CAPÍTULOS: [Prólogo] [Capítulo Único]











Prólogo



- Então, eu acho que é aqui que a gente se despede.
- Acho que sim...
- Um último beijo? – Ele perguntou enquanto me abraçava.
- Um último beijo – Concordei – Mas... e se eu quisesse te beijar amanhã?



Capítulo Único



Quando entreguei o formulário de inscrição no Centro de Intercâmbio da faculdade, fiquei bem quietinha. Não contei para as minhas amigas, nem para os meus pais, afinal, eu não sabia se passaria pela seleção. Era muita gente se inscrevendo e poucas vagas. Até porque, quem não quer passar seis meses na Terra da Rainha estudando literatura?
- Fala sério, os garotos são todos iguais. Ficam com você numa festa e no dia seguinte nem te cumprimentam na faculdade. – Uma amiga minha falava.
- Pois é, até o meu ex-namorado, com quem eu fiquei dois anos, não me olha mais direito. – Outra comentou.
- Mas isso é porque você terminou com ele, amiga. Machucou o ego dele.
- Bem, quando ele terminou comigo ele também me machucou. Depois, quando pediu pra voltar, eu passei por cima do meu ego e o perdoei. E aí?
- Garotos são estranhos. – Elas concluíram.
Conversas sobre garotos sempre acabavam na mesma conclusão: garotos são todos iguais.
Por mais que eu tentasse prestar atenção na conversa e rir junto com as garotas, eu não conseguia. Tudo em que conseguia pensar era no formulário de inscrição que tinha entregue há quase um mês e até hoje não tinha recebido nenhum telefonema, e-mail, nada. Será que eu não tinha mesmo passado na seleção?
- Por exemplo, aquele cara com quem a saiu semana passada. – Melli, minha amiga falou – Ele nem esperou o filme acabar pra chamar ela pra irem embora pra casa dele, não é mesmo, ?
A menção ao meu nome me fez despertar.
- É, é verdade. E quando eu disse que queria terminar de ver o filme ele disse “tudo bem, gata, podemos ir pra sua casa, então” – Imitei-o.
- Acho que ele não estava acostumado com mulheres que preferem assistir a um filme a ir para a cama com ele logo de cara. – Melli comentou.
- Bem, eu preferi. E eu nem queria ir a esse encontro, minha prima que insistiu que eu saísse com o amigo dela. Pelo menos ele pagou o ingresso.
- Como eu disse: garotos são todos iguais.
A verdade era que naquela noite eu realmente estava interessada no filme. Tinha acabado de me inscrever pro programa de intercâmbio e, se passasse, ficaria seis meses ouvindo o inglês britânico e aquele filme seria perfeito para treinar meus ouvidos.
Novamente fui puxada dos meus pensamento, mas dessa vez pelo meu celular.
- Licença, gente, vou atender. – Disse levantando e me afastando.
- ? ? É do centro de intercâmbio da faculdade. Estamos ligando para dizer que você passou na seleção e, se ainda tiver interesse, precisa trazer os documentos listados no editorial ainda essa semana para começarmos a preparar os papéis para o seu intercâmbio.
- Ai, meu deus, isso é sério?!
Não me lembro exatamente da resposta da atendente, ou se eu desliguei o celular sem esperar que ela falasse. Só me lembro de correr para a mesa onde estavam as meninas, pegar minhas coisas, gritar alguma coisa do tipo “... ver documento... viagem... ai meu deus!” e sair correndo. Literalmente.
As semanas seguintes são quase um borrão na minha mente. Aparentemente a faculdade atrasou com o processo seletivo e se ainda quisesse mandar seus alunos para o intercâmbio teria que ser o mais rápido possível. Então eu fiquei como uma louca atrás de documentos e assinaturas. Isso tudo, é claro, além da repetida explicação que tive que dar para os meus pais do porque do segredo.
- Eu não sabia se eu passaria. Não queria criar esperanças.
- Mas é claro que você passaria. Você é muito inteligente, filha – Minha mãe dizia.
- Mas isso não justifica! Nós não temos dinheiro para bancar uma faculdade na Europa.
- A minha faculdade daqui vai bancar os meus estudos lá fora. Vocês só precisam me manter lá por seis meses.
- E você acha que dinheiro dá em árvore? – Meu pai perguntou.
Eu tinha certeza que dinheiro não dava em árvore. Tive essa certeza quando meu pai me perguntou isso, pela primeiravez, quando tinha nove anos e plantei uma árvore no quintal de casa pra ver se nasceria dinheiro dela.
Mas eu também sabia da poupança que meus pais abriram pra mim quando nasci, pensando em investir nos meus estudos, apesar de nunca precisarem mexer nela para me darem uma boa educação. E eu também tinha as minhas reservas que guardei do salário que recebia pelo estágio.
