Capítulo 1
This is the first I've seen your face
But there's a chance we are soulmates
I know this might sound crazy,
Cause you don't know my name
(Jason Derulo - What if)
Eu nunca fui uma pessoa que costumava acreditar em destino ou coisas do tipo, na realidade, acho que podem me chamar de cética. Não é como se a vida tivesse me dado muitos exemplos de coisas boas sendo destinadas para mim, muito pelo contrário.
Minha vida sempre foi extremamente difícil, nunca tive muito a presença da minha mãe já que ela trabalhava para garantir a comida do mês. Então, aprendi a lidar com tudo sozinha, cuidava da casa, do meu irmão, estudava sozinha e cresci assim, até terminar o ensino médio e me ver na opção de decidir qual faculdade eu faria. Obviamente, eu teria que trabalhar para poder bancar a faculdade, mas eu ia lutar para conseguir. Não é como se fosse muito difícil, já que eu sempre tive uma queda pela área da saúde e assim, escolhi ser enfermeira. Assumo que o medo de falhar era enorme, porém, estava ansiosa para o primeiro dia de aula, que seria exatamente amanhã.
Eu comprei um caderno e algumas canetas, imaginando ser necessário para poder acompanhar as aulas, anotar o necessário e também uma mochila, mas também comprei algumas coisas para meu irmão. Sim, aos vinte e cinco anos eu presenteava meu irmão que tinha dezessete.
Eu queria muito descansar, já que eram em torno de 17h e eu trabalharia das 19h até meia-noite, ser garçonete é um grande saco. Mas aproveitei que estava tudo estranhamente calmo em casa e me deitei no sofá, deixando a televisão ligada em um canal aleatório, não demorando muito para pegar no sono.
Estava andando por um jardim florido, totalmente lotado de flores tal como um dia ensolarado na primavera. Era possível perceber vários tipos de flores, algumas até que eu nunca havia visto antes e o céu, não tinha nenhuma nuvem. Quando percebi, um homem alto, talvez uns vinte centímetros a mais que eu, mais velho, usava óculos e tinha um cabelo preto um pouco jogado, sua roupa era escura e sapatos também escuros. Então, ele me abraçou e naquele momento, eu me senti a pessoa mais feliz do mundo. Era possível me ver como se fosse um filme, de cima. O sol batia em nossa pele, banhando-as com seu calor e eu gostava disso, porém gostava ainda mais da sensação que eu sabia que sentia quando estava ao lado daquele homem.
— Olha, amor… É para você. — ele pegou uma rosa grande e com alguns espinhos em sua parte inferior e me entregou com cuidado, para que eu não machucasse meus dedos.
— Uau… É tão bonita! — exclamei, pegando a rosa da mão dele e cheirando por puro extinto.
— Ela não tem metade da beleza que você tem, isso é certeza. — ele respondeu e eu automaticamente sorri.
Em seguida, era possível perceber o "cenário" ao meu redor ir mudando aos poucos. Naquele momento, estávamos em um hospital. Me peguei parada em um longo corredor e em minha frente havia uma certa movimentação, não era em um quarto e sim no posto de enfermagem. Caminhei até aquele local e pude ver aquele mesmo rapaz, ele estava vestido com um pijama hospitalar e por cima um jaleco branco. Eu me perguntava, como era possível alguém ser tão bonito assim? Deveria ser um crime, com certeza.
Assim que ele me viu, abriu um enorme sorriso em minha direção e caminhou lentamente até mim. Acabei fazendo o mesmo caminho até ele e ao ficarmos próximos, ele me deu um selinho rápido e sorriu novamente.
— É ainda mais bonita de perto, como consegue? — a voz dele saiu em um tom mais grave e eu, apenas o observei. — Eu sinceramente não consigo viver sem você, .
— Eu também te amo, … E eu queria muito saber responder essa pergunta, mas também não sei como. — acariciei o rosto dele rapidamente, porém acabei sentindo um golpe forte no rosto algumas vezes, me fazendo despertar.
Ao abrir meus olhos, pude sentir meu irmão batendo diversas vezes em meu rosto, por instinto eu o levantei e o empurrei levemente para longe.
— Para que fazer isso, garoto? Qual é o seu problema? — me sentei no sofá e percebi que já havia escurecido, olhei no celular e vi que estava atrasada.
— Você está atrasada, sua idiota. — me levantei quase que num pulo daquele sofá e corri para o meu quarto, por sorte o uniforme já estava arrumado, mas eu teria que correr para não chegar atrasada.
— Obrigada por me chamar, eu perdi a noção da hora. — falei mais alto para que meu irmão pudesse ouvir e fui até o banheiro. Escovei os dentes e passei uma maquiagem básica, delineado, batom e iluminador. Estava ótimo, quem ia reparar, né?
Foi difícil, mas ao observar pela janela aquela rua escura, eu sabia que viria uma longa noite a seguir. Trabalhar naquela lanchonete não era fácil, principalmente no período da noite. Mas por fim, decidi pegar minha mochila e coloquei alguns itens necessários como carregador do celular, blusa e um livro que eu estava lendo. Caminhei até a sala onde meu irmão estava e baguncei seu cabelo, dando um beijo de despedida. Eu odiava trabalhar naquela lanchonete, mas era dali que o dinheiro da faculdade vinha, então não poderia ter o privilégio de escolher onde e quando trabalhar.
Depois de caminhar por no mínimo uns quinze minutos, acabei chegando na lanchonete e de cara, já recebi uma expressão zangada do meu chefe. O senhor Albert sempre odiou atrasos, principalmente em dias como esse que sempre lotam a lanchonete. Corri até o balcão e comecei a atender as pessoas, depois de fazer um coque desajeitado em meu cabelo.
— Oi, posso ajudar? — perguntei para uma mulher sentada no balcão, ela tinha cabelos pretos ondulados, olhos claros e um sorriso marcante.
— Estou esperando meu noivo, mas acho que vou querer uma cerveja. — ela falou e eu rapidamente assenti, virei as costas e procurei uma boa cerveja que tinha ali. Quando voltei a atenção para ela, foi possível a ver abraçando um homem, que deveria ser seu noivo.
Acabei deixando a cerveja no balcão e antes que pudesse tirar minha atenção deles, o rapaz se virou e abriu a boca para falar, mas era como se não conseguisse encontrar as palavras. Eu, não sabia muito bem o que pensar, afinal, aquele cara era o mesmo cara que havia aparecido em meus sonhos e eu tinha certeza disso. Ficamos em uma espécie de transe bastante constrangedor, até que ele começou a falar, gaguejando um pouco.
— E-eu gostaria de uma cerveja também, por favor. — balancei a cabeça em afirmação e me virei, tentando disfarçar o nervosismo e tremedeira que havia me dado. Depois de segundos tentando me recompor, peguei a cerveja e o servi também.
— Fiquem à vontade, qualquer coisa é só me chamar. — tentei abrir um sorriso, mas na realidade eu queria mesmo é sumir dali.
E foi o que eu realmente fiz, caminhei até a parte de trás do estabelecimento, onde tinha uma pequena copa para os funcionários e apoiei as mãos na pia. Eu estava delirando, era isso? Porque não era possível eu sonhar com alguém que simplesmente nunca vi em minha vida.
Decido tomar um pouco de água e quando saio da copa, dou de cara com aquele mesmo homem e paro na porta, visivelmente surpresa por ele estar ali.
— Você pode me dizer onde fica o banheiro? — antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ele foi o primeiro a se pronunciar.
— É a esquerda, senhor. — ele fez uma breve careta, talvez por ter sido chamado de senhor.
Ele era mais velho que eu, chuto que ele tenha no máximo uns trinta e cinco anos. O que o torna bem mais velho do que eu.
— Obrigado. — ele assentiu com a cabeça e seguiu até o caminho indicado e eu voltei para o balcão.
Eu me sentia um tanto desconfortável vendo aquele casal sentado no balcão a minha frente, não era inveja, jamais. Mas eu tinha tido um sonho e tanto com aquele homem, por mais estranho que pareça. Era uma sensação esquisita, eu sentia falta daquilo que aconteceu no sonho, de me sentir amada, realizada e feliz, eu me sentia extremamente feliz nesse sonho.
Acabei despertando dos meus devaneios quando ouvi um "moça" no fundo, alguém me chamava. Era um outro rapaz que estava no balcão e eu sorri, tentando disfarçar.
— E aí, gatinha. Será que você poderia me ver uma cerveja? — respirei fundo ao ouvir a forma que ele havia me chamado, eu odiava ser tratada dessa forma.
— Claro. — Assenti, dando as costas e indo até a geladeira, em seguida o servi e me afastei.
Caminhei até uma das mesas que havia sido liberada, peguei os pratos, copos e levei até a cozinha. Depois, comecei a limpar com um pano com álcool.
— Moça! — ouvi uma voz feminina, era a noiva daquele cara.
Ela era extremamente simpática.
Caminhei para o meu posto inicial e me coloquei de prontidão.
— Pois não? — tentava o máximo possível fazer contato visual com aquele cara, a sensação era bastante confusa.
— Meu noivo aqui está com vergonha de fazer o pedido. Até parece que é tão tímido assim. — ela apontou para o moreno ao seu lado enquanto ria, o mesmo abaixou a cabeça e a balançou em negação. — Gostaríamos de alguns petiscos, alguns frios. Pode ser?
— Lis… — a voz dele em repreensão, porém pude perceber que estavam brincando entre eles.
— Ah, acontece. — acabei sorrindo, levemente sem graça. — Mais alguma coisa?
Ela negou e eu fui até a cozinha, pedindo para a Cher, a mulher que trabalhava na cozinha no período noturno preparasse a tábua de frios para que eu entregasse para eles. Enquanto não ficava pronto, voltei ao balcão e comecei a passar um pano com álcool nos lugares vazios, percebi que a tal mulher havia saído e estava só o homem e por algum motivo, meu coração começou a bater mais forte. O que era ridículo já que ele era comprometido.
Comecei a me xingar mentalmente, tentando me distrair ao limpar o balcão com certa força.
— Acho que se você esfregar com mais força, daqui a pouco tira a cor da madeira. — Ao ouvir a voz alheia, meu corpo estremeceu.
Por que ele estava falando comigo?
— Você sabe como é, tem que ficar bem limpinho. — falei num tom brincalhão, dando um breve sorriso.
— Isso é uma coisa boa. — ele falou, assentindo e eu parei de passar o pano, deixando-o de lado. — Eu te conheço de algum lugar?
Um calafrio atravessou todo meu corpo e por um instante eu pensei que seria possível ouvir meu coração batendo na distância em que ele estava.
— Bem, talvez… Você já veio aqui alguma vez além de hoje? — ele balançou a cabeça em negação. — Então acho que não.
Encolhi os ombros. O que mais eu poderia dizer?
Logo, a tábua ficou pronta e pude servi-los. Já que a mulher dele voltou rápido. O tempo também passou mais rápido do que eu esperava, mas aquilo com certeza era bom, já que estava mais perto do grande dia.
Mas vez ou outra eu me pegava pensando… E se fosse eu ali? Será que estou ficando louca?
Capítulo 2
All I can say is it was
Enchanting to meet you
Your eyes whispered: Have we met?
'Cross the room your silhouette
Starts to make its way to me
The playful conversation starts
(Enchanted - Taylor Swift)
Londres, 1943
Eu estava sentada no parapeito de um prédio, a noite estava gélida e o céu cheio de estrelas, a cidade iluminada por todas as luzes possíveis de prédios e das ruas. Sentia a brisa sobre meu rosto e a mesma bagunçava um pouco meus cabelos. Estava eufórica, mas não entendia o motivo.
— Cheguei! — uma voz masculina ecoou pelo telhado daquele prédio e assim que me virei, aquela figura tão conhecida e amada por mim estava lá esboçando o mesmo sorriso aconchegante de sempre. Parecia extremamente e verdadeiramente feliz em me ver.
Fui rapidamente em sua direção, me jogando em seus braços e o mesmo me levantou do chão, sem fazer muita força para isso. Em seguida, me colocou no chão novamente e ele me encarou.
— Trouxe seu jantar preferido… Já que você disse estar com desejo. — ele riu, mostrando a sacola em mãos.
Só assim, eu olhei para baixo e notei uma saliência em minha barriga. Caramba, como havia crescido.
— Nossa filha está com fome, não posso fazer nada. — brinquei e ele balançou a cabeça em negação, rindo. Em seguida, colocou suas mãos sobre meus ombros e guiou até a porta onde o mesmo havia saído há minutos.
Porém, ao entrar por aquela porta ao invés de estar numa casa, voltamos para o hospital. Eu estava em frente a um espelho no quarto de descanso e minha barriga estava ainda maior, deixando o pijama hospitalar bastante desproporcional. Eu estava tão feliz, sentia que faltava pouco tempo para que nossa bebê finalmente estivesse conosco.
Respirei fundo e sai daquele quarto, dando de cara com um corredor para a emergência. Já dei de cara com uma mulher que deveria ser enfermeira me entregando alguns prontuários e eu a segui. Aquele corredor era branco, possuía alguns detalhes de madeira envernizada no meio da parede e era possível ouvir os aparelhos.
— Tem um caso de esquizofrenia paranoide no leito dois, já chamamos a psiquiatria, mas nada de chegarem. — a mesma mulher falou e no fim do corredor eu pude ver anotando algo numa folha, bastante concentrado em seu trabalho.
— Chama de novo, por favor. — o paciente estava quieto em seu leito, mas qualquer um em sã consciência que trabalha em hospital sabe que alguém com esquizofrenia é tipo uma incógnita. Pode surtar a qualquer momento.
— As vozes estão me falando que você quer me matar… — o homem começou a falar baixo. — Você quer me matar, doutora? Me matar? Você vai me matar!? — A voz dele começou a aumentar e eu respirei fundo, caminhando lentamente até a porta.
— Calma, senhor. Ninguém vai te matar, você está seguro aqui. — levantei as mãos como se demonstrasse rendimento.
— Você vai, você vai… Mas eu posso te matar primeiro e depois me matar, são as vozes. As vozes estão muito altas. — ele gritou, batendo na própria cabeça e se levantou vindo em minha direção.
Eu deveria sair correndo, chamar alguém, mas simplesmente não consegui.
Tudo ficou em câmera lenta, a aproximação daquele homem, os barulhos dos aparelhos e meu coração. Eu conseguia ouvir meu coração.
As mãos daquele paciente seguraram firme em meus braços e em questão de instantes, me lançou para o chão com toda força que ele tinha, que era muita. Meu corpo havia sido brutalmente jogado no chão, mesmo sem ter certeza se conseguiria, tentei proteger a minha barriga. Esse era meu único pensamento.
O homem veio para perto de mim e colocou suas duas pernas entre as minhas, usando suas duas mãos para apertar meu pescoço. Minhas mãos tentavam desesperadamente tirar as dele dali, mas era quase impossível. Eu só pude ver algumas pessoas atrás dele, inclusive aparecendo com uma expressão desesperada em sua face e depois disso, tudo ficou escuro…"
Acabei despertando assustada, como se tivesse sido realmente sufocada. Eu respirava fundo, recuperando o ar.
— Mas que merda está acontecendo? — falei sozinha, passando uma das mãos sobre a testa.
Rapidamente, peguei o celular que estava ao lado da cama e vi que eram 7h24. Ufa! Não tinha perdido hora. Aproveitei para me levantar e ir ao banho. Toda a parte de higiene pessoal, havia demorado em torno de vinte minutos. Decidi colocar uma roupa casual, uma calça jeans e uma camiseta roxa com as letras NYU estampadas. Aquela era a minha maior felicidade.
Eu sentia um frio na barriga, um misto de emoções ao lembrar do sonho e também ao pensar em como vai ser. Obviamente, o primeiro dia não vai nem ter aula direito, mas estou feliz porque vou começar.
Depois de pronta, desci para a cozinha e vi minha mãe sentada sobre a mesa com uma xícara nas mãos.
— Bom dia, querida. — ela falou e sorriu fraco para mim.
— Bom dia, mãe. Chegou mais tarde do que eu ontem… — respondi, me sentando na mesa e pegando um copo, enchendo de suco dentro do mesmo.
— Pois é, eu fiz algumas horas extras. Você sabe, estamos precisando. — eu assenti.
A família da minha mãe achava um cúmulo eu ir para a universidade, achavam que era um capricho meu, mas minha mãe sempre bateu no peito e por mais que eu tenha entrado alguns anos atrasada, a falta de dinheiro e apoio familiar não me impediu de realizar o meu maior sonho.
— Também vou fazer algumas horas a mais sempre que for possível, nos finais de semana quando não tiver provas ou coisas do tipo, vou tentar trabalhar o dia todo. Quanto mais, melhor. — falei com convicção terminando o suco em quase um gole. — Cadê o ?
— Hoje o ônibus escolar passou um pouco mais cedo, então, ele saiu alguns minutos antes de você descer. — ela deixou a xícara na mesa e me encarou. — Está tudo bem, filha?
— Ah, sim… — suspirei um pouco chateada por não ter dado atenção para ele. — Estou sim, claro.
Minha voz falhou e ela fez uma careta.
— É algo com a faculdade? Pensei que estivesse feliz por estar realizando esse sonho. — ela me encarava, como se tentasse me ler.
— É também, mas… Eu ando tendo alguns sonhos estranhos, sabe? Eu sonhei com um homem ontem e o vi no mesmo dia, pela primeira vez… Como se fosse uma premonição ou sei lá. — era bom falar sobre aquilo com alguém que talvez pudesse me entender. — Hoje tive um sonho com esse mesmo homem, foi bizarro.
— Ok, mas é um sonho bom? — ela apoiou o braço na mesa e a cabeça em sua mão.
— O primeiro foi, parecia um conto de fadas. O segundo começou como um conto de fadas e terminou como um pesadelo. — fiz uma careta e passei as mãos sobre o pescoço, lembrando da última cena do sonho.
— É realmente bastante estranho… Talvez você tenha gostado um pouco dele. — ela abriu um sorriso e eu ri junto, balançando a cabeça.
— Eu gostei mesmo, do que o meu cérebro inventou sobre ele. — encolhi os ombros e me levantei, olhando as horas no celular. — Vou sair um pouco antes para andar um pouco pelo campus, até mais tarde.
Dei um beijo na testa dela, coloquei a mochila nas costas, o celular no bolso e segui o meu caminho até o campus da NYU. Eu não tinha feito esse caminho a pé ainda, então decidi dar uma olhada no maps para ver onde seria melhor. Porém, depois de muito observar, acabei ficando boquiaberta ao perceber que eu demoraria horrores para chegar lá se fosse a pé.
Me xinguei mentalmente, já que teria que usar o dinheiro da comida de hoje para o táxi até lá. E assim o fiz.
O trajeto do Bronx até a NYU foi mais rápido e confortável. Quando cheguei, já havia passado das 8h e eu teria alguns minutos para conhecer o local. Eu já tinha feito antes, mas queria olhar de novo, ver que eu não estava só em um sonho.
Todos os detalhes de vidro do local eram simplesmente magníficos, o tom amadeirado das paredes deixavam o ambiente confortável. Que sorte a minha de estar aqui.
Quando deu a hora da primeira aula, eu fui uma das primeiras a chegar no auditório. Deixei minha bolsa no banco ao lado e suspirei bastante ansiosa, em seguida, peguei meu celular e enquanto não começava, eu mexia no mesmo olhando algumas fotos antigas.
Conforme os minutos se passaram, o auditório foi enchendo de gente. Devia ter em torno de quase cinquenta pessoas ali, uma menina loira se sentou ao meu lado e deu um sorriso, quando eu ia perguntar seu nome, a nossa atenção foi tomada por um barulho de microfone.
— Bom dia, alunos. Sejam bem vindos ao primeiro dia do resto de suas vidas. — uma mulher negra, alta, de cabelos compridos havia começado a falar. Ao lado dela, se encontrava um outro homem, ele tinha um cabelo ralo e grisalho, ouvia a mulher falar. O que me surpreendeu de verdade, fazendo com que eu entrasse numa espécie de transe ou sei lá o que, foi que o mesmo homem dos meus sonhos entrou com uma mochila. Porém, ele não subiu para se juntar aos alunos e sim com os outros dois professores.
Eu não sabia se ficava surpresa, ou se saía correndo. Eu teria que conviver com ele todos os dias? Num hospital? Onde a maioria dos meus sonhos com ele acontecem? Meu Deus… Isso não pode estar acontecendo comigo.
Meus olhos ficaram praticamente colados no homem de óculos e mochila nos ombros, seu olhar era terno e ele tinha um sorriso animado nos lábios. Ele era sem dúvidas o homem mais bonito que já vi em meus vinte e cinco anos.
— … Hoje vocês vão ter apenas introduções sobre algumas matérias, mas a partir de amanhã vocês não terão moleza. Qualquer coisa podem falar comigo, com o Dr. Victor Gómez ou o Dr. .
… Então esse era o nome dele. Será que é o mesmo nome do sonho? Não me lembro bem.
— E aí, pessoal. — pude ouvir a voz que estava sempre presente em meus sonhos. — Como vocês podem ver, a turma é um pouco menor esse ano, mas isso é bom. Vocês devem se empenhar, devem estudar para lidar com vidas e não para fazer provas, não se esqueçam disso. — seu olhar parou sobre mim e ele não falou mais nada, apenas sustentou seu olhar o suficiente para algumas pessoas me encararem também. O que me fez corar e abaixar a cabeça.
— Então… — O homem pigarrou e deu uma risada, tentando disfarçar e então, tirou a mochila das costas e jogou no chão. — Vamos ver… Antes de tudo, quero fazer uma dinâmica com vocês. Já que na enfermagem o trabalho será sempre em grupo, quero que se conheçam melhor. Primeiramente vou falar sobre mim e depois façam o mesmo, ok?
A turma assentiu e eu senti um breve frio na barriga, mas respirei fundo tentando me controlar.
— Meu nome é , nasci em 1984, vamos ver quem é bom em matemática aí para saber a minha idade de cabeça. Me formei um pouco mais velho, mas isso nunca me impediu de fazer o que mais gosto. Acabei fazendo pós-graduação em enfermagem intensivista e é onde mais gosto de trabalhar. Na correria. — brincou, andando de um lado para o outro.
E então, assim seguiu com os outros alunos se apresentando. Eu estava mais para o fundo, então seria uma das últimas.
Sentia o olhar de sobre mim algumas vezes, mas eu tentava disfarçar o máximo possível, porque queria entender o que estava acontecendo comigo.
— Você. — ouvi a voz dele e o mesmo apontando para mim, com um sorriso em seus lábios.
— Bem… Eu não sou muito boa falando sobre mim, mas vou tentar. Meu nome é , tenho vinte e cinco anos, minha entrada na faculdade foi um pouco diferente do que as outras pessoas, mas isso não me impediu de estar aqui. Sempre gostei de enfermagem, principalmente depois que tive que passar um tempo no hospital com meu pai. Quero poder trabalhar na emergência e ajudar muitas pessoas, assim como fizeram com meu pai até ele falecer.
Fui sincera, falando tudo o que veio à minha mente. Certeza que eu estava com a bochecha vermelha de tanta vergonha, mas a superei.
O resto daquela aula havia sido legal, tinha dado introdução dos fundamentos da enfermagem e por mais que seja a parte burocrática, eu não achei tão ruim assim. Assim que a mesma acabou, havíamos sido liberados. Não tinha sido o horário todo ocupado, mas já era quase meio-dia e eu estava faminta. Nesse instante, acabei me lembrando que havia usado o dinheiro para pegar o táxi e murchei no mesmo instante enquanto guardava minhas coisas.
Assim que o fiz, suspirei e fui em direção a saída. Mas antes que pudesse realmente sair, fui impedida por uma voz masculina me chamando.
— ! — era ele e eu me estremeci por completo.
Me virei para o rapaz e sorri fraco, um pouco tímida.
— Sim? — perguntei, curiosa do porquê ele havia me chamado.
— Acho que descobri de onde nos conhecemos. — ele falou e eu senti um frio na barriga, imaginando quais hipóteses ele poderia dar. — Já devo ter visto você por aqui, talvez quando veio fazer matrícula, conhecer o local…
Ele dizia, mas parecia mesmo era que estava mais tentando convencer a si mesmo disso.
— Bem, eu não vim conhecer o local e quando vim fazer a matrícula, os professores estavam de férias. — respondi simplesmente, encolhendo os ombros.
— Mesmo? Dessa eu não sabia… — ele coçou a nuca e eu sorri um tanto sem graça. — De qualquer forma, agora vamos ter bastante tempo… Digo, eu, você e os alunos da sala. — acabei sorrindo sincera com o que ele havia dito. — Está indo almoçar?
Ele perguntou, dando alguns passos para trás a fim de pegar sua mochila. Assim que o fez, a jogou em seus ombros e caminhou até mim novamente.
— Não vou… — respondi, mexendo na alça da mochila em meus ombros.
— Não? Ficou a manhã toda em aula e não está com fome? — ele perguntou, curioso.
Estou morrendo de fome.
— Na verdade não. — Assim que pronunciei aquelas palavras, meu estômago acabou fazendo um barulho bastante alto, me deixando quase roxa de tão envergonhada.
— Acho que seu estômago está dizendo outra coisa. — ele falou, apontando para a saída do auditório já que havia ficado apenas nós dois ali.
Comecei a caminhar na direção da saída, pensando em uma desculpa que daria para falar o porquê não iria comer.
— Acho que vou me manter na dieta. — falei em um tom de brincadeira, mas o mesmo levantou a sobrancelha e me encarou, dessa vez um pouco mais sério.
— Se está passando fome não é dieta. Você sabe o quanto pode fazer mal ficar de estômago vazio por tanto tempo. — ele me encarava, como se eu fosse aqueles programas de televisão que te prendem do começo até o fim.
— É que eu esqueci o dinheiro em casa, então não tenho como comer. — menti.
— Ah! — ele exclamou. — Isso não é um problema. Eu pago para você.
— Não, . Até parece, não mesmo. — balancei a cabeça com certa urgência o que ele fez com que ele desse risada, porém, percebi que havia agido com mais intimidade do que deveria e fiquei um pouco sem graça. — Digo, professor.
— Não aceito não como resposta, . — ele falou, enquanto chegávamos no refeitório. — Pode me chamar de mesmo, não tem problema.
— Tudo bem… — esfreguei as mãos, ficando na fila logo atrás dele. — Amanhã, assim que eu chegar, te devolvo.
Ele se virou para mim, balançando a cabeça em negação.
— Não precisa. Encare como um presente de boas vindas. — deu um sorriso, assim como em meus sonhos.
Aquilo fez com que eu sentisse um arrepio e abaixasse a cabeça levemente envergonhada, o que durou pouco tempo já que tirei coragem de algum lugar desconhecido para fazer uma piadinha.
— Vai pagar almoço para todos os seus alunos como presente de boas vindas? — perguntei, ainda tendo um sorriso tímido nos lábios.
— Só para os que me deixarem com a impressão de que os conheço a vida toda.
Antes que eu pudesse responder, ele se virou e foi até o balcão, pegando uma bandeja e entregando para mim e depois, pegou outra para si, servindo com a comida que queria ali.
O refeitório era bastante bonito, parecia organizado, suas paredes brancas traziam uma sensação de limpeza absoluta. Tinha tanta variedade de comida ali, eram coisas que eu nunca tinha visto na minha vida. Coisas que talvez fossem boas demais, mas que eu nunca tinha tido dinheiro para sequer experimentar. Acabei me servindo, colocando várias coisas na bandeja e deixei com que pagasse, um pouco tímida por isso, mas não falei mais nada a respeito do que ele havia proposto.
Caminhei para uma mesa, me sentaria sozinha já que talvez fosse um pouco estranho ficar tão próxima de um professor logo no primeiro dia, sabendo que ele é noivo e que ele toma conta dos meus sonhos e pensamentos. Porém, me acompanhou até a mesa e se sentou, ficando de frente para mim.
— O que vão dizer do professor almoçando com a caloura logo no primeiro dia de aula? — falei, abrindo meu suco e colocando o canudo no mesmo.
— Não que eu me importe muito com o que vão dizer, mas tecnicamente já nos conhecemos. — ele proferiu como se fosse óbvio e eu fiquei um tempo olhando fixo para ele, tentando digerir o que o homem falou.
