Capítulo 20
Após quase uma hora de aula e uma pilha de bilhetes trocados com James — todos inúteis, diga-se —, saiu da sala antes mesmo que o professor terminasse de falar. Estava exausta, bufando como se cada passo pelo corredor fosse uma afronta pessoal. Carregava os livros apertados contra o peito, como se isso pudesse conter o mau humor ou, com sorte, impedi-lo de escapar em forma de algum feitiço impróprio.
Poções. Aula prática. Slughorn, empolgado como um trasgo em uma loja de cristais, tinha anunciado que o dia seria dedicado à mistura mais complexa do semestre.
— Excelente começo de semana — ela murmurou, ajeitando a alça da mochila que insistia em escorregar do ombro.
— Posso carregar isso pra você.
A voz veio tão de repente que ela parou. Não como quem ouve algo estranho — mas como quem tem certeza de que ouviu errado.
Virou-se devagar. E lá estava ele. Sirius Black. Incrivelmente calmo. Sorrindo como se o corredor de pedra fosse um campo florido. E com a mão estendida na direção da mochila dela.
— Quê?
— Sua mochila — ele repetiu, como se aquilo fosse uma oferta perfeitamente natural. — Parece pesada. Posso carregar.
o encarou como se ele tivesse acabado de sugerir que ela o levasse pra jantar na casa dos pais. Ou como se estivesse possuído.
— Você bateu a cabeça? — perguntou, arqueando uma sobrancelha, visivelmente desconfiada.
Sirius riu, lançando o cabelo para trás com aquele movimento irritantemente gracioso.
— Claro que não. Só achei que seria… Gentil. Você vive reclamando dessas alças, lembra?
Ela franziu os olhos, tentando lembrar de quando, exatamente, tinha mencionado as alças da mochila. E mais ainda, quando foi que ele começou a prestar atenção nesse tipo de coisa.
— Tá. O que tá rolando, Black?
— Nada. .
A resposta veio com um meio sorriso, e ela o analisou por um segundo a mais do que gostaria. Depois soltou o ar, resignada, e voltou a andar. Ele a acompanhou, mãos nos bolsos, passos naturalmente sincronizados aos dela, como se fosse a coisa mais normal do mundo. E talvez isso fosse o mais irritante: como ele fazia parecer fácil, enquanto ela tentava desesperadamente não pensar em como o cotovelo dele às vezes esbarrava no dela.
— Olha, se isso é algum tipo de vingança por eu ter espantado a Lynn, pode poupar o trabalho — ela disse, sem virar o rosto. — Não estou com paciência para joguinhos hoje.
— Não é isso — ele respondeu, mais baixo. Quase sério demais.
Ela parou.
De verdade, parou.
Virou-se de novo, agora com um misto de curiosidade e cautela.
— Então o que é?
Sirius hesitou. Tinha ensaiado algo com James, claro. Uma fala espirituosa, talvez até um comentário dramático. Mas agora, diante dela — de verdade, com aquele olhar cortante e ao mesmo tempo cheio de perguntas que ela nunca admitia fazer — tudo pareceu bobo. Artificial.
— Eu só achei que a gente podia… Tentar ser menos... Sabe… Hostis.
Ela piscou lentamente. Depois cruzou os braços.
— Hostis?
— Tá, você é meio hostil. Eu sou… Um charme. Mas—
— Aí está ele — ela interrompeu, como quem reencontra uma peça perdida. — O verdadeiro Sirius. Achei que você tinha evaporado.
Ele sorriu, meio aliviado.
— Sentiu minha falta?
Ela revirou os olhos, mas o canto da boca ameaçou um sorriso. Maldito.
— Não. Mas pelo menos você fazia sentido antes. Isso agora… Essa gentileza ensaiada... É esquisita. Você às vezes parece preferir a companhia de um trasgo do que estar na mesma sala que eu. E agora tá aqui, querendo carregar minha mochila?
Ele encarou o chão por um instante, o sorriso desmanchando um pouco. Quando falou, a voz estava mais sincera do que ela esperava.
— É que, às vezes, quando a gente para de fugir… Percebe que não era bem ódio.
Ela sentiu o estômago revirar. Porque parte dela já sabia. Já tinha sentido isso — na tensão quando discutiam, no silêncio depois de uma troca de farpas, no jeito como o olhar dele demorava um segundo a mais que o necessário.
E era exatamente isso que a assustava.
Ela não queria gostar dele. Não assim. Não agora.
Então, como de costume, escolheu o caminho mais fácil: desviar.
— Uau. Filosofia antes das nove da manhã. Deve ser o fim dos tempos.
Ele riu. Era um riso mais leve agora. Como se tivesse entendido o recado — e não se importasse.
— E mesmo assim, você sorriu — ele apontou, triunfante.
Ela balançou a cabeça e o empurrou levemente com o ombro.
— Você é um caso perdido, Black.
E seguiu seu caminho para a aula.
Ele ficou parado por um instante, observando-a caminhar pelo corredor. Não precisou dizer nada. O sorriso nos lábios dele era quase imperceptível, mas estava lá — firme e certo.
Porque ela tinha sorrido.
E pra Sirius, aquilo não era só progresso. Era um sinal. Pequeno, mas claro.
Ela ainda não sabia no que acreditar.
Mas ele sabia exatamente onde queria chegar. E por quem valia a pena continuar tentando.
A sala de Poções já estava quase cheia quando chegou, os caldeirões fumegando levemente e um cheiro adocicado no ar que prometia desastres para quem não soubesse o que estava fazendo.
Ela escolheu uma mesa perto da parede esperando as amigas chegarem, longe do centro da atenção, e largou os livros com um suspiro. Sabia que Hestia deveria estar ainda tirando dúvidas sobre a aula anterior e Teo provavelmente estaria com Remus em algum lugar do castelo, mas nunca quis tanto que uma delas estivesse ali agora. Ainda estava com o coração acelerado. Pela conversa no corredor. Pela forma como Sirius tinha olhado pra ela.
Tentou afastar o pensamento, concentrando-se na lista de ingredientes que Slughorn escrevera no quadro com letras tremidas e animadas. Não adiantou muito. A lembrança do sorriso de Sirius insistia em aparecer entre uma raiz de valeriana e outra.
— Posso me sentar aqui? — perguntou uma voz baixa, mas educada.
Ela ergueu os olhos e deu de cara com os olhos azuis tímidos de um garoto da Corvinal. O nome dele era Ethan Rowle, se não estava enganada. Cabelo castanho claro, caindo sobre a testa, e um jeito desajeitado de segurar o frasco de bilis de tatu.
hesitou por um segundo. Ela esperava fazer dupla com Lily nessa aula, mas a ruiva tinha mencionado que estaria ajudando Slughorn com alguma demonstração hoje. Olhou em volta e viu que quase todas as mesas já estavam ocupadas.
— Claro — respondeu, dando de ombros. — Pode pegar o caldeirão.
Ethan sorriu, aliviado.
— Achei que ia acabar com o Avery de novo. Ele quase nos fez explodir semana passada.
— Não duvido — disse , dando uma risadinha curta.
— Você é boa em Poções — ele disse, organizando os frascos com cuidado. — Queria saber como você faz parecer tão fácil.
Ela deu um meio sorriso.
— Eu só gosto da parte em que tudo tem uma ordem. Um jeito certo de dar certo.
Ethan assentiu, pensativo, como se aquilo fizesse total sentido. E foi nesse exato momento que Sirius entrou.
Ele vinha com a camisa um pouco desalinhada, a gravata meio solta e o cabelo como se tivesse sido moldado por uma ventania dramática. Parou ao ver a sala lotada. E então seus olhos encontraram os de . E sua expressão mudou. Não muito. Mas o suficiente para ela notar.
Ele caminhou até o fundo da sala, fingindo procurar uma mesa vaga, mesmo sabendo que não sobrara nenhuma além de uma perto de Snape — que parecia mais ácido que o conteúdo do próprio caldeirão. Sirius sentou-se em sua bancada com um suspiro audível, tentando se concentrar na tarefa diante de si. O caldeirão estava diante dele, o líquido fervia em um ritmo constante.
O aroma de sua própria poção perfumava o ar, um cheiro que se dizia ser único para cada pessoa, refletindo os próprios desejos mais profundos. Amortentia.
desviou o olhar, voltando-se para a poção. Mas percebeu — porque, claro, seu corpo era um traidor — que estava consciente de cada movimento do Sirius. De como ele passava a mão pelo cabelo, de como seu maxilar estava mais tenso do que o habitual.
O aroma da poção de Sirius perfumava o ar, um cheiro que se dizia ser único para cada pessoa, refletindo os próprios desejos mais profundos.
Uma leve brisa da sala parecia trazer a presença de à tona, e Sirius odiava o quanto isso o incomodava. Ela estava tão perto, mas tão distante.
Cada vez que Sirius olhava para o caldeirão, a tentação de olhar para aumentava. Seus olhos passavam sobre as bancadas e ele tentava, ao máximo, se forçar a manter a cabeça baixa, misturando os ingredientes da poção de maneira impecável. Cada detalhe tinha que estar perfeito. Como se sua vida dependesse disso. Como se isso fosse a única coisa que poderia distrair sua mente inquieta.
Sirius tentou se concentrar na precisão com que Slughorn preparava os ingredientes, mas seus olhos se desviaram para mais uma vez.
A forma como ela discutia com Ethan sobre a poção estava tirando o foco dele. O calor em seu peito aumentou, o ciúmes crescendo como uma sombra sobre sua mente. Cada risada de parecia ecoar, e a ideia de ver Ethan sorrir e interagir com ela apenas o deixava mais tenso.
“Foque, Sirius. Foque na poção,” pensou, franzindo a testa e tentando se concentrar nas cores que estavam se formando no líquido.
Por fim, Slughorn se aproximou da bancada de Sirius com um sorriso orgulhoso, observando a poção com um olhar atento. Sirius sentiu a pressão aumentar ainda mais, mas se forçou a manter a compostura.
— Muito bem, senhor Black — disse Slughorn, ajustando os óculos no rosto e olhando profundamente o caldeirão. — Sua poção está praticamente perfeita. Agora, gostaria que você nos dissesse o que sente ao cheirar a sua própria Amortentia.
Sirius congelou. Ele sabia que esse era o momento. O momento em que não poderia escapar da verdade, ainda que de forma sutil. E, por um momento, ele se sentiu incapaz de respirar, olhando para o caldeirão e tentando não deixar que a aflição tomasse conta dele.
Com um suspiro, ele se aproximou da borda do caldeirão e inalou profundamente, fechando os olhos por um segundo. O cheiro se espalhou pela sala, tão forte e presente que ele mal pôde ignorá-lo. Era inconfundível, e ele não pôde deixar de se surpreender com a clareza com que as sensações chegaram até ele.
