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Última atualização: 11/08/2020

Epígrafe

Do alto da casa que julgava ser grande demais para ela e sua irmã, podia jurar que Salt Lake City parecia ainda mais bela depois de uma tarde chuvosa.
Era aquela hora do dia em que as luzes da pequena estrada em frente ao seu jardim começavam a acender e as nuvens se resumiam à uma infinita escuridão celestial.
Pois mais que jurasse que até os sentimentos mais simplórios eram inexistes em seu organismo, a menina sempre via a beleza nas coisas mais singelas – coisas exatamente como a chegada do crepúsculo ao colorir o céu das mais inesperadas cores.
Naquele mesmo instante, exatamente uma casa de distância da garota, ignorava a dança das nuvens ao olhar pela janela. Ele, por sua vez, não buscava a graciosidade em cada detalhe - era perito em encontrar defeitos. Os olhos cintilavam ao julgar o homem embriagado que atravessava a rua, batendo os sapatos de couro no chão com força ao trocar os pés desengonçadamente e ficar a um passo de cair nos galhos à beira da estrada.
Enquanto a solidão fazia da menina uma forte mulher, o eremitério transformava o garoto em um homem melancólico.
Em sua casa recém adquirida, os móveis excepcionalmente arrumados de seu quarto passavam uma visão irreal de . Talvez apenas sua cômoda, onde repousava uma intocada xícara de café emanando o bálsamo amargo por todo o ambiente, posicionada estrategicamente ao lado do computador que exibia uma lauda com diversas palavras desconexas, fosse um pequeno reflexo de quem era o rapaz.
Se alguém olhasse de fora, talvez pudesse identificar o escancarado contraste entre as duas almas solitárias e prever a história prestes a ser escrita. Mas, naquele fim de tarde, a única testemunha da cena era a névoa que pairava sob Salt Lake City, deslizando timidamente entre os ares invernais da cidade. E quiçá o destino, erudito e benévolo, que já havia traçado suas estreitas curvas para, enfim, uni-los ali.

Prólogo

E então veio o inverno…
Junto com ele, as águas calmas do lago Great Salt começavam a se tornar revoltas, trazendo para superfície segredos que deviam permanecer enterrados.
Segredos antigos - como um anel de brilhantes.
Segredos que, há tempos, deixaram de ser secretos - como uma pequena filmadora com a lente parcialmente quebrada.
E segredos que seriam capazes de mudar o destino de um grupo inteiro de amigos da pacata vizinhança de Wasatch Hollow.
A pele gélida parecia ainda mais pálida sob a luz do luar. A expressão era serena como, em vida, nunca fora.
O corpo foi levado à deriva quando os primeiros flocos de neve encontravam o chão.
De longe era impossível dizer há quanto tempo jazia sob a água. De perto, o tom cerúleo que pintava seus lábios e os rastros contrastantes das veias arroxeadas diziam que pertenceu ao lago por mais do que apenas aquela noite.
Ah, se as estrelas falassem…
Até onde sabia, o brilho dos astros eram a únicas testemunhas do que acontecera. Passaram-se cinco noites e ainda lembrava perfeitamente do que vira. Não. Não apenas do que vira; a lembrança mais visceral provinha da sensação. A sensação conhecida do descontrole correndo pelo seu sangue de maneira aflitiva, frenética e caótica demais para ser detida. Um piscar de olhos e havia possuído seu ser; era quase doloroso. Quase.
E então, quando um grito de horror ecoou entre as árvores, tudo o que viu fora a escuridão.
Passaram-se um, dois, três, quatro segundos. No quinto, a culpa fez um ímpeto de falsa coragem eletrizar seus sentidos e abrir seus olhos; e olhou para baixo a tempo de ver o sangue transformando a água cristalina em escarlate.
O desespero correu por suas veias, tão devastador que pensou nunca ter sentido algo parecido. E então, como se uma dose de morfina fosse injetada diretamente em seu coração, seu corpo relaxou.
Lembrou-se do que havia pensando mais cedo ao chegar ali. Um pensamento tão egoísta que apenas alguém com o coração demasiadamente frígido e raciocínio calculista era capaz de ter:
O brilho dos astros eram a únicas testemunhas.
Até onde sabia.


01

Chase Mitchell sabia que não precisava de muito para que um fim de tarde se tornasse perfeito. Um baseado farto pendendo de seus dedos e um confortável lugar no sofá que havia posicionado estrategicamente em sua varanda eram o suficiente.
Com os pés apoiados nas ripas de madeira esverdeada, a primeira tragada vinha como uma bala, deixando seu corpo, agora inerte, afundar um pouco mais nas almofadas escuras.
Dali, ele tinha a visão perfeita de alguns pontos importantes de Wasatch Hollow.
Ao longe, podia ver a escuridão caindo por trás das montanhas; a coreografia das nuvens tão envolventes que mal podia desgrudar suas pupilas dilatadas. Ao leste, podia ver a casa inteiramente branca das irmãs Hartley. Ele sabia que sempre dormia com a luz da varanda acesa e que Emily tomava uma xícara de chá todos os dias ao fim da tarde, debruçada no peitoril da extensão de seu quarto.
À oeste, Nate Baker e Grace Miller dividiam um ostensivo sobrado de arquitetura moderna. As janelas permaneciam fechadas na maior parte do tempo; exceto quando decidiam agraciar a noite dos vizinhos com as habituais preliminares na sacada.
Para Chase, o escuro servia bem. Mais do que isso; era necessário. Se o observador se tornasse observado, não seria possível ter sequer um vislumbre da vida do garoto. De qualquer ponto da vizinhança, a visão da varanda de Mitchell era exatamente a mesma: apenas uma torpe brasa circular, oscilando freneticamente em meio ao breu.

I saw you creeping around the garden, what are you hiding?

A chegada do inverno sempre era caótica em Utah; as tempestades faziam questão de anunciar a caída das temperaturas ao menos uma semana antes que elas acontecessem.

- Está falando sério que quer assistir esse novamente? - um resmungo tremeu seus lábios - ?

A voz de Emily não parecia passar de um ruído distante, ecoando entre as altas paredes da nossa sala de tv.
Minha atenção, no entanto, era completamente tomada pelo barulho da água que caía bruta do céu, provocando um estrondo ao encontrar o solo.
Havia quem gostasse de dias ensolarados e da brisa quente do verão.
Eu amava a chuva, o céu cinzento e o frio quase deprimente do inverno.
Eu sabia que tinha algo a ver com o fato das três piores noites da minha vida terem acontecido em meio ao mormaço quente que apenas o meio do mês de Julho era capaz de causar em Salt Lake City.
A primeira - e mais traumática de todas - fora o acidente de carro que tirou a vida dos meus pais.

- Está chovendo, Em.

Do outro lado do sofá, minha irmã soltou um suspiro.

- Podemos assistir Singing In The Rain. Se vai te deixar melhor…

Tirei a almofada branca do meu colo e levantei em um pulo.

- Pode escolher qualquer comédia obscena que você sabe que eu vou detestar. Eu já volto.

