Contador:
Última atualização: 31/07/2020

Um

- À minha incrível habilidade de foder com tudo - proclamei ao estender a garrafa de vinho barato ao céu estrelado.

Na minha boca, o sal das lágrimas se misturou ao recém descoberto sabor amargo de um gole generoso de Hambledon.
Argh. Não pude evitar contrair os lábios em uma careta.
Vinho barato era uma droga.
Vinho barato inglês era pior ainda.
Um pouco mais abaixo, outra coisa insistia em se contrair - dessa vez em meu peito. Ignorando os protestos alcoólicos e os resmungos irritados de minha mente, meu coração me torturava em um martelar pesado e arrastado, reiterando o maldito motivo do meu estado deplorável.
Não era a primeira vez que eu escolhia a pior bebida da loja de conveniência e deixava as lágrimas correrem livres pelo meu rosto ao sentar no meio-fio em alguma das ruas mais movimentadas do centro de Londres. Algo no movimento frenético dos carros e no resplandecer das milhares de luzes me causavam um estranho sentimento de conforto.
Sem contar que a cena condizia exatamente com a maneira que me fazia sentir - turbulenta, intensa e incontestavelmente alentadora.
Meu corpo estava inerte e meu olhar perdido entre os faróis quando vi meu reflexo se formar gradualmente em uma superfície preta e espelhada. Eu sabia o que encontraria se movesse meu olhar apenas alguns centímetros para cima - no entanto, prolonguei a tortura de me observar.
A maquiagem preta escorria por minhas maçãs e meus olhos pareciam sonolentos, anestesiados. Eu parecia… Uma verdadeira bagunça.
Levantei o rosto, e estaria mentindo se dissesse que não senti meu peito esquentar quando o vi ali. Os olhos me fitaram e a realidade me atingiu em cheio, causando um tremor tão visceral que fez meu corpo inteiro arrepiar.
Não era tão simples com .
Não adiantava apenas sair correndo depois de uma briga, encher a cara na rua, mandá-lo me esquecer e achar que tudo ficaria tudo bem.
Não era tão simples porque, dessa vez, dois corações sentiam o impacto. E, pela primeira vez, um deles era o meu.

- Entra.

O tom de voz era calmo, como sempre. O olhar, não importando o quão merda eu havia sido, era afetuoso como sempre.
Dei mais um gole no vinho antes de deixá-lo na calçada e, dessa vez, o gosto não pareceu tão ruim. Um suspiro pesaroso fez-me colocar em pé e ajeitar a barra do vestido preto antes de tomar o lugar ao lado de no carro.
Meu namorado me esperava com um maço de cigarros e um isqueiro no colo. Precisei reprimir um sorriso discreto.
Como ele sabia exatamente do que eu estava precisando?

- Achei que estivéssemos tentando parar - minha voz saiu em um fio.

Estivéssemos. Nós. Era assim que fazíamos e dizíamos as coisas agora.

- É uma ocasião especial - ele, sim, deixou um sorriso fraco desenhar seus lábios.

O observei enquanto tirava um cigarro do maço e, atenciosamente, o levava à boca para acendê-lo. Segundos depois, estava posicionando-o entre meus lábios.
A primeira tragada após uma semana sem encostar em nicotina fez minhas entranhas relaxaram ao extremo. Senti meu corpo amolecer contra o banco de couro e meus olhos se fecharem automaticamente. Ao meu lado, um riso baixo escapou da garganta de .
Ele sabia exatamente o que eu estava sentindo.

- Sabe… - abri os olhos e me virei no banco para conseguir olhá-lo melhor - Você não precisa ser tão legal comigo.
- Não faça isso, - a voz arrastada veio acompanhada de seus dedos, que tocaram delicadamente meu rosto em um carinho acolhedor - Não tente me afastar de você.

Um sorriso fraco se formou em minha boca enquanto eu apoiava meus dedos sobre os dele em meu rosto, devolvendo o carinho. Com a outra mão, encaixei o cigarro entre os lábios de e ele tragou.

- Não estou fazendo isso. Ao menos não conscientemente. É só que... - e mais uma tragada definitivamente necessária - Eu não me lembro da última vez que passamos uma semana sem brigar, . Quer dizer, eu nem ao menos lembro porque brigamos hoje.
- Porquê…
- Não - o interrompi, levando meus dedos depressa aos seus lábios - Não quero lembrar. Mas você entendeu meu ponto, não entendeu?

O silêncio lancinante me fez entender que sim.
demorou o olhar em meu rosto por alguns segundos e deu um suspiro antes de tirar o branquinho de minha boca. Ele ligou o carro e, depois de duas tragadas, segurou-o novamente para mim antes de jogar fora.
Ele sempre me dava a última tragada.
Era uma das nossas maneiras de dizer “eu te amo”. E era algo tão íntimo e singular que, todas as vezes, fazia uma faísca de paixão farfalhar em meu peito.
Passei os vinte minutos que nos levaram para casa observando as ruas passarem como um borrão pela janela. Me peguei pensando em quem eu era há dois anos, andando por aí com o coração blindado e sentimentos impermeáveis.
Milhares de perguntas enchiam, gradualmente, minha cabeça - e todas elas levavam para o mesmo lugar: o que acontece depois que encontramos o amor? E quais são os sacrifícios necessários para mantê-lo vivo?
Era um tanto irônico que eu, parcialmente cética sobre a existência de tal sentimento, agora não só pensasse, mas também vivesse tanto ele.
segurou minha mão quando saímos do carro, e nossos dedos permaneceram entrelaçados até a porta de entrada do loft.
Sempre ouvi que lar não era exatamente um lugar, e sim um sentimento.
me proporcionava as duas coisas.
Assim como eu me sentia em casa em seu abraço, o espaço que havíamos construído para nós dois sempre me envolvia em um aconchego impressionante.
Me sentia em casa quando acordava e o bálsamo do café que preparava pra mim todas as manhãs se espalhava pela sala. Forte e amargo, como ele sabia que eu gostava.
Me sentia em casa quando entrava no banheiro e o cheiro almiscarado da sua loção pós barba insistia em me inebriar.
Me sentia em casa quando eu não conseguia dormir e colocava Breakfast At Tiffany’s na televisão, e me observava mover os lábios com as falas até cair no sono.
Me sentia em casa quando olhava para a nossa parte preferida daquele apartamento - a janela da sala, que ia do chão ao teto, e fora a responsável por dormirmos inúmeras noites no carpete, preocupados apenas em observar a beleza celestial até o amanhecer.
Naquele dia, quando atravessei a porta e olhei o porta retrato azul com a foto que havíamos tirado no casamento de Bex, um sentimento estranho pulsou por minhas veias e bateu direto em meu coração.
Eu não queria perder aquilo. Não queria e não podia perder o tal sentimento de lar que ele e só ele era capaz de me causar.
E eu sabia o que eu precisava fazer para que isso não acontecesse. A resposta estava dançando no fundo da minha mente e entalada no nó em minha garganta há, pelo menos, três brigas - mas eu não tinha a coragem necessária para externar.
Quando estava pronta para subir as escadas que ligavam a sala ao quarto e levei uma das mãos ao rosto na tentativa de limpar a maquiagem borrada em meus olhos, senti atrás de mim. Não tive muito tempo para raciocinar - em um instante, ele segurou meu pulso e me trouxe para perto de si. Nossos corpos colidiram e meu olhar fora magnetizado pelo seu.
Não sei como fazia isso mas, mesmo olhando em seus olhos diariamente, as borboletas ainda se mexiam em meu estômago toda vez que eu encarava a intensidade de suas íris .

- Não precisa fazer isso. Você está linda.

O murmúrio quase sensual fez um calor se espalhar pelo meu corpo. sempre dizia que gostava da minha maquiagem bagunçada, meus cabelos despenteados e as roupas desajeitadas.

- Você é meu namorado. É meio que obrigado a achar isso.
- Pare de bancar a espertinha - ele apertou a ponta do meu nariz. Suas mãos, antes roçando nas minhas deslizaram para minha cintura e a sensação serena invadiu meu corpo assim que ele me abraçou contra si.
- No que está pensando, ? - minha boca se moveu a milímetros da dele.
- Eu, você, uma cama - as mãos escorregaram para minha bunda e posso apostar que um sorriso iluminou o meu rosto - Sexo de reconciliação.

Um grito agudo escapou pela minha garganta quando ele apertou meus quadris e, em segundos, meus pés não tocavam o chão. Envolvi minhas pernas na cintura de enquanto ele me carregava escada acima e eu aproveitava para me deliciar com a visão dos seus bíceps flexionados.
Quando achei que ele me jogaria na cama e deitaria por cima de mim, meu namorado me depositou na ponta do colchão como se eu fosse um objeto frágil. Deu um beijo leve em meu pescoço e, sem dizer nada, se afastou.
Estreitei os olhos, sem entender porque ele não estava deslizando para dentro de mim nesse instante.
sacou o maço de cigarros e o isqueiro do bolso. Ainda sem procurar meu olhar, acendeu um e o jogou o restante no chão de qualquer jeito. Estava prestes a dizer alguma coisa quando ele abriu os botões da camisa branca e da calça jeans.
A visão me fez morder o lábio e sentir uma pontada aguda no meu sexo.
fumando já era uma cena sensual.
fumando, com o abdômen à mostra e o volume na cueca branca parcialmente aparecendo era exageradamente sensual.

- Acho que você tem razão - os olhos, finalmente, encontraram meu rosto. Quando me concentrei em sua íris, encontrei exatamente o que procurava; uma carga absurda de luxúria.

Deixei um sorriso libidinoso tomar meus lábios e cruzei as pernas, com a consciência de que ele teria uma bela visão das minhas coxas.

- Eu normalmente tenho razão.

Uma risada irônica tremeu seus lábios. Ele deu mais uma tragada antes de dar três passos em minha direção. Quando parou em minha frente, inclinou o corpo para baixo e apoiou a mão em minhas coxas.

- Tenho sido muito legal com você - com os lábios roçando nos meus, o tom sujo que pronunciara as palavras fez minha calcinha ficar ainda mais molhada do que instantes atrás.

Como se lesse meus pensamentos, ele me fez soltar um gemido abafado quando os dedos deslizaram repentinamente para o meio de minhas pernas.

- … - arfei seu nome quando ele pressionou os dedos contra o tecido, provocando o mínimo de fricção.
- Está louca pra que eu coma você, não está? - o murmúrio rouco reverberou no desejo corrente em meu corpo e meus quadris se moveram para frente automaticamente, procurando seus dedos. Me limitei ao possível; assenti com a cabeça ao umedecer os lábios e fechar os olhos - Então prove que merece.

