Contador:
Última atualização: 20/03/2020

Prólogo

Chicago, 1918

Acordei com um pressentimento ruim. O dia estava chuvoso, as folhas se debatiam com a ventania e, olhar pela janela parecia infinitamente mais convidativo do que o vestido milimetricamente dobrado na cadeira de minha penteadeira. Tudo parecia conspirar para que fosse um dia ruim. Talvez realmente fosse. Mas, eu deveria estar feliz, apesar de tudo: era meu aniversário, no fim das contas. Na verdade, meu e de Edward. De acordo com nossos pais, a comemoração seria incrível ou, como dizia minha mãe, de "fazer inveja na vizinhança".
Mas a situação não estava tão propícia para uma festa. Estávamos em guerra, milhares de garotos foram mandados para os campos de batalha sem a menor perspectiva de retorno. Eu não achava que deveria comemorar. Três de meus melhores amigos tinham se alistado contra suas vontades e as cartas trocadas se tornavam cada vez mais escassas. Das duas uma: ou a guerra estava acabando ou eles estavam mortos. Eu preferia pensar na primeira opção.
Para Elizabeth Masen, por outro lado, nada disso deveria ser levado em consideração. Pelo contrário, minha mãe acreditava que deveríamos celebrar que estávamos vivos e juntos. 17 anos era uma idade importante, ela dizia sempre que eu questionava sobre quaisquer comemorações. De fato, era. Eu já deveria estar contraindo matrimônio com algum cavalheiro que meus pais aprovassem. Meu irmão deveria estar se preparando para seguir os passos de papai no banco, estudando finanças e leis. Mas, nada disso nos importava. Eu não queria perder meus dias cuidando de um marido que, certamente não amaria. Edward não tinha pretensões de seguir a carreira de Edward Masen Senior, um militar reformado e contador do Banco Central de Chicago. Queríamos viver de acordo com nossos termos, mas em 1918 isso não era possível. "Ou nos adequávamos ou nos adequávamos", dizia Carole, uma amiga de minha mãe.
A porta do meu quarto se abriu em um rompante, fazendo um pequeno estrondo que tirou minha atenção das gotas que chicoteavam a janela.
- Evolet Masen, por que ainda não está pronta? – minha mãe, com as mãos na cintura me olhava com a expressão fechada e acusadora. Eu ainda estava em roupas de dormir e o relógio ao lado de minha cama estava apontando meio dia – Precisa me ajudar, querida! Tenho que arrumar o resto da casa e depois te arrumar. Já escolheu seu penteado? Precisa estar perfeita para conseguir um marido, !
O discurso era o mesmo de ontem e dos dias anteriores. "Conseguir um marido, conseguir um marido". Era quase um mantra que me enlouquecia, porque eu já estava cansada de tentar argumentar com meus pais contra isso. Eu queria conhecer o mundo, estudar, não ficar presa em uma casa servindo um homem que teria o título de meu marido. Às vezes, invejava e muito meu irmão, ele poderia fazer o que eu tanto gostaria. Mesmo que ainda tivesse que se reportar às regras de nosso pai.
- Mamãe, sabe que eu não quero me casar. – um suspiro saiu de meus lábios e senti os ombros ainda mais pesados – Estou fazendo isso por você e papai. Sabe disso.
Ela tinha se sentado na cama e dado algumas batidinhas leves no colchão, me convidando para sentar ao seu lado, o que fiz resignada. Ela passou as mãos por meus cabelos, num carinho gostoso e, eu sabia, um pedido de desculpas silencioso.
- Minha , eu sei de tudo isso, mas não posso ir contra seu pai. – ela disse mais baixo - Então, por favor, faça o possível para aceitar essa situação. É complicado no começo, mas você pode se apaixonar pelo seu esposo, assim como amo seu pai agora. – sua voz estava mais animada - Tudo vai dar certo, meu amor.
Elizabeth Masen deu um beijo em minha testa e se levantou. Foi até a porta e olhou uma última vez em minha direção antes de sair do quarto. Eu sabia que deveria me preparar para o momento da comemoração. O vestido dobrado na cadeira parecia brilhar como mil pedras de diamantes. Meu olhar se encontrou com meu reflexo no espelho e eu sabia que não tinha mais nada a ser feito. Hoje, eu era Evolet Masen. Em alguns meses, eu seria apenas a mulher de alguém.


Capítulo 01

Levantei da cama o mais lentamente possível, pretendia alongar ainda mais o que normalmente faria em pouco tempo. Peguei o vestido e fui ao banheiro, começando a encher a banheira, ouvindo ao longe meu irmão tocando piano. Edward tocava alguma melodia que eu desconhecia a autoria, mas me lembrava de já ter dançado com papai enquanto meu irmão nos encantava. Como das outras vezes, me sentia mais calma. Talvez, se eu pudesse ficar ali para toda a eternidade.
Um suspiro resignado escapou por entre meus lábios e quando a banheira estava devidamente cheia, tirei minhas roupas, prendi o cabelo em um coque e adentrei no banho, esperando ter uns bons vinte minutos de descanso. Comecei a lavar meus braços, torcendo para que assim lavasse minha alma e todos aqueles pensamentos ruins sobre as próximas horas.
Terminei o banho, peguei a toalha, me secando e colocando o vestido com todo o cuidado do mundo. Ele era bonito, no final das contas. Rosa com detalhes em dourado. Minha mãe diria que meus olhos ficariam ressaltados, como eu via me encarando no grande espelho do banheiro.
Ao sair do aposento, fui direto para o quarto, me sentando na penteadeira para arrumar o cabelo. Edward ainda tocava piano, me fazendo lembrar que eu deveria descer o mais rápido possível, antes que minha mãe viesse novamente me chamar. Prendi os cabelos em um alto rabo de cavalo e passei um pouco de pó em minhas bochechas, não tinha ânimo para algo mais elaborado.
Desamassei o vestido com as mãos e sai do quarto, descendo as escadas rapidamente, indo de encontro à música. Quando adentrei na sala, com o som dos meus passos me denunciando, meu irmão parou de tocar, se virou e abriu o sorriso mais lindo do mundo para mim.
– Feliz aniversário, Evie! – disse estendendo a mão para que eu me sentasse ao seu lado, usando o apelido que eu mais odiava, com um sorrisinho de escárnio no canto dos lábios. Já não bastava me chamar de Evolet, ele tinha que diminuir ainda mais o nome? Só ele insistia em me chamar assim. Eu preferia e ele sabia, mas fazia isso para me aborrecer.
– Feliz aniversário para você também, Ed! – lhe mostrei a língua como uma criança pequena e ele revirou os olhos enquanto sorria para mim. Nos sentamos juntos no banco do piano e o abracei de lado, deitando minha cabeça em seu ombro. Meu coração estava apertado e eu sabia que podia desabafar – Maninho, eu não sei o que fazer. Papai continua com a ideia de me oferecer em matrimônio para alguém que eu não conheço. Preciso que me ajude a fazê-lo parar de pensar nisso. – Olhei suplicante para ele, Edward Senior sempre o escutava e torcia para que continuasse assim.
– Evie, sabe que não posso fazer nada. Ele também espera que eu encontre a esposa ideal hoje à noite, mas você sabe que eu preferia ter ido à guerra. Teria feito muito mais por meu país. – meu coração sempre ficava pequenininho quando ele começava com esse assunto. Não queria imaginar o meu irmãozinho, ele era dez minutos mais novo e eu o lembrava sempre que podia desse detalhe, no meio de uma batalha, por isso evitava pensar no assunto.
Lhe abracei e era o máximo que poderia fazer. Ele deixou um beijo em minha testa como um pedido mudo de desculpas. Eu sabia que ele já tinha feito todo o possível por mim. Disse que estava indo para a biblioteca, mas acabei me encaminhando para o jardim. A chuva tinha dado uma trégua e nosso balanço coberto pelo telhado da casa parecia bem convidativo.
Minha mente viajou no tempo enquanto eu me balançava. Edward e eu costumávamos brincar e brigar pelo jardim, com mamãe falando irritada conosco. "Se sujar não é algo que damas e cavalheiros fazem, meninos", ela dizia. Ela não gostava de levantar a voz, apenas colocava as mãos na cintura e batia o sapato devidamente engraxado em nossa varanda, fazendo o barulho ecoar graças ao contato com a madeira.
Ficar ali sempre deixava tudo melhor, fazia com que eu esquecesse o mundo a minha volta. O silêncio me acolhia e eu podia deixar minha mente viajar, já que o corpo não tinha condições.
Eu não sabia quanto tempo tinha passado, não sabia se já era a hora da tal festa, mas meu estômago já começava a dar sinais de vida. Chame de destino ou coincidência, mas foi neste exato momento em que ouvi a voz de minha mãe me chamando dentro de casa. Era chegada a hora, era hoje que começava o fim de minha vida.
Levantei-me conformada tomando o caminho de casa, com os ombros pesando tanto quanto mil cavalos. Assim que apareci na sala, vi meu pai sentado em sua poltrona preferida, lendo o jornal enquanto tomava um pouco de chá. Sorri com a cena. Mesmo detestando a opinião de papai, Edward Senior ainda era a melhor pessoa que conhecia. Generoso, bondoso, um coração enorme. Meu irmão se parecia muito com ele, os cabelos cor de bronze, o sorriso torto, mas tinha os olhos de minha mãe, verdes, assim como os meus.
Quando notou minha presença, ele abriu os braços como fazia antigamente para me receber. Sentei-me em seu colo enquanto me sentia acolhida por seus braços. Estava segura ali e não tinha a menor vontade de sair daquele casulo.
– Minha princesa, sei que não está satisfeita com o que decidimos para o seu futuro, mas lembre-se que eu e sua mãe só estamos buscando o que acreditamos ser o melhor. – Ele me disse olhando no fundo de meus olhos.
Eu não conseguia ficar chateada com ele, então só o abracei forte e levantei de seu colo sem falar nada, indo em direção a cozinha onde sabia que encontraria a senhora Masen. Mamãe tinha a mania de deixar tudo impecável, mesmo sem ajuda.
Me sentei a mesa e tomei a sopa que me esperava ali. Na primeira colherada o quente líquido aqueceu tudo o que tinha dentro de mim e ela me olhava com um sorriso contido no rosto. Ao terminar, subimos juntas para meu quarto para que ela pudesse me aprontar para a tal festa. A delicadeza era tanta que eu me sentia uma boneca.
Quando ela terminou, eu estava linda com um vestido azul de mangas, que ia dois dedos abaixo dos joelhos, um sapato com salto médio e uma linda trança completa com uma maquiagem impecável. Eu teria adorado se não fossem as circunstâncias atuais. Não queria ser a esposa de alguém.
, querida, seu pai encontrou o marido perfeito para você. Vamos descer que ele já está esperando. – falava enquanto me conduzia para baixo.
Na sala, meu pai e meu irmão já nos esperavam, conversando com o que me parecia ser uma família: dois homens e uma mulher. Não seria uma festa, como tinha sido prometido. Eu já deveria esperar, pensei enquanto dava de ombros.
Eu conhecia os mais velhos. Papai tinha uma fotografia com aquele senhor e a senhora vinha tomar chá com mamãe algumas vezes.
– Querida, fico feliz que tenha se juntado a nós. – papai parou a conversa e veio caminhando para a escada, onde estendeu o braço para minha mãe e para mim. – Estes são George e Joanne Stan e seu filho, Arthur. – cumprimentei o Sr. e a Sra. Stan gentilmente, enquanto sentia o olhar de seu filho sobre mim, podendo ver também meu irmão encarar Arthur com uma fúria contida. Ele era muito protetor.
Estendi minha mão para Arthur que deixou um beijo casto em minha mão, enquanto sorria em minha direção.
– É um prazer conhecê-los. Papai fala muito dos senhores – Completei sorrindo e me colocando de frente para o que parecia ser meu futuro marido.
– O jantar está pronto, queridos. – minha mãe voltava da cozinha, com um belo sorriso no rosto. Dirigimo-nos a mesa e, obviamente, Arthur tinha se oferecido para me acompanhar, sentando-se ao meu lado, com Edward a sua frente, sempre lhe encarando. Os mais velhos conversavam sobre vários tópicos, mas sempre desviando o assunto para nós. Mandando indiretas que me faziam corar e abaixar os olhos envergonhada.
A refeição em si não foi a pior parte, o que mais me preocupou foi a conversa que escutei minutos depois do jantar entre meu pai e George Stan, sobre o que parecia ser a negociata do meu casamento. "Três meses", eles diziam. Mamãe e a senhora Stan seriam responsáveis por preparar tudo, inclusive minha noite de núpcias. Deveras constrangedor.
– Edward, eu não posso me casar com Arthur. – confidenciei horas depois em meu quarto – Nem o conheço e, por mais bonito que ele seja, eu não sinto nada por ele. – falava andando de um lado para o outro, enquanto ele me olhava sentado na cama – Preciso que me ajude, eu não posso deixar que isso aconteça.
– Evie, fique calma. – ele me segurou pelos ombros, impedindo que eu desse outro passo – Vamos dar um jeito nisso, não vou te deixar casar com aquele homem. Vou falar com papai, com o senhor Stan, com o padre, com o presidente, se for necessário. Mas, iremos resolver! – disse me dando um beijo na testa e saindo do quarto.
Sentei na cama desolada, sabia que não teria jeito. Edward não conseguiria convencer papai a cancelar o casamento, por isso eu precisava fugir. Tinha que ir embora. No entanto, sabia que se falasse algo ao meu irmão, ele diria que eu tinha enlouquecido. Talvez eu realmente estivesse louca, mas precisava tentar.
Mamãe nunca me ajudaria, ela contaria ao papai que me prenderia em casa na primeira oportunidade. Por isso, era perigoso envolver mais alguém. Estava decidido. Eu iria embora.


