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Última atualização: 13 de julho de 2025

Prólogo


Se alguém me dissesse há um ano que eu estaria deixando o Brasil para ser au pair na fazenda de um ex-integrante de uma das maiores boybands do mundo, eu provavelmente teria rido. De nervoso, claro. Porque mesmo agora, com as mãos frias e o coração acelerado, ainda me pergunto se essa história é mesmo real — ou se eu adormeci no voo e estou sonhando acordada.
A decisão de sair do Brasil não foi impulsiva. Foi lenta, construída no silêncio dos meus dias, entre aulas de inglês online, olhares perdidos pela janela do quarto e a sensação constante de que eu precisava viver algo maior que minha cidadezinha no interior de Minas. Sempre fui a filha quieta, a que ajuda em tudo, a que sorri educadamente nas reuniões de família, mas que guarda o mundo dentro de si. Talvez por isso ninguém esperasse que eu fosse embora. Nem eu.
Mas alguma coisa em mim — um desejo antigo, uma voz suave que dizia “vai” — me fez preencher aquele formulário do programa de au pair. Eu queria cuidar de crianças, ver o mundo, aprender a existir fora da minha zona de conforto. Só não esperava que a tal família americana fosse, justamente, aquela família. A primeira vez que li “ ” no e-mail de seleção, achei que fosse um erro. Um homônimo. Alguma brincadeira. Mas não era.
A família precisava de alguém com urgência. Uma au pair tranquila, com bom inglês e disposta a viver numa área mais afastada, longe da agitação das cidades grandes. "Discrição é essencial", diziam. Aceitei quase sem pensar, o coração batendo alto demais para ouvir qualquer razão.
O voo foi cansativo, com escalas demais e conexões longas. Eu quase não dormi. Em parte por medo de perder o horário, em parte pela ansiedade que me embrulhava o estômago. Lembro de olhar pela janela do avião quando ele decolou de Guarulhos e pensar que aquela era a última vez que eu veria o Brasil por um bom tempo. Doeu. Mas doía mais a sensação de que, se eu não fosse, passaria a vida me perguntando como seria.
Cheguei à Pensilvânia numa manhã cinzenta de inverno. O vento cortava o rosto, e o ar parecia mais denso do que o que eu estava acostumada. Cada respiração era uma lembrança de que eu estava longe. As malas pesavam, mas não tanto quanto a dúvida silenciosa que me acompanhava desde o embarque: será que eu vou dar conta?
No saguão, uma mulher loira segurava um cartaz com meu nome escrito em letras grandes. Sorriu assim que me viu. Ela se chamava .
? Bem-vinda! — disse, com um sotaque americano bem marcado. — Eu trabalho com o , cuido da casa e da parte administrativa da fazenda. Estávamos te esperando.
Tentei sorrir, mas meu rosto estava congelado. Falei um “thank you” tímido e segui seus passos até o carro. O caminho foi silencioso, mas não desconfortável. parecia gentil. Às vezes comentava sobre a paisagem, me contava que a região era tranquila, cheia de famílias antigas, que a fazenda ficava afastada da cidade.
— O é... reservado. Muito. — ela disse, com cuidado, como quem não queria assustar. — E a é uma menina muito doce. Sensível. Gosta de música, de pintura... Acho que vocês vão se dar bem. Só não estranhe se ele parecer... Distante. Faz parte dele.
Assenti em silêncio. Eu entendia. Eu também era feita de distâncias.
Depois de quase uma hora dirigindo por estradas ladeadas por árvores peladas de inverno e cercas brancas, chegamos. A fazenda surgiu como uma pintura no meio do nada: uma casa grande, de madeira escura, com detalhes rústicos e um celeiro vermelho ao fundo. Campos cobertos de neve se estendiam até onde a vista alcançava, interrompidos aqui e ali por fileiras de árvores e pequenas construções de apoio.
Era linda. E solitária.
O carro parou em frente à casa principal, e por um momento, respirei fundo antes de abrir a porta. O ar gelado me envolveu como um lembrete de que tudo ali era novo. Que tudo estava começando.
carregou uma das minhas malas, e eu fui atrás, as botas afundando levemente na neve. Assim que entramos, o cheiro de madeira e café fresco me envolveu. A casa era aconchegante, com paredes em tons quentes e janelas amplas que deixavam a luz natural entrar, mesmo num dia nublado como aquele.
Ele não estava na sala. Na verdade, parecia que nem sabia que eu já tinha chegado.
— Ele deve estar nos fundos com os cavalos — disse. — Mas não se preocupe, vou te mostrar seu quarto e te apresentar a amanhã. Hoje você pode descansar, sei que o voo foi extremamente cansativo.
Subi as escadas com o coração batendo mais rápido do que devia. Era muita coisa. Muita mudança. Mas ali, entre o silêncio da casa e o estalo da madeira antiga sob meus pés, uma parte de mim sentiu que, talvez, esse fosse o lugar onde minha história começaria de verdade.
Eu só precisava ter coragem de ficar.


Capítulo 1


Acordei com a luz pálida da manhã atravessando a janela do quarto, cortando o branco das cortinas com um tom dourado esbranquiçado. Era estranho. Não tinha o barulho dos carros, nem o som das vozes do lado de fora, nem o cheiro familiar de café vindo da cozinha da minha mãe. Só o silêncio. Um silêncio quase absoluto, quebrado apenas pelo sutil estalar da madeira da casa, pelo vento lá fora e, de vez em quando, o relinchar abafado de algum cavalo ao longe.
Era meu primeiro dia oficial ali. Ainda parecia irreal.
Sentei na cama devagar, sentindo os ossos despertarem junto comigo. A cama era mais alta do que eu estava acostumada, e os lençóis tinham cheiro de lavanda e sabão neutro. Tudo ali era arrumado, bonito de um jeito simples, funcional. O quarto tinha tons de bege e verde musgo, com móveis de madeira rústica e uma poltrona junto à janela. Sobre a cômoda, um porta-retratos com uma imagem da ainda pequena, rindo, com os cabelos bagunçados e o rosto coberto de tinta. Ela devia ter uns dois ou três anos na foto. Era adorável.
Vesti uma blusa de lã e uma calça jeans confortável. Desci as escadas com passos hesitantes, como se a casa fosse sagrada demais para o som das minhas botas. O aroma de café recém-passado me guiou até a cozinha, onde estava com um copo nas mãos, lendo algo em um tablet.
— Bom dia, dorminhoca — disse ela, com um sorriso gentil, me oferecendo uma caneca já pronta. — Conseguiu descansar?
— Mais ou menos — confessei, encolhendo os ombros. — Ainda tô meio... processando tudo.
— Vai levar um tempinho. Mas você vai se acostumar. — Ela me entregou um prato com duas fatias de pão dourado. — já acordou, mas tá no estúdio com a professora particular. Quando elas terminarem, te apresento.
Assenti, sem saber o que dizer. Era como estar flutuando num universo paralelo, onde o tempo corria mais devagar. era gentil, atenciosa. Fazia perguntas suaves, respeitava meus silêncios, e parecia entender exatamente o que eu precisava: tempo e calma.
— E o… O ? — perguntei, tentando parecer natural, mas a hesitação escapou pela minha voz.
Ela sorriu de lado.
— Saiu cedo. Sempre faz isso. Acorda com o sol e vai direto pro estábulo. Trabalha com os cavalos, com os funcionários, cuida de tudo pessoalmente. Ele é... Reservado, como eu disse. Mas é justo. E não gosta muito de falar sem necessidade. Então, não estranhe.
“Não estranha.” Tarde demais. Tudo ali era estranho pra mim. Mas também era lindo, de um jeito que eu nunca tinha vivido. Eu queria me sentir parte daquilo — mesmo sem saber como.
Depois do café, me levou até a lateral da casa, onde uma porta de vidro se abria para um caminho de pedras que levava até uma construção de madeira clara. Era o estúdio de . Um espaço só dela, adaptado para estudos e atividades artísticas. Quando entramos, o cheiro de tinta e papel tomou o ar, misturado ao calor suave do aquecedor central. E lá estava ela, sentada sobre um tapete felpudo, com pincéis espalhados ao redor e as bochechas coradas.
— chamou , com doçura — Essa é a . Ela veio do Brasil. Vai ficar com a gente por um tempo.
A menina levantou os olhos lentamente. Tinha o mesmo olhar profundo do pai — um castanho intenso que parecia escuro demais para uma criança. Mas havia algo mais nela. Uma delicadeza quieta. Um cuidado em como se movia, como se falava.
— Você fala inglês? — perguntou, curiosa, mas sem hostilidade.
— Falo sim. Um pouquinho enrolado, mas tô melhorando — respondi, sorrindo.
Ela inclinou a cabeça, avaliando. Depois sorriu de volta.
— Eu gosto do Brasil. Tem florestas grandes lá. E onças.
Ri baixinho, surpresa com a lembrança.
— Tem sim. E praias, e músicas boas. Um dia posso te mostrar.
— Pode me ensinar português? — ela perguntou, os olhos brilhando.
— Claro que posso.
E naquele instante, algo se afrouxou dentro de mim. A tensão, o medo, o estranhamento… tudo cedeu só um pouquinho. A gentileza de me atravessou como um raio de sol tímido num dia nublado. Ela voltou a pintar enquanto conversávamos, e percebi que ela falava como alguém que cresceu cercada de arte, de silêncio e de adultos complexos demais. Havia maturidade demais naquele jeitinho doce.
No final da tarde, ajudei a organizar algumas coisas da casa. O silêncio voltou a preencher os espaços, e por volta das seis, ouvi passos vindos da porta dos fundos. Um arrastar de botas pesadas. Vozes masculinas abafadas. Risadas curtas.
Ele entrou pela cozinha, os cabelos escondidos por um gorro de lã escuro, a barba por fazer e o casaco ainda coberto de neve derretendo pelos ombros. Os olhos — aqueles olhos — varreram o ambiente como se conferissem se tudo estava em ordem. Quando pousaram em mim, senti o ar congelar por um segundo.
.
Mesmo em silêncio, havia algo nele que ocupava espaço. Uma presença que se impunha sem precisar de palavras. Ele assentiu com a cabeça, uma espécie de cumprimento contido, antes de tirar o casaco e pendurá-lo.
— Essa é a . — disse , como se traduzisse a cena. — Ela chegou ontem à noite.
— Oi. — murmurei, a voz mais baixa do que gostaria.
— Oi. — ele respondeu, curto, mas sem frieza. Apenas... Reservado.
E então seguiu até a sala, onde já o esperava com um desenho nas mãos. Eles se abraçaram como quem se reencontra depois de dias, e a forma como ele a acolheu — o beijo na testa, o sorriso pequeno que só ela arrancava — foi como uma fresta aberta em uma porta trancada.
Fiquei ali por mais alguns segundos, observando de longe. E percebi, naquele gesto sutil, que ele também guardava muito dentro de si. Talvez até mais do que eu.
Era só o começo. Mas algo me dizia que aquela casa — silenciosa, cheia de vazio e de arte, de memórias e de neve — ainda teria muito a me ensinar.
Depois do jantar — uma sopa cremosa de legumes e pão rústico assado pela própria , me chamou para ver o que ela chamava de “a parte secreta” da casa.
— Não é tão secreta assim… — disse ela, rindo — Mas eu gosto de fingir que é.
Me guiou por um corredor lateral, onde uma porta estreita dava acesso a uma salinha com uma janela redonda e prateleiras cheias de livros infantis, jogos de tabuleiro e algumas almofadas no chão. Era um cantinho de leitura, mas tinha a alma de um forte imaginário. O lugar parecia um santuário dela.
— Eu venho aqui quando tô triste — ela disse, se sentando entre as almofadas. — Ou quando sinto falta da minha mãe.
Fiquei em silêncio por um instante, sentando ao lado dela com cuidado.
— Você sente falta dela todos os dias? — perguntei, num sussurro.
Ela assentiu.
— Mas o papai diz que logo ela vem me visitar, é só questão de tempo… Ela é um pouco ocupada.
Aquilo me tocou de um jeito difícil de explicar. Havia tanto mundo naquela menininha. Ela falava como quem cresceu rápido demais.
— Se você quiser… — eu disse, com um sorriso tímido — Posso vir aqui com você às vezes. Posso te mostrar histórias brasileiras também. Podemos inventar mundos juntas.
abriu um sorriso cheio de covinhas. Foi quando percebi que o vínculo começava ali, no silêncio respeitado e na troca sincera. Sem precisar forçar. Sem pressa.
Mais tarde, no meu quarto, liguei para meus pais. A conexão estava boa, e mesmo com o fuso horário — umas três horas a menos aqui — eles pareciam estar esperando por mim.
— Oi, minha filha! — disse minha mãe, a voz emocionada só de me ouvir.
Contei tudo. Do quarto, da comida, da , da neve. Ocultei a parte em que meu medo ainda me engolia de tempos em tempos. Não por mentira, mas porque sabia que se falasse sobre isso agora, choraria. E não queria preocupar ninguém.
— A gente tá muito orgulhoso de você. — disse meu pai, com aquele sotaque mineiro que me aquecia o peito mesmo do outro lado do mundo. — E qualquer coisa, estamos aqui, tá? Sempre.
— Eu sei. Amo vocês.
Desliguei com os olhos marejados, mas estranhamente em paz. Era como se, pouco a pouco, eu fosse criando raízes naquele novo chão gelado.
Antes de dormir, peguei meu notebook para ver sobre a faculdade. Uma das regras do programa de au pair é que a gente precisa estudar enquanto está nos Estados Unidos. O programa cobre um valor de cerca de 500 dólares por ano para cursos em instituições locais, e eu já tinha pesquisado algumas opções ainda no Brasil, mas agora precisava decidir de fato.
tinha me deixado uma pasta com sugestões, e uma delas me chamou a atenção: Montgomery County Community College, que ficava a pouco mais de 40 minutos da fazenda. Eles ofereciam cursos noturnos e de fim de semana — perfeitos para quem trabalha durante o dia — e tinham aulas presenciais e online. O ideal para mim.
Entre as opções, um curso básico de Early Childhood Education me interessou. Parecia fazer sentido com meu trabalho com a . Também havia aulas de inglês acadêmico e cursos livres de arte e escrita criativa. Meu coração bateu mais forte com esses últimos.
Eu teria que conversar com para ver qual curso cabia no valor oferecido pelo programa e qual se encaixava nos meus horários. Mas só de imaginar estar em uma sala de aula nos EUA, mesmo que pequena, mesmo que simples, já me dava aquela sensação de vida nova. De possibilidades.
Fechei o notebook e olhei pela janela. Lá fora, a neve caía fina, quase como poeira mágica. A fazenda dormia em silêncio, com luzes apagadas e sombras suaves.
Deitei na cama e puxei as cobertas até o queixo. Meu corpo ainda não entendia o novo fuso, nem o frio constante, nem a ausência do português ao meu redor. Mas, de algum jeito, eu me sentia... Onde precisava estar.
E por mais que o parecesse uma presença distante e misteriosa, havia algo naquela casa, naquela rotina, naquela pequena — que fazia com que tudo isso valesse a pena.


