Última atualização: 22/01/2019

Prólogo

Chicago, 1918

Acordei com um pressentimento ruim. O dia estava chuvoso, as folhas se debatiam com a ventania e, olhar pela janela parecia infinitamente mais convidativo do que o vestido milimetricamente dobrado na cadeira de minha penteadeira. Tudo parecia conspirar para que fosse um dia ruim. Talvez realmente fosse. Mas, eu deveria estar feliz, apesar de tudo: era meu aniversário, no fim das contas. Na verdade, meu e de Edward. De acordo com nossos pais, a comemoração seria incrível ou, como dizia minha mãe, de “fazer inveja na vizinhança”.
Mas a situação não estava tão propícia para uma festa. Estávamos em guerra, milhares de garotos foram mandados para os campos de batalha sem a menor perspectiva de retorno. Eu não achava que deveria comemorar. Três de meus melhores amigos tinham se alistado contra suas vontades e as cartas trocadas se tornavam cada vez mais escassas. Das duas uma: ou a guerra estava acabando ou eles estavam mortos. Eu preferia pensar na primeira opção.
Para Elizabeth Masen, por outro lado, nada disso deveria ser levado em consideração. Pelo contrário, minha mãe acreditava que deveríamos celebrar que estávamos vivos e juntos. 17 anos era uma idade importante, ela dizia sempre que eu questionava sobre quaisquer comemorações. De fato, era. Eu já deveria estar contraindo matrimônio com algum cavalheiro que meus pais aprovassem. Meu irmão deveria estar se preparando para seguir os passos de papai no banco, estudando finanças e leis. Mas, nada disso nos importava. Eu não queria perder meus dias cuidando de um marido que, certamente não amaria. Edward não tinha pretensões de seguir a carreira de Edward Masen Senior, um militar reformado e contador do Banco Central de Chicago. Queríamos viver de acordo com nossos termos, mas em 1918 isso não era possível. “Ou nos adequávamos ou nos adequávamos”, dizia Carole, uma amiga de minha mãe.
A porta do meu quarto se abriu em um rompante, fazendo um pequeno estrondo que tirou minha atenção das gotas que chicoteavam a janela.
- Evolet Masen, por que ainda não está pronta? – minha mãe, com as mãos na cintura me olhava com a expressão fechada e acusadora. Eu ainda estava em roupas de dormir e o relógio ao lado de minha cama estava apontando meio dia – Precisa me ajudar, querida! Tenho que arrumar o resto da casa e depois te arrumar. Já escolheu seu penteado? Precisa estar perfeita para conseguir um marido, !
O discurso era o mesmo de ontem e dos dias anteriores. “Conseguir um marido, conseguir um marido”. Era quase um mantra que me enlouquecia, porque eu já estava cansada de tentar argumentar com meus pais contra isso. Eu queria conhecer o mundo, estudar, não ficar presa em uma casa servindo um homem que teria o título de meu marido. Às vezes, invejava e muito meu irmão, ele poderia fazer o que eu tanto gostaria. Mesmo que ainda tivesse que se reportar às regras de nosso pai.
- Mamãe, sabe que eu não quero me casar. – um suspiro saiu de meus lábios e senti os ombros ainda mais pesados – Estou fazendo isso por você e papai. Sabe disso.
Ela tinha se sentado na cama e dado algumas batidinhas leves no colchão, me convidando para sentar ao seu lado, o que fiz resignada. Ela passou as mãos por meus cabelos, num carinho gostoso e, eu sabia, um pedido de desculpas silencioso.
- Minha , eu sei de tudo isso, mas não posso ir contra seu pai. – ela disse mais baixo - Então, por favor, faça o possível para aceitar essa situação. É complicado no começo, mas você pode se apaixonar pelo seu esposo, assim como amo seu pai agora. – sua voz estava mais animada - Tudo vai dar certo, meu amor.
Elizabeth Masen deu um beijo em minha testa e se levantou. Foi até a porta e olhou uma última vez em minha direção antes de sair do quarto. Eu sabia que deveria me preparar para o momento da comemoração. O vestido dobrado na cadeira parecia brilhar como mil pedras de diamantes. Meu olhar se encontrou com meu reflexo no espelho e eu sabia que não tinha mais nada a ser feito. Hoje, eu era Evolet Masen. Em alguns meses, eu seria apenas a mulher de alguém.


