Fanfic Finalizada: 29/04/2018

Capítulo único



ATUALMENTE - MAIO DE 2019

- Ei, Ji Chang Wook, vamos logo com isso! Precisamos terminar de arrumar as malas ainda hoje! – Lee Jin, um de seus colegas do exército, gritou, mesmo que estivessem a poucos metros distância.
O rapaz, entretanto, não se importou com o aviso, apenas continuou olhando para a foto que tinha em mãos e para o bilhete que havia chego junto no envelope. As últimas noites se resumiam a ele encarando as pessoas na foto, e lendo e relendo as palavras escritas na carta.
sorria quando foto foi tirada. Chang Wook estava do seu lado, igualmente sorrindo. A verdade é que ele não se lembrava daquela foto em especial. Mesmo sendo tantos os momentos que vivera com em tão curto período, o rapaz lembrava-se de cada um deles.
Quando Chang Wook convidou para sair, apenas algumas semanas após ter recebido sua carta de convocação para o alistamento militar obrigatório, pensou estava ficando louco, afinal, se apaixonar quando se estava prestes a se alistar no exército não era a melhor das ideias. Quando aceitou sair com ele, mesmo sabendo que em poucos meses ele estaria se indo embora, ficando longe por vinte e um meses, pensou que a louca fosse ela.
Nenhuma garota se daria ao trabalho de sair com um cara que não estaria ali por ela. Que arriscaria sua vida por seu país, em vez de se dedicar a ela. Mas aceitou ir a um primeiro encontro, e mesmo antes deste chegar ao fim, Chang Wook já sabia que precisava encontra-la novamente. E ao final do segundo encontro, quem o convidou para jantar foi ela.

FLASHBACK – MARÇO DE 2017

Chang Wook acabava de voltar do banheiro quando viu entregando seu cartão à moça do caixa. Correu até ela, chegando no momento em que a garota terminava de digitar sua senha.
- O que está fazendo?
- Estou pagando a conta, oras. Eu disse que ainda quero te levar a outro lugar antes da nossa noite terminar. – ela respondeu com um sorriso esperto nos lábios.
O rapaz não pôde acreditar naquilo.
- Você pagou a conta sozinha? – tinha surpresa na sua voz, mas também admiração.
- É claro! Você não deixou que eu dividisse a conta com você das outras vezes, e hoje fui eu que o convidei para jantar fora. Nada mais justo que a noite seja por minha conta. – ainda mantinha o sorriso nos lábios, e ao final de sua fala deu uma piscadinha que desarmou toda a pose defensiva de Chang Wook.
O rapaz então se entregou e riu junto a ela, não acreditando que ela usou a mesma história do “eu a convidei para sair, eu pagarei a conta” que ele usara nas primeiras vezes que saíram juntos.
- Muito justo. – ele aceitou por fim.
Já do lado de fora do restaurante, o puxou pelo braço quando Chang Wook havia começado a caminhar na direção contrária.
- Devemos ir por este lado para chegarmos à segunda parte do nosso encontro.
Novamente Chang Wook riu da atitude da garota, mas não reclamou. Em vez disso, pegou a mão que o segurava pelo braço e entrelaçou seus dedos nos dela.
- E para onde vamos, posso saber?
- Não, não pode. Já que eu o convidei para sair, quero fazer surpresa. – ela disse animada, enquanto voltavam a caminham, dessa vez pela direção certa.
- Contando que você pague a conta...
- Ei! – o tapa que deu no braço de Wook foi de brincadeira, mas ele não pôde deixar de fazer a cara de dor mais fingida que conseguiu. – Nossa, vendo sua reação agora, eu entendo porque você é ator.
Chang Wook riu antes de responder.
- Estou em dúvida se levo este comentário como elogio ou como ofensa.
- Como eu estou no comando desta noite, eu digo que você deve interpretar este comentário como um elogio!
- Feito! – ele respondeu. – Você nunca me disse qual dos doramas que já fiz é o seu favorito. – ele comentou enquanto caminhavam para um lugar que ele não sabia onde era, mas que ele definitivamente não se importava.
- E quem disse que eu já assisti alguma coisa que você fez? – perguntou, mantendo os olhos para frente apenas para provocar o rapaz ao seu lado.
Chang Wook, por outro lado, não escondeu sua reação surpresa. Parou de andar e segurou a mão da garota para que ela também parasse. Tinha os olhos arregalados, e os lábios separados. tinha certeza que passavam tantas perguntas por sua mente que ele nem mesmo conseguia se decidir por onde começar.
Mas no lugar de soltar perguntas indignadas, e de expressar o quão inusitado era aquilo – ele mal conseguia andar pelas ruas sem o uso de uma máscara, enquanto a garota com quem estava tendo um encontro mal conhecia seus trabalhos na televisão? – Chang Wook apenas soltou o ar que estava preso nos pulmões em uma risada.
- Você é inacreditável! – ele disse balançando a cabeça para os lados, ainda rindo.
o acompanhou, rindo junto dele, rindo com ele.
E então sentindo o frio na barriga aumentar, se aproximou mais do rapaz, ainda com os dedos das mãos entrelaçados, e falou baixinho em seu ouvido:
- Mas preciso confessar que Kim Je-ha me fez sonhar em como seria ter um guarda costas particular.
Sentindo o rosto esquentar com a confissão, e com os pensamentos nada inocentes que aquela frase lhe trouxe, soltou sua mão da dele e correu na sua frente.
Chang Wook, entretanto, continuou parado, analisando o que lhe foi dito. Inacreditável. Aquela garota era mesmo inacreditável.
O rapaz correu até ela, abraçando-a por trás, e a fazendo soltar um gritinho de surpresa. Ela não esperaria aquela demonstração de afeto no meio da rua, não com o pensamento conservador que a Coréia do Sul ainda tinha.
- Talvez no final da noite eu possa te mostrar como é ter um guarda costas de olho em você.
Ainda de costas para o rapaz, sentiu o sangue subir novamente ao rosto, e o frio na barriga se transformar em calor, puro e quente como brasa em fogo. Mordeu o lábio inferior pensando se deveriam cancelar a segunda parte do encontro, mas então se lembrou que ela estava no controle daquela noite, e decidiu que gostaria sim de ter seu guarda costas particular, mas apenas depois que concluísse seus planos para aquele encontro.
- Mal posso esperar.
Com um sorriso de aprovação, Chang Wook se afastou de apenas o suficiente para que ficasse ao seu lado e pudesse entrelaçar os dedos novamente. E com sorrisos nos lábios, o casal voltou a andar pelas ruas de Seoul, rumo ao que a noite lhes reservava – noite esta que estava longe de terminar.

