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Última atualização: 01/05/2020

It's hard to forget and yes I regret all these mistakes

. Tenho vinte cinco anos e matei minha mãe.
O olhar do homem de meia idade tremeu entre o decote de minha camiseta branca e meu rosto pálido. Ele havia passado de encantado para incrédulo em um estralar de dedos.
Deixei meus lábios desenharem o sorriso mais cínico que eu era capaz de simular e peguei a caneca de cerveja vazia da mesa antes de caminhar de volta ao balcão.
Aquela era a minha frase de praxe para afastar babacas. Era extremamente efetiva e dolorosamente verdadeira.
Eu havia, de fato, tirado a vida de minha mãe – mas não da forma mórbida que as palavras vis faziam os mais desavisados acreditarem.
Ela havia falecido quando me deu a vida. Chorei pela primeira vez enquanto ela dava seu último suspiro. E por mais que, durante toda a minha vida, as pessoas me declarassem ausente de culpa, eu ainda carregava esse sentimento amargo em meus ombros diariamente.
– Cliente difícil? – Harper ajeitou um suculento prato de fish and chips na bandeja prateada.
– Deve ser a primeira vez dele na casa. – Entortei os lábios e contornei a comprida bancada de mogno escuro.
– Pode deixar comigo. – Minha amiga piscou e jogou uma mecha do cabelo escarlate para trás.
Balancei a cabeça negativamente ao posicionar duas canecas gigantes na máquina de cerveja. Ensinar as regras para novos clientes era a especialidade de Harper e seu costume de consertar coisas quebradas tinha, em partes, a ver com isso. Ela era capaz de transformar cacos de vidro em lindos vasos rebuscados em instantes. Ocasionalmente, ela fazia isso com namorados em potencial.
Conheci Harper Collins assim que me mudei para Notthingham. Era meu terceiro dia na cidade e eu estava procurando um emprego. Ela trabalhava no Hooters e jurava ser o melhor trabalho que já tivera na vida.
Eu não duvidava que, pra ela, realmente fosse. Ela tinha uma enorme facilidade em sorrir, ser simpática e parecer perfeita o dia inteiro.
Eu não. Minha mandíbula doía nas primeiras três horas.
Quando me inscrevi para a vaga, a propaganda era de que o Hooters servia diversão. A frase de impacto dizia que as garçonetes mal podiam acreditar que eram pagas para se divertir tanto. E essa era, realmente, a atmosfera do local. Em uma cidade de trezentos mil habitantes, os clientes eram quase sempre regulares – e eles eram, em sua maioria, respeitosos. Estavam ali para se distrair e apenas admirar garotas bonitas em trajes indecentes.
Eu não me incomodava de ser observada. Era até lisonjeiro. No entanto, as cantadas sujas dos caras que não conheciam a boa política do Hooters e estavam ali, deslumbrados pela primeira vez, era o que fazia meu sangue esquentar.
Mas o salário era bom. As oportunidades externas, entre comerciais e fotos para calendários, eram bem pagas. E eu realmente precisava do dinheiro para conseguir me virar sozinha.
Ajeitei a camiseta colada e short ridiculamente curto antes de me direcionar a outra mesa. Assim que o vidro do copo tilintou na mesa de madeira, um burburinho gradual e majoritariamente feminino começou a preencher o local.
Apoiei a bandeja na cintura e, quando me virei nos calcanhares para descobrir o motivo do recém instalado tumulto, agradeci mentalmente por ela estar vazia, ou alguns cacos de vidro estariam forrando o chão naquele instante.
Quando minha visão focalizou a silhueta parada ao lado da porta, tudo pareceu ficar em câmera lenta. Os sons ficaram distantes. O sangue correu mais rápido por minhas veias. Cada átomo do meu corpo pareceu esquentar e todas as luzes a minha volta se tornaram foscas.
Exceto ele.
Ele era apenas luminescência.
Sempre fora e sempre seria.
Um sorriso com um toque de surpresa e fascínio tomou conta dos lábios de Dougie Poynter assim que nossos olhares se encontraram. Tinha certeza de que a minha expressão não devia estar muito diferente da sua. Eu me perguntava incansavelmente o que ele fazia ali. Com certeza, não era pela famosa asa de frango defumada.
Dougie enfiou as mãos no bolsos da jaqueta jeans e começou a caminhar em minha direção, do jeito extremamente despreocupado que ele e apenas ele conseguia tornar sexy. Como se meu corpo fosse uma placa de metal e o dele um imã, me vi andando ao seu encontro.
Eu devia estar me amaldiçoando mentalmente por estar vestida daquele jeito na primeira vez em que o via novamente, cinco anos depois. Mas minha mente parecia completamente nebulosa com a visão de seu rosto irretocável a poucos centímetros de mim. Então apenas cruzei os braços, tentando inutilmente tampar a escrita laranja de minha camiseta, como se aquilo fosse me deixar mais confiante.
Dei-me alguns segundos para observá-lo. Ele estava diferente e, ao mesmo tempo, semelhante.
Seus cabelos estavam um pouco mais curtos mas, ainda assim, as mechas loiras roçavam no contorno de sua mandíbula. Agora ele o usava de lado e eu realmente tinha gostado disso. Seus olhos tinham o tom de azul mais atraente que eu já havia visto na vida e eles tinham o poder de me desconcertar com uma facilidade inacreditável.
Bem embaixo do lábio inferior, a marca do piercing que ele costumava usar estava ainda mais sutil. E aquilo fez com que um caleidoscópio frenético de lembranças e sensações incontroláveis se passasse em minha mente. Antes que eu pudesse perceber, estava inclinando a cabeça e mordendo o lábio inferior ao observar minunciosamente a marquinha que me parecia a mais sensual do universo.
– Isso foi um pensamento indecente, ? – O tom familiar da sua voz libidinosa fez meus músculos se contraírem e minhas bochechas esquentarem.
– Essa é a primeira coisa que me diz depois de cinco anos?
Mas é claro que era. Aquilo era a cara de Dougie Poynter.

