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Atualizada em: 11/01/2021

Capítulo um

O telefone em minhas mãos parecia pesar cinquenta quilos.
A brisa fria da Avenida Paulista às sete da noite não parecia nada se comparada ao calor que subia por meu corpo envergonhado. As luzes do Mc Donald’s atrás de mim tornavam minha sombra na calçada extremamente alongada, sendo interrompida momentaneamente pelos carros que passavam próximos à calçada.
Abri o contato de no celular e observei nossa última conversa. Cinco dias atrás. Ela havia me mandado um meme de engenharia e eu respondi com uma figurinha da Gretchen. Me entristecia saber que ela provavelmente me socaria após lhe contar da cagada magistral que eu havia feito.
Ouvi uma buzina próxima à minha orelha e encarei os carros com suas luzes do farol brilhando diante de meus olhos. Eu estava ao lado da estação Brigadeiro sem qualquer coragem de entrar no metrô para ir para casa.
Precisamos conversar.”
Enviei a mensagem com o ponto final. Quem me levaria a sério se eu não usasse o ponto final na mensagem? Precisava mostrar que eu realmente precisava conversar com .
Arrumei a alça da bolsa nos ombros e desci pelas escadas rolantes, finalmente tomando coragem.
Jesus Cristo, alguém morreu? Eu fiz algo? Você perdeu a virgindade?”
Revirei os olhos com a mensagem e dei uma risada abafada. Esperei na plataforma do metrô.
Posso passar ?”
avisei o porteiro
Suspirei.
Eu estava ferrado.
O terno em meu corpo parecia estranhamente justo naquele momento, assim como pareceu naquela manhã, um mês atrás, quando cheguei à recepção da Construtora Sobral, local em que almejei trabalhar desde o primeiro dia na faculdade, quando o diretor da empresa foi um dos palestrantes para os calouros suados e cansados do campus da USP.
— Vim para a entrevista na Construtora Sobral, 13° andar. — Sorri para a recepcionista de cabelos ruivos. Ela sorriu de volta e assentiu.
Aguardei nervoso enquanto subia pelo elevador prateado. Alguns funcionários ao meu lado conversavam sobre metas de vendas e falavam mal de influencers. Pelo visto uma tal de Boca Rosa havia sido racista. Foquei naquela conversa até o 13° andar.
— Sente-se, por favor. — A recepcionista da Sobral pegou o telefone em suas mãos e indicou bancos felpudos para mim. Sentei-me com as mãos cruzadas sobre o colo.
A empresa parecia ainda mais incrível dali. Paredes cinzentas subiam em formato de maquete. As salas de reunião eram de vidro. Havia maquetes de prédios expostas sobre algumas mesas de reunião ao lado da recepção. Suspirei. Aquele emprego já era meu!
Com esse pensamento centrado e animado, pedi para ir ao banheiro antes da entrevista. Mijaria como um verdadeiro vitorioso!
Caminhei a passadas tímidas para o coração da empresa, onde ficava o banheiro. O da recepção estava quebrado, havia dito a funcionária. Encarei as baias nas quais homens de terno e duas mulheres trabalhavam.
Todos pareciam focados em seus computadores, e algumas outras salas de reunião se estendiam ao longo do andar inteiro pertencente a uma das maiores empresas de engenharia do Brasil.
Duas pessoas sorriram para mim, e relaxei. Virei à esquerda, em direção ao banheiro, quando ouvi uma voz vinda da sala de reunião ao meu lado.
— O primeiro candidato está aqui.
Tentei me controlar, mas não sabia como. Parei ao lado da parede, escondido pela privacidade do gesso.
— Ele é jovem? — Uma voz disse.
Não consegui ver o rosto dos dois homens que conversavam.
— Parece.
— Ah, droga! — Resmungou a segunda voz — Nem quero entrevistá-lo, vai ser perda de tempo.
Meu coração bateu acelerado no peito.
— O currículo dele é ótimo.
— Currículo ótimo não faz o funcionário, Pietro.
A segunda voz tinha razão, mas isso não me deixava menos desesperado. Ele sequer queria me entrevistar, o que eu havia feito de errado? Questionei-me se seria por minha etnia, e minhas mãos suaram em resposta ao pensamento.
— Não podemos mais contratar jovens depois do Kaique! Não podemos lidar com outro escândalo de assédio sexual. — Arregalei os olhos. Olhei para o fim do corredor e ouvi passos. Eu seria descoberto espionando. Virei-me para ir em direção ao banheiro, apenas a dois metros de onde eu estava.
— Só considere contratar esse garoto se ele estiver casado ou prestes a casar, Pietro.
Foi a última coisa que ouvi antes de observar uma moça da limpeza virar o corredor em minha direção.
Fechei a porta do banheiro atrás de mim e encarei-me no espelho.
Eu não sou casado!
Batuquei os dedos contra o mármore da mesa. Mijar vitorioso não era mais uma opção. Mijei derrotado.
Refiz meu caminho até a recepção. Sequer valeria a pena participar da entrevista? Eu já seria negado assim que me fizessem aquela pergunta, não importa o quão incrível eu fosse.
Observei detidamente enquanto um homem de terno giz perfeitamente delineado andava em minha direção. Ele portava um sorriso simpático. Ele vai ser o responsável pela ligação para dizer que você não é um bom candidato. Pisquei algumas vezes.
— Sou o Pietro e vou te entrevistar junto ao pessoal do RH, ok? — Assenti simpaticamente.
Meu Deus, o que eu faço?!
Segui Pietro, a primeira voz daquela conversa nada legal. Abri e fechei as mãos algumas vezes, a tensão e nervosismo pungentes ali. Sentei-me na cadeira. Estávamos na mesma sala pela qual eu havia passado há pouco, próxima ao banheiro.
Só havia eu, Pietro e uma moça que eu não havia visto antes, a responsável do RH.
Convenci-me de que não me perguntariam sobre meu estado civil. Aquilo só podia ser palhaçada.
— Você é um ótimo candidato, . Amei seu nome, por falar nisso, é bem diferente. Chique. — Agradeci à responsável do RH com um sorriso.
era um nome que me perseguia desde pequeno. Meu pai havia registrado meu nome, já que minha mãe estava desmaiada na sala pós-parto. Eles haviam combinado que meu nome seria Josué, mas meu pai quis deixar meu nome gringado.
— Temos mais uma pergunta, .
Meu coração acelerou no peito. Encarei Pietro. Ele parecia pleno, na verdade, parecia perfeitamente entediado. Gostaria de estar daquela maneira.
— Qual é o seu estado civil?
DROGA! MIL VEZES, DROGA!!!!!!!!!!
Pisquei algumas vezes, as palavras tentando escapar de minha boca.
— Fique calmo, esse é um assunto delicado para você? — A responsável questionou seriamente. Pietro parecia entretido agora.
— Não, não é isso.
Enrolei.
Aquele emprego realmente valeria aquilo tudo? Quer dizer, eu precisava ter uma família para ter bom caráter? Que tipo de lógica era aquela? Ser casado já impediu assédio?
Pisquei algumas vezes. Diga algo, !
— Não sou solteiro.
A responsável arqueou a sobrancelha, e Pietro riu.
— Isso é bom, mas o que exatamente você é? — Ela repetiu a pergunta.
Olhei para o lado de fora. Observei dois homens dando risada em suas mesas enquanto abriam uma planta de prédio, ao que parecia de onde eu via. Eles apoiaram o molde sobre a mesa e pegaram seus esquadros. Senti meu coração acelerar novamente.
— Me caso em três meses. — Falei de uma vez, a mentira rastejando por meus lábios miseravelmente.
Como eu odeio mentiras.
Pietro me encarou com mais atenção, como se só tivesse percebido a minha presença ali verdadeiramente agora.
— Mas você parece tão novo. — Ele comentou. Estava me sondando.
— Já queríamos ter casado antes. Sou bem tradicional, sabe. — A mentira crescia, e eu não conseguia parar de falar — Estamos juntos há três anos. Namoramos juntando grana para o casamento. Como éramos estagiários, só queríamos oficializar o casório quando pudéssemos arcar com todos os gastos.
Até eu acreditaria naquela mentira bem elaborada e totalmente descarada.
Eu sequer havia namorado por mais de um ano, quanto mais três anos. E casamento? Pelo amor de Deus! Tenho vinte e seis anos!
Mas Pietro não precisava saber disso.
Por isso, quando a entrevista acabou e voltei para casa, esperei pacientemente. Entrei em todas as minhas redes sociais. Tirei a visibilidade do meu status de relacionamento e minha bio do instagram. Eu só possuía três fotos, todas minhas em Campos do Jordão, e em uma delas estava , com seus olhos pequenos pelo sol e usando um moletom rosa. Eles que pensassem o que quisessem!
Ao receber a ligação no dia seguinte, mal pude acreditar. O emprego era meu! Pietro havia me ligado para dar as boas novas.
— Passei no emprego! — Gritei para pelo telefone na mesma hora.
Minha amiga desde o primeiro dia de aula da faculdade gritou em comemoração do outro lado.
— Eu falei que você conseguiria! — Ela respondeu animada — Você é muito capaz, eu sabia.
Pois é, ela mal sabia.
E tudo estava bem. O emprego era meu, ninguém mais havia me perguntado sobre minha noiva. Era como se tudo tivesse passado. Eu tinha colegas de trabalho e dois projetos em andamento. Eu tinha um vale refeição capaz de alimentar minha família por um mês inteiro e um salário ótimo. Nada precisava mudar.
Até aquele dia.
, venha aqui, por favor. — Fui chamado na sala de Dodô, nosso chefe de departamento e o homem que havia conversado com Pietro na sala aquele dia. Eu o reconheci pela forma como falava. Senti antipatia por ele na mesma hora em que fui apresentado a ele formalmente.
— Tá tudo bem? — Questionei ao adentrar no cubículo, fechando a porta atrás de mim.
Dodô tinha a pele negra e os olhos cansados, bolsas de olheiras sombreavam seu semblante. Ele cruzou os braços sobre a barriga delgada e sorriu.
— Tudo sim, fique tranquilo. Pietro falou comigo hoje, e percebi algo. Sei que somos aparentemente uma empresa reservada, mas somos um ambiente descontraído e familiar.
Assenti.
— Temos o coquetel de funcionários no final do semestre, mas acho que já saiba disso.
— Sei sim.
— Bem, você está completando seu primeiro mês aqui, e vai ser sua primeira confraternização. Pietro disse que você pode estar se sentindo desconfortável em trazer sua noiva, então estou aqui para encorajá-lo a trazê-la! É um ambiente bem legal e incentivamos os funcionários a trazerem seus parceiros. Quer dizer, parceires. O RH tem uma nova política de uso de pronomes neutros. — Permaneci em silêncio.
Eu sequer lembrava que estava noivo. Quer dizer, porque eu realmente não estava! Que papo era aquele do nada? Eu mataria Pietro! Já tínhamos intimidade o suficiente para isso.
— Não sei se ela se sentiria confortável, Dodô… — Enrolei, mas ele parecia decidido.
— Você está aqui há pouquíssimo tempo e já é um dos meus melhores funcionários. — Mantive os lábios em uma linha fina — Traga sua noiva, ok?
Saí da sala com um ponto de interrogação em minha testa. Tenho certeza de que chefes não podem se meter na vida dos funcionários daquela maneira.
— Vocês tiveram a conversa de levar o parceiro para a confraternização? — Pelé, meu colega de mesa, perguntou-me assim que sentei. Assenti em sua direção — Estão fazendo isso por causa do escândalo.
Ah, o escândalo!
O escândalo de assédio sexual que pairava sobre a empresa junto com um baita processo. O funcionário que trabalhava aqui antes de mim, Félix, havia assediado sexualmente três mulheres da empresa. Após uma delas se pronunciar, as outras duas o denunciaram também. O caso saiu na imprensa através de uma das mulheres, que era amiga de uma jornalista famosa.
A empresa demorou a se posicionar sobre o caso, já que Félix era um dos diretores, então a imprensa caiu em cima. A Construtora Sobral perdeu três clientes no processo. Depois disso, Félix foi demitido. As três funcionárias pediram demissão. Eu havia sido contratado. Agora, eu precisava levar minha noiva inexistente para a festa da firma a fim de fazer sala e parecer digno.
— Você vai levar a sua noiva? — Pelé perguntou, seus olhos vasculhando sua mesa atrás de um lápis. Ele era branco, não entendia por que seu apelido era Pelé. Na verdade, sequer sabia seu nome de verdade.
— Eu? — Enrolei.
— Sim, aquela moça do seu Instagram, não é? Ela é linda, cara!
!
— Sim, vou levá-la. — Respondi prontamente. Três colegas levantaram o olhar em nossa direção. Eu estava enfiado até o pescoço em mentiras. Engoli em seco.
— Que legal! Ela é linda mesmo. Cara de sorte! — Agnaldo respondeu do outro lado.
Essa empresa está cheia de fofoqueiros!
— Todos vamos levar, meu bem. — Pardal também se pronunciou, os cabelos loiros balançando ao passar a mão sobre eles — Solteiros são altamente encorajados a não irem. Pelo visto ainda estamos sendo sondados pela mídia.
— Que perigo, hein! — Respondi sem encará-los, meus olhos vidrados em minha mesa.
Observei paralisado meus post-its largados sobre o computador aberto. Meu Deus, o que eu faria?
— Espera, ouvi certo? vai trazer a noiva? Ah, que legal! Estou ansiosa para conhecer sua noiva! Ela é linda mesmo — Laura comentou do outro lado. Daquela distância, pelo menos quinze funcionários haviam ouvido além dos da minha baia.
E foi com essa confusão em mente que bati à porta de naquela noite.
— Você está com cara de quem comeu cachorro quente estragado. — Ela comentou assim que abriu a porta. Seus olhos miravam os meus, um sorriso largo estava em seus lábios quando ela me abraçou e me puxou para dentro.
Observei seu corpo se esgueirar até a cozinha enquanto tagarelava sobre eu ser misterioso por mensagem.
, você vai me odiar tanto depois do que eu vou te dizer… — Comecei quando ela voltou à sala, seus olhos passando entre meu corpo largado no sofá e sua mesa de centro.
— Ih, o que houve? — Ela pareceu levemente preocupada. se aproximou e sentou ao meu lado no sofá, seus olhos fitando meu corpo por inteiro — Você não parece bêbado. O que foi que você fez? Engravidou alguém?
— Eu estou noivo. — Encarei-a. estava gaguejando, seus olhos pareciam alternar entre meus olhos e minha testa.
— Mas como assim? De quem?
— Você não vai querer saber.




Capítulo dois

Samira



— Não. — Afirmei categoricamente.
— Nem se eu pagar três almoços? — Fuzilei — Desculpa.
Observei meus polegares. Minhas unhas estavam limpas e pintadas do azul mais profundo que existia na paleta de cores da manicure. Ela disse que aquela cor combinaria com a minha semana, representaria os mares conturbados e imprevisíveis.
Bem, eu definitivamente não esperava dizer que era meu noivo para seu chefe a fim de conseguir um emprego.
— Eu namoro, . — Relembrei-o. assentiu, seus olhos piscavam rapidamente, maquinando ideias naquela cabeça de quem é um bobão.
— Mas eu não te pedi em noivado de verdade, . — Estreitei os olhos.
— Mas seu chefe acha que sim.
— Mas ele não precisa saber que você não é minha noiva! — Virei-me para encará-lo completamente. batucava os dedos sobre o joelho coberto pela calça social.
— Podemos inventar uma desculpa no dia. Que tal eu ficar com caganeira? — arqueou a sobrancelha.
— Eu acho essa uma ótima ideia. — Ele sorriu. Os olhos fitavam os meus com alívio.
era definitivamente hiperativo. Ele já estava de pé novamente, seus braços se movendo constantemente enquanto enumerava motivos para eu não odiá-lo por ter mentido.
Eu jamais poderia odiar .
— E outro motivo, eu sou muito gostoso.
— Você precisa de motivos melhores. — Argumentei. revirou os olhos e voltou a andar pela sala.
Lembrei-me de nosso primeiro dia de aula na faculdade. Eu havia ido para o prédio errado do campus. Ao invés de ir para a Escola de Comunicação e Artes, acabei parando na Escola Politécnica de engenharia. Em certo momento, durante a orientação, eu percebi que a grade horária era totalmente diferente.
Virei-me para o garoto ao lado e perguntei onde eu estava. Ao descobrir que estava longe do meu prédio, levantei-me correndo e acabei prendendo minha blusa na cadeira, abrindo um rasgo gigantesco. Meu sutiã virou objeto de risada no meio do auditório lotado. Quis morrer, mas apenas ri nervosamente. , o garoto ao meu lado, tirou seu moletom politécnico e me entregou.
Ele almoçou comigo naquele dia e me levou para conhecer o campus, já que eu havia perdido a minha orientação. Não lembro de ter estado longe dele um dia sequer desde aquele momento. Ele pegou uma matéria a mais na faculdade só para podermos nos formar no mesmo semestre, já que eu havia pegado DP.
— Não vai rolar a caganeira. — falou após algum tempo. Pisquei em sua direção.
— Quê?
— Cagar em excesso, isso não vai rolar.
— Ué, quem não acredita em um bom e velho cocô fedido e mole? — sorriu em minha direção, mas balançou a cabeça.
— Mês passado um dos funcionários lançou essa sobre a namorada. Meu chefe não acreditou. O garoto admitiu depois de um minuto que ele havia mentido e que na verdade era gay. — Arregalei os olhos.
— Meu Deus, a sua empresa é cheia de pessoas fingindo ser o que não são. — Provoquei, meus lábios abertos em um sorriso caótico. cruzou os braços.
— Ei, não me julgue.
— Jamais faria isso.
— Faria sim, você está morrendo de vontade de dar risada e dizer que eu mereço essa enrascada. — Dei de ombros.
— Mentir nunca é a solução.
— Mas agora eu tenho um emprego, não é?
— Sim, só não tem a noiva.
Levantei-me do sofá e andei até a cozinha com em meu encalço. Observei seu corpo alto e esguio. Seus cabelos estavam levemente compridos, nas bochechas. A pele escura acolhia bem a cor de seu terno de giz.
— Como eles acreditaram que você tinha uma noiva se você sequer usa aliança? — Questionei ao tomar um gole d’água.
Após o choque inicial de ter achado que havia realmente ficado noivo de alguém, quase enfartei ao entender a mentira que ele havia soltado. Ele havia escondido aquilo de mim por mais de um mês. Se ele não fosse obrigado, ele sequer diria algo para mim?
— Eu disse que não compramos aliança para economizar para o casamento.
Ele era um bom mentiroso, eu precisava reconhecer aquilo.
— Sinto muito, não vou entrar nessa mentira, . Você sabe o que eu acho sobre mentiras. — Falei, meu coração levemente pesado por precisar dar o ultimato, mas não éramos adolescentes. Em algum momento aquela mentira seria descoberta e tudo iria para os ares.
— Eu sei, me desculpa. — Ele passou as mãos pelos cabelos grandes e pela barba. Meu apartamento ficou em silêncio enquanto ele fitava a geladeira, suas mãos dentro do bolso da calça social.
Eu poderia pintá-lo dali. O contorno da mandíbula ficaria perfeito no carvão. Eu já tentei desenhar dois anos atrás, mas ele havia se esquivado.
— O que vai fazer? — Questionei. suspirou.
— Contar a verdade, eu acho. Você está certa, começar algo errado é saber que vai terminar errado. — Mordi o lábio e fitei o chão.
— Ser honesto não é fácil.
— É, não é. Acho que vou começar a enviar meu currículo. — Ele sorriu tristemente. Abri e fechei as mãos. Queria consolá-lo, mas sabia que era o certo a se fazer. Senti meu celular vibrar em meu bolso. Bruno. Ele havia perguntado se poderia vir passar a noite aqui — Ei, quer ir comer pizza? — desconversou, um sorriso aparecendo novamente em seu rosto.
— Bruno está vindo. — Respondi enquanto respondia Bruno no chat de mensagem. Levantei o olhar e observei meu amigo com o cenho franzido.
— Você chamou um cara para vir para cá? Ele deve ser especial, hein. — Sorri com sua provocação ao cutucar minha cintura.
— Ele é, , muito.


