Finalizada em: 07/03/2016
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Capítulo Único

- Não se preocupe, vovó, o apartamento é aqui perto...
Já era a terceira vez que null tentava convencer a avó de que não precisaria gastar dinheiro com táxi. Não que estivesse tendo muito sucesso.
Desde que se mudara para Nova Jersey e passou a morar sozinha, sua mãe e sua avó ligavam quase diariamente. Isso sem falar das chamadas por Skype que tinha com a irmã de finais de semana. Isso já acontecia há três meses. Três meses que havia se tornado uma universitária, estudante de Literatura e senhora do próprio nariz.
- Mas já está tarde, null... Não quero você andando pela rua sozinha à noite...
- Vó... – suspirou. Já estava pronta para dar outra desculpa quando começou a chover. Ela, junto com mais todos os outros alunos que estavam espalhados pelo campus, correram para a parte coberta para se proteger e esconder os muitos livros que carregava. – Vovó... Acho que serei obrigada a chamar um táxi mesmo. Aposto que a senhora jogou uma praga ferrada para que eu não voltasse a pé pra casa – brincou. – Começou a cair o mundo aqui, assim, do nada.
A avó riu e se despediu com um beijo e com promessas de que continuaria a jogar pragas na neta se ela não a obedecesse de primeira da próxima vez.
null abiu a carteira para contar o dinheiro que tinha. Não havia muito, mas ela tinha uma reserva no banco de um dinheiro que conseguira juntar durante as férias, antes de ir para a faculdade. Lembrar-se de como conseguira aquele dinheiro lhe trazia boas memórias.
Tudo começou com uma conversa sobre bundas, numa tarde em que null passara na casa da avó logo que entrou de férias:
- Essa torta de maçã é a melhor coisa que eu já comi...
- Não fale de boca cheia, null. É falta de educação – a avó repreendeu.
- Desculpa – ela engoliu. – Mas isso está mesmo muito bom.
Senhora Bella concordou com um aceno de cabeça enquanto também comia a sua torta.
- O único problema é a bunda enorme que eu vou ganhar se continuar comendo desse jeito.
- Eu gosto de bundas grandes – a avó comentou rindo.
- Eu também. Mas a minha já é grande, o que significa que eu teria uma bunda super grande, e eu não quero uma bunda super grande, porque com uma bunda super grande eu não caberia mais nas minhas calças e estou economizando para quando for para a faculdade.
- Então eu sugiro que você não coma mais torta – a avó piscou.
- Sério? – null fez cara de sofrida. – Tudo bem, a partir de amanhã vou começar a correr. Todas as manhãs, eu prometo. Posso comer mais, agora?
A avó riu concordando enquanto cortava outro pedaço para a neta e voltava para sua revista de bordados.
- E então, já se decidiu para onde vai no próximo semestre? – a avó perguntou enquanto fazia seus bordados.
- Como não recebi nenhuma carta das faculdades que mostrei interesse, ainda não sei. Mas você sabe, vovó... Quero ir para Princeton.
Estudar em Princeton sempre tinha sido o sonho de null. Estudar Literatura em Princeton tornara-se seu objetivo no segundo ano do segundo grau ao fazer um trabalho sobre os grandes nomes da literatura norte-americana e descobrir que queria estudar cada um deles com profundidade, além de não querer sair do mundo dos livros nunca mais.
- Por que você não arruma um trabalho? Assim você ocuparia sua cabeça, e ainda poderia guardar um dinheiro para a faculdade. Eu sei que ficar aqui todas as tardes não tem sido o melhor dos programas de entretenimento para você. – Fez uma pausa. – Até porque você é péssima com bordados.
null fez cara de indignada. Tudo bem, ela podia não ser a melhor bordadeira do mundo, provavelmente não ganharia nenhum prêmio por melhor desenho bordado num pano de prato, nem nada do tipo, mas ela não era tão ruim assim.
Olhou para os furos que fizera com a agulha nos dedos e resolveu deixa o assunto quieto. Não iria contrariar a avó.
null normalmente ficava parte de suas tardes na casa da avó, comia algum doce absurdamente calórico e delicioso que lhe causava algumas espinhas, bebia uma xícara de chá – nos dias frios – e depois saia para fazer alguma coisa com sua melhor amiga, null. Na verdade, melhor e única amiga. null não era muito boa com amizades, mas não se importava muito com isso. Ela tinha alguns colegas, mas não passavam disso. Nada de telefonemas do tipo “ai-meus-deuses você viu o novo filme do Chris Evans?” ou “vamos assistir o treino do futebol masculino? No final do treino os garotos tiram a camisa!”, nem mesmo “caramba, você viu a foto que o noivo da minha irmã postou no Facebook dele? Como aquele nariz coube na foto?”.
Mas na última semana ela passara todas as suas tardes com a avó, pois sua melhor – e única – amiga estava viajando. Ela gostava de ficar com a avó, gostava mesmo. Era muito divertido ajuda-la a cozinhar e depois pode comer – essa era a melhor parte. Mas ela já estava ficando entediada sem ter nada para fazer a não ser furar seus dedos e se frustrar a cada flor bordada que mais parecia... Bem, qualquer coisa, menos uma flor.
Pelo menos sua irmã chegaria no próximo fim de semana. Não que ela fosse receber muita atenção, já que Anne estaria organizando seu casamento e a única atenção que daria para null seria nos momentos de usá-la como ajudante com os preparativos.
- Sério? Não tinha pensado nisso. – E não tinha mesmo. null nunca tinha trabalhado, afinal, algumas revisões de redações em trabalhos escolares não podiam ser consideradas um trabalho, mesmo que ela tenha recebido por isso.
- Tem um garotinho que eu conheço do parque em que frequento, Oliver, ele é uma graça, um amor de menino. O pai viaja praticamente a semana toda, a mãe é médica e fica o dia todo no hospital e o irmão estuda longe. O garoto costuma ficar na escola o dia todo, mas a mãe está procurando alguém para ficar com ele durante as férias escolares. – A avó disse. – Você poderia cuidar dele, não deve ser muito difícil.
- É, não deve mesmo – ela comentou. Mas não pôde deixar de pensar na bagunça que estava o seu quarto e no quão desarrumado estava seu guarda-roupa. Qualquer dia desses ela entraria no guarda-roupa e sairia em Nárnia. Se não conseguia dar conta nem de sua própria bagunça, como lidaria com a bagunça de outra pessoa? – Quer saber? Vou pensar no assunto.
- Pense mesmo, é uma ótima oportunidade. Se tomar uma decisão me fale, eu sempre me encontro com ele nos dias da minha ginástica.
Ah, claro, null pensou. Até mesmo sua avó tinha compromisso às segundas, quartas e sextas à tarde: a ginástica coletiva oferecida no parque ali perto. Nesses dias ela ficava em casa lendo algum livro enquanto sua avó de 72 anos tinha compromissos com suas amigas de setenta e poucos anos e ela, uma garota de quase dezenove, não tinha nada para fazer.
Ao prometer que pensaria com carinho na proposta, null se despediu da avó com um beijo no rosto e um potinho com torta em uma das mãos. Ela teria que jantar alguma coisa naquela noite.
A caminho de casa – ela morava ali pertinho – seu celular tocou. Normalmente ela não aceitaria uma ligação de um número desconhecido, mas já era a terceira vez que aquele número ligava para ela aquele dia, então decidiu atender.
- null? É seu pai.
Ela parou de andar abruptamente e, em resposta, recebeu alguns xingamentos de um cara que passava por ela de bicicleta e que teve que se desviar para não causar um acidente nada bonito.
- Pai?
- E aí, null. Como vai?
Ela não respondeu. Como poderia? Fazia semanas desde que falara com o pai, meses até.
- O que aconteceu? – Ela perguntou.
Porque alguma coisa deve ter acontecido para ele entrar em contato com ela assim, do nada. Seu pai não era um exemplo de pessoa e estava longe de receber o prêmio de melhor pai do ano, além de não fazer questão de dar notícias. A não ser, é claro, quando alguma coisa acontecia e ele precisava de ajuda.
- null, querida, eu só queria saber...
- Corta essa, pai. Eu sei que você tá precisando de alguma coisa. Você sempre está – sussurrou a última parte.
Do outro lado da linha o pai suspirou antes de falar:
- Bem, você está certa, null. Eu estou em apuros e preciso da sua ajuda.
Da ultima vez que ele ligara para null dizendo que precisava de ajuda ela gastou todas as economias que juntara trabalhando com as revisões de texto. Dessa vez parecia que não seria muito diferente, tirando o fato de que ela não tinha economias para dar ao pai.
Novamente ele estava precisando de dinheiro e novamente era para um assunto “urgente”. Novamente ele tinha a desculpa de o mercado de trabalho ser muito concorrido e ele não ter um trabalho. De novo. Porque ele já teve vários trabalhos, mas era sempre demitido ou se demitia poucos meses depois.
- Olha, pai... Sinto muito, mas eu não tenho dinheiro algum. Você sabe que eu não trabalho...
- Pois é, eu sei, querida, mas eu apenas imaginei... Bem, que talvez você tivesse algum guardado pra ajudar o seu velho. Quer saber? Não tem problema, eu me viro.
E foi isso. A conversa terminou assim. Sem um “até mais”, ou um “estou com saudades”. Nada. Mas null não esperava nada mais do que teve, afinal, era o seu pai.

No dia seguinte ela colocou uma roupa leve, pegou os óculos escuros, sua bolsa e foi para o parque encontrar sua avó. Era dia de ginástica comunitária e as velhinhas do bairro se encontravam lá para fazer exercícios com o “professor bonitão” – que era como sua avó o chamava.
Algumas horas mais cedo dona Bella, a avó de null, tinha ligado para convidá-la a se juntar a ela e às suas amigas da terceira idade naquela tarde.
null não participaria da aula com o professor bonitão, mas ficaria sentada no parque assistindo à senhoras de setenta e poucos anos se alongarem, crianças brincando e cachorros correndo atrás de bolinhas. Não seria tão ruim. Seria melhor do que ficar em casa lendo um livro. No parque ela também leria, mas pelo menos teria o tiozinho do sorvete ali por perto, o que já animava um pouco sua tarde.
- null! Aqui! null!
- Vovó, eu ouvi à senhora da primeira vez – riu. A avó estava gritando por ela desde antes de null atravessar a rua.
- null, venha cá, quero lhe apresentar ao Oliver. Oliver – disse se dirigindo ao garotinho do seu lado – essa é minha neta, null.
- E aí.
- Oi, Oliver. Beleza?
- Beleza. Dona Bella, vou ali com a senhora Suzi ver se ela me compra um sorvete, tudo bem? Até mais.
- Tchau, meu querido. Vai lá, vai lá – a avó abanou a mão para ele. – Ah, uma gracinha não é?
null concordou com a cabeça. Oliver parecia mesmo ser fofinho, e ele gostava de sorvete, o que significava que poderiam ser bons amigos num futuro caso ela aceitasse cuidar dele. Mas isso ela não disse em voz alta, afinal, nem tinha pensado direito sobre o assunto ainda.
Ela ficou lá com a avó até o professor bonitão chegar e reunir todas as alunas num mesmo espaço para a aula de ginástica. Ele não era tão bonitão assim, mas null imaginou que para senhoras de mais de setenta anos, ver uma bunda daquelas três dias por semana não era qualquer coisa. Quer dizer, deveria ser proibido o cara ter uma bunda daquelas. Até mesmo null ficou reparando por uns bons dez ou quinze (no máximo vinte) minutos.
De longe viu Oliver brincando com um cachorro labrador dourado. Bonito, muito bonito. null sempre havia gostado de cachorros grandes, mas sua mãe e irmã não, então nunca teve um. Mas ela tinha uma Shih Tzu muito fofa que acabava tendo um quinto do tamanho daquele labrador que estava com Oliver.
O tempo que ficara no parque passou bem rápido, principalmente porque null encontrou o tiozinho do sorvete e passou aquela uma hora da ginástica, lendo. No final, enquanto sua avó e as amigas se despediam do professor bonitão e ficaram colocando as fofocas em dia – que null só pôde imaginar se tratarem dos novos bordados que fizeram, ou então, sobre o que aconteceu no último capítulo da novela. Quer dizer, o que elas poderiam ter para falar? – ela recebeu uma ligação da irmã avisando a que horas chegaria e um pedido para que null já estivesse pronta para saírem em seguida o que, vindo de Anne, não era um simples pedido, mas uma intimação.
- Iremos fazer degustação no sábado e durante a semana, e como você está de férias, poderá me acompanhar em todos, já que mamãe trabalha todos os dias.
A mãe delas trabalhava numa empresa de publicidade e ela e sua equipe tinham um grande projeto para entregar em duas semanas, por isso acabava fazendo hora extra todos os dias. Não que recebesse por esse tempo extra.
- Claro, vai ser ótimo. – Menos a parte da bunda gigante, null pensou, que terá depois de algumas semanas comendo de graça os diferentes pratos e docinhos para a festa de casamento. Mas ela não estava em posição de reclamar, afinal, não teria nada mais divertido para fazer nas férias mesmo.
- Ei, Anne... – null falou enquanto ainda estavam se falando pelo celular – Tem tido notícias do papai?
- Não, null. Você sabe que ele nunca dá notícias.
O clima da conversa tinha mudado de entusiasmado para pesado. Mas null precisava saber.
- É só que... Bom, da última vez que ele entrou em contato comigo ele estava passando por problemas financeiros e... sei lá... você não acha que...
- null, ele ligou pra você pedindo dinheiro de novo?
- O quê? Não, não é isso. – null começou a se arrepender de ter puxado o assunto, mas ela só queria saber se ele tinha entrado em contato com Anne também. Poxa, ela era filha dele também. – É só que...
- Não minta pra mim, null. Você nunca soube mentir. – A irmã suspirou do outro lado. – null, seja lá o que ele tenha dito, é mentira. Você sabe que ele já teve muitos empregos e só não se manteve por culpa dele mesmo.
- Eu sei, mas...
- Mas nada, null. Ele não gosta de trabalhar, vive às custas dos outros e da última vez que ligou pra você, você gastou todas as suas economias com ele pra depois descobrirmos que era para pagar dívida de jogo. Ah, sim, e como poderia esquecer? E também para viajar com a nova mulher dele.
null não disse nada. Desejou não ter tocado no assunto, pois agora o sorvete que tomara não parecia mais tão gostoso.
- null, não dê nada a ele. Ele não merece isso e com certeza não precisa também. Ele só quer tirar proveito de você.
Há muito tempo Anne não chamada mais o pai de “pai”. Talvez porque fosse mais velha quando ele as deixou para ficar com outra mulher – ou outras mulheres – e tenha sofrido mais, principalmente porque na época null não era muito observadora. Tinha apenas seis anos, enquanto Anne tinha doze, e provavelmente teve que lidar com o sofrimento da mãe mais do que ela que, apesar de ter ficado muito triste com a partida do pai, ficava mais ou menos bem quando seu desenho favorito começava e esquecia todo aquele drama familiar por algumas horas.
- Tudo bem, Anne. – disse. Depois disso pensou em algum assunto para quebrar aquele climão, mas não precisou: a avó já estava voltando e por isso teve que desligar.
- Iria me despedir de Oliver, mas acho que ele já foi embora – a avó lamentou.
- Puxa, vovó, que pena.
- Ah, não tem problema. Segunda eu vejo ele de novo. Vamos?
- Claro.
A caminho da casa de dona Bella, que era a um quarteirão dali, null perguntou quem era senhora Suzi que Oliver mencionara.
- É sua babá, mas ela vai se mudar semana que vem e a mãe dele está procurando por outra, como eu disse. Você devia pensar sobre isso – disse de novo. – Até porque é só enquanto ele está de férias da escola – concluiu.
null balançou com a cabeça, mas ainda não tinha certeza se era isso que queria fazer, mesmo que por apenas algumas semanas. Decidiu que pensaria nisso durante o fim de semana, enquanto enchia a barriga de doces, salgadinhos e vinhos – é, porque sua irmã tinha marcado uma degustação de vinhos para quinta feira e ela com certeza estaria lá pra ajuda-la nessa difícil tarefa, como uma boa irmã faria.

- Tudo bem, então o que você acha?
null achava que teria que trabalhar como babá em turno dobrado para conseguir dinheiro suficiente para uma boa academia depois daquelas semanas de degustação, mas não disse isso à irmã. Em vez disso disse:
- Uau.
- Então sim aos docinhos tradicionais?
- Com certeza!
- E sim para todos os outros que experimentamos?
- Nossa, sim!
- Tudo bem, mas não posso pedir todos eles, null. Não tenho tanto dinheiro assim.
null fez cara triste. Nada de brigadeiro de cereja, então?
- Mas aquele brigadeiro de cereja com certeza estará no casamento se eu fechar com essa empresa – a irmã comentou, o que já fez null se sentir mais feliz, mesmo que o dia estivesse úmido por conta da chuva na noite anterior, e o seu cabelo estivesse pior do que quando dormia com ele molhado e acordava no dia seguinte.
- Então, próxima parada? – Perguntou já pensando no que comeria em seguida mesmo que já estivesse cheia.
- Para casa. Preciso mandar alguns e-mails, falar com Lucian, comer alguma coisa saudável e depois iremos comprar algumas revistas de noivas.
- Beleza. – Mas não estava beleza, porque null queria conhecer aquela empresa de doces famosa, a de nome difícil e que ela nunca conseguia se lembrar, que era tão cara que nem trabalhando como babá a vida inteira ela conseguiria comprar lá. Mas a irmã tinha marcado um horário com eles e null estava ansiosa. Mas escolher revistas seria legal também.
Ao chegarem em casa a mãe as esperava na sala com uma carta nas mãos.
- É para você, null. De Princeton.
Por vários anos null pensou nesse momento: o momento em que receberia sua aprovação – ou a rejeição – na faculdade dos seus sonhos. E o momento finalmente havia chego.
- E então? – a mãe perguntou ansiosa.
- Bem... – null disse depois de abrir a carta – Acho que terei que fazer um bico como babá por um tempo para poder pagar os xerox da faculdade.

