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Última atualização: 30.07.2020

Capítulo Único

Se eu havia aprendido algo desde que mudei para Los Angeles, dez meses atrás, era que mudar para Los Angeles não significava muita coisa.
Não quando seu maior é sonho estar na indústria cinematográfica — porque milhares de pessoas também se mudam para Los Angeles para tentar traçar o exato mesmo caminho que você.
Tinha me perguntado, algumas milhares de vezes, se trinta anos não era tarde demais para começar. Se eu realmente tinha algum potencial para estar ali.
E então, o inesperado aconteceu.
Pela primeira vez eu havia conquistado algo que eu podia chamar de oportunidade.
Um filme sobre Hollywood nos anos sessenta, dirigido por ninguém menos do que Martin Scorsese e estrelado por Leonardo DiCaprio e Cate Blanchett.
Leonardo. Di. Caprio. O cara que eu achei que casaria quando, aos treze anos, assisti Titanic pela primeira vez. E também o cara que havia me ensinado a encarar o cinema como arte e rebuscado inegavelmente o meu gosto para filmes.
Meu papel era simples — eu seria uma garçonete em uma típica festa hollywoodiana; caótica e extraordinária. Eu precisava levar uma bandeja carregada de drinks e canapés até a mesa onde Cate estava sentada. Então ela pega uma das taças altas de champanhe e, com a mais perfeita imitação de Katharine Hepburn que eu já ouvira, solta um suspiro delicado e enuncia:
“Você tem lindos olhos. Não acha que devia estar no cinema?”
E então eu me afasto, com um sorriso tímido nos lábios.
Sim, Cate. Eu acho.
A cena, basicamente, levaria um dia para ficar pronta. Mas a maioria dos extras vinham todos os dias ao estúdio para servir de suporte à qualquer cena que eventualmente precisasse de mais figurantes; e sempre existia a possibilidade de precisar regravar a cena já feita.
Não que eu estivesse reclamando.
Eu simplesmente adorava estar nas filmagens.
Mesmo em dias exaustivos como essa sexta-feira havia sido. Eu havia chegado no estúdio às sete da manhã e já eram quase onze da noite. Onze e meia, porque fazia meia hora que eu estava com a cara enterrada no celular tentando conseguir um táxi. Mia, que sempre me dava uma carona até em casa, havia saído mais cedo. Ela, que morava em Los Angeles há mais de quatro anos, já havia me alertado que...
- É difícil conseguir um carro por aqui.
Que era difícil conseguir um carro por aqui durante a noite.
— Perdão? — levantei os olhos do celular e senti minhas pernas falharem.
Eu só podia estar sonhando.
— É quase impossível conseguir um táxi aqui a essa hora. Você teria que andar cinco quadras ao norte — ele usou a mão para indicar o caminho além dos altos portões de ferro — Ainda assim, teria que esperar um bom tempo.
Abri e fechei a boca algumas vezes, ainda em êxtase com a situação. Ele estava mesmo falando comigo?
Não me preocupei em parecer aérea ou algo do tipo; eu simplesmente precisava de alguns instantes para absorver a cena.
Ele tinha os olhos tão azuis que, mesmo diante da escuridão noturna, pareciam safiras líquidas cintilando bem diante de mim. De alguma forma, consegui perceber a delicadeza de suas mãos; ele gesticulava com os dedos compridos conforme falava, e seus movimentos eram fluidos, quase etéreos.
Ele era etéreo.
E, olhando-o de perto, com um suéter branco e um sorriso charmoso nos lábios, era difícil pensar que o homem em questão era uma das maiores estrelas de Hollywood. Mas ele tinha, de fato, uma maneira quase inconsciente de envolver quem quer que fosse com sua afabilidade e o brilho genuíno no olhar. Inclusive eu.
— Desculpe. Tenho certeza que disse alguma coisa, mas estava distraída demais por ser… Bom, você.
Ele soltou uma breve risada. E por um instante ele pareceu voltar 23 anos no tempo, pois sua risada me lembrou exatamente aquela por qual eu havia me derretido algumas milhares de vezes; a risada contagiante de Jack Dawson dançando com Rose em Titanic.
O quão estranha eu pareceria se dissesse isso?
— Estava apenas tentando te oferecer uma carona — ele juntou as duas mãos atrás do corpo.
Céus. Eu definitivamente estava sonhando.
E o que você faz quando Leonardo DiCaprio te oferece uma carona? Você aceita.
— Tenho certeza que não moramos na mesma vizinhança — dei um pequeno sorriso, sem saber de onde aquela frase tinha vindo, e apontei com o indicador pra mim — Sherman Oaks.
— Fica apenas a vinte minutos de Los Feliz — as mãos, agora, repousaram nos bolsos de uma calça de linho azul escuro — Vinte minutos não é muita coisa.
Cruzei os braços.
Troquei o peso do corpo de um pé para o outro.
Pisquei algumas dezenas de vezes.
E ainda não havia conseguido entender sobre o que aquilo se tratava. Ele simplesmente era educado ou sempre oferecia caronas para os extras?
Ele ao menos sabia que eu estava trabalhando no filme?
— Como você sabe que eu não sou uma assassina ou uma jornalista em busca de uma péssima história sobre você? — disse ao colocar o celular em minha bolsa.
Porque eu já estava convencida.
— Eu conheço você. Você é a garota que tem lindos olhos e serve champanhe pra Kate.
Ai. Meu. Deus.
Certo. Ele achava mesmo que eu tinha lindos olhos ou estava apenas citando a cena? Porque minha bochechas já haviam esquentado em resposta.
— Alguém já disse não pra você? — me inclinei brevemente em sua direção, genuinamente curiosa com a resposta.
Mas recebi apenas um sorriso contido enquanto ele mirava os pés. E, segundos depois, eu estava caminhando ao seu lado até seu carro. Porque eu certamente não seria a primeira a dizer não a ele.



