Última atualização: 04/09/2019
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Prólogo

Meus olhos acompanharam uma gota de sangue cair do corte em seu lábio inferior até os ombros da jaqueta jeans - e a mancha avermelhada no tecido azulado deixava claro que aquela não era a primeira a escorrer. Seu olho direito estava arroxeado e eu não dava dez minutos para o inchaço aparecer.
Horror.
Era a única coisa que eu conseguia sentir à medida que o nó em minha garganta aumentava e parecia me sufocar.
- Você precisa de gelo – me limitei a sussurrar, mas a voz trêmula denunciava a onda de pânico que passava por meu corpo.
- Preciso ir embora, – a teimosia evidente em seu tom ríspido me fez rolar os olhos em meio a um suspiro.
Atrevi-me a espiar, mais uma vez, por cima de seus ombros.
Caralho. Como eu havia me metido ali?
Um homem de cabelos escuros e cerca de quarenta anos ocupava o chão sujo daquele beco mal iluminado. Estava inconsciente e tudo o que eu conseguia ver em seu rosto era sangue e um maxilar obviamente deslocado.
Por mais que eu não quisesse acreditar, era bem óbvio o que havia acontecido.
- Você não pode ir embora assim. E se ele...
- <Nós precisamos sair daqui – ele me interrompeu, ignorando a súplica em minha voz.
Suas mãos deslizaram para o bolso da calça e eu acompanhei o movimento atentamente e com cautela. puxou um cigarro e um isqueiro prateado com algumas palavras cravejadas em preto, ascendendo-o da forma mais despreocupada possível.
- Me desculpe. Quer? Parece que está precisando – tinha muita arrogância por trás do falso remorso na voz do meu professor. Ele estendeu o branquinho entre os dedos em minha direção antes de dar a primeira tragada.
Fechei os olhos e respirei fundo uma, duas, três vezes. Eu estava, literalmente, a um passo de ter uma síncope. Como ele ao menos ousava estar tão calmo?
Porque ele já fez isso antes, minha consciência tentou lembrar e ela soava irritante e ironicamente como Turner.
- Me dá a chave do carro – estendi a mão, tentando mantê-la estática – Eu devolvo quando você tiver pensado melhor.
- ... – ele advertiu, o sorriso atravessado e ausente de humor preenchendo seus lábios.
- Eu juro que se você não me der essa chave agora eu risco a lataria inteira dessa merda! – dessa vez vociferei alto, cruzando os braços e pisando forte ao me colocar entre o homem à minha frente e o carro atrás de mim.
- É melhor sair da frente – sua voz era contida, mas seu olhar nebuloso e a mandíbula tensa não me passavam a mesma tranquilidade.
- E é melhor você ir à merda, professor.
Ele levantou os olhos do chão para fitar os meus em um ímpeto e deixou um sorriso que gritava sarcasmo tomar seus lábios. Estava com aquele semblante que me causava arrepios. Tive que fincar as unhas na palma da mão ao fechá-la em um punho para não vacilar; acho que, se o vento soprasse mais forte repentinamente, eu sairia correndo dali.
Jogando o cigarro no chão, sacou a chave do carro do bolso, girou-a nos dedos e apertou o botão para destravar. Não sabia se era proposital ou se havia algum tipo de tensão em mim toda vez que ele estava por perto, mas a simples forma que ele se movia parecia ser sempre mais lenta e provocativa do que o normal. Como se eu não estivesse ali, ele seguiu até o carro e fez questão de esbarrar em meu corpo, fazendo-me soltar um resmungo irritado.
Por cima do ombro, espiei o homem ao chão mais uma vez. Ele não havia se mexido.
Não, ele não podia estar morto. Ele tinha que estar apenas inconsciente.
- Entra, . Não posso te deixar aqui.


01 | here’s to a lousy christmas... and a crappy new year!

- Você tem direito a uma ligação.
O homem alto, magro e de cabelos grisalhos me fitou de cima a baixo ao apontar para o telefone prateado pendurado à parede. Provavelmente se perguntava o que uma garota como eu estava fazendo ali.
- Vou dispensar, obrigada – dei um sorriso forçado e me enterrei um pouco mais no desconfortável banco de couro preto daquela reles delegacia.
- Hughes, o que está fazendo? É a garota do Turner.
Cerrei os dentes ao ver um policial mais novo, com a expressão colérica e um patético bigode ruivo gritar ao entrar na sala barulhenta que cheirava à cerveja e sanduíche de queijo. Eca.
Garota do Turner? Era a isso que ele me reduzia? Eca mais uma vez.
Não somente pelo fato de apenas o nome de Turner ser capaz me causar os níveis mais altos de repulsa, mas o mais importante era que eu certamente não era mais a garota dele. Mesmo que ele se negasse entender isso.
- , gracinha – não voe no pescoço dele, não voe no pescoço dele – O que aprontou dessa vez?
Bigode Ruivo parou na minha frente e se curvou em minha direção, como se eu fosse uma criança de cinco anos emburrada no parquinho e ele estivesse prestes a me dar um sermão.
Exibindo a maior cara de tédio que eu era capaz de forjar, cruzei as pernas e puxei as mangas felpudas e brancas do meu casaco, observando a costura dos punhos como se fossem cartas criptografadas que continham todos os segredos do governo americano.
Bom, meio que passava perto disso. Pra mim. Era Gucci e fora um presente de minha mãe no meu último aniversário, quando a seleção de júri em um caso importante demorou mais tempo que o planejado e ela não conseguiu pegar o voo a tempo para passar o dia comigo nos Hamptons. Embora eu desconfiasse que ela me daria a exata mesma peça se tivesse chego à tempo – mamãe usava qualquer desculpa para comprar algo da Gucci. E quem podia culpá-la?
- Já posso ir?
Os lábios adornados pelo filete de barba se curvaram para cima diante de meu tom raivoso. Com uma reverência exagerada, ele indicou com as mãos a porta onde a palavra saída brilhava, laqueada em vermelho e branco.
- Grata – sem dirigir o olhar à figura asquerosa, levantei e bati as mãos em minha saia para ajeitar o tecido antes de minhas pernas acelerarem em resposta automática e me tirarem praticamente correndo dali.


Uma fina camada de neve cobria a calçada quando minhas botas pretas bateram no asfalto. Palo Alto ficava ainda mais bonita no inverno; a cor esbranquiçada do gelo que se fazia presente praticamente todos os dias contrastava perfeitamente com os mais diversos enfeites iluminados que anunciavam o final de mais um ano.
- Eu juro que é a última vez que resgato a princesa de algo assim – parada no estacionamento da delegacia, Avery Sanders apoiou o braço na janela do seu carro minúsculo, prateado e ecologicamente correto – Você ao menos sabe que dia é hoje?
- Nem comece – a dispensei com um gesto de mão ao contornar o carro para alcançar a porta do carona.
Ave jogou uma mecha do cabelo intensamente preto, que ia até os ombros, para trás.
- Dia ruim?
- Você não tem ideia. Estou à beira de um ataque de nervos.
Minha amiga ligou o carro e soltou um suspiro pesaroso e complacente.
- Acha que Turner teve algo a ver com isso novamente? – ela soara cautelosa, me fazendo apertar os lábios ao considerar sua hipótese.
- Duas vezes em apenas uma semana? Ele não pode ser tão paranóico assim.
Ave me lançou um olhar piedoso antes de começar a manobrar o carro. Mas é claro que ele podia.
Cameron Turner fazia parte do departamento investigativo da polícia e havia usado seus truques algumas vezes para me atrair até aqui. A única vantagem era que, da mesma forma que eu entrava fácil, seus amigos fardados e inescrupulosos me deixavam sair. Até mesmo em dias como hoje, quando a culpa era inegavelmente minha. Ninguém faria nada com “a garota de Turner”.
Ele era o que eu chamava de um caso mal resolvido. Eu certamente não sabia em que estava me metendo quando começamos, e tinha menos ideia ainda quando resolvi terminar. O cara simplesmente não me deixava em paz.
- Devo perguntar o que te trouxe até aqui, então? - Ave arqueou uma das sobrancelhas marcadas, me analisando pelo canto dos olhos.
- A porcaria de um pino de cocaína. E não, não era meu. Eu estava apenas... Transportando.
Apesar de seu perceptível olhar preocupado cair sobre mim, ela assentiu, entendendo que não devia fazer mais perguntas.
A situação era dramática e complicada demais para qualquer julgamento.
Dizem que, quando você passa por uma situação traumatizante, as neurotoxinas geradas pelo estresse causam mudanças físicas no cérebro que podem conduzir uma mudança de comportamento e até ideológica. Talvez essa fosse apenas uma forma de me apoiar em fatos científicos para ter uma desculpa em benefício aos meus atos nos últimos meses, mas, para minha sanidade, eu preferia pensar que tudo era apenas reflexo do meu recente trauma psicológico. Não era de meu feitio estar aqui; saindo de uma delegacia na véspera de ano novo por ser pega transportando drogas. Dentro de uma Chanel.
Posso afirmar que minha vida sempre fora algo parecido com uma estrada coberta de nuvens coloridas e doces caindo do céu. Era perfeita, no sentido mais literal da palavra. Hoje, parecia que Quentin Tarantino poderia sair de trás das câmeras a qualquer momento e gritar “corta” para dissipar a eterna aflição que eu parecia estar vivendo.
Meus pais eram importantes advogados em Nova York e, junto com meu irmão mais velho, Carter, eram provavelmente as melhores pessoas do mundo. Os tinham uma extensa linhagem de sucesso, que oscilava entre proprietários de grandes redes de hotéis espalhados pela América do Norte, até estaleiros de iates em toda costa Europeia. Tudo sempre vinha muito fácil e nunca me faltara nada.
Três meses atrás, minha vida mudou da forma mais absurda e inimaginável. Em uma tarde domingo que parecia como outra qualquer, minha mãe encontrou meu pai debruçado na mesa de mogno do seu escritório. Com um tiro certeiro na nuca e uma poça de sangue ao seu lado, a única pista na cena do crime era um pedaço de papel com a letra M desenhada que fora colocado em sua mão.
E era isso. A polícia ainda não tinha nenhum suspeito para o crime, embora afirmasse veemente que a motivação era dinheiro.
Era angustiante ver os dias passarem sem poder fazer nada a respeito. E é claro que aparecia todo tipo de pessoa que conhecia um pouco sobre minha família querendo tirar proveito da situação. Recebi incontáveis propostas de câmbio por informações nas últimas semanas; dinheiro em troca de pistas, drogas em troca de informações e situações repulsivas demais para serem descritas.
Hoje, eu tinha sido pega pelo pino de cocaína em troca do depoimento de uma suposta testemunha que viu meu pai trocar envelopes com um cara suspeito, cerca de um mês antes do crime.
Na grande maioria das vezes as pistas, obviamente, não eram verdade. Mas, mesmo tendo plena consciência disso, eu simplesmente não conseguia deixar de tentar. A hipótese de que qualquer informação cabível sobre o assassinato do meu pai estivesse fora do meu conhecimento, principalmente quando essa me fora oferecida em uma imunda bandeja de prata, era o suficiente para não me deixar dormir à noite.
- Vai passar a noite com a gente? Vamos ao MacArthur – a voz animada de Ave me trouxe de volta à realidade.
Eu estava com a cabeça apoiada no vidro da janela, assistindo as ruas praticamente vazias passarem em um borrão. Palo Alto não era exatamente uma cidade turística, e a população costumava diminuir drasticamente nas épocas festivas; principalmente ali, nos arredores de Stanford.
Em meio a um suspiro, olhei pra Ave.
- Acho que sim – respondi, mesmo sem saber ao certo se ainda existia alguma faísca de energia em mim disposta a explodir em qualquer tipo diversão.