— Eu... sinto cheiro de... — ele começou, sua voz mais baixa do que o habitual, antes de se forçar a olhar para Slughorn. — Menta. Como a primeira brisa fresca do outono. E... folhas secas, um toque quente de fogo. E... — ele hesitou por um segundo, o coração batendo mais rápido. — Lavanda. Quase como se fosse uma mistura com algo mais doce, algo que eu não consigo identificar direito, mas que tem um toque de familiaridade. Algo que me faz pensar em um lugar confortável... e ao mesmo tempo distante.
O sorriso de Slughorn foi largo, satisfeito com a descrição. Porém, Sirius estava distraído. Seu olhar passou por , que agora o encarava com os olhos um pouco mais curiosos. Ele não sabia se ela tinha percebido a sutileza nos aromas, mas uma parte dele torcia para que não tivesse notado. Não queria que ela se assustasse quando soubesse o quanto ele estava envolvido em tudo aquilo. Ou talvez... talvez fosse exatamente isso que ele queria.
Mas, no fundo, Sirius sabia que a próxima vez que olhasse para ela, os aromas da poção o seguiriam.
4 de novembro, 1976.
estava sentada à mesa do café, mexendo distraída em seu prato de mingau, ainda refletindo sobre a conversa de Sirius na aula de Poções. Algo na forma como ele tinha falado, a leveza no sorriso que lhe dedicara, ainda estava na sua mente. Ela não queria pensar nisso, não queria que fosse mais uma coisa que alimentasse uma curiosidade que ela tinha tentado, por tanto tempo, enterrar. Mas, por algum motivo, era como se o sorriso dele estivesse lá, o tempo todo, em sua frente.
Hestia, Teo e Lily sentaram no banco do lado oposto, as três lhe encarando como se esperassem uma novidade.
— Bom dia, futura senhora Black — disse Hestia, mal disfarçando o deboche.
levantou os olhos devagar, estreitando-os para a amiga.
— O que foi agora?
— Não sei, pergunta pra Lily — respondeu Teo, com um sorriso que denunciava que ela sabia muito bem.
A ruiva cruzou os braços e fingiu inocência por um segundo.
— Eu só contei sobre a aula de Poções — disse, casual. — E sobre como você ficou completamente hipnotizada quando ele descreveu o cheiro da Amortentia.
— Eu não fiquei hipnotizada.
— , você esqueceu de mexer a própria poção por uns bons trinta segundos. Ela quase virou uma poça borbulhante e explosiva — disse Hestia, erguendo uma sobrancelha.
— Foi só... interessante, vai — murmurou , cutucando o mingau com a colher. — Não é como se ele tivesse descrito o meu cheiro, ou algo assim.
— Menta, folhas secas, lavanda doce... — Teo recitou como se estivesse lendo poesia. — Eu já senti esse cheiro vindo de você mais de uma vez. Você usa lavanda quando está nervosa. Tipo agora.
fechou os olhos irritada, e as três explodiram em risadinhas cúmplices.
— Vocês estão delirando — disse , tentando se manter séria, mas já sentindo o calor subir pelo rosto.
— É isso que acontece quando você começa a se aproximar novamente de alguém que ama mas passou a odiar — provocou Hestia, pegando uma torrada.
— Eu ainda não gosto tanto dele, tá? Ele é irritante. Arrogante. Tem esse cabelo de quem acabou de sair de uma briga com o vento e sabe que é bonito demais pra isso. Mas amar é uma palavra muito forte para dois adolescentes indecisos.
— Isso não ajudou no seu argumento, amor — disse Teo, rindo.
— Vocês são insuportáveis — bufou, mas um sorriso escapou no canto da boca.
Lily apoiou o queixo nas mãos, com um olhar mais travesso agora.
— Bom, pelo menos vai ter oportunidade de não gostar dele mais de perto essa noite. James disse que os Marotos conseguiram uma tonelada de firewhisky e estão planejando uma festa daquelas.
— Vocês vão? — perguntou e voltou a mexer no mingau.
— Aham. E adivinha quem foi convocada pelo James para comparecer? — Lily disse lembrando do quanto James estava empenhado em bancar o cupido.
Hestia apoiou o queixo nas mãos, com um olhar pensativo.
— Só quero deixar registrado que... se por acaso você estiver planejando entregar um presente especial pro aniversariante esta semana... talvez seja uma boa hora.
parou de mexer o mingau por completo.
— Eu nem sei se vou dar ainda. É só uma jaqueta.
— Uma jaqueta feita sob encomenda, baseada numa conversa que vocês tiveram anos atrás — Teo acrescentou, como quem está apresentando provas num julgamento — Está óbvio que pra você e talvez para ele também, é mais que uma jaqueta.
deu um suspiro fundo, como se não quisesse admitir que aquilo realmente era mais do que um presente.
— Eu só queria... fazer algo legal. É o aniversário dele, oras.
— Claro — disseram as três em uníssono.
— Vocês acham mesmo que eu devo levar o presente? Não posso só enviar pela ?
— Eu acho que você devia dar um descanso pra sua coruja. — respondeu Hestia com um sorrisinho. — Mas não se preocupe, se você não der essa jaqueta pra ele hoje, a gente vai dar. E ainda vamos contar o quanto você suou escolhendo cada detalhe.
— Vocês são um pesadelo.
— E você vai usar o cabelo solto ou preso? — perguntou Teo, já analisando as possibilidades como se fosse estrategista de um plano de guerra.
olhou de uma para outra, suspirando.
Mas, lá no fundo — bem no fundo — ela também já estava pensando no que ia vestir.
O som abafado da música ecoava pelo salão enquanto Sirius observava, sem muita animação, as garotas que o rodeavam. Elas tentavam chamar sua atenção, oferecendo sorrisos e elogios, mas ele respondia educadamente, sem se aprofundar em nenhuma conversa. Seus olhos buscavam um ponto distante, como se o único lugar em que quisesse estar fosse longe daquele ambiente cheio de risos vazios.
A festa estava em pleno andamento, com garotos e garotas se empoleirando nas mesas, bebendo, dançando, e se divertindo, mas ele se sentia um pouco fora de lugar. Não estava ali para socializar. Estava ali, na verdade, por um motivo. Sabia que algo iria acontecer — ou não — e ele estava esperando por isso. Ele apenas não sabia como lidar com aquilo.
Foi quando, no meio daquela atmosfera caótica, ele viu . Ela entrou na sala com Hestia e Teo, e Sirius a reconheceu instantaneamente, seu coração dando uma leve acelerada. Ela parecia diferente, talvez mais séria, talvez mais... desconfortável, mas isso não importava agora. O que importava era o fato de que ela estava ali.
Hestia e Teo rapidamente se aproximaram, cumprimentando Sirius de forma animada. Teo deu um tapinha nas costas dele, como se quisesse garantir que ele soubesse que, apesar de tudo, estavam todos ali para celebrar. Sirius retribuiu o cumprimento, mas o olhar dele sempre voltava a .
Ela estava um pouco mais atrás, e seu olhar estava focado no chão, como se não quisesse chamar atenção. Quando seus olhos finalmente se encontraram, deu um sorriso breve, quase tímido, e começou a caminhar em direção a ele. Sirius notou que ela trazia algo nas mãos — uma caixa pequena, aparentemente pesada.
Ela parou na sua frente e, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela se adiantou e estendeu a caixa para ele.
— Feliz aniversário, Sirius — disse ela, a voz suave, mas com um tom sério, como se estivesse hesitando em ser pessoal demais.
Ele olhou para a caixa, intrigado, e então a abriu. Seu coração bateu mais rápido quando viu o que estava ali: uma jaqueta de couro preta, com detalhes personalizados, e seu sobrenome brilhando sob a luz da festa. Ele reconheceu o gesto instantaneamente.
— É... uma jaqueta — disse Sirius, ainda surpreso, mas tentando disfarçar a emoção crescente.
deu de ombros e, com um sorriso travesso, disse:
— Agora só faltam a moto e a garota.
Sirius ficou parado por um momento, encarando a jaqueta, e então olhou para ela, sentindo o peso daquilo. Ele riu baixinho, a tensão no ar entre eles fazendo a atmosfera da festa parecer distante.
— Só falta a moto — ele disse, sem conseguir esconder o sorriso de satisfação. O tom dele estava mais suave, mais pessoal, como se aquele pequeno gesto significasse algo muito maior do que qualquer brincadeira ou comentário casual.
Ela o observou com um olhar indecifrável. Talvez fosse a leveza do momento, ou o fato de que, pela primeira vez, ele parecia genuinamente tocado. Ela não respondeu de imediato, mas, ao invés disso, virou os olhos, como se tentando esconder o sorriso.
Sirius sabia que havia algo ali, algo que os dois tentavam evitar em momentos como aquele. Mas agora, com a jaqueta em mãos, ele sentiu que talvez, só talvez, fosse hora de fazer as coisas de um jeito diferente.
— Você quer dar uma volta?
olhou para ele, surpresa, mas logo um sorriso se formou em seus lábios. Ela estava começando a entender a leveza da proposta, como se Sirius estivesse tentando tirar a pressão do momento e não tornar tudo em algo grandioso ou cheio de expectativas.
Ela deu de ombros, fingindo não perceber o tom mais suave que ele havia usado. A ideia de uma volta pelo castelo soava simples, mas a maneira como ele a convidava era, de alguma forma, diferente. Ela podia sentir isso.
— Uma volta… Está tentando nos colocar em problemas? — ela perguntou, com um sorriso ligeiramente zombador.
Sirius deu uma risadinha, o olhar relaxando um pouco. Ele sabia que ela estava tentando tirar o peso da situação, mas, de certa forma, ele estava gostando disso. Talvez fosse só a jaqueta, talvez fosse algo maior. Mas, no fundo, ele gostava do jeito que as coisas estavam acontecendo, mesmo com a incerteza entre eles.
— Vai me dizer que não gosta de caminhar pelos corredores vazios de noite, ou de evitar os professores tentando nos pegar fora do horário? — disse ele, mais leve, como se aquela sugestão fosse algo simples e espontâneo.
hesitou por um segundo, pensando na ideia. Estava tentando não deixar que os sentimentos tomassem conta, mas não podia negar que, de alguma forma, a proposta dele soava mais interessante do que ela estava disposta a admitir.
— Está tentando me convencer, Black? — ela respondeu, meio brincando, mas com um tom mais suave do que esperava. — Tá bom, vou dar uma volta com você.
Sirius sorriu, e algo no jeito dele mudou. Ele ainda era o mesmo Sirius, aquele que gostava de uma boa piada e de um pouco de diversão, mas algo havia se suavizado entre os dois. A jaqueta, o presente, as palavras de ... tudo aquilo tinha, de alguma forma, mexido com ele.