- null, pare de balançar as penas, que coisa! – a avó ralhou.
- Desculpe – disse baixinho.
null estava com a avó na casa de Oliver, o garotinho que conhecera outro dia no parque. Estavam esperando a mãe dele descer para conhecer null que, após ter sido aceita em Princeton, decidiu que trabalhar por algumas semanas como babá não seria uma má ideia. Oliver estava no banho, após ter chego de uma partida de beisebol no clube em que tinha aulas ali perto e sua mãe tinha acabado de chegar do trabalho.
- Desculpem a demora para descer, estava trocando de roupa.
A mulher que descia as escadas era alta e bem bonita. Parecia mais uma apresentadora de televisão do que médica, na opinião de null, mas, afinal, o que ela sabia sobre estilo?
- Então você é a null? Muito prazer, sou Maria – apertou a mão de null. A doutora Maria já conhecia dona Bella e havia ouvido falar de sua neta. – null, você tem alguma experiência com crianças?
- Na verdade não, doutora Maria, mas... Mas eu tenho bastante paciência e gosto muito de crianças. Conheci Oliver no parque esses dias e ele parece ser um garoto muito bonzinho.
Ela se obrigou a parar de falar. Claro que null não tinha experiência com crianças, nunca tinha passado muito tempo com uma. Apesar de ter sido meio óbvio que aquela pergunta seria feita, ela foi pega de surpresa e começou a falar sem parar na tentativa de se mostrar uma boa escolha para o emprego. Dizer que ela era paciente poderia ser considerado a mentira do ano por parte dela. E ela tinha dito “oi” a Oliver, como poderia saber se ele era bonzinho ou não?
- Ah, sim. Oliver é um amor de criança. – A doutora Maria disse – Mas veja bem, null, o emprego seria por um pequeno período, só enquanto ele está de férias, já que suas aulas serão em período integral no próximo semestre.
- Isso seria perfeito, já que estarei indo para a faculdade no próximo semestre também.
- Oh, é mesmo? Para qual faculdade?
- Princeton – disse com orgulho.
- Mas que maravilha! Meus parabéns. Meu filho mais velho também estuda lá.
- Ah, legal. – null não sabia o que dizer, mas soube que “legal” não foi a coisa mais legal a ser dita.
- Ah, sim. Oliver, desça aqui, querido.
null não tinha reparado que Oliver estava no topo da escada. Depois de ouvir a mãe, ele desceu de vagar, olhando null como se dissesse “eu sei o que você está fazendo aqui e não irei facilitar pra você”. Mas ela preferiu pensar que ele só estava olhando-a como se a reconhecesse do parque.
- Oliver, esta é null. Ela veio se oferecer para cuidar de você nas férias já que a senhora Suzi vai se mudar. O que você acha?
- Legal.
- Oi, Oliver. Lembra-se de mim? Nos conhecemos no parque outro dia – null tentou ser simpática, mas Oliver não deu sinais de estar compartilhando dessa simpatia. Ou estava apenas com sono. Ela torcia muito para que fosse a última hipótese.
- Lembro sim, você é a neta da senhora Bella. Oi, senhora Bella – ele deu um sorriso e um abraço na avó de null. – Mãe, vou dormir. Estou morrendo de sono.
- Tudo bem, mas coma alguma coisa antes, certo?
Ele concordou com a cabeça e sumiu para dentro da cozinha, mas não sem antes dar outro abraço de urso em senhora Bella, um beijo na mãe e lançar outro olhar indecifrável a null. Pelo menos ele deu um sorrisinho forçado e levantou a mão num “tchau” desanimado.
No final, null era uma garota com um emprego de férias. Não estava muito animada com a ideia de cuidar de uma criança que nem mesmo conhecia, mas pensava no dinheiro que juntaria para a faculdade e, no fundo, pensava no pai também. Mesmo que a irmã tenha a alertado para não cair na do pai outra vez, ela não podia evitar. Puxa vida, era seu pai! E por mais babaca que ele fosse, ele estava passando por dificuldades e, se ela podia, iria ajuda-lo.

null começaria no dia seguinte mesmo. Enquanto Oliver se despedia da senhora Suzi, sua ex babá, ela olhava a lista de tarefas de Oliver. Puxa vida, o garoto está de férias, pensou. Mas isso não parecia importar muito para a doutora Maria, que preenchia a agenda do filho com várias atividades para “ele não cair no sedentarismo”, como ela lhe explicara mais cedo. Naquele dia ele teria aulas de tênis. No caminho, null tentou puxar papo com ele, perguntando se gostava do esporte, ou de qualquer outro tipo de esporte, ou se gostava de alguma coisa. De qualquer coisa. A conversa não estava fluindo muito bem para o seu desanimo. - Oi, Oliver – disse um garotinho mais ou menos do mesmo tamanho que Oliver. – Onde está a senhora Suzi? – Perguntou ao ver que era null que carregava a mochila de Oliver e não a pessoa de costume. - Ela se mudou com o novo marido. Essa daí é a nova – Oliver disse simplesmente. “Essa daí é a nova”? null rolou os olhos. Ela sabia qual era a intenção dele: se fazer de difícil para ver até onde ela chegaria. null já esperava por isso. Não estava soltando purpurina de felicidade com o trabalho, mas se o aceitara, iria fazê-lo direito. E para isso precisava da confiança de Oliver. - Ah, sim. Oi! Eu sou James – disse simpático. - Olá, James, meu nome é null. Você é amigo desse daí? – Perguntou. - “Desse daí”? Ei, olha como fala comigo! – Oliver disse indignado. null levantou uma sobrancelha para ele e não disse nada. Entregou-lhe sua mochila ainda calada e o viu ir para a aula de cara emburrada. Ele provavelmente nunca tinha sido desafiado. Ou contrariado, pensou. Depois do jogo, voltando para casa, null percebeu que ele ainda estava emburrado com ela. Ao atravessarem a rua, disse: - Ei, você é mesmo muito bom nesse jogo. Ele não respondeu, mas fez um barulho com a boca como se não concordasse com ela, mas fosse orgulhoso demais para falar alguma coisa. - Não, é sério. Você é o máximo. Muito melhor que o seu amigo James ou qualquer outra criança lá. – Aquilo era mentira. Quer dizer, null não entendia muito do esporte, mas qualquer um podia ver que James tinha mais experiência que Oliver. - Mentirosa – ele resmungou. – Eu sou muito ruim. James é o melhor no grupo. - Bem, ele pode ter acertado mais bolas, mas você é mais determinado dali, o que significa que é o que mais tem probabilidades de melhorar e se tornar o melhor do grupo um dia. Oliver parou e olhou para cima, para null. - Você acha mesmo? - Ah, sim, eu tenho certeza! A partir daí, bastaram mais alguns elogios encorajadores, alguns poucos sorvetes e uma pequena discussão sobre desenhos animados, para Oliver convidar null para assistir a filmes nerds com ele. Naquela tarde, depois de uma sessão de Star Wars, null soube que ela e Oliver já eram amigos. - Muito bem, garotão. Vamos arrumar a sua cama antes que a sua mãe chegue.
Uma semana havia se passado desde que null começara a trabalhar como babá de Oliver. Ela o levava para as aulas de tênis, basebol e teclado nas tardes, e depois lhe comprava um sorvete. O resto do dia eles passavam brincando com os bonecos dele ou assistindo a filmes ou programas sobre animais.
- Ai, que chato – ele bufou. Odiava ter que arrumar o quarto. – Por que a senhora Lucy não pode fazer isso?
A senhora Lucy era a empregada da casa. Ela cuidava da limpeza e da alimentação, mas a doutora Maria queria que Oliver arrumasse o próprio quarto, para “aprender a ser organizado”. null não podia deixar de concordar que era uma atitude bacana.
- Para de ser reclamão e vamos logo com isso. Vamos, eu te ajudo.
Oliver e null ficaram cada um de um lado da cama e, juntos, dobraram a coberta e colocaram a colcha. Depois arrumaram os travesseiros em cima da cama e os bichinhos de pelúcia que ele tinha: um lobo, um sapo e uma gaivota.
- Você acha que isso é coisa de criança? – Ele perguntou quando percebeu que ela estava olhando para os bichinhos.
- Er... – Bem, tecnicamente, ele era uma criança. Mas ela sabia que crianças não gostavam de ser chamadas de crianças (a não ser quando lhes convinha), portanto disse: – Olha, mesmo que seja, o que é que tem? Eu tenho o dobro da sua idade e tenho bichinhos na minha cama também.
- Meu irmão diz que isso é besteira. Que só criancinhas é que têm bichinhos na cama – disse cabisbaixo.
- Bem, o seu irmão é um idiota. Não ligue para o que ele diz. Ter bichinhos de pelúcia é uma coisa muito comum e muito legal. Aposto que quando tinha a sua idade ele tinha vários.
Oliver pareceu ficar mais animado depois da declaração de null. Voltaram juntos para o andar de baixo para assistirem a um desenho que estava passando enquanto esperavam a doutora Maria chegar.
- Ah, null, obrigada por ter ficado até mais tarde hoje. Tive uma emergência no hospital e ainda tive que passar no supermercado para umas compras – a doutora Maria disse enquanto colocava a bolsa e a jaqueta em cima do sofá. – Lucy, pode me ajudar a descarregar o carro?
Lucy concordou com a cabeça e foi para fora buscar as compras. A doutora Maria mexia na bolsa enquanto falava:
- John, meu marido, chega de viagem hoje à noite, ele passou a semana toda num congresso na França – disse suspirando como se o fato de o marido ter passado uma semana toda no exterior fosse uma coisa ruim – E null, meu filho mais velho, chega esse fim de semana para passar as férias. Você sabe, ele está vindo da faculdade.
Ah, claro, como podia esquecer? O filho mais velho da doutora Maria estudava em Princeton, para onde ela, null, estava indo no próximo semestre. Apesar de ser meio introspectiva e não ser muito boa com novas amizades, pensou que seria legal conhecer alguém que estudava no mesmo lugar que ela estaria estudando dali algumas semanas.
- Legal – disse.
- Aqui está o seu pagamento da semana. – Entregou o que estava pegando na bolsa. – Você está fazendo um ótimo trabalho, Oliver parece gostar de você – ela sorriu aliviada olhando o filho que ainda assistia a televisão como se não tivesse mais ninguém na sala. – Pensei que demoraria bem mais para ele se abrir com você, mas vocês parecem estar se dando bem.
null achou melhor deixar os sorvetes diários de fora da conversa que estavam tendo.
Ela sorriu agradecendo, se despediu de Oliver e disse que na segunda chegaria mais cedo para pintarem o livro de colorir que ele tinha.
Ao chegar em casa com o primeiro pagamento em mãos, foi direto para o quarto procurar uma caixinha para guarda-lo. Mas então olhou para o celular e se lembrou da ligação que o pai fizera há alguns dias.
Totalmente em conflito, e nem um pouco confiante da decisão que estava tomando, pegou o celular e ligou para ele.
- Pai? Sou eu, null. Escuta, se você ainda estiver precisando de dinheiro... bem, eu tenho algum aqui que posso lhe emprestar...