Capítulo 02

Esperei que todos tivessem estivessem completamente abraçados por Morfeu para arrumar uma pequena mala. Sabia que se ficasse com as minhas roupas não conseguiria ir muito longe, então a única solução seria pegar as de meu irmão.
Fui pé ante pé até seu quarto, agradecendo por ele ter o sono tão pesado. Abri o guarda-roupa e peguei algumas calças e blusas, voltando rapidamente para o meu quarto. Vesti as roupas dele e coloquei minhas botas de equitação, elas seriam muito úteis se precisasse caminhar por muito tempo.
Dobrei tudo e arrumei a mala de mão com as poucas coisas que poderia levar. Juntei todas as joias que podia em uma pequena caixinha e coloquei junto. Sentei-me na penteadeira com um lápis pronta para escrever um pequeno bilhete de despedida ao meu irmão.

Querido Edward,
Quando acordar pela manhã já terei ido embora e, provavelmente não nos veremos por um bom tempo. Sei que deveria ter fé em você, mas sabemos que eu seria obrigada a casar no momento em que o sol raiasse. Espero que entenda meus motivos e que não julgue a minha covardia ou tente me procurar.
Cuide de nossos pais e tente explicar o porquê de eu ter ido, aguardo desde já pelo dia em que todos vocês me perdoarão pela fuga. Diga que os amo e que me parte o coração não ser a filha ou a irmã que vocês tanto merecem. Amo você, Ed.
Com todo amor, sua Evie.