*


Acordei muito cedo no dia seguinte. Bruno estava desacordado e suas costas arranhadas demonstravam uma noite muito divertida. Joguei o lençol para o lado e fui ao banheiro. havia esquecido a mala do trabalho na minha casa, então ofereci-me para levar a ele na construtora, já que trabalhávamos próximos um do outro.
Peguei o ônibus praticamente dormindo em pé. Observei quando uma pomba fez cocô em cima do tênis de uma moça. Aquele talvez tenha sido o ápice da minha risada em plena sete e meia da manhã no transporte público de São Paulo. Que tristeza.
— Pode subir. — A recepcionista me recebeu com um sorriso. A mala em minha mão pesada pelo menos dois quilos. Como carregava aquilo de um lado para o outro?
A empresa estava muito vazia quando entrei, da maneira como combinamos.
Se ninguém me visse ali seria melhor.
estava usando uma camiseta social e calça jeans. Sexta-feira. Dia livre. Ele até mesmo havia se livrado do tênis de bico chato e usava um all star.
— Cara, vi um pombo cagar no pé de uma mulher. — Foi assim que o cumprimentei. gargalhou, jogando a cabeça para trás e pondo a mão na barriga.
— Esse tipo de coisa deveria ser gravada.
— Eu estava ocupada segurando esse trambolho. — Levantei a mala em sua direção. segurou a maleta em mãos — Como você não é todo torto?
— Ah, eu sou um pouco. — Ele pareceu refletir — Mas em locais específicos.
— Bem — Pigarreei — É isso. Nos vemos depois?
— Claro, . — Ele me abraçou, o perfume envolvendo meu corpo assim que me afastei. Virei-me para ir embora no momento em que ouvi uma voz atrás de nós.
— Essa é a ?!
Aquele deveria ser Dodô. Encarei , ele piscava fortemente e parecia ansioso, mais ainda do que já era.
— Olá, prazer. — Estendi a mão em sua direção. Os olhos energéticos do homem de mais de cinquenta anos alternavam entre e eu.
— As pessoas aqui estavam começando a achar que você era uma lenda urbana. — Ele comentou com uma risada. pareceu engasgar. Alternei meu olhar entre os dois.
— Lenda urbana mesmo é a tristeza no olhar desse cara desde que ele começou a trabalhar aqui! Nunca o vi tão feliz. — Puxei sardinha para o lado de , mas ele ainda parecia constipado. O que deu nele?
— Na verdade, Dodô, eu preciso falar com você sobre algo… — adiantou e se colocou diante de mim — Pode ir, ! Obrigado por trazer minha maleta. — Ele piscou em minha direção. Observei paralelamente quando outros funcionários saíam de suas baias e vinham para a recepção pegar café. Alguns pararam e nos encararam — Sobre e eu… — começou.
Algumas cabeças atrás de permaneciam nos encarando. Meu amigo não havia percebido a situação. Lembrei-me de quando ele ligou anunciando que havia conseguido o emprego, seus olhos brilhavam e ele me girou no ar.
— É o emprego dos meus sonhos. — Ele disse — Finalmente vou poder criar projetos que ajudem a comunidade. — Ele sorriu, os olhos pequenos pelo sorriso gigante aberto em seu rosto.
Mordi o lábio em nervosismo.
Aquele não era o emprego dos sonhos só por causa do salário, eu sabia que significava muito mais do que só uma carteira assinada.
está tão ansioso para a confraternização! — Praticamente berrei, empurrando para o lado e encarando Dodô diretamente nos olhos. Observei levemente preocupada quando bateu na mesa da recepção. Ops! — Nós estamos, na verdade. Estarei lá, com certeza. Não perderia por nada. — Encarei meu amigo, seus olhos meio arregalados e seus cabelos bagunçados. Ele também daria uma ótima pintura nesse momento, eu poderia chamá-lo de “Caos Mentiroso”.
— Ahã. — concordou e se colocou ao meu lado — Estamos mesmo. Muito.
Dodô nos encarou com uma leve curiosidade.
— Ai, o amor jovem… — Ele divagou — Que saudade… Poder chegar em casa tarde e acordar cedo sem enxaqueca… — Segurei a risada enquanto Dodô divagava sobre sua idade. agradeceu com o olhar, eu percebi.
Eu só esperava não me arrepender por aquela mentira.



Capítulo três




— Você está parecendo uma princesa! — Comentei enquanto enfiava um cheetos na boca.
— Eu não quero parecer uma princesa, quero parecer uma rainha poderosa e incrível capaz de derrubar qualquer pessoa apenas estalando os dedos.
— Então você quer ser o Thanos? — Sumarizei seus pensamentos, mas apenas piscou algumas vezes.
— Ele usava umas roupas bem bonitinhas.
Sairíamos dali quinze minutos para a confraternização da empresa. Tudo estava indo magicamente bem!
— Bruno está ok com essa situação, ? — Questionei mais uma vez, mordendo os lábios em nervosismo. Apoiei-me em meus cotovelos na cama, meus olhos seguindo a silhueta de no banheiro enquanto passava algo nos olhos. Cruzes, que treco é esse?!
— Uhum. — Ela murmurou concentrada.
— Certeza? — bufou e me encarou ainda segurando o treco de metal nos olhos — Você não vai perder os cílios com isso? Um trambolho desses no olho, gente… Pra quê?
— O nome disso é curvex, .
— Curvex, latex, eslatex, tanto faz, é bizarro. — Dei de ombros e deitei com a cabeça no travesseiro — Sinto muito mesmo por te fazer passar por isso.
— Se você falar isso mais uma vez, vou ser obrigada a enfiar esse curvex no meio da sua bunda! — Ela gritou do banheiro. Levantei a cabeça e gargalhei, rolando na cama preguiçosamente.
— Não quero ir, !
— Garoto, levanta. — apareceu pronta do banheiro. Bati palmas estrondosas.
— Você é a mulher mais linda do mundo. — Observei abrir um sorriso largo.
— Eu sei. — Ela piscou com seus olhos castanhos em minha direção. Sua pele estava coberta por um vestido cheio de estampas africanas, em seus pés repousavam sapatos fechados vermelhos. Ela parecia gritar luz e alegria.
Flexionei os dedos várias vezes em sua direção, e me puxou para cima.
— Vamos repassar o plano. — Recapitulei quando estávamos chegando ao endereço da casa de festas que meu chefe havia indicado.
— Claro, chefe.
— Você é minha noiva. — arqueou a sobrancelha enquanto dirigia.
— Ah, sério? É novidade essa parte.
— Sua ironia não é capaz de abalar minha confiança, ok? — Retruquei com um sorriso — Isso vai dar certo!
— Não gosto dessa confiança, . — comentou nervosamente.
— Quando meus cálculos de probabilidade já estiveram errados? — Questionei, meu peito estufando.
— Hã… Teve aquela vez que você acabou caindo numa vala naquela festa e—
— Cale a boca, foi só uma vez. Voltando ao assunto. — riu pelo nariz — Estamos juntos há três anos, somos bem tradicionais e já namoramos querendo casar. — assentiu e trocou de marcha, os barulhos das várias pulseiras encheram o carro.
Ela estava muito cheirosa naquele dia. O carro parecia exalar uma estufa do Jardim Botânico. Aquele era o perfume que eu dei para em seu aniversário do ano passado.
— Vamos nos abraçar, vou fazer sala com suas colegas e odiar seus colegas homens cis.
— Basicamente.
— Perfeito, já é o que eu faço naturalmente, não é? — Ela piscou em minha direção, os olhos delineados e dourados preencheram minha visão.
— Não sei como Bruno ficou ok com isso, sério.
— Bruno não precisa ficar “ok” com nada, . — retrucou, sua expressão um pouco mais séria e impaciente aparecendo — Eu sou sua melhor amiga. Faria qualquer coisa por você. — Ela repetiu e balançou a perna esquerda sobre a embreagem.
— Você mentiu por mim, sei o quanto odeia mentira. — Deitei a cabeça contra o estofado do carro. suspirou.
— Esse trabalho significa o mundo para você, não é? — Assenti — Então significa o mundo para mim.

*

A festa da empresa foi tudo o que uma empresa na cara da mídia por assédio sexual é: um porre. Vários casais preenchiam o jardim florido, contei pelo menos quarenta, todos conversando sobre queijos e vinhos que comeram quando foram para a Itália ou Campos do Jordão — os queijos são bem similares, como um colega fez questão de enfatizar.
Encarei do outro lado do jardim. Ela conversava animadamente com mais três mulheres. Por vezes elas me encaravam, e eu apenas sorria e acenava, e elas voltavam a rir. Como eu queria estar rindo!
— Você precisa mudar seu mindset, cara. Minha namorada é uma baita investidora, ela já deve estar chegando e vai amar falar sobre isso com vocês, paspalhos. — Consegui ouvir Pietro falar na roda. Controlei-me para não gritar.
Como eu queria estar na praia agora tomando sol e açaí!
— E você, ? O que acha sobre a bolsa atual? — Virei-me atentamente quando meu nome foi jogado na roda.
— Cara, investir na bolsa é o maior problema agora, mas o fundo imobiliário está rendendo bem. — Respondi. havia me dito isso no caminho para cá. Ela investia no fundo imobiliário, eu investia no tesouro direto.
— Você tem razão, e por falar nisso…
E Pietro desandou a falar sobre a Bolsa. Eu desandei a pensar no quanto a comida estava boa. Nada se compara a um bom e velho churrasco. Observei pisar falso em seu sapato com o canto dos olhos. Hm, aquilo não era boa coisa.
— Licença. — Disse aos meus colegas e atravessei o jardim rapidamente, passando ao lado da grande piscina decorativa.
Qual a graça de ter uma piscina gigante se eu não posso afogar Pietro nela?
Toda a estrutura do jantar da empresa era elegante. Havia tendas brancas espalhadas por todo o enorme jardim com diferentes alimentos. Em uma barra estava o churrasco, em outra, crepes de chocolate e queijo preenchiam o ar com o aroma de gordura saturada e açúcar.
Atravessei as tendas esvoaçantes e sorri para o moço do churrasco. Ele me veria muito mais ainda naquela tarde.
— Oi, meninas. — Sorri ao me aproximar da roda em que estava. Quatro rostos viraram em minha direção, inclusive — Posso pegar minha noiva rapidinho? — Elas assentiram e riram.
— Você é uma mulher de sorte, ! — A esposa de um dos funcionários disse para , mas sorria em minha direção. Interessante.
— Eu que sou o sortudo. — Respondi com um sorriso casto.
— O que houve? — questionou quando nos afastamos levemente da roda de conversa. Ela era mais baixa, então levantava o pescoço para me encarar. Olhei ao redor, todos estavam distraídos rindo alto e conversando.
— Você está bêbada? — Pisquei na direção de quando ela gargalhou em meu rosto, o cheiro doce de morango atingindo meu nariz.
— Estou moderadamente funcional.
— Vou tomar isso como um “não”. — Suspirei e ri — Não acredito que vou precisar te carregar para casa. Vai tomar uma água, mulher.
— Hm, descobri algo interessante. — Ela riu um pouco e seus olhos começavam a ficar pequenos, apoiando as duas mãos em meu peito coberto pela camisa social.
— O quê?
— Esqueci. — Ela gargalhou e apoiou a cabeça em meu peito, da mesma maneira como fazia há anos. Puxei-a pelo ombro e a encarei.
— Lembre.
— Ah, lembrei! — Ela riu novamente e suspirou — Flaviane está gamada você, cara. — Ela diminuiu o tom de voz. Encarei de soslaio Flaviane, a moça de cabelos ruivos e sorriso encantador que ria naquele momento. Trabalhávamos no mesmo corredor do escritório.
— Eu já sabia. — arqueou a sobrancelha.
— Sabia?
— Sabia. Ela já me ofereceu sexo. — piscou algumas vezes.
— Não acredito. E por que você não fez?! — Ela exclamou.
— Porque eu sou noivo, lembra? — Pisquei em sua direção, mas apenas permaneceu em silêncio, me encarando com seus olhos inquisidores.
— Você é fiel até à sua noiva falsa… — Ela suspirou pesadamente — Não contei ao Bruno que viemos. — Ela disparou.
Meu peito pareceu doer, como se eu tivesse levado um soco nas costas. Eu provavelmente levaria um quando Bruno soubesse desse nosso teatro.
Até agora havíamos feito um bom papel. Ninguém parecia desconfiar, não que houvesse alguém realmente interessado, mas as fotos dos funcionários possuíam poses minhas e de nos abraçando. Em um delas, eu beijava a cabeça de , ela gargalhava contra meu peito. O fotógrafo, o Denis do RH, disse que seria a foto do meu aniversário da empresa.
Ótimo.
— Por que não? — Questionei, mas encarou a piscina atrás de nós dois e suspirou.
— Ele sente ciúmes de nós dois. — sorriu com os dentes cerrados — Por isso.
— Mas ele não tem motivos para sentir ciúmes. — Afirmei e coloquei as mãos dentro do bolso.
— Eu sei disso! — Ela exclamou, parecia mais sóbria — Não queria ter outra briga por causa disso.
— Vocês brigaram? — Arqueei a sobrancelha e vasculhei em sinal de alguma mágoa — Nunca foi minha intenção me meter entre vocês, .
— Eu sei disso também. — Ela suspirou novamente.
— Mais uma foto do casal! — Denis gritou atrás de nós dois com seu cachecol amarelo balançando para os lados. virou-se com um sorriso gigante. Pai amado, ela era um camaleão!
Abracei-a por trás e apoiei minha bochecha ao lado da dela. Parecia um ensaio fotográfico de gravidez. Quando Denis sumiu entre flashes em outros funcionários, voltei a encará-la.
— Isso tem sido algo constante entre vocês? Essa discussão? — Abaixei meu tom de voz. Pude ver que desviava o olhar constantemente. Ela parecia chateada.
— Você não tem culpa por ele não confiar em mim. — Ela respondeu apenas.
— Mas isso é algo que eu posso evitar, não é? — Questionei.
parecia séria, e tinha razão em estar. Não era a primeira vez que um relacionamento de nós dois sofria do grande “vocês têm certeza de que não se gostam?”. Minha última namorada havia questionado isso um dia após transarmos (pois é, romântico). Permaneci a encarando sem qualquer reação.
“Você realmente está me perguntando se gosto de outra mulher depois de eu dizer que te amo pela primeira vez?”, questionei com total incredulidade na direção da loira deitada em minha cama. Ela terminou comigo dois meses depois. Havia achado um sheik e se mudaria para casar com ele. Não tive reação, apenas lembro-me de encarar chocado o celular quando ouvi o áudio do término. Onde diabos ela achou um sheik?!
— Acho que vou embora, . Não deveria ter falado sobre Bruno. — mudou o peso de um pé para o outro e cruzou os braços.
— Não, fica, por favor. — Estendi minha mão em sua direção — Depois falamos sobre isso, que tal? — encarou minha mão estendida e deu um tapa nela.
— Você vai fazer um aperto de mão com a sua noiva? — Ela arqueou a sobrancelha.
— Você é muito tradicional, sabe? — gargalhou e me abraçou de lado, sua mão envolvendo minha cintura.
— Vai se ferrar.
— Um doce. — Respondi ironicamente.
— Pessoal! — Dodô gritou de cima de uma mesa, chamando a atenção de todos presentes — Gostaria da atenção de vocês antes de encerrarmos nosso churrasco! — Observei enquanto meu chefe tentava se equilibrar.
— Minha pressão caiu só de ver isso. — sussurrou ao meu lado.
— Esses dias têm sido difíceis para todos, mas gostaria de dizer que está tudo bem. Esperamos que nenhum incidente como aquele ocorra de novo. — Cerrei os punhos dentro do bolso. Incidente? Observei ao redor. A maioria das mulheres estava com o semblante sério e fechado.
— Foi um crime, chefe. — Respondi alto, apertou minha mão ao meu lado. Dodô me encarou com o cenho franzido.
— Tem razão. — Ele cedeu rapidamente. Dodô não era muito orgulhoso — A partir de agora, teremos punições ainda mais rígidas para qualquer caso de assédio ou abuso na empresa. — Ele falou mais alto. olhou para baixo, mas fui capaz de pegar de relance um sorriso em seu rosto. Voltei a olhar para frente, um sorriso surgindo em meus próprios lábios ao vê-la sorrir.


— Você realizou perfeitamente a sua obrigação lá dentro. — comentou ao entrarmos no carro novamente. Ela estava do lado do carona agora, as pernas estavam cruzadas no banco, as camadas do vestido cobriam o banco, pegando parte do câmbio com o tecido.
— Eu fui um bom homem feministo? — Questionei.
— Esquerdomacho algum seria capaz de performar o que rolou ali. — Ela provocou, uma gargalhada gostosa escoando por sua boca.
— Ok, agora eu tenho direito a pedir um nude?
— Da Flaviane, com certeza.
— Eu estava pensando em um do Dodô. — gargalhou com a mão na boca.
Já estávamos cruzando a cidade novamente, um silêncio gostoso preencheu o carro.
— Obrigado por tudo. — Comentei enquanto batucava os dedos contra o volante.
Virei-me para quando paramos no semáforo vermelho. Ela assentiu.
— Foi divertido.
— Tudo é divertido quando se está bêbado. — cerrou os olhos.
— Eu não me arrependo de nada.
— Nem de topar essa insanidade comigo?
— Ah, sim, disso sim. — Ela riu — Não, na verdade, foi bem divertido.
— Agora você está livre dessa mentira, . Semana que vem vou anunciar nosso término para Pietro, ou seja, em dez minutos a empresa toda vai saber.
— Foi legal ser sua noiva por uma tarde, sabia? — Ela virou-se de lado no banco. Encarei-a de soslaio.
— Ah, é? Minha futura noiva vai ser uma mulher sortuda? Ou meu futuro noivo?
— Completamente.
— Ótimo. — Sorri para a avenida — O importante é que já foi, podemos dar risada disso.
— Ah, muitas risadas.
Mordi o lábio para controlar um sorriso. Eu não tinha ideia do quanto eu não riria daquilo no dia seguinte.



Capítulo quatro



O gosto de baba seca e chocolate invadiram minha boca assim que acordei. Minha cabeça girava e eu sentia a enxaqueca dando boas-vindas. Meus divertidamentes deveriam estar em pé de guerra. Levei um tempo até perceber por que minha cabeça doía tanto.
— Eu sei que você está aí! — Uma voz berrou pela porta.
Pisquei algumas vezes e levantei-me da cama rapidamente, minha pressão caindo no processo. Andei em direção à porta com a campainha invadindo o apartamento estrondosamente. Fenólio estava na casa dos pais, será que era uma namorada?
Patel Singh! Abra esta porta agora!
Travei antes de chegar à porta. A baba seca parecia um manjar divino se comparado ao gosto ruim que subiu por minha garganta. Tinha certeza de que vomitaria.
Abri a porta com um sorriso torto cafajeste pendendo nos lábios. Flora me encarava com os olhos semicerrados e as bochechas vermelhas.
— Oi, irmãzinha.
Mal pisquei antes que ela tivesse entrado pela porta.
— Por que diabos você não está pronto para ir ao aniversário de almoço do papá e da mamadi? — Fechei a porta atrás de nós dois e arrumei o calção na cintura.
— Porque eu não vou. — Dei de ombros. Caminhei até a cozinha, Flora vinha atrás de mim bufando e xingando.
— Isso é burrice.
— Burrice seria ir ao almoço, Flora.
Havia um motivo para alguns filhos de pais indianos quererem tanto sair de casa. O motivo da minha casa tinha nome e sobrenome: minha mãe.
— Papá quer sua presença. — Ri pelo nariz enquanto colocava leite no copo, ainda de costas para minha irmã. Senti o gosto ruim na boca piorar.
— Fico feliz que você tenha parado de tentar colocar mamadi na equação. — Mexi em meus cabelos compridos e coloquei meus óculos, que estavam em cima da geladeira. Era o único lugar que eu lembrava de pegá-los. Quem colocaria óculos na geladeira? Ninguém, por isso mesmo eu nunca os perdia, não havia outro local possível para colocá-los.
— Mamá te ama, … — Flora suspirou.
Virei-me para encará-la totalmente sem humor nos olhos e na expressão. Os cabelos compridos e negros de minha irmã estavam trançados em uma coroa em sua cabeça. Ela usava a roupa tradicional que mamá havia pedido que usasse, um sári de seis metros de comprimento enrolado no corpo de Flora. O batom vermelho destacava a pele marrom, e os olhos estavam marcados por um delineado que mamadi usava constantemente.
— Não vou discutir isso com você, Flora. — Retruquei sem ânimo, minha cabeça estalando — Vou voltar a dormir agora. Você pode fechar a porta quando sair? Não quero ser assaltado. — Sorri sem mostrar os dentes e passei por ela, indo em direção ao meu quarto.
— Mamá disse que é importante, e se você perder algo?! O que as pessoas vão dizer? — Flora insistiu, sua voz ecoando pelo corredor pequeno.
— Me encaminhe depois pelo WhatsApp. O último anúncio dela foi que a Versace havia enviado um vestido para ela testar o tecido. — Flora suspirou atrás de mim.
Larguei-me na cama e me cobri novamente. Fechei os olhos, mas eu sabia que Flora permanecia parada à porta com seu sári farfalhando contra o chão. Ouvi seus brincos tilintarem e seu colar bater em seu pescoço enquanto ela andava por meu quarto.
. — Ela suspirou pesadamente e sentou-se ao meu lado na cama — Por favor, por mim!
Arquejei e murmurei, abrindo os olhos novamente para encará-la.
— Vai ter álcool? — Flora revirou seus olhos.
— Eu por acaso iria a um almoço de família sem uma boa dose de álcool no sangue? — Ela bufou e riu.
— Me dê cinco minutos.
— Use o sherwani que mamá enviou mês passado.
— Não recebi. — Fingi tristeza, mas observei consternado quando Flora abriu meu guarda-roupa e tirou o sherwani pendurado do armário. Suspirei.
— É, não recebeu. — Flora jogou a vestimenta em minha direção.
Levantei-me da cama rapidamente e me tranquei no banheiro. Sabia que Flora só sairia da minha casa comigo ao seu lado.
Os almoços de família eram sempre regados a muita música, comida e ofertas. Peguei um remédio para enxaqueca na gaveta do banheiro, já prevendo o que me aguardava. Não sabia se estava sequer preparado para lidar com mamá, especialmente se ela tivesse escolhido aquela data para me apresentar a outra pretendente.
Da última vez, quando neguei a mamá uma noiva, ela pegou uma faca na cozinha e disse que seria seu fim. Lembro-me seriamente de sentir meu sangue gelar. Não estava pronto para passar por aquilo de novo, como no dia em que eu disse a ela que não seguiria a carreira de engenheiro.
“Você é meu maior desgosto”, ela disse no momento da raiva, nove anos atrás, quando anunciei querer ser jornalista.
Naquele mesmo ano, apliquei para engenharia no vestibular. Quando passei, mamá disse com um aceno de desdém: “Ok. Agora vamos te arranjar uma esposa”.
Lembro-me de chorar de ódio no colo de Flora. Ela sabia o que eu sentia. Na realidade, entendia ainda melhor. A única pessoa que sofria mais na mão de mamá era Flora. Ela estava prometida em casamento para um médico indiano que havia feito a proposta para meus pais. Estamos no século XXI, mas isso não significava que alguns costumes haviam sumido.
Eu era um dos únicos homens indianos capazes de serem motivo de desgosto pras suas mães. Essa só era a prova de que eu realmente havia pisado na bola em algum momento. Um filho homem ser motivo de desgosto constantemente? Hm.
Mamá também sabia disso, então creio que por isso ela seja tão dura comigo, para que eu em algum momento ceda e seja um bom filho, o filho que ela espera que eu seja.
Sei que mamadi, no fundo, talvez bem no fundo, ache que quer fazer isso para nosso bem. Somos de gerações diferentes e criados em países diferentes com culturas diferentes. Por isso o diálogo era impossível. Mamá sempre ganhava as discussões, e consequentemente Flora se casaria dali cinco meses.
Sentia-me mal. Nunca falamos sobre isso, mas questionei-me se o motivo de Flora não ter se revoltado ainda era porque eu havia feito isso primeiro, como se ela não quisesse ser a segunda decepção de mamá. A sensação invadiu meu peito com força novamente. Não sabia se algum dia teria coragem de descobrir a verdade.
! mandou mensagem! — Flora gritou do outro cômodo. Enrolei-me na toalha e coloquei a cabeça para fora do banheiro.
— Dê-me o celular. — Estendi a mão. Flora colocou o celular em minha mão, e voltei-me a trancar no banheiro.