Ele deu um passo em direção a ela, o olhar mais atento, sem pressa, como se cada movimento fosse mais significativo do que antes.
— Vou ficar bem ao seu lado, não se preocupe — disse com um sorriso tranquilo.
Sirius e caminharam em silêncio pelos corredores escuros de Hogwarts, suas sombras dançando nas paredes com cada passo que davam. A festa já parecia distante, a música abafada e as conversas perdidas. Eles estavam agora em um universo particular, onde a vastidão do castelo parecia os envolver, criando um espaço só para eles.
Sirius, ainda com a jaqueta de couro nas mãos, não resistiu por muito tempo. Parou por um instante e, com um sorriso furtivo, vestiu a peça. O couro se ajustou ao seu corpo com a perfeição que ele sempre imaginara, e a sensação de estar usando algo tão pessoal, algo dado por , o aqueceu de uma forma que ele não conseguia descrever. O peso da jaqueta, a suavidade do material, a sensação de estar mais perto dela... tudo isso o envolveu de uma maneira que ele nunca imaginara.
— Então, como está? — perguntou, com um sorriso nos lábios ao vê-lo se ajeitar na jaqueta.
Sirius a olhou, os olhos mais suaves do que o habitual. Ele deu um giro lento, como se desfilasse, para mostrar a peça de couro com um charme exagerado, mas o brilho nos seus olhos era genuíno, algo mais profundo.
— Eu... realmente não estava esperando algo assim, . — Ele a observou com um sorriso sincero, e, por um momento, o tom de brincadeira que normalmente estava ali desapareceu. Ele estava tocado, e não tinha como esconder isso. — Obrigado.
deu um sorriso curto, quase envergonhado, mas sua expressão, por um segundo, se suavizou. Ela não sabia como lidar com a resposta dele, mas o efeito que ela causara nele era mais do que o esperado.
Eles seguiram em frente, e Sirius, de maneira natural, começou a guiá-la pelas passagens mais secretas do castelo. Eles se esgueiravam pelas sombras, apenas os ecos distantes de passos e risos de outros alunos quebrando o silêncio pesado entre eles. O castelo, naquela noite, parecia um labirinto de sussurros e segredos.
Ao chegarem perto do Lago Negro, a vista era ainda mais deslumbrante. A água refletia a luz da lua, criando ondas prateadas que dançavam sob a brisa suave da noite. Sirius e se aproximaram da margem e, sem dizer uma palavra, se sentaram na grama fria, o som das folhas e da água preenchendo o espaço ao redor deles.
O ar estava claro e fresco, e a quietude do lago parecia criar uma sensação de intimidade que nenhum deles havia antecipado. Eles não precisavam de muitas palavras, o ambiente ao redor deles falava por si só. Sirius olhou para a água por um momento, mas seus olhos logo se voltaram para ela. estava mais relaxada agora, os ombros caindo levemente, mas havia algo de introspectivo nela que ele não conseguia ignorar. Ela olhava para o lago, como se tentando encontrar respostas ali.
— Então... o que você tem feito de interessante ultimamente? — perguntou ele, tentando puxar uma conversa leve, mas com uma intensidade que não pôde ignorar.
Ela olhou para ele, surpresa pela pergunta. Estava acostumada a receber perguntas indiretas, brincadeiras, mas aquela parecia diferente. Sirius estava genuinamente interessado. Ela sorriu, embora a expressão fosse um pouco melancólica.
— Ah, você sabe, estudos, alguns trabalhos... nada de muito emocionante. — Ela deu de ombros, tentando esconder o desconforto que sentia, mas ele percebeu.
Sirius, então, sentiu uma leve brisa cortante. Ele não se importava com o frio, mas ela estava envolta no casaco simples que usava, e ele não podia deixar de notar o leve tremor de seus ombros.
Sem pensar muito, ele tirou a jaqueta que ainda estava vestindo, a tirou com um movimento rápido e a colocou sobre os ombros dela. A jaqueta tinha o cheiro dele, o toque daquilo que ela havia dado a ele, e agora estava sendo usada por ela.
— Você está com frio, não é? — perguntou ele suavemente, sua voz mais suave do que ela esperava. Ele ajeitou a jaqueta nos ombros dela, de uma forma que parecia mais pessoal, mais cuidadosa.
, surpresa com o gesto, olhou para ele, sua respiração falhando por um segundo. Ela não sabia o que dizer. Era um gesto simples, mas o significado por trás dele parecia ser mais profundo do que qualquer palavra. E, naquele momento, ela percebeu como ele estava perto, como ele estava ali de uma maneira que ela não conseguia definir.
Ela puxou a jaqueta para si, sentindo o calor dela, o calor dele, e um sorriso quase imperceptível surgiu em seus lábios.
— Obrigada, Black — ela disse, a voz mais suave do que ela pretendia. O sorriso em seus lábios era sutil, mas genuíno, e por um segundo, Sirius se sentiu como se tivesse conquistado mais do que uma simples amizade com aquele gesto.
Sirius a observou, sentindo algo crescer dentro dele. Algo mais do que a brincadeira, mais do que o charme. Algo que ele já começava a entender, mas que, ao mesmo tempo, não queria admitir. Ele se afastou um pouco, olhando para o lago e depois para ela, como se tentasse se concentrar nas estrelas ao longe.
— Não tem de quê — disse ele, a voz mais grave, mais introspectiva. — Você me deu algo que... bem, que significa mais do que você imagina.
olhou para ele, os olhos carregados de uma expressão que ela não conseguia traduzir. Mas algo na maneira como ele olhou para ela fez com que o silêncio entre eles ficasse mais denso, mais carregado de emoção não dita. Ambos estavam ali, na calmaria da noite, tentando não olhar fundo demais, tentando não pensar demais. Mas as palavras estavam na ponta da língua, e o tempo parecia se arrastar mais devagar à medida que os dois ficavam ali, sem saber exatamente o que viria a seguir. E, enquanto as ondas do lago continuavam a quebrar suavemente na margem, Sirius e ficaram em silêncio, compartilhando a quietude de um momento que, de alguma forma, parecia mais significativo do que tudo o que haviam vivido até ali.
A noite parecia eterna, como se o tempo tivesse se esticado até o limite, e quando finalmente decidiram voltar para a sala comunal, o castelo estava em um silêncio profundo. O corredor estava vazio, apenas o som das suas botas no piso ecoava suavemente, e as sombras das velas tremeluziam nas paredes. As estrelas já começavam a desaparecer, dando lugar a um amanhecer que, por algum motivo, não parecia iminente.
Ao entrarem na sala comunal, a visão era quase cinematográfica. Peter estava estirado no chão, adormecido em uma posição completamente desconfortável, enquanto James e Lily estavam abraçados no sofá, a respiração tranquila, e Hestia estava reclinada em uma poltrona, um livro aberto em seu colo, mas claramente fora de si pelo sono. O lugar tinha a sensação de que todos haviam se afastado, mas a noite ainda deixava uma marca ali.
olhou para os amigos, sentindo um sorriso suave se formar nos lábios. Ela se virou para Sirius, o coração ainda um pouco acelerado pela noite e por tudo o que acontecera.
— Foi uma ótima noite — disse ela, com um tom suave, quase tímido, como se tentasse capturar a essência de tudo o que eles haviam compartilhado.
Sirius olhou para ela, sentindo um peso na garganta. Ele não queria que a noite acabasse, mas ao mesmo tempo, sabia que algo havia mudado, e não tinha mais como voltar atrás. Ele estava mais próximo dela do que jamais imaginara.
Ele deu um passo à frente, os olhos fixos nos dela, com uma expressão que era difícil de esconder. Havia algo nele, algo que ele sentia que não poderia mais ignorar.
— Eu não consegui parar de pensar a noite toda... — a voz de Sirius estava mais baixa, o sorriso desaparecendo, substituído por uma sinceridade crua. — Não conseguia parar de pensar em como eu queria te beijar.
ficou em silêncio por um momento, o olhar fixo nele. Algo no tom dele a fez parar, e antes que ela pudesse responder de outra forma, ela apenas murmurou, a voz mais baixa e cheia de um sentimento que ela própria não entendia completamente.
— Pare de pensar e faça, Black.
Sirius a observou por um momento, os olhos brilhando com a intensidade do que estava prestes a acontecer. Ele não hesitou mais. Em um movimento rápido, ele se aproximou dela, o toque das suas mãos sobre seus ombros parecendo tão naturais quanto respirar. Seus olhos estavam fixos nos dela, buscando algum sinal de que ela não se arrependeria, mas, antes que pudesse esperar mais, fechou a distância entre eles com um olhar que dizia tudo.
Ele a beijou. O beijo foi devagar, quase como uma descoberta, como se ambos estivessem se permitindo explorar um território desconhecido. A suavidade nos lábios dela e a urgência crescente no toque dele criaram uma química que foi instantânea, intensa. Era como se o mundo ao redor tivesse desaparecido, como se tudo o que existisse naquele momento fosse o espaço entre eles, o calor compartilhado e a necessidade de estarem mais próximos.
Sirius sentiu a suavidade dos lábios dela se misturando com o sabor de uma noite que parecia se estender até aquele instante. Ele não sabia se estava completamente em controle, mas tudo ao seu redor parecia estar em perfeita sintonia. Ele a queria ali, naquele momento, com aquela sinceridade não dita. O beijo não foi rápido ou apressado, foi cheio de uma paciência que ambos pareciam ter esperado demais para se permitir.
Quando se separaram, o mundo pareceu voltar devagar. Sirius a olhou nos olhos, ainda com o peito acelerado, e, de maneira mais suave, falou:
— Espero que você não se arrependa disso amanhã — disse ele, com a voz baixa, rouca, mas sincera.
o encarou, o sorriso se formando no canto da boca, aquele típico dela — um pouco desafiador, um pouco afetuoso.
— Espero o mesmo de você — respondeu ela, com leveza, mas com um fundo verdadeiro que não passou despercebido por ele.
Ela então começou a soltar os botões da jaqueta devagar, os dedos indo até a gola, pronta para devolver a ele. Mas Sirius, sem pensar duas vezes, estendeu a mão e segurou delicadamente o tecido.
— Fica com ela — disse ele, com um olhar mais firme. — Assim você não vai poder escapar de mim amanhã.
parou o movimento, surpresa, e então soltou uma risada silenciosa, abafada, enquanto abaixava os olhos e balançava a cabeça.
— Você é um idiota — murmurou, ainda sorrindo, o rosto levemente escondido pelo próprio cabelo.
— Um idiota com a pessoa certa — ele rebateu, cruzando os braços e a observando com uma expressão satisfeita.
Ela ergueu os olhos para ele de novo, o sorriso agora tímido, mas cheio de algo novo, algo que começava a nascer ali, entre a promessa não dita e a jaqueta nos ombros dela.