-


Corringham, cinco anos atrás

As folhas da pequena árvore se mexeram, o barulho parecendo um chiado incômodo e incessante em meu ouvido.
– Ei, Chip! Venha aqui!
Fiquei na ponta dos pés, esticando os braços ao máximo para tentar alcançar o simpático esquilo, e cambaleei levemente para frente.
Ele tinha o focinho avantajado e a cauda dele parecia mais macia do que o suéter de cashmere que eu estava usando.
Certo, talvez eu estivesse mesmo bêbada.
– Chip, eu tenho nozes em casa. Tenho certeza de que vai adorar. – Eu me inclinei ainda mais pra frente e apoiei uma das mãos nos galhos.
Chip balançava os bigodinhos, como se tentasse entender o que eu falava.
– Está tudo bem por aqui?
Uma voz desconhecida me chamou atenção. Olhei de relance por cima dos ombros e tudo que identifiquei foi um desgrenhado de cabelos loiros antes de voltar minha concentração para Chip.
– Está. Encontrei ele no caminho de casa e estou tentando convencê-lo de ir comigo. – Apontei para o esquilo que, no momento, parecia um pouco assustado com a nova presença. – Já tentei dizer que tenho nozes em casa e que aqui está frio, mas ele não parece querer vir.
– Você está tentando... Adotar um esquilo? – Ele soou levemente divertido.
Girei nos calcanhares e meu corpo paralisou por um instante. Bem à minha frente, estava provavelmente o garoto mais atraente que eu já havia visto na vida. Os tais cabelos loiros criavam um contraste irretocável com os olhos intensamente azuis, tão brilhantes que nem a escuridão da rua era capaz de ofuscá-los. O maxilar era esculpido, combinando perfeitamente com o rosto anguloso.
Era lindo. Não era a embriaguez falando.
E eu não podia deixar de pensar que eu o conhecia de algum lugar.
– Chip.
– O quê? – Ele estreitou as sobrancelhas finas, um sorriso curioso brincando nos lábios.
Eu definitivamente o conhecia.
– O nome dele é Chip. – Expliquei, as palavras levemente emboladas fazendo-o perceber que o álcool corria por minhas veias.
– Ele que te contou isso?
– Não, eu que... – Parei por um segundo e cruzei os braços, observando-o por alguns instantes. – Você está tirando sarro de mim, né?
– Como adivinhou? – Ele colocou as mãos nos bolsos da calça, exibindo, mais uma vez, seu adorável sorriso atravessado.
E então um estralo aconteceu em minha mente ébria.
– Eu conheço você! Você não é um dos caras daquela banda com um nome engraçado e músicas animadas demais? – Minha voz saiu um pouco mais alta que o planejado e eu coloquei a mão sobre a boca no mesmo instante.
Eu sempre fazia isso quando estava bêbada, compartilhava meus pensamentos em voz alta.
O garoto sorriu de canto, sem responder minha pergunta. Sempre ouvira dizer que artistas eram temperamentais – e parecia ser mesmo verdade.
– Aposto que consigo acertar seu nome mais rápido do que consegue acertar o meu.
– Isso é um desafio? – Arqueei as sobrancelhas, tentando decifrar aonde ele queria chegar com aquilo.
– Uma aposta.
– Então faça-a ficar interessante.
– Se você acertar, te ajudo a levar o Chip pra casa. Se eu acertar, – Ele entortou a boca, pensando brevemente. – você faz uma torta de nozes pra mim.
– Eu não sei cozinhar. – Dei um passo em sua direção, tentando inutilmente parecer ameaçadora.
– E eu não sei capturar esquilos. – Ele rebateu e eu não pude conter uma gargalhada.
Isso seria interessante.
– Brad?
Ele riu.
– Kimberly.
Fiz uma careta.
– Henry.
Ele balançou a cabeça para os lados.
Podia jurar que ele tinha cara de Henry.
– Grace?
Foi a minha vez de negar.
Fechei os olhos com força. Minha mente funcionava de uma forma estranha. or mais que eu não conseguisse guardar informações com facilidade, se eu me esforçasse para lembrar alguma cena, eu certamente conseguiria reconstruir o conteúdo gráfico das memórias.
E, após alguns instantes, ali estava.
No fundo da minha memória, em algum ponto que eu mal sabia que exista, alguma fotografia aleatória da banda do garoto em minha frente estampando a página de uma revista com seu nome grafado logo embaixo.
– Dougie! Você é Dougie Poynter.
Minha voz escapou em um grito animado e Chip guinchou assustado, balançando seu rabo peludo ao subir pelos galhos e se esconder nas folhagens.
Droga.
Dougie me encarou como se pedisse desculpa pela fuga do esquilo e eu não pude deixar de achar aquilo... Fofo.
– Tudo bem. Ele sempre fica por aqui. – Sorri, apontando com a cabeça para o lado direito da rua. – Pode me acompanhar pra casa mesmo assim.
– Ainda não sei seu nome. – Ele murmurou ao começar a caminhar ao meu lado.
– E eu não vou te contar. – Sua expressão tornou-se levemente confusa. – Eu adivinhei seu nome. Se quer descobrir o meu, é melhor tentar adivinhar também.

-


– O que está fazendo aqui? – Tentei esconder a ansiedade em minha voz, mas eu estava ciente do quão bem Dougie me conhecia e podia ler através de qualquer escudo que eu tentasse levantar.
– Estava prestes a te fazer a mesma pergunta. – Seus olhos correram pelo meu corpo e eu me encolhi intuitivamente.
– Eu trabalho aqui. – Constatei o óbvio, levantando a bandeja em minhas mãos.
– Você entendeu. – Seus lábios se curvaram levemente para cima e, céus, não havia me dado conta do quanto eu havia sentido falta daquele sorriso. – Perguntei o motivo de ter saído de Corringham.
– Acho que a pergunta é o motivo pelo qual demorei tanto para sair de lá.
O breve silêncio fez com que nossos olhos se encontrassem, dividindo o instante em um misto de sentimentos intensos. Se me permitisse, poderia facilmente me perder no azul de sua íris, envolta por toda a nostalgia que sua aura insistia em transmitir.
Mas eu tinha aprendido a ser mais forte do que aquilo.
Pra ser sincera, o garoto em minha frente era exatamente quem havia me ensinado a não fraquejar a qualquer sinal claro de ameaça.
Naquele átimo saudoso e imprevisível, tive vontade de me jogar em seus braços e deixar meu corpo sentir o infinito de emoções que sempre fora meu velho conhecido quando o assunto era Dougie Poynter.
Queria silenciar o barulho caótico a nossa volta e o contar como, apesar de tanto tempo ter se passado, às vezes eu ainda gritava algumas canções com o rádio e pensava nele. Queria confessar que ele, acidentalmente, fazia parte das conversas celestiais com a minha mãe no escuro do meu quarto.
– Falta muito pro seu turno acabar?
Sua voz me trouxe de volta para a realidade e, à medida que as memorias se tornavam um borrão, a realidade me atingia de frente, rápida e dolorosamente.
Coloquei uma mecha do meu cabelo atrás da orelha, lembrando o quanto ele gostava da minha mania inquietante de mexer nos fios a todo momento. Dougie costumava dizer que era sexy e inocente ao mesmo tempo.
Eu saía em uma hora.
Mas, para o bem da minha sanidade mental e cautela necessária com meu coração, as palavras que escaparam de minha garganta não expressavam a verdade.
– Tenho planos com a Harper quando sair daqui. Me desculpe. – Dei um sorriso triste ao desviar de seus olhos pois sabia que, se eles encontrassem os meus, Dougie saberia o que se passava além deles.
– Foi bom ver você. – O murmúrio que irrompeu de sua garganta quase rasgou meu coração.
Não respondi nada. Por mais que quisesse dizer o mesmo, o silêncio me fez de refém, pois alguma parte lógica de mim dizia que era melhor assim.
Enquanto Dougie lentamente me dava as costas, o aperto crescente no peito esquentou meu corpo, obrigando-me a lembrar da última vez que o vi partir daquela forma. Tive que, mais uma vez, conter o ímpeto de me agarrar aos seus braços e lhe pedir que ficasse.
E então, ao ver sua silhueta tornar-se turva ao sair pela porta de vidro sem olhar para trás, me obriguei a recordar algo que tinha entendido há muito tempo.
Dougie seria, pra sempre, meu quase amor.
E o problema do quase era que ele nunca era o bastante.


