Última atualização: 04/06/2025

Capítulo 1



Eu sei exatamente como isso vai acabar.
Eu, no meio de uma praia lotada, me perguntando por que aceitei sair de casa, coberta de protetor solar vencido e com areia até nas partes do corpo que eu nem sabia que podiam ter contato com a natureza. E tudo isso porque Beckett decidiu, mais uma vez, que ele sabe o que é melhor pra mim.
Spoiler: ele não sabe.
— Vai ser incrível, . Sol, mar, pôr do sol absurdo, drinks coloridos e você comigo, todos os dias. Preciso dizer mais?
Ele está jogado no sofá da minha casa, vestindo a camisa regata do Batman completamente amassada que dei a ele no seu aniversário de 23 anos, os cabelos estão bagunçados pelo treino de futebol e no rosto ele mantém aquele sorriso convencido que sempre me faz querer bater nele… ou beijar ele, mas principalmente bater.
— Sabe o que também é incrível? Ar-condicionado. Silêncio. Minha cama. E zero pessoas tentando me convencer de que pegar insolação é uma experiência de autoconhecimento. — respondo, me recostando na poltrona com uma caneca de chá nas mãos.
me olha como se eu tivesse dito que odeio cachorros e pizza ao mesmo tempo.
— Você não pode recusar essa viagem, . A galera já tá animada, alugamos aquela casa absurda na praia, tem piscina, tem churrasqueira, e, mais importante, eu estou te convidando.
— Você tá me forçando — corrijo.
— Forçando é uma palavra forte. Eu prefiro "influenciando com carisma e charme inegável".
— Você tá de chinelo com meia e a camiseta manchada de molho. Zero charme envolvido — digo, apontando pra ele.
Ele dá de ombros, como se aquilo fosse um elogio. E talvez, de alguma forma torta, seja. tem esse talento especial de parecer confortável em qualquer lugar, em qualquer roupa, em qualquer caos. Ele é o tipo de pessoa que sorri para o atendente do caixa, faz amizade com o cachorro do vizinho e canta no chuveiro músicas dos anos 2000 como se estivesse em um show particular.
Ele também é meu melhor amigo desde a sétima série, quando me defendeu de um garoto que implicou com meu aparelho ortodôntico. bateu nele com uma régua de matemática e depois me deu um chocolate derretido como presente. A régua foi confiscada, o chocolate me deu dois dias de dor de barriga, mas a amizade ficou.
— Sério, . Você precisa sair um pouco da rotina. Desde quando você virou essa adulta responsável, metódica e... — ele pausa, me analisando. — Chata.
— Uau — digo, fazendo uma careta. — Obrigada.
— É pro seu bem. Quando foi a última vez que você fez alguma coisa fora do script?
Penso por um segundo. E odeio muito o quanto ele tem razão. Eu trabalho demais, estudo demais, planejo demais. E sinto demais. Especialmente por ele. Okay, a última parte pode se manter apenas em meus pensamentos.
Ele se levanta do sofá e vem até mim. O rosto dele está perto demais, e por um instante, fico nervosa. Ele se inclina e meu coração bate tão forte que tenho certeza de que ele ouviu, mas ele só pega minha caneca vazia e me lança aquele sorriso torto.
— Além disso, eu já comprei sua barra de chocolate preferida.
— Você sempre compra chocolate quando quer que eu diga sim — digo, cruzando os braços.
— E você sempre diz sim — ele responde, triunfante, jogando a barra de meio amargo com amêndoas no meu colo. — Porque você me ama.
A frase fica no ar por um segundo. Ele sempre diz isso. Com aquele tom leve, de brincadeira, mas toda vez que ele fala, dói. Porque ele não tem ideia de como isso é verdade.
— Eu vou pensar — digo, fingindo desinteresse.
— Vai pensar até quando? A gente sai em três dias. E você é minha dupla no quarto. Já tá decidido. Te coloquei na lista.
— Você nem perguntou se eu vou querer dividir quarto com você.
— Você quer — ele responde. Simples assim. Como se conhecesse cada pedaço meu mais do que eu própria conheço, talvez conheça.
— E se eu tiver um compromisso?
— Qual? Maratona de séries com seu gato? Atualizar sua planilha de gastos mensais?
— Algumas pessoas acham isso divertido.
— Algumas pessoas precisam de terapia — ele ri, se jogando de volta no sofá. — E praia.
Suspiro, derrotada. Ele ganhou.
De novo.
— Tá. Eu vou — digo, finalmente.
joga os braços para cima, como se tivesse vencido uma partida de futebol.
— Isso! Vai ser a melhor semana da sua vida, eu prometo.
Eu rio, sem acreditar muito. De qualquer forma, no fundo, uma parte de mim espera que seja verdade. Talvez seja a parte que ainda acredita que passar uma semana ao lado do cara que eu amo, mesmo que ele nunca vá me amar de volta, vale a pena.
Ou talvez seja só carência.
— Eu ainda não acredito que você me convenceu com chocolate — murmuro, encarando a barra no meu colo como se ela tivesse me traído. Ela. Não os pensamentos malucos que envolviam e eu, na mesma cama, no mesmo quarto.
— Eu te conheço, . Sei como seu cérebro funciona. Tudo é sobre lógica, consequência e chocolate. Só precisava alinhar os argumentos certos.
Ele me olha com aquele ar satisfeito, de quem sabe exatamente o poder que tem. sempre soube. Desde os doze anos, ele aprendeu a usar o carisma como arma. E, pior, aprendeu a usar ele comigo. O problema disso era que agora ele usava contra mim e, mesmo sabendo de todas as suas jogadas, eu sempre caia em todas.
— Vai ter gente nova nessa viagem? Ou só o nosso grupinho disfuncional de sempre?
— A galera de sempre. E talvez meu irmão. Não sei ainda — responde, esticando as pernas e apoiando os pés na mesinha de centro.
? — pergunto, franzindo a testa. — Pensei que ele tava morando em outra cidade agora.
— Tá. Mas ele falou que talvez dê um pulo por lá. Quer fugir do trabalho, da ex maluca... coisas de adulto.
— Parece bem Beckett de ser.
— Ei! Eu sou um adulto funcional, ok?
— Você tomou sorvete no café da manhã ontem.
— E sobrevivi. O que prova meu ponto.
Reviro os olhos, mas não consigo conter o riso. Com , é sempre assim: um constante bate-volta entre provocação e carinho. Às vezes, tenho a sensação de que vivemos uma eterna prévia de alguma coisa que nunca começa de verdade. Um quase.
Ele se ajeita no sofá, apoiando o braço no encosto e me olha com aquele meio sorriso que sempre me desarma.
— Vai ser bom pra você, . De verdade. Você vive tentando consertar o mundo. Talvez seja hora de deixar alguém cuidar de você, pelo menos por uma semana.
A frase me pega de surpresa. tem momentos em que ele deixa a superfície e mergulha um pouquinho mais fundo. Não muito. Só o suficiente pra bagunçar tudo dentro de mim.
— Eu não preciso que ninguém cuide de mim — respondo, mais defensiva do que eu gostaria.
— Eu sei. Mas talvez você mereça — ele diz, num tom baixo. Quase gentil demais pra vir dele. Eu seguro o olhar dele por alguns segundos. E nesse momento, a sala parece menor. Mais silenciosa. Mais íntima. Tudo o que eu quero é perguntar por que ele nunca me escolheu. Por que ele nunca tentou.
Mas eu não pergunto. Porque eu já sei a resposta.
gosta de mim demais pra me perder. Mas não o suficiente pra me amar como eu amo ele.
— Tá — digo, tentando recuperar a leveza. — Mas se eu passar mal com camarão, você vai segurar meu cabelo enquanto eu vomito.
— Justo. Mas só se eu puder gravar e usar contra você no seu casamento futuro com um contador certinho que usa suéter no verão.
— O suéter é opcional — retruco, rindo. — Mas ele tem que saber usar fórmulas de Excel. Prioridades.
— Você vai se apaixonar por um cara com um nome tipo... Régis.
— Isso é nome de pai de alguém da sua empresa, não é?
— Sim. Ele era chato. E usava suéter. No verão.
Caímos na risada juntos, tudo parece fácil de novo. Como sempre é com . Leve. Natural. Como respirar.
Ele olha o celular e faz uma careta.
— Preciso ir. Tenho treino. Mas juro que não vou deixar você fugir dessa viagem, . Tá decidido. Sábado, 10h da manhã. Eu passo pra te buscar.
— A casa vai ser de frente pro mar?
— Vista panorâmica, baby. Tão linda que você vai querer escrever um livro sobre o pôr do sol. —Eu o acompanho até a porta e, antes de sair, ele encosta o queixo no meu ombro, me abraçando de lado. — Vai ser inesquecível, .
E ele diz isso com tanta certeza que eu quase acredito. Só não sei ainda se “inesquecível” é uma coisa boa ou ruim.



O viva-voz do celular tá ativado, equilibrado em cima da cômoda entre um frasco de protetor solar e meu desodorante favorito, isso tudo enquanto tento decidir entre o biquíni preto (seguro, confiável) e o vinho (ousado, perigosamente flertante), a voz da Sarah invade o quarto.
— Você ainda tá levando coisa demais — ela reclama, rindo. — Vocês vão pra uma semana, , não pra uma temporada de reality show.
— E se chover? E se a casa tiver um ar condicionado assassino ou sei lá? E se alguém quiser fazer uma trilha e eu não for porque não levei um tênis?
— Ninguém vai querer fazer trilha. Vocês são um bando de jovens adultos preguiçosos com déficit de atenção. O máximo de trilha que vão fazer é da cama até a geladeira.
Dou uma risada abafada, jogando o biquíni vinho na mala. Dane-se. Talvez flertar com o sol conte como evolução.
— Falando em jovens adultos… — Sarah começa, com aquele tom que me faz revirar os olhos antes mesmo dela continuar, porque sei exatamente o que ela vai dizer. — já deu em cima de alguém essa semana?
— Ainda é sábado.
— Ah. — Silêncio. — ... — ela diz, com aquele tom leve, mas que me desmonta porque sei sobre o assunto antes mesmo que ela fale. — Você tá mesmo pronta pra essa viagem?
Me jogo de costas na cama, meu cabelo ainda está molhado devido a última tentativa frustrada de escova.
— É só uma semana, Sarah.
— Com o . E com o seu coração completamente apaixonado por ele. E com ele completamente cego a isso. E eu nem mencionei o fato de que ele vai, com 90% de certeza, tentar ficar com alguma loira aleatória na primeira noite.
— Uau, obrigada pelo incentivo. Vou até bordar seus conselhos na toalha de praia para me lembrar deles.
Ela ri, mas sei que ela se preocupa. Sarah sempre soube de tudo. Foi a primeira pessoa pra quem eu confessei o que sentia por e a única que viu de perto cada vez que meu coração se apertava toda vez que ele escolhia alguém que não era eu. E sim, houve aquele beijo entre eles anos atrás, numa festa meio bêbada e sem importância. Sarah me contou logo depois, com culpa nos olhos e gosto de vodka nos lábios. E eu? Eu sorri. Fingi que não doeu. E guardei por um bom tempo, mas acabei deixando pra lá depois.
— Só tô dizendo porque te amo, tá? — ela continua. — E porque se for pra você quebrar a cara, que seja com alguém que te faça sentir coisas épicas. Não com esse idiota emocionalmente analfabeto.
— Ele não é um idiota. Só é... o .
— Exatamente. E o é o tipo de cara que joga a isca, mas nunca pesca. Porque ele tem medo do que vem depois.
Fico em silêncio. É verdade. flerta, provoca, se aproxima e recua. Como se tivesse medo de mergulhar em qualquer coisa que não fosse raso. Como se amar alguém fosse um risco que ele não está disposto a correr.
— Talvez essa viagem me ajude a esquecer isso — digo, tentando soar mais otimista do que me sinto.
— Ou talvez... — Sarah fala devagar. — Você conheça alguém que veja você de verdade. Que não te olhe só quando precisa de conforto ou conselhos.
— Alguém tipo...?
— Tipo... não sei. Qualquer um. Tipo o irmão maduro e gostoso dos Becketts.
Solto uma gargalhada.
? Ele nem vai.
me disse que o carro do quebrou. Ele vai pegar carona com vocês e até o carro ser consertado, vai passar as férias por aí.
Eu paro, com a mala esquecida no meio do quarto.
— Ele vai com a gente?
— Isso aí. E, cá entre nós, sempre achei o bem mais interessante que o .
— Você também achou interessante um cara que usava crocs vermelhas com meias listradas.
— Isso foi um momento de fraqueza e tequila, não um padrão. Mas voltando ao : ele sempre olhou pra você diferente. Mesmo. Repara nisso.
Olho pro celular, depois pro espelho. Meu reflexo me encara como se soubesse de algo que eu ainda tô tentando entender.
— Ele nunca disse nada.
— Porque você nunca deu espaço. Sempre esteve ocupada demais esperando pelo .
Silêncio de novo. Dessa vez mais pesado.
— Você acha que eu tô me sabotando? — pergunto, em voz baixa.
— Eu acho que você merece alguém que te escolha de olhos abertos, .
Fecho a mala com um suspiro e me deixo cair no chão, sentada ao lado da cama.
chega em uma hora.
— E você vai estar linda. Com biquíni vinho e o coração aberto pra tudo — ela diz, animada.
Dou um risinho, mordendo o lábio.
— Te amo, Sarah.
— Também te amo. E se ele fizer alguma idiotice, me liga. Eu levo uma pá.
Desligo com um sorriso nos lábios e bagunça no peito. Não sei o que esperar dessa viagem. Mas sei que, pela primeira vez, talvez eu precise parar de esperar por .
Cinco minutos depois que desliguei, meu celular vibrou com a notificação que eu já esperava.

: “Tô descendo agora. Três minutos. Seja legal e não me faça esperar. Te amo.”

Reviro os olhos, mas sorrio mesmo assim. É a típica mensagem dele. Mandona, provocativa e estranhamente fofa.
Arrasto a mala até a porta do apartamento e dou uma última checada no espelho do corredor. Cabelo arrumado o suficiente, rosto com uma maquiagem leve que finge que eu nasci assim e um biquíni azul marinho sob a blusa oversized branca, que parece inocente demais pra estar escondendo intenções. Respirei fundo.
Três minutos e meu coração já batia como se fosse um primeiro encontro.
O som da buzina me fez saltar. Desci as escadas puxando a mala, e lá estava ele. Enrolado no capô do carro como se fosse uma propaganda de verão, óculos escuros, cabelo bagunçado pelo vento e um sorriso torto que fazia o mundo desacelerar por alguns segundos.
— Você me fez esperar — ele disse, cruzando os braços. — Eu disse três minutos.
— E eu disse que você é dramático — retruco, tentando parecer indiferente enquanto meu estômago fazia piruetas. Ele pega minha mala como se fosse leve, joga no porta-malas e abre a porta do passageiro com um floreio exagerado.
— Milady.
— Idiota.
— Sua Majestade, por favor.
— Seu ego é do tamanho dessa casa que a gente vai, né?
— Maior. A casa é modesta.
Entro no carro abafando uma risada.
— Trouxe snacks? — pergunto, colocando o cinto.
— Trouxe você. Você é meu snack emocional.
— Ew. Nunca mais diga isso.
Ele liga o carro e coloca a playlist de sempre: um mix aleatório entre The 1975, Harry Styles e umas bandas que só ele conhece. Então, depois de prontos, começamos a descer a rua.
O cheiro do carro é o mesmo de sempre. Uma mistura de perfume amadeirado, desodorante masculino e algo que me lembra a adolescência. Tipo tardes de verão e inseguranças não resolvidas.
vai com a gente — ele diz do nada, como quem não quer nada.
Meu coração dá uma leve travada.
— Sarah me contou.
— Ele tá sem carro. E insistiu. Disse que precisava de férias mais do que eu.
— Alguém precisa mais de férias do que você? — pergunto, rindo.
Ele me olha de relance, tirando os óculos de sol e apoiando no topo da cabeça.
— Eu tava pensando em você.
— O quê?
— Que você também precisa dessas férias. Faz tempo que não te vejo desligar de tudo, . Você tá sempre cuidando dos outros, sempre com a cabeça cheia. Às vezes parece que você vive com uma lista invisível de tarefas colada na testa.
— Talvez porque eu viva mesmo — murmuro, sem conseguir evitar o sorriso pequeno. — Alguém precisa ser responsável nesse grupo.
— É, mas, só dessa vez, promete que vai relaxar?
— Prometo tentar.
Ele estica a mão e segura meus dedos por um segundo. Um toque rápido. Quase imperceptível, mas que me deixa com os pensamentos girando mais do que as rodas do carro.
— Essa viagem vai ser boa. Eu prometo.
Olho pra ele e, por um momento, me pergunto se ele tem noção do efeito que causa. Se ele sente alguma coisa além dessa leveza constante. Se, em algum canto da cabeça dele, existe a ideia de mim como algo além de... , a melhor amiga. Mas então ele solta minha mão e volta a focar na estrada, cantarolando distraidamente a próxima música.
O motor do carro vibrava suavemente enquanto tamborilava os dedos no volante, impaciente. Estávamos parados há uns bons dez minutos na frente do prédio onde morava, e já tinha trocado de música cinco vezes.
— Se ele não descer nos próximos dois minutos, eu juro que vou embora e ele vai ter que ir de Uber pra praia — resmungou, mexendo no retrovisor como se isso fosse acelerar o tempo.
— Calma, . São oito da manhã. É cedo até pro seu irmão.
— Ele disse que estaria pronto às oito em ponto. E o não atrasa. Esse atraso é sinal de que o mundo vai acabar.
Ri, encostando melhor no banco.
— Eu ainda acho surreal ele topar ir com a gente. Você vive dizendo que ele não curte essas coisas.
— Ele não curte mesmo. Mas acho que ele está cansado demais do hospital. E... talvez um pouco curioso com o nosso grupo. Ou com você.
Virei o rosto devagar.
— Comigo?
arqueou uma sobrancelha.
— Você nunca percebe, né?
Antes que eu pudesse responder e estragar tudo, a porta do prédio se abriu e apareceu, segurando uma mala com a leveza de quem já treinou aquilo mil vezes. Camiseta branca, calça jeans escura, tênis limpo. Simples, mas perfeitamente alinhado. Os cabelos castanhos estavam bagunçados de um jeito calculado, e os óculos escuros davam aquele toque final de: “sou inteligente, mas você ainda assim pode tentar me decifrar”.
olhou pra ele e soltou um suspiro dramático.
— Pronto. Lá vem o queridinho da mamãe. — abriu a porta de trás do carro, colocou a mochila com cuidado ao lado, ajeitou a mala no porta-malas e entrou com um aceno breve. — Tripulação reunida e pronta para zarpar — comentou, batendo no volante como se estivesse prestes a pilotar um barco pirata.
— Você sabe que isso aqui é só um Corolla, né? — perguntei, cruzando os braços e tentando não ficar consciente demais da presença de no banco de trás.
— Um Corolla que vai nos levar ao paraíso — ele rebateu, como se isso fosse uma verdade universal.
riu atrás de mim, e, por um segundo, tudo pareceu absurdamente confortável. Familiar, mesmo que ele estivesse entrando agora na dinâmica.
— Você dirige como um velho — provocou após a primeira curva lenta demais.
— E você tem cara de quem foi expulso de um comercial da Calvin Klein por excesso de ego — retrucou.
— Obrigado — respondeu com um sorriso.
Eu ri. Alto demais. E por um segundo, os dois olharam pra mim. com aquele ar de "te conheço", e com o ar de quem queria conhecer mais.
Sarah realmente tinha entrado na minha mente.
— Achei que você fosse desistir — retrucou, sem nem olhar pra trás.
— E perder a chance de passar uma semana com você me dando dor de cabeça? E mais três horas de playlist inquestionável? Jamais.
— Questionável é sua caligrafia de médico.
Touché.
bufou, mas riu. Eu, por outro lado, girei no banco para encarar . Fazia meses que não o via de perto. Talvez porque ele morasse longe e vivesse imerso em plantões e turnos intermináveis de hospital. Ou talvez porque eu evitasse. Por motivos pessoais. Ele estava ainda mais bonito do que eu lembrava. O cabelo castanho estava mais curto, a barba bem feita, e os olhos dele continuavam aquele tom esquisito de âmbar com mel, fazendo eles parecerem ainda mais atentos do que antes. tem um jeito que faz a gente se sentir examinada sem ser tocada, o que, na minha cabeça, dava total sentido ao fato dele ser médico.
— Oi, — ele disse, com um leve sorriso que me desmontou meio centímetro por dentro.
— Oi, doutor — brinquei, tentando parecer casual enquanto me virava de volta pro painel.
— Não estou de plantão. Pode me chamar só de .
bufou.
— Tá vendo? — resmungou. — Esse é o problema. Você vive dando corda pra ele. Daqui a pouco ele vai medir nossa pressão na beira da piscina.
— Eu não ligaria em aferir a pressão dela. — respondeu, já ajustando o cinto como se preparasse para um procedimento.
O contraste entre eles era quase cômico. Enquanto dirigia com uma mão no volante, outra no celular trocando a música, cantando alto e se alongando no banco como se o carro fosse um parque de diversões, estava com a postura ereta, mochila perfeitamente alinhada ao lado, e os óculos escuros retos no rosto.
Eu me sentia entre dois mundos.
— Quantas horas mesmo até a casa? — perguntei, tentando me concentrar em qualquer coisa que não fosse a tensão que só eu parecia sentir.
— Umas três e meia com sorte — respondeu. — Mas a playlist tá pronta, os snacks estão no porta-luvas e, se vocês se comportarem, posso deixar cada um escolher duas músicas.
— Democracia — murmurou. — Um conceito que meu irmão claramente ainda não entendeu.
ergueu o dedo do meio pelo retrovisor, e eu ri, encostando a cabeça no banco. Enquanto gritava que a playlist dele era “perfeita, imaculada, digna de Grammy”, apenas riu e sugeriu que, se tocasse Dua Lipa mais uma vez, ele ia pular do carro em movimento.
— Você não tem o menor gosto musical — rebateu.
— Tenho sim. Só não gosto de sofrer ouvindo “Levitating” pela trigésima vez.
— Levitating é um hino. , fala pra ele.
— Eu gosto. — Dei de ombros, rindo. — Mas talvez não trinta vezes.
— Traição vinda dos dois lados. É isso. — dramatizou, batendo a mão no volante. — Preciso rever minhas amizades e meus laços de sangue. É sério, , se você cair nessa conversa de médico bem-sucedido que sabe usar palavras como “sistematização” e “nebulização”, você vai me decepcionar — continuou, jogando uma bala na boca.