Hoje não é o aniversário de casamento dos seus pais?

Sua mensagem piscava na tela.

É, pois é.

Por que você não falou nada?

“Não achei ser relevante

Bloqueei o celular e coloquei o sherwani cobalto com detalhes floridos prateados costurados à mão. Fios de prata desciam pela gola do sherwani e formavam um colar sobre meu peito. Arrumei o tecido fino e coloquei a calça social da mesma cor combinando. Estranhei mamá não ter colocado um salwar para que eu usasse, uma calça folgada que é mais justa no tornozelo, mas não questionei. Mamá não poderia ser questionada sobre seu gosto de moda. Na verdade, sobre nada.

Estou na torcida por você. E lembre-se que sua mãe te ama, . E você esqueceu sua carteira comigo. Você precisa parar com esse costume de esquecer tudo em qualquer lugar. Meus pais foram viajar, então estou sem fazer nada. Me avisa quando quiser ir embora dos seus pais, te levo a sua carteira e podemos ir tomar um sorvete. Boa sorte, vai dar tudo certo.”

Li a mensagem de e sorri. Ela era positiva a todo momento, como isso era possível? Acho que em parte era porque não conhecia mamá, mas conhecendo bem , ela tiraria o melhor da experiência de conhecê-la pessoalmente.
— Hm, que lindo! — Flora exclamou quando voltei para o quarto.
Sentei-me na cama e deixei que minha irmã arrumasse meu cabelo, como ela gostava de fazer quando morávamos juntos sob o mesmo teto. Observei-me no banheiro em seguida. Parecia um perfeito filho, pronto para obedecer seus pais e se casar para ser miserável pelo resto da vida. Que coincidência absurda eu estar fingindo estar noivo quando a pura ideia me causava desespero.
— Acha que mamá vai tentar me apresentar a outra mulher hoje? — Questionei quando descemos o elevador. O porteiro nos encarou descaradamente quando passamos pela portaria.
— Não sei. — Ela respondeu cantarolando.
— E seu noivo?
Resolvi ser cauteloso em minhas perguntas acerca daquele assunto. Eu e Flora não conversávamos tanto quanto eu gostaria, então eu não conseguia saber em que pé estavam as coisas.
— Está tudo ótimo, ! — Ela exclamou sorridente — Eu dei muita sorte.
Tentei buscar nela algum sinal de mentira ou de nervosismo, mas não encontrei. Franzi o cenho. Alguém poderia ser feliz naquela situação?
— E ele vem hoje? — Questionei novamente enquanto dirigia em direção ao caminho tão conhecido por mim.
— Uhum. — Ela murmurou.
— Por que está agindo estranho?
— Por nada. — Ela deu de ombros.
Permanecemos em silêncio até chegarmos ao casarão de nossos pais.
Papá era um dos acionistas de uma rede de shoppings em São Paulo. O contador dele havia indicado que papá investisse seu dinheiro no Fundo Imobiliário há quinze anos, e de alguma maneira absurda papai virou um dos acionistas majoritários. Agora mamá poderia usar Versace sem sequer arranhar a fortuna deles.
Adentramos pelos jardins floridos e bem podados após abrirem a porta para nós. O carro esmagava os pedregulhos da entrada do pátio. Estacionamos ao lado de alguns carros já estacionados. A casa se estendia diante de nós com seus tijolos bem colocados e janelas de madeira maciça.
Mamá queria dar a impressão de uma casa rústica. Bem, ela conseguiu.
— Por que você está tão calmo? — Flora perguntou finalmente quando já subíamos a pequena escada de placas de granito até a entrada da casa.
— Porque eu já estou acostumado com isso? — Falei em tom de questionamento.
— Nossa, quando foi a minha vez eu estava bem mais ansiosa.
— Do que você—
Ia começar a questionar, mas isso até uma bola de pelos gigante pular em meu colo.
— Fiona! — Exclamei e dei pequenos beijos na cabeça da pitbull da família. Seu corpo pesado fez com que eu precisasse me agachar para poder fazer carinho em sua orelha.
— Tem pêlo no seu sherwani. — Flora apontou. Levantei-me e limpei alguns pêlos do peito com a mão — Estou muito feliz por você. — Flora disse novamente, os olhos brilhando com algumas lágrimas tímidas.
— Obrigada, Flora. — Beijei sua testa e caminhamos juntos por entre a porta.
Lá dentro, algumas pessoas estavam deitadas em divãs e sentadas nos tapetes persas importados de mamá. Milhares de estampas coloridas giravam pela sala de jantar e pela sala de estar, as primeiras que víamos assim que entrávamos na casa. Pinturas de meninas brincando estampavam a parede atrás dos sofás, e um lustre pendia no meio da sala. Aquele lugar cheirava à infância. Por alguns instantes, esqueci-me do meu nervosismo e me senti em casa.
Fomos cumprimentados por alguns tios, como chamávamos os anciãos indianos do círculo de amizade dos nossos pais.
Flora foi interrompida por algumas tias, que a puxaram para longe provavelmente para falar do casamento e sobre como ela precisava emagrecer se quisesse manter seu marido.
Continuei a caminhar até a cozinha.
O cheiro de curry de peixe invadiu completamente meus sentidos. Seria um baita almoço, então! Entrei na sala à direita, dando de cara com a imensa cozinha, que dava para os fundos da casa. Mamá estava ali com toda a sua exuberância e cores vermelhas.
— Mamadi. — Sorri em direção à minha mãe quando ela levantou o olhar da panela para me encarar.
Estava caótico dentro da cozinha. Três funcionárias corriam de um lado para o outro preparando os pratos para serem levados à mesa baixa na sala de jantar. Além disso, observei bandejas serem apoiadas na mesa com diversas entradas.
Ah, por isso não havia tanta gente ainda. A maioria deveria estar do lado de fora conversando. Chegamos antes do almoço ser servido.
! — Ela exclamou e sorriu por trás da fumaça que subiu da panela ao abrir a tampa — Este tempero está bom, mas falta alguma coisa. — Ela indicou a uma das funcionárias e afastou-se do fogão — Você veio, hein? Achei que fosse dar uma desculpa esfarrapada.
Mamá era uma mulher de um metro e cinquenta com os olhos mais assustadores do mundo.
— Eu não faria isso. — Tentei sorrir confiante, mas mamadi apenas passou por mim, indo em direção à sala.
— E sua irmã? — Ela questionou e sorriu para um dos convidados recém chegados.
— Com as tias. — Respondi sucinto, mas percebi que ela já havia acabado sua fração de atenção direcionada a mim. Agora ela ria e falava em hindi com o convidado. Eu tinha certeza de que ele era um produtor de filme.
O círculo de amizades de nossos pais era estranhamente misturado. Mamadi parecia moderna se comparada aos outros indianos que eu conhecia, mas isso era só o exterior. Quando ela descobriu sobre minha sexualidade, me jogou para fora de casa e chorou ao dizer: "Você foi a desgraça dos deuses sobre nossa família". Devo dizer que meu aniversário de dezoito anos foi muito divertido.
Balancei a cabeça em uma tentativa inútil de me livrar das memórias constrangedoras daquele dia, então parei o garçom ao meu lado e peguei um drink extremamente doce da bandeja. Mamadi amava misturar a cultura brasileira à cultura indiana em tudo o que fazia. Ela costumava dizer não gostar muito do Brasil e sentir saudades de seu país, mas sequer cogitava voltar para lá. Eu sabia que ela amava este país tanto quanto eu e minha irmã, mas não queria perder a pose diante de seus amigos.
— Você está precisando de algo mais forte do que esse drink, não é? — Virei-me a tempo de ver Kadir, o noivo de Flora, sorrindo para mim. Ele tinha um sotaque do sul forte. Sorri em sua direção e apertei sua mão.
— Você não tem ideia, cara.
Kadir tinha olhos castanhos e uma barba cheia, mas era estranhamente harmonioso. O verdadeiro indiano que mamá desejava para Flora. Contive um suspiro de frustração, os questionamentos acerca da rebeldia contida de Flora ainda afloravam em minha mente imaginativa.
Eu precisava de algo mais forte.
Continuei conversando com Kadir sobre seu trabalho (estava tudo ok, mas havia um novo cirurgião sendo racista com ele) e sobre os detalhes do casamento (Flora ainda não havia escolhido o vestido de noiva, e os dois estavam indecisos entre tulipas e rosas). Surpreendi-me ao perceber que Kadir estava inteirado sobre os detalhes do casamento, que gostaria de fazer parte de todo o processo de preparação, não apenas chegar ao altar e dizer as palavras mágicas. Talvez Flora estivesse certa, talvez tudo estivesse 'ok' entre eles dois. Talvez ele fosse alguém legal, afinal de contas.
Fui até a cozinha e peguei uma garrafa de bebida que meu pai deixava guardada para ocasiões especiais. Nada mais especial do que o aniversário de um casal, certo?
— Você nunca foi muito cuidadoso para pegar minhas bebidas. — Virei-me para trás rapidamente com a garrafa em mãos.
Senti-me novamente com dezessete anos, quando meu pai me pegou pela primeira vez com a bebida em mãos. Desde os dezesseis anos, eu pegava a garrafa às vezes apenas para bebericar e devolvia de volta para o esconderijo atrás dos pratos chineses.
Uma noite, após mamá ser um doce de pessoa comigo e com Flora, desci até a cozinha e peguei a garrafa, virando-a direto na boca. Dei três goles cheios de fúria e amargura antes de observar papá me encarando na porta.
— Vícios são criados quando coisas aparentemente inofensivas servem para te fazer esquecer da sua realidade.
Papá não me repreendeu, não me bateu, nada disso. Ele parecia cansado, como se vinte anos houvessem sido adicionados às suas feições, contrastando com a felicidade que ele mostrara durante todo o dia com nossa família. Mas ali, de madrugada, com a casa inteira dormindo e apenas nós dois acordados, ele parecia verdadeiramente exausto.
— Desculpa. — Sussurrei olhando para baixo.
— Guarde isso e vá dormir. Nunca mais beba quando se sentir triste ou irritado, está me ouvindo? — Assenti, meus olhos ainda fitando o chão.
— Sim, papá.
— Ótimo. Faça algo diferente. Compre ações na bolsa, leia um livro, vá para a academia, mas não estrague a sua vida. Não te criei para ser um alcoólatra.
Papá se virou em seu pijama com uma blusa de vereador e uma calça de seda. O contraste de quem pensavam que ele fosse e de quem ele realmente gostaria de ser. Aquela imagem permaneceu comigo por muitas noites após aquela, e permanecia naquele momento.
— Não estou bebendo para esquecer nada. — Afirmei prontamente quando ele se aproximou de mim, mas guardei a garrafa apenas para desencargo de consciência.
— Acho difícil acreditar nisso. — Ele respondeu com um riso nasal. Sentou-se na caldeira em frente ao balcão. As cozinheiras estavam no momento arrumando a mesa tranquilamente, eu pude observar pela brecha na sala de jantar.
— Feliz aniversário de casamento. — Sorri para ele, e papá sorriu.
— 47 anos de casados é muita coisa. — Ele comentou enquanto abria uma das panelas com sopa de peixe — Nem acredito.
— Vocês são felizes? — Questionei, meus olhos se recusando a encarar meu progenitor.
Papá demorou a me responder. Eu sabia que conversar sobre sentimentos, sobre nossa vida pessoal, nada daquilo era comum, mas não éramos uma família completamente indiana ou completamente brasileira, então precisávamos pegar o melhor de cada cultura.
— Felicidade é algo complexo para se discutir após tanto tempo juntos. — Ele foi cauteloso em sua resposta. Assenti — Acho que somos felizes, sua mãe é, pelo menos.
Mordi o lábio. Eu sabia que papá se entristecia em algum nível pelo materialismo de mamá. Ele havia feito tudo em sua vida por ela. Enfrentara o papá de mamadi e pediu a mão dela em casamento no dia da festa de noivado de mamadi com outro homem.
Todas as ações de investimento foram ideias de mamá, mas papá não se importava tanto assim com o dinheiro, tinham o suficiente para nos criar bem, porém mamadi não se contentava com aquilo, então papá fez mais. Sempre mais.
— Você ama a mamá? — Perguntei mais uma vez. Papá mudou o peso de uma perna para outra.
— Amor é para jovens, .
E com essa conversa íntima, voltamos para a sala. As mãos grandes e calejadas de papá deram tapinhas em minhas costas. Ele usava um salwar branco sob seu sherwani dourado e branco. As cores realçaram sua pele mais escura que a minha.
Mamadi aguardava na ponta da mesa. A comida estava toda servida, e os convidados já estavam ao redor da mesa baixa. Papá se aproximou, ainda em pé, e tomou o lugar na ponta da mesa, mamadi se colocando atrás dele.
Coloquei-me ao lado de Layla, minha prima de terceiro grau. Ela não usava a vestimenta tradicional, mas um vestido com estampas coloridas e cabelo adornado com fios de prata.
— Você está muito elegante, quase da realeza. — Ela sorriu de canto enquanto as pessoas ainda conversavam antes da refeição ser servida. Sentei-me com as pernas cruzadas, a opção de talheres ao lado dos pratos estava lá para aqueles que se sentissem mais confortáveis comendo como os ocidentais, como mamá dizia.
Encarei os talheres com certa relutância, o meu lado adolescente gritando pela aprovação dos meus pais, para que eu comesse com a mão, como era costume, apenas para que eu, por um instante que fosse, pudesse ser mais parecido com eles e não com os brasileiros ao meu redor.
— Você está muito bonita também, Layla. — Respondi ao comentário com um sorriso.
Papá deu as graças frente ao altar destinado aos deuses. Fiz a prece como lembrava-me quando era mais novo, as palavras deslizando por meus lábios com tamanha familiaridade que poderia parecer quase natural, se não fosse pela minha pronúncia errada de uma das palavras, que acabou saindo mais alto sobre as outras pessoas.
Não ousei abrir o olho, sabia que mamadi estaria me encarando mesmo com os olhos fechados. Droga!
Quando abrimos os olhos, todos começaram a comer. A música voltou. As pessoas riam e conversavam entre si. Negócios eram fechados, casamentos eram discutidos. O resultado do jogo do Corinthians e do Palmeiras virou tema em algum momento.
Levantei-me da mesa para pegar um copo d'água após engasgar, mamadi me seguiu com o olhar quando pedi licença da mesa. Layla me acompanhou enquanto dava tapinhas em minhas costas.
— Você não sabe comer devagar? — Ela ralhou me entregando um copo d'água. Engoli rapidamente o conteúdo, meus pulmões estavam voltando a se lembrar como funcionavam. Limpei meus olhos lacrimejantes.
— Acho que desacostumei com a pimenta. — Layla arqueou a sobrancelha.
— Você tem estado desacostumado com muitas coisas — Ela provocou, os olhos passando por meu sherwani —, menos com uma. — Franzi o cenho em sua direção enquanto enchia outro copo d'água. As cozinheiras nos ignoravam, mas pareciam incomodadas com nossa presença na cozinha cheia. Levei Layla para um canto.
— Como assim? — Layla revirou seus olhos delineados.
— Sua noiva. — Ela respondeu simplesmente, e eu senti o engasgo voltar novamente.
Meu peito doía enquanto a tosse saía descontrolada por meus lábios.
— Como você sabe disso? — Exclamei com os olhos arregalados. Olhei ao redor da cozinha, mas as cozinheiras estavam desinteressadas.
— Eu fui ao churrasco ontem. — Ela comentou como se fosse óbvio — Meu namorado, o Pietro, me chamou. Eu cheguei no final, fiquei presa no plantão do hospital. Te vi saindo no carro com uma mulher muito bonita. Pietro me disse que era sua noiva.
Pietro, linguarudo de merda!
Pisquei algumas vezes, meus olhos percorreram seu rosto atrás de algum sinal de brincadeira, mas ele não estava lá, apenas um humor cômico de quem pegou um amigo fazendo alguma bobagem e se divertisse com a situação.
— Não é o que você está pensando, eu-
— Não precisa se explicar! — Ela interrompeu com uma expressão de desdém — Você não me deve satisfações, mas vai deixar sua mamadi feliz. Ela é indiana, não é? Sua noiva. — Pisquei novamente, ainda atordoado.
— Sim. Ela é.
era, na verdade, filha de mãe brasileira e pai indiano. Meio brasileira e meio indiana, assim como eu, mas de maneiras diferentes.
— Mas, novamente, não é isso o que-
Fui interrompido por uma figura de um metro e cinquenta e olhos grandes vidrados em mim.
— Está tudo bem? — Mamadi questionou. Assenti rapidamente. Encarei Layla quase suplicando, mas eu não precisava dizer nada.
Minha prima sabia que mamadi não estava sabendo do noivado. Se soubesse, já teria chamado toda a Índia para uma festa de noivado. Além disso, teria gritado comigo durante três horas por não ter falado com ela antes. Imaginar um cenário caótico em que mamadi descobria sobre meu noivado fez meu peito acelerar.
Acompanhei mamadi e Layla de volta à mesa e sentei-me, mas minhas pernas tremiam mesmo após ter permanecido sentado. Eu sentia meu corpo implorar para me levantar e andar pela casa. Odiava sentar à mesa para almoçar ou jantar, não conseguia permanecer mais do que cinco minutos sentado sem bater com os pés no chão ou estralar os dedos.
— Tenho um anúncio a fazer! — Mamadi exclamou com os olhos cheios de alegria.
Encarei Flora do outro lado da mesa com o cenho franzido, mas ela também sorria. Seu olhar se desviou do de mamá para o meu rosto, e quando ela percebeu minha confusão, seu semblante tornou-se sério.
O que estava acontecendo?
Papá parecia tão perdido quanto eu, mas eu só havia percebido isso porque sua sobrancelha subiu e desceu rapidamente, tão rapidamente que somente alguém que o conhecia há mais de vinte anos poderia perceber.
— Teremos um casamento! — Ela exclamou. Meu peito apertou, senti que iria desmaiar — Como sabem, Flora e Kadir se casarão ano que vem.
Mal pude esconder o alívio que tomou minha existência. Minhas mãos suavam tanto que eu precisei limpá-las contra minha calça.
Mas isso não me preparou para o que veio em seguida.
— E meu filho, , vai se casar também!
De repente, todos os olhares estavam voltados para mim. O curry pesou em meu estômago enquanto mamá me levantava e me levava para a ponta da mesa.
— Eu nunca estive tão orgulhosa de você. — Ela sorriu para mim com os olhos lacrimejando. As pessoas ao nosso redor comemoraram, risadas altas foram ouvidas enquanto meus parentes faziam piada sobre papá perder os dois filhos de uma vez — E mais tarde espero que você me explique por que eu descobri sobre o seu noivado através de outra pessoa, não de você. — Ela sussurrou perto de mim, longe da visão dos convidados. Merda!



