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Última atualização: 19/08/2021

I.

- Como assim você nunca leu Harry Potter em 22 anos, ! - Bruna repreendeu a amiga que lhe encarava de volta completamente entediada. As duas estavam conversando em uma mesa de bar na Rua do Lavradio, na Lapa.
- Você fala como se fosse um sacrilégio nunca ter lido, amiga. Acho que metade desse Rio de Janeiro ainda não leu e você está me culpando como se eu fosse maluca.
- E é, a nossa geração é uma das que cresceu com Harry Potter, eu estou me sentindo pessoalmente ofendida por você nunca ter lido os livros. Você precisa ler urgentemente e eu sei onde você pode encontrar. - ela comentou sacando o celular e começando a procurar alguma coisa no Google - Deve ter um sebo aqui perto em que você possa comprar os livros.
- E de onde você tirou que eu quero ler esses livros, Bru? - riu descrente - Eu tenho é que estudar pra conseguir passar no Enem, cara. Já nos formamos há uns cinco anos e eu não entrei pra faculdade ainda.
- Você precisa se distrair e nada melhor do que ler Harry Potter. Vai, . Eu prometo que você vai gostar dos livros. - Bruna fez chantagem e só assentiu resignada. Era uma batalha perdida.
Logo a amiga voltou para o celular e encontrou um sebo na Rua Luís de Camões, ali pertinho. Não passava das 14h de um sábado quente, mas por sorte, de acordo com o Google, aquele lugar estava aberto. Sebo São Cipriano. Mesmo estranhando o nome, as duas pagaram a conta do barzinho e foram andando rapidamente para a loja.
Quando finalmente chegaram no número 177 daquela rua, tudo o que encontraram foi um sobrado muito do mal encarado. A pintura descascando na fachada, uma placa muito torta e completamente imunda indicava que estavam no lugar certo. Mesmo que estivesse ali meio obrigada, sentiu um calorzinho interessante na boca do estômago e tomou a frente entrando no sebo. Bruna, a essas alturas, já estava pensando em desistir e comprar os livros pela internet. Afinal, quem em 2017 ainda sai pra procurar livro em sebo? Era muito mais fácil pedir online. No entanto, já tinha entrado no sobrado e subia as escadas. Segurando o medo, Bruna foi atrás da amiga.
Assim que entraram, elas já repararam na iluminação péssima do lugar. O sebo tinha estantes do chão ao teto com aquelas escadas de rodinhas para alcançar os livros mais altos. Um pequeno balcão ficava perto da única janela da grande sala e nele um garoto que parecia mais novo que elas estava terrivelmente entediado lendo alguma coisa fora do campo de visão.
- O-oi, boa tarde. - cumprimentou meio incerta e o menino se assustou com a companhia. Ele olhava para as duas como se fossem fantasmas. Fazia tanto tempo que alguém entrava ali - Será que você pode nos ajudar?
- Você tem certeza? - ele questionou chocado, mas deixou o que estava lendo de lado para encarar as garotas - Não estão no lugar errado?
- Aqui é um sebo, né? - quis confirmar e o garoto assentiu. Bruna estava estranhamente quieta atrás dela - Então, estamos no lugar certo. Queremos saber se você tem os livros de Harry Potter. Tem?
- Só temos uma edição de colecionador, serve?
- É muito mais cara?
- Na verdade, não. Cada livro está saindo por uns quinze reais, porque o antigo dono tem pressa em vender. É consignado, sabe. Ele deixou aqui e estamos há meses tentando vender por ele.
- Então, encontrou uma compradora. - sorriu encorajando o menino a fazer o mesmo, mas só recebeu uma careta meio desconfortável. Ele assentiu novamente e foi até uma das estantes mais distantes deles para pegar os livros.
- , vamos embora! - sussurrou Bruna assim que o garoto se afastou e segurou forte o braço da amiga que lhe encarou meio chocada - A gente pode comprar esses livros em outro lugar.
- Você foi quem achou esse sebo, garota. Não surta, é uma edição de colecionador que vai sair muito mais barata do que a edição normal. - repreendeu no mesmo tom e fez questão de se soltar de Bruna. A amiga continuava reclamando e pedindo pra ir embora, mas não queria perder uma boa compra. Ia ficar até o fim.
Não demorou muito e o garoto voltou carregando uma caixa bem adornada sem muita dificuldade. Ele postou com cuidado a caixa no balcão e abriu mostrando para as mulheres o conteúdo. Bruna logo estranhou os livros não terem desenhos na capa como conhecia, só seus títulos escritos em uma fonte dourada. , por outro lado, achou de um minimalismo maravilhoso e pegou o primeiro para começar a folhear.
- Como vamos saber que esses são mesmo os livros de Harry Potter? - Bruna se pronunciou pela primeira vez olhando a edição mais de perto - Como vamos saber que isso não é uma enganação de vocês? Essa não é a edição que eu conheço dos livros.
- Você pode dar uma olhada neles, mas garanto que são verdadeiros. - ele deu de ombros e Bruna pegou da mão de o exemplar de Pedra Filosofal que ela folheava. “O Sr. e a Sra. Dursley, da rua dos Alfeneiros, nº 4, se orgulhavam de dizer que eram perfeitamente normais, muito bem, obrigado”, ela leu a frase de início da saga que tão bem conhecia e se convenceu minimamente de que eram os livros certos. Bruna aproveitou para conferir todos os outros seis exemplares e deu seu aval para que pudesse comprar a coleção.
já estava terminando de pagar e quase saindo da loja quando o garoto do caixa lhe chamou mais uma vez. Bruna se manteve esperando na porta segurando a caixa contra o corpo.
- Boa sorte! - desejou baixo assim que ela se aproximou do balcão, seus olhos fixados nos dela e fazendo um arrepio percorrer a sua espinha. assentiu e deixou o Sebo São Cipriano para trás carregando junto a Bruna os sete livros de Harry Potter em uma edição nunca vista anteriormente.

[...]


podia não querer dar o braço a torcer, mas estava adorando esse novo universo de Harry Potter. Por que ninguém tinha apresentado os livros a ela antes?! A jovem estava tão imersa neles que já tinha deixado bons rolés de lado para se manter em dia com a leitura e, bem, em dois meses tinha conseguido devorar os seis livros da saga e estava a poucas páginas de finalizar o sétimo.
Em alguns momentos tinha se sentido seriamente patética, até sonhar com um personagem tinha sonhado. Quem diria que ela, no alto dos seus 22 anos, ia sonhar com um personagem literário? Ela culpava a Jurupinga que tomara durante sua leitura de O Cálice de Fogo, mas nada muito preocupante. Era só seu subconsciente pregando peças e mostrando o quanto gostara dos livros.
Bruna já tinha desistido de chamar a amiga para sair aos fins de semana, porque ela tinha entrado em uma espécie de casulo e respirava o universo de J.K. Rowling. Em partes, isso era sua culpa, já que ela tinha lhe apresentado a saga.
“A cicatriz não incomodara Harry nos últimos dezenove anos. Tudo estava bem”. leu a última frase de Relíquias da Morte e soltou um suspiro, sem saber como lidar com o que estava sentido. Ela não sabia se estava feliz por conhecer toda a história ou se estava triste por ter terminado tudo. Será que valia a pena recomeçar do primeiro livro?!
Ainda meio inconformada por ter fechado a história, percebeu que tinham mais duas páginas antes da contracapa. Uma estava completamente em branco e na outra, como se estivessem escritas à tinta, duas perguntas em inglês se destacavam.
“Agora que você conhece a história do Harry, trocaria a sua vida por entrar na história e ver por si mesma?”
“Aprendemos que a vida é feita de escolhas, então lhe dando essa possibilidade, para onde você iria dentro da história?”

A jovem leu com o cenho franzido, mas soltou uma risada. Ainda achando graça, ela logo estranhou as perguntas em inglês. Se os livros estavam em português, por que isso estava escrito em outra língua? Era tão bizarro pensar aquilo. Será que a autora tinha colocado essas perguntas em todas as edições ou era algo especial para as versões de colecionadores? Se fosse, era uma sacada maravilhosa! Um ótimo motivo para comprar um livro mais caro.
pegou o próprio celular e abriu na câmera. Tinha que mandar aquilo pra Bruna, ela ia adorar. Ela focou nas perguntas e tirou a foto, mas quando abriu a conversa com a amiga para enviar, viu que tinha saído tudo muito embaçado. A jovem tentou diversas vezes e por aplicativos diferentes, mas nada adiantava. As fotos sempre saíam borradas. Será que seu celular estava quebrado?
Ignorando isso no momento, ela tentou ligar para a amiga para contar, mas o celular de Bruna chamava e ninguém atendia. chegou a checar a hora. Meia noite de uma sexta-feira. Bruna, certamente, estava acordada. Mas, ok. Ela podia falar com a amiga amanhã.
O livro ainda estava aberto em seu colo e as duas perguntas pareciam quase brilhar de tanto que chamavam sua atenção. Ela pegou uma caneta em sua mesa de cabeceira e resolveu responder no pequeno espaço entre elas. não costumava rabiscar seus livros, mas se era uma edição especial - como parecia - por que não entrar na brincadeira?
Em inglês, ela escreveu um pequeno “sim” para o primeiro questionamento e, depois de pensar um pouco na resposta, ela resolveu escrever “Ordem da Fênix”. Por mais que ela tivesse gostado muito de Prisioneiro de Azkaban, o quinto livro tinha lhe conquistado. Talvez ela tivesse se identificado ainda mais com um certo ruivo. Principalmente depois de sonhar com ele.
Não demorou muito depois disso para que resolvesse dormir. Dando boa noite ao pai, mesmo sabendo que ele não se interessaria em lhe responder, a jovem apagou a luz e se enrolou em suas cobertas. Sua cabeça pesava tanto no travesseiro que o sono chegou bem rápido.

[...]


sentia sua cabeça doer consideravelmente. Ela ouvia vozes ao longe falando apressadas e, em um primeiro momento, não conseguiu entender o que eles diziam. Ela piscou os olhos lentamente algumas vezes antes de focalizar em alguma coisa. Um senhor de profundos olhos azuis e barba longa lhe encarava desconfiado. Ele era estranhamente familiar, mas ela não conseguia descobrir de onde o conhecia.
- Quem é você, senhorita? - o homem perguntou em um inglês bem carregado e ela teve que se concentrar para compreender. Quando ela não respondeu, ele repetiu a pergunta se agachando ao seu lado. Seus olhos lhe estudavam por cima dos oclinhos meia lua.
- . - respondeu com a voz fraca e o homem assentiu, olhando para uma outra senhora que agora a jovem tinha percebido. Ela também lhe olhava analisadora, mas parecia minimamente mais preocupada. Os dois estavam vestidos de forma tão estranha, com tecidos que pareciam bem caros, mas que ela não lembrava de ter visto antes - Onde eu estou? - resolveu manter a conversa em inglês e sentiu uma pontada forte na cabeça quando tentou se mover para olhar mais ao redor.
- Não se mexa muito, senhorita. - disse a senhora e se abaixou também na mesma altura que o homem - Pelo estrondo que ouvimos, foi uma queda e tanto.
- Estrondo? Que estrondo?
- Não se lembra de como chegou aqui? - o senhor quis saber curioso.
- Só lembro de ter ido dormir, nada além, me desculpe.
- Tudo bem, querida. - a senhora lhe confortou, mesmo que mantivesse o tom sério - Podemos resolver isso depois, acho que agora a menina precisa descansar, Albus. - ela se dirigiu ao homem.
- Você tem razão, Minerva. - ele concordou - Se importa de nos acompanhar, senhorita ? - Albus lhe ofereceu uma mão, mas os olhos da garota se esbugalharam tanto que quase saltaram de seu rosto.
- A-Albus c-como em D-dumbledore?! - falou engasgada e sentiu o coração acelerar fortemente em seu peito. Sua respiração estava falha e ela agora estava tonta. Era uma brincadeira?!
- Como a senhorita sabe meu nome?
- Onde eu estou? O que está acontecendo? Quem são vocês? Por que eu estou aqui? - ela se agitou e começou a balbuciar várias perguntas depressa. A jovem misturava inglês e português ao falar, mas não parecia estar percebendo. Minerva e Dumbledore trocaram um olhar cheio de significados e a mulher tirou sua varinha discretamente das vestes e balançou na direção da garota. Ela precisava se acalmar se quisesse respostas e todos ali pareciam querer.
- Se acalme, senhorita . - Dumbledore disse com a voz suave e segurou na mão trêmula da mais nova - Nós estamos em Hogwarts, mais especificamente, na noite de natal.
- E-em que ano estamos? - ela sussurrou, mas eles escutaram bem graças a proximidade.
- Em 1995. - Minerva respondeu desconfiada e fixou seus olhos nela por um momento. Ela olhou para trás dos dois e viu algumas guirlandas natalinas presas nas paredes, mesmo que vários quadros ocupassem o espaço. Uma grande porta fechava o que quer que estivesse do outro lado e ela focou mais uma vez na mulher e no homem a sua frente. Eles lhe encaravam em expectativa, como se ela fosse lhes dizer o que acontecia. Como se ela mesma soubesse!
No entanto, enquanto olhava para Minerva e Dumbledore, sua visão começou a ficar turva e sua cabeça pesava como já tinha sentido antes. Aos poucos, ela ouvia as vozes ficarem cada vez mais baixas e distantes.
[...]