- null, onde você estava?
null tinha acabado de fechar a porta quando foi surpreendida pela mãe e pela irmã que estavam na sala olhando pilhas de revistas de noivas.
- Estava... Na locadora – disse. Ela não poderia dizer a verdade. Não podia falar à sua mãe e irmã que estivera a um bar do outro lado da cidade, onde tinha ido encontrar o seu pai para lhe dar o dinheiro que ganhara trabalhando como babá de Oliver. A ideia era dar-lhe o dinheiro como um empréstimo, e ela teria deixado isso bem claro se ele não tivesse dito “Puxa, obrigado, null. Esse dinheiro servirá, mas sabe, não é o suficiente. De qualquer forma, obrigado”. Deu-lhe um beijo na testa e foi embora.
- Ah, tudo bem. Agora venha aqui – a irmã disse empolgada. – Quero te mostrar alguns modelos de vestidos que mamãe e eu separamos.
No domingo de manhã null recebeu uma ligação de Oliver a chamando para assistir uma maratona de Harry Potter que passaria dali alguns instantes. null tentou argumentar que era domingo e que eles só se veriam no dia seguinte (que era quando ela receberia para estar com ele).
- Mas null, é Harry Potter!
Ele só passara a chamar null pelo apelido na sexta à tarde, quando ela estava para ir embora. Ela pensou que não faria mal ficar com Oliver naquele dia e assistir a alguns filmes durante a manhã. Poderia continuar a – tediosa – tarefa de escolher vestidos com a irmã mais tarde – ela preferia muito mais escolher docinhos do que vestidos.
- Tudo bem, daqui a pouco estarei aí.
Quem se importava se ela não receberia para estar com ele aquele dia? Ela não estaria lá como null, a babá, mas sim como null, a amiguinha de dezoito anos que gosta de assistir a filmes com o amiguinho de nove.
A caminho da casa de Oliver conversou com a avó pelo celular. Dona Bella estava se tornando uma mulher da terceira idade moderna e insistia em aprender a usar o celular – mesmo que, na maioria das vezes, desligasse em vez de atender, ou fizesse ligações por acidente.
- Oh, esses telefones em que a gente tem que clicar na tela são horríveis de se mexer – ela dizia. – Mas são tão modernos e divertidos! Instalei um programa com dicas de bordado que é maravilhoso.
- Um aplicativo, vovó. A senhora baixou um aplicativo – null corrigiu a avó rindo.
- Isso também. Ah, eu coloquei aquele jogo de encaixar as pecinhas da mesma cor também. Nossa, que legal!
- É muito legal mesmo, vovó. Escuta, eu tenho que desligar, tudo bem?
- Ah, claro, claro. Sem problemas.
- Tudo bem. Não se esqueça de apertar a palavra “desligar” e de apertar o botãozinho do lado para bloquear a tela do celular antes de guarda-lo. Senão a senhora vai acabar ligando pra mamãe de novo sem querer.
- Ah, essas tecnologias...! – Disse impressionada.
Ao se aproximar da porta da frente null percebeu dois carros a mais na garagem. Um devia ser do pai de Oliver, John, e o outro de seu irmão que null não se lembrava do nome.
Por um momento ficou insegura. Passara toda a semana naquela casa com Oliver, mas era só isso. Só eles dois, mais a senhora Lucy, mas ela não contava muito já que ficava indo de um lado para o outro o tempo todo e não ficava muito tempo na presença deles.
Mas naquele dia ela não estaria sozinha com Oliver. Estaria também com a doutora Maria – que apesar de ser controladora e sistemática era bem bacana – com o doutor John – que null ainda não sabia em que trabalhava, só que era em alguma coisa muito legal que lhe proporcionava viagens para a França – e o irmão de Oliver – que ela ainda não se lembrava do nome, mas sabia que estudava na mesma faculdade que ela estaria em algumas semanas.
Antes que ela pensasse em mais alguma coisa ou tomasse uma atitude – tocar a campainha ou sair dali e ligar pra Oliver com alguma desculpa esfarrapada – a porta da frente se abriu e um cara alto – do tipo alto mesmo – com o cabelo mais bagunçado que o dela quando acordava e um corpo que faria sua melhor amiga null ajeitar o cabelo e encolher a barriga se visse passar na rua.
Ela deve ter ficado olhando pra ele por um tempo considerável, já que quando se deu conta ele estava passando a mão na frente dela dizendo:
- Ei, você, estranha. Quem é você e o que está fazendo aqui?
- Ah... Eu sou... null. Eu vim...
- Ah, a babá, não é? – Ele a interrompeu. – Oliver está lá dentro.
Ele deixou a porta da casa aberta, mas não por ser um cavalheiro. Na verdade, nem se deu ao trabalho de esperar que ela terminasse de dizer quem era, nem esperou que ela entrasse. Ele simplesmente lhe deu as costas, entrou no seu carro e saiu, deixando-a lá, de boca aberta e os pensamentos mais em desordem que sua casa um dia depois do Natal.
Ao passar pela porta quase trombou com Oliver que vinha correndo.
- Ei, calma aí – riu. – Aonde vai com tanta pressa?
- Sair com o meu irmão. Desculpe, null, mas terei que cancelar a nossa maratona de Harry Potter – Oliver disse correndo. Tentou passar por null, mas ela bloqueou a entrada.
- Seu irmão é um cara bem alto que acabou de sair? – Perguntou.
- Sim, e eu preciso ir, null. Desculpe, mas estou com pressa. – Tentou passar por null de novo. Mas de novo ela ficou na sua frente fazendo-o bufar de impaciência.
- Oliver, sinto muito, mas acho que você demorou demais. Seu irmão já foi.
Depois de dito, se arrependeu. O rosto de Oliver ficou numa decepção que ela nunca tinha visto e seus ombros caíram. Até mesmo a blusa de ele segurava deixou cair no chão.
- Ah, entendi. Claro que ele já foi – disse baixinho. – Bem, obrigado por vir, de qualquer forma.
- O que quer dizer? Eu vim aqui para ver alguns filmes com você, lembra? – Ela tentou animá-lo, mas sem sucesso. – Ou o quê? Vai me dispensar? – Fez uma falsa cara de chocada.
- Não, quer dizer... Tudo bem, vamos ver Harry Potter então – disse ainda desanimado.
Ao final de A Câmara Secreta Oliver já nem estava mais chateado com irmão. Pelo contrário: ele parecia bem ansioso para que o irmão chegasse logo para poder assistir O Prisioneiro de Azkaban com eles.
Mas quando null chegou – null descobriu o nome do irmão mais velho de tanto que Oliver falava dele – ele não quis assistir filmes. Na verdade, ele estava bem apressado, dizendo que tomaria um banho rápido e sairia de novo. Mas a doutora Maria não parecia achar essa ideia muito boa, já que disse que ele só sairia de casa novamente depois de se sentar para “uma refeição saudável e em família”.
A doutora Maria parecia ter muitas frases prontas que usava como se fossem regras para a vida, pensou null. Não que ela achasse isso uma coisa ruim. A doutora Maria parecia ser bem bacana, ainda mais depois que convidou null para almoçar com eles e não aceitou um não como resposta.
null já estava na mesa conversando com o senhor John, pai de Oliver. Este, por sua vez, contava ao pai, que passara a semana toda viajando – e passaria a próxima também – tudo o que fizera com null durante a semana e como melhorara no tênis.
- Esse é o meu garoto!
null chegou à mesa com a cara meio amarrada por ser contrariado pela mãe, mas não demorou para esquecer a pequena discussão e passar a conversar com os pais como Oliver estava fazendo e contando como tinha sido o ultimo semestre na faculdade.
- Entrei para a equipe de basquete – disse como se isso não fosse nada.
- Legal! Eu quero fazer basquete também! – Oliver disse animado.
- Você precisa crescer um pouco mais se quiser isso, Olie.– ele disse de forma casual, mas isso acabou deixando Oliver meio cabisbaixo de novo. - Mas é isso aí, quem sabe um dia você não consegue?
E isso foi suficiente para deixar Oliver feliz de novo.
- Oliver é muito bom, tanto no basebol quanto no tênis. Não duvido que ele seja bom em qualquer esporte que queira praticar. – null disse querendo mostrar a Oliver que ele poderia fazer o que quisesse. Também não queria que ele ficasse chateado por causa do irmão de novo.
Nesse momento null olhou para null como se fosse a primeira vez que a visse ali. E ela não duvidava nada que ele não tivesse percebido sua presença antes. Estava tão concentrado em comer rápido e contar ao pai como tinham sido as provas finais, que nem havia olhado para o lado.
- Ah, você. A babá, não é? – ele perguntou numa tentativa de... ser simpático? Não que tivesse tido sucesso, null pensou.
- null, essa é null. Ela é minha amiga! – Oliver disse e null não pôde conter um sorriso. – Ela também vai para Princeton semestre que vem. Talvez vocês possam ser amigos!
- Não acho, até porque estou bem mais avançado que ela – falou. Que cara ogro! – Mas ei, legal, boa sorte por lá. – Sorriu sem mostrar os dentes.
- Oliver, você já arrumou o seu quarto hoje? – A doutora Maria perguntou mudando de assunto.
- Já, mamãe – Oliver resmungou.
- E organizou os seus bichinhos de pelúcia em cima da cama? – Continuou.
- Você ainda tem aqueles monte de bichos de pelúcia na cama? – null interrompeu.
- Tenho. E null diz que não é coisa de criança tê-los. Na verdade, ela disse que você é um idiota por achar que bichinhos de pelúcia são coisa de criança.
null engasgou com o suco que estava tomando ao ouvir Oliver dizendo que ela chamou null de idiota. Ao ouvir isso null a olhou com uma sobrancelha levantada e não disse nada, voltando a atenção para o suco na sua frente.
- Até parece que null não tinha vários bichos de pelúcia quando era criança. Não se lembra que até fugiu de casa quando mais novo porque era alérgico e não podia tê-los? – A doutora Maria falou olhando para null. – Você disse “se eles não podem ficar, eu também não vou” – falou numa péssima imitação de voz de criança.
null riu e concordou com a cabeça se lembrando do fato.
- E então você encheu uma mochila com seus bichinhos e foi embora – a doutora Maria completou rindo.
- Você fugiu de casa mesmo? – Oliver perguntou deslumbrado.
- Fugi, mas voltei vinte minutos depois porque começou a chover.
- Nossa, é mesmo? – Oliver parecia em êxtase por estar descobrindo essa parte da vida do irmão. – E para onde você foi?
- Para o parque atrás de casa – disse rindo. – Fiquei sentado no banco até que começou a chover e mamãe me convenceu a voltar pra casa. Disse que eu poderia ficar com eles se prometesse fazer o tratamento para alergia. Fiquei tomando aqueles remédios horríveis por meses até conseguir ficar perto dos meus bichos de pelúcia sem morrer asfixiado. – Disse com uma careta. – Pra você ver como eu era idiota.
- Não foi idiota o que fez. Foi mesmo muito bonitinho – a doutora Maria comentou.
- Bem, ainda me lembro do gosto daqueles remédios, então, não. Não foi bonitinho. – Disse tomando do seu suco.
- E então, null, está ansiosa pra a faculdade? Está pronta para sair do conforto que o interior oferece e até mesmo mudar de estado? – a doutora Maria perguntou mudando de assunto.
- Esta cidade, na verdade, faz a gente se acomodar. Eu sei muito bem pra onde estou indo e sinto que qualquer dia vou chegar lá. Sabe como é, posso demorar para me acostumar com o estilo de vida, mas sei que vou me adaptar – null falou confiante.
- Pode crer, você vai levar um longo tempo pra se adaptar à Princeton. – null falou olhando para null. - Bem, família, eu já terminei de almoçar e estou saindo. – null falou antes de null lhe respondesse, e, antes que a mãe pudesse contestá-lo novamente, disse – Não me esperem acordados.
Levantou rapidamente e antes de sair, virou-se para null novamente que ainda o olhava sem entender, olhou-a de cima a baixo e disse:
- Boa sorte com Princeton. Sabe como é, você vai precisar.
null não soube o que ele quis dizer com isso, nem entendeu o olhar inspecionador que ele lhe deu. Tudo o que conseguiu pensar foi: “Nossa, que babaca”.

Durante toda a semana null passou os dias com Oliver, levando-o às suas aulas de basebol, tênis e teclado. No resto do dia eles brincavam com os bonecos dele, pintavam desenhos de um caderno de colorir que Oliver tinha e passeavam no parque.
null não ficava muito em casa e, quando ficava, não fazia questão de passar um tempo com o irmão que, por sua vez, dispensaria até mesmo uma maratona de desenhos animados com pipoca com chocolate para ficar com ele.
null percebeu que o humor de Oliver variava conforme as atitudes do irmão: se ele passava para dizer um oi, ou se mostrava interessado em ficar com Oliver, este ficava feliz o resto do dia. Se, por outro lado, null nem aparecesse ou ignorasse Oliver, nem mesmo a promessa de um sorvete de dois sabores poderia melhorar o humor de Oliver.
Ele também não fazia esforço para ser pelo menos simpático com ela. Às vezes passava por null sem dar importância para sua presença, outras vezes olhava pra ela sem interesse e balançava a cabeça como se dissesse “e aí”. Não que ele disse alguma coisa.
No domingo, enquanto voltava da locadora perto de casa, null recebeu outra ligação do pai perguntando se ela teria mais algum dinheiro para lhe emprestar. Claro que ele pagaria tudo mais tarde. Com a negação da filha, ele desligou meio irritado, o que deixou null preocupada. Será que a situação dele era tão ruim assim?
Quando estava entrando em casa, ouviu gritarem o seu nome. Olhou em volta procurando quem poderia ser e, quando viu quem a chamava, não pôde acreditar.
Quer dizer, o fato dele estar com uma blusa preta toda colada no corpo, o rosto cheio de suor e a boca aberta para facilitar a respiração, não tinha nada a ver com o fato de null ter ficado meio sem reação quando o viu. O fato dele ter se aproximado dela bebendo água direto da garrafa também não teve nada a ver com ela ficando com a boca seca e com a necessidade de tirar o casaco, já que o clima, aparentemente, tinha esquentado bastante de uma hora pra outra.
Na verdade, null ficou mais curiosa com o fato dele saber o seu nome do que com ele estar andando pela sua rua.
- O que você quer? – Ela perguntou cruzando os braços.
- Nossa, é assim que me recebe? – Ele perguntou divertido colocando as mãos na frente do corpo.
null revirou os olhos. Uma semana atrás ele tinha sido um ogro com ela, e durante toda a semana que se passara ele nem se dignou em falar “oi”. O que ele estava querendo ali, parado na porta dela e sorrindo como se soubesse algum segredo que null não sabia?
- Olá, null – disse sorrindo. – O que você quer? – Fechou a cara de novo.
Ele riu achando ela muito divertida.
- Eu quero um copo de água se não for pedir muito – falou todo simpático. Há! Até parece que ele era sempre simpático assim. – A minha acabou – mostrou a garrafinha vazia.
null não respondeu, mas deu passagem a ele. Dentro de casa, ela colocou suas coisas num sofá e disse para ele ficar a vontade. Quer dizer, ela estava apenas sendo simpática, é claro. null não queria que ele ficasse a vontade no seu sofá enquanto estava todo suado.
Foi para a cozinha pegar água pra ele a aproveitou para se refrescar também. Caramba, tinha ficado quente, assim, tão de repente.
- Caramba, isso é muito legal. Onde conseguiu? – null perguntou a null quando ela voltou da cozinha. Estava olhando os pôsteres que null tinha jogado no sofá ao entrar.
- Na locadora – respondeu dando de ombros.
- Sério? Você tem mais deles? – Perguntou interessado.
- Eu coleciono e tenho uma porção de coisas lindas nesta coleção. Posso dizer que eu sou alguém que tem quase tudo.
- Você tem uma coleção de pôsteres? – Ele estava realmente animado. – Tem ideia de como isso é legal?
Ela riu.
- Tenho. E é por isso que tenho uma coleção deles no meu quarto.
- E eu que pensei que o seu negócio era com os livros... – comentou ainda olhando os pôsteres que ela trouxera. Estava fazendo uma nota mental para assistir aquele filme, parecia legal.
- O que quer dizer?
- Bom, você irá cursar Literatura, não é? Em Princeton?
null parou o copo a caminho da boca.
- Como sabe disso? – Tinha certeza que não havia comentado o que estaria cursando para null. Na verdade, tinha certeza que não havia comentado nada para ele. Tipo, nada mesmo. Ele nem mesmo lhe deu bom dia – nenhum dia.
- Perguntei à minha mãe, é claro – falou casualmente.
- Você perguntou de mim pra sua mãe? – Tudo bem, ela estava meio confusa ali.
- Estava curioso, sabe como é. Princeton não é uma faculdade fácil de entrar e eu queria saber para que curso você havia se candidatado.
null abriu a boca não acreditando no que aquele... Idiota estava falando.
- Está dizendo que não tenho capacidade para Princeton? – Perguntou indignada. Mas que cara ogro! Ela estava ali, toda simpática, dando-lhe água, deixando que ele olhasse os mais novos itens de sua coleção e ainda por cima não estava reclamando dos tênis sujos no tapete da sala. E nem do suor no sofá em que ele estava encostado!
- O quê? – Ele fez uma cara de surpresa. – Eu jamais diria isso – sorriu.
null soltou um riso descrente e já estava se preparando para expulsá-lo da maneira mais grosseira que pudesse pensar quando ele disse:
- Ah, antes que eu me esqueça – disse mexendo no bolso do short – Aqui está o seu pagamento dessa semana. Mamãe esqueceu de te dar na sexta e como eu disse que iria correr, ela pediu para passar aqui e te entregar. E pediu desculpas pelo atraso.
Ela pensou em deixar seus métodos para expulsá-lo de lado por um momento para pegar o envelope. Contou o dinheiro e pensou em ligar para o pai e dizer que já havia recebido e poderia ajuda-lo...
- Você está guardando dinheiro pra faculdade, não é? É uma boa ideia, se quer saber.
Mas então se lembrou da faculdade e do dinheiro que dissera que juntaria para se virar lá no começo enquanto não arrumava um bico ou um emprego fixo.
- Mais ou menos – disse no automático.
- Como assim?
Ela separou parte do dinheiro para dar ao pai e parte ficaria com ela. Mas então percebeu que seu salário semanal não era muito alto e que se o dividisse em dois, não seria quase nada. Dar metade daquele dinheiro para pai seria o mesmo que não dar nada.
- Estou ajudando o meu pai com umas coisas...
Resolveu então que daria todo o dinheiro ao pai novamente. Talvez assim ele não precisasse lhe pedir mais daqui pra frente.
- Que coisas?
- Eu não sei...
null se virou para colocar o dinheiro na bolsa e mandar uma mensagem ao pai.
- Espera aí – ele disse chamando a atenção de null – Você está trabalhando todos os dias, mesmo estando de férias, com o objetivo de juntar dinheiro pra faculdade, mas na verdade está dando o seu dinheiro suado ao seu pai? E nem sabe para que ele está usando o dinheiro?
- Mas ele disse que precisava – começou a explicar – E ele é meu pai. Eu tenho que ajuda-lo...
- Não deveria ser o contrário? Ele ajudar você?
null balançou a cabeça desconfortável.
- Olha, isso realmente não é da sua conta – ela disse seca. Fala sério, num segundo ele diz que ela não tem capacidade de entrar pra Princeton e no outro está preocupado com a forma que ela gasta seu dinheiro?
- Mas e então, já está se preparando para Princeton? As aulas começam em pouco mais de um mês e achar moradia por lá não é tão fácil.
Ele mudou de assunto tão rápido que null demorou um segundo para acompanha-lo. Ela não queria falar de moradias em Princeton com null. Ainda estava brava com ele por ter se metido na sua vida.
- Bem, ainda não. – Foi para o lado da porta. – Se era só isso que queria, sabe como é, estou meio ocupada hoje.
- Está me expulsando da sua casa? – Ele disse surpreso.
- Imagina, eu nunca faria isso – disse irônica. – Mas como você mesmo disse, as aulas estão chegando e eu ainda preciso começar a procurar um apartamento. Então, com licença – abriu a porta.
Ainda surpreso com a atitude dela, mas achando bem divertida sua ação, ele foi embora, mas não sem antes dizer:
- A gente se vê amanhã, null.