Capítulo 2




A casa de praia era do jeitinho que descreveu: espaçosa, com janelas grandes, um deque de madeira que dava direto pra areia e uma brisa salgada que já invadia os cômodos mesmo com a porta fechada. Assim que entramos, correu pra garantir o quarto com vista pro mar. Eu e fomos ficando pra trás, meio rindo, meio carregando sacolas.
— Ele faz isso toda vez? — perguntou, pegando minha mochila com uma das mãos e jogando a dele no ombro.
— Sempre. E ainda finge surpresa quando a vista é bonita.
— Previsível.
— Você fala como se fosse melhor.
— Eu sou — ele respondeu, com aquele sorriso meio cínico e meio confiante que só ele sabia dar. — Só não me vanglorio tanto quanto ele.
— Duvido. Aposto que você tem um quarto preferido calculado desde antes de sair de casa.
— Segundo andar. Lado esquerdo. Melhor circulação de ar.
— Aha! Sabia!
Rimos juntos enquanto subíamos as escadas. abriu a porta do quarto com calma, como se já fosse dele, e colocou minhas coisas na cama com gentileza.
— Pode ficar nesse. Eu fico no do fundo.
— Você vai me dar o segundo melhor quarto?
— Se eu ficar aqui e você reclamar depois, vou me sentir culpado. E culpa atrapalha meu sono.
— Que cavalheirismo torto.
— Funciona, não funciona?
— Talvez — disse, sorrindo enquanto arrumava meus travesseiros. — Obrigada, . Eu aceitaria com muito prazer, mas me convidou pra dormir com ele. Você conhece o seu irmão, daqui a pouco essa casa vai estar cheia de gente e vamos precisar ter de duas a três pessoas em uma cama.
Ele me encarou por um segundo a mais que o necessário. E foi aquele segundo que me fez virar de volta pro travesseiro só pra fingir que não percebi. Ele concordou, depois levou minhas bolsas para o quarto do , depois disso descemos e encontramos abrindo uma cerveja na varanda, com os pés já sujos de areia.
— O dono da casa chegou — ele anunciou, jogando uma almofada no sofá. — Deixei o quartinho dos fundos pra você, . Cabe certinho seu ego inflado e sua moralidade questionável.
— Prefiro dormir com o ego do que com areia na cama. Você deixou a janela aberta de novo.
— Ventilação natural.
— Sujeira gratuita.
— Amor de irmão — completei, me jogando no sofá ao lado de .
já teve bom gosto em ficar comigo, você viu? — falou, dando um gole na cerveja.
— Ela só ficou com você porque não sabia que tinha opção — rebateu com a voz calma, mas com aquele olhar sagaz que fazia tudo parecer mais provocação do que argumento.
— Cala a boca, doutor.
— Fato. Confirma, ? — olhou pra mim com uma sobrancelha levantada.
— Eu só vim pela piscina.
Os dois riram. , mais alto. , mais contido. E eu, no meio da tempestade de piadas internas e pequenas guerras de afeto. Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, então me encarou. Sério demais, pensativo demais.
— Só… para com isso, .
— Com o quê?
— De ficar fazendo esse charme todo. Ela já te acha atraente demais.
O silêncio que se seguiu durou exatamente três segundos. Mas foi tempo suficiente pro meu rosto ficar vermelho até a raiz do cabelo.
cruzou os braços e me olhou de lado, divertido.
— Acha mesmo?
— Cala a boca — murmurei, me enfiando na almofada.
revirou os olhos, mas sorriu no fim. Fiquei mais uns segundos afundada na almofada, tentando reorganizar meus neurônios enquanto foi para a cozinha e organizou as compras que tínhamos feito. voltou a mexer no celular, distraído.
— Eu… não pensei. Só falei. Saiu.
— É, saiu mesmo.
Ficamos em silêncio por um instante. Apesar do que ele falou, não era um silêncio desconfortável. Mesmo com toda a bagunça emocional ainda pairando no ar. Com era sempre assim: mesmo quando o mundo parecia de ponta-cabeça, ele era meu ponto de equilíbrio. O cheiro de alho e cebola começou a invadir a sala, e apareceu na porta da cozinha com um pano jogado no ombro e um olhar casual.
— Vou fazer macarrão com camarão e molho branco. Vocês vão querer ou preferem pedir algo?
— Camarão? — fez uma careta. — Eu prefiro comer areia.
— Isso pode ser arranjado — respondeu, sério.
— Vou querer — falei rápido, levantando a mão.
— Sabia que você era a mais evoluída dos dois — ele disse, piscando pra mim antes de voltar pra cozinha.
me olhou de lado, como se não tivesse certeza se deveria se ofender ou rir.
— Ele sempre foi o filho perfeito, sabia?
— É mesmo?
— Notas altas, curso de medicina, ajudava na igreja, nunca quebrava nada em casa… enquanto eu... bom, você me conhece.
— Conheço. E gosto de você mesmo assim.
Ele sorriu de canto.
— É, eu sou mais divertido.
— Até o momento em que você decide quebrar o nariz de alguém numa briga de bar.
— Aquele cara mereceu.
— A única coisa que ele fez foi me beijar.
se endireitou no sofá, seu olhar ficou mais sério.
— Não. Ele estava com a mão quase entrando por baixo da sua saia. Na frente de todo mundo.
— Ainda assim…
— Eu só fiz o que qualquer amigo faria. — disse, com um ar cínico e heroico que só ele conseguiria sustentar.
Suspirei, cruzando os braços.
— Ah, claro — disse, contendo um sorriso. — Um amigo que quebra narizes em nome da moral e dos bons costumes.
Ele riu, baixo, como se não quisesse.
— Eu sou um amigo extremamente comprometido.
— Você podia ter resolvido isso sem quebrar o nariz dele.
— E perder a chance de bancar o cavaleiro de armadura ferrada? Jamais.
— Ferrada mesmo. O sangue nem saiu da sua camiseta até hoje.
— Mas você ficou impressionada.
Ele se inclinou para mais perto, seus olhos prenderam-se aos meus e o sorriso desafiador voltou a ocupar seus lábios, aos poucos.
— Fiquei? — arqueei uma sobrancelha.
— Ficou. Você só finge bem.
Revirei os olhos, encostando a cabeça no encosto do sofá.
— Um dia ainda vão te expulsar de algum bar.
— Você vai estar lá pra me tirar, então tudo bem.
Antes que eu retrucasse, surgiu na porta da cozinha com a travessa de macarrão nas mãos.
— Hora de parar com a sessão esquisita de melhores amigos que se amam e se odeiam. — anunciou com naturalidade, se aproximando com uma colher na mão. — Vamos comer, porque eu estou morrendo de fome e, felizmente, tudo já era pré-pronto. Quando os acompanhamos, ele colocou a travessa no centro da mesa e virou-se pra mim com um sorriso mais suave do que o normal.
— Espero que tenha acertado no ponto do molho. Fiz especialmente pra você.
— Pra mim? — perguntei, erguendo levemente o canto da boca.
— Claro. Você é a única aqui com bom gosto — disse, ignorando completamente o olhar fulminante que lançou. — O ainda acha que nuggets contam como refeição.
— Nugget é uma refeição — respondeu, seco. — Sentei à mesa, observando com um pouco mais de atenção.
— Vai comer ou vai vigiar? — perguntei, cutucando com o cotovelo.
Ele fingiu um sorriso.
— Só tentando entender como o virou chef gourmet de repente.
— Eu só cozinho bem pra quem merece — respondeu, voltando a me encarar por cima do copo de vinho.
— Vou lembrar disso quando a comida estiver horrível — murmurei, tentando suavizar o clima.
riu.
— Eu topo ser lembrado por você.
derrubou o garfo na mesa.
— Merda.
— Que foi? — perguntei, tentando esconder o sorriso.
Ele pegou o talher com um suspiro exagerado.
— Nada. Só deixei cair.
serviu um pouco de macarrão no próprio prato, mas antes de começar a comer, olhou em volta da mesa, como se esperasse por mais gente.
— Somos só nós três mesmo? — ele perguntou, casual, mas com um leve tom de curiosidade por trás.
— Por enquanto, sim — respondeu, sem levantar os olhos do prato. — O pessoal deve chegar mais tarde.
— Que pessoal? — perguntei, limpando a boca com o guardanapo.
— Alguns amigos nossos. — ele respondeu, dando de ombros. — Ash, Luke, Tessa, Nolan e Ivy. Disseram que saíram mais tarde, devem chegar depois das nove.
assentiu devagar, fingindo naturalidade enquanto mastigava, mas o músculo da mandíbula dele pareceu travar por um segundo.
— Acho que não conheço ninguém além de vocês dois.
ergueu os olhos.
— Conhece a Ivy — disse, como quem solta uma lembrança proposital. — Ou já esqueceu o verão passado?
deu um meio sorriso, mas não rebateu de imediato. Pegou o copo, bebeu um gole de vinho e só então falou:
— Foi só um beijo.
— É, ninguém estava muito exigente naquela época — murmurou, mexendo na comida.
O silêncio se instalou por um momento. E, ao perceber o desconforto evidente na sala, tentei mudar de assunto.
— Eles vão ficar todos aqui? — perguntei, tentando soar casual.
— Sim. Tem espaço, essa casa é enorme. — respondeu, ainda sem me encarar de verdade.
— Se precisar, posso dividir o meu com a . Não me importo.
cruzou os braços, largando o garfo e começando a olhar o irmão.
— Que gentil da sua parte, mas ela já tem onde ficar.
se virou, serviu o próprio copo e o meu antes de voltar para a cadeira.
— Ainda assim, a oferta continua de pé.
— Obrigada — respondi baixo, sem saber exatamente pra qual dos dois.
pegou o garfo de novo, mas não voltou a comer. Os olhos dele ficaram fixos em algum ponto da mesa, como se digerissem algo que não tinha nada a ver com o jantar.
— De qualquer forma — retomou, ajeitando a manga da camisa —, é bom saber que vai ter casa cheia. Gosto de gente. Dá vida ao lugar.
— E barulho — rebateu, com um sorriso curto. — Você sempre detestou o caos.
deu de ombros, como se fosse um elogio. Me mexi na cadeira, desconfortável com a troca.
— Vou checar minhas coisas, então — falei, empurrando levemente o prato. — Acho que deixei minha escova no carro.
— Eu te ajudo — os dois disseram ao mesmo tempo.
Nos entreolhamos. apertou os lábios, como se já estivesse arrependido de ter falado. levantou antes, pegando as chaves do balcão.
— Eu acompanho, tá escuro lá fora.
Assenti, sem graça, e o segui até a porta. Assim que saímos, senti o ar frio da noite me envolver. caminhava ao meu lado, em silêncio, com as mãos nos bolsos da calça.
— Você não precisava vir. Eu aguento uma escova de cabelo sozinha — brinquei, tentando aliviar. Ele me olhou de lado, com aquele mesmo olhar que vinha me incomodando desde a cozinha, não porque era ruim, mas porque era diferente. Atento. Direto demais.
— Eu sei — ele respondeu. — Mas a companhia é boa.
Sorri de leve, sem saber como responder. não era exatamente sutil. Mas também não era desrespeitoso. E era esse meio-termo que ele tinha que mexia comigo, com todas as minhas estruturas e mais algumas que eu mal sabia existir..
— Você e o são bem próximos, né? — ele comentou, ao destravar o carro pra mim.
— Desde sempre — respondi, abaixando o olhar.
Ele assentiu, como quem confirma uma teoria.
— Nunca passou disso?
Virei o rosto devagar, encarei-o por um segundo mais longo do que gostaria.
— Não. Nunca passou.
— Entendi — ele disse, mas o jeito que sorriu era quase como se dissesse que não acreditava. Peguei a escova no banco de trás e fechei a porta com mais força do que pretendia. Quando voltei a encará-lo, ainda estava lá, parado, com mãos nos bolsos e expressão calma. — Bom saber.
E então, como se nada tivesse acontecido, ele virou de costas e foi em direção à casa.