- Como se sente, querida? - ouviu uma voz feminina questionar ainda em inglês assim que começou a recobrar os sentidos. Demorou algum tempo antes que a jovem conseguisse despertar de fato. Quando tentou se levantar, uma mão delicada lhe parou - Você precisa permanecer deitada por mais algumas horas. Sem movimentos bruscos. - a senhora de cabelos grisalhos ralhou, mas manteve o tom brando.
- A senhora sabe o que aconteceu? - perguntou a voz rouca e a senhora logo lhe alcançou um copo do que parecia ser água. aceitou sem questionar. Não teve forças para tal.
- Acho que é melhor esperarmos pelo diretor, mas a senhorita sofreu uma baita queda se essa confusão mental for um bom indício.
- Quem é a senhora? Já nos conhecemos? - a jovem tentou forçar a memória, mas só o que conseguiu foi uma pontada na cabeça. Tentar se lembrar doía.
- Não faça esforços, querida. Logo teremos todas as respostas. - ela sorriu acolhedora e deixou o pequeno espaço em que a jovem estava deitada. começou a reparar na cama que mais parecia uma maca e nos lençóis extremamente brancos que lhe cobriam. Eles destoavam bastante da calça puída e da camisa larga que usava.
- Senhorita ? - Dumbledore tinha aberto as cortinas delicadamente, mas a garota não conseguiu não se assustar com a presença inesperada - Sinto muito. - ele se desculpou - Sei que a senhorita precisa descansar, todos estamos de acordo com isso, mas algumas lacunas precisam ser preenchidas antes que o dia amanheça.
- Claro, o senhor está certo. - ela suspirou e se aprumou na cama - Infelizmente, eu não lembro de muita coisa além de ter ido dormir. Gostaria de ser mais útil.
- Não se preocupe, vamos tentar trabalhar com o que temos. - ele sorriu caridoso - Acredito que lembre da professora Minerva McGonagall, sim? Nós a encontramos mais cedo. - assentiu e passou a reparar em um outro homem que estava mais afastado. Vestido todo de preto, seus cabelos ocultavam boa parte do rosto - Este é Severus Snape, senhorita. Ele tem em suas mãos um frasquinho do que chamamos de soro da verdade.
- Veritaserum - ela sussurrou sem controlar a língua e os professores se entreolharam sem saber o que dizer.
- Correto! - Dumbledore assentiu e acenou para Snape. O homem se aproximou sem fazer muito barulho e pegou o copo de água que a garota bebia. Pingou apenas duas gotas do soro que tinha em mãos e ofereceu a novamente. Ela suspirou profundamente e olhou bem para os quatro adultos que lhe encaravam ansiosos. De uma só vez, ela virou o conteúdo do copo.
- Qual o seu nome completo e quantos anos tem? - a professora McGonagall questionou após alguns segundos de silêncio total.
- Gomes Oliveira - se sentiu impelida a responder - e eu tenho 15 anos. - disse sem sentir e logo tampou a boca com as mãos e arregalou os olhos assustada - Tenho 15 anos? - perguntou em voz alta, mas sem olhar pra ninguém em específico. Ela estava em transe quase.
- Senhorita? - Dumbledore chamou sua atenção novamente e ela focou nele - Onde a senhorita nasceu?
- Brasil. Rio de Janeiro. - falou baixo, ainda impactada pela descoberta anterior - Onde estamos?
- Estamos em Hogwarts, na Escócia. - McGonagall respondeu. Snape permanecia em silêncio, só observando toda a situação - A senhorita já praticou magia?
- Magia como em poções e feitiços? - ela se espantou ao ver que todos assentiram - Nunca! Não sei nem como cheguei aqui, eu apenas fui dormir depois de ler.
- O que estava lendo?
- Era a história de um menino, eu me lembro bem. - ela forçava, mas não conseguia lembrar o nome dele - Sei que ele sofreu muito e passou por diversas provações, mas não lembro de muita coisa que aconteceu. Só sei que se passava em Hogwarts.
- Albus? - Minerva chamou com a voz séria e eles trocaram um olhar cheio de significados. Ela se voltou para - Esse menino se chamava Harry Potter?
- Sim! - e como em um estalo, se lembrou dos quatro primeiros livros que lera. Ela tinha acompanhado a jornada do trio de ouro por quatro anos, pelo menos para eles, como espectadora e agora estava ali de frente pra quatro pessoas que ela conhecia muito bem, mesmo que só nos livros - M-madame Pomfrey? - ela chamou e a mulher, que até então não tinha lhe dito seu nome, assentiu meio incerta - Como isso é possível? - ela questionou os professores - Como eu posso ter quinze anos? Como eu estou aqui?
- Onde a senhorita conseguiu esses livros? - Dumbledore quis saber e se aproximou lentamente da garota, sentando aos pés de sua cama hospitalar.
- Em uma livraria de livros antigos. Sei que existe mais história, mas não consigo me lembrar de nada. - ela levou as mãos às têmporas e pressionou o lugar. Talvez sua memória precisasse de uma força para funcionar.
- Consegue se lembrar de quem era a autoria desses livros? - Snape se pronunciou pela primeira vez, sua voz grave e arrastada soando estranhamente familiar para .
- Sei que eram 3 palavras, mas não consigo visualizar o nome. - ela franziu o cenho - Será que podem me dar um espelho, por favor? - pediu sem conseguir se controlar.
- Claro. - Dumbledore tirou a varinha das vestes e convocou o copo de água que já estava vazio para depois transfigurá-lo em um espelho de tamanho médio. acompanhou todos os movimentos sem sequer se mexer, como se eles fossem normais. Albus entregou o espelho a ela e a garota agradeceu por estar sentada.
Seu rosto estava ligeiramente mais jovem do que ela tinha em mente, assim como mais fino. Ela tocou seu reflexo com a ponta dos dedos e sentiu o coração disparar. Era ela mesma ali? Seus cabelos cacheados estavam tão negros quanto lembrava, mas pareciam mais curtos. tinha realmente 15 anos.
- Quantos anos a senhorita deveria ter? - Minerva perguntou em voz baixa e a garota seguiu encarando o espelho. Ela apenas deu de ombros. Não sabia que idade tinha de verdade e também não conseguiria mentir - Certo. Acho que é melhor deixarmos que a senhorita descanse, amanhã continuaremos a conversar. - a mulher disse e foi apoiada por Dumbledore que se levantou da cama. seguiu olhando seu reflexo no espelho sem ver que todos se retiravam da enfermaria.
- Como isso aconteceu, Dumbledore? - Minerva questionou assim que os quatro chegaram ao corredor - Poppy, você fez todos os testes nela, certo?
- Além das dores de cabeça pela tal queda, não há nada de errado com ela. Fisicamente falando. - Pomfrey ponderou e os três professores assentiram.
- Eu questionei a diretora Corrêa, mas não há registros dela em CasteloBruxo. Quando falou em português mais cedo, foi o primeiro lugar em que pensei. Principalmente porque um trouxa não conseguiria encontrar o castelo. - Dumbledore comentou - Acho que nesse caso, temos duas coisas a fazer: a primeira e mais importante é não deixar Umbridge ou o Ministério descobrirem sobre de outra forma. Temos que ser nós a informar sobre a garota e de modo crível.
- E qual a segunda coisa? - Severus quis saber. Ele não estava nada convencido com essa história maluca, mesmo estando sob o efeito da Veritaserum que ele mesmo preparara.
- Devemos levá-la ao Olivaras para saber se realmente possui poderes. - o diretor disse solene - Só a partir daí conseguiremos agir.

II

O dia seguinte amanhecera ligeiramente mais frio, mas não tinha conseguido dormir por muito tempo mesmo. Talvez apenas por uma ou duas horas. Então, não foi muito surpreendente quando Madame Pomfrey abriu as cortinas delicadamente e seus olhos se encontraram com os da mulher.
- Acordada há muito tempo?
- Não dormi muito, as coisas ainda estão meio confusas pra mim. - ela deu de ombros e aceitou a montanha de roupa que a mulher lhe entregava - Pra que serve isso?
- Acho que você não está com roupas muito apropriadas para o frio e sairá com a professora McGonagall assim que o café terminar.
- Vocês vão me expulsar? Eu não tenho pra onde ir ou quem procurar e eu vou precisar de ajuda, não sei como voltar pra casa nem - a professora Minerva que chegava na ala hospitalar interrompeu o discurso inflamado de .
- Senhorita, acalme-se. Não pensamos em lhe expulsar, ok? Apenas queremos descobrir direito o que está acontecendo. - Minerva chegou perto das outras duas e se sentou na cama antes ocupada pela garota - Você pode se trocar, sim? Tomaremos café e sairemos.
entrou na porta que lhe fora indicada e encontrou ali um banheiro. Enquanto ela se aprontava, do lado de fora, alguns elfos domésticos chegavam com o seu café da manhã e aprontavam a mesa que era designada aos doentes de Madame Pomfrey. Minerva e ela conversavam aos sussurros sobre o que seria feito a partir de agora quando a garota saiu do banheiro já com os cabelos presos em um rabo de cavalo alto e com uma capa que lhe cobria até os pés, extremamente quente e apropriada para o clima.
As três se sentaram à mesa e a refeição transcorreu em silêncio. mordia a língua cada vez que pensava em uma nova pergunta para fazer, o que acontecia de dez em dez segundos. Pouco antes de terminarem, Dumbledore irrompeu pela porta com seu costumeiro ar tranquilo e saudou as mulheres com um bom dia.
- Presumo que esteja curiosa sobre o dia de hoje, senhorita . - o diretor conjurou uma cadeira e sentou-se displicente ao lado da jovem.
- Com certeza, quero saber pra onde estão me levando.
- Há algumas coisas que nos intrigam sobre o seu aparecimento aqui e gostaríamos de descobrir mais sobre. - ele começou e viu a jovem assentir - A senhorita disse que leu sobre nós, mas como isso pode ser possível se parece vinda do mundo dos trouxas? - ele divagava mais para o nada do que para a garota - Trouxas são - foi interrompido por .
- Aqueles que nascem sem magia, eu sei. - ela disse rápido e logo era encarada pelos três adultos da sala - É engraçado pensar que eu sei todas essas coisas, que eu li todas essas coisas e que não sei por que vim parar aqui ou como era a minha vida antes de acordar ontem.
- Justamente para que possamos saber com o que estamos lidando, vamos fazer um pequeno teste hoje, sim? - Dumbledore se levantou - Professora McGonagall irá lhe acompanhar.
Não demorou muito para que o homem se despedisse e, logo depois, acompanhava a professora para fora dos terrenos de Hogwarts. Ela estava devidamente agradecida à Madame Pomfrey por lhe dar tantas roupas. O vento era cortante e a neve debaixo de seus pés dificultava a caminhada.
- Não queremos chamar muita atenção, então vou lhe pedir para fechar os olhos. - Minerva disse depois de se afastarem alguns metros dos portões da escola. A professora lhe oferecia o braço direito.
- O que vamos fazer? - quis saber olhando do braço para o rosto da professora.
- Apenas feche os olhos e segure firme em mim. Não solte em hipótese alguma.
nada mais disse. McGonagall lhe passava mais confiança do que sentira com Dumbledore ou Pomfrey. Ela sabia que a mulher não lhe machucaria. A garota respirou fundo uma única vez e fez o que tinha sido pedido. Se aproximou da professora, tocou-lhe o braço e sentiu como se o chão não existisse mais sob seus pés.
- Está se sentindo bem? - McGonagall perguntou depois delas aparecerem em um lugar diferente. As duas estavam em um beco pouco iluminado. estava com um aspecto doente, era possível ver as gotas de suor em sua testa - Eu lhe disse pra fechar os olhos.
- O que foi isso? - ela quis saber com a voz falha e McGonagall soltou uma risadinha enquanto lhe oferecia um lencinho que foi aceito de bom grado. A garota nem tinha percebido que estava suando frio.
- Nós acabamos de aparatar, querida. Saímos de um lugar e aparecemos em outro. Simples assim.
- E a sensação é sempre essa? Parece que eu fui puxada pelo umbigo pra passar por um cano minúsculo.
- Quem sabe você se acostuma em algum momento. - a mais velha sorriu compreensiva - Vamos?
Foram poucos os minutos de caminhada e logo as duas estavam entrando em uma loja com aspecto bem antigo cujo letreiro descascado dizia “Olivaras: artesãos de varinhas de qualidade desde 382 a.C.”. Um sininho tocou em algum lugar quando elas entraram e logo um senhor com uma expressão alegre no rosto apareceu por trás do balcão.
- Minerva, minha querida, quanto tempo. - cumprimentou com a professora que lhe sorriu mais contida - A que devo essa visita? E - ele notou acuada ao lado da mulher - quem seria essa adorável jovem?
- , senhor - ela respondeu e o homem assentiu.
A professora McGonagall retirou das vestes um pequeno envelope e entregou a ele que não levou mais do que cinco minutos para ler a carta. Logo a compreensão já passava por seu rosto enquanto a mulher assentia e se afastava ligeiramente. O homem se virou para , seus olhos curiosos esquadrinharam a garota.
- Me chamo Garrick Olivaras, senhorita. Sou um artesão de varinhas e, ouso dizer, que aqui estão algumas das mais poderosas de toda a Grã-Bretanha. - ele sorriu orgulhoso - Mas venha, aproxime-se. Qual seria o braço da varinha?
- Sou destra. - respondeu e esticou o braço para o homem que, tirando uma fita métrica do bolso, deu a volta no balcão e começou suas medições. O senhor Olivaras fazia tudo com muita rapidez e sem anotar nada. A fita mediu do ombro ao dedo da garota, depois do pulso ao cotovelo, do ombro ao chão, do joelho à axila e ao redor da cabeça. já estava até meio tonta.
- É importante que saiba que cada varinha produzida aqui é única, senhorita. Pois cada pessoa é única, então não há sentido em confeccionar réplicas. Os resultados de feitiços com as varinhas de outros bruxos não costumam ser tão significativos, porque -
- A varinha escolhe o bruxo. - completou o raciocínio e o senhor Olivaras assentiu. Ele não parecia surpreso que a garota soubesse. Seja lá o que lera na carta, estava levando o conhecimento da menina muito bem.
- Exatamente! Nós trabalhamos com penas de cauda de fênix, cordas de coração de dragão e pêlos de unicórnio. - explicou enquanto voltava para trás do balcão e começava a remexer nas caixas das prateleiras. Ele escolheu uma logo da frente e abriu, retirando dali uma varinha - Tente essa: madeira de cipreste com um núcleo de coração de dragão, 22 cm e bastante flexível.
Ainda meio desconfiada, pegou a varinha das mãos do homem e, mesmo sem saber o que fazer, balançou, mas nada aconteceu. Ela estava se sentindo partircularmente idiota.
- Não tem problema, vamos tentar uma próxima. - ele pegou a varinha de volta e guardou, entregando a garota uma segunda opção - Varinha de pau-brasil com núcleo de coração de dragão, 31cm e pouca flexibilidade.
Ela tomou a varinha uma segunda vez entre as mãos, mas novamente nada aconteceu. Nenhuma explosão, nenhuma faísca, nada que indicasse que qualquer poder irradiava de para a varinha e dela para fora. A garota bufou.
O senhor Olivaras trouxe varinha após varinha e, por mais quatro vezes, nada funcionara. Minerva apenas assentia em um canto, como se estivesse respondendo a perguntas internas. remexia os dedos contrariada.
- Estamos perdendo tempo aqui, senhor Olivaras. - ela sussurrou desgostosa e frustrada - Me desculpe por isso.
- Minha cara criança, a pressa é inimiga da perfeição. - ele sorriu encorajador - Vamos testar apenas mais uma varinha, tudo bem?
- E por que com ela seria diferente?
- Você mesma disse, senhorita: a varinha escolhe o bruxo. Mantenha a mente aberta, sim? - ele foi até a estante mais próxima e pegou uma caixinha preta, adornada com pequenos detalhes dourados. Dali, ele retirou uma varinha e, sem dizer nada, entregou a .
Um arrepio gostoso passou por todo o seu corpo no momento em que segurou a varinha. Com um balançar, as caixas de varinha saíram da estante e caíram todas no chão. Aquela varinha era como uma extensão de sua mão.
Com mais um aceno de varinha, todas as caixas estavam voltando aos seus devidos lugares e o senhor Olivaras ria contente.
- Como isso é possível? - Minerva sussurrou estupefata atrás da garota, mas não se virou.
- Madeira de nogueira negra com com núcleo de pena de fênix, 33 cm e flexibilidade rígida. - ele informou - Realmente, um achado.
- Por que diz isso? - quis saber.
- Essa varinha é bastante temperamental, senhorita. Não costuma funcionar direito com bruxos desonestos e procura sempre aqueles que têm bons instintos e são fortes de espírito. - ele explicou - A fênix da qual essa pena foi tirada era particularmente indócil. Foi muito difícil ganhar sua confiança para conseguir retirar uma única pena. O que me faz pensar que essa varinha é extremamente exigente e, ainda assim, lhe escolheu. Talvez ela estivesse apenas esperando.
Enquanto processava o que tinha escutado, Minerva pagava pela varinha e logo as duas estavam se encaminhando para fora da loja. O senhor Olivaras chegou a se despedir com uma piscadela esperta para a garota, mas nada fazia muito sentido. O que era tudo aquilo?
- Professora McGonagall? - chamou com a voz meio trêmula depois de terem desaparatado nos terrenos de Hogwarts - A senhora não esperava que eu fosse capaz de realizar magia, não é?
- Olhe para frente e me diga o que vê, querida. - Minerva a posicionou de frente para os portões da escola e a garota ofegou com a vista. O sol, que quase não aparecia entre as nuvens, lançava pequenos pontos de claridade.
- Acho que é o castelo mais bonito que já vi. - ela suspirou - Mesmo sem saber se, de fato, já vi um castelo. Por quê?
- Se uma pessoa não dotada de magia passa pela frente do castelo, tudo o que ela vê são ruínas com placas dizendo para manter a distância. A senhorita, por outro lado, não só consegue enxergar o castelo como entrou nele. Que possa empunhar uma varinha não é tão surpreendente, mas que saiba como tirar e colocar objetos dos lugares, isso sim é bastante chocante. Ainda mais sem dizer uma palavra.
- Quer dizer que eu sou uma bruxa?
- A senhorita é uma bruxa. - Minerva pôs a mão no ombro da garota e apertou levemente. deixou uma lágrima solitária escapar. Como isso era possível? Não eram apenas livros?

[...]

