09.Gone Too Soon

Finalizada em: 12/12/2018

Capítulo Único

“Você é uma parte de mim e eu nunca serei o mesmo.”
Simple Plan

A vida é uma merda.
Eu nunca pensei que estaria em uma igreja, rezando e acreditando que Deus pudesse mudar algo.
Minha namorada está aqui, ao meu lado e eu ainda não consigo acreditar que ela me convenceu a fazer isso.
Crenças religiosas nunca fizeram parte da minha vida, mesmo que eu soubesse que existia um Deus olhando por nós por aí. Não sei em que momento da minha vida eu deixei de acreditar em Deus, mas percebi que agora mais do que nunca, eu precisei acreditar Nele com toda a minha força.
Faz pelo menos uns seis meses, que descobrimos a doença da mamãe. É, parece uma história como as outras, mas é que, parando para pensar, acontece tantas vezes e com tantas pessoas, que é quase comum ouvir que alguém sofre disso.
Mamãe foi diagnosticada com câncer nos dois ovários em estágio avançado, um dos cânceres mais raros e com diagnóstico tardio. Quando descobrimos, já não se podia fazer nada contra esse câncer silencioso, porém muito agressivo. O oncologista da mamãe disse que ela nos deixaria até o fim do mês, mas hoje caminhávamos para sétimo mês de muita luta dela e medo nosso. Hoje, particularmente, Dra. Helsie disse que precisaríamos nos preparar, pois mamãe amanhecera mais fraca do que qualquer outro dia e não sabia se ela suportaria as dores que já não se mascaravam por trás dos muitos remédios ministrados nela.
me acompanhou até o hospital e depois de vê-la, toda abatida e, por mais um dia, inconsciente, me chamou para acompanhá-la na capelinha dentro do hospital.
Eu sabia que minha namorada chorava enquanto mantinha seus olhos fechados, numa oração pessoal e silenciosa. Demorei muito tempo tentando vasculhar em memórias alguma oração que aprendi com mamãe e foi ali que comecei a me lembrar da minha época de catequese. Busquei em qualquer lugar, alguma referência do santo que me lembrasse uma oração, mas nada vinha. Decidi começar do meu jeito.

“Deus… eu não sei se você está me ouvindo, creio eu que sim. Eu não sei direito como fazer isso, faz muito tempo que não vou à igreja. Nem sei mais se ainda posso pedir alguma coisa, porque tô em dívida contigo. Mas a minha mãe não tá, nunca deixou de ir à sua casa, nunca deixou de dar o dízimo. Então, por ela, se o senhor puder, por favor… Faça o que for melhor. Se for para que ela pare de sofrer, então que ela vá. Só quero que pare de doer nela… Bem, não sei mais o que dizer…”

Parei um pouco e ouvi um soluço de , logo depois ela começou a sussurrar uma oração.

“ - Pai Nosso que estais nos Céus, santificado seja o Vosso nome…
- Venha à nós o vosso Reino e seja feita a vossa Vontade…”

Só no final da oração, percebi que a fiz em voz alta. me olhava com seus olhos marejados e a única coisa que tive forças para fazer, foi abraçá-la e ali despejar toda a dor que venho sentindo.

Dois dias depois…

O velório foi simples, pequeno, apenas para as pessoas mais próximas à mamãe. Ela sempre dizia que gostaria de ser cremada e, mesmo à contragosto do papai, fizemos sua vontade e agora eu carregava comigo suas cinzas.
Mamãe dizia que guardar roupas e restos mortais de alguém era como estender um convite à morte, então quando descobriu a doença, deixou-me ordens expressas para jogá-las no mar. Mas eu não estava preparado para isso ainda, então apenas levei o vaso para casa.
preferiu dormir na casa da mãe enquanto eu o mantivesse lá, porque era sentimental demais e ela choraria toda vez que o visse. Eu também achei melhor. Me daria um tempo para aceitar o que aconteceu.