Capítulo 3



A primeira a atravessar a porta foi Ivy.
O salto dela ecoou sobre o chão de madeira como um anúncio. Perfume doce e forte, vestido justo e confiança espalhada como tinta fresca por onde passava. Ela entrou como se a casa fosse dela, como se todos nós estivéssemos ali esperando por sua chegada, mas o olhar dela não percorreu o ambiente. Foi direto para .
There you are. — disse, com aquele sorriso que mistura charme e território marcado.
estava perto da bancada, servindo vinho em dois copos, o dele e o meu. Ele pausou o movimento por um segundo antes de erguer os olhos para ela. Eu vi quando o sorriso dele surgiu, lento, contido. Polido. E ligeiramente desconfortável.
— E perder essa recepção calorosa?
Ela atravessou a sala e o abraçou com aquela familiaridade que beira o incômodo. Não foi um abraço casual, de “amigos que não se veem há tempos”. Teve dedos se demorando nas costas, teve corpo encostando demais. E eu, que nem queria ou deveria me importar, senti os segundos longos demais. A maneira como ele demorou a soltar os braços. E senti, também, o olhar de sobre mim. Ele estava parado ao meu lado, de braços cruzados, quando inclinou o rosto em minha direção, como quem sabe demais e não vai dizer nada.
— Aposta quanto que ele não dura nem dois dias? — disse, com a voz baixa e leve, mas os olhos não tinham nada de leve.
— Quem? ? — tentei parecer desinteressada, mas não soou convincente nem pra mim mesma.
— Com essa gente toda falando ao mesmo tempo, música alta, colchão no chão da sala, drama surgindo do nada… — ele balançou a cabeça. — Vai pedir arrego até domingo.
— E você quer apostar comigo mesmo sabendo que eu vou ganhar?
— Eu conto com sua compaixão — ele respondeu, e dessa vez o olhar dele foi gentil, quase cúmplice. — E com a chance de te fazer pagar uma prenda quando perder.
Eu sorri, sacudindo a cabeça, tentando ignorar o fato de que ainda estava conversando com Ivy do outro lado da sala. Os dois riam agora, e ela tocava no braço dele como quem não precisava de permissão. Acho que me incomodei porque a atenção dele, pela primeira vez no dia, não estava voltada para mim.
— Arrogante — falei para , me forçando a manter o tom descontraído.
— Realista.
Mais vozes surgiram perto da porta. Nolan e Luke entraram conversando alto, cheios de piadas internas e energia demais para esse horário. Tessa veio logo atrás, arrastando uma mala quase explodindo, e já girou no meio da sala como uma criança em um parque de diversões.
— Essa casa é insana! — ela gritou. — Sério, quem teve essa ideia foi um gênio.
— Fomos nós dois — respondeu, apontando pra ele e pra . — Mas só um aqui é um gênio.
— O outro é você? — Ivy rebateu, sem olhar pra ele.
Uma pequena faísca brilhou nos olhos de , mas ele não disse nada. Se limitou a sorrir curto, com aquele jeito de quem registra a ofensa mas não tem energia pra responder. A casa ficou cheia de risadas, malas sendo arrastadas, música já conectada na caixa de som, gente sentando no chão, gente abrindo a geladeira. E eu ali no meio, pensando por qual maré seria arrastada primeiro. Me sentei no sofá com o copo de vinho que tinha me servido. Ivy se jogou ao lado de , tão próxima que suas pernas roçavam. Ela sorria demais, falava demais. E não parecia tão incomodado, mas também não parecia inteiro. Às vezes desviava o olhar. E, uma ou duas vezes, esse olhar pousou em mim.
Rápido demais. Discreto demais.
Mas eu vi.
— Tá sentindo isso? — ele perguntou, baixinho, de novo perto demais. O calor do corpo dele contrastava com a brisa que vinha da porta aberta.
— O quê?
— O cheiro do apocalipse.
Soltei uma risada verdadeira dessa vez, e ele sorriu também, mas os olhos ainda estavam em mim. Como se perguntassem algo que ele nunca diria em voz alta.
— Vai sobreviver? — perguntei.
— Só se você prometer continuar me protegendo da Tessa falando da dieta dela e do Luke tentando me convencer a fazer yoga de manhã.
— Um herói não escolhe suas batalhas — falei, encenando.
— Mas escolhe com quem divide o quarto. E o meu sempre vai estar disponível pra você.
Meu riso morreu na garganta. Porque os meus pensamentos não se limitaram a divisão do quarto. Ao invés disso, foram direto pra cama. Com ele. Foi nesse momento que Ivy riu alto do lado de . Alto demais. Como se quisesse nos lembrar que estava ali. sorriu também, mas parecia distraído. E por um instante, mesmo com toda aquela confusão em volta, tive a certeza de que ninguém ali queria estar em outro lugar além de onde eu estava.
O que era estranho. Porque eu mesma ainda não tinha certeza se queria estar ali.
— Dois dias — repetiu, olhando pro irmão com um riso enviesado.
— Eu vou fazer ele ficar aqui a semana inteira. — respondi, mais pra mim mesma do que pra ele.
— Fechado. E quando eu ganhar… você vai ter que me deixar escolher o filme da noite.
— Isso nem é punição.
— Vai ser, quando eu escolher um documentário sobre a história da escova de dentes.
— Eu retiro minha aposta.
— Tarde demais.
A noite pareceu ter sido empurrada, acelerada por quem quer que tivesse o controle dela. Cada minuto que passava, alguém abria uma garrafa nova, aumentava o som ou ria alto demais. O sofá já estava ocupado por quatro pessoas encolhidas como sardinhas, e duas malas tinham virado apoio de copos na sala. Nolan achou o interruptor que ligava as luzes coloridas do teto, as mesmas que ninguém sabia que existiam, e agora a sala oscilava entre tons de rosa, azul e roxo, como uma boate improvisada no meio das montanhas.
— A gente devia jogar alguma coisa — Tessa sugeriu, com a voz empolgada de quem claramente já estava no segundo ou terceiro drink.
— Strip poker! — Luke gritou, e imediatamente levou uma almofadada na cabeça da Ivy.
— Você só quer isso porque vive ganhando. — ela rebateu, fazendo todos rirem.
— Que tal Eu Nunca? — Ivy sugeriu, cruzando as pernas sobre o tapete, bem na frente de . Ele estava sentado na poltrona, uma perna apoiada sobre a outra, copo de vinho na mão. E mesmo com toda a luz piscando, eu juro que vi os olhos dele me procurando quando Ivy fez a sugestão.
— Eu Nunca é jogo de criança — comentou, largado no canto do sofá, mas com um sorriso preguiçoso no rosto.
— E mesmo assim, você sempre sai mais bêbado que todo mundo — Nolan retrucou, já puxando uma garrafa de tequila pra frente.
— Vai fingir que não quer brincar? — perguntei a , levantando uma sobrancelha.
— Eu nunca disse isso — ele respondeu, sorrindo torto.
A roda se formou com um caos natural. Copos foram enchidos, travesseiros jogados pro chão, Tessa apagou algumas luzes, e em poucos minutos estávamos todos sentados em círculo, como adolescentes numa cabana sem regras. O que era um perigo.
— Regras básicas — Luke começou, erguendo o copo. — Se já fez, bebe. Se não, observa os degenerados ao seu redor.
— Perfeito — Ivy disse, piscando pra , que não reagiu. Ele só bebeu mais um gole e se ajeitou na poltrona.
— Posso começar? — Tessa perguntou, já animada. — Eu nunca beijei dois irmãos.
Um coro de “wow” ecoou, e até eu fiquei surpresa. Meu olhar foi automático pra . Depois pra . Nenhum dos dois se mexeu.
Ivy bebeu.
— Isso foi um tiro no escuro ou você sabia? — Nolan perguntou, rindo.
— Intuição feminina — Tessa respondeu, com um sorriso afiado.
— Não sei se fico preocupado ou impressionado — Luke murmurou, e todos riram.
— Sua vez, falou, me olhando com aquele olhar leve, mas profundo ao mesmo tempo. Indecifrável. Eu demorei um segundo. Havia algo na brincadeira que me fazia sentir exposta. Talvez fosse essa a intenção, no fim das contas.
— Eu nunca me arrependi de uma escolha que fiz no último verão — falei, devagar. E nem sei dizer se perguntei aquilo porque fiquei com ciúmes da atenção que Ivy recebia ou porque eu mesma me arrependia do quase beijo com o , quando ele estava bêbado demais pra lembrar no dia seguinte.
O silêncio foi quase imediato. me encarou. desviou os olhos.
E então bebeu.
Não rápido. Mas também não devagar. Um gole firme, um olhar direto nos meus. Meu peito apertou. Talvez eu devesse ter escolhido algo mais genérico.
— Pesado — Ivy comentou, mas não riu. Talvez porque ela soubesse exatamente o que eu quis dizer. Talvez porque ela soubesse que não era sobre ela. Ou talvez porque soubesse que era.
— Minha vez — disse, voltando a encarar todos, a expressão levemente mais fechada. — Eu nunca tive ciúmes de alguém que nunca foi meu.
Silêncio. Dessa vez, mais denso.
Eu bebi. De novo. E dessa vez, também.
Os dois ao mesmo tempo. E só nós dois.
Os olhos de pousaram em mim por um segundo a mais. Não acusadores. Só doídos, eu acho. No fim, ele bebeu também.
— Alguém tem algo mais leve pra dizer ou já podemos todos nos entregar à terapia coletiva? — Nolan brincou, tentando tirar o clima tenso.
— Eu nunca dancei bêbado em cima de uma mesa — Tessa disse, rindo.
Metade do grupo bebeu. Incluindo , que apontou pra Ivy.
— Ela quase quebrou uma estante numa festa da faculdade.
— Isso é difamação! — ela respondeu, rindo, mas dessa vez não olhou pra .
O jogo seguiu por mais algumas rodadas, mas a atmosfera não era mais a mesma. Depois de um tempo, Tessa e Luke foram atrás de cobertores, Nolan sumiu na cozinha e Ivy se deitou no sofá, pegando o celular. ainda estava sentado perto de mim, ombros quase tocando os meus, os olhos meio fechados como se calculasse o próximo movimento. Senti se mexer ao meu lado. Ele se espreguiçou devagar, passando por trás da cabeça antes de se jogar de lado no sofá, com os pés ainda no chão.
— Me empresta um pedacinho aí. — A voz dele soou baixa, quase sonolenta.
— Você já tá metade aqui — respondi, rindo, enquanto deslizava um pouco pro lado.
Sem aviso, ele se ajeitou, deitando de lado atrás de mim e passando um braço em volta da minha cintura, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Fiquei tensa por um minuto. Só um. O tempo suficiente pra sentir o corpo dele encaixar no meu. Quente. Calmo. Sem pressa.
— Tá confortável? — sussurrei, sem virar o rosto.
— Mais do que deveria estar — ele respondeu e o seu queixo roçou levemente meu ombro. Rimos baixinho, e por um instante, parecia que nada lá fora existia. Só a respiração dele no meu pescoço, o calor do corpo dele contra o meu e o som abafado de vozes e passos no andar de cima.
— Lembra daquela vez na praia, quando você me empurrou na fogueira? — ele perguntou, de repente.
Soltei uma risada abafada, tentando não chamar a atenção de ninguém.
— Não te empurrei na fogueira. Te empurrei perto da fogueira. Detalhes importantes.
— Minhas sobrancelhas não acham que foi só “perto”.
— Você ficou semanas me chamando de incendiária — murmurei, rindo, me virando só o suficiente pra ver o canto da boca dele curvar.
— Porque foi divertido fazer você tentar se desculpar. Você sempre fica meio atrapalhada quando se sente culpada.
— Eu não fico atrapalhada — rebati, mas minha voz falhou no final.
Ele riu baixinho, puxando-me levemente para mais perto.
— Tá vendo? — ele sussurrou. — Ficou agora.
Fiquei quieta por um momento, absorvendo aquilo. O jeito como ele me conhecia. As pequenas provocações. A forma como, mesmo sem dizer nada, ele fazia com que eu me sentisse tão segura.
— Não pensei que você fosse ser o primeiro a desabar no sofá — falei, tentando mudar de assunto.
— E perder a chance de dormir perto de você? — ele disse sem pensar. E quando notou, se calou por um instante. — É o lugar mais quentinho da casa.
Virei o rosto devagar, e nossos olhos se encontraram. Ficamos em silêncio por mais algum tempo, até que seu rosto mexeu de um lado para o outro em meu ombro, arranhando levemente e cheirando o meu cabelo.
— Você vai ficar com ele?
A pergunta escapou dele como um sussurro entre a respiração quente contra meu pescoço. Tão baixa que, por um momento, pensei ter imaginado. Mas o aperto sutil da mão dele na minha cintura confirmou: ele disse. E queria saber a resposta. Minha garganta secou. Fiquei imóvel, sentindo o corpo dele colado ao meu, o peito subindo devagar nas minhas costas, como se ele tivesse prendido o fôlego junto comigo.
— Eu não sei. — Murmurei, de forma simples. era bonito e claramente estava flertando comigo. Era uma possibilidade, de certa forma. E eu tinha essa regra tola de nunca mentir para o . — Eu nem sei se ele quer.
— Ele quer. — disse, rápido demais. Fiquei em silêncio, tentando entender se aquilo era só sobre o ou se era sobre mim também.
— Isso é sobre você ou sobre ele? — perguntei, ainda sem olhar pra trás.
respirou fundo. A mão dele ainda estava na minha cintura, mas agora os dedos traçavam um padrão leve, distraído, como se o toque o ajudasse a pensar.
— Eu não sou bom nisso. — Ele deu uma risadinha seca.
Não respondi. Não porque não havia o que dizer, mas porque qualquer coisa que eu dissesse naquele momento pareceria menor do que aquilo que eu estava sentindo. Mesmo não falando nada senti que, talvez, ele soubesse. Porque me puxou mais, até que meu corpo estivesse colado ao dele, até que nossas pernas estivessem entrelaçadas no sofá estreito, até que o queixo dele estivesse apoiado de leve na minha cabeça. Nenhuma outra palavra foi dita. nunca implorava. Nunca pedia. Ele só deixava as portas entreabertas e esperava que eu escolhesse entrar.
E mesmo com tudo acontecendo à volta, o único lugar onde eu queria estar era exatamente onde estava. Entre os braços de quem nunca me disse com todas as letras, mas sempre deixou claro. Que, se eu quisesse, ele seria meu lar.
— Não fica com ele. — Meus olhos se abriram devagar, mas não me virei. Não precisei. A dor estava toda na voz dele. — Por favor — ele continuou. — Não ele.
Me virei levemente, só o suficiente pra que meu rosto quase encostasse no dele. E naquele breve espaço entre a nossa pele, onde a respiração dele ainda tocava minha boca, onde os olhos dele ainda não conseguiam me encarar de verdade, tive vontade de dizer que não faria isso. Que não ficaria com . Que não queria complicar as coisas. Mas não disse.
— Não é justo me pedir isso.
E realmente não era. E era isso que doía mais.
Porque ele não estava pedindo pra ficar comigo.
Estava pedindo pra não perder.
— É, eu sei. Só... não deixa ele bagunçar você demais, tá? — ele pediu, como quem fala com cuidado demais pra não assustar. — Já tem bagunça suficiente aqui.
Subi as escadas devagar, tentando não pensar demais. Quando empurrei a porta do quarto, a luz suave do corredor se espalhou até metade do ambiente. estava deitado na cama, uma das mãos atrás da cabeça, o peito nu se movendo num ritmo calmo, calmo demais pra alguém que eu sabia estar remoendo alguma coisa. Fiquei parada ali por um segundo. E, por um instante, só observei. Depois, com a ousadia que só a intimidade traz, subi na cama e me deitei em cima dele, encaixando meu corpo ao dele como se fosse algo automático.
— Tá tudo bem entre a gente? — perguntei, num sussurro, com o queixo apoiado no peito dele. Ele não respondeu de imediato. Ficou olhando o teto, como se pesasse as palavras. Quando finalmente falou, sua voz soou baixa e embargada.
— Você sabe como foi o último relacionamento do , né?
Ergui os olhos, surpresa com o quão direto ele tinha sido, no entanto, era o . É claro que ele seria direto demais.
— Só sei que foi complicado.
riu sem humor.
— Complicado é pouco. Foi um relacionamento merda. Tóxico. Ela era ciumenta, manipuladora, fazia drama por tudo. E mesmo assim, ele sempre voltava. Sempre. Porque ela sabia exatamente onde apertar. Ela liga pra ele quase toda noite, manda mensagem e, às vezes, aparece chorando na porta do apartamento dele, como se ele devesse algo pra ela.
— E ele ainda está com ela?
— Não. Ele tenta fugir — disse rápido. — Mas o tem esse lado de querer salvar todo mundo. Especialmente quem quebra ele primeiro.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, e eu absorvi aquilo. passou a mão pelas minhas costas devagar, leve, quase distraído, mas eu senti o peso na respiração dele.
— Só me promete uma coisa — ele disse de repente.
Levantei a cabeça, surpresa com a mudança de tom.
— O quê?
Ele virou o rosto na minha direção e, quando me encarou, os olhos estavam mais escuros, mais sérios do que eu lembrava.
— Se você for ficar com ele… me dá um tempo. Umas semanas. Só pra digerir. — A voz dele falhou no final. — Pra aceitar.

— É só um pedido. Não tô te pedindo pra não fazer. Só... não joga isso em cima de mim sem me deixar respirar, tá?
Meu peito apertou, porque eu conhecia . Tão bem como me conhecia, eram dez anos de amizade, dez anos que me faziam sentir dor física. Porque ele não estava fazendo drama. Ele só estava tentando não desmoronar.
— Prometo — sussurrei.
Ele assentiu, fechando os olhos por um momento. Eu deitei minha cabeça contra o peito dele, ouvindo o coração bater mais rápido do que eu esperava. O braço dele envolveu minha cintura devagar.
— Obrigado por ainda dormir aqui. — ele disse, depois de um tempo.
— Eu não conseguiria dormir com ninguém além de você.
E era verdade.
Mesmo com tudo fora de lugar, ele ainda era o único lugar que parecia casa. Ficamos assim por um tempo. Nenhum de nós falou mais nada, mas a ausência de palavras não era incômoda, na verdade ela era quase necessária. Como se qualquer frase dita pudesse quebrar o que quer que fosse aquilo que a gente ainda não sabia nomear. O peito dele subia e descia sob minha bochecha, e vez ou outra, o braço ao redor da minha cintura apertava de leve, como se ele precisasse confirmar que eu ainda estava ali.
E eu estava.
Mesmo sem saber o que significava.
Mesmo sabendo o quanto tudo era complicado.
Eu estava.
Meus dedos traçaram devagar a linha de uma das tatuagens no braço dele, tentando ocupar o silêncio com algo que não fosse só pensamento, no entanto, era inútil. Porque pensar em era automático. E dolorosamente fácil. Por que doía tanto estar perto dele, mesmo quando era exatamente onde eu queria estar?
Ele virou o rosto na minha direção, o nariz tocando meu cabelo. Seu suspiro foi longo, quente contra minha pele.
— Você tem um jeito único de chegar nas coisas devagar, mas quando vê, já bagunçou tudo — ele murmurou, quase sem som. — E mesmo assim, eu não consigo querer você longe.
Fechei os olhos, tentando impedir que aquilo me afetasse mais do que já afetava.
— A gente é complicado — sussurrei. — Alguns dias mais do que outros.
— Hoje é um dos piores — ele respondeu com um sorriso pequeno, melancólico, e deslizou os dedos pela curva do meu quadril com cuidado.
— Mas mesmo assim — pausei, deixando o fim da frase suspenso no ar. Mesmo assim eu estava ali. Mesmo assim ele não me afastava e eu muito menos. Mesmo assim a gente continuava se encontrando nos espaços onde não podia e talvez não devia.
— Fica mais um pouco? — ele pediu, quase adormecido.
— Não vou a lugar nenhum — respondi.
Eu já estava quase dormindo quando senti o toque dos dedos dele subirem devagar pela minha costela. Era leve, como se ele não tivesse certeza se queria fazer aquilo. Mas ele fez. E eu não impedi.
— Você ainda tá acordada? — a voz dele veio rouca, mais arrastada. Baixa demais, quase um sussurro bêbado.
Assenti com a cabeça, roçando o queixo contra o peito dele. Senti ele rir, baixinho.
— Eu bebi demais — ele admitiu, com um tom que parecia meio culpado, meio despreocupado.
— Percebi — murmurei, virando um pouco o rosto para encará-lo. Nossos narizes quase se tocaram. Os olhos dele estavam meio fechados, vermelhos nas bordas, e o sorriso que surgiu foi um dos mais desajeitados e lindos que eu já tinha visto ele dar.
— Acho que se eu fosse mais sóbrio, teria mais noção do quanto isso aqui é confuso — ele disse, piscando devagar.
— E teria mais medo de fazer alguma besteira?
— É — ele riu.
Antes que eu pudesse responder, ele se inclinou um pouco. O movimento foi torto, desajeitado. O tipo de coisa que só acontece quando tem intimidade demais e limites de menos. A boca dele encostou na minha. Não foi um beijo de filme. Não foi perfeito. Foi um quase. Um deslize. Um impulso. Foi algo no meio entre o que devíamos evitar e o que não conseguíamos impedir. me virou com cuidado, me colocando por baixo com uma precisão embriagada e afobada, como se quisesse me ter mais perto do que o corpo permitia. A boca dele explorava a minha com uma intensidade que só vinha de quem esperou demais, segurou demais, desejou demais. As mãos subiram pelas minhas coxas, puxando minha perna para enrolar em sua cintura, os dedos pressionaram a pele nua sob minha camiseta como se tentasse gravar o toque. Como se precisasse daquilo pra continuar respirando.
Eu deixei.
Porque eu também precisava.
Minhas mãos estavam no cabelo dele, puxando, guiando, segurando. Meus quadris respondiam ao dele como se nunca tivessem aprendido outra coisa. E tudo era quente, intenso, urgente demais. Um amasso suado, torto, descompassado e cheio de sentimento. Daquele tipo que não se fala em voz alta.
Por um momento, esqueci de tudo.
Era só ele.
Era só a gente.
Até que parou. De repente. Com os lábios ainda colados nos meus, ele soltou um suspiro pesado. Um daqueles que vem do fundo do peito, cheio de arrependimento e lucidez atrasada. Os dedos dele subiram devagar pela barra da minha blusa, como se pedissem permissão e desculpa ao mesmo tempo. Eu podia ter afastado a mão dele. Mas não afastei. Pelo contrário, eu apenas prendi a respiração. O toque deslizou pela pele nua da minha barriga, subindo devagar, como se ele precisasse memorizar cada centímetro. A ponta dos dedos desenhou minha cintura, passou por baixo do sutiã, devagar. E mesmo que ele não dissesse uma palavra, o corpo dele falava alto.
“Me deixa.”
“Só hoje.”
“Só mais um pouco.”

Os olhos dele me encontraram no escuro. Quando nossos rostos ficaram perto demais, foi impossível evitar. se moveu por cima de mim, com o corpo inteiro pressionando o meu, como se quisesse se esconder em mim. A mão dele subiu ainda mais, tirando minha blusa com um puxão hesitante, os lábios descendo pro meu pescoço, escorregaram até o meu ombro, e passearam por minha clavícula. Ele me beijava como quem pedia perdão antes mesmo de errar. Como quem sabia que aquilo era errado, mas não conseguia parar.
E eu só queria que ele não parasse.
Minhas mãos agarraram suas costas, as unhas pressionaram a pele quente. Senti o quadril dele encaixar no meu e consegui sentir ele duro. Os movimentos se tornaram mais desesperados. Ele me beijava com força agora, arfando contra minha pele. A mão dele desceu pela minha coxa, puxando, abrindo espaço entre minhas pernas. Eu deixei. Não porque não tinha escolha, mas porque ele era a escolha.
Ele encostou a testa na minha, ofegante, com os lábios ainda colados aos meus e a voz falhando:
— Você tem noção de como me bagunça? — ele perguntou, quase num sussurro. — Do jeito mais quieto, mais seu, mais filha da puta possível? — Fechei os olhos por um segundo. Queria ter algo pra dizer. Alguma coisa que fizesse sentido. Quando abri os olhos de novo, ele já estava perto demais. E mesmo assim, ainda assim, não perto o suficiente.
As palavras dele bateram em mim como uma onda silenciosa. Eu não soube o que dizer. Porque ele estava certo. Porque ele estava errado. Porque ele era tudo que eu queria e tudo que eu não podia ter ao mesmo tempo. Ele deitou de novo, me puxando pra junto dele, como se aquilo pudesse salvar o que ainda restava da gente. A conchinha voltou. O calor voltou. As mãos dele foram parar no meu cabelo, acariciando devagar. Como se ainda fosse possível amar com delicadeza mesmo depois de quase perder o controle.
— Desculpa — ele murmurou, mas não se afastou.
— Por quê?
— Porque amanhã talvez eu diga que não lembro. Ou talvez eu finja que não aconteceu.
Fechei os olhos por um segundo, deixando a testa encostar na dele.
— Tá tudo bem — sussurrei. — A gente já finge tanta coisa mesmo.
Ficamos assim, respirando o mesmo ar, sem mais nenhum movimento. Sem outro beijo. Sem promessas. Só a bagunça entre a gente pulsando sob a pele. E, ainda assim, quando ele me puxou de volta pra conchinha, como se nada tivesse acontecido, como se tudo tivesse acontecido, eu deixei.
Porque com , era sempre assim.
Complicado.
Confuso.
Perfeito.
Meus olhos arderam, mas eu não chorei. Não naquela noite. Não enquanto ele ainda me abraçava daquele jeito. Então só puxei a mão dele pra perto da minha boca e deixei um beijo ali, na palma quente, como quem diz “eu entendo” sem precisar dizer nada. Porque no fundo, ele já sabia. Ele sempre soube. Aquela noite não foi só um deslize. Nem só tesão. Nem só carência. Foi tudo. Foi amor e confusão e medo e saudade e promessa não dita. E quando, enfim, o sono chegou, eu só desejei uma coisa: Que ele não esquecesse. Mesmo que dissesse que esqueceu. Mesmo que fingisse que não aconteceu.