Capítulo 2


Acordei com o som suave do vento soprando contra a vidraça. A luz do dia entrava filtrada pelas cortinas grossas, tingindo meu quarto com tons de azul acinzentado. Pela primeira vez, desde que cheguei, senti que havia dormido profundamente. Talvez o corpo estivesse finalmente cedendo ao fuso, ao silêncio, à paz de estar em um lugar onde ninguém me exigia ser nada além de alguém tentando começar.
Desci as escadas com passos leves, envolta no calor de um suéter grosso e meias felpudas. A casa estava desperta, mas tranquila. Da cozinha vinham cheiros familiares — café recém-passado, pão assando e algo adocicado no ar. Encontrei com uma prancheta na mão e o celular apoiado entre o ombro e o rosto, passando instruções para alguém do outro lado da linha.
Ela usava uma blusa preta de gola alta e uma calça social escura, parecendo ter saído de um escritório de Nova York, e não de uma casa no meio da zona rural da Pensilvânia. Sorriu para mim, fazendo um sinal com a mão como quem diz “só um minuto”.
— …isso, confirma o ensaio fotográfico para a terça, e avisa que ele quer o material revisado antes do fim de semana. Isso. Obrigada.
Desligou com eficiência e virou-se para mim, tirando os óculos da ponta do nariz.
— Bom dia, ! Dormiu bem?
Assenti com um sorriso.
— Melhor que nas últimas noites, na verdade.
— Ótimo. A está no estúdio com a tutora de literatura. Depois tem ciências e, à tarde, aula de arte com uma professora local que vem até aqui duas vezes por semana. — Ela deu de ombros. — O prefere homeschooling. Menos exposição, mais liberdade de horários, mais controle do ambiente.
Fazia sentido. Cada pedaço daquela casa parecia meticulosamente pensado para manter a privacidade. E, até onde eu sabia, fazia anos que ele evitava os holofotes. Afastado da mídia, dos eventos, das entrevistas. Mesmo que o mundo ainda dissesse o nome dele como se ele vivesse no palco, aqui ele era só... alguém tentando proteger o próprio mundo.
— Você é tipo a governanta? — perguntei, sem saber se estava sendo indiscreta.
riu, sincera.
— Já fui chamada de tudo isso. Mas, tecnicamente, sou assistente pessoal do . Cuido da agenda, dos contratos, de tudo que exige conversa com o mundo externo. — Ela deu uma piscadinha. — E, às vezes, também sou a pessoa que faz sopas quando está frio.
Gostei dela. Muito. tinha esse jeito eficiente, mas carinhoso. Pragmática, mas com empatia na fala. Era fácil entender por que a adorava e por que confiava nela.
Fiquei na cozinha até o cheiro do pão ficar forte o suficiente para me lembrar que estava com fome. Preparei meu café e me sentei na mesa de madeira maciça que dominava o centro do cômodo. A luz entrava pelas janelas altas, revelando o mundo branco lá fora. A neve ainda caía devagar, como poeira de estrelas.
Pouco depois, apareceu com um fichário nos braços e um lápis preso atrás da orelha. Os cabelos castanhos estavam presos em um rabo de cavalo alto, e ela usava uma camiseta estampada com uma raposa de óculos. Sentou ao meu lado, sorrindo como se já fôssemos velhas amigas.
— A aula de hoje é sobre planetas — anunciou, animada. — A minha tutora é legal, mas ela não sabe falar nomes em português. Você pode me ensinar depois?
— Claro que posso — respondi, sorrindo de volta. — Planetas em português. Começamos por “Terra”?
Ela riu, encantada.
— Você fala diferente da . Seu “R” é engraçado.
— É sotaque. Do Brasil.
— Eu gosto.
voltou para o estúdio uma hora depois. Eu ajudei a organizar alguns papéis, e ela me mostrou a planilha com os cursos que o programa de au pair cobre. Tínhamos discutido isso por cima no dia anterior, mas agora as opções pareciam mais reais. *Montgomery County Community College* continuava sendo a escolha mais viável — acessível, com bons horários e uma variedade de cursos interessantes.
— O de Early Childhood Education é ótimo se você quiser continuar trabalhando com crianças — ela disse. — Mas você parece ter jeito pra escrita. Já pensou em estudar Creative Writing?
Eu corei um pouco. Era como se alguém tivesse aberto uma gaveta escondida em mim. Escrever era algo que eu fazia desde sempre, mas nunca pensei que isso pudesse se transformar em algo maior.
— Talvez — murmurei. — Seria legal tentar.
— Te ajudo com a inscrição depois. gosta que tudo seja organizado. E, bem… você parece se encaixar aqui.
Me peguei sorrindo sem querer.
Mais tarde, enquanto fazia um intervalo entre as aulas, ficamos desenhando na sala de leitura — nosso forte particular. Ela inventava histórias, e eu ajudava a ilustrar. Havia algo tão espontâneo naquela menina, uma mistura de sensibilidade precoce com a alegria boba de uma criança protegida. Eu gostava de estar com ela. Me sentia útil. Presente.
Por volta do meio da tarde, fui até a cozinha para pegar água. Foi quando o vi novamente.
estava ali, sozinho, encostado na pia. Usava um moletom escuro, o cabelo preso de forma displicente e uma expressão distante. Havia uma calma melancólica nele. Como quem ouve músicas que ninguém mais consegue escutar.
— Oi — falei, com cautela.
— Oi — ele respondeu, baixo.
O silêncio se instalou entre nós, confortável e incômodo ao mesmo tempo. Olhei para a bancada, para os livros empilhados ali, para o céu cinza do lado de fora.
— A ... ela é incrível. Inteligente, gentil. Muito criativa.
Ele assentiu devagar, olhando para a janela.
— Ela é tudo.
Dessa vez, ele não saiu correndo da conversa. Ficou ali, imóvel, como se estivesse escolhendo as palavras com muito cuidado.
— Obrigado… por estar sendo gentil com ela.
Eu balancei a cabeça, tocada pela gratidão sincera na voz dele.
— Não é esforço nenhum. Estar com ela me faz bem.
Por um segundo, ele me olhou. De verdade. E nos olhos dele havia algo mais do que reserva. Havia tristeza. Cansaço. Talvez um toque de curiosidade.
Então ele deu um passo para trás, como se lembrasse que estava se deixando ver demais.
— Vou pro estúdio. Se precisar de algo, fala com a .
Assenti, e ele saiu.
E eu fiquei ali, com o copo na mão e o coração ligeiramente acelerado. Algo estava começando a se desenhar — ainda sem forma, ainda sem direção. Mas, como tudo ali, devagar.
Devagar, como a neve que caía do lado de fora.
O resto da tarde se passou num ritmo calmo, quase suspenso. Depois das aulas, voltou para a sala de leitura carregando um cobertor e um livro grosso com ilustrações em aquarela. Ela insistiu para lermos juntas, mesmo que fosse em inglês. A forma como se aconchegava ao meu lado, com a cabeça encostada no meu braço e os olhos atentos às figuras, fazia parecer que já nos conhecíamos há muito mais do que um par de dias.
Eu lia devagar, traduzindo mentalmente algumas palavras para o português, e ela me corrigia com um riso travesso quando eu errava alguma pronúncia. passava de tempos em tempos para checar se precisávamos de algo, mas não interferia. Sabia que o momento era nosso.
Pouco antes do jantar, subiu para tomar banho, e eu fiquei na cozinha ajudando a preparar uma sopa de frango com vegetais. A cozinha ganhava um ar de lar com o calor do fogão ligado e o cheiro de alecrim invadindo o ambiente. Eu descasquei cenouras enquanto explicava o funcionamento da lavanderia, dos armários, dos horários da casa.
não é muito de rotina fixa — ela comentou, cortando cebolas com precisão —, mas com a , ele é surpreendentemente estruturado. Faz questão de participar. Mesmo nos dias mais reclusos, lê pra ela antes de dormir. Eles têm isso. Uma conexão bonita.
Havia admiração nas palavras dela, mas também algo contido. Um cuidado em não dizer demais.
Quando a sopa ficou pronta, coloquei a mesa. A luz amarelada das luminárias pendentes criava um brilho quente, como se dissesse: “aqui é seguro”. desceu de pijama — um conjunto roxo com estrelinhas —, os cabelos úmidos e desembaraçados, e pulou numa das cadeiras com entusiasmo.
apareceu logo em seguida. Estava diferente da tarde: mais à vontade. Usava uma camisa de flanela aberta sobre uma camiseta preta, e os cabelos presos num coque frouxo. Ainda mantinha a expressão serena, distante, mas havia uma leveza ali — talvez por , talvez pelo cheiro da sopa, talvez por um dia que não deu errado.
— Está com cheiro de casa da vovó — disse , antes de provar a sopa com uma colher minúscula.
sorriu, e foi ali, naquele momento simples, que percebi o quanto ele era mais acessível quando estava com ela. Era como se o mundo externo deixasse de existir e ele se permitisse ser apenas pai.
Durante o jantar, falei pouco. Era como se eu ainda estivesse aprendendo a coreografia daquela casa, os momentos certos de se mover, de falar, de calar. , por outro lado, falava o suficiente por todos nós. Contava histórias sobre planetas com nomes inventados, perguntou se no Brasil também nevava (respondi que só em lugares bem altos e raramente), e disse que queria aprender a cantar em português.
a ouvia com atenção genuína. Quando ela falou que “a é a melhor au pair de todas porque desenha árvores com rostos felizes”, ele olhou para mim e murmurou:
— Ela não costuma se apegar rápido assim.
Eu apenas sorri. Sabia o peso daquelas palavras.
Depois do jantar, ajudei a limpar a mesa e lavei alguns pratos enquanto respondia e-mails no notebook. levou para escovar os dentes e, pouco depois, chamou do alto da escada:
? Você pode subir por um segundo?
Parei com as mãos ainda úmidas, um pouco surpresa. Enxuguei-as no avental pendurado na cadeira e subi devagar.
já estava na cama, coberta até o queixo. O quarto dela era um mundo encantado: paredes em tom lavanda, estrelas de papel presas ao teto, uma estante com bichos de pelúcia e uma luminária em forma de lua acesa ao lado da cama.
— Você pode contar uma história hoje? — ela pediu, olhando para mim com olhos esperançosos.
estava ao lado da cama, sentado em uma poltrona. Me olhou com um aceno leve de aprovação.
— Claro — respondi.
Sentei na beirada da cama e inventei uma história de uma coruja que se perdeu do bando e conheceu um esquilo falante numa floresta nevada. Fiz vozes diferentes, tentei criar suspense e terminei com uma moral suave: “Às vezes, é se perdendo que a gente encontra novos lares.”
adormeceu antes do fim.
Quando me levantei, ainda estava ali. Ele ajeitou o cobertor dela com delicadeza, como se aquele gesto guardasse algo sagrado. Saímos do quarto em silêncio, e ele fechou a porta com cuidado.
No corredor pouco iluminado, ele parou e me olhou. Não com aquela reserva do início, mas com algo mais... Humano.
— Você tem jeito com ela. Com criança. Com a casa. Não é fácil chegar aqui e se encaixar. Mas você tem feito isso de forma... Tranquila.
Senti o rosto esquentar.
— Obrigada. Eu tô tentando. E a ... ela facilita. É especial.
Ele assentiu, com um pequeno sorriso.
— Se precisar de qualquer coisa, me avisa. cuida da maioria das coisas, mas... é importante que você se sinta confortável aqui.
— Eu tô começando a me sentir, sim.
Houve um segundo de pausa. Um daqueles momentos em que as palavras podiam crescer ou se encerrar.
Ele escolheu encerrar. Mas não de um jeito frio.
— Boa noite, .
— Boa noite, .
E então ele desceu as escadas com passos silenciosos, sumindo na penumbra da casa.
Voltei para o meu quarto com o coração aquecido. Porque naquela troca simples, quase tímida, algo havia mudado. Como se, aos poucos, eu deixasse de ser uma hóspede e começasse a me tornar parte daquele microcosmo gelado e cheio de silêncios.
Como se aquela casa estivesse me aceitando de volta.


Capítulo 3


O sábado começou diferente.
Não havia despertador, nem horários rígidos para as aulas de . O som que me tirou do sono foi o bater intermitente de um pica-pau em algum ponto do bosque próximo à casa. Quando abri os olhos, a luz da manhã filtrava-se pelas cortinas como ouro derretido, desenhando padrões suaves no chão de madeira.
Levantei devagar, sentindo o frio se agarrar aos meus tornozelos. Vesti um moletom grosso e desci as escadas com passos cuidadosos, guiada pelo cheiro doce de panquecas no ar.
Na cozinha, usava um avental com estampa de flores e cantarolava baixinho alguma música antiga dos anos 80. Sobre a bancada, uma pilha crescente de panquecas fumegantes ao lado de uma tigela de frutas cortadas me fez sorrir.
— Bom dia, ! — disse ela, ao me ver. — Dormiu bem?
— Muito — respondi, puxando uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Está cheirando como um café da manhã de filme aqui.
Ela riu.
— Fim de semana é quando a casa respira diferente. E hoje, especialmente, prometeu sair um pouco do estúdio e passar o dia mais presente.
Assenti, tentando não parecer tão surpresa. Desde que cheguei, ele era mais uma presença em silêncio — alguém que surgia e sumia nos momentos exatos, como uma sombra quente e contida.
Logo surgiu, com os cabelos bagunçados e meias coloridas, esfregando os olhos e reclamando do frio nos pés. Correu até mim e me abraçou pela cintura, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Hoje é o dia livre — anunciou. — A gente pode brincar no celeiro.
— Celeiro?
— Tem um espaço enorme lá dentro. Papai limpou tudo pra eu poder andar de bicicleta quando neva lá fora.
piscou pra mim com um sorriso cúmplice.
— Espere pra ver. A tem o próprio reino lá dentro.
Depois do café da manhã, nos agasalhamos bem. me emprestou uma touca de lã com orelhas de urso e insistiu para que eu usasse.
— Todo mundo aqui tem que ter um chapéu engraçado — explicou ela, como se fosse uma lei da fazenda.
O celeiro ficava a uns cem metros da casa principal, pintado de vermelho desbotado com janelas altas e uma porta de correr enferrujada. Por fora, parecia antigo e comum. Por dentro, era um universo.
Tapetes velhos cobriam o chão de cimento. Havia uma cesta de basquete, um canto com cavalinhos de madeira, cordas penduradas, um rádio antigo e, claro, a pequena bicicleta rosa de , que ela montava com um entusiasmo que me fez rir até o estômago doer.
Passamos horas ali. Ela pedalava, inventava jogos, me fazia caçar “tesouros invisíveis” e depois se jogava em cima de um pufe enorme no canto, dizendo que era “a nave da imaginação”.
Foi nesse momento, entre uma risada e outra, que apareceu.
Vestia jeans escuros, botas grossas e uma jaqueta de lã. Os cabelos estavam soltos, caindo um pouco nos olhos, e ele segurava dois copos térmicos.
— Trouxe chocolate quente — disse, estendendo um deles para mim.
Hesitei, surpresa com o gesto simples e direto, e depois aceitei com um sorriso.
— Obrigada.
Ele se sentou num dos fardos de feno próximos, observando com os olhos quase sorridentes.
— Ela falou de você o dia inteiro ontem.
— Espero que bem.
— Muito bem. Acho que ela tá feliz de ter alguém novo por perto.
Assenti, tomando um gole do chocolate. Estava cremoso, forte, e quase queimava a ponta da língua.
— Ela me contou que vocês desenharam histórias no quarto de leitura.
— Ela me pediu pra escrever uma sobre uma sereia que tem medo do mar. Acho que vamos começar hoje à noite.
soltou uma risada baixa, como se aquilo o tocasse mais do que deixava transparecer.
— Isso é coisa da minha irmã. — disse, olhando o vazio por um momento. — Inventar mundos para lidar com o real. herdou isso em dobro.
Ficamos em silêncio por um tempo, o barulho da bicicleta ecoando no espaço vazio.
— Eu gosto de estar aqui — murmurei, mais para mim do que pra ele.
Ele me olhou.
— A casa tem essa coisa... de prender a gente. Mas é mais sobre quem tá dentro dela, eu acho.
No fim do dia, depois de banho e pijama, me chamou para o quarto. Estava com o caderno de desenhos aberto, colorindo uma página cheia de ondas e uma menina de cabelo verde.
— É a sereia — disse ela. — E ela se chama , igual você.
Senti um aperto doce no peito.
— E o que a sereia tem medo?
— De perder o que encontrou. Mesmo sem saber o que é.
Respirei fundo, sentando ao lado dela na cama. A luz da luminária em forma de lua piscava suavemente.
— Eu posso ler uma história pra você hoje?
— Só se for uma inventada.
Inventei. Uma sobre uma estrela que caiu na Terra e precisou aprender a ser humana por um tempo. Quando terminei, ela já dormia.
Fechei a porta devagar e fui até a cozinha buscar um chá. Quando voltei, estava sentado na varanda coberta, fumando um cigarro com os olhos perdidos na escuridão do campo.
— Está muito frio — comentei, puxando a manta do encosto de uma cadeira.
— Eu gosto do silêncio da fazenda à noite. — ele falou baixo.
Sentei perto, sem saber se era bem-vinda, mas ele não reclamou. Nem se afastou.
— Obrigado por hoje — ele disse, de repente. — Pela forma como você cuida dela. Tem algo em você... Uma calmaria.
— Eu também estou aprendendo — sussurrei. — Talvez a gente esteja se cuidando, cada um do seu jeito.
assentiu, olhando a fumaça sumir no ar gelado.
Naquele instante, não éramos um astro internacional, uma au pair estrangeira, nem uma criança no meio. Só dois adultos cansados, tentando fazer o melhor com os pedaços que tinham.
O silêncio entre nós se prolongou, mas não era desconfortável. O tipo de silêncio que carrega algo, mesmo que ninguém diga o quê.
ainda segurava o cigarro entre os dedos, mas parecia ter esquecido dele. Estava com os olhos voltados para o campo adormecido, como se escutasse algo que eu não conseguia ouvir.
O vento soprava leve, fazendo a varanda estalar em seus cantos de madeira. Envolvi melhor a manta em volta do corpo, sentindo o cheiro amadeirado da fazenda e o leve aroma de fumo pairando no ar.
— Você sente falta da sua cidade, do Brasil? — ele perguntou, de repente, sem me encarar.
Demorei um segundo para responder.
— Às vezes. Do barulho, da gente cruzando com gente o tempo todo, das vozes. Mas tem algo aqui que me acalma.
— O tempo aqui é diferente.
— É... Como se o relógio perdesse a pressa.
Ele assentiu, quase imperceptivelmente.
— Eu me acostumei com o silêncio, mas tem dias que ele grita.
A frase ficou no ar, flutuando entre nós como um eco lento.
— Eu acho que... às vezes o silêncio também escuta. A gente só não sabe o que ele guarda.
olhou para mim pela primeira vez naquela noite. Os olhos escuros, sob os cílios longos, tinham um brilho estranho — não de tristeza, mas de exaustão acumulada. De quem carregava peso demais há tempo demais.
— Você fala como quem já teve que se ouvir muito sozinha.
— Talvez tenha. Mas é diferente daqui. Aqui, eu sinto que existe espaço para as pausas. E eu tô cheia de pausas.
Ele riu baixo, quase como se não esperasse isso de mim. Depois, bateu o cigarro na borda do cinzeiro e se recostou na cadeira, jogando a cabeça para trás. O pescoço exposto, o pomo de adão evidente, a respiração desacelerada. Pela primeira vez, ele parecia... leve.
dormiu? — perguntou.
— Dormiu enquanto eu contava sobre uma estrela que virou gente.
— Parece história que ela adoraria.
— Ela disse que a sereia do desenho tinha seu nome... E que tinha medo de perder o que encontrou, mesmo sem saber o que é.
Ele fechou os olhos por um instante. Depois os abriu devagar, como quem sente o mundo com mais intensidade do que deveria.
— Ela sente muito, mesmo sem entender tudo ainda. Puxa isso da mãe. E um pouco de mim, talvez.
Ficamos assim por um tempo. Ele mexia nos dedos, como quem tentava encontrar o que dizer — ou evitar dizer demais. Eu segurava a caneca com as duas mãos, sentindo o calor esquentar meus dedos, e o peito cheio de palavras que também não sabiam sair.
— Amanhã... Se estiver livre — disse ele, após longos minutos —, a gente vai ao mercado da cidade. É simples, mas tem um café bom. E gosta de mostrar os bichinhos da praça. Ela vai querer que você vá.
Demorei um pouco, surpresa pelo convite. Mas sorri.
— Eu adoraria.
assentiu. Depois se levantou, recolhendo a caneca vazia.
— Boa noite, .
— Boa noite, .
Ele entrou sem dizer mais nada. Mas antes de fechar a porta, olhou por cima do ombro, e por um instante, parecia querer dizer algo. No fim, apenas fez um leve gesto com a cabeça — quase um agradecimento — e desapareceu para dentro da casa.
Fiquei ali mais alguns minutos, com a manta ainda sobre mim, olhando para a noite escura e escutando o farfalhar das árvores distantes. O ar estava frio, mas dentro de mim havia um calor lento, que não vinha do chá.