Leonardo DiCaprio tinha um carro ecológico.
É claro que ele tinha.
E eu estava sentada no banco de passageiro do carro em questão, quase impossibilitada de trazer o ar para os meus pulmões ao observá-lo pelo canto dos olhos enquanto dirigia.
Aquela era, provavelmente, a situação em que meus dotes de atuação seriam mais necessários em toda minha vida. Pois eu podia simplesmente respirar fundo e, de fato, atuar; ser a despreocupada, que consegue segurar as pontas diante do seu ator preferido de toda Hollywood. E, embora minha perna estivesse balançando freneticamente pelo nervosismo, meu tom de voz conseguira ser tranquilo e quase casual.
— Você precisa me prometer uma coisa — me virei ligeiramente em sua direção, determinada a deixar a espontaneidade tomar conta de mim.
Pois aquela era, realmente, uma das coisas que eu sempre planejava dizer se Leonardo DiCaprio, um dia se tornasse um conhecido. Talvez um amigo. Não que eu realmente acreditasse que isso ia, de fato, um dia acontecer.
— O que? — ele proferiu ao virar em uma curva mais acentuada.
— Você nunca vai imitar as sobrancelhas do Jack Nicholson pra mim. Nunca.
Ele me olhou por um segundo, o início de um sorriso brincando em seus lábios. E então explodiu em uma gargalhada que levou alguns instantes para deixar suas bochechas adoravelmente rosadas.
E eu não pude fazer nada além de rir junto.
— Como você sabe disso? E porquê?
— Porque é assustador — exclamei enquanto ouvia as gargalhadas cessando gradativamente.
— Não posso prometer isso. Nunca é muito tempo, e não sei por quanto tempo vou conhecer você.
Dei um sorriso, embora seus olhos estivessem grudados na rua à nossa frente.
O que era bom; se eles estivessem em mim, eu provavelmente derreteria.
— Quatro meses. É quanto duram as filmagens.
O sorriso, de alguma forma, refletiu em seus lábios.
— Não sei por quanto tempo vou conhecer você — ele repetiu.
Ouvi o som do motor do carro cessar repentinamente e me surpreendi por estar em frente ao meu apartamento. O caminho de casa nunca havia parecido tão rápido.
— É um ótimo lugar — ele apontou para o pequeno prédio de cinco andares em cima de um restaurante italiano que se destoava do resto da rua.
— Obrigada, mas não é — soltei uma risada — Quer dizer, a rua é ótima, tenho uma Starbucks em uma esquina e uma Ulta na outra, mas o apartamento? É como viver em um filme de terror.
Seus olhos vagaram pelo meu rosto e o meio sorriso que parecia nunca deixar o seu se alargou um pouco mais.
— Não parece bom.
— E não é.
Nossos olhares se encontraram por alguns longos segundos. E, se eu pudesse, não me incomodaria em encarar a luminescência cerúlea de seu olhar por minutos; talvez até horas.
E, quando achei que estava me acostumando com a sua presença, as cinco palavras que voaram de seus lábios diretamente para a batida descompassada do meu peito quase me fizeram esmaecer.
— Você já conheceu Los Feliz?