You're fun and you're wild but you don't know the half of the shit that you put me through

Corringham, cinco anos atrás

Eu costumava dizer que as ruas de Corringham eram peritas em brincar com os nossos sentidos.
Ao longo da alameda vazia e silenciosa, o menor barulho que rompesse entre a escuridão podia parecer um estrondo a quilômetros de distância, mas se tornar quase inaudível a apenas alguns passos.
Talvez fosse o senso de segurança falando mais alto; a certeza de que era impossível algo acontecer em uma cidade com menos de dez mil habitantes.
E talvez por isso eu tenha falhado em prestar atenção no ruído dos tênis surrados se aproximando pelo gramado.
– Continua procurando o Chip?
Dougie.
Certo. Aquela frase parecia ainda mais ridícula quando não havia um único vestígio de álcool correndo em minhas veias.
– É meu recanto de paz. – Ensaiei uma voz serena, apesar da vontade de me esconder ou sair correndo dali.
Com um sorriso brincando nos lábios, ele arrastou os olhos azuis meticulosamente por cada detalhe da casa de madeira no topo de uma árvore em que eu estava sentada.
Céus, ele já era tão lindo assim três noites atrás?
Se, em um instante, o garoto me observava com os braços cruzados, no outro, estava prestes a escalar a escada de ripa que o levaria até onde eu estava. Em um ímpeto, fechei o caderno que estava entre minhas mãos de qualquer jeito.
– Não me lembro de ter te convidado pra subir. – Embora contraditório, escorreguei no assoalho para que ele sentasse ao meu lado na porta.
– O que está escrevendo? – Sem se incomodar em me responder, ele apontou para a caneta e o caderno jogados em meu colo.
Apertei os olhos em sua direção, tentando esconder o sorriso que insistia em se formar em meu rosto.
Por que ele se importava? Aposto que a vida dele era muito mais interessante do que estar comigo em uma casa na árvore em um sábado à noite.
– Gosto de registrar meus pensamentos. E não, você não pode ler. Não mostro pra ninguém.
O sorriso de Dougie se alargou à medida em que eu deslizava o objeto para o meu outro lado, um pouco mais longe de sua vista.
– São poesias?
– Algo assim. – Ele estava perto demais e os tons intensos de azul que cintilavam em seus olhos mal deixavam eu me concentrar.
– E sobre o que você pensa?
Eu não havia percebido antes, mas ele tinha uma pequena cicatriz abaixo dos lábios que, em harmonia com seus traços sublimes, parecia um tanto… Sensual.
– Inúmeras coisas. Mas sobre sair daqui, principalmente. – A sua expressão curiosa me incitou a continuar. – Sempre imagino como deve ser morar em Bel Air. As casas escondidas entre as árvores e isoladas pelas extensas estradas, as noites quentes de verão do meio de julho... É um bairro com praticamente a mesma população que essa cidade. Não parece incrível?
– Parece extraordinário.
Dei um pequeno sorriso, abaixando a cabeça ao sentir minhas maçãs esquentarem. Eu provavelmente havia soado ridícula. Tinha o costume de falar rápido demais e fascinada demais quando o assunto era algo que eu gostava. Ainda assim, o sorriso afável permanecia em seu rosto e seus olhos insistiam em cair sobre mim.
– O que é isso? – Apontei para a estampa branca em sua camiseta preta; não apenas por curiosidade mas, principalmente, para tentar mudar o curso da conversa.
Ele acompanhou meu olhar, como se precisasse lembrar a roupa que estava usando. E então balançou a cabeça e estreitou as sobrancelhas, como se eu fosse a criatura mais estranha que ele já tivesse visto.
– O que quer dizer? Você não conhece Blink? – Seus olhos quase saltaram para fora da órbita enquanto ele levava a mão ao peito em um gesto teatral.
– Eu deveria? – Enrolei a ponta dos meus cabelos nos dedos, como eu sempre fazia quando estava sem graça com algo.
Ele deu uma pequena risada cética e prontamente sacou o celular do bolso da calça jeans.
– O que você gosta de escutar? – Indagou um pouco distraído enquanto deslizava o dedo pela tela incansavelmente, procurando por algo.
– Não gosto de música tanto assim… – Murmurei, um pouco vaga, tentando desviar o olhar de Dougie.
Era óbvio que aquilo significava muito para o garoto.
– Como pode não gostar de música?
Agora a incredulidade estava límpida em seu olhar.
– Não é que eu não goste. – Eu me virei brevemente em sua direção. – Sabe aquilo que as pessoas dizem que sentem quando ouvem uma canção que gostam muito? Que lembram de algum momento e sentem coisas únicas? Eu sinto isso com filmes. E livros.
O oceano profundo em seus olhos tornou-se momentaneamente opaco, antecipando um sussurro quase cauteloso.
– Ainda bem que nos conhecemos. Eu tenho muito pra te mostrar.



Harper havia me sacudido algumas dezenas de vezes, implorando para que eu contasse qual era o lance entre eu e Dougie Poynter. Em todas elas, eu havia insistido que não havia nada pra contar.
Sabe aquela história sobre como dizer uma mentira inúmeras vezes pode fazê-la se tornar verdade?
Eu não estava apenas tentando convencer a minha amiga de que aquela era a realidade. Muito antes disso, eu estava tentando convencer a mim mesma de que Dougie já não mexia mais com o que quer que ainda existisse dentro do meu peito.
Mas por que, então, meus olhos estavam marejados ao encarar meu reflexo no espelho do vestiário após o expediente?
Talvez a culpa fosse daquela maldita camiseta que um dia esteve impregnada com o cheiro dele.
Hoje, ela vestia meu corpo ao menos uma vez toda semana. O tecido preto estava visivelmente puído. A estampa com os dizeres Blink 182, bem na altura dos meus seios, porém, continuava intacta.
Eu costumava dizer a mim mesma que gostava daquela peça porque ela fazia meus peitos parecerem menores. Era um contraste quase pacífico quando eu tirava o uniforme apertado do Hooters e a colocava em meu corpo.
Mas eu sabia que o meu apreço pela camiseta tinha muito mais a ver com a reminiscência de Dougie e com a breve recordação do que um dia nós dois fomos. Cinco anos depois, eu quase podia sentir seu cheiro toda vez que a usava.
O frio me atingiu cortante quando saí pela porta dos fundos do Hooters. A noite já havia caído e eu podia jurar que uma tempestade estava se formando no horizonte.
O que eu não esperava era que, em instantes, eu também sentiria o céu nebuloso e as rigorosas rajadas de vento direto em meu coração.
Ele ainda estava ali.
Encostado em um pequeno carro preto que eu não precisava olhar duas vezes para afirmar ser ecologicamente correto.
Encarando o céu cinzento enquanto seus dedos brincavam despreocupados com um pedaço de papel.
Meu corpo congelou por alguns instantes. Pensei instintivamente em correr na direção contrária, mas minhas pernas fixaram-se ao chão, se negando a fazer qualquer movimento.
Como se sentisse que eu estava ali, Dougie desviou a atenção das nuvens diretamente pra onde eu estava parada.
Sabia que ele não hesitaria em vir na minha direção. Ainda assim, meu coração explodiu em batidas frenéticas quando ele começou a andar e o vento bagunçou seus cabelos .
Eu me vi inerte, respirando apenas para aguardar seu próximo movimento.
Era o que eu chamava de efeito Dougie Poynter.
Quando parou em minha frente, seus olhos cintilaram entre meu rosto e minha camiseta; e sua expressão, antes serena, deu lugar a um sorriso atravessado que eu bem conhecia.
– Não diga nada! – Eu me apressei em dizer, por mais que minha voz tivesse saído em um fio.
– Só ia dizer que ela ainda cai muito bem em você. – O sussurro rouco e saudoso me pegou desprevenida, e eu senti que podia derreter ali mesmo.
Uma risada baixa arranhou minha garganta.
– Eu disse nada, Poynter.
Um estrondo alto e grave irrompeu no vazio da noite. Olhamos, os dois, para o céu, a tempo de observar as primeiras gotas atingirem o chão.
Eu sorri ao sentir a chuva fraca molhar a minha pele.
E eu não precisava olhar, mas sabia que Dougie estaria fazendo uma careta.
Ele adorava dias ensolarados, eu me lembrava bem.
Eu sempre gostei de tempestades.
– O que acha de uma carona pra casa?