Segurei as lágrimas ao terminar de escrever e juntei as pontas do papel delicadamente, selando ali o que viria adiante. Desci as escadas com a mala, tentando não fazer barulhos com as botas no chão de madeira e deixei a carta presa ao piano. Sabia que Edward encontraria pela manhã, só esperava que me perdoasse. A casa estava mergulhada em um silêncio que me faria falta. Passei rapidamente pelo escritório de papai, pegando a chave no que ele pensava ser um esconderijo. O espaço entre o quinto e o sexto livro de sua estante não era exatamente o lugar mais escondido depois de ter visto ele pegar dinheiro anos atrás. Peguei uma quantia suficiente de dólares e fechei tudo, deixando do jeito que estava.
Saí para a rua, somente iluminada pelo lampião. Eu não tinha rumo, não sabia por onde andar, para onde ir, o que fazer. O relógio tirado do bolso da calça marcava três e quinze da madrugada. Então, resolvi apenas caminhar em direção a estrada. Talvez ela me levasse a Cicero se eu fosse lenta demais, talvez chegasse a River Forest se andasse um pouco mais.
Quando me dei conta, já estava em uma estrada escura. Olhava para os lados e não conseguia enxergar nada, evitava olhar para trás para que o medo não me impedisse de continuar. O som da minha respiração era o que eu escutava, alternando com alguns piados de coruja.
As árvores ao redor pareciam bem altas, tornando a caminhada ainda mais escura e sombria. Eu caminhava apressadamente, mas sem correr. Minhas mãos já um pouco doloridas pelo peso da mala. Até que ouvi um galho se partindo, fazendo meu coração acelerar com o susto. Deveria ser só algum animal na floresta ao redor, pensei e controlei a curiosidade de ver o que tinha acontecido.
Respirei fundo e continuei caminhando com mais pressa agora, mas continuava ouvindo galhos sendo quebrados a medida que minha respiração ficava ainda mais agitada. Minha cabeça girava para todas as direções possíveis, mesmo que eu não conseguisse ver nada pela escuridão. Apavorada. Eu apertava os dedos com tanta força na alça da mala que chegava a doer.
Passos. Alguém estava me seguindo e eu só consegui correr, vendo uma pequena luz em um ponto mais à frente na estrada. Eu poderia pedir ajuda se chegasse ali, se me apressasse mais. Eu não tinha mais pulmões e meu coração já batia descontrolado em meu peito. O perseguidor se aproximava, eu podia sentir pelos passos mais audíveis. Ele queria que eu o escutasse, que eu soubesse que me pegaria.
Virei na direção do barulho por meio segundo e fui arremessada alguns metros para trás no segundo seguinte, com uma dor lancinante em todo o meu corpo, como se tivesse batido em uma parede. A mala escapou das minhas mãos e eu vi uma figura humana na minha frente. Ele carregava um pequeno lampião e eu consegui enxergar com mais facilidade, mesmo que meu coração parecesse um tambor em meus ouvidos.
Cabelos pretos, pele pálida como o mármore e incrivelmente lindo. Parecia um deus grego, mesmo com os olhos vermelhos. Sim, vermelhos como o sangue e extremamente quentes, pelo fogo tão perto. Ele caminhava lentamente em minha direção e eu me arrastava pra trás na mesma velocidade. Hipnotizada, eu estava.
Quando ele chegou perto o suficiente, segurou meu tornozelo, impedindo que eu me movesse mais para longe. Seus dedos foram subindo, segurando com força minha perna e me fazendo sentir a frieza através do tecido fino da calça. Ele me puxou para perto, ficando literalmente em cima do meu corpo. Seu peito grudado ao meu, sua respiração se misturando a minha e seus olhos estudando meu rosto. Eu não conseguia parar de olhar ou emitir qualquer som. O grito estava preso na minha garganta.
Ele passou a mão gelada em meu rosto em uma carícia leve, me fazendo estremecer. Pegou uma mecha do meu cabelo e a cheirou, com uma expressão de prazer que me deixou ainda mais apavorada com o que poderia acontecer. Depois, colocou com suavidade a mecha no lugar e eu senti seus dedos em meu pescoço, seguidos por seu nariz. Senti seu sorriso se abrir e eu só consegui fechar os olhos e pedir a Deus que mandasse alguém para me ajudar naquele momento.
– Deve estar se perguntando quem sou eu, certo? – ele disse baixo em meu ouvido, deixando um beijo casto em meu pescoço. Eu estava presa ao seu corpo e a sua voz, sem conseguir dizer nada – Não vai responder? Tudo bem, tudo bem! Meu nome é Allan. Acredito que não vá querer saber meu sobrenome, estou certo novamente, senhorita? – e, novamente eu não conseguia formular uma frase, mas ele não parecia irritado. Agora olhava em meus olhos e estava com um ar de diversão, como se estivesse contendo uma risada. Quem sabe estivesse achando engraçado – Como se chama senhorita?
. – finalmente consegui falar algo, mas saiu como um sussurro. Eu estava completamente atenta ao meu redor, nossas respirações continuavam misturadas.
– Achou que poderia fugir de mim, senhorita ? – sua mão tinha voltado ao meu pescoço, agora não mais como uma carícia, mas como uma forte pressão. Eu sabia que não teria muito mais tempo de ar, minha cabeça pendia pra trás e meu corpo se arqueava em direção ao dele. Minha vida passava pelos meus olhos. Sentia arrependimento. Eu deveria estar em casa, me preparando para o casamento. Aceitaria essa vida novamente de bom grado se conseguisse sair do aperto em que me encontrava – Sinceramente você é muito bonita. E, para sua sorte, não estou com tanta sede. – ele disse baixo e claro, chegando perto dos meus lábios – Mas seu cheiro é divino, então vou ter que provar. – deixou um leve beijo ali e eu só consegui fechar os olhos e esperar pela morte – Fique tranquila, será só um pouquinho. – sua risada fez com que meu corpo se arrepiasse. – Só que antes que eu faça qualquer coisa, vou te dizer o que você vai se tornar. Guarde bem essa palavra, senhorita . – ele roçou os lábios em meu pescoço outra vez e disse em meu ouvido – Vampiro.
Senti seus dentes cravando em meu pescoço e o cheiro de sangue logo se tornou presente. A pressão veio e se foi. Mas alívio era algo que tinha me abandonado. Senti que a pressão em cima de mim tinha sumido para dar lugar a uma dor atordoante dentro do meu corpo. Eu me senti sendo levantada e o vento que batia em meu rosto agora era cortante. Não conseguia entender o que estava acontecendo.
Fui deixada no chão, mas meu corpo queimava como se estivesse sendo incendiado. Quente demais. Eu tinha sido posta no sol, não era possível. Os gritos que antes estavam presos, saíam com muitíssima facilidade. Minha garganta deveria estar doendo, mas parecia redundante. Meu corpo inteiro doía.
Eu queria morrer. Minha vida não valia a pena, só queria me ver livre daquela tortura. E implorava por isso, mesmo sem saber se alguém me ouvia. Mas deveria ouvir, eu precisava morrer. O tal Allan tinha me deixado ali para agonizar até falecer. Seria pedir muito ter acabado com a minha vida de uma vez só?
Não sei quanto tempo passei com aquele fogo dentro de mim. Meses, semanas, dias, horas, minutos ou segundos. Tinha perdido completamente a noção do tempo. Tudo o que eu queria era o fim daquele martírio e foi o que, depois de um tempo enorme, aconteceu. Eu sentia novamente o controle sobre meu corpo, as convulsões tinham parado, eu já conseguia me manter em silêncio e, então, permaneci imóvel. O meu corpo parecia mais forte também e, mesmo que o queimar ainda não tivesse diminuído, só poderia estar significando uma coisa. Estava acabando, não estava? Tinha que estar. Eu não aguentaria muito mais tempo, mesmo não sabendo quanto tinha passado.
Minha audição estava cada vez mais clara, podia ouvir o riacho perto dali, os homens cortejando as moças, como se tudo estivesse acontecendo ao meu lado. Os cavalos trotando, carroças, qualquer coisa. Na verdade, tudo. E foi então que meu coração deu um salto, como se correndo em uma maratona, sendo perseguido pelo fogo lutando pelo primeiro lugar. As chamas que me incendiavam iam sendo varridas do restante do corpo. Eu estava sendo queimada viva, agora a certeza não me abandonava. Só não entendia porque a morte demorava tanto. Será que eu já estava morta e não tinha me dado conta? Será que tudo isso fazia parte do inferno? Por que eu tinha sido jogada ali sem nem um julgamento perante Deus?
Até que meu coração começou a bombear mais forte. Mais forte. Mais forte. Como o bater das patas de um cavalo no chão. E foi acelerando, acelerando, até que pareceu chegar ao ápice e foi decaindo, desacelerando, até quase parar. E bateu uma última vez, até que eu não sentia nada mais.
Naquele momento, não sentir dor era o que eu podia compreender. Até que abri os olhos. Eu estava numa espécie de cabana, completamente escura, mesmo que visse tudo com imensa clareza. Via a madeira do teto com facilidade, mesmo suas irregularidades. Levantei o tronco e observei melhor ao redor. Realmente estava sozinha no aposento, assim como na tal cabana que não parecia ser muito maior do que aquele quarto. Minhas coisas pareciam estar jogadas em algum lugar perto de mim.
Nenhum pensamento atravessou a minha cabeça vendo aquele cenário. Eu não sabia exatamente onde estava ou o que acontecia, mas uma pontada extremamente forte em minha garganta me fez perceber que eu não poderia ficar parada ali. Coloquei instintivamente as mãos no pescoço, sem saber como diminuir o incômodo crescente. Então, decidi fechar os olhos e me concentrar em outras coisas. As lembranças de minha família voltavam a minha mente. Minha mãe, meu pai, meu irmão. Amigos. Até que ouvi como um sussurro distante. Vampiro.
Era a voz de Allan, sabia disso. Ele me falava exatamente no que tinha me transformado. Vampira. Eu podia ser considerada cética, criaturas míticas, sobrenaturais não existiam em minha humilde opinião. Até hoje.
Quando cogitei a ideia de ficar de pé, já estava. Quando me movi na direção da mala jogada, não demorei nem uma piscada. Me movi para abrir meus pertences e rompi o fecho, como se não fosse de metal. Arfei, compreendendo: eu estava forte demais, pelo visto.
Procurei, com cuidado, agora que ele realmente era necessário, um espelho por entre as roupas que tinha. Assim que olhei, senti um imenso prazer. A figura refletida era bonita, muito bonita. O rosto imaculado como o de um anjo, pálido como a lua, contrastando com o cabelo escuro e ligeiramente ondulado. O prazer foi substituído pelo medo quando meus olhos se encontraram com os do reflexo.
Vermelhos, brilhantes e assustados. Carmim como o sangue. Sangue. Era disso que eu precisava para viver. Ou seria, morrer? Os livros que já tinha lido não passavam de literatura fantástica, então eu não tinha muito material sobre. Até que eu ouvi um barulho de passos não muito distantes e aspirei com cuidado o ar. Minhas mãos se fecharam em punho e o ardor na minha garganta aumentou. Saí em disparada da casa. Aquela foi a primeira vez que matei um ser humano.