Passei o dia inteiro bebendo e chorando. Ser mais próximo da mamãe tinha muitas vantagens, até quando eu quebrava algo que ela amava muito.

Flashback on

Aproveitei que mamãe ia ao mercado e chamei Teo, meu irmão mais novo, para jogar bola. Nós adorávamos jogar dentro de casa, mas dona Alice nunca deixava porque nós jogávamos muito alto e podia machucar alguém ou quebrar alguma coisa. Nesse dia, Teo disse que não queria jogar porque papai tinha brigado com ele de manhã e agora ele estava na linha do tiro. Não conformado com isso, arremessei a bola na direção dele, mas o vadio se abaixou e a bola acertou o abajur que mamãe ganhou da tia Nice quando ela foi à Paris. Nos entreolhamos e, segurando a bola nos braços, corremos para a rua, ficando por lá até a mamãe voltar.
Quando ela se deu conta do ocorrido, veio atrás de nós e sem que precisasse falar, Teo correu, gritando que a culpa era toda minha.
Abaixei a cabeça, culpado e envergonhado, e esperei que ela chegasse.
Mamãe abaixou-se à minha frente e disse:
- Filhote, o que eu já lhe disse sobre bola dentro de casa? - Disse, levando meus olhos aos seus.
- Desculpa, mãe. Eu só estava tentando chamar a atenção do Teo, mas a bola desviou e bateu no abajur. - Mamãe olhou-me desconfiada, o sorriso brotando bem no cantinho dos lábios. - Eu juro, mãe. Eu queria jogar aqui fora, mas o Teo só queria ficar lá no sofá, por causa do papai.
Mamãe riu e puxou, abraçando-me e levando-me para dentro.
- Sabe o que eu trouxe do mercado? - Me olhou, com o sorriso que disputava quem brilhava mais, ele ou o sol. - Só dou se adivinhar… - Levantou as sobrancelhas com olhar arteiro.
- RAZZLES? - Gritei, saindo dos braços da mamãe e correndo para as sacolas, esquecendo completamente da minha artimanha de mais cedo.

Fim do flashback

Naquela noite, o papai tentou me colocar de castigo, dizendo que eu precisava de limites. Mas quando eu fui dormir, mamãe se abaixou para me beijar e disse: Não liga para o seu pai, ele só quer te colocar de castigo porque quando ele quebra as coisas, ele ganha um.
Ela riu e desligou a luz do meu quarto, me deixando risonho e feliz. Mamãe me amava muito e eu a amava também, ainda amo.
Depois de acabar com as duas garrafas de tequila, me levantei e fui buscar a chave do carro para comprar mais. Só quero parar quando não lembrar mais do meu nome.
Andei cambaleante até o elevador e apertei o botão para a garagem. Dei partida no carro e saí em busca de alguma loja 24h, mas quase atravessei o pára-brisas quando olhei para o lado do carona procurando pela loja. Mamãe estava ali, sentada no banco que ocupava, com a mesma aparência que tinha antes da doença, mas agora seus olhos estavam vermelhos e molhados. Presumi que chorava.