— Boa noite, Black — disse ela, enfim, dando um último olhar antes de se virar para acordar Lily e Hestia.
Sirius ficou parado por um instante, observando enquanto ela se afastava, a jaqueta ainda sobre os ombros — como uma marca dele nela, discreta, mas impossível de ignorar. E ele sabia, com uma estranha certeza no peito, que aquela não seria uma noite qualquer. Não mais.
Capítulo 21
5 de novembro, 1976
Algumas horas depois, já era dia e desceu com passos lentos, hesitantes, como se não tivesse certeza de que queria mesmo encarar a manhã. A jaqueta de couro repousava sobre seus ombros como um lembrete — do beijo, da noite, do tipo de sentimento que ela tinha jurado nunca alimentar por Sirius Black. Mas ali estava ela, ainda com o cheiro dele grudado no colarinho da gola, como se ele tivesse ficado próximo demais.
Ela o avistou na poltrona de sempre, próximo à lareira, com uma xícara entre as mãos e o olhar perdido no fogo. Os cabelos bagunçados e a camisa ainda meio amarrotada do dia anterior só tornavam mais injusto o fato de que ele parecia completamente à vontade no caos.
Quando ele levantou os olhos e a viu, um sorriso lento, quase sonolento, se formou nos lábios.
— Bom dia — disse ele, rouco de sono e um tanto displicente, como se ela não tivesse sido o último pensamento dele antes de dormir.
se aproximou e, antes de responder, soltou um suspiro leve.
— Você precisa pegar a jaqueta de volta. — disse, puxando a manga da jaqueta em um claro sinal de nervosismo — Não quero ser responsável por você pegar um resfriado por causa do seu ego.
— Meu ego e eu estamos muito bem — respondeu ele, com uma expressão de satisfação tranquila. — Fica melhor em você, de qualquer forma.
Ela arqueou uma sobrancelha, disfarçando o riso com um suspiro fingido.
— Cuidado, Black. Falar esse tipo de coisa antes do café da manhã pode causar confusão emocional.
Sirius apoiou a xícara no braço da poltrona, os olhos fixos nos dela como se não houvesse mais ninguém no castelo inteiro.
— E você? Se arrependeu?
Ela hesitou por meio segundo. O tipo de hesitação que só ele notaria.
— De te beijar ou de usar sua jaqueta?
— Dos dois.
fingiu pensar, franzindo os lábios.
— Ainda não. Mas o dia só começou, então... nunca se sabe.
— Isso me dá até o fim do dia pra fazer você se arrepender — ele retrucou com um sorriso inclinado, provocativo, embora seus olhos dissessem outra coisa. Havia sinceridade ali, escondida sob a ousadia.
— Você é insuportável.
— E você, perigosamente difícil de esquecer. Acho que estamos empatados.
Ela desviou os olhos por um segundo, sorrindo sem querer. E então se aproximou um pouco mais da poltrona, abaixando-se ao lado dele, com os olhos fixos nas chamas que dançavam na lareira.
— Eu deveria ir tomar café. Lily vai me torturar com perguntas se eu aparecer com essa cara de “não dormi”.
— Você não dormiu — disse ele com um sorriso sugestivo.
Ela deu uma risadinha abafada, o rosto meio escondido pelo cabelo.
— Mais um motivo pra não me arrepender.
Por um instante, nenhum dos dois disse nada. Apenas ficaram ali, dividindo aquele momento silencioso, como se palavras fossem desnecessárias. Até que ela suspirou e começou a desabotoar a jaqueta devagar, como se estivesse retirando mais do que apenas um pedaço de roupa.
Quando a tirou, dobrou cuidadosamente, os dedos demorando-se sobre o tecido, e estendeu a ele com um leve pesar nos olhos.
— Melhor você ficar com isso — disse em voz baixa. — Não quero atrair atenção… ainda mais vestindo algo que grita “história para contar”.
Sirius não respondeu de imediato. Pegou a jaqueta, mas segurou a mão dela por um segundo a mais do que precisava.
O Salão Principal estava mais calmo do que o habitual. Era domingo, o que explicava a quantidade reduzida de alunos nas mesas, a maioria ainda se recuperando da festa da noite anterior. Os pratos de café da manhã estavam cheios, mas o movimento era preguiçoso. Uma leve brisa entrava pelas janelas abertas, e o sol filtrava-se suavemente pelos vitrais, lançando reflexos coloridos sobre a longa mesa da Grifinória.
sentou junto de Lily, Hestia e Teo, as três ainda cochichando sobre alguma coisa que ela não quis saber — provavelmente comentários indecentes sobre alguém na festa. Ou melhor, sobre certo beijo com certo maroto, que ela havia contado para as amigas. Ela, por outro lado, tentava ao máximo parecer natural. Havia prendido o cabelo em um coque bagunçado, vestia o uniforme casual de fim de semana e, com um certo peso no coração, não usava a jaqueta de couro que tinha devolvido a Sirius.
— Você tá pálida, Deli — comentou Teo, já se servindo de torradas com geleia. — Quer um chá ou… um feitiço para desmaiar e fugir das perguntas?
— Não precisa dramatizar — ela murmurou, sentando-se e puxando um prato. — Só não dormi muito.
Hestia estreitou os olhos.
— “Não dormi muito” geralmente quer dizer “não parei de pensar no beijo com um certo Maroto”.
deu uma mordida na maçã que acabara de pegar e olhou para Hestia com tédio fingido.
— Se você não parar de falar isso em voz alta, vou enfiar essa maçã inteira na sua boca.
Hestia riu, satisfeita.
Do outro lado do salão, os Marotos entraram juntos — James e Sirius um pouco à frente, Remus com um livro debaixo do braço e Peter meio atrasado, bocejando escandalosamente. James foi direto para o lugar de sempre, jogando-se no banco ao lado de Lily, que já estava ali com uma xícara de chá nas mãos. Ela corou um pouco quando ele a cumprimentou com um “bom dia” arrastado e preguiçoso, mas não se afastou. percebeu. E Lily percebeu que ela percebeu.
Sirius, por sua vez, hesitou por um breve momento quando avistou . Ela estava comendo distraída, o rosto iluminado pela luz da janela, e algo no peito dele apertou de um jeito que não era exatamente confortável — mas definitivamente familiar.
Ele caminhou até a mesa, sentando-se de frente para ela, como se fosse natural. Como se não tivesse passado metade da noite anterior querendo beijá-la de novo.
— Bom dia, — disse ele, com um leve sorriso no canto dos lábios. A voz baixa, quente.
ergueu os olhos devagar, mastigando com calma. Um brilho contido passou por seus olhos, quase como se estivesse medindo até onde podia sorrir sem se entregar.
— Bom dia, Black.
— Dormiu bem?
— Como uma pedra — ela respondeu, o olhar afiado, mas suave. — Você?
— Não consegui parar de pensar — disse ele, sem qualquer vergonha ou cerimônia, servindo-se de suco de abóbora.
A mesa ficou em silêncio por um segundo. Lily desviou os olhos para a própria xícara, claramente interessada, enquanto Hestia e Teo quase se afogaram no chá.
fingiu ignorar os olhares.
— Espero que tenha pensado em algo produtivo.
— Pensei em você — retrucou Sirius, casualmente, como se falasse do tempo.
Ela o encarou, um meio sorriso nos lábios, desafiadora.
— Está exagerando, Black. Tá cedo demais pra isso.
— E você ainda está sem minha jaqueta. — Sirius inclinou-se um pouco, a voz mais baixa, só para ela. — Quando vou vê-la usando de novo?
o fitou, divertida, mas havia uma faísca nos olhos. Aquela tensão que havia entre os dois desde o primeiro olhar trocado. Ela se aproximou ligeiramente e respondeu, em tom leve:
— Você vai ter que merecer.
Hestia soltou um suspiro dramático.
— Alguém pode por favor passar a geleia antes que eu morra sufocada nesse flerte descarado?
Todos riram, e por um breve momento, tudo pareceu simples.
Mas, aos olhos de Sirius e , mesmo enquanto o assunto mudava e as risadas ecoavam ao redor, havia um fio invisível. Uma promessa silenciosa de que aquilo era só o começo.
Depois do café, o grupo se dispersou aos poucos. Lily arrastou Hestia para a biblioteca, Teo foi atrás de Remus para pegar emprestado um livro de Runas, Peter desapareceu sabe-se lá pra onde — e Sirius foi “dar uma volta” como se isso não fosse suspeito nem um pouco. Só restaram James e no corredor do segundo andar, seguindo em direção à Torre da Grifinória com passos tranquilos. Tranquilos demais, na opinião de James.
, desconfiada, olhou de canto quando ele simplesmente não parava de olhá-la como se tivesse acabado de descobrir um segredo valioso.
— O que foi? — perguntou, sem paciência.
— Nada — respondeu James, exageradamente inocente.
Ela estreitou os olhos.
— James.
— Você sabe que ele tá ferrado por você, né? — disse ele, quebrando o silêncio de forma abrupta. olhou pra ele, confusa e com as bochechas esquentando de leve. — Eu tô falando sério. Eu conheço o Sirius desde que ele apareceu naquele trem no primeiro ano com o nariz empinado e a alma carregando meio tonelada de trauma — ele disse com um meio sorriso. — E desde então, eu sempre soube que ele tinha um coração grande. Só… ninguém nunca cuidou dele direito. Nem a família, nem as namoradas, nem ele mesmo.
parou de andar, o olhar suavizando. James também parou e virou-se de frente pra ela.
— Eu sei que vocês são complicados — continuou ele, mais calmo agora. — Que vivem se cutucando, discutindo, evitando e provocando. Mas você vê ele de um jeito que ninguém mais vê. Ele pode até tentar fingir, mas ontem… quando vocês voltaram… Lilah, eu nunca vi aquele idiota tão calmo. Tão... ele mesmo.
Ela mordeu o lábio, os olhos abaixando por um segundo, como se absorvesse cada palavra.
— Ele tem medo, sabia? Medo de se entregar, de amar alguém e quebrar a cara. De não ser bom o suficiente. Mas com você… ele não precisa fingir que não se importa. Você faz ele acreditar que talvez o amor não seja essa coisa inalcançável.
inspirou fundo, os olhos marejando só um pouquinho — mas o suficiente para James perceber.
— Então, por mais que eu ame te zoar e fingir que sou o irmão superprotetor irritante — ele disse com um sorriso torto —, o que eu realmente quero que você saiba é que... se tem alguém nesse castelo que poderia fazer o Sirius acreditar no amor, é você. Sempre foi você.
Ela deu um passo à frente e o abraçou de repente, apertado, sem dizer nada por um momento. James retribuiu, um pouco surpreso, mas sorrindo contra o cabelo dela.