Capítulo 01

Levantei da cama o mais lentamente possível, pretendia alongar ainda mais o que normalmente faria em pouco tempo. Peguei o vestido e fui ao banheiro, começando a encher a banheira, ouvindo ao longe meu irmão tocando piano. Edward tocava alguma melodia que eu desconhecia a autoria, mas me lembrava de já ter dançado com papai enquanto meu irmão nos encantava. Como das outras vezes, me sentia mais calma. Talvez, se eu pudesse ficar ali para toda a eternidade.
Um suspiro resignado escapou por entre meus lábios e quando a banheira estava devidamente cheia, tirei minhas roupas, prendi o cabelo em um coque e adentrei no banho, esperando ter uns bons vinte minutos de descanso. Comecei a lavar meus braços, torcendo para que assim lavasse minha alma e todos aqueles pensamentos ruins sobre as próximas horas.
Terminei o banho, peguei a toalha, me secando e colocando o vestido com todo o cuidado do mundo. Ele era bonito, no final das contas. Rosa com detalhes em dourado. Minha mãe diria que meus olhos ficariam ressaltados, como eu via me encarando no grande espelho do banheiro.
Ao sair do aposento, fui direto para o quarto, me sentando na penteadeira para arrumar o cabelo. Edward ainda tocava piano, me fazendo lembrar que eu deveria descer o mais rápido possível, antes que minha mãe viesse novamente me chamar. Prendi os cabelos em um alto rabo de cavalo e passei um pouco de pó em minhas bochechas, não tinha ânimo para algo mais elaborado.
Desamassei o vestido com as mãos e sai do quarto, descendo as escadas rapidamente, indo de encontro à música. Quando adentrei na sala, com o som dos meus passos me denunciando, meu irmão parou de tocar, se virou e abriu o sorriso mais lindo do mundo para mim.
– Feliz aniversário, Evie! – disse estendendo a mão para que eu me sentasse ao seu lado, usando o apelido que eu mais odiava, com um sorrisinho de escárnio no canto dos lábios. Já não bastava me chamar de Evolet, ele tinha que diminuir ainda mais o nome? Só ele insistia em me chamar assim. Eu preferia e ele sabia, mas fazia isso para me aborrecer.
– Feliz aniversário para você também, Ed! – lhe mostrei a língua como uma criança pequena e ele revirou os olhos enquanto sorria para mim. Nos sentamos juntos no banco do piano e o abracei de lado, deitando minha cabeça em seu ombro. Meu coração estava apertado e eu sabia que podia desabafar – Maninho, eu não sei o que fazer. Papai continua com a ideia de me oferecer em matrimônio para alguém que eu não conheço. Preciso que me ajude a fazê-lo parar de pensar nisso. – Olhei suplicante para ele, Edward Senior sempre o escutava e torcia para que continuasse assim.
– Evie, sabe que não posso fazer nada. Ele também espera que eu encontre a esposa ideal hoje à noite, mas você sabe que eu preferia ter ido à guerra. Teria feito muito mais por meu país. – meu coração sempre ficava pequenininho quando ele começava com esse assunto. Não queria imaginar o meu irmãozinho, ele era dez minutos mais novo e eu o lembrava sempre que podia desse detalhe, no meio de uma batalha, por isso evitava pensar no assunto.
Lhe abracei e era o máximo que poderia fazer. Ele deixou um beijo em minha testa como um pedido mudo de desculpas. Eu sabia que ele já tinha feito todo o possível por mim. Disse que estava indo para a biblioteca, mas acabei me encaminhando para o jardim. A chuva tinha dado uma trégua e nosso balanço coberto pelo telhado da casa parecia bem convidativo.
Minha mente viajou no tempo enquanto eu me balançava. Edward e eu costumávamos brincar e brigar pelo jardim, com mamãe falando irritada conosco. “Se sujar não é algo que damas e cavalheiros fazem, meninos”, ela dizia. Ela não gostava de levantar a voz, apenas colocava as mãos na cintura e batia o sapato devidamente engraxado em nossa varanda, fazendo o barulho ecoar graças ao contato com a madeira.
Ficar ali sempre deixava tudo melhor, fazia com que eu esquecesse o mundo a minha volta. O silêncio me acolhia e eu podia deixar minha mente viajar, já que o corpo não tinha condições.
Eu não sabia quanto tempo tinha passado, não sabia se já era a hora da tal festa, mas meu estômago já começava a dar sinais de vida. Chame de destino ou coincidência, mas foi neste exato momento em que ouvi a voz de minha mãe me chamando dentro de casa. Era chegada a hora, era hoje que começava o fim de minha vida.
Levantei-me conformada tomando o caminho de casa, com os ombros pesando tanto quanto mil cavalos. Assim que apareci na sala, vi meu pai sentado em sua poltrona preferida, lendo o jornal enquanto tomava um pouco de chá. Sorri com a cena. Mesmo detestando a opinião de papai, Edward Senior ainda era a melhor pessoa que conhecia. Generoso, bondoso, um coração enorme. Meu irmão se parecia muito com ele, os cabelos cor de bronze, o sorriso torto, mas tinha os olhos de minha mãe, verdes, assim como os meus.
Quando notou minha presença, ele abriu os braços como fazia antigamente para me receber. Sentei-me em seu colo enquanto me sentia acolhida por seus braços. Estava segura ali e não tinha a menor vontade de sair daquele casulo.
– Minha princesa, sei que não está satisfeita com o que decidimos para o seu futuro, mas lembre-se que eu e sua mãe só estamos buscando o que acreditamos ser o melhor. – Ele me disse olhando no fundo de meus olhos.
Eu não conseguia ficar chateada com ele, então só o abracei forte e levantei de seu colo sem falar nada, indo em direção a cozinha onde sabia que encontraria a senhora Masen. Mamãe tinha a mania de deixar tudo impecável, mesmo sem ajuda.
Me sentei a mesa e tomei a sopa que me esperava ali. Na primeira colherada o quente líquido aqueceu tudo o que tinha dentro de mim e ela me olhava com um sorriso contido no rosto. Ao terminar, subimos juntas para meu quarto para que ela pudesse me aprontar para a tal festa. A delicadeza era tanta que eu me sentia uma boneca.
Quando ela terminou, eu estava linda com um vestido azul de mangas, que ia dois dedos abaixo dos joelhos, um sapato com salto médio e uma linda trança completa com uma maquiagem impecável. Eu teria adorado se não fossem as circunstâncias atuais. Não queria ser a esposa de alguém.
, querida, seu pai encontrou o marido perfeito para você. Vamos descer que ele já está esperando. – falava enquanto me conduzia para baixo.
Na sala, meu pai e meu irmão já nos esperavam, conversando com o que me parecia ser uma família: dois homens e uma mulher. Não seria uma festa, como tinha sido prometido. Eu já deveria esperar, pensei enquanto dava de ombros.
Eu conhecia os mais velhos. Papai tinha uma fotografia com aquele senhor e a senhora vinha tomar chá com mamãe algumas vezes.
– Querida, fico feliz que tenha se juntado a nós. – papai parou a conversa e veio caminhando para a escada, onde estendeu o braço para minha mãe e para mim. – Estes são George e Joanne Stan e seu filho, Arthur. – cumprimentei o Sr. e a Sra. Stan gentilmente, enquanto sentia o olhar de seu filho sobre mim, podendo ver também meu irmão encarar Arthur com uma fúria contida. Ele era muito protetor.
Estendi minha mão para Arthur que deixou um beijo casto em minha mão, enquanto sorria em minha direção.
– É um prazer conhecê-los. Papai fala muito dos senhores – Completei sorrindo e me colocando de frente para o que parecia ser meu futuro marido.
– O jantar está pronto, queridos. – minha mãe voltava da cozinha, com um belo sorriso no rosto. Dirigimo-nos a mesa e, obviamente, Arthur tinha se oferecido para me acompanhar, sentando-se ao meu lado, com Edward a sua frente, sempre lhe encarando. Os mais velhos conversavam sobre vários tópicos, mas sempre desviando o assunto para nós. Mandando indiretas que me faziam corar e abaixar os olhos envergonhada.
A refeição em si não foi a pior parte, o que mais me preocupou foi a conversa que escutei minutos depois do jantar entre meu pai e George Stan, sobre o que parecia ser a negociata do meu casamento. “Três meses”, eles diziam. Mamãe e a senhora Stan seriam responsáveis por preparar tudo, inclusive minha noite de núpcias. Deveras constrangedor.
– Edward, eu não posso me casar com Arthur. – confidenciei horas depois em meu quarto – Nem o conheço e, por mais bonito que ele seja, eu não sinto nada por ele. – falava andando de um lado para o outro, enquanto ele me olhava sentado na cama – Preciso que me ajude, eu não posso deixar que isso aconteça.
– Evie, fique calma. – ele me segurou pelos ombros, impedindo que eu desse outro passo – Vamos dar um jeito nisso, não vou te deixar casar com aquele homem. Vou falar com papai, com o senhor Stan, com o padre, com o presidente, se for necessário. Mas, iremos resolver! – disse me dando um beijo na testa e saindo do quarto.
Sentei na cama desolada, sabia que não teria jeito. Edward não conseguiria convencer papai a cancelar o casamento, por isso eu precisava fugir. Tinha que ir embora. No entanto, sabia que se falasse algo ao meu irmão, ele diria que eu tinha enlouquecido. Talvez eu realmente estivesse louca, mas precisava tentar.
Mamãe nunca me ajudaria, ela contaria ao papai que me prenderia em casa na primeira oportunidade. Por isso, era perigoso envolver mais alguém. Estava decidido. Eu iria embora.


