Contador:
Última atualização: 26/11/2020

- Prólogo -

Jul 2000, 19 anos atrás
Everett Ross estava cansado, não havia dormido a noite toda. Ficou revirando de um lado ao outro em sua poltrona, inquieto. Não podia relaxar o corpo e muito menos a mente, que insistia em trabalhar com uma velocidade absurda. Ele estava ansioso, com medo e incerto sobre a decisão que tinha tomado, exatamente como na noite de 23 de agosto de 1999, pouco menos de um ano atrás, quando ganhou uma filha. Everett respirou fundo, observando a garotinha que dormia abraçada ao seu fiel dinossauro de pelúcia na poltrona ao lado da sua. Ao longo de sua vida Everett nunca havia cogitado a ideia de ser pai, de ter uma família e construir um lar. Nunca se imaginou tendo um lugar para voltar todos os dias. Sempre focou seus esforços de uma vida inteira a trabalhar, a estudar e a dedicar-se a sua tão amada profissão. Acreditava que, para ser o melhor no que fazia, não teria tempo para construir laços profundos com as pessoas, tampouco pensar em família. Mas a vida tem dessas surpresas, às vezes.
Em 1990 Ross ganhou um trabalho realmente sério e importante do departamento de defesa dos Estados Unidos. Mudou-se para o interior da França e durante algum tempo sua vida estava estável e calma. Mas, o que ele não previa era que nove anos depois, com o final trágico e malsucedido do trabalho - que lhe custou o emprego e dois bons amigos - ganharia a maior e mais caótica missão de sua vida e, desde então, tem se dedicado profundamente a ela.

- Everett, acho que chegamos - O outro homem no avião com ele e a garotinha comentou alto, cortando os devaneios de Everett, que se aproximou do painel de controle do avião.
Ross estava surpreso com a vista. Não era a primeira vez que visitava aquele lugar, mas sempre se surpreendia com o que via. Sem dúvidas estava em um dos lugares mais bonitos do mundo. Sorriu verdadeiramente para o outro homem ao seu lado, que também tinha uma expressão impressionada. Diferente de Ross, Karl nunca havia estado ali, mas observando ao seu redor de perto, sentia que tudo que havia lido e ouvido sobre aquele lugar era verdade.
- Ual, isso é absolutamente… - Karl começou a falar.
- Maravilhoso? - Everett completou sorrindo, sem tirar os olhos da vista a sua frente. Karl riu baixo e concordou com a cabeça.
- Definitivamente não vou reclamar de passar um tempo aqui - Karl comentou, indo se sentar em seu lugar.
- Eu disse para virmos antes, mas o senhor "não-vivo-sem-asfalto" nunca quis - Everett rebateu divertido enquanto sentava-se e apertava seu cinto.
Karl revirou os olhos e recostou-se em sua poltrona ao lado, sentindo as leves quedas de pressão que o avião sofria enquanto descia. Não mais do que dez minutos depois, o avião estava no solo e os dois homens já estavam em pé, pegando suas malas do bagageiro. O único barulho que podiam ouvir era um sussurro baixo e infantil vindo de uma das poltronas mais atrás. Os dois homens pararam por um instante para observar a menina que se esforçava em pegar seu dinossauro de pelúcia caído no chão.
- Senhor Dino! O que conversamos sobre o senhor se jogar no chão? - a garotinha reclamava ligeiramente brava, até que conseguiu finalmente alcançar seu amigo - Já disse para se comportar bem. Só podemos viajar com os papais se nos comportarmos bem.
Everett e Karl se entreolharam e riram, chamando a atenção da garotinha, que desviou os olhos do dinossauro até eles, sem entender. Notando os homens em pé, a menina saltou de sua poltrona, colocou sua mochila nas costas e pegou o senhor Dino, indo rapidamente até eles. Algo parecia estranho para ela, não soava como uma das viagens que estava acostumada a fazer com seus pais, quando tinham que trabalhar. O clima era diferente agora e a menina podia sentir uma força estranha dentro de si, como se conseguisse controlar o que estava se movendo ao seu redor.
- Papai, onde estamos? - A garotinha perguntou confusa, trocando seu olhar de Everett para Karl. Everett pegou a menina no colo enquanto esperava pela porta do pequeno avião abrir. Karl parou ao lado deles, respirando fundo e confiante. Estava ansioso.
- Na nossa nova casa - Karl respondeu passando a mão no cabelo de sua filha que olhava para fora do avião.
- Mas eu gostava da outra - A garotinha respondeu fazendo uma careta para Karl que sorriu.
- Eu sei, querida. Mas lá era muito perigoso para nós e não gostamos de perigo, lembra? - Karl respondeu carinhoso. Sabia que sua filha era muito curiosa e perguntaria tudo até se sentir confortável com o fato.
- Eu lembro. Lá não pode brincar no quintal, é frio - A menina comentou para si mesma, pensativa.
A porta do avião terminou de abrir, lentamente, e os três caminharam até o lado de fora. Um campo aberto e verde gigantesco se estendia na frente deles. Podiam ver a cidade de um lado e grandes florestas a cercando. A menina olhava para aquilo atônita. Sentia-se conectada com o lugar, protegida e confortável. Algo dentro de si podia sentir a presença do lugar. Everett, que observava a reação da menina, sorria terno. Por um momento, todo seu medo e insegurança foram embora e deram espaço para uma sensação de certeza, de dever cumprido. Sabia que estava tomando a decisão correta. Sabia que sua filha estaria, finalmente, segura. Sem mais fugas, sem mais perigos.
Lentamente o homem colocou a menina no chão e quando seus pequenos pés encostaram na grama, centenas de ixoras vermelhas cresceram no campo ao redor dela, de uma só vez, em um piscar de olhos. A menina, já no chão, olhou para seu pai que agachava ao seu lado ao meio as pequenas flores, sorrindo abertamente.
- , bem-vinda a Wakanda - Everett comentou confiante, olhando da menina ao casal que estava parado logo a frente deles. acompanhou o olhar do pai, ainda sorrindo.


- Capítulo 1 -

Lagos, Nigéria


- Eu disse oeste, e isso quer dizer “vire à esquerda” – A voz de Shuri saiu pelo ponto eletrônico no ouvido direito de , que bufou e virou-se, indo na direção oposta.

- Não tem como saber o que é leste ou oeste daqui, seja mais clara – rebateu impaciente. Já era a terceira ou quarta vez que virava na rua errada.

Sua caminhada estava mais longa do que havia planejado, não deveria perder tanto tempo assim. Pelo pequeno relógio de pulso que usava, notou que seu ponto de localização já estava próximo ao centro. cruzou a rua a sua frente com certa pressa e, dobrando a esquina próxima, alcançou a avenida principal da cidade. Agora só faltavam alguns metros. A mulher observou alguns policiais caminhando entre os comércios aglomerados e uma cafeteria, logo ao lado, mais cheia do que de costume. Continuou a caminhar, em seus passos firmes, mantendo a atenção ao seu redor. Lagos não era uma cidade organizada, manter a vigília em lugares como aquele poderia ser um pouco difícil e ela não podia chamar muita atenção. Não podia parecer perdida, desesperada ou ficar olhando loucamente para todos os lados. Não podia parecer suspeita. Duas semanas atrás, em ação parecida no Cairo, tinha sido perseguida e atacada, por descuido seu, ela sabia. Dezenas de pessoas se machucaram no ataque e isso lhe custou alguns dias de treinamento extra, uma retratação em público, que a expos mais do que ela gostaria, e horas do batido discurso do Rei T’Chaka, sobre como suas atividades deveriam ser oficialmente supervisionadas, assim como as de outros como ela.
sorriu sozinha ao avistar o Instituto de Doenças Infecciosas, do outro lado da rua, e avisou Shuri pelo ponto eletrônico, enquanto se aproximava do lugar. O instituto não parecia muito grande: tinha uma entrada maior do que o necessário e um único edifício, quadrado, de poucos andares, ao centro do terreno. Alguns homens com armas pesadas estavam no portão principal de entrada, como se fosse um quartel general. Na menor das hipóteses, aquilo era mais do que um simples instituto. Talvez fosse um laboratório militar. passou pela guarita na entrada, atraindo atenção de alguns dos guardas, e seguiu até a portaria do instituto. Caminhava com tanta confiança que parecia já ter estado ali muitas e muitas vezes. Dias antes havia feito um crachá falso e, naquele momento, pareceu suficiente para enganar os guardas.

- Entrei – murmurou baixo, para que Shuri pudesse ouvir, e olhou para o lugar a sua frente.

- Certo. O que tem aí? – Shuri perguntou curiosa, digitando alguns comandos em seu computador, na tentativa de encontrar alguma imagem do lugar.

- Não sei ainda, parece um instituto científico militar, a segurança é reforçada – comentou, olhando as câmeras espalhadas por diferentes lugares do ambiente.

- Algum sinal de Rumlow? – Shuri parecia ansiosa.

- Ainda não, vou entrar agora no prédio – Respondeu , encarando a porta de entrada a poucos metros de si.

- Tome cuidado. Qualquer problema mande o sinal – Shuri desligou rapidamente o acesso do ponto, antes que alguém pudesse interceptar, e voltou a se focar nos computadores à sua volta.

De seu laboratório, em Wakanda, Shuri podia acompanhar onde estava e observar, por mapa de calor, o que acontecia ao seu redor. Sabia que aquilo era importante para ; que há anos ela dedicava seu tempo e força para montar o quebra-cabeça de sua vida e que, depois de tantos esforços, descobriu que as principais peças estavam com a HIDRA. Shuri tinha muito conhecimento, tecnologia e uma grande admiração pela irmã francesa que a vida lhe deu. Não se lembrava sequer de uma única vez em que não a tivesse defendido ou que não a tivesse ajudado no que ela precisava. Ela sempre esteve lá. E talvez ajudá-la com essas missões fosse a forma que Shuri encontrou de mostrar que também estaria ali, por ela. Shuri virou, em sua cadeira giratória, para pegar seu copo com suco, próximo a um outro computador cuja imagem de Rumlow estava projetada. Deu uma rápida olhada na imagem antes de voltar-se para o mapa em que acompanhava a localização de . Esperava que ela voltasse logo e, dessa vez, sem quase ser morta.
Dias atrás, Shuri rastreou um alerta anônimo sobre a ida de membros da fadada HIDRA para Lagos. As coordenadas geográficas, codificadas no alerta, levavam até aquele lugar, naquele dia e naquela hora, contudo, ainda não sabia o porquê. Certamente alguma coisa, em algum lugar, estaria esperando pela HIDRA. Já dentro do prédio, subiu as escadas, no intuito de reconhecer os lugares antes que pudesse, de fato, procurar por algo. O primeiro andar tinha apenas salas de conferência e reunião; o segundo estava repleto de mesas e tinha um pequeno café, como um espaço de convivência. O terceiro andar, por outro lado, estava cheio de laboratórios. Ali, provavelmente, teria algo interessante. Os cientistas, ocupados em seus trabalhos, não prestaram muita atenção em , que seguiu caminhando pelos corredores e olhando dentro dos laboratórios, como se os inspecionasse. Na porta de entrada de cada um havia uma placa vermelha, com o número da fase de periculosidade de contágio referente aos materiais que ali dentro eram trabalhados. Biossegurança 1, 2, 3, 4 e, finalmente, 5.
Sem cerimônias, deu uma rápida olhada ao redor, estourou a trava da porta, que pedia uma senha, e entrou no último laboratório, de nível 5, encostando a pesada porta de vidro atrás de si. Se houvesse algo realmente perigoso naquele instituto, certamente estaria ali. O cientista, que antes trabalhava ali dentro, levantou-se e a encarou, meio assustado. Ele trajava uma roupa vermelha de proteção à contaminação e indicou o corpo de , como se a dissesse que corria perigo ali, que estava exposta. Ela sorriu para ele em resposta, sem muita emoção. Não podia se infectar com nada, nunca pode. Não ficava doente e nem reagia a vacinas, não poderia se contaminar com nenhum tipo de essência biológica, vírus, bactérias ou fungos, nem mesmo veneno, e, por isso, não se preocupou em ir laboratório adentro, observando ao redor com cuidado, para localizar o que procurava.
Não demorou muito para ela notar um pequeno freezer ao fundo da sala, com apenas um único frasco dentro, e caminhou a passos largos até ele. Só podia ser aquilo. Ela pegou alguns papéis que estavam jogados pela bancada ao lado do pequeno freezer, identificando alguns códigos que batiam com os que estavam na etiqueta do frasco. Aquilo era uma arma biológica em potencial. O cientista na sala não falou nada, ficou a observando em silêncio, enquanto dava discretos passos em direção ao telefone em cima da mesa, por onde poderia pedir ajuda ou, ao menos, perguntar quem era ela e o que ela estava fazendo ali. Contudo, antes que qualquer um deles pudesse fazer algo, um forte barulho de exploração ecoou pelo ambiente, fazendo a estrutura do prédio tremer por alguns segundos. Alguma coisa havia acontecido do lado de fora.
virou-se para a porta do laboratório, a tempo de observar as pessoas começarem a correr para todos os lados, assustadas, tentando desesperadamente sair daquele andar ou verem, pelas janelas, o que tinha acontecido. Alguns instantes depois, os vidros das janelas de todo o andar foram quebrados, quase que todos ao mesmo tempo, por pequenas bombas que, ao explodirem, liberavam um gás amarelado, provavelmente tóxico. Aqueles que ainda não tinham tentado sair do prédio começaram a correr desesperados sentido a escada. franziu o cenho intrigada, sentindo sua ansiedade aumentar, enquanto observava pacientemente tudo acontecer de dentro do laboratório. Isso não lhe parecia nada bom, mas, ao menos, sabia que estava no lugar exato onde deveria estar. Em menos de um minuto, vários homens trajando roupas pretas, máscaras e segurando grandes armas invadiram o andar. A mulher desviou seu olhar dos homens armados, que se espalhavam pelos laboratórios, até o cientista, que ainda se mantinha na sala, aproximando-se alguns passos dele.

- Se esconde – sussurrou para o cientista, mas assim que ele se virou para responder algo, três homens quebraram a porta de acesso ao laboratório que estavam, sem qualquer dificuldade, e encararam os dois. Um deles, o do meio, usava uma roupa diferente, como se fosse uma armadura, acinzentada e bruta. Rumlow.

Eles empurraram o cientista contra a parede com facilidade, fazendo-o cair no chão zonzo, e foram em direção a menina. se manteve parada em frente ao pequeno freezer, tapando a visão deles da substância que, aparentemente, também os interessava. Rumlow tombou a cabeça para o lado a olhando, com um sorriso malicioso nos lábios, enquanto os outros dois apontavam suas armas para ela, até que, sem esperar qualquer comando, atiraram. desviou de algumas balas com agilidade, indo em direção à um dos homens armados, dando uma cotovelada certeira em sua arma, que caiu no chão ao lado e antes mesmo que ele pudesse revidar, deu uma joelhada em seu estômago, sendo seguida por um soco no rosto e uma outra cotovelada, de costas, no queixo do outro homem que agora vinha para cima dela. A garota deu um chute para trás atingindo o joelho do homem e se virou para golpear mais uma vez o primeiro, que caiu desacordado. Ainda assim, uma bala do segundo homem conseguiu atingir seu braço direito, de raspão, mas sem nem pensar duas vezes, meteu o pé no meio das pernas dele, fazendo-o soltar a arma no chão. Chutou a arma para longe e voltou novos socos e joelhadas nele, até ele cair também. passou as mãos sob o machucado da bala e sentiu seu braço fisgar de dor. Ela então se colocou novamente em frente ao freezer, protegendo o frasco que ainda permanecia lá dentro, intacto.

- Estou começando a achar que você é apaixonada por mim – Rumlow falou irônico, com a voz meio robótica; seu olhar foi de cima a baixo na mulher a sua frente, parando em seu braço, agora, sangrando - Continua previsível. Não aprendeu nada nos últimos anos?

- Talvez...Que você é o maior idiota que já cruzou meu caminho – Ela respondeu, olhando afrontosa para os movimentos de Rumlow.

- Você tem dez segundos para sair da minha frente, antes que aconteça de novo o que aconteceu no Cairo – O homem esbravejou impaciente, destravando a arma acoplada a armadura em um de seus braços.

- Você sabe o que eu quero. Me diga onde ele está – ordenou no mesmo tom autoritário, fechando suas mãos em punhos nas laterais de seu corpo.

- Não seja ansiosa, . Cedo ou tarde, ele virá até de você – Rumlow rebateu cínico, observando os olhos da mulher a sua frente escurecerem de raiva - Para fazer com você exatamente o que fizeram com seus pais.

não lidava bem seu com passado. Não sabia exatamente como deveria se sentir em relação a ele. Por isso, dificilmente falava sobre isso. Rumlow não tinha esse direito. Antes mesmo que pudesse tomar consciência, já estava empurrando o homem com toda sua força até sentir ele bater na parede mais próxima. Rumlow sequer se deu ao trabalho de lutar. Apenas pegou pelo pescoço, com uma única mão, e a jogou para o lado com uma força tão brutal que seu corpo passou pela porta de vidro quebrado do laboratório e deslizou até o outro lado do andar, parando quando atingiu algo. Ou alguém. Steve a segurou pela cintura, amortecendo a pancada.

- Você está bem? – Steve perguntou meio cansado. Achava que não havia mais civis dentro do prédio, o que ela fazia ali? E como estava acordada em meio a tanto gás tóxico?

sentia seu corpo doer e tentava processar o que tinha acabado de acontecer. Steve voltou-se de costas para ela, assim que se deu conta de que alguns homens vinham em sua direção. Ele se colocou na frente dela, como se a protegesse, e logo lançou seu escudo em direção aos homens, fazendo-os cair, um a um, como um boomerang. deu alguns passos parando ao lado de Steve, que a olhou de volta, também de lado.

- Estou...bem. Obrigada. – Ela respondeu, levemente impressionada por encontrar o Capitão América e por ele estar naquele lugar. O que ele fazia ali? Merda, não era o que ela havia planejado.

Pouco à frente de onde estavam, Rumlow saia apressadamente por uma das janelas. Steve e se entreolharam, mas não puderam correr até lá, pois outros homens armados chegavam. Sem tempo a perder, dois dos homens se colocaram a frente de . O gás amarelo estava magicamente sendo puxado para fora do prédio, por algo que ela não sabia identificar, mas que já era planejado por Steve. Ela avançou nos dois homens, lutando contra eles ao mesmo tempo. Deu uma rasteira em um e deslizou até atingir o tornozelo do outro que bateu a cabeça no chão. Antes de se levantar, ela pegou a arma do homem desacordado no chão e atirou, atingindo o outro que tinha acabado de levar uma rasteira. Menos dois, pensou ela jogando a arma com força em um terceiro que se aproximava, acertando precisamente seu rosto. Ou três.
Steve estava novamente afastado dela, sendo cercado por alguns novos homens armados, enquanto empunhava seu escudo, defendendo-se dos tiros que insistiam em cair sobre si. Estava preocupado em tirar a menina que acabou de conhecer dali, não podia deixar civis em zonas de conflito como aquela. Sem mais mortes inocentes. olhou ao seu redor rapidamente e correu em direção a eles. Quando chegou perto suficiente, se agarrou em um dos homens armados, mirando suas pernas em direção a outro, atingindo-o no peito. Em uma fração de segundos, colocou suas pernas no chão de volta e socou várias vezes seguidas o rosto do homem que havia se segurado segundos antes, até ele apagar. Ela balançou sua mão direita, para aliviar a dor das pancadas e voltou-se para o único homem que sobrou em pé. Steve a observava atônito, impressionado e curioso. Por um minuto, se sentiu envergonhado por achar que ela estava em perigo.

- Você não está em perigo, está? – Ele perguntou confuso a olhando, franzindo a testa levemente. sorriu para ele, achando aquilo muito fofo, e faz sinal de “mais ou menos” com a cabeça.

- Lamarck – A mulher se apresentou, assentindo brevemente com a cabeça para ele.

Ela parecia cansada, aos olhos de Steve, mas não era um rosto incomum. Ele tinha a sensação de já a ter encontrado antes, mas não sabia onde. Ela tinha os cabelos presos em um rabo de cavalo perfeito e um olhar confiante, desafiador. Usava uma calça jeans apertada, um casaquinho escuro com estampa de pequenas flores e botas de cano curto. A tirar pelo braço que estava sangrando, o rosto com pequenos machucados e as mãos inchadas, ela parecia bem.

- Não estou com um traje adequado para a situação, não é? – Ela perguntou, notando o homem a encarar de cima a baixo discretamente, em completo silêncio.

- Desculpe. Eu sou o Steve – Ele respondeu, desviando seu olhar para o lado, envergonhado - Rogers. Já nos conhecemos, ?

- Talvez – Ela sorriu irônica, dando uns passos em direção a janela. Dali, não podia localizar Rumlow, mas pode notar que Steve não estava sozinho.

- SHIELD? – Steve tentou adivinhar, embora sua memória não tivesse nada consistente sobre ela. soltou uma risada nasalar e voltou-se para olhar para ele.

- Depende do ponto de vista – Ela respondeu mantendo o mistério, adorava estar no controle. Steve deu de ombros, olhando ao redor. Não tinha muito mais tempo para conversas, precisava sair dali logo e encontrar Rumlow. Ele era o único caminho para encontrar Bucky, não poderia perdê-lo novamente.

- O que faz aqui? – Steve perguntou curioso, desviando seu olhar até ela.

- Preciso de uma informação de Rumlow e estou seguindo seus movimentos há meses para consegui-la – Ela comentou séria, olhando-o de volta.

- Que tipo de informação? – Steve insistiu, desconfiado.

- Você é bem curioso, não é? – rebateu, cruzando seus braços. Steve bufou.

- Não é como se eu pudesse confiar em alguém que acabei de conhecer, em um cenário como este – Ele respondeu prontamente, insinuando sobre tudo que havia acontecido nos últimos vinte minutos.

revirou os olhos e esperou um minuto antes de responder. Não sabia direito como deveria dizer aquilo e tinha certeza de que se fosse completamente honesta teria que lidar com as consequências vindas de Steve. Afinal, ele estava procurando a mesma coisa que ela. Por que ele tinha que ser tão certinho?

- Rumlow sabe a localização de uma pessoa do meu passado. Preciso dessa informação para encontrar...meus pais – hesitou por um instante e engoliu seco - Preciso da localização da base central de treinamento da HIDRA. Duvido que ele saiba. Tenho certeza de que ele conhece alguém que sabe. Está bem assim?

Steve concordou com a cabeça. Aquilo pareceu suficiente para ele. parecia estar sendo sincera, a tirar pela mudança de humor ao tocar naquele assunto. Ela tinha o defendido de alguns dos homens de Rumlow e ele viu quando ela foi atirada por ele. Se tivessem do mesmo lado ou, ao menos, negociando algo, Rumlow não a trataria daquela forma. Conhecia Rumlow e conhecia seu jeito de fazer as coisas. E aquele era, definitivamente, um tratamento para pessoas que ele odiava. Violento, impaciente e cheio de homens para ajudá-lo, como se ele já a estivesse esperando ali, como se soubesse o que iria acontecer. Diante do silêncio dele, não soube o que pensar. Ficou hesitante por um segundo, mas não poderia deixar com que aquilo estragasse sua oportunidade de conseguir o que queria. E, no final, ela estava sendo honesta com ele. Acreditar ou não, não cabia a ela.

- Todos temos segredos, Capitão – completou meio cansada, quebrando o silêncio – E, para pessoas como nós, em maior ou menor grau, eles sempre envolvem a HIDRA.

Steve concordou novamente com a cabeça. Ela tinha razão, no final das contas algo sempre remetia a HIDRA. Mas o que ela queria dizer com “pessoas como nós”? Steve continuou ligeiramente intrigado, mas não teria mais tempo para conversas. O que importava era que não parecia uma ameaça para ele. Parecia alguém em que se podia confiar. Ao menos naquele momento.

- Temos que ir agora – Steve se deu por vencido, desviando seu olhar de para a janela, onde podia ver seus amigos travando uma batalha contra os homens de Rumlow.

- Quem chegar primeiro ao idiota do Rumlow tira a substância dele e todas as informações sobre a localização da HIDRA. Depois vemos a melhor forma de acabar com ele. Temos um acordo? – A mulher questionou dando as costas para Steve e indo em direção as escadas que há pouco subiu até o laboratório. Mas, antes que pudesse começar a descer, ouviu a voz grave do homem atrás de si.

- Temos um acordo. Você disse substância? – Perguntou Steve uma última vez, antes de novos homens entrarem pela janela e se aproximarem dele.

- Ele roubou uma arma biológica – respondeu e voltou-se para a escada. Atrás de si pode ouvir uma explosão forte, provavelmente destinada a Steve.

Como parte da escada fora danificada, não conseguiu voltar para ajudar o homem, então seguiu descendo as escadas o mais rápido que pode, parando logo abaixo da porta principal de entrada e saída do prédio, que estava toda destruída. O barulho alto de tiros por todos os lados não parecia assustar nenhuma das pessoas ali embaixo. Wanda estava próxima a porta de saída, movendo um homem para o céu enquanto Falcão acertava ele com algum tipo de dispositivo explosivo que saiu de suas costas. Steve tinha acabado de saltar do terceiro andar para o chão do lado de fora do prédio, enquanto Natasha era jogada para fora de um carro forte que explodiu por dentro. Aparentemente estava bem, apesar de sentir as dores da queda. Quando efetivamente saiu do prédio, todo mundo encarou por um único instante. Como se tivessem combinado, suas expressões eram de confusão e curiosidade. A mulher olhou Steve do outro lado do local, parecia bem, apesar da explosão. Depois, observou Natasha, que se levantava do chão mais ao lado, Wanda mais próxima dela e Sam pousando no chão.
Contudo, antes que qualquer um deles pudesse fazer ou falar algo, alguns homens se colocaram em frente a , indo para cima dela. deu um tapa tão forte no rosto de um deles que a máscara caiu no chão, enquanto chutava um de seus joelhos. Outro homem a pegou pelas costas, a puxando para trás com seu antebraço travado no pescoço da menina, a enforcando. insistia em puxar seu corpo em direção ao homem caído a sua frente. Sem pensar muito pela falta de ar que já a sufocava, deu uma cotovelada no estômago do grandão que a enforcava, girando seu corpo rápido suficiente para ficar de frente para ele. Deu um chute para trás acertando de vez o outro homem no chão e, em seguida, aproximou-se novamente do grandão. A menina tinha um sorriso irônico no rosto e a cada passo que dava na direção dele, acertava um soco diferente em seu rosto, um golpe em seu pescoço ou estômago ou um chute em suas pernas. Não demorou muito para que o homem não pudesse mais se defender e cair exausto, sangrando e desacordado no chão. Steve, Natasha, Wanda e Sam se encararam.

- Gostei dela. Onde achou? - Perguntou Natasha, olhando Steve.

- No terceiro andar – Steve respondeu honesto, fazendo Sam rir baixo da resposta.

- No terceiro andar do seu prédio em Washington, eu diria – Sam comentou curioso, andando até mais perto da mulher, que assentiu levemente com a cabeça para ele.

- Bom te ver, Wilson – sorriu sarcástica para ele e voltou sua atenção a seu redor, procurando qualquer sinal de Rumlow ou de algum de seus homens.

- Isso é muito estranho – Wanda murmurou para si mesma.

- Não importa agora. Ela está com a gente. Localize o Rumlow, Sam. Vamos pegar a arma dele.

Steve terminou de falar a tempo de correr apressadamente atrás de Rumlow, que já havia saído dali. Wanda assentiu e correu atrás dele, enquanto Sam levantava voo. Natasha olhou mais uma vez, enquanto a mulher corria atrás de onde os outros iam, e seguiu sentido a uma moto que estava perto de si, subindo com agilidade e dando partida. Seria mais útil usar algo mais rápido do que as próprias pernas. O plano era se espalhar para diferentes lados, já que não sabiam mais quem eram os homens de Rumlow em meio à multidão de pessoas que estava no centro comercial. Natasha passou pelos seus amigos, indo em direção a um dos homens que Sam havia acabado de apontar como suspeito, pelo comunicador, enquanto avisava que estava seguindo outro. Wanda misturou-se à multidão saindo da vista de seus amigos e Steve subiu correndo por cima de um carro, deu uma cambalhota e parou no chão agachado.
o seguiu, empurrando algumas pessoas que estavam em seu caminho, desviando de algumas barracas e mesas com agilidade e parando de correr ao se deparar com Steve, olhando algumas partes do que parecia ser a vestimenta de Rumlow, jogadas no chão. O homem se levantou, ofegante, olhou rapidamente e depois ao seu redor. Parecia impaciente e cauteloso, como se algo tivesse prestes a acontecer.

- Onde ele foi? – Perguntou.

observou ao redor desconfiada, mas antes mesmo que pudesse pensar em algo, o escudo de Steve foi atingido. Nele, uma pequena bomba apitava. Steve olhou para a bomba, pensando rápido, e virou-se para atirar seu escudo para o alto. virou-se também, observando o escudo explodir e cair no chão, segundos depois, fazendo-a se proteger com o braço acima do rosto. No instante em que o escudo explodiu, Steve sentiu um soco em suas costas o jogar para frente, alguns metros de onde estava. Ele levantou-se, rapidamente, virando-se de frente para Rumlow, que lhe deu uma cabeçada e um novo soco, fazendo-o ser jogado na porta de um comércio. Rumlow tratou logo de tentar acertá-lo outras vezes, mas Steve conseguiu desviar. Sem muita paciência, o homem o jogou para o lado, fazendo-o se desequilibrar em uma mesa de madeira.

- Isso é por ter jogado um prédio na minha cara – Rumlow murmurou furioso, indo até Steve com uma espécie de faca saindo em uma das mãos.

Mas antes que Rumlow pudesse atingi-lo novamente, correu e jogou toda a força de seu corpo nas costas de Rumlow, sentando-se sob seus ombros e o golpeando com os cotovelos. Em uma fração de segundos, conseguiu quebrar parte da armadura da mão direita dele, jogando o que parecia uma faca no chão. O homem cambaleou alguns passos para trás, afastando-se de Steve, e tentou jogar a mulher no chão, pegando suas pernas. manteve-se firme, segurando suas pernas no pescoço dele com força. Ela olhou rapidamente Steve, que chamou seu nome, e preparou-se para cair. Steve correu em direção a eles, acertando Rumlow nos joelhos, o fazendo cair no chão. jogou seu corpo para trás, dando uma cambalhota precisa, antes do homem acertar o chão, e parou agachada, segurando a terra abaixo de si. Sentia sua respiração descompassada.
As pessoas ao redor se aglomeravam para ver o que acontecia e, vez ou outra, saíam de perto assustadas. Rumlow ainda parecia disposto a atacar, como se houvesse planejado isso há tempos, e se colocou em pé. Steve não esperou mais e deu um chute nele, atirando-o para ainda mais perto de onde estava, caindo no chão outra vez. Rumlow manteve-se de joelhos e tirou seu capacete, pela primeira vez no dia. sabia que havia uma grande chance de aquilo não terminar bem. Observou todo o perímetro ao seu redor rapidamente, pensando em como amenizaria o estrago, caso ele acontecesse. Steve caminhou até Rumlow e notou fazer o mesmo, parando ao seu lado, de frente para o homem ajoelhado.

- FLORENCE – Rumlow gritou, rindo amargamente – Eu deveria saber que uma hora iria se juntar a ele para correr atrás do amiguinho.

Steve respirou fundo e segurou o homem pelo colete da armadura, chacoalhando-o, como se desse uma dura nele. Embora estivesse muito curioso sobre o que o homem tinha acabado de dizer, não seria hora de perguntar. franziu a testa, encarando Rumlow. Seu rosto estava completamente deformado, cheio de marcas e cicatrizes, não parecia humano. Rumlow sorriu e baixou seu olhar para o chão, exausto.

- Estou muito bonito, considerando tudo que aconteceu – Comentou com ironia, ainda sorrindo.

- Quem é seu comprador? – Steve questionou sério. deu um passo mais perto deles, encarando Rumlow com seriedade.

- Ele se lembrou de você, sabia? – Rumlow falou, olhando diretamente Steve – Seu amigo, seu parceiro, seu Bucky.

- O que você disse? – Steve perguntou, puxando Rumlow para mais perto de si, ficando a centímetros do rosto do homem. segurou a respiração por um instante. Ele se lembrava?

- Ele se lembrou de você – Rumlow respondeu simplesmente – Eu estava lá, ele ficou todo choroso por isso...até eles colocarem o cérebro dele de volta naquela máquina. Ele queria que você soubesse de algo...que vocês dois soubessem de algo.

Rumlow respirou fundo, demonstrando cansaço. Desviou seu olhar de Steve e olhou , por um minuto, antes de voltar ao homem que o segurava.

- Ele me disse... – Rumlow voltou a falar – “Diga ao Rogers que quando você tem que ir, você tem que ir”.

Aquilo não fazia o menor sentido. franziu a testa intrigada, olhando Rumlow como se o pudesse matar pelo olhar. Steve estava igualmente concentrado em sua fala, mal podia se mexer. Rumlow sorriu maquiavélico e voltou a olhar com atenção para o casal a sua frente.

- E vocês vão comigo – Rumlow completou e apertou um botão de sua armadura, ao tempo que Steve deu alguns passos para trás, soltando-o e puxando consigo para que saísse de perto.

Rumlow ficou em chamas em uma fração de segundos e não explodiu ali no chão, em suas frentes, graças a Wanda que, com seus poderes, conteve a explosão. Wanda não esperava por aquela situação e não havia sequer se preparado para algo do tipo. Sua cabeça começava a latejar e ela buscava se focar em conter as chamas, que lutavam contra seus poderes. Energia é expansiva e teria que ser dissipada de alguma forma. Wanda não tinha poderes para apagá-la. Precisava tirá-lo dali. Em um impulso, Wanda fez Rumlow, ainda vivo e em chamas, subir rapidamente no ar e, sem conseguir mais segurar a expansão da energia, ela o soltou. Rumlow explodiu com uma força brutal, indo prédio adentro e destruindo tudo que estava a sua frente.
Um barulho ensurdecedor de explosão inundou o lugar. e Steve viraram-se quase que em câmera lenta para onde o barulho saiu. Ambos levantaram a cabeça para olhar o estrago, tinham os olhos arregalados. sentia seu coração acelerar e um calor estranho subir pela sua espinha, de ansiedade e de nervosismo. As pessoas corriam e gritavam mais do que antes, desesperadas, para todos os lados, enquanto os policiais se separavam, meio perdidos, sem saber direito o que fazer diante daquilo. Nenhum deles sabia o que fazer. Wanda parecia querer chorar, estava tapando sua boca com as mãos. Ao lado, Steve estava desolado, chamando Sam pelo comunicador. Algumas pessoas gritavam por socorro pelas janelas de andares abaixo e acima de onde a explosão aconteceu e havia muita poeira invadindo o ar, que dificultava a visão do local. ficou sem reação por algum tempo, apenas olhando o prédio, Steve e Wanda, até que, finalmente, enviou seu sinal, pelo celular, para Shuri. Ela saberia o que fazer.
Antes que pudessem de fato chegar mais perto do prédio, outro barulho alto tomou conta do ambiente, forçando-os a voltar seus olhares, em sincronia, para o alto do edifício. Uma parte do concreto que estava pendendo devido a força da explosão desprendeu-se e começou a cair. notou Natasha e Sam no perímetro que seria atingido e soltou um suspiro pesado. A menina fechou as mãos em punhos ao lado de seu corpo, sentindo algo dentro de si crescer com rapidez e fúria. Em uma fração de segundo um galho de uma árvore próxima cresceu e engrossou até atingir com força a placa de concreto que caia, destruindo-a em pequenos pedaços, que se espalharam pelo chão sem machucar ninguém. passou então a se concentrar em todas as árvores e raízes que podia sentir ao seu redor, fazendo-as crescerem e se multiplicarem em uma velocidade absurda, e a seguirem, enquanto ela se aproximava rapidamente da estrutura do edifício. Perto o suficiente, a menina encostou as duas mãos no prédio, fazendo os galhos e raízes grudaram nele no mesmo instante, ainda se multiplicando e engrossando, de forma a segurar toda a estrutura para não ceder mais. Em menos de 2 minutos, todo o prédio estava envolto por troncos e galhos grossos. Ela se afastou lentamente da estrutura a sua frente, dando alguns passos para trás para checar se nada havia ficado descoberto a ponto de ceder outra vez.
Steve, Sam e Natasha a olhavam do mesmo modo que minutos antes, no instituto: atônitos, impressionado e curiosos. Revezavam seus olhares do edifício até a mulher. Se achavam que já haviam visto de tudo na vida, estavam errados. Wanda ainda estava sofrendo pela explosão que havia causado e, por isso, não reagiu.

- Como você fez...? – Sam tentou perguntar algo, mas não conseguia sequer formular uma questão que não parecesse irracional ou absurda. Aquilo era absurdo.

ignorou e voltou seu olhar para o prédio. Natasha deu um passo à frente, observando o mesmo ponto que a outra mulher.

- O prédio está estável agora? – Ela perguntou, sem desviar o olhar.

- Sim, vamos entrar – respondeu prontamente – Vocês pegaram a arma?

Natasha olhou para Sam, que assentiu, e seguiu a passos largos e apressados em direção ao prédio, sendo acompanhada por Steve.

- Já está a caminho de um local seguro – Sam respondeu, e passou a caminhar ao lado de sentido o prédio.