— Agora eu tô emocionado e sem graça — ele murmurou. — Odeio isso.
— Cala a boca, Potter — disse ela, rindo com a voz um pouco embargada.
Eles se afastaram, e ela limpou discretamente os olhos, o coração mais leve — e mais cheio — do que antes.
— Você é um bom amigo, eu te amo — ela disse, sincera.
— E você é uma boa irmã postiça, também te amo. Mas se você machucar o Sirius, eu vou te transformar em uma fuinha. O mesmo vale pra ele.
— Justo.
Eles riram, e seguiram pelo corredor lado a lado, carregando uma cumplicidade que só quem ama as mesmas pessoas consegue compartilhar.
11 de novembro, 1976
O outono tinha finalmente se instalado por completo em Hogwarts. As árvores ao redor do castelo e ao longo do caminho para Hogsmeade estavam pintadas de tons dourados, alaranjados e vermelhos intensos, como se o mundo inteiro tivesse sido embrulhado em calor.
O ar estava fresco, com aquele cheiro inconfundível de folhas secas e terra molhada, e os alunos andavam em grupos animados pela vila bruxa, todos agasalhados com cachecois das casas e gorros de lã tricotados com mágica. apertou o próprio casaco ao redor do corpo, suas botas estalando contra as pedras úmidas da rua enquanto andava ao lado de Hestia e Lily — mas seu olhar procurava outra pessoa.
— Vocês vão pra Zonko’s primeiro? — perguntou , distraída.
— Só se você quiser uma sessão de riso forçado com James testando todos os produtos ao mesmo tempo — respondeu Lily, com um sorrisinho contido.
deu uma risada, mas antes que pudesse responder, ouviu uma voz familiar atrás de si.
— Vocês me sequestram ou eu posso roubar essa aqui por um tempo?
As três se viraram ao mesmo tempo para ver Sirius, encostado em um dos postes de madeira da rua, mãos nos bolsos do sobretudo escuro, e um sorriso preguiçoso nos lábios. O vento bagunçava ainda mais o cabelo dele, e a cicatriz fina acima da sobrancelha parecia mais evidente com a luz do sol filtrada pelas nuvens.
— Vai, vai — disse Hestia, acenando com a mão como se estivesse dispensando uma criança teimosa. — Mas se ela não voltar em uma hora, vou à delegacia mágica.
— Uma hora? — Sirius arqueou uma sobrancelha. — Ambiciosa.
rolou os olhos, mas já estava sorrindo ao se aproximar dele. Os dois começaram a andar lado a lado sentindo o cheiro de tortas de abóbora e especiarias que escapava pela porta entreaberta da Madame Puddifoot.
— Tá frio hoje — ela comentou, enfiando as mãos nos bolsos.
— Eu sei de alguém que tem uma jaqueta nova maravilhosa pra proteger você — Ele a olhou de lado com um sorriso cúmplice.
Ela bufou uma risadinha.
— Achei que ia me zoar por devolver.
— Fiquei orgulhoso da sua maturidade. Chocado, mas orgulhoso.
Eles entraram em um café e se sentaram em uma das mesas perto da janela. Lá fora, flocos de folhas secas dançavam com o vento, e por dentro do salão, as luzes suaves deixavam o clima quase íntimo demais para algo casual.
— Você sabe que eu estava esperando esse passeio desde o segundo ano, né? — Sirius disse, depois de um tempo, mexendo no chocolate que pediu.
— O quê? — ela riu. — Você nem gostava de mim no segundo ano. Mal falava comigo até começarmos as aulas de astronomia.
— Mentira. Eu só fingia que não gostava porque você me fazia parecer um idiota toda vez que abria a boca.
— Isso ainda acontece.
— Verdade. Mas agora eu gosto.
Ela o olhou com uma expressão divertida, mas havia uma ternura ali que ele não via sempre. E por um segundo, Sirius esqueceu do barulho ao redor, da mesa cheia atrás deles, dos risos de outros alunos. Só existia ela, com as mãos aquecidas pela caneca e os olhos presos nos dele.
— Você é diferente com os outros — ela disse de repente. — Mais distante, mais leve, sei lá. Comigo... é sempre como se você deixasse cair a armadura por uns minutos.
Sirius abaixou o olhar por um instante, quase sem saber o que fazer com aquela verdade.
— Você me faz querer ser mais... eu.
Ela sorriu, e o silêncio confortável entre eles disse mais do que qualquer declaração podia.
Depois do chocolate, eles andaram pelas lojinhas da vila, rindo de alguns chapéus absurdos na Dedosdemel e brigando levemente sobre quais doces eram melhores — até Sirius comprar e enfiar um punhado de penas de açúcar no bolso do casaco dela quando ela não estava olhando.
O sol já começava a se esconder atrás das montanhas quando chegaram ao topo da colina com vista pro lago congelado, onde as folhas dançavam em redemoinhos laranjas. Sentaram-se lado a lado, próximos o suficiente pra se aquecer, mas sem pressa. Ele estendeu a mão, pegando a dela sem dizer nada. Ela entrelaçou os dedos nos dele como se já fosse natural.
— Gosto de como a gente é agora — ela disse, baixinho, sem olhar para ele de imediato. Sua voz saiu firme, mas havia um toque de vulnerabilidade ali, como se ela estivesse pisando cuidadosamente entre palavras que só agora se permitia dizer. — Gosto de... da leveza. Da calma. Até das partes que ainda são confusas.
Sirius virou o rosto para ela, mas não falou nada. Só a escutava.
— É como se, depois de todo esse tempo, a gente finalmente tivesse parado de correr um do outro. — Ela finalmente virou o rosto e o encarou. — E eu acho que talvez, só talvez... a gente esteja no momento certo, agora.
Sirius sentiu o peito apertar de um jeito diferente, quase assustador. Como se as palavras dela tivessem destrancado uma porta que ele mantinha fechada há anos, por medo de que ninguém quisesse atravessá-la. Mas ela estava ali, olhando pra ele daquele jeito — com sinceridade e calma, sem pressa.
— Eu sempre soube que você era diferente — ele respondeu, baixando um pouco o tom. — Desde o começo. Você não dava a mínima pra mim, mas ao mesmo tempo... me desarmava. Ninguém nunca fez isso do jeito que você faz.
Ela sorriu, aquele sorriso torto e bonito, como se estivesse tentando esconder a emoção, mas ao mesmo tempo quisesse que ele visse.
— E agora? — ela perguntou. — O que a gente faz com isso?
Sirius deu um pequeno sorriso, um pouco mais sério que o usual.
— Agora a gente para de fugir. E só vive. Devagar, do nosso jeito. Sem regras, sem medo.
o encarou por mais um segundo antes de se inclinar devagar e apoiar a cabeça no ombro dele, o cachecol dela se enroscando com o dele. Ele girou um pouco o rosto e apoiou a bochecha no topo da cabeça dela, os dois olhando para o céu tingido de ouro e violeta, como se o mundo estivesse em silêncio só para eles, alheios aos rostos familiares que passavam por eles e encaravam a cena em euforia.
15 de novembro, 1976
Nos dias que se seguiram ao fim de semana em Hogsmeade, os corredores de Hogwarts pareciam mais barulhentos, os cochichos mais insistentes. Sempre que passava com Sirius, ela sentia os olhares. Não eram exatamente discretos — na verdade, pareciam se multiplicar a cada esquina, a cada refeição no Salão Principal, a cada aula em que eles dividiam o mesmo espaço. Marlene não parecia estar envolvida nos rumores, felizmente, ou seria muito pior. Mas Olivia Brown estava, e Deli sabia o quão baixa a lufana poderia ser.
— Estão falando de vocês outra vez — disse Teo, ao se sentar ao lado dela no café da manhã de quarta-feira, despejando geleia demais na torrada.
— Eu percebi — respondeu , sem tirar os olhos do chá. Ela tentava parecer indiferente, mas a verdade era que aquilo a incomodava. Por mais que nunca tivesse se importado com as fofocas de Hogwarts, agora ela era o assunto principal. E tudo porque resolvera se permitir gostar — e ser gostada — por alguém que sempre fora o centro da atenção alheia.
— Não liga pra isso — disse Hestia, surgindo do outro lado, equilibrando uma tigela de mingau e um olhar afiado. — É tudo inveja. E as garotas que queriam o Sirius agora estão só frustradas porque ele finalmente parou de dar moral pra elas.
deu um pequeno sorriso. Em parte, Hestia estava certa. Sirius, apesar de sempre educado, parecia ter fechado as portas para todas as outras. Ele a esperava depois das aulas, dividia doces no intervalo, encostava o braço no dela sempre que podia — tudo de um jeito natural, sem precisar provar nada a ninguém. Era assim que ela gostava. Simples. Quase secreto. Quase.
Mas Hogwarts nunca deixava nada ser secreto por muito tempo.
E os comentários começaram a mudar de tom.
Nos banheiros, garotas sussurravam “ela nem é tão bonita assim”, ou “ela deve estar usando alguma poção”. Uma delas chegou a deixar um bilhete no armário de , escrito em uma letra curvilínea: Cuidado com o que você não pode manter. Ela achou ridículo. Mas também soube, naquele instante, que não seria tão simples ignorar.
Na aula de Poções, alguém trocou o ingrediente da bancada dela por algo completamente errado — o que resultou em um caldeirão cuspindo fumaça roxa por quase cinco minutos. Na aula de Feitiços, sua varinha sumiu misteriosamente por meia hora.
Mesmo assim, continuava. Ela fingia que não ligava, que não sentia os olhares carregados, que não ouvia as risadinhas abafadas. Mas, no fundo, sentia.
E em uma noite particularmente fria, enquanto esperava por Sirius nos degraus da torre de Astronomia, ela olhou para as estrelas e suspirou. A paz deles parecia ter um prazo. Mas, ao mesmo tempo, ela não conseguia — e não queria — voltar atrás.
Quando ele finalmente chegou, com a jaqueta escura balançando ao vento e um sorriso só para ela, percebeu que, sim, valia a pena.
— Você tá bem? — ele perguntou, percebendo o olhar mais fechado.
Ela assentiu, e então, com firmeza na voz, respondeu:
— Eu tô. E tô decidida a continuar com isso... com você. Eles podem falar o que quiserem.
Sirius se aproximou, segurando o rosto dela entre as mãos geladas, com o polegar acariciando-lhe a bochecha.
— Você não precisa provar nada pra ninguém, Deli. Mas, se tiver que provar, prova pra você mesma. Só você.
Ela sorriu de leve. Era estranho o quanto ele conseguia acalmá-la mesmo quando tudo ao redor parecia querer tirá-la do eixo.
