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Última atualização: 20/10/2020

Prólogo

Chicago, 1918

Acordei com um pressentimento ruim. O dia estava chuvoso, as folhas se debatiam com a ventania e, olhar pela janela parecia infinitamente mais convidativo do que o vestido milimetricamente dobrado na cadeira de minha penteadeira. Tudo parecia conspirar para que fosse um dia ruim. Talvez realmente fosse. Mas, eu deveria estar feliz, apesar de tudo: era meu aniversário, no fim das contas. Na verdade, meu e de Edward. De acordo com nossos pais, a comemoração seria incrível ou, como dizia minha mãe, de "fazer inveja na vizinhança".
Mas a situação não estava tão propícia para uma festa. Estávamos em guerra, milhares de garotos foram mandados para os campos de batalha sem a menor perspectiva de retorno. Eu não achava que deveria comemorar. Três de meus melhores amigos tinham se alistado contra suas vontades e as cartas trocadas se tornavam cada vez mais escassas. Das duas uma: ou a guerra estava acabando ou eles estavam mortos. Eu preferia pensar na primeira opção.
Para Elizabeth Masen, por outro lado, nada disso deveria ser levado em consideração. Pelo contrário, minha mãe acreditava que deveríamos celebrar que estávamos vivos e juntos. 17 anos era uma idade importante, ela dizia sempre que eu questionava sobre quaisquer comemorações. De fato, era. Eu já deveria estar contraindo matrimônio com algum cavalheiro que meus pais aprovassem. Meu irmão deveria estar se preparando para seguir os passos de papai no banco, estudando finanças e leis. Mas, nada disso nos importava. Eu não queria perder meus dias cuidando de um marido que, certamente não amaria. Edward não tinha pretensões de seguir a carreira de Edward Masen Senior, um militar reformado e contador do Banco Central de Chicago. Queríamos viver de acordo com nossos termos, mas em 1918 isso não era possível. "Ou nos adequávamos ou nos adequávamos", dizia Carole, uma amiga de minha mãe.
A porta do meu quarto se abriu em um rompante, fazendo um pequeno estrondo que tirou minha atenção das gotas que chicoteavam a janela.
- Evolet Masen, por que ainda não está pronta? – minha mãe, com as mãos na cintura me olhava com a expressão fechada e acusadora. Eu ainda estava em roupas de dormir e o relógio ao lado de minha cama estava apontando meio dia – Precisa me ajudar, querida! Tenho que arrumar o resto da casa e depois te arrumar. Já escolheu seu penteado? Precisa estar perfeita para conseguir um marido, !
O discurso era o mesmo de ontem e dos dias anteriores. "Conseguir um marido, conseguir um marido". Era quase um mantra que me enlouquecia, porque eu já estava cansada de tentar argumentar com meus pais contra isso. Eu queria conhecer o mundo, estudar, não ficar presa em uma casa servindo um homem que teria o título de meu marido. Às vezes, invejava e muito meu irmão, ele poderia fazer o que eu tanto gostaria. Mesmo que ainda tivesse que se reportar às regras de nosso pai.
- Mamãe, sabe que eu não quero me casar. – um suspiro saiu de meus lábios e senti os ombros ainda mais pesados – Estou fazendo isso por você e papai. Sabe disso.
Ela tinha se sentado na cama e dado algumas batidinhas leves no colchão, me convidando para sentar ao seu lado, o que fiz resignada. Ela passou as mãos por meus cabelos, num carinho gostoso e, eu sabia, um pedido de desculpas silencioso.
- Minha , eu sei de tudo isso, mas não posso ir contra seu pai. – ela disse mais baixo - Então, por favor, faça o possível para aceitar essa situação. É complicado no começo, mas você pode se apaixonar pelo seu esposo, assim como amo seu pai agora. – sua voz estava mais animada - Tudo vai dar certo, meu amor.
Elizabeth Masen deu um beijo em minha testa e se levantou. Foi até a porta e olhou uma última vez em minha direção antes de sair do quarto. Eu sabia que deveria me preparar para o momento da comemoração. O vestido dobrado na cadeira parecia brilhar como mil pedras de diamantes. Meu olhar se encontrou com meu reflexo no espelho e eu sabia que não tinha mais nada a ser feito. Hoje, eu era Evolet Masen. Em alguns meses, eu seria apenas a mulher de alguém.


Capítulo 01

Levantei da cama o mais lentamente possível, pretendia alongar ainda mais o que normalmente faria em pouco tempo. Peguei o vestido e fui ao banheiro, começando a encher a banheira, ouvindo ao longe meu irmão tocando piano. Edward tocava alguma melodia que eu desconhecia a autoria, mas me lembrava de já ter dançado com papai enquanto meu irmão nos encantava. Como das outras vezes, me sentia mais calma. Talvez, se eu pudesse ficar ali para toda a eternidade.
Um suspiro resignado escapou por entre meus lábios e quando a banheira estava devidamente cheia, tirei minhas roupas, prendi o cabelo em um coque e adentrei no banho, esperando ter uns bons vinte minutos de descanso. Comecei a lavar meus braços, torcendo para que assim lavasse minha alma e todos aqueles pensamentos ruins sobre as próximas horas.
Terminei o banho, peguei a toalha, me secando e colocando o vestido com todo o cuidado do mundo. Ele era bonito, no final das contas. Rosa com detalhes em dourado. Minha mãe diria que meus olhos ficariam ressaltados, como eu via me encarando no grande espelho do banheiro.
Ao sair do aposento, fui direto para o quarto, me sentando na penteadeira para arrumar o cabelo. Edward ainda tocava piano, me fazendo lembrar que eu deveria descer o mais rápido possível, antes que minha mãe viesse novamente me chamar. Prendi os cabelos em um alto rabo de cavalo e passei um pouco de pó em minhas bochechas, não tinha ânimo para algo mais elaborado.
Desamassei o vestido com as mãos e sai do quarto, descendo as escadas rapidamente, indo de encontro à música. Quando adentrei na sala, com o som dos meus passos me denunciando, meu irmão parou de tocar, se virou e abriu o sorriso mais lindo do mundo para mim.
– Feliz aniversário, Evie! – disse estendendo a mão para que eu me sentasse ao seu lado, usando o apelido que eu mais odiava, com um sorrisinho de escárnio no canto dos lábios. Já não bastava me chamar de Evolet, ele tinha que diminuir ainda mais o nome? Só ele insistia em me chamar assim. Eu preferia e ele sabia, mas fazia isso para me aborrecer.
– Feliz aniversário para você também, Ed! – lhe mostrei a língua como uma criança pequena e ele revirou os olhos enquanto sorria para mim. Nos sentamos juntos no banco do piano e o abracei de lado, deitando minha cabeça em seu ombro. Meu coração estava apertado e eu sabia que podia desabafar – Maninho, eu não sei o que fazer. Papai continua com a ideia de me oferecer em matrimônio para alguém que eu não conheço. Preciso que me ajude a fazê-lo parar de pensar nisso. – Olhei suplicante para ele, Edward Senior sempre o escutava e torcia para que continuasse assim.
– Evie, sabe que não posso fazer nada. Ele também espera que eu encontre a esposa ideal hoje à noite, mas você sabe que eu preferia ter ido à guerra. Teria feito muito mais por meu país. – meu coração sempre ficava pequenininho quando ele começava com esse assunto. Não queria imaginar o meu irmãozinho, ele era dez minutos mais novo e eu o lembrava sempre que podia desse detalhe, no meio de uma batalha, por isso evitava pensar no assunto.
Lhe abracei e era o máximo que poderia fazer. Ele deixou um beijo em minha testa como um pedido mudo de desculpas. Eu sabia que ele já tinha feito todo o possível por mim. Disse que estava indo para a biblioteca, mas acabei me encaminhando para o jardim. A chuva tinha dado uma trégua e nosso balanço coberto pelo telhado da casa parecia bem convidativo.
Minha mente viajou no tempo enquanto eu me balançava. Edward e eu costumávamos brincar e brigar pelo jardim, com mamãe falando irritada conosco. "Se sujar não é algo que damas e cavalheiros fazem, meninos", ela dizia. Ela não gostava de levantar a voz, apenas colocava as mãos na cintura e batia o sapato devidamente engraxado em nossa varanda, fazendo o barulho ecoar graças ao contato com a madeira.
Ficar ali sempre deixava tudo melhor, fazia com que eu esquecesse o mundo a minha volta. O silêncio me acolhia e eu podia deixar minha mente viajar, já que o corpo não tinha condições.
Eu não sabia quanto tempo tinha passado, não sabia se já era a hora da tal festa, mas meu estômago já começava a dar sinais de vida. Chame de destino ou coincidência, mas foi neste exato momento em que ouvi a voz de minha mãe me chamando dentro de casa. Era chegada a hora, era hoje que começava o fim de minha vida.
Levantei-me conformada tomando o caminho de casa, com os ombros pesando tanto quanto mil cavalos. Assim que apareci na sala, vi meu pai sentado em sua poltrona preferida, lendo o jornal enquanto tomava um pouco de chá. Sorri com a cena. Mesmo detestando a opinião de papai, Edward Senior ainda era a melhor pessoa que conhecia. Generoso, bondoso, um coração enorme. Meu irmão se parecia muito com ele, os cabelos cor de bronze, o sorriso torto, mas tinha os olhos de minha mãe, verdes, assim como os meus.
Quando notou minha presença, ele abriu os braços como fazia antigamente para me receber. Sentei-me em seu colo enquanto me sentia acolhida por seus braços. Estava segura ali e não tinha a menor vontade de sair daquele casulo.
– Minha princesa, sei que não está satisfeita com o que decidimos para o seu futuro, mas lembre-se que eu e sua mãe só estamos buscando o que acreditamos ser o melhor. – Ele me disse olhando no fundo de meus olhos.
Eu não conseguia ficar chateada com ele, então só o abracei forte e levantei de seu colo sem falar nada, indo em direção a cozinha onde sabia que encontraria a senhora Masen. Mamãe tinha a mania de deixar tudo impecável, mesmo sem ajuda.
Me sentei a mesa e tomei a sopa que me esperava ali. Na primeira colherada o quente líquido aqueceu tudo o que tinha dentro de mim e ela me olhava com um sorriso contido no rosto. Ao terminar, subimos juntas para meu quarto para que ela pudesse me aprontar para a tal festa. A delicadeza era tanta que eu me sentia uma boneca.
Quando ela terminou, eu estava linda com um vestido azul de mangas, que ia dois dedos abaixo dos joelhos, um sapato com salto médio e uma linda trança completa com uma maquiagem impecável. Eu teria adorado se não fossem as circunstâncias atuais. Não queria ser a esposa de alguém.
, querida, seu pai encontrou o marido perfeito para você. Vamos descer que ele já está esperando. – falava enquanto me conduzia para baixo.
Na sala, meu pai e meu irmão já nos esperavam, conversando com o que me parecia ser uma família: dois homens e uma mulher. Não seria uma festa, como tinha sido prometido. Eu já deveria esperar, pensei enquanto dava de ombros.
Eu conhecia os mais velhos. Papai tinha uma fotografia com aquele senhor e a senhora vinha tomar chá com mamãe algumas vezes.
– Querida, fico feliz que tenha se juntado a nós. – papai parou a conversa e veio caminhando para a escada, onde estendeu o braço para minha mãe e para mim. – Estes são George e Joanne Stan e seu filho, Arthur. – cumprimentei o Sr. e a Sra. Stan gentilmente, enquanto sentia o olhar de seu filho sobre mim, podendo ver também meu irmão encarar Arthur com uma fúria contida. Ele era muito protetor.
Estendi minha mão para Arthur que deixou um beijo casto em minha mão, enquanto sorria em minha direção.
– É um prazer conhecê-los. Papai fala muito dos senhores – Completei sorrindo e me colocando de frente para o que parecia ser meu futuro marido.
– O jantar está pronto, queridos. – minha mãe voltava da cozinha, com um belo sorriso no rosto. Dirigimo-nos a mesa e, obviamente, Arthur tinha se oferecido para me acompanhar, sentando-se ao meu lado, com Edward a sua frente, sempre lhe encarando. Os mais velhos conversavam sobre vários tópicos, mas sempre desviando o assunto para nós. Mandando indiretas que me faziam corar e abaixar os olhos envergonhada.
A refeição em si não foi a pior parte, o que mais me preocupou foi a conversa que escutei minutos depois do jantar entre meu pai e George Stan, sobre o que parecia ser a negociata do meu casamento. "Três meses", eles diziam. Mamãe e a senhora Stan seriam responsáveis por preparar tudo, inclusive minha noite de núpcias. Deveras constrangedor.
– Edward, eu não posso me casar com Arthur. – confidenciei horas depois em meu quarto – Nem o conheço e, por mais bonito que ele seja, eu não sinto nada por ele. – falava andando de um lado para o outro, enquanto ele me olhava sentado na cama – Preciso que me ajude, eu não posso deixar que isso aconteça.
– Evie, fique calma. – ele me segurou pelos ombros, impedindo que eu desse outro passo – Vamos dar um jeito nisso, não vou te deixar casar com aquele homem. Vou falar com papai, com o senhor Stan, com o padre, com o presidente, se for necessário. Mas, iremos resolver! – disse me dando um beijo na testa e saindo do quarto.
Sentei na cama desolada, sabia que não teria jeito. Edward não conseguiria convencer papai a cancelar o casamento, por isso eu precisava fugir. Tinha que ir embora. No entanto, sabia que se falasse algo ao meu irmão, ele diria que eu tinha enlouquecido. Talvez eu realmente estivesse louca, mas precisava tentar.
Mamãe nunca me ajudaria, ela contaria ao papai que me prenderia em casa na primeira oportunidade. Por isso, era perigoso envolver mais alguém. Estava decidido. Eu iria embora.


Capítulo 02

Esperei que todos tivessem estivessem completamente abraçados por Morfeu para arrumar uma pequena mala. Sabia que se ficasse com as minhas roupas não conseguiria ir muito longe, então a única solução seria pegar as de meu irmão.
Fui pé ante pé até seu quarto, agradecendo por ele ter o sono tão pesado. Abri o guarda-roupa e peguei algumas calças e blusas, voltando rapidamente para o meu quarto. Vesti as roupas dele e coloquei minhas botas de equitação, elas seriam muito úteis se precisasse caminhar por muito tempo.
Dobrei tudo e arrumei a mala de mão com as poucas coisas que poderia levar. Juntei todas as joias que podia em uma pequena caixinha e coloquei junto. Sentei-me na penteadeira com um lápis pronta para escrever um pequeno bilhete de despedida ao meu irmão.

Querido Edward,
Quando acordar pela manhã já terei ido embora e, provavelmente não nos veremos por um bom tempo. Sei que deveria ter fé em você, mas sabemos que eu seria obrigada a casar no momento em que o sol raiasse. Espero que entenda meus motivos e que não julgue a minha covardia ou tente me procurar.
Cuide de nossos pais e tente explicar o porquê de eu ter ido, aguardo desde já pelo dia em que todos vocês me perdoarão pela fuga. Diga que os amo e que me parte o coração não ser a filha ou a irmã que vocês tanto merecem. Amo você, Ed.
Com todo amor, sua Evie.

Segurei as lágrimas ao terminar de escrever e juntei as pontas do papel delicadamente, selando ali o que viria adiante. Desci as escadas com a mala, tentando não fazer barulhos com as botas no chão de madeira e deixei a carta presa ao piano. Sabia que Edward encontraria pela manhã, só esperava que me perdoasse. A casa estava mergulhada em um silêncio que me faria falta. Passei rapidamente pelo escritório de papai, pegando a chave no que ele pensava ser um esconderijo. O espaço entre o quinto e o sexto livro de sua estante não era exatamente o lugar mais escondido depois de ter visto ele pegar dinheiro anos atrás. Peguei uma quantia suficiente de dólares e fechei tudo, deixando do jeito que estava.
Saí para a rua, somente iluminada pelo lampião. Eu não tinha rumo, não sabia por onde andar, para onde ir, o que fazer. O relógio tirado do bolso da calça marcava três e quinze da madrugada. Então, resolvi apenas caminhar em direção a estrada. Talvez ela me levasse a Cicero se eu fosse lenta demais, talvez chegasse a River Forest se andasse um pouco mais.
Quando me dei conta, já estava em uma estrada escura. Olhava para os lados e não conseguia enxergar nada, evitava olhar para trás para que o medo não me impedisse de continuar. O som da minha respiração era o que eu escutava, alternando com alguns piados de coruja.
As árvores ao redor pareciam bem altas, tornando a caminhada ainda mais escura e sombria. Eu caminhava apressadamente, mas sem correr. Minhas mãos já um pouco doloridas pelo peso da mala. Até que ouvi um galho se partindo, fazendo meu coração acelerar com o susto. Deveria ser só algum animal na floresta ao redor, pensei e controlei a curiosidade de ver o que tinha acontecido.
Respirei fundo e continuei caminhando com mais pressa agora, mas continuava ouvindo galhos sendo quebrados a medida que minha respiração ficava ainda mais agitada. Minha cabeça girava para todas as direções possíveis, mesmo que eu não conseguisse ver nada pela escuridão. Apavorada. Eu apertava os dedos com tanta força na alça da mala que chegava a doer.
Passos. Alguém estava me seguindo e eu só consegui correr, vendo uma pequena luz em um ponto mais à frente na estrada. Eu poderia pedir ajuda se chegasse ali, se me apressasse mais. Eu não tinha mais pulmões e meu coração já batia descontrolado em meu peito. O perseguidor se aproximava, eu podia sentir pelos passos mais audíveis. Ele queria que eu o escutasse, que eu soubesse que me pegaria.
Virei na direção do barulho por meio segundo e fui arremessada alguns metros para trás no segundo seguinte, com uma dor lancinante em todo o meu corpo, como se tivesse batido em uma parede. A mala escapou das minhas mãos e eu vi uma figura humana na minha frente. Ele carregava um pequeno lampião e eu consegui enxergar com mais facilidade, mesmo que meu coração parecesse um tambor em meus ouvidos.
Cabelos pretos, pele pálida como o mármore e incrivelmente lindo. Parecia um deus grego, mesmo com os olhos vermelhos. Sim, vermelhos como o sangue e extremamente quentes, pelo fogo tão perto. Ele caminhava lentamente em minha direção e eu me arrastava pra trás na mesma velocidade. Hipnotizada, eu estava.
Quando ele chegou perto o suficiente, segurou meu tornozelo, impedindo que eu me movesse mais para longe. Seus dedos foram subindo, segurando com força minha perna e me fazendo sentir a frieza através do tecido fino da calça. Ele me puxou para perto, ficando literalmente em cima do meu corpo. Seu peito grudado ao meu, sua respiração se misturando a minha e seus olhos estudando meu rosto. Eu não conseguia parar de olhar ou emitir qualquer som. O grito estava preso na minha garganta.
Ele passou a mão gelada em meu rosto em uma carícia leve, me fazendo estremecer. Pegou uma mecha do meu cabelo e a cheirou, com uma expressão de prazer que me deixou ainda mais apavorada com o que poderia acontecer. Depois, colocou com suavidade a mecha no lugar e eu senti seus dedos em meu pescoço, seguidos por seu nariz. Senti seu sorriso se abrir e eu só consegui fechar os olhos e pedir a Deus que mandasse alguém para me ajudar naquele momento.
– Deve estar se perguntando quem sou eu, certo? – ele disse baixo em meu ouvido, deixando um beijo casto em meu pescoço. Eu estava presa ao seu corpo e a sua voz, sem conseguir dizer nada – Não vai responder? Tudo bem, tudo bem! Meu nome é Allan. Acredito que não vá querer saber meu sobrenome, estou certo novamente, senhorita? – e, novamente eu não conseguia formular uma frase, mas ele não parecia irritado. Agora olhava em meus olhos e estava com um ar de diversão, como se estivesse contendo uma risada. Quem sabe estivesse achando engraçado – Como se chama senhorita?
. – finalmente consegui falar algo, mas saiu como um sussurro. Eu estava completamente atenta ao meu redor, nossas respirações continuavam misturadas.
– Achou que poderia fugir de mim, senhorita ? – sua mão tinha voltado ao meu pescoço, agora não mais como uma carícia, mas como uma forte pressão. Eu sabia que não teria muito mais tempo de ar, minha cabeça pendia pra trás e meu corpo se arqueava em direção ao dele. Minha vida passava pelos meus olhos. Sentia arrependimento. Eu deveria estar em casa, me preparando para o casamento. Aceitaria essa vida novamente de bom grado se conseguisse sair do aperto em que me encontrava – Sinceramente você é muito bonita. E, para sua sorte, não estou com tanta sede. – ele disse baixo e claro, chegando perto dos meus lábios – Mas seu cheiro é divino, então vou ter que provar. – deixou um leve beijo ali e eu só consegui fechar os olhos e esperar pela morte – Fique tranquila, será só um pouquinho. – sua risada fez com que meu corpo se arrepiasse. – Só que antes que eu faça qualquer coisa, vou te dizer o que você vai se tornar. Guarde bem essa palavra, senhorita . – ele roçou os lábios em meu pescoço outra vez e disse em meu ouvido – Vampiro.
Senti seus dentes cravando em meu pescoço e o cheiro de sangue logo se tornou presente. A pressão veio e se foi. Mas alívio era algo que tinha me abandonado. Senti que a pressão em cima de mim tinha sumido para dar lugar a uma dor atordoante dentro do meu corpo. Eu me senti sendo levantada e o vento que batia em meu rosto agora era cortante. Não conseguia entender o que estava acontecendo.
Fui deixada no chão, mas meu corpo queimava como se estivesse sendo incendiado. Quente demais. Eu tinha sido posta no sol, não era possível. Os gritos que antes estavam presos, saíam com muitíssima facilidade. Minha garganta deveria estar doendo, mas parecia redundante. Meu corpo inteiro doía.
Eu queria morrer. Minha vida não valia a pena, só queria me ver livre daquela tortura. E implorava por isso, mesmo sem saber se alguém me ouvia. Mas deveria ouvir, eu precisava morrer. O tal Allan tinha me deixado ali para agonizar até falecer. Seria pedir muito ter acabado com a minha vida de uma vez só?
Não sei quanto tempo passei com aquele fogo dentro de mim. Meses, semanas, dias, horas, minutos ou segundos. Tinha perdido completamente a noção do tempo. Tudo o que eu queria era o fim daquele martírio e foi o que, depois de um tempo enorme, aconteceu. Eu sentia novamente o controle sobre meu corpo, as convulsões tinham parado, eu já conseguia me manter em silêncio e, então, permaneci imóvel. O meu corpo parecia mais forte também e, mesmo que o queimar ainda não tivesse diminuído, só poderia estar significando uma coisa. Estava acabando, não estava? Tinha que estar. Eu não aguentaria muito mais tempo, mesmo não sabendo quanto tinha passado.
Minha audição estava cada vez mais clara, podia ouvir o riacho perto dali, os homens cortejando as moças, como se tudo estivesse acontecendo ao meu lado. Os cavalos trotando, carroças, qualquer coisa. Na verdade, tudo. E foi então que meu coração deu um salto, como se correndo em uma maratona, sendo perseguido pelo fogo lutando pelo primeiro lugar. As chamas que me incendiavam iam sendo varridas do restante do corpo. Eu estava sendo queimada viva, agora a certeza não me abandonava. Só não entendia porque a morte demorava tanto. Será que eu já estava morta e não tinha me dado conta? Será que tudo isso fazia parte do inferno? Por que eu tinha sido jogada ali sem nem um julgamento perante Deus?
Até que meu coração começou a bombear mais forte. Mais forte. Mais forte. Como o bater das patas de um cavalo no chão. E foi acelerando, acelerando, até que pareceu chegar ao ápice e foi decaindo, desacelerando, até quase parar. E bateu uma última vez, até que eu não sentia nada mais.
Naquele momento, não sentir dor era o que eu podia compreender. Até que abri os olhos. Eu estava numa espécie de cabana, completamente escura, mesmo que visse tudo com imensa clareza. Via a madeira do teto com facilidade, mesmo suas irregularidades. Levantei o tronco e observei melhor ao redor. Realmente estava sozinha no aposento, assim como na tal cabana que não parecia ser muito maior do que aquele quarto. Minhas coisas pareciam estar jogadas em algum lugar perto de mim.
Nenhum pensamento atravessou a minha cabeça vendo aquele cenário. Eu não sabia exatamente onde estava ou o que acontecia, mas uma pontada extremamente forte em minha garganta me fez perceber que eu não poderia ficar parada ali. Coloquei instintivamente as mãos no pescoço, sem saber como diminuir o incômodo crescente. Então, decidi fechar os olhos e me concentrar em outras coisas. As lembranças de minha família voltavam a minha mente. Minha mãe, meu pai, meu irmão. Amigos. Até que ouvi como um sussurro distante. Vampiro.
Era a voz de Allan, sabia disso. Ele me falava exatamente no que tinha me transformado. Vampira. Eu podia ser considerada cética, criaturas míticas, sobrenaturais não existiam em minha humilde opinião. Até hoje.
Quando cogitei a ideia de ficar de pé, já estava. Quando me movi na direção da mala jogada, não demorei nem uma piscada. Me movi para abrir meus pertences e rompi o fecho, como se não fosse de metal. Arfei, compreendendo: eu estava forte demais, pelo visto.
Procurei, com cuidado, agora que ele realmente era necessário, um espelho por entre as roupas que tinha. Assim que olhei, senti um imenso prazer. A figura refletida era bonita, muito bonita. O rosto imaculado como o de um anjo, pálido como a lua, contrastando com o cabelo escuro e ligeiramente ondulado. O prazer foi substituído pelo medo quando meus olhos se encontraram com os do reflexo.
Vermelhos, brilhantes e assustados. Carmim como o sangue. Sangue. Era disso que eu precisava para viver. Ou seria, morrer? Os livros que já tinha lido não passavam de literatura fantástica, então eu não tinha muito material sobre. Até que eu ouvi um barulho de passos não muito distantes e aspirei com cuidado o ar. Minhas mãos se fecharam em punho e o ardor na minha garganta aumentou. Saí em disparada da casa. Aquela foi a primeira vez que matei um ser humano.