- null, me dá dinheiro pra comprar sorvete? – Oliver pediu já se levantando num pulo quando viu o tio do sorvete chegando.
- Dou – ele respondeu. – Aqui. E compre e um pra mim e pra null também, beleza?
- Pode deixar! – saiu correndo.
null rolou os olhos.
- Você não precisava fazer isso de novo – falou.
- O quê? Dar dinheiro pra ele? Caramba, o garoto só quer um sorvete – null disse parecendo confuso.
- Não isso. – E então apontou para Oliver que segurava três sorvetes enquanto esperava o troco. – Digo isso de estar sempre comprando coisas pra mim. Já disse que não precisa fazer isso.
- null, é só um sorvete – ele disse balançando a cabeça.
null resolveu não prolongar o assunto, até porque Oliver estava voltando. Mas não era só um sorvete. Ao longo da última semana null comprara sorvetes, cachorros quentes, algodões doces e refrigerantes pra ela. O problema não era só o fato de ela estar ganhando uma bunda maior a cada dia. O que a deixava confusa era o fato de null, de uma hora pra outra, ter passado a sair com ela e Oliver durante as tardes no parque, ou a ficar com eles enquanto assistiam a algum filme na TV.
E também o fato dele estar sempre lhe comprando alguma coisa, ou parecendo ser uma pessoa simpática e legal, mas que no final continuava sendo o idiota de sempre.
Aquilo era bem confuso.
- Tome, null – Oliver lhe entregou o sorvete, dando o do irmão logo em seguida e não demorando para devorar o seu.
- Obrigada, Olie.
Oliver ficava animado sempre que o irmão estava por perto. null ficou feliz por ele quando null começou a passar mais tempo o irmão mais novo, mas isso não significava que ela estivesse gostando da presença dele. Quer dizer, ela até que gostava, por Oliver. Não por ela mesma. null conversava e brincava com o irmão por dois minutos e depois se concentrava no celular parecendo esquecer que tinham outras pessoas envolta.
Mas isso não diminuía a animação de Oliver. Na verdade, null tinha que admitir: null até que parecia se esforçar para ser simpático com Oliver, mas não tinha muita paciência.
Enquanto Oliver chamava a atenção do irmão contando como tinha sido suas aulas de tênis e beisebol null checou seus e-mails no celular esperando receber alguma resposta sobre os apartamentos que ela tinha procurado perto do campus em Princeton.
- E aí, já achou um lugar pra morar? – null perguntou a ela.
- Ainda não, mas não se preocupe, eu vou achar – ela respondeu sem olhá-lo, ainda checando seus e-mails.
- Não estou preocupado, na verdade. Só curioso mesmo – ele disse. null olhou-o e ele lhe deu um sorriso sarcástico. Ela revirou os olhos se perguntando porque ainda dava atenção a ele.
- Ei, null, o que tanto você mexe no celular? Com quem você está conversando? – Oliver perguntou já se esgueirando para ver a tela e tentar descobrir o que o irmão escrevia. – É com a sua namorada?
Isso fez null desviar sua atenção das fotos que sua melhor amiga, null, tinha lhe enviado da viagem que estava fazendo. Mas ela não olhou para o lado, apenas prestou atenção na resposta de null:
- Eu não tenho namorada, mané – ele respondeu olhando para null pra ver se ela olhava para ele. Não ficou surpreso ao ver que ela nem ligava para o que ele dizia – Estou falando com os caras da fraternidade onde moro. Eles vão vir passar o feriado aqui em casa e eu vou dar uma festa.
- Que feriado? Quer dizer, o feriado dessa semana? – Oliver estava animado. Caramba, iria ver os amigos de null!
- Isso – ele respondeu sem dar muita atenção ao irmão. Ainda estava combinando as coisas com seus amigos – Eles virão na quinta e vão ficar até domingo.
- E que dia você vai dar a festa? – Oliver perguntou.
- Provavelmente no sábado.
- Ei, sábado não é o dia em que mamãe e papai têm aquele jantar beneficente no hospital? – Oliver perguntou.
- Sim, o jantar é no sábado. Por quê?
- Bem, não sei se mamãe e papai deixarão você dar uma festa em casa sem eles estarem lá – Oliver comentou.
null riu antes de responder:
- Não se preocupe, Olie, será uma festa só para nós e alguns poucos amigos meus do colégio que eu estudei. Mamãe e papai já sabem da festa e não se opuseram.
- Ah, legal!
null olhou para o irmão. Finalmente entendera o motivo da animação de Oliver.
- É, pois é, cara, mas sabe, você não vai poder ficar na festa. Você vai com mamãe no jantar, lembra? Ela comprou um convite pra você e já até mandou lavar o seu terno.
- Aquele em que tive que usar no casamento da tia Bea? – Fez cara de horror. – Odeio aquela coisa!
null riu.
- E eu não quero ir a um jantar com gente chata. Quero ficar na festa com você!
null rolou os olhos e não falou mais nada. Deixaria que Oliver se resolvesse com os pais. Ele já tinha muita coisa em que pensar, como a cerveja e a carne que compraria, as ligações que ainda tinha que fazer para chamar os poucos amigos que ainda tinha contato do colégio e ainda tinha que responder... Bem, a uma pessoa que ele não queria responder, mas ele havia visualizado a mensagem e seria bem chato se ele a deixasse sem resposta.
null já havia acabado de ver as fotos mandadas por sua amiga. Ela estava em alguma praia muito legal, cheia de caras gatos e molhados de água do mar enquanto ela passava suas férias tirando fotos – mas só as vezes – com um garoto de nove anos que adorava Harry Potter e Star Wars – mas até aí tudo bem, ela também gostava – e passava as tardes no parque com o irmão super gato desse garoto, mas que também era super estranho e ela não entendia qual era a dele.
Mas ei, ela não podia reclamar. Poderia estar com a avó tentando aprender bordado até agora se não estivesse cuidando de Oliver. E ainda ganhava por isso! E, bem, o garoto era mesmo uma graça.
- Bem, pessoal, foi muito legal ficar com vocês, mas eu tenho que ir. Sabem como é, muitas coisas para resolver pra festa de sábado.
null já ia se levantando para ir embora quando parou e disse:
- Ah, e null? Você está convidada – sorriu de lado. E foi embora.

- Ei, Olie, o que você acha de uma pipoca agora, hein?
- Legal – Oliver respondeu sem olhar direito para null.
Ela se levantou e foi para a cozinha. Já era tarde, mas eles já tinham jantado, então provavelmente a Dra. Maria não ficaria brava por Oliver estar comendo pipoca. Até porque ela não estava lá.
Já passava das oito da noite e null, mais uma vez, ficou além do horário por pedido da Dra. Maria. “null, querida, poderia ficar com Oliver até eu chegar? Acabou de surgir um imprevisto, uma cirurgia de emergência, e não sei quando poderei ir para casa”. Claro que null não disse “Não, não posso ficar até mais tarde. Ele é seu filho, sua responsabilidade. Se vira, mulher!”. Em vez disso ela simplesmente falou “Claro, sem problemas”.
Ficar com Oliver não era um problema, principalmente se ele estivesse entretido com algum livro de ficção ou assistindo a um programa sobre animais. O que era o caso daquela noite. Mesmo chovendo horrores lá fora, Oliver não parecia se importar com os trovões e relâmpagos enquanto tinha seu documentário passando.
Oliver e null tinham assistido a uma maratona de Padrinhos Mágicos e agora Oliver estava mais do que concentrado em um documentário sobre hienas que passava no seu canal favorito. A matéria até que era bacana, mas null preferiria outra maratona de desenhos animados.
Deixando Oliver no tapete envolto de várias almofadas e travesseiros, ela foi para a cozinha. Estava esfriando e ela pensou que um chocolate quente seria bem vindo junto com a pipoca.
null não estava em casa, mas isso não era novidade. Ele estava sempre fora, se reencontrando com os antigos amigos ou fazendo qualquer outra coisa que null não sabia. Não que ela se importasse.
null não tinha visto null nos últimos dias. Depois do dia no parque, na segunda, ele tinha lhe oferecido uma carona para casa à noite, quando a Dra. Maria chegou. Ela teria recusado a carona, mas com a mãe dele do lado olhando para os dois como se disse “Ah, que fofo o meu filho é, oferecendo carona para a babá”, null aceitou. Ele a deixou em casa e se despediu dela com uma piscadela.
Não que ela tivesse retribuído. Quando deu por si ele já tinha acelerado para longe.
No dia seguinte ela o encontrou quando chegou na casa dele. Foi cumprimentada com um “bom dia” o que, se parasse para pensar, era um grande avanço em relação ao “ei” que ela costumava receber dele.
Naquele dia, quarta, ela não tinha o visto, mas Oliver lhe contou que o irmão estava muito ocupado preparando as coisas pra a festa, como comprar cerveja. Tipo, muita cerveja, já que seus amigos passariam todo o feriado na casa dele.
Enquanto a pipoca estourava, null fazia o chocolate quente. Estava procurando a caneca favorita de Oliver, uma cheia de sapos, quando ficou tudo escuro e null ouviu um grito de insatisfação de Oliver. Fala sério, a energia tinha acabado!
- O que você está fazendo?
null não estava esperando por isso. Achou que estava sozinha e quando ouviu falarem perto dela, naquele escuro, sem reconhecer um rosto, bateu a cabeça no armário acima dela onde procurava a caneca de Oliver.
- Ai! – Reclamou de dor. – Por que fez isso?
Ela não precisava perguntar quem era. Pela risada, reconheceu null.
- A culpa foi sua. – Disse se referindo a batida dela. – O que aconteceu aqui?
- O que você acha? – Ela estava de mal humor. Caramba, sua cabeça estava doendo.
- Acho que a energia acabou e que você está de mau humor – ele respondeu animado. – Onde está Oliver?
- Na sala – ela respondeu.
- Olie, fique onde está! – null gritou. – Fique aqui também, null. Vou procurar uma lanterna.
Ela não respondeu, só balançou a cabeça, mas como estava escuro ele não viu. Ele distinguir sua forma no escuro, mas não viu o pé dela quando pisou. Nem ela fez de propósito quando bateu no nariz dele.
Os dois reclamaram de dor, mas null começou a rir antes dela.
- Tudo bem, fique parada, eu sei que tem uma lanterna por aqui, só tenho que acha-la.
null não saiu de onde estava, então ele passou por ela e usou seu corpo como referência, tocando-a na cintura. Ela parou de respirar, mas foi automático, já que por ela não pararia de respirar o perfume dele nem se lhe pagassem hora extra.
Ele procurou em todas as gavetas no armário, mas não achou. Pensou que talvez pudesse estar na sala, uma vez que Oliver gostava de brincar de cabaninha e ele sempre usava a lanterna pra isso. Mas null não disse que iria procurar na sala, pois quando virou a cabeça, deu de cara com null. Não que ele estivesse vendo seu rosto, mas ele sabia que ela estava ali, a centímetros dele. Primeiro, porque ele ainda segurava na sua cintura, mas não porque precisasse. Ele a tinha usado como apoio e referencia no escuro, mas como ela não tinha reclamado, continuou com a mão lá. E segundo, porque ele sentia a respiração dela bater na sua boca.
Ele poderia ter virado e ir para a sala, na verdade, deveria ter feito isso. Poderia ter dito pra ela ficar ali e esperar por ele, mas não o fez. Em vez disso, apertou os dedos na cintura dela, recebendo como resposta as mãos de null nos seus braços, e se aproximou mais.
O que teria acontecido a seguir eles nunca saberão, já que Oliver entrou correndo na cozinha gritando:
- Achei a lanterna!
Um facho de luz foi parar neles, enquanto fugiam da luz nos olhos.
- O que vocês estão fazendo? – Ele perguntou ao ver os braços do irmão em volta de null e as mãos dela nos braços dele.
- Você quer mesmo saber? – null perguntou mal humorado.
- Procurando! – null disse sem saber o que estava falando. Se soltou de null e deu um passinho pro lado, enquanto ele largava-a relutante. – Procurando... A lanterna.
- Ah, estava na sala. Lembra que brincamos de cabaninha na semana passada? Eu deixei lá pra próxima vez – Oliver disse orgulhoso.
null sorriu sem graça, até porque um dos braços de null ainda estava em volta dela. Naquele momento, ela quis deixar Oliver lá, sozinho no escuro, e ir embora. Mesmo que não recebesse hora extra depois. Talvez não ir embora... Ou pelo menos, não sozinha. Balançou a cabeça quando pensou no que quase aconteceu há alguns segundos.
- A pipoca está pronta, e eu fiz chocolate quente também – ela falou saindo de perto de null e indo para o lado do fogão. – E aí, quem quer?

Estavam os três na sala comendo pipoca e tomando o melhor chocolate quente da vida deles - graças a uma receita que a avó de null tinha lhe ensinado - sentados no tapete e sendo iluminados a luz de velas.
null suspirou quando se convenceu de que o clima estava totalmente quebrado graças, é claro, a Oliver. Mas pensou que ficar poderia ser legal, até mesmo conveniente para ele, e foi procurar umas velas para iluminar a sala. Não achou muitas, mas o suficiente para que pudessem se servir sem esbarrarem um no outro.
Oliver estava empolgado com a situação. Mesmo sem estar vendo o documentário sobre hienas, estava se divertindo bastante tendo null de um lado e o irmão do outro. Ele falava sem parar, contando como estavam indo os treinos e as aulas de teclado, perguntando se null viria na sua apresentação no próximo ano. Depois perguntou a null sobre o casamento da irmã, já que ele tinha passado um ou dois dias na casa dela e tinha feito amizade com Anne e a mãe de null.
- E aí, já conseguiu um par pro casamento? – Ele perguntou após encher a mão de pipoca.
- Ainda não, Oliver. Mas sabe como é, eu não preciso de um par – null disse. Ainda não olhava direito para null por conta do que tinha acontecido na cozinha, mas sabia que ele estava olhando para ela.
- Eu posso ser o seu par, se quiser – Oliver disse com a boca cheia. – Eu até já tenho um terno.
null riu.
- Ah, e por falar nisso, null, adivinha só! Falei com mamãe e ela disse que eu posso ficar na festa com você e seus amigos! Não é o máximo? – Oliver disse animado. – Principalmente porque não vou precisar usar aquele terno chato. Mas não se preocupe, null, eu uso ele no casamento da sua irmã – garantiu para null.
- Você nem vai ser convidado, tampinha. E aposto que null tem companhia melhor que você – null falou.
- Na verdade, Anne disse que vai me convidar sim. Ela gosta muito de mim, não é, null?
- É sim, Oliver. Anne e mamãe adoram você – ela sorriu.
- E você vai me aceitar como seu par?
- Claro que sim! – Ela respondeu. – Vai ser ótimo ter você como acompanhante, Olie.
null bufou e se serviu de mais chocolate. Oliver continuou falando, enquanto null tentava prestar atenção nele, mas sem muito sucesso. null, por outro lado, ficava no celular a maior parte do tempo, só tirando os olhos da tela para responder alguma coisa ao irmão, ou para reclamar que a bateria iria acabar a qualquer momento.
Quando Oliver disse que iria ao banheiro e levou a lanterna junto, null sentiu o clima pesar novamente, pois agora eram só ela e null. Sozinhos. No escuro. Bem, não exatamente no escuro, mas era quase. null olhou para cima só pra ver null o encarando. Pega de surpresa, ela disse:
- Você devia dar mais atenção a Oliver. – Estava improvisando, é claro, mas não que isso não fosse verdade. – Você sabe, ele te ama te admira muito. Tudo o que ele quer é a sua atenção. Você poderia fazer esse esforço por ele, mesmo que seja por pouco tempo.
null não sabia de onde esse discurso tinha vindo. Talvez fosse o nervosismo por ficar sozinha com null, sem saber o que estava sentindo, já que sua cabeça estava confusa e ela estava pensando coisas que nunca tinha pensando antes – pelo menos não com relação a ele – e ela não queria pensar nessas coisas. Mas isso não significava que o que tinha dito não fosse verdade.
null levantou uma sobrancelha, mas ela não viu. Só viu que ele ficou olhando-a por um tempo, sem falar nada, e, quando Oliver voltou, ele desligou o celular.
- Então, Olie, sobre essa apresentação que você fará no ano que vem – ele disse. – Fale-me mais sobre ela.
Isso foi o suficiente para que Oliver começasse a falar sobre suas aulas e as musicas que seu professor estava ensaiando com ele e com o resto da turma, e não parar mais.
- Mas você sabe, quando eu terminar minhas aulas de teclado, eu quero aprender saxofone, como você – Oliver disse.
- Você toca saxofone? – null perguntou surpresa. Caramba, aquilo era muito legal. E sexy.
- É, ele toca. Ele é um cara boêmio, sabe?
- Onde você ouviu essa palavra? – null perguntou rindo. Boêmio? Fala sério. Oliver nem devia saber o que isso significava.
- As garotas que você trazia pra casa falavam isso, que você era “um cara boêmio, além de ser um gato” – Oliver fez uma careta.
null riu do irmão e null sorriu. Ele olhou de lado para null quando o irmãozinho disse que ele trazia garotas para casa. Quer dizer, ele trazia mesmo, mas não eram tantas assim. Não que ele devesse se incomodar por null ter ouvido isso. Era uma coisa normal, mas por algum motivo, ele preferiria que Oliver tivesse omitido esse comentário.
Ficaram por quase duas horas conversando, e Oliver não podia estar mais feliz por estar tendo a atenção do irmão quase toda pra ele. Quase porque null falava se dirigindo a null também, tentando coloca-la na conversa, mostrando que ele estava mais do que ciente da presença dela ali.
Quando voltou a energia, Oliver estava contando do jogo que assistira com o pai no mês passado, e como seria legal se null fosse no próximo junto com eles.
- É, vamos combinar isso aí.
null se levantou dizendo que colocaria o celular para carregar. null levou as coisas para a cozinha. Oliver correu para a televisão, dizendo que colocaria um filme para assistirem. Mas quando null sentou-se ao lado de Oliver, null desceu as escadas colocando uma blusa de frio e dizendo que estava saindo para se encontrar com alguns amigos do colégio.
Oliver não ficou tão chateado como null esperava. Dra. Maria chegou logo em seguida, e null ficou esperando null na porta quando ela disse que estava indo embora. Ela começou a pensar na desculpa que poderia dar a null para rejeitar a carona que ele provavelmente iria oferecer a ela. Ela não precisou se esforçar muito. Quando ela saiu, ele fechou a porta, puxou-a pela cintura e lhe deu um beijo no rosto, dizendo:
- Vejo você amanhã, null. Até mais.
Entrou no carro, e deu partida.