Capítulo 03

Eu já era vampira há pelo menos três meses, já estávamos chegando quase no final de agosto de 1918. Me guiava pelos jornais que lia em alguns vilarejos pelos quais passava. A grande guerra tinha chegado ao fim, eu já tinha visto os nomes de meus amigos nos obituários publicados, junto com agradecimentos pelo seu trabalho de defesa da pátria. Parecia que a vida nas sombras tinha consequências pro universo. Talvez se eu não tivesse sido transformada, eles tivessem voltado para casa. Talvez eu só estivesse criando teorias para passar o tempo e não enlouquecer.
Nos primeiros dias, a culpa me corroía. Eu corria para o mais longe de Chicago quanto podia e, com isso, dizimava vilas inteiras, tomando sempre o cuidado de não deixar ninguém vivo. Minha sede parecia não ter fim, eu vivia por instinto e, tudo o que eu menos queria era condenar alguém a vida que Allan tinha me dado. Allan. Eu nunca mais ouvira falar sobre ele. Não tinha deixado um bilhete entre as minhas coisas, um sobrenome. Nada.
Foram muitas as vezes que tentei me matar, fiquei dias sem beber uma gota de sangue, mas a morte não tinha me alcançado. Eu já estava morta, tinha que entender isso. Desisti, me deixando levar pela lei da sobrevivência. A sede vinha muito mais implacável quando eu tentava me punir, o que fazia com que o estrago fosse ainda maior. Então, em algum momento, abracei a minha imortalidade e as mortes nas costas não eram tão chocantes assim.
As placas me diziam que eu estava em Ottawa, ainda em Illinois, aproximadamente a uns 113km de Chicago e, parei para pensar que talvez eu não quisesse me afastar tanto. Ainda estava bem perto de casa, poderia correr rapidamente de volta a Chicago em algumas horas, mas não pensava em olhar pra trás agora.
Eu já tinha me alimentado o suficiente naquele dia para que minha sede estivesse abrandada. O dia chuvoso fazia com que eu pudesse me misturar com as outras pessoas. Então, tomei o cuidado de pegar um vestido que peguei de uma das vilas pelas quais passei e troquei de roupa em meio às árvores da cidade, tentando não me sujar muito com a terra. Peguei uma sombrinha e juntei alguns dólares na bolsa, escondendo a mala em uma árvore oca.
Prendi a respiração, abrindo o guarda-chuva e me direcionando ao centro da cidade a procura de algum jornal para me manter atenta aos acontecimentos do mundo. E, quando me aproximei do jornaleiro, um senhorzinho de não mais do que 60 anos, o vi arregalar os olhos e me entregar o periódico de forma trêmula e assustada, segurando-se para não sair correndo depois de me olhar nos olhos.
Dobrei o papel e achei melhor me manter afastada, caso ele pensasse em alertar alguém. Me encaminhei para o que parecia ser um parque no centro da cidade, que estava vazio graças ao mau tempo. Fui para a parte mais afastada e me sentei em um balanço coberto por uma espécie de marquise. Desdobrei o jornal e me pus a ler as notícias de capa, que certamente me fariam desmaiar se ainda pudesse.

"Gripe espanhola mata mais pessoas em Chicago".

Eu nem sabia que poderia ficar estarrecida, mas não conseguia me mover. Se meu coração batesse, agora estaria acelerado e eu não conseguiria respirar. Minha família estava em Chicago. Eles poderiam estar mortos e eu precisava ajudá-los.
Corri o mais depressa que consegui sem levantar suspeitas, voltando para onde eu tinha deixado minha mala. Chicago estava distante, mas não tanto e eu precisava ser discreta. Árvores, arbustos, estradas. Tudo passava como um borrão pelos meus olhos e eu só conseguia ter em mente as três figuras mais importantes de minha existência. Temia encontrá-los mortos, mas eu precisava saber o que tinha acontecido.
Não sei quanto tempo demorei, mas eu estava em frente ao General Hospital Howard Stanford, o principal de Chicago. O céu permanecia escuro, talvez estivesse no meio da madrugada. Eu poderia andar novamente sem que ninguém me visse, então deixei novamente minhas coisas escondidas.
Prendi a respiração e escalei as paredes do hospital, entrando na primeira janela aberta e escura que consegui encontrar. Revirei todos os quartos dos quatro andares e não os encontrei. Eu teria suspirado em felicidade, se isso não me fizesse acabar atacando alguém.
Infelizmente, ainda tinha um lugar para olhar: o necrotério. Corri até lá e hesitei no momento de abrir a porta. Quando o fiz, o ambiente me fez estancar em choque. Eu sei que parece ironia, já que tinha matado diversas pessoas, mas aquelas pessoas eram conhecidas. Minha antiga professora de matemática, senhora Lancaster. Jimmy, o carteiro. As gêmeas Brittany e Santana James, que brincavam comigo no parque do bairro. Até que os vi. Edward Senior e Elizabeth. Meus pais. Sem vida, deitados lado a lado, com as mãos próximas como se tivessem ficado unidas até o momento final.
Eu me aproximei de seus corpos e os toquei delicadamente, chorando um choro sem lágrimas, pensando em como as coisas poderiam ter sido diferentes. Tantos planos jogados no lixo por uma maldita gripe. Toquei as mãos de minha mãe e senti que havia uma espécie de papel ali, que consegui tirar sem dificuldade.
Se antes eu já estava sem condições de me manter inteira, aquelas duas frases destruíram o resto de autocontrole que meu coração morto parecia ter. Escritas na caligrafia impecável e inconfundível de minha mãe, aquelas frases estariam sempre em minha mente: "Te perdoamos, minha . Sempre te amaremos".

---


Não sei quanto tempo tinha ficado ali encarando meus pais, mas eu precisava me mexer. O relógio em meu pulso já indicada dez para as cinco da madrugada e eu tinha pouco tempo até o amanhecer. Meu irmão, como não estava ali, talvez tivesse ido para outro lugar se salvando da gripe ou, na pior das hipóteses, já estava morto há mais tempo. Eu ainda torcia pela primeira opção.
Peguei os corpos de meus pais no colo com delicadeza e saltei pela janela, esperando que ninguém desse falta, mas não me importando se isso acontecesse. Eles mereciam um enterro digno, no final das contas. Corri até a nossa antiga casa, parando rapidamente para pegar minha maleta escondida. Limpei seus corpos e vesti os dois com roupas mais apresentáveis. Penteei seus cabelos e fiz questão de colocar as melhores joias em minha mãe. Ela ficaria orgulhosa pela escolha de adornos, sorri tristemente.
Tomei o cuidado de procurar o lugar mais bonito do jardim, junto às rosas que minha mãe cultivava com tanto esmero, para cavar a cova. Uma bem grande, assim os dois poderiam ficar juntos no além vida como realmente gostariam.
Coloquei-os ali e eles pareciam adormecidos, de forma serena, o que me fez suspirar mais tranquilamente. Eles estavam em casa. Enquanto os olhava, escrevi com os dedos em uma pedra seus nomes, colocando embaixo alguns dizeres. Fechei a cova e me encaminhei para dentro de casa, me lavando rapidamente e fazendo uma mala maior do que a que eu levava. Juntei todas as minhas roupas, junto com algumas de meu irmão, coloquei as joias de minha mãe em uma bolsa e peguei todos os dólares que encontrei pela casa, já que papai não costumava confiar em bancos. O caminho agora seria longo e, infelizmente, eu ainda precisaria do mundo dos humanos.
Dei uma última olhada e apertei os anéis que agora estavam pendurados em um colar em meu pescoço. Os anéis de noivado de meus pais, já que os de casamento ainda se mantinham em seus dedos terra abaixo. Suspirando, saí em direção a estação de trem. Eu não tinha mais um rumo agora, apenas uma existência para levar adiante.