Capítulo 03

Eu já era vampira há pelo menos três meses, já estávamos chegando quase no final de agosto de 1918. Me guiava pelos jornais que lia em alguns vilarejos pelos quais passava. A grande guerra tinha chegado ao fim, eu já tinha visto os nomes de meus amigos nos obituários publicados, junto com agradecimentos pelo seu trabalho de defesa da pátria. Parecia que a vida nas sombras tinha consequências pro universo. Talvez se eu não tivesse sido transformada, eles tivessem voltado para casa. Talvez eu só estivesse criando teorias para passar o tempo e não enlouquecer.
Nos primeiros dias, a culpa me corroía. Eu corria para o mais longe de Chicago quanto podia e, com isso, dizimava vilas inteiras, tomando sempre o cuidado de não deixar ninguém vivo. Minha sede parecia não ter fim, eu vivia por instinto e, tudo o que eu menos queria era condenar alguém a vida que Allan tinha me dado. Allan. Eu nunca mais ouvira falar sobre ele. Não tinha deixado um bilhete entre as minhas coisas, um sobrenome. Nada.
Foram muitas as vezes que tentei me matar, fiquei dias sem beber uma gota de sangue, mas a morte não tinha me alcançado. Eu já estava morta, tinha que entender isso. Desisti, me deixando levar pela lei da sobrevivência. A sede vinha muito mais implacável quando eu tentava me punir, o que fazia com que o estrago fosse ainda maior. Então, em algum momento, abracei a minha imortalidade e as mortes nas costas não eram tão chocantes assim.
As placas me diziam que eu estava em Ottawa, ainda em Illinois, aproximadamente a uns 113km de Chicago e, parei para pensar que talvez eu não quisesse me afastar tanto. Ainda estava bem perto de casa, poderia correr rapidamente de volta a Chicago em algumas horas, mas não pensava em olhar pra trás agora.
Eu já tinha me alimentado o suficiente naquele dia para que minha sede estivesse abrandada. O dia chuvoso fazia com que eu pudesse me misturar com as outras pessoas. Então, tomei o cuidado de pegar um vestido que peguei de uma das vilas pelas quais passei e troquei de roupa em meio às árvores da cidade, tentando não me sujar muito com a terra. Peguei uma sombrinha e juntei alguns dólares na bolsa, escondendo a mala em uma árvore oca.
Prendi a respiração, abrindo o guarda-chuva e me direcionando ao centro da cidade a procura de algum jornal para me manter atenta aos acontecimentos do mundo. E, quando me aproximei do jornaleiro, um senhorzinho de não mais do que 60 anos, o vi arregalar os olhos e me entregar o periódico de forma trêmula e assustada, segurando-se para não sair correndo depois de me olhar nos olhos.
Dobrei o papel e achei melhor me manter afastada, caso ele pensasse em alertar alguém. Me encaminhei para o que parecia ser um parque no centro da cidade, que estava vazio graças ao mau tempo. Fui para a parte mais afastada e me sentei em um balanço coberto por uma espécie de marquise. Desdobrei o jornal e me pus a ler as notícias de capa, que certamente me fariam desmaiar se ainda pudesse.

"Gripe espanhola mata mais pessoas em Chicago".

Eu nem sabia que poderia ficar estarrecida, mas não conseguia me mover. Se meu coração batesse, agora estaria acelerado e eu não conseguiria respirar. Minha família estava em Chicago. Eles poderiam estar mortos e eu precisava ajudá-los.
Corri o mais depressa que consegui sem levantar suspeitas, voltando para onde eu tinha deixado minha mala. Chicago estava distante, mas não tanto e eu precisava ser discreta. Árvores, arbustos, estradas. Tudo passava como um borrão pelos meus olhos e eu só conseguia ter em mente as três figuras mais importantes de minha existência. Temia encontrá-los mortos, mas eu precisava saber o que tinha acontecido.
Não sei quanto tempo demorei, mas eu estava em frente ao General Hospital Howard Stanford, o principal de Chicago. O céu permanecia escuro, talvez estivesse no meio da madrugada. Eu poderia andar novamente sem que ninguém me visse, então deixei novamente minhas coisas escondidas.
Prendi a respiração e escalei as paredes do hospital, entrando na primeira janela aberta e escura que consegui encontrar. Revirei todos os quartos dos quatro andares e não os encontrei. Eu teria suspirado em felicidade, se isso não me fizesse acabar atacando alguém.
Infelizmente, ainda tinha um lugar para olhar: o necrotério. Corri até lá e hesitei no momento de abrir a porta. Quando o fiz, o ambiente me fez estancar em choque. Eu sei que parece ironia, já que tinha matado diversas pessoas, mas aquelas pessoas eram conhecidas. Minha antiga professora de matemática, senhora Lancaster. Jimmy, o carteiro. As gêmeas Brittany e Santana James, que brincavam comigo no parque do bairro. Até que os vi. Edward Senior e Elizabeth. Meus pais. Sem vida, deitados lado a lado, com as mãos próximas como se tivessem ficado unidas até o momento final.
Eu me aproximei de seus corpos e os toquei delicadamente, chorando um choro sem lágrimas, pensando em como as coisas poderiam ter sido diferentes. Tantos planos jogados no lixo por uma maldita gripe. Toquei as mãos de minha mãe e senti que havia uma espécie de papel ali, que consegui tirar sem dificuldade.
Se antes eu já estava sem condições de me manter inteira, aquelas duas frases destruíram o resto de autocontrole que meu coração morto parecia ter. Escritas na caligrafia impecável e inconfundível de minha mãe, aquelas frases estariam sempre em minha mente: "Te perdoamos, minha . Sempre te amaremos".

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Não sei quanto tempo tinha ficado ali encarando meus pais, mas eu precisava me mexer. O relógio em meu pulso já indicada dez para as cinco da madrugada e eu tinha pouco tempo até o amanhecer. Meu irmão, como não estava ali, talvez tivesse ido para outro lugar se salvando da gripe ou, na pior das hipóteses, já estava morto há mais tempo. Eu ainda torcia pela primeira opção.
Peguei os corpos de meus pais no colo com delicadeza e saltei pela janela, esperando que ninguém desse falta, mas não me importando se isso acontecesse. Eles mereciam um enterro digno, no final das contas. Corri até a nossa antiga casa, parando rapidamente para pegar minha maleta escondida. Limpei seus corpos e vesti os dois com roupas mais apresentáveis. Penteei seus cabelos e fiz questão de colocar as melhores joias em minha mãe. Ela ficaria orgulhosa pela escolha de adornos, sorri tristemente.
Tomei o cuidado de procurar o lugar mais bonito do jardim, junto às rosas que minha mãe cultivava com tanto esmero, para cavar a cova. Uma bem grande, assim os dois poderiam ficar juntos no além vida como realmente gostariam.
Coloquei-os ali e eles pareciam adormecidos, de forma serena, o que me fez suspirar mais tranquilamente. Eles estavam em casa. Enquanto os olhava, escrevi com os dedos em uma pedra seus nomes, colocando embaixo alguns dizeres. Fechei a cova e me encaminhei para dentro de casa, me lavando rapidamente e fazendo uma mala maior do que a que eu levava. Juntei todas as minhas roupas, junto com algumas de meu irmão, coloquei as joias de minha mãe em uma bolsa e peguei todos os dólares que encontrei pela casa, já que papai não costumava confiar em bancos. O caminho agora seria longo e, infelizmente, eu ainda precisaria do mundo dos humanos.
Dei uma última olhada e apertei os anéis que agora estavam pendurados em um colar em meu pescoço. Os anéis de noivado de meus pais, já que os de casamento ainda se mantinham em seus dedos terra abaixo. Suspirando, saí em direção a estação de trem. Eu não tinha mais um rumo agora, apenas uma existência para levar adiante.


Capítulo 04

Quando cheguei na estação de trem, não tinha um destino certo para onde ir, só sabia que precisava sair dos Estados Unidos para ficar o mais distante das memórias que cismavam em dançar em meus pensamentos. Tinha parado para me alimentar antes de chegar até ali, o que provavelmente garantiria minha viagem até Nova Iorque, antes que eu pegasse um navio para a Europa. Sempre quis conhecer a Itália, então seria uma boa desculpa.
Foram necessários pelo menos dois dias de viagem até a cidade dos sonhos e, mais quinze dias de navio até chegar ao porto de Gênova, na Itália. Como prendi a respiração por tanto tempo, estava louca para me alimentar novamente e, finalmente sentir o ar puro em contato com as minhas narinas.
O tempo dentro da cabine tinha sido suficiente para ler sobre o lugar e alguns de seus pontos turísticos e, uma cidade me chamou atenção por seu nome peculiar e desconhecido. Volterra. Localizada na região da Toscana, em Pisa. Eu não sabia se ainda podia confiar em minhas intuições, mas sabia que deveria estar naquela cidade.
Quando o navio atracou no porto, por sorte estava de noite e eu pude me misturar entre as pessoas que saiam da embarcação. Sendo ajudada por homens que não eram necessários e que me enviavam olhares sugestivos, eu segui meu caminho com as bagagens nas mãos, parando em uma espécie de aluguel de carros. Eu não sabia como conduzir, então achei melhor pedir que algum dos cavalheiros disponíveis ali me levassem à Volterra. Escolhi justamente o que eu já tinha visto desrespeitar uma senhorita segundos antes. Se ele era tão seguro de si para tratar as mulheres como objeto, eu não me importaria de usá-lo como refeição depois de conseguir chegar ao meu destino.
Ele se apresentou, se chamava George Conell. Foi o caminho inteiro, as próximas quatro horas de viagem soltando piadinhas e indiretas, perguntando se eu era casada e ignorando quaisquer intimidações que a minha postura emanava.
Não demorei muito com seu sangue depois que chegamos e o deixei enterrado alguns quilômetros antes da entrada da cidade, o carro empurrei para o caminho contrário. Corri até a entrada da cidade e a visão de um castelo majestoso preencheu os meus olhos, certamente me faria perder o fôlego se ainda o tivesse.
Já estava começando a amanhecer e, mesmo não havendo muitas pessoas nas ruas, eu não queria me expor. Essa era a regra básica para a vida vampiresca. Não deixar os humanos descobrirem sua realidade. Eu andava nas sombras, ainda admirada com o ar medieval daquela cidade. Parecia muito com os desenhos que Elizabeth Masen fazia. Mamãe. Lembrar dela me fez sentir um aperto no peito e eu automaticamente levei a mão até o colar em meu pescoço. Meu coração inativo sangrava com a perda de meus pais e com o desaparecimento de meu irmão.
No centro da cidade havia o que parecia uma torre com um relógio. Eu estava distraída com o ponteiro mudando as horas, os minutos e os segundos, estava fascinada com a calmaria que parecia transparecer. Até que senti uma presença as minhas costas e fiquei imóvel no mesmo instante, atenta se precisasse atacar. No entanto, uma mão de temperatura agradável pousou em meu ombro e eu ouvi pela primeira vez.
Buongiorno, signorina. – o tal homem começou em italiano e eu me senti estranhamente confortável – Poderia me acompanhar, por favor? – e eu me virei para encontrar o dono daquela voz. Orbes tão vermelhas quanto as minhas, o cabelo negro caindo graciosamente em sua testa e a mão que antes estava em meu ombro, agora estava estendida em minha direção de forma convidativa.
– Para onde exatamente gostaria que eu o acompanhasse, senhor? – e meu tom era claramente uma pergunta por seu nome.
– Alec Volturi, senhorita. – ele segurou minha mão que eu ainda não lhe havia dado e depositou um beijo cortês ali, me fazendo estremecer involuntariamente – E a sua graça, qual seria?
Masen, senhor Volturi. – lhe dediquei um sorriso que foi correspondido – Mas ainda não me disse para onde gostaria que eu lhe acompanhasse.
– Meu mestre, Aro, solicita sua presença, senhoria Masen. – ele disse me estudando com os olhos e pegando minha bagagem sem nenhuma dificuldade em uma mão, enquanto me oferecia o braço, que aceitei prontamente – Temos um protocolo a ser cumprido. – concluiu e eu só pude assentir, segurando seu braço e seguindo seu caminho.
Eu estava nervosa, mas deveria imaginar que estava entrando em terras que já possuíam dono. Seria o mais educada que conseguisse e torcia para que saísse dali com todos os membros ainda intactos. Quando chegamos à frente de grandes portas de madeira, perfeitamente ornadas que iam até o teto, paramos. Ele ia abrir a porta, mas eu segurei suas mãos impedindo o ato e proferi em seu ouvido com toda a coragem que eu nem sabia existir em meu corpo
– Se eu sair daqui inteira, senhor Volturi, vou adorar conhecê-lo melhor. – e, sem mais o deixei abrir as portas, encontrando uma pequena comitiva nos esperando. Eu só esperava que fosse realmente para dar boas-vindas.

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As figuras paradas pareciam ter saído de um livro sobre a Idade Média. As peles extremamente pálidas, os trajes pareciam limitados a grandes capas vermelhas com capuz, como se fossem todos participantes da mesma religião. Eu teria dado meia volta se não fosse a mão de Alec nas minhas costas, me empurrando delicadamente para frente. Ele disse um "me siga" sussurrado, mas eu sabia que todas as pessoas do recinto tinham escutado. Vampiros como nós, claro.
Contei seis pessoas ali esperando por nós. Uma mulher loira, que mais parecia uma adolescente. Três homens sentados em tronos perfeitamente dispostos no final do salão. Dois homens prostrados um de cada lado dos tronos, como seguranças. Engoli em seco e fui seguindo o mesmo caminho de Alec, parando alguns metros antes quando o vi se aproximar do trono do meio e entregar sua mão ao homem de longos cabelos negros.
O homem depois deste contato, mudou sua face e simplesmente sorriu infantilmente, dispensando Alec com um aceno de mão, se levantando de seu trono. Veio andando graciosamente até parar a alguns centímetros a minha frente, oferecendo uma mão em cumprimento.
– Senhorita Masen, seja muito bem-vinda aos nossos domínios! – começou enquanto segurava minha mão como se estivesse manuseando um cristal delicado. Por um segundo a confusão passou por seus olhos e suas sobrancelhas se encresparam, mas logo refez a expressão convidativa – Meu nome é Aro Volturi, mas acredito que tenha sido informada deste detalhe.
– Sim, senhor. Me desculpe por invadir seu castelo a esta hora da manhã. – disse com o melhor sorriso falso que consegui moldar. Não sabia o motivo, mas sentia que deveria ser completamente formal com aquele homem. Como se fosse um rei.
– Não se preocupe, criança. Está em casa agora. – se eu ainda pudesse vomitar, certamente teria feito – Acredito que saiba quem somos e exatamente aonde está, certo? – ele soltou minha mão, mas se manteve próximo. Todos os olhos estavam em cima de mim.
– Infelizmente não, senhor Volturi. Perdoe-me a ignorância. – respondi em um tom mais contido e ouvi sua gargalhada melodiosa preencher o lugar, me rendendo um arrepio na espinha e um péssimo pressentimento.
– Tudo bem, minha querida. Haverá tempo para apresentações mais formais. – Aro afirmou com o que me pareceu docilidade – No momento, você deve conhecer as pessoas que estão aqui conosco. Sentado a minha direita está Caius, a minha esquerda, Marcus. Alec eu presumo que já conheça e, esta jovem ao seu lado é Jane. – meu olhar recaiu na dupla que se encontrava de mãos dadas e eu vi o olhar esperançoso de Alec pairar em cima de mim, mas Aro chamou minha atenção novamente – Estes são Demetri e Felix. – completou sem muita importância.
Eu assentia a todos os nomes que me eram ditos e vi quando Aro virou-se na direção de Jane e sussurrou, mesmo que não fosse necessário um "Chame Eleazar", me fazendo ficar ainda mais ansiosa do que quando tinha entrado.
– Então, minha querida. – ele continuou – Nós vampiros, mesmo que sejamos infinitamente superiores aos humanos, temos muito em comum com eles, principalmente nosso sistema hierárquico. Nós somos os Volturi – ele disse com ar de imponência – pode nos considerar uma espécie de realeza se quiser, porque é justamente o que somos. – Aro começou a circular despreocupadamente pelo espaço – Os outros se curvam a nós, mas não é preciso temer, minha doce senhorita Masen. Representamos riscos apenas aos que quebram nossas regras. – ele completou me olhando nos olhos, me fazendo sustentar aquele olhar, quando tudo o que eu queria era fugir.
– Sim, senhor. – foi tudo o que eu consegui dizer claramente, antes que as portas se abrissem de novo, revelando um homem moreno, extremamente bonito como eram todos ali, mas com uma aura tranquila e aconchegante. Ele estava acompanhado por Jane, que logo voltou ao seu lugar que, pelo que parecia, era ao lado de Alec.
– Mandou me chamar, senhor? – o novo ocupante do salão perguntou, um sotaque latino aparente em sua fala.
– Meu grande amigo, Eleazar. Que gosto em vê-lo novamente. – Aro disse com uma falsa alegria – Acredito que saiba o motivo pelo qual foi chamado, mas deixe-me apresentá-los. Senhorita Masen, este é Eleazar. – nos apresentou com uma grande curiosidade e eu só pude observar o tal homem me estudar de cima a baixo. – Já sabe o que ela é, meu amigo?
A pergunta me pareceu completamente fora de lugar. Como o que eu era? Uma vampira, obviamente! Do que estes homens estavam falando? Eleazar me analisou por mais meio segundo e olhou diretamente para Aro ao responder.
– Estou sendo bloqueado neste exato momento, senhor. – ele disse tranquilamente – Acredito que ela possa ser um escudo mental, já que não consigo sentir sua presença. – completou ao que Aro assentiu, como se absorvendo as palavras que lhe foram ditas.
– Entendo! Obrigado, velho amigo. – e, dito isso, o dispensou com aceno de mão, voltando a me encarar, com os olhos desejosos agora. Como um comerciante olha para o dinheiro. Um garimpeiro para o ouro. Eu era um objeto ali – Minha querida senhorita Masen, acredito que saiba que alguns vampiros possuem certos dons. E, minha criança, acredito que você possua algo extremamente útil.
E, um sino tocou em minha cabeça compreendendo o que ele queria. Ele me queria, mesmo que aquela história de dons fosse completamente nova para mim.
– Gostaria de lhe oferecer um lugar em nossa guarda, senhorita. – ele continuou – Seria um imenso prazer tê-la como parte de nossa grande família. – completou cheio de expectativas.
A palavra família me soava tão estranha quando dita por aquele homem, como se ele representasse todo o contrário do que eu entendia e teria por familiar. No entanto, eu não tinha exatamente para onde ir. A família que eu tanto amava estava morta e, literalmente enterrada. Meu olhar desviou da figura de Aro e caiu em Alec por um breve segundo. Eu lhe tinha feito uma promessa e, pelos seus olhos, parecia que ele queria que eu cumprisse. Suspirei por outro segundo antes de fixar meus olhos no homem parado em minha frente.
– Eu aceito, senhor Volturi. – afirmei com uma segurança que nem sabia ter – Seria uma honra servir e fazer parte de sua família. – disse selando o que parecia ser o começo da minha eternidade.