-

- O que acha de sairmos daqui agora mesmo e fazermos uma tatuagem? É sério! Vamos eternizar nossa amizade - Ave cantarolou ao jogar os braços para cima e se inclinar no meu colo e no de Hazel.
- Se você achar um estúdio aberto às onze horas da noite do dia trinta e um de dezembro, estou dentro - ri ao dar um tapa em sua perna coberta pela meia-calça rendada.
Tudo em Avery era agressivo e um reflexo da sua personalidade desafiadora; desde os olhos extremamente marcados pelo lápis preto até suas roupas que eram sempre uma mistura de tecidos, texturas e - adivinhe só – camadas pretas. Exceto quando ela bebia e virava a criatura mais extrovertida e amorosa desse planeta. Era como se o álcool criasse uma persona ao entrar em contato com seu organismo.
Hazel a calma em pessoa. Os cabelos vermelhos caíam pelos seus ombros estreitos, em cachos adoravelmente bagunçados. Ela era adepta das saias longas, batas estampadas, artesanatos e incensos. Se os anos 60 pudessem idealizar uma pessoa para uma auto exemplificação, essa pessoa certamente seria Hazel Hills.
O meu vestido branco de cetim e alcinhas finas que acabava na metade de minhas coxas, custava mais do que eu gostaria de admitir e era arrematado pelos Manolos cor-de-rosa de salto fino diziam muito mais sobre mim do que eu gostaria de admitir. Uma estudante de direito à lá Elle Woods, como Ave gostava de dizer.
Éramos o exato contraste uma da outra; e talvez por isso nos déssemos tão bem.
- Você não vai terminar isso? – Ave apontou para o copo de Martini pela metade que a ruiva tinha apoiado na mesa.
- Eu literalmente acabei de dar um gole – Hazzy riu, afastando o copo da morena e se virando para mim – Porque ela fica impossível toda vez que bebe?
- Já desisti de entender a Ave – levantei os ombros e rolei os olhos, arrancando uma risada de Hazel e uma careta de Avery.
- Parem de falar como se eu não estivesse aqui. O que vocês têm contra diversão?
- Absolutamente nada. Estamos rindo de você agora mesmo – Hazzy rebateu e foi a minha vez de rir.
Senti-me superficialmente relaxada ao dar um gole na gigante taça de Cosmopolitan em minhas mãos, observando meticulosamente o movimento ao meu redor. O MacArthur ficava perto da universidade e era certamente uma das melhores opções por ali. O enorme salão de madeira no estilo provençal deixava o charme por conta do teto inteiramente feito de vidro onde, especialmente hoje, cordões de luz branca caíam, contrastando agradavelmente com o céu levemente estrelado. Balões dourados e brancos ornamentavam o espaço e uma música agitada dava o tom à obrigatória animação no rosto das pessoas que dançavam e conversavam espalhadas por ali.
Não se comparava às costumeiras e luxuosas festas de fim de ano nos Hamptons ou em Bel Air, mas existia algo de mais aconchegante naquele lugar. E eu estava realmente precisando de aconchego.
- Aquele não é o seu professor gostoso de Penal? - com um tom de voz sugestivo, Avery despertou minha atenção ao cutucar minhas costelas com o cotovelo e apontar para um pequeno alvoroço do outro lado do salão.
- É sim - dei de ombros, observando-o por cima do contorno transparente da taça ao entornar outro gole caprichado.
Sr. era o tipo de cara que chamava atenção aonde quer que estivesse - e em uma universidade repleta de meninas de vinte e poucos anos com muitos hormônios borbulhando não podia ser diferente. Por isso, não era surpresa vê-lo cercado por um exército de cabelos compridos, decotes exagerados e pernas amostra.
A real surpresa era que ele não parecia dar a mínima para toda aquela atenção. Sentado em uma mesa alta, acompanhado apenas de um copo raso de uísque com gelo, meu professor parecia uma versão ainda mais charmosa de James Dean ao encarar o nada. Em seu rosto, os traços irretocáveis permaneciam sérios, formando harmoniosamente a habitual expressão perversa que raramente deixava seu rosto.
- Como é ter aula com um Deus grego, ? Sua cadeira fica constantemente molhada? - em meio a uma gargalhada exagerada, Avery bêbada atacava mais uma vez.
- É melhor a gente tirar o copo dela, Hazzy – larguei minha bebida e apoiei o rosto nas mãos, ainda observando - Esse lugar não é muito feliz pra ele? Quer dizer, se for pra fazer essa cara é melhor passar o réveillon em um cemitério. Ou em um manicômio abandonado. O que for mais sombrio e esquisito, assim como ele. Eu estou de luto e pareço mais feliz que isso!
E mais uma gargalhada exasperada de Ave.
Como se sentisse que eu estava falando dele, Sr. tomou um gole da bebida e a largou na mesa antes de virar rosto lentamente em nossa direção. Seus olhos altamente invasivos analisaram meu rosto minuciosamente, fazendo com que os poucos segundos que se passaram transfigurassem em eternidade. Ajeitei-me na cadeira e segurei o ar em meus pulmões, visivelmente desconfortável. Um músculo pulsou em seu maxilar sublimemente desenhado e, em um gesto despreocupado, ele escorregou os dedos pelos cabelos antes de retomar à sua posição inicial, encarando o vazio à sua frente como se nada no mundo fosse capar de atingir sua bolha sombria e impermeável.
Alguém mais viu isso?
- Preciso de algo mais forte – notifiquei antes de me levantar, baixo o suficiente para não provocar uma resposta afiada vinda dos ânimos de Avery. Hazzy apenas assentiu com a cabeça e peguei minha pequena bolsa rosa em cima da mesa, seguindo em direção ao bar.
Ou quase isso.
Quando me aproximei do extenso balcão entupido de garrafas e copos vazios, mudei meu caminho, virando à direita e me desvencilhando de algumas animadas e embriagadas figuras vestidas de branco até chegar ao banheiro. Uma porta de madeira laqueada em um belo tom de oliva separava a festa de um pequeno espaço com uma bancada, um espelho e uma pia com duas cubas. Duas portas, uma em cada lado, levavam aos toaletes; mas aquela espécie de hall já era reservado o suficiente para mim.
Apoiei a bolsa na bancada e encarei minha imagem no espelho. Apesar do corretivo aplicado com primor e do tom artificialmente rosado de minhas maçãs eu ainda parecia extremamente... Cansada. Exausta. Deplorável. Como se eu estivesse sem dormir há quatro dias e um caminhão tivesse passado por cima de mim.
E eu realmente precisava de algo mais forte. Abri a bolsa, tirando de lá uma pequena pílula de um potinho branco e o apoiei na pia. Revirei-a um pouco mais e peguei um batom, a fim de melhorar um pouco minha aparência cadavérica. Quando encarei o espelho, prestes a aplicar o tom avermelhado em meus lábios, congelei instantaneamente.
Bem atrás de mim, a pouquíssimos passos de distância, o Sr. encarava fixamente meu reflexo. Seu semblante austero parecia ligeiramente mais ameaçador, e algo me dizia que isso tinha a ver com a sua proximidade e o fato de eu nunca ter ficado apenas com ele em um banheiro. Ou em nenhum outro lugar.
Inspirei lentamente. A tensão, antes inexistente, agora entorpecia meus sentidos. Sua presença me deixava apreensiva e sua compostura letárgica era a responsável pela inquietação em meus dedos, que agora tilintavam ansiosamente apoiados em minha cintura. Meu sexto sentido insistia que havia algo de errado com ele desde a primeira vez que botei os olhos em suas belas e ameaçadoras feições na aula de Direito Penal - e meu sexto sentido nunca falhava.
Meu professor deu alguns passos para frente e parou rente à pia, bem ao meu lado. Apoiando as mãos na superfície de mármore, seus olhos percorreram furtivos do meu rosto até a pílula na bancada, e depois voltaram para analisar novamente minha expressão.
Ele apertou os lábios e balançou a cabeça, desviando sua atenção e erguendo as mangas da camisa antes de ligar a torneira. Camisa branca. Ele costumava preferir os tons mais escuros em sala de aula, mas o visual de hoje lhe caía tão bem quanto.
- Não sabia que gostava de vir aqui – me vi dizendo as primeiras palavras que brotaram em minha mente. Simplesmente porque eu era agitada demais para aguentar o silêncio por muito tempo e situações desconfortáveis me faziam tagarelar mais do que o normal.
ergueu os olhos em minha direção.
- Não gosto – ele respondeu e voltou a atenção para a água molhando seus dedos.
- Vi que está sozinho. Pode sentar com a gente se quiser.
O canto de seus lábios repuxou vagamente pra cima, mas eu não sabia se aquilo podia ser ao menos considerado um sorriso.
- Obrigado. Mas me sinto bem estando sozinho.
Dei um sorriso visivelmente sem graça, desviando o olhar para os meus pés.
Diálogo. Mais. Constrangedor. Da. Minha. Vida.
Não apenas confessei que estava o observando e ainda fui dispensada. , dois. , zero.

O barulho da água cessou e, pelo canto dos olhos, percebi que meu professor já estava secando as mãos. Privei-me ao máximo da vontade de erguer o rosto em sua direção e o plano de evitar o contato visual estava prestes a ser concluído com sucesso quando ele deu as costas para sair daquele cubículo que, à essa altura, parecia sufocante.
Seus passos ecoaram em meus ouvidos e eu me atrevi a encarar o reflexo de sua silhueta se afastando. Foram necessários dois passos para que ele parasse novamente. Meu professor pereceu hesitante por alguns instantes e, para a minha surpresa, seus olhos voltaram a me encarar por cima dos ombros. Sua voz, extremamente calma e negligente de qualquer tipo de emoção, deslizou em um sussurro de seus lábios:
- Feliz ano novo, .