Capítulo 02

Esperei que todos tivessem estivessem completamente abraçados por Morfeu para arrumar uma pequena mala. Sabia que se ficasse com as minhas roupas não conseguiria ir muito longe, então a única solução seria pegar as de meu irmão.
Fui pé ante pé até seu quarto, agradecendo por ele ter o sono tão pesado. Abri o guarda-roupa e peguei algumas calças e blusas, voltando rapidamente para o meu quarto. Vesti as roupas dele e coloquei minhas botas de equitação, elas seriam muito úteis se precisasse caminhar por muito tempo.
Dobrei tudo e arrumei a mala de mão com as poucas coisas que poderia levar. Juntei todas as joias que podia em uma pequena caixinha e coloquei junto. Sentei-me na penteadeira com um lápis pronta para escrever um pequeno bilhete de despedida ao meu irmão.

Querido Edward,
Quando acordar pela manhã já terei ido embora e, provavelmente não nos veremos por um bom tempo. Sei que deveria ter fé em você, mas sabemos que eu seria obrigada a casar no momento em que o sol raiasse. Espero que entenda meus motivos e que não julgue a minha covardia ou tente me procurar.
Cuide de nossos pais e tente explicar o porquê de eu ter ido, aguardo desde já pelo dia em que todos vocês me perdoarão pela fuga. Diga que os amo e que me parte o coração não ser a filha ou a irmã que vocês tanto merecem. Amo você, Ed.
Com todo amor, sua Evie.