O próximo passo seria, então, contar para as meninas:
- Ai, meu deus! Não acredito que você guardou esse segredo da gente!
- E chega assim do nada contando que vai fazer um intercâmbio!
- E que está partindo em duas semanas!
Contar para as minhas amigas foi mais empolgante do que contar para os meus pais. Elas fizeram um draminha no começo, mas logo já estavam pedindo os detalhes e combinando uma festa de despedida.
- Eu sei, foi uma loucura. Tudo aconteceu tão rápido que até eu ainda estou meio tonta. – Isso era verdade. Ainda nem tinha começado a fazer a lista de coisas que precisaria levar.
- Mas , tome cuidado. Você vai estar sozinha em outro país – Melli disse.
- Não vou estar sozinha. Fiquei sabendo que outras quatro pessoas da faculdade também vão. – Comentei brincando.
- Você entendeu o que eu quis dizer. É uma oportunidade maravilhosa, nem posso imaginar como você deve estar animada, mas não deixa de ser perigoso.
Eu sabia que era perigoso, mas iria ser cuidadosa e tentar fazer amizade com os outros alunos da faculdade que também estavam indo. Além disso, eu iria morar no campus.
- E cuidado com os rapazes. – Molli disse.
- É, se você já se apaixona pelos caras dos filmes, cuidado, não quero nem ver como você vai ficar com um monte de garotos com sotaque britânico ao vivo o tempo todo.
- Provavelmente eu não terei coração suficiente para me apaixonar – Confessei rindo.
- Agora falando sério, cuidado. Se meninos já são escrotos com garotos que eles vão ver no dia seguinte, imagina com uma estrangeira que vai embora em pouco tempo. – Molli falou séria.
- É verdade, , tome cuidado com isso.
- Relaxem, meninas, eu sei me cuidar.
- E o mais importante: cuidado com o coração. Lembre-se de que você não vai ficar lá pra sempre.
- Não por falta de vontade. – Brinquei. Sempre quis viver na Inglaterra – Mas não se preocupem, tomarei cuidado. – Prometi.
O dia do embarque foi um dos mais molhados da minha vida. O choro vinha de todos os lados: da minha mãe, das minhas amigas e até o meu pai tentou disfarçar.
- Credo, gente, até parece que eu nunca mais vou voltar. São só seis meses!
E quando eu finalmente cheguei ao meu destino, tive a noite mais molhada de todas, mas dessa vez por causa da chuva que caía como se o mundo fosse acabar em água.
Fiquei morrendo de vergonha de chegar ao alojamento da faculdade toda pingando e molhando o chão. Por sorte estavam nos esperando e as outras garotas e eu recebemos toalhas para nos secarmos antes de irmos para os dormitórios.
- Puxa, está chovendo aqui dentro? – Um garoto perguntou. Eu nem tinha visto de onde ele tinha saído, mas ele parecia se divertir com o fato de sermos cinco garotas enroladas em toalhas no meio do corredor da faculdade no meio da noite.
- Eu acho que isso é culpa nossa. – Uma das garotas disse.
- Alunas novas? – Ele perguntou.
Confirmamos com a cabeça.
- Intercâmbio?
Concordamos de novo.
- América Latina? Qual país?
Caramba, como ele sabia?
- Brasil. – Eu respondi.
- Brasil, hm? Legal. – Ele sorriu.
Dito isso ele foi embora. Foi embora com todo o seu sotaque britânico maravilhoso. Mal tinha chegado e eu já sabia que seria um semestre difícil.
As primeiras semanas foram difíceis para me acostumar com o inglês. Depois, já mais a vontade, comecei a curtir de verdade o meu intercâmbio, saindo com as garotas que vieram comigo e com outro grupo de intercambistas que conhecemos.
Acabei ficando com alguns carinhas e tomei o cuidado de não dar chance para me envolver. Fiz alguns amigos legais de vários países ao redor do mundo.
Mas no fim do terceiro mês me dei conta de que estava fazendo daquele intercâmbio uma viagem de turismo. Como percebi isso? Pelas minhas péssimas notas. E se eu não passasse naquelas matérias não teria a chance de fazer intercâmbio de novo.
Então comecei a me dedicar de verdade aos estudos, e foi então que aconteceu.
Era mais uma aula como todas as outras quando um aluno me cutucou no braço.
- Ei, você está precisando de ajuda? – Ele perguntou baixinho.
Olhei para o lado e percebi que ele era o mesmo aluno do corredor na noite em que cheguei aqui, aquele que achou engraçado ver alunas novas molhando os corredores da faculdade.
- Por que você acha isso? – Falei no mesmo tom.
- Porque você está copiando cada palavra do professor, até mesmo quando ele já falou quatro vezes a mesma coisa.