Capítulo 04

Quando cheguei na estação de trem, não tinha um destino certo para onde ir, só sabia que precisava sair dos Estados Unidos para ficar o mais distante das memórias que cismavam em dançar em meus pensamentos. Tinha parado para me alimentar antes de chegar até ali, o que provavelmente garantiria minha viagem até Nova Iorque, antes que eu pegasse um navio para a Europa. Sempre quis conhecer a Itália, então seria uma boa desculpa.
Foram necessários pelo menos dois dias de viagem até a cidade dos sonhos e, mais quinze dias de navio até chegar ao porto de Gênova, na Itália. Como prendi a respiração por tanto tempo, estava louca para me alimentar novamente e, finalmente sentir o ar puro em contato com as minhas narinas.
O tempo dentro da cabine tinha sido suficiente para ler sobre o lugar e alguns de seus pontos turísticos e, uma cidade me chamou atenção por seu nome peculiar e desconhecido. Volterra. Localizada na região da Toscana, em Pisa. Eu não sabia se ainda podia confiar em minhas intuições, mas sabia que deveria estar naquela cidade.
Quando o navio atracou no porto, por sorte estava de noite e eu pude me misturar entre as pessoas que saiam da embarcação. Sendo ajudada por homens que não eram necessários e que me enviavam olhares sugestivos, eu segui meu caminho com as bagagens nas mãos, parando em uma espécie de aluguel de carros. Eu não sabia como conduzir, então achei melhor pedir que algum dos cavalheiros disponíveis ali me levassem à Volterra. Escolhi justamente o que eu já tinha visto desrespeitar uma senhorita segundos antes. Se ele era tão seguro de si para tratar as mulheres como objeto, eu não me importaria de usá-lo como refeição depois de conseguir chegar ao meu destino.
Ele se apresentou, se chamava George Conell. Foi o caminho inteiro, as próximas quatro horas de viagem soltando piadinhas e indiretas, perguntando se eu era casada e ignorando quaisquer intimidações que a minha postura emanava.
Não demorei muito com seu sangue depois que chegamos e o deixei enterrado alguns quilômetros antes da entrada da cidade, o carro empurrei para o caminho contrário. Corri até a entrada da cidade e a visão de um castelo majestoso preencheu os meus olhos, certamente me faria perder o fôlego se ainda o tivesse.
Já estava começando a amanhecer e, mesmo não havendo muitas pessoas nas ruas, eu não queria me expor. Essa era a regra básica para a vida vampiresca. Não deixar os humanos descobrirem sua realidade. Eu andava nas sombras, ainda admirada com o ar medieval daquela cidade. Parecia muito com os desenhos que Elizabeth Masen fazia. Mamãe. Lembrar dela me fez sentir um aperto no peito e eu automaticamente levei a mão até o colar em meu pescoço. Meu coração inativo sangrava com a perda de meus pais e com o desaparecimento de meu irmão.
No centro da cidade havia o que parecia uma torre com um relógio. Eu estava distraída com o ponteiro mudando as horas, os minutos e os segundos, estava fascinada com a calmaria que parecia transparecer. Até que senti uma presença as minhas costas e fiquei imóvel no mesmo instante, atenta se precisasse atacar. No entanto, uma mão de temperatura agradável pousou em meu ombro e eu ouvi pela primeira vez.
Buongiorno, signorina. – o tal homem começou em italiano e eu me senti estranhamente confortável – Poderia me acompanhar, por favor? – e eu me virei para encontrar o dono daquela voz. Orbes tão vermelhas quanto as minhas, o cabelo negro caindo graciosamente em sua testa e a mão que antes estava em meu ombro, agora estava estendida em minha direção de forma convidativa.
– Para onde exatamente gostaria que eu o acompanhasse, senhor? – e meu tom era claramente uma pergunta por seu nome.
– Alec Volturi, senhorita. – ele segurou minha mão que eu ainda não lhe havia dado e depositou um beijo cortês ali, me fazendo estremecer involuntariamente – E a sua graça, qual seria?
Masen, senhor Volturi. – lhe dediquei um sorriso que foi correspondido – Mas ainda não me disse para onde gostaria que eu lhe acompanhasse.
– Meu mestre, Aro, solicita sua presença, senhoria Masen. – ele disse me estudando com os olhos e pegando minha bagagem sem nenhuma dificuldade em uma mão, enquanto me oferecia o braço, que aceitei prontamente – Temos um protocolo a ser cumprido. – concluiu e eu só pude assentir, segurando seu braço e seguindo seu caminho.
Eu estava nervosa, mas deveria imaginar que estava entrando em terras que já possuíam dono. Seria o mais educada que conseguisse e torcia para que saísse dali com todos os membros ainda intactos. Quando chegamos à frente de grandes portas de madeira, perfeitamente ornadas que iam até o teto, paramos. Ele ia abrir a porta, mas eu segurei suas mãos impedindo o ato e proferi em seu ouvido com toda a coragem que eu nem sabia existir em meu corpo
– Se eu sair daqui inteira, senhor Volturi, vou adorar conhecê-lo melhor. – e, sem mais o deixei abrir as portas, encontrando uma pequena comitiva nos esperando. Eu só esperava que fosse realmente para dar boas-vindas.

---


As figuras paradas pareciam ter saído de um livro sobre a Idade Média. As peles extremamente pálidas, os trajes pareciam limitados a grandes capas vermelhas com capuz, como se fossem todos participantes da mesma religião. Eu teria dado meia volta se não fosse a mão de Alec nas minhas costas, me empurrando delicadamente para frente. Ele disse um "me siga" sussurrado, mas eu sabia que todas as pessoas do recinto tinham escutado. Vampiros como nós, claro.
Contei seis pessoas ali esperando por nós. Uma mulher loira, que mais parecia uma adolescente. Três homens sentados em tronos perfeitamente dispostos no final do salão. Dois homens prostrados um de cada lado dos tronos, como seguranças. Engoli em seco e fui seguindo o mesmo caminho de Alec, parando alguns metros antes quando o vi se aproximar do trono do meio e entregar sua mão ao homem de longos cabelos negros.
O homem depois deste contato, mudou sua face e simplesmente sorriu infantilmente, dispensando Alec com um aceno de mão, se levantando de seu trono. Veio andando graciosamente até parar a alguns centímetros a minha frente, oferecendo uma mão em cumprimento.
– Senhorita Masen, seja muito bem-vinda aos nossos domínios! – começou enquanto segurava minha mão como se estivesse manuseando um cristal delicado. Por um segundo a confusão passou por seus olhos e suas sobrancelhas se encresparam, mas logo refez a expressão convidativa – Meu nome é Aro Volturi, mas acredito que tenha sido informada deste detalhe.
– Sim, senhor. Me desculpe por invadir seu castelo a esta hora da manhã. – disse com o melhor sorriso falso que consegui moldar. Não sabia o motivo, mas sentia que deveria ser completamente formal com aquele homem. Como se fosse um rei.
– Não se preocupe, criança. Está em casa agora. – se eu ainda pudesse vomitar, certamente teria feito – Acredito que saiba quem somos e exatamente aonde está, certo? – ele soltou minha mão, mas se manteve próximo. Todos os olhos estavam em cima de mim.
– Infelizmente não, senhor Volturi. Perdoe-me a ignorância. – respondi em um tom mais contido e ouvi sua gargalhada melodiosa preencher o lugar, me rendendo um arrepio na espinha e um péssimo pressentimento.
– Tudo bem, minha querida. Haverá tempo para apresentações mais formais. – Aro afirmou com o que me pareceu docilidade – No momento, você deve conhecer as pessoas que estão aqui conosco. Sentado a minha direita está Caius, a minha esquerda, Marcus. Alec eu presumo que já conheça e, esta jovem ao seu lado é Jane. – meu olhar recaiu na dupla que se encontrava de mãos dadas e eu vi o olhar esperançoso de Alec pairar em cima de mim, mas Aro chamou minha atenção novamente – Estes são Demetri e Felix. – completou sem muita importância.
Eu assentia a todos os nomes que me eram ditos e vi quando Aro virou-se na direção de Jane e sussurrou, mesmo que não fosse necessário um "Chame Eleazar", me fazendo ficar ainda mais ansiosa do que quando tinha entrado.
– Então, minha querida. – ele continuou – Nós vampiros, mesmo que sejamos infinitamente superiores aos humanos, temos muito em comum com eles, principalmente nosso sistema hierárquico. Nós somos os Volturi – ele disse com ar de imponência – pode nos considerar uma espécie de realeza se quiser, porque é justamente o que somos. – Aro começou a circular despreocupadamente pelo espaço – Os outros se curvam a nós, mas não é preciso temer, minha doce senhorita Masen. Representamos riscos apenas aos que quebram nossas regras. – ele completou me olhando nos olhos, me fazendo sustentar aquele olhar, quando tudo o que eu queria era fugir.
– Sim, senhor. – foi tudo o que eu consegui dizer claramente, antes que as portas se abrissem de novo, revelando um homem moreno, extremamente bonito como eram todos ali, mas com uma aura tranquila e aconchegante. Ele estava acompanhado por Jane, que logo voltou ao seu lugar que, pelo que parecia, era ao lado de Alec.
– Mandou me chamar, senhor? – o novo ocupante do salão perguntou, um sotaque latino aparente em sua fala.
– Meu grande amigo, Eleazar. Que gosto em vê-lo novamente. – Aro disse com uma falsa alegria – Acredito que saiba o motivo pelo qual foi chamado, mas deixe-me apresentá-los. Senhorita Masen, este é Eleazar. – nos apresentou com uma grande curiosidade e eu só pude observar o tal homem me estudar de cima a baixo. – Já sabe o que ela é, meu amigo?
A pergunta me pareceu completamente fora de lugar. Como o que eu era? Uma vampira, obviamente! Do que estes homens estavam falando? Eleazar me analisou por mais meio segundo e olhou diretamente para Aro ao responder.
– Estou sendo bloqueado neste exato momento, senhor. – ele disse tranquilamente – Acredito que ela possa ser um escudo mental, já que não consigo sentir sua presença. – completou ao que Aro assentiu, como se absorvendo as palavras que lhe foram ditas.
– Entendo! Obrigado, velho amigo. – e, dito isso, o dispensou com aceno de mão, voltando a me encarar, com os olhos desejosos agora. Como um comerciante olha para o dinheiro. Um garimpeiro para o ouro. Eu era um objeto ali – Minha querida senhorita Masen, acredito que saiba que alguns vampiros possuem certos dons. E, minha criança, acredito que você possua algo extremamente útil.
E, um sino tocou em minha cabeça compreendendo o que ele queria. Ele me queria, mesmo que aquela história de dons fosse completamente nova para mim.
– Gostaria de lhe oferecer um lugar em nossa guarda, senhorita. – ele continuou – Seria um imenso prazer tê-la como parte de nossa grande família. – completou cheio de expectativas.
A palavra família me soava tão estranha quando dita por aquele homem, como se ele representasse todo o contrário do que eu entendia e teria por familiar. No entanto, eu não tinha exatamente para onde ir. A família que eu tanto amava estava morta e, literalmente enterrada. Meu olhar desviou da figura de Aro e caiu em Alec por um breve segundo. Eu lhe tinha feito uma promessa e, pelos seus olhos, parecia que ele queria que eu cumprisse. Suspirei por outro segundo antes de fixar meus olhos no homem parado em minha frente.
– Eu aceito, senhor Volturi. – afirmei com uma segurança que nem sabia ter – Seria uma honra servir e fazer parte de sua família. – disse selando o que parecia ser o começo da minha eternidade.

Até aqui scriptada por: Carolina Mioto.