Capítulo 4


Acordei com o som dos sinos da cozinha e o aroma inconfundível de pão fresco. Por um segundo, achei que ainda estava sonhando. Depois lembrei: era domingo. E havia me convidado para ir ao mercado da cidade com eles.
Vestida com uma blusa de lã verde-musgo, jeans escuro e um casaco acolchoado que deixara no meu quarto “por via das dúvidas”, desci as escadas tentando não fazer barulho demais. A casa tinha uma forma de acordar lentamente, como se não quisesse ser despertada de forma brusca. Um lugar que respirava de maneira calma.
Encontrei na cozinha com as bochechas coradas e o cabelo preso em dois coques tortos. cortava frutas enquanto ela espalhava geleia sobre um pedaço generoso de brioche.
— Bom dia, ! — disse ela, animada — Você vai ver a cidade hoje!
— Bom dia, . Tô animada pra conhecer tudo.
— A praça tem esquilos. E uma árvore que parece uma vovó. Eu posso te mostrar?
— É claro. Mal posso esperar pra conhecer essa árvore-vovó.
sorriu por trás do vapor da chaleira. Havia algo protetor e calmo nela — o tipo de pessoa que organiza o caos sem que ninguém perceba.
apareceu poucos minutos depois. Estava com uma jaqueta cinza, um gorro escuro puxado até as sobrancelhas e óculos escuros — mesmo sendo cedo e nublado. Parecia um disfarce improvisado, e talvez fosse mesmo. A fama, mesmo nos cantos afastados do mundo, era algo que não se deixava esquecer.
Ele trocou poucas palavras com , pegou o café, e depois olhou para nós.
— Prontas?
Assenti com um aceno. pulou do banco com o entusiasmo de quem partia para uma aventura.
A cidade mais próxima ficava a vinte e poucos minutos da fazenda, por uma estrada que cortava campos e bosques ainda cobertos de gelo. Durante o caminho, narrou cada pedaço do trajeto como se fosse um tour guiado. apenas dirigia, ouvindo em silêncio, mas com os cantos da boca curvados em um sorriso discreto.
Chegamos ao mercado — na verdade, mais uma feira ao ar livre, com barracas de produtos locais, pães artesanais, queijos frescos, flores e velharias encantadoras. Um grupo tocava jazz num canto da praça, e o ar cheirava a canela e madeira molhada.
— É aqui que a gente compra o mel. E os ovos da senhora Helen — disse , me puxando pela mão.
— Vai com ela — disse, colocando uma nota dobrada na mão da filha. — Eu encontro vocês na cafeteria.
— Café com creme e torta de maçã, lembra?
assentiu e seguiu para o outro lado da praça. me guiou animadamente entre as barracas, cumprimentando vendedores pelo nome, escolhendo maçãs com cuidado e falando que "a torta só fica boa com as Granny Smith". Ela tinha um jeito tão natural de pertencer àquele lugar que eu quase esqueci que estava em outro país.
— As pessoas aqui gostam do seu pai, né? — perguntei, ao notar alguns olhares curiosos, mas respeitosos em nossa direção.
— É... Mas eles fingem que não conhecem ele. Porque ele não gosta de perguntas. Só da torta.
Mais tarde, encontramos sentado em uma mesinha da cafeteria da esquina, com duas tortas fumegantes e três cafés quentes — um deles com chantilly até a borda, que era obviamente para .
— O moço me deu um caramelo extra — ela anunciou, exibindo o doce com orgulho. — Disse que eu sou a cliente mais fiel.
sorriu de lado, depois olhou para mim.
— Espero que ela não tenha feito você comprar o mercado inteiro.
— Só metade. Mas ela barganha bem. Uma profissional.
Ele riu baixo. Era raro vê-lo rir — mas quando fazia, o rosto mudava. As linhas de expressão suavizavam, os olhos se apertavam, e ele parecia menos... Exausto e mais ele mesmo.
Conversamos pouco durante o café, mas havia uma leveza ali. Silêncios que não pesavam. falava a maior parte do tempo, contando que queria aprender francês, que fazia o melhor pão do mundo, e que ela um dia ia morar em Paris e ter um gato chamado Tom.
— Por que Tom? — perguntei.
— Porque é nome de gato chique.
Voltamos no início da tarde, com sacolas cheias e os dedos frios. adormeceu no banco de trás, e eu ofereci de levá-la para a cama assim que chegamos. assentiu, agradecendo com um olhar.
A noite foi simples. Jantamos sopa de batata e milho, com torradas cobertas de alho e queijo. Depois do banho, li um trecho de um livro novo para enquanto ela desenhava o que tinha visto na praça. A árvore-vovó ganhou olhos, colar de pérolas e um lenço na cabeça.
Quando ela dormiu, desci com a xícara de chá ainda quente, encontrando na sala, arrumando algumas partituras em uma estante lateral. A TV estava ligada, mas sem som — apenas imagens de um documentário sobre arte moderna.
— Ela gostou do passeio? — ele perguntou, sem me olhar.
— Muito. Acho que a árvore-vovó vai virar protagonista de uma saga.
Ele sorriu com o canto dos lábios.
— Ela precisa disso. Criar coisas novas quando o mundo assusta.
Houve uma pausa. Depois ele virou-se para mim com um leve aperto no olhar.
— Obrigado por ir. Sei que ainda é tudo novo pra você.
— Foi bom. Às vezes, o que é novo também pode ser... Reconfortante.
encarou o chão por um momento, depois voltou os olhos para mim.
— Você parece entender ela. Mais do que outras pessoas que passaram por aqui.
— Eu não tento entender tudo — respondi. — Às vezes, só escutar já basta.
Ele assentiu devagar. Depois pegou uma das partituras e estendeu pra mim.
— Ela desenhou isso ontem. Disse que era pra você.
Aceitei o papel dobrado com cuidado. Era um desenho com traços infantis de uma menina com cabelos compridos e um moletom grande demais, segurando uma estrela dourada na mão. Embaixo, com letras tortas, lia-se: " e a estrela dela."
Meu coração se apertou. Sorri.
— Ela é especial.
— É. E exige muito de quem fica. Por isso, obrigado... Por não ir embora fácil.
Fiquei sem resposta. Mas não precisei dar uma. Havia algo no jeito como ele me olhou naquele instante — como se, finalmente, houvesse espaço para me ver também.
E por mais tímida que fosse essa aproximação, era como se uma porta tivesse se entreaberto. Silenciosa. Mas real.


Capítulo 5


As manhãs na fazenda tinham o som de vento batendo contra as árvores altas, o farfalhar das folhas secas, e, às vezes, o tilintar suave das ferramentas na cocheira, onde um dos funcionários cuidava dos cavalos. Era um ritmo que eu começava a reconhecer, como quem aprende a música de um lugar sem perceber.
Naquela segunda-feira, me levou até a estação de trem mais próxima, e de lá segui até a Montgomery County Community College para a matrícula no curso. O caminho era longo, mas surpreendentemente tranquilo: uma hora entre estradas cercadas de pinheiros e pequenos trechos urbanos que surgiam, tímidos, entre campos abertos.
O campus era diferente de qualquer coisa que eu conhecia — compacto, silencioso, com prédios de tijolos vermelhos e salas amplas, iluminadas por janelas generosas. No ar, o cheiro misturado de café fraco e papel novo.
Me matriculei em três disciplinas: Inglês Acadêmico, Introdução à Educação Infantil e, com um sorriso contido, um curso livre de Escrita Criativa. A atendente me entregou a grade horária, junto com uma pasta azul-clara e um crachá improvisado com meu nome: .
Saí de lá com a pasta apertada contra o peito e o coração batendo num compasso estranho — como se cada passo ali fosse um tijolo, pequeno, mas sólido, na construção dessa nova vida.
Nos dias que seguiram, a rotina ganhou contornos mais definidos: as manhãs eram dedicadas a ajudar com as tarefas escolares — , ao contrário do que eu havia pensado no início, não era uma governanta, mas uma espécie de assessora multitarefas do , cuidando dos compromissos dele, da administração da casa e da logística diária. Isso fazia com que eu tivesse autonomia para criar com uma dinâmica só nossa.
Ela estudava em casa, num sistema de ensino flexível e adaptado. Montávamos o “cantinho da aula” na salinha secreta, com o tapete felpudo e a mesa baixa de madeira clara onde ela espalhava cadernos coloridos e livros de ciências com ilustrações de animais e planetas.
— Hoje eu quero desenhar as fases da lua — disse, animada, certa manhã. — Meu pai me ensinou que a lua também sente saudade, por isso ela vai embora aos poucos.
Sorri, tocada pela delicadeza dessa imagem. Ela tinha um modo tão próprio de ver o mundo.
Às terças e quintas-feiras, eu saía após o almoço para as aulas no campus. sempre me abraçava antes da saída, com a recomendação de trazer “histórias legais” na volta.
O curso de Inglês Acadêmico era o mais desafiador: não pelas palavras em si, mas pela velocidade com que tudo acontecia. Anotava obsessivamente cada termo, cada expressão que eu não conhecia, e revisava no trem, com a testa encostada na janela fria.
Já as aulas de Educação Infantil me deixavam confortável — falávamos sobre desenvolvimento cognitivo, atividades lúdicas, construção de vínculo. Parecia uma extensão do que eu fazia todos os dias com , só que agora com nomes técnicos e teorias.
Mas era a Escrita Criativa que mexia comigo de verdade. O professor, um homem grisalho e de voz pausada, incentivava que escrevêssemos “com o sotaque da nossa alma, não da nossa língua”.
Na primeira aula, ele pediu que cada um descrevesse o lugar onde se sentia mais seguro no mundo. Escrevi sobre a cozinha da minha avó, em Minas, com cheiro de café passado na hora e bolo de fubá esfriando na janela. Quando li em voz alta, com o inglês ainda hesitante, percebi alguns colegas sorrindo. E, naquele instante, pela primeira vez, não me senti tão estrangeira assim.
As noites eram sempre mais silenciosas.
Depois do jantar — que muitas vezes era preparado por ou por mim —, levava para o banho, ajudava a escolher o pijama mais macio e lia uma história antes de ela dormir. Ela tinha desenvolvido o hábito de me pedir “um conto brasileiro”, e eu, nem sempre preparada, acabava inventando narrativas sobre pássaros dourados, florestas que sussurravam e estrelas que se escondiam nos bolsos das crianças corajosas.
Uma noite, enquanto fechava o livro e ajeitava a coberta sobre ela, segurou minha mão com força.
— Você vai ficar aqui... Para sempre?
Engoli em seco, sem saber exatamente o que dizer.
— Eu vou ficar... Enquanto você quiser histórias.
Ela sorriu, satisfeita, e fechou os olhos.
Descia sempre em silêncio pelo corredor, ouvindo o som do vento do lado de fora e os estalos do piso antigo. E quase sempre encontrava na sala, deitado no sofá, com um violão no colo e os olhos fechados, como quem ouvia uma música que só ele podia escutar.
Demorei dias até conseguir falar alguma coisa nesse cenário. Mas numa dessas noites, quando passei pela porta com uma caneca de chá, ele abriu os olhos e disse, sem se mover:
— Está se acostumando?
Parecia uma pergunta sobre mais do que só a rotina. Parei na soleira, abraçando a caneca com as duas mãos.
— Acho que sim... É um pouco solitário, às vezes. Mas... Tem sua beleza também.
Ele soltou um meio sorriso, olhando para a lareira apagada.
— O silêncio pode assustar... Ou ser uma espécie de abrigo.
Assenti, sem saber exatamente como responder. Mas naquele momento, percebi: havia uma gentileza discreta na forma como ele oferecia companhia — não com palavras muitas, mas com presenças silenciosas.
Numa sexta-feira à noite, cheguei da aula exausta e encontrei um bilhete na cozinha, escrito com a caligrafia firme de :
", jantamos cedo hoje. Deixei sopa na panela. desenhou algo pra você, está na mesa. Boa aula amanhã!"
Sorri sozinha, abrindo a tampa da panela e sentindo o aroma de legumes e ervas. Na mesa, um papel dobrado com o traço já familiar: um desenho meu, com e... , os três sentados sob uma árvore, com um livro gigante entre nós.
Debrucei-me sobre o papel por longos minutos, absorvendo aquele detalhe: ali, representado por ela, como parte da cena. Não mais só pai, não mais só distante. Parte da nossa pequena história.
Olhei pela janela e vi, ao longe, as luzes do celeiro ainda acesas. Talvez ele estivesse lá, compondo ou apenas fugindo do barulho que não existia. Mas eu não fui atrás.
Naquela noite, percebi que, nesta casa, a aproximação acontecia assim: aos poucos. No tempo das estações, na delicadeza de um gesto, na partilha silenciosa de um chá, de uma história inventada, de um desenho deixado na mesa.
E, pela primeira vez desde que cheguei, adormeci sem o peso da saudade, mas com a leveza de quem começava, enfim, a pertencer.