Senti a ausência de um grito de reprovação escapar dos lábios de Emily. Ah, … Você sabia que ela cansaria em algum momento. A tal sentença de segundos mais cedo, no entanto; “Se vai te deixar melhor…” atestava o óbvio.
Estar na merda era o meu novo estado de espírito.
Até quando eu estava me sentindo neutra, as pessoas à minha volta tinham certeza que eu sempre precisava de algo para me fazer bem.
Talvez fosse verdade - afinal, eu estava mesmo caminhando até o lado de fora de casa apenas para sentir a chuva molhando a minha pele. A água caía com tanta fúria que, no instante que meus pés tocaram o gramado do jardim, senti-me ensopada da cabeça aos pés. E a sensação era deliciosa.
Eu adorava a forma que meu corpo, aos poucos, ia se tornando gélido. O vestido branco, antes vaporoso, agora pesava em meu corpo e abraçava cada curva com maciez. Meus cabelos grudavam em minha nuca e pequenos fios se perdiam em meu rosto, emanando o cheiro de cereja do shampoo. Era como se o banho celestial lavasse não apenas meu corpo; mas toda e qualquer negatividade que fazia questão de se agarrar em minha alma ao longo do dia.
Por isso não tive medo de andar até o meio da estrada estreita que beirava nossa casa. Se em minhas costas as luzes das varandas enfileiradas brilhavam, na minha frente existia apenas o blecaute das trevas; os troncos longos de árvores ancestrais compunham uma floresta que se perdia ao longe. Se eu olhasse um pouco mais pra cima, podia ver as formosas montanhas, prestes a formar os primeiros vestígios de neve daquele fim de ano.
Com o olhar perdido entre os nuances azulados que apenas o início de uma noite chuvosa em Wasatch Hollow era capaz de proporcionar, não liguei quando ouvi o claro estalar de sapatos no asfalto. Eu sabia que Em não ia demorar em vir me chamar pra entrar.
Esperei alguns instantes pela voz da minha irmã. No entanto, em seu lugar, a sensação de estar sendo observada correu por minhas veias em um choque eletrizante.
Não podia ser ele. Podia?
Toda a serenidade que a chuva havia trazido para meu corpo se dissipou em um piscar de olhos. O pavor e a ojeriza à reminiscência de um toque indesejado fez meus ossos tremerem.
Era melhor ser apunhalada pelas costas ou ver o rosto do meu potencial assassino?
Mordi o lábio inferior para que parasse de tremer quando girei nos calcanhares. E então fiquei paralisada pelo que pareceram longos minutos.
O perigo devia ter se alastrado pelo meu corpo, pois eu nunca havia o visto por ali; o que era incomum em Wasatch, uma vez que eu conhecia todo mundo na pequena vizinhança. Ainda assim, tudo o que eu senti fora uma curiosidade genuína correr por minhas veias e se alojar em meu peito ao encarar seus olhos.
Ele tinha, na verdade, o par de olhos mais e mais nebulosos e misteriosos que os meus já ousaram mirar. Era como se em apenas um relance ele pudesse despir não apenas minhas roupas, agora transparentes; mas levar consigo minha alma se quisesse.
Mas fora nos seus lábios que meu deslumbre pareceu tornar-se magnético. Algo no vestígio de um sorriso que se curvava sua boca apenas de um lado de seu rosto fazia-me acreditar que, mesmo sem me conhecer, eu era a única pessoa que, naquele instante, ele queria ver. Era um daqueles raros sorrisos que, se tiver sorte, você só encontra duas ou três vezes na vida. Um movimento singelo nos lábios que o fazia parecer convenientemente compreensivo e incondicionalmente confiante.

- Qual delas você é? - os tais lábios se movimentaram, externando o que aparentavam ser as quatro primeiras palavras mais estranhas que alguém já havia me dito.

Abracei meu corpo, confirmando minha teoria ao sentir-me repentinamente nua no vestido branco e molhado.

- Desculpe? - meus lábios tremeram com uma única palavra e o quase sorriso nos seus aumentou um pouco mais.
- As irmãs Heartley, certo? É difícil não ouvir falar de vocês por aqui.

Balancei a cabeça ao tentar assimilar suas palavras. Que merda aquilo devia significar?

- Quem é você? - dei um passo em sua direção e ele recuou no mesmo instante. Parecia se divertir com a confusão evidente em meu rosto.
- , não é? Você definitivamente tem cara de .
- Mas o que...

Respirei fundo uma, duas, três vezes. Me concentrei nas gotas grossas de água, que caíam na pequena distância de dois passos entre nós dois. E então seus olhos entraram em foco, e reparei que ele precisava franzir o cenho, apertando-os para me enxergar por trás da chuva.
Ele era… bonito demais para ser tão irritante.

- .
- Hm?
- Meu nome é . Acabei de me mudar para casa ao lado - seus dedos apontaram para a construção azul escura de dois andares, exatamente ao lado da minha. Ótimo…

Dei um sorriso forçado.

- Era a péssima notícia que eu não precisava - soltei os braços ao lado do corpo e admirei suas feições uma última vez antes de seguir em direção à minha casa, fazendo questão de esbarrar em seu ombro no caminho. Era mesmo uma péssima notícia; eu gostava da ideia de ter ao menos a casa vazia ao lado da nossa - era uma casa a menos para reparar no que quer que fosse que havia de tão interessante em mim e Em.

O garoto - , como eu agora sabia - soltou uma risada quase inaudível quando nossos ombros colidiram. Mas eu não detive meus passos por isso. Fora sua voz, provocante e pretensiosa, que fez-me olhar por cima dos ombros no meio do caminho.

- Foi um prazer, Heart.
- É Heartley - resmunguei ao me virar.
- Eu sei. Mas prefiro Heart.

Dizem que o barulho da floresta pode ser reconfortante.
Até é verdade quando começa a amanhecer e os primeiros raios de sol afastam qualquer resquício de temor que a escuridão havia deixado entre as folhas. Mas quando ele começava a se pôr e a noite anunciava a chegada com os rajadas de vento chicoteando os galhos, a floresta parecia nada além de amedrontadora.
Aquela noite de sexta-feita no início de Dezembro começara exatamente assim; do acalento da sala de estar, eu podia ouvir as partes mais finas das árvores chocando-se entre si. O vento uivava ao encontrar as paredes da vizinhança e, se ficássemos em silêncio, era possível ouvir os animais que se escondiam nas profundezas da floresta.
Por sorte, não ficávamos.
Chase estava enchendo seis copos com uma mão enquanto pitava um baseado com a outra. Eu não sei porque ainda me impressionava com sua destreza de fazer milhares de coisas enquanto estava fumando ou até bolando um baseado; aliás, quando foi que Chase não estava com um baseado?

- Quer dizer, porque alguém se muda para uma casa com uma história dessas? Não é como se tivessem poucas opções por aqui - Calla Lewis observou ao colocar uma mecha de cabelo ruiva atrás da orelha graciosamente.
- Algumas pessoas tem interesse em coisas mórbidas. É mais comum do que pensa, docinho - Olivia Moore deu um peteleco no nariz de Calla.

Eu estava um tanto área à conversa, mas aquilo me fez sorrir. Calla e Olivia eram inseparáveis. Enquanto Cal era a pessoa mais doce que eu já conheci, Liv era a mulher mais determinada. Ela costumava ser a minha melhor companhia para as noites em que Salt Lake City se tornava pequena demais para diversão. Antes de… tudo.
Sempre me vi um pouco nela; era como se meu lado selvagem fosse, finalmente, compreendido.

- Eu aposto que eles não sabem - interveio Chase, passando um dos copos cheios de rum e Coca Cola para minha irmã.
- Acho que não dá pra não saber. É a única coisa interessante que aconteceu em Wasatch Hollow em décadas - Brooke Harris observou ao piscar os belos olhos . Em minha direção.

Eu sabia o que ela estava pensando; havia, de fato, acontecido outra coisa interessante - se assim eu podia chamar - em Wasatch Hollow. Mas ela não diria isso na minha frente.

- Bom, a boa notícia é que vamos descobrir - Emily deu um pequeno pulinho no seu lugar no sofá - Eu meio que os convidei para virem aqui. Vocês sabem, como nossas tradicionais festas de boas vindas.

E em um segundo, eu estava interessada na conversa.

- Você convidou quem? - apoiei meu copo no braço do sofá - Nós literalmente nunca fizemos uma festa de boa vindas.
- Certo. Mas eles não sabem disso - ela abriu o sorriso gigante de quem havia traçado o melhor plano do mundo e eu estreitei as sobrancelhas, precisando de mais detalhes do que aquilo - Os novos vizinhos. Os que compraram a casa assombrada.

Foi só quando ela apontou com os dedos compridos e esmaltados em vermelho para a direita que entendi o que estava acontecendo.
A casa ao lado, onde em mil novecentos e oitenta e quatro, aparentemente, uma esposa amargurada pela traição assassinou seu marido. Onde, nos sete anos que vivíamos aqui, ninguém havia morado.
Onde o garoto que eu vi na última noite havia entrado após ser a pessoa mais invasiva da face da terra. E, pra mim, invasivo era um xingamento e tanto.

- Não é uma casa assombrada. Isso não existe - foi a voz de Austin Allen que me despertou dos devaneios.