02 | I pretend I'm not hurt and go about the world like I'm havin' fun

- Pena de morte - a voz do Sr. ressoou grave pela sala naquela segunda-feira de manhã – Gostaria de saber o que vocês pensam sobre isso. Quem aqui é a favor?
Entre as cinquenta e pessoas na sala, cerca de quinze levantaram a mão.
era o tipo de professor que gostava de ouvir a opinião dos alunos. Ele geralmente plantava um tópico e nos guiava em meio à discussões fervorosas com as mais distintas opiniões; o que eu achava ser uma ótima maneira de exercitar a ética. Há cinco meses, ele ministrava minha aula preferida de toda a grade de Stanford.
O cargo antes pertencia ao carrancudo Sr. Murray, que tinha o incrível talento de transformar uma aula interessante em um monólogo completamente maçante. Os boatos diziam que ele havia aceitado uma vaga em Yale e se mudado para Connecticut – e os alunos não podiam estar mais felizes por isso.
- Curtis – o professor deu dois passos em direção ao garoto bronzeado e musculoso da segunda fileira que mantinha a mão levantada – Por favor, justifique.
- É a vida pela vida. Se você tirou a vida de um inocente, pague com a sua.
O professor balançou a cabeça, sem mudar um terço de sua expressão blasé. Eu não conseguiria decifrar o que ele estava pensando nem que minha vida dependesse disso. E isso me incomodava absurdamente.
Sua camisa social preta se movia juntamente aos seus músculos. era inegavelmente bonito, e a expressão sonhadora no rosto da maioria das meninas, empoleiradas em suas cadeiras e atentas a qualquer movimento dele, confirmavam isso.
Eu travava uma luta inteira para dissipar o constrangimento da lembrança noite de ano novo uma semana atrás. Quais eram as chances de ele ter esquecido a nossa agradável conversa ou não ter reparado em meu alarmante nervosismo diante de sua presença?
- - ele girou nos calcanhares repentinamente e deu quatro passadas largas, parando em frente à minha mesa na primeira fileira e cruzando os braços - Porque não levantou a mão?
Que timing perfeito, professor.
- Não concordo – recobrei minha concentração na matéria e ajeitei a postura antes de continuar - Martin Bryant teoricamente matou trinta e cinco pessoas em Port Arthur e até fez com que as leis de posse de arma na Austrália mudassem. Vinte anos depois, decidiram considerar que ele poderia ser inocente. A justiça tem muitas falhas para algo tão definitivo.
balançou a cabeça mais uma vez e apertou os olhos em minha direção. Seria muito estranho se eu pulasse em sua frente e o balançasse pelos ombros implorando para que ele me dissesse o que pensa?
- E os crimes com requintes de crueldade e assassinos confessos? - Easy Curtis deslizou na cadeira virando-se em minha direção, voltando a argumentar truculento - Não te incomoda que Charles Manson e a família tenham saído do corredor da morte porque as leis da Califórnia mudaram naquele ano?
- São casos e...
- Vai me dizer que não queria ver o filho da puta que tirou a vida do seu pai pagando na mesma moeda? - com uma das grossas sobrancelhas arqueadas, ele me interrompeu. Suas palavras soaram como um golpe em meu estômago e um desagradável burburinho de palavras afiadas tomou conta da sala.
- Sr. Curtis - o professor esbravejou, aumentando consideravelmente a voz - É melhor ir me esperar na minha sala. Agora.
Pela primeira vez vi o vislumbre de uma mudança de humor no rosto de . O cenho franzido e a mandíbula travada me davam a impressão de que ele tinha passado de sério para raivoso por um breve momento.
O furor borbulhou em meu sangue e pude sentir as lágrimas frustradas subirem por minha garganta. O quão idiota e insensível alguém precisava ser para fazer uma colocação como aquela? Com os dedos trêmulos juntei meus livros e canetas, jogando-os de qualquer jeito na Chanel branca e apoiando-a nos ombros antes de sair feito um furacão pelas portas altas de madeira daquele lugar.
Eu tentava manter esse tópico em uma espécie de ponto morto em minha mente; e ouvir alguém gritando sobre o assassinato do meu pai da forma mais natural e grotesca o possível era certamente mais do que eu podia aguentar.
Não que ele estivesse completamente errado. Mas tocar no assunto era como obrigar meu corpo a sentir tudo novamente – a tristeza, a frustração, o desamparo e mais um batalhão de sentimentos ruins.
Os corredores estavam vazios e meus sapatos, batendo contra o assoalho com força, faziam um barulho irritante. Não pensei duas vezes antes de seguir em direção à cafeteria localizada em uma das praças que dividiam os campus; Hazel provavelmente estaria lá, uma vez que café era seu nirvana e sua aula começaria apenas uma hora após a minha.
A calefação interna e o cheiro de cafeína me receberam de braços abertos assim que passei pelas portas do Coupa Cafe e avistei Hazzy, sentada ao lado dos inseparáveis Luke Walsh e Paisley Henderson.
- Não era pra você estar na aula? – Hazel indagou ao puxar uma cadeira ao seu lado para que eu sentasse. Ela apoiou os braços em seu caderno sob a mesa, com a capa cheia de colagens das mais diversas cores e tipos. Era a cara dela; minha amiga adorava personalizar o que quer que fosse.
- Eu estava, mas Easy Curtis resolveu ser um babaca e, agora, aqui estou eu – disparei, embora eu soubesse que o final daquela frase deveria ser ‘e eu, como sempre, resolvi ser covarde e fugi’.
- Apenas mais um dia normal em Stanford – Luke ironizou e fez um gesto no ar com a mão.
Luke Walsh era uma ótima companhia, principalmente quando se estava precisando de conselhos e umas boas risadas. Ele sempre tinha uma piada na ponta da língua e pontuava suas frases com gestos expansivos e expressões faciais engraçadas. Seus cabelos loiros e curtos combinavam com seu rosto delicado e seu corpo franzino; ele tinha uma aparência inocente, quase infantil.
- Acreditem, estou na contagem regressiva para me ver livre daqui – Paisley ensaiou uma expressão exausta ao dar um gole em sua enorme xícara de café. Seus cabelos castanhos, cacheados e compridos, sua pele negra impecavelmente bem cuidada e seu um metro e oitenta faziam-na parecer a próxima Naomi Campbell.
- Eu também estaria se tivesse escolhido cursar Sociologia como vocês três – dei um sorriso amarelo e roubei um gole do café amargo e extremamente forte de Hazzy. O líquido caiu como uma pedra em meu estômago vazio, um lembrete desagradável de que eu estava desde a tarde ontem sem comer.
- Porque decorar milhares de leis é o que há de mais agradável para se fazer – Luke provocou e eu apertei os olhos em sua direção.
- Podemos voltar ao assunto central? – Hazel tamborilou os dedos na mesa, atraindo nossa atenção – Ainda acho que a gente deveria...
- ! – a voz grave e amplamente sonora que eu tão bem conhecia retumbou em meus ouvidos. Estremeci ao ver o olhar dos meus amigos se fixarem, apreensivos, em um ponto bem acima de minha cabeça. Antes que eu pudesse fazer qualquer movimento, Turner me encurralou pelas costas passando um braço de cada lado do meu corpo, apoiando seu rosto no alto de meus cabelos.
- Que merda é essa, Turner? – vociferei, mas meu corpo não ousou mover um músculo.
- Há quanto tempo não me faz uma visitinha? – sua voz, cada vez mais próxima e sórdida, indicava que seus lábios iam de encontro ao meu ouvido para um sussurro - Precisamos mudar isso... Já estou com saudades.
Mantenha a calma, . Ele não vai fazer nada aqui.
- Desencosta. Por favor – me esforcei para falar ao sentir a ânsia subir por minha garganta.
- Barnes me contou que esteve na delegacia semana passada – ele falou mais baixo e eu fechei os olhos com força, torcendo para que meus amigos não escutassem – Achei tão mal educado você não me esperar voltar. Estava louco pra ver você.
- Eu não tenho absolutamente nada pra tratar com você – minha voz reverberou tão baixa e firme quanto a dele.
- Eu discordo – Turner soltou um riso de escárnio – Da próxima vez que for pega com cocaína pode não ser tão fácil assim escapar. Aliás, você não para de me surpreender, .
Seus dedos afastaram meus cabelos e tocaram brevemente meu rosto, fazendo-me recuar depressa em um gesto instintivo. Turner fez questão de dar mais uma risada desprezível antes de se afastar e eu já não mais sentir o calor repulsivo de seu corpo contra o meu. Inspirei fundo e tentei passar tranquilidade aos três pares de olhos que me encaravam aflitivos e condolentes.
A última vez que Luke tentou impedi-lo de se aproximar de mim, acabou com uma arma apontada em sua direção. Era um acordo previamente firmado entre nós; ninguém se meteria novamente entre mim e Cameron Turner, independente da situação. Eram meus problemas e, infelizmente, a realidade era que ninguém além de mim poderia resolvê-los.