ATUALMENTE - MAIO DE 2019

No dia 14 de agosto de 2017, Ji Chang Wook se apresentou no centro de recrutamento em Cheorwon, na província de Gangwan, para seu treinamento militar básico que teria duração de cinco semanas. Após esse período, os vinte e um meses de prestação do serviço militar obrigatório começariam.
O dia anterior à sua apresentação ao serviço militar, contrariando os pedidos de sua mãe para que ele ficasse em casa com a família, o rapaz ficou com . Passaram o dia juntos, e a noite também. Por um momento ele acreditou que vinte e um meses passariam em um piscar de olhos, e que tudo ficaria bem entre eles.
Quando chegou em Cheorwon, entretanto, ele já não tinha a certeza da noite anterior. Em verdade, tinha certeza de que seu relacionamento com não sobreviveria tanto tempo com ele longe, especialmente quando o namoro mal tinha começado.
Mas então as cartas começaram de começaram a chegar, e a garota sempre atendia suas ligações no segundo toque. Apesar de não terem privacidade para conversarem, nem tempo de sobra, aproveitavam cada minuto para se perderem na voz do outro.
Após três meses instalado no exército e passando por seu treinamento militar, Chang Wook foi contemplado com as férias de 100 dias, a primeiras das três que ele teria ao longo de vinte e um meses. Tendo uma semana para se reencontrar com a família e amigos, tudo o que Chang Wook conseguia pensar era em e em como uma semana seria muito pouco para aplacar a saudade que sentia em seu peito todas as vezes que olhava uma foto da garota, ou ouvia a sua voz por míseros minutos ao cair da noite.