Eu quase esqueci que ele estava aqui; o que era normal, já que Austin, no geral, era quieto. Ele sempre dividia um baseado com Chase, gostava de falar de arte e nós não entendíamos muito bem porque ele andava com a gente. Não que ele fosse uma companhia ruim - na verdade, nós é que éramos pra ele.

- Em, você sabe como me sinto sobre estranhos. Especialmente aqui em casa - encolhi os ombros, as palavras saindo quase em um sussurro. E eu estaria esbravejando se não achasse que meu excesso de cuidado já havia se tornado um excesso de chatice para os meus amigos.
- Eles não são estranhos - minha irmã sorriu sem mostrar os dentes.

Ela estava animada com a ideia de conhecer pessoas novas. Emily sempre estava animada com a ideia de conhecer pessoas novas. Eu não entendia qual era a graça em ter que construir todo um novo alicerce de confiança; principalmente porque, na grande maioria das vezes, a confiança era quebrada em algum momento.

- Na verdade, todos fomos estranhos um dia - o sorriso de Em refletiu nos lábios de Calla, habitualmente tentando encontrar uma forma positiva de ver as coisas - Eu ouvi que eles vieram de Nova York.
- Quem se muda de Nova York para Salt Lake City? - fiz uma careta.

Talvez eu devesse ir pra Nova York.
E nada subúrbio. Cenas como essa não acontecem fora do subúrbio.

- Bom, vocês se mudaram de Santa Mônica… - ponderou Brooke, sentada ao lado de Chase. Ela sempre dizia o que pensava e eu realmente a adorava por isso. Mas não agora.
- Mas nós tínhamos um bom motivo - gesticulei como se fosse óbvio.
- Eles também devem ter... - Olivia mal terminou a frase e o barulho da porta principal sendo aberta chamou a atenção de todos nós - E parece que vamos descobrir agora - ela terminou em um sussurro.

Estava prestes a provar meu ponto quando achei que os dois haviam simplesmente feito-se bem vindos ao entrar em nossa casa sem, ao menos, tocar a campainha. Me levantei do sofá; mas meus movimentos foram detidos quando ouvi uma risada ecoar pela sala.
Os dois, de fato, estavam ali. Mas vinham logo atrás de Grace Miller e Nate Baker. E, bem… ao menos Grace sempre entrava sem bater.
Tentei impedir que meus olhos caíssem em Nate, mas era inevitável; se ele estava no ambiente, meus olhos sempre caíam nele. E, mesmo depois de um ano, meu peito ainda de contraia um pouquinho, sentindo a dor que apenas ele era capaz de causar - dor essa que apenas se multiplicava quando mirava seus dedos entrelaçados nos de Grace.
Peguei meu copo e dei um gole enquanto observava Emily segurar um dos irmãos - o outro, que eu ainda não conhecia; ou com quem ao menos não tinha trocado qualquer palavra - pelos ombros para apresentá-los a cada uma das pessoas. Porque essa era Emily.
Não pude deixar de notar que, enquanto o garoto vinha à frente, cumprimentando a todos com um largo sorriso no rosto e simpatia na ponta da língua, ficava alguns passos atrás, se resignando a olhares vazios e um leve curvar de lábios. E nenhuma palavra.
Ele parecia um pouco… Bom, comigo.
E eu apenas ainda não sabia se isso era ruim ou péssimo.
Passei o resto da noite ao lado de Chase. Ele sabia ser uma boa companhia; me fazia rir das coisas mais aleatórias enquanto me dava a dose necessária de THC da noite.
Escutando a conversa que ia e vinha pelos ares da sala, descobri apenas três coisas sobre os novos vizinhos.
O sobrenome deles era e o outro irmão se chamava .
Eles, de fato, sabiam o que havia acontecido na casa.
E eles realmente se mudaram de Nova York; mas não entraram em detalhes sobre o porquê.
Quando o relógio anunciou as três horas da manhã, Liv e Em estavam deitadas e adormecidas em um dos sofás. Chase, e conversavam enquanto juntavam os copos e garrafas espalhados pela sala e reuniam na ilha que fazia a divisão com a cozinha.
Todos os outros haviam ido embora, e eu… Eu continuava agarrada à solidão, apoiada em uma das várias portas de vidro da sala que davam para o jardim dos fundos. Pela primeira vez em muito tempo, no entanto, me repreendi por fazer isso; me fechar em uma espécie de bolha impermeável quando qualquer pessoa que eu ainda não conhecia se aproximava.
Quanto tempo eu demoraria para voltar ao normal? Eu sequer conseguiria, um dia? E o que era normal, afinal?
Nunca. Nunca era resposta certa.
Porque não havia um motivo plausível sequer para arrastar mais alguém pra dentro da minha bagunça. Porque pessoas o suficiente já sabiam o que havia acontecido.

- Está tudo bem?

Apenas quando as três palavras pronunciadas da maneira mais calma que eu já ouvira chegaram aos meus ouvidos, percebi que meus olhos estavam prestes a deixar um par de lágrimas grossas rolarem pelo meu rosto.
Me encolhi instintivamente quando a ponta dos seus dedos tocaram meus ombros e me apressei para enxugar as lágrimas antes de virar para ele. Com um sorriso fraco, apenas assenti com a cabeça. Por cima do seu ombro, um pouco mais distante, pude ver olhando fixamente em nossa direção. Com o cenho franzido e a concentração total em meu rosto, sua expressão era apenas… Vazia. Indecifrável.

- Tem certeza? Eu posso…
- Está tudo bem, . Eu juro.

Um sorriso divertido se formou em seus lábios.
E, sim. Ele era tão lindo quanto o irmão.

- Não achei que soubesse meu nome - ele cruzou os braços cobertos por um moletom cinza - Você não pareceu muito interessada na conversa durante a noite inteira.

Não sabia dizer ao certo o porque, mas algo em seus olhos me fez relaxar. Um brilho de delicadeza genuína que fez seu sorriso refletir em meus lábios.

- Eu não estava.

Ele deu uma breve risada.

- Acho que sabe onde me encontrar, se precisar.

Meneei a cabeça positivamente mais uma vez, tentando deixar meu sorriso o mais simpático possível. deu uma singela piscadela antes de enfiar as mãos nos bolsos do moletom e me dar as costas, indo em direção a porta de saída. Quando instintivamente voltei o olhar pra onde estava segundos atrás, nada além das sombras da noite haviam ficado em seu lugar.
Exatamente como eu.
Soltei uma pequena risada antes de jogar uma manta em cima de minha irmã e Liv. E então subi para o meu quarto, pronta para finalmente relaxar.
Era de costume que eu deixasse a luz da varanda do meu quarto acesa e as portas abertas. Eu me sentia mais segura ao dormir em um lugar parcialmente iluminado; e eu sempre pensava que assim poderia observar perfeitamente se alguém tentasse entrar.
Entrei na varanda, como em todas as noites.
Liguei o interruptor, como todas as noites.
Mas quando a luz iluminou o chão de madeira laqueado em branco, percebi que algo não estava como em todos as noites.
Mas é claro.
Eu podia ter ficado com o quarto da minha irmã, bem ao lado do meu, onde a lateral da sacada dava pra casa da adorável senhorita Brown.
Mas a minha varanda precisava ficar lado a lado do que eu suspeitava ser o mais novo quarto de .
Ele estava debruçado no peitoril vazado de carvalho escuro, mirando a escuridão da floresta enquanto se deliciava com um cigarro.
Até perceber que eu estava lá.
O inquietante sorriso tomou conta dos seus lábios. Ele apagou o cigarro na madeira e deu apenas um passo para o lado, se virando ao ficar de frente para mim.

- Porque fingiu que não me conhecia? - a voz, alta o suficiente para que eu ouvisse, cortou o silêncio da rua.
- Foi você quem fez isso. Eu apenas segui seus passos - cruzei os braços - E eu realmente não te conheço.
- Você é sempre tão receptiva?
- Você é sempre tão intrometido? - dei um passo em direção ao parapeito - Eu não gosto disso - movimentei os dedos entre eu e ele, apontando para nós dois - Não gosto de fazer novas amizades, conversar sobre a vida ou tentar deixar alguém me conhecer melhor.