Até aqui scriptada por: Carolina Mioto.


Capítulo 05

Volterra, 1957

Muitos anos já haviam se passado desde que eu me juntara a guarda Volturi e muitas coisas haviam mudado, já que a Evie de 1918 tinha morrido quando encontrara Allan naquela noite. No entanto, as memórias seguiam vivas em minha mente, já que a presente de todos os dias não dormia.
Eu nunca mais tinha posto os pés em Chicago novamente. Não sabia exatamente o que tinha sido feito com a casa de meus pais, mas imaginava que alguma outra boa família tinha criado boas lembranças ali. Eu torcia para isso, mas também era provável que a casa tivesse sido comprada para algum avanço do capitalismo. Humanos eram estranhos. Quanto mais poder tinham, mais queriam.
Eu estava deitada em meu quarto, encarando o teto, esperando pelo momento em que Alec viria me buscar para o que ele dizia ser um encontro de verdade. Costumávamos fazer isso de tempos em tempos para não ficar monótono. Criávamos histórias, inventávamos personagens e nos conhecíamos novamente, tentando fazer da eternidade mais divertida e, do peso de sermos pertencentes a Aro, menos dolorido.
As poeiras em meu teto me mantiveram tão entretida que não notei uma batida leve na porta, indicando que Alec já deveria estar pronto. Caminhei na velocidade humana e, ao abrir, me deparei com a figura de Eleazar me aguardando. Eu deveria ter percebido, mas andava um pouco aérea nos últimos dias, principalmente depois de termos ido cobrar favores para Aro de um clã na Romênia.
– Eleazar, meu querido, achei que não tivesse retornado ainda da viagem ao Kansas. – lhe abracei, realmente feliz em vê-lo e o senti retribuir, depositando um beijo em minha testa – Como foi tudo por lá?
– Foi tudo maravilhoso, cariño. – sorri ao ouvir o apelido carinhoso que tinha virado costume. Eleazar era como um pai para mim, me lembrava muito o zelo de Edward Senior – Mas precisamos conversar!
– O que aconteceu? Gostaria de entrar? – disse já oferecendo passagem para o meu quarto, mas ele recusou e me segurou pela mão.
– Vou precisar que confie em mim, certo? – assenti – Finja que está se divertindo. – ele disse mais baixo, antes de me pegar desprevenida, me colocando em suas costas e começando a correr para longe dos corredores do castelo dos Volturi. Tudo o que pude fazer foi me recuperar do choque inicial e ensaiar algumas risadas fáceis. Esperava realmente que Alec me perdoasse pela demora.
Nós nos distanciamos não mais do que 100 km do castelo, ainda podia enxergar a Torre do Relógio ao longe. Estávamos em uma espécie de floresta, no topo de uma árvore, como se estivéssemos nos escondendo de alguma coisa e, eu imaginava ser das mãos leitoras de mente de Aro.
– Eleazar, o que exatamente estamos fazendo aqui? – perguntei, me firmando em um galho mais grosso.
– Eu não poderia deixar que Aro ouvisse essa conversa, querida. Não hoje, nem nunca. – ele começou olhando para mãos e, em seguida seus olhos encontraram os meus – Eu estou deixando a guarda dos Volturi hoje, cariño. Chegou minha hora de partir.
– Como? Por que? Eu não entendo! – minha mente estava um turbilhão de perguntas – Para onde você iria? – começava a me sentir angustiada.
– Eu a encontrei, . – disse simplesmente – No Kansas, quando estava buscando novos "diamantes" para a guarda de Aro, eu a vi. Carmen. – ele suspirou apaixonado – Ela tinha sido transformada há poucos meses, mas não parecia querer machucar os humanos. A vampira que a mordeu não fora cuidadosa com ela e a deixou escapar, mas antes tinha drenado sua mãe e irmão. – completou com pesar – Eles estavam de férias visitando uma tia, pelo amor de Deus! – disse indignado – Eu lhe disse que poderia confiar em mim, que não a machucaria e, devo cumprir minha promessa. Devo protege-la com a minha existência, se for necessário.
Dito isso, eu só conseguia segurar em sua mão e apertá-la fracamente, demonstrando apoio e compreensão. Eleazar estava apaixonado e eu estava feliz por ele, nada melhor que o amor para curar antigas feridas. Nós sorrimos um para o outro e, ele soube que eu estaria ao seu lado nesta decisão.
– Espero que um dia eu possa conhecer essa mulher de sorte!
– Você irá, eu só preciso de tempo para nos estabelecermos em algum lugar e para que possamos, na verdade, para que eu possa começar uma nova dieta. – ele disse firmemente e eu o encarei confusa.
– Nova dieta? Como espera sobreviver sem matar alguém? Roubando dos postos de doação? – perguntei sarcástica.
– Eu lhe disse que Carmen não queria machucar humanos, cariño. Mesmo sendo uma recém-criada. – ele nem se importou com meu tom – Ela me apresentou uma forma mais "vegetariana" de ver a nossa existência. É incrível a força que aquela mulher tem, mesmo em tão pouco tempo de transformada. – e a minha cara de confusão deve ter sido tão grande que ele simplesmente completou – Sangue animal, . – e torci o nariz sem nem pensar duas vezes, imaginando aquele tipo de sangue em contato com a minha garganta.
– Tem certeza? É isso que você quer para sua vida? Sangue animal para o resto de sua eternidade?
– Eu quero Carmen para o resto da minha eternidade, cariño. – ele soltou uma risadinha – E, se sangue animal é o preço que eu preciso pagar para isso, que seja. – ele deu de ombros e eu soube que nada do que lhe dissesse mudaria sua cabeça. Eu nem queria isso.
– Você está encantado, meu amigo.
– Vocês irão se conhecer e, tenho certeza de que irá se encantar por ela da mesma forma que eu. – ele sorriu momentaneamente, mas voltou a ficar sério – No entanto, não foi por isso que lhe trouxe aqui. Precisamos conversar sobre o que anda lhe acontecendo nos últimos tempos, querida.
E, eu senti meu corpo estremecer com a mudança repentina de assunto. Sabia do que ele falava. Eu era um escudo mental, disso todos tínhamos certeza, já que Aro não conseguia ler meus pensamentos, Jane ou Alec me atingir ou Marcus aumentar meus laços com os Volturi. Mas, eu não conseguia expandir para outras pessoas, fazendo com que apenas eu ficasse protegida dentro de minha cabeça. Há alguns meses, entretanto, eu havia comentado com ele sobre alguns descontroles que estava sentindo por parte de minha mente, como se algo estivesse a ponto de sair, de tomar conta de meu corpo por completo. Eu vinha sentindo frequentes dores de cabeça, como se uma pressão enorme estivesse sendo feita em meu crânio, me levando a apagar realmente por algumas horas, como em algum tipo de desmaio impossível para uma vampira.
– Eu procurei por muito tempo nos livros que tinha acesso no castelo, mas nada me pareceu similar a sua situação, . – ele me olhou desanimado – Mas fiz questão de não achar nada até que Aro tivesse lido minha mente pela última vez, minha querida. – e eu prestei ainda mais atenção ao que ele me dizia.
– Então, você achou alguma coisa? – se meu coração pudesse bater, estaria completamente acelerado.
Ele simplesmente tirou um grosso papel do bolso, como se fosse a página de um livro antigo que ele tinha arrancado e que fora devidamente dobrada para parecer menor. Nada mais me disse, deu um beijo em minha testa e sussurrou "você saberá onde me achar quando precisar, cariño" em meu ouvido, antes de descer da árvore e me deixar sozinha.
O medo me impediu de abrir aquele papel quando o tive nas mãos pela primeira vez. Eu apenas o guardei preso ao decote quase imperceptível do vestido que usava naquela noite. Voltei ao castelo e tive um encontro fabuloso com Alec. Nos disfarçamos de humanos e fomos a um bar na cidade vizinha, como se fôssemos viajantes conhecendo o lugar. Não matamos ninguém naquela noite, eu não gostava de manchas de sangue em nossos encontros.
Foi apenas uma semana depois que eu tomei coragem para abrir o papel que fazia questão de carregar comigo para todo lugar que fosse. Eu estava sentada sozinha perto de um lago, um pouco distante do castelo e mais próxima ao povoado, mas nenhuma pessoa costumava passar por aquela área.
A página contava a história das Litúrias, criadas em 1578, a perfeita lenda das sugadoras de sangue com poderes psíquicos. Torturavam suas vítimas e sugavam delas todas as suas forças, absorvendo suas qualidades e, algumas vezes até mesmo, memórias. As Litúrias eram capazes de fazer com que um povoado inteiro fosse dizimado, se tivessem absorvido as capacidades certas.
Se eu era uma descendente de uma Litúria, não fazia ideia. Não achava possível, mas que essa história sobre absorver algumas capacidades de outras pessoas, fazia cada vez mais sentido, era certo. E, foi quando eu vi um homem passar por ali, fugindo com o que pareciam algumas bolsas, olhando para trás a todo momento, que eu decidi pensar olhando diretamente para sua figura, o quanto eu queria que ele sentisse dor. E, qual foi a minha surpresa ao vê-lo cair prostrado em seus joelhos, agonizando como as vítimas de Jane, antes que eu lhe mordesse e drenasse seu sangue.
"É uma teoria que devemos considerar", Eleazar escreveu no final da página e uma luz se acendeu em minha cabeça, como se as peças se encaixassem. Eu agora poderia me deixar ser.


Capítulo 06

Volterra, 2009

A virada do milênio já havia acontecido há alguns anos e a vida não poderia estar mais monótona. Eu já havia lido todos os 50 mil livros clássicos da biblioteca de Volterra, mas, graças aos céus, a era da tecnologia chegara e eu poderia passar parte da entediante eternidade frente a um computador, lendo mais alguns. Eu tinha conhecido alguns humanos pela internet, feito algumas amizades e me correspondido por e-mails. Nada muito relevante, mas extremamente cômico e triste ao mesmo tempo, como Jane gostava de ressaltar.
Os encontros com Alec não supriam mais as necessidades de ambos e, sabíamos disso. Apenas o sexo era algo a se considerar, porque era tão importante quanto a quantidade de sangue que deveria ser ingerida diariamente. Era pela sobrevivência, dizíamos sempre antes de nos embolar nos lençóis, tentando ser os mais silenciosos que podíamos, considerando que o castelo contava com mais de 45 vampiros. Ou seja, não dava certo e sempre recebíamos olhares atravessados na manhã seguinte.
Eleazar atualmente se encontrava em algum lugar dos Estados Unidos ou do Canadá, nunca me dando a localização exata nos e-mails que já havíamos trocado, talvez por medo de Aro descobrir sua morada e pedir, ou ordenar, que ele voltasse aos seus serviços como membro da guarda. Mas, enquanto estivesse feliz com Carmen, por mim estava tudo bem.
Diferente do que eu poderia ter imaginado em todos esses anos, as coisas não ficaram exatamente mais fáceis depois que descobri sobre a tal lenda das Litúrias, pelo contrário. Não precisei pesquisar muito mais nos sites para saber o que eu já sabia: eu conseguia absorver os dons de outros vampiros apenas tocando neles e, eles ficavam em alguma parte obscura do meu cérebro, apenas esperando que eu me concentrasse o suficiente para serem postos em prática. Como uma lâmpada que espera que alguém use o interruptor para acendê-la. Muito útil, mas extremamente perigoso. Principalmente se esta lâmpada é cobiçada, mesmo que eles ainda não saibam, pelas piores espécies de vampiros do mundo: os Volturi.
Renata, o escudo físico de Aro, tocou meu braço, me tirando do devaneio que me encontrava, indicando que deveria colocar a poltrona na posição vertical novamente porque pousaríamos em Dallas nos próximos minutos. Um clã estava bagunçando com a ideia de clandestinidade, matando mais pessoas do que deveria, chegando muito perto de nos expor aos humanos. Mandar dois escudos, um mental e um físico, com capacidade para dizimar uma vila inteira pareceu a ideia certa para Aro e Caius. Marcus não tomava partido nestes assuntos, se mantendo com sua cara de tédio costumeira.
Saímos do aeroporto e Renata parecia muito apreensiva, mesmo que não conversássemos normalmente. Sabia que tinha a ver com a distância que estava de seu mestre, preocupando-se com ele e sua proteção. Resolvemos pegar um táxi após sair do aeroporto para não chamarmos muita atenção, o que foi inevitável. Duas mulheres incrivelmente pálidas, vestidas de preto dos pés à cabeça, com aparências até mais do que atrativas desfilando sem malas pelo aeroporto. Se os humanos pudessem girar a cabeça em 180º para nos ver, teriam feito. Até mesmo o taxista que nos levou até Highland Park teria feito isso. Mas fomos educadas e lhe poupamos a vida, lhe entregando uma gorda gorjeta pelo caminho feito sem nenhuma cantada inoportuna.
O clã era composto por duas mulheres e um homem e foi fácil de localizar, para a nossa sorte. O protocolo era sempre nos apresentar, fazer aquele drama básico e exterminar. Repetitivo demais e simples demais. Eu gostava quando havia mais ação durante as lutas, mas eles já estavam rendidos no momento em que pisamos em seus domínios. Sequer tentaram correr, porque tinham muito medo do nome dos Volturi. Era patético até.
Não demoramos mais do que uma hora com essa situação e, eu já estava entediada, tanto quanto Renata parecia estar querendo voltar para o lado de seu mestre. Mas, como ainda teríamos outras doze horas dentro de um avião, resolvemos nos alimentar antes de voltar ao aeroporto, evitando acidentes na viagem.
A chegada à Itália no dia seguinte foi extremamente tranquila, como tudo costumava ser desde que entrara para a guarda. Pegamos o carro que havíamos deixado no estacionamento do aeroporto e seguimos viagem, vendo Volterra nos saudar com sua bela paisagem algumas horas depois. Eu que sentia que nunca me cansaria daquela vista, suspirei enquanto pisava no acelerador, sentindo a expectativa crescente em minha acompanhante.
Nos despedimos quando eu estacionei e vi Renata correr castelo adentro, provavelmente indo contar os pormenores de nossa pequena missão, como costumava fazer. Isso significava que eu não precisava me apresentar aos Volturi agora e, podia me deixar cair na cama, realmente esgotada mentalmente. Mas, antes que conseguisse chegar a abrir minha porta e ver minha cama, ouvi Jane chamando por meu nome de forma urgente.
Quando me virei preocupada, vi que sua expressão não era de muitos amigos, mas ela não recusou o abraço que eu lhe oferecia. O que era bem estranho, Jane não era do tipo que aceitava abraços sem motivo.
– Aconteceu algo, Jane? – questionei enquanto abria a porta do quarto e lhe convidava para entrar.
– Fomos invadidos e Aro enlouqueceu por conta de uma humana insignificante! – ela soltou indignada e me deixou completamente confusa, sem entender o que se passava.
– Seja mais clara, por favor. Do que você está falando?
– Se lembra de Carlisle Cullen? O tal amigo que Eleazar sempre comentava que tinha sido um dos primeiros a deixar a guarda de Aro. – ela começou e eu assenti – O filho dele, ou companheiro de clã, se preferir, se apaixonou por uma humana e não quer transformá-la. – ela completou e eu só consegui começar a rir da pior e mais clichê história de amor de todos os tempos.
– Você só pode estar brincando comigo, Jane. Como um vampiro se apaixonaria por humana e não iria querer transformá-la? Ele quer matá-la? Quer sofrer com o cheiro dela? Masoquismo!
– Realmente, porque o cheiro dela era delicioso. – suspirou lembrando e me fez dar mais uma risada – Mas, eu não sei o motivo dele não transformar a humana e não me interessa. O que importa é que ele quase nos expôs aos humanos, se mostrando a eles no sol.
E ela continuou me contando com detalhes o que havia acontecido com o tal vampiro do clã dos Cullen e como a tal humana parecia ser um escudo mental como eu. O clã era interessante demais para ser esquecido: um leitor de mentes e uma vidente. Aro havia ficado intrigado e com razão tinha nos mandado monitorar a distância. Eu só esperava que o tal vampiro apaixonado a transformasse logo, antes que Aro o fizesse e pelos motivos errados.


