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Última atualização: 29/06/2020

Capítulo 1

A areia tórrida sob meus pés falhava em mandar qualquer onda de reconforto para o meu corpo. O horizonte exibia o céu preparado para formar uma tempestade, camuflando-se ao encontrar o mar em uma escuridão infinita.
Era fascinante e ao mesmo tempo assustador. Assim como o movimento frenético daquela cidade na estação com as temperaturas mais elevadas do ano.
As noites no meio de Julho em Los Angeles costumavam trazer consigo uma insuportável onda de calor. E, pra mim, elas costumavam ser mais atrativas cinco verões atrás.
Aos quinze anos eu adorava a ideia de passar as férias no lugar que exalava a história e atualidade consistente do cinema estadunidense. Aos vinte, eu preferia qualquer destino que me oferecesse um pouco mais de paz.
E que não envolvesse meus pais.

- Está na cara que está se remoendo, . Não se dê ao trabalho - Dean ergueu uma garrafa de cerveja no ar. - Hollywood pode ser incrível. Se você deixar.

Torci o nariz para o meu irmão. Ele, é claro, não se incomodava.

- Só preciso dar uma volta. Ficar um pouco longe daqui - levantei e bati as mãos pelo corpo, tirando os vestígios de areia que insistiam em grudar em minhas roupas.
- Sabe que vai cair uma tempestade, não? - ele apontou para o céu com a cabeça, fazendo seus adoráveis cabelos balançarem em sincronia.
- Ótimo - dei um breve sorriso por cima do ombro antes de começar a andar e Dean balançou a cabeça em reprovação, embora um sorriso divertido brincasse em seus lábios.

Ele era ótimo em esconder o que pensava. Com maestria, conseguia entrar na casa de veraneio dos meus pais e fingir que estava tudo bem.
Eu não.
Não conseguia sorrir enquanto claramente desaprovava a dose exagerada de whisky que meu pai consumia após o jantar. Não conseguia fechar os olhos para uma noite tranquila de sono enquanto o ouvia discutindo com minha mãe às três da manhã. E não conseguia engolir que eles nos obrigassem a agir como uma família apenas uma vez no ano quando, nos outros onze meses, era como se eu e Dean pudéssemos contar apenas um com o outro.
Não sei por quanto tempo me distraí com a sensação dos meus pés afundando na areia. Só percebi que não fazia ideia de onde eu estava no momento que uma buzina cortou o silêncio enquanto eu atravessava a avenida que separava a praia dos exagerados casarões à beira mar. Quando os devaneios deram uma folga para a minha cabeça e eu encostei os meus tênis na calçada, senti as primeiras gotas de chuva caírem gélidas em meu rosto. Voltei meu olhar para o céu e, em um ínfimo instante, a garoa havia se transformado em um temporal.
Abracei meu corpo ao perceber que o meu vestido branco estava prestes a ficar transparente, e o primeiro trovão entoou em meus ouvidos assim que corri para o topo da escadaria de uma espécie de casa de show antiga. Uma pequena cobertura de concreto me protegia parcialmente da chuva, mas o vento que chicoteava forte em meu rosto quase não me deixava enxergar a um palmo de distância.
Chequei o relógio dourado em meu pulso. Faltavam dois minutos para a meia noite. Na rua, a tempestade deixava seu rastro ao transformar em deserta o que poderia ser uma noite de festa em LA.
Eu poderia caminhar tranquilamente até a casa dos meus pais. Não me importava em me molhar.
Mas eu não queria.
O temporal era a desculpa perfeita para passar mais tempo fora.
Estava quase me acomodando em um dos degraus quando os faróis de uma caminhonete vermelha iluminaram a esquina. Alguns gritos e risadas ressoaram pela via, misturando-se com uma música que explodia das caixas de som do carro.
Mais especificamente, Smells Like Teen Spirit do Nirvana.
Nostálgico.
A caminhonete diminuiu a velocidade enquanto passava pela minha frente. Observei sorrindo a leveza que duas garotas transmitiam ao cantar na parte de trás, enquanto um menino fingia tocar uma guitarra no ar e outros dois gargalhavam, sentados no banco da frente.

- Ei! O que está fazendo sozinha aí? - quase levei um susto quando a garota morena de cabelos curtos se debruçou na lataria do carro com um sorriso que mal cabia em seu rosto. Ela se vestia e se maquiava como se o tempo tivesse parado no começo dos anos noventa.
- Estou esperando a chuva passar - gritei por cima da música, devolvendo o sorriso simpático.