- Faça o retorno e volte para casa, . - Disse, a voz firme e olhos transbordando. - Você ainda não está pronto para o lado de cá.
Ri histericamente e continuei dirigindo. - Pare! - Disse uma vez. - Dê meia volta! - Repetiu.
Senti o toque da mamãe em meu braço e o cheiro do seu perfume tomou todo o carro. Por um segundo imaginei que ela estivesse ali, mas me lembrei das cinzas no rack da sala.
- É o efeito do álcool, só continua dirigindo essa merda. - Disse, mirando qualquer ponto à minha frente.
- Sou eu, meu menino. Estou aqui. - Ela repetiu e sua voz doce me deixou atordoado.
- Não está… Você se foi… e foi muito cedo.
- Eu ainda estou aqui, meu … Ainda estou aqui com você.
- NÃO! - Gritei desesperado. - Você se foi e eu mal pude dizer adeus.
- Você não precisa dizer, filhote… Eu sempre estarei aqui… - Quanto mais eu ouvia sua voz, mais desesperado eu ficava. Senti os olhos arderem e minhas mãos suarem. Só percebi que avancei o sinal vermelho porque ela me disse.
- Cuidado, você precisa parar. Precisa voltar para casa, onde estará protegido.
Ri com escárnio.
- Protegido? Você me deixou, mamãe. Me deixou sozinho, eu sempre vou estar desprotegido, perdido. Você me deixou, é só uma estrela cadente agora.
- Você ficará bem, meu menino. - Senti seu toque em meus cabelos e desabei no volante, parado num acostamento qualquer. - Apenas volte para casa, eu sempre estarei com você. - Suas mãos se afastaram e eu senti os pulmões queimarem. - Lembre de mim.

Um ano depois…

Deixei as flores na lápide simbólica da mamãe e, soltando a mão de , acariciei a lápide do meu pai. Rick se foi poucos meses depois do velório de Alice, morreu de saudade, como os médicos disseram, pois não sofria de nenhuma doença. Só descobrimos sua depressão quando já era tarde e pouco poderia ser feito. Papai não quis ser cremado, então o enterramos e mandamos fazer uma lápide simples para simbolizar a mamãe ali, ao seu lado. Todo mês, quando completava-se mais um sem eles, eu os visitava, ora sozinho, ora com Teo ou , mas sempre os visitava. Sempre me sentava entre as lápides e contava algo novo de minha vida. A novidade do mês era o bebê que e eu esperávamos, ela engravidara na noite de núpcias e já se encaminhava para a décima segunda semana.
- Ah, pai, acabei esquecendo de contar… Esses dias eu estava arrumando umas coisas lá em casa e encontrei um caderno. Sabe o que tinha lá? Acho que o senhor nem lembra. - Ri, me lembrando das letras que encontrei lá. - Tinham várias músicas, pai. A da mamãe estava lá. - Respirei fundo, ainda sorrindo e as lágrimas começaram a se formar.
- Sabe, meu sogro, eu amei a música. Acho que nós devíamos cantar para eles, não é amor? - afagou-me e se ajeitou entre as lápides, pigarreando. Era a minha deixa para pegar a folha dobrada em meu casaco e começar a cantar os primeiros versos.

Hey there now
(Oi pra você)
Where'd you go
(Aonde você foi)
You left me here so unexpected
(Você me deixou aqui, tão inesperado)
You changed my life
(Você mudou minha vida)
I hope you know
(Eu espero que você saiba)
Cause now I'm lost
(Pois agora estou perdido)
So unprotected
(Tão desprotegido)

- Eu sei que essas palavras não são suas, pai… - Sorri, deixando uma lágrima rolar. - Mas é que eu precisei adicionar algumas.

In a blink of an eye
(Em um piscar de olhos)
I never got to say goodbye
(Eu nunca pude dizer adeus)

- Não consegui dizer adeus, pai… Nem à mamãe, nem a você. - Funguei e puxou o papel de minhas mãos.

Like a shooting star
(Como uma estrela cadente)
Flyin' across the room
(Atravessando a sala)
So fast so far
(Tão rápido, tão longe)
You were gone too soon
(Você se foi muito cedo)
You're part of me
(Você é uma parte de mim)
And I'll never be
(E eu nunca serei)
The same here without you
(O mesmo aqui sem você)
You were gone too soon
(Você se foi muito cedo)

assumiu os versos e os sustentou até o final, mesmo com as lágrimas embaçando sua visão e molhando o papel. Meu pai sempre foi muito criativo e mamãe adorava ouvi-lo cantar. Sentava ao seu lado enquanto ele dedilhava o violão ou arriscava algumas notas ao piano e murmurando seus versos. Mamãe fazia a típica adolescente apaixonada, era tanto que parecia aquelas emojis do aplicativo com coração nos olhos. Era tão contagiante que só descobri que estava apaixonado pela porque mamãe me disse.