Segurei as lágrimas ao terminar de escrever e juntei as pontas do papel delicadamente, selando ali o que viria adiante. Desci as escadas com a mala, tentando não fazer barulhos com as botas no chão de madeira e deixei a carta presa ao piano. Sabia que Edward encontraria pela manhã, só esperava que me perdoasse. A casa estava mergulhada em um silêncio que me faria falta. Passei rapidamente pelo escritório de papai, pegando a chave no que ele pensava ser um esconderijo. O espaço entre o quinto e o sexto livro de sua estante não era exatamente o lugar mais escondido depois de ter visto ele pegar dinheiro anos atrás. Peguei uma quantia suficiente de dólares e fechei tudo, deixando do jeito que estava.
Saí para a rua, somente iluminada pelo lampião. Eu não tinha rumo, não sabia por onde andar, para onde ir, o que fazer. O relógio tirado do bolso da calça marcava três e quinze da madrugada. Então, resolvi apenas caminhar em direção a estrada. Talvez ela me levasse a Cicero se eu fosse lenta demais, talvez chegasse a River Forest se andasse um pouco mais.
Quando me dei conta, já estava em uma estrada escura. Olhava para os lados e não conseguia enxergar nada, evitava olhar para trás para que o medo não me impedisse de continuar. O som da minha respiração era o que eu escutava, alternando com alguns piados de coruja.
As árvores ao redor pareciam bem altas, tornando a caminhada ainda mais escura e sombria. Eu caminhava apressadamente, mas sem correr. Minhas mãos já um pouco doloridas pelo peso da mala. Até que ouvi um galho se partindo, fazendo meu coração acelerar com o susto. Deveria ser só algum animal na floresta ao redor, pensei e controlei a curiosidade de ver o que tinha acontecido.
Respirei fundo e continuei caminhando com mais pressa agora, mas continuava ouvindo galhos sendo quebrados a medida que minha respiração ficava ainda mais agitada. Minha cabeça girava para todas as direções possíveis, mesmo que eu não conseguisse ver nada pela escuridão. Apavorada. Eu apertava os dedos com tanta força na alça da mala que chegava a doer.
Passos. Alguém estava me seguindo e eu só consegui correr, vendo uma pequena luz em um ponto mais à frente na estrada. Eu poderia pedir ajuda se chegasse ali, se me apressasse mais. Eu não tinha mais pulmões e meu coração já batia descontrolado em meu peito. O perseguidor se aproximava, eu podia sentir pelos passos mais audíveis. Ele queria que eu o escutasse, que eu soubesse que me pegaria.
Virei na direção do barulho por meio segundo e fui arremessada alguns metros para trás no segundo seguinte, com uma dor lancinante em todo o meu corpo, como se tivesse batido em uma parede. A mala escapou das minhas mãos e eu vi uma figura humana na minha frente. Ele carregava um pequeno lampião e eu consegui enxergar com mais facilidade, mesmo que meu coração parecesse um tambor em meus ouvidos.
Cabelos pretos, pele pálida como o mármore e incrivelmente lindo. Parecia um deus grego, mesmo com os olhos vermelhos. Sim, vermelhos como o sangue e extremamente quentes, pelo fogo tão perto. Ele caminhava lentamente em minha direção e eu me arrastava pra trás na mesma velocidade. Hipnotizada, eu estava.
Quando ele chegou perto o suficiente, segurou meu tornozelo, impedindo que eu me movesse mais para longe. Seus dedos foram subindo, segurando com força minha perna e me fazendo sentir a frieza através do tecido fino da calça. Ele me puxou para perto, ficando literalmente em cima do meu corpo. Seu peito grudado ao meu, sua respiração se misturando a minha e seus olhos estudando meu rosto. Eu não conseguia parar de olhar ou emitir qualquer som. O grito estava preso na minha garganta.
Ele passou a mão gelada em meu rosto em uma carícia leve, me fazendo estremecer. Pegou uma mecha do meu cabelo e a cheirou, com uma expressão de prazer que me deixou ainda mais apavorada com o que poderia acontecer. Depois, colocou com suavidade a mecha no lugar e eu senti seus dedos em meu pescoço, seguidos por seu nariz. Senti seu sorriso se abrir e eu só consegui fechar os olhos e pedir a Deus que mandasse alguém para me ajudar naquele momento.
– Deve estar se perguntando quem sou eu, certo? – ele disse baixo em meu ouvido, deixando um beijo casto em meu pescoço. Eu estava presa ao seu corpo e a sua voz, sem conseguir dizer nada – Não vai responder? Tudo bem, tudo bem! Meu nome é Allan. Acredito que não vá querer saber meu sobrenome, estou certo novamente, senhorita? – e, novamente eu não conseguia formular uma frase, mas ele não parecia irritado. Agora olhava em meus olhos e estava com um ar de diversão, como se estivesse contendo uma risada. Quem sabe estivesse achando engraçado – Como se chama senhorita?
. – finalmente consegui falar algo, mas saiu como um sussurro. Eu estava completamente atenta ao meu redor, nossas respirações continuavam misturadas.
– Achou que poderia fugir de mim, senhorita ? – sua mão tinha voltado ao meu pescoço, agora não mais como uma carícia, mas como uma forte pressão. Eu sabia que não teria muito mais tempo de ar, minha cabeça pendia pra trás e meu corpo se arqueava em direção ao dele. Minha vida passava pelos meus olhos. Sentia arrependimento. Eu deveria estar em casa, me preparando para o casamento. Aceitaria essa vida novamente de bom grado se conseguisse sair do aperto em que me encontrava – Sinceramente você é muito bonita. E, para sua sorte, não estou com tanta sede. – ele disse baixo e claro, chegando perto dos meus lábios – Mas seu cheiro é divino, então vou ter que provar. – deixou um leve beijo ali e eu só consegui fechar os olhos e esperar pela morte – Fique tranquila, será só um pouquinho. – sua risada fez com que meu corpo se arrepiasse. – Só que antes que eu faça qualquer coisa, vou te dizer o que você vai se tornar. Guarde bem essa palavra, senhorita . – ele roçou os lábios em meu pescoço outra vez e disse em meu ouvido – Vampiro.
Senti seus dentes cravando em meu pescoço e o cheiro de sangue logo se tornou presente. A pressão veio e se foi. Mas alívio era algo que tinha me abandonado. Senti que a pressão em cima de mim tinha sumido para dar lugar a uma dor atordoante dentro do meu corpo. Eu me senti sendo levantada e o vento que batia em meu rosto agora era cortante. Não conseguia entender o que estava acontecendo.
Fui deixada no chão, mas meu corpo queimava como se estivesse sendo incendiado. Quente demais. Eu tinha sido posta no sol, não era possível. Os gritos que antes estavam presos, saíam com muitíssima facilidade. Minha garganta deveria estar doendo, mas parecia redundante. Meu corpo inteiro doía.
Eu queria morrer. Minha vida não valia a pena, só queria me ver livre daquela tortura. E implorava por isso, mesmo sem saber se alguém me ouvia. Mas deveria ouvir, eu precisava morrer. O tal Allan tinha me deixado ali para agonizar até falecer. Seria pedir muito ter acabado com a minha vida de uma vez só?
Não sei quanto tempo passei com aquele fogo dentro de mim. Meses, semanas, dias, horas, minutos ou segundos. Tinha perdido completamente a noção do tempo. Tudo o que eu queria era o fim daquele martírio e foi o que, depois de um tempo enorme, aconteceu. Eu sentia novamente o controle sobre meu corpo, as convulsões tinham parado, eu já conseguia me manter em silêncio e, então, permaneci imóvel. O meu corpo parecia mais forte também e, mesmo que o queimar ainda não tivesse diminuído, só poderia estar significando uma coisa. Estava acabando, não estava? Tinha que estar. Eu não aguentaria muito mais tempo, mesmo não sabendo quanto tinha passado.
Minha audição estava cada vez mais clara, podia ouvir o riacho perto dali, os homens cortejando as moças, como se tudo estivesse acontecendo ao meu lado. Os cavalos trotando, carroças, qualquer coisa. Na verdade, tudo. E foi então que meu coração deu um salto, como se correndo em uma maratona, sendo perseguido pelo fogo lutando pelo primeiro lugar. As chamas que me incendiavam iam sendo varridas do restante do corpo. Eu estava sendo queimada viva, agora a certeza não me abandonava. Só não entendia porque a morte demorava tanto. Será que eu já estava morta e não tinha me dado conta? Será que tudo isso fazia parte do inferno? Por que eu tinha sido jogada ali sem nem um julgamento perante Deus?
Até que meu coração começou a bombear mais forte. Mais forte. Mais forte. Como o bater das patas de um cavalo no chão. E foi acelerando, acelerando, até que pareceu chegar ao ápice e foi decaindo, desacelerando, até quase parar. E bateu uma última vez, até que eu não sentia nada mais.
Naquele momento, não sentir dor era o que eu podia compreender. Até que abri os olhos. Eu estava numa espécie de cabana, completamente escura, mesmo que visse tudo com imensa clareza. Via a madeira do teto com facilidade, mesmo suas irregularidades. Levantei o tronco e observei melhor ao redor. Realmente estava sozinha no aposento, assim como na tal cabana que não parecia ser muito maior do que aquele quarto. Minhas coisas pareciam estar jogadas em algum lugar perto de mim.
Nenhum pensamento atravessou a minha cabeça vendo aquele cenário. Eu não sabia exatamente onde estava ou o que acontecia, mas uma pontada extremamente forte em minha garganta me fez perceber que eu não poderia ficar parada ali. Coloquei instintivamente as mãos no pescoço, sem saber como diminuir o incômodo crescente. Então, decidi fechar os olhos e me concentrar em outras coisas. As lembranças de minha família voltavam a minha mente. Minha mãe, meu pai, meu irmão. Amigos. Até que ouvi como um sussurro distante. Vampiro.
Era a voz de Allan, sabia disso. Ele me falava exatamente no que tinha me transformado. Vampira. Eu podia ser considerada cética, criaturas míticas, sobrenaturais não existiam em minha humilde opinião. Até hoje.
Quando cogitei a ideia de ficar de pé, já estava. Quando me movi na direção da mala jogada, não demorei nem uma piscada. Me movi para abrir meus pertences e rompi o fecho, como se não fosse de metal. Arfei, compreendendo: eu estava forte demais, pelo visto.
Procurei, com cuidado, agora que ele realmente era necessário, um espelho por entre as roupas que tinha. Assim que olhei, senti um imenso prazer. A figura refletida era bonita, muito bonita. O rosto imaculado como o de um anjo, pálido como a lua, contrastando com o cabelo escuro e ligeiramente ondulado. O prazer foi substituído pelo medo quando meus olhos se encontraram com os do reflexo.
Vermelhos, brilhantes e assustados. Carmim como o sangue. Sangue. Era disso que eu precisava para viver. Ou seria, morrer? Os livros que já tinha lido não passavam de literatura fantástica, então eu não tinha muito material sobre. Até que eu ouvi um barulho de passos não muito distantes e aspirei com cuidado o ar. Minhas mãos se fecharam em punho e o ardor na minha garganta aumentou. Saí em disparada da casa. Aquela foi a primeira vez que matei um ser humano.