Passei os olhos pelos outros passageiros. A verdade era que todos ali pareciam ter parado no tempo.

- Porque não vem com a gente? - o garoto sentado ao volante indagou. Ele usava uma camisa xadrez e os cabelos castanhos estavam enfiados em uma touca preta.
- Estamos indo para uma festa na Viper Room. Acredite, não há lugar melhor em Hollywood - a ruiva com uma gargantilha de couro e maquiagem roxa cintilante se inclinou ao lado da amiga.

Examinei mais uma vez as cinco pessoas no carro. Elas me olhavam sorridentes, ansiando por uma resposta. Não pareciam ter muito mais do que vinte anos e, apesar das garrafas esverdeadas nas mãos, não pareciam altamente embriagadas.
Era uma decisão completamente imprudente, mas…
Porquê não?
Os gritos animados retumbaram noite afora quando eu me levantei e segui em direção à caminhonete. O motorista aumentou o som quando, com ajuda do menino alto e loiro que antes tocava um instrumento imaginário, eu subi na caçamba.
The Smiths saía das caixas de som e eu sorri comigo mesma. Eu adorava aquela banda.

- Você se veste engraçado. Eu adorei - a morena apontou para o meu vestido enquanto pegava uma cerveja do cooler improvisado e me entregava.

Olhei para o meu simples vestido branco marcado na cintura e depois para as roupas noventistas dos meus mais novos colegas. Eu me vestia engraçado? Ri sozinha, tomando o primeiro gole da garrafa.
A noite seria interessante.

-


A morena se chamava Melanie. Ela tinha vinte e um anos e namorava Curtis, o motorista da noite. A ruiva, Kaylee, tinha vinte e dois e era uma das meninas mais bonitas que eu já havia visto na vida. Em quinze minutos de conversa, elas haviam me contado que os meninos tinham uma banda em ascensão, e eles frequentavam a Viper Room porque aquele era o lugar ideal para trazer visibilidade para bandas em busca do sucesso. E, assim o nome do local do local indicava, só era possível entrar se você tivesse as amizades certas.
Quando a picape estacionou na calçada quase em frente à boate, eu não sabia dizer ao certo o que havia acontecido. Parecia que eu havia passado por um lapso de tempo borrado em que eu não me lembrava ao certo o que tinha acontecido.
O ar parecia mais denso.
A temperatura era mais amena.
Meus cabelos já não estavam mais molhados e meu vestido não grudava mais em meu corpo.
Levei alguns segundos para olhar a minha volta.
Eu não sabia onde eu estava.
Quer dizer - era, com certeza, West Hollywood. Mas não parecia real. Era algo como um cenário retrógrado do que eu havia conhecido apenas pelas fotos e saudosos filmes do começo dos anos noventa.
As pessoas que transitavam na porta da danceteria pareciam ter saído diretamente de uma cápsula do tempo. Era como se uma festa temática estivesse acontecendo e apenas eu não tivesse sido alertada sobre a fantasia.

- Melanie - chamei a morena ao colocar meus pés no asfalto. - O que tinha nisso? - apontei para a garrafa pela metade entre meus dedos.
- Só cerveja - ela respondeu despreocupada, ajeitando os fios extremamente lisos que iam até o ombro enquanto Curtis passava os braços em sua cintura. - Você está bem?

Apenas assenti com a cabeça, me perguntando mentalmente onde eu havia me metido.
A Viper Room era bem maior do que as portas pintadas de preto do lado de fora faziam parecer. O lugar era escuro; apenas as luzes coloridas de vermelho e azul amenizavam superficialmente o breu. As paredes eram negras e forradas de quadros gigantes. Inúmeros sofás de couro disputavam lugar com as mesas redondas encostadas nas paredes. Alguns instrumentos estavam posicionados em um generoso palco, provavelmente a espera da atração da noite.
Me esquivando das pessoas que lotavam a casa ao tentar seguir o grupo dos meus recém feitos cinco amigos, eu me sentia… Estranha. Um pouco perdida. Como se algo anormal pairasse no ar e eu não soubesse dizer ao certo o que era.

- Onde fica o banheiro? - indaguei ao tocar o ombro do garoto que estava no banco do carona no carro. Qual era mesmo o nome dele? John? Jack?