Ri sem graça.
- Pra falar a verdade eu estou com dificuldades em algumas matérias. – Admiti.
Depois disso ele me emprestou seu caderno e disse que eu poderia ficar com ele. Aquilo me deixou surpresa, pra falar a verdade, mas acabei aceitando. Não estava, exatamente, em posição de recusar qualquer ajuda.
Com o caderno dele foi fácil de estudar depois, e foi ainda mais fácil recuperar minhas notas e passar em todas as matérias.
Por causa de tanto estudo, os meses passaram rápidos demais e quando me dei conta estava terminando de arrumar minhas malas no meu último dia na Inglaterra.
É de se pensar que eu passaria meu último dia passeando, conhecendo novos lugares ou gastando o que me restou do dinheiro que tinha levado, mas não. Pensei que se era o meu último dia ali, não seria de todo ruim passá-lo na faculdade que abriu as portas para que eu realizasse o meu sonho.
- Ei, você não é a garota que ficou com o meu caderno?
Estava tão concentrada na palestra que até me assustei quando aquele garoto falou comigo.
- Oi! Você não é aquele garoto que me emprestou o caderno mais bem organizado que eu já vi, foi embora sem me falar o nome e nunca mais apareceu? – Retruquei.
Ele riu alto, o que fez o palestrante nos olhar feio, assim como quase todos os alunos que estavam no auditório.
- Já estava indo deixar o seu caderno milagroso na secretaria pra ver se te encontravam para devolvê-lo.
- Então o meu caderno te ajudou? – Ele escorregou na cadeira e cruzou os dedos.
- Está brincando? O seu caderno salvou a minha vida!
Ele riu de novo, só que mais baixo dessa vez, arrancando caretas das pessoas que estavam a nossa volta.
Ficamos alguns minutos em silêncio até ele perguntar:
- E então, até quando você fica aqui?
- Até hoje. Hoje é o meu último dia. Meu voo sai amanhã.
- E você está gastando o seu último dia assistindo uma palestra sobre autores influentes do século XVIII?
Ri baixinho da cara que ele fez.
- Minhas malas já estão prontas. Não tem mais nada que eu possa fazer.
- Está brincando? Sempre tem alguma coisa para se fazer em Londres.
- Tipo o quê? – Perguntei curiosa.
- Tipo... Bom, você vai ter que confiar em mim. – Ele sorriu com divertimento.
- Eu não confio em você! Nem sei o seu nome! – Ri. Aquele cara era louco?
- Então venha comigo e você saberá o meu nome, . - Ele deu uma piscadinha, se levantou e saiu. Fiquei boquiaberta olhando pra ele. Como ele sabia o meu nome? Fiquei tão surpresa que no impulso já estava correndo atrás dele até o estacionamento.
- Ei! Como você sabe o meu nome?
Ele diminuiu o passo e ficou de frente pra mim enquanto andava de costas.
- No dia em que você chegou, lembra? Você e suas amigas molharam todo o chão do alojamento.
- E daí? – Continuei seguindo ele.
- E daí que você disse que estavam chegando do Brasil.
- E então você simplesmente adivinhou o meu nome? O que você é, um vidente?
- Bem que eu queria, mas não. Na verdade eu só fui me informar sobre você. Vocês! – Ele parou de andar quando se corrigiu. Eu quase pensei que ele tinha ficado corado.
- Por quê? – Eu quis saber.
- Por que o quê?
- Por que você quis descobrir nossos nomes?
- Não sei – Ele voltou a andar – Curiosidade, talvez. Eu tenho família no Brasil também.
- É mesmo? – Me interessei. Que mundo pequeno esse.
Paramos ao lado de um carro. Ele abriu a porta pra mim dizendo:
- É mesmo. – Sorriu. E que sorriso! Caramba, ele sempre teve esse sorriso bonito?
Já dentro do carro ele começou a listar os muitos lugares que, segundo ele, ninguém poderia ir embora de Londres sem visitar antes, e a ordenar as várias coisas que poderíamos fazer.
- Alguns dos lugares que você falou eu já conheci. Além disso, não teremos tempo de fazer tudo o que você disse.
- A que horas sai o seu voo amanhã? – Ele me ignorou.
- Meio dia.
Ele olhou no relógio para dizer:
- Então temos 24 horas para fazer o seu último dia na Inglaterra ser inesquecível.
Os últimos seis meses tinham sido inesquecíveis, mas resolvi deixar aquele comentário de lado e curtir o dia que ele tinha a me oferecer. Afinal de contas, a ideia sair sem rumo (pelo menos para mim seria sem rumo, já que não sabia pra onde ele me levaria) durante o dia todo estava me animando. Já podia sentir a adrenalina como se estivesse fazendo algo proibido.