Capítulo cinco




Abri a porta de casa com um suspiro e larguei as compras sobre a mesa. Observei as toalhas jogadas sobre o sofá e o pote de pipoca na mesa de centro. Bruno não parecia estar na minha casa.
Na noite passada, havíamos brigado tão feio que uma vizinha havia descido para perguntar estava tudo ok comigo. Respondi que sim. E estava. Bruno nunca ousou levantar a mão para mim, mas era difícil discutir com uma pessoa que fala tão alto quanto você. Nós dois somos explosivos, a situação não poderia ser pior.
Contei a ele sobre o plano de . Vi suas feições mudarem de confusão para escárnio quando contei toda a história.
— Você realmente acha que ele fez isso sem querer, ? — Bruno questionou, seus olhos verdes fitando os meus. Ele estava andando pelo quarto.
— Acho que ele pensou na pessoa mais próxima a ele. — Dei de ombros.
— Não, ele pensou na pessoa mais ingênua e que fosse cair no papo dele. — Franzi o cenho.
— Está dizendo que me manipulou? Mas eu topei participar disso com ele!
— Não, você só topou porque ele não te deu escolha. Você teria topado isso se houvesse outra alternativa? Não. Ele te colocou contra a parede. Você aceitou porque é ingênua. — Pisquei algumas vezes ainda incrédula com seu discurso.
— Eu sou amiga dele há anos, faz sentido ter pensado em mim primeiro.
— Por que ele não pensou em uma ex-namorada? — Questionou Bruno, e eu não soube responder — Viu só? É óbvio que ele é apaixonado por você, ! Olha isso, ele está tentando te roubar e você sequer percebe!
— Ei, ei, ei! — Levantei a voz e me coloquei em pé — Me roubar? Você acha que isso é um ataque contra você? — Cruzei os braços.
— Não é isso que eu quero dizer. — Ele se retratou e passou as mãos pelos cabelos louros. Permaneci em silêncio até que ele me encarasse novamente — Eu só estou cansado de tentar te ganhar todas as vezes que ele aparece.
Não soube como responder.
— Mas eu sou sua, Bruno. — Respondi mais calma e me aproximei dele. Deslizei meus dedos por sua nuca. Bruno me encarou.
— Não parece, nunca pareceu. Toda vez que estamos bem, ele aparece e a gente briga. Estou cansado, . — Afastei-me dele.
— Está terminando comigo? — Questionei completamente incrédula.
— Não, estou te dando uma última chance. Eu não queria ser o tipo de namorado que faz isso de "ou ele ou eu", mas…
— Ou ele ou você. — Respondi por ele. Bruno permaneceu encarando o chão, e lágrimas de raiva subiram por meus olhos — Isso não é justo, Bruno. Eu nunca te dei motivos para desconfiar de mim. Está sendo irracional! Eu nunca te trairia, e você sabe disso. — Àquele ponto, lágrimas grossas e quentes rolavam por meu rosto. Bruno me encarou. Minha voz vacilou.
— Sei disso, mas não confio nele.
— Mas você não namora com ele, namora comigo! — Exclamei novamente, agora as lágrimas deslizavam com facilidade — Você nunca confiou em mim, Bruno! Nunca!
Suspirei e sentei-me na cama. Bruno permaneceu em pé.
— Já dei minha alternativa final. — Ele respondeu apenas.
Levantei-me e saí de casa naquela noite. Dormiria na casa de uma das meninas, não queria estar ali. Se Bruno quisesse, ele que voltasse para sua casa, mas imaginei que não iria. Ele não gostaria de estar naquelas condições com seus colegas de apartamento.
Por isso, quando cheguei em casa no dia seguinte e vi tudo revirado, imaginei que fosse algum tipo de vingança da parte dele, e aquilo me doeu o coração.
Ele realmente estava fazendo aquilo?
Peguei as toalhas e as levei para a máquina de lavar. Aspirei o chão. Lavei o banheiro. Deixei a casa brilhando novamente. O cheiro de lavanda a enchia inteiramente. A única parede colorida, de um verde água brilhante e divertido, guardava imagens minhas e de pessoas que eu amava em um pequeno varal de polaroids.
Observei uma foto minha e de . Nossa primeira semana de aula. Estávamos pintados e com farinha na cabeça. Nossa faculdade havia abolido o trote, então fizemos com nossos colegas. Eu estava em suas costas, ele me carregava com as mãos segurando minha panturrilha e eu ria com a cabeça para trás.
Será que Bruno estava certo? Apoiei-me na vassoura em minha mão e limpei o suor da testa com o antebraço. Permaneci fitando a imagem. teria feito aquilo de propósito?
Peguei meu celular ao lembrar que era dia do aniversário de casamento dos pais de . Ele havia comentado comigo na noite anterior.
Sorri ao ver a foto que ele havia mandado de si mesmo usando um sherwani tão escuro que poderia ser preto, se não fosse pelos detalhes em prata que mostravam o tom azulado da vestimenta. Os cabelos estavam penteados perfeitamente, seus olhos brilhavam com uma malícia divertida, como se pudesse sair pulando e gritando pela rua como uma criança.
Não, não havia feito aquilo de propósito.
"Vou passar aí nos seus pais para te levar a sua carteira. Que horas vai acabar o evento?"
Enviei a mensagem e coloquei o celular sobre a mesa. respondeu prontamente.
"Pode vir quando quiser, estou doido para ir embora. Me encontra na rua atrás da casa, pode ser?"
Franzi o cenho.
Eu nunca havia questionado por que ele nunca havia me levado para conhecer sua família. Não que fosse uma obrigação, obviamente, mas vivia grudado com minha família em nossas viagens, isso até ano passado, quando comecei a namorar Bruno e ele passou a ser minha companhia. Nunca estranhei, mas ao ler aquela mensagem, percebi que ele sempre dava jeitos de me manter o mais longe possível de qualquer membro de sua família. Até mesmo de Flora, sua irmã.
"Ok."
Respondi apenas.


*


Quando cheguei à rua atrás da casa dos pais de , senti algo diferente em meu peito. Como se algo estivesse muito errado.
Minha mãe costumava dizer que sua família era sensitiva. Eu orava todos os dias para que não fosse verdade. Paranormais eram os primeiros a perceberem demônios em casas assombradas. E a morrer também. Eu não queria morrer agora.
Avisei a que o esperava. Observei quando ele virou a rua. À luz do dia, ele parecia um membro da realeza, se é que eu poderia descrever um membro da realeza. Os fios prata em seu peito reluziam ao sol cortante. Seus braços longos estavam cobertos pela manga comprida do sherwani, fios pratas contornavam a bainha. Botões muito caros, eu apostava, estavam bordados em uma linha vertical em seu tronco. O lado esquerdo do peito dele era bordado de flores pratas também. Um sorriso gigante estampava seu rosto. Esqueci-me por um momento da raiva que sentia.
— Quanto é a hora? — Questionei com a voz engrossada. apoiou-se com a cabeça na janela e sorriu.
— De graça para você, princesa. — Ele piscou, ou então era o sol forte em seus olhos, fazendo com que seus olhos ficassem pequenos.
— Aqui. — Estendi a carteira em sua direção. agradeceu e bateu com a carteira contra a palma da mão. Observei-o melhor. Ele parecia nervoso, na realidade — Almoço difícil? — Questionei e apoiei a cabeça contra o estofado do carro.
— Está mais para desastre. — Ele sorriu meio desconfortável.
Preparei-me para perguntar o que havia acontecido quando observei outra silhueta parada na esquina da rua. Ela usava uma vestimenta tradicional que as tias indianas do templo usavam.
— Hã, . — Pigarreei quando a mulher começou a se aproximar.
virou a cabeça, seus olhos se arregalaram, e eu pude jurar que ele estava ficando pálido. Quando observei melhor quem se aproximava, senti até mesmo meu peito palpitar com mais força.
A mãe de era inconfundível. Ele já havia me mostrado fotos, descrito, mostrado vídeos, mas mesmo sem nada disso eu poderia reconhecê-la. Seus olhos eram grandes e contornados por um delineado perfeitamente marcado, algo que eu não costumava ver em mulheres mais idosas. Os lábios estavam pintados de vermelho, e um grande sári azul descia por seu corpo pequeno e magro misturado em estampas laranja e vermelho. Ela parecia flutuar no asfalto quente enquanto se aproximava de nós. Brasa pronta para nos engolir.
? — Questionei desviando a atenção da mulher para encará-lo, mas não tive tempo. Ela alcançou o local ao lado do filho no mesmo momento em que eu saía do carro.
— Então você é a noiva do meu filho.



Capítulo seis



Eu estava trancada no banheiro há exatos três minutos. A janela atrás de mim parecia pequena demais pra saltar. E se eu fingisse um desmaio? Ou se eu fingisse estar perdida e não saber meu nome? E se eu chorasse até eles terem piedade de mim?
Hm, ótimas opções, mas nenhuma delas parecia me livrar do olhar que a mãe de lançou em minha direção no momento em que a cumprimentei.
estava te escondendo? — ela questionou direta após uma troca de amenidades nada amenas. Seu sorriso parecia gentil, mas não chegava aos olhos.
Encarei quase implorando por misericórdia.
— Mamadi, podemos falar sobre isso lá dentro? já estava de saída — a mulher de pele escura arqueou a sobrancelha.
— Você ficou noivo e não me contou, agora não quer que eu conheça sua noiva? — ela parecia resignada e alternou seu olhar entre nós dois. — Você engravidou essa moça? — ela perguntou em um hindi rápido.
— Receio que não, senhora. — respondi em hindi também. Minhas bochechas estavam queimando de vergonha. A mulher nos encarou em silêncio.
— Diga-me, você é indiana, ?
— Sim, por parte de pai.
— Então você é mestiça — ela balançou a cabeça levemente. — Já é alguma coisa.
Precisei controlar o desconforto, mas não pareceu se incomodar em ser discreto. Uma careta surgiu em seu rosto na mesma hora.
— Mamadi, a verdade é que não é isso que você está pensando… — começou. Seus olhos encontraram os meus. Eu não estava pronta para aquela cena. Desviei o olhar para o para-brisa sujo do carro. Por que bendição precisava ter esquecido a merda da carteira?!
— Filho, eu sei que fui muito dura com você nos últimos tempos — a mãe de o interrompeu com um sorriso. — Mas tudo o que eu sempre quis foi te ver feliz, e você parece estar feliz com a Safira.
a corrigiu. A mulher assentiu rapidamente, descartando a correção. Senti meu estômago pesar.
— Eu estou tão orgulhosa de você — ela sorriu largamente, os olhos lacrimejavam. — Eu estive orando e pedindo tanto pelo seu casamento, e agora você trouxe uma mulher muito bela para casa.
Esperei que cortasse sua mãe e dissesse que era uma brincadeira e falasse a verdade. Continuei esperando em silêncio, mas ao olhar para o lado, vi que lágrimas tímidas escorriam por seu rosto. estava chorando junto com a mãe.
Lembrei-me de todas as histórias que meu amigo havia me contado acerca de sua infância, sobre a dor que ele sentiu quando sua mãe descobriu sua sexualidade, como o desprezou e o trouxe de volta para casa depois de um ano, sobre como ela torcia em todos os jantares de família para que ele aparecesse com uma noiva.
Uma vez, no nosso terceiro ano da faculdade, bebeu demais e chorou em meu ombro. Lembro-me de fazer carinho em sua cabeça enquanto ele dizia ser o fardo da família.
Perguntei-me se era a primeira vez que a mãe de dizia algo daquele tipo para ele, e o pensamento me fez querer chorar junto. Eu só havia visto meu amigo chorar três vezes, e as três envolviam sua mãe.
Queria poder pegar a dor de para mim, mas sabia que as coisas não funcionavam daquela maneira. Eu já havia tentado algumas vezes.
— Acho que posso ficar um pouco, senhora — respondi para a mulher quando ela me encarou. As lágrimas haviam secado e um sorriso pendia em seu rosto. me encarou de soslaio e limpou as lágrimas com a manga do sherwani.
Eu poderia me resolver com mais tarde. Pensaríamos em um jeito de acabar com esse noivado falso com calma e paciência, mas naquele momento eu só queria que ele aproveitasse a aprovação de sua mãe, mesmo que fosse de mentirinha.


*


Sempre me questionaram por que não minto. Respondo instantaneamente “porque mentir é enganar e mentir mata”. As pessoas costumavam ficar quietas quando recebiam essa resposta e refletiam sobre ela.
A mentira já havia destruído tanto da minha vida enquanto eu crescia, então estava decidida a não mentir, mesmo quando aquilo significava uma consequência pesarosa para mim.
Mentira pode ter perna curta, mas quem disse que pernas curtas não podem causar um estrago equivalente a um tanque de guerra? Exato. Ninguém disse. Provavelmente porque mentirosos não vivem tempo o suficiente para contar uma história.
Não importa se a mentira dura mil anos ou um segundo, ela ainda faz algum estrago maior do que se pode imaginar, o que muda é o tempo de duração do estrago.
Naquele momento, enquanto a família de me cumprimentava e me perguntava detalhes sobre o casamento, senti que a perna curta daquela mentira estava prensada contra minha garganta e pronta para me esmagar.
— Vocês já decidiram o local? — virei-me assustada quando Flora, irmã de , aproximou-se animada da roda de tias que me circulava.
Ela era linda. Os olhos claros contrastavam com a pele escura, e seus cabelos presos em uma trança me fizeram questionar se toda a família de seria daquele jeito: linda de tirar o fôlego.
Eu já havia conversado com ela uma vez no meu primeiro ano de faculdade com , mas havia sido pelo celular dele. Já havia pedido a ele várias vezes para nos apresentar, mas sempre dava alguma desculpa. Imaginava que envolvesse os olhares animados dela em minha direção pior causa do casamento falso, como se esperasse que fôssemos cunhadas e melhores amigas. Eu queria ser melhor amiga dela, sem problemas. Mas cunhada era um passo complicado.
— Não, ainda não decidimos nada. É muito recente — respondi sem jeito.
Percebi que uma das mulheres, talvez uma das únicas do recinto a não estar surtando por causa do casamento, nos encarava de longe. Usava um vestido vermelho e seus olhos perfeitamente delineados miravam minha pele, que queimava sob seus olhares. Observei quando ela se aproximou, mas passou reto por nós, indo na direção de .
Coloquei o cabelo atrás da orelha enquanto olhava levemente para trás, tentando ouvir enquanto conversavam.
Ei, eu sei que é errado!
Mas ele era meu noivo de mentirinha, pelo amor de Deus.
E eu sabia que aquela mulher não havia caído no nosso papo. Ela sorria enquanto a mãe de gritava para o mundo que seu filho se casaria. Logo, todos ali estavam falando sobre como teríamos presentes persas sendo enviados para nosso casamento. Que um monarca estaria presente no casamento. Disseram também que teríamos uma cerimônia indiana tradicional e que nossa lua de mel seria na Índia. Questionei-me se a mãe de tinha algo a ver com aquele aumento absurdo dos fatos.
Observei quando a mulher de vestido vermelho puxou para um canto da casa, sumindo da minha vista. Voltei a me concentrar na irmã de ao meu lado, mas ela parecia desconfiada.
— Não imagino por que te esconderia — ela comentou com o cenho franzido.
— Nós estamos tomando cuidado — segui o ritmo. A mentira parou desconfortável em minha garganta.
— Com o quê? — ela soltou uma gargalhada. — Se for com mamadi, entendo.
As tias ao nosso redor já haviam enjoado do casamento, agora falavam sobre uma das jovens do templo que havia engravidado de um mestiço tailandês.
Olhei ao redor mais uma vez, mas ainda estava sumido. Tapetes persas espalhados pela sala acomodavam almofadas das cores mais vibrantes e vivas: amarelo, laranja, vermelho do mais sanguíneo possível e azul tão escuro que poderia parecer engolir o ar ao redor.
Havia homens rindo enquanto bebiam cachaça do lado de fora. As mulheres estavam espalhadas pelo deque nos fundos da casa, pelo que percebi, em uma roda, sentadas em almofadas ainda mais vibrantes do que as da sala.
Eu havia chegado após a refeição principal, mas diante de mim havia um prato enorme com samosa, pastéis fritos recheados com lentilha, vindaloo, arroz brasileiro e uma pequena porção de curry de peixe ao lado. Aquela mistura faria horrores ao meu estômago.
Algumas garçonetes passavam ao redor com copos de chai, para a digestão. Peguei um e deixei ao lado do prato. Precisaria daquilo.
— Sempre ouvir falar de você, sabia? — Flora comentou com um sorriso. Enfiei uma garfada gigante de vadaloo na boca. Flora, com seus cabelos perfeitamente presos e olhos curiosos, continuou a me fitar ansiosamente até que a situação já estivesse ridícula demais para mim.
— Eu também sempre ouvi falar muito de você. Na verdade, acho que te menciona em nossas conversas pelo menos uma vez ao dia. Fico chateada por ele ter te escondido de mim.
Aquilo, para alívio do meu orgulho, era verdade. amava sua irmã com todas as forças. Mesmo sem conhecê-la pessoalmente, eu sabia quem ela era. Sabia que Flora estava prometida a um casamento arranjado com um médico indiano, sabia também que ela fazia faculdade escondida da mãe, que sua comida favorita era pipoca caramelizada e batata frita e que ela me mataria se eu fizesse mal a . Aquela última parte era dedução.
— Estou muito feliz por vocês — Flora segurou minhas mãos, suas unhas feitas brilharam contra o lustre sobre nossa cabeça. — Meu irmão sempre pareceu um bobo apaixonado falando de você.
Bem, aquilo era novidade.
— Eu preciso ir ao banheiro rapidinho — Flora comentou ao olhar para um ponto atrás de mim, onde um homem alto e de ombros largos sorria para ela.
Ah, aquele era o prometido de Flora? Controlei uma expressão clara de “meu Deus, esse cara saiu de uma novela” e foquei na comida à minha frente. Agora eu estava sozinha em um cômodo gigante e ameaçador. Eu sabia que estar sozinha em um jantar de família grande era como um cabrito sozinho diante de um lobo.
Talvez estivesse certo, eu lia fantasia demais.
Observei quando uma das tias de sári laranja entrou na cozinha ao lado de outra tia com um sári adornado por enfeites tão grandes e pesados que poderiam facilmente ser usados para afundar alguém no mar. Eu conseguia ver a cozinha daqui, mas elas não conseguiam me ver. Enfiei uma colherada de curry na boca, o sabor explodiu em minha boca.
— Acha que ele está fazendo isso para conseguir a herança? — uma das tias questionou em tom risonho.
— Acho que ela está fazendo isso pela herança.
Franzi o cenho enquanto comia meu arroz com vadaloo.
— Quando Flora aceitou o casamento, achei que ela ficaria com a herança completa mesmo que ele decidisse casar.
Cansei de fingir que não estava ouvindo. Levantei-me devagar. Não havia ninguém na sala, todos estavam lá atrás, no deque. Menos e a moça de vermelho. Eu não os via em local algum. Aproximei-me da parede que me escondia das duas.
Se elas estavam falando de , contava como fuxico?
— Então quer dizer que a Anushka não descobriu o casamento até você contar? — a tia de sári laranja questionou com indignação.
— Pois é! Que tipo de filho não conta primeiro para a mãe que está noivando? Quer saber de uma coisa? Eu acho que ele contratou essa mulher.
— Não… Você acha? — cerrei os punhos contra minha calça jeans em desconforto.
— Claro! Acho que ele está envolvido com um homem e vai ter um casamento de fachada. A Dira fez isso, lembra dela? Que ela casou, mas tinha um caso com uma brasileira?
Aquilo era ridículo demais até para a pior novela mexicana do universo, mas não conseguia deixar de ouvir.
— Você está inventando coisas — finalmente concordei com algo dito naquela conversa.
— Por que outra razão ele esconderia o noivado da mãe?
— Será que ela está grávida? — controlei o engasgo em meu peito.
Será que todos ali presumiam que havia me engravidado?
— Hm, isso explica a barriga dela…
— Mas aquilo não é barriga de grávida.
Preparei-me para invadir a cozinha e atrapalhar a conversa sobre minha circunferência abdominal, mas foi mais rápido.
! — ele abriu um sorriso largo.
Arregalei os olhos. Ele não havia percebido que eu espionava as tias igual a tremenda fofoqueira que eu era.
— Querido! — respondi de volta ao notar que as tias haviam percebido nossa presença. Uma delas saiu da cozinha na mesma hora que toquei o braço de .
Ufa! Dali pareceria que eu estava com ele, e não ouvindo a conversa dos outros.
— Vocês são um casal lindo! — a tia do sári laranja exclamou com as mãos nas bochechas, o som das pulseiras acompanhou seus movimentos.
Falsa. Controlei um suspiro raivoso.
— Estamos ansiosas pelo casamento — a outra tia seguiu na onda, os olhos negros fitaram o local onde eu segurava o braço de . Mantive o aperto ali, segurando o tecido em minhas mãos como se fosse uma afronta direta. E eu queria que fosse.
Elas se retiraram em seguida, voltando para o deque nos fundos da casa.
Fitei com o coração acelerado.
— Você sabia que as pessoas acham que você me engravidou? — sussurrei ao puxá-lo para o canto da sala, longe da possibilidade dos ouvidos das tias.
— As pessoas vão achar isso mesmo que daqui a 9 meses você não esteja com uma criança no colo — comprimi os lábios em uma linha fina. — Ei, o que houve?
— É só que… Eu não sei, eu… — comecei a gesticular, mas foi mais rápido em segurar minha mão suada e me mandar respirar fundo. — A sua mãe é assustadora. E eu nem sou sua noiva de verdade! — sussurrei a última parte, mas com a mesma urgência.
gargalhou com a mão na barriga e assentiu.
— Pois é, fico feliz que agora conheça a parte complicada da minha vida, não só a minha gostosura e beleza — revirei os olhos.
, precisamos pensar no que vamos fazer — retomei o assunto. assentiu concentrado.
— Pensei em contar à mamadi hoje à noite que o motivo para eu não ter te apresentado é porque você negou o pedido de casamento — pisquei algumas vezes em sua direção.
— Mas isso não é ruim?
— Como assim?
A cena das duas tias conversando na cozinha tomou minha mente. Qual seria o próximo rumor se descobrissem que não apenas não havia me engravidado, como também levado um fora? Meu peito apertou com a possível homofobia que viria dali. Eu não aguentaria vê-lo passar por aquele inferno.
— Não, vamos fazer o seguinte — estralei os dedos em nervosismo. começou a mudar o peso de um pé para o outro. Parecíamos dois jovens que tomaram café demais e agora não conseguiam fazer o açúcar parar.
— Amo quando você entra no modo lunática planejadora — franzi o cenho em sua direção.
— Não sou uma lunática planejadora — arqueou a sobrancelha em descrença. — Só um pouco.
— Meninos! — a tia de sári laranja apareceu na sala novamente, dessa vez com um sorriso. — Estão sendo chamados lá fora! Vamos servir a sobremesa.
— Muito obrigada por nos chamar — respondeu cordialmente.
Começamos a andar juntos, nossos pés descalços não faziam barulho sobre os tapetes felpudos.
— Dê duas semanas para a sua mãe. Diga que você terminou o noivado porque eu não quero ter filhos — me encarou de soslaio.
— Você quer ter filhos.
— Ninguém precisa saber disso. Além do mais, eu nunca mais vou precisar ver sua família, certo? É mais fácil que eu saia como vilã do que você — pareceu ponderar, mas desviou do assunto antes de atingirmos o deque.
— Pensei que você odiasse mentiras — ele provocou.
— Já que estamos mentindo, vamos mentir direito.