Abri os olhos de uma só vez, apenas para encontrar seu sorriso devasso me provocando.
Era uma das coisas que adorava fazer - me provocar. E eu? Eu simplesmente amava ser provocada por ele.
Ele segurou em meu pulso para me colocar de pé, imediatamente ocupando o lugar em que eu estava sentada.
Com o lábio inferior preso nos dentes, passei as mãos lentamente pelo corpo, aproveitando para apertar meus seios e fazê-los explodirem ainda mais no decote. Quando alcancei os ombros, deslizei as alças do vestido pela minha pele e o puxei sutilmente para baixo, deixando meus seios à mostra.
Meu namorado se remexeu na cama, o cigarro pendendo entre os lábios e os olhos brilhando de volúpia ao observar meu corpo com atenção. No meio das pernas, a ereção parecia querer rasgar o tecido brando da cueca.
Um pequeno sorriso de vitória tomou meus lábios. Virei de lado e empinei a bunda para escorregar o vestido por minhas coxas. Me aproximei de e, lenta e superficialmente, ocupei o lugar em seu colo.
Dois suspiros em uníssono preencheram o silêncio do quarto quando pressionei levemente minha bunda contra ele. E então comecei a me movimentar lentamente, a excitação crescendo dentro de mim enquanto rebolava no seu pau e sentia o volume em minha bunda.
Era delicioso.
Assim como o gemido rouco que soltou no pé do meu ouvido.
Caralho.
Eu simplesmente precisava senti-lo dentro de mim. E sabia exatamente qual carta jogar.
Dedilhei o colchão até encontrar sua mão, que segurava os lençóis com força, provavelmente na tentativa de se controlar. Segurei-a e a trouxe para perto de mim, guiando-a entre minhas pernas. Com um sorriso que gritava perversão, coloquei seus dedos por dentro da minha calcinha para que ele pudesse sentir como me deixava.

- Puta merda, você está tão molhada - o urro, tão perto, fez meu corpo estremecer.

Eu soube que, de alguma forma, tinha ganhado o jogo depravado quando senti um dos braços de envolver minha cintura. Antes que eu pudesse ter qualquer reação, ele me segurou com força e girou meu corpo, fazendo-me cair deitada na cama. Em um segundo, se livrou de uma vez da camisa e jogou a calça e a cueca em qualquer canto do quarto. Ele ainda tinha menos da metade do cigarro queimando entre os dedos e aquela parecia a visão do paraíso.
Ele se inclinou em cima de mim, direcionando os primeiros beijos para minhas coxas. Segundo depois, uma beijo demorado em minha intimidade fez meu corpo formigar. Seus dedos vieram depois, dedilhando toda pele desde o meu pé até a barra de minha calcinha. Cada novo pedaço que ele tocava parecia provocar um diferente tipo de explosão erógena em meu corpo.
Quando parou por um segundo, segurando o elástico de minha calcinha com as duas mãos e os olhos, dessa vez escurecidos pelo desejo, me encararam, eu soube o que estava por vir.
Um puxão preciso foi o necessário para a renda preta e delicada se rasgar.
Ah,
Soltei uma risada parcialmente nublada pela libido que comandava meu corpo.

- Você não pode continuar fazendo isso - sussurrei, segurando em seus cabelos - Vou ficar sem calcinhas.
- Não tenho problema nenhum com isso.

Nossos olhares se encontraram por um ínfimo instante. Ínfimo porém suficiente para, por baixo da luxúria, encontrarmos o carinho extremo que sentíamos um pelo outro.
Silenciosamente, pedimos desculpa pela briga de mais cedo.
Silenciosamente, dizíamos que amávamos sexo de reconciliação.
Com um sorriso genuíno, veio ao encontro de minha boca. Quando achei que fosse me dar um beijo, ele deu uma tragada no cigarro. Seu olhar penetrou o meu da maneira mais intensa possível. Com os lábios praticamente grudados nos meus, ele soprou a fumaça lentamente em minha boca, parcialmente aberta para recebê-la.

- Juro que não vou parar até você estar tremendo - a frase arrastada antecipou um beijo.
- Até eu estar gritando?

não respondeu. Apenas colocou o cigarro entre meus lábios e roçou o pau na entrada da minha boceta por alguns segundos antes de deslizar de uma vez para dentro de mim.
E Ai. Meu. Deus.
Descobri o nirvana.
Sexo e cigarro era a combinação secreta para o paraíso. Senti meu corpo, de alguma forma, se contrair e relaxar ao mesmo tempo.
Nossos lábios buscaram um ao outro em sincronia, e o beijo que recebi fora tão escaldante que quase me deixou sem ar. Com um movimento lento de vai e vem com os quadris, levou uma mão ao meu seio e o apertou de leve, esfregando o mamilo com o polegar. Tudo o que ele fazia com meu corpo era tão gostoso que eu mal sabia em qual sensação me concentrar. Suas mãos deslizaram pela minha pele tórrida enquanto as estocadas iam, gradualmente, se tornando mais fundas e mais rápidas.
Espasmos percorrerem por cada canto do meu corpo quando seus dedos tocaram meu clitóris e as investidas adotaram o ritmo frenético que nós dois tanto gostávamos.
Os gemidos de prazer explodiram por minha garganta.
Os urros de concupiscência de reverberaram em meus seios.
Quando ele colocou um pouco mais de pressão em seus dedos, estremeci de prazer. E quando ergui meu quadril, a fim de receber ainda mais dele, sua mão apertou minha cintura com força e pude dizer que ele estava perto.
E eu também.
A excitação aguçada começou fundo dentro de mim e rapidamente se espalhou, dançando pelo meu corpo e fazendo todas minhas zonas erógenas estremecerem.

- ...

O clímax me atingiu com o nome de nos lábios. E gozou com o som trêmulo da minha voz.

-

- No que está pensando?

Seria incapaz de dizer há quanto tempo estávamos deitados, afundados em um mar de carícias, sem perspectiva de encontrar a superfície.

- Minha mente é um lugar meio assustador…
- Você está fazendo aquilo de novo. Está me afastando.
- Não estou te afastando. Você estava dentro de mim minutos atrás.
- Linda…

O apelido carinhoso em forma de advertência me faz suspirar.
Me remexi entre os lençóis, tirando com dificuldade a cabeça apoiada em seu peito apenas para deitar ao seu lado, apoiando o rosto na palma da mão para que assim pudesse vê-lo perfeitamente.
Levei a outra mão de encontro ao seu tronco nu e dedilhei o caminho delicioso de seu peitoral e abdômen, sentindo todos os relevos que já estava tão acostumada.

- Estava pensando que já conheço todas as suas cicatrizes de cor… - passei o indicador diversas vezes por um corte mínimo, bem em seu peito - De cor… Quer dizer “de coração”. Não é bonito?

Um sorriso divertido brincava nos lábios de .
Ele envolveu minha mão com a sua, e então a guiou até sua boca apenas para depositar um beijo carinhoso em minha palma.

- Eu te conheço de coração o suficiente para saber que não é isso que tá te incomodando - seu polegar me fez um carinho reconfortante - Você não confia em mim?

Não precisei de um segundo para responder com convicção. Céus, como eu confiava naquele cara.

- Claro que sim.
- E então…?

O olhar magnético de , penetrando tão diretamente no meu, me desestabilizou. Se eu tinha aprendido algo nos últimos dois anos era que ele tinha plena consciência de suas qualidades e problema nenhum em usá-las ao seu favor.
Os olhos era a principal delas.
Uma piscada mais rápida e eu contava todos os segredos do universo sem pensar duas vezes.
Ótimo pra mim.
Fechei os olhos com força por um instante. Todos os pensamentos angustiantes de mais cedo vieram à tona de uma só vez.
O que acontece depois que encontramos o amor? E quais são os sacrifícios necessários para mantê-lo vivo?
Eu não queria perdê-lo. E, desde três brigas atrás, sabia exatamente o que precisava fazer para isso não acontecer.
Um suspiro consternado me fez abrir os olhos.

- Está tudo bem?

Só percebi que eles estavam marejados depois de sua indagação desesperada.
Não estava tudo bem. E o que eu estava prestes a falar ia deixar tudo ainda pior.

- Promete que não vai me odiar?
- Eu nunca seria capaz disso.

Demorei um segundo em seus olhos.
Então me sentei na cama e prontamente repetiu meu movimento. Entrelacei meus dedos nos seus e, apenas por pensar no que eu ia dizer, meu peito se apertou com tanta força que minhas costelas doeram.

- Eu acho que a gente vai estragar tudo, . A gente tem brigado tanto e cada discussão parece me colocar um passo mais longe de você. Eu não quero te perder. Céus, eu realmente não quero te perder. Mas eu acho que vou dar um jeito de foder com tudo se continuarmos brigando e… - levei um segundo para respirar mais fundo e deixar uma lágrima rolar pelo meu rosto - Por isso eu acho que precisamos de um tempo separados. Não terminando nem nada do tipo, só… Um tempo para nós mesmos. Para ver como a gente fica sem o outro.

Pude ver a infelicidade turvando os olhos de .
O silêncio, ensurdecedor, pairou no quarto por alguns instantes. O som baixo do meu choro tentava, sem sucesso, preencher a quietude. À minha frente, encarava qualquer ponto aleatório no colchão.

- Não posso dizer que não tinha pensado nisso antes, mas…
- Eu sei.

Sim, eu sabia.
E externar, colocar em palavras, deixava a merda toda mais real. Mais assustadora.
Mantive meu olhar no dele por alguns instantes. Procurei alguma coisa em seus olhos, mas estremeci ao perceber que só havia tristeza ali.
O meus não deviam estar tão diferentes.

- Eu te amo - seu sussurro saiu embargado e eu senti raiva de mim mesma por quase fazê-lo chorar - Você sabe disso, não sabe?

Suas palavras penetraram em meu peito e se aninharam à sensação que vivia ali; à sensação que pertencia a ele e a ninguém mais.
Assenti com a cabeça, tentando, sem sucesso, me livrar das lágrimas.

- Eu te amo, - minha voz saiu quase inaudível quando me joguei em seus braços, buscando o conforto conhecido de seu abraço apertado - Por favor, não faça isso soar como uma despedida.
- Não é um tempo do relacionamento - sua voz saiu abafada pelos meus cabelos - É um tempo para nós dois, certo?
Concordei freneticamente com a cabeça.
- E se a gente ainda achar que funcionamos melhor juntos do que sozinhos, voltamos.

Passei aquela noite me revirando na cama, pensando em quanto tempo levaria até dormirmos lado à lado novamente.
À uma da manhã, julguei ser extremamente injusto duas pessoas que passaram por tanto para ficar juntas decidirem se afastar agora.
Às duas, lembrei de algo importante que constatei nos meus anos de relacionamentos fracassados.
O amor raramente era justo.
E era exatamente por isso que eu sempre tentava me afastar dele.

-

Quase voltei atrás quando, na manhã do dia seguinte, me levou à porta do loft e me deu o beijo mais saudosamente antecipado que eu já havia recebido em minha vida.
Abracei meu namorado e me perguntei porque estava fazendo aquilo. Porque correr o risco de deixar nosso relacionamento escorrer pelos dedos quando o tínhamos tão seguro em nossas mãos?
Mas então recobrei a consciência quando olhei em seus olhos e lembrei que provavelmente não conseguiria seguir sem a perspectiva de olhá-los novamente.
E recordei o óbvio. O relacionamento já não estava tão seguro assim.
E era apenas um tempo. Um respiro. Uma maneira de tentar ser pragmática. Uma tentativa de cessar as brigas.
Ainda assim, uma única pergunta incômoda batia no fundo do meu peito.
E se realmente achar que fica melhor sem mim?

- O que aconteceu? - um Matthew desesperado apareceu na porta, dissipando meus devaneios preocupados.