Apesar de estar fazendo exatamente o que eu não deveria, digo, sair com um cara estranho para um lugar que eu nem sabia qual seria, não sentia medo. E acabei nem ficando preocupada quando soube que era sobrinho do palestrante de mais cedo, e neto de um dos donos da faculdade. Descobri isso tudo quando estávamos a caminho de um restaurante local que ele me levou.
E o nome dele? Acabei descobrindo, eventualmente. não conseguiu continuar com o mistério por muito tempo.
Depois de uma tarde visitando pontos turísticos, os quais a maioria eu já tinha visto, paramos para tomar um sorvete enquanto ele falava ao telefone com um amigo.
- Ei, o que você acha de ir a um show hoje à noite?
- Show de quem? – Animei com a ideia. Com certeza faria o meu último dia valer a pena.
- É de uma banda de garagem, você não deve conhecer. É de um amigo meu, eles vão tocar em um pub aqui perto.
- Pode ser. Vai ser legal! – Até porque não era como se eu tivesse outros planos.
Ele ficou me olhando e eu pensei que tivesse sujado a minha roupa com sorvete, não seria a primeira vez. Mas ele apenas tirou uma folhinha que estava presa no meu cabelo, pra depois ficar sem graça quando percebeu o que tinha feito.
- Desculpa, o que você estava dizendo?
- Que eu adoraria ver a banda do seu amigo tocar. – Sorri pra ele.
- Legal. Então vamos. – Ele deu espaço para que eu passasse e caminhou do meu lado indicando o caminho.
O que tinha acabado de acontecer?
Já no clube foi meio difícil de encontrarmos uma mesa. Aquilo estava bem cheio, então tivemos sorte quando pegamos duas cadeiras perto do bar. Ele pediu pra gente alguma bebida que eu não entendi o nome, mas adorei o sabor. Só esperava não passar mal no avião no dia seguinte.
- Seu amigo já chegou? – Perguntei.
- Acho que ainda não. Eles costumam ser os últimos da noite a se apresentar.
Ele cumprimentava algumas pessoas que passavam por nós, até reconheci alguns da faculdade. E então eu me toquei de que era uma sexta-feira à noite e estava ali comigo: uma garota que pegou o caderno de literatura dele e nunca mais devolveu.
- Então me diga – Me aproximei dele para falar, a música lá dentro estava bem alta – Por que você está perdendo a sua noite de sexta-feira com uma intercambista com um sotaque horrível, e não com os seus amigos.
- Oh, não seja tão dura consigo mesma. Aposto que o seu sotaque já foi pior.
Dei um soquinho no braço dele enquanto ele ria.
- Eu estou falando sério, !
Ele parou de rir e se aproximou de mim para poder falar.
- E quem disse que eu estou perdendo a minha noite de sexta-feira? – Ele cruzou os braços e eu não soube o que responder. Sorri pra ele, recebendo outro sorriso maravilhoso em resposta.
Quando a outra banda subiu no palco, cumprimentou o vocalista que apontou pra mim e fez um joinha com a mão, piscando o olho de um jeito meio exagerado, como se estivesse me aprovando, só que de um jeito muito engraçado. Em resposta, apontou pra mim, fez ok com os dedos e piscou.
- O que é isso? – Perguntei rindo. Aquilo tinha sido muito engraçado. Ou talvez devesse parar de beber.
- Marley gostou de você. – Ele riu.
- Como assim? – Perguntei gritando.
balançou a cabeça rindo e não respondeu. Talvez não fosse só em mim que o álcool estivesse fazendo efeito.
- Marley é um dos poucos amigos que eu tenho – Ele comentou quando a primeira música começou.
- É mesmo? Ele é seu melhor amigo?
- Melhor amigo... Talvez o único de verdade.
Ergui as sobrancelhas. Que pessoa diz que só tem um amigo?
- Conheço Marley desde que tinha seis anos. Somos amigos desde então.
- E você não tem nenhum na faculdade?
Ele sorriu sem me olhar enquanto terminava sua bebida e pedia outra. Mas seu sorriso dizia que ele não via graça no que estava pensando.
- Na faculdade existem dois tipos de pessoas: as que não gostam de mim por ser um dos herdeiros de lá, e os que gostam de mim até demais, pelo mesmo motivo.
Ele voltou a prestar atenção no show enquanto eu refletia sobre o que ele tinha dito.
- Eu gosto de você, .
Ai, meu deus! De onde aquilo tinha saído?!
Ele me olhou sem acreditar.
- É sério! Eu gosto mesmo! – Meu deus, eu precisava parar com a bebida – Essa tarde foi maravilhosa. Não teria jeito melhor de me despedir da Inglaterra. Obrigada.
Nisso ele pareceu acreditar.
- Não há de quê.