- Senhorita, pensei em postergar nossa conversa, mas estamos correndo contra o tempo. Os alunos e o restante dos professores retornarão em breve e, até lá, é importante que tenhamos tudo em ordem. - Dumbledore disse naquela noite enquanto estavam sentados em seu escritório. ouvia tudo com bastante atenção. Snape e McGonagall estavam próximos do diretor - Acredito que não tenha conhecimento disso, mas existem outras escolas de magia e bruxaria espalhadas pelo mundo. Uma delas fica no Brasil.
- Se eu sou uma bruxa, não deveria ter sido selecionada para lá? - questionou ao mesmo tempo em que passava os dedos por sua varinha recém adquirida - Eles também começam os estudos aos 11 anos?
- Sim, em CasteloBruxo, os alunos são selecionados aos 11 anos. No entanto, não há nenhum registro seu ou de algum familiar na escola. Conversei com a diretora Corrêa e nada aparece para eles. - Dumbledore explicou e a garota assentiu.
- É como se eu nunca tivesse existido, né? - ela riu sem humor - Eu apareço em um dia, leio um par de livros e sou transportada para uma realidade louca em que magia existe. Não é possível que vocês não saibam o que aconteceu! - retorcia o tecido da capa com os dedos com força, uma tentativa falha de manter a calma e controlar o tom de voz.
- Garota, não é como se não estivéssemos tentando resolver isso. - Snape disse irritado - Temos muito mais no nosso colo pra lidar do que uma criança que surge do nada. Então, controle o seu gênio e pareça, no mínimo, agradecida. - ele foi cortante e Dumbledore chamou seu nome em advertência. agora olhava pra baixo meio envergonhada. Não conseguia encarar nenhum dos três ali e só deixou escapar um “desculpe”. Os três professores ouviram. McGonagall foi a única a se aproximar da garota e lhe deixar um aperto carinhoso no ombro.
- Como eu ia dizendo, senhorita, - Dumbledore pigarreou e tornou a falar, tendo a atenção da jovem para si - existem outras escolas de bruxaria e, enquanto não descobrimos mais sobre como chegou aqui, precisamos de um álibi. A diretora Côrrea cedeu, gentilmente, o histórico de uma antiga aluna que será o seu, a partir de agora.
- E se alguém descobrir?
- Não se preocupe, esse histórico é antigo o suficiente para que ninguém se dê conta. Data do século passado, então, não teremos problemas - o diretor explicou - Conseguimos manter seu nome e sobrenomes, então, tudo o que muda é a sua linhagem sanguínea. Agora a senhorita é mestiça, filha de mãe bruxa e pai trouxa. E, para que a sua vinda até Hogwarts seja justificada, diremos que seus pais morreram em um acidente com experiências em casa e que a senhorita precisou vir para junto de sua madrinha, seu único responsável vivo.
- Madrinha? - a garota estranhou - Mas quem seria?
- Eu, querida. - Minerva disse com a voz suave. A mulher tinha se afeiçoado à em pouco tempo e, quando Dumbledore sugeriu o disfarce, não pensou duas vezes. A jovem deixou um pequeno sorriso agradecido escapar e assentiu enquanto olhava para a professora. Elas se entenderiam.
- Muito bem! - Dumbledore pareceu animado vendo a interação das duas - Depois de entregarmos os seus documentos ao Ministério para efetivar a sua transferência, faremos a seleção das casas assim que todos retornarem do recesso de final de ano e você irá para o quinto ano, de acordo com a sua idade.
- Na frente de todo mundo? - ela se assustou, mas os olhinhos azuis do diretor transpareciam confiança. respirou fundo - Eles vão descobrir que eu não sei fazer magia direito no momento em que eu pisar nessa seleção.
- Não se preocupe. - Minerva tomou a palavra - Temos alguns dias até que todos voltem e, nesse meio tempo, você irá estudar comigo e com o professor Snape. Além disso, montaremos seus horários com estudos extras para que consiga se virar nas aulas e nas provas.
- Obrigada, professora! - olhou para Snape pela primeira vez - De verdade, não sei como agradecer. - o homem não demonstrou nenhuma mudança - Quando começamos?
- Agora mesmo! - Dumbledore lhes indicou uma porta na lateral de seu escritório. Quando entrou, viu uma grande sala de aula, uma lousa presa na parede já tinha diversas anotações - Achamos que você pode começar com uma aula de feitiços básicos. Teoria primeiro, prática depois.
Nos dias seguintes, a garota se dedicou mais do que qualquer um dos três professores poderia imaginar. Durante as refeições, era comum ver com um livro e um inseparável caderno. Ali, ela fazia todas as anotações que achava pertinente, afinal, tivera pouco menos de duas semanas para aprender quatro anos de educação bruxa. Era muita coisa, principalmente considerando que inglês não era sua língua materna e, vez ou outra, ela precisava de uma tradução.
- Com o chifre de Bicórnio, conseguimos fazer uma poção polissuco também, certo? - questionava Snape enquanto dividia seu tempo entre cortar raízes de Mandrágora em pedaços uniformes e fazer anotações extras em seu caderno. Os dois estavam preparando uma poção estimulante depois de Snape ter explicado a teoria.
- Sim, mas apenas um deles. Não há necessidade de usar os dois, deixaria a receita forte demais e, provavelmente, inutilizável. - ele explicou e a garota assentiu. Entre um corte e outro, ela anotava a nova informação - Estou surpreso com todo o seu empenho, Gomes. Achei que fosse ser mais um estorvo, mas estou enganado.
- Isso foi um elogio? - olhou confusa para o professor, mas o homem seguia corrigindo os trabalhos dos alunos - Bem, obrigada.
- Não se empolgue muito, apenas fico satisfeito por não estar sendo uma total perda de tempo.
- Professor? - ela disse depois de alguns minutos em silêncio. Agora amassava o chifre de Bicórnio para dar continuidade à receita. Snape só se manteve quieto, mas estava atento - A poção da verdade que me deram no primeiro dia era realmente boa? Digo, eu realmente não poderia mentir com ela, certo?
- Já estudamos sobre a veritaserum, Gomes. Me responda você. - Snape devolveu meio sem paciência e ouviu a garota suspirar - O que lhe preocupa?
- É só que, não sei, eu respondi coisas ali que nem sabia sobre mim, como a minha idade. O que isso significa?
- Significa que seguiremos procurando uma forma de lhe ajudar e mandá-la de volta para casa. Não é isso que quer?
- Eu já nem sei mais, professor. - ela deu de ombros - Está tudo tão confuso que eu não sei se o melhor é ir embora ou ficar no mundo bruxo. Será que em algum momento eu vou descobrir?
- Quando for a hora de se decidir, pelo menos, você terá opções, . E aí sim, dependerá apenas da sua vontade. Por enquanto, vamos tentar descobrir o que foi que lhe trouxe aqui.
- Obrigada, professor! - a garota agradeceu emocionada e logo Snape desviou a atenção de volta às suas tarefas enquanto se concentrava em preparar a poção corretamente. Quanto mais se dedicasse, melhor se sairia na frente de todos, principalmente da tal professora Umbridge de quem já tinha ouvido falar e não tinha gostado nada.

III.

sabia que os alunos já tinham voltado do recesso natalino. Murta, com quem a garota tinha feito uma espécie de amizade, fez questão de surgir em seu banheiro para lhe contar a novidade e tranquilizá-la. De acordo com o fantasma, ela não precisava se preocupar porque nada era mais assustador do que morrer enquanto Olívia Hornby seguia viva e podendo caçoar de outras pessoas. lhe deu razão mesmo sem saber de quem ela falava.
A garota esperou pacientemente - já completamente vestida com seu uniforme e capa preta - até que a professora McGonagall viesse lhe buscar. estava dormindo em uma pequena câmara no 5º andar, próximo ao que sabia ser a entrada para a torre da Corvinal. Uma batida foi o suficiente para que levantasse depressa e fosse abrir a porta. Minerva sequer estranhou que a jovem já estivesse pronta e só lhe aguardando.
Elas desceram para o térreo, mas Minerva não lhe deixou entrar pela porta principal. A professora levou por outro caminho enquanto elas escutavam a voz de Dumbledore fazendo seu primeiro discurso do novo ano.
- Professora, isso realmente dará certo? - Minerva segurava o banquinho de três pernas e o Chapéu Seletor em mãos enquanto olhava para a adolescente que parecia bem nervosa.
- Faremos o nosso melhor para que tudo dê certo, querida. - a professora lhe tranquilizou ao mesmo tempo em que abria a porta da entrada dos professores e pedia para que ela esperasse por uns instantes - Diretor, estamos prontas. - McGonagall disse em alto e bom som para o Salão, interrompendo Dumbledore que parecia animado.
- Prontas para o quê, posso saber? - a voz irritada e aguda de Dolores Umbridge invadiu todo o Salão e revirou os olhos - Se vocês queriam fazer alguma coisa, deveriam ter comunicado primeiro ao Ministério ou a mim, não podem simplesmente resolver mudar os planos em um simples jantar e -
- Professora Umbridge, sinto lhe informar, mas Cornélio tem total ciência do que acontecerá aqui. - Dumbledore falou em um tom sereno - Se ele não teve a bondade de lhe avisar, acho que, talvez, devesse rever suas próprias relações com o Ministro. - ele completou calmo, mas alguns alunos soltaram risadinhas escondidas pelo claro deboche do diretor - Agora, se me permite, Minerva, por favor, traga a senhorita Gomes aqui.
respirou fundo quando ouviu seu nome e deu alguns passos para dentro do Salão Principal. Ela podia escutar os cochichos dos alunos nas quatro mesas, afinal, ninguém a conhecia e ela achava que chegar depois que as aulas já tinham começado era bem incomum. A professora McGonagall preparou o banquinho e indicou para que a garota se sentasse. No entanto, antes que a senhora colocasse o Chapéu na cabeça da brasileira, Dumbledore decidiu interromper o burburinho dos estudantes.
- Senhores! - o diretor disse bem alto com a varinha apontada para a própria garganta - Sei que todos estão curiosos sobre quem seria essa senhorita. Esta é Gomes, aluna transferida de CasteloBruxo que entrará no 5º ano e que, em um primeiro momento, ficará conosco até finalizar seus estudos. Ela será selecionada a seguir e eu espero que vocês sejam cordiais como foram com os estudantes de Beauxbatons e Durmstrang no ano passado. - ele instruiu de forma assertiva e os alunos pareceram entender - Professora, pode prosseguir.
Assentindo, McGonagall colocou o Chapéu na cabeça da garota que, por um momento, deixou de ver inteiramente o Salão, já que teve mais da metade de sua visão coberta.
- Ah! - o Chapéu disse em voz baixa, mas a menina não se assustou. O sobressalto que ele tanto estava acostumado não aconteceu - Muito curioso, senhorita. Ouvi muito falar sobre a sua chegada enquanto estava no escritório do diretor, mas achei que não fosse lhe conhecer. - ele comentou e fez questão de se ajeitar no banco de forma mais confortável. Por alguma razão, ela achava que isso podia demorar - Há tempos que não vejo uma mente como a sua: tão confusa e tão decidida. É engraçado que não tenha acesso a toda a sua memória quando sua essência está claramente aqui em sua cabeça.
“Você sabe quem eu sou e como ou por que vim parar aqui?”, ela pensou e ouviu o Chapéu soltar uma risadinha em seus ouvidos.
- Eu não tenho acesso às suas memórias desta forma, senhorita. Apenas consigo ver sobre o seu caráter a partir da sua mente. - ele explicou e ela bufou frustrada - Mas com a força que tem, não acho que demorará muito tempo para descobrir o que tanto deseja saber. - o Chapéu se manteve em silêncio por alguns minutos que pareceram horas para a garota. Ela já podia ouvir os outros alunos falando baixo novamente, talvez se perguntando sobre a demora na seleção. também estava - Teve muita coragem para vir até aqui, senhorita. Nada mais justo que eu lhe coloque na … GRIFINÓRIA!
E a mesa do canto direito explodiu em comemoração, enquanto Minerva retirava o Chapéu da cabeça de e ela saia um pouco desnorteada do banco para se sentar na ponta da mesa que lhe recebia com parabéns e batidinhas nas costas.
Dumbledore aplaudiu a escolha e, olhando para a professora McGonagall, podia enxergar um pouco de orgulho ali. Ela sabia que a mulher era a diretora da Grifinória e, que agora, estariam ainda mais próximas. Isso era bom!
- Olá. - ouviu uma voz meio insegura chamar a sua atenção e, quando se virou, uma menina ruiva lhe encarava. Dumbledore já tinha dado início ao banquete depois da seleção e todos estavam mais preocupados em comer - Sou Ginny Weasley, seja bem-vinda. - a garota teve o cuidado de falar pausadamente já que não sabia se a novata compreendia bem inglês.
- É um prazer conhecê-la, Ginny. Me chamo Gomes. - ela estendeu a mão para a ruiva em cumprimento e a brasileira sentiu o coração acelerar quando tocou na garota. Ela sabia quem era Ginny - Pode me chamar de se isso facilitar. - completou quando percebeu que a garota estava tendo algumas dificuldades com a pronúncia do seu nome.
- está perfeito! - ela sorriu e cutucou um garoto que comia ao seu lado - Este é Neville Longbottom, ele está no seu ano e vocês podem se ajudar. - Ginny sugeriu e viu o garoto ficar extremamente vermelho e sem graça, mesmo que estivesse assentindo. Ele parecia mais legal do que ela imaginava.
- Vou tentar não ser um peso pra você, Neville. Prometo. - sorriu pequeno enquanto encorajava Longbottom a fazer o mesmo.
- E como eram as coisas lá em CasteloBruxo? - Ginny quis saber e a brasileira engoliu em seco, pois sabia que essa pergunta viria cedo ou tarde. Por sorte, a garota tinha estudado junto a Dumbledore uma boa resposta para essas situações.
- Era maravilhoso, eu gostava bastante das aulas da professora Prince de Estudo dos Trouxas, mas acho que o que mais me entusiasmava eram as aulas de poções da professora Ventura. Aprendi muito com ela sobre as utilidades das plantas.
- Você também gosta de plantas? - Neville se pronunciou pela primeira vez com um brilho nos olhos - Herbologia é a minha matéria preferida.
Pelo restante do jantar, e Neville conversaram sobre raízes e plantas, deixando até Ginny meio de fora já que não curtia muito a matéria. estava levando aquela conversa com Longbottom para frente com o conhecimento adquirido nos últimos dias. Talvez em algum momento ela agradecesse ao professor Snape por ser tão rígido. Só talvez. Porque ele ainda conseguia ser um pé no saco.
- Não sou muito bom nas outras matérias, mas posso te ajudar no que conseguir. - Neville ofereceu e ela agradeceu entusiasmada enquanto eles andavam juntos para fora do Salão Principal. No entanto, antes que eles pudessem dar muitos passos para fora, a garota ouviu seu nome ser chamado por uma voz apressada.
- Gomes, Gomes! - uma garota vinha seguida por um menino mais alto ruivo e um moreno de cabelos descontrolados. sentiu seu estômago colar nas costas. Aquilo não podia estar acontecendo. - Sou Hermione Granger e esses são Ronald Weasley e Harry Potter. Ron e eu somos os monitores da Grifinória e a professora McGonagall nos pediu para te ajudar a se adaptar. - ela estendeu a mão para que engoliu em seco sem saber o que falar. Resolveu apenas assentir evitando olhar para os olhos de qualquer um dos três.
- M-muito p-prazer. - a garota gaguejou enquanto aceitava a mão de Hermione e lhe cumprimentava - Eu sou a , mas vocês podem me chamar de se ficar mais fácil. - disse com um sorriso sem graça e logo se virou para Neville que seguia parado ao seu lado - Estava indo com Neville para o Salão Comunal, não quero incomodar vocês.
- Claro, eu posso acompanhar ela até lá. - Longbottom percebeu o desconforto da garota e, mesmo morrendo de vergonha, resolveu ajudá-la - Talvez vocês tenham coisas para fazer, não se preocupem.
- Tem certeza, Neville? - Ron perguntou e não conseguiu não encará-lo. Ela sentiu um arrepio por toda a espinha e o ruivo, por incrível que fosse, teve a mesma sensação - Você não quer que - ele tentou falar, mas foi interrompido por Hermione.
- ‘Tá tudo bem, Ron. - a menina sorriu para e Neville - A senha é Mimbulus Mimbletonia. Nos vemos no quarto então, os nomes ficam na porta e o seu deve estar lá também.
- Obrigada! - se afastou com Neville e deixou o trio para trás. Eles andaram um pouco apressados, mas ainda podiam sentir o olhar de Granger, Potter e, principalmente, Weasley em suas costas.
- O que foi isso? - Harry perguntou para os outros dois. Ele tinha achado a situação bem estranha. Ron seguia olhando para onde a garota nova tinha saído e Potter teve que lhe empurrar discretamente com o ombro. - Fecha a boca, Ron! A garota não vai sumir, cara. - ele disse baixo contendo a risada para que Hermione não escutasse.
- O quê? - o ruivo voltou a si e, quando percebeu o que fazia, suas orelhas ficaram tão vermelhas quanto seu cabelo - Não é nada disso, - ele pigarreou nervoso - eu só achei estranho ela não aceitar ajuda e preferir sair com Neville por aí.
- Talvez eles se conheçam de fora ou só tenham ficado bons amigos durante o jantar. Nunca se sabe. - Hermione deu de ombros e achou melhor encerrar o assunto - Vamos, Ron? Precisamos fazer uma pequena ronda antes de irmos nos deitar. - ela chamou - Você vai sozinho para o dormitório, Harry? Te encontramos depois. - a garota se despediu do amigo e foi andando com o ruivo ainda meio distraído em seu encalço. Potter só deu de ombros e seguiu o caminho que e Neville tinham tomado.
Chegando no Salão Comunal, Harry encontrou Neville e sentados próximos à janela. Os dois pareciam ser amigos de anos enquanto comentavam sobre o que parecia um livro aberto no colo da garota. Era até bastante curioso ver o amigo agir dessa forma com uma menina, considerando que ele ficava nervoso com tudo. Talvez os treinos da AD estivessem lhe dando a confiança necessária para tal. Quisera ele que as coisas com Cho fossem assim de simples.
- Então, querido professor, descobriu mais sobre a aluna nova? - Fred veio junto com George para o seu lado e, Harry percebeu que tinha se encostado na parede para observar os outros dois.
- Gui teve uma namorada no Brasil, mas com certeza não era ela. Então, estamos de mãos atadas de informações. - George completou e Harry negou com a cabeça.
- Só sei o que vocês sabem, fofoqueiros. Que ela chegou, veio pra Grifinória e que agora é amiguinha do Neville. - ele deu de ombros.
- Isso seria uma nota de inveja porque a garota nova não caiu nos encantos do grande Potter? - George quis saber e Fred riu concordando.
- Acho que as suas invenções estão cobrando um preço alto de sanidade, viu! - Harry se desvencilhou dos dois e resolveu subir para o quarto sem olhar para trás. Esperaria por Ron lá, bem melhor do que no meio de todo mundo.
- Tão afetado esse menino Potter! - Fred disse e foi com o irmão para perto de Lino Jordan. Os três precisavam conversar sobre negócios.
- Espero conseguir acompanhar as aulas do Binns. - riu da imitação horrível que Neville fizera do professor - Se eu dormir, preciso que você me acorde.
- Acho que é mais fácil o contrário. - Longbottom sorriu - Normalmente Dino é quem fica acordado e eu pego as anotações com ele. Posso ver se ele empresta os primeiros meses pra você ou, talvez, seja melhor falar com Hermione. Ela, com certeza, tem as melhores notas da aula.
- Não sei se quero incomodar assim. - pigarreou e se remexeu desconfortável - Acho que ela só quer me ajudar, porque a Minerva pediu e por ser monitora.
- Que nada! Mione é uma ótima amiga, você vai gostar dela. Sempre está pronta pra ajudar. Mas, existe algum outro motivo para não querer a ajuda? Você pareceu estranha quando a conheceu. - Neville observou e suspirou. Como dizer a ele que ela tinha lido sobre todos eles em algum livro que não lembrava o nome? Que ele mesmo era um personagem e ela não sabia como tinha chegado ali?
- Eu só fiquei nervosa. - ela despistou - Eu já sabia quem eles eram por conta dos jornais. As notícias chegam no Brasil, mesmo que em uma quantidade menor, né?
- Vocês têm o Profeta Diário por lá?
- Quase. Nós temos o Correio do Papagaio e lá existe uma coluna internacional, com correspondentes do Profeta. Então, fiquei sabendo de tudo o que aconteceu no ano passado.
O assunto sobre o ano anterior ainda mexia de uma forma ruim com Neville, então o garoto achou melhor trocarem de tema. Eles conversaram mais um pouco sobre as matérias da escola e Longbottom até contou sobre a avó. Era fácil falar com , ele sentia que a garota era uma das únicas pessoas que realmente prestavam atenção no que ele tinha para dizer.
Depois de uns 40 minutos, o buraco da Mulher Gorda acabou abrindo novamente e revelou a presença de Ron e Hermione que voltavam da ronda. que antes estava até mais relaxada do que imaginara, agora tinha os ombros tensos. Por que ela sentia isso sempre que os via?
- Que bom que ainda estão acordados! - Hermione saudou enquanto se aproximava dos dois com Ron a poucos passos - Eu ia te oferecer ajuda com as matérias, . Posso mesmo te chamar assim, certo? - Granger quis confirmar e a jovem assentiu - Já recebeu seus horários?
- Ainda não, mas a professora Minerva disse que vai me entregar durante o café. - sorriu meio sem graça - E muito obrigada! Neville estava dizendo o quanto você é ótima aluna e amiga, então vai ser de grande ajuda sim. - ela resolveu deixar as questões literárias para depois e seguir o que seu novo amigo dizia. Por que não dar uma chance a todos eles?
- Perfeito! Quando você tiver sua grade em mãos, podemos ver um bom horário para estudar na biblioteca. - Hermione estava entusiasmada. Harry e Ron não eram companhias constantes em seus estudos.
- Marcado! - sorriu de volta - Acho que é melhor se formos nos deitar, né? - perguntou sem saber muito bem a hora, mas Hermione concordou e as duas logo se despediram de Neville para que pudessem subir. Granger chegou a dar “boa noite” para Weasley, mas o ruivo estava absorto em seus pensamentos.
- Ron? Você ‘tá bem? - Neville quis saber já que o amigo olhava para a escada do dormitório feminino fixamente.
- Ela é uma garota legal? - ele perguntou de supetão e Longbottom até estranhou.
- ? Até o momento ela parece uma das garotas mais legais que já conheci. - o menino contou - Acho que é uma das primeiras, além da Mione e da Ginny, que fala comigo numa boa.
- Gostou dela tanto assim? - Ron não segurou a língua e viu Neville estreitar os olhos ao mesmo tempo em que ficava vermelho de vergonha.
- Ela é linda, mas não é por isso que estou conversando com ela. é uma garota bem divertida. Deveria tentar dar uma chance pra conhecê-la. - Longbottom sugeriu enquanto levantava e seguia o caminho para o quarto.
“Dar uma chance para conhecê-la”. A voz do Neville não saiu dos seus pensamentos nem quando Ron se deitou para dormir. Ele estava curioso sobre por que a garota tinha sido transferida para Hogwarts depois do início das aulas, mas, o que mais deixava Weasley instigado, era a sensação de que já a conhecia de algum lugar.
[...]