Ele me apontou o canto direito do local, quase ao lado do palco.

- Estaremos em uma mesa perto do bar.
Jake!

-

Me senti momentaneamente melhor quando joguei um punhado de água fresca no rosto e respirei por alguns minutos dentro do banheiro. Quando voltei ao ambiente abafado da boate, a sensação duvidosa fez meu estômago borbulhar mais uma vez.
Em meio ao frenesi da situação desconcertante, eu provavelmente peguei o caminho errado sem perceber. Quando dei por mim, não estava andando em direção ao bar, mas em um corredor que parecia ficar logo atrás do palco.
As coisas estavam mais calmas por ali. A música parecia mais baixa. A iluminação era levemente mais intensa. Alguns garotos passavam pra lá e pra cá com seus cabelos estilosos enquanto carregavam os mais diversos instrumentos.
Eu estava prestes a dar meia volta e encontrar o acesso de volta para onde os outros cinco estavam, mas antes que eu pudesse girar nos calcanhares, algo me chamou atenção.
Sentado no chão em um dos cantos mais distantes do palco, um garoto dedilhava seu violão e cantava algo que a distância não me permitia identificar.
Não podia ser...
Não me permiti pensar muito. Apenas deixei o instinto falar mais alto e meus pés me guiarem em sua direção. Observando-o cautelosamente, apenas um pensamento martelava em minha cabeça.
Eu o conhecia.
Os cabelos caindo sobre o rosto. Os olhos tão intensos que podiam hipnotizar a quem quer que fosse em instantes. A expressão séria, quase brava, que não deixava seus traços.
Mas como era…

- O que está tocando? - quase coloquei a mão sob os lábios quando ouvi minha voz ressoar alto.

O garoto levantou os olhos e meus joelhos quase falharam. Era mesmo ele. Isso só podia ser um sonho.

- Ainda estou escrevendo - algo parecido com um sorriso repuxou seus lábios brevemente para cima. - Quer ouvir?

Eu estava tão anestesiada que era incapaz de formar qualquer frase inteligível. Apenas assenti com a cabeça, sentando no chão de frente para ele.
Ele ajeitou a postura e os dedos dançaram habilidosamente pelas cordas. Com olhos fechados, a voz que eu tão bem conhecia entoou os primeiros versos da música que eu sabia de cor.

- There's a hole in my hat, shows a near misgracing. My scalp and my hand are the only injuries. I'll stand if I can… - abrindo os olhos, ele parou de cantar. - Ainda não sei o que encaixar aqui.
- When I fall forget me? - minha resposta saíra automática. Ele sorriu pra mim, completando o verso com a frase que eu havia acabado de falar.

Os arrepios percorreram cada milímetro do meu corpo.
O que estava acontecendo ali? Como isso era ao menos possível?

- Você compõe? - ele indagou distraído, anotando alguma coisa no pedaço de papel jogado ao seu lado.

Balancei a cabeça negativamente, julgando ser impossível tirar meus olhos de cada traço de seu rosto irretocável.
Aquilo não fazia sentido algum. Ele estava… morto. Se não estivesse, hoje ele teria… Cinquenta anos, e não vinte e poucos como o garoto a minha frente aparentava.
Minha cabeça começou a bombardear zilhões de pensamentos que quase me deixaram tonta.
Eu só podia estar sonhando. Repeti pra mim mesma mais uma vez.

- É a nossa vez, - um garoto de cabelos castanhos anunciou ao passar por nós dois, logo seguindo em direção ao palco.

Mas, se era um sonho, como parecia tão real?
Eu não conseguia sequer piscar enquanto o acompanhava se levantar e ajeitar a calça jeans antes de tomar o mesmo caminho que o amigo acabara de fazer. Ainda estava o admirando quando ele virou o rosto em minha direção e, um pouco distante, gritou por cima dos ombros:

- Obrigado pela ajuda. Espero que goste do show - ele fez menção de seguir em frente, mas parou mais uma vez, inclinando a cabeça novamente em minha direção. - Eu gostei do vestido.