Pessoas o suficiente sabem da minha merda; prendi a voz em minha garganta antes de completar.
Ele piscou os olhos intensamente em minha direção, o sorriso ligeiramente maior.

- Você pareceu se dar bem com meu irmão.

Foi a minha vez de sorrir.

- Então talvez o problema seja com você.

Eu estava pronta para ouvir mais um comentário sarcástico quando um grito de horror ecoou entre as árvores.
Senti um arrepio percorrer minha espinha ao abraçar meu próprio corpo. Não parecia estar muito longe. Olhei para floresta, tentando encontrar algo fora do lugar. Nada.
Entre as casas, tudo parecia calmo como sempre.
Um gosto amargo subiu pela minha garganta e preencheu minha boca. Em um instante, eu não estava mais na varanda do meu quarto. Eu estava lá. Eu era ela. O grito era meu.
Não podia ser...

- Esse tipo de coisa é comum por aqui? - a voz de fez minha atenção voltar para ele, e o garoto parecia tão assustado quanto eu.
- Na verdade, não - engoli em seco - Mas tudo acaba parecendo mais assustador aqui. A floresta faz isso, um grito e é como se estivessemos em um filme de terror. As árvores fazem um ótimo trabalho em nos fazer achar que um grito a quilômetros de distância está bem ao nosso lado - fiz uma pausa um tanto dramática - Ou então ele descobriu que você é o novo vizinho dela.

Algo parecido com uma risada discreta escapou de seus lábios.

- Tenha bons sonhos, Heart.

02

Quando Olivia Moore sentou ao lado de Calla na segunda-feira de manhã, três pensamentos vieram à sua cabeça.
Primeiro, Calla sempre exagerava na essência de baunilha que espalhava pelo veículo que tinha ganho dos pais no ano anterior.
Segundo, ela odiava o fato de o inverno ter começado e ser impossível abrir sequer uma fresta da janela carro sem o risco de sofrer uma hipotermia com o vento que chicoteava seu rosto pela velocidade das quatro rodas.
Terceiro, ela sentia falta das risadas de no caminho até a universidade de Utah.
Quando chegou em Salt Lake City, ainda com o coração aos pedaços pela morte de seus pais, fora Liv quem a encontrou chorando nos degraus de sua varanda e a ofereceu o ombro necessário durante sua primeira noite na cidade.
esteve ao lado de Liv durantes todas as brigas turbulentas com um sujeito chamado Scott Thompson - e jurou que o mataria se ele chegasse perto de sua amiga novamente.
Liv esteve ao lado de em todas as recaídas que a lembrança da perda trouxe à garota ao longo dos anos.
Quando as amigas ingressaram na faculdade, dois anos atrás, era verão e as duas deram início a algo que viraria um ritual. Enquanto todos preferiam percorrer as duas milhas de distância entre Wasatch Hollow e a Universidade de Utah em dez minutos sob quatro rodas, Liv e não se incomodavam em fazer a caminhada de meia hora a pé. sempre dizia que gostava de observar a forma que a cidade se transformava gradualmente conforme elas chegavam no centro - e com o passar do tempo, Olivia não podia concordar mais.
Ela havia aprendido, com , a notar os mínimos detalhes no que quer que fosse - pessoas, lugares, objetos e até sentimentos.
Quando desistiu da faculdade, Calla se prontificou a acompanhar Liv pelo trajeto. Até ficar cansativo; exatamente um mês depois.
Quando Liv decidiu que continuaria a caminhar sozinha, algo começou a incomodá-la.
Para a morena, andar na beira da floresta era, quase sempre, assustador. Ela não conseguia parar de pensar nas milhares de histórias de terror que envolviam um bosque e uma garota solitária.
Mas algo em especial a assustava ainda mais.
Toda vez que passava em frente à casa de Austin Allen, Liv se sentia observada; mas quando mirava as janelas, mesmo que disfarçadamente, não via ninguém.
E fora esse o estopim para que a garota, por fim, aceitasse as caronas de Calla, que vinha acompanhada de Emily, para a universidade.
Todos os dias, Liv mirava, através das janelas em movimento, o caminho que costumava percorrer com a melhor amiga. Com o passar do tempo, ela entendera que não sentia falta apenas da companhia de .
Mas de , em si.
A garota já não tinha a mesma leveza de quando elas se conheceram; e ela sabia que era porque a vida a tinha maltratado não uma, nem duas - mas três vezes.
Diante dos seus olhos e sob virgílio da sua impotência, Liv assistiu a amiga se afastar da vida; ela nunca vira alguém tão linda querer se tornar tão invisível.
Mais do que isso, ela nunca imaginava que , de fato, conseguiria se distanciar tanto de tudo que um dia já fora.