— É… Eu acho. — acabo dando um sorriso nervoso, essa sensação de sempre estar nervosa e ansiosa perto dele, era muito ruim.
— Me conte sobre você então, . — ele falou, enquanto mexia em sua comida, antes de levá-la até a boca.
— Acho que eu já falei tudo o que consigo lá na sala de aula. — ri, dando um gole no suco de laranja que havia pegado.
— Não gosta de falar sobre si? — questionou, me fazendo levantar os ombros.
— Olha, na verdade eu tenho uma grande dificuldade em fazer isso. — acabei rindo, tentando conter a timidez.
Era engraçado porque desde o dia em que comecei a sonhar com , nunca imaginei que o encontraria aqui, nem que falaria com ele. Achei que poderia ser apenas uma peça que minha mente estava pregando.
— Geralmente, pessoas assim são as que mais têm coisas interessantes para contar.
As palavras de soavam extremamente doce, seria muito difícil aguentar esses cinco anos convivendo com ele se eu continuar sonhando daquela forma.
— Ai que você se engana. — falei com certa animação. — Sou super simples, aquele tipo de pessoa sem novidades e sem muitas coisas para contar.
Ele riu, abaixando a cabeça para fitar a comida e deu uma garfada no seu alimento.
— Por que está rindo? É verdade, eu juro. — levantei os braços em rendição.
— É o que veremos. — ele sorriu novamente.
E o resto daquele momento passou quase voando de tão rápido. Eu não sabia decifrar o que estava sentindo e nem o que tinha acontecido. Por que ele havia sido tão bonzinho comigo? Será que ele sonhava comigo também? Queria tanto poder perguntar. Mas o fato era que eu estava encantada, se é que eu poderia usar essa palavra.
Já eram em torno de oito horas da noite e eu estava na lanchonete. Aquele local com certeza precisava de uma pintura, visto que as paredes próximas das janelas estavam descascando, mas eu jamais falaria isso para o chefe, já que ele era um senhor bem chato.
Eu estava limpando o balcão quando de soslaio, acabei vendo uma silhueta que não saía de meus pensamentos e olhei automaticamente para ele, que já estava com um lindo sorriso nos lábios.
usava uma camisa xadrez vermelha e preta de manga longa, uma calça escura e tênis da mesma cor, seus cabelos jogados, barbas por fazer e como sempre e as mãos no bolso.
— Professor , o que te traz até aqui? — tentei ser o mais simpática possível, mas não posso mentir que sentia meu interior estremecer a cada vez que o via, juntamente com uma sensação estranha de nostalgia.
— Já te pedi para que não me chamasse assim. Faz com que eu me sinta com uns sessenta anos. — fez uma careta, se sentando de frente para mim, justamente onde eu estava limpando.
— Desculpa, vou tentar lembrar disso da próxima vez, prof… ! . Então, o que vai querer hoje? — questionei, deixando o pano com álcool embaixo da pia e voltei minha atenção para ele.
— Vou querer uma cerveja. — ele pediu simples e eu prontamente fui buscar o que ele havia pedido. Em poucos instantes, eu já tinha aberto a long neck e entregado para ele.
— Qualquer coisa você pode me chamar. — fazia parte do meu trabalho, essa coisa de estar sempre a disposição do cliente e tal. Mas por sorte, hoje a lanchonete estava vazia.
— Se não for atrapalhar o seu trabalho, me fazer companhia seria uma boa. — ele sugeriu com uma expressão no rosto que eu não soube decifrar, mas foi o suficiente para que eu aceitasse sem pensar duas vezes.
— Enquanto estiver sem movimento, tudo bem. — respondi sinceramente e ele sorriu. — O que te trouxe até aqui? Além de querer beber uma cerveja, é claro.
Poderia parecer um pouco curiosa, até mesmo inconveniente, mas eu só queria puxar assunto. Tudo bem que o silêncio não deveria ser algo torturante, já que a presença de torna tudo estranhamente mais leve.
— Vim arejar a cabeça, na verdade. Muita coisa acontecendo, a cabeça fica a mil. — ele falou e eu assenti, sabia bem como era isso.
— Acho que entendo perfeitamente o que está falando. — concordei, apoiando no balcão.
Ele não respondeu, apenas balançou a cabeça positivamente e manteve seu olhar sobre mim, me fazendo corar.
Puta merda, por que ele fica me encarando desse jeito? As coisas já são tão difíceis quando ele está por perto.
— Até que horas costuma trabalhar aqui? — Questionou, me tirando do transe com um pequeno susto.
— Meia-noite. Espero o Sr Albert fechar e então vou embora. — fiz uma careta quase imperceptível e ele sorriu.
— Que merda… E como vai embora? — ele voltou a perguntar e eu fiquei brevemente curiosa para saber o porquê de todas essas perguntas vindo dele.
— Normalmente vou andando, minha casa fica a uns quinze minutos daqui. — falei normalmente, vendo um casal entrar no local e prontamente me distanciei. Ainda que gostasse daquilo, precisava trabalhar.
O casal que não parecia ter mais de vinte e cinco anos, foram servidos rapidamente. Tinham escolhido apenas cervejas, como era o costume e então, depois disso, me aproximei de .
— É muito perigoso andar sozinha por aqui, . Não existe outra forma de você ir embora? — isso era realmente uma preocupação, que fofo.
— Não tenho saída, não tenho ninguém para fazer isso por mim e infelizmente não tenho habilitação, nem carro, nem mesmo uma bicicleta.
Ele não respondeu, apenas balançou a cabeça e pude perceber que ele estava pensativo. Eu queria muito saber o que se passava na cabeça dele, queria mesmo. Então, as horas foram passando e faltavam praticamente cinco minutos para fechar o estabelecimento, porém, ainda estava ali.
— , psiu. — Sr Albert me chamou, ele estava próximo a cozinha.
O Sr Albert era um senhor de aproximadamente setenta anos, eu o conheci quando vim procurar emprego há três anos e ele cedeu. Sempre foi bastante respeitador, porém, como veterano do exército, ele era fechado.
— Sim? — questionei, retirando o avental que vestia.
— Precisa dizer ao seu amigo para ir embora. Não estou querendo ser grosseiro com ele por você, mas está bem explícito o horário que fechamos.
Eu não queria problemas então apenas concordei e fui em direção a , mas dessa vez do lado de fora do balcão. Ele estava… Talvez um pouco bêbado? Não sei se duas cervejas seriam o suficiente para deixá-lo bêbado, mas ele estava aéreo.
— ? Nós vamos fechar, estou indo embora. — quando o chamei, parece que ele acordou de um transe e me olhou, dando um sorriso super fofo.
— Acho que eu me perdi no horário. — ele riu, se levantando da cadeira e passando as mãos levemente pela camisa.
— Acontece, é um lugar aconchegante. — acabei rindo junto. — Vou só pegar a minha bolsa.
Fui em passos largos até a salinha onde tinha deixado minha mochila e volto rápido, percebendo que ele tinha ficado me esperando.
— Aqui é aconchegante mesmo. — ele respondeu só quando eu cheguei.
Após isso, caminhamos em direção a saída em silêncio, mas não era nada constrangedor, era um silêncio confortável. Quando chegamos na calçada, me virei para e sorri.
— Eu vou por aqui, até amanhã, . — acenei brevemente e quando ia me virar para caminhar em direção a minha casa, o rapaz segurou meu braço.
Assim que senti o toque dele em meu braço, senti uma espécie de eletricidade percorrer desde o braço até o corpo todo e pude vê-lo com uma roupa medieval, sorrindo para mim. Talvez ele tenha sentido o mesmo, porque soltou meu braço com certa rapidez e balançou a cabeça.
— Eu… Eu… Te levo embora. — ele sugeriu e eu neguei.
— Não precisa, . Faço esse caminho há três anos. — ajeitei a mochila nas costas, ainda um pouco atordoada.
— Eu insisto. — ele novamente sugeriu e eu cedi. Seria estranho se eu não cedesse.
— Tudo bem. — assim que aceitei, novamente ele sorriu e apontou para o seu carro.
Fomos caminhando até o carro que estava estacionado no outro lado da rua, era um carro preto, nada tão chique, mas era bonito. Ele destravou o carro, apontou para que eu abrisse a porta e assim o fiz, entrando no carro logo em seguida.
— Realmente não precisava perder seu tempo me levando em casa. — comecei a falar, enquanto o mesmo ligava o móvel.
— Eu sugeri, . Está tudo bem. Só coloca no meu celular o endereço, por favor. — disse me entregando o celular desbloqueado.
Era estranho porque estávamos agindo como se nos conhecêssemos há muito tempo, era isso o que passava para mim, uma sensação de estar em casa, de conforto.
Deixei o endereço no gps e entreguei novamente o celular para ele, me ajeitando no banco do carro. Ele ligou o rádio enquanto começava a dirigir, era possível notar a música que tocava e eu realmente adorava ela.
— Gosto dessa música. — falei sorrindo, enquanto batucava na própria perna.
Say it's true, it's true
(Dizem que é verdade, é verdade)
And we can break through
(E que nós podemos vencer)
Though torn in two
(Embora partidos em dois)
We can be one
(Nós podemos ser um)
(...)
I will be with you again
(Eu estarei com você novamente)
I will be with you again
(Eu estarei com você novamente)
Enquanto cantava new years day do U2, pude perceber de relance que ele me encarava várias vezes com um sorriso no rosto.
O caminho foi mais rápido do que eu queria, mas enfim estava em casa. Assim que estacionou em frente, eu soltei o cinto e me virei para ele meio sem jeito, não sabia se acenava, estendia a mão, abraçava ou sei lá. Por fim, eu apenas acenei.
— Muito obrigada por ter me trazido, . Você me ajudou muito hoje. — comentei sorrindo, ajeitando a bolsa no ombro.
— Não precisa agradecer, está tudo bem. — ele assentiu e sorriu também.
O carro estava escuro, apenas as luzes da rua iluminavam ali, o que era bem pouco. Sem saber o que dizer, ficamos nos encarando por alguns segundos até que eu saí do transe e abri a porta.
— Tudo bem, até então. — acenei novamente, já fora do carro e ele acenou de volta, dando uma piscadela em seguida.
Fechei a porta e queria morrer. Como pode um ser humano ter pego toda a beleza do mundo para si?
Caminhei em direção a entrada de casa e assim que entrei, pude ouvir o barulho baixo do carro dele saind
Capítulo 3
Londres, 1943
’s POV
I knew I loved you before I met you
I think I dreamed you into life
I knew I loved you before I met you
I have been waiting all my life
(Savage garden - I knew I loved you)
Uma das coisas mais difíceis das quais tive que suportar, nenhuma delas superaram ver desfalecida no chão do quarto de um paciente, a culpa pairava sobre a minha mente. Eu não deveria ter a deixado sozinha, devia ter pedido para que ela ficasse em casa no final da gestação. A única reação que tive, foi afastar aquele cara de cima dela, o empurrando com toda a força, era literalmente como se a minha vida dependesse disso, porque dependia. O homem foi arremessado para longe e eu me ajoelhei ao lado da minha .
— , amor, pelo amor de Deus, acorde. — Minha voz ecoava no cômodo em puro desespero com a ausência de resposta dela, o que me fez a pegar em meus braços rapidamente e correr em direção a uma sala vazia, gritando algum médico disponível para socorrê-la. — ALGUÉM ME AJUDA AQUI!
Era desesperador, o coração dela havia parado e eu simplesmente estava em extrema agonia. Naquele mesmo instante, comecei a massagem cardíaca nela e outros médicos foram chegando.
— Agora deixe que cuidaremos disso. — um dos colegas que era médico havia chegado, junto com várias pessoas da equipe que trabalhava junto.
Eu estava com meu corpo curvado para o de , massageando seu peito a fim de ressuscitá-la. Eu sentia meus olhos arderem, tinha certeza que estava chorando, percebia a forma que as pessoas me olhavam.
Eu não poderia perdê-la.
— Não! Eu não vou deixá-la aqui. — o desespero batia mais alto e eu continuava a massagem cardíaca. Porém, logo em seguida, um dos colegas acabou pegando meu braço e me afastou dali, pude ver de soslaio outros assumindo os cuidados.
— , você precisa deixar eles cuidarem disso. Mantenha a calma, vai ficar tudo bem. — Richard era um médico mais antigo ali, ele estava no lado de fora da sala comigo, na tentativa de me acalmar, mas era totalmente em vão.
— Ficar tudo bem? Você por um acaso viu como minha esposa está? Chegou a ver o rosto dela? A quantidade de sangue? — falei sem pausa, em puro desespero. — Meu Deus… A bebê… Você precisa ver como a bebê está, por favor.
Ele assentiu e saiu dali, e eu, apenas deixei meu corpo escorregar pela parede e caí sentado, colocando a cabeça entre as pernas e chorando com medo de perder a minha vida. era a minha vida.
New York, 2024
Acordei ofegante como se realmente estivesse chorando, nervoso e preocupado. O sol já batia no quarto e com a claridade era possível ver que Lis dormia ao meu lado. Me sentei na ponta da cama e passei as duas mãos no rosto, eu queria muito saber o que estava acontecendo comigo… Por que essa menina não saía da minha cabeça? Dos meus sonhos? E são sonhos tão reais que eu realmente não acreditei quando a vi pela primeira vez, pensei que minha mente estava me pregando uma peça. Ela era ainda mais bonita pessoalmente, porém, parecia menos feliz.
Olhei ao redor e me situei novamente, estava em 2024, numa casa diferente e com uma mulher diferente da que ocupa meus sonhos. Ao pegar o celular, pude ver que não estava atrasado, daria para tomar um banho tranquilamente antes de ir até a faculdade. Tinha passado duas semanas desde o primeiro dia de aula e eu havia ficado estranhamente próximo de . A sensação de familiaridade, conforto, lar e… Até mesmo… Eu a via e sentia que a amava, era uma sensação diferente. Não sabia como isso era possível e me sinto mal por Lis.
— Ótimo dia. — falei sozinho e levantei da cama, indo em direção ao banheiro.
Tomei um banho rápido, escovei os dentes e me troquei. Tinha decidido me vestir com uma camiseta cinza e calça preta porque eram simplesmente as primeiras peças que vi no guarda roupas. Em seguida, pude ver Lis se espreguiçando e dei um sorriso para ela.
— Bom dia, Lis. — falei, enquanto calçava o tênis.
— Bom dia, meu amor. — ela sorriu.
Lis era uma mulher doce, amorosa, mas também era decidida e guerreira. Estávamos juntos por três anos e recentemente decidimos noivar e morarmos juntos. Ela realmente não merecia que eu a tratasse daquela forma.
— Daqui a pouco estou saindo, vou levar o pessoal para conhecer o hospital hoje. — estava um pouco mais animado que o normal, afinal, eu sabia o quanto aquilo era importante quando se estava na graduação.
— É mesmo? Percebo que está ainda mais animado com a turma desse ano. — a mulher fez um comentário e eu acabei me sentindo um pouco mal, minha animação tinha nome, sobrenome e um lindo sorriso tímido.
— É, talvez um pouco. — concordei, um pouco aéreo.
O silêncio reinou depois disso, eu havia terminado de me arrumar e tinha ido até a cozinha. Tomei um café rápido e segui meu rumo em direção a universidade, após me despedir de Lis.
Já era em torno das dez da manhã quando tinha acabado o assunto que estava lecionando, para finalizar, havia passado também uma lista de exercícios para o pessoal e depois iríamos ao hospital.
Meus olhos percorreram aquelas mesas, mas pararam em uma pessoa específica. estava extremamente entretida naquela lista de exercícios e ao seu lado, um rapaz que aparentemente tentava puxar assunto com ela. Confesso que a aproximação daquele cara me deixou um pouco incomodado, mas quem sou eu para dizer alguma coisa?
Me mexi na cadeira, como se tivesse literalmente algo me cutucando ali. Automaticamente, me levantei de onde estava e caminhei em direção a eles.
— E aí, pessoal. Estão conseguindo fazer os exercícios? — questionei, atraindo a atenção dos dois, que agora olhavam para mim.
— Na verdade, sim, professor. Valeu! — o cara proferiu.
Eu havia esquecido o nome dele e nem foi de propósito, eu só não sou tão bom com nomes, pelo menos não de algumas pessoas em questão.
ficou em silêncio por alguns instantes e me deu um sorriso.
— Estudei bastante disso ontem, então sem problemas até agora. — A forma que ela falava, se expressava, toda calma e fofa, me fazia sorrir junto, mas também me fazia dar cambalhotas por dentro.
Nunca havia sentido isso antes.
Aquele cara que estava ao lado dela, me deixava com uma sensação ruim de verdade.
— Que bom, sabia que mandaria bem. — assenti com a cabeça, a vendo sorrir timidamente e sai dali, engolindo o ciúme e talvez um pouco de orgulho também.
Voltei para perto da minha mesa e virei para a turma novamente.
— Assim que terminarem, deixem os papéis aqui na mesa e vistam o jaleco, daqui iremos até o hospital. — peguei o jaleco na mochila e vesti, para aguardar os alunos.
Logo, pude ver que começou uma certa movimentação e algumas pessoas traziam suas folhas, as deixando na minha mesa, fez o mesmo e voltou onde estava.
Estávamos caminhando pelo corredor de uma das alas menos cheias do hospital, antes de chegar ali, tinha conversado com todos os alunos e os pedi respeito, silêncio e atenção, principalmente.
POV
Estávamos no corredor do hospital e com certeza todo mundo estava extremamente animado por estar aqui, conhecendo o campo onde trabalharemos daqui uns anos. A sensação de estar num hospital ao lado de é totalmente estranha, mas eu tentava me distrair com a nova amizade que havia feito. O nome dele é Richard. Ele deve ter a minha idade, cabelos claros penteados para trás, olhos claros marcantes e um bigode que eu acho particularmente estranho. Também sentia certa familiaridade perto dele, mas não o mesmo tipo de familiaridade que senti com , não chegava nem perto disso.
— Animada? — sai do transe ao ouvir a voz de Richard ao meu lado.
— Com certeza… Estar do outro lado, agora como profissional é totalmente diferente. — comentei, dando um sorriso fraco e desviei meu olhar do dele, podendo ver que me encarava.
Depois que Richard se aproximou, eu pude notar um comportamento diferente vindo de . Talvez fosse coisa da minha cabeça, certa vontade de vê-lo com ciúme de mim, já que os sonhos com ele ainda continuavam, mas talvez fosse verdade. Só que eu carregaria essa dúvida comigo.
Vale ressaltar que desde o dia que o conheci de verdade, sempre vai à lanchonete que trabalho, principalmente próximo do meu horário de saída e me leva para casa, todos os dias.
Que tipo de professor faria isso? Eu não conheço nenhum, além dele, é claro.
— , por que não se inscreve em uma fraternidade? — Richard fez com que eu saísse de meus pensamentos novamente.
— Ah… Eu não sei se teria condições de pagar os gastos mensais. É complicado, você sabe que eu trabalho bastante pra conseguir manter a faculdade e tal. — respondi, ajeitando o jaleco branco em meu corpo.
— Eu sei, estuda a possibilidade e qualquer coisa pode entrar na minha. — eu assenti, voltando a prestar atenção no que dizia.
— Esse costuma ser o lugar mais frequentado pelos enfermeiros, o posto de enfermagem. É aqui que as medicações são preparadas, os prontuários são atualizados e muito mais. Aqui é o ponto chave para nós. — seu olhar caiu sobre mim e eu não pude deixar de dar um sorriso tímido.
Naquele instante, foi possível me lembrar do sonho que tive com ele em um corredor do hospital próximo ao posto de enfermagem, antes de acontecer aquela tragédia.
Continuamos todos acompanhando , ele nos mostrava cada canto daquele hospital, menos o centro cirúrgico. Esse ficaria para outro dia e eu estava animada para conhecer essa parte também.
Já era em torno de 16h e havíamos sido liberados, eu me encontrava na frente do hospital e segurava o jaleco em meus braços, pensando se deveria guardá-lo na mochila ou segurar como estava até chegar em casa.
— O que achou do hospital? — acabei tomando um susto ao ser surpreendida pela voz de logo atrás de mim.
— Meu Deus, . Que susto! — coloco a mão no peito, visivelmente assustada.
— Desculpe, . Não foi a minha intenção. — ele riu baixo, ajeitando a mochila em seus ombros.
— Eu sei. Então, eu adorei o hospital. Sendo bem sincera. — sorri, bastante empolgada com o leque de possibilidades que eu teria para trabalhar. — Me trouxe sensações… diferentes.
Ele balançou a cabeça e respirou fundo, naquele momento, por um breve instante, parecia que ele realmente entendia o que se passava pela minha cabeça e sabia do que eu estava falando.
— Espero que tenham sido boas. — ele sorriu.
O céu estava particularmente azulado naquele dia, não havia nuvens para atrapalhar a claridade, era lindo.
— A maior parte dela, sim. — balancei a cabeça em concordância, sentindo meu celular vibrar no bolso. Era uma mensagem do meu irmão que perguntava onde eu estava e se estava bem. — Bom, tenho que ir. Antes de ir para a lanchonete, tenho que passar em casa, tomar banho e comer alguma coisa.
— Eu te levo embora. — mal terminei de enumerar as coisas que eu ia fazer e ele já se prontificou.
Assim fica tão difícil, .
— Não precisa, … Não quero incomodar. Já não basta todas as caronas que você me dá desde que nos conhecemos de verdade. — fui sincera, não queria ser aquela pessoa que abusa da bondade alheia. Porque essa ação dele é apenas isso, um ato de bondade.
— , eu já te falei que não é incomodo algum. Não me importo em fazer isso, até prefiro. — ele encolheu os ombros, pegando a chave do carro em seu bolso da calça.
— Tudo bem… Por que até prefere? Não entendi. — questionei, aceitando novamente a carona dele.
Fico me perguntando se sou uma pessoa horrível por aceitar esse tipo de coisa, tendo em vista o relacionamento dele. Tudo bem que nunca fizemos nada de errado, tenho certeza que isso nunca passou pela cabeça dele.
— Porque quando te dou carona sei que estará segura.
Não consegui poupar um sorriso e abaixei a cabeça, com certeza havia ficado corada. Ele começou a caminhar e eu fui atrás dele, sem saber o que dizer.
— Por que você tem tanta preocupação com isso? — resolvi perguntar, afinal era uma dúvida genuína.
Caminhamos até o carro por alguns instantes, eu fui em direção a porta do passageiro e ele do motorista. O homem me olhou por cima do automóvel, como se procurasse as palavras certas para usar. Pelo menos era o que parecia.
— Sinceramente, … Eu não sei explicar. Sinto uma necessidade um tanto estranha e enorme de te proteger e te ver bem. Isso deve parecer ridículo, mas eu não suportaria ver algo acontecendo contigo.
Assim que disse aquelas palavras, abriu a porta do carro e entrou, eu logo fiz o mesmo. Ainda em silêncio, dessa vez era eu quem procurava as palavras certas para usar, só que não conseguia.
— Eu não sei o que dizer. — respondi sincera e ele sorriu, saindo com o carro em direção a minha casa.
— Espero não parecer um estranho, não é esse tipo de sensação que pretendo passar. — eu o encarava enquanto ele dirigia, era uma cena particularmente bonita.
— Não parece… Talvez fosse estranho se eu dissesse a você que sinto uma sensação estranha a seu respeito também. Familiaridade, cumplicidade, lar. É esquisito porque eu nunca me senti assim antes. — encolhi os ombros ao criar coragem de dizer aquelas palavras e ele me olhou algumas vezes.
Eu não consegui decifrar o olhar dele, mas ele tinha um brilho diferente e ficava me perguntando o que se passava na mente dele naquele momento.
Acabamos ficando em silêncio depois daquelas palavras, o caminho até em casa não demorou. O som da música no fundo era o que não tornava tudo extremamente quieto. Ele estacionou em frente a minha casa, o lugar que ele já estava acostumado a aparecer.
— Chegamos, mais um dia. — ele disse com um sorriso nos lábios, o sorriso que era capaz de derreter qualquer um.
— Acho que você já veio em casa mais do que alguns familiares.
Ele acabou dando uma gargalhada com o comentário que eu havia feito e respirou fundo, quase no mesmo momento que eu.
— Não sei se isso é uma coisa boa… Digo, por ser seus familiares. Por mim, é ótimo. — tirou o cinto, virando brevemente para o meu lado.
Eu tinha um pouco de medo do que poderia acontecer.
— Na verdade, eu prefiro mil vezes você aqui do que eles.
O sorriso ainda se manteve nos lábios de , eu soltei o cinto de segurança também e fiquei o encarando.
Estávamos numa espécie de transe, era possível reparar que ele olhava meus olhos, em seguida a boca. Eu tinha a impressão que ele queria me beijar, mas não era justo. Ele tinha a Elisa e eu jamais seria a outra, embora sentisse algo por ele.
— Acho que vou querer entrar, assim espero seu horário de ir trabalhar e te levo também. — ele quebrou o transe e eu novamente respirei fundo, mas dessa vez, era um misto de tristeza com alívio.
— Já está se convidando para entrar na minha casa? Que abusado. — brinquei, abrindo a porta do carro para sair e dei a volta no mesmo, o esperando.
— Acho que mereço no mínimo sentar em um sofá confortável e tomar uma água, enquanto espero você. Agora sou enfermeiro/chofer. — ele disse após trancar o carro e me acompanhou.
Aquelas palavras de me arrancaram uma gargalhada.
— Você vai ter um adolescente te enchendo de perguntas e talvez uma mãe fazendo o dobro de perguntas também.
Minha casa era simples, a cozinha era junto com a sala, apenas um balcão dividia os cômodos. Os sofás eram mais velhos, já surrados e a televisão não era tão grande, tínhamos também um vídeo game que meu irmão havia ganhado de uma das minhas tias, mas ele já estava bastante usado. As paredes eram a parte mais nova da casa, porque meu pai havia pintado antes de morrer, porém, já mostrava sinais de que a pintura deveria ser refeita. A cozinha era simples, havia uma mesa pequena que cabia perfeitamente quatro cadeiras e o armário tinha quatro portas. Era onde guardávamos nossos mantimentos. O cômodo de cima era composto por três quartos pequenos, o da minha mãe que raramente entrávamos e também, o cômodo mais simples da casa.
Atualmente, era composta por uma cama de solteiro e um guarda roupa pequeno, as paredes totalmente precisando de pintura e os móveis a serem trocados. Os quartos meu e do meu irmão, eram os mais arrumadinhos. Meus pais faziam questão de que fossem confortáveis e arrumados o suficiente para que vivêssemos bem. O quarto do meu irmão tinha uma tonalidade azul turquesa, a cama era praticamente nova, um guarda roupa pequeno e umas medalhas penduradas na parede. O meu era salmão, eu havia escolhido essa cor porque na minha cabeça, era uma cor feliz. Eu tinha uma fama de casal, a qual já quis trocar com a minha mãe que nunca aceitou, um guarda roupa pequeno, pôsteres de algumas bandas na parede, muitas fotos da minha família, amigos e até minhas perto dos pôsteres, uma estante de livros e um notebook que usava para estudar.
Ao abrir a porta de casa, pude ver sentado no sofá enquanto jogava uma partida de futebol. Ele adorava qualquer coisa que envolvia futebol e provavelmente conseguiria uma bolsa numa boa faculdade por conta desse esporte.
Assim que o garoto me viu entrando com , os olhos dele se arregalaram e o mesmo pausou o jogo. Não sabia como ele iria reagir, porque jamais havia entrado com um rapaz em casa.
— Oi . Esse é o , meu professor da faculdade. , esse é o meu irmão . — apresentei os dois e deixei a mochila no canto ao lado do sofá. — Fique à vontade, , a casa é simples, mas somos receptivos. — olhei de canto para que concordou.
— E aí, . Você joga? — meu irmão começou a puxar assunto com e eu sorri, observando a cena.
Eu aproveitei que eles haviam se entendido bem, já estava numa partida com e fui tomar um banho. Só havia um banheiro em casa, super pequeno, mas dava para o gasto. Meu banho não durou mais que cinco minutos, já que a ideia de que estava em casa jogando vídeo game com o meu irmão me deixava um pouco agitada.
