Capítulo Único
Você se aproximou, sentou ao meu lado e naquele momento
As luzes se apagaram e uma porta se abriu
Quando essa luz se apaga
A história começa a surgir
Entre os destinos que se cruzam, a cortina de hoje se abre.
2045.
O mundo colapsou em fevereiro de 2040, as cidades perderam a energia e os satélites caíram. Muitas pessoas adoeceram e morreram após um vírus circular pelo mundo. Ninguém sabia sua origem e muito menos como foi extinguido, mas as pessoas mal sobreviveram. Os poucos sobreviventes que restaram, se reuniram em grupos, mas alguns ainda andavam por aí sozinhos. As pessoas não tinham mais esperança, era parecido para dois amigos que sobreviveram juntos. Lee Min-ho e Kim Seungmin estavam juntos desde o colapso mundial, sem esperanças e cansados, apenas com um carro velho que mal funcionava. Gasolina era escassa, eles buscavam um lugar para se abrigar e parar de usar o carro com tanta frequência. Seungmin avistou uma casa abandonada e os dois estacionaram na frente dela, desceram do carro e entraram para examinar o local. Haviam muitos entulhos, mas Min-ho encontrou algo que despertou uma faísca de esperança em seu coração.
— Instrumentos… intactos. — Ele segurou um violão em suas mãos, Seungmin se aproximou e mexeu em alguns entulhos, mostrando uma bateria — suja, mas intacta. Os dois continuaram a examinar o local, onde haviam outros instrumentos, amplificadores portáteis com os fios remendados e alguns microfones velhos.
— Parece que músicos moravam aqui. — Disse Seungmin, examinando o local.
— Na verdade, parece que o destino nos trouxe aqui, Seungmin. — Min-ho sorriu, um sorriso que Seungmin não via há 5 anos, carregado de esperança.
— Tudo bem, me conta sua ideia. — Seungmin arrastou um banco e se sentou. — Estou ouvindo. — O amigo sorriu ao ver que Seungmin estava aberto a escutar sua ideia.
A ideia que compartilharam juntos era sobre esperança, não só para eles, mas uma forma de tentar trazer esperança para as pessoas através da música. Eles tinham tudo ali, até encontraram um mini-gerador velho, que provavelmente não duraria mais de meia hora. Seungmin focou em escrever uma música que pudesse impactar e trazer esperança para as pessoas, em um caderno velho que encontraram na casa. Min-ho começou a preparar os cartazes, folhas rasgadas do mesmo caderno, pedaços de papelão. Min-ho escrevia com cuidado, como se cada palavra fosse uma promessa. Mesmo com as mãos sujas e o papel rasgado, ele fazia questão de escrever bonito — porque, no fim do mundo, beleza era resistência. Quando não estavam produzindo, estavam arrumando um meio de espalhar seus cartazes pela cidade. Os dois encontraram no que se segurar, em meio à tudo aquilo, e queriam transmitir isso para as pessoas.
Eles planejaram um show, espalharam cartazes e arrumaram os instrumentos e equipamentos em seu carro. Em muito tempo, os dois não sorriam daquele jeito. Enquanto Min-ho dirigia, Seungmin espalhava os cartazes pela cidade, até que o carro parou de repente, fazendo com que Min-ho freasse bruscamente.
— Qual é?! — Min-ho resmungou. — Agora não! Por favor! — Os dois desceram do carro e abriram o capô, o carro estava saindo uma fumaça, que demonstrou sua impossibilidade de seguir viagem.
— Não acredito nisso! — Seungmin levou as mãos à cabeça e chutou algumas coisas que haviam caído no chão. — Como vamos chegar no local que nós indicamos? — Ele pegou um dos cartazes e apontou para um local, um lugar onde costumava haver pequenos festivais, não havia restado muita coisa além de duas pequenas arquibancadas de madeiras e resquícios de um pequeno palco de madeira. Mas, eles sabiam que havia iluminação lá e eles tinham um pequeno gerador, então — era o local ideal.
— Seungmin, vamos levar apenas o violão e o teclado. — Sugeriu Min-ho. — A gente consegue levar os dois microfones e os instrumentos nas costas, acredito que dois amplificadores sejam o suficiente, então, eu levo o violão e os dois amplificadores, com os microfones dentro da capa do violão. Você leva o mini-gerador e o teclado. Acha que consegue? — Seungmin sentiu um arrepio percorrer sua pele ao notar a determinação de Min-ho, ele apenas assentiu e fez o que ele havia sugerido.