Capítulo 7

Mais ou menos um ano depois da "visita" dos Cullen, Aro voltou a fiscaliza-los. Parecia estar esperando pelo primeiro deslize para conseguir os troféus que tanto queria colecionar. No entanto, precisava de uma desculpa para isso. De acordo com ele, a humana sabia demais. Precisava ser silenciada. Morta ou transformada em vampira, mas eu sinceramente não via muita diferença dentre as opções.
E, parecia que a sorte estava a favor do meu "mestre", já que alguns vampiros recém-criados estavam ameaçando a grande Seattle, perto demais de Forks, o território dos Cullen. Então, Aro nos ordenou que fossemos checar o que acontecia antes que as coisas saíssem de proporção.
O grupo montado não era exatamente para atacar, mas para amedrontar. A briga física ficando para um segundo plano, apenas se fosse necessária. Então, fui junto de Jane, Alec, Demetri e Felix para os Estados Unidos ver com meus olhos o que se desenrolava. A viagem, como sempre, fora longa e após sair do aeroporto, não foi difícil encontrar o rastro deixado pelos recém-criados. Eles eram como crianças pequenas: nenhuma consciência do que faziam, mimados até o último fio de cabelo. Viviam pela sede. Típico.
– Jane, o que faremos afinal? – eu olhava em falsa expectativa para ela, tocando seu ombro e escutando seus pensamentos de deixar que os recém-criados fizessem o que tinham sido colocados para fazer. Mas, eu precisava manter as aparências e lidar como se não soubesse de nada.
– Os exterminamos ou deixamos que cumpram o seu propósito? Decisões, decisões, decisões. – ela tinha o olhar vago, mirando o grupo de vampiros que destruía uma rua pouco movimentada, enquanto olhávamos de cima de um prédio.
– Você quer segui-los de perto, irmã? – Alec perguntou e o silêncio de Jane foi tudo o que precisamos para entender. Recolocamos os capuzes nas cabeças e apenas os observamos, dando-lhes a dianteira.
Eles pareciam estar seguindo um líder, indo na direção de Forks, apenas a pouco mais de três horas dali. Deixamos que fossem e Jane esperava realmente que os Cullen fossem dizimados no processo, nos poupando trabalho e restando apenas acender a fogueira e juntar os pedaços.
Passadas algumas horas, Alec decidiu que já era tempo de partir atrás deles, antes que os vampiros mortos começassem a chamar atenção dos humanos. Demetri e Felix vibravam em excitação, somente pela possibilidade de uma luta ali. Seguimos os rastros dos recém-criados e acabamos chegando em uma clareira, no oeste de Forks.
O cenário que nos foi apresentado era completamente diferente do esperado e, tive que disfarçar minha surpresa enquanto retirava o capuz de minha cabeça, revelando meu rosto. Oito vampiros perfeitamente intactos, mesmo que uma delas estivesse sendo segurada com um pouco mais de força e uma humana. A tal humana de cheiro delicioso. Aqueles, finalmente, eram os Cullen.
– Bem-vinda, Jane. – o tom do vampiro era friamente cortês.
– Edward. – Jane retribuiu o cumprimento e eu me acendi a este nome, não perdendo a divertida cena de Felix piscando para a humana que parecia prestes a vomitar. Eu teria rido se a situação permitisse.
O olhar de Jane passou lentamente pelos presentes e cravou na vampira mais nova, que antes era segurada e que agora estava sentada no chão, com a cabeça entre as mãos.
– Ela se rendeu. – Edward disse, explicando a confusão no rosto de Jane, me fazendo prestar ainda mais atenção em suas feições. Eu sentia o olhar da humana agora cravado em mim, enquanto eu observava o que seria seu parceiro.
– Rendeu-se? – a voz dela subiu algumas oitavas, mas continuava mortal como sempre. Não era exatamente desta forma que trabalhávamos.
– Carlisle lhe deu esta opção. – ele deu de ombros e eu vi pelo rabo de olho Demetri e Felix trocarem um olhar.
– Não há opções para os que quebram as regras. – eu tomei a frente e senti Jane ficar mais tranquila ao meu lado, quando toquei discretamente sua mão, lhe segurando. Ela começava a se irritar.
– Está em nossas mãos. Como a menina se dispôs a parar de nos atacar, não vi necessidade de destruí-la. Ninguém lhe ensinou nada. – o vampiro loiro, que parecia o líder do clã tomou a palavra e eu supus ser Carlisle.
Vi quando Edward fixou seu olhar nos meus e uma onda de confusão passou por seus olhos, fazendo com que ele desse um pequeno passo para frente, sendo segurado por um vampiro musculoso. As lembranças começaram a inundar minha mente, eu não ouvia nada mais ao meu redor e só tinha espaço para ele. Se eu bem sabia, naquele momento uma onda de frustração estava passando por sua cabeça por não conseguir ler a minha mente. Mas não era preciso ler meus pensamentos para saber o quão atordoada eu estava. Alec sentiu. Entrelaçou as mãos nas minhas, como se pudesse ter alguma noção do turbilhão de emoções que se passavam dentro de mim. Minha atenção só se voltou a conversa quando ouvi a voz chocada de Jane perguntar se de fato todos estavam mortos e quem tinha sido o criador.
Eles continuavam falando e agora eu realmente prestava atenção. Dezoito recém-criados mais sua criadora. Realmente chocante. Achei melhor me pronunciar antes que ficasse muito claro o meu estado de plena euforia por ter encontrado meu irmão ou, pelo menos alguém extremamente parecido com ele. Um descendente que não teve uma boa sorte, pelo visto.
– Essa Victoria ... eram ela e mais os dezoito daqui? – perguntei com a voz impassível e Edward novamente cravou os olhos em mim, esperando encontrar algo mais.
– Sim. Tinha um deles com ela. Ele não era tão jovem quanto esta aqui, mas não devia passar de um ano mais velho.
– Vinte – sussurrou Jane e nos olhamos rapidamente – Quem lidou com a criadora?
– Eu – disse-lhe Edward, tomando um passo à frente.
Mas eu sabia que não havia acabado. A vampira recém-criada ainda estava viva perto dos Cullen. Jane não iria embora sem nenhuma diversão. Demetri e Felix muito menos.
– Você aí – ela disse se dirigindo a tal vampira jovem – Seu nome.
A recém-criada lançou um olhar muito malcriado a Jane que, certamente não seria perdoado. Em poucos segundo, a menina já se retorcia de dor e seus gritos poderiam ser ouvidos ao longe. O grito se intensificava e eu vi humana se encolher de medo do que poderia lhe acontecer.
– Seu nome – Jane repetiu entre os dentes, enquanto eu tocava seu ombro, já sabendo o que deveria fazer.
– Bree – a menina disse ofegando.
A menina gritou mais uma vez, ainda em agonia pelo que Jane fazia em sua mente. Edward resolveu tomar a frente e defender a menina, dizendo que ela lhe contaria o que quisesse. Jane, então, olhou para mim e eu assenti, sabendo que todos os olhares estavam em cima de mim agora.
Saí da formação ao lado dos outros e fui andando despreocupadamente para o meio da clareira, vendo os Cullen assumirem posturas defensivas e colocarem a tal humana o mais distante possível. Como se aquilo fosse um mero empecilho, ri internamente. No entanto, meu foco não era a humana, mas a vampira deitada no chão, segurando a cabeça entre as mãos, temendo que eu fosse lhe causar mais dor do que a que acabara de sofrer.
Me abaixei ao seu lado e lhe fiz uma pequena carícia no rosto, arrumando seu cabelo e olhando em seus olhos. Bree estremeceu com meu toque, mas era tudo por Jane. Ela que gostava deste teatrinho antes de matarmos alguém, a loira era puro deleite às minhas costas, eu tinha certeza. Mas, vez ou outra, poupávamos alguém se a pessoa possuísse algo que queríamos, então, ela também estava apreensiva.
– Bree, então, que nome bonito o seu. – disse lhe ajudando a se sentar corretamente – Meu nome é , sinto muito que tenhamos nos conhecido nestas circunstâncias. – completei com pesar e ouvi Edward ofegar baixinho, enquanto todos nos olhavam.
– Por favor, por favor. Não me machuque – ela suplicava, segurando minhas mãos e eu sabia que se pudesse, seu rosto estaria banhado em lágrimas.
– Tudo a seu tempo, querida. – sorri para ela que assentiu – Por que não nos conta mais sobre sua criadora, Bree?
E a menina desandou a falar, gaguejando tudo o que não nos importava saber. Sobre não saber o nome da mulher, sobre não poder saber muito sobre nada do que aconteceria por medo do leitor de mentes e da vidente. Nada realmente interessante, mas Jane precisava de um veredicto.
– Entendo, entendo. – olhei para Jane que entendeu na hora e me levantei – Realmente sinto muito, querida. – fui andando calmamente de volta ao lado de Alec – Felix? – disse com a voz arrastada.
– Espere – interveio Edward e eu estanquei no lugar, ainda de costas para ele – Podemos explicar as regras à Bree. Ela pode aprender, já que não sabe o que está fazendo. – ele disse com a voz urgente, o que me fez virar e encontrar seus olhos cor de âmbar suplicantes.
– É claro. – Carlisle disse – Estamos preparados para assumir a responsabilidade por Bree.
– Por favor, – Edward tentou uma vez mais – !
Ele sabia quem eu era. Claro que todos ali sabiam depois que eu havia me apresentado a recém-criada, mas o olhar que Edward me dirigia era forte demais para que eu não soubesse exatamente o que acontecia. Como era possível que ele houvesse sobrevivido a gripe em 1918, eu não sabia. Talvez tivesse realmente ido embora, talvez tivesse sido transformado antes.
– Não abrimos exceções – disse Jane, provavelmente sentindo minha hesitação – E não damos uma segunda chance. – minhas pernas pareciam ter criado vida própria e decidido ficar presas ao chão. Mas eu precisava me mover, então cortei o olhar com Edward, olhando para baixo e me firmando ao lado de Alec, segurando sua mão com força, como se minha vida dependesse disso. Ele percebeu, mas se manteve em silêncio – É ruim para a nossa reputação. O que me lembra ... – e seus olhos pousaram na humana – Caius ficará tão interessado em saber que ainda é humana, Bella. Talvez ele decida fazer uma visita.
– A data está marcada – disse uma vampira baixinha, que eu supus ser a vidente, falando pela primeira vez, ao que Jane deu de ombros e se dirigiu ao líder do clã.
– Foi um prazer encontrá-lo, Carlisle ... Pensei que Aro estivesse exagerando. Bem, até a próxima vez... – o homem apenas assentiu e Jane completou – Cuide disso, Felix. Queremos ir para casa.
Felix disparou de nosso lado, indo na direção de Bree e despedaçando seu corpo como uma criança pequena faz com um brinquedo novo. Vi Edward dizer algo para a humana, a tal Bella, e depois olhar para mim durante todo o processo de forma decepcionada. Nunca tinha visto aquele olhar durante minha vida humana, não esperava recebe-lo depois de morta.


Capítulo 8

Saímos dali assim que Felix terminou com Bree. Alec teve que puxar delicadamente minha mão para que eu lhe seguisse, já que demorei alguns segundos para entender que nossa presença ali não era mais necessária.
Nos distanciamos, retornando para a chuvosa Seattle, mesmo com muitas horas ainda para nosso voo de volta à Itália. Demetri e Felix resolveram se alimentar enquanto Alec e Jane preferiram ficar comigo, me olhando inquisidores sobre o que tinha acontecido na clareira.
– Provavelmente foi o nome que me deixou assim – dei de ombros, enquanto nos sentávamos em um café dali para manter as aparências – Eu não ouvia o nome de meu irmão há quase um século, vocês sabem.
, querida, eu achei que você fosse realmente interceder por aquela menina, de tanto que você hesitou – Alec disse e Jane concordou, ele voltava com três cafés que não seriam tomados – Em todo esse tempo que te conheço, nunca te vi tão paralisada quanto dessa vez. – ele segurou minha mão e me olhou com pesar.
– Eu sei, não foi minha intenção preocupar você, meu bem – acariciei o rosto de Alec e lhe dediquei um sorriso fraco – Só não estava esperando uma enxurrada de lembranças sobre meu irmão – deixei minhas costas descansarem no encosto da cadeira – Eu nunca soube como ele morreu.
– Você sabe que podemos procurar por certidões de óbito, minha amiga. – Jane sugeriu.
– Eu sei, mas eu não sei se posso lidar com isso agora. – comecei me levantando – Preciso realmente ficar sozinha, vocês poderiam me deixar por algumas horas?
– Tem certeza? – a voz de Alec era urgente, seus olhos parecendo querer me seguir para onde eu fosse.
– Por favor! – pedi novamente e os vi assentir.
– Nosso voo irá sair às vinte horas, não se atrase ou iremos atrás de você. – Jane disse sorrindo, mas eu sabia que a ameaça era séria.
Saí do café sentindo os olhares dos dois queimarem em minhas costas, mas não me atrevi a olhar para trás. Continuei caminhando na velocidade humana, tomando o caminho que eu sabia dar em uma estrada, cercada por mato ao seu redor. Só ali me permiti correr com toda a minha força. Não poderia voltar a Forks, ficaria muito nítido o quanto tinha sido afetada pela presença de Edward e bem, lá seria o primeiro lugar onde Jane e Alec me procurariam. Se Aro soubesse, eu poderia ser desmembrada no momento em que pisasse em Volterra.
Decidi, então, me dirigir a Newport. Eu realmente precisava pensar e, mesmo que torcesse para que Edward viesse atrás de mim, não achava ter tanta sorte. Foram apenas doze quilômetros, mas eu sentia o ar mais leve, mesmo que o dia ainda estivesse chuvoso e minha capa estivesse bem estragada pela água. Pelo menos a roupa interna se mantinha intacta, o que era de mais importância.
Eu não sei em que momento cheguei ao centro da cidade, mas resolvi me abrigar da chuva em um restaurante australiano que tinha por ali. Não estava cheio, possuía mesas do lado de fora cobertas por uma marquise, eu achei o lugar mais propício para meditar por algumas horas. Pedi a sorridente garçonete uma caneca de cerveja em um tom baixo e ela nem se importou em pedir minha identidade, como muitos teriam feito. Eu olhava para o cardápio, já que estava sem lentes de contato e não poderia expor meus olhos vermelhos a uma humana, mas o tom deve ter sido o suficiente para amedrontá-la, já que a cerveja estava a minha frente minutos depois.
Fiquei olhando para a caneca, gotículas de água escorriam por ela, demonstrando sua baixa temperatura. Foram alguns minutos assim, e, então, senti seu cheiro e sua aproximação. No entanto, não conseguia olhar para cima e encontrar seus olhos. Senti quando ele se sentou em minha frente e soltou um longo suspiro, como se estivesse tomando coragem para falar.
– ele começou, mas não parecia certo – Evie – ele tentou novamente e eu finalmente olhei em seus olhos. Emoções demais para aquele momento, eu sentia que estava entrando em um caminho sem volta – Como isso aconteceu? – sua voz parecia engasgada.
– Na noite em que fugi, fui transformada. – não consegui entrar em detalhes – Você?
– Gripe espanhola – ele deu de ombros – Carlisle me encontrou no hospital com mamãe e papai e me salvou. – Edward viu como me mexi desconfortável na cadeira a simples menção dos dois. – Era tarde demais para eles, mas não para mim.
– Eu vi – meu irmão me olhou confuso – Mamãe e papai, quero dizer. Eu os enterrei no quintal de casa. – expliquei.
– Você esteve lá? Quando?
– Eu não sei se foi na mesma noite em que Carlisle lhe mordeu, mas eu estive lá procurando por vocês, – dei de ombros, respirando fundo – mas só achei os dois e os levei para casa, enterrando-os no quintal, com algumas flores – as lembranças daquela lápide inundavam minha mente e eu só desejava poder chorar devidamente pela morte de nossos pais.
– Alguns anos depois eu vi a lápide, – ele assumiu – mas sempre achei que havia sido a tia Carole.
– Ela morreu bem? Você sabe? – perguntei apenas para continuar um assunto.
– Aos 87 anos, dormindo ao lado do marido. Teve uma boa vida pelo que consegui acompanhar de longe. – e eu assenti, me sentindo estranhamente feliz com aquela revelação. Pelo menos alguém em minha vida tinha tido uma longa vida humana e normal.
Edward voltou a se manter calado, apenas olhando para o cardápio que jazia na mesa. Eu sentia que precisava me desculpar, mas não sabia exatamente como começar a série de desculpas. Reunindo uma coragem impensada, toquei sua mão levemente e, neste momento, senti algo arrumando espaço dentro de mim. Leitor de mentes, como poderia esquecer. Eu absorvera seu dom que possuía um alcance maior que o de Aro, já que não precisava do toque para acontecer. Antes que eu pudesse voltar a ter o controle de minha própria mente, eu já estava sendo sugada para os pensamentos dentro de sua cabeça, que se contradiziam sobre perguntar ou não sobre como eu tinha acabado com os Volturi e, por que eu me tornara a pessoa fria que vira na clareira e que revivia em suas memórias.
Apertei fracamente sua mão e seus olhos voltaram a me encarar. Âmbar no vermelho novamente. Tentei ensaiar um sorriso para dar, mas deve ter saído algo como uma careta. Ele não pareceu se importar e segurou minha mão, entrelaçando nossos dedos.
– Pergunte – lhe disse simplesmente.
– Por que com os Volturi, Evie? O que aconteceu com você? – ele parecia desapontado, mas não havia soltado minha mão.
– Sinto que não foi bem uma escolha, foi mais o destino. – soltei uma risadinha sem humor – Eu estava sem rumo naquela época, Aro estava satisfeito em ter encontrado um novo diamante bruto para lapidar – dei de ombros.
– Você é um escudo. – ele afirmou – Não consigo ler sua mente agora. – eu assenti e ele olhou inquisidor – Você já sabia que eu poderia ler a sua mente. Por que não parece surpresa?
– Eu já sabia de suas habilidades, mas não sabia que era você exatamente. – disse simplesmente. Seria muito arriscado contar a verdade neste exato momento, enquanto eu ainda tinha muito a trabalhar.
– Existe mais coisa que você pode fazer? – Edward estava curioso e me olhava como se soubesse que eu estava escondendo algo.
– Talvez. – ele olhou questionando – Mas não é algo que eu possa partilhar agora. – disse e ele pareceu entender, porque assentiu e suspirou fechando os olhos por um momento.
– Aro não sabe?
– Não.
– Certo! Não vou perguntar mais sobre. – ele disse resignado – Você vai voltar para eles?
– Preciso e você sabe tão bem disso quanto eu – suspirei – principalmente se quiser manter sua humana a salvo. – completei sem evitar o desprezo e vi seu rosto se contorcer em dor por um segundo antes de se recompor.
– Bella – ele corrigiu.
– Eu sei, só não consigo pensar em um jeito bom de dizer isso. – dei de ombros.
– Talvez eu possa dizer o mesmo sobre suas atitudes – Edward me olhou sarcástico.
– Você não sabe da missa a metade, irmãozinho.
Nós sorrimos um para o outro e eu soube que, de alguma forma, eu estava em casa. Mesmo com todos os julgamentos que pudessem estar passando por sua cabeça, que eu fazia questão de não ouvir.
– Eu preciso voltar para pegar o avião de volta à Itália – liberei nossas mãos e fui me levantando, deixando alguns dólares para pagar a cerveja que seguia intocada na mesa e saindo do bar, com Edward em meu encalço. Ele me acompanhava de perto e em silêncio até chegarmos na estrada que dava para a entrada de uma floresta, onde eu poderia correr tranquilamente até Seattle.
– Você vai voltar algum dia? – ele perguntou segurando meu braço e me olhando com certa urgência.
– Não sei se posso prometer isso, mas vou fazer meu melhor para tentar. – lhe dei um sorriso e ele me pegou desprevenida, me puxando para um abraço.
– Não ouse fugir de mim uma segunda vez, Evie. – ele sussurrou em meu ouvido e logo depois me soltou, saindo em disparada para seguir seu caminho, sem olhar para trás. Eu fiquei desnorteada por um segundo e repassei repetidas vezes a conversa que tivemos enquanto corria de volta a Seattle, encontrando uma Jane com os olhos aflitos me esperando. Disse apenas que estava bem e ela pareceu entender que eu não queria conversar naquele momento. Foram treze horas de voo silenciosas e bem importantes para mim, me levando a duas grandes revelações:
A vida me dera outra oportunidade com meu irmão e o meu tempo com os Volturi tinha finalmente chegado ao fim.

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Um mês tinha se passado desde que a conversa de Newport tinha acontecido e eu não conseguia tirar Edward da cabeça, em como seus olhos pareciam urgentes quando eu mencionei voltar para a Itália e para os Volturi. Eu ainda era membro da guarda, tinha deveres a cumprir. E, um deles era justamente treinar as novas aquisições de Aro e Caius em combate. Eles se preparavam para um ataque que eu não tinha conhecimento e eu apenas seguia ordens. Mais um peão em um jogo de xadrez maior do que minha própria existência.
Jane e Alec desistiram de perguntar o que acontecera naquele dia para que eu voltasse tão silenciosa. Eu apenas tinha lhes dito que pensara seriamente sobre tudo o que tinha acontecido e, parando em um cyber café tinha procurado o nome de meu irmão, mas sem encontrar nada. Disse que talvez Edward tivesse morrido como um indigente e estava apenas de luto por meu irmão. Eles pareceram aceitar esta ideia e me deixaram com meus pensamentos, sofrendo naquele um mês, quase 90 anos de luto.
Aro em um primeiro momento achou a situação curiosa e me chamou para conversar, mas pareceu convencido da mesma forma. Talvez ele soubesse que não conseguiria tirar a verdade de mim, talvez ele me considerasse útil demais para simplesmente acabar comigo. Eu só sabia que tinha sido deixada vivenciar um luto que não existia, com as funções sendo um pouco mais brandas e os treinamentos terminando mais cedo. Não era questão de cansaço, era questão de tédio. Se eu ficasse mais horas desviando de golpes falhos dos recém criados de Caius, terminaria me irritando e arrancando a cabeça de um por um. O que não seria bom para ninguém.
Meus pés, após o treinamento desta tarde, me levaram até o jardim traseiro do castelo e eu apenas apreciei os últimos raios de sol que invadiam Volterra refletindo em meu corpo, me fazendo brilhar como milhares de diamantes. Ninguém costumava estar para aquele lado do castelo, o que me fazia curtir algumas horas de solidão. No entanto, senti uma aproximação às minhas costas e fiquei tensa por um segundo, antes da brisa me trazer o cheiro conhecido de Alec, me fazendo sorrir e relaxar.
– Está tudo bem, senhorita Masen? – perguntou se sentando ao meu lado e eu pude sentir o tom preocupado por trás da pergunta – Ando sentindo a senhorita um pouco distante.
– Até onde eu sei, estou ótima, senhor Volturi. – respondi tentando soar convincente e recostei a cabeça em seu ombro, tentando escapar de seus olhos.
– Prometemos que sempre falaríamos a verdade, – ele simplesmente disse e soltou um suspiro – Achei que estávamos juntos nessa eternidade.
– E estamos, Alec – lhe disse, segurando seus dedos entre os meus e finalmente tomando coragem para olhar seus olhos – Você e eu contra a eternidade, meu bem – sorri enquanto acariciava seu rosto, ao que ele fechou os olhos por um tempo apreciando o carinho.
– Você e eu contra a eternidade. – ele repetiu e me olhou, parecendo ler meus pensamentos como quem lê um livro. Eu me senti exposta enquanto ele me estudava e se aproximava, seus lábios a milímetros de distância do meu, nossas respirações se misturando – Não importa de que parte do mundo – ele sussurrou antes de colar nossas bocas, trazendo de volta uma corrente de tranquilidade que tinha sido esquecida há algum tempo.
O que antes era apenas um toque casto de lábios, se tornou uma luta deliciosa quando ele pediu passagem para aprofundar mais o contato. Nossas línguas se moviam em uma dança excitante, prazerosa. Minhas mãos ganharam vida, indo diretamente para sua nuca, deixando um rastro de leves arranhões, provocando arrepios em seu corpo.
Não precisávamos de ar, mas ele estava tentado a apreciar outras partes minhas. Seus beijos foram descendo para meu pescoço, fazendo com que eu me arrepiasse até com sua respiração que no momento estava tão acelerada como a minha. Minhas roupas foram tiradas vagarosamente e as dele seguiram o mesmo caminho. Transamos como quem não vê o amanhã chegar. Fizemos amor como dois virgens, descobrindo o corpo do parceiro nos pequenos detalhes. Amamos cada pequena marca que pudéssemos encontrar. Ali, com a lua que acabara de chegar como testemunha, nos amamos novamente, como Alec e . Sem Masen, sem Volturi. Mas, com um sabor de despedida. Eu sabia que estava partindo. Ele parecia saber disso também.
Depois de algum tempo estávamos apenas deitados na grama, a capa dele nos cobrindo mais por pudor do que qualquer outra coisa. Minha cabeça estava recostada em seu peito e não tínhamos trocado nenhuma palavra ainda. Olhávamos para o céu e apenas suspirávamos vez ou outra, sem coragem para entrar no assunto.
– Essa foi a última vez. – ele não perguntou, apenas afirmou resignado por algo que me doía considerar.
– Eu não posso afirmar isso com certeza – disse enquanto me erguia e virava para encará-lo – Eu não sei do futuro, Alec – dei de ombros e comecei a vestir minhas roupas que estavam ao nosso redor.
– Para onde você vai? – ele perguntou e eu sabia que não estava falando apenas sobre aquele momento.
– Sinceramente? – olhei para ele que assentiu enquanto me via abotoar o botão do jeans que eu usava antes – Não tenho a menor ideia, talvez eu só vá finalmente encontrar o que buscava em 1918 quando saí de casa – dei de ombros e reparei que ele se mantinha imóvel, como absorvendo minhas palavras.
– Ainda é a mesma de 1918? – ele soltou uma risada sarcástica e me olhou descrente.
– Se eu fosse não teria a menor graça, querido – lhe dediquei um sorriso que foi correspondido e pisquei em sua direção, ganhando uma gargalhada contida em troca. Gestos como este aqueciam meu inativo coração.
Segui andando alguns metros para longe dele e, meio segundo depois ele segurava meu braço, já vestido com as calças, perguntando com os olhos para onde eu iria naquele exato momento.
– Vou falar com Aro, querido. Preciso começar de algum lugar! – disse reunindo toda coragem que tinha em cada parte do meu corpo.
– Se você sair de lá inteira, senhorita Masen, eu vou adorar conhecê-la melhor! – ele disse, lembrando o que eu tinha lhe dito quando nos conhecemos, deixando um breve beijo em meus lábios e saindo de minha vista com o resto de suas roupas nas mãos.