Na noite passada, tinha combinado com que ele ficaria no loft e eu iria para casa de Matt.
Dei um sorriso amarelo quando os olhos do meu irmão foram das duas malas em minhas mãos para os rastros de lágrimas em meu rosto.

- Posso passar um tempo aqui?

Dois


- Parece que eu tenho jeito com crianças. Quem diria?

A criaturinha delicada sentada em meu colo deu uma risada sonora, apertando os adoráveis olhinhos verdes em minha direção, como se entendesse perfeitamente o que eu dizia.

- Crianças geralmente se dão bem com outras crianças - a voz de Ethan ecoou gracejante do outro sofá, onde ele e Bex dividiam um enorme copo de milkshake de morango.
- Arhg. Vocês são tão fofinhos que me dão enjoo. Dividir o milkshake não é um pouco Grease demais? - fiz uma careta exagerada, o que acabou arrancando mais uma gargalhada de Dylan em meu colo.

Eu não estava falando sério.
Ao menos, não tão sério assim. A minha felicidade era inegável ao ver que minha melhor amiga tinha conquistado a exata vida que sempre sonhara. Um marido esplêndido, um filho maravilhoso e felicidade transbordando em seus olhos.
Bex e Ethan tinham um talento extraordinário para o amor e uma prontidão para o romance que eu nunca vi em qualquer outro casal.

- Me lembre mais uma vez porque você e resolveram “dar um tempo” - Bex desenhou aspas no ar com as mãos.
- Acho que estou tentando ser madura ao menos uma vez na vida e fazer a coisa certa antes de estragar tudo - levantei os ombros - merece o melhor e preciso conseguir ser o melhor pra ele.

Eu não precisava prestar muita atenção para saber que Bex havia segurado um suspiro entusiasmado. Ela simplesmente adorava quando eu dizia coisas… Argh, fofinhas.

- Se quer minha opinião, acho que você está certa - Ethan apoiou o copo já vazio na mesa de centro e passou o braço pelos ombros da esposa - Nunca te vi tão feliz com alguém como te vejo com ele. Não acho seja uma decisão ruim, apenas uma forma de proteger o relacionamento de vocês.
- Ethan, você me ganhou quando disse que eu estava certa - dei um sorrisinho e vi Bex balançar a cabeça negativamente; embora o sorriso continuasse em seu rosto.

Dylan começou a fazer barulhinhos engraçados ao puxar os botões do meu casaco de tricot e tentar mordê-los. Como tudo que ele fazia podia ser tão encantador? Eu quase podia sentir meu útero se contrair enquanto minha mente o repreendia.

- Ethan e eu já demos um tempo - Bex deu um pequeno sorriso, me fazendo arregalar os olhos.
- Espera. Como eu nunca soube disso?
- Bom, durou exatas duas horas - seu sorriso aumentou enquanto deitava a cabeça no ombro do marido - Mas estamos juntos, não estamos?
Estreitei os olhos na direção dos dois. Duas horas? Fala sério.
- Eu odeio vocês - rosnei baixinho, embora estivesse pensando que aquele devia ser um bom sinal. Se até o casal perfeito já havia passado por isso, ainda havia esperança para o resto de nós - Certo, vamos a o que interessa. O que preciso fazer pra vocês deixarem eu ficar com o Dylan por uma semana?

-

Matt não estava em casa. Ele havia me mandado uma mensagem mais cedo sobre passar a noite com alguém que havia conhecido no início da semana.
Nada surpreendente.
Ao deitar em minha antiga cama na casa que um dia dividi com meu irmão, me vi arrependida por não ter aceitado o convite de Bex para dormir em sua casa.
Eu não gostava de ficar sozinha.
Odiava contemplar o silêncio.
Combinada à solidão, a quietude podia incutir os pensamentos mais assombrosos na mente de qualquer um. Por isso eu, que nunca fui fã dos meus próprios pensamentos, sempre preferi o movimento frenético do caos.
Mas eu não precisava ir muito longe e nem poetizar o agora pra entender o que eu estava sentindo.
Era simples.
Saudades de .
Era estranho não estar em nossa casa. Estar deitada, prestes a dormir, e não sentir o calor do seu corpo junto ao meu. Fechar os olhos, respirar fundo e não sentir o aroma mentolado que há tanto havia se tornado sinônimo de conforto para mim.
Vi meu corpo agir no automático quando meus dedos alcançaram o celular na pequena mesa redonda ao lado da cama. E não fiz nada pra impedir. No entanto, quando estava prestes a tocar no primeiro número da discagem direta, o nome de brilhou na tela quando o aparelho começou a tremer.
Como se nossos pensamentos estivessem conectados.
Não, pensamentos não. Corações.

- O tal tempo significa que não podemos nos falar por telefone também?

Como se sua voz tivesse instantaneamente apertado os botões certos para que eu atingisse a felicidade, comecei a sorrir.

- É só o segundo dia. Acho que a desintoxicação tem que ser feita aos poucos, se não podemos sofrer abstinência.
A risada rouca ecoou pela linha e eu tive vontade de correr para os seus braços.
- O que está fazendo, linda? - eu só precisava ouvi-lo para saber que tinha um sorriso desenhando seus lábios convidativos. E então mordi o meu, imaginando a cena.
- A verdade?
- Sempre.
Um sorriso genuíno fez-se em meu rosto enquanto eu segurava entre os dedos o colar que pendia de meu pescoço.
- Estava pensando em você.
Mais uma risada atingiu meus ouvidos. Dessa vez, discreta e convencida.
- Pensamentos pervertidos?
- Uau. sabe mesmo como cortar o clima.
- Estou apenas criando um outro tipo de clima.
- É inútil quando não posso te tocar, - rolei os olhos ao tentar soar brava, embora estivesse com vontade de rir.
- Não pode me tocar? - ele soou levemente indignado - Não sabia que funcionava assim. Acho que precisamos rever as regras.
E agora eu estava definitivamente rindo.
- Boa noite, amor.

Um gemido quase sôfrego escapou da garganta de .
Eu não o chamava assim sempre - apenas quando estava tão absorta no momento que era impossível de controlar; e ele sabia disso.
E eu sabia que ela adorava quando a tal palavra me escapava.

- Boa noite, linda.

Mesmo após ouvir o bipe da ligação sendo finalizada, continuei segurando o celular em meu ouvido com um sorriso congelado nos lábios.
Como a garota apaixonada que jurei que nunca seria.
Ah, o efeito .
Com apenas uma ligação, ele havia conseguido mudar meu humor.
De repente, eu não odiava o silêncio tanto assim.
De repente, meus pensamentos já não eram tão brutais.
Com um suspiro relaxado, apoiei meu celular de volta na mesinha e fechei os olhos, determinada a adormecer.
Mas eu sabia que não seria fácil.
Alguns segundos e os olhos de já haviam tomado conta dos meus pensamentos.
Não apenas em cenários randômicos ou qualquer forma vazia de se pensar em alguém.
Eram lembranças.

-

Londres, dez meses atrás

Tinham rastros vermelhos por toda a extensão das costas de .
Correção.
Tinham rastros vermelhos por toda a extensão das costas e da bunda de .
Procurei minhas mãos, descansando ao lado do meu rosto entre os lençóis, apenas para constatar o que eu já sabia: uma unha pintada de preto quebrada ao meio.
Uma risada um tanto incrédula escapou de minha garganta.
Ai. Meu. Deus.
Eu havia mesmo quebrado uma unha transando com meu namorado?
Bom - eu podia, é claro, colocar a culpa nele. Havia algo em datas comemorativas que o deixavam especialmente… Pervertido. Por isso, já era de se esperar que algo amanheceria quebrado quando ontem, minutos após a meia-noite, se aproximou de mim com olhos mais escuros do que de costume e o sorriso atravessado que eu sabia ter apenas um significado.
Meus olhos ainda estavam fixos nos arranhões avermelhados em suas costas quando ele se mexeu ao meu lado. Com a expressão sonolenta mais linda que eu já havia visto na vida, fez uma careta ao tentar abrir os olhos e levou uma das mãos instintivamente para tatear as costas.

- Por que estou dolorido? - a voz rouca se arrastou para meu ouvido como música.
- Desculpe - disse baixinho, com um inevitável sorriso no rosto.

Ele pareceu ter entendido o que havia acontecido no instante seguinte, pois sua expressão suavizou e seus olhos abriram-se um pouco mais. Com um sorriso, ele arrastou o corpo para perto de mim, deitando de lado ao apoiar o rosto nas mãos e me encarar.

- Hoje é…
- Não. Nem pense nisso - entortei os lábios, colocando o indicador em seu peitoral nu - Por favor, não mencione meu aniversário e nem o número vinte e cinco.
O sorriso em seu rosto aumentou.
- Não é tão ruim assim - a ponta dos seus dedos tocaram meu ombro em um carinho aprazível.
- É fácil pra você falar. Faz tipo três décadas que você completou vinte e cinco. Teve tempo o suficiente para superar.

Seus dedos rapidamente escorregaram dos meus braços para minha cintura, e, em um movimento célere, me trouxe para perto de si.

- Quero ver você chegar aos trinta tão bem quanto eu - ele encostou a testa na minha, a provocação evidente em sua voz.

Mordi o lábio inferior ao sentir nossas respirações se misturarem. Era a receita para loucura junto à imagem do corpo irretocável de que havia acabado de surgir em minha mente; era verdade, ele era nada mais do que incrível. Ansiando por sua boca, fechei os olhos e selei nossos lábios, pressionando-os ligeiramente com força.
E então gemeu.
Não um gemido de prazer; era, claramente, de dor.

- O que aconteceu? - praticamente gritei ao me separar dele, e então o vi colocar os dedos nos lábios enquanto um enorme sorriso começava a se formar em seu rosto.

No mesmo instante, o gosto de ferro tomou conta de minha boca.
Ah, mas é claro.
Eu não havia apenas deixado marcas pelo seu corpo inteiro.
Meus dentes haviam feito um belo estrago em seu lábio inferior também.
E eu podia ver em seus olhos que ele estava simplesmente adorando isso.

-

Toda a conversa de estar abalada por fazer vinte e cinco anos era apenas um pretexto para a incontestável verdade: eu odiava aniversários.
Algo sobre ser o centro das atenções por vinte e quatro horas me deixava incomodada.
Eu detestava atender ligações de felicitações. Odiava ter que abrir presentes e fingir gostar deles. Repelia a possibilidade de, no meio do escritório ou ao entrar em casa, alguém surgir com um bolo cheio de glacê em mãos cantando Parabéns Pra Você e eu precisar congelar um sorriso no rosto sem saber ao certo que fazer.
No entanto, , meu irmão e meus amigos eram categóricos em não querer deixar o dia passar como qualquer outro.
Eu não via problema algum nisso.
Por isso, o consenso que conseguimos chegar fora fazer um pequena reunião apenas para os amigos mais próximos. Uma desculpa para beber um pouco e botar a conversa em dia; sem parabéns, presentes ou qualquer coisa que remetesse a um aniversário.

- Cara, o que aconteceu com seu lábio? - sentado no sofá ao lado de , Brandon estreitou os olhos ao examinar o pequeno corte inchado na boca do meu namorado.

Dei um gole na garrafa de cerveja entre meus dedos, segurando o riso.