FLASHBACK – JANEIRO DE 2018

Chi Chang Wook teve uma semana de férias. Sete dias que poderia ter passado ao lado de seus pais e tendo refeições com seus amigos, exatamente como seus colegas do exército provavelmente estariam fazendo. Mas o ator preferiu compartilhar cada um de seus dias com .
Nos dois primeiros dias não saíram do quarto, e a conversa que tiveram se resumiram a palavras sussurradas e gemidos abafados pelo som de seus corpos se chocando. Logo no terceiro dia de férias conversaram mais do que jamais se comunicaram nos quatro meses de relacionamento que tiveram antes de sua partida.
Quando metade do seu período longe da base militar passou, Chang Wook já não tinha mais a animação que o consumia quando pisou fora da base militar. Ele não queria voltar, e sabia que o receio não era apenas o medo do que poderia lhe acontecer nos próximos meses. Começou a pensar como pôde ter ficado cinco meses longe de , e como apenas a sua voz foi o suficiente para lhe acalmar à noite. Vendo-a ali, ao seu lado na cama, após uma conversa a base de toques, línguas e apertos, pensou em como poderia seguir adiante sem olhar para trás.
- No que está pensando?
Chang Wook observava cada detalhe do corpo da garota ao seu lado, cada pinta espalhada por sua barriga, quando foi pego de surpresa. Ele não sabia que ela estava acordada.
- Apenas em como você é linda. – o que, parando para pensar, não era uma mentira.
riu fraco, ainda cansada das brincadeiras da noite anterior. Jogou os braços para cima e esticou as penas, se espreguiçando, não podendo evitar um bocejo. Então sentou-se na cama arrumando a alça do sutiã e tentando colocar os cabelos em ordem.
- E só percebeu isso agora? – ela perguntou em meio a outro bocejo.
- Parece que alguém aqui está cansada. – Chang Wook continuou deitado, a observando de baixo. Não pôde deixar de rir quando a garota rolou os olhos com o comentário.
- Alguém estava muito animado ontem à noite. – ela respondeu.
Ele riu de novo, dessa se deitando de barriga para cima, colocando o braço em baixo da cabeça como apoio.
- Apenas quis compensar o tempo perdido.
riu antes de responder:
- Bom trabalho, soldado! – disse batendo continência. – Mas preciso dizer que todo aquele exercício de ontem à noite me deixou com fome. – fez bico. – Acho que vou pedir alguma coisa para comermos.
Chang Wook levantou-se rápido, impedindo que a garota chegasse ao celular ao lado da cama.
- Está brincando? Você tem seu guarda costas favorito ao seu lado, o que significa que irei suprir todas as suas necessidades. – a frase que havia começo com tom de brincadeira e um fundo de inocência, terminou cheia de segundas intenções. entraria no jogo e lhe diria todas as necessidades que ainda tinha, mas estava realmente com fome.
- Então isso significa que você vai cozinhar para mim?
- Mas é claro que sim! Que tipo de homem eu seria se deixasse minha garota com fome?
O rapaz pulou da cama e não se preocupou em cobrir seu corpo com mais que uma cueca, o que definitivamente não faria reclamar. Ji Chang Wook era uma visão e tanto, especialmente quando apenas de olhá-lo já lhe vinham lembranças tão recentes.
- Vamos?
- Para onde? – ela perguntou sem entender.
- Para a cozinha. Eu disse que cozinharia para você.
- E eu agradeço por isso, mas por que preciso ir com você?
O rapaz demorou alguns segundos para notar o humor na voz de .
- A senhora está me dizendo que além de cozinhar, eu terei que lhe trazer a refeição na cama?
- Na verdade eu não disse nada disso, mas já que você insiste... – e lá estava de volta o sorriso de lado mais esperto que Chang Wook já vira. Mais do que a brincadeira em seus lábios, eram os brilhos em seus olhos que o hipnotizava. O rapaz tinha a sensação de que faria qualquer coisa que ela pedisse, e qualquer coisa que ela não pedisse.
- Seu desejo é uma ordem, senhora. – curvou o corpo em um exagerado cumprimento, e então bateu continência, se dirigindo para a porta do quarto. – Não saia daqui, ouviu? Espere por mim, que estarei preparando a melhor refeição que você irá provar na sua vida.
- Não se preocupe, não vou a lugar nenhum. Vou te esperar o quando for necessário.