Capítulo 9

Esperei pelo menos mais uma semana para reunir todos os meus pertences e para tomar coragem e falar com Aro sobre minha saída. Todas as vezes que Alec ou Jane me olhavam, pareciam estar questionando o que estava acontecendo para tal demora. Mas, deveria fazer as coisas ao meu tempo.
Naquela manhã, peguei minha capa preta e caminhei até o grande salão do castelo. As palavras de Jane ditas no dia anterior, retumbando em minha mente. “Você precisa ser dona do seu destino, ”. Hesitei alguns segundos antes de abrir as portas, mesmo sabendo que sabiam de minha aproximação. Todos estavam à minha espera. Aro, Caius e Marcus se encontravam devidamente sentados em seus tronos. Renata, Felix e Demetri parados em um canto, olhando a tudo sem se pronunciar. Alec e Jane perto dos degraus, me fitando com uma expressão disfarçadamente temerosa.
Tirei o manto de minha cabeça, fazendo uma leve reverência e mirei Aro que me encarava com um olhar curioso. Ele levantou-se e caminhou em minha direção. Começou a circular, estudando-me.
– Soube que gostaria de falar comigo, adorada . – ele disse com uma falsa doçura. Depois de anos passados servindo Aro, sabia exatamente quando ele mentia.
– Sim, meu senhor. Gostaria de lhe fazer um pedido. – afirmei baixando os olhos. Incomodava-me o olhar de cobiça que Aro me mandava desde que entrei para sua guarda, conjuntamente com o de frustração por não conseguir ler meus pensamentos.
– Pois então o faça, minha cara. – ele me encarava curioso.
– Quero sair da guarda Volturi, senhor. – vi que ele, assim com todos naquela sala tinham prendido a respiração, mesmo sem precisar dela. – Sou eternamente grata pelo que fizeram por mim, mas preciso encontrar meu lugar no mundo, senhor Volturi. – novamente baixei a cabeça, odiava me sentir subordinada a alguém, mas precisava sair com todos os membros de meu corpo se ainda quisesse procurar alguma coisa.
– Como assim sair da guarda, ? Depois de tudo o que fizemos por você? É assim que nos retribui? – Caius tinha explodido, Aro não esboçou nenhuma reação e Marcus estava como sempre. Entediado.
– Meu irmão, acalme-se, por favor. – senti a ordem por trás do pedido educado de Aro. Caius também reparou, já que seu rosto se contorceu em uma careta de desgosto. – . Realmente quer ir embora de Volterra? – Ele me analisava, em seus olhos eu podia ver uma sensação de perda. Seu diamante precioso estava indo embora.
– Sim, senhor. Serei grata por toda a minha existência por terem me acolhido quando mais precisava, mas realmente chegou minha hora de partir. Sinto muito. – Não estava mentindo de todo. Realmente sentia. Alec e Jane me fariam falta. Mas tinha chegado o momento de ir.
– Também sinto muito, minha querida . E, não me oporei a sua decisão. Está liberada dos deveres de ser uma Volturi. Não serve mais a mim ou a minha família. – a simples menção da palavra família fez meus pensamentos voarem até Edward. Era por ele que estava fazendo tudo isso, no fim das contas – Mas saiba que se mudar de ideia, sempre teremos um lugar para você em nosso lar. – assenti brevemente e, fazendo uma última curta reverência, deixei o salão.
Sentia que tinha pouco tempo até que Aro reparasse o que tinha feito e mudasse de ideia. Tinha que sair de lá o mais rápido que pudesse. Corri em uma velocidade sobre-humana em direção ao meu quarto. Peguei as duas malas já prontas e rumei para a garagem do castelo. Vi meu carro parado ali. Um C3 preto. Alec estava encostado na porta do motorista.
– Vou sentir sua falta. – ele disse quando me aproximei.
– Também vou sentir a sua. – disse chegando perto o suficiente para passar os braços por sua cintura em um abraço.
Ele hesitou em um primeiro momento, mas correspondeu deixando um beijo em minha testa. Soltou-se de meus braços, sem dizer mais nenhuma palavra, colocou minhas malas no banco traseiro e deixou um pequeno pedaço de papel em minhas mãos. Ele estava pronto para ir embora e me deixar ir.
– Alec – ele parou, mas não se virou. – É como dizem: o primeiro amor a gente nunca esquece. – vi quando seu rosto se curvou um pouco. Sabia que ele estava sorrindo. Entrei no carro, colocando minha bolsa no banco do passageiro e saí da garagem do castelo, rumando para fora dos portões da cidade. Pelo retrovisor, eu via Volterra ficando para trás.
Eu tinha saído dos limites da cidade. O papel ainda estava em minhas mãos sem ser aberto. Parei no acostamento por um momento apenas para poder me acalmar mentalmente e, ao abrir reconheci a letra de Jane. O endereço de Eleazar no Alasca estava ali. Junto com um telefone e uma pequena frase. “Eleazar já te espera”.
Peguei o telefone em minha bolsa e disquei rapidamente o número do papel. No primeiro toque escutei uma voz conhecida, com um leve sotaque latino.
– Alô? – Carmen atendeu. Como eu sentia falta da mulher, mesmo que nunca a tenha visto pessoalmente. Apenas algumas chamadas de vídeo e e-mails trocados.
– Carmen? – ouvi quando ela prendeu a respiração – Sou eu, .
– Mi niña, senti saudades de você. – Eu adorava ser chamada assim, ela era um anjo em minha existência. – Onde você está, ? Jane nos ligou mais cedo dizendo que você chegaria o mais rápido possível.
– Acabei de deixar o castelo. Estou parada no acostamento ligando para você. Queria saber se posso mesmo ficar com vocês, não quero atrapalhar em nada. – eu estava com medo de não poder ficar com eles, mas tentei não mostrar isso em minha voz, não queria forçar a barra.
– Claro que pode vir, querida. Já tem o endereço, certo? – fiz um som de afirmação – Ótimo então, estamos te esperando, . – disse desligando.
Voltei a dirigir, mas o caminho até o Alasca era muito longo para ser feito de carro, então ir até o aeroporto era a melhor solução. Esperei que estivesse escuro o suficiente para poder sair do carro e coloquei uma das lentes de contato verdes que sempre carregava em minha bolsa. Comprei uma passagem, despachei o carro para o Alasca e fiquei esperando o anúncio do voo.
– Senhores passageiros com destino ao Alasca, por favor, dirijam-se ao portão G8. – eu sabia que era o meu voo, mas não me levantei, tinha estancado no lugar – Senhores passageiros, última chamada para o voo com destino ao Alasca, por favor, se dirijam ao portão G8. – suspirei pela última vez e prendi a respiração. Me levantei e fui para o portão de embarque, entreguei minha passagem ao senhor que estava ali e fui adentrando no avião, mas não sem antes olhar para trás. Era o fim de Volturi e o recomeço de Evolet Masen.
Sentei-me na janela, fechando a cortininha e impedindo que os raios de sol que logo chegariam, me tocassem. A viagem até o Alasca era longa, só chegaria lá no próximo dia, mas os grossos casacos que eu trajava deveriam ser suficientes para não levantar suspeitas.
Estava com uma sensação estranha. Seria realmente complicado seguir a dieta de sangue animal, mas eu estava disposta a fazer isso por meu irmão e pela nova vida que tentava vislumbrar. A senhora Masen teria orgulho de mim, se me visse. Pensando no bem da coletividade ao invés da minha sede de sangue, eu chamaria de amadurecimento.
Não vi quanto tempo passou, estava imersa em pensamentos. Foi quando aconteceu e, pela primeira vez em anos, considerei seriamente estar sonhando.
Eu estava em clareira, muito parecida com a que estive no ano anterior. Vi um cachorro. Não. Era um lobo, com pelo castanho-avermelhado. Enorme. Muito maior que um cavalo. Era lindo. Ele caminhava incerto em minha direção, mas seus olhos castanhos me confortaram. Era seguro ali para mim.
E do mesmo jeito que veio, foi embora. Como um flash de memória ou um sonho. O que tinha acontecido comigo?! Vampiros não podiam sonhar ou dormir e eu nunca havia sequer visto um animal como aquele. O que tinha sido aquilo?
As próximas horas foram seguidas por repassar aquelas imagens em minha cabeça, me distraindo a tal ponto que não reparei quando pousamos, já no dia seguinte. Fui apenas seguindo o fluxo, agradecendo pelo tempo chuvoso e escuro da cidade, o que me encobriria por mais tempo. As malas não demoraram a chegar e logo me dirigia ao meu carro, que já estava do lado de fora do aeroporto. Estava atordoada demais para pensar nas ações, então acionei o modo automático.
Coloquei minhas malas sem muita arrumação no carro e fui pedir informação ao segurança que estava ali perto. Notei quando ele ofegou com a minha aparência e me permiti sentir seu cheiro, mesmo que por um breve segundo. O aroma de seu sangue era apelativo, me chamava. Mas sabia que precisava começar a resistir aos meus instintos, por isso, prendi a respiração novamente e continuei ouvindo o caminho que deveria tomar, agradecendo entredentes e poupando sua vida.
Entrei no carro e, quando já estava em um lugar menos movimentado, arranquei, chegando mais rápido. A chuva ficava cada vez mais grossa, mas aquilo não me afetava, era até reconfortante, me sentia chegando em casa. Seguindo o caminho que me fora passado, vi depois de alguns quilômetros, um pouco mais distante das outras, uma construção simples de dois andares, porém de muito bom gosto. Parecia ter o toque de Carmen ali, sorri com o pensamento. Estacionei e antes que pudesse saltar do carro vi Eleazar sorrindo, parado na soleira da porta para me receber.
– Eleazar – saudei, saltando do carro e me aproximando em uma velocidade humana. Antes que pudesse chegar perto, fui abraçada forte e levantada alguns centímetros do chão.
– Cariño, senti tanta saudade de você. – disse me abrindo um sorriso sincero. Como ele fazia falta.
– Eleazar, também senti saudades. – se pudesse, já teria soltado algumas lágrimas com o reencontro.
– Vamos entrar, quero que conheça minha nova família e Carmen está louca de saudades e morrendo de vontade de finalmente te conhecer pessoalmente!
Ele pegou minhas malas como um cavalheiro e entramos na casa. Toda a simplicidade de fora tinha ido embora e por dentro a casa era luxuosa. Uma escada lindamente adornada que deveria dar para os aposentos parecia a chave para aquele espaço. E, na sala quatro mulheres me encaravam.
Carmen veio logo ao meu encontro, me abraçando fortemente sem nada dizer. Eu já sabia. Também estava com saudades do seu abraço, mesmo que nunca o tivesse recebido de verdade. Vi que três loiras me encaravam com um sorriso contido. Sabia quem eram, mas esperei ser apresentada.
– Querida, essas são Tanya, Kate e Irina. Nossas novas filhas – Carmem tinha um sorriso encantador no rosto. Seu sonho era ser mãe e, com aquelas mulheres ela tinha conseguido realizar um pouco do que queria. – Meninas, essa é a . Minha primeira filha. – completou com orgulho e isso aqueceu meu coração morto. Ela realmente era minha mãe de alma.
– Muito prazer, meninas – disse lhes oferecendo um aceno que foi bem recebido pelas mulheres na casa. Aquela seria minha família a partir de agora. E, como dizem, família é para todo o sempre. No nosso caso, até depois do sempre!

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Eu estava com o clã Denali há três meses e, mesmo com dificuldade, conseguira incorporar seu estilo de vida vegetariano. Meus olhos já estavam mais claros, mesmo que ainda bem avermelhados e, logo ficariam da cor dos demais. Âmbar. Não que eu pudesse apagar um século de matanças, mas poderia me acostumar com aquilo.
Nos primeiros dias, conviver apenas com sangue animal fora complicado, eu não tinha prática e preferia me manter sem respirar, evitando ter alguma recaída. Carmen e Eleazar pareciam bem preocupados com isso e passavam horas de seus dias conversando comigo. Tanya, Kate e Irina faziam o mesmo, estimulando minha autoconfiança e fazendo com que eu me soltasse aos poucos.
Eleazar agora já podia conversar comigo sobre os dons que eu trazia, mesmo que nossas conversas fossem mascaradas com a desculpa de “estamos caçando”. Ele sabia que eu tinha absorvido o dom de Kate e, até o seu próprio, mas não parecia tão preocupado. “Longe das mãos de Aro podemos fazer o que for necessário”, ele dizia, mas só a simples menção de meu antigo mestre me trazia um péssimo agouro. Eu sabia que ele tinha sido extremamente bondoso e isso me gerava dúvidas sobre suas reais intenções. Eleazar me dizia para relaxar um pouco mais, mas a angústia parecia tomar conta e, ela só tendia a piorar.
Foi em um dia comum que Tanya apareceu na porta de casa chamando por todos, um tom de voz que passeava da empolgação para a resignação em segundos. Um envelope tinha chegado, um convite. Edward se casaria com a humana, afinal. Não pude deixar de ficar radiante de alegria com a notícia, meu irmão finalmente tinha encontrado uma parceira para si e poderia tentar desfrutar da eternidade ao seu lado.
Irina, por outro lado, não ficou nada contente com a notícia de que todos iriam à cerimônia realizada dali um mês. Ela ainda estava possessa de raiva dos Cullen, já que eles não a tinham deixado vingar seu companheiro, Laurent. Não entendia muito bem o que se passava, mas ela gritava de raiva dos Quileutes e, direcionava todo esse amargor à família que faria de tudo por ela. Foi a primeira discussão que vi acontecer tendo Carmen e Eleazar como participantes, eles eram tão compassivos para dois vampiros que não os imaginava brigando. Era estranho ver todos se desentendendo, mas tentei me manter neutra. Não perguntei a ninguém quem eram, ninguém também me disse do que se tratava. Nenhuma mente lida, assim era melhor.
Irina estava irritada, não iria de jeito nenhum. Eu ficaria com ela, não estava pronta para estar em um local com vários humanos dando sopa por aí. Era melhor que o foco ficasse sobre a noiva, não sobre seus amigos e parentes mortos por minha falta de controle.

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Um mês tinha passado e o casamento de Edward estava acontecendo neste exato momento. Se fechasse os olhos poderia imaginar sua cara de felicidade e nada me faria mais contente do que participar de seu momento, mas eu não me sentia pronta para todo o pacote que viria com essa decisão, por isso pedi a Eleazar que não contasse nada a meu irmão. Não queria que os Cullen soubessem que eu tinha saído da Guarda Volturi. Pelo menos não por enquanto.
Assim, estava sentada no jardim, decidindo se caçaria ou não, quando senti a aproximação de Irina.
, estou indo embora! – ela declarou sem mais nem menos e pude sentir a decisão em sua voz. Irina não voltaria atrás. Me pus de pé um pouco atordoada e encarei seriamente seus olhos, procurando algum sinal de hesitação. Não achei nenhum.
– Irina, realmente vai fazer isso? Sei que Laurent foi importante, mas abandonar sua família por alguém que já não está mais entre nós não me parece prudente. – não queria que ela fosse embora. Entendia seu ponto de vista, mesmo não concordando muito com suas atitudes.
– Estou certa disso, nada que você falar ou fizer vai me demover desta ideia. Só não queria ir embora sem avisar nada. – a loira deu de ombros e se aproximou, me puxando para um abraço apertado. Era uma despedida. Sentia isso.
– Sentirei sua falta. – disse a ela sorrindo quando nos separamos. Irina deixaria saudades, tinha se tornado uma grande amiga, uma nova irmã em pouco tempo. Lembrava Jane em alguns aspectos. Até mesmo Alec.
– Também sentirei a sua, criança. – dizendo isso, deixou um beijo em minha testa e entrou em seu carro. Não fazia ideia de para onde Irina estava indo, mas não tinha um bom pressentimento sobre a próxima vez que nos veríamos.

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Os meses se passavam, mas volta e meia as visões com aquele tal lobo apareciam. Eu continuava sem entender como elas chegavam, já que a única vidente que tinha passado pelo meu caminho tinha sido a tal Cullen, Alice, e não estivemos tão próximas para que eu pudesse absorver totalmente seus dons.
Eleazar não sabia o que estava acontecendo, pesquisávamos mais sobre as Litúrias, mas nada encontrávamos. Elas pareciam inexistentes, até mesmo para as novas pesquisas historiográficas. Nada de lendas, ditos. Nada. Eu precisava saber mais sobre ou acabaria enlouquecendo.
De acordo com Carmem e suas conversas com Esme, Edward e a humana tinham saído em lua de mel. Eu sabia que eles já tinham voltado, sentia isso. Via isso, na verdade. Via, também, que algo estava acontecendo em Forks, mesmo que tudo estivesse muito embaçado.
Irina também não tinha dado notícias, sabia que Tanya e Kate estavam cada vez mais desesperadas pela irmã. Já tinham procurado em diversos lugares, tentado seguir seu cheiro, mas o rastro desaparecia. Ela não queria ser localizada e, quando um vampiro quer desaparecer, isso simplesmente acontece.
Por mais culpada que eu me sentisse, resolvi arrumar minhas coisas e me encaminhar para Forks. O clã Denali ficou extremamente desapontado, mas não fizeram objeções. Eles sabiam que sempre poderíamos nos encontrar, sabiam para onde eu estava indo. Eu não estava fugindo, estava tentando me achar. Edward parecia estar precisando de ajuda e eu faria o possível para colaborar. E, assim, Eleazar me levou até o aeroporto e eu logo comprei uma passagem para Seattle, de lá correria até Forks.
O voo foi tranquilo, apesar da leve chuva que caia. Não tinha muita claridade, então me misturar com os humanos não era um problema e o fato de ter entrado de cabeça na dieta de sangue animal me deixava de certa forma mais tranquila ao interagir com as pessoas. O vento batendo no meu corpo durante a corrida me deixava mais animada, já que a última viagem a pé que fiz já tinha um século. Minha única mala e bolsa não pesavam nada em minhas mãos, então meu único trabalho era seguir o rastro de vampiro, me direcionando a Forks.
Acabei chegando na cidade quase no amanhecer do dia, mas a chuva resolveu aumentar, me dando mais algumas horas de vantagem. O céu completamente nublado camuflava os raios de sol que poderiam me desmascarar, mesmo correndo pela mata. Eu continuei seguindo o rastro, que estava cada vez mais fraco, já que outros cheiros se sobrepunham e me faziam torcer o nariz. Não era um odor que eu estivesse acostumada e, realmente ficava mais forte a cada segundo.
Foi então que eu o vi. Um lobo enorme, bem maior do que eu em altura. Seu pelo era preto como o carvão e seus dentes estavam expostos, deixando baixos rosnados escaparem. Ele tinha seus olhos grudados em mim e me encarava como se eu fosse sua próxima refeição ou vítima. Se bem que não parecia existir muita diferença naquele momento.
Ele iria me atacar se eu não fizesse alguma coisa e parecia examinando os meus movimentos. Consciente demais para um animal. Por isso me concentrei o máximo que consegui no dom de Edward e me pus a vasculhar a mente do lobo a minha frente. Tudo isso aconteceu em milésimos de segundos. E eu soube que estava me metendo em um lugar com mais seres sobrenaturais do que nós vampiros. Tinha uma pessoa ali na mente do animal e que estava pronta para me estraçalhar se eu não saísse de suas terras. Sam Uley se aproximava lentamente e eu seria abocanhada se não abrisse a boca para tentar me explicar.


Capítulo 10

– Não quero atacar, senhor Uley. – tentei falar o mais educadamente possível, ignorando o cheiro que me fazia querer torcer o nariz, e o vi retroceder uns passos. Sua mente agora estava um turbilhão de dúvidas, e eu ouvia outras vozes em sua cabeça, quase como se ele não estivesse sozinho ali. Não poderia deixar o receio ser perceptível em minha voz. – Será que poderia voltar à sua forma humana? Gostaria de travar um diálogo, e não participar de um monólogo. – Falei o mais amigável que consegui e, por sorte, deu certo. O lobo preto se dirigiu para os arbustos e um homem lindo retornou em seu lugar. Moreno, alto, musculoso, perfeito em todos os sentidos humanos, mas nada chamativo para mim. Seu olhar era curioso, cauteloso e raivoso ao mesmo tempo.
– Como sabe meu nome? – ele me analisava, tentando descobrir o que podia. O homem parecia atento a cada micro movimento meu. Qualquer passo em falso seria letal. Se para ele ou para mim, eu não sabia.
– Na verdade, isso não vem muito ao caso, senhor Uley. – disse-lhe, sorrindo verdadeiramente, o que o deixara ainda mais intrigado. Sua mente, agora com uma única voz, parecia gritar em minha cabeça – Apenas quero chegar à casa de meu irmão, será que poderia me ajudar? – esperava que ele me ajudasse. Seria muito mais simples se me apontasse a direção correta a seguir.
– Acho que não sabe onde está… ? – ele me questionava de forma polida, decidido mentalmente a entrar em meu jogo e ver onde isso daria.
– Masen. Masen, prazer. – estendi minha mão em sinal de cumprimento de forma inconsciente, mas logo abaixei quando vi que não seria correspondida. – Está certo, não sei muito bem onde estou, mas procuro pelos Cullen. – um lampejo de compreensão passou pelo seu rosto, antes de fechar a cara novamente e cruzar seus braços em desagrado.
– Está em La Push, e esse é um território Quileute. – Claro! Os Quileutes de quem Irina tinha tanta raiva. – Invadiu nosso lado do tratado, Masen.
– Peço-lhe minhas desculpas, senhor Uley. Não sabia deste detalhe. Poderia me indicar a direção para a casa dos Cullen? – ele apontou para um lugar atrás de mim de má vontade e, antes que eu pudesse ir, ele pigarreou chamando minha atenção.
– Quem me garante que não irá quebrar as regras, vampira?
– Eu não me mostraria aos humanos! Essa é a regra principal, e convivo com ela há mais tempo do que você respira, Uley. – completei, debochando de toda aquela situação. Será que ele não percebia que tudo o que eu queria era encontrar meu irmão?
– Estou falando sobre não os matar, Masen!
– A ideia é a mesma, Uley! – disse, cansada da grosseria – Eu apenas estou indo encontrar os Cullen. Tenha um bom dia! – completei, me virando de costas para a direção que ele apontara, e corri. Não ouvi passos atrás de mim, então eu estava momentaneamente segura.
Forks estava me saindo melhor do que a encomenda. Claro que já sabia da existência dos lobos, mas ver um de perto foi extremamente curioso. Me fez lembrar a tal visão que tive com um deles. Deveríamos ser inimigos naturais, mas o estranho é que eu não me sentia assim. Ele era irritante, fedorento e definitivamente grosseiro, mas estava mais para um igual. Um sobrevivente, como eu.

