos treinos. As folgas e treinos especiais serão dadas pelo Tite conforme necessidade e caso ele ache interessante. – Peguei o papel da mão de Bianca. – O primeiro jogo contra os donos da casa será no MetLife Stadium, e o segundo contra El Salvador no FedEx Field. Eu e a Bianca estaremos aqui para lidar com todo problema entre vocês, imprensa e FIFA, então, caso tenham algum problema, alguma coisa, vocês venham até nós inicialmente e obedeçam as ordens de sempre: sem celulares, sem repassar informação privilegiada, porque não dá para ser igual foi em alguns casos na Copa.
- Pois é, né?! – Lucas brincou e eu revirei os olhos.
- O que mais? – Virei para Bianca.
- Sobre as coletivas de imprensa. – Ela falou. – Todo dia uma dupla será escolhida para falar com a imprensa, sobre o quê? Se virem! – Rimos fracamente. – Nesses casos, trabalhamos às cegas, então é mais um preenchimento de agenda. As escolhas são feitas pelo Tite e por nós, dependendo da avaliação da pessoa pela imprensa. Repetindo: vocês não anunciem nada, só ocupem o espaço. Sempre terá eu ou a para acompanhar vocês.
- Hoje chegamos um pouco tarde, então o almoço será servido mais cedo, para vocês já começarem a treinar logo depois. O pessoal da comunicação terá um tempo para descansar e nos encontrarão mais tarde no treino para os compromissos. – Tite falou. – Creio que é tudo.
- Eu quero fazer um parêntese, se me permite, . – Bianca falou e eu franzi a testa.
- Acho que sim! – Ri fracamente.
- É o seguinte, gente: e Alisson não existem, ok?! – Ponderei com a cabeça. – Eles não estão juntos, eles não são um casal e vocês não sabem de nada, combinado? Isso não pode sair daqui. – Ela falou firme e eu assenti com a cabeça.
- Virei fonte agora? – Perguntei e ela deu de ombros. – Você só podia ter falado disso depois que eu falasse com meu namorado sobre isso, mas ok! – Alisson riu à frente e Bianca fez uma careta.
- Desculpa, gente! – Neguei com a cabeça.
- Enfim, é isso mesmo. Inicialmente não somos nem amigos e estamos aqui a trabalho, quando for para abrir para o mundo, será uma decisão nossa, então, agradeceria muito se vocês mantivessem as provocações aqui dentro. – Eles assentiram com a cabeça. – Eu realmente não ligo e adoro ver o Alisson envergonhado, mas tudo com limites. – Tite concordou.
- Agradeço muito se isso for respeitado, de ambos os lados. – Ele olhou sugestivamente para mim e eu segurei a risada, sabendo exatamente do que ele estava falando.
- Em caso de mais novidades, vocês serão informados. Bom almoço! – Falei e o pessoal começou a se movimentar pelas mesas, dando a reunião como encerrada.
Andei em direção a Alisson e ele se levantou, percebendo minha aproximação. Nos afastamos alguns passos dos piratas de papagaio e eu o segurei pelo braço, erguendo os olhos para ele e suspirando.
- Deveríamos ter conversado sobre isso antes. – Falei, me referindo à Bianca.
- Nem precisa, na verdade. Acho que está certo, para ambas nossas posições. – Ele me segurou pela cintura. – Eles falam mesmo, não quero ninguém te julgando por isso.
- Já até consigo ver as pessoas me chamando de interesseira, trambiqueira ou pior. – Respirei fundo.
- Exato. – Ele suspirou. – Vamos manter isso entre nós dois, quando você se sentir confortável em abrir, a gente abre. – Dei de ombros.
- Eu já me sinto confortável, sendo bem honesta, mas quero fazer isso de forma separada da CBF, ser algo nosso, não deles. – Ele assentiu com a cabeça. – Porque vão falar de uma forma ou de outra e minha posição aqui está começando a ser cada vez mais vista e mencionada, quando te virem comigo, logo farão a conexão. – Ele beijou minha testa delicadamente.
- Sim, mas a única coisa que importa é como nos sentimos em relação a nós dois. – Assenti com a cabeça.
- Muito bem, muito feliz, mas com muitas saudades! – Passei os braços pela sua barriga, abraçando-o.
- Estamos na mesma sintonia, então. – Ele disse e eu bocejei.
- Parece que alguém está com sono. – Ri fracamente.
- Não consegui dormir muito no voo, vou aproveitar essa folguinha do Tite e dar uma cochilada.
- Faz bem! – Ele riu e eu me afastei devagar. – Nós daremos um jeito de ficar juntos, ok?!
- Aqui é muito mais fácil que na Copa, meu amor! – Cochichei e ele riu fracamente. – Em que andar estás?
- Quarto. – Ele falou e eu franzi os lábios.
- Terceiro, se vira! – Falei e ele riu, me apertando pelos ombros.
- Pode deixar, já não durmo muito mesmo, então está tudo certo. – Ele disse e eu o empurrei levemente com os ombros.
- Vamos comer, estou com o estômago colado nas costas.
- Quando não?! – Ele brincou e eu mostrei a língua para ele, seguindo na sua frente em direção ao buffet.

O almoço foi só piada. Não parecia que fazia dois meses que não nos víamos, parecia que dormimos, acordamos para outro dia e a Copa ainda estava rolando. As mesas estavam misturadas, então eu acabei almoçando perto de Alisson, os dois goleiros novos e um pessoal mais antigo.
Assim que o almoço finalizou e a risada cessou um pouco, Tite deu alguns minutos para o pessoal subir, se trocar e seguir para o ônibus que o primeiro treinamento começaria. Eu, Bianca, Diana e Vinícius, ficaríamos no hotel até a hora da coletiva para tirar uma soneca. Lucas disse que estava bem e que já iria com eles.
- Que horas vocês vão para lá? – Alisson perguntou enquanto trocava de roupa.
- A coletiva está marcada para quatro e meia, talvez umas quatro, eu preciso de um banho e de alguns minutos de sono. – Bocejei mais uma vez em frente a ele, enquanto ele colocava o kit verde.
- Seus olhos estão pequenos mesmo. – Dei um pequeno sorriso.
- Estava ansiosa para te ver. – Dei de ombros e ele se aproximou de mim, passando os braços pela minha cintura.
- Eu sei! Ontem fiquei até umas três da madrugada com o pessoal, eles estavam tentando me distrair. – Abri um sorriso. – Jogamos truco, pôquer, surgiu até um Uno no meio. – Gargalhei.
- Parece que não era a única ansiosa. – Dei de ombros e ele apertou os lábios nos meus novamente.
- Vamos, casal. – Ouvi a voz de Taffarel e revirei os olhos.
- Vocês poderiam deixar a gente finalizar um beijo inteiro, pelo amor de Deus? – Virei para porta, somente ouvindo a risada de Taffa ecoar pelo corredor.
- Mais tarde, após o jantar! – Alisson disse e eu revirei os olhos.
- Achei que estando juntos, seria mais fácil! – Ele assentiu com a cabeça.
- Se acalma, mulher. Faz só três horas que estamos juntos, temos 10 dias. – Suspirei, vendo-o se afastar e pegar sua mochila.
- Desculpe, estou meio aloprada. É o sono! – Falei e ele se aproximou novamente, dando um curto beijo em meus lábios.
- Vamos fingir que sim, para te deixar feliz. – Revirei os olhos. - Te vejo daqui a pouco. – Sorri, assentindo com a cabeça.
- Some daqui, Becker! – Saí junto dele, vendo os jogadores saindo dos quartos do quarto andar.
- Farei umas defesas para você! – Revirei os olhos.
- Não faz mais que sua obrigação. – Respondi um pouco mais alto e ele fez uma cara de ofendido, me fazendo cair na gargalhada.
- Malvada! – Ouvi sua voz ecoada no corredor, junto de algumas risadas de jogadores e, quando a porta do elevador se fechou, percebi que precisava descer um andar.
Sem paciência, peguei as escadas e fui para meu quarto. Peguei uma troca de roupa na mala, separei uma limpa que eu iria o treinamento, peguei meus itens de higiene e fui para o banheiro. Sabendo que dormiria em poucos segundos, não me preocupei em lavar o cabelo agora, voltei para o quarto, vesti uma camisola e me joguei no centro da cama, esperando que eu apagasse em poucos minutos.

Acordei com o celular tocando e percebi que havia esquecido de colocar um despertador. Era Bianca, pronta para ir para o estádio. Me arrumei rapidamente, fazendo um alto rabo de cavalo e calçando tênis dessa vez, peguei meus materiais e saí correndo escadas abaixo. Quando cheguei ao lobby, Bianca já me dava um olhar parecido com o que Angelica me daria.
- Desculpe, desculpe! – Respirei fundo, vendo-a rir. – Dormi demais.
- Ela tá de mau humor porque não conseguiu dormir! – Vinícius falou, apoiando o tripé nos ombros.
- Olha, vamos deixar claro que nem a Angelica tinha esse olhar tão ranzinza! – Falei, seguindo para fora do hotel junto dos dois e Diana.
- Eu fico de mau humor quando não durmo bem, ok?! – Bianca suspirou enquanto entrava na van e eu ri fracamente. – Ou não durmo nada.
- Relaxa, dona! Essa noite todo mundo vai dormir igual um anjinho. – Me sentei ao seu lado e os outros dois seguiram para os bancos de trás.
- Alguns melhores que outros. – Vini comentou e eu revirei os olhos.
- Como um bebê! – Frisei e eles gargalharam.
Fomos até a Arena Red Bull em silêncio, eu dei uma bisbilhotada no Flickr da CBF para saber se Lucas já tinha colocado alguma coisa, mas nada ainda. Estava com saudade de ver meu menino treinar, eu adorava suas puladas e esticadas – e aquelas leves erguidas de blusa – quando ele defendia um chute a gol.
Pouco menos de 30 minutos, saímos na frente do grande estádio. Eu estava acostumada com estádios de futebol, mas me senti levemente intimidada por ele. Respirei fundo e segui para a entrada do mesmo com meu novo trio favorito. Apresentamos nossos crachás e pudemos passar pelas áreas restritas à equipe.
Quando vi os jogadores correndo pelo campo, dei um pequeno sorriso, sentindo meu corpo relaxar. Ah, como eu estava com saudades disso!
- Vamos lá? – Bianca perguntou e eu assenti com a cabeça, respirando fundo.
Nos aproximamos de Tite que observava tudo com sua pose de sempre: os braços atrás das costas e aquele olhar preocupado e dei um leve toque em seus ombros, vendo-o suspirar antes mesmo de nos encarar.
- Já é a hora?
- Estamos alguns minutos atrasadas, para falar a verdade. – Bianca falou e dei um sorriso sem graça.
- Leva o pessoal novo, eles devem estar loucos para falar sobre a primeira convocação e tudo mais. – Ele comentou. – Além de que eles não possuem nenhuma informação privilegiada, dificilmente abrirão a boca. – Eu e Bianca nos encaramos, dando de ombros.
- Quem? – Perguntamos juntas e ele ponderou por alguns minutos.
- Sugestões? – Ele nos encarou.
- Não mesmo. – Falei firme e ele revirou os olhos.
- Leva o Paquetá e o Everton. – Bianca virou para mim.
- Vai ser engraçado. – Ela disse e eu ri fracamente. – Eu vou organizando o pessoal, leva eles, ok?!
- Ok! – Ela disse e saímos para lados diferentes. - Para esse jogo para eu não levar uma bolada, por favor? – Virei para Tite e ele riu, soando o apito. – Obrigada! – Dei um sorriso e alguns passos para dentro do campo e coloquei os dedos na boca, fazendo meu assovio alto ecoar.
- Ah! – Os jogadores mais próximos reclamaram.
- Paquetá, Everton, comigo! – Falei e evitei em rir da cara de perdido dos dois.
- Só vai. – Ouvi Thiago Silva e ambos tiraram os coletes e comecei a ir em direção à área interna do estádio, ouvindo ambos se aproximarem às pressas.
- O que aconteceu? – Everton perguntou.
- Vocês foram os escolhidos para a coletiva de hoje. – Entramos na parte coberta e senti minha visão escurecer por alguns segundos.
- Nós? – Paquetá falou dessa vez.
- Acostume-se. – Abanei com a mão e entrei na antessala, deixando espaço para que eles entrassem.
- E o que a gente fala? – Paquetá perguntou novamente.
- Ah, gente, vocês já deram coletivas nos times de vocês. Não muda nada. – Coloquei as mãos na cintura.
- Não queremos falar nenhuma besteira. – Everton falou mais baixo.
- E eu agradeceria muito se isso não acontecesse. – Eles riram fracamente. – Não se preocupem, no começo eles trabalham sem assunto, sem pauta, sem notícias, quando as coisas esquentarem, colocaremos os veteranos para falar. – Eles assentiram com a cabeça.
- Prontos? – Bianca apareceu e eu virei para os dois.
- Vamos lá? – Eles respiraram fundo.
- Vamos sim! – Everton seguiu Bianca e Lucas foi logo atrás.
Eles entraram na sala da coletiva e eu fui logo atrás, passando pela lateral da sala, e parando entre Vinícius e Lucas no fundo, junto de outros repórteres de TV. Bianca introduziu a coletiva, apresentou os dois jogadores e peguei meu celular para anotar as informações que pudessem ser pertinentes para quando a imprensa lembrasse da nossa existência.
Logo após a primeira pergunta, eu já abaixei o celular. Senti que os poucos repórteres ali presentes não estavam muito interessados nos novatos para malhar de pergunta, mas era o que tínhamos no momento. Everton foi o primeiro a responder as perguntas, Paquetá estava um pouco impaciente pela espera, o que estava me deixando nervosa também, ele não parava de mexer as mãos, mas ambos responderam bem.
Era óbvio o nervosismo deles, mas ambos já estavam acostumados a responder coletivas de seus times, então não faria muita diferença. Só fez com que eu perdesse alguns minutos no meu tempo, poucos minutos. Se a coletiva durou 15 minutos, foi muito.
- Não foi tão difícil. – Paquetá falou assim que eu os coloquei na antessala novamente.
- Não, vocês foram bem! – Abanei a mão. – Eles estavam bem calminhos hoje. – Ri fracamente. – Vocês podem voltar lá para o treino. – Falei e apontei para a porta, vendo ambos passarem pela mesma.
- Que coisa mais ridícula! – Ouvi a voz de Bianca quando ela entrou na sala. – 12 minutos, gente! 12! – Ela falou brava e eu até arregalei os olhos. – Vim até aqui para isso? – Eu e Lucas nos entreolhamos.
- Se acalma, dona Bianca! – Lucas falou na paz. – Respira fundo.
- Eu estou chata, não é?! – Ela falou um pouco mais baixo e nós dois assentimos em sua direção. – Eu preciso dormir.
- Pega um Uber e vai para o hotel, eu seguro as pontas aqui. – Ela ponderou com a cabeça. – Qual é, Bi! O que pode acontecer? Hoje o dia está calmo.
- Mas você também não está cansada? – Ela perguntou.
- Eu dormi algumas horinhas, consigo aguentar o resto do dia. – Falei.
- Além do mais, ela não vai querer ficar longe do Alisson. – Vinícius falou e eu dei um largo sorriso.
- Também! – Rimos juntas.
- Ok, eu vou, mas qualquer coisa me chama. – Assenti com a cabeça. – Mas não falem nada para ninguém, pelo amor de Deus.
- Ninguém vai te dedar, né?! Não temos mais cinco anos. – Lucas falou e eu ri, checando o relógio.
- São quase quatro e meia, devemos voltar umas seis, sete para o hotel. Não vai acontecer nada nesse meio tempo. – Garanti e passei o braço pelos seus ombros, voltando a andar para as áreas comuns do estádio.
- Valeu, gente! Prometo estar disposta no jantar.
- Durma até amanhã cedo se for necessário. – Falei e senti o sol me cegar ao chegarmos do lado de fora.
- Ah, fiquei cego! – Lucas reclamou e eu abanei as mãos.
- Estava nublado até agora, caramba! – Reclamei.
- Vem, Bi, eu espero o Uber contigo. – Vinícius falou e eu e Lucas seguimos para o centro do campo pelo lado de fora e paramos próximo ao banco de reservas, aonde a equipe técnica conversava.
- Como foi? – Tite me perguntou e eu desviei o olhar dos jogadores e virei para Adenor.
- Ridículo! – Copiei Bianca e ele arregalou os olhos. - 12 minutos, Tite. Esse foi o longo período da coletiva. – Falei e ele suspirou. – Nem a imprensa sabia o que abordar. – Ele riu fracamente.
- Menos mal. – Ele disse aliviado.
- É, mas trazer 16 redes de TV, nacionais e internacionais, para cá para uma coletiva de 12 minutos foi maior perda de tempo. Como jornalista, eu ficaria puta, confesso. – Ele ponderou com a cabeça.
- Podemos intercalar com duas duplas amanhã, que tal? – Suspirei.
- Talvez. Uma dupla de novatos e outra de veteranos, dar mais informações para eles trabalharem.
- Ok, combinado! – Ele disse.
- Até que horas ficaremos aqui? – Perguntei.
- Até seis horas, todos estão cansados e com o jet lag bagunçado, finalizamos cedo hoje e amanhã começamos mais cedo. – Assenti com a cabeça.
- Combinado!
- Além de que temos o jantar de recepção hoje, creio que será servido sete e meia. – Dei um pequeno sorriso.
- Vai ser legal, vai! – Abanei com a mão e ele sorriu, me abraçando pelo ombro e me apertando contra seu corpo.
- Ah, que bom te ter de volta, . – Rimos juntos e eu o abracei pela cintura também.
- É bom voltar. – Suspirei.
- Cadê Bianca? – Ele perguntou e eu senti meu corpo gelar por alguns segundos, pensando em qual mentira daria para Tite.
- Problemas com o hotel de Washington, ela foi para o hotel checar os documentos e enviar novamente para o pessoal do Rio. – Ele ergueu o rosto como se pensasse alguns minutos e confirmou.
- Tá certo! – Ele disse, me soltando. – Assim não, na cara da bola, tenta criar uma curva melhor. – Percebi que ele já voltara a falar com os jogadores e aproveitei a deixa para seguir do lado esquerdo do campo aonde Taffarel e Matheus treinavam com os goleiros.
Avancei o campo quando percebi que eram só tiros a gol e parei na lateral, vendo meu namorado fazer a sequência montada e caprichar em quatro defesas seguidas e cair para o meu lado. Ele se levantou rapidamente e piscou em minha direção antes de dar a volta atrás do gol e dar espaço para que Neto começasse a fazer a sequência.
- E aí, garota? – Taffa gritou em minha direção e eu dei a volta por trás, parando ao seu lado.
- E aí, gente? – Perguntei, encarando, agora de frente, os três goleiros fazerem as sequências diversas vezes.
- Como você está? – Ele perguntou, dando um rápido beijo em minha cabeça entre um chute e outro.
- Tudo certo e com vocês? – Virei para ambos.
- Tudo certo também! – Ele sorriu. – Me dá um segundo. – Ele falou e virou para ambos. – Vamos fazer um intervalo de cinco minutos, depois voltamos com uma nova sequência começando pelo Neto. – Ele falou e os goleiros seguiram beber um pouco de água e Alisson veio em nossa direção.
- Como estão os meninos novos? – Perguntei e Taffarel deu aquela ponderada com a cabeça.
- O começo é sempre meio travado, mas hoje é o primeiro dia, as coisas ficarão mais soltas lá na frente. – Taffarel falou e eu assenti com a cabeça.
- Estava olhando e o Neto é mais velho do que o Alisson, por que ele nunca foi chamado? – Ambos se entreolharam e arquearam os ombros.
- Só escolhas. – Taffarel disse.
- Agora é a hora de fazer testes, para não errar lá na frente. – Comentei e Alisson passou o braço pelos meus ombros. - Ah, você está todo sujo. – Me retraí, tirando seu braço e ele riu. – Cheio de grama. – Comentei, dando uma batida em suas costas.
- Uh, superpreocupada! – Ri fracamente.
- Eu acabei de tomar banho, dá um desconto. – Ele riu, enchendo a boca de isotônico. - O que você acha, Taffa? – Fiz um movimento em direção aos goleiros novos.
- Até agora tudo certo, mas estou gostando da pose do Hugo, ele respeita bem o esporte.
- Confesso que adoro ver os subs jogarem, me dá uma imagem do futuro.
- E você? Tem jogado? – Ele perguntou e eu ri abertamente.
- Eu não tenho tempo para fazer mais nada, esporadicamente participo do Projeto de Esportes da CBF, mas as coisas estão bem corridas. – Suspirei.
- Me lembre de te colocar em campo de novo, nem que por alguns minutos. – Sorri.
- Eu já estou no campo. – Dei de ombros e ele riu.
- Da próxima vez venha com o calçado adequado. – Neguei com a cabeça. – Vamos continuar? – Ele falou um pouco mais alto.
- Eu vou ficar ali no banco. – Falei para Alisson e ele assentiu com a cabeça, voltando ao treino.
- Taffa, vamos fazer um jogo unilateral. – Tite gritou quando eu me ajeitava no banco. – Os goleiros serão intercalados a cada cinco minutos de bola corrida. Hugo, começa contigo.
Vi o jogo começar a ser montado e procurei rapidamente por Lucas e Vinícius com o olhar. Ambos estavam trabalhando em suas respectivas funções. Eu deveria estar na minha também, mas o dia estava calmo, não tinha nenhuma ligação em meu celular ou e-mail para responder, então optei por ver os meninos jogarem um pouco.
No meu tempo de ócio, percebi o que Taffarel tinha dito sobre o garoto novo da Sub-20. Ele realmente tinha talento. Tite tinha montado um jogo bem bagunçado na minha cabeça. Parecia um pebolim, tinha vários manequins estáticos no centro do campo – que havia sido dividido em quatro – e cerca de sete jogadores humanos correndo.
Parecia algo de táticas, posições e lances, mas eu estava realmente interessada no garoto novo. Ele era bom demais. As vezes se atrasava para ir em direção à bola, mas compensava em outras de forma excepcional. Talvez eu estivesse vendo o sucessor do Alisson no futuro. Além de tudo, ele era superacanhado, acho que ainda não tinha ouvido a voz dele.
Enfim, do outro lado do campo rolava um bobinho com balizas fincadas no campo aonde até Alisson foi participar. Eu gostava de vê-lo jogando com os pés, honestamente, mas não queria parecer a namorada louca e ficar perto toda hora, tinham outros jogadores que mereciam um pouco da minha atenção.
Diana apareceu logo em seguida, falou que havia feito algumas filmagens pelo celular para postar nas redes sociais, já que veio como social mídia. Ficamos lado a lado comentando sobre o treino até dar a hora de ir embora.