may the petals teach me the art of letting go

Eu sonhei com as estrelas.
No início da semana, acordei com um gosto amargo na boca que apenas uma noite repleta de pesadelos era capaz de causar.
Lembro de assistir resplandecência dos astros; antes, reluzindo o belo e costumeiro tom prateado. Diante dos meus olhos, a cintilância tornou-se rubra.
Mas eu não estava no céu.
A alguns anos-luz de distância, meu corpo flutuava entre as árvores de uma floresta conhecida.
Meus pés mal tocavam o chão; a grama e as pequenas flores brancas que enfeitavam o caminho pareciam apenas fazer cócegas em meus dedos. Ao longe, os passos ferozes de um cervo faminto misturavam-se nos ares com o bater de asas de um corvo que voava sem direção. Mas era o uivo angustiado de uma matilha, acertando em cheio o ecoar dos troncos das árvores, que pareciam transformar o que um dia foi pacífico em um lar amedrontador.
Naquela segunda-feira, o meu despertar aconteceu antes que o relógio sequer marcasse as cinco da manhã. Por mais que o vento que invadia meu quarto pelas portas abertas da varanda fosse congelante, meu corpo estava completamente ardente e suado por baixo dos três edredons que me abrigavam.
Com a respiração em um descompasso impetuoso, meus olhos voaram para o céu - e meu coração só começou a se acalmar quando me certifiquei que o céu seguia negro; e as estrelas, prateadas.
A noite que prometia tranquilidade se transformou rapidamente em horas aflitivas de insônia.
Eu era um tanto cética sobre toda a fantasia quimérica aplicada ao destino; mas eu acreditava em coincidências. E eu não saberia explicar de outra forma, que não um sucessivo acaso de coincidências, o fato dos meus sonhos desconexos e um tanto assustadores frequentemente me avisarem que algo ruim estava prestes a acontecer.
Fora assim uma semana antes da morte dos meus pais, quando acordei Emily com um choro compulsivo após sonhar com um quarto escuro onde as paredes gritavam e o chão era uma cama de espinhos.
Fora assim nos outros dois momentos mais traumatizantes de minha vida.
Eu fechei e abri os olhos por diversas vezes antes do céu tornar-se esbranquiçado.
Naquela segunda-feira, nenhum raio de sol passou pelas nuvens de Salt Lake City. A escuridão deu lugar a um céu coberto de nuvens e a promessa de mais um dia melancólico.
Na minha cama, eu esperei ouvir o motor do carro de Calla estacionar em frente à nossa casa e o barulho da porta abrindo e se fechando para levantar. Era um daqueles dias em que eu queria apenas a minha companhia, e o bom humor matinal de Em era algo que eu nem conseguia pensar em lidar.
O primeiro dia da semana costumava ser sereno em Wasatch Hollow. E eu sempre aproveitava a quietude da vizinhança para andar pelo pequeno caminho entre a floresta que ficava a poucos metros de nossa casa.
Eu sabia que todos estariam na faculdade, e o máximo de interação que acontecia era ter que gritar um forçadamente enérgico bom dia para senhora Brown enquanto ela saía de casa com a sua gigante sacola de pano para fazer compras.
E, vez ou outra, eu encontrava o senhor Baker lendo o jornal na cadeira de balanço em seu jardim. O pai de Nate fazia parte da comissão política da cidade e sempre parecia severo demais. Quando me via, o máximo que fazia era erguer os olhos por cima das folhas de notícias e me cumprimentar com um aceno fraco. Seu olhar tinha um desprezo condescendente - e não quando apenas direcionado a mim; eu podia jurar que olhava da mesma forma para sua mulher, seu filho e qualquer pessoa que dele se aproximasse. Ele morava em uma majestosa casa de três andares e, no jardim dos fundos, ficava a casa de hóspedes que Nate e Grace agora dividiam. Era uma bela casa de hospedes, com dois andares, cantos retos e muitas janelas.
Eu evitava, no entanto, olhar pra ela quando passava por ali. Preferia prender meus olhos na casa de Brooke ou de Austin, que ficavam bem ao lado e não despertavam nenhum tipo de lembrança consternada.
Bom, além de ganhar mais simpatia dos pais de ambos.
Eu não precisava pensar muito para saber qual caminho tomar; minhas pernas se moviam automaticamente pelo espaço entre os altos troncos de árvores em direção à extensa ponte que se escondia ao norte das nossas casas. Era uma sensação prazerosa; caminhar na natureza, com o pensamento pairando longe, a mente quase vazia ao inspirar o ar puro que apenas o inverno era capaz de trazer aos meus pulmões.
Naquele dia, no entanto, vi minha mente vagando um pouco mais na realidade do que no sentimento utópico que as caminhadas pela floresta costumavam me trazer. Lembrei-me, principalmente, de quando cheguei à cidade.
Eu tinha deixado a Califórnia com recém completados dezessete anos. Havia perdido meus pais há três meses e, pra mim e Em, era doloroso demais viver na casa repleta de lembranças em Santa Mônica. Foi na noite do meu aniversário, ao virar incontáveis taças de um vinho doce demais, que eu e Em decidimos mudar para a casa na qual quase não tínhamos lembranças e, convenientemente, não nos traria nenhuma despesa inicial.
Eu devia ter cinco anos na última vez que estive em Utah. Em tinha seis. Era a casa de infância do meu pai; aquela à qual ele sempre fora apegado demais para apagar seu nome da escritura. Ele sempre dizia que nos mudaríamos pra cá quando a Califórnia se tornasse caótica demais.
E ela, enfim, se tornou.
E fora exatamente esse contraste que me fez amar Wasatch Hollow à primeira vista. A vida aqui costumava serena, quase entediante.
Por isso era tão difícil aceitar e, principalmente, acreditar no sentimento inquietante que estava acometendo meu peito nos últimos dias.
Eu não sabia explicar, mas parecia que algo dentro de mim havia mudado; alterando consigo tudo o que existia no meu exterior. Não era a primeira vez que eu me sentia observada ao caminhar pela floresta. Eu sentia a sugestão do medo percorrendo em minhas veias, como se ele estivesse se esgueirando à cada esquina, esperando apenas o horror se apossar inteiramente de mim para, enfim, aparecer.
Era como se fosse preciso apenas um piso em falso para a terra tremer sob meus pés e se partir a qualquer momento.
Foi na tentativa inquietante de cessar esse sentimento que me vi sentada na parte de fora da ponte Creekside. Fechando os olhos, eu podia sentir o vento bater cortante em meu rosto e o único som que chegava aos meus ouvidos eram as águas chocando-se contra as pedras.
Era calmante - quase sedativo.
Tão calmante que não pude evitar me perder no tempo.
E o próximo vestígio de realidade veio tão carente de qualquer aviso prévio que fez meu corpo cambalear no pedaço de ripa esverdeada em que eu apoiava meus quadris.

- Se você encarar o nada por muito tempo, vai acabar vendo o que não está lá.

Não surpreendi-me inteiramente pelo conteúdo de suas palavras. Mas, principalmente, por saber quem estava atrás de mim antes mesmo de me virar.

- Você não pode simplesmente assustar quem está sentada em uma ponte assim - espiei por cima dos meus ombros por apenas alguns segundos, mas foram o suficiente para que meus olhos capturassem o imensurável fascínio que o sorriso sugestivo do garoto provocava.

deu um passo pra frente; embora meus olhos já estivesse de volta ao horizonte, pude ouvir o estalar dos galhos secos sob seus pés.

- Não está pensando em pular, está?

Sua voz fez cócegas em meus ouvidos como um sussurro distante. Porque, naquele instante, eu já estava distante dali; levada por uma breve lembrança que a sensação de ouvir suas palavras em minhas costas, sorrateiras e curiosas, haviam me trazido.

Salt Lake City, um ano e seis meses atrás

- O que está fazendo aqui? - a voz de Nate veio acompanhada de seus braços em minha cintura e seu rosto, apoiando-se carinhosamente na curva de meu pescoço. O vestígio de uma barba fez cócegas em minhas bochechas e eu sorri com a sensação.
- Não sei. Gosto de como é silencioso e quase nunca ninguém vem aqui - me debrucei levemente no cercado da ponte Creekside.

O dia estava quente e o sol refletia fervoroso nas águas calmas e cristalinas. Eu mal podia contar quantas vezes eu planejei pular ali durante o verão, pensando no quão agradável seria a sensação da água tórrida em meu corpo; mas o amontoado de pedras que se espalhavam nas margens e bem abaixo da ponte sempre me faziam pensar duas vezes. Se, durante a queda, meu corpo se inclinasse apenas alguns centímetros a mais do que o planejado, algum estrago certamente seria feito.

- Você sabe o que acabou de me dizer, não sabe? - suas mãos deslizaram de minha cintura para meus braços, apenas para que sua mão encontrasse a minha e nossos dedos se entrelaçassem. Ele a segurou firme e deu um passo para trás para girar meu corpo. Quando meus pés fixaram-se no chão, eu estava inteiramente colada à ele e meus olhos estavam completamente presos nos seus.
- O que? - soprei, genuinamente curiosa.

Era extremamente difícil não se deixar envolver pelo charme de Nate Baker. Quer dizer, o cara era lindo e tinha os olhos mais escuros e expressivos que eu já vira.

- Que podemos fazer o que quisermos bem aqui e ninguém vai aparecer de surpresa pra estragar a festa.

Sorri diante da curva insinuante no canto de sua boca.
E então fechei os olhos, ansiando por mergulhar no gosto tão conhecido de seus lábios.

- Heart? - trouxe o meu despertar pra realidade.
- Sim? - minha voz arranhou minha garganta em piloto automático; pois meus pensamentos ainda estavam um pouco longe dali.

Exatamente em Nate e Grace e no quanto doía em mim ver os dois juntos.
Um breve risada ecoou dos lábios de .

- O que está pensando em fazer?

Meneei a cabeça, tentando focar no que ele dizia. Meus olhos miraram a distância quase petrificante entre meus pés e a água, e depois demoraram alguns segundos nas pedras logo abaixo de mim.

- Você acha que eu sobreviveria se pulasse?

Com o canto dos olhos, o vi se aproximar lentamente de mim. Ele tinha as mãos nos bolsos de uma calça jeans surrada e os cabelos estavam jogados para o lado de um jeito despreocupado que o deixava tão bonito que era quase irritante. O garoto se inclinou no peitoril, o cenho franzido ao analisar o que me esperava lá embaixo se eu, de fato, pulasse.

- Digamos que a queda não seja forte o suficiente e que você escape das pedras logo ali em baixo - seus dedos longos apontaram para as superfícies potencialmente mortais - Eu me preocuparia mais com o frio. A água deve estar tão gelada que cair nela é como sentir várias facas entrando em seu corpo ao mesmo tempo. É tão desesperador que seu corpo pode até ficar paralisado pelo choque da temperatura. Então… - ele se virou pra mim - Bom, se você pular, eu não vou ter outra escolha senão ir atrás de você. E eu realmente não quero fazer isso.

Ele terminou a frase com um sorriso quase terno. E, antes que eu pudesse perceber, meu corpo estava inclinado em sua direção e eu estava completamente compenetrada nas modulações baixas de seu tom de voz, que soavam como se ele estivesse contando um segredo e as notas que sua fala atingiam nunca mais se repetiriam. Em seus olhos vividamente , um brilho instigante me fazia acreditar que o sussurro cantado era perfeitamente calculado para que eu precisasse, de fato, me aproximar de seu rosto para entender o que dizia.