Separei a roupa que iria trabalhar e naquele dia, a roupa era composta de uma camiseta social preta de manga curta, já que era exigência do Senhor Albert que sempre fôssemos de camiseta social pelo menos. Uma saia na metade da coxa também preta, uma meia calça arrastão também preta e um all star preto e branco. Parecia uma emo dos anos 2000, mas adorava aquele estilo. Saí já trocada do banheiro e fui até o meu quarto, me surpreendi ao ver que estava ali, em pé, observando as fotos na parede.
— Esse quarto é a sua cara. — ele comentou, sem tirar os olhos das fotos.
— Você acha? — perguntei e ele concordou com a cabeça.
— Você era mais sorridente. Seu sorriso é lindo, … Deveria sorrir mais. — tenho certeza que meu rosto havia ficado vermelho, agradeci por ele ter mantido os olhos nas fotos.
— Muita coisa aconteceu, acho que perdi o brilho. — fui sincera, procurando uma escova para pentear os cabelos.
— Eu queria muito poder te ajudar a devolver esse brilho. — ele falou, voltando a me olhar.
— Você já faz isso, . E olha que nos conhecemos há pouquíssimo tempo. — dei um sorriso, aquela preocupação que ele tinha era surreal de tão boa para mim.
— Quero fazer mais. Só preciso descobrir como. — ele se aproximou e eu estremeci. A distância era um tanto pequena entre nós dois.
Eu tinha medo do que ele poderia fazer. Eu queria um beijo dele? Óbvio! Mas jamais gostaria que ele traísse a Elisa. Talvez devesse me afastar, dizer que não gosto dessa proximidade, mas eu não sabia o que deveria fazer porque já não sei se conseguiria ficar longe dele.
— … — nossos olhos estavam fixos um no outro e a distância ainda era pequena.
Ele não falou nada, apenas levou a mão direita até a maçã do meu rosto e acariciou com o polegar. Aquele ato me fez fechar os olhos e simplesmente vagar até uma época desconhecida por mim, onde usávamos roupas medievais, novamente.
Quando abri os olhos, tirou a mão de meu rosto e suspirou.
— Me desculpe, . Eu não sei o porquê de ter feito isso. — ele respirou fundo, levemente afobado e andou de um lado para o outro do quarto.
— Está tudo bem e eu estou pronta, já podemos ir. Perdi totalmente a fome. — ele não respondeu nada, apenas balançou a cabeça em concordância.
O caminho até a lanchonete foi silencioso como sempre, mas dessa vez estava um pouco mais tenso que o normal. Eu não sabia se era por causa do que quase aconteceu no quarto ou se ele também conseguiu sentir o mesmo que eu. Mas algo ficou estranho depois daquilo.
— Obrigada por me trazer de novo, não precisa vir me buscar. Eu vou andando. — falei, soltando o cinto de segurança.
— Hoje não vou conseguir ficar aqui, mas meia noite estarei na porta para te buscar. — ele ponderou e eu suspirei, sabia que nada o faria mudar de ideia.
— Tudo bem, então. Obrigada. — antes que eu pudesse sair, me puxou e me deu um abraço desengonçado, juntamente com um beijo na testa.
Aquele ato novamente havia me pegado de surpresa, mas era uma surpresa boa a ponto de me deixar sorrindo como boba.
Me despedi dele e entrei na lanchonete com o sorriso mais bobo do mundo.
— Que cara de boba é essa, menina? — senhor Albert me tirou do transe que eu estava.
— Nada, só… Muita coisa acontecendo. — respondi.
A noite passou praticamente voando, eu estava morta de cansaço. Meus olhos estavam pesando e eu sabia que era só chegar em casa e deitar que eu dormiria em menos de cinco minutos. Ao sair da lanchonete, pude ver encostado em seu carro me esperando e assim que me viu, abriu um sorriso tão lindo, que acabou me fazendo sorrir junto.
— Sempre pontual. — comentei enquanto me aproximava dele. — Nem sei o quanto te agradecer por conta dessas caronas.
— Não precisa agradecer. — ele novamente me deu um beijo na testa e abriu a porta do carro.
Eu dei a volta no mesmo e entrei rápido, encostando a cabeça no banco.
— Dia cansativo? — ele questionou, ligando o carro e saindo em seguida.
— Vida cansativa. — comentei, rindo baixo.
Ele acabou rindo junto e eu encostei a cabeça na porta do carro, sentindo a brisa batendo em meus cabelos e rosto. O caminho como sempre foi silencioso, dessa vez um silêncio confortável. Fiquei com os olhos fechados, porque eu estava bastante cansada naquele dia, mas pude perceber que o carro parou. Porém, me mantive com os olhos fechados para ver o que faria.
— Chegamos, . — ele comentou, olhando rapidamente para mim. — Ela dormiu…
Ele falou baixo, dando uma risadinha.
— Vou te levar para dentro, você merece ser tratada como uma princesa… Merece ser feliz, eu queria muito poder te ajudar com isso, . — a voz foi ficando mais fraca, já que ele estava dando a volta no carro.
O rapaz abriu a porta do carro e me pegou nos braços. Desengonçadamente, eu me deitei nos braços do cara que tomava conta dos meus sonhos e ali, parecia meu porto seguro. Era como se todos os meus problemas tivessem sumido num passe de mágica.
Ele só parou de andar depois que entrou em casa, subiu as escadas e foi até o quarto. Quando ele me deixou na cama, o rapaz tirou meus sapatos, a bolsa que estava em volta do meu pescoço e pendurou, voltando ao meu lado em seguida.
— Boa noite, menina que não sai dos meus sonhos. — ali, eu tive a certeza que ele também sonhava comigo.
Era muito difícil me manter quieta, como se realmente estivesse dormindo. Porém, minutos depois eu acabei dormindo, sem me lembrar se ele acabou falando mais coisas ou se havia ido para casa logo depois.
Capítulo 4
Love, we loved so many times
And in so many lives, sometimes we got it right
Pain, it found its way back in
Until we meet again into that good night
(Cosmic - Avenged Sevenfold)
Londres, 1943.
Quando eu finalmente despertei, vendo ao meu redor aquelas paredes brancas, barulhos de monitores e dormindo sentado na cadeira ao lado da cama, eu percebi que tinha sido grave, mas que pelo menos eu estava viva. Mas logo veio em minha mente uma outra pessoinha… Minha filha! Passei a mão sobre a barriga e percebi que estava murcha, ainda inchada, mas era perceptível que não tinha mais nada ali dentro.
Comecei a entrar em desespero, porque ao olhar ao redor eu simplesmente não via nada relacionado a nossa filha. Apenas Mason e eu. Apenas o vazio que ela havia deixado em mim.
— ! ! — chamei ele, minha voz estava mais alta e desesperada.
Ele levantou rápido da cadeira, acordando praticamente em um pulo.
— O que foi, meu amor? — ele perguntou, mas sua voz era baixa e com certo pesar.
Eu já sabia o que tinha acontecido, só não queria acreditar.
— Cadê ela? — pergunto com a voz chorosa, vendo a expressão no seu rosto se fechar ainda mais. Ele retirou os óculos e passou as mãos sobre os olhos.
Quando ele retirou os óculos que pude perceber que ele tinha olheiras, não sabia ao certo se era de ficar acordado ou por ter chorado. Talvez os dois.
— Eu… Eu sinto muito, . — ele falou, segurando em minha mão e eu comecei a chorar em desespero.
— NÃO! POR FAVOR… — um grito de desespero saiu de minha garganta, tão alto ao ponto de doer, mas não tanto quanto o meu peito ao perceber a ausência da minha filha.
Ela tinha falecido simplesmente por uma irresponsabilidade minha, eu tinha causado isso e jamais iria me perdoar por tê-la colocado em risco.
New York, 2024
O sol batia em meu rosto, fazendo com que eu me incomodasse com a claridade. O sonho que eu tive nessa noite foi ainda pior, eu acordei com a sensação como se realmente estivesse sofrendo a perda e o luto pela minha filha. Era uma dor dilacerante, parecia apertar meu peito.
A última coisa que veio em minha memória foram as palavras de para mim. Então, ele também sonhava comigo? Por que isso acontecia? Era um tanto estranho.
Aquele dia estava mais gélido, ao ponto de sentir meu nariz gelado como se estivesse andando pelas ruas em um dia de outono, onde a brisa batia sem dó em meu rosto. Essas sensações traziam meu pai na memória, quando ele levantava bem cedo e o sol nem havia nascido ainda, eu o acompanhava até a porta. Era como um ritual meu e dele e acontecia todos os dias e sempre no mesmo horário.
Depois de muito custo, levantei da cama com certa dificuldade, parecia que um caminhão havia me atropelado várias vezes. Tomei um banho e fiz tudo o que se deve fazer pela manhã, obviamente meu rosto necessitava de mais cuidado, então eu passei uma maquiagem de leve, tentando ocultar as olheiras escuras embaixo dos meus olhos.
E então, quando desci até a cozinha pude ver minha mãe e meu irmão sentados na mesa. Meu irmão me encarava com um sorriso travesso nos lábios e minha mãe, um tanto curiosa. Conforme fui me aproximando da cozinha, eles cochichavam, algo sobre ontem que eu não conseguia entender muito bem.
— Bom dia? — perguntei, assim que me sentei na mesa junto com eles e coloquei um pouco de café na xícara.
— estava me falando que ontem a noite o seu professor entrou com você nos braços… — minha mãe falou e eu suspirei, balançando a cabeça em negação. — Ele pediu a permissão para seu irmão, se podia entrar e te deixar na cama, mas o que me deixou intrigada foi o fato dele ser seu professor e estar te carregando nos braços.
— Foi só um mal entendido, mãe. Eu acabei pegando no sono e ele me deixou em casa. Só isso. — na minha cabeça, era basicamente o que tinha acontecido.
— Minha filha, não é normal que um professor te busque todos os dias no seu serviço e ainda te leve para dentro de casa quando você sem querer dorme no carro dele. — minha mãe falou e meu irmão apenas observava a conversa.
— Eu acho que vocês estão sendo extremamente precipitados em pensar qualquer coisa a respeito do . — minha voz saiu baixa e evidenciando que eu estava totalmente na defensiva.
Era ridículo pensar que eu poderia ter algo com ele, afinal, ele estava em um relacionamento, não era simplesmente porque eu não queria, na realidade, eu com certeza teria algo com ele se eu pudesse, mas infelizmente a vida nem sempre é como a gente quer.
— Bem, se você acha que isso não é nada demais… Quem sou eu para pensar diferente? — minha mãe novamente falou e eu suspirei.
— Eu preciso ir, senão vou me atrasar. — dei um longo gole no café, a fim de me livrar daquela situação extremamente chata. — Amo vocês.
Eles concordaram com a cabeça e não falaram mais sobre o assunto. Deixei o copo na mesa e dei um beijo na bochecha dos dois, peguei a mochila e sai pela porta, sem nem olhar para trás.
O caminho da faculdade era o mesmo de sempre, meio distante e era por isso que eu costumava sair mais cedo de casa, para chegar a tempo.
Quando cheguei na sala de aula, pude ver alguns alunos sentados em lugares dispersos da sala e também, em sua mesa, mexendo no celular. Eu me aproximei dele sorrateiramente e logo vi que ele se virou para mim.
A expressão dele se iluminou em um sorriso bonito, mas logo se apagou, como se ele tivesse se arrependido da ação anterior.
— Bom dia, . — comecei a falar, achando um pouco estranho esse tipo de reação vindo dele, mas achei que talvez pudesse ser pura impressão minha. — Eu queria te agradecer por ontem e também pedir desculpas, acabei realmente pegando no sono.
— Não tem problema, . — ele falou e desviou o olhar do meu, voltando a atenção para o celular.
Aquilo com certeza não era normal.
— Tem certeza que está tudo bem? — perguntei novamente e ele soltou o celular na mesa, bufando irritado.
— Não é uma boa hora, . — ele falou, mas sua voz era em um tom baixo para que ninguém ouvisse o que a gente estava conversando. — Eu passei dos limites ontem, não vai acontecer de novo. É melhor a gente se afastar.
Quando ele falou aquilo, eu fiquei um pouco sem reação e até pensei que poderia ser brincadeira dele. Porque no dia anterior, ele me tratou como uma princesa e agora, estava me esculachando.
Eu não queria, mas ao mesmo tempo entendia. Aquela nossa relação e proximidade estranha, estava começando a ficar um pouco descontrolada. E com certeza eu não gostaria de ser “a outra” da história.
— Tudo bem… — eu acabei falando baixo, sentindo um nó na garganta, que praticamente me impedia de engolir a saliva.
— Vem aqui. — ele levantou e segurou devagar em meu pulso, me levando para fora da sala, até a entrada da biblioteca que era ao lado, por sorte, ela estava vazia. — Eu estou confuso, . E sinceramente, não posso fazer isso com a Elisa.
Parte de mim pensava que ele também não queria aquilo, que ele estava numa luta interna, mas também, que tinha escolhido um lado. O lado da noiva dele, era justo. Eu não podia ser hipócrita e pedir que ele me escolhesse, ele ao menos tinha um motivo plausível para isso.
— Você não precisa me explicar nada, . É a sua vida, você decidiu assim… Vamos nos afastar, vai ser melhor assim. — eu acabei concordando, soltando meu pulso de suas mãos.
— … — ele suspirou, tirou os óculos e esfregou uma das mãos no rosto em frustração e na mesma hora, eu me lembrei do sonho, que ele fazia a mesma coisa. Retirava os óculos e esfregava o rosto, era simplesmente horrível lembrar dele, ter todas essas memórias e não ter ideia do que se tratava.
— Está tudo bem, é sério. Eu sei que acabou tomando proporções que a gente não imaginava, você está certo por escolher ela, no final das contas… É a sua noiva.
Eu sentia um misto de emoções e sentimentos, parte de mim queria sair correndo e chorando dali, para os braços da minha mãe porque era tudo muito confuso. A outra parte queria ficar ali e ser superior, fingir que qualquer coisa que ele faça simplesmente não me afeta.
Era a primeira vez que eu entrava na biblioteca desde o primeiro dia de aula. Ela tinha um tom todo amadeirado, prateleiras enormes com muitos tipos de livros, uma escada caracol que guiava para o andar de cima, onde tinha mais prateleiras amadeiradas com vários livros. No centro dela, algumas mesas com cadeiras, outras mesas com computadores e uns banquinhos estilo aqueles de praça.
— Eu escolhi não fazer merda, não magoar a Elisa. Não significa que não tenha sentido nada por você. — ele falou simplesmente, fazendo meus olhos irem de encontro aos dele.
— Por favor, não fale isso. Não fala mais nada disso, eu não quero saber… Não quero ouvir. — em um impulso, eu coloquei as mãos no ouvido e abaixei a cabeça.
Não queria ouvir mais nada que pudesse me deixar pior, pior do que eu já me sentia. Eu sabia que essa aproximação era uma coisa perigosa, por causa do relacionamento dele e dos meus sonhos, mas eu me senti ainda pior quando descobri que ele também sonhava comigo.
— , é sério. — ele colocou as mãos nos meus braços, a fim de tirá-las do meu ouvido.
Mas assim que ele fez isso, pude claramente sentir uma eletricidade percorrendo todo meu corpo. Pude ver ele um uniforme do exército britânico, parecia muito o uniforme da segunda guerra mundial, seus óculos tinham um formato parecido com o atual que eram quadrados.
Ele se afastou e virou de costas para mim, passando as mãos nos próprios cabelos. Era uma frustração que eu percebia que ele também sentia e também pude perceber que ele havia sentido o mesmo que eu, senão não fugiria.
Ao invés de ficar e continuar praticamente discutindo com ele, eu decidi sair correndo daquela biblioteca. Mas infelizmente ao fazer isso, senti meu corpo se chocar com o de alguém e quase ir para o chão, mas eu tinha conseguido me equilibrar.
— Porra. — pude ouvir a voz masculina e então levantei meu olhar até o dono da voz.
Richard.
— Desculpa, eu… Estava com um pouco de pressa. — falei e vi que ele esticou a cabeça para olhar dentro da biblioteca, era possível ver com os braços cruzados e o rosto um pouco avermelhado.
— Está tudo bem? — ele colocou um braço em volta do meu ombro, como se indicasse para caminharmos para a sala, mas pude ver que seu olhar ainda estava em , dando um sorriso superior para o homem.
Eu não entendi aquela ação dele, mas também não me preocupei em perguntar. Eu era grata ao por todas as caronas que ele me dava, por todas as vezes que ele me ajudou. Mas tinha acabado dessa vez.
— Está sim. — assenti, caminhando em direção a sala de aula junto com ele.
— Escuta, pensou a respeito da fraternidade? — Richard perguntou e eu fiz uma careta.
Eu não sei se deveria sair da minha casa, onde cresci, todas as minhas lembranças estão lá.
— Acho que eu passo, pelo menos por enquanto. — falei sincera, me sentando em um lugar no meio da sala. Queria o mínimo de contato possível com .
— Tem certeza? — ele perguntou e eu assenti, irrefutável pelo menos por enquanto.
Eu ia responder, mas pude ver entrando na sala. Sua expressão era fechada, não precisava conhecer para saber que ele estava irritado.
— Alguém está irritadinho hoje. — Richard sussurrou, eu fingi um sorriso e suspirei.
Aquela merda de aula ia ser longa.
— Você trabalha hoje, ? — Richard chamou minha atenção novamente, enquanto eu tirava minhas coisas da mochila.
— Sim, trabalho todos os dias. Raramente tiro folgas, às vezes só no domingo. — encolhi os ombros. Sabia que o meu horário de serviço era meio ridículo, mas eu tinha combinado com o Sr. Albert daquela forma, para que eu pudesse receber um pouco mais.
— Você trabalha demais. — ele falou novamente, descansando as costas na cadeira e olhando na minha direção. — Sábado a noite vamos fazer uma festa na fraternidade que eu moro, tenta aparecer lá.
— Sério? Vai ser a minha primeira festa desde… Sempre. Pelo menos esse tipo de festa.
Fui sincera e ele riu, concordando. Logo, começou a falar sobre a matéria e sua cara era de poucos amigos. Eu não podia fazer nada, a escolha partiu justamente dele.
O resto da aula passou como todos os outros dias, super maçante e cansativa. Mas pelo menos tinha acabado. Já era em torno de cinco horas da tarde e eu estava em frente a televisão, sentada ao lado do meu irmão enquanto comíamos pipoca.
— Você está quieta hoje. — meu irmão falou, fazendo eu sair do transe.
— Um pouco chateada. — falei, levando um punhado de pipoca até a boca.
— Por quê? — ele se virou, esquecendo a televisão na nossa frente e me encarou.
— Não é nada demais, só que eu e o decidimos nos afastar. — falei, olhando de canto para ele, enquanto comia a pipoca.
— Mas se vocês se gostam, por que se afastar? — ele perguntou como uma criança curiosa.
— Ele é comprometido. — falei simplesmente e me levantei.
Tinha voltado a sentir um nó na garganta, estava muito triste porque toda vez que eu lembrava dele, dos nossos sonhos, principalmente o de hoje… A situação só ficava pior.
As horas foram se passando e agora, eu já estava praticamente no horário de ir embora do serviço. Por sorte tinha sido uma noite movimentada, muitos atendimentos, quase não parei. Mas também pude perceber que pela primeira vez desde que eu conheci o , ele não veio aqui e não ficou me esperando até eu sair.
No fundo, eu sabia que ele não faria isso. Ele não tinha motivos para vir aqui, me dar carona até em casa.
Minha bolsa já estava nas costas e eu tinha saído da lanchonete. Porém, quando começo a caminhar vejo o carro preto de estacionado do outro lado da rua e ele encostado no carro.
Fico ponderando a ideia de ignorar ele e seguir meu caminho ou então, ir até lá e ver o que ele tem para dizer. Acabo decidindo a primeira opção, meu coração doía por fazer isso, mas tudo o que eu menos precisava agora era estar num carro fechado com ele.
Continuo caminhando por mais alguns instantes, até perceber o carro dele andando quase colado na guia, a rua já estava escura e vazia. Um cenário quase de terror.
— Entra no carro, . — sua voz era mandona e eu fingi que não ouvi.
Ele continuava a me acompanhar com o carro, andando devagar.
— , para de graça e entra no carro. — ele falou novamente, parecendo impaciente e eu não respondi, também não olhei para ele. — Não seja infantil. !
Quando ele me chamou de infantil, parei de andar e me virei para olhá-lo, apoiando na porta do carro.
— O que você quer, ? Estava certo que nós iríamos nos afastar. Por que você está aqui? — perguntei, com a sobrancelha franzida.
Eu tinha o encarado novamente, eu não conseguia decifrar o olhar dele, parecia um misto de sentimentos.
— Vim te levar para casa, como falei que ia fazer todos os dias. Já disse que é perigoso você andar sozinha por aqui nesse horário. — ele falou com a maior calma do mundo, fazendo eu me irritar.
— Você não tinha que fazer isso. — suspirei, abaixando um pouco a guarda.
— Eu sei, mas eu quis. Entra aí. — ele falou, destravando a porta do carro e eu, depois de muita luta interna, caminho até a porta do passageiro e entro, colocando o cinto de segurança.
O carro escuro me impossibilitava de ver o rosto dele, mas também era bom porque ele não conseguia ver o meu. O caminho tinha sido silencioso, nem mesmo o rádio estava ligado naquele dia.
Eu não queria discutir, ele parecia não querer também, mas estávamos numa situação um pouco… Difícil.
Assim que ele estacionou na frente de casa, eu soltei o cinto e abri a porta, mas antes de descer eu o observei mais um pouco, pela última vez naquele dia.
— Obrigada pela carona.
Eu ia me levantar para sair do carro, mas fui impedida por uma mão segurando meu pulso novamente. Suspirei e me virei para ele novamente.
— Você… Você pode até não entender o porquê de eu estar fazendo tudo isso, mas eu espero que um dia eu consiga te explicar. , você ocupa a minha cabeça mais do que imagina, mas eu não posso fazer isso antes de finalizar qualquer outra coisa que eu tenho com outra pessoa. — seu olhar era fixo em mim, o rosto dele era iluminado apenas pelas luzes da rua e eu pude ver verdade em seus olhos.
Eu não sabia como e nem o porquê, a gente tinha algum tipo de conexão estranha que eu não entendia, mas comecei a pensar que talvez devesse investigar sobre esses sonhos que tenho com ele.
— Tudo bem… Boa noite, . — eu acenei e segui o meu caminho, sem mesmo olhar para trás.
Se tem algo que eu preciso fazer, é: Colocar todos os meus pensamentos no lugar, lidar com meus sentimentos e tentar o máximo possível descobrir sobre esses sonhos, para conseguir tirar o da minha cabeça.
Capítulo 5
Londres, 1944
Um ano havia se passado desde o fatídico dia que eu e havíamos perdido nossa filha naquele acidente do hospital, foi um ano complicado, mas as coisas entre nós continuavam boas. Nós nunca tivemos problemas, no geral. Estávamos em janeiro, para ser mais exato no dia vinte. A segunda guerra mundial ainda a todo vapor, Hitler com suas tropas avançavam por alguns países, perdia força em outros, mas era uma guerra que parecia não ter fim. Tanto eu, como fomos chamados pelo exército para ajudarmos as tropas britânicas e aquela era para ser a nossa última noite juntos em casa. Sendo bem sincero, eu não queria ir, ter que largar a minha familia aqui para lutar uma guerra que teoricamente não era minha, era complicado.
— ? — a voz de ecoou pelo cômodo, eu estava experimentando a roupa que eu usaria.
Era uma farda, uma tonalidade marrom claro e um chapéu com uma cruz vermelha na cabeça, era o que me diferenciava dos outros. Ela entrou no quarto e eu rapidamente sorri, ela usava um vestido amarelo claro, apertado até os quadris e solto nas pernas, evidenciava a curvatura do seu corpo, a deixando ainda mais bonita. Como se fosse possível.
— Oi, minha linda. — me aproximo dela, levando a mão até a cintura e em um único movimento, a puxo para perto de mim.
— Você ficou incrível com esse uniforme. — ela falou e eu ri baixo.
Direcionei minha cabeça até a curvatura do pescoço dela e sem muito esforço, o perfume dela adentrou minhas narinas, me dando uma sensação inebriante. Podíamos estar juntos há um tempo, mas sempre me causou efeitos que eu nunca soube explicar, era como se literalmente tivéssemos sido feitos um para o outro. Pude notar que a pele dela se arrepiou com o meu toque e aquele pequeno ato, se tornou ainda mais convidativo, me incentivando a continuar e ir além.
— E você, está linda com esse vestido. Mas eu prefiro você sem nada. — falei próximo ao ouvido dela, que inclinou sutilmente a cabeça na direção oposta, eu aproveitei e mordisquei o lóbulo da orelha dela, e desci para o pescoço, fazendo uma trilha de beijos, até novamente a curvatura, mordendo levemente aquela extensão.
Pude ouvir um gemido baixo saindo dos lábios dela e então, a peguei em meus braços sem muito esforço e a coloquei na cama, ficando por cima dela e apoiando os braços um de cada lado da cabeça dela. Ela sorriu e eu, guiei meus lábios até o dela, tomando os para mim de uma vez por todas. Nossas línguas se encontraram sem pudor algum, elas se entrelaçavam e faziam um tipo de ritmo frenético e cheio de luxúria. Enquanto a gente se beijava, levei a mão até as costas dela, soltando aqueles botões com certa urgência, até que ficasse solto o suficiente para que eu retirasse com facilidade. Assim que o fiz, ela levantou o corpo, e eu tirei aquela peça que ela vestia, jogando para qualquer canto do quarto. Ela, que agora só estava vestida com uma calcinha, se sentou na cama de uma forma desengonçada, quebrando o beijo e começou a desabotoar a minha roupa. Com uma urgência ainda maior, eu comecei a ajudar ela e me livrei de peça por peça, até mesmo da cueca e ela por último, retirou a calcinha.
Eu voltei a deitá-la na cama e minhas mãos foram automaticamente para um dois seios dela apertando levemente, enquanto o outro, eu abocanhava sem dó. Minha língua brincava com o mamilo eriçado dela, chupando vez ou outra. Meu corpo se arrepiou por inteiro quando ela começou a arranhar minhas costas, a ereção já era notória, sentia meu pau encostando na pele quente da coxa dela.
Novamente, uma trilha de beijos foi feita pelo abdômen dela, juntamente com alguns chupões. Não me preocupava se poderia ficar marcado, até porque ela era minha. Ao chegar no monte de vênus, levantei meu olhar para ela, que me olhava com certa euforia. Desci mais um pouco e então, molhei com a própria saliva o dedo médio e anelar, e introduzi nela, levando a minha língua na região do clitoris dela.
Movia os dedos com certa rapidez para dentro dela, assim como a língua percorria toda a extensão do clítoris dela. A forma que ela gemia e se contorcia com as investidas que eu dava com os dedos e a língua, só me deixava ainda mais duro. Queria estar dentro dela, mas só depois que ela estivesse devidamente molhada.
O quadril dela se movia no movimento contrário ao que eu fazia com os dedos, ela grudou uma das mãos em meus cabelos e eu já conseguia sentir meu pau pulsando, querendo mais dela. Não demorou muito e ela começou a gemer mais alto e se contorcer mais um pouco, chegando ao clímax. Eu aproveitei e suguei todo o líquido dela e me levantei, me inclinando sobre ela novamente. ainda estava com a respiração ofegante, mas ela tinha decidido tomar a frente da situação. Pude sentir as mãos dela sobre meu peito, me empurrando para a cama. Então, eu me deitei e ela se ajeitou sentando em minha cintura. Ela começou a esfregar a entrada da boceta molhada dela em meu pau, fazendo com que eu apertasse a cintura dela com força e soltasse um suspiro.
— Puta merda, … Você é tão gostosa. — falei, minha voz havia saído mais rouca e baixa, por conta da excitação que tinha tomado conta do meu corpo. Essa mulher me deixava louco.
Ela nem mesmo respondeu, mas ao perceber ainda mais a minha excitação, ela sentou no meu pau de uma vez. Um gemido rouco saiu dos meus lábios e eu apertei forte mais uma vez o quadril dela. Ela se movia com excelência em meu colo, eu aproveitei e distribuí alguns tapas na bunda dela, antes de levar uma das mãos até um dos seios de .