Chegamos no hotel quase sete horas, devido ao trânsito até nosso hotel, Tite disse para nos apressarmos, que o jantar seria servido em meia hora. Alisson me deu aquele olhar e eu sabia o que ele queria dizer: queria um momento a sós.
- Agora não. – Cochichei para ele enquanto esperávamos o elevador junto da segunda leva.
- Cinco minutos. – Ele assoprou próximo ao meu ouvido e eu ri fracamente.
- Depois do jantar. – Falei, entrando no elevador junto de outros jogadores e me coloquei ao fundo.
- Eu vou aparecer no seu quarto. – Ele continuou cochichando e eu ri fracamente. Todos estavam quietos, então a voz de Alisson saía um pouco mais alta que o esperado.
- Eu tenho que checar algumas coisas com Bianca, te encontro na janta, ok?! – Virei o rosto para ele, encostando nossas testas.
- malvada! – Ouvi alguém falar no silêncio e eu neguei com a cabeça.
- Eu odeio vocês. – Falei, agradecendo mentalmente pelas portas do elevador abrirem em meu andar. – Já te encontro novamente. – Dei um rápido selinho em Alisson e desviei dos outros jogadores para sair da caixa de metal com Lucas ao meu lado.
A porta mal havia sido fechada e ouvi as zoações com Alisson, me fazendo rir, negando com a cabeça. Era óbvio que eles não nos levariam a sério. Só agradecia pelo pessoal novo ser um pouco mais contido nas brincadeiras, provavelmente pela falta de intimidade, mas tinha alguns que... Ah, que vontade que eu tinha de apertar alguns pescoços.
- Isso nunca vai mudar, . – Lucas falou e eu ri.
- Um dia vai, eu acredito nisso. – Falei e ele riu.
- Podemos tentar, né?! – Ele deu de ombros. – Te vejo no jantar?
- Sim, só vou checar se Bianca está acordada, vou tomar um banho e logo desço. – Falei e ele assentiu com a cabeça.
Ele entrou logo na primeira porta e eu segui ao longo do corredor até chegar no quarto de Bianca. Bati à porta uma vez, duas, três e não obtive resposta dela. Chamei-a duas vezes e nada. Supus que ela ainda estivesse dormindo e segui para o meu quarto. Olhei o celular e ela não vi ao WhatsApp desde 10 para as quatro. Deveria estar dormindo mesmo.
Fui para meu quarto e tomei um banho mais rápido dessa vez. Já tinha tomado um banho e não é como se o trabalho hoje tivesse sido cansativo. Deixei só a água quente cair um pouco sobre meu corpo e sentir o cheiro do sabonete subir, me fazendo já respirar aliviada. Voltei para o quarto e coloquei uma blusa limpa, mas dessa vez optei por uma calça de moletom. Confesso que essa regra de sempre ficar uniformizado enquanto equipe me irritava, eu só queria colocar um short de vez em quando.
Não precisei esperar muito para descer, então só mandei uma mensagem para Bianca perguntando como ela estava e dei aquela informação básica à minha mãe e a Bernardo. Nessas viagens eu me esquecia de minha família pela correria, mas eles não se esqueciam de mim.
Saí do quarto encontrando Vini também e descemos juntos para o restaurante. Algumas pessoas já estavam lá, mas tudo estava meio calmo ainda. Encontrei Alisson conversando com Filipe Luís e me coloquei ao seu lado, sentindo-o me apertar pela cintura e colar os lábios nos meus, me fazendo nos separar aos risos.
- Comporte-se, Becker! – Dei um tapa em seu peito e ele riu.
- Eu estou com saudades. – Ele me encarou com os braços apertando minha cintura.
- Eu sei, eu também, mas espere até depois da janta. – Segurei seu rosto com as mãos, sentindo sua barba pinicar minhas mãos. – Não quero que eles acabem com esses momentos. – Ele me deu um curto beijo.
- Você é muito racional! – Ele parou de inclinar meu corpo para trás e eu ri fracamente.
- Alguém precisa ser. – O beijei rapidamente e nos separei um pouco.
- Te encontro no seu quarto mais tarde, então. – Ele disse contrariado e eu sorri, abraçando-o de lado, percebendo que várias pessoas nos olhavam.
- Viu?! É esse tipo de olhar que eu não quero. – Cochichei para ele que riu.
- E quem fez aquela cena hoje cedo? – Ele perguntou.
- Xí. – Falei, apoiando a mão em seu rosto e virando para o lado, fazendo-o rir.
- Vamos comer! – Ouvi gritar e nos entreolhamos, seguindo a fila que se formava para comer.
Nos servimos e me juntei a ele na mesa. Normalmente uma mesa era só para jogadores e a outra para equipe, mas Taffarel estava folgado na mesa dos jogadores, então me dei liberdade para fazer isso também. O jantar transcorreu sem grandes surpresas, algumas risadas ecoavam nas mesas quando alguém soltava piada, mas eu estava mais preocupada na minha mão entrelaçada na de Alisson debaixo da mesa. Isso dificultava um pouco a alimentação, mas eu realmente não me importava naquele momento.
- É bom estar contigo de novo. – Alisson cochichou contra meu ouvido e eu só dei um pequeno sorriso, sentindo-o beijar minha testa.
- Eu senti muito sua falta. – Acariciei seu rosto e me assustei com alguém pulando atrás de mim. – Caramba, Vinícius! – Reclamei, ouvindo alguns jogadores rirem à nossa volta.
- Vamos começar? – Ele perguntou animado.
- Começar o quê? – Franzi a testa, honestamente confusa.
- Como “começar o quê”? O trote, . Dã! – Ele falou e eu me mantive com a expressão confusa.
- Ah, legal! – Alisson comemorou.
- Do que vocês estão falando?
- Ah, Vini! – Lucas gritou do outro lado da mesa. – A nunca levou trote. A gente não faz trote em Copa, não tem gente nova.
- Mas o quê? – Perguntei novamente.
- Você está tão ferrada! – Vinícius saiu gargalhando atrás de mim.
- Toda convocação tem trote com o pessoal novo. É legal! – Alisson deu de ombros e passou o braço pelos meus ombros.
- Mas eu não sou jogadora. – Ele gargalhou.
- A equipe também conta. – Arregalei os olhos.
- Gente! – Bianca subiu em uma cadeira. – Vamos começar o trote? – Assim que ela falou isso, o pessoal antigo começou a gritar e aplaudir em comemoração e os novos, assim como eu, ficaram com pontos de interrogação nos olhos. – Vamos chamar cada jogador ou equipe nova e vocês irão se apresentar e farão uma apresentação para nós.
- E será filmado e postado em nossas redes sociais! – Lucas falou e eu olhei em desespero para Alisson.
- O que eu vou falar? – Cochichei para ele.
- Nada que nos incrimine. – Ele disse e ri baixinho, negando com a cabeça.
- Vamos começar com nosso sub-20, Hugo! – Bianca falou e o povo começou a gritar e aplaudir.
- Caramba! – O grandão Hugo se levantou e se colocou no lugar que Bianca estava antes.
- Sobe na cadeira! – Ela mandou.
- Não, pô...
- Vai! – Ela disse e o pessoal riu da relutância dele. Eu estava na outra ponta da mesa, então assistiria o espetáculo de camarote.
- Boa noite a todos. – Hugo disse no microfone de Vinícius.
- Boa noite... – O pessoal alongou, me fazendo rir.
- Eu sou Hugo, sou da sub-20, jogo pelas categorias de base do Flamengo. – O pessoal aplaudiu. – Gostaria de agradecer por estar aqui, ter sido convocado para participar dessa grande experiência com vocês.
- Uhul! – O pessoal aplaudiu.
- O que mais? – Ele virou para Bianca que deu de ombros.
- Canta! – Willian e Douglas que estavam na ponta começaram a atiçar, rindo com Neymar, Marquinhos e Casemiro.
- Dança! – Eu sabia que o nível estava descendo e que ia sobrar para mim daqui a pouco.
- Ah! – Ele ficou envergonhado imediatamente, mas entrou na brincadeira. – “Até o sol quis ver de onde vem tanta luz, nosso amor tem poder, fogo que nos conduz...” – Ele batia a mão livre na lateral do corpo enquanto o povo o acompanhava.
- Palmas para o Hugo! – Bianca acabou com a vergonha do garoto e o pessoal dividiu gargalhadas e palmas.
E seguiu assim por todos os jogadores que tinham sido convocados pela primeira vez: Andreas Pereira, Paquetá, Everton, Pedro, Felipe, Richarlison... Ah, Richarlison! Meu Deus, o que eu fui ver? Tem como “desver” isso?
- Eu sou o Richarlison...
- Como te chamam? – Neymar provocou.
- Pombo! – Ele disse e as mesas explodiram em risadas. – Falam que eu tenho cara de pombo. – Neguei com a cabeça.
- Dança o pombo aí! – Ele ficou vermelho, mas arqueou as costas como se fosse pombo mesmo e fez a dança do pombo, fazendo até com que eu gargalhasse, sentindo os olhos se encherem de lágrimas.
- Pru, pru, pru!
- Uhul! – Alisson gritou ao meu lado.
- Chega, chega! – Ele reclamou, voltando ao seu lugar e o pessoal o vaiou.
- Acho que foram todos! – Bianca falou ainda gargalhando.
- Tem mais uma aqui! – Lucas gritou e apontou para mim e eu abaixei a cabeça na mesa, ouvindo Alisson, Fred, Filipe Luís, Hugo, Coutinho, Arthur começarem a gritar para mim.
- Ei, não sou nova! – Gritei, vendo-os rirem e senti Vinícius arrastar minha cadeira para trás, me assustando e eu gargalhei com isso.
- Vamos, vamos! – Vinícius me puxou pelos braços e eu ri, me levantando a contragosto e atravessando a longa mesa e peguei o microfone na mão de Bianca, largando os chinelos no chão antes de subir na cadeira.
- Oi, gente! – Falei muito envergonhada, sentindo meu rosto queimar.
- Oi, ! – Eles responderam e eu revirei os olhos.
- Viu?! Todo mundo sabe quem eu sou. – Eles gargalharam. – Eu sou , sou assessora da CBF e trabalho aqui há uns quatro meses. – Abanei a mão. – É um grande prazer estar aqui com vocês, fazendo esse trabalho sensacional! – Sorri. – Só vou tirar esse momento para agradecer mesmo, vocês fazem eu me sentir muito confortável e acolhida todas as vezes. – Eles sorriam para mim. – Tanto os jogadores, quanto a equipe técnica, vocês são demais mesmo!
- Uhul! – Eles começaram a gritar e a aplaudir.
- Valeu! – Sorri e desci da cadeira.
- Dança!
- Canta! – Eles gritaram e eu revirei os olhos.
- Vocês não vão conseguir isso comigo, desistam!
- Uma música! – Alisson gritou e eu ergui o dedo do meio para ele, vendo o pessoal gargalhar mais ainda.
- O que eu vou cantar para vocês? Eu conheço mais coisas internacionais.
- Qualquer coisa! – Neymar gritou ao meu lado com o celular a postos e eu pensei por um tempo.
- É óbvio! – Suspirei, revirando os olhos. – “Bola na trave não altera o placar. Bola na área sem ninguém pra cabecear. Bola na rede pra fazer o gol. Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?” – Comecei e todo mundo gritou animado, me fazendo gargalhar. – “A bandeira no estádio é um estandarte. A flâmula pendurada na parede do quarto. O distintivo na camisa do uniforme. Que coisa linda é uma partida.” – Acabei entrando na onda e eles começaram a bater palmas e a batucar na mesa.
- “Posso morrer pelo meu time. Se ele perder, que dor, imenso crime. Posso chorar se ele não ganhar, mas se ele ganha não adianta, não há garganta que não pare de berrar”. – Eles começaram a se empolgar e eu ri.
- Vocês não precisam mais de mim! – Falei e eles começaram a me aplaudir novamente, gargalhando.
- É isso por hoje, gente! – Bianca disse batendo suas mãos na minha, me abraçando. – Foi demais! – Revirei os olhos.
- Eu vou te matar! – Falei e ela sorriu, se afastando de mim.
- Café da manhã começa as sete, treino as nove! – Tite disse. – Boa noite! – Ele disse e o pessoal começou a se levantar. Alisson esperou com que algumas pessoas saíssem antes de levantar e vir em minha direção.
- Foi ótimo! – Ele disse, passando os braços pela minha cintura e eu ri, negando com a cabeça. – Você tem futuro como cantora. – Gargalhei.
- Opa! Só se for no lugar da Adelaide do Castelo Rá-Tim-Bum. – Brinquei e ele franziu a testa.
- A ave da Morgana? – Assenti com a cabeça e ele gargalhou, colando os lábios nos meus rapidamente.
- Combina, vai. – Brinquei e ele me abraçou apertado.
- Vai, vamos aproveitar um tempinho só nosso agora. – Ele cochichou e eu sorri, entrelaçando meus dedos nos dele e seguimos até o elevador, entrando junto com a última leva e eu precisei apertar o número quatro, já que todos os jogadores iriam para cima.
Fiquei mentalizando a piada que seria quando Alisson saísse comigo, mas eu não estava nem aí. Queria aproveitar com meu namorado. Assim que o elevador parou no quatro, as portas se abriram e eu saí do mesmo, puxando a mão de Alisson comigo.
- Boa noite, gente! – Ele ainda zoou com o pessoal e fomos incrivelmente vaiados ao sair do elevador, me fazendo morder o lábio inferior para não gargalhar junto. Logo as portas se fecharam novamente e nos vimos sozinhos no corredor novamente.
- Você tinha que zoar, né? – Brinquei, pegando a chave do quarto no bolso e ele gargalhou, beijando meu pescoço enquanto eu abria a porta.
- Deixa eles sentirem inveja um pouco, vai. – Revirei os olhos, abrindo a porta e me afastando um pouco.
- Eu sinto inveja por não poder estar contigo todos os dias. – Ele fechou a porta e eu coloquei a chave na escrivaninha.
- Não, nem vem! – Ele me segurou pela cintura e passei os braços pelos seus ombros. – Só nós dois temos isso, mais ninguém. E eu adoro essa exclusividade. – Abri um sorriso, mas o fechei no momento em que seus lábios tocaram os meus.
Subi as mãos para seus cabelos, sentindo-o arquear meu corpo para trás com a diferença – mesmo que pouca – de alturas e senti deslizar suas mãos pelo meu corpo. Nossas bocas buscavam uma a outra desesperadamente, de forma até desleixada, e as mãos procuravam espaços por dentro das roupas folgadas.
Ele alcançou minhas coxas e me puxou para seu colo facilitando nosso beijo, me fazendo até rir em como aquilo tinha ficado mais fácil. Passei a mão em seu rosto, intercalando os beijos pelo seu rosto, sentindo-o descer os seus pelo meu pescoço, me fazendo respirar um pouco mais forte. Ele deu alguns passos para frente, me fazendo soltar um grito fino quando ele esbarrou na cama e gargalhamos os dois juntos.
Coloquei a mão em sua boca para aliviar o som e ele lambeu minha palma, tirando uma careta de meu rosto. Ele me colocou na cama e eu deslizei meu corpo para trás, deixando os chinelos no chão, deitando no meio do espaço. Antes de se colocar em cima de mim, sua blusa azul ficou ao lado de meus chinelos, me fazendo sorrir ao ver aquele corpo escultural em minha frente.
O puxei pelos ombros novamente, passando uma das pernas pela sua cintura, sentindo-o apertar minhas coxas firmemente. Seus lábios subiram para os meus novamente, mas de forma mais calma, me fazendo sorrir com seus carinhos e movimentos lentos. Uma de suas mãos subiu para meu rosto e fez um carinho suave, tirando os fios que insistiam em ficar presos pelas curvas do meu rosto.
- Como eu te amo! – Ele disse e eu abri um sorriso, suspirando.
- Como eu senti saudades. – Falei e ele segurou na perna em que estava em sua cintura e se virou na cama, me colocando em cima dele. Ele segurou na barra da minha blusa e puxou-a para cima, me deixando descabelada quando isso aconteceu.
- Muitas saudades! – Ele disse encarando meus seios cobertos pelo sutiã e eu neguei com a cabeça, me debruçando sobre seu corpo e colando nossos lábios novamente.