Capítulo 6


O sábado amanheceu envolto por uma névoa fina, quase transparente, que se desfazia lentamente conforme o sol surgia entre as árvores altas da propriedade. Eu já havia terminado de arrumar , que, animada, vestia uma jardineira jeans e tênis vermelhos, enquanto separava alguns livros de ciências para mostrar aos coelhos que, segundo ela, "precisavam aprender sobre o sistema solar".
Enquanto colocava os pratos na máquina de lavar, ouvi passos firmes vindo do corredor. Quando me virei, estava parado na entrada da cozinha, com uma jaqueta de couro marrom e o cabelo levemente bagunçado, discreto.
— A gente vai pra uma feira hoje — disse, sem rodeios, a voz rouca, meio embargada pela manhã. — Perto daqui. Se quiser ir...
Demorou um segundo até que eu entendesse que ele estava me incluindo no convite.
— Eu… Claro, quero sim — respondi, ajeitando automaticamente a barra da minha blusa.
Ele assentiu, como se a resposta fosse óbvia, e virou-se em direção à sala. Antes de sair, completou, num tom ainda mais baixo:
vai gostar de ter companhia.
E, mesmo que a frase parecesse sobre ela, senti que havia ali, escondida entre as palavras, outra camada — menos explícita, mas presente.
O caminho até a cidade vizinha foi feito na caminhonete antiga que usava para trajetos curtos. Sentei-me no banco da frente, ao lado dele, enquanto , no banco traseiro, cantarolava uma música que eu não conhecia, inventando palavras em inglês e em português, numa mistura adorável.
A estrada passava por campos abertos, plantações de milho e algumas casas antigas, com varandas de madeira e cercas brancas já desgastadas pelo tempo. A música no rádio tocava baixinho — um folk melancólico, com violões suaves e vocais abafados.
De vez em quando, eu o olhava de soslaio: o modo como ele segurava o volante com uma das mãos, os olhos fixos no asfalto, a respiração tranquila. Ele parecia à vontade, mas não exatamente confortável — como quem carregava, mesmo nos momentos simples, uma tensão discreta, difícil de nomear.
A feira rural ocupava a praça principal da cidade. Havia barracas com maçãs recém-colhidas, potes de mel artesanal, velhas senhoras vendendo geleias e crianças correndo com balões coloridos.
Assim que descemos do carro, agarrou minha mão e puxou-me em direção a uma barraca com abóboras gigantes. seguiu atrás, com as mãos nos bolsos e o olhar atento, quase protetor.
— Quero tirar uma foto! — pediu ela, empolgada.
Eu ia procurar o celular na bolsa, mas , mais rápido, já tinha o dele em mãos. Sem dizer nada, indicou com um gesto para que eu me posicionasse ao lado dela.
— Pode? — perguntou, olhando diretamente para mim.
Assenti, surpresa com a delicadeza da pergunta.
Ele tirou a foto e, antes que eu pudesse pedir, virou a tela na minha direção. Estávamos ali, eu e , abraçadas, com as abóboras alaranjadas ao fundo e a névoa ainda pairando sobre as árvores. Uma imagem simples, mas que, de algum modo, parecia capturar algo mais profundo: pertencimento, talvez. Ou um começo.
— Agora nós três! — pediu, me fazendo ficar levemente tímida, mas sorri. ficou em silêncio e assentiu, parecia tímido também. Mas ele se moveu ao lado de , de uma forma que ela ficasse no meio e nós dois um em cada ponta, ajeitou o celular um pouco distante e tirou selfies nossas. A primeira, um sorriso simples. A segunda e a terceira fazíamos caretas e a terceira a gente ria. E muito.
Passamos a manhã entre barracas, provando pedaços de queijo, comprando cidra artesanal e escolhendo algumas maçãs para levar. corria entre nós, mostrando cada descoberta como se fosse um tesouro: uma pedra com formato de coração, um filhote de cabra que balia desajeitado, um chapéu de palha exageradamente grande.
Em certo momento, enquanto ela brincava numa roda de feno com outras crianças, ficamos sozinhos, lado a lado, encostados na cerca de madeira que delimitava o pasto.
O silêncio se instalou, confortável, até que ele quebrou, com a voz baixa:
— Ela fica muito animada quando você está por perto.
Olhei para ele, um pouco sem saber como responder.
— Eu fico feliz por isso, eu gosto muito dela… — disse, sincera.
Ele assentiu, os olhos fixos em , como quem analisava cada movimento da filha com atenção, mas também com um certo alívio.
Depois, virou-se um pouco, apoiando o cotovelo na cerca, e perguntou:
— Tá conseguindo... equilibrar tudo? Curso, rotina aqui...
Sua preocupação me pegou desprevenida. Até então, nossas interações tinham sido mais práticas, limitadas às questões do dia a dia.
— Tô, sim — respondi, com um sorriso discreto. — Não é fácil, mas... é bom. Tá me fazendo bem.
Ele sorriu de canto, quase imperceptível, e voltou a olhar para o pasto.
— Que bom.
E foi só isso. Não precisou de mais.
No fim da tarde, quando o sol já começava a se esconder atrás das colinas e as barracas começavam a ser desmontadas, voltamos para a caminhonete. dormia profundamente no banco de trás, com uma maçã meio comida ainda na mão.
olhou pelo retrovisor e sorriu, daquela forma contida, como sempre fazia.
Enquanto dirigíamos de volta, ele quebrou o silêncio mais uma vez:
— Tem uma padaria, no caminho... Faz o melhor pão de abóbora da região. Quer parar?
Assenti, surpresa e, ao mesmo tempo, feliz por perceber que aquela manhã tinha sido mais do que um passeio: tinha sido um convite, mesmo que silencioso, para entrar — aos poucos, respeitando o tempo de cada um — na vida deles.
Paramos na pequena padaria de fachada azul-clara, compramos dois pães e voltamos para casa em silêncio, ouvindo o som dos pneus na estrada de terra, o crepitar das folhas secas, e o ressonar suave de , adormecida.
A noite caiu silenciosa sobre a fazenda quando voltamos da cidade, o céu pintado num degradê azul-escuro, com as primeiras estrelas tímidas despontando entre as nuvens finas. , esgotada da aventura, já havia ido direto para a cama, depois de um banho rápido e um beijo sonolento de boa noite.
Eu estava na cozinha, guardando o pão de abóbora que compramos, quando ouvi passos pesados no assoalho de madeira. Me virei devagar, e lá estava ele — — parado na porta, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça jeans, os ombros levemente curvados, como quem não sabe se está chegando ou saindo.
Por um instante, ficamos ali, apenas nos olhando, com aquele silêncio espesso que parecia fazer parte da casa.
— Tá... tudo certo com a ? — perguntou, a voz mais baixa do que de costume, como se o silêncio da noite o obrigasse a sussurrar.
— Tá sim — respondi, com um sorriso leve. — Dormiu antes mesmo de terminar a história.
Ele assentiu, desviando o olhar para a janela que dava para o quintal, onde as luzes amarelas da varanda lançavam sombras longas sobre a neve.
Não parecia querer ir embora, mas também não parecia saber o que dizer.
Tirei a embalagem de papel do pão e coloquei sobre a bancada.
— Quer um pedaço? — ofereci, mais para quebrar o gelo do que por qualquer outra coisa.
Ele hesitou um segundo, depois caminhou até a bancada e pegou uma faca, cortando uma fatia fina, quase como se não quisesse incomodar nem mesmo o pão.
Comeu em silêncio, mastigando devagar, os olhos fixos em algum ponto indefinido da cozinha.
Eu me recostei na pia, abraçando os próprios cotovelos, tentando não forçar nada, apenas estar ali.
Foi ele quem, depois de alguns minutos, falou de novo:
— Você... sempre quis ser au pair?
A pergunta me pegou de surpresa. Até então, ele nunca tinha demonstrado qualquer curiosidade sobre mim, além do essencial.
Sorri, olhando para o chão por um segundo antes de responder:
— Na verdade... não. Sempre quis viajar, sabe? Ver o mundo. Mas nunca achei que seria assim, cuidando de uma criança do outro lado do planeta.
Ele soltou aquele meio sorriso discreto que eu já começava a reconhecer como um sinal de aprovação silenciosa.
— É corajoso — murmurou, ainda sem olhar diretamente pra mim.
— Acho que... um pouco — respondi, rindo fraco. — E você? Sempre quis... isso tudo?
Eu não sabia exatamente o que “isso tudo” significava — a fazenda, a fama, a vida tão longe do comum —, mas ele entendeu.
Passou a mão pela barba rala, pensativo, e soltou um suspiro breve:
— Não sei. Algumas coisas a gente quer... outras só acontecem.
Houve algo naquela resposta que me pareceu profundamente verdadeiro.
— Imagino que não seja fácil — comentei, num tom que pretendia mais acolher do que invadir.
Ele ergueu os olhos pra mim por um segundo, como se pesasse a sinceridade das minhas palavras, e depois desviou de novo, cortando mais uma fatia de pão.
— Tem dias que é mais.
O silêncio se instalou outra vez, mas agora era diferente. Não parecia mais constrangido ou forçado, e sim... confortável, como se estivéssemos aprendendo a respeitar o espaço do outro sem precisar preenchê-lo com nada.
Depois, ele passou a mão pela nuca, num gesto quase automático, e perguntou, mais casual, mas ainda com aquela timidez evidente:
— Tá gostando daqui?
Olhei pela janela, onde a neve começava a cobrir lentamente a cerca de madeira e os galhos das árvores.
— Muito.
E era verdade. Não precisava de mais explicações.
Ele assentiu e, depois de um segundo, pegou o prato com as fatias de pão e estendeu para mim:
— Quer?
Peguei, sorrindo.
— Obrigada.
Ele se afastou, caminhando devagar em direção ao corredor, mas antes de desaparecer da minha vista, parou e virou-se de lado:
— Boa noite, .
Sorri, surpresa com a gentileza da despedida, e respondi:
— Boa noite, .
E então ele sumiu pela casa silenciosa, deixando atrás de si o aroma quente do pão de abóbora e a estranha sensação de que, pouco a pouco, nossos mundos estavam — mesmo que devagar, mesmo que sem alarde — se tocando.
Apoiei as mãos na bancada e fiquei ali, por mais alguns minutos, ouvindo apenas o som do vento lá fora, e o bater tranquilo do meu próprio coração.


Capítulo 7


Os dias na fazenda começaram a ganhar uma cadência silenciosa, como uma música que eu estava aprendendo a escutar. O frio se instalava de vez, tingindo o horizonte de um branco suave, e o barulho dos meus passos pelo assoalho se misturava ao estalar discreto da madeira, como se a casa também respirasse comigo.
Naquela manhã, surgiu no corredor antes mesmo de eu terminar de me arrumar.
— Vem… — disse, baixinho, segurando minha mão com pressa. — Tá tudo… diferente.
Segui o chamado, ainda sonolenta, até a janela. Do lado de fora, a fazenda estava toda coberta de neve. A cerca parecia esculpida, o celeiro meio apagado pela névoa branca, e as árvores, agora, tinham galhos que pareciam rendas congeladas.
— Nossa… — murmurei, meio sem fôlego.
sorriu, satisfeita com a minha reação.
— Quando neva assim… — ela começou, mas parou no meio, olhando para o nada.
— O que acontece? — incentivei, com um sorriso.
Ela deu de ombros.
— Papai fica mais em casa…
O jeito como ela disse aquilo — sem peso, só um dado, uma constatação — ficou ecoando na minha cabeça.
Depois do café, que deixou pronto antes de sair para resolver algo da fazenda, seguimos com a rotina. estudava em casa e parecia ter um jeito muito próprio de aprender. Na biblioteca, com seus livros e cadernos organizados à maneira dela, ela desenhava formas geométricas enquanto eu lia, sentada ao lado.
De vez em quando, ela me olhava, como se checasse se eu ainda estava ali.
— Tá legal? — perguntei, apontando para o caderno dela.
Ela fez um ruído de quem não quer admitir que está entediada.
— Acho que sim… só que… não sei pra que serve isso.
Ri baixinho.
— Nem sempre a gente sabe…
Ela me olhou de um jeito curioso, como quem não espera esse tipo de resposta de um adulto.
Mais tarde, enquanto ela descansava na sala, com um livro aberto, eu aproveitei para arrumar a cozinha. Estava concentrada, lavando algumas xícaras, quando ouvi o barulho discreto da porta abrindo.
Olhei por cima do ombro e vi entrando, com o casaco pesado, a barba estava um pouco mais cheia. Ele parou, tirando as luvas devagar, e cruzou a cozinha até ficar perto da bancada.
— Tudo… tranquilo? — perguntou, sem me encarar muito.
— Sim… — respondi, secando as mãos num pano de prato. — Tá tudo bem aqui.
Ele assentiu, e por um segundo ficou só passando o polegar pela borda da caneca vazia que havia na bancada, como quem não sabe bem por onde começar.
— Ela… tá bem? — perguntou, depois de um silêncio.
— Tá… — sorri, inclinando um pouco a cabeça. — Ela fez um desenho enorme hoje.
Ele sorriu também, meio de canto, e mexeu de leve na manga do casaco, como quem segura algo invisível.
— É… Ela gosta dessas coisas.
Ficamos em silêncio por um instante. O som do vento do lado de fora batia nas janelas com suavidade.
— E… você? — ele perguntou de repente, com a voz mais baixa, como quem pensa duas vezes antes de falar. — Tá… Precisando de alguma coisa?
Levei um segundo para responder.
— Acho que não… — soltei, num tom mais sincero do que imaginei. — Só me acostumando com o silêncio e a quietude.
Ele soltou um suspiro quase imperceptível, mexendo na alça da caneca.
— É… silêncio é…
Ele não completou a frase, mas eu entendi.
— No começo assusta… — continuei, meio que falando pra mim mesma. — Agora… às vezes, parece até… confortável.
Ele sorriu de leve, e foi um sorriso que ficou por mais tempo do que os outros.
— É… — disse, simplesmente, antes de pegar a caneca e ir até a garrafa de café.
Eu observei, sem dizer mais nada, enquanto ele servia o café com um gesto já automático, familiar.
— Se precisar de ajuda… ou de sei lá — começou ele, mas parou, olhando para o café como se fosse mais seguro do que olhar pra mim. — Pode… me chamar.
— Tá… Pode deixar. — respondi, com um sorriso discreto. — Obrigada.
Ele assentiu, saindo devagar da cozinha, como sempre fazia — meio apressado, meio relutante.
Passei o resto do dia com , ajudando nos estudos, brincando no quintal, até que o frio nos obrigou a voltar para dentro. À noite, a lareira estava acesa, enchendo a sala de um calor confortável.
Jantamos sopa, enquanto contava histórias aleatórias sobre um livro de astronomia que estava lendo. ficou na outra ponta da mesa, ouvindo mais do que falando, mas sorrindo das coisas que ela dizia. De vez em quando, nossos olhares se cruzavam, rápidos, como quem esbarra sem querer em alguém no meio da rua.
Depois do jantar, subi com até o quarto dela, li um trecho de um livro e esperei até que sua respiração desacelerasse. Ela dormiu rápido, abraçada ao urso de pelúcia que parecia não largar nunca.
Quando saí, encontrei no corredor. Ele estava encostado na parede, com a caneca de chá entre as mãos.
— Ela já dormiu? — perguntou, num tom baixo.
— Sim… — respondi, também baixando a voz. — Tá exausta hoje.
Ele sorriu, olhando para a porta fechada do quarto dela, e depois para mim. Abriu a boca, como quem ia dizer mais alguma coisa, mas acabou só balançando a cabeça, meio sem jeito.
Eu dei um meio sorriso, passando por ele devagar, sentindo aquela presença silenciosa, mas estranhamente confortável.
Quando já estava quase na escada, ouvi sua voz de novo, baixa:
— Boa noite… .
Parei um segundo, surpresa por ele ter dito meu nome pela primeira vez daquela forma, tão clara, tão direta.
Me virei e sorri.
— Boa noite… .
Desci os degraus sentindo o peito apertado, como quem carrega um segredo pequeno, mas precioso.