- Sexo - disse simplesmente e eu senti minhas maçãs esquentarem.
Um gritinho levemente horrorizado escapou da garganta de Bex.
- Eu não preciso ouvir esse tipo de coisa - resmungou Matt, entre os dentes, provocando uma risada em uníssono.
- Respondendo sua pergunta de mais cedo, Brandon, é por esse tipo de coisa que deixei Dylan com minha mãe - sentada em uma das poltronas ao lado de Ethan, Bex apontou pra .
- Ele tem um ano. Ele não sabe o que sexo significa - contestou Brandon entornando sua cerveja.
- Ele está na fase de tentar repetir tudo o que ouve. Já pensou se a primeira palavra dele for sexo? - minha amiga soou genuinamente aturdida e um sorriso igualmente genuíno tomou meus lábios. Ela era uma ótima mãe.
- Certo. Isso seria demais - Matt decretou, provocando em Bex um suspiro frustrado.
- E é por isso que não deixamos você sozinho com ele por muito tempo - Ethan apontou com a garrafa para meu irmão.
- Se prepare, pois quando ele estiver mais velho serei o tio descolado que vai ensinar para o pequeno o que é a vida - com um sorriso travesso, Matt flexionou os braços atrás da cabeça.
- Até lá eu consigo uma restrição para manter você longe do meu filho - minha amiga rolou os olhos.
Embora seu tom fosse cínico, eu desconfiava que ela podia mesmo estar falando sério.
- Ei - senti os dedos de cutucarem minha cintura levemente - Você está quieta. Está tudo bem?
Meneei a cabeça, assentindo.
- Só estou pensando no quanto tenho sorte por ter vocês.

sorriu, me apertando um pouco mais forte contra o seu corpo em um abraço.
Eu estava mesmo pensando nisso.
Bem, nisso e na ausência de alguém importante naquela sala.
Eu havia convidado .
Não podia dizer que fora uma surpresa ele não ter aparecido. Não era como se fossemos e de dois anos atrás; muito menos de três ou quatro.
Mas ainda éramos amigos. Ou, ao menos, ainda tentávamos ser.
E ele sempre estava por perto quando íamos a um bar ou nos reuníamos em alguma praia durante o fim de semana.
Talvez eu tivesse colocado na cabeça a ideia fixa de que vê-lo hoje, presente em minha casa, no meu aniversário, era algum tipo de ritual de passagem que deixaria todo o passado em seu lugar e pudéssemos seguir sem ressentimento algum.
Mas ele não apareceu. Portanto, sem progresso.
Eram pouco mais de onze horas da noite quando eu e ficamos sozinhos novamente. Estávamos terminando de arrumar os copos e garrafas espalhados pela sala quando ele me surpreendeu ao segurar minhas mãos e sentar em uma das poltronas cinzas, me trazendo junto consigo e me aconchegando em seu colo.

- Você ficou chateada porque ele não veio, não foi? - seus dedos deslizaram pelos meus braços até chegarem em meu rosto.
Como ele me conhecia tão bem?
- Um pouco…
- Não fique assim - ele roçou o polegar no alto de minhas maçãs ao sussurrar com a voz suave - Eu também ficaria receoso no lugar dele. E perdoar alguém por completo leva tempo.
- Como você consegue ser um namorado tão compreensivo? - apoiei as mãos em seu pescoço, retribuindo o carinho.
- É um dom - ele levantou os ombros, me fazendo rir.
- Seus lábios ainda estão doendo ou já posso te beijar? - aproximei nossos rostos brevemente e vi um sorriso fazer seus olhos brilharem quando nossos narizes encostaram.
- Algumas dores valem à pena.

Antes que eu pudesse pensar, havia percorrido a mínima distância entre nós e envolvido meus lábios em um beijo terno e que me fazia transbordar de amor. Apertando meu corpo contra o seu, eu soube que estava exatamente onde eu devia estar e com quem eu deveria estar.
E essa era uma certeza que eu nunca havia sentido antes.
Um sorriso gracioso brincava em seus lábios quando nos separamos e seu olhar, tão visceral e estonteante quanto eu ainda estava tentando me acostumar, encontrou o meu.

- Ainda falta uma coisa pra encerrar o dia.
- Sexo? - dei um sorrisinho devasso, provocando um riso nele.
- Certo. Faltam duas coisas para encerrar o dia.

Em silêncio, o vi colocar uma das mãos no bolso do casaco e tirar de lá uma caixinha azul turquesa. Ele a colocou na palma da mão e a estendeu para mim.
As inscrições em preto formavam o desenho com o qual eu tanto estava familiarizada.
Tiffany’s.
Meu coração parou por um instante. E então começou a martelar em meu peito da maneira mais descompassada e frenética o possível.

- Isso não é…
- Abra.

Meus Dedos tremeram e minha boca ficou seca.
me conhecia.
sabia que isso não era o que eu queria.
Bom, também… E veja só aonde paramos.
Um pequeno nó se formou em minha garganta enquanto meus dedos vacilavam no caminho entre os ombros de e a temida caixinha azul.
Tirei a tampa com cuidado e prendi a respiração.
Havia, de fato, um anel.
Mas não era um anel de diamantes.
E nem um anel com diamantes.
Era uma pequena aliança prateada, com nada além da palavra amor adornando-a, gravada na tradicional caligrafia inglesa antiga.
Um sorriso começou a se formar em meus lábios enquanto eu sentia meu corpo voltar a se acalmar.

- , isso é… - sussurrei ao tocar delicadamente o quase imperceptível relevo de quatro letras, admirando a peça.

Quando voltei meu olhar para , vi que ele também sorria; mas, em vez de observar a caixinha, ele me observava.
Meu namorado pegou em minha mão e tocou minha cintura para que eu levantasse. Paramos no meio da sala, frente a frente, a caixinha ainda em suas mãos.

- É uma antiguidade. Realmente veio em um pacote de Cracker Jack décadas atrás - seus dedos tocaram o anel, tirando-o da caixinha - Mas eu realmente mandei gravar na Tiffany’s. Exatamente como…
- Como em Breakfast At Tiffany’s.

O sorriso mal cabia em meu rosto. Em meus olhos, algumas lágrimas quase transbordavam.

- E eu não queria que você tivesse a ideia errada ou algo do tipo por usar no dedo, então… - sua mão entrou e saiu do seu bolso novamente, dessa vez com uma reluzente corrente prateada pendendo do dedo indicador.

Eu ainda estava sem palavras quando encaixou o anel na corrente e tocou delicadamente meus ombros para que eu virasse de costas para ele.
Meu corpo inteiro estremeceu quando ele colou seu peitoral em mim e seus dedos roçaram em meu pescoço para trazer os meus fios longos para o lado. Ele encostou o dedo indicador em minha nuca e o deslizou para baixo, fazendo-me arfar baixinho. E então depositou um beijo no mesmo lugar e, em um segundo, eu estava nas nuvens. Só então ele encaixou a corrente em meu pescoço, posicionando-a com delicadeza e me fazendo sorrir ao olhar, ainda deslumbrada, para o pingente em meu colo.
Respirei fundo, ainda tentando absorver todo o cuidado e carinho que aquele pequeno gesto envolvia.
apoiou o queixo em meu ombro e deu mais um beijo suave na curva de meu pescoço ao sussurrar:

- Feliz aniversário, linda. Eu te amo.

Senti meu peito esquentar ao olhar pela enésima vez a peça prateada que caía do meu pescoço.
Em instantes, o espaço gélido em minha cama parecia três vezes maior do que minutos atrás.
Céus.
O tempo já havia sido o suficiente?
Eu já podia considerar que éramos melhores juntos?
A reminiscência servira apenas para afirmar o que eu já sabia; eu já não me via mais sem .
O problema era que a recordação trazia, também, à tona, o desejo imperioso de ser alguém melhor para o cara que havia finalmente me convencido de que meu coração não era um objeto frágil. E provado, diariamente, que meus batimentos se sentiam mais seguros em suas mãos do que em meu peito.

Três


A sexta-feira chegou trazendo o que pareciam ser as primeiras rajadas gélidas de um inverno rigoroso.
Quando os meus saltos pretos encontraram o asfalto - ressoando o barulho que, para mim, significava que uma longa madrugada estava por vir - reparei na maneira que a iluminação da cidade e os faróis dos carros refletiam no concreto úmido e o quanto a recém ausência de uma chuva era o suficiente para tornar a cidade mais bonita.
Estava ainda me acostumando com essa nova ; a que via um lado otimista nas coisas antes de construir um alicerce de melancolia à sua volta e apontar, em primeiro lugar, os defeitos do que quer que fosse.
Mais do que isso, eu havia me permitido admitir que sabia o porquê tudo parecia tão diferente.
As pessoas sempre diziam que, quando você ama alguém, nada mais no mundo importa.
Mas eu descobri que isso não era verdade.
Hoje, com a palavra amor fazendo parte do meu vocabulário constante, percebi que tudo importa um pouco mais; porque esse alguém, mesmo quando ausente, torna tudo diferente de um jeito especial. E havia algo na ausência de que me fazia querer acreditar que o mundo, felizardo em tê-lo, era um lugar gracioso para merecê-lo.
E, é claro - tudo se tornava tão belo pois eu fazia questão de procurar sua presença na sua ausência.
O vento glacial que beijava o meu pescoço fazia-me pensar na sensação dos seus lábios úmidos contra a minha pele febril.
As luzes, turvas e desconexas nos rastros de água pelo chão, me levavam a reminiscência da sinceridade do seu olhar, brilhando ao dividir qualquer palavra de ternura comigo.
Naquela noite, quando Matt me convidou para ir ao Connaught, aceitei sem hesitar. Alguns segundos depois, perguntei quem nos acompanharia.
E é claro que o nome de estava na lista.
Por um instante, desconfiei que podia ser algum tipo de armadilha; eu sabia que ele e Bex queriam nos ver juntos novamente e a ínfima possibilidade de terminarmos era inaceitável para os dois. Mas eu sabia o que estava fazendo; e, por mais que uma parte de mim tenha ficado ligeiramente irritada com a teoria, a outra parte estava feliz por ver .
A verdade é que era impossível tirá-lo completamente da minha vida - mesmo que de forma temporária. Tínhamos os mesmos amigos e frequëntavamos os mesmos lugares; e não era como se qualquer uma dessas coisas precisasse mudar.
Ainda podíamos conviver um com o outro.
Apenas estaríamos nos tratando como bons amigos, e não namorados.
Quando estava me arrumando mais cedo, no entanto, algo que ainda não tinha passado por minha mente surgiu tão bruscamente que fora impossível ignorar.
e eu nunca fomos apenas bons amigos.
Seria, então, uma má ideia voltar ao ponto que nos levou até o que havíamos nos tornado? A parte saudosa e apaixonada em mim dizia que não. E uma pontinha de sensatez avisava que esse podia ser um território perigoso.
E o que eu já sabia sobre mim quando o assunto era ?
Eu nunca ouvia a minha consciência; mas, sempre, meu coração. Então a certeza percorreu o caminho do meu raciocínio até se aninhar em meu peito, me confortando em uma conciliação silenciosa entre todos os devaneios embolados em minha mente e os sentimentos desordenados em meu coração. A certeza de que, naquela noite, queria ver em seus olhos que eu fazia tanta falta a ele quanto ele fazia a mim. Que era lancinante a ideia de estarmos lado a lado e não podermos desfrutar daquilo que fazíamos melhor. E, mais do isso, queria que ele lembrasse do caminho que havíamos percorrido até chegar aqui.
E apenas uma palavra vinha a minha mente quando eu pensava no prelúdio do nosso relacionamento.
Provocação.
Quando eu tinha 19 anos, Carrie Bradshaw havia me ensinado um truque ao estampar a lateral dos ônibus de Nova York; não existe nada mais sexy do que um vestido que a faz parecer… pelada.
Um modelo que lembrava uma camisola, quase do tom exato da minha pele, com alças fininhas e quase nenhum pano nas coxas.
Eu tinha a eficácia comprovada.
Quando o usei pela primeira vez para sair com , transamos no banheiro de um restaurante no centro.
E depois nos beijamos como dois adolescentes por algumas horas no carro.
E então transamos novamente em casa.
O olhar de caiu sobre mim no instante em que entrei no Connaught. Parecia um daqueles clichês que eu havia jurado nunca aplicar à minha vida; eu sabia que vários rostos haviam virado para a porta que acabara de deixar entrar uma massa de ar gélido e acabaram pairando sobre mim, mas eu era física e genuinamente capaz de ver apenas um; o dele.
Ele estava sentado entre Brandon e . E fora impossível não pensar o quanto era engraçado que meu ex namorado e então melhor amigo se sentia mais confortável com do que comigo.
Mas eu não podia julgá-lo; muita história, muitos problemas. E eu definitivamente podia pensar em depois. Porque agora eu estava observando o sorriso atravessado que puxava o canto dos lábios de , acompanhado da tensão que definia ainda mais seu maxilar.
Céus, se ele soubesse o quanto ficava lindo quando fazia aquela cara…
Acenei delicadamente com a mão para os três e dei meia volta para andar até o balcão do bar. Quando me debrucei na superfície de madeira e estava prestes a chamar o barman, me fez parar.
O conhecido arrepio de excitação fez minha espinha tremer. Senti seu corpo inteiro me prensar contra a superfície dura, cada centímetro das minhas costas em contato com cada centímetro de seu peitoral. Era difícil controlar a vontade de me virar e mergulhar em seus braços e sentir o sabor de sua boca; principalmente quando eu podia sentir perfeitamente sua pélvis roçando em meu quadril, com a pressão exata para que eu percebesse a excitação que ameaçava se formar ali.
era delicioso.
Tão delicioso que deixei um gemido raso escapar de minha garganta. Então ele segurou minha cintura com força com as duas mãos e apertou o corpo um pouco mais contra o meu, e eu não precisava olhar para saber que o sorriso carregado de luxúria se desenhava em seu rosto. Senti sua respiração bater cada vez mais quente e próxima ao meu pescoço, fazendo um carinho gostoso e afrodíseo na região. E a próxima coisa que senti foram seus lábios macios contra a pele nua de meus ombros; não era um beijo, apenas um roçar excitante que me fez fechar os olhos e morder instintivamente o lábio.