-

Fiz uma careta para o pacote de batatinhas congeladas em minhas mãos e as coloquei novamente no freezer. Eu definitivamente ainda não estava com fome. Diante do dia exaustivo, meu organismo conseguia me pedir uma única coisa: uma relaxante garrafa de vinho.
Minhas pernas praticamente se moveram sozinhas até a prateleira de bebidas alcoólicas da pequena loja de conveniência que ficava a poucos minutos do meu apartamento. Passei os olhos pelos mais diferentes rótulos e garrafas sem saber ao certo o que escolher. Tudo o que eu sabia era que vinho tinto e seco sempre fora mais palatável para mim – mas, talvez hoje, eu devesse escolher apenas a embalagem que indicasse o maior teor alcoólico.
Era exatamente o que eu precisava.
E fora exatamente esse meu critério ao sair do local com duas garrafas envoltas por saquinhos pardos e algumas embalagens de chicletes.
O vento gélido cortou minhas entranhas quando comecei minha caminhada de volta. A temperatura devia estar beirando os dez graus e minha falta de precaução era a culpada por eu estar vestindo apenas uma calça de moletom junto a um finíssimo casaco de tricô.
Do bolso de trás da minha calça, tirei uma pílula branca e laranja e a coloquei na boca, abrindo em seguida uma das garrafas para conseguir engolir. A queimação tomou novamente a boca de meu estômago e eu não hesitei em entornar mais um gole para castigar a resposta negativa de meu corpo.
Devia passar das dez horas da noite e, em uma segunda feira, os arredores de Stanford não eram exatamente movimentados. A trajetória levaria cerca de vinte minutos e, apenas alguns segundos após ter deixado a loja, achei ter ouvido passos sorrateiros atrás de mim.
Podia ser apenas alguém andando casualmente por ali, mas algo insistia em me dizer que o barulho estava próximo demais para essa ser uma hipótese válida. Respirei fundo e olhei discretamente por cima dos ombros. Quase tropecei ao vislumbrar rapidamente o que pareceu um borrão preto de uma silhueta caminhando em minha direção.
Ai meu deus. O quão rápido eu consigo correr?
Senti meu coração disparar e a sensação de vulnerabilidade balançou meu corpo por completo. Apertando as duas garrafas contra o corpo, aumentei a velocidade dos passos o máximo que eu conseguia e, quando me atrevi a espiar mais uma vez para checar se eu havia conseguido me distanciar, meus pés automaticamente se fincaram no chão. Com um misto de alívio e curiosidade no peito e a adrenalina em todo seu esplendor ao percorrer meu sangue, não hesitei antes de me virar e encarar o homem que se aproximava calmamente. Ele mantinha as mãos nos bolsos, os olhos fixos em mim e o mesmo semblante obscuro de sempre.
- Professor ... O que está fazendo aqui? – tentei soar calma, mas o receio certamente ainda era evidente em minha voz.
Dando mais alguns passos, ele permaneceu em silêncio até parar bem na minha frente.
- Eu moro aqui – meu professor ergueu um pequeno molho de chaves do bolso e apontou com a cabeça para um prédio de três andares, apenas alguns metros à nossa frente. Seus olhos passaram de meu rosto para as garrafas em minhas mãos trêmulas – Está tudo bem com você?
Ele morava aqui? Eu me lembrava especificamente do dia em que Quimby Archer se vangloriou por ter encontrado nosso professor usando roupas de ginástica ao voltar de uma corrida matinal. Na porta de seu apartamento. Na Waverly Street. Que ficava ao menos a dez quadras daqui.
- Está sim. Compras de última hora, você sabe... Morar sozinha pode ser um porre às vezes – relaxando minha postura, me recompus ao usar o tom de voz que diz que nada no mundo me afeta e que fora aperfeiçoado ao longo dos anos. Junto ao sorriso discreto em meus lábios, aquela era a minha armadura nos últimos meses: fingir que minha vida era uma linda casa e ficar longe o suficiente para que ninguém possa ver suas rachaduras.
A pergunta crucial martelou em minha cabeça: Porque ele mentiria?
Meu professor e eu nos encaramos em silêncio por alguns instantes. Era uma tarefa impossível ficar cara a cara com e não divagar sobre o quanto ele parecia um galã hollywoodiano.
Ele vestia uma calça jeans e um moletom preto; algo completamente diferente das roupas sociais que geralmente usava em sala de aula, mas que tiravam cerca de cinco anos dos seus bem conservados trinta e poucos. Tinha os cabelos levemente bagunçados, um rosto anguloso e de traços fortes que parecia ter sido esculpido à mão, e um par de olhos brilhantes que eram, provavelmente, os mais bonitos que eu já havia visto.
Se Avery estivesse em meu lugar, provavelmente já teria pulado nos braços dele.
É claro que eu o achava atraente, mas... Ele não fazia meu tipo.
E nem eu o dele, provavelmente. Ele parecia gostar de morenas voluptuosas que falavam três palavras em espanhol a cada frase. As únicas três palavras que eu conhecia em espanhol eram Hola e Cristóbal Balenciaga.
Enquanto isso, meu gosto estava mais para Leonardo Di Caprio em Titanic, e ele certamente fazia a linha Brad Pitt em Clube da Luta.
passou os olhos por meu corpo e apertou os lábios.
- Não está com frio?
- Um pouco, mas já estou quase chegando em casa.
Eu estava congelando pra falar a verdade.
Estreitei as sobrancelhas ao vê-lo colocar as mãos na barra do moletom e puxá-lo para cima. Ah, não. Ele não ia...
- Pode pegar. Vou ficar por aqui mesmo – meu professor estendeu a peça em minha direção e seus olhos inevitavelmente fitaram os meus. Algo em seu olhar me lembrava os felinos; não sabia ao certo se era seu piscar lento ou o aspecto misterioso e corrosivo.
- E-eu... Obrigada – balbuciei, incapaz de formar uma frase inteligível diante de seu gesto inesperado.
Peguei o moletom e me abaixei para apoiar as garrafas no chão. Sob seu olhar atento, passei-o pela cabeça e o ajeitei no corpo. Em instantes o aroma que emanava do tecido tomou conta de minhas vias respiratórias, acertando em cheio meus pulmões. Era algo reconfortante, como erva-doce e o bálsamo das noites quentes de verão em Julho. Era... Inebriante.
Seus olhos examinaram meu corpo de cima a baixo e algo discreto e parecido com um sorriso repuxou seus lábios. Não havia nada de luxurioso em sua expressão, mas eu sentia como se ele pudesse me despir apenas com o poder do pensamento.
- Te vejo amanhã na aula.
Antes que eu pudesse responder, roçou o ombro levemente no meu ao passar pelo meu lado e retomar seu caminho. Alcançando minha garrafa do chão, virei mais um gole de seu conteúdo ao observar sua silhueta se afastando. O frio já não arrepiava mais meu corpo, mas o motivo da quentura não tinha a ver somente com a peça a mais em meu corpo. Era sua presença que me deixava inexplicavelmente quente.
Vendo sua imagem sumir diante do meu campo de visão ao adentrar a porta azul-escura que ele antes havia indicado como seu apartamento, sussurrei para mim mesma antes de avançar pela rua agora deserta:
- Mal posso esperar.