Os dois caminharam pela floresta, marcando seus caminhos com pequenos pedaços de tecido, para conseguir retornar. Ao chegarem no local, estavam cansados, o peso dos instrumentos não pareceu nada durante o caminho. Mas agora, seus corpos sentiam as consequências de terem ido até ali. Enquanto montavam tudo, seus corações estavam cheios de esperança que as pessoas iriam comparecer.
Próximo dali, uma jovem de mais ou menos a mesma idade deles, chamada , caminhava em busca de mantimentos. Um vento forte bateu e um papel grudou em seu rosto, ela soltou um grunhido de irritação e tirou o papel, lendo o que estava escrito. se surpreendeu ao ler que alguém faria um show naquele palco abandonado, apesar de sua barriga estar roncando, algo em seu peito a atraiu para aquele local. Não era muito longe dali e não faria mal apenas espiar. Ela caminhou até lá e observou de longe, dois jovens de pé, em cima do que restou daquele palco improvisado.
— Ninguém virá, Seungmin. — Min-ho parecia decepcionado.
— Vamos cantar assim mesmo, nós viemos aqui para isso. — A determinação nas palavras de Seungmin fizeram Min-ho sorrir. Os dois começaram a tocar e cantaram com todo o coração, suas vozes fizeram sentir como se estivesse em um mundo diferente. De alguma forma, ela esqueceu que não comia há dois dias e começou a caminhar devagar em direção ao palco. Seungmin moveu seu olhar para ela, seguindo cada um de seus passos, ela apenas ficou ali — parada, de pé — olhando para os dois. Sua presença ali fez com que Min-ho sorrisse satisfeito por sua música ter alcançado uma pessoa. Enquanto Seungmin, parecia… cativado por ela. Quando a música acabou, aplaudiu e os dois desceram do palco, indo até ela. Ao vê-los se aproximarem, ela se afastou um pouco, fazendo com que os dois parassem em uma distância curta — mas respeitosa.
— Oi! — Min-ho disse, em um aceno.
— Oi… — Ela respondeu, um pouco sem jeito.
— Você… viu nossos cartazes? — Perguntou Seungmin e ela assentiu. — Me chamo Seungmin e esse é o Min-ho. — Seungmin estendeu a mão, com um sorriso.
— . — Ela estendeu a mão, um pouco hesitante.
— Você gostou? Da nossa música? — Min-ho sorriu.
— Sim… — respondeu, encarando os próprios pés. — Parecia uma coisa… uma luz, no meio desse caos. Seungmin sorriu pequeno, como se as palavras dela tivessem acendido algo nele também.
— Foi por isso que cantamos. — Ele disse. — A gente… só queria acender alguma coisa em alguém. O vento soprou de novo, carregando um dos cartazes esquecidos do chão. observou o papel voar e pousar com leveza sobre uma folha seca.
— Vocês conseguiram. — murmurou, quase como se estivesse falando com o vento. Por um momento, ninguém disse nada. Os três apenas ficaram ali, no meio do silêncio — mas, dessa vez, ele não parecia tão pesado. Min-ho foi o primeiro a quebrar a pausa.
— Você está sozinha? — Perguntou ele. hesitou, depois assentiu com um movimento quase imperceptível. — A gente também esteve assim por muito tempo. — Completou. — Mas não precisa mais ser. — Seungmin lançou um olhar rápido para o amigo, depois encarou com suavidade.
— A gente tem comida... um pouco. Um abrigo... mais ou menos. E uma bateria que talvez aguente outra música. — Ele riu, baixinho. — Quer vir com a gente? — olhou de um para o outro. Em seus olhos havia dúvida, fome e cansaço. Mas também havia algo novo: curiosidade. E talvez... esperança.
— Só até o próximo refrão. — respondeu, com um sorrisinho tímido. Min-ho jogou a cabeça pra trás e riu de verdade pela primeira vez em anos. Seungmin apenas ofereceu a mão. Ela aceitou. E assim, sem promessas, sem perguntas demais, os três voltaram pelo mesmo caminho marcado com pedaços de tecido. Agora, com um novo passo, uma nova companhia e uma nova canção prestes a nascer.