Capítulo sete




— Sua mamadi vai te matar quando descobrir o que você fez — Layla cruzou os braços em minha direção. Olhei ao redor, mas ninguém parecia nos ver.
Observei de canto de olho quando as tias rodearam . Ela parecia estar lidando bem com a situação.
Por minha causa, já havia mentido mais vezes em um período de meia hora do que em sua vida toda. E aquele mero pensamento me causava repulsa. Precisaria me desculpa seriamente com ela.
— Mamadi não vai descobrir nada — enfatizei.
— Mães descobrem tudo. Você sabe disso — bufei exasperado e passei as mãos pelo rosto cansado. Comecei a bater as mãos de leve e andar de um lado para o outro no pequeno espaço entre a parede e o corpo de minha prima.
— Layla, eu preciso da sua ajuda com isso. É temporário. Isso nem deveria ter acontecido. E, ei, espera! — arregalei os olhos e cruzei os braços. — Foi você quem contou pra mamadi sobre o meu casamento?! Porque você me viu na confraternização da empresa. Só você poderia ter dito — Layla pareceu desconfortável por um instante.
— Eu contei à Flora. Na verdade, eu não contei, eu só achei que ela já soubesse! Quer dizer, que filho indiano esconde o noivado com uma mulher indiana de sua mãe? Se ela fosse totalmente brasileira, eu entenderia e…
— Ela é totalmente brasileira e totalmente indiana, Layla — arqueei a sobrancelha. Layla fez um sinal de desdém com as mãos.
— Ser mestiço é mais complicado que isso, e você sabe bem — assenti para que continuasse. — Se alguém contou do seu noivado para sua mãe, foi Flora.
Aquilo explicaria por que Flora estava emocionada ao me ver. Um semblante de compreensão tomou meu rosto. Layla esperou pacientemente que eu processasse todas as informações.
— Voltando ao assunto principal. Layla, preciso que você me ajude a segurar essa barra só por mais um tempo — minha prima não parecia muito convencida, mas deu de ombros.
— Claro. Não penso em contar que você mentiu para conseguir um emprego e não teve o mínimo de inteligência para pensar que sua prima namora seu colega de trabalho — ela provocou com um sorriso irritante. — Isso estragaria a sua reputação de inteligente da família.
— Você não me contou que estava namorando Pietro.
— Eu postei isso no Instagram semana passada.
Eu não pude argumentar contra aquilo. Querendo ou não, ela havia anunciado. Eu só não havia visto.
Droga de dependência das redes sociais.
— Ela parece ser uma boa menina, — Layla indicou o cômodo em que estava. Acompanhei seu olhar e assenti.
— Ela é. Por isso mesmo que não quero me prolongar nessa mentira. Ela não tem culpa nenhuma.
— Nossa família tem o péssimo hábito de mentir. Por favor, prometa que não vai fazer mais isso — assenti em sua direção.
— Não pretendo. A próxima pessoa que eu trouxer para casa, vai ser a pessoa com quem eu vou casar de verdade. — Layla se deu por vencida.
Decidi não contar a ela sobre o meu desejo de nunca casar, isso provavelmente seria mais um segredo meu com possibilidade de acabar caindo sem querer nas mãos de outra pessoa.


Capítulo oito



O vinho em minha boca só ficaria mais gostoso se acompanhado de uma pizza, mas eu me contentava com a pipoca.
— Você já tentou pompoarismo? — virei-me curiosa para Laura. Ela e Lorena conversavam animadamente sobre algumas técnicas que haviam descoberto de uma youtuber.
— Cara, eu queria muito testar uma vez, mas a escassez de homens no Brasil é gigante — Lorena retrucou com um suspiro triste antes de tomar um gole de sangria.
— Quase metade da população é formada por homens — comentei com um sorriso por trás da taça quase vazia. Lorena manteve os olhos escuros em minha direção enquanto um sombrio sorriso surgia em seu rosto.
— Você sabe bem que eu me interesso pela outra metade também. Isso me torna disponível para toda a população brasileira.
— E ainda está reclamando de escassez? Uau, você é exigente para alguém que tem mais de 200 milhões de pessoas no cardápio. — Arqueei a sobrancelha em sua direção.
— Droga, não gosto de conversar com gente inteligente.
Lorena levantou-se do chão e sentou-se ao meu lado no sofá. Laís havia voltado do banheiro naquele momento e sacudiu as mãos molhadas em nossa direção, respingando gotículas em minha taça com a marca de meus dedos.
Minhas amigas haviam convocado uma reunião de emergência após minha última notícia bombástica do dia anterior. Eu havia tentado esconder, mas é impossível manter qualquer coisa em sigilo de minhas amigas.
Ao chegar do trabalho na noite anterior, após uma reunião caótica sobre um furo de notícia que havia me mantido no trabalho por cinco horas após o meu horário regular, encontrei Bruno sentado no sofá e com duas garrafas de cerveja ao lado de seus pés.
Eu e ele não havíamos conversado desde que ele me deu o ultimato. Eu não esperava encontrá-lo ali naquele momento. O cansaço do dia pesou ainda mais sobre meus ombros ao pensar que teria que confrontá-lo. Eu sabia que Bruno não estava ali para tomar chá e uma rapidinha. Em seus olhos, percebi que ele queria conversar. E aquilo era tudo o que eu não queria no momento.
Sentei-me ao lado dele no sofá. Bruno levantou o olhar e me encarou. Ele parecia tão cansado quanto eu.
— Você tomou alguma decisão? — ele questionou após alguns segundos de silêncio. Encarei a televisão plugada à parede e suspirei pesadamente.
Passei as mãos sobre meu rosto e esfreguei meus olhos, sentindo-os arder. Bom, era melhor ter aquela conversa de uma vez. Não valia a pena esperar até que eu estivesse descansada. Eu iria me estressar de qualquer forma, que fosse de uma vez, e não em doses fracionadas.
— Eu não gosto de ser encurralada, você sabe bem disso — iniciei o diálogo com a voz mais calma o possível. Bruno assentiu e encarou as mãos sobre a calça jeans.
— Às vezes a gente precisa se encurralar, sabia? — ele tentou sorrir, mas parecia decepcionado. Ele sabia que fim teria aquela conversa. Eu também sabia.
— Eu sou encurralada diversas vezes todos os dias no trabalho, a última coisa que eu preciso quando chegar em casa é mais do mesmo — acariciei o peito de minha mão com os dedos. — E eu não quero estar com alguém que não confia em mim.
E ali estava. Eu gostava de Bruno, muito. Mas eu nunca havia tido problema em cortar laços daquela maneira. Se a coisa não funcionava, eu cortava. Se eu percebia que não havia futuro, acabava com a situação. Simples. Nem sempre indolor, mas simples. É mais fácil viver livre de pesos do que lutando pelo que não tem futuro.
E é com esse discurso super romântico que eu começaria a sessão com minha psicóloga na semana seguinte. Obviamente as coisas sairiam de ordem, ninguém consegue montar um roteiro em uma sessão de psicologia, é senso comum.
— Você realmente vai acabar com um relacionamento por causa de uma encurralada? E uma muito bem justificada? — Bruno parecia resignado.
— Bruno, não é só isso. Eu só estou cansada. Relacionamentos não deveriam ser abalados quando uma pessoa aparece, como você bem diz — disse, por fim. Bruno se colocou em pé. Segui seu movimento e o encarei direto nos olhos. Então iríamos discutir. Bem, eu estava pronta. Cansada, mas pronta. Eu quase levei um tapa na cara de uma senadora hoje, eu aguentaria o tranco.
— Então você sente algo por ele?
— Meu Deus, por que você continua falando de ? — exclamei exasperada.
— Porque a sua desculpa para terminar comigo é o que eu disse sobre ele!
— Não é uma desculpa! A questão não é o , é como você interpreta minha relação com ele! — tentei repetir mais uma vez. Eu ensaiei aquele discurso no banho ontem, por que parecia estar saindo de roteiro? Mais um tópico para a psicóloga.
— Você é doida — Bruno comentou com um riso nervoso. Arregalei os olhos e cruzei os braços.
— Eu sou o quê?
— Isso mesmo, doida! Olha só a desculpa esfarrapada que você está dando para terminar comigo! Eu senti ciúmes do seu amigo, grande merda! Eu posso sentir ciúmes às vezes, sabia? É normal! Eu vim conversar com você sobre isso, porque é isso que se faz em um relacionamento, — ele pareceu ainda mais sério — as pessoas conversam. Quando você ia me contar que foi à reunião da empresa do ? — pisquei algumas vezes, levemente atordoada.
— Como sabe?
— Para alguém que não mente, você tem sem se saído como um belo Pinóquio.
Meu peito ardeu. Senti o sangue em minhas veias ferver. Aquilo não estava no roteiro. Nada disso. Encarei Bruno em silêncio pelo que pareceram horas.
— Sabe do que mais, Bruno? — falei finalmente e tentei controlar a minha voz. — A verdade é que eu não quero conversar. Meu Deus, como eu não quero conversar. Eu não quero reviver o assunto do , porque, pela milésima vez desde que começamos a namorar, eu e ele não temos nada! — Bruno apenas cruzou os braços e arqueou a sobrancelha. — Eu não vou terminar uma amizade de anos com ele por um cara que quando briga comigo parece uma criança de dois anos pirracenta! Você deixou meu apartamento de cabeça para baixo porque nós brigamos por causa do . Agora, baseado nisso, ligando todos os fatos à situação atual — cruzei os dedos das mãos como se fosse fazer uma prece — diga-me, por favor, você acha que contar para você sobre ter ido acompanhar a uma festa da empresa seria sábio?
Os olhos do Bruno queimavam de ódio, eu conseguia ver. Ótimo, porque eu não largaria aquele osso. Eu estava até que orgulhosa do meu ponto de vista. E, por um segundo apenas, senti-me feliz por estar ganhando o argumento. Contudo, tudo isso ruiu quando lembrei-me da minha mãe segurando minhas mãos com força uma noite e dizendo com todas as palavras embargadas que papai a havia perdido por querer vencê-la em tudo. Eu fechei a porta do quarto com força atrás de mim depois ter dito para minha mãe que eu a odiava. Sequer me lembro por que brigamos. Mas os olhos cheios de lágrimas e o nariz vermelho marcavam minha memória e me perseguiam toda vez que eu me sentia orgulhosa daquela maneira.
Ser parecida com meu pai era meu maior medo. E eu estava cada dia mais perto de tornar aquilo realidade.
Encarei Bruno novamente, mas com outros olhos. Eu sabia que minha voz já estava trêmula, mas eu sabia que não era por causa daquela discussão ou do nosso término.
— Desculpa por não ter conversado com você — mudei completamente meu discurso. Bruno pareceu atordoado com a mudança. Ele coçou a nuca, sem saber o que fazer. — Desculpa por não ter sido honesta com relação à festa de . Foi completamente errado da minha parte. Eu não confiei em você.
O silêncio que perdurou a partir dali foi o suficiente para me fazer encarar meus pés.
— Ok — Bruno suspirou longamente e esfregou os olhos. — Podemos passar por isso.
— Não, Bruno — balancei as mãos em frente ao corpo. — Eu ainda quero terminar.
— Hã? — a confusão havia voltado ao seu olhar.
— Eu errei feio com você, mas isso não diminui o que você fez no meu apartamento — apontei para a sala ao meu redor, dando um passo para trás. — Isso não foi legal, não foi saudável.
O olhar de Bruno parecia alternar de magoado para raivoso rapidamente. Franzi o cenho.
— Saudável? — ele balbuciou as palavras como se fossem pregos em sua boca. — Você é definitivamente doida. Eu vou embora daqui.
Observei enquanto Bruno pegava suas coisas do meu quarto e colocava em sua mochila. Ele estava transtornado.
— Bruno, por favor, você não disse que em um relacionamento a gente deveria conversar? — questionei quando ele voltou para a sala.
Seu cabelo estava uma bagunça, os olhos claros eram tempestuosos, até mesmo sua camiseta, sempre lisa e passada, estava amarrotada na calça.
Agora você quer conversar?
— Não era seu objetivo conversar comigo? Ou a conversa só é válida quando você recebe o que você quer? Não é porque eu não quero continuar com nosso relacionamento que a gente não possa conversar igual dois seres humanos! — exclamei e bati com as mãos na lateral do corpo. Bruno acompanhou o movimento imerso em pensamentos.
— Adeus, .
— Não, não é assim que você faz o movimento… — Lorena levantou de sua amostra grátis de como não ficar com as coxas doloridas.
Peguei a garrafa de vinho sobre a mesa do centro e verti o restante do conteúdo em minha taça, deixando a garrafa vazia ao meu lado.
— Você já está pronta para conversar ou precisa de mais uma garrafa inteira? — Laís questionou seriamente enquanto enfiava um punhado de pipoca na boca. Ela estava com as pernas cruzadas sobre a cadeira artesanal que havíamos comprado juntas na Liberdade e com a taça de vinho branco pela metade pendendo em seus dedos esguios. Ela bebericou mais um pouco do líquido doce antes de suspirar. — Estamos preocupadas…
As outras meninas pararam o que estavam fazendo e voltaram o olhar para nós duas. Voltei meu olhar para a taça e comprimi os lábios em uma linha fina.
— Terminei com o Bruno — senti o gosto das palavras em minha boca levemente amargas pelo sabor do vinho. Laís apenas arqueou a sobrancelha, ao passo que as outras meninas se sentavam próximas ao meu pé no chão. Lorena desligou a música de fundo que tocava da TV e apoiou o queixo na mão.
— Nós sabemos dessa parte. Você só falou isso — Laura se pronunciou após alguns instantes silenciosos.
Então, aproveitando o gancho do álcool correndo por todas as minhas veias, expliquei tudo. Sobre como havia mentido no emprego, passando em seguida para as discussões com Bruno e toda a minha falta de noção relacionada ao falso noivado. Omiti a parte em que transcendi pensando na lição de vida que minha mãe me deu anos atrás. Aquilo era coisa para a psicóloga e Freud discutirem.
Não fui interrompida uma vez sequer, o que era raridade em nosso grupinho. Laura às vezes soltava alguns muxoxos ou suspiros surpresos, mas nenhuma interrupção. Nada. Ao fim do monólogo, deparei-me com três pares de olhos esbugalhados em minha direção.
— Por que você não contou nada disso antes?! — Laís exclamou com a voz subindo algumas oitavas. Mordi o interior da bochecha e comecei a batucar com o pé no chão.
— Porque eu achei que fosse conseguir lidar com tudo sozinha — ouvi Lorena bufar audivelmente.
— Já falamos sobre isso vinte e cinco mil vezes, meu Deus do céu! — Laís conduziu a bronca. Era exatamente por isso que eu não queria falar nada.
— Acho que ela não precisa disso agora, gente — Laura fez carinho em minha perna pendendo do sofá. Sorri em sua direção.
— Na verdade, precisa! — Laís se levantou da cadeira e apoiou a taça de vinho sobre a mesa. — , por que você terminou com o Bruno, de verdade? Eu entendo a sua justificativa, mas não pode ser só isso. Vocês já tinham discutido sobre coisas piores antes. Vamos, diga.
— Eu falei a verdade. Terminei com ele porque eu não quero estar com um cara que reage a discussões como quem tem dois anos. E parando para pensar bem, ele já fez isso outras vezes. Eu só não tinha percebido! — Laís não se deu por vencida. — Eu não consigo ver outro motivo para ter terminado com ele.
— Nem por causa do ? — ela arriscou com a voz um pouco mais contida. Revirei os olhos e tomei mais um gole de vinho.
— Você também?!
Laura tomou a dianteira com um sorriso nervoso.
— O que ela quer dizer, , é que talvez você realmente tenha terminado com ele porque gosta mais do do que de Bruno.
— Eu gosto de maneiras diferentes, vocês sabem disso. Amor de amigo não é amor de amante.
Observei Lorena se preparar para discutir, então apenas a fuzilei com o olhar, mas nada a impediu.
— Você pode amar como amigo, mas como amante também. Amantes têm cumplicidade e amizade. A linha de diferença é muito tênue.
— A diferença, Lorena, é que eu e sempre fomos platônicos! — exclamei. — Nada rola entre a gente. Se algo precisasse ter rolado, já teria há muito tempo. Nós somos amigos há, o que, sete anos? Se em sete anos nós não tivemos nada, é porque não vai rolar.
Terminei meu argumento final com um suspiro cansado. Apoiei a taça de vinho sobre o guarda-copos e massageei as têmporas levemente. Estava estressada demais.
— Ok, vamos deixar isso de lado — Laís se rendeu primeiro, sentando-se ao meu lado e fazendo carinho em minhas costas. Respirei profundamente, mas mantive a cabeça entre as mãos com os cotovelos apoiados na perna.
— Bruno estava certo, sabia? — comentei com a voz embargada. — Eu não gosto de conversar. Eu sou uma jornalista, uma comunicadora que não gosta de se comunicar com ninguém. E-eu não sei por que é tão difícil lidar com relacionamentos. Eles deveriam ser fáceis, não é? Quando você ama alguém, tudo fica fácil e a vida fica bonita — limpei uma lágrima solitária. — Mas todo relacionamento que eu tenho parece um dos trabalhos de Hércules.
— Pensa pelo lado bom, você já está no décimo primeiro, só falta o próximo! — Lorena sorriu e fez um sinal positivo com o polegar. Ri em sua direção e limpei algumas outras lágrimas que insistiam em fugir de meu controle.
— Eu entendo totalmente o narcisismo de Hércules. Se eu precisasse fazer aqueles doze trabalhos, eu também me sentiria o máximo — comentei com um riso embargado, mas feliz. Falar sobre tudo o que havia acontecido com minhas amigas realmente me ajudou.
Passar a noite anterior sozinha em meu apartamento foi extremamente depreciativo e humilhante.
— Olha só, … — Laís começou e empertigou-se ao meu lado no sofá, encarando-me com uma expressão sorridente. — O amor é muito complicado, sabe? Quando as pessoas dizem que o amor é fácil, é porque qualquer empecilho que venha não parece tão grande porque você está com alguém que te dá suporte ao seu lado. Agora, se você estava se forçando a estar com alguém e se condenando… Isso não é amor. Nessa parte, preciso concordar, o amor é fácil.
Assenti calmamente.
— Você está doida para falar do amor do ponto de vista dos gregos, não é? — virei-me para Lorena com um sorriso gigante.
— Sim, por favor! Olha só, os gregos definiram vários tipos de amores por um motivo, certo? — assenti, acompanhando seu raciocínio. — Talvez os seus trabalhos de Hércules estejam focados no amor errado — arqueei a sobrancelha enquanto ela gesticulava. Lorena levantou-se do chão e começou a andar em círculos, exatamente como fazia quando estava raciocinando.
— Ok, você está me perdendo, Lorena — ri em sua direção, mas Laís parecia estar acompanhando o pensamento de nossa amiga.
— Sim, isso faz total sentido! — Laís também se levantou e colocou-se ao lado de Lorena. — Você está procurando um amor ágape, mas não entendeu ainda o amor philautia e só busca amores eros.
— Alguém, pelo amor de Platão, me explica de novo a questão dos amores, eu imploro — comentei visivelmente confusa, alternando meu olhar entre Laís e Lorena. Laura, por outro lado, também parecia tão perdida quanto eu. Um consolo, pelo menos.
— Vamos lá, — Laís começou. — Os gregos não tinham uma palavra para amor, mas alguns conceitos diferentes direcionados a tipos de relação. Você deve conhecer o eros, certo?
— O amor sexual?
— Isso — Lorena sorriu. — Mas há muitos outros. A bíblia descreve quatro amores, o ágape, que é o amor incondicional, em que um se doa para o outro inteiramente; o storge, que é o amor familiar e philia, que é o amor entre amigos, basicamente. Ok, mas além desses quatro, ainda existem outros! Um deles é o philautia, que é o amor próprio. Para você amar outra pessoa, você precisa se amar.
— Narciso também se amava — Laura pontuou ao meu lado. Pela expressão de prazer intelectual no rosto de Lorena, ela esperava que alguém dissesse aquilo.
— Não é a mesma coisa.
— Narciso era um vício. Aquela questão de virtude e vício, não é? Tudo com moderação pode ser uma virtude — tomei a dianteira, compreendendo um pouco melhor o que minhas amigas queriam dizer.
— É, mais ou menos isso. Enfim, o que estamos dizendo é: você entende o amor entre um casal como o amor ágape, que é o que você busca, mesmo sem saber. Contudo, você ainda não entendeu o philautia, ou seja, o amor próprio. E, por fim, você só se envolve em amores eros, ou seja, carnais.
Pisquei algumas vezes enquanto processava todas as informações.
— Falta um amor aí — comentei, por fim.
— Hã? — Lorena parecia confusa.
Philia. Eu tenho esse amor por todas vocês. Eu diria que ele poderia beirar ao ágape — Laís abriu um largo sorriso e me abraçou fortemente.
— Eu te amo ágape pra caramba, cara.
— Ei, eu amo muito mais ágape que todas vocês — Laura empurrou Laís para o lado e deu risada.
Logo já estávamos falando sobre os diferentes amores eros que cada uma já teve e categorizando cada pessoa que havia passado em nossas vidas. No fundo, não pude deixar de imaginar em qual categoria se encaixava. E sorri para mim mesma ao pensar que, independente de qual amor fosse, eu o amava com tudo o que tinha. E aquilo era o suficiente.