Pulei ao ouvir meu despertador tocar ainda com o som da Copa e gemi, não tendo coragem de me levantar. Senti um corpo se movimentar ao meu lado e a mão deslizar pela minha cintura e suspirei, abrindo um pequeno sorriso ao me lembrar de que ele estava ao meu lado. Soltei um suspiro e abri os olhos, encontrando seus olhos claros bem próximos aos meus.
- Bom dia. – Ele falou contra meu ouvido e estalou um beijo em minha bochecha.
- Bom dia. – Falei manhosa e passei as mãos em meu rosto, esticando o corpo ao me espreguiçar.
- Como você dormiu? – Ele debruçou seu corpo sobre o meu e eu ergui a mão para tocar seu rosto.
- Como se eu estivesse nas nuvens. – Sorri. – E não foi pela cama dessa vez. – Rimos juntos e ele colou os lábios rapidamente no meu. - Não faça isso antes de eu escovar os dentes. – Ele riu fracamente, se virando para o lado e sentando na cama.
- Não vai ser um mal hálito matinal que vai fazer eu deixar de beijar minha namorada. – Fiz uma careta.
- Ah, Alisson! – Reclamei, pegando o travesseiro dele e batendo contra suas costas. – Nojento!
- Eu estou brincando, está tudo certo no departamento. – Revirei os olhos e sentei na cama jogando a coberta para o lado e me levantando também.
- Eu preciso me trocar. – Reclamei e ele se levantou já vestindo sua blusa.
- Eu vou para o meu quarto fazer isso. – Ele se aproximou de mim e colou os lábios levemente nos meus, nos separando logo em seguida. – Nos encontramos lá embaixo?
- Pode deixar! – Baguncei seus cabelos e segui em direção ao banheiro, ouvindo a porta bater em seguida.
Me encarei no espelho do banheiro e vi um largo sorriso formado em meus lábios, além de que meu coração estava quente, aquecido novamente. Era isso o que eu estava precisando, um bom e gostoso momento com o meu namorado, só isso.
Tomei banho e aproveitei para lavar a cabeça. Era cedo, o cabelo secaria eventualmente. Me vesti com a roupa do dia a dia e calcei tênis nos pés, iríamos voltar para a Arena Red Bull e eu estava cansada de enfiar os saltos na grama. Além de que, depois da Copa, meus sapatos precisavam de um bom descanso. Peguei meus materiais de trabalho e saí do quarto, encontrando Bianca esperando pelo elevador.
- Hum, parece que a noite foi boa! – Ela comentou do meu largo sorriso e eu ri fracamente.
- Ah, foi ótimo! – Suspirei e entramos no elevador quando ele abriu, encontrando Arthur e Coutinho lá dentro. - Bom dia, gente! – Falei animada e entrei no elevador com Bianca.
- Parece que alguém está feliz. – Coutinho comentou e eu dei um sorriso, passando meu braço no ombro do mais baixo.
- Muito, meu amigo Phillipe, muito. – Sorri e ambos riram. – Você é meio quieto, né, Arthur? – Virei para o loiro.
- Só porque ele não pegou intimidade ainda. – Coutinho brincou e eu ri.
- Aqui não tem disso não. – Dei de ombros. – Precisando, sabe onde me encontrar.
- Pode deixar! – Ele falou e as portas se abriram novamente.
Nós quatro seguimos para o refeitório reservado para nós e Alisson já estava lá papeando com Taffarel e Hugo. Ele me puxou pela cintura quando passei por ele e colou os lábios nos meus rapidamente, me fazendo sorrir.
- Vocês dois precisam maneirar com isso. – Taffa comentou e eu fiz uma careta.
- O pior é que eu sei. – Suspirei. – Mas é difícil, Taffa, você entende, certo? – Dei um pequeno sorriso.
- Vocês não se viam desde o final da Copa? – Ele perguntou cruzando os braços e eu assenti com a cabeça. – Ok, entendo, mas sejam discretos. – Assenti com a cabeça.
- Vou comer, não demorem, nove horas o ônibus sai. – Falei para os três e fui me servir.
- E aí, garota? – Ney parou ao meu lado no buffet e eu sorri, abraçando-o de lado.
- Estou te achando meio quieto. – Comentei.
- Ah, só a vida, nada de incomum. – Ri fracamente.
- Ainda arranjando encrenca por onde passa? – Perguntei.
- Tentando não. – Ele falou e eu sorri, estalando um beijo em sua bochecha.
- Continue assim que você me deixa orgulhosa. – Falei e ele sorriu, assentindo com a cabeça.
Me sentei em um lugar neutro dessa vez, entre Filipe Luís e Thiago, meu capitão, e comemos enquanto trocávamos algumas frases genéricas no café da manhã. Era de manhã, todo mundo estava com preguiça ainda. Pouco antes das nove fui informada que o ônibus estava na porta, os jogadores pegaram suas mochilas, eu peguei meus materiais e seguimos para a Arena Red Bull.
Os treinos começaram sem muitas surpresas, aquecimento, fizeram rolamentos naqueles rolinhos, alguns jogos simples e logo chamei Richarlison e Andreas Pereira para a coletiva das 11 horas. Também, da mesma forma que a de ontem, não durou nem 15 minutos. Ambos estavam muito nervosos e as perguntas não eram das mais preocupantes. “Como se sente ao ser convocado para a seleção?”, “O que espera dos jogos?” e coisas irrelevantes assim.
Os liberamos logo e eu acompanhei do banco dos reservas os 15 minutos liberados para a imprensa filmar o time. Aproveitei para dar algumas instruções à Diana sobre as redes sociais da CBF e as do canarinho, já que ela estava cuidando daquilo agora, pelo menos durante a viagem.
O almoço acabou sendo na Arena mesmo para não perder tempo. Alguma marca de hamburguer patrocinou e ficamos por lá mesmo, mas tivemos duas horas para que não tivéssemos problemas com digestão, então acabamos nos espalhando pelo vestiário e até consegui tirar uma soneca nos braços de Alisson enquanto estávamos deitados em um dos colchonetes de aquecimento, mas não terminou de uma forma legal, achei que fosse ter um ataque cardíaco.
- Vamos acordar! – Acordei no pulo com barulhos de pandeiro e tambor. Bem, não só eu, todo mundo que se ajeitou nos colchonetes.
- Mas que caralho! – Douglas reclamou e eu não me contive em rir.
- Vamos trabalhar! – Sylvinho gritou e eu suspirei, revirando os olhos.
Alisson se levantou ao meu lado e estendeu as mãos para eu me levantar também, trocamos um rápido beijo e ele seguiu para o treinamento. Aproveitei o tempo sozinha e fui dar uma checada em e-mails e ligações da imprensa antes de ir para o sol. Diana ajudou Vinícius a gravar uma pequena entrevista com Tite e Dedé para a CBF TV, Lucas continuava seus trabalhos de malabarismo ao tirar várias fotos e Bianca começava a surtar por causa da imprensa. Nada de muito novo até aí.
Mais para o fim do dia eu peguei Thiago Silva e Filipe Luís e fomos para mais uma coletiva. Graças a Deus ela foi um pouco mais longa do que as duas anteriores, quase 30 minutos, então consegui me distrair um pouco, além de que eu adorava ver o Thiago falando, para mim ele sempre seria meu capitão, sempre mesmo! Desculpa, Ney.
Depois da coletiva ainda rolou um pouco de treino na academia da arena, nada muito demorado, mas eu já estava entediada de tudo aquilo. Os trabalhos eram bem menores que na Copa, então a gente tinha que arranjar o que fazer. Estava quase pegando uma bola e batendo com Bianca... O que não era uma má ideia.
Voltamos para o hotel quase oito da noite. Muitos optaram por jantar antes de subir para seus quartos para descansar e eu optei por fazer o mesmo. Estava bem cansada hoje. Mais um cansado de tédio do que físico mesmo. Peguei um pouco de comida do buffet e sentei ao lado da turma do Liverpool.
- , você não tem noção como é bom te conhecer pessoalmente! – Fabinho comentou e eu sorri, esticando a mão para ele.
- Por quê? Eu fui assunto demais lá em Melwood? – Perguntei e eles riram.
- Ah, o Alisson fala bastante de ti, principalmente o quanto está com saudades. – Firmino falou em tom zombeteiro e eu ri, negando com a cabeça.
- Essa daqui não fica quieta também! – Lucas apareceu ao meu lado e eu revirei os olhos.
- Qual é, gente. Vocês precisam entender nosso lado. – Alisson disse.
- É! O problema aqui não é nem dinheiro, é um oceano de distância entre nós dois. – Falei e eles riram.
- Eu vou tentar te levar para um jogo do Liverpool. – Alisson falou. – Ou nem que seja só um treino, me avisa das suas folgas. – Suspirei.
- Quem sabe assim ele para de reclamar de saudades? – Fabinho zoou e eu ri.
- Tudo depende de como vai ficar o cronograma quando eu voltar. – Comentei com Alisson e ele assentiu com a cabeça. – Tudo depende do “e se” de novo. – Suspirei.
- Precisa fazer esse “e se” acontecer logo, até o Klopp está louco para conhecer a . – Foi a vez de Firmino falar.
- O técnico? – Perguntei e eles confirmaram com a cabeça.
- É! Eu estava respondendo suas mensagens um dia antes do jogo, coisa que minha assessora disse para eu não fazer, mas ok. – Rimos juntos. – E ele perguntou quem era. – Ele deu de ombros. – Contei meio por cima, agora ele quer te conhecer.
- A gente vai fazer dar certo, você vai ver. – Suspirei.
Terminamos de jantar e subimos para meu quarto novamente, mas dessa vez não ficamos nos altos beijos. O treino havia sido longo para ele e entediante para mim, então ficamos somente abraçados na minha cama enquanto ele assistia House of Cards no iPad, mas não consegui acompanhá-lo, eu logo fechei os olhos, mas senti um beijo em meu rosto antes de entrar no mundo dos sonhos.

Os dias se seguiram sem muitas novidades. As duas únicas relevantes eram que a imprensa estava começando a encher nosso saco e parecia que eu e Alisson estávamos mais interligados do que nunca.
Quando voltamos após a Copa do Mundo, eu honestamente achei que todas as promessas não passariam de palavras vazias, que eu estava entrando em um barco fadado ao fracasso, mas em dois meses com ele, mesmo que não tivéssemos nos relacionado, eu sabia que ele era diferente. Ele tinha um bom coração naturalmente, fazia as coisas por paixão e, apesar da pose dele de homem alto, forte, bonito, ele era um bobo! Amável, carinhoso, respeitoso com Deus e com todos à sua volta, mas mesmo assim eu tive dúvidas.
Vai ver Alisson Becker fosse só mais um cara com promessas vazias e agia de forma diferente do que ele falava, mas analisando sua preocupação em sempre falar comigo durante esse tempo, fazer questão de garantir para mim que ele realmente me comprometia, fazia meu coração respirar mais aliviado. E agora também, se encontrando pessoalmente depois de todo esse tempo longe, eu realmente via um futuro mais claro para nós dois. Era só eu ter paciência, não querer atropelar as coisas que tudo daria um jeito.
Apesar dessa situação nossa dentro do trabalho, acho que estávamos sabendo dividir bastante. Não estávamos abusando da boa vontade do pessoal e só ficávamos juntos nos horários de folgas. Ele ainda tinha que fazer defesas incríveis e eu ainda precisava lidar com muitas coisas.
No terceiro dia de treinamentos tivemos a visita do pentacampeão Kléberson, confesso que não lembrava do seu rosto, mas ele era volante na conquista do Penta, e essa ainda era minha lembrança mais feliz do futebol, então fiz questão de tietar um pouco e tirar uma foto para guardar de recordação. Ele se aposentou no Fort Lauderdale Strikers da Flórida e morava nos Estados Unidos desde então.
O treino seguiu o percurso de sempre, bobinho para treinar, chutes a gol entre os goleiros e treinos táticos entre os jogadores de linha com balizas, cones e outros apetrechos da equipe técnica. Depois eles dividiram o time em dois, deixando Alisson em um gol e Hugo e Neto revezando o outro. Eu até queria prestar mais atenção, o time estava se montando e eu gostava de ver a evolução, mas a imprensa apareceu e Bianca, inicialmente, precisava cuidar de organização e FIFA, já que ela tinha ficado com o lugar de Angelica, então eu fiquei com a imprensa e cuidar dos jogadores.
Éramos duas pessoas para fazer o trabalho de três. Diana era nova ainda, então ela cuidava exclusivamente das redes sociais, não lidando com nenhuma parte muito relevante. Mas enquanto as ligações chegavam, principalmente confirmação da coletiva de hoje à tarde, fiquei analisando os jogos em uma das linhas de escanteio, ao lado do gol de Alisson. Meu Deus, o Neymar estava muito fominha. Tinha três para ele fazer o passe e acertar o gol e nada.
- Mas que porra... – Falei baixo quando desliguei a ligação e vi Neymar ser tirado pela defesa e não fazer o passe. – Passa a porra da bola, Neymar! – Gritei um pouco alto demais e vi que isso chamou atenção de algumas pessoas. – Caralho! – Reclamei e olhei na direção de Tite que não fez objeção ao meu comentário.
- Quer meu lugar? – Ele gritou e eu coloquei as mãos na cintura, olhando para ele.
- Posso? – Perguntei e ele estendeu a mão, dando a deixa. - Tem quatro marcadores em cima de você e três outros jogadores livres do outro lado para você fazer essa jogada. – Falei para ele mais calmamente. – Dá um chapéu no Paquetá que a bola passa! – Falei simplesmente. – Coutinho está há quatro metros de você, se ele se aproximar mais, passa para o Everton e gol! – Dei de ombros sorrindo.
- Valeu, . – Tite disse. – Agora, Ney, faça o que ela disse! – Dei um sorriso presunçoso para Neymar e ele estendeu a mão para eu tocar na dele e a bola voltou a rolar.
As quatro horas tivemos uma coletiva com Arthur e Marquinhos. Ela também foi mais longa que a dos novatos. Arthur era novato, mas Marquinhos estava aqui há muito tempo. Eu achava engraçadíssimo ver a coletiva dos novatos, a cara de nervoso deles era muito engraçada, parecia que eles estavam com dor de barriga ou algo assim, mas minha feição de assessora responsável não passava nada.
O dia acabou quase da mesma forma que os outros, a diferença é que ficamos até um pouco mais tarde no restaurante fazendo um campeonato de truco. Ainda bem que não apostamos dinheiro ou eu teria perdido muito dinheiro para o meu próprio namorado, mas ok, eu não tinha costume de jogar e participei só pela diversão e para fazer os outros rirem de mim, mas relevamos.

O quarto dia de treinamento chegou e eu estava muito animada por ele! Poderíamos finalmente treinar no local em que seria o jogo no dia seguinte e ele era, nada mais, nada menos, do que o estádio dos New York Giants! O MetLife Stadium! Amo futebol convencional, mas tenho uma paixão especial por futebol americano, um amor que surgiu por causa de um ator que eu acompanho, mas isso não vem ao caso, era um estádio do caralho!
Fiquei abismada pelo tamanho dele, pelos vestiários, pelo túnel, por tudo! Eu poderia muito ficar ali confortavelmente. Ele era bonito, grandioso, realmente de qualidade, sabe? Um daqueles estádios que dá até orgulho poder trabalhar nele.
Esse dia foi o mais pesado em toda viagem! Eu mal consegui assistir ao treino de tanta demanda que surgiu. Agora eu entendia Bianca durante a copa, os problemas simplesmente surgiam e a gente precisava resolver, simples assim. Não importando se viesse por telefone, por e-mail ou até por WhatsApp era o verdadeiro “lide com isso”.
E durante esses amistosos, os Estados Unidos eram os únicos adversários realmente interessantes para nós, não que eles fossem uma superpotência do futebol, deixe isso para o time feminino americano, mas era algo muito mais empolgando do que El Salvador, né?!
Além dessa loucura de imprensa, Vinícius tinha que cumprir alguns vídeos para a CBF TV, então ele acabou pegando Fred para entrevistar, principalmente que ele tinha recém sido transferido para o Manchester United e perdeu sua GoPro para Willian que falou sobre um gol que ele fez nesse mesmo estádio contra o Equador. Até que facilitou, porque até Vinícius estava atolado, mesmo sem a participação do canarinho em Nova Jersey. Ele estava praticamente filmando, editando e postando as coisas, porque a CBF também estava com compromissos de outras seleções. Tanto que as coletivas estavam entrando sem nem edição. Era filmar e subir, o som das perguntas estava péssimo de ouvir.
Eu consegui parar a imprensa na hora da entrevista de Tite e Neymar. Tite havia escolhido Neymar para ser capitão novamente, então eu sabia que o negócio seria bem mais pesado do que estávamos acostumados. A coletiva durou quase uma hora e as perguntas foram bem mais duras do que os outros dias. Eles eram os alvos mais relevantes, então a chapa esquentou!
Após isso, eu e Bianca demos o trabalho como encerrado e começamos a ignorar todas as ligações e e-mails que vinham da imprensa. Era hora do merecido descanso e encarar o jogo que viria amanhã.
O treino rendeu até tarde da noite nesse dia. Tite queria aproveitar ao máximo o espaço sem restrição de horas para fazer reconhecimento de território. Então, depois que a imprensa foi embora, foi jogo atrás de jogo até as nove da noite. Era visível a cara de cansaço de todos os jogadores, e fome também, o almoço havia sido uma da tarde e ninguém tinha parado desde então.
Chegamos ao hotel e já paramos no restaurante, eu enchi um prato com todas as coisas deliciosas que tinha no buffet e repeti mais duas vezes. Eu precisava lembrar de levar algum lanche para mim ou poderia desmaiar em algum momento.
- Eu acho que já vou subir. – Falei para Alisson ao terminar de jantar, sentindo-o me abraçar pelos ombros.
- Eu também vou, estou muito cansado. – Abri a boca, dando um longo bocejo, ouvindo-o rir.
- Eu também. Quero um banho e cama. – Suspirei e ele beijou minha bochecha sorrindo.
- Estou de castigo hoje? – Ele perguntou baixo e eu ri fracamente.
- Deveria, mas sei que vamos dormir muito rápido, então deixo isso em suas mãos. – Falei e ele ponderou com a cabeça.
- Eu vou tomar banho e te encontro no seu quarto. – Ele disse e eu sorri, assentindo com a cabeça.
- Ok, eu já vou subir. – Falei, vendo-o se levantar e sumir pelas portas do restaurante.
- Maneira, hein, ? – Vi Tite parar em minha frente e ri fracamente. – Não amoleça tanto meu goleiro.
- Meu goleiro. – Frisei e ele riu. – E não acho que isso seja amolecer alguém, só queremos matar as saudades.
- Eu sei, mas a equipe está sempre olhando desconfiada. – Ele se sentou em minha frente e eu suspirei.
- Estou atrapalhando alguma coisa, por acaso? – Perguntei. – Alisson está desfocado ou algo do tipo?
- Não, nada disso, você sabe que eu te quis aqui, todos estamos fazendo tudo para isso dar certo, mas isso não cai bem para os superiores. – Olhei em volta, procurando algum superior.
- Ao meu ver, os únicos superiores aqui são você, eu e Bianca. – Dei de ombros. – Não se preocupe, Tite, tudo está controlado, principalmente com a imprensa. – Ele assentiu com a cabeça.
- Eu sei, só finjam um pouco que estão tentando se esconder. – Ri fracamente.
- Não estamos. – Dei de ombros, ouvindo-o rir.
Tomei meu banho pensando naquilo e compartilhei as opiniões com Alisson quando ele apareceu em meu quarto mais tarde.
- Eu penso muito nisso, sabe? Sei que são os únicos momentos que podemos ficar juntos, mas estamos aqui a trabalho, não é?! – Ele acariciou meu rosto e eu suspirei.
- Exato. – Suspirei. – Mas também não vejo problema trocarmos alguns beijos no café e na janta, são os únicos momentos que fazemos isso, a gente mal se fala nos treinamentos, principalmente por causa da presença da imprensa.
- Está tudo bem, a gente tenta maneirar na demonstração de afeto em público e eu escapo para seu quarto todos as noites. – Rimos juntos e dei um curto beijo em seus lábios.
- Eu te amo. – Falei suspirando.
- Eu também te amo. – Ele disse e eu fechei os olhos, sentindo-o passar os braços pela minha cintura e me puxar para mais perto.



