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Última atualização: 18/03/2020

Capítulo 1

A areia tórrida sob meus pés falhava em mandar qualquer onda de reconforto para o meu corpo. O horizonte exibia o céu preparado para formar uma tempestade, camuflando-se ao encontrar o mar em uma escuridão infinita.
Era fascinante e ao mesmo tempo assustador. Assim como o movimento frenético daquela cidade na estação com as temperaturas mais elevadas do ano.
As noites no meio de Julho em Los Angeles costumavam trazer consigo uma insuportável onda de calor. E, pra mim, elas costumavam ser mais atrativas cinco verões atrás.
Aos quinze anos eu adorava a ideia de passar as férias no lugar que exalava a história e atualidade consistente do cinema estadunidense. Aos vinte, eu preferia qualquer destino que me oferecesse um pouco mais de paz.
E que não envolvesse meus pais.

- Está na cara que está se remoendo, . Não se dê ao trabalho - Dean ergueu uma garrafa de cerveja no ar. - Hollywood pode ser incrível. Se você deixar.

Torci o nariz para o meu irmão. Ele, é claro, não se incomodava.

- Só preciso dar uma volta. Ficar um pouco longe daqui - levantei e bati as mãos pelo corpo, tirando os vestígios de areia que insistiam em grudar em minhas roupas.
- Sabe que vai cair uma tempestade, não? - ele apontou para o céu com a cabeça, fazendo seus adoráveis cabelos balançarem em sincronia.
- Ótimo - dei um breve sorriso por cima do ombro antes de começar a andar e Dean balançou a cabeça em reprovação, embora um sorriso divertido brincasse em seus lábios.

Ele era ótimo em esconder o que pensava. Com maestria, conseguia entrar na casa de veraneio dos meus pais e fingir que estava tudo bem.
Eu não.
Não conseguia sorrir enquanto claramente desaprovava a dose exagerada de whisky que meu pai consumia após o jantar. Não conseguia fechar os olhos para uma noite tranquila de sono enquanto o ouvia discutindo com minha mãe às três da manhã. E não conseguia engolir que eles nos obrigassem a agir como uma família apenas uma vez no ano quando, nos outros onze meses, era como se eu e Dean pudéssemos contar apenas um com o outro.
Não sei por quanto tempo me distraí com a sensação dos meus pés afundando na areia. Só percebi que não fazia ideia de onde eu estava no momento que uma buzina cortou o silêncio enquanto eu atravessava a avenida que separava a praia dos exagerados casarões à beira mar. Quando os devaneios deram uma folga para a minha cabeça e eu encostei os meus tênis na calçada, senti as primeiras gotas de chuva caírem gélidas em meu rosto. Voltei meu olhar para o céu e, em um ínfimo instante, a garoa havia se transformado em um temporal.
Abracei meu corpo ao perceber que o meu vestido branco estava prestes a ficar transparente, e o primeiro trovão entoou em meus ouvidos assim que corri para o topo da escadaria de uma espécie de casa de show antiga. Uma pequena cobertura de concreto me protegia parcialmente da chuva, mas o vento que chicoteava forte em meu rosto quase não me deixava enxergar a um palmo de distância.
Chequei o relógio dourado em meu pulso. Faltavam dois minutos para a meia noite. Na rua, a tempestade deixava seu rastro ao transformar em deserta o que poderia ser uma noite de festa em LA.
Eu poderia caminhar tranquilamente até a casa dos meus pais. Não me importava em me molhar.
Mas eu não queria.
O temporal era a desculpa perfeita para passar mais tempo fora.
Estava quase me acomodando em um dos degraus quando os faróis de uma caminhonete vermelha iluminaram a esquina. Alguns gritos e risadas ressoaram pela via, misturando-se com uma música que explodia das caixas de som do carro.
Mais especificamente, Smells Like Teen Spirit do Nirvana.
Nostálgico.
A caminhonete diminuiu a velocidade enquanto passava pela minha frente. Observei sorrindo a leveza que duas garotas transmitiam ao cantar na parte de trás, enquanto um menino fingia tocar uma guitarra no ar e outros dois gargalhavam, sentados no banco da frente.

- Ei! O que está fazendo sozinha aí? - quase levei um susto quando a garota morena de cabelos curtos se debruçou na lataria do carro com um sorriso que mal cabia em seu rosto. Ela se vestia e se maquiava como se o tempo tivesse parado no começo dos anos noventa.
- Estou esperando a chuva passar - gritei por cima da música, devolvendo o sorriso simpático.

Passei os olhos pelos outros passageiros. A verdade era que todos ali pareciam ter parado no tempo.