Capítulo 8


Naquele dia, o céu estava limpo pela primeira vez depois de dias nublados, mas o frio parecia mais cortante. Logo cedo, ajudei com a lição, enquanto ela se distraía olhando pela janela o campo que, aos poucos, ia perdendo o branco da neve, revelando os galhos escuros e nus.
havia saído para resolver pendências na cidade e, pela primeira vez, a casa parecia mais silenciosa ainda — só eu, e… .
Ele não tinha saído cedo como costumava. Estranhei, mas não me atrevi a perguntar nada.
Depois do almoço, enquanto guardava os pratos, ouvi um barulho seco vindo do lado de fora. Corri até a varanda e vi, de longe, agachado perto da caminhonete, com as mãos na lateral do veículo, respirando fundo como quem acabara de perder a paciência.
Hesitei, mas me aproximei.
— Tá… tudo bem? — perguntei, ainda a uma distância respeitosa.
Ele virou o rosto devagar, o cenho levemente franzido, mas não de raiva — de incômodo.
— Não… — respondeu, com um suspiro abafado. — Peguei um mau jeito…
Só então percebi que ele segurava o ombro, meio curvado, com o rosto contraído de dor.
— Quer ajuda? — ofereci, sentindo o coração acelerar por ousar me aproximar mais.
Ele pareceu resistir, os olhos apertados numa negativa silenciosa, mas logo soltou um suspiro rendido.
— Acho que vou precisar.
Fui até ele, devagar, como quem não quer assustar um animal arisco.
— O que aconteceu?
— Fui levantar a caixa de ração… não percebi o peso. Acho que dei um mau jeito aqui… — disse, apontando o ombro.
— Deixa eu ver… — pedi, erguendo a mão, mas parando no meio do gesto, esperando alguma permissão silenciosa.
Ele apenas assentiu, tenso.
Com cuidado, toquei a manga grossa do casaco e, com um movimento leve, ele a afastou, permitindo que eu analisasse. Não havia nada visível, mas o jeito como ele encolhia o ombro, protegendo, deixava claro que a dor estava ali, latente.
— Melhor colocar um gelo… — sugeri.
Ele assentiu, e fiz menção de ir até a casa, mas ele me segurou pelo antebraço, de leve, quase sem perceber.
— Espera…
Me virei, surpresa.
Ele respirou fundo, encarando o chão por um segundo, antes de soltar:
— Você consegue me ajudar a tirar o casaco? Não… tô conseguindo mexer direito o braço.
Assenti, sentindo a pele arrepiar, e dei a volta até as costas dele. Com movimentos lentos, desfiz os botões e puxei o casaco com o máximo de cuidado, enquanto ele mantinha o braço esquerdo imóvel.
Quando terminei, ele soltou outro suspiro, dessa vez de alívio.
— Obrigado… — disse, com um olhar rápido, mas sincero.
— Vamos… pra dentro — sugeri. — Tá muito frio aqui fora pra ficar assim.
Ele não respondeu, apenas seguiu atrás de mim, caminhando com passos lentos.
Na cozinha, peguei um pano e enchi um saco com gelo, entregando para ele, que já estava sentado à cabeceira da mesa, com as costas meio curvadas.
Enquanto ele segurava o gelo contra o ombro, o silêncio se instalou entre nós, confortável, pela primeira vez.
— Acho que nunca te vi parado — comentei, num tom leve.
Ele soltou um riso curto, olhando pela janela, como se aquela cena fosse, de fato, uma raridade.
— Nem eu… — respondeu, ainda com um meio sorriso.
— Tá doendo muito?
Ele balançou a cabeça, mas o jeito como mordeu de leve o canto do lábio me fez duvidar.
— Não muito… já me acostumei com essas coisas.
— Mas não devia… — repliquei, sentando de frente pra ele. — Não precisa ser sempre assim, aguentando sozinho.
Ele desviou o olhar, fixando na borda da mesa, como se não soubesse o que fazer com aquela frase.
entrou na cozinha logo depois, correndo, mas parou quando viu o pai com o gelo no ombro.
— O que aconteceu?
olhou pra ela e, antes que pudesse responder, eu disse:
— Ele só se machucou um pouquinho, mas já tá tudo bem.
Ela veio até ele e apoiou a cabeça no braço que estava livre.
— Você sempre se machuca…
Ele sorriu, passando a mão pelos cabelos dela com dificuldade.
— Nem sempre…
— Quase sempre — corrigiu ela, rindo.
Ficamos ali, os três, compartilhando aquele momento estranho e íntimo — um acidente bobo que, de alguma forma, derrubava mais uma parede invisível entre mim e ele.
Depois que voltou para brincar na sala, eu me levantei e fui até o armário pegar uma faixa.
— Acho melhor imobilizar um pouco, pra não forçar…
Ele ergueu a sobrancelha, como quem ponderava se era realmente necessário, mas acabou assentindo.
Enquanto eu passava a faixa pelo ombro dele, senti a respiração dele desacelerar, e, pela primeira vez, percebi que ele estava realmente permitindo que eu cuidasse — não só do ombro, mas, talvez, de alguma parte escondida que ele nem sabia que precisava.
Quando terminei, ele soltou o ar, como quem havia prendido por tempo demais.
— Obrigado… de verdade.
Sorri, guardando a faixa que sobrou.
— De nada…
Ele me olhou, dessa vez sem desviar tão rápido, e, por um segundo, achei que fosse dizer mais alguma coisa. Mas só ficou ali, com aquele olhar que dizia tanto sem dizer nada.
Depois daquele dia, as coisas mudaram, mesmo que só um pouco. Pequenos gestos, olhares, silêncios menos pesados.
E eu soube: às vezes, o que mais aproxima duas pessoas não é o que elas dizem… mas o que permitem que o outro faça.
ficou ali, sentado à ponta da mesa, enquanto eu terminava de ajustar a faixa com mais firmeza. Ele permanecia em silêncio, só acompanhando com os olhos cada movimento meu, como se aquilo fosse novo demais para ele — e talvez fosse mesmo.
Quando terminei, me afastei um pouco, mas não o suficiente para sair do espaço que criamos ali, sem querer.
— Pronto… — disse, a voz mais baixa do que eu pretendia. — Assim você evita forçar até melhorar.
Ele assentiu, olhando para a faixa que agora envolvia o ombro e parte do peito, como se fosse estranho ver-se cuidado por alguém.
— Não tô muito acostumado… — murmurou, quase como se estivesse pensando alto.
— A se machucar? — arrisquei, embora soubesse que não era bem disso que ele falava.
Ele soltou um riso curto, sem humor, e me olhou de lado.
— Não… a isso… — indicou a faixa com o queixo. — A… depender.
Fiquei quieta, sentindo o peso daquela confissão. Não era só sobre o ombro, não era só sobre o corpo. Era sobre ele. Sobre essa vida meio isolada que ele levava ali, naquela casa grande demais, com poucos vínculos e muitas reservas.
— Não é fraqueza… — falei, e me surpreendi ao perceber o quanto minha voz estava firme. — Às vezes, a gente precisa… deixar que alguém ajude.
Ele me encarou por alguns segundos longos demais, como se estivesse tentando entender se eu falava da faixa ou de outra coisa qualquer.
Mas, como sempre, ele desviou antes de responder.
— Pode ser… — murmurou.
O gelo, agora meio derretido, escorria pelas bordas do pano, e eu me levantei para pegar outro. Ele fez menção de protestar, mas ergui a mão antes que dissesse qualquer coisa.
— Fica quieto… — brinquei, e percebi que ele sorriu, discreto, pela primeira vez naquela tarde.
Voltei com outro saco de gelo e, com a mesma delicadeza de antes, coloquei sobre o ombro dele. Ele não se mexeu, só deixou, como se, pela primeira vez em muito tempo, aceitasse não precisar ser o homem que resolve tudo sozinho.
— Você… — começou ele, hesitando, e depois respirou fundo, como quem não estava acostumado a iniciar conversas que não fossem estritamente necessárias. — Como… é? Lá… onde você morava?
Demorei um segundo para perceber que ele me perguntava sobre mim, sobre minha vida antes de estar ali.
Sorri, surpresa.
— No Brasil?
Ele assentiu, com aquele olhar atento, curioso e contido.
— Quente. Bem quente… diferente disso aqui.
Ele soltou um riso baixo.
— Imagino…
— Lá, as pessoas falam alto, riem muito… é tudo meio bagunçado, sabe? Família grande, almoço de domingo que nunca acaba…
Enquanto eu falava, percebi o quanto minha voz se tornava mais leve, como se aquelas memórias me aquecessem. E o quanto ele me ouvia, de verdade, com uma atenção quase rara.
— Parece bom — comentou, sincero.
Assenti, e por um segundo me perguntei como seria a infância dele, como teria sido crescer longe disso, ou talvez com isso, e agora escolher esse isolamento, esse silêncio.
— E você? — perguntei, antes de me conter.
Ele franziu um pouco a testa, olhando pela janela, como se a resposta estivesse lá fora, no meio do campo frio e silencioso.
— Eu nunca fui de muito barulho — disse, depois de um tempo. — Sempre gostei de paz.
De novo aquele silêncio confortável. Não tinha pressa. Não precisava.
— Mas às vezes — completou, surpreendendo-me —, sinto falta do barulho.
Sorri, sentindo o peito aquecer de um jeito estranho e bom.
— Um dia, se vocês me permitirem… Eu vou fazer um almoço típico do Brasil aqui. Com direito a sobremesas, música… Só vamos dever um pouco no barulho, talvez.
Ele riu baixinho e logo concordou.
— Eu, com certeza, vou amar essa ideia.
Depois, ele inclinou um pouco o corpo, como quem já não aguentava mais ficar naquela posição, e eu fui rápida:
— Quer que eu ajeite alguma coisa?
Ele balançou a cabeça, mas, ainda assim, sorriu.
— Não… acho que tá bom.
Ficamos ali, só olhando o dia que já começava a cair, o céu ficando rosado atrás da linha das árvores, enquanto a casa ia se enchendo daquele frio bom, que pede um chá quente, um cobertor e uma companhia que não precisa falar o tempo todo.
apareceu de novo, correndo, trazendo dois livros nas mãos.
— Vai ler pra mim, papai?
olhou para ela, depois para o próprio ombro imobilizado, e soltou uma risada.
— Hoje… vai ser difícil.
Ela fez um biquinho, e então se virou para mim, com aquele olhar pidão que ela já sabia que funcionava.
— Você lê, ?
Sorri.
— Claro…
Nos acomodamos na poltrona grande da sala, com aninhada ao meu lado e sentado ali perto, observando a cena, meio quieto, meio rendido.
Enquanto eu lia, de vez em quando sentia o olhar dele em mim, não intenso nem invasivo, mas presente.
Depois que terminei de ler a história para , ela encostou a cabeça no meu ombro, já com os olhos pesando de sono. Fiquei ali, acariciando de leve seus cabelos escuros, enquanto a sala mergulhava num silêncio confortável, apenas quebrado pelo estalar discreto da madeira na lareira.
continuava sentado na poltrona, o braço enfaixado repousando sobre a almofada ao lado, e os olhos fixos em nós duas. Era um olhar difícil de decifrar — tinha algo de gratidão, talvez um pouco de alívio, mas também uma sombra de cansaço, como quem carrega mais do que deveria, há tempo demais.
Depois de um tempo, ele se inclinou levemente e disse, com a voz mais baixa que eu já tinha ouvido:
— Ela está se apegando muito a você.
Levantei os olhos para ele, surpresa pela quebra daquele silêncio sempre tão espesso.
— Eu também… — respondi, sincera, passando a mão com delicadeza pelos fios macios da menina adormecida.
Ele assentiu, como se soubesse disso desde o início.
Por alguns segundos, ficamos apenas olhando para , como se o mundo lá fora tivesse deixado de existir — a neve, o frio, a distância, as diferenças… tudo parecia suspenso naquele instante.
— Você faz um bom trabalho com ela…
não disse nada, só ficou ali, me olhando, como se estivesse processando, como se aquelas palavras fossem mais sobre ele do que sobre nós duas.
Depois, ele desviou o olhar para a janela, onde o céu agora estava quase negro, salpicado por algumas estrelas tímidas.
— Eu realmente espero que sim... — murmurou.
O silêncio voltou, mas dessa vez era diferente: não era o mesmo silêncio tenso dos primeiros dias. Era um silêncio que parecia um espaço seguro, onde nenhum dos dois precisava se explicar demais.
se mexeu um pouco, resmungou algo incompreensível e, instintivamente, eu a peguei no colo para levá-la até o quarto. se moveu, como quem queria ajudar, mas logo se lembrou do ombro imobilizado e parou, soltando um suspiro resignado.
Antes de sair da sala, passei por ele, e ele inclinou um pouco o rosto, falando tão baixo que quase não ouvi:
— Obrigado… por hoje.
Olhei para ele, e pela primeira vez, me pareceu que aquele homem tão famoso, tão distante, tão blindado… estava, de alguma maneira, acessível. Real.
Só sorri, e segui com no colo até o andar de cima.
Quando voltei, já com a menina dormindo profundamente, encontrei a sala vazia. Mas havia, sobre a mesinha de centro, um bilhete escrito à mão:
“Se precisar de alguma coisa… estarei na varanda.”
Peguei o bilhete, sorri sozinha, e fui até a janela. Lá fora, estava sentado, sozinho, sob o céu frio, com o casaco jogado sobre os ombros e a respiração formando pequenas nuvens na noite gelada.
Por um instante, pensei em sair e me juntar a ele. Mas preferi não quebrar aquele espaço que ele criava. Talvez… da próxima vez.
Apaguei as luzes da sala, subi para meu quarto e, pela primeira vez desde que cheguei ali, deitei na cama com a sensação de que… estava exatamente onde deveria estar.