Capítulo 03

Eu já era vampira há pelo menos três meses, já estávamos chegando quase no final de agosto de 1918. Me guiava pelos jornais que lia em alguns vilarejos pelos quais passava. A grande guerra tinha chegado ao fim, eu já tinha visto os nomes de meus amigos nos obituários publicados, junto com agradecimentos pelo seu trabalho de defesa da pátria. Parecia que a vida nas sombras tinha consequências pro universo. Talvez se eu não tivesse sido transformada, eles tivessem voltado para casa. Talvez eu só estivesse criando teorias para passar o tempo e não enlouquecer.
Nos primeiros dias, a culpa me corroía. Eu corria para o mais longe de Chicago quanto podia e, com isso, dizimava vilas inteiras, tomando sempre o cuidado de não deixar ninguém vivo. Minha sede parecia não ter fim, eu vivia por instinto e, tudo o que eu menos queria era condenar alguém a vida que Allan tinha me dado. Allan. Eu nunca mais ouvira falar sobre ele. Não tinha deixado um bilhete entre as minhas coisas, um sobrenome. Nada.
Foram muitas as vezes que tentei me matar, fiquei dias sem beber uma gota de sangue, mas a morte não tinha me alcançado. Eu já estava morta, tinha que entender isso. Desisti, me deixando levar pela lei da sobrevivência. A sede vinha muito mais implacável quando eu tentava me punir, o que fazia com que o estrago fosse ainda maior. Então, em algum momento, abracei a minha imortalidade e as mortes nas costas não eram tão chocantes assim.
As placas me diziam que eu estava em Ottawa, ainda em Illinois, aproximadamente a uns 113km de Chicago e, parei para pensar que talvez eu não quisesse me afastar tanto. Ainda estava bem perto de casa, poderia correr rapidamente de volta a Chicago em algumas horas, mas não pensava em olhar pra trás agora.
Eu já tinha me alimentado o suficiente naquele dia para que minha sede estivesse abrandada. O dia chuvoso fazia com que eu pudesse me misturar com as outras pessoas. Então, tomei o cuidado de pegar um vestido que peguei de uma das vilas pelas quais passei e troquei de roupa em meio às árvores da cidade, tentando não me sujar muito com a terra. Peguei uma sombrinha e juntei alguns dólares na bolsa, escondendo a mala em uma árvore oca.
Prendi a respiração, abrindo o guarda-chuva e me direcionando ao centro da cidade a procura de algum jornal para me manter atenta aos acontecimentos do mundo. E, quando me aproximei do jornaleiro, um senhorzinho de não mais do que 60 anos, o vi arregalar os olhos e me entregar o periódico de forma trêmula e assustada, segurando-se para não sair correndo depois de me olhar nos olhos.
Dobrei o papel e achei melhor me manter afastada, caso ele pensasse em alertar alguém. Me encaminhei para o que parecia ser um parque no centro da cidade, que estava vazio graças ao mau tempo. Fui para a parte mais afastada e me sentei em um balanço coberto por uma espécie de marquise. Desdobrei o jornal e me pus a ler as notícias de capa, que certamente me fariam desmaiar se ainda pudesse.

