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Última atualização: 07/12/2020

Capítulo 1

Setembro de 1960


- Lucius, querido, você precisa tomar mais cuidado com a sua irmã. - Emeline Malfoy disse ao filho que estava com pouco mais de três anos - Não deve assustá-la com caretas, meu bem.
- Mas o papai faz isso comigo! - o garotinho loiro se queixou, cruzando os bracinhos irritado enquanto olhava a mãe tentar acalmar o choro do bebê em seus braços - E eu não fico chorando assim.
- A ainda é muito pequena pra entender as brincadeiras e Abraxas é um irresponsável por ficar te assustando pela casa. - comentou Emeline - Venha comigo!
A mulher arrumou a menininha em seu braço e ofereceu a mão ao filho mais velho, saindo com eles do quarto e os levando para a parte de trás da grande propriedade dos Malfoy. Ela tinha pedido que Abraxas arrumasse um banco de praça para que ela pudesse sentar para observar as bromélias que cuidava com tanto afinco.
Lucius dispensou sua ajuda para subir no banco quando eles chegaram e Emeline se acomodou com em seu colo. A filha tinha pouco mais de seis meses, mas já era esperta. A mulher esperava que a pequena se tornasse uma bruxa esplendorosa, capaz de grandes feitos. Seu coração de mãe se enchia de orgulho ao olhar para a criança em seus braços que possuía a genética dos Malfoy dos pés à cabeça, onde os loiros e claros cabelos começavam a crescer.
- Você será um bom irmão mais velho para , certo, Lucius? - questionou o menininho que agora lhe encarava com os olhos azuis acinzentados atentos - Mesmo quando eu não estiver mais aqui.
- Para onde você vai, mamãe? - perguntou assustado.
- Sempre estarei com vocês, meu bem. - ela lhe acariciou o rosto e sorriu contida - Mas preciso que me prometa que você e sempre estarão juntos. Que serão um pelo outro.
- Eu vou cuidar da , mamãe! - disse o nome da irmã como pôde, com uma convicção anormal para uma criança daquela idade.
- Isso me deixa mais feliz, meu amor. - depositou um beijo na bochecha do filho - Sei que será um excelente irmão mais velho. - elogiou.
Como resposta, pequenos flocos de neve começaram a cair em cima dos três. Emeline olhou para o lado e Lucius estava alegre, assim como se agitava em seus braços, tentando pegar a neve que caía para levar a boca.
Emeline poderia ter saído dali com as crianças, mas não estava frio. Podia ter chamado Abraxas para ver a primeira manifestação de magia de Lucius, mas seria perda de tempo. O marido não ficaria contente, só diria que era o esperado para um Malfoy. Então, ela apenas se pôs a observar a interação dos filhos. Lucius pegava pequenos flocos e os colocava nas mãozinhas de , que estava animada.
Quem olhasse de fora, acharia aquela cena completamente normal. E como ela rogava a Merlin para que fosse mesmo. Só que a bruxa sabia que aquela felicidade e calmaria tinha prazo de validade. Ela não sabia quando aconteceria, mas tinha certeza de que o peso do sobrenome seria maior do que qualquer momento feliz. Emeline torcia, apenas, pra que seus filhos se mantivessem juntos.
Abril de 1966


não aguentava mais ficar com Lucius. O garoto lhe enchia porque ela lia algumas palavras de forma errada, trocando algumas letras. Mas o que ela podia fazer? Aprendera a ler há pouco tempo e ainda estava treinando. Todos os dias lia um pedaço do exemplar de Hogwarts: uma história que havia na biblioteca dos Malfoy. Uma frase, um parágrafo ou uma página. O que conseguisse. Só que ela tinha apenas seis anos e algumas palavras eram difíceis.
O problema era que Lucius não perdoava e ficava fazendo gozações. Por isso resolveu deixar o garoto brincar com sua vassoura no jardim e entrou na casa. Em pouco tempo não teria que se preocupar com a chatice do irmão. Ela torcia pra que a carta de Hogwarts dele não demorasse muito pra chegar e já estava agoniada por ter que esperar até os 11 anos de Lucius. Ele ainda ia fazer dez, mas queria férias do irmão mais velho.
A menina resolveu, então, ir novamente à biblioteca, mas antes que pudesse chegar, ouviu algumas vozes no cômodo e resolveu se esconder para tentar ouvir o que acontecia. Emeline sempre lhe repreendia, dizendo que parecia um elfo doméstico se esgueirando pelos cantos, mas a garota não dava atenção.
- Você não pode me dar uma previsão para isso? - viu quando seu pai, Abraxas, questionou o homem sentado à sua frente - 15 dias, um mês, um ano, eu preciso saber! - a menina viu quando sua mãe se colocou de pé ao lado dele e apoiou uma das mãos no ombro do marido.
- Senhor Malfoy, não é como se eu conseguisse precisar um dia para que a sua filha comece a manifestar magia! - o homem disse e reconheceu a voz como sendo do medibruxo que viera lhe examinar no dia anterior. Ele fizera uma série de testes com a menina que a deixaram mentalmente exausta - Ela ainda é muito nova.
- Mas crianças menores que ela já fazem magia, movem coisas, explodem copos! - Abraxas reclamou exasperado - nunca fez nada disso, não é possível que você não possa fazer algo, dr. Antoun. - aumentou o tom de voz e foi repreendido com um apertão por Emeline que seguia calada ao seu lado.
- Cada criança é diferente, senhor Malfoy! - o medibruxo argumentava - pode apenas estar estressada com algo, por isso sua magia não está fluindo como deveria.
- Não há nenhuma chance de ela ser um… - Emeline falou pela primeira vez, ainda muito incerta, mas a última palavra saiu quase como um sussurro e não conseguiu distinguir o que a mãe dissera.
- Acredito que não seja para tanto, senhora Malfoy. - Antoun tentou amenizar - Mas, caso ela seja, vocês só terão a confirmação após seu aniversário de 11 anos. - ele suspirou.
- Filha minha não será um aborto, Antoun! - Abraxas disse enfurecido e ficando vermelho - É bom que você pense e alguma maneira de arrumar isso e de forma discreta. Ou Tom terá o imenso prazer em lhe fazer uma visita. - ameaçou Malfoy e teve o gosto de ver o homem à sua frente estremecer.
- F-farei o meu melhor, senhor Malfoy. - gaguejou o medibruxo e se levantou para ir embora. Antes que ele o fizesse, saiu correndo para encontrar o irmão que ainda estava no jardim.
- Lucius, Lucius, desça aqui! - ela pediu gritando pelo irmão que seguia voando com a vassoura, sendo logo atendida.
- O que houve, ? Se machucou? - o garoto logo se preocupou e examinou a menina com os olhos, procurando algum ferimento.
- Preciso te perguntar uma coisa! - disse e ele revirou os olhos, mas seguiu em silêncio esperando que ela falasse - Você sabe o que é um aborto? - questionou baixinho, falando como se fosse um segredo.
- Onde ouviu isso? - sondou desconfiado.
- Eu li num livro lá da biblioteca, - ela inventou - mas não explicava bem o que era.
- Bem, - Lucius sentou no chão e fez o mesmo, ouvindo o irmão de forma atenta - papai disse uma vez que eles são uma das vergonhas do mundo bruxo. Ninguém sabe muito como eles acontecem, mas são filhos de pais bruxos que não podem fazer magia.
- Tipo, nunca?
- Aí eu não sei, mas acho que não.
- Mas isso acontece em qualquer família? - indagou curiosa.
- Papai diz que é mais fácil isso acontecer em famílias com sangues-ruins, mas eu não sei. Talvez aconteça com todas as famílias. - Lucius deu de ombros e olhou para a irmã que parecia assustada - Está tudo bem, ?
- Sim, sim! Eu só estou com fome. - mentiu mais uma vez - Vou ver se Vipper faz algo de bom pra comer. Você quer? - perguntou já se levantando
- Não, vou treinar mais! Tenho pouco tempo até receber a carta de Hogwarts! - comentou animado e deixou um beijo na bochecha da irmã antes de levantar voo em sua vassoura.
voltou andando pra casa, chamando logo por Vipper, o elfo doméstico dos Malfoy, quando entrou na mansão e pediu que ele lhe desse algumas tortinhas de abóbora. Quando ele lhe trouxe, foi logo embora, mas não sem antes fazer uma curta reverência à menina. Ela até gostava do elfo, sempre a tratava como se fosse uma princesa e lhe dava doces quando ela estava triste. Além disso, Vipper era o único que brincava de bonecas com ela, já que Lucius só queria saber de sua vassoura.
A menina, então, subiu para o seu quarto e deixando as tortinhas em cima da cama, se colocou de frente para o grande espelho que havia próximo ao seu guarda-roupas. Ela olhava cada detalhe de seu reflexo: desde os cabelos loiros bem claros que pendiam um pouco abaixo dos ombros, passando pelos olhos azuis-esverdeados, descendo pelo vestido rosado e acabando nos sapatos pretos lindamente lustrados.
Tudo o que via no espelho naquele momento era o que estava acostumada a encarar todos os dias. Mas a garotinha procurava, olhando pra si mesma, algo que nem sabia o que era. Ela tentava ver algum sinal de que pudesse ser um aborto, como Lucius havia lhe explicado, mas não havia nada visível.
- Por favor, Merlin! - ela rezava baixinho - Se eu não for um aborto, prometo que paro de esconder a sobremesa do Lucius e de bagunçar o armário dele. - ela prometeu de olhos fechados e assim permaneceu por alguns minutos, adicionando mais coisas a sua lista de promessas a Merlin.
não viu, mas Abraxas estava na porta de seu quarto, ouvindo e vendo a filha prometer aos céus o que faria se não fosse um aborto. Internamente, ele rogava pra que Merlin ouvisse o pedido de sua menina e o seu próprio.
Setembro de 1971


Lucius já tinha embarcado há alguns dias para Hogwarts e permanecia trancada em seu quarto na mansão dos Malfoy. A menina revezava seu tempo entre chorar e olhar fixamente para o copo que permanecia intacto em cima do banco no meio do aposento. No canto do quarto, uma nova pilha de cacos de vidro tinha se formado. Não porque ela tivesse explodido algo com a mente, mas por ter quebrado vários copos jogando-os contra a parede. Só assim ela conseguia rompê-los.
Ela não recebera, ainda, nenhuma carta de Hogwarts ou de qualquer uma das outras escolas de magia. Seu medo de ser um aborto ia se concretizando à medida que os dias passavam e não conseguia colocar nada pra fora. era uma vergonha para os Malfoy, sabia disso. E só confirmava quando não podia acompanhar os pais em nenhum evento de outras famílias bruxas ou por ter Vipper como sua única companhia. Lucius era basicamente filho único para o mundo e, mesmo que tivesse apenas 11 anos, já entendia bem que assim seria pelo resto da vida.
A garota já tinha pensado em fugir, mas sabia que não iria muito longe. Por isso, preferia ficar trancada no quarto, longe das vistas do pai, que lhe olhava num misto de expectativa e decepção. Emeline, por outro lado, olhava para a filha como se culpasse a si mesma e aos seus genes. Mesmo vinda de uma família puro sangue, a mulher se questionava internamente se ela era a culpada pelo que acometia os Malfoy.



- Você precisa fazer algo pela minha filha, Dumbledore! - Abraxas disse em desespero andando de um lado para o outro no escritório do diretor de Hogwarts - Não é possível que não possa aceitá-la nessa escola!
- Abraxas, você sabe o motivo pelo qual não está aqui. - o diretor disse olhando atentamente para o homem descomposto a sua frente - Vocês deveriam mandá-la para uma escola de trouxas, sabe disso. - sugeriu
- Não se atreva a dizer um absurdo desses novamente! - gritou - Uma Malfoy não vai se misturar com esses imundos trouxas!
- Você está privando sua filha de aprender e ter uma vida normal, Malfoy.
- Ela tem uma professora particular que lhe ensina tudo o que deve saber sobre como ser uma bruxa, Dumbledore. Já que esta escola não faz o seu trabalho direito! - disse com desdém.
- A magia dela não é o suficiente pra que possamos lhe arranjar uma vaga, Abraxas. - Dumbledore disse sem perder a calma - Você precisa começar a ver sua filha por quem ela realmente é.
- Não diga algo que não sabe, diretor! - retrucou o homem e se pôs a sair da sala do diretor, espumando de raiva para fora do castelo, onde já poderia aparatar de volta pra casa.
Quando viu que já estava seguro na mansão, caminhou rapidamente até o porão, onde mantinha uma espécie de esconderijo subterrâneo. Abriu a porta, trancando-a e foi a sua adega particular, pegando uma garrafa de Whisky de Fogo e bebendo logo do gargalo.
O que ele poderia fazer para que sua garotinha não fosse um aborto? já tinha sido examinada por mais medibruxos que ele poderia contar. Ela vinha tendo aulas de magia com Abgail Brown, uma das tutoras mais prestigiadas do mundo bruxo, que talvez tenha sido, ou não, ameaçada com uma visita de Riddle caso abrisse a boca.
Uma parte de Abraxas sabia que Dumbledore estava certo sobre , mas era uma parte tão pequena que ele não pensava em lhe dar ouvidos. Ainda havia a necessidade de preservar a glória do nome dos Malfoy e ter um aborto na família só tornaria as coisas mais difíceis. Tanto para ele, quanto para a própria .
Ele, então, suspirou e largou a garrafa da bebida como pode e aparatou para seu escritório. Ali, em uma das paredes perfeitamente bem adornado, estava a tapeçaria da família Malfoy. Logo abaixo de seu próprio nome, os de Lucius e brilhavam como os últimos descendentes até o momento.
Abraxas preferiu não ter muita consciência do que fazia, não queria pensar uma segunda vez antes de terminar com isso. Logo sacou a varinha de suas vestes apontando para o nome da filha, fazendo com que ele queimasse. Ele não precisou dizer o feitiço, mas as lágrimas que caiam sem controle de seus olhos foram o suficiente pra que ele soubesse que o que fizera não tinha mais volta. Ela estava queimada da família, assim como seus descendentes, e seria vista como escória. Ele não tinha escolha, mas esperava que a filha lhe perdoasse algum dia. Precisava dizer para a sociedade que fizera tudo o que esperavam dele.
- O que aconteceu, Abraxas? - Emeline entrou no escritório e viu o marido chorando como uma criança próximo a parede. Quando seus olhos encontraram os do esposo, ela percebeu que algo de muito errado ocorria, então se aproximou e agachou-se na frente dele. Sabia que apenas com ela, ele se permitia ser vulnerável.
Malfoy nada disse, apenas teve forças para apontar pra cima, vendo quando os olhos da esposa chegaram na tapeçaria e o choque que lhe tomou o rosto ao ver o nome da filha queimado da árvore genealógica deles.
- Você sabe as consequências do que acabou de fazer, Abraxas? - ela disse depois de recompor a expressão, seus olhos frios como o gelo, fazendo com que o homem se encolhesse levemente pelo tom de voz baixo da esposa.
- Eu precisava fazer alguma coisa, Em. - tentou se justificar - Eu não podia deixar o mundo saber que os Malfoy compactuam com essas coisas. - ele falava baixo e estava aflito, olhando o rosto da mulher que estava impassível.
- “Essa coisa” é a sua filha, Malfoy - ela cuspiu o sobrenome que carregava e viu o marido fechar os olhos atordoado - Mas essa é a sua escolha. Não a minha! - concluiu se levantando e andando para a saída do cômodo.
- O que quer dizer, Em? - ele tomou coragem pra perguntar quando viu a esposa alcançar a porta. Ela não se virou para respondê-lo, apenas segurou a maçaneta com mais força e engoliu em seco.
- Quero dizer que pode queimar o meu nome ao lado do seu também. - disse antes de abrir a porta e sair do escritório. Naquela mesma noite, Emeline juntou suas coisas com as da filha e tratou de sair também da vida de Abraxas.