- Seus horários são muito parecidos com os dos meninos. - Hermione observou enquanto olhava o papel que tinha acabado de receber da professora McGonagall - Mas por que não quis ter aulas de Adivinhação? - a garota estranhou o fato de ter Runas no horário ao invés da aula mais fácil.
- Não acho que adiante muita coisa aprender sobre o futuro se ele é mutável. Nós temos liberdade pra escolher nossos passos, então pra que ficar bisbilhotando? Só tira toda a graça. - deu de ombros e Hermione só faltou abraçar a garota.
- Vou adorar ter sua companhia em Runas então! - elas sorriram.
- É uma pena que você não faça essa matéria também, Neville. - ela comentou com o novo amigo que comia ao seu lado e ele só assentiu. Estava mais interessado no pudim a sua frente.
Durante o café e o caminho para a aula, Hermione e conversavam principalmente sobre como era o ensino no Brasil. Granger tinha sido educada o suficiente para não perguntar sobre os motivos da transferência da garota e a brasileira agradecia. Já estava mentindo demais nas últimas 24 horas, podia esperar um pouco mais para aumentar sua história.
tinha decidido durante a noite que deixaria seus conhecimentos anteriores sobre Hogwarts e seus alunos de lado. Ela se lembrava do que tinha lido, mesmo que ainda não soubesse o nome do autor ou da história. No entanto, já que estava ali, era melhor vivenciar a experiência de maneira completa. Logo ela estaria em casa mesmo.
- Senhorita Gomes! - uma voz irritantemente fina chamou a garota antes que ela e Hermione entrassem na sala de Runas. Quando as duas se viraram, a professora Umbridge vinha caminhando despreocupadamente até elas - A senhorita pode entrar. - disse para Hermione que teve de estampar um sorrisinho falso na cara e deixar com a professora.
- Sim, professora. Posso ajudar em alguma coisa? - ela quis saber enquanto via Umbridge lhe medindo dos pés à cabeça.
- Fiquei sabendo das condições que levaram a sua transferência, querida. - Dolores disse com uma voz de falsa tristeza - Sinto muito por seus pais.
- Obrigada. - disse simplesmente, mas se preocupou em parecer abalada pelo menos. Talvez a mulher estivesse apenas lhe testando.
- Quero que saiba que sempre poderá contar comigo, minha sala está sempre aberta para novos amigos.
- Claro, professora Umbridge. Vou me lembrar disso.
- Venha tomar um chá uma hora dessas, vou adorar conhecer mais sobre a sua história, querida. - Umbridge deu um risinho e virou as costas voltando para o caminho de onde veio. não teve alternativa a não ser dar de ombros e entrar na aula da professora Bathsheda Babbling de Runas Antigas.

IV.

- Você já traduziu alguma coisa? - perguntava enquanto caminhava com Hermione para a aula de Poções. Neville tinha ficado de encontrar com ela ali e, bem, considerando que Snape era o professor, quanto menos se atrasasse, melhor.
- Ainda não, mas eu tenho lido bastante o Silabário de Spellman. - a garota comentou animada - Espero que a professora Babbling nos dê mais do que aqueles textos prontos para traduzir.
- Granger? - dois garotos vieram meio apressados e Hermione se virou para o chamado - Tentamos encontrar o Potter, mas não o vimos por aí. - o mais alto dos dois falou e se tocou da presença de abrindo um sorriso com covinhas - Olá, você é a aluna nova, né? Sou Ernesto Macmillan e estou aqui pro que precisar. Esse é o Zacarias Smith.
- Obrigada! - sorriu e percebeu que o garoto ficou com as bochechas meio coradas - Podem me chamar de , estou tentando facilitar a vida de todos vocês. - ela riu e Ernesto assentiu.
- Bem meninos, talvez Harry já tenha ido para a aula. - Hermione resolveu retomar o foco - Acho que é melhor irmos logo, não ? Ainda não estamos atrasadas, mas temos que descer pras masmorras.
Enquanto os quatro andavam, os lufanos apenas fazendo companhia, notava Zacarias e Ernesto meio estranhos e inquietos, como se quisessem perguntar algo a Hermione. Talvez fosse só uma coisa da sua imaginação.
O caminho até as masmorras não foi muito demorado e os quatro se separaram. Granger e entraram na sala e já foram se separando pelos lugares, já que a aula era com Sonserina. Neville tinha guardado um lugar para a brasileira e Hermione foi até Harry e Ron com quem dividia a bancada.
- Como está sendo o dia? - Neville perguntou quando a amiga se sentou e ela sorriu animada.
- A aula de Runas foi bem interessante, não sabia que existiam tantas formas de criptografar uma informação assim.
- Lá em CasteloBruxo vocês não tinham essa matéria? - ele ficou curioso e engoliu em seco negando com a cabeça meio desconfortável. Antes que a garota pensasse em uma desculpa ruim, o professor Snape veio serpenteando pela sala com sua costumeira capa preta.
- Qualquer palavra além do conteúdo da matéria será o suficiente para a perda de pontos. - Snape disse com a voz arrastada e viu Neville se encolher na cadeira - Longbottom e Finnigan, tentem não explodir nenhum caldeirão hoje, sim? Abram seus livros na página 400 e comecem a fazer a Poção do Sono. Senhorita Gomes? - o homem lhe chamou e resolveu levantar e ir até a mesa dele ver o que queria - Aqui está. - Snape lhe passou um livro - Nossas aulas serão todas às quartas-feiras antes do jantar. Vi que tem dois horários livres e acho que podemos usar um deles.
assentiu e, pegando o livro, voltou para a mesa encontrando um Neville completamente perdido.
- Se você picar as pétalas da flor de lavanda e colocar primeiro, vai ter um resultado melhor. - ela soprou uma dica para o amigo que lhe sorriu agradecido. Snape tinha percebido e não estava com a melhor das caras. Se bem que isso não era novidade nenhuma.
Depois de uma meia hora seguindo as instruções do livro junto com as suas anotações particulares, foi a primeira a terminar a poção. Ela coou o líquido que agora tinha um tom azul céu e engarrafou, colocando seu nome e se levantou para deixar na mesa do professor.
- Gomes, me faça o favor de ajudar o Weasley antes que eu perca a paciência. Ele está espremendo as laranjas dentro do caldeirão, pelo amor de Merlin. - o professor revirou os olhos e se segurou para não rir. Resolveu só assentir e caminhar até a mesa em que o trio estava sentado.
- Querem alguma ajuda? - a garota perguntou sentindo que o clima ali não estava dos melhores. Ron e Hermione claramente não estavam se falando.
- Eu já estou terminando de coar, mas talvez você devesse tentar a sorte com o senhor sabe-tudo ali. - Granger bufou e voltou a se concentrar no próprio trabalho.
- Ron, quer ajuda? - a garota tentou se aproximar do ruivo que não tinha se pronunciado ainda e ele negou com a cabeça sem lhe dirigir o olhar - Acho que você não deveria espremer as laranjas e só usar as cascas. - ela disse suave, mas o garoto levantou o olhar em fúria e deu um passo pra trás - Ok, não digo mais nada!
- Não liga pro Ron, . - Harry tentou apaziguar enquanto dava uma cotovelada no amigo que não pareceu se afetar - Você acha que o fogo está muito alto? - Potter inventou de perguntar algo que já sabia para quebrar o clima constrangedor. Hermione já tinha lhe avisado para abaixar o fogo e deixar que a poção cozinhasse um pouco mais.
- Não, ‘tá perfeito. - a garota comentou com Harry, mas Weasley tinha sido desagradável. Ela não queria ficar por perto. - Eu vou ajudar o Neville, Harry. Qualquer coisa me chame, ok? - sorriu enquanto voltava para perto do amigo, não sem antes ouvir “você é um idiota, Ron” na voz mal sussurrada de Potter.
O restante da aula passou bem tranquilo, sem pontos retirados aleatoriamente da Grifinória. Neville, pela primeira vez em muito tempo, conseguiu entregar uma poção razoável. Claro que tinha o dedo de no meio (talvez a mão inteira) e Longbottom não parava de agradecer a garota enquanto caminhavam pelos corredores durante o horário livre.
- Gomes! - Ginny chamou enquanto os dois andavam e logo a ruiva estava lhes alcançando com uma loira ao lado - Essa é Luna Lovegood, ela é da Corvinal.
- Seus cabelos são tão bonitos. - a loira soltou com um olhar admirado antes que dissesse “oi” e a brasileira achou de uma doçura.
- Os seus também, Luna. - elas sorriram uma para a outra - É um prazer.
- Passamos pela saída das masmorras e escutamos Harry reclamando com meu irmão e dizendo que ele foi grosso com você. ‘Tá tudo bem?
- Nada com que eu não possa lidar, Ginny. - deu de ombros e sorriu. Claro que não tinha gostado, mas não ia fazer queixa.
- Me avise se ele fizer de novo. Posso lançar um balaço mais forte nele durante os treinos. - a ruiva sorriu inocente.
- Balaço?
- Ron é o novo goleiro da Grifinória. - Neville explicou - Mas não tem se saído muito bem nos jogos. - ele abaixou a voz como se contasse um segredo.
- Ah, bem, acho que um balaço errante não é crime, né? - sugeriu e Ginny bateu palmas animada.
- Sabia que podia gostar de você! - ela enganchou o braço no da menina e foi puxando todos para continuar a caminhada.

[...]