Capítulo 4



Acordei com a respiração dele ainda na curva do meu pescoço.
não tinha se mexido. O braço ao redor da minha cintura permanecia firme, como se o corpo dele ainda soubesse que eu estava ali. Como se dormir comigo nos braços fosse um hábito antigo que ele ainda lembrava como fazer. Me mexi de leve, tentando ver o rosto dele. Os cílios bagunçados no rosto calmo, a pele quente encostada na minha, a camiseta que ele não vestiu de volta na noite anterior. Tudo nele parecia confortável. Familiar. Quase inevitável.
E ainda assim, silenciosamente complicado.
— Você tá acordada, né? — ele murmurou, a voz rouca e baixa, bem perto da minha orelha.
— Faz um tempo — confessei, sorrindo.
Ele suspirou, mas não se mexeu. Só apertou o braço ao redor de mim como se quisesse prender aquele instante um pouco mais.
— A gente precisa conversar sobre ontem?
— Não sei — respondi com sinceridade. — Você quer?
— Não — ele disse rápido demais.
Assenti, sem dizer nada. Ele encostou a testa na minha cabeça, e ficamos assim. O silêncio, pela primeira vez em muito tempo, não era fuga. Era cuidado. O clima entre a gente estava diferente. Não só por causa dos toques, mas acho que era pelo que a gente não dizia também. Por aquilo que passou sem legenda entre um beijo, uma respiração descompassada e um quase que não virou mais.
, você viu meu... — Ash parou.
Meu coração disparou.
ainda estava colado em mim. Deitado. Camisa nenhuma. Meu cabelo uma bagunça em cima do travesseiro dele, a minha blusa amassada de um jeito nada sutil. Ash piscou duas vezes, depois olhou entre nós dois com a expressão de quem entrou numa história pela metade e percebeu que talvez não quisesse o resto.
— Uau... foi mal. Eu... — ele engasgou. — Eu devia ter batido.
se afastou rápido, mas não demais. Sentou na cama, coçando a nuca com cara de sono e sem saber exatamente onde enfiar o rosto.
— Não é o que você tá pensando — ele disse, direto.
Ash ergueu uma sobrancelha, desacreditado.
— Ah, claro. Porque dormir abraçado com a garota que você vive dizendo que é "só amiga", sem camisa e num quarto trancado... super normal.
— A gente é normal — retrucou, tentando soar mais convicto do que realmente estava. — A gente só tava conversando ontem. E bebemos demais. E... — ele olhou pra mim, pedindo ajuda com o olhar.
Eu dei de ombros, meio rindo, meio constrangida. Ash não respondeu de imediato. Só observou os dois por mais alguns segundos, como quem queria fazer mais perguntas, mas sabia que não devia.
— Tá. É com vocês. Mas, sei lá... parece que vocês tão sempre a meio passo de um desastre ou de um casamento. Nunca sei.
— Que ótimo. Valeu, irmão — bufou, jogando um travesseiro nele.
Ash pegou no ar com facilidade, rindo e recuando até a porta.
— Vê se veste uma camisa antes do café. Senão vai traumatizar geral.
Quando a porta fechou, se jogou de costas de novo na cama, os olhos fixos no teto.
— Ele sempre entra assim, né?
— Sempre — respondi, sorrindo. — Mas normalmente você não tá semi nu e grudado em mim.
— Verdade.
foi o primeiro a levantar de verdade. Jogou as pernas para fora da cama e ficou um tempo ali, sentado na beirada, com as mãos apoiadas nos joelhos, como se estivesse se perguntando em que mundo tinha acordado.
— Banho — ele anunciou, mais pra si do que pra mim. — Preciso de um banho gelado e uns tapas na cara.
— Vai com calma, lutador — brinquei, ainda deitada.
Ele virou de leve o rosto pra mim e sorriu, mas ele ainda tentava evitar de me encara por mais que cinco segundos. Ele pegou uma toalha pendurada atrás da porta e sumiu no banheiro. O som da água logo invadiu o quarto, e eu aproveitei pra me levantar e esticar os braços, sentindo os músculos tensos de uma noite dormindo meio torta. Quando ele saiu, o cabelo ainda pingava e a toalha estava jogada displicentemente no ombro, não ousou me olhar direito. Tinha vestido uma camiseta qualquer e uma bermuda larga, mas parecia um pouco mais no lugar. Ainda era .
— Sua vez — ele disse, apontando o banheiro com o queixo. Assenti, pegando minhas coisas, tentando parecer mais leve do que realmente estava. — E não vale gastar toda a água quente — ele acrescentou, num tom mais brincalhão.
— Como se você tivesse deixado alguma, né?
Fechei a porta atrás de mim com um sorriso que durou apenas até eu me encarar no espelho. Meus olhos ainda carregavam traços da madrugada, não de cansaço, mas daquela confusão entre querer e não poder, entre ter e não saber o que fazer com isso. Tomei um banho rápido, mais pra me centrar do que pra me limpar. A água morna ajudou a organizar os pensamentos, ou pelo menos jogá-los num canto onde eu pudesse lidar com eles depois.
Quando saí, estava mexendo no celular, recostado na parede do quarto. Assim que me viu, guardou o aparelho no bolso e fez um gesto com a cabeça em direção à porta.
— Café?
— Por favor — respondi.
Descemos em silêncio, lado a lado. Não havia mais beijos, nem toques fora de lugar, mas ainda existia a tensão que exalava. Na cozinha, Ash já estava servindo café como se nada tivesse acontecido, ou como se estivesse fingindo muito bem que não tinha acontecido.
— Dormiram bem? — ele perguntou, com uma cara de inocência tão falsa que deu vontade de rir.
— Como duas pedras — respondeu, sentando à mesa.
Eu segui o movimento dele, pegando uma caneca.
— A melhor noite de sono desde que cheguei aqui. E olha que eu cheguei ontem mesmo. — completei, tentando parecer natural.
Ash nos observou por um segundo a mais do que o necessário. Depois só balançou a cabeça, rindo meio curioso, e serviu mais café pra si mesmo.
— Sei. — rolou os olhos.
— A gente só ficou conversando.
Ash ergueu as mãos.
— Tá bom, tá bom. Sem julgamentos. Só... não se percam, tá?
Ele saiu logo depois, levando a caneca e um pão na mão, deixando a cozinha num silêncio que, dessa vez, parecia mais confortável. Eu e trocamos um olhar breve, cúmplice. Tinha coisa demais entre a gente, mas ao mesmo tempo, ainda havia essa coisa bonita que nos unia mesmo no caos: o cuidado. Ele me estendeu o pote de geleia, e quando nossas mãos se tocaram por um segundo, eu senti aquele desespero da noite anterior. Aquele toque que queima, que pede, que exige.
Ainda estávamos terminando o café quando ouvimos os passos na escada. Vozes abafadas foram se aproximando até a cozinha começar a ganhar vida de novo.
— Bom dia, solzinhos da minha vida! — Ivy apareceu primeiro, cheia de energia e um moletom dois números maior do que ela, provavelmente roubado de algum dos meninos. Seu olhar pousou rápido sobre mim e , ainda sentados lado a lado, e deu pra ver o arqueamento sutil de sobrancelhas antes dela disfarçar com um sorriso.
— Dormiram bem? — ela perguntou, puxando uma cadeira e se sentando com a naturalidade de quem já estava pronta pra examinar o clima. Antes que eu respondesse, a porta rangeu de novo e apareceu. Diferente de Ivy, ele entrou com um silêncio estudado. O cabelo bagunçado denunciava o sono recente, e o moletom cinza claro parecia recém-jogado sobre o corpo, e seus olhos funcionaram como espécie de scanner, avaliando toda a cozinha e, por fim, parando em mim. Foi rápido, mas deu pra sentir. Ele me olhou como quem estava tentando entender um código escondido. Como se tentasse descobrir que versão de mim mesma tinha acordado naquela manhã.
— Bom dia — ele disse, com a voz rouca, arrastada, como se ainda estivesse preso na cama.
— Bom dia — respondi, e meu tom saiu um pouco mais firme do que eu esperava. serviu uma caneca de café, apoiando o quadril na pia enquanto observava a cena à mesa. estava mais quieto agora, e mesmo sem me tocar, ainda parecia próximo demais.
— Parece que a galera dormiu bem demais por aqui — comentou com um sorriso torto. Ivy, percebendo a tensão ou talvez só querendo brincar com fogo, se levantou e foi até ele. Parou ao lado de , com as mãos deslizando levemente no braço dele.
— E você? Dormiu sozinho de novo? — ela provocou, com um sorriso afiado. não afastou ela de imediato, mas também não correspondeu. Ficou em silêncio por um segundo, e então olhou pra mim de novo, por cima do ombro de Ivy.
— Acordar com café quente já melhora qualquer coisa. — ele disse, ignorando a pergunta dela completamente, e se dirigiu direto a mim. — Você que fez?
— Na verdade, foi o Ash. — respondi, tentando não demonstrar o quanto a atenção dele me afetava. sorriu. Ivy bufou, num gesto teatral.
— Ok, então agora viraram o casal "amizade colorida" da casa? — ela zombou, claramente incomodada. ergueu uma sobrancelha e, com uma calma que só ele sabia usar como escudo, respondeu:
— É só amizade. Colorida talvez.
Aquilo foi o suficiente pra Ivy desviar a atenção, mordendo o lábio inferior e voltando pro lugar dela com um olhar de poucos amigos. terminou o café dele devagar, ainda encostado na pia, mas sem tirar os olhos de mim. E pela primeira vez, percebi que ele não estava só curioso. Ele estava esperando. Talvez por um sinal. Talvez por uma brecha. Talvez por mim. O olhar de veio direto pra mim. Ele não riu. Só me observou. Como se estivesse tentando entender se aquilo era verdade. Se havia algo real ali entre mim e . E, por um segundo, eu também não soube. Virei o rosto na direção de , esperando alguma expressão que suavizasse o que ele acabara de dizer, mas tudo o que encontrei foi ele abaixando o olhar, e repuxando a boca num sorriso incômodo.
— Tô brincando, tá? — disse ele, meio rápido demais, meio emburrado. — A gente não tem isso. Nunca teve. Nem vai ter.
Aquilo bateu diferente. Como uma porta fechando devagar, mas com força suficiente pra ecoar por dentro. Dei um sorriso amarelo, tentando manter o ar leve, tentando ignorar o aperto em peito nada suave. Porque doeu. Porque por mais que eu soubesse que era confuso, parte de mim sempre quis acreditar que talvez fosse diferente. Talvez ele sentisse o mesmo. Mas ali, naquele instante, na frente de todo mundo, ele apagou qualquer rastro disso. Como se não tivesse havido beijos, nem mãos por baixo da minha blusa, nem sussurros no escuro.
— Relaxa — falei, pegando meu copo e tentando disfarçar o nó na garganta. — Ninguém aqui tá saindo de lugar nenhum.
— Exato — completou, quase defensivo. — Somos só amigos.
O silêncio que se seguiu foi curto, mas cortante. Do tipo que não precisava de muito tempo pra deixar marcas. E mesmo que todo mundo tenha continuado como se nada tivesse acontecido, eu sabia que algo tinha mudado.
Em mim.
Nele.
Na gente.
Ficamos todos ali por alguns minutos, fingindo normalidade. Ivy contava algo sobre o novo livro que estava lendo, Ash ria com a boca cheia e manteve os olhos em mim por tempo demais pra ser apenas coincidência. Mas eu não conseguia focar em nada. Nem nas palavras, nem nos talheres, nem no cheiro de café recém-passado. Só no gosto amargo das palavras do Ryan.
“Nunca teve. Nem vai ter.”
Como se não fosse ele quem me puxou pra conchinha ontem. Como se não fosse ele quem falou com os dedos no meu quadril, o que a boca não teve coragem. Como se não fosse ele quem me olhava como se eu fosse a bagunça favorita dele. Levantei da cadeira, empurrando o copo meio cheio pra longe.
— Vou pegar mais café — murmurei, sem encarar ninguém.
Senti os olhos dele em mim antes mesmo de sair da cozinha. Com a cafeteira borbulhando baixinho, respirei fundo.
amigos.
amigos.
Só.
Amigos.

O problema era que não tinha mais nada de simples nessa equação. Não depois da noite passada. Não depois dos olhares. Não depois da forma como me apertou contra ele como se fosse a última coisa no mundo que ele queria perder. Ou talvez fosse exatamente isso: ele não queria me perder. Mas também não queria me ter.
— Ei — apareceu na porta da cozinha, recostado na lateral como se não tivesse sido por acaso. — Você tá bem?
Assenti com a cabeça, tentando sorrir. Ele não comprou.
fala merda às vezes — ele disse, direto. — Ele é um ótimo cara, mas não sabe lidar com as próprias emoções. Nunca soube.
— Não é sobre isso — menti.
Ele cruzou os braços, analisando meu rosto.
— Então é sobre o quê?
Suspirei.
— É complicado.
— Já percebi — ele sorriu de canto. — Só queria que você soubesse que se ele não souber o que fazer com você, tem quem saiba.
Me virei devagar, encostando na pia. Os olhos de estavam em mim, firmes, claros.
— Isso é um convite? — provoquei, sem malícia real.
— É um lembrete — ele respondeu, com um meio sorriso. — De que você merece alguém que saiba decidir.
Antes que eu pudesse reagir, Ivy gritou da sala que o café já tava esfriando.
riu, baixando os olhos.
— E você e a Ivy? Tem que ser bem cego pra não ver que ela está muito na sua.
— A gente se beijou no verão passado, nada demais, foi só um beijo e uma mão que desceu mais do que deveria. Não sei o que ela quer comigo, na real. Não é ela que eu quero.
ficou em silêncio por alguns segundos depois de dizer aquilo, como se estivesse medindo minhas reações, esperando que eu dissesse algo, qualquer coisa, que apontasse que eu tinha entendido exatamente o que ele queria dizer com aquele “não é ela que eu quero”. E eu tinha entendido, a essa altura todos pareciam ter entendido. Ele passou a mão pelos cabelos, bagunçando ainda mais o que já parecia desordenado.
— Ivy é legal. Divertida, direta e linda, claro — ele falou, olhando pro lado, como se estivesse tentando ser justo. — Mas ela sempre age como se tudo fosse uma competição. Como se cada pessoa que entra aqui fosse mais um placar a ser vencido.
Mordi o canto da boca, observando enquanto ele pegava uma caneca e servia café pra si mesmo.
— Você acha que ela sente algo por você? De verdade?
Ele deu de ombros, levando a caneca até os lábios.
— Sinto que ela gosta da ideia de mim. De ser “a garota” que conseguiu o . Mas não sei se ela realmente se importa comigo além disso. — E então ele me olhou de novo. — Não como eu gostaria que alguém se importasse. — O silêncio pairou entre nós por alguns segundos. — Às vezes acho que ela acha que isso aqui é um jogo — ele continuou, mais calmo. — Mas eu tô cansado de jogos, acho que bati toda a minha cota com a Maya. A vida já bagunça a gente o suficiente sem precisar de mais drama.
— Posso perguntar? — murmurei. — Como foi, com você e a Maya?
Ele respirou fundo, vagando os olhos para algum ponto além de mim, como se estivesse rebobinando uma fita antiga na cabeça. A expressão dele mudou de leve e ficou mais dura. Mais contida.
— Foi bonito, mas destrutivo até o último segundo. — A voz dele saiu baixa e ele cruzou os braços devagar, como quem se protege do próprio passado. — A Maya me fazia perder o chão. Ela tinha esse jeito intenso, urgente. Fazia parecer que cada momento era o último, que se não doesse, não era real. E eu achava que aquilo era paixão. Que era assim que tinha que ser. Talvez fosse paixão mesmo, sei lá, mas era a pior versão dela. E a pior versão de mim. A gente se amava, sim… mas se destruía no processo. Tinha noites que eu dormia com o coração acelerado, mesmo sem brigar. Como se meu corpo tivesse aprendido que com ela, até o silêncio vinha armado. — Ele fez uma pausa longa, olhando pra frente, mas não o interrompi. — Acho que o pior era eu achar que aquilo era o amor de verdade. Amor de filme. Achei que intensidade era sinal de profundidade. Achei que aquela coisa de “não viver um sem o outro” era romântica. — Ele riu, sem humor. — Só que não era. Era só falta de paz e um medo absurdo de ficar sozinho. Com ela eu virei alguém que andava na ponta dos pés. O tempo inteiro. Tinha que medir cada palavra, cada gesto. Qualquer coisa podia virar faísca. — Ele passou uma das mãos no cabelo, frustrado. — Teve uma hora que nem eu sabia mais se era amor ou só vício. A gente brigava, se afastava, voltava. Um ciclo. E quando tava bom era só porque a próxima tempestade ainda não tinha chegado.
… — chamei, baixinho, mas ele balançou a cabeça.
— Eu tô bem. — Ele sorriu com canto dos lábios, mas foi um sorriso triste. — Hoje eu olho pra trás e entendo. Entendo que amar alguém não devia ser sobreviver a ela. Que amar não é doer. Não o tempo inteiro. — Ele me olhou de novo, com mais calma agora. — E eu não quero mais isso. Cansei de intensidade que vem junto com exaustão. Quero sossego. Paz. Quero alguém que me abrace e eu não fique esperando o empurrão logo depois. — E por um segundo enquanto eu falava, eu juro, o mundo parou. Porque eu entendi o que ele estava dizendo, mesmo nas entrelinhas. Mesmo sem dizer diretamente. Era sobre mim. — Se um dia você cansar de esperar por quem não sabe o que fazer com você — ele disse, com um sorriso leve e triste — Tente olhar para os lados.
Meu coração deu um pulo desconfortável no peito.
— Você não devia falar essas coisas.
— Talvez não, mas eu falei. E não vou fingir que não disse isso. O irmão que diz e finge que não disse é o outro.