Capítulo 2

Dezembro de 1974


Emeline e tinham ido embora da casa dos Malfoy há pouco mais de dois anos e se instalaram na antiga casa dos pais da mulher, que já estavam mortos. Nesse meio tempo, o contato das duas com Abraxas e Lucius era quase nulo, salvo por algumas cartas que o garoto mandava para a mãe a irmã quando estava em Hogwarts. Mesmo que não tivesse orgulho do fato de ter um aborto na família, Lucius ainda amava a irmã com todo o coração. E, se ninguém soubesse da existência dela, poderiam continuar próximos sem nenhum problema, ele pensava.
Mas, naquele meio de dezembro de seu último ano, Lucius quase viu tudo isso se perder ao receber o recado urgente de que era esperado na sala do diretor Dumbledore. O professor Slughorn lhe deu o recado antes que o jovem saísse para sua ronda do dia como Monitor-Chefe. O chamado parecia urgente, então ele correu para encontrá-lo.
- Professor Dumbledore, me disseram que o senhor gostaria de conversar c… - a voz de Lucius morreu em sua garganta ao ver sua irmã encolhida em um canto da sala do diretor, abraçando a si mesma como se pudesse se sustentar, enquanto chorava - , o que aconteceu? - perguntou desesperado indo diretamente até ela e abraçando-a com força. A menina não conseguia falar nada, apenas intensificou seu choro.
- Senhor Malfoy, acredito que sua irmã não consiga falar o que houve. - Dumbledore ponderou enquanto via os dois abraçados, a menina se acalmando aos poucos com o que Lucius sussurrava em seu ouvido - Mas, é preciso que saiba de um acontecimento, e sinto que seja eu quem lhe dê essa notícia.
- O que está acontecendo e por que minha irmã está aqui? Justo em Hogwarts! - Lucius tentava não gritar para não assustar a garota - Ela não pode fazer magia! - diminuiu ainda mais o tom de voz.
- O auror que a encontrou a trouxe para cá quando lhe perguntou se tinha alguém que pudesse contactar, senhor Malfoy. - o diretor explicou - E eu preciso que mantenha a calma, porque sua irmã está sozinha, à partir de agora. A menos que chamemos o pai de vocês. - e ele viu estremecer levemente a menção de Abraxas.
- Seja claro, diretor! - ele disse deixando um beijo na testa da irmã e se afastando levemente, caminhando para perto do bruxo mais velho - Sem rodeios.
- Emeline foi encontrada morta próxima a casa onde as duas moravam. - Dumbledore disse em um fôlego só e viu quando os olhos do jovem à sua frente lacrimejaram, mesmo que ele tentasse manter a expressão superior.
- E sabem algo sobre o assassino? - questionou com a voz fraca.
- Não, mas esse não é o mais estranho, senhor Malfoy. - o bruxo prosseguiu - O mais intrigante dessa situação é que sua irmã enviou uma carta via coruja um dia antes de sua mãe ser encontrada morta para o serviço de aurores, dizendo ter sonhado com a morte de Emeline.
- E por que isso é estranho? Foi apenas um sonho ou palpite que acabou sendo real.
- Porque não há muitos casos de bruxos abortados que tenham algum tipo de dom, senhor Malfoy. - o mais velho suspirou - E disse na carta o local exato onde o corpo de Emeline poderia ser encontrado. Sua irmã teve uma visão. Os aurores apenas não lhe deram crédito, por conta de suas condições.
- Está dizendo que poderia ter salvo a nossa mãe? - Lucius tinha se sentado na cadeira, como se não tivesse forças pra se manter de pé.
- Estou dizendo que sua irmã teve uma visão, Lucius. Não sei até que ponto esse destino poderia ser mutável.
- O que acontece agora? - perguntou olhando para que se concentrava nas chamas da lareira a sua frente - Ela ganha um vaga em Hogwarts? Ela volta a morar conosco? O assassino de minha mãe será encontrado?
- Temo não ter todas as respostas que gostaria de ouvir, meu jovem. Mas a manifestação de magia presente no sangue da sua irmã ainda é muito pequena para que ela se torne uma bruxa completa. Quanto às outras perguntas, terá de esperar por seu pai. Ele está a caminho.
O garoto apenas assentiu e voltou para o lado da irmã, tomando-a em seus braços, aliviado por ver que a garota não chorava mais, apenas permanecera em silêncio enquanto eles esperavam pelo pai. Abraxas não demorou a chegar, mas não demonstrou nenhuma reação ao ver os filhos abraçados. Conversou rapidamente com o diretor e acenou para que seus filhos o seguissem, fazendo com que Lucius fosse dispensado para as férias de final de ano antes dos outros alunos.
Os três utilizaram a lareira do escritório de Dumbledore para chegarem na mansão dos Malfoy e os pertences de Lucius seriam enviados depois. O silêncio era gritante dentro daquela casa e Abraxas ficou reunido na sala com os filhos, nenhum dos três sentiu vontade de comer algo naquela noite. Emeline estava morta, estava de volta ao lado do pai, ainda que seguisse queimada da tapeçaria da família. Eram muitas reviravoltas para um só dia para serem engolidas em uma noite.

Fevereiro de 1975


O recesso de final de ano estava se tornando, cada vez mais, uma lembrança apagada para Severus. Pelo menos era o que ele tentava fazer sua cabeça compreender. Tinha voltado para casa por pedido de sua mãe, Eileen, mas antes não o tivesse feito. Seu pai, Tobias, ficava cada vez mais raivoso ao olhar para o filho e ver traços da herança bruxa, que vinha da família Prince. Severus não sabia se era inveja por não ter magia nas veias ou desprezo ao diferente, mas sentia que seu pai não o amava.
O garoto de 15 anos levava nos braços e no peito a irritação de Tobias, com os arranhões agora já quase cicatrizados. Mas, Severus sabia que, por mais raiva que tivesse do pai - e dos trouxas, em geral, por não entenderem e aceitarem o mundo bruxo -, ele não poderia deixar de visitar a mãe. E aproveitar para passar um tempo, ainda que curto, com Lily Evans enquanto eles estavam fora de Hogwarts.
Severus já tinha notado o quanto sua amizade com Lily não era bem vista, assim como sabia que em pouco tempo a ruiva também se daria conta disso. Os encontros dos dois eram limitados à biblioteca, enquanto estudavam. Mas seus companheiros da Sonserina implicavam com qualquer aproximação que ele tivesse com a grifinória. Além disso, James maldito Potter vinha piorando as brincadeiras idiotas que fazia com ele junto ao seu clã de desocupados. A última tinha quase deixado Severus sem as calças junto ao Salgueiro Lutador!
- Sev, está tudo bem? - Lily perguntou trazendo o garoto de volta à realidade. Snape ainda estava um pouco confuso, mas se deixou olhar nos verdes olhos da garota a sua frente.
- N-não se preocupe. - gaguejou um pouco e logo se recompôs, retornando sua atenção aos livros - Temos que terminar de estudar para a prova de Poções! O professor Slughorn comentou sobre exigir mais da gente como um simulado para os N.O.M.S.
- Eles serão apenas no próximo ano. Temos tempo pra estudar! - disse sorrindo, mas continuou a ler suas anotações, complementando o seu material com o que Severus tinha da matéria - Severus, - Lily chamou atenção do garoto - como você está?
- Eu estou bem, oras! - ele deu de ombros.
- Falo sobre a última pegadinha de Potter e os garotos. - ela explicou hesitante - Fiquei preocupada contigo.
- Potter age assim porque é um sangue puro, Lily e da pior espécie! - disse com raiva - Mas ele se esquece de que a vingança é um prato que se come frio. - completou sombrio.
- Eu não gosto quando fala assim, Severus! - ralhou a ruiva - Não deveria deixar essas coisas te afetarem. Potter não sabe o quanto está sendo idiota por isso.
- Tente ser humilhada todos os dias e na frente de toda a escola primeiro antes de me julgar, Evans! - Snape disse de forma fria e se levantou, juntando suas coisas - E não se preocupe em continuar defendendo seu precioso Potter, porque não há nada que possa fazer ou dizer para que eu me importe com aquele sujeito. - completou em uma voz letal e deixou a amiga sozinha ainda meio aturdida com o que acontecera.
Severus saiu da Biblioteca como um furacão, quase esbarrando em duas garotas da Corvinal que entravam no lugar. Mas ele não se deteve e continuou seu caminho até as masmorras. Em seu dormitório poderia ficar em paz, sem precisar ouvir de Lily que não deveria se vingar ou, pior, que Potter apenas não sabia o que estava fazendo. Quanta estupidez!
Quando ele finalmente conseguiu chegar ao seu dormitório, estranhou ao ver que Lucius Malfoy estava sentado em sua cama de forma despreocupada, folheando um de seus livros de Transfiguração. Severus teve que pigarrear para atrair a atenção do garoto mais velho, que apenas se endireitou na cama e largou o livro pra lá.
- Justamente quem eu estava esperando! - Lucius saudou o mais novo sem se levantar - Podemos conversar por alguns minutos, Snape? - Severus largou os livros na cama mais próxima e manteve-se olhando para Malfoy, que interpretou como um sinal para continuar - Imagino que esteja querendo se vingar de Potter, estou certo?
- O que você tem a ver com isso? - Snape questionou ríspido.
- Só acho que pessoas com os mesmos ideais deveriam se unir, Snape! - o loiro deu de ombros - Apenas isso.
- E desde quando você se importa se quero ou não me vingar do Potter?
- Desde que Potter e seu clã são uma escória! Compactuando com traidores de sangue e sangues-ruins, pelo amor de Merlin! - Severus estremeceu levemente sabendo que Lucius se referia a Lily - Ele precisa receber o castigo que merece.
- E você tem algum plano?
- Meus planos são a longo prazo, Snape. - Lucius levantou e se aproximou do garoto - Gostaria de convidá-lo para passar alguns dias em minha casa durante as férias. Acredito que vai achar nossos planos muito interessantes.
- Nossos planos? - Severus questionou, ainda que tivesse alguma ideia do que se tratava pelos boatos que tinha escutado - Que tipo de planos tem em mente?
- Você ainda é muito novo para saber de tudo, mas tenho certeza de que irá se identificar. - Malfoy respondeu de forma evasiva e continuou - Receberá uma coruja com a sua chave de portal na segunda semana de férias. - o loiro saiu do quarto sem dar a oportunidade de Severus responder ao “convite”, que mais era uma intimação. Snape pegou seus livros e se jogou em sua cama, fechando os olhos com bastante força. Ele torcia para dar certo essa situação na qual estava se metendo. E se tudo desse certo, Lily Evans poderia ser, finalmente, sua.

Julho de 1975


Severus não demorou a convencer sua mãe de que ele tinha que passar duas semanas na mansão dos Malfoy. Eileen guardava boas recordações de Emeline Malfoy em sua época de Hogwarts e, ainda que a mulher tivesse morrido há pouco tempo, acreditava que seu filho seria bem recebido na casa da antiga companheira de quarto.
Como prometido, no começo da segunda semana do recesso, Snape recebera via coruja uma carta de Lucius com as instruções para usar a chave de portal que o levaria até a mansão dos Malfoy. O garoto estava nervoso com a ida até essa tal reunião, mas não podia se deixar levar por medos idiotas.
Se despediu da mãe, agradecendo pelo pai estar fora de casa trabalhando e rumou para o jardim traseiro da casa onde viviam com o botão que era sua chave de portal. Snape apoiou a mala que segurava no chão e olhou na direção da grande árvore que existia ali, com um balanço preso em um dos galhos. Lily Evans se balançava de olhos fechados, aproveitando o vento em seu rosto, deixando que os cabelos ruivos dançassem às suas costas. O coração de Severus deu um solavanco e sua respiração falhou levemente, ao mesmo tempo que o relógio em seu pulso apitava, indicando que já estava na hora da chave do portal. O garoto só teve o tempo de segurar sua mala novamente e fechar os olhos antes de ser transportado à mansão dos Malfoy.
Severus chegou um pouco desconcertado, caindo no chão como se tivesse sido jogado dos céus. Por sorte ninguém tinha reparado em sua aterrissagem ridícula no jardim dos Malfoy, ou assim ele pensava antes de ouvir uma risada às suas costas. Ele se virou, já com a varinha em punho, mas não encontrou ninguém. Intrigado, ele olhou para todos os lados, mas nada encontrou. Devo ter ouvido coisas, pensou enquanto recolhia sua bagagem e ia para a porta da casa, que logo fora aberta por um elfo doméstico.
Lucius não demorou a aparecer, seguido de perto por Amico e Alecto Carrow, os gêmeos sonserinos que pareciam ser a sombra de Malfoy, além de Stilimus Crabbe, que pertencia ao quarto ano assim como Severus.
- Que bom que conseguiu vir, Snape! - Lucius saudou com uma falsa alegria - Estamos muito satisfeitos com a sua companhia, certo, pessoal? - questionou os outros que apenas fizeram sons de concordância.
- Agora já pode me dizer que planos são esses que tem, Malfoy? - Snape questionou com toda a coragem que pode reunir e viu Lucius rir, sendo acompanhado pelos gêmeos. Crabbe parecia tão perdido quanto ele próprio, mas não parecia ter condições de perguntar nada.
- Tudo a seu tempo, criança. - o loiro disse e Severus odiou o tom de voz, mas engoliu em seco o xingamento - Deixe-me apresentar a casa a você primeiro. - disse, pedindo que todos o seguissem.
Malfoy lhes mostrou toda a casa, menos o subterrâneo, e disse que eles estavam livres para fazerem o que tivessem vontade, depois de se acomodarem nos quartos que tinham sido preparados. Nada seria feito ou dito até o dia seguinte, quando as outras pessoas chegariam. Severus não tinha ideia do que aconteceria ou de quem aquelas pessoas seriam, mas decidiu descansar um pouco no quarto que seria dele pelos próximos dias. Era até bem confortável, então o garoto acabou pegando no sono.
Algumas horas depois, Severus acordou e resolveu explorar a biblioteca dos Malfoy, como Lucius tinha sugerido, pelo menos até o horário do almoço. O garoto ouvia os demais jogando quadribol do lado de fora de casa, mas não tinha interesse em se juntar a eles. Ele cruzou com o elfo doméstico da família, que lhe perguntou se ele queria algo para comer, mas que foi recusado.
Quando entrou na biblioteca, Snape se deparou com uma cabeleira loira característica dos Malfoy. A mulher estava de costas para ele, procurando algo na estante e parecia apressada. Severus resolveu pigarrear para chamar a atenção e ela se virou assustada, deixando os livros caírem no chão, fazendo com que seus olhos se encontrassem. Era a garota mais bonita que ele tinha visto, pensou enquanto observava o rosto pálido se tingir de vermelho de vergonha.
- D-desculpe. - ela disse baixinho, pegando os livros no chão apressada e foi caminhando na direção de Severus que ainda parecia hipnotizado - Com licença. - pediu e o garoto só conseguiu se afastar minimamente para o lado, lhe dando passagem, e ela logo saiu em disparada pela casa. Ele não sabia quem era a menina, mas ia descobrir.


Capítulo 3

O dia seguinte não demorou muito para chegar e Snape não conseguiu parar de pensar em quem era a garota do dia anterior. Durante as refeições, ele tinha sido apresentado a Abraxas Malfoy, mas nenhuma menina se juntou à mesa, além de Alecto Carrow. Ele resolveu não perguntar nada, já que não tinha intimidade com nenhuma das pessoas dali, mas iria investigar por si mesmo.
Ele queria que a noite viesse logo, mas Lucius fizera questão de informar que haveria uma reunião em poucos minutos e ele estava sentado ao lado de um Stilimus Crabbe parecendo mais entediado do que se estivesse numa aula de História da Magia com o professor Binns. Os dois não conversavam entre si, mas pareciam igualmente atentos à movimentação da sala. Lucius estava em um canto com irmãos Carrow, que tinham se formado junto a Malfoy naquele ano, falando em voz baixa e vez ou outra olhando para os mais novos. Abraxas tinha saído pela manhã e ainda não voltara como prometera.
Mas não demorou até que eles ouvissem a porta da frente batendo e vários bruxos entrando na sala da mansão. Abraxas estava acompanhado por mais quatro casais que Severus nunca tinha visto, mas imaginava que fossem pertencentes a elite bruxa. Suas roupas eram tão extravagantes e sombrias, que se lhe dissessem que eram todos de um mesmo culto, ele acreditaria.
- O Lorde logo chegará. - Abraxas disse no meio da sala enquanto todos se acomodavam.
Severus se remexeu inquieto no sofá e começou a pensar onde tinha se metido. Ele já ouvira falar sobre os ideais de Lorde Voldemort, que eram bem parecidos com os de Gellert Grindelwald, mas não sabia que o conheceria pessoalmente tão cedo. O garoto estava até considerando sair sem ser visto quando ouviu um barulho de aparatação às suas costas. Ele não precisava se virar pra saber quem tinha aparecido. Lorde Voldemort não precisava ser anunciado para que os pelos dos braços de Severus arrepiassem e seu corpo estremecesse.
O Lorde das Trevas caminhou até o centro da sala e, ainda que ninguém se atrevesse a olhá-lo nos olhos, todos estavam atentos aos seus passos. As respirações pareciam em suspenso, mas Abraxas resolveu se aproximar lentamente de Tom Riddle para direcioná-lo a cadeira, que mais parecia um trono, no canto do salão. Malfoy era um dos servos mais fiéis a Voldemort, mas sua devoção se dava mais por medo do antigo companheiro de escola do que mera adesão aos seus ideais.
Depois de finalmente se sentar, o Lorde começou a observar os presentes. A maioria dos que estavam ali já eram comensais conhecidos e propagadores de seus ideais, no entanto o foco daquela reunião era outro. O Lorde das Trevas queria aumentar sua quantidade de seguidores e, nada melhor do que começar com estudantes. Eles eram mais maleáveis, fáceis de manipular. Perfeitos para seus planos.
Foi nesse momento que o Lorde fixou sua atenção nos garotos sentados no sofá. Um deles, ele sabia ser filho de um de seus comensais. Crabbe. O outro ainda era desconhecido, o que queria dizer que não pertencia a uma família de sangue puro. Riddle conhecia todas elas.
- Você! - disse Riddle apontando para Severus que faltava se fundir ao encosto do sofá - Venha até aqui.
Não foi preciso que Abraxas viesse até o garoto para buscá-lo, ele mesmo foi até o Lorde tentando esconder qualquer tipo de desconforto. Enquanto andava, Severus estava bem surpreso. Voldemort não era nem um pouco como ele imaginava. O homem que o olhava de forma superior não parecia passar dos 50 anos, tinha as feições bonitas e estava apenas começando a ter cabelos brancos. Mas, mesmo que tivesse uma aparência normal, olhar pro homem ainda era ruim. Ele exalava perigo.
- Milorde - Snape cumprimentou com uma leve reverência como ouvira outras pessoas falando baixinho minutos atrás.
- Qual o seu nome, garoto? - o Lorde questionou olhando o moreno de cima a baixo.
- Severus Prince Snape, Milorde. - respondeu sem hesitar.
- Esse último sobrenome é trouxa? - perguntou enojado e o garoto engoliu em seco. Também não se orgulhava.
- Infelizmente sim, Milorde! Mas apenas isso compartilho com a escória. - ele cuspiu enraivecido, evitando a todo o custo os olhos de Lily que teimavam em aparecer em sua mente - Nada me orgulharia mais do que levar apenas o sangue puro de minha mãe.
- Entendo! - o Lorde ponderou e apenas fez um sinal com a mão para que o garoto se afastasse. Não precisou pedir duas vezes e Snape se distanciou voltando ao sofá - Vamos aos assuntos importantes agora. Precisamos lidar com o aumento de sangues ruins em nosso mundo.
E a reunião durou longas duas horas, em que Voldemort também falou aos seus comensais e aos convidados sobre a importância de encontrar antigos seguidores de Grindelwald, já que o bruxo estava há anos em Azkaban.
Snape tinha ficado calado e apenas absorvia as intenções daquele grupo que tanto compartilhava com o que ele pensava. Realmente os trouxas eram inferiores, a começar pelo seu pai. Tobias Snape era a escória entre os trouxas. Talvez a vinda a essa reunião não tivesse sido tão ruim assim. Quem sabe se ele tivesse poder o suficiente nas mãos e prestígio, Lily conseguisse enxergar que seu futuro era junto a ele. Severus a defenderia de qualquer xingamento, claro.
Depois de mais um tempo, as pessoas foram dispersando até que apenas o Lorde tivesse ficado conversando junto a Abraxas. Os dois falavam em sussurros, mas os cinco adolescentes não tinham se atrevido a interromper. Eles mantinham-se nos lugares iniciais, esperando o que parecia ser uma permissão até mesmo para respirar.
- Iremos todos jantar agora! - Abraxas comunicou aos jovens e todos se dirigiram ao grande salão de jantar.
O Lorde das Trevas ainda os acompanhava e se juntou à mesa sentando na cabeceira que normalmente pertencia a Abraxas como Malfoy mais velho. Se ele se importou, não deixou transparecer, já que estava mais preocupado em atender aos pedidos do Lorde.
Mais uma vez, Snape notou que garota que vira biblioteca não tinha se juntado a eles. Se antes esse não era um bom momento, agora na presença de Voldemort se tornara pior ainda. O garoto estava começando a pensar que talvez tivesse imaginado a loira misteriosa. Afinal, se outra garota estivesse na casa, por que não comer junto a eles? Ela parecia uma Malfoy, então qual seria o problema?
- A cerimônia para que se juntem a nós acontecerá no próximo mês! - Voldemort comunicou entre uma colherada e outra na sopa de abóbora que todos comiam - Espero que os três estejam prontos até lá! - olhou de relance para Lucius e os irmãos Carrow que concordaram apressadamente - Queremos esperar tempo o suficiente para que o Ministério tenha esquecido de vocês, ainda que o rastreador pare de funcionar assim que completam 17.
- Claro, Milorde! - Alecto disse e parecia a mais corajosa e determinada entre os três - Será uma honra para nós!
- Os detalhes serão enviados a vocês quando nos aproximarmos da data. - completou ignorando a fala da garota, mais preocupado em terminar sua própria refeição.
O silêncio da mesa se fez por mais alguns minutos, até que todos já tivessem terminado de jantar. Severus não sabia o que fazer, mas tinha certeza de que não podia se levantar até que o Lorde das Trevas determinasse. Mesmo assim, não era como se fosse conseguir nesse exato momento. Estava se sentindo levemente tonto, com uma dor de cabeça que aparecera do nada, como se algo estivesse pressionando seu cérebro.
- Gostaria de ficar uns minutos a sós com o jovem Snape, se for possível. - pediu o Lorde em tom falsamente educado. Todos sabiam que se tratava de uma ordem, era apenas para manter as aparências.
Os Malfoy, Crabbe e os irmãos Carrow deixaram a sala rapidamente e em silêncio, restando apenas os dois na mesa. Severus não ousou se mexer ou olhar diretamente para o Lorde. Ele se manteve com os olhos baixos, esperando pelo que pudesse ser dito.
- Você sabe que deve se provar mais digno do que qualquer um nesta casa, certo? - Voldemort começou com a voz baixa - Para compensar a sujeira em seu sangue vinda de seu pai. - completou e Snape se atreveu a olhar para o homem - O que foi? Lhe incomoda que outra pessoa fale assim de seu pai? - perguntou em escárnio.
- O senhor não sabe nada sobre ele, Milorde! - respondeu firme e quase se arrependeu da grosseria, mas o Lorde apenas ria.
- Tem muito o que aprender ainda, criança! - disse de forma superior e Severus apertou as mãos com força embaixo da mesa - Mas soube que é um excelente bruxo para a sua idade. Malfoy elogiou sua capacidade para criar feitiços e poções.
- Sim, senhor! - o mais jovem assentiu e apenas esperou.
- Ainda que seu sangue me incomode, acredito que você pode ser uma boa adição ao meu grupo seleto de colaboradores. - convidou o Lorde - Depois de sua maioridade, claro.
- Será um prazer, Milorde! - Severus respondeu, sabendo que era apenas mera formalidade. O Lorde já tinha decidido que o queria em seu grupo.
- Você pode ir, Snape! - o Lorde dispensou o adolescente - Tenho assuntos a tratar com Abraxas que não lhe dizem respeito.
Severus se levantou e fez uma leve reverência antes de sair da mesa. A dor em sua cabeça tinha aliviado e agora ele não a sentia mais. O que mais lhe incomodava era saber que não teria escolhas a partir de agora. Tinha assinado sua entrada para o grupo do bruxo. Ele só desejava que tudo desse certo. E se fosse assim, Lily seria sua e Potter estaria finalmente fora de cenário.
[...]