- Fico feliz que tenha vindo me visitar, senhorita . - Dumbledore saudou alguns dias depois quando a garota entrou em seu escritório e logo apontou a cadeira para que a aluna se sentasse - Acidinhas? - ele ofereceu, mas ela negou. Ainda se lembrava do gosto da última vez - Bem, gostaria de saber como andam suas aulas.
- Por enquanto muito bem. Os professores não têm feito muitas perguntas sobre a outra escola e isso me poupa de mentir.
- Eu os instruí a isso, querida. Disse que foi um tempo difícil e que você buscava se reinventar aqui. Talvez nem todos tenham a cortesia de não falar sobre o assunto. - ele ponderou e ela entendeu. Dumbledore falava sobre Umbridge. Talvez fosse bom comentar com o diretor a investida da professora. Mas não sabia se deveria. Será que era relevante? - Algo que queira me contar, ? - ele questionou com os olhos azuis atentos e a garota engoliu em seco.
- Não, diretor - tentou parecer segura, mas sua voz acabou tremendo. Ela pigarreou - Não tenho nada para contar.
- Muito bem. - Dumbledore acenou com a varinha para um lugar atrás da garota e quando ela se virou, um armário grande se abria e uma grande bacia vinha flutuando para fora - Estou curioso para saber se a senhorita conhece esse objeto.
- É uma penseira, né? - ela perguntou sem tirar os olhos do artefato e ouviu o diretor concordando enquanto se levantava e ia para perto da bacia em um convite mudo para que ela lhe seguisse.
- Fico espantado e feliz que saiba o que é. - o mais velho soltou uma risadinha - Eu costumo reviver algumas das minhas mais importantes memórias aqui, sozinho nesse escritório. É um exercício e tanto para uma mente velha como a minha, sabe.
- O senhor acha que poderemos acessar as minhas memórias perdidas assim? - quis saber tentando controlar as próprias expectativas.
- A mente humana é um emaranhado perfeito de memórias, querida. Então, sim, acho que se encontrarmos o ponto certo, poderemos fazer bons avanços.
- E vamos começar agora? Eu posso tentar me lembrar de tudo o que sei, talvez dê algum resultado, mas espero que o senhor não se assuste ou -
- Acalme-se, querida. - Dumbledore cortou a garota e colocou uma mão em seu ombro - Não precisamos fazer nada na pressa. Algo me diz que temos tempo. - ele sorriu e seus olhinhos ficaram ainda menores. assentiu - Por que não me conta sobre sua amizade com o senhor Longbottom? Soube que estão bastante próximos.
- Neville é um ótimo garoto. - a jovem sorriu e viu o bruxo acenar com a varinha uma vez mais e a penseira voltar ao seu lugar de origem. Dumbledore tinha dito que eles tinham tempo. Ela podia acreditar nele. Por hora, bastava conversar sobre seus novos amigos.

[...]


brincava com uma boneca de pano enquanto ouvia vozes gritando mais ao longe. Ela não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas não gostava dos gritos. A garotinha colocou as mãos nas orelhas tentando abafar o som e algumas lágrimas escorriam por seu rosto. Por que eles tinham que falar tão alto?
Ela não percebeu a porta abrir, mas logo uma mulher que ela não conseguia reconhecer direito estava agachada na sua frente. , mesmo ainda chorando, tirou as mãos das orelhas e tentou ouvir o que era dito, mas parecia estar submersa. não ouvia nada direito, só via a mulher mexendo a boca. Por mais que tentasse se esforçar e se concentrar em voltar a escutar, nada. Nada. Uma angústia foi crescendo, a mulher à sua frente tinha começado a chorar também e negava com a cabeça.
Antes que a garotinha pudesse falar algo, a mulher deixou um beijo em sua testa e se levantou caminhando até a porta. Ela estava indo embora, mas por quê? O choro de aumentou à medida em que via a outra se distanciando. Ela não olhava para trás, se tivesse olhado, teria visto a menina com as mãos estendidas em sua direção, pedindo com os dedinhos que voltasse enquanto as lágrimas aumentavam.


- , . Acorda. - Hermione pediu segurando a brasileira pelos braços enquanto tentava fazer com que a amiga recobrasse os sentidos. chorava e se debatia falando repetidas vezes durante o sono - , acorda, por favor.
- Será que não é melhor chamarmos a McGonagall? - Lilá sugeriu, mas Granger negou com a cabeça. Todas as meninas do dormitório estavam assustadas olhando para Gomes que só depois de muitos minutos se acalmou aos poucos nos braços de Mione.
- Deve ter sido só um pesadelo, não precisamos acordar mais ninguém por isso. - ela começou a fazer carinho nos cabelos de que abriu os olhos com dificuldade. O choro tinha nublado sua vista - , você ‘tá bem?
- O que aconteceu? - ela quis saber com a voz fraca de sono e estranhou que todas as meninas estivessem rodeando a sua cama. Katie Bell, Lavender Brown e Parvati Patil lhe estudavam preocupadas enquanto Hermione estava sentada junto dela em um meio abraço - Por que ‘tá todo mundo acordado?
- Você teve um pesadelo. - Lilá contou e se sentou na ponta da cama da garota - Estava gritando algo que não conseguimos entender, talvez fosse em português - a loira deu de ombros - Ficamos preocupadas.
- Eu tive? - só se lembrava da angústia que sentira, mas não sabia com o que tinha sonhado. Sua respiração estava meio instável também - Desculpa, gente. - ela suspirou - Não lembro o que aconteceu no sonho.
- Não se preocupa, . - Parvati meneou a cabeça e lhe dedicou um sorriso encorajador - Pode acontecer com qualquer um.
- Vocês podem voltar a dormir, não sei se ainda temos tempo, mas obrigada pela preocupação, meninas.
- Qualquer coisa chama a gente. - Katie falou e as outras garotas concordaram enquanto se deitavam novamente em suas camas. Hermione ainda não tinha saído do abraço com .
- Tem certeza de que está bem? - Granger perguntou com a voz baixa para não chamar a atenção das companheiras - Você parecia desesperada mesmo que a gente não tenha entendido uma palavra do que disse.
- Eu realmente não lembro do que sonhei, Mione. - suspirou e apertou a mão da amiga - Mas sinto como se tivesse sido algo ruim. Não quero sonhar isso de novo.
- Acho que tenho um pouco de poção do sono sem sonhos nas minhas coisas. Quer?
- Melhor não. Vai que não consigo acordar na hora depois. - soltou uma risadinha e Hermione só assentiu - Obrigada pela ajuda, Mione.
- Amigas são pra isso. - a castanha apertou a mão da brasileira antes de voltar para a própria cama - Boa noite.
- Boa noite. - desejou antes de afundar a cabeça no travesseiro e fechar os olhos. Por mais apertados que os mantivesse, a garota não conseguia pegar no sono de novo. E foi assim pelas três horas restantes antes que o sol despontasse no horizonte e ela resolvesse se levantar para o novo dia.
Estava bem claro para quem olhasse que mais parecia um zumbi do que uma estudante. A garota tinha saído da cama e logo tomou um banho para ver se conseguia melhorar o ânimo, mas nada parecia suficiente. Mesmo sem saber sobre o que fora o sonho, a sensação de angústia não tinha passado.
- Você dormiu? - disse Neville assim que encontrou a garota sentada no Salão Comunal com uma cara péssima.
- Achei adorável seu jeito de me falar bom dia, Longbottom. - ela revirou os olhos, mas deu um meio sorriso - Não muito, tive alguns sonhos ruins e não consegui descansar.
- Quer me contar sobre o que foram?
- Se eu lembrar, você vai ser o primeiro a descobrir. - a garota sorriu e enganchou um braço no do amigo. O garoto ficou meio vermelho, ainda tinha que se acostumar com as demonstrações de carinho - Vamos pro café? Eu estou morrendo de fome.
- Disse as palavras mágicas.
A manhã passou tranquila para todos os alunos, mas Hermione estava preocupada com a brasileira depois da noite passada e, em todos os momentos possíveis, observava a amiga de longe. Isso não passou batido por Harry que agora estava intrigado com o que tanto Granger observava que não focava em seu exercício que era fazer a xícara desaparecer.
- Se você continuar olhando pra assim, quem vai desaparecer é ela. - Harry disse em voz baixa e captou não só a atenção de Hermione, mas a de Ron também - O que aconteceu? Vocês nem se falaram hoje, mas estavam grudadas nos últimos dias.
- teve uma noite difícil e eu fiquei preocupada, só isso. - a castanha deu de ombros e voltou a anotar a teoria em seu caderno - Essa noite ela teve um pesadelo bem forte.
- Sobre o que, ela contou? - Ron se meteu no assunto e Hermione estreitou as sobrancelhas para o ruivo antes de negar com a cabeça.
- Ela disse não se lembrar, mas foi bem assustador assistir. Ela chorava e parecia estar suplicando alguma coisa em português. Parecia com os seus pesadelos, Harry. - Hermione completou baixando mais o tom de voz e Potter ficou intrigado.
- Talvez a vinda dela pra cá não seja uma simples transferência - o moreno passou a observar a garota que agora ria de algo que Neville tinha dito - A gente não sabe que tipo de coisas ela passou pra chegar até aqui, né.
- Eu só espero que seja lá o que for, que ela fique bem. é uma garota bem legal.
- Podemos tentar descobrir como ajudar. - Ron soltou e Hermione assentiu ao mesmo tempo em que trocava um olhar cheio de significados com Harry. Os dois tinham percebido a preocupação na voz do ruivo, mesmo que ele tentasse esconder. E, considerando que Weasley tinha - como Mione fizera o favor de reforçar muitas vezes - o emocional de uma colher de chá, isso podia querer dizer alguma coisa.
- Vou ficar atenta pra ver se acontece de novo, talvez tenha sido algo de uma vez só. Essas coisas podem acontecer.
- Vocês querem compartilhar algo conosco, senhores? - McGonagall perguntou severa do começo da sala se dirigindo ao trio que estava conversando há bons minutos já sem executar o feitiço que ela pedira - Algum problema com a execução?
- Não, professora. - Granger respondeu envergonhada - Desculpe. - a garota assim como os amigos voltaram suas atenções às anotações e ao livro de Transfiguração. Poderiam conversar depois.

[...]


estava se adaptando cada vez melhor e por sorte não acordara às companheiras de quarto nenhuma outra vez no meio da noite. Ela, no entanto, ainda não tinha tomado coragem para ir falar novamente com Dumbledore. Agora estava com medo do que poderia descobrir. Suas aulas com McGonagall e Snape também continuavam e o professor de poções tinha dado a ela uma dica ou outra de como se comportar com a professora Umbridge, caso necessário. A regra era clara: não beber nada do que ela lhe oferecesse.
A brasileira estava sentada no chão do Salão Comunal perto da janela enquanto tentava terminar dois trabalhos de quarenta centímetros que Umbridge tinha passado para que ela recuperasse o tempo perdido. Hermione tinha lhe emprestado suas anotações, mas a garota estava lutando contra o sono ali. Tanto que não ouviu quando o buraco da Mulher Gorda abriu e Ron entrou.
O ruivo estava voltando da ronda e, passando os olhos pelo Salão, encontrou quase cochilando. Suspirando, ele resolveu se aproximar devagar. Talvez ela ainda estivesse chateada, já que os dois não se falavam. Não a sós, apenas com outras pessoas ao redor.
- Gomes? - ele chamou baixinho e se agachou na altura da garota, mas isso não impediu que ela levasse um pequeno susto - Desculpa, não quis te acordar.
- Não, tudo bem. Eu estava quase dormindo mesmo e preciso terminar esse trabalho. - ela sorriu amarelo e esfregou os olhos voltando sua atenção ao capítulo sobre Legilimência.
Ron assentiu, mas não saiu do lugar ou falou alguma coisa. Ele apenas se sentou no chão ao lado da garota que acabou estranhando a companhia. O ruivo seguia preocupado com o episódio do pesadelo, mas seria estranho demais se chegasse falando disso.
- Posso ajudar em algo? - ela perguntou arqueando uma sobrancelha e o ruivo ficou ligeiramente vermelho.
- Eu queria me desculpar por ter sido grosseiro na aula de Poções há umas semanas. - ele deixou os ombros caírem. Não ia tocar nesse assunto agora, era melhor voltar ao erro inicial - Acabei descontando em você uma coisa que não precisava.
- Ok. - a garota deu de ombros e voltou a escrever no pergaminho.
- Estamos bem? - ele quis saber e ela soltou uma risadinha sem encará-lo.
- Nos conhecemos há vinte dias, Ronald. Não precisa se preocupar tanto assim com a minha opinião.
- Você me chamando de Ronald me lembra quando a minha mãe briga comigo.
- No meu país, a gente só costuma chamar por apelido as pessoas com quem temos intimidade. - ela deu de ombros - Nós somos apenas colegas de casa. - sorriu para ele, mas não foi de um jeito que Ron gostou. Não era parecido com os sorrisos tranquilos que ela dava ao lado de Neville.
- Mas você disse que podíamos te chamar de para facilitar.
- Se você consegue dizer Gomes, não precisa que eu te facilite a vida, certo? - ela pegou a varinha e convocou todos os pertences espalhados para dentro de sua mochila - Não se preocupe demais com o que eu acho ou deixo de achar, Ronald. - a garota se levantou com a bolsa nos ombros - Só nos conhecemos há vinte dias.

V.