Eu não devia ter aceitado a carona.
Eu não devia ter sorrido todas as vezes em que seus olhos encontraram os meus, refletidos no retrovisor.
Mas, principalmente, eu não devia ter convidado ele para subir.
Meu apartamento ficava em cima de uma floricultura no centro comercial da cidade. Era um tanto caótico durante o dia, mas surpreendentemente silencioso à noite. Tão silencioso que, se eu me concentrasse por um instante, podia ouvir as batidas desmedidas em meu peito ao observar Dougie passando pela porta de minha casa.
– Você ainda escreve? – Foi sua primeira pergunta ao passar o lado de uma escrivaninha apinhada de folhas, cadernos e canetas.
– Às vezes. – Sorri ao trancar a porta e caminhar em sua direção. – É difícil quando nada ao seu redor te inspira. Antes, eu tinha…
Eu. – Ele parou por um segundo para me olhar por cima do ombro.
Respirei fundo.
– Você.
– Não se apoie nisso, . Você é poesia da cabeça aos pés.
Ai. Por favor, não diga coisas assim, Poynter.
Enquanto ele examinava meticulosamente cada detalhe da minha sala, eu concentrava minha atenção em observá-lo.
Ele continuava tão lindo quanto eu lembrava.
Ele ainda apertava os olhos daquela maneira adorável quando sorria. Ainda estreitava os lábios em uma linha fina quando achava que algo estava errado. Ainda ficava absurdamente bem de branco. Ainda exalava confiança e podia me hipnotizar em um segundo se usasse a intensidade precisa ao olhar em meus olhos.
Quanto a mim…
Eu ainda era uma garota cheia de sonhos e nenhuma oportunidade para realizá-los. Eu havia me mudado da casa da minha tia em Corringham, mas ainda não sentia que eu tinha um lugar para chamar de lar.
Meu peito se contraiu em uma fisgada.
Acima de tudo, eu ainda achava que Dougie merecia alguém melhor.
– Você está em um calendário? – Ele soltou uma risada ao pegar o objeto em cima do aparador ao lado do sofá e se sentar.
– Sim! E no mês de novembro. – Apesar do seu olhar lisonjeiro e completamente lascivo sobre minha foto em um minúsculo biquíni cor de rosa, tentei esconder o rubor inevitável em minhas bochechas ao sentar ao seu lado.
– No mês do meu aniversário. – Dougie deu um sorriso convencido e eu quase gargalhei.
– Não só isso, senhor egocêntrico. As publicações de novembro sempre são as mais importantes. Vale para revistas e calendários também.
– Preciso de uma cópia. – Ele devolveu o calendário para a superfície de madeira e virou em minha direção.
Perto demais.
Ao passar os olhos calmamente por cada detalhe do seu rosto, senti meu corpo se encher de um sentimento que há tempos eu não me permitia associar a ele.
Saudade.
Senti vontade de abraçá-lo. De provar os seus lábios e descobrir se eles ainda tinham o gosto nectário que eu lembrava. De dizer, com todas as letras, que eu sentia falta dele.
Mas eu não era o tipo de garota que se entregava às vontades sem pensar nas consequências.
Em vez de obedecer a irracionalidade dos meus sentimentos, apenas encolhi meu corpo, em uma tentativa falha de me proteger da proximidade do seu corpo.
– O que está fazendo aqui, Dougie? – As palavras escorregaram pelos meus lábios em um sussurro.
– Estava dirigindo até Manchester.
– É uma longa viagem.
– E já era pra eu ter chegado. – Ele deu uma pequena risada. – Não planejava parar aqui por mais do que um café.
Estreitei as sobrancelhas.
Eu sabia que não era completamente verdade. E, pelo seu olhar, ele sabia que eu sabia.
– E então você escolheu o Hooters para uma parada?
– Talvez Danny tenha me dito algo sobre ter visto uma foto sua…
Rolei os olhos enquanto soltava uma risada sincera. Mas é claro…
Algumas lembranças frenéticas preencheram minha mente antes que eu pudesse impedí-las. Harry e eu sempre tivemos algum tipo de conexão especial. Danny me fazia rir o tempo inteiro. E Tom insistia em parecer um irmão mais velho e, principalmente, mandão.
Ah, como eu sentia falta dos meninos...
– Como anda a banda? – Soei um pouco empolgada demais ao me ajeitar no sofá.
– Ainda estamos vendo como tudo vai funcionar novamente. Fletcher não aguenta ficar longe de casa por muito tempo. – Ele fez uma careta e eu não pude evitar uma risada.
Aquilo soava exatamente como um traço da personalidade de Fletcher.
– Eu estaria mentindo se dissesse que não soltei um gritinho animado quando soube que vocês voltaram.
– Apenas um? – O ar divertido em seus olhos quase me transportou para o passado.
Alguns gritinhos animados. – Sorri. – Sei como isso é importante pra você.
Em meio ao silêncio recém instalado e à fraca iluminação da minha sala, nossos olhares se encontraram, cúmplices. Não era preciso de muito para saber que havia muita história ali.
Eu nunca saberia dizer quando tempo, de fato, ficamos nos encarando.
Talvez os minutos tenham se transformado em segundos, para depois virarem horas. A sensação que eu tinha era de que eu poderia passar uma pequena eternidade vendo os tons de azul dançarem em seus olhos enquanto minha mente era bombardeada pelos mais diversos pensamentos.
Ainda assim, decidi me concentrar em apenas um. O mais imprudente deles.
Mas imprudência era meu nome do meio quando se tratava de Dougie Poynter.
Hipnotizada pelas suas feições e completamente tomada pela sensação de estar cara a cara com o cara que um dia teve meu coração, me vi incapacitada de controlar as palavras que meu peito jogou direto para minha garganta e saíram em um murmúrio.
– Você pode passar a noite aqui, se quiser.


Why can't you be cold like any old good ex would do?

Enquanto o céu brincava de colorir entre suaves nuances de azul e alaranjado, minhas bochechas se dedicavam a atingir o mais forte tom de cor-de-rosa possível.
Eu não sabia dizer se havia dormido por mais de dez minutos seguidos aquela noite. Sabia, apenas, que meus olhos acompanharam em tempo quase integral o vagaroso desaparecer das estrelas pela pequena fresta da cortina do meu quarto. E aquela era uma tarefa dificílima – para não dizer impossível: me concentrar na beleza dos astros enquanto uma outra beleza celestial estava deitada bem ao meu lado.
Se eu podia dizer alguma verdade incontestável sobre o meu relacionamento com Dougie, seria ela que nós dois sempre transbordamos intimidade.
Desde o primeiro encontro. Primeiro beijo. Primeira transa. E até da primeira discussão.
Era como se nossos corpos apenas soubessem como reagir com precisão ao estímulo do outro. Sem esforços. Apenas instinto.
E a prova disso era a respiração tranquila contra os lençóis brancos da minha cama e os cabelos loiros, tão próximos que podiam me levar a uma viagem no tempo em instantes se eu respirasse apenas um pouco mais fundo.
Cama.
Não sofá.