Ela aceitou.
O sol já começava a se pôr, tingindo o céu com um laranja opaco que fazia as sombras parecerem mais longas, mas menos ameaçadoras do que costumavam ser.
— Você gostava de música? — Seungmin perguntou, ao caminhar ao lado de .
— Antes? — ela olhou pra ele, e ele assentiu. — Sim… mas eu nunca toquei nada. Só… ouvia. Me fazia sentir que o mundo ainda tinha cor. — Seungmin sorriu. Um sorriso pequeno, com as bochechas sujas de poeira e os olhos brilhando um pouco.
— Ainda tem cor. Você apareceu. — desviou o olhar, surpresa com a doçura inesperada da frase. Seus passos diminuíram sem perceber, e Seungmin continuou andando ao seu lado, em silêncio, respeitando o espaço dela, mas presente. Ela olhou de canto e viu que ele ainda carregava o teclado nas costas, mesmo exausto.
— Quer que eu leve? — ela ofereceu, apontando com a cabeça.
— Não. — Ele respondeu com um meio sorriso. — Você já tá carregando algo mais pesado. Sozinha, até agora. — Ela parou, encarando-o com os olhos marejados. Seungmin também parou, percebendo que tinha dito mais do que pretendia. Mas não se desculpou. Apenas ficou ali, esperando, como se dissesse com o olhar que estava tudo bem sentir.
— Talvez eu… não precise carregar sozinha mais. — disse, quase num sussurro. Ele assentiu. E, em silêncio, estendeu a mão pra ela. Dessa vez, ela aceitou sem hesitar. Min-ho, que estava mais à frente, fingiu não notar. Mas sorriu sozinho.
A chegada de trouxe algo novo para a dinâmica do grupo. O abrigo improvisado tinha cheiro de madeira velha e poeira, mas depois de dias vagando, para parecia quase um lar. Min-ho dormia profundamente, enrolado em um cobertor velho. Seungmin, por outro lado, estava sentado no chão, com o violão nos braços. se aproximou, deitada de lado com a cabeça apoiada nas mãos.
— Vai tocar de novo? — ela perguntou, a voz baixa para não acordar o amigo.
— Não... só tô lembrando o som dela. — ele respondeu, deslizando os dedos pelas cordas sem realmente fazer som. o observou. O foco dele. A calma nos gestos. O contraste com o mundo quebrado ao redor.
— Foi você quem escreveu aquela música?
— Foi. Mas eu pensei nela com Min-ho. Ele colocou a luz que faltava.
— Você... sempre fala com esse tipo de calma? — Ele riu, baixinho.
— Nem sempre. Só quando alguém escuta. — desviou o olhar, sentindo o rosto esquentar. Não sabia se era pelo elogio ou por finalmente se sentir... vista.
Dias depois, a chuva veio com tudo. O telhado do abrigo tinha buracos, e os três correram para proteger os instrumentos. escorregou na entrada, e Seungmin foi rápido em alcançá-la.
— Tá tudo bem? — ele segurou seus braços, os olhos arregalados. Ela assentiu, encharcada. E então, os dois riram. Riram como se a chuva fosse limpa. Como se lavasse o peso que carregavam.
— Sabe o que isso me lembra? — ele disse, ainda segurando seus braços. — Um videoclipe triste.
— Pelo menos a trilha sonora é boa. — ela sorriu. Os olhos dele desceram para os lábios dela por um segundo. Só um segundo. Mas o suficiente para ela notar. Ele se afastou com respeito. Mas o espaço entre eles já estava diferente.
Min-ho saiu para procurar comida, deixando os dois sozinhos. encontrou o caderno de Seungmin aberto numa página nova, em branco.
— Posso tentar escrever com você? — Ele ergueu os olhos, surpreso — mas feliz.
— Claro. A música agradece. — Eles passaram horas ali, lado a lado, rabiscando frases, testando melodias baixas. Os dedos dela roçaram os dele ao pegar o lápis. Ela não afastou a mão. Ele também não. Quando terminaram o primeiro verso, ela olhou pra ele e disse:
— Essa... eu quero cantar com você. — Ele a encarou. Havia algo nos olhos dele que não precisava de tradução.