- Porque não vem com a gente? - o garoto sentado ao volante indagou. Ele usava uma camisa xadrez e os cabelos castanhos estavam enfiados em uma touca preta.
- Estamos indo para uma festa na Viper Room. Acredite, não há lugar melhor em Hollywood - a ruiva com uma gargantilha de couro e maquiagem roxa cintilante se inclinou ao lado da amiga.

Examinei mais uma vez as cinco pessoas no carro. Elas me olhavam sorridentes, ansiando por uma resposta. Não pareciam ter muito mais do que vinte anos e, apesar das garrafas esverdeadas nas mãos, não pareciam altamente embriagadas.
Era uma decisão completamente imprudente, mas…
Porquê não?
Os gritos animados retumbaram noite afora quando eu me levantei e segui em direção à caminhonete. O motorista aumentou o som quando, com ajuda do menino alto e loiro que antes tocava um instrumento imaginário, eu subi na caçamba.
The Smiths saía das caixas de som e eu sorri comigo mesma. Eu adorava aquela banda.

- Você se veste engraçado. Eu adorei - a morena apontou para o meu vestido enquanto pegava uma cerveja do cooler improvisado e me entregava.

Olhei para o meu simples vestido branco marcado na cintura e depois para as roupas noventistas dos meus mais novos colegas. Eu me vestia engraçado? Ri sozinha, tomando o primeiro gole da garrafa.
A noite seria interessante.

-


A morena se chamava Melanie. Ela tinha vinte e um anos e namorava Curtis, o motorista da noite. A ruiva, Kaylee, tinha vinte e dois e era uma das meninas mais bonitas que eu já havia visto na vida. Em quinze minutos de conversa, elas haviam me contado que os meninos tinham uma banda em ascensão, e eles frequentavam a Viper Room porque aquele era o lugar ideal para trazer visibilidade para bandas em busca do sucesso. E, assim o nome do local do local indicava, só era possível entrar se você tivesse as amizades certas.
Quando a picape estacionou na calçada quase em frente à boate, eu não sabia dizer ao certo o que havia acontecido. Parecia que eu havia passado por um lapso de tempo borrado em que eu não me lembrava ao certo o que tinha acontecido.
O ar parecia mais denso.
A temperatura era mais amena.
Meus cabelos já não estavam mais molhados e meu vestido não grudava mais em meu corpo.
Levei alguns segundos para olhar a minha volta.
Eu não sabia onde eu estava.
Quer dizer - era, com certeza, West Hollywood. Mas não parecia real. Era algo como um cenário retrógrado do que eu havia conhecido apenas pelas fotos e saudosos filmes do começo dos anos noventa.
As pessoas que transitavam na porta da danceteria pareciam ter saído diretamente de uma cápsula do tempo. Era como se uma festa temática estivesse acontecendo e apenas eu não tivesse sido alertada sobre a fantasia.

- Melanie - chamei a morena ao colocar meus pés no asfalto. - O que tinha nisso? - apontei para a garrafa pela metade entre meus dedos.
- Só cerveja - ela respondeu despreocupada, ajeitando os fios extremamente lisos que iam até o ombro enquanto Curtis passava os braços em sua cintura. - Você está bem?

Apenas assenti com a cabeça, me perguntando mentalmente onde eu havia me metido.
A Viper Room era bem maior do que as portas pintadas de preto do lado de fora faziam parecer. O lugar era escuro; apenas as luzes coloridas de vermelho e azul amenizavam superficialmente o breu. As paredes eram negras e forradas de quadros gigantes. Inúmeros sofás de couro disputavam lugar com as mesas redondas encostadas nas paredes. Alguns instrumentos estavam posicionados em um generoso palco, provavelmente a espera da atração da noite.
Me esquivando das pessoas que lotavam a casa ao tentar seguir o grupo dos meus recém feitos cinco amigos, eu me sentia… Estranha. Um pouco perdida. Como se algo anormal pairasse no ar e eu não soubesse dizer ao certo o que era.

- Onde fica o banheiro? - indaguei ao tocar o ombro do garoto que estava no banco do carona no carro. Qual era mesmo o nome dele? John? Jack?

Ele me apontou o canto direito do local, quase ao lado do palco.

- Estaremos em uma mesa perto do bar.
Jake!