Apertava e massageava os seios dela, sentindo o tesão percorrer por todo meu corpo. A sensação do meu pau sendo engolido pela boceta apertada dela me deixava praticamente extasiado. Os movimentos dela eram precisos, se levantava e encaixava novamente nele e quando estava lá embaixo, ela dava uma rebolada, assim, ambos sentíamos uma excitação ainda maior. Retirei a mão do seio dela e voltei para a cintura dela, descendo para o quadril logo depois, forçando ela em cima do meu colo, assim como o meu quadril para cima.
E então, eu sabia que estava chegando em meu clímax. Ela também percebeu, porque intensificou a rebolada que ela dava em meu colo. Meu corpo se moveu com certo descontrole, chegando no meu clímax…”
New York, 2024
Quando finalmente despertei daquele sonho, eu esfreguei as mãos no rosto em frustração. Os sonhos estavam se tornando cada vez piores — ou melhores, dependendo da situação. Eu estava duro. Me virei na cama e vi Elisa dormindo ao meu lado, aquela situação precisava acabar. Eu só não sabia como. Ao me levantar da cama, fui diretamente ao banheiro, um banho frio com certeza me faria bem.
O maior problema, seria encontrar depois daquela merda de sonho. Eu tenho certeza que iria olhar para ela e lembrar do sonho, lembrar dos gemidos, da pele dela arrepiada com o meu toque e o corpo dela totalmente sem roupa.
Merda, eu preciso parar de pensar nela desse jeito.
Depois de quase vinte minutos tomando um banho frio, eu pude sair de lá com mais tranquilidade. Ao sair do banheiro, vi que Elisa ainda estava dormindo, eu não iria acordá-la, mas estava decidido que conversaria a respeito do que estou sentindo. Coloquei uma calça preta, camisa marrom e um tênis preto, era o suficiente.
Eu tinha chegado um pouco mais cedo na universidade hoje, aproveitei o vazio da sala para tentar colocar meus pensamentos no lugar. Não conseguia entender o motivo de ter esses sonhos com , nem mesmo o porquê dela estar sempre na minha mente. Foi algo que eu não consegui evitar, nem mesmo controlar.
Alguns alunos chegaram, mas ainda não estava na hora da aula começar. Então, deixei minha mochila na mesa e decidi sair dali. Fui até a biblioteca e comecei a andar pelo local, procurando algum livro, mas sem saber ao certo qual era. Porém, fiquei estático quando vi um pouco distante em uma das mesas, ela estava concentrada em alguma coisa a sua frente, provavelmente um livro. Não pude evitar de ficar olhando ela por alguns instantes, a menina mexeu nos cabelos, deixando o pescoço à mostra e eu automaticamente me lembrei do sonho.
Comecei a lembrar do cheiro que emanava, da textura da pele dela e também… Dela em meu colo, essa com certeza era uma cena que eu jamais iria esquecer.
Me xinguei mentalmente quando bati em uma das prateleiras, fazendo um livro cair. Ela se assustou e olhou na minha direção. Pude ver seus olhos se arregalando e logo ela virou para o livro novamente. Pude perceber também que ela começou a mover uma das pernas, parecendo ansiosa.
— Bom dia, . — quebrei o silêncio e caminhei na direção dela.
Era exatamente o contrário do que eu deveria fazer, mas meu corpo não obedecia às ordens da razão quando tudo se dizia a respeito dela.
— Bom dia… — ela falou e a voz dela era baixa. Ela não olhou para mim nem por um instante.
Fiquei ao lado da cadeira que ela estava sentada e apoiei uma das mãos no encosto, observando o livro que ela lia.
— Bruxas? — perguntei, curioso.
— Sim, é um assunto interessante… Você não acha? — ela perguntou, sem me encarar.
— Talvez um pouco. — respondi, vendo que ela parecia me evitar.
Eu era mesmo um idiota. Primeiro pedia para ela se afastar, depois eu mesmo me aproximava dela. Olhei no relógio e por sorte, havia dado o horário de começar a aula, ela percebeu o mesmo já que fechou o livro e se levantou.
Eu não me movi, então quando ela ficou em pé, seu corpo ficou um pouco mais próximo do meu e eu quase vacilei. Minha vontade era de jogá-la naquela mesa e fazer o mesmo que tinha feito naquele sonho. Era possível sentir o perfume dela, doce… Assim como ela.
— Você vai realmente ficar parado aí? — ela perguntou, segurando os livros no braço enquanto me encarava.
— Foi mal, eu viajei. — dei alguns passos para o lado, deixando com que ela saísse dali e suspirei, sentindo falta dessa pequena proximidade.
— Tudo bem… Sabe, essas suas mudanças de humor ainda vão me deixar louca. — ela falou e eu voltei a encará-la.
Por alguns instantes, eu simplesmente não respondi nada. Fiquei apenas olhando o rosto dela, vidrado, como se fosse um dos espetáculos mais bonitos de Beethoven, um dos quadros mais bonitos de Van Gogh.
— Parece que mesmo quando eu quero, não consigo ficar longe de você. — falei simplesmente e pude perceber que ela abaixou a cabeça.
Minha vontade era de me aproximar dela, mas não podia. Simplesmente não dava.
— Para com isso. — ela pediu e virou as costas, andando rápido até a saída da biblioteca.
Eu não podia simplesmente reclamar dela por estar fazendo isso, até porque o único motivo de estarmos nessa situação é o meu relacionamento com a Elisa. Mas ao mesmo tempo, sinto que é uma merda simplesmente terminar meu relacionamento com ela como se não tivéssemos ficado há um bom tempo juntos.
Eu caminhei em direção a saída, deixando a em paz. Ia seguir minha palavra, ou pelo menos tentar novamente não ficar me aproximando muito, pelo menos até decidir o que fazer. Quando entrei na sala, vi conversando com o Richard novamente, eles pareciam estar em uma conversa engraçada, porque ela ria bastante.
Aquela cena me deixou bastante enciumado, eu tinha vontade de pegar aquele moleque pela gola da camiseta e chutar ele daqui… Não sei o porquê, mas a sensação de que deveria ser só minha era muito grande.
— Bom dia, galera. Quero fazer alguns testes com vocês a respeito das aulas passadas… — cheguei falando, atraindo a atenção de todos que estavam ali. — Vou sortear alguns nomes e pedir para fazer algum procedimento que vimos, pode ser em mim mesmo.
Eu sugeri, tentando não deixar a aula tão chata e maçante. Essa época de aulas, acabam sendo bastante complicadas, porque são assuntos complexos.
Chamei alguns alunos que fizeram alguns procedimentos, já estava praticamente acabando os alunos e então, chamei a última pessoa que faltava. Eu deixei ela por último de propósito, já que quem terminasse podia ir embora.
— … — disse, vendo ela se aproximar de mim. — Você pode fazer ausculta cardíaca e pulmonar?
Ela assentiu e pegou o estetoscópio na mochila. Não posso negar que ela era muito boa no que fazia.
Eu me sentei na cadeira e fiquei ali, esperando para que ela fizesse as auscultas.
— Eu vou precisar erguer um pouco a sua camisa. — ela falou e eu desabotoei alguns botões, deixando parte do abdômen à mostra.
— Posso deixar assim ou quer que eu abra mais? — ela pareceu um pouco desconcertada e eu ri baixo.
— Assim está bom. — ela sorriu fraco e se aproximou de mim.
Ela começou a examinar e eu fiquei quieto, para que ela conseguisse fazer direito. Aquela proximidade estava acabando comigo, com certeza meu coração tinha se acelerado quando ela se aproximou um pouco mais para ouvir as duas partes.
— Você está taquicárdico. — ela falou, dando uma risadinha sem graça e eu acabei sorrindo junto. — Duas bulhas cardíacas normofonéticas e murmúrios vesiculares presentes, professor.
— Perfeito, . Menos na parte taquicárdico, eu sou atleta. — respondi, com um tom mais leve. — O que significam esses termos?
— Significa que eu consegui ouvir o tum-tá do seu coração e que seu pulmão está limpo. — ela explicou, guardando o estetoscópio na bolsa. — Ah, e a taquicardia é porque o coração estava aceleradinho.
— Muito engraçada, . Mas você acertou as três. — sorri, guardando as coisas na mochila. Eu não iria embora por conta da reunião, mas não ficaria na sala.
— Vou aproveitar que você me liberou mais cedo e vou descansar um pouco. Até mais, . — ela acenou, ainda meio sem jeito e foi se afastando de vez, fazendo com que eu novamente sentisse falta da presença dela.
— Até a noite, . — eu disse e segui em direção da sala dos coordenadores, onde teria uma reunião a respeito das aulas e matérias.
Já era noite, eu estava em casa e estava próximo de buscar . Eu sempre faria isso, nunca iria mudar. Elisa estava no sofá ao lado e eu a encarei, pensando que poderia ser a chance para conversarmos.
— Lis… — comecei a falar e ela me olhou. — A gente precisa conversar. Ela pareceu incomodada, mas logo desfez a cara de dúvida e sorriu.
— Claro, deixa eu só terminar um negócio. — ela falou e voltou a olhar o celular.
Bons minutos se passaram e ela enrolou aquele tempo todo, tinha dado a hora de buscar , então eu levantei e segui em direção da saída. Eisa falava no celular com alguém e eu não quis incomodar. Já era tarde e eu queria levar embora em segurança.
Quando cheguei em frente da lanchonete, pude ver que ela conversava com o tal velho Albert e quando me viu, ela pareceu tímida e acenou para o senhor, correndo até o carro e entrando logo depois.
— Boa noite. — falei, olhando para ela enquanto ela se ajeitava e sorri, dando partida no carro para sair novamente.
— Boa noite. — ela respondeu e ficou olhando para o lado de fora.
Mesmo dirigindo, é perceptível quando alguém te olha e eu via que não me olhava direito. Parecia me evitar a todo custo. Quando chegamos na frente de sua casa, ela suspirou e virou para mim.
— Lar doce lar. — falei, depois de estacionar o carro.
— Obrigada por isso, . — ela continuou me encarando e eu, sem quebrar o contato visual.
Inconscientemente, nós começamos a aproximar ambos os corpos. Minha mente cantava um coro de aleluia. Minha mão foi até o rosto dela, mas quando estava prestes a encostar ambos os lábios, o cinto travou e ela tomou um susto, talvez percebendo o que nós estávamos quase fazendo.
— Eu… eu estou indo. Tchau, . — ela abriu a porta do carro e saiu correndo dali.
Já eu, fiquei alguns instantes pensando no beijo que eu e ela poderíamos ter dado se não fosse aquela porcaria de cinto de segurança.
Capítulo 6
You taught me the courage of stars
Before you left
How light carries on endlessly
Even after death
(Saturn - Sleeping at last)
21 de janeiro de 1944, manhã fria e enevoada em Londres.
caminhava lentamente pelas ruas silenciosas de Londres, a névoa matinal envolvendo a cidade em uma camada cinza. O hospital onde trabalhava já estava à vista, mas seus pensamentos estavam distantes, além daquele nevoeiro. Fazia exatamente um ano que ele havia perdido sua filha, uma ferida que ainda não cicatrizara em seu coração. Naquela manhã, o peso da ausência dela parecia mais pesado do que nunca. E ... sua esposa, sempre tão forte, tinha sido sua âncora durante os piores momentos. Agora, ambos seriam arrastados pela guerra.
Ele chegou ao hospital, onde a Sra. Collins o aguardava na entrada. O semblante austero da supervisora indicava que algo importante estava para acontecer. Em suas mãos, um envelope oficial, selado com o brasão do Ministério da Guerra.
— — começou ela, sua voz baixa e séria. — Chegou a hora. Estão convocando mais homens para o front. Sua experiência como enfermeiro é necessária, especialmente com o que está por vir. Hitler está lançando uma nova ofensiva aérea contra a Grã-Bretanha. Chamam isso de Operação Steinback. Não temos muito tempo.
Ele pegou o envelope com as mãos firmes, mas seus pensamentos rapidamente se voltaram para . Ela também tinha sido designada para o campo de batalha, atuando como enfermeira em uma das unidades avançadas. Eles já haviam enfrentado a perda de sua filha juntos, e agora, o destino parecia determinado a separá-los novamente, colocando-os em lados diferentes do campo de batalha.
— Quando parto? — sua voz soou mais tranquila do que ele esperava.
— Amanhã cedo. — respondeu a Sra. Collins, olhando para ele com uma mistura de empatia e dever. — Prepare-se. Você sabe que as coisas não serão fáceis.
A verdade estava crua diante dele. Ele não seria apenas um cuidador de feridos em corredores limpos de hospital. Ele estaria na linha de frente, onde vidas e destinos se cruzavam em meio à destruição.
Naquela noite, de volta ao pequeno apartamento que dividia com , eles se sentaram em silêncio. A casa estava envolta numa penumbra, as luzes apagadas por precaução devido aos bombardeios aéreos. olhou para , que segurava uma foto da filha nas mãos.
— Você acha que voltaremos? — perguntou ela, sua voz suave, mas carregada de incerteza.
— Não sei — respondeu ele, sinceramente. — Mas seja onde for, estaremos juntos nisso, de alguma forma. Assim como sempre estivemos.
O som distante dos aviões alemães começou a ecoar pela cidade, interrompendo o silêncio pesado. sabia que aqueles dias de calma relativa estavam prestes a acabar. Quando fosse convocado para o campo de batalha, carregaria consigo não apenas o dever de salvar vidas, mas também a dor da perda e a incerteza de um futuro ao lado de .
No dia seguinte, quando ele caminhou em direção ao cais, onde o navio esperava para levá-lo ao front, olhou para o horizonte enevoado de Londres pela última vez, imaginando quando, ou se, veria novamente. A guerra estava em curso, e ele sabia que o destino de ambos estava selado naquele mar de incerteza.
Sob um céu cinzento e fumegante, ajeitou a alça do colete sobre os ombros cansados e fez um gesto rápido para os companheiros, sinalizando que avançariam. Os gritos distantes e os estampidos ritmados dos disparos marcavam o ritmo de seus passos. Era mais um dia na zona de guerra; um cenário que ele aprendera a enfrentar com o corpo firme e o coração em pedaços. Ele sabia que, a poucos quilômetros dali, sua esposa atendia feridos em um hospital improvisado. Cada batida de seu coração parecia puxá-lo em direção a ela, mesmo que o dever o mantivesse longe.
No campo, a tensão era tangível. sentiu algo estranho no ar. Um arrepio percorreu sua espinha quando seu olhar cruzou o de Richard, um velho amigo. Conheciam-se desde a faculdade, mas ultimamente, algo estava diferente nele: um olhar evasivo, uma conversa interrompida ao menor sinal de proximidade, um silêncio que se estendia. sacudiu a cabeça, tentando afastar os pensamentos. Não havia espaço para desconfianças quando vidas dependiam de suas decisões. Avançaram por entre os escombros de um prédio destruído.
— Cuidado! — alertou Richard, com uma voz que soava alta demais, como um aviso forçado. Antes que pudesse reagir, tropeçou em algo metálico que se destacava entre os destroços. Era tarde demais. Uma explosão seca engoliu os sons do mundo; o impacto o jogou para trás, enquanto estilhaços rasgavam o ar. Ele caiu pesadamente no chão, sentindo o gosto de sangue na boca.
Tudo ao redor se tornou uma mancha turva de gritos, fumaça e dor. Ele tentou se levantar, mas seus braços não respondiam. A figura de Richard se aproximou; seus olhos frios, sem a máscara de companheirismo de outrora. Um sorriso torcido cortou seu rosto.
— Desculpe, . — sussurrou Richard, quase sem remorso. — Você sempre foi um empecilho. — Ele se virou, deixando o campo em silêncio.
Na tenda do hospital, sentiu um aperto no peito. Estava acostumada à pressão do trabalho, mas naquele instante, sentiu um vazio inexplicável que fez suas mãos tremerem. Ela tentou se distrair, mas alguma coisa lhe dizia que tinha algo errado e ela sabia. Horas depois, quando o corpo de chegou, envolto em uma mortalha simples, o mundo desabou ao seu redor e ela teve a certeza que aquela sensação ruim que havia sentido, tinha sido por causa da morte de seu marido.
— NÃO! Não! Por favor, me fale que é mentira. — a voz de saiu trêmula e alta por conta do desespero, quando a mortalha foi retirada do rosto de , pálido e já sem vida, a mulher começou a chorar ainda mais. Um choro alto e estridente, desesperado em ver o amor de sua vida ali, desfalecido. Ela praticamente se deitou em cima do corpo de , ambas as mãos no rosto machucado e ensanguentado de seu marido. — Por favor, não me deixe aqui sozinha. Eu não vou conseguir viver num mundo onde você não existe. Por favor!
Então, percebeu da pior forma que uma parte dela também havia morrido naquele dia.
New York, 2024
Às vezes, abrir os olhos acaba se tornando uma tarefa extremamente difícil quando se está cansada, ou então, quando se tem um sonho louco como o que eu tive hoje. Eu simplesmente sonhei que o havia morrido e o pior de tudo é que eu conseguia sentir a minha angústia no sonho e acordei com a mesma sensação de aperto no peito.
Aquele dia, a dificuldade para levantar da cama estava ainda maior. Por sorte, o dia seria mais tranquilo porque estaria de folga e também, teria a festa que eu tinha sido convidada por Richard. Seria a minha primeira festa de fraternidade, eu não conseguia nem mesmo pensar no caos que deveria ser aquilo, nem mesmo que roupa eu deveria usar. Droga, eu realmente estou precisando de amigas.
Um pouco mais tarde, eu estava chegando na universidade como todos os dias quando vi Richard correndo em minha direção. Eu sinceramente não sei o motivo dele ter ficado tão próximo de mim, ele é legal, divertido e poderia estar com qualquer garota em seus pés, mas ele está literalmente atrás de mim.
— E aí, . — ele sorriu, ajeitando a mochila no ombro.
— Bom dia, Richard. — eu sorri de volta, enquanto a gente caminhava lado a lado em direção a sala de aula.
— Ansiosa para a festa de hoje? — o olhar dele estava sempre sobre mim, abandonando meu rosto apenas quando ele olhava para frente por alguns instantes.
— Se eu dissesse que não, estaria mentindo. — eu acabei sorrindo para ele, ajustando a mochila em meu ombro direito.
Ele riu e ao entrarmos na sala de aula, foi possível ver sentado em sua cadeira de sempre. Ele estava com um livro em mãos, no qual eu não consegui identificar, mas era notório como ele estava focado naquela leitura como se sua vida dependesse disso. Seu cenho levemente franzido, os óculos descansando em seu nariz, um pouco mais abaixo do normal e ele mordia a ponta do lábio inferior, deixando aquela cena extremamente sexy e convidativa. Fazendo com que eu me perdesse totalmente em qualquer conversa e me fazendo dispersar totalmente do que acontecia ao meu redor, focando apenas nele.
Era impossível não me lembrar do quase beijo dentro do carro, ou então aquele sonho erótico. Eu realmente não esqueço de um mísero detalhe, como se tivesse sido gravado e regravado por cima na minha mente, me lembro até mesmo das sensações que senti no sonho, a sensação da minha pele se arrepiando ao toque dele, dos lábios mornos e úmidos me tocando e bem… Me lembro até mesmo da intensidade do orgasmo. Isso não é normal. Pelo menos parece extremamente esquisito. Eu nunca me senti assim antes e não entendo o motivo de me sentir dessa forma com , mas eu prometi para mim mesma que iria descobrir.
Toda vez que nossos olhos se encontram, é como se uma chama se acendesse dentro de mim. Um frio na barriga, borboletas no estômago, extremamente clichê, mas é exatamente o que acontece quando o vejo.
O horário de aula passou tão rápido que eu nem percebi, eu estava aliviada e ao mesmo tempo, fugindo de o máximo que eu podia. Tinha decidido que o certo seria ficar realmente afastada dele, por mais que sentisse que todas as fibras do meu ser, todas as minhas células precisavam dele, pediam pelo contato com ele, eu não podia. Ele, um cara comprometido que não estava se dando o respeito, ele não respeitava a noiva e eu estava praticamente sendo tão filha da puta quanto ele.
Eu decidi ir para a casa de Uber, porque eu sabia que de enrolasse muito, acabaria vendo e eu realmente não queria estragar o meu dia de hoje.
Hoje eu praticamente não vi sozinha pela universidade. Todas as vezes que a vi, ela estava com Richard. Que curiosamente era o mesmo cara que me matou no sonho… Esses sonhos andam ficando cada vez mais loucos e sem controle. Eu fico me perguntando se tem alguma coisa a ver com a vida real ou se eu só estou ficando louco. Aposto que é a segunda opção. Nunca pensei que cogitaria terminar o meu noivado por conta de alguém que eu praticamente acabei de conhecer, meu noivado que era calmo e extremamente cômodo para mim.
Não posso mentir que Elisa sempre foi muito boa para mim, nunca tivemos muitos conflitos a não ser por coisas comuns de relacionamentos. Mas agora, depois de , simplesmente não funcionava mais. Eu não me via mais ao lado dela, era desconfortável, eu ficava torcendo para ter algum compromisso ou então, ela estar trabalhando quando eu estivesse em casa. Eu provavelmente estou sendo tóxico, ou no mínimo agindo como um moleque, mas a realidade é que eu não entendo o porquê de estar agindo assim. faz eu me sentir como um jovem apaixonado, como eu nunca estive antes.
Tinha chegado em casa depois de sair da aula, abri a porta devagar porque não sabia se Elisa estava em casa, mas logo tive a visão dela sentada sobre o sofá, ainda arrumada por causa do trabalho, com um vestido preto apertado em seu corpo e um sapato vermelho.
— Boa tarde, . — ela falou baixo, sua voz parecia mais fria que o normal.
— Elisa. — eu pendurei a mochila e me sentei no sofá de frente ao dela.
— Acho que chegou a hora que nós dois estávamos evitando, sim? Sente-se, vamos conversar. — ela falou novamente, apontando para o sofá que ficava ao lado do que ela estava.
Ela parecia estranha, mas eu praticamente dava graças a Deus por finalmente ter chegado o momento em que eu seria cem por cento sincero com ela e daria um fim ao nosso relacionamento.
Capítulo 7
So take it off
Let's break down all of our walls
Right now I wanna see it all, oh-oh
(Bordersz - Zayn)
Algum lugar da Inglaterra, 1570
O ar da manhã estava carregado com o cheiro de fumaça e terra úmida, enquanto as ruas estreitas da vila se enchiam do som de vozes e das rodas de carroças sobre a lama endurecida. Viver na Inglaterra em 1570 significava estar cercada pelo rigor da monarquia de Elizabeth I, pelas tensões religiosas que separavam protestantes e católicos, e pela constante vigilância sobre qualquer coisa que pudesse ser considerada “fora do comum”.
Para uma mulher como eu, ser "fora do comum" era inevitável. Eu não sabia ao certo o que me tornava diferente – apenas que desde pequena, o vento parecia obedecer ao meu humor e as chamas dançavam com demasiada alegria perto de minhas mãos. Mas aprender a esconder isso era tão essencial quanto aprender a respirar.
A vila onde vivíamos era uma mistura de tradições antigas e novas leis que o tempo insistia em impor. As pessoas ainda acreditavam em superstições; um espelho quebrado era sinal de desgraça, gatos pretos eram evitados, e as mulheres que olhavam "da maneira errada" poderiam ser acusadas de bruxaria.
Minha rotina, embora simples, era repleta de constantes cuidados. Como curandeira, eu colhia ervas ao amanhecer e ajudava com partos e feridas, evitando que olhares curiosos percebessem quando uma febre desaparecia rápido demais ou uma ferida se fechava antes do esperado. Mas não importava o quanto eu tentasse me manter discreta, havia sempre *ele*. .
era um ferreiro da vila, conhecido por fabricar armaduras e armas para os soldados e nobres que passavam pela região. Com seus cabelos escuros desgrenhados e uma atitude insuportavelmente confiante, ele parecia sempre encontrar tempo para me provocar. Eu o via todas as manhãs, quando ele empurrava sua carroça cheia de ferramentas e metais, passando pelo mercado com aquele sorriso zombeteiro que fazia meu sangue ferver.
— Ora, ora, se não é a nossa bruxinha favorita. — ele disse hoje, quando passei por ele carregando um cesto de ervas. — Tentando enfeitiçar mais alguém com essas folhas ou apenas alimentando os ratos?
Parei no meio do caminho, cerrando os dentes e me obrigando a respirar fundo. A Inglaterra de 1570 não era lugar para brigas abertas, especialmente para uma mulher como eu.
— Melhor alimentar ratos do que dar ouvidos a um. — retruquei, sem encará-lo, mas sabendo que o sorriso dele só aumentaria com minha irritação.
Ele riu alto, o som ecoando pelas ruas como um sinete de desafio. adorava testar minha paciência, e eu odiava admitir que ele conseguia. Ele sabia exatamente o que dizer para arrancar de mim as respostas que eu tanto tentava reprimir.
Enquanto caminhava, observando as pessoas ao meu redor, não pude deixar de refletir sobre o tempo em que vivíamos. O reinado da Rainha Elizabeth era uma era de mudanças – o teatro florescia com dramaturgos como Marlowe e o jovem Shakespeare, enquanto o comércio marítimo crescia a passos largos. Contudo, para nós, camponeses, a vida continuava árdua. A fome era uma ameaça constante, e as guerras religiosas transformavam famílias em inimigos.
, claro, parecia imune a tudo isso. Ele era forte, habilidoso com o martelo, e – para meu desgosto – tinha uma facilidade de conquistar simpatia onde quer que fosse. Já eu, com minhas habilidades silenciosas e uma língua que às vezes era afiada demais para meu próprio bem, precisava andar com cuidado.
Naquela manhã, porém, algo parecia diferente. O vento soprava mais forte do que o habitual, trazendo consigo o cheiro de algo que eu não reconhecia. Um presságio, talvez? Ou apenas meu cansaço de lidar com ? De qualquer forma, eu sabia que aquele homem – com sua irritante presença e palavras afiadas – teria um papel muito maior na minha vida do que eu gostaria.
E eu odiava isso.
O barulho do martelo de ecoava pela praça central como uma batida irritante, ritmada e insistente. Seu posto de trabalho ficava perto do mercado, onde ele exibia suas ferramentas, ferraduras e ocasionalmente pequenas armas, sempre atraindo uma multidão com seu talento. As crianças observavam encantadas quando ele trabalhava, e as mulheres... Bem, algumas ficavam por ali por razões óbvias.
Eu, no entanto, mal conseguia olhar para ele sem querer jogá-lo na forja em que trabalhava.
— Está me seguindo, ? — ele disse quando passei pela praça, ainda carregando um cesto de ervas.
— Quem gostaria de seguir alguém como você? — retruquei sem parar, mas meu tom foi o suficiente para fazê-lo largar o martelo e caminhar na minha direção.
Ele limpou as mãos na túnica de couro que usava e parou na minha frente, bloqueando meu caminho. Seus olhos brilhavam de diversão, como sempre.
— Ora, você tem passado por aqui com muita frequência. Está querendo encomendar uma arma? Uma ferradura? Ou, quem sabe, um feitiço para conquistar alguém?
Cerrei os dentes. Ele sabia o que estava fazendo. Ele adorava o jeito como eu ficava irritada, como se fosse uma vitória pessoal cada vez que eu perdia o controle.
— Não sei por que você acha que sua opinião me importa — respondi. — Mas se continuar me incomodando, talvez eu precise de uma arma, sim. Uma que funcione bem em ferreiros insuportáveis.
Ele riu, inclinando-se um pouco, como se tentasse me intimidar.
— Sempre tão séria, . Um dia, vai acabar sorrindo para mim.
— Quando você parar de falar — murmurei, empurrando-o de lado para passar.
Eu podia sentir seus olhos em mim enquanto me afastava, e ouvi sua risada atrás de mim. Ele era irritante de um jeito que ninguém mais conseguia ser, como uma mosca que insistia em pousar onde não era chamada. Mas o pior era que, por mais que eu quisesse ignorá-lo, ele tinha uma forma de se infiltrar nos meus pensamentos, como uma melodia indesejada.
Quando cheguei ao fim da praça, uma figura familiar chamou minha atenção.
— ?