A manhã começou como qualquer outra, com um céu acinzentado cobrindo Hogwarts e o Salão Principal lotado de alunos meio acordados, comendo torradas e discutindo as próximas provas. , por sua vez, estava de bom humor. Tinha conseguido dormir bem, o mingau estava razoavelmente saboroso e Sirius tinha deixado um bilhete preso no fundo do seu copo de abóbora dizendo: “Se você sumir hoje, vou assumir que foi raptada por invejosas. Me manda um sinal.” — acompanhado de um desenho tosco de um hipogrifo dramático.
Mas a tranquilidade durou pouco.
Foi quando ela se aproximou da sala de Transfiguração, rindo de alguma piada idiota do Teo, que percebeu os primeiros olhares. Muitos. Longos. Mais intensos do que o normal.
— O que foi? — perguntou, franzindo o cenho. — Tenho alguma coisa no rosto?
Teo hesitou.
— Hmmm... não no rosto exatamente.
ergueu uma sobrancelha, puxou uma mecha de cabelo para olhar e congelou. Uma mecha rosa. Rosa chiclete. O tipo de rosa que parecia gritar.
— Merlin... — murmurou, puxando outra mecha. Também rosa. Toda a parte de cima do cabelo estava completamente tingida, como se ela tivesse mergulhado a cabeça em um tinteiro encantado.
— Isso foi alguma poção — comentou Hestia, surgindo do nada com uma expressão irritada. Lily apareceu logo depois, o olhar indignado.
— Que infantilidade. Isso podia ter dado errado. Você podia ter tido uma reação alérgica, ou sei lá, perdido o cabelo!
ainda estava tentando processar o que via no reflexo da janela do corredor — mechas rosa chiclete brilhando como se um trasgo tivesse derramado tinta de festa na sua cabeça — quando duas garotas que ela reconheceu de vista passaram por ela, rindo de forma contida, mas não o suficiente.
Elas não perceberam que Deli estava ali, parada, olhando direto para elas.
— Eu disse que ia funcionar — cochichou uma, quase pulando de empolgação.
— Você viu a cara dela? Vai ser épico quando o Black ver.
inspirou fundo. Sentia o sangue ferver nas têmporas... mas, estranhamente, também sentia algo próximo à diversão. Porque, bem… o que mais poderiam fazer?
Ela poderia ter se irritado. Poderia ter partido para o confronto, puxado a varinha e causado um espetáculo. Mas, ao invés disso, algo dentro dela se soltou — uma gargalhada, leve, inesperada.
As duas garotas se viraram, confusas, ao ouvirem a risada alta atrás delas.
— Uau — disse , ainda rindo, passando as mãos pelo cabelo com um olhar divertido. — De todas as tentativas desesperadas pra chamar atenção… essa foi a mais estilosa. Obrigada pela reformulação. Sério. Eu estava mesmo precisando de um toque de cor.
As meninas se entreolharam, sem saber como reagir.
se aproximou um passo, os olhos brilhando de sarcasmo doce.
— E só pra constar... Sirius vai amar a nova cor. Ele adora coisas que brilham — disse ela, piscando. — Mas na próxima, tentem algo mais criativo. Eu tenho certeza de que vocês conseguem fazer melhor. Ou será que não?
Sem esperar resposta, ela deu meia-volta, a risada ainda ecoando levemente enquanto ia na direção dos banheiros — não para apagar o estrago, mas para aprimorá-lo.
Pegou sua varinha e fez o que qualquer garota estilosa e orgulhosa faria: encurtou o cabelo. O corte ficou ousado, moderno, um pouco mais curto nas pontas e repicado — e o rosa, por algum motivo, realçava os olhos claros dela.
Quando apareceu no jantar, com o cabelo novo e um sorrisinho desafiador nos lábios, a mesa da Grifinória a recebeu com um silêncio coletivo — seguido de um burburinho crescente.
— Aparentemente, nosso plano de desestabilizar acabou virando um editorial de moda — comentou Lily, com um meio sorriso.
Sirius a viu assim que entrou no Salão e parou. Literalmente parou. O sorriso que apareceu em seu rosto não era debochado, nem presunçoso — era puro encantamento.
Ele se aproximou, pegou uma mecha rosa entre os dedos e disse:
— Se a intenção era te deixar menos irresistível... falharam miseravelmente.
— Sorte delas que eu não liguei muito — disse , fingindo um ar superior. — Mas se encostarem em mim de novo, juro que coloco chifres permanentes na cabeça das três.
Sirius riu, puxando-a de leve para um beijo rápido na bochecha, sob os olhares ainda mais chocados das garotas do quinto ano, que agora estavam furiosas e ofuscadas.
sentou-se com os amigos, colocou batatas no prato e encarou o mundo com a calma de quem sabia que não ia a lugar nenhum. Porque agora ela tinha Sirius. E elas que tentassem.
Capítulo 22
18 de novembro, 1976.
não conseguia dormir.
Era tarde, ela sabia que Remus e os outros deveriam estar lá fora e isso a deixava mais aflita. Por mais que quisesse ajudar, não havia como. Era mediana em poções, uma vez que James e ela sempre acabavam conversando mais do que ouvindo qualquer coisa dita pelo professor Slughorn, e falhava em preparar Wolfsbane. Ainda assim, James se saía melhor nas poções e acabava sendo de grande ajuda para ela. O máximo que poderia fazer era garantir que Remus estaria se alimentando bem pela manhã e levar alguns chocolates para ele.
Não era sempre que ela ficava tão aflita com algo, não desde o incidente com Teo na noite de Halloween, mas sentia um aperto no peito inexplicável.
Tinha a sensação de que algo estava errado naquela noite, e por isso ela se levantou. Por cima do pijama, vestiu um roupão de seda e colocou a varinha no bolso dele. Ela se esgueirou pelos corredores do castelo até a borda da floresta e estava prestes a se esconder quando o uivar do lobisomem se fez ouvir e ela olhou na direção, tendo a visão da fera em cima de ninguém menos que Severus.
— Remus, não! — Sem pensar duas vezes, foi em direção a fera. Encontrando um galho no caminho, pegou para cutucar o lobisomem na tentativa de tirá-lo de cima do sonserino. A garota soube que o plano havia funcionado assim que o lobisomem pareceu esquecer Snape. O que ela não havia planejado foi o que faria quando tivesse sua atenção para si e, por sorte, não precisou pensar muito. Quando a fera correu em sua direção, o cervo se chocou contra ele, jogando-o longe.
Foi o suficiente para disparar na direção de Snape, ajudá-lo a levantar e correr com ele, o galho ainda em sua mão direita para o caso de precisarem.
— Essa foi por pouco. — disse aliviada.
Quando alcançou uma distância segura, olhou para trás preocupada com os amigos.
— O que foi aquilo tudo? — Snape gritou com a garota, que torceu o nariz e segurou o galho com um pouco mais de força. Para quem andava por aí com futuros assassinos, ele parecia bastante assustado com a ideia de quase morrer. — Temos que contar ao diretor, aquela besta poderia ter nos matado. E o Black, o que foi aquilo? — ele continuou surtando e olhando para o salgueiro já bastante distante, os dois sem fôlego.
poderia imaginar o que uma reação como aquela iria causar, se lembrava bem das consequências quando Snape descobriu o segredo de Lupin pela primeira vez. Apertando mais o galho em sua mão, ela deu uma pancada na cabeça do sonserino e o viu cair desacordado.
Ela respirou fundo, as mãos tremiam quando ela largou o galho no chão e pegou a varinha no bolso.
— Um problema de cada vez, — resmungou levitando o garoto para dentro do castelo, torcendo para não encontrar ninguém no caminho para a enfermaria.
Sua ideia inicial era abandonar Snape em uma das macas e sair correndo, no entanto, Madame Pomfrey a avistou assim que os dois entraram.
— O que aconteceu com ele? — a mais velha perguntou enquanto fazia exames rápidos em Snape com a varinha. aproveitou que a mulher testava os sentidos do sonserino para tentar escapar sorrateiramente, infelizmente sua tentativa não deu certo e a mais velha se virou para ela novamente — Não pense que vai sair daqui sem que eu chame a McGonagall.
— Madame Pomfrey, por favor, eu já ajudei trazendo-o para cá. Não fala nada pra Minerva, por favor!
— Já passa muito da hora de dormir, o que vocês estavam fazendo fora dos seus salões comunais e como o senhor Snape acabou assim? — ela insistiu e respirou fundo, sabendo que precisaria mentir para se livrar dessa.
— Eu estava sem sono e resolvi dar um passeio, eu gosto tanto de olhar as estrelas, sabe. — disse, ao menos a parte de gostar de olhar as estrelas não era mentira. — Aí escutei alguns barulhos no jardim, acho que Snape estava testando alguma poção nova e algo deu errado. — Deli deu de ombros com a melhor cara de inocente.
não sabia se a mulher estava convencida ou não, mas teve certeza de que sua mentira foi ruim quando ela acenou com a varinha e um dos elfos domésticos do castelo apareceu. Ela estava tão ferrada.
— Vá acordar a professora McGonagall e o diretor, Pixy. Diga para virem imediatamente até aqui. — o elfo assentiu e desapareceu.
— Podia pelo menos ter pedido “por favor” — resmungou para que a enfermeira ouvisse, mas foi ignorada. Vendo que não tinha alternativa a não ser esperar pela bronca e detenção que sabia que viria, se sentou em uma das cadeiras próximas à porta de saída.
Pomfrey seguia trabalhando em Severus quando a porta irrompeu com um pequeno estrondo mostrando uma McGonagall furiosa e um Dumbledore bem confuso. Por sorte, a enfermaria estava vazia a não ser pelos dois garotos. Minerva foi direto para que se encolheu involuntariamente e olhando nos olhos da aluna, a professora indicou o caminho do corredor.
— Professora, não seja tão severa com a senhorita . Ela apenas quis ajudar. — Dumbledore disse com os olhos espertos e lhe encarou agradecida. Se pudesse abraçar o homem naquele momento, ela o faria. — Todos já fomos jovens e irresponsáveis, Minerva. Mas não há prova maior de caráter quando nos colocamos em perigo para salvar quem quer que seja. — ele disse para a vice-diretora, mas seus olhinhos azuis não deixaram a garota em momento algum. Deli engoliu em seco, cada dia mais certa de que o homem tinha olhos em todos os cantos do castelo, senão de todo o mundo bruxo.
— Trate de não passar a mão na cabeça dos meus alunos irresponsáveis, Dumbledore. — Minerva disse irritada e Albus sorriu para a mulher de forma tranquila, voltando sua atenção para Snape em seguida. Essa foi a deixa para que McGonagall e saíssem da enfermaria.
— Senhorita , devo dizer que estou extremamente decepcionada. — a mulher disse enquanto ela e caminhavam até a sala comunal da Grifinória — Sabe que é extremamente contra as regras sair após o horário permitido e mesmo assim o fez. Seja lá o que aconteceu com Black, obviamente foi mais que uma poção dando errado o que me leva a pensar que não só ele mas você também corria perigo. Entende a gravidade da situação?