A imprensa começava a se tumultuar, enquanto a polícia passava uma faixa de isolamento a alguns metros do prédio, impedindo que curiosos e jornalistas adentrassem na área instável e com vítimas. Sam levantou voo e seguia de um lado para o outro, tentando mapear as pessoas que ainda estavam lá dentro, presas em escombros ou pedindo ajuda, enquanto Steve ajudava as pessoas dos andares mais baixos a saírem. Natasha se embrenhava dentro do prédio, pelos andares superiores, reunindo as pessoas em grupos perto de janelas, para que Sam as tirasse de lá em breve. Nenhum deles conseguia ordenar o que estava sentindo naquele momento: um misto de nervosismo, ansiedade, preocupação e culpa. Wanda continuava parada do lado de fora, olhando para o prédio com um olhar perdido, como se algo fosse mudar, mas já era tarde demais. O erro era dela, teria que lidar com isso. fez com que alguns troncos largos e grossos se contorcessem em algo que pareciam escorregadores, perto das janelas em que Natasha reunia grupos de pessoas. Uma a uma, as pessoas foram escorregando até o chão, sendo apoiadas por Sam e Natasha, enquanto escorregavam, e por e Steve quando atingiam o solo, até chegarem na ajuda médica local. Demoraram horas para retirar todas as pessoas do edifício e, finalmente, se sentirem moralmente livres para ir.
soltou a respiração pesadamente e encostou-se no banco do carro em que estava sentada. Seu celular, sob seu colo, não parava de tocar. Teria que ceder alguma hora, não podia adiar aquela conversa por muito mais tempo. Desde que saiu do local do acidente, não tinha conseguido ficar em paz sequer um minuto. Depois de muita insistência, Sam a acompanhou até o hotel em que estava hospedada e, embora tivesse tentado a convencer de que estaria mais segura com eles, tinha a deixado lá e ido embora. tomou banho, enfaixou seu braço machucado de qualquer jeito, arrumou suas coisas e foi ao aeroporto o mais rápido possível. Tinha que sair logo dali, antes que a imprensa a encontrasse. Seus pais já tinham ligado algumas vezes, Shuri tinha deixado mensagens e não sabia com quem conversar primeiro. Seu celular tocou mais uma vez, fazendo-a bufar impaciente e atender de uma vez por todas.


- Capítulo 2 -

Berlim, Alemanha


“Foi assustador e só nos deixa ainda mais amedrontados sabermos que, muito provavelmente, existem outras dezenas de pessoas com superpoderes por aí que simplesmente não conhecemos. E, pior, que eventualmente vão sair por aí fazendo o que acham certo fazer, sem pensar nas consequências. Essas pessoas precisam de controle, de supervisão. São diferentes dos outros e precisam ser tratadas com diferença. A humanidade foi longe demais nos experimentos com humanos e agora precisamos lidar com isso. Nenhum deles nasceu sabendo lutar, voar, controlar coisas com a mente ou a natureza, por exemplo. Nós os tornamos assim, perigosos e ameaçadores. E se nós os tornamos assim, podemos torná-los controlados. Devemos. Eu estou assustada. Quer dizer, de onde veio aquela mulher? E o que é aquilo? Uma fada?”.


Sharon soltou uma risada alta, carregando uma caixa pesada para a cozinha. desviou sua atenção, dos enfeites a sua frente, até a grande televisão da sala, que havia sido recém instalada. Ao fundo da tela, de onde uma mulher de meia idade e um homem pouco mais velho conversavam m programa jornalístico de televisão, havia um telão com uma foto de em Lagos. A menina revirou os olhos, bufou e tirou o último enfeita da caixa ao seu lado, colocando-o em cima do móvel mais próximo. De uma hora para outra tudo havia mudado. foi de uma pessoa completamente normal e pouco conhecida para uma das pessoas que mais despertavam curiosidade, admiração e talvez um pouco de medo. Estavam falando sobre ela em todos os lugares possíveis; na tv, no rádio, nas capas de jornais. Em poucos dias a mídia sabia onde ela tinha nascido, que tinha perdido seus pais cedo demais e que fora adotada; sabiam que estava vivendo em Wakanda há anos e que estava escondida; diversos vídeos seus em ação em diferentes cidades nos últimos anos estavam começando a ser compartilhados centenas de milhares de vezes. não gostava desse tipo de exposição. Não queria saber a opinião de ninguém sobre ela e não queria que ninguém ficasse investigando sobre sua vida. Seria pedir demais? Talvez.
- Eles vão esquecer logo, querida – A voz suave de Karl cortou os pensamentos de , que desviou seu olhar perdido, e meio triste, da tv até ele.

- Eles esqueceram o Capitão América? – questionou ainda olhando seu pai, que terminava de empilhar caixas vazias perto da porta.

- E tem como esquecer um homem daquele? – Karl respondeu divertido. riu levemente e Everett revirou os olhos, entregando uma caneca com café para seu companheiro, sentando-se no sofá da pequena antessala.

- Sharon que o diga – cutucou a amiga, que tirava alguns itens da caixa que havia acabado de levar para a cozinha. Sharon revirou os olhos, envergonhada.

- Para quem sempre gostou de atenção, você não parece bem com a fama. Precisa se acostumar – Sharon comentou sem desviar seu olhar, focada em retirar os utensílios da caixa com cuidado. levantou-se do chão da sala, onde estava sentada, e foi, com a caixa que acabara de esvaziar, até a porta de entrada do apartamento.

- Uma celebridade que ficou conhecida por um atentado que matou dezenas de pessoas inocentes, parece ótimo mesmo – Ela comentou baixo, deixando a caixa empilhada nas outras e voltando-se para se sentar na poltrona em frente ao sofá em que Everett estava, do outro lado da pequena mesa de centro.

- A culpa não foi sua, sabe disso – Karl respondeu prontamente, enquanto abria a porta da frente do apartamento, empurrando as caixas vazias para o corredor de fora.

- Foi uma casualidade e a situação saiu do controle; não tinha como saber o que aconteceria e você fez o melhor que podia fazer naquele momento. Fim – Everett completou ríspido. Já estava cansado daquele diálogo, que já tinha tido, ao menos, cem vezes nos últimos dias.

- Não foi o que T’Chaka me disse por telefone – A mulher suspirou, pegando sua caneca apoiada na mesinha de centro a frente – Ele foi bem claro quanto a responsabilidade de pessoas que, assim como eu, acham que podem sair por aí fazendo o que nos interessa, com recursos que nos foram dados. Porque é claro que nossas habilidades, como ele gosta de chamar, foram presentes que recebemos da vida.
- É realmente poético pensando assim – Karl comentou irônico, voltando para dentro do apartamento e fechando a porta atrás de si.
Quando estava indo embora de Lagos, recebeu uma ligação do Rei T’Chaka. O homem, de fato, estava preocupado com ela. Fez dezenas de perguntas sobre sua saúde e segurança e queria, inclusive, enviar uma equipe médica exclusivamente para tratá-la quando soube do tiro que levou. Mas, igualmente, ele estava consternado com toda a situação. Alguns wakandanos viviam no prédio que Wanda explodiu e isso gerou uma crise muito maior do que o esperado. Ele queria saber detalhes sobre tudo que tinha acontecido e, a cada palavra de , o rei expressava seu descontentamento. A conversa, então, passou para um tom desagradável. T’Chaka achou que aquela seria a hora perfeita para tirar suas ideias da gaveta e sugerir um novo tipo de supervisão a partir de um trabalho integrado, entre pessoas como e os governos do mundo que se interessassem por eles. Em sua visão, era uma decisão urgente, importante e o caminho mais seguro para e para todos os outros. Defendia que era uma solução pacífica, duradoura e a uma forma legal de atuação internacional de super pessoas. Tudo deveria ser feito dentro das normas internacionais, não por decisão pessoal ou por interesses, mas por uma tratativa, por um acordo. O que o rei desconsiderou, e que insistiu em dizer naquela ligação, é que eles eram, acima de qualquer coisa, seres humanos, e não armas. Não poderiam ser negociados como tal; não poderiam ficar disponíveis para uso quando e onde os governos achassem melhor. Não poderiam ser usados e descartados.
Mas T’Chaka discordava. Ele sempre se apegava apenas nas partes boas e bens construídas das histórias. Ele sempre acreditava na bondade das pessoas; sempre se mostrava ingênuo diante de decisões como aquela. Ele comentou, então, que assim que chegasse em Wakanda, deveria ler a proposta de acordo e assinar, pioneiramente, para então conversarem sobre suas consequências. Ela poderia ser o exemplo e mostrar aos outros o que deveria ser feito. A mulher, contudo, não gostou do tom daquilo. Sequer teve a chance de escolher se assinaria ou não, de levantar seu ponto de vista ou mesmo fora consultada sobre a redação de um acordo. Já estava pronto. A ideia estava fixa. Não tinha mais o que ser feito, senão dançar conforme a música. E T’Chaka contava com a assinatura dela como forma de retratação de algo que sequer teve culpa. Ela não iria assinar e não tinha interesse nem em ler aquilo. Parecia um absurdo. sempre fez de tudo para proteger Wakanda e seu povo; tinha muita gratidão por tudo que o rei e sua família tinham feito por ela. Mas eles não iriam controlá-la. E, eles não tinham o direito de afastá-la das verdades essenciais de sua vida. Não quando estava tão perto de chegar às respostas.
decidiu não voltar para Wakanda. Achou que seria melhor se afastar por um tempo. Se ela assinasse o acordo teria que o cumprir e, se não assinasse, certamente seria vigiada 24 horas por dia, de modo que não pudesse fazer mais nada que envolvesse suas habilidades. Perderia o poder de escolha, a individualidade e parte de sua liberdade; seria tratada como diferente. Preferiu sair de vista enquanto ainda podia escolher fazer isso. Dessa forma, só comunicou ao rei T’Chaka assim que chegou na Alemanha, sem detalhes de onde estava e porquê, e destruiu todo e qualquer equipamento que poderia localizá-la. Desde então, estava em Berlim, onde seus pais passaram a trabalhar há poucos meses e para onde Sharon tinha acabado de ser transferida. Sharon conseguiu um apartamento para a amiga no prédio em frente ao seu, onde ela poderia viver sozinha. Seria mais seguro para ela e, principalmente, para seus pais, caso alguém a procurasse.
Sharon terminou de acomodar os últimos utensílios de cozinha, exatamente onde sua amiga havia pedido, e bebericou seu café. De onde estava na cozinha podia ver a amiga do outro lado da espaçosa sala, preguiçosamente sentada em uma poltrona do pequeno cômodo ao lado. Sharon podia ver os machucados espalhados pelo corpo da menina, marcas do que tinha recentemente acontecido em Lagos. O apartamento já estava com a cara de . Espaçoso, elegante e na moda; estava decorado e tinham flores em vários ambientes. Tudo era novo, desde os móveis até a decoração, as roupas e os equipamento eletrônicos. Parecia que a vida estava começando do zero para ela. E, de certa forma, Sharon sabia que estava. Há uma semana estiveram, os quatro, cuidando de tudo, para que ficasse perfeitamente limpo, confortável e organizado, como ela gostava. Eles estavam felizes por tê-la de volta por perto, embora ligeiramente preocupados com o futuro próximo.

- Temos que convencê-los a não assinar – Karl quebrou o silêncio, sentando-se na poltrona ao lado da de .

- Eles irão impor o acordo de alguma forma. Vão forçá-los a isso – Sharon comentou caminhando até a antessala e sentando-se no sofá ao lado de Everett.

- Há restrições de atuação, que eu chamaria de impedimentos. Você assina ou se aposenta. – respondeu lembrando-se das dezenas de vezes que tinha discutido sobre isso com o Rei T’Chaka.

- E se não escolher nenhuma das opções? – Sharon perguntou encarando a amiga.

- O acordo prevê que os assinantes estejam disponíveis para usar sua habilidade apenas, e se, o governo de algum dos Estado signatários precisar ou achar que é conveniente uma ação de super-humanos. Não se pode agir em nenhuma outra hipótese – Everett começou explicando, intercalando seu olhar em cada um dos presentes ao seu redor – E para aqueles que ficarem de fora, é subentendido que não querem mais atuar, que renunciaram ao uso de suas habilidades e, portanto, são considerados oficialmente aposentados.

- E eles te vigiam. Caso você seja pego fazendo algo que eles não queiram que você faça ou usando algum de seus poderes, vai preso – concluiu e sorriu forçadamente para a amiga.

- Não acho que isso vá dar certo. Quer dizer, se a maioria não assinar, não há como eles prenderem todos vocês – Karl respondeu pensativo - Eles não teriam forças o suficiente para isso. Como eles iriam fazer para fiscalizá-los? Colocar uma tornozeleira de prisão domiciliar em cada um de vocês?

- Eles têm quase todos os países em favor deles – Everett observou calmamente, apoiando seu braço no apoio do sofá – É fácil quando se tem olhos em todos os lugares. E eles farão questão de expor para a sociedade cada um de vocês que se recusar a assinar.

- Com isso, ganham apoio da população para fiscalizá-los – Sharon completou o raciocínio do homem sentado ao seu lado. Estava mais preocupada do que gostaria com tudo aquilo.

- Legal. Vou ter que comprar uma peruca para ir ao mercado na esquina - disse com uma falsa animação, cruzando suas pernas na poltrona.

- Por que? Você vai usar seus poderes no mercado? – Everett perguntou divertido, fazendo sua filha rir e dar de ombros, murmurando um ‘nunca se sabe’.

Karl soltou uma risada fraca, apoiando sua caneca, agora vazia, sob a mesinha de centro. Estava com tantas saudades de sua menina, de sua família reunida daquele jeito novamente, que não podia mensurar. Quando ela ligou, dias atrás, dizendo que se mudaria para perto deles, Karl achou que iria enfartar de felicidade. Sabia que ela estaria mais segura em Wakanda, mas sabia, igualmente, que aquela era sua melhor opção diante desse novo cenário. Ela havia aprendido a se virar sozinha, era corajosa e estava pronta para o que fosse. Não teria grandes problemas vivendo ali. E, de todo modo, estando agora mais perto deles, tinha ganhado novos aliados.
- E vocês sabem que, possivelmente, eles virão atrás de vocês assim que eu não aparecer no eventinho de assinatura, certo? - perguntou retoricamente, olhando cada um deles em sua sala. Sharon e Everett assentiram com a cabeça.
- E virão atrás de você também. Logo eles irão começar a forçar a barra para ter certeza de que você estará dentro do acordo ou, ao menos, não interferindo nele – Everett disse franzindo a testa, encarando sua filha.

- Não se preocupem comigo, se preocupem em se manter internamente. Agora que perdemos os recursos de Wakanda, nossa única fonte de informações sobre a HIDRA e de acesso aos lugares são vocês – lembrou, apontando de Everett para Sharon.

- Se perdermos isso, já era – Karl comentou, concordando a filha e desviando seu olhar para os dois no sofá a sua frente – Vamos perder tudo que já fizemos até aqui.

- Sem pressão – Sharon murmurou, com os olhos forçadamente arregalados, mas logo se recompôs - E T’Challa? Talvez ele possa ajudar a flexibilizar o acordo.

- Não dá para envolver ele. Se o rei descobre que seu filho está jogando do outro lado, as coisas não vão ficar boas – Everett respondeu prontamente, olhando Sharon pelo canto de olho, enquanto apoiava sua caneca, também vazia, sob a mesinha de centro.

- T’Challa também não concordaria em se opor a seu pai. Ele não sabe sobre a história completa, ficaria dividido entre mim e o pai e isso dificilmente terminaria bem – lembrou, soltando um suspiro pesado.

- Não contou para ele o que fazia em Lagos? – Sharon questionou surpresa.

negou com a cabeça rapidamente e a recostou na poltrona. Karl e Everett desviaram seus olhares para o chão e para o teto, respectivamente. Nunca quiseram esconder nada da família que os acolheu todos esses anos, mas sabiam que, aquilo, era o melhor a ser feito. A história do acordo de supervisão já era antiga e nasceu com a primeira tentativa de de encontrar o Soldado Invernal, quando tinha quinze anos. Dois deles, homens, a seguiram até a fronteira de Wakanda e tentaram quebrar a barreira de proteção do país. Sem sucesso, eles desaparecem e a menina nunca mais os encontrou. O rei, então, entendeu que a menina não podia sair do país sempre que quisesse, para fazer o que bem entendesse. Precisava ter motivos oficiais para atuar e, assim, não se meteria em problemas como aquele. Já que estava sendo protegida e treinada por Wakanda, tinha a obrigação de, em retribuição, seguir as normas do país e fazer o que eles achavam correto. O espírito da supervisão estava ali.
e seus pais, contudo, não acharam a postura do rei correta e não ficaram felizes com a sugestão. Acharam melhor que a menina abandonasse oficialmente, em discurso, as atividades que envolvessem suas habilidades fora do país e que continuasse, contudo, a fazer o que tinha que fazer por fora, sem ajuda ou qualquer conhecimento do rei e de sua família. Em todos esses anos, então, conseguiu escapar da ideia de ser supervisiona pelo Rei T’Chaka. Ela justificava suas saídas de Wakanda por compromisso de família, para passar tempo com seus país ou mesmo fazer turismo. E, sempre que algo dava errado em alguma de suas viagens, tinha que inventar alguma história que se encaixasse no contexto que inventou para sair do país. Nenhum deles gostava daquilo, ainda mais quando Shuri também se envolveu na história, fornecendo tecnologia e acesso seguro aos lugares que precisava chegar. Mas aquela seria a única forma possível. Era aquilo ou passar o resto da vida servindo de guarda pessoal de Wakanda.

- Ele também não sabe sobre o Soldado Invernal, não é? – Voltou a perguntar Sharon, quebrando o silêncio um tanto quanto constrangedor que tomou conta do ambiente.

- Não, não contei. Eles sempre foram a favor da supervisão pela segurança que isso traria a mim, não acho que ficariam felizes em saber que usei todos os recursos possíveis de Wakanda para conseguir informações que me colocariam de frente com o maior perigo que poderia enfrentar e que, inclusive, coloquei diversas vezes a própria segurança de Wakanda em risco - respondeu séria e um pouco irônica – Só Shuri sabe de tudo e sei que ela não vai falar nada. Ela esteve me ajudando todos esses anos, não concorda com essa postura controladora de seu pai.
Sharon concordou com a cabeça, sua expressão era de surpresa e reflexão. Por essa ela não esperava. T’Chaka era um homem muito íntegro e confiante. Se sentiria traído antes mesmo de entender os motivos de . E T’Challa, seu filho, era realmente uma pessoa difícil de lidar. Havia sido criado para ser um líder e, portanto, colocava a segurança e proteção dos seus sempre em primeiro lugar. Custasse o que fosse, vingaria , seus pais e tudo que ela perdeu sem nem sequer considerar que, talvez, houvesse outro lado da história.
- De todo modo, por ora, ainda temos como rastrear a HIDRA – Comentou Everett, levantando-se da poltrona – Quer dizer, eu e Karl ainda temos acesso a informações importantes, porque o Departamento de Segurança dos EUA ainda rastreia, diariamente, as possíveis ações da HIDRA.

- E até mesmo de tudo que se pareça com a HIDRA – Karl completou, entregando a Everett sua caneca vazia. O homem em pé pegou também as canecas vazias das duas meninas.

- Só teremos um acesso mais restrito agora, por você estar fora do acordo – Everett acrescentou, caminhando em direção a cozinha, onde deixaria as canecas - E menos tecnologia disponível. Mas aí entra Sharon.

- O único detalhe é que não poderei fazer mais nada caso encontremos informações ou nos deparemos com algum deles, como em Washington – respondeu pensativa, respirando fundo – Pelo menos não legalmente.

- Nisso temos que ter cuidado. Nenhum de nós pode ser preso – Disse Sharon meio apreensiva, apoiando seus braços em seus joelhos.

- Quanto tempo temos antes do novo acordo entrar em vigor? – Karl perguntou olhando Everett, que, pela função que ocupava e pelo bom relacionamento com Wakanda, era quem mais poderia estar por dentro dos detalhes sobre o novo acordo.

- Três semanas, no máximo, talvez menos que isso – Everett respondeu, já de volta na sala, dando uma rápida olhada em seu celular – A reunião de Viena está marcada para o próximo mês. E é quando todos terão que assinar.

- Agora que Rumlow explodiu não vamos encontrar nenhum deles tão cedo. Voltamos ao estágio anterior: encontrar a HIDRA – Karl concluiu e se levantou da poltrona.

- Sim, vamos continuar rastreando e só esperar... a não ser que algum deles apareça em Berlim, nesse caso não posso prometer nada – disse, esticando suas pernas.

- Coloque sua vida em ordem aqui e seja discreta. Até o acordo passar, o melhor a ser feito é não fazer nada – Everett sugeriu, olhando sério para a filha a sua frente. sorriu sem graça para ele e concordou com a cabeça.

- Bom, voltamos então ao ponto inicial: não podemos deixar os vingadores assinarem o acordo – Sharon mudou o assunto, levantando-se também.

- Eles não irão – respondeu satisfeita, já em pé – Vou avisá-los sobre o acordo ainda hoje. Ao menos Sam e Steve. Eles ganharão tempo para conversar com os demais antes de Viena.

- Bom, acho que estamos conversados então. E a maior parte do apartamento está arrumada, acho que terminamos por hoje – Everett concluiu, olhando seu novamente celular de relance, meio sério.

- Quase, você ainda tem um closet para arrumar – Karl comentou indo em direção a e a abraçando apertado. A menina retribuiu sorrindo com ternura.

- Estou pagando Sharon para isso – comentou, separando-se de seu pai, que sorriu para ela.

- Pagando com o que? Um café? – Sharon questionou virando-se para ver a amiga dar de ombros.

- Com a minha presença – Respondeu fazendo uma cara sedutora para a amiga, que revirou os olhos em resposta.

- Temos que ir também. Tenho uma reunião para participar em poucas horas – Everett comentou ainda com a expressão séria, já caminhando até o porta-casacos – T’Chaka vai discutir os termos do acordo com outros chefes de Estado.

- Você nos mantém informadas assim que souber de novidades? – Sharon pediu para Everett, abraçando-o rapidamente para se despedir e indo até Karl.

- Claro, vamos nos falando, com cuidado e discrição. Eles podem chegar até você rastreando a gente – Everett confirmou abraçando sua filha e depositando um pequeno beijo em sua testa, antes de ir até a porta.

concordou com a cabeça e caminhou ao lado de Everett, o vendo ir chamar o elevador. Karl ainda terminava de vestir seu casaco. O homem virou-se para a filha, parando em frente a ela, e apontou para o pequeno porta-casacos.

- Você precisa de casacos novos. A Chanel já trocou a coleção, não aceito menos que isso – O homem comentou dando um beijo rápido na menina e saindo do apartamento – Deixei um Dolce&Gabbana de boas-vindas em seu nome.

- O casaco rosa? – A mulher perguntou animada, sorrindo abertamente.

- Com a devotion bag grande, que ainda está em pré-venda - Karl confirmou, dando uma piscada para a filha e entrando no elevador em que Everett já o esperava.

riu sozinha, gritou um ‘eu te amo’ e fechou a porta, assim que viu o elevador começar a descer. Karl sempre foi muito ligado a moda. se lembra de, quando pequena, sair para fazer compras com ele, de ter seu guarda-roupa em acordo com a última moda, em cada estação, com o melhor que cada marca tinha a oferecer. Everett, por outro lado, era mais ligado a outros tipos de arte, como cinema e a literatura. Eles se completavam até nesse sentido. No dia seguinte ao que chegou em Berlim, Karl chegou ao novo apartamento lotado de sacolas e caixas de roupas, sapatos e acessórios que comprou para sua menina. Everett já tinha feito suas assinaturas em streamings de filmes e trouxe meia dúzia de livros recém lançados. Como ela se mudou as pressas, deixou tudo que tinha em Wakanda e não seria seguro buscar ou pedir que enviassem. não tinha do que reclamar. Assim como Karl e Everett, amava aquilo.

- Nessas horas eu queria ter seus pais – Sharon comentou, acompanhando a amiga até o segundo andar o apartamento – Agentes secretos, entendidos de moda e arte.

riu do comentário e abraçou Sharon, agradecendo por tudo que tinha feito por ela nesses últimos dias. Ela sempre foi uma amiga e tanto. Era alguém em que podia confiar de olhos fechados. Sharon retribuiu o abraço, sorridente, e propôs que pedissem comida chinesa de um restaurante próximo. As duas passaram o final do dia rindo, terminando de arrumar o que faltava na nova casa de , como não faziam há muitos anos. Estavam felizes por ter uma a outra, apesar de tudo. Já era quase meia noite quando terminaram e Sharon foi embora para seu apartamento. então tomou um banho demorado e, sem muita pressa, jogou-se na cama em seu quarto novinho. Embora tudo fosse novo e meio desconhecido, ela se sentia confortável e feliz ali. Sentia que uma nova fase de sua vida estava começando, com mais independência, mais individualidade, mais de si mesma, do seu espaço e das suas vontades; com mais solidão e, ao mesmo tempo, mais de sua família. Ela prometeu a si mesma que seria a melhor fase de todas, independentemente de qualquer que fosse o futuro próximo. A mulher suspirou, lembrando-se brevemente da conversa que teve mais cedo com seus pais e Sharon. Estava mais preocupada do que gostaria, do que realmente demonstrou. Havia fortes chances de aquilo não terminar bem, nem para ela, nem para seus novos conhecidos. Ela então se esticou para pegar o novo aparelho de celular sob o móvel ao lado de sua cama e digitou algumas mensagens rapidamente em um aplicativo de conversas, bloqueando a tela em seguida. Teria que dar um jeito naquilo. E teria que ser rápida.
Do outro lado do mundo, em Nova York, Sam tentava digerir todas as informações que tinha acabado de receber em seu celular. Leu e releu as mensagens enormes várias vezes, tentando mapear o que havia nas entrelinhas e projetar as consequências. O homem levantou seu olhar ao perceber alguém adentrar a cozinha, onde estava fazendo um lanche. Steve passou tranquilo por trás de Sam, dando uma olhada de propósito em seu celular e notando uma conversa aberta.

- Quem é a da vez? – Steve perguntou sugestivo ao amigo, desviando seu olhar até o cesto de frutas de onde tirou uma maçã. Sam riu sem graça e negou com cabeça.

- Francesa, meio alta, deve ter uns vinte e cinco anos; foi sua vizinha por duas semanas em Washington, coincidentemente nos encontramos em Lagos. E, claro, o traço mais marcante: é amiga da natureza – Sam respondeu fazendo Steve rir.

- ? Aconteceu alguma coisa? – Capitão perguntou, franzindo o cenho. Sabia que Sam tinha deixado seu número de telefone com ela para caso precisasse de algo.

- Ainda não – Sam respondeu sério e entregou seu celular para Steve. Certamente ele saberia o que fazer.


- Capítulo 3 -

Londres, Inglaterra


Pouco mais de um mês havia se passado desde o ocorrido em Lagos e, consequentemente, desde a mudança de para Berlim. Os noticiários ainda falavam fervorosamente sobre o ocorrido e tinham, cada dia mais, detalhes sobre cada um dos envolvidos. T’Challa ligava recorrentemente para Karl ou Everett para saber dela. Estava preocupado com sua amiga e com o sumiço dela. seguia sua vida normalmente, sem grandes emoções. Ocupou-se bem, nas semanas seguintes a mudança, em colocar tudo em seu devido lugar, em reconhecer a cidade e se acostumar com tudo aqui. Embora não precisasse, passou a prestar atenção em anúncios de emprego e cogitou a possibilidade de abrir uma floricultura. Tinha uma loja para locação próxima ao seu novo prédio e seria muito fácil vender flores, considerando que podia fazer nascer tudo que fosse botânico - flores, frutos, árvores inteiras - e que podia, igualmente, reviver tudo de botânico que estivesse morto. Os clientes podiam levar flores já mortas para ela, por exemplo, e ganhar um desconto nas flores novas. Ela então revivia as flores mortas e as colocava novamente para vender. Parecia perfeito. Arrumar um emprego a deixaria distraída por algum tempo e longe das vistas da supervisão, pois pareceria que havia aposentado suas habilidades.
Contudo, antes que pudesse levar a frente suas novas ideias, as coisas saíram novamente do controle. Karl e Everett receberam em casa convites das Nações Unidas para comparecer ao evento de assinatura do acordo que aconteceria dali uma semana em Viena. Não apenas convites para eles, mas também o de . Junto com os convites, cópias do Tratado de Sokovia e passagens de ida e volta. Na verdade, chamar aquilo de convite era uma redundância; estava mais para viagem coercitiva. já tinha se preparado para enviar carta oficial, ao endereço da conferência, três dias antes de acontecer. Seria o tempo ideal para chegar até eles e atestar a sua não adesão ao tratado e, portanto, sua recusa em comparecer ao evento. Seria uma forma educada de se manifestar e no tempo correto. Mas, na noite anterior ao envio da carta, outra coisa aconteceu. Sharon precisou ir às pressas para Londres visitar sua tia Peggy, no hospital.
Sharon não voltou para casa no dia seguinte, como havia planejado. Tantas foram as vezes que ela ensaiou aquele momento em sua mente. Nunca imaginou que seria tão difícil, que fosse doer tanto. Margaret era a única parte boa de sua família que ainda restava. Foi mãe, foi tia, foi o modelo do que Sharon queria ser um dia. Sempre seria. Sharon jamais seria a mesma depois daquela noite. O hospital central de Londres estava frio, mais vazio do que nunca. Os corredores limpos, brancos, solitários. Sharon caminhava sozinha sem ter realmente para onde ir. Nunca tinha se sentindo tão vulnerável como naquele momento, nunca sentiu vontade de desaparecer, de chorar até não poder mais. As lágrimas escorriam por seu rosto suavemente, como se tentassem acalmá-la. Sua tia Peggy estava descansando agora.
Ela se sentou em um sofá qualquer na área de espera do hospital e tirou seu celular do bolso. Não sabia ao certo para quem deveria ligar, mas tinha certeza de que algumas poucas pessoas deveriam saber do ocorrido. Ela, contudo, não poderia fazer isso. Não estava pronta para lidar sozinha com as notícias. Sharon respirou fundo e, sem pensar muito, enviou uma mensagem para a única pessoa que sabia que poderia ajudá-la naquele momento. não tinha dormido naquela noite. Tinha falado rapidamente com Sharon, avisou seus pais sobre o ocorrido, que não poderiam a acompanhar ao velório em função do trabalho em Viena, fez uma mala para dois ou três dias e foi às pressas para o aeroporto. Em Nova Iorque, contudo, Steve estava em meio a uma discussão sobre o Tratado de Sokovia quando recebeu uma mensagem da casa de acolhimento de idosos em que Peggy vivia. Já tinha tomado sua decisão e, diante do novo acontecimento, não havia mais nada a ser conversado. Ele pediu para que Sam o acompanhasse e pegaram, assim como , o primeiro voo possível para Londres.
Assim que chegou em Londres, foi direto encontrar-se com Sharon, que parecia mais arrasada do que gostaria de demonstrar. não tinha o que fazer e nem o que dizer à amiga, sabia que nada a reconfortaria naquele momento. Então preferiu só ficar por lá, por perto. A abraçou várias vezes, deixou que ela contasse mais de uma vez o que tinha acontecido, a viu chorar, parar e recomeçar e ficou mexendo em seus cabelos enquanto ela estava deitada. não sabia quanto tempo esteve ali, no quarto do hotel em que Sharon estava hospedada, mas só saiu de perto quando ela finalmente dormiu. Decidiu então que também se hospedaria ali, no mesmo hotel e no mesmo andar, pois assim seria mais fácil caso Sharon precisasse de algo. Como já era tarde quando recebeu a notícia, não tinha tido tempo de dormir ainda e estava exausta. Ela deixou suas coisas em um canto qualquer do quarto, tomou um banho e se jogou na cama gigante e macia. Antes que pudesse efetivamente dormir, viu uma mensagem de Karl dizendo que ele e Everett haviam acabado de chegar a Viana para o evento da ONU. Parecia que o inferno tinha tomado conta da Terra naquele dia.
acordou horas depois, ainda exausta. Trocar a noite pelo dia nunca tinha sido muito fácil para ela. Espreguiçou-se e se levantou, indo em direção a janela enorme do quarto, que pegava toda a parede, constatando que já era noite. Ela então escovou os dentes, fez um rabo de cabelo nos cabelos, calçou um par de sapatilhas e seu casaco e foi checar se Sharon estava bem. Bateu duas vezes na porta da amiga, mas não teve resposta. Ela devia estar dormindo ainda, imaginava que estaria cansada demais para qualquer coisa que não fosse dormir. então voltou a seu quarto, pediu qualquer coisa para comer por ali mesmo e ligou a televisão. A maioria dos canais já estava informando sobre o evento da ONU e alguns jornalistas já faziam campanha na porta da sede em Viena, esperando por qualquer movimentação que pudesse virar notícia. Eles pareciam ansiosos para ver quem apareceria para assinar o Tratado. também estava. Queria conversar com seus pais, que já deveriam estar cheios de trabalho por lá. Mas não era seguro; não sabia quem poderia estar por perto para presenciar o contato, era melhor não arriscar. estava parcialmente tranquila, a tirar pela mensagem que Sam havia lhe enviado dizendo que uma parte deles, dos Vingadores, não iriam comparecer ao evento, mas ele não podia dizer muito mais, pois outro problema havia surgido e ele teria que resolvê-lo antes. Contudo, ela ainda temia pelo que poderia vir a seguir, dado que uma parte deles ainda assim assinaria o Tratado. Sem muito mais o que fazer, ela terminou de comer e decidiu ver um filme até pegar no sono.
Sam e Steve chegaram a Londres a tempo de deixarem suas malas no hotel, tomar banho e um café rápido e ir direto para a igreja em que Peggy seria velada. Quase não conversaram durante a viagem toda. Uma parte de Steve tinha morrido e Sam podia imaginar o quão doloroso aquilo estava sendo para ele. Steve não falava porque não conseguia falar. Tinha perdido tudo, tinha sido privado de ter a vida que sempre sonhou. E quando estava finalmente começando a se acostumar com a ideia de abandonar o passado para viver feliz no presente, tudo voltava à tona. Bucky ainda estava vivo, mas desaparecido; e Peggy, sua Peggy, tinha ido embora para sempre. O caminho até a igreja foi igualmente silencioso e assim que Steve a viu sob o caixão, chorou pela primeira vez. Sam ficou ao lado do amigo, tentando o reconfortar em silêncio, até a cerimônia começar, quando sentou-se em seu lugar na igreja e esperou por Steve, que ajudaria a carregar o caixão até o altar. A igreja estava completamente lotada, em silêncio, ouvindo o que o cerimonialista dizia com muito pesar e tristeza. Cerca de uma hora depois, ele convidou Sharon para dizer algumas palavras e finalizar o velório.
Sharon levantou-se ao tempo que observou todos os demais presentes se sentarem em seus bancos. Passou as mãos pelo seu vestido preto como se o arrumasse e respirou fundo. Se sentia mais segura e mais confortada diante do ocorrido, precisava seguir em frente e orgulhar sua tia onde quer que ela estivesse. passou por Sharon, a puxando delicadamente até o altar, onde teria que subir e discursar ao púlpito. Elas tomaram café da manhã juntas e tiveram uma longa conversa sobre aquele momento antes que ele chegasse. sabia bem o que era passar por aquilo e o que fazer para ajudá-la a atravessar aquela fase da vida. Sharon respirou fundo, olhou a amiga intensamente, que lhe retribuiu com um sorriso pesado, e seguiu até o altar. Terminaria logo com aquilo e seguiria em frente de uma vez.
ficou pouco atrás da amiga, mas ainda em pé, observando as pessoas ao redor. De onde estava pode observar Sam cutucar Steve na primeira fileira da igreja, sugerindo que ele olhasse para cima, de onde saia a voz que começava a discursar. Steve e Sharon trocaram um olhar sem graça, curto, mas muito profundo. E foi então que Sam e Steve viram , pouco mais ao fundo, em pé, com os braços para trás do corpo. Ela usava um vestido de mangas compridas, preto liso e até o joelho, com uma pequena fenda do lado esquerdo; um scarpin clássico preto de salto alto e tinhas os cabelos soltos levemente ondulados. Como se houvessem combinado, suas expressões mudaram de surpresa por ser Sharon quem estava discursando e, mais fundo, ser da família de Peggy, para confusão por também estar ali. Uma vez mais, em um lugar coincidente. Ela apenas arqueou as sobrancelhas, retribuindo o olhar aos dois homens há poucos passos a sua frente, e voltou a prestar atenção em Sharon que terminava de falar. Ela rapidamente agradeceu a presença de todos e saiu do altar a passos zelosos, levando sua amiga consigo para fora dali. Algumas pessoas a pararam para prestar condolências e decidiu que a esperaria a poucos passos dali, longe do aglomerado que se formava, até que estivesse livre para ir embora.