Oliver corria de um lado pro outro se enrolando nos tecidos expostos do ateliê que Anne, irmã de null, iria fazer seu vestido de noiva. Ele pegou amizade muito fácil com Anne – e bem mais rápido do que pegou com null no início, diga-se de passagem – e a mãe de null achava ele um amor.
Na quinta null e Oliver tinham passado o dia em casa brincando e lendo livros de ficção. Ela tinha ido embora logo depois do almoço porque Dra. Maria havia chego em casa mais cedo para receber os amigos de null que chegariam naquela noite. Não que ela tivesse visto null naquele dia.
Na sexta, Oliver tinha passado o dia com null, Anne e a mãe delas. Ele havia acompanhando Anne nos buffets e experimentando os pratos que ela pensava em contratar. null tinha adorado a ideia de Oliver acompanhar a irmã nas degustações, porque isso significava que ela iria também. Nesse dia null tinha visto null quando deixaram Oliver em casa no final do dia. Quando null foi embora com o seu pagamento da semana, ela viu null entrando com o carro na garagem, mas ele não a viu. Ou não deu importância. Não que ela se importasse. Estava muito ocupada mandando uma mensagem para o pai, para ficar pensando em null. Aquela seria a quarta semana que ela estaria dando seu pagamento para o pai, sempre pensando que ele diria algo como “Não precisa se preocupar, null, eu já não preciso mais do seu dinheirinho. Guarde-o para a faculdade. Ah, e a propósito, lhe devolverei o mais rápido possível”. Mas ele nunca dizia isso.
Na sexta à noite, ao deixar Oliver em casa, Anne dissera que no dia seguinte olharia os tecidos para o seu vestido e Oliver se animou em acompanha-la novamente e ainda, de quebra, poder comer mais alguma coisa caso ela decidisse ir em mais alguma degustação. Coisa que ela não fez, para o desanimo de Oliver. E de null.
Depois de almoçarem e comerem uma sobremesa tão calórica que faria a Dra. Maria ter um infarto se soubesse, além de, provavelmente, mandar null embora sem nem lhe oferecer uma carona pra casa, null deixou Oliver em casa e teria ido embora, mas foi parada pela Dra. Maria:
- null, querida, que bom que você está aqui – ela disse correndo para fora da casa e encontrando-os no meio do caminho. – Se divertiu, meu amor? Que bom – ela sorriu. – null, você estaria muito ocupada agora?
null pensou que ela fosse lhe pedir para ficar com Oliver, garantindo, sempre, o pagamento extra. Mas não foi isso que Dra. Maria disse. Na verdade, ela convidou null para passar a tarde com eles, já que os “amiguinhos de faculdade de null” estavam em casa e estavam “brincando com a bola”. null ficou sem graça de recusar, mas depois ficou mais sem ainda quando viu que os “amiguinhos” e null e estavam “brincando de bola” no quintal da casa. E sem camisa. Todos eles.
Maldição. Normalmente não são um time com camisa e um sem? Então por que estavam todos sem roupa?
Oliver levou null para sentar-se com ele perto de onde os garotos estavam para verem melhor o jogo. Estavam jogando basquete, e Oliver não parava de falar que não via a hora de crescer o bastante para jogar tão bem quanto o irmão.
Num determinado momento, null percebeu a presença de null quando um de seus amigos parou para olhá-la. A partir daí, null começou a jogar pensando que ela o estava assistindo e então, começou a realmente se esforçar para parecer bom e fazer um grande jogo quando, na verdade, era só mais um joguinho entre os caras.
Aquela garota estranha estava tendo um efeito estranho sobre ele. E ele não gostava de coisas estranhas.
null deu distância, se posicionou, e lançou a bola. A cesta teria lhe rendido três pontos se estivessem em um jogo oficial. De qualquer forma, ele olhou para null e lhe deu uma piscadinha, além de apontar o dedo pra ela como se dissesse “Essa foi pra você”. Ou, como ela pensou, “Ei, você. Viu como eu sou bom?”
O jogo acabou quando todos perceberam que tinha uma garota assistindo eles e todos começaram a querer fazer jogadas diferentes, o que acabou sendo bem engraçado, uma vez que lá não tinham regras e todos acabaram no chão, um em cima do outro.
Quando começaram a se aproximar de onde null estava sentada, Oliver saiu correndo para conversar com eles, fazendo-os parar para dar-lhe atenção. Mas null continuou caminhando. Ainda sem camisa.
Ao chegar do lado de null, ela olhou para cima – já que ainda estava sentada porque suas pernas pareciam gelatina e tinha uma escola de samba no seu estômago – e estreitou os olhos por causa do sol. null colocou as mãos na cintura enquanto perguntava o que null estava fazendo ali. Ele não parecia incomodado com a presença dela, mas sim curioso. Quase contente, até.
- Sua mãe me convidou – ela respondeu.
- Deixa eu adivinhar – ele falou sorrindo – Ela te convidou para assistir ao nosso joguinho com meus amiguinhos aqui nos fundos.
- Na verdade, ela disse que vocês estavam brincando com a bola.
null riu e null sorriu. Ele sentou-se ao lado dela e pensou em falar alguma coisa inteligente e engraçada, mas nada veio em mente. Aquela foi a primeira vez que não sabia o que dizer.
- Cesta legal aquela – ela disse a única coisa em que conseguiu pensar.
null riu. Ela também estava tentando puxar conversa, mas não sabia como e ele achou aquilo quase hilário.
- Isso é porque você nunca me viu em um jogo de verdade. Normalmente eu faço várias daquelas – ele falou convencido. – Talvez você possa me assistir no próximo jogo. Será daqui quatro meses, você já vai estar na faculdade.
- Talvez – ela respondeu. Não deu pra pensar em mais nada pra dizer. Só de pensar em vê-lo se esticar numa quadra, com mais vários outros caras gostosos como ele, e no final ter a oportunidade de ver todos eles sem roupa, ativou a sua imaginação.
- E sabe, você ainda vai poder ver a gente sem camisa – ele disse baixinho no ouvido dela. Ela engasgou com o suco que estava bebendo, e foi assim que os outros caras, os cinco amigos e colegas de fraternidade de null a viram: engasgada e com suco de laranja escorrendo pelo pescoço. Não foi uma imagem muito legal.
- Quem é a sua amiga, null? – Um deles perguntou.
- Ela não é amiga de null. Ela é minha amiga. Seu nome é null, ela vai para Princeton no próximo semestre também e ela cuida de mim durante a semana. A irmã dela vai se casar e ela me leva para as degustações de doces e pratos estranhos, o que é muito gostoso, e depois tomamos sorvetes, mas mamãe não pode saber. null gosta de filmes e livros como eu, a gente sempre assiste vários, não é, null? Ah, null é o apelido dela, mas vocês podem só usar se vocês forem amigos dela, como eu.
Oliver só parou de falar quando Dra. Maria disse que o almoço estava pronto. null continuou sentada enquanto todos em volta riam e, ao mesmo tempo, começaram a falar com ela. null revirou os olhos e chamou todos para comer. null os acompanhou, tentando responder às perguntas de cada um.
- Coloquem uma roupa, pelo amor de deus. – null falando enquanto colocava a camisa dele. Estava incomodado com tantos caras sem roupa na cozinha dele.
- Nem pensar, cara.
- É, fala sério, a gente tá muito suado.
- Então vão tomar um banho. Podem usar o banheiro do meu quarto e o do corredor – null respondeu mal humorado se sentando à mesa.
- Não mesmo. Eu estou morrendo de fome.
- Vamos comer primeiro e tomamos banho depois, daí a gente já se arruma pra festa.
- Tanto faz – null bufou.
Todos se sentaram e atacaram o almoço que a Dra. Maria comprou como se fosse a ultima refeição de suas vidas. null sentou-se no único lugar que sobrara: no meio de dois amigos de null, com Oliver na sua frente e acabou nem comendo muito, já que tinha almoçado mais cedo. null ficou mais para o canto e não estava mais tão animado como antes. Mas seus amigos – que ainda estavam sem roupa, diga-se de passagem – estavam mais do que contentes em dividir histórias com null e Oliver – principalmente com null – além de fazerem perguntas diversas que acabaram por revelar curiosidades sobre ela que null tinha, mesmo sem saber, e que nunca tinha perguntado.
- Ah, fala sério. O treinador não é tão ruim assim – null comentou em certa altura da conversa. Alguns, como Oliver, já tinham entrado na sobremesa, pela segunda vez no dia.
- Isso é porque você chegou mais tarde no time. Quando começamos, formamos praticamente um time novo, já que a maioria tinha se formado – um deles falou.
- É, ele disse “Vocês não são o que eu pedi, são frouxos e sem jeito algum. Vou mudar, melhorar um por um”. – Um dos garotos fez uma voz estranha, imitando o treinador.
null riu.
- Ainda bem que eu cheguei na fase boa dele, então.
- E você, null, pratica algum esporte? – Um deles perguntou. E então, todas as atenções se voltaram para ela.
- Eu corro todos os dias de manhã antes de vir ficar com Oliver, mas nada muito esportivo. É mais pra não ficar parada mesmo – ela falou.
- Beleza, então, eu vou tomar banho – null interrompeu as conversas que se seguiram. Ele se levantou na esperança de que seus amigos o seguissem e saíssem de perto de null, mas ninguém o fez. Em vez disso, eles começaram a falar de outro assunto, ignorando totalmente null que dizia que estaria no banheiro dele e que o outro estaria desocupado.
Foi emburrado para cima, já tirando a roupa ainda nas escadas e jogando-as de qualquer jeito em cima da cama. Tropeçou na mala de um dos caras e xingou-o, sem saber de quem a mala pertencia. Ele só sabia que queria xingar alguém, afinal, ele estava com raiva. Quer dizer, seus amigos tinham ido visita-lo, mas desde que null chegara, eles não pararam de dar atenção a ela. Aquilo era muito irritante e ele já estava começando a perder a paciência com ela.
Tomou banho pensando em seus amigos lá em baixo falando com null, disputando entre eles para sentar e perto dela e terem sua atenção, sempre perguntando mais sobre ela, exatamente como no almoço.
Bufando, jogou a camisa que tinha vestido em cima da cama procurando outra na gaveta. Não gostava de nenhuma. Estava mal humorado e nem sabia exatamente o por que.
Ao descer, viu que os rapazes estavam conversando com Oliver e que null não estava por perto. Aquilo melhorou o seu humor imediatamente. Mesmo se sentando no sofá ao lado dos amigos eles não pararam de falar com Oliver, não dando muita atenção a null. Aquilo não o incomodou. Seu irmão era mesmo uma peça e até mesmo ele estava gostando de ouvi-lo falar. Dali alguns minutos null apareceu no topo da escada chamando Oliver para tomar banho. null esperou que null descesse e ficasse junto a eles, mas ela seguiu Oliver dizendo que o ajudaria a se arrumar para a festa a noite.
Assim que ela sumiu, um por um dos rapazes foram tomar banho e se arrumarem para a festa enquanto null e os outros amigos foram arrumar a parte dos fundos, onde seria a festa. Não tinha chamado muitas pessoas, apenas alguns poucos amigos do antigo colégio e seus parceiros de fraternidade, mas mesmo assim tinha muita cerveja pra por pra gelar.
Sua mãe chegou quando null estava descendo com Oliver. Nem havia notado que ela tinha saído, pensou com uma ponta de culpa.
- Já esta tudo pronto pra festinha, filho? - A mãe perguntou colocando as sacolas em cima da mesa. - Trouxe umas coisinhas para vocês comerem, olhe - ela tirou as compras da sacola mostrando para null os salgadinhos. - É melhor vocês terem algo para comerem já que pretendem beber toda aquela cerveja que você comprou - olhou com uma censura divertida para o filho.
- Obrigado, mãe. - Riu dela pela preocupação e a forma com que falou "festinha".
- Mamãe, olha, estou usando a camisa nova que tia Deia me deu - Oliver disse ao entrar na cozinha com null logo atrás dele. null olhou para null e viu que ela estava com o cabelo preso, provavelmente por ter dado banho em Oliver. Ela estava linda, ele se pegou penando.
- Que lindo que você está, meu amor - Dra. Maria falou indo de encontro a Oliver.
- É, null disse que para eu colocar ela. Eu disse que não queria porque é rosa, e rosa é cor de menina, mas ela disse que não existem cores de meninas e cores de meninos, que isso e que quem pensa assim é um babaca.
null ficou sem graça por Oliver ter dito que ela falou um quase palavrão para ele, mas Dra. Maria parecia não se importar com isso. Na verdade, ela aprovou a fala de null e reforçou dizendo que cada um deve usar a roupa que quiser, da cor que quiser, sem se importar com as “regras” impostas socialmente. Dra. Maria podia ser meio controladora demais e não admitir que o filho mais velho cresceu e que não "brinca" mais com a bola, mas era uma mulher bem pra frente e tinha a cabeça muito aberta, além de não gostar de imposições e preconceitos de nenhum tipo.
- Oliver, acho que eu já vou, tudo bem? - null falou baixinho só para Oliver. Ela estava sentada na sala com ele enquanto null não parava de teclar no celular, conversando com os amigos que estariam chegando dali a pouco.
Quando Dra. Maria desceu as escadas, pronta para o jantar beneficente do hospital em que ela estava indo, null foi se despedir.
- Você vai embora? - null perguntou surpreso. Por que ela estava indo embora? Ele não tinha convidado ela? Então qual era o problema?
- Minha mãe não gosta que eu fique até muito tarde fora de casa...
- Mas você é maior de idade! - null a interrompeu.
- Eu sei, mas eu nunca fui muito de sair, então também nunca me importei muito com essa coisa de horário - ela respondeu sem graça. De fato, ela nunca saia muito, e as poucas vezes que saíra foram com null, sua melhor amiga, mas nem mesmo assim sua mãe gostava que ela chegasse tarde. Até porque, ela não tinha dito à mãe que ficaria na festa de null. Tinha pensado que ele só estava tirando uma com a cara dela quando a convidou.
- Ah, mas não precisa se preocupar. Vou ligar para a sua mãe e pedir para ela deixar você ficar aqui com null e os amiguinhos dele na festinha que vai ter.
null ia dizer para Dra. Maria não se incomodar, mas ela falou:
- Não senhora, você é jovem e merece se divertir aqui. Eu sei que você sempre ficou muito presa em casa, sua avó sempre comentou isso.
null ficou surpresa. Sua avó tinha saído falando dela por aí, é?
Dois minutos depois Dra. Maria veio falar tchau para os filhos, logo depois de um null sorridente vir da cozinha falando que a mãe tinha ligado para a mãe de null e que ela poderia ficar na festa, desde que voltasse até meia noite.
- Vem, null, vamos lá pra fora! - Oliver falou animado já puxando null pela mão.
- Ei, ei, ei! Pra onde você pensa que esta levando a null? - null parou o irmão que corria para fora.
- Lá pra fora, ué.
- null vai ficar comigo durante a festa, não com você - ele falou.
Nesse momento null ficou vermelha, Oliver bufou emburrado, Dra. Maria ligou o carro lá fora e null percebeu o que havia dito. Ele tentou se explicar, dizendo que null devia ficar com as pessoas da idade dela, mas não foi uma explicação muito boa. Nem mesmo ele ficou convencido da desculpa que deu. Os garotos foram para fora ajudar na arrumação, todos já bem arrumados e cheirosos, null percebeu. null ficou sem graça e seguiu para fora, com Oliver atrás dele sempre puxando null.
null não falou mais com null, mas não se sentiu sozinha, uma vez que Oliver estava sempre do lado dela e nunca deixava de conversar com algum dos rapazes.
- Estou te falando - um deles disse - Esse cara é um gênio!
- Não sou não. - O garoto se defendeu. - Eu só tenho muita sorte.
- Cara, eu nunca vi você estudando pra uma prova, e olha que eu moro com você há três anos, e você nunca ficou de recuperação!
- E o que tem isso?
- Isso vai contra todas as leis da natureza!
null estava se divertindo, rindo das piadas deles e das histórias que corriam nos corredores de Princeton, mas ela sempre ficava ansiosa quando percebia o olhar de null nela. O porquê do sentimento ela não sabia, mas não podia evitar. Ele não tinha falado mais com ela até então, só havia mencionado o nome dela quando os seus amigos chegaram, apresentando-a.
O pessoal do antigo colégio de null não era tão simpático como a galera de Princeton, então ela preferiu ficar mais na dela, principalmente quando os dois grupos de amigos de null se juntaram para conversar. Oliver ficou num conflito digno de pena, sem saber se ficava fazendo companhia a null ou se corria para perto dos amigos do irmão - que agora tinham aumentado em número. Vendo a ansiedade dele, null foi com Oliver para a rodinha de conversa.
null estava servindo o pessoal de cerveja e mostrando os muitos salgadinhos que sua mãe tinha comprado.
- Caramba, cara, a sua mãe é muito gente boa. - Um dos garotos da fraternidade dissera. Esse, null tinha descoberto, tinha um nome muito estranho e por isso todos os chamavam de Veloz, por ser um ótimo jogador de basquete além de fugir, como nenhuma outra pessoa, de garotas apaixonadas. null fez uma nota mental para manter distância dele.
null lhe serviu de uma cerveja e acabou ficando do seu lado. Não que isso significasse alguma coisa, mas ela sentia arrepios cada vez que seus braços se encostavam. Ele conversava animadamente com o pessoal, dava risada toda vez que lembravam de algum fato engraçado e compartilhavam com todo o pessoal e acabou se divertindo, mesmo estando numa festa com várias pessoas que não conhecia. null teria se entrosado bem melhor que ela, tinha certeza disso, mas até que ela não estava se saindo tão mal.
Em certo ponto da noite, eles resolveram tirar fotos. null não era fã de fotos, mas acabou se posicionando entre dois amigos de null, Veloz e uma garota que ela tinha conhecido aquela noite, e sorriu para a foto.
- Espera aí, espera aí! – null falou alto. Ele saiu de onde estava, entrou no lugar de Veloz – que acabou sendo empurrado para o lado – e colocou o braço nos ombros de null. Na primeira foto, null tinha certeza de que não gostaria se fosse marcada no Facebook – ela nem tinha certeza se tinha fechado a boca antes da foto ser tirada. Na segunda, ela já saiu mais normalzinha, mas não sorriu, mas só na terceira – “vamos tirar só mais uma pra garantir” – que ela pôde sorrir.
Todos se dispersaram, alguns foram pegar mais cerveja, Comilão – que era um dos amigos de fraternidade de null – foi comer mais dos salgadinhos que Dra. Maria tinha comprado, e outros continuaram a conversa de antes – menos null. Ele não tinha voltado para onde estava, nem tinha ido conversar com os amigos. Na verdade, ele nem mesmo tirou o braço dos ombros de null. Em vez disso, ele a puxou para mais perto, pegou o celular dele, e o posicionou para tirar uma foto deles.
Mesmo surpresa, null sorriu pra foto. Enquanto ele olhava para o celular, ela decidiu colocar o braço em volta de cintura dele, já que ele ainda estava abraçando ela. Oliver veio correndo até eles, dizendo que queria experimentar cerveja, mas null disse que ele ainda era muito novo. Ele saiu de lá emburrado, dizendo que estava cansado de ser muito novo.
Quando null olhou para baixo e null tinha certeza de que terminariam o que começaram na cozinha dias atrás, a campainha tocou. null ficou surpreso, já que não tinha mais ninguém para chegar.
- Eu já volto. Me espere aqui, tudo bem?
Ela abalançou a cabeça concordando, mas assim que ele virou as costas, ela foi puxada para a rodinha de conversa que estava tendo. Não que tivesse se concentrado muito no que estavam falando – além de serem várias pessoas falando ao mesmo tempo e de ela já estar meio tonta por conta da bebida, o fator “null” tinha a deixado bem atordoada.
Quando null voltou, ele tinha uma cara séria. Foi direto para o grupo que conversava e fez com que todos prestassem atenção nele.
- Alguém chamou Malakai e os amigos escrotos dele? – Perguntou com os dentes cerrados.
- Claro que não, cara. O cara é o maior idiota – um dos amigos de colégio, Pete, disse. Tirando os caras da fraternidade que não conheciam Malakai e seus amigos, todos os outros concordaram com Pete.
null revirou os olhos e suspirou alto.
- Por quê? – Alguém perguntou.
- Porque...
- E aí, pessoal, como estão?
Todos viraram para trás a tempo de ver um cara alto e loiro, com o cabelo parecendo ter saído de um tornado, usando uma camisa de alguma marca famosa, com mais três pessoas envolta dele. Aquele devia ser Malakai, null pensou, já que o pessoal do colégio de null começou a murmurar assim que ele entrou e ela percebeu que o clima mudou drasticamente.
- E aí, null, não vai me apresentar ao pessoal novo? – Malakai perguntou olhando os amigos de fraternidade de null e parando o olhar em null. Aquele olhar a fez se sentir mal e ela quis sair de perto dele.
null apresentou os caras de Princeton rapidamente e ignorou null, mas Malakai não.
- E a moça? Qual é o seu nome, linda? – Ele perguntou se aproximando dela e lhe dando um beijo no rosto, da mesma forma que tinha feito com as meninas ali, mas só que mais demorado. Ela também não gostou da mãe dele na cintura dela.
- null – ela disse com um sorrisinho sem graça. Saiu para pegar outra cerveja, mesmo que achasse que não devia beber mais, só para se afastar dele.
- null, cara, quando ficamos sabendo da festinha que você estava fazendo pensamos que não poderíamos deixar de vir. Sabe como é, principalmente pelo fato de você ter chamado gente do nosso antigo colégio também – Malakai disse enquanto se servia dos salgadinhos em cima da mesa. – Ei, null, linda, pode pegar uma cerveja pra mim também? – Priscou pra ela.
Ela quis dizer que não o serviria nem se ele tivesse as mãos amputadas, e null quis socá-lo no meio das pernas, mas nem um nem outro fez o que tinha vontade de fato. null lhe deu uma cerveja e voltou para o lado de Veloz, que era o que mais estava longe de Malakai.
- Eu os chamei porque são meus amigos, Malakai – null respondeu mal humorado.
Malakai riu. Percebeu a indireta de null, sabia que não era bem vindo ali, mas, bem, era só uma festa, de qualquer forma. Malakai de inicio decidira ir à casa de null para importuná-lo, mas depois que viu null pensou melhor e decidiu ficar um pouco mais. null, não querendo acabar com o clima de festa, deixou ele ficar com seus amigos. Malakai e null nunca tinham sido amigos, mas também não eram inimigos. Eles só não se gostavam, nem iam com a cara um do outro. Pensou que, se Malakai ficasse um pouco e visse que null não ligava, ele logo iria embora.
- Ei, cara, a gente só quer se divertir – Malakai disse. null concordou, então deu as costas pra ele, dizendo para que os outros se servissem de cerveja ali atrás, e isso foi o suficiente para que o clima voltasse mais ou menos como estava antes.
null ficou perto dos garotos de Princeton, primeiro porque ela já tinha mais assunto com eles, já que passaram o dia todo conversando, e segundo porque eles estavam mais longe de Malakai e seus amigos. Malakai e os outros rapazes que chegaram com ele ficaram em um canto da festa, longe do restante do pessoal e conversavam entre eles. Isso abaixou um pouco a raiva de null, mas não totalmente. Ele ainda queria chutar a bunda de cada um pra fora de sua casa, principalmente quando pegava os olhares de Malakai para null. Aquilo fervia o seu sangue a ponto de deixa-lo com tanta raiva, que não consegui nem ser simpático com ela. Na verdade, ele estava tratando-a até grosseiramente, se comparado ao momento que tiveram durante as fotos.
Oliver corria de um lado pro outro, mesmo com os avisos de null e null para que ele não corresse perto da piscina. Ele ainda não tinha aprendido a nadar por sempre desistir das aulas na primeira semana. Depois de três tentativas, Dra. Maria decidiu coloca-lo no tênis, o que acabou sendo uma decisão sábia, já que Oliver adorava o esporte.
null foi mostrar o banheiro dentro de casa para uma de suas amigas e aproveitou para colocar o celular pra carregar no quarto. Lá de cima ele conseguia ouvir a música alta e as risadas de seus amigos. Era disso que ele gostava: poucas pessoas, mas muito barulho e diversão. E claro, não poderia faltar a cerveja que se tornara sua melhor amiga na faculdade devido aos muitos pubs que frequentava.
Olhou pela janela e viu null conversando com os caras do time. Eles eram legais de mais, todo mundo gostava deles. E null... Ele não achava possível alguém não gostar dela. Quer dizer, null era... Bem, null. Não havia palavras que pudessem descrevê-la.
Seu sangue ferveu novamente quando ele não viu mais null com seus amigos. Em vez disso, ela estava em outro lugar, perto da piscina, com Oliver do seu lado, e Malakai tentando puxá-la para perto dele. Mas que porra...!

