Última atualização: 12/04/2020
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Prólogo

Meus olhos acompanharam uma gota de sangue cair do corte em seu lábio inferior até os ombros da jaqueta jeans - e a mancha avermelhada no tecido azulado deixava claro que aquela não era a primeira a escorrer. Seu olho direito estava arroxeado e eu não dava dez minutos para o inchaço aparecer.
Horror.
Era a única coisa que eu conseguia sentir à medida que o nó em minha garganta aumentava e parecia me sufocar.
- Você precisa de gelo – me limitei a sussurrar, mas a voz trêmula denunciava a onda de pânico que passava por meu corpo.
- Preciso ir embora, – a teimosia evidente em seu tom ríspido me fez rolar os olhos em meio a um suspiro.
Atrevi-me a espiar, mais uma vez, por cima de seus ombros.
Caralho. Como eu havia me metido ali?
Um homem de cabelos escuros e cerca de quarenta anos ocupava o chão sujo daquele beco mal iluminado. Estava inconsciente e tudo o que eu conseguia ver em seu rosto era sangue e um maxilar obviamente deslocado.
Por mais que eu não quisesse acreditar, era bem óbvio o que havia acontecido.
- Você não pode ir embora assim. E se ele...
- <Nós precisamos sair daqui – ele me interrompeu, ignorando a súplica em minha voz.
Suas mãos deslizaram para o bolso da calça e eu acompanhei o movimento atentamente e com cautela. puxou um cigarro e um isqueiro prateado com algumas palavras cravejadas em preto, ascendendo-o da forma mais despreocupada possível.
- Me desculpe. Quer? Parece que está precisando – tinha muita arrogância por trás do falso remorso na voz do meu professor. Ele estendeu o branquinho entre os dedos em minha direção antes de dar a primeira tragada.
Fechei os olhos e respirei fundo uma, duas, três vezes. Eu estava, literalmente, a um passo de ter uma síncope. Como ele ao menos ousava estar tão calmo?
Porque ele já fez isso antes, minha consciência tentou lembrar e ela soava irritante e ironicamente como Turner.
- Me dá a chave do carro – estendi a mão, tentando mantê-la estática – Eu devolvo quando você tiver pensado melhor.
- ... – ele advertiu, o sorriso atravessado e ausente de humor preenchendo seus lábios.
- Eu juro que se você não me der essa chave agora eu risco a lataria inteira dessa merda! – dessa vez vociferei alto, cruzando os braços e pisando forte ao me colocar entre o homem à minha frente e o carro atrás de mim.
- É melhor sair da frente – sua voz era contida, mas seu olhar nebuloso e a mandíbula tensa não me passavam a mesma tranquilidade.
- E é melhor você ir à merda, professor.
Ele levantou os olhos do chão para fitar os meus em um ímpeto e deixou um sorriso que gritava sarcasmo tomar seus lábios. Estava com aquele semblante que me causava arrepios. Tive que fincar as unhas na palma da mão ao fechá-la em um punho para não vacilar; acho que, se o vento soprasse mais forte repentinamente, eu sairia correndo dali.
Jogando o cigarro no chão, sacou a chave do carro do bolso, girou-a nos dedos e apertou o botão para destravar. Não sabia se era proposital ou se havia algum tipo de tensão em mim toda vez que ele estava por perto, mas a simples forma que ele se movia parecia ser sempre mais lenta e provocativa do que o normal. Como se eu não estivesse ali, ele seguiu até o carro e fez questão de esbarrar em meu corpo, fazendo-me soltar um resmungo irritado.
Por cima do ombro, espiei o homem ao chão mais uma vez. Ele não havia se mexido.
Não, ele não podia estar morto. Ele tinha que estar apenas inconsciente.
- Entra, . Não posso te deixar aqui.


01 | here’s to a lousy christmas... and a crappy new year!

- Você tem direito a uma ligação.
O homem alto, magro e de cabelos grisalhos me fitou de cima a baixo ao apontar para o telefone prateado pendurado à parede. Provavelmente se perguntava o que uma garota como eu estava fazendo ali.
- Vou dispensar, obrigada – dei um sorriso forçado e me enterrei um pouco mais no desconfortável banco de couro preto daquela reles delegacia.
- Hughes, o que está fazendo? É a garota do Turner.
Cerrei os dentes ao ver um policial mais novo, com a expressão colérica e um patético bigode ruivo gritar ao entrar na sala barulhenta que cheirava à cerveja e sanduíche de queijo. Eca.
Garota do Turner? Era a isso que ele me reduzia? Eca mais uma vez.
Não somente pelo fato de apenas o nome de Turner ser capaz me causar os níveis mais altos de repulsa, mas o mais importante era que eu certamente não era mais a garota dele. Mesmo que ele se negasse entender isso.
- , gracinha – não voe no pescoço dele, não voe no pescoço dele – O que aprontou dessa vez?
Bigode Ruivo parou na minha frente e se curvou em minha direção, como se eu fosse uma criança de cinco anos emburrada no parquinho e ele estivesse prestes a me dar um sermão.
Exibindo a maior cara de tédio que eu era capaz de forjar, cruzei as pernas e puxei as mangas felpudas e brancas do meu casaco, observando a costura dos punhos como se fossem cartas criptografadas que continham todos os segredos do governo americano.
Bom, meio que passava perto disso. Pra mim. Era Gucci e fora um presente de minha mãe no meu último aniversário, quando a seleção de júri em um caso importante demorou mais tempo que o planejado e ela não conseguiu pegar o voo a tempo para passar o dia comigo nos Hamptons. Embora eu desconfiasse que ela me daria a exata mesma peça se tivesse chego à tempo – mamãe usava qualquer desculpa para comprar algo da Gucci. E quem podia culpá-la?
- Já posso ir?
Os lábios adornados pelo filete de barba se curvaram para cima diante de meu tom raivoso. Com uma reverência exagerada, ele indicou com as mãos a porta onde a palavra saída brilhava, laqueada em vermelho e branco.
- Grata – sem dirigir o olhar à figura asquerosa, levantei e bati as mãos em minha saia para ajeitar o tecido antes de minhas pernas acelerarem em resposta automática e me tirarem praticamente correndo dali.


Uma fina camada de neve cobria a calçada quando minhas botas pretas bateram no asfalto. Palo Alto ficava ainda mais bonita no inverno; a cor esbranquiçada do gelo que se fazia presente praticamente todos os dias contrastava perfeitamente com os mais diversos enfeites iluminados que anunciavam o final de mais um ano.
- Eu juro que é a última vez que resgato a princesa de algo assim – parada no estacionamento da delegacia, Avery Sanders apoiou o braço na janela do seu carro minúsculo, prateado e ecologicamente correto – Você ao menos sabe que dia é hoje?
- Nem comece – a dispensei com um gesto de mão ao contornar o carro para alcançar a porta do carona.
Ave jogou uma mecha do cabelo intensamente preto, que ia até os ombros, para trás.
- Dia ruim?
- Você não tem ideia. Estou à beira de um ataque de nervos.
Minha amiga ligou o carro e soltou um suspiro pesaroso e complacente.
- Acha que Turner teve algo a ver com isso novamente? – ela soara cautelosa, me fazendo apertar os lábios ao considerar sua hipótese.
- Duas vezes em apenas uma semana? Ele não pode ser tão paranóico assim.
Ave me lançou um olhar piedoso antes de começar a manobrar o carro. Mas é claro que ele podia.
Cameron Turner fazia parte do departamento investigativo da polícia e havia usado seus truques algumas vezes para me atrair até aqui. A única vantagem era que, da mesma forma que eu entrava fácil, seus amigos fardados e inescrupulosos me deixavam sair. Até mesmo em dias como hoje, quando a culpa era inegavelmente minha. Ninguém faria nada com “a garota de Turner”.
Ele era o que eu chamava de um caso mal resolvido. Eu certamente não sabia em que estava me metendo quando começamos, e tinha menos ideia ainda quando resolvi terminar. O cara simplesmente não me deixava em paz.
- Devo perguntar o que te trouxe até aqui, então? - Ave arqueou uma das sobrancelhas marcadas, me analisando pelo canto dos olhos.
- A porcaria de um pino de cocaína. E não, não era meu. Eu estava apenas... Transportando.
Apesar de seu perceptível olhar preocupado cair sobre mim, ela assentiu, entendendo que não devia fazer mais perguntas.
A situação era dramática e complicada demais para qualquer julgamento.
Dizem que, quando você passa por uma situação traumatizante, as neurotoxinas geradas pelo estresse causam mudanças físicas no cérebro que podem conduzir uma mudança de comportamento e até ideológica. Talvez essa fosse apenas uma forma de me apoiar em fatos científicos para ter uma desculpa em benefício aos meus atos nos últimos meses, mas, para minha sanidade, eu preferia pensar que tudo era apenas reflexo do meu recente trauma psicológico. Não era de meu feitio estar aqui; saindo de uma delegacia na véspera de ano novo por ser pega transportando drogas. Dentro de uma Chanel.
Posso afirmar que minha vida sempre fora algo parecido com uma estrada coberta de nuvens coloridas e doces caindo do céu. Era perfeita, no sentido mais literal da palavra. Hoje, parecia que Quentin Tarantino poderia sair de trás das câmeras a qualquer momento e gritar “corta” para dissipar a eterna aflição que eu parecia estar vivendo.
Meus pais eram importantes advogados em Nova York e, junto com meu irmão mais velho, Carter, eram provavelmente as melhores pessoas do mundo. Os tinham uma extensa linhagem de sucesso, que oscilava entre proprietários de grandes redes de hotéis espalhados pela América do Norte, até estaleiros de iates em toda costa Europeia. Tudo sempre vinha muito fácil e nunca me faltara nada.
Três meses atrás, minha vida mudou da forma mais absurda e inimaginável. Em uma tarde domingo que parecia como outra qualquer, minha mãe encontrou meu pai debruçado na mesa de mogno do seu escritório. Com um tiro certeiro na nuca e uma poça de sangue ao seu lado, a única pista na cena do crime era um pedaço de papel com a letra M desenhada que fora colocado em sua mão.
E era isso. A polícia ainda não tinha nenhum suspeito para o crime, embora afirmasse veemente que a motivação era dinheiro.
Era angustiante ver os dias passarem sem poder fazer nada a respeito. E é claro que aparecia todo tipo de pessoa que conhecia um pouco sobre minha família querendo tirar proveito da situação. Recebi incontáveis propostas de câmbio por informações nas últimas semanas; dinheiro em troca de pistas, drogas em troca de informações e situações repulsivas demais para serem descritas.
Hoje, eu tinha sido pega pelo pino de cocaína em troca do depoimento de uma suposta testemunha que viu meu pai trocar envelopes com um cara suspeito, cerca de um mês antes do crime.
Na grande maioria das vezes as pistas, obviamente, não eram verdade. Mas, mesmo tendo plena consciência disso, eu simplesmente não conseguia deixar de tentar. A hipótese de que qualquer informação cabível sobre o assassinato do meu pai estivesse fora do meu conhecimento, principalmente quando essa me fora oferecida em uma imunda bandeja de prata, era o suficiente para não me deixar dormir à noite.
- Vai passar a noite com a gente? Vamos ao MacArthur – a voz animada de Ave me trouxe de volta à realidade.
Eu estava com a cabeça apoiada no vidro da janela, assistindo as ruas praticamente vazias passarem em um borrão. Palo Alto não era exatamente uma cidade turística, e a população costumava diminuir drasticamente nas épocas festivas; principalmente ali, nos arredores de Stanford.
Em meio a um suspiro, olhei pra Ave.
- Acho que sim – respondi, mesmo sem saber ao certo se ainda existia alguma faísca de energia em mim disposta a explodir em qualquer tipo diversão.

-

- O que acha de sairmos daqui agora mesmo e fazermos uma tatuagem? É sério! Vamos eternizar nossa amizade - Ave cantarolou ao jogar os braços para cima e se inclinar no meu colo e no de Hazel.
- Se você achar um estúdio aberto às onze horas da noite do dia trinta e um de dezembro, estou dentro - ri ao dar um tapa em sua perna coberta pela meia-calça rendada.
Tudo em Avery era agressivo e um reflexo da sua personalidade desafiadora; desde os olhos extremamente marcados pelo lápis preto até suas roupas que eram sempre uma mistura de tecidos, texturas e - adivinhe só – camadas pretas. Exceto quando ela bebia e virava a criatura mais extrovertida e amorosa desse planeta. Era como se o álcool criasse uma persona ao entrar em contato com seu organismo.
Hazel a calma em pessoa. Os cabelos vermelhos caíam pelos seus ombros estreitos, em cachos adoravelmente bagunçados. Ela era adepta das saias longas, batas estampadas, artesanatos e incensos. Se os anos 60 pudessem idealizar uma pessoa para uma auto exemplificação, essa pessoa certamente seria Hazel Hills.
O meu vestido branco de cetim e alcinhas finas que acabava na metade de minhas coxas, custava mais do que eu gostaria de admitir e era arrematado pelos Manolos cor-de-rosa de salto fino diziam muito mais sobre mim do que eu gostaria de admitir. Uma estudante de direito à lá Elle Woods, como Ave gostava de dizer.
Éramos o exato contraste uma da outra; e talvez por isso nos déssemos tão bem.
- Você não vai terminar isso? – Ave apontou para o copo de Martini pela metade que a ruiva tinha apoiado na mesa.
- Eu literalmente acabei de dar um gole – Hazzy riu, afastando o copo da morena e se virando para mim – Porque ela fica impossível toda vez que bebe?
- Já desisti de entender a Ave – levantei os ombros e rolei os olhos, arrancando uma risada de Hazel e uma careta de Avery.
- Parem de falar como se eu não estivesse aqui. O que vocês têm contra diversão?
- Absolutamente nada. Estamos rindo de você agora mesmo – Hazzy rebateu e foi a minha vez de rir.
Senti-me superficialmente relaxada ao dar um gole na gigante taça de Cosmopolitan em minhas mãos, observando meticulosamente o movimento ao meu redor. O MacArthur ficava perto da universidade e era certamente uma das melhores opções por ali. O enorme salão de madeira no estilo provençal deixava o charme por conta do teto inteiramente feito de vidro onde, especialmente hoje, cordões de luz branca caíam, contrastando agradavelmente com o céu levemente estrelado. Balões dourados e brancos ornamentavam o espaço e uma música agitada dava o tom à obrigatória animação no rosto das pessoas que dançavam e conversavam espalhadas por ali.
Não se comparava às costumeiras e luxuosas festas de fim de ano nos Hamptons ou em Bel Air, mas existia algo de mais aconchegante naquele lugar. E eu estava realmente precisando de aconchego.
- Aquele não é o seu professor gostoso de Penal? - com um tom de voz sugestivo, Avery despertou minha atenção ao cutucar minhas costelas com o cotovelo e apontar para um pequeno alvoroço do outro lado do salão.
- É sim - dei de ombros, observando-o por cima do contorno transparente da taça ao entornar outro gole caprichado.
Sr. era o tipo de cara que chamava atenção aonde quer que estivesse - e em uma universidade repleta de meninas de vinte e poucos anos com muitos hormônios borbulhando não podia ser diferente. Por isso, não era surpresa vê-lo cercado por um exército de cabelos compridos, decotes exagerados e pernas amostra.
A real surpresa era que ele não parecia dar a mínima para toda aquela atenção. Sentado em uma mesa alta, acompanhado apenas de um copo raso de uísque com gelo, meu professor parecia uma versão ainda mais charmosa de James Dean ao encarar o nada. Em seu rosto, os traços irretocáveis permaneciam sérios, formando harmoniosamente a habitual expressão perversa que raramente deixava seu rosto.
- Como é ter aula com um Deus grego, ? Sua cadeira fica constantemente molhada? - em meio a uma gargalhada exagerada, Avery bêbada atacava mais uma vez.
- É melhor a gente tirar o copo dela, Hazzy – larguei minha bebida e apoiei o rosto nas mãos, ainda observando - Esse lugar não é muito feliz pra ele? Quer dizer, se for pra fazer essa cara é melhor passar o réveillon em um cemitério. Ou em um manicômio abandonado. O que for mais sombrio e esquisito, assim como ele. Eu estou de luto e pareço mais feliz que isso!
E mais uma gargalhada exasperada de Ave.
Como se sentisse que eu estava falando dele, Sr. tomou um gole da bebida e a largou na mesa antes de virar rosto lentamente em nossa direção. Seus olhos altamente invasivos analisaram meu rosto minuciosamente, fazendo com que os poucos segundos que se passaram transfigurassem em eternidade. Ajeitei-me na cadeira e segurei o ar em meus pulmões, visivelmente desconfortável. Um músculo pulsou em seu maxilar sublimemente desenhado e, em um gesto despreocupado, ele escorregou os dedos pelos cabelos antes de retomar à sua posição inicial, encarando o vazio à sua frente como se nada no mundo fosse capar de atingir sua bolha sombria e impermeável.
Alguém mais viu isso?
- Preciso de algo mais forte – notifiquei antes de me levantar, baixo o suficiente para não provocar uma resposta afiada vinda dos ânimos de Avery. Hazzy apenas assentiu com a cabeça e peguei minha pequena bolsa rosa em cima da mesa, seguindo em direção ao bar.
Ou quase isso.
Quando me aproximei do extenso balcão entupido de garrafas e copos vazios, mudei meu caminho, virando à direita e me desvencilhando de algumas animadas e embriagadas figuras vestidas de branco até chegar ao banheiro. Uma porta de madeira laqueada em um belo tom de oliva separava a festa de um pequeno espaço com uma bancada, um espelho e uma pia com duas cubas. Duas portas, uma em cada lado, levavam aos toaletes; mas aquela espécie de hall já era reservado o suficiente para mim.
Apoiei a bolsa na bancada e encarei minha imagem no espelho. Apesar do corretivo aplicado com primor e do tom artificialmente rosado de minhas maçãs eu ainda parecia extremamente... Cansada. Exausta. Deplorável. Como se eu estivesse sem dormir há quatro dias e um caminhão tivesse passado por cima de mim.
E eu realmente precisava de algo mais forte. Abri a bolsa, tirando de lá uma pequena pílula de um potinho branco e o apoiei na pia. Revirei-a um pouco mais e peguei um batom, a fim de melhorar um pouco minha aparência cadavérica. Quando encarei o espelho, prestes a aplicar o tom avermelhado em meus lábios, congelei instantaneamente.
Bem atrás de mim, a pouquíssimos passos de distância, o Sr. encarava fixamente meu reflexo. Seu semblante austero parecia ligeiramente mais ameaçador, e algo me dizia que isso tinha a ver com a sua proximidade e o fato de eu nunca ter ficado apenas com ele em um banheiro. Ou em nenhum outro lugar.
Inspirei lentamente. A tensão, antes inexistente, agora entorpecia meus sentidos. Sua presença me deixava apreensiva e sua compostura letárgica era a responsável pela inquietação em meus dedos, que agora tilintavam ansiosamente apoiados em minha cintura. Meu sexto sentido insistia que havia algo de errado com ele desde a primeira vez que botei os olhos em suas belas e ameaçadoras feições na aula de Direito Penal - e meu sexto sentido nunca falhava.
Meu professor deu alguns passos para frente e parou rente à pia, bem ao meu lado. Apoiando as mãos na superfície de mármore, seus olhos percorreram furtivos do meu rosto até a pílula na bancada, e depois voltaram para analisar novamente minha expressão.
Ele apertou os lábios e balançou a cabeça, desviando sua atenção e erguendo as mangas da camisa antes de ligar a torneira. Camisa branca. Ele costumava preferir os tons mais escuros em sala de aula, mas o visual de hoje lhe caía tão bem quanto.
- Não sabia que gostava de vir aqui – me vi dizendo as primeiras palavras que brotaram em minha mente. Simplesmente porque eu era agitada demais para aguentar o silêncio por muito tempo e situações desconfortáveis me faziam tagarelar mais do que o normal.
ergueu os olhos em minha direção.
- Não gosto – ele respondeu e voltou a atenção para a água molhando seus dedos.
- Vi que está sozinho. Pode sentar com a gente se quiser.
O canto de seus lábios repuxou vagamente pra cima, mas eu não sabia se aquilo podia ser ao menos considerado um sorriso.
- Obrigado. Mas me sinto bem estando sozinho.
Dei um sorriso visivelmente sem graça, desviando o olhar para os meus pés.
Diálogo. Mais. Constrangedor. Da. Minha. Vida.
Não apenas confessei que estava o observando e ainda fui dispensada. , dois. , zero.