Capítulo 9


A sexta-feira amanheceu com o céu limpo, mas o frio ainda cortava a pele quando abri a janela do meu quarto. Vi, lá fora, o carro da mãe de estacionado na entrada da fazenda. já estava lá, ajudando a carregar algumas malas pequenas. corria de um lado para o outro, extremamente animada, enquanto a observava de braços cruzados, apoiado no batente da porta, com aquela expressão de quem tentava parecer calmo, mas já sentia a ausência da filha antes mesmo dela partir.
Desci as escadas e cheguei a tempo de ouvir me chamar:
! Vem se despedir de mim!
Me aproximei, e ela se jogou nos meus braços, me apertando com força.
— Só vou passar o fim de semana… mas parece uma eternidade — ela disse, num tom dramático, me fazendo rir.
— Vai ser rapidinho. E vai ser bom você passar um tempo com sua mãe — falei, ajeitando a touca que cobria seus cabelos.
Ela assentiu, com um sorriso meio triste, e logo entrou no carro, dando tchau pela janela enquanto o veículo se afastava pela estrada ladeada de árvores nuas.
Gigi não fez questão de nos cumprimentar, mas eu também não fiz. Eu tinha ouvido todas as histórias a respeito do antigo relacionamento dos dois. E bem… Eu sabia que tinha muita coisa não resolvida entre os dois.
Quando o silêncio se instalou na fazenda, senti um arrepio que não vinha só do frio.
ficou ali, parado, olhando o carro sumir ao longe, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco. Por um instante, pensei em voltar para dentro, mas ele virou para mim, os olhos escuros encontrando os meus de um jeito… diferente.
— Vai querer um café? — perguntou, a voz rouca e baixa.
Assenti, e seguimos juntos para a cozinha.
O clima, no começo, era estranho. A casa parecia grande demais sem correndo pelos cômodos, sem sua risada ecoando. Sentei-me à mesa enquanto ele preparava o café, mexendo nas xícaras com uma concentração quase excessiva, como quem precisava ocupar as mãos para não se perder nos pensamentos.
— Ela fica muito tempo com a mãe? — arrisquei perguntar, só para quebrar o silêncio.
Ele balançou a cabeça.
— Fins de semana alternados. Acordo do tribunal… — murmurou, como se detestasse ter que lembrar disso.
Assenti, respeitando o espaço que ele sempre fazia questão de manter.
Mas então, quando ele colocou a caneca na minha frente, esbarrou levemente na minha mão. Um toque rápido, quase imperceptível, mas suficiente para que ambos nos olhássemos, meio sem jeito.
Senti minha respiração falhar por um segundo.
se sentou à minha frente, pegando a própria caneca, mas não bebeu de imediato.
— E você… não ficou com saudade de casa… de Minas? — perguntou de repente, falando o nome do estado com seu sotaque carregado e com a cabeça inclinada levemente para o lado, como se estivesse realmente interessado.
Sorri, surpresa pela pergunta.
— Fico, sim. Todos os dias. Mas aqui… é bonito. Diferente.
Ele soltou um sorriso discreto, olhando pela janela.
— Deve ser quente lá, né? Aqui… é esse frio constante.
— Lá é quente, mas a gente sente falta do frio também, acredita? — respondi, e ele riu, de verdade dessa vez.
Ficamos ali, conversando banalidades, até que o silêncio entre nós começou a mudar de tom. Não era mais estranho. Era… confortável.
Depois do café, ele sugeriu:
— Quer… dar uma volta? A neve tá mais fina hoje.
Não entendi de imediato, mas assenti. Coloquei meu casaco, e seguimos juntos pelos arredores da fazenda.
Caminhamos lado a lado, os pés afundando na neve macia, enquanto ele me mostrava alguns pontos da propriedade que eu ainda não conhecia: o celeiro antigo, o lago parcialmente congelado, o pequeno pomar adormecido pelo inverno.
Em certo momento, paramos em frente a uma cerca coberta de gelo. Ele se apoiou ali, olhando para o horizonte de montanhas ao longe, e falou, quase num sussurro:
— Quando comprei essa fazenda, achei que ia me esconder do mundo.
Olhei para ele, sem saber o que responder.
— Funcionou? — perguntei, enfim.
Ele respirou fundo e soltou o ar lentamente, formando uma nuvem branca.
— Não completamente.
Sorri de canto, e ele também.
Voltamos caminhando devagar, e ao chegarmos na varanda, ele segurou a porta para eu entrar primeiro, um gesto simples, mas que, vindo dele, parecia… enorme.
Mais tarde, almoçamos juntos. não estava, tinha ido resolver assuntos para ele na cidade. Então, a casa ficou só nossa. Fiz um macarrão simples, enquanto ele me ajudava a cortar os legumes, rindo do meu jeito de falar “alho”.
— É “áio”, né? — zombou, imitando meu sotaque, e eu revidei:
— Pelo menos não falo “wáter” engolindo a palavra!
Rimos juntos, e aquela tensão silenciosa dos primeiros dias parecia cada vez mais distante.
Depois do almoço, sentamos na sala, com o fogo da lareira crepitando suavemente. colocou um disco antigo para tocar — um vinil meio arranhado de Fleetwood Mac — e eu me aconcheguei no sofá, abraçando uma almofada.
Ele ficou na poltrona, mas dessa vez, inclinado para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, como se quisesse… permanecer mais perto.
O tempo foi passando assim, sem pressa, e quando a tarde já começava a morrer, ele se levantou, indo até a estante de livros.
— Gosta de poesia? — perguntou, puxando um livro meio gasto.
Assenti.
Ele se sentou ao meu lado, no sofá, e começou a ler um poema em voz alta, com aquele sotaque britânico carregado que fazia cada palavra parecer mais bonita do que era.
Eu o observava de lado, sentindo algo que não sabia nomear.
Quando ele terminou, me olhou, e ficou ali, em silêncio, como se dissesse tudo que não tinha coragem de falar em voz alta.
— Você devia ler mais pra mim — falei, num fio de voz, e ele sorriu, meio sem jeito.
— Talvez…
A noite chegou devagar, e preparamos juntos um jantar leve, como se aquela rotina silenciosa fosse algo que sempre existiu entre nós.
Antes de subir para o meu quarto, ele ficou parado na cozinha, apoiado na bancada, me observando com aquele olhar… cheio de coisas não ditas.
— Boa noite, … — disse, baixinho.
— Boa noite,
Subi as escadas com o coração apertado, sem saber exatamente o porquê. Só sentindo que aquele fim de semana… mudaria alguma coisa entre nós.
E, deitada na cama, enquanto a neve voltava a cair lá fora, percebi que não tinha mais tanto medo do silêncio dele. Nem do meu.
Despertei no meio da noite com o barulho discreto da lenha estalando na lareira. Por um segundo, fiquei confusa… até lembrar que não estava ali, e que a casa estava silenciosa demais. Me enrolei no casaco de lã e desci as escadas devagar, os degraus de madeira rangendo sob meus pés. Passei pela sala iluminada apenas pelo fogo fraco e, ao dobrar para a cozinha, o vi ali, novamente apoiado na bancada, com uma xícara nas mãos, encarando o escuro lá fora pela janela. Não parecia surpreso quando me viu. Apenas ergueu o olhar, com aquele ar calmo, mas carregado de pensamentos.
— Não consegui dormir… — confessei, me aproximando.
Ele assentiu, fazendo um gesto com a cabeça, como quem entendia exatamente.
— Eu também não.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, até que ele empurrou a xícara na minha direção.
— Quer? É chá.
Segurei, ainda quente, sentindo o aroma suave de camomila. Me apoiei na bancada ao lado dele, os dois de frente para a janela escura, onde a neve caía silenciosa, criando um cenário quase irreal.
— É… estranho a casa assim, vazia… — comentei, quase num sussurro.
Ele sorriu de canto, sem tirar os olhos da neve.
— Quando não está… fica tudo grande demais.
Olhei para ele, para aquele homem que parecia carregar o peso do mundo nos ombros, mas que agora, ali ao meu lado, parecia apenas… humano.
— Acho que me acostumei com o barulho dela — completou, com um suspiro leve.
Sorri também, porque eu entendia. Mesmo estando ali há pouco tempo, já sentia falta daquela energia que espalhava pela casa.
Ficamos em silêncio, até que ele se virou um pouco mais, me encarando de lado.
— Você… gosta mesmo daqui? — perguntou, com aquela expressão de quem queria acreditar na resposta, mas temia ouvir o contrário.
Demorei um segundo para responder, mas então encarei o fundo da xícara e falei, com sinceridade.
— Gosto. É… tranquilo. E bonito. Acho que precisava disso agora.
Ele assentiu, como se aquilo fosse mais importante do que eu imaginava.
Depois, deixou o corpo pesar um pouco mais contra a bancada e falou, com a voz baixa, quase íntima.
— Não deve ter sido fácil… deixar tudo para trás.
Meus olhos se fixaram na neve lá fora, sentindo aquela frase atravessar algo dentro de mim.
— Não foi mesmo… — respondi, e ele não perguntou mais. — Mas eu precisava disso.
O silêncio, dessa vez, foi confortável.
Quando terminei o chá, ele pegou a xícara da minha mão com delicadeza, sem dizer nada, e a colocou na pia. Ao passar por mim, sem querer, esbarrou no meu braço, e dessa vez, o toque não pareceu acidental. Nos olhamos por um instante, a distância entre nós quase inexistente. O fogo da lareira refletia um brilho suave no rosto dele, deixando os contornos ainda mais marcados, os olhos intensos…
Mas ele se afastou, respirando fundo, como se lutasse contra algo.
— Acho melhor tentar dormir… — disse, com a voz rouca, passando a mão pelos cabelos.
Assenti, sem saber o que dizer.
— Boa noite,
— Boa noite,
Subi as escadas sentindo o coração acelerar, não pelo frio, nem pelo silêncio da casa… mas pelo que estava começando a acontecer, mesmo que nenhum de nós tivesse coragem de admitir.
E naquela noite, antes de fechar os olhos, fiquei imaginando… se ele também estaria ali, deitado, olhando para o teto, pensando exatamente o mesmo. Na manhã seguinte, acordei com a claridade suave invadindo o quarto. O silêncio continuava denso, quase palpável, como se a casa inteira ainda estivesse dormindo. Desci para a cozinha com passos lentos, achando que estaria sozinha, mas lá estava ele. estava sentado à mesa, mexendo no celular, uma xícara de café pela metade ao lado. Vestia uma camisa cinza de mangas dobradas, as tatuagens à mostra, e os cabelos estavam bagunçados, como quem ainda carregava a noite mal dormida.
Quando me viu, ergueu os olhos e esboçou um sorriso discreto.
— Bom dia… — disse ele, com a voz rouca.
— Bom dia… — respondi, sentindo a pele arrepiar só de ouvir aquele tom.
Fui até o armário pegar uma caneca, e ele se levantou quase ao mesmo tempo, indo até a cafeteira. Ficamos lado a lado, próximos demais para não perceber. Ele esticou o braço para pegar o açúcar, e os dedos roçaram, de leve, na minha mão. Parei, sentindo a pele queimar. Ele também pareceu hesitar, como se o toque tivesse sido um choque inesperado.
Quando me virei para olhar, ele já estava me encarando. Por alguns segundos, não houve mais nada. Nem o som da cafeteira, nem o frio da manhã entrando pela janela. Só o olhar dele preso no meu, intenso, confuso… como se dissesse tudo aquilo que ele nunca falava em voz alta. Dei meio passo para trás, sem saber exatamente se queria fugir ou me aproximar.
Ele notou, e franziu levemente a testa, como quem lutava contra uma vontade tão automática quanto imprudente.
— Dormiu bem? — perguntou, quebrando o silêncio, mas a voz soou baixa demais, como se não fosse essa a pergunta que realmente queria fazer.
Assenti, mesmo que não tivesse sido exatamente um sono tranquilo.
— E você?
Ele deu um meio sorriso, puxando a manga da camisa até o cotovelo.
— Já te disse… não durmo muito bem quando a não tá aqui.
Ficamos ali, um em frente ao outro, cada um segurando a própria xícara, como se aquele objeto fosse a última barreira entre nós.
Depois de um tempo, ele se apoiou na bancada, desviando o olhar, mas antes de se afastar, disse:
— Acho que… gostei da sua companhia ontem.
Meu coração falhou uma batida.
Sorri, meio sem saber o que fazer com aquilo.
— Eu também… — respondi, baixinho.
Ele assentiu, pegou o casaco pendurado na cadeira e, antes de sair pela porta dos fundos para ir até o celeiro, se virou mais uma vez:
— Se quiser… pode vir comigo daqui a pouco. Não é longe.
E então saiu, deixando o aroma do café no ar… e a sensação de que, se ontem à noite não tivesse terminado como terminou, talvez… tivesse sido diferente. Suspirei, abraçando a caneca quente, com a estranha certeza de que alguma coisa entre nós dois havia mudado. Não falamos sobre isso, não tocamos no assunto, nem nos aproximamos além do necessário… mas aquela troca silenciosa, aquele quase toque... Eles ficaram ali, pairando na cozinha vazia, na xícara esquecida sobre a mesa… e, principalmente, dentro de mim.