- Por essa eu não esperava...mais uma vez – Sam comentou aproximando-se de e parando a sua frente, assim que ela se virou para ele. Ela sorriu.
- Há muitas coisas pelas quais você não deve esperar, Wilson. E eu sou uma delas – rebateu docemente. Ele riu.
- Bom te ver também, fada – Sam respondeu revirando os olhos e sorrindo de volta. Estava com um terno muito bem recortado e lhe caiu muito bem, reparou. Parecia meio cansado.
- Até você? – Ela revirou os olhos assim que ouviu seu novo apelido carinhoso.
- É como estão te chamando por aí, achei que combinou com você – Sam falou calmamente, colocando suas mãos nos bolsos da calça social.
- Ao menos não estão dizendo por aí que me visto de pássaro – rebateu no mesmo tom divertido.
- Quem está dizendo isso? – Ele cruzou os braços enquanto falseava uma expressão séria.
- Eu – Ela respondeu simplesmente, sorrindo para o homem que soltou uma risada baixa.
- Não é válido – Sam respondeu simplesmente.
- Sinceramente estou aliviada em te ver. Pelo menos tenho certeza de que não está em Viena – A mulher comentou, mudando de assunto, desviando rapidamente seu olhar e baixando o tom de voz.
- Aparentemente ainda há tempo de voltar atrás – Ele respondeu apontando com a cabeça para a porta lateral da igreja, onde Natasha entrava discretamente.
- Ela vai assinar? – perguntou acompanhando o olhar do homem.
- Sim, ela acredita que estamos perdendo o controle, mas ainda podemos recuperá-lo – Sam respondeu olhando novamente a mulher a sua frente – E deve ter vindo tentar convencer Steve uma última vez.
- Ele já decidiu ou temos que nos preocupar em interferir? – questionou. Sam negou com a cabeça.
- É mais fácil ele convencer Natasha a não assinar – Ele deu de ombros.
- Além dela, quem mais vai assinar? – Ela voltou a perguntar, olhando ainda preocupada para Sam. Ele soltou um suspiro pesado.
- Tony, Rhodes, Visão – Sam respondeu revirando os olhos e cruzando os braços a sua frente.
- Visão pode assinar? Ele nem é humano – contestou confusa, fazendo Sam rir mais uma vez.
- Nessa altura de nossas vidas, você não deveria se impressionar com mais nada – Ele respondeu sarcástico. deu de ombros.
- Desculpe, não estou acostumada a conviver com coisas estranhas acontecendo – Ela comentou irônica, com uma expressão forçada.
- Eu imagino que não. Controlar a natureza é bastante comum mesmo, eu mesmo faço isso o tempo todo - Sam rebateu no mesmo tom e soltou uma risada alta.
- E Wanda? – perguntou curiosa, tombando a cabeça levemente para o lado, ainda risonha.
- Está incerta, mas acho que ela não assina. Por tudo que já passou até se juntar a nós, controle não parece uma boa ideia para ela – Sam respondeu vendo a mulher assentir.
- Não parece uma boa ideia para nenhum de nós. Vamos acabar ficando uns contra os outros, não acho que vai terminar bem – comentou sincera, olhando de Sam para algumas pessoas que passavam perto deles.
- Ao menos somos quatro contra quatro; estamos equilibrados – Ele também estava preocupado com essa divisão. Por isso, inclusive, achava importante manter por perto. A mulher sorriu com ternura, como se agradecesse por ter sido incluída.
- Equilibrados? Nós, Steve e Wanda contra Natasha, Tony, Rhodes, Visão e o resto do mundo – comentou pensativa, vendo Sam abrir um sorriso lateral.
- Você não está vendo o lado bom, . Podemos jogar cartas em dupla na nossa aposentadoria – Sam rebateu divertido fazendo a mulher soltar uma risada nasalar.
- Você acha mesmo que algum de nós irá se aposentar? – Ela questionou.
- Steve talvez. Ele é muito certinho – Sam disse dando de ombros. concordou com ele e olhou para a igreja.
- Falando em Steve... – Ela comentou baixo.
Sam olhou no mesmo sentido que a mulher apontou com o queixo. Ao lado da igreja, pela mesma porta lateral que entrou, Natasha saiu acompanhada de Steve, despediu-se e entrou em um carro que a esperava pouco a frente. Sam observou o amigo o procurar com os olhos e acenou para que ele o visse. Steve se aproximou dos dois sem grande emoção, embora tivesse esboçado um pequeno sorriso ao ver .
- O que faz aqui? – Ele perguntou a mulher, já perto o suficiente para abraçá-la rapidamente.
- Eu sinto muito por Peggy – sussurrou enquanto retribuía o abraço e logo se separou dele – Ela costumava falar bastante de você.
Steve a olhou com curiosidade. O que ela sabia sobre Peggy? E sobre ele? O que Peggy tinha a contar sobre ele? Sam acompanhou o olhar curioso do amigo até a mulher, que sorriu sincera para ele e voltou a falar com calma, gesticulando com as mãos.
- Sharon e eu somos amigas de infância. Meu pai era muito amigo da mãe dela e desde que ela se foi, nós e Peggy somos a única família que restou. Peggy sempre tinha boas história sobre você.
- Isso explica porque você estava em Washington – Steve respondeu olhando para Sam, que concordou com a cabeça.
- Você também estava espionando Steve? – Sam perguntou meio confuso. negou prontamente com a cabeça.
- Sharon tinha que fazer o trabalho dela com Steve e eu tinha que fazer o meu com a HIDRA. Rastreei Rumlow até lá e fui encontrar com ele – Ela comentou suspirando, olhando entre Sam e Steve.
- Como em Lagos – Steve completou o raciocínio, vendo-a concordar com a cabeça.
passou então a contar sobre maiores detalhes de sua ida para Washington. Como possivelmente seria recorrente seus encontros com Steve e Sam daqui para frente, ela achou melhor abrir o jogo com eles. Nem todos os detalhes, contudo, cabiam ser ditos naquele momento. Ela contou que havia rastreado membros da HIDRA por anos antes de finalmente começar a encontrar com eles de propósito nos lugares e, naquela altura, não sabia que estavam infiltrados na SHIELD e em outros grupos de segurança internacional. Descobriu isso por Sharon e quando já estava em Washington. Comentou ainda que nunca planejou encontrar-se com algum dos Vingadores, mas que desde o dia em que os encontrou em Washington, sabia que compartilhariam a busca pela HIDRA. comentou algumas coisas, pequenas e sem detalhes, sobre seu passado e seus pais terem trabalhado para a SHIELD por vinte anos.
Steve e Sam ouviam com atenção e fizeram as várias perguntas que tinham em mente desde o dia em que a encontraram em Lagos. Muitas dúvidas sobre ela puderam ser sanadas com ajuda da mídia, que passou a ter uma paixão intensa pela mulher no último mês. Eles sabiam de onde tinha vindo, sabiam de Wakanda e sabiam da trágica história de sua família. Com ajuda de Natasha, haviam revirado arquivos antigos da SHIELD em busca de e, de fato, ela estava lá; seus pais biológicos e o acidente que os matou também. Havia muito sobre eles e pouco sobre ela. O que faltava a Steve e Sam descobrirem era o que ela buscava de fato e de onde veio seus poderes, suas habilidades. Os arquivos que encontraram sobre isso eram todos ultrassecretos e, portanto, de conteúdos inacessíveis. achou graça no fato de terem desconfiado dela e por isso terem feito uma investigação completa. Ela sabia de todos aqueles arquivos, tinha cópias de tudo e já os tinha lido milhares de vezes. Ela confiava neles e sabia que eles não vazariam informações sobre ela e sua família a ninguém.

- Bom, agora que as coisas fazem mais sentido, se é que isso é possível, podemos sair daqui? É meio arriscado ficarmos no meio da rua, não? – Sam perguntou apontando para o outro lado da rua. e Steve concordaram com a cabeça.
- Queria conversar com Sharon antes – Steve comentou, olhando para onde Sharon abraçava uma última pessoa. e Sam o olharam sugestivamente, com sorrisos nos rostos. Steve os olhou de volta e revirou os olhos ao perceber a expressão dos dois, pediu licença e foi até ela.
- O que acha deles? – perguntou maliciosa para Sam, observando Steve abraçar Sharon por algum tempo enquanto falava algo para ela.
- Que pergunta é essa? Peggy acabou de morrer – Respondeu Sam meio histérico, fazendo a mulher revirar os olhos.
- Quero uma opinião, só isso – Insistiu , cruzando os braços. Sam pensou por um instante e decidiu responder sincero.
- Poderiam ficar juntos – Ele sorriu e deu de ombros - E já que sobramos, o que você acha de irmos almoçar?
O convite de Sam era despretensioso. Steve e Sharon iam demorar mais do que queriam para finalizar aquela conversa. Esperar por eles parecia pedir demais naquele momento. aceitou a sugestão, seu estômago já estava roncando, estava com muita fome. Seria bom dar um espaço para que Sharon e Steve conversassem tranquilos, sozinhos e sem pressa. Eles podiam se ajudar e passar um tempo juntos talvez fosse a melhor opção para os dois, tinham muito em comum e nunca tiveram tido esse tempo para notar compartilhar isso. pediu licença um minuto para buscar seu casaco e bolsa que ficaram dentro da igreja, avisou Sharon e Steve onde estavam indo e rumou, a pé, com Sam até o melhor restaurante francês de Londres. Sam havia dito no caminho que não conhecia a culinária francesa e estava com saudades de comer algo típico de sua infância.
Era fácil conversar com Sam; ele era atencioso, curioso e divertido. Tinha o mesmo jeito irônico que e isso tornava as coisas mais leves de serem ditas. se sentiu bem diante dele. Estava feliz pela amizade que surgia. Sam compartilhava desse sentimento, embora não dissesse. Ouvia as histórias sobre Wakanda com muita atenção e, vez ou outra, fazia perguntas ou comentários ácidos, que eram retribuídos do mesmo modo. Ele contou sobre o tempo que passou na guerra e sobre como havia conhecido Steve e se metido nisso tudo de ser um Vingador. soube dos relacionamentos pouco duradouros que ele teve na vida e se comprometeu a ajudá-lo a encontrar alguém que ficasse por mais de um ano. Ficaram quase duas horas e meia no restaurante antes de voltarem, levemente embriagados pelas risadas e pelos martinis que tomaram; cansados pelo dia longo que tinham vivido.
Steve e Sharon conversaram por uns vinte minutos na porta da igreja até fazerem como os dois outros amigos e irem almoçar juntos. Como queriam ter mais tempo para conversarem sobre Peggy e sobre suas vidas pessoais, decidiram não se juntar a eles e escolherem um outro restaurante mais próximo ao hotel onde Sharon e estavam hospedadas. O dia estava passando bem para eles, ao menos, melhor do que esperavam. Toda a angústia e o peso pela partida de Peggy já não os incomodava tanto e a tristeza que sentiam deu espaço para a pequena alegria que terem um ao outro por perto. Talvez compartilhar o momento e seus sentimentos fosse mesmo uma boa forma de aliviar as dores do coração. O almoço correu tranquilo, agradável e intenso. Conversaram sobre tudo que nunca tinham tido tempo de conversar e, como um encontro não oficial, tomaram vinho branco e dividiram a sobremesa.
O caminho até o hotel foi igualmente agradável. Steve fez questão de acompanhá-la. Chegaram primeiro, segundo antes de e Sam, que comentavam sobre o Tratado de Sokovia, enquanto passando pela porta de entrada. Àquelas horas o evento já deveria estar acontecendo e perto de acabar. No saguão do hotel puderam ver Steve e Sharon caminhando, lado a lado, até o elevador.

- E sobramos de novo – Sam murmurou e bufou em seguida.

, contudo, não respondeu. Tinha os olhos vidrados na grande televisão da recepção do hotel. Sua expressão estava pesada, séria, sequer piscava. Ela deu alguns passos lentos até mais perto, o carpete do saguão abafando seus saltos altos. Tinha a boca levemente aberta e as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo. Sam a ouviu sussurrar seu nome, ainda com o olhar vidrado na televisão, como se chamasse sua atenção para o que ela estava vendo. Ele então se aproximou alguns passos dela, parando ao lado, e olhou a tela. O recepcionista aumentou um pouco o volume, curioso em ver vários hóspedes se aproximando da recepção para prestar atenção na tv. Demorou alguns instantes até Sam entender o que era aquilo tudo. Ele e então se entreolharam e, sem dizer nada, caminharam apressadamente até o elevador. Steve e Sharon ainda o esperavam no térreo.
- Ei – Sam falou alto, chamando atenção do casal próximo ao elevador e olhando diretamente para Steve – Tem algo que você precisa ver.
- Por aqui – passou apressada por Sam, enfiando-se no meio de Sharon e Steve para entrar no elevador.
Steve e Sam entraram, sendo seguidos por Sharon que passou seu cartão no leitor do elevador. Assim que as portas fecharam, sacou seu celular e mandou algumas mensagens para os seus pais. Eles tinham que estar bem; não tinha alternativa, eles tinham que estar bem. Ela sentia seu coração acelerar e com ele toda a vibração da natureza ao redor do prédio.
- O que aconteceu? – Steve perguntou aflito, odiava aquele silêncio.
Sam e não puderam dizer nada, pois a porta do elevador abriu, fazendo os quatro, em seguida, caminharam apressados pelo corredor até o quarto de . Assim que entraram, Sam ligou a grande televisão e Sharon foi atender seu celular que tocava, se afastando deles. Steve assistia as notícias com cuidado. Tinham explodido a sede da ONU em Viena. Alguma coisa naquela história estava estranha. Antes que pudesse pensar em fazer algo tinha que avaliar a situação; tinha que entender. aproximou-se de Steve, que se mantinha em pé com os braços cruzados, e se apoiou na mesa de frente para a televisão, ao lado de Sam. Observando atentamente as imagens, notou Karl passar apressado de um lado a outro, com uma equipe de seu trabalho em seu encalço. Ela suspirou aliviada e se desencostou da mesa, passando uma mão em sua testa. Se ele estava trabalhando, provavelmente Everett também estava bem. Mas seu alívio logo foi embora, assim que ouviu a jornalista anunciar a morte de Rei T’Chaka. Sam e Steve olharam para ela rapidamente, que abaixou a cabeça e suspirou fundo. Não podia se imaginar longe de T’Challa e Shuri nesse momento. O que tinha acontecido?
As imagens na televisão então mudaram para focalizar em um carro de reportagem, que teria sido o veículo usado para causar a explosão. A tela passou a ser dividida entre a apresentadora e a imagem pouco nítida de um homem usando uma bataclava. Sharon desligou o telefone a tempo de se aproximar e ouvir que o suspeito pelo atentado era James Buchanan Barnes. O Soldado Invernal. levantou seu olhar para a tela do televisor novamente, engolindo em seco. Ele tinha aparecido. Poderia ele ter ido atrás dela em Viena, depois de tantos anos desaparecido? Ou ele estaria atrás de Steve? Tinha que descobrir sua nova missão. Sam, ao mesmo tempo, olhou sério para Steve que manteve seu olhar paralisado e intenso na tv.

- Preciso ir trabalhar – Sharon comentou baixo, olhando preocupada para a TV. Ficaram todos em silêncio por alguns minutos.

- Vão matá-lo se não o encontrarmos primeiro, temos que correr – disse finalmente, afastando-se da tv e indo recolher suas coisas. Sharon assentiu com a cabeça e saiu para seu quarto para fazer o mesmo.

Steve parou por alguns segundos, encarando a mulher que ia de um lado a outro no quarto, recolhendo suas roupas e enfiando de qualquer jeito em sua mala. Todos esses anos ela esteve procurando por Rumlow não porque ele sabia de quaisquer informações sobre a HIDRA; mas porque ele sabia onde Bucky estava. A busca de era a mesma busca de Steve. E foi só, naquele momento, que ele percebeu isso. Assim como ele

- Ele é o que você procura na HIDRA todos esses anos – Steve concluiu curioso, vendo para o que fazia e olhar para ele. Ela suspirou pesadamente, fechou a mala com força e olhou novamente para Steve, mas agora com uma expressão mais séria.

- Os arquivos ultrassecretos que vocês encontraram sobre mim... – começou dizendo. Embora eles não tivessem comentado com ela sobre tais arquivos, ela sabia que eles tinham se deparado com eles - ...eu também não sei o que têm neles. Por isso não posso dizer muito mais do que vocês leram sobre meu passado, sobre meus pais e sobre... isso.

desviou seu olhar de Steve e Sam para um pequeno vaso de tulipas perto da janela. Ela estralou os dedos da mão direita rapidamente, fazendo com que todas as pétalas das flores caíssem e no lugar novas nascessem. Ela sorriu fracamente, voltando seu olhar para os dois homens a sua frente.

- Esses documentos estão com a HIDRA? – Sam perguntou incerto, cruzando seus braços. Steve deu alguns passos para mais perto da porta, prestando atenção na conversa.

- São relatórios de missões – concordou, pegando sua pequena mala em mãos.

- E Bucky pode nos levar até lá – Steve concluiu, olhando intensamente para a mulher a sua frente. Talvez esse fosse o tiro de misericórdia de seu amigo. O jeito de amenizar o caos que ele mesmo criou com a HIDRA todos esses anos. cortou seus breves pensamentos:

- Eu encontrei dezenas de bases da HIDRA ao longo da vida, mas nunca a central, que é onde são retidas todas as experiências e informações. Barnes viveu por anos nessa base, onde foi preso, torturado e treinado. Ele sabe me dizer tudo que aconteceu comigo. Mas ele provavelmente não se lembra, esteve sob controle mental por mais de cinquenta anos.

- E você acha que encontrar ele vai fazê-lo se lembrar de algo? – Sam perguntou, meio desconfortável com toda a conversa.

- Se ele puder se lembrar de qualquer informação que eu não ainda não tenha já é um ganho, não? – respondeu honesta. Sabia que aquilo tudo seria difícil de acontecer, mas não podia descartar a única chance que tinha.

Sam não disse mais nada, não gostava muito dessa história. Qual era a chance de um cara como ele se recuperar? De deixar de ser um assassino para virar um homem bom? Sabia que tudo aquilo era importante para , ainda mais depois de tudo que conversaram naquele dia; sabia também o que Bucky representava para Steve: uma parte fundamental da sua vida, a única pessoa que verdadeiramente amava, que fazia parte de seu passado, de sua história. Mas aquilo parecia um atestado de morte para ele. Sharon voltou para o quarto apressada, com uma mochila nas costas e uma pequena mala de mão, e comentou que os esperaria no carro que já havia chamado. Steve estava se sentindo ansioso. Estava novamente perto de encontrar seu amigo, seu Bucky. Em tempos de Acordo de Sokovia, estava receoso sobre o que aconteceria e sobre como lidaria com tudo isso. Mas, naquele dia, acima de tudo, Steve estava feliz. Feliz por, finalmente, encontrar alguém que via Bucky como Bucky. Não como uma arma ou um assassino. Só um homem que precisava de ajuda e que, no fundo, também poderia ajudar.

- Não podemos perder ele dessa vez, temos que ir – Steve concluiu olhando de para Sam, os vendo consentir com a cabeça brevemente.

sorriu em agradecimento para Steve, passando por ele para fora do quarto e indo em encontro a Sharon. Precisavam estar em Berlim em, no máximo, duas horas. Ou seria tarde demais para Bucky, Steve e .


- Capítulo 4 -

Viena, Áustria


O caminho até Viena foi mais rápido do que imaginaram. Graças a tecnologia de Stark e o jatinho super veloz que levou Steve e Sam até a Europa, chegaram em cerca de uma hora até Viena. Eles puderam se trocar no avião e traçar em conjunto uma estratégia. Mas, antes que pudessem de fato entrar em ação, precisavam de mais informações sobre o caso. Tinham que saber o que aconteceu, porque Bucky estava ali e para onde teria ido depois do incidente, e nada melhor do que buscar as informações direto na fonte. Tudo estaria tão na cara da força-tarefa que eles não perceberiam. No local, decidiram se separar. Sharon tinha que trabalhar e, por isso, era a principal fonte de informações do grupo; precisava ver seus pais e, mais do que isso, precisava ver T’Challa para ao menos dar-lhe um abraço de consolo. Steve e Sam, por outro lado, acharam melhor ficar longe do movimento e do trabalho de busca por Bucky em Viena. Eles sabiam que seus amigos, que assinaram o acordo, já podiam imaginar que, ao menos Steve, tentaria algo agora considerado ilegal para salvar seu amigo. Decidiram ficar próximos ao perímetro, caso as meninas precisassem de algo, mas discretamente afastados, ausentes. Steve queria conversar com Natasha e saber se estava bem. Tinha certeza de que ela o entenderia e que, possivelmente, faria algo para ajudá-lo, mesmo dentro das limitações do Tratado.

- Ligue para o MI6 e veja se podem apressar as coisas. Traga a equipe toda em duas horas ou será inútil - Sharon passou apressada por , com um dos outros agentes da CIA em seu encalço, enquanto dava ordens para prosseguir com a busca por Barnes. Tinha propositalmente ignorado a amiga, não podia deixar claro ou demonstrar qualquer proximidade dela.

caminhava lentamente, observando séria a movimentação a seu redor. Tinha receio de sofrer algum tipo de punição por estar ali sem ter assinado o Tratado, mas sabia que isso não seria justo e que, diante daquela nova situação, não seria a prioridade de atenção. A poucos metros de onde estava avistou T’Challa com um olhar apático. A gola de sua camisa tinha sangue e seu rosto estava levemente machucado pela explosão dos vidros. Ela podia imaginar a dor que ele estava sentindo naquele momento. O sentimento de injustiça e de frustração por ter podido salvar seu pai. Ela o conhecia, podia ler sua dor. Ele estava sentado em um banco, esperando por maiores informações para fazer o que tinha certeza de que ele faria: procurar Barnes até o inferno, se precisasse, e vingar a morte de seu pai. notou Natasha aproximar-se lentamente dele e se sentar no banco ao lado, ficando de frente para T’Challa. deu alguns passos na direção deles, parando pouco antes de onde pudesse ser vista.
Não tinha certeza como T’Challa reagiria em vê-la. Depois do ocorrido em Lagos, ela fugiu de Wakanda, não deu mais sinal de vida, nenhuma justificativa e se escondeu. Não queria que nenhum deles a procurasse. E ela foi contra o acordo proposto pelo rei T’Chaka. O acordo que ele idealizou para ela, para a segurança dela. tinha certeza de que sua intolerância ao acordo e seu sumiço deixaram uma mensagem desagradável para T’Challa. Sabia que, de certo modo, estava sendo ingrata a ele e ao seu pai, em especial. Mas, ainda assim, era a melhor opção. Contar toda a verdade por trás das viagens que fez nos últimos dez anos, atrás de Rumlow e da HIDRA, seria ainda pior para ela. Muito mais do que mal-agradecidos, T’Challa e sua família se sentiriam traídos. não queria ser controlada. E o rei de Wakanda não queria colocar a segurança de sua família e de seu país em troca de segredos do passado da menina, que ele sequer sabia se existiam mesmo.
Para ele, ela não podia se expor, não podia sair e fazer o que achava certo, não sem ajuda, sem as medidas de segurança necessárias para ela, para eles e para todo o país. Não valeria a pena arriscar tanta coisa, tantas pessoas e tanta tecnologia para procurar informações pessoais incertas. deveria ter se contentado com as informações que tinha. Seus pais biológicos já estavam mortos há anos, ela já tinha se acostumado com seus poderes, para que e porque cavoucar uma história dessas? Para que se entregar de bandeja para a HIDRA, a organização que a perseguiu durante boa parte da vida? T’Chaka não entendia seus motivos. E se sentia uma ameaça para eles. Uma bomba prestes a explodir a qualquer momento, que precisava ser manipulada. Fazer em segredo o que achava que tinha que fazer para se libertar de uma vida escondida e controlada foi o melhor que podia fazer. E ela não se arrependeria disso.

- Eu sinto muito – A voz de Natasha cortou seus pensamentos. Ela encarava T’Challa, que se virou para ela com um olhar difícil de decifrar. Por um instante Nat pareceu constrangida.

- Na minha cultura a morte não é o fim. É como um ponto de passagem. Você estende os braços e Bast e Sekhemet guiam você até o campo verdejante…- T’Challa começou a responder, desviando seu olhar para frente. podia ver o anel de seu pai em suas mãos. Ela respirou fundo e deu alguns passos para frente.

- ...onde você pode correr para sempre - completou baixo, já perto o suficiente deles para ser ouvida.

T’Challa desviou seu olhar até a mulher agora em pé ao seu lado, assim que ouviu sua voz, ao mesmo tempo em que Natasha a olhou. A expressão dele aliviou por um instante e reparou seus olhos marejarem, como se ele quisesse desabar ali, nela. T’Challa sentiu seu coração parar por um instante e toda preocupação que o estava matando desde que ela saiu de Wakanda pela última vez e sumiu foi embora, como se nunca tivesse existido. então o abraçou, sentando-se ao seu lado no banco. Sentiu os braços do homem darem a volta em seu corpo por alguns minutos até se separarem. T’Challa limpou as lágrimas escorridas do rosto e voltou a encarar o nada a sua frente. manteve-se com uma mão em seu ombro. Consolar seus amigos tinha se tornado uma tarefa comum nos últimos dias.

- Parece ser muito tranquilo - Natasha quebrou o silêncio, forçando um sorriso discreto e olhando T’Challa novamente.

- Meu pai pensava assim. Eu não sou o meu pai - Ele respondeu fechando novamente a expressão e, finalmente, colocando o anel de seu pai na mão direita.

franziu o cenho e se soltou levemente dele. Ela sabia o que aquele gesto significava. Natasha olhou preocupada para , que retribuiu o olhar sério, em silêncio. Conhecia T’Challa há anos para ter certeza de que enquanto ele não vingasse a morte do pai, não sossegaria. nunca havia sido a favor dos métodos de justiça com as próprias mãos. Dizia que ninguém deveria decidir sozinho quem e como punir. Não tinham competências para isso, não poderiam apelar sempre para violência, poderiam? T’Challa, por outro lado, sabia que estaria sozinho nessa; que embora seu pai fosse também como um pai para , ela se recusaria a caçar e matar outra pessoa. E não era qualquer pessoa, T’Challa sabia. Era alguém que a poderia ajudar com o que ela tanto lutava para saber. Desde pequena contestava situações como aquela e T’Challa nunca entendia porque ela sempre defendia as pessoas, mesmo se parecessem erradas.

- T’Challa… A força tarefa decidirá quem irá capturar o Barnes - Natasha tentou falar, ainda o olhando seriamente.

- Não se incomode, Srta. Romanoff, eu mesmo irei matá-lo - T’Challa levantou-se, com os punhos fechados e se virou para Natasha.

levantou quase que ao mesmo tempo, colocando-se ao lado do homem. Ele então virou as costas para as duas mulheres e caminhou lentamente para longe delas. Natasha franziu o cenho e jogou-se novamente sentada no banco, de frente para a outra mulher, onde T’Challa ocupava há pouco. Não adiantaria conversar com ele, nem perderia seu tempo tentando. Tinha que pensar em alguma coisa, tinha que fazer alguma coisa, antes que fosse tarde demais. Pelo olhar de Natasha podia entender que ela também estava preocupada com as consequências daquilo tudo. Por mais que estivessem em lados opostos agora, em função do Acordo, confiava no juízo de Natasha; ela não faria nada que não fosse justo.

- Você assinou? - Natasha perguntou abaixando ainda mais a voz e olhando discretamente ao redor. negou com a cabeça.

- Teria me posicionado antes do evento, mas Peggy...você sabe - respondeu, observando a expressão tensa de Natasha.

Natasha assentiu com a cabeça e sorriu sem muita emoção, porém sincera, para a outra mulher a sua frente. Podia imaginar como ela se sentia diante de tudo que havia acontecido nos últimos tempos. Coincidentemente estava envolvida em tudo e, de repente, ela veio à tona. De uma vez e em todos os lugares, apareceu. No fundo, Natasha entendia ela. Não estava certa se tinha tomado a melhor das decisões, mas nunca seria tarde para se juntar ao outro lado. Como Steve e Sam, ela também havia investigado sobre . Sabia sobre ela e gostava dela; eram parecidas em algumas coisas, tinham tido experiências parecidas e tinham um jeito prático, decisivo, independente e charmoso de resolver as coisas. Adoraria a ter conhecido antes, seria útil ao time.

- Temos que pará-lo, Nat, antes que algo pior aconteça - comentou, cortando os pensamentos de Natasha.

- Não temos, , não podemos. Devemos deixar que a força-tarefa prenda ou faça o que tiverem que fazer com Barnes. Não podemos interferir - Ela rebateu, mais séria que antes.

- T’Challa está indo para matá-lo. Não existe opção para o Barnes, existe? - aumentou levemente o tom de voz, encarando Natasha nos olhos.

- Ele é um assassino. E não podemos mais nos envolver. Isso deixou de ser uma decisão nossa e você sabe disso melhor do que nós - Ela respondeu no mesmo tom de voz, sério e incisivo.

- O que eu sei é que T’Challa não tem chance alguma contra o Barnes e nós vamos carregar mais culpa em nossas costas por não termos feito nada quando poderíamos - respondeu levemente nervosa. Nat parou para pensar alguns instantes. Aquilo fazia sentido.

- O Tratado já está em vigor. Em menos de 24 horas suas decisões jogarão contra você. Você será presa, , não pode fazer nada sem se prejudicar. Vocês irão violar o Tratado - Natasha a olhou intrigada.

- T’Challa já está violando o tratado. Está indo atrás de Barnes por vingança e não por ordens as quais ele se submeteu - respondeu confiante e saiu de perto de Natasha, que apenas suspirou e acompanhou a mulher com os olhos.

Conforme caminhava em direção a seu pai, que havia acabado de chegar com alguns agentes, olhou discretamente Steve há alguns metros de onde estava, usando um boné e óculos de sol, atrás de uma árvore. Ela fez sinal de negativo com a cabeça, tão discreto que mal poderiam perceber, para avisá-lo que Natasha não estava com eles e, antes mesmo que pudesse alcançar seu pai, ouviu o celular da outra mulher tocar atrás de si. continuou até Karl a ver e vir até ela, na direção oposta, com um largo sorriso. Ele tinha alguns arranhões no rosto, discretos, porém visíveis. A mulher o abraçou com força, teve medo de o perder. Queria estar por perto dele quando tudo aconteceu.
Há alguns metros de distância, onde passava informações para alguns agentes, Everett observava a cena. Ele sorriu discretamente, notando sua filha o encarar e sorrir de volta, enquanto se separava de Karl. Natasha desligou o telefone intrigada a tempo de ver se separar do abraço de um dos agentes mais reconhecidos da inteligência da SHIELD, com o qual ela havia trabalhado há anos. Ela sorriu sozinha discretamente e deu de ombros, voltando a encarar a tela de seu celular, em busca de alguma outra informação de Steve.

- Você está bem? Como está se sentindo? – perguntou preocupada olhando Karl. Ele sorriu com ternura.

- Estou bem, devastado por T’Chaka. Mas agora temos que entender direito o que aconteceu - Karl respondeu em um tom de voz baixo e entregou para a filha uma fina pasta com algumas folhas de papel dentro. Não tinha muito tempo para falar com ela; não podiam descobrir que ela estava coletando informações ali.

- O que é isso? - perguntou intrigada, vendo seu pai a impedir de abrir a pasta ali, na frente de tantas pessoas circulando. Ele fez um sinal discreto com a cabeça para que andassem até mais perto da tenda de campanha onde Sharon estava.

- Conseguimos pontuar dezessete áreas do rosto, com base nas imagens que temos do atentado - Karl comentou baixo e rápido, na tentativa de ser ainda mais discreto.

- Não foi ele, não é? - concluiu e virou-se levemente para o lado para olhar seu pai.

- Mais de 40% de diferença, por enquanto. Mas isso ainda não prova muita coisa - O homem completou, colocando suas mãos nos bolsos do terno. Embora sua postura estivesse contida, seus olhos azuis transbordavam emoção.

- Encontrei um fio de cabelo no furgão - Everett murmurou entrando na tenda e passando por eles apressado. e Karl se encararam por um instante - Preciso de duas horas para análise.

- Se a análise negativar para o Barnes, há outras possibilidades? - suspirou pesadamente. Sharon desviou sua atenção dos papéis que lia para a amiga.

- Se não foi o Barnes, pode ter sido outro membro da HIDRA – Sharon comentou preocupada. Karl assentiu com a cabeça.

- Ou nossa hipótese de existir mais de um Soldado Invernal pode se confirmar – Everett comentou, passando de volta para fora da tenda.

- Temos que tomar cuidado. Você principalmente, - Karl respondeu preocupado.

Sharon ficou pensativa. A vida inteira de fazia sentido, como uma quebra-cabeça. Tantos anos escondida e justamente em Wakanda, que mal poderia ser encontrada no mapa; Karl trabalhando para a SHIELD enquanto Everett seguia no Departamento de Segurança dos Estados Unidos, para manterem um fluxo de informações atualizadas e que cobrisse todo o globo; e a não supervisão era o plano perfeito para se envolver em tudo que fosse relacionado a HIDRA discretamente. podia ir para qualquer lugar caso algum deles fosse identificado e, se os encontrasse e conseguisse os resgatar, poderia finalmente saber sobre seus pais, sobre seu passado e sobre o que havia acontecido com ela. Sharon desviou seus pensamentos ainda olhando a amiga. Não podia imaginar tudo o que se passava pela cabeça dela, tudo que havia sofrido durante esses anos e as respostas que nunca encontrou. A busca desesperada por ter certeza de que não havia sido ela quem matou os próprios pais, que o acidente não havia sido sua culpa. Aquilo era íntimo demais para ela compartilhar, mas agora, com tudo isso acontecendo, Sharon entendia que sua amiga estava pedindo ajuda. Um pedido silencioso. abriu a pasta que seu pai havia lhe entregado e deu uma rápida olhada nos arquivos que constavam lá.

- Você acha que a HIDRA está atrás de você novamente? - Sharon questionou observando a amiga, que levantou o olhar até ela. Karl estava tenso. Era por isso que estava ali.

- Não. Eles saberiam que ela estava em Londres e não em Viena. Eles não erram - O homem rebateu prontamente, como se já tivesse pensado naquilo antes.

- Então eles têm uma nova missão - Sharon seguiu tirando suas próprias conclusões.

- Ou alguém está levantando a HIDRA novamente. E precisamos ter certeza de que não é o Barnes - especulou.

- Mas antes disso temos que encontrá-lo - Sharon suspirou observando seu telefone apitar em cima de uma pequena mesa próxima. Seu chefe havia enviado uma mensagem pedindo por um relatório detalhado e havia o sinal de atirar assim que localizassem Barnes - Temos um alerta B47.

sussurrou um ‘merda’, fechando a pasta e devolvendo-a para seu pai.

- Precisamos de ajuda. Não vamos conseguir identificar quem é o real assassino, localizar o Barnes, fugir da supervisão do Acordo e conter o T’Challa, que já está indo matá-lo. Não dou uma hora para ele aparecer com a cabeça de Barnes nas mãos - falou irônica. Karl bufou.

- Fico com a parte da identificação. Everett está trabalhando no DNA do cabelo. Assim que tivermos alguma resposta, avisarei - Ele disse simplesmente, ajeitando suas coisas na tenda com pressa.

- Certo. Steve e Sam contra T’Challa. Não vou lutar contra ele - completou.
- E nós duas vamos atrás de Barnes. Já tenho informações sobre a localização - Sharon colocou os papéis que antes lia dentro de uma pasta.
olhou para seu pai que também assentiu com a cabeça e saiu apressada, com Sharon em sua sombra. Esperava que tudo desse certo, não sabia como ficaria a situação para seus pais. Teriam que correr contra o tempo. Elas tomaram caminhos diferentes para o mesmo sentido, com o intuito de não serem vistas juntas. Não tão distante de onde a força-tarefa estava alocada, Steve entrou em uma cafeteria e foi direto ao balcão, onde encontrou discretamente com Sam comendo uma fatia de bolo. Sam também usava um boné e óculos escuros e ambos tinham seus olhares focados no cardápio da cafeteria colado na parede a frente deles, como se estivessem apenas escolhendo o que comer. Uma atendente colocou uma xícara com café a frente de Steve, que agradeceu em silêncio.

- Ela mandou você não se envolver? - Sam perguntou, se referindo a conversa com Natasha. Ele olhou rapidamente para Steve enquanto mastigava mais um pedaço de seu bolo. Steve não respondeu nada - Pode ter razão.

- Ele faria isso por mim - Steve respondeu seco, olhando para o outro lado.

- Em 1945, talvez. Só quero garantir que analisamos todas as opções. Quem atira em você, acaba atirando em mim - Sam rebateu.

Steve desviou seu olhar até Sam, o encarando significativamente. soltou uma risada baixa, surgindo do nada e encostando-se no balcão no meio dos dois homens.

- O passarinho tem medo de uns tiros? - Ela perguntou provocativa, pegando o garfo do prato do homem e dando uma garfada no bolo dele.

- Quem deixou você comer meu bolo, fada? - Sam a olhou sério, puxando o garfo de sua mão e terminando o bolo rapidamente. Steve revirou os olhos por baixo de seus óculos.

- Recebemos muitas denúncias depois da divulgação das imagens. Todo mundo achando que viu o Soldado Invernal por aí. A maioria é boato, exceto isso. Meu chefe espera um resumo, para ontem, então isso é tudo que posso adiantar - Sharon comentou, encostando-se também no balcão, ao lado de Steve.

Ela empurrou levemente uma fina pasta com algumas informações importantes da localização de Barnes. Steve a pegou curioso, olhando para sua frente para checar-se que ninguém mais estava por perto.

- Obrigado – Ele agradeceu simplesmente.

- Fora isso estão fazendo reconhecimento facial com base nas imagens do atentado. Por enquanto há 43% de clareza de que não foi ele - completou, pegando agora o café de Sam, que a olhou sério mais uma vez. Steve a olhou intrigado. podia dizer que, por um instante, viu alívio passar pelos olhos dele

- Em quanto tempo teremos certeza? - Steve questionou, olhando de para, novamente, a parede a frente.

- Em 5 horas, mais ou menos - Ela respondeu olhando o relógio na parede a sua frente e respirou fundo. Aquilo era tempo demais, não podia negar.

- Vão ter que se apressar. Temos ordens de atirar para matar - Sharon comentou, meio exausta, olhando para os três de rabo de olho e saindo de perto deles. Era muito arriscado para ela ficar ali. Se descobrissem que estava vazando informações seria demitida, processada e sabe-se lá mais o que fariam com ela. Não podia ser pega. Ela era uma peça central em tudo aquilo, precisavam dela e ela queria ajudar.

- Vamos atrás de Barnes; meus pais irão acelerar o processo de reconhecimento e Sharon nos dará novas informações - disse.

- Temos horas até sermos oficialmente presos - Sam comentou a olhando. Steve desviou seu olhar novamente para ela, tinha se esquecido das novas condições por um momento.

- Falando nisso, T’Challa já está a caminho para matar Bucky. Se ele aparecer, não vou lutar contra ele, isso é com vocês. E tem algo a mais. Provavelmente seremos pegos - comentou com naturalidade, como se aquilo fizesse parte dos planos.

- Como sabe disso? - Steve perguntou curioso. Ela encostou os cotovelos na bancada a sua frente, sem olhar para eles.

- Um homem descongelado, uma fada e um pássaro correndo atrás do assassino mais procurado da década. O que acha disso? - sugeriu irônica, ouvindo Sam reclamar ao seu lado e sorriu divertida.

- Aposto que toda a segurança da União Europeia virá atrás da gente. Sem contar a CIA, o Conselho de Segurança Internacional, Tony e a Natasha - Sam completou dramático e encarando Steve.

- Já entendi - Steve cortou o amigo, bufando.

- Não há muito o que fazer. Primeiro o Barnes e depois pensamos em como sair da prisão ou seja lá o que vão fazer conosco - comentou colocando-se em pé novamente e virando-se para os dois homens.

Sam assentiu e Steve deixou sair um pequeno sorriso, sussurrando um obrigado sincero. Mais alguém, além dele, parecia preocupado com seu amigo. sorriu com ternura de volta, mas logo voltou a ficar séria, observando alguns agentes da Força-Tarefa se aproximarem da entrada da cafeteria. Ela fez sinal com a cabeça para que saíssem dali logo.

- Se a coisa sair do controle nos separamos. Nós ficamos com T’Challa e você com Bucky - Steve falou, levantando-se também e tirando algum dinheiro do bolso.