“Gripe espanhola mata mais pessoas em Chicago”.

Eu nem sabia que poderia ficar estarrecida, mas não conseguia me mover. Se meu coração batesse, agora estaria acelerado e eu não conseguiria respirar. Minha família estava em Chicago. Eles poderiam estar mortos e eu precisava ajudá-los.
Corri o mais depressa que consegui sem levantar suspeitas, voltando para onde eu tinha deixado minha mala. Chicago estava distante, mas não tanto e eu precisava ser discreta. Árvores, arbustos, estradas. Tudo passava como um borrão pelos meus olhos e eu só conseguia ter em mente as três figuras mais importantes de minha existência. Temia encontrá-los mortos, mas eu precisava saber o que tinha acontecido.
Não sei quanto tempo demorei, mas eu estava em frente ao General Hospital Howard Stanford, o principal de Chicago. O céu permanecia escuro, talvez estivesse no meio da madrugada. Eu poderia andar novamente sem que ninguém me visse, então deixei novamente minhas coisas escondidas.
Prendi a respiração e escalei as paredes do hospital, entrando na primeira janela aberta e escura que consegui encontrar. Revirei todos os quartos dos quatro andares e não os encontrei. Eu teria suspirado em felicidade, se isso não me fizesse acabar atacando alguém.
Infelizmente, ainda tinha um lugar para olhar: o necrotério. Corri até lá e hesitei no momento de abrir a porta. Quando o fiz, o ambiente me fez estancar em choque. Eu sei que parece ironia, já que tinha matado diversas pessoas, mas aquelas pessoas eram conhecidas. Minha antiga professora de matemática, senhora Lancaster. Jimmy, o carteiro. As gêmeas Brittany e Santana James, que brincavam comigo no parque do bairro. Até que os vi. Edward Senior e Elizabeth. Meus pais. Sem vida, deitados lado a lado, com as mãos próximas como se tivessem ficado unidas até o momento final.
Eu me aproximei de seus corpos e os toquei delicadamente, chorando um choro sem lágrimas, pensando em como as coisas poderiam ter sido diferentes. Tantos planos jogados no lixo por uma maldita gripe. Toquei as mãos de minha mãe e senti que havia uma espécie de papel ali, que consegui tirar sem dificuldade.
Se antes eu já estava sem condições de me manter inteira, aquelas duas frases destruíram o resto de autocontrole que meu coração morto parecia ter. Escritas na caligrafia impecável e inconfundível de minha mãe, aquelas frases estariam sempre em minha mente: “Te perdoamos, minha . Sempre te amaremos”.

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Não sei quanto tempo tinha ficado ali encarando meus pais, mas eu precisava me mexer. O relógio em meu pulso já indicada dez para as cinco da madrugada e eu tinha pouco tempo até o amanhecer. Meu irmão, como não estava ali, talvez tivesse ido para outro lugar se salvando da gripe ou, na pior das hipóteses, já estava morto há mais tempo. Eu ainda torcia pela primeira opção.
Peguei os corpos de meus pais no colo com delicadeza e saltei pela janela, esperando que ninguém desse falta, mas não me importando se isso acontecesse. Eles mereciam um enterro digno, no final das contas. Corri até a nossa antiga casa, parando rapidamente para pegar minha maleta escondida. Limpei seus corpos e vesti os dois com roupas mais apresentáveis. Penteei seus cabelos e fiz questão de colocar as melhores joias em minha mãe. Ela ficaria orgulhosa pela escolha de adornos, sorri tristemente.
Tomei o cuidado de procurar o lugar mais bonito do jardim, junto às rosas que minha mãe cultivava com tanto esmero, para cavar a cova. Uma bem grande, assim os dois poderiam ficar juntos no além vida como realmente gostariam.
Coloquei-os ali e eles pareciam adormecidos, de forma serena, o que me fez suspirar mais tranquilamente. Eles estavam em casa. Enquanto os olhava, escrevi com os dedos em uma pedra seus nomes, colocando embaixo alguns dizeres. Fechei a cova e me encaminhei para dentro de casa, me lavando rapidamente e fazendo uma mala maior do que a que eu levava. Juntei todas as minhas roupas, junto com algumas de meu irmão, coloquei as joias de minha mãe em uma bolsa e peguei todos os dólares que encontrei pela casa, já que papai não costumava confiar em bancos. O caminho agora seria longo e, infelizmente, eu ainda precisaria do mundo dos humanos.
Dei uma última olhada e apertei os anéis que agora estavam pendurados em um colar em meu pescoço. Os anéis de noivado de meus pais, já que os de casamento ainda se mantinham em seus dedos terra abaixo. Suspirando, saí em direção a estação de trem. Eu não tinha mais um rumo agora, apenas uma existência para levar adiante.