Capítulo 2

O tom arroxeado abaixo dos meus olhos constatava o óbvio: eu não havia dormido absolutamente nada naquela noite.
Eu não me lembrava, exatamente, como havia saído da Viper Room e chegado na casa de veraneio dos meus pais.
Lembro de, em algum momento, vagar pelas ruas vazias enquanto o crepúsculo ameaçava deixar o céu e dar lugar ao sol. E então, em um piscar de olhos, a velha Hollywood voltou a ser a nova Hollywood.
Inexplicável.
Assustador.
E - convenhamos - incrível.
Eu já havia descartado a possibilidade de ter sido um sonho. Também não acreditava que a minha mente conturbada havia criado um cenário tão real e sensações tão vívidas.
Quando os raios solares entraram pelas frestas da minha janela e atingiram em cheio meu rosto pela manhã, sentada no pé da minha cama, eu sabia que tinha duas escolhas.
Me convencer superficialmente a acreditar que eu havia vivido o devaneio mais real e crível da história.
Ou voltar às escadarias daquela boate e me levar a crer que, o que quer que houvesse acontecido, aconteceria de novo.

-


Eu havia passado o dia inventando mil e uma desculpas para não acompanhar meu irmão em uma festa que aconteceria àquela noite na Avalon; a boate a qual sempre íamos quando estávamos em LA.
Por mais que fosse exaustivo argumentar com alguém tão teimoso quanto Dean, o cenário não podia ser mais perfeito. Ele não estaria em casa quando, perto da meia-noite, eu saísse. Evitando, assim, uma lista de perguntas indesejáveis que eu nem ao menos sabia responder.
Como, por exemplo, para onde eu estava indo?
Quando o relógio em meu pulso marcou onze horas e vinte e cinco minutos, controlei a ira que se acumulava em meu peito ao deixar os gritos dos meus pais para trás. Para onde quer que meus pés estivessem me guiando, naquele momento, eu estava encarando como uma adorável e conveniente válvula de escape para a realidade em que eu me encontrava.
No caminho até as escadas em que estive na última noite, vi meus pensamentos me levando ao absurdo.
E se eu tivesse, realmente, voltado no tempo? Isso era, ao menos, possível? E, se fosse, qual era o objetivo daquilo? Por que eu?

- ! Achei mesmo que íamos te encontrar aqui novamente!

A voz enérgica de Mel me fez sorrir.
E lá estavam os cinco; tão simpáticos e pretéritos quanto antes.
Em instantes, Jake havia me dado a mão para subir na picape e me oferecido um copo com alguma mistura de frutas com álcool. Era surpreendentemente bom.
A trilha sonora da noite era Beastie Boys. E eu estava determinada a manter-me o mais consciente o possível para entender o que acontecia; qualquer vestígio que indicasse que eu havia, realmente, voltado no tempo.
Argh, era estranho até falar.
No entanto, assim como na última noite, não houve uma sutil mudança aparente.
Se em um instante tudo parecia normal, no outro a atmosfera havia mudado.
Simplesmente.
Sem uma luz estroboscópica ou uma sutil passagem por uma engenhoca prateada.
Era como se a mudança estivesse no imperceptível e acontecesse gradualmente. Da parte da trás da picape vi, diante dos meus olhos, as ruas tornarem-se mais alegres.
As pessoas vestirem roupas mais coloridas.
Os celulares, compulsoriamente nas mãos dos pedestres, desaparecerem.
A cidade irisar um pouco mais, ganhando a leveza que só a perda de anos de estrago poderia causar.
Era algo tão brando que, se eu estivesse minimamente distraída, não perceberia.
Havíamos parado no mesmo lugar que ontem; A Viper Room. E eu estava silenciosamente agradecida pelo destino pois, algo que se remexia sutilmente em meu peito fazia-me acreditar que eu poderia encontrá-lo novamente ali.
Ou, ao menos, eu torcia por isso.
A casa estava mais vazia naquela noite. Parecia, na verdade, uma festa entre amigos mais próximos.
Eu dancei com Melanie e Kaylee por alguns minutos.
Troquei algumas palavras com Jake e Aidan enquanto admirava o quanto Mel e Curtis pareciam um casal digno de um filme antigo de comédia romântica.
Mas minha mente voltava sempre ao mesmo pensamento; será que ele também estava ali?
Era insano o suficiente pensar que, de alguma forma, eu estava na Hollywood dos anos noventa.
Mas era ainda mais insano pensar que eu havia, de fato, falado com na noite passada.
Não pude evitar passar os olhos ao meu redor, procurando-o em meio às poucas pessoas espalhadas pelo lugar.
Nada.
Mas, se eu desse sorte, talvez saberia onde encontrá-lo.
Não pensei duas vezes antes de seguir o mesmo caminho; a porta quase imperceptível ao lado do banheiro. Se ontem o lugar era lotado de aspirantes a estrelas do rock, hoje parecia quase deserto.
Um casal praticamente se despia em um canto, e um garoto que parecia novo demais para estar ali apertava um baseado no outro.
Mas eu segui os meus instintos. Andei pelo corredor apertado em direção à duas portas entreabertas.
Espiei na primeira. A luz estava apagada e não havia ninguém.
Quando me encaminhei à segunda e espiei entre a fresta, estava quase convencida de que ao menos ele havia sido uma ilusão.
Mas eu não podia estar mais errada.
Com uma camiseta preta coberta por uma camisa quadriculada vermelha, calças jeans largas demais e um All Star puído, estava bem à minha frente.
Ajeitei rapidamente meus cabelos e puxei a barra do meu vestido pra baixo, deixando-o corretamente alinhado à minha cintura; uma necessidade intrínseca de tentar parecer mais atraente para o cara que eu já havia admirado tantas vezes através de uma tela ou pelas vibrações do meu celular.
Ele tinha os cabelos jogados no rosto e os olhos baixos, concentrados demais em um aparelho gigante que pendia dos seus dedos.
Precisei abafar um riso quando percebi do que se tratava. Um discman.
Na outra mão, um baseado prestes a ser queimado brincava entre o polegar e o indicador.
Afastei a porta delicadamente, tentando não ser invasiva; mas o mínimo movimento tirou a sua atenção do aparelho e fui atingida repentinamente pela intensidade dos seus maravilhosos olhos .