O barulho da água cessou e, pelo canto dos olhos, percebi que meu professor já estava secando as mãos. Privei-me ao máximo da vontade de erguer o rosto em sua direção e o plano de evitar o contato visual estava prestes a ser concluído com sucesso quando ele deu as costas para sair daquele cubículo que, à essa altura, parecia sufocante.
Seus passos ecoaram em meus ouvidos e eu me atrevi a encarar o reflexo de sua silhueta se afastando. Foram necessários dois passos para que ele parasse novamente. Meu professor pereceu hesitante por alguns instantes e, para a minha surpresa, seus olhos voltaram a me encarar por cima dos ombros. Sua voz, extremamente calma e negligente de qualquer tipo de emoção, deslizou em um sussurro de seus lábios:
- Feliz ano novo, .


02 | I pretend I'm not hurt and go about the world like I'm havin' fun

- Pena de morte - a voz do Sr. ressoou grave pela sala naquela segunda-feira de manhã – Gostaria de saber o que vocês pensam sobre isso. Quem aqui é a favor?
Entre as cinquenta e pessoas na sala, cerca de quinze levantaram a mão.
era o tipo de professor que gostava de ouvir a opinião dos alunos. Ele geralmente plantava um tópico e nos guiava em meio à discussões fervorosas com as mais distintas opiniões; o que eu achava ser uma ótima maneira de exercitar a ética. Há cinco meses, ele ministrava minha aula preferida de toda a grade de Stanford.
O cargo antes pertencia ao carrancudo Sr. Murray, que tinha o incrível talento de transformar uma aula interessante em um monólogo completamente maçante. Os boatos diziam que ele havia aceitado uma vaga em Yale e se mudado para Connecticut – e os alunos não podiam estar mais felizes por isso.
- Curtis – o professor deu dois passos em direção ao garoto bronzeado e musculoso da segunda fileira que mantinha a mão levantada – Por favor, justifique.
- É a vida pela vida. Se você tirou a vida de um inocente, pague com a sua.
O professor balançou a cabeça, sem mudar um terço de sua expressão blasé. Eu não conseguiria decifrar o que ele estava pensando nem que minha vida dependesse disso. E isso me incomodava absurdamente.
Sua camisa social preta se movia juntamente aos seus músculos. era inegavelmente bonito, e a expressão sonhadora no rosto da maioria das meninas, empoleiradas em suas cadeiras e atentas a qualquer movimento dele, confirmavam isso.
Eu travava uma luta inteira para dissipar o constrangimento da lembrança noite de ano novo uma semana atrás. Quais eram as chances de ele ter esquecido a nossa agradável conversa ou não ter reparado em meu alarmante nervosismo diante de sua presença?
- - ele girou nos calcanhares repentinamente e deu quatro passadas largas, parando em frente à minha mesa na primeira fileira e cruzando os braços - Porque não levantou a mão?
Que timing perfeito, professor.
- Não concordo – recobrei minha concentração na matéria e ajeitei a postura antes de continuar - Martin Bryant teoricamente matou trinta e cinco pessoas em Port Arthur e até fez com que as leis de posse de arma na Austrália mudassem. Vinte anos depois, decidiram considerar que ele poderia ser inocente. A justiça tem muitas falhas para algo tão definitivo.
balançou a cabeça mais uma vez e apertou os olhos em minha direção. Seria muito estranho se eu pulasse em sua frente e o balançasse pelos ombros implorando para que ele me dissesse o que pensa?
- E os crimes com requintes de crueldade e assassinos confessos? - Easy Curtis deslizou na cadeira virando-se em minha direção, voltando a argumentar truculento - Não te incomoda que Charles Manson e a família tenham saído do corredor da morte porque as leis da Califórnia mudaram naquele ano?
- São casos e...
- Vai me dizer que não queria ver o filho da puta que tirou a vida do seu pai pagando na mesma moeda? - com uma das grossas sobrancelhas arqueadas, ele me interrompeu. Suas palavras soaram como um golpe em meu estômago e um desagradável burburinho de palavras afiadas tomou conta da sala.
- Sr. Curtis - o professor esbravejou, aumentando consideravelmente a voz - É melhor ir me esperar na minha sala. Agora.
Pela primeira vez vi o vislumbre de uma mudança de humor no rosto de . O cenho franzido e a mandíbula travada me davam a impressão de que ele tinha passado de sério para raivoso por um breve momento.
O furor borbulhou em meu sangue e pude sentir as lágrimas frustradas subirem por minha garganta. O quão idiota e insensível alguém precisava ser para fazer uma colocação como aquela? Com os dedos trêmulos juntei meus livros e canetas, jogando-os de qualquer jeito na Chanel branca e apoiando-a nos ombros antes de sair feito um furacão pelas portas altas de madeira daquele lugar.
Eu tentava manter esse tópico em uma espécie de ponto morto em minha mente; e ouvir alguém gritando sobre o assassinato do meu pai da forma mais natural e grotesca o possível era certamente mais do que eu podia aguentar.
Não que ele estivesse completamente errado. Mas tocar no assunto era como obrigar meu corpo a sentir tudo novamente – a tristeza, a frustração, o desamparo e mais um batalhão de sentimentos ruins.
Os corredores estavam vazios e meus sapatos, batendo contra o assoalho com força, faziam um barulho irritante. Não pensei duas vezes antes de seguir em direção à cafeteria localizada em uma das praças que dividiam os campus; Hazel provavelmente estaria lá, uma vez que café era seu nirvana e sua aula começaria apenas uma hora após a minha.
A calefação interna e o cheiro de cafeína me receberam de braços abertos assim que passei pelas portas do Coupa Cafe e avistei Hazzy, sentada ao lado dos inseparáveis Luke Walsh e Paisley Henderson.
- Não era pra você estar na aula? – Hazel indagou ao puxar uma cadeira ao seu lado para que eu sentasse. Ela apoiou os braços em seu caderno sob a mesa, com a capa cheia de colagens das mais diversas cores e tipos. Era a cara dela; minha amiga adorava personalizar o que quer que fosse.
- Eu estava, mas Easy Curtis resolveu ser um babaca e, agora, aqui estou eu – disparei, embora eu soubesse que o final daquela frase deveria ser ‘e eu, como sempre, resolvi ser covarde e fugi’.
- Apenas mais um dia normal em Stanford – Luke ironizou e fez um gesto no ar com a mão.
Luke Walsh era uma ótima companhia, principalmente quando se estava precisando de conselhos e umas boas risadas. Ele sempre tinha uma piada na ponta da língua e pontuava suas frases com gestos expansivos e expressões faciais engraçadas. Seus cabelos loiros e curtos combinavam com seu rosto delicado e seu corpo franzino; ele tinha uma aparência inocente, quase infantil.
- Acreditem, estou na contagem regressiva para me ver livre daqui – Paisley ensaiou uma expressão exausta ao dar um gole em sua enorme xícara de café. Seus cabelos castanhos, cacheados e compridos, sua pele negra impecavelmente bem cuidada e seu um metro e oitenta faziam-na parecer a próxima Naomi Campbell.
- Eu também estaria se tivesse escolhido cursar Sociologia como vocês três – dei um sorriso amarelo e roubei um gole do café amargo e extremamente forte de Hazzy. O líquido caiu como uma pedra em meu estômago vazio, um lembrete desagradável de que eu estava desde a tarde ontem sem comer.
- Porque decorar milhares de leis é o que há de mais agradável para se fazer – Luke provocou e eu apertei os olhos em sua direção.
- Podemos voltar ao assunto central? – Hazel tamborilou os dedos na mesa, atraindo nossa atenção – Ainda acho que a gente deveria...
- ! – a voz grave e amplamente sonora que eu tão bem conhecia retumbou em meus ouvidos. Estremeci ao ver o olhar dos meus amigos se fixarem, apreensivos, em um ponto bem acima de minha cabeça. Antes que eu pudesse fazer qualquer movimento, Turner me encurralou pelas costas passando um braço de cada lado do meu corpo, apoiando seu rosto no alto de meus cabelos.
- Que merda é essa, Turner? – vociferei, mas meu corpo não ousou mover um músculo.
- Há quanto tempo não me faz uma visitinha? – sua voz, cada vez mais próxima e sórdida, indicava que seus lábios iam de encontro ao meu ouvido para um sussurro - Precisamos mudar isso... Já estou com saudades.
Mantenha a calma, . Ele não vai fazer nada aqui.
- Desencosta. Por favor – me esforcei para falar ao sentir a ânsia subir por minha garganta.
- Barnes me contou que esteve na delegacia semana passada – ele falou mais baixo e eu fechei os olhos com força, torcendo para que meus amigos não escutassem – Achei tão mal educado você não me esperar voltar. Estava louco pra ver você.
- Eu não tenho absolutamente nada pra tratar com você – minha voz reverberou tão baixa e firme quanto a dele.
- Eu discordo – Turner soltou um riso de escárnio – Da próxima vez que for pega com cocaína pode não ser tão fácil assim escapar. Aliás, você não para de me surpreender, .
Seus dedos afastaram meus cabelos e tocaram brevemente meu rosto, fazendo-me recuar depressa em um gesto instintivo. Turner fez questão de dar mais uma risada desprezível antes de se afastar e eu já não mais sentir o calor repulsivo de seu corpo contra o meu. Inspirei fundo e tentei passar tranquilidade aos três pares de olhos que me encaravam aflitivos e condolentes.
A última vez que Luke tentou impedi-lo de se aproximar de mim, acabou com uma arma apontada em sua direção. Era um acordo previamente firmado entre nós; ninguém se meteria novamente entre mim e Cameron Turner, independente da situação. Eram meus problemas e, infelizmente, a realidade era que ninguém além de mim poderia resolvê-los.

-

Fiz uma careta para o pacote de batatinhas congeladas em minhas mãos e as coloquei novamente no freezer. Eu definitivamente ainda não estava com fome. Diante do dia exaustivo, meu organismo conseguia me pedir uma única coisa: uma relaxante garrafa de vinho.
Minhas pernas praticamente se moveram sozinhas até a prateleira de bebidas alcoólicas da pequena loja de conveniência que ficava a poucos minutos do meu apartamento. Passei os olhos pelos mais diferentes rótulos e garrafas sem saber ao certo o que escolher. Tudo o que eu sabia era que vinho tinto e seco sempre fora mais palatável para mim – mas, talvez hoje, eu devesse escolher apenas a embalagem que indicasse o maior teor alcoólico.
Era exatamente o que eu precisava.
E fora exatamente esse meu critério ao sair do local com duas garrafas envoltas por saquinhos pardos e algumas embalagens de chicletes.
O vento gélido cortou minhas entranhas quando comecei minha caminhada de volta. A temperatura devia estar beirando os dez graus e minha falta de precaução era a culpada por eu estar vestindo apenas uma calça de moletom junto a um finíssimo casaco de tricô.
Do bolso de trás da minha calça, tirei uma pílula branca e laranja e a coloquei na boca, abrindo em seguida uma das garrafas para conseguir engolir. A queimação tomou novamente a boca de meu estômago e eu não hesitei em entornar mais um gole para castigar a resposta negativa de meu corpo.
Devia passar das dez horas da noite e, em uma segunda feira, os arredores de Stanford não eram exatamente movimentados. A trajetória levaria cerca de vinte minutos e, apenas alguns segundos após ter deixado a loja, achei ter ouvido passos sorrateiros atrás de mim.
Podia ser apenas alguém andando casualmente por ali, mas algo insistia em me dizer que o barulho estava próximo demais para essa ser uma hipótese válida. Respirei fundo e olhei discretamente por cima dos ombros. Quase tropecei ao vislumbrar rapidamente o que pareceu um borrão preto de uma silhueta caminhando em minha direção.
Ai meu deus. O quão rápido eu consigo correr?
Senti meu coração disparar e a sensação de vulnerabilidade balançou meu corpo por completo. Apertando as duas garrafas contra o corpo, aumentei a velocidade dos passos o máximo que eu conseguia e, quando me atrevi a espiar mais uma vez para checar se eu havia conseguido me distanciar, meus pés automaticamente se fincaram no chão. Com um misto de alívio e curiosidade no peito e a adrenalina em todo seu esplendor ao percorrer meu sangue, não hesitei antes de me virar e encarar o homem que se aproximava calmamente. Ele mantinha as mãos nos bolsos, os olhos fixos em mim e o mesmo semblante obscuro de sempre.
- Professor ... O que está fazendo aqui? – tentei soar calma, mas o receio certamente ainda era evidente em minha voz.
Dando mais alguns passos, ele permaneceu em silêncio até parar bem na minha frente.
- Eu moro aqui – meu professor ergueu um pequeno molho de chaves do bolso e apontou com a cabeça para um prédio de três andares, apenas alguns metros à nossa frente. Seus olhos passaram de meu rosto para as garrafas em minhas mãos trêmulas – Está tudo bem com você?
Ele morava aqui? Eu me lembrava especificamente do dia em que Quimby Archer se vangloriou por ter encontrado nosso professor usando roupas de ginástica ao voltar de uma corrida matinal. Na porta de seu apartamento. Na Waverly Street. Que ficava ao menos a dez quadras daqui.
- Está sim. Compras de última hora, você sabe... Morar sozinha pode ser um porre às vezes – relaxando minha postura, me recompus ao usar o tom de voz que diz que nada no mundo me afeta e que fora aperfeiçoado ao longo dos anos. Junto ao sorriso discreto em meus lábios, aquela era a minha armadura nos últimos meses: fingir que minha vida era uma linda casa e ficar longe o suficiente para que ninguém possa ver suas rachaduras.
A pergunta crucial martelou em minha cabeça: Porque ele mentiria?
Meu professor e eu nos encaramos em silêncio por alguns instantes. Era uma tarefa impossível ficar cara a cara com e não divagar sobre o quanto ele parecia um galã hollywoodiano.
Ele vestia uma calça jeans e um moletom preto; algo completamente diferente das roupas sociais que geralmente usava em sala de aula, mas que tiravam cerca de cinco anos dos seus bem conservados trinta e poucos. Tinha os cabelos levemente bagunçados, um rosto anguloso e de traços fortes que parecia ter sido esculpido à mão, e um par de olhos brilhantes que eram, provavelmente, os mais bonitos que eu já havia visto.
Se Avery estivesse em meu lugar, provavelmente já teria pulado nos braços dele.
É claro que eu o achava atraente, mas... Ele não fazia meu tipo.
E nem eu o dele, provavelmente. Ele parecia gostar de morenas voluptuosas que falavam três palavras em espanhol a cada frase. As únicas três palavras que eu conhecia em espanhol eram Hola e Cristóbal Balenciaga.
Enquanto isso, meu gosto estava mais para Leonardo Di Caprio em Titanic, e ele certamente fazia a linha Brad Pitt em Clube da Luta.
passou os olhos por meu corpo e apertou os lábios.
- Não está com frio?
- Um pouco, mas já estou quase chegando em casa.
Eu estava congelando pra falar a verdade.
Estreitei as sobrancelhas ao vê-lo colocar as mãos na barra do moletom e puxá-lo para cima. Ah, não. Ele não ia...
- Pode pegar. Vou ficar por aqui mesmo – meu professor estendeu a peça em minha direção e seus olhos inevitavelmente fitaram os meus. Algo em seu olhar me lembrava os felinos; não sabia ao certo se era seu piscar lento ou o aspecto misterioso e corrosivo.
- E-eu... Obrigada – balbuciei, incapaz de formar uma frase inteligível diante de seu gesto inesperado.
Peguei o moletom e me abaixei para apoiar as garrafas no chão. Sob seu olhar atento, passei-o pela cabeça e o ajeitei no corpo. Em instantes o aroma que emanava do tecido tomou conta de minhas vias respiratórias, acertando em cheio meus pulmões. Era algo reconfortante, como erva-doce e o bálsamo das noites quentes de verão em Julho. Era... Inebriante.
Seus olhos examinaram meu corpo de cima a baixo e algo discreto e parecido com um sorriso repuxou seus lábios. Não havia nada de luxurioso em sua expressão, mas eu sentia como se ele pudesse me despir apenas com o poder do pensamento.
- Te vejo amanhã na aula.
Antes que eu pudesse responder, roçou o ombro levemente no meu ao passar pelo meu lado e retomar seu caminho. Alcançando minha garrafa do chão, virei mais um gole de seu conteúdo ao observar sua silhueta se afastando. O frio já não arrepiava mais meu corpo, mas o motivo da quentura não tinha a ver somente com a peça a mais em meu corpo. Era sua presença que me deixava inexplicavelmente quente.
Vendo sua imagem sumir diante do meu campo de visão ao adentrar a porta azul-escura que ele antes havia indicado como seu apartamento, sussurrei para mim mesma antes de avançar pela rua agora deserta:
- Mal posso esperar.