Eu parei, girando nos calcanhares ao ouvir aquela voz suave. Elisa. Não a via desde a infância, quando brincávamos nos campos fora da vila. Agora, ela parecia diferente. Seus cabelos castanhos estavam presos em um coque elegante, e seus olhos claros brilhavam com algo que eu não conseguia identificar – um misto de doçura e algo mais sombrio, algo que me fez sentir um calafrio, embora eu não soubesse por quê.
— Elisa! — exclamei, surpresa. — Você está aqui? Depois de tanto tempo?
Ela sorriu, aproximando-se para me abraçar, mas o gesto parecia mecânico, ensaiado.
— Voltei há uns dias… — respondeu ela, observando a praça ao redor com um olhar avaliador. — A vila está diferente... E você também, . Ainda trabalhando como curandeira?
— Sim, como sempre. E você? O que tem feito?
— Ah, de tudo um pouco. — disse ela, com um sorriso que parecia esconder mais do que revelar. — Viajei por algumas regiões. Aprendi algumas coisas novas. Estou mais... Completa agora.
Por algum motivo, suas palavras me deixaram inquieta, mas antes que eu pudesse perguntar mais, ela olhou por cima do meu ombro e seus olhos brilharam.
— E aquele ali? Quem é?
Segui seu olhar até , que havia voltado ao trabalho, mas ainda olhava de relance na minha direção com um sorriso presunçoso.
— — respondi, franzindo o cenho. — Ele é o ferreiro da vila. Um incômodo ambulante, na verdade.
— Um incômodo? — Elisa riu, mas seu tom era cheio de interesse. — Parece mais um homem intrigante. Ele... Sempre foi assim com você?
Suspirei, exasperada.
— Sempre. Ele vive para me provocar.
— Talvez ele esteja apenas tentando chamar sua atenção — sugeriu ela, seus olhos fixos em de um jeito que me incomodou.
— Ou talvez ele seja simplesmente insuportável. — Tentei mudar de assunto, mas Elisa parecia curiosa demais sobre ele.
Enquanto falávamos, senti que havia algo mais em Elisa. Algo que ela escondia de mim. Sua expressão era amigável, mas seus olhos carregavam um brilho estranho, como se ela soubesse algo que eu não sabia. O vento soprou mais forte, e por um momento, senti o mesmo presságio de antes. Algo estava mudando. Algo que eu não conseguia entender.
E, para piorar, Elisa parecia muito interessada em – o único homem que eu desejava nunca mais cruzar o meu caminho. O vento trouxe um calafrio inesperado quando Elisa desviou os olhos de e voltou a me encarar. Seu sorriso, antes tão familiar, parecia mais calculado agora, como se ela estivesse testando minha reação a cada palavra.
— Você nunca mencionou que havia... Pessoas interessantes na vila, . — Ela jogou o cabelo para trás com um gesto casual, mas seus olhos brilharam de novo ao olhar para .
— Ele é mais irritante do que interessante, se quer saber. — respondi, tentando esconder minha irritação. Eu não sabia exatamente por que o interesse dela me incomodava tanto. Talvez fosse porque já era irritante o suficiente sem que alguém o elogiasse.
— Irritante? — Ela riu, mas seu tom estava carregado de curiosidade. — Ou talvez você não queira admitir que ele te intriga.
— Não seja absurda, Elisa. — Cruzei os braços, mas senti o rosto esquentar. Não havia nada intrigante sobre , exceto talvez como alguém podia ser tão insuportavelmente convencido.
Antes que eu pudesse me afastar ou mudar de assunto, Elisa inclinou a cabeça, como se tivesse acabado de decidir algo.
— Vou conhecê-lo.
— O quê? — A palavra saiu mais alta do que eu esperava.
— Por que não? Ele parece interessante. E você sabe como sou curiosa.
Sem esperar minha resposta, Elisa começou a caminhar em direção ao posto de trabalho de . Eu fiquei paralisada por um momento, dividida entre correr atrás dela ou fingir que não me importava. Mas algo me dizia que permitir que os dois se conhecessem seria uma péssima ideia.
Quando finalmente decidi segui-la, já era tarde. Elisa parou ao lado de , que ergueu os olhos e imediatamente exibiu aquele sorriso irritante que eu tanto odiava.
— Olha só, a trouxe companhia. — Ele largou o martelo e limpou as mãos, olhando para Elisa com um interesse que eu não gostei nem um pouco.
— Elisa. — ela disse, sorrindo de um jeito doce, mas que parecia esconder um segredo. — Amiga de infância da . E você deve ser o famoso ferreiro da vila.
— Famoso? — Ele ergueu uma sobrancelha, visivelmente adorando a atenção. — Não sabia que tinha uma reputação tão boa.
— Parece que alguém anda falando muito de você. — Elisa olhou para mim por cima do ombro, e o tom de provocação na voz dela fez meu sangue ferver.
— Não se iluda. — cortei, parando ao lado deles. — Só mencionei você porque é difícil ignorar alguém que faz tanto barulho.
riu, aquele riso profundo e despreocupado que parecia ecoar por toda a praça.
— Sempre tão gentil, . Mas agora vejo que suas amigas têm muito mais bom gosto. — Ele lançou um olhar para Elisa, que sorriu como se estivesse se divertindo com a situação.
— Talvez eu tenha mesmo. — Elisa inclinou-se ligeiramente, como se estivesse avaliando . — E parece que você é tão interessante quanto imaginei.
Eu cruzei os braços, tentando ignorar o desconforto que subia pelo meu peito. Não era ciúme. Não podia ser. Era simplesmente... irritação. Sim, irritação. Elisa estava jogando com algo que eu não entendia completamente, e , claro, estava adorando cada segundo.
— Bem, foi ótimo interromper o trabalho do , mas temos coisas a fazer, Elisa. — Tentei cortar a conversa, mas ela me ignorou completamente.
— Na verdade, não estou com pressa. — Ela sorriu, olhando de relance para antes de se virar para mim. — Mas se você estiver ocupada, pode ir.
— Elisa. — Minha voz saiu mais ríspida do que eu pretendia, mas ela apenas ergueu as sobrancelhas com um ar inocente.
— Não se preocupe, . Só estou curiosa. Quero conhecer as pessoas da vila.
Eu sabia que havia algo mais. Algo escondido sob aquele sorriso gentil e aquele comportamento confiante. Elisa sempre foi minha amiga, mas agora havia algo nela que parecia... errado. O modo como seus olhos brilhavam quando olhava para , o jeito como ela parecia medir cada palavra. , claro, não parecia perceber nada. Ele estava se divertindo, aproveitando cada momento para me provocar e, aparentemente, encantar Elisa.
— Bem, se precisar de algo, estou aqui — ele disse para Elisa, lançando um olhar para mim que parecia dizer "não é você quem manda aqui".
Enquanto eu tentava decidir se gritava ou simplesmente ia embora, senti um arrepio estranho na nuca. Olhei para Elisa, que ainda sorria, mas havia algo nos olhos dela... Algo que me fez lembrar das histórias que ouvíamos quando crianças, sobre bruxas que usavam seus encantos para manipular e destruir. Eu não sabia se estava imaginando coisas, mas algo me dizia que Elisa não estava aqui apenas para reencontrar uma velha amiga.
E o interesse dela por ? Isso era ainda mais preocupante.
O vento soprou de novo, forte o suficiente para sacudir os galhos das árvores, e senti como se um aviso pairasse no ar. Algo estava prestes a mudar. E, como sempre, estava no centro disso tudo – para o meu eterno desgosto.
New York, 2024
Assim que ouvi o pedido de Elisa para me sentar ao seu lado, eu fiz. Eu realmente precisava acabar com aquele relacionamento de uma vez por todas. não saia da minha cabeça. Não era justo com ela e nem com a Elisa.
– Já passou da hora de conversarmos sobre isso, não é? – ela falou, me fazendo olhá-la novamente. Seu olhar estava um pouco diferente, parecia frio, parecia penetrar profundamente em minha alma, vendo todos os meus pecados, até o menor deles.
Me causou um arrepio.
Literalmente da cabeça aos pés.
E eu não soube entender o porquê.
– Sim. Elisa, eu… – comecei a falar, ia explicar o motivo de querer resolver nosso relacionamento, mas fui interrompido por ela novamente.
– Eu já sei, … Você acha que eu nunca percebi todas as suas saídas à noite para ir buscar aquela menina? Você realmente achou que eu era burra o suficiente para acreditar que você saia para tomar um ar ou qualquer outra desculpa lamentável que você me dava? – ela entrelaçou os dedos da mão, apoiando sobre as pernas.
– Eu sei, vacilei. Eu assumo isso… Eu agi como um adolescente babaca, eu poderia ficar inventando um milhão de desculpas para você, Elisa. Mas eu simplesmente não tenho uma. Eu realmente fiz isso.
O mínimo que eu poderia fazer, era ser sincero com ela dessa vez, já que quando eu realmente podia e precisava, eu não fiz.
– É. Você vacilou, foi um moleque. Você não agiu como um adulto que é. Pelo amor de Deus, . Essa menina é uma criança. – ela falou, demonstrando estar irritada. E com razão. O que eu poderia dizer? – Você me decepcionou… Eu esperei tanto tempo para ter você comigo. Nós estamos há três anos juntos e eu esperava ao menos um pedido de casamento e não um chifre.
– Você tem toda razão de estar brava. – falei, respirando fundo e me ajeitando no sofá. – Me desculpe, por não ter te falado. Por não ter resolvido antes, eu realmente deveria ter feito. Mas meu pensamento continua o mesmo… Eu vou querer terminar, Elisa.
Eu acho que ela não esperava, mesmo com tudo isso. Porque seu olhar se escureceu no mesmo momento, mas ela abaixou a cabeça, levando as mãos até o rosto.
– Você vai realmente terminar um relacionamento de três anos por causa de uma menina mais nova que você, sua aluna, inclusive?
Aquelas palavras me faziam pensar um pouco em tudo o que estava acontecendo. Eu realmente deveria fazer isso? Deveria terminar meu relacionamento para talvez insistir em algo com ? Deveria desistir?
Alguém me disse uma vez que não se deve desistir de um grande amor. E era isso o que era para mim. nunca foi só alguém que eu conheci, ela foi alguém que já existia em minha mente antes que eu pudesse conhecê-la. Antes que eu sequer a visse pela primeira vez, mas ela existia na minha cabeça. Isso é coincidência? Eu não sei, mas isso não parece um amor passageiro para mim.
E sobre Elisa… Bem, alguns relacionamentos servem de aprendizado, e a gente percebe que algumas coisas tem que ter fim. E era o caso meu e da Elisa.
– Na realidade, eu acho que isso é extremamente problemático, inclusive. Você já imaginou se a NYU descobre que você está se relacionando com uma aluna? Vai perder o emprego. – ela levantou uma sobrancelha e deu um sorriso ladino. – Já pensou se alguém falasse para a coordenação sobre isso? Seria uma pena, hm?
– Você não faria isso… Faria? – perguntei, sentindo o sangue ferver no mesmo momento.
Beleza, eu errei e não fui totalmente honesto. Mas isso? Isso era loucura.
– , você não tem a mínima ideia do que eu posso fazer… – ela falou, dando um sorrisinho. – Te dou um dia. Aproveite sua noite, onde quer que você queira ir e amanhã antes de ir para o seu trabalho, nós voltamos a conversar.
Dei menção para respondê-la e ela balançou a cabeça em negação, voltando a falar.
– Vai, . É sério, some daqui. – ela falou e então, eu me levantei do sofá, ainda ponderando sobre o que realmente deveria fazer. Mas então, de supetão, eu decidi ir tomar um banho e ir naquela tal festa que os alunos estavam falando. Seria estranho estar numa festa de fraternidade? Sim. Mas eu realmente queria ver e falar com .
Era em torno de dez horas da noite, mais ou menos. Eu estava estacionado em frente da fraternidade Alpha Kappa Tau ou a AKT. Uma música eletrônica tocava bem alto, era possível ouvir a quarteirões de distância. Desde que saí da faculdade, nunca mais me imaginei estando em uma fraternidade a não ser para sei lá. Ajudar algum aluno? Qualquer coisa, menos isso. Eu realmente estava aqui para entrar nessa festa?
As pessoas fazem cada coisa por amor.
Olhando de fora, era possível ver a bagunça que estava naquele ambiente. No lado de fora, no gramado, havia pessoas dançando, pessoas se beijando, usando drogas e bebendo. Não nessa ordem, mas ainda assim estavam ali. Encostei a cabeça no volante do carro e o apertei firme, fazendo meus dedos ficarem esbranquiçados por conta do aperto. Muitas coisas passaram pela minha cabeça, sobre o que eu realmente deveria fazer.
— Ah, claro, arriscar a carreira para me infiltrar numa festa de fraternidade e ir atrás de uma aluna – se isso não é o ápice do absurdo, não sei o que seria. Mas, às vezes, a lógica se curva diante de uma tentação que a razão nem se atreve a nomear. — falei sozinho, com a cabeça encostada no volante do carro.
E então decidi finalmente sair dali. Fechei a porta do carro e segui para dentro da casa. Aquele lugar cheirava a maconha, bebida e sexo, eu sinceramente não vejo num lugar desse, mas se é aqui que ela quer estar, então que seja.
Passei por todas aquelas pessoas, bêbadas e chapadas demais para perceberem que tinha um professor ali, ou se perceberam, ninguém se importou. Meus olhos percorriam por cada mísero canto daquela casa barulhenta – eu devo estar ficando velho – então, vi um dos alunos que estavam na mesma sala de e o cutuquei.
— Ei. Você viu a ? — perguntei, falando bem alto para que ele pudesse me ouvir.
O rapaz se virou, seus olhos vermelhos e as pupilas dilatadas mostravam que ele estava muito longe de estar são. Talvez nem mesmo soubesse do que eu estava falando.
— Lá em cima com o Richard. — ele apontou as escadas e eu senti um frio na barriga.
Só de imaginar outra pessoa sequer tocando um dedo nela, já me causava sensações que eu não sabia explicar. Provavelmente, eu nem tenho muita moral para poder falar sobre isso já que ela é solteira e eu era noivo até umas horas atrás.
A cada degrau que eu subia, o som ainda alto, ficava mais distante e era possível ouvir um falatório no corredor. O corredor era longo, tinha um tapete marrom que contrastava com as portas brancas, provavelmente umas dez. Ou mais. Quem está contando?
Passei por algumas portas fechadas, outras entreabertas com quartos vazios, até que no final do corredor, uma porta entreaberta que foi o suficiente para que eu conseguisse ver e Richard lá dentro.
estava sentada na ponta da cama, tinha um sorriso tímido e Richard estava em pé na frente dela, com um copo de bebida na mão. Eu sei que não tinha esse direito, mas… simplesmente abri a porta de vez, quando eles me viram, foram reações opostas.
estava surpresa, mas parecia feliz em me ver. Os olhos dela brilhavam, contrastando com o seu vestido.
Richard me olhava com certo ódio nos olhos e naquele mesmo instante eu tive um flashback do sonho em que ele me matava na segunda guerra.
— ? — foi a primeira a dizer alguma coisa.
— Cara, você não viu que a gente estava conversando? — Richard falou, seu tom carregado de desdém.
— Eu não estou nem aí, vaza. — falou, apontando a saída para Richard, que apertou os próprios punhos no mesmo instante.
— Você está na minha fraternidade, se alguém tem que sair é você. — Richard falou, demonstrando sua irritação, mas eu estava literalmente pouco me fodendo para ele.
— Eu preciso falar com a . — falei, tentando manter a calma. Que tipo de adulto responsável eu seria se discutisse com um moleque de vinte e poucos anos.
— Não. Sai daqui, cara. — Richard falou, porém, se levantou da cama e eu senti um frio na barriga com aquele simples ato dela.
— Richard, eu quero ouvir o que ele tem para me dizer. Você pode dar licença? — ela pediu e eu não consegui poupar um sorriso ladino, orgulhoso para um caralho por essa atitude dela.
O rapaz não respondeu nada, apenas saiu bufando do quarto e bateu a porta logo atrás de mim. Eu tranquei a porta e suspirei, dando passos lentos em direção da .
— Então… — falei baixo, me aproximando dela aos poucos, a tensão no quarto automaticamente aumentava a cada passo para perto dela, a cada pequeno centímetro que ia diminuindo quando eu me aproximava.
— Eu não sabia que você viria. — ela falou, cruzando os braços e se mantendo em pé na ponta da cama.
Eu me aproximei, ficando perto dela e deu um sorriso, estava animado para fazer o que estava na minha cabeça desde o primeiro dia que a vi.
— Eu tinha um assunto para tratar com você. — falei baixo, fingindo uma voz um pouco dura. Ela arregalou os olhos, sua expressão era confusa.
E fofa, não dava para negar.
— O que é? — ela perguntou e eu dei mais um único passo perto dela, nossos rostos estavam perigosamente perto, eu precisava fazer isso.
Precisava sentir os lábios dela nos meus.
Então, eu não respondi. Na verdade, havia decidido quebrar o contato, uma das minhas mãos seguraram firmemente a cintura dela e a outra no rosto. Embora estivéssemos perto da cama, minha reação foi caminhar com ela até a parede mais próxima, encostando as costas dela ali e então, guiando meus lábios ferozmente sobre os dela.
De início, ela não se moveu, mas conforme minha língua percorria dentro da boca dela, começou a retribuir. Aquele era sem dúvidas, o melhor beijo que eu já tinha recebido em toda a minha vida.
Eu a apertei contra a parede e meu corpo contra o dela, e pude ouvir um gemido quase inaudível saindo da boca dela. Aquilo era como uma permissão para mim, trilhei alguns beijos pelo queixo dela até o pescoço de , mordiscando levemente, mas deixando alguns chupões. Logo, meu foco se voltou para os lábios dela. Nossas línguas se enroscavam e quase se transformavam em uma só. A meia luz no quarto só tornava o ambiente ainda mais convidativo. Senti as mãos dela percorrendo minhas costas até o meu cabelo e suspirei mesmo contra o beijo, sem vergonha de mostrar o efeito que ela tinha em mim… E ela nem mesmo fazia ideia do tamanho dele.
— Eu esperei tanto por esse dia… — falei baixo, após mordiscar levemente o lábio inferior dela, aproveitando esses segundos para recuperarmos o ar. Ela não disse nada e aquela foi a minha deixa para voltar a beijá-la.
Minhas mãos dessa vez escorregaram até a nuca dela conforme nossas línguas se enroscavam em um beijo que tinha muito mais do que sentimentos de desejo. Também tinham muitas palavras nunca ditas, sentimentos nunca explorados. Pelo menos para mim.
Antes que eu pudesse voltar a fazer qualquer coisa, se afastou de mim e eu a olhei confuso. Seus olhos estavam arregalados e ela levou as mãos à boca.
— Você está noivo! — ela exclamou e eu suspirei, iria explicar que eu e Elisa não teríamos mais nada. — Nunca mais faça isso! Não me segue, não vem atrás de mim senão vou dizer que você está tentando abusar de mim.
Ela falou, ajeitando os cabelos e parecia que seus olhos estavam ligeiramente marejados. Me xinguei mentalmente.
— , eu… — Comecei a falar e ela me interrompeu, me empurrando para passar.
— Não quero saber. Não venha atrás de mim, .
Ela abriu a porta e saiu correndo, sumindo entre a multidão de pessoas existentes naquele corredor e naquela casa. Eu suspirei irritado, meu coração ainda estava acelerado, finalmente a beijei depois de tanto tempo desejando e sonhando com ela. Talvez, depois disso tudo ela acabe parando de aparecer em meus sonhos.
Tinha passado em torno de uma hora e eu tinha acabado de chegar em casa. O sabor dos lábios de ainda estava em meus lábios, assim como a sensação do toque dela em meu corpo, e as minhas mãos em seus cabelos. Decidi que o certo a fazer seria entrar num banho e foi o que fiz.
Sentia a água caindo sobre meu corpo, meus olhos fechados e uma das mãos estavam apoiadas sobre a parede. Toda vez que eu pensava em , no beijo, no toque dela em mim. Eu sentia algo por aqui. Meu membro involuntariamente deu o ar da graça e eu suspirei. Realmente faria isso, hein?
Coloquei um pouco de sabonete em uma das minhas mãos e logo a guiei até meu pau. A mão dominante deslizou sobre o membro ereto, da ponta até a base e eu suprimi um gemido, fechando os olhos. Continuei a mover a mão para cima e para baixo, pensava em , pensava em nós juntos, naquele maldito sonho onde eu a fazia ser minha.
Passei o polegar sobre a glande, sentindo um arrepio percorrer meu corpo e mantive os olhos fechados. Me empenhando apenas em usar a minha imaginação. Apertava gentilmente a base do meu pau e acariciava a glande, fazendo movimentos para cima e para baixo, aumentando a velocidade ao perceber que meu orgasmo estava perto. A sensação de sentir o corpo formigar e tremer sutilmente enquanto movia a mão de forma tão natural para mim, mas por um motivo diferente dessa vez. Senti a água ainda cair sobre parte das minhas costas, apoiando a mão livre na parede enquanto gemia baixo. O nome de saiu tão automático de meus lábios enquanto gozava e meu corpo tremeu enquanto eu gozava sobre o chão do banheiro, tentando normalizar a respiração e os batimentos, mas sem conseguir tirar a da minha cabeça, nem mesmo por um mísero minuto.
Capítulo 8
Let me inside
Let me get close to you
Change your mind
I'll get lost if you want me to
Somehow I found a way to get lost in you
(Lost in you - Three days grace)
Algum lugar da Inglaterra, 1570
O campo onde eu treinava ficava a uma curta caminhada da vila, cercado por árvores cujos galhos ainda estavam cobertos pelo orvalho da manhã. O ar cheirava a madeira queimada e terra úmida, e o som distante de cavalos e carroças ecoava da estrada principal. Naquela época, os dias começavam cedo, especialmente para aqueles que, como eu, precisavam evitar chamar atenção demais.
As mulheres da vila já estariam ocupadas, lavando roupas no rio ou carregando cestos pesados para o mercado. Homens trabalhavam nos campos ou no comércio, e a nobreza… bem, a nobreza descansava, como sempre.
Eu, por outro lado, estava ali, tentando treinar com uma balestra que parecia mais antiga do que a própria vila. Precisava de concentração, precisão. Mas nunca me permitia ter um momento de paz.
Ele apareceu como sempre aparecia: sem ser chamado e com o sorriso mais irritante do mundo nos lábios.
— Você sabe que isso não é um brinquedo, certo?
Fechei os olhos por um instante, tentando encontrar um pingo de paciência.
— Eu não estou de brincadeira, . Vá embora.
— E perder a oportunidade de ver você errando todos os tiros? — Ele cruzou os braços, encostando-se casualmente a uma árvore.
Puxei a corda da balestra e mirei o alvo improvisado à frente. Um saco de grãos, preso precariamente a um tronco. Soltei o gatilho e a flecha passou rente, errando por pouco.
— Impressionante. — sorriu. — Talvez se você pedir com jeitinho, eu possa te ensinar.
Girei nos calcanhares para encará-lo, a irritação queimando no peito.
— Eu não preciso da sua ajuda.
— Não? Então talvez precise de outra coisa. Alguma coisa pra aliviar esse mau humor?
— Eu juro por tudo o que é mais sagrado, …
— Jura o quê? Vai atirar em mim?
O desafio nos olhos dele foi o que me fez agir. Levantei a balestra e mirei no chão perto de seus pés.
— Saia do caminho.
— Ou o quê?
Antes que eu pudesse responder, meus dedos escorregaram no gatilho. O som da flecha cortando o ar foi rápido demais para ser evitado. Um segundo depois, soltou um grunhido abafado.
A flecha cravou no braço dele.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Ele caiu de joelhos, a mão segurando o ferimento, os olhos arregalados de choque.
— Você… atirou em mim?
Meu coração disparou. Corri até ele, o pânico começando a se instalar.
— Foi sem querer!
Ele me olhou por um instante e, para minha completa indignação, começou a rir.
— Sem querer? Maluca. — Sua risada foi entrecortada por uma careta de dor. — Parece que finalmente consegui fazer você reagir.
Cruzei os braços, sem conseguir decidir se me preocupava ou se o socava.
— Eu deveria ter mirado na sua boca.
— Não, você fez bem. — Ele ergueu os olhos para mim, um brilho de diversão neles, mesmo machucado. — Agora temos uma história para contar.
— , cale a boca.
— Mas só se você prometer que vai cuidar do meu braço. Com… delicadeza.
Eu podia enfiar outra flecha nele. Mas, para meu azar, a única coisa pior do que a sua tagarelice insuportável era o fato de que, mesmo ferido, ainda conseguia me desestabilizar.
E então Elisa apareceu.
Ela vinha do caminho que levava à vila, os passos leves e graciosos, o vestido azul movimentando-se com a brisa. Seu cabelo castanho estava solto, e seus olhos brilharam ao ver . Mas assim que percebeu a flecha no braço dele, seu sorriso diminuiu.
— O que aconteceu aqui? — Sua voz era doce, mas afiada.
olhou para ela e, pela primeira vez, não parecia tão divertido.
— resolveu testar sua pontaria… em mim.
Elisa arregalou os olhos e, para minha total surpresa, se aproximou dele rapidamente.
— Você está bem? — Ela tocou seu ombro com delicadeza exagerada, os dedos percorrendo o tecido manchado de sangue.
Revirei os olhos.
— Ele sobreviveu. Infelizmente.
Elisa lançou-me um olhar de relance, antes de voltar sua atenção para .
— Deixe-me ajudá-lo — ela disse, quase num sussurro.
, para minha satisfação, afastou-se um pouco.
— Estou bem. É só um arranhão.
Mas ela não se deu por vencida.
— Mesmo assim, não pode sair por aí desse jeito. — Seu tom era doce, mas havia algo possessivo ali.
Antes que eu pudesse dizer algo, outro som veio do caminho. Passos firmes, ritmados. Um homem alto, vestido com um manto escuro, aproximava-se. Ele parecia deslocado, diferente dos outros homens da vila. Havia algo na maneira como se movia — calculado, meticuloso.
Elisa imediatamente endireitou a postura, mas, por um breve momento, o sorriso confiante sumiu de seu rosto. Seus dedos, que ainda repousavam sobre o ombro de , se contraíram ligeiramente.
O som de passos firmes ecoou pela trilha. Um homem alto, vestido com um manto escuro e tecido caro demais para um camponês comum, aproximava-se com um andar ritmado e cuidadoso. Ele parecia deslocado, como se não pertencesse àquele lugar.
Seus olhos varreram a cena, parando primeiro na flecha cravada no braço de , depois em mim, e, por último, em Elisa.
Ela não se moveu de imediato, mas eu percebi quando sua respiração mudou.
— Elisa. — A voz do homem era baixa, medida com precisão.
Ela piscou, como se levasse um instante a mais para encontrar a resposta certa.
— Richard… — disse com um sorriso que parecia ensaiado. — O que faz aqui?
Richard ignorou a pergunta. Seus olhos escuros permaneceram fixos nela por um instante longo demais. Havia algo ali — não uma autoridade explícita, mas uma hesitação, um desconforto disfarçado.
Ele desviou o olhar para .
— O que aconteceu?
— Um erro de cálculo de — respondeu antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.
Richard pareceu ponderar isso por um momento, então voltou a atenção para Elisa.
— Espero que não esteja desperdiçando seu tempo — ele disse, quase num murmúrio.
O sorriso de Elisa permaneceu, mas algo em sua postura ficou mais rígido.
— Eu nunca desperdiço meu tempo, Richard.
A troca entre os dois foi sutil, mas carregada de significados que eu não conseguia decifrar. Não havia submissão da parte dele, nenhuma tentativa de impor-se sobre ela. Na verdade, se eu não conhecesse melhor, diria que Richard estava… nervoso.
Ele desviou o olhar primeiro.
— Nos veremos depois — murmurou, e então deu meia-volta, desaparecendo pela trilha por onde viera.
Elisa ficou imóvel por um instante antes de soltar um suspiro leve e virar-se novamente para , como se nada tivesse acontecido.
Mas algo aconteceu. Eu só não sabia o que. E isso me incomodava mais do que eu queria admitir.
— Venha, . — falei, querendo levá-lo para minha cabana. — Me deixe limpar isso.