03 | I try to drown you out so down goes another one

, você está tão acostumada com as ameaças de Turner que já não sente mais medo.
A minha voz interna repetia a frase como um mantra ao vê-lo parado na porta da universidade, apoiado em seu Volvo vermelho, usando óculos escuros e com seu estúpido distintivo dourado pendurado no peito.
Eu sabia, porém, que era necessário apenas levantar a manga do meu casaco e olhar algumas das marcas mais resistentes em meus braços para que o pânico estremecesse meu corpo inteiro.
Queria dar meia volta e sair dali correndo. Queria gritar até sentir meus pulmões queimarem. Mas a minha sádica consciência insistia em acusar minha covardia, fazendo-me afogar em meu orgulho, abraçar meu próprio corpo e, com os olhos fixos no chão, seguir em frente.
Foram seus dedos firmes, apertando meu pulso e me puxando para trás em um gesto ausente de qualquer delicadeza, que cessaram meus passos. Respirei fundo ao ser recebida por seu sorriso perfeitamente branco, irritante e irônico. Turner tirou os óculos e apertou os olhos acinzentados em minha direção, analisando rigorosamente cada detalhe do meu rosto.
- Achei que já tínhamos resolvido que não tenho nada pra tratar com você – diante do seu silêncio, me pronunciei ao tentar desvencilhar meu pulso de sua mão, mas o movimento só resultou em um apertão mais forte de seus dedos em minha pele.
- Minha doce e inocente – Turner me puxou bruscamente para perto de si, fazendo-me tropeçar em meus pés ao me chocar contra seu tronco rijo – Achei que soubesse que isso só termina quando eu quiser.
O medo e a raiva brigaram silenciosamente dentro do meu peito, me lembrando que a confusão que tomava meu corpo e minha mente fazia-me nunca saber quem ouvir primeiro. O mal-estar, um velho conhecido quando se tratava dele, subiu pelo meu estômago e parou sufocante em minha garganta.
- Turner – fechei os olhos e tentei inutilmente puxar meu braço mais uma vez - Você está me machucando.
É mentira o que dizem; a gente não se acostuma com a dor. Ela se torna cada vez mais aguda e corrosiva.
- Estamos quites, então? – o idiota sorriu debochado ao aumentar gradualmente a força de seus dedos envolta do meu pulso, e a dor irradiou de vez para os meus músculos, fazendo algumas lágrimas teimosas brotarem em meus olhos.
Lágrimas raivosas.
Foda-se. Minhas escolhas eram mesmo sempre tão imprudentes quanto eu; que diferença faria, então, tomar mais uma decisão errada?
- Você não tem vergonha de andar por aí perseguindo uma menina que claramente sente nojo de você? Qualquer coisa doentia que existia entre a gente acabou e a única maneira de você me tocar novamente é essa, contra a minha vontade. E isso é repugnante. Dá pra aceitar isso de uma vez e me deixar em paz? – meu tom rancoroso arrancou as palavras entaladas em minha garganta, cuspindo-as com vontade na cara patética de Cameron Turner.
O brilho sinistro tomou conta de seu olhar – aquele brilho opaco e ardoroso, que sempre antecipava uma dor lancinante em algum lugar do meu corpo. E, dessa vez, o local escolhido fora minhas costas, que se chocou contra a porta do carro atrás de nós ao ter meu corpo prensado pelo seu, dez vezes maior e mais forte. A sensação de fragilidade e impotência lembrou-me os velhos tempos e um grito de horror se prendeu em minhas cordas vocais.
- ?
Antes que eu pudesse pensar em minhas alternativas praticamente inexistentes de fuga, uma voz conhecida soou ao longe e fez Turner olhar por cima dos ombros. Quando ele aliviou a pressão que seu tronco fazia sobre mim, deslizei avidamente para o lado e tentei mascarar o temor em meu rosto ao encarar a expressão impetuosa do Sr. bem à nossa frente.
Tá legal, o que está acontecendo? Não me lembro da última vez que virei e você não estava atrás de mim.
- O que você quer? – Turner foi o primeiro a se manifestar em um rosnado, cruzando os braços e parando à minha frente como um soldado furioso em posição de ataque.
Meu professor poderia dar uma surra facilmente nele, sem dúvida alguma. Mas a arma na cintura de Turner o dava uma preocupante vantagem.
Os olhos de passaram tediosamente por ele, porém, fora em mim que, instantes depois, eles focaram.
- Desculpe-me por te fazer esperar, fiquei enrolado com a correção de algumas provas. Mas estou pronto para te orientar no trabalho sobre prisão preventiva. Vamos?
Encontrei-me sem reação por alguns segundos, precisando obrigar meu cérebro a raciocinar o que ele acabara de falar. Então assenti veemente com a cabeça, olhando por um breve segundo para os olhos frustrados de Turner antes de descolar minhas costas da lataria e dar alguns passos na direção de meu professor, que apoiou a mão nas minhas costas e me guiou para dentro do campus novamente. Eu não era destemida o suficiente para olhar para trás, mas tinha certeza que Turner nos observava com desprezo e um único perverso pensamento: aquilo não acabaria assim. Acompanhei o Sr. em silêncio, meu corpo trêmulo se movendo em piloto automático ao lado do seu. Quando dei por mim, estávamos sentados em uma das mesas mais afastadas do Coupa Cafe e ele havia colocado uma pequena xícara de chocolate quente e um croissant na minha frente.
- Obrigada por... – comecei a falar, mas terminei a frase com um sorriso desajeitado. Obrigada por me salvar do meu obsessivo ex-namorado? Eu mal sabia como completá-la.
apenas acenou brevemente com a cabeça, colocando as mãos no bolso da calça preta e encostando o corpo no apoio da cadeira ao me observar com atenção. Sentindo-me desconfortável sob seu olhar exploratório, dei um gole no chocolate e hesitei em pegar um pedaço do croissant. O cheiro de pão fresco aguçou meu olfato e eu fiz uma careta ao larga-lo novamente no prato, sentindo a já habitual náusea subir pelo fundo de minha garganta.
Eu não estava com fome. Novamente.
Os olhos do meu professor caíram indiscretos em meu pulso e seus lábios automaticamente se contraíram. O contorno dos dedos de Turner marcava minha pele em um rastro avermelhado – mais um desagradável lembrete em meu corpo de que ele esteve ali.
- Porque não vai à polícia? – a voz de soou baixa e cautelosa.
Sorri fraco ao olhar para baixo, puxando a manga do casaco preto para esconder a repugnante reminiscência. Queria tanto que a solução fosse simples assim.
- Porque ele é a polícia. E certamente daria um jeito de virar toda a história para o lado dele junto com a sua escolta menosprezável.
travou o maxilar e entrelaçou os dedos repousados sob a mesa de madeira escura. Sua expressão não me entregava se estava pensando sobre a nefasta situação ou se imaginava filhotes de adoráveis cachorrinhos correndo ao lado de pandas preguiçosos.
Era uma tela em branco.
Uma porta de aço trancada a sete chaves.
Seu olhar calculista de um sanguinário em potencial me alertava para ficar longe; mas era esse mesmo enigma tenebroso que incitava minha curiosidade. Qual seria sua história?
- Quer ver algo incrível? – inclinando o corpo brevemente em minha direção, ele soprou ao fitar meus olhos de uma distância que não me dava escolha se não mergulhar em toda sua ardente intensidade.
- Sempre.
Sem dizer mais nada, se levantou; e seu silêncio me dizia que eu devia segui-lo. Esperei alguns segundos após ele sair pela porta para fazer o mesmo. Ainda que ele não tivesse feito nenhuma restrição à respeito, achei melhor me manter a alguns passos de distância durante todo o percurso. Ele ainda era meu professor e, por mais que a universidade estivesse praticamente vazia no fim da tarde, os olhares ansiosos por um boato infundado podiam aparecer a qualquer momento.
Os passos dele só cessaram quando chegamos à parte de trás de um dos prédios mais distantes do campus, onde ficavam as salas dos professores e alguns departamentos administrativos. A edificação, no entanto, se destacava pela falta de acabamento nos tijolos e alguns apetrechos espalhados; materiais de construção, alguns cabos e um guindaste.
- Porque estamos aqui? – estreitei os olhos ao olhar em volta, me esforçando para entender porque aquilo era incrível.
- É a melhor vista de Palo Alto – ele apontou para o topo do guindaste e, antes que eu pudesse responder, começou a escalar a estrutura de metal em direção a uma minúscula plataforma que devia estar suspensa a, pelo menos, sete andares do chão.
Não hesitei em imitar seus movimentos e começar a subir em seu encalço; mas seus movimentos eram ágeis demais comparados aos meus. Quando cheguei ao topo, ele já me esperava sentado, com os braços apoiados nas pernas flexionadas e o olhar perdido no horizonte. Faltando apenas um impulso para chegar à superfície, não pude evitar uma parada antes do passo final para observá-lo por um instante.
O quão estranha e inapropriada era essa situação? Será que ele trazia todas suas alunas aqui? Ou seria essa apenas uma atitude de pena diante do cenário de merda que a minha vida claramente apresentava?
- Está com medo? – percebendo meu dilema, sua voz me despertou de meus devaneios.
- Da altura? Não. De você, sim – sorri e, em um pequeno pulo, coloquei-me no topo e me ajeitei ao seu lado com cautela – Como descobriu esse lugar?
- É ótimo para pensar. Distante e silencioso.
- Assim como você – disse e quase coloquei a mão na boca ao vê-lo estreitar os olhos, me encarando de soslaio. Boa, . Sua recém-exposta e extremamente positiva visão do seu professor provavelmente lhe renderá um belo zero nos próximos quatro trabalhos. Pelo menos.
É claro que era o tipo de cara que precisava subir em um guindaste para pensar. Soava tão poético e misterioso.
Suspirei, olhando à minha volta. As luzes da cidade começavam a dançar timidamente à medida que o sol se escondia ao leste, colorindo o céu de Palo Alto em lindas pinceladas de amarelo, laranja e púrpura. Ali, o vento batia mais forte, e a sensação de liberdade era indescritível. Por um momento, todos os meus problemas pareciam distantes. Meu pai, Turner, meus pensamentos caóticos e os impasses que eu não era capaz de enfrentar... Eu estava acima de tudo isso.
- Você sempre soube que queria fazer direito? – a rouquidão da sua voz me chamou atenção. Podia ser só uma forma de puxar assunto, mas eu tinha certeza da existência de um fiapo de curiosidade em seu tom.
- Eu queria ser uma playmate. Holly Madison era minha maior inspiração e morar na mansão era meu objetivo de vida - soltei uma risada ao me virar e encontrar seu olhar atento em mim – É excêntrico, eu sei.
- Assim como você – ainda sério, ele devolveu minha resposta e eu não pude evitar um sorriso ao balançar cabeça negativamente.
O silêncio súbito caiu entre nós. Talvez se sentisse confortável em ouvir apenas o som de nossas respirações, mas a quietude causava um sentimento precisamente adverso em mim – eu ficava agitada, os olhos percorrendo em um frenesi o espaço à minha volta para que qualquer frase brotasse na ponta da minha língua.
- Eu sempre achei estranho pensar que em cada uma dessas casas – apontei para alguns telhados ao longe, desenhando com os dedos os diversos contornos díspares no ar - Vivem tantas pessoas diferentes, com histórias diferentes, gostos diferentes, fazendo coisas diferentes. Tudo ao mesmo tempo. Parece tão...
- Incrível?
- Incrível – repeti, virando o rosto para ele e mirando discretamente a simetria sublime de seu perfil – Sobre o curso de direito...
- Sim?
- Não sei se é o que eu quero fazer. Nunca soube exatamente do que eu gosto. Mas... – mordi o lábio inferior e soltei um longo suspiro antes de continuar – É uma maneira de provar pra mim mesma que sou capaz de alguma coisa. Durante minha vida inteira as pessoas sempre me julgaram pela minha aparência, sem gastar ao menos dez minutos para me conhecer. Sempre fui a garotinha superficial que tem tudo quando quer e como quer. Sim, eu gosto de fazer compras e poderia facilmente escrever uma monografia sobre a vida de Coco Chanel, mas isso não significa que não há mais nada além da superfície. Eu não sou superficial. Eu só...
- Nunca achei que fosse – sua voz calma interrompeu meu tornado de palavras conturbadas.
Você deve ter sido o primeiro; minha consciência provocou e eu a obriguei a ficar calada enquanto analisava a expressão tranquila do meu professor, tentando roubar ao menos um pouco daquela serenidade.
- Agora você é apenas um estranho com todos meus segredos. Por favor, guarde-os bem.
Nunca havia contado aquilo pra ninguém, com exceção de Avery.
E então ele sorriu.
Não qualquer sorriso. Era uma mistura de honesta compaixão com uma silenciosa advertência, que claramente alertava: “Você não me conhece. Não sabe nada de mim e provavelmente nunca saberá”.
E talvez eu devesse sair correndo dali e fingir nunca ter visto a mudança de humor em sua expressão.
Mas não consegui.
Apenas sorri de volta.
Da forma mais sincera, delicada e escancarada de sentimentos que eu podia. Porque era assim; expansiva e sem nada a esconder.
E fechou os olhos – como se testemunhar toda aquela demonstração de bem-estar o machucasse. E se escondeu, mais uma vez, na incógnita penumbra que, por alguns breves instantes, ele havia me permitido olhar além.


04 | in a land of gods and monsters I was an angel living in the garden of evil

A casa de veraneio na costa sul de Cape Cod era o lugar perfeito para reunir os amigos em Julho, quando Nantucket tinha os dias mais quentes e o sol mais brilhante de toda a baía.
E é claro que Carter sabia disso e não perdia uma oportunidade de vir para cá ao menos uma semana antes da chegada dos nossos pais. Era a ocasião perfeita para chamar alguns dos amigos mais próximos e aproveitar tudo de melhor que o lugar tinha a oferecer.
- Precisamos dar um jeito nessa bagunça. Eles chegam logo cedo amanhã - meu irmão estava deitado no sofá com uma compressa de gelo na cabeça, reclamando incessantemente da forte e inevitável ressaca.
- Relaxa. Temos muito tempo até amanhã, mon amour – com um gigante copo de suco de laranja na mão, dei um tapa em sua perna para que me deixasse sentar – Só preciso tomar uns três desse e estou renovada.
- Não acredito que não fez um copo pra mim.
- Não acredito que não levantou essa bunda preguiçosa até agora para fazer seu próprio suco, Warty – dei um largo sorriso ao vê-lo rolar os olhos.
Ele odiava que eu o chamasse assim. Quando fiz um ano e comecei a pronunciar as minhas primeiras palavras desajeitadas, meu irmão já tinha seis e a ideia fixa de me ensinar a falar seu nome. Como Carter podia ser um tanto complexo, ele tentou Carty. Mas, na minha adorável língua de bebê, Carty virou Warty.
- O que aconteceu aqui? – a voz de papai ecoou imprevisível, nos causando um sobressalto e me fazendo quase engasgar com o gole que havia acabado de dar.
E lá estavam Henry e Grace , apoiados no batente da porta, com os braços cruzados e algumas malas na mão, nos encarando com as expressões mais impiedosas que eu já havia visto na vida.
A casa estava um caos. Garrafas, copos e latas amassadas jogadas pelo chão e em cima dos móveis. Alguns enfeites quebrados se misturavam às manchas de bebida no carpete e um cheiro de álcool enjoativo pairava no ar. Na mesa de centro à nossa frente, vestígios de um pó branco ainda formavam linhas suspeitas e algumas pontas de baseado derrubavam suas cinzas pelo vidro fumê.
Eu estive perto de cocaína mais vezes do que gostaria de admitir; era o passatempo preferido dos adolescentes com tempo livre e dinheiro de sobra - mas papai provavelmente teria um colapso se visse sua princesa sequer no mesmo ambiente que qualquer entorpecente do tipo.
- Vocês não chegavam só amanhã? – Carter gaguejou ao meu lado, endireitando a postura no sofá.
- Fica quieto, idiota – sussurrei pra ele e dei um beliscão discreto em seu braço.
Mamãe apoiou os dedos nas têmporas e franziu o cenho ao ver três pratos de sua coleção de parede espatifados no chão, soltando um suspiro ruidoso.
Essa era Grace ; graciosa como seu nome, mesmo quando estava seriamente zangada e prestes a dar uma bronca em nós dois.
Papai nos olhou e passou a mão pelos cabelos escuros, provavelmente pensando em como lidar com a situação sem gritarias desnecessárias. Ele odiava escândalos. Certamente usaria a situação para nos dar uma lição de moral mais tarde; ele sempre fazia isso.
- Vou levar a mãe de vocês para almoçar. Voltamos em duas horas. É melhor tudo estar no lugar.
Quando eles se viraram para sair, um relâmpago cortou o céu e o clarão iluminou todas as paredes da casa, seguido de um trovão violento e ensurdecedor. Fechei os olhos pelo barulho e, quando os abri, a noite havia caído lá fora e uma chuva torrencial molhava as ruas como uma avalanche.
Mas não foi isso que fez meu coração acelerar.
Na porta de nossa casa, me encarava, com as roupas pretas encharcadas e os cabelos molhados cobrindo seus olhos sinistramente. Em suas mãos enluvadas, uma enorme e reluzente adaga deixava gotas de sangue escorrerem até chão.
Mais um fulgor cintilou na imensidão e a luminescência embaçou momentaneamente minha visão.
Em um instante, ninguém além de nós dois estava ali. Meus pais e meu irmão haviam desaparecido em um piscar de olhos. O olhar erosivo de queimava em minha pele, e seus lentos passos ferinos em minha direção diziam-me que eu seria a sua próxima vítima.
Fechei os olhos e gritei com tanta força e por tanto tempo que pude sentir meu pulmão doer, implorando por ar.
E então, quando minhas pálpebras pesadas se ergueram, tudo o que eu podia ver era o vazio. Eu estava deitada e tudo era completamente branco. Tentei abrir a boca para gritar de novo, mas, dessa vez, nenhum som saia. Tentei levantar e correr, mas meus músculos não me obedeciam e meu corpo estava totalmente imobilizado.
Era horrível. Sufocante.
E então um ruído oco e distante anestesiou meu corpo por inteiro.