03 | I try to drown you out so down goes another one

, você está tão acostumada com as ameaças de Turner que já não sente mais medo.
A minha voz interna repetia a frase como um mantra ao vê-lo parado na porta da universidade, apoiado em seu Volvo vermelho, usando óculos escuros e com seu estúpido distintivo dourado pendurado no peito.
Eu sabia, porém, que era necessário apenas levantar a manga do meu casaco e olhar algumas das marcas mais resistentes em meus braços para que o pânico estremecesse meu corpo inteiro.
Queria dar meia volta e sair dali correndo. Queria gritar até sentir meus pulmões queimarem. Mas a minha sádica consciência insistia em acusar minha covardia, fazendo-me afogar em meu orgulho, abraçar meu próprio corpo e, com os olhos fixos no chão, seguir em frente.
Foram seus dedos firmes, apertando meu pulso e me puxando para trás em um gesto ausente de qualquer delicadeza, que cessaram meus passos. Respirei fundo ao ser recebida por seu sorriso perfeitamente branco, irritante e irônico. Turner tirou os óculos e apertou os olhos acinzentados em minha direção, analisando rigorosamente cada detalhe do meu rosto.
- Achei que já tínhamos resolvido que não tenho nada pra tratar com você – diante do seu silêncio, me pronunciei ao tentar desvencilhar meu pulso de sua mão, mas o movimento só resultou em um apertão mais forte de seus dedos em minha pele.
- Minha doce e inocente – Turner me puxou bruscamente para perto de si, fazendo-me tropeçar em meus pés ao me chocar contra seu tronco rijo – Achei que soubesse que isso só termina quando eu quiser.
O medo e a raiva brigaram silenciosamente dentro do meu peito, me lembrando que a confusão que tomava meu corpo e minha mente fazia-me nunca saber quem ouvir primeiro. O mal-estar, um velho conhecido quando se tratava dele, subiu pelo meu estômago e parou sufocante em minha garganta.
- Turner – fechei os olhos e tentei inutilmente puxar meu braço mais uma vez - Você está me machucando.
É mentira o que dizem; a gente não se acostuma com a dor. Ela se torna cada vez mais aguda e corrosiva.
- Estamos quites, então? – o idiota sorriu debochado ao aumentar gradualmente a força de seus dedos envolta do meu pulso, e a dor irradiou de vez para os meus músculos, fazendo algumas lágrimas teimosas brotarem em meus olhos.
Lágrimas raivosas.
Foda-se. Minhas escolhas eram mesmo sempre tão imprudentes quanto eu; que diferença faria, então, tomar mais uma decisão errada?
- Você não tem vergonha de andar por aí perseguindo uma menina que claramente sente nojo de você? Qualquer coisa doentia que existia entre a gente acabou e a única maneira de você me tocar novamente é essa, contra a minha vontade. E isso é repugnante. Dá pra aceitar isso de uma vez e me deixar em paz? – meu tom rancoroso arrancou as palavras entaladas em minha garganta, cuspindo-as com vontade na cara patética de Cameron Turner.
O brilho sinistro tomou conta de seu olhar – aquele brilho opaco e ardoroso, que sempre antecipava uma dor lancinante em algum lugar do meu corpo. E, dessa vez, o local escolhido fora minhas costas, que se chocou contra a porta do carro atrás de nós ao ter meu corpo prensado pelo seu, dez vezes maior e mais forte. A sensação de fragilidade e impotência lembrou-me os velhos tempos e um grito de horror se prendeu em minhas cordas vocais.
- ?
Antes que eu pudesse pensar em minhas alternativas praticamente inexistentes de fuga, uma voz conhecida soou ao longe e fez Turner olhar por cima dos ombros. Quando ele aliviou a pressão que seu tronco fazia sobre mim, deslizei avidamente para o lado e tentei mascarar o temor em meu rosto ao encarar a expressão impetuosa do Sr. bem à nossa frente.
Tá legal, o que está acontecendo? Não me lembro da última vez que virei e você não estava atrás de mim.
- O que você quer? – Turner foi o primeiro a se manifestar em um rosnado, cruzando os braços e parando à minha frente como um soldado furioso em posição de ataque.
Meu professor poderia dar uma surra facilmente nele, sem dúvida alguma. Mas a arma na cintura de Turner o dava uma preocupante vantagem.
Os olhos de passaram tediosamente por ele, porém, fora em mim que, instantes depois, eles focaram.
- Desculpe-me por te fazer esperar, fiquei enrolado com a correção de algumas provas. Mas estou pronto para te orientar no trabalho sobre prisão preventiva. Vamos?
Encontrei-me sem reação por alguns segundos, precisando obrigar meu cérebro a raciocinar o que ele acabara de falar. Então assenti veemente com a cabeça, olhando por um breve segundo para os olhos frustrados de Turner antes de descolar minhas costas da lataria e dar alguns passos na direção de meu professor, que apoiou a mão nas minhas costas e me guiou para dentro do campus novamente. Eu não era destemida o suficiente para olhar para trás, mas tinha certeza que Turner nos observava com desprezo e um único perverso pensamento: aquilo não acabaria assim. Acompanhei o Sr. em silêncio, meu corpo trêmulo se movendo em piloto automático ao lado do seu. Quando dei por mim, estávamos sentados em uma das mesas mais afastadas do Coupa Cafe e ele havia colocado uma pequena xícara de chocolate quente e um croissant na minha frente.
- Obrigada por... – comecei a falar, mas terminei a frase com um sorriso desajeitado. Obrigada por me salvar do meu obsessivo ex-namorado? Eu mal sabia como completá-la.
apenas acenou brevemente com a cabeça, colocando as mãos no bolso da calça preta e encostando o corpo no apoio da cadeira ao me observar com atenção. Sentindo-me desconfortável sob seu olhar exploratório, dei um gole no chocolate e hesitei em pegar um pedaço do croissant. O cheiro de pão fresco aguçou meu olfato e eu fiz uma careta ao larga-lo novamente no prato, sentindo a já habitual náusea subir pelo fundo de minha garganta.
Eu não estava com fome. Novamente.
Os olhos do meu professor caíram indiscretos em meu pulso e seus lábios automaticamente se contraíram. O contorno dos dedos de Turner marcava minha pele em um rastro avermelhado – mais um desagradável lembrete em meu corpo de que ele esteve ali.
- Porque não vai à polícia? – a voz de soou baixa e cautelosa.
Sorri fraco ao olhar para baixo, puxando a manga do casaco preto para esconder a repugnante reminiscência. Queria tanto que a solução fosse simples assim.
- Porque ele é a polícia. E certamente daria um jeito de virar toda a história para o lado dele junto com a sua escolta menosprezável.
travou o maxilar e entrelaçou os dedos repousados sob a mesa de madeira escura. Sua expressão não me entregava se estava pensando sobre a nefasta situação ou se imaginava filhotes de adoráveis cachorrinhos correndo ao lado de pandas preguiçosos.
Era uma tela em branco.
Uma porta de aço trancada a sete chaves.
Seu olhar calculista de um sanguinário em potencial me alertava para ficar longe; mas era esse mesmo enigma tenebroso que incitava minha curiosidade. Qual seria sua história?
- Quer ver algo incrível? – inclinando o corpo brevemente em minha direção, ele soprou ao fitar meus olhos de uma distância que não me dava escolha se não mergulhar em toda sua ardente intensidade.
- Sempre.
Sem dizer mais nada, se levantou; e seu silêncio me dizia que eu devia segui-lo. Esperei alguns segundos após ele sair pela porta para fazer o mesmo. Ainda que ele não tivesse feito nenhuma restrição à respeito, achei melhor me manter a alguns passos de distância durante todo o percurso. Ele ainda era meu professor e, por mais que a universidade estivesse praticamente vazia no fim da tarde, os olhares ansiosos por um boato infundado podiam aparecer a qualquer momento.
Os passos dele só cessaram quando chegamos à parte de trás de um dos prédios mais distantes do campus, onde ficavam as salas dos professores e alguns departamentos administrativos. A edificação, no entanto, se destacava pela falta de acabamento nos tijolos e alguns apetrechos espalhados; materiais de construção, alguns cabos e um guindaste.
- Porque estamos aqui? – estreitei os olhos ao olhar em volta, me esforçando para entender porque aquilo era incrível.
- É a melhor vista de Palo Alto – ele apontou para o topo do guindaste e, antes que eu pudesse responder, começou a escalar a estrutura de metal em direção a uma minúscula plataforma que devia estar suspensa a, pelo menos, sete andares do chão.
Não hesitei em imitar seus movimentos e começar a subir em seu encalço; mas seus movimentos eram ágeis demais comparados aos meus. Quando cheguei ao topo, ele já me esperava sentado, com os braços apoiados nas pernas flexionadas e o olhar perdido no horizonte. Faltando apenas um impulso para chegar à superfície, não pude evitar uma parada antes do passo final para observá-lo por um instante.
O quão estranha e inapropriada era essa situação? Será que ele trazia todas suas alunas aqui? Ou seria essa apenas uma atitude de pena diante do cenário de merda que a minha vida claramente apresentava?
- Está com medo? – percebendo meu dilema, sua voz me despertou de meus devaneios.
- Da altura? Não. De você, sim – sorri e, em um pequeno pulo, coloquei-me no topo e me ajeitei ao seu lado com cautela – Como descobriu esse lugar?
- É ótimo para pensar. Distante e silencioso.
- Assim como você – disse e quase coloquei a mão na boca ao vê-lo estreitar os olhos, me encarando de soslaio. Boa, . Sua recém-exposta e extremamente positiva visão do seu professor provavelmente lhe renderá um belo zero nos próximos quatro trabalhos. Pelo menos.
É claro que era o tipo de cara que precisava subir em um guindaste para pensar. Soava tão poético e misterioso.
Suspirei, olhando à minha volta. As luzes da cidade começavam a dançar timidamente à medida que o sol se escondia ao leste, colorindo o céu de Palo Alto em lindas pinceladas de amarelo, laranja e púrpura. Ali, o vento batia mais forte, e a sensação de liberdade era indescritível. Por um momento, todos os meus problemas pareciam distantes. Meu pai, Turner, meus pensamentos caóticos e os impasses que eu não era capaz de enfrentar... Eu estava acima de tudo isso.
- Você sempre soube que queria fazer direito? – a rouquidão da sua voz me chamou atenção. Podia ser só uma forma de puxar assunto, mas eu tinha certeza da existência de um fiapo de curiosidade em seu tom.
- Eu queria ser uma playmate. Holly Madison era minha maior inspiração e morar na mansão era meu objetivo de vida - soltei uma risada ao me virar e encontrar seu olhar atento em mim – É excêntrico, eu sei.
- Assim como você – ainda sério, ele devolveu minha resposta e eu não pude evitar um sorriso ao balançar cabeça negativamente.
O silêncio súbito caiu entre nós. Talvez se sentisse confortável em ouvir apenas o som de nossas respirações, mas a quietude causava um sentimento precisamente adverso em mim – eu ficava agitada, os olhos percorrendo em um frenesi o espaço à minha volta para que qualquer frase brotasse na ponta da minha língua.
- Eu sempre achei estranho pensar que em cada uma dessas casas – apontei para alguns telhados ao longe, desenhando com os dedos os diversos contornos díspares no ar - Vivem tantas pessoas diferentes, com histórias diferentes, gostos diferentes, fazendo coisas diferentes. Tudo ao mesmo tempo. Parece tão...
- Incrível?
- Incrível – repeti, virando o rosto para ele e mirando discretamente a simetria sublime de seu perfil – Sobre o curso de direito...
- Sim?
- Não sei se é o que eu quero fazer. Nunca soube exatamente do que eu gosto. Mas... – mordi o lábio inferior e soltei um longo suspiro antes de continuar – É uma maneira de provar pra mim mesma que sou capaz de alguma coisa. Durante minha vida inteira as pessoas sempre me julgaram pela minha aparência, sem gastar ao menos dez minutos para me conhecer. Sempre fui a garotinha superficial que tem tudo quando quer e como quer. Sim, eu gosto de fazer compras e poderia facilmente escrever uma monografia sobre a vida de Coco Chanel, mas isso não significa que não há mais nada além da superfície. Eu não sou superficial. Eu só...
- Nunca achei que fosse – sua voz calma interrompeu meu tornado de palavras conturbadas.
Você deve ter sido o primeiro; minha consciência provocou e eu a obriguei a ficar calada enquanto analisava a expressão tranquila do meu professor, tentando roubar ao menos um pouco daquela serenidade.
- Agora você é apenas um estranho com todos meus segredos. Por favor, guarde-os bem.
Nunca havia contado aquilo pra ninguém, com exceção de Avery.
E então ele sorriu.
Não qualquer sorriso. Era uma mistura de honesta compaixão com uma silenciosa advertência, que claramente alertava: “Você não me conhece. Não sabe nada de mim e provavelmente nunca saberá”.
E talvez eu devesse sair correndo dali e fingir nunca ter visto a mudança de humor em sua expressão.
Mas não consegui.
Apenas sorri de volta.
Da forma mais sincera, delicada e escancarada de sentimentos que eu podia. Porque era assim; expansiva e sem nada a esconder.
E fechou os olhos – como se testemunhar toda aquela demonstração de bem-estar o machucasse. E se escondeu, mais uma vez, na incógnita penumbra que, por alguns breves instantes, ele havia me permitido olhar além.


04 | in a land of gods and monsters I was an angel living in the garden of evil

A casa de veraneio na costa sul de Cape Cod era o lugar perfeito para reunir os amigos em Julho, quando Nantucket tinha os dias mais quentes e o sol mais brilhante de toda a baía.
E é claro que Carter sabia disso e não perdia uma oportunidade de vir para cá ao menos uma semana antes da chegada dos nossos pais. Era a ocasião perfeita para chamar alguns dos amigos mais próximos e aproveitar tudo de melhor que o lugar tinha a oferecer.
- Precisamos dar um jeito nessa bagunça. Eles chegam logo cedo amanhã - meu irmão estava deitado no sofá com uma compressa de gelo na cabeça, reclamando incessantemente da forte e inevitável ressaca.
- Relaxa. Temos muito tempo até amanhã, mon amour – com um gigante copo de suco de laranja na mão, dei um tapa em sua perna para que me deixasse sentar – Só preciso tomar uns três desse e estou renovada.
- Não acredito que não fez um copo pra mim.
- Não acredito que não levantou essa bunda preguiçosa até agora para fazer seu próprio suco, Warty – dei um largo sorriso ao vê-lo rolar os olhos.
Ele odiava que eu o chamasse assim. Quando fiz um ano e comecei a pronunciar as minhas primeiras palavras desajeitadas, meu irmão já tinha seis e a ideia fixa de me ensinar a falar seu nome. Como Carter podia ser um tanto complexo, ele tentou Carty. Mas, na minha adorável língua de bebê, Carty virou Warty.
- O que aconteceu aqui? – a voz de papai ecoou imprevisível, nos causando um sobressalto e me fazendo quase engasgar com o gole que havia acabado de dar.
E lá estavam Henry e Grace , apoiados no batente da porta, com os braços cruzados e algumas malas na mão, nos encarando com as expressões mais impiedosas que eu já havia visto na vida.
A casa estava um caos. Garrafas, copos e latas amassadas jogadas pelo chão e em cima dos móveis. Alguns enfeites quebrados se misturavam às manchas de bebida no carpete e um cheiro de álcool enjoativo pairava no ar. Na mesa de centro à nossa frente, vestígios de um pó branco ainda formavam linhas suspeitas e algumas pontas de baseado derrubavam suas cinzas pelo vidro fumê.
Eu estive perto de cocaína mais vezes do que gostaria de admitir; era o passatempo preferido dos adolescentes com tempo livre e dinheiro de sobra - mas papai provavelmente teria um colapso se visse sua princesa sequer no mesmo ambiente que qualquer entorpecente do tipo.
- Vocês não chegavam só amanhã? – Carter gaguejou ao meu lado, endireitando a postura no sofá.
- Fica quieto, idiota – sussurrei pra ele e dei um beliscão discreto em seu braço.
Mamãe apoiou os dedos nas têmporas e franziu o cenho ao ver três pratos de sua coleção de parede espatifados no chão, soltando um suspiro ruidoso.
Essa era Grace ; graciosa como seu nome, mesmo quando estava seriamente zangada e prestes a dar uma bronca em nós dois.
Papai nos olhou e passou a mão pelos cabelos escuros, provavelmente pensando em como lidar com a situação sem gritarias desnecessárias. Ele odiava escândalos. Certamente usaria a situação para nos dar uma lição de moral mais tarde; ele sempre fazia isso.
- Vou levar a mãe de vocês para almoçar. Voltamos em duas horas. É melhor tudo estar no lugar.
Quando eles se viraram para sair, um relâmpago cortou o céu e o clarão iluminou todas as paredes da casa, seguido de um trovão violento e ensurdecedor. Fechei os olhos pelo barulho e, quando os abri, a noite havia caído lá fora e uma chuva torrencial molhava as ruas como uma avalanche.
Mas não foi isso que fez meu coração acelerar.
Na porta de nossa casa, me encarava, com as roupas pretas encharcadas e os cabelos molhados cobrindo seus olhos sinistramente. Em suas mãos enluvadas, uma enorme e reluzente adaga deixava gotas de sangue escorrerem até chão.
Mais um fulgor cintilou na imensidão e a luminescência embaçou momentaneamente minha visão.
Em um instante, ninguém além de nós dois estava ali. Meus pais e meu irmão haviam desaparecido em um piscar de olhos. O olhar erosivo de queimava em minha pele, e seus lentos passos ferinos em minha direção diziam-me que eu seria a sua próxima vítima.
Fechei os olhos e gritei com tanta força e por tanto tempo que pude sentir meu pulmão doer, implorando por ar.
E então, quando minhas pálpebras pesadas se ergueram, tudo o que eu podia ver era o vazio. Eu estava deitada e tudo era completamente branco. Tentei abrir a boca para gritar de novo, mas, dessa vez, nenhum som saia. Tentei levantar e correr, mas meus músculos não me obedeciam e meu corpo estava totalmente imobilizado.
Era horrível. Sufocante.
E então um ruído oco e distante anestesiou meu corpo por inteiro.