Capítulo 3 – Fire at the Little Park

O despertador tocou no dia do jogo e eu respirei fundo antes de erguer meu corpo na cama e deslizar o botão do celular. Virei para o lado e percebi que Alisson tinha um olho aberto enquanto o outro se mantinha enfiado no travesseiro.
- Hora de levantar, dorminhoco! – Dei um beijo em seu rosto e segui para o banheiro.
Tomei um banho quase frio para acordar meu corpo, dei uma ajeitada nos cabelos, escovei o dente e voltei para o quarto enrolada na toalha, encontrando Alisson da mesma forma que antes. Franzi a testa e me aproximei dele novamente, me sentando na beirada da cama.
- Ei, o que foi? Não vai levantar? – Perguntei e ele abriu os olhos novamente, junto de um largo sorriso.
- Eu estou de castigo, não podemos sair daqui até a hora do jogo, então não tem por que levantar agora. Também, quando eu sair daqui, o Taffa não vai deixar eu tirar outra soneca, então eu vou dormir mais uma horinha ou duas. – Ri fraco, me levantando novamente e seguindo até minha mala para pegar uma troca de roupa.
- Bom, eu tenho que ir com Bianca até Nova York para retirar as informações do jogo de hoje: credenciais, listas e tudo mais. Vamos aproveitar e gravar com o canarinho e conhecer a cidade. – Ele assentiu com a cabeça, observando eu me trocar. – Eu devo ir direto para o estádio para a coletiva pré-jogo com o Tite e o Cléber. Volto só umas cinco, seis da tarde. – Ele suspirou.
- Se importa se eu ficar aqui? – Ele perguntou e eu neguei com a cabeça, vendo-o virar de barriga para cima.
- Só não se esqueça de nada aqui dentro, ok?! Eu vou ficar com a chave, quando sair, você não volta mais. – Ele riu fracamente.
- Pode deixar, tentarei me comportar! – Me sentei na beirada da cama novamente, me debruçando sobre ele e ele segurou meu rosto antes de eu colar nossos lábios levemente.
- Até mais tarde. – Me levantei, pegando minha bolsa. – Não se esquece que o café da manhã é só até as 10!
- Pode deixar! – Ele falou com a voz meio sonolenta ainda e eu saí do quarto, fechando a porta em seguida.
- Sozinha hoje? – Lucas apareceu atrás de mim e eu ri fracamente.
- Eles estão de castigo hoje, vai dormir mais um pouco. – Ele bocejou.
- Queria! – Ri fracamente. – Vamos fazer isso logo que depois ainda podemos tirar uma soneca.
- Vai com a gente? – Perguntei e ele deu de ombros.
- Alguém precisa gravar o canarinho, não é mesmo? – Ele perguntou e eu neguei com a cabeça.
- Esqueci que estamos com equipe reduzida. – Rimos juntos e seguimos para o elevador, esperando-o chegar.
Ele chegou com Fred, Douglas, Felipe e Fagner, cumprimentamos todos e seguimos para o refeitório. Encontramos Bianca, Diana e Vinícius lá e tomamos café conversando sobre os últimos acontecimentos e o cronograma que faríamos na cidade para não perder tempo. Todos estavam com a agenda meio livre, então aceitaram turistar por Nova York.
Bianca e os meninos já tinham vindo para cá outras vezes, mas para mim e Diana era algo novo e eu estava muito empolgada com isso. Terminamos de tomar café e Bianca foi chamar a van para sairmos, enquanto isso, fui falar com Tite.
- Tudo decidido, Tite? Estamos indo lá na FIFA. – Ele assentiu com a cabeça.
- Tudo certo, amistoso é mais de boa. Eles não estão nem aí. – Sorrimos.
- Devo encontrar vocês direto lá, ok? Vamos aproveitar e conhecer um pouco da cidade.
- Pode deixar. Aproveitem! – Cléber falou e eu pisquei para ambos, saindo com a equipe de comunicação.
O prédio da FIFA em Nova York ficava no Upper East Side, o que fez meu lado Gossip Girl aflorar animadamente, mas isso demorou cerca de uma hora só para chegarmos lá. Estávamos em Nova York, a maior cidade do mundo, o trânsito era caótico. Então, precisamos dar uma agilizada nos pontos que eu gostaria de conhecer, principalmente por Vinícius já estar com parte da roupa do Canarinho e só faria uma pequena aparição na Times Square.
Não que Nova York fosse meu sonho de consumo, nunca tinha sido. Meus sonhos de consumo eu conheci quando estudei em Londres, mas era Nova York, não podíamos negar a magnitude da cidade e tudo aquilo que eu via em diversos filmes animadamente.
Saímos da FIFA beirando o Central Park, e passamos na frente do Metropolitan Museum of Art, me dando alguns segundos para fazer uma foto no lugar mais conhecido de qualquer fã de Gossip Girl. Depois seguimos por outra longa avenida e chegamos no Museu de História Natural, que eu amava ver nos filmes de Uma Noite no Museu.
Depois seguimos para a Times Square, o motorista era americano, então ele sabia todos os caminhos. Ele parou para nós em uma rua paralela e andamos até chegar na dita cuja, já percebendo alguns olhares das pessoas sob o Canarinho. Era impossível não ver aquele gigante bicudo amarelo. Paramos em uma das calçadas próximo à faixa de pedestres e Lucas começou a tirar fotos e filmar com sua câmera mesmo.
Não tínhamos muito tempo, então o negócio tinha que ser bem rápido mesmo, foram meia dúzia de fotos, deixamos alguns fãs, principalmente os menores, se aproximarem e até nós tiramos algumas fotos com o Canarinho. Além de que eu e Diana aproveitamos a bagunça para fazer altas selfies na frente da rua mais famosa do mundo.
Quando conseguimos nos livrar da muvuca que se formou ao redor de Vini, voltamos pela rua paralela e ainda esperamos alguns minutos para que a van passasse. Enquanto isso, Vinícius continuava a ser tietado. Seguimos nosso pequeno cronograma, enquanto Vini tirava a roupa de passarinho.
Estando perto, ele também passou na frente do Empire State Building, mas não tivemos tempo para subir, ele parou na frente, pulamos rapidamente da van, fizemos uma foto e seguimos nosso caminho. Andamos por um maior período e paramos no Memorial e Museu do 11 de Setembro, aonde ficava as antigas Torres Gêmeas.
Passar por aquele lugar me deu uma sensação doce amarga. Foi como se finalmente tivesse caído a ficha de tudo o que tinha acontecido comigo nesses últimos anos, mas me fez pensar, principalmente, nos meus avós que já tinham falecido. Fiz uma reza silenciosa, pedindo por proteção e saúde durante minhas viagens e que tudo desse certo comigo e com Alisson, além de agradecer pelos acontecimentos em minha vida e disse que sentia falta deles.
Voltamos para a van e ele seguiu a rua, chegando no famoso Touro de Wall Street. Fizemos algumas poses engraçadas em grupos e voltamos para o carro novamente. Beirando o Rio East para seguir para o ponto mais perto da Estátua da Liberdade, já que não sabíamos se daria tempo de chegar à ilha, por causa das balsas e tudo mais, acabei vendo a famosa Ponte do Brooklyn de longe, mas foi só também.
Chegamos ao ponto de embarque até a Ilha da Liberdade para tirar uma foto melhor do ponto turístico mais famoso de Nova York e checamos os horários para saber se era possível. Talvez tivéssemos um atraso, mas Cléber e Tite me encontrariam direto no estádio, então eu ganharia alguns minutos, certo?! Pegamos a balsa, fomos para a Ilha da Liberdade, perdendo somente 20 minutos ali. Tiramos algumas fotos em grupo e sozinhos e logo pegamos a próxima balsa para encontrar nosso motorista e voltar.
Foi realmente um vapt-vupt, eu estava até zonza de tanto sobe e desce, pelo menos tínhamos o carro à nossa disposição. Bianca entrou em contato com Tite e Cléber para saber sobre o paradeiro deles, pois nós estávamos um pouco atrasados. Chegamos lá faltando 20 minutos para tudo começar, mas já os encontrei na antessala, fazendo-os respirar aliviados.
- Vocês demoraram. – Tite falou e abanei as mãos para Vinícius e Lucas irem se preparando.
- Desculpe, acabamos nos empolgando! – Me sentei na cadeira e peguei uma garrafa d’água. – Andamos pela cidade, fomos até a Estátua da Liberdade. – Abanei as mãos. – Está tudo bem agora.
- Relaxa, garota! Vocês chegaram a tempo! – Cléber riu da minha feição e eu assenti com a cabeça, sorrindo.
- Pelo menos deu para ver as coisas? – Tite perguntou.
- Deu sim, algumas coisas sim. – Sorrimos juntos. – Vamos repassar as informações? – Peguei meu iPad.
- Vamos lá. – Tite falou, respirando fundo. – A escalação será composta por...

A coletiva acabou sendo mais curta do que o esperado. Durou cerca de 20 minutos, estávamos reservando uma hora para isso, mas era pré-jogo, não tinha muito o que cogitar antes do jogo, o problema seria depois, dependendo do desempenho também. Eles perguntaram bastante sobre a expectativa do jogo, sendo o primeiro depois da Copa do Mundo e como a equipe estava para encarar isso.
Parei para pensar nisso em um momento e não tinha me ligado sobre esse fato. Tínhamos várias pessoas que participaram daquela competição, inclusive meu namorado e eu não tinha ideia de como ele estava, também, não tinha pensado nem em perguntar quais eram as expectativas para o jogo de hoje. Precisava pensar em abordar esse tema antes do jogo de novo.
Terminamos a coletiva e voltamos para o hotel. Tínhamos duas horas e pouco para voltar para o estádio, seria o tempo ideal para eu dar uma respirada antes de encarar mais um compromisso, além de arrumar mala e uma viagem na madrugada.
Respira fundo, . Vai dar certo!
Chegamos no hotel e subimos os andares juntos. A comunicação parou no quarto andar e Tite e Cléber subiram mais um. Entrei no meu quarto e vi que Alisson não estava mais lá, em compensação, meu quarto estava impecável, até minha mala estava arrumada. Ri fracamente, e mandei mensagem para Alisson.
“Foi você?” – E tirei uma foto da minha mala arrumadinha.
Enquanto ele não respondeu, aproveitei para tomar um banho, ele ainda não tinha tirado minhas coisas do banheiro. Não lavei o cabelo para não ter mais um trabalho de secar e vesti outra roupa, bagunçando um pouco a ordem de Alisson. Apesar de faltar algumas horas para sairmos, eu já vesti a roupa oficial, organizei a mala e a bolsa novamente, e deitei na cama, colocando um despertador só por precaução.
“Eu estava entediado”. – Foi a resposta de Alisson e eu neguei com a cabeça. – “Como foi lá?”
“Foi ótimo, mas estou muito cansada”. – Mandei um gif de sono.
“Tenta descansar um pouco. Vou te dar um tempo sozinha um pouco”. – Ri fracamente, negando com a cabeça.
“Como se fosse difícil ficar longe de você”. – Respondi sorrindo e bloqueei o celular, apoiando-o em cima da barriga.
Acordei com o celular tocando, dei uma rápida checada na cara de amassada, amarrei o casaco da CBF na cintura, olhei o quarto para ver se não esqueceria de nada e saí do mesmo, encontrando Lucas apanhando com todas suas malas e o ajudei, vendo-o agradecer com o olhar.
O elevador veio cheio do quinto andar, com os jogadores e equipe técnica também descendo, então esperamos o próximo. Alisson estava lá no fundo e pisquei para ele antes de me espremer com Lucas e descer para o térreo. O gerente estava lá embaixo nos esperando, mas ainda sem sinal de Bianca. Me aproximei do mesmo, entregando minha chave e o cumprimentei rapidamente.
- Obrigada pela hospitalidade. – Falei em sua língua e ele sorriu.
- Eu que agradeço! – Vi Alisson um pouco afastado com Filipe Luís e só fiz um movimento com a mão para que eles esperassem.
Diana chegou, depois Vinícius e, por último, Bianca. Fechamos todos os protocolos, fizemos uma rápida chamada com o nome de todos os jogadores, equipe técnica e comunicação e liberamos os jogadores para seguirem para o ônibus um a um, ouvindo os gritos dos torcedores do lado de fora assim que a porta foi aberta.
Eu e Bianca ficamos por último e agradecemos mais uma vez ao gerente e aos funcionários do hotel antes de passarmos pelas portas e eu me assustei quando gritaram até pela gente, mas rimos e seguimos para o ônibus. Entregamos nossas malas para o motorista e entramos no ônibus, vendo o pessoal terminar de se ajeitar
Ficamos com os assentos lá da frente e nem cogitei em sentar perto de Alisson, estava tudo cheio. Nem me preocupei em procurar algo para fazer nesse tempo, pois o passeio era muito rápido. Chegamos ao MetLife Stadium e Vinícius desceu na frente como Canarinho para cumprimentar o pessoal na entrada. Eu desci antes para guiar o caminho e os jogadores seguiram atrás de mim.
Fui seguindo o caminho conhecido dos treinos, acenando com a cabeça para funcionários que me indicavam o caminho e o grande vestiário se abriu em nossa frente, me fazendo até suspirar. Tinha espaço até para mim, se quer saber, não precisávamos ficar mais em cima de mesa. Além de que até a fisioterapia estava preparada ali para os jogadores. Arranjei um canto fora dos espaços das camisetas e me sentei, começando a preparar os primeiros protocolos.
Alisson entrou no vestiário e nossos olhares se encontraram e eu só ergui os dedos em formato de figas e ele abriu um sorriso, piscando para mim. Não queria tirar seu foco, e não queria arranjar encrenca com Tite. Falando em Tite...
- Ei, Tite. – Chamei-o, vendo-o desviar seu caminho para vir falar comigo.
- Diga! – Suspirei.
- Meu trabalho agora é no campo com vocês, queria saber se Diana pode ficar com a gente também. Sabe como é, ela está com meu antigo cargo, mas lembro que quando foi comigo você aliviou nos amistosos! – Ele riu fracamente.
- É claro que pode! – Ele sorriu, me abraçando de lado. – Falarei com ela.
- Combinado! – Ele me sacudiu um pouco. – E outra coisa, sobre o que perguntaram na coletiva sobre o primeiro jogo após Copa, eu tocaria nesse assunto, ninguém falou nada, mas talvez estejam pensando.
- Quer falar? – Dei de ombros.
- Posso. – Ele assentiu com a cabeça.
Me sentei no espaço reservado e peguei o celular rapidamente, vendo diversas notificações, me dando preguiça de fazer aquilo agora. Guardei o celular e estiquei minhas pernas para cima, cruzando os braços e esperei o tempo passar um pouco.
- Vamos, gente! – Taffa chamou para o treino e pisquei para Alisson quando ele passou por mim.
Vi Diana conversando com Tite e ela deu o maior sorriso para ele, o que fez eu imaginar que ela tinha gostado da ideia de assistir dos reservas junto com a gente. Parecia loucura, há dois meses era eu, agora eu estava em outra posição e outra pessoa já estava em meu lugar.
O vestiário ficou silencioso por alguns minutos, me dando alguns minutos para fechar os olhos, mas logo as vozes ficaram mais altas novamente e eu me levantei em um pulo, vendo Bianca rir da minha cara.
- Que horror, . Parece velho, dorme em qualquer lugar. – Gargalhei.
- Ah, nem me fala! – Dei de ombros. – O cansaço está acumulado. – Sorrimos e ignorei os homens gostosos se trocando atrás da gente, e logo todos usavam a camisa amarelo canário e calções e meias azuis.
- Mais quatro dias e teremos uma semana de folga! – Sorri, olhando para Alisson ao fundo de verde e suspirei.
- Por mim não acabava nunca. – Falei meio dramática e ela me abraçou de lado.
- Desculpe, amiga. – Assenti com a cabeça, suspirando.
- Vamos aproveitar enquanto ainda podemos, certo? – Assentimos com a cabeça e ela deu um beijo em minha bochecha e fez mais um carinho.
- Vamos nos reunir, gente? – Tite falou um pouco mais alto e até nós entramos na roda para ouvir algumas palavras dele. – gostaria de falar algumas coisas para vocês. – Arregalei os olhos.
- Eu? – Falei assustada. – Assim? Logo de cara? – Falei um tanto alto e todo mundo riu à minha volta.
- É, eu não tenho muito o que falar. – Revirei os olhos, dando um passo para dentro da roda.
- Hum, ok, vamos lá. – Respirei fundo, dando mais alguns passos para dentro. – Pessoas perguntaram hoje sobre os ânimos e expectativas diante desse jogo. Quem jogou a Copa sabe como foi aquela perda, aquele sentimento de quase e o que poderíamos ter feito para ter evitado aqui. – Cocei o queixo. – A minha resposta é nada. – Dei um pequeno sorriso. – Acredito que a vida é formada por destinos, então seu destino está naturalmente traçado, não importando o caminho que você escolha. Estávamos destinados a ser eliminados naquela competição, podemos ter escolhido caminhos que nos eliminariam mais cedo ou mais tarde, então eu não quero que ninguém se sinta culpado por aquilo. – Suspirei. – Não falamos sobre aquela eliminação em nenhum momento durante a viagem, durante conversas informais por WhatsApp, nem eu lembro de ter falado isso com Alisson. – Ele assentiu com a cabeça. – Então, já que não falamos dele até agora, vamos deixá-lo para trás. Vamos arrancar a página, começar um novo capítulo do zero e criar novas marcas. – Sorri, virando o corpo para todos na roda. – O que aconteceu lá não te define como jogador, não te define como pessoa, não te define como profissional, então esqueçam. Estamos começando hoje, do zero, e quero todos focados só nisso, tudo bem? Fiquem calmos, joguem para caramba, aproveitem e divirtam-se. – Todos sorriram. – Mas lembrando: isso é um amistoso, vamos tentar nos manter amistosos, ok?! – Sorri e ouvi o pessoal aplaudir enquanto eu voltava para meu lugar na roda, vendo todo mundo sorrir.
- Viu? Eu não preciso falar nada depois disso. – Tite brincou e eu ri fracamente. – Ney? – Ele virou para o capitão do time.
- Não tem nem o que dizer depois desse discurso maravilhoso. – Sorri e ele me estendeu a mão, me puxando para um abraço. – Mas ela está certa! Tivemos nossos erros no último jogo, mas passou, não adianta tentar achar motivos ou desculpas para isso, mas podemos focar no agora e tentar novamente. Então, vamos fazer isso que vai dar certo. – Sorri, assentindo com a cabeça. – Bom jogo! – Ele falou, começando a cumprimentar todos da roda, um por um e quem o abraçou, começou a dispersar, indo abraçar outras pessoas.
Alisson seguiu em minha direção e me abraçou fortemente, me deixando guardada em seus braços por o que pareceu alguns minutos. Ele se afastou e segurou meu rosto com as luvas de goleiro presas na mão e colou os lábios nos meus delicadamente, aprofundando o beijo por alguns segundos.
- Eu te amo. – Ele disse e eu sorri, assentindo com a cabeça.
- Eu também, bom jogo! – Ele confirmou.
- A gente se vê lá. – Assenti com a cabeça, vendo-o começar a sair com o resto dos jogadores.
- Eu sempre preciso editar imagem porque encontro você e o Alisson se beijando. – Vinícius falou e rimos fracamente.
- E fica bisbilhotando pelas lentes por quê? – Perguntei e ele riu fracamente.
- Porque vocês ficam muito bem juntos. – Ele sorriu e eu assenti com a cabeça.
- Vamos! – Bianca falou e seguimos pelos corredores do estádio antes de sair ao relento.
Esse estádio era virado, então foi preciso que a gente atravessasse o estádio pelo meio para chegar aos bancos dos reservas. Cada vez que eu fazia isso eu me sentia mais intimidada. Nos colocamos lado a lado à espera do hino e foquei na entrada dos jogadores pelo outro lado do campo, se posicionando de costas para nós.
Nosso time de hoje era composto por Alisson, Filipe Luís, Thiago Silva, Marquinhos, Fabinho, Philippe Coutinho, Casemiro, Fred, Neymar, Firmino e Douglas Costa. Era uma combinação bem mesclada do que estávamos acostumados, mas talvez fosse necessário.
O hino do Brasil foi cantado sem muitas surpresas, fizemos nosso à capella bem bonito, mas quando chegou na hora do hino dos Estados Unidos. Meu Deus! Que ego gigantesco que eles tinham. Totalmente fora do protocolo que tínhamos recebido, eles abriram uma bandeira da largura do campo para cantar o hino deles. Não sei se fui filmada, mas eu senti meu rosto se contorcer de tal forma que ficou literalmente na cara sobre meu desgosto com aquilo. Além de tudo, ela havia sido aberta por soldados do exército americano, o que estava acontecendo?
Eu e Bianca trocamos um olhar de lado e ela claramente também não estava entendendo nada. Virei o rosto para Tite que estava prestando respeito ao hino do time adversário, mas não tinha mais respeito depois daquilo. Assim que o hino deles acabou, os jogadores se posicionaram para as fotos oficiais e logo se separaram para os dois lados. Ignorei qualquer educação e respeito e inflei meus pulmões para gritar:
- Acabem com eles! – Falei, vendo a equipe técnica dividir entre rir e me dar aquele olhar confuso e eu só dei de ombros, me sentando ao lado de Bianca e Diana, à espera do apito inicial.
- Você sabia disso? – Bianca me perguntou.
- Não, se soubesse teria chiado já. Que ridículo! – Falei e ela negou com a cabeça também.
- Espero que possamos resolver no campo. – Ela comentou e eu suspirei.
- Eu estava toda pacífica por ser um amistoso, agora estou com o sangue fervendo.
- Vamos lá! – Ela disse e segurou minha mão, apertando firme.