Capítulo 5



Acordei com o barulho de gelo caindo dentro de um copo e esse não foi exatamente a forma mais poética de começar o dia, não quando sua promessa de descanso foi praia, sol, bebidas e paz. Do lado de fora, o sol já queimava com a intensidade de alguém que não sabe a hora de parar, e o cheiro de café misturado com protetor solar formava um combo bizarro que, por algum motivo, me dava vontade de rir.
— Se alguém disser que estou exagerando mais uma vez, vou jogar essa garrafa de vodka no mar — anunciou Luke da varanda, segurando a garrafa como se fosse um troféu olímpico. — E não vou olhar pra trás.
— Por que foi mesmo que eu decidi vir nessa viagem com vocês? Às vezes me pergunto o meu nível de sanidade mental. — murmurei, arrastando meus pés até a cozinha, onde Ivy já montava um altar pagão de frutas cortadas e croissants amassados.
— Acordou inspirada em Hemingway? — ela me lançou um sorriso com a boca cheia.
— Sempre. Mas prefiro Bukowski antes do café.
passou por mim, do jeito bem de ser, o jeito de quem não tem pressa pra nada, vestindo só uma bermuda e o sorriso preguiçoso que usava como armadura. Ele encostou no balcão e pegou uma xícara. Eu deveria desviar os meus olhos agora e evitar o climão que se formaria se eu olhasse demais, mas era enorme. Tão enorme que eu não conseguia desviar os olhos porque, em qualquer lugar que olhasse, veria ele ali. Acho que era a isso que os memes de 'geladeira electrolux três portas' se referiam. A um homem lindo, alto, forte e com seis gominhos na barriga.
— Você dorme igual pedra — comentou. — Ivy e Luke já discutiram duas vezes e você não se mexeu.
— A paz é um dom dos justos — respondi, tomando um gole do meu café.
— Ou um sintoma de exaustão emocional. Acho que vou começar a acreditar quando diz que você precisa de descanso, . — ele rebateu, e eu levantei uma sobrancelha.
Ele era rápido. E perigoso quando queria ser engraçado. E ainda mais perigoso quando usava meu sobrenome com aquela voz rouca. Minutos depois, todos estavam acordados, meio vestidos, meio vivos. Tessa apareceu com um short jeans ridiculamente pequeno e Nolan, ainda de óculos escuros, mesmo dentro de casa.
— Por que ele parece um cantor sertanejo depois da rehab? — sussurrei pra Ivy, que só respondeu “Deixa ele viver o luto do orgulho”. Não sei a que orgulho ela se referia, já que Nolan tinha bem pouco no dia a dia.
No fim, decidimos ir pra praia porque, sinceramente, ninguém queria pensar muito e a ideia de estar molhado, bronzeado e levemente alcoolizado parecia equilibrada o suficiente pra não dar em tragédia. Luke carregava a caixa térmica como se fosse um recém-nascido. caminhava ao meu lado me dando choque a cada vez que os dedos dele quase roçavam os meus e, sinceramente, o “quase” dele era sempre mais perigoso que qualquer toque direto. Já estava um pouco mais à frente, conversando com Ash, mas olhava pra trás com frequência, como se conferisse se eu ainda estava lá.
Spoiler: eu estava.
Nos instalamos num canto da areia, entre um coqueiro inclinado e um grupo de franceses bonitos demais pra estarem tão felizes antes do meio-dia. Ivy jogou uma canga com a violência de quem estava prestes a desmaiar de calor.
— Alguém precisa fazer um TED Talk sobre a inutilidade de passar protetor nas costas sozinha — ela anunciou, apontando para Nolan, que prontamente se ofereceu.
— Eu passo — ele disse. — Sou basicamente um dermatologista nos fins de semana.
— Você vende maconha de quarta a domingo, Nolan.
— Exatamente. Vejo muita gente, então eu conheço pele.
Rimos. O tipo de riso que sai fácil entre amigos, aquele que ri da fala incoerente de Nolan e ainda assim sente o dia passar mais devagar. abriu duas latinhas e me ofereceu uma, sem cerimônia.
— Ao verão. À irresponsabilidade temporária. À beleza do tédio — ele brindou.
— E à falta de boletos por uma semana. — completei, batendo minha latinha na dele.
se aproximou e, do nada, se jogou na areia ao meu lado. Só de bermuda, com a pele dourada e o cabelo completamente bagunçado. Era quase irritante como ele conseguia parecer uma pintura italiana do século XXI, versão "peguei onda e agora quero te provocar só com o olhar". Ele se aproximou de mim, colocando o rosto quase dentro dos meus seios e me deu um beijo curto no queixo. Um dos beijos de ser, um dos beijos que me desestruturar e me fazia tremer, enquanto eu fingia que não.
— Você está bem? Não gosto quando você fica longe.
— Eu não estou longe. — Respondi, beijando a pontinha do nariz dele, mas não sei se eu acreditei nisso. Depois do nosso beijo eu estava distante. Eu não era e não conseguia ser como a Ivy, Sarah ou Tessa. Eu não sei beijar e ignorar o fato que beijei. Ou talvez eu não saiba fazer isso com o porque eu até ignoro o beijo, mas como eu ignoro o sentimento que se forma nas minhas entranhas cada vez que ele encosta em mim? Bom, não era importante agora. Ele me abraçou, eu retribui e fomos mergulhar.
A sequência foi quase cronológica: Depois dos mergulhos, algumas piadas infames e um momento digno de Oscar em que Luke foi atingido por uma água-viva imaginária onde ele gritava que, apesar de ter sido imaginário, ele sentiu, decidimos ir até o píer almoçar. O lugar era simples, com madeira rangendo sob nossos pés, cheiro de peixe frito no ar e uma brisa insistente que fazia Ivy xingar a franja a cada cinco segundos. Sentamos todos juntos numa mesa meio torta, entre pratos de frutos do mar e copos coloridos.
— Tô oficialmente de férias — disse Tessa, de boca cheia. — Se alguém me ligar do trabalho, eu mudo de país.
— Ninguém vai ligar, amor — respondeu Ivy. — A empresa funciona melhor sem você.
Tessa ergueu o dedo do meio com elegância.
— Ela só é cruel porque te ama — comentou Nolan, apontando pra Ivy.
— Não. Eu sou cruel porque tenho bom gosto e zero paciência. — Ivy rebateu, fazendo todos rirem.
Nesse momento, senti a perna de encostar na minha por baixo da mesa. Sutil, mas firme. O tipo de toque que diz “tô aqui” sem precisar de legenda. E era sempre assim com ele, mesmo quando não dizia nada, o corpo dele falava idiomas que eu não dominava, mas entendia fluente. Idioma toque, olhar, presença. Idioma “tô ferrada e fingindo controle”.
— Então, alguém vai ter coragem de pedir aquele polvo apimentado? — perguntou, mordendo uma batata frita como se fosse parte de um comercial de cerveja.
— Eu topo. Já que é pra queimar por dentro, que seja com estilo. — respondi, bebendo mais da minha caipirinha. Aquilo tinha mais álcool que suco, e, no momento, eu tinha mais coragem do que juízo.
— Isso aí, ! Finalmente uma mulher com pulso firme! — Luke levantou o copo. — Brindemos à bravura gastrointestinal!
riu baixinho ao meu lado, aquele riso que ele fazia só quando achava algo genuinamente engraçado. Me virei para ele, pronta pra alguma piada, mas quando os olhos dele pararam nos meus, a frase morreu na minha garganta.
— Você tá diferente — ele murmurou, baixo o suficiente pra só eu ouvir.
— Diferente como? — respondi, desconfiada.
— Mais solta. Tá quase parecendo uma pessoa normal de férias.
— Que elogio maravilhoso. — revirei os olhos. — Obrigada por reconhecer meu esforço em não ser uma planilha emocional ambulante.
— Eu gosto de você até quando é planilha — ele disse, apoiando o queixo na mão e me observando com um meio sorriso. — Mas gosto ainda mais quando você sorri e não tenta esconder.
Aí pronto.
Lá vem ele com essa porra de charme involuntário.
O problema de não era o charme. Era o fato de que ele nem tentava. O charme dele vinha naturalmente, como se o universo tivesse programado ele pra ser o tipo de pessoa que quebra o coração alheio só por existir com tranquilidade. Felizmente, Luke começou a tossir uma batata frita mal mastigada no exato momento em que eu estava prestes a derreter ali mesmo. Ivy e Nolan entraram em modo paramédico, enquanto filmava a cena.
— Eu juro por Deus, se ele morrer agora, eu vou ter que dar explicação pra mãe dele. — Tessa murmurou, já com a mão no celular, provavelmente discando o SAMU.
— Ele não vai morrer — disse . — Ele só tá dramatizando porque ninguém pediu o drink azul brilhante que ele inventou ontem.
— O nome era “Maré Selvagem”, por favor respeitem meu processo criativo — Luke rebateu, já recuperado e indignado.
— Seu processo criativo é uma intoxicação alcoólica esperando para acontecer, Luke. E você não devia brincar com morrer engasgado, eu quase me preocupei. — Ivy jogou, sem nem olhar pra ele.
Comida chegou. Bagunça aumentou. roubou metade do meu polvo apimentado, Ivy pediu um prato que ela odiou só pra depois comer o do Nolan, e sussurrou no meu ouvido que meu short estava “cruel demais pra um dia de sol”. Eu ri. Mas por dentro, estava um pouco derretida demais. Depois do almoço, voltamos andando pela areia, meio bêbados e meio sonolentos.
Quando chegamos de volta à casa, a maioria colapsou em camas e redes. Eu fiquei na varanda, com uma água gelada e uma cabeça cheia. apareceu minutos depois, silencioso, e se sentou ao meu lado. Ficamos em silêncio por alguns instantes. O tipo de silêncio confortável, mas cheio de entrelinhas.
— Tá pensando no quê? — ele perguntou, sem olhar diretamente pra mim, mas com os olhos fixos em algum ponto distante do mar.
— Em como seria fácil me acostumar com isso aqui — respondi. — O calor, o mar, os risos, a parte onde ninguém tá tentando sobreviver à própria rotina.
Ele assentiu, devagar.
— Viu? Você precisava de um tempo longe de todos os cálculos e controle. Você merece isso.
virou o rosto pra mim, agora olhando direto nos meus olhos. Eu respirei fundo. A brisa jogou uns fios do meu cabelo no rosto dele, e ele não afastou. Só fechou os olhos por um segundo, como se aquilo fosse alguma espécie de paz.
— Tinha esquecido como você fica quieta quando tá pensando demais — ele comentou, com a voz baixa, como se falasse mais pra ele do que pra mim.
— Você sempre percebe tudo. — respondi.
Ele deu de ombros, com um meio sorriso no canto da boca, mas não respondeu. Encostei a cabeça no ombro dele, devagar, testando o espaço. não se moveu. Pelo contrário, ajeitou o braço atrás de mim, me puxando de leve pra mais perto, como se aquilo fosse só mais um gesto automático entre dois velhos amigos. Na verdade, eu acho que era. O calor do corpo dele era familiar, mas tinha um peso novo agora. Ou talvez fosse só a minha vontade, antiga e mal escondida, bagunçando tudo de novo. Ele começou a desenhar círculos lentos com o polegar no meu braço. Como fazia quando eu chorava no carro, aos quinze. Ou quando minha mãe ficou doente. Ou quando o mundo parecia grande demais. O toque dele era sempre o mesmo.
— Tava com saudade disso aqui — ele murmurou, depois de um tempo. — Da gente quieto, sem ninguém em volta, sem celular, sem barulho.
— Eu também.
Mais um silêncio.
apoiou o queixo no topo da minha cabeça, e eu fechei os olhos. O coração batia no ritmo errado, como se não tivesse entendido que aquilo ainda era só amizade. Só. Amizade. Como sempre foi. Como ele sempre fez questão de manter.
apertou meu ombro com mais firmeza, um abraço inteiro com uma mão só. Fiquei ali, encaixada naquele espaço entre o braço dele e o fim da tarde, tentando não querer mais do que aquilo. Tentando não transformar em desejo o que ele ainda chamava de conforto. Tinha um nó na minha garganta que eu não conseguia desfazer, e acho que ele sentiu. Porque soltou um suspiro leve, quase imperceptível, e passou a outra mão pelos meus cabelos, do jeito distraído que a gente faz com um gato no colo. Como se eu fosse só uma extensão da calma daquele momento. Como se não soubesse que isso me desmontava aos poucos.
— Você tá bem? — ele perguntou, com a voz rouca, já meio arranhada de sol e sono. — Assenti, mas não me movi. Só continuei ali, de olhos fechados, porque era mais fácil não mentir quando não se precisava encarar ninguém. — Tá mesmo? — ele insistiu, mais baixo, como se estivesse falando com o meu cabelo.
— Tô — falei. E era quase verdade. Estar ali com ele sempre dava um jeito de consertar as bordas, mesmo quando o meio ainda estava todo torto. não respondeu. Em vez disso, deslizou a mão pelas minhas costas devagar, até parar na base da minha nuca, como se ainda estivesse tentando traduzir meu silêncio. Como se soubesse que tinha coisa demais ali dentro, mas respeitasse o fato de eu não estar pronta pra deixar escapar.
Ficamos assim por mais um tempo. O sol desapareceu atrás do mar, o céu foi ficando azul escuro, e a brisa trouxe o cheiro de sal e janta no ar. Dentro da casa, dava pra ouvir vozes rindo, copos sendo erguidos, alguma música baixa tocando em algum celular perdido, mas a gente não se mexia. Não porque estávamos presos, mas porque sabíamos que, se um de nós se afastasse primeiro, tudo voltaria a ser o que sempre foi. E talvez a gente ainda não estivesse pronto pra esse tipo de realidade. Não depois de lembrar como era fácil caber no silêncio do outro.
foi o primeiro a se mexer. Tirou o braço de trás de mim devagar, como se estivesse desfazendo um laço. Me deu um beijo no alto da cabeça, leve, automático, igual a todos os outros.
— Vou ver se o pessoal guardou batata pra mim — ele disse, se levantando.
Assenti de novo, ainda sem abrir os olhos. Não queria ver ele indo. Não queria ver o espaço ao meu lado ficando vazio. Nem o jeito como ele ainda me olhava quando achava que eu não tava vendo.
Só amizade, repeti pra mim. Como sempre foi.
Ainda fiquei alguns minutos ali, sozinha, com o vento brincando nos fios do meu cabelo e o som abafado das risadas vindo lá de dentro. Quando a porta rangeu de novo, achei que fosse outra pessoa, mas era ele de novo.
voltou com duas garrafinhas de água e um pacote de biscoito salgado aberto.
— Achei que você ia querer alguma coisa — disse, estendendo pra mim sem olhar direto.
Peguei a água e deixei os biscoitos no meio dos dois.
— Obrigada.
— Sempre, né? — ele respondeu, sentando de novo ao meu lado.
O silêncio voltou, mas, dessa vez, o tom dele era diferente.
— Você ainda fala com ela? — perguntei, sem pensar muito. A pergunta veio sozinha e eu nem ao menos sei como consegui formular isso. Ou tocar naquele assunto. Ela, a mulher pela qual não queria nenhuma outra.
Ele franziu um pouco a testa, sem surpresa.
— De vez em quando. Ela manda uns memes, às vezes, me marcou num vídeo de gato ontem.
— Clássico.
— É. Foi meio aleatório, mas... a cara dela.
— Você gostava dela.
— Gostava — ele confirmou, simples. — Mas acho que mesmo gostando das pessoas, ainda erramos o timing.
Ficamos quietos de novo. Ele mexia no pacote de biscoitos, sem comer, enquanto eu observava o jeito como o ombro dele subia e descia devagar.
— Você sempre sabe o timing certo. — falei, depois de um tempo.
— Só com você. — Ele me olhou, de relance. — Com o resto do mundo eu sou um desastre.
Ri, sem graça.
— Aham, claro. Conseguimos medir isso pelo tamanho do seu ego, Beckett.
— É sério, Em. Você sempre foi a única pessoa com quem não preciso fingir que tô bem — ele disse, e então mordeu um biscoito, como se aquilo não fosse o tipo de frase que fazia meu peito parecer pequeno demais pro coração que tava tentando se manter calmo. Fiquei em silêncio. Ele também. A gente tinha esse jeito estranho de conversar às vezes, a conversa parecia não estar acontecendo em voz alta, mas só entre os olhares e os gestos.
— Sabe o que mais eu tinha esquecido? — ele perguntou, depois.
— O quê?
— Como o céu fica bonito quando você tá quieta.
— Que?
— Não é pra ser poético — disse ele, rindo. — É só que... você sempre fala tanto. Mas quando não fala, parece que tudo desacelera.
— Tá me chamando de barulhenta?
— Tô dizendo que você preenche as coisas. Quando cala, a falta aparece mais.
Ele virou o rosto depois disso. Foi sutil, mas eu vi. Aquele olhar tímido que ele nunca tinha, aquela expressão de quem fala demais sem querer. Tentei não encarar o que ele quis dizer com aquilo. Então ele se inclinou de novo, encostando o ombro no meu, e falou quase como um sussurro:
— Vai dormir aqui fora hoje?
— Talvez.
— Posso ficar mais um pouco?
— Pode.
E foi isso. Ele ficou.