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Quanto mais me aproximava, melhor conseguia ouvir as mentes dos arredores. Resolvi manter os poderes de meu irmão alertas, já que não podia correr o risco de ser abatida antes de falar com ele. E, pelo visto, fiz bem. Tudo parecia estar uma confusão. Edward estava esgotado. Bella estava... grávida! Mas como isso era possível? Vampiros não podiam engravidar. Ou poderiam?! Tinha que ver isso com meus próprios olhos.
Fui me aproximando mais ainda do jardim dos Cullen, quando vi dois lobos ali que notaram minha presença no momento em que cheguei nas margens do terreno. Pelas mentes, eram Leah e Seth Clearwater, e pareciam estar discutindo sobre quem teria a minha cabeça primeiro à medida que se aproximavam. Os dentes estavam à mostra. Eles rosnavam em minha direção, na mesma postura com que Sam usara momentos atrás. Os dois estavam prontos para me atacar quando eu desse o próximo passo.
Foi nessa hora que o vi saindo da parte de trás da casa. Um lobo castanho avermelhado, que parecia muito com o que eu vira na visão que tive há meses. Ele trotava de forma rápida e vinha em minha direção, pronto para o ataque. E, por mais que eu quisesse, não consegui me mexer. Parecia que estava presa ao chão enquanto ele se movia para mais perto, e os outros dois lobos davam uma distância segura de mim, mas sem tirar os olhos de nós.
Ele rosnou uma vez mais e arrepiou minha espinha. Eu morreria de vez ali pelos dentes daquele animal. Mas, quando eu parei para olhar em seus olhos, um novo tipo de sentimento passou pelo meu corpo. Ele era mais magnético que um ímã, e eu conseguia ouvir em sua mente as vozes de Leah e Seth, que eram severamente ignoradas, enquanto ele me olhava de volta. Eu podia dizer que, mesmo morta, olhando para os olhos daquele lobo, eu me sentia viva. Jacob era seu nome. E eu sentia que as peças estavam finalmente se encaixando.

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Jacob

– Volte para casa e fique com Bella. – disse a Edward antes de me transformar, após termos sentido a aproximação de um novo sanguessuga. A explosão em lobo aconteceu naturalmente como todas as outras, e ouvi a voz de Seth brigando com a irmã em minha cabeça.
Leah, olhe a cara dela. Parece assustada! – Seth sempre teve apreço por vampiros, nunca entendi esse garoto.
Fique quieto, moleque. Não vê que ela está prestes a atacar! Precisamos nos aproximar enquanto ainda podemos neutralizá-la. – Leah dizia com uma voz autoritária e analítica. De fato, a posição de beta lhe subiu à cabeça.
Calem a boca os dois e fiquem parados! A cabeça dessa sanguessuga é minha! – comandei aos dois em meu tom de alfa. Detestava ordenar, mas a vida de Bella era o que mais importava no momento.
Fui chegando devagar, mas ela já sabia de minha existência ali e permanecera imóvel. Se tivesse que ter atacado Seth e Leah, a vampira já teria feito. Mas eu sentia ódio. Ela deveria estar aqui para matar Bella a mando dos vampirões encapuzados, e eu não deixaria que isso acontecesse. Por pior que fosse essa decisão de carregar um monstro, Bella merecia viver.
Meus olhos se encontraram com os da vampira no momento em que pulava para atacar e um baque invisível e forte me deteve. As vozes de Leah e Seth se transformaram em sons abafados, como se a minha cabeça estivesse embaixo d’água. Mas eu não me sentia afogando, nunca tinha respirado tão bem na vida.
O tremor parou subitamente, assim como a raiva, e eu só conseguia focalizar na mulher ridiculamente atraente que estava na minha frente. Minha cabeça estava girando em uma velocidade tão grande que tudo o que consegui fazer foi cair sentado em minhas patas traseiras. Estava como um cão rendido, sem mais.
Imprinting.
Seth falou ao fundo da minha cabeça, e eu consegui ligar os pontos. Sentia meu coração bater acelerado no peito à medida que ela dava passos lentos em minha direção, sem nunca tirar os olhos dos meus. Se fosse para morrer pelas mãos dela, eu o faria de bom grado. Ainda que vozes irritantes na minha cabeça, incluindo uma parte bem pequena minha, insistissem em me dizer o quão errado era aquilo.
– Rosalie, não! – a voz de Alice quebrou todo o silêncio, e eu consegui sair do transe que me encontrava ao olhar para ela. Mas, antes que eu pudesse me transformar, a vampira saiu em disparada para a casa, e eu não tive alternativas a não ser seguir o que ela estava fazendo. Sabia que algo estava muito errado, e o cheiro de sangue já começava a encher o ambiente.

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Eu sabia que precisava me controlar, mas o cheiro de sangue me chamava como uma sereia encantando os navegantes. E eu apenas fui para a porta, que já estava aberta, vendo uma cena que parecia de terror. A humana estava grávida, magra como se estivesse doente, e sua barriga parecia grande demais para que ela pudesse sustentar.
Uma vampira loira era segurada por outro, que eu reconheci como Carlisle. Ninguém parecia ter notado a minha presença ainda em meio ao caos dos gritos de Isabella e do desespero presente na vampira baixinha, que tentava segurar dois vampiros com a ajuda de uma terceira mulher. Eu ainda não vira Edward, mas todos nós nos viramos para Isabella quando ouvimos um ruído abafado de algo se rasgando no meio de seu corpo.
A vontade de atacar nunca me pareceu tão grande, tanto pela cena, quanto pelo sangue que jazia no chão. Minha boca salivava, e eu sabia que meu coração estaria batendo freneticamente em expectativa pelo sangue humano. Então, ela vomitou um jorro de sangue, e eu me abaixei na posição de ataque, pronta para saltar o mais próximo dela. Todos pareciam ocupados, então eu teria o que tanto me faltava. E fui.
Eu não tirava os olhos dela, quando um corpo se chocou contra o meu na mesma velocidade do meu salto, e as paredes da casa tremeram com o barulho. Eu não conseguia distinguir quem era, então tratei de tentar me soltar, mas o aperto era tanto que senti que me partiria no meio se pudesse. Não adiantava o quanto eu me debatesse, os braços à minha volta não me deixavam sair. E tudo o que eu queria era o sangue que Isabella seguia cuspindo com mais dificuldade.
– Jacob, leve-a daqui! – a voz de quem me prendia disse aos gritos, e eu fui jogada como um brinquedo e apanhada com destreza, enquanto era tirada da casa rapidamente. Eu podia me soltar, mas a parte racional do meu cérebro sabia que tudo pioraria, então apenas me deixei levar e prendi a respiração, torcendo para que não causasse mais estragos.
As árvores ficavam para trás rapidamente à medida que nos distanciávamos, mas a velocidade que estávamos ainda era inferior ao que eu poderia fazer se estivesse sozinha. Mesmo assim, eu estava confortável. Estranhamente confortável. Sabia que era Jacob que me carregava e, mesmo que fôssemos inimigos naturais, desde que o vira, não conseguia sentir repulsa. Ele parecia ser muito mais do que o lobo da visão, e eu não sabia o que acontecia dentro de mim.
Quando estávamos ao que parecia ser uma distância segura da casa dos Cullen, Jacob me colocou de pé e se postou a alguns passos de mim, como se me desse espaço para respirar, e seus olhos percorriam cada detalhe do meu corpo descaradamente. Se eu ainda fosse humana, teria me envergonhado e lhe esbofeteado. Na atual conjuntura, preferi apenas pigarrear, e pareceu ter surtido efeito, quando um leve rubor tomou conta de suas bochechas e o homem cravou seu olhar no chão, ainda que continuasse bem atento aos meus movimentos.
– O que está acontecendo? – questionei baixo, e ele apenas se encostou na árvore mais próxima, parecendo despreocupado enquanto voltava a me encarar.
– Tem muita coisa acontecendo! – ele deu de ombros e parecia irônico, assumindo uma postura diferente do que eu tinha visto até agora – Sobre o que está perguntando exatamente? – devolveu.
– Por que não me atacou até agora? – eu tinha muitas perguntas, mas aquela me intrigava e também me fazia pensar sobre os meus próprios instintos.
– Você também não me atacou! – disse simplesmente.
– Tenho assuntos mais importantes a tratar. – desdenhei – Não é como se matar um lobo e sua alcateia estivesse na minha lista de morte! Então, se me der licença. – comecei a caminhar em uma velocidade humana, mas Jacob logo entrou em minha frente, barrando a passagem com o corpo. Eu podia sentir, com ainda mais clareza, o cheiro de seu sangue e ouvir o coração, que bombeava rapidamente.
– Não vai. – ele disse baixo, olhando diretamente em meus olhos, e eu não consegui recuar. Alguma coisa parecia me puxar para aquelas orbes pretas, mas eu ainda não sabia o que era.
Minha mão parecia ter vida própria, porque, antes que eu pudesse controlar, meus dedos já tinham achado o caminho para o rosto do desconhecido à minha frente e desenhavam seus traços sem qualquer impedimento da parte dele. Jacob manteve os olhos nos meus, quase como se tentasse fazer desse jeito o mesmo que eu fazia com as mãos.
A temperatura de seu corpo era mais alta que a de um humano normal, mas não me queimava a pele. Pelo contrário, era como tomar um banho quente e relaxante. Sua pele parecia seda em meus dedos, capaz de se romper com o mínimo movimento inadequado. Meus dedos formigavam como se eu tivesse acabado de me alimentar. Minha cabeça estava um turbilhão de pensamentos. Por Deus, o que estava acontecendo ali?!
E foi quando outra cena apareceu diante dos meus olhos.
Uma figura encapuzada e toda vestida de vermelho corria rapidamente pela floresta indistinta, quando algo a fez parar e aspirar o ar com cuidado. Sua cabeça se virava para as quatro direções, como se procurasse alguém. A figura se encostou a uma árvore, fazendo com que o capuz caísse e seu rosto se revelasse com um sorriso satisfeito, antes de se encaminhar para a direção oposta do que parecia estar indo antes. Allan estava vindo, e eu sabia.
Mas a imagem tinha se dissipado, e tudo o que eu via era Jacob com o rosto bem próximo ao meu, segurando em minha cintura como se eu tivesse perdido o equilíbrio e me encarando, preocupado. Levei meio segundo para entender que a tal visão provavelmente tinha me desestabilizado e ele me mantinha de pé.
– Você está bem? – Jacob perguntou enquanto eu me desvencilhava dele rapidamente e me recompunha.
– Claro! Eu só preciso ver Edward. – disse e saí em disparada para a casa dos Cullen, sabendo que ganharia a corrida, mas que o lobo estava logo atrás de mim. Suas patas batendo no chão não eram silenciosas, mas não me parariam agora.
Passar pelo jardim foi estranhamente fácil, mas sentia olhos me observando. Provavelmente Seth e Leah estavam de olho para arrancar minha cabeça se eu fosse uma ameaça.
A casa estava estranhamente silenciosa, mas me mantive alerta. O sangue que outrora estava no chão já tinha sido limpado, e, na sala, uma vampira loira brincava com um bebê em seu colo. Ela ficou tensa quando sentiu meu cheiro e deixou a criança em uma espécie de berço, virando-se lentamente para me observar.
– O que quer aqui, Volturi? – a criança pareceu se agitar com a menção do meu nome e tentou se mover no berço – Não ache que não consigo acabar com você sozinha, se for necessário! – ela continuou se aproximando, sem tirar os olhos de mim.
– Eu sei que não pode, loira. – rebati no mesmo tom superior, e a minha vontade era realmente a de estraçalhar aquela vampira que ousava me desafiar, mas eu tinha prioridades em mente – Mas, pra sua sorte, eu preciso resolver outros assuntos primeiro. Preciso falar com Edward!
– Não é um bom momento, Volturi! – o vampiro loiro, que eu reconhecia como Carlisle, disse enquanto descia as escadas com as roupas completamente vermelhas de sangue. Ele não parecia afetado com isso, então prendi a respiração e fingi não reparar.
– Preciso falar com Edward! – repeti, entredentes – Por favor! – supliquei, sem saída, e ele apenas assentiu, enquanto dizia “Rosalie, leve Renesmee” para a loira, que corria com o bebê para fora da casa.
– Me acompanhe. – e eu apenas segui com ele escada acima. Carlisle me guiou até uma porta grande e abriu para que eu pudesse entrar. Não pude deixar de agradecer antes de passar por ele, que apenas assentiu novamente e desceu para o térreo da casa. Eu sabia que qualquer movimento em falso que eu desse seria minha sentença de morte, mas tentei relaxar.
O cômodo mais parecia uma sala de hospital, e a humana estava deitada em uma maca, com Edward velando seu sono. Ou sua morte, porque a mulher estava pálida como um cadáver. Meu irmão sabia de minha presença, mas não se mexeu, nem falou nada. Ele parecia exausto, ainda que isso não fosse possível para nós.
Caminhei lentamente em sua direção e toquei seu ombro, dando um leve aperto, que foi correspondido pela sua mão, que disparou para a minha. Eu ainda não entendia bem o que acontecia naquela casa, mas precisava confortá-lo de alguma forma. Por isso, deixei que seu dom de leitura de mentes fluísse por mim e, por um momento, me arrependi com a enxurrada de pensamentos que surgiram em minha cabeça. Não apenas de Edward, mas de Isabella também.
– E se eu tiver feito algo errado, Evie? – Edward parecia desesperado, apertando meus dedos com mais força. Sabia que, se pudesse, ele estaria chorando.
– Não fez! Está dando certo. – Isabella estava pedindo para ser morta em minha cabeça, ainda que se mantivesse imóvel. Ela era uma mulher forte, afinal. Não queria causar sofrimentos a Edward, por isso fechara-se em sua própria mente – Em um par de dias, ela vai estar bem.
– Como sabe disso, ? – ele estava confuso e, pela primeira vez, me olhou. – Seus olhos?! Não estão mais tão vermelhos. – ele parou por um segundo, e mais questionamentos surgiram em sua cabeça, me lembrando de “desligar” meu dom e parar de escutar o que ele pensava – Mas como você está aqui?! Aro sabe que está aqui?!
– Acalme-se, irmão. Não sou mais uma Volturi, então não precisamos nos preocupar com Aro. – por enquanto, completei em pensamento, e ele pareceu fazer a mesma coisa que eu – Estive com o clã Denali nos últimos meses, por isso meus olhos estão mais claros. – dei de ombros.
– Fico feliz por você e estou orgulhoso. – disse sem mais comentários e soltou um suspiro baixo, mantendo nossas mãos unidas. Eu sabia que ele falava a verdade, mas Edward estava muito preocupado para demonstrar qualquer emoção.
– Preciso que me perdoe. – Senti seu olhar recair em mim e continuei antes que ele falasse algo – Quase perdi totalmente o controle e ataquei sua esposa lá embaixo. Sinto muito, irmão! Vou entender se quiser que eu vá embora. – dei de ombros e ouvi um copo quebrar no andar de baixo. Todos os ouvidos da casa estavam voltados para a nossa conversa, nada surpreendente.
– Não sou maluco para te mandar embora, . Ficamos muito tempo longe e sinto sua falta, maninha. – agora, sim, ele sorria de verdade e me puxou para um abraço – Te amo.
– Também amo você, meu pirralho. – respondi, rindo, mas ele não me acompanhou. Seu rosto se contorceu em uma careta de raiva que eu não entendi, já que me mantinha longe de sua cabeça.
– Alice. – Edward chamou entredentes, e uma figura mais parecida com uma bailarina entrou no quarto rapidamente – Fique com Bella. – dizendo isso, saiu correndo para o andar de baixo como uma flecha.
– O que foi isso? – perguntei a ela.
– Jacob. – nada mais precisou ser dito para que eu saísse em disparada atrás de Edward.


Capítulo 11

Edward tinha ido para baixo como um louco, e eu o seguira sem entender o que acontecia. Meu irmão perguntou por Jacob, e Carlisle lhe disse que ele estava no jardim. Ele saiu correndo e fui atrás, temendo pelo que poderia acontecer. Quando ele cravou os olhos em Jacob, que conversava com um adolescente e uma mulher muito parecidos, um rosnado alto saiu de sua boca, e ele se abaixou, pronto para atacar.
– Você não fez isso. – Edward disse em um tom baixo, e eu vi Jacob engolir em seco.
Jacob recuava à medida que a compreensão passava por seu rosto, por isso eu decidi me movimentar para mais perto de meu irmão, e não era a única. Os dois lobos da alcateia de Jacob já estavam transformados, e Carlisle também se aproximava cuidadosamente de Edward, tendo sinalizado com a mão para o vampiro grandalhão que acabara de chegar. Maldita hora que eu tinha prometido a mim mesma que não leria a mente daquelas pessoas, que respeitaria suas privacidades.
– Você sabe que não posso controlar. Aconteceu. – Jacob tinha as palmas das mãos para cima, como se se eximisse de culpa, e tentava se justificar para meu irmão.
– Seu vira-lata estúpido. Primeiro com Isabella, depois com . – Edward estava descontrolado – Como ousa ter imprinting com a minha irmã? – Imprinting?! O que era isso?! Nunca tinha visto meu irmão tão furioso. Jacob continuava recuando. Leah e Seth começaram a se aproximar mais dos dois.
– Leah, não! – Jacob mandava, e vi o esforço que ela fez quando acatou. – Isso é um assunto meu e dela, Edward.
– Vai ficar longe dela!
– Não é como se eu pudesse dar uma resposta sobre isso.
– Ela detesta ser pressionada. Vai ficar longe dela. – Edward repetiu entredentes.
Eu já estava irritada com a conversa que acontecia como se eu não estivesse ali, já que todos já pareciam ter entendido do que se tratava. Então, saltei para o meio dos dois e alternava olhares entre meu irmão e Jacob.
– Alguém vai me dizer exatamente o que está acontecendo aqui ou vou ter que utilizar outros métodos? – disse entredentes, tentando controlar a raiva. Detestava que falassem de mim como se eu não estivesse presente – O que é um imprinting? – perguntei, olhando diretamente para Jacob, que se encolheu.
– Ande, diga a ela. Diga que vai destiná-la a uma vida sem escolhas. – Edward cuspia as palavras em Jacob – Ela já é uma vampira, e você quer adicionar mais problemas com essa coisa idiota de lobo. – ele estava furioso.
– Como assim? O que significa isso? – ignorei meu irmão e os lobos que estavam ali perto. Olhei diretamente para Jacob, que permanecia calado – Vai falar ou ficar calado? – Perguntei gritando, já me estressando com todo aquele silêncio. Ao meu redor, o vampiro grandalhão soltava uma risada nada discreta.
– Podemos conversar em outro lugar? – ele perguntou, me olhando suplicante. – Por favor.
– Agora! – respondi, disparando para a floresta e sabendo que ele me seguiria. Estava na hora de esclarecer algumas coisas.
Eu estava impaciente. Graças aos meus poderes, curiosidade basicamente não existia no meu vocabulário. Durante a corrida, milhares de cenários tinham aparecido na minha cabeça, e usei toda a força interna que consegui para não ler os pensamentos do lobo que vinha atrás de mim com passos pesados.
Fui adentrando uma campina, chegando perto do riacho que tinha ali. Sentei-me em uma pedra e, olhando para o pôr do sol, esperei que ele me alcançasse e tomasse coragem para se pronunciar.
. – Jacob respirou fundo depois de voltar à sua forma humana. Parecia nervoso com algo.
– Seja o mais direto e rápido possível! – eu estava ficando sem a menor paciência. As palavras de Edward não deixavam a minha cabeça. “Ande, diga a ela. Diga que vai destiná-la a uma vida sem escolhas.”
– Vou começar pelo começo. – ouvi o homem engolir em seco às minhas costas e se aproximar ligeiramente, mas sem entrar em meu campo de visão – Bom, existem algumas lendas envolvendo o meu povo. Os Quileutes. – ele respirava pesadamente, mas seu batimento cardíaco estava muito acelerado. – Uma dessas lendas é a do imprinting. Ter um imprinting com alguém é como... – ele parecia buscar as palavras certas para continuar. – sentir tudo mudar no momento em que a vê. Suas crenças, visões, desejos… Nada mais te prende ao mundo, apenas ela. A ela. Então, você se torna tudo aquilo que ela precisar. Um irmão, amigo, confidente, amante. – me virei para encará-lo, e ele mantinha a cabeça baixa enquanto falava. O medo que Jacob transmitia era palpável. – Isso é ter um imprinting com alguém. – completou, indo se sentar a alguns metros de distância, talvez me dando um tempo para absorver.
Eu estava em transe, se isso fosse possível. Ele queria dizer que era minha alma gêmea? Mas eu nem tinha mais alma, sequer vida. Ainda estava confusa com tudo o que estava acontecendo. Como isso acontecia com uma vampira?!
– O que Edward quis dizer com "vida sem escolhas’’? – perguntei alto o suficiente para que ele pudesse me ouvir claramente. Eu estava assustada. Tinha ido embora de casa para não ser submetida a uma vida na sombra de um homem e não tinha mudado de ideia.
– Ele está errado. – falou depressa – Você tem todo o direito de escolher ficar comigo ou não. – ele tinha corado com o que disse. Lindo. Sorri internamente com isso e me condenei no mesmo segundo. Não era por aí que eu devia caminhar – Quer dizer, não é que você precise ficar comigo. Na verdade, não é como se houvesse algum sentido nisso tudo. – Jacob se corrigiu logo.
– Como assim?
– Nunca soube de um imprinting com uma vampira. – ele deu de ombros e me olhou – Não é como se fosse algo cotidiano, né? – sorriu de lado, e eu teria corado se fosse humana.
– Já estou acostumada com bizarrices, Jacob. Tive basicamente um século de experiência – ri sem humor – Não existe uma lei do seu povo que nos obrigue a ficar juntos, certo?
– A ideia idiota do imprinting é que eu preciso ser o que você precisa, não o contrário. – ele suspirou – Está livre pra viver a sua vida.
– Não parece satisfeito por ter sofrido isso comigo. – comentei, tentando não parecer ofendida.
– Por um lado, isso fez com que eu saísse de uma relação doentia, mas, pelo visto, entrei em outra.
– Não estou lhe forçando a nada, Jacob! – levantei e olhei diretamente em seus olhos, a raiva crescendo no meu peito – Então, vamos manter essa "relação" como um "não vamos nos matar".
Dei meia volta e me pus a correr para a casa dos Cullen. Não ouvi passos atrás de mim, então possivelmente Jacob estava me dando espaço para pensar no que aconteceria a partir de agora.
O lugar estava bastante silencioso, sequer via os lobos ou sentia seus cheiros nos arredores da propriedade. Eu sabia que, dentro da casa, todos estavam em expectativa. Porém, me esperando à frente da casa, um vampiro loiro, com os braços cheios de cicatrizes, me olhava. Ele gritava perigo por todos os poros, mas me fez sentir estranhamente confortável em sua presença.
– Senhorita Masen! – ele fez uma reverência exagerada e pude ouvir em sua voz um sotaque sulista, ainda que leve – A que devemos sua visita?
– Jasper, verdade? – deixei os poderes de Edward fluírem por mim por alguns segundos, e ele não pareceu surpreso por eu saber seu nome.
– Exatamente, ! – concordou, piscando um olho em minha direção.
– Não estou a mando dos Volturi, se é o que acredita.
– Sei que não, já estaria desmembrada se fosse esse o caso. – disse como quem comenta sobre o tempo, e tudo o que eu pude fazer foi soltar uma risada, que logo foi acompanhada de forma mais contida por ele – Sabe onde está se metendo?
– Não faço a menor ideia! – dei de ombros.
– E quer continuar?
– Adoraria!
Ele apenas assentiu, me oferecendo o braço para que o tomasse, e assim o fiz. Caminhamos em uma velocidade humana para dentro da casa, onde cinco vampiros me esperavam. Jasper, como um cavalheiro, me apresentou a todos, por mera formalidade e, assim que o último nome foi dito, ele me soltou, se encaminhando para perto da vampira mais baixa. Alice.
– Espero que entenda nossa preocupação, ! – se justificou Alice – Eu não consigo ver muito ao seu respeito. Por conta de Jacob.
– Sei os motivos pelos quais isso foi necessário. Eu teria feito o mesmo se ainda estivesse na guarda. Mas o teatrinho teria terminado comigo queimada, se dependesse de Caius. – estremeci, me lembrando dele.
– Acredito que vá ficar por Forks, certo? – Esme questionou, mudando o foco.
– Ainda não sei bem onde ficar, escondi minhas coisas na floresta, mas adoraria permanecer o mais perto possível do meu irmão. – inconscientemente, meus pensamentos vagaram para Jacob. Tinha muito no prato para lidar.
– Adoraríamos ter você conosco, . – Carlisle convidou – Se puder se controlar quanto a Renesmee e aos outros humanos ao nosso redor. – ele sinalizou a criança que dormia nos braços de Rosalie, ainda escondida e protegida pelos vampiros.
– Ela não é mesmo uma criança imortal, né? – suspirei e olhei de relance para ela. Eu podia ouvir o sangue correndo em suas veias e sentir o calor que ela emanava. Essas coisas não eram possíveis de fingir – Não tem com o que se preocupar, Carlisle! Nunca comprometeria a segurança dela ou de outros.
– Então, é mais do que bem-vinda para se manter por perto! – ele disse, e vi Esme sorrindo para mim.