Dessa vez, quando abri os olhos, tudo parecia mais calmo – tudo com exceção de meu coração batendo descompassado em meu peito.
Que merda de sonho tinha sido aquele?
Quer dizer, não era apenas um sonho. Era também uma lembrança. Um misto de fantasia e realidade que deixava pra trás um gosto amargo de saudade e desespero.
Eu lembrava perfeitamente daquele dia em Nantucket, quatro anos atrás. Mas porque o Sr. tinha aparecido daquela forma em meio a tal recordação?
E mais uma vez o barulho oco preencheu o silêncio de meu quarto – mas, agora, estava claramente mais perto. Era o punho de alguém se chocando contra a porta de entrada do meu apartamento. Às sete da manhã de uma quarta-feira, só podia ser Avery com alguma novidade que simplesmente não podia esperar mais uma hora até eu chegar ao campus.
Senti minha cabeça latejar ao levantar rapidamente. Pesadelos sempre me davam dor de cabeça. Peguei o robe de cetim cor-de-rosa ao lado da porta antes de descer as escadas do loft, em apressadas e largas passadas. Destranquei a porta pintada de cinza claro e estava com uma animada saudação na ponta da língua para minha amiga quando minhas pernas quase falharam.
Não eram os luminosos cabelos pretos de Avery me esperando, e sim os tenebrosos olhos cinza de Turner.
- C-como entrou aqui? – minha voz saiu trêmula e em um fiapo, o medo tomando minhas entranhas sem piedade alguma.
- Você ficaria impressionada com o que um desses pode fazer – ele apontou para o distintivo suspenso por uma corrente em seu pescoço.
- Por favor, some da minha frente – dei um passo para trás e comecei a fechar a porta, mas seus dedos ágeis a pararam no meio do caminho.
- Professor , não é? – ele me encarou com um sorriso atravessado e eu engoli em seco, atenta a qualquer possível movimento dele.
- O que tem ele?
- Acho que vai querer dar uma olhada nisso aqui – Turner estendeu um gordo envelope de papel pardo em minha direção e, com os dedos trêmulos e hesitantes, o peguei – Me parece que está correndo do cara errado, . Se eu fosse você, ficaria longe dele.
Ele deu uma piscadela do seu jeito imundo e lançou um último sorriso convencido antes de me dar as costas. Bati a porta e a tranquei depressa, apavorada com a de seu retorno. E então encarei o envelope em minhas mãos; a tensão crescendo em meu corpo e meu cérebro trabalhando a mil por hora, criando zilhões de teorias sobre o que podia ter ali dentro.
Praticamente corri até o sofá e o abri, retirando alguns papéis arrumados em uma generosa e desengonçada pilha.
Meus olhos, ansiosos, passaram rápido por todas as folhas, lendo superficialmente algumas palavras destacadas, e depois voltaram do princípio para uma análise mais detalhada.
Porte ilegal de arma.
Receptação.
Lesão corporal.
Incêndio criminoso.

As mais diferentes acusações e os mais diversos delitos. No entanto, uma coisa em comum encabeçava todas as páginas e fazia meu coração trepidar no peito toda vez que meus olhos passavam pela tinta preta impressa no papel amarelado.
. Em negrito e letras expansivas para que não me restasse dúvida.
Atrás de todas as laudas, uma foto em preto e branco me desafiava.
Era ele. Meu professor.
O olhar pungente e a inexpressão de sempre. Com os cabelos emaranhados, um corte avermelhado no alto das maçãs e o olho direito arroxeado. Entre os dedos, um cigarro queimando aguardava o próximo trago.
Mas não fora isso que fez minha boca secar e a tontura me atingir em cheio.
Ao seu lado, vestindo um terno perfeitamente alinhado, com sua postura sempre elegante e o brilho nos olhos esverdeados que nem a falta de cor na foto era capaz de apagar, estava meu pai.
Entregando um pequeno amontoado de pastas para e se inclinando para dizer algo em seu ouvido.
Senti meu coração palpitar à medida que tentava fazer todas as conexões possíveis entre os dois, mas tudo o que consegui foram mais perguntas saltitando em minha mente.
Como era possível meu pai e se conhecerem?
Por isso ele estava tentando se aproximar de mim?
O que tinha naquelas pastas?
Como Stanford podia contratar um professor com antecedentes criminais?
E, principalmente: tinha alguma coisa a ver com o assassinato do meu pai?

-

Nem a água quase fervente do chuveiro fora capaz de relaxar meu corpo naquela manhã. A mesma sensação de impotência que eu sempre sentia ao pensar em papai estava entalada em um espesso nó na minha garganta, que apertava um pouco mais cada vez que me lembrava daquela fotografia.
É claro que uma das possibilidades recorrentes em minha mente jogava a culpa inteiramente em Turner; ele podia ter forjado as laudas, e eu bem sabia que um editor de imagens era capaz de criar cenas perfeitas. Não seria a primeira vez que ele faria algo tão absurdo por um ciúme fantasioso.
Mas algo dentro de mim não me deixava sequer tentar acreditar nessa versão dos fatos. Sempre achei que havia algo condenável em e ali estava a prova.
A primeira coisa que fiz quando atravessei a porta entre o banheiro e meu quarto foi procurar a minha bolsa. Não porque eu queria sair correndo para a faculdade – e sim porque hoje era um daqueles dias em que eu simplesmente precisava de uma pílula de Adderall. Hazel foi quem me apresentou à primeira dose do remédio; era comum que os estudantes usassem o medicamento ilegalmente para aumentar a concentração em época de provas. Aparentemente a mistura de anfetamina e dextroanfetamina da composição funciona como um estimulante: aumenta a atividade dos neurotransmissores, impulsionando a memória e aumentando a concentração.
Não que eu soubesse, exatamente, o que isso significasse – sabia apenas que o comprimido laranja e branco me ajudava a não me afogar em meus pensamentos. Basicamente, eu me dopava para me sentir mais sóbria e insistia para minha própria consciência que isso fazia algum sentido. Talvez o efeito fosse mais psicológico do que qualquer outra coisa.
Enquanto o comprimido ainda descia pela minha garganta e eu pensava na falta de vontade de começar a me arrumar, algo incomum me chamou atenção.
Um envelope branco repousava em minha penteadeira. Não qualquer um; mas um envelope branco com um lacre vermelho e um emblema elaborado que eu reconheceria em qualquer lugar – o brasão da família .
Um envelope que não estava aqui antes. E isso só podia significar uma coisa: alguém tinha entrado no loft enquanto eu estava aqui.
Céus, que merda me esperava agora?

O arrepio na espinha fora inevitável enquanto eu percorria os olhos pelo ambiente à minha volta. Não era uma tarefa muito difícil; apesar de os dois andares serem amplos, o conceito aberto me permitia ver perfeitamente a sala do meu quarto e ter um breve vislumbre da cozinha lá embaixo.
Não tinha nada fora do lugar – tudo organizado em meio aos tons de cinza e branco, conforme meu gosto.
Meus dedos vacilantes se apressaram em pegar o envelope e abri-lo com avidez. Lá dentro, um pedaço de papel cartão garantiu que o calafrio novamente fizesse morada em meu corpo.
Letras recortadas de diferentes revistas e jornais formavam uma frase que poderia significar as mais diversas coisas. Aos meus olhos, soava como uma ameaça.

“Você não pode me ver
Mas eu vejo você”