Capítulo nove




Já haviam se passado quase três semanas desde que minha família havia descoberto sobre meu noivado, e elas se foram como um borrão. Desde então, as coisas estavam estranhamente calmas. e eu não conseguimos nos falar direito, o que era relativamente comum em nossas rotinas corridas. Flora não havia falado comigo desde o almoço, o que me deixava preocupado. Mas o que mais me assustava, não, assustar é um verbo medíocre e azedo se comparado ao que eu sentia… O que mais me deixava cagando de medo era o silêncio de mamadi.
Ela não havia me pressionado a contar sobre , sobre meu noivado, sobre nada, e eu só pude presumir que ela apareceria com minha amiga amarrada a um carro com latinhas presas na placa e pronta para nos levar até nossa lua-de-mel, a fim de termos diversos bebês.
Não me leve a mal, meus bebês e de seriam lindos.
, acho que tem um problema com o arquivo que você enviou. — Pietro apareceu ao meu lado na baia do escritório enquanto eu me arrumava para sair. — Está indo embora? — ele questionou curiosamente enquanto fitava minha mochila.
— Sim, deu meu horário.
— E você não vai ficar para o happy hour da última sexta do mês? — ele arqueou a sobrancelha e apoiou o arquivo impresso que eu havia enviado três horas atrás para ele.
— Eu tô cansado pra um caramba, Pietro. Quero ir para casa. Vou pegar o transporte público lotado se demorar muito.
Pietro cutucou o canto da unha e suspirou.
— Ok, não posso obrigar ninguém a se divertir — ele deu de ombros e encarou o papel novamente. — Mas preciso que você me envie de novo. Acho que veio no formato errado.
— Eu salvei pelo InDesign o arquivo 3D — retruquei apontando para o papel sobre a mesa.
— Eu recebi em PDF.
Controlei o ímpeto de retrucar com: “e você não tem a capacidade mental de converter o arquivo?”, mas apenas segurei minha língua e assenti. Ele ainda era meu superior. Ainda.
— Ok, vou enviar de novo.
Coloquei a bolsa no chão ao sentar-me na cadeira novamente. Apoiei-me contra ela enquanto olhava ao redor da empresa.
Era sexta, final de tarde. Havia um feriado prolongado chegando. Segunda-feira não iríamos trabalhar. Arrepiei só de pensar no quanto eu dormiria. Abri um sorriso infantil ao pensar em minhas cobertas me esperando em casa.
Meu celular vibrou em meu bolso. Peguei o aparelho e sorri ao ver o nome de brilhar na tela.
— Fala, minha rainha.
— Eu vou me acostumar mal com esses elogios — a voz dela cortava e estava baixa se comparada ao som alto que vinha atrás de si.
— É pra se acostumar mesmo. Onde você está? Foi a uma balada? Pensei que não gostasse de baladas — precisei apoiar a outra mão no ouvido livre para poder ouvi-la direito.
— Eu estou perto da sua empresa. Uma galera do escritório resolveu vir pro happy hour no Eros.
— Eu amo o nome desse bar.
— É — riu. — Eu também. Bom, queria saber se você quer vir. Não nos vemos tem um tempo, e acho que temos algumas pendências para colocarmos em dia.
Afastei o celular do ouvido para tossir.
— Claro. Te encontro aí. Estou super animado. — Pietro me encarava do outro lado da firma como se soubesse o que eu planejava. Franzi o cenho em sua direção e virei-me para o lado. Eu hein, cara estranho.
— Estou com saudades de você, sabia? — sorri pelo telefone e bati com os pés no chão diante da fala de .
— Pelo amor de Deus, você me ama muito! — exclamei com uma gargalhada. Loguei no computador enquanto ria do outro lado da linha.
— Eu não posso mais dizer que sinto falta do meu amigo? — ela provocou. Eu sabia que provavelmente estava encarando os pés e batendo com a ponta do sapato no chão.
— Pode. Eu gosto disso. Chego aí em uns quinze minutos, eu acho. O pessoal da empresa também marcou o happy hour nesse bar. Prepare-se para alguns comentários do…
— Ei, . — Assustei-me quando Pietro apareceu ao lado e derrubei o celular na mesa. Peguei-o rapidamente e despedi-me de . — Foi mal pelo susto! Pode deixar esse arquivo para terça. — Arqueei a sobrancelha em sua direção. — Vi você falando com sua noiva, e acho que você precisa ir se divertir logo.
— Na realidade… Vou para o happy hour com vocês, ela está me esperando lá.
Pietro assentiu.
— Nesse caso, me envie por favor o arquivo.
Controlei-me para não xingar em vinte idiomas diferentes a família inteira de Pietro até a nonagésima geração enquanto ele desfilava pela empresa com seu terno caro.
! — Flaviane me chamou do outro lado da firma. Todos já haviam saído para nos esperar no térreo, como Pietro havia me dito antes de sair pela porta de vidro. As luzes estavam praticamente todas desligadas, e eu precisaria desligar todo o restante, inclusive as luzes assustadoras da copa.
— Oi, diga! — sorri em sua direção e levantei-me da cadeira. Peguei a cópia impressa do arquivo para Pietro e andei em sua direção. Parei no meio do caminho para deixar a impressão sobre a mesa do homem mais pé no saco do Brasil.
Quando virei-me para trás, Flaviane estava próxima. Perigosamente próxima. De repente, como quando percebemos que o mágico não cortou sua assistente ao meio e que ela está bem, percebi que estávamos apenas nós dois no andar inteiro. Fitei seus olhos azuis e pele bronzeada. Ela passava todos os fins de semana no Guarujá em uma casa de praia gigante — nas palavras de Pietro. Haja disposição e protetor solar! Mas creio que Flaviane conseguia se virar bem.
— Hã, posso ajudar? — questionei com a voz mais baixa.
Não consegui desviar o olhar do dela.
Seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo e o batom em sua boca parecia brilhar. Ela era verdadeiramente linda. Arrumei minha postura e senti-me bobo por não ter passado mais perfume antes de sair de casa.
— Acho que pode — ela sorriu e apoiou sua mão na mesa em cima do arquivo de Pietro, onde eu também estava com a mão. Segui seu olhar para nossos dedos perigosamente próximos e engoli em seco.
!
— Hã, eu sou noivo — balbuciei a primeira coisa que me veio à mente.
Droga de noivado de mentira! Uma mulher estava diante de mim, uma que já havia demonstrado interesse e por quem eu definitivamente me sentia atraído, e eu não podia fazer nada. Nada!
— Eu sei — ela retrucou e usou a outra mão para brincar com o cinto da minha calça. — Eu não quero um relacionamento. Eu só quero que você transe comigo.
Meu Deus do céu!!!!!!!!!
Minha mente parecia uma tela em branco do Windows. Meu interior gritava em desespero. Se ela continuasse me encarando daquela maneira, eu provavelmente pediria misericórdia e um pouco de lubrificante.
— Ei, vocês dois vão demorar?
Praticamente gritei de susto com a voz de Pietro vinda da recepção. Afastei-me de Flaviane rapidamente e tropecei em uma cadeira, caindo com a bunda sobre uma almofada rosa. Gargalhei junto à Flaviane de meu papel de bobo. Ela estendeu a mão em minha direção enquanto gritava para Pietro.
— Estamos indo!
A loira me puxou pela mão com força, praticamente batendo nossos corpos juntos. Encarei-a com um sorriso. Há quanto tempo eu não era mimado daquela maneira? Flaviane demorou a soltar minha mão e abriu um sorriso largo antes de virar de costas para mim e se agachar para pegar a bolsa no chão.
Pelo amor de tudo que existe de mais precioso no mundo, eu preciso sair daqui!
— Vamos? — ela questionou com uma piscadela.
— Vamos.


*


Vi antes que minha amiga percebesse minha chegada. Ela estava sentada com as pernas desnudas cruzadas e um vestido preto cobria seu corpo. Era dia de reuniões, pelo visto. Como esperado, seu casaquinho social estava sobre a cadeira. Sorri com aquilo. era extremamente organizada, até mesmo com relação aos seus dias de roupas.
Vestido preto e casaco social? Dia de reuniões importantes.
Camiseta social amarela e calça boca de sino roxa? Ela estava se sentindo feliz e provavelmente no período fértil (ela me ensinou a fazer os cálculos para poder ter mais chances de pegar alguma mulher).
E por último, a que eu mais temia, a saia preta e a blusa cinza. Aqueles eram dias tempestuosos em que ela não queria se arrumar.
Subi os pequenos degraus simulando um deque no bar. Sorri para o garçom, um conhecido meu da época da faculdade, e andei em direção à minha amiga, mas fui parado subitamente por Flaviane, que puxou de leve a manga de minha camisa social.
— Se o que eu senti lá dentro foi uma recusa, não pareceu — ela comentou baixo e a uma distância segura. Pareceríamos apenas colegas de trabalho conversando casualmente sobre uma rapidinha no carro dela. Não que eu estivesse imaginando nada daquilo. Ah, quem eu queria enganar? Eu estava. E muito. Pra caramba.
— Olha, Flaviane… — comecei, mas ela me interrompeu com um arquear de sobrancelhas.
— Se você quiser, me dá um sinal. Pede uma espanhola para mim. Vou levar como um sim, e então vamos para o meu carro, ok?
Senti meu corpo inteiro arrepiar. A ousadia dela era simplesmente absurda! Precisei flexionar os dedos algumas vezes antes de me recompor.
havia me visto e acenava freneticamente com a mão. Deixei Flaviane de lado e caminhei até ela com um sorriso. Abracei-a rapidamente e cumprimentei sua colega de trabalho. Sentei-me à mesa em seguida.
Observei consternado enquanto contava sobre a semana caótica que havia passado na redação. Sua colega, Juanita (um apelido, creio eu), adicionava comentários no meio da narrativa. Uma senadora queria abrir um processo contra . Eles estavam fazendo uma petição para aumentar o número de máquinas de café no térreo e pedindo aumento de salário para os terceirizados (iniciativa de ). Além disso, o chefe de do Rio de Janeiro havia pedido demissão.
— E ainda teve a melhor! — Juanita comentou com um sorriso largo. — está concorrendo à vaga no Rio!
Encarei com os olhos cerrados. Juanita ficou alheia ao fato de sermos noivos. Noivos falsos, mas ainda noivos. Como minha noiva falsa iria para o Rio de Janeiro?!
encarou as batatas em cima da mesa e bebericou seu drink sem me encarar nos olhos.
— Pietro chegou! Ele é o namorado da minha amiga, vou falar com ele. Já volto. — Juanita se levantou da cadeira e sumiu de visão. Permaneci encarando com um sorriso preguiçoso.
— Vai passar o rodo no Rio? — tentei fazer piada, mas apenas mordeu o canto do lábio. — Você não pretendia me contar isso hoje, não é? — continuei meu raciocínio.
— Não — ela riu pelo nariz e tomou outro gole de sua espanhola. Controlei o ímpeto de olhar para trás e procurar por Flaviane. — Eu nem acho que vá conseguir a vaga. Além disso, minha mãe está aqui e…
— Ei! — exclamei e segurei sua mão por cima da mesa. sustentou meu olhar. — Sua mãe deu a vida para você conseguir seu sonho, . Até onde eu sei, seu sonho é ser a próxima Maju Coutinho, não é? — gargalhou, mas assentiu. Fiz carinho sobre sua mão com o polegar e sorri. A risada dela era um bom sinal. — Então você precisa ir caso consiga.
— Você nem sabe pra que é o trabalho!
— Então, diga — apoiei o queixo sobre a mão e afastei nosso toque.
— Não é para a vaga do meu chefe que eu estou concorrendo… É para a vaga abaixo da dele. Eu seria co-âncora do maior jornal do Rio.
! — exclamei completamente estupefato e gargalhei. — Você definitivamente não vai deixar de aceitar esse emprego caso consiga. Isso é loucura! Meu Deus, eu vou ter uma amiga famosa!
gargalhou com a mão na barriga e balançou a cabeça.
— Eu não queria falar nada… Caso não dê certo, vai ser só mais uma frustração.
— A gente se frustra o tempo todo, , e amigos estão aqui para ajudar a superar essa frustração, não serem privados dela — retruquei ao roubar algumas de suas batatas. Minha amiga pareceu ponderar enquanto brincava com o canuco em seus dedos, mas abriu um sorriso em seguida.
— Isso seria bem legal, né? Conseguir o emprego... — minha amiga apoiou a mão sobre o queixo, exatamente como eu estava. — Eu ia poder comprar algumas roupas bem legais.
— É, quem sabe você não possa renovar seu guarda-roupa do humor?
— O quê? — ela questionou. Recostei-me contra a cadeira gelada e cruzei os braços.
— Você, querida , tem um padrão de roupas.
— Até parece! Não tenho — balancei a cabeça em sua direção e sorri ainda mais. Ver desconcertada era um prazer quase espiritual. Quando ela ficava fora de sua zona de conforto, entrava na defensiva imediatamente.
— Tem sim! Hoje é dia de reunião, não é? Vestido preto e casaquinho.
— É a minha roupa chique… — abraçou a si mesma e tirou um fio de cabelo do vestido.
— Com certeza é chique. E, pelo que eu vi no seu Instagram, pois é, eu mexi no Instagram, você estava usando a sua blusa cinza e saia preta quando visitou as meninas, o que significa que estava triste no dia.
arregalou os olhos em minha direção.
— Você é um bruxo?
— Eu só te conheço bem, . E é divertido descobrir essas coisinhas e te deixar sem chão — revirou os olhos em minha direção, mas não deixou de sorrir.
— Cada segundo disso é ridículo.
— Pode ser, mas eu me divirto — dei de ombros. — Quer falar sobre o que aconteceu naquele dia?
A verdade é que eu teria perguntado antes, mas não era uma pessoa aberta com relação às suas tristezas. Ela gostava de me consolar, mas odiava ser consolada. Eu sabia que não conseguiria tirar nada dela pela internet. Mas pessoalmente era outra história. Quem resistiria ao meu sorriso?
— Não, não quero — ela respondeu com um sorriso torto. — Já passou. Além disso, eu quero me divertir com você hoje.
E ali estava novamente o desviar de olhar e a batucada dos dedos sobre a mesa. Muitas pessoas não gostam de ser forçadas, e era uma dessas. Quanto mais tentasse falar com ela, mais se fecharia.
Um dos meus maiores desafios em nossa amizade é respeitar esse silêncio. Quando estou triste ou cansado, gosto de estar cercado de pessoas. não era assim. Às vezes eu me questionava como fazíamos essa amizade funcionar, mas nunca tivemos problemas com relação a nos adaptarmos um ao outro, pelo menos era o que eu achava.
Observei de soslaio Flaviane dançar com uma de nossas colegas da empresa, mas seu olhar se fixou no meu por um instante, e uma onda de tensão subiu por meus ombros.
Voltei-me para , que cantarolava a música um pouco alta com um mover de lábios.
— Você disse que precisávamos resolver pendências… — comecei.
— Sim, a pendência principal é a diversão — respondeu em minha direção e abriu um sorriso gigantesco.
Que a diversão começasse, então!