ATUALMENTE - MAIO DE 2019

Mas então alguns meses se passaram, e as memórias de quando saíram juntos já não se faziam tão presentes. As ligações noturnas passaram a durar menos tempo, até que Chang Wook passou a não querer ligar para ela com frequência, e as cartas de pararam de chegar.
O clima havia esfriado, e isso não tinha nada a ver com a temperatura das estações do ano. Seu coração já não batia com força ao cair da noite, com a expectativa de poder ouvir sua voz, mas pesava no peito com a certeza de que a possibilidade de não atender suas ligações eram grandes.
Eles já não eram um casal em sintonia, mas um casal distanciado. Ele havia mudado dentro do exército, se tornado mais rígido e racional, um homem com compromissos com relação ao seu país. Suas prioridades tinham mudado porque elas precisavam ser mudadas. , entretanto, continuou do lado de fora, vivendo sua vida sem alterações em sua rotina. As prioridades dela continuavam as mesmas, e a vida dela precisava continuar sendo vivida. Suas necessidades ainda permaneciam e pediam por atenção. E no momento ele não era um homem capaz de suprir suas necessidades.

FLASHBACK - ABRIL DE 2018

atendeu o celular no sexto toque. Pensou em deixar a ligação cair na caixa de mensagens e esperar por uma segunda tentativa de contato por parte de Chang Wook, mas preferiu não arriscar. Ainda não tinham se falado naquela semana, e por mais que ela não sentisse vontade de falar com ele, sabia que precisavam conversar.
Ouvir a voz de Chang Wook, saber de sua rotina, como sua vida estava e contar junto com ele os dias que faltavam para o rapaz sair do exército, nunca tinham sido uma obrigação. A vontade que tinha de conversar com o rapaz era natural, e sempre lhe esquentava o peito e deixavam suas noites mais tranquilas. Mas nos últimos tempos atender suas ligações, ou se preocupar em escrever cartas sem conteúdo, tinham se tornado tarefas árduas.
Manter contato com ele já não era prazeroso, mas um fato que tinha que ser cumprido por alguma razão.
E pensar dessa forma a machucava. Machucava tanto que preferia ignorar suas ligações, ou fingir não notar que ele deixara de ligar dois dias seguidos, simplesmente porque percebia na voz de Chang Wook que ele também não estava satisfeito com o rumo que seu relacionamento estava tomando. Ela não queria enfrentar essa realidade, não queria encarar a verdade, mas precisava. E o momento era aquele.
- Alô?
Chang Wook demorou alguns segundos para responder, e antes de o fazer soltou um suspiro. Não um suspiro de satisfação, mas de pesar, como se conversar com a garota desprendesse grande energia sua.
- Pensei que não fosse atender... – foi o que ele respondeu. E então foi a vez da garota de demorar alguns segundos para pensar na resposta.
- Pensei que não fosse ligar.
E então o silêncio perdurou mais que apenas alguns segundos. O peso do silêncio era tão incômodo, que foi quem o quebrou.
- Como estão as coisas? Seus dias estão sendo muito corridos?
Chang Wook agradeceu por um tópico de conversa sobre o qual ele poderia falar sem se sentir culpado.
- Você sabe, nossos dias são cheios de tarefas, estamos sempre ocupados com alguma coisa. Mal vejo a hora da noite chagar para poder finalmente não fazer nada.
- É por isso que não ligou nos últimos dias? – a pergunta saiu sem que ela percebesse. No fundo ela sabia que havia mais que pesar em sua voz, havia acidez, uma vontade de lhe jogar na cara que ele não estava cumprindo com o prometido.
- Sim, foi por isso. – ele respondeu, seu tom de voz frio e não doce como costumava ser durante suas conversas. – Imagino que seus dias não estejam sendo fáceis também, já que não atendeu minhas ligações na semana passada.
E foi a vez dela sentir a acidez no seu tom de voz.
- A faculdade e o estágio estão realmente consumindo meu tempo. – mas ela sabia que, apesar de ser verdade que grande parte das suas horas eram gastas com trabalhos e estudos, esse não era o verdadeiro motivo para ter escolhido não conversar com Chang Wook.
se lembrava das primeiras semanas do rapaz no exército, e de como ele dizia ansiar pela chegada das noites, pois com elas ele sabia que poderia finalmente conversar com , e este era um momento que ambos esperavam o dia todo.
- Você deve estar exausto... Deveria descansar. – ela disse, quebrando o silêncio na linha, silêncio este que ela acreditava que lhe deixaria surda a qualquer momento.
- Estou bem. – ele respondeu. E após mais alguns instantes de silêncio, continuou – Por um momento durante o dia me peguei tentando lembrar o som da sua voz. Isso me deixou desesperado, para falar a verdade.
E o calor no peito, o mesmo que fazia dias, semanas, que não sentia, voltou com força. Ela sentiu os olhos lacrimejarem, e apertou os braços em volta do próprio corpo, imaginando serem os braços de Chang Wook a apertando.
A saudade voltou, e o peito esquentou.
- Estou com saudades, Wook... Está sendo mais difícil do que jamais imaginei que seria.
E no momento que disse aquelas palavras, se arrependeu. A sua voz ficou embargada, mas não se permitiu chorar, não mais.
- Eu sei... Desculpe por isso.
- Você não tem que se desculpar, Wook. Essa situação não é culpa sua. – ela respondeu o que sabia ser verdade, ainda que em seu interior o culpasse pelas noites mal dormidas, pelo desespero que sentia a cada notícia urgente que aparecia na televisão, temendo que uma guerra tivesse sido declarada entre as Coréias.
Mais do que isso, ela o culpava por ter recusado convites para ir a bares com seus amigos, e dançar em festas com suas amigas. Não porque Chang Wook o proibia de algo, até porque nenhum rapaz tinha o direito de dar palpites em decisões sobre sua vida que só cabiam a ela mesma tomar. Mas simplesmente porque se sentia culpada por estar curtindo uma vida compatível com sua idade, vivendo junto aos amigos, sem preocupações e grandes responsabilidades. Estar vivendo uma vida normal, como ela bem escolheu, enquanto ele dedicava anos de sua vida ao seu país, sem nem mesmo ter tido direito a escolha.