A tal intimidade resolvera aparecer ainda de noite, assim que Dougie aceitou meu convite para ficar até o dia seguinte. Não foram necessárias meias palavras hesitantes, apenas o encontrar de olhares saudosos, para que estivéssemos deitados lado a lado com tanto pra dizer e tão pouca coragem para externar.
– Não lembro de você gostar de acordar tão cedo assim... – Antes de me fazer virar em sua direção, a voz sonolenta do garoto que um dia foi meu namorado fez meu corpo arrepiar por inteiro.
Ouvir a sua voz tão de repente me causou a mesma sensação que ele costumava trazer ao meu corpo diariamente. Um misto de frio na barriga, coração acelerado e respiração ligeiramente falha. Hesitei por um momento, me obrigando a lembrar porque mesmo havia o convidado para estar ali comigo, e tentei pensar em um motivo para não pedi-lo para sair pela minha porta naquele mesmo instante.
E então meu coração trabalhou mais rápido que minha mente. Em um piscar de olhos, minha boca se enchia de um gosto doce enquanto meu peito batia levemente mais depressa.
Não existia um motivo. E sim uma interminável lista deles.
Lembrei do quanto eu gostava da maneira que Dougie sempre me direcionava as palavras enquanto um sorriso terno brincava em seus lábios. Da forma que ele colocava meu cabelo atrás da orelha quando estávamos conversando sobre nossos sentimentos. E, principalmente, do jeito desmedido que ele prezava e cuidava das coisas que mais amava – a música, a natureza e, bem... Eu.
– Sabe como é, não costumo acordar todos os dias com um ex-namorado dormindo ao meu lado. – Dei um pequeno sorriso que logo se refletiu em seus lábios.
– Bem, nós nunca fomos convencionais. – Ele esfregou os adoráveis olhos azuis e deslizou discretamente para mais perto de mim – Por que começar agora?
Perto demais.
Aí estava. Outra coisa que eu costumava gostar tanto em Dougie. Ele tinha a mania de falar perto demais da minha boca. Como se fosse algo perfeitamente normal e não houvesse nada extremamente sexual em nossas respirações se misturando e nossos lábios quase roçando. Era torturante e delicioso ao mesmo tempo.
– Você não mudou nada, não é mesmo? – Minha voz soprou um falho murmúrio.
Meu olhar, assim como o dele, não conseguia se decidir entre mirar os lábios ou a íris azulada de Dougie.
– Vou levar isso como um elogio. – O hálito quente fez cócegas ao soprar em minha boca.
E eu estaria mentindo se dissesse que, ao sentí-lo tão perto de mim, não me perguntei se seu gosto ainda era o mesmo.
Não saberia dizer quanto tempo passamos apenas observando um ao outro. O prazer de observá-lo era tão familiar… E era como se precisássemos daquele ínfimo instante de infinito para lembrar de cada traço que o tempo inevitavelmente apagou de nossa memória.
Tão repentinas quanto as boas lembranças, as mágoas atingiram meu peito sem aviso prévio. Um lembrete silencioso de que eu precisava me afastar.
De Dougie.
Daquela situação.
Algo em meu semblante devia ter mudado, já que Dougie franziu levemente o cenho, como sempre fazia quando algo parecia estar errado.
Errado. Parecia-me uma palavra apropriada para o momento.
– Eu… Preciso trabalhar. – Por mais que algum tipo de eletricidade imaterial me puxasse na direção de Poynter, usei toda minha força de vontade para me afastar dele.
Sua expressão confusa deve ter durado um segundo. Se, em um instante, ele estava deitado ao meu lado, perto demais para sermos chamados apenas de amigos, no outro, ele estava prontamente em pé ao lado da cama.
– Pode ir se arrumar. Eu faço o café.
Soltei um suspiro ao me levantar também. Por que ele precisava ser tão... Amável? Seria tão mais fácil se ele dissesse qualquer coisa cruel que me devolvesse a certeza do porquê de termos nos dado adeus há cinco anos.
Mas Dougie Poynter e crueldade não podiam coexistir na mesma sentença.
– Extra forte e sem…
– Sem açúcar. Eu lembro.
O sorriso doce em seus lábios me fez querer abraçá-lo. Senti uma pontada no peito ao me lembrar como ele me conhecia bem e me esforcei para seguir até o banheiro sem transparecer o quanto me atingia o fato de ele saber tudo sobre as coisas simples que me faziam ser eu mesma.

-


– Eu gosto do seu cabelo assim. – Os olhos azulados refletiram apertados no espelho em que eu encarava.
Era tudo o que eu precisava pra saber que ele estava sorrindo.
– Você sempre gostou. – Passei os dedos pelos bagunçados fios antes de começar a penteá-los.
Pelo reflexo, o observei se aproximar e depositar uma xícara à minha frente na penteadeira e se sentar bem ao meu lado, na cama. O cheio de cafeína me fez sorrir instintivamente. E, também instintivamente, puxei o meu casaco para que ele cobrisse o meu uniforme de trabalho.
– Esse não é o tipo de coisa que precisa de fazer na minha frente. Você sabe, não sabe? – Suas mãos encostaram levemente em meu braço, mas fora o suficiente para todos os meus músculos enrijecerem.
Dizendo a coisa certa. Mais uma vez.
– Sei… – Coloquei a mão sobre a sua e a deslizei vagarosamente pra longe de mim.. – É mais sobre mim do que sobre você. – Fechei, por fim, o casaco e me levantei. – Estou pronta.
Dei um gole gigante no café. Por que ele parecia mais gostoso do que de costume? Era sério que até meu paladar estava tentando me convencer de que as coisas ficavam melhores com Dougie por perto?
– Eu posso te levar. – Ele disse enquanto andava atrás de mim em direção à sala.
– Não precisa. É melhor continuar sua viagem logo.