Capítulo 10


O convite pairou no ar por alguns minutos, como uma dúvida que eu não sabia se deveria aceitar. Mas, depois de terminar meu café e colocar um casaco, acabei seguindo pelo mesmo caminho que ele, cruzando o quintal coberto de neve fofa, onde só as pegadas de cortavam a paisagem branca.
O celeiro era imenso, de madeira avermelhada e janelas altas, como aqueles que eu só via em filmes ou fotografias. A porta estava entreaberta, e uma nesga de luz amarelada vazava pelo vão.
Empurrei com cuidado, fazendo a madeira ranger suavemente. Lá dentro, o cheiro de feno e terra úmida se misturava ao perfume discreto dele.
estava perto de um dos cavalos, acariciando o focinho do animal com uma paciência silenciosa. Vestia um casaco escuro e luvas grossas, mas o rosto exposto deixava ver o rubor causado pelo frio.
Ele me ouviu entrar, mas não se virou de imediato. Só depois de terminar o gesto, olhou por sobre o ombro e esboçou aquele meio sorriso contido, como se dissesse “eu sabia que você viria”.
— Achei que não fosse… — murmurou.
— Eu também achei… — respondi, um pouco envergonhada pela própria hesitação.
Ele fez um gesto com a cabeça, indicando que eu podia me aproximar. Meus passos soaram abafados pela palha espalhada pelo chão. Fiquei ao lado dele, observando o cavalo que mastigava calmamente, alheio à tensão discreta que crescia entre nós.
— Você gosta de cavalos? — ele perguntou, rompendo o silêncio.
— Eu gosto, mas nunca montei pra valer. — sorri, mas logo confessei, rindo sem jeito. — Só em passeios escolares, aqueles que a gente monta por cinco minutos e tira uma foto.
soltou um riso baixo, quase imperceptível.
— Eles são tranquilos… só precisam de respeito e calma.
Olhei para ele de soslaio, meio querendo perguntar se ele também era assim: tranquilo, mas exigindo respeito e calma para que alguém se aproximasse.
Como se adivinhasse meu pensamento, ele acrescentou:
— Muita gente tem medo, mas é só entender o ritmo deles.
Assenti, acariciando com os dedos uma das tábuas do cercado, sem ter coragem ainda de tocar o animal.
Ele se inclinou um pouco, pegando minha mão com delicadeza — um gesto tão inesperado que prendi a respiração — e a guiou até o pescoço macio do cavalo.
— Assim… — disse, enquanto minha pele encontrava o calor do pelo.
Olhei para ele, tão perto, e ele me encarou também. Por um segundo, achei que fosse me soltar, se afastar… mas não.
Deixou minha mão ali, e só depois soltou devagar, como quem não queria quebrar aquele pequeno vínculo.
— Viu? Ele gosta de você.
Sorri, meio sem acreditar, ainda com a mão sobre o animal, e ele virou-se para pegar um balde de ração.
— Quer ajudar? — perguntou, casualmente, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
— Claro.
Passamos boa parte da manhã ali, alimentando os animais, limpando parte do celeiro e trocando poucas palavras, mas cheias de significado. Entre uma tarefa e outra, trocávamos olhares rápidos, como quem ainda não sabia bem o que fazer com aquela nova proximidade.
Quando o sol já começava a descer, saímos do celeiro e caminhamos juntos de volta para casa, os passos afundando na neve e as mãos enfiadas nos bolsos, protegidas do frio — mas, de alguma forma, eu sentia a pele ainda aquecida daquele toque de mais cedo.
No jantar, ele preparou ovos mexidos com queijo e torradas, dizendo que não era nada demais, mas que não valia a pena cozinhar muito só para dois. Sentamos na bancada da cozinha, lado a lado, comendo devagar e falando sobre coisas simples: o inverno, a rotina da fazenda, lugares que eu sonhava conhecer nos Estados Unidos.
Depois, lavamos a louça juntos, num silêncio confortável.
Quando terminei de guardar o último prato, ele ficou parado ao meu lado, como se quisesse dizer algo, mas não soubesse como.
— Eu… — começou, coçando a nuca, visivelmente desconfortável com qualquer frase que estivesse prestes a sair.
Olhei para ele, esperando, com o coração acelerado.
— Foi… bom ter você aqui hoje.
E antes que eu pudesse responder, ele deu um passo para trás, pegou a caneca esquecida no balcão e saiu pela porta dos fundos, deixando o ar gelado entrar e a minha respiração suspensa no ar.
Fiquei ali, sozinha na cozinha aquecida, com a estranha certeza de que, por mais pequenos que fossem, aqueles gestos estavam construindo algo entre nós.
Depois que ele saiu pela porta dos fundos, fiquei parada por alguns segundos, respirando fundo. A cozinha ainda cheirava a café e pão tostado, e lá fora o céu já começava a se tingir de azul profundo.
Decidi me acomodar na sala, encolhida no sofá com uma manta jogada sobre as pernas, enquanto passava lentamente pelos canais da televisão. Nem fazia ideia do que queria ver, só gostava da sensação de estar ali, naquela casa silenciosa e acolhedora.
Ouvi passos pesados cruzando o assoalho de madeira. Olhei por cima do ombro e vi encostado no batente da porta, segurando sua caneca de chá, com aquele mesmo ar de quem quer falar, mas não sabe como começar.
— Quer assistir alguma coisa? — perguntou, com a voz baixa.
Assenti, abrindo espaço no sofá sem dizer nada. Ele caminhou até o outro lado, largando a caneca sobre a mesinha e se acomodando a uma distância respeitosa.
O sofá era grande, mas, ainda assim, a presença dele parecia ocupar todo o espaço. Escolhi um filme qualquer, uma comédia leve, sem muita importância, só para preencher o ambiente com alguma coisa além da nossa respiração contida.
No começo, cada um ficou em seu canto, com as pernas recolhidas e os braços cruzados, como dois estranhos que por acaso dividiam a mesma casa. Mas, aos poucos, à medida que as cenas iam passando, as barreiras invisíveis começaram a se dissolver.
Ele soltou um comentário sobre a trilha sonora, e eu ri. Depois, fiz uma piada sobre um dos personagens, e ele sorriu, relaxando um pouco mais.
Sem perceber, nossos corpos foram se ajeitando no sofá. Primeiro, ele esticou as pernas, deixando os pés quase roçarem os meus. Depois, eu me inclinei um pouco para o lado, buscando mais conforto, e nossas pernas se encostaram de leve.
Ninguém se afastou.
Lá fora, a neve continuava a cair, lenta, silenciosa, como se o mundo estivesse suspenso naquele instante.
Em algum momento — não sei dizer se foi quando o filme ficou entediante ou quando o cansaço do dia se abateu sobre nós —, meu corpo escorregou um pouco mais para o lado, até minha cabeça repousar de leve no ombro dele.
ficou imóvel por um segundo, como se ponderasse se devia se afastar ou não. Mas não se moveu.
Pelo contrário: soltou um suspiro quase imperceptível e ajeitou o braço, permitindo que eu me acomodasse melhor, como se aquele espaço sempre tivesse estado ali, reservado para mim.
Continuei de olhos abertos por alguns minutos, encarando a tela sem realmente ver o filme, consciente demais do calor dele ao meu lado, do som discreto da sua respiração, do peso confortável daquele silêncio compartilhado.
Quando dei por mim, meus olhos começaram a pesar.
E, antes que pudesse me convencer a levantar e ir para o quarto, apaguei ali mesmo, aninhada ao lado dele, enquanto a televisão continuava passando cenas que eu não seria capaz de lembrar depois.
Não sei quanto tempo se passou. Só me dei conta quando senti um movimento sutil: desligando a TV com o controle remoto, depois puxando a manta do encosto para cobrir nossos corpos sonolentos.
Abri os olhos por um segundo e o vi ali, tão perto, com aquele olhar silencioso, indecifrável, mas, pela primeira vez, sem parecer distante.
— Boa noite… — murmurou, quase num sopro e me ajeitou, puxando para que eu pudesse me aconchegar nele.
Fechei os olhos novamente, e antes que pudesse responder, já estava sendo puxada pelo sono outra vez, com a estranha e doce certeza de que, mesmo naquele sofá improvisado, mesmo naquele país tão longe de casa… eu estava exatamente onde deveria estar.


Capítulo 11


Acordei com a luz fraca do amanhecer atravessando a grande janela da sala. Levei alguns segundos para entender onde estava, e mais alguns para perceber que não estava sozinha.
Minha cabeça ainda repousava no ombro de , que, de olhos fechados, respirava fundo e ritmado, como quem ainda navegava entre os últimos resquícios de sono. A manta macia ainda nos cobria, aquecendo contra o frio que, mesmo com a calefação, insistia em se espalhar pela casa antiga.
Me movi devagar, tentando não acordá-lo, mas ele soltou um suspiro, mexendo um pouco o braço, como se, mesmo adormecido, percebesse minha tentativa de fuga e tentasse me impedir de sair.
Fiquei ali, imóvel, com o coração acelerado, sem saber se deveria me afastar ou se poderia me permitir ficar mais alguns minutos naquele conforto silencioso.
abriu os olhos aos poucos, meio perdido também, até perceber minha presença ao lado dele.
— Bom dia… — murmurou, a voz rouca de quem acabou de acordar.
— Bom dia… — respondi, num sussurro, com um sorriso envergonhado.
Nos encaramos por um segundo a mais do que o necessário, até ele desviar o olhar e coçar a nuca, meio sem jeito, afastando um pouco a manta e se espreguiçando.
— Acho que a gente… dormiu aqui a noite toda — ele constatou, com aquele tom neutro, mas quase divertido.
— Acho que sim…
O silêncio confortável que pairava entre nós foi quebrado apenas pelo som do vento batendo nas janelas.
Ele se levantou, pegou a caneca vazia de chá e, antes de sair da sala, perguntou:
— Quer um café?
— Quero.
Enquanto ele seguia para a cozinha, ajeitei o cabelo e dobrei a manta, sentindo o calor dele ainda impregnado no tecido. Me levantei e fui até a grande janela, observando a paisagem branca lá fora. A neve parecia não ter dado trégua durante a noite, criando uma camada ainda mais espessa sobre a cerca, as árvores e o celeiro ao longe.
voltou pouco depois, com duas canecas fumegantes, e se acomodou novamente no sofá, me entregando uma.
— Obrigada — falei, aceitando com um sorriso.
— Não tem de quê.
Ficamos ali, os dois de meias, com as canecas entre as mãos, olhando para a janela como se aquilo fosse a programação do dia: observar o mundo coberto de branco e o silêncio da fazenda acordando lentamente.
Depois do café, ele sugeriu que eu o acompanhasse até o celeiro.
— Só preciso ver os cavalos. Não vai demorar — disse, e eu concordei de imediato.
Vestimos os casacos pesados, calçamos as botas e caminhamos lado a lado até o celeiro, abrindo caminho pela neve fofa. O céu estava acinzentado, e o frio parecia mais cortante, mas o ar fresco era revigorante.
Lá dentro, o cheiro de feno e madeira envelhecida dominava o espaço. tratou os cavalos com aquela habilidade silenciosa que parecia tão natural quanto respirar. Eu o observava de longe, admirando a forma como ele se comunicava com os animais, com gestos suaves e olhares firmes.
Depois que ele terminou de cuidar de tudo, voltamos para casa, e ele esquentou um pouco de sopa do dia anterior. Almoçamos na cozinha, com o rádio antigo ligado baixinho, tocando uma playlist de folk americano que combinava perfeitamente com aquele dia.
A tarde seguiu calma, quase preguiçosa. Jogamos um jogo de tabuleiro que tinha deixado montado na mesa, depois ele me mostrou alguns álbuns antigos de fotos da fazenda — a maior parte delas com cavalos e paisagens, poucas com ele e quase nenhuma recente.
— Não gosta de tirar fotos? — perguntei, folheando uma das páginas.
Ele deu de ombros.
— Já me fotografaram demais por uma vida inteira.
Eu sorri, entendendo mais do que ele imaginava.
Quando o sol começou a se pôr, ele me convidou para assistirmos a um filme. Dessa vez, ele escolheu — uma ficção científica que eu nunca tinha visto.
Nos acomodamos novamente no sofá, mas agora parecia diferente. Não havia mais aquela rigidez nos gestos ou o receio do primeiro toque. Estávamos mais soltos, mais próximos, e, sem perceber, nos encostamos de novo, dividindo a mesma manta e os mesmos silêncios confortáveis.
Por volta das sete da noite, ouvimos o barulho do carro na entrada.
— É a — ele disse, se levantando e caminhando até a porta.
Fiquei ali, meio imóvel, como se aquele dia inteiro tivesse acontecido numa bolha, e o retorno dela fosse o rompimento natural, mas inevitável, desse pequeno universo que criamos sem querer.
Pude ouvir, da sala, a risada de quando ele a pegou no colo, o jeito como ela gritava “papai!” com alegria.
Ele entrou na casa com ela agarrada ao pescoço, e , ao me ver, sorriu largo:
— Tia !
Correu até mim e me abraçou forte, e eu me abaixei para retribuir, sorrindo com a espontaneidade dela.
ficou parado ali, olhando a cena, com aquele olhar que eu ainda não conseguia decifrar por completo — entre o alívio por ter a filha de volta e algo mais, mais quieto, mais... denso.
Depois que ela foi para o quarto, ele se aproximou, cruzando os braços e se apoiando no batente da porta.
— Obrigado… — disse, num tom mais baixo do que o habitual.
Eu o encarei, sem entender.
— Pelo quê?
Ele deu um meio sorriso, olhando para o chão e depois para mim.
— Por ontem. Por hoje… Por estar aqui.
E então se virou, seguindo para o quarto de , me deixando ali, no meio da sala silenciosa, com o coração acelerado e a estranha certeza de que, a partir dali, nada mais seria igual.
Depois que correu até mim e me abraçou apertado, não demorou muito para que ela começasse a falar sem parar, como sempre fazia quando voltava de um final de semana fora.
— Tia ! Eu fui na casa da mamãe, a gente fez biscoitos! E ela me deixou pintar uma camiseta, mas eu sujei tudo… — ela contava, com as mãozinhas agitadas, enquanto eu a ajudava a tirar o casaco pesado e as botas encharcadas de neve.
Sorri, me ajoelhando na frente dela para soltar o cadarço teimoso.
— Jura? Aposto que ficou linda, mesmo sujinha.
— Sim! A mamãe disse que eu sou artista — ela completou, com orgulho, e eu ri, passando a mão carinhosamente por seus cabelos ainda presos num coque meio torto.
— Você é mesmo, .
Ela então se sentou na poltrona, puxando uma almofada pro colo, e me olhou com aqueles olhos atentos, curiosos:
— E você, tia ? O que você fez enquanto eu tava fora?
Me surpreendi um pouco com a pergunta e olhei rapidamente para , que, escorado no batente da porta, observava tudo em silêncio, com aquele jeito discreto, mas que parecia sempre presente.
— Ah… — comecei, meio sem jeito — eu e seu pai ficamos por aqui…
Ela arqueou as sobrancelhas, divertida:
— Vocês ficaram sozinhos?
— Sim… — respondi, com um sorriso contido.
— E vocês se divertiram?
A espontaneidade dela me fez rir de verdade, e olhei de novo para , que agora tinha um leve sorriso no canto dos lábios, mas desviou o olhar rapidamente, coçando a barba, como sempre fazia quando ficava sem saber o que dizer.
— Foi tranquilo, . A gente cuidou dos cavalos, assistiu a uns filmes…
Ela assentiu, satisfeita com a resposta, e então me puxou pela mão:
— Quero que você me coloque pra dormir hoje! Faz tempo!
Assenti, com o coração derretendo com aquele pedido simples, e levei-a para o quarto. ficou parado na porta, observando enquanto eu a ajudava a vestir o pijama, escovar os dentes e, finalmente, ajeitá-la na cama, cercada pelos bichos de pelúcia.
— Quer que eu leia uma história? — perguntei, e ela assentiu, puxando um dos livros que sempre ficava ao lado da cama.
Li, com a voz baixa e pausada, enquanto ela lentamente relaxava, os olhos começando a se fechar. Antes de adormecer, murmurou:
— Quero que você fique aqui para sempre…
Meu peito apertou e sorri, beijando sua testa.
— Eu também, pequena.
Quando me levantei e apaguei a luz do abajur, me virei e dei de cara com ainda ali, na porta, os braços cruzados, me olhando de um jeito que eu não sabia exatamente como decifrar — algo entre gratidão e… outra coisa, mais silenciosa.
— Boa noite — sussurrei.
Ele apenas assentiu com a cabeça e esperou que eu saísse primeiro.
Já na cozinha, como acontecia todas as noites, acabei indo pegar um copo d’água antes de subir. Era meio que um ritual involuntário: ele sempre aparecia, de algum jeito, também procurando qualquer coisa na geladeira ou só passando por ali, e acabávamos nos cruzando naquele espaço, como se o dia não pudesse acabar sem esse último encontro silencioso.
E não foi diferente.
Enquanto eu bebia a água encostada na pia, ele surgiu, vindo da sala, de moletom e descalço, os passos silenciosos no assoalho antigo.
— Não consegue dormir? — perguntou, a voz mais baixa do que o usual, mas soando quase íntima na quietude da casa.
— Ainda não… acho que o dia foi… cheio demais — respondi, sorrindo de canto.
Ele se aproximou da bancada, abriu a geladeira e pegou uma cerveja, mas não abriu — ficou só segurando a garrafa gelada, como se precisasse de algo entre as mãos pra ocupar o espaço e o tempo.
O silêncio ficou ali, espesso, mas não desconfortável.
Eu o observei por alguns segundos, as feições calmas, mas o olhar meio distante. Até que, de repente, ele me olhou, direto, e perguntou:
— Por que você veio mesmo pra cá?
A pergunta me pegou desprevenida.
— Quer dizer… deixar tudo pra trás, vir pra uma fazenda no meio da Pensilvânia… Não parece o tipo de coisa que muita gente faria.
Respirei fundo, apoiando o copo vazio na pia.
— Acho que… eu só precisava de um recomeço — respondi, sincera, sem muita elaboração, porque era a verdade mais simples que eu podia dar.
Ele assentiu, como se entendesse mais do que dissesse, e ficou olhando para a janela, onde a neve começava a cair novamente, fina, silenciosa.
Por alguns segundos, achei que fosse só isso, mais um dos nossos encontros silenciosos na cozinha, mais um olhar cúmplice e pronto. Mas, quando me virei para sair, ele chamou:

Parei, ainda de costas, esperando, com o coração acelerado.
— Boa noite.
Sorri, mesmo que ele não visse, e respondi:
— Boa noite, .
E subi, com a estranha sensação de que aquela noite não tinha sido só mais uma — e de que, mesmo sem palavras, ele começava, aos poucos, a me deixar entrar nesse mundo silencioso que tinha construído com tanto cuidado.