também sabia que não adiantava falar sobre isso com Chang Wook. A maioria dos rapazes coreanos se sentia honrada em poder servir ao exército de seu pais. Apesar do medo que sempre lhes acometia, poder ser parte das forças que protegiam a Coréia do Sul era sim uma honra, e os homens sul-coreanos sempre souberam, desde seu nascimento, que este dia chegaria.
- Eu sei que não é, mas ainda assim...
- Eu conheci uma pessoa. – disse num ímpeto. As palavras lhe escaparam dos lábios, e ela nem mesmo pôde esperar que o rapaz terminasse sua frase que, provavelmente, seria mais um pedido de desculpas.
As desculpas tinham se tonado frequentes nas últimas conversas que tiveram. Pedidos de desculpas pela hora ligada, pedidos de desculpas pela demora em atender, pedidos de desculpas pela falta de assunto, pelo cansaço, pela distância... Ela estava cansada de desculpas. Estava cansada de viver dessa forma.
E aquelas palavras estavam presas em seus lábios desde que atendera a ligação, e presas em seu coração desde o momento que conversou pela primeira vez com seu mais novo colega de faculdade.
Ela precisava colocar aquilo para fora, e mais do que isso, precisava se segurar pra ela mesma não pedir desculpas. Estava cansada de desculpas.
- Quem... Quem é ele?
A reação de Chang Wook não foi exatamente a que esperava, mas precisou admitir que agradecia pela forma como ele a respondeu.
- Ele é novo na faculdade... Estou o ajudando em algumas matérias... Nos encontramos algumas vezes na biblioteca... E tomamos um café, mas estávamos estudando também... Tomando café e estudando... E então ele me chamou...
- Você deveria sair com ele, .
E aquilo foi como se uma tempestade particular caísse sobre a cabeça de . Ela não sabia que reação esperava de Chang Wook, mas aquelas palavras a pegaram de surpresa. E apesar de serem as palavras que ela deveria querer ouvir, o que sentiu não foi o que deveria sentir.
Mas que inferno, é claro que ela deveria sair com ele! Seu colega de faculdade estava ao seu lado todos os dias, e ela poderia ligar para ele a qualquer momento. Eles podiam conversar sobre qualquer coisa, e em qualquer lugar. Podiam tomar um café em dias chuvosos, e sair para andar no parque em dias ensolarados.
Seu colega de faculdade não estava arriscando sua vida dia após dia, enquanto treinava para ser parte do exército sul-coreano. não precisava se preocupar com sua segurança, nem se preocupar que uma guerra fosse declarada pela Coreia do Norte e tivesse que ver seu colega de faculdade no fronte de batalha.
não precisava se sentir culpada por escolher sair com suas amigas, por escolher beber à noite, por escolher viver sua vida como bem decidisse, porque seu colega de faculdade também podia fazê-lo, conforme sua vontade.
Ela não se sentia presa a ele. Também não sentia que devia alguma coisa a ele. Não tinha a obrigação de conversarem sobre determinados assuntos, porque outros eram muito dolorosos. E mais do que isso, não precisaria esperar mais um ano para vê-lo novamente.
- Você não precisa se sentir culpada.
- Eu sei que não. Sei que culpa é o último sentimento que deveria sentir no momento, mas não consigo evitar. Eu fiz uma promessa, e não acho que poderei cumpri-la.
E então as lágrimas começaram a cair, e sua voz já estava mais clara. Seus pensamentos estavam bagunçados, e seu coração tinha uma mistura de pesar e arrependimento. Queria nunca ter dito aquilo... Nunca ter dito que o esperaria. Apesar de ser sua vontade, do fundo do coração, ela não poderia viver dois anos da sua vida à espera de um homem que ela não sabia como voltaria.
- Nós dois sabemos que você apenas prometeu estar ao meu lado quando eu saísse. Nunca houve uma promessa de espera, especialmente uma espera de vinte e um meses. E eu nem mesmo poderia pedir isso a você.
É claro que ele queria que o esperasse. Mas ao mesmo tempo que lhe reconfortava saber que alguém do lado de fora contava os dias, junto com ele, de sua saída, a ideia de ver sua vida passando diante de seus olhos sem poder viver cada um dos momentos com a máxima intensidade, o machucava.
Ele não poderia ser egoísta a ponto de pedir para que ela o esperasse, por mais que esse fosse um desejo do fundo do seu coração. Então tudo o que ele podia faze agora era deixa-la ir sem culpa, sem arrependimentos, sem o sentimento de dever para com ele. Porque ela não devia nada para ele.
Chang Wook ainda podia ouvir chorando do outro lado da linha quando ela falou novamente.
- Desde o nosso primeiro encontro, Wook, eu senti uma coisa diferente. Meu coração batia rápido, minhas mãos formigavam, e eu ao final de cada encontro eu só conseguia pensar em quantas horas faltavam para nos vermos de novo.
E foi a vez do soldado segurar-se para não chorar, para não colocar os sentimentos que estavam presos em seu peito para fora e tornar o restante de seu período no exército pior do que já estava. Ele precisava manter-se firme e centrado, e se dedicar ao que tinha ido fazer ali. Se preocupar com quem estava do lado de fora o desviava do seu real objetivo.
- As vezes em que estive com esse colega... Eu não senti nada disso, Wook. – ela admitiu, e Chang Wook mordeu o lábio para não deixar o choro preso escapar. - Mas não posso garantir que meus sentimentos não vão mudar ao longo do tempo.
E aquilo doeu mais em Chang Wook do que se ele tivesse levado um tiro bem no meio do peito. Doeu porque ele sabia que era verdade. Muita coisa poderia mudar. Muita coisa já havia mudado, e ele não estava ao lado dela em nenhuma dessas mudanças.
precisava de alguém que a apoiasse, precisava de um companheiro. Ele sabia que ela era o tipo de mulher independente que corria atrás do que queria, e precisava de alguém para comemorar suas vitórias junto a ela. E Ji Chang Wook não estava sendo esta pessoa há muito tempo, e continuaria não sendo pelo próximo ano.