– Não, Dougie. Não. – Girei nos calcanhares, parando bem em sua frente. – Não torne as coisas mais difíceis. O que você quer? Passar mais uma noite? Sair para jantar? E então pra beber algo? – As palavras saíram rápidas e desesperadas demais.
– Eu não bebo. – Um músculo pulsou em seu maxilar quando sua expressão tornou-se extremamente séria.
As íris, antes límpidas, escureceram instantaneamente. Por mais que não quisesse admitir, eu ainda o conhecia bem o suficiente para saber que o brilho opaco em seus olhos gritava ele não tinha gostado de algo.
– Certo.
Balancei a cabeça quando alguma coisa se remexeu dentro de mim. Aquele era um assunto um tanto delicado.
– Eu sei. Não sei porque disse isso.
Porque ele te deixa nervosa.
Abaixei a cabeça enquanto ele caminhava até a porta. Precisei soltar um suspiro pesaroso para tentar, em vão, aliviar a tensão do meu corpo antes de ir atrás dele.
Ele encostou na maçaneta e o nó em minha garganta apertou. As lágrimas pediram para escorrer pelo meu rosto.
Eu conhecia aquela cena. Eu, Dougie, uma porta e sentimentos confusos.
O quão errado seria pedi-lo pra ficar?
Quando eu achei que ele sairia sem me dirigir uma última palavra, suas costas deram lugar ao meu par de olhos azuis preferidos. O problema era que, dessa vez, só existia tristeza neles.
– É sempre difícil te dizer adeus. – Ele murmurou, encarando o fundo dos meus olhos daquela forma intensa que ele e só ele conseguia.
Inevitavelmente, duas lágrimas grossas molharam meu rosto. E então eu finalmente fiz o que estava desejando desde que o vi entrando pela porta do Hooters na última noite. Joguei meu corpo em seus braços, sendo recebida por um abraço apertado e carregado daquele sentimento que conhecíamos tão bem.
Carinho.
E, agora, saudade.
A agitação presente em minha barriga desde o dia anterior deu lugar para uma dor aguda no meu peito por tê-lo perdido.
Era maravilhoso sentir, novamente, seu corpo grudado ao meu. Fascinante senti-lo afagando meus cabelos enquanto dava um beijo de leve no topo de minha cabeça. Embriagante sentir, novamente, seu aroma fresco que costumava envolver e confundir meus sentidos.
Enquanto desfazíamos o abraço, nossos olhares ainda insistiam em permanecer entrelaçados. Era dilacerante ver a dor por trás do que me parecia um pequeno pedaço do céu – anil, sereno e belo.
E então fingi que não meu coração não se estraçalhava em meu peito ao vê-lo partir.
Mais uma vez.

-


Corringham, cinco anos atrás
– O de sempre, por favor. – Ofereci um sorriso simpático para o sisudo senhor de cabelos brancos do outro lado do balcão.
Ele comandava uma pequena venda que ficava bem ao final da rua da casa que eu dividia com minha tia e minha prima.
Sem mover um músculo da expressão séria, ele pegou duas garrafas de vinho tinto da prateleira atrás do balcão. Eu estava prestes a pegar o dinheiro no bolso do meu moletom quando uma voz repentina bem atrás de mim me causou um sobressalto.
– O seu ‘de sempre’ são duas garrafas de vinho? – Encarei a expressão divertida de Dougie por cima do meu ombro.
Um sorriso discreto começava a se formar no canto dos seus lábios e, sem saber explicar o porquê, tive vontade de sorrir também.
Paguei o nada amigável senhor e peguei a sacola de papel com as duas garrafas antes de me virar para o garoto.
– Você está me seguindo ou algo do tipo?
– Algo do tipo. – O seu sorriso esperto me fez balançar a cabeça negativamente enquanto o observava colocar duas barras de chocolate e uma garrafa de água em cima do balcão.
Não sabia bem porque havia o esperado pegar as suas compras. Quando dei por mim, estávamos saindo da loja lado a lado, como se tivéssemos chegado juntos ali. E provavelmente seguiríamos assim até nossas respectivas casas – se eu já não estivesse planejando ir pra outro lugar e virado para a direção contrária quando chegamos à calçada.
– Achei que morasse pra lá. – Ele deteve os passos e apontou com o dedo para a direção de nossas casas.
– E o que te diz que estou indo pra casa?
Aquela era praticamente uma pergunta retórica. Eu sabia o que dizia – o moletom cinza três vezes maior que eu, o short de pijama que mal aparecia e os chinelos cor de rosa. Talvez eu devesse me sentir envergonhada por estar assim na frente de Dougie Poynter, mas algo em seu olhar me confortava e impedia que qualquer tipo de negatividade atingisse meus pensamentos.
– Certo. – O sorriso em seu rosto ficou um pouco maior quando ele deu dois passos em minha direção. – Me diga pra onde está indo e me dê um bom motivo pra não te acompanhar.
– Ah, meu Deus! Espero que suas letras sejam melhores do que suas cantadas. – Disse teatralmente, arrancando uma gargalhada dele.
– Não é uma cantada. – Ele levantou uma sobrancelha. – Não preciso de cantadas.
Foi a minha vez de gargalhar.
– Você é terrivelmente convencido. – Rolei os olhos e dei meia volta, ficando de costas para Dougie. – E você pode vir comigo.
A resposta veio com um sorriso e mais dois passos em minha direção para, dessa vez, ele parar ao meu lado.
Enquanto fazia o caminho que sabia de cor com o garoto em silêncio bem atrás de mim, me perguntei porque Dougie Poynter havia escolhido passar a noite de domingo comigo.
Talvez fosse apenas uma forma de matar o tempo com alguém novo pra conversar naquela minúscula cidade quando todos seus amigos estavam distantes, em Londres.
Talvez ele simplesmente fosse esse tipo de cara: agradável e receptivo com qualquer um que cruzasse o seu caminho.
– Onde, exatamente, estamos? – A voz hesitante de Dougie irrompeu em meio ao silêncio da noite.
– No melhor lugar da cidade para acabar com uma garrafa de vinho e se afogar nos próprios pensamentos. – Subi os três primeiros degraus da casa abandonada em nossa frente e abri os abraços.
Era apenas um sobrado ao final da rua com muros quebrados, a grama alta demais e o clima perfeito para um filme de terror. Eu gostava dali.
Dougie riu ao balançar negativamente a cabeça.
– Céus, você é mesmo uma poeta.
– O que isso quer dizer? – Indaguei ao tomar um lugar no penúltimo degrau, sendo acompanhada por ele segundos depois.
– Apenas alguém com necessidade de inspiração tem um lugar assim para ‘se afogar nos próprios pensamentos’. – Ele fez aspas com as mãos – Acredite, eu sei.
– Você tem um lugar? – Virei em sua direção, me sentindo tentada a saber mais sobre aquele cara que ainda parecia surreal demais pra ser verdade.
– Em Londres. – Ele passou as mãos pelos cabelos loiros de um jeito incrivelmente sexy. – Talvez você pudesse escrever alguma coisa pro McFLY.
E agora ele havia se tornado ainda mais sexy.
– Minha escrita não tem o senso de humor da sua música. Acho que humor é algo difícil de se tornar poético. Mas, de alguma forma, vocês conseguem.
Um sorriso de canto se formou em seus lábios adoráveis e os olhos azuis se apertaram um pouco.
– Então você ouviu minhas músicas?
– É, elas são… Ok.
Sua expressão tornou-se desconfiada e curiosa. Eu provavelmente não havia soado convincente. Eles eram bons e ele sabia disso.
É claro que, no dia seguinte ao que o encontrei, eu havia ficado horas pesquisando sobre a banda do cara inacreditavelmente gato que era meu vizinho.
E verdade era que o McFLY era… Incrível. Eu havia amado. Quase tanto quanto amava filmes, livros e poesia.
– E quando eu vou poder ler algo que você escreveu?
– Provavelmente, nunca. – Minhas bochecha se pintaram de rosa diante do brilho apreciativo do olhar dele. – Certo. Agora a gente vai até a via expressa e senta no meio da pista até aparecer algum carro. – Apontei para a rua de duas mãos um pouco adiante de nós. – É tipo um ritual de passagem pra quem veio passar algum feriado em Corringham. Você precisa fazer. A pegadinha é que absolutamente nenhum carro vai passar por aqui até amanhecer, então você precisa ficar até o sol nascer.
– As coisas definitivamente eram diferentes quando que eu morava aqui. – Dougie deu uma risada que, estranhamente, reverberou bem em minha barriga.
Fui obrigada a reparar no quanto os olhos azuis pareciam ainda mais atraentes com nenhuma iluminação além do luar. O que normalmente parecia uma piscina de águas cristalinas, naquele instante, se coloria de um intrigante de azul escuro. Eu me peguei imaginando como seria passar os dedos entre os fios dos seus cabelos e como seria descobrir o gosto de sua boca.
Céus, ele era mesmo lindo.
E eu ainda achava curiosamente excêntrico estar ali com um rockstar ou algo do tipo.
– Você é estranha, . De um jeito bom.
– Eu? É você quem gosta de lagartos.
Ele estreitou as sobrancelhas e eu tive vontade de esconder meu rosto entre as mãos. Agora estava óbvio o tempo que eu realmente havia passado lendo sobre o McFLY e o garoto em minha frente.