- O que acontece se você for pega e nós não? – Sam questionou já pronto para sair dali também.

- Então vocês me resgatam - concluiu como se fosse óbvio, dando uma piscada para ele e sorrindo. Os três foram a passos rápidos sentido a saída da cafeteria.

- E desde quando você precisa ser resgata? - Sam sorriu divertido e Steve negou com a cabeça.

- Você acha mesmo que essa é uma opção? – Ela respondeu com o rosto levemente virado para trás, para ver o homem por sob os ombros.


- Capítulo 5 -

Bucareste, Romênia


Steve passou quase todo o caminho em silêncio. Tinha seus olhos fixos na pasta de papel que Sharon o havia entregado poucas horas atrás, na cafeteria em Berlim. Leu cada detalhe duas ou três vezes, assimilou cada uma das informações e tirou algum tempo para refletir. Nada fazia sentido para ele. Desde que Bucky apareceu em Washington, a vida de Steve havia mudado, de novo, para pior. O pouco que ele havia conseguido seguir em frente, com seu passado e com tudo o que tinha acontecido, foi dissipado. Ver Bucky vivo, lutar contra ele e saber que ele não se lembrava sequer de seu nome tinha sido pior para Steve do que quando foi descongelado em um mundo do qual ele já não mais pertencia.
Ele se machucou em Washington, física e emocionalmente. Ficou pouco mais de quarenta dias no hospital para se recuperar da briga que teve com Bucky e embora seu corpo tenha se recuperado, sua mente não conseguiu. Passou a se empenhar em buscar por Bucky em todos os lugares que ele podia, reuniu dados, informações, localizações. Dois anos procurando em bases da HIDRA e assistindo diariamente o máximo de notícias que podia, na intenção de, em alguma delas, encontrar seu amigo. Mas Bucky não queria ser encontrado ou, pior, estava novamente preso, sendo controlado e escondido. Esperança já não fazia mais parte da vida de Steve.
Mas dois meses atrás, em Lagos, isso mudou um pouco. Rumlow tinha informações sobre Bucky, Steve conheceu - quem também travava uma busca incansável pelo seu amigo - e Peggy tinha morrido. Era um misto de desespero, de tristeza, de ansiedade e de recomeço. Embora estivesse difícil de acompanhar todos os acontecimentos e todos os sentimentos, Steve estava minimamente feliz por ter a chance, por menor que fosse, de ter Bucky de volta em sua vida. As circunstâncias não eram ideias, mas o que ele podia dizer?
Quase duas horas de viagem depois ele voltou a prestar atenção ao que acontecia ao seu redor. Sam estava cuidando do painel de controle do pequeno avião em que viajavam e conversava sobre coisas generalizantes com ele. Ora ele a ensinava os comandos do painel, ora contava sobre algo de sua vida. Estavam se conhecendo e pareciam usar as viagens forçadas dos últimos dias para isso. As vezes eles se alfinetavam e por um momento Steve achou que iriam se bater. parecia bem mais tranquila do que Steve diante de tudo aquilo. Parecia controlar bem suas emoções ou, ao menos, não as deixava transparecer como o homem fazia. Ela estava sentada em uma das poltronas ao lado de Sam, tinha um pé em cima do assento e a cabeça tombada para trás, como se estivesse tudo sob seu controle. era cheia de si, transmitia confiança e certeza, muito embora Steve imaginasse que, bem lá no fundo, não era o que ela estava sentindo.

- Você já o encontrou alguma vez? – Steve perguntou baixo, chamando a atenção de . A mulher respirou fundo e voltou seu corpo de lado, de modo que pudesse olhar Steve de frente.

- Não. Ele é como um fantasma...sempre estava lá, mas eu nunca consegui o ver. Ele tentou entrar em Wakanda duas ou três vezes, em anos diferentes, mas não conseguiu. Ele esteve na casa de meus pais em Londres, em Zurique e em Viena, tiveram que se mudar sempre que isso acontecia. Ele esteve em Budapeste uma vez em que eu estava de férias com Sharon, mas fugimos antes que ele pudesse efetivamente nos encontrar.
Conforme contava, desviava seu olhar de Steve para Sam, que agora também integrava a conversa. Ela não tinha certeza se todas as vezes que foi perseguida e atacada foi, de fato, Barnes. Com a teoria de haver mais de um Soldado Invernal e por nunca ter se deparado cara a cara com algum deles era difícil saber com clareza. Mas como era só uma hipótese, não havia motivo para entrar nesse detalhe com os dois a sua frente. Steve se lembrou de quando Natasha contou sobre o Soldado Invernal a primeira vez. Ela também havia se referido a ele como um fantasma. E essa era mesmo a melhor forma de descrever Bucky todos esses anos. Um homem morto que aparecia eventualmente.
tinha uma delicadeza enorme em sua fala, como se ela não quisesse se machucar com aquilo. E toda vez que tinha que falar de sua vida era assim. Steve tinha notado isso em Londres, quando conversaram na porta da igreja e ela contou brevemente partes de sua história; ele notou isso no caminho até Berlim, quando ela falou algo sobre o Soldado Invernal. E agora, uma vez mais. Como perguntar a Steve sobre os anos 30 ou a Sam sobre seu tempo em guerra, falar do passado doía em . E por mais durona que ela quisesse ser, não deixava de transpassar isso em cada palavra, em cada resposta que dava às perguntas deles.
Ela, por outro lado, entendia a importância que saber de todos os detalhes tinha para Steve, principalmente. Aquilo tudo possivelmente se referia a seu melhor amigo, a única pessoa de seu passado ainda viva. Era seu ponto de integração com um mundo que não mais lhe cabia e sua última chance de ser genuinamente feliz. Ouvir o que tinha a dizer sobre seu passado e as partes em que talvez Bucky aparecesse, mesmo não sendo ele a mesma pessoa que costumava conhecer, era reconfortante e representava muito para Steve. Ela sabia disso e, portanto, mesmo que aquilo fosse além dos limites que ela mesma se impunha, tentava responder. De seu jeito, longe de sentir a dor de reviver cada momento, mas sempre verdadeira.

- E você está pronta para isso? Para encontrar ele? – Steve perguntou novamente, quebrando os minutos de silêncio que se instalaram. Estava sério e, embora não quisesse transparecer, preocupado.

- Você está? – rebateu a pergunta, encarando Steve e sorrindo fraco em seguida.

Pelos minutos que se seguiram o silêncio reinou novamente. Nenhum dos dois tinha certeza sobre a resposta aquela pergunta. Não sabiam dizer o que estava acontecendo, o que aconteceria no futuro breve e como deveriam se sentir em relação a tudo isso. Até ali, não tinham tido tempo para realmente pensar no que acontecia. Precisaram agir primeiro e rápido. Em dois ou três dias tiveram que ir para Londres, de lá para Berlim e agora estavam correndo de novo, sentido a um novo lugar para fazer algo que sequer tinham planejado. Não havia tempo para pensar em como se sentiam ou em como estavam emocionalmente envolvidos com aquilo. Para Steve e , em especial, pensar demais seria muito desgastante.

- Temos que pensar em termos práticos agora, estamos 100 km de distância do pouso – Sam cortou a conversa, olhando o radar do avião.

- Vocês descem a 12 metros do prédio. fica na cobertura do edifício a frente do de Bucky, monitorando o que acontece e vendo as entradas possíveis. Sam vem atrás do jato assim que deixar lá. Vou pousar 107 km de distância de onde vamos agir e preciso de uma carona rápida de volta – Steve falou objetivamente, acompanhando um mapa com um canetão, mostrando onde cada detalhe aconteceria. e Sam prestavam atenção.

- Quanto mais rápido formos, melhor. Eu vou entrar e ir direto para onde o arquivo nos manda. Se não for o aparamento de Bucky, eu aviso, nos juntamos e pensamos no que fazer – Steve voltou a dizer sério, colocando-se em pé e indo se trocar no fundo do avião.

- E se for? – perguntou olhando Steve se afastar.

- Eu tentarei conversar com ele e explicar o que está acontecendo – Ele respondeu.

- E você acha mesmo que ele vai simplesmente ouvir? – Sam questionou irônico.

- Se ele lutar, nós lutamos. Se ele ouvir, nós não fazemos nada, tudo bem? – Steve ordenou meio ríspido. Tinha que garantir que os três estivessem juntos, agindo do mesmo modo e reagindo da mesma forma.

- E o que eu faço? – Sam perguntou mais uma vez, cruzando seus braços. Estava começando a se arrepender por estar ali.

- Fique no ar, ronde o prédio e as áreas próximas. Pode ser que ele não esteja no apartamento ou que a localização esteja errada. Nesse caso, é mais fácil localizá-lo com você por fora, assim ganhamos tempo – Steve respondeu objetivamente, voltando para perto deles já com seu uniforme. Ele entregou pontos de escuta para os outros dois e encaixou o seu na orelha.

- Nos avise das movimentações da Força-Tarefa, eles devem estar há pouco tempo de distância de nós, vamos encontrar com eles – comentou colocando seu ponto e olhando Sam que, assim como Steve, montava seu equipamento de voo em seu corpo.

- Certo. E você mantenha atenção no perímetro do prédio. Se Bucky tentar escapar, certamente irá para seu lado, porque é o caminho para a saída principal da cidade – Steve completou, vendo assentir com a cabeça.

- E se ele não for o Bucky que estamos esperando? – Ela perguntou incerta, juntando seu cabelo em um rabo de cavalo. Naquele momento, mal sabia como tinha se envolvido nessa enrascada.

- Vocês fazem muitas perguntas – Steve reclamou, bufando, encarando os dois a sua frente.

- Só as essenciais. Há muitas possibilidades de isso tudo dar errado – respondeu com um sorriso cínico e Sam concordou com ela. De todos ali, Sam era o que menos tinha esperanças de algo dar certo.

- Se não for o Bucky que estamos esperando então será três contra um – Steve rebateu e olhou novamente para a imagem do prédio em uma das folhas a sua frente.

- Achar o Bucky e sair daqui. Esse é o plano – suspirou pesadamente, afastando-se dos outros dois enquanto terminava de amarrar seu cabelo.

- E rápido – Steve completou. olhou para ele a tempo de vê-lo apontar o painel de controle, indicando que o pouso do avião estava em andamento.

- Se apronte fada, temos que descer – Sam comentou vendo procurar por algo nos compartimentos do avião.

Ela procurou por mais alguns instantes e puxou uma pequena caixa de veludo, onde estava sua bolsa de viagens. caminhou rapidamente de volta até onde Sam e Steve estavam e abiu a caixa com cuidado. Ela respirou fundo e tirou o pequeno objeto de lá: uma tornozeleira prata e verde escura, feita de vibranium, com pequenas flores desenhadas. encaixou o adorno delicadamente no tornozelo direito, entre a calça e o cano curto da bota que vestia, e voltou-se para os dois homens. Eles a olharam ao mesmo tempo e franziram a testa.

- Isso é tudo que você precisa? Uma tornozeleira? Stark te deu isso? - Sam perguntou olhando dela para a tornozeleira. deu de ombros e começou a caminhar para o fundo do avião, com Sam ao lado.

- Não, foi alguém muito melhor que Stark. E você é que precisa de coisas de mais.

Sam deu uma risada sem graça e Steve revirou os olhos. Os dois primeiros pararam, observando a traseira do avião se abrir enquanto ainda descia, no ar. Sam abriu suas asas e saltou com leveza avião afora. virou-se novamente para dentro do avião e olhou Steve mais uma vez. Algo dizia que dali em diante tudo mudaria. Ela sorriu com ternura para o homem e assentiu com a cabeça, como se dissesse que estavam naquilo juntos e que daria tudo certo. Assim que Steve retribuiu o gesto, do mesmo modo, se virou, correu poucos passos e se jogou para fora da aeronave. Não demorou um minuto para que Sam a pegasse no ar e voasse com ela até o ponto em que tinham combinado.
Dez minutos depois Steve caminhou apressadamente para longe da área onde pousou o avião, em uma pista de um aeroporto abandonado, antigo. Ele travou a localização para que parecesse que ainda estavam na Alemanha e confundir Tony, que certamente viria atrás deles. Steve suspirou e olhou ao redor. Dali para frente as coisas começariam a pior. Ele sabia disso. Não precisava ser muito esperto para saber que, quando se tratava de Bucky, nada era fácil. Em menos de cinco minutos, Sam apareceu para o buscar e foram até o edifício onde estava. Tinham que chegar até Bucky e tirá-lo logo dali.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Como na maioria das vezes nos últimos cinquenta anos, Bucky não tinha dormido naquela noite. Ainda se sentia inseguro, desconfiado. Tinha medo de alguém entrar em seu apartamento durante a noite e ele não estar pronto para se defender. Por isso, comumente, ficava horas a fio deitado em seu colchão no chão, olhando para o teto, pensando. Queria entender tudo o que tinha acontecido consigo, queria sentir algo que não fosse dor e desespero. Queria se lembrar dele, de quem era, de quem foi um dia. Todos os dias se punia internamente por não saber, por não conseguir se lembrar, por ter deixado tudo isso ter acontecido consigo mesmo, por não ter feito nada e por ter feito tanto. Tinham dias que chorava copiosamente, como se as lágrimas pudessem levar toda a culpa e toda dor embora; tinham dias que queria sumir; e outros em que ele só queria se dar a chance de ser um homem normal. E era para isso que ele havia se mudado para Romênia, alugado um apartamento e se instalado ali. Desde a queda da HIDRA, e de tudo que aconteceu em Washington, ele havia mudado. Havia se libertado, decidido não se deixar controlar mais e lutaria contra isso custasse o que fosse.
Em Washington, Bucky leu sobre ele em um museu. Leu sobre uma parte de seu passado, sobre sua morte heroica na guerra e sobre Steve Rogers. Seu melhor amigo, sua única referência ainda viva e quem ele quase matou dois anos atrás. Tudo aquilo causou um grande estranhamento, uma confusão mental muito grande e um desgaste emocional que ele não queria ter naquele momento. E foi, por isso, que ele decidiu ficar longe de lá, daquele museu, daquele país. Aos poucos, Bucky começou a pesquisar mais sobre si mesmo. Mas logo ele se deparou com todas as coisas horríveis que fez, das quais não precisava relembrar, reviver. Ele passou então a pesquisar por Steve. E, a cada dia desde que chegou à Romênia e decidiu encontrar as peças que faltavam em sua memória, ele se lembrava de algo novo. Um detalhe, uma fala, um nome, um rosto, um evento, um cheiro, um sorriso, um choro. Aquilo era bom, era reconfortante. Bucky começou a anotar tudo em pequenos cadernos. Tinha esperança de que, algum dia, pudesse juntar todas as partes. E, mais do que isso, tinha medo de esquecer tudo de novo qualquer hora. Seus cadernos eram destinados a memórias antigas, mas ele sempre guardava um espaço para memórias novas, presentes e futuras, que ele pudesse construir. Ele tinha esperança de preencher aquele espaço algum dia.
Bucky se levantou as sete horas da manhã, tomou um banho demorado, que certamente acabaria com a água quente de seus vizinhos pela próxima hora, e comeu um cereal qualquer de café da manhã. Apesar de não ter dormido a noite, se sentia disposto. Bendito soro. Ele vestiu sua calça jeans velha, já surrada, um tênis qualquer que tinha ganhado de doação de seu vizinho e uma camiseta de manga curta. Queria poder sair assim na rua, mas não podia. Ele colocou então uma camiseta de mangas compridas, sua jaqueta grossa e luvas. Achava melhor esconder de todo jeito possível para evitar que qualquer traço de seu braço de metal aparecesse. Não queria ser reconhecido e não queria assustar as pessoas. Não mais. Assim como em todas as manhãs, ele saiu para caminhar na rua. Gostava de observar as pessoas e era o único jeito de conseguir conversar com alguém, eventualmente. Bucky ajeitou seu boné preto assim que chegou ao final da escada no térreo do prédio e saiu rua afora.
O dia parecia levemente frio, talvez por estar nublado e meio cinzento. Como já passava das nove da manhã, os comércios estavam abertos e com pessoas indo de um lado a outro. Bucky fez sua caminhada rotineira até o pequeno centro comercial. Viver de cereal, barras de chocolate e refrigerante não era o ideal, ele sabia. Tinha que se esforçar para comer melhor e para cozinhar. Talvez comer frutas fosse um bom começo e, por isso, todos os dias ele ia até o mesmo mercado em busca de algo saudável. Bucky caminhou entre as barracas do mercado, parando as vezes para conversar algo com algum dos vendedores que já conhecia ou para dar uma olhada nas frutas. Mas, foram as ameixas, da barraquinha perto da saída do mercado, de frente com a rua, que chamaram atenção. Ele não sabia como era o gosto, qual era a textura e a sensação de comer ameixas. Ele queria tentar.
Bucky foi até lá e começou a escolher as ameixas, conversando casualmente com o vendedor. Satisfeito, decidiu voltar para casa, passando novamente pelo pequeno centro comercial. Dias como aquele lembravam Bucky de que ele era humano; de que podia ter uma vida normal de novo e de que, com paciência e tempo, podia recontar sua história. Contudo, era cedo demais para pensar nessa possibilidade.
Parado na calçada e esperando o sinal para poder atravessar Bucky reparou, de relance, que o vendedor de jornais do outro lado da rua o estava encarando de um jeito estranho. Ele voltou seu olhar até ele que, assustado, levantou-se de onde estava sentado. Bucky franziu a testa e decidiu ir até lá, para saber o que estava acontecendo. Conforme se aproximava, o homem correu, sem sequer olhar para trás. E foi, então, que Bucky viu, pegando um jornal qualquer em cima da bancada, que aparentemente ele tinha cometido um atentado em Viena. Sentiu seu corpo formigar e seu coração palpitar. Quanto tempo demorariam até o encontrar ali? Ele precisava fazer alguma coisa, tinha que pensar rápido. Institivamente, partiu apressado para seu apartamento. Precisava pegar sua mochila, já pronta, e fugir. Não poderia ser pego e nem preso. Ninguém iria ouvi-lo, ninguém tentaria investigar ou entender que não foi ele, que ele sequer tinha ido a Viena. Seria mais da violência e dos abusos de sempre. Ele não aguentava mais ser machucado e, embora não quisesse mais fugir, era sempre a mesma opção.
Há alguns metros dali, apoiada no parapeito da cobertura do prédio a frente, viu o homem com a descrição exata de Barnes entrar apressado no prédio em que Steve estava. Ela soltou o ar pela boca com força. Sentiu uma onda de adrenalina subir pelo seu corpo e seu coração acelerou. Sam monitorava o outro lado do prédio de Barnes, na intenção de cobrir os lados que não podia ver, caso Bucky e Steve saíssem por lá ou, ao menos, para mapear possíveis entradas caso a situação se agravasse.

- Cap, acho que Barnes acabou de entrar no prédio. Parece que está carregando algo – comentou séria em seu ponto eletrônico.

- Confirmado, é ele. E carrega uma sacola com... ameixas, não se preocupem – Sam completou. Havia o visto caminhar com pressa do centro até o prédio e, com ajuda de seu equipamento, pode aproximar a sua visão para certificar-se de que aquele era mesmo quem estava procurando.

- Certo. Estou dentro do apartamento dele, se é que dá para chamar isso de apartamento – Steve respondeu e ficou em silêncio por algum tempo.

- Agentes da Força-Tarefa entrando no prédio, no térreo – falou observando os homens passaram fortemente armados por onde Barnes entrou um minuto antes.

- Quantos? – Steve perguntou, mexendo em um pequeno caderno de Bucky, em cima da geladeira.

- Vinte. Ou mais – respondeu prontamente.

- E mais oito carros se aproximando a leste – Sam falou, sobrevoando acima de um prédio vizinho, observando os carros correrem pelo outro lado da rua que não podia ver.

Steve não os respondeu mais e, pelos minutos que se seguiram, tudo o que podiam ouvir era Sam atualizá-los sobre os movimentos da Força-Tarefa e Steve conversar com Barnes. olhava para a janela do prédio a frente, onde Steve já estava frente a frente com Bucky. Sentia-se aflita, assim como Sam. Steve começou a fazer perguntas sobre Washington e contar, sem detalhes, que Bucky estava sendo procurado. Não pareciam perto o suficiente um do outro, pois não se podia ouvir o que Bucky respondia. A chegada dos agentes da força-tarefa estava acontecendo antes do que haviam previsto e, dali em diante, nenhum dos três sabia direito o que deveriam fazer ou como aquilo terminaria. Não havia plano para isso. Eles tinham estratégias para encontrar Bucky e, no máximo, tirá-lo de Bucareste em segurança. Não podiam ser presos e nem podiam perder Barnes, não fazia parte do programado. Dali em diante, para todos os envolvidos, a situação havia virado um jogo de soma zero. Tudo ou nada.
manteve-se parada no topo do prédio vizinho ao de Barnes, observando toda a movimentação dos agentes da Força-Tarefa acontecer. Não tinha muito o que fazer, precisava esperar pelas ordens de Steve para agir. Não colocaria tudo em risco. Ninguém falava mais nada pelo comunicador e, por isso, nenhum deles sabia o que o outro estava fazendo. Podiam imaginar, contudo, que Steve estava passando por uma pancadaria, a tirar pelos sons de tiros e pelas exclamações do homem que podiam ser ouvidas pelo comunicador. Sam seguiu sobrevoando a área, com discrição para não chamar atenção dos agentes.
Contudo, em questão de segundos, a situação mudou quando Bucky jogou sua mochila da sacada de seu apartamento para o topo do prédio onde estava. Ela correu até a mochila e deu uma olhada rápida, por cima, na tentativa de identificar se havia algum perigo naquilo. Mas, antes mesmo que ela pudesse ter qualquer outra reação, a próxima coisa que veio do céu foi o próprio Barnes. O homem caiu poucos metros da mulher, no parapeito que antes ela se escorava. o acompanhava com o olhar completamente imóvel, parada ao lado da mochila dele. Ele girou o corpo algumas vezes no parapeito até ficar em pé e começou a correr na direção dela. ficou completamente paralisada por alguns segundos, vendo-o se aproximar dela. Era ele. Na sua frente. E pela primeira vez na vida ele estava ignorado ela. Quase 20 anos a perseguindo e quando finalmente ele conseguiu a encontrar pessoalmente, ele não a reconhecia? Talvez todas as teses de sobre Bucky estivessem corretas.
Bucky correu até chegar relativamente perto da mulher parada a sua frente. Ela o encarava com uma expressão apática, concentrada. Estava exatamente ao lado de sua mochila e ele não conseguiu entender o que estava acontecendo ali. Quem era ela e o que ela fazia? Não parecia perigosa, ela não estava reagindo a presença dele. Talvez fosse só alguém que estivesse casualmente no topo do prédio enquanto tudo aquilo acontecia. Mas casualidades nunca foram comuns na vida de Barnes. Ele estava quase chegando perto de sua mochila para pegá-la quando outra pessoa apareceu em cena, de algum lugar que nenhum deles sabia dizer, atingindo Barnes por cima, fazendo-o parar de correr e cair no chão brutalmente.

- Caralho – murmurou, chamando atenção de Steve e Sam pelo comunicador.

Steve já tinha chegado até o lugar de onde Bucky pulou em seu prédio, observando-o lutar com alguém novo. Não podia reconhecer o que ou quem era aquilo, mas pela reação de entendeu que as coisas tinham acabado de se complicar – ainda mais. Viu começar a correr na direção deles e se jogar em cima da figura que parecia querer arranhar Bucky. Steve respirou fundo, olhando rapidamente suas possibilidades de ataque.

- Sam, cobertura sudoeste – Ele pediu observando Sam aparecer em seu campo de visão no céu.

- Quem é esse outro cara? – Sam perguntou intrigado, aproximando sua visão ao topo do prédio, onde a luta acontecia.

- Eu já vou descobrir – Steve respondeu dando alguns passos para trás, para tomar impulso, e pulou no prédio vizinho, assim como Bucky havia feito há pouco.

havia corrido até onde T’Challa tentava acertar Bucky, que se protegia com uma barra de ferro. Ela pegou o homem pelos braços com as duas mãos, montou em suas costas, e o puxou para trás com força, o tirando de cima de Barnes. Antes que ele pudesse reagir, pisou com força na parte de trás de um de seus joelhos e deu uma cotovelada entre seu rosto e pescoço, fazendo-o se desequilibrar e cair ajoelhado no chão. Rapidamente, ela desceu de cima dele e tentou acertar outro chute no homem, que pegou seu tornozelo no ar. Sem desistir, pegou impulso com a outra perna e pulou, acertando seu calcanhar no rosto do homem, que cambaleou novamente para trás, soltando-a. Ela caiu de frente para ele, agachada no chão. Eles se encaram por alguns segundos até T’Challa tentar alcançar uma de suas pernas novamente. conseguiu desviar, mas o homem conseguiu arranhá-la na coxa direita, rasgando sua calça. Ela gemeu baixo e o chutou com força três vezes seguidas no meio do peito, fazendo-o cair para trás sentado, um pouco mais distante de Barnes do que antes. Steve, que tinha acabado de pular de um prédio para outro, corria na direção deles.
Um helicóptero da Força-Tarefa apareceu quase ao mesmo tempo que Steve. Dentro dele, um agente apontava uma metralhadora para a cobertura do prédio e, sem mesmo esperar um comendo, começou a atirar, para qualquer lado e de qualquer jeito. deu uma rápida olhada em Bucky, que estava pouco atrás dela, encostado no vão de uma parede do edifício. Ele retribuiu o olhar assustado e surpreso, enquanto levantava-se. bateu rapidamente um tornozelo no outro, ativando sua tornozeleira e, em menos de um minuto, um macacão preto, prata e verde escuro, feito com fibra de vibranium, tomou conta de todo seu corpo, por cima da roupa que vestia. Espalhado pelo macacão tinham finas e discretas linhas que desenhavam algo que pareciam flores e folhas. Embora feita de vibranium, sua roupa era leve, aderente ao corpo e ao movimento. Conforme o helicóptero sobrevoava girando por cima deles e seu macacão se fechava perfeitamente em seu corpo, virava-se em direção ao principal alvo: Bucky.
A mulher deu uma rasteira rápida e precisa nele, fazendo-o cair sentado no chão mais uma vez, e curvou-se por cima dele, apoiando suas mãos na parede onde ele estava encostado, como um casulo, o protegendo. Conforme o helicóptero se aproximava, a chuva de balas finalmente começou a cair, os atingindo. As balas batiam com força nas costas de que, protegida pelo metal mais resistente da Terra, não se movia. Ela abaixou a cabeça e a tentou proteger com os braços. Naquele momento entendeu porque Shuri tinha insistido em fazer um capacete como parte de seu traje. Talvez ela tivesse razão. Steve parou por um segundo para analisar a posição do helicóptero. parecia segurar Bucky protegido por algum tempo, mas tinha que os tirar logo dali de alguma forma segura, antes que os agentes da Força-Tarefa subissem no edifício. O homem novo também parou por um instante. Analisava se deveria dar um jeito no helicóptero primeiro ou pegar Barnes.

- Sam – Steve comentou meio sem fôlego, notando as balas do atirador baterem e sequer moverem as roupas tanto de quanto do homem novo que, naquele momento, ele já tinha um palpite de quem era.

- Pode deixar – Sam respondeu aparecendo na vista deles, atingindo a calda do helicóptero com os dois pés, em um impulso.

O helicóptero deu um giro em 360 graus e desviou seu curso, forçando o atirador a cessar fogo. Sam acabou desviando seu voo para a rua abaixo, com a força do impulso, saindo de novo da vista de seus amigos. observou por cima do ombro T’Challa se aproximar dela e, antes que ele pudesse a atingir, ela olhou Bucky.

- Corre – sussurrou para ele e o empurrou levemente com o pé esquerdo, indicando-o para sair pela direita, lado oposto ao que T’Challa se aproximava.

T’Challa a acertou na cintura em cheio, fisgando-a para o lado, ao exato mesmo tempo em que Barnes levantou-se e correu. Ele pegou sua mochila, a colocou nas costas com rapidez e continuou a correr até o outro lado do prédio, de onde se jogou até o chão. caiu deitada, com T’Challa por cima. Sequer teve tempo de lutar contra ele, pois Steve se jogou em cima de T’Challa, atingindo-o com força e para longe da mulher. Ela se levantou apressadamente e foi para o mesmo sentido em que Bucky tinha acabado de ir, parando por alguns instantes no parapeito, enquanto olhava para baixo. Do chão, Bucky levantou seu olhar até ela. respirou fundo e se jogou também, de braços abertos e em queda livre, dando uma cambalhota no ar e caindo agachada no chão. T’Challa vinha descendo logo atrás dela e Bucky voltou a correr em uma velocidade impressionante. correu também, indo atrás dele. Certamente não conseguiria alcançá-lo tão fácil, contudo, ao menos, atrapalharia T’Challa nesse processo. Steve pulou do prédio para o chão ao tempo de ver para onde todos corriam e seguiu atrás. Sam, por sua vez, contornava o prédio voando até localizar Steve e segui-lo pelo ar.
Bucky correu até chegar diante de um viaduto. Estava desesperado para escapar e com medo de não conseguir. Sem ter mais para onde ir, ele decidiu pular mais uma vez, até a via principal abaixo. Bucky caiu em pé no chão, em meio a avenida principal da cidade, por onde dezenas de carros passavam apressados. Ele cambaleou de um lado a outro e correu em um sentido aleatório que, por sorte, seria para a saída da cidade. Segundos depois, também se jogou. Contudo, diferente do homem que perseguia, um carro a acertou em cheio nas costas, impulsionando-a para frente com uma força brutal. foi jogada por cima de alguns outros veículos até colidir de frente com uma coluna de ferro, batendo a lateral de seu rosto com força. Com o impacto, seu corpo voltou alguns metros para trás até bater em outra coisa. Steve e Sam perguntavam por ela e se estava bem, mas não conseguia responder, estava atordoada.
Barnes olhou para trás ao ouvir o barulho alto de freios e, antes mesmo que pudesse entender o que acontecia, caiu de costas no chão com brutalidade, com alguém deitado em cima dele, igualmente de costas. olhou de relance por sob seu ombro esquerdo, vendo que, acidentalmente, conseguiu parar Bucky. Mas antes que pudesse pensar em fazer algo para sair daquela posição, ele segurou o rosto dela com a mão direita, pressionando-o contra seu próprio corpo, como se a afundasse em seu peito. Bucky notou que o rosto dela sangrava, provavelmente pela pancada que levou. colocou sua mão em cima da de Barnes, tentando fazer com que ele parasse de forçar seu rosto para baixo, mas ele escorregou sua mão em uma fração de segundo e passou a apertar o pescoço dela com o braço, como se a enforcasse.

- Nós não vamos te machucar. Queremos te ajudar - tentou falar, respirando fundo. Tentava tirar o braço do homem de seu pescoço com as duas mãos.

- Foi o que sempre me disseram. E olha só onde estamos - Bucky respondeu baixo, sombriamente, apertando um pouco mais seu braço no pescoço da mulher deitada sob ele.

- Nós não somos como eles, Bucky - A mulher respondeu, tentando se soltar e sentindo sua respiração falhar. Precisava respirar.

- Quem é você? - Ele questionou furioso. Porque ela sabia seu nome?

Antes de responder qualquer outra coisa, T'Challa surgiu na visão já turva de , por cima dela. Ele não deixaria Barnes machucar ela também e não lutaria contra ela naquela situação. Mas , sem pensar duas vezes, enroscou suas pernas nas de T’Challa, fazendo-o cair sentado no chão. E, aproveitando o susto de Barnes por ter T’Challa por perto, a mulher deu uma cotovelada forte na lateral do corpo de Bucky, fazendo-o gemer de dor e a soltar. T’Challa se levantou e a puxou consigo, com certa violência, pelo braço direito.

- ! O que você está fazendo aqui? - T'Challa perguntou, olhando se afastar rapidamente dele e se manter na frente de Bucky, agora também em pé.

- Impedindo que você cometa um erro - Ela respondeu ríspida. Tinha as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo e os olhos cravados em T’Challa, como se o desafiasse.

- Erro? Você está lutando do lado errado – T’Challa rebateu rápido. Sua voz era carregada de mágoa.

Bucky tentou aproveitar o momento para se virar e correr dali, mas foi mais rápida e o segurou pelo pulso, puxando-o de volta com um lapso de força que nem ela mesma sabia de onde tinha vindo. Ele tentou tirar seu braço dela, mas a mulher o torceu para o lado. T'Challa foi até eles, pronto para machucar Barnes, mas o chutou na barriga antes que pudesse atingir ela ou Bucky. T'Challa cambaleou para trás e logo avançou novamente, dando um soco em , acertando-a na bochecha que já estava machucada pela pancada que deu na coluna de ferro. Ele não queria machucá-la. era parte importante de sua vida, daria a vida por ela sem sequer pensar duas vezes. Mas ela era mais forte do que ele em muitas coisas, tinha sido treinada para ser e sabia se defender. E ela tinha feito sua escolha. Poderia e sabia como impedi-lo de seguir com a sua. A mulher foi para trás com a força do soco, encostando seu corpo de costas no de Bucky, mais uma vez. T'Challa avançou novamente, chutando na costela, que se mantinha no meio dele e de Bucky. Os dois foram sendo empurrados para trás pelos chutes de T’Challa em até que pararam encostados em uma parede.

- Saia daí , você sabe o que ele fez - T'Challa praticamente rugiu, dando um passo mais próximo deles.

- Não foi ele. Ele nem esteve em Viena - respondeu com convicção. A essa altura, seus pais já deveriam ter a certeza de que não tinha sido Barnes. Se fosse, certamente a teriam avisado.

Bucky sentiu seu coração parar de bater por um instante. Ela sabia que não tinha sido ele. Como sabia? Por que? Talvez, e só talvez, ela estivesse sendo honesta com ele. Ela estava ali para ajudar? Porque estaria se machucando para defendê-lo? Porque o estava defendendo? Bucky estava confuso, inseguro, queria sair dali, queria fugir para longe de todos eles, de tudo aquilo. T'Challa nunca foi de muita conversa. Era um homem prático, objetivo e focado em suas metas. Ele olhou rapidamente e com um suspiro pesado, fechou sua mão em um punho rápido e pesado na direção do rosto de sua amiga. Bucky passou seu braço pela cintura de , em um movimento que durou milésimos de segundo, e a puxou para o lado com força, derrubando-a no chão e parando o soco de T'Challa no ar, com sua mão de metal, antes que pudesse encostar nela. Ele virou o braço de T'Challa para o lado e o acertou no rosto algumas vezes, fazendo-o se afastar dele. Bucky então virou-se para a mulher que já voltava para perto dele e a derrubou no chão, mais uma vez, com precisão. Ela era insistente, ele reparou. o olhou exausta. Seu rosto latejando de dor, ainda sagrando.

- Fique longe de mim – Bucky mandou, sério, olhando a mulher jogada no chão uma última vez antes de voltar a correr pelo túnel em meio aos carros.

Steve, e Sam mais a trás, finalmente apareceram e vieram correndo até que bufou exausta, levantou-se sozinha e sinalizou que estava bem, mandando-os voltar a correr atrás de Bucky. Os carros da força-tarefa começaram a aparecer no túnel atrás deles. Steve continuou correndo mais à frente da mulher e Sam ficou para trás, tentando segurar ou, ao menos, atrasar T'Challa, que logo voltou a perseguição. viu Bucky subir em uma moto estradeira e Steve roubar um carro no meio do caminho. Ela, contudo, não tinha tantas habilidades que pudessem a ajudar nesse momento. Não conseguiria roubar um carro em movimento ou correr rápido o suficiente para alcançá-los. Então fez o que seria mais racional para ela fazer diante daquilo: observou o chão a sua frente por um instante, sentindo a vibração do solo abaixo do asfalto. Em questão de segundos, uma raiz de árvore gigante, que passava exatamente por baixo de onde estava, quebrou o asfalto com violência e inundou a avenida como uma onda, parando há um poucos quilómetros de onde ela estava e formando uma barreira do solo até o teto. Os carros começaram a bater, pararam e que não poderiam mais seguir viagem dali para frente. Sabia que aquilo traria mais problemas públicos para ela, mas ao menos garantiria que: (i) ninguém mais fosse se machucar, (ii) conseguiria um carro (iii) atrasaria os carros da Força-Tarefa que os perseguiam. Naquela altura, já era buscada pelos serviços de segurança. Um motivo a mais não faria diferença. Não para ela, pelo menos.
Assim que a raiz parou de crescer, olhou para o lado, vendo um homem de terno de dentro de um Porsche a olhar estarrecido. Ela foi até ele, abriu a porta do carro com força e sorriu docemente.

- Você tem 2 segundos para sair do carro antes que eu tire você a força – Ela falou o encarando.

O homem nem a deixou terminar de falar e saiu correndo do carro sem olhar para trás. Pelo comunicador, Sam murmurou um “quanta gentileza”. deu de ombros, entrou no carro e acelerou em direção aos dois super soldados. Não podia ter pegado emprestado um carro melhor, pois em poucos minutos já estava perto o suficiente deles novamente, assim como T'Challa que, de algum modo, estava em cima do carro que Steve dirigia.

- Sam, se livra desse cara - Steve pediu, seus olhos fixos em seu amigo pouco à frente.

- Estou tentando - Sam respondeu, desviando no ar de algumas vigas no teto no viaduto.

- Então tenta mais, passarinho - completou, tirando seu carro de um obstáculo que ela mesma havia criado e o pareando ao lado do de Steve.

- A fada não pode jogar uns poderes da floresta nele? - Sam perguntou, aproximando-se de T'Challa, pronto para atacá-lo.

- Não. Eu quero o Barnes - Ela rebateu séria e concentrada.

A verdade é que não poderia fazer qualquer coisa contra T’Challa. Ela devia muito a ele e a sua família, não podia machucá-lo e não seria justo usar seus poderes contra ele. Em seus anos em Wakanda aprendeu sobre a luta justa, limpa, equânime. Se eles não podiam lutar em pé de igualdade, então seria melhor que não lutassem. Corpo a corpo era uma situação, ambos podiam bater e se defender. Usar seus poderes contra ele, não. Nunca.

- Falando desse jeito, Barnes pode até se apaixonar por você - Sam respondeu, jogando-se em cima de T'Challa, que o chutou para trás.