O apito soou com oito minutos de atraso, mas começamos bem até demais. Deslizei o bumbum mais para frente do banco e dividi o olhar entre a bola e o goleiro gato do lado esquerdo do campo, e constatando mais uma vez como eu odiava esse uniforme verde limão! Como eu gostaria de poder palpitar nesses detalhes.
Tivemos uma chance de gol logo nos dois primeiros minutos de jogo, Neymar tentou driblar dois jogadores americanos, mas acabou tropeçando e a bola ficou para trás. Ele até tentou recuperar, mas só conseguiu dar um leve chute na mesma, o que fez o goleiro evitar que a bola saísse pela linha de fundo.
O jogo seguiu e era claro que a posse de bola era inteira brasileira, mas também dava para notar alguns errinhos de passe entre os brasileiros, mas nada desesperador. Em algumas situações a bola chegava em Alisson, mas não causava ataques cardíacos, ele poderia facilmente se apoiar na baliza que ninguém ia se importar.
Em uma cobrança lateral, Neymar fez o chute, fazendo com que Firmino, Coutinho e três jogadores americanos se antecipassem, mas o que sobrou foi Coutinho levando uma cambalhota na área e um desvio do time americano. A bola atravessou o campo em uma tentativa dos Estados Unidos, mas Alisson espalmou a bola, fazendo-a sair por cima do gol, me fazendo respirar aliviada.
A bola voltou para o nosso campo de ataque com Douglas Costa deixando um americano para trás em sua arrancada, ele atravessou a bola, deixando-a próxima a Firmino e ele só de um toquinho para a bola ir para o fundo do gol!
- Gol! – Me levantei com o resto do banco de reservas e sorri ao ouvir o estádio ir abaixo. Eu e as meninas nos abraçamos animadas e cumprimentei alguns reservas que estavam próximos da gente.
O jogo seguiu e o ataque foi para o nosso lado, fazendo a bola passar pelo pé de vários jogadores americanos, até chegar uma alta e Alisson pular para pegá-la sem muitas dificuldades, jogando-a para o lado esquerdo do campo para os brasileiros já saírem em jogo.
A bola voltou para o campo dos Estados Unidos em mais uma chance de gol, mas o goleiro deles estava bem posicionado e espalmou a bola para frente, voltando-a para o pé do nosso time. Fabinho toca para Casemiro que faz um chute só, isolando a bola, me fazendo bufar.
- Mais baixo, gente! Mais baixo. – Cochichei, respirando fundo.
A bola retornou para os pés de Firmino que tentou driblar os jogadores um a um, deixando-a para Coutinho que não aguentou a retomada e perdeu a bola. Douglas roubou novamente, driblando os jogadores americanos, Neymar tentou, mas perdeu também, fazendo com que a bola voltasse para o nosso canto novamente e despertasse Alisson de seu tédio absoluto.
O jogador dos Estados Unidos fez o cruzamento que foi interceptado por Marquinhos, dando uma bela de uma escorregada na bola, derrubando Fabinho e um americano. A bola foi desviada e Thiago chutou a bola para o fundo do campo para não ter mais problemas. O escanteio foi cobrado, mas não teve perigo, logo nosso ataque voltou para o campo de lá, com mais uma chance de gol.
Neymar fez a arrancada, deslizando na grama ao tentar driblar os americanos e a passou para Coutinho, desleixado, ele tocou para Douglas Costa que rebateu para Firmimo, mandando-a para o gol. O goleiro americano espalmou a bola, mandando-a para frente novamente, Fabinho apareceu do nada, ajeitou a bola e mandou-a para o gol, espalmando-a novamente. Dessa vez foram os americanos que tiraram a bola pelo fundo do campo.
O escanteio foi cobrado de novo, mas não deu dois segundos e a bola já tinha saído pela lateral de novo. Fabinho tentou uma arrancada, sendo segurado por um dos jogadores americanos e saiu rolando dentro da grande área.
- Pênalti! – Os jogadores do banco gritaram e eu não pude comentar, eu estava do outro lado, minha vista não enxergava lá com os mínimos detalhes.
- Foi? – Perguntei para Bianca e ergui os olhos para o telão, vendo o puxão claro na barriga de Fabinho.
- Ele deu! – Diana falou e comemoramos.
O juiz colocou a bola na marca de pênalti e Neymar foi o responsável por bater. O juiz apitou e Neymar fez uma pequena firula, antes de mandar a bola para o fundo do gol, quando o goleiro pulou para o lado contrário.
- Gol! – A arquibancada explodiu novamente e pulamos animadas.
Logo o juiz apitou o fim do primeiro tempo e todos nos levantamos para voltar para o vestiário. Lucas apareceu ao meu lado com sua câmera e Alisson apareceu do outro, abrindo um sorriso para mim. Dividimos o corredor com os Estados Unidos até cada time seguir para um vestiário.
- O que está achando do jogo? – Alisson passou um braço pelos meus ombros.
- Não estou brava ainda. – Falei rindo e ele assentiu com a cabeça.
- Se nada continuar chegando em mim, as coisas ficam mais fáceis. – Assenti com a cabeça.
- É o mínimo! – O empurrei quando entramos no vestiário e esperamos a passagem desses 15 minutos.
Tite até fez alguns comentários sobre o jogo, mas nada ruim. Estava tudo fluindo muito bem, ele só pediu para tomar cuidado com os buracos na defesa e chutes mais certeiros – eu disse, não?! No ademais, os jogadores se hidrataram, aqueles que estavam muito suados trocaram de blusas e o banheiro se encheu de homens querendo mijar. Eu odeio essa palavra, mas era só o que eu ouvia ali: preciso mijar. A gente acaba copiando.

Voltamos para o segundo tempo e eu me coloquei no lugar de antes, ao lado de Arthur dessa vez. Trocamos um sorriso rápido e ouvi o apito soar, me deixando elétrica para o segundo tempo. Os campos haviam sido trocados, então só enxergava Alisson por ele ser o único ponto verde limão do local.
A gente começou atacando logo de cara. Douglas arrancou, chegando quase dentro da grande área e fez um passe para Neymar que estava colado no gol, até me levantei. A bola passou pelo goleiro e Firmino e um americano saíram correndo para ver quem a pegaria antes. O americano ganhou e deu um forte chute, tirando-a de cima da linha, caindo para dentro do gol.
- Caralho! – Falei abismada. Tinha sido por centímetros. Acho que tinha sido a coisa mais linda que eu já vi hoje.
- Porra! – Arthur reclamou ao meu lado e eu ri fracamente.
- Aprecie o futebol. – Comentei e ele riu.
- Foi lindo, mas o gol seria mais! – Ri fracamente, negando com a cabeça.
O jogo seguiu com ataque do Brasil novamente, Coutinho fez o passe para Neymar no centro do campo e deu um chute só, saindo rente ao canto direito do gol. Coutinho tentou da mesma forma segundos depois, aproveitando os buracos na defesa deles e chutou, fazendo a bola seguir pelo lado esquerdo agora.
- Arthur! – Cléber o chamou e ele se levantou.
- Bom jogo! – Gritei, vendo-o seguir para pegar as instruções com Tite.
Ninguém fez substituição no intervalo, então eles começaram a fazer a torto e a direita, um atrás do outro. Estados Unidos substituiu dois e Tite tirou Fred, colocando Arthur, e tirou Douglas, colocando Willian. Os reservas gritaram animados e o jogo se seguiu novamente.
Acabei não percebendo, mas alguém fez falta nos Estados Unidos e eles a bateram. Havia sido quase no meio do campo, mas o jogador americano fez um chute só. Achei que havia chutado direto para o gol, mas não, ele chutou para outro que estava dentro da grande área e parei de respirar quando ele chutou a bola em direção do gol. Aliviei quando vi Alisson só acompanhar a bola com o olhar e vê-la indo para fora. Coutinho teve mais uma oportunidade do meio do campo, mas mandou-a muito alto.
Após isso, tivemos um lance contra nós que realmente assustou, mais do que o outro. A defesa brasileira falhou e fez um buraco, dando a oportunidade do número 20 americano meter um chute só. Alisson foi em cima da bola e a tirou pela lateral, me fazendo respirar aliviada.
O Brasil saiu para o ataque de novo, Neymar arrancou e fez uma passada longa para Firmino, ele adiantou a bola demais e o jogador adversário tirou a bola pelo fundo do campo, me fazendo respirar fundo. O escanteio era nosso e Neymar cobrou, mas o jogador americano estava antes do goleiro e mandou a bola para fora antes que chegasse ao nosso ataque.
Tivemos outra cobrança de falta, dando a vantagem para os EUA. O jogador dentro da área até tentou pegar a bola, mas foi direto para as mãos de Alisson.
Mais substituições, saíram três americanos e Tite substituiu quatro brasileiros. Tirou Coutinho e colocou Paquetá, tirou Firmino e colocou Richarlison, tirou Thiago e colocou Dedé e tirou Neymar e colocou Everton. Os jogadores substituídos pegaram isotônicos e se jogaram no banco. Firmino se sentou ao meu lado, espalmando as mãos nas minhas, sorrindo.
Tite estava realmente testando os jogadores. Todos esses amistosos eram para preparar para a Copa América no ano que vem, então ele realmente precisava ver esses garotos novos em campo, principalmente porque a maioria nunca tinha jogado pela Seleção antes.
O jogou seguiu até os 94 minutos sem muitas surpresas de nenhum dos dois lados. Quando o apitou final foi tocado, nós e metade do estádio comemoramos e eu abracei Firmino animada, me arrependendo segundos depois por ele estar vertendo suor. Mas ok, eu trabalhava com jogadores de futebol, já devia estar acostumada.
Os jogadores se cumprimentavam e eu e as meninas acabamos entrando na roda. Não era nenhuma final, então não tinha por que enrolar em campo. Eles agradeceram ao público, aplaudiram e foram aplaudidos. Eu me acompanhei junto da equipe técnica e seguimos para o vestiário de novo.
Bianca acompanhou alguns jogadores para entrevista de pós-jogo, encontrei Vinícius falando com Arthur e Paquetá e eu precisava de Tite e Cléber para a coletiva que aconteceria agora. Estava chegando no vestiário e encontrei três rostos conhecidos. Marta, Monica e Camila, jogadoras da Seleção Feminina.
- Ei, olha quem está aqui! – Falei e elas olharam para mim, as três com a mesma feição de “eu te conheço?” – . – Falei rindo.
- “A” ? – Elas perguntaram e eu ri, vendo-as sorrir.
- Eu mesma! – Falei e elas me abraçaram rapidamente e eu sorri.
- Quero ver quando vai trabalhar com a gente! – Marta falou.
- Espero que em breve! – Falei e elas sorriram. – Meninas precisam se manter juntas.
- Mas fala, é bom ser mulher nesse mundo masculino, não é?! – Monica perguntou e eu sorri, assentindo com a cabeça.
- É sensacional! – Falei e acenei para elas, seguindo para dentro do vestiário. – Tite e Cléber, preciso de vocês! – Gritei da porta e ambos apontaram para mim como se também estivessem me procurando. – Os outros vão se arrumando, vamos jantar aqui e não devemos demorar para ir embora. – Os que já haviam entrado assentiram com a cabeça. – Repassem a informação.
- Pronto! – Tite e Cléber passaram na minha frente e Lucas seguiu comigo.
- Ei! – Alisson apareceu voltando do campo e segurei-o pelo rosto rapidamente, dando um beijo em sua bochecha, pela quantidade de câmeras e testemunhas que tinham ali, e ele sorriu.
- Se arruma, logo estou de volta! – Abracei Casemiro que vinha atrás e parei um pouco atrás de Vinícius, vendo-o terminar com Arthur e Paquetá. - Podemos ir? – Perguntei para ele que assentiu com a cabeça e o ajudei com o tripé e seguimos até a sala de coletiva.
Os repórteres ainda estavam se arrumando, então aproveitamos a deixa para já começar a coletiva e não haver enrolações. Quanto mais rápido começar, mais cedo terminaríamos. Me coloquei ao fundo com Vini e Lucas como sempre e Tite deu início à coletiva que acabou sendo tão rápida quanto a primeira.
Terminamos, desmontamos tudo e retornamos ao vestiário. A maioria dos jogadores já estavam prontos e eu segui até minha bolsa para guardar as coisas que eu tirei dela antes, além de trocar meus tênis pelos saltos amarelos. Chegar apresentados em Washington, não é mesmo?
- Você vai falar algo sobre o jogo de hoje? – Bianca apareceu em minha frente, e eu suspirei.
- Não tenho nada para falar, honestamente. Foi muito de boa! – Rimos juntas. – Além do mais, não deveria ser trabalho da Diana agora?
- Até parece que vai dar certo, nem comigo dá. Você tem mais pulso. – Neguei com a cabeça. – Vai, faz uma média com eles, só para não passar em branco. – Assenti com a cabeça e me levantei.
- Gente, para o pessoal da Copa, vocês sabem que eu sempre fazia uma apresentação durante os jogos e até nos amistosos, então isso não vai mudar. – Tite assentiu com a cabeça. – Acho melhor falar agora, não é?!
- Sim, já fechamos o capítulo Estados Unidos aqui. – Confirmei.
- Bom, o papo de hoje é rápido, está liberado para todo mundo ouvir, porque eu achei o jogo bem consistente, no geral, sabe? Tivemos alguns problemas de chutes altos demais, lances mal pensados e tudo mais, mas no geral foi bem coerente! – Ponderei com a cabeça. – Não quero matar ninguém, não acho que teremos futuros problemas com a imprensa, então foi bem legal! – Sorrimos. – Temos vários jogadores novos, mais da metade é cara nova, então é difícil entrar em sintonia, mas logo estaremos todos remando juntos, então, parabéns! – Falei e eles sorriram, aplaudindo animadamente. – Depois que vocês terminarem de se arrumarem, nós vamos jantar aqui mesmo e depois vamos para Washington, o voo é curto, cerca de uma hora e meia. – Falei e eles assentiram com a cabeça, voltando a arrumar suas coisas.

Demorou cerca de 20 minutos até todos os jogadores terminarem de se arrumar e ficar apresentáveis para sair novamente do vestiário. Pegamos todas as nossas coisas e seguimos Bianca para o restaurante. Só tinha nós lá, sem câmeras, sem torcidas, só a equipe de quase 40 pessoas. Nos espalhamos pelas mesas, Alisson fez questão de se sentar ao meu lado e deu um beijo em minha cabeça, me fazendo abraçá-lo de lado.
- Você foi bem hoje. – Falei baixo e ele sorriu.
- Não acho que tivemos muitas dificuldades hoje. – Ri fracamente.
- Você não teve nenhuma. – Fui honesta. – Podia dormir ali que estava fácil.
- Talvez no de El Salvador eu faça isso. – Apertei meus braços em volta dele.
- Quem sabe não tenhamos uma surpresa? – Perguntei, colando meus lábios nos dele rapidamente.
- Só se for boa! – Assenti com a cabeça.
- Ei, casal, vamos separar? – Cléber passou perto da gente.
- Ah, Cléber, para de ser chato! – Me assustei com a voz de Neymar e até parei para prestar atenção. – Eles estão sendo cuidadosos até demais para o meu gosto, deixa eles namorarem! – Ele se levantou do seu lugar. – Não temos câmeras aqui, torcedores, nada do tipo. Eles estão há dois meses sem se ver, caramba! – Ele estava realmente bravo. – Vocês não gostam deles trocando beijo nas horas de intervalo, – Ele frisou. - mas fazem questão de convocar ele e ela para as competições? Decidam-se, gente, pelo amor de Deus! – Ele revirou os olhos. – Vai chegar uma hora que eles vão sim se abrir para o público e vocês vão precisar escolher o que fazer, se vão se preocupar com uma possível nóia da imprensa por um casal que trabalha juntos namorar ou vão continuar confiando no bom trabalho, respeito e humildade de ambos? – Ele deu de ombros e se virou para gente. - Se beijem, se agarrem, aproveitem. – Dei um pequeno sorriso e ele se sentou novamente, me fazendo perceber o incrível silêncio que se instalou no restaurante.
- Eu tenho que dizer que concordo com o Ney. – Bianca falou, saindo em nossa defesa e senti meus olhos se encherem de lágrimas do nada. – Vocês vão ter que decidir o que fazer, mas posso garantir que o relacionamento deles vai ser prioridade para ambos. – Ela suspirou e eu assenti com a cabeça.
- Acho que fomos pegos desprevenidos. – Tite comentou baixo, se levantando também. – Não acho legal lavar roupa suja com todos presentes, mas eu vou precisar perguntar. – Ele se aproximou de nossa mesa. – Como vocês se sentem sobre isso? – Ele se virou para nós dois e eu e Alisson nos entreolhamos e foi como se uma conversa passasse pelos nossos olhares antes de eu me levantar.
- Eu me incomodo muito, Tite. – Respirei fundo. – Apoiando as mãos na mesa. – Em nenhum momento nós fizemos algo para fazer com que vocês duvidem de nosso profissionalismo. Horários de treino são para treinos, jogos são para jogos. Ambos temos nossas responsabilidades dentro e fora de campo, e meus colegas de equipe sabem que quando entramos nas quatro linhas, meu namorado se torna Alisson, goleiro da Seleção. – Vi Lucas e Vinícius assentirem com a cabeça. – Mas eu me lembro que foi você mesmo que permitiu que isso acontecesse. Foram vocês que fizeram uma aposta ridícula para saber se ficaríamos juntos antes ou depois da Copa. – Percebi que eu estava chorando. – Foi você que me disse na última convocação que acreditava em uma boa história de amor. – Respirei fundo. – Então sim, isso me incomoda. Não podemos trocar um beijo no nosso almoço ou andar abraçados para o quarto sem que algum de vocês encha o saco. – Coloquei a mão na boca, tentando evitar a voz de ficar mais fino. – Isso é chato demais! – Respirei fundo. – Se vocês duvidam do meu profissionalismo por namorar um colega de trabalho, o que eu sei que não, porque eu li os relatórios depois da Copa, não me chamem mais para os compromissos internacionais, tem várias outras seleções que fariam bom uso da minha ajuda, talvez até mais do que vocês, mas se me chamarem, saibam que isso vai acontecer. – Puxei o ar fortemente. – Eu dou meu sangue pela CBF, trabalho de segunda a segunda se for preciso, mas se eu tiver dois minutos com meu namorado, eu vou aproveitar com o meu namorado. – Suspirei. – Porque talvez seja o único momento que teremos juntos. – Passei as mãos nos olhos. – Sei que somos jovens ainda, que talvez vocês pensem que isso é besteira ou algo que vai acabar logo, talvez até prejudicar o andamento da Seleção, mas se for, deixem que a gente quebre a cara sozinhos. Porque eu aposto com vocês que a eliminação na Copa do Mundo não foi por causa do nosso namoro e nem por desatenção do Alisson e você sabe muito bem do que eu estou falando, Tite. Tanto que muitos não estão aqui, não é mesmo? – Olhei fixamente para ele. – Então, por favor, decida-se. – Balancei a cabeça, virando para os outros de blusas brancas. – Decidam-se todos. – Suspirei. – Se for preciso eu pego um avião para o Brasil daqui mesmo. E melhor, se for preciso eu entrego minha carta da demissão assim que chegar. – Balancei a cabeça. – Só que quando você se decidir, seja honesto, ok?! Não só com a gente, mas com todos nessa sala, que estão tendo que presenciar essa lavação de roupa suja, como você mesmo disse. – Suspirei, sentindo a respiração pesada. – Eu perdi meu apetite. – Comentei fracamente e neguei com a cabeça. – Eu estarei lá fora. – Falei, dando meia volta e saindo rapidamente dali.
- Eu vou falar com ela.
- Não, eu vou! – Ouvi algumas vozes abafadas e parei assim que senti minha visão clarear por causa dos holofotes ainda ligados do campo. Apoiei as mãos na murada e respirei fundo, balançando a cabeça. – Ei. – Virei o rosto, dando de cara com Alisson.
- Me desculpe. – Falei, sentindo-o me apertar fortemente. – Eu não tinha percebido tudo que estava entalado e quando vi já tinha falado. – Suspirei.
- Xí, não precisa me explicar nada. – Ele falou. – Eu também me irrito muito com isso, eu só não seria tão bom com palavras quanto você. – Ri fracamente, puxando a respiração e sentindo meu nariz entupido.
- Como você acha que vai ficar agora? – Perguntei, respirando fundo.
- Não sei, mas parece que todo mundo ficou surpreso. Tanto com o que o Ney falou, e o que você falou. – Me afastei dele devagar, sentindo-o segurar meu rosto com as mãos e passar os dedos pelas bochechas. – Rolou um climão ali.
- Inicialmente eu achei que o Ney estava brincando, quando eu vi o negócio era sério e tudo aconteceu. – Suspirei. – Eu posso ter perdido a maior chance da minha vida por não ficar calada.
- Até parece que perderia sua maior chance por ser honesta. – Ouvi uma terceira voz e viramos para trás, vendo Tite, Cléber, Edu e Sylvinho lado a lado. – Eu não sou machista, , e você sabe muito bem disso. – Fiquei ao lado de Alisson, respirando fortemente. – Eu acho que você foi a melhor coisa que nos aconteceu em todo esse tempo que eu comando a Seleção. E não vamos mudar isso agora. – Assenti com a cabeça.
- Nós conversamos sobre isso, mas ninguém pensou na prática em como seria. Vocês dois com saudades um do outro, lutando para fazer um relacionamento entre oceanos dar certo e a idade ajuda, vocês são jovens ainda, então existem hormônios aflorados querendo mantê-los juntos. – Edu falou, suspirando.
- Acho que inicialmente devemos pedir desculpas para vocês. – Tite falou e eu assenti com a cabeça. – Nós não deveríamos ter imposto uma regra sem falar diretamente com vocês e sem entender o lado de vocês. – Alisson apertou minha mão. – E depois, garantimos que o relacionamento de vocês não será um problema, pelo menos para ninguém da equipe técnica. Se os meninos quiserem zoar vocês, aí é outra história. – Ri fracamente. – Eu falei com Michele e ela disse que a decisão de se abrir para a imprensa será de vocês, então eu só vou pedir, para quando isso acontecer, falar com a gente antes, podemos preparar coletivas, esclarecer isso de forma bem limpa para não existir problema para nenhum dos lados. Principalmente profissional para ambos. Sabemos como vocês são confiáveis em seus trabalhos. – Assenti com a cabeça.
- Nós entendemos o lado de vocês e garantimos nossa parte para fazer isso dar certo. – Alisson falou. – Namoro só em horários de folga e escondido, até que nossa decisão mude. – Ele virou para mim. – Creio que está muito cômodo e divertido para nós manter assim inicialmente. – Assenti com a cabeça.
- E mesmo quando mudar, quando decidirmos aparecer. Horário de trabalho, é horário de trabalho, para ambos os lados. Respeitaremos isso. – Eles confirmaram com a cabeça. – E desculpe sobre o escândalo ali dentro, eu acho que estava guardando isso há muito tempo e escapou. – Eles negaram com a cabeça.
- Não se preocupe. – Tite me puxou para um abraço. – Acredite, foi bom. E preciso agradecer ao Neymar por isso.
- Então, todos concordam que estamos conversados e chega? – Perguntei por checagem.
- Sim, está tudo certo agora. – Cléber falou e eu sorri, abraçando um a um rapidamente e Alisson os cumprimentou também.
- Agora vem, aposto que você não perdeu o apetite coisa nenhuma. – Sylvinho comentou e eu ri fracamente, sentindo-o me abraçar pelos ombros.
- Pessoas esfomeadas como eu nunca perdem o apetite. – Comentei.
- É só drama! – Alisson comentou e entrelacei meus dedos nos dele, voltando para dentro do restaurante.
Assim que voltamos, todos nos encararam novamente e o retardado do Neymar puxou uma salva de aplausos para gente e eu só me soltei de Sylvinho e ameacei dar um tapa nele, vendo-o se esquivar e me puxar por um abraço.
- Obrigada! – Cochichei.
- Podem contar comigo para sempre. – Suspirei, estalando um beijo em seu rosto e Alisson fez o mesmo.
O jantar ocorreu sem maiores preocupações, sem piadinhas, sem torta de climão, só um bom hamburguer americano e muito refrigerante para comemorar. Na hora de voltar para o ônibus, Vinícius ligou sua câmera novamente, para finalizar o episódio do amistoso contra os Estados Unidos e, como prometido, larguei Alisson e andei um pouco afastada dele, como se eu fosse só mais uma na multidão.
Entrei no ônibus depois dele e ele me puxou para me sentar ao seu lado. Ele passou o braço pelos meus ombros e eu apoiei a cabeça em seu peito, acompanhando o movimento do ônibus enquanto seguíamos em direção ao aeroporto.