New York, 2024
O sol mal havia nascido e eu já estava acordado, encarando o teto do quarto com o corpo tenso e os pensamentos pesados. O cheiro de ainda parecia impregnado na minha pele, mesmo depois do banho. O gosto do beijo dela não havia sumido, e cada toque que trocamos na noite anterior continuava queimando em minha memória.
Mas agora, a realidade se impunha.
Eu me virei na cama, sentindo o lençol frio ao lado. Elisa ainda estava dormindo no outro quarto. Talvez ela soubesse que eu chegaria tarde e preferiu não me encarar. Ou talvez quisesse esperar por um momento mais estratégico. O que quer que fosse, eu sabia que o ultimato ainda estava de pé. Levantei, passei as mãos pelo rosto e segui para o banheiro. O reflexo no espelho não me agradava: olhos cansados, expressão fechada, uma sombra de dúvida pairando sobre mim. Será que eu cometi um erro ao seguir naquela festa? Será que estraguei tudo?
Não, não tinha sido um erro. Eu sentia isso no fundo da alma. O problema era o peso das consequências.
O café da manhã foi silencioso. Elisa estava sentada na bancada da cozinha, girando lentamente uma colher dentro da xícara de café, os olhos fixos no líquido escuro como se enxergasse algo além. Eu peguei um copo de água e me apoiei no balcão, esperando pelo momento inevitável.
— E então? — a voz dela cortou o silêncio como uma lâmina afiada.
— E então o quê? — respirei fundo, já sabe do o que viria.
Ela riu de leve, um som seco e carregado de ironia.
— Você acha que eu não sei onde você estava ontem à noite? Acha que eu não sei que você foi atrás dela?
Eu não respondi de imediato. Sabia que qualquer justificativa que desse soaria patética.
— Elisa… — comecei, tentando manter a calma.
— Eu te dei um dia, . Um. Dia. Mas você mal esperou algumas horas para correr atrás daquela garota. — eu apertei a mandíbula, sentindo o peso do erro que cometi. Sim, eu deveria ter encerrado tudo de maneira mais digna. Mas e daí? Elisa não queria dignidade, queria controle.
— O que você quer que eu diga? Eu já tomei minha decisão. — ela pousou a xícara no balcão com um leve estrondo e inclinou a cabeça, o olhar carregado de desafio.
— Quero que você entenda o que está prestes a perder. Se eu levar isso para a faculdade, , você não só perde o emprego, como pode se despedir da sua carreira. O que acha que vão pensar quando descobrirem que um professor se envolve com uma aluna?
Eu fechei os olhos por um breve instante. Aquilo era chantagem. Mas o pior de tudo era que ela estava certa.
— Você não faria isso.
— Experimente me desafiar. — Elisa sorriu, um sorriso cruel.
O silêncio entre nós foi quase sufocante. Eu sentia a raiva borbulhar dentro do meu peito, mas sabia que precisava manter o controle. Perder a paciência só daria mais poder a ela.
— Eu já tomei minha decisão, Elisa. — falei com firmeza, me afastando da bancada. — Se você quer arruinar minha vida, vá em frente. Mas eu não vou me esconder de algo que eu sinto.
Os olhos dela faiscaram.
— Veremos, . Veremos.
A universidade parecia ainda mais caótica do que o normal naquela manhã. O burburinho dos corredores, o som dos alunos discutindo provas e trabalhos, os passos apressados ecoando pelo chão de mármore. Eu caminhava com o olhar fixo à frente, tentando me concentrar no que precisava fazer. Eu precisava encontrar . Precisava conversar com ela.
Mas antes mesmo que pudesse procurá-la, eu a vi.
estava sentada em um dos bancos do jardim central, os fones de ouvido enroscados no celular, um livro aberto no colo. Mas ela não lia. Não realmente. Seus olhos estavam fixos em um ponto qualquer à frente, a mente evidentemente distante.
E ao lado dela, sentado casualmente, estava Richard.
A visão foi como um soco no estômago.
Apertei os punhos, sentindo uma onda de possessividade tomar conta do meu corpo de maneira irracional. Eu sabia que não tinha esse direito. Sabia que, do ponto de vista de , eu ainda era um homem comprometido. Mas mesmo assim, não conseguia evitar. Richard ria de algo que dizia, inclinando-se levemente para mais perto de . E ela… Bem, ela não parecia exatamente desconfortável.
Aquilo foi o suficiente para eu perder o que restava de paciência.
Me aproximei de maneira firme, parando bem diante dos dois. ergueu o olhar, e o brilho nos olhos dela se apagou no mesmo instante.
— … — ela murmurou, surpresa e, talvez, um pouco nervosa.
Richard, por outro lado, sorriu com pura provocação.
— Professor, que honra vê-lo aqui. — ele falou com sarcasmo. — O senhor está se sentindo à vontade entre os alunos?
Eu ignorei Richard completamente, focando apenas em . Esse moleque não merecia a minha atenção.
— Precisamos conversar.
Ela hesitou. Olhou para Richard por um breve momento antes de fechar o livro e se levantar.
— Tudo bem. — ela disse, sem emoção.
Indiquei um canto mais afastado do jardim, e me seguiu em silêncio. Quando finalmente paramos, eu suspirei, tentando organizar as palavras em minha mente.
— , sobre ontem à noite…
— Não. — ela me cortou de imediato. — Não fale sobre ontem à noite.
— Mas eu preciso que você me ouça. — falei sincero, tocando sutilmente um dos braços dela.
Ela riu sem humor, cruzando os braços depois de evitar o meu toque.
— Ouvir o quê, ? Que você foi embora da casa da sua noiva direto para me beijar? Que você foi atrás de mim naquela festa como se não houvesse nenhuma consequência?
Eu não pude deixar de sentir o peso da culpa se instalar em meus ombros.
— Eu terminei com a Elisa.
piscou algumas vezes, parecendo processar a informação.
— O quê?
— Eu terminei com ela. Ontem à noite.
O silêncio se estendeu entre nós, e desviou o olhar, mordendo o lábio inferior.
— Isso não muda nada, . — meu coração apertou com aquelas palavras.
— Como assim?
— Significa que eu não posso confiar em você. — ela falou, a voz carregada de emoção. — Se eu ceder, se eu te deixar entrar na minha vida, quem me garante que você não vai me decepcionar também?
Eu abri a boca para responder, mas não consegui. Não tinha uma resposta para isso. E então, antes que pudesse tentar argumentar, se afastou. E eu fiquei ali, parado, sentindo o frio da manhã cortar a minha pele e com uma baita cara de idiota.
Algumas horas depois, eu ainda tentava entender o que tinha acontecido e onde eu tinha realmente errado. Eu fui um merda mesmo? Meu erro foi amar para um caralho alguém que eu mal conhecia. E daí que eu sonhava com ela? Não deveria significar nada. O burburinho dos alunos se misturava ao som de passos apressados e vozes animadas, mas nada disso conseguia distrair minha mente do que tinha acontecido na noite anterior.
Eu mal dormi. Depois que saiu correndo daquele quarto, me deixando sozinho e frustrado, voltei para casa e tentei esquecer o jeito como seus lábios encaixavam nos meus. O jeito como ela suspirava entre um beijo e outro. O jeito como seu corpo se moldava ao meu.
Mas não consegui.
E agora, enquanto caminhava pelos corredores da NYU, tudo que eu queria era vê-la de novo. Mesmo sabendo que a última coisa que ela queria era me ver.
Meus olhos passaram rapidamente pelas pessoas ao meu redor, procurando por ela sem nem perceber. Só que, em vez de , encontrei outra pessoa me esperando. Elisa.
Ela estava encostada na parede próxima à sala dos professores, os braços cruzados e uma expressão enigmática no rosto. Diferente da noite anterior, quando explodiu de raiva, agora parecia mais contida. Mas o olhar... O olhar dela continuava o mesmo.
— — ela me chamou, e sua voz saiu quase doce. Quase.
Eu parei na frente dela, sabendo que aquilo não ia ser uma conversa tranquila.
— Elisa. O que você quer? — fui direto ao ponto.
— Você sabe exatamente o que eu quero. — ela descruzou os braços e deu um passo mais perto. — Você pensou melhor sobre ontem? Ou ainda acha que terminar comigo por causa de uma aluna é a melhor escolha que já fez na vida?
Eu inspirei fundo.
— Meu pensamento continua o mesmo.
— Certo. Mas e se eu te dissesse que a coordenação recebeu uma denúncia anônima essa manhã? — o sorriso no rosto dela aumentou, mas seus olhos tinham um brilho perigoso.
Meu corpo ficou tenso no mesmo instante.
— Do que você está falando?
Ela fingiu examinar as unhas antes de voltar a me encarar.
— Alguém contou que um certo professor da NYU foi visto saindo da festa da AKT ontem à noite. — ela deu um passo para o lado, abrindo espaço para que um grupo de alunos passasse pelo corredor. Quando voltamos a ficar sozinhos, sua voz saiu ainda mais baixa e afiada: — O que será que aconteceria se soubessem que esse professor estava atrás de uma aluna em específico?
Meu maxilar travou.
— Você realmente fez isso?
— Eu só achei que a coordenação deveria saber o que anda acontecendo. — ela deu de ombros. — Você sabe, pelo bem da universidade e da reputação do corpo docente.
Eu senti meu sangue ferver.
— Elisa, isso não é um jogo. Você pode acabar com a minha carreira.
— E você pode acabar com a minha dignidade. Acho que estamos quites.
Passei a mão no rosto, tentando manter a calma. Eu sabia que terminar com ela não seria fácil, mas não imaginei que Elisa levaria isso a esse nível.
— Eu não vou mudar de ideia — falei com firmeza.
Ela arqueou uma sobrancelha, como se já esperasse essa resposta.
— Ótimo. Vamos ver o que a coordenação acha disso, então.
E, com um último sorriso venenoso, ela se afastou, me deixando ali, sentindo como se estivesse prestes a perder tudo.
As próximas horas passaram arrastadas. Dei minhas aulas no automático, sem realmente prestar atenção no que falava. Minhas mãos tremiam levemente sempre que eu as apoiava na mesa, e minha mente alternava entre o medo de perder meu emprego e a lembrança do gosto de .
E então, na última aula do dia, lá estava ela.
entrou na sala com uma expressão séria, evitando meu olhar. Mas, mesmo assim, eu a notei. Notei o jeito que ela apertava os livros contra o peito, como se quisesse se proteger. O jeito que seu cabelo estava preso de qualquer forma. O jeito que, por um segundo, antes de se sentar, seus olhos encontraram os meus.
E aquele segundo foi o suficiente para que eu soubesse: ela também estava pensando na noite anterior. Mas ela desviou o olhar rápido, indo se sentar ao lado de Richard.
Ótimo. Exatamente o que eu precisava.
O idiota parecia estar adorando a situação. Sussurrava algo no ouvido dela de vez em quando, e soltava risadas abafadas, como se quisesse me provocar. Talvez fosse só coisa da minha cabeça. Talvez fosse paranoia. Mas, naquele momento, tudo que eu conseguia pensar era que Richard sabia.
Ele sabia que eu queria .
Porque ele a queria tanto quanto eu.
Capítulo 9
If tomorrow you won't be mine
Won't you give it to me one last time?
Oh, baby, let me love you goodbye
(One direction - Love you goodbye)
Algum lugar da Inglaterra, 1570
A noite já caía sobre a floresta, espalhando sombras alongadas pelo chão coberto de folhas secas. O vento frio de outono silvava entre os galhos retorcidos das árvores, trazendo consigo o cheiro da madeira queimada das lareiras distantes. O casaco de não era suficiente para conter o arrepio que subiu por sua espinha, embora ele soubesse que não era apenas o frio que o incomodava.
andava ao seu lado, segurando o braço dele com mais firmeza do que o necessário, guiando-o por um caminho que conhecia bem. Mesmo com o tecido grosso de sua veste, ele conseguia sentir a pressão dos dedos dela contra sua pele. A expressão no rosto de era severa, mas havia algo mais ali—um brilho intenso nos olhos que ele não conseguia decifrar. Frustração? Culpa? Ou algo pior?
— Está apertando demais — murmurou, tentando ignorar a dor que pulsava em seu braço ferido.
lançou-lhe um olhar de canto, os lábios curvando-se em um sorriso quase desdenhoso.
— Talvez seja melhor do que você sangrar até a morte no meio da estrada — retrucou, sem diminuir a pressão.
— Não exageremos. — ele tentou manter a voz firme, mas a verdade era que a flecha cravada em seu braço não lhe dava trégua. Cada passo fazia o ferimento latejar como fogo vivo.
O silêncio se instalou entre os dois por alguns minutos, quebrado apenas pelo farfalhar de suas botas sobre a terra úmida. Elisa os seguia a uma curta distância, sua presença discreta, mas impossível de ignorar. O encontro com Richard havia deixado um peso no ar, uma tensão que ainda não conseguia entender por completo.
Finalmente, chegaram a uma clareira oculta atrás de uma parede de carvalhos antigos. No centro, uma cabana de pedra se erguia, pequena, mas sólida, com um telhado de palha coberto por musgo. A luz bruxuleante de velas escapava pelas frestas da janela, sugerindo que já havia alguém lá dentro.
— Entre — ordenou, empurrando a porta de madeira com um rangido.
hesitou por um instante, mas a dor insistente lembrou-o de que não tinha escolha. Ele atravessou o limiar, sentindo o calor reconfortante da lareira no centro da sala. A cabana estava repleta de ervas secas penduradas no teto, potes de barro alinhados em prateleiras, e um pequeno baú no canto, que ele supôs guardar ataduras e unguentos.
— Sente-se. — a voz de era cortante, prática, como se estivesse lidando com um paciente qualquer, e não com ele.
obedeceu, afundando-se na cadeira de madeira com um suspiro pesado. Ela se aproximou, pegando uma lamparina para examinar melhor o ferimento. A luz dourada lançou sombras suaves sobre seu rosto, destacando as maçãs do rosto altas e o vinco de preocupação entre suas sobrancelhas. Ela estava mais perto do que o necessário, o perfume de ervas e terra preenchendo o ar entre eles.
— Isso vai doer — avisou, sem dar tempo para protestos antes de arrancar a flecha de seu braço com um movimento rápido.
praguejou, os dedos se fechando com força sobre o braço da cadeira. O mundo girou por um instante, sua visão nublando momentaneamente pela dor lancinante.
— Maldição, ! — ele grunhiu, cerrando os dentes.
— Eu avisei. — a resposta dela veio sem um pingo de remorso.
Ele abriu os olhos, encontrando os dela logo à sua frente. Por um momento, o que ele viu não foi desdém ou superioridade, mas uma sombra de preocupação. Era sutil, quase imperceptível, mas estava lá.
— Você se importa, afinal? — ele provocou, um sorriso cansado brincando nos lábios.
revirou os olhos, voltando a atenção para os frascos de vidro sobre a mesa. Ela pegou um pequeno pote e abriu a tampa, permitindo que o cheiro pungente de ervas esmagadas e resina enchesse o ar.
— Não confunda minha habilidade de curar com afeição. Eu trato feridas, não egos feridos. — ela mergulhou os dedos na pomada antes de espalhá-la sobre a pele ensanguentada dele, os toques ágeis e precisos.
sentiu o ardor imediato, mas não desviou o olhar dela. era um mistério que ele ainda não tinha decifrado. E por mais que tentasse negar, algo dentro dele ansiava por entender.
se forçou a manter o olhar fixo no ferimento, concentrando-se nos movimentos calculados de seus dedos ao aplicar a pomada. Mas era impossível ignorar o calor da pele dele sob seus toques, a tensão nos músculos do braço que ela segurava com firmeza.
— Você sempre foi tão teimoso? — murmurou, tentando dissipar a atmosfera carregada que de repente se instalara entre eles.
— E você sempre foi tão cruel com os pacientes? — rebateu, a voz ainda tingida de dor, mas também de algo mais. Algo que se recusava a nomear.
Ela inspirou fundo, sentindo um incômodo crescer em sua garganta. Não era raiva, nem frustração. Era algo diferente, mais perigoso. Algo que ela não poderia permitir.
— Se quer delicadeza, sugiro que procure outra curandeira. Talvez uma que se importe o suficiente para ter paciência com seus devaneios. — sua voz saiu mais ríspida do que pretendia.
sorriu, um daqueles sorrisos irritantes e presunçosos que faziam seu sangue ferver.
— Não sabia que você se preocupava tanto comigo, . — ele se inclinou ligeiramente para frente, reduzindo ainda mais a distância entre eles.
Ela sentiu os dedos hesitarem por um instante sobre sua pele antes de recuperar o controle. Seus olhos encontraram os dele, e por um momento que pareceu se estender além do tempo, nenhuma palavra foi dita. Apenas a respiração de ambos preenchia o espaço entre eles, misturando-se ao estalar da lenha na lareira.
então afastou as mãos e se levantou de repente, como se o próprio ar da cabana tivesse se tornado pesado demais para suportar.
— Está feito. — sua voz soou firme, mas ela sabia que não estava.
ergueu uma sobrancelha, claramente ciente da súbita mudança de postura dela, mas não insistiu. Apenas observou enquanto ela se afastava para organizar os frascos, como se tentasse ocupar as mãos e os pensamentos com qualquer outra coisa que não fosse ele.
— Obrigado — disse, enfim, com um tom mais contido.
Ela não respondeu de imediato. Apenas apertou um frasco com mais força do que o necessário antes de soltar um suspiro e virar-se para ele, cruzando os braços.
— Não me faça ter que salvar sua vida outra vez, . — foi tudo o que disse antes de voltar-se para a lareira, recusando-se a encarar os olhos que pareciam querer decifrá-la.
New York, 2024
O céu ainda estava cinzento quando cheguei à universidade. Nem o sol parecia disposto a aparecer naquele dia, como se soubesse o que me aguardava. O sono da noite passada foi inexistente. Fiquei virando de um lado pro outro, revisando cada palavra dita, cada decisão tomada, cada olhar de que agora me parecia distante demais.
Meu corpo se movia no automático pelos corredores frios da NYU, como se já soubesse para onde me levar. Até que meu celular vibrou no bolso.
“Professor , compareça à sala da coordenação às 10h. Assunto: conduta profissional.”
As palavras pareciam dançar diante dos meus olhos. Respirei fundo. Já esperava por isso desde a conversa com Elisa, mas a confirmação veio como um soco no estômago.
O resto da manhã foi uma neblina de vozes que não prestei atenção, rostos que passaram por mim como vultos. Às 10h em ponto, bati na porta da sala da coordenação. O silêncio lá dentro era tão denso quanto a tensão que apertava meu peito.
— Pode entrar, professor — disse a chefe do departamento, nem ao menos erguendo os olhos.
Assim que fechei a porta atrás de mim, soube que ninguém ali estava do meu lado.
Três pessoas me encaravam: a diretora do curso, o responsável pela ética acadêmica e um terceiro que parecia ter sido chamado só para compor quórum. Os rostos estavam sérios, profissionais, e frios como mármore.
— Recebemos uma denúncia anônima, professor — começou a diretora, folheando um relatório à sua frente. — Envolvendo sua suposta presença numa festa estudantil... e uma possível relação com uma aluna da graduação.
Não disseram o nome dela, claro. Mas todos naquela sala sabiam exatamente de quem estavam falando.
— Estamos aqui para ouvir seu lado — continuou o outro coordenador, um pouco mais ameno. — Mas vale lembrar que a universidade preza por sua reputação e pela ética de seus docentes.
Eles queriam ouvir. Mas não estavam, de fato, escutando.
Expliquei o mínimo. Que estive na festa sim, que fui convidado por um amigo da organização, e que não houve nenhuma infração da minha parte. Mantive a calma. As mãos firmes no colo. A voz baixa, contida. Mas, por dentro, eu sentia como se estivesse caindo de um penhasco, rápido demais pra respirar.
Eles trocaram olhares, cochicharam algo que não alcancei, até que a diretora se endireitou na cadeira.
— A universidade decidiu transferi-lo para uma universidade parceira em Londres. A King’s College. Temporariamente, é claro — ela disse, como se isso fosse algum tipo de gentileza. — Para que o ambiente acadêmico aqui não sofra interferências... Desnecessárias.
Meu mundo parou.
— Londres? — repeti, incrédulo.
— É uma oportunidade de recomeço, professor — disse ela, com um sorriso forçado. — E, considerando as circunstâncias, a melhor alternativa para evitar algo mais... Público.
Era isso. Não iam me demitir. Mas iam me apagar.
— Eu não tenho escolha, não é? — questionei, me sentindo como se tivesse flutuando, me vendo lá de cima.
— Não, é isso ou a demissão. — ela falou seca e clara demais para o meu gosto.
Me levantei sem dizer mais nada. Porque não adiantava. Eu podia berrar, protestar, tentar explicar. Nada mudaria o fato de que Elisa tinha vencido — e eu estava pagando o preço por sentir algo verdadeiro demais, cedo demais, por alguém que talvez nunca confiasse totalmente em mim.
Naquela noite, fui até a casa de . Já passava da meia noite, então eu sabia que ela estava em casa. Eu partiria no outro dia, tudo foi preparado muito rápido e eu mal tinha organizado as minhas coisas. Eu não estava pronto para simplesmente ir embora, deixá-la para trás como se não tivesse significado nada para mim, quando ela simplesmente significou o mundo sem ao menos me tocar direito
Não sabia exatamente o que estava fazendo ali, mas meu corpo foi por conta própria. atendeu a porta com os olhos cansados, como se também não tivesse dormido.
— ? O que você está fazendo aqui? — ela perguntou, a voz baixa, desconfiada.
— Não sei… — menti. — Eu sei que está tarde, me desculpa. Eu não queria ter te acordado, nem acordado nenhum de vocês, mas eu realmente preciso conversar com você.
Ela me encarou por um momento longo demais. E então abriu espaço para eu entrar. Ficamos em silêncio por um tempo. Sentados no sofá, lado a lado. A televisão ligada em algum canal aleatório, só pelo som de fundo.
Até que ela se aproximou. Ou eu. Não sei quem cedeu primeiro. Só sei que, quando sua mão tocou a minha, não existia mais raiva, medo ou distância. Só aquele momento.
A última noite.
Ela não sabia. Eu não contei. Porque parte de mim ainda queria acreditar que aquilo não era um fim, mas um parêntese. Que talvez, em outro tempo, outra cidade, outro nós... A gente pudesse começar direito.
Mas naquela noite, eu só queria que ela fosse minha. Mesmo que fosse pela última vez.
Então eu a puxei para meu colo, suas pernas se encaixaram ao lado da minha cintura e o beijo que já era profundo, só ficou ainda mais desesperado e cheio de desejo que tinha sido reprimido por tempo demais.
— Aqui não, vamos para o meu quarto. — ela pediu e eu me levantei do sofá, a segurando em meus braços.
Por sorte, eu já conhecia aquele caminho. Nunca havia sido feito nessas circunstâncias, mas pelo menos era mais fácil de encontrar. Ao chegar no quarto, fechei a porta e caminhei com ela até a cama. A deixei deitada ali e me inclinei em cima do corpo de .
Ela estava com os lábios entreabertos, como se esperasse e desejasse aquilo tanto quanto eu. Seus cabelos ligeiramente bagunçados na cama me fizeram ter um vislumbre do sonho que tive com ela. Eu vestido de militar, ela de vestido amarelo e depois um sexo.
Voltei a colar nossos lábios dando início novamente a um beijo intenso e carregado de desejo. Minhas mãos percorriam pela lateral do corpo dela, deslizando devagar. Eu queria aproveitar cada detalhe, guardar cada detalhe de já que eu não sabia se a veria novamente em algum momento.
Me afastei rapidamente apenas para que pudesse me livrar das roupas que vestia. Ela fazia o mesmo com as roupas dela. Na mesma pressa e urgência que eu. Ela queria aquilo tanto quanto eu.
era a mulher mais bonita que eu já tinha visto em toda a minha vida. As curvas de seu corpo pareciam ter sido desenhadas a mão. E eu realmente fiquei um tempo contemplando aquela vista. Porra. Eu era realmente apaixonado por essa mulher.
Quando estávamos finalmente livre de qualquer pano que pudesse atrapalhar o contato entre os nossos corpos, eu me inclinei sobre ela, mas dessa vez, dando a atenção que seu corpo merecia. Comecei a distribuir beijos pelo pescoço dela, descendo aos poucos e devagar até chegar no peito, descendo até os seios. Segurei os dois com as mãos e passei a língua na aréola, deslizando até os mamilos já eriçados, acompanhando a pele que estava arrepiada. Desci pela barriga, até chegar na intimidade dela.
— Não tem uma parte do seu corpo que não seja perfeita, … — falei baixo, meus olhos não desgrudavam dela.
Ela sorriu, parecia estar um pouco sem jeito. Mas não dei espaço para que ela respondesse, porque aproveitei a proximidade do meu rosto na intimidade dela para deslizar bem devagar a língua sobre o clítoris. Arrancando da mulher um gemido baixo, que era como música para os meus ouvidos. Continuei o movimento com a minha língua, ela deslizava de cima para baixo no clitóris de , pela primeira vez, eu conhecia o gosto dela.
Senti as mãos dela repousarem sobre meus cabelos, os dedos se emaranhavam em meus fios e eu senti que ela queria e iria puxá-los. Meu dedo indicador deslizou para a entrada dela que já estava bem úmida e eu a penetrei com o dedo. A ouvindo gemer baixo. Meu pênis, que encostava sobre a cama estava latejando, eu precisava muito estar dentro dela e logo.
— … — ela falou baixo, sua voz saiu sôfrega e em um gemido baixo.
Eu olhei para ela, sem parar o que estava fazendo. Coloquei o dedo médio junto com o dedo indicador dentro dela, ela moveu o quadril e gemeu um pouco mais alto, levando uma das mãos até a boca. Já que não estávamos sozinhos na casa.
Não demorou muito para que o orgasmo dela viesse. Senti seu corpo tremer, uma das mãos agarraram meus fios curtos e a outra cobria a mão, tentando conter o gemido, mas ainda era possível ouvir.
— Você é tão gostosa, . — falei baixo, passando a minha mão sobre a boca apenas para limpar qualquer resquício. — Vem cá.
Pedi, colando meu corpo ao dela novamente. Mas me surpreendi quando ela me deitou na cama e se virou por cima. Aquilo era definitivamente diferente do sonho, era muito melhor.
— Agora você fica quietinho e me deixe trabalhar. — ela pediu, colocando uma perna de cada lado da minha cintura.
Começou a esfregar a sua intimidade úmida sobre meu pênis que latejava, fechei os olhos tentando conter um gemido.
— Porra, … Você quer me matar, né? — minha voz saiu baixa e rouca.
— Talvez. Mas só se for de tesão. — ela sorriu, jogando os cabelos negros para o lado.
E então, quando já estava melecado o suficiente, ela se inclinou até a mesinha e pegou uma camisinha. Meus olhos acompanharam os atos dela com devoção. Cada mínimo ato, a forma que ela abriu a camisinha, depois como a encaixou em meu pênis. Depois disso, ela esfregou mais umas vezes na entrada dela e então se sentou, soltando um gemido reprimido e eu, o mesmo.
— Puta merda. — falei baixo, levando minhas mãos até a cintura dela.
começou a se mover devagar, ela literalmente cavalgava em meu colo. Seu corpo se movia de cima para baixo com excelência. Me fazendo gemer baixo e apertar a sua cintura firmemente, a incentivando continuar. Ela foi aumentando a velocidade, seus olhos fechados e a forma que ela mordia o lábio inferior, era algo que eu guardaria para sempre na memória.
Mais alguns minutos foi o que bastou, havia tido outro orgasmo. Ela se inclinou para frente, apertando um pouco meu peito. E aquela cena foi o que bastou para mim. Acabei gozando. Meus olhos se fecharam e um gemido longo e baixo saiu dos meus lábios, enquanto eu apertava e forçava um pouco a cintura dela para baixo, contra o meu corpo.
Depois disso, ela caiu sobre o meu corpo e ali, eu percebi que indo embora, minha vida já não seria mais a mesma. Porque a minha vida era apenas onde estava.
Horas se passaram, estava quase amanhecendo e ela dormia sobre meu peito. Eu não queria ir embora, eu não queria deixá-la. Não queria ter que me despedir, então eu fiz o que todo e qualquer covarde faria. Me levantei da cama sem acordá-la e me vesti rapidamente e em silêncio. Me arrependendo de todo ato que eu fazia que me levaria para longe dela.