-

Me senti momentaneamente melhor quando joguei um punhado de água fresca no rosto e respirei por alguns minutos dentro do banheiro. Quando voltei ao ambiente abafado da boate, a sensação duvidosa fez meu estômago borbulhar mais uma vez.
Em meio ao frenesi da situação desconcertante, eu provavelmente peguei o caminho errado sem perceber. Quando dei por mim, não estava andando em direção ao bar, mas em um corredor que parecia ficar logo atrás do palco.
As coisas estavam mais calmas por ali. A música parecia mais baixa. A iluminação era levemente mais intensa. Alguns garotos passavam pra lá e pra cá com seus cabelos estilosos enquanto carregavam os mais diversos instrumentos.
Eu estava prestes a dar meia volta e encontrar o acesso de volta para onde os outros cinco estavam, mas antes que eu pudesse girar nos calcanhares, algo me chamou atenção.
Sentado no chão em um dos cantos mais distantes do palco, um garoto dedilhava seu violão e cantava algo que a distância não me permitia identificar.
Não podia ser...
Não me permiti pensar muito. Apenas deixei o instinto falar mais alto e meus pés me guiarem em sua direção. Observando-o cautelosamente, apenas um pensamento martelava em minha cabeça.
Eu o conhecia.
Os cabelos caindo sobre o rosto. Os olhos tão intensos que podiam hipnotizar a quem quer que fosse em instantes. A expressão séria, quase brava, que não deixava seus traços.
Mas como era…

- O que está tocando? - quase coloquei a mão sob os lábios quando ouvi minha voz ressoar alto.

O garoto levantou os olhos e meus joelhos quase falharam. Era mesmo ele. Isso só podia ser um sonho.

- Ainda estou escrevendo - algo parecido com um sorriso repuxou seus lábios brevemente para cima. - Quer ouvir?

Eu estava tão anestesiada que era incapaz de formar qualquer frase inteligível. Apenas assenti com a cabeça, sentando no chão de frente para ele.
Ele ajeitou a postura e os dedos dançaram habilidosamente pelas cordas. Com olhos fechados, a voz que eu tão bem conhecia entoou os primeiros versos da música que eu sabia de cor.

- There's a hole in my hat, shows a near misgracing. My scalp and my hand are the only injuries. I'll stand if I can… - abrindo os olhos, ele parou de cantar. - Ainda não sei o que encaixar aqui.
- When I fall forget me? - minha resposta saíra automática. Ele sorriu pra mim, completando o verso com a frase que eu havia acabado de falar.

Os arrepios percorreram cada milímetro do meu corpo.
O que estava acontecendo ali? Como isso era ao menos possível?

- Você compõe? - ele indagou distraído, anotando alguma coisa no pedaço de papel jogado ao seu lado.

Balancei a cabeça negativamente, julgando ser impossível tirar meus olhos de cada traço de seu rosto irretocável.
Aquilo não fazia sentido algum. Ele estava… morto. Se não estivesse, hoje ele teria… Cinquenta anos, e não vinte e poucos como o garoto a minha frente aparentava.
Minha cabeça começou a bombardear zilhões de pensamentos que quase me deixaram tonta.
Eu só podia estar sonhando. Repeti pra mim mesma mais uma vez.

- É a nossa vez, - um garoto de cabelos castanhos anunciou ao passar por nós dois, logo seguindo em direção ao palco.

Mas, se era um sonho, como parecia tão real?
Eu não conseguia sequer piscar enquanto o acompanhava se levantar e ajeitar a calça jeans antes de tomar o mesmo caminho que o amigo acabara de fazer. Ainda estava o admirando quando ele virou o rosto em minha direção e, um pouco distante, gritou por cima dos ombros:

- Obrigado pela ajuda. Espero que goste do show - ele fez menção de seguir em frente, mas parou mais uma vez, inclinando a cabeça novamente em minha direção. - Eu gostei do vestido.




Continua...



Nota da autora: Oi, amores! Terminei Shades Of Cool e deixei as ideias brotarem livres em minha cabeça e, entre elas, essa foi a que eu mais gostei.
Andei ouvindo Alekas’s Attic tantas vezes nos últimos tempos que foi impossível não me apaixonar - de novo - pelo River Phoenix. Então assisti Midnight In Paris e surgiu a ideia de escrever essa fic.
Aliás, se você que está lendo agora nunca ouviu essa banda e nem assistiu esse filme, eu exijo que faça os dois, pois ambos são maravilhosos hahaha
Queria deixar avisado desde já que, como no filme, não planejo desenvolver uma justificativa para essa viagem no tempo acontecer - vou me ater a focar apenas nos conflitos entre passado, presente e futuro.
Por fim, espero muito que vocês gostem dessa nova história! ♥️

Nos vemos na próxima atualização.
Um beijo!





Outras Fanfics:
Shades Of Cool | Restritas - Originais - Finalizadas
Me, My Teacher and Our Secrets | Restritas – Originais – Em Andamento
You Fucked Me So Good That I Almost Said I Love You | Restritas - Originais - Em Andamento
The Beauty Of Being Broken | Originais - Em Andamento
Chaos Theory | Restritas – Shortfic

Nota de Beta: Adorei a proposta da fic. Imagina só voltar no tempo e encontrar o River?? Seria o sonho realizado rsrs. Estou louca pra saber como ela chegou ali e o que vai acontecer, Ju.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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