- Está com ciúmes, pardalzinho? – perguntou divertida, ouvindo Sam responder alguns palavrões para ela.

O Pantera passou a escalar o teto do carro de Steve. Bucky passava pelo final do túnel e jogou uma pequena bomba no arco de saída dele. Vendo que parte da estrutura iria desabar e que ficariam presos no túnel, T’Challa pulou do carro de Steve em direção a moto de Bucky, conseguindo furar seu pneu traseiro. Bucky tentou segurar a moto, mas ela caiu no chão, rastejando pelo asfalto. Ele então abandonou a moto e voltou a correr. Steve e se entreolharam rapidamente, como se tivessem tido uma ideia. Passar com o carro pela saída do túnel desabando não daria certo, mas de repente correndo era uma opção. Cada um deles então abriu a porta de seu respectivo automóvel e girou o volante, fazendo os dois automóveis capotarem ao mesmo tempo e na mesma direção da moto de Barnes. Assim como ele, e Steve deixam os carros antes que pudessem capotar e saíram correndo atrás de Bucky. Sam vinha voando atrás e T'Challa deu um salto em direção a Barnes, o acertando em cheio e o derrubando no chão. Suas garras estavam prestes a ir na direção de Bucky, mas Steve deu um impulso com seu corpo e conseguiu agarrar T’Challa pela cintura com força, o derrubando para longe. chegou dois segundos depois e puxou Bucky do chão pelo braço. Ele a encarou de frente por alguns instantes, enquanto se levantava. Tinha a expressão séria e a testa franzida. Ele parecia com medo, estava nitidamente assustado e perdido. Ela parecia preocupada e cansada. Estava machucada e seu olhar vazio.
Sem que pudessem correr mais, dezenas de carros da Força-Tarefa os cercaram e, em instantes, vários homens armados desceram apressados, apontando suas armas para eles, fazendo-os, todos, parar. e Steve colocaram-se na frente de Bucky, lado a lado, como se o protegessem. Rhodes surgiu no céu, com sua armadura, e pousou no chão a frente deles, ordenando que parassem imediatamente e colocassem as mãos para o alto. Encurralados, todos obedeceram. Um agente pegou o antebraço de com força e a virou para trás, deixando-a de frente com Bucky, que a olhou ainda mais assustado. O agente torceu o braço dela para trás de seu corpo, fazendo o mesmo com o outro braço, e a algemou.

- Vai ficar tudo bem - sussurrou para Bucky, antes de alguns homens se aproximarem dele.

Bucky não respondeu nada, apenas olhou assustado dela para Steve, os condenando por, mais uma vez, ser capturado e preso. Ele estava bem, estava tentando recomeçar, talvez seria feliz ali. Estava livre. Estava se lembrando de quem era. E, como se não pudesse ter nada daquilo, perdeu mais uma vez. Bucky estava muito nervoso por dentro. Sentia raiva e medo. Não sabia o que esperar, mas sabia que não seria bom. E como poderia ser, depois de tantos anos sendo um assassino? Sentiu vergonha de si mesmo, de um dia ter achado que poderia encontrar paz e um recomeço. Não há recomeços para pessoas como ele, só há a mesma história, o mesmo inferno, sem fim. Bucky mal se deu conta quando um dos guardas o acertou na parte de trás dos joelhos, o fazendo cair no asfalto de cara. Ouviu a mulher que antes falava com ele gritar um "ei, seu imbecil" para o agente que o derrubou e antes que pudesse levantar seu olhar até ela, um dos homens segurou sua cabeça para que olhasse apenas para o chão. Bucky estava ali. Mais uma vez sendo machucado, sendo tratado com violência e sendo desconsiderado como ser humano.
E se sentia péssima, por tudo. Por estar contra T’Challa, pela primeira vez na vida, por não poder contar a ele toda a verdade, por não ter dito o que acontecia antes. Ele talvez não entendesse seus motivos, poderia se sentir usado todos esses anos em que ela usou da tecnologia e dos acessos de Wakanda para procurar por seus pais. Ele sabia que ela sofria por não saber de seu passado, por não entender seus poderes. Sabia que ela buscava por peças que a fizessem entender, que ela passou anos estudando a si mesma em seu laboratório e que seus pais adotivos moviam mundos para ajudá-la nesse processo. Mas ele a entenderia? Ele entenderia que tinha motivos para mentir porque precisava encontrar a HIDRA? Porque precisava do Soldado Invernal?
Talvez ela estivesse mais se poupando todos esses anos do que estava poupando T’Challa dos perigos da HIDRA e de ficar contra ela ou contra seu próprio pai. Mas já era tarde demais. E não havia tempo para pensar nisso agora. havia encontrado Bucky, havia encontrado a última peça do quebra-cabeças, e havia dito a ele que poderia ajudá-lo. Agora tinha que ir até o fim e tinha que cumprir sua promessa. Sam pousou e caminhou para perto dela, com as mãos levantadas para o alto, mas logo algemado. Steve virou-se para Rhodes, que agora no chão, o parabenizava por ser um criminoso. Criminoso. queria rir diante daquela hipocrisia. T'Challa fez as garras de sua roupa voltarem a se esconder e destravou seu capacete. olhou curiosa para ele enquanto o via revelar sua identidade. Steve franziu o cenho olhando para o novo rei e depois para , que deu de ombros. Rhodes, babaca, tão surpreso quanto os demais, cumprimentou a alteza e deu alguns comandos para que os agentes seguissem o plano de contenção.
Steve e Sam foram obrigados a trocar de roupa e ativou sua tornozeleira novamente para desfazer seu macacão e a entregou aos agentes. Tudo foi retido, eles permaneceram algemados e aguardavam, distantes um do outro, a vinda de um veículo especial que os levariam presos até Berlim. Bucky foi colocado em uma espécie de jaula quadrada de vidro temperado, resistente. Ele foi sentado à força no interior do cubo, com os pulsos e os tornozelos presos em algemas de metal. Ele não resistiu, não falou uma só palavra e fez tudo que forçavam ele a fazer. Sua mochila foi retida junto com os equipamentos dos demais. , Steve e Sam acompanhavam com os olhos, em silêncio, toda a movimentação acontecer. Sam estava receoso, não esperava por aquilo. Steve sentia-se frustrado. Tinha perdido mais uma vez e temia o que fariam com Bucky dali em diante. , por outro lado, se sentia ansiosa. Não tinha certeza se levariam Barnes para o mesmo lugar que eles. Temia perdê-lo de vista mais uma vez.
Dois veículos de segurança máxima da Força-Tarefa se aproximaram rapidamente, parando em instantes e destravando as portas. Eles não seriam transportados juntos. E isso já era um problema. , em pé e com as mãos algemadas sob seu colo, observou a jaula com Bucky dentro ser movida para perto de um dos veículos, provavelmente que o transportaria, enquanto Sam e Steve eram empurrados para o outro carro. Rhodes passou caminhando por ela em direção aos veículos.

- Eu quero ir com Barnes - falou para Rhodes, que parou de andar e virou-se com um sorriso irônico.

- Porque? É a advogada? – Ele rebateu.

- Você é sempre um otário ou só quando acha que está no comando de alguma coisa? - perguntou calmamente, o olhando com desdém. Steve e Sam olharam para ela.

- Senhorita Lamarck, eu sugiro que entre naquele carro e siga quieta até Berlim junto com seus outros amigos criminosos. Do contrário, temos ordens para te sedar - Rhodes respondeu tentando ser ameaçador, mas tombou a cabeça para o lado, o encarando com ironia.

- Isso é uma ameaça? – Ela sorriu.

- Não, é um aviso amigável. Mas pode ser uma ameaça se preferir – Rhodes assentiu fracamente com a cabeça para dois agentes que estavam atrás de e um deles a pegou com força pelo braço, a empurrando no sentido do veículo que deveria ir.

Ela suspirou cansada e olhou para o chão por um segundo, enquanto caminhava forçadamente até o carro. No instante seguinte, o homem que a puxava a empurrou para dentro do carro, forçando-a a se sentar no último banco. A sua frente estava Sam, no banco seguinte, a frente, Steve e depois, na sequência, T’Challa. Havia grades os separando dentro do veículo e estavam em bancos intercalados. recostou-se no assento, voltou seu olhar para Rhodes lá fora uma vez mais e falou alto o suficiente para ele ouvir antes que o agente fechasse sua porta:

- Deveria ter me sedado. Você pode se arrepender de ter perdido a oportunidade.


- Capítulo 6 -

Bucareste, Romênia
Berlim, Alemanha


Rhodes achou que, de fato, havia grandes chances de se arrepender. Ele, então, achou melhor ouvir o conselho afrontoso de e a sedar. Diferente de Sam e Steve, algemas não eram o suficiente para pará-la. era uma ameaça iminente, tinha poderes que, até então, nenhum deles sabia direito como funcionavam. Se em um piscar de olhos ela poderia destruir todo o país, imagina o que não faria com o comboio da Força-Tarefa, para libertar seus amigos e soltar Barnes. Homens com armas não seriam o suficiente para pará-la e confiar em seu bom senso não era uma opção: não quando não a conheciam o suficiente para prever suas atitudes. E, tendo Steve e Sam como aliados, certamente já tinham algo em mente para escapar dali. Nada daquilo estaria acontecendo se eles tivessem assinado o Acordo ou cumprido suas regras. Por isso, Rhodes não sentia qualquer remorso ou culpa em fazer nada daquilo. Estava ali para cumprir seu trabalho. E o estava fazendo com seriedade.
Pouco mais à frente de onde Rhodes entregava o sedativo a um agente, Bucky observava a movimentação com completa apatia, enquanto sua cela era acoplada ao carro que o transportaria. De onde estava, ele pode ver uma dúzia de agentes cercarem o outro veículo, onde os demais presos estavam. Um dos agentes se aproximou deles com uma seringa em mãos e aplicou em alguém que Bucky não pode identificar. Os agentes então se afastaram e esperaram, em formação, olhando para dentro do veículo. Alguns instantes depois, Bucky viu a mulher que o perseguiu mais cedo cair para fora do carro, de joelhos no chão. Ela mantinha a cabeça baixa, gritava tão alto de dor que ele podia ouvir, mesmo dentro da cela de vidro, e segurava o asfalto abaixo de si com força, como se dependesse daquilo para viver. Depois de algum tempo ela levantou seu olhar para o agente que injetou o sedativo nela e apertou os olhos, focando na seringa que ele segurava. Bucky pode notar que alguma coisa chamou sua atenção e que, em seguida, ela voltou seu olhar para dentro do veículo que antes estava.
T’Challa devolveu o olhar para ela por um instante, mas logo desviou para o chão do carro. Estava envergonhado. Lágrimas escorriam pelo rosto de e ela não conseguiu sustentar muito tempo seu olhar em T’Challa. Ela não estava entendo o que tinham feito com ela. Tirando seus pais, que claramente não esconderiam a existência de um sedativo que a enfraquecesse, só havia uma outra possibilidade no mundo, e que foi confirmada pelo símbolo de Wakanda na seringa que o agente da Força-Tarefa segurava. T’Challa também tinha seus segredos, pelo visto. Há quanto tempo ele tinha aquilo em mãos? Porque tinha criado um soro que a derrubasse, que a fizesse perder seus sentidos? Ele temia que ela perdesse o controle e destruísse seu país? Ou aquilo foi criado para usar contra ela caso tivesse aceitado a supervisão e desacatasse as ordens? não conseguia raciocinar direito, se sentia torturada, tamanha era a dor. Era como que a estivessem queimando por dentro, aos poucos. Ela abaixou seu olhar para o chão novamente. Tentou se concentrar na natureza ao seu redor mas não podia sentir nada. Só dor.
Steve e Sam saíram do carro assim que ela caiu para fora, mas foram impedidos de chegar perto dela pelos agentes. Bucky travou uma expressão séria e se remexeu em sua cadeira. Aquilo parecia injusto. Ela não tinha reagido a prisão, porque estavam fazendo isso com ela? E como se tivessem ouvido sua pergunta, ele viu a mulher estender a mão esquerda, como se pedisse ajuda, em um último suspiro de força que parecia ter. Instantaneamente dezenas de galhos pontudos e com espinhos partiram do asfalto em direção aos agentes, formando um meio círculo ao redor dela, impedindo-os de se aproximarem. Os galhos, contudo, não cresceram mais do que meio metro, perderam a força no caminho. A mulher continuou gritando e se contorcendo por algum tempo até, finalmente, desmaiar. Naquela altura de sua vida nada mais parecia estranho para Bucky. Mas nunca tinha visto alguém controlar a natureza.
Os agentes esperaram por mais alguns instantes para ter certeza de que estava completamente apagada e a tiraram do chão. Bucky viu Steve se exaltar com Rhodes e discutirem violentamente até ele ser, novamente, levado a força para o carro. Igualmente, foi colocada dentro do carro de novo, no mesmo lugar de antes, sentada. Permaneceu desacordada, como se dormisse profundamente, e algum dos agentes a tirou das algemas, depois de Steve pedir insistentemente. Bucky não conseguiu ver mais nada em seguida, pois sua cela já estava dentro do veículo e a porta fora completamente fechada. Agora seria esperar pacientemente até chegar seja lá onde estavam o levando. E torcer para que não o matassem.
O caminho inteiro até chegarem em Berlim foi em completo silêncio. Steve e Sam estavam furiosos pelo o que tinham feito à e, mais ainda, por não poderem fazer nada para ajudá-la. Não era o tratamento que esperavam ter, ainda mais de pessoas que eles conheciam, que conviviam cotidianamente. Estavam tão imersos em seus próprios pensamentos e sentimentos que nenhum deles disse sequer uma palavra no caminho. Eles estavam preocupados com o que aconteceria a seguir. Não sabiam o que aconteceria com ou quando ela acordaria e sem ela estavam mais fracos. Além disso, eles temiam ser presos e temiam que Bucky fosse executado por tudo que fez ao longo da vida. Olhando o caminho passar pela janela, Steve se lembrou da vez em que Bucky o salvou de algum idiota que o agredia num beco qualquer de Nova Iorque. Ele tinha 16 anos, estava ansioso para entrar na guerra. Naquela época se sentia triste, inútil, fraco e solitário. Não tinha mais seus pais, não tinha ninguém da família. Mas sempre teve Bucky. Se lembra de como ele se esforçava para vê-lo feliz e de como o protegia de tudo e qualquer coisa que tentasse machucar Steve. Aquela era a hora dele retribuir, de ser quem o salvava do idiota no beco. Fosse o que fosse, Steve tinha uma missão.
No banco a frente, T’Challa estava impaciente e ainda envergonhado. Sabia que tinha jogado sujo com . Ele deu o sedativo, feito anos atrás, para a Força-Tarefa em Viena, antes de seguir sozinho para Romênia. Seu intuito era justamente o de parar caso ela se colocasse em seu caminho de uma forma que não pudessem lidar apenas lutando contra ela. Pediu aos agentes que só o utilizassem caso a situação ficasse realmente complicada e se fosse difícil lidar com . Não havia necessidade de a terem sedado naquelas circunstâncias, não estava nos planos de T’Challa e não era sua intenção que as coisas acontecessem daquela forma. estava cooperando com a força-tarefa e certamente não iria armar nada para sair dali. Ele sabia disso, conhecia ela. Teria ficado quieta o caminho todo, junto com Steve e Sam. Não reagiria a isso. Embora estivesse confuso e chateado com ela, não previu que nada fosse daquele jeito. Dois meses atrás ela sumiu do mapa. Abandonou Wakanda e a vida que tinha lá, sem deixar sinal. Seus pais passaram a evitar todo e qualquer contato deles, com intuito de a esconder. T’Challa sequer sabia que ela apareceria em Viena e não entendia o que ela estava fazendo ali, em Bucareste, protegendo o assassino mais procurado do século, o homem que tentou matá-la diversas vezes não fosse por ele e por T’Chaka terem feito o que fizeram para protegê-la. Nada fazia muito sentido para T’Challa.
Ele não sabia que o sedativo agiria da forma que agiu em sua amiga. Nunca tinha feito testes com ele e sequer sabia da existência daquela substância. Nem ela, nem seus pais. Por isso, quando T’Challa teve a ideia de compartilhar o líquido com a Força-Tarefa ele foi assertivo na ordem de que ninguém, a não ser Rhodes que comandava a missão, soubesse daquela alternativa. E que usassem apenas em . Qualquer pessoa, com uma quantidade muito menor daquilo, morreria em instantes. Mas era forte e resistente a venenos. Ela não morreria, não ficaria com sequelas e não deveria sequer ter sofrido. Ela só deveria ter desmaiado e seguido assim por algumas horas. Ela resistiu, lutou contra a paralisia e com a dor e certamente acordaria em breve. Ficaria tudo bem. Não ficaria?
T’Challa soltou um suspiro forte e voltou seu olhar para a janela ao seu lado. Ele sabia que não tinham feito aquela substância para essa finalidade. Não era um recurso de guerra contra . Mas não havia mais ao que ele recorrer. Ela não mudaria de ideia, estava jogando do lado errado e continuaria assim até não poder mais. T’Challa sabia disso, conhecia ela o suficiente para prever o que faria e como se sentiria. Mas, igualmente, ele estava decidido a vingar a morte de seu pai, custasse o que, ou quem, fosse. Se era um empecilho, se ela o atrapalharia em seus propósitos, ele também faria o mesmo com ela.

- Então você gosta de gatos? – Sam cortou o longo silêncio, olhando T’Challa pelas costas.

- Sam – Steve o repreendeu, olhando-o por sob os ombros.

- O que? O cara aparece vestido de gatinho e você não quer saber mais? – Sam questionou sério. Steve ficou em silêncio por um minuto e voltou-se para T’Challa.

- Sua roupa, é de vibranium? – Steve perguntou sério, olhando T’Challa. Por alguns instantes o carro voltou a ficar em completo silêncio, até T’Challa decidir responder. Sua voz era calma.

- O Pantera Negra tem sido o protetor de Wakanda há várias gerações. Um manto passado de guerreiro para guerreiro. E agora, porque seu amigo matou o meu pai, eu também visto o manto de rei. Eu pergunto, como guerreiro e rei, por quanto tempo acha que manterá seu amigo a salvo de mim?

Steve não disse nada. Voltou seu olhar para frente, com uma expressão séria. T’Challa estava decidido a matar Bucky, não havia conversa. E Steve estava decidido a proteger seu amigo. Igualmente, não havia conversa. E agora, diante do envolvimento de na história toda e das reações de T’Challa em relação a ela, havia mais um motivo para Steve não digerir muito bem tudo o que vinha do rei. Se tivesse que ser contra ele, seria. Não hesitaria mais e nem teria paciência para as diplomacias. T’Challa não queria conversar. Não queria resolver nada com conversas amigáveis. Queria vingar seu pai e, aparentemente, colocar de volta em seu lugar. Fosse como fosse, Steve não estava mais disposto a perder.
Quase 5 horas de viagem depois, no último banco do automóvel, acordou lentamente, meio atordoada. Como se o barulho e a luz do dia a tivessem incomodado, ela piscou algumas vezes e manteve-se por alguns bons minutos encostada no banco, olhando para o teto. Se sentia confusa, com frio e ainda fraca. Tentava encaixar as peças do que havia acontecido até ali, recuperar a memória recente. Ela olhou lentamente para a janela do carro. Ainda estava em um carro. Em seguida, olhou para as próprias palmas das mãos, como se visse se estava tudo bem com ela. então fechou os olhos por alguns instantes, tentando sentir, assim como antes de apagar completamente, qualquer indício de natureza ao seu redor. Podia senti-la, mas não forte o suficiente para controlá-la. Ela abriu os olhos novamente, sentindo o desespero tomar conta de si. Tinha perdido seus poderes? O que faria agora?
- ? Você está bem? – Sam perguntou curioso, notando que ela se mexia no banco de trás do dele. Steve virou-se imediatamente para olhá-la também e T’Challa levantou seu rosto, se mantendo de costas.

- Eu não posso mais... – começou a falar baixo, olhando assustada para Sam, mas T’Challa a cortou antes que pudesse concluiu seu raciocínio:

- Você pode. Não perdeu seus poderes, só estão...enfraquecidos. Devem voltar em breve.

- Porque você...? Por quê? – Ela perguntou incerta, desviando seu olhar para T’Challa, ainda de costas para ela. Steve e Sam acompanhavam os dois com o olhar.

- Wakanda nunca foi um país de refúgio. Nunca esteve às vistas do resto do mundo e nunca quis que assim o fosse. Quando você chegou, tudo mudou. Nunca tínhamos recebido ninguém de fora do país, nunca tínhamos lidado com nada...parecido. Você era criança, não sabíamos o que era aquilo que estava em você e como você reagiria a todo controle que tem. Nós não te conhecíamos e nem aos seus pais direito. Como poderíamos confiar em vocês?

- Eu era uma criança, T’Challa. O que achou que poderia fazer de ruim para seu país? Roubar vibranium? – perguntou baixo, sua voz carregada de mágoa e raiva.

- Não. Mas sempre pode controlar a erva coração. A podia multiplicar, fazer crescer ou morrer- - T’Challa respondeu, ainda sem a olhar de volta.

- E então o quê? A iria vender para algum contrabandista? Reivindicar o trono? Ou queimar todas elas? – questionou novamente.

- Não sabíamos. Você cresceria, tomaria consciência do poder que tem e do que poderia fazer com isso. Por mais que te ensinássemos e te treinássemos, não seria possível te controlar, te parar, caso quisesse fazer algo contra nós. Meu pai só queria mitigar os riscos. Quando você começou a crescer e a fitocinese ficar forte demais, meu pai teve medo de você perder o controle ou de atrair outras pessoas para Wakanda, para o vibranium e para a erva coração. Então ele pediu que fizessem um soro neutralizador e começou a desenhar o acordo de supervisão. Sempre que você saísse seria para um motivo justificado, com acompanhamento ao menos remoto. E se perdesse o controle total, teríamos como te...parar.

sentia seus olhos marejarem, tamanha era a raiva que estava sentindo. Aquilo tudo era uma mentira. Todos os anos de sua vida até então tinham sido...falsos? A vida inteira tinha sido tratada como alguém da família, não porque gostavam dela, mas sim para garantirem que ela não se tornasse uma traidora? Elas tinham medo dela, não confiavam. sentiu uma lágrima escorrer pela sua bochecha e logo a limpou com a mão. Estava se sentindo abandonada, sozinha. De novo. Não era melhor terem conversado com ela desde o começo? Quantas mentiras tiveram que inventar para que ela se sentisse parte daquilo tudo? sempre respeitou as regras de Wakanda, sempre seguiu seu trabalho com seriedade e respeito. Tinha disposição de aprender e se deixou ser treinada, educada, por eles. Porque não a respeitavam de volta? Pela primeira em sua vida se sentiu usada. Se sentiu como uma arma, uma bomba, guardada em segredo por um país, a toque de caixa para ser usada quando fosse preciso e cercada para que não explodisse sem consentimento oficial. Naquele momento desejou, por um instante, ter morrido no laboratório em sua casa, na França, junto com seus pais.

- Porque ficaram comigo? Podiam ter recusado. Karl e Everett dariam um jeito de me proteger – rebateu ainda com raiva. Steve e Sam seguiam os acompanhando em silêncio.

- Meu pai dizia que era melhor tê-la conosco. Você se adaptou bem a fitocinese e nós aprendemos sobre ela. Meu pai achava que você tinha dons e que Wakanda era um lugar para você. Enquanto estivesse conosco você poderia proteger a erva coração, poderia proteger a tradição. E quanto mais você aprendia sobre isso, menor era a necessidade de ter um neutralizador. Ele foi guardado.

- Escondido – corrigiu T’Challa.

- Não havia necessidade de te contar sobre isso. Para ninguém. Era mais seguro para você que não soubesse da existência dele – O homem respondeu cauteloso – E não queria te magoar.

- Não finge que se preocupa comigo – Ela falou irônica.

Steve voltou seu olhar para , com uma expressão triste. Sentia muito por tudo que tinha ouvido até ali, por tudo que tinha acontecido com ela, imaginava como se sentia. Ela passou sua vida toda sozinha, se escondendo, longe de seus pais adotivos, tendo que lidar com seus dons, com a saudade e com a solidão. Ela teve que se adaptar, que sobreviver. E agora, a única coisa que ele achou que poderia se apegar, era também uma mentira. não merecia nada daquilo, já tinha passado por coisas ruins demais na vida. Era uma pessoa boa, honesta e responsável; vivia por aquilo que acreditava. Ela não merecia mais amarguras. A conta já estava cheia delas. Não merecia nada daquilo. T’Challa estava sendo injusto, amargo e ingrato. Notando que estava sendo encarada, olhou de volta para Steve. Tinha os olhos ainda marejados. Ele sorriu com carinho para ela, fracamente, e a viu voltar a olhar para fora do carro mais uma vez.
Sem que nenhum deles pudesse dizer algo mais, o veículo em que estavam desceu rapidamente em um túnel e adentrou uma garagem enorme, estacionando em seguida. Do lado de fora do local, dezenas de agentes circulavam de um lado ao outro, como se estivessem preparando o terreno para algo. Alguns deles vieram até o veículo onde os quatro estavam e abriram a porta. Eles então soltaram as algemas dos três homens e deram espaço para que saíssem do carro. T’Challa desceu primeiro, sendo seguido por Sam e Steve mais atrás, que ajudou a sair do carro com cuidado. Como se houvessem combinado, os dois voltaram seu olhar ao mesmo tempo para onde a cela de Bucky era movida. Bucky os olhou de volta, sem expressar nenhuma reação, e desviou seu olhar para alguma parede, enquanto recostava sua cabeça no encosto de onde estava sentado. Parecia tenso, ansioso. Steve e se entreolharam por um instante. Ao menos estavam no mesmo lugar, isso tinha de positivo.

- Você está bem? – Steve perguntou baixo para , que assentiu com a cabeça e sorriu para ele, tentando passar confiança. Sam logo se juntou a eles.
Eles então caminharam lentamente, lado a lado, até chegarem mais perto de outras pessoas, que os esperavam mais a frente. Everett, no centro e a frente de todos os outros, olhou sério e preocupado para sua filha, como se perguntasse com os olhos o que havia acontecido. Ele já tinha sido reportado sobre o que houve em Bucareste, mas não esperava a encontrar daquele jeito: com a calça rasgada em uma das coxas que estava machucada, o rosto cheio de sangue e lágrimas nos olhos. Ela o olhou de volta, em silêncio. Aquele não era momento e nem ambiente para esse tipo de conversa. Everett tinha que manter a postura firme, de quem estava ali no comando e de quem faria seu trabalho ser cumprido, mesmo se isso significasse punir sua própria filha. Aos olhos de toda a organização e governos para os quais ele trabalhava, sua filha agora, assim como Steve e Sam, era uma criminosa de guerra. Seguir as regras, ou ao menos fingir que as seguia, garantiria que Everett continuasse no comando da missão. E isso tornaria tudo mais fácil para os novos dissidentes.
- Everett Ross, encarregado da operação da CIA – Sharon se adiantou, apresentando o homem.
Steve e Sam olharam para pelo canto de olho quase que ao mesmo tempo. Tinham lido sobre ele nos relatórios sobre a mulher e não estavam esperando o encontrar ali. fingiu não ter visto e seguiu caminhando lentamente, no mesmo sentido que, agora, todos os demais iam: Everett a frente, com Sharon e T’Challa ao lado; Steve, e Sam logo atrás; e alguns agentes, por fim. Pelo corredor que andavam era possível ver o grande rio e o Parlamento alemão lá fora. suspirou pesadamente. Estava de volta em casa agora. Muito embora não do jeito que gostaria. Tinham que pensar em como sair dali.

- Só para constar, é assim que as coisas ficam piores – Natasha surgiu caminhando apressadamente ao lado dos demais. Steve olhou para ela sem expressão e voltou a olhar para a frente.

- O que vai acontecer com ele? – Ele perguntou, indo mais rápido para ficar ao lado de Everett. Queria ter certeza de que nada violento e degradante acontecesse com Bucky.

- O mesmo que com vocês: avaliação psicológica e extradição – Everett respondeu sério, andando até o pavimento central do departamento de segurança, onde poderia monitorar tudo.

A central do pavimento era circular. Havia uma sala no meio, rodeada de paredes de vidro; muitos painéis de controle e computadores ao fundo; sofás e poltronas; e duas antessalas com portas grandes, o que permitia a qualquer pessoa na central ver absolutamente tudo que acontecia ali dentro. foi encaminhada para uma das antessalas, para ser vista por uma equipe médica. Precisava de ajuda. Steve encontrou Tony falando ao telefone logo na entrada da central e foi com ele para a sala de vidro, do centro, conversar. T’Challa sentou-se em um sofá na outra antessala. Everett e Sharon foram trabalhar ao fundo, enquanto Natasha e Sam conversavam, ou trocavam farpas, mais ao canto.
Cerca de meia hora depois, os médicos deixaram a sala em que estava. Como um furacão, Everett entrou logo em seguida, segurando alguns papéis e uma troca de roupas. Ele olhou rapidamente para sua menina, agora com um curativo pequeno na coxa e o rosto limpo, e sorriu aliviado. Ela estava apenas com um pequeno corte na testa, já mais seco. Não tinha nada grave. Estava feliz de vê-la. Ter todos eles ali, incluindo James, era uma vitória e tanto.

- Você trouxe o Barnes até aqui, ISSO É ÓTIMO – Ele disse pausadamente, em francês, sem emitir som, para que ela pudesse ler seus lábios.

sentiu uma vontade enorme de rir no momento e tapou sua boca com a mão, para abafar qualquer som com que pudesse sair. Ela concordou com a cabeça.

- Temos que tirar ele daqui agora – Ela respondeu do mesmo modo, sem emitir som. Everett concordou e olhou para a porta, certificando-se de que ninguém estava por perto.

- Karl vai emitir a nota de extradição dele para Wakanda, assim que a avaliação psicológica for feita. Até lá, siga o que te mandarem fazer aqui.

- Se ele for para Wakanda não vamos conseguir tirá-lo de lá – comentou preocupada.

- Vocês terão 10 horas entre a avaliação psicológica e a permissão de transporte dele para Wakanda. Vamos tentar tirar ele daqui nesse tempo. Aqui ao lado, há um galpão desativado. Karl deixou um carro lá, com itens no porta-malas. Leve todos para seu apartamento até ser seguro sair do país. – Everett respondeu. assentiu com a cabeça e pegou a troca de roupas oferecida pelo seu pai. Logo em cima dela, havia três pontos eletrônicos extremamente pequenos. Ela pegou um deles e o colocou na parte inferior da orelha, de modo que não pudesse ser notado.

- E como sabemos quando é seguro? – perguntou de volta.

- Iremos te avisar de alguma forma – O homem respondeu prontamente e virou-se para dar uma olhada rápida no corredor fora da sala, garantindo que não havia ninguém. Aquilo era uma operação de guerra. Cada movimento era assistido, precisava ser calculado.

- Quer reportar seus machucados? – Everett perguntou sério outra vez, em voz alta e não mais em francês. Tinha que manter sua postura profissional.

- Bati o rosto em uma coluna de cimento, a uns 50 km por hora. T’Challa me arranhou e depois me sedou para conseguirem me trazer até aqui – respondeu resumindo tudo, dando de ombros em seguida.

- ELE O QUE? – Everett questionou abaixando a prancheta que fazia anotações enquanto sua filha falava. Tinha os olhos arregalados e a expressão descontente. A coisa tinha saído do controle completamente. sabia que ele estava surtando por dentro e lutando muito para manter-se firme e imparcial.

- Aparentemente ele tinha um neutralizador dos meus poderes, escondido em algum lugar desde 1990 e decidiu usar agora. Portanto, para informação e segurança deste ambiente, estou sem poderes, por tempo indeterminado – rebateu rápido e sorriu em seguida, dando passos pequenos sentido ao fundo da sala, tirando sua roupa para trocá-la.

- Ainda assim você é uma grande ameaça, sabe disso. - Quem te deu o sedativo? T’Challa? – O homem perguntou, vendo-a tirar a blusa suja de sangue.

- Algum agente da força-tarefa, não sei dizer quem – Ela respondeu, notando seu pai ficar instantaneamente irritado.

- Por ordens de quem? – Ele perguntou mais uma vez, furioso.

- Rhodes – disse simplesmente e assistiu seu pai passar por ela apressado.

Se tinha algo que Everett não suportava era que passassem por cima de suas ordens no trabalho. Ele era o encarregado. Ele traçou o plano. Ele deveria estar por dentro de cem por centro do que aconteceria ali. Rhodes certamente passou dos limites e seria tirado da operação. Teria problemas até para sair de casa dali em diante. adoraria presenciar essa conversa, mas já que não podia, era melhor se trocar. Ela colocou os outros dois pontos eletrônicos dentro do bolso do blazer preto que haviam separado para ela, para que ninguém visse, e vestiu a calça, igualmente preta e social, parecida com uma legging. Mas, antes mesmo que ela pudesse subir a calça completamente, um novo homem entrou na sala e parou na porta, assim que a viu seminua. Ele deu um sorriso cínico e se encostou no batente.

- Confesso que estou impressionado. Sua foto de criminosa da CIA não te valorizou tanto. Pessoalmente, prefiro assim – Ele comentou com um ar de sarcasmo. Ao menos estava sendo sincero, estava realmente impressionado com o que a mulher a sua frente.

- Guarde suas preferências para você. Elas não interessam a mais ninguém - respondeu no mesmo tom, pegando a blusa de alças finas, igualmente preta e mais justa, e a vestindo.

- Não vim em boa hora? – Ele perguntou irônico, olhando ao redor, como se perguntasse para alguém a sua volta. revirou os olhos e seguiu arrumando sua blusa no corpo

- Não.

- Ao menos foi boa para mim – Ele rebateu da mesma forma, a olhando de volta. Adorava aquela situação.

- E quem é que te chamou aqui mesmo? – perguntou bufando.

- Até onde sei você é quem está presa. Eu tenho liberdade para ir onde quero – O homem respondeu ironicamente, revirou os olhos outra vez, vestindo agora o blazer por cima.

- Ah, liberdade? Você não assinou o Acordo? – Ela perguntou falsamente curiosa e então deu uma rápida olhada ao redor. Precisava de sapatos.

- É uma pena que você escolheu o lado errado. Poderíamos fazer muitas coisas juntos - O homem disse com segundas intenções e levantou um par de scarpin pretos em uma mão.

O que chamou atenção de , contudo, não foi o fato dele estar ali, dando em cima dela sem parar, sem motivo nenhum. Mas sim os sapatos que segurava. Seus saltos tinham formato das letras YSL. Um Yves Saint Laurent. sorriu olhando para o par de sapatos e se aproximou do homem para pegá-los. Karl dava o jeito dele em tudo.

- Digo o mesmo, Stark – Ela comentou firme e pegou os sapatos da mão dele. Os calçou, um por um, se apoiando na parede, de frente com o homem e sem desviar sua atenção dele. Se Tony queria provocar, o responderia à altura.

- Ah já me conhece, que bom, pulamos a apresentação e vamos direto ao ponto – Tony falou rápido, de uma vez – Eu li seus registros. Coincidência seus pais adotivos estarem aqui? Acho que não. Assine o Acordo, . Por eles. É sua chance de deixá-los longe disso tudo antes que as coisas piorem.

- As coisas só vão piorar se você quiser que elas piorem, Tony. Preste mais atenção no que está acontecendo aqui – respondeu séria dessa vez e passou pelo homem, dando dois tapinhas em seu ombro.

- É um prazer te conhecer, . Pena que não falam muito bem de você por aqui – Tony respondeu mais alto, chamando atenção dos demais que estavam por perto.

- Ah é? E falam bem de quem? De você? - Ela sorriu para ele, enquanto caminhava de volta para o centro da sala onde os demais estavam.

- Gostei dela – Stark comentou com Natasha que os olhava mais ao lado da sala. Ela deu de ombros.

Steve viu entrar na sala, com uma nova roupa, enquanto Sam questionava o porquê da mudança de look naquela situação. deu uma resposta mal-educada qualquer e se sentou de frente para ele, do outro lado da grande mesa de centro. Steve manteve-se em pé, com as mãos nos bolsos da calça, e deu uma olhada rápida ao redor. Sentia-se aflito, preocupado. Não tiveram mais notícias sobre Bucky desde que o viram pela última vez há mais de uma hora atrás. Embora ainda parecesse bem para lutar fisicamente, não podia usar seus poderes e não sabiam quando ela poderia novamente. E, para piorar, eles certamente teriam uma avaliação psicológica chegando em breve e seriam extraditados. Mas, para onde? Iriam juntos? não era americana, não poderia continuar com eles, poderia? Seriam presos? E Bucky? Steve respirou fundo, tentando se acalmar por um momento e manter o foco em seu redor. Tinham que pensar em algo para sair dali. Rápido.

- E agora que todos precisamos ser resgatados, alguém tem alguma carta na manga que gostaria de usar? Não? – Sam perguntou com certa ironia, cortando os pensamentos de Steve.

- Nem pense nisso – Natasha respondeu passando pela porta, sem sequer olhar para onde eles estavam, entrando na sala próxima, onde T’Challa mexia arrogantemente em seu celular.

arqueou as sobrancelhas acompanhando Natasha com o olhar. Manteve-se encostada na cadeira com os braços cruzados, vendo os dois na sala ao lado conversarem. Nenhum deles parecia contente com o conteúdo da conversa, seguiam sérios. não os pedia ouvir. Em menos de cinco minutos, contudo, Everett passou andando apressado até a porta da sala onde T’Challa e Natasha conversavam. viu seu pai aplaudir alto e com força, sarcástico, chamando atenção também de Sam e Steve. Ele então disse a T’Challa:

- Parabéns Alteza, conseguiu extradição do caso.
T’Challa olhou com superioridade para Natasha, que desviou seu olhar de Everett para ele, e dele para , mais ao fundo, notando que ela também prestava atenção no que acontecia ali. então olhou para Steve e Sam, respectivamente. Precisava dar um jeito de falar com eles sobre o que aquilo significava. Aquele era o sinal de seu pai de que, em breve, deveriam começar a fazer algo para tirar Bucky dali, antes que ele fosse levado para Wakanda. A avalição psicológica dele iria começar e, com ela, o tempo voltaria a correr. Dez horas. Ou teriam que, inevitavelmente, enfrentar problemas mais complexos com T’Challa. Mas antes que pudesse tentar dizer algo, Sharon entrou, segurando alguns papéis e os entregando a Sam. se desencostou da cadeira e apoiou seus cotovelos sob a mesa na sua frente, prestando atenção em Sam, que lia os papéis rapidamente em silêncio. Ao que pode ler na primeira página, eram os registros de seus equipamentos. Sam franziu a testa e olhou Sharon.