Peguei uma caneta que tinha em cima da mesinha dela, uma folha de post it e deixei um bilhete.
“Querida ,
Se eu pudesse escolher, teria ficado. Teria enfrentado tudo — o mundo, o tempo, o destino — só pra continuar ao seu lado. Mas às vezes, amar alguém de verdade significa saber a hora de partir, mesmo quando cada pedaço dentro da gente grita pra ficar.
Você foi a luz mais bonita que já iluminou os meus dias, . Eu te amei com tudo que fui e tudo que tentei ser. E é justamente por te amar tanto que preciso ir. Não porque eu quero... Deus, como eu queria querer outra coisa. Mas porque continuar aqui, do jeito que estamos, só machucaria mais nós dois. E você não merece dor nenhuma que venha de mim.
Não tenho coragem de dizer adeus olhando nos seus olhos. Sou fraco demais pra isso. Então deixo essas palavras, cheias de tudo que nunca consegui dizer em voz alta. Eu te amo. E mesmo longe, mesmo em silêncio, vou continuar amando.
Talvez um dia você entenda. E se entender, espero que me perdoe.
E se o tempo for generoso, quem sabe ele nos leve de volta um pro outro — em um momento mais leve, onde a gente possa se amar sem medo, sem feridas, sem precisar partir.
Com todo o amor que há em mim,
”
Capítulo 11
Where are you?
And I'm so sorry
I cannot sleep, I cannot dream tonight
I need somebody and always
(I Miss You - blink-182)
Em algum lugar da Inglaterra, 1570
Era dia de feira na vila. O tipo de caos que geralmente evitava. Mas ali estava ela — com a capa escura jogada sobre os ombros, os cabelos presos às pressas e a expressão endurecida como sempre — empurrando entre as barracas com uma cesta no braço e um humor mais ácido que o vinagre de maçã. A movimentação era intensa: camponeses vendendo tecidos desbotados, idosos negociando legumes amassados e crianças correndo atrás de pães que nunca teriam. O cheiro de especiarias, terra úmida e carne assada criava uma bruma morna no ar.
caminhava rápido. Ou tentava. Porque, claro, ele estava ali.
— Que sorte — disse , surgindo de lado como uma sombra irritantemente bem-humorada. — Justo a curandeira mais simpática da floresta.
Ela travou o passo com um suspiro pesado e girou nos calcanhares.
— Vai seguir me provocando até eu cravar uma adaga no seu outro braço?
— Vai me curar depois?
Ela o fuzilou com os olhos.
Ele sorriu.
Era aquele maldito sorriso torto — entre sarcasmo e desafio — que a fazia sentir coisas... *estranhas*. Não era raiva, embora ela quisesse que fosse. Era como se algo vibrasse sob a pele, como se as veias puxassem magia direto do chão toda vez que ele se aproximava. E não sabia o que fazer com aquilo.
Ela apertou a alça da cesta com força, desejando que fosse o pescoço dele.
— Vá importunar outra mulher, . Quem sabe Elisa esteja livre.
— Já tentei — ele respondeu, encostando o ombro numa barraca de frutas. — Mas ela tem um talento admirável para fingir interesse enquanto flerta com um ferreiro casado. Você, por outro lado... Sempre me dá atenção de verdade.
— Se te atirar uma maçã na cara, ainda vai contar como atenção? — perguntou, pegando uma das frutas da barraca mais próxima. O vendedor já acostumado com o humor de , apenas deu de ombros.
riu.
Ela não hesitou.
A maçã voou.
Ele se esquivou por pouco — o suficiente para a fruta atingir o ombro dele e cair no chão com um baque seco.
— Essa foi por pouco. — Ele tocou o ombro com fingida indignação. — Você tem uma pontaria perigosa para alguém que se diz pacífica.
— Eu nunca disse isso.
virou-se para sair, mas algo nela estremeceu.
Um calor estranho no peito. Uma pontada súbita de energia, como se o sangue acelerasse sem motivo. O mundo pareceu vibrar de leve, como se o ar ao redor tivesse mudado. Ela parou, olhando para as mãos. As pontas dos dedos estavam dormentes. Uma brisa soprou do nada, erguendo as pontas do seu cabelo, como se o mundo estivesse sussurrando algo que ela ainda não entendia.
— Está tudo bem? — a voz de , agora mais baixa, soou próxima demais.
Ela se virou bruscamente, disfarçando o susto.
— O que você quer agora?
— Você ficou... Estranha por um segundo. Ficou pálida.
— Eu estou sempre pálida, imbecil. É meu tom de pele natural.
Ele arqueou uma sobrancelha. O olhar dele agora era mais atento. Mais sério. odiava isso. Quando ele parava de sorrir, quando olhava com aquele silêncio cheio de perguntas... era como se visse demais. Como se sentisse demais.
— Você está sentindo algo? — ele perguntou. — Tipo... dor? Calor?
— Desde que te conheci, sinto dor de cabeça constante. Serve?
— Estou falando sério, .
Ela odiava como o nome dela soava diferente na voz dele. Menos como uma provocação. Mais como uma promessa de algo que ela não sabia se queria.
— Vá cuidar da sua vida — disse, dando as costas e andando mais rápido.
Mas ele a seguiu.
— Você já se sentiu assim antes?
Ela parou de novo. Virou-se, agora com os olhos faiscando.
— Por que se importa?
— Porque estou começando a achar que tem algo errado com você. E, por mais que isso me traga uma certa paz interior, talvez não seja seguro.
— Errado? — Ela deu um passo na direção dele, o rosto a centímetros do dele. — O único erro aqui é eu perder meu tempo discutindo com alguém que acha que todo silêncio é um convite e toda mulher que responde à altura está interessada.
não recuou. O sorriso voltou, mais leve. Mais perigoso.
— Ah, então você não está interessada?
— Nem um pouco.
— E ainda assim, sempre me acerta quando joga alguma coisa. Isso é química, . Física aplicada com intenção emocional.
Ela bufou. O calor no corpo não passava. O chão parecia vibrar levemente sob seus pés. Era como se a presença dele despertasse algo — algo antigo, adormecido. Como se o som da voz dele tocasse cordas que ela nem sabia que tinha. E isso a assustava mais do que qualquer batalha ou perda que já enfrentara.
— Você está insuportável hoje.
— Você está linda hoje.
piscou.
Por um segundo, tudo parou.
percebeu. Ela não respondeu. Não o empurrou. Não retrucou. Apenas o olhou, como se algo tivesse quebrado dentro dela. Ou aberto.
— Eu... — começou ela, mas a voz falhou.
Ele deu um passo à frente, os olhos agora mais gentis, mais atentos.
— Você está tremendo.
Ela recuou, ofegante.
— Fique longe de mim.
— ...
— FIQUE.
Ela virou-se, quase tropeçando, e desapareceu entre as barracas. ficou parado, o sorriso se apagando. Na mão esquerda, a maçã que ela jogara minutos antes começava a rachar.
Não pelas mãos dele.
Mas por uma força que ainda crescia ao redor de . E que, ele sabia, estava apenas começando a se revelar.
Tempos atuais, New York
O céu ainda estava coberto por nuvens densas quando deixei a casa. A garoa fina se misturava ao vento gelado que cortava as ruas como navalha. Meus passos eram automáticos, como se o corpo soubesse o caminho mesmo quando minha mente não queria chegar. Eu não queria estar ali — na faculdade, entre paredes que lembravam ele, em corredores que ainda guardavam o som da voz dele.
Desde que partiu — sem uma palavra, sem sequer um olhar de despedida — eu vivia nesse vácuo de silêncio, tentando preencher a ausência com rotina. Mas era inútil. O café já não me acordava. As músicas não me tocavam. A vida tinha perdido o sabor — ou talvez, só tivesse ficado agridoce demais para engolir.
Entrei no campus com o rosto escondido no cachecol. As risadas, os passos apressados, os casais dividindo guarda-chuvas — tudo continuava igual. Exceto dentro de mim.
Ao me aproximar do corredor onde ficavam os quadros de aviso, vi um pequeno grupo de alunos murmurando entre si. Havia um papel novo colado com fita no vidro. Algo me atraiu até ele, mesmo antes de ler. Um desconforto instintivo, um arrepio involuntário que se espalhou pelas costas.
E lá estava.
“Transferência de docente — Prof. . Novo local de trabalho: King’s College. Início imediato.”
As palavras começaram a dançar na minha frente.
Transferência.
Londres.
Imediato.
Meu peito se apertou, como se o ar tivesse sido arrancado de uma vez só. Senti as pernas ficarem fracas, uma tontura súbita me obrigando a me apoiar na parede fria. Era verdade. Ele tinha ido embora. E pior — ele tinha escolhido ir.
— Ei, ? — a voz masculina me fez virar devagar.
Richard.
Ele sempre estava por perto, como se lesse meus pensamentos.
— Você viu o aviso, né?
Assenti, com dificuldade.
— Ninguém esperava que o fosse sair assim. Foi tudo meio... Repentino — ele falou, com uma tentativa de tom gentil, mas a dor me impedia de ouvir qualquer coisa com leveza.
— Disseram que foi escolha dele — murmurei, mais para mim do que pra ele. — Que ele já estava esperando por isso.
— É... Parece que sim. Ouvi uns professores comentando que ele aceitou a proposta sem pensar duas vezes. Londres, né? Quem recusaria?
Eu. Eu recusaria.
Se eu tivesse alguém como ele aqui, se fosse eu quem estivesse no lugar dele, eu recusaria por amor. Mas, ao que tudo indicava, não.
O gosto amargo da decepção subiu pela minha garganta. Como ele pôde? Depois de tudo? Depois de mim?
— , você está bem? — Richard se aproximou, colocando a mão no meu ombro.
Me encolhi no toque, não por ele, mas porque parecia errado receber consolo que não vinha dele. Richard não tinha o cheiro dele. Não tinha o calor dele. Não era ele.
— Desculpa — murmurei, me afastando um passo. — Eu só... Não consigo entender.
Richard respirou fundo, mas permaneceu ali, ao meu lado.
— Se quiser conversar depois... ou tomar um café... — disse com cautela. — Eu sei que vocês eram próximos. Deve estar sendo difícil.
“Próximos.”
Se ele soubesse o quanto.
Se alguém soubesse da verdade daquela última noite.
Do jeito como ele me olhou, como me tocou, como se dissesse adeus sem dizer. Como se soubesse que não teria coragem de fazê-lo com palavras.
Mas ele poderia ao menos ter tentado. Poderia ter me dado a chance de me despedir. Em vez disso, só partiu. E agora, tudo que eu tinha era um papel colado numa parede e o gosto amargo de um abandono sem explicação.
— Obrigada, Richard. Mas eu... Acho que vou pra casa — falei, engolindo o choro que ameaçava escapar.
Ele assentiu, compreensivo.
— Se mudar de ideia, eu estou por aqui.
Saí do corredor antes que as lágrimas caíssem. Não queria que ninguém visse. Ninguém entenderia.
Caminhei até o ponto de ônibus com os olhos marejados e o coração em pedaços. Enquanto a cidade seguia seu curso, eu me perguntava:
Por que ele foi embora sem me dizer nada?
Por que me deixou no escuro?
E se ele nunca voltar?
Dias atuais — Londres
O céu de Londres estava coberto por nuvens cinzentas, pesadas, como se refletissem exatamente o que eu sentia por dentro. O vento úmido e frio cortava minha pele enquanto eu atravessava os portões da King's College, com uma mala em cada mão e o coração esvaziado de tudo, exceto dor.
.
O nome ecoava dentro de mim como uma prece e uma maldição. Eu a via em cada rosto que passava, em cada sombra que dançava nos prédios antigos da cidade. A ausência dela doía mais do que qualquer ferida física que já tivesse sentido. Mas eu não tive escolha. Fui arrancado da vida que construí ao lado dela com a brutalidade de um castigo injusto. Forçado a fugir, a me calar, a deixá-la sem explicações. E agora, eu caminhava entre desconhecidos, com a alma partida em pedaços que eu nem sabia se um dia seriam colados novamente.
Quando cheguei à reitoria, a secretária me recebeu com um sorriso educado e distante.
— Senhor , seja bem-vindo à King's College. Seu escritório já está preparado e o professor Sterling vai acompanhá-lo nos primeiros dias — ela disse, folheando papéis como se estivesse falando com mais um professor comum. Não fazia ideia do caos que eu carregava dentro de mim.
Eu apenas assenti, forçando um "obrigado" que morreu nos meus lábios.
Me sentia como um impostor. Não por minha profissão, mas pela forma como tudo havia terminado em New York. A universidade acatou rapidamente a denúncia formal de que eu estava envolvido com uma aluna. Um escândalo iminente que precisavam apagar. E, embora houvesse amor — puro, verdadeiro e mútuo — isso não importava. O meu nome foi atrelado a palavras como "antiético" e "impróprio". Palavras venenosas, cuspidas por uma mulher que um dia eu pensei que iria amar: Elisa.
Minha ex-noiva.
Ela descobriu sobre de uma forma distorcida. Apenas viu o que queria: que eu havia sido "desleal". Traído, talvez. E decidiu me ferir da forma mais destrutiva possível. A denúncia veio assinada por ela, mas de maneira que parecia anônima. Eu reconheci a escrita dela no papel impresso. Conhecia bem aquela frieza disfarçada de formalidade.
E, por mais que a direção soubesse que eu era um excelente professor, a instituição não podia correr riscos. Em poucas semanas, fui transferido para Londres, sob o véu de “realocação estratégica”. Mentira. Todos sabiam.
Agora, ali estava eu, subindo as escadas do novo prédio, o som dos meus passos ecoando nas paredes silenciosas. Tudo parecia vazio. Tudo era frio sem ela.
.
A última imagem dela ainda assombrava minha mente: deitada ao meu lado, os cabelos espalhados pelo travesseiro, os olhos cerrados, e a mão pequena repousando sobre o meu peito. Eu a beijei naquela madrugada como se fosse a última vez, porque, no fundo, sabia que seria. Não tive coragem de acordá-la. Como poderia encarar seus olhos e dizer que estava indo embora? Que estavam me arrancando dela por algo que jamais deveria ter sido condenado?
Abri a porta do meu novo escritório e deixei as malas no canto. Sentei-me na cadeira, levei as mãos ao rosto e, pela primeira vez desde a partida, permiti-me chorar.
Não apenas pela injustiça. Mas por ela.
Por tudo que fomos. Por tudo que poderíamos ter sido.
E por tudo que, agora, talvez jamais fôssemos.
Capítulo 12
I see you in this house, the city streets, polaroids, memories
Still had some stories to tell
They say time heals all wounds, is it ever enough?
(Can you die from a broken heart - Nate Smith ft Avril Lavigne)
Em algum lugar da Inglaterra, 1570
caminhou apressada pelas vielas de pedra, a cesta apertada contra o peito, como se pudesse conter o tumulto que fervilhava dentro dela. O ar da tarde estava mais denso, mais quente, como se o mundo ao redor soubesse que algo nela havia mudado antes mesmo dela perceber.
Mas não era só calor. Era um formigamento estranho na pele, um peso no peito, uma tensão sob a carne — como se os sentidos estivessem afiados demais. A luz parecia mais intensa, os sons mais altos, o cheiro das flores que vendiam na praça enjoativo, quase sufocante.
E, pior de tudo, ele.
.
Desde aquele maldito dia na feira, parecia que ele surgia em todos os lugares onde ela estivesse. Sempre com um comentário insolente, uma provocação velada, ou aquele maldito sorriso de quem sabe exatamente o poder que tem.
odiava isso. Odiava o quanto seu corpo parecia perceber a presença dele antes mesmo de sua mente registrar. Como se o sangue se apressasse a correr nas veias, como se cada músculo se enrijecesse ao vê-lo encostado casualmente numa parede, braços cruzados, olhar preguiçoso.
— Está fugindo de mim ou do que está sentindo? — a voz dele ecoou repentinamente.
Ela travou o passo, girando com raiva.
— , por que não vai infernizar outra pessoa?
Ele estava ali, como sempre, à sombra de um toldo, casual, como se o mundo fosse um espetáculo montado apenas para ele assistir com desprezo e diversão.
— Porque ninguém mais fica tão... elétrica na minha presença.
Ela cerrou os dentes.
— Você é um idiota.
Ele riu, saindo da sombra e se aproximando devagar, como se medisse cada passo, como se ela fosse uma criatura arisca que poderia fugir a qualquer instante.
— E você está estranha ultimamente.
cruzou os braços, tentando manter o controle.
— Não estou.
— Está, sim. Seus olhos ficam diferentes. O jeito como você segura as coisas… Como se sentisse que pode quebrá-las.
Ela engoliu em seco. Porque ele estava certo. Na noite passada, ao fechar o portão da cabana, a tranca de madeira se partiu nas suas mãos. E, hoje, ao esbarrar numa das bancas, viu o tecido rasgar como se fosse papel fino.
Não era força física. Era outra coisa.
Mas não podia — ou não queria — admitir.
— Está imaginando coisas — retrucou, apressando o passo pela rua.
Ele foi atrás, claro.
— Não. Eu sei reconhecer quando alguém está com medo do que sente.
parou abruptamente e girou, ficando a poucos centímetros dele.
— Eu não estou com medo.
inclinou o rosto levemente, como se a estudasse.
— Não? Então, por que toda vez que eu me aproximo você se afasta?
Ela piscou, confusa, como se por um segundo o mundo realmente parasse. O calor no peito, a pulsação acelerada, a pele arrepiada. Não era medo. Não era raiva.
Era…
— !
A voz de Elisa cortou o ar como uma flecha, fazendo recuar de e virar-se.
Elisa vinha correndo pela rua, com um sorriso largo demais, as saias esvoaçando, os cabelos trançados com flores. já sentiu o estresse subir pelo pescoço antes mesmo que a amiga a alcançasse.
— Estava te procurando! — Elisa disse, agarrando o braço dela com um entusiasmo que a sufocava. — Temos que escolher o tecido para o vestido que você prometeu costurar. E… — Elisa lançou um olhar cheio de intenções a —... e achei que poderíamos todos passar a tarde juntos!
puxou o braço de volta com firmeza.
— Não posso. Tenho trabalho.
Elisa fez um biquinho.
— Desde quando você recusa uma tarde na feira?
Desde que meu corpo parece querer explodir toda vez que ele está por perto, pensou , mas não disse.
deu um meio sorriso.
— Acho que a não quer admitir que, na verdade, gosta da minha companhia.
fuzilou-o com o olhar.
— Não se iluda.
Elisa, alheia à tensão elétrica que pairava no ar, se virou para , sorrindo.
— Você vai?
inclinou a cabeça, ainda sem desviar os olhos de .
— Eu iria… mas tenho a sensação de que ela não me quer por perto.
— Muito bem percebido — respondeu , seca.
Mas, quando passou por ele, o braço dele roçou de leve o dela. O suficiente para, mais uma vez, aquela descarga quente percorrer sua pele. se enrijeceu, fechando os olhos por um segundo.
O que está acontecendo comigo?
Elisa tagarelava algo sobre fitas e bordados, mas já não ouvia. O mundo parecia abafado, os sons distantes. O cheiro de alecrim da banca próxima a enjoava. A brisa morna parecia atravessá-la como uma corrente invisível.
— ? — perguntou Elisa, tocando no ombro dela.
piscou, voltando à realidade.
— O quê?
— Está tudo bem? Está pálida.
se aproximou mais uma vez, sorrindo com aquele maldito ar provocador.
— Acho que está com febre. Quer que eu a leve de volta para a cabana?
girou o rosto e o encarou com o olhar mais frio que conseguiu reunir.
— Se me tocar, eu arranco sua mão.
Ele sorriu, inclinando-se ainda mais, como se fosse um desafio.
— Agressiva… como sempre.
Elisa riu, sem perceber a camada subterrânea daquela provocação.
apertou a cesta até os nós dos dedos ficarem brancos.
Por que o mundo parecia girar diferente quando ele estava ali?
Por que a pele parecia mais viva, o ar mais denso, os sentidos mais afiados?
E, principalmente…
Por que ela não conseguia mais fingir que não estava acontecendo nada?
Quando ele deu um passo atrás, deixando espaço entre eles, soltou o ar que nem percebia estar segurando.
Mas antes de sair, ainda lançou uma última provocação, com aquele olhar entre o debochado e o curioso:
— Cuidado, … às vezes o que você sente é mais forte do que você pensa.
E desapareceu pela rua, deixando ali, com o coração batendo forte demais, a pele quente demais, e a mente cheia de perguntas para as quais ainda não tinha respostas.
Só sabia de uma coisa:
Se aquilo fosse magia…
Era a pior e mais irresistível maldição que já sentira.
Atualmente, New York
Cinco anos.
Cinco anos inteiros e, ainda assim, às vezes sinto que tudo aconteceu ontem. Caminho pelo pátio da universidade, sentindo o vento frio de outubro passar pela pele exposta dos meus braços. O vestido branco da formatura balança suavemente enquanto seguro o capelo com força, como se, de alguma forma, aquele pedaço de tecido pudesse me ancorar à realidade.
Sou enfermeira.
Repito isso para mim mesma, como quem tenta cravar uma estaca no peito para selar um ciclo.
Olho ao redor e vejo tantos rostos felizes, famílias emocionadas, colegas que se abraçam e falam sobre o futuro, sobre novos empregos, viagens, planos. Eu também deveria estar assim, e talvez, olhando de fora, eu até pareça estar. O sorriso nos lábios bem pintados, o cabelo preso de forma elegante, o anel de noivado reluzindo no meu dedo — um símbolo de estabilidade, de um caminho seguro.
Richard segura minha mão. Aperta suavemente, como faz sempre que percebe quando o meu silêncio é, na verdade, um grito.
— Você está linda — ele sussurra.
Eu sorrio, olho para ele, e respondo com um beijo leve na bochecha.
Mas não digo nada.
Porque, dentro de mim, as palavras estão presas, engasgadas com tudo o que não consegui esquecer.
.
O nome ainda pesa como um segredo que nunca contei a ninguém. Nem mesmo a Richard, que foi quem me ajudou a juntar os pedaços quando achei que não ia conseguir continuar. Ele estava lá, sempre, com paciência, com carinho… E eu aprendi a gostar dele, a admirá-lo. Até dizer “sim” ao seu pedido de casamento, até deixar que ele ocupasse um espaço que deixou vazio, como quem coloca flores num vaso rachado.
Olho para a aliança, respiro fundo.
— Vai ficar tudo bem — penso, e não sei se estou tentando me convencer ou apenas silenciar a lembrança daquela noite.
A última noite.
Eu nunca soube por que ele foi embora sem se despedir. Nunca.
Depois, soube que havia sido transferido para Londres… por vontade própria, diziam. Por ambição, por querer crescer. Isso me matou por dentro.
Lembro do dia em que escutei na faculdade, por acaso, uma conversa entre professores no corredor.
— … foi para a King's College. Parece que quis mudar de ares…
E eu, parada ali, com a pasta na mão, sentindo o chão afundar sob meus pés.
Não chorei naquele dia.
Não chorei na frente de ninguém.
Apenas fui embora, como quem assina uma rendição silenciosa.
E então Richard surgiu, com sua presença leve, com sua vontade de me fazer sorrir de novo. E eu deixei.
Hoje é minha formatura.
Deveria ser o dia mais feliz da minha vida, e de algum modo… é.
Mas, ao mesmo tempo, há esse vazio que nunca me deixou completamente.
Enquanto tiro fotos com minha família, com Richard, com amigos, sinto que estou encerrando uma fase e entrando em outra.
Mas parte de mim sabe… que algumas histórias não se encerram. Elas apenas se transformam em cicatrizes silenciosas que a gente aprende a carregar com dignidade.
— Vamos? — Richard me chama, estendendo a mão.
Eu sorrio.
— Vamos.
E sigo em frente, com o vestido branco, com o capelo na mão, com a aliança no dedo… e com guardado em algum lugar que ninguém nunca vai conhecer.
O salão está lotado, mas minha visão se foca apenas nas duas figuras que vêm em minha direção: minha mãe, com os olhos marejados e aquele sorriso que sempre usou para me lembrar que sou mais forte do que penso; e , meu irmão, já com 22 anos, que me abraça com força, quase me tirando o ar.
— Minha enfermeira preferida! — ele ri, me rodando no meio do salão, sem se importar com os olhares.
— ! — repreendo entre risadas, mas no fundo, estou grata por ele estar aqui. Ele sempre foi o meu apoio silencioso, mesmo quando éramos apenas crianças fugindo dos gritos que ecoavam pela casa.
Minha mãe se aproxima, ajeitando minha faixa de formanda e passando os dedos levemente pelo meu rosto.
— Estou tão orgulhosa de você, meu amor… tão orgulhosa… — diz, com a voz embargada.
Sinto meus olhos arderem, mas me recuso a chorar agora. Não hoje.
— Obrigada, mãe… — respondo, abraçando-a forte, como se pudesse, naquele abraço, agradecer por todas as noites em que ela segurou minha mão quando achei que não conseguiria terminar a faculdade.
Nos afastamos um pouco e , com aquele jeito debochado, lança:
— E então, já contou pra ele?
Congelo.
Minha mãe, que não sabe do que se trata, olha de um para o outro sem entender.
— Contar o quê? — ela pergunta, ajeitando a bolsa no ombro.
Eu sorrio, sem graça, e balanço a cabeça.
— Nada, mãe… só coisa de irmãos.
Mas levanta uma sobrancelha, divertido, e cruza os braços.
— Vai mesmo deixar pra última hora?
Suspiro, olhando ao redor, vendo Richard conversando com alguns colegas de profissão do outro lado do salão. Ele não sabe.
Não sabe que, há três meses, fui aprovada em um processo seletivo para uma especialização na Universidade do oeste da Escócia, a UWS.
Escolhi a Escócia, não por acaso…
Sempre imaginei a Inglaterra como a terra que me tirou algo… ou alguém.
Mas a Escócia… a Escócia era um novo começo.
Uma chance de me encontrar de verdade, longe das memórias que teimavam em me assombrar, mesmo cinco anos depois.
Minha mãe sorri, alheia ao peso da minha escolha.
— Só posso dizer que estou tão feliz… vai ser maravilhoso pra sua carreira, minha filha.
me dá um soquinho no ombro.
— Só não some da minha vida, tá?
— Nunca — respondo, e o abraço de novo, demoradamente.
A cerimônia segue, os discursos acontecem, e eu quase me perco em pensamentos enquanto chamam os nomes dos formandos.
Penso em tudo que vivi para chegar até aqui: as noites em claro estudando, os plantões de estágio, os choros escondidos no quarto depois de ver partir sem explicação.
Penso em como me reconstruí, em como me levantei mesmo quando achei que não conseguiria.
E agora, aqui estou, com um diploma nas mãos e uma vida que parece perfeita.
Mas que, no fundo, está prestes a mudar completamente…
E Richard ainda não sabe.
Durante a festa, depois da cerimônia, minha mãe dança com , rindo como não via há anos, enquanto fico um pouco afastada, observando tudo com uma taça de espumante na mão.
Richard se aproxima, me envolvendo pela cintura.
— Em que mundo você estava agora?
Sorrio, desviando o olhar para a pista de dança.
— Só… pensando.
Ele beija minha têmpora com carinho.
— Você merece esse momento. Você lutou tanto…
— Eu sei… — respondo, mas minha voz sai baixa.
E ele não percebe.
Ou talvez perceba e não diga nada.
A noite avança, os abraços se repetem, as fotos são tiradas… e eu, o tempo todo, com aquela carta de aceitação dobrada e guardada no fundo da minha bolsa, como um segredo que queima.
No caminho de volta para casa, minha mãe segura minha mão no banco de trás do carro, com dirigindo.
— Você precisa contar pra ele, … — ela diz, como quem lê meus pensamentos.
Eu a olho, surpresa.
— Como…?
Ela sorri, olhando pela janela.
— Sou sua mãe. Sei quando você está guardando algo.
Aperto sua mão com força.
— Vai ser difícil.
Ela respira fundo.
— O que é certo, quase sempre é.