Dois dias tinham se passado e Severus não tinha reencontrado a tal loira misteriosa. Ele saíra para algumas caminhadas noturnas pela mansão Malfoy, mas não encontrara nada além de Vipper, o elfo doméstico da família. O garoto podia ter perguntado a ele, ainda que fosse suspeito demais. Snape começava a trabalhar com a hipótese de ter sido alguma alucinação ou um contato repentino com espíritos. Alguns tinham assuntos inacabados, nunca se sabe.
No entanto, mesmo assim, Severus foi uma vez mais até a biblioteca dos Malfoy quando teve a certeza de que a casa estava mergulhada em silêncio e sono. Ele não sabia se Merlin estava apenas colaborando com ele, mas a mesma loira estava se esgueirando por entre os livros, parecendo apressada para sair dali.
- Boa noite. - ele arriscou dizer baixo e viu quando ela se sobressaltou, ainda que nada tivesse caído dessa vez. A loira se manteve de costas para ele, em silêncio, e guardava alguns livros que estavam em seus braços nas prateleiras - Você é criada dos Malfoy? - Severus perguntou hesitante, mas foi o suficiente para que a mulher, que não passava de uma garota, se voltasse irada para ele.
- Como você se atreve a dizer que eu sou uma criada? - a voz dela saiu baixa, mas letal, como se estivesse guardando toda a raiva do mundo a ponto de explodir. Seu rosto, que era extremamente pálido, estava consideravelmente vermelho, o que fez com que Severus desse um passo para trás.
- Quem é você, então? - o garoto tentou uma vez mais, mas ela lhe deu novamente as costas, prestando atenção nos livros - Vai me dizer ou terei que acordar Lucius e o senhor Malfoy?
- Não! - disse rápido, deixando o restante dos livros na mesinha ao lado da poltrona imponente - Por favor, não diga que me viu! - pediu com a voz falha.
- Então vai me dizer quem é?
- Não acho que isso seja da sua conta. - a loira comentou se recompondo e sentando na poltrona, tentando transparecer tranquilidade - Você é apenas um simples convidado de Lucius, não parece importante.
- Você é uma Malfoy, não é? - Severus arriscou e a loira apenas deu de ombros - Qual o seu nome?
- . - ela respondeu simplesmente - O seu é Severus Snape, não há necessidade de se apresentar.
- Como sabe?
- As paredes da casa têm ouvidos. Não é como se as coisas fossem se manter escondidas aqui. - ela disse se levantando - Não diga que me viu, as coisas vão ser piores se souberem que você sabe da minha existência.
- É uma ameaça?
- Claro que sim, Severus. - disse como se fosse óbvio e parou próxima a ele, apenas um palmo de distância os separava - Ou você não sabe ainda lidar com um Malfoy?
- Se você é um deles, como nunca lhe vi em Hogwarts? - o garoto perguntou quando ela se afastou e lhe deu as costas.
- Pureza de sangue não garante magia, Snape. - respondeu se virando para o garoto - Ma, discrição pode lhe tirar daqui com a mesma sanidade que chegou. Pense nisso. - finalizou antes de sair da vista de Severus, se perdendo na escuridão. Snape não sabia se deveria levar a sério o aviso que a garota lhe dera, mas certamente tinha muito o que digerir com aquela informação. Se estivesse realmente falando sério, os Malfoy escondiam muito mais do que a relação com o Lorde das Trevas. Abortos não eram tão comuns nas famílias de sangues puros, mas não deixavam de ser vergonhosos e indesejados. Ele entendia agora.


Capítulo 4

Severus não demorou pra sair da biblioteca e voltar aos seus aposentos, mas não parou de pensar em e no que tinha descoberto. Ele imaginava que se alguém soubesse da conversa dele com a garota, os dois estariam em belos problemas, por isso achou melhor seguir o conselho dela e se manter calado.
Mesmo assim, ele parou para observar melhor os Malfoy. Abraxas não aparecia tanto, ele era mais como um fantasma, andando silenciosamente pela mansão, sem deixar que sua figura sobressaísse. Só que isso não significava que ele não era assustador. Sua expressão de sempre que parecia impassível, ao mesmo tempo soava como ameaça.
Já Lucius era diferente do pai, sempre chamando a atenção para si mesmo ou se vangloriando por ser melhor em alguma coisa. Severus não sabia se era porque as pessoas convidadas tinham vindo graças a ele ou se era apenas uma falha de personalidade. Ainda assim, Lucius fez questão de contar a todos os “convidados” sobre como seria a sua vida no Ministério da Magia, agora que tinha se formado em Hogwarts. Ele se gabava sobre como tinha conseguido uma vaga no Departamento de Execução das Leis da Magia por suas ótimas notas nos N.I.E.M.S, mas todo mundo sabia que tinha um dedo - talvez uma mão inteira - de Abraxas nessa nova colocação.
Era estranho para Severus pensar que Abraxas e Lucius escondessem, com tanto êxito, um aborto dentro da própria casa. O discurso que tanto faziam, e que Snape estava muito de acordo, sobre superioridade dos bruxos frente aos trouxas não excluía a inferioridade de bruxos abortados. Muito pelo contrário, eles estavam no mesmo patamar de escória para o Lorde das Trevas que os nascidos-trouxas e os traidores de sangue. Não que o garoto imaginasse como agir se estivesse nessa situação, mas se nem um aborto na família tinha mudado os ideais dos Malfoy, nada mudaria. E, ele estava genuinamente curioso. Severus não queria, mas não tinha deixado de pensar na incógnita que conhecera na noite anterior e no quanto queria saber mais sobre a garota.
- Vai ficar lendo o tempo inteiro que estivermos aqui, Snape? - Alecto questionou sentado ao lado do garoto no banco que ficava próximo a um jardim. Todos estavam ao ar livre aproveitando o bom tempo para jogar uma partida de Quadribol, mas Severus tinha outros planos. Ele não era muito bom no esporte, preferia ficar estudando.
- Algum problema com isso? - retrucou sem afastar seus olhos de seu exemplar surrado do Livro de Poções de Zygmunt Budge.
- Nenhum, mas achei que pudesse finalmente apreciar as minhas qualidades no Quadribol. - ela disse como quem não queria nada - Já vi você reparando no meu jogo durante as partidas e, bem, eu sei que sou de longe a melhor artilheira da Sonserina. - Carrow se gabou enquanto arrumava o rabo de cavalo e olhou sugestiva para Snape que, finalmente, lhe deu atenção.
- Quadribol não me interessa, Carrow. - respondeu Snape em voz baixa - Mas seu jogo não é de todo ruim. - ele lhe olhou sacana.
- Quem sabe eu não te ensino algumas jogadas mais tarde? Você não deve ter aprendido tudo nesses livros que tanto lê.
- Você vai acabar descobrindo que a leitura ensina tanto quanto a prática, Carrow. - Severus respondeu antes que Amico gritasse pela irmã para que ela voltasse ao jogo. Alecto logo se levantou, mas não deixou de pedir que Snape lhe esperasse a meia noite em seu quarto.
Em algum momento, Snape se encheu das anotações e achou melhor dar atenção aos companheiros de casa, se tornando uma espécie de árbitro do jogo de Quadribol improvisado. Ele podia não admitir, mas estava se divertindo tendo que separar os roubos de Amico e Crabbe para que a partida improvisada saísse da melhor forma possível. Os sonserinos eram extremamente individualistas, mas sabiam deixar o ambiente animado. Isso ele sabia muito bem.
Levou mais ou menos umas duas horas até que todos estivessem cansados e resolvessem parar para almoçar. Abraxas não tinha se juntado aos jovens, mas Severus não poderia fazer menos questão de sua companhia. Sem o patriarca dos Malfoy, as refeições se tornavam mais leves e Lucius até que era bem suportável, ainda que fosse extremamente arrogante. Ao que parecia, a relação deles era semelhante a que o próprio Severus tinha com o pai, Tobias.
Após a refeição, todos acharam melhor descansar um pouco, já que haveria uma espécie de encontro da alta sociedade durante à noite no salão dos Malfoy. Algo pequeno, mais parecido a um jantar com alguns membros do Ministério da Magia e um ou outro convidado de uma família puro sangue. Snape até tinha escrito a sua mãe na noite anterior pedindo um traje mais a rigor para a ocasião e ela havia lhe enviado, via coruja, um pacote um pouco antes do café da manhã. Era um terno preto que combinava bastante com seus cabelos. Ele sabia que a roupa era de seu pai, mas a mãe tinha ajustado nas férias para que se moldasse às medidas do filho. Severus não gostava de ter que usar roupas de segunda mão, mas o traje serviria.
No entanto, contrariando o que tinha dito aos companheiros de casa, Severus não foi ao seu quarto dormir. Ele caminhou o mais silenciosamente possível para a biblioteca da mansão torcendo para que encontrasse por ali.
Nem ele sabia muito bem o motivo pelo qual queria tanto encontrá-la, já que a garota era um aborto e Snape não aceitava muito bem essa fraqueza de sangue. Abortos eram completamente diferentes de nascidos trouxas, como Evans. Na verdade, Lily para ele é que era diferente de todos os outros. Ele a manteria ao seu lado, os outros podiam ir para o inferno. Eu estou apenas curioso, ele reafirmava em pensamento enquanto descia as escadas e parava na porta fechada da biblioteca.
Levou poucos segundos para respirar fundo e ao abrir a porta, a garota estava confortavelmente sentada na poltrona perto das estantes. tinha um livro aberto em seu colo, mas não estava lendo. Ao contrário, ela olhava para a porta como se estivesse esperando por alguém. Severus não conseguiu controlar a ânsia, mesmo que mínima, de torcer para que a loira estivesse esperando por ele.
- Vejo que não se esconde mais. - ele disse enquanto fechava a porta e se direcionava a estante mais próxima da garota e fingia procurar entre os títulos.
- Vejo que levou a sério o meu conselho de não contar a ninguém sobre mim. - ela rebateu desinteressada e, finalmente, pregou seus olhos no livro que tinha em mãos.
- Sua ameaça, você quer dizer. - Severus corrigiu e deu de ombros - Mas achei por bem manter essa situação em segredo. - completou se sentando no chão encostado na estante e com um exemplar de As melhores previsões para o Século XX de Cassandra Trelawney nas mãos.
- Não é como se fosse o primeiro a esconder esse tipo de situação dos outros, Snape. - procurou os olhos de Severus - As pessoas tendem a esconder aquilo que lhes é menos conveniente, apenas isso.
- Eu não quero esconder por conta do seu segredo, Malfoy.
- Você pode dizer aborto, Snape. Não é como se fosse mudar alguma coisa na minha vida ou como se evocasse Voldemort ou Grindelwald.
- Se atreve a dizer o nome deles assim?!
- Não me importo o suficiente para ter medo de qualquer um deles. - ela deu de ombros - Se eu tivesse que enfrentá-los, não teria como me defender e estaria morta antes que pudesse soletrar Malfoy. Então, de que me adianta temer?
Severus estremeceu levemente com a cena que fora criada em sua cabeça: de joelhos na frente do Lorde das Trevas sendo morta por ser um aborto. Sua pureza de sangue não importava quando outros ideais tomavam a frente e ele sabia disso. Ela também sabia, por isso não imploraria por sua vida. Ele não gostou nenhum pouco do aperto que sentiu no peito por ela.
- Talvez você deva aprender a se defender. - ele sugeriu com a voz fraca e ela olhou pra ele desacreditada. Nem Severus sabia por que estava se preocupando a esse ponto.
- Eu tenho aulas de magia todas as manhãs com Abgail Brown desde que tenho oito anos, Snape. - contou - Provavelmente sei mais sobre ervas que um estudante do 7º ano. Consigo fazer as poções que ela me passa normalmente na primeira ou segunda tentativa. Sei sobre a teoria de quase todos os feitiços que são ensinados até o quarto ano, que é onde eu estaria se tivesse ido a Hogwarts. - suspirou - O problema não é e nunca foi não saber me defender. O único problema é não ter magia o suficiente nas veias pra isso.
- Você teria sido uma sonserina extraordinária, sabia? - ele disse baixo sem se conter, quase não reconhecendo a própria voz e ela agradeceu com um aceno de cabeça pela mudança de clima.
- Me fale mais sobre Hogwarts, Snape. Eu quero saber com quem estou me metendo. Até onde eu sei, você poderia ser um assassino.
- E por que eu seria um assassino? Melhor, por que eu te diria se fosse um?
- Bom, você está aqui a pedido de meu querido irmão para compactuar com o maior bruxo das trevas desde Grindelwald. Isso já não conta muitos pontos a seu favor. - ela sorriu divertida e Severus achou que ela ficava ainda mais bonita quando o fazia - E você me diria pelos meus belos olhos, obviamente. - a garota jogou os cabelos pra trás, o que fez com que Snape desse uma boa gargalhada. Ele até estranhou, há tempos não se ouvia rindo.
- Eu não me entregaria por um simples par de olhos, Malfoy. E eles não são tão bonitos assim. - desdenhou, mas a garota podia ver o sorriso fácil que ainda pendia em seus lábios. Nada comparado com a carranca que ela tinha visto enquanto o espionava pela mansão.
- Você ainda vai se arrepender de ter dito isso, Snape. - ela estreitou o olhar e cruzou os braços. Mal sabia ela que ele tinha se arrependido no momento em que disse aquelas palavras mentirosas. Severus não estava reconhecendo o próprio estado de espírito enquanto estava com ela.
Os dois se mantiveram conversando por mais algum tempo. Snape contava a sobre as aulas de Hogwarts e as partes que ele conhecia do castelo, esquecendo-se momentaneamente da condição de aborto da garota. Descrevia a ela como fora conhecer Hogsmeade e como havia se sentido ao ver o castelo de Hogwarts pela primeira vez aos 11 anos. Como o céu do salão principal era lindamente enfeitiçado para parecer com um dia ensolarado ou a mais estrelada das noites.
Ainda que ela já soubesse de todas aquelas coisas graças aos diversos livros que tinha lido e as conversas que tivera com sua tutora, quando Snape descrevia tudo parecia ser desenhado frente aos seus olhos. só tinha pisado em Hogwarts uma única vez, quando sua mãe fora assassinada, e o lugar não lhe trazia boas lembranças. Mas pelos olhos dele, ela dava uma nova chance à escola.
Não demorou muito para que os dois começassem a se tratar pelo primeiro nome. Podia parecer precipitado, visto que tiveram poucas interações, mas ambos gostaram da sensação de dizer e ouvir seus nomes ditos pelo outro, ainda que não fossem admitir.
O sol lá fora estava quase se pondo quando ouviram um barulho de aparatação vindo do lado de fora da biblioteca. olhou alarmada para Severus e foi rapidamente para perto da estante do outro lado da sala, movendo um dos livros a sua direita e abrindo uma passagem secreta. “Nos vemos em outro momento, Severus”, ela disse apenas movendo os lábios sem som e desapareceu na passagem, fechando-a logo atrás de si. O garoto aproveitou a situação e se colocou sentado na poltrona, fingindo que lia o livro que a garota tinha deixado para trás, Os Contos de Beedle, o Bardo.
- Snape? O que faz aqui? - perguntou Lucius entrando na biblioteca e encontrando o garoto concentrado - Achei que estivesse dormindo, como disse que faria. - disse desconfiado.
- Não consegui dormir. - disse sem tirar os olhos do livro - Fiquei pensando na reunião que aconteceu na presença do Lorde. - achou melhor justificar e, quando olhou para Lucius, viu que tinha ido pelo caminho certo.
- Ah, sobre isso! - Lucius se aproximou puxando uma cadeira para se sentar perto da poltrona - Ele é uma figura impactante, né? - disse baixo, quase como um segredo e Snape só concordou com a cabeça - Mas seus ideais são incríveis. Imagina que maravilhoso seria o mundo sem que nós bruxos precisássemos nos esconder daqueles trouxas imundos? - comentou com um olhar sonhador.
- Seria incrível se a comunidade bruxa fosse mais unida entre si, realmente! - ele concordou com o pensamento em Lily, mas, principalmente, em . Talvez, em um mundo bruxo, ela pudesse ter um lugar já que vinha de uma família puro sangue. Assim, não precisaria se esconder.
- Um dia seremos, Snape! E os trouxas, assim como os nascidos-trouxas e os traidores de sangue, finalmente compreenderão o seu lugar. Na base de tudo.
Eles conversaram por mais alguns minutos até que Lucius lembrou ao garoto que deveria ir se limpar para o evento da noite, o que Severus fez de bom grado. Quanto menos tempo passasse próximo a Lucius, mais poderia elaborar suas mentiras quando algo fosse questionado.
No entanto, Malfoy não foi fazer o mesmo. Lucius seguiu pelo mesmo caminho que tinha ido momentos antes, dando de cara com o quarto da irmã, que escrevia em sua mesa de estudos.
- Atrapalho, ? - chamou cauteloso, mas a loira não se dignou a levantar a cabeça para encarar o irmão. A relação entre os dois não era das melhores desde que ela voltara a viver na mansão.
- O que quer, Lucius? - perguntou seca, virando as páginas do livro com um falso interesse.
- Me desculpar, talvez. - disse baixo e os olhos de finalmente lhe encontraram - Não temos passado muito tempo juntos durante essas férias e a culpa é minha.
- Não passamos tempo juntos desde fui embora com a mamãe, Lucius. Não é como se as coisas tivessem mudado de lá pra cá apenas pela chegada dos seus companheiros. - desdenhou e voltou aos seus materiais.
- Eu sinto falta de quando éramos crianças, . - confidenciou se aproximando da mais nova e colocando uma mão em seu ombro. A garota pensou em se afastar, mas não conseguiu. Apenas suspirou.
- Quando não havia a comprovação de que eu era um aborto e você ainda podia ter orgulho de me chamar de irmã. - completou baixo, com a voz machucada e Lucius engoliu em seco. Ele não queria concordar com ela. Não podia.
- Eu vou te deixar sozinha pra terminar as suas tarefas. - ele disse com a voz rouca depois do que pareceu uma eternidade e foi se afastando.
- Você me deixar sozinha não é uma novidade. - comentou antes que ele pudesse sair e viu quando o irmão estancou na porta, segurando com força o portal. Ela não sabia se ele ia se virar. Ela não sabia se queria que ele se virasse.
Mas Lucius encolheu os ombros depois de alguns segundos e continuou seu caminho de volta à luz da mansão, fechando a porta atrás de si. Uma lágrima solitária caiu dos olhos de e fez mancha na tinta do pergaminho. Como ela havia dito: não era uma novidade.