A mulher parou diante do retrato que dava passagem para o salão comunal e olhou para a garota, analisando a expressão de cansaço dela.
— Sim, senhora — respondeu, sem saber muito o que dizer. Por mais que estivesse feliz de ter ajudado os amigos, não estava muito contente em ter desapontado Minerva, uma vez que a mulher sempre foi sua maior rede de apoio em Hogwarts. Apesar disso, não iria se desculpar por salvar uma vida, então ficou em silêncio esperando a detenção.
— Ótimo. — a mulher relaxou os ombros, não havia notado como estava tensa antes e era clara a preocupação que tinha com seus estudantes, não apenas com os da Grifinória — Como o diretor veio em sua defesa creio que não há necessidade de uma punição, mas espero que isso não a encoraje a continuar quebrando as regras. Agora vá descansar.
19 de novembro, 1976.
subiu as escadas com passos lentos, ainda sentindo o peso do susto e do que tinha acabado de acontecer. Sua cabeça latejava e o cansaço agora parecia pesar três vezes mais. Quando atravessou o retrato da Mulher Gorda e entrou na sala comunal, o ambiente estava vazio e silencioso — quase.
Sirius estava lá, sentado na poltrona próxima à lareira, o rosto iluminado apenas pelo brilho laranja das chamas. Ele levantou os olhos assim que a viu e, num segundo, estava de pé.
— Merlin, — ele sussurrou, se aproximando rápido, mas parando a poucos passos, como se não soubesse se podia tocá-la. — Eu... James e eu corremos pro castelo assim que tudo se acalmou. Você está bem?
assentiu devagar, os olhos brilhando pelo cansaço e por tudo que quase deu errado naquela noite.
— Ele ia morder o Snape, Sirius. — ela murmurou. — Você estava no chão... e Remus estava tão fora de si... Ele já tinha derrubado o Severus. Eu não pensei. Só agi.
Sirius passou a mão pelos cabelos escuros, visivelmente abalado. Ele olhou para ela com um misto de admiração e culpa.
— Você podia ter morrido, . Você... você se jogou na frente de um lobisomem. Por mim. Por ele. Por Snape. Que tipo de pessoa faz isso?
Ela deu um sorriso cansado.
— A mesma que arrancaria a cabeça de qualquer um por você. E por Remus. — Depois de uma pausa, acrescentou com um encolher de ombros: — Mesmo por Snape, embora ele seja um babaca.
Sirius riu baixo, o som sem humor, mas cheio de alívio. Então, sem aviso, ele a puxou para um abraço apertado. Um daqueles que diz tudo que as palavras não conseguem.
se permitiu encostar a testa no ombro dele, sentindo o calor e o cheiro familiar — couro, fumaça, e alguma coisa indefinida que era simplesmente Sirius.
— Nunca mais faça isso — ele sussurrou, apertando os braços ao redor dela. — Nunca mais se coloca em perigo desse jeito. Eu quase enlouqueci.
Ela fechou os olhos por um instante, deixando-se afundar no toque dele antes de se afastar lentamente.
— E o Remus?
— Está com James. Tranquilizamos ele. Ele não lembra de muita coisa. E graças a você, o Snape também não vai lembrar. Não ainda. — Sirius olhou para ela com um brilho diferente nos olhos. — Você salvou todos nós hoje.
deu de ombros, como se não fosse nada, embora por dentro estivesse em frangalhos.
— Eu só fiz o que qualquer um faria.
— Não. — Sirius negou com a cabeça, a voz firme. — Nem todo mundo faria o que você fez. E é por isso que eu... — Ele hesitou, os olhos presos aos dela. — É por isso que eu estou completamente perdido por você, .
Ela ficou em silêncio, apenas encarando-o. Depois de um momento, sorriu de canto.
— Acho que essa concussão emocional toda vai me impedir de discutir isso agora.
Sirius sorriu de volta, cansado, mas genuinamente.
— Justo.
Ela caminhou até o dormitório, mas antes de subir as escadas, olhou por cima do ombro.
— Boa noite, Black. E... obrigada por me encontrar aqui.
já havia subido dois degraus quando escutou a voz baixa de Sirius, quase hesitante, quebrando o silêncio da sala comum.
— ... espera.
Ela parou e virou o rosto por sobre o ombro, os olhos cansados ainda suavemente iluminados pelo fogo da lareira.
— Que foi?
Sirius passou a mão pelos cabelos, parecendo lutar com as palavras.
— Você não quer... — ele fez uma pausa, olhando para as escadas dos dormitórios masculinos, depois de volta para ela —... só dormir comigo? Juro que é só dormir. Eu só... — ele suspirou, derrotado pela própria vulnerabilidade — eu não quero que você fique sozinha.
desceu os dois degraus devagar, os olhos presos nos dele. Ele parecia mais novo assim, mais aberto. O Sirius que ela conhecia sempre foi o destemido, o ousado, o inconsequente. Mas agora, diante dela, havia só um garoto com medo de perder as pessoas que ama.
— Claro — ela respondeu num tom baixo, quase num sussurro.
Ele sorriu pequeno, agradecido, e ela o seguiu até as escadas que levavam aos dormitórios. Não demorou muito para que chegassem à porta do quarto dos marotos, onde Sirius a deixou entrar primeiro, fechando a porta com cuidado atrás de si.
O dormitório estava silencioso. James não estava lá, provavelmente fora com Remus para a enfermaria, e Peter estava dormindo pesado, caído em algum canto. Sirius puxou as cobertas da cama, fazendo um espaço ao seu lado e se deitou de costas, jogando os braços atrás da cabeça.
— Fica à vontade — ele disse de forma casual, mas o olhar nos olhos dele ainda tinha um toque de vulnerabilidade, algo que ele raramente mostrava. Black abriu seu baú e tirou uma camiseta de lá, jogando para . Ele fechou o dossel para que ela tivesse privacidade. — Acho que você vai precisar disso.
hesitou por um momento, mas acabou se vestindo e deitando ao lado dele, que estava de costas enquanto ela se trocava. Sirius se virou para ela, mais próximo do que imaginava, mas sem avançar ou forçar qualquer coisa. Eles estavam ali, apenas para estar juntos. Ela se aconchegou mais perto dele, o rosto no travesseiro, mas o corpo relaxado, aliviada por finalmente estar em um espaço seguro.
Nenhum dos dois disse nada por um tempo. O silêncio do quarto foi interrompido apenas pelo som das respirações e o ocasional estalo do fogo vindo da lareira. A escuridão envolvia os dois, mas havia algo no ar que fazia tudo parecer mais calmo, como se o mundo lá fora não existisse.
foi a primeira a quebrar o silêncio, sua voz baixa e um pouco trêmula:
— Ainda tô com medo de dormir — ela admitiu, o peso das últimas horas pesando em sua mente.
Sirius apertou os braços em volta dela, quase instintivamente, como se fosse natural dar-lhe conforto. Sua testa tocou a parte de trás da cabeça dela, de forma suave.
— Eu tô aqui. E você está segura. — Ele respirou fundo, a voz mais tranquila do que se sentia. — E amanhã, quando o dia nascer, tudo vai estar bem. A gente vai cuidar do Remus. E você vai me zoar sobre eu roncar ou alguma coisa assim.
soltou uma risadinha fraca, sua tensão começando a se dissipar um pouco.
— Você ronca?
— Não sei. Mas se eu roncar, finja que é um elogio.
Ela virou um pouco o rosto, apenas o suficiente para olhar para ele. Os olhos dele estavam relaxados, mas havia uma delicadeza em seu olhar que ela nunca tinha notado antes.
— Obrigada, Sirius — ela disse suavemente, quase como se não quisesse que a noite acabasse.
— Por quê? — ele perguntou, a voz suave.
Ela olhou para ele, o calor do corpo dele se tornando um consolo para os seus pensamentos confusos. Sua mente estava cheia, mas ali, com ele, parecia mais clara.
— Por estar aqui — ela respondeu com um sorriso pequeno, mais para si mesma.
Sirius ficou em silêncio por um momento, apenas olhando para ela. Então, sem mais palavras, ele inclinou a cabeça e beijou sua testa de forma suave, como se fosse um gesto instintivo, algo que ele não precisasse pensar.
— Sempre, — ele murmurou, a voz quase inaudível.
E, pela primeira vez naquela noite, ele sentiu uma paz indescritível.
23 de novembro, 1976.
acordou lentamente, os olhos piscando contra a luz suave que entrava pelas janelas do dormitório da Grifinória. Por um segundo, não soube onde estava. O quarto não era o dela. O colchão era mais firme, o cobertor com cheiro de fumaça e hortelã. E havia um braço quente e pesado ao redor da sua cintura.
Então, ela se lembrou.
Sirius.
Ela virou o rosto devagar, encontrando-o ali, ainda dormindo profundamente ao seu lado. O cabelo caía em ondas escuras sobre o travesseiro, a respiração era ritmada e calma. Ele parecia tão diferente dormindo — quase sereno, sem aquele sorriso arteiro que usava como armadura o tempo todo.
Sentiu um calor no peito, suave e reconfortante. Gostava daquilo mais do que tinha coragem de admitir. Gostava de acordar e vê-lo ali, tão próximo, como se nada no mundo pudesse separá-los.
Gostava da forma como, mesmo dormindo, ele mantinha o braço firme ao seu redor, como se a presença dela fosse essencial. Como se, sem ela, ele não conseguisse descansar completamente.
virou-se de lado, de frente para ele, e sorriu sem perceber.
— Merlin... — sussurrou baixinho, quase para si. — O que você tá fazendo comigo, Black?
Foi então que Sirius mexeu os cílios e abriu um dos olhos, ainda meio sonolento. Ele levou alguns segundos para focalizar o rosto dela, mas quando o fez, sorriu, um daqueles sorrisos pequenos, preguiçosos, que só aparecem em manhãs de calmaria.
— Bom dia pra mim... — murmurou, a voz rouca de sono.
Ela riu suavemente.
— Bom dia pra você.
Sirius esticou um pouco o corpo, sem desgrudar dela, e encostou a testa na dela. Ficaram assim, olhos fechados, respirando juntos.
— Quero isso todos os dias — ele sussurrou, sem pensar muito.
sentiu o coração apertar e relaxar ao mesmo tempo. Queria isso também. Acordar ao lado dele. Com paz. Com silêncio. Com promessas que nem precisavam ser ditas em voz alta. Ela estava prestes a responder quando a porta do dormitório se abriu de supetão e uma voz animada interrompeu o momento:
— Espero que estejam vestidos! — James.
— Merlin, James! — Sirius grunhiu, enterrando o rosto no travesseiro quando Potter abriu o dossel.