Dessa vez, quando abri os olhos, tudo parecia mais calmo – tudo com exceção de meu coração batendo descompassado em meu peito.
Que merda de sonho tinha sido aquele?
Quer dizer, não era apenas um sonho. Era também uma lembrança. Um misto de fantasia e realidade que deixava pra trás um gosto amargo de saudade e desespero.
Eu lembrava perfeitamente daquele dia em Nantucket, quatro anos atrás. Mas porque o Sr. tinha aparecido daquela forma em meio a tal recordação?
E mais uma vez o barulho oco preencheu o silêncio de meu quarto – mas, agora, estava claramente mais perto. Era o punho de alguém se chocando contra a porta de entrada do meu apartamento. Às sete da manhã de uma quarta-feira, só podia ser Avery com alguma novidade que simplesmente não podia esperar mais uma hora até eu chegar ao campus.
Senti minha cabeça latejar ao levantar rapidamente. Pesadelos sempre me davam dor de cabeça. Peguei o robe de cetim cor-de-rosa ao lado da porta antes de descer as escadas do loft, em apressadas e largas passadas. Destranquei a porta pintada de cinza claro e estava com uma animada saudação na ponta da língua para minha amiga quando minhas pernas quase falharam.
Não eram os luminosos cabelos pretos de Avery me esperando, e sim os tenebrosos olhos cinza de Turner.
- C-como entrou aqui? – minha voz saiu trêmula e em um fiapo, o medo tomando minhas entranhas sem piedade alguma.
- Você ficaria impressionada com o que um desses pode fazer – ele apontou para o distintivo suspenso por uma corrente em seu pescoço.
- Por favor, some da minha frente – dei um passo para trás e comecei a fechar a porta, mas seus dedos ágeis a pararam no meio do caminho.
- Professor , não é? – ele me encarou com um sorriso atravessado e eu engoli em seco, atenta a qualquer possível movimento dele.
- O que tem ele?
- Acho que vai querer dar uma olhada nisso aqui – Turner estendeu um gordo envelope de papel pardo em minha direção e, com os dedos trêmulos e hesitantes, o peguei – Me parece que está correndo do cara errado, . Se eu fosse você, ficaria longe dele.
Ele deu uma piscadela do seu jeito imundo e lançou um último sorriso convencido antes de me dar as costas. Bati a porta e a tranquei depressa, apavorada com a de seu retorno. E então encarei o envelope em minhas mãos; a tensão crescendo em meu corpo e meu cérebro trabalhando a mil por hora, criando zilhões de teorias sobre o que podia ter ali dentro.
Praticamente corri até o sofá e o abri, retirando alguns papéis arrumados em uma generosa e desengonçada pilha.
Meus olhos, ansiosos, passaram rápido por todas as folhas, lendo superficialmente algumas palavras destacadas, e depois voltaram do princípio para uma análise mais detalhada.
Porte ilegal de arma.
Receptação.
Lesão corporal.
Incêndio criminoso.

As mais diferentes acusações e os mais diversos delitos. No entanto, uma coisa em comum encabeçava todas as páginas e fazia meu coração trepidar no peito toda vez que meus olhos passavam pela tinta preta impressa no papel amarelado.
. Em negrito e letras expansivas para que não me restasse dúvida.
Atrás de todas as laudas, uma foto em preto e branco me desafiava.
Era ele. Meu professor.
O olhar pungente e a inexpressão de sempre. Com os cabelos emaranhados, um corte avermelhado no alto das maçãs e o olho direito arroxeado. Entre os dedos, um cigarro queimando aguardava o próximo trago.
Mas não fora isso que fez minha boca secar e a tontura me atingir em cheio.
Ao seu lado, vestindo um terno perfeitamente alinhado, com sua postura sempre elegante e o brilho nos olhos esverdeados que nem a falta de cor na foto era capaz de apagar, estava meu pai.
Entregando um pequeno amontoado de pastas para e se inclinando para dizer algo em seu ouvido.
Senti meu coração palpitar à medida que tentava fazer todas as conexões possíveis entre os dois, mas tudo o que consegui foram mais perguntas saltitando em minha mente.
Como era possível meu pai e se conhecerem?
Por isso ele estava tentando se aproximar de mim?
O que tinha naquelas pastas?
Como Stanford podia contratar um professor com antecedentes criminais?
E, principalmente: tinha alguma coisa a ver com o assassinato do meu pai?

-

Nem a água quase fervente do chuveiro fora capaz de relaxar meu corpo naquela manhã. A mesma sensação de impotência que eu sempre sentia ao pensar em papai estava entalada em um espesso nó na minha garganta, que apertava um pouco mais cada vez que me lembrava daquela fotografia.
É claro que uma das possibilidades recorrentes em minha mente jogava a culpa inteiramente em Turner; ele podia ter forjado as laudas, e eu bem sabia que um editor de imagens era capaz de criar cenas perfeitas. Não seria a primeira vez que ele faria algo tão absurdo por um ciúme fantasioso.
Mas algo dentro de mim não me deixava sequer tentar acreditar nessa versão dos fatos. Sempre achei que havia algo condenável em e ali estava a prova.
A primeira coisa que fiz quando atravessei a porta entre o banheiro e meu quarto foi procurar a minha bolsa. Não porque eu queria sair correndo para a faculdade – e sim porque hoje era um daqueles dias em que eu simplesmente precisava de uma pílula de Adderall. Hazel foi quem me apresentou à primeira dose do remédio; era comum que os estudantes usassem o medicamento ilegalmente para aumentar a concentração em época de provas. Aparentemente a mistura de anfetamina e dextroanfetamina da composição funciona como um estimulante: aumenta a atividade dos neurotransmissores, impulsionando a memória e aumentando a concentração.
Não que eu soubesse, exatamente, o que isso significasse – sabia apenas que o comprimido laranja e branco me ajudava a não me afogar em meus pensamentos. Basicamente, eu me dopava para me sentir mais sóbria e insistia para minha própria consciência que isso fazia algum sentido. Talvez o efeito fosse mais psicológico do que qualquer outra coisa.
Enquanto o comprimido ainda descia pela minha garganta e eu pensava na falta de vontade de começar a me arrumar, algo incomum me chamou atenção.
Um envelope branco repousava em minha penteadeira. Não qualquer um; mas um envelope branco com um lacre vermelho e um emblema elaborado que eu reconheceria em qualquer lugar – o brasão da família .
Um envelope que não estava aqui antes. E isso só podia significar uma coisa: alguém tinha entrado no loft enquanto eu estava aqui.
Céus, que merda me esperava agora?

O arrepio na espinha fora inevitável enquanto eu percorria os olhos pelo ambiente à minha volta. Não era uma tarefa muito difícil; apesar de os dois andares serem amplos, o conceito aberto me permitia ver perfeitamente a sala do meu quarto e ter um breve vislumbre da cozinha lá embaixo.
Não tinha nada fora do lugar – tudo organizado em meio aos tons de cinza e branco, conforme meu gosto.
Meus dedos vacilantes se apressaram em pegar o envelope e abri-lo com avidez. Lá dentro, um pedaço de papel cartão garantiu que o calafrio novamente fizesse morada em meu corpo.
Letras recortadas de diferentes revistas e jornais formavam uma frase que poderia significar as mais diversas coisas. Aos meus olhos, soava como uma ameaça.

“Você não pode me ver
Mas eu vejo você”


05 | been trying hard not to get into trouble but I’ve got a war in my mind

A infinidade branca que meus olhos captavam era interrompida por algumas frases rabiscadas em tinta preta. Nada poético, porém efetivo. Sentenças como “tenha mais coragem” e “aproveite o agora” me incitavam e pareciam fazer mais sentido do que nunca.
Há tempos eu me perguntava como Avery tinha conseguido se equilibrar no que quer que fosse para pichar aquelas mensagens no teto com caneta permanente.
Ela e Hazel dividiam um dormitório na universidade. O local era espaçoso, mas vez ou outra parecia caótico diante do contraste de personalidade de minhas duas amigas descarregados na decoração. Hazzy acumulava enfeites floridos e velas aromatizadas por todos os lados. Ave tinha alguns pôsteres de bandas estrangeiras que eu nem ao menos sabia dizer o nome forrando as paredes, além de uma sinistra luminária de caveira na pequena mesa ao lado da cama.
Apesar de excêntrico e anárquico, era aqui o meu refúgio quando tudo parecia errado ou até mesmo quando eu estava simplesmente me sentindo sozinha - o que acontecia com certa frequência.
No entanto, ainda que a solidão fosse a minha mais fiel companhia nos últimos dias e o fato de uma aterrorizante carta anônima ter aparecido em meu apartamento, o motivo da minha presença hoje era um tanto diferente. Tinha nome, sobrenome e misteriosos olhos .
era, sem dúvidas, minha primeira aposta sobre a carta. Eu não sabia como, muito menos o porquê; mas até então, ele ocupava o posto da pessoa mais questionável à minha volta.
- Talvez eu me mude mesmo pra cá – declarei após tomar o baseado dos dedos finos de Ave.
Estávamos deitadas lado a lado no estreito espaço de sua cama, encarando o teto e dividindo a erva que minha amiga havia acabado de apertar. Porque era exatamente esse o programa habitual de garotas de vinte e poucos anos em uma quinta-feira à noite na universidade.
- Pode tomar o meu lugar. Eu fico com seu apartamento numa boa.
Dei mais uma tragada e fiz uma careta ao sentir o gosto herbal tomar conta da minha boca. Mirei os lençóis revirados na cama de Hazzy, sentindo falta dos seus comentários ácidos sobre minhas crises existenciais. Ela, muito provavelmente, estava em algum canto isolado do campus desenhando cartazes elaborados sobre como salvar o mundo; e essa vontade de lutar por algo melhor era só uma das tantas coisas que eu admirava nela.
Eu tinha um plano. Um plano do tipo que poderia me trazer mais problemas do que soluções. Iria me esgueirar até a sala do professor atrás de qualquer tipo de resposta para as minhas incontáveis indagações. Em algumas horas seria tarde da noite, todas as aulas já teriam acabado há um bom tempo e ele não teria qualquer motivo para estar por ali.
E se ainda assim ele estivesse, meu plano de contingência estava amarrado à minha cintura. Eu poderia dizer que simplesmente estava andando pelo campus e decidi passar para devolver seu casaco.
Eu sei, a desculpa era pouco convincente. Talvez até patética. Mas era tudo o que eu tinha no momento e, de verdade, o que ele poderia fazer? Agarrar-me pelos ombros e me chacoalhar até que a verdade fosse cuspida de meus lábios?
- Aaron me convidou pra ir no apartamento dele amanhã à noite – Ave quebrou o silêncio, virando o rosto em minha direção, a tempo de me ver rolar os olhos.
- Você sabe o que eu penso sobre isso.
Aaron Thompson era um ordinário. Um ordinário que havia traído minha amiga umas cinquenta vezes em pouco mais de um ano de relacionamento.
- É difícil não sentir nada por ele – ela deu mais uma tragada e prendeu o ar antes de continuar - Quer dizer, quando estamos juntos é algo tão... Familiar, sabe?
Se Avery bêbada era sinônimo de diversão, Avery chapada era o resumo do que havia de mais melancólico no sentimentalismo.
Peguei o baseado de sua mão e estiquei o braço para apagar a ponta no cinzeiro repousado ao chão. Retomando minha posição inicial, virei o corpo de frente pra minha amiga para poder encará-la com seriedade.
- Ave. A gente sempre experimenta uma roupa velha de vez em quando. E pode até ser uma surpresa quando ainda serve, mas isso não quer dizer que a gente tenha que usar ela novamente.
- Quem disse isso?
- Eu. Você não acabou de ouvir minha voz? - dei um sorrisinho e ela fechou os olhos, cobrindo o rosto com uma das mãos e rindo como se eu tivesse dito a coisa mais engraçada do mundo.
Ah, os efeitos da maconha hidropônica.
- ...
Revirei os olhos mais uma vez, agora segurando uma risada. Essa era uma coisa que eu e Ave costumávamos fazer; citar algumas mulheres que considerávamos inspiradoras para trocar conselhos. A lista ia desde Grace Kelly e Audrey Hepburn até Carrie Bradshaw e...
- Blair Waldorf. E ela tem razão. Você não pode passar os melhores anos da sua vida esperando que alguém te ame de volta.
Ah, , sua hipócrita.
Ave suspirou e se ajeitou na cama. Depois pegou uma mecha dos meus cabelos e começou a enrolar as pontas no dedo, como sempre fazia quando estava prestes a me pedir algo que eu claramente estaria pouco disposta a fazer.
- Você poderia ir comigo.
Aí estava.
- Me parece meio pervertido – disse e ela soltou uma risada, provavelmente concordando comigo – Não posso te impedir de ir. Apenas implorar pra que pense nas consequências se realmente for.
Ela apertou os lábios e me olhou por alguns instantes ao ajeitar alguns dos meus fios displicentes atrás de minha orelha.
- Quando foi que você ficou tão sensata? – minha amiga sorriu e eu fingi uma expressão teatralmente surpresa por sua acusação.
Então uma ideia brilhante saltou em minha mente e, antes mesmo de falar, eu já estava sorrindo.
- O que achar de tiramos o sábado para ir à Promenade?
- Em Santa Mônica? – ela fez uma careta e eu assenti, ainda incapaz de afrouxar o sorriso - , pode parecer absurdo pra você, mas nem todo mundo chama passar cinco horas em um carro para fazer compras de ‘diversão’.
- O que nem todo mundo sabe é que um novo par de sapatos pode curar um coração partido. Ou até a vontade de cometer um erro com um ex-namorado que claramente não merece você. É só saber escolher o modelo certo.
Avery hesitou por alguns segundos, e eu sabia que ela estava com vontade de rir. Mas ela apenas rolou os olhos e largou o corpo na cama, em um claro sinal de rendição.
- Você será uma ótima advogada, senhorita Woods.
Se eu pudesse ganhar todos meus casos argumentando sobre roupas e compras, eu certamente seria.
E passamos alguns minutos assim; dançando entre os mais diversos assuntos e opiniões à medida que a noite caía e meu nervosismo, consequentemente, aumentava.
Ave dormiu algum tempo depois; e esse fora o exato momento que escolhi para dar início ao meu esquema. Por mais que eu confiasse minha vida a ela, tinha consciência que era melhor que algumas coisas ficassem apenas sob meu conhecimento; ao menos até minhas suposições virarem afirmações.
Levantei-me da cama com cuidado e caminhei até a porta na ponta dos pés, com o intuito bem sucedido de não fazer barulho. Mas fora a maçaneta rangendo que me denunciou – e instantes depois, a voz sonolenta de minha amiga ecoou pelo quarto.
- Aonde você vai? Pensei que fosse passar a noite aqui.
- Eu vou – me virei e lancei um sorriso reconfortante para sua expressão preocupada - Só preciso resolver uma coisa antes.
- ...
- Não vou me meter em nenhum problema. Pode ficar tranquila.
O suspiro profundo e os olhos se fechando me pareceram o aval para deixar o quarto sem mais perguntas.

-

O campus não parecia o lugar mais acolhedor do mundo quando a noite caía. O caminho entre os dormitórios e os prédios discentes era repleto de árvores e mais árvores que apontavam para o alto e se fundiam com a escuridão do céu. Era lindo durante o dia, quando o sol penetrava entre a profusão de folhas e destacava o vermelho intenso presente por todos os cantos da decoração de Stanford. Às onze horas da noite, parecia apenas o cenário perfeito para um filme de terror.
Havia algo sinistro no clima de hoje. Podia ser apenas reflexo do meu coração acelerado, acompanhando o ritmo frenético dos meus olhos que se apressavam em examinar cada milímetro de breu ao meu redor. Ou talvez a sensação de estar sendo observada, concomitante a um embolado de vozes e risadas que eu podia jurar estar escutando ao longe.
A neblina não era um fator muito comum no Estado Dourado - mesmo em janeiro, no ponto alto do inverno – mas justamente hoje a névoa caía magistralmente pelos ares da Califórnia, fazendo um ótimo trabalho em deixar a atmosfera ainda mais densa. Aqui, o tempo geralmente pedia por nuvens; e em um ímpeto incomum, eu estava implorando pelos raios solares.
A caminhada até a sala dos professores duraria uns quinze minutos; dez se eu andasse mais rápido e não me importasse com o barulho incessante das folhas secas sendo amassadas sob meus pés. Não que me preocupar fosse o termo correto - eu apenas não queria despertar a atenção indesejada de qualquer inspetor que pudesse estar ali por perto.
- !
Meu nome dito em um sussurro fez-me deter os passos e um grito subiu por minha garganta, sendo detido antes de tremer minhas cordas vocais. Senti o sangue congelar em resposta súbita. Respirei fundo uma, duas, três vezes e girei nos calcanhares já me preparando para o pior. Tive que apertar os olhos para, entre a caligem, identificar a silhueta dos dois garotos que me examinavam de cima a baixo; enquanto um exalava uma ansiosa curiosidade, o outro exibia um meio sorriso perspicaz.
- Holden, você quase me matou de susto – coloquei a mão sob o peito, sentindo meu coração palpitar no que parecia o ritmo mais vertiginoso do universo – O que está fazendo aqui?
Holden Moore levantou uma corpulenta garrafa entre os dedos e o garoto ao seu lado apertou os lábios ao encarar os pés. Acho que o nome dele era Dean, e pelo que me lembrava ele tinha adoráveis olhos azuis. Os dois faziam parte do time de futebol da universidade - as jaquetas rubras com o emblemático S bordado em branco não me deixavam dúvida.
- O que você está fazendo aqui?
O que eu estava fazendo ali? É melhor pensar rápido, .
Apalpei o bolso de trás da minha calça e peguei meu mais plausível álibi.
- Nos dormitórios o cheiro se espalha pelo corredor - disse ao erguer o baseado já queimado entre os dedos.
Na verdade, com as janelas abertas, o bálsamo não emanava com tanta facilidade. Mas eles eram atletas, e atletas não usavam narcóticos com tanta frequência para contestar algo tão específico. E, pelo o que eu me lembrava, o treinador Jenkins mantinha o pulso firme quando se tratava dos exames toxicológicos.
O barulho de um galho se quebrando ecoou no silêncio da noite, atraindo nossa atenção para um ponto aleatório entre as trevas. Por mais que nada parecesse fora do lugar, meu corpo se retesou os músculos ao fazer as mais sórdidas suposições.
- Mas que merda foi essa? - Dean se pronunciou pela primeira vez, cruzando os braços e olhando sôfrego para todos os lados.
- Provavelmente um homicida sedento por sangue. E agora nossas chances de sobreviver são praticamente nulas - lancei um sorriso irônico para os olhos apavorados de Dean. Eles eram mesmo azuis e adoráveis.
- E porque estamos parados aqui aguardando a morte? - ele rebateu e eu podia jurar que sua voz tinha ficado ligeiramente mais aguda.
- Vamos morrer de qualquer forma. É melhor que seja de um jeito espetacular como esse, não acha?
Dean arqueou as sobrancelhas, como se estivesse diante de alguém completamente desequilibrado mentalmente.
Bom, pra ser sincera eu faria o mesmo se estivesse em seu lugar. E é claro que eu não acreditava em minhas palavras; tudo fazia parte da minha frágil e necessária máscara de coragem e audácia. Desejava eu, a propósito, que ela fosse tão inexorável quanto a de , mas eu precisava corrigir muitas falhas para sequer pensar em me igualar ao seu estado imutável de despreocupação.
Holden colocou uma das mãos nos bolsos da jaqueta e inclinou a cabeça para o lado, me observando com um sorriso atravessado e os olhos semicerrados. Ele esbanjava a típica beleza californiana; pele bronzeada, cabelos dourados pelo sol e o inconfundível charme de surfista-que-vai-roubar-seu-coração-no-próximo-verão.
- Acho que estou apaixonado - sua voz soou aveludada. Charmosa, como era de se esperar.
- Acho que está bêbado - estendi a mão e puxei a garrafa pendente em seus dedos, dando um destemido e generoso gole. Que erro. Fiz uma careta ao sentir o gosto amargo tomar conta de minha boca e devolvi a bebida em um ligeiro impulso - Você está definitivamente bêbado.
Argh, quem tomava vodka pura como se fosse suco de maçã? Haja fígado e garganta.
- Não quer se juntar à gente? - Dean deu um passo à frente, parecendo extremamente menos retraído do que instantes atrás.
Encarei seus olhos por alguns segundos, intensos e gentis. Era, certamente, uma proposta tentadora.
Mas não era por isso que eu estava ali.
Mordi o lábio inferior, sabendo que eu havia prendido a atenção dos dois naquele exato ponto, e balancei a cabeça em negação.
- Boa noite, meninos.
Dei uma breve piscadinha antes de me virar e retomar meu caminho.
- ? - dessa vez Holden gritou meu nome um pouco mais alto e com um recém-descoberto entusiasmo. Virei o rosto apenas para encará-lo por cima dos ombros e balancei a cabeça para que prosseguisse - Sinto falta de te ver com aquela saia minúscula rebolando no ginásio.
Um sorriso um tanto contrariado tomou conta dos meus lábios enquanto eu balançava a cabeça negativamente. Levantei o dedo do meio e dei as costas de vez para os dois, fingindo para eles e para mim mesma que aquele não era um assunto delicado.
E, por mais que eu lutasse diariamente para calar a voz sensata da minha consciência, podia ouvir seus gritos nas camadas mais profundas do meu ser: Eu também.