- Você soa um tanto paranóico - me ouvi sussurrar, a voz acompanhada de um sorriso causado inconscientemente pela alegria misteriosa nos lábios dele.

Mas não era exatamente aquilo que eu queria dizer. Você soa como alguém que já vivenciou um bocado da vida e, por isso, tem a resposta certa para as perguntas mais insensatas era a sentença que eu estava, de fato, pensando.
O sorriso esperto contagiou seus olhos, que apertaram-se ligeiramente da maneira mais charmosa o possível.

- Todo mundo diz isso. Mas, como todo respeito, - ele estendeu uma das mãos para mim - Não sou eu que estou sentado numa ponte perguntando se eu sobreviveria à queda.

Droga. Ele era bom.
Segurei a risada que insistiu em se formar em meu rosto, escondendo-a com um suspiro frustrado ao aceitar a sua mão.
Não que ela fosse necessária. Mas seus olhos, por algum motivo, não me deixaram nega-lá.
De acordo com todos os livros fantasiosos e os filmes prenunciáveis de romance, o primeiro toque em alguém por quem você se sente minimamente atraído precisa te causar alguma coisa.
Um ruborizar nas maçãs, uma carga elétrica pelos dedos ou um arrepio subindo pela espinha.
Não era muito difícil se sentir atraída por - ele era, de fato, um dos garotos mais bonitos que meus olhos já haviam visto.
Quando segurei em sua mão para que ele me ajudasse a sair do limbo, no entanto, eu senti algo que meu corpo ainda não conhecia.
Talvez não tenha sido apenas o toque. Não - nem o toque dos seus dedos nos meus e nem a maneira firme que ele segurou a minha cintura para que meus pés voltassem à terra firme.
Foi o momento em que eu estava exatamente entre o risco da queda e o conforto de estar chão. Foi quando senti que as mãos que me seguravam e deveriam me passar segurança, tinham o efeito contrário em meu corpo; elas faziam a sensação de perigo correr mais rápido por minhas veias. Seus olhos, no instante tão próximos aos meus, pareciam me dizer que o garoto a minha frente conhecia todos os segredos do universo, mas não ia contá-los pra ninguém; especialmente não para mim. Um olhar tão confiante que parecia quase tímido. Quase visceral demais. Em seus lábios, que me asseguraram em um sussurro que ele estava me segurando, percebi algo que tornou-se sorrateiramente adorável. Quando falava, o canto de sua boca arqueava-se ligeiramente para o lado; principalmente quando ele pronunciava os Is e os Os. Era como se um sorriso desafiador tivesse morado por tanto tempo ali que fora impossível não deixar seus rastros.
Era extremamente chamoso.
Assim como perigoso e uma declaração escancarada do que eu chamaria de problema.
E problema era exatamente do que eu sabia que precisava me manter distante.
E foi pensando exatamente nisso que deixei escapar a sentença de palavras que eu sabia que soariam como uma exagerada acusação.

- Como sabia que eu estava aqui?

deu um passo pra trás, os olhos ainda grudados em mim.

- Não me diga que acha que estou perseguindo você.
- Só é estranho eu não me lembrar da última vez que virei e você não estava atrás de mim - cruzei os braços, tentando focar o olhar em qualquer coisa que não fosse seu sorriso.

Mas ele não parecia se importar em me encarar com aquela dose de intensidade gritante. E ficou, por longos instantes, com os brilhantes olhos focados em mim. Sem dizer uma palavra.
Eu estava quase o chacoalhando pelos ombros para que dissesse algo. Mas, quando seus lábios se separaram e o murmúrio incitante ressoou em meus ouvidos, desejei que ele ficasse calado por mais tempo.

- Qual a sua história, Heart?

Senti meu coração martelar lento contra meu peito. Meus olhos voltaram a encontrar os dele - dessa vez, tentando vasculhar o que havia além de sua íris ao imaginar o porque aquelas cinco palavras que tanto me incomodavam haviam saído de sua boca.

- O-o que? - consegui sussurrar diante da conhecida sensação de temor.

Talvez porque eu precisava de mais tempo para escolher qual versão da minha história era menos deprimente; a trágica, a dramática ou a assustadora?

- Sua história - ele repetiu, o corpo levemente inclinado em minha direção - Todo mundo tem uma história. Qual a sua?

Apertei os olhos. Contrai meus lábios. E então me senti repentinamente gelada, enfiando as mãos dentro dos bolsos gigantes do casaco pesado que cobria meu corpo e comecei a andar na direção de nossas casas; simplesmente porque eu precisava de uma desculpa para deixar de me sentir vulnerável sob seu olhar.

- As pessoas não saem perguntando isso umas pras outras. Principalmente as que mal se conhecem.

Enquanto se colocava ao meu lado para acompanhar meus passos, uma risada rouca escapou de sua garganta.

- É apenas uma pergunta.
- Não é uma pergunta normal.
- Normal é relativo. O que é normal para uma aranha pode ser o caos para uma borboleta.

Foi a minha vez de soltar uma risada.

- Você realmente tem uma resposta pra tudo, não é mesmo?
- Corrija-me se eu estiver errado, mas todas as minhas respostas te fizeram sorrir até agora.

Relaxei os músculos contraídos de meu rosto no mesmo instante.
Eu estava mesmo sorrindo. Por que eu estava sorrindo? Não era alegria, eu sabia. Até mesmo porque esse sentimento não visitava meu íntimo há tempos. Era algo como uma curiosidade genuína de experimentar o novo, que ascendia dentro de mim uma faísca que eu achava ter sido aniquilada há muito tempo.
Ainda que ele estivesse ligeiramente certo, forcei uma exclamação indignada.

- Você não podia ser mais convencido.

Eu não precisava olhá-lo para saber que o sorriso transbordando insolência permanecia em sua expressão.
Os passos restantes até chegarmos em frente à nossas casas foram percorridos em silêncio; mas, de alguma forma, não era desconfortável. Arriscaria dizer que, assim como eu, ele preferia a ausência de qualquer tipo de interação.

- Obrigada por ter me acompanhado até aqui, mesmo sem eu ter te convidado - dei um sorrisinho amarelo ao chegar no pequeno espaço entre o seu jardim e o meu, diminuindo os passos.
- As pessoas aqui não são muito receptivas, não é mesmo?

Ele levantou as sobrancelhas. Eu estreitei os olhos.

- Ah, por favor. Você não gostaria que eu fosse mais receptiva porque isso faria com que eu quisesse saber mais sobre você - meu dedo indicador apontou pra mim e depois pra ele - Eu não quero, e sei que você também não quer me contar. E sei que é por isso que faz tantas perguntas sobre mim, para que a atenção não caia sobre você. Preciso dizer, é realmente um ótimo mecanismo de defesa.

Como eu sabia? Porque eu fazia exatamente a mesma coisa.
Achei que ele soaria indignado, ou até mesmo que negasse veemente minhas palavras. Mas as feições serenas nunca deixaram seu rosto; pelo contrário, se tornaram ainda mais calmas quando as mãos saíram dos bolsos de seu casaco segurando um cigarro e um isqueiro prateado.

- Me desculpe, o que estava dizendo? - seu dedo empurrou habilidosamente o fecho do zippo e a pequena flama iluminou superficialmente seu rosto - Eu fico me perdendo nos seus olhos.

Uma pequena ondulação gélida fez meu estômago revirar e eu me perguntei se meus ouvidos haviam captado bem as palavras que deixaram sua boca.
Porque as pessoas realmente não falavam essas coisas. Principalmente as que mal se conheciam.

- Você é inacreditável.

As palavras afônicas e desajeitadas mal haviam sido pronunciadas quando um ronco escabroso de motor de carro chamou nossa atenção.
Quer dizer, a minha. Enquanto meus olhos se fixaram no veículo antigo que estacionava em frente à garagem da casa de , ele concluía a tarefa de acender seu cigarro como se nada à sua volta fosse capaz de o abalar.
De um carro preto, comprido, com as laterais desgastadas e um espelho prestes a cair, vi Brad saindo com um sorriso transbordando simpatia e o olhar fixo em nossa direção.
Certo, qual era o lançe da genética nessa família? Porque eu jurava nunca ter visto irmãos tão atraentes quanto aqueles dois.