— Ah, ótimo, estão vivos. — Remus apareceu logo atrás dele, visivelmente exausto, mas com um sorriso sincero ao ver os dois. — Bom dia.
tentou não rir. Sentou-se devagar na cama, ajeitando o cabelo e puxando o cobertor sobre os ombros como se aquilo fosse ajudá-la a parecer mais composta.
— Eu juro que só dormimos — ela disse, um pouco mais rápido do que gostaria.
James arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços e analisando os dois com um sorriso maroto.
— Não tô julgando, só vim verificar se o Almofadinhas estava vivo e se não tinha te raptado no meio da noite. Mas, pelo visto... você veio por vontade própria.
olhou para Sirius, que finalmente ergueu o rosto e bagunçou o cabelo com a mão, sem se importar com o fato de estar claramente todo amassado.
— Ela veio porque não resistiu ao meu charme. Naturalmente.
revirou os olhos.
— Ele praticamente implorou.
— Eu estava vulnerável! — Sirius rebateu, dramático, fazendo os outros rirem. Remus se aproximou da cama e olhou para os dois, mais sério.
— Obrigado por ontem, . De verdade.
Ela assentiu, emocionada.
— Sempre.
James sorriu de lado e deu um tapinha no ombro de Sirius.
— Se você estragar isso, eu te transformo em um sapo. Ou pior, deixo a Lily te dar uma palestra sobre sentimentos.
— Credo, Potter — Sirius respondeu com uma careta. — Não precisa de ameaça, eu sei o que tenho aqui.
sorriu, tocando a mão dele por debaixo do cobertor.
Ela também sabia.
desceu os últimos degraus da escada da torre da Grifinória em passos lentos, sentindo ainda o calor da presença de Sirius a alguns lances de escada acima, ele e o restante dos Marotos vinham conversando.
O dia estava apenas começando, mas ela já se sentia exausta. Entre a tensão da noite anterior, o peso de ter carregado Snape desacordado até a enfermaria, a bronca de McGonagall e... bem, dormir ao lado de Sirius Black, não era de se surpreender que estivesse emocionalmente drenada.
Teodora estava sentada com uma maçã na mão, os cabelos presos num coque alto, claramente esperando por ela.
— Onde você estava? — ela perguntou sem rodeios, o tom mais preocupado do que acusador, mas ainda assim firme. — Por Deus, ! Você simplesmente sumiu no meio da noite, deixou a Hestia desesperada!
— Não desesperada, só... preocupada — Hestia apareceu do lado da amiga, abraçando um travesseiro contra o peito com expressão de nervosismo. — Achei que algo tivesse acontecido com você, .
ergueu as mãos em defesa, tentando conter o caos que se formava.
— Eu sei, eu sei... Desculpa. Não era minha intenção preocupar ninguém. Eu só... não conseguia dormir. E acabei saindo um pouco pra pensar.
Teo cruzou os braços, claramente não convencida.
— E por acaso esse “pensar” envolveu desaparecer até o amanhecer sem dar notícia nenhuma e vir do dormitório masculino?
abriu a boca para responder, mas nesse momento os meninos desceram, Remus captou a tensão no ar em segundos.
— Está tudo bem aqui? — Sirius perguntou se aproximando de Deli.
Teo notou o rosto de Remus um pouco mais abatido que o normal, mas os olhos atentos. Se sentiu uma idiota, lembrando que a noite anterior havia sido uma daquelas. Lupin trocou um olhar rápido com antes de acariciar os cabelos da namorada e falar com calma:
— Teo, pega leve com a , por favor. Ela teve uma noite difícil. Depois a gente conversa com calma, tá?
Ela olhou de para Remus, e pareceu compreender que havia algo ali que não estava sendo dito. O que só a deixou mais preocupada, mas ela assentiu com relutância.
— Tudo bem... — disse num tom que deixava claro que ainda não estava satisfeita.
— Obrigada, Remus — murmurou, aliviada.
Foi então que Lily, que estava em silêncio o tempo todo, se aproximou com uma expressão fria demais para o habitual.
— Sabe, Teodora, talvez ao invés de interrogar como se fosse auror em treino, você devesse confiar mais na sua melhor amiga — disse Lily, com o tom cortante e direto.
O lugar ficou em silêncio por um segundo inteiro. arregalou os olhos, e até Hestia pareceu surpresa. Teodora endireitou a postura e arqueou uma sobrancelha com calma.
— E talvez você devesse aprender a não se meter onde não foi chamada, Evans.
O clima pesou. Ninguém ousava respirar. Foi quem se colocou entre as duas imediatamente.
— Ok, já chega. — sua voz estava baixa, mas firme. Ela olhou para Lily primeiro. — Eu agradeço por tentar me defender, mas não precisa falar assim com a Teo. — Depois voltou-se para a amiga, os olhos suavizando. — E eu prometo explicar tudo depois, tá bem? Confia em mim.
Teodora manteve o olhar por mais alguns segundos, e então suspirou, visivelmente tentando deixar para lá. Hestia puxou Remus para o sofá, alheia à troca de farpas, e Lily cruzou os braços, encarando a lareira com um suspiro impaciente.
passou uma mão cansada no rosto e, sem ninguém perceber, olhou para Lily com uma mistura de surpresa e preocupação. Aquela não era a primeira vez que Lily ficava na defensiva por ela, mas nunca tinha feito isso com alguém tão próximo quanto Teo.
E ela sabia que, mais cedo ou mais tarde, precisaria conversar com Lily sobre aquilo.
Sobre defender demais, e machucar quem mais importava no processo.
Mas por enquanto... por enquanto, tudo o que ela queria era um chá quente e um canto sossegado.
e Evans não eram melhores amigas, apesar de estar feliz com a aproximação após esclarecerem que não se odiavam. E Lily se enturmou fácil com Hestia e os meninos, mas conseguia ver certa relutância quando se tratava de Teodora. Não que a sonserina ligasse, para variar. Mas conseguia ver o desconforto da ruiva sempre que Teo se juntava a elas, como se a garota estivesse ali pronta para dar o bote. Nem mesmo James era tão paranoico.
tentou deixar que o tempo e a convivência com Teo mostrassem à Lily que a sonserina não era como os outros, mas o incômodo da ruiva era perceptível e após o ataque pessoal de mais cedo, ela sabia que precisava intervir.
As aulas haviam terminado e os corredores estavam mais silenciosos, com a maioria dos alunos se dirigindo para os salões comunais ou aproveitando os últimos raios dourados do dia no pátio. caminhava com passos firmes pelos corredores do terceiro andar, os pensamentos a mil. Não era de seu feitio guardar ressentimentos, mas não conseguia simplesmente ignorar a tensão entre duas pessoas tão próximas dela. E se alguém precisava tomar a iniciativa, que fosse ela.
Encontrou Lily sentada sozinha no jardim interno, com um livro no colo e os cabelos ruivos iluminados pela luz do entardecer. A garota ergueu os olhos ao notar sua aproximação, mas não disse nada.
— Podemos conversar? — perguntou, parando a uma distância respeitosa.
Lily hesitou, depois fechou o livro com cuidado e assentiu. sentou-se ao lado dela no banco de pedra, olhando por um momento para o céu antes de falar.
— Eu só queria entender o que aconteceu hoje de manhã. — começou com cuidado. — A forma como você falou com a Teo… foi como se você estivesse guardando algo há tempos.
Lily suspirou, passando a mão pelos cabelos.
— Eu não gosto dela, . Nunca gostei. Ela é... da Sonserina.
bufou suavemente, mas deixou que Lily continuasse.
— E não é só isso — a ruiva acrescentou. — A família dela... você sabe do que eles são capazes. São pessoas que odeiam trouxas e mestiços, que se acham superiores. Eu cresci ouvindo o que esses nomes representavam. É difícil confiar em alguém que vem disso.
a encarou com um olhar calmo, mas firme.
— O Sirius também vem de uma família assim — disse em voz baixa, porém cheia de significado. — E você confia nele.
Lily apertou os lábios, como se não tivesse uma boa resposta imediata.
— Eu confio porque... ele se afastou disso tudo. Ele mostrou quem é de verdade. E Teo ainda é amiga do Snape — Lily acrescentou, como se aquele fosse o argumento definitivo. — E você sabe muito bem o que ele virou. As escolhas que fez.
se virou para ela com uma expressão calma, mas os olhos brilhavam com algo entre dor e frustração.
— Você também era amiga do Snape, Lily.
As palavras ficaram suspensas no ar por um momento, e Lily pareceu desarmada.
— Não é a mesma coisa — ela rebateu, num tom mais baixo. — Eu me afastei dele por tudo que ele passou a representar. Pelas escolhas dele.
— E você deu a ele anos de amizade antes disso. — replicou, mantendo o tom tranquilo, mas firme. — Teodora não fez essas escolhas. Ela é amiga dele, sim, assim como muitos de nós já fomos. Isso não define quem ela é.
— Mas e se define? — Lily sussurrou, mais para si mesma. — E se ela simplesmente... ainda não mostrou o verdadeiro lado dela?
— Então é exatamente por isso que você deveria esperar para ver — disse, com delicadeza. — Não é justo que ela seja julgada pelos erros dele. Ou pela casa. Ou pela família. Ela tem o nome, mas nunca quis saber do orgulho puro-sangue da família. Nunca compactuou com nada disso. E, sinceramente, Lily, julgar alguém pelas ações dos outros... — ela pausou, escolhendo as palavras com cuidado. — Isso não te torna melhor do que quem você está criticando.
Lily abaixou o olhar, parecendo envergonhada.
— Eu gosto de você, Evans — continuou Deli com sinceridade. — Gosto mesmo. E estou feliz por termos deixado nossas diferenças de lado. Mas... eu sou leal às minhas amigas. Sempre fui. Assim como você foi com a Marlene todos esses anos, mesmo quando me odiava por coisas que nem sabia se eram verdade. E tudo isso só porque queria apoiá-la.
Lily ficou em silêncio por um tempo. Por fim, respirou fundo e assentiu devagar.
— Você está certa. — ela disse, a voz baixa. — Eu julguei mal. E... fui injusta com a Teodora. Vou me desculpar com ela. Não prometo gostar dela, ou confiar de verdade. Mas posso tentar ser... civil. Pela sua amizade. E pela do Remus também.
sorriu, aliviada.
— É tudo o que eu peço. Obrigada.
Lily retribuiu o sorriso, um pouco tímida.
— E obrigada por ser honesta. Mesmo quando é difícil de ouvir.
As duas ficaram ali em silêncio por um tempo, observando as folhas que dançavam com o vento outonal. Era o início de um entendimento, imperfeito, mas real.
E para , isso era mais do que suficiente por agora.
Continua...
Nota da autora: Sem nota.
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