- Harry, você está bem? - correu para ajudar o garoto que pressionava a testa com força enquanto se apoiava fracamente na parede - Senta um pouquinho no chão, você está com uma cara de quem vai desmaiar. - ela disse quase forçando Potter a lhe obedecer, mas ele não tinha forças para negar - O que aconteceu?
A garota tinha saído de sua aula com a professora McGonagall e estava indo até as masmorras para pedir um livro emprestado ao professor Snape quando se deparou com um Harry pálido e, com certeza, cheio de dor.
O garoto em um primeiro momento falou algo rápido e baixo demais para que ela pudesse entender. Inglês já não era sua primeira língua, falando assim, pior ainda.
- O que disse?
- D-desculpa. - ele ofegou, mas sua respiração já estava voltando ao normal aos poucos - Eu estou bem, não precisa se preocupar.
- Alguém fez alguma coisa com você? - ela ignorou e logo pegou a varinha entre as vestes enquanto olhava para todos os lados - Sei que o Malfoy não é um dos seus maiores fãs.
- Não, - Harry riu fraco enquanto arrumava o cabelo. Sua cicatriz agora só latejava - Ninguém me fez nada.
- Eu sei que não nos conhecemos muito, mas eu espero que saiba que pode contar comigo. Nós costumamos falar no Brasil que “ninguém solta a mão de ninguém” - ela completou em português, mas logo traduziu porque Harry não entendera nada. Ele sorriu com o apoio - Quer ajuda pra chegar no Salão Comunal?
- Não, não. Por falar nisso, o que você faz aqui embaixo?
- Ah, eu vinha falar com o Snape - ela deu de ombros - A professora McGonagall falou sobre um livro de ervas e eu vim ver se ele tinha para me emprestar.
- E desde quando o Snape empresta alguma coisa pros alunos? - Harry estranhou e engoliu em seco. Não ia conseguir mentir.
- Bem, é que … eu ando tendo aulas particulares com ele, sabe. Para garantir que eu acompanhe bem a turma. - ela desviou o olhar meio envergonhada - Dumbledore pediu assim que eu vim pra cá.
- Mas CasteloBruxo é uma excelente escola pelo que dizem, por que você precisaria de um reforço?
- Bem, inglês não é a minha primeira língua, então tem muita coisa que eu preciso aprender. Além disso, meu último ano lá não foi um dos mais fáceis. - ela inventou e Harry assentiu. Por sorte, Potter não queria parecer indiscreto mesmo que estivesse curioso sobre a vinda da garota para Hogwarts.
- Sempre que quiser uma ajuda, conte comigo. - ele sorriu e agradeceu quando a garota lhe ajudou a levantar. Os dois andavam para o sétimo andar para voltar ao Salão Comunal.
- Obrigada! Fiquei sabendo que você é muito bom em DCAT. Uma pena que as coisas sejam apenas teóricas esse ano. - ela suspirou e ele lhe encarou meio surpreso.
- Como sabe que sou bom em DCAT?
- Ah … - ela não poderia dizer que leu livros sobre ele, ia ser maluquice demais - Neville comentou comigo e eu fiquei sabendo sobre o Torneio Tribruxo. Temos um colunista do Profeta Diário no Brasil para assuntos internacionais.
- Não acredito que essas coisas ultrapassam o oceano - ele gemeu contrariado e riu de leve.
- Suas histórias ultrapassam bem mais que o oceano, Harry. - disse misteriosa e o garoto assentiu. Alguma coisa lhe dizia que ela tinha razão, mas ele não queria prolongar o assunto - Só que eu queria pedir um favor.
- Claro, o que é?
- Você me ensinaria a pilotar uma vassoura? - ela pediu meio incerta. Estava há dias querendo sentir o gostinho dessa experiência - Eu pediria ao Neville, mas ele não gosta de voar.
- Não te ensinaram isso logo no primeiro ano? - ele estranhou e a garota percebeu o pequeno furo que tinha dado.
- Voo era uma matéria opcional já que eles incentivam mais os estudos sobre a aparatação quando ficamos mais velhos. Mas, vindo para cá, senti vontade de aprender. - despistou e Harry pareceu cair - Posso contar com a sua ajuda?
- Com certeza, podemos resolver isso durante um fim de semana.
- Muito obrigada, Harry! - ela agradeceu sinceramente e Potter foi o restante do caminho lhe explicando de forma teórica como se posicionar em cima de uma vassoura até que os dois chegaram no Salão Comunal. não percebeu já que estava entretida na conversa, mas os dois estavam indo para o lado de Ron e Hermione que esperavam por Potter meio impacientes e preocupados.
- Harry, ‘tá tudo bem? - Hermione foi a primeira a se pronunciar e só então percebeu que não estavam mais sozinhos. Ela olhou de esguelha para Ronald que parecia bem tenso com a sua presença.
- Está sim, encontrei a pelo caminho e viemos andando. - o moreno sorriu para a garota como se dissesse “vamos deixar o que você viu só entre nós” e a brasileira pareceu entender.
- Eu vou deixar vocês sozinhos então, não quero atrapalhar. - ela sorriu e logo focalizou Neville que conversava animado com Simas e Dino.
- Não precisa, . Fica um pouco com a gente. - Hermione convidou sem nem perceber a cara do ruivo e, mesmo contrariada, resolveu se sentar com o trio - Você está gostando de Hogwarts?
- É muito mais fria do que eu imaginei, mas as pessoas são bem legais. - ela sorriu animada - Por sorte, as aulas não estão tão complicadas, talvez só as da -
- Umbridge - Ronald interrompeu sem querer e viu a brasileira assentir - Ela é insuportável - ele bufou - Já tentou te chamar para um chazinho das cinco?
- Ainda não, por quê?
- Ela chamou a Brown outro dia, queria saber se eu falava algo interessante no quarto antes de dormir - Hermione revirou os olhos e ficou chocada - Acho que ela está achando que estamos armando alguma coisa pelas costas dela. - a garota sorriu desafiadora e deu de ombros.
- Por que ela acharia isso? - negou com a cabeça - Quer dizer, além de tudo o que o Profeta fala, essa maluca ainda acha que os alunos estão criando um grupo armado?
- Deveríamos! - Ronald soltou e Harry assentiu, mesmo sob o olhar de Hermione.
Os quatro se mantiveram conversando até que os primeiros sinais de cansaço apareceram. estava se soltando aos poucos ao lado de Ronald e ele percebia a cada risada sincera que a brasileira dava. O ruivo ainda se sentia culpado pela forma como tinha tratado a garota.
Hermione foi a primeira a se despedir para ir dormir, deixando os outros três para trás. Harry não demorou muito para seguir o caminho da amiga, já que sua testa seguia latejando e ele não podia contar para Ron com ali.
- O que vocês costumam fazer para se divertir em CasteloBruxo? - Weasley soltou meio do nada quando viu que a garota estava pronta para dar uma desculpa e ir embora. Isso deixou curiosa sobre o rumo da conversa e a garota resolveu responder o que se lembrava de sua vida antes de chegar ali.
- Passávamos muito tempo jogando cartas e gostávamos de experimentar esportes trouxas.
- Como quais? Não conheço nada sobre isso. É algo melhor do que quadribol? - ele ficou levemente entusiasmado que a garota não tinha dado uma resposta atravessada ou coisa assim.
- Já ouviu falar sobre futebol?
- Definitivamente não!
- Não é muito diferente do quadribol, na verdade. - ela ponderou lembrando do que tinha lido em Quadribol através dos séculos em uma de suas idas à biblioteca - A ideia é que você tem onze jogadores em cada time e precisa …
Por mais que quisesse manter certa distância de Ron, passou a hora seguinte explicando para ele o esporte trouxa e suas regras. O ruivo ouvia tudo tão absorto, fazendo perguntas pontuais e realmente interessadas sobre o assunto. “Esporte é esporte”, ele disse quando ela estranhou toda aquela sede de conhecimento. Talvez boa parte da curiosidade de Ron viesse da vontade de aprender, mas ele também queria passar um tempo com a garota. parecia tão legal com todo mundo, por que ele tinha que ser idiota com ela? Era como se fosse uma compensação de tempo perdido.

[...]


Fevereiro chegou e já era nítido um maior entrosamento entre e Hermione. As duas eram sempre vistas pela biblioteca estudando e, de fato, a ajuda da nova amiga era o motivo pelo qual, em seus vários cadernos, a brasileira tinha anotado boa parte de uma educação bruxa completa e se virava muitíssimo bem nas aulas, recebendo diversos elogios da maioria dos professores. Talvez isso se devesse também ao seu conhecimento com os tais livros misteriosos.
Mas, mesmo estando mais próxima a Granger, mantinha sua amizade firme e forte com Neville, além de falar algumas vezes com Ginny e Luna. Na verdade, se pudesse escolher alguém para levar junto para casa quando tudo acabasse, seria Longbottom. Ainda que ele fosse extremamente tímido, eles se divertiam bastante conversando sobre qualquer coisa. Neville fora o único dali que perguntara os motivos que trouxeram a garota até Hogwarts e ela não teve coragem de mentir. Disse a ele que não tinha sido, de fato, uma decisão dela e que talvez no futuro conseguisse falar mais abertamente, mas que por agora, ele só precisava saber que ela estava contente de estar ali. Neville aceitou a resposta sem questionar.
também era uma das únicas pessoas que sabiam sobre a condição dos pais do garoto. Ela o tinha visto chorando uma noite dessas perto do corujal e, depois de consolá-lo, Neville contou a verdade. não tinha olhado para ele com pena. Pelo contrário, segurou sua mão e disse que estaria sempre ali por ele. Tudo o que uma amiga podia fazer.
- Posso ler? - perguntou depois que o garoto recebeu sua cópia do Profeta Diário e ele deu de ombros entregando a ela o jornal sem nem olhar. Neville não costumava ver as notícias pela manhã, dizia que estragavam seu apetite - “Fuga em massa de Azkaban” - ela leu em voz alta e acabou atraindo a atenção de Hermione ao seu lado.
- Como é? - a garota estava entretida com seu livro e não tinha aberto seu próprio exemplar do Profeta ainda - Do que está falando, ?
- “Ministério teme que Black seja o ‘ponto de reunião’ para antigos comensais da morte” - ela leu o restante do título e agora Harry e Ron também estavam prestando bastante atenção no que ela dizia - Vou continuar, ok? - ela meio que perguntou para o nada, o trio não faria nenhuma oposição.
*O Ministério da Magia anunciou à noite passada que houve uma fuga em massa em Azkaban. Em entrevista aos repórteres em seu gabinete, Cornélio Fudge, ministro da Magia, confirmou que dez prisioneiros de segurança máxima escaparam no início da noite de ontem, e que ele já informou ao primeiro-ministro dos trouxas a natureza perigosa dos fugitivos. “Nós nos encontramos, infelizmente, na mesma posição de dois anos e meio atrás quando o assassino Sirius Black fugiu”, comentou Fudge. “E achamos que as duas fugas estão relacionadas. Uma fuga nessa escala aponta para ajuda externa, e devemos nos lembrar que Black, a primeira pessoa a escapar de Azkaban, estaria em posição ideal para ajudar outros a seguirem seus passos. Cremos que muito provavelmente esses indivíduos, entre os quais se inclui a prima de Black, Bellatrix Lestrange, se agruparam em torno de Black como seu líder. Estamos, no entanto, envidando todos os esforços para capturar os criminosos, e pedimos à comunidade bruxa que se mantenha alerta e cautelosa. Em nenhuma circunstância devem se aproximar desses indivíduos.” *
- Não pode ser! - Harry soltou assim que a garota finalizou a leitura e suspirou. Achou melhor se fazer de desentendida. Ela sabia que Sirius não era um comensal da morte.
- O que houve, Harry? Sei que é uma fuga em massa, mas estaremos seguros no castelo. - ela tentou encorajar, mas o garoto não parecia ouvir - De todo modo, eu acho que o Profeta está sendo bem tendencioso quanto a essa notícia.
- Por que? - Ron ficou curioso, mesmo revezando entre o amigo irritado e a garota.
- Ouvi falar sobre Black, não acho que ele seja esse tal “ponto de encontro” pros comensais. - ela deu de ombros - Aquele-que-não-deve-ser-nomeado voltou no ano passado, não?
- Você acredita em mim? - Harry perguntou surpreso. Nunca tinha falado com a garota sobre o assunto.
- Claro! Se você e Dumbledore dizem que ele voltou, por que eu não acreditaria? Afinal, só você sabe o que aconteceu quando Diggory morreu. - no caso, ela também sabia e se lembrava bem, mas ninguém precisava ou podia saber sobre isso.
- Obrigada, . Significa muito. - Potter não conseguiu sorrir, mas tinha sido sincero - Mas onde você ouviu falar sobre Black? - ele ficou curioso e entrou em pânico momentaneamente. “Pensa, !”
- Minha madrinha falou bastante sobre como ele era na época da escola. - ela sorriu amarelo - Não acho que ela tenha errado nesse julgamento.
- E quem é a sua madrinha? - Hermione quis saber e, pela primeira vez, Neville tirou os olhos da comida. Ele estava prestando atenção silenciosamente na conversa e não sabia se ajudava a amiga ou se ela queria mesmo falar. respirou fundo e se aproximou mais do trio como quem conta um segredo.
- A professora Minerva. - disse baixinho e Ron que tinha acabado de tomar um gole de suco de abóbora engasgou, tendo que ser socorrido por Harry que lhe dava vários tapas nas costas.
- McGonagall? - Weasley perguntou meio esganiçado e teria rido se não quisesse se esconder.
- Fica quieto, garoto! - a brasileira revirou os olhos e Hermione bateu em Ron com o livro que lia antes - É ela, mas, por favor, não falem pra ninguém.
- Agora faz mais sentido você ter vindo pra cá. - Ron comentou depois de se acalmar. só assentiu.
- Mas, e qual a surpresa de vocês? - quis saber - O Profeta tem dito tanta coisa idiota nos últimos dias que não surpreende essa matéria com o nome de Black. - ela manteve a voz baixa.
- Não é nada, . - Harry resolveu desconversar e se levantou apressado - Preciso enviar uma carta, vejo vocês depois.
- Nós vamos com você, Harry. - Hermione se levantou e Ron seguiu a deixa - Tenho que falar com meus pais. Nos vemos na aula, .
Os três deixaram o Salão Principal o mais rápido possível e a brasileira ficou com uma interrogação enorme no rosto.
- Você se acostuma. - Ginny soltou enquanto pegava um pedacinho a mais de bolo - Com o trio de ouro e seus segredos, quero dizer.
- Eles costumam sair sempre do nada assim?
- Mais do que você imagina. - Neville se pronunciou pela primeira vez e soltou uma risada - Já te contei da vez em que eles me petrificaram para poder escapar no meio da noite?
- Não, como foi isso?
Longbottom ficou o restante do café da manhã relatando a história. conhecia bem, mas foi mil vezes mais divertido ouvir da boca do amigo. Dava uma sensação diferente.

[...]


- ‘Tá tudo bem, ? - Neville perguntou para a amiga enquanto descansavam no jardim. O dia estava ligeiramente mais quente, o que possibilitava umas horas ao ar livre e eles resolveram aproveitar depois do café.
- Está tão na cara assim? - ela riu sem humor e Longbottom deu de ombros meio envergonhado - Eu tive um sonho ruim há algumas noites, lembra? Sempre que eu tento lembrar sobre ele, parece que me escapa alguma coisa.
- Mas você já conseguiu descobrir o que sonhou?
- Eu sinto mais a angústia, entende? Outro dia, durante a aula do Binns, eu me lembrei de chorar e que existia uma mulher comigo. Mas o rosto dela ainda não é muito nítido.
- Já tentou falar com a McGonagall? Talvez ela possa te ajudar.
- Eu não quero atrapalhar. Ela já está enlouquecendo com os decretos descabidos da Umbridge. - a brasileira revirou os olhos e deu um muxoxo.
- A gente pode procurar na biblioteca algo sobre sonhos. Acho que é melhor do que perguntar para a Trelawney. Capaz de dizer que você estava prevendo a sua morte. - ele riu e a garota lhe acompanhou.
- Prefiro me manter viva por um bom tempo, obrigada. - sorriu e o amigo concordou - Mas fico surpresa de você estar sugerindo passarmos horas presos na biblioteca. Algo não te fez bem no café, Longbottom?
- Só quero ajudar a te salvar da morte certa do seu sonho. - ele zoou e a garota negou com a cabeça enquanto se encostava no ombro de Neville. Ele estranhou num primeiro momento, mas logo relaxou e ela percebeu.
- Você precisa se acostumar com demonstrações de carinho, Nev.
- Um dia talvez. - ele disse e ouviu a amiga fazendo um barulho de concordância antes de se manter em silêncio pelos próximos minutos. Era bom se sentir querido. Uma pena que ele tenha sentido aquilo apenas depois que chegou em Hogwarts.

P.s.: Trecho entre asteriscos pertence ao livro Harry Potter e a Ordem da Fênix (p. 445)

VI.

- Você ainda tem dúvidas de que podemos confiar nela, Harry? - Ron estava terminando de escrever para Remus. Eles acharam que assim seria uma forma mais discreta de chegar a Sirius, sem perguntas diretas ao antigo professor. Hermione estava mais afastada escrevendo sua própria correspondência secreta.
- Não é que eu não confie nela. - Potter suspirou - É que ela acabou de chegar. Como vamos abrir um espaço assim?
- Eu acho que guardar um segredo pode ser uma boa comprovação de caráter. - Ron deu de ombros enquanto amarrava a carta na pata de uma Coruja da escola.
- Do que estão falando? - Hermione voltou depois de despachar sua carta.
- De contar a sobre a Armada de Dumbledore. - Harry explicou e a garota ficou pensativa por alguns segundos - O que você acha?
- Eu acho que ela é uma ótima adição. - Granger comentou depois de mais um tempo em silêncio - É uma boa bruxa e sinto que podemos confiar nela. Sei que Neville confia muito nela, eles estão sempre juntos. - Ron não conseguiu não revirar os olhos com essa informação e isso não passou batido pela amiga - Mas ela entrar para a AD é uma decisão sua, Harry.
- Não, - ele negou com a cabeça e Ron prendeu a respiração - é nossa. E se vocês acham que ela deve participar, vamos nessa. - o ruivo ficou mais tranquilo e respirou com gosto. - Vamos contar para ela de noite. - Harry decretou - Agora precisamos visitar o Hagrid. Fiquei preocupado com todos aqueles machucados.

[...]