[...]


Ainda que fosse um evento mais íntimo, considerando a quantidade de pessoas que estavam ali - para além das que estavam hospedadas na mansão -, parecia que a nata da sociedade Bruxa estava presente. Os Carrow, os Flint e os Greengrass ocupavam o salão dos Malfoy junto a Abraxas, como se estivessem em uma reunião fechada dos Sagrados Vinte e Oito que tinham alguma relação com o Ministério da Magia.
Os adolescentes, então, com a adição de Teodora e Jacob Flint, ambos do 4º ano da Sonserina, e Leopold Greengrass, do 3º ano, haviam se reunido na outra extremidade. Quem olhasse de fora pensaria em um simples evento onde pais e filhos se dividem graças a afinidade. Mas, quando os mais velhos apenas combinavam aos sussurros sobre a próxima emboscada dos seguidores do Lorde das Trevas a um vilarejo trouxa, a normalidade ia embora.
- Você não me parece muito à vontade, Severus. - Teodora Flint se aproximou de Snape enquanto o garoto pegava um suco de abóbora na mesa de comidas.
- Essas reuniões de alta sociedade não são pra mim, Teo. Você sabe. - ele deu de ombros e olhou para a morena com um olhar sofrido. Eles tinham uma amizade desde o primeiro ano. Se ajudavam nos deveres, faziam dupla quando era necessário e conversavam quando se encontravam pelos corredores de Hogwarts e na sala comunal. Teodora Flint era uma das poucas sonserinas confiáveis, na opinião de Severus.
- Ainda estou surpresa por você ter aceito o convite de Malfoy. Vocês nunca foram exatamente próximos e ele é uns três anos mais velho que a gente. - ela abaixou o tom de voz e fingiu colocar algumas tortinhas em seu prato.
- Nunca foi um convite e você sabe disso. - ele suspirou - No momento em que ele pensou sobre a minha presença aqui, eu já estava. Ele só fez o favor de me comunicar quando eu deveria vir.
- Você não fala sobre Lucius, não é? - ela questionou com a voz trêmula e Severus apenas ficou em silêncio, se afastando sem se despedir e engatando uma conversa com Stilimus Crabbe sobre as matérias que viriam no próximo ano. Teodora não precisou de uma resposta.
Para a felicidade de Severus, o jantar não tardou a finalizar e logo tudo o que restava era protocolo para que as pessoas começassem a ir embora. Teodora fez questão de se aproximar discretamente de Severus mais uma vez para lhe passar um pedaço rasgado de guardanapo e lhe dedicar uma piscadela simples antes de se juntar aos pais e ao irmão gêmeo para que pudessem aparatar fora da mansão.
Lembre-se de me mandar uma coruja contando tudo assim que estiver em casa. Isso não é um pedido, o bilhete dizia simplesmente quando Severus se pôs a ler e logo as letras se embaralharam formando um pedaço de uma receita de Bolo de Caldeirão, que ele sabia ser a sobremesa favorita de Teodora. Ele não precisou de mais de um minuto para enfiar o papel nos bolsos e revirar os olhos. Claro que uma descendente dos Sagrados Vinte e Oito não teria medo de enfeitiçar um papel fora de Hogwarts. Teo era legal, mas um pouco avessa a algumas regras, ele bem sabia.
Por sorte, o restante dos convidados logo tomou o mesmo caminho dos Flint e se foram deixando Abraxas junto aos cinco adolescentes que ocupavam a sua casa. O mais velho dos Malfoy se retirou sem dizer nada e os jovens fizeram o mesmo, prometendo que no dia seguinte, jogariam outra partida de quadribol. Mesmo sem estar muito animado, Severus parecia bem disposto a ser o juiz do jogo novamente. Melhor isso do que ser importunado a subir em uma vassoura, ele pensava enquanto virava de um lado ao outro na cama sem conseguir dormir.
Era estranho, mas ele queria que tivesse sido uma presença durante o jantar. Com certeza, pelo pouco que conhecia da loira, a companhia dela ia deixar a situação menos superficial, ainda que a garota fosse uma Malfoy perfeita, com a altivez e sarcasmo na ponta da língua quando necessário. Severus também sabia que Teodora adoraria . Não sabia bem o motivo, mas achava que essa amizade delas, se existisse, daria certo.
Com esse pensamento, Snape levantou da cama, pegou a varinha e caminhou o mais silenciosamente para a porta do quarto. Ele torcia para encontrar a garota lendo na biblioteca, como tinha feito mais cedo, mas ofegou de susto com a figura de Alecto vestindo apenas uma camisola preta a sua porta.
- Indo me procurar, Snape? - a garota disse como um sussurro e Severus engoliu em seco. Tinha esquecido do que “combinara” com Carrow mais cedo.
- Claro, claro. - ele respondeu dando passagem para que a garota entrasse em seu quarto e ele logo fechou a porta, tendo o cuidado de passar a tranca - Não imaginei que viesse tão cedo, Carrow.
- Só achei que como é um excelente aluno, você detestasse atrasos, Snape. - Alecto comentou sentando na cama e propositalmente cruzando as pernas bem torneadas, sem perder o vacilo de Severus de olhar apenas para o seu rosto - Você pode ficar aí parado ou vir aprender uma coisa ou outra. - ela deu de ombros e sorriu ao ver o garoto se aproximando da cama numa postura mais firme. Ele chegou perto o suficiente para deixar a garota com a respiração acelerada.
- Acho que você deveria se preocupar com o que pode aprender, isso sim. - disse antes de começar a beijar o pescoço da garota que não teve muito tempo pra pensar e só conseguiu pegar a própria varinha para murmurar um Muffiato e se deixar levar pelas sensações que Snape lhe provocava por toda a noite.


Capítulo 5

- Vipper? - chamou uma noite quando já estava deitada em seu quarto e em poucos segundos viu o elfo se materializar a sua frente lhe dedicando uma leve referência, suas grandes orelhas tocando o chão. Os olhos grandes e castanhos do elfo brilhantes para a garota - Gostaria que pudéssemos conversar, sim?
- Claro, princesa Malfoy. - ele assentiu rapidamente e se sentou no chão - O que Vipper pode fazer pela senhorita?
- Eu imagino que saiba de tudo o que acontece dentro dessa casa, estou certa?
- Vipper sabe muito, senhorita, mas Vipper nunca diria nada que pudesse fazer mal aos seus senhores! Vipper prefere a morte a ferir a honra dos Malfoy, senhorita. - ele se justificou apressado, algumas lágrimas já se formando em seus olhos e resolveu levantar. Ela se sentou de frente para o elfo e pegou em suas pequenas mãozinhas. Vipper já estava acostumado com essa atitude dela, mas não deixou de se assustar pela proximidade.
- Fique tranquilo, Vipper. Eu confio muito em você. - ela lhe acalmou - Por isso, gostaria que me fizesse um favor, sim?
- O que a senhorita quiser, princesa Malfoy. Vipper ficará exultante em lhe servir!
- Apenas quero que mantenha em segredo o meu encontro com o senhor Snape. - ela pediu baixo e o elfo doméstico manteve seus olhos atentos na garota - Eu não acho que será bem visto por Abraxas ou qualquer outra pessoa, então prefiro manter assim. Pode ser?
- A senhorita continuará se encontrando com o garoto Snape? - o elfo questionou, mas logo se apressou em se desculpar - Não era a intenção de Vipper parecer intrometido, isso não interessa a Vipper. O que a senhorita pensará agora? - manteve-se segurando as mãos do elfo. Ela sabia que ele arrumaria algum modo de se castigar se ela o soltasse. Não queria ter que ver isso de novo.
- Vipper, não há o que temer, por favor! - ela suspirou - Acredito que aquela não foi e não será minha última conversa com Snape e conto com a sua discrição.
- Sempre terá a minha lealdade, princesa Malfoy. Se a senhorita precisa que Vipper fique calado sobre isso, Vipper nada dirá até que a senhorita mude de ideia. - ele prometeu e a loira sorriu para o elfo. Ainda que estivesse queimada da tapeçaria, Vipper não lhe tratava como se fosse diferente. Ela apreciava isso.
- Muito obrigada, Vipper. É muito bom saber disso.

[...]


- Vejo que não desistiu de manter contato comigo, Severus. - ponderou quando viu o garoto entrar na biblioteca sorrateiramente. Ela estava de costas para a janela do cômodo e antes observava as bromélias de Emeline.
- Deveria ser menos presunçosa, Malfoy. Eu estava apenas procurando algo novo para ler. - ele deu de ombros e se encaminhou para a grande estante de livros, dedilhando as obras sem realmente focar em nenhuma.
- Claro, claro. O jogo de quadribol não lhe pareceu satisfatório hoje? - a loira se direcionou a sua costumeira poltrona e se deixou observar o moreno por alguns instantes. Seus cabelos negros não eram tão longos quanto os de Lucius, mas lhe tampavam boa parte do rosto. Seus ombros eram largos e Snape era alto. Bem mais do que ela. Ela o achava bonito? Ainda não sabia bem, não tinha muito com o que comparar - Seus companheiros não vão ficar desapontados? - voltou a falar antes que ele lhe pegasse em seu momento de observação.
- Parece muito interessada no que os outros podem pensar sobre mim, não? - retrucou voltando-se para a loira e notando que hoje seu rosto parecia mais leve. Seus cabelos estavam presos e ela usava um vestido acinzentado. Um belo contraste, ele tinha que admitir.
- Quem está sendo presunçoso agora, Snape? - ele soltou uma risada, mas nada respondeu. Sentou-se no chão perto da garota e abriu seu livro. Sentia os olhos dela acompanhando todos os seus movimentos, mas não se atreveu a encará-la de volta - Você acha que ele realmente está certo? - perguntou alguns minutos depois sem conseguir segurar a língua.
- De quem está falando?
- Do Lorde das Trevas, claro. - ela retrucou e viu Severus contorcer seu rosto em uma pequena careta antes de ficar mais sério - Acha que quando ele chegar ao poder poderemos viver sem a interferência dos trouxas?
- Claro, você não? O sangue mágico que corre em nossas veias é uma prova e tanto de que não deveríamos ser os que devem se esconder. - comentou como se fosse óbvio e viu a garota assentir displicente - O que te preocupa? Você é uma Malfoy!
- Eu sou, mas isso não me impediu de ser um aborto, né?
- Mas seria diferente, não? O sangue que corre em você ainda é puro, ele não faria nada, faria? - Severus olhava para a loira, mas ela deu de ombros e lhe encarou esnobe.
- Sinceramente eu não sei, mas isso não me importa por agora. Quando chegar o momento de lidar com o Lorde das Trevas, eu não vou esquecer do sangue Malfoy.
- Poderá contar comigo quando esse momento chegar. - em um impulso ele tocou a mão da garota e lhe encarou os olhos azuis-esverdeados. encarava a imensidão negra de volta e, mesmo sem entender, se sentiu acolhida.
- De onde vem essa lealdade, Snape? Nos conhecemos há tão pouco e você está parecendo uma coruja com toda essa dedicação.
- Eu não sei, mas sempre ouvi dizer que corujas eram animais extremamente sábios.
- Eles são, assim como são misteriosos. A clandestinidade da noite lhes é acolhedora. - ela ponderou e Severus sorriu observando que a garota ainda não afastara a mão da dele.
- Terá de lidar comigo, Malfoy.
- Se os lírios não foram o bastante para mudar a sua cabeça, por que eu deveria achar que uma coruja seria o suficiente? - perguntou com o olhar vago, como se prestasse atenção em algo muito além de Severus e o garoto não conseguiu compreender, mesmo que os olhos de Evans tivessem passado rapidamente por sua cabeça. Ainda que não a conhecesse bem, sabia que não responderia se ele questionasse.
- As corujas possuem asas, Malfoy. - ele arriscou e a loira focou seu rosto lhe dando atenção - Elas podem trazer uma nova perspectiva, acredito.
- Ter asas não significa alçar voo, você deveria saber.
- Mas isso não as impede de pensar e conhecer. - ele disse simplesmente e apertou levemente a mão da garota antes de soltá-la e se levantar. Severus nada mais falou e saiu da biblioteca. seguiu olhando para a porta por mais alguns instantes, mas logo saiu por sua passagem até o quarto.
Em sua mesa de cabeceira, uma foto dela e de Emeline se destacava em um belo porta-retrato. A fotografia tinha sido tirada no aniversário de 13 anos da garota. Emeline queria que a filha comemorasse a data normalmente, ainda que soubesse que não seria possível.
As duas estavam sozinhas na grande sala dos Burke, a família de Em antes de se casar com Abraxas, junto a um bolo pequeno com algumas velas para que a garota pudesse apagar. “Faça um desejo, querida”, a mãe tinha lhe dito, mas não conseguiu pensar em nada que quisesse. Abraxas e Lucius não apareceram em seus pensamentos. Ser uma bruxa muito menos. Ela só assoprou as velas e nada mudou. Sabia que não mudaria. Quando sua mãe perguntou se tinha feito seu pedido, ela se limitou a assentir e viu um sorriso surgir em seu rosto. Uma mentirinha não faria mal.
Agora, olhando para a imagem daquele dia, se culpava. Ela tinha desperdiçado um desejo naquele aniversário e gostaria de tê-lo de volta. Passando os dedos pela figura de Emeline que se movia abraçando sua versão da foto, a loira queria pedir a mãe de volta. Mas, sabia que nem soprando todas as velas do mundo seria atendida. Emeline não voltaria para esclarecer suas dúvidas.