- Você tem namorado? - o sussurro rouco e provocante ecoou no pé de meu ouvido e, mesmo inerte na nuvem de volúpia que ele havia me colocado, fora impossível não sorrir.
- Tenho - minha voz era nada além de um fraco murmúrio - E ele provavelmente te mataria por me tocar assim.

Uma risada rouca tremeu seus ombros quando ele deslizou uma das mãos pela lateral do meu corpo, encontrando meus dedos apenas para entrelaça-los e me guiar em um pequeno giro que me fez parar de frente para ele.
O Connaught estava lotado e eu tinha certeza que o barulho de vozes misturado com o rock dos anos noventa que saía das caixas de som era ensurdecedor. Mas tudo parecia lento demais e distante demais. Pra mim, era como se eu e estivéssemos sozinhos, no silêncio total e escuro absoluto da sala de nossa casa.

- Como ele é? - seus lábios quase encostavam nos meus conforme se mexiam, tamanha era nossa proximidade - O seu namorado.
- Ele é incrível.
- E?

Dei um pequeno sorriso. Era esse o jogo que ele queria jogar?
Apoiei uma das minhas mãos em seu peitoral, apenas para trilhar o caminho com as minhas unhas até seus lábios. Então passei o polegar suavemente pela carne macia, sentindo sua respiração falhar mais a cada novo milímetro que eu encostava.

- E gostoso.

Um sorriso satisfeito preencheu seus lábios. Fechei os olhos quando ele deu um beijo lento e torturante em meu dedo e precisei segurar um resmungo de reprovação quando deu um passo para trás.
Procurei seus olhos quando abri os meus. E, com um pouco mais de distância, eu podia testemunhar cada detalhe de suas íris , me encarando tão intensamente que me deixavam imóvel, fascinada demais pela intensidade brilhando em cada pedacinho único delas.
Os olhos de sempre foram meu ponto fraco e ele sabia disso. Se eu os encarasse pelo tempo o suficiente, estava entregue para o que quer que fosse. Lembrei-me da sensação de estar diante deles quando mal o conhecia; Era como se uma faísca ali brilhasse e fizesse acender qualquer átomo de excitação que eu jurava terem se esvaído de mim. E não apenas sexualmente. Ele, sem palavras, me desafiava. E eu, fracamente, cedia.
Voltei ao presente quando o vi inclinar a cabeça, estudando meticulosamente cada detalhe do meu corpo.

- Você só usa esse vestido sem nada por baixo.

Sorri diante do seu tom sugestivo.
Não era uma pergunta. Mas, mesmo assim, eu ainda podia prová-lo estar certo.
Minha mão encontrou a sua apenas para trazê-la para perto de mim, apoiando-a no topo do meu quadril e a deslizando vagarosamente pela minha minha bunda.

- Você tem razão.
- Puta que pariu - o palavrão deixou sua boca como um rosnado. Achei que ele tiraria a mão dali quando a escorregou para baixo, mas precisei prender um grito em minha garganta quando percebi que estava fazendo o caminho inverso. Seus dedos espreitarem para baixo do tecido do meu vestido, dando um discreto apertão na pele nua por baixo da seda.

Faltava muito pouco para eu perder o controle e transar com ali mesmo e...

- Achei que estivessem se evitando ou algo do tipo - um Brandon visivelmente bêbado, com a voz arrastada e uma linda garota em seus braços praticamente se jogou no meio de nós dois.

Talvez eu devesse ficar zangada por não estar mais na tão necessária proximidade do corpo de , mas não perceber que estava atrapalhando algo potencialmente maravilhoso era tão a cara de Brandon que eu só pude soltar uma gargalhada.

- Estávamos apenas conversando sobre o tempo. Vai ser um inverno e tanto, não acha? - levantei os ombros enquanto o rosto de Brandon se contorcia em uma careta confusa.

Meu olhar encontrou o de e o sorriso cúmplice que dividimos acalentou meu coração. Pude, pela primeira vez na noite, reparar atenciosamente no quanto estava sublime com uma roupa inteiramente preta; incluindo a jaqueta de couro que ele sabia o quanto eu adorava. Senti os níveis de concupiscência abaixarem em meu sangue e, tão logo admirei o garoto a quem havia confiado os sentimentos que nunca me permiti ter por outro alguém, uma vontade urgente de abraçá-lo, perder meus dedos nos cabelos displicentes e sussurrar que o amava eletrizou meu corpo inteiro.

- Vocês - Brandon voltou a tropeçar nas palavras, dessa vez apontando freneticamente de mim para - Deviam estar juntos.

A menina de longos cabelos negros ao seu lado segurou uma risada ao movimentar os lábios em um pedido inaudível de desculpas. “Tudo bem”, foi o que meus lábios sinalizaram em resposta, tentando devolver um sorriso reconfortante.

- Estamos juntos, Simmons - o murmúrio veio de ; sério, por mais que tivesse um sorriso em seus lábios. Ele deu um passo em minha direção e, com a suavidade exata que sabia colocar em seus movimentos, seus dedos tocaram meu queixo, trazendo meu rosto ligeiramente para perto do seu e depositando um beijo delicado em meu rosto - Te vejo depois, certo?

Desejando que seus lábios tocassem os meus, pude apenas assentir levemente enquanto o via se afastar em direção ao banheiro. E ficaria observando sua silhueta desaparecer entre as pessoas e o ambiente que, ao longe, ia ficando mais escuro; se não tivesse sido surpreendida por Matt e aparecendo em minha frente.
Dei um sorrisinho amarelo para meu irmão, prevendo o que aconteceria a seguir. Sua expressão foi se transformando conforme olhava cada centímetro do meu vestido; o sorriso ia dando lugar a uma carranca impetuosa para, enfim, terminar em um aceno negativo com a cabeça.

- Isso está tão errado que nem sei por onde começar.
- É só não começar - levantei os ombros, com o sorriso alegre que sabia que o irritava e o fazia cerrar os olhos em minha direção.
- Acho que ela está ótima assim.

Esperei que aquela frase viesse de Brandon. De , aparecendo novamente ao meu lado. Ou até da garota que eu ainda não sabia o nome.
Mas fora , com as mãos no bolso da calça jeans, um discreto sorriso nos lábios e as maçãs do rosto avermelhadas que as havia proferido.
Peguei-me confusa por alguns instantes enquanto os olhos que eu antes tão bem conhecia brilhavam ao olhar pra mim. Minha atenção foi para Brandon, que estava despreocupado ao falar alguma gracinha no ouvido da morena que a fez sorrir. Matt mirava vagamente o nosso redor enquanto entornava um gole de cerveja.
Então apenas eu tinha achado aquilo estranho?

-
Faz tempo que você não toma o meu lado - meu coração bateu um pouquinho mais rápido ao dar um passo em sua direção, pois, de alguma forma, parecia que estava me dando algum tipo de abertura; o que não tinha acontecido uma só vez nos últimos tempos.
- Eu sempre tomo seu lado. Apenas não digo com frequência.

Sua voz saiu um tanto embolada.
E seus olhos estavam piscando mais que o normal.
Exatamente como quando ele bebia um pouco além do habitual.

- Talvez seja melhor não considerar o que você diz agora - disse, hesitante, embora parte de mim estivesse tranquila por ter uma conversa com ele que passasse de cinco palavras.
- Acredite, estou sendo mais sincero do que nunca - ele deu uma piscadinha antes de apoiar um dos braços em meu ombro e eu só consegui rir em resposta.
- Acho que contrariar você agora não é uma boa ideia - cruzei os braços ao tentar manter o equilíbrio já que, sem perceber, ele estava depositando parte do peso do seu corpo em mim.

Vacilei por um instante ao virar o rosto e, consequentemente, mergulhar nos sinceros olhos que costumavam fazer parte do meu dia a dia.
Mesmo sem mirar seus lábios, eu sabia que um sorriso letárgico se formava em seu rosto. Meu peito se contraiu, a falta de chamá-lo de melhor amigo e tratá-lo como tal colocando um nó apertado em minha garganta.
Mas isso não podia ser feito assim, e muito menos aqui. Ele devia ao menos ter condição de lembrar da nossa primeira conversa decente no dia seguinte.