- Ei! A compositora! - ele apontou pra mim, falando um pouco alto demais por conta da música em seus ouvidos.

Dei um sorriso para o apelido inusitado, encolhendo os ombros ao me aproximar.

- O que está ouvindo? - apontei para o discman.

Ele guardou o beck no bolso e tirou os gigantes fones de ouvido, estendendo-o para mim.
Precisei prender a respiração ao dar alguns passos em sua direção.
Ah, Céus. estava prestes a encostar em mim.
Parei em sua frente e por pouco não me perdi em sua íris, observando-me tão de perto. Ele não tinha medo algum de olhar em meus olhos diretamente; era quase como se quisesse saber o que eu estava pensando.
Abaixei minha cabeça para ele encaixar o fone em mim. Dei um sorriso genuíno assim que a melodia chegou aos meus ouvidos.

- Beatles - murmurei e ele assentiu com a cabeça.

Hey Jude embalava o momento e eu quase podia prever o que ele estava prestes a dizer. Tirei o fone e entreguei-o em suas mãos, tentando acalmar as marteladas de meu coração quando meus dedos roçaram nos deles.

- Meu segundo nome é Jude por causa dessa música, sabia?

Mordi o lábio inferior para impedir uma risada. Todo mundo meio que sabe.

- Seus pais parecem incríveis - disse ao caminhar até a mesa fixa na parede em que ele estava apoiado, pegando impulso para me sentar ali.

O observei enquanto se desvencilhar do fio do discman e apoiava-o ao meu lado. De onde eu estava, tinha a visão perfeita do seu perfil; e não pude deixar de reparar como seu nariz se curvava para cima na ponta de uma maneira adorável.
O quão estranho seria se eu encostasse em seu nariz?

- Qual o seu nome, compositora? - ele perguntou ao tirar novamente a erva envolta em seda do bolso, dessa vez acompanhada de um isqueiro laqueado em preto.
- , mas todo mundo me chama de - parei por um segundo. Eu devia fingir que não o conhecia, certo? Eu mal sabia em que ano estávamos… - O seu?

Ele sorriu de um jeito engraçado.
Certo, talvez eu devesse mostrar saber quem ele era. Mas agora eu já estava fundo demais no personagem -perdida-dos-anos-noventa.

- - ele respondeu serenamente, enquanto acendia e apagava compulsivamente o isqueiro entre seus dedos. Era um tanto charmoso.

Deixei meus lábios formarem um sorriso.

- Seus pais são, definitivamente, incríveis.
- Porque nunca te vi por aqui antes, ?