Capítulo 05

Volterra, 1957

Muitos anos já haviam se passado desde que eu me juntara a guarda Volturi e muitas coisas haviam mudado, já que a Evie de 1918 tinha morrido quando encontrara Allan naquela noite. No entanto, as memórias seguiam vivas em minha mente, já que a presente de todos os dias não dormia.
Eu nunca mais tinha posto os pés em Chicago novamente. Não sabia exatamente o que tinha sido feito com a casa de meus pais, mas imaginava que alguma outra boa família tinha criado boas lembranças ali. Eu torcia para isso, mas também era provável que a casa tivesse sido comprada para algum avanço do capitalismo. Humanos eram estranhos. Quanto mais poder tinham, mais queriam.
Eu estava deitada em meu quarto, encarando o teto, esperando pelo momento em que Alec viria me buscar para o que ele dizia ser um encontro de verdade. Costumávamos fazer isso de tempos em tempos para não ficar monótono. Criávamos histórias, inventávamos personagens e nos conhecíamos novamente, tentando fazer da eternidade mais divertida e, do peso de sermos pertencentes a Aro, menos dolorido.
As poeiras em meu teto me mantiveram tão entretida que não notei uma batida leve na porta, indicando que Alec já deveria estar pronto. Caminhei na velocidade humana e, ao abrir, me deparei com a figura de Eleazar me aguardando. Eu deveria ter percebido, mas andava um pouco aérea nos últimos dias, principalmente depois de termos ido cobrar favores para Aro de um clã na Romênia.
– Eleazar, meu querido, achei que não tivesse retornado ainda da viagem ao Kansas. – lhe abracei, realmente feliz em vê-lo e o senti retribuir, depositando um beijo em minha testa – Como foi tudo por lá?
– Foi tudo maravilhoso, cariño. – sorri ao ouvir o apelido carinhoso que tinha virado costume. Eleazar era como um pai para mim, me lembrava muito o zelo de Edward Senior – Mas precisamos conversar!
– O que aconteceu? Gostaria de entrar? – disse já oferecendo passagem para o meu quarto, mas ele recusou e me segurou pela mão.
– Vou precisar que confie em mim, certo? – assenti – Finja que está se divertindo. – ele disse mais baixo, antes de me pegar desprevenida, me colocando em suas costas e começando a correr para longe dos corredores do castelo dos Volturi. Tudo o que pude fazer foi me recuperar do choque inicial e ensaiar algumas risadas fáceis. Esperava realmente que Alec me perdoasse pela demora.
Nós nos distanciamos não mais do que 100 km do castelo, ainda podia enxergar a Torre do Relógio ao longe. Estávamos em uma espécie de floresta, no topo de uma árvore, como se estivéssemos nos escondendo de alguma coisa e, eu imaginava ser das mãos leitoras de mente de Aro.
– Eleazar, o que exatamente estamos fazendo aqui? – perguntei, me firmando em um galho mais grosso.
– Eu não poderia deixar que Aro ouvisse essa conversa, querida. Não hoje, nem nunca. – ele começou olhando para mãos e, em seguida seus olhos encontraram os meus – Eu estou deixando a guarda dos Volturi hoje, cariño. Chegou minha hora de partir.
– Como? Por que? Eu não entendo! – minha mente estava um turbilhão de perguntas – Para onde você iria? – começava a me sentir angustiada.
– Eu a encontrei, . – disse simplesmente – No Kansas, quando estava buscando novos "diamantes" para a guarda de Aro, eu a vi. Carmen. – ele suspirou apaixonado – Ela tinha sido transformada há poucos meses, mas não parecia querer machucar os humanos. A vampira que a mordeu não fora cuidadosa com ela e a deixou escapar, mas antes tinha drenado sua mãe e irmão. – completou com pesar – Eles estavam de férias visitando uma tia, pelo amor de Deus! – disse indignado – Eu lhe disse que poderia confiar em mim, que não a machucaria e, devo cumprir minha promessa. Devo protege-la com a minha existência, se for necessário.
Dito isso, eu só conseguia segurar em sua mão e apertá-la fracamente, demonstrando apoio e compreensão. Eleazar estava apaixonado e eu estava feliz por ele, nada melhor que o amor para curar antigas feridas. Nós sorrimos um para o outro e, ele soube que eu estaria ao seu lado nesta decisão.
– Espero que um dia eu possa conhecer essa mulher de sorte!
– Você irá, eu só preciso de tempo para nos estabelecermos em algum lugar e para que possamos, na verdade, para que eu possa começar uma nova dieta. – ele disse firmemente e eu o encarei confusa.
– Nova dieta? Como espera sobreviver sem matar alguém? Roubando dos postos de doação? – perguntei sarcástica.
– Eu lhe disse que Carmen não queria machucar humanos, cariño. Mesmo sendo uma recém-criada. – ele nem se importou com meu tom – Ela me apresentou uma forma mais "vegetariana" de ver a nossa existência. É incrível a força que aquela mulher tem, mesmo em tão pouco tempo de transformada. – e a minha cara de confusão deve ter sido tão grande que ele simplesmente completou – Sangue animal, . – e torci o nariz sem nem pensar duas vezes, imaginando aquele tipo de sangue em contato com a minha garganta.
– Tem certeza? É isso que você quer para sua vida? Sangue animal para o resto de sua eternidade?
– Eu quero Carmen para o resto da minha eternidade, cariño. – ele soltou uma risadinha – E, se sangue animal é o preço que eu preciso pagar para isso, que seja. – ele deu de ombros e eu soube que nada do que lhe dissesse mudaria sua cabeça. Eu nem queria isso.
– Você está encantado, meu amigo.
– Vocês irão se conhecer e, tenho certeza de que irá se encantar por ela da mesma forma que eu. – ele sorriu momentaneamente, mas voltou a ficar sério – No entanto, não foi por isso que lhe trouxe aqui. Precisamos conversar sobre o que anda lhe acontecendo nos últimos tempos, querida.
E, eu senti meu corpo estremecer com a mudança repentina de assunto. Sabia do que ele falava. Eu era um escudo mental, disso todos tínhamos certeza, já que Aro não conseguia ler meus pensamentos, Jane ou Alec me atingir ou Marcus aumentar meus laços com os Volturi. Mas, eu não conseguia expandir para outras pessoas, fazendo com que apenas eu ficasse protegida dentro de minha cabeça. Há alguns meses, entretanto, eu havia comentado com ele sobre alguns descontroles que estava sentindo por parte de minha mente, como se algo estivesse a ponto de sair, de tomar conta de meu corpo por completo. Eu vinha sentindo frequentes dores de cabeça, como se uma pressão enorme estivesse sendo feita em meu crânio, me levando a apagar realmente por algumas horas, como em algum tipo de desmaio impossível para uma vampira.
– Eu procurei por muito tempo nos livros que tinha acesso no castelo, mas nada me pareceu similar a sua situação, . – ele me olhou desanimado – Mas fiz questão de não achar nada até que Aro tivesse lido minha mente pela última vez, minha querida. – e eu prestei ainda mais atenção ao que ele me dizia.
– Então, você achou alguma coisa? – se meu coração pudesse bater, estaria completamente acelerado.
Ele simplesmente tirou um grosso papel do bolso, como se fosse a página de um livro antigo que ele tinha arrancado e que fora devidamente dobrada para parecer menor. Nada mais me disse, deu um beijo em minha testa e sussurrou "você saberá onde me achar quando precisar, cariño" em meu ouvido, antes de descer da árvore e me deixar sozinha.
O medo me impediu de abrir aquele papel quando o tive nas mãos pela primeira vez. Eu apenas o guardei preso ao decote quase imperceptível do vestido que usava naquela noite. Voltei ao castelo e tive um encontro fabuloso com Alec. Nos disfarçamos de humanos e fomos a um bar na cidade vizinha, como se fôssemos viajantes conhecendo o lugar. Não matamos ninguém naquela noite, eu não gostava de manchas de sangue em nossos encontros.
Foi apenas uma semana depois que eu tomei coragem para abrir o papel que fazia questão de carregar comigo para todo lugar que fosse. Eu estava sentada sozinha perto de um lago, um pouco distante do castelo e mais próxima ao povoado, mas nenhuma pessoa costumava passar por aquela área.
A página contava a história das Litúrias, criadas em 1578, a perfeita lenda das sugadoras de sangue com poderes psíquicos. Torturavam suas vítimas e sugavam delas todas as suas forças, absorvendo suas qualidades e, algumas vezes até mesmo, memórias. As Litúrias eram capazes de fazer com que um povoado inteiro fosse dizimado, se tivessem absorvido as capacidades certas.
Se eu era uma descendente de uma Litúria, não fazia ideia. Não achava possível, mas que essa história sobre absorver algumas capacidades de outras pessoas, fazia cada vez mais sentido, era certo. E, foi quando eu vi um homem passar por ali, fugindo com o que pareciam algumas bolsas, olhando para trás a todo momento, que eu decidi pensar olhando diretamente para sua figura, o quanto eu queria que ele sentisse dor. E, qual foi a minha surpresa ao vê-lo cair prostrado em seus joelhos, agonizando como as vítimas de Jane, antes que eu lhe mordesse e drenasse seu sangue.
"É uma teoria que devemos considerar", Eleazar escreveu no final da página e uma luz se acendeu em minha cabeça, como se as peças se encaixassem. Eu agora poderia me deixar ser.