- - murmurei ao me virar e colocar as mãos em seus ombros - Acho que você precisa ficar em pé sozinho.
- Acho que eu preciso ficar em pé sozinho - ele repetiu minhas palavras com um sorriso divertido, fazendo outra risada escapar de meus lábios.
- Eu… Preciso encontrar .
- Ei! Não precisa ficar sem graça de falar sobre ele na minha frente - ele deu um peteleco no meu nariz - Já faz tempo. E ele é um cara legal. Se quer saber, acho que essa história de tempo é, na verdade, uma perda de tempo - deu uma gargalhada com o jogo de palavras que havia feito.

Ah, meu Deus. Eu tinha mesmo que ouvir isso até de ?
Soltei um suspiro pesaroso; por mais que a situação estivesse, na verdade, divertida. Então pedi a Matt - que, ao nosso lado, provava novamente a sua facilidade em fazer amigos ao conversar animadamente com um garoto ruivo que eu tinha certeza que havia acabado de conhecer - para que ficasse de olho em .
Mas não fui atrás de . Em vez disso, caminhei até a outra extremidade do bar, onde um outro balcão cheio de bebidas e dois barmans me esperavam com tudo o que eu estava precisando; algumas boas doses de álcool.
E então passei o resto da noite ali, curtindo apenas minha própria companhia e tentando não pensar em qualquer coisa que colocasse a tensão recém dissipada novamente em meus ombros.
De longe, observei conversar e beber com meu irmão praticamente o tempo inteiro. E apenas quando eu estava do lado de fora, esperando Matt buscar o carro para irmos pra casa, que falei com ele novamente.
O anúncio de sua presença veio, novamente, por trás de mim; mas, dessa vez, sem provações. Era puro carinho o que transmitia ao colocar sua jaqueta em meus ombros, logo em seguida se posicionado nas minhas costas,passando os braços envolta de minha cintura e apoiando o queixo na curva de meu pescoço.

- Está frio - mumurmou simplesmente, e o simples ouvir do timbre da sua voz me fez sorrir. Fechei os olhos, inspirando fundo o cheiro mentolado e másculo que tão fácil me inebriava.
- Tem razão - passei a ponta dos dedos pelos seus braços, agora, nus - E você sempre fica pior do que eu quando fica resfriado.

Soltei uma ligeira risada, pensando o quanto aquela frase havia soado casados-há-vinte-anos; e sabia que havia pensado o mesmo, já que, com o canto dos olhos, pude ver seu sorriso.
Tentei levar as mãos até os ombros para tirar a jaqueta e devolver à ele, mas ele apenas me apertou um pouco mais, prendendo meus braços na lateral do meu corpo.

- Não me importo de ficar resfriado. Mas me importo que qualquer coisa aconteça com você.

Dessa vez, era os meus lábios que o sorriso desenhava. Ele sempre sabia o que dizer. Busquei sua mão e entrelacei nossos dedos, apenas para girar nos calcanhares e me de deparar com os seus olhos.
E então encontrei o que havia procurado a noite inteira. O brilho autêntico de ternura nos tons mais lindos que minha vista já havia captado, me diziam que sim, ele já sentia a minha falta.
Estava prestes a pensar em selar seus lábios com os meus quando o ronco alto de um motor me avisou que Matt havia acabado de chegar.
Ah, meu irmão e Brandon devem ter feito o mesmo curso sobre como cortar o clima.

- Sem cigarro por hoje? - foi o que meus lábios externaram ao invés de beijá-lo, notando a incomum ausência da fumaça à nossa volta após uma noite de embriaguez. Elas eram a exceção para o nosso “estamos tentando parar”.
- Não tem muita graça sem você para dar a última tragada.

As palavras refletiram diretamente em meus lábios, desenhando o sorriso mais sincero que eu podia dar.
Mais um.
Ele realmente sempre sabia o que dizer.
encostou os dedos em meu rosto, trilhando o caminho até algumas mechas soltas em meu cabelo e colocando-o atrás da minha orelha. Sua mão escorregou para minha nuca, apenas para agarrar meu cabelo com delicadeza e me trazer para perto de si. Fiquei na ponta dos pés para alcançar o seu rosto e, dessa vez, sua boca não tocou apenas minha bochecha; mas sim o canto dos meus lábios, deixando-me sentir apenas um pouco do sabor do qual eu tanto me deliciava.
Um barulho estridente irrompeu no silêncio da noite, fazendo-me dar um pulo para trás. Então eu senti vontade de matar meu irmão ao vê-lo com a mão bem no meio do volante.

- Vocês tiveram a noite inteira para fazer isso! E eu não sou obrigado a assistir - ele gritou do carro, arrancando uma bela risada de nós dois.
- Você pode simplesmente olhar para o outro lado, Matthew - gritou de volta, estendendo o dedo do meio no ar e me fazendo rir ainda mais.

Era fácil me sentir com dezoito anos novamente ao lado dos dois.
Eu e dividimos um último sorriso antes que eu desse meia volta para seguir até o carro. Mas meu namorado fez questão de dar um singelo tapa em minha bunda quando comecei a andar, arrancando um gritinho de mim.
Tomei o lugar no banco do passageiro e, pela janela, fiquei observando até o carro começar a se mexer. O vi pegar o celular no bolso e, com um sorriso divertido, mexer em alguma coisa na tela. Eu já não conseguia mais alcançá-lo com o olhar quando seu nome fez a tela do meu aparelho brilhar.
Mordi o lábio inferior ao ler a mensagem, o sorriso tomando conta de meu rosto e a vontade de abrir a porta e correr de volta para os seus braços inflando em meu coração.

“Esse vestido devia vir com uma instrução na etiqueta dizendo que só é aconselhável você usar quando eu posso te foder depois”.

Quatro

havia me perguntado uma vez se sonhos podiam, também, ser lembranças.
Eu me lembrava visceralmente da sensação que ponderou em meu peito. Me perguntei silenciosamente porque estava dizendo aquilo; uma vez que eu simplesmente sabia que apenas palavras bem pensadas saíam de seus lábios.
Lembro, vagamente, da sensação de seus braços em meu corpo, transmitindo o sentimento tão pouco conhecido de segurança enquanto a resposta dançava na ponta de minha língua.
Acho que os sonhos são muito mais complicados do que a gente pode tentar entender. Então, sim.
A reminiscência do momento era capaz de eletrizar meu corpo - e, se eu fechasse os olhos, ainda podia ver nós dois, por trás de um véu alvo, dividindo a serenidade de estar lado a lado e a confiança mútua em compartilhar até os assuntos mais etéreos.
Quando saí do trabalho na terça-feira, desejei que estivesse ao meu lado.
Sim, eu sempre desejava que ele estivesse ao meu lado.
Mas, dessa vez, eu queria lhe perguntar se os sonhos também podiam ser um prelúdio caótico do futuro.
Na segunda-feira, havia me perguntado, por meio de uma mensagem um tanto curta e desajeitada, se eu podia passar em sua casa no dia seguinte. Eu, em uma mensagem ainda mais curta e três vezes mais desajeitada, disse que sim.
Eram quase uma hora da manhã e eu estava pronta pra ir dormir. E então invadiu meus sonhos.
Sonhei que entrava na casa que, um dia, fora nossa, e tudo estava vazio. Sem móveis, sem vida… Sem . E então, uma voz suave e assustadoramente parecida com a minha sussurrava entre as paredes; Você já esqueceu da estrada que lhe deu muitas lembranças?
Eu queria perguntar sobre o sonho pra porque eu sabia que ele me daria uma resposta tão engraçada como profunda, e então meu coração bateria mais leve em meu peito e eu agradeceria intrinsecamente por tê-lo comigo.
Mas eu não perguntei. Na verdade, não havia sequer falado com ele desde a noite de sexta-feira. E eu era incapaz de sequer explicar o quão mais fácil teria sido o caminho até a casa de se eu tivesse conversado com antes.
Fui tomada pelos mais diversos sentimentos quando cheguei à rua que eu tão bem conhecia. O mais inesperado de todos, a saudade. A vizinhança ainda tinha o ar fantasmagórico durante o crepúsculo e meu corpo ainda gritava que eu nunca me encaixaria ali.
Nada havia mudado.
Bom, quase nada.
Não pude evitar que meus olhos fossem diretamente atraídos para o sobrado cinza que, ao que parecia ser uma eternidade atrás, fora de . Meus lábios tremeram para formar um sorriso sincero.
Ah, lembranças…
Eu podia deixar o tempo me embalar ao mirar aquela casa mas, duas construções depois, algo me chamou atenção.
Da varanda, me observava.
Ele tinha um sorriso quase imperceptível nos lábios e os olhos dançavam indecisos entre me olhar e fitar suas mãos.
Ele estava nervoso.
E eu também.
Ainda assim, me equipei com um sorriso gigante ao parar em sua frente, ainda que alguns metros abaixo.

- Oi - o tom tranquilo atingiu meus ouvidos quando se debruçou no peitoral.
- Oi.

Quatro vezes mais desajeitada.

- Você sabe que pode entrar, não sabe? - ele apontou com os olhos em direção à porta. Segui o seu olhar e fiz uma pequena careta.
- Talvez algum tempo atrás.

Levantei os ombros ao fugir de seu olhar. As palavras eram duras demais para serem ditas com os olhos nos seus; embora fosse apenas a verdade.
não disse mais nada antes de se virar e, alguns segundos depois, aparecer na entrada da casa, abrindo a porta pra mim.
Fui movida por recordações em cada um dos quinze passos que dei até estar cara a cara com ele.
Era difícil explicar como, aos meus olhos, ele parecia o mesmo de sempre e, ao mesmo tempo, uma pessoa completamente diferente. Acho que a distância faz esse tipo de coisa.
Ainda assim, quando entrei no lugar que um dia chamei de lar, lembrei de todas as vezes que tomamos vinho ao assistir um dos meus filmes preferidos na sala.
Lembrei das poucas vezes que me atrevi a usar a cozinha e, por mais que o gosto dos meus pratos nunca fossem bons, sempre os elogiava.
Diante da névoa de tensão agora pairando entre nós dois, me agarrar às lembranças era a única forma de reunir forças para mirar seus olhos e, por fim, entrar em sua casa. Talvez porque, por mais que nós dois mudássemos, elas ainda permaneceriam intactas pra sempre. Por mais que hoje fossem dolorosas.
Nada e tudo, de certa forma, haviam mudado entre nós.

- Tenho sentido sua falta.

A voz de soou ligeiramente tímida quando tomei um dos lugares do sofá de sua sala. E o clima, de repente, ficou quente demais para o blazer pesado que cobria metade de meu corpo.

- Ah, . Isso não é justo. Por que você não pode ser detestável como qualquer outro ex namorado?
Seus ombros tremeram com uma risada ao sentar ao meu lado.
- Acho que nunca fomos apenas namorados. É mais difícil agir como um babaca.

Deixei um sorriso preencher meus lábios ao observá-lo por alguns segundos. nunca seria um babaca.

- O que estou fazendo aqui, ?
- Sabe como, às vezes, a gente simplesmente sabe das coisas?
Estreitei os olhos, imaginando onde ele queria chegar.
- Acho que sim… - respondi um pouco vaga demais.

Mas eu sabia perfeitamente. Pois fora exatamente assim com . Eu apenas não diria aquilo ali, em voz alta.