Em determinado ponto da noite percebi que estávamos muito perto, provavelmente porque a casa estava realmente cheia. me olhou por alguns segundos pra depois se aproximar do meu ouvido e perguntar:
- Quer sair daqui?
Fala sério! Ele estava tirando uma com a minha cara?
- Isso é sério? – Perguntei.
Ele sorriu, pegou o casaco dele e foi até o bar pagar a conta. Naquela hora eu queria não precisar ir embora com ele. Se eu soubesse onde estava, iria embora sozinha.
Segui até o lado de fora. Pensei em chamar um táxi e voltar para o campus, mesmo que isso o fizesse pensar que eu estivesse exagerando.
- O que você está fazendo?
Oh, ele estava se referindo à minha cara fechada e o meu andar duro até a ponta da calçada enquanto procurava o número do táxi?
- Sério? Depois dessa tarde você simplesmente me chama pra “ir embora”? – Fiz aspas com as mãos - Fez isso só pra conseguir me levar pra cama? Depois de uma tarde?
Ele abriu a boca, mas eu continuei falando:
- Até pouco tempo atrás eu nem sabia o seu nome!
- Eu chame você pra ir cama?
Ele parecia surpreso e aquilo me fez parar.
- Não chamou? – Perguntei.
- Não que eu saiba.
Tudo bem, talvez eu tenha ficado sem graça naquela hora. Talvez eu tenha ficado muito sem graça.
- Em que momento, exatamente, você acredita que eu tenha dito que queria dormir com você?
- É... – Caramba, por que eu fui falar aquilo? Malditas bebidas! – Quando você disse para irmos embora... Eu acho.
- E você achou que eu queria ir pra cama com você?
- Bem, chamar a garota pra ir embora do encontro que estão tendo não é tipo um código dos homens pra dizer que querem ir pra cama com ela?
- O quê? Não! Quer dizer, às vezes sim, mas não foi o caso de hoje.
- Então você não quer dormir comigo?
- Não!
- Oh! – Aquilo me pegou de surpresa. Primeiro porque ele não seguiu a mesma lógica dos garotos com quem já saí, e segundo porque, bem, que garota não fica meio decepcionada com um fora assim?
- Quero dizer, sim. Quer dizer... – Ele bufou. – Eu só pensei que você estivesse ficando entediada de ficar sentada lá dentro. Pensei em te chamar pra ir a um cinema aqui perto onde passa filmes independentes.
- Oh! – Parei pra pensar – Você não é como os outros garotos, é?
Ele não respondeu. Pensei que ele poderia ter corado de novo, mas estava escuro lá fora, então não poderia ter certeza.
- Eu gosto disso. Gosto que você seja diferente. Ele sorriu de lado, mas continuou a não dizer nada.
- E então, para que lado?
- Que lado?
- É o que estou perguntando. Para que lado é o cinema?
Tudo em que eu conseguia pensar era na conversa que tinha tido com as meninas dias antes do embarque. Eu sei, eu sei, é comum as pessoas dormirem juntas ainda no primeiro encontro, mas mesmo assim... Eu nem conhecia direito. Sem falar que aquilo nem era um encontro. E daí as lembranças de quando fui ao cinema com o amigo da minha prima voltaram, somadas com a conversa que tive com as meninas, mais o álcool da bebida gostosa que eu não sabia pronunciar o nome... E eu quase consegui acabar com aquele encontro. Que na verdade não era um encontro. Era só... não sei o que era.
era meio estranho. Ele tinha sido tão legal comigo sem nem mesmo me conhecer, a começar me emprestando o caderno, e depois me chamando pra sair, fazendo de tudo para que o meu último dia na Inglaterra fosse inesquecível. Ele era todo divertido e brincalhão, mas ficava tímido quando ficávamos mais próximos, ou quando eu pegava ele olhando pra mim.
Eu não me importava que ele olhasse pra mim. Depois de uma tarde como a que tivemos, eu não conseguia parar de olhar pra ele.
- Você está me encarando.
- O quê?
Caramba, não é porque dentro do cinema é escuro que o cara não vai ver que você não para de olhar pra ele, !
Ele deu uma risadinha antes de responder:
- Nada – E voltou a prestar atenção no filme.
Tudo bem, talvez eu tenha ficado tímida agora por ele ter me visto olhando-o. Mas não dava pra evitar. Em apenas uma tarde ele conseguiu me fazer falar tudo sobre mim e, pra minha surpresa, me senti realmente à vontade. Não fui julgada, não fui questionada. Era como se ele estivesse apenas curioso. Quando eu fazia uma pergunta pessoal, ele dava uma meia resposta com uma piada no fim, para só depois responder. E até isso tinha ajudado para aquele dia ser inesquecível. Eu realmente me diverti como nunca tinha feito, e isso tudo graças a ele.