-

Meu corpo entregou-se à pungência do temor quando entrei na sala do professor e fechei a porta atrás de mim.
Em uma primeira olhada dispersa, ainda recatada e com as costas presas à parede, o lugar parecia extremamente normal. Uma sala nada divergente de todas as outras do corpo docente. Mas, a cada passo tímido adentro do ambiente escuro e abafado, a adrenalina percorria minhas veias com mais e mais força, reiterando que não havia nada trivial no homem em questão.
Ele, em si, era divergente.
E eu, no meio desse universo singular, me encontrava com um afiado medo de ser pega. Porém, mas do que isso, eu sentia medo do que eu estava possivelmente prestes a encontrar ali.
No meu imaginário, aquela sala estaria cheia de papéis e mais papéis apinhados sob a mesa, em uma desorganização que camuflasse a bagunça que eu logo faria em minha busca longa e meticulosa por informações. Imaginei gavetas abarrotadas de arquivos com provas potencialmente substanciais e indispensáveis em minha amadora investigação.
Os móveis com seus infinitos compartimentos, de fato, estavam lá. Mas cada um deles possuía uma estúpida fechadura; uma pequena e eficiente barreira entre meu querer e o amortecimento de minha curiosidade.
Na mesa de madeira escura, nada além de frívolos materiais de escritório. Nem mesmo seu notebook estava ali para que eu arriscasse minhas inexistentes habilidades digitais.
Mas havia uma chave.
Uma chave larga demais para corresponder a qualquer fechadura daquelas gavetas. Mas uma chave que, eventualmente, poderia ser útil. Uma possível abertura para o desconhecido que, nesse momento, repousava na palma de minha mão.
E eu deveria ter ido embora nesse momento.
Deveria ter apenas colocado a chave no bolso e saído pela porta como um projétil, veloz e objetivo.
Mas eu era fraca. Fraca e melancólica.
E fora exatamente a melancolia, invadindo meu subconsciente tão depressa e incontrolável, que me fizera prolongar a estadia ali. Fora a melancolia que guiou meus dedos, frágeis, para a superfície da mesa, fazendo-os escorregarem morosamente pela madeira gélida enquanto um único pensamento mórbido martelava minha cabeça: Seriam as mãos do meu professor, que diariamente tocavam cada objeto daquele ambiente, as mesmas que dispararam um revólver contra a vida do meu pai?
- É melhor ter uma excelente explicação para estar na minha sala.
Merda.
Merda, merda, merda.
É assim que a gente se sente quando está à beira da morte? O corpo estático, o coração acelerado, a impressão de que respirar pode ser a tarefa mais difícil da face da terra?

Engoli em seco e obriguei minhas pernas a ficarem estáveis ao encarar encostado ao batente da porta; os braços cruzados, a mandíbula contraída e expressão mais assustadora que eu havia visto na vida. Abri e fechei a boca algumas vezes, claramente sem saber o que falar. Tive que me perguntar algumas vezes se ele estava mesmo ali ou se meu cérebro estava me pregando alguma peça. Mas minha imaginação certamente não conseguiria reproduzir de maneira tão fiel a intensidade de seus olhos . Exatamente aqueles que, no momento, se encontravam inertes em mim, lembrando um vasto oceano com milhares de nuances e emoções que variavam e mudavam de cor tão depressa que mal conseguia acompanhar. Eram lindos e hostis ao mesmo tempo.
A boa e velha tensão causada pela sua presença correu pelo meu corpo livremente, mas dessa vez, por algum incógnito motivo, eu não senti medo.
Recobrei a consciência em um suspiro, ajeitando minha postura e ignorando as marteladas amedrontadas em meu peito para conseguir reerguer minha fiel fachada de uma garota inabalável e destemida.
- Acho curioso você estar aqui agora também, professor – usando meu tom mais petulante, apoiei as mãos na cintura e dei um passo em sua direção - Quer dizer, as aulas já acabaram há algum tempo. E não temos tantos trabalhos assim a serem corrigidos logo no início do ano.
Não sabia de onde tinha reunido força, coragem e descaro para dizer aquilo. E ele parecia concordar silenciosamente, com o cenho franzido e os lábios comprimidos em uma linha.
soltou um suspiro pesaroso, passando as mãos nos cabelos antes de retomar a atenção para mim.
- Você não quer jogar esse jogo comigo, – foi a sua vez de diminuir nossa distância em mais um passo.
Curvei os lábios em um sorriso da forma mais ingênua que meus traços marcantes eram capazes de forjar.
- Não sei do que está falando, professor - pisquei os olhos angelicalmente, embora, dessa vez, a palavra tenha escorregado dos meus lábios da forma mais suja o possível.
E mais um passo em minha direção. Seus olhos se voltaram para baixo e um músculo pulsou em sua mandíbula.
- Certo. Vamos ver se eu acerto... Você veio devolver meu casaco?
Precisei controlar meus olhos para que eles não se arregalassem demais em surpresa por ele ter decifrado a minha fajuta desculpa. Mas a surpresa maior fora que, pela primeira vez, eu consegui ler a mensagem escondida em seu olhar. E eles me diziam saber que aquilo era uma mentira desaforada, mas, por algum motivo, ela seria levada como verdade.
Apertei os lábios e inclinei a cabeça para o lado, travando uma luta interna sobre a hipótese de o cara em minha frente ser realmente um perigoso criminoso ou apenas o alvo de um belo mal entendido.
- Como adivinhou? – minha voz arranhou a garganta, trêmula. Eu era mesmo uma péssima mentirosa. Mas aquilo já não mais importava; como ele havia dito, agora era apenas um jogo. Um jogo sinuoso e cheio de armadilhas.
Meus olhos acompanharam sua língua umedecendo os lábios antes de sussurrar:
- E agora era a melhor hora pra você fazer isso?
- É melhor quando ninguém está olhando, não acha? O que pensariam se me vissem te entregando o casaco no meio da aula ou algo do tipo?
Seus olhos, antes dispersos, cravaram nos meus. Ele estava tão próximo que pude ver meu reflexo em sua íris enevoada; e não pude deixar de pensar que aquele era o lugar mais bonito em que eu já havia me contemplado.
- Me diga você.
Ah, professor. Aposto que acha que eu não tenho coragem.
Prendi o lábio inferior com os dentes e soltei vagarosamente. Um sorriso convencido quase desenhou meus lábios ao ver a atenção que ele dedicava aos meus movimentos.
- Iam pensar que estamos transando.
segurou uma risada e encarou os próprios pés. Quando ergueu o olhar novamente em minha direção, suas mãos vieram junto, aproximando-se vagarosamente de minha cintura. Vi-me inerte, sem saber o que fazer e respirando apenas por aguardar seu próximo movimento.
- O que está fazendo? – articulei praticamente sem som, incapaz de quebrar o contato visual de seu olhar para avaliar a premissa de seus dedos.
- Pegando meu casaco de volta – sua voz firme gracejou, como se a resposta fosse óbvia.
Se apenas sua presença me deixava nervosa, o esbarrar de sua pele na minha enquanto ele desfazia os nós das mangas envoltas em meu corpo parecia uma tortura. Seus roçavam, suavemente, no milímetro de pele exposta da minha barriga, logo acima do cós da calça. Com direto a arrepios, coração acelerado e maças ruborizadas. O que podia levar simples segundos pareceu se estender por minutos e, por mais que suas mãos fizessem todo o trabalho indecoroso, era o olhar luxurioso e misterioso que insistia em me fazer trepidar. Em meio ao silêncio necessário, encontrei-me refletindo sobre tudo que ele podia saber sobre mim, meu pai e minha família. Consequentemente, em tudo o que eu não sabia sobre ele.
Era um tanto ameaçador. Injusto, pra ser sincera.
- Acho que já pode ir agora – sua voz me puxou para a realidade e, quando me situei, a peça já pendia apoiada em seu braço direito.
Sustentei o seu olhar por alguns instantes antes de, sem dizer nada, caminhar tranquilamente até a porta. Perguntei-me se ele estaria acompanhando meus passos atentamente ou permanecia de costas, inabalável como de costume. Mas a curiosidade não me fez espiá-lo mais uma vez – apenas abri a porta e inspirei pesarosamente quando a fechei atrás de mim, aliviada ao sentir o ar percorrer o caminho até meus pulmões com tranquilidade.
Parada naquele corredor, imaginando o que poderia estar se passando pela cabeça do meu professor nesse instante e tentando absorver todos os acontecimentos recentes, apenas uma frase colidia com minha consciência.
Preciso me manter o mais perto dele o possível para descobrir todos seus segredos.


06 | You're revving and revving and revving it up and the sound it was frightening

- Quando você acha que vai poder vir me visitar?
Meu irmão estralou os lábios do outro lado da linha. Isso nunca era um bom sinal.
- Assim que o trabalho der uma folga. Você sabe, as coisas têm sido complicadas por aqui desde que...
- Eu sei – interrompi antes que ele terminasse a frase. A verdade era imutável, mas colocá-la em palavras sempre parecia fazer algo se quebrar dentro de mim – Como mamãe está?
- Ela sorri o dia inteiro, fingindo que nada aconteceu – o barulho de alguns papéis sendo amassados ecoou em meus ouvidos – E eu finjo que não a ouço chorando no quarto todas as noites.
Precisei morder o lábio com força para evitar as lágrimas que marejaram meus olhos. Era um tormento inquietante pensar em mamãe assim. E é claro que eu gostaria de estar lá com ela, mas meu corpo me alertava não ser capaz de suportar tal nível de angústia.
- Só venha o quanto antes puder, Warty. Por favor.
- Eu prometo. Mas agora tenho que ir - ele soltou um suspiro ruidoso - Até mais, pirralha.
- Não me chame assim – fiz uma careta, tendo a certeza que ele sorria do outro lado – Mande um beijo pra mamãe, ok?
A sensação de vazio inundou meu corpo no instante em que desliguei o celular. Parada no meio da sala, abracei meu próprio corpo sentindo-me um tanto... Pequena? Insignificante? Sozinha? Uma verdadeira cartela de sentimentos amargos.
No vão das cortinas da parede central do cômodo, eu podia ver uma única estrela brilhar. Ela parecia um paradoxo sobre como eu me sentia solitária e diferente de tudo à minha volta.
O loft tinha se tornado a minha casa há pouco mais de três anos. Ainda assim, eu não havia me acostumado com a quietude do meu novo bairro.
Nova York era caótica - e eu simplesmente amava o caos. Aqui, às dez horas de noite de uma sexta-feira, o único som que invadia minha janela eram as folhas das árvores sendo chacoalhadas pelo vento. E o silêncio sempre fora meu pior inimigo. Ele me obrigava a ficar sozinha com meus pensamentos e examinar cada canto problemático da minha mente, que se resumia a uma confusão de medo, insegurança, crítica interna e desalento. Desde pequena, sempre achei os monstros que tomam conta de nossa mente mais assustadores do que aqueles que teoricamente se escondiam embaixo de nossas camas.
Caminhei morosamente até o enorme espelho estrategicamente posicionado ao lado da porta de saída. Eu devia ter passado horas me arrumando, e ainda assim, a figura refletida em minha frente continuava a parecer enferma.
O vestido vermelho já não desenhava minhas curvas como antes.
O batom escarlate já não se destacava tão bem em meu tom de pele.
E os cabelos certamente não brilhavam tanto quanto antes.
Era como se aquela aparência pálida e cadavérica agora fizesse parte de mim.
As horas brilhando na tela do celular já me acusavam estar atrasada para encontrar Ave, Hazel, Luke e Paisley no Rose & Crown e, por mais que a minha vontade de sair de casa fosse praticamente inexistente no momento, me forçar a fugir da monotonia retrógrada do meu dia a dia podia ser uma boa opção.
Quando fui pegar a bolsa apoiada no sofá e guardar o celular para enfim sair de casa, meu peito se contorceu repentinamente. Meus dedos começaram a tremer e o pavor sufocou minha garganta de uma só vez.
Outra carta?
O pedaço de papel se embolava entre minha carteira, um espelho, um pacote de chicletes e outras milhares de bugigangas dentro da minha bolsa.
Eu queria ignorar. Queria apenas amassá-la e me convencer de que aquilo era apenas uma brincadeira de muito mau gosto.
Mas eu sabia que as chances de alguém dedicar tanta maldade e energia em uma piada eram praticamente inexistentes. E bem, eu era uma pessimista nata.
Quando minhas mãos automaticamente foram de encontro à carta, fiz um relatório mental sobre como alguém podia ter plantado-a ali. E a resposta mais óbvia vinha com facilidade: a faculdade. Minha bolsa havia sido deixada de lado inúmeras vezes durante o dia para alguém inseri-la ali sem o menor problema. Pendurada na cadeira durante as aulas, jogada em cima da mesa no MacArthur, largada no guarda-volumes da biblioteca.
Isso significava que quem estava mandando aquelas possivelmente estudava em Stanford.
O que reduzia os suspeitos para quase dezessete mil pessoas.
Possivelmente.
Ótimo. Era uma incrível evolução.
Rasguei o envelope com as unhas e apertei as têmporas antes de analisar qual frase enigmática os recortes formariam dessa vez.
E eu certamente não estava preparada para a ameaça iminente que as letras arquitetaram.