Capítulo 12


O dia seguinte amanheceu envolto em uma névoa tênue, com a luz do sol filtrando-se pálida entre as cortinas do quarto de hóspedes. Acordei com o som familiar dos passarinhos e o cheiro do café recém-passado vindo da cozinha. Espreguicei-me, ainda sentindo na pele a memória da noite anterior — aquela conversa quase silenciosa, o tom mais íntimo, o jeito como ele disse meu nome antes de desejar boa noite.
Desci as escadas com uma expectativa involuntária, quase esperando que ele estivesse ali, na cozinha, do mesmo jeito de sempre… ou talvez, de um jeito diferente.
Mas, ao entrar, o encontrei sentado à mesa, com a cabeça baixa sobre o jornal, como se a noite passada não tivesse existido.
— Bom dia — falei, num tom neutro, quase testando o espaço entre nós.
Ele só ergueu o olhar rapidamente, assentiu e murmurou:
— Bom dia.
Nada além disso.
Nenhum sorriso, nenhuma pergunta, nenhum daqueles olhares demorados de ontem.
Fiquei parada por um segundo, sentindo uma confusão discreta se instalar, antes de ir até a cafeteira e preparar minha caneca. Tentei me concentrar no barulho da chaleira, no cheiro do café, na movimentação de , que logo apareceu, toda energia.
— Tia ! Vem brincar comigo antes da aula? — pediu, já me puxando pela mão.
Sorri, mesmo com aquele incômodo apertando o peito, e assenti.
— Claro, pequena.
E assim passei boa parte da manhã, ajudando Khai nas atividades da escola em casa — lições de matemática, leitura e até um experimento com cores e água que deixou a mesa da cozinha toda molhada. , por sua vez, parecia mais distante que o habitual, saiu cedo para o celeiro e passou quase o dia inteiro entre os cavalos e os afazeres da fazenda.
Eu não perguntei nada. Não quis tocar no assunto.
Mas aquela confusão latejava, silenciosa, conforme as horas iam passando.
Na hora do almoço, nos cruzamos de novo na cozinha. Ele pegou um prato, comeu em silêncio, agradeceu e voltou para fora com um "vou ali" abafado, me deixando com , que falava sem parar sobre o novo desenho que queria mostrar para o pai depois.
À tarde, enquanto fazia a aula online com a professora, fiquei sozinha na sala, mexendo no celular, tentando fingir que o jeito frio dele não me incomodava tanto quanto estava incomodando.
“Talvez tenha sido coisa da minha cabeça”, pensei, olhando pela janela o reflexo da neve começando a derreter. “Talvez ele seja assim mesmo… fechado, distante… Não quer dizer nada.”
Mas, por mais que repetisse isso, não conseguia evitar aquele incômodo discreto, como uma sombra se espalhando sobre o resto do dia.
Quando o sol começou a se pôr, tingindo o céu de lilás e dourado, coloquei para o banho, ajudei a preparar o jantar e depois subi com ela para colocá-la na cama.
— Tia … amanhã a gente pode fazer biscoitos? — perguntou ela, já deitada, com os olhos pesados.
— Claro que sim — respondi, beijando sua testa. — Vai sonhando com eles.
Ela sorriu e fechou os olhos, tranquila.
Desci devagar, sem pressa, sentindo a casa mergulhada naquele silêncio quase confortável.
Passei pela cozinha e notei que não estava ali. Por um momento, pensei em subir direto, mas acabei indo até a varanda da frente — meu lugar preferido para pensar.
Sentei-me na cadeira de madeira, puxei as pernas para cima e abracei os joelhos, deixando o frio da noite me tocar. A brisa cheirava a terra molhada e madeira, e o céu estava tão estrelado que parecia infinito.
Fiquei ali, olhando para o escuro que se estendia além da cerca, ouvindo os sons distantes do celeiro e dos galhos balançando ao vento.
Respirei fundo, tentando deixar que aquela solidão lavasse um pouco da confusão que eu sentia.
“Não significa nada”, repeti para mim mesma. Mas, no fundo, eu sabia que não era bem assim.
Sentia que, mesmo no silêncio dele, algo tinha mudado. E talvez ele estivesse lutando contra isso — contra a proximidade que a minha presença acabava trazendo, sem querer.
Enquanto pensava, ouvi o som discreto da porta se abrindo atrás de mim.
Virei o rosto, mas não vi nada. Só escutei os passos suaves na madeira e, depois, o silêncio de novo.
Talvez ele tivesse passado pela cozinha. Ou subido direto. Ou, quem sabe, estivesse lutando com o mesmo que eu.
Suspirei, voltei o olhar para o céu e fiquei ali até o frio vencer a minha vontade de permanecer.
Levantei-me, entrei devagar na casa e fui apagando as luzes, com a estranha sensação de que aquela distância silenciosa entre nós não era um fim — mas, quem sabe, o contrário.
Fiquei parada por um instante até ouvir o som suave de água fervendo e passos na cozinha. Quando me aproximei, vi encostado na bancada, mexendo uma colher na caneca.
Ele percebeu que eu estava ali e, como se estivesse reunindo coragem, respirou fundo e perguntou:
— Quer chá?
Assenti com um sorriso pequeno, e ele começou a preparar, enquanto o silêncio se instalava entre nós — um silêncio diferente, pesado, quase cúmplice.
Enquanto mexia o chá, ele quebrou o silêncio primeiro, num tom mais sincero do que eu esperava:
— Estava escrevendo… antes de vir aqui.
Arqueei levemente a sobrancelha, puxando uma cadeira para me sentar:
— Escrevendo?
Ele assentiu, puxando outra cadeira para se sentar de frente para mim, com a caneca nas mãos:
— Músicas. Nem sempre faço isso, mas… ultimamente, as ideias têm vindo mais fácil.
Sorri, inclinando-me um pouco:
— Isso é bom, não é?
Ele deu de ombros, olhando para o chá:
— Talvez. Às vezes acho que… quando a vida parece meio fora de controle, escrever ajuda a colocar tudo no lugar.
Fiquei olhando para ele em silêncio, até que levantou o olhar e me encarou, com uma expressão que misturava hesitação e curiosidade:
— Acho que você… tem me ajudado nisso.
Fiquei surpresa. Franzi levemente a testa:
— Eu?
Ele soltou um riso curto, sem graça, e desviou o olhar para a janela:
— Não sei… desde que você chegou, as coisas parecem diferentes aqui. Mais… vivas, talvez.
Senti meu coração disparar com aquela confissão inesperada, mas, como ele, não sabia exatamente como nomear aquilo.
— Eu também sinto isso — confessei num sussurro, depois de alguns segundos.
Ele voltou a me olhar, e por um instante, o ar entre nós pareceu mais pesado, como se estivéssemos prestes a dizer algo que ainda não tinha nome.
respirou fundo, passando a mão pelos cabelos, lutando com algo dentro dele.
— É estranho… — começou, olhando de novo para a caneca — sempre fui bom em colocar sentimentos nas músicas. Mas… na vida real, nem sempre sei o que fazer com eles.
Mordi o lábio, tocada pela vulnerabilidade dele.
— Talvez… você não precise saber agora — falei, com um sorriso discreto. — Às vezes só sentir já é suficiente.
Ele ergueu os olhos outra vez, e dessa vez não desviou. Ficamos ali, presos um no outro, como se o resto da casa, da noite, tivesse desaparecido.
Eu quase podia jurar que ele queria dizer mais. Ou talvez fazer algo — se aproximar, me tocar, quebrar aquela distância.
Mas, ao invés disso, ele soltou um suspiro longo e se levantou, pegando a caneca vazia.
— Amanhã… vou levar uns cavalos pra trilha. Se quiser… pode ir também.
Sorri, entendendo que, naquela linguagem silenciosa que inventamos, aquilo era mais do que um convite.
— Eu adoraria.
Ele assentiu, quase aliviado, e começou a subir as escadas.
Antes de sumir no corredor, parou e, sem olhar para trás, murmurou:
— Boa noite, .
Fiquei ali, olhando para o corredor vazio, com o coração disparado, sabendo que, mesmo sem grandes palavras, alguma coisa tinha mudado entre nós naquela noite.

***


Levantei devagar, levei minha caneca até a pia e subi as escadas, com a sensação clara de que aquela tensão, tão sutil, estava bem perto de transbordar.
O céu estava cinza quando acordei, e havia algo no ar — talvez fosse o frio, ou talvez fosse eu. Demorei mais do que o normal para levantar. Vesti uma blusa térmica, prendi o cabelo sem capricho e respirei fundo antes de descer.
Eu ainda pensava na noite anterior. No chá, na conversa, nas palavras que ele quase disse — ou disse com os olhos.
Mas, ao chegar no estábulo, encontrei um diferente.
Fechado de novo.
Ele não sorriu, não comentou nada. Só perguntou se eu estava pronta, como se fôssemos dois estranhos indo cumprir uma tarefa qualquer.
Assenti e montei.
Durante os primeiros minutos da trilha, tentei não pensar demais. O campo ao nosso redor era bonito, com árvores despidas e neve cobrindo o chão em pequenas camadas. Mas havia um peso no silêncio. Não era mais aquele silêncio confortável que dividíamos desde que cheguei.
Era outra coisa.
— Sobre ontem à noite… — arrisquei, sem saber se era o melhor momento.
Ele virou um pouco o rosto, sem me encarar de fato, e disse:
— Foi só conversa.
O tom seco me atingiu mais do que eu gostaria.
Fiquei quieta.
Talvez ele estivesse apenas cansado. Talvez eu estivesse me iludindo.
Ou talvez ele estivesse se protegendo, de novo.
Ele suspirou, como se também sentisse o desconforto entre nós.
— É fácil confundir as coisas aqui — completou. — Silêncio, rotina… tudo parece mais intenso.
— Eu não estou confundindo nada — respondi, devagar, tentando manter a firmeza na voz, mesmo com o nó que começava a se formar no fundo da garganta.
Ele não respondeu.
E eu não insisti.
Seguimos cavalgando, mas a distância entre os cavalos parecia maior do que antes. E dentro de mim também havia essa distância — entre o que eu sentia e o que ele me permitia sentir.
Lá do alto da colina, ele finalmente disse alguma coisa que não soava como defesa:
— Foi por isso que me mudei para cá. Pra esquecer o que eu sentia.
Fiquei parada por um momento, observando o vale à frente. A imensidão gelada parecia combinar com o vazio daquela confissão.
Mas o que eu podia responder? Que ele não estava mais esquecendo nada? Que talvez estivesse sentindo de novo — e que eu também estava?
Fiquei em silêncio.
No caminho de volta, as palavras continuaram engasgadas.
Quando chegamos na fazenda, apareceu com o celular na mão.
, Gigi ligou. Disse que precisa falar com você hoje.
Fingi que não escutei. Mas escutei.
E por mais que eu repetisse mentalmente que não era ciúmes, que ele tinha uma vida, uma história, uma filha com ela… ainda assim doeu.
Subi direto para o quarto, tirei o casaco de qualquer jeito e encarei o teto.
Depois, fui para a aula.
Tentei me concentrar, juro. Mas as palavras do professor pareciam vir debaixo d’água. “Desenvolvimento emocional na infância”, ele dizia. Eu só conseguia pensar em como os adultos eram péssimos nisso.
Na volta pra casa, tudo estava escuro e silencioso.
Fui direto para a varanda.
Me enrolei num cobertor, sentei na cadeira de madeira e fiquei ali, com uma caneca de chá quente entre as mãos, encarando o campo vazio à frente.
O céu estava limpo. As estrelas tímidas. A casa dormia, mas minha cabeça não.
E se tudo isso fosse só uma fase? E se ele continuasse se fechando toda vez que eu tentasse me aproximar?
Eu estava me permitindo sentir. E ele estava tentando esquecer.
Talvez essa fosse a grande diferença.
Fechei os olhos e respirei fundo, tentando engolir aquele vazio silencioso que se instalava entre nós. Um espaço cheio de palavras não ditas.
Lá dentro, eu sabia: ele ainda estava acordado.
Só não sabia se era por minha causa.
Ou por tudo o que ele ainda não conseguia deixar ir.

***


Na manhã seguinte, não choveu nem nevou. Mas o céu parecia tão nublado por dentro quanto eu me sentia por fora.
Levantei antes do despertador, como quem precisa sair da própria cabeça antes que ela engula tudo. Não sabia exatamente o que fazer com a presença dele ali na mesma casa. Estávamos tão perto… e, ao mesmo tempo, ele havia conseguido se colocar tão longe de novo.
Escolhi ficar ocupada. Ocupada é seguro.
Fiz o café, ajudei com algumas coisas da casa, organizei os materiais da antes da aula e mantive meus passos leves, calculados. Ele passou pela cozinha uma ou duas vezes, sempre comedidamente educado. Um "bom dia", um "obrigado", um "com licença".
Tudo polido. Tudo distante.
Mas não vazio.
O problema é que eu já conseguia perceber quando o silêncio dele era só silêncio — e quando era armadura. E hoje… era armadura.
percebeu também. Crianças sempre percebem.
— Você tá triste? — ela perguntou, no fim da aula, com os olhos grandes fixos em mim.
Sorri, ajeitando uma mecha do cabelo dela atrás da orelha.
— Não, pequena. Só tô… pensando.
— No papai? — ela perguntou, direta como só as crianças sabem ser.
Fiquei em silêncio por um segundo longo demais.
Ela encolheu os ombros.
— Ele fica assim às vezes. Quando sente muito e não sabe onde colocar.
Me comovi com a frase. Me comovi com ela.
— E você, onde coloca? — perguntei de volta, dando um sorriso pequeno. Eu me perguntava como uma criança podia perceber tanto as coisas como ela.
Ela era diferente. Um fato irrefutável.
Ela apontou pro peito. Depois sorriu e disse baixinho:
— Às vezes, dou pra você guardar um pouquinho também.
Abracei ela ali mesmo, com força. Porque, no fundo, era isso. Eu também estava tentando guardar o que não cabia só em mim.
À tarde, saí para caminhar um pouco. Sozinha. Disfarcei como se fosse só para tomar ar, mas me conhecia mais do que eu pensava. Me entregou um casaco mais grosso e disse apenas:
— Ele não fala muito, mas escuta tudo. Às vezes demora pra processar.
Assenti em silêncio. Não queria falar sobre ele. E, ao mesmo tempo, tudo dentro de mim girava em torno disso.
Andei pelos fundos da fazenda até um pequeno campo plano onde algumas árvores baixas estavam cobertas de neve. Sentei num tronco caído e fiquei ali, escutando o barulho do mundo parado.
Foi só quando voltei, no fim da tarde, que o inesperado aconteceu.
A porta da frente estava entreaberta. E o som que vinha lá de dentro não era a televisão. Nem .
Era… violão.
Entrei em silêncio, sem fazer barulho, e o encontrei sentado no tapete da sala, com deitada no colo dele, já sonolenta, e a melodia saindo dos dedos como se escorresse dele sem esforço.
Era uma canção que eu não conhecia. Nenhuma letra. Nenhuma estrutura pop. Só cordas e sentimento.
E por um instante, ele não era o que se escondia. Nem o homem distante do café da manhã. Era só ele. Nu em som.
Ele me viu.
Os olhos encontraram os meus, e ele continuou tocando por mais um segundo… depois parou.
— Era pra ela dormir — disse, com um sorriso fraco, olhando para . — Sempre funciona.
Assenti, me aproximando devagar.
— Funcionou pra mim também.
Ele não respondeu, mas não desviou o olhar.
Ficamos ali, frente a frente, com a casa em silêncio e a luz do fim da tarde desenhando sombras compridas no chão.
— Eu não sou bom com aproximações — ele disse, de repente. A voz baixa, a mão ainda apoiada no violão. — Às vezes elas me assustam. Mesmo quando eu quero elas.
Engoli em seco.
— Tudo bem… Eu… Não sei como lidar com isso tudo. Também é muito novo pra mim.
Ele olhou pra mim por mais tempo do que o habitual. E em silêncio. Talvez procurando algo para dizer, ou então, apenas absorvendo o que eu tinha falado.
Nos encaramos com a bagagem inteira entre nós. E, ainda assim, foi menos distante do que qualquer aproximação apressada.
— Obrigado por cuidar dela — ele disse, olhando para . — E de mim… sem pedir nada em troca.
— Eu nunca cuidei de alguém esperando retorno… — respondi, suavemente. — É muito mais do que só um trabalho pra mim.
Ele assentiu. Baixo. E verdadeiro.
E ali, sem encostar um no outro, sem toque, sem beijo, aconteceu mais do que qualquer aproximação física poderia significar: ele me viu. E eu vi ele.
Pela primeira vez, sem as proteções.
E então, ele subiu com no colo, e eu fui para a varanda com minha caneca de chá.
Mas dessa vez, o silêncio não era ruim. Parecia mais leve agora, assim como o meu peito após aquela conversa.


Continua...



Nota da autora: Oi, pessoal! Espero que vocês gostem e se animem com essa história tanto quanto eu! Não deixem de comentar para eu saber se vocês estão gostando, hein?
Um beijo, Evie.






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