-


Quando saí do Hooters naquela conturbada quinta-feira à noite, me peguei pensando em como algo que era tão simples acabou se tornando tão complicado.
E, por mais que eu não quisesse admitir, pensei, também, se levariam outros cinco ou seis anos para ver Dougie novamente.
Quando Harper me deixou na porta de casa, eu estava pronta para enfrentar uma noite solitária, reflexiva, regada a sorvete de morango e, talvez, algumas lágrimas. Mas quando eu alcancei a porta do prédio, senti meu corpo tremular por completo e todos os meus planos irem por água abaixo.
Eu não precisava virar. Eu reconheceria aquela voz sob qualquer circunstância. E meu coração estava se remexendo daquele jeito que só acontecia quando eu estava com ele.
As palavras levaram alguns segundos para fazer sentido. Mas, quando as entendi, fui obrigada a travar uma guerra interna para decidir se, daquela vez, eu ouviria minha razão ou o meu coração que, claramente, gritava pelo nome de Dougie.
Não posso ir embora sem saber quando vou te ver novamente.


Cried on his shoulder 'cause life is hard

Corringham, 5 anos atrás
Quando eu saí em disparada pelo jardim do lugar que, há seis anos, eu chamava de casa, senti as lágrimas rolarem gélidas pelo meu rosto e a sensação libertadora de deixar meu corpo agir pela impulsividade.
Eu não sabia ao certo porque a angústia havia me atingido tão forte naquela noite.
Talvez pela amargura de ter um lugar para chamar de casa, mas não de lar.
Talvez pela saudade de alguém que eu nem ao menos tinha conhecido.
Minha mãe.
Antes mesmo de pensar em deter o ritmo frenético com o qual minhas pernas se moviam, me vi parada na porta da casa de Dougie Poynter.
Quando pensei em sair correndo, meus dedos foram mais ágeis e fizeram o som da campainha explodir agudo na rua silenciosa. O bom senso, então, fez uma rápida visita à minha mente.
E se outra pessoa atendesse a porta, o que eu diria? E o que ele pensaria que eu estava querendo ao aparecer à uma da manhã em sua casa? Era muito tarde para sair correndo?
O clique da porta me fez dar um passo para trás e limpar as lágrimas em um ímpeto.
Era.
Respirei aliviada quando Dougie apareceu em minha frente. Seus olhos azuis, levemente sonolentos, foram os primeiros a me chamar atenção. Ele estreitou as sobrancelhas e passou a mão pelos cabelos loiros de um jeito que me deixou desconcertada por um instante – fui trazida novamente à realidade quando o garoto cruzou os braços e um sorriso provocante curvou o canto dos seus lábios.
– Preciso ir pra longe daqui – Estendi a chave, antes escondida entre meus dedos, bem na altura de seu rosto. – e odeio dirigir.