“Te encontro no Rose & Crown
Serei aquele vestido de sangue”


-

O Rose & Crown era a tentativa de um pub inglês em meio a atmosfera praieira de Palo Alto. Talvez exatamente por isso gostássemos tanto de ir ali; ele nada parecia com o resto da cidade que estávamos tão acostumados a desbravar no dia a dia. Dentro ambiente escuro, com as paredes forradas de quadros, o apinhado de pessoas, mesas, bancadas e cadeiras de madeira resistente e o chão coberto de carpete, era fácil esquecer que ali ainda era a Califórnia.
- ? ! - a voz aguda de Hazel e suas mãos balançando freneticamente na minha frente despertaram minha atenção – Você está aí?
- Desculpe. Eu só… - encerrei a frase em um suspiro com as palavras recém lidas rondado minha mente.
Se aquela merda fosse séria, então o autor das ameaças estava ali. Me observando. E eu mal podia começar a processar essa informação.
- Ainda está tentando descobrir sobre... Seu pai? – Paisley sussurrou cautelosamente e inclinou o corpo para frente, a expressão de compadecimento estampada em sua cara.
Pisquei algumas vezes, tentando focar minha atenção no par de olhos pretos de minha amiga.
- Sigo sem sorte – entortei o lábio em uma careta.
- Porque não tenta olhar as coisas de outro ângulo? Sabe, às vezes ajuda... – Luke sibilou ao meu lado em uma tentativa de solicitude, fazendo-me virar o rosto pra ele.
- O que quer dizer?
- Se quer descobrir quem é o assassino, tente pensar como um assassino – ele deu um gole em seu copo de cerveja - Não deve ser muito difícil pra você.
Estreitei as sobrancelhas, considerando o que ele acabara de dizer.
Realmente não era nada difícil. Eu já havia lido tanto sobre o assunto que poderia facilmente redigir um perfil detalhado sobre o comportado de diferentes serial killers.
Na teoria.
Na prática as coisas não funcionavam com tanta facilidade.
Pois o problema também estava aí. Eu tinha apenas um assassinato para observar, e por isso não conseguia distinguir o que fazia parte do modus operandi do assassino e o que não passava de uma eventualidade que podia ter dado errado na hora do crime.
Isso me impedia de ligá-lo a qualquer outro crime e acreditar que aquele era um caso isolado.
Dei um longo gole na mistura de whisky com soda entre meus dedos. Eu não tinha ideia de quantos copos iguais aquele eu já tinha virado no piloto automático durante a noite, mas uma leve tontura já começava a confundir meus sentidos.
- Ainda acho que você devia se manter longe disso – Ave disse ao apoiar uma mão em meu braços e aperta-lo levemente, com sua habitual expressão de preocupação.
Meus olhos passaram preguiçosamente pelo seu rosto, a concentração sucumbindo a cada instante.
Talvez sair de casa tenha sido um erro. Eu precisava ficar sozinha.
- Eu… Preciso respirar – declarei e me levantei prontamente, ignorando as incontáveis indagações apreensivas dos meus amigos.
Mas, como esperado, Avery veio andando atrás de mim; mesmo sem olhar para trás eu podia ouvir as passadas apressadas do seu coturno pesado marchando contra o assoalho.
Caminhei em disparada até um canto mais calmo do bar, o corpo levemente cambaleante e as pernas se movendo incertas. A embriaguez costumava ser uma ótima ideia para fugir da realidade, mas agora era como se a cada dia eu precisasse de algo mais forte. Meus dedos tremiam por uma pílula de Adderal e eu me amaldiçoei mentalmente ao lembrar elas não estavam em minha bolsa.
- Você está bem? – minha amiga apoiou as mãos em minhas costas ao parar ao meu lado, em frente a uma mesa vazia.
- Estou exatamente como eu aparento – apontei para o meu rosto, com a certeza que ele ainda estava uma bagunça – Deplorável.
Ave entoou um suspiro triste e seus olhos examinaram os traços desanimados em minhas feições. Talvez ela estivesse concordando com o que eu acabara de dizer. Talvez ela apenas não soubesse o que falar.
- Você parece ótima pra mim.
Olhei para trás por conta do murmúrio de uma voz ligeiramente conhecida, mas continuei olhando por causa dos olhos que a acompanhava. Primeiro reparei no esboço de um sorriso em seus lábios. Depois nos braços, tensos e cruzados em frente ao corpo.
Uma jaqueta jeans desenhava seus músculos e a cor parecia acentuar a intensidade de seu olhar, assim como o brilho de seu cabelo bagunçado.
Por último, percebi o olhar confuso de Avery cintilando entre mim e meu professor.
- Você está me perseguindo ou o que? - praticamente cuspi as palavras, tropeçando em meus próprios pés ao tentar dar um passo para frente.
- Não existem tantos lugares assim nessa cidade – ele inclinou a cabeça para me observar, e eu podia jurar que ele estava julgando intrinsecamente meu estado ébrio.
- Existem lugares o suficiente para não nos encontrarmos tanto assim – minha voz saiu como um rosnado. permaneceu impassível ao dançar os olhos por meu rosto por mais alguns instantes antes de dar meia volta e, sem dizer mais nada, caminhar para longe de mim.
A tensão criada em meu corpo tentou se dissipar em um longo suspiro.
Alguns segundos de um incômodo silêncio pairaram entre eu e minha amiga. Acho que ela estava buscando a pergunta certa para fazer.
- O que acabou de acontecer aqui? – ela mantinha os olhos levemente arregalados ao me observar.
- Eu não... – suspirei mais uma vez, divida entre contar tudo para ela e nem saber por onde começar – Nada.
- Eu estou começando a ficar preocupada com você – ela advertiu ao apoiar as mãos, assumindo a já conhecida posição maternal.
- Ave, eu só preciso ficar sozinha. Por favor.
Não esperei sua resposta antes de dar meia volta e seguir o caminho até o banheiro – principalmente porque sabia que seria alguma insistência sobre eu precisar de ajuda ou algo do tipo.
Ignorei meu reflexo ao entrar no lavabo – era um sofrimento do qual eu podia me privar. Apenas joguei um jato de água gelada em meu rosto antes de praticamente correr até o lado de fora do Rose & Crown, decidida a ir pra casa e me jogar na cama durante o fim de semana inteiro.
E era exatamente o que eu teria feito.
Se, ao dar três passos para o lado direito da rua, eu não tivesse visto a silhueta de parada bem na esquina da quadra.
Te encontro no Rose & Crown. As palavras da carta ecoaram em minha cabeça. Isso podia significar que era ele. Não podia?
Não senti medo algum ao me aproximar em passos cautelosos. Não pensei em dar meia volta em nenhum momento. Um grito de desespero nunca veio à minha garganta.
Eu já estava quase ao seu lado quando ouviu os saltos de minhas botas estalando no asfalto. E ele não parecia nada surpreso por me ver ali.
Eu, no entanto, não podia dizer o mesmo ao voltar a atenção para o seu rosto.
Meus olhos acompanharam uma gota de sangue cair do corte em seu lábio inferior até os ombros da jaqueta jeans - e a mancha avermelhada no tecido azulado deixava claro que aquela não era a primeira a escorrer. Seu olho direito estava arroxeado e eu não dava dez minutos para o inchaço aparecer.
Horror.
Era a única coisa que eu conseguia sentir à medida que o nó em minha garganta aumentava e parecia me sufocar.
Serei aquele vestido de sangue.
- Você precisa de gelo – me limitei a sussurrar, mas a voz trêmula denunciava a onda de pânico que passava por meu corpo.
- Preciso ir embora, – a teimosia evidente em seu tom ríspido me fez rolar os olhos em meio a um suspiro.
Atrevi-me a espiar, mais uma vez, por cima de seus ombros.
Caralho. Como eu havia me metido ali?
Um homem de cabelos escuros e cerca de quarenta anos ocupava o chão sujo daquela rua, que na verdade não passava de um beco sujo, estreito e mal iluminado. Estava inconsciente e tudo o que eu conseguia ver em seu rosto era sangue e um maxilar obviamente deslocado.
Por mais que eu não quisesse acreditar, era bem óbvio o que havia acontecido.
- Você não pode ir embora assim. E se ele...
- Nós precisamos sair daqui – ele me interrompeu, ignorando a súplica em minha voz.
Suas mãos deslizaram para o bolso da calça e eu acompanhei o movimento atentamente e com cautela. puxou um cigarro e um isqueiro prateado com algumas palavras cravejadas em preto, ascendendo-o da forma mais despreocupada possível.
E droga, como ele ficava sexy segurando aquele Parliament prestes a ser aceso.
- Me desculpe. Quer? Parece que está precisando – tinha muita arrogância por trás do falso remorso na voz do meu professor. Ele estendeu o branquinho entre os dedos em minha direção antes de dar a primeira tragada.
Fechei os olhos e respirei fundo uma, duas, três vezes. Eu estava, literalmente, a um passo de ter uma síncope. Como ele ao menos ousava estar tão calmo?
Porque ele já fez isso antes, minha consciência tentou lembrar e ela soava irritante e ironicamente como Turner.
Olhei todos os cantos a minha volta, tentando pensar rápido em todas as opções que eu tinha ali. E o Mustang preto estacionado bem atrás de nós chamara a minha atenção.
- Me dá a chave do carro – estendi a mão, tentando mantê-la estática – Eu devolvo quando você tiver pensado melhor.
- ... – ele advertiu, o sorriso atravessado e ausente de humor preenchendo seus lábios.
- Eu juro que se você não me der essa chave agora eu risco a lataria inteira dessa merda! – dessa vez vociferei alto, cruzando os braços e pisando forte ao me colocar entre o homem à minha frente e o carro atrás de mim.
- . É melhor tirar esse rabo lindo da minha frente antes que eu fique puto de verdade – sua voz era contida, mas seu olhar nebuloso e a mandíbula tensa não me passavam a mesma tranquilidade.
Tive que me conter para não soltar um brado indignado diante de sua ousadia.
- E é melhor você ir à merda, professor.
Ele levantou os olhos do chão para fitar os meus em um ímpeto e deixou um sorriso que gritava sarcasmo tomar seus lábios. Estava com aquele semblante que me causava arrepios. Tive que fincar as unhas na palma da mão ao fechá-la em um punho para não vacilar; acho que, se o vento soprasse mais forte repentinamente, eu sairia correndo dali.
Jogando o cigarro no chão, sacou a chave do carro do bolso, girou-a nos dedos e apertou o botão para destravar. Não sabia se era proposital ou se havia algum tipo de tensão em mim toda vez que ele estava por perto, mas a simples forma que ele se movia parecia ser sempre mais lenta e provocativa do que o normal. Como se eu não estivesse ali, ele seguiu até o carro e fez questão de esbarrar em meu corpo, fazendo-me soltar um resmungo irritado.
Por cima do ombro, espiei o homem ao chão mais uma vez. Ele não havia se mexido.
Não, ele não podia estar morto. Ele tinha que estar apenas inconsciente.
- Entra, . Não posso te deixar aqui.
O frisson de uma eletricidade desesperada percorreu minhas veias.
E se ele não fosse o culpado? E se ele fosse embora e eu ficasse aqui sozinha com o real assassino?
Não pensei direito ao correr até o banco do passageiro, me jogando no estofado de couro e tentando normalizar minha respiração acelerada. Tive que recobrar a minha praticamente inexistente calma para não gritar em plenos pulmões ao ver o letreiro luminoso do Rose & Crown se afastando quando meu professor pisou no acelerador e fez o carro sair voando pela ínfima avenida até a via expressa.
- Você vai me contar o que aconteceu ou eu vou ter que criar as teorias? – minha voz escapou de minha garganta mais serena do que eu previa.
- Você viu o que aconteceu – ele rebateu de prontidão e uma pisada um pouco mais forte nos pedais fez o motor roncar mais alto, o barulho grave e ensurdecedor parecendo perturbar todos meus sentidos e tornando a cena ainda mais babélica.
Respirei fundo, tentando inutilmente conter o nervoso.
- Sabe, eu posso parecer estúpida. Posso até fingir que sou ingênua. Mas acredite, eu sei muita coisa que você acha que eu nem faço ideia.
Por mais que, com certo esforço meus olhos estivessem fixos no painel, eu podia sentir seus olhos ferozes queimando em minha pele.
- Não sei o que quer dizer com isso.
Meus olhos parecem dar um volta completa em minha cabeça com um farto rolar.
- Sério, o que tem de errado com você? Até onde eu sei você é apenas meu professor e não tem motivo nenhum pra ficar atrás de mim desse jeito. Então que diabos está acontecendo? Porque tanta implicância?
Me virei para encará-lo e quase me perdi em seu perfil irretocável. Quase.
Talvez as coisas seriam mais fáceis se ele não fosse tão... Interessante.
E se sua áurea luxuriosa não me atraísse como um imã.
- Você poderia parar de falar por um segundo? – rugiu entre dentes perceptivelmente bravo, os músculos dos braços e das mandíbulas tensionados.
- Você matou aquele cara? Quem era ele? E… E o meu pai, você também...
- Droga, ! – o grito furioso e um soco teso no volante causaram-me um sobressalto e me calaram de súbito - Você faz perguntas demais.
E ele finalmente estava me mostrando a temida face que eu não conhecia, apenas imaginava.
- E você não responde nenhuma delas.
- Acredite, tem coisas que é melhor você não saber – seus olhos faiscaram entre mim e a vereda à nossa frente - Tem coisas que nem eu gostaria de saber.
- Como o que? Que merda isso quer dizer? – virei meu corpo em sua direção, lutando contra a vontade de voar em seu pescoço e não soltar até ele me dizer a verdade.
Mas tudo o que recebi em resposta fora o desconfortável silêncio.
Por dez segundos.
Depois vinte.
E então quase um minuto.
Argh, que grande idiota.
- , eu estou falando com você! – a frase saiu de minha garganta em um grito, mas meu professor mal se mexeu. Com toda a tranquilidade inapropriada para a situação, o usual tom ácido me replicou em um murmúrio:
- E eu escolhi não responder.
Uma risada irônica ecoou entre meus lábios. Meus olhos flanaram pelos traços marcados de seu rosto e alguma coisa dentro de mim pareceu se contorcer com o corte ensanguentado em sua boca. E eu ignorei a minha vontade de perguntar se estava doendo. Pois sabia que, lá no fundo, eu queria que realmente estivesse.
E seguimos em silêncio pelos longos vinte minutos seguintes, até ele parar com uma freada brusca em frente ao meu prédio. Saí do carro sem dizer uma palavra e fiz questão de bater a porta com toda força que eu era capaz.
Os pneus cantaram no chão em uma acelerada repentina e somente quando eu encaixei uma das chaves do molho em minha mão na fechadura que percebi algo um tanto alarmante.
Como ele sabia exatamente aonde eu morava?


07 | I've got things to tell you like I know that you're a liar

- O sistema de produção capitalista e questões sociais relevantes também tem reflexo na legislação...
A voz de ficava cada vez mais distante. Eu tinha consciência que ele estava falando, mas eu estava tão vidrada em sua imagem que parecia que apenas sua boca estava se mexendo e nenhum som saindo dela.
As cicatrizes em seu rosto ainda eram perfeitamente evidentes, e o burburinho de vozes parecia tentar adivinhar o que havia deixado o bonitão assim.
Meus questionamentos iam um pouco mais além.
Como o professor ali em minha frente era o mesmo cara arrogante que havia estado naquele carro comigo três dias atrás? Como era possível ele ser suspeito de um assassinato e ficar a frente de dezenas de jovens falando sobre leis e penalidades?
Era o cúmulo da ironia. O clichê de todos os clichês.
E tal inconsistência absurda fora o combustível necessário para que eu tirasse o carro quase intacto da garagem de minha casa hoje.
Eu odiava dirigir com todas as minhas forças. Algo sempre dava errado quando eu pegava o volante. Ou eu derrubava uma bicicleta, ou arrancava o retrovisor lateral de algum outro veículo, ou esquecia de checar o sinal e voltava para casa com a certeza de algumas multas.
Mas, para algumas finalidades, o risco era necessário.
Eu estava parada minuciosamente duas vagas depois do Mustang preto. Com um óculos escuro gigante em meu rosto e um boné rosa escondendo meus fios , eu me sentia parte de um filme de comédia independente sobre investigação para amadores.
O relógio em meu pulso marcava cinco horas da tarde quando finalmente saiu pelos portões principais de Stanford.
Ele também usava um óculos, e eu apostava que era uma tentativa de mascarar os cortes.
Atraindo alguns olhares lúbricos pelo caminho, meu professor seguiu em passadas largas até seu carro e saiu da garagem acelerando em uma manobra lépida.
Se eu havia aprendido algo sobre ele nos últimos dias era que ele não respeitava os limites de velocidade de nenhuma via.
Tive que pisar mais fundo para acompanhar seu ritmo por doze minutos. E eu estaria mentindo se dissesse estar surpresa por chegar ao local até onde ele tinha me guiado.
A Waverly Street.
Exatamente como Quimby Archer havia contado.
E exatamente dez quadras de distância do local que ele havia apontado como sua casa na outra noite.
Céus, eu estava farta das perguntas pipocando em minha mente. Quando chegariam as respostas?
Qual daqueles lugares era mesmo sua casa? Se era aqui, porque ele tinha a chave do outro prédio?
Estacionei do outro lado da rua e tentei me esconder atrás do volante quando o carro parou em frente a um sobrado de arquitetura moderna que pareciam duas caixas pintadas de cinza escuro com uma porta gigante no meio. O Mustang entrou na garagem e, tão rápido quanto abriu, ela se fechou.
E então eu não sabia ao certo o que fazer. Não podia entrar na casa enquanto ele ainda estivesse lá. E esperá-lo sair parecia poderia ser opção plausível, mas eu não fazia ideia de quanto tempo isso demoraria.
Troquei algumas mensagens com Avery e Hazel ao esperar. Foram tediosas quase duas horas e, quando a noite já ameaçava cair e eu estava prestes a desistir, a pivotante laqueada em madeira escura se abriu e meu professor passou por ela com sua serenidade habitual.
Ele carregava uma sacola branca e estava vestido de preto da cabeça aos pés. Olhou para os dois lados da rua antes de seguir para esquerda. E eu esperei sua silhueta se afastar o suficiente para tornar-se uma sombra até sair do carro e caminhar em direção à porta do lugar que, aparentemente, era a sua casa.
Tentei girar a maçaneta mesmo tendo a certeza de que estava trancada. E eu juro que minha próxima tentativa seria quebrar a janela se eu não tivesse no bolso a chave que havia pego de seu escritório na semana passada.
E bingo.
Ela estava destrancada.
Senti um frio na espinha assim que coloquei os pés para dentro da residência, como se eu tivesse a certeza de estar em um lugar errado.
Mas eu gostava de sentir medo. Aliás, esse era um dos motivos de eu ter escolhido fazer Direito; eu tinha algum tipo de encanto mórbido por descobrir detalhes sobre os mais diversos casos de assassinatos que causavam um arrepio na espinha até das pessoas com o sangue mais frio.
A porta de entrada me levou a uma ampla sala de estar. Tudo era absurdamente limpo e arrumado como um catálogo de decoração. Como se não fosse possível alguém realmente morar ali. Ainda assim, a atmosfera carrega algo sombrio que parecia não me deixar em paz.
As luzes apagadas, os móveis escuros e o estofado preto parecem completar o medo crescente dentro de mim. Pelo caminho, não encontrei nenhum porta retrato ou qualquer coisa que demonstrasse um resquício de sentimentalismo em seus ossos.
Não pude deixar de pensar como aquilo era absurdamente diferente do meu apartamento. Era como se eu representasse a inocência, como se a minha Califórnia fosse mais ensolarada do que a dele, que se escondia nas sombras e em seus segredos.
A sala me levou para um corredor pouco iluminado. Quatro portas, duas de cada lado, me obrigavam a decidir qual eu abriria antes.
A primeira revelou um banheiro com um forte cheiro de loção pós barba. Não devia haver nada relevante para eu procurar ali.
A segunda revelou algo mais interessante.
Um escritório. Na mesma temática de madeira escura e detalhes pretos que as salas, mas cheias de gavetas e papéis em cima da mesa posicionada no centro. Era exatamente disso que eu precisava.
Corri em direção a mesa, ansiando pelo que podia estar me esperando ali. Vasculhei as gavetas com ferocidade e meus olhos mal podiam acreditar no que encontraram bem no topo do amontoado de folhas da terceira gaveta.
Uma pasta com uma generosa etiqueta colada em sua capa.
Uma etiqueta com meu nome.
Senti meu sangue ferver e meus pensamentos se fundirem em uma velocidade impressionante.
Informações como meu endereço, os lugares que eu normalmente frequentava, os nomes dos meus amigos, minha grade de aulas e até algumas fotos minhas estavam ali.
Não, não algumas. Muitas.
Fotos de meu rosto dos mais diferentes ângulos. Fotos minhas tomando café no MacArthur. Andando sozinha no caminho de casa. Almoçando com meus amigos. E até fazendo compras em Santa Mônica.
Então eu tinha razão. Ele estava mesmo me perseguindo ou algo do tipo. Larguei a pasta de qualquer jeito em cima da mesa e remexi um pouco mais na gaveta.
E, a cada papel, minha boca se abria um pouco mais.
Inúmeros contratos com infinitos termos assinados por .
E pelo meu pai.
No fundo da gaveta, a cereja no topo do bolo.
Uma caixa de madeira escondia um reluzente revólver prateado.
Não pude deixar de encostar as mãos trêmulas no metal gélido do objeto. Eu nunca havia segurado uma arma e a sensação era indescritivelmente ruim. Era muito mais pesada do que eu imaginava. E a possibilidade de ela ter sido usada para atirar contra o meu pai não ajudava.
Como se tudo não fosse estranho o suficiente, quando passei os olhos meticulosamente pela mesa, pude ver a ponta de uma carta embaixo de uma pilha de papéis.
Uma carta feita de recortes de revista.
Uma carta exatamente como as que eu tinha recebido.
Minhas pernas ficaram trêmulas. Minha visão tornou-se embaçada e minha garganta se fechou em um nó sufocante. Uma dor latente percorreu meu corpo e meus joelhos fraquejaram; ainda com o revólver em mãos, apenas amoleci e caí sentada na cadeira estofada posicionada atrás da mesa.
Então era isso? Todos os indícios estavam ali?
tinha matado meu pai, era ele quem mandava as cartas anônimas e estava me perseguindo por algum motivo altamente perturbado?
Aquilo não fazia o menor sentido pois eu não havia encontrado a resposta para a principal questão: Qual motivo ele teria pra isso?
- ? O que é isso? Como entrou aqui?
Através das lágrimas acumuladas em meus olhos consegui ver o contorno do corpo forte do meu professor. Ele estava parado na porta, com as mãos apoiadas no batente e uma expressão atônita no rosto. Olhar em seus olhos era como um jorro súbito de adrenalina e insanidade passando pelas minhas veias e disparando alguma coisa que eu ainda não conseguia compreender direito.
Então seus olhos correram de mim para a pasta jogada na mesa e seu semblante mudou, como se uma cortina abrisse e, por trás de suas feições, algo se destrancou.
Ele fez menção de dar um passo e o pavor subiu mais uma vez pelos meus ossos.
- Não! – levantei em um pulo e ergui o revólver em sua direção, mesmo sem saber direito como fazer aquilo – Fique onde está e me conte que merda está acontecendo.
- Por favor, abaixe isso...
- Para! Não me diz o que fazer – minha voz saiu aguda e embolada junto ao choro preso em minha garganta – Me conte agora ou eu atiro. E estou falando sério.