O voo para Washington ocorreu sem muitas surpresas, eu estiquei as pernas na poltrona vazia do lado e encostei o corpo no de Alisson, tentando tirar da cabeça a briga que tinha acontecido horas antes. Era visível que eu e Alisson ainda queríamos falar sobre isso, e isso eu quero dizer nosso relacionamento, estava bom desse jeito, estávamos nos virando, mas será que do jeito certo?
Mas esse assunto viria à tona mais cedo ou mais tarde, preferencialmente nós dois, sozinhos, sem causar mais escândalos. Acho que já tivemos nossa cota do dia e ela chegou meio de surpresa, então tinha me deixado um pouco receosa sobre o que se seguiria dali para frente. Tinha relatório semanal para fazer, mas eu faria questão de deixar isso de fora, esperava que Tite e companhia fizesse o mesmo.
O voo foi curto, cerca de uma hora e 10, saiu pontualmente do aeroporto de Newark e chegamos no Washington Dulles. Entramos no ônibus direto da pista e seguimos para o hotel que ficaríamos. Eu estava empolgada com o hotel de Washington, era o Park Hyatt Hotel, eu pesquisei e era um dos hotéis mais luxuosos de DC.
Chegamos no mesmo e não tivemos nenhum problema na entrada, tinha três ou quatro torcedores que alguns jogadores dedicaram alguns minutos para falar com eles. Alcancei Bianca e entramos juntas no hotel que me fez ficar de boca aberta. Aquilo era bonito demais! Encontramos o gerente, nos apresentando e recebemos as informações preliminares de sempre. Esperamos os jogadores formarem um semicírculo à nossa volta para dividir as chaves.
- Quarto de dois! – Falei e não tive resposta.
- Antes, o Tite quer falar uma coisa. – Bianca falou e todos olhamos para Tite.
- Todos estão de folga amanhã. – Ele falou, fazendo os jogadores sorrirem. – Descansem, aproveitem a cidade e quero todos aqui até oito da noite, voltamos os treinamentos no domingo. – Assenti com a cabeça e ele confirmou.
- Peguem suas chaves, subam para o quarto, durmam, joguem, enfim, sumam daqui. – Falei e eles riram.
As duplas se aproximaram um por um e foram seguindo seu caminho para os quartos, eu estava precisando de um banho e cama. Fica difícil para mim e as meninas tomarmos banho nos vestiários, o campo é minado demais. Alisson se aproximou para pegar a chave, mas estava sozinho.
- Quarto 612. – Ele falou e eu assenti com a cabeça, vendo-o seguir o resto da galera.
- Acho que é isso! – Falei, suspirando.
- A gente se vê amanhã? – Bianca perguntou e assentiu com a cabeça.
- Vou aproveitar a folga para conhecer a cidade. A gente se fala.
- Beleza. – Pegamos nossas coisas e entramos no elevador agora vazio.
Ela apertou o cinco e eu o seis. Nos separamos e eu segui para o sexto andar. Obviamente aquilo estava uma bagunça. A maioria dos jogadores tinham ficado ali. Acenei para eles, desejando uma boa noite para alguns e bati na porta do 612. Em dois segundos Alisson abriu e eu entrei rapidamente, antes que viesse algumas piadinhas a respeito. Hoje eu não estava no clima!
- Ei! – Alisson falou, voltando a mexer em sua mala.
- Finalmente a sós! – Falei, soltando um longo suspiro e parei para reparar o quarto. – Uau! – Ele era largo, tinha duas camas de casal, um divã, uma poltrona, uma mesa de trabalhos, além de armários e o banheiro.
- Legal, né?! Acho que podemos economizar uma. – Ele me abraçou de lado e eu dei um sorriso de lado.
- Acho que não estou no clima hoje. – Suspirei.
- O que aconteceu mais cedo te baqueou, não é?! – Ele se sentou na poltrona e me chamou. Andei até ele e sentei em seu colo, sentindo-o puxar minhas pernas também, me abraçando.
- Só serviu para esquentar a cabeça. – Neguei com a cabeça. – Eu odeio quando colocam meu comprometimento em dúvida, minha capacidade. – Suspirei.
- Não creio que eles duvidaram da sua capacidade, amor. Eles devem ter bagunçado a situação toda e fez essa confusão.
- Espero que isso não afete nada esses últimos dias de trabalho, nem o meu na CBF, eu finalmente encontrei meu lugar. – Virei para ele que sorriu, jogando meus cabelos para trás.
- Eu percebi que você se preocupa demais com algumas coisas. – Passei os braços pelos seus ombros. – Depois você fala que não devemos falar “e se” e você se preocupa demais com ele. – Ri fracamente.
- Eu sei, eu sou muito ansiosa, vivo por antecipação. – Ele beijou minha bochecha.
- Não vou dizer para você não ser assim, porque sei que não é fácil, mas viva a vida intensamente, se preocupe com as consequências quando elas vierem. – Assenti com a cabeça.
- Eu sei! Quem sabe eu não melhoro contigo ao meu lado? – Ele sorriu e colou os lábios nos meus levemente.
- Eu estarei sempre contigo. Nos bons e nos maus momentos, pode confiar. – Assenti com a cabeça, sorrindo.
- Eu sei, eu confio! – Suspirei, apertando-o novamente, suspirando em seus ombros por alguns segundos. – Bom, eu vou tomar banho e dormir. – Me afastei.
- Também estou precisando. – Joguei as pernas para o lado e me levantei da poltrona, vendo Alisson se levantar em seguida.
- Eu vou me arrumar e esquentar a cama para você! – Ri fracamente. Segurei seu rosto com as mãos, subi na ponta dos pés e colei os lábios nos dele.
- Logo estou de volta. – Coloquei minha mala em cima da mesa, tirei uma calcinha limpa, meu pijama e nécessaire e entrei no banheiro.
Tentei perder bons minutos no banho, mas o cansaço falava mais alto, então finalizei-o rapidamente, me vesti, penteei os cabelos, escovei os dentes e voltei quase renovada para o quarto. Alisson já estava deitado em uma das camas, olhando para a televisão ligada, mas mudando de canal seguidamente.
- Nada de interessante? – Perguntei, entrando embaixo das cobertas ao seu lado e ele passou o braço atrás da minha cabeça e eu me aproximei dele, abraçando-o pela barriga.
- Não tem nenhum jogo passando. – Ele comentou e eu ri fracamente.
- São quase quatro da manhã, que jogo você quer ver agora? – Rimos fracamente. – Só se for clássicos do esporte, reprises antigas. – Falei e ele desistiu, desligando a TV. – Isso, bem melhor, um pouco de silêncio. – Falei, sentindo-o me apertar mais perto de mim.
- Eu te amo. – Ele cochichou e eu suspirei.
- Eu também, Alissinho, eu também! – Repeti, suspirando e fechando os olhos em seguida.

Acordamos no dia seguinte com meu celular tocando e eu revirei os olhos por não tê-lo desligado ontem. Me levantei meio sonolenta, procurando-o pela na minha bolsa e desativei o mesmo, aproveitando e desligando o celular, para não ter perigo dele tocar de novo. Voltei para cama, vendo Alisson coçar os olhos, dei um curto beijo em seu queixo barbudo e o abracei novamente, fechando os olhos pelo o que foram mais algumas horas.
Quando acordei para valer, Alisson já estava acordado há algum tempo, assistindo algum episódio de House of Cards no Netflix. Ouvi alguns barulhos baterem contra a janela e percebi que estava chuviscando.
- Droga! Eu queria conhecer a cidade. – Comentei e Alisson pausou sua série.
- Quem sabe mais tarde o tempo não abre? – Ele se colocou ao meu lado, também olhando pela janela.
- É o jeito. – Suspirei, me sentando na cama e olhando o relógio do iPad de Alisson. – Quase meio dia, acho que nem dá mais tempo de ir tomar café, podemos ir almoçar direto.
- Estava pensando nisso! Minha barriga já está roncando.
- Imagino que um homem desse tamanho precisa de bastante comida para ficar em pé, não é mesmo?
- Nem tanto, eu como bastante, mas nada fora do comum. – Ele deu de ombros. – Nada como o Filipe Luís que é magricelo e bate um pratão de pedreiro. – Rimos juntos.
- O Filipe parece uma lagartixa. – Comentei e ele gargalhou alto.
- Meu Deus, vou começá-lo a chamar assim.
- Não diga que fui eu quem o apelidei assim. – Ele abanou a mão.
- Todos temos apelidos, não se preocupa. – Ele sorriu. – Vamos nos arrumar?
Nos trocamos e criamos vergonha na cara para sair do quarto um pouco. Chegamos no restaurante e tinha poucas pessoas ali, incluindo a lagartixa. Nos servimos e sentamos próximo a eles.
- Quais os planos para hoje? – Coutinho perguntou.
- Queria conhecer a cidade, mas com essa chuva nem dá. – Comentei, colocando um pouco de macarrão na boca.
- Pela previsão do tempo não chove o dia todo. – Firmino comentou.
- Queria andar de bicicleta. Tem um tour bacana aqui no hotel. – Todos viramos para Filipe Luís. – Você segue a ciclovia e passa por vários pontos turísticos importantes da cidade. – Eu e Alisson nos entreolhamos.
- Eu topo! – Falei rapidamente. – Se não chover, é claro.
- A gente volta a se falar mais tarde, então. – Alisson comentou. – Se parar, já podemos sair, nem que nos molharmos um pouco, ninguém é feito de açúcar.
- Não, mas eu sou muito sensível ao frio! – Dei um largo sorriso e eles riram.
- Leva casaco! – Ele falou e eu bati em seu ombro levemente, rindo em seguida.
Ainda ficamos papeando um pouco lá no restaurante para passar o tempo, mas acabei tirando alguns minutinhos para ver os e-mails no fórum da CBF, tinha algumas informações sobre a Seleção Feminina e a Sub-20, essa última estava no México para alguns amistosos da categoria. Não era nada muito relevante para mim, então ignorei.
Acabamos nos empolgando no papo e quando percebemos, a chuva parou de cair. Não chegou a abrir um solão, mas estava um nublado até comportado. Subimos para nossos respectivos quartos para pegar passaportes e dinheiro e fomos nos informar sobre como funcionava esse passeio de bicicletas.
A moça do aluguel falou que a cidade inteira era tracejada por ciclovias e elas passavam por vários pontos da cidade e hotéis, nas bicicletas possuíam um GPS para voltar para o local de início, no caso, o nosso hotel. Caso optássemos por seguir a rota sem desviar, era só seguir o caminho, caso fosse muito longo, só redirecionar para o hotel que ele nos traria para cá novamente.
- Acho que estou com medo de me perder. – Coutinho falou e rimos dele.
- O que de pior pode acontecer? Todos estão com os celulares carregados e com pacote internacional de internet? – Perguntei e todos se entreolharam, confirmando. – Pronto, na pior das hipóteses a gente acha o caminho de volta pelos nossos GPS.
- Acho que está de boa! – Lucas comentou.
- Todo mundo sabe andar, né?! – Perguntei brincando e eles riram.
- Vamos, vai! – Alisson animou e eu, ele, Bianca, Lucas, Filipe Luís, Firmino e Coutinho pegamos as bicicletas, subimos nela e começamos a seguir a linha da ciclovia.
Esse passeio acabou sendo mais divertido do que o esperado. A ciclovia passava realmente pelos grandes e famosos monumentos de Washington, cortando carros e avenidas e fazendo com que nós ríssemos à plenos pulmões, só aproveitando o dia como pessoas normais e descompromissadas.
Passamos pelo Memorial Lincoln, pelo Memorial Martin Luther King Jr., pelo National Mall, lindo parque aonde fica o famoso obelisco, além daqueles olhos d’água lindíssimos para fotos. Depois passamos pelo Capitólio, em seguida pelo Smithsonian e terminamos nosso passeio na frente da famosa Casa Branca. Era surreal conhecer todos esses lugares. Viver esse sonho era incrível e a melhor parte de tudo isso era o mundo que eu estava descobrindo da melhor forma possível.
Em cada ponto turístico, nós tirávamos fotos individuais e em grupos, além de fazer muita selfies e stories enquanto andávamos de bicicleta. Estávamos realmente nos divertindo. Eu e Alisson fazíamos questão de tirar algumas fotos juntos, trocando beijos e abraços. Ainda era incerto nosso futuro público, mas eu estava mais preocupada em guardar recordações para o futuro com ele.
Decidimos voltar quando o sol começou a baixar e quanto nossas pernas não aguentavam mais. Bom, pelo menos as de meros mortais como eu, Bianca e Lucas. Os outros pareciam incrivelmente confortáveis na bicicleta e com a bunda naquele banco horrível. Cheguei no hotel realmente acabada, parece que tinha ficado montada em um cavalo o dia inteiro, provavelmente isso me afetaria amanhã e eu não estava gostando nada de pensar nessa possibilidade.
Aproveitamos que chegamos tarde e já ficamos para jantar. Todos precisavam repor suas energias de diversas formas, amanhã era dia de treino e tinha que acordar cedo de novo. Terminamos de comer e eu e Alisson subimos para o quarto. Ambos estávamos cansados e amanhã era um novo dia.
Namoramos um pouco enquanto compartilhávamos o chuveiro, mas ninguém estava com pique para levar aquela brincadeira adiante, então trocamos beijos e carícia embaixo da água quente e logo terminamos nossos banhos de forma adequada. Eu terminei antes e aproveitei para secar o cabelo antes de me deitar. Não era algo que eu gostava de fazer, fazia com que as ondas do meu cabelo se perdessem, mas eu estava com mais sono, não daria para esperar ele secar sozinho.
Dessa vez eu entrei primeiro embaixo das cobertas e Alisson me fez companhia alguns minutos depois. Trocamos alguns beijos curtos, rindo e dividindo largos sorrisos e logo fechei meus olhos, entrando em um mundo de sonhos mais profundo do que tê-lo ao meu lado todos os dias da minha vida.