[...]


- Você tem certeza de que é capaz de criar um feitiço? - questionou descrente Severus já no quinto dia em que os dois se reuniam para ler na biblioteca. Snape agora dava a desculpa de estar aproveitando o tempo junto aos livros dos Malfoy e, como os demais estavam mais interessados em Quadribol, lhe deixavam em paz por algumas horas.
- Está duvidando das minhas capacidades, Malfoy? - ele retrucou sarcástico - Que eu saiba, entre nós dois, eu tenho mais condições de criar um feitiço. - concluiu superior e a garota apenas revirou os olhos antes de sorrir sem se importar com o insulto implícito.
- Só quero que me diga quando tudo explodir para que eu possa aparecer e ser a primeira a falar “eu te avisei”. - pediu com um sorriso animado que desconcertou Severus por alguns instantes.
- Se isso acontecer, prometo que será a primeira a ser informada.
- Eu não pediria mais do que isso! - ela suspirou - Mas sinto que seu tempo aqui na mansão esteja acabando. - admitiu num ímpeto.
- Assumindo que sentirá a minha falta? - ele sorriu de lado, mantendo a postura e enfiando as mãos nos bolsos discretamente já que elas começavam a tremer.
- Você é mais interessante do que Vipper. - disse apenas, mas Severus entendeu o significado por trás da frase.
- De fato, conversar com um elfo doméstico tem suas limitações. - ele riu.
- Vipper me trata como uma princesa e é ótimo fazendo tortinhas de abóbora. - ela defendeu - Você deveria se sentir lisonjeado se te comparo a ele.
- Princesa Malfoy? - ele debochou da garota que lhe olhava com raiva pela audácia - Vindo de alguém que é seu criado, não significa muito. - desdenhou.
- Com inveja, príncipe mestiço? - ela arqueou uma sobrancelha e Severus apenas riu do novo apelido.
- Príncipe mestiço? - ele repetiu ainda risonho - Acho que você está se aproveitando do que lhe contei sobre minha família para me insultar.
- Não posso dizer que não, mas eu gostei. Irei lhe chamar assim a partir de agora. - ela declarou.
- Acho que sigo preferindo Severus.
- Mas, se eu lhe chamar de Severus, todos saberão de quem se trata. Príncipe Mestiço soa como um ótimo disfarce aos meus ouvidos.
- E por que eu precisaria de um disfarce? Estou assumindo que vamos continuar em contato quando eu for embora, então?
- Isso é perigoso tanto pra você quanto pra mim, Severus. - parecia cabisbaixa - Não é como se Abraxas não fosse descobrir isso cedo ou tarde. - ela não conseguia chamá-lo de pai há um bom tempo.
- Você quer continuar mantendo contato comigo depois que eu for? - ele fingiu não ouvir as preocupações da garota.
- Não está mesmo preocupado com as possíveis consequências?
- Malfoy? - insistiu.
- Se formos pegos por ele ou pelo Lorde, a culpa será inteiramente sua.
- , eu quero ouvir você dizer. - ele pediu, grudando seus olhos nos dela e vendo a garota corar, enquanto bufava derrotada.
- Eu adoraria manter contato com você, Severus. - ela se rendeu - Satisfeito?
- Príncipe mestiço. - ele corrigiu e ela sorriu desacreditada.
- Se for assim, vamos precisar de um disfarce pra mim também.
- O seu nunca será tão legal quanto esse.
- Você que pensa.
Eles ainda se olhavam, mas estavam constrangidos. foi a primeira a retornar seus olhos ao livro para fugir do nervosismo que sentia ao encarar Severus. Ele lhe atraía de um modo desconhecido até então. Ela sentia seu coração dar leves saltos quando Severus sorria em sua direção e, por mais que ela não fosse admitir em voz alta, tinha sonhado com ele nas noites anteriores. Apenas liam e conversavam, como estavam acostumados a fazer, mas o importante é que estavam juntos.
- Está tudo bem, ? - Severus tocou delicadamente a mão da garota, despertando-a do transe que ela parecia presa nos últimos dez minutos - Você nunca demorou tanto para ler um par de páginas. - observou.
- E-eu estava apenas pensando. - respondeu em voz baixa, sem se mexer ou retirar a mão da dele. Era uma sensação gostosa.
- E pode me contar sobre o que pensava?
- Você já beijou alguém, Severus? - questionou sem pestanejar e, num ímpeto de coragem, olhou diretamente para os olhos do garoto.
- E-eu o quê?! - ele agora olhava pra ela como se a loira tivesse criado uma segunda cabeça. A pele de Severus se tingia de um vermelho que raramente aparecia.
- Se você já beijou alguém, Severus. - ela revirou os olhos impaciente. Era uma pergunta simples, oras.
- Já, claro! - Snape respondeu rápido, ainda desconcertado com o assunto que aparecera - Por quê? - ele não conseguiu conter a curiosidade.
- Porque eu gostaria de saber como sabemos que queremos beijar alguém. - ela deu de ombros - Não é como se eu tivesse uma fila de pretendentes do lado de fora da mansão.
- Ah, - ele pigarreou tentando encarar a conversa como algo normal - eu acho que quando você se sente atraído por alguém, você quer beijar essa pessoa.
- E como você sabe que está atraído por alguém? - ela escorregou da poltrona até o chão onde Severus também estava sentado e permaneceu olhando pra ele.
- Acho que quando você sente seu coração bater mais rápido perto da pessoa é um bom sinal de que está atraído por ela. - ele engoliu em seco, sem deixar de encará-la.
- Alguns livros de romance que li mencionaram borboletas no estômago, - ela comentou se aproximando dele - mas achei clichê demais para ser verdade.
- Nem todos os clichês são ruins, . Você apenas precisa se deixar levar para isso. - Severus falou bem próximo ao rosto dela, fazendo com que a garota pudesse sentir em seu hálito o café recém tomado por eles.
- Você me beijaria mesmo com tudo o que isso representa? - seus lábios roçavam um no outro levemente pela pouca distância e Severus, que já não estava conseguindo raciocinar muito bem, parou um segundo para refletir. Ele sabia o que ela estava perguntando. Sabia que seja-lá-o-que-havia entre eles, mesmo em pouco tempo, tinha ultrapassado o nível de amizade. Se ele estava disposto a sacrificar um pouco do que pensava por ela?
Severus olhou uma vez mais para os orbes azuis-esverdeados e soube que a sua resposta já existia. Sem pestanejar, o garoto acabou com o espaço entre eles e beijou os lábios da loira com a vontade que reprimia há dias.


Capítulo 6

Alecto não tinha dado descanso a Severus nos dias que faltavam para que os hóspedes fossem embora da mansão dos Malfoy. A garota tinha tentado entrar outra noite nos aposentos de Snape, mas ele não permitira. Foi uma pequena vitória quando ela entendeu que tudo não havia passado de uma noite casual e deixara de importunar. Ela era uma mulher crescida, sabia ouvir um não, foi o que Carrow lhe disse quando Snape teve uma conversa séria com a jovem.
Essa situação tinha resultado em pouco tempo com , já que Severus precisou passar mais horas junto aos seus companheiros de casa para que não suspeitassem de nada. Durante a noite, Snape lia alguns livros de feitiços da biblioteca dos Malfoy para arrumar uma forma de se comunicar com a garota quando eles estivessem distantes. Ele passou dias procurando até que se deparou com o feitiço de Proteu em um livro de feitiços avançados e achou que se concentrando o suficiente, daria conta.
Severus leu as instruções vezes o bastante para que pudesse memorizá-las e pegou seu relógio de pulso para duplicar os comandos. Em um dos poucos períodos que conseguiu ficar a sós com , lhe pedira um relógio que ela sempre usava e o tinha agora em mãos: cravejado em ouro, o objeto que Snape segurava provavelmente valia mais que vários itens que ele tinha em casa.
Demorou um pouco mais de uma hora para que o feitiço tivesse saído corretamente da varinha de Snape e ele estivesse satisfeito. Ele teve que tomar cuidado para que os dois relógios ficassem conectados. Se mudasse os ponteiros em seu relógio, Severus também saberia. Se ela o colocasse perto do fogo, ele sentiria esquentar e saberia que algo estava errado. Sem mudanças, eles apenas mostrariam a hora normalmente. Ele sabia ser um feitiço avançado para um aluno do 4º ano e adoraria se vangloriar para o professor Flitwick, mas a probabilidade de ganhar uma expulsão por fazer feitiços fora de Hogwarts era maior ainda. Só torcia pra que ninguém do Ministério batesse à sua porta com uma reprimenda.
- Tem certeza de que isso vai dar certo, Severus? - perguntou na última noite dos dois juntos na mansão. Snape partiria ao amanhecer junto aos outros e ele resolvera passar as últimas horas junto a ela na biblioteca.
- Nós já testamos os relógios, já anotei a localização que devo dar a coruja de minha mãe e ela sempre irá esperar até que você tenha uma resposta pra mim. - ele deu de ombros enquanto pegava distraidamente na mão da garota - Você quer cancelar tudo?
- Eu não quero te meter em problemas, Snape. Apenas isso. E se Lucius descobre sobre a coruja? Ou pior, Abraxas e o Lorde das Trevas? - ela suspirou tentando manter a calma - Eu ainda sou um aborto, Severus.
- Sei disso. - ele lhe olhou nos olhos - Mas também sei que você não é só isso e que vale a pena.
- E como isso me faz diferente do que prega o Lorde das Trevas? Do que você acredita?
- Eu não sei, Malfoy - Severus foi sincero - Mas sinto que é diferente por ser você. Aborto ou bruxa, você importa.
- Espero que não se arrependa do que estamos fazendo, Snape. De verdade.
- Eu me arrependeria de não ter tentado, . Seja lá o que isso for. - completou e deixou um beijo na testa da garota.
- . - ela disse depois de um tempo em silêncio e Snape lhe olhou sem entender - É assim que quero que me chame em suas cartas. É meu apelido desde que nasci e não vejo motivos pra você não me chamar assim.
- Não vai ficar muito na cara se as cartas forem interceptadas?
- Se elas forem interceptadas teremos problemas maiores que um simples apelido, príncipe mestiço. - a garota sorriu e Severus tentou gravar aquele momento em sua cabeça. Sentiria falta.
- , então. - ele disse se demorando no apelido e a loira alargou ainda mais o sorriso - Eu ainda não fui embora, mas estou ansioso para a próxima vez que nos veremos.
- Sabe que isso pode demorar até a sua formatura, certo?
- Dois anos de cartas. - ele sentiu o coração apertar - Você consegue esperar todo esse tempo?
- Eu não vou sair do lugar, Sev. - ela lhe chamou assim pela primeira vez e gostou de ver o tímido sorriso que apareceu nos lábios dele - A pergunta aqui é se você consegue esperar esse tempo todo?
- É bom você continuar fazendo valer a pena, . - disse antes de acabar com a distância entre eles e beijá-la como sabia que não poderia fazer por um bom tempo.
Os beijos dos dois eram intensos, os hormônios de dois adolescentes de 15 anos não eram os mais centrados quando suas peles se chocavam. Mas Severus fez seu melhor pra se mostrar respeitoso e não ultrapassou os limites da garota, ainda que ela estivesse tão ofegante quanto ele.
- Eu vou precisar subir agora. - o garoto disse entre beijos à loira e em um resmungo, ela continuou a beijá-lo - Falo sério, Malfoy. - completou rindo, diferente do que tentava passar - Tenho que subir ao meu quarto antes que alguém pense em acordar.
- Certo, você pode ir, mas só porque eu já estou cansada. - ela disse superior e foi se levantando, ao que Severus fez o mesmo.
- Você deveria aprender a mentir melhor, . - Snape desdenhou.
- Você só acha que eu não sei mentir porque eu quero que pense assim, Snape. Se e quando eu realmente precisar mentir pra você, não irá pensar desse jeito. - ela alertou e ele sentiu um arrepio involuntário em sua espinha ao olhar para o rosto impassível da garota. Foi apenas por um segundo, porque ela logo suavizou a expressão como se não soubesse o motivo anterior de ter ficado séria.
Os dois se despediram com um abraço apertado e outro beijo. Não se conheciam há muito tempo, mas sabia que havia algo de forte em sua relação com Severus. Ela não estava preocupada com os dois anos que eles passariam separados, porque sentia que a relação deles estava destinada a mais tempo do que isso. Algumas provas eram necessárias e essa era apenas uma dessas.

[...]



Snape estava sentado à mesa de café da manhã junto a Abraxas, Lucius e Crabbe. Os irmãos Carrow tinham aparatado há poucos minutos para casa, mas Severus usaria uma chave de portal para voltar e Stilimus iria via pó de flu. Os quatro comiam em silêncio, quando ouviram uma badalada mais forte do relógio da sala, avisando que a chave de Severus partiria em cinco minutos.
O garoto tratou, então, de se despedir de todos, agradecendo aos anfitriões e foi com sua bagagem para o lado de fora da casa esperar o momento exato.
- Snape! - Abraxas Malfoy veio apressado de encontro ao garoto - Não gostaria de perder a oportunidade de lhe falar duas palavrinhas.
- Claro, senhor Malfoy. O que posso fazer pelo senhor?
- O Lorde gostaria que eu lhe dissesse que ele tem planos gloriosos para você assim que terminar Hogwarts - ele começou solene - e pediu que mantivéssemos contatos mais estreitos durante seus últimos anos.
- Claro, senhor Malfoy! - disse sem pensar. Ele sabia que servir ao Lorde das Trevas era uma maneira de conseguir uma condição aceitável para . Pela primeira vez em muito tempo, Lily não passou nem perto de seus pensamentos - Será uma honra me juntar ao Lorde assim que Hogwarts tiver terminado.
- Bom, bom. - Abraxas lhe avaliou com os olhos sérios - A segunda coisa que queria lhe falar é por minha conta. - Severus assentiu - Algumas coisas, jovem Snape, são melhores se se mantiverem nas sombras. - Abraxas disse com a voz mais baixa, quase como um segredo, mas Snape não teve chances de responder, porque a chave de portal tinha sido ativada e logo ele estava caindo no gramado traseiro de seu jardim.
Ele agradeceu por mais uma vez ninguém ter visto sua queda e logo juntou sua mala que havia caído um pouco distante na aterrissagem. Enquanto andava para casa, Severus se perguntava o quanto Abraxas Malfoy sabia de sua relação com , já que ele claramente falara dela neste pequeno aviso. Mas, mais do que isso, ele se perguntava se essa consciência de Malfoy traria consequências para a garota.

Outubro de 1975



O quinto ano de Severus tinha começado há um mês e ele ainda estava se ajustando novamente aos horários. Ele voltava junto a Teodora Flint da Torre de Astronomia, depois da aula da professora Sinistra para as masmorras quando os dois esbarraram em Albus Dumbledore.
- Ah, jovem Severus. Justamente quem eu gostaria de encontrar! - o diretor cumprimentou e se virou para Teodora - Senhorita Flint, também é um prazer encontrá-la e parabéns pelo posto de monitora. - disse animado e a garota corou, mas agradeceu.
- Diretor, podemos ajudá-lo em alguma coisa? - Snape perguntou ao mesmo tempo que analisava a postura descontraída do homem.
- Precisamente! Gostaria que me acompanhasse ao encontro do professor Slughorn, senhor Snape. Ele tem planos para o seu melhor aluno de Poções e se encontra em meu escritório. Senhorita Flint, temo que a senhorita tenha de ir até as masmorras sozinha agora.
- Sem problemas, diretor! - Teodora se apressou - Quer que eu leve suas coisas, Severus? - perguntou ao amigo que agradeceu e passou a ela seu livro de Astronomia, seu caderno para anotações e um estojo pequeno - Nos vemos no Salão Comunal depois da minha ronda. - Teodora se despediu e logo saiu caminhando apressada sem olhar para trás.
- Podemos? - Dumbledore indicou o caminho para seu escritório e Snape apenas o seguiu de perto - Amizade interessante essa que o senhor tem com a senhorita Flint. - o diretor disse como se lhe falasse o tempo e Severus engasgou com a própria saliva - Relaxe, filho. Foi apenas um comentário. - Albus riu.
- Desculpe, senhor, mas não acho que seja da sua conta as minhas amizades dentro do castelo. - Snape respondeu quando conseguiu se recompor.
- Não é com suas amizades dentro do castelo que me preocupo, Severus. - Dumbledore disse parando para observar o jovem que arregalou um pouco os olhos, pensando no que o diretor poderia saber - Há algo que tenha acontecido nos últimos tempos que queira me contar?
Dumbledore sabia! Foi o primeiro pensamento que atravessou a mente do jovem e ele sentiu suas mãos começarem a gelar. Mas do que ele falava exatamente? Do encontro com o Lorde das Trevas? De ? Dos dois? Snape estava quase entrando em surto e Dumbledore continuava olhando para ele pacientemente, estudando-o por cima dos oclinhos meia-lua com seus olhos azuis.
- Não, senhor. - Severus disse depois do que lhe pareceu uma eternidade e o diretor ainda ficou uns segundos reparando na postura do aluno antes de simplesmente assentir e recomeçar a andar, com o garoto em seu encalço.
- Gosto de amoras explosivas. - o diretor disse baixo para a gárgula de pedra que guardava a entrada de seu escritório - Podemos? - ofereceu a Severus que fosse na frente pela escada e o aluno acatou.
- Ah, Severus, meu garoto! Que bom que pode vir! - Slughorn saudou se levantando da cadeira para cumprimentar o aluno.
- Professor! - Snape disse e ficou esperando pelo que viria.
- Como você sabe é meu melhor aluno de Poções desde os primeiros anos e gostaríamos que pudesse se tornar monitor da matéria, assumindo que tenha pensado em uma vida como mestre de poções, claro. - Horácio começou animado.
- Ainda não pensei muito no que fazer quando sair de Hogwarts, senhor. Mas com certeza trabalhar com Poções está nos meus planos. - Severus explicou - Só não é a única matéria que me interessa.
- E qual seria a outra? - Dumbledore questionou genuinamente curioso.
- Defesa Contra as Artes das Trevas, senhor. Mas isso dependerá dos meus resultados nos N.I.E.M.S no último ano também, claro.
- Entendo, entendo. - Slughorn pareceu meio decepcionado que seu aluno de ouro não estivesse inteiramente focado em poções - Mas ainda acho que seria de muito proveito se o senhor se tornasse meu monitor de Poções. Sempre que isso não atrapalhe seus estudos para os N.O.M.S, claro.
- Será uma honra, professor Slughorn. - Severus aceitou sabendo que nesse caso havia uma resposta certa a dar. Quanto mais ele soubesse se defender, melhor seria.
- Esplêndido, esplêndido! - Slughorn comemorou e começou a falar de alguns detalhes com Severus que fazia seu melhor para prestar atenção. Ele sentia o olhar analisador de Dumbledore queimar sua pele a cada segundo e não sabia como lidar com o diretor que parecia muito bem informado. Mais do que deveria até.