Capítulo 6



Acordei com alguma coisa gelada encostando na minha perna.
Demorei uns segundos pra entender onde eu tava. A luz dourada do fim de tarde invadia a varanda, pintando tudo com aquele tom laranja quente de pôr do sol. O som das ondas lá embaixo batia constante, e o mundo parecia lento e totalmente em câmera lenta. Me movi devagar, tentando levantar o rosto sem desequilibrar, e percebi que ainda estava meio deitada, encostada no ombro de . Ele ainda dormia, com o sono imensamente pesado que ele tinha.
— Vocês são lindos, mas tá na hora de levantar, casal Disney. — A voz veio carregada de ironia, e antes que eu pudesse reagir, senti um punhado de areia voar na direção da minha perna.
— TESSA! — berrei, chutando leve em direção à risada que veio logo depois.
— Vai me bater com sono mesmo? Que agressividade, . — Tessa apareceu do outro lado do parapeito, segurando um balde de praia. Ela usava óculos escuros gigantes e um biquíni de crochê amarelo, como se fosse personagem principal de algum reality de verão.
— Você jogou areia na minha perna!
— E eu fui gentil. Era pra eu ter jogado no rosto, segundo o planos do Nolan.
— Ótimo saber que vocês estão armando contra mim. — murmurei, sentando e tentando ajeitar o cabelo com os dedos. Do meu lado, resmungou algo que soava como um xingamento contra a humanidade em geral.
— Vamos! — Tessa continuou, ignorando completamente a resistência. — Vai ter luau. Fogueira. Música brega. Bebida duvidosa. Um cara que toca ukulele e provavelmente vai se apaixonar por mim. Não podemos perder.
— Que horas são? — perguntei, ainda com a voz grogue.
— Quase sete. E tá todo mundo se arrumando. Nolan tá passando protetor no pé, e não me pergunte o motivo disso. Ivy tá fazendo maquiagem que brilha no escuro. Luke tá tentando esquentar marshmallow no fogão porque não sabe esperar o fogo da fogueira. E ... bom, tá sendo o . Agora levanta. Vocês já viraram assunto.
— Como assim, assunto? — abriu um olho.
Tessa sorriu. Aquele sorriso que significava fofoca vindo em três, dois, um…
— Você acha que quando duas pessoas somem juntas nas férias de verão, ninguém vai comentar? Por favor.
coçou a testa, sem pressa.
— A gente dormiu. Só isso.
— Sei. Eu acredito. Mas os monstros que vocês criam, não são tão evoluídos quanto eu.
— Tessa. — resmunguei. — Vai trocar de roupa. A gente já vai.
— Isso! Se arrumem. Quero ver vocês brilhando sob a luz da fogueira. — ela disse teatralmente, girando o balde como se fosse uma bolsa de grife, e sumiu pelo corredor com um assobio desafinado. Ficamos alguns segundos quietos de novo, absorvendo o que tinha acabado de acontecer.
Levantei primeiro, espanando a areia das pernas e tentando arrumar o cabelo com as mãos. me olhou de baixo, com aquele ar meio divertido, meio preguiçoso, meio "a gente precisa conversar, .".
Eu tentei ignorar a forma que os olhos dele paravam em mim, a maneira que sua boca travasse como se ele tentasse falar algo, mas não soubesse exatamente como começar ou, simplesmente, o meu coração que estava batendo forte na tentativa de fingir que não estava vendo exatamente para onde aquela conversa nos levaria. Ele fechou os olhos por alguns segundos, respirou fundo e me olhou com uma dor que eu dificilmente via em seus olhos.
— Você sabe que eu jamais te magoaria, não sabe?
Não respondi logo. Peguei uma concha do chão, que provavelmente tinha saído da terra que a Tessa nos jogou e, com ela entre os dedos, tentei manter o tom leve.
— O problema não é o que você faria ou não. É o que você diz quando não pensa.
— Aquilo... — ele começou, depois parou, então continuou. — Aquilo saiu errado.
— Saiu fácil. E quando sai fácil é exatamente o que a gente pensa.
— Não foi fácil. — Levantei os olhos pra ele, finalmente. Ele sustentou meu olhar, sem as piadas de sempre, sem os escudos. Só , do jeito mais verdadeiro que eu conhecia. — Eu disse aquilo porque achei mais seguro.
— Fico lisonjeada com sua preocupação.
— Eu tô falando sério, . Eu não deveria ter dito aquilo.
— Eu também estou falando sério. E, sinceramente, não importa se você não queria ter dito. Já saiu.
— Mas não é o que eu penso.
Eu encarei a linha do horizonte, onde o céu e o mar se misturavam em uma tonalidade quase única e admirei aquilo por alguns segundos. Era bem mais fácil do que encarar o que tava nos olhos dele.
— E o que você pensa, então?
Ele hesitou. Eu senti, mais do que vi, o movimento dele se ajustando de forma desconfortável, como se estivesse se preparando pra fugir ou pra ficar, provalvemente nem ele sabia.
— Você conhece minha história toda, . Eu faço merda. Sempre faço. Invento uma briga, sumo, falo coisas que não devia. É como se eu precisasse tanto acreditar que nada vai ficar, então pelo menos eu controlo quando acaba.
Eu conhecia. Cada nome, cada porta batida, cada briga que terminava com ele sumindo por semanas. Dez anos de amizade eram dez anos vendo ele repetir o mesmo erro como se fosse a primeira vez, sempre convencido de que dessa vez seria diferente.
Ele esfregou o rosto, cansado, como se já estivesse revivendo cada fracasso ali na frente dele.
— Eu não sei fazer isso direito. Nunca soube. No primeiro mês com a Becky, eu jurava que ela era perfeita. No terceiro, eu já estava contando os minutos até poder ir embora. E no sexto eu a odiava. Odiava o jeito que ela mastigava, o jeito que falava meu nome, o jeito que fingia entender meus silêncios só pra criticar cada um deles depois, odiava as mentiras dela. E ela também me odiava. A gente terminou com ela jogando um copo na minha cabeça e eu rindo porque finalmente estava livre. — Ele riu, amargo. Então continuou. — A Jen durou quase um ano, mas terminou do mesmo jeito. Com ela, eu fui o babaca. Lembro do dia em que percebi que não aguentava mais ouvir ela falar sobre o trabalho. Comecei a inventar compromissos, a chegar cada vez mais tarde. Até que ela me pegou mentindo e eu... eu fiquei aliviado. Aliviado que tinha acabado. Isso é doentio, não é? E todas as outras? Todas acabaram da mesma forma. Ou eu virava o cara frio que some sem explicação, ou eu virava o emocionado que cobra demais. Nunca teve um meio-termo. Nunca deu certo. Sempre acabava com alguém me odiando ou eu odiando alguém. Sempre. Eu juro pra mim mesmo que vou fazer diferente, que vou me esforçar e eu juro que eu tento, mas tem algo em mim que estraga tudo. É como se eu tivesse um prazo de validade pra gostar de alguém. Eu já tentei entender por que sou assim. Talvez seja medo. Talvez seja porque é mais fácil odiar do que admitir que falhei de novo. Ou talvez... talvez eu só não saiba amar direito. — A voz dele sai com um humor tão dolorido que eu sinto vontade de chorar. É rouca, desesperada, aflita, confusa e dolorida. Quero tirar imediatamente toda a dor dele porque, pela primeira vez desde que o conhecia, vi algo nos olhos dele que parecia verdadeiramente quebrado. — Mas o que eu sei é que toda vez que termina, eu fico um pouco mais vazio e um pouco mais convencido de que não vale a pena tentar de novo. A Becky chamou isso de autossabotagem uma vez. Disse que eu tenho medo de ser feliz. E eu acreditei nisso, mas aí eu olho pra você e... Você é minha melhor amiga, a. É a única pessoa que nunca me deixou. Você sempre soube isso de mim. Desde o começo. Você me viu explodir com gente que não merecia, você me viu fugir de gente que me amava, me viu ser enganado e aceitar isso só pra eu poder dizer que tentei, você me viu ser o pior de mim mesmo tantas vezes e, mesmo assim, você ainda tá aqui. Dez anos, . Dez anos e eu ainda te procuro primeiro quando algo bom ou ruim acontece. — A voz dele quebrou um pouco mais, e ele fechou os olhos por um segundo, tentando se recompor. — É por isso que eu não posso tentar. Não com você. Porque se um dia eu olhar pra você e ver que machuquei você do jeito que machuquei todo mundo... Se um dia você me olhar e eu ver que você finalmente entendeu que eu não valia a pena... — Ele não terminou. Não precisava. — Isso é o que eu tenho de mais certo em toda a minha vida. Eu já estraguei muita coisa, com gente que confiava em mim, com gente que eu não devia confiar, e, no fim, sempre acabo me afastando. Sempre. Com qualquer outra pessoa, se der errado, eu só vou embora. Com você... eu perderia tudo. Se desse algo errado com a gente, qualquer coisa, eu não sei se eu saberia seguir em frente. Eu sei que parece covarde, e talvez seja mesmo, mas não é porque você não vale o risco. É porque você vale tanto que o medo de perder pesa mais do que qualquer possibilidade de ter. Eu sei estragar as coisas, é o que eu faço quando tenho medo. E tudo bem, eu sei lidar com isso, mas não vai ser assim com você. — Ele parou alguns segundos, respirando fundo enquanto olhava para o lado e eu juro que, por alguns milésimos do tempo, eu consegui ver ele arfar e seu peito disparar. — Você é a única pessoa que nunca entrou nesse ciclo. A única que eu nunca consegui odiar, nem por um segundo. E isso me assusta mais do que tudo. Porque se um dia eu olhar pra você e sentir esse vazio... — Ele engoliu em seco, fechando os olhos e respirando fundo, se controlando para não deixar a dor vir mais forte. — Se um dia você se tornar só mais um nome na lista de pessoas que eu magoei... Eu não sei o que sobraria de mim, . Não depois de você. Eu não sei o que seria continuar se perder você fizer parte da equação. Então, quando eu disse aquilo, que nunca teria nada com você, não era sobre você. Era sobre mim. Sobre o medo de jogar fora a única coisa que ainda me dá alguma sensação de estabilidade. Eu sou um covarde. Um merda. O que você quiser chamar. Mas eu não consigo arriscar a única coisa boa que eu tenho nessa vida.
O silêncio que veio depois foi pesado, cheio de tudo que ele não precisava dizer em voz alta. ficou em silêncio por um momento, como se estivesse revirando cada palavra que tinha dito, tentando descobrir se tinha sido o suficiente. Se tinha conseguido traduzir a confusão de pensamentos dentro dele em algo que eu pudesse entender.
Eu sabia o que ele estava realmente falando: que ele tinha medo de me perder, mas tinha mais medo ainda de ser o motivo pelo qual me perderia.
Ele não precisava dizer que me amava. Eu já sabia.
A gente ficou em silêncio de novo, mas agora era um silêncio que doía diferente. Era o silêncio de algo que a gente sempre soube, mas nunca tinha dito em voz alta. Pela primeira vez, o momento que eu mais desejei em segredo estava acontecendo e eu não tinha forças para alcançá-lo. Minha boca formava palavras que morriam antes de nascer. Eu queria dizer para ele que seríamos diferentes, que nós não acabaríamos como todos os outros relacionamentos que tivemos, mas... e se acabássemos? E se o que eu conheço e amo se tornasse apenas mais um na lista de pessoas que não conseguem me olhar nos olhos?
virou a cabeça e eu vi seu perfil contra o pôr-do-sol. Vi a cicatriz quase invisível na testa, a mesma que ele tinha adquirido daquela briga no ensino médio, o lábio que tremia levemente quando ele tava segurando emoções demais, tudo. Cada detalhe era tão familiar que doía. Eu sabia exatamente como ele cheirava depois do futebol, o som da sua risada quando era genuína, o jeito que ele mordia o lábio quando estava nervoso.
Como eu poderia arriscar perder isso?
Não precisava continuar. Eu entendia. Talvez melhor do que ele mesmo. Eu tinha visto o que acontecia quando as pessoas magoavam ele. Ele não fugia por maldade, fugia porque não sabia viver de outro jeito. Como condenar alguém por ser o que sempre foi? Meus dedos tremeram levemente contra o meu colo. Dez anos de amizade, de risadas compartilhadas em segredo, de lágrimas escondidas do mundo, tudo isso pesava mais do que qualquer desejo. Eu podia passar mais dez anos pensando nisso, sonhando com isso, e ainda assim não encontraria uma resposta que valesse o risco de perdê-lo.
Eu sabia que não era porque ele não queria.
Deus, como eu sabia.
Era exatamente por isso que doía tanto.
— A Tessa vai enlouquecer com a nossa demora. — eu disse, tentando fazer minha voz soar normal enquanto virava em direção à casa.
Quando começamos a ir em direção a entrada da casa, o espaço entre a gente era o mesmo de sempre; nem muito perto, nem muito longe. A distância perfeita para fingir que nada tinha mudado. Para fingir que meu coração não estava partido e remendado ao mesmo tempo. Para fingir que eu não tinha acabado de escolher ter metade dele para sempre, em vez de arriscar perder tudo.
...
— Tá tudo bem. De verdade.
Ele permaneceu quieto, talvez engolindo a própria vontade de dizer que não estava, mas não insistiu. nunca insiste quando sabe que estou decidida com algo.
— Você vai trocar de roupa?
— Preciso? Achei que eu fosse linda naturalmente, mesmo depois de acordar no meio da varanda, com frio e areia. Literalmente.
Ele deu um leve sorriso.
— Não, não precisa. Mas se for, não demora. Quero garantir um lugar perto do violão antes que o Luke tente cantar Oasis de novo.
Soltei uma risada curta.
— Tá bom, vai. Me dá cinco minutos.
— Te dou quatro. Depois te busco com outro balde de areia.
Entrei no quarto ainda rindo da ameaça do balde de areia. Por via das dúvidas, troquei de roupa rápido, vestindo um short jeans, um top preto de alça fina e uma camisa leve por cima, que podia ou não ser do próprio . Eu já tinha me acostumado a esquecer de devolver umas roupas dele desde os 15.
Quatro minutos. Ele não estava brincando.
— Tô indo! — gritei antes que ele pudesse bater na porta.
) apareceu no vão com o mesmo moletom de sempre, o capuz jogado pra trás e uma cerveja na mão. Tava com a cara limpa de quem não se importava nem um pouco se tinha areia no cabelo ou não. Só me olhou de cima a baixo e arqueou uma sobrancelha.
— Três minutos e cinquenta. Impressionante.
— Eu sou uma mulher eficiente.
Passamos pelo corredor com os últimos resquícios de sol nos acompanhando. A casa estava cheia de vozes, chinelos arrastando no chão, alguém discutindo sobre quem ia carregar o cooler. A energia era de bagunça organizada, como sempre.
Lá fora, o céu já era um degradê de azul escuro e roxo, e a fogueira tinha acabado de ser acesa. Um monte de almofadas e cangas estavam espalhadas pela areia em círculo, e o som de uma playlist qualquer tocava baixo de um dos caixotes de som que o Nolan tinha trazido. Tessa já estava lá, obviamente, com uma coroa de flores na cabeça e duas bebidas bem coloridas nas mãos.
— Aleluia! — ela gritou quando nos viu.
só ergueu a garrafa num cumprimento irônico e seguiu andando direto, escolhendo um lugar mais afastado, perto de umas almofadas dobradas e um banco de madeira meio torto. Me sentei do lado, puxando os joelhos contra o peito, enquanto ele jogava a garrafa vazia num balde de latas.
— Tá tudo tão... verão. — comentei, olhando as luzes de pisca-pisca que Ivy já tinha pendurado em alguma árvore antes mesmo de escurecer.
— É o charme da Tessa.
Ele sorriu e pegou outra cerveja do cooler, me oferecendo antes de abrir.
— Ainda quer?
Balancei a cabeça para os lados, negando.
— Tô bem.
— Boa escolha.
Por um tempo, ninguém disse nada. Só o som da madeira estalando na fogueira e a voz de Tessa do outro lado, tentando convencer a dançar com ela. Eu podia ouvir a risada dele, o som da garrafa batendo no brinde. encostou o cotovelo no joelho, apoiando o queixo na mão. Me observava de lado, daquele jeito que ele sempre fazia quando achava que eu não tava reparando, mas eu reparava. Sempre reparei. pegou um punhado de areia e começou a passar entre os dedos, distraído.
— Você ainda escreve? — ele perguntou, do nada.
— De vez em quando. Quando dá.
— Aquela história do farol?
— Ainda tá na minha cabeça. Nunca saiu de lá, na real. Só não consegui terminar.
— Por quê?
Suspirei.
— Porque o personagem principal fica preso. E eu não sei como fazer ele sair de lá.
Ele não respondeu de imediato. Jogou a areia pro alto, deixando-a cair entre nós dois, como se estivesse marcando o meio do caminho entre onde eu tava e onde ele tava.
— Talvez ele só esteja esperando alguma coisa. — disse, sem me olhar.
— Esperando o quê?
deu um leve sorriso, com o olhar perdido nas chamas.
— Alguém bater na porta.
Ficamos assim, quietos, olhando pro fogo como se a resposta estivesse lá.
— Vocês dois prometeram que não seriam antissociais e eu tenho prints destas conversas, então cuidem de serem participativos. — A voz da Tessa cortou a quietude. Ela apareceu atrás do , segurando duas pulseirinhas de neon e uma taça de alguma bebida azul, que definitivamente não devia ser azul. — Vamos. Hora da dança.
jogou o resto da areia para longe, se levantando devagar. Eu ainda tava sentada, então tive que olhar pra cima quando ele esticou a mão pra mim, mas ele não disse nada. Era só aquele gesto que a gente já conhecia de cor, aquele chamado silencioso de "você vem comigo, como sempre".
— Vai, . Tira ela da bolha. — disse Ivy, surgindo ao lado de Tessa, com uma flor presa no cabelo e o celular no bolso de trás, como se não conseguisse decidir entre o Instagram e a fogueira, mesmo todo mundo sabendo que a fogueira claramente perderia.
— Não, vocês já ficaram juntos tempo demais. Agora é minha vez de sequestrar o bonitão. — Tessa fez uma reverência exagerada e pegou a mão dele como se fosse dançar uma valsa. — Depois a gente volta pra buscar você.
Eles saíram cambaleando pela areia, e olhou por cima do ombro, acho que ele quis se certificar de que eu tava bem, como se soubesse que eu ia ficar olhando. E eu fiquei. Vi quando ele riu de alguma coisa que ela disse. Vi quando ela passou a mão no ombro dele e ele deixou. E vi quando ele olhou pra ela como se a luz da fogueira tivesse acendido dentro dela.
Não era ciúmes. Era pior. Era aquela sensação de estar assistindo alguém abrir uma porta que eu passei anos trancando com cuidado.
— Tá um pouco silenciosa pra quem está em uma festa. — surgiu do nada, com um copo na mão e uma sobrancelha levantada. Sentou-se ao meu lado, jogando um punhado de areia pra cima como se isso fosse quebrar a tensão.
— Eu sou uma pessoa quieta, segundo Beckett. — respondi, tentando soar mais divertida do que eu conseguia ser no momento.
— Tecnicamente eu sou o primeiro Beckett.
Olhei de novo pra fogueira. já estava sentado com o grupo, e agora tinha uma garota nova do lado dele. Cabelo preso num coque bagunçado, sorriso fácil. Ela jogou a cabeça pra trás rindo, e ele encostou a mão no joelho dela como se fosse natural.
Aquilo me atingiu como se alguém tivesse puxado o ar do meu peito.
Era só um gesto.
Só uma mão no joelho.
Só uma risada compartilhada.
Mas doeu.
Porque ele estava com ela, quando deveria estar aqui, do meu lado.
Porque ele nunca faria aquilo comigo.
— Vamos jogar alguma coisa? — sugeriu, mais pra me puxar do buraco do que por vontade.
— Tipo?
— Sei lá. Verdade, consequência... ou o shot da morte.
Tentei rir.
— Achei que você fosse o certinho, o irmão médico que salva pessoas e não bebe para não ser irresponsável. — provoquei, com um sorriso de canto.
— Primeiro: médicos também bebem. Segundo: sou irresponsável se for para fins científicos. — Ele levantou o copo como se fosse um troféu. — Considere esse momento uma experiência social.
— Ah, claro. Pesquisa de campo. — ergui uma sobrancelha. — E qual é a hipótese? Que eu não aguento um shot?
— A hipótese é que você é uma pessoa quieta… — ele olhou pra mim com aquele sorriso torto, já familiar — …mas só até a terceira rodada.
Ri de verdade agora. Daquela risada que escapa antes que a gente consiga segurar. E ele pareceu gostar de ter arrancado isso de mim. De ter sido o responsável pela forma que eu quase fico sem ar. Que quase começo a voar, de tão leve que estou.
— Tá bom, doutor, mas só se você jogar também. Nada de fingir que está acima das brincadeiras.
— Fechado. — ele disse, estendendo o mindinho, sério como se fosse um contrato oficial. — A medicina me obriga a ser ético.
Enlacei o dedo no dele com um aceno solene.
A brincadeira começou simples. Uma garrafa girando entre a areia, os copos passando de mão em mão, perguntas aleatórias e provocações leves. ficou ao meu lado o tempo todo, como se quisesse garantir que eu não escorregasse de volta pro meu silêncio.
, verdade ou consequência? — perguntou Ivy, com aquele olhar malicioso de quem adorava ter um microfone imaginário.
— Verdade. — respondi, sem pensar muito.
— Se você pudesse beijar qualquer pessoa aqui hoje, quem seria?
O grupo fez aquele “oooh” coletivo clássico. Meu rosto esquentou no mesmo segundo.
— Fácil. Eu. — falou antes que eu abrisse a boca, erguendo o copo e piscando pra mim.
As risadas vieram todas juntas, e, pra minha surpresa, eu não queria desaparecer. Só olhei pra ele, tentando fingir uma cara séria.
— Você é muito convencido, sabia?
— Não é convencimento se é verdade. — respondeu, encostando levemente o ombro no meu.
A brincadeira seguiu, mas agora tudo parecia mais leve. começou a inventar nomes para os shots. O suco rosa virou Elixir da Coragem. O copinho azul, Lágrimas do Destino. E toda vez que eu ria, ele fazia questão de repetir a piada como se fosse a melhor coisa que já tinha dito.
— Toma mais uma dose do “depois do três ela vai se abrir”. — disse, me entregando um copo.
— Esse nome é horrível. — falei, mesmo rindo.
— Assim você ofende a minha criatividade. — respondeu, inclinando a cabeça.
Nesse momento, me peguei observando o reflexo da fogueira no rosto dele. era bonito de um jeito calmo. Não o tipo que roubava o ar quando entrava no lugar, mas o tipo que te fazia respirar melhor quando ficava no mesmo ambiente que você. Ele era lindo, muito lindo, mas conseguia ter tão mais além do físico que se tornava encantador. No mínimo.
— Esse tem nome? — perguntei, já desconfiada.
— “Depois desse, você começa a achar que Oasis é bom”.
— Isso é uma ofensa ao bom senso.
— Exato. Bebe logo.
Dei um gole com cara feia, mas o gosto era surpreendentemente aceitável. se sentou de novo ao meu lado, com as pernas esticadas na areia e o copo apoiado entre os joelhos.
— Você sempre foi assim? — perguntei.
— Assim como? — ele devolveu.
— Com esse equilíbrio natural entre parecer sério o tempo todo e, ao mesmo tempo, ter um senso de humor bem duvidoso. Quero dizer, ninguém com uma mente boa conseguiria criar nomes tão ruins e drinks tão bons. Faz dez minutos que estávamos jogando e, agora, eu nem mesmo sei quando saímos da roda e estamos no nosso mundo.
Ele riu. Um som curto, sincero.
— Culpa da faculdade de medicina. Eles te ensinam a manter a compostura enquanto o mundo pega fogo. Então você aprende a rir quando dá.
Ficamos um tempo em silêncio, só ouvindo o som da música vindo da fogueira, agora mais animada. A galera já tava dançando, tropeçando na areia. Alguém gritou que ia começar uma batalha de dança e foi derrubado logo em seguida com uma enxurrada de vaias.
— Você deve dançar muito mal. — comentei, vendo um dos meninos do grupo tentar um passo de breakdance desajeitado.
— Você tá duvidando do espírito competitivo da medicina? — perguntou, colocando a mão no peito, ofendido.
— Totalmente. Aposto que você dança igual ao Luke tentando cantar “Wonderwall”.
— Ok. Isso foi baixo. — Ele me encarou com uma expressão pensativa, dramática demais pra ser real. — Tá bom. Eu te desafio.
— A quê?
— A uma dança de humilhação pública.
— Nem morta.
— Então você admite que tem medo?
Revirei os olhos.
— Eu admito que valorizo meus tornozelos.
Ele riu e jogou um pouco de areia na minha perna.
— Covarde.
Fingi indignação e devolvi com mais areia, começando uma pequena guerra entre nós. Nessa altura, ninguém tava prestando atenção. E eu gostei disso. Gostei de como, mesmo no meio de todo mundo, aquele pedacinho de praia parecia só nosso.
— Ok, sua vez de inventar um nome. — disse, apontando pro copo na minha mão.
— Fácil. “Reunião de família que deu errado”.
— Isso é trágico.
— Por isso combina.
— Você é engraçada, sabia? — ele disse de repente, me olhando de lado.
— Você é muito ruim em elogios espontâneos. — retruquei, sem conseguir esconder o sorriso.
— Tô me esforçando. — respondeu, dando um gole no copo, como se aquilo ajudasse a disfarçar o leve rubor nas bochechas.
Ficamos um tempo em silêncio, observando a bagunça perto da fogueira. Um dos meninos estava tentando equilibrar uma garrafa na cabeça, enquanto outro girava em círculos até cair. A música alta, o som das ondas e as risadas tudo se misturava num ruído bom, mas meio caótico.
— Quer fugir daqui um pouco? — perguntou, num tom que não tinha nenhuma malícia, só um convite tranquilo.
— Fugir?
— Só andar. Não sei. A galera tá num nível de energia que eu não consigo competir. Tô velho demais pra perder no jogo da garrafa.
— Você tem 29 anos, .
— Exatamente.
Soltei uma risada curta do seu exagero e me levantei junto com ele, limpando a areia da roupa enquanto caminhávamos devagar, deixando a luz da fogueira pra trás e os sons diminuindo a cada passo. A areia era mais fria, e só havia o som das ondas quebrando de leve. chutava pequenos montinhos como se cada passo precisasse de uma missão.
— Você é um daqueles caras que organiza os livros por cor, não é? — perguntei, desconfiada.
— Por assunto, e por cor.
— Isso é doentio.
— Isso é eficiência estética.
Continuei caminhando, rindo com ele do nada, e do tudo. Até que paramos num pedaço de areia que parecia esquecido do resto do mundo. A lua refletia no mar como se tivesse sido pintada ali de propósito.
— Aqui tá bom. — ele disse, se sentando e cruzando as pernas, como se fizesse isso toda semana. Me sentei ao lado dele, sem pressa. enfiou as mãos nos bolsos do casaco, inclinando levemente o corpo pra frente enquanto olhava o mar.
— Você é diferente do que eu imaginei. — ele falou, como quem solta um pensamento que escapou. Virei o rosto devagar, arqueando uma sobrancelha.
— Isso é bom ou ruim?
— É o tipo de coisa que me faz querer ficar um pouco perto de mais.
Fiquei em silêncio, não por falta do que dizer, mas porque a sinceridade dele me pegou desprevenida. Ele não falava como alguém que jogava charme por esporte. Era direto, mas não apressado. Seguro. Quente. Quase perigoso. era o tipo de homem que fazia a gente baixar a guarda sem perceber.
— Você fala como se soubesse exatamente o que vai causar. Isso é perigoso demais para um quase idoso.
— Às vezes. — Fingi olhar pro mar de novo, tentando disfarçar o fato de que eu estava sorrindo de verdade agora, do tipo que aquece de dentro pra fora. — Sabe o que é engraçado? — ele continuou, mexendo um pouco a areia com os dedos. — Eu venho pra esse tipo de coisa pensando que vou aguentar umas horas, ser simpático o suficiente, e ir embora sem me envolver.
— E não é?
— Acho que não. Não agora, não com você aqui.
Desviei o olhar por reflexo. Não porque não gostei, mas porque fazia tempo que alguém não falava comigo assim, de um jeito que me convencia.
— Isso foi bem direto. — comentei, a voz um pouco mais baixa.
— Eu sou velho, lembra? Não tenho mais tempo pra rodeios. — ele respondeu, olhando pra mim com calma.
— Você é só seis anos mais velho. — murmurei, mesmo sabendo que ele tava sendo metafórico.
— E seis mil vezes mais paciente, se quiser. — respondeu com um meio sorriso. — Ele inclinou um pouco o corpo, não no impulso de diminuir a distância, mas como quem se aproxima devagar, testando o espaço que o outro permite. A testa dele quase encostou na minha. — Me avisa se eu estiver indo rápido demais. — disse, por fim.
— Você não tá. — falei, sem pensar. Porque não estava mesmo.
Eu havia passado tanto tempo pensando que, agora, tudo que eu queria fazer era não pensar.
A mão dele veio primeiro, devagar, como se cada movimento carregasse um cuidado raro, seguido por uma intenção pensada. Os dedos quentes tocaram minha mandíbula, e ao toque eram leves, o polegar deslizou até o canto da minha boca, onde ficou ali por um segundo longo demais pra ser apenas um gesto casual. O meu coração batia descompassado, mas a respiração dele era calma, como se quisesse me passar segurança com o corpo antes mesmo do toque. Quando ele finalmente se aproximou, o beijo começou com uma lentidão quase reverente, mas não era hesitante, na verdade, era inteiro. Como se ele estivesse mapeando cada segundo, cada resposta minha, cada silêncio entre os dois.
E eu correspondi.
O gosto era leve, quente, com um toque de vinho e de algo que só podia ser ele. Aos poucos, o beijo ganhou profundidade, num ritmo que não atropelava, mas seduzia. A mão dele subiu até minha nuca, os dedos entrelaçando no meu cabelo com uma precisão quase impaciente. A outra mão foi parar na minha cintura, e mesmo sem me puxar, tinha uma força contida, mas ainda assim era terna. O toque dele era aquele tipo que, se a gente se acostuma, nunca mais quer outra coisa.
Quando nos afastamos, os lábios ainda se roçaram por um instante. Ele manteve a testa colada na minha, com os olhos fechados, como se ainda respirasse tudo que o beijo tinha.
— Você tem gosto de sarcasmo. — ele murmurou, com um sorriso torto. — Tô ferrado, né?
— Totalmente. — respondi, ainda sentindo a boca quente. E antes que o pensamento escapasse, puxei ele de volta.
Dessa vez, o beijo veio mais solto, mais leve. Com risadas entre os toques, com um nariz que esbarrou no outro, com mãos meio perdidas entre cabelo e cintura, e uma urgência contida.
— A gente podia culpar o vinho. — ele sugeriu, fingindo seriedade.
— Mas ia ser mentira. — falei, mordendo o canto do lábio.
— Total.
Ele olhou pro céu por um segundo, depois de volta pra mim.
— Isso vai complicar tudo, né?
— Provavelmente. — murmurei, me encostando no ombro dele.
E só soltou um “bom” baixinho, como quem aceita a bagunça com gosto.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, só ouvindo o barulho do mar. Eu ainda estava com a cabeça apoiada no ombro dele, e ele desenhava círculos lentos na minha perna com o dedo, sem parecer consciente do que fazia. Era bom. Leve. Quente. E foi aí que a culpa deu as caras. Silenciosa e escorregadia como a maré.
Pensei no . Pensei na nossa conversa. No nosso quase algo. Pensei nos sentimentos dele saindo tão altos e tão fortes. No jeito sério como ele tinha me olhado antes, dizendo com todas as letras:
“Só não se envolve com ele. Sério. Qualquer um, menos o .”
Afastei a cabeça devagar, ajeitando o cabelo como desculpa.
— Tá tudo bem? — ele perguntou, atento.
— Sim, só pensei numa coisa. — dei um sorriso rápido, tentando disfarçar a confusão que começava a crescer. não insistiu. Não do jeito óbvio. Só inclinou o corpo de leve, mantendo os olhos presos em mim.
— Posso fazer uma pergunta? Sem querer estragar a vibe.
— Você acabou de colocar “sem querer estragar a vibe” antes da pergunta. Agora quero saber.
Ele sorriu, meio envergonhado, mas foi em frente.
— O que você faz? Quando está na sua rotina, nos seus dias, quando não é encantadoramente sarcástica e viciante.
— Uau. Encantadoramente sarcástica? Tô adicionando isso no meu currículo. Eu trabalho com eventos. Produzo, organizo, corro, desespero. E finjo que tô tudo sob controle mesmo quando não está.
— Isso soa bem... caótico.
— Exato. Acho que por isso odeio qualquer coisa que me faça perder o controle. Já faço tanto isso no trabalho que gosto de conseguir dominar um pouco mais a minha vida.
Ele passou a mão pelos cabelos, parecendo buscar as palavras certas.
— Posso fazer a pergunta agora? — Ele acenou com a cabeça, de forma simples, quase curioso demais. — Você ainda a ama? Maya.
Ele pensou um pouco antes de responder.
— Sinto falta do que a gente fingia que era. Mas dela de verdade? Não. Era cansativo. E cheio de desculpas. Tava sempre acontecendo alguma coisa errada. Acho que parou de ser amor antes mesmo de acabar.
Eu fiquei em silêncio por alguns minutos e, quando ele me olhou, respirei fundo, decidindo ser sincera também.
me pediu pra não me envolver com você.
assentiu com um sorriso breve, nada surpreso. A expressão dele se manteve tranquila.
— Eu imagino. Ele viu as piores versões de mim. — disse com simplicidade. — Mas irmãos enxergam com filtro e protegem com excesso. Eu entendo o que ele quer evitar.
Fiquei em silêncio, e ele respeitou.
— Hoje de manhã, você tava com a Ivy. — falei, finalmente. Não precisou dizer mais do que isso para deixar claro o quão confusa ele estava. Eu falei que ele estava com a Ivy porque não conseguia dizer que, apesar disso, eu também estavav com o .
Ele sorriu de leve.
— Ivy apareceu no verão passado como uma diversão após um dos vários términos. Não teve história, nem promessas. Só dois adultos sendo impulsivos e sabendo exatamente onde terminava, mas eu não deixei nenhuma porta aberta ali. Só fui educado. — Ele se aproximou um pouco mais, sem invadir o meu espaço. — E você, definitivamente, não seria mais uma. Se fosse, eu teria te deixado em paz naquela fogueira. Eu sei exatamente o que tô fazendo aqui.
— E o que você tá fazendo aqui, ?
Ele respirou fundo e respondeu com uma honestidade que quase doeu de tão simples.
— Tô escolhendo você.
E esse era o problema. Porque eu também queria escolhê-lo. Eu sabia que era uma escolha. E eu queria aquela segurança, aquela certeza que ele colocava em cada palavra. Queria a forma como ele me olhava, como se eu fosse algo raro e precioso. Queria aquela mão firme na minha, aquela promessa de alguém que não fugiria. Mas então veio a imagem do , o mesmo de horas atrás, com os olhos cheios de um medo que eu nunca tinha visto antes, me dizendo que eu era a única coisa certa na vida dele. O que me agarrou pelo pulso e pediu, quase suplicou: "Não fique com o ."
Eu sabia o que sentia por . Sabia que, em algum lugar no fundo do meu peito, aquela conexão nunca iria acabar e ainda me faria querer alcançá-lo mesmo quando ele se afastava, mas hoje, quando ele me olhou com aquela expressão perdida, como se eu fosse a única âncora que ele tinha no mundo, algo dentro de mim entendeu que nunca iríamos além disso.
Não porque ele não quisesse, nem porque eu não quisesse, mas porque, no fim, nós dois éramos bons demais em sabotar qualquer coisa que pudesse nos levar para um lugar desconhecido. , porque tinha medo de estragar. Eu, porque tinha medo de perder.
Eu respirei fundo, deixando o ar salgado do mar encher meus pulmões.
— Não sei se consigo te dar uma resposta agora — eu disse, finalmente, com a voz quase sumindo no som das ondas.
Ele virou o rosto para mim.
— Eu não disse isso esperando uma resposta e nem quero que você me dê uma agora. — A voz dele veio baixa, controlada, sem qualquer traço de cobrança ou urgência. — Eu sou neurocirurgião, . Minha vida inteira é sobre entender o tempo das coisas, sobre saber quando agir e, principalmente, quando esperar. — Ele fez uma pausa breve, como se medisse as próximas palavras. — Nunca perdi um paciente sequer. Sabe por quê? Porque eu aprendi que antecipar o momento certo pode custar vidas. Eu não tô aqui pra te confundir. Nem pra te pressionar. Só quero que você entenda e entenda de verdade: eu vou esperar. Não porque você está em dúvida, mas porque você merece tempo para deixar de estar. — A ponta de um sorriso surgiu no canto da boca dele, carregada daquela autoconfiança tranquila que parecia fazer parte de quem ele era. — Paciência é a maior virtude que um médico pode ter. — Ele inclinou um pouco o rosto. — E eu sou excelente no que faço. — O sorriso dele se ampliou, como se já soubesse o desfecho dessa história antes mesmo de mim. — Então, quando você estiver pronta, porque você vai estar, eu vou ser a decisão mais óbvia da sua vida.