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Os dias tinham passado, e eu estava me adaptando à rotina dos Cullen, mesmo que evitasse permanecer muito tempo na casa. Isabella também tinha acordado e estava se saindo genuinamente bem em sua vida de vampira, ainda que mantivéssemos certa distância entre nós. Eu ainda não contara a ela que conseguira ler a sua mente durante a transformação e achei melhor deixar por isso mesmo.
Renesmee, por outro lado, crescia absurdamente rápido e, por mais que não ficasse sozinha com ela, a garotinha tinha me conquistado com seu sorriso e suas covinhas. Ela me lembrava o Edward mais novo de minhas lembranças vagas, e a criança, assim como meu irmão, me tinha nas mãos.
– Ele não vai se aproximar da casa. – meu irmão disse, se sentando ao meu lado nos degraus da entrada.
– Eu sei que não. – suspirei – Ele está lá desde o amanhecer. – dei de ombros – Mas não é como se eu pudesse fazer alguma coisa. Não tive culpa.
– Não disse que teve culpa, . – Edward entrelaçou os dedos nos meus – Só que talvez eu tenha exagerado, porque é uma escolha sua.
– Nesse negócio de imprinting eu não tive escolhas, irmão. – e, como se ouvisse, Jacob deu as costas para nós e se pôs a correr para longe – Ele precisa lidar com as consequências, e eu também. – disse, me soltando e levantando dali – Você quer caçar?
– Acho que não estou preparado pra te ver caçando e lutando com leões da montanha. – comentou, rindo – Mas sei que Jasper adoraria te acompanhar! – ele sorriu, e Jasper apareceu na soleira da porta, me olhando em expectativa.
– Tente me alcançar, Jasper! – disse, correndo, sabendo que o loiro me seguia de perto.
Fomos o mais distante que conseguimos de Forks para caçar e encontrar os tais leões da montanha que Edward tinha comentado. Jasper estava guiando para que não saíssemos das terras dos Cullen, e foi quando encontramos os animais. Era apenas um casal, mas Jasper inclinou a cabeça na direção do maior deles, como se me oferecesse por cavalheirismo. Eu podia ter recusado, mas, como estava há pouco tempo nessa vida vegetariana, achei melhor drenar o máximo da sede, que ainda me incomodava bastante.
Não me fiz de rogada e me lancei para cima do animal, que, sentindo a minha aproximação, se pôs a correr. Era divertido, eu gostava de brincar com a comida. Nada que vinha fácil demais era tão bom assim.
Mas, para o azar dele, ainda que corresse mais rápido que um maratonista, eu era muito mais veloz. E, mesmo dando algum tempinho de dianteira, não demorou muito para que eu o alcançasse antes que o leão pulasse no riacho e abocanhasse seu pescoço sem dificuldade. Os pêlos ainda me incomodavam bastante, mas carnívoros eram o melhor que eu poderia pedir nas circunstâncias.
Quando entrei em contato com o sangue, foi como se mergulhasse em uma banheira de água morna. Extremamente confortável. Infelizmente, drenei o animal mais rápido do que achei, e a minha sede não tinha terminado, apenas estava mais branda. Por isso, logo corri de volta a Jasper, que me esperava no lugar onde nos separamos. Ele “convencia” suas presas com mais facilidade do que eu e não precisava persegui-las. Uma sorte.
– Ainda com sede? – ele questionou, mesmo que já soubesse da resposta – Podemos caçar alguns cervos se quiser. – disse, ainda que ele mesmo torcesse o nariz para herbívoros.
– Nenhuma possibilidade de assaltarmos o estoque de sangue para Renesmee? – sugeri, rindo, e ele me acompanhou, fazendo uma cara de quem estava considerando a ideia – Somos rápidos, você sabe. – dei de ombros.
– Vamos deixar essa possibilidade para o plano B, ok? – ele riu e se colocou em alerta quando uma brisa trouxe o cheiro de um grupo de cervos ao nordeste – Desta vez, não vou te deixar pegar o maior de todos. – comentou antes de sair em disparada ao encontro dos animais, e eu o segui. Herbívoros eram melhores que nada.
– Como exatamente conseguiu essas cicatrizes, Jasper? – Interrompi o silêncio e perguntei, sem mais segurar a curiosidade. Estávamos sentados nas pedras, sem muita vontade de voltar para casa. Eu podia ler, se quisesse, na mente dele. Mas não queria. Gostava de ouvir histórias.
– Décadas e décadas de exércitos de recém-criados. – ele deu de ombros enquanto jogava uma pedrinha no riacho, displicente.
– Você também os treinava, não é? – ele afirmou – Eu tenho uma dessas na barriga, mas é a única. Jane pode ser bem protetora quando quer, então isso não aconteceu novamente.
– Definitivamente não consigo imaginar isso dela. Não com o que vi naquela clareira.
– Há mais camadas nela e em Alec do que você imagina. Eles me acolheram dentro dessa loucura em que fui jogada.
– Entendo o que quer dizer! Criar raízes é sempre bom, mesmo que sejam eternas. – ele me olhou sugestivo.
– Você diz isso porque escolheu estar com Alice. – revirei os olhos e não consegui impedir que o rosto de Jacob surgisse em minha cabeça – Eu mal sei o que está acontecendo. Chego em um dia, um lobo que só apareceu pra mim em visões assume a forma humana e diz que somos almas gêmeas. – suspirei – Vamos concordar que até mesmo pra uma vampira isso é loucura demais.
– E-espera, você disse visões? – Jasper estava desconfiado, e eu percebi que tinha falado mais do que devia – Que dons você possui, ?
– Quer mesmo saber? Porque, no momento em que eu abrir a boca, você ganha um alvo nas costas.
– Acho que ganhei um assim que fui transformado!
– Talvez você tenha razão. – dei de ombros – Mas sabe que se algo do que eu disser for contado para outras pessoas, até mesmo Edward, eu não vou ter pena de desmembrar você da forma mais dolorosa possível, né?
– Eu não imaginaria que fosse de outra forma, ! – ele me olhou, e eu sabia que podia confiar nele para além de seus poderes. Eu podia sentir que Jasper não estava tentando me deixar mais tranquila ou mexendo em alguma outra emoção.
Isso me fez confiar nele. Contei desde a transformação até o momento em que cheguei aos Volturi. Disse sobre Aro não conseguir ler minha mente e sobre ter absorvido os dons de todos os vampiros que tinham passado pelo meu caminho, até mesmo os dele. Falei sobre como Eleazar tinha descoberto tão pouco sobre as Litúrias, as tais sugadoras de sangue com poderes paranormais, até o momento e que suas pesquisas não avançaram no tempo em que fiquei junto aos Denali.
Comentei sobre as visões que tive com Jacob em sua forma de lobo e sobre a última que eu tivera com Allan. Dividi, como se fôssemos amigos de longa data, o medo que eu tinha de trazer algum problema aos Cullen e, principalmente, a Edward, Renesmee e, por que não, Jacob.
– Acho que você pode começar falando com Jacob. – ele sugeriu – O garoto parece ser a parte menos confusa disso tudo.
– Menos confusa? Você não percebeu a parte que somos inimigos naturais e não faz o menor sentido uma vampira e um lobisomem juntos?
– Você dois não parecem ser comuns a ponto dessas regras valerem. – o homem deu de ombros – Não perde nada por tentar, se quiser a minha opinião.
– E o que acha vai acontecer? Que vamos ficar juntos pro resto da eternidade e que iremos nos apaixonar perdidamente um pelo outro? – ri sem humor, e Jasper apenas sorriu condescendente, o que me irritou.
– Eu não acho nada, . Mas você vai ter que conversar com ele em algum momento. E talvez esse imprinting tenha acontecido por algum motivo, nunca se sabe.
– O futuro nunca é certo e ele depende das decisões externas. Alice me ensinou isso. – corrigi, e ele soltou uma risadinha baixa.
– Tem razão. Mas eu não estava falando sobre o futuro, e sim sobre o passado. Você ser justamente o imprinting de Jacob pode significar muita coisa, não acha? – Jasper olhou demoradamente nos meus olhos, e eu sabia que ele estava procurando por um sinal de hesitação – Não está curiosa pra saber o motivo? – e ele conseguiu encontrar.


Capítulo 12

– Jacob, se importa se conversarmos? – me aproximei alguns dias depois do lobo, que seguia fazendo a guarda dos Cullen. Pelo que tinha entendido, Sam e sua alcateia ainda tinham receios quanto ao nascimento de Renesmee, e isso causara a ruptura entre os grupos.
Ainda em sua forma animal, Jacob assentiu e esperou que eu falasse mais alguma coisa. Ele não parecia querer voltar à sua forma humana, então comecei a caminhar lentamente, sendo acompanhada por ele.
– Talvez a situação entre nós possa ser resolvida de uma forma satisfatória pros dois. – parei frente ao lobo, que era ainda alguns bons centímetros mais alto que eu – Há alguma forma de cancelar esse imprinting? – questionei e vi quando ele revirou os olhos para mim de forma impaciente – Já vi que não! – suspirei, e ele fez o mesmo, se colocando sentado nas patas traseiras – Eu acho que quero entender mais sobre o que isso significa. – seus olhos se atentaram ainda mais aos meus movimentos – Sobre o imprinting, quero dizer.
Não precisei dizer mais nada, e o animal me deu as costas, indo para trás das árvores. Alguns minutos se passaram, e Jacob retornou em sua forma humana, usando nada além de uma bermuda jeans surrada, que eu já tinha visto diversas vezes.
– Sobre o que quer saber? – ele perguntou calmamente enquanto andava para o mesmo lugar que ocupava antes. Estávamos a bons dois metros de distância, mas mantínhamos o tom baixo.
– Você pareceu meio contrariado por ter sofrido um imprinting com uma vampira. Por quê?
– Uma das ideias do imprinting é que os parceiros ajudam o lobo a ter uma prole saudável de novos lobos. – ele riu sem humor – Entende o impasse?
– Ter um imprinting com uma morta-viva que não é capaz de gerar os seus super bebês é a certeza de que loteria do destino genético riu na sua cara. – não consegui conter uma risada – Parece que você tem bons motivos pra detestar isso também.
– E por qual motivo você detesta isso tudo? – ele estava curioso – Você está aqui há poucas semanas, e essa é apenas a segunda conversa que temos.
– Eu não fugi de casa e fui transformada em vampira pra me tornar apenas o prêmio de alguém, Jacob. – disse, certeira, olhando diretamente para os seus olhos. Por mais que quisesse sentir raiva, não conseguia – Eu gosto de ter opções, sabe. Desde que fui transformada, muitas das decisões que tomei foram por pura sobrevivência, e não por vontade própria.
– Ouvi que você era da guarda dos vampirões encapuzados quando lutamos com aqueles recém-criados há alguns meses.
– Sim, me juntar aos Volturi foi uma das coisas que tive que fazer. Não vou dizer que me arrependo, mas teria procurado outros caminhos. – ponderei, e ele pareceu compreender.
– Nós não fazemos muito isso, mas eu gostaria de lhe fazer um convite. – Jacob disse depois de uns minutos em silêncio. Ele já tinha se sentado no chão e apenas me observava.
– Não está me chamando pra nenhum tipo de encontro, né? – sugeri, tentando deixar o clima mais leve, mas o homem engasgou com a própria saliva e começou a tossir enquanto corava um pouco – Era só uma brincadeira, Jacob. – reforcei quando ele pareceu ter se acalmado, mas não pude deixar de sorrir com isso.
– Não é um encontro, . – ele disse com a voz fraca, evitando olhar diretamente para os meus olhos – Gostaria que me acompanhasse a uma fogueira em La Push, apenas isso.
– Isso me soa como um encontro… – observei, e a pele bronzeada dele ficou ainda mais vermelha. Eu podia ouvir seu coração acelerar e seu sangue correr mais depressa.
– Meu pai e os outros anciãos da tribo apenas gostariam que você ouvisse algumas de nossas histórias. – ele deu de ombros, respirando fundo – Talvez você as ache interessantes. Foi o que me disseram.
– Me parece algo muito sagrado pra vocês. E, considerando toda a tensão entre vampiros e lobos, tem certeza de que eu serei bem recebida por todos?
– Da última vez que chequei, você não era uma vampira normal – ele disse, irônico, e arqueou uma sobrancelha – Pelo menos, não de acordo com os meus genes.
– Claro, claro. Eu sou a sua alma gêmea, né? – disse, fazendo piada, e um sorriso ameaçou nascer em seus lábios.
– Algo parecido a isso. – ele piscou, e eu senti meus dedos formigando como se eu tivesse acabado de me alimentar – Posso dizer que você vai?
– Quando vai ser?
– Hoje ao anoitecer. As cores da fogueira ficam mais bonitas de noite. – Jacob deu de ombros.
– Quantos humanos vão estar presentes? – perguntei, sem conseguir ignorar a pontada de dor em minha garganta. Eu não matava há meses, mas o sangue humano ainda me fazia falta.
– O bastante pra que você cace antes de irmos. – ele assentiu, entendendo onde eu queria chegar, e se levantou, saindo da minha frente – Te encontro às 17h na casa dos Cullen? – só consegui sussurrar um sim antes que ele adentrasse a floresta sem dizer mais nada. Eu, então, fui correndo para o lado oposto, seguindo o cheiro que a brisa me trazia.

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, por onde você andou? – Alice apareceu na minha frente no momento em que pisei no gramado dos Cullen e começou a me puxar pela mão para dentro da casa – Bem, eu sei que você estava caçando, mas podia ter feito isso mais rápido. – ela resmungou enquanto me levava para seu quarto. Nós passamos por Emmett e Jasper, que apenas riram da situação. Rosalie só revirou os olhos. Não tínhamos a melhor das relações.
– O que você pensa que está fazendo, Alice? – perguntei quando ela finalmente me soltou e entrou em seu closet, que mais parecia um quarto. A vampira jogava algumas peças em minha direção, e eu me movia de um lado para o outro, desviando delas.
– Seth me disse que você aceitou sair com Jacob, então precisa de uma roupa maravilhosa, é claro! – ela comentou, colocando a cabeça pra fora do armário – Não achou que eu fosse deixar você sair com as suas roupas, né? Sei que tem coisas muito bonitas, e ainda bem, mas nada tão especial assim!
– Espera, espera! Eu não aceitei sair com Jacob! – sentei em sua cama e continuei vendo a mulher ir de um lado para outro do quarto – Ele apenas me chamou para uma fogueira em La Push para ouvir umas histórias, não é um encontro.
, querida. – Alice finalmente parou e veio se sentar ao meu lado – Nós temos um tratado bem rigoroso com os Quileutes no que diz respeito a território. E você é como uma Cullen honorária – ela sorriu para mim -, então o tratado também vale. Bem, eu sei que você é o imprinting de Jacob e que essas coisas acabam por confundir as regras, mas eu nunca soube de um vampiro que fosse convidado para as terras deles dessa forma despreocupada. Muito menos para a fogueira dos lobos – ela me dedicou uma piscadela esperta e foi rapidamente até o cômodo ao lado, trazendo um jeans e um moletom preto, junto a uma bota de cano curto com um salto simples – Sei que Esme não vai se importar se você usar isso para se misturar.
– Você consegue ver o que vai acontecer? – perguntei, temerosa, enquanto segurava as roupas com cuidado e me levantava para tomar um banho. Eu não precisava, mas era bom limpar a terra e o sangue da caçada.
– Por que achou que eu conseguiria? – ela devolveu a pergunta, e eu bufei, derrotada.
Minhas visões não eram exatamente como as de Alice, já que ela podia checar os futuros possíveis quando quisesse – mesmo que eles mudassem de acordo com as decisões das pessoas -, eu não. Elas eram o único dom que eu não conseguia desligar ou controlar. Me encontravam aleatoriamente.
– Sabe que eu não consigo ver nada com relação aos lobos, e você vai pra um antro deles. – Alice riu e me olhou cúmplice – Mas eu posso te dizer apenas para deixar as coisas acontecerem e manter a mente aberta. Você nunca sabe o que pode descobrir.
– Andou conversando com o Jasper sobre isso?
– Não precisamos conversar para concordar com certas coisas, . – ela apertou carinhosa meu ombro e me empurrou delicadamente para fora do quarto – Agora anda, vai se arrumar, que eu ainda quero dar um toque especial no seu cabelo.