- Então a Umbridge precisava mesmo se preocupar? - zoou em voz baixa e arrancou um olhar desafiador de Harry - Bem que eu estranhava os sumiços do Neville durante algumas noites. - ela ficou pensativa e Ronald se remexeu inquieto na poltrona. Hermione parecia atenta a cada movimento do ruivo, mesmo que ele não se desse conta - E vocês realmente querem que eu faça parte?
- Você é uma excelente bruxa, seria um desperdício não te ter ao nosso lado se quiser se juntar a nós. - Granger fez questão de dizer - Claro que sabemos a gravidade do que estamos propondo e você tem todo o direito de pensar antes de aceitar.
- Pensar o quê, Mione? - riu baixo - Eu estou questionando a vontade de vocês de me chamarem, não a minha de fazer parte disso.
- Isso quer dizer que você topa? - o ruivo perguntou meio incerto e viu a brasileira assentir entusiasmada e com um sorriso para ele de orelha a orelha. Seu estômago deu um pequeno salto pela cena. Era bom ter uma garota bonita sorrindo assim em sua direção. Mesmo que ele não quisesse admitir.
- Então, você assina aqui junto com a gente? - Hermione tirou um pergaminho da mochila e ofereceu junto a uma pena para a amiga. pegou em suas mãos e ficou analisando por alguns instantes a lista de participantes da Armada de Dumbledore antes de preencher seu nome no final da lista - Oficialmente parte da AD agora. Fiz questão de enfeitiçar uma moeda pra você também. - Granger tirou do bolso e a brasileira franziu a testa com a nova informação - Mantenha sempre com você e vai saber quando tiver uma nova reunião. Assim fica mais fácil pra nos comunicarmos.
- Isso quer dizer agora que eu posso ser expulsa a qualquer momento? - a brasileira riu e o trio afirmou com a cabeça - Doce é a sensação do caos, né? - “Bruna ficaria orgulhosa se me visse agora”, ela completou em pensamento ao mesmo tempo em que estranhava. Quem era Bruna?
- Tente ficar longe das vistas da Umbridge e vai dar tudo certo. - Harry instruiu - Amanhã teremos uma reunião da AD e você vai poder ver na prática como funciona.
- ? - Neville chamou antes que a garota pudesse dizer mais alguma coisa e a brasileira lhe encarou - Você quer dar uma olhada nos livros agora?
- Claro, Nev. - ela sorriu e se despediu do trio - Vejo vocês depois, pessoal. - e se levantou indo para perto do amigo para ver se eles encontravam alguma coisa sobre os sonhos da brasileira. Nem cinco minutos depois que saiu dali, Ron bufou e inventou uma péssima desculpa para subir e dormir.
- Você está vendo o mesmo que eu? - Hermione perguntou cuidadosa para Potter e o moreno se fez de desentendido - Sobre o Ron, Harry. - ela completou meio impaciente.
- O que você acha que está acontecendo?
- Acho que ele está interessado na e toda vez que o Neville surge, ele fecha a cara. - a castanha revirou os olhos - E eu sei que você reparou também, não precisa ficar na defensiva por ele.
- Você acha que ele reparou isso? - o garoto suspirou derrotado - Ou que ela também está interessada? - Harry não entendia muito de garotas, mas sabia que Ron tinha uma baixa autoestima e detestaria ver o amigo arrasado.
- Ela nunca me disse nada, mas também não conversamos sobre o assunto. Eu posso tentar descobrir.
- E isso não te incomoda?
- O quê?
- e Ron. - Potter estava meio desconfortável. Eles não costumavam falar muito sobre esses assuntos - Até o ano passado você parecia interessada.
- As coisas mudaram bastante nas férias, Harry. - Hermione sorriu enigmática e deu de ombros - E eu vi que Ron é apenas um amigo. Um bem idiota e cabeça dura, mas nada além de um amigo.
- Vai me contar o que aconteceu para essa mudança?
- Se eu te contasse, teria que te matar, Potter.
- Acho que prefiro não saber. - o moreno soltou uma risadinha - Já tem gente demais tentando me matar, obrigado.

[...]



- Senhorita Gomes, por favor. - George segurou a mão de enquanto guiava a garota para dentro da Sala Precisa - Seja bem-vinda ao covil da Armada de Dumbledore. Não toleramos elogios ao Ministério e corrompemos qualquer boa moça ao mundo da rebeldia, palavras da nossa querida professora.
- Você é tão exagerado, Weasley. - a garota riu e negou com a cabeça enquanto observava tudo ao redor - E vocês todos treinam aqui com tanta tranquilidade? Como ninguém ouve do lado de fora?
- Basta pedir que a Sala Precisa atende - Fred explicou - Por exemplo, se você quiser refrescar seu dia. - o gêmeo disse e logo uma garrafa de água gelada apareceu perto do quadro de avisos. Ele foi até lá para pegar e trouxe para perto de - Infelizmente não funciona com bebida alcoólica. Acredite, já tentamos - ele completou mais baixo e a brasileira riu com a ideia.
- Apresentações feitas, precisamos nos apressar hoje. - Harry comandou cortando o papo e todos tomaram seus lugares - Acho que todo mundo viu o último decreto, né? Os professores estão sendo observados de perto, o que quer dizer que nosso aprendizado vai ficar ainda mais limitado em sala.
- Temos você pra isso, Harry. - Cho soltou e que agora tinha Ginny ao lado viu a amiga revirar os olhos. A brasileira prendeu os lábios segurando a risada.
- Claro, claro! - Potter parecia mais animado com o elogio da corvina e pigarreou espantando a vergonha - Juntem-se em duplas, vamos praticar o protego hoje. Da forma mais silenciosa que conseguirem.
ia se juntar a Neville, mas Hermione puxou o garoto para que pudessem praticar deixando a brasileira meio sem opções a não ser o olhar de Ronald nela.
- Podemos, Gomes? - o ruivo se aproximou da garota que assentiu e começou a segui-lo para um canto do salão. Quando ele parou, os dois ficaram frente a frente, varinhas em punho. deu um sorrisinho de lado antes de falar baixinho um expelliarmus que foi rebatido por Ron no último segundo, jogando o feitiço dela pra longe - Achou que ia me distrair assim?
- Mais rápido do que eu achei, Weasley. - ela riu, mas não baixou a guarda.
- Preciso ser. - “principalmente com você aqui”, ele não conseguiu controlar seus pensamentos e, por meio segundo, se assustou com a naturalidade com que pensou isso.
- Vamos ver do que você é capaz, Weasley. - piscou e os dois começaram com os feitiços mais pesados. Logo os expelliarmus viraram estupores e estupefaças fazendo com que as pessoas ao redor precisassem se afastar para não serem atingidas pelos ricochetes. Mas os dois só estavam se divertindo. Em algum momento, a dupla se transformou na atração principal e já estavam mandando azarações um no outro. tinha atingido Ron com um tarantallegra fazendo o ruivo dançar sem parar ao mesmo tempo em que ouvia Ginny apostando com Fred e George sobre quem ganharia aquilo.
Percebendo a distração da garota, Ron lhe atingiu com um pimentatus em cheio e percebeu, depois de lançar um finite em si mesmo, que talvez tivesse ido longe demais. segurou a barriga com força e seu rosto começou a suar instantaneamente. Neville correu para amparar a amiga e Ron fez o mesmo. Hermione foi até o três e segurou no rosto da garota, obrigando-a a abrir a boca.
- Aguamenti - ela lançou na boca da amiga e mesmo quando começou a tossir, Granger não parou - Aguenta mais um pouquinho.
Três minutos depois todos continuavam esperando meio aflitos para ver o que aconteceria. Harry estava próximo a eles, mas Neville e Ron seguiam segurando a jovem um de cada lado. agora já respirava melhor e Hermione deixou o feitiço de lado.
- Melhor? - Granger quis saber e a brasileira tossiu mais um pouco antes de assentir - Tomem cuidado com as azarações, gente. - ela disse especialmente pros dois - Todo mundo! - completou levantando a voz para que todos pudessem ouvir.
- Vamos encerrar por hoje então? - Harry perguntou e logo negou com a cabeça.
- Não, Harry. Todo mundo precisa treinar mais, não precisa fazer isso por minha causa. - disse com a voz ainda meio fraca.
- Tem certeza? - o moreno quis saber e ela assentiu.
- Eu vou pro dormitório, preciso descansar um pouco. Mas, por favor, continuem.
- Eu te acompanho até lá - Ron se ofereceu e a garota já ia negar - É o mínimo que eu posso fazer, não tem conversa.
Mesmo revirando os olhos, a garota concordou e deixou que o ruivo a guiasse para fora. Os dois saíram o mais depressa possível de perto da tapeçaria de Barnabás, o maluco tentando ensinar balé aos Trolls. Eles podiam ouvir ao longe os miados de Madame Nor-r-ra e mesmo que a garota fosse alguns bons centímetros mais baixa que Weasley, seguiu os passos dele na mesma velocidade até o quadro da Mulher Gorda. Mas ela não estava ali no momento e eles se entreolharam preocupados. Ron só pensava que deveria ter pedido o Mapa do Maroto a Harry.
- O que vamos fazer agora? - perguntou a contragosto olhando para os lados. Sabia que tinham um pouco mais de uma hora para o toque de recolher e não estava afim de ser pega por Filch - Acha que se falarmos com outra pintura, eles podem chamar a Mulher Gorda?
- Acho mais fácil a gente esperar alguém abrir a passagem por dentro. - ele deu de ombros e se sentou em uma das escadas próximas para descansar. A garota, por outro lado, continuava impaciente e andando de um lado para o outro - Você vai acabar fazendo um buraco no chão assim.
- Como você não está preocupado? É monitor, não deveria querer se encrencar.
- Só sei que não vai adiantar o nervosismo, Gomes. - o ruivo suspirou e soltou uma risadinha quando viu a cara de preocupada da brasileira - Se alguém aparecer, eu digo que estava comigo. Não é tão problemático assim, sou monitor.
- Ah é? E o que estaríamos fazendo a essa hora sozinhos, Weasley? - ela debochou, mas assim que seu olhar cruzou com o de Ronald, um arrepio passou por seu corpo. Ela engoliu em seco e viu o garoto ruborizar - E-eu q-quis dizer que ninguém vai acreditar que estávamos na biblioteca. - completou rápido e nervosa.
- Biblioteca? - ele se atreveu a questionar e ela deu de ombros.
- Onde mais estaríamos? Precisamos de um álibi crível, Weasley. - bufou e viu o ruivo assentir meio incerto - Podemos dizer que você foi comigo devolver um livro que eu estava usando com Neville. - ela sugeriu meio aérea enquanto se encostava na parede pensativa.
- Vocês ficaram muito amigos, né? - Weasley não se conteve e recebeu um olhar estranho da garota pela pergunta. Ele coçou o pescoço meio desconfortável - É que você vive com ele por todos os lados.
- Assim como ando com a Hermione, Luna e a sua irmã.
- Mas você parece confiar mais nele.
- Sim e qual o problema nisso? Ele é um ótimo amigo, não acha?
- C-claro, não era esse o ponto. - Ron pigarreou - Só comentei sobre a proximidade de vocês.
- Neville tem sido ótimo nessa adaptação. - ela disse ainda meio desconfiada - Pode não parecer, mas ainda é estranho estar aqui com vocês. Um mundo completamente novo pra mim.
- A cultura deve ser bem diferente mesmo. - ele assentiu e deu graças aos céus por ele ter entendido nesse sentido - Eu sei que não somos próximos, mas você pode vir falar comigo se precisar de alguma coisa.
- Obrigada, Ron. Significa muito. - a garota sorriu contida e viu um brilho passar rapidamente pelos olhos do outro - O que foi?
- Ron?!
- Ah! - ela percebeu o que tinha feito e assentiu - É, Ron.
- Por nada, . - ele disse concentrado na reação da brasileira e quando nada se alterou, Weasley respirou mais tranquilo. Antes que eles pudessem dizer algo, a passagem se abriu por dentro mostrando um grupo de sextanistas que saíam do Salão Comunal e pareciam carregar livros de Astronomia. e Ronald aproveitaram para entrar e a garota já estava pronta para subir as escadas do dormitório feminino quando o ruivo segurou seu braço - Me desculpa pela azaração. Não sabia que ia ser tão forte assim.
- ‘Tá tudo bem, essas coisas acontecem. Pelo menos não foi uma maldição da morte. - ela riu - Eu acho que vou dormir, sim?
- Nem um adeus antes? Pelo visto você já teve a sua cota de ficar no mesmo espaço que eu. - o ruivo brincou e a garota concordou sorrindo.
- No meu país a gente não fala “adeus”, a gente diz “coé, valeu, valeu”. - ela completou em português rindo e o Ron deixou o sorriso morrer, como se algo estivesse errado. Ele já tinha escutado isso em algum lugar.
- Você já me disse isso em algum momento? - ele perguntou depois de alguns segundos calado - Essa expressão, você já me disse antes?
- Não que eu saiba. Não costumo falar em português por aqui. Ninguém entende mesmo. Por quê? Você conhece outros brasileiros?
- Você é a única brasileira que eu conheço. - ele falou ainda meio perdido - Vai ver nós nos conhecemos de outro lugar.
- Se você disser que me conhece dos seus sonhos vai ser a pior cantada de todos os tempos, Weasley. - brincou e o ruivo sentiu as orelhas esquentarem com a ideia - Boa noite, sim? - ela disse se afastando e subindo as escadas, deixando um Ron inquieto para trás. Será que ele a conhecia dos sonhos ou só estava enlouquecendo?

[...]


- De que adianta eu falar meu nome se você não vai lembrar de mim depois? - ela parecia conformada e, dessa vez, tomou a iniciativa de segurar a mão do garoto. Era estranho pra ele. Ronald Weasley nunca tinha segurado a mão de uma garota desse jeito. Era um “estranho” confortável.
- Nós vamos nos ver de novo? - estava escuro, mas agora o garoto sentia que já tinha vivido isso antes. Suas mãos estavam entrelaçadas de um jeito tão gostoso. Os dedos delicados dela faziam pequenos círculos em seu dorso e Ron piscou algumas vezes tentando se adaptar ainda mais ao ambiente.
- Já estamos nos vendo, Ron. - ela se aproximou um pouco mais e o ruivo percebeu que estavam mais perto que antes. Agora ele sentia a respiração dela batendo em seu peito. Suas mãos seguiam unidas - Você só precisa se lembrar de mim e fazer com que eu me lembre de você. - ele não notou, mas a garota diminuiu a distância entre eles e juntou seus lábios antes que ele pudesse raciocinar direito. Apenas um selinho foi o suficiente para que a pulsação dele se acelerasse e ela se afastasse - Me faça lembrar. - ela disse à medida que ia para trás e soltava a mão do ruivo.
Ele ainda tentou gritar pedindo que ela voltasse, mas a voz não saía de sua boca e, com o tempo, ele foi parando de tentar. O cansaço lhe ganhou a ponto de fazê-lo adormecer mesmo quando já dormia.

VII.

Ron amanheceu completamente destruído pelos sonhos da noite. Os lábios da garota desconhecida tinham sido tão reais tocando os seus que lhe custava acreditar que tivesse realmente sonhado. O ruivo já estava ao lado de Harry e Hermione tomando café, mas qual não foi a sua surpresa ao encontrar o olhar de em cima dele quando deixou a comida um pouco de lado. Como se estivesse com vergonha por ter sido descoberta, a garota entrou na conversa de Neville, Simas e Dino. Ronald sentiu as mãos começarem a suar e suas orelhas esquentaram consideravelmente.
No entanto, por mais envergonhado que também estivesse, alguma coisa atraia seus olhos até a brasileira que agora ria mesmo de algo dito por Dino. Ele não sabia se eram os olhos castanhos escuros, os cabelos pretos ou o som gostoso de sua risada. O ruivo agora estava pensando que queria que tivesse sido no sonho. Será que era? Ele não conseguia recordar completamente o timbre da voz.
- Deveria chamar ela pra sair na próxima ida a Hogsmeade. - Harry falou baixo apenas para que o amigo ouvisse e o ruivo quase derrubou o talher que nem percebia segurar. Potter revirou os olhos com a reação exagerada - Não é de hoje que você parece interessado nela.
- Você ‘tá viajando, cara. - Ron desdenhou e focou seus olhos no prato quase vazio - Deveria se preocupar mais sobre o que vai fazer com Cho no dia dos namorados.
- Argh, eu tinha esquecido sobre essa data. - Harry revirou os olhos - Será que a Mione tem alguma dica pra me dar? Ou a . - ele acrescentou como quem não quer nada e viu o amigo olhar pra ele curioso - É sério, Ron. Você não perde nada por tentar. Talvez só essa cara de idiota quando olha pra ela seja o suficiente pra convencê-la. - Harry riu e logo estava se queixando do soco que o amigo tinha desferido em seu braço.
- Muito engraçado, Potter. - Weasley disse sem paciência, mas seus olhos continuaram procurando vez ou outra os de por toda manhã. Seu coração quase saía pela boca quando notava que ela também lhe observava.
[...]