- Então você é namorada de null? – Malakai perguntou atrás de null surpreendendo-a. Ela estava servindo Oliver com o suco da geladeira, dentro de casa, e nem viu aquele garoto chegar por trás.
- Não. Eu sou babá do irmão mais novo dele – ela respondeu tentando sair de perto dele, mas Malakai ficou na sua frente, e com a geladeira atrás, ela ficou sem saída.
- É mesmo? – Ele sorriu com algum pensamento malicioso. – Então você não é nada dele? Nada para ele?
null apertou os dentes. Ela não queria responder aquela pergunta. Não queria responder nada pra ele.
- Não. Somos amigos, apenas.
- Amigos, é? – Ele sorriu satisfeito. Ia falar mais alguma coisa, mas Oliver apareceu na cozinha procurando por null que estava demorando demais.
null não escondeu o alívio por ver Oliver, nem a careta ao passar por Malakai. Aquilo não o afastou, como null pensou que aconteceria, mas só o divertiu, instigando-o a investir mais.
- Você já ouviu falar de mim, null? – Ele foi atrás dela, chamando sua atenção. Ele foi novamente para frente dela, ficando em seu caminho, fazendo-a a parar e revirar os olhos de impaciência.
- Por que eu teria ouvido? – Ela perguntou com desdém.
Ele sorriu satisfeito com a hostilidade dela. Gostava de desafios.
- Porque metade da cidade me conhece. Já outra metade não teve tanta sorte – ele disse convencido.
null pensou que poderia ter continuado na metade que não tinha sorte. Ela teria se sentido sortuda.
- Sabe, muitas meninas desejariam estar comigo agora. Dizem que eu sou o cara mais cobiçado da cidade – se aproximou mais. – Algumas dizem que do estado inteiro – ele sussurrou, mas diferente de quando null sussurrou no ouvido dela e ela sentiu um arrepio gostoso, dessa vez ela se sentiu mal. Teve certeza de que não deveria ter tomado tanta cerveja.
- Coitadas – ela disse. Tentou passar por ele, mas ele deu um passo para o lado. Oliver gritou seu nome, mas Malakai não deixou null passar.
- Deixa o garoto pra lá. Te garanto que comigo você vai se divertir bem mais. – Ele se aproximou mais, e null, mais uma vez, tentou se afastar, mas ele segurou seu braço.
- Que saco, cara, me deixa. – Ela disse. Não estava acostumada com caras dando em cima dela, principalmente caras dando em cima dela daquela forma chata. Estava odiando aquilo. Preferiria continuar sem ser flertada a ter aquele babaca em cima dela daquele jeito com a cabeça quase no pescoço dela e aquele bafo de cerveja.
- Você não precisa resistir, null. A diversão está apenas começando– Ele falou mais perto, quase no ouvido dela – Quer dizer, eu estou bem na sua frente – ele sorriu malicioso e aquele foi o pior sorriso que null já viu. Se ela não estivesse tão surpresa, teria arrancado dente por dente.
- null, vem cá ficar com a gente!
Oliver apareceu bem no momento em que null tentava se afastar de Malakai. Com a aparição de Oliver, Malakai se distraiu um pouco, saindo de perto de null o suficiente para ela dar alguns passos para trás.
Malakai foi puxar seu braço de novo, mas Oliver chegou primeiro e pegou na mão dela.
- Mas que saco, garoto, sai fora!
Talvez ele estivesse bêbado, talvez só estivesse com raiva ou sem paciência por ter sido interrompido por Oliver várias vezes, mas nada justificaria a força que usou para empurrar Oliver para longe dele e de null. Força essa que o derrubou na piscina, na parte mais funda, onde Oliver não tinha pé.
No susto, null correu para a borda, mas Malakai segurou seu braço de novo. Foi nesse momento que null apareceu, correndo feito um furacão. Ele já nem se lembrava do motivo para estar correndo lá para baixo, mas quando viu o irmãozinho na piscina sem conseguir nadar, não pensou duas vezes, e pulou na água para tirá-lo. Todos correram para onde null estava tentando puxar Oliver para fora, percebendo naquele momento o que estava acontecendo. null, que ainda tinha o braço segurado, perdeu o controle que estava tendo, e acetou o nariz de Malakai.
Enquanto ela corria para pero de Oliver que estava no chão tremendo, reclamava de dor na mão que tinha acertado Malakai. Nem mesmo pôde apreciar a vista de null de camisa molhada pertinho dela, tamanha sua preocupação para com Oliver. Dois minutos foram suficientes para Oliver garantir que estava bem. Também foram suficientes para null poder acumular toda a raiva que estava sentindo desde que Malakai chegara, junto com seus amigos, e que se intensificou quando o viu segurando null e acabou explodindo como um vulcão ao vê-lo empurrando seu irmãozinho na piscina.
null partiu para cima de Malakai e, se null tinha feito o nariz dele sangrar, null garantiu que sua sobrancelha nunca mais fosse a mesma. A boca também sangrava quando ele foi tirado de cima de Malakai por seus amigos. Ao olhar para o lado, viu que os rapazes que vieram com Malakai estavam sendo segurados por seus amigos da faculdade e as garotas estavam do lado de null que segurava a mão vermelha no peito.
- Eu quero você longe da minha casa, seu filho da puta! – null gritou ainda sendo segurado.
- Foda-se o que você quer, babaca – ele não sairia dali sem poder se vingar pelos ferimentos.
- Mano, vamos embora – um dos amigos de Malakai falou.
- Se liga, Malakai, ninguém te convidou. Ninguém te quer aqui – uma garota disse.
- Cala a boca, sua puta! Ninguém mandou você falar!
- Cala a boca você – null se soltou e fez o que teve vontade de fazer assim que viu Malakai olhando para null pela primeira vez naquela noite: chutou suas bolas com toda a força que tinha. Malakai perdeu as forças nas pernas e, mesmo sendo segurado por seus amigos, caiu jogado no chão. – Levem ele daqui! Não quero mais ver a cara dele aqui! Vai, cara, some! – null gritou.
Malakai foi levado apoiado e um dos amigos de null foi abrir a porta para eles. Depois disso a festa poderia ter acabado, mas estavam todos preocupados com Oliver que tremia de frio. null o levou para dentro, dizendo que daria um banho nele. null ficou lá fora se acalmando. Ninguém achou estranho que o clima para festa tenha acabado, mas não podiam culpar null.
Todos o ajudaram na arrumação de sua casa, mesmo ele dizendo que não precisava. No final da noite, só sobraram os caras de Princeton na sala com ele e null no andar de cima ainda com Oliver. null foi ver como o irmão estava. Ele tinha se assustado, mas o fato de ter sido salvo pelo irmão mais velho parecia ter feito tudo valer a pena. Na verdade, ele estava até que bem empolgado com o fato de null ter pulado na piscina para salvá-lo, ter quebrado a cara de Malakai e chutado as bolas dele, tudo isso pelo que aconteceu com ele. null achou melhor não dizer que a explosão de raiva não tinha sido apenas por Malakai ter jogado Oliver na piscina.
null ficou com ele, assistindo a um episódio novo de alguma série que Oliver gostava até ele dormir. Ao descer, null, foi ao encontro dela no fim da escada.
- Acho que já deu minha hora. Minha mãe já me ligou várias vezes enquanto eu estava com Oliver – ela disse baixinho, por mais que os garotos estivessem na cozinha e não pudessem ouvi-los.
- Já passou da meia noite, né? – null comentou olhando para o relógio. – Bom, eu te levo pra casa.
- Claro que não, null, você fica aqui com Oliver e eu chamo um táxi, não se preocupe. – Foi a primeira vez que ela o chamara pelo apelido, mas resolveu ignorar esse detalhe.
- De jeito nenhum! Eu te levo pra casa...
- null, não. Olha, você fica aqui, tá? Oliver pode acordar meio assustado, sei lá, e seria bom você estar aqui. – Ela disse. – Se for te deixar mais tranquilo, um dos garotos pode me levar.
- E deixar aqueles doidos dirigirem o meu carro? Nem pensar!
null riu dele. null sorriu por causa da risada dela e ela continuou sorrindo pelo sorriso dele. Aquilo estava se tornando um ciclo sem fim. Não que qualquer um dos dois se importasse.
- Liga pra sua mãe e pede pra ela deixar você dormir aqui – ele disse depois de um tempo. Não sabia de onde tinha vindo a ideia, mas não queria que null fosse embora. Não naquela noite.
- Ah! – Ela ficou surpresa – Não sei se ela vai deixar...
- Minha mãe acabou de me ligar – ele contou – Ela disse que teve um acidente bem feio com dois caminhões perto do hospital, fechando a rua toda, e que por isso terão que dormir num hotel lá perto. Você pode dizer pra sua mãe que não quer deixar Oliver sozinho – ele fez sua melhor cara de “tenta, vai que dá certo”.
null nem pensou direito antes de responder:
- Tá bom.
E cinco minutos depois ela estava na cozinha, onde todos estavam, dizendo que passaria a noite lá. Foi então que ela se deu conta: passaria a noite numa casa com seis garotos. Bem, sete, se contasse Oliver. S-e-t-e rapazes. Em uma casa. E ela. Ela, a garota menos paquerada de todas, a que só tinha uma melhor – e única – amiga, dormiria numa casa com sete garotos. null vibraria com a ideia se estivesse lá.
- Os caras estão dormindo no meu quarto, mas deixaram as coisas deles no quarto de hóspedes. Você pode dormir lá depois que eles levantarem as bundas e irem arrumar o quarto pra você – null disse.
Depois de algumas reclamações sobre “Para que arrumar o quarto? Só porque as roupas estão espalhadas, algumas coisas se perderam e as malas estão jogadas em cima da cama, não significa que o quarto esteja bagunçado”, eles foram pegar suas coisas rapidinho depois que null disse que não se importaria em dormir no quarto com Oliver, ou na sala. Até porque eles eram verdadeiros cavaleiros e jamais deixariam uma dama dormir na sala – mesmo que a outra opção fosse um lugar que mais parecia um depósito de malas.
null ficou lá em baixo com null enquanto pensava no que vestiria para dormir. E no que vestiria no dia seguinte também. Bateu a mão na testa. Como não tinha pensado nisso?
- O que foi?
- Não tenho o que vestir – ela respondeu.
- Eu te empresto uma roupa, não se preocupe.
null se levantou e foi para perto da geladeira, onde null estava se servindo de suco. Ao se virar com o copo na mão, se deu conta da proximidade dele. Sorte que não tinha enchido o copo, ou teria derrubado tudo na única roupa que tinha, por conta do susto.
- Malakai fez alguma coisa pra você? – null perguntou baixinho.
- Não – coçou a garganta. Maldita voz falha! – Não, ele não fez nada.
- Até porque quem fez alguma coisa foi você – ele brincou. – Belo soco. Facilitou o meu trabalho em quebrar a cara dele.
- Ah, sem problemas – ela deu de ombros como se aquilo não fosse nada. E então estavam os dois sorrindo de novo, um para o outro, bem próximos. Ele pegou o copo na mão dela e colocou na pia. Se aproximou mais, estava quase abraçando-a quando Veloz chegou na sala falando alto, assustando os dois – ou apenas null, já que null não se importava com quem estivesse ali perto. O amigo gênio chegou depois, mandando Veloz calar a boca, pois Oliver já estava dormindo, mas acabou falando ainda mais alto que Veloz. Outra pessoa, lá em cima, gritou para os dois calarem a boca, e então null começou a rir da situação. null percebeu que o clima estava totalmente quebrado e que ele não teria outra chance com ela, pelo menos não naquela noite, não com seus amigos bêbados pela casa.
null a levou para cima, mostrou onde ela dormiria e lhe entregou uma roupa dele. Ela gritou um “Boa noite, pessoal!” e trancou a porta depois de null lhe dar um beijo próximo aos lábios e lhe dar uma piscadinha.
Pensou em tudo o que aconteceu naquela noite: na forma com que ela conseguiu interagir bem num lugar onde ela não conseguia ninguém, em como as duas meninas que foram pareciam ter gostado dela, no soco que dera em Malakai – sua mão ainda doía – e nas aproximações dela e de null. Tinha certeza que se tivesse mais atitude, ou se fosse null, não teria deixado passar nenhuma chance com ele, mas ela não era. Depois de alguns minutos, ela já estava sonhando com jogos de basquete, com garotos de camisa molhada e null piscando para ela antes de cada mergulho numa piscina gigante.