Certo.
E quando Leonardo DiCaprio te convida para conhecer sua casa, o que você faz? Você vai.
Não era uma surpresa que sua casa fosse nada além de majestosa. Uma construção branca, cheia de colunas, enormes janelas, um jardim extenso e uma piscina que era maior que meu apartamento.
Ainda assim, eu não me sentia desconfortável ou descolada ao examinar cada detalhe de sua sala inteiramente branca. Eu devia estar há uns bons minutos observado deslumbrada uma estante envidraçada com alguns prêmios enchendo suas prateleiras.
Alguns BAFTAs, Globos de Ouro e, é claro… Um Oscar.
Meus olhos estavam cintilando e meus dedos tremendo ao encarar a estatueta de trinta e cinco centímetros de estanho folheado a ouro de catorze quilates.
Sim, esse era o tipo de conhecimento estranho que eu tinha.
Meu transe foi despertado pelo barulho dos passos de Leo contra o piso mármore, trazendo entre os dedos a taça de vinho que eu havia aceitado alguns minutos mais cedo. Peguei a taça de sua mão e ele deu alguns passos para trás, apoiando-se no sofá de couro para observar o meu encanto com aquelas prateleiras.
— Você não devia ter ganhado isso — apoiei para a estatueta do Oscar e, quando o olhei por cima dos ombros, ele me encarava com o cenho franzido.
— Como?
— Eu me expressei mal — balancei a cabeça, girando nos calcanhares e dando alguns passos em sua direção — Você devia ter ganhado isso antes.
Sua expressão suavizou e uma risada baixa reverberou de sua garganta.
— É, eu ouço isso bastante — ele levantou os ombros ao dar um gole em sua taças
— Quer dizer, sem ofensas, você estava espetacular em The Revenant…
— Mas… — a voz rouca me interrompeu e eu não pude evitar um sorriso.
— Mas você teve papéis melhores.
Ele apoiou a taça em uma mesa alta à esquerda só sofá. E então, com o sorriso habitual acompanhado pelos seus olhos levemente apertados, ele cruzou os braços e murmurou quase curiosamente:
— Estou interessado.
Dei um pequeno sorriso.
Eu não podia começar a conversar sobre cinema com ele, podia? Quer dizer… eu não iria mais parar se começasse.
— Eu amei você The Aviator e literalmente me apaixonei em Great Gatsby — me inclinei um pouco em sua direção, como se estivesse prestes a contar um segredo — Mas The Wolf Of Wall Street? Foi injusto! Todos sabem disso!
Eu não estava brincando. Lembro exatamente o que comentei com a minha melhor amiga, Riley, quando assisti o filme pela primeira vez.
Ele parece uma máquina atuando.
Podia não fazer muito sentido, mas fora exatamente o que pensei. A maneira que gesticulava e proferia as falas o faziam parecer uma máquina e aquela era uma das atuações mais incríveis que eu já havia visto na vida.
Ele soltou uma risada. E então, para minha surpresa, foi ele quem se inclinou para perto de mim dessa vez.
— Achei que diria que se apaixonou em Titanic.
— Certo, retiro o que eu disse. Realmente me apaixonei por você em Titanic.
— Você nem tinha nascido quando foi lançado…
— Ei! Eu tinha sete anos!
Dei um tapa fraco em seu braço para repreendê-lo, esquecendo por um momento quem estava em minha frente.
Mas lembrei no instante que meus dedos tocaram os músculos de seus braços, pois apenas ele poderia causar o frio na espinha que eu havia sentido.
Os olhos azuis magnetizaram os meus e eu queria entender o que eu estava mirando além de sua íris.
Me perguntei silenciosamente, então, o que eu estava fazendo ali. E porque eu estava pensando em beijá-lo, já que não era possível que ele estivesse pensando mesmo.
Era?
Seja qual fosse a resposta, senti o calor ondular desde a ponta dos meus pés até o bater desenfreado de meu coração quando ele deu um passo em minha direção, ficando perto o suficiente para que, dessa vez, eu de fato pudesse ler através de seus olhos.
E eles me diziam que, sim. Ele me beijaria.
— Você faz isso sempre? — ouvi minha própria voz sussurrar em um fio — Com as extras?