Capítulo dez



realmente queria se divertir. Após alguns drinks e uma banda ao vivo subir no palco, nós dois dançávamos um de frente para o outro. Abracei-me à sua cintura quando tropecei em seu pé durante um passo falho de forró. Ele cheirava a madeira e açaí.
— A gente não é bom nisso — constatou o óbvio. Assenti e coloquei os cabelos para trás das orelhas, tentando abafar o calor. Eu tinha certeza de que estava com pizza sob as axilas.
Já estávamos dançando ali por pelo menos meia hora. A bebida me deixava meio tonta, e o sorriso de meio magoado ao ouvir Juanita falar sobre minha possível promoção permanecia em minha mente, ecoando contra a minha falta de preocupação com mudanças. Mas era diferente. Eu precisei abdicar de amigos, namorados, casa, trabalho, mas nunca dele. Era uma sensação incômoda entre saber que preciso crescer e querer me apegar ao meu passado, talvez. Ou eu só amava muito . E minha mãe, claro, deixar minha mãe pesava no peito.
A verdade é que ser adulto é uma merda. Merda grande e cagada melada de bosta! As pessoas tentam nos avisar. Nossos pais dizem "você vai crescer e querer ser criança". E é uma outra merda colossal admitir que nossos pais estão certos. Apenas um dos grandes detalhes que confirma a grande merda que é ser adulto.
Senti o olhar de se desviar para algo atrás de mim. Virei-me e segui seu olhar, parando em uma moça loira.
— O que foi? — questionei ao voltar meu olhar para ele, tentando controlar a minha raiva por ser uma adulta responsável por meus atos.
— Lembra da Flaviane? Aquela colega da firma que está interessada em mim? — assenti vagamente. Aquele dia do churrasco estava meio fragmentado. Peguei a maior parte das memórias e as ocupei com séries da Netflix e documentários sobre o meio ambiente. — Bem, hoje ela investiu de novo, e…
— Você quer aceitar, mas por causa do nosso noivado falso não sabe se é a escolha certa? — adivinhei suas intenções muito mais rápido do que ele imaginava, eu percebi. arregalou os olhos, mas sorriu.
— Isso.
, não somos noivos de verdade — franzi o cenho em sua direção. — Você está livre para traçar essa garota o quanto quiser!
— Você é tão romântica, provocou e beliscou meu braço de leve, abrindo um de seus sorrisos mais lindos em minha direção.
Verdade seja dita, é gato para um caramba. Eu não posso mentir que no início de nossa amizade, depois de ele me ver só de sutiã no meio do auditória politécnica, senti-me tentada a dar em cima dele. Mas a cena daquela vergonha perpetuou uma vergonha que a de 17 anos sentia com maestria. E, com o tempo, a vontade passou. E nunca demonstrou qualquer interesse. Só uma vez. Eu dava ao máximo para manter aquela memória enfurnada em algum lugar distante da minha mente.
Foi no nosso segundo ano na USP — ou uspício —, e e eu estávamos juntos após a recepção dos calouros na Prainha da ECA (Escola de Comunicação e Artes). Naquele dia, haveria uma festa das cinco da tarde às cinco da manhã. Eu fui pronta para dormir na casa de Laís e não me aguentar em pé no dia seguinte.
Em algum ponto entre vomitar nos arbustos e sarrar contra um vendedor de brisadeiro, eu me vi agarrada a um homem da Medicina Veterinária. O beijo dele tinha gosto de flúor e sua mão insistia em violar o cinto da minha calça.
Durante o intervalo do pior beijo da minha vida, observei parado contra uma árvore enquanto bebia provavelmente água do seu tirante. Ele usava a bata da atlética, os braços nus estavam flexionados e ele não sorria, estava sério como nunca. Segurei seu olhar diante do meu. Será que havia acontecido algo? Afastei-me gentilmente do mediciner versão zoológico e caminhei até meu amigo. Ele não desmanchou a expressão quando parei ao seu lado, mas eu estava aérea demais para perceber que sua expressão não era exatamente de raiva.
— Aproveitando sua noite? — ele questionou sem me encarar. Assenti debilmente e soltei uma gargalhada tribêbada.
— Aquele cara tinha gosto de flúor — pus a mão na barriga para gargalhar, minha cabeça estava pesada e tudo parecia muito mais engraçado do que era. se rendeu ao riso junto comigo, e passamos pelo menos três minutos rindo um apoiado no outro. — Por que você estava com cara de bravo? — Passei a ponta do indicador sobre o tecido solto da bata. franziu o cenho.
— Eu não estava bravo. — sempre foi um péssimo mentiroso. Aquilo foi essencial para a nossa amizade continuar. Dei um tapa ardido em seu peito coberto pelo tecido fino.
— Estava sim! Diga logo! Eu não tenho a noite toda!
— Ele estava te esmagando e mais bêbado que velho ao meio-dia em bar decadente — ele respondeu com um suspiro frustrado. — Você só pega cara zoado, . Pelo amor de Deus! Seu histórico em festas é mais sujo que carreira de político. — Cruzei os braços sobre o meu tirante e abri um sorriso torto.
— Eu não olho só a aparência, , eu sou diferente de algumas pessoas. — Meu amigo sabia que eu não deveria ser levada a sério, mas vi um lampejo de raiva passar por seus olhos.
— Não é que você não olha a aparência, você também não olha o caráter. E que caráter deve ser analisado em uma festa de faculdade, exatamente? — ele questionou, e tinha razão.
— Ah, , eu só quero me divertir.
— Então se diverte comigo. — Eu não estava pronta para aquele ultimato. Fitei por alguns segundos, mas não consegui desviar o olhar. Ele havia virado em minha direção, eu não sabia o que fazer com as mãos.
— Você não quer isso — desconversei. Eu me sentia repentinamente sóbria e alerta. E acesa. Meus pêlos do braço estavam arrepiados, minha nuca suava e minhas mãos poderiam facilmente ser um hidrante de tanta água acumulada ali.
— Você quer? — ele retrucou com a sobrancelha arqueada. era um ano mais velho que eu, então, com meus meros quase 19 anos (faria dois dias dali) e ele, com seus quase 20, parecíamos estranhamente adaptáveis. Meu cabelo havia assentado em um modelito definitivo meses atrás, e as espinhas haviam deixado meu rosto em paz. havia começado a academia há alguns meses, então seus braços pareciam mais fortes, e seu maxilar estava demarcado por causa dos treinos da atlética e da academia. Eu o achava bonito tanto quando tinha uma barriga de chop quanto agora, mas era triste não poder fingir que sua barriga era uma bateria.
, você está dizendo isso porque bebeu — tentei mais uma vez, mas eu sabia que ele não havia ingerido nada, porque precisaria ir para a casa dos pais pela primeira vez em meses desde que havia se assumido bissexual para sua mãe. A festa era uma tentativa de fazer o tempo passar mais rápido.
— Eu não bebi um gole sequer de álcool. Tenho plena noção do que estou te oferecendo — ele retrucou. — Mas, se você não quiser, vai estar de ressaca demais amanhã pra se lembrar disso.
Ah, se ele soubesse!
Então, com toda a minha pompa de mulher trêmula da cabeça aos pés, toquei sua bochecha e sorri. era realmente lindo aos meus olhos. Eu ficava irritada com o fato de ele não ter o reconhecimento devido por quem era. Ele não era realmente "bonito" aos olhos dos ocidentais, e eu sabia que às vezes isso o incomodava. Diante dos indianos, ele era lindo, mas diante dos brasileiros, não.
— Eu gosto do seu nariz — sussurrei em sua direção. inclinou a cabeça com o meu toque, encostando sua bochecha aos meus dedos gelados.
— Ele não é indiano demais para você? — questionou com um sorriso falho.
— Ele é lindo — encarei seu nariz novamente e engoli em seco. Aquilo realmente aconteceria?
Soltei um grito assustado quando três amigos de se aproximaram por trás de nós dois e o arrastaram até um desafio de cerveja no meio da festa. Permaneci encarando a árvore em que estava apoiado até dois segundos atrás.
Nunca mais falamos sobre o assunto, e eu evitava sequer pensar nele. achava que eu havia esquecido, e talvez fosse melhor daquela maneira.
— Boa noite, pessoal! — A voz do moço da banda ao vivo interrompeu meus devaneios, atirando um balde d'água em minha cara com intensidade cinco do créu. — A próxima música é um pedido do Pasqual para a sua noiva, a Penélope! Temos mais noivos aqui?
Segurei uma risada sufocada quando gritou junto com os outros comprometidos. O sorriso em seu rosto era impagável. Os primeiros acordes tomaram o bar, e controlei um salto quando apoiou as duas mãos em minha cintura no momento em que a música mudou para uma MPB mais calma. A vocalista da banda ao vivo permitia que uma versão diferente de Monalisa tocasse.
— Eu adoro essa música — confessei sem jeito. Estávamos próximos demais. Olhei para qualquer lugar, menos para seu rosto. As memórias que insistiam em me deixar sem jeito, como uma constante lembrança de que eu e havíamos chegado no "quase" em algum momento.
Eu e não costumávamos ficar tímidos pelo toque físico. Éramos amigos há tanto tempo e passamos por tanto que contato físico simplesmente faz parte de nossa amizade. Mas aquilo era levemente diferente. E eu apenas não sabia por quê.
— Sabe, eu acho que quero te levar para dançar mais. — Arqueei a sobrancelha diante de seu comentário sobre a música. Batemos em um casal próximos a nós dois. Pedi desculpas com um aceno de cabeça.
— Para mais desses desastres?
— Eu já tentei levar uma ex-namorada para dançar, mas ela era muito boa. Preciso dançar com alguém que seja tão ruim quanto eu.
Gargalhei com a cabeça para trás, sentindo-a pesada devido ao álcool. Pendi meu pescoço para o lado e finalmente encarei os olhos de . O castanho beirando à escuridão parecia ainda mais profundo. Desde quando os olhos dele eram tão bonitos? Senti minha boca seca enquanto sua respiração atingia meu rosto.
— Está tudo bem? — ele questionou seriamente, parando. Balancei a cabeça e voltei a encarar qualquer ponto que não os olhos de . Fixei meu olhar na parede, era um local seguro.
— Sim, tudo bem. Só estou meio aérea hoje.
O refrão ficou mais alto, e o corpo de se aproximou ainda mais do meu. Senti minhas pernas ficarem mais rígidas e minhas costas suavam absurdos com o toque dele.
Por um segundo, lembrei-me de que estava há semanas sem o toque de alguém. E estava ali. Eu estou carente, cansada e no período fértil. está aqui. É isso. Produção hormonal é algo incontrolável, mas meu autocontrole é sobre humano — de acordo com meu chefe.
— Terminei com Bruno — soltei a informação de uma vez. desviou o olhar do topo de minha cabeça para meus olhos. Choque contemplava seu semblante.
— Sinto muito.
— Eu também.
A realidade é que eu não sentia.
— Quer falar sobre isso? — ele sussurrou em meu ouvido. Controlei a onda de espasmos em minhas costas e neguei.
— Não mesmo.
— Ok — ele riu calorosamente próximo à minha orelha, fazendo com que meu cabelo pinicasse meu pescoço.
— Qual é o nosso tipo de amor, ? — questionei. Ele arqueou a sobrancelha.
— Como assim?
— Os gregos tinham diversas palavras para diferentes tipos de relação…
— Sim, eu conheço alguns. Ágape, eros, philia… Tem mais algo?
Storge, philautia e xenia.
— Hm, eu não conheço os dois últimos.
Philautia é amor próprio e xenia, que eu descobri pesquisando, é relação entre anfitrião e convidado — arqueou a sobrancelha, parecia realmente interessado.
— Isso é legal. Eu acho que nosso amor é philia, não? Não acho que seja storge
— Eu também não — concordei. A música acabou, e eu e nos afastamos. Sorri em sua direção, mas ele continuava a olhar por sobre o meu ombro. — , vai lá — apontei com a cabeça para Flaviane. virou seu olhar para mim.
— Tem certeza? Nós meio que somos noivos…
— De mentirinha, . E precisamos falar sobre isso, mas amanhã. Você está criando teias, pode ir. Consigo sentir o cheiro de testosterona daqui. Só, por favor, deixa pra fazer o que você quiser fazer quando seus colegas não estiverem assistindo. Não coloca seu emprego na corda bamba por causa de uma mulher, ok? — abriu um largo sorriso em minha direção e surpreendeu-me com um beijo na testa.
— Você é a fada madrinha da transa, sabia?
Ah, que ótimo.
— Eu sei. Aproveita sua noite!
— Eu vou! — ele acenou e passou por mim, sumindo nas sombras atrás do palco. E logo me vi sozinha. A sensação não foi das melhores, eu precisava admitir.
Caminhei até o bar e sentei-me em um dos bancos de madeira próximos à bancada. Pedi outra espanhola.
— Aquele homem tinha pedido uma, mas acabou de cancelar — o garçom apontou para , que saía do bar ao lado de Flaviane. — Se não for incômodo…
— Ele é meu amigo. Eu aceito. Obrigada — peguei a bebida da mão do garçom e bebi o drink doce em goles gigantes.
, meu falso noivo, estava se agarrando com uma mulher linda muito verdadeira do lado de fora, a poucos metros de mim, e aquilo fazia com que eu me sentisse estranhamente cansada.
— Nossa, garçom, me vê um drink desse que ela está bebendo, por favor. — Levantei o olhar do meu drink, mas sem parar de mandar ver no canudinho de metal. — Acho que vocês deveriam contratar ela como garota propaganda daqui. — Praticamente cuspi meu drink ao virar para o lado e observar quem agora me encarava.
Guilherme Luchini, o novo âncora do jornal. E meu novo colega de trabalho. Ele era nosso correspondente internacional da Itália. Filho de pai brasileiro e mãe italiana, Guilherme era justamente o que nosso jornal precisava: um homem gostoso de terno falando sobre a subida do euro e da umidade na calcinha das telespectadoras.
Afastei-me da bebida e sorri envergonhada em sua direção. Bem, aquilo também não era comum.
— Pois é, sexta antes de feriado. Uma espanhola cai bem.
Queria me afogar no Tietê.
A minha versão induzida por bebida alcoólica não era a minha favorita. Eu falava mais, perdia o pudor demais e me envolvia em encrencas demais. E aquele homem ali com certeza era encrenca.
— Obrigado — ele agradeceu o garçom quando o funcionário voltou com a bebida. Apontei com o meu canudo em sua direção e sorri.
— Esses negócios são viciantes, eu preciso dizer.
— Nem me diga! A Itália não tinha drinks tão bons quanto os brasileiros, eu te garanto isso — sorri em sua direção e balancei a cabeça.
— Nem vinhos?
— Ok, isso é outra história. — Soltei uma risada gostosa e bêbada. Eu deveria estar linda: suada, cansada e com tesão. Uma boa mistura, eu diria.
— Peço desculpas por você precisar presenciar sua nova colega de trabalho devorando uma espanhola, mas eu preciso ir. Seja bem-vindo à PBC, notícias…
— Direto do mundo todo para você — ele completou a frase carro-chefe do jornal. Sorri em sua direção e assenti.
— Isso. Te vejo na terça. — Acenei em sua direção ao virar-me em direção ao caixa para pagar minha comanda. Eu já era a próxima da fila quando virei para trás e observei o gostoso italiano me encarando. — Hm, oi! De novo! — soltei uma risada boba e voltei-me para frente.
— Gostei da sua risada — virei-me novamente. Guilherme sorria. Sua pele lembrava a praia. E protetor solar. Eu tinha certeza de que ele se cuidava. E de que gostava de fazer trilhas. Ele tem cara de quem gosta de aventuras.
Era a minha vez de pagar. Batalhei com o zíper da bolsa, até que peguei o cartão e paguei meu número exorbitante de bebidas. Andei até a calçada e peguei meu celular. Estava triste só de pensar em pegar o metrô, e já passava das nove e meia. O trânsito já deveria estar tranquilo até em casa. Pegar um Uber parecia uma boa opção.
— A gente precisa parar de se encontrar assim. — Olhei para o lado, e lá estava ele com um sorriso gigante no rosto!
Porcariaaaa!
— Eu gostei desses encontros — respondi com bom humor.
— É, eu também. Hã, desculpa perguntar, mas você está bem?
— Só um pouco aérea. Eu nunca bebo, então, quando acontece, a situação pode ficar meio estranha. Na verdade, eu costumo beber vinho, mas uma taça por dia. Sabe como é, os gregos faziam isso e viviam horrores. — Guilherme riu e assentiu.
— Viviam horrores e faziam peças incríveis. Acho que isso é um convite à embriaguez.
— Também acho.
As luzes da grande metrópole invadiam todos os meus sentidos. O ar quente vindo daquela massa de calor entre os prédios era sufocante, assim como a sensação de poder soltar uma bobagem sem noção para um homem lindo como aquele a qualquer momento. Eu era a Cinderela da pinga, e à meia-noite eu me tornaria um velho de cinquenta anos que arrota e diz que o poste na rua é uma mulher gostosa. Estou otimista!
Olhei para o final da rua já vazia, havia algumas pessoas caminhando pelas calçadas, mas o trânsito era zerado. Meu corpo inteiro arrepiou ao ver o único carro da rua com as janelas embaçadas. Meu estômago pesou com a bebida.
?
— Ei, já que a gente continua se encontrando toda hora só porque estamos no mesmo lugar… — iniciei o papo, mas Guilherme já ria. — Quer ir filar um rango no shopping?
— Eu adoraria, mas preciso ir para casa arrumar as caixas da mudança. — Assenti e consegui disfarçar bem minha decepção. — Ouvindo isso em voz alta me fez perceber que essa é a última coisa que eu quero. Adoraria ir filar um rango com você.
— Bem, então vamos lá! — apontei para a calçada.
Guilherme Luchini era muito gentil. Do tipo cartas para Julieta gentil. Seu sorriso era capaz de parar uma guerra e causar outra. Queria que ele causasse uma guerra entre a fivela do meu cinto e…
— O que você vai querer comer? — Guilherme questionou quando chegamos à praça de alimentação vazia.
Olhei ao redor, mas nada parecia tão apetitoso quanto ele.
— Hm, indiana.
— Boa escolha.
Andamos até o restaurante de comida indiana mais fajuto que eu já havia visto. O gosto era pior do que eu imaginava. Mas Guilherme parecia amar.
— Eu não quero ser racista, Deus sabe o quanto já foram comigo sobre esse assunto, mas…
— Sim — respondi com um sorriso. — Eu sou indiana. Metade, pelo menos. Pai indiano e mãe brasileira. E essa comida é uma vergonha.
Guilherme gargalhou enquanto limpava o canto da boca com o guardanapo. Acompanhei o movimento atentamente.
— Bom, acho que você fica responsável por me levar para provar a verdadeira comida indiana.
— Sim, vou te apresentar ao chá.
Guilherme enfiou outra garfada na boca. Forcei-me a comer, e aquilo me ajudou muito com relação à quantidade de bebida que meu corpo havia ingerido. Logo o cansaço já sobrepujava o tesão no homem gigante sentado diante de mim. Ele parecia quase um fogão elétrico. Só que mais alto. E mais quente.
— Obrigado pelo jantar. — Ele sorriu ao terminar de comer. — Vou voltar para casa animado para arrumar as caixas.
— É, mudanças podem ser uma merda.
— Você pelo visto vai passar por isso logo, não é? A vaga no Rio e tudo mais...
— Como sabe?
— Eu fiquei sabendo na minha primeira hora no jornal. As pessoas falam bastante na redação — ele respondeu com um leve sotaque ao final. Percebi durante nossa conversa que ele às vezes parecia pronunciar algumas vogais levemente diferente quando estava à vontade. Não consegui medir em palavras o quanto achei aquilo fofo. E sexy. Especialmente sexy.
Droga de período fértil!
— Ser jornalista é ser fofoqueiro com carteira assinada. Nós somos pagos para fofocar, já pensou nisso? — Sorri sobre o copo de água com gás enquanto Guilherme gargalhava com a cabeça para trás.
Após o jantar, andamos juntos pelas calçadas cheias da Vila Olímpia. O bairro extremamente rico e cheio de grandes empresas estava silencioso nas ruas, mas cheio nas calçadas. Funcionários aproveitavam uma noite de descanso antes de irem para casa. Alguns casais se agarravam na rua, mas não muitos. Afinal de contas, todo mundo ali era colega de trabalho em algum nível, e as coisas poderiam dar errado.
Profissionalismo é uma merda.
— Te deixo na estação — Guilherme ofereceu ao apontar com a cabeça para a estação de trem.
— Ah, eu vou pegar um Uber — apontei para meu celular com um sorriso mais sóbrio. — Onde você mora? Quem sabe nós não podemos rachar um carro?
— Eu moro subindo a rua, na verdade.
Controlei o ímpeto de fazer uma cara surpresa. Quanto esse cara ganhava por mês?
— Foi um prazer te conhecer melhor, Guilherme Luchini…
— Você pronuncia muito bem o meu nome — ele comentou com o cenho franzido. — Fala italiano?
— Sì — retruquei com um sorrisinho. Guilherme abriu um largo sorriso e disparou frases e mais frases em italiano em minha direção. Precisei explicar em italiano, ainda que levemente enferrujada, que eu ainda estava no nível intermediário.
Ele, então, se ofereceu para me ajudar com a língua italiana, o que eu aceitei de bom grado. E ele realmente me ajudou. Por isso, quando atravessamos a porta de sua casa naquela noite entre beijos desesperados, deixei que ele me levasse para conhecer a Itália dentro de si no italiano mais fluente que eu poderia pedir. E que professor, Brasil!