-

– Pra onde estamos indo?
– Você vai ver.
– Eu não quero ver. Quero saber. Agora.
– Encare como uma surpresa.
– Eu realmente detesto surpresas.
Dougie sorriu de canto, balançando a cabeça negativamente. Eu cruzei os braços e me enterrei um pouco mais no banco do passageiro.
Passei vinte e cinco minutos tentando negar o óbvio: era impossível não admirar o garoto ao meu lado. Meus olhos faziam uma dança frenética entre a janela, minhas pernas e, disfarçadamente, Dougie.
Quando o carro diminuiu a velocidade, estávamos em uma avenida que continuava por quilômetros e mais quilômetros, perdendo-se no escuro da madrugada.
Ele não falou nada. Desligou o motor do carro e deixou os faróis acesos antes de descer. Precisei de alguns segundos para aceitar a surrealidade da situação e, finalmente, abrir a porta.
O frio estava cortante do lado de fora, e o conjunto de saia jeans e blusa preta de mangas curtas que eu estava usando parecia inexistente. Ainda assim, senti um calor desconhecido subir pelo meu corpo quando ergui os olhos e o vi parado à minha frente.
O farol fazia sentido. Era a única luz que iluminava Dougie, parado a apenas alguns passos de distância de mim. Ele estava em uma área coberta de grama e, logo atrás, a areia encontrava o mar e as ondas arrebentando eram o único som a ser ouvido. Levei um instante para absorver a cena.
O moletom azul que fazia os olhos dele brilharem ainda mais.
A calça cinza surrada – uma pequena lembrança do que ele havia feito por uma garota que ele mal conhecia e que mal conhecia ele; sair de casa no meio da noite e levá-la até Canvey Island, apenas para fazê-la se sentir melhor.
E existia, ainda, o fato dele ser Dougie Poynter. Seria, pra mim, um fato sem importância algumas semanas antes. Naquele dia, o baixista da banda com letras engraçadas e um som impressionantemente incrível me intrigava e, inconscientemente, me instigava a querer conhecer os detalhes que eu ainda só imaginava de sua vida.
– Você já esteve aqui?
– Já passei pela Western Esplanade, mas nunca parei na praia. – Disse ao dar os cinco passos que me colocariam ao lado dele. – Por que estamos aqui?
Ele deu um sorriso e virou as costas antes de continuar andando em direção à areia
– Minha mãe costumava me trazer aqui com a minha irmã quando éramos pequenos. É o lugar mais pacífico que conheço.
Foi a minha vez de sorrir ao vê-lo sentar na areia, me juntando a ele em seguida.
– Eu estava precisando de um pouco de paz. – Abracei as pernas, respirando fundo ao sentir a brisa salgada da maresia.
– E vai me contar o porquê?
Quando desviei os olhos do oceano à minha frente, encontrei algo tão intensamente azul e belo quanto as águas me encarando de volta. Queria, mais uma vez, perguntar o porquê de ele se importar. Mas a genuinidade das duas esferas de topázio pareciam me responder antes que eu fizesse a pergunta.
Dougie era, simplesmente, esse tipo de cara. Do tipo que a gente só encontra uma ou duas vezes na vida e, se der sorte, ele aparece pra ficar.
– Minha mãe… – Tentei começar, mas senti minha garganta ficar apertada.
A conhecida sensação das lágrimas fazendo meus olhos arderem chegou, devastadora.
Não era o tipo de coisa que eu fazia – abrir meus sentimentos para alguém que eu mal conhecia. Mas Dougie me deixara sem escolhas quando, de repente, apoiou a mão em minha perna e, em meio a um apertão carinhoso, sussurrou uma frase para mim.
– Você sabe que pode me contar.
Estranhamente, de alguma forma, eu sabia. E, um tanto sem pensar, deitei a cabeça em seu ombro, encontrando ali o conforto que eu não fazia ideia de que precisava.
– Eu não conheci minha mãe. Ela morreu quando me teve. E eu sei, todo mundo fala que não é minha culpa, mas meu peito dói toda vez que penso nela. E como eu posso sentir saudade de alguém que nunca conheci?
As lágrimas correram, livres, até o ombro de Dougie. E eu deixaria outras milhares rolarem ainda mais rápido se ele não colocasse os dedos em meus cabelos, fazendo-me um carinho alentador.
– A gente não precisa entender tudo que sente...
– Eu nunca a vi, Dougie. Tudo que eu tenho dela é uma foto que vive entre as últimas páginas do meu livro favorito. – Fechei os olhos com força, apertando meu rosto um pouco mais contra seu ombro. – Eu… Eu sonho com ela, às vezes. É sempre a mesma coisa. Ela está na praia, em Brighton, e eu a encontro. E toda vez que tento abraçá-la, eu acordo. Foi o que aconteceu essa noite.
Minha voz saiu falha, e meu choro voltou com tudo.
Dougie não disse nada. Não tinha o que dizer.
Ainda assim, me deu exatamente o que eu precisava.
Passou as mãos em volta do meu corpo, me trazendo pra perto de si. Enterrei minha cabeça em seu peito, onde me permiti chorar baixinho até que não houvessem mais lágrimas. Senti, pela primeira vez, o aroma fresco que seu corpo emanava e me fazia sentir ainda mais aconchegada.
– Desculpe, eu geralmente não choro na frente de estranhos. – Tentei limpar as lágrimas de minhas bochechas ao sair de seu abraço. – Não costumo chorar na frente de ninguém, na verdade.
– Não sou um estranho. – Dougie repousou a mão sobre meu pulso, afastando-o com delicadeza, e então começou a enxugar o rastro molhado em meu rosto. – Você sabe muito sobre mim, lembra?
Senti minhas maçãs esquentarem.
– É realmente um ótimo momento para me deixar com vergonha.
– Pelo menos eu consegui te fazer sorrir. – Ele me olhou com o canto dos olhos, divertido, e eu mal havia percebido que meus lábios haviam se curvado. – Então me diga,
– Ei! – Eu o interrompi, a voz ligeiramente mais alta. – Você descobriu o meu nome. Eu não te contei. Como descobriu?
Eu não teria percebido se o meu nome não soasse tão delicioso deslizando por seus lábios.
– Você não é a única com um computador.
Ele deu uma piscadinha e senti minha barriga revirar. Dougie Poynter tinha pesquisado sobre mim?
– E eu já sabia da última vez que nos encontramos. Você apenas não percebeu.
– Isso não me parece certo
Tentei me esforçar para lembrar da última noite em que nos encontramos. E eu não lembrava. Isso significava que eu estava cada vez mais vulnerável ao efeito Dougie Poynter?
– Nem pense em fugir de minhas perguntas. – Ele se aproximou um pouco. – Qual é o seu livro preferido?
Deixei uma risada inevitável escapar de minha garganta. Entre tantas perguntas que ele podia me fazer, escolhia aquela? Só mais tarde eu percebi que ele tinha a feito não porque era importante pra ele mas, sim, porque era importante pra mim.
– The Great Gatsby. Ninguém narra melhor uma história do que Scott Fitzgerald.
Com um sorriso que refletia em seus olhos, ele me encarou por alguns segundos.
– Eu nunca li.
– Você simplesmente não pode nunca ter lido a maior obra literária existente! – Levei as mãos ao peito de maneira exagerada.
– Você quer mesmo conversar sobre isso? – Ele se virou brevemente para mim. – Estou passando a noite com uma garota que nunca ouviu Blink.
Dei uma gargalhada sonora. Ele realmente não tinha esquecido aquele assunto?
– Você faz soar como se fosse um crime, Poynter.
– É uma vergonha. – Ele rebateu prontamente antes de murmurar, quase incrédulo. – Nunca ouviu Blink…
– Estou tentando entender o porquê de você ainda não ter me amarrado em uma cadeira e me feito escutar quatro horas seguidas dessa tal banda.
Foi a vez dele gargalhar.
– Não é algo que pode ser ouvido assim, de qualquer jeito. – Ele ergueu os ombros. – Vai acontecer. No momento certo.
– Certo. – Tentei parecer indiferente, mas algo dentro de mim exclamava que aquilo queria dizer que nos veríamos novamente.
– Você ainda não cansou de Corringham?
– Só consigo pensar em sair daqui. – Ri ao me virar quase de frente para ele, cada vez mais compenetrada em suas palavras. – Eu queria morar em um lugar onde você consegue qualquer coisa a qualquer hora. Um táxi às duas da manhã, pizza às três e shots de tequila às quatro.
– Você consegue uma pizza em Londres às três da manhã.
– Isso foi um convite?
Dougie não respondeu. Apenas me lançou um sorriso e voltou a atenção para o ponto à nossa frente onde a escuridão do mar encontrava a infinidade celestial.
Ficamos em silêncio por algum tempo. Eu queria perguntar um milhão de coisas. Sobre o McFLY. Como era a sensação de estar em um palco. Como era sua vida em Londres. Se ele estava sentindo falta de casa e, principalmente, quando voltaria.
Naquele pequeno pedaço de infinito, eu me senti bem. Bem como não me sentia há tempos. A noite estava fria, mas eu me sentia impressionantemente aquecida ao estar perto dele. Sentados sob as estrelas, era como se a Terra se movesse em harmonia com o meu coração batendo calmo, como se eu, finalmente, tivesse encontrado algum tipo de paz.
De alguma forma, eu me sentia dentro e fora dali. Como se eu estivesse vivendo e, ao mesmo tempo, observando de longe. E era uma cena instigante de assistir. A garota com o coração frágil e o rockstar que já sabia muito sobre a vida. E – como a minha consciência insistia em lembrar – sobre como lidar com garotas.

-


Eu queria gritar.
Gritar que não era justo que ele aparecesse em minha frente, novamente, pedindo mais uma noite de recordações.
Queria gritar que, toda vez que o via, era como entrar em um caleidoscópio de lembranças bonitas que, àquele ponto, eram apenas cortantes.
E eu abri a boca para dizer não. Para pedir que ele fosse embora e me deixasse seguir a mísera vida que eu levava.
Mas eu cometi o erro de olhar em seus olhos. Sinceros, calorosos e saudosos.
E, droga, eu derreti.
– Certo. – Tirei o casaco preto que havia colocado mais cedo e o amarrei na cintura. – Uma noite. Uma noite inesquecível pela cidade. Você tem minha companhia até de manhã e, aí, você segue viagem.
A alegria mesquinha dentro mim quis vibrar com o fato de que os olhos de Dougie não saíam dos meus peitos. Era bom saber que eu não era a única que ainda me abalava pela atração obviamente existente entre nós.
– E nos vemos novamente apenas quando o destino colaborar?
– Parece que temos um trato.


Continua...



Nota da autora: "Oi, meninas! Que tal sofrer um pouquinho pelo Poynter nessa quarentena?
Espero que estejam gostando de conhecer um pouco mais da história desse casal.
♥"



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