- Aconteceu na semana passada. Foi um daqueles dias em que nada muito importante acontece, mas você acaba a noite pensando na vida...
- E o que seria da sua vida sem mim, certo? - o interrompi, dessa vez o proporcionando um sorriso.
- Algo por aí.

O silêncio caiu entre nós dois por alguns instantes.
Não um silêncio desconfortável, como todos aqueles que tínhamos dividido nas últimas vezes que estivemos juntos.
Era apenas um instante para que as coisas entre nós fossem colocadas no lugar certo em nossos pensamentos e, principalmente, em nossos corações.

- Também sinto sua falta, .
Os olhos brilharam e, em um segundo, ele havia deslizado o corpo no sofá para a almofada exatamente ao lado de mim.
- Sabe o que fiz ontem?
- O que?
- Assisti The Seven Year Itch - um sorriso ligeiramente retraído se formou em seu rosto.

Porque ele sabia o que aquele filme significava.
E eu também.

- Você nem gosta desse filme - apoiei o rosto nas mãos, me perguntando aonde ele queria chegar.
- É péssimo - fez uma careta e eu prendi uma risada - Mas me fez pensar em você.

Ah, ótimo. O clima ficou pesado novamente.
Falar algo daquele tipo certamente não era a cara de ; não quando ele sabia que meu coração já era de outra pessoa.
Era minha culpa? Eu havia quebrado ?
Não se culpe por tudo, linda. A voz de ecoou em minha mente como um sopro confortante de sanidade.
Uma coisa era certa - eu tinha ido até ali porque já não aguentava mais estar sempre na berlinda com . A única coisa pior do que perder ele de vez era ficar nesse limbo constante. Era como estar à beira de um precipício e nunca saber se o que vem por aí é um pulo para frente ou dois passos para trás. A tortura de, ontem, sentir a dor por ele ter perdido meu aniversário, hoje a alegria porque ele me tratou como uma verdadeira amiga em uma noite aleatória em um bar e, no dia seguinte, um pouco mais de dor pois tudo parecera ter voltado à estaca zero.
Soltei um suspiro e virei meu corpo completamente para ele, mirando seus olhos com seriedade.

- O que acha de deixarmos tudo pra trás? Começar do zero. Como se estivéssemos nos conhecendo agora.
- Não é tão fácil assim - ele passou as mãos pelos cabelos e eu precisei ignorar a expressão quase dolorosa em que seu rosto se contraiu.
- É, eu sei. Mas não conseguimos voltar a ser melhores amigos em um estalar de dedos, e não dá pra dizer que somos apenas conhecidos. Não vejo alternativa melhor do que tentar deixar tudo para trás. Tentar, .

Ele ficou quieto por alguns instantes, apenas encarando fixamente o pequeno espaço de chão entre nós dois.
Eu estava prestes a dizer mais alguma coisa quando suas feições se alegraram minimamente e ele estendeu uma das mãos em minha direção. O princípio de um sorriso refletiu em meu rosto, e nem hesitei em estender a minha também, apertando sua palma como se estivessemos fechando um acordo.

- . Eu gosto de filmes antigos e tenho medo de escuro.
Ele soltou uma risada divertida.
- . Prefiro filmes de ação e peço as garotas cedo demais em casamento.
- ! - o repreendi com um tapa no ombro e, dessa vez, ele deu uma gargalhada.
- Cedo demais?
- Sempre vai ser cedo demais pra tocar nesse assunto. Sempre.

Apesar disso, estava feliz que ele tinha conseguido fazer piada com isso. Era um avanço, não era?

-


Um sensação inexplicável de leveza acometeu meu corpo durante o caminho de casa. Bom, da casa de Matt.
Um faísca, ainda intrínseca e discreta, fazia-me acreditar que tudo estava voltando ao seu devido lugar.
e eu tínhamos algo parecido com uma nova chance para recomeçar a amizade.
E o tempo - quase - afastada de parecia estar me ajudando o entender o que ele realmente significava pra mim. Mais do que isso, o porque era importante tentarmos vencer os desentendimentos do dia a dia e o quanto isso valia a pena.
E então, mesmo sentada no banco de trás de um táxi, o sorriso que surgia em meu rosto toda vez que eu pensava em estava lá. E, como se lesse meus pensamentos, o tal sorriso se alargou ainda mais quando vi o nome do meu namorado brilhar na tela do celular.
Atendi no primeiro toque. E nem tive tempo de fazer qualquer saudação animada, porque sua voz interceptou a linha prontamente.

- Estou aqui na frente. Descobri um lugar que você precisa conhecer. Vem.

E o som da ligação sendo encerrada ecoou em meus ouvidos, fazendo-me soltar uma risada.

Levei um segundo para tocar com o indicador no seu nome e ele levou um segundo para atender.

- Eu estou chegando. Cinco minutos, não saia daí.

E dessa vez fui eu quem desliguei, sem esperar sua resposta. É, eu definitivamente nem podia começar a pensar no quanto éramos parecidos.
Quando o táxi virou a esquina para, enfim, encostar na calçada em frente à casa do meu irmão, meus olhos foram automaticamente magnetizados para o carro preto. Inesperadamente, uma onda de ansiedade passou por meu estômago, fazendo-o ficar inquieto e o ar ser exalado da minha boca um pouco depressa demais.
Três dias sem ver e era assim que eu reagia à simples presença do carro dele. Céus, eu estava realmente perdida.
Me perguntei se ele também se sentia assim ao caminhar em direção ao carro. Então, quando me debrucei na janela do passageiro e vi o sorriso terno em seus lábios, o olhar tão deslumbrado quanto o meu e a urgência por qualquer proximidade pairando no ar, pude ter a certeza que sim.

- Oi - foi a sílaba que conseguiu escapar da minha garganta, lutando por espaço com meu sorriso.
- Oi - ele inclinou o corpo para o lado, ficando ligeiramente mais perto de mim ao me analisar de cima a baixo - Saiu do trabalho agora?

Acompanhei seu olhar, dando de cara com o blazer e a calça de alfaiataria que eu jurava me fazer parecer mais profissional.

- Não. Estava na casa de .

Eu já havia visto com ciúmes. Ele contraía os lábios e seus olhos tornavam-se foscos e começavam a parecer alheios ao mundo. Mas era a primeira vez que o via reagir assim em relação à ; ele sabia o quão resolvida eu era sobre os meus sentimentos por e, principalmente, por ele.
Mas eu entendi, em instantes, o que seu olhar queria me dizer. Isso era algo que eu normalmente contaria à ele. Especialmente porque ele sempre fora o primeiro a levantar a bandeira de apoio à nossa amizade; simplesmente porque ele sabia o quanto era importante pra mim.
E, convenhamos, os dois se davam bem. Bem até demais diante de toda a situação.

- Posso me trocar?
Seus olhos pairaram por um instante no relógio do painel.
Então tínhamos até um horário? Certo, estava começando a ficar curiosa.
- Você tem dez minutos.

-


- Oito minutos. Eu contei.

Minha voz soou animada ao entrar no carro.
É. Porque eu estava animada.
Me inclinei instintivamente em sua direção e, com os olhos brevemente letárgicos, o vi fazer o mesmo. Era natural. Era exatamente como estar em casa. Mas paramos no meio do caminho e, quando nossos olhares se encontraram, o mesmo sorriso afável preencheu nossos lábios. O beijo, que era destinado aos meus lábios, fora plantado no alto de minhas maçãs; e eu o senti com toda a intensidade que um toque afetuoso da pessoa amada era capaz de causar em minhas entranhas. Deleitável, apaixonante, e deixando em meu coração a ânsia irrefreável de pedir por mais.

- Você não está curiosa pra saber onde vamos? - seus olhos me espiaram de canto enquanto ele apertava o botão de partida do carro.
- Achei que era mais um daqueles destinos misteriosos em que eu pergunto onde está me levando e você diz que é surpresa. Então eu fico emburrada e olho pela janela o caminho inteiro enquanto penso a maneira mais lenta e dolorosa de matar você.
Ele soltou uma gargalhada tão alta e tão sincera que me fez sorrir.
- Por que essa descrição parece tanto com a gente? - ele apoiou distraidamente uma das mãos em minha perna - Você sabia que tem um cinema no meio da estrada para Oxford?
- Um cinema? - me virei em sua direção e quase me dispersei do mundo por um instante ao mirar seu perfil irretocável - Você vai dirigir até Oxford para ir em uma cinema?
Um lindo sorriso atravessado desenhou o canto dos seus lábios.
- É um drive-in. Apenas com clássicos.

E então fui eu que sorri. E nem me importei se o sorriso era grande ou bobo demais, e tenho certeza que meus olhos brilharam no mesmo instante.
dirigiu por meia hora até chegarmos no drive-in. Eu podia dizer que ele estava ansioso porque, a cada cinco minutos, eu precisava lembrá-lo que ele estava pisando fundo demais no acelerador.
Era um tanto vergonhoso para alguém que se dizia tão apaixonada por cinema nunca ter pisado em um drive-in.
Bom, eu nunca havia ido a um.
O que, mais tarde, eu percebi ser algo bom; a minha primeira vez em lugar dedicado a algo que eu amava e eu estava ao lado de quem eu amava.
O lugar era um pátio gigantesco coberto por grama sintética. Não estava tão cheio assim; talvez por ser uma terça-feira à noite. Alguns carros se espalhavam pela extensão do local, todos encarando uma tela majestosa onde o nome The UK Drive-In brilhava.
Nada original.
Um pouco mais ao longe, algumas barracas com pipocas, bebidas e cachorros quentes se apresentavam em uma linha reta e surpreendentemente organizada.
O que tornava tudo ainda mais belo era que, bem atrás da tela, só podia-se ver o céu. O céu azul escuro em toda a sua magnificência, coberto pelo brilho dos astros que se estendia até onde os nossos olhos não podiam mais alcançar.
tinha razão. Eu precisava conhecer aquele lugar.
Passamos por uma cabine com um simpático senhor barbudo para entrar no local. Ele entrou um folheto pra , que o colocou em minhas mãos distraído, concentrado apenas em pagar as duas entradas para nós.
O folheto em questão tinha toda a programação dos próximos dias. Meus olhos brilharam ao ler títulos como Casablanca, Psycho e Rear Window.
Ok. Eu precisava vir aqui todos os dias. Todos. Os. Dias.

- The Shining! Ai meu Deus, eu amo esse filme! - soltei um gritinho estridente quando vi o que estava programado para hoje, arrancando uma risada de .
- Filmes antigos de terror não são… Sem graça? Assistimos O Exorcista e eu não fiquei impressionado - ele fez uma careta enquanto seguia com o carro em direção às barracas de comidas.

Era típico de . Ele havia me trazido para assistir o filme e então reclamava do filme. Clássico.

- Ganhou um Oscar. Na verdade, dois - levantei os ombros.
- Esse sempre é o seu argumento quando eu não gosto de um filme - ele soltou uma pequena risada - Não deixa de ser péssimo.
- , não podemos ser namorados se seu gosto por cinema continua uma porcaria. Achei que eu já tivesse conseguido refinar seu gosto.

me olhou por um instante. E então levantou o dedo indicador com uma expressão engraçada.