— Essa é só nossa, então. — Respondeu ela, com um sorriso nos lábios. Naquela noite, o gerador ainda tinha energia suficiente para mais uma música.
Min-ho voltou antes do anoitecer, com algumas latas de comida e um sorriso que dizia “sobrevivemos mais um dia”. Seungmin já tinha afinado o violão, e segurava o papel com a letra que escreveram juntos. Eles não tinham plateia. Mas tinham um ao outro. A primeira nota ecoou suave entre as paredes gastas do abrigo. A voz de entrou tímida, mas firme. Seungmin a seguiu, os dois se olhando como se cada palavra dita fosse um pacto silencioso: "a gente ainda sente, mesmo quando o mundo não sente mais nada." Min-ho os acompanhou batucando em uma caixa de madeira, e por um breve instante, todos os sons do fim do mundo desapareceram. Só existia aquela música. Aquela canção feita por três sobreviventes que decidiram, simplesmente, continuar. Quando terminaram, houve silêncio. Mas não aquele silêncio sufocante de antes. Era um silêncio bom. Um silêncio cheio. olhou para Seungmin. Ele ainda a encarava como se ela fosse som, luz, cor — tudo o que ele achava que tinha perdido. Ela se aproximou, devagar. Ele não recuou. E ali, no centro do mundo quebrado, os dois se encontraram num beijo calmo. Sem pressa. Sem promessas. Só a verdade dos dois ali. Min-ho sorriu do canto, observando.
— A gente devia chamar isso de “Cinema”. — ele disse, ajeitando a lata vazia ao lado. — Porque mesmo no fim... a gente ainda sabe contar uma boa história. riu baixinho, a testa ainda encostada na de Seungmin.
— Então vamos continuar escrevendo.
Lado a lado, eles voltaram a cantar. Porque o mundo podia ter parado. Mas enquanto houver música, houver alguém pra ouvir, e alguém pra sentir...
A cortina ainda não se fechou.
As luzes se apagaram e uma porta se abriu
Quando essa luz se apaga
A história começa a surgir
Entre os destinos que se cruzam, a cortina de hoje se abre.
2045.
O mundo colapsou em fevereiro de 2040, as cidades perderam a energia e os satélites caíram. Muitas pessoas adoeceram e morreram após um vírus circular pelo mundo. Ninguém sabia sua origem e muito menos como foi extinguido, mas as pessoas mal sobreviveram. Os poucos sobreviventes que restaram, se reuniram em grupos, mas alguns ainda andavam por aí sozinhos. As pessoas não tinham mais esperança, era parecido para dois amigos que sobreviveram juntos. Lee Min-ho e Kim Seungmin estavam juntos desde o colapso mundial, sem esperanças e cansados, apenas com um carro velho que mal funcionava. Gasolina era escassa, eles buscavam um lugar para se abrigar e parar de usar o carro com tanta frequência. Seungmin avistou uma casa abandonada e os dois estacionaram na frente dela, desceram do carro e entraram para examinar o local. Haviam muitos entulhos, mas Min-ho encontrou algo que despertou uma faísca de esperança em seu coração.
— Instrumentos… intactos. — Ele segurou um violão em suas mãos, Seungmin se aproximou e mexeu em alguns entulhos, mostrando uma bateria — suja, mas intacta. Os dois continuaram a examinar o local, onde haviam outros instrumentos, amplificadores portáteis com os fios remendados e alguns microfones velhos.
— Parece que músicos moravam aqui. — Disse Seungmin, examinando o local.
— Na verdade, parece que o destino nos trouxe aqui, Seungmin. — Min-ho sorriu, um sorriso que Seungmin não via há 5 anos, carregado de esperança.
— Tudo bem, me conta sua ideia. — Seungmin arrastou um banco e se sentou. — Estou ouvindo. — O amigo sorriu ao ver que Seungmin estava aberto a escutar sua ideia.