Capítulo 06

Volterra, 2009

A virada do milênio já havia acontecido há alguns anos e a vida não poderia estar mais monótona. Eu já havia lido todos os 50 mil livros clássicos da biblioteca de Volterra, mas, graças aos céus, a era da tecnologia chegara e eu poderia passar parte da entediante eternidade frente a um computador, lendo mais alguns. Eu tinha conhecido alguns humanos pela internet, feito algumas amizades e me correspondido por e-mails. Nada muito relevante, mas extremamente cômico e triste ao mesmo tempo, como Jane gostava de ressaltar.
Os encontros com Alec não supriam mais as necessidades de ambos e, sabíamos disso. Apenas o sexo era algo a se considerar, porque era tão importante quanto a quantidade de sangue que deveria ser ingerida diariamente. Era pela sobrevivência, dizíamos sempre antes de nos embolar nos lençóis, tentando ser os mais silenciosos que podíamos, considerando que o castelo contava com mais de 45 vampiros. Ou seja, não dava certo e sempre recebíamos olhares atravessados na manhã seguinte.
Eleazar atualmente se encontrava em algum lugar dos Estados Unidos ou do Canadá, nunca me dando a localização exata nos e-mails que já havíamos trocado, talvez por medo de Aro descobrir sua morada e pedir, ou ordenar, que ele voltasse aos seus serviços como membro da guarda. Mas, enquanto estivesse feliz com Carmen, por mim estava tudo bem.
Diferente do que eu poderia ter imaginado em todos esses anos, as coisas não ficaram exatamente mais fáceis depois que descobri sobre a tal lenda das Litúrias, pelo contrário. Não precisei pesquisar muito mais nos sites para saber o que eu já sabia: eu conseguia absorver os dons de outros vampiros apenas tocando neles e, eles ficavam em alguma parte obscura do meu cérebro, apenas esperando que eu me concentrasse o suficiente para serem postos em prática. Como uma lâmpada que espera que alguém use o interruptor para acendê-la. Muito útil, mas extremamente perigoso. Principalmente se esta lâmpada é cobiçada, mesmo que eles ainda não saibam, pelas piores espécies de vampiros do mundo: os Volturi.
Renata, o escudo físico de Aro, tocou meu braço, me tirando do devaneio que me encontrava, indicando que deveria colocar a poltrona na posição vertical novamente porque pousaríamos em Dallas nos próximos minutos. Um clã estava bagunçando com a ideia de clandestinidade, matando mais pessoas do que deveria, chegando muito perto de nos expor aos humanos. Mandar dois escudos, um mental e um físico, com capacidade para dizimar uma vila inteira pareceu a ideia certa para Aro e Caius. Marcus não tomava partido nestes assuntos, se mantendo com sua cara de tédio costumeira.
Saímos do aeroporto e Renata parecia muito apreensiva, mesmo que não conversássemos normalmente. Sabia que tinha a ver com a distância que estava de seu mestre, preocupando-se com ele e sua proteção. Resolvemos pegar um táxi após sair do aeroporto para não chamarmos muita atenção, o que foi inevitável. Duas mulheres incrivelmente pálidas, vestidas de preto dos pés à cabeça, com aparências até mais do que atrativas desfilando sem malas pelo aeroporto. Se os humanos pudessem girar a cabeça em 180º para nos ver, teriam feito. Até mesmo o taxista que nos levou até Highland Park teria feito isso. Mas fomos educadas e lhe poupamos a vida, lhe entregando uma gorda gorjeta pelo caminho feito sem nenhuma cantada inoportuna.
O clã era composto por duas mulheres e um homem e foi fácil de localizar, para a nossa sorte. O protocolo era sempre nos apresentar, fazer aquele drama básico e exterminar. Repetitivo demais e simples demais. Eu gostava quando havia mais ação durante as lutas, mas eles já estavam rendidos no momento em que pisamos em seus domínios. Sequer tentaram correr, porque tinham muito medo do nome dos Volturi. Era patético até.
Não demoramos mais do que uma hora com essa situação e, eu já estava entediada, tanto quanto Renata parecia estar querendo voltar para o lado de seu mestre. Mas, como ainda teríamos outras doze horas dentro de um avião, resolvemos nos alimentar antes de voltar ao aeroporto, evitando acidentes na viagem.
A chegada à Itália no dia seguinte foi extremamente tranquila, como tudo costumava ser desde que entrara para a guarda. Pegamos o carro que havíamos deixado no estacionamento do aeroporto e seguimos viagem, vendo Volterra nos saudar com sua bela paisagem algumas horas depois. Eu que sentia que nunca me cansaria daquela vista, suspirei enquanto pisava no acelerador, sentindo a expectativa crescente em minha acompanhante.
Nos despedimos quando eu estacionei e vi Renata correr castelo adentro, provavelmente indo contar os pormenores de nossa pequena missão, como costumava fazer. Isso significava que eu não precisava me apresentar aos Volturi agora e, podia me deixar cair na cama, realmente esgotada mentalmente. Mas, antes que conseguisse chegar a abrir minha porta e ver minha cama, ouvi Jane chamando por meu nome de forma urgente.
Quando me virei preocupada, vi que sua expressão não era de muitos amigos, mas ela não recusou o abraço que eu lhe oferecia. O que era bem estranho, Jane não era do tipo que aceitava abraços sem motivo.
– Aconteceu algo, Jane? – questionei enquanto abria a porta do quarto e lhe convidava para entrar.
– Fomos invadidos e Aro enlouqueceu por conta de uma humana insignificante! – ela soltou indignada e me deixou completamente confusa, sem entender o que se passava.
– Seja mais clara, por favor. Do que você está falando?
– Se lembra de Carlisle Cullen? O tal amigo que Eleazar sempre comentava que tinha sido um dos primeiros a deixar a guarda de Aro. – ela começou e eu assenti – O filho dele, ou companheiro de clã, se preferir, se apaixonou por uma humana e não quer transformá-la. – ela completou e eu só consegui começar a rir da pior e mais clichê história de amor de todos os tempos.
– Você só pode estar brincando comigo, Jane. Como um vampiro se apaixonaria por humana e não iria querer transformá-la? Ele quer matá-la? Quer sofrer com o cheiro dela? Masoquismo!
– Realmente, porque o cheiro dela era delicioso. – suspirou lembrando e me fez dar mais uma risada – Mas, eu não sei o motivo dele não transformar a humana e não me interessa. O que importa é que ele quase nos expôs aos humanos, se mostrando a eles no sol.
E ela continuou me contando com detalhes o que havia acontecido com o tal vampiro do clã dos Cullen e como a tal humana parecia ser um escudo mental como eu. O clã era interessante demais para ser esquecido: um leitor de mentes e uma vidente. Aro havia ficado intrigado e com razão tinha nos mandado monitorar a distância. Eu só esperava que o tal vampiro apaixonado a transformasse logo, antes que Aro o fizesse e pelos motivos errados.