— Você acreditaria se eu dissesse que não? — o tom de voz arrastado fora o suficiente para imaginar todas as besteiras que eu estava disposta a ouvir dele. E, embora meus lábios tivessem externado um quase inaudível “não”, me vi fechando os olhos apenas com a sugestão de seu toque.
E a sugestão, em um instante, virou realidade. Senti a ponta dos seus dedos tocando meu queixo gentilmente. Abri os olhos, apenas para me perder no sorriso provocante que seus lábios haviam adotado.
Eu sabia que era necessário apenas mais um toque e eu estaria entregue. Eu queria estar entregue.
— Você poderia dar um sorriso pra mim? — a luxúria evidente em sua voz soou como uma ordem e um sorriso genuíno se formou em meus lábios — Bem melhor. Eu me pergunto o que dá pra prazer a uma mulher bonita como você. Se eu… — seus dedos deslizaram de meu queixo para o meu colo, acabando em um carinho terno no contorno dos meus seios — Te tocar aqui. Você gosta disso? — umedeci os lábios, hipnotizada demais pelo toque para fazer algo além de assentir levemente — Eu quero aprender o que te dá prazer. Quero aprender tudo sobre você. Você me deixaria fazer isso?
Eu conhecia aquele pequeno monólogo como a palma de minha mão. E ele sabia que eu conhecia.
Ainda assim, não deixou de ser efetivo.
Pois minha resposta veio em um pequeno gesto; encostei a ponta dos dedos levemente em seus ombros e as escorreguei pelo seu braço, sentindo o tecido macio do suéter sob minha palma. Envolvi seus pulsos e, em um movimento lento, posicionei suas mãos em minha cintura.
Eu, , estava prestes a beijar Leonardo DiCaprio. Era essa a sensação de estar no paraíso?
Eu não sabia qual era o gosto do paraíso, mas quando a maciez de seus lábios acariciam os meus, soube que aquilo era o mais perto que eu chegaria de descobrir.
Deixei-me envolver pela névoa de desejo que aquele homem emanava. As mãos, que antes me chamaram atenção por ser gentis, agora me levavam a loucura por serem firmes demais. Mas continuavam causando-me sensações etéreas.
Ele era etéreo.
Seu corpo. Seu toque. Seus sons.
Tudo nele me parecia celestial.
E, alguns minutos depois, senti-me de fato no céu ao ver seu corpo febril cair por cima do meu, concomitante às ondas de prazer que irradiavam frenéticas por minhas veias.
A realidade me atingiu somente enquanto eu tentava acalmar as batidas caóticas em meu peito. Deitei o rosto no seu peito nu, os olhos incapazes de não mergulhar no azul de seu olhar mais uma vez.
Um sorriso sincero cintilou em seus lábios. Seus olhos piscaram letárgicos, a tranquilidade me contagiando ao senti-lo passar os braços envolta do meu corpo.
E então eu adormeci nos braços do homem que me fez descobrir o que eu mais amava na vida; o cinema.
E algo que eu havia pensado mais cedo me atingiu em cheio quando, no dia seguinte, acordei com um beijo de Leo em meu rosto.
Mudar para Los Angeles significava, sim, muita coisa.
Porque algo como o dia de ontem só poderia acontecer em Hollywood.




Fim!



Nota da autora: Oi, amorzinhos! Bem vindas à fanfic mais fanfic que eu já escrevi hahahaha
Essa história surgiu em uma das minhas milhares noites de insônia; eu tinha acabado de reassistir the wolf of wall street e fui assistir o vídeo do Leo perdendo o Oscar INJUSTAMENTE por esse indicação. Depois assisti ele ganhando com revenant, comecei a chorar e pensei::::: meu deus, como seria conversar com o próprio sobre isso??? hahaha É uma carta de amor ao cinema e uma de admiração pro meu ator favorito. <3
Preciso agradecer imensamente a Dih, a Gabs e a Angel que fizeram ser possível essa fic entrar nesse especial maravilhoso, desse site maravilhoso com essa equipe maravilhosa <3 vocês são perfeitas, meninas!
E, pra quem nunca viu o Leo imitando as sobrancelhas do Jack Nicholson, riam comigo por favor: Vídeo hahahaha
Espero que tenham gostado da história! <3
Beijos enormes!







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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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