08 | Everybody said you're a killer but I couldn't stop the way I was feeling

Eu não conseguia parar de rir.
Gargalhar.
Até sentir meu estômago doer.
- Tipo uma babá? - minha voz saiu trépida por conta do riso esganiçado em minha garganta.
Entre as frestas dos meus olhos lacrimejados, podia ver meu professor me encarar com uma expressão curiosamente engraçada.
- ? Você está rindo? - ele estreitou as sobrancelhas, dando alguns passos em minha direção - Achei que ficaria furiosa.
Tentei respirar fundo, acalmando o ataque de risos que havia acometido meu corpo há alguns minutos.
Eu não sabia dizer se estava rindo por achar a situação engraçada, patética ou porque não sabia lidar com a raiva que eu estava sentindo.
- Eu estou mais que furiosa. Estou possessa!
suspirou ao passar as mãos pelos cabelos. Eu ainda não estava acreditando no que acabara de escutar.
- É melhor me dar isso antes que algo aconteça - ele estendeu as mãos em minha direção, apontando para o revólver prateado que pendia desengonçado dos meus dedos.
Ah, é. Era de mim que era pra ter medo. Rolando os olhos, entreguei-lhe a arma com cuidado.
- E é melhor você me explicar essa história direito - dei um sorriso amarelo, contornando a mesa que nos separava e sentando no sofá de couro preto no canto do escritório, sem tirar os olhos dele por um só segundo.
Em silêncio, guardou a pistola com cuidado na caixa que eu havia retirado. Enchendo os pulmões de ar, ele parou em minha frente e me observou por alguns instantes, como se pensasse na melhor forma de fazer aquilo.
Impaciente com a sua tentativa de atrasar o inadiável, dei dois tapinhas no lugar ao meu lado e escorreguei um pouco na almofada, ainda com os lábios curvados cinicamente.
Pois não havia “melhor forma”. Eu só queria toda a verdade.
- Estou bem aqui - ele murmurou e, por fim, encostou-se em sua mesa.
- Então… - cruzei os braços ao ajeitar minha postura - Conte como virou minha babá.
- Já disse pra não me chamar assim. É estranho.
- Tanto faz - abanei as mãos e ele bufou impaciente pela trilhonésima vez - Só preciso saber de tudo. Agora.
Eu estava prestes a voar em seu pescoço quando ele, finalmente, começou a murmurar lentamente:
- Dois meses antes do assassinato, seu pai desconfiou que tinha alguém atrás dele. Ele nunca me contou quem, nem mesmo o porquê. E ele tinha a plena certeza que conseguia se cuidar - ele passou as mãos pelos cabelos, e pude jurar ver uma faísca de nervosismo em seu olhar - Mas ele tinha medo que esse alguém fizesse mal a você. Então ele me procurou para, bem...
- Tomar conta de mim - completei, plenamente compenetrada em suas palavras.
- Para prevenir que nada acontecesse com você - estreitou as sobrancelhas, provavelmente achando que falar daquela forma amenizaria a situação - E ele achou que a maneira mais discreta de fazer isso era me tornar seu professor. Assim eu estaria por perto sem que fosse extremamente óbvio.
Pisquei algumas vezes, tentando assimilar toda aquela história e colocando em ordem todas as perguntas que se embaralhavam em minha mente.
estava cuidando de mim.
Ele esteve me observando esse tempo todo. O que era… assustador. Quer dizer, o quanto ele sabia sobre mim?
Ele sabia toda a história com Turner? Estava ciente de tudo o que eu vinha fazendo para conseguir alguma pista? Havia me observado o suficiente para conhecer a minha rotina e todas as imprudências que passaram a fazer parte do meu dia a dia?
Encolhi meu corpo instintivamente em um auto abraço, sentindo-me altamente exposta e incomodada com aquela situação, e desviei o olhar de sua direção antes de me arriscar a dizer mais alguma coisa.
- Mas… Desculpe-me, mas porque ainda está aqui? Quer dizer, depois que meu pai… - engoli em seco, sem conseguir concluir a frase - Agora que ele se foi, teoricamente você não precisa cuidar mais de mim. Você podia ter deixado Palo Alto há três meses.
- Não é bem assim, - ele desgrudou da mesa e eu me encolhi mais um pouco quando ele tomou o lugar no sofá ao meu lado - Eu devo isso ao senhor . Eu não me perdoaria se algo acontecesse com você.
Deve?
O que isso ao menos queria dizer? Fechei os olhos com força antes de virar-me para ele. Meus olhos cansados se prenderam em seu rosto por alguns longos segundos. Tentei buscar nos seus algum vestígio que me dissesse que aquela era uma brincadeira de muito mal gosto - mas, pela primeira vez, sua íris estava límpida e seu olhar, sincero como nunca.
- É tão difícil de digerir tudo isso. E eu ainda tenho tantas perguntas… - suspirei ao massagear minhas têmporas, pensando se eu não estava soando dramática demais - Porque meu pai escolheu você?
Aí estava.
A pergunta que o fez se remexer desconfortável, fixar o olhar em qualquer ponto aleatório no chão e abrir e fechar a boca algumas vezes antes de começar a falar.
- Eu fazia parte da equipe de advogados em preparação do seu pai em Washington. Gergetown. Acredite, o senhor era um gênio. Tive a chance de ver ele no tribunal algumas vezes - um sorriso um tanto mórbido preencheu seus lábios - Na última semana do programa, meu pai foi assassinado.
- Como? - sem me preocupar se o estava interrompendo, me vi colocando os dedos sob os lábios; um lampejo de incredulidade passando desenfreado pelas minhas veias.
- Eu sei - o sorriso tornou-se imediatamente triste - Ele foi uma vítima escolhida pelo acaso. Uma atrocidade do destino - os olhos foscos marejaram por alguns instantes, enquanto os meus já deixavam em meu rosto rastros molhados - Seu pai se ofereceu para ajudar a investigar o caso e depois, para representá-lo no tribunal. Foi ele quem colocou atrás das grades o homem responsável pelo crime. Eu meio que devo minha vida a ele.
Pisquei algumas vezes, limpando as lágrimas dos meus olhos e recobrando a realidade para ter certeza de que eu havia escutado direito.
A raiva que eu estava sentindo transformou-se bruscamente em compaixão.
Então ele não estava ali apenas por dever algo ao meu pai. Algo me dizia que, em partes, ainda estava por perto porque ele, mais do que ninguém, entendia o que eu sentia. Ele, literalmente, conhecia cada pedaço da minha dor. Naquele pequeno instante, o enxerguei como um amparo; e pensei se, durante todo esse tempo, era assim que ele havia me visto também.
- Eu sinto muito - sussurrei, com toda a sinceridade que meu corpo trêmulo era capaz de transmitir.
- Eu sei - ele olhou pra mim e, no mesmo instante, senti algo apertar em meu peito. Talvez fosse a tristeza tão evidente em suas feições e o fato de eu ter acabado de descobrir que ele era capaz de sentir alguma coisa.
- Não quero soar insensível, mas ainda estou confusa… Isso não explica tudo - murmurei, tomando cuidado com as palavras - Ainda não me diz porque ele escolheu você. Quer dizer, ele defendeu tantos casos…
- A morte do meu pai trouxe alguns traumas. Eu me envolvi com as pessoas erradas e fiz coisas das quais me arrependo. Não sei dizer quantas vezes passei a noite em uma cela - ele riu, nervoso - Eu não apenas perdi meu pai, mas perdi tudo o que eu tinha. E de alguma forma o senhor descobriu a vida que eu estava levando. Na última vez em que estive retido, foi ele quem me ajudou a sair. Lembro que ele me disse que achava aquilo um desperdício, pois eu poderia ser um ótimo advogado, e eu juro que foi a coisa mais legal que eu ouvi naquela época… Sombria - sorriu suavemente e o sorriso refletiu automaticamente em meus lábios. Parecia mesmo algo que meu pai diria - Então ele disse que podia me ajudar a mudar. Construir uma nova vida em outro lugar. E me ofereceu uma boa quantia para começar de novo. Em troca, eu ficaria de olho em você.
Muito. Para. Absorver.
Me vi repentinamente inebriada por e por todos os segredos escondidos na profundeza do seu ser. Principalmente porque, de algum modo, eu havia me tornado um deles.
- O quanto você… Ficou de olho em mim? - me vi perguntando, sem conseguir conter a curiosidade.
Meu professor riu, balançando a cabeça.
- O suficiente. Não se preocupe, não invadi sua privacidade nem nada do tipo.
Fiz uma careta, sem querer tentar pensar o que ele queria dizer com isso.
- O homem no beco naquela noite. Você…?
- Não. Eu não sei quem...
- E as cartas? - apontei pra mesa, o interrompendo.
- - ele suspirou - Quem quer que seja que está atrás de você, está atrás de mim também. E meu palpite é que seja a mesma pessoa que matou seu pai.
O arrepio gelado percorreu minha espinha. Não é como se eu não houvesse pensado nisso antes. mas ver outra pessoa colocando a situação em palavras altas e claras tornava tudo mais real e assustador.
Sem dizer mais nada, meu professor levantou e andou até a mesa para pegar a carta e me entregar.
- Não se pode salvar uma donzela que ama o perigo - li em voz alta as palavras que o nervosismo não havia me deixado entender mais cedo.
Uma onda de ansiedade passou pelos meus ossos. Meus dedos tremeram brevemente e minha garganta ansiou por uma bela quantidade de Adderall.
Isso significava que aquilo não era apenas uma brincadeira. Quem quer que estivesse fazendo aquilo sabia demais.
Sabia o porque estava se mantendo por perto antes mesmo que eu desconfiasse de algo.
Havia dedicado seu tempo para nos observar atentamente e ligar os pontos.
E, quem sabe, até ter deixado alguns corpos pelo caminho.
Dizem que quando uma janela se fecha, uma porta se abre. E o novo panorama para uma oportunidade fresca estava bem a minha frente.
Eu ainda não sabia como me sentia sobre aquilo tudo.
Eu estava com raiva do meu pai por não ter me contado. Com raiva por ele ter colocado na minha cola. Como uma babá. Com raiva porque ele havia feito qualquer que fosse a mágica com seu dinheiro e sua lábia para plantar meu professor não apenas em minha vida pessoal, mas também na vida acadêmica de todos os outros de alunos de direito Stanford.
Mais do que tudo, estava com raiva de mim por estar sentindo raiva dele.
E ainda sobrava um pouco de fúria para meu professor. Me observar sorrateiramente pelo campus? Então era por isso que eu havia o encontrado tantas vezes nas últimas semanas? E por esse mesmo motivo que ele havia me salvado de Turner?
E todas aquelas perguntas que ele havia me feito? Céus, ele já sabia a resposta de todas elas e eu havia feito papel de tola.
Por mais que todas as peças estivessem começando a se encaixar, o quebra-cabeças estava muito longe de estar completo.
Mas a esperança de acelerar o processo estava bem a minha frente.
Então, tudo o que eu tinha que fazer era deixar a raiva de lado e seguir meus instintos.
Podia ser perigoso.
Inapropriado.
Talvez até imoral.
Mas, quando cogitei em pensar melhor nas palavras que minha boca estava prestes a dizer, eu já estava com as mãos apoiadas nos braços de e determinada demais para voltar atrás.
- Você sabe o que isso significa, não sabe? Você precisa me ajudar.


09 | Fooling everyone, telling them she's having fun

Me concentrar no discurso elaborado de à frente da sala sobre a eficácia da lei penal era inquestionavelmente impossível. Do meu mais novo lugar da sala, praticamente escondida ao fundo do canto esquerdo, era como se os lábios do meu professor mexessem freneticamente enquanto ele andava de um lado para o outro e, ainda assim, eu não era capaz de ouvir nada; apenas uma melodia fúnebre entoada apropriadamente pelo meu subconsciente.
Todas as informações dos últimos dias faziam a minha cabeça pesar e a tensão crescer por minha espinha, retesando todos meus músculos. E, por mais que eu tentasse me distrair, meu pensamento sempre retornava, sádico, para o mesmo lugar.
Com a cabeça quase enterrada entre meus ombros encolhidos, passei os olhos brevemente a minha volta, observando a expressão concentrada de todos os meus colegas de classe. Era um tanto incômodo pensar que nenhum deles sabia quem o adorado professor era de verdade. Talvez até revoltante.
, por sua vez, se mostrava intocável como sempre. Se antes os olhares em minha direção eram perigosamente frequentes, hoje ele simplesmente ignorava a minha existência. E não parecia fazer nenhum esforço para isso.
Eu sabia que precisava de sua ajuda. Sabia que ele era uma peça fundamental para me ajudar a entender o que havia, de fato, acontecido. Sabia que havia coisas sobre o meu pai que ele conhecia e eu nem ao menos sonhava. E sabia, principalmente, que sua compaixão com a minha situação era um componente importante na busca pelo culpado.
O único problema era que eu não fazia ideia de por onde eu devia começar. Eu já havia percorrido até os caminhos mais sinuosos em busca de pistas e não cheguei a lugar algum. O que faltava tentar?
O sinal anunciando o final da aula fora minha bandeira branca para voltar a respirar normalmente. Naquele instante, tudo o que eu queria era correr para casa e ficar sozinha com meus pensamentos; mesmo que, na maioria das vezes eles me enlouquecessem, a presença de parecia altamente mais corrosiva.
Peguei minha bolsa desajeitadamente em cima da mesa. Eu nem havia me dado ao trabalho de tirar o caderno dela hoje. Apertei o passo em direção à porta, lutando contra todos os meus instintos para não olhar na direção do meu professor.
E eu até poderia ter passado ilesa.
Se seus dedos não tivessem tocado suavemente os meus durante o ínfimo instante que meus quadris passavam ligeiros ao lado de sua mesa. E se ele, discretamente, não tivesse colocado um pedaço de papel em minha mão.

-

Sundance. Trinta minutos.
Era a décima vez que eu lia as três palavras caligrafadas em caneta preta. Era, também, a décima vez que, por algum motivo, meu coração disparava.
Amassei o papel e o enfiei no bolso de trás da minha calça jeans enquanto voltava minha atenção para a quadra de futebol americano. O time treinava de um lado do campo e as meninas da torcida ensaiavam os passos do outro. Eu ainda sorria inconscientemente ao ver o sol refletindo nos pompons vermelhos e brancos. A diferença era que, agora, o sorriso vinha acompanhado de uma bela dose de tristeza.
- Porque parece que não te vejo há anos? - fui surpreendida pela voz animada de Avery, seguida de um abraço desengonçado.
- A gente se viu ontem, literalmente - ri - Quando foi que perdi isso? - apontei para Luke e Hazel de mãos dadas.
O emaranhado de cabelos vermelhos se escondeu na curva do pescoço do garoto sorridente.
- Muita coisa pode acontecer em um dia - os olhos verdes de Luke se apertaram quando ele exibiu um sorriso largo e genuíno.
Podia jurar que vi as bochechas de Hazzy corarem.