ATUALMENTE - MAIO DE 2019

Vinte e um meses parecia tempo demais, uma infinidade de dias, quando Chang Wook tinha apenas a expectativa de ir para o exército. Mas agora, olhando para trás, mal podia acreditar que todo esse tempo já havia passado. Seus dias foram preenchidos com tantas atividades e trabalhos braçais que nem via as horas passarem. Os dias passaram voando, e os meses correram. Quando se deu conta, faltavam poucos dias para ir embora. Quando voltou para o alojamento naquela noite, se deu conta de que aquela seria sua última noite dividindo o quarto com alguém.
- Ei, Ji Chang Wook, vamos logo com isso! Precisamos terminar de arrumar as malas ainda hoje! – Lee Jin, um de seus colegas do exército, gritou, mesmo que estivessem a poucos metros distância.
O rapaz, entretanto, não se importou com o aviso, apenas continuou olhando para a foto que tinha em mãos, e para o bilhete que havia chego junto no envelope. As últimas noites se resumiam a ele encarando as pessoas na foto, e lendo e relendo as palavras escritas na carta.
sorria quando foto foi tirada. Chang Wook estava do seu lado, igualmente sorrindo. A verdade é que ele não se lembrava daquela foto, em especial. Mesmo sendo tantos os momentos que vivera com em tão curto período, o rapaz lembrava-se de cada um deles.
No bilhete em suas mãos, as poucas palavras brilhavam como se tivessem sido escritas com tinta neon. Ou talvez fosse apenas seu cérebro que estivesse enxergando o brilho naquelas palavras.
Mal vejo a hora de poder reencontrá-lo. Se ainda quiser me ver, estarei sempre te esperando.
Uma foto e um bilhete. Foi isso que recebeu há dez dias. Desde então não tinha mais tido noites tranquilas, pois todas elas eram preenchidas com sonhos românticos, cheios de abraços, beijos e palavras sussurradas no ouvido.
Chang Wook nunca deixou de pensar em , mas desde o dia em que terminaram, seus dias no exército sul-coreano tinham ficado mais fáceis de lidar. Trabalhou com mais concentração, e se dedicou com mais fervor, pois sabia que sua única preocupação era o seu país, e que só precisaria lidar com as questões do lado de fora quando saísse lá de dentro. E bem, esse dia tinha chego.