- Você ainda está me olhando, .
- Ai, me desculpa! – Coloquei as mãos no rosto. Aprenda a disfarçar, !
- Tudo bem – Ele riu. – Mas você precisa me dizer o que está pensando.
- Eu estava pensando... Que você é o primeiro cara que fez eu me expor como eu fiz hoje.
Ele me olhou sem entender, virando o corpo para o meu lado, se esquecendo do filme. Sorte a nossa que o cinema estava vazio, exceto por nós dois.
- Como assim?
- Te contar as coisas que eu te contei? O meu maior medo? O meu maior sonho? O que eu realmente penso das pessoas ao meu redor?
- Fazer aquilo que você sempre quis fazer, mas nunca teve coragem?
- É! É exatamente disso que eu estou falando!
No caminho para o cinema, perguntou se tinha alguma coisa que eu sempre quis fazer, mas nunca tinha tido coragem. Bem, é claro que sim, várias coisas. Então ele pediu para que eu escolhesse uma delas e fizesse ali, naquele momento, naquela noite. Afinal eu estaria indo embora no dia seguinte. Não é como se as pessoas em volta de mim fossem me ver outro dia para me julgarem.
E então eu gritei. Gritei bem alto, no meio da rua, com os braços abertos e olhando para cima. Gritei até minha garganta queimar, e isso foi libertador. Quando assisto cenas como essas em filmes parece ser uma sensação maravilhosa de alívio, mas a sensação real é muito melhor.
E depois, quando olhei em volta, para todas as pessoas que me encaravam, eu tive certeza de que nunca mais faria aquilo de novo.
- Aquilo foi engraçado – Ele riu.
- Poder gritar foi maravilhoso, obrigada, . Na verdade, o dia todo foi maravilhoso.
- Não há de quê, . Fico feliz que tenha se divertido – Ele sorriu. voltou a olhar para a tela, mas acredito que ele não estivesse prestando atenção. O clima entre a gente tinha mudado, e se eu sentia aquilo, ele com certeza sentia também.
- , acho que eu gosto de você.
Ele demorou para me olhar e, quando o fez, tinha um sorrido fraco.
- Eu também gosto de você, . Essa tarde foi uma das mais divertidas que já tive.
- Não... Não é isso. Eu gosto mesmo de você, quer dizer... – Me desencostei da cadeira, ficando de frente para ele – É claro que eu gosto de você! Você não consegue perceber isso pela minha voz?
- ...
- Não fique nervoso. Eu realmente estou afim de você, .
Ele não disse nada por um tempo, até que ficou de frente para mim também, pegando as minhas mãos.
- Não é que eu esteja nervoso, é só que... , você sabe que nós não podemos ter nada, não é?
- Eu estou sendo uma tola, não estou?
- O quê? Claro que não! Você pode ser qualquer coisa, menos uma tola. Você é a garota mais incrível que eu já conheci. É só que você vai embora amanhã, e eu não quero correr o risco de me envolver.
- Você não tentou me levar pra cama na primeira noite, mesmo que eu tenha pensado o contrário. Aquilo foi embaraçoso.
- Eu fiquei meio nervoso na hora, mas quis muito dar risada depois. Desculpe, acho que era efeito do álcool.
Nós dois rimos daquilo. E depois continuamos rindo, até os dois estarem jogados na cadeira, rindo alto, e com lágrimas nos olhos.
- Me desculpe, você não segue as regras dos garotos que eu conheço, .
- Bem, acho que você não conhece muitos garotos decentes, então, .
Dei um soquinho no braço dele e rimos mais um pouco, até os dois se cansarem. O filme ainda passava, mas eu nem me lembrava mais do que se tratava.
- Nós poderíamos nos beijar agora, tipo um beijo de despedida da Inglaterra.
- Eu estaria me despedindo da Inglaterra beijando você? – Perguntei rindo.
- Bem, você não pode beijar um país inteiro. Então eu me ofereço para representá-lo.
- Mas... E se eu quiser te beijar de novo amanhã, ?
- Então aproveita porque já é quase meia noite – Ele sorriu brincalhão.
Aquele foi, definitivamente, o beijo mais leve, descontraído e gostoso que eu já tive. Não havia tensão, não havia pensamento do tipo “o que fazer agora?”. Só havia eu e ele, ali, naquela sala de cinema vazia onde as luzes já se ascendiam com o fim do filme que nós não tínhamos assisto, principalmente por passa os últimos minutos em que passamos ocupados demais nos beijando para prestarmos atenção nos créditos finais.
O caminho para o alojamento foi mais divertido do que eu poderia imaginar. Conversávamos sobre a família dele no Brasil e nos muitos lugares que ele ainda queria conhecer. E então a conversa era pausada a cada semáforo fechado para podermos nos beijar, o que nunca durava muito, já que sempre tinha um carro parado atrás de nós para buzinar.