05 | been trying hard not to get into trouble but I’ve got a war in my mind

A infinidade branca que meus olhos captavam era interrompida por algumas frases rabiscadas em tinta preta. Nada poético, porém efetivo. Sentenças como “tenha mais coragem” e “aproveite o agora” me incitavam e pareciam fazer mais sentido do que nunca.
Há tempos eu me perguntava como Avery tinha conseguido se equilibrar no que quer que fosse para pichar aquelas mensagens no teto com caneta permanente.
Ela e Hazel dividiam um dormitório na universidade. O local era espaçoso, mas vez ou outra parecia caótico diante do contraste de personalidade de minhas duas amigas descarregados na decoração. Hazzy acumulava enfeites floridos e velas aromatizadas por todos os lados. Ave tinha alguns pôsteres de bandas estrangeiras que eu nem ao menos sabia dizer o nome forrando as paredes, além de uma sinistra luminária de caveira na pequena mesa ao lado da cama.
Apesar de excêntrico e anárquico, era aqui o meu refúgio quando tudo parecia errado ou até mesmo quando eu estava simplesmente me sentindo sozinha - o que acontecia com certa frequência.
No entanto, ainda que a solidão fosse a minha mais fiel companhia nos últimos dias e o fato de uma aterrorizante carta anônima ter aparecido em meu apartamento, o motivo da minha presença hoje era um tanto diferente. Tinha nome, sobrenome e misteriosos olhos .
era, sem dúvidas, minha primeira aposta sobre a carta. Eu não sabia como, muito menos o porquê; mas até então, ele ocupava o posto da pessoa mais questionável à minha volta.
- Talvez eu me mude mesmo pra cá – declarei após tomar o baseado dos dedos finos de Ave.
Estávamos deitadas lado a lado no estreito espaço de sua cama, encarando o teto e dividindo a erva que minha amiga havia acabado de apertar. Porque era exatamente esse o programa habitual de garotas de vinte e poucos anos em uma quinta-feira à noite na universidade.
- Pode tomar o meu lugar. Eu fico com seu apartamento numa boa.
Dei mais uma tragada e fiz uma careta ao sentir o gosto herbal tomar conta da minha boca. Mirei os lençóis revirados na cama de Hazzy, sentindo falta dos seus comentários ácidos sobre minhas crises existenciais. Ela, muito provavelmente, estava em algum canto isolado do campus desenhando cartazes elaborados sobre como salvar o mundo; e essa vontade de lutar por algo melhor era só uma das tantas coisas que eu admirava nela.
Eu tinha um plano. Um plano do tipo que poderia me trazer mais problemas do que soluções. Iria me esgueirar até a sala do professor atrás de qualquer tipo de resposta para as minhas incontáveis indagações. Em algumas horas seria tarde da noite, todas as aulas já teriam acabado há um bom tempo e ele não teria qualquer motivo para estar por ali.
E se ainda assim ele estivesse, meu plano de contingência estava amarrado à minha cintura. Eu poderia dizer que simplesmente estava andando pelo campus e decidi passar para devolver seu casaco.
Eu sei, a desculpa era pouco convincente. Talvez até patética. Mas era tudo o que eu tinha no momento e, de verdade, o que ele poderia fazer? Agarrar-me pelos ombros e me chacoalhar até que a verdade fosse cuspida de meus lábios?
- Aaron me convidou pra ir no apartamento dele amanhã à noite – Ave quebrou o silêncio, virando o rosto em minha direção, a tempo de me ver rolar os olhos.
- Você sabe o que eu penso sobre isso.
Aaron Thompson era um ordinário. Um ordinário que havia traído minha amiga umas cinquenta vezes em pouco mais de um ano de relacionamento.
- É difícil não sentir nada por ele – ela deu mais uma tragada e prendeu o ar antes de continuar - Quer dizer, quando estamos juntos é algo tão... Familiar, sabe?
Se Avery bêbada era sinônimo de diversão, Avery chapada era o resumo do que havia de mais melancólico no sentimentalismo.
Peguei o baseado de sua mão e estiquei o braço para apagar a ponta no cinzeiro repousado ao chão. Retomando minha posição inicial, virei o corpo de frente pra minha amiga para poder encará-la com seriedade.
- Ave. A gente sempre experimenta uma roupa velha de vez em quando. E pode até ser uma surpresa quando ainda serve, mas isso não quer dizer que a gente tenha que usar ela novamente.
- Quem disse isso?
- Eu. Você não acabou de ouvir minha voz? - dei um sorrisinho e ela fechou os olhos, cobrindo o rosto com uma das mãos e rindo como se eu tivesse dito a coisa mais engraçada do mundo.
Ah, os efeitos da maconha hidropônica.
- ...
Revirei os olhos mais uma vez, agora segurando uma risada. Essa era uma coisa que eu e Ave costumávamos fazer; citar algumas mulheres que considerávamos inspiradoras para trocar conselhos. A lista ia desde Grace Kelly e Audrey Hepburn até Carrie Bradshaw e...
- Blair Waldorf. E ela tem razão. Você não pode passar os melhores anos da sua vida esperando que alguém te ame de volta.
Ah, , sua hipócrita.
Ave suspirou e se ajeitou na cama. Depois pegou uma mecha dos meus cabelos e começou a enrolar as pontas no dedo, como sempre fazia quando estava prestes a me pedir algo que eu claramente estaria pouco disposta a fazer.
- Você poderia ir comigo.
Aí estava.
- Me parece meio pervertido – disse e ela soltou uma risada, provavelmente concordando comigo – Não posso te impedir de ir. Apenas implorar pra que pense nas consequências se realmente for.
Ela apertou os lábios e me olhou por alguns instantes ao ajeitar alguns dos meus fios displicentes atrás de minha orelha.
- Quando foi que você ficou tão sensata? – minha amiga sorriu e eu fingi uma expressão teatralmente surpresa por sua acusação.
Então uma ideia brilhante saltou em minha mente e, antes mesmo de falar, eu já estava sorrindo.
- O que achar de tiramos o sábado para ir à Promenade?
- Em Santa Mônica? – ela fez uma careta e eu assenti, ainda incapaz de afrouxar o sorriso - , pode parecer absurdo pra você, mas nem todo mundo chama passar cinco horas em um carro para fazer compras de ‘diversão’.
- O que nem todo mundo sabe é que um novo par de sapatos pode curar um coração partido. Ou até a vontade de cometer um erro com um ex-namorado que claramente não merece você. É só saber escolher o modelo certo.
Avery hesitou por alguns segundos, e eu sabia que ela estava com vontade de rir. Mas ela apenas rolou os olhos e largou o corpo na cama, em um claro sinal de rendição.
- Você será uma ótima advogada, senhorita Woods.
Se eu pudesse ganhar todos meus casos argumentando sobre roupas e compras, eu certamente seria.
E passamos alguns minutos assim; dançando entre os mais diversos assuntos e opiniões à medida que a noite caía e meu nervosismo, consequentemente, aumentava.
Ave dormiu algum tempo depois; e esse fora o exato momento que escolhi para dar início ao meu esquema. Por mais que eu confiasse minha vida a ela, tinha consciência que era melhor que algumas coisas ficassem apenas sob meu conhecimento; ao menos até minhas suposições virarem afirmações.
Levantei-me da cama com cuidado e caminhei até a porta na ponta dos pés, com o intuito bem sucedido de não fazer barulho. Mas fora a maçaneta rangendo que me denunciou – e instantes depois, a voz sonolenta de minha amiga ecoou pelo quarto.
- Aonde você vai? Pensei que fosse passar a noite aqui.
- Eu vou – me virei e lancei um sorriso reconfortante para sua expressão preocupada - Só preciso resolver uma coisa antes.
- ...
- Não vou me meter em nenhum problema. Pode ficar tranquila.
O suspiro profundo e os olhos se fechando me pareceram o aval para deixar o quarto sem mais perguntas.

-

O campus não parecia o lugar mais acolhedor do mundo quando a noite caía. O caminho entre os dormitórios e os prédios discentes era repleto de árvores e mais árvores que apontavam para o alto e se fundiam com a escuridão do céu. Era lindo durante o dia, quando o sol penetrava entre a profusão de folhas e destacava o vermelho intenso presente por todos os cantos da decoração de Stanford. Às onze horas da noite, parecia apenas o cenário perfeito para um filme de terror.
Havia algo sinistro no clima de hoje. Podia ser apenas reflexo do meu coração acelerado, acompanhando o ritmo frenético dos meus olhos que se apressavam em examinar cada milímetro de breu ao meu redor. Ou talvez a sensação de estar sendo observada, concomitante a um embolado de vozes e risadas que eu podia jurar estar escutando ao longe.
A neblina não era um fator muito comum no Estado Dourado - mesmo em janeiro, no ponto alto do inverno – mas justamente hoje a névoa caía magistralmente pelos ares da Califórnia, fazendo um ótimo trabalho em deixar a atmosfera ainda mais densa. Aqui, o tempo geralmente pedia por nuvens; e em um ímpeto incomum, eu estava implorando pelos raios solares.
A caminhada até a sala dos professores duraria uns quinze minutos; dez se eu andasse mais rápido e não me importasse com o barulho incessante das folhas secas sendo amassadas sob meus pés. Não que me preocupar fosse o termo correto - eu apenas não queria despertar a atenção indesejada de qualquer inspetor que pudesse estar ali por perto.
- !
Meu nome dito em um sussurro fez-me deter os passos e um grito subiu por minha garganta, sendo detido antes de tremer minhas cordas vocais. Senti o sangue congelar em resposta súbita. Respirei fundo uma, duas, três vezes e girei nos calcanhares já me preparando para o pior. Tive que apertar os olhos para, entre a caligem, identificar a silhueta dos dois garotos que me examinavam de cima a baixo; enquanto um exalava uma ansiosa curiosidade, o outro exibia um meio sorriso perspicaz.
- Holden, você quase me matou de susto – coloquei a mão sob o peito, sentindo meu coração palpitar no que parecia o ritmo mais vertiginoso do universo – O que está fazendo aqui?
Holden Moore levantou uma corpulenta garrafa entre os dedos e o garoto ao seu lado apertou os lábios ao encarar os pés. Acho que o nome dele era Dean, e pelo que me lembrava ele tinha adoráveis olhos azuis. Os dois faziam parte do time de futebol da universidade - as jaquetas rubras com o emblemático S bordado em branco não me deixavam dúvida.
- O que você está fazendo aqui?
O que eu estava fazendo ali? É melhor pensar rápido, .
Apalpei o bolso de trás da minha calça e peguei meu mais plausível álibi.
- Nos dormitórios o cheiro se espalha pelo corredor - disse ao erguer o baseado já queimado entre os dedos.
Na verdade, com as janelas abertas, o bálsamo não emanava com tanta facilidade. Mas eles eram atletas, e atletas não usavam narcóticos com tanta frequência para contestar algo tão específico. E, pelo o que eu me lembrava, o treinador Jenkins mantinha o pulso firme quando se tratava dos exames toxicológicos.
O barulho de um galho se quebrando ecoou no silêncio da noite, atraindo nossa atenção para um ponto aleatório entre as trevas. Por mais que nada parecesse fora do lugar, meu corpo se retesou os músculos ao fazer as mais sórdidas suposições.
- Mas que merda foi essa? - Dean se pronunciou pela primeira vez, cruzando os braços e olhando sôfrego para todos os lados.
- Provavelmente um homicida sedento por sangue. E agora nossas chances de sobreviver são praticamente nulas - lancei um sorriso irônico para os olhos apavorados de Dean. Eles eram mesmo azuis e adoráveis.
- E porque estamos parados aqui aguardando a morte? - ele rebateu e eu podia jurar que sua voz tinha ficado ligeiramente mais aguda.
- Vamos morrer de qualquer forma. É melhor que seja de um jeito espetacular como esse, não acha?
Dean arqueou as sobrancelhas, como se estivesse diante de alguém completamente desequilibrado mentalmente.
Bom, pra ser sincera eu faria o mesmo se estivesse em seu lugar. E é claro que eu não acreditava em minhas palavras; tudo fazia parte da minha frágil e necessária máscara de coragem e audácia. Desejava eu, a propósito, que ela fosse tão inexorável quanto a de , mas eu precisava corrigir muitas falhas para sequer pensar em me igualar ao seu estado imutável de despreocupação.
Holden colocou uma das mãos nos bolsos da jaqueta e inclinou a cabeça para o lado, me observando com um sorriso atravessado e os olhos semicerrados. Ele esbanjava a típica beleza californiana; pele bronzeada, cabelos dourados pelo sol e o inconfundível charme de surfista-que-vai-roubar-seu-coração-no-próximo-verão.
- Acho que estou apaixonado - sua voz soou aveludada. Charmosa, como era de se esperar.
- Acho que está bêbado - estendi a mão e puxei a garrafa pendente em seus dedos, dando um destemido e generoso gole. Que erro. Fiz uma careta ao sentir o gosto amargo tomar conta de minha boca e devolvi a bebida em um ligeiro impulso - Você está definitivamente bêbado.
Argh, quem tomava vodka pura como se fosse suco de maçã? Haja fígado e garganta.
- Não quer se juntar à gente? - Dean deu um passo à frente, parecendo extremamente menos retraído do que instantes atrás.
Encarei seus olhos por alguns segundos, intensos e gentis. Era, certamente, uma proposta tentadora.
Mas não era por isso que eu estava ali.
Mordi o lábio inferior, sabendo que eu havia prendido a atenção dos dois naquele exato ponto, e balancei a cabeça em negação.
- Boa noite, meninos.
Dei uma breve piscadinha antes de me virar e retomar meu caminho.
- ? - dessa vez Holden gritou meu nome um pouco mais alto e com um recém-descoberto entusiasmo. Virei o rosto apenas para encará-lo por cima dos ombros e balancei a cabeça para que prosseguisse - Sinto falta de te ver com aquela saia minúscula rebolando no ginásio.
Um sorriso um tanto contrariado tomou conta dos meus lábios enquanto eu balançava a cabeça negativamente. Levantei o dedo do meio e dei as costas de vez para os dois, fingindo para eles e para mim mesma que aquele não era um assunto delicado.
E, por mais que eu lutasse diariamente para calar a voz sensata da minha consciência, podia ouvir seus gritos nas camadas mais profundas do meu ser: Eu também.