No dia seguinte os trabalhos retornaram no AudiField, mas dessa vez com foco nos reservas. Os titulares fizeram trabalhos regenerativos na academia e os reservas foram para o campo dessa vez. Meu trabalho tinha acalmado novamente. Tinha mais alguns dias para o segundo jogo e ele não era um grande rival à nossa altura, então meu celular estava bem às moscas.
Nessas situações eu arranjava o que fazer. Ficar sondando o pessoal na academia não estava nos meus planos, capaz do Fabio me colocar para fazer alguma coisa e eu não estava a fim de malhar agora. E o tempo para fora do campo estava meio chocho, então tinha que tomar cuidado para não dormir acidentalmente no banco de reservas.
Acabei tendo somente três compromissos naquele dia: o primeiro foi acompanhar uma entrevista de Éverton que Vinícius queria subir na CBF TV, tinha sido o primeiro jogo dele ontem, então fizemos aquele rápido tête-à-tête com ele, perguntando sobre o sentimento dele nesse primeiro jogo.
Depois do almoço, aproveitamos o tédio coletivo e fomos dar uma volta com o Canarinho por Washington, fazer aquelas filmagens que estávamos acostumados, interatividade com os torcedores brasileiros e internacionais, tirar algumas fotos e tudo mais. Passamos quase nos mesmos pontos turísticos que ontem visitamos: a Casa Branca, o Capitólio e o Memorial Lincoln. Eu tinha me apaixonado por essa cidade, então ficava feliz em passar mais um tempinho em lugares tão conhecidos no mundo. E claro, a gente aproveita e dá aquela tietada no Canarinho, sempre é uma das fotos mais populares no meu Instagram, e olha que ele ganha seguidores a cada dia, principalmente durante essas viagens.
Voltamos para Audi Field e o treino do dia já tinha acabado, não dava para deixar os titulares no regenerativo o dia inteiro e nem os reservas jogando, então eles já estavam organizando as coisas para irmos embora logo após a coletiva.
A coletiva desse dia foi com dois novatos para mim. Um deles era o Alex Sandro, velho conhecido da minha Velha Senhora*, mas ele já havia sido convocado outras vezes em outras ocasiões e com outros técnicos, mas estava voltando agora. E outro era o Éder Militão, era sua primeira vez. Então o papo rolou em volta das novidades dos convocados, expectativas para os próximos jogos, o que poderiam acrescentar na Seleção. Aquele papo de sempre.
No final, a coletiva durou menos de 20 minutos, então o pessoal nem esperou tanto para irmos embora. Voltamos para o hotel ainda com a animação para cima, afinal, não era nem cinco horas, então tinha um longo tempo de descanso.
Eu e Alisson aproveitamos essas horinhas de folga a mais para namorar, eu sabia que passado o primeiro jogo, o segundo seria rápido e logo teríamos que nos separar de novo, mas eu não queria fazer com que isso me desanimasse, pelo menos não ainda. Mas Alisson me conhecia melhor do que eu esperava, então não consegui evitar.
- Você está quieta demais. – Ele comentou, apertando meu corpo nu sobre o seu e eu suspirei.
- Me chamando de faladeira? – Brinquei e ele riu fracamente.
- Não, mas você é mais comunicativa do que isso. – Ri fracamente.
- Só estou pensando nos dias que estão passando. – Virei meu corpo ao lado do seu, olhando para o teto. – Logo seguiremos caminhos distintos.
- Sabia! – Ele falou. – Sempre pensando no futuro. – Suspirei.
- É inevitável! Eu fiquei dois meses aloprada em como ficaríamos depois da Copa, e eu percebi que foi muito melhor do que o esperado. – Neguei com a cabeça. – Agora será mais um mês dessa incerteza.
- Tu não precisa ter incerteza nenhuma, estamos comprometidos, é isso e acabou. – Suspirei, recebendo um beijo em minha cabeça.
- Eu sei, mas...
- Sem “mas” e sem “e se”. – Ele virou na cama, me fazendo olhar em seus olhos. – É isso e pronto!
- É que não é justo. – Ergui a mão até seu rosto, acariciando-o. – 60 dias sem se ver e 10 dias juntos. – Suspirei.
- Você só está se esquecendo de uma coisa. – Ele comentou e fiz um movimento com a cabeça em sinal de pergunta. – Só estamos juntos por causa disso. – Ri fracamente, virando o rosto dele para o lado, gargalhando.
- Você está pior que o Marcelo na final da Copa! – Gargalhei.
- Por quê? O que aconteceu?
- No voo de volta para o Brasil, eu estava um caco, parecia que eu tinha perdido um braço...
- Nossa, sou tão importante assim? – Revirei os olhos.
- Você sabe que sim e cala a boca! – Ele gargalhou. – Enfim, ele se sentou do meu lado, tentando me consolar e falou assim “você tem que ficar feliz, sabe? Você conseguiu algo muito mais valioso do que o hexa”. E eu olhei meio desconfiada, tipo “o que esse cara tá falando?” Enfim. – Abanei a mão. – Aí ele disse “amor, ”. – Alisson gargalhou e eu o acompanhei. – Eu queria bater tanto nele, porque eu estava tão deprê e ele me fez gargalhar assim. – Neguei com a cabeça.
- Bem, então temos algo mais valioso que o hexa. – Sorri.
- Você vai me zoar pelo resto da vida, não vai? – Perguntei.
- Você não, mas o Marcelo sim, e na primeira oportunidade que eu tiver. – Sorri. – Será que pegamos o Real na Champions? – Ele cogitou e eu gargalhei, negando com a cabeça.
- Tonto! – Sorri. – Mas é isso.
- E a gente? – Ele perguntou, apoiando os braços na cama. – Está tudo bem para você manter isso escondido? – Suspirei.
- Eu não estou vendo problema nenhum, sabe? Principalmente agora que está tudo recente ainda, nós dois, Copa do Mundo, ainda trabalhamos com resquício daquilo, tirando a imagem ruim que ficou. – Me sentei na cama, me cobrindo com o lençol. – Não duvido nada que as pessoas te culpem pela eliminação por estar distraído. – Dei de ombros. – As pessoas são malvadas e não há nada que possamos fazer. Além de que nossas famílias sabem, nossos amigos, nossos trabalhos. – Dei de ombros. – Acho que é só quem realmente importa.
- Sim, nesse ponto você tem razão. Vamos ver mais para frente, vai chegar um momento que teremos que nos abrir, quando esse momento chegar, deixa acontecer. – Sorrimos e dei um rápido selinho nele. – E falando em família, eu preciso conhecer a sua.
- Nem fala! Meu pai me alopra quase todo dia. – Ri fracamente. – Mas também vai ter essa oportunidade em breve. Vamos com calma. Eu também não os vejo desde antes da Copa, e só fui por necessidade, se não estaria até minha próxima folga ou próximo curso do meu pai para gente se ver.
- Vamos combinar isso, talvez lá em Liverpool. – Ri fracamente.
- Vamos devagar. Eu não tenho férias até maio do ano que vem, e dois dias de folga eu uso dormindo pelo cansaço da correria. – Ele beijou minha bochecha.
- Vamos fazer dar certo. – Ele passou as mãos em minha cintura. – Agora, vamos jantar? Estou ficando com fome e já ouvi sua barriga roncando algumas vezes. – Sorri.
- Não queria sair daqui, mas a fome está falando mais alto. – Ele se levantou, estendendo as mãos para mim e seguimos em busca de nossas roupas.

O antepenúltimo dia – ou será que era penúltimo? - foi mais divertido, pelo menos para mim. Além de ter mais compromissos, a imprensa voltar a falar com a gente para pedir informações, foi um treinamento mais focado em goleiros e vocês sabem como eu adoro ver os goleiros trabalhando, principalmente um em especial que, quando ele pula, deixa as entradas do seu abdome aparecer e faz com que eu me derreta toda, mas essa não foi a melhor parte, a melhor foi que eu pude voltar a tocar na bola da forma certa.
- ! – Ouvi alguém gritar meu nome e ergui o dedo pedindo para esperar.
- Sim, claro! Qualquer coisa pode me retornar. Obrigada! – Falei em inglês para a jornalista do Washington Post e virei em direção a voz que me chamou.
- Vem cá! – Taffarel falou e eu guardei o celular no bolso, olhando em volta se não seria acertada por uma bola e fiquei ao seu lado, vendo Alisson, Neto e Hugo parados me olhando. – Está ocupada? – Franzi a testa.
- Quando eu não estou ocupada, Cláudio? – Perguntei e ele riu.
- Preciso de uns chutes a gol e não tem gente para ajudar. – Dei um pequeno sorriso.
- E você quer que eu faça às honras? – Perguntei e ele deu de ombros.
- Por que não? – Ele riu. – Sei que você está acostumada a jogar do outro lado, mas é um trabalho de rebote de pênalti. Eu chuto, eles defendem, você chute de volta.
- Rasteiro? Forte?
- Da forma que você quiser. – Ele deu de ombros. – A surpresa é a melhor arma. – Ele aproximou a boca da minha orelha. – Para fora intencionalmente também. – Rimos juntos.
- Ok, vamos lá! – Sorri, virando para os goleiros novamente. – Vamos deixar isso mais divertido? – Me afastei, seguindo a direção para a posição da esquerda. – Se eu conseguir fazer um gol em qualquer um de vocês, vocês terão que me pagar 10 dólares por gol. Em dólares para ficar mais interessante. – Puxei uma das pernas para trás, me esticando um pouco.
- E por que você acha que vamos deixar entrar? – Neto perguntou e eu sorri.
- Eu conto ou você conta? – Virei para Alisson.
- Ela jogou futebol na época da faculdade. – Ele disse e eu pisquei para ele. – Mas ela era goleira, não deve estar com o chute tão afiado. – Abri a boca, incrédula.
- Para você acabou de subir para 20 dólares por gol. – Virei para Taffa. – Vamos lá?
- Vamos lá! – Ele falou, puxando o carrinho de bolas para mais perto da marca de pênalti. – Vocês defendem o meu, o da e saem pelo lado da defesa. – Ele falou. – Vamos fazer um ciclo. – Ele colocou a primeira bola na marca. – Valendo!
Ele fez o primeiro chute e Alisson defendeu facilmente e a mandou para longe, me fazendo olhar para trás, vendo a bola sair longe e franzi os lábios.
- Sem humilhar, Alisson. – Cláudio falou.
- Só devolvendo o troco da Copa. – Gargalhei.
- Vamos! – Gritei, batendo as mãos.
Taffa fez outro chute, Alisson defendeu e eu precisei recuperar a bola no peito, o que doeu, já que eu não estava preparada para isso, ajeitar e batê-la novamente para o lado direito e ele defendeu a mesma rasteira. Neto entrou e seguiu o mesmo movimento de Alisson, mas mandou a bola para cima. Hugo fez a mesma coisa e o segundo ciclo começou.
Senti minha confiança melhorar conforme os chutes, e o primeiro gol que eu fiz foi no Hugo, de cabeça. Ele defendeu a de Taffa e eu dei uma de Thiago Silva e meti a cabeça na bola, vendo-o não conseguir alcançar a mesma e deixá-la escapar pela ponta dos dedos no canto inferior direito do gol!
- Yeah! – Gritei empolgada, gargalhando em seguida. – Espero 10 dólares de você, Hugo! – Ele gargalhou da minha comemoração e Taffarel bateu as mãos na minha, me abraçando em seguida.
- Continuando! – Taffa gritou e as bolas voltaram a serem chutadas uma a uma.
Eu não sabia quanto tempo aguentaria ajudar Taffa nesse treino, eu sentia o celular vibrando em meu bolso, me surpreendendo por ele não ter caído ainda por alguns pulos e quedas ocasionais, e eu não estava em forma para isso, longe disso, mas eu tinha uma meta só que era fazer um gol em Alisson. Não era fácil, eu sei, meu namorado era bom demais, mas todos os goleiros tinham um padrão e a cada lance eu tentava estudar o dele para acertar.
E eu consegui! Acho que lá pelo décimo quinto lance ou quase vigésimo, mas vamos dizer que eu roubei. Ocasionalmente, Taffa trocou de lado e pediu para eu chutar para o lado esquerdo agora. Eles estavam muito fixos a isso. Os chutes precisavam ser mais a esmo, mas sabia que Taffa não aguentava isso sozinho e eu muito menos.
Quando Taffa chutou a bola, Alisson a defendeu muito rasteira, aproveitei o tempo dele se levantar e dei uma pequena levantada na bola e chutei para o lado direito do gol, abrindo um largo sorriso quando a rede se mexeu atrás dele.
- Porra! – Taffa gritou surpreso e eu gargalhei, abrindo um largo sorriso.
- 20 dólares para você, senhor Becker! – Gargalhei alto, chamando a atenção de alguns treinadores que estavam ali que gargalharam comigo.
- Não foi justo. – Ele se levantou e eu sorri.
- Na hora do gol o cara não vai falar para que lado ele vai jogar. – Taffarel e os outros jogadores riam ao meu lado e eu só sabia sorrir.
- Ela está certa.
- Ela está sempre certa! – Alisson falou irônico, mas dava para notar o risinho em seu rosto. – Isso que me irrita. – Ele veio em minha direção e eu dei alguns passos para trás, tentando me desviar.
- Nem vem, nem vem! – Coloquei as mãos de escudo e ele me pegou antes que eu pudesse me colocar a correr.
- Me solta! – Ele me colocou em seu ombro, me deixando de cabeça para baixo e o pessoal ria. – Foi justo, você não tem esse direito.
- Não foi não. – Ele falava, andando pelo campo comigo e eu só sabia rir.
- Chama o VAR! – Lucas gritou e o vi tirar fotos nossas.
- Não posta isso, Lucas. – O alertei e ele também ria.
- Não posso, mas queria! – Senti o sangue começar a descer e me dar tontura.
- Me solta, Alisson, está começando a dar dor de cabeça. – Falei rindo mais fracamente e ele me colocou no chão quase como se eu fosse um saco de batatas, mas pela dor de cabeça eu desmontei sentada no chão, gargalhando ainda.
- Você está bem? – Ele me deu a mão e eu a segurei, me levantando.
- Estou ótima, eu fiz gol em você. – Pisquei e ele negou com a cabeça.
- Não valeu. – Ele repetiu e eu sorri.
- Em um jogo valeria. – Pisquei e ele tirou algumas coisas no meu cabelo, imagino que tenha sido grama e colou os lábios nos meus rapidamente.
- Eu te pago depois. – Ele disse e eu sorri feliz.
- Sorria, casal! – Douglas apareceu com um pau de selfie na nossa direção e eu escondi o rosto.
- Douglas! – Reclamei, empurrando a câmera para o outro lado. – Não filma isso.
- Eu sei, mas o Vinícius tira na edição, relaxa. – Ele falou, desligando a câmera. – Não seja tão melodramática. – Mostrei a língua para ele, vendo-o rir.
- Esse povo! – Revirei os olhos e ele riu. – Agora vai, eu preciso falar com o Tite.
- Algum problema? – Ele virou para Tite que estava atento ao jogo.
- Não, só algo que eu pensei agora. – Dei de ombros. – A gente se fala depois! – Falei animada e ele riu, seguindo para o outro lado.
- Tite! – O chamei da linha de campo e ele virou para trás, e o chamei com o dedo, vendo-o apontar para Cléber e ele seguiu para fora do campo, se colocando ao meu lado.
- Diga! – Ele falou e virou para mim. – Nossa, você está cheia de grama. – Ele passou a mão em meus ombros e eu vi fracamente, batendo as mãos nos ombros.
- Estava ajudando o Taffa, enfim. – Balancei com a cabeça. – Eu estava pensando aqui, o jogo de amanhã é contra o El Salvador, não imagino que teremos alguma dificuldade sequer. – Virei para ele. – Não acreditei que tínhamos nem contra os Estados Unidos sendo bem honesta. – Dei de ombros. – Enfim, estava acompanhando o trabalho do Neto e acho que você podia dar uma chance para ele amanhã.
- Colocá-lo para jogar? – Dei de ombros.
- Estamos precisando de gente nova. – Suspirei. – Amo ver o Alisson jogar, mas imagino que não seja nenhum desafio para precisarmos dele. Capaz de ele dormir agarrado na trave. O Neto teria uma primeira experiência. – Ele ponderou com a cabeça.
- Você acha que ele está pronto? – Ele perguntou.
- Esse não é meu departamento, Tite. Fala com o Cláudio, ele vai te saber falar melhor. Eu acompanhei 30 minutos, só isso.
- Vou lá falar com ele! – Ele disse e eu sorri, sentindo meu celular vibrar de novo e o tirei da bunda, atendendo-o.
- Alô? – Me afastei do barulho do jogo e entrei no túnel do AudiField.
- É da Seleção Brasileira?
- Eu mesma! – Falei.
- Oi, eu sou jornalista da...
Não demorou muito e Tite oficializou Neto como titular do jogo de amanhã. Eu fiquei feliz. Mesmo depois daqueles problemas lá em Nova Jersey e tudo mais. Aparentemente tudo não tinha passado de um completo mal-entendido com muitos sentimentos amplificados.
Aproveitamos essa novidade e fomos fazer algumas entrevistas com ele também para o site e acompanhar os últimos minutos do último jogo. Bem calma, só vendo a bola rolar. Quando deu a hora da coletiva, acompanhei Tite e Sylvinho para a sala da imprensa com Lucas e Vinícius para mais algumas perguntas e respostas.
Era El Salvador, então não tinha grandes perguntas relevantes, era mais sobre Neymar, futuro da Seleção, desempenho para os futuros jogos, memória da Copa do Mundo, teste com os novos jogadores, minutagem que cada jogador vai jogar... A meu ver, nada muito relevante. Acabou durando pouco mais de meia hora.
Como era o último treino, ficamos até mais de nove horas no estádio. Eu já estava cansada, bocejando muitas vezes e contava os minutos para ir para o hotel, tomar um banho, jantar e ir dormir. Queria aproveitar os últimos dias com Alisson, mas trabalhar cansa, né?!

- Gente, antes de vocês descerem, gostaria de pedir para todos virem jantar hoje. – Tite falou quando o ônibus parou em frente ao hotel. – É o último jantar com todos presentes, amanhã após o jogo teremos um jantar no estádio mesmo, mas iremos embora de madrugada, pelo menos a turma do Brasil. – Suspirei. – Subam, tomem banho, mas voltem para jantar.
- Combinado! – Os jogadores falaram e descemos um a um do ônibus.
Tinha alguns torcedores na porta, a maioria passou direto, mas alguns pararam para dar autógrafos e tirar selfies. Eu e Alisson subimos para nosso quarto e dessa vez não ficamos brincando no banho, queríamos descer rápido, para subir rápido de novo e aproveitar a última noite juntos que nos restava.
Descemos para jantar e todos estavam bastante esfomeados. Até teve um lanchinho na parte da tarde, mas frutas, barras proteicas e várias coisas que não eram um belo de um hamburguer ou um prato de macarronada, mas a gente se vira conforme a banda toca.
Aproveitamos um gostoso momento junto, mas era visível o cansaço no olhar de todos. A vantagem é que o jogo seria só nove e meia da noite, então daria para aproveitar um tempo juntos ainda, apesar de que eles estavam no famoso castigo, eu e o pessoal da comunicação ainda tínhamos que trabalhar, mas esperava que pelo nível do nosso adversário, não tivéssemos tanta demanda.
Jantamos todos juntos, mas logo Tite veio com um papinho motivacional de agradecimento a todos que ajudaram nessa primeira etapa pós-copa da Seleção, que tivemos um ótimo desempenho, que mais jogos viriam e que poderíamos trabalhar mais juntos. Eu estava sensível, a cartela do meu anticoncepcional tinha acabado, eu estava na TPM e teria que me despedir do meu namorado amanhã à noite, então já comecei a chorar ali mesmo.
- Ei, não precisa chorar. – Fabinho falou e eu ri fracamente.
- Desculpe. – Falei, vendo Alisson me estender um guardanapo. – Estou sensível, só isso. – Suspirei, passando o mesmo embaixo dos olhos.
- E agradecer ao pessoal da comunicação por esse trabalho incrível, entrosamento e...
- Não começa que eu vou chorar mais ainda. – Falei para Tite e os mais próximos riram.
- Vamos finalizar por hoje, vai. Obrigado, gente! Amanhã vocês estão de castigo, saímos daqui sete e meia da noite para ir ao estádio. Boa noite. – Tite falou e a maioria se levantou, inclusive eu e Alisson.
Entramos nos elevadores aos montes e cada um parava em um andar. Quando abriu no nosso, eu e Alisson desejamos boa noite para o pessoal de dentro e que desceu com a gente e seguimos de mãos dadas para nosso quarto. Abri a porta do quarto e entrei antes dele, colocando a chave em cima da mesa entre as camas.
- Mais um dia. – Falei, me sentando na beirada de uma das camas e largando os chinelos no chão.
- Mais um dia contigo! – Alisson se colocou em minha frente e eu passei as mãos pela sua cintura.
- Você tem um jeito bonito de ver a vida, sempre feliz, sempre grato, sempre humilde. – Falei, encostando a cabeça na cintura dele.
- Porque eu sou feliz, humilde e grato. – Abri um sorriso e senti ele acariciar minha cabeça.
- Eu sou meio de mal com a vida de vez em quando, apesar de ela estar sendo muito boa comigo.
- Você não é de mal com a vida, para. – Rimos juntos.
- Faz tempo que eu não estou, mas eu nunca vejo o ponto do copo meio cheio, eu sempre o vejo meio vazio. – Afastei minha cabeça, olhando para cima.
- Para mim está ótimo desse jeito. – Sorrimos e ele se abaixou, colocando as mãos em meu rosto e colando os lábios nos meus.
O puxei pelo pescoço, deitando meu corpo na cama e ele se ajeitou em cima de mim. Uma mão ficou apoiada ao lado da minha cabeça no colchão e a outra apertou firme minha cintura. Nossos lábios se moviam com maior velocidade e o ar começava a faltar para nós dois. Em um momento, Alisson nos separou para respirar e aproveitou para puxar sua blusa para fora, jogando-a no chão.
Abri um pequeno sorriso ao ver seu tanquinho e o puxei para mais perto, me dando a oportunidade de trocar de posições e ficar por cima. Passei a mão por seu corpo, até chegar em suas entradas e o vi sorrir, contraindo a barriga com o efeito. Puxei minha camiseta pela barra e deixei-a cair junto da dele. Debrucei meu corpo sobre o dele e distribuí alguns beijos pelo seu rosto, pescoço, até descer em seu peitoral.
Ele apertava minha cintura conforme meus beijos e percebia que sua pele estava inteira arrepiada. Colei nossos lábios novamente, aprofundando o beijo, mas me afastei com a mesma intensidade. Fiquei em pé em sua frente e abri o botão e zíper da minha calça e a deslizei pelas minhas pernas, descolando-a das minhas coxas.
Quando finalizei, ele já tinha se sentado na cama e me puxou pela cintura para voltar com ele. Logo ele também tirou as peças que faltavam e ficamos empatados nesse quesito. Ele acariciou meu rosto, dando um curto beijo em meus lábios e ambos sorrimos, sabendo o que viria em seguida.