E encosto a cabeça em seu ombro, fechando os olhos, deixando que as lágrimas silenciosas finalmente escorram, longe dos olhares, misturadas ao cansaço e à ansiedade pelo que está por vir.
Porque eu sei…
A Escócia me chama.
E, desta vez, eu preciso ir.
Não para fugir…
Mas para, finalmente, encontrar a mim mesma.
O envelope estava na mesa, aberto.
O silêncio no apartamento era insuportável.
Richard estava parado, imóvel, com os olhos fixos na carta de aceitação que, finalmente, eu havia tido coragem de mostrar.
Eu me encolhi no sofá, com as mãos entrelaçadas, esperando… qualquer coisa.
Ele ergueu o olhar para mim, e o vi.
O rompimento.
Não nas palavras, mas no olhar.
— Então… você vai — ele disse, a voz rouca, carregada de algo que eu não conseguia nomear.
Assenti, lutando contra a vontade de me explicar, de justificar, de implorar para que ele não entendesse aquilo como um abandono.
Mas ele entendeu.
— Quando você ia me contar? No aeroporto? — sua voz subiu um tom, quebrando o silêncio frágil entre nós.
— Eu… ia contar hoje… — respondi, tão baixo que nem parecia minha voz.
Ele soltou uma risada amarga, passando a mão pelo rosto.
— Claro… sempre deixando as coisas para o último segundo.
Fechei os olhos, respirando fundo, me preparando para o golpe que sabia que viria.
— É por causa dele, não é? —
Demorei um segundo a entender.
— O quê…?
— Do ! — ele gritou, se inclinando para frente, como se estivesse cuspindo veneno. — Você nunca superou! Cinco anos, … CINCO anos… e você ainda está correndo atrás de um fantasma!
As lágrimas vieram antes que eu pudesse impedir.
— Não é por causa dele…
Ele deu um passo para trás, me olhando com um misto de dor e raiva.
— Não mente pra mim. Eu te conheço. Conheço aquele olhar perdido, aquele jeito como você fala da Inglaterra, como evita Londres… Você acha que eu não percebo?
Levantei do sofá, me sentindo sufocada.
— Isso é sobre mim, Richard! Sobre minha carreira, sobre minha vida!
Ele riu de novo, sarcástico.
— Claro. Sempre sobre você.
Engoli o choro, me recusando a quebrar completamente.
— Eu achei que você ficaria feliz… que entenderia…
Ele balançou a cabeça, os olhos cheios de mágoa.
— Eu não posso mais, . Não posso ficar esperando você decidir se quer viver com o presente… ou correr atrás do passado.
As palavras dele me cortaram como navalhas.
— Então…? — sussurrei, sem ter coragem de completar a frase.
Ele respirou fundo, pegou as chaves no balcão e, sem olhar para trás, disse:
— Boa sorte na Escócia.
E saiu.
Assim…
Deixando o cheiro dele no ar, os quadros que penduramos juntos nas paredes… e meu coração em pedaços.
Os dias seguintes foram um borrão.
Empacotar. Cancelar festas de despedida que nunca fariam sentido.
Minha mãe e foram comigo ao aeroporto, segurando minha mão como sempre fizeram.
O portão de embarque parecia maior do que qualquer obstáculo que já enfrentei na vida.
Minha mãe ajeitou meu casaco, como se eu ainda tivesse dez anos, e sussurrou:
— Vai dar tudo certo, meu amor.
Beijei sua bochecha, com o coração apertado.
me abraçou forte.
— Não esquece da gente.
— Nunca.
Quando chamaram o voo, respirei fundo, olhando uma última vez para eles, para aquele país, para aquela vida que estava ficando para trás.
E, ao cruzar o portão, senti algo estranho…
Não só tristeza…
Mas uma leve, tênue… esperança.
De que, quem sabe, em algum lugar entre as ruas de pedra e o vento frio da Escócia…
Eu finalmente me encontrasse.
E talvez…
Só talvez…
Também encontrasse… ele
Capítulo 13
So how do I apologize
And put the tears back in your eyes
On every canvas that I paint
Is a masterpiece made of my mistakes?
(Masterpiece - Motionless in white)
Em algum lugar da Inglaterra, 1570
Os dias seguintes foram um turbilhão de confusão para .
Ela evitava a praça, evitava as vielas onde sabia que poderia esbarrar com , evitava até mesmo os encontros com Elisa, que continuava insistente em arrastá-la para os passeios inúteis, falando sempre sobre festas, vestidos ou, pior, sobre .
Mas não adiantava fugir.
Os “sintomas” não passavam. Pelo contrário.
Na noite anterior, as velas da sua cabana se acenderam sozinhas quando ela entrou no quarto, os fechos da janela abriram de repente com o som da sua voz, e, ao tocar a água do balde, a superfície ondulou violentamente, como se rejeitasse seu toque.
Aquilo não podia ser só coincidência.
Então, naquela manhã, determinada e com os punhos cerrados, subiu o velho caminho de pedras até a clareira que a sua avó costumava frequentar. O lugar onde, quando criança, ela ouvia histórias sobre “o poder que corre no sangue”.
Histórias que sempre acreditou serem apenas… histórias.
Mas agora, enquanto os dedos roçavam a casca úmida do carvalho antigo, sentiu algo diferente.
Uma vibração, quase como um chamado.
Fechou os olhos, tentando ignorar, mas o peito apertava, os pulmões ardiam.
Até que, num impulso, falou em voz alta:
— O que está acontecendo comigo?
E, como se a árvore escutasse, uma rajada de vento soprou ao seu redor, erguendo folhas secas, girando os galhos numa dança hipnótica. recuou, os olhos arregalados, mas o vento não cessou.
De repente, o colar de âmbar que herdara da mãe, sempre esquecido sob a blusa, aqueceu contra a pele.
Levou a mão até ele, puxando-o para fora, e, quando o fez, uma imagem atravessou sua mente:
Sua mãe, jovem, erguendo as mãos abertas em direção à mesma árvore. As folhas ao redor se curvando como agora, obedecendo à sua vontade.
ofegou.
Não era loucura. Não eram sintomas de uma febre qualquer.
Era real.
Ela tinha o mesmo poder.
Mas antes que pudesse processar aquela revelação, ouviu passos se aproximando rapidamente pela trilha.
E, claro, era ele.
.
— Achei que te encontraria aqui — disse, parando com aquela postura insolente, as mãos no bolso, o olhar atento demais. — Desde quando gosta de passear na floresta?
virou-se bruscamente, o coração batendo com força, a mente ainda confusa.
— Não estou com humor para as suas provocações hoje.
Ele ergueu uma sobrancelha, aproximando-se mais um passo, ignorando a tensão que ela deixava evidente.
— Você nunca está. Mas mesmo assim sempre me procura.
Ela soltou uma risada amarga.
— Eu nunca te procuro, . Você simplesmente aparece, como uma maldita sombra.
Ele inclinou a cabeça, os olhos percorrendo o rosto dela, como se lesse cada nuance da sua perturbação.
— Está mais… nervosa que o normal.
cerrou os punhos, sentindo mais uma vez aquele calor esquisito subir pelo corpo, como se a energia que percorria suas veias não coubesse mais ali dentro.
— Por que não vai embora?
Ele sorriu de lado.
— Porque você quer que eu fique.
Ela se virou, dando-lhe as costas, caminhando até o carvalho, como se pudesse se esconder nele, se proteger de tudo aquilo que estava sentindo — e dele.
Mas não se moveu.
— O que está acontecendo com você? — perguntou, a voz mais baixa, mais… curiosa. — Não é só raiva. É medo.
girou, encarando-o, sentindo as palavras entalarem na garganta.
— Eu… — começou, mas o ar ao redor deles pareceu vibrar, como se a própria floresta estivesse atenta àquele momento.
E então ele riu.
Aquele maldito riso provocador.
— Você está assustada… comigo?
perdeu a paciência.
— NÃO! — gritou, e, junto com o grito, estendeu a mão num gesto brusco, como se quisesse empurrá-lo para longe.
E, sem aviso, uma onda de energia invisível se desprendeu dela, como uma explosão silenciosa.
foi arremessado com violência contra uma árvore próxima, o corpo batendo com força na madeira antes de cair sentado no chão, atordoado.
arregalou os olhos, levando as mãos à boca, completamente paralisada.
— !
Correu até ele, o coração martelando no peito.
Ele se apoiou no tronco, esfregando o ombro, piscando como quem não entende o que acabou de acontecer.
— Mas que merda foi essa?! — gritou, olhando de para o vazio, como se procurasse por algum inimigo invisível.
Ela ficou ali, a respiração entrecortada, os olhos arregalados, o corpo inteiro tremendo.
— Eu… eu não…
olhou para ela, e pela primeira vez não havia provocação, nem sarcasmo no olhar dele. Só espanto.
E talvez… um pouco de medo.
recuou um passo, depois outro, até esbarrar no carvalho.
As folhas ainda giravam ao redor, o vento ainda soprava, como se o mundo se recusasse a voltar ao normal.
Ela sentiu as lágrimas encherem os olhos, não de dor, mas de um terror puro, cru, que jamais sentira antes.
— O que… o que eu fiz? — sussurrou, mais para si do que para ele.
passou a mão pelo rosto, se levantando devagar, o olhar fixo nela, sem conseguir disfarçar a surpresa.
— Você… me jogou na árvore, . Sem me tocar.
Ela apertou o colar contra o peito, fechando os olhos, tentando controlar a respiração.
Não podia negar mais.
Estava acontecendo.
E, pior do que isso…
Estava fora de controle.
Quando abriu os olhos, já estava a poucos passos dela, a expressão endurecida.
— O que diabos você é?
mordeu o lábio, as lágrimas escorrendo pelas bochechas.
— Eu… não sei.
E, antes que ele dissesse qualquer coisa, virou-se e correu pela trilha, sumindo entre as árvores, o coração aos saltos, o mundo girando, a certeza esmagadora de que a vida que conhecia tinha acabado de ser destruída para sempre.
E, no meio de tudo isso, uma voz sussurrava dentro dela:
Você não pode fugir do que é.
E, talvez… também não pudesse mais fugir dele.
correu atrás dela assim que desapareceu entre as árvores, o som dos galhos quebrando sob os pés apressados ecoando pela floresta.
— ! — gritou, a voz reverberando pelo espaço vazio, engolida pelo farfalhar das folhas e pelo vento inquieto.
Mas ela já tinha sumido.
Não havia mais rastros, nem passos, nem aquela presença elétrica que ele, contra toda a lógica, começava a perceber sempre que ela estava por perto.
Ele parou no meio da trilha, apoiando as mãos nos joelhos, ofegante, o corpo ainda dolorido do impacto contra a árvore.
— Que merda foi essa…? — murmurou para si mesmo, esfregando o ombro, tentando organizar o caos de pensamentos que se acumulava em sua cabeça.
não era só aquela garota irritante que vivia o provocando, com as respostas afiadas e os olhares cheios de desprezo.
Ela era… algo a mais.
E, por mais que quisesse se convencer de que estava apenas irritado com a maneira como ela o havia derrubado — de forma tão humilhante —, a verdade era que o que mais o incomodava naquele momento era o medo.
Medo de que ela estivesse machucada.
Medo do que ela pudesse fazer consigo mesma.
Medo do que ela fosse, afinal.
Ele ficou ali por longos minutos, olhando a trilha vazia, até que o silêncio se tornou opressor demais e decidiu voltar para o vilarejo.
Mas não apareceu naquela tarde.
Nem na manhã seguinte.
Nem no dia depois dessa.
Sumiu como se nunca tivesse estado ali.
A cada dia que passava, percorria mentalmente todas as possibilidades: ela teria fugido? Teria se escondido? Ou… seria a tal coisa que corria nas lendas da vila, aquelas sobre bruxas que não controlavam seus poderes e acabavam consumidas por eles?
Ele nunca tinha acreditado nessas histórias idiotas.
Até agora.
No quarto dia, quando a ausência dela já se tornava insuportável e irritante demais para ser ignorada, desceu até a praça do vilarejo, como fazia sempre que precisava descontar a frustração em alguma briga ou discussão.
E, como um presságio inevitável, lá estava Richard.
Encostado preguiçosamente em uma pilastra perto da fonte, com aquele sorriso ensaiado, cercado de outros jovens idiotas que riam das piadas sem graça dele.
se aproximou, as mãos nos bolsos, o olhar fixo.
— Procurando alguém? — perguntou, com a voz carregada de ironia.
Richard olhou, arqueando uma sobrancelha, despreocupado.
— Nem todos vivem à procura, . Alguns de nós têm… companhia.
respirou fundo, controlando a vontade quase física de socá-lo.
— Ah, claro. Você e suas “companhias”.
Richard sorriu, ajeitando o casaco com aquele ar presunçoso que fazia odiá-lo ainda mais.
— Está falando da sua amiga, ?
O nome dela, dito com aquele tom debochado, fez algo dentro de se contrair.
— Ela não é minha amiga — respondeu rápido demais, a voz seca.
Richard riu.
— Não? Pois parecia que você estava bastante interessado…
se inclinou levemente, o olhar frio, quase letal.
— E você, Richard… parecia que ia conseguir alguma coisa. Mas não conseguiu, não é?
O sorriso de Richard vacilou por um segundo, só um, mas o suficiente para perceber.
Ele deu um passo mais perto, até estar tão próximo que os ombros quase se tocavam, e falou baixo, só para que ele ouvisse:
— Sabe qual é o problema?
Richard manteve o olhar, sem responder.
inclinou-se ainda mais, o sarcasmo arrastado:
— Ela é… especial.
O modo como disse “especial” foi carregado de ironia, mas, ao mesmo tempo, havia ali algo que nem ele conseguia negar: um traço de verdade, uma admissão involuntária que o irritou mais do que qualquer resposta que Richard pudesse ter dado.
Richard soltou uma risada curta, tentando manter a pose.
— Especial? Não me faça rir, . Ela é só mais uma garota do vilarejo.
Mas ficou sério, o olhar cravado no dele:
— Não. Não é.
O silêncio que se seguiu foi espesso, desconfortável.
E então se virou, saindo dali antes que o próprio corpo decidisse o que a cabeça tentava evitar: socar Richard até que aquele sorriso desaparecesse de vez.
Enquanto caminhava pela praça, ouvindo as risadas forçadas e as conversas inúteis atrás de si, não conseguiu evitar o aperto no peito.
Por que diabos ela não aparecia?
Por que se importava tanto?
Ele chutou uma pedra no meio da rua, os dentes cerrados, lembrando da última imagem dela correndo pela trilha, com os olhos assustados e as mãos trêmulas.
E, sem perceber, murmurou para si mesmo, mais como uma confissão amarga do que como uma constatação:
— Maldita… especial mesmo.
Nos dias seguintes, continuou à procura.
Cada vez que passava pela praça, cada vez que esbarrava com Elisa — que, como sempre, tentava se insinuar, com olhares e sorrisos que ele agora mal percebia —, a ausência de parecia mais presente, mais sufocante.
Ele até tentou perguntar discretamente por ela, mas Elisa sempre desconversava, como se também não soubesse onde a amiga tinha se metido.
E, com o tempo, o que começou como irritação virou preocupação.
Depois, frustração.
E, por fim, aquela espécie de dor estranha que não sabia nomear, mas que se instalava no peito como um peso, como uma maldição.
Porque, apesar de tudo, apesar de todas as provocações, os olhares cruzados, os embates verbais…
Ela fazia falta.
E ele odiava admitir isso.
Odiava mais ainda saber que, quando a encontrasse, a primeira coisa que faria seria provocá-la de novo.
Só para esconder o quanto estava preocupado.
Só para não admitir que, para ele, ela era mesmo… especial.
Mesmo que nunca fosse capaz de dizer isso olhando nos olhos dela.
Não sem aquela maldita ironia.
Nunca sem.
Londres
O ar gelado da Escócia me envolveu no instante em que saí do aeroporto.
O vento tinha cheiro de maresia e terra molhada, e as colinas verdes pareciam pinceladas em aquarela no horizonte cinzento.
Ajeitei o cachecol em torno do pescoço, puxei a mala e me obriguei a respirar fundo, absorvendo tudo: o som das gaitas de fole tocadas por um músico de rua, o sotaque arrastado das pessoas ao redor, as placas em gaélico e inglês...
Eu consegui.
Depois de anos sufocando os sonhos, sufocando a mim mesma, ali estava eu: livre, sozinha e assustada, mas inteira.
O táxi me levou até o pequeno apartamento alugado no centro de Edimburgo, com vista para a majestosa silhueta do castelo empoleirado no alto da colina.
As pedras antigas das ruas, as vitrines com livros raros e xales de lã pendurados, as cafeterias escondidas em becos estreitos... tudo parecia mais denso, mais cheio de história.
Naquela noite, apesar do cansaço, não resisti.
Saí para caminhar, deixando que a cidade me guiasse.
Me perdi em vielas silenciosas, subi escadarias íngremes e, quando a chuva fina começou a cair, me abriguei em uma pequena cafeteria com janelas emolduradas por flores secas.
— Um chocolate quente, por favor — pedi, sorrindo em um inglês que parecia deslocado ali, tão limpo comparado ao sotaque local.
O atendente sorriu de volta, e minutos depois, eu me aquecia com a caneca entre as mãos, olhando pela janela embaçada.
Ali, naquele instante, sozinha em um país estrangeiro, me dei conta de algo simples: eu estava exatamente onde deveria estar.
Ou… ao menos achava que sim.
Na manhã seguinte, vesti meu uniforme com um cuidado ritualístico.
O jaleco branco, o crachá com meu nome — “ ” — e o e-mail de boas-vindas impresso na pasta: “Edinburgh Medical Research Centre — Welcome, ”.
Peguei o ônibus, sentindo a barriga revirar a cada parada. O prédio era enorme, envidraçado, com uma fachada moderna que contrastava com a arquitetura medieval da cidade.
Me apresentei na recepção, entreguei meus documentos, sorri nervosa.
A atendente, uma mulher de cabelos curtos e óculos, folheou rapidamente os papéis, depois franziu a testa.
— Um momento… — ela murmurou, digitando algo no computador, clicou algumas vezes e soltou um pequeno “ah…” que me fez gelar.
— Algum problema? — perguntei, tentando manter a voz firme.
Ela ergueu os olhos, um pouco constrangida.
— Senhorita … receio que houve uma atualização no seu contrato na última semana.
— Como assim? — meu coração começou a bater mais rápido.
Ela respirou fundo, mostrando a tela:
— O setor de Pesquisa Avançada, para o qual você foi selecionada, sofreu um redirecionamento emergencial. A unidade daqui em Edimburgo teve cortes de orçamento e o projeto foi transferido para a sede… em Londres.
Pisquei algumas vezes, sem entender direito.
— Londres?
Ela assentiu, como se fosse algo corriqueiro.
— Foi decidido pela administração central. Como seu nome já estava vinculado ao projeto, seu contrato foi automaticamente transferido para lá.
Levei a mão à testa, tentando processar.
— Mas ninguém me avisou…
— Enviamos um e-mail na sexta-feira, deve ter se perdido entre os comunicados automáticos.
Fechei os olhos, respirando fundo. O cheiro do prédio, o som distante de passos apressados… tudo começou a girar ao meu redor.
— Então… não há mais vaga para mim aqui?
Ela negou com um olhar compreensivo.
— Não. Sua vaga agora está na sede de Londres. O departamento espera você na próxima segunda-feira.
Abri os olhos devagar, engolindo em seco.
Tudo o que planejei… a mudança, o apartamento, a ideia de recomeçar num lugar novo, longe de todos os fantasmas… tudo ruía diante daquela simples frase:
“Sua vaga está em Londres.”
E Londres…
Londres era ele.
Era o passado que eu lutei tanto para esquecer.
Era o destino me levando de volta exatamente para onde eu jurei que nunca mais pisaria.
— Eu… vou para Londres — sussurrei, mais para mim mesma do que para ela.
A mulher sorriu, alheia ao peso que aquela frase carregava.
— Boa sorte, senhorita .
Saí dali tonta, sentindo o chão desaparecer sob meus pés.
Edimburgo ficou para trás mais rápido do que cheguei.
E Londres…
Londres estava logo adiante, aguardando como um livro que eu jurei nunca mais abrir, mas que agora era a única história possível.
O trem deslizava pelos trilhos com uma precisão que sempre me fascinou.
A paisagem ia se transformando lentamente — das colinas verdes e enevoadas da Escócia para as planícies extensas e mais áridas da Inglaterra.
Olhei pela janela, vendo as árvores passarem como borrões, sentindo uma estranha sensação de suspensão, como se minha vida estivesse presa entre duas estações: Edimburgo, onde achei que iria recomeçar, e Londres…
Londres.
A cidade que por anos evitei até mesmo nomear em voz alta.
Cruzei os braços, me abraçando, enquanto as vozes no vagão se misturavam ao som ritmado das rodas no trilho.
“Vai ser só trabalho”, repeti mentalmente, como quem tenta convencer o próprio coração a não bater tão forte.
Mas eu sabia.
Sabia que não era só trabalho.
Era retorno.
Era encarar os fantasmas que deixei para trás — e o maior deles tinha nome e sobrenome: .
Apertei o celular entre os dedos, resistindo à tentação de buscar qualquer traço dele online. Não fazia isso há anos. Não seria agora.
Respirei fundo e fechei os olhos.
O trem apitou, anunciando a chegada à estação.
Londres.
A cidade surgiu diante de mim como uma pintura cinza, grandiosa e indiferente à minha presença.
Desci com a mala, me misturando à multidão apressada na plataforma de King’s Cross, engolida por aquele caos familiar.
Era estranho como tudo parecia igual, e ao mesmo tempo, tão diferente.
Peguei o metrô, seguindo as orientações que haviam me enviado da instituição.
O frio era mais úmido ali, mais cortante.
Meus passos ecoavam nas calçadas largas até que, enfim, parei diante do prédio: uma estrutura imponente, de fachada clássica e colunas de pedra, contrastando com o vidro moderno que revestia parte do bloco novo.
“King’s College London — Department of Medical Sciences”.
Li a placa metálica fixada ao lado da entrada, engolindo em seco.
Aqui estou.
Empurrei a porta de vidro e fui recebida pelo saguão silencioso, o cheiro de café misturado ao de livros e desinfetante.
A recepcionista sorriu profissionalmente, pediu meu nome e entregou um crachá provisório.
— Senhorita , sua orientadora vai recebê-la amanhã cedo. Hoje pode se instalar no alojamento e descansar da viagem.
Assenti, agradecendo, e segui o corredor largo, meus passos reverberando no piso de mármore.
Olhei ao redor, tentando assimilar aquele novo cenário, me esforçando para ver apenas a estrutura, o prestígio, a oportunidade… mas minha mente insistia em buscar traços dele.
A pergunta ecoou inevitável: “Será que ele ainda está aqui?”
Sacudi a cabeça, afastando o pensamento.
Parei diante do elevador, suspirei fundo e apertei o botão.
Enquanto as portas se abriam, senti que atravessava, mais uma vez, uma fronteira invisível — como quem se lança sem garantia alguma, apenas com a bagagem que carrega por dentro.
E eu sabia…
Londres não era apenas uma cidade.
Era um reencontro adiado com a parte de mim que nunca consegui abandonar.
O som abafado dos meus sapatos ecoava pelo corredor branco e impessoal do hospital.
O crachá novo pesava sobre o peito — não pelo material, mas pelo simbolismo: era oficial, meu primeiro dia naquela instituição, naquela cidade, naquele novo ciclo que, de certo modo, eu não havia escolhido.
A rotina começou cedo, com uma breve apresentação aos setores, a entrega do jaleco e a assinatura de formulários que pareciam infinitos. Eu sorria educadamente, acenava, mas era como se estivesse em outra frequência, observando tudo atrás de uma barreira invisível.
— Você vai atuar na ala de cuidados intensivos, doutora ” — informou a coordenadora, uma mulher elegante de meia-idade, com um sotaque britânico impecável.
Assenti, engolindo em seco. A responsabilidade, o nervosismo… e aquela sensação inquietante de que algo estava prestes a acontecer.
Segui as orientações, atravessei corredores, entrei em elevadores, subi e desci escadas, até que cheguei ao andar indicado.
A ala era ampla, iluminada por janelas altas que deixavam a luz cinzenta de Londres invadir o espaço com uma suavidade quase melancólica.
Coloquei o jaleco branco sobre a roupa, ajustei o estetoscópio ao redor do pescoço e respirei fundo.
Era só mais um plantão.
Mais um começo.
Mas meu coração parecia não acreditar nisso.
— Com licença… sou , enfermeira recém-chegada.
A voz saiu firme, apesar das mãos frias.
— Claro, doutora , pode aguardar ali. O coordenador do setor vai encontrá-la.
Agradeci e me afastei, ficando ao lado da grande parede envidraçada, de onde eu podia ver o pátio interno, algumas árvores resistindo ao vento gelado.
E então…
— ?
O som do meu nome, pronunciado daquela forma, com aquele timbre grave e arrastado, fez meu corpo inteiro congelar.
Virei lentamente, como se cada milímetro do movimento exigisse força.
E lá estava ele.
.
.
Parado a poucos metros de mim, vestindo o jaleco branco com o crachá da instituição, as mangas dobradas até o cotovelo, revelando as tatuagens que eu conhecia tão bem, mas que agora pareciam de um estranho.
Os cabelos um pouco mais curtos, a barba bem aparada… mas os olhos.
Os olhos eram os mesmos.
Castanhos intensos, confusos, presos aos meus, como se o tempo tivesse parado exatamente ali.
O ar rarefez.
Eu não conseguia falar.
Nem me mover.
Por um segundo, achei que estava tendo uma alucinação, que minha mente cansada e vulnerável tinha criado aquela imagem como uma vingança silenciosa.
Mas não.
Ele deu um passo à frente, o crachá balançando discretamente.
— … — repetiu, agora mais baixo, como quem testa a realidade.
E eu respirei pela primeira vez desde que o vi.
— …
O nome escapou dos meus lábios sem que eu pudesse impedir.
De repente, estávamos ali, frente a frente, cinco anos depois, carregando no olhar todas as palavras que nunca dissemos, todos os abraços que nunca nos demos, todas as despedidas que nunca aconteceram.
Ele franziu levemente a testa, como se quisesse falar, mas não soubesse por onde começar.
E eu… eu só queria correr.
Ou talvez ficar.
Ou talvez chorar.
Ou tudo isso ao mesmo tempo.
O coração batia tão alto que eu mal ouvia o som ao redor — passos apressados, vozes médicas, alarmes sutis de monitores cardíacos.
Só ouvia aquela respiração dele, um pouco mais acelerada, como a minha.
— Você… está aqui — ele disse, mais para si mesmo do que para mim.
Assenti, sem forças para mais do que isso.
— Eu… vim trabalhar — respondi, com a voz fraca, quase sem reconhecer meu próprio tom.
Ele sorriu, ou tentou. Um movimento mínimo, tenso, ferido.
— Eu também.
E então, o silêncio se instalou novamente.
Denso.
Cortante.
Ele olhou para o chão por um segundo e depois ergueu o olhar de novo, como se quisesse me dizer algo importante, decisivo… mas foi interrompido pela coordenadora que se aproximou sorrindo:
— Ah, doutor ! Vejo que já conhece a nova integrante da equipe!
não respondeu de imediato, os olhos ainda estavam presos aos meus.
Eu desviei o olhar, enfiando as mãos no bolso do jaleco para conter o tremor que percorria meus dedos.
— Sim… conheço.
E, sem conseguir suportar mais um segundo daquele turbilhão silencioso, sorri educadamente para a coordenadora, me despedindo com um aceno e seguindo pelo corredor.
Deixei parado ali, ou talvez tenha deixado uma parte de mim com ele.
Caminhei até o vestiário, me trancando no banheiro e apoiando as mãos na pia fria de porcelana.
Encarei meu reflexo no espelho e só consegui pensar:
Como é possível que, depois de tudo, ele ainda me faça sentir exatamente como naquela noite, cinco anos atrás?
Fechei os olhos, tentando reunir forças para o que seria, sem dúvidas, o plantão mais difícil da minha vida.
Continua...
Nota da autora: Ain gente, que dorzinha (E amando eles em 1570)

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02. Bad idea, right?
09. love is embarrassing
04. Saturn interlude returns
08. The boy is mine
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