Capítulo 7



A boca dele ainda estava perto demais.
O gosto de ainda estava na minha língua e era uma mistura perfeita de cerveja barata, um traço de sal e algo que era só dele. Algo quente e persistente, que não saía, não importava quantas vezes eu engolisse. E agora, com cada passo de volta para a fogueira, meu cérebro girava em loops frenéticos, tentando entender como diabos eu tinha deixado aquilo acontecer. caminhava ao meu lado, com seus passos calmos e certos, como se não houvesse nada de errado. Como se eu não tivesse acabado de quebrar a única regra que tinha colocado entre nós.
"Qualquer um, menos o ."
E eu tinha feito exatamente aquilo que ele me pediu para não fazer.
Meus dedos se contraíram sozinhos, como se pudessem ainda sentir o calor da pele de neles.
Merda.
Merda.
Merda.
— Relaxa. — A voz baixa de cortou meus pensamentos, e eu quase pulei no lugar. Ele nem sequer olhou para mim quando falou, como se soubesse exatamente o que eu estava pensando. — Eles estão todos bêbados demais para perceber qualquer coisa.
Eu engoli seco, tentando acreditar nele. Mas quando chegamos perto da fogueira, o primeiro que vi foi . Sentado na beirada do círculo de luz, sozinho, com uma garrafa meio vazia pendurada entre os dedos. Seu olhar estava fixo nas chamas e a expressão era tão silenciosa que me doía. Era o tipo exato de silêncio que ele nunca tinha.
Onde estava a garota do coque, aliás? Aquela que ele estava com ela minutos antes, quando estávamos vindo pra cá.
Meu coração deu um salto estúpido antes que eu pudesse pará-lo. O resto do grupo estava em pleno caos alcoólico: Nolan de quatro no chão, gemendo como um homem morrendo, enquanto Tessa batia levemente na cabeça dele com um limão, como se isso fosse ajudá-lo a superar a péssima ideia de ter misturado wasabi com tequila. Luke tentando (e falhando) acender um cigarro com as mãos trêmulas, resmungando algo sobre a "traição gustativa" de Nolan. Ivy dançando sozinha, seus brilhinhos faciais refletindo o fogo como um disco ball humano, completamente perdida no ritmo de uma música que só ela ouvia. E Ash, que era o único que parecia minimamente sóbrio. Ele foi o primeiro a nos notar.
— Vocês estão vivos! — ele anunciou, erguendo a garrafa em nossa direção. — Onde estavam? Perderam toda a diversão. Nolan tomou tequila com wasabi como se fosse um shot normal e rejeitou uma mulher. As coisas por aqui estão muito anormais. — Meu coração deu uma pancada forte contra as costelas. rejeitou alguém? Antes que eu pudesse processar isso direito, Ash continuou, com um sorriso malicioso: — Então? O que vocês estavam fazendo? A gente quase precisou de um médico aqui.
— Nada demais. — respondi rápido, minha voz saiu mais aguda do que o normal.
Ash riu, inclinando-se para frente.
— "Nada" não dura vinte minutos atrás de uma duna, .
Meu rosto queimou.
Foi quando finalmente olhou para nós.
Seus olhos escuros passaram de mim para , depois para o espaço minúsculo entre nossas mãos, que, merda, estavam quase se tocando, e então voltarem para a garrafa dele.
— Tão voltando do quê? — A voz dele saiu áspera, mas não pelo álcool. Pelo tom.
Ele sabia.
foi quem respondeu, descontraído demais para ser natural:
— De uma caminhada. Tinha muita gente aqui, não funciono com muitas pessoas.
levantou uma sobrancelha, mas não nos encarou.
— É mesmo.
Sim, ele sabia.
Meu estômago virou. Claro que ele sabia.
Então que ouvi uma risada aguda atrás de mim. A garota do coque estava de volta, trazendo mais duas amigas.
! Trouxe reforços! — Ela caiu de bunda na areia ao lado dele, jogando os braços em volta dos ombros dele como se fossem íntimos. Algo dentro de mim se contraiu. não a afastou. Na verdade, ele até sorriu. Sorriu aquele sorriso fácil, despretensioso, que eu conhecia tão bem. O sorriso que ele dava quando estava se divertindo.
, ao meu lado, esbarrou o ombro no meu, um toque rápido e discreto.
— Está com tanto medo assim que ele saiba?
— Não quero decepcionar o seu irmão, ele é o meu melhor amigo.
— Ele é adulto. Ele sabe lidar com decepções. — Tentei sorrir e não olhar na direção de , mas foi impossível. Ela ainda estava colada nele, falando alguma coisa no ouvido dela e ficando cada vez mais sugestiva. E ele ainda estava ouvindo. Talvez fingindo ouvir, mas mesmo assim, não tinha se afastado. Ele preferia estar ali e engolir o que sentia a encarar o que eu tinha feito. Eu o conhecia bem demais para não perceber a tensão em seus ombros e o jeito que ele apertava a garrafa com mais força que o necessário. Ele não estava confortável, só que, como sempre, ele fazia parecer que estava. era mestre nisso. — , se a gente vai fingir que não aconteceu nada, beleza. Eu consigo fingir, mas não quero que fique me olhando como se fosse um erro cada vez que ele respira no mesmo ambiente que a gente.
— Não foi um erro. — Falei, em um fio de voz. E não era mentira, eu acho. Pelo menos não parecia ser errado, não pareceu errado quando a boca dele estava na minha há minutos atrás.
— Ótimo, porque eu faria de novo. Mesmo que o fique irritado quando ele souber.
— Ele já sabe. — admiti. — Só não decidiu ainda o quanto vai me odiar por isso.
— Talvez ele só precise de tempo.
— Talvez.
Balancei a cabeça, mas eu sabia. não era assim, ele não funcionava com tempos, mesmo quando pedia por eles. Ele odiava silêncio, só usava isso como uma desculpa pra se afastar e quando ele fazia isso, ele não costumava voltar.
. — Virei tão rápido na direção da voz de que quase tropecei. Ele estava em pé agora, com a garrafa esquecida no chão e os olhos fixos nos meus. E pela primeira vez naquela noite, ele não parecia indiferente. Parecia ferido. — Podemos conversar?
não se mexeu e eu também não, mas meu coração sim. Ele deu um pulo que me fez perder o ar.
Assenti, engolindo em seco, e caminhei até ele com passos lentos demais, como se o tempo fosse me salvar de alguma coisa. Ele virou de costas e começou a andar pela faixa de areia, mais afastado da fogueira, e eu o segui em silêncio.
— Aconteceu? — a voz dele saiu baixa, mas carregada, como se cada palavra tivesse espinhos e conforme ele as soltasse, a garganta dele rasgasse no processo. — Você e ele?
Levantei o rosto devagar, mas não consegui responder. Porque a resposta estava na minha cara. No meu silêncio. Nos meus olhos e na culpa estampada em cada músculo tenso do meu corpo.
— Caralho, . — Ele riu, mas foi um riso seco, sem humor nenhum. — Tinha que ser logo o ? Eu te pedi pra não ser ele, tem uns trinta caras nessa droga de luau.
— Aconteceu. — sussurrei. — Eu não planejei nada.
— Claro. Você só tropeçou e caiu na boca dele, né?
A ironia dele veio afiada, mas o que mais me doía foi o que vinha por baixo. Ele não estava bravo só por mim, ele estava bravo com ele mesmo. Fechei os olhos por um segundo, tentando respirar.
— Você não pode me cobrar isso, .
— Eu não tô cobrando. — ele retrucou, seco. — Tô só tentando entender por que, entre todas as escolhas possíveis, você foi justo na que sabia que mais ia me quebrar.
— E você? — disparei, sem pensar. — Você está com a garota do coque, lembra? Aquela que você deixou quase sentar no seu colo. Ela te conhece há cinco minutos e já tava te chamando por apelidos.
Ele me encarou como se eu tivesse perdido o direito de falar. Como se eu tivesse atravessado alguma linha invisível e tocado um lugar que eu não deveria.
— Tá com ciúmes?
— Não. — menti, rápido demais. Mal demais.
— Então qual é o problema?
— O problema é que você tá me julgando por uma coisa que você faz o tempo todo! — minha voz saiu mais alta do que eu queria. — Eu fiquei com o , sim, e você já ficou com várias outras pessoas que conhecemos. Está ficando com uma agora, então não tem que me cobrar satisfação alguma.
— Eu nunca fiquei com alguém que eu soubesse que ia te machucar.
— Ah, nossa. Um verdadeiro mártir.
Ele riu de novo, aquele mesmo riso sem graça, sem cor.
— Você não entende, né?
— Não. Eu realmente não entendo por que você tá tão puto se, no fundo, você nem se importa. — Ele ficou calado no mesmo minuto, me olhando com raiva, como se eu tivesse ofendido ele, pior, como se eu tivesse realmente magoado ele. — Não foi por você. Eu não pensei em você quando…
— É. Isso tá bem claro. — ele cortou, e então virou de costas e deu alguns passos, mas então parou. As mãos dele foram aos quadris, depois subiram bagunçando o cabelo. Ele respirou fundo, o tipo de respiração que a gente solta quando está tentando não gritar. Quando está tentando não quebrar alguma coisa. Alguém. — Quer saber? — Ele se virou devagar para mim, com os olhos brilhando mesmo num lugar escuro. — Você tem razão, . Eu não devia cobrar. Nem ligar. Nem sentir porra nenhuma. Só que eu sinto. E não tem um caralho de botão pra desligar isso, por mais que eu queira. — A voz dele subiu arranhando, de ódio talvez.
Minhas mãos tremeram.
— O que?
— Eu sinto desde aquele maldito segundo ano. Eu sinto desde que você me olhou de um jeito que eu não merecia. Desde que riu de uma piada idiota minha e eu pensei, por um segundo, que talvez eu pudesse ser alguém melhor por você, mas eu não sou. E isso me irrita, sim.