Ao pararmos na entrada no alojamento, a realidade bateu. Iríamos dizer adeus, eu iria embora e nunca mais nos veríamos.
- Eu só posso ir até aqui – Ele disse parando no início do corredor. – Sabe como é, quartos femininos e tal... Garotos não são permitidos.
- E você quer que eu acredite que você nunca quebrou as regras?
não respondeu, mas o sorrisinho maroto que ele deu foi resposta suficiente.
- Então...
- Então... – Ele imitou.
Não tinha o que dizer pra ele. Quer dizer, eu tinha, várias coisas para dizer, mas não sabia como. Meus pensamentos estavam muito bagunçados e dizer adeus naquele momento não parecia certo. Eu não queria me despedir de . Não assim. Não depois do dia que tivemos.
- Sinto muito não poder levá-la ao aeroporto, mas não posso perder a prova de amanhã. Ela é muito importante e eu não terei outra chance de fazê-la.
- Não, tudo bem. É claro que eu entendo.
Mas isso não significava que eu tinha que gostar disso.
- Então eu acho que é aqui que a gente se despede.
- Acho que sim...
- Um último beijo? – Ele perguntou enquanto me abraçava.
- Um último beijo – Concordei – Mas... e se eu quisesse te beijar amanhã?
- Bem, teoricamente já passou da meia noite, então...
Balancei a cabeça rindo. Ele não tinha jeito mesmo.
E foi então que aconteceu o nosso último beijo. Mas acontece que aquele não foi como todos os anteriores. Naquele tinha algo a mais. Não era simplesmente uma despedida, era como uma saudade antecipada. Uma saudade que duraria por muito tempo, até que as lembranças daquele dia esfriassem e se tornassem doces memórias já apagadas, e tudo o que eu sentiria seria um calorzinho gostoso no peito, e nada além disso.

Voltar para a minha rotina no Brasil tinha sido mais fácil do que eu pensei. Não porque eu finalmente tinha minha mãe para fazer tudo por mim de novo em casa, mas simplesmente porque eu tinha alguma coisa pra fazer. Quero dizer, voltar à minha rotina significava voltar a acordar cedo para ir à faculdade, almoçar correndo para ir para o estágio e ir embora correndo para casa para ver o novo episódio de The Walking Dead. Isso significava que eu tinha que me concentrar em voltar à minha rotina e não tinha muito tempo para pensar nos últimos acontecimentos da minha viagem à Inglaterra.
e eu não conversamos mais depois disso. Quer dizer, eu mandei uma foto para ele mostrando que tinha chegando ao Brasil, e recentemente ele tinha me mandado uma foto dele no aeroporto. Só não perguntei pra onde ele estava viajando. Acho que a intenção das fotos não eram começar uma conversa, mas apenas dizer “Ei, eu estou aqui e ainda me lembro de você”.
No segundo mês de aula, desde que tinha voltado, fui chamada à sala da coordenadora do curso. Provavelmente queriam saber o porquê o meu relatório do intercâmbio estava demorando tanto para ficar pronto. Bem, a verdade é que eu não queria ter que explicar que quase bombei em todas as matérias e precisei contar com a ajuda de um aluno para recuperá-las. Com a ajuda de .
Estava mandando uma mensagem para as meninas dizendo onde estava quando a coordenadora me chamou:
- ?
Me levante guardando o celular.
- Bom dia – Disse cumprimentando-a.
- Bom dia, . Te chamei aqui porque quero lhe fazer uma proposta.
- Claro, pode falar.
- Este aluno acabou de chegar pelo programa de intercâmbio, junto com outros quatro. Por ter vindo de um país de língua diferente da nossa, ele poder ter alguma dificuldade em se adaptar, mas nada que ele não possa lidar, não é mesmo, ?
Quando a coordenadora olhou para trás, dando passagem para o aluno que acabava de sair da sua sala, juro que pensei que fosse cair sentada. Ou eu estava muito maluca e estava vendo na minha frente, ou ele realmente estava na minha frente, sorrindo pra mim, como se achasse graça da minha cara. A segunda opção parecia mais provável.
- Claro, senhora Rodrigues. Acredito que não terei muitos problemas em me adaptar – Ele disse. E disse em português!
- vem da Inglaterra, da mesma faculdade que você ficou quando fez o seu intercâmbio, e como tem família brasileira sabe falar o português – A senhora Rodrigues explicou.
- Sim, mas como o português é a minha segunda língua às vezes falo coisas erradas. Mas nada que algumas semanas vivendo no Brasil não possam resolver.
falava olhando para mim. E eu? Eu não dizia nada, apenas tentava entender o que estava acontecendo ali.