- Cara, eu fiquei te esperando na porta da universidade até Olivia me contar que você já tinha ido embora - seus olhos cintilaram entre o irmão e eu - Oi, .

Respondi com um sorriso e um leve aceno de cabeça.

- É… Eu preferi vir andando.

Olhei para discretamente enquanto ele exalava a fumaça pela boca. Eu era a rainha das respostas evasivas, portanto, reconhecia uma com facilidade quando a ouvia.

- Universidade de Utah? - minha voz soou falha quando perguntei baixinho; embora a pergunta fosse dispensável, pois, se Liv estava lá, a resposta era óbvia.

Olhei de para Brad quase freneticamente, tentando encontrar qualquer indício em suas expressões.
Eles não sabiam de nada.
Céus, eles não podiam saber de nada.

- Apenas o primeiro período. Não aguentei muito tempo - a resposta veio de , e não era uma novidade que sua expressão não me entregasse muita coisa.

Engoli em seco.
Calma, . Apenas aja normalmente. O que você diria se não tivesse nada a esconder?

- Bom, vocês chegaram oficialmente ao pesadelo. Acho que vão gostar.

Péssima escolha de palavras.
me lançou um olhar engraçado, como se estivesse tentando decifrar a frase aparentemente sem sentido que eu havia acabado de proferir.
Talvez ele tivesse entendido que eu não queria prolongar o assunto, pois me encarou por alguns instantes antes de voltar a falar.

- Bom, a caminhada foi ótima…
- Não foi não - o interrompi, quase que por cima de suas palavras.
- Até outra hora, Heart.

Ele não esperou que eu respondesse para se afastar; e meu olhar caiu instintivamente em Brad que, há alguns passos de distância, observava o irmão entrar em casa com uma expressão dura, quase preocupada.

- Quer dizer que saiu da faculdade? - seus olhos voltaram em minha direção.
- Não era pra mim - ergui os ombros, usando a resposta habitual e perfeitamente ensaiada que era sempre a escolhida quando me faziam aquela pergunta.
- Lembre do que eu disse. Estou a uma batida na porta de distância… - um brilho terno assomou seus olhos quando ele sorriu.

Diferente do seu irmão, Brad exalava tranquilidade. Ouvi-lo e olhá-lo era ter a certeza de que coisas alegres e instigantes estavam prestes a acontecer nos próximos momentos - contanto que ele estivesse ao seu lado. Eu nunca havia conhecido alguém tão leve e prontamente generoso.
E eu respondi da única forma que sabia reagir a tamanha bondade; curta e timidamente.

- Obrigada.

Dei um sorriso e acenei com os dedos antes de me afastar em direção à porta de casa.
Tentei nublar meus pensamentos com o que quer que fosse, mas o medo de mais alguém saber o que havia acontecido comigo batia silenciosamente em meu peito e fervilhava meus pensamentos de diversas maneiras nada vistosas.
Na tarde que se sucedeu, fora difícil tirar meus pensamentos da manhã atípica que eu havia tido.
Fora difícil tirar de meus pensamentos, pois havia algo agridoce e fascinante em sua presença que eu ainda não sabia como lidar.
O que me fez lembrar de algo que eu preferi guardar no fundo da memória para poder recorrer em momentos como esse - e que eu sabia ser verdade pois havia a sentido na pele.
O verdadeiro mal é, acima de tudo, profundamente sedutor.

- Você devia voltar, .
- Sinto sua falta durante os treinos.
- Não é a mesma coisa sem você.
- Olha só como o uniforme fica incrível em você. Isso já não é motivo o suficiente?

As vozes estridentes iam e vinham nos ares, como um bombardeio de palavras em que o único alvo era eu.
Não era a primeira vez que as meninas se reuniam para tentar me fazer enxergar que eu simplesmente precisava voltar para a faculdade - e eu tenho certeza que não seria a última.
Eu desconfiava que Emily convocava uma reunião mensal para decidir exatamente qual seria o meu dia mais vulnerável e propício para que elas me atacassem.
E elas sabiam exatamente meu ponto fraco; o time de torcida.
Animar para os Utah Utes ao lado de Em e Liv era, certamente, o que eu sentia mais falta.
Eu não podia culpar Emily; sabia que minha irmã estava preocupada com eu estar desperdiçando minha vida ou algo do tipo.
Mas eu era - e sempre seria - firme em minha decisão; depois do que aconteceu, voltar para universidade era categoricamente inimaginável.
Ainda assim, de alguma forma, naquela noite as cinco conseguiram me fazer vestir o uniforme vermelho e branco. E, embora a saudade inundasse meu peito ao encarar meu reflexo nas vestes que foram minha segunda pele por dois anos, aquilo não era o suficiente.
Depois de desviar incansavelmente de todos os motivos que minhas amigas haviam pacientemente apresentado, eu estava empoleirada na cama de Em contemplativa enquanto as observava ir e vir pelo quarto colorido demais da minha irmã, em um falatório interminável.
Pela ausência de nossos pais, nossa casa costumava ser o ponto de encontro mais provável. É claro que a casa de Nate e Grace era uma opção; mas tínhamos um acordo silencioso de que ter o senhor Baker há apenas alguns passos de distância e no mesmo terreno enquanto queríamos apenas nos distrair não era a ideia mais atrativa.
O cara era assustador.
E eu e Emily, na verdade, gostávamos de como a casa raramente ficava quieta - era um constante lembrete de que não estávamos tão sozinhas assim.
Enquanto Brooke, diante da pressão animada de quatro pares de olhos brilhantes, enumerava nos dedos o porquê ela e Chase nunca ficariam juntos, um barulho agudo de vidros sendo estilhaçados ecoaram pela casa.
Fiquei em pé em um pulo. Antes mesmo de olhar para as meninas, saí como uma tempestade pela porta do quarto de minha irmã e desci as escadas pulando os degraus.
Eu não sabia o que esperava encontrar quando chegasse lá embaixo. Mas certamente não estava esperando ver os garotos reunidos ao lado da ilha da cozinha, todos encarando os pedaços transparentes e pontiagudos do que há alguns segundos era uma taça no chão.

- Vocês sabiam que eles estavam aqui? - quase gritei do primeiro andar da escada, e virei para as meninas a tempo de ver o sorriso radiante se abrir no rosto de Emily.
- Mas é claro que sim! - ela desceu os quatro últimos andares saltitante. Grace veio logo atrás, e eu fiz questão de desviar o olhar quando ela se jogou nos braços de Nate.
- O que aconteceu aqui? - Liv perguntou ao se aproximar da taça quebrada, com Calla e Brooke logo atrás.

Rolei os olhos, dando-me por vencida ao seguir os passos das três.

- Aparentemente Brad fica bêbado com facilidade e acabou quebrando uma das taças de vocês - a explicação veio de Nate, que deu alguns tapinhas amigáveis nas costas de Brad.
- Desculpe - ele encolheu os ombros e, quando cheguei mais perto, percebi que suas bochechas estavam levemente ruborizadas; pensei em dizer algumas coisa mas, em instantes, Emily estava repetindo incessantemente que estava tudo bem.

Parei ao lado de e cruzei os braços, observando o falatório que havia se formado com as dez pessoas entre a sala e a cozinha.
Senti seu olhar percorrer meu corpo e, com o canto dos olhos, vi um sorriso divertido transformar suas feições.
Em instantes, percebi o porquê.

- Nem pense nisso - levantei o dedo indicador em sua direção, afim de cortar qualquer intenção de piada sobre o uniforme.
- Eu não ia dizer nada - ele respondeu prontamente; mas o humor evidente em seu tom me dizia exatamente o contrário.
- Estávamos indo chamar vocês - Chase apontou para as seis garrafas de vinho em cima da pedra de mármore - Estávamos pensando em ir pra igreja. O que acham?

As meninas soltaram algumas exclamações animadas, todas em concordância com o que Chase havia acabado de dizer.

- Acho que preciso me trocar - murmurei para mim mesma, me adiantando em dar meia volta para subir até meu quarto.