- Traje de pássaro? Fala sério – Ele questionou, jogando a papelada em cima da mesa. riu baixo.

- Não fui eu que escrevi isso – Sharon respondeu o olhando, enquanto passava por trás dele, parando de frente com Steve, do outro lado da mesa, ainda em pé.

Eles ficaram em silêncio por mais algum tempo, notando que as pessoas ao redor, fora da sala que estavam, prestavam atenção nos monitores espalhados pelo centro. aproveitou o momento de distração dos demais para colocar um dos pontos eletrônicos de seu bolso embaixo da papelada que Sam antes lia, fingindo os ler também. Alguns instantes depois ela devolveu os papéis para ele, sinalizando discretamente com a cabeça para que olhasse o que estava por baixo. Sam rapidamente pegou o ponto e, fingindo coçar a orelha, o colocou. Sharon deu alguns passos leves em direção ao centro da mesa da sala e apertou um botão, liberando os monitores da sala em que eles estavam, para que pudessem também assistir o que estava acontecendo. Steve olhou da tela para Sharon, por alguns segundos, vendo-a sorrir discretamente a abaixar a cabeça. Assim que viu que as imagens do monitor eram de Bucky, levantou-se da cadeira, lenta e discretamente, dando alguns passos para o lado, para poder ver melhor as imagens.

- Não estou aqui para te julgar. Quero apenas te perguntar algumas coisas. Você sabe onde está, James? – A voz do médico que fazia a avaliação psicológica de Bucky podia ser ouvida.

Steve olhou para os lados, checando se mais alguém sabia que eles, naquela sala, estavam também acompanhando as imagens. passou o último ponto eletrônico para ele, entregando-o na mão delicadamente, sem desviar seu olhar da tela. Steve a encarou por um instante, pegando o ponto. Ele o olhou de relance, para saber o que era e, assim como Sam, logo o colocou. Em seguida, ele voltou a prestar atenção no monitor. Bucky não reagia a nada.

- Eu não posso te ajudar se você não falar comigo, James – O médico insistiu.

- Meu nome é Bucky – Ele respondeu simplesmente, com a voz levemente rouca.

Todos estavam atônitos assistindo ao momento em que, pela primeira vez em anos, ouviriam o Soldado Invernal dizer algo sobre si mesmo e sobre suas atividades. desviou seu olhar brevemente do monitor para um outro bloco de papéis que Sharon tinha jogado sob a mesa, há pouco. Ela os pegou e foleou rapidamente, notando que, no meio deles, aleatoriamente, estava a análise de fisionomia que seus pais haviam feito. Negativo. A foto do atentado não era de Bucky. Ela então murmurou o nome de Steve, entregando-lhe as folhas para ele as visse também. Tinham que agir o mais naturalmente possível, para não chamar atenção dos agentes. Como um relapso, por um instante, tudo aquilo soou estranho para . Estranhamento conectado. Bucky não estava em Viena. A força-tarefa chegou rápido demais em Bucareste. Todos foram presos no mesmo lugar. No mesmo lugar. E onde estava o verdadeiro assassino? Quem cometeu o atentado em Viena, onde estava? Parecia que alguém estava tentando incriminar Bucky. Por quê?

- Por quê a Força-Tarefa liberaria essa foto, para começo de conversa? – questionou baixo, chamando a atenção dos demais, intrigada.

- Espalhar a notícia, envolver o máximo de olhos possíveis? – Sharon opinou gesticulando com as mãos e olhando cada um deles a sua frente.

- Certo. É um bom jeito de tirar um cara do esconderijo – Steve completou sério, entrando na lógica de .

- Armar uma bomba, ter uma foto tirada. Sete bilhões de pessoas procurando pelo Soldado Invernal – continuou seu raciocínio, caminhando de um lado a outro na sala. Sam apenas os acompanhava com o olhar.

- Está dizendo que alguém armou para ele para achá-lo? – Sharon perguntou, concluindo.

- Gente, procuramos pelo cara por dois anos e não achamos nada. está o que, há quantos anos, atrás dele? – Sam comentou pela primeira vez, encostando-se na mesa a frente, ainda sentado.

- Nós não explodimos um prédio das Nações Unidas. Isso muda a opinião de muitas pessoas – Steve respondeu.

- Mas isso não garante que, quem quer que o culpou, o pegaria - Sharon rebateu pensativa.

- Só garante que nós o pegaríamos – concluiu, completando a amiga.

Os demais a olharam intrigados. Aquilo fazia sentido. Steve murmurou um “é” e como se houvessem combinado, todos eles voltaram-se, ao mesmo tempo, para o monitor novamente. Tinham expressões sérias. Precisavam prestar atenção aos detalhes do que acontecia ali. Na imagem, o médico ainda tentava fazer algum tipo de contato, chamando atenção de Bucky com perguntas estranhas sobre sua vida. Bucky, por sua vez, mantinha-se apático. Seus olhos pareciam mortos e sua postura mostrava grande indisposição em colaborar com aquilo. Ele se sentia um caso perdido. Não poderia ser ajudado, muito menos por pessoas que queriam avaliar seu psicológico para decidir se deveria ser preso, internado ou morto. Ele não queria estar ali. Desejava estar em seu apartamento, em Bucareste, comprando frutas e anotando suas memórias. Queria a vida que estava tentando ter de volta. Por mais medíocre que fosse, era a única coisa que era verdadeiramente dele. Estava sendo julgado por algo que não cometeu dessa vez. Mas ninguém sequer teve capacidade de perguntar o que havia acontecido. Queriam mesmo fazer uma avaliação psicológica? Nele? Não se lembrava de seu nome completo, quantos anos tinha ou onde nasceu. Aquilo só poderia ser uma brincadeira. E de muito mau gosto.

- Me diga Bucky, você já passou por muita coisa, não passou? – O médico perguntou com serenidade. Bucky o olhou exausto, mais sério do que antes.

- Não quero falar sobre isso – Ele respondeu duramente.

- Você teme que se começar a falar os horrores nunca mais vão parar? - O médico insistiu no assunto, baixando seu olhar até o pequeno computador na mesa a sua frente - Não se preocupe, nós se temos que falar sobre um deles.

franziu o cenho e trocou um olhar breve com Sam que, naquela altura, estava achando aquele diálogo bizarro demais para se ter com um médico. Antes que pudesse expressar qualquer coisa, a iluminação de toda a central piscou duas vezes e desligou completamente. Institivamente, todas as pessoas no local olharam para o teto, como se buscassem entender o que tinha acontecido. Todos os monitores haviam sido desligados, bem como as caixas de som e as luzes. Tinham perdido completamente o monitoramento de Bucky. Algumas luzes vermelhas, de emergências, se acenderam logo em seguida.

- Vamos, pessoal, ponham o Barnes na tela – Everett pediu apressadamente para alguns agentes que trabalhavam em seus computadores.

Ao lado, Steve viu Natasha e Tony se movimentarem, possivelmente para tentar entender o que acontecia. Ele continuou dando uma olhada ao redor, atento aos movimentos que os cercavam. Tinham que agir, aquela era a deixa perfeita. Sam já estava em pé e notou T’Challa sair da sala onde antes ainda estava sentado e caminhar para perto de Natasha e Tony.

- Subnível cinco, ala leste – Sharon sussurrou para os três à sua frente.

Eles se entreolharam e saíram correndo apressados da sala. O desespero dos agentes em entender o que havia acontecido e, mais do que isso, colocar novamente as imagens de Bucky nos monitores era tão grande que não considerariam ir atrás de outros presos naquele momento. Estavam em uma central de segurança, não conseguiriam sair dali com tanta facilidade. Ao menos era isso que pensavam. sabia que, certamente, seu pai os atrasaria o quanto pudesse. T’Challa notou os três correrem para fora da central, sentido as escadas de emergência. Tinha que ir atrás de James, antes que perdesse, novamente, a chance.
Todo o edifício estava completamente escuro, o que dificultava o caminho dos três até o subnível que tinham que ir. Não conheciam o prédio e não tinham muito tempo até alguém notar que eles haviam sumido e, portanto, irem atrás deles. Demoraram cerca de cinco minutos para localizarem o subnível cinco, ala leste. Steve foi entrando na frente, Sam mais atrás e por último. Não sabiam o que esperar mas, certamente, não era o que estavam vendo. Logo na entrada do andar um dos agentes da força-tarefa estava caído, desacordado. Mais adentro, a mesma situação. Diversos corpos de agentes estavam jogados pelo chão. Steve agachou-se um instante para checar se algum deles tinha pulso ainda. Mais ao fundo do andar, onde se podia ver a cela de Bucky, o médico estava jogado no chão. Ao vê-los ali se aproximando, começou a pedir ajuda. Com raiva, Steve foi praticamente correndo até ele.

- Levante-se – Steve ordenou, puxando o médico pela gola da camisa e o encostando com força na parede mais próxima. O homem não disse nada, apenas o olhou passivamente.

Sam prestava atenção ao que acontecia com Steve e , poucos passos atrás, virou-se de costas para Sam, olhando ao redor com cautela. Aquilo estava silencioso, escuro e violento demais. Sombrio, discreto. Nenhum homem havia restado em pé, senão o médico. Ela já tinha uma teoria sobre o que tinha acontecido ali e tinha medo caso estivesse certa. Prendeu a respiração por um segundo, sentia seu coração acelerar em ansiedade.

- Quem é você e o que você quer? – Steve perguntou ao médico, o encarando nos olhos, centímetros de distância de seu rosto.

- Ver um império cair – O médico respondeu baixo.

Antes que pudesse se virar para eles novamente, algo a pegou pelo pescoço em uma velocidade e silêncio impressionantes. Ela se debateu, tentando se soltar e forçando seu corpo para cima do homem.

- Bucky, me solta – pediu, chamando atenção de Sam e Steve, que foram em sua direção rapidamente.

Bucky apertou sua mão de metal com força na garganta da mulher e a jogou de qualquer jeito e com violência para o lado, fazendo-a cair de costas sob uma mesa de alumínio perto da parede. Ela começou a puxar o ar com força e tossir, tentando recuperar-se. Sam, que sequer conseguiu travar uma luta com Bucky, foi igualmente atirado para longe, batendo a cabeça em uma das paredes da cela que antes Bucky estava e caindo no chão desacordado em seguida. tentou chamar por ele, mas sentia que o ar não estava entrando em seus pulmões. Ela virou-se sob a mesa e caiu de barriga para baixo no chão. De onde estava podia ver Steve ir para cima de Bucky, o empurrando com socos para dentro do andar, enquanto ele tentava se defender. sabia que Steve estava se esforçando para não machucar seu amigo. E foi esse descuido mínimo de Steve que fez Bucky ganhar a vantagem. O Soldado Invernal passou socá-lo com força e empurrar Steve para trás até bater as costas na porta do elevador. Bucky fechou seu punho de metal com raiva e sem medir esforços socou o meio do peito de Steve. Com a força do soco, o corpo de Steve quebrou a porta de metal do elevador e ele caiu vários andares abaixo. Com certeza tinha se machucado dessa vez.
arregalou os olhos e, institivamente, se encolheu para baixo da mesa de onde caiu há pouco, se escondendo. Muito corajosa, . Bucky olhou para dentro do andar, uma última vez, e saiu apressado dali. Ele tinha quebrado a porta de um elevador com o corpo de Steve. O que ele poderia fazer com ela? Já tinha tido experiências o suficiente contra o Soldado Invernal para saber que, sem seus poderes, só na luta física, ela não conseguiria muito mais do que fazer uns poucos machucados nele. ficou ali parada por alguns segundos, até ter certeza de que Bucky não estava mais no mesmo andar, e levantou-se lentamente. Sua respiração ainda estava ofegante e ela olhava com cuidado ao seu redor, certificando-se de que estava mesmo sozinha. Em passos apressados e silenciosos ela foi até Sam, parando agachada ao seu lado e o chacoalhando pela barriga levemente.

- Sam? Sam? Temos que sair daqui – o chamou por algum tempo, mas ele parecia não reagir. Não conseguiria carregá-lo para longe dali. Steve estava sabe-se lá onde e Bucky tinha fugido. Eles definitivamente tinham que sair dali rápido – SAMUEL, ACORDA!

continuou o chacoalhando, agora com mais força, até o ver piscar algumas vezes. Ele olhou o teto meio atordoado e, em seguida, encontrou o olhar preocupado de . Ainda estava escuro, sem energia. Ele franziu o cenho perdido e começou a se esticar para se levantar quando, atrás de e no fundo do andar, notou o médico de Bucky dar passos silenciosos para longe dali. Igualmente, o médico percebeu que Sam o tinha visto e apressou seus passos para deixar o andar.

- EI – Sam falou alto, chamando atenção de para olhar para trás, ainda agachada.

Em instantes, os dois se levantaram do chão, puxando um ao outro, e foram atrás do médico. Saíram correndo pelo andar e viraram no corredor a direita, onde puderam ver o vulto do homem passar, sentido as escadas. e Sam se entreolharam um segundo e dispararam escadaria acima. Sam parou por um instante para olhar o quanto teriam que subir, já no meio da escada, e viu o médico retribuir o olhar, antes de voltar a correr outra vez. A escada terminava em um andar cujo corredor tinha uma porta discreta ao final. Os dois viram a porta bater, assim que chegaram lá e, embora exaustos de subir tudo aquilo correndo, seguiram até a porta. De dentro do prédio não tinham noção, mas, ao sair, se depararam a rua.
Sam e pararam por um instante para olhar ao redor e respirar. A correria e o desespero das pessoas eram tantos que não conseguiam ordenar direito o que estavam vendo. Não sabiam por onde procurar, nem mais quem estavam procurando. Toda aquela confusão atrapalhava a busca por qualquer um que fosse naquele momento. Sam correu mais alguns metros para frente, se deparando com a jaqueta do médico jogada no chão. Ele murmurou um ‘merda’ assim que percebeu parando ao seu lado e a olhou, que retribuiu preocupada.

- Não vamos encontrá-lo aqui mais, já era – Ela comentou, olhando ao seu redor mais uma vez.

- Temos que ir atrás de Steve – Sam respondeu, virando-se levemente para olhar a porta pela qual eles saíram minutos antes. As pessoas ainda corriam ao redor, embora o fluxo já parecesse diminuir.

- A menos que queira ficar preso em uma sala pelo resto da vida. Nós temos que sair daqui - comentou enquanto olhava rapidamente os edifícios próximos.

- E Steve? - Sam perguntou mais uma vez, preocupado. Não iria abandoná-lo a sorte.

- No terraço. Encontrem um lugar seguro, encontro vocês em breve – Steve respondeu pelo comunicador. Sua voz parecia estrangulada, como se fizesse muita força.
e Sam se entreolharam por um minuto, ponderando se deveriam seguir as ordens do Capitão ou ir até o terraço ajudá-lo. A tirar pelos ruídos que saiam do comunicador, ele não parecia muito bem. Contudo, eles sabiam que não deveriam colocar tudo a perder pela emoção e pela incerteza. Sam fez sinal com a cabeça para que saíssem dali, sentido oposto ao que a maioria das pessoas iam. Tinham que encontrar um local seguro, sem monitoramento e discreto para ficarem. Além disso, não poderia ser longe dali, pois Steve os precisaria encontrar em breve e com facilidade. Já há alguns metros de onde estavam antes, notou uma placa de trânsito indicando um hangar antigo da CIA, inativo desde o final da Segunda Guerra Mundial. Aquele era o galpão que seu pai havia falado mais cedo. Perfeito. Com o queixo, ela indicou a placa para Sam que a olhou por um instante e seguiu com ela.

- É um desperdício você ter ficado todos esses anos escondida – Sam comentou enquanto corria com ao seu lado, no sentido do hangar. Ela sorriu divertida e olhou para ele.

- Isso foi uma cantada?


- Capítulo 7 -

Berlim, Alemanha


Vinte e cinco minutos depois de e Sam entraram no velho galpão abandonado, Steve apareceu carregando Bucky nas costas. Barnes estava desacordado e os dois tinham as roupas encharcadas. Steve contou brevemente o que havia acontecido enquanto sentava Bucky em um quadrado de madeira qualquer que estava jogado por lá. Ele tinha ido atrás do seu amigo até o terraço do prédio da força-tarefa e o impediu de fugir em um helicóptero... com os próprios braços. Eles então caíram no lago imediatamente ao lado do prédio e Steve conseguiu tirar Bucky de lá, como Bucky o havia feito em Washington, quando Steve era quem estava desacordado em um lago. Um a um, estavam quites agora. Bucky tinha um machucado relativamente grande na testa, sangrando. Provavelmente o que causou seu desmaio.
Como nenhum deles sabia em que situação Bucky acordaria, ou melhor, qual Bucky iria acordar, acharam mais seguro prender seu braço de metal em uma prensa antiga, no fundo do galpão. Não havia nada ali, apenas blocos e restos de construção jogados, algumas colunas de cimento inacabadas e maquinários, como a prensa, que já não funcionavam mais. Caso tivesse que lutar, de novo, seria mais fácil e mais discreto ali. localizou o carro que Everett havia comentado com ela mais cedo, do outro lado do galpão. No porta-malas, sacolas da Hugo Boss que deduzia estarem cheias de roupas novas, masculinas. Karl é bom com planos, ele tinha os detalhes em mente. Se os iria levar até sua casa, era melhor que pudessem, ao menos, trocar de roupas. Estava tudo pronto para saírem dali, só faltava saber quando e como Bucky acordaria. Quase uma hora depois da chegada dele e Steve, e nada. Bucky parecia morto, porém vivo.

- Não tem nada que a gente possa fazer para acordar ele? – perguntou meio ansiosa, andando de volta para perto de Sam – Temos que sair daqui antes que nos encontrem.

Ela entrou em uma espécie de sala, onde Sam vigiava Bucky, de frente para ele, e parou encostando-se na parede, do outro lado. Sam a acompanhou com o olhar e manteve-se encostado no que seria um batente de uma porta, se houvesse uma porta ali. Bucky ficou, então, no meio deles, ainda apagado. Mais afastado dali, na porta do galpão, estava Steve, sozinho, há quase uma hora. e Sam não o quiseram incomodar e, por isso, decidiram ficar vigiando Bucky, dar espaço e tempo para Steve colocar tudo no lugar. Ele tinha, novamente, lutado contra seu melhor amigo. Não era fácil para ele lidar com isso. Os outros dois, contudo, conversavam despretensiosamente sobre o que tinha acontecido até ali e, de tempos em tempos, jogavam qualquer comentário fora.

- Eu estou fora. Ele pode acordar e matar a gente. É isso que você quer? – Sam respondeu cruzando os braços. revirou os olhos.

- Para um super-herói você é meio covarde, já te disse isso? – Ela falou sorrindo irônica.

- Falou a pessoa que se escondeu dele embaixo de uma mesa – Sam rebateu de volta, apontando de para Bucky.

- Qual é? Não dava para saber se eu era o alvo – tentou se justificar mas desistiu ao ver o sorriso cínico de Sam para ela - Eu nunca devia ter te contado isso.



Sam deu uma risada baixa, mas antes que pudesse responder algo teve sua atenção cortada pela lenta movimentação de Bucky, de frente para ele. ficou igualmente em silêncio, observando as costas de Barnes e esperando para ver o que aconteceria. Estavam em posição caso ele tentasse algo. Bucky acordou meio desnorteado. Sua cabeça pendeu para os lados algumas vezes antes de conseguir de fato abrir os olhos. Estava sujo, com sangue e muito cansado. Seu corpo doía e sua mente estava confusa. Ele demorou alguns instantes para que notasse que estava sentado, com frio e com as roupas úmidas. Bucky então olhou vagarosamente para seu braço de metal, notando que estava preso em uma estrutura estranha de ferro, o impedindo de se levantar. Ele tentou discretamente tirar seu braço dali, mas não teria como. Ele não sabia onde estava e nem como tinha parado ali.
e Sam o observavam se situar, em completo silêncio e atentos aos mínimos movimentos do homem. não conseguia ver a expressão dele mas se perguntou se, naquela altura de sua vida, ele ainda sentia medo. Podia imaginar que, ao menos, ele estivesse assustado. Ela desviou o olhar dele para Sam que a olhava de volta. então assentiu com a cabeça para ele, que deu alguns passos para trás rapidamente e chamou alto pelo Capitão. Steve correu apressado em direção a eles e parou logo em frente de Bucky. O homem sentado reclinou-se para cima com dificuldade e olhou os outros dois.

- Steve… - Bucky suspirou pesadamente. desviou seu olhar das costas dele até Steve, que olhava intrigado para o amigo. Ao menos ele se lembrava dele.

- Com qual Bucky eu estou falando? - Steve perguntou sério, tenso como os outros dois e esperando pelo pior, pelo ataque.

- O nome da sua mãe era Sara - Bucky respondeu baixo, desviando seu olhar do chão para Steve. Parecia se esforçar para lembrar de algo - Você colocava jornais em seus calçados.

Bucky soltou uma risada fraca da memória. Steve relaxou quase que imediatamente e sorriu fraco. Aquele era seu amigo. sorriu discretamente imaginando a cena e Sam cruzou os braços, incerto. Não queria dar seu voto de confiança para Bucky. Não quando ele já tinha feito tantas coisas ruins contra eles.

- Não leria isso num museu - Steve concluiu, satisfeito com a resposta.

- E do nada devíamos ficar tranquilos? - Sam perguntou impaciente encarando Steve ao seu lado.

- O que foi que eu fiz? - Bucky fechou novamente a expressão, olhando na direção de Sam.

- O suficiente - Steve respondeu, voltando a encarar Bucky com uma expressão preocupada e séria. Bucky suspirou.

- Eu sabia que isso ia acontecer. Tudo que a HIDRA colocou dentro de mim ainda está aqui. Ele só precisava dizer aquelas malditas palavras - Bucky comentou calmamente. Sua voz trazia mágoa e um pouco de desespero. Seu olhar estava perdido em um canto qualquer do lugar.

- Quem era ele? - Steve questionou ainda mais sério que antes. franziu a testa, atenta.

- Eu não sei - Bucky respondeu voltando a olhar Steve. Já estava ficando agoniando com tantas perguntas. Toda aquela desconfiança o incomodava. Muito.

- Pessoas morreram. A bomba, a armação, o médico fez aquilo para passar 10 minutos com você. Eu quero uma resposta melhor do que “eu não sei” - Steve rebateu assertivo.

- Ele queria saber sobre a Sibéria, onde eu ficava - Bucky comentou depois de alguns segundos tentando se lembrar do que havia acontecido.

Do outro lado do local, segurou a respiração. Sentiu suas pernas fraquejarem e, por um instante, achou que iria desabar no chão. Ela sabia o que aquilo queria dizer. Aquela era a sua resposta. A que vinha procurando uma vida inteira. Steve olhou para ela significativamente, como se estivesse ouvindo o que ela pensava. assentiu calmamente com a cabeça para ele. Era aquilo. Finalmente. A base central da HIDRA ficava na Sibéria. Onde todos os relatórios de missões e arquivos passados da organização estavam. Onde as explicações sobre sua vida, sobre seu passado e sobre o que tinha acontecido com ela estavam.

- Ele queria saber exatamente onde era - Bucky completou seu raciocínio, cortando os pensamentos de , que voltou a prestar atenção nele.

- Porque ele queria saber isso? - Steve questionou curioso. Aquilo não fazia sentido para ele.

- Porque eu não sou o único Soldado Invernal - Bucky respondeu sério, com certa raiva, olhando diretamente Steve. Pelo minuto seguinte o ambiente ficou totalmente em silêncio. Aquilo explicava muita coisa. suspirou e passou as mãos pelo rosto. Karl estava certa. Todos esses anos.

- Quem eram eles? - Steve perguntou, instantes depois, voltando as atenções para Bucky.

- O maior esquadrão de elite do mundo. Mais mortes que qualquer um na história da HIDRA. E isso foi antes do soro - Bucky respondeu cruzando as mãos. franziu a testa, preocupada.

- Todos ficaram iguais a você? - Sam perguntou também, atraindo o olhar de Bucky.

- Piores - Bucky desviou seu olhar para o chão.

- O médico...quer controlá-los? – Steve tentava encaixar as peças.

- Talvez - Bucky rebateu incerto.

- Ele disse queria ver um império cair - Steve olhou de relance para Sam e , que retribuíram quase que ao mesmo tempo.

- Com esses caras ele conseguiria. Eles falam 30 idiomas, podem se esconder em plena vista, se infiltrar, assassinar, desestabilizar. Podem tomar um país inteiro em uma única noite sem ninguém se dar conta - Bucky comentou, trocando seu olhar pelas três pessoas em pé a sua frente.

Nenhum deles disse mais nada. Ficaram pelos próximos minutos digerindo a nova situação que teriam que enfrentar e pensando em como fariam isso. De certo, ter Bucky com eles era um ganho. Mas não era o suficiente. Não conseguiriam enfrentar esses caras sozinhos. Todos eles sabiam disso. Sam caminhou até Steve, sem sequer tentar ser discreto, e parou ao lado dele, de frente, com os braços cruzados. Tinha uma expressão carregada, séria.

- Merda. A gente não vai conseguir fazer isso sozinhos. Como vamos chegar até a Sibéria sem ninguém ver? - pronunciou-se preocupada, chamando atenção dos demais.

Bucky, pela primeira vez desde que acordou, notou a presença dela ali. caminhou calmamente pelo lugar, parando ao lado da prensa de ferro que prendia o braço do homem sentado. Steve e Sam a acompanhavam os olhos, sem esboçar reação alguma. Bucky a olhou discretamente pelo canto dos olhos, reparando, por alguns instantes, nos novos pequenos cortes em seu rosto, abaixo de seu olho direito. Estava levemente inchado e o sangue parecia pouco estancado. Embora não se lembrasse, Bucky sabia que ele tinha a machucado, assim como fizera com os outros dois homens ali. O corte era recente. Era dele.

- Precisamos de mais pessoas – Steve concordou com , olhando Sam em seguida.

olhou a estrutura de ferro e rodou uma de suas alavancas, fazendo-a levantar em um espaço suficiente para que o braço de Bucky fosse solto. Bucky tirou seu braço de lá e olhou para ela sem esboçar reação. Não estava acostumado com pessoas o ajudando ou o tratando com delicadeza, mas pelo contrário, tinha se acostumado com a violência e com a dor. Steve sorriu fracamente observando-os e Sam apenas acompanhava qualquer movimento os olhos. Embora estivesse respondendo bem, não sabia se libertar Bucky era uma boa opção. Barnes manteve seu rosto levantado e seu olhar na mulher por alguns segundos, sem saber o que responder, até ela caminhar lentamente para o lado de Sam, ficando em frente para ele, como os outros dois. Bucky se ajeitou onde estava sentado e apoiou seus cotovelos nos joelhos. Steve encostou-se na parede atrás de si e cruzou os braços.

- Seria melhor ter feito isso antes - Sam comentou voltando o olhar para Steve.

- Se ligar para o Tony… - Steve tentou falar mas foi logo interrompido por Sam.

- Ele não ia acreditar – Sam disse impaciente, ainda de braços cruzados. Estava sério.

- Caso ele acredite… - Steve insistiu, mas Sam interrompeu novamente.

- Quem garante que o Acordo deixaria ele ajudar? - olhou Steve por alguns segundos e desviou em seguida.

- Estamos sozinhos - Steve concluiu olhando Sam e, em seguida, , que os encarava concentrada.

- Talvez não. Eu conheço um cara - Sam respondeu pensativo, fazendo uma pausa um tanto quanto dramática.

- Certo. E como pretende entrar em contato com ele? - perguntou e cruzou os braços.

- Telefone? - Steve sugeriu como se fosse óbvio, cruzando os braços.

- Você quer mesmo usar um telefone? – Sam questionou incrédulo.

- Temos que achar uma forma discreta de nos comunicarmos. Qualquer coisa muito tecnológica pode chamar atenção – Steve justificou gesticulando com as mãos. Ele tinha razão.

- Karl e Everett estão apagando o máximo possível de informações nossas do sistema, Sharon está de olho também. Isso dificulta o rastreio. Uma ou duas ligações passam despercebidas nesse caso. Mas nós temos que sair daqui primeiro. Logo devem nos achar - sugeriu, olhando cada um dos homens ao seu redor. Sam concordou com a cabeça e olhou Steve.

- Tem razão. E para onde vamos? - Steve perguntou incerto. Todos eles se entreolharam.

- Eu sei de um lugar – comentou imitando Sam, que bufou para ela.

Os três então olharam para Bucky, quase que ao mesmo tempo, esperando qualquer reação dele ao convite para sair dali. Estavam juntos agora e isso incluía ele. Bucky soube naquele momento. Sem ele não iriam a lugar algum. Ele assentiu discretamente com a cabeça, olhando de Steve para . A mulher então virou-se e foi caminhando firmemente até o carro que Karl havia deixado no galpão. Ir para Sibéria não estava nos planos. Tinha que dar um jeito de avisar seus pais, de conseguir ajuda para chegar até lá. Não estavam esperando por aquilo e não tinham outra carta na manga. Tudo iria mudar dali para frente. De novo. Sam seguia , caminhando em silêncio ao lado dela, enquanto Steve e Bucky vinham mais atrás. entrou no lugar do motorista no carro, Sam no passageiro e os outros dois, no banco de trás, meio apertados.

- Tudo bem, olhos em todos os lugares. Ninguém pode nos ver, nos seguir ou se comunicar conosco até chegarmos em um lugar seguro – falou, ligando o carro.

Do banco de trás, Bucky se perguntou mentalmente o que ela chamava de lugar seguro. Steve concordou com a cabeça e passou a se concentrar, conforme dirigia rua adentro, em tudo que acontecia ao redor. Embora o carro tivesse insulfilme e fosse bastante discreto, estavam com receio de serem descobertos ou de, eventualmente, estarem sendo vigiados, perseguidos. dirigia calmamente pelas ruas de Berlim, prestando atenção no trânsito. Sam observava a rua e o retrovisor com atenção, enquanto Steve monitorava os carros que paravam ou passavam perto deles e Bucky olhava a movimentação das pessoas nas ruas. Nenhum deles sabia para onde os estava levando mas, naquela situação, e não tendo para onde ir, era melhor confiar em quem conhecia um pouco do lugar.
~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~


- Capítulo 8 -

Berlim, Alemanha


- Onde estamos? – Steve perguntou curioso e meio desconfiado assim que estacionou o carro.

Não achava que os levaria para algum lugar perigoso, mas saber exatamente o que estavam fazendo nunca era demais. E todo mundo ali conhecia Steve: estar no comando de tudo era com ele mesmo. Pouco menos de quinze minutos depois de saírem do galpão, lá estavam eles, estacionados em uma garagem. A fachada do edifício que entraram era tipicamente europeia, Steve notou. Um prédio suntuoso, antigo e muito bem restaurado, de tons amarronzados e bastante elegante. desligou o carro e tirou seu cinto, virando-se para ficar de frente para Sam e de lado para Steve e Bucky no banco de trás. Os quatro se entreolharam por um segundo antes de responder à pergunta:

- Na minha casa – ela olhou Steve e sorriu com ternura – Muitos agentes antigos da SHIELD, baseados na Europa, vivem nesse bairro. Então...

- Quase não há informações sobre o bairro em nenhum lugar – Steve completou sério e Sam sorriu leve, concordando com a cabeça. Aquilo era perfeito e bastante irônico. O melhor lugar de Berlim para eles se esconderem era na própria casa de uma das fugitivas.

- C'est ça, mon cher - apontou para Steve com a mão e olhou Bucky, que desviou os olhos assim que percebeu que ela o olhara.

Ele não havia dito sequer uma palavra o caminho todo e não esboçava nenhuma reação, a nada. Pelo que havia lido, em arquivos passados que encontrou em suas missões de busca pela hidra, ele foi feito para ser assim. Inumano, fechado, apático. Foi treinado para esconder qualquer que fosse a emoção que pudesse sentir e, mesmo longe do soldado invernal, Bucky ainda parecia ter internalizado aquilo. se sentiu triste por ele. Não podia imaginar a dor de ser quem ele era e o peso de tantos anos que foi forçado a esquecer. Muita coisa deveria passar pela cabeça dele, ela imaginava, mas sentado ali, no banco do carro, ele parecia só um homem triste, com metade do rosto cheio de sangue e que, possivelmente, estava com medo. Como medo deles, do que iria acontecer, de ser pego novamente, de esquecer tudo aquilo.
Ele deveria estar confuso, se fazendo milhares de perguntas e se esforçando para confiar em pessoas que ele mal conhecia ou que mal se lembrava ter conhecido algum dia. Se toda aquela situação já era complicada para Steve, e Sam, para Bucky então, eles nem poderiam imaginar. queria ajudá-lo. Ao menos se apresentar, contar o que realmente estava acontecendo ali, porque foram atrás dele e porque estavam se metendo nesse caos todo. Ela queria conversar com ele, dizer que ele podia confiar neles e que não o fariam mal algum. Mas ela não sabia como ele reagiria e nem por onde começar.

- Você não morava em Wakanda? – Sam quebrou o breve silêncio fitando a mulher a sua frente, que deu de ombros e desviou seu olhar até ele. Bucky voltou a olhá-la assim que ela se virou para Sam. Parecia que ninguém ali conhecia ela o suficiente ainda.
- Se ficasse em Wakanda seria forçada a assinar o Acordo. Meus pais e Sharon estavam morando aqui em Berlim, então essa era minha melhor opção para fugir disso tudo depois de Lagos - explicou enquanto revezava seu olhar pelos três homens ao seu redor. Steve concordou com a cabeça. Não deveria ser fácil para também. Pingando de lugar em lugar, de tempos em tempos, sem descobrir o que tanto precisava saber para seguir sua vida em paz.

- Sua família pensa em tudo, não é? – Sam arregalou os olhos forçadamente, como se estivesse muito impressionado com tudo aquilo.

- Você não viu nada ainda, querido – murmurou e deu uma olhada ao redor no estacionamento. Pareciam sozinhos ali, isso era bom.

- E como vamos sair daqui sem sermos reconhecidos? – Como se lesse os pensamentos da amiga, Sam questionou novamente, cruzando os braços.

- Elevador de cargas não tem câmeras, vamos por ele – Ela apontou com o queixo para o elevador a poucos metros de onde estavam estacionados. Teriam que dar cinco passos, no máximo, até lá. Parecia um bom plano para Steve e Bucky, que se entreolharam rapidamente.

- E seus vizinhos? – Steve cogitava qualquer mínima possibilidade de se colocarem em risco.

- É um apartamento por andar, não tenho vizinhos – respondeu igualmente séria, encarando Steve de volta, que concordou com a cabeça – Vamos então. É melhor irmos logo antes que alguém chegue.

Sem mais enrolações, os quatro deixaram o carro apressados e adentraram a garagem do prédio, o mais casual que poderiam parecer. foi até o porta-malas de seu carro para pegar as sacolas que seu pai havia deixado por lá. À frente, Steve, Sam e Bucky chamavam o elevador e esperavam em silêncio. Os quatros tinham as cabeças baixas, para evitar que qualquer possível câmera de segurança do estacionamento os reconhecesse. Mais alguns minutos depois de entrarem no elevador e digitar a senha de seu andar, lá estavam os quatro, na porta do único apartamento do sétimo andar do prédio. Ela destrancou a porta com sua digital e entrou, dando espaço enquanto segurava a porta para que os demais fizessem o mesmo. Steve, Sam e Bucky entraram rapidamente, ouvindo travar a porta atrás de si.
O apartamento era novo, bem organizado e super espaçoso. Tinha um segundo andar e, de cara, entrando e caindo direto na sala, eles se depararam com uma enorme parede de vidro a direita, pela qual era possível ver a cidade lá fora. Bucky olhava os detalhes com atenção. Embora não expressasse, estava atônito. Não tinha uma única memória de ter vivido em uma casa tão confortável, limpa e bonita como aquela. Por um segundo, ele agradeceu mentalmente por não ter entrado em seu apartamento em Bucareste. Mas, embora estivessem impressionados com a vista do local, o que chamou atenção mesmo foi outra coisa. Conforme andava pelo lugar, tirando seus sapatos, seu blazer, acendendo as luzes e deixando as sacolas em cima do sofá, sem prestar atenção no que fazia, todos os diversos vasos com plantas e flores dentro do apartamento, já murchas ou mortas pelo tempo que ficaram fechadas por lá, cresciam de novo, reviviam. Bucky, Sam e Steve sorriram, quase que ao mesmo tempo, vendo aquilo acontecer ao redor deles. Era como se todas as plantas ali dentro estivessem felizes por ver de volta. E , já devia estar tão acostumada com aquilo que, nem ligava para o fato. Steve virou-se de repente para ela, a vendo no canto oposto ao que ele estava, mexer na calefação no ambiente.

- Seus poderes. Voltaram? – Steve perguntou olhando um vasinho de flor terminar de brotar. parou o que fazia para o olhar de volta, acompanhando o olhar dele até a flor.

- Acho que não – Ela deu de ombros e voltou a caminhar, indo até a cozinha – Essa é uma reação das plantas a mim e não o contrário. Não estou as manipulando agora, não diretamente.

- Como...? Como? – Steve tentou perguntar mas não conseguiu formular direito o que queria saber. sorriu abertamente para ele. Era difícil entender como tudo aquilo acontecia. Muitas coisas sobre o que ela podia fazer, nem ela mesma podia explicar, porque não entendia.