Capítulo 7

Mais ou menos um ano depois da "visita" dos Cullen, Aro voltou a fiscaliza-los. Parecia estar esperando pelo primeiro deslize para conseguir os troféus que tanto queria colecionar. No entanto, precisava de uma desculpa para isso. De acordo com ele, a humana sabia demais. Precisava ser silenciada. Morta ou transformada em vampira, mas eu sinceramente não via muita diferença dentre as opções.
E, parecia que a sorte estava a favor do meu "mestre", já que alguns vampiros recém-criados estavam ameaçando a grande Seattle, perto demais de Forks, o território dos Cullen. Então, Aro nos ordenou que fossemos checar o que acontecia antes que as coisas saíssem de proporção.
O grupo montado não era exatamente para atacar, mas para amedrontar. A briga física ficando para um segundo plano, apenas se fosse necessária. Então, fui junto de Jane, Alec, Demetri e Felix para os Estados Unidos ver com meus olhos o que se desenrolava. A viagem, como sempre, fora longa e após sair do aeroporto, não foi difícil encontrar o rastro deixado pelos recém-criados. Eles eram como crianças pequenas: nenhuma consciência do que faziam, mimados até o último fio de cabelo. Viviam pela sede. Típico.
– Jane, o que faremos afinal? – eu olhava em falsa expectativa para ela, tocando seu ombro e escutando seus pensamentos de deixar que os recém-criados fizessem o que tinham sido colocados para fazer. Mas, eu precisava manter as aparências e lidar como se não soubesse de nada.
– Os exterminamos ou deixamos que cumpram o seu propósito? Decisões, decisões, decisões. – ela tinha o olhar vago, mirando o grupo de vampiros que destruía uma rua pouco movimentada, enquanto olhávamos de cima de um prédio.
– Você quer segui-los de perto, irmã? – Alec perguntou e o silêncio de Jane foi tudo o que precisamos para entender. Recolocamos os capuzes nas cabeças e apenas os observamos, dando-lhes a dianteira.
Eles pareciam estar seguindo um líder, indo na direção de Forks, apenas a pouco mais de três horas dali. Deixamos que fossem e Jane esperava realmente que os Cullen fossem dizimados no processo, nos poupando trabalho e restando apenas acender a fogueira e juntar os pedaços.
Passadas algumas horas, Alec decidiu que já era tempo de partir atrás deles, antes que os vampiros mortos começassem a chamar atenção dos humanos. Demetri e Felix vibravam em excitação, somente pela possibilidade de uma luta ali. Seguimos os rastros dos recém-criados e acabamos chegando em uma clareira, no oeste de Forks.
O cenário que nos foi apresentado era completamente diferente do esperado e, tive que disfarçar minha surpresa enquanto retirava o capuz de minha cabeça, revelando meu rosto. Oito vampiros perfeitamente intactos, mesmo que uma delas estivesse sendo segurada com um pouco mais de força e uma humana. A tal humana de cheiro delicioso. Aqueles, finalmente, eram os Cullen.
– Bem-vinda, Jane. – o tom do vampiro era friamente cortês.
– Edward. – Jane retribuiu o cumprimento e eu me acendi a este nome, não perdendo a divertida cena de Felix piscando para a humana que parecia prestes a vomitar. Eu teria rido se a situação permitisse.
O olhar de Jane passou lentamente pelos presentes e cravou na vampira mais nova, que antes era segurada e que agora estava sentada no chão, com a cabeça entre as mãos.
– Ela se rendeu. – Edward disse, explicando a confusão no rosto de Jane, me fazendo prestar ainda mais atenção em suas feições. Eu sentia o olhar da humana agora cravado em mim, enquanto eu observava o que seria seu parceiro.
– Rendeu-se? – a voz dela subiu algumas oitavas, mas continuava mortal como sempre. Não era exatamente desta forma que trabalhávamos.
– Carlisle lhe deu esta opção. – ele deu de ombros e eu vi pelo rabo de olho Demetri e Felix trocarem um olhar.
– Não há opções para os que quebram as regras. – eu tomei a frente e senti Jane ficar mais tranquila ao meu lado, quando toquei discretamente sua mão, lhe segurando. Ela começava a se irritar.
– Está em nossas mãos. Como a menina se dispôs a parar de nos atacar, não vi necessidade de destruí-la. Ninguém lhe ensinou nada. – o vampiro loiro, que parecia o líder do clã tomou a palavra e eu supus ser Carlisle.
Vi quando Edward fixou seu olhar nos meus e uma onda de confusão passou por seus olhos, fazendo com que ele desse um pequeno passo para frente, sendo segurado por um vampiro musculoso. As lembranças começaram a inundar minha mente, eu não ouvia nada mais ao meu redor e só tinha espaço para ele. Se eu bem sabia, naquele momento uma onda de frustração estava passando por sua cabeça por não conseguir ler a minha mente. Mas não era preciso ler meus pensamentos para saber o quão atordoada eu estava. Alec sentiu. Entrelaçou as mãos nas minhas, como se pudesse ter alguma noção do turbilhão de emoções que se passavam dentro de mim. Minha atenção só se voltou a conversa quando ouvi a voz chocada de Jane perguntar se de fato todos estavam mortos e quem tinha sido o criador.
Eles continuavam falando e agora eu realmente prestava atenção. Dezoito recém-criados mais sua criadora. Realmente chocante. Achei melhor me pronunciar antes que ficasse muito claro o meu estado de plena euforia por ter encontrado meu irmão ou, pelo menos alguém extremamente parecido com ele. Um descendente que não teve uma boa sorte, pelo visto.
– Essa Victoria ... eram ela e mais os dezoito daqui? – perguntei com a voz impassível e Edward novamente cravou os olhos em mim, esperando encontrar algo mais.
– Sim. Tinha um deles com ela. Ele não era tão jovem quanto esta aqui, mas não devia passar de um ano mais velho.
– Vinte – sussurrou Jane e nos olhamos rapidamente – Quem lidou com a criadora?
– Eu – disse-lhe Edward, tomando um passo à frente.
Mas eu sabia que não havia acabado. A vampira recém-criada ainda estava viva perto dos Cullen. Jane não iria embora sem nenhuma diversão. Demetri e Felix muito menos.
– Você aí – ela disse se dirigindo a tal vampira jovem – Seu nome.
A recém-criada lançou um olhar muito malcriado a Jane que, certamente não seria perdoado. Em poucos segundo, a menina já se retorcia de dor e seus gritos poderiam ser ouvidos ao longe. O grito se intensificava e eu vi humana se encolher de medo do que poderia lhe acontecer.
– Seu nome – Jane repetiu entre os dentes, enquanto eu tocava seu ombro, já sabendo o que deveria fazer.
– Bree – a menina disse ofegando.
A menina gritou mais uma vez, ainda em agonia pelo que Jane fazia em sua mente. Edward resolveu tomar a frente e defender a menina, dizendo que ela lhe contaria o que quisesse. Jane, então, olhou para mim e eu assenti, sabendo que todos os olhares estavam em cima de mim agora.
Saí da formação ao lado dos outros e fui andando despreocupadamente para o meio da clareira, vendo os Cullen assumirem posturas defensivas e colocarem a tal humana o mais distante possível. Como se aquilo fosse um mero empecilho, ri internamente. No entanto, meu foco não era a humana, mas a vampira deitada no chão, segurando a cabeça entre as mãos, temendo que eu fosse lhe causar mais dor do que a que acabara de sofrer.
Me abaixei ao seu lado e lhe fiz uma pequena carícia no rosto, arrumando seu cabelo e olhando em seus olhos. Bree estremeceu com meu toque, mas era tudo por Jane. Ela que gostava deste teatrinho antes de matarmos alguém, a loira era puro deleite às minhas costas, eu tinha certeza. Mas, vez ou outra, poupávamos alguém se a pessoa possuísse algo que queríamos, então, ela também estava apreensiva.
– Bree, então, que nome bonito o seu. – disse lhe ajudando a se sentar corretamente – Meu nome é , sinto muito que tenhamos nos conhecido nestas circunstâncias. – completei com pesar e ouvi Edward ofegar baixinho, enquanto todos nos olhavam.
– Por favor, por favor. Não me machuque – ela suplicava, segurando minhas mãos e eu sabia que se pudesse, seu rosto estaria banhado em lágrimas.
– Tudo a seu tempo, querida. – sorri para ela que assentiu – Por que não nos conta mais sobre sua criadora, Bree?
E a menina desandou a falar, gaguejando tudo o que não nos importava saber. Sobre não saber o nome da mulher, sobre não poder saber muito sobre nada do que aconteceria por medo do leitor de mentes e da vidente. Nada realmente interessante, mas Jane precisava de um veredicto.
– Entendo, entendo. – olhei para Jane que entendeu na hora e me levantei – Realmente sinto muito, querida. – fui andando calmamente de volta ao lado de Alec – Felix? – disse com a voz arrastada.
– Espere – interveio Edward e eu estanquei no lugar, ainda de costas para ele – Podemos explicar as regras à Bree. Ela pode aprender, já que não sabe o que está fazendo. – ele disse com a voz urgente, o que me fez virar e encontrar seus olhos cor de âmbar suplicantes.
– É claro. – Carlisle disse – Estamos preparados para assumir a responsabilidade por Bree.
– Por favor, – Edward tentou uma vez mais – !
Ele sabia quem eu era. Claro que todos ali sabiam depois que eu havia me apresentado a recém-criada, mas o olhar que Edward me dirigia era forte demais para que eu não soubesse exatamente o que acontecia. Como era possível que ele houvesse sobrevivido a gripe em 1918, eu não sabia. Talvez tivesse realmente ido embora, talvez tivesse sido transformado antes.
– Não abrimos exceções – disse Jane, provavelmente sentindo minha hesitação – E não damos uma segunda chance. – minhas pernas pareciam ter criado vida própria e decidido ficar presas ao chão. Mas eu precisava me mover, então cortei o olhar com Edward, olhando para baixo e me firmando ao lado de Alec, segurando sua mão com força, como se minha vida dependesse disso. Ele percebeu, mas se manteve em silêncio – É ruim para a nossa reputação. O que me lembra ... – e seus olhos pousaram na humana – Caius ficará tão interessado em saber que ainda é humana, Bella. Talvez ele decida fazer uma visita.
– A data está marcada – disse uma vampira baixinha, que eu supus ser a vidente, falando pela primeira vez, ao que Jane deu de ombros e se dirigiu ao líder do clã.
– Foi um prazer encontrá-lo, Carlisle ... Pensei que Aro estivesse exagerando. Bem, até a próxima vez... – o homem apenas assentiu e Jane completou – Cuide disso, Felix. Queremos ir para casa.
Felix disparou de nosso lado, indo na direção de Bree e despedaçando seu corpo como uma criança pequena faz com um brinquedo novo. Vi Edward dizer algo para a humana, a tal Bella, e depois olhar para mim durante todo o processo de forma decepcionada. Nunca tinha visto aquele olhar durante minha vida humana, não esperava recebe-lo depois de morta.


Continua...


Nota da autora: Oi, gente. Cheguei com um novo capítulo e a coisa tá ficando séria! Eu estou determinada a concluir essa história, então vamos saber mais sobre a Marie! Quem aí ainda lê fic de Crepúsculo? Levanta uma mão e deixa um comentário com a outra :D

Beijinhos e nos vemos no próximo capítulo!



Outras Fanfics:
Like a Virgin
Amor em Dobro



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Quer saber quando esta fic irá atualizar? Acompanhe aqui.

comments powered by Disqus