— Não é… — ele começou, mas a voz falhou. Engoliu seco, e tentou de novo, mais baixo. — Não é porque você ficou com alguém. Eu aguentaria isso. Juro que aguentaria. É porque foi com ele. Você sabe o que o é pra mim. Sabe. — A voz saiu mais baixa, como se ele estivesse tentando manter o controle e, mesmo assim, perdendo aos poucos. — Sabe que eu cheguei depois. Depois das medalhas dele. Depois das notas que eu me matava pra alcançar e nunca eram suficientes. Depois dos sorrisos certos, das palavras certas… Meus pais nunca disseram que eu era um erro. Só deixaram claro que eu era um quase. Quase tão bom quanto o . Quase tão gentil. Quase. E tudo bem. A gente aprende a aceitar, porque é tudo que tem. Mas você… você era o único lugar onde isso não existia. O único lugar onde eu não precisava ser ninguém além de mim. Onde eu não era comparação. Onde eu achava que, talvez, eu fosse o suficiente.
— Eu não…
— Eu sou o filho que dá trabalho. O aluno que não presta atenção. O cara que sente demais e não sabe onde guardar tudo. Eu passo o tempo todo tentando não ser um fardo. Tentando parecer inteiro, mas eu não sou. Eu não sou inteiro. Eu sou o que sobrou pra eu ser depois dele. Você era o único lugar que eu olhava e me sentia suficiente. Não o irmão que sobrou, não a decepção, não a segunda escolha, mas agora nem isso. Agora, de novo, eu olho e tudo que eu vejo é o . E sabe o pior? Você sabia disso. E ele provavelmente é mesmo melhor que eu. Ele merece você. Eu não. Então você tá certa. Você tá completamente certa. Eu nem sei o motivo de eu estar falando isso. Todo mundo sempre escolhe o , no final. Por que você seria diferente? — ele balançou a cabeça, com um riso amargo nos lábios, controlando o que diria. Eu não consegui responder, acho que congelei em alguns minutos. Porque não era mentira, eu sabia. Sabia das noites em que ele fingia não ligar quando os pais cancelavam o jantar porque o tinha um torneio. Sabia do álbum de fotos na sala que pulava direto da infância do para a faculdade, como se aqueles anos no meio, os dele, não tivessem existido. Sabia da formatura em que ele olhou para as cadeiras vazias dos pais por tanto tempo que eu tive que desviar o olhar. Sabia do de quinze anos, segurando o troféu de primeiro lugar com um sorriso que não chegava aos olhos enquanto o pai abraçava o . Sabia do de dezoito, bebendo até esquecer quando os pais não apareceram no seu recital porque o tinha uma consulta médica de rotina. Sabia do de vinte e dois, parado na porta do quarto de infância dele, olhando para as paredes cobertas de conquistas do irmão. E o pior? Sabia que, em cada uma dessas vezes, ele engolia o desapontamento e dizia "tudo bem", como se acreditasse mesmo nisso. Como se merecesse sempre as migalhas. Eu lembrava do modo como ele se encolhia quando alguém mencionava o nome do , como se esperasse sempre o golpe e, agora, ele estava me entregando a mesma dor. E eu não tinha como provar que ele estava errado. Porque no fundo, ele não estava.
Ele virou de costas, com os ombros tensos, segurando algo muito maior que raiva.
… — Minha voz saiu um sussurro.
— Eu passei a minha vida toda tentando competir com ele e perdendo. Não vou mais fazer isso. Então volta pra ele. — Ele não olhou para trás. — Sério. Vai. Fica com ele. Beija ele. Dorme com ele. Se apaixone por ele. Faz o que quiser, . Só não olha mais pra mim desse jeito.
Passei alguns minutos em silêncio, vendo virar as costas e sair, antes que ele se afastasse totalmente, se aproximou e apareceu pela pouca luz natural que a praia ainda tinha.
— Tá tudo bem? — Ele perguntou, mas seus olhos iam de mim para .
olhou pra ele, depois pra mim. E então, com um sorriso que não chegava nem perto dos olhos, ele fez o que sempre fez.
— Tá tudo perfeito.
Antes que eu pudesse responder, antes que eu pudesse correr atrás, antes que qualquer um de nós tivesse a chance de consertar algo, ele foi embora.
me olhou, com seus dedos se fechando e abrindo como se ele não soubesse se devia me tocar ou me deixar em pedaços.
— Quer que eu vá atrás dele?
— Não. — Minha voz saiu um fio.
Porque não tinha mais o que consertar.
Pela primeira vez em dez anos, Beckett tinha virado as costas pra mim.



Capítulo 8



Quando a luz da janela entrou pela cortina me fazendo fechar os olhos tão forte que doeu, eu soube que já era manhã. Da hora que tínhamos chegado do luau até agora, que devia ser umas cinco horas depois. Eu tinha dormido, ou melhor, tentado dormir, no quarto da Tessa, enrolada em um emaranhado de lençóis e pensamentos que não paravam de doer. Tessa roncava levemente do meu lado, com um braço jogado sobre os olhos para bloquear o sol, olhei para ela agradecendo mentalmente pela cama que ela tinha cedido e, em seguida eu me arrastei para fora do colchão, com cuidado, evitando acordá-la.
Depois de ontem, eu imaginei que fosse ser impossível dormir com o e, no mínimo, de péssimo mal gosto dormir com o . Então fiquei acordada até que a Tessa fosse pra cama e perguntei se podia dormir com ela. Quando levantei, a dor de cabeça veio forte e dolorosa. Meu corpo pesava como se tivesse sido esmagado por um caminhão, mas não era um caminhão. Era ele.
.
Era a discussão que tivemos, as palavras que não poderiam ser desditas. O jeito que ele tinha virado as costas para mim, como se eu fosse um fantasma que ele havia decidido ignorar.
Saí do quarto em silêncio, com os pés descalços afundando no carpete do corredor. A casa estava estranhamente quieta, o único audível era alguém roncando no sofá da sala. Pelo barulho, provavelmente era Ash. Eu esbocei um meio sorriso quando a porta do se abriu. Queria pedir desculpas, queria dizer que ambos fomos idiotas e que não podíamos continuar assim, mas não foi ele que saiu do quarto. Foi a loira. A mesma do coque bagunçado, da risada aguda, da mão no joelho dele. Agora ela estava com o cabelo ainda mais desalinhado, os lábios estavam inchados e, no corpo, era a camiseta dele que ela vestia. A camiseta que eu tinha dado a ele no aniversário de 19 anos. Vestida como um vestido, nela.
Ela me viu, parou no meio do corredor com os olhos arregalados por alguns segundos e então sorriu. Simpática.
— Bom dia — ela disse, com a voz rouca de uma noite que eu não queria imaginar.
Eu não respondi. Não consegui. Meu corpo inteiro congelou, como se alguém tivesse despejado água gelada nas minhas veias. A loira passou por mim com o cheiro do nela, aquele maldito shampoo de menta e algo que era só dele, saindo dela em ondas. A porta do quarto ainda estava entreaberta.
E eu tentei não ver, tentei controlar o impulso de olhar lá pra dentro. De ver como ele estava, mas não consegui. Eu olhei.
estava sentado na beira da cama, com a cabeça entre as mãos. Ombros estavam tensos. As costas arqueadas como se carregassem o peso do mundo. Ele levantou a cabeça devagar, como se sentisse meu olhar e nossos olhos se encontraram através do corredor.
E pela primeira vez em toda nossa amizade, ele não disse nada.
Não fez graça.
Não tentou explicar.
Não correu atrás de mim.
Ele só me olhou, com uma expressão que eu nunca tinha visto antes: vazia. Como se eu fosse uma estranha. Como se ontem à noite não tivéssemos gritado, em voz baixa, verdades que doíam. Como se nada daquilo importasse. Minhas mãos tremeram. E então, sem pensar, eu virei e desci as escadas correndo, com os olhos ardendo e um grito preso na garganta.
Porque era isso.
O fim.
A última peça do quebra-cabeça que nunca tivemos coragem de montar.
tinha escolhido seu jeito de me responder.
E a sua resposta era não.
Minhas pernas falharam no meio da escada e eu me sentei num degrau, sentindo meus joelhos dobrarem sozinhos e as mãos escorregarem pelo corrimão como se ele fosse a única coisa que me impedisse de desmoronar de vez. Respirei fundo, um, duas vezes, tentando engolir o nó que tomava conta de minha garganta e suspirei.
Esfreguei os olhos com força, como se pudesse apagar a imagem daquela garota saindo do quarto dele. Da nossa cabana. Do lugar onde, em todos os verões anteriores, eu e ficávamos até tarde da noite rindo de coisas idiotas, contando segredos no escuro. Quando me levantei, minhas pernas ainda tremiam, mas pelo menos conseguia fingir que estava inteira. A cozinha estava iluminada pelo sol da manhã, e o cheiro de café e bacon quase me fez esquecer por um segundo.
estava de costas para mim, mexendo algo na frigideira. Ele usava uma camiseta surrada e um short que provavelmente era do Nolan, e seu cabelo estava desgrenhado, como se tivesse passado a mão nele mil vezes.
— Bom dia — eu disse, forçando minha voz a soar normal.
Ele se virou rápido, seus os olhos escanearam meu rosto antes que eu pudesse disfarçar completamente.
— Ressaca? — perguntou, jogando um pedaço de bacon na boca.
— Mortal.
— Bem, eu fiz a cura. — Ele apontou para o balcão, onde um prato com torradas, ovos mexidos e até fatias de abacate (onde raios ele tinha arrumado abacate?) estava arrumado com um cuidado que não combinava com o caos do resto da cozinha.
— Pra mim?
— Pra quem mais? O Nolan só come cereal estragado, e a Ivy jurou que tá de detox de glúten. — Ele inclinou a cabeça para a varanda. — Vamos lá fora?
Eu abri a boca para recusar. Para dizer que não tinha fome. Para correr de volta pro quarto e enterrar minha cara no travesseiro até o verão acabar, mas então lembrei da loira. Lembrei de virando as costas para mim. Lembrei dele me olhando com vazio e silêncio.
— Vamos — eu disse, mais rápido do que pretendia.
não comentou mais nada. Apenas pegou os dois pratos e uma garrafa de suco, e eu o segui até a varanda, onde o mar brilhava traiçoeiramente feliz, como se ele não tivesse me visto perder a única coisa que eu tive medo em dez anos. Ele colocou meu prato na minha frente com um cuidado que me fez sentir exposta.
— Coma — ele ordenou, sentando-se na cadeira ao meu lado em vez de na frente. — Ou eu conto pra todo mundo que você chorou vendo Os Smurfs ontem.
Eu dei uma risada curta, pegando o garfo.
— Eu estava bêbada.
— Você citou o filme inteiro. Em ordem.
O primeiro gole de suco azedo me fez fazer careta pela ausência de açúcar, mas pelo menos me distraiu por um segundo. observou eu comer em silêncio.
— Eu não sei o teor da briga de ontem, mas pareceu séria e, se eu conheço bem o meu irmão, ele vai se arrepender — ele disse de repente, sem rodeios.
Eu quase engasguei.
— Não quero falar sobre isso.
— Tá. — Ele assentiu, fácil demais. Era uma armadilha. Eu sabia. Ele sabia. Mas quando eu olhei para ele, quando realmente olhei, vi que não era piedade nos olhos dele. Era apenas paciência. Como se ele estivesse disposto a fingir que aquele café da manhã era normal, se era isso que eu precisava.
— O abacate tá bom — eu murmurei, esfaqueando um pedaço com o garfo.
sorriu, um daqueles sorrisos pequenos que faziam cócegas no meu estômago.
— Eu sei. — O sol da manhã aquecia meu rosto enquanto eu empurrava os últimos pedaços de abacate no prato. observava em silêncio, seus dedos agora estavam parados sobre a mesa. O som das ondas preenchia o vazio entre nós, mas não era desconfortável. Era estranhamente pacífico. — Você sabe o que eu acho? — quebrou o silêncio, inclinando-se para frente com os cotovelos na mesa.
— Que eu devia ter comido menos bacon? — brinquei, evitando seu olhar.
Ele riu, um som baixo e quente e delicioso de ouvir.
— Que a gente deveria falar sobre o que aconteceu.
Meu garfo pausou no ar por um segundo antes de eu colocá-lo no prato.
— O café da manhã? Porque eu aprovo. Nota dez.
. — Sua voz era suave, mas firme. — O beijo.
Ah.
Eu respirei fundo, olhando para o mar.
— Foi um bom beijo.
— Foi um ótimo beijo.
Meu rosto esquentou, mas eu não consegui evitar um sorriso pequeno.
— Você tá contando pontos agora?
— Só dizendo a verdade. — Ele encostou-se na cadeira e estudando meu rosto. — E se depender de mim, não vai ser só um beijo.
O coração acelerou no meu peito. Eu devia ter me sentido nervosa, mas havia algo na maneira como ele falava, direto, sem joguinhos, que me deixou mais tranquila do que eu esperava.

— Eu não sou o . — Ele interrompeu, como se lesse meus pensamentos. — Não vou te tratar como se você fosse feita de vidro. — Seus olhos encontraram os meus. — Mas também não vou te pressionar.
Eu engoli seco.
— E o que você quer, exatamente?
— Você. — A resposta saiu sem hesitação, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Mas só se você me quiser também. Sem segundas intenções, sem usar alguém pra esquecer outro.
A honestidade dele doía um pouco. Era como se ele estivesse me dando uma saída, caso eu precisasse, mas deixando claro que entrar nela era uma opção minha. Claro, eu sei que ele também falava isso pela Maya, mas ainda assim, era muito acolhedor.
— Eu não te usaria assim.
— Eu sei. — Ele sorriu. — Mas eu precisava dizer. Porque eu gosto de você, . E não é só porque você é engraçada, ou linda, ou porque cita filmes ruins quando tá bêbada. — Ele inclinou-se para frente novamente, com seus lindos olhos lindamente sérios. — É porque quando eu te beijei, você fez alguma coisa cinza ganhar cor de novo. E eu quero mais disso.
Meu coração deu uma guinada violenta no peito. As palavras dele tinham me atingido como um raio. "Alguma coisa cinza ganhar cor de novo". Como ele conseguia ver isso? Como ele sabia exatamente o que dizer para fazer meus dedos tremerem e meu peito apertar de um jeito que não era dor?
... — minha voz saiu um sopro. Ele não se moveu. Permaneceu ali, com os olhos fixos nos meus, esperando. Sem pressa. Sem exigências. Apenas oferecendo.
Apenas dizendo “Eu espero. Eu posso esperar”.
— Eu não sei se consigo ser justa com você agora — admiti, pousando minhas mãos no meu colo, ligeiramente envergonhada.
Os lábios dele curvaram num meio-sorriso que fazia aparecer uma pequena covinha no lado esquerdo.
— Justiça é um conceito relativo — ele disse, com a voz suave, mas firme. — Se você der a mesma caixa para alguém de 1,70m e, em seguida, oferecer uma igual para outra pessoa de 1,50m, tecnicamente é justo, mas completamente desigual. — Fez uma pausa dramática. — Eu prefiro a honestidade à justiça. — Ele riu, baixo e rouco, e então fez algo que me tirou o fôlego. levantou minha mão e pressionou os lábios contra meus dedos, um beijo tão leve que poderia ter sido imaginado. — Bom, vamos começar devagar — murmurou contra minha pele. — Primeiro passo: você me ajuda a lavar essa louça toda.
— Isso é um date? — provoquei, sentindo meu rosto esquentar.
Ele soltou uma risada baixa, fazendo meu estômago revirar um pouco. Ele sempre tinha sido tão bonito assim quando sorria?
— É um teste de compatibilidade doméstica, na verdade. Se você passar, aí sim marcamos um date. Eu não posso ser perfeito, preciso ter um pouco de machismo dentro de mim para eu ser um homem. — Eu joguei um guardanapo nele, e ele riu de verdade agora, aquele som que fazia formigar a minha coluna.
Quando nos levantamos para levar os pratos, nossos braços se esbarraram, ele não se afastou. E eu também não.
— Quantos testes de lavar louça eu preciso ter para me formar, doutor?
Ele se apoiou no balcão, me encarando com diversão.
— Depende. — Seus olhos percorreram meu rosto. — Você é aluna aplicada?
— A pior.
— Perfeito. — Ele pegou o último prato das minhas mãos, fazendo com que nossos dedos se tocassem segundos mais que o necessário. — Assim eu tenho desculpa pra te dar aulas particulares.






Continua.



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