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Eu estava devidamente vestida e penteada sentada na escada dos Cullen, esperando por Jacob. Alice tinha me convencido a fazer um rabo de cavalo para completar o look que ela tinha montado, e eu apenas deixei que seguisse seu planejamento. Eu me sentia uma boneca em suas mãos, e isso fazia com que lembrasse de minha mãe. Era um bom sentimento.
Edward e Isabella, que tinha Renesmee nos braços, vinham correndo para a casa como uma família feliz, e isso me tranquilizou por um momento. Gostava de ver meu irmão sem tanta tensão nos ombros. Quando eles me viram, diminuíram o passo e se aproximaram. Renesmee, que agora parecia uma criança de uns três ou quatro anos, estendia a mãozinha para mim, e eu só consegui sorrir, olhando para os dois e pedindo permissão para chegar perto.
Meu irmão logo assentiu para a esposa, e Isabella passou a filha para os meus braços, nos quais a garotinha se aconchegou. Renesmee tocou meu rosto e me perguntou se eu tinha visto Seth durante o dia, mas eu neguei com a cabeça. Sabia que ela e o lobo eram bons amigos, já os tinha visto brincando pelo terreno.
, eu posso falar com você? – Isabella perguntou, hesitante, e, quando eu assenti, deixando um beijo na testa de Nessie, Edward logo pegou a filha e entrou com ela para a casa. A privacidade era uma mera formalidade, sabíamos disso, mas nos afastamos um pouco da propriedade de qualquer maneira – Eu não sei bem por onde começar.
– Só diga o que quer dizer, Isabella, e estaremos bem.
– Bella – ela corrigiu – Bem, , eu fiquei sabendo que algumas coisas aconteceram enquanto eu estava apagada – ela suspirou e parecia desconfortável.
– E que eu sou o imprinting de Jacob. – completei por ela – É, fiquei sabendo disso. Mas sobre o que quer falar?
– É sobre isso. Olha, eu não quero parecer intrometida, mas Jake sempre foi meu amigo, e eu sinto que tenho que pedir pra que você não o magoe.
– Como é?
– Eu sei que se ele pudesse escolher, Jake não teria tido um imprinting com uma vampira, mas, já que você estará na vida dele, pode ser uma boa amiga ou algo assim e deixar que ele encontre alguém mais parecido a ele pra amar.
– Espera, espera! – interrompi antes que ela continuasse falando – Você está querendo dizer que eu não sirvo pra Jacob e que não devo me meter enquanto ele procura uma felicidade digna com alguém mais vivo? – ri, incrédula, e Bella pareceu ainda mais hesitante.
– Não foi o que eu quis dizer, . Por favor, não me entenda mal. Eu apenas me preocupo com meu amigo, só isso.
– Deveria ter se preocupado com ele quando o mantinha perto mesmo sabendo que amava outro homem. Ou em todas as vezes em que o metia na bagunça que é, ou era, a sua vida amorosa, Isabella.
– Você não sabe do que está falando, ! As pessoas não sabem como tudo aconteceu entre nós, e, de fora, pode realmente parecer que eu sou uma vilã, mas não é bem assim. Não fale de algo que não viveu! – ela estava começando a perder a tranquilidade. Era uma recém-criada, ainda que tivesse um ótimo autocontrole.
“Eu sei bem do que estou falando”, deixei os dons de Edward fluírem por mim e respondi em sua mente.
– C-como você está fazendo isso? – gaguejou e se afastou alguns passos de mim, como se isso fosse adiantar de alguma coisa.
“Você deveria parar de se meter no que diz respeito a outras pessoas e guardar o seu ciuminho ridículo pra si mesma”, comentei em sua cabeça e fui me aproximando. A incredulidade dela era palpável e, devo admitir, hilária. “Meus assuntos com Jacob serão resolvidos com ele, fui clara?”, olhei bem para seus olhos e vi que ela apenas assentiu, ainda assustada.
– Ótimo! Fico feliz que pudemos conversar – coloquei um sorriso no rosto e voltei para perto da casa, deixando Isabella para trás. Não tive que esperar por muito tempo, porque logo Jacob chegava em sua moto e parava perto de mim. Eu teria questionado, já que podíamos correr muito mais sem ela, mas sabia que Isabella nos observava.
Então, só para provocar um pouco mais, subi na garupa e fiz questão de me abraçar ao homem, mesmo sem precisar. Sussurrei um “acelera” para ele, que se arrepiou e atendeu ao meu pedido. Não me controlei e, antes que saíssemos do seu campo de visão, mandei uma piscadela para a mulher, que seguia parada como uma estátua. Jane ficaria extremamente orgulhosa de mim.
Nosso caminho até La Push não foi demorado, mas não trocamos nenhuma palavra sobre o que tinha acontecido. Eu sabia que queria provocar Isabella pela audácia, mas era estranhamente confortável estar ao redor de Jacob.
– O que foi isso? – ele disse, estacionando a moto em uma garagem. Já tínhamos entrado na Reserva Quileute.
– Do que está falando? – me fiz de desentendida e saí da garupa para começar a observar com mais atenção o lugar. Estava uma bagunça, uma picape vermelha ocupava boa parte do espaço – que era quase inexistente -, junto a um VW Rabbit preto e outra motocicleta.
– Do abraço e da cara de Bella quando nos viu.
– Achei que estivesse gostando. – olhei diretamente para os olhos dele e vi que hesitava sobre continuar a falar – Seus batimentos cardíacos acelerados me disseram que você estava aproveitando, assim como a pele arrepiada – me aproximei dele bem rápido, parando a poucos centímetros. Podia sentir o calor emanando de seu corpo e o quanto ele estava nervoso – Ou te interessa mais o que Bella pensa? – ouvi quando Jacob engoliu em seco, mas sem tirar os olhos de mim.
Quando percebi que ele ia se movimentar e diminuir ainda mais a distância entre nós, apenas sorri e me afastei rápido. Em menos de um segundo, já estava na porta da garagem e olhei novamente para ele.
– Você não vem? – questionei, saindo do lugar e começando a caminhar pela reserva numa velocidade humana. Jacob não demorou muito para me alcançar e tocou de leve a base das minhas costas, me direcionando para o lugar certo. Um suspiro saiu pelos meus lábios e um sorriso brincou no canto dos dele.
– Finalmente vocês chegaram! – disse Seth quando nos aproximamos do pequeno círculo improvisado que os Quileutes faziam. Ainda que o grupo não tivesse mais de 15 pessoas, os garotos lobos eram todos tão grandes que o espaço emanava calor, e eu tive que me controlar para não torcer o nariz com todo aquele cheiro. Foi de ótima ajuda que Jacob estivesse por perto para que eu pudesse me concentrar em seus batimentos cardíacos para não surtar.
– Essa é uma situação incomum – um homem, que muito parecia com Jacob, nos disse enquanto se aproximava com sua cadeira de rodas – Eu sei que é muito pra pedir, pra todos nós, mas, de todo modo, fico satisfeito que tenha dito sim ao convite de se juntar à nossa fogueira.
– Na verdade, eu não tenho a menor ideia do motivo de ter vindo ou sido chamada, senhor Black. Poderia me explicar?
– Você pode me chamar de Billy, . – o rosto dele se contorceu numa espécie de sorriso desconfortável, mas eu apreciei o gesto – Acho que agora o destino nos quer unidos, certo?
– Eu comentei que você disse algo sobre ela se interessar por algumas de nossas histórias quileutes, pai. Porque, na verdade, nenhum de nós dois tem uma mínima pista de como ou por que ela é o meu imprinting. – Jacob suspirou e olhou para mim. Ele parecia tão perdido quanto eu. Seus batimentos se aceleraram levemente.
– Entendo! Então, podemos tomar nossos lugares? – Billy nos chamou, encerrando o assunto, e voltou com sua cadeira de rodas para perto de uma mulher mais velha. Como pude perceber, havia três líderes naquele momento. O pai de Jacob, a mulher mais velha e outro homem mais idoso.
Varrendo o lugar com os olhos, encontrei Leah sentada um pouco mais distante, mas ela não era a única garota na fogueira, como eu imaginei. Havia uma outra, que, pelo cheiro, parecia completamente humana, com uma enorme cicatriz cobrindo boa parte da lateral de seu rosto. Ela estava sentada perto de um enorme homem, que se movia protetoramente ao seu redor. Sam. Quando percebeu que eu estava olhando, meneou a cabeça em um cumprimento mudo, e, no mesmo instante, eu senti a mão de Jacob tocando meu braço. Ele me levava para sentar um pouco mais afastada dos outros garotos, já que nenhum deles parecia realmente animado com a minha presença ali. Não era como se eu pudesse culpá-los.
– Sabemos que ter conosco essa noite é algo que jamais foi pensado, considerando que ela é uma vampira e que, agora, temos duas alcateias, mas Sam e Jacob acordaram a paz para que esse encontro acontecesse. – a mulher mais velha falou em uma voz tranquila, mas firme, e Jacob sussurrou o nome dela próximo ao meu ouvido. Sue Clearwater – Além do mais, todos vocês sabem que ela é o imprinting de Jacob, e, em nossas regras, nenhum de vocês pode pensar em matá-la. Isso só causaria dor a um irmão e a toda a nossa comunidade. – reforçou.
– Até mesmo se ela matar um humano ou um dos nossos irmãos? – Leah perguntou entredentes, com raiva, e olhou diretamente para mim, como se pudesse arrancar minha cabeça. Eu não duvidava que ela poderia – Vocês ainda vão defender essa sanguessuga se ela fizer uma dessas coisas? – eu vi que Sue ia responder, mas tomei a dianteira.
– Se algum dia você souber ou me ver fazendo qualquer uma dessas duas coisas, você pode tentar me matar com as suas próprias mãos, Leah. – sustentei seu olhar e ouvi Jacob ofegar ao meu lado, mas não me contive – Você e eu. Sem Jacob. Sem regras. O que me diz?
– Eu nunca gostei tanto de você como agora. – ela concordou, e ouvimos Billy pigarrear, chamando a atenção de volta para ele.
– Agora que vocês já fizeram os seus arranjos ou seja lá o que tenha sido isso, eu gostaria de lhes contar uma história que aconteceu há muitos e muitos anos – as chamas pareciam hipnotizadas pela sua voz solene e crepitavam como se dançassem – Com alguns lobos que vieram antes de nós.
“Como nossos antepassados nos contaram, alguns de nós viveram na maior floresta do mundo: a floresta amazônica. E eu sei que agora estamos bem longe do Brasil, mas eles vieram para cá depois de uma disputa que dizimou grande parte da nossa tribo e sua história. Nossos antepassados estavam buscando por um lugar para crescer e multiplicar. Os Litúrias estavam procurando por almas para consumir.”


Capítulo 13

“Acredito que muitos de vocês não estão familiarizados com essa história em particular, já que há tempos não a contamos. As gerações mais novas costumam ter conhecimento de como nos fixamos neste porto e como conquistamos as terras que hoje são nossas. De fato, Kaheleha foi o primeiro grande Chefe Espírito de que temos conhecimento, mas não foi o único a descobrir esse poder. Os outros apenas ainda não se denominavam Quileutes.
Naquele tempo, nossos antepassados já viviam nas matas, mas a civilidade ainda não era tão conhecida por todos eles. Existiam, claro, regras severas, que garantiam a sobrevivência e segurança, mas não eram tão abertos ao diálogo e à compreensão. Naut-Lau foi, assim como Kaheleha, agraciado com o espírito dos lobos e o usava para defender sua tribo, junto à sua pequena, porém forte, gama de guerreiros. Quatro bravos homens lutando para garantir a vida de toda uma população.
O foco da defesa de Naut-Lau era o território que vivia sob constante ameaça dos Litúrias, ainda que os enfrentamentos diretos entre os dois povos não fossem constantes. O chefe era um homem que prezava os seus instintos quando se tratava de um inimigo e raramente se equivocava, então ele temia o avanço dos Litúrias, que chegavam cada vez mais perto da divisa que demarcava nossas terras.
No entanto, esse temor de Naut-Lau ficou bastante estremecido quando, em uma de suas rondas, ele se pôs a observar os Litúrias e conseguiu contabilizar apenas sete indivíduos, divididos quase igualmente entre mulheres e homens. Neste momento, a certeza de que deveria respeitar o outro povo enfraqueceu. Considerando a si mesmo e seus guerreiros espíritos mais fortes, Naut-Lau se envaideceu e passou a menosprezar a possível força de seus inimigos. Não, talvez inimigos seja muito. Naut-Lau, agora, os considerava simples desafetos.
Mas os Litúrias não eram um povo que deveria ser subestimado. Eles, assim como nossos antepassados, também tiravam sua força de algum lugar e não tinham garantido um vasto território sem motivo. Se Naut-Lau e seus guerreiros, assim como muitos de nós hoje em dia, se vangloriavam pela força física de sua transformação, os Litúrias eram conhecidos por sua capacidade de absorção, que lhes conferia sua forma de proteção. O sangue de suas presas, consumido em suas cerimônias mais privadas, era o principal combustível para que eles se defendessem e atacassem, quando necessário.
Eu imagino o que deva estar parecendo para vocês, já que temos os frios como nossos maiores inimigos agora. Porém, a ameaça que provinha dos Litúrias condizia mais com as situações da época. Eles não eram como os vampiros que conhecemos hoje. O sangue que bebiam das carnes comidas não tinha a função de alimentar apenas seus corpos. Ele enchia suas almas e provocava suas habilidades.
Como forma de proteção da tribo, Naut-Lau possuía um acordo não-dito com os Litúrias. Os caminhos entre os dois povos simplesmente não deveriam se cruzar. Não havia paz. Não havia guerra. Se um precisasse do outro, não haveria ajuda, já que não se importavam o suficiente para colaborar. E, bem, na maioria das vezes, isso é o bastante para uma convivência na mesma mata.
Entretanto, em uma noite, Naut-Lau, assim como seus outros guerreiros, sentiram a proximidade de um inimigo diferente e logo se puseram a postos para defender a tribo do que fosse. Seus instintos lhes diziam para correr e matar o desconhecido, mas a frieza com a qual Naut-Lau tentava comandar suas vontades era impressionante. Ele atacaria diante de uma clara ameaça ao seu povo e a ele somente.
Naquela noite, não houve um habitante da tribo, agraciado de magia ou não, que conseguisse dormir. Os gritos vindos da direção do território dos Litúrias eram agonizantes, e o barulho, ensurdecedor. O que quer que fosse que estivesse causando o ataque parecia querer avisar que estava se aproximando do nosso povo. Quando uma fumaça preta invadiu o céu ainda escuro, nossos antepassados souberam que os Litúrias estavam liquidados.
Pelo menos, foi essa a sensação geral por alguns meses, ainda que uma sensação ruim não abandonasse os lobos daquela tribo. Por isso, eles não se atreviam a ultrapassar as fronteiras inexistentes ou ir atrás de investigar o que, de fato, tinha acontecido. Naut-Lau queria preservar seus guerreiros ao máximo.
E ele soube que fizera o certo. Pelo menos parcialmente.
Muitos já dormiam quando o casal de frios começou o ataque ao nosso povo. Diversas vidas foram levadas por aqueles dois vampiros, que sugavam o sangue de mulheres, homens e crianças. Não houve misericórdia ou redenção. Poucos foram os que escaparam pelo rio em canoas. Os quatro guerreiros não conseguiram se salvar, mas lutaram bravamente para conseguir mais tempo ao restante da tribo.
Os que sobreviveram à fúria do mar durante dias atracaram em nosso porto e aqui ficaram. Uma dessas foi Amana, irmã mais nova de Naut-Lau, que carregava em seu sangue uma nova geração de guerreiros-espíritos. Amana foi a esposa de Kaheleha, e a mistura dos seus genes é uma das responsáveis pela nossa existência atualmente.
Eu sei que buscamos sempre nos ater aos detalhes que nos fazem bons guardiões da humanidade, mas é imprescindível que saibam que, assim como aqueles que não possuem algum dom, nós lobos também somos, e muito, passíveis de erros e falhas de julgamentos. Aquelas falhas de Naut-Lau custaram a vida de uma população inteira, mas também colaboraram para a geração dos lobos que temos hoje.”
Billy concluiu, e eu me preparei para respirar fundo, notando apenas naquele momento que tinha prendido a respiração durante toda a história. Claro que o foco da história seriam os lobos, mas a citação dos Litúrias me dava certa esperança de que eu estava cada vez mais próxima de descobrir a fonte dos meus dons. Agora, já sabia a origem.
Jacob me olhava de rabo de olho, mas eu me mantive impassível. Seu pai já iniciava uma nova história sobre os Quileutes, mas não consegui prestar total atenção. Seria Allan, meu criador, descendente dos Litúrias ou um dos originais? Por que eu, sendo tão semelhante a esse povo, tivera meu caminho cruzado justamente com um Quileute? Não era como se apenas nos conhecêssemos. Se eu tinha entendido bem a lógica de um imprinting, seus genes me escolheram, assim como seu espírito guerreiro. Mas por que uma vampira?
Os anciãos contaram mais algumas lendas, e logo a noite tinha acabado, ainda que eu sentisse que tudo só tinha começado. Minha cabeça fervilhava com tantas perguntas sem resposta que eu sentia uma leve pontada em minha têmpora, como se o esgotamento mental fosse demais para meu corpo lidar. Jacob e eu nos mantivemos em silêncio enquanto as outras pessoas da fogueira se despediam para ir embora. Ao olhar para seu pai, notei o motivo da espera: Billy dirigia sua cadeira para se aproximar de nós, olhando apenas em minha direção. Ele me estudava com os olhos negros, e eu imaginei se ele poderia ler a minha mente. Se pudesse, eu não duvidaria.
— O que achou de nossas histórias, ? — o senhor me perguntou com a voz forte, completamente diferente da suavidade que eu ouvira pela última hora.
— O senhor já sabia? — resolvi arriscar, e Billy deu de ombros, mas assentiu. Jacob olhava para nós dois sem entender muito bem o que acontecia. Para ele, aquela história também era novidade.
— Quando meu filho me disse ter sofrido imprinting com uma vampira, eu imaginei o que pudesse ter acontecido.
— Alguém pode me dizer sobre o que estão falando? — Jacob questionou, aborrecido.
— Seu pai não contou essa história à toa, Jacob. — suspirei e encarei o Black mais novo profundamente — Eu sou uma descendente dos Litúrias.
— O quê? Mas como? Quer dizer que você esteve na destruição de nossa tribo? Que Edward também está envolvido nisso?
— Eu quero dizer que sou descendente, que o sangue dos Litúrias – ou veneno, se preferir – corre nas minhas veias, e isso tem a ver com quem me transformou, não com meu nascimento. Edward não tem nada a ver com isso, Jacob. — revirei os olhou e resolvi focar em Billy, que acompanhava a conversa sem nada dizer — O senhor disse ter uma ideia do que aconteceu. — instiguei.
— Bem, nossos caminhos cruzaram com os Litúrias uma vez, mas nada me surpreende que tenham se entrelaçado novamente e através de vocês. Sendo neto de um alfa que lidou com os frios de forma tão estratégica, soa até compreensível que seus genes solicitem a permanência de sua liderança em nossa tribo, meu filho.
— Você ‘tá dizendo que eu tive um imprinting com uma vampira para me manter como alfa da tribo por toda a eternidade? — Jacob elaborou rápido e parecia descrente. Olhava para o pai como se nunca o tivesse visto. Eu não o culpava. Era muito para digerir.
— Faz bastante sentido, não? — Billy permaneceu calmo e nos encarou juntos — Se a ideia de um imprinting é encontrar o parceiro ideal para as nossas necessidades humanas e lupinas, é perfeita para que continue se transformando e comandando nosso povo.
— Ninguém pensa em considerar que eu posso ter escolhas nisso? Que posso querer parar de me transformar em algum momento e só ser um maldito cara normal? — ele se descontrolou e levantou tempestivamente, saindo de perto de onde estávamos e ignorando os gritos de Seth para que voltasse. Billy apenas suspirou e me olhou quando eu fiz menção de me levantar.
, eu sei que ainda existem muitos questionamentos sem resposta, mas temo não ser capaz de lhe ajudar. — ele se desculpou, e eu assenti, seguindo o caminho que Jacob tinha tomado momentos antes. Billy me chamou uma vez mais — Cuide dele. — o homem disse sem som, movendo apenas os lábios, e eu entendi que, seja lá o que fosse acontecer, Jacob e eu estávamos juntos a partir de agora.
Momentos depois, quando encontrei Jacob, ele já me esperava em sua moto em silêncio. O caminho até a residência dos Cullen foi quieto. Eu ouvia seu coração bater ritmado, e isso acalmava o ardor em minha garganta, que tinha sido ignorado durante toda a noite.
— Eu não espero que você se mantenha como lobo por toda a eternidade, Jacob. — achei que seria bom esclarecer quando ele estacionou na entrada do terreno — Você sempre terá escolhas no que depender de mim.
— Quisera eu que meus malditos genes pensassem como você. — ele riu sem humor e deixou os ombros caírem. Parecia ligeiramente mais velho naquele momento.
— Essa situação não é ideal para nenhum dos dois, mas podemos tentar ser amigos, não? — sugeri, e ele me encarou — Sei que parece piada vindo de mim, mas me compadeci de tudo isso.
— Não preciso da sua pena. — ele retrucou, irritado, e eu sorri. Lobo arredio.
— E nem vai ter. Eu apenas entendo o que é sentir que seu destino é algo muito além das suas vontades. — dei de ombros, e Jacob assentiu, ligando a moto novamente.
— Espero que não se arrependa de me oferecer sua amizade, . — disse antes de arrancar e não me deixou responder. Ser o imprinting de alguém é aceitar que não terá para onde fugir, mas eu estava começando a achar interessante ter Jacob por perto. Ele era uma incógnita divertida em todos os meus anos de vampira.

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— Você pode sempre morder Seth, Ness. — respondi à pergunta da criança, que estava em meu colo e sorria para o garoto que lhe fazia caretas. Renesmee tinha crescido anormalmente durante o tempo em que estava com os Cullen e preocupava a todos.
— Sua influência na garota é terrível, . — Edward se aproximou de nós, e Renesmee se agitou em meus braços, quase pulando para o pai, que lhe deu um abraço profundo antes de entregá-la a Seth para que continuasse se divertindo — Como estão as coisas?
— Você nunca foi muito de papo furado, Ed. Pergunte o que quer saber. — ele suspirou e segurou minha mão.
— Eles não irão atacá-la, certo? — ele olhava apreensivo para a filha, que estava nas costas do lobo transformado.
— Os lobos sabem que se ousarem tocar em um fio de cabelo dela, eu vou estar no meio da história, Edward, e sou meio intocada pelas regras deles. Além disso, Jacob não deixaria isso acontecer. — apertei a mão dele e o vi assentir — Por um momento, achei que Seth tinha tido um imprinting com ela.
— Eu também. Por um momento, até desejei que ele tivesse, sabe. Seria algo a menos para nos preocupar, mas eles só têm uma excelente conexão.
— Provavelmente é melhor assim. Ela já terá muitas coisas com as quais lidar. Um imprinting não seria bom, de toda forma.
— Experiência própria? — Edward segurava o riso, e eu lhe empurrei com o ombro — É só que nunca imaginei que teria que aguentar Jacob como cunhado.
— Nunca disse que ele seria seu cunhado, Edward. Você está entendendo a nossa relação de um modo completamente diferente do que ela realmente é.
— Relação, uh? Já estão nesse nível? — ele brincou, e eu revirei os olhos, me levantando para me afastar. Edward agora gargalhava às minhas custas, e, antes que eu estrangulasse meu irmão, achei melhor dar um tempo da sua cara.
Inalei o ar com cuidado à medida que me distanciava da propriedade, e o vento do nordeste me trouxe o cheiro de Jacob. Não pensei duas vezes antes de seguir em sua direção, seu aroma me chamando mais do que qualquer outro.
Ele estava transformado e já tinha notado a minha presença quando me aproximei. Seus grandes olhos estudavam os meus movimentos, e ele caminhava em minha direção. Quando estávamos perto o bastante, ele se deitou em suas patas, fechando os olhos quando meus dedos se embrenharam em seus pelos. Eu não estava pensando, apenas agindo. Seu cheiro amadeirado e seu coração batendo acelerados me faziam mais viva.
— Eu ainda não consigo entender bem essa história de imprinting, Jacob. Mas fico aliviada por estarmos na mesma página quanto a ele. — lhe dediquei um sorriso, e o lobo assentiu com sua grande cabeça.
Um quarto de segundo depois, sem avisar, eu pulei em suas costas, me firmando em seus ombros, e, imediatamente, ele se levantou, olhando em volta.
— O que acha de me levar para um passeio, cavalinho? — perguntei, rindo. A resposta foi um latido, que mais pareceu uma risada, e, em poucos segundos, já corríamos pelo meio da mata. Se seríamos amigos, tínhamos que começar de algum lugar.


Continua...



Nota da autora: Alguém imaginava que essa era a relação dos Litúrias com os Quileutes? Agora a fonte dos dons da nossa pp ficaram mais claros, né? E essa amizade nascendo? Não tenho nem roupa pra esse tipo de evento, gente ♥ Deixem nos comentários as suas opiniões e nos vemos na próxima atualização! Beijos :)





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