- A fitocinese têm estágios e eles foram se desenvolvendo conforme eu me desenvolvia e aprofundava meu controle sobre ela. No estágio em que estou, o último, as plantas podem reagir a mim se elas quiserem, são seres vivos – Ela tinha a voz suave e colocava as mãos nos bolsos de trás de sua calça – Em situações de perigo, às vezes, elas tentam me proteger. Quando eu chego em Wakanda, elas...vocês precisam ver como é, não dá para explicar.

sorria sincera enquanto falava. Nada se comprava ao momento em que pisava em Wakanda. Aquilo era...extraordinário, e palavra alguma poderia explicar a sensação de viver aquilo. A verdade é que gostava da fitocinese, sempre gostou, e se sentia bem podendo fazer o que fazia. A fitocinese a permitiu chegar onde chegou, se proteger e ir atrás do que sempre quis saber. A fitocinese permitia com que ela protegesse o meio ambiente e, com ele, toda a vida do mundo; a permitiu que descobrisse a ciência que descobriu, que se tornasse uma cientista e que ajudasse outras pessoas. olhou para Bucky rapidamente e voltou seu olhar até Steve. Queria poder contar a eles até onde a fitocinese a levou, mas não era hora ainda. Ela contaria em breve. Nunca tinha se amargurado por ser diferente, tentado reverter a situação ou se entristecido. Mas, pelo contrário, aprendeu a lidar com tudo aquilo, estudou sobre si mesma e descobriu coisas incríveis. Ela tinha orgulho de si mesma, de quem era e de tudo que já tinha feito com seus poderes. E Bucky notou isso, pelo jeito que ela falava. Ele queria poder ser assim. Leve, amoroso e orgulhoso sobre si mesmo. Mas não podia. Jamais poderia.
balançou sua cabeça de um lado a outro, tentando sentir a presença botânica que havia ao seu redor. Em geral, sentia as plantas pela energia que elas emitiam e, com isso, um sentimento de força a dominava. Antes de manipular qualquer vida vegetal, as tinha que sentir. E era pela sensação que sabia quais plantas estavam ao seu redor e como podia manipulá-las. Mas, desde que acordou da injeção que T’Challa a deu em Bucareste, não podia sentir muito mais além da presença de vida botânica ali. Sem energia, sem força, sem manipulação. Ainda do mesmo jeito. Plantas pequenas, com baixa emissão energética, demandavam menos de para serem manipuladas, então talvez ela conseguisse. Mas isso ela testaria em breve.

- Ou seja, isso é normal, se é que dá para chamar de normal – Ela disse novamente e riu baixo – Mas eu sinto que meus poderes não irão voltar tão cedo e, mesmo se voltarem, não contem com eles na Sibéria. Não é como se tivesse muita natureza por lá.

- Isso não é um problema, você ainda pode lutar – Sam deu alguns passos mais perto da parede de vidro da sala. o encarou por alguns segundos, soltou uma risadinha e foi para a lavanderia. Sam sorriu para ela e voltou a olhar a rua lá embaixo. Se tinha uma coisa que Sam Wilson havia aprendido nos últimos dias era que , definitivamente, não precisava de poder algum para encarar uma briga. Ela era boa de luta. E, assim como Natasha, isso bastava.

Steve concordou com a cabeça e voltou a olhar seu redor. Estava pensativo. As plantas pareciam já terem parado de cumprimentar e tudo parecia estático novamente. E, com isso, a realidade recaiu sobre eles de novo. Sibéria. Teriam que traçar um plano, arrumar mais pessoas para ajudá-los e chegar até lá logo. O mais rápido possível. Mas nada parecia claro ainda. Agora que estavam protegidos, tinham de agir. Os agentes provavelmente estariam de olho nas fronteiras, em voos e trens para fora da Alemanha, imaginando que eles sairiam dali. Stark e T’Challa olhariam comunicações, movimentações financeiras e tecnológicas. Enquanto todos estivessem ali, no mesmo lugar, seria mais fácil se esconder. Tinham ajuda para isso.
Com as mãos em seus bolsos da calça, Sam olhava a cidade lá fora, pela parede de vidro. Já estava anoitecendo, a vista era bonita embora parecesse que fosse chover em breve. Estava preocupado com o que aconteceria dali em diante e se perguntava quando poderia simplesmente voltar a sua vida calma, ou mais calma do que aquilo, nos EUA. Bucky, por sua vez, ficou parado perto da porta, incerto sobre o que deveria fazer. Estava ainda com as roupas úmidas e sujas, não queria pisar ou encostar em nada, e se sentia desconfortável. Todos ali pareciam se conhecer, pareciam ser laços que ele não tinha, ou que tinha perdido com o tempo, e ele não sabia o que e como dizer. Preferia ficar quieto e só acompanhar o raciocínio deles.

- Usem o telefone fixo, está na cozinha, na parede - quebrou o silêncio voltando para a sala com algumas toalhas de banho em mãos. Sam assentiu e saiu rapidamente para onde a mulher indicou.

- Não sei em quem exatamente vocês estão pensando, mas acho que vamos precisar de mais gente - Bucky falou pela primeira vez, em uma voz rouca, baixa e preocupada. e Steve o olharam - Não sabemos o que exatamente ou quantos deles vamos encontrar.

- Vou ver o que posso fazer - Steve olhou preocupado para , que concordou com a cabeça.

Antes de ir até a cozinha falar com Sam e usar o telefone, Steve olhou por um segundo para Bucky, como se o perguntasse com os olhos se tudo bem ele sair de perto por um momento. revirou os olhos pelo drama e deu de ombros, colocando as toalhas de banho perto das sacolas no sofá. Bucky encarou Steve de volta e concordou levemente com a cabeça. Embora estivesse se sentindo desconfortável de estar ali, sem sequer conhecer nenhum deles direito, não se sentia inseguro ou em perigo. Talvez o outro homem, Sam, não fosse muito amigável com ele, mas não parecia assim. Ela não faria nada contra ele, a tirar pela postura dela nos últimos dias. Bucky observou Steve sair de perto deles e dar uma rápida olhada nele, se afastando em seguida e entrando em um cômodo perto da escada que dava para o segundo andar do apartamento.
Quando ele chegou desmaiado, e carregado por Steve, no velho galpão que se esconderam, deu uma rápida olhada em seus machucados. Ela era o mais próximo de um médico que tinham, então era a melhor opção deles. Toda a parte esquerda do rosto de Bucky estava com sangue escorrido por causa de um corte relativamente grande no canto da testa, que estava aberto. Com sorte, a pancada que levou tinha sido forte o suficiente para “desligar” o Soldado Invernal e tinha lhe custado apenas alguns centímetros de pele, nada mais grave do que aquilo. Mas ele precisava de pontos. E rápido. Se deixasse passar muito tempo correria o risco de infeccionar e de ficar com o machucado exposto e aquilo pioraria muito a situação. Muito sangue estava saindo e não tinha nada ali, no galpão, para arrumar aquilo. Então a única opção era deixá-lo quieto até que acordasse e saíssem dali. Mas agora estava em casa. Tinha tudo o que precisava e até mais do que isso, podia ajudá-lo. Queria ajudá-lo. Talvez, com isso, pudesse se aproximar dele e, quem sabe, contar o que sabia e o que havia descoberto sobre ele. De certo, não esperava que fosse tão fácil conseguir dele o que ela precisava saber, mas havia muito mais do que aquilo a ser falado. E ela queria falar. Ele merecia saber.
Dois minutos depois, ela voltou para a sala trazendo uma bandeja de metal, como aquelas de hospital. Ela a apoiou em um dos sofás e olhou de volta para Bucky, sorrindo fraco, tentando ser o mais amigável e simpática possível. Essa era a primeira tentativa de aproximação. A primeira e a única que havia pensado. Se ele recusasse, além do constrangimento, não saberia se e quando teria outra chance de tentar.

- Sua testa ainda está sangrando, precisamos dar um jeito nesse machucado antes que seja tarde demais para dar pontos – Ela estava calma, olhando o homem tenso parado em pé no exato mesmo lugar desde que entraram todos ali, em sua casa.

Bucky não disse nada, só a ficou encarando com a mesma expressão de sempre. Apática. Não sabia de onde tinha vindo aquela ideia repentina que, em um primeiro momento, lhe soou estranha. Não a conhecia e não sabia porque ela queria ajudá-lo. Na verdade, não sabia o por que ela estava fazendo tudo aquilo por ele. Ter ido atrás dele em Bucareste, o ter protegido da força-tarefa, o ajudar a fugir, escondê-lo em sua própria casa e correr o risco de morrer na Sibéria. Não podia sequer imaginar o motivo e se ele era mesmo justo. Depois de tanto tempo acostumado com pessoas mentirosas, maldosas e espertas, qualquer sinal mínimo de bondade não parecia genuíno, mas sim, mais da velha enganação de sempre.

- Não precisa, obrigado. Eu posso... fazer isso – ele sussurrou, desviando seu olhar para o chão. Estava acostumado a se auto costurar.

- Eu sei que pode, mas é bem mais rápido se outra pessoa fizer. E eu te garanto que tenho uma técnica ótima e completamente indolor de dar pontos que aposto que você não consegue fazer – sorriu desafiadora e cruzou os braços.

Indolor. Aquilo soava estranho e irônico para alguém que tinha se acostumado com a dor. Bucky não sentia nada. Há mais de setenta anos, nada. Os poucos momentos que se recordava eram lapsos de memórias cheias de insegurança, medo, violência e ódio. Quando sentia algo era dor. Física e mental. Só dor. Sabia que não podia sentir nada além disso, era melhor assim para suas missões, para a HIDRA e para ele mesmo. Não se lembrava de como as coisas eram, de como deveria reagir em determinadas situações, de como era sentir. Qualquer coisa, só sentir. Um toque, um cheiro, um sorriso, uma dança. De como era a felicidade, a alegria, a segurança, o amor. Ele não sabia como era e, naquele momento, algo lhe disse que ele nunca soube, que nunca tinha vivido nada disso. Só ele sabia o quanto queria mudar isso e o quanto era difícil para ele.
Desde que a HIDRA caiu, dois anos atrás em Washington, e que Bucky fugiu para se esconder em Bucareste, não tinha tido contato com outras pessoas senão a senhora que alugava o apartamento para ele ou os comerciantes ali de perto. Não tinha feito amigos, não tinha se relacionado com ninguém. Tinha medo das pessoas, não sabia em quem podia confiar, não sabia em como elas reagiriam a ele, a sua mente, ao seu braço, a sua história. Não tinha ninguém a quem pedir ajuda e não podia envolver mais ninguém naquilo tudo, era perigoso. Bucky era perigoso. Tinha que viver sozinho, era sua sentença, e já tinha se acostumado com ela, embora doesse, e muito.
Contudo, parecia que aquilo estava mudando, ao menos tinha mudado nas últimas horas. Steve, e, mesmo Sam, tinham aparecido. Eles conversavam com ele, olhavam, sorriam. O tratavam como humano, como ele queria ser. Não eram estranhos, indiferentes ou desinteressados. Para eles Bucky era só Bucky, um ser humano exatamente como eles: diferente, que tinha suas tragédias, suas dores e seus segredos. Todos eles eram perigosos, todos eles podiam se defender, todos eles sabiam sobre o que Bucky era capaz de fazer, seu braço, sua mente. E era essa, talvez, a origem de todo o instinto em ajudá-lo. Bucky sabia que podia confiar neles e, igualmente, sabia que precisava de ajuda. Sempre soube e sempre precisou. E agora, pela primeira vez em muito tempo, tinha em quem confiar para ajudá-lo. Talvez fosse a hora dele se permitir ser ajudado. De permitir que alguém se aproximasse, que visse suas fraquezas. E parecia um bom começo.
Ela esperava pacientemente pela resposta de Bucky, o olhando de frente, ainda em pé ao lado de um de seus sofás. Bucky respirou fundo e, então, concordou com a cabeça discretamente. Não sabia se estava exagerando em seus pensamentos ou se aquilo era mesmo um grande passo para ele, mas tinha que tentar. Ao menos tentar. gesticulou em silêncio para que ele se sentasse no sofá, ao lado de onde apoiou a pequena bandeja de metal. Ela podia imaginar que ele fosse uma pessoa fechada, meio difícil de lidar, mas não achava que seria tanto. Bucky fez o que ela indicou, em silêncio, e a observou puxar um banco que estava na sala, sentando-se em seguida de frente para ele. Ela parecia menos tensa do que das outras vezes em que ele a havia visto. Se bem que, aquele era o único momento de paz que eles estavam vivendo nos últimos dias. fechou suas pernas, de modo que ficassem entre as de Bucky, que estavam entreabertas, e puxou a bandeja de metal para mais perto de si. Ela estava satisfeita com o aceite do convite e se sentia levemente nervosa. Aquele era um bom momento para contar o que tinha descoberto. Bucky olhava cada movimento dela com atenção, sem saber ao certo o que esperar daquilo.

- Ok, vamos lá - sorriu delicada, ajeitando os itens que usaria na bandeja – Posso?

- Vamos ver se seu método funciona mesmo – Bucky respondeu com a voz baixa e rouca, sorrindo sem muita emoção em seguida. desviou seu olhar até ele e sorriu mais abertamente. Então ele sabe ser simpático, ela pensou.

- Acredite, eu já testei muitas vezes esse método. Mais do que gostaria até – Ela soltou uma risada sem graça e fez uma careta. Já tinha perdido as contas de quantas vezes se machucou feio nessa vida e precisou se auto remendar.

Bucky sorriu meio triste e soltou o ar pelo nariz. No rosto de ainda estavam os pequenos curativos da pancada que ela levou em Bucareste, quando caiu em cima de Bucky, deitados no chão da avenida. Dois esparadrapos em sua testa, o olho direito levemente inchado e os lábios bem vermelhos, com um pequeno corte no canto de sua boca. Bucky desviou o olhar para o lado, percebendo que tinha reparado que ele a encarava minuciosamente. Mulheres não tinham sido muito frequentes nos últimos...setenta anos para ele. Quer dizer, a última que se lembrava era Dorothy...em 1940, época em que encarar era uma prática comum. Agora, se continuasse encarando sem motivo aparente, provavelmente levaria um murro.
Diferente de Dot, como Bucky se lembrava de chamar Dorothy, era independente, confiante e muito corajosa. Parecia determinada e se fazia notar nos ambientes, não tinha como não perceber sua presença. Era muito inteligente, forte, ocupava os espaços quando queria ocupar, era boa de luta e era linda. era linda, uma das mulheres mais bonitas que já tinha visto. Tinha um sorriso desafiador e um olhar intenso, não tinha medo de encarar ninguém de frente. E Bucky percebeu que, para ele, nada parecia mais sensual do que uma mulher dona de si mesma, como .
Dorothy era bonita também, tinha os tons de cabelo parecidos com os de . Costurava como ninguém, era companheira e sabia dançar muito bem. Bucky se perguntou mentalmente se sabia dançar e se ela aceitaria dançar com ele. Imaginou que, se estivesse agora de volta aos anos 1940, certamente passaria a noite toda correndo atrás dela até que ela aceitasse. Contudo, Dorothy tinha algo especial que jamais teria: a normalidade. Dot era uma mulher normal, com uma vida normal, problemas e preocupações normais. Para o Bucky dos anos 40, Dot era perfeita. Mas ele também havia mudado e o Bucky de hoje não era mais normal. Então talvez, só talvez, ...

- Me desculpe por termos invadido a sua casa daquele jeito, em Bucareste. Toda a prisão, o interrogatório, não tínhamos planejado nada disso – cortou os pensamentos de Bucky, molhando um algodão com álcool. O clima silencioso e constrangedor já a estava incomodando.

- Não foi culpa de vocês – Bucky pigarreou, voltando seu olhar para a mulher que, agora, deixava o álcool de lado na bandeja – Eu que tenho que pedir desculpas. Se não tivesse tentado fugir você não teria se machucado e, talvez, estivéssemos já na Sibéria.

- Com sorte, vamos chegar lá em breve.

Tinha algo de esperançoso na fala e na voz de e Bucky notou isso, mas não entendeu. Porque ela estaria na expectativa de ir para Sibéria? Talvez estivesse só ansiosa. Como todos eles. Bucky sentiu uma das mãos dela pegar em seu queixo, com delicadeza, empurrando levemente seu rosto para cima, de modo que ela pudesse ver o ferimento. só então reparou que seus olhos eram azuis. Extremamente azuis. Lindos. Daqueles que hipnotizam e não deixam você olhar para mais nenhum lugar. Ela os encarou por três segundos e então afastou o cabelo dele de sua testa, abrindo espaço para ver o machucado. Bucky era definitivamente muito mais bonito ao vivo do que nas fotos que ela havia visto nos relatórios que roubou das bases da HIDRA. Sem a máscara e sem aquele olhar frio das fotos, ele era lindo. Seu maxilar parecia perfeitamente desenhado, a barba por fazer. E ele era enorme. Ele era alto e seus braços grossos, malhados. Na verdade, ele todo parecia em forma. Em muito boa forma. A forma exata que gostava. sentiu uma vontade enorme de rir sozinha de seus pensamentos e desejou que Sharon estivesse ali para comentar com ela. engoliu a risada.
Sem mais a jaqueta que ele usava em Bucareste, ele vestia uma camiseta por baixo da camisa de manga comprida, provavelmente para esconder qualquer sinal de seu braço de metal. Ainda assim, a roupa parecia agarrada em seu corpo. desviou o olhar para baixo, olhando discretamente para a mão esquerda dele. Ele segurava uma mão na outra, apoiando os braços em suas coxas. Por um instante teve curiosidade de ver seu braço, mas jamais demonstraria isso. Imaginava o quão difícil deveria ser para ele aceitar tudo o que aconteceu. Em qualquer outro contexto, em algum bem menos tenso do que aquele, daria um jeito de despertar o interesse de Bucky. Sempre conseguia os homens que queria e, embora sua vida fosse turbulenta, sempre tinha um tempo para se divertir. Já tinha tido alguns relacionamentos rápidos algumas vezes, mas nunca quis nada sério. E como poderia querer? Com a vida caótica que levava, não era possível ter alguém. Seria só mais uma pessoa que se machucaria e que precisaria de proteção constante. Bucky tinha um ar misterioso que o deixava ainda mais atraente, sensual, e aquilo chamava atenção dela. balançou sua cabeça discretamente e tentou se concentrar no machucado. Ela colocou o algodão com álcool em cima do machucado para limpar a área e ele franziu a testa levemente.

- Me desculpe, vai arder um pouco - sussurrou mordendo o lábio inferior, prestando atenção no ferimento, mas notou Bucky sorrir tímido.

Ele não sabia dizer qual foi a última vez que alguém o pediu desculpas por o machucar, o fazer sentir dor ou sofrer. Aquilo era novo. era nova. E, aparentemente, tudo que vinha dela também. Ele estava curioso sobre ela. Nunca tinha ouvido falar dela e nunca a tinha visto, ao menos não que se lembrasse. Se bem que, seria difícil esquecer. Bucky empurrou os pensamentos que insistiam em voltar em sua mente e tentou se concentrar na ardência do seu machucado. Mas nada mais ardia. Agora, Bucky só sentia o toque dela segurando ainda seu queixo, para que ele não de movesse, e o algodão passando com delicadeza de cima a baixo por onde antes havia sangue. estava limpando o rosto dele, com paciência e muito cuidado. Com carinho. E, embora estivesse gostando da sensação, mais uma vez naquele dia, Bucky perguntou a si mesmo o porque daquilo tudo. Aquela parecia uma boa hora para perguntar.

- Como vocês sabiam que não fui em Viena? – Ele perguntou baixo, olhando terminar de limpar seu rosto todo com o algodão, com atenção e cuidado.

- Meus pais são agentes de inteligência de órgãos internacionais, estão envolvidos no caso de propósito. Eles mapearam as imagens do atentado e não bateu com suas informações físicas – terminou de limpar o machucado enquanto explicava e deixou o algodão sujo na bandeja.

- E como me acharam em Bucareste? – Ele questionou novamente. agradeceu mentalmente por ele estar curioso e facilitando a conversa. Ela suspirou. Aquela parecia a hora certa para contar a ele o que tanto lutou, por anos, para ter.

- Sharon é uma amiga de infância e trabalha com meus pais. Ela conseguiu sua localização porque alguém te viu e informou a Força-Tarefa – pegou a agulha e a linha na bandeja – Informação relevante: ela e Steve se gostam, mas estão enrolando há dois anos. Não conta para ele que fui que te disse.

- Eu sou bom em guardar segredos – Bucky soltou uma risada leve – E, , por que vocês foram atrás de mim?

- Ah só , por favor – Ela rebateu rapidamente, concentrada em terminar de passar a linha pela agulha e James assentiu - A resposta para isso é... complexa.

- Acho que temos algum tempo – Ele murmurou. levantou seu olhar até ele, não esperava por aquela resposta. Ele sustentou o olhar nela por algum tempo até vê-la desviar para a agulha outra vez.

- Vou dar pontos agora. Você está vendo aquele vaso vermelho ali atrás? - continuou a encarar Bucky vendo-o procurar o vaso atrás dela, com os olhos, até o encontrar. Ele então concordou com a cabeça, sem dizer nada. Ela sorriu - Aquela é uma Acmella oleracea. É uma planta com grande poder anestésico.

A medida que falava, as folhas da planta cresceram lentamente, se expandindo para os lados. Plantas pequenas e com baixo valor energético. Teoria confirmada, ela ainda podia as controlar um pouco. Bucky olhou da planta para ela de relance e a viu sorrir forte para ele, como se soubesse que estava curioso pelo que acontecia ali. Mas antes que qualquer um deles pudesse dizer algo, o ambiente foi inundado por um cheiro forte, bastante doce. Bucky desviou seu olhar novamente para a planta, que agora se juntava com o vasinho ao lado, com pequenas flores brancas que, igualmente, cresciam sem pressa.

- É camomila, tem propriedades calmantes, por isso o cheiro - explicou mais uma vez, mantendo o tom de voz suave e baixo - Você vai sentir a pressão da agulha e um incômodo leve, mas não vai doer, eu prometo.

O método indolor. Claro. Uma vez mais, Bucky não sabia o que dizer. Ela realmente tinha um método indolor e realmente fazia sentido ela ter testado várias vezes, como havia dito. Ela realmente estava preocupada com ele. Sem ironias, sem brincadeiras, sem enganações. Ela não queria que ele sentisse dor. E Bucky não sabia lidar com ter alguém que mostrava preocupação com ele. Não se achava merecedor daquilo. Porque ela simplesmente não o largava lá, machucado mesmo, deixando-o se virar sozinho? Porque ela só não o entregava de volta para a força-tarefa e seguia sua vida? Porque ela se preocupava? Porque ela, assim como Steve e Sam, estavam fazendo tudo aquilo por ele? Ele precisava da resposta complexa. Bucky interrompeu seus pensamentos confusos assim que sentiu colocar a mão em sua testa outra vez, aproximando sua pele e dando os pontos. Como ela disse, não havia dor. Nenhuma. Como se estivesse anestesiado. logo finalizou o último ponto e cortou a pequena linha. Como mágica, assim que ela tirou suas mãos do rosto de Bucky, as plantas que a auxiliaram se separaram e voltaram ao seu tamanho normal, nos respectivos vasos. deu uma última olhada nos pontos e sorriu satisfeita.

- Steve precisa de você. Você é a única pessoa que restou do passado dele, de suas memórias e de uma vida que ele não encontra mais. Você é o sentido que Steve procura na vida desde que descongelou – respondeu à pergunta que Bucky havia feito antes, prestando atenção em colocar tudo o que usou de volta na bandeja – E eu acho que você também precisa dele, pelos mesmos motivos.

Bucky queria responder algo, mas não soube o que dizer. Aquilo tinha sido mais direto e intenso do que ele esperava. Era reconfortante, porque era exatamente como se sentia em relação à Steve, mas nunca assumiu sequer para si mesmo. transformou tudo, de repente, em algo simples de ser dito e reconfortante de se ouvir, de se sentir. Bucky já tinha sentido mais do que havia previsto naquele dia. Para , o silêncio de Bucky dizia muito. Era como se ela tivesse ido exatamente na ferida. Em uma que ela não poderia usar o método indolor para curar.
Poucos passos dali, do batente da cozinha, Steve colocou sua mão em frente a Sam para que ele não entrasse na sala e chamasse atenção. Aquele era um momento delicado e Steve sabia a importância que ele tinha para e que estava tendo para Bucky. Sam olhou para ele sem entender e viu Steve fazer sinal de silêncio e, em seguida, indicar com o queixo para onde e Bucky estavam sentados, próximos, frente a frente, de lado para onde Steve e Sam estavam parados em pé. Sem perceber qualquer movimentação dos outros dois no batente da cozinha, deixou sua respiração pesada sair e, com ela, o momento que ela tinha ensaiado há tantos anos.

- E eu preciso de você também. Meus pais biológicos morreram quando eu tinha 5 anos e eu não sei o que aconteceu. Não me lembro deles e nem de nada até ser adotada e então, anos depois, me mudar para Wakanda. E eu não sei como... não sei porque consigo controlar a natureza. Sei que a HIDRA está envolvida. Passei anos indo nas bases desativadas, vasculhei documentos, fui atrás de agentes que pudessem me trazer informações até descobrir que os relatórios que preciso, que podem responder sobre meu passado e sobre meus pais, ficam armazenados na base central.

Steve sorriu sozinho. soltou as informações com calma e uma sinceridade que até ela duvidaria. Tinha sido mais fácil do que pensava e menos dolorido também. Talvez pelo fato de Bucky já ter dado a informação que ela precisava, talvez pela situação toda a passar segurança. Como ela havia lutado todos esses anos para ser, Bucky tinha a sua resposta. E ela não iria até lá sozinha, não teve e não teria que enfrentar tudo aquilo sozinha, como fez todos esses anos. De frente para ela, no sofá, poucos centímetros a frente, Bucky a olhava inexpressivo, encaixando as peças do que tinha acabado de ouvir. Algo em tudo aquilo confundia sua mente, como se o incomodasse. Ele sentiu uma pontada de dor na cabeça, mas ignorou. Não sabia se já tinha ouvido aquela história em algum lugar ou se, pelo fato dela falar tantas vezes da HIDRA, sua mente estivesse rejeitando as memórias que se formavam. Por outro lado, outra parte dele sentia algo que não conseguia nomear. Ele podia ajudar alguém? Alguém, fora Steve, precisava dele. Da ajuda dele. E ele podia ajudar. O olhar de Bucky era tão intenso em , que ela abaixou a cabeça para evitar o constrangimento, olhando para seu próprio colo enquanto brincada com os próprios dedos das mãos.

- Só agentes do alto escalão sabem sobre a localização da base central. Por isso você estava atrás de mim – Bucky comentou cortando seus próprios pensamentos. assentiu com a cabeça, ainda com o olhar baixo, mas logo voltou a olhar Bucky. Ele notou que seus olhos pareciam marejados e que ela engoliu seco. Aquilo parecia doer nela.

- Era isso que precisava saber de você, então passei a te procurar. Mas como eu não sabia com qual você iria me deparar, eu comecei a estudar o Soldado Invernal. Não conseguiria te enfrentar só lutando, você sabe...tinha que pensar em algo que pudesse te parar e te fazer...me ouvir – comprimiu os lábios e puxou os cabelos para trás, como se fosse os prender em um rabo de cavalo alto.

Bucky reparou no pequeno raminho de flores tatuado em linhas finas na parte de dentro do braço direito dela. Ela parecia se esforçar em encontrar as palavras certas para falar, não queria assustá-lo. Todo cuidado parecia pouco, aquilo dizia respeito a vida de Bucky. E poderia mudar tudo dali em diante. Sam e Steve, ainda sob o batente da porta da cozinha, acompanhavam tudo em extremo silêncio. Bucky já havia notado a presença deles ali, mas não se importou. Estava completamente focado e atônito pelas palavras de . Seu coração parecia querer sair pela boca e ele queria saber mais. Mais sobre o que ela descobriu sobre ele.

- Em cada missão que eu fui, mais do que recolher materiais e informações sobre minha vida, eu recolhi tudo o que podia sobre...você. Sua história, seu desaparecimento, as ocorrências envolvendo o soldado Invernal. Relatórios da HIDRA, treinamentos, testes, sua composição genética. Eu encontrei...eu li sobre os...procedimentos...sobre o que fizeram com você – abaixou a cabeça novamente, sem ter coragem de olhar para Bucky.

Ela se lembrava de cada detalhe dos horrores que tinha lido e, se aquilo já era destruidor para ela, imagina o que não significava para ele, que vivenciou e sobreviveu a tudo aquilo. Bucky engoliu a seco e prendeu a respiração por um instante. Ela sabia. De tudo que fizeram com ele e de tudo que...de tudo que ele havia feito. Das torturas, da violência, das mortes, dos assassinatos. E mesmo sabendo de tudo aquilo, ela ainda o estava ajudando. Ou ela o estava manipulando? Talvez o que ela precisasse dele valia mais do que qualquer crime cometido por Bucky. Talvez ela não se importasse com nada daquilo. Só queria tirar o que ela precisava e tinha estudado meios de fazer isso. Fim. Talvez fosse uma pessoa tão ruim quanto Bucky era. Ele então se recostou no sofá, mais tenso do que antes, e subiu seu olhar até ele. O clima no ambiente ficou mais pesado e tudo que podiam ouvir era a chuva que começava a cair lá fora. Ela sabia onde as palavras dela o tinham levado, estava preparada para isso também.

- O seu passado pelo meu, você deve estar pensando. Eu não faria isso – o encarava, seus olhos ainda marejados – Não foi justo o que fizeram com você, você não tem culpa por nada que fez. Eu não iria barganhar com você, não sou uma pessoa injusta, Barnes.

- E o que é então? O que você fez com tudo que descobriu sobre mim? – Bucky perguntou baixo, mas aflito o suficiente para seu tom voz sair quase que bravo.

- A única coisa que eu podia fazer: eu aprendi sobre a ciência envolvida no soldado invernal. E eu encontrei a... reversão – jogou seu corpo para frente, apoiando os cotovelos em seus joelhos e voltou a falar - Antes, essa era uma alternativa de como eu poderia extrair de você a informação que eu precisava. Eu te ajudava e você me ajudava. Hoje, é como eu posso retribuir pela informação que você já me deu.

Sam deixou seus braços caírem ao lado de seu corpo e encarou Steve, que tinha a testa franzida. não tinha falado disso com eles. De certo, não tinham tido tempo de sentar e realmente conversar sobre aquilo. Tudo estava acontecendo rápido demais e as prioridades eram muito mais urgentes do que qualquer outra coisa. Steve não esperava por aquilo. Pelos comentários e pelo o que haviam conversado, Steve entendeu que ela sabia bastante coisas sobre o Soldado Invernal, mas nada mais do que isso. E era plausível que soubesse, afinal passou metade de sua vida fugindo dele e a outra metade o procurando. Mas a reversão era algo...inédito. E incrível. era alguém que, definitivamente, deveria ter aparecido antes na vida deles. E diante daquela cena Steve teve certeza absoluta disso. Sam ainda estava incrédulo. Saber que ela era uma cientista, ele sabia. Mas desbancar um projeto histórico da HIDRA pela ciência já era outro nível. Queria ver a cara de Banner e Stark quando contasse essa.
Bucky, por sua vez, se desencostou do sofá e se aproximou mais ainda dela, assim que a ouviu dizer aquilo. Sentia seu coração bater acelerado, ansioso. Estavam tão próximos que quase podiam sentir a respiração um do outro. Ele encarava a mulher a sua frente como se sua vida dependesse disso. E, de certa forma, dependia. não só precisava dele, como tinha dito, mas tinha algo a oferecer em troca. Algo que Bucky jamais sonhou que poderia ter de novo algum dia e que ele daria qualquer coisa para conseguir. Ela poderia o trazer de volta. O velho James do Brooklyn. Aquele que podia dormir em paz, sem ter o medo e a angústia de, a qualquer instante, virar uma arma e matar qualquer pessoa ao seu redor. Ela certamente não o faria esquecer tudo que já viver e nem o daria um braço humano de volta, mas a possibilidade de voltar a ser alguém mentalmente estável já era mais do que o suficiente para ele poder pensar em ser feliz de novo. poderia fazê-lo se sentir humano de novo. Institivamente ele segurou os braços delas em suas mãos, levemente, como se a fosse abraçar.

- Você...você consegue tirar isso de mim? – Bucky perguntou incerto, com a voz falha. Seus olhos transmitiam expectativa e seu coração ainda batia acelerado.

- Eu não sei. Diferente do outro método, esse eu nunca testei e ele não é tão... indolor – sorriu triste – É um tratamento longo, teve ótimos resultados em laboratório, mas não sei ao certo se vai funcionar...com você.

- Nós podemos...eu não...eu não sei o que dizer, – Bucky disse baixo, passando as mãos em seus cabelos.

- Não diga nada, só... pense - A mulher sorriu sincera para ele e se levantou, levando a bandeja de metal consigo - Se e quando estiver preparado, está tudo te esperando em meu laboratório em Wakanda.

Bucky deixou seu corpo cair novamente encostado no sofá. tinha convicção de que encontraria o que tanto buscava na Sibéria. E Bucky só podia imaginar o quanto aquilo era realmente importante e definitivo para ela a ponto de fazer tudo o que fez, por alguém como ele, para conseguir. havia passado de qualquer limite da justiça. Pensando nela, ela pensou nele. Em trazer sua vida de volta, em deixá-lo mais perto daquilo que tiraram brutalmente dele durante cinquenta anos: a humanidade. Não importava se funcionasse ou não nele, só o fato de haver uma alternativa já representava muito. Para todos eles. Dali em diante, tudo mudaria. Bucky podia mudar a vida de com o que sabia. E, reciprocamente, agora, podia mudar a vida dele. Sam a seguiu com os olhos, vendo-a entrar no banheiro perto da escada com a bandeja de metal e fechar a porta atrás si, dizendo que tomaria banho e que tinha deixado toalhas de banho com trocas de roupas para eles nas sacolas. Entrando na onda, Sam decidiu tomar banho no segundo andar do apartamento, no banheiro perto do quarto dela. Steve, por sua vez, sentou-se ao lado de Bucky e segurou no ombro do amigo. Bucky olhou dele para a chuva que caia lá fora, pela parede de vidro a sua frente. Os minutos de silêncio e assimilação pelo que tinha acabado de acontecer não duraram muito até Steve começar a contar tudo que Bucky perdeu desde 2011, quando Steve descongelou em um mundo que já não conhecia mais.


- Capítulo 9 -

Berlim, Alemanha


Observando a chuva cair forte lá fora, Steve e Bucky não sabiam dizer quanto tempo ficaram sentados no sofá, conversando. Não era como se, em algumas poucas horas de conversa, pudessem ter falado mais do que resumos de tudo, mas estavam felizes por terem tido um tempo sozinhos, como nos velhos tempos. Steve falou muito, mas não ouviu quase nada de Bucky, que não contou sobre o que aconteceu com ele todos esses anos. Não tiveram tempo o suficiente e não precisavam realmente conversar sobre aquilo, porque Steve já sabia de tudo, e talvez soubesse até demais. Certamente, em outro momento, eles teriam mais tempo, e talvez mais privacidade, para conversar. Depois de terem tomado seus respectivos banhos, Sam e decidiram fazer algo para comer. E, embora tivessem achado melhor não se meter na conversa de Steve e Bucky e dar espaço para eles, da cozinha era possível ouvir o que conversavam.
ouviu Steve fazer um breve resumo sobre a vida dela e sobre como ela chegou até eles, em Lagos. Ele comentou sobre seus pais adotivos, sobre Sharon, sobre Wakanda e o ocorrido com T’Challa, no caminho de Bucareste até Berlim. Falou sobre a morte de Peggy e sobre como haviam reencontrado em Londres. Em seguida, Steve fez o mesmo sobre Sam, resumindo o que achava mais urgente e importante saber sobre ele. Sua trajetória militar, como o conheceu em Washington anos atrás e como ele era fundamental para os Vingadores. Mesmo a conversa sendo sobre eles, e Sam seguiram sem se intrometer. Steve estava sendo cuidadoso em tudo que dizia e tinha um jeito tão terno de falar, que ninguém poderia contar tudo aquilo melhor do que ele. Bucky prestava atenção em cada palavra, atento. Ora olhava para Steve, ora para a chuva caindo lá fora. Era justo que ele soubesse quem era cada um eles. Se iam seguir juntos dali em diante, Bucky deveria conhecê-los, como eles o conheciam, embora ele não tivesse dito uma só palavra sobre ele mesmo desde que a conversa com Steve começou.
Para um dia só, Bucky já tinha informações demais para digerir. E, embora tudo o que Steve havia contado fosse extremamente interessante e valioso, Bucky só conseguia reviver mentalmente cada palavra que o havia dito enquanto fechava seus pontos. Reversão. Ele tinha cura. Ele tinha uma chance de ser feliz de novo e essa chance estava bem ali, rindo na cozinha como se não tivesse a oportunidade de mudar a vida de alguém tão profundamente como ela tinha. tinha salvado Bucky, de muitas formas, em muitos sentidos. E ele não sabia, de fato, como interpretar isso e, muito menos, o que fazer com isso.
Não muito tempo depois de Sam e começarem a cozinhar, Steve e Bucky decidiram ir tomar banho. Seria uma boa forma de colocar todas as ideias no lugar e descansar um pouco. Steve ocupou o banheiro do andar de baixo, enquanto pediu a Sam que ajudasse Bucky a encontrar o banheiro do andar de cima, já que ele parecia bem confortável, como se estivesse em casa. Bufando como uma criança mimada, Sam seguiu com Bucky em seu encalço, em completo silêncio. Bucky segurava a sacola com seu nome, que os pais de haviam arrumado, enquanto ia hesitante pelos corredores do apartamento, com vergonha, se sentindo como se estivesse invadindo a casa. No final do corredor, poucos passos de chegar ao banheiro, Bucky viu Sam apontar o cômodo com o queixo e virar-se de frente para ele. Recém tomado banho e vestindo uma calça de moletom cinza escura e uma camiseta branca, Sam o olhou de rabo de olho e seguiu reto sentido às escadas, o ignorando totalmente.
A verdade é que Sam ainda estava bastante desconfortável com a presença de Bucky. A postura firme, séria e desconfiada do homem não deixava dúvidas. Mas Bucky não poderia julgá-lo, porque, na verdade, aquela era a reação que ele esperava. E ele não tinha muito mais o que fazer se não se manter quieto, afastado, na dele. Não queria arrumar encrenca com ninguém, já tinha causado problemas demais para todos eles até ali e tinha plena consciência disso. Steve e estavam sendo excepcionalmente atenciosos e delicados com ele, mesmo sabendo que ele não merecia nada daquilo. No fundo, Bucky esperava que todos o tratassem como Sam o estava tratando e seria mais fácil para ele lidar com isso, porque estava preparado para isso. Não estava pronto e nem sabia como lidar com os jeitos de Steve e . Teria que aprender como ser um homem mais humano e mais humanizado.
Bucky logo entrou no banheiro espaçoso, talvez maior do que a metade de seu antigo apartamento inteiro em Bucareste, e fechou a porta atrás de si. O cômodo era todo branco, com móveis elegantes e um chuveiro moderno. Havia vasos de suculentas e pequenos cactos sob a ampla pia e um vaso grande no chão, mais ao canto, com uma flor cor-de-rosa, decorando o ambiente. parecia ter uma vida confortável, muito organizada e muito diferente da dele. Bucky olhou todos os detalhes, como se tivesse entrando em um banheiro pela primeira vez na vida, e riu pelo nariz. Ele se sentia ridículo, frágil e muito inseguro, mas só ele sabia o que aqueles gestos de proteção, de abrigo e de acolhimento significavam para ele.
Evitando pensar mais naquilo, ele então tirou seus sapatos e meias, deixando-os no chão e, em seguida, sua calça e blusa, pendurando-os na parede em um gancho próprio para isso. Bucky se olhou no grande espelho por um instante, apoiando suas mãos sob a pia a sua frente. Queria entender o que estava acontecendo e, mais do que isso, o que tinha acontecido no passado. Queria poder se livrar das memórias ruins, dos pesadelos e daquele braço de metal. Queria saber com segurança, com certeza, quem ele era e o que mais podia fazer. Queria ter a tranquilidade de poder conviver com outras pessoas sem ter tanto medo e incertezas sobre si mesmo. E, depois de conversar com Steve, ele queria saber quem eram aquelas pessoas com ele. Conhecer de verdade, sentir quem elas são, do que gostam, o que fazem, de onde vieram e para onde querem ir. Uma parte dele não o queria deixar conhecê-las, por segurança, por proteção a si mesmo e a elas. Eles estavam com ele, mas Bucky não sabia por quanto tempo seria assim. Não podia confiar demais, não podia se envolver demais. Mas, a outra parte o ficava dizendo que Steve estava ali com ele agora e que não o abandonaria mais. E, aparentemente, nem os outros amigos dele mesmo que, no caso de Sam, contrariado. Bucky não estava mais sozinho. Em 70 anos, ele não estava mais sozinho. E não queria mais estar, nunca mais.
Inconscientemente ele levou a mão humana até sua testa, onde os recentes pontos estavam. Perfeitos, retos e bem fechados. Sem dor e com muita atenção. Bucky deixou-se sorrir leve pela primeira vez em dias, talvez em anos. Alguém, logo ali, o estava vendo com atenção, com cuidado e com preocupação. Alguém o estava vendo como um ser humano. Ele respirou fundo e balançou a cabeça, afastando mais uma vez o turbilhão de pensamentos que tomavam conta de sua mente e foi até o box. Tirou sua cueca, a jogou no chão e foi para baixo do chuveiro que abriu instantaneamente a sua presença. Quente, confortável e seguro. Parecia um sonho bom, daqueles que ele não se lembrava ter tido nenhuma só vez em toda a vida.