Flashback on

Tinha acabado de deixar em casa. Mamãe e ela se deram tão bem, pensei que ela fosse querer adotá-la. Teceu elogios a ela durante toda a noite e quase não a deixou ir embora. Entrei em casa e mamãe estava sentada no sofá, meu pai aos seus pés. Com a lareira acesa, os dois seguravam uma caneca fumegante de chocolate. Era sempre assim depois do jantar, desde moleques eles nos colocavam na cama e iam direto para o sofá curtir um momento de casal sem filhos. E percebia, a cada dia, que queria muito isso. Principalmente com .
- Mãe, pai… Cheguei. - Avisei, culpado por me intrometer no momento deles.
Ia saindo de fininho, mas mamãe me chamou para sentar-se ao seu lado.
- Sabe, filho. Gostei muito da . - Sorriu maroto e eu sabia que vinha coisa. - Quando vai trazê-la de novo? Você não vai brincar com essa menina não, né? Olha, menino, ela é uma boa moça e parece gostar muito de você. - O modo Inquisidora da dona Alice estava ativado. - Se brincar com essa menina,
- Calma, mãe. - Sorri, segurando suas mãos. - Gosto muito da
Ela sorriu daquele jeito de que já sabia das coisas e me abraçou.
- Mais do que isso, filho… Você a ama.
- Eu também acho… - Papai se manifestou voltando da cozinha. Quando foi que ele levantou. - Acho que deviam se casar logo.
- Meu Deus, vocês são apressados demais. - Ri, levantando do sofá. - Mas uma coisa é certa… Eu a amo mesmo.
Beijei a testa da mamãe e depois de pedir a benção deles, caminhei até meu quarto, deixando aqueles dois apaixonados para trás. Não sem antes olhar para Rick.
Vi em seus olhos o que eu via no espelho quando pensava em .
Talvez eu esteja perdido.

Fim do Flashback

- Vou levar o violão para o carro. Até o mês que vem, Rick… Alice… - levantou e beijou-me a testa. Respirei fundo e observei-a se afastar. era o centro do meu mundo, assim como o bebê que esperávamos.
- É pai… Eu achava que não seria possível existir alguém mais bobo que o senhor em relação à mamãe, mas acabei de perceber que sempre estive errado.
Sorri e consegui ouvir a voz do meu pai me rodear.
- Eu te disse, moleque. O amor deixa a gente sem nem saber o nome. Era o que sua mãe fazia comigo.
Toquei as lápides, me levantei e caminhei até o carro sem olhar para trás. No mês seguinte eu voltaria com mais novidades. Entramos em casa em total silêncio e seguiu direto para a cozinha. Tínhamos ido jantar na casa de seus pais para contar a notícia e foi o maior chororô que eu já tinha visto na vida. Nem quero pensar em como eles ficariam quando o bebê nascesse.
Voltou da cozinha bem a tempo. Tinha acabado de acender a lareira e esperei que ela sentasse no sofá. Sentei no chão, em meio às suas pernas e, enquanto bebericava o chocolate, recebia um gostoso cafuné em meus cabelos. Era tão relaxante que eu podia, enfim, entender porque meus pais tornaram daquilo um ritual sagrado de todas as noites. Mas, o que eu não sabia na época e sei agora, é que logo depois do chocolate e das carícias capilares, meus pais se amavam no tapete da sala.
E é claro que e eu repetíamos o ritual. Todos os dias, incansavelmente.
Porque era assim que percebíamos que, não importa o cansaço do dia a dia ou até mesmo as tristezas que algumas datas nos trazem… O nosso amor é como uma flor. Precisa ser regada todos os dias para fortalecer-se e expandir-se a cada dia. E é o que mais importava para nós.





FIM!



Nota da autora: Sem nota.




Nota da beta: Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.


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