Novembro de 1975


Severus e tinham trocado até agora uma única carta. A garota não tinha muito o que compartilhar, já que seus dias na mansão eram mais do mesmo - a não ser com umas visitas inesperadas do Lorde das Trevas, mas essas ela preferia manter para si mesma. Snape, por outro lado, tentou fazer com que a garota se sentisse no 5º ano, comentando com a loira sobre o que aprendia, dividindo com ela um pouco do seu trabalho como monitor de Poções e falando brevemente sobre suas relações no castelo.
Ele contara a ela sobre como Teodora Flint era uma incrível ouvinte (ainda que não soubesse sobre eles) e deixara com uma pulga atrás da orelha. Ela sabia que não podia pedir muito de Severus por estarem distantes, mas não gostara de saber sobre essa tal amizade entre os dois.
- , querida? - Abgail Brown chamou a atenção da aluna que mais parecia estar em outro planeta - Aconteceu algo? - questionou genuinamente preocupada. Por mais que vivesse sob ameaça constante de Abraxas, tinha se afeiçoado a garota que de nada tinha culpa.
- Não, não, professora! Me desculpe, eu estava apenas divagando. - justificou voltando seu olhar para o livro de Herbologia - Estávamos falando sobre as propriedades da Baba de Cérbero, certo? - tentou
- Na verdade, eu estava lhe perguntando sobre o Pus de Papoula, querida. - corrigiu amável - Mas, podemos fazer uma pausa de alguns instantes, se você não estiver se sentindo bem.
- Obrigada, professora! - a jovem suspirou - Eu só estou um pouco cansada, sinto que estudar essas coisas não irá ser completamente útil sem que eu possa me defender com uma varinha.
- Uma poção bem preparada pode ser mais perigosa que um feitiço, . Lembre-se disso. - Brown começou a remexer em sua bolsa - De todo modo, eu concordo que exista um potencial maior em você e espero que não se ofenda com o que eu gostaria de lhe propor.
- Do que está falando?
- Bem, - Abgail não sabia muito por onde começar - eu sei sobre os pensamentos dos Malfoy quanto aos trouxas, querida. Gostaria de saber se você também pensa assim.
- Não é como se eu conhecesse algum trouxa, professora. - riu sem humor - Mas, também não é como se eu, como um aborto, fosse muito superior a eles.
- E você consideraria saber mais sobre eles?
- Quer dizer conviver com eles ou algo assim?
- Ou algo assim. - a senhora ponderou - Na verdade, estava pensando que pudesse estudá-los, querida. Essa é uma das matérias lecionadas nas escolas bruxas e você daria uma excelente professora.
- Realmente acredita que um aborto possa ensinar sobre os trouxas, professora?
- Você é mais do que um simples aborto, . Precisa começar a se enxergar pelo que realmente é. - Abgail suspirou e lhe passou um livro marrom. Ele não possuía capa ou qualquer letra que indicasse o assunto - Esse é um livro mágico, Iniciação ao Estudo dos Trouxas por August Palazios.
- Mas como a senhora espera que eu leia esse livro? - questionou folheando e vendo que as páginas estavam todas em branco.
- Tudo o que você precisa fazer é escrever o seu nome no canto da primeira página e ele se tornará seu. Assim, apenas quando você abrir o livro, as palavras se mostrarão. Do contrário, ninguém poderá ler. - explicou - É um encantamento antigo, muito usado durante as antigas guerras bruxas por território.
- Entendo. Bem, isso pode dar certo. - ela deu de ombros logo escrevendo o nome como a professora tinha instruído e vendo as palavras aparecerem.
- Quando terminar esse, se quiser, eu posso trazer mais alguns. Sempre com muita discrição, claro.
- Não se preocupe, professora. No que depender de mim, ninguém saberá. - e ali elas selaram um acordo que, se o arrepio que percorreu a espinha de estivesse certo, não seria por acaso.

[...]


não sabia bem em que momento tinha pego no sono, mas se lembrava de ter ido se deitar. Abraxas, naquele dia, viera lhe procurar por alguns minutos para saber como andavam as aulas com Abgail Brown e se algum progresso tinha acontecido. Ela viu a decepção nos olhos dele quando lhe disse que seguia sem conseguir fazer magia, mas não se importou. Muita coisa tinha mudado desde que sua mãe morrera e a relação deles era uma dessas coisas.
A garota, no entanto, tinha se recolhido pensando no pai e em como a existência, melhor dizendo, inexistência de magia em seu sangue parecia crucial para a manutenção de uma boa imagem. Infelizmente. O mais engraçado nisso tudo é que, enquanto pensava essas coisas, não percebeu que não estava bem em seu quarto. Ela só se deu conta quando uma pessoa lhe atravessou como se passasse por um fantasma.
- Temos que estar prontos, Minerva! Não podemos deixar que Tom ganhe tanto terreno como ele tem feito há anos. - um homem falou apressado para uma mulher que desconhecia, mas pelas vestes, ela parecia ser importante.
- Não é como se fôssemos juntar um exército para derrotar o Lorde das Trevas, Albus! - ela suspirou exasperada - Os meninos acabaram de se formar, alguns já possuem filhos. Não podemos pedir a eles que lutem conosco.
Nesse momento, resolveu olhar mais atentamente para o homem e o reconheceu, ainda que estivesse levemente mais velho desde a única vez que o vira. Albus Dumbledore estava parado a poucos metros dela e era como se não a visse. O que estava acontecendo?
- Acho que deixar de pedir é um problema ainda maior, Minerva! Justamente por já serem pais não vão querer seus filhos num mundo dominado pelas trevas! - ele se sentou e olhou rendido para a mulher - Sei que você esteve próxima a alguns deles, mas devemos dar a eles o direito de escolher o que fazer.
- Minha dúvida vai além de sentimentalismos, você sabe bem disso. - ela lhe olhou derrotada - Eu sei que eles são bruxos e bruxas magníficos, mas muitos ainda são crianças ao meu ver.
- Olhe para as últimas notícias do Profeta, Minerva e pergunte a si mesma se essas crianças não precisam lutar? - Dumbledore debochou pela primeira vez enquanto entregava o exemplar do jornal para a mulher que o pegou tremendo levemente.
também se aproximou para olhar e sentiu como se estivesse sendo sugada pelo papel para as fotos de destruição.
Logo, a garota não estava mais protegida pelas paredes do escritório e se encontrava na rua. As pessoas passavam por dentro dela com rapidez e ela pode ver que adultos e crianças corriam em desespero buscando um lugar pra se abrigar e, por mais que a garota quisesse correr também, seus pés pareciam presos ao chão.
Ela olhava para todos os lados esperando que alguém lhe visse, mas não conseguia sequer gritar. A rua estava escura, mas ela podia ver com clareza os ricochetes de feitiços passando de um ponto a outro e atingindo muitas das pessoas que corriam. As pessoas berravam por ajuda, crianças choravam e pediam clemência, mas os barulhos de explosões pareciam cada vez mais altos. Mais próximos.
Foi quando ela ouviu uma explosão às suas costas e se virou para ver, encontrando o lugar, que mais parecia uma casa, em chamas. As pessoas ao redor chamavam por nomes, mas ninguém saía de lá. Alguns corajosos até tentaram entrar, mas eram arremessados pra trás por uma espécie de muro invisível. sentia a angústia crescendo dentro de si, querendo sair daquela posição e fazer algo, mas nada adiantava. Ela estava acorrentada ao mesmo lugar em que aparecera.
Quando olhou pro céu, tudo o que ela conseguiu ver foi um crânio enorme desenhado com o que pareciam pequenas estrelas verdes. Assim que ele abriu a boca, uma cobra saiu dela como uma língua e foi se apossando do céu deixando a noite ainda mais gelada e, estranhamente mais escura do que já estava. ouviu claramente um Morsmordre antes de desmaiar e acordar ofegante em sua cama enquanto era segurada por Abraxas e Lucius.
- , você está bem? - Lucius foi o primeiro a perguntar a irmã que, mesmo estando de olhos abertos, não parecia estar vendo nada a sua frente.
- Ainda que a escuridão reine por um bom tempo, - a garota começou a falar com os olhos vidrados no vazio, enquanto suas mãos e seu corpo tremiam e Abraxas tentava manter a filha no lugar - a luz encontrará o seu caminho através das asas de uma fênix - ela continuou com a voz rouca e pai e filho se entreolharam tentando entender o que acontecia - no momento em que a ordem for instaurada. - concluiu se deixando desfalecer nos braços de Lucius que olhava pro pai ainda confuso.
- I-isso foi uma profecia? - Lucius perguntou incerto a Abraxas que agora olhava para a filha com um sorriso crescente no rosto.
- Eu acredito que sim.
- Mas como isso é possível se ela é um …? - o jovem não se atreveu a falar a palavra, mas o pai entendeu e estremeceu como se ele tivesse dito.
- Ela previu a morte de Emeline, não se lembra? - Abraxas comentou - Acho que ela pode ser formidável se tiver o treinamento correto.
- Acha que ela falava sobre o Lorde? - Lucius perguntou com um sussurro, ainda que só os três estivessem no quarto e já dormisse.
- Temo que sim e ele será avisado no momento certo, Lucius. - Abraxas decretou antes que o filho inventasse de sair contando o que acontecera para outros comensais - Por enquanto, eu sei exatamente quem procurar. - o mais velho comentou se levantando e caminhando para a saída do quarto - Nenhuma palavra disso com qualquer pessoa, Lucius! - ele reforçou antes de ir embora deixando os filhos sozinhos e caminhou para o seu escritório.
- Sinto muito, ! - Lucius disse baixinho enquanto arrumava a irmã de forma mais confortável na cama. Ele se deitou ao lado dela e deixou um beijo na testa da garota que estava levemente suada - Eu vou cumprir a minha promessa e fazer o possível pra te deixar segura. - falou antes de fechar os olhos e se deixar adormecer junto à irmã.


Capítulo 7

- Que bom que conseguiu um horário para nos encontrar, Madame Trelawney. - Abraxas fez questão de abrir a porta para a senhora que se encontrava ladeada por dois homens bem corpulentos e bem mais altos que ela: Apus Black e Baltazar Lestrange tinham as mãos apoiadas cada um em um dos ombros da mulher que claramente estava desconfortável com a situação e procurava uma forma de fugir - Por favor, entre! Vamos ao meu escritório. - ele lhes deu espaço e os três adentraram a mansão, sendo logo guiados para dentro da casa.
- Somos necessários nessa conversa, Malfoy? - Lestrange questionou antes que eles seguissem para o escritório e Abraxas apenas negou - Então, sabe onde nos encontrar quando quiser. - ele logo se afastou com Black para que os dois pudessem aparatar fora do terreno da família.
- Sinta-se à vontade, Madame. - Abraxas convidou lhe oferecendo uma cadeira em que ela se sentou obrigada e contornou a mesa para que pudesse ficar de frente para a mulher - Queira me desculpar pelo convite abrupto que meus amigos lhe fizeram hoje. - disse em uma voz leve que beirava o tédio.
- Não há necessidade de preâmbulos, Malfoy. Você pode ir direto ao assunto! - a senhora se armou de coragem e resolveu enfrentar o homem - Por que me trouxe aqui?
- Corajosa desse jeito, muito me admira que não tenha ido para a Grifinória em seus tempos de Hogwarts. - Abraxas riu e continuou a analisá-la.
- Covarde desse jeito, nada me surpreende que tenha ido para a Sonserina conseguir quem fizesse o trabalho sujo por você. - Trelawney arqueou uma sobrancelha e viu o loiro trincar o maxilar raivoso, procurando sua varinha entre suas vestes - Você não vai me atacar, Malfoy. - ela disse tranquilamente - Você precisa de mim viva e completamente dona das minhas capacidades mentais. Acha mesmo que eu não sei o que estou fazendo aqui, Abraxas? - ela sorriu esperta e o homem engoliu em seco.
Athenodora não era uma excelente clarividente à toa. Neta de Cassandra Trelawney, uma das maiores videntes desde Nostradamus, a mulher tinha herdado o dom da vidência de sua avó que pulava uma geração, sendo ligeiramente mais fraco nela por conta da mesclagem de sangue. E, ela sabia que estava ali por isso.
- Previu que eu lhe traria até aqui? - Abraxas questionou ainda um pouco descrente.
- Pra alguém que estudou com um descendente direto de Mopso em Hogwarts você parece bem esquecido de como funciona a arte da Adivinhação, Malfoy. - ela alfinetou. O homem não lhe metia medo estando sozinho, era apenas mais um pião no jogo, ela sabia.
- A senhora tem uma língua afiada! - ele observou - Seria uma pena cortá-la. - ameaçou baixo e a mulher estremeceu levemente, o que deu certa alegria ao loiro - Pra sua sorte, eu ainda preciso que a senhora fale. - sorriu falsamente - Gostaria que conhecesse uma pessoa. Um momento. - pediu se levantando meio cansado de tantos rodeios.
- Será um prazer conhecer sua filha. - Athenodora apontou esperta e Abraxas estancou no lugar - Ela é um dos únicos motivos pelos quais ainda estou aqui esperando. - deu de ombros.
- Como sabe sobre a minha filha, Trelawney? - perguntou baixo, mas a mulher conseguiu compreender.
- Espero que quando você aprender a respeitar os clarividentes não seja tarde para a sua própria família, Malfoy. - Athenodora respondeu com voz cansada e arrumou os óculos em seu rosto - Vá chamar que é mais importante! - ordenou e Abraxas não pode conter o impulso de fazer o que a mulher dizia.
Poucos minutos depois, Abraxas voltou ao cômodo trazendo uma extremamente fraca a tiracolo. A garota estava com um aspecto doente, sua pele já naturalmente pálida mais se assemelhava a uma vela. Por isso, ele a sentou com cuidado ao lado da mais velha que imediatamente olhou para a adolescente.
Quando os olhos de se encontraram com os de Athenodora, a loira sentiu uma corrente elétrica passar por todo o seu corpo. Sabia que já conhecia aquela mulher, ainda que não soubesse de onde.
- Eu sei como se sente, querida! - Trelawney disse baixo para que apenas a garota escutasse - Apenas tínhamos que nos encontrar.
- A senhora sabe o que está acontecendo comigo? - sua voz estava tão fraca como ela se sentia. O sonho, ou visão, como Abraxas insistia em chamar, tinha drenado boa parte de suas forças.
- Tenho uma ideia, mas vamos descobrir juntas. Apenas concentre-se. - a mulher aproveitou para sussurrar um “Legilimens” e entrelaçar seus dedos aos de . Ela fechou os olhos apenas depois que viu a garota fazer isso. Abraxas estava encolhido em um canto do escritório dividido entre lhes dar privacidade e ficar junto da filha.
Athenodora foi passando por diversas memórias de , como se todas elas fossem folhas rasgadas de livros voando em sua direção. Viu quando a pequena Malfoy deu seus primeiros passinhos, ainda que essas memórias mais infantis fossem borradas pela pouca idade. A mulher viu a relação com Emeline e Lucius, os diversos medibruxos aos quais a garota fora submetida até que aos seus 11 anos veio a confirmação. Era um aborto. Ou pelo menos, era isso o que todos pensavam.
Ela continuou vendo mais algumas memórias que passaram apressadas por seus olhos e ouviu um choro baixinho. Foi necessário um pouco de concentração, mas logo ela viu uma com uma aparência mais jovem, de talvez nove ou 10 anos, abraçando a si mesma com o rosto vermelho pelas lágrimas.
- Está tudo bem, querida. - Athenodora se abaixou na altura dela e tirou delicadamente o cabelo que lhe cobria o rosto.
- E-ele vai descobrir o que eu posso fazer, não vai? - ela perguntou trêmula e a mulher viu que a garota lhe encarava amedrontada - Vai fazer comigo o que fez com a minha mãe.
- Você estará segura em sua mente se souber se proteger, querida. E se souber se controlar.
- Foi por isso que ele a matou? Por que ela não sabia se controlar? - o choro dela aumentava e Athenodora a acolheu em seus braços, fazendo carinho em seus cabelos.
- Não, . - ela suspirou - Ele a matou porque ela não o deixou chegar até você, querida. Emeline se foi dando a vida dela pela sua.
- Ela sabia o que eu podia fazer?
- Apenas uma vaga ideia. Ela era uma descendente distante de Inigo Imago, um grande bruxo e vidente, mas nunca se interessou muito por essa parte da família. Não até que você nasceu e começou a demonstrar certa precisão para a adivinhação.
- Por que está me contando tudo isso aqui nesse lugar escuro? - a garota olhou ao redor e viu que estavam encostadas no que parecia ser uma estante, ainda que ela estivesse vazia.
- Porque estamos seguras dentro de sua cabecinha, . Aqui você é senhora de si e pode fazer o que tiver vontade.
- Até mesmo magia? - questionou inocente e Athenodora soltou uma risadinha que se transformou em um sorriso.
- O fato de não conseguir empunhar uma varinha não transforma seu sangue em menos puro. É apenas diferente. Uma magia diferente.
- É mais fraco?
- Força e fraqueza são determinadas por você e pelo seu subconsciente, não pelo seu sangue. Você diz se será mais forte ou mais fraca, isso vai depender da forma como resolver encarar a vida.
- E ele não vai me encontrar se eu decidir ser forte?
- Temo que você já saiba a resposta, querida. Lorde Voldemort sempre encontra aqueles que deseja ter ao seu lado. - Athenodora suspirou e deixou um beijo na testa da menina - Emeline apenas lhe deu um pouco mais de tempo para que você se preparasse para o que teria de enfrentar.