-

Meu corpo entregou-se à pungência do temor quando entrei na sala do professor e fechei a porta atrás de mim.
Em uma primeira olhada dispersa, ainda recatada e com as costas presas à parede, o lugar parecia extremamente normal. Uma sala nada divergente de todas as outras do corpo docente. Mas, a cada passo tímido adentro do ambiente escuro e abafado, a adrenalina percorria minhas veias com mais e mais força, reiterando que não havia nada trivial no homem em questão.
Ele, em si, era divergente.
E eu, no meio desse universo singular, me encontrava com um afiado medo de ser pega. Porém, mas do que isso, eu sentia medo do que eu estava possivelmente prestes a encontrar ali.
No meu imaginário, aquela sala estaria cheia de papéis e mais papéis apinhados sob a mesa, em uma desorganização que camuflasse a bagunça que eu logo faria em minha busca longa e meticulosa por informações. Imaginei gavetas abarrotadas de arquivos com provas potencialmente substanciais e indispensáveis em minha amadora investigação.
Os móveis com seus infinitos compartimentos, de fato, estavam lá. Mas cada um deles possuía uma estúpida fechadura; uma pequena e eficiente barreira entre meu querer e o amortecimento de minha curiosidade.
Na mesa de madeira escura, nada além de frívolos materiais de escritório. Nem mesmo seu notebook estava ali para que eu arriscasse minhas inexistentes habilidades digitais.
Mas havia uma chave.
Uma chave larga demais para corresponder a qualquer fechadura daquelas gavetas. Mas uma chave que, eventualmente, poderia ser útil. Uma possível abertura para o desconhecido que, nesse momento, repousava na palma de minha mão.
E eu deveria ter ido embora nesse momento.
Deveria ter apenas colocado a chave no bolso e saído pela porta como um projétil, veloz e objetivo.
Mas eu era fraca. Fraca e melancólica.
E fora exatamente a melancolia, invadindo meu subconsciente tão depressa e incontrolável, que me fizera prolongar a estadia ali. Fora a melancolia que guiou meus dedos, frágeis, para a superfície da mesa, fazendo-os escorregarem morosamente pela madeira gélida enquanto um único pensamento mórbido martelava minha cabeça: Seriam as mãos do meu professor, que diariamente tocavam cada objeto daquele ambiente, as mesmas que dispararam um revólver contra a vida do meu pai?
- É melhor ter uma excelente explicação para estar na minha sala.
Merda.
Merda, merda, merda.
É assim que a gente se sente quando está à beira da morte? O corpo estático, o coração acelerado, a impressão de que respirar pode ser a tarefa mais difícil da face da terra?

Engoli em seco e obriguei minhas pernas a ficarem estáveis ao encarar encostado ao batente da porta; os braços cruzados, a mandíbula contraída e expressão mais assustadora que eu havia visto na vida. Abri e fechei a boca algumas vezes, claramente sem saber o que falar. Tive que me perguntar algumas vezes se ele estava mesmo ali ou se meu cérebro estava me pregando alguma peça. Mas minha imaginação certamente não conseguiria reproduzir de maneira tão fiel a intensidade de seus olhos . Exatamente aqueles que, no momento, se encontravam inertes em mim, lembrando um vasto oceano com milhares de nuances e emoções que variavam e mudavam de cor tão depressa que mal conseguia acompanhar. Eram lindos e hostis ao mesmo tempo.
A boa e velha tensão causada pela sua presença correu pelo meu corpo livremente, mas dessa vez, por algum incógnito motivo, eu não senti medo.
Recobrei a consciência em um suspiro, ajeitando minha postura e ignorando as marteladas amedrontadas em meu peito para conseguir reerguer minha fiel fachada de uma garota inabalável e destemida.
- Acho curioso você estar aqui agora também, professor – usando meu tom mais petulante, apoiei as mãos na cintura e dei um passo em sua direção - Quer dizer, as aulas já acabaram há algum tempo. E não temos tantos trabalhos assim a serem corrigidos logo no início do ano.
Não sabia de onde tinha reunido força, coragem e descaro para dizer aquilo. E ele parecia concordar silenciosamente, com o cenho franzido e os lábios comprimidos em uma linha.
soltou um suspiro pesaroso, passando as mãos nos cabelos antes de retomar a atenção para mim.
- Você não quer jogar esse jogo comigo, – foi a sua vez de diminuir nossa distância em mais um passo.
Curvei os lábios em um sorriso da forma mais ingênua que meus traços marcantes eram capazes de forjar.
- Não sei do que está falando, professor - pisquei os olhos angelicalmente, embora, dessa vez, a palavra tenha escorregado dos meus lábios da forma mais suja o possível.
E mais um passo em minha direção. Seus olhos se voltaram para baixo e um músculo pulsou em sua mandíbula.
- Certo. Vamos ver se eu acerto... Você veio devolver meu casaco?
Precisei controlar meus olhos para que eles não se arregalassem demais em surpresa por ele ter decifrado a minha fajuta desculpa. Mas a surpresa maior fora que, pela primeira vez, eu consegui ler a mensagem escondida em seu olhar. E eles me diziam saber que aquilo era uma mentira desaforada, mas, por algum motivo, ela seria levada como verdade.
Apertei os lábios e inclinei a cabeça para o lado, travando uma luta interna sobre a hipótese de o cara em minha frente ser realmente um perigoso criminoso ou apenas o alvo de um belo mal entendido.
- Como adivinhou? – minha voz arranhou a garganta, trêmula. Eu era mesmo uma péssima mentirosa. Mas aquilo já não mais importava; como ele havia dito, agora era apenas um jogo. Um jogo sinuoso e cheio de armadilhas.
Meus olhos acompanharam sua língua umedecendo os lábios antes de sussurrar:
- E agora era a melhor hora pra você fazer isso?
- É melhor quando ninguém está olhando, não acha? O que pensariam se me vissem te entregando o casaco no meio da aula ou algo do tipo?
Seus olhos, antes dispersos, cravaram nos meus. Ele estava tão próximo que pude ver meu reflexo em sua íris enevoada; e não pude deixar de pensar que aquele era o lugar mais bonito em que eu já havia me contemplado.
- Me diga você.
Ah, professor. Aposto que acha que eu não tenho coragem.
Prendi o lábio inferior com os dentes e soltei vagarosamente. Um sorriso convencido quase desenhou meus lábios ao ver a atenção que ele dedicava aos meus movimentos.
- Iam pensar que estamos transando.
segurou uma risada e encarou os próprios pés. Quando ergueu o olhar novamente em minha direção, suas mãos vieram junto, aproximando-se vagarosamente de minha cintura. Vi-me inerte, sem saber o que fazer e respirando apenas por aguardar seu próximo movimento.
- O que está fazendo? – articulei praticamente sem som, incapaz de quebrar o contato visual de seu olhar para avaliar a premissa de seus dedos.
- Pegando meu casaco de volta – sua voz firme gracejou, como se a resposta fosse óbvia.
Se apenas sua presença me deixava nervosa, o esbarrar de sua pele na minha enquanto ele desfazia os nós das mangas envoltas em meu corpo parecia uma tortura. Seus roçavam, suavemente, no milímetro de pele exposta da minha barriga, logo acima do cós da calça. Com direto a arrepios, coração acelerado e maças ruborizadas. O que podia levar simples segundos pareceu se estender por minutos e, por mais que suas mãos fizessem todo o trabalho indecoroso, era o olhar luxurioso e misterioso que insistia em me fazer trepidar. Em meio ao silêncio necessário, encontrei-me refletindo sobre tudo que ele podia saber sobre mim, meu pai e minha família. Consequentemente, em tudo o que eu não sabia sobre ele.
Era um tanto ameaçador. Injusto, pra ser sincera.
- Acho que já pode ir agora – sua voz me puxou para a realidade e, quando me situei, a peça já pendia apoiada em seu braço direito.
Sustentei o seu olhar por alguns instantes antes de, sem dizer nada, caminhar tranquilamente até a porta. Perguntei-me se ele estaria acompanhando meus passos atentamente ou permanecia de costas, inabalável como de costume. Mas a curiosidade não me fez espiá-lo mais uma vez – apenas abri a porta e inspirei pesarosamente quando a fechei atrás de mim, aliviada ao sentir o ar percorrer o caminho até meus pulmões com tranquilidade.
Parada naquele corredor, imaginando o que poderia estar se passando pela cabeça do meu professor nesse instante e tentando absorver todos os acontecimentos recentes, apenas uma frase colidia com minha consciência.
Preciso me manter o mais perto dele o possível para descobrir todos seus segredos.


Continua...



Nota da autora: Oi, amores!
Eu não sei dizer o quanto fiquei feliz ao ver essa história que acabou de chegar virar Vip do Mês. Sem contar o carinho e a resposta positiva que tenho recebido de vocês aí embaixo. Nem acredito que estão curtindo assim! De verdade, muito muito muito obrigada ♥
É a primeira vez que escrevo algo que envolva suspense e assassinos – e, tenho que dizer, esse é um assunto que eu simplesmente amo. Demorei bastante pra escrever esse capítulo e ainda o envio com receio; sei que é algo um pouco mais calmo no termômetro dessa fic comparado ao cap anterior. Mas, como em todo suspense, todo detalhe é importante – então, tudo certamente está acontecendo por um motivo.
Por último: deixei a preguiça das redes de lado e criei um grupo no Facebook pras minhas histórias. Vou avisar sobre atualizações, dar alguns spoilers e essas coisas por lá. Participem, postem, comentem e sintam-se em casa... vou adorar conversar mais com vocês! ♥
Agora, por favor, me contem todas as suposições para a história do professor. Tô doida pra saber o que vocês estão achando hahahha
Um beijo e até a próxima atualização!



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