A ideia que compartilharam juntos era sobre esperança, não só para eles, mas uma forma de tentar trazer esperança para as pessoas através da música. Eles tinham tudo ali, até encontraram um mini-gerador velho, que provavelmente não duraria mais de meia hora. Seungmin focou em escrever uma música que pudesse impactar e trazer esperança para as pessoas, em um caderno velho que encontraram na casa. Min-ho começou a preparar os cartazes, folhas rasgadas do mesmo caderno, pedaços de papelão. Min-ho escrevia com cuidado, como se cada palavra fosse uma promessa. Mesmo com as mãos sujas e o papel rasgado, ele fazia questão de escrever bonito — porque, no fim do mundo, beleza era resistência. Quando não estavam produzindo, estavam arrumando um meio de espalhar seus cartazes pela cidade. Os dois encontraram no que se segurar, em meio à tudo aquilo, e queriam transmitir isso para as pessoas.
Eles planejaram um show, espalharam cartazes e arrumaram os instrumentos e equipamentos em seu carro. Em muito tempo, os dois não sorriam daquele jeito. Enquanto Min-ho dirigia, Seungmin espalhava os cartazes pela cidade, até que o carro parou de repente, fazendo com que Min-ho freasse bruscamente.
— Qual é?! — Min-ho resmungou. — Agora não! Por favor! — Os dois desceram do carro e abriram o capô, o carro estava saindo uma fumaça, que demonstrou sua impossibilidade de seguir viagem.
— Não acredito nisso! — Seungmin levou as mãos à cabeça e chutou algumas coisas que haviam caído no chão. — Como vamos chegar no local que nós indicamos? — Ele pegou um dos cartazes e apontou para um local, um lugar onde costumava haver pequenos festivais, não havia restado muita coisa além de duas pequenas arquibancadas de madeiras e resquícios de um pequeno palco de madeira. Mas, eles sabiam que havia iluminação lá e eles tinham um pequeno gerador, então — era o local ideal.
— Seungmin, vamos levar apenas o violão e o teclado. — Sugeriu Min-ho. — A gente consegue levar os dois microfones e os instrumentos nas costas, acredito que dois amplificadores sejam o suficiente, então, eu levo o violão e os dois amplificadores, com os microfones dentro da capa do violão. Você leva o mini-gerador e o teclado. Acha que consegue? — Seungmin sentiu um arrepio percorrer sua pele ao notar a determinação de Min-ho, ele apenas assentiu e fez o que ele havia sugerido.
Os dois caminharam pela floresta, marcando seus caminhos com pequenos pedaços de tecido, para conseguir retornar. Ao chegarem no local, estavam cansados, o peso dos instrumentos não pareceu nada durante o caminho. Mas agora, seus corpos sentiam as consequências de terem ido até ali. Enquanto montavam tudo, seus corações estavam cheios de esperança que as pessoas iriam comparecer.
Próximo dali, uma jovem de mais ou menos a mesma idade deles, chamada , caminhava em busca de mantimentos. Um vento forte bateu e um papel grudou em seu rosto, ela soltou um grunhido de irritação e tirou o papel, lendo o que estava escrito. se surpreendeu ao ler que alguém faria um show naquele palco abandonado, apesar de sua barriga estar roncando, algo em seu peito a atraiu para aquele local. Não era muito longe dali e não faria mal apenas espiar. Ela caminhou até lá e observou de longe, dois jovens de pé, em cima do que restou daquele palco improvisado.
— Ninguém virá, Seungmin. — Min-ho parecia decepcionado.
— Vamos cantar assim mesmo, nós viemos aqui para isso. — A determinação nas palavras de Seungmin fizeram Min-ho sorrir. Os dois começaram a tocar e cantaram com todo o coração, suas vozes fizeram sentir como se estivesse em um mundo diferente. De alguma forma, ela esqueceu que não comia há dois dias e começou a caminhar devagar em direção ao palco. Seungmin moveu seu olhar para ela, seguindo cada um de seus passos, ela apenas ficou ali — parada, de pé — olhando para os dois. Sua presença ali fez com que Min-ho sorrisse satisfeito por sua música ter alcançado uma pessoa. Enquanto Seungmin, parecia… cativado por ela. Quando a música acabou, aplaudiu e os dois desceram do palco, indo até ela. Ao vê-los se aproximarem, ela se afastou um pouco, fazendo com que os dois parassem em uma distância curta — mas respeitosa.
— Oi! — Min-ho disse, em um aceno.
— Oi… — Ela respondeu, um pouco sem jeito.
— Você… viu nossos cartazes? — Perguntou Seungmin e ela assentiu. — Me chamo Seungmin e esse é o Min-ho. — Seungmin estendeu a mão, com um sorriso.