Dezembro de 1975


dividia seu tempo entre aulas com Abgail Brown, encontros semanais com Athenodora Trelawney, além de estudar o quanto podia sobre o mundo dos trouxas. Desde o primeiro livro que sua tutora lhe dera, ela já tinha devorado pelo menos sete e continuava se especializando às escondidas sobre aqueles que eram tão odiados por seu pai e irmão.
A jovem também se dedicava a ler e reler a última carta que tinha preparado para Severus focando em tentar acalmá-lo, de certa forma. Em sua carta, o garoto questionara mais de uma vez se ela realmente estava bem. Ao que parecia, os relógios de comunicação realmente funcionavam para além dos envios.
A coruja negra de Snape, que parecia mais impaciente a cada hora, estava esperando por essa correspondência que demorou um pouco mais de 15 dias para ficar pronta. Só quando ela se sentiu satisfeita, juntou a carta com o pequeno presente de natal que ela tinha resolvido dar a ele e amarrou na pata do animal que parecia genuinamente animado por finalmente ir embora.
- Sinto muito que tenha tido que esperar tanto. - ela acariciou as penas da coruja e levou uma bicada carinhosa no dedo - Prometo que não irei sempre demorar assim. Pode me cobrar por mais petiscos se isso acontecer uma próxima vez. - se comprometeu como se fosse entendida e, quando a coruja olhou em seus olhos, soube que tinha sido.
O animal voou para fora da mesinha onde estivera todo esse tempo e se esgueirou pela pequena janela do quarto de antes de alçar voo e ganhar o céu, se misturando com a escuridão. Ela se apressou em mudar os ponteiros do relógio para 18h, mesmo que já passasse de meia noite. Esse era o código dos dois para quando ela enviasse uma carta a ele.
A garota imaginava que Severus receberia sua carta próximo a noite de natal, o que lhe confortava minimamente, já que ele poderia lembrar-se dela em uma festividade. sabia que devia ter dito a ele muito mais do que falara naquela carta, mas não podia arriscar uma interceptação, muito menos a vida do garoto.
- Ainda acordada, ? - Lucius interrompeu os pensamentos da irmã e se encostou na soleira da porta do quarto - Não está muito tarde?
- Você também deveria estar dormindo, Lucius! - ela devolveu friamente - Seu dia começa cedo no Ministério.
- Não me importo de perder um minuto ou dois de sono - deu de ombros e, mesmo sem ser convidado, entrou no cômodo e se sentou perto da loira. Ela sentia o olhar do irmão esquadrinhar todos os seus movimentos, ainda que se mantivesse imóvel - Você ficou ligeiramente mais arredia depois de começar a se encontrar com a Trelawney. - comentou displicente.
- Não sou um testrálio pra ficar arredia, Lucius. - disse baixo - E não vejo por que algo assim seja da sua conta.
- Você é minha irmã mais nova, . Tudo o que lhe diz respeito é da minha conta!
- Não me lembro de ter visto essa mesma atitude em você há alguns anos quando Abraxas decidiu me queimar da tapeçaria da família, irmãozinho. - os olhos azuis-esverdeados de fitavam um Lucius desconfortável - Não foi você quem prometeu a Emeline que sempre cuidaria de mim?!
- E o que eu poderia fazer? - ele baixou o tom afetado - Deixar que ele queimasse nós dois por ter retrucado?
- Você já fez o que tinha que fazer, Lucius. Basta apenas lidar com as consequências. - a garota disse se deitando na cama, uma clara deixa para que o loiro fosse embora - As decisões que toma hoje serão um espelho da covardia que virá a seguir.
- O que quer dizer com isso, ? - o mais velho questionou com os olhos pregados na figura deitada da irmã. Ele não conseguia ver seu rosto, mas ela parecia relaxada.
- Que você deveria encontrar o seu verdadeiro lugar nessa bagunça toda, se não quiser delegar para o futuro o fardo de ter que se posicionar. - ela disse e enfiou a cabeça no travesseiro, caindo no sono em poucos minutos. Lucius permaneceu observando a irmã e não pode deixar de questionar se ela, de fato, tinha razão. Ele queria ter ficado contra o pai quando o homem queimou o nome dela e o de Emeline da tapeçaria. Mas ele deveria? Teria sido um preço que ele estava disposto a pagar?

[...]


- Tem certeza de que vai mesmo ficar em Hogwarts este ano, Teo? - Severus questionou a morena enquanto os dois tomavam café da manhã no Salão Principal. Os formulários dos alunos que desejavam ficar para as comemorações de final de ano tinham sido passados na semana anterior e naquele dia os que voltariam para casa partiriam - Ficar em casa deve ser muito melhor, não?
- Não quando preciso aguentar Jake o tempo inteiro ou quando a nossa casa foi a escolhida desse ano para as “festividades”. - ela fez aspas com as mãos na última palavra e pelo seu tom, Snape soube o que significava. A próxima reunião de Voldemort e seus comensais seria na residência dos Flint.
- Você deveria estar animada com isso, não? - disse tentando parecer entusiasmado, mas não sabia se enganava a ela ou a si próprio.
- Acho que você bebeu muito suco de abóbora hoje, Severus! - disse tirando o copo de perto do amigo e recebendo um olhar azedo em troca - Mas você deveria ficar feliz também: ouvi de uma fonte muito segura que sua adorada Evans pretende ficar no castelo para o natal deste ano. - ela disse num tom baixo para que apenas o amigo escutasse. Há algum tempo não pensava em Lily, mas não conseguiu deixar de sorrir minimamente por saber dessa informação.
- E quem lhe disse isso, posso saber? - ele olhou para a garota e a culpa estava estampada em sua cara - Andou fofocando com a Saint-Laurent de novo?
- Não seja um cretino! Não estávamos fofocando, apenas conversando.
- Você gosta de se relacionar com o inimigo, hein!
- Delilah não é nossa inimiga por ser grifinória, Snape. - retrucou para o amigo que bufou contrariado - O fato dela andar algumas vezes com aqueles garotos não faz dela uma má pessoa. - defendeu.
- As amiguinhas se chamam pelo primeiro nome, né? - ironizou.
- Não seja ciumento, Sev. Apenas é interessante estar perto de uma perspectiva que não seja tão relacionada a sangue e poder.
Severus ia responder dizendo que ciúmes era o que menos lhe importava, mas foi interrompido pelas corujas que chegaram trazendo o correio da manhã. Antes que ele pudesse notar, Nute, a coruja de sua mãe, lhe encarava com seus grandes olhos negros e lhe estendia a pata com uma carta e um pacote. Não demorou mais que um pequeno afago para que o animal voasse da mesa e deixasse Severus sozinho com a encomenda.
- Não vai abrir? - questionou a garota que se revezava entre sua edição do Profeta Diário e o amigo que parecia adorar o que quer que fosse que tinha recebido.
- Não é importante! - concluiu enfiando nos bolsos a correspondência e voltando seus olhos para Teodora - Como eu estava dizendo, não tenho ciúmes da Saint-Laurent, só acho que você merece melhores companhias.
- Claro, claro! Um sonserino é sempre uma melhor opção, né? - concordou espertamente observando Severus com seus olhos verdes atentos. Teodora sentia que o amigo estava apenas despistando, algo estava estranho.
- E você pensa diferente? - ele arqueou uma sobrancelha e a morena sorriu de lado.
- Não coloque palavras na minha boca! - riu, ainda que seu olhar teimasse em procurar a mesa da Grifinória. Ela podia não admitir em voz alta, mas de uns tempos pra cá, a companhia de um certo grifinório estava sendo muito bem-vinda em suas visitas à biblioteca.
- Fico feliz que concordemos com isso também. - Severus concluiu sem prestar muita atenção na atitude da amiga que seguia olhando o outro lado do salão. Ele estava mais preocupado em pensar na melhor maneira de adiantar suas tarefas para que pudesse ter uns momentos a sós com o que quer que tinha lhe mandado. Seu envelope sem identificação pesava no bolso interno de suas vestes.
Alguns minutos depois, usando a desculpa de que precisava entregar um relatório para o professor Slughorn, Severus conseguiu se desvencilhar de Teodora e se esgueirou para a primeira sala vazia que encontrou no terceiro andar. Murmurando um colloportus, o jovem se pôs a abrir a carta e não deixou de sorrir quando leu logo nas primeiras linhas um “Olá, príncipe mestiço” com a caligrafia impecável da loira.
Ela não falava muito da própria rotina, mas lhe assegurava que estava “muito bem, obrigada” e comentou trabalhar duro com Abgail Brown, quem Severus sabia ser sua tutora, em projetos que eram, ao mesmo tempo, animadores e assustadores. Ele tinha ficado curioso, claro, mas sabia que não diria tudo por carta. No entanto, isso não foi o que lhe chamou toda a atenção. A garota contava que agora também tinha a companhia de Athenodora Trelawney em seus estudos. Severus conhecia o sobrenome de seus livros de Adivinhação, só não entendia o motivo pelo qual ela, sendo um aborto, estar tomando lições desta matéria.
não tinha dado muitas dicas que pudessem esclarecer essa situação, apenas dizia que “um dia ele entenderia”. Assim mesmo, de forma vaga. Severus tentou não se ater a isso no momento e logo seus olhos chegaram ao último parágrafo da carta e ele não conseguiu impedir seu coração de disparar levemente enquanto lia cada palavra da garota:
“Sei que nossos corpos se conhecem muito pouco, mas não acho que nossos espíritos sejam tão novos assim um ao lado do outro. Acredito que ainda falte um bom tempo para que voltemos a nos ver, mas até o retorno, espero que aceite meu presente de bom grado, Príncipe. Feliz natal!”
E, como havia prometido, ela seguia assinando como . Ele pegou com cuidado o pequeno pacote e desembrulhou encontrando uma corrente que parecia de ouro puro. Sua inicial pendia com delicadas esmeraldas contornando a letra e Severus soube que aquele presente valia mais do que muitas das posses de sua família. Ele não queria aceitar, mas só de pensar em devolver, viu em sua cabeça o olhar irritado da loira e relaxou, colocado o cordão em seu pescoço e escondendo por baixo de sua camisa.
Ele não se demorou muito mais e com um alohomora saiu da sala, mas não foi rápido o suficiente, já que Lily Evans o interceptou no meio do corredor do terceiro andar.
- O que faz por aqui, Severus? - a ruiva perguntou curiosa, seu rosto levemente vermelho pela corrida que tivera que dar quando viu Snape se esgueirando. O brasão de Monitora brilhando em suas vestes quase tanto quanto seus olhos, o garoto notou e sentiu as mãos suarem. Ela estava tão linda.
- Estava procurando pelo professor Slughorn. - disse sem hesitar, sentindo o estômago se contorcer com a mentira e a ruiva lhe olhou descrente.
- A sala dele fica bem abaixo daqui!
- Me foi dito que ele estava com a professora Macintyre na sala de DCAT, por isso estava indo para lá. Se me dá licença! - comentou se afastando, mas ouviu Lily gritar para que ele esperasse.
- O que está acontecendo com você? - a grifinória perguntou baixo, mas não deixou de encarar o amigo - Desde que voltou da sua viagem de férias, você está estranho.
- O que quer dizer?
- Que quase não conversamos ou passamos tempo juntos na biblioteca como antes, Sev. - se queixou e Snape fraquejou com o tom de voz ressentido dela. Ele ainda amava quando ela lhe chamava pelo apelido tão pouco usado - Sempre que tento te encontrar você está com a Flint ou com Mulciber, Avery e Crabbe.
- E? - ele tentou se manter indiferente - Você tem passado mais tempo com Potter e sua trupe de palhaços também e não me vê reclamando.
- Mas as minhas amizades são bem menos perigosas do que as suas e você sabe disso. - ela justificou.
- Eu não vejo por que temer os meus amigos, Lily.
- Eles não são seus amigos, Sev. Eles são uma corja de… - ele a interrompeu.
- De? - instigou, mas a garota ficou vermelha e desviou o olhar - Você não sabe o que está falando, Evans.
- O que eu desconheço é você, Snape. - a ruiva disse com a voz cortante e o garoto quase desmontou toda a pose para se ajoelhar aos pés dela pedindo desculpas por estar sendo idiota - Se você quer continuar indo por esse caminho, eu só espero que não desista muito tarde. - completou antes de se virar, o cabelo dela, chicoteando Severus no rosto e deixando todo o cheiro de morangos que ela exalava no ar. Ele sabia que tinha magoado Lily e seu coração doía com esse pensamento, mas o cordão que agora pendia em seu pescoço o fazia lembrar do sorriso de e ele se sentia ligeiramente mais leve.

[...]


estava terminando de se arrumar frente ao espelho de seu quarto para o jantar de ano novo. Abraxas fizera questão da garota, como não tinha feito desde que ela voltara a morar com ele. Ao que parecia, apenas ela, Lucius e ele jantariam juntos essa noite e, o homem ansiava por uma refeição como antigamente.
- Está linda, querida. - Abraxas elogiou vendo a filha arrumar os longos cabelos loiros em um coque, assim como Emeline costumava fazer para eventos mais especiais - Sua mãe ficaria orgulhosa. - ele comentou, mas não viu mudanças no rosto da garota que seguia encarando meticulosamente o próprio reflexo - Podemos conversar por alguns minutos? - pediu enquanto se sentava na cama e observava a jovem - Acredito que seja do seu interesse.
- Não é como se eu tivesse escolhas. - respondeu suspirando impaciente e foi se sentar em sua penteadeira, mantendo uma distância segura do homem - O que quer conversar?
- Sinto que tenhamos nos distanciado com os anos, . - ele disse com pesar, ainda que sem olhar para a filha - Talvez eu não tenha tomado as melhores decisões, mas minhas ações sempre visaram te proteger.
- Você deveria agir com mais coragem, Abraxas. - comentou e o homem finalmente a olhou, vendo mais uma cópia de Emeline do que a própria filha - Suas decisões foram tomadas para que o seu nome não afundasse, não para me safar de algo. Sua preocupação nunca girou em torno de mim ou da minha mãe, muito menos do Lucius. Só do seu ego. - completou com a voz branda, mas para o homem parecia que ela tinha lhe cortado com mil adagas.
- Sua idade não é o suficiente para que entenda, . Só tem 15 anos, não sabe nada da vida.
- A idade não é um problema pra que eu saiba que perdi a minha mãe porque meu pai foi um tremendo covarde. - respondeu com desprezo e voltou seus olhos para o espelho, retocando imperfeições inexistentes em seu penteado.
- Eu dei meu melhor para proteger Emeline mesmo de longe, . - afirmou com a voz incerta. Por Merlin, ele também se culpava pela morte da mulher!
- Se fosse assim, seu precioso mestre não teria colocado as mãos nela tão fácil. - acusou olhando para o homem através do espelho e viu uma ponta de choque passar por seus olhos - O quê?! Não sabia que ele a tinha matado com as próprias mãos? - ela riu sem humor e Abraxas não conseguiu arrumar voz para que pudesse lhe responder - O quanto você não sabe sobre o que acontece ao seu redor, Abraxas? Enquanto continuar acreditando que é uma torre, não vai conseguir se dar conta de que é apenas mais um pião pronto pra ser sacrificado no jogo do Lorde das Trevas. - finalizou se levantando e saindo do quarto para se juntar a Lucius no salão de jantar da mansão. Abraxas ainda ficou por mais uns minutos absorvendo o que a filha dissera, se perguntando o quanto sabia do que estava acontecendo.
Antes de sair do quarto, porém, ele viu uma corrente brilhando junto aos travesseiros de . Ao chegar perto, um pingente negro com a letra S fazia contraste com os lençóis extremamente claros. Talvez nem tudo fosse tão bem escondido, ele pensou recolocando tudo em seu devido lugar e foi para o andar de cima acompanhar os filhos.