Capítulo 04

Quando cheguei na estação de trem, não tinha um destino certo para onde ir, só sabia que precisava sair dos Estados Unidos para ficar o mais distante das memórias que cismavam em dançar em meus pensamentos. Tinha parado para me alimentar antes de chegar até ali, o que provavelmente garantiria minha viagem até Nova Iorque, antes que eu pegasse um navio para a Europa. Sempre quis conhecer a Itália, então seria uma boa desculpa.
Foram necessários pelo menos dois dias de viagem até a cidade dos sonhos e, mais quinze dias de navio até chegar ao porto de Gênova, na Itália. Como prendi a respiração por tanto tempo, estava louca para me alimentar novamente e, finalmente sentir o ar puro em contato com as minhas narinas.
O tempo dentro da cabine tinha sido suficiente para ler sobre o lugar e alguns de seus pontos turísticos e, uma cidade me chamou atenção por seu nome peculiar e desconhecido. Volterra. Localizada na região da Toscana, em Pisa. Eu não sabia se ainda podia confiar em minhas intuições, mas sabia que deveria estar naquela cidade.
Quando o navio atracou no porto, por sorte estava de noite e eu pude me misturar entre as pessoas que saiam da embarcação. Sendo ajudada por homens que não eram necessários e que me enviavam olhares sugestivos, eu segui meu caminho com as bagagens nas mãos, parando em uma espécie de aluguel de carros. Eu não sabia como conduzir, então achei melhor pedir que algum dos cavalheiros disponíveis ali me levassem à Volterra. Escolhi justamente o que eu já tinha visto desrespeitar uma senhorita segundos antes. Se ele era tão seguro de si para tratar as mulheres como objeto, eu não me importaria de usá-lo como refeição depois de conseguir chegar ao meu destino.
Ele se apresentou, se chamava George Conell. Foi o caminho inteiro, as próximas quatro horas de viagem soltando piadinhas e indiretas, perguntando se eu era casada e ignorando quaisquer intimidações que a minha postura emanava.
Não demorei muito com seu sangue depois que chegamos e o deixei enterrado alguns quilômetros antes da entrada da cidade, o carro empurrei para o caminho contrário. Corri até a entrada da cidade e a visão de um castelo majestoso preencheu os meus olhos, certamente me faria perder o fôlego se ainda o tivesse.
Já estava começando a amanhecer e, mesmo não havendo muitas pessoas nas ruas, eu não queria me expor. Essa era a regra básica para a vida vampiresca. Não deixar os humanos descobrirem sua realidade. Eu andava nas sombras, ainda admirada com o ar medieval daquela cidade. Parecia muito com os desenhos que Elizabeth Masen fazia. Mamãe. Lembrar dela me fez sentir um aperto no peito e eu automaticamente levei a mão até o colar em meu pescoço. Meu coração inativo sangrava com a perda de meus pais e com o desaparecimento de meu irmão.
No centro da cidade havia o que parecia uma torre com um relógio. Eu estava distraída com o ponteiro mudando as horas, os minutos e os segundos, estava fascinada com a calmaria que parecia transparecer. Até que senti uma presença as minhas costas e fiquei imóvel no mesmo instante, atenta se precisasse atacar. No entanto, uma mão de temperatura agradável pousou em meu ombro e eu ouvi pela primeira vez.
Buongiorno, signorina. – o tal homem começou em italiano e eu me senti estranhamente confortável – Poderia me acompanhar, por favor? – e eu me virei para encontrar o dono daquela voz. Orbes tão vermelhas quanto as minhas, o cabelo negro caindo graciosamente em sua testa e a mão que antes estava em meu ombro, agora estava estendida em minha direção de forma convidativa.
– Para onde exatamente gostaria que eu o acompanhasse, senhor? – e meu tom era claramente uma pergunta por seu nome.
– Alec Volturi, senhorita. – ele segurou minha mão que eu ainda não lhe havia dado e depositou um beijo cortês ali, me fazendo estremecer involuntariamente – E a sua graça, qual seria?
Masen, senhor Volturi. – lhe dediquei um sorriso que foi correspondido – Mas ainda não me disse para onde gostaria que eu lhe acompanhasse.
– Meu mestre, Aro, solicita sua presença, senhoria Masen. – ele disse me estudando com os olhos e pegando minha bagagem sem nenhuma dificuldade em uma mão, enquanto me oferecia o braço, que aceitei prontamente – Temos um protocolo a ser cumprido. – concluiu e eu só pude assentir, segurando seu braço e seguindo seu caminho.
Eu estava nervosa, mas deveria imaginar que estava entrando em terras que já possuíam dono. Seria o mais educada que conseguisse e torcia para que saísse dali com todos os membros ainda intactos. Quando chegamos à frente de grandes portas de madeira, perfeitamente ornadas que iam até o teto, paramos. Ele ia abrir a porta, mas eu segurei suas mãos impedindo o ato e proferi em seu ouvido com toda a coragem que eu nem sabia existir em meu corpo
– Se eu sair daqui inteira, senhor Volturi, vou adorar conhecê-lo melhor. – e, sem mais o deixei abrir as portas, encontrando uma pequena comitiva nos esperando. Eu só esperava que fosse realmente para dar boas-vindas.