--

Do lado de fora do batalhão, seus fãs se aglomeravam para dar-lhe as boas vindas e comemorar junto a ele sua volta. Os jornalistas tropeçavam uns nos outros tentando conseguir uma boa foto do ator Ji Chang Wook, enquanto este apenas queria ir embora para casa.
Apesar da ansiedade para se ver longe dali, Chang Wook sorriu para seus fãs, os cumprimentou e posou para as câmeras. Ele ainda vestia seu uniforme do exército, e sabia que aquelas fotos estariam na primeira página de muitas revistas e sites de notícias no dia seguinte.
Sua família o esperava no carro que o levaria para casa. Apesar da insistência de sua mãe em passar a noite com ele, tudo o que o rapaz queria era paz. Era poder voltar para sua própria casa, dormir em sua própria cama, e pedir por sua própria comida. Mais do que isso, Chang Wook não via a hora de chegar e em casa e encontrar quem o esperava. Se é que ela de fato o estava esperando.
Era o que dizia em seu bilhete, ele pensou. Mas isso não significa que ela estará, literalmente, te esperando na sua casa, continuou pensando sozinho, ao mesmo tempo em que se culpava por não responder às perguntas de sua mãe. Entendia sua saudade, seu entusiasmo em finalmente ver o filho de novo, mas seus pensamentos estavam em outro lugar, em outra pessoa.
Quando chegou em casa, ainda do lado de fora, pôde ver as luzes de dentro apagadas. Censurou-se internamente por ter tido os pensamentos de mais cedo e ter criado esperanças falsas.
Mas quando abriu a porta, um par de sapatos femininos repousava ao lado da entrada, próximo de onde ele deixou o seu. Chang Wook tentou puxar na memória se aqueles sapatos ficaram ali desde quando ele fora para o exército, talvez tivesse os esquecido, mas não se lembrou.
Acendeu as luzes e deixou a mala ainda na entrada. Não se preocuparia em guardar suas roupas agora, tudo o que ele queria no momento era um banho demorado em seu próprio chuveiro, sem precisar cronometrar o tempo, ou racionar o shampoo e a água.
Quando chegou no corredor que levava ao quarto, entretanto, viu uma luz vindo de baixo da porta. Também ouviu uma música vindo de dentro do quarto. E ao abrir a porta, encontrou a imagem mais linda que ele jamais poderia ter sonhado em ver.
estava ali, sentada sobre sua cama, em volta de pétalas de rosas. Velas estavam espalhadas pelo quarto, e era o cheiro de rosas que predominava o ambiente. Bem, não apenas o cheiro de rosas, mas principalmente o perfume de , o melhor que Ji Chang Wook já havia sentido em sua vida.
- Eu disse que iria te esperar o tempo que fosse preciso. – ela disse, e ele pensou que nunca mais poderia ficar sem ouvir sua voz doce.
E Chang Wook soube que sua história com nunca teve realmente um fim, mas apenas uma pausa. E que essa pausa tinha acabado naquele momento.




Fim



Nota da autora: OI, GENTE <3
Quando vi o projeto Nós Existimos, quase surtei, simplesmente porque queria poder participar de todas as categorias (mesmo não tendo feito isso Então, pra quem conhece e ator, espero que tenham gostado! E pra quem não conhece, espero que tenham gostado também! (aliás, recomendo conhece-lo, bem como conhecer alguns de seus trabalhos na televisão e no cinema).
Beijos de luz
Angel

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Run & Run
Welcome to a new world

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Tempo Certo

Ficstapes:

06. Every Road
10. What If I


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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