Acordei no dia seguinte sem despertador. Dessa vez havia lembrado de desativar. Chequei o relógio do celular e percebi que ainda eram oito horas. Eu sabia o que era isso, era a ansiedade batendo e ela batia forte. Girei o corpo devagar e olhei o dono das mãos ao redor da minha cintura. Alisson dormia pacificamente que realmente parecia um anjo de cabelos pretos, o que me fez suspirar. Passei o braço ao redor de seu corpo e tentei dormir mais alguns minutos.
Em mais dois dorme e levanta, eu acabei conseguindo enrolar até as 10 horas. Na última vez Alisson já estava acordado e agora era ele quem me observava dormir. Dei um sorriso ainda sonolento para ele e só queria puxar a coberta para cima de mim e ficar o resto do dia ali, ou melhor, o resto da vida ali.
- Vamos que já é dia? – Ele perguntou, jogando meus cabelos para trás e eu suspirei.
- Não! – Gemi, puxando a coberta até a cabeça. – Quero ficar aqui para sempre. – Minha voz saiu ecoada embaixo do grosso edredom, mas provavelmente deve ter ficado abafada.
- Vamos, amor. – Suspirei, abaixando a coberta.
- Por que tem que ser assim? – Gemi. – Eu não quero que você venha jogar em times brasileiros porque é fim de carreira para alguém do seu calibre, mas também não quero sair da CBF, é a melhor coisa que aconteceu na minha vida. – Falei ainda manhosa e ele tinha um largo sorriso no rosto.
- Ter saudades é gostoso, faz com que nosso coração se mantenha quente. – Neguei com a cabeça.
- Só você, Alisson. Só você! – Rimos juntos e peguei o celular na cabeceira, tirando-o da tomada e puxei as notificações. – Nossa, tem três mensagens da Bianca. – Abri a conversa, suspirando.
? Já acordou?”
“Precisamos pegar as informações para o jogo de hoje, preciso confirmar o horário com o cara”.
“Me avisa quando acordar”.
– Falavam as três mensagens e eu suspirei, respondendo rapidamente para ela.
“Já estou acordada, quer ir agora? Ao menos me dê uns minutos para me arrumar”. – Respondi deixando o celular de lado.
- Hora de trabalhar? – Alisson perguntou e eu suspirei.
- Sim, vamos lá.
Bianca respondeu logo em seguida, me arrumei com a roupa de guerra e saímos para pegar a informações do jogo: crachá, protocolos, aquelas informações todas. Voltamos para o hotel e o almoço já estava sendo servido. Aproveitei, já tinha tomado café, então estava esfomeada, como sempre, na verdade.
Depois do almoço, a maioria dos jogadores acabou ficando lá no restaurante mesmo e eu e Alisson acabamos ficando junto. Queríamos muito ficar sozinhos, mas eu também sentia falta do resto do pessoal, precisávamos aproveitar. Nessas horinhas juntas rolou todos os tipos de jogos que você pode imaginar: truco, 21, porco – ou burro, dependendo da localização, além das variáveis em inglês -, tentaram me ensinar pôquer, tapão – o que foi muito bom ganhar em todas, mas ter a mão lindamente massacrada por outros 12 jogadores - , até rolou aqueles jogos de detetive de criança? De piscar? Pois é!
Foi tonto, mas também foi muito gostoso passar o tempo. Foi uma vitória para todos, acabou distraindo bastante a gente. Por volta das cinco horas, todos decidimos subir para começar a se arrumar, arrumar as malas e tentar tirar aquela sonequinha básica. Alisson acabou dormindo, eu até saí do quarto para dar licença, pois o celular voltou a tocar e eu precisei dedicar alguns minutos com isso, mas o tempo que sobrou, eu fiquei bem plena abraçada ao meu namorado, só ouvindo-o dormir.
Dessa vez foi eu quem deu uma geral em suas coisas, separando a roupa para ir para o jogo e deixando outra no topo da mala para ele viajar, além de juntar todas as tralhas que eu precisava devolver. Quando estávamos ambos prontos, ficamos namorando um pouco no quarto, até dar o horário para descer.
Foram só alguns beijos, fortes abraços, algumas lágrimas bobas da minha parte, mas só queríamos prolongar aqueles momentos por mais alguns segundos. Era quase adiar o inadiável. As coisas tinham que acontecer, mas antes tínhamos mais um trabalho.

Chegamos ao estádio FedEx Field e os protocolos começaram. Esse vestiário era tão grande quanto o de Nova Jersey. Acho que era comum vestiários de futebol americano serem mais espaçosos. Enquanto eu e Bianca organizávamos algumas coisas, os jogadores começaram a fazer alongamento, um jogo de bobinho no vestiário, relaxamento com o fisioterapeuta. Aquele jogo de sempre.
Na hora do treino, os jogadores saíram e Lucas, Diana e Vinícius foram juntos para fazer algumas imagens do Canarinho com a galera. Eu e Bianca aproveitamos o silêncio para ajeitar as informações da volta. Quem voltaria para o hotel, quem já pegaria avião para outros locais e quem ia embora com a gente.
Os jogadores voltaram, trocaram de roupa, vestindo a camiseta azul dessa vez e os goleiros a camisa preta que eu sou apaixonada. Os jogadores fizeram a tradicional roda, o capitão Neymar falou algumas palavras de apoio e Tite deu as dele: fazer um bom jogo, pegar leve e aproveitar as substituições para praticar. Quando ele finalizou, os jogadores titulares colocaram aquela jaqueta amarela da entrada e todos se cumprimentaram antes de seguir para o túnel.
- Eu amo essa camisa! – Cochichei para Alisson quando ele parou ao meu lado para esperar o resto dos reservas.
- Eu sei! – Ele piscou e eu ri fracamente.
- Vamos, gente! Reservas comigo. – Bianca falou e acenamos para Diana, saindo junto deles pelo túnel.
Eu e Bianca fomos umas das primeiras a entrar no banco dos reservas. Ficávamos do lado mais distante do centro do campo, para não dificultar na hora das substituições. Logo ao meu lado, estava Alisson. Eu que havia sugerido para Tite colocar o Neto, estava triste por ele não jogar, mas estava empolgada para tê-lo comigo durante 90 minutos televisionados.
Os jogadores entraram, nossa escalação de hoje era Neto, Alex Sandro, Dedé, Marquinhos, Éder Militão, Casemiro, Neymar, Coutinho, Arthur, Douglas Costa e Richarlison. Tivemos o hino, a foto, um minuto de silêncio em homenagem ao atentado de 11 de setembro que estava completando 17 anos naquele dia.
Depois que a gente se ajeitou nos bancos, o apito foi soado e o jogo começou. Começou muito bom para o nosso lado, para ser bem honesta. Em dois minutos de jogo, um salvadorenho passou uma rasteira em Richarlison no meio da área e foi dado o pênalti. Ney cobrou com a paradinha e abrimos o placar em um a zero.
O jogo se seguiu sem grandes surpresas e Richarlison fez seu primeiro com a camiseta canarinho aos 16 minutos, comemorando com a dança do pombo que a gente viu no dia do trote, me fazendo gargalhar muito. Ele era muito bom, isso ninguém poderia negar, mas eu queria ver esse pessoal novo com mais dificuldade, com um candidato à altura. O que não estava tendo muito para a Seleção.
Depois tivemos a entrada forte de um jogador de El Salvador em um brasileiro, causando um cartão amarelo e depois outras duas chances de gol do Neymar, mas uma foi rasteira para fora e outra bateu no travessão, causando um grande perigo para a Seleção salvadorenha. Douglas tentou uma terceira vez, mas bateu muito alto e caiu de brinde nas mãos do goleiro adversário.
El Salvador até tentava chegar, mas a bola era rapidamente tirada de seus pés. O jogo brasileiro acontecia de forma mais rápida e era até bonito de se ver, mas ainda repito: não era um grande desafio para gente, pelo menos não é para ser.
Nosso terceiro gol veio com uma assistência de Neymar que cortou os adversários por fora da grande área, passou para Coutinho que meteu um só no centro do gol, não dando chances nem para o salvadorenho pensar.
Nos intervalos em que nada de interessante acontecia, eu sentia um olhar forte em minha nuca e sabia o responsável por isso que me secava claramente. As vezes ele segurava minha mão escondida entre nossas pernas, outras vezes ele brincava com meus dedos, outra fazia desenhos em minha coxa. Parecia que ele não estava nem aí para o jogo, mas eu estava gostando disso. Trocávamos risinhos cúmplices e voltava a prestar atenção no jogo.
Tivemos duas substituições de El Salvador logo no primeiro tempo e o jogo se seguiu.
No fim do segundo tempo, Douglas fez um passe bonito para Neymar, fazendo esse arrancar e o goleiro sair do gol para tentar parar a bola, mas Ney driblou o mesmo, mas ao fazer o chute, bateu no adversário e mandou a bola para trás. El Salvador teve uma chance mais para o fim do primeiro tempo, mas quando eles fizeram o passe, Richarlison interceptou e mandou para frente novamente.
Durante uma falta dupla, a meu ver, Neymar e um salvadorenho caíram no chão e foi dado um amarelo para o Neymar. Eu e nem Tite concordamos, mas estava dado. Isso deu fim ao primeiro tempo.
Voltamos para o vestiário comigo empurrando Alisson, rindo dele estar hiperativo durante o jogo.
- Você precisa parar.
- Que isso, eu faço no Fabinho também, só para não ficar mal. – Ele comentou passando um braço pelo meu pescoço e eu neguei com a cabeça, rindo em seguida.
- Vamos, vai!

Com três a zero no primeiro tempo, voltamos mais relaxados no segundo, mas ainda tinha jogo para rolar. Tite substituiu Casemiro por Fred e Dedé por Felipe, que eu achava a versão mais magra e morena de Alisson. No comecinho do primeiro tempo, El Salvador teve uma chance, o atacante fez o passe quase colado em Neto, mas o jogador do outro lado estava afastado, então acabou mandando para a trave. Causou um pequeno ataque cardíaco, mas passo bem.
- Caralho! – Respirei fundo e Alisson virou para mim. – Imagina gol do El Salvador?
- O Neto não ia deixar, até parece que não foi você que sugeriu para ele jogar. – Rimos juntos e eu pisquei para ele.
Douglas tentou o ataque, mas perdeu a bola para o outro time na hora do contra-ataque. Mais para frente eles fizeram um forte chute quase do meio do campo, bonito e forte, mas foi muito mais alto que o esperado.
Nosso quarto gol veio do menino pombo de novo. Coutinho chegou bem próximo à área, mas sem espaço foi derrubado e acabou passando, Richarlison veio e deu só uma, acertando no centro do gol.
Depois do gol e quatro de vantagem, Tite fez algumas mudanças. Tirou Coutinho e colocou Everton, tirou Richarlison e colocou Paquetá, e tirou Douglas e colocou Willian. Everton já entrou com sangue nos olhos e tentou um gol em um tiro só, mas bateu na trave do lado de fora, fazendo o goleiro ter a reação para o mesmo lado.
Ficamos mais perto do quinto quando Willian veio do canto direito, tentou um chute só que foi desviado pelo goleiro, Neymar recebeu o rebote tentando de novo, mas não era para entrar e ricocheteou para fora. A bola voltou com Willian de novo, passou para Paquetá que fez o chute, mas o goleiro espalmou para a lateral.
Em um momento de ataque cardíaco, Willian fez um chute para o centro do gol, mas o goleiro pegou a bola, sentindo que estava caindo para trás e, para não entrar com bola e tudo, soltou-a novamente. Meu gol estava preso na garganta já, mas não foi. Em outra chance de Neymar, ele chutou do centro do campo, mas foi para fora. Everton teve outra chance, indo para as mãos do goleiro, depois o mesmo desviou com o pé.
Mais substituições, saiu Arthur e entrou Andreas Pereira. Felipe fez falta e acabou levando cartão amarelo, mas nada muito trágico, mas o juiz estava dando cartão mesmo! Quando achávamos que o jogo tinha acabado, veio uma cobrança de falta para o nosso lado, Marquinhos estava na grande área e deu uma cabeceada, confundindo o goleiro e cravamos um cinco a zero.
- Eita que gol bonito! – Alisson comentou e eu assenti com a cabeça.

Apesar do jogo massacrante em cima de El Salvador, eles estavam muito empolgados em poder jogar com a gente, tanto que voltando para o vestiário, vários pediram para tirar fotos e trocar blusas com os jogadores brasileiros: Neymar, Willian, Coutinho. Até o treinador deles entrou na roda, foi realmente bonito de se ver. Voltamos para o vestiário e formamos a roda e eu sabia que vinha mais choro por aí.
- Bom, gente! Hoje foi um dia muito bom, tivemos um jogo excelente, mas sinto que podemos melhorar, fazer algumas alterações, principalmente pelo nível das seleções. Vocês perceberam, os caras são seus fãs e foi bem legal ver essa interação agora no fim. – Tite falou sorrindo. – Quero agradecer a todos, foi uma ótima análise, foi bem divertido e tudo isso é para entrar nos trinques para os próximos jogos e para as próximas competições. Obrigado a todos e até a próxima. – Ele falou e todos aplaudimos. – , gostaria de acrescentar algo? – Suspirei.
- Só que eu senti que teve muitos chutes a esmo, se alguns chutes fossem melhor pensados, teria sido um banho de sangue hoje, creio que contei mais umas oito ou nove chances reais de gol que faltou atenção, no geral, foi fácil demais, não tem nem o que dizer. – Ele confirmou com a cabeça e sorrimos.
Enquanto os jogadores titulares e substituídos tomavam banho, eu, Lucas e Vinícius fomos acompanhar Tite e Sylvinho na última coletiva dessa leva para fechar tudo. Foi curta também, falaram sobre os assuntos de sempre, principalmente os polêmicos: facilidade do adversário, mistura do time, análise dos jogos e da equipe, aquela coisa toda. Toda coletiva era a mesma coisa, parecia que o disco estava riscado.
Foi rápido, durou cerca de 15 minutos, mais organização de saída e seguimos de volta para o vestiário para começar a nos despedir. Chegamos e todos estavam prontos já. Bianca já tinha dado os passes de destino para todos os jogadores e creio que todos iriam embora nessa madrugada mesmo, poucas teriam que esperar amanhecer e o resto tinha seus próprios meios como jatinhos e tudo mais.
- Ei! – Alisson apareceu ao meu lado e eu sorri.
- Ei! – Ele estendeu a blusa e eu arregalei os olhos. – A blusa preta! – Falei esticando a mesma abismada.
- Fica para você, pensa em mim. – Sorri.
- Como se fosse difícil. – Aproximei-a do nariz, cheirando-a.
- Eu nem soei, é para estar cheirosa. – Ri fracamente, abraçando-o em seguida.
- Estou só sentindo seu cheiro mesmo. – Ele me apertou pelos ombros. – Seu voo é só as seis, não é?
- Sim, meu, Firmino, Fabinho, Richarlison, Fred, Andreas, acho que é isso. – Assenti com a cabeça.
- Vão ficar aqui, vão para o aeroporto, vão voltar para o hotel? – Perguntei.
- Vamos ficar aqui, já passa de a uma hora, umas três já vamos para lá. E você?
- Temos que ir já, nosso voo é as duas e meia, acho. De certa forma, já estamos atrasados. – Ele riu fracamente e me abraçou fortemente de novo.
- Eu te amo, ok?! Não se esquece nunca disso. – Assenti com a cabeça, nos separando e segurei seu rosto com a mão livre.
- Eu também, demais. – Sorri, sentindo seus lábios nos meus novamente. – Estarei aqui daqui um mês e confio que você também.
- Esse é o espírito. – Ele falou e eu ri fracamente, apertando meus braços em volta de seu corpo novamente, suspirando, sentindo meia dúzia de lágrimas escapar de minha bochecha.
- Um mês, senhor Becker. Só um mês. – Puxei o ar, passando as mãos no rosto.
- Esperarei ansiosamente. – Ele disse e nos afastamos.
- Vamos, ? – Bianca perguntou e eu assenti com a cabeça.
- Deixa eu só falar com o resto do pessoal.
Me afastei de Alisson, dando espaço para que outros jogadores e equipe técnica chegassem nele e abracei todos um por um, sentindo alguns apertos mais fortes de alguns, outros mais contidos, mas o clima era diferente. Fisicamente todos estávamos bem, não havia tido nenhuma eliminação, então o clima estava mais calmo, eu só estava chateada de ficar mais umas semanas longe do meu namorado.
Finalizei os cumprimentos, guardando a blusa de Alisson dentro da minha bolsa de mão e me juntei ao pessoal da equipe técnica e de comunicação e estávamos prontos para a última etapa da nossa viagem.
- Eu te amo! – Falei mais uma vez para Alisson e o senti me puxar pela cintura mais uma vez e colar nossos lábios por mais alguns segundos, me fazendo sorrir.
- Eu também, senhora . Com todo meu coração. – Sorri e acenei mais uma vez antes de criar vergonha na cara e desviar o olhar, seguindo minha equipe com a cabeça baixa.
Senti meus lábios tremerem um pouco, me fazendo puxar a respiração fortemente, mas senti um leve aperto em minha mão. Virei o rosto e vi Lucas ao meu lado com um sorriso no rosto. Ri fracamente, lembrando que ele também estava ao meu lado na Copa e assenti com a cabeça em agradecimento, seguindo para a van que nos esperava no estacionamento.





Continua...



Nota da autora: Ah, eu adoro esse capítulo por uma sequência de motivos, mas a briga com o pessoal da equipe técnica e Neymar tomando frente dos pps, é meu momento favorito! Mas temos também um monte de futebol, piadas e vários acontecimentos que dão aquele quentinho no coração! Eles estão se despedindo, mas tem outros acontecimentos vindo e mal posso esperar!
Espero que estejam gostando e não se esqueçam de deixar um comentário aqui embaixo para me deixar feliz!
Beijos e até a próxima!






Outras Fanfics:

Passaporte Rússia, 2018


Nota da beta: O ponto alto desse capítulo sem sombra de dúvidas foi o Neymar defendendo os pp's, gente ele lacrou lindamente hahahh! Ah, eles assistindo ao jogo juntinhos também foi maravilhoso... Pergunta que não quer calar: ele pagou os 20 dolares? HAHAHAHHA <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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