-

Usei os talheres para remexer mais uma vez a comida no meu prato, lutando contra o enjoo que o cheiro fazia subir por minha garganta.
Sem fome. Mais uma vez.
O Sundance era um dos milhares de restaurantes que ficavam nos arredores de Stanford. Não era garantido que ninguém nos veria ali, mas era significantemente mais discreto do que arriscar sentar em algum dos cafés dentro do campus.
se ajeitou na cadeira, sem tirar os olhos atentos de cima de mim.
Seu prato já estava vazio. E sua atenção parecia não pretender mudar o foco pelos próximos minutos.
Larguei os talheres, que estralaram estridentes no prato, e me inclinei em sua direção.
- Esse silêncio está me deixando louca. Porque me chamou aqui?
O sorriso excessivamente presunçoso puxou o canto dos seus lábios.
- Acha que não percebi? - ele sibilou quase em um murmúrio.
- O que? - soei genuinamente confusa. Não era a resposta que eu estava esperando.
- É pelo menos a terceira vez que te vejo apenas encostar na comida e não comer nada.
- Ah - soltei o ar dos pulmões e encolhi meus ombros ao me sentir momentaneamente constrangida, fazendo uma careta ao encarar a salada com peixe grelhado - Só não estou com fome.
Uma risada sem humor reverberou de sua garganta.
Droga.
É claro que a desculpa não ia colar. Eu precisava me lembrar que, por mais que eu não soubesse, estava de olho em mim há tempos, e certamente e sabia detalhes sobre minha vida e meu comportamento que eu nem ao menos imaginava.
- Vamos fazer assim - ele apertou os lábios e apoiou os braços cruzados sobre a mesa, se inclinando ao revezar o olhar entre minha comida e eu - Eu sei que você deve ter milhares de perguntas. Talvez até algumas suposições. Então, a cada garfada que você der no seu prato, eu respondo uma pergunta sua.
Tentei encontrar qualquer sinal em seu rosto de que aquilo era uma piada.
Nada. Suas feições permaneciam uma folha em branco - como sempre.
Enchi meus pulmões de ar e soltei vagarosamente antes de debruçar um pouco sobre a mesa e sussurrar:
- Porque se importa?
- Não - ele apontou pro meu prato - Mordida primeiro.
O sorriso atravessado em seu rosto parecia um desafio declarado. E eu adorava desafios.
Revirando os olhos, o obedeci. Usei o garfo cuidadosamente para pegar a menor porção de alface e peixe possível e, por mais que o caminho do prato até minha boca tenha parecido uma tortura enjoativa, a sensação ao engolir não era tão ruim assim. Por um instante, minhas papilas gustativas pareceram entrar em festa - devia ser a primeira coisa sólida que eu ingeria em pelo menos dois dias.
- Sua vez. Porque se importa? - repeti, dando um aliviante gole no copo de água.
- Eu não me importo.
Dei uma pequena risada.
Fazia sentido, é claro. Mas porque os olhos dele, pela primeira vez, pareciam não estar combinando com o que sua boca externava?
- Isso não é bem uma resposta.
- Tem certeza que quer gastar suas perguntas assim? - ele estreitou os olhos.
O encarei fixamente por alguns segundos. A verdade é que milhares de pensamentos, conjecturas e perguntas bombardeavam a minha mente. Mas era como se eu não conseguisse pensar com clareza o suficiente para organizá-las e verbalizar tudo o que estava preso em mim.
Dei mais uma garfada mínima sem tirar os olhos do meu professor.
- Você tem algum suspeito?
- Eu tinha. Alguns - ele abaixou o tronco para falar mais baixo - Mas já eliminei todas as possibilidades.
- Então não temos nada? - ele apontou com os olhos para o meu prato e eu rolei os meus - Ah, isso não foi exatamente uma pergunta.
E então algo inédito aconteceu.
riu. Com humor.
- Meu deus, você tem senso de humor! - disse um pouco exagerada demais - Eu estava prestes a jurar que você era um robô ou algo do tipo.
Em segundos eu estava rindo também. E admirando, discretamente, a risada que havia se transformado em um sorriso em seus lábios. Tão distraída pela forma adorável que seus olhos apertavam ao sorrir, dei uma garfada um pouco maior em meu prato, mas me arrependi no instante seguinte. Quando tentei engolir, minha garganta teimou comigo e pareceu querer fazer o processo inverso. O enjoo subiu pelo meu corpo e o gosto amargo em minha boca me fez arrepiar por inteira.
Com a expressão ligeiramente preocupada, colocou o copo de água em minhas mãos, e o gole pareceu acalmar o desespero do meu fígado. Mas não minhas bochechas, quentes e claramente rosadas pela vergonha que eu estava sentindo.
- Adderall e estômago vazio não é a melhor combinação, sabia? - por mais que as palavras parecessem um sermão, o tom de voz dele parecia apenas… carinhoso, de um jeito estranho.
- Como você… - comecei a perguntar, mas ele ergueu uma sobrancelha como se fosse óbvio. E era - Sabe, é difícil matar os monstros que te assombram sem se matar um pouco no processo.
Se eu estava com vergonha poucos segundos atrás, agora eu estava mortificada. Eu realmente não gostava que as pessoas soubessem dos meus problemas.
Mas não pude deixar de pensar que fora a primeira pessoa a prestar atenção o suficiente em mim a ponto de perceber o meu distúrbio.
Distúrbio.
Era esse o nome? Céus, eu não achava que fosse tão sério assim. Até alguém colocar em palavras e sacudir meus ombros para o que estava acontecendo, eu encarava apenas como “o mundo a minha volta me enoja e eu não consigo vencer esse enjoo pra comer”. Se isso ao menos fizer algum sentido.
Eu apenas nunca pensei que esse alguém seria o meu professor de direito penal.


10 | We don't need nobody, 'cause we got each other, or at least I pretend

Dois dias depois do ilustre almoço com - era assim que eu o chamava agora, ao menos em minhas ponderações internas - eu ainda estava pensando nele ao caminhar da faculdade até o loft.
A noite já havia anunciado sua chegada ao pintar o céu de azul-escuro. Me lembrei que eu costumava andar pela rua olhando para cima, observando as estrelas, com o peito carregado de sonhos e nenhuma preocupação. Hoje, eu caminhava os livros abraçados forte contra peito, como se fossem uma armadura. E meus olhos nunca deixavam meus pés.
- Eu simplesmente adoro quando você usa esse vestido branco.
A conhecida voz asquerosa soou quando cheguei na esquina do meu apartamento. Turner, seu filho da mãe.
Sem me dar o trabalho de virar para vê-lo, estendi o dedo do meio no ar para a direção que a frase foi proferida: bem atrás de mim.
- Calma, amor. Só quero conversar - ouvi alguns passos e a voz ficou mais próxima.
E então eu queria apenas matá-lo ali mesmo. Girei em meus calcanhares e, sem ao menos pensar, avancei para cima dele, ficando a poucos milímetros de seu rosto irritantemente perfeito e repulsivo.
- Não me chame de amor. Eu não sou o seu amor.
- Deixe-me adivinhar - ele cruzou os braços, inclinando-se brevemente em minha direção - O professorzinho tomou o meu lugar?
Apertei as unhas na palma da mão ao sentir o sangue ferver. Não apenas pelo jeito de merda que ele havia se referido a , mas, principalmente, por Turner ter ousado se comparar com ele.
- Pro seu próprio bem, deixe ele fora disso.
- Coloca uma coisa na sua cabeça, - os olhos acinzentados escureceram assim que o bacaca colocou o dedo no meio da minha cara - Se eu não posso ter você, vou te destruir. E o namoradinho novo vai junto.
Eu não tive tempo de processar as palavras. Se em um segundo a raiva borbulhava em meus ossos, no instante seguinte eu só conseguia sentir medo. As mãos sujas de Turner estavam apertando minha cintura, trazendo com facilidade meu corpo contra o dele.
Tentei me debater. Tentei usar as mãos para empurrá-lo. Os joelhos para chutá-lo no meio das pernas.
E nada.
Ele permanecia imóvel, inabalado ao me segurar com mais e mais força. As mãos deixaram de agarrar minha cintura para os dedos queimarem em meu braço, mantendo-me ainda mais sob seu controle.
Aquilo não estava acontecendo.
De novo não.
Turner pressionou a boca contra a minha com uma força descomunal e o desespero se espalhou para todo e qualquer pedaço de mim.
Eu queria gritar, mas tudo o que consegui externar foram as lágrimas caindo de meus olhos enquanto eu me concentrava em manter meus lábios o mais pressionados o possível. Quando viu que eu não ia ceder a pressão da sua língua, ele apertou ainda mais os dedos em mim, fincando as unhas na minha pele.
O grito de dor desesperado subiu por minha garganta e foi abafado pela sua boca. E o último golpe de Turner fora uma mordida em cheio no meu lábio inferior, que veio acompanhada do conhecido gosto de sangue.
E então ele me soltou. Com um olhar ameaçador que fizera meu corpo tremer ainda mais de horror, limpou a boca com as costas da mão e deu meia volta, indo embora como se nada tivesse acontecido, e me deixando ali, com marcas arroxeadas nos braços, o lábio sangrando, um choro compulsivo e a sensação de medo e impotência crescendo cada vez mais e formando um nó em minha garganta.
O pior? A lembrança de tudo que ele me fizera sofrer, antes cravada em um lugar bem fundo, veio à tona. E, diante da sensação de pânico, havia apenas um lugar pra onde eu conseguia pensar em correr.
A casa do meu professor.

-

A Waverly Street nunca havia me parecido tão aconchegante. Ao tocar a campainha, eu ainda estava tentando me livrar das lágrimas que molharam meu rosto quando o atendeu a porta.
Fiquei distraída demais pelo fato de ele estar sem camisa e com uma calça de moletom baixa demais para conseguir digerir a sua expressão confusa.
Porque mesmo eu havia dito que ele não fazia meu tipo?
- … O que está fazendo aqui? - sua voz soou hesitante.
Me obriguei a sair do transe de ver seu abdômen perfeito para soprar:
- Posso entrar?
Ele hesitou por um instante. E então parou para me observar com atenção.
Seus olhos passearem por meu rosto e os vi tremer um pouco ao perceberem o rastro de lágrimas que havia por ali. Depois pararam em minha boca e, ao reparar no sangue, seu maxilar travou instintivamente. Por último, viu as marcas em meus braços, e precisou fechar os olhos e respirar fundo por um instante antes de abrir a porta e dar um passo para o lado para que eu entrasse.
Tentei esconder a tremedeira das minhas mãos ao caminhar por sua sala. Era minimamente estranho estar ali novamente, dessa vez sem buscar algum segredo mirabolante.
- Ele fez isso com você? - colocou um moletom e fechou o zíper antes de sentar no sofá e apontar para que eu fizesse o mesmo ao seu lado.
Assenti levemente com a cabeça, incapaz de falar algo.
Precisava me desconcentrar do fato que ele havia ficado ainda mais delicioso com aquele casaco meio aberto, o peitoral perfeitamente esculpido exposto.
Não é pra isso que você veio aqui, .
- Eu já sei como você pode me ajudar. Bom, pelo menos começar…
- A gente precisa limpar isso - ele apontou para o corte em minha boca.
Antes mesmo que eu pudesse protestar, levantou e voltou alguns minutos depois, com uma toalha, com algodão e alguns frascos na mão.
- Está doendo? - disse baixinho ao sentar do meu lado, apontando para o corte em meus lábios.
Assenti com a cabeça e ele soltou um suspiro. Sem dizer mais nada, pegou um algodão e despejou um pouco de água oxigenada. Ele cravou os olhos nos meus por alguns segundos antes de continuar. Me perguntei se ele estava se sentindo da mesma forma que eu. O coração batendo levemente mais rápido, a respiração descompassada. O que só se intensificou quando ele, gentilmente, apoiou meu rosto com uma das mãos e, com a expressão concentrada mais bela que eu havia visto na vida, pressionou o algodão contra minha pele.
Fiz uma careta ao sentir a dor ficar um pouco mais aguda e ele, por instinto, se afastou.
- Está tudo bem - o tranquilizei baixinho e, sem pensar, coloquei minha mão sobre a dele, trazendo-a para perto do meu rosto novamente - Pode continuar.
Não sei por quanto tempo ele cuidou do corte em minha boca, mas o fato era eu não me incomodaria em passar longas horas brincando de desviar os olhos dos seus e sentindo o peito palpitar à medida que nossas respirações se misturavam pela proximidade necessária.
Quando ele se afastou, quase protestei, querendo pedir que ele ficasse um pouco mais.
Quase.
- Como posso te ajudar? - ele perguntou enquanto organizava novamente o que tinha usado para cuidar do machucado?
- Hm?
Ele riu, desviando o olhar pra mim por um segundo.
- Você disse que sabia como eu posso ajudar você.
Ah, isso!
Me ajeitei no sofá, sabendo que levaria algum tempo para convencê-lo.
- Eu quero que você me ensine a me defender. Usando as mãos, uma faca, uma arma… O que quer que seja. Eu me sinto ameaçada o dia inteiro. Até quando estou em casa - deslizei para um pouco mais perto dele, obrigando-o a me olhar - Eu não aguento mais sentir medo. Por favor.

-

Eu sabia que não era fácil argumentar com um professor de direito.
Mas eu não imaginaria que seria ainda mais difícil argumentar com um falso professor de direito.
De alguma forma, que eu nunca conseguiria explicar qual, eu havia conseguido fazê-lo concordar comigo. E então ele me pedira para entrar em seu carro, para então dirigir uma hora até Loma Pietra, onde as montanhas eram altas e os barulhos eram dificilmente ouvidos.
Só me dei conta do que estava fazendo quando, no relevo mais baixo da montanha, senti o gelado do metal prateado do revólver que havia colocado em minhas mãos.
O mesmo que eu havia encontrado na gaveta de seu escritório.
- Como você se sente?
- Bem… - olhei para a arma entre meus dedos e a levantei, como se estivesse pronta para atirar - Me sinto mais segura, se é o que quer saber.
Ele deu uma risadinha e chegou um pouco mais perto de mim. Com os olhos intensos cravados dentro dos meus, ele tirou o revólver de minha mão e deu três passos para trás antes de apontá-lo para mim.
- E agora? Está com medo?
O frio subiu por minha espinha e minha boca ficou instantaneamente seca.
- N-não... - tentando soar firme, minhas mãos trêmulas me denunciaram.
Meu professor deu um pequeno sorriso.
Feche os olhos - ordenou - Feche os olhos, respire fundo e pense se pode confiar em mim.
Fiz exatamente o que ele havia dito.
Eu não sabia bem explicar o porquê, mas naquele momento, com uma arma apontada para meu rosto, no meio da floresta e ao lado de um cara sobre quem eu pouco sabia, me senti segura.
Mais segura do que eu jamais havia me sentido ao lado de Turner. Tampouco, sozinha.
Quando abri os olhos, dei os três passos novamente na direção de e peguei no cano do revólver com a mão, encostando-o em minha testa antes de sussurrar:
- Eu confio em você. E não estou com medo.
Os seus olhos cintilaram ao encontrarem os meus e alguma coisa se remexeu dentro de mim.
- Você não precisa ter medo dele - ele abaixou a arma, se aproximando um pouco mais de mim - Não vou deixar que ele encoste mais um dedo em você.
Minhas pernas bambearam pela proximidade. Meu coração martelou em meu peito. E, pelos próximos longos minutos, nossos corpos se negaram a recuar, tirando o máximo proveito da recém descoberta tão bem vinda proximidade.
Por mais que meu corpo dissesse o contrário, minha consciência agradeceu quando balançou a cabeça e se afastou de mim, girando nos calcanhares e dizendo ao se afastar:
- Vamos roubar alguma coisa.

-

- Eu não consigo fazer isso. É sério.
- Você precisa sentir o perigo nas veias.
- Que tipo de terapia de choque é essa?
- É efetiva. Acredite.
Apesar do nervoso evidente em meu corpo, senti vontade de rir. Da janela do carro, encarei a pequena venda do outro lado da rua.
- Qualquer coisa? - mordi o lábio ao olhar pra ele e senti uma pequena dor ao lembrar que ele estava machucado.
- Algo insignificante. Como um pacote de salgadinhos ou um maço de cigarros.
Respirei fundo. Eu podia fazer isso, não podia?
E por mais que eu não entendesse claramente o ponto de tudo aquilo, parecia divertido.
- Eu não vou roubar a venda que provavelmente é o ganha pão de um casal de idosos ou algo do tipo - apontei para o outro estabelecimento, um pouco mais a frente - Vou roubar o mercado.
- Uma ladra de bom coração? Agora eu já vi de tudo - ele ironizou e eu rolei os olhos, dando um tapa de leve em seu braço.
- Idiota.
- Você tem certeza que vai usar isso? - ele apontou para as botas de salto em meus pés - E se precisar correr?
- Acredite, eu corro melhor de Manolo do que de Nike.
Dei uma piscadinha e ele balançou a cabeça negativamente.
Respirei fundo antes de sair do carro e apertei o passo até o outro lado da rua. Quando as portas automáticas abriram, senti que todos estavam olhando pra mim.
Fique calma, . Provavelmente é a sua boca inchada que está chamando atenção.
Cruzei os braços e segui para os corredores, olhando para os lados para me certificar de que ninguém estaria por perto. Meu coração estava batendo desesperado com a possibilidade de ser pega.
O lugar estava longe de estar cheio. Devia ter passado de meia noite, pois apenas alguns poucos estudantes enchiam as mãos de bebidas e pacotes de chips.
Observei as prateleiras, pensando o que seria mais fácil de esconder para sair dali.
Shampoo. Pasta de dentes. Absorvente. Sabonete. Camisinhas.
E então uma brilhante ideia se formou em minha mente. Mas é claro. Tenho certeza que adoraria isso.
Sem pensar duas vezes, peguei a embalagem azul e branca e a escondi no meu sutiã, cruzando os braços por cima logo depois para despistar.
Olhei mais uma vez ao meu redor. Ninguém parecia ter notado.
Apertei mais uma vez o passo para, dessa vez, sair da loja, e praticamente corri até o Mustang preto quando cheguei na rua.
Eu não sabia porquê, mas estava apenas… Feliz. Com vontade de gargalhar.
- Você conseguiu? - se virou pra mim, os olhos brilhando de curiosidade.
- Você sabe que sim - tirei a embalagem do sutiã e joguei em seu colo.
- Um lubrificante? Você roubou um lubrificante? - ele deu uma risada alta, sincera e inédita - Isso é genial.
O observei se divertir por alguns segundos. Sua risada fazia com que eu quisesse rir também. Sob o efeito de sua alegria, só consegui perceber minhas próximas palavras quando elas já tinham saído de minha boca.
- Estou com medo que Turner apareça novamente - me virei no banco, ficando de frente pra ele Acha que pode passar a noite lá em casa?
Ele me olhou por alguns segundos sem dizer nada. Quando eu estava prestes a dizer que não estava falando sério, seus lábios se curvaram em um sorriso; e não precisava de mais nada para saber que ele havia concordado.
E tudo o que eu conseguia pensar naquele momento era… Ah, merda.


Continua...



Nota da autora: Chegando com os dois capítulos que mais gostei de escrever pra compensar essa demora! Espero que vocês gostem também!
Me contem, o que estão achando desse possível casa? E algum palpite sobre quem é o assassino? As dicas estão em pequenos detalhes...
Beijos! ♥



Outras Fanfics:

Chaos Theory (Restritas - Shortfic - Finalizada)
Midnight In Hollywood (Restritas - Longfic - Em Andamento)
Shades of Cool (Restritas - Longfic - Finalizada)
The Beauty Of Being Broken (Restritas - Longfic - Em Andamento)
You Fucked Me So Good That I Almost Said I Love You (Restritas - Longfic - Em Andamento)


Qualquer erro no layout dessa fanfic, notifique-me somente por e-mail.


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