— . — Ela estendeu a mão, um pouco hesitante.
— Você gostou? Da nossa música? — Min-ho sorriu.
— Sim… — respondeu, encarando os próprios pés. — Parecia uma coisa… uma luz, no meio desse caos. Seungmin sorriu pequeno, como se as palavras dela tivessem acendido algo nele também.
— Foi por isso que cantamos. — Ele disse. — A gente… só queria acender alguma coisa em alguém. O vento soprou de novo, carregando um dos cartazes esquecidos do chão. observou o papel voar e pousar com leveza sobre uma folha seca.
— Vocês conseguiram. — murmurou, quase como se estivesse falando com o vento. Por um momento, ninguém disse nada. Os três apenas ficaram ali, no meio do silêncio — mas, dessa vez, ele não parecia tão pesado. Min-ho foi o primeiro a quebrar a pausa.
— Você está sozinha? — Perguntou ele. hesitou, depois assentiu com um movimento quase imperceptível. — A gente também esteve assim por muito tempo. — Completou. — Mas não precisa mais ser. — Seungmin lançou um olhar rápido para o amigo, depois encarou com suavidade.
— A gente tem comida... um pouco. Um abrigo... mais ou menos. E uma bateria que talvez aguente outra música. — Ele riu, baixinho. — Quer vir com a gente? — olhou de um para o outro. Em seus olhos havia dúvida, fome e cansaço. Mas também havia algo novo: curiosidade. E talvez... esperança.
— Só até o próximo refrão. — respondeu, com um sorrisinho tímido. Min-ho jogou a cabeça pra trás e riu de verdade pela primeira vez em anos. Seungmin apenas ofereceu a mão. Ela aceitou. E assim, sem promessas, sem perguntas demais, os três voltaram pelo mesmo caminho marcado com pedaços de tecido. Agora, com um novo passo, uma nova companhia e uma nova canção prestes a nascer.
Ela aceitou.
O sol já começava a se pôr, tingindo o céu com um laranja opaco que fazia as sombras parecerem mais longas, mas menos ameaçadoras do que costumavam ser.
— Você gostava de música? — Seungmin perguntou, ao caminhar ao lado de .
— Antes? — ela olhou pra ele, e ele assentiu. — Sim… mas eu nunca toquei nada. Só… ouvia. Me fazia sentir que o mundo ainda tinha cor. — Seungmin sorriu. Um sorriso pequeno, com as bochechas sujas de poeira e os olhos brilhando um pouco.
— Ainda tem cor. Você apareceu. — desviou o olhar, surpresa com a doçura inesperada da frase. Seus passos diminuíram sem perceber, e Seungmin continuou andando ao seu lado, em silêncio, respeitando o espaço dela, mas presente. Ela olhou de canto e viu que ele ainda carregava o teclado nas costas, mesmo exausto.
— Quer que eu leve? — ela ofereceu, apontando com a cabeça.
— Não. — Ele respondeu com um meio sorriso. — Você já tá carregando algo mais pesado. Sozinha, até agora. — Ela parou, encarando-o com os olhos marejados. Seungmin também parou, percebendo que tinha dito mais do que pretendia. Mas não se desculpou. Apenas ficou ali, esperando, como se dissesse com o olhar que estava tudo bem sentir.
— Talvez eu… não precise carregar sozinha mais. — disse, quase num sussurro. Ele assentiu. E, em silêncio, estendeu a mão pra ela. Dessa vez, ela aceitou sem hesitar. Min-ho, que estava mais à frente, fingiu não notar. Mas sorriu sozinho.
A chegada de trouxe algo novo para a dinâmica do grupo. O abrigo improvisado tinha cheiro de madeira velha e poeira, mas depois de dias vagando, para parecia quase um lar. Min-ho dormia profundamente, enrolado em um cobertor velho. Seungmin, por outro lado, estava sentado no chão, com o violão nos braços. se aproximou, deitada de lado com a cabeça apoiada nas mãos.
— Vai tocar de novo? — ela perguntou, a voz baixa para não acordar o amigo.
— Não... só tô lembrando o som dela. — ele respondeu, deslizando os dedos pelas cordas sem realmente fazer som. o observou. O foco dele. A calma nos gestos. O contraste com o mundo quebrado ao redor.