Quase me distraí com a maneira adorável que meu apelido escapava dos seus lábios; mas minha atenção acabou sendo pega pelo brilho do fogo que, dessa vez, acendeu a ponta do baseado. Ele deu uma tragada e o cheiro de relva tomou minhas vias respiratórias.
Foi quando me perguntei algo que ia muito além de como eu havia parado ali.
Senti minha visão embaçar momentaneamente.
Se eu estava ali, eu podia fazer algo para mudar o futuro?
Sera que eu podia…

- Por que não larga isso?

A sua expressão blasé tornou-se ligeiramente surpresa.

- É só um baseado - ele deu de ombros, dando mais uma tragada.
- É. Eu sei.

Seus olhos se prenderam nos meus por alguns instantes, intensos e imóveis. Por um instante, achei que fosse fazer o que eu havia dito; mas apenas soltou uma risada, balançando a cabeça negativamente.
Eu podia tentar, não podia?
Roubei o beck dos seus dedos e dei uma tragada tão rápida e tão forte que senti a fumaça em minha garganta. No instante seguinte, estava tossindo desesperadamente e sentindo meus olhos lacrimejarem.
Quando consegui focar a atenção e vi seus olhos em mim, achei que estava prestes a ficar bravo.
Mas então ele me olhou engraçado. Meio se divertindo, meio surpreso. Pegou o beck de minhas mãos e o apagou na mesa, jogando-o de qualquer logo em seguida.

- Certo. Por que fez isso? - apesar do tom sério, um sorriso repuxava o canto dos seus lábios.
- Acho que não precisa disso - levantei os ombros, evitando seus olhos.

Ele, então sorriu abertamente para mim. E o sorriso dele era um daqueles raros, que você vê três ou quatro vezes na vida.

- Na verdade eu preciso, sim. Talvez você também precise - ele encostou o indicador levemente em meu rosto e eu senti-me andar em nuvens por breves segundos. - Apenas não sabe disso ainda.

Uma pontinha de raiva borbulhou em meu sangue. Mal sabia ele que eu estava tentando protegê-lo, e que a ideia de deixar algo acontecer com ele quando eu talvez pudesse fazer alguma coisa me aterrorizava.
E se fosse esse o motivo de eu estar ali? Eu podia, de fato, intervir em alguma coisa?
Foi então que uma ideia acendeu uma faísca de esperança em meu peito.

- O que acha de fazermos um acordo? - saltei da mesa diretamente para sua frente, parecendo mais ansiosa do que eu pretendia.
- Estou ouvindo.
- O que acha de me deixar te mostrar que não precisa disso pra deixar as coisas serem interessantes?

Uma risada fez seus ombros tremerem.

- Não é apenas esse o objetivo. Você sabe disso.
- Eu ainda nem comecei e você já está sendo teimoso? - rolei os olhos de maneira dramática.

Com um sorriso em seus lábios, ele cruzou os braços e me olhou por alguns instantes. Instantes que pareceram longos minutos diante do seu silêncio. Quando eu estava prestes a protestar, um murmúrio escapou de sua boca.

- Certo. Com uma condição - ele aproximou o rosto brevemente do meu. - Eu vou te mostrar que as coisas podem ser mais divertidas se você se soltar um pouco mais, .

Estreitei o olhar, ligeiramente incomodada com sua avaliação sobre mim. Me soltar mais?
Bom… fazia sentido, na verdade. Minha vida não era exatamente uma constante aventura. Talvez até um pouco entediante.
Mais do que isso, era a única chance que eu tinha em fazer algo para não deixar nada acontecer a ele.
Enquanto eu estendia os dedos para apertar sua mão e selar nosso acordo, algo lá no fundo me alertou, algo que eu já deveria saber, mas que apenas seu toque concomitante ao olhar impetuoso me fez afirmar.
De alguma forma, mesmo sem conhecê-lo direito, eu sabia que nunca me deixaria entediada.
Eu apenas ainda não sabia como me sentia em relação a isso.




Continua...



Nota da autora: Demorei um pouquinho, mas voltei pra essa história ♥
Espero que estejam gostando! Me contem os palpites e tudo o que estão achando, por favor!
Nos vemos na próxima att. Beijinhos <3



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Nota de Beta: Aaaaaai, gente. Me deu uma vontade louca de dizer pra ela tocar o nariz dele, rsrs. Achei tão fofinho. Torcendo mil vezes pra que dê certo esse acordo que fizeram e que tudo corra bem no fim, porque tenho certeza que farão um casal hiper divertido. Ansiosa por mais capítulos pra entender melhor sobre essa viagem no tempo...

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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