- Abram os livros e leiam, em silêncio, o capítulo sobre espectros e fantasmas. - Dolores Umbridge disse com sua voz irritantemente doce para os alunos assim que todos estavam sentados - Senhorita Gomes? - a professora se aproximou da mesa da brasileira chamando a atenção de Neville, Hermione, Harry e Ron que estavam ao seu redor - Adoraria que a senhorita me acompanhasse em um chá hoje de tarde, o que acha? Tomei a liberdade de verificar seu horário e vi que tem um tempo livre.
- Ah, bem, eu uso esse horário de hoje para aulas com a professora McGonagall. - tentou se esquivar do convite, mas Umbridge soltou uma risadinha como se desdenhasse.
- Não se preocupe, querida. Eu falarei com a professora Minerva pessoalmente sobre seu novo compromisso. Posso contar com a sua companhia? - a mulher insistiu e não teve alternativa a não ser assentir. Dolores voltou para perto da sua própria mesa bem mais animada, deixando para trás cinco adolescentes preocupados.
- ? - Harry chamou sussurrando e viu a garota assentir, avisando que estava ouvindo - Você precisa tomar cuidado com ela.
- Nada que eu já não saiba, Harry. - respondeu no mesmo tom, mas deu de ombros tentando se manter focada em se lembrar do que Snape tinha lhe dito sobre Umbridge. “Nunca beba nada que a mulher tentasse oferecer”.
O restante da aula passou num piscar de olhos, quase como se o relógio zombasse dela e quisesse apressar seu encontro com Umbridge. Por sorte, ela ainda tinha dois tempos de História da Magia pela frente. Nunca pensou que fosse esperar ansiosa pela aula do professor Binns, mas adoraria que ela durasse o máximo possível.
- , você está bem? - Ron resolveu cutucar a garota que estava sentada na carteira da frente. Harry e Neville já estavam no décimo sono na aula de Binns e Hermione estava mais preocupada em anotar o que o professor dizia. se virou para o garoto interessada na pergunta. Ele não esperava que ela se virasse.
- Por que não estaria? - quis saber curiosa e manteve o tom de voz baixo.
- B-bem, ouvi a Umbridge te chamando para um chá. Ela não me parece boa pessoa.
- Eu concordo. - sorriu pequeno e viu Ron assentir - Mas estou bem tranquila quanto ao que penso em dizer ou não a ela. Não exporia a AD, se isso te preocupa.
- Não estava ligando pra AD, mas sim pro que ela pode fazer com você. - ele deu de ombros - Ela não foi um doce com Harry, me faz pensar que talvez seja muito perigoso pra você estar sozinha com ela.
Por essa não esperava e foi difícil esconder a expressão de espanto pela preocupação do garoto. Ele percebeu e logo seu rosto se coloriu de vermelho pela vergonha, mas a menina não deixou de sorrir.
- Vai ficar tudo bem, Ron. Eu sei me cuidar, não se preocupe. - se virou pra frente novamente encerrando a conversa e tentando prestar atenção em qualquer coisa da aula de Binns. Tarefa difícil. Em poucos minutos, estava com o rosto apoiado nas mãos e fazia força para manter os olhos abertos. A batalha durou muito pouco e ela logo adormeceu. A voz do professor como uma música de fundo.
Ela olhou ao redor e não estava mais na sala de aula. Seus olhos demoraram a focalizar o espaço, mas ela parecia em uma sala. Um homem mais velho estava sentado em uma poltrona rindo e olhando para frente. A garota ainda tentou se mover para ver o que ele via, mas não conseguiu. Então, ela passou a dar mais atenção ao homem e as suas feições. Ele tinha a pele negra como a dela, seus olhos também eram castanhos. O sorriso dele parecia feliz e foi o bastante para que uma sensação gostosa nascesse dentro dela. o conhecia? Claro que ela o conhecia!
- , filha, você podia ser menos ranzinza, essa série é ótima. - ele disse rindo e ainda encarando algo que ela não conseguia ver. Filha? Pai? Aquele era seu pai?
Ela tentou falar, mas nenhuma palavra saiu de sua boca, tudo o que ela fazia era balbuciar coisas incompreensíveis. Por que não conseguia falar?
- , acorda, estamos atrasados. - a garota ouviu uma voz diferente ao pé do ouvido, mas não parecia estar vindo de seu recém-descoberto pai. Ele ainda parecia entretido - , você está falando coisas desconexas. Acorda, por favor. - a voz continuou chamando até que ela resolveu respirar fundo e foi puxada daquele cenário sem cerimônia.
abriu os olhos lentamente e deu de cara com um Ron Weasley agachado ao seu lado bem preocupado. O professor Binns já tinha encerrado a aula e saído da sala assim como os outros alunos. Eles eram os últimos ali.
- Você ‘tá bem? - ele perguntou ainda com o tom de voz baixo e a garota parecia confusa, quase em transe. olhava diretamente para as orbes azuis-esverdeadas do ruivo, mas ele sentia como se ela encarasse sua alma. Ron engoliu em seco quando ela nada disse ou deixou de analisá-lo - , você ficou dizendo coisas em outra língua, por sorte o Binns não notou, mas você podia ter se encrencado por dormir e -
E Ron parou de falar quando a garota, ainda com a cabeça deitada no braço, levou a mão até seu rosto como se tateasse para reconhecer. Os dedos de estavam gelados, mas ele não se importou. O ruivo estava quente já pelos dois. A garota seguiu o caminho de suas sobrancelhas e o desenho de seu nariz para só depois chegar aos lábios.
não parecia saber o que estava fazendo, algo em Ron lhe puxava e ela estava apenas se deixando levar. “Já tinha beijado aqueles lábios antes?”, ela pensou enquanto delineava a boca do garoto e sentia sua respiração descompassada.
- Ron? - chamou quase como um sussurro e ele não se atreveu a responder alguma coisa. O ruivo sabia que provavelmente faria besteira se falasse qualquer coisa e não queria acabar com aquele micro momento, mesmo sem ter ideia do que significava - Já nos encontramos antes. - ela afirmou e o coração do garoto deu um salto. Era ela, não era? era a garota do sonho! Ele precisava ser coerente, ela parecia esperar por alguma fala dele, mesmo que não estivesse necessariamente perguntando algo. Os dedos de seguiam nos lábios de Ron e se moveram à medida que ele falava.
- Você me pediu para te fazer lembrar. - ele manteve o mesmo tom e ela olhou confusa para o ruivo.
- Achei que você só tinha me provado o quanto era real. - levantou a cabeça da mesa, mas a proximidade entre os dois se mantinha - Como eu poderia te esquecer, Ron? - ela deu um sorriso meio grogue e Weasley estranhou - Como eu poderia esquecer justo você? Você vai sempre lembrar de mim, não é?
- , você ‘tá se sentindo bem? - ele perguntou preocupado, os olhos da garota estavam meio nublados e ela aproximou seu rosto do dele, seus narizes se tocavam agora.
- Mesmo que isso tudo seja um sonho, não esquece de mim, Ron. Lembra de mim. - ela disse antes de colar os lábios nos de Weasley que, mesmo assustado e sem entender bem o que ela falava, sentiu o coração bater bem mais forte no peito. No momento em que pensou em aprofundar o beijo, caiu em cima dele desfalecida.

[...]


- Ah, senhorita Gomes, que bom que finalmente acordou. - Dumbledore saudou tranquilo quando viu a garota remexer os olhos lentamente e abri-los. demorou alguns segundos para focalizar o diretor, mas quando o fez, viu o sorriso aconchegante do senhor - Os senhores Weasley e Longbottom não saíram daqui até que a Madame Pomfrey os expulsasse.
- O que aconteceu? - ela disse com a voz meio rouca e sentiu a garganta arranhar como se não falasse há um tempo - Eu desmaiei?
- O senhor Weasley me disse que vocês estavam conversando quando, do nada, a senhorita desmaiou. - Albus confirmou - Ele disse que a senhorita parecia um pouco desconexa, se lembra de alguma coisa?
forçou a memória por alguns segundos e, quando conseguiu lembrar, não controlou a expressão de espanto. Ela tinha beijado Ron?! Ela tinha praticamente se atirado nele, como isso tinha acontecido? Dumbledore percebeu que a aluna tinha lembrado, mas teve a decência de não perguntar o que acontecera. Não por agora.
- Não se preocupe, foi um desmaio de algumas poucas horas. Você apenas perdeu o jantar, mas Madame Pomfrey gostaria de te manter aqui até amanhã, por precaução.
- Eu não fui encontrar a professora Umbridge. - arregalou os olhos assustada e Dumbledore soltou uma risadinha.
- Sobre isso, temo que ela tenha ficado irritada. Algo sobre a senhorita ter fingido o desmaio para não se encontrar com ela, mas não se preocupe. Ela veio aqui há um tempo e pareceu bem convencida. Sem pontos retirados.
- Talvez eu deva procurá-la amanhã. - ela suspirou contrariada e Dumbledore assentiu - Diretor, acho que preciso conversar com o senhor.
- Presumi que gostaria de conversar assim que acordasse, por isso tomei a liberdade de ficar esperando. - ele sorriu - Estamos em uma ala mais afastada da enfermaria, aqui ninguém pode nos ouvir.
E então contou sobre o primeiro sonho que teve, aquele que não conseguia lembrar direito, mas que a angústia seguia presente. Falou sobre o último sonho que teve com o homem que parecia ser seu pai. Desse ela lembrava com perfeição, quase como se fosse uma memória recente. A garota deixou de fora o transe que passou com Weasley. Desse ela também lembrava e ainda sentia a pele do garoto em seus dedos, mas a vergonha era tanta que achou por bem deixar de fora.
Dumbledore ouvia tudo com atenção e assim que terminou de falar, ele encarou a aluna por cima dos óculos e percebeu a garota nervosa. Não era muito ético o que ia propor, mas podia ser um bom começo para que eles descobrissem o que era aquilo.
- Pelo que me conta, parece que seu cérebro está começando a lhe mandar algumas memórias, mas a que está mais embaçada é a primeira. - ele suspirou - Espero que não se ofenda e tem todo o direito de negar, mas acho que poderíamos tentar acessar essas memórias de uma forma mais assertiva.
- O senhor não está sugerindo usar a penseira, está? - ela disse compreendendo onde o diretor queria chegar - Legilimência não costuma ser dolorosa?
- Não vou mentir para a senhorita: sim, costuma. Nem sempre nossa cabeça está preparada para o fluxo rápido de memórias. Eu diria que podemos ir com calma, que temos tempo, mas a senhorita não parece disposta a passar mais muito tempo sem saber.
- Não estou. - pareceu decidida - Mas o senhor terá acesso a todos os meus pensamentos? - ela pareceu indecisa, não queria contar a Dumbledore sobre a AD.
- Só acessarei memórias que a senhorita permitir, não há com o que se preocupar. - ele assegurou, mas a garota não pareceu tão segura.
- Será que podemos fazer isso amanhã?
- Claro, você pode e deve descansar por hoje, querida. - ele sorriu compreensivo - Nos vemos amanhã depois do jantar.
- Obrigada! - e o diretor se levantou para ir embora, mas a jovem lhe chamou novamente antes que ele saísse - Há alguma chance de que eu volte para o dormitório ainda hoje?
- Madame Pomfrey foi muito firme quando eu sugeri isso, acho que terá de esperar até o amanhecer. - ele disse pesaroso - Mas ela costuma acordar às 6h da manhã, se isso for cedo o suficiente. - disse antes de deixar a enfermaria. assentiu sabendo que precisava ser rápida no dia seguinte.
Assim que o dia começou a clarear, já estava devidamente arrumada na cama e esperava, não tão paciente, por Madame Pomfrey. Quando a bruxa chegou na ala que a garota estava, estranhou toda aquela disposição, principalmente para alguém que chegara desmaiada no dia anterior.
deu seu melhor sorriso e respondeu a todas as muitas perguntas feitas pela enfermeira e, quando às 6h30, ela lhe deu alta, a garota agarrou a mochila e saiu correndo para o salão comunal da Grifinória. Por sorte a Mulher Gorda já estava acordada, mas ainda sonolenta demais para suas cantorias da manhã, e deixou a garota entrar sem muita conversa.
O salão da casa estava vazio, então todo mundo ainda dormia. Ela subiu correndo escada acima para o dormitório feminino e foi direto para a cama de Hermione que parecia em um sono tranquilo. cutucou a amiga delicadamente algumas vezes até que Granger acordou no susto e ficou mais espantada ainda por ver Gomes que deveria estar na enfermaria. A brasileira colocou o dedo nos lábios de Hermione indicando silêncio e puxou a amiga da cama para que pudessem conversar melhor no banheiro que ainda estava vazio.
- O que aconteceu? Você não deveria estar na enfermaria? - Hermione perguntou baixo ainda meio sonolenta, mas parecia elétrica, fazendo com que a garota ficasse mais alerta - O que houve, ?
- Você precisa confiar em mim. - disse no mesmo tom e tirou a varinha das vestes entregando para Hermione que não entendeu nada - Preciso que você me oblivie.
- É o quê?! - Granger quase gritou, mas foi mais rápida e lhe tampou a boca. Hermione quase lhe arrancou a mão para poder falar - Você ficou maluca, Gomes?!! - a garota nunca lhe chamava pelo sobrenome, sabia que ela estava irritada.
- Você lembra do sonho que eu tive há alguns dias? Eu vou tentar descobrir o que sonhei com Dumbledore, Mione. - ela suspirou e fechou os olhos por alguns segundos como se estivesse cansada - Não posso correr o risco dele descobrir sobre a AD. Você precisa me obliviar, ele não pode saber.
- Por que você vai descobrir o que sonhou justo com ele? E o que te faz pensar que ele não consiga reverter um feitiço feito por uma aluna do 5º ano? - ela perguntou confusa. Quando achava que estava começando a entender, mais estranha parecia a história.
- Das bruxas da sua idade, você é a mais inteligente que já conheci, Hermione. - disse sem pensar muito e Hermione estranhou. Ela tinha ouvido essa mesma frase de Lupin há dois anos, do mesmo jeito. A garota sentiu um arrepio estranho na nuca.
- Onde você ouviu isso? - Granger perguntou desconfiada e empurrou mais a própria varinha nas mãos da amiga.
- Hermione, foco! Preciso que você apague da minha mente qualquer lembrança da AD. Você pode fazer isso? Eu não sei se vai dar certo se eu fizer sozinha.
- Isso é loucura, você sabe. - ela pegou a varinha da outra com as mãos trêmulas e engoliu em seco. não disse mais nenhuma palavra, mas seu olhar dizia “eu confio em você”. Granger só não sabia se ela deveria mesmo confiar? E se fizesse alguma coisa errada? Hermione suspirou e viu fechar os olhos para se concentrar. Ela pigarreou clareando a garganta e tentando não soar trêmula. - Obliviate.



Continua...



Nota da autora: Demorei um pouco com a atualização, mas cheguei. Me digam nos comentários o que estão achando da história e nos vemos na próxima att :)

Nota fixa: No universo que compreende Entre Sonhos e Pura Magia apenas os livros existem, mas vou manter os atores da franquia de Harry Potter como rostos dos personagens. Isso significa que a história seguirá, primordialmente, os livros (mas não exclui a possibilidade de surgir algo dos filmes por aqui).



Outras Fanfics:
História do mesmo universo:
Entre sonhos (Harry Potter - Shortfic - Finalizada)


Outras fics:

Like a Virgin (Oneshot +18 - Finalizada)
I’m not your fan (KARD - Shortfic +18 - Finalizada)
Make 'em Laugh (Originais - Em andamento)
Blood, Love and Death (Crepúsculo - Em andamento)
(In)desejada (Harry Potter - Em andamento)
Fanfics em parceria com a LOLA:
Amor em Dobro (Shawn Mendes - Em andamento)
Nas garras do lobo (Harry Potter - Shortfic - Finalizada)

Qualquer erro no layout dessa fanfic, notifique-me somente por e-mail.


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