— Foi você quem escreveu aquela música?
— Foi. Mas eu pensei nela com Min-ho. Ele colocou a luz que faltava.
— Você... sempre fala com esse tipo de calma? — Ele riu, baixinho.
— Nem sempre. Só quando alguém escuta. — desviou o olhar, sentindo o rosto esquentar. Não sabia se era pelo elogio ou por finalmente se sentir... vista.
Dias depois, a chuva veio com tudo. O telhado do abrigo tinha buracos, e os três correram para proteger os instrumentos. escorregou na entrada, e Seungmin foi rápido em alcançá-la.
— Tá tudo bem? — ele segurou seus braços, os olhos arregalados. Ela assentiu, encharcada. E então, os dois riram. Riram como se a chuva fosse limpa. Como se lavasse o peso que carregavam.
— Sabe o que isso me lembra? — ele disse, ainda segurando seus braços. — Um videoclipe triste.
— Pelo menos a trilha sonora é boa. — ela sorriu. Os olhos dele desceram para os lábios dela por um segundo. Só um segundo. Mas o suficiente para ela notar. Ele se afastou com respeito. Mas o espaço entre eles já estava diferente.
Min-ho saiu para procurar comida, deixando os dois sozinhos. encontrou o caderno de Seungmin aberto numa página nova, em branco.
— Posso tentar escrever com você? — Ele ergueu os olhos, surpreso — mas feliz.
— Claro. A música agradece. — Eles passaram horas ali, lado a lado, rabiscando frases, testando melodias baixas. Os dedos dela roçaram os dele ao pegar o lápis. Ela não afastou a mão. Ele também não. Quando terminaram o primeiro verso, ela olhou pra ele e disse:
— Essa... eu quero cantar com você. — Ele a encarou. Havia algo nos olhos dele que não precisava de tradução.
— Essa é só nossa, então. — Respondeu ela, com um sorriso nos lábios. Naquela noite, o gerador ainda tinha energia suficiente para mais uma música.
Min-ho voltou antes do anoitecer, com algumas latas de comida e um sorriso que dizia “sobrevivemos mais um dia”. Seungmin já tinha afinado o violão, e segurava o papel com a letra que escreveram juntos. Eles não tinham plateia. Mas tinham um ao outro. A primeira nota ecoou suave entre as paredes gastas do abrigo. A voz de entrou tímida, mas firme. Seungmin a seguiu, os dois se olhando como se cada palavra dita fosse um pacto silencioso: "a gente ainda sente, mesmo quando o mundo não sente mais nada." Min-ho os acompanhou batucando em uma caixa de madeira, e por um breve instante, todos os sons do fim do mundo desapareceram. Só existia aquela música. Aquela canção feita por três sobreviventes que decidiram, simplesmente, continuar. Quando terminaram, houve silêncio. Mas não aquele silêncio sufocante de antes. Era um silêncio bom. Um silêncio cheio. olhou para Seungmin. Ele ainda a encarava como se ela fosse som, luz, cor — tudo o que ele achava que tinha perdido. Ela se aproximou, devagar. Ele não recuou. E ali, no centro do mundo quebrado, os dois se encontraram num beijo calmo. Sem pressa. Sem promessas. Só a verdade dos dois ali. Min-ho sorriu do canto, observando.
— A gente devia chamar isso de “Cinema”. — ele disse, ajeitando a lata vazia ao lado. — Porque mesmo no fim... a gente ainda sabe contar uma boa história. riu baixinho, a testa ainda encostada na de Seungmin.
— Então vamos continuar escrevendo.
Lado a lado, eles voltaram a cantar. Porque o mundo podia ter parado. Mas enquanto houver música, houver alguém pra ouvir, e alguém pra sentir...
A cortina ainda não se fechou.
Fim
Nota da autora:
S/N
Outras Fanfics:
↬ Além Do Acaso ↬ The Justive and Me ↬ Trovão de Konoha ↬ Consigliere ↬ The Time We Have Left ↬ My Lovely Lover
Nota da scripter: Coisinha mais linda.
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Outras Fanfics:
↬ Além Do Acaso ↬ The Justive and Me ↬ Trovão de Konoha ↬ Consigliere ↬ The Time We Have Left ↬ My Lovely Lover
Nota da scripter: Coisinha mais linda.