Estava tendo um sonho estranho quando acordou. Ela estava num lugar quente, mas sua boca estava fria, quase com um gosto de menta. Ao abrir os olhos, deu de cara com null com a cabeça em cima dela, olhando-a. Precisou de apenas alguns segundo para puxar a coberta pra cima e ralhar com ele:
- Como você entrou aqui? – Ela perguntou com a voz rouca. Caramba, estava com a boca seca. – Eu tranquei o quarto antes de dormir.
- Eu tenho a chave, tolinha – null balançou a chave em cima da cabeça dela.
- Mas como você vai entrando assim, sem bater na porta? Eu poderia estar pelada! – Ela disse. Sempre que acordava, demorava um tempo até te controle total do seu cérebro. Enquanto isso, falava aquilo que vinha em mente, sem restrições. E o pior é que estava falando aquelas coisas com null ainda em cima dela – e ela ainda não tinha escovado os dentes ainda.
- Eu bati, e você não atendeu. Por isso abri a porta, dã – bateu na testa dela. – E sobre estar sem roupa, não se preocupe com isso. Eu não me preocupei – null sorriu meio safado meio divertido pra ela.
null fechou a cara pra ele e puxou ainda mais as cobertas.
- Além do mais, minha mãe ligou perguntando se eu podia ligar pra você e pedir pra vir ficar com Oliver. Aparentemente a rua do acidente ontem à noite ainda não foi liberada e ela ainda ficará por lá com meu pai. E como você não atendia o celular, resolvi vir aqui e ver se ainda estava viva.
- Se ainda estava viva? – Ela perguntou confusa.
Ele revirou os olhos antes de responder:
- Já é quase meio dia. Você conseguiu dormir mais que o Soneca, e olha que ele dorme pra caralho.
Soneca, null descobrira na noite anterior, era outro amigo de null. Ele poderia passar o dia todo dormindo e não nunca perderia o sono à noite.
- Estranho – ela comentou olhando em volta – Não ouvi meu celular tocando.
- Isso é porque ele estava lá em baixo. Você esqueceu ele na cozinha ontem à noite. – null mostrou o celular para null. – Minha mãe te ligou duas vezes e deixou uma mensagem. Ah, e sua mãe ligou também, estava preocupada, mas não se preocupe, eu já falei com ela.
- Você falou com a minha mãe?! Quem deixou você atender o meu celular? – null perguntou assustada roubando o celular dele. Ao olhar para a tela, tinham mais de seis ligações perdidas da mãe, e isso só depois de null tê-la atendido. Ela não tinha dito à mãe que teriam outros garotos na casa além de Oliver, apesar de ser meio óbvio que null também dormiria lá. Ela nunca tinha dormido fora de casa – a não ser na casa de null – principalmente na casa de um garoto.
- Você sempre faz um monte de perguntas quando acorda? – Ele perguntou. Se levantou e foi em direção à porta. Ao falar, ele tinha um sorrisinho maroto no rosto – E não se preocupe, disse à sua mãe que usamos camisinha. - Piscou para ela de novo, saiu e fechou a porta.

null estava na cozinha junto a Oliver fazendo o almoço enquanto null e seus amigos jogavam basquete lá fora. Depois de ter conversado com a mãe a garantido que tinha dormido sozinha num quarto fechado a prova de garotos, disse que ficaria até Dra. Maria chegar. Sua mãe não ficou brava, já que tinha visto a reportagem do acidente na televisão.
Nunca tinha sido muito boa na cozinha, a não ser nas vezes que tinha sua vó por perto para ajudá-la – como quando sua vó dizia “null, desliga o fogão que a água já está escorrendo!” ou “null, você usou leite vencido?” e coisas do gênero. Mas naquele dia tinha decidido fazer macarronada, pois era uma coisa fácil de cozinhar e impossível de errar – até mesmo para ela.
Enquanto levava as coisas para a pia e cortava os temperos, ela pensou no gostinho fraco de menta que tinha nos lábios quando acordou. Depois se lembrou de como null estava próximo a ela quando abriu os olhos e ficou imaginando se não tinha a acordado... Mas não. Seria impossível de acontecer. De qualquer forma, mesmo tendo quase certeza, ela não conseguia deixar de imaginar como seria o beijo de null. Provavelmente teria gosto de menta, disso null sabia.
- Opa, o cheiro tá bom – Veloz disse ao entrar. Ele e os outros rapazes foram para cima tomar banho enquanto ela terminava de cozinhar e Oliver acabava de por a mesa.
null foi o primeiro a ficar pronto e descer. Parou atrás de null que terminava de colocar as coisas na mesa, e se serviu. Ela se afastou e sentou-se ao lado dele na mesa. Oliver tinha ido ao banheiro lavar as mãos. Ele começou a comer mesmo antes dos amigos chegarem, e null acabou o acompanhando. Sem perceber o que estava fazendo, ela passou o guardanapo na boca dele quando ele sujou. Meio sem graça da ação impensada, ela olhou para frente, mas ele a puxou de volta e a beijou.
Era isso. Aquele era o momento certo. Depois de tantas tentativas, finalmente null conseguira beijar null. Talvez não nas condições que ele esperava, já que não estavam no escuro, nem numa festa, mas pelo menos estavam os dois ali, naquele momento, respondendo um ao outro. null puxou seus cabelos e apertou sua perna enquanto ele segurava sua cabeça e puxava sua cintura, entrelaçando as pernas. Ainda estavam sentados se beijando quando Oliver entrou na cozinha fazendo barulho com os tênis e deu um gritinho ao ver null e null daquele jeito.
null ficou furioso por ter sido interrompido de novo, até porque o beijo tinha finalmente acontecido, e null estava sem graça, mas Oliver apenas disse:
- Nossa, até que fim!
Quando ele cruzou os braços e ficou olhando para null e null, os rapazes chegaram e pararam na porta para olhar o que Oliver estava vendo: null e null com as pernas entrelaçadas, os braços uns nos outros e as bocas super vermelhas.
- Tem razão, Oliver – o amigo gênio disse. – Até que fim.

A tarde passou quase voando. Dra. Maria e seu marido só chegaram em casa à noite, quando os garotos já tinham ido embora. Dra. Maria agradeceu null por ter ficado com Oliver a tarde toda de novo, dizendo que não confiaria seu filhinho à null, principalmente tendo seus amigos por perto e sabendo como ele era distraído. Eles resolveram não contar à ela do quase afogamento de Oliver na noite passada, nem comentar que eles, null e null, passaram quase a tarde toda juntos, muitas vezes no jardim dos fundos, se beijando, enquanto Oliver ficava na sala com os caras falando de como “ele sempre soube que null e null se beijariam um dia, mas que ele nunca imaginou que seria uma coisa tão nojenta”.
Naquela tarde null também descobriu que null não só tocava saxofone, mas que frequentava um pub com música de jazz ao vivo todos os finais de semana e que tocava em alguns deles.
- Quando você for para Princeton vou te levar pra conhecer o Torre. É um dos melhores pubs universitários – null falou.
- É, e a melhor parte é que metade da galera que frequenta esse pub não conhece um pente de cabelo, ou seja, o pessoal não liga muito pra aparência, é um lugar bem tranquilo mesmo – o amigo gênio comentou.
Dra. Maria disse que iria tomar um banho e descansar na sua própria cama, mas só depois de null garantir que seu canteiro de rosas tinha ficado a salvo e que ninguém da festa tinha chegado perto dele. Quando ela estava no topo da escada, o pai de null se ofereceu para levar null para casa, mas null disse que o faria. Oliver então correu para se despedir, lançando a eles dois um olhar do tipo “eu sei o que vocês vão fazer no carro”.
E ele não estava errado. null a beijou ainda no estacionamento de sua casa, quando pararam num semáforo – e receberam uma buzina por isso – e quando a deixou em casa.
- Te vejo amanhã? – Ele perguntou.
- Você sabe que sim, mas eu não vou pra ver você, e sim seu irmão – ela brincou.
- Hm... – passou o nariz pelo pescoço dela – Garoto sortudo. Mas tudo bem, eu me contento em apenas tirar uma casquinha.
Se beijaram mais uma vez antes dela descer, mas antes de fechar a porta, ela perguntou:
- Você me acordou com um beijo hoje mais cedo?
Ele sorriu sapeca de respondeu:
- Isso você nunca saberá.

No dia seguinte, a caminho para a casa de Oliver, null resolveu passar num supermercado e comprar alguma coisa nada saudável para comerem naquela tarde, pois sabia que Dra. Maria estaria trabalhando. Durante a manhã null entrou em contato com vários proprietários de apartamentos perto de Princeton, falou com algumas meninas de fraternidades, buscando uma vaga, mas não teve muito sucesso. Algumas pessoas ficaram de entrar em contato com ela mais tarde, mas ela estava começando a ficar preocupada. As aulas começariam em menos de um mês, e ela ainda não tinha achado um lugar para ficar.
- Não se preocupe, null, você vai encontrar alguma coisa. – Sua mãe garantiu.
Mas o dia ficou pior quando ela entrou no supermercado e viu o pai fazendo uma super compra de coisas supérfluas, como álcool, cigarros e doces diversos. Mais dois homens estava perto dele, falando sobre o fim de semana de pôquer que tiveram e como ele, o pai de null, estava melhorando a cada semana.
- Acha que vai conseguir dinheiro pro próximo jogo? Vai ser no fim da semana, no mesmo lugar, no mesmo horário – um deles disse.
O pai de null riu, dizendo que não perderia o jogo por nada. Foi quando null se deu conta: ele estava sempre precisando de dinheiro porque estava sempre endividado por conta de jogos. Seu pai, o canalha que deixara sua mãe quando null tinha apenas cinco anos, o mesmo canalha que não ligava pra ela nos seus aniversários, nem lhe mandava um cartão no Natal, estava extorquindo dinheiro da filha para sustentar seus jogos e vícios.
Depois daquela decepção, ela voltou para casa, esquecendo-se completamente de que teria que ir ficar com Oliver. Tudo o que ela precisava era de silêncio para entender o que tinha acontecido e poder se culpar por ter sido tão idiota a ponto de gastar suas economias com ele. Devia ter ouvido sua irmã. O choro só veio quando o pai começou a ligar para ela insistentemente quando ela não atendeu da primeira vez. Depois veio a mensagem de texto pedindo por dinheiro, pois aparentemente ele “ainda tinha algumas poucas dividas para quitar e dependia da ajuda dela”.
A mãe dela achou melhor ligar para a casa de Oliver e avisar que null não estava bem para ir trabalhar naquele dia. Ela nem mesmo tentou convencer a mãe do contrário. Se sentia traída de mais, uma tola inocente enganada pelo próprio pai.
null não teve coragem de dizer à mãe o motivo do choro, então optou por culpar a TPM, mesmo que sua mãe não acreditasse. Anne desconfiou da verdade, mas preferiu não forçar a barra. Depois de chorar muito – e ter o resultado disso de baixo dos olhos – null resolveu esquecer aquela história, seguir em frente e pelo menos fingir indiferença com o pai. Ele não merecia o sofrimento dela, até porque já tinha tirando muito dela – seu dinheiro para a faculdade.
No dia seguinte sua mãe lhe deu uma carona até a casa de Oliver, já que estava saindo para o trabalho e era caminho. Não tocaram no assunto do dia anterior, e null achou melhor. Já se sentia tola o bastante para ter a mãe lhe dizendo como fora inocente demais. O que a deixava meio animada era a possibilidade de ver null, mas ele não estava em casa quando ela chegou. Ficou vendo filmes com Oliver sem realmente ver nada, até que null chegou depois do almoço e sorriu ao vê-la.
E então as coisas melhoraram um pouquinho. Também não quis contar a ele a história com seu pai, pois achou que ele também a julgaria – não que ele estivesse errado. Passaram a tarde juntos, os três, com Oliver vendo seu programa favorito na televisão, sobre animais, e null e null abraçados no sofá. Ele ficou o tempo todo no celular, mas ele sempre fazia isso, de qualquer forma.
Quando Dra. Maria chegou e null foi se despedir de null no quarto dele, ele estava no banho. Gritou que estava indo embora, e ele gritou de volta para ela espera-lo. Ela o fez. Que mal teria ficar mais alguns minutinhos? Não era como se ela nunca tivesse passado a noite lá.
Ela nunca tinha entrado no quarto dele, então ficou surpresa ao ver a coleção de carrinhos que ele tinha numa prateleira em cima da mesinha do computador. Estava olhando cada um quando o celular dele começou a tocar. Quando olhou para a tela, viu que já tinha quatro ligações perdidas do mesmo número. Mas então ele começou a receber mensagens pelo Skype que estava aberto. null não queria ler, nunca tinha sido sua intenção, mas bateu os olhos no que estava escrito e sua curiosidade falou mais alto:
“Cara, a Lauren está feito louca atrás de você. Diz que você não fala com ela já tem três dias”
null, fala logo com essa garota, ela não para de encher meu saco querendo saber de você, mesmo eu dizendo que não sou bola de cristal pra saber das coisas”
“Porra, mano, sua namorada é mesmo muito chata. Não sei como aguenta ela, fala sério”
Nesse instante null saiu do banheiro vestido da cintura pra baixo, com o peito nu e a toalha em volta do pescoço. Ele sorriu ao ver ela, mas não recebeu um sorriso em resposta. Seu celular começou a tocar de novo e olhou o número que chamava: Lauren. Já tinha cinco ligações perdidas dela. Olhou para seu Skype aberto e leu as últimas mensagens que recebera. Tentou buscar o olhar de null, mas ela estava distante. Ele esticou o braço, mas ela deu um passo para trás.
- Você tem uma namorada? – Ela perguntou com a voz neutra.
- É complicado – ele respondeu. Tentou se aproximar dela de novo, mas não teve sucesso. Ela se encolheu, não queria ser tocada, e ele teve que respeitar isso.
- Sim ou não? Eu quero uma resposta direta, null.
- Eu disse, é complicado. – Ele apertou os olhos. Vestiu a camisa que tinha em cima da cadeira e esperou por alguma reação de null, mas ela não veio. – Diga alguma coisa – ele pediu baixinho.
- O que é complicado?
Ele passou as mãos no rosto e suspirou.
- Lauren e eu... Temos uma coisa. Ela não é minha namorada, apesar de agir como uma.
- Uma coisa? – null perguntou fazendo uma careta.
- Nós estamos ficando. Ela queria conhecer os meus pais quando soube que eu viria pra casa nas férias, mas eu não quis. Nossa relação é física, e eu não me sentiria a vontade apresentando-a aos meus pais como minha namorada, como ela queria, sendo que eu não a considero uma namorada.
- E ela sabe que você a vê dessa forma?
- O que isso importa? null, eu estou falando que ela não é minha namorada. Estou falando que preferi ficar com você a chama-la para a festa que dei no sábado.
- Ela não sabia da festa?
- Claro que não! Caso contrário teria vindo e eu não queria isso. Primeiro porque ela iria querer se apresentar aos meus pais como minha namorada, e segundo, bem, por você. Eu queria você, null, não ela. Eu ainda quero você.
- E ela está te ligando porque ficou sabendo da festa? – Ela perguntou sem dar importância para null dizendo que a queria. Precisou fingir que não ouviu para manter a mente funcionando.
- Ela me liga toda hora, mesmo quando não tem nada pra falar. – Ele bufou. - Eu não gosto disso e ela sabe, mas continua insistindo. Quando viu as fotos da festa ficou louca querendo falar comigo – rolou os olhos. – Mas de que isso importa, null? Eu quero...
- Ficar comigo, eu ouvi da primeira vez – ela falou dura. – null, você não viu o que fez? Mentiu pra garota e mentiu pra mim também.
- Eu não menti pra você! – Ele se defendeu. – Eu nunca disse...
- É, você nunca disse que não tinha uma namorada, mas quando um cara dá em cima de você e te beija, você imagina que ele realmente não tenha uma namorada. Sabe, é meio que uma coisa lógica, se você parar pra pensar. – Ela falou quase gritando.
Ele não disse nada. Ficou olhando-a, quase com vergonha, pois o que ela disse tinha sentido.
- Só porque você não a vê como uma namorada não significa que ela pense da mesma maneira. – Olhou para o celular dele que começou a tocar de novo. O nome “Lauren” piscava na tela. – Você não devia ter feito o que fez, digo, enganá-la e me enganar também.
- null, me desculpe, mas eu não vi as coisas dessa maneira.
- Então você viu as coisas da maneira errada!
Ele suspirou e apertou a nuca. Realmente não tinha visto suas ações da maneira com que null estava jogando na sua cara. Mas olhando para o ponto de vista dela, ele a entendia. Começava até a se sentir culpado pelo que fizera a ela, já que nunca quis enganá-la.
- Eu nunca quis enganar você, null, você sabe disso – ele sussurrou.
- Sei? Na verdade, null, eu não sei de nada! Eu nunca sei. – ela falou a ultima parte baixinho, só para ela, mas null ouviu. - E quer saber de uma coisa, estou cansada de ser enganada pelas pessoas que eu confio.
Dizendo isso, ela virou de costas e foi embora. Passou por Oliver, que acenou pra ela e por Dra. Maria que gritou um “tchau, muito obrigada, null!”. null correu atrás dela, tentou pará-la, mas ela entrou num táxi que tinha acabado de deixar um passageiro. Passou seu endereço ao motorista e o carro partiu enquanto ela ouvia null gritar o seu nome.
Em qualquer momento da sua vida, null ainda teria explodido pela atitude de null, mas devido ao que acontecera com seu pai no dia anterior, ter sido enganada por ele e depois descobrir que havia sido enganada por null também, a fez ver as coisas de outra maneira. Não pensou que tivesse exagerado com null, mas talvez, só talvez, se já não estivesse sensibilizada, poderia ter tratado ele de forma diferente.
De qualquer forma, não teve tempo para pensar no que aconteceu. Ao chegar em casa secou as lágrimas que tinha escorrido sem perceber, e então foi recebida por sua mãe sorridente, dizendo que abrira uma vaga num apartamento só de meninas a poucos quarteirões da faculdade. Ela dividiria o apartamento com mais duas meninas e pagaria um preço bem acessível por isso. Pelo menos uma notícia boa, pensou.
Enquanto conversava pelo Skype com suas novas colegas de moradia, se apresentando e conhecendo-a, começou a arrumar suas coisas, separá-las para colocar na mala mais tarde. null não saia de seus pensamentos, mas cada vez que sua imagem aparecia, fazia outra coisa, pensava em qualquer outra coisa que não fosse ele.
Mas a noite chegou, e ela precisou se deitar para dormir. Pensar que o veria no dia seguinte lhe dava um aperto ruim no peito, bem diferente do friozinho bom que sentia quando estava com ele. Por mais que tentasse, no silêncio da noite e no conforto da cama, ela se lembrou de quando se conheceram e em todos os momentos que tiveram juntos, desde os que ele passava reto por ela, até os últimos dias, e nos beijos que tiveram.
Chorou novamente, mas a causa das lágrimas era uma mistura entre a enganação de null e as mentiras do seu pai. Pensar em seu pai a fez chorar ainda mais, mas de raiva. Raiva por ter sido tonta. Pensar em null a fazia chorar por ter se decepcionado. Quando finalmente conseguiu dormir, teve sonhos confusos cheios de beijos, choros e jogos de pôquer.