***

cantarolava o começo de uma música qualquer, que ela havia escolhido minutos antes, enquanto segurava uma taça de vinho cheia. Seus cabelos compridos estavam meio presos, apenas para não caírem sob os olhos, e ela usava um vestido bege, soltinho no corpo e de mangas curtas. Ela estava descalça, despreocupada. Parecia confortável, como se fosse uma pessoa normal, dando um jantar para alguns amigos normais. Ela fechava os olhos para cantar as vezes e bebericava seu vinho, enquanto ria das tentativas de Sam de cantar com afinação. Bucky não sabia dizer como era possível, mas parecia ainda mais bonita do que antes. Assim que a música chegou perto do fim, Bucky a viu virar-se para o IPad, apoiado em um dos armários da cozinha, ficando de costas para ele.
O vestido curto, na altura das coxas, mostrava mais do que partes de seu corpo que seus trajes, até então, haviam escondido. Mostrava a história do que ela teve que enfrentar para chegar até aquele momento, em cicatrizes espalhadas pelas suas pernas e braços. virou-se novamente, um segundo depois, assim que a melodia de uma nova música começou a tocar e Bucky reparou no novo corte que o cara da roupa de gato, T’Challa, havia feito na coxa dela, em Bucareste. Uma vez mais, ele se sentiu culpado, como se ele mesmo a tivesse machucado. O quanto ela e Steve não tinham se ferido, ou quase se matado, para chegar até ele?
Ao lado dela, Sam deu uma risada alta, reconhecendo a música que começava a tocar, enquanto dizia alta que amava Drake. Ele segurava uma faca grande e seguia cortando algo para preparar o jantar. Ora parava para tomar um pouco de seu vinho, ora para seguir a dança que fazia. Bucky os deixou por alguns instantes e foi até a lavanderia, onde imaginava poder deixar suas roupas sujas e a toalha de banho. Enfiou tudo na máquina de lavar, notando que as roupas dos demais já estavam nela, e a colocou para funcionar. Em seguida, e já com uma nova música tocando no ambiente, ele voltou para a sala e parou no mesmo lugar de antes, ainda em silêncio e sem chamar atenção. e Sam estavam tão entretidos, entre cozinhar, rir, conversar e beber, que não notaram Bucky, recém tomado banho e vestindo o mesmo estilo de roupas novas que os outros dois, os encarando da sala.
Diferente de Steve e Sam, contudo, que usavam apenas uma camiseta e a calça de moletom, Bucky vestiu também um blusão por cima da camiseta. Não queria que vissem seu braço de metal. Só a mão já era suficiente para Bucky se envergonhar e se sentir inseguro. Mas, mais do que isso, não queria que o visse. Não queria que ela sentisse medo e nem que seu braço a remetesse à todas as coisas horríveis que ela leu sobre ele nos arquivos da HIDRA. Embora ela soubesse de tudo, Bucky sentiu medo de perder a delicadeza, o cuidado dela com ele e, com isso, perder a única chance que tinha de voltar a ser quem era antes da HIDRA. Diferente de Steve, que já o conhecia de outros momentos, não tinha motivos para ficar por perto dele. Talvez depois da Sibéria eles até nem se vissem mais.


You saaaaaaaaay I'm crazy, ‘cuz you don't think I know what you've done


cantou alto o suficiente, atraindo a atenção de Bucky novamente para ela. Steve estava de costas para ele, apoiado na bancada que separava a cozinha da enorme sala, por isso, assim como os outros dois que cantavam, não o tinha visto voltar do banho ainda. passou a bater palmas no ritmo da música, sendo acompanhada de Sam, ao seu lado, que cantava com ela o refrão e apontava para Steve fazendo-o rir e negar com a cabeça. Pouco depois, Bucky viu parar ao lado de Steve e colocar uma mão delicadamente sob seu braço, enquanto observava a reação do homem ao provar algo que Sam estava cozinhando. Steve arregalou os olhos e cuspiu o conteúdo na pia, fazendo e Sam soltarem uma gargalhada alta.
Por algum tempo, enquanto os assistia e ouvia a música ao fundo, Bucky desejou ter aquilo. Ter amigos, divertir-se, ser normal, ter paz. Desejou que a letra da música fizesse sentido para ele e que ele a conhecesse, que pudesse cantar. Desejou sentir-se seguro, confortável e sem mais medos, sem ter algo que o fizesse sentir vergonha de si mesmo. Queria ser incluído naquilo e se sentir bem consigo mesmo. Ser confiante o suficiente para fazer parte de algo, sem ter medo de machucar as pessoas, as afastar ou as amedrontar. Bucky desviou seu olhar para o chão, assim que a música terminou e Steve começou a aplaudir. Ele pode ouvir, então, Sam dizer para Steve que ele já podia riscar Sam Smith da lista de artistas atuais para ouvir. E isso trouxe Bucky de volta a realidade. Ele nunca seria tudo aquilo que mais desejava. Não importa onde, quando ou com quem. Ele sempre seria só aquilo. Aquele monstro.
Sua mente começava a divagar, outra vez, pelo pouco que se lembrava de seu passado e de seu presente. Das incontáveis listas que ele, assim como Steve, fazia sobre coisas que ele deveria se atualizar. Desde que tinha se libertado do controle direto da HIDRA, as únicas coisas que sentia eram frustração e desespero. Mas, antes que desse tempo de começar a recordar dos momentos mais tristes de sua vida, seus pensamentos foram cortados por uma voz sugestiva e sua visão fora tomada por uma taça com vinho sendo estirada a sua frente.

- Aposto que você nunca tomou um vinho francês tão bom - comentou sorrindo e olhando Bucky.

- Você é exageradamente nacionalista, sabia disso? - Sam falou alto da cozinha, gesticulando com a faca em mãos.

- Não sou eu quem visto a bandeira dos Estados Unidos como traje - brincou desviando seu olhar de Bucky para Steve, que caminhava até eles e dava de ombros.

- Acho que nunca tomei vinho algum - Bucky respondeu baixo, pegando a taça oferecida por e dando um pequeno gole. Aquilo era realmente, realmente, muito bom.

- Talvez Steve saiba responder essa - olhou novamente para Bucky, que desviou timidamente, e cruzou um dos braços, esperando uma resposta de Steve ao seu lado.
- Se tinha uma coisa que Bucky Barnes gostava mais do que de uma boa festa, era de uma boa bebida - Steve comentou brincalhão olhando seu amigo, que ficou levemente desconfortável. Aquele Bucky não parecia mais existir.

sorriu para eles, mas logo voltou-se para a cozinha, assim que Sam a chamou, para pegar os pratos e talhares e levar até a sala de jantar. Steve a ajudou a montar a mesa, enquanto Bucky manteve-se exatamente onde estava, tomando seu vinho em silêncio. Novas músicas tomavam o ambiente e, uma a uma, Steve relembrava se tinha em sua lista aquele artista para ouvir. e Sam pareciam se divertir com as listas de Steve e sempre faziam comentários provocativos. A sorte deles era que Steve tinha muita, muita, paciência. Cinco minutos depois, Sam veio da cozinha segurando uma travessa enorme com algo que cheirava realmente muito bem. trouxe uma cestinha com pães torrados e uma pequena forma com quadradinhos de queijo e uma faca apoiada em cima, enquanto Steve a acompanhava conversando, segurando uma nova garrafa de vinho. Aquele era, realmente, o melhor vinho que Bucky já havia tomado.

- Apresento a vocês a obra de arte da noite: risoto de alho poró com limão siciliano – Comentou Sam apoiando a travessa no centro da mesa e fazendo uma reverência a si mesmo – Fada, fala em francês para parecer mais elegante.

Steve riu e negou com a cabeça e revirou os olhos para Sam, que não se importou. Bucky achou engraçado ele a ter chamado de fada. Não tinha ouvido isso ainda e imaginou que eles estivessem em um nível de intimidade que talvez Bucky jamais chegaria. Ao menos não enquanto fosse fechado e distante daquele jeito. Bucky deu alguns passos para mais perto deles, parando perto de uma das cadeiras e apoiando sua taça, já vazia, sob a mesa. olhou dele para a taça e indicou a garrafa, vendo-o consentir com a cabeça e sorrir tímido, sem a olhar mais do que um segundo, de relance.

- Risotto poireaux au citron – falou pausadamente, prestando atenção em colocar mais vinho em sua taça e na de Bucky. Steve esticou sua taça para que ela a pudesse encher também.

- Eu me recuso a tentar repetir isso – Sam sentou-se em uma das cadeiras e puxou um prato para si – E é a primeira vez na vida que cozinho algo vegano, porque a fada não come animais e seus derivados, então espero que esteja bom.

- Não faz sentido proteger a natureza se eu como ela – Rebateu , sentando-se igualmente a Sam, ao seu lado.

- Você tem um ponto – Steve apontou para , rindo leve, e se sentou em frente a Sam, que, naquela altura, sem cerimônia nenhuma, se servia com o risoto.

Bucky manteve-se em pé, sem saber ao certo o que deveria fazer. Estava com muita fome, mas não queria parecer indelicado, embora Sam já estivesse com o prato cheio e Steve estivesse se servindo de queijo e algumas torradas. O instinto o mandava atacar, mas sua consciência o mandava não se mover. Bucky bebericou mais um pouco do seu vinho e olhou , que se esticava sob a mesa para pegar torradas, enquanto ria dos sons exagerados de prazer que Sam fazia alto de propósito por comer seu próprio risoto. Ela então colocou três torradas em seu prato e passou a servir um pouco do risoto, mais ao lado, sem deixá-lo encostar nos pães. Bucky a acompanhava com o olhar, em silêncio. Dois minutos depois, contudo, diferente do que era esperado, deixou o prato que tinha montado em frente a Bucky e pegou o dele, que estava vazio. Bucky subiu seu olhar do prato a sua frente até , que sorriu abertamente para ele.

- Você está em casa, Bucky! Por favor, fique à vontade – A mulher apontou para a cadeira, indicando que ele se sentasse, enquanto ela fazia seu próprio prato – Veja o Sam, está tão à vontade que parece um ogro.

- Eu sou muito humilhado nesse grupo – Murmurou ele enquanto mastigava.

- Obrigado, eu não quero...incomodar, nenhum de vocês – Sussurrou Bucky, sentando-se e sorrindo leve para a mulher a sua frente. Sam chegou a abrir a boca, provavelmente para responder algo mal-educado, mas deu uma joelhada nele por baixo da mesa e seguiu servindo-se.

- Não está incomodando, fique tranquilo – Steve respondeu tomando um gole de seu vinho – O que é aquilo, ?

Steve apontou para um medidor de alumínio pendurado na parede da sala, trocando de assunto. O objeto não era tão pequeno, mas bastante discreto, como um quadro. Tinha alguns números escritos em cima de barrinhas que estavam preenchidas de vermelho e azul, respectivamente, sempre em duplas. Os números pareciam coordenadas geográficas e as barrinhas indicavam que mediam algo. Steve e Bucky tinham reparado naquilo enquanto conversavam na sala, mais cedo, mas Steve não conseguiu segurar a curiosidade. Bucky, por outro lado, tinha a impressão de já ter visto aquilo em algum lugar, mas não tinha clareza de onde, quando e muito menos de se aquela memória era, de fato, verdadeira.

- É um medidor de gás carbônico e de oxigênio - deu de ombros, olhando do medidor para Steve.

- E para o que serve isso? - Sam questionou novamente, dando uma garfada em seu risoto.

- Faz quantos anos que você não tem uma aula de biologia? - o olhou provocativa e Sam deu o dedo do meio para ela.

- Sam… - Steve o repreendeu e Bucky sorriu discretamente pela cena. Steve ainda era o velho Steve que ele pouco se lembrava, sempre horrorizado por palavrões.

- Pelo monitor consigo ver quando tem mais gás carbônico na atmosfera do que oxigênio ou vice-versa. O monitoramento me ajuda a ir até lugares do mundo que posso reflorestar, replantar, reviver e assim garantir que os danos sejam os menores possíveis - Ela continuou a falar entre uma garfada e outra em seu prato.

- Então você não esteve bem escondida do mundo todos esses anos? - Steve a olhou, se servindo de risoto, e negou com a cabeça, terminando de mastigar.

- Alguém tem que olhar para onde os Vingadores não olham - Sorriu irônica, dando uma cutucada nele e em Sam, que murmurou:

- Você pega pesado as vezes – Steve concordou com a cabeça e riu baixo.

- Os homens têm destruído tudo aquilo que os permite viver. Queimadas, incêndios, desflorestamentos, descarte de lixo, sedimentação compulsória...tudo o que faz o mundo permitir a vida está sendo destruído ou extraído. Vai chegar o dia em que a humanidade pagará por isso com a própria vida. Mas, até lá, eu posso atrasar um pouco essa catástrofe – A mulher explicou e voltou a comer.

- E como ninguém nunca te viu fazer isso por aí? Nenhum governo, nada...? – Perguntou Sam intrigado, lançando um quadradinho de queijo na boca.

- Não é comum ter câmeras em florestas – rebateu e pegou sua taça de vinho, bebendo mais um pouco do líquido.

- Satélites? – Sam insistiu. Bucky comia em silêncio, acompanhando a conversa com os olhos. A comida estava excelente, mas jamais deixaria Sam saber disso. Ele não merecia, ao menos não vindo de Bucky.

- Eles têm imagens de satélites de áreas quilométricas sendo magicamente reflorestadas em minutos e isso foi ótimo para eles, na verdade. Wakanda reportava todas as minhas atividades, em segredo de Estado, a todos os governos do mundo. Então, em contrapartida, eles se mantiveram calados sobre mim – Ela disse e riu sem graça, voltando seu olhar para seu prato.

- Melhor e muito menos burocrático do que o Acordo de Paris é ter uma parisiense resolvendo os problemas ambientais do mundo – Sam brincou e os demais riram.

Aquilo fazia sentido. Para todos eles. não parecia do tipo que incorporava seus poderes e todas as habilidades que tinha para si mesma, para seus próprios interesses. Pela pouca convivência com ela nesses dias, todos eles entenderam isso. Ela fazia o estava a seu alcance para ajudar, ela se preocupava com as pessoas e, mais do que isso, se preocupava com o meio ambiente. era uma mulher de princípios. E enquanto pudesse lutar por eles, ela lutaria. Custasse o que fosse. Se a tivessem encontrado antes e se soubessem de toda essa luta dela em proteger o mundo e a humanidade dessa forma, de um jeito que nenhum dos outros poderia fazer, certamente a teriam convidado para se juntar a eles mais cedo. Mas Steve acreditava que a vida não fazia nada por acaso. Aquele era o momento de encontrá-los e aquele era o momento de, cada um deles ali, encontrar .

- Parece que os acordos internacionais te perseguem – Steve brincou, vendo rir com sua taça na boca.
- Quem no mundo não quer ter pessoas como nós sob seu controle? Sokovia demorou mais do que achei para acontecer - Ela respondeu e voltou a prestar atenção em seu prato.

Steve aproveitou a deixa para inteirar Bucky sobre o Tratado de Sokovia. Ainda não tinha entrado nesse tema com ele e era importante que ele soubesse no que estava se metendo ao fugir com os outros três. Mais do que estarem atrás de Bucky, por todo seu histórico de crimes sendo o Soldado Invernal, os governos agora estavam também atrás de , Steve e Sam, por serem entendidos como criminosos de guerra. E, logo menos, com os outros amigos que tinham pedido ajuda e que esperavam chegar em Berlim, mais pessoas estariam envolvidas naquela merda toda. Os três se revezaram em contar a Bucky sobre o tratado, juntando seus pontos de vista e respondendo, vez ou outra, perguntas que ele fazia. A música ainda tocava ao fundo e os quatro terminaram de comer alinhando o resto da história sobre o que aconteceu até ali.
Steve e Bucky repetiram a janta e, meia hora depois, estavam todos cheios, recostados em suas cadeiras, ainda bebendo o final da segunda garrafa de vinho do dia. e Sam já sentiam seus sentidos mais lentos, mas Bucky e Steve não se afetavam pelo álcool, ou, ao menos, não por quantidades que em geral afetam pessoas comuns. Os quatro ficaram em silêncio por alguns minutos, deixando se levar pelos seus próprios pensamentos e pela canseira que os tomava. Estavam exaustos e, agora que já haviam comido, a canseira parecia pesar ainda mais.

- Temos que pensar no que vamos fazer para sair daqui – Steve comentou preocupado, como se algo o tivesse alertado mentalmente sobre isso. Bucky concordou levemente com a cabeça, abaixando o olhar. Todo mundo parecia tão entretido até então que não tinham levantado aquele assunto.

- Podemos ver isso amanhã? Eu estou exausto - Sam falou colocando sua taça em cima da mesa.

- Bebêzão – brincou e se levantou, recolhendo os pratos da mesa.

- Você brinca com o perigo, – Sam rebateu a olhando levar as louças para a cozinha. deu uma risada irônica.

- É mesmo? Quem é o perigo? Você? – Ela voltou para a sala de jantar, com um sorriso no rosto.

- Eu só não vou responder, porque eu preciso dormir, é sério – Sam bocejou e se levantou da cadeira, se esticando em seguida.

- É melhor ficarmos todos concentrados aqui na sala, não sabemos o que vai acontecer – Steve sugeriu pensativo.

- Pegue os colchões lá em cima e jogue na sala – apontou para o andar de cima.

Ela concordou com Steve. Não sabiam como seria a noite, nem se seriam descobertos, invadidos ou se algo arriscado aconteceria, então, de fato, era melhor que se mantivesse juntos, próximos. Dessa forma, qualquer mínimo perigo poderia ser respondido pelos quatro, ao mesmo tempo. Steve então se levantou, ajudando a juntar a louça que ainda restava na mesa, enquanto Sam saiu andando, mais lento do que gostaria, sentido a escada. Contudo, quando deu o impulso para subir o primeiro degrau da escada, Sam cambaleou para trás, se segurando na parede. Estava mais zonzo do que gostaria de admitir. Talvez devesse ter bebido menos vinho, mas o que ele poderia fazer? Estava tão bom. e Steve se entreolharam por um instante. A mulher mordeu os lábios segurando a risada e Steve colocou a mão na própria testa, negando. Bucky olhou apreensivo para Sam, que se apoiava na parede.

- Acho melhor ajudar ele – Bucky comentou, observando Sam tentar subir, outra vez, a escada.

- Pode ser que ele não chegue vivo até o colchão – concordou e riu, pegando a pilha de louça da mesa, mas Bucky se levantou e puxou a pilha delicadamente dela. Definitivamente não iria ajudar Sam, ele não aceitaria. Então era mais seguro ficar com .

- Eu te ajudo.

- Obrigada – sorriu para Bucky, que se concentrava em equilibrar toda a pilha de louça de uma única vez enquanto a levava para a cozinha.

- Eu vou com o Sam então, me desejem sorte – Steve disse sorrindo de lado para os dois amigos, que murmuraram ‘boa sorte’ em uníssono, e indo atrás de Sam rapidamente, que ainda estava no terceiro ou quarto degrau.

Da escada, Sam tentava subir degrau por degrau, tateando a parede para não cambalear novamente. Steve chegou logo até ele e o ajudou a subir, o apoiando com uma mão nas costas, enquanto negava com a cabeça e ria sozinho. Vinho sempre foi o ponto fraco de Sam. Se tinha uma coisa que o derrubava, essa coisa era vinho. Enquanto isso, pegou uma última faca, a de cortar o queijo, que havia sido esquecida na mesa e tirou a toalha rapidamente, colocando o vaso de flor que ficava ali e foi para a cozinha. Por lá, Bucky colocava tudo cuidadosamente na lava-louças, item por item, com calma. deixou a toalha de mesa em cima da bancada e ficou observando Bucky, a poucos passos dele. Seu cabelo, já seco naturalmente, estava caído sob parte de seu rosto e ele não parecia se incomodar. Tinha a respiração calma e estava concentrado em não quebrar nenhuma louça, evitando pegar elas com a mão esquerda, a da prótese de metal, ela reparou.
imaginava o quão difícil era para ele lidar com o braço de metal. Parecia pesado, era rígido, gelado, deveria ser muito desconfortável. E ela podia imaginar o quanto ele ainda doía em Bucky, uma dor que nunca teria fim. se lembrava dos relatórios de extração do braço que havia encontrado. Em um procedimento brutal, um cientista cujo nome não pode identificar, pois estava sempre censurado nos relatórios, arrancou o braço esquerdo de Bucky e acoplou uma prótese que não foi feita para um corpo humano aguentar. Bucky demorou quase dois anos para se adaptar ao novo braço. Ele foi um teste da Hidra em muitos sentidos e o braço era o principal deles, um lembrete para que ele nunca se esquecesse de onde vinha, de quem ele era e das coisas que tinha feito.
Bucky já havia notado a presença de desde que entrou na cozinha, por instinto, mas não disse nada para ver o que ela faria. apenas manteve-se em pé, segurando a faca do queijo em mãos, o encarando. Pelo silêncio e pelo jeito que ela o encarava, parecia estar imersa em seus próprios pensamentos. Bucky seguiu prestando atenção na louça até colocar a última peça na lava-louças e fechar a porta. Apertou o botão de ligar e se virou de costas para , para lavar as mãos na pia. não pode deixar de notar o quanto as costas dele eram largas e o quanto os braços dele pareciam enormes naquele blusão de moletom que ele vestia. Com a postura perfeita e os cabelos sob os ombros, até de costas Bucky era bonito.

- Aconteceu alguma coisa? – Bucky se virou de supetão, enxugando as mãos em um pano de prato.

não esperava que ele fosse se virar e, muito menos, que ele sabia que ela estava ali, o encarando sem motivo nenhum. O susto foi tão grande quando Bucky se virou, que soltou a faca que estava segurando e, institivamente, para não a deixar cair no chão, ela levou sua perna para frente, prensando a faca no armário mais próximo. Acontece que, sem ter se lembrado disso, talvez pelo álcool no sangue, ela levou justamente a perna machucada por T’Challa. A faca parou no armário exatamente com a parte da lâmina virada para , cravando sua pele em cima do machucado já aberto. gemeu de dor e curvou seu corpo para frente, dando um pequeno soco no armário. Ela então apoiou os cotovelos no móvel e manteve a perna parada, com a faca grudada nela, na intenção de não piorar o corte.
Na fração de segundo em que tudo isso aconteceu, Bucky se aproximou de como um raio, parando a poucos centímetros dela. Ela tinha a cabeça baixa, mas não olhava o corte, parecia concentrada em não se deixar levar pela dor, puxando e soltando o ar pela boca. Mesmo sem querer, aquilo era, mais uma vez, culpa de Bucky. Mesmo querendo ajudar, ele estragava tudo. Bucky demorou alguns instantes até, finalmente, tentar fazer algo para tirá-la dali.

- Me desculpe, eu não queria te assustar, me desculpe – Bucky falou com a voz baixa e rouca, sem olhar para que, naquela altura, desviou seu olhar para ele.

- Está tudo bem, não foi sua culpa, eu sou muito desastrada – Ela falou calmamente, tentando se manter no controle da situação. Mas a verdade é que aquilo doía para caralho.

- Não foi culpa sua – Bucky rebateu e se encostou no armário, olhando o sangue escorrer lentamente na perna dela – Tudo bem, calma.

não sabia se ele estava tentando acalmar ela ou a si mesmo. A testa dele estava franzida e ele parecia bastante preocupado, com a respiração começando a ficar descompassada e com certo desespero transparecendo em sua voz. Para alguém que tinha um longo histórico de tragédias na vida, aquela era a última reação que esperaria encontrar. Diante daquilo, pensou que, talvez, bem lá no fundo, Bucky não fosse absolutamente nada do que o tinham treinado para ser. Aquele Bucky, que estava ali, na cozinha da sua casa, não era o soldado da hidra. Era só o Bucky. Mas nem ele ainda sabia disso, porque nem ele havia se dado uma chance de descobrir.

- Vamos fazer assim: no três você se afasta, de vagar, e eu tiro a faca. Depois damos um jeito de fechar o machucado – Sugeriu Bucky preocupado, encarando pela primeira vez desde que conversaram mais cedo. Ela apenas concordou com a cabeça, mordendo o lábio inferior.

Bucky pegou o cabo da faca com delicadeza, para não a mover, e contou até três com calma. No três, puxou seu corpo com cuidado para trás, se afastando alguns centímetros do armário, enquanto Bucky mantinha a faca no lugar, a tirando da coxa da mulher. gemeu baixo assim que a faca saiu de sua pele e sentiu sua perna fraquejar. Ela nunca, nunca mesmo, iria se acostumar com a dor. Não importa quantas lutas se envolvesse nessa vida. Bucky jogou a faca de qualquer jeito dentro da pia e, em um movimento rápido e firme, pegou no colo, como se ela fosse feita de pelúcia. Ela se assustou, outra vez, com o movimento repentino dele e com o toque gelado de sua mão de metal segurando suas pernas, enquanto o braço direito sustentava as costas dela.

- Eu posso...andar – Ela comentou meio em estado de choque, apoiando uma mão no ombro de Bucky. Ele seguiu andando com ela no colo, a segurando firme.

- Eu sei que pode, mas é bem mais fácil se outra pessoa fizer – Bucky respondeu sorrindo de lado, repetindo a frase que tinha dito para ele mais cedo, tentando o convencer a deixá-la fechar seus pontos. bufou segurando o sorriso.

Se lembrando das plantas que havia usado nele mais cedo, e o ensinado sobre suas propriedades medicinais, Bucky a levou para a sala e a sentou, com cuidado, no sofá. Bucky se lembrou do método indolor e achou que, se a deixasse perto das plantas, ela sofreria menos com a dor. pareceu confusa por alguns instantes, até acompanhar o olhar de Bucky e notar os vasinhos de plantas. Ela sorriu discretamente, o olhando de lado. Aquilo tudo tinha sido fofo demais. Demais. Algo digno de um homem da época dele, sem dúvidas. Bucky voltou seu olhar para ela que, automaticamente, voltou a ficar séria.

- Na última gaveta do armário do banheiro tem tudo que precisamos, algodão, álcool, gaze, pontos falsos e uma pomada de cicatrização que deve dar conta - disse olhando o banheiro - Pode pegar a toalha que está lá também, por favor.

Bucky assentiu prontamente e saiu para buscar o que havia pedido, ao tempo em que Steve e Sam desciam pelas escadas, com cuidado, segurando os colchões que foram buscar. Em alguns segundos, contudo, eles se deparam com sentada em seu sofá, com a perna completamente ensanguentada, assim como parte da barra de seu vestido, os olhando com certa cara de... dor. Ela estava sozinha. Nem sinal de Bucky. Steve e Sam largaram os colchões no meio da sala, de qualquer jeito, e foram sentido . Steve se agachou na frente dela e Sam se manteve em pé, ao lado do sofá, olhando para os lados como se procurasse algo com cautela.
Diante daquela cena, e com o contexto que tinham dos fatos, Steve e Sam acharam a única coisa que era possível de se achar naquele momento: Bucky tinha tido um surto, como o que teve na cede da força-tarefa, e tinha atacado . De novo. Mas antes mesmo que eles pudessem perguntar o que tinha acontecido e se ela estava bem, Bucky saiu do banheiro do andar de baixo, tranquilo, segurando todos os itens que havia pedido para ele. Como se tivessem combinado, os três o olharam ao mesmo tempo, mas foi Sam quem se adiantou. Ele sabia que aquilo iria acontecer de novo, uma hora ou outra. Embora Steve e tentassem o proteger, Sam tinha certeza, absoluta, do perigo que corriam em conviver com Bucky.
Dando passos largos sentido Bucky, Sam fechou as mãos em punhos e, sem pensar duas vezes, lançou um soco em direção a Bucky que, pela habilidade ou pela sorte de Sam estar levemente alcoolizado, desviou, sem derrubar absolutamente nada do que segurava. Ele parou há alguns passos de Sam, o olhando com profunda confusão, sem entender o que estava acontecendo ali e nem porque tinha sido atacado sem motivos. Seus olhos estavam tristes e ele encarava Sam na defensiva, segurando a toalha com força, a mão de metal fechada em um punho. se levantou com o último pico de força que tinha nas pernas assim que percebeu que Sam ia tentar atacar Bucky outra vez, enquanto Steve se colocava entre Sam e Bucky, mais perto deste. Bucky sequer se mexeu.

- SAM, PARE COM ISSO – praticamente gritou, nervosa, gesticulando com as mãos.

- Sam, o que você está fazendo? – Steve perguntou aflito, o olhando bravo, em alerta. Sam parou no meio do caminho e olhou de Steve para , com raiva.

- Ele te atacou, não foi? – Sam perguntou estridente, suas mãos ainda em fechadas em punhos ao lado de seu corpo, encarando Bucky como se o pudesse matar com os olhos. Bucky desviou seu olhar para o chão. Era culpa dele, sim, mas não daquele jeito.

- NÃO, ele não me atacou, Sam – respondeu exausta, ainda furiosa – Eu deixei a faca cair em mim mesma, foi só isso. Ele só está tentando ajudar. Dá um tempo para ele, que merda.

- , por favor – Steve apontou para ela e olhou de volta para Sam, esperando que ele não respondesse nada e terminasse aquilo ali. Já tinha ido longe demais.

Sam olhou de para Steve, praticamente sem piscar. Se sentiu envergonhado pela atitude precipitada que tomou e, como se pedisse desculpas à Steve com os olhos, voltou-se para o colchão que tinha jogado no chão poucos segundos antes. Discretamente ele puxou um dos colchões para um canto, mais próximo a janela, e se deitou, mais uma vez sem cerimônias. Não havia travesseiros nem cobertores ali, mas Sam não se importava. Apenas se deitou no colchão e ficou encarando a chuva cair, janela afora, sem dizer mais nada, a ninguém.

- Você está bem? – Steve perguntou baixo a Bucky que só assentiu com a cabeça, sem levantar seus olhos do chão.

Aquilo tudo era difícil para Sam, ele sabia. Mas, igualmente, era difícil para ele. Não queria que tivessem medo dele ou que atribuíssem a ele todas as coisas ruins que aconteciam. Não queria que desconfiassem dele o tempo todo ou que ficassem só esperando que, a qualquer momento, por motivo nenhum, ele fosse fazer algo contra algum deles. Ele jamais os machucaria, jamais faria algo contra eles porque quisesse fazer e queria que Sam entendesse isso. Mas aquilo era pedir demais. Mesmo não tendo culpa do que tinha acabado de acontecer, ele se sentiu mal, triste e envergonhado. Se tivesse algum jeito de sair dali naquele momento, ele sairia, sumiria e nunca mais voltaria, não os assustaria nem atrapalharia mais.
Bucky voltou seu olhar até assim que sentiu o cheiro de camomila tomar conta do ambiente, mais forte do que da vez em que ela o estava dando pontos. Talvez as plantas sentissem a dor de e estivessem reagindo por conta própria. se sentava novamente, com ajuda de Steve, tentando não fazer movimentos muito bruscos com a perna machucada. Bucky foi até ela em silêncio e se agachou ao lado do sofá, colocando todos os itens que trazia consigo no chão, ao seu lado. acompanhou cada movimento dele com os olhos e viu Steve se afastar, comentando que iria buscar travesseiros e cobertores no andar de cima.

- Eu sinto muito. Mesmo – Ela falou olhando Bucky que não respondeu nada, apenas seguiu passando a toalha, com álcool, sob o machucado e, em seguida, em toda a perna dela, limpando o sangue.

recostou-se no sofá e apoiou a cabeça no encosto, olhando a chuva cair lá fora. O cheiro da camomila, misturada com outras plantas, inundava a sala e protegiam de sentir qualquer incomodo. Não era só Bucky quem não estava acostumado a não ser cuidado. tinha passado tantos anos sozinha, longe de seus pais e sendo treinada para ser resistente, combativa e independente que não tinha tido muitas oportunidades de ser cuidada por alguém. Era claro que nada se comparava ao que Bucky havia passado, mas do seu jeito, diferente, ela também conhecia daquela solidão e também estava conhecendo da sensação nova de ser protegida. Por isso, assim que sentiu Bucky começar a tratar sua perna, ela sentiu seu rosto queimar, estava constrangida. Ele se manteve em silêncio o tempo todo, enquanto limpava, dava os pontos falsos, passava o cicatrizante na perna de e finalizava o curativo. Assim como fez com a louça, ele tomou todo o cuidado possível para não encostar sua mão esquerda nela e não levantou seu olhar nenhuma vez para ela.
Steve voltou para sala dois minutos depois de ter saído e jogou uma coberta e um travesseiro em Sam que, pela canseira, vergonha e álcool, já tinha dormido. Ele então terminou de arrumar o outro colchão no chão, e distribuiu cobertores e travesseiros pelos sofás, observando Bucky ajudar com calma. Ela bocejava de tempos em tempos e parecia lutar contra seus próprios olhos que insistiam em fechar. Por um momento, observando aquilo, Steve desejou que seu amigo tivesse uma nova chance de viver. De encontrar alguém, de se preocupar, de conhecer, de se apaixonar, de se divertir. Ele merecia ser como era antes, merecia ter a chance de viver o que lhe foi tirado e merecia ser feliz, ser um homem normal.
Bucky terminou de tratar o mais novo machucado de e colocou todas as coisas na toalha que havia usado para limpá-la. Ela não tinha tentando mais falar com ele depois de se desculpar por algo que sequer tinha culpa e, pelos dez ou quinze minutos que ele demorou, o silêncio reinou no ambiente. Bucky não queria conversar, estava chateado com o que tinha acabado de acontecer, então agradeceu mentalmente por ter entendido isso. Mas foi só quando ele se levantou e deu uma rápida olhada nela que ele percebeu que, na verdade, ela tinha adormecido. Tranquila e profundamente, ela estava dormindo sentada no sofá. Bucky sorriu discreto para a cena e olhou Steve, de pé com as mãos nos bolsos da calça, o encarando do outro lado na sala. Steve olhou sugestivamente para o colchão vazio no chão e Bucky riu sem graça para ele, em silêncio.
Pela segunda vez naquele dia, e de um jeito ainda mais delicado e cuidadoso do que a primeira, Bucky pegou no colo e a levou até o colchão, a deitando em seguida. Ele então a cobriu e a observou por alguns segundos, sem saber explicar o porquê tinha feito aquilo. Steve caminhou silencioso até ele e colocou uma mão no ombro de seu amigo, dando dois tapinhas e indicando com a cabeça que tomassem seus lugares nos sofás. Bucky se sentou em um, vendo Steve se deitar em outro enquanto ligava a televisão em um volume tão baixo, que mal podiam ouvir devido ao barulho da chuva.

***


Continua...



Nota da autora: Oi gente, como vocês estão? Espero que bem! O que estão achando desses primeiros contatos de #Flucky? Super fofos, não é? Eu morro de amores por eles desde o começo e amo esses capítulos 8 e 9. E falando em capítulo 8, queria dizer que eu amei os comentários de vocês. Fiquei tão feliz <3 Obrigada mesmo, por tudo. E continuem me contando o que estão achando da história, das personagens e, claro, do super casal que está nascendo. Eu vou amar saber! O capítulo 10 já vem aí, prometo.
Obrigada por lerem. Beijinhos, Ju S. :)

Outras Fanfics:
Care Bears (Avengers - Finalizada)


Qualquer erro no layout dessa fanfic, notifique-me somente por e-mail.


comments powered by Disqus