Capítulo onze




Acordar no dia seguinte foi uma sensação indescritível. Não, indescritível talvez nem chegue aos pés do que a noite passada havia sido. Cocei os olhos preguiçosamente e sentei-me entre os lençóis macios. Olhei ao redor, mas Guilherme não estava ali.
Estava na hora de ir embora.
Levantei-me devagar e prendi os cabelos bagunçados em um coque no topo da cabeça. Peguei minhas roupas dobradas sobre a escrivaninha disposta embaixo da janela do quarto de Luchini. A cama king size ocupava a maior parte da suíte. As paredes eram brancas e a única cor presente no quarto vinha de pequenos vasos de planta sobre a escrivaninha de madeira. Ontem, após algum tempo rindo com ele sobre algumas curiosidades do nosso trabalho, levantei, dobrei as roupas e voltei para a cama. Eu não era uma selvagem, por favor.
Minha cabeça estava pesada e eu sentia que olheiras cresciam sob meus olhos, ardendo por uma noite mal dormida. Muito divertida, mas mal dormida.
Observei consternada meu salto no chão. É, eu pegaria um Uber para casa. Não queria fazer a caminhada da vergonha ouvindo alguém gritar "o trem fechou, o guarda não passou e o shopping trem chegou". Já me bastava aquilo durante a semana toda.
Andei em direção à suíte e coloquei apenas a cabeça para dentro. Guilherme não estava ali. Lavei o rosto e escovei os dentes. Obrigada, higiene bucal, por me fazer carregar meu necessáire para todo lado.
Cruzei o apartamento em silêncio. Meus pés tocavam o chão gelado, e eu me senti feliz por não haver nenhum animal de estimação ali. Com muita sorte, Guilherme havia saído para a academia (homens como ele passavam o dia treinando, tenho certeza, era a única explicação para o ritmo daquele homem), e eu poderia sumir sem vestígios.
— Oi.
Soltei um grito assustado e esganiçado ao vê-lo parado no batente da cozinha. Eu estava prestes a chegar à porta, precisava tomar muito cuidado com como procederia a partir dali.
— Oi — sorri e abracei minha bolsa ao lado do corpo com força. — Hm, estou indo embora. Obrigada por ontem.
Eu odeio dias seguintes!
E ele era meu colega de trabalho! Eu nunca fiz isso em anos no mercado jornalístico. O que havia dado em mim, pelo amor de Deus? Ele com certeza deveria ser um homem lixo cheio de “hm, não se apaixone por mim”. O arrependimento por minhas ações caiu como uma bigorna montada no Titanic sobre os meus ombros. Queria fazer como o Jack e me afundar no mar gelado.
Mas Guilherme apenas arqueou a sobrancelha e sorriu.
— Você realmente está tão desconfortável? — questionou com um tom risonho.
Ele estava sem camisa e com uma calça de moletom. Por um segundo, esqueci-me do motivo de querer ir para casa.
— Dias seguintes são sempre desconfortáveis. E desculpa, na realidade. Não pelo sexo. Aquilo foi ótimo. — Guilherme gargalhou. — Mas nós somos colegas de trabalho, e tem um motivo para as pessoas condenarem esse tipo de coisa, sabe? Enfim, quero ir embora antes que algum de nós dois descubra algo ruim um sobre o outro e acabemos nos odiando ou algo do tipo.
Mudei de peso desconfortavelmente e encarei a porta de correr atrás de Luchini. E se ele falasse pra todo mundo na redação? E se ele fosse um babaca? E se ele tivesse filmado tudo e postasse online? Meu coração começou a acelerar diante das possibilidades.
— Gosto do jeito que você pensa, apesar de meio fora da realidade. — Guilherme piscou e apontou para a varanda do apartamento, que abria de cara para a metrópole diante de nós. Pisquei algumas vezes em direção à luz forte. — Pelo menos tome café, que tal? Eu vou para a academia e te deixo aqui, já que você se sente desconfortável. Não precisa se despedir também.
— Gosto do jeito que você pensa — retruquei com um sorriso confortável e relaxei o abraço na bolsa. — Obrigada.
— Por nada. Eu preparei um café da manhã pra você. Não é muita coisa, não esperava visitas. — O homem coçou a nuca, os músculos de sua pélvis ficaram mais aparentes. Mantive os olhos ali por um tempo. É, ele era gostoso demais para minha sanidade.
— Obrigada — disse mais uma vez. Guilherme andou em minha direção com um sorriso. Antes que eu pudesse reagir, ele me beijava novamente. Mais calmo do que na noite anterior, mas não menos envolvente. Apoiei minhas mãos em seu quadril e não evitei um suspiro quando nos afastamos.
Ele sorriu e passou com o polegar por meu lábio inferior, encostando nossos narizes com delicadeza, seus cabelos estavam bagunçados, e o calor de sua pele pinicava minhas mãos. Encarei seu peitoral exposto e sorri.
— Bom treino — sussurrei. Guilherme gargalhou ao lado do meu ouvido.
Devorei meu café da manhã enquanto Luchini avisava o porteiro da minha saída. Despedi-me dele com um aceno e um pedido para que eu deixasse a porta encostada. Enquanto descia pelo elevador, apoiei a cabeça contra o vidro e suspirei. Aquela havia sido uma ótima noite. Ótima. Guilherme descobriu um novo ponto de suspiro em mim que eu não conhecia. Sempre o agradeceria por aquilo, mentalmente, claro.
Peguei meu celular e observei algumas mensagens de brilhando na tela.
"Como assim você mandou ver com um italiano?"
Arqueei a sobrancelha. O que eu havia mandado antes?
Subi um pouco a conversa. Eu havia mandado uma mensagem para ele com a minha localização e disse:
"Vou apresentar o chá indiano para um italiano. Aí está minha localização. Espero que ela marque 'no céu', porque ele com certeza é uma criatura divina"
Ah,
Gargalhei diante de minha frase boba. Não me lembrava de ter mandado aquilo. Fui tomada por uma curiosidade latente.
"E você mandou ver com a Flaviane?"
Enviei a mensagem enquanto segurava a respiração. A resposta apareceu logo em seguida.
"Não. Eu permaneci fiel à minha noiva."
Permaneci encarando a tela com o cenho franzido. Como assim?
"Ela não tinha camisinha, e eu também não. Não ia rolar."
Soltei um suspiro aliviado.
Entrei no Uber com o coração acelerado no peito. estava me ligando por chamada de vídeo. Aguardei até que tivesse cumprimentado a motorista devidamente, arrumei os cabelos incrivelmente bagunçados e atendi.
— E aí, deu o verdadeiro chá pro italiano provar? — abriu a chamada com um sorriso. Revirei os olhos e me recostei contra o couro do banco.
— Eu entrei lá achando que eu daria um chá nele, mas acabou que o homem me deu um chá — gargalhou. Observei a motorista abrir um sorriso bem humorado. Graças a Deus era uma mulher.
— Isso é bom. Acho que vai te ajudar a superar o Bruno — torci o nariz e observei em silêncio apoiar o celular porcamente sobre algum local em sua cozinha.
— Eu não estou tentando superar o Bruno. Philautia, lembra? — assentiu distraidamente enquanto quebrava um ovo num pote.
— E o que tem a ver amor próprio com transar com um desconhecido?
— Ele não é desconhecido!
Sim, ele era. E também sabia, porque apenas franziu o cenho e sumiu da tela por alguns segundos. Ouvi o som de ovo estalar na panela. Permaneci encarando o fundo da cozinha do apartamento dele até que voltasse.
— É, era sobre isso que eu queria falar — ele começou enquanto mastigava algo. — O que deu em você para ir para a casa de um homem que você não conhece?
A voz de estava séria. Mordi o interior da bochecha.
— Eu não sei.
— Como assim, ? Você nunca fez isso antes. Não, não. Você é a pessoa que briga com suas amigas quando fazem essas coisas. Você já brigou comigo por isso antes!
Suspirei pesadamente e comecei a batucar com o pé no chão.
— Eu não sei, ! Eu acho que só precisava de uma aventura uma vez na vida. — Meu amigo revirou os olhos.
— Você pode ser aventureira e não correr riscos.
Lembrei-me do nosso “quase” na faculdade, e um arrepio maldito percorreu cada centrímetro da minha pele. Senti-me pequena e estúpida por alguns momentos.
— A vida é cheia de riscos — retruquei azeda.
Era cansativo tentar ser contida o tempo todo. Ontem, devido aos meus hormônios explodindo em mim como se fosse o ano novo em Copacabana, rendi-me a uma noite desprovida de qualquer reflexão. E eu estava até que feliz com aquilo, apesar de extremamente desconfortável com as possíveis consequências. Mas parecia viver sua vida tão livremente às vezes, e eu quis sentir aquilo uma vez sequer. Foi divertido, mas agora eu me questionava se eu havia escolhido a situação certa para me soltar.
Era de certa forma injusto comparar a liberdade de com a minha. Ele era um homem alto e atlético. Não, não, era homem, simples assim. Para ele, viver adoidado era muito mais possível e com menos consequências do que para mim. Questionei-me se ele estava se preocupando por esse motivo.
sumiu novamente, mas sua voz continuava preenchendo meu fone de ouvido.
, eu fiquei preocupado, de verdade. Você sabia que eu fui até a casa dele esperar você sair? — Arregalei os olhos em choque.
— Por que você fez isso? — questionei com a voz esganiçada.
— Porque você me mandou uma mensagem após encher a cara dizendo que daria um chá em alguém. Seu celular ainda estava na Vila Olímpia. Eu pensei que, sei lá, ele tivesse sido roubado ou você tivesse feito alguma bobagem. Não sei, , eu só sei que fiquei preocupado pra caramba! Na próxima vez, por favor, pelo menos diga com quem está e se está tudo bem. Não anuncie que vai transar e suma — ele falou mais alto.
— Eu agradeço a sua preocupação, mas acho que ir até a casa dele foi demais…
— Ok, — ele desistiu. — Só, por favor, tome cuidado, ok? E não vá transar na casa de desconhecidos, tem cada maluco por aí!
— É, tem os caras que traem as noivas com colegas de trabalho, não é? — gargalhou enquanto colocava os olhos mexidos em um prato, longe da minha visão do celular.
— A questão, dona , é a seguinte: não quero que você saia por aí vivendo a vida adoidada só porque descobriu algumas palavras que significam amor em outro idioma. — Permaneci em silêncio. — Sua noção e organização são o elo da nossa amizade. Eu não posso ser a pessoa sã, isso é contra as regras da humanidade.
Gargalhei com a cabeça contra o estofado. Mesmo me dando uma bronca, conseguia me fazer rir.
Eu sabia que ele não condenava o fato de eu ter transado com um desconhecido, mas ido para a casa dele. Na realidade, os cenários do que poderia ter acontecido rondaram a minha mente assim que eu acordei. Eu já havia passado por uma situação péssima dessas quando eu tinha dezenove anos, então compreendia a preocupação de .
Por um instante, pensei no que Guilherme poderia espalhar pela redação. Era a primeira semana dele, e eu já havia dado pro cara sem nem pensar duas vezes.
Nas últimas semanas eu havia mentido, estava concorrendo a uma promoção, transado com um italiano, transado com um colega de trabalho e com um desconhecido. Os últimos três itens sendo com a mesma pessoa!
— Além disso — continuou tagarelando — você sabe que, se quiser uma aventura sexual insana, pode contar comigo — ele piscou do outro lado da tela.
Meu coração acelerou no peito, minhas mãos suaram e eu tive certeza de que meus seios estavam enrijecidos sob o sutiã. Por um instante, pensei que alguém havia dado um soco com um punho de ferro na minha traqueia.
— Pode sonhar com isso, Patel — ri nervosamente e desliguei a chamada o mais rápido possível. Apoiei o celular no colo sem reação alguma. Minha cabeça estava latejando e eu começava a entrar no modo paranoico.
— Você tem um sorriso lindo! — a motorista comentou ao me olhar pelo retrovisor. Agradeci com meu melhor sorriso em sua direção. — Sabe… Desculpa falar isso, só que o seu fone estava alto e eu acabei ouvindo… Mas o seu amigo tem razão. A gente precisa tomar cuidado com essas coisas hoje em dia. É horrível que esses homens tenham a liberdade de transar sem medo, mas a gente precisa se cuidar vinte e cinco vezes mais.
Acenei com a cabeça. A mulher virou à esquerda em uma rua e bati com a cabeça contra o estofado do banco.
— A gente faz cada loucura para esquecer de homem, não é? — comentei e ri pelo nariz enquanto encarava a cidade passando do lado de fora da janela. Passamos por um jovem dançando break dance na calçada e por um homem de terno que derrubou suco verde em seu paletó. Fiz uma careta. Aquilo demoraria para sair.
— Eu te garanto algo, moça, homem nenhum vai te ajudar a esquecer outro homem. Dar tempo ao tempo é a melhor solução.
— O problema é que eu não sei direito qual dos dois homens eu estou tentando esquecer — aquela meia-verdade pareceu travar em minha boca. Um lampejo de compreensão piscou nos olhos da motorista.
— Ah, então o garoto do telefone…
— É meu melhor amigo. Acho que estou carente, e ele está ali, então tem algo rolando hormonalmente.
— Posso dar um conselho? — Maneei com a cabeça em consentimento. — Não faça isso. Melhores amigos são melhores amigos. Se você aprecia mais sua amizade do que a chance de uma rapidinha, acho que é melhor usar sua dose hormonal em algo diferente. Talvez em outros homens ou mulheres, não sei a sua preferência, ou em yoga, não sei! — Gargalhei enquanto ela gesticulava com uma mão ao pararmos no farol. — Eu já fiz isso antes. Abri mão de uma boa amizade por um deslize. Adivinha qual foi pro brejo?
E com aquela conversa singela, desembarquei em frente à casa da minha mãe.
— Obrigada pela conversa, hã, Angelica — li o nome da mulher no aplicativo e sorri em sua direção.
— Pense no que eu falei.
— Pode acreditar, eu vou.
E eu pensei, por dias a fio aquela conversa rondava minha mente, tirava meu sono e me fazia permanecer encarando a parede do escritório como um cachorro quando late para um ponto acima da nossa cabeça.
e eu éramos bons amigos, seria ridículo da minha parte me insinuar para cima dele sem pensar nas consequências depois. O modo adoidada já havia sido desativado, e a racional estava tomando o controle novamente. Eu gostava daquela , ela me permitia ficar longe de confusões e encrencas. Às vezes eu a odiava, mas eu sabia que, naquele momento, permanecer longe de e de minhas explosões hormonais era a decisão certa. Eu contava com isso.



Capítulo doze




Flora estava sentada diante de mim em silêncio há pelo menos três minutos. Ela permanecia encarando as mãos apoiadas no colo e suspirando ocasionalmente. Deixei-me relaxar na cadeira enquanto ela batucava com os pés no chão.
Eu havia saído da chamada com há alguns minutos, e minha irmã tocou na campainha assim que decidi sentar no sofá para ver The Office, meu novo vício.
— Eu vim pedir desculpas — Flora iniciou com a voz baixa, seus olhos fitavam suas próprias mãos.
— Pelo quê? — franzi o cenho em confusão e tomei outro gole do suco de maracujá que sobrou de ontem.
— Eu contei à mamadi sobre você e a . Não tinha ideia de que você queria manter aquilo em silêncio.
— As tias acham que elas contaram à mamadi. Pelo visto me ouviram falar com Layla sobre isso e foram direto fofocar com ela. Então foi você quem contou? — Flora assentiu.
— Layla me contou enquanto estava na festa. Eu estava com mamadi e contei a notícia. Estava tão eufórica que nem parei para pensar. E aí, no almoço, as tias devem ter te ouvido e acharam ser as primeiras a descobrir. — Bufei em frustração e levantei-me do sofá, andando pela sala em círculos.
— Eu odeio fofoca mais do que tudo — rosnei e mordi a ponta do polegar enquanto pensava.
— Você já percebeu que a nossa colônia vive dizendo que odeia fofoca, mas não para de fofocar? — Gargalhei em sua direção.
— É, acho que somos muito acostumados a cuidar da vida um do outro.
Sentei-me novamente e segurei as mãos geladas de Flora com um sorriso.
— Você não tem culpa, Flora. Fica tranquila — assegurei. — Mas espera… Mamadi sabia antes do almoço? — arqueei a sobrancelha em confusão. — Ela deveria ter me ligado na hora para me xingar, por que ela não fez isso? — Flora deu de ombros.
— Eu também estranhei. Quando eu contei, ela apenas se levantou e foi falar com papá na cozinha. Eu nem imaginei que ela iria anunciar no almoço.
— Isso não tem a menor lógica, Flora. Mamadi nunca aceita uma informação dessas sem protesto. Será que ela está planejando algo? — questionei com o tom baixo. Flora cerrou os olhos e suspirou.
— Ela deixa a gente paranoico.
Como em uma invocação, a porta de casa foi atingida por algumas batidas ritmadas. Eu e Flora nos encaramos.
— Quem é? — gritei.
— A mulher que te deu à luz!
Flora e eu trocamos um olhar nervoso. Se mamadi ouviu sequer um pouco do que falávamos…
— Indo! — gritei prontamente e abri a porta com um sorriso. — Mamadi, como está?
Minha mãe estava parada diante de mim usando uma calça jeans com uma bata roxa por cima até os joelhos. Sua bolsa Chanel estava ao lado do corpo e combinava com a bata.
— Bem, querido, graças aos deuses — ela entrou em minha casa e analisou os arredores, como sempre fazia quando vinha visitar. Ela abraçou Flora com força e fez carinho em sua bochecha com o polegar. Fui até a cozinha buscar algo para mamadi beber. Ao voltar, ela e Flora discutiam sobre o casamento.
— Fico feliz que estejam empolgadas com o casamento — entreguei o copo à mamadi e apoiei-me contra a mesa da sala. Ela tomou um gole sutil de água e deixou o copo sobre a mesinha. — Mamadi, tome mais água. Problemas de pedra no rim são sérios.
— Eu já tomei hoje — ela desconversou com um gesto com as mãos. — E por falar no casamento, quem você vai levar, ?
Eu estava sendo testado. O peso da questão de mamadi preencheu o pequeno cômodo. Bati os pés desconfortavelmente contra o chão.
— Mãe, eu tenho uma noiva.
Senti-me desconfortável com o quão facilmente a mentira havia saído. Temia que em algum ponto eu esquecesse que eu e éramos apenas amigos.
— E o que tem a ver? Vocês ainda não são casados — ela comentou seriamente. Flora alternou o olhar entre nós dois.
— Mamadi, por que levaria qualquer outra mulher senão a noiva? — Minha irmã apertou as mãos sobre a calça jeans. Enfrentar mamadi sempre era um problema para Flora.
— Porque eu não quero que essa mulher apareça nas fotos do casamento. Depois, quando ela terminar com , vamos precisar olhar para as fotos com ela.
Cerrei os punhos e encarei a janela do lado de fora.
— Mamadi, por favor, não vamos discutir isso.
Eu estava cansado demais para lidar com mamadi naquele momento. Eu a amava, mas pela paciência de Buda, aquilo era demais.
Sempre pensei em como era a relação de famílias indianas se comparadas com as brasileiras. Enquanto cresci, vi muitos amigos indianos serem mais livres por terem nascido no Brasil, mas tinha muitos outros amigos que, assim como eu, possuíam uma relação muito mais distante e restrita com seus pais. Não era uma regra, mas o modelo de criação era bem diferente. E às vezes aquilo me incomodava.
Eu sabia que gostaria de criar meus filhos (se os tivesse), à la brasileira. E eu não era ingênuo ao ponto de pensar que aquilo seria totalmente verdade. Havia pontos muito positivos na criação de meus pais. Eu cresci desejando a ambição, respeitando os mais velhos ao meu redor e, verdade seja dita, as atividades extracurriculares na escola me ajudaram a chegar muito mais longe. Mas é muito mais do que isso, viver com uma criação escolar brasileira e familiar indiana me ajudou a ver o mundo de uma maneira que meus amigos totalmente brasileiros não conseguiam. Eu seria eternamente grato por aquilo.
Mas a minha primeira mudança seria com relação ao nome! É muito comum para filhos de imigrantes terem alguns nomes incomuns. não é um nome comum no Brasil, e sempre me senti incomodado com isso. Porém, enquanto cresci, vi muitos amigos meus com nomes como John, Marie, Sunny. Eu não entendia exatamente o motivo de pais estrangeiros colocarem o nome dos filhos com nacionalidades diferentes do país em que vivem e até do país nativo. Quer dizer, por que meu nome não era algo como Kadir?
De qualquer modo, o nome do meu filho será Zé da Pá Virada.
— E por falar nisso — troquei o rumo da conversa, virando-me para mamadi com o semblante sério — por que você não me avisou antes que sabia sobre meu noivado? Por que só anunciou no almoço e não falou comigo antes?
Mamadi permaneceu me encarando por alguns segundos, como se estivesse pensando se me responderia a verdade leve ou a verdade cruel. Eu duvidava que a primeira opção fosse ser escolhida.
— Eu tentei te dar a chance de falar algo — arqueei a sobrancelha, levemente surpreso.
— Desde quando você me dá a chance de falar algo?
— Você quer apanhar na boca? — ela praticamente rosnou. Empertiguei-me contra a mesa. Flora segurava o riso.
— Desculpa, mamadi — ela continuava com a expressão irritadiça.
— Criei dois malcriados… — minha mãe resmungou. — Eu imaginei que fosse contar para mim, não que eu precisaria descobrir por Flora. Pior ainda, eu fui informada sobre seu noivado. Eu precisava salvar aquela catástrofe, não é? — ela riu pelo nariz. — É isso que dá tentar dar uma chance para os outros.
— Mamadi, eu ia te contar…
— Me poupe, — ela balançou o pulso cheio de pulseiras e arqueou a sobrancelha. — Você já fez o suficiente. Enfim, está dito, a Filomena não vai à festa.
— É , mamadi — corrigi com uma leve impaciência.
— Sim, isso.
Minha mãe e Flora voltaram a conversar sobre os detalhes do casamento animadamente, ignorando a minha presença por completo. Sentei-me à mesa e batuquei com os dedos sobre a madeira. deveria estar na casa de sua mãe. Peguei meu celular para mandar uma mensagem para ela, e fui surpreendido pela mensagem de Flaviane. Abri um sorriso discreto diante de seu “bom dia”.
Eu me arrependia tanto de ter saído sem proteção no dia anterior!
Mas me arrependi mais ainda por não ter estado ao lado de para evitar o desastre italiano. Bloqueei a tela do celular após responder Flaviane e permaneci encarando a janela. havia exagerado na noite anterior.
Acordei quatro da manhã com suas mensagens. Minha amiga levava seu sono muito a sério, jamais mandaria mensagens àquela hora se não fosse por um bom motivo.
Ao lê-las, franzi o cenho e não consegui mais dormir até o fim da noite. Tentei ligar para seu celular, entrar em contato, mas a internet estava desligada.
Tentei assistir a alguns vídeos no YouTube e mexer no Facebook, mas a inquietação era grande demais. Comecei a andar pela casa no escuro com o som da minha playlist de rap tocando ao fundo até seis da manhã, quando decidi ir até o endereço que havia enviado. Eu só conseguiria dormir bem se me certificasse de que estava tudo bem.
Peguei o carro usado, que eu raramente dirigia, na garagem e segui o endereço na Vila Olímpia. Andei até a portaria e perguntei por — a mulher de cabelos escuros e pele marrom escura que havia entrado pela porta com o italiano, na descrição nada útil de .
Caso ele tentasse algo contra ela ou sumisse, como eu descreveria à polícia? Que ela havia sido raptada por um italiano?
Quando me apresentei como irmão de , o porteiro desinteressado de cinquenta anos apenas assentiu e disse que ela estava ali. Agradeci com um suspiro aliviado e voltei para o carro.
O sol despontava do outro lado da Marginal Pinheiros. O trânsito de sábado era tranquilo. Deitei