Capítulo 8

Janeiro de 1976


Abraxas estava nervoso, para dizer o mínimo. Ele tinha requisitado uma reunião com Tom Riddle há alguns dias e o Lorde das Trevas estava para chegar. Malfoy sentia sua marca negra queimando pela proximidade de Voldemort.
A cada movimento do ponteiro no relógio de parede, no entanto, ele sentia vontade de desistir. Claro que ele poderia considerar que tivesse mentido no que falara. Conhecia a filha bem o suficiente para saber que ela adoraria provocá-lo com informações falsas, mas em seu interior sabia que não era esse o caso. A probabilidade de Voldemort ter assassinado Emeline era enorme. E isso partia o coração de Abraxas.
- Ande logo com o que quer falar comigo, Malfoy. Não tenho o dia todo. - anunciou Riddle assim que desaparatou no escritório da mansão. Ele era um dos únicos que tinha permissão, já que Abraxas era um de seus mais antigos comensais.
- Milorde. - Abraxas fez uma leve referência após se recuperar do leve susto pela chegada abrupta - Gostaria de perguntar ao senhor sobre Emeline, Milorde. - disse incerto e com a voz baixa, mas Riddle escutou com perfeição e não conseguiu segurar uma gargalhada sombria.
- Ainda Emeline, Malfoy?! - questionou escarnecendo - Ela já está morta há anos e agora quer falar sobre ela?
- Apenas gostaria de saber como ela morreu, Milorde. - engoliu em seco - Na época não soube de muitos detalhes, apenas que ela estava no lugar errado e na hora errada, durante uma das missões contra os trouxas. - ele desviou o olhar, mas mantinha a atenção fixa em Riddle, que agora caminhava em direção de uma poltrona do escritório.
- Você quer mesmo saber como sua querida esposa morreu, Malfoy? Pois bem! Invada minha mente e descubra. - o Lorde ofereceu e encarou Abraxas em sinal de desafio. O loiro estava ligeiramente mais pálido, mas assentiu e, antes que perdesse a coragem, pegou a varinha e pensando Legilimens, invadiu a mente de Voldemort.
Abraxas sabia aonde estava. Já tinha passado muitas tardes da sua juventude com Emeline em seus braços por aquelas ruas. Antes que houvesse a preocupação séria de se afirmar uma posição. Quando ele virou, Tom Riddle apenas passou por ele como se não o visse e, realmente não via, era apenas uma memória.
Riddle andou mais alguns metros, Malfoy sendo impelido a segui-lo e foi quando a viu. Os cabelos tão loiros quanto ele se lembrava, o rosto ligeiramente mais magro, mais preocupado. Emeline empunhava a varinha firmemente, sem nunca tirar os olhos do homem à sua frente, atenta a todos os seus movimentos.
- Sabe que eu não vou deixá-lo passar tão fácil, não é, Milorde? - disse em desafio e Riddle apenas riu, se divertindo com a audácia da mulher que conhecia tão bem.
- Você sempre foi a minha preferida, Em. - ele disse divertido - Sempre lhe disse ter sido uma pena quando se casou com Malfoy. Um desperdício de sangue, obviamente.
- Como se você se importasse com isso, Tom. - o chamou pelo nome e o sorriso de Riddle se alargou - É apenas despeito por nunca ter me marcado como gado.
- Nunca precisei que você fosse uma comensal para te marcar como minha, Burke. - chamou-a pelo sobrenome de solteira e viu a mulher estremecer levemente - Se as paredes de Hogwarts falassem, Dippet teria nos expulsado lá pelo quarto ou quinto ano - ele apontou e Emeline deu um passo pra trás.
- O que você veio fazer aqui?!
- Você ter ido embora da casa de Malfoy só instiga a minha curiosidade sobre a sua filhinha, Em. - comentou e começou a rodear a mulher lentamente - Afinal, sua árvore genealógica é boa demais, mesmo que tenha se misturado com a de Abraxas. - enojou-se.
- Ela é um aborto, Riddle. Não há nada de curioso nisso.
- Se fosse só isso, você não estaria tão bem protegida por aqui. Deveria ter tentado um Fidelius, querida. Quem sabe assim tivesse mais sorte. - zombou
- O que quer para deixar minha filha em paz, Riddle?
- Ah, minha adorada Emeline, - Riddle suspirou e Abraxas, sem conseguir focar em nada que não fosse os dois, estremeceu de medo pela mulher - o que você poderia me dar, não viria de bom grado. Não quando eu sei que o seu pequeno aborto pode ter mais utilidade pra mim do que o capacho do seu marido. Expelliarmus! - soltou desarmando a mulher que não conseguiu se proteger - Apenas seja boazinha - ele sorriu - Legilimens - e invadiu a mente de Emeline que tentou resistir o máximo que pode. A mulher estava já de joelhos, suas mãos apertavam as têmporas, mas Lorde Voldemort não desistiria.
Ele viu sobre os pensamentos da mulher que tinha em sua árvore o grande Inigo Imago e como Emeline sempre se surpreendia com os acertos de . Sua filha era indiscutivelmente um aborto, mas seus dons para adivinhação, mesmo que fossem descontrolados, existiam. E agora Voldemort sabia, não tinha mais como esconder.
- Muito esperto de sua parte não ter contado a Abraxas sobre isso, Em. Seu maridinho teria vindo até mim no momento em que descobrisse, apenas para se provar útil. - ele riu, saindo da cabeça da mulher que agora estava com o corpo parcialmente deitado no chão, ofegante e cansada pela invasão.
- Se minha filha é tão útil pra você, irá deixá-la viva, não é? - questionou com a voz fraca e se atreveu a olhar para Riddle que lhe encarava sereno.
- Você já foi melhor, Emeline. - ele se abaixou ao lado da mulher e lhe acariciou os cabelos delicadamente antes de lhe segurar firmemente pelo rosto, forçando-a a olhar em seus olhos - Essa baboseira maternal só transformará a garota em mais fraca do que já é. Não me serve mais junto a ela.
- Eu não sou fraca, mestiço imundo! - Emeline cuspiu no rosto de Riddle e os olhos dele saltaram pela surpresa e raiva. Ele a soltou com brutalidade e a mulher riu sem humor.
- Quem pensa que é, Burke?! - apontou a varinha pra ela, mas o sorriso divertido não saiu dos lábios de Emeline.
- Você pode me matar, Riddle. Pode matar Abraxas. Pode matar o mundo inteiro, mas nos meus filhos você não toca. Isso vale tanto para quanto para Lucius, querido. - disse sarcástica e os dedos de Lorde Voldemort se fecharam com mais firmeza na varinha apontada.
- Alguma última consideração, Emeline Burke?
- Nos vemos no inferno, Voldemort! - a loira olhou bem nos olhos de Riddle, ao mesmo tempo em que ele lhe lançava a maldição da morte.
Abraxas encarou o corpo da mulher tombar para trás, sem que o sorriso irônico - agora apagado - saísse de seu rosto. O baque foi surdo, mas Malfoy acompanhou quase em câmera lenta do momento em que o feitiço saiu da varinha do Lorde até o impacto em Emeline. tinha razão, ele realmente a tinha matado com as próprias mãos!
Como se fosse sugado para fora, Abraxas agora estava olhando para o Lorde mais uma vez em seu escritório. O homem à sua frente lhe encarava entediado, ainda que seus olhos tivessem um brilho mínimo de desafio. Seria Abraxas capaz de se rebelar contra ele?
- Satisfeito? - o Lorde perguntou com a voz tranquila e Malfoy apenas acenou com a cabeça - Tem algo a me dizer ou ainda está impactado por saber que não foi o único na cama de Emeline? - alfinetou e viu quando o loiro cerrou o maxilar e fechou os punhos, tentando se controlar. Tudo tão divertido!
- Gostaria que poupasse a vida de minha filha, Milorde. - Abraxas pediu baixo, com a voz apática, mas não era preciso invadir sua mente para saber o que ele estava pensando.
- Eu não a matei aquela noite por ser um senhor muito misericordioso, Abraxas. Mas a vida dela depende exclusivamente de sua utilidade pra mim, nada além disso. - explicou como se estivesse falando com uma criança e o loiro mordeu a língua antes que pudesse revidar.
- Imagino que vá achar esse um bom motivo então. - e Malfoy passou os próximos minutos contando sobre a visão e profecia de , além de afirmar que a garota estava passando pela tutoria de Athenodora Trelawney.
O Lorde das Trevas ouviu a todo o relato de forma impassível, quase sem se mover. Quem olhasse de fora não saberia se ele seguia respirando. Foi apenas quando Abraxas terminou, que Voldemort lhe lançou uma Cruciatus que foi o bastante para que o homem se contorcesse no chão, gritando enquanto era torturado. Os gritos de Malfoy eram altos o suficiente para acordar toda a casa, senão o bairro. Mas, o Lorde das Trevas não se importou. Crucio.
Abraxas não conseguia respirar e seus ossos pareciam querer partir a carne de tanta dor que ele sentia. Sua cabeça ardia como se estivesse em plena fogueira. Seus olhos, que há muito não conseguiam se manter abertos, estavam quase saltando do rosto. E ele começou a implorar. Implorava para que ele parasse. Implorava para que a dor cessasse. Para que o matasse. Apenas implorava.
Foi nesse momento em que a dor duplicou. Aumentou mais um pouco e, depois, parou abruptamente. Abraxas não sentia mais os próprios membros, seu corpo parecia gelatina. Ele só conseguia entender que não havia mais dor, mesmo que não soubesse o que isso significava. Estava morto, afinal?
- Eu estava certo quando disse a Emeline que se casar com você tinha sido um desperdício de sangue, Malfoy - o Lorde disse próximo do loiro e logo se afastou. Abraxas ouviu um barulho de aparatação e só assim abriu os olhos com dificuldade. Estava sozinho. Por enquanto.

Fevereiro de 1976


Severus estava na biblioteca há várias horas aproveitando seu dia livre, esperando esbarrar com Lily Evans. Teo tinha sumido desde o café da manhã e ele tinha a ligeira impressão de ter visto a amiga encontrar com a Saint-Laurent, mas não estava interessado. Ele estava mais preocupado em terminar seu exemplar de Mentis Imperium. Sabia que as dores de cabeça que tinha sentido durante o encontro com o Lorde das Trevas não tinham sido por um acaso, então precisava se proteger.
Claro que teria sido mais fácil se tivesse um parceiro para praticar os feitiços, mas não queria ter que explicar para Flint os motivos pelos quais estava se preocupando com Oclumência agora, quando só veriam esse tópico nos próximos anos. Ele teria que se virar com Mulciber, Avery e Crabbe mais tarde, já que eles tinham lhe pedido ajuda com duelos para além de seus encontros ocasionais. Por mais desmiolados que os três fossem, Severus sabia que não queriam dar motivos para a irritação do Lorde. Eram lentos, mas inteligentes o bastante para prezar a própria vida e não fazer muitas perguntas.
- Snape? - uma voz desconhecida chamou baixinho por ele e, quando levantou o olhar, deu de cara com Delilah Saint-Laurent lhe encarando - Você viu a Flint?
- Ela não estava com você? - devolveu, voltando seu olhar para o livro, sem se preocupar em cumprimentar a garota.
- Nós ficamos juntas por uns minutos depois do café, mas ela disse que tinha que te ajudar com uns relatórios de Poções, não entendi muito bem. E então ela sumiu.
- Está vendo a Flint aqui, por acaso, Saint-Laurent? Então pode ir embora.
- Babaca. - a garota xingou baixinho, mas Severus levantou a cabeça em desafio.
- O que foi que disse?!
- Disse que você está sendo um babaca, Snape! Está com problemas ou esse cabelo impede que você escute?! - revidou arqueando uma sobrancelha. Era demais ter que levar desaforo uma hora dessas.
- Por que não dá o fora e vai procurar seus amiguinhos marotos por aí? - sugeriu com nojo.
- Você não precisa tratar todas as pessoas da Grifinória assim, Snape. Deveria ser menos idiota com quem pode te ajudar um dia.
- Do que você está falando, garota? Nem me conhece!
- Não preciso! - rebateu - Você está fazendo seus poucos amigos sofrerem com essa atitude imbecil de superioridade. Ou não se importa mais com a Evans? - jogou e Severus agradeceu por estar sentado, do contrário teria caído.
- Tenho mais o que fazer do que falar com você, Saint-Laurent. A Flint não está, já pode ir embora. - reclamou em voz baixa e deu graças a Merlin por ver que seus companheiros da Sonserina estavam entrando na biblioteca à sua procura. Juntou suas coisas e saiu rapidamente ao encontro deles, antes que a garota ameaçasse falar mais alguma coisa.
Os quatro foram para uma sala vazia e ficaram treinando até o jantar. Snape testou mais uma vez e mostrou aos garotos o Abaffiato, feitiço que estava trabalhando nas últimas semanas, como uma opção ao Muffiato. Ele era melhor aplicado em áreas fechadas, diferente do Muffiato que funcionava mais ao ar livre.
Apenas quando se deu satisfeito, Severus os liberou e os quatro foram ao Salão Principal para que pudessem jantar. Quando chegou a mesa da Sonserina, Snape deu de cara com Flint que brincava com a comida, sem que um sorriso bobo lhe saísse dos lábios.
- Achou a pedra filosofal, Flint? - Severus questionou a alegria da amiga quando se sentou ao seu lado e viu a garota se assustar com a presença inesperada. Ela corou e olhou pra baixo envergonhada, sem falar nada. Aquilo estava bem estranho, Teodora não era quieta assim - O que aconteceu?
- Nada. - ela desconversou e deu de ombros. Olhou para os lados e depois fixou seu olhar para frente. Quando Severus se deu conta, a garota olhava para a mesa da Grifinória.
- Sua amiguinha veio perguntar sobre você hoje. - comentou começando a se servir e sentiu um beliscão no braço. Teodora agora lhe olhava feio enquanto ele massageava a própria pele.
- Você deveria ter sido mais educado com ela, Snape! - ralhou a morena, estreitando os olhos.
- Ela já foi fazer fofoquinha pra você?
- Deli não precisou me falar nada, eu sei que você é um trasgo quando quer! Por isso, tenha modos!
- Vai me contar por que está sorrindo feito idiota? - ele trocou de assunto rapidamente.
- Vai me contar quem lhe deu essa correntinha que você usa pra cima e pra baixo? - ela rebateu e olhou pra ele em desafio. Severus apenas desviou o olhar - Imaginei que não. - ela sorriu vitoriosa.
- Eu posso perguntar ao Jacob o que aconteceu com você, com certeza ele sabe.
- Você não se atreveria a meter meu irmão nessa conversa, Snape. - ela encerrou o assunto tranquilamente e voltou a comer, sorrindo e levantando o olhar vez ou outra para a mesa do outro lado do salão. Ela tinha razão, Severus não a comprometeria desse jeito. Ela era uma das poucas pessoas que tinha a sua lealdade.

[...]


- Eu deveria ter usado o Cabeça de Bolha pra ficar um pouco mais pelo Salão e ver a cara do Potter e do Black. - disse Snape rindo junto a Crabbe e Avery depois deles terem azarado James e Sirius com um Fetidus. Remus e Peter tinham escapado, porque não estavam presentes - Quem sabe assim eles aprendem a não me incomodar durante as minhas poções.
A implicância entre Snape e os garotos, conhecidos como Marotos, vinha desde o primeiro ano. Eles não se bicavam e, eram arrogantes o suficiente pra levar uma disputa entre as casas ao extremo. A amizade de Severus com Evans também não era muito bem vista por eles, mas agora que andava abalada, eles deveriam estar soltando fogos.
A última dos Marotos tinha sido uma explosão da poção que Severus estava fazendo. Sua poção do Morto Vivo tinha quase lhe arrancado um olho graças aos grifinórios e, nada mais justo do que revidar no que mais lhes doía, sua popularidade.
Horas mais tarde, Severus estava no Corujal despachando uma carta para a mãe e outra para , mas começou a ouvir alguns barulhos de passos apressados vindos do corredor do quarto andar. A curiosidade bateu mais forte e logo ele estava andando e se escondendo entre as estátuas para ver o que acontecia.
Qual não foi a sua surpresa quando viu Sirius, James e Peter se esgueirando pelos cantos, enquanto Potter segurava um pergaminho. Os garotos olhavam para trás assustados, talvez estivessem fugindo de Filch ou Madame Norra. E, bem, Severus não perderia a oportunidade de ferrá-los, certo?
Ele aproveitou que o trio ainda não tinha se dado conta de sua presença e entrou na primeira porta que encontrou, mas sempre deixando uma fresta aberta para que pudesse ver o que acontecia. Olhando para uma das armaduras próximas a eles, Snape apontou a varinha e sussurrou bombarda.
O estrondo da explosão foi o bastante para assustar a todos. Os quadros ao redor gritavam de desespero e Pirraça, o poltergeist, chegou fazendo escândalo, trazendo Filch consigo, sem dar tempo dos garotos se esconderem e evitarem uma boa detenção.
Severus viu Filch empurrando os três para o que devia ser o caminho da sala da Professora McGonagall e não conseguiu segurar a risada. Era tão gratificante ver aqueles garotos se ferrando, quase um prazer. No entanto, Snape não percebeu que seus risos, ainda com a porta entreaberta, tinham captado a atenção de Sirius que fechava as mãos duramente para se controlar.




Continua...



Nota da autora:Atualização dupla pra dar uma variada e eu quero saber o que estão achando da história? Não sei vocês, mas eu estou abalada com a morte da Emeline até agora! E, bem, sobre o outro capítulo: se vocês conhecem os marotos tão bem quanto eu, sabem que eles não vão deixar barato, né? Nos vemos na próxima atualização ❤




Outras Fanfics:
Universo Compartilhado Harry Potter:
  • Stars Above Us (LOLA)
  • Nas Garras do Lobo (LOLA e Mayra B)

    Outras:
  • Like a Virgin (Oneshot - Restrita)
  • Amor em Dobro (Shawn Mendes - Em andamento)
  • Make 'em Laugh (Originais - Em andamento)
  • Blood, Love and Death (Crepúsculo - Em andamento)
  • I'm not your fan (Kpop - Kard - Restrita)

    Nota da beta: Vocês chocados pela morte da Emeline e eu sempre chocada quando imagino o Voldy transando com alguém! Hahahaha o Tom era gato, mas o Voldy... Difícil! Hahahaha Continua!
    Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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