Mas não sem antes escutar o sussurro hostil de enquanto eu me afastava.

- Eu discordo.

Era apenas segunda feira e eu já estava na minha terceira taça de vinho.
Acho que eu estava enganada. A semana seria ótima.
O lugar para o qual íamos era, na verdade, uma praça circular que ficava na parte de trás da única igreja de Wasatch Hollow. Era o principal ponto de encontro para os mais jovens que queriam beber pela rua durante a noite, já que depois das dez horas era difícil que alguém passasse por ali.
Era tão belo quanto macabro ficar encarando a infinidade de cruzes que adornavam a construção antiga, todas apontando imponentes para a escuridão acima de nós.
À meia noite, quando o sino tocava as doze badaladas, era de costume que, entre os gritos eufóricos que apenas o álcool era capaz de causar, todos virassem uma dose do que quer que tivesse de mais forte na roda em que estavam. Apenas mais um ritual esquisito e sem sentido da vida suburbana; eu não fazia ideia de como aquilo tinha começado.
Naquela noite, como era de se esperar, a praça estava praticamente vazia - a dividíamos apenas com um grupo de três garotos, que estavam escorados em uma das colunas da igreja apertando um baseado.

- Eu acho que você seria preso se fizesse isso, mas não quer dizer que eu não quero ver você tentar - Calla deu uma gargalhada, fazendo com que eu e Chase ríssemos junto a ela.

Se Calla normalmente era tímida e sempre tinha um sorriso gracioso em seus lábios, quando ela bebia virava a pessoa mais extrovertida e entusiástica do universo. Ela tinha acabado de perguntar o que aconteceria se Chase tentasse escalar os vitrais da igreja e se pendurasse em uma das cruzes mais baixas do telhado cônico.

- Eu acho que a punição viria de um lugar um pouco mais celeste - apontei para cima e Calla soltou uma gargalhada ainda mais alta.
- Eu acho que eu conseguiria fazer isso facilmente - ele flexionou os braços atrás da cabeça ao olhar para igreja e, por um instante, fiquei com medo de que ele estivesse mesmo considerando aquilo.

Do outro lado da pequena roda que havíamos formado, uma gargalhada alta me chamou atenção. Olhei a tempo de ver Liv jogando os cabelos compridos e escuros para trás e tocando nos braços de . Eles conversavam incessantemente sobre algo que eu não conseguia ouvir - e, por algum motivo, não consegui tirar os olhos dali. Nem mesmo quando, ao dar um gole na taça entre seus dedos, arrastou o olhar até o meu. Ele estava consciente de que eu estava o olhando. E eu, sinceramente, não me importava. Continuei atenta no instante em que Nate chegou ao seu lado, oferecendo uma tragada no baseado que dividia com Grace e Brooke. Então vi levantar a palma da mão, negando a erva. Instantes depois, colocou os dedos no bolso interno do casaco e tirou dali seu próprio fininho, ascendendo-o e tragando sozinho.
Olhei em volta, me perguntando se apenas eu havia achado aquilo estranho. Não sei se o vinho já havia subido à cabeça dos outros, mas eu parecia ser a única a me importar com o gesto.
Bom, quase. Um pouco mais frente, ao lado da minha irmã, Brad me encarava. E, por mais que eu não conseguisse enxergar seus olhos com clareza, soube que ele queria me dizer alguma coisa.

- Nós três acabamos de ter a melhor ideia de todos os tempos! - uma Calla completamente alterada gritou de repente, atraindo todos os olhares para si enquanto apontava para ela, Chase e Austin.

Soltei uma risada com os gestos expansivos da minha amiga. Eu realmente adorava a Calla bêbada.

- Quando Chase está envolvido, as ideias geralmente não são tão boas assim - Brooke exclamou do outro lado, causando uma pequena confusão de gritos e exclamações exageradas.
- Escutem! - Calla gritou mais alto - O que acham de irmos acampar amanhã?

A voz de Calla fora seguida por enxurrada de perguntas e clamores animados se arrastando pelos ares.
Amanhã? Amanhã é apenas terça-feira!
Esperem o efeito da bebida passar e então conversamos sobre isso.
Melhor! Ideia! De! Todas!
O que tinha na bebida de vocês?
Quanto tempo faz desde a última vez que acampamos?
Não podemos acampar dentro de casa?


Soltei um suspiro, sabendo aonde aquilo acabaria.
Acampamentos não eram para mim - assim como da última vez, eu certamente passaria a noite em claro, preocupada com um possível assassino sanguinário ou um bando de ursos famintos.
Ainda assim, acompanhei atenta a discussão fervorosa que demorou pouco mais de vinte minutos entre idas e vindas de opiniões para, no final, Chase pular no meio de todos nós e, com sua voz grave, gritar:

- Então está decidido! - Nate aproveitou a pausa para imitar o som de tambores rufando - Nós vamos acampar amanhã!

E mais gritos alcoolizados explodiram noite afora, assim como o barulho de uma porção de taças tilintando em harmonia.
É, eu sabia que terminaria assim.
Ainda estávamos em êxtase com a ideia quando decidimos voltar para casa; e, ao longo do caminho, fiquei alguns passos atrás dos garotos, ao lado das meninas - exceto Grace, que seguia na frente, de mãos dadas com Nate. E aproveitei, então, para externar algo que havia se instalado em minha mente desde o instante que a ideia de estar em um lugar remoto, escuro e vazio surgiu.

- Vocês tem certeza que devemos acampar com eles? - minha voz saiu embolada enquanto eu tentava apontar na direção de e Brad - Até onde sabemos, os dois podem ser assassinos. Ou coisa pior.
- O que é pior que isso? - Brooke chegou um pouco mais perto para sussurrar.
- Nenhum assassino é tão bonito assim - Calla passou um dos braços pelos meus ombros, dando uma risadinha quase envergonhada.
- Ted Bundy! - levantei o indicador, com a certeza de que aquele era o melhor argumento que eu já havia feito na vida.
- Ted Bundy não era bonito - Emily fez uma careta, ainda abraçada na última garrafa de vinho que restara.
- As pessoas diziam que sim.

A voz firme veio de Olivia, que sorriu ao entrelaçar o braço no meu. Ela parecia perfeitamente bem; eu sabia que era preciso de muito para deixar Olivia Moore bêbada. Talvez as longas noites de embriaguez a tivessem feito desenvolver uma super resistência ou algo do tipo.
Sorri abertamente olhando pra Liv.
Uma coisa era certa; o álcool me deixava sensível ao sentimentalismo. E a pequena frase de Liv me fez lembrar, momentaneamente, que ela ainda estava ali por mim; tanto para os problemas grandes como para discussões simples como aquela. E que, por mais que tudo tivesse mudado, em algum lugar lá no fundo, ainda éramos a Liv e a de sempre.
Apenas um pouco mais quebradas.



Continua...



Nota da autora: Oii, lindas <3 como vocês estão?
Eu simplesmente AMEI ver vocês já criando as teorias aqui embaixo, é sério! Deixei algumas mil perguntas em aberto neste capítulo - não me matem - mas eu juro que tudo vai se encaixar logo logo.
Obrigada por todo carinho nos comentários. Vocês não tem noção do quanto esse feedback me dá forças para continuar escrevendo.
Espero que vocês gostem desse capítulo! E, por favor, quem pegou a referência à Titanic, me conta!!!!!! Hahahahaha Nenhuma dúvida que virão mais quinhentas do tipo por aí…
Carol, acho que não vou conseguir deixar de te agradecer em uma só nota sobre o seu apoio em relação à essa história. Obrigada, obrigada e obrigada! Você é incrível <3

Nos vemos na próxima att, meninas.
Beijos, com todo o carinho




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Nota da Scripter: Eu não sei se é possível, mas estou ainda mais apaixonada por essa história. Li com o Instagram aberto para sempre lembrar quem é quem e estou começando a me afeiçoar por todos os personagens. A Calla já ganhou meu coração. Leo e Brad são absolutamente tudo e Allie é irresistível. Como faço para me mudar para Wasatch Hollow?
Essa fanfic é de total responsabilidade da autora, apenas faço o script. Qualquer erro, somente no e-mail.


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