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As figuras paradas pareciam ter saído de um livro sobre a Idade Média. As peles extremamente pálidas, os trajes pareciam limitados a grandes capas vermelhas com capuz, como se fossem todos participantes da mesma religião. Eu teria dado meia volta se não fosse a mão de Alec nas minhas costas, me empurrando delicadamente para frente. Ele disse um “me siga” sussurrado, mas eu sabia que todas as pessoas do recinto tinham escutado. Vampiros como nós, claro.
Contei seis pessoas ali esperando por nós. Uma mulher loira, que mais parecia uma adolescente. Três homens sentados em tronos perfeitamente dispostos no final do salão. Dois homens prostrados um de cada lado dos tronos, como seguranças. Engoli em seco e fui seguindo o mesmo caminho de Alec, parando alguns metros antes quando o vi se aproximar do trono do meio e entregar sua mão ao homem de longos cabelos negros.
O homem depois deste contato, mudou sua face e simplesmente sorriu infantilmente, dispensando Alec com um aceno de mão, se levantando de seu trono. Veio andando graciosamente até parar a alguns centímetros a minha frente, oferecendo uma mão em cumprimento.
– Senhorita Masen, seja muito bem-vinda aos nossos domínios! – começou enquanto segurava minha mão como se estivesse manuseando um cristal delicado. Por um segundo a confusão passou por seus olhos e suas sobrancelhas se encresparam, mas logo refez a expressão convidativa – Meu nome é Aro Volturi, mas acredito que tenha sido informada deste detalhe.
– Sim, senhor. Me desculpe por invadir seu castelo a esta hora da manhã. – disse com o melhor sorriso falso que consegui moldar. Não sabia o motivo, mas sentia que deveria ser completamente formal com aquele homem. Como se fosse um rei.
– Não se preocupe, criança. Está em casa agora. – se eu ainda pudesse vomitar, certamente teria feito – Acredito que saiba quem somos e exatamente aonde está, certo? – ele soltou minha mão, mas se manteve próximo. Todos os olhos estavam em cima de mim.
– Infelizmente não, senhor Volturi. Perdoe-me a ignorância. – respondi em um tom mais contido e ouvi sua gargalhada melodiosa preencher o lugar, me rendendo um arrepio na espinha e um péssimo pressentimento.
– Tudo bem, minha querida. Haverá tempo para apresentações mais formais. – Aro afirmou com o que me pareceu docilidade – No momento, você deve conhecer as pessoas que estão aqui conosco. Sentado a minha direita está Caius, a minha esquerda, Marcus. Alec eu presumo que já conheça e, esta jovem ao seu lado é Jane. – meu olhar recaiu na dupla que se encontrava de mãos dadas e eu vi o olhar esperançoso de Alec pairar em cima de mim, mas Aro chamou minha atenção novamente – Estes são Demetri e Felix. – completou sem muita importância.
Eu assentia a todos os nomes que me eram ditos e vi quando Aro virou-se na direção de Jane e sussurrou, mesmo que não fosse necessário um “Chame Eleazar”, me fazendo ficar ainda mais ansiosa do que quando tinha entrado.
– Então, minha querida. – ele continuou – Nós vampiros, mesmo que sejamos infinitamente superiores aos humanos, temos muito em comum com eles, principalmente nosso sistema hierárquico. Nós somos os Volturi – ele disse com ar de imponência – pode nos considerar uma espécie de realeza se quiser, porque é justamente o que somos. – Aro começou a circular despreocupadamente pelo espaço – Os outros se curvam a nós, mas não é preciso temer, minha doce senhorita Masen. Representamos riscos apenas aos que quebram nossas regras. – ele completou me olhando nos olhos, me fazendo sustentar aquele olhar, quando tudo o que eu queria era fugir.
– Sim, senhor. – foi tudo o que eu consegui dizer claramente, antes que as portas se abrissem de novo, revelando um homem moreno, extremamente bonito como eram todos ali, mas com uma aura tranquila e aconchegante. Ele estava acompanhado por Jane, que logo voltou ao seu lugar que, pelo que parecia, era ao lado de Alec.
– Mandou me chamar, senhor? – o novo ocupante do salão perguntou, um sotaque latino aparente em sua fala.
– Meu grande amigo, Eleazar. Que gosto em vê-lo novamente. – Aro disse com uma falsa alegria – Acredito que saiba o motivo pelo qual foi chamado, mas deixe-me apresentá-los. Senhorita Masen, este é Eleazar. – nos apresentou com uma grande curiosidade e eu só pude observar o tal homem me estudar de cima a baixo. – Já sabe o que ela é, meu amigo?
A pergunta me pareceu completamente fora de lugar. Como o que eu era? Uma vampira, obviamente! Do que estes homens estavam falando? Eleazar me analisou por mais meio segundo e olhou diretamente para Aro ao responder.
– Estou sendo bloqueado neste exato momento, senhor. – ele disse tranquilamente – Acredito que ela possa ser um escudo mental, já que não consigo sentir sua presença. – completou ao que Aro assentiu, como se absorvendo as palavras que lhe foram ditas.
– Entendo! Obrigado, velho amigo. – e, dito isso, o dispensou com aceno de mão, voltando a me encarar, com os olhos desejosos agora. Como um comerciante olha para o dinheiro. Um garimpeiro para o ouro. Eu era um objeto ali – Minha querida senhorita Masen, acredito que saiba que alguns vampiros possuem certos dons. E, minha criança, acredito que você possua algo extremamente útil.
E, um sino tocou em minha cabeça compreendendo o que ele queria. Ele me queria, mesmo que aquela história de dons fosse completamente nova para mim.
– Gostaria de lhe oferecer um lugar em nossa guarda, senhorita. – ele continuou – Seria um imenso prazer tê-la como parte de nossa grande família. – completou cheio de expectativas.
A palavra família me soava tão estranha quando dita por aquele homem, como se ele representasse todo o contrário do que eu entendia e teria por familiar. No entanto, eu não tinha exatamente para onde ir. A família que eu tanto amava estava morta e, literalmente enterrada. Meu olhar desviou da figura de Aro e caiu em Alec por um breve segundo. Eu lhe tinha feito uma promessa e, pelos seus olhos, parecia que ele queria que eu cumprisse. Suspirei por outro segundo antes de fixar meus olhos no homem parado em minha frente.
– Eu aceito, senhor Volturi. – afirmei com uma segurança que nem sabia ter – Seria uma honra servir e fazer parte de sua família. – disse selando o que parecia ser o começo da minha eternidade.

Continua...



Nota da autora: Oii, pessoal. Queria pedir desculpas pela demora, mas como presentinho de ano novo, temos atualização dupla! Prometo tentar não demorar muito com os próximos capítulos, continuem contando o que estão achando nos comentários! Beijos e até a próxima :)


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