- Espera aí. A gente já teve essa conversa.
Parei um segundo pra pensar. O que ele estava dizendo?
- Tivemos?
- Tivemos. Mas, na época, você me chamou de amigo, não namorado.
Um sorriso adorável preencheu seu rosto e eu tive vontade de beijá-lo.
- Então quer dizer que já passamos por todas as discussões possíveis em um relacionamento e agora voltamos para o começo?

Ficamos alguns segundos em silêncio. E então, o quebrou da maneira mais ele o possível.

- Aposto que o filme vai ser sem graça - ele apontou para o folheto e eu balancei a cabeça negativamente.
- Certo. Nunca mais repita isso se quer me ver novamente - foi a minha vez de apontar para o folheto ao erguê-lo ao lado do meu rosto - Stanley Kubrick era genial.

Ele estava prestes a soltar mais uma de suas respostas certeiras quando, detrás do balcão de uma das barracas, uma garota sorridente perguntou o que íamos querer.
Não precisávamos sair do carro pra comprar comida? Agora eu estava impressionada.
Me distrai ao observar o entorno enquanto pedia uma pipoca e duas cervejas. Me perguntei se aquela seria uma boa combinação enquanto acompanhava os carros que ali entravam.
Minha atenção voltou à ele quando o vi apoiar o pacote de pipocas no meu colo e, equilibrando a base de papelão com dois copos de cerveja em cima em uma mão, ele usou a outra para girar o volante e guiar o carro até um dos lugares mais próximos à tela.
Assim que parou o carro, se inclinou para o meu lado, passando um dos braços por minha cintura para poder abaixar o apoio para os copos que ficava bem ao lado do meu banco.
Seus olhos estavam a menos de um centímetro dos meus.
Nossas bocas quase se encostaram.
Sua respiração quente fez cócegas nos meus lábios.
Pela terceira vez naquela noite, senti vontade de beijá-lo.
Mas me limitei a apertar os olhos em sua direção enquanto ele voltava a ajeitar o corpo em seu assento.

- O que foi? - ele estreitou as sobrancelhas ao dar de ombros.
- Você sabe que podia simplesmente ter me pedido pra colocar os copos aqui, não sabe?
O sorriso divertido que eu tão bem conhecia se fez presente em suas feições.
- Mas não seria divertido, seria?

Rolei os olhos ao repreender uma risada, ciente de que eram detalhes de sua personalidade exatamente como aquele que fizeram eu me apaixonar por ele.

- Matt te contou? Ele quer comemorar o aniversário dele na casa de St. Ives - rolei os olhos ao arrancar uma risada de .
- É claro que ele quer.
- É péssimo e maravilhoso ao mesmo tempo - dei um gole no copo de cerveja e comi duas pipocas.
Uau, era mesmo uma ótima combinação.
- O que isso quer dizer?
- Bom, é uma casa na praia e a praia é linda. Mas sempre que a gente vai pra lá acontece alguma coisa que gera confusão.
Ele soltou uma risada, pegando o pacote de pipoca e apoiando em seu colo.
- Pode ser verdade. Mas você não acredita que as coisas aconteçam assim, como se o lugar estivesse predestinado a trazer algo ruim. Então, até onde sabemos, nada vai acontecer - ele deu uma piscadinha.
- É, acho que você tem razão.
- E eu estarei lá pra te tirar de qualquer confusão.
Foi a minha vez de rir.
- , você geralmente é a confusão.
- E você adora isso.

Sim, eu adorava. gritava problema e essa fora a primeira coisa que me chamou atenção nele.
As luzes suspensas que, até então, eu não havia percebido existirem, apagaram-se uma por uma. Se há um segundo o céu estava bonito, naquele instante havia se tornado deslumbrante. A tela em branco fora ganhando cor e uma música invadiu os ares, aumentando gradativamente. Logo, a cena inicial de uma estrada em uma fotografia encantadora que eu tão bem conhecia encheu a tela, e eu e silenciosamente nos ajeitamos nos bancos.
Eram dez horas da noite de uma terça-feira. Meu dia fora cansativo e eu precisava acordar cedo na manhã seguinte.
Mas nada daquilo importava. Pois eu sentia aquela vontade de ser impulsiva e quase irresponsável que me trazia e que me fazia sentir nada mais do que viva. Era o sentimento caloroso de estar ali porque meu namorado sabia o quanto eu gostaria de estar. Porque ele me tratava como se eu fosse perfeita, mesmo que eu estivesse muito longe disso.
Por mais que eu já tivesse assistido o filme ao menos umas três vezes, estar no meio do nada, no escuro, com nada além de árvores à minha volta e cercada por estranhos escondidos em seus carros, certamente o tornava um pouco mais assustador.
Eu sempre achei o terror psicológico mais intrigante do que aqueles filmes cheios de sustos e personagens previsíveis correndo atrás das vítimas com um machado. Eram aqueles filmes em que o terror não estava absolutamente explícito, mas apenas pairando no ar, tentando avisar ao nosso subconsciente que algo estava errado e incomodando a nossa serenidade com apenas a insinuação do mal que realmente me assustavam.
não parecia estar achando o filme tão ruim assim, já que estava tão compenetrado na tela que tal se mexia. Eu não saberia dizer em que momento nos ajeitamos para ficar daquele jeito, mas nossos corpos estavam inclinados um na direção do outro, e ele praticamente se encolhia junto à mim. Com o canto dos olhos, podia vê-lo apertar os olhos para a tela, como se estivesse esperando algo ruim acontecer.
Como fazia apenas quando estava com medo.

- ? - o chamei baixinho.
- Hm? - a voz dele quase tremeu e eu segurei uma risada.
- Você sabia que o hotel Overlook foi desenhado para parecer desconexo? A maioria das portas não dá em lugar nenhum, todas as televisões estão sempre desligadas e os espelhos nunca refletem nenhum dos personagens. Não é incrível?
- Defina incrível.
Dessa vez a risada escapou de minha garganta.
- É apenas uma forma de deixar a gente com mais medo.

O silêncio seguiu minha voz. E permaneceu no ar por alguns instantes.
Até eu sussurrar seu nome novamente.

- ?
- Linda?
Meu coração bateu descompassado contra meu peito.
- Você está com medo?
Minha voz saiu em um fio. E a sua resposta veio em um gesto.

tocou minha mão suavemente, virando a palma para cima e entrelaçando nossos dedos. E então a apertou, trazendo-a para perto de si ao apoiá-la em seu colo.
Meus lábios se curvaram em um sorriso e ele não deixou meu rosto até o letreiro começar a subir na tela.

- Está pronto para concordar comigo? - cutuquei suas costelas levemente, ainda sem coragem de sair do conforto da proximidade de seu corpo.
- Stanley Kubrick era um gênio - ele rolou os olhos, dando um gole na cerveja agora apoiada no painel.

Sorri vitoriosa e, embora soubesse que a cerveja estivesse quente e aguada, peguei meu copo para dar um gole também.
E ela estava horrivel.
Tão horrível que fiz uma careta e acabei deixando cair um pouco em meu colo.
Encarei minha pele molhada e fiz uma careta ainda maior. Então ergui o olhar para , e ele me fitava com uma expressão indecifrável ao morder o lábio inferior.
Ele não ia…
É, ele ia.
se aproximou de mim, lento e torturante. Ele fechou os olhos antes de encostar a língua em minha pele, e lambeu toda a extensão à mostra do contorno dos meus seios.
A parte que estava molhada e a parte que não estava.
Me limitei a fechar os olhos, sentindo cada milímetro de mim se tornar febril ao ser acariciado por sua língua. Minhas respiração tornou-se descompassada e senti uma pontada pulsante no ventre.
Abri os olhos somente quando senti sua ausência, a tempo de vê-lo se afastando e passando a língua pelo lábio inferior.
Me dei alguns segundos para observá-lo. E então, de alguma forma, o que devia despertar em mim apenas um sentimento luxurioso acabou fazendo o caminho contrário.
Sem ao menos entender o porquê, senti a tristeza tomar conta do meu corpo como as ondas na beira do mar; primeiro delicadas e então devastadoras.
Meu peito se contraiu e, antes que eu pudesse perceber, meu coração estava bombeando as palavras diretamente para o fundo de minha garganta.

- Fiquei três dias sem falar com você e estava a beira do desespero. Quando eu virei esse garota, ? Não posso ser tão fraca.
- Você não é fraca. Nós dois sabemos que a coisa mais corajosa que existe é amar alguém e deixar alguém te amar de volta. Você fez isso, não fez?

Assenti com a cabeça e vi um sorriso quase triste desenhar seus lábios. Fui tomada pelo sentimento etéreo que, vez ou outra, eu encontrava quando olhava meu namorado nos olhos; a certeza de que ele me olhava como se fosse eu que ele havia procurado a vida inteira.
E eu provavelmente o encarava com o mesmo olhar.
respirou fundo antes de envolver meus pulsos com os dedos e me puxar para perto de si, colocando-me no abraço mais aconchegante que eu nem sabia que precisava. Enterrei o rosto em seu peito, inspirando fundo o seu cheiro que eu tão bem conhecia. E então sua voz ecoou baixinha em meu ouvido, entoando a melodia que tanto significava para nós dois e que me fazia sorrir independente da situação.

- Moon river wider than a mile, I'm crossing you in style some day. Oh, dream maker, you heart breaker, wherever you're goin' I'm goin' your way.

Era a música do nosso primeiro beijo.
Bom, segundo. Mas o primeiro que contava.
Me peguei, de fato, sorrindo contra seu peito.
E eu podia ficar assim a noite inteira.
O toque estridente do meu celular me causou um sobressalto. Ainda abraçada em , levei os olhos preguiçosamente ao aparelho jogado ao lado da marcha. Uma mensagem de Bex e outra de brilhavam na tela.
Soltei um suspiro ao sentir o corpo do meu namorado ficar ligeiramente rígido.

- Não é…
- Eu sei - sua voz firme me interrompeu - Confio em você.



Continua...



Nota da autora: : Oi, amores! <3 como vocês estão?
Queria agradecer vocês por todo o carinho que tenho recebido aqui embaixo. E aposta do mês? Eu não estava esperando issooooooooo, meu deus! Pensem numa autora feliz hahaha Obrigada, obrigada e obrigada! Vocês são incríveis!
Espero que ainda estejam gostando de acompanhar esses dois. Eu amei escrever esse capítulo e precisei me policiar trezentas vezes para não falar demais sobre filmes, eu sempre me perco quando o assunto é esse hahaha
E, preciso dizer que St. Ives, de fato, trará algumas surpresas, como sempre hahaha

Um beijo enorme, meninas. Até a próxima att! <3



Outras Fanfics:
Shades of Cool [Restritas – Longfic – Finalizada]
Chaos Theory [Restritas – Originais – Shortfics]
Me, My Teacher and Our Secrets [Restritas – Originais – Em Andamento]
You Fucked Me So Good That I Almost Said I Love You [Restritas – Originais – Em Andamento]
The Beauty Of Being Broken [Restritas – Longfic – Em andamento]
Midnight In Hollywood [Restritas – Longfic – Em Andamento]


Nota da Scripter: Esses dois se amam tanto, mas tanto que eu não entendo porque estão dando esse "tempo".
Essa fanfic é de total responsabilidade da autora, apenas faço o script. Qualquer erro, somente no e-mail.


comments powered by Disqus