- ? – A senhora Rodrigues me chamou – Você poderia ficar encarregada de monitorar ?
- Monitorar?
- Sim, monitorar. É claro que você receberia uma bolsa para isso, e teria que ajudá-lo a se adaptar, mostrando a ele as instalações da faculdade, assim como lhe dar suporte nas matérias em que ele sentir dificuldade.
- Você poderia me emprestar o seu caderno, . – Ele disse. – Isso, é claro, se não for pedir de mais.
- Não é pedir de mais – Respondi. Caramba, aquilo estava mesmo acontecendo? – E vai ser um prazer poder ajudar o aluno novo, senhora Rodrigues.
- Ótimo. Então você já pode levá-lo para a próxima aula – Ela disse já se virando – E não se esqueça de passar aqui antes de ir embora para assinar os papéis da monitoria.
- Pode deixar – Eu ofeguei. se aproximou de mim, mas parou quando a coordenadora disse – E , pare de enrolar com aquele relatório. Só falta o seu.
- Sim, senhora. Desculpe.
Ela entrou para a sua sala, deixando e eu sozinhos.
- Então...
- Então você sabe falar português? – Sério, ? estava na sua frente e era isso que você falava?
Ele riu e balançou a cabeça.
- Eu te disse que tinha família no Brasil.
- Ah claro, e eu devia entender que por isso você sabia falar a minha língua. E mesmo assim me fez conversar em inglês com você o tempo todo e ainda ficava rindo quando eu errava na pronuncia – Reclamei cruzando os braços.
Ele riu de novo antes de responder:
- Que graça teria ir pra Inglaterra pra falar em português? – Tive que concordar com ele. – Além disso, era divertido corrigir a você.
- Corrigir “você”. Não se usa “a” nessa frase. Parece que dois podem brincar nesse jogo – Disse rindo.
- Justo. – Ele se aproximou mais – Viu como valeu a pena não ter faltado naquela prova no sábado?
- Prova... A prova super importante que você tinha pra fazer, e por isso não pôde ir comigo ao aeroporto, era para o intercâmbio?
Ele balançou a cabeça concordando.
- Na época em que me inscrevi eu sabia que, se tinha algum lugar que eu deveria fazer um intercâmbio, tinha que ser no Brasil. Acho que era porque eu sabia que você estaria aqui, mesmo não te ainda não te conhecendo.
- Então quer dizer que você é mesmo vidente? – Brinquei.
- Talvez sim, talvez não... Isso você nunca saberá.
Ele se aproximou mais, até que eu estivesse encostada na parede e ele segurando minhas mãos. - Então... Não vai me dar um beijo de boas vindas ao Brasil?
- Eu estaria te dando boas vindas ao Brasil te dando um beijo?
Nós rimos em memória da noite no cinema.
- Bem, eu não posso beijar um país inteiro, não é? Então eu ficaria satisfeito em ter você representando-o.
Eu ri alto e depois coloquei a mão na boca. Não podia fazer barulho ali.
- Só tem um problema nisso – Eu disse.
- Qual problema?
- E se eu quisesse te beijar amanhã?
Ele sorriu e trouxe os lábios para perto dos meus ao responder:
- Então eu diria que você poderia querer me beijar em quantos amanhãs você quisesse, já que eu vou ficar aqui por um longo tempo.
- Quanto tempo?
- O suficiente.
E dizendo isso, ele selou nossos lábios para a melhor boas vindas que eu poderia oferecer.
Eu não sabia quanto tempo ele ficaria. Talvez aquele tempo não fosse o suficiente, mas, no momento, o tempo que tínhamos juntos era o suficiente. E eu iria aproveitá-lo ao máximo.


Fim.



Nota da autora: Oi, gente! Tudo bom com todo mundo? Essa é a primeira vez que eu participo de um ficstape e, mesmo quase perdendo a data da entrega e tendo ficado meio desesperada pra conseguir terminar de escrever, acho que acabou dando tudo certo no final, haha
De qualquer forma, espero que vocês tenham gostado e se divertido lendo assim como eu me diverti escrevendo. Espero que essa fanfic não tenha ficado muito nada a ver com a letra da música, mas essa foi a melhor ideia que eu consegui ter. Mas enfim, como eu acredito que esse ficstape tenha ficado lindão, com várias fanfics maravilhosas, não deixem de ler as outras histórias, ok? Ok <3 Então é isso aí.
Beijinhos a todas e a tods
Angel

Pra quem tiver interesse, curiosidade ou vontade de ler duas outras fanfics minhas, aqui em baixo estão os links:
* Welcome to a New World – Mclfy/Finalizadas - [/ffobs/w/welcometoanewworld.html]
* Babá Temporária – Outros/Finalizada - [/fobs/b/babatemporaria.html]





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