- null, você acha que Oliver gostaria de sair com a gente hoje? Marquei com algumas floriculturas e prometi a mim mesma que escolheria as flores hoje – Anne disse. Aquilo aliviou null, pois sabia que dessa maneira não correria o risco de ver null naquele dia, portanto não teria que lidar com ele.
- Claro que ele gostaria! Oliver adora sair com a gente porque ele sabe que vai acabar o dia com um sorvete na mão – null brincou.
- Você está bem, null?
null piscou forte, engoliu a saliva e se esforçou para parecer relaxada antes de se virara e responder à sua irmã:
- Claro, Anne, estou ótima. Vou ligar para Dra. Maria e pedir para Oliver sair conosco.
Para não correr o risco de null atender, ligou direto no celular de Dra. Maria. Como esperado, ela não se importava que Oliver saísse com ela e sua irmã.
- Só não dê porcaria para ele beber, tudo bem? E nem doces, e nem refrigerantes. Oh, e não o deixe andar muito no sol, isso prejudica a pele. Ah sim, e segure sua mãozinha quando forem atravessar a rua, sim? Oliver sabe que não deve andar sozinho, mas sabe como são as crianças de hoje em dia...
- Claro que sim, Dra. Maria. Não se preocupe, cuidarei bem de Oliver. – E comprarei um sorvete de três sabores pra ele depois do almoço, mas a senhora não ficará sabendo, pensou.
- Ótimo! Vocês vão vir busca-lo?
Antes que null pudesse responder, Dra. Maria pediu um minuto e null pôde ouvir a voz de null do outro lado da linha. Não entendeu o que ele disse, não que estivesse se esforçando. Mas ouvi-lo trouxe um calorzinho no seu peito que ela logo tratou de expulsar.
- Ah, null, null está dizendo que deixará Oliver na sua casa.
- Não precisa, Dra. Maria! Nós...
- Oh, não seja tolinha. Em dez minutos ele estará aí.
Quando null buzinou e Oliver tocou a campainha, null estava muito ocupada no banheiro decidindo qual desodorante usar para poder abrir a porta. Então Anne o fez e quando entrou com Oliver, disse que null parecia decepcionado por não ter sido ela, null, quem atendera a porta e que ele tinha mandado um “oi”, além de pedir para ligar para ele.
Ele não tinha tentado ligar para ela, o que acabou sendo bom. null não queria falar com ele e null sabia como null tinha ficado com relação a ele. Ela preferiu pensar que as ligações que null não fizera significavam respeito a ela e ao seu espaço. Pelo menos isso era bacana da parte dele.
Oliver se divertiu nas duas primeiras floriculturas em que foram. null começou a se chatear quando entraram na quinta, e quando decidiram sair para tomar um sorvete, depois de visitarem sete floriculturas, Oliver e null ajudaram Anne a decidir quais flores usar em seu casamento. Foi uma conversa rápida já que Anne admitiu mais tarde ter gostado da primeira floricultura que entraram e só foi nas outras para ter certeza de que estaria fazendo um bom negócio.
No final da tarde deixaram Oliver em casa com o convite de mais tardes como aquela. Anne ainda tinha que escolher o vestido, o salão, as cores da decoração, o penteado que faria, e claro, o bolo. Essa ultima parte deixou Oliver bem animado – assim como null – e ele ficou de pedir à mãe para deixa-lo passar todas as tardes com elas, o que Dra. Maria não colocou empecilho – mas só porque não sabia dos sorvetes e carrinhos de cachorro quente.
null não viu mais null, nem ouviu falar dele. Com a correria de arrumar suas coisas para a mudança e as decisões para o casamento da irmã, ela ficou tão ocupada a semana toda, que nem mesmo pensou em null. A não ser, é claro, na hora de dormir, quando sua mente traidora a levava para ele. Mas felizmente ela sempre estava exausta e dormia rápido, o que não impedia seu cérebro de lhe dar sonhos com beijos molhados e fotografias, com uma música de jazz ao fundo e copos de cerveja espalhados.

Aquela seria sua última semana com Oliver. Na próxima semana estaria indo para Nova Jersey para sua mudança uma semana antes das aulas começarem. Estava tão ansiosa e ao mesmo tempo com tanto medo, que aquela mistura de sentimentos lhe causava um enorme frio na barriga.
Seu pai não tinha lhe procurado mais. Depois das várias ligações não atendidas, ele parecia ter finalmente entendido que null não queria vê-lo. null não tinha tentado entrar em contato, o que acabou deixando null de certa forma chateada, mas ao mesmo tempo ela não queria distrair sua mente com ele. Já tinha muitas preocupações no momento.
Na sexta feira null recebeu seu pagamento final com um super bônus que ela não estava esperando. Dra. Maria dissera que Oliver havia gostado tanto de null, assim como ela própria, e que ela tinha feito tanto bem ao filho, que queria lhe dar esse bônus para lhe ajudar nos primeiros meses na faculdade até achar um emprego ou um bico qualquer.
Oliver chorou ao seu despedir de null, e só parou quando ela prometeu lhe visitar sempre que voltasse para cidade e leva-lo para tomar sorvete. Também prometeu que se veriam antes do casamento da irmã, que seria dali seis meses, e que ela não arranjaria outro par que não fosse ele, nem mesmo se ela arranjasse um namorado mais alto que ele.
Oliver também comentou que null tinha passado mais tempo com ele depois que seus amigos tinham ido embora, que ele quase não tinha mais saído com tanta frequência. Também falou que null perguntou dela algumas vezes, mas que quando Oliver perguntava se ele queria mandar algum recado a null, ele respondia que não. Perguntou a ela por que eles não estavam mais se falando, e null respondeu que era porque seus horários não batiam mais como antes.
Na ultima semana com Oliver, null, convenientemente, tinha passado suas tardes fora de casa, só chegando quando null já estava indo embora, mas às vezes eles se viam do lado de fora. Eles se encaravam e não falavam nada. Era melhor assim.
Ao dar um ultimo abraço em Oliver – e chorar junto com ele – ele tirou um envelope meio amassado de trás da calça e lhe entregou:
- null pediu para te entregar isso – ele fungou.
- Ah, obrigada, Olie.
Mais um beijo e um abraço – e muitas lágrimas – e então null estava indo para casa fechar as ultimas malas para sua mudança no dia seguinte. Não abriu o envelope, preferiu fazer isso depois, quando já estivesse longe de null.
Na semana que antecedia as aulas, sua mãe e avó ficaram com ela no apartamento que dividiria com mais duas – e fofas – garotas. Usaram aquela semana pra conhecerem a cidade e fazer sua matrícula. Na despedida, a avó de null teve que consolar a filha que chorava mais que a própria null.
A primeira semana de aulas foi aterrorizante. Pensou que ficaria louca ao estudar todos aqueles livros. Depois de um mês de aula, ela teve certeza de que ficaria louca. Tinha feito alguns amigos, vários colegas, e já tinha sido convidada para algumas festas e saídas para pubs. Só no segundo mês que tinha realmente passado a se sentir em casa.
Falava com a avó e a mãe quase todos os dias, principalmente quando ela aprendeu a mexer no Skype – mas só em relação a chamadas de vídeos, já que a avó insistia que era humanamente impossível apertar um só botão do teclado de cada vez.
Naquele dia ela falava com a avó depois da aula, quando dona Bella insistia para que a neta chamasse um táxi para ir embora, já que estava tarde pra null ficar andando na rua sozinha. Por mais que null insistisse, a avó parecia não aceitar o fato de que a neta poderia muito bem andar por alguns poucos quarteirões.
- Vó... – suspirou. Já estava pronta para dar outra desculpa quando começou a chover. Ela, junto com mais todos os outros alunos que estavam espalhados pelo campus, correu para a parte coberta para se proteger e esconder os muitos livros que carregava. – Vovó... Acho que serei obrigada a chamar um táxi mesmo. Aposto que a senhora jogou uma praga ferrada para que eu não voltasse a pé – brincou. – Começou a cair o mundo aqui, assim, do nada.
A avó riu e se despediu com um beijo e com promessas de que continuaria a jogar pragas na neta se ela não a obedecesse de primeira da próxima vez.
null abiu a carteira para contar o dinheiro que tinha. Não havia muito, mas ela tinha uma reserva no banco de um dinheiro que conseguira juntar durante as férias, antes de ir para a faculdade. Lembrar-se de como conseguira aquele dinheiro lhe trazia boas memórias. Quer dizer, até há pouco tempo, null teria dito que as lembranças de como ganhara aquele dinheiro eram boas, em sua maioria, e ruins em algumas partes. Mas o tempo passou, e ela resolveu esquecer-se das lembranças ruins e ficar somente com as boas. Até porque, null era uma ótima lembrança de férias.
Pensar em null a fazia se lembrar do envelope que ela recebera de Oliver antes de ir embora. Demorou a criar coragem e ver o que tinha dentro. Agora, a foto que tinha recebido ficava no criado mudo ao lado de sua cama. Tratava-se da foto que tiraram juntos na festa de sábado à noite na casa dele, quando o grupo já tinha se dispersado e ele a puxara para uma foto só dos dois.
Pegou o celular para chamar um táxi e correu mais para dentro do campus, onde a chuva não chegava nela. Esbarrou em alguém e virou-se para pedir desculpas, mas as palavras ficaram presas na garganta. Em vez dela falar, ele disse:
- Estava pensando em quando iria te encontrar por aqui – null falou sorrindo de lado. null não soube o que responder, então apenas sorriu fraquinho para ele. – Sabe como é, Princeton é bem grande. Não é fácil encontrar as pessoas por aqui. – E ele continuou - E aqui está você, somente você. A mesma visão, aquela do sonho que eu sonhei.
Dessa vez null sorriu de verdade, pois o calor que sentia no peito quando tinha null por perto voltou com força total. Ela já não tinha mais mágoas dele, já não tinha mais nenhum tipo de sentimento negativo com relação a ele. Só tinha... Um sentimento quente, quente como a saudade.
- Fiquei sabendo que o jogo de basquete mais esperado do ano será na semana que vem – ela falou. – Você vai jogar?
- Eu vou, e adoraria se tivesse uma garota especial na arquibancada torcendo por mim e ansiosa para me ver tirar a camisa no final.
null riu alto.
- Isso seria legal – ela disse.
- O que você acha de sairmos daqui? Posso te dar uma carona, se quiser. Na verdade, acho que prefiro te levar a algum pub com música ao vivo, acho que você vai gostar de conhecer.
- E o que te faz pensar que eu já não conheço os pubs da cidade? – Ela perguntou brincando. O clima estava leve, mas a ansiedade era crescente, a expectativa do que estava por vir.
- Porque eu te conheço, null. Tenho certeza que a parte que você mais frequenta por aqui é a biblioteca da faculdade.
null fez cara de uma falsa surpresa. Ele estava certo. Ia à biblioteca quase diariamente.
- Tudo bem, talvez eu visite a biblioteca mais que os outros alunos – admitiu. – Mas por que isso me impediria de sair com os meus amigos?
null virou os olhos antes de responder ainda com um sorriso:
- Não sei se percebeu, sua bobinha, mas eu estou tentando chama-la para sair. Não me interessa se você já conheceu todos os pubs, restaurantes ou carrinhos de lanche da cidade – ele bufou. – null, quer sair comigo? Tentar de novo?
- Um recomeço? – Ela perguntou estreitando os olhos.
- Isso, um recomeço. Mas da forma certa dessa vez.
- Sem mentiras?
- Nem meias verdades. Eu prometo.
Sorrindo, null passou seus livros para null que colocou em sua mochila. Ela virou-se para ir em direção ao estacionamento, mas null a segurou pelo braço.
- Vamos começar com o pé direito, o que acha? – E a beijou, ali mesmo, no corredor cheio de alunos que fugiam da chuva e se abrigavam em baixo do teto. As pessoas esbarravam neles, mas eles não ligavam. Só se importavam com o momento e com o que estavam fazendo ali, juntos.
- Agora sim, vamos sair daqui.
E então null abraçou null pelos ombros e foi com ela em direção ao estacionamento. Mas eles não correram, apenas andaram sob a chuva, curtindo aquele calorzinho confortável no peito e a expectativa do que estava por vir: um recomeço.


Fim.



Nota da autora: Oi, gente! Bom dia, boa tarde, boa noite! Tudo bem com todo mundo?
Seguinte, essa história foi feita baseada no challenge de Contos de Fadas, então eu tomei o cuidado de usar todos os itens da lista e as frases necessárias e essas coisas e tal. Espero que vocês tenham gostado e que tenham se divertido lendo assim como eu me diverti escrevendo. Se gostaram deixem um comentário aqui em baixo dizendo o que acharam; se tiverem alguma crítica, não a guardem apenas para vocês; se tiverem algum pedido ou pergunta, não se acanhem e me digam; se não tiverem nada para falar, deixem apenas um coraçãozinho, ou uma carinha feliz, hahaha.
Essa foi a minha segunda fanfic terminada e postada no FFOBS, que é o site mais lindo desse Brazilzão todo, e se tiverem curiosidade/vontade/interesse de lerem a minha outra fanfic, vou deixar o nome dela aqui em baixo, ok?
Beijos a todas e a todos
Angel





Outras Fanfics:
LONGFIC:
Tempo Certo (Outros – Em Andamento)

SHORTFICS:
Babá Temporária (Outros – Finalizadas)
Welcome To a New World (Mclfy – Shortfics)
Elemental (The Originals –Shortfics)

FICSTAPES:
10. What If I (Ficstape #036 – Meghan Trainor: Title)
06. Every Road (Ficstape #58 – The Maine – Black & White)
07. Face (Ficstape #104 – GOT7 – 7 for 7)

MUSIC VIDEO:
MV: Change (Mv Kpop - Shortfic)
MV: Run & Run (Mv Kpop - Shortfic)
MV: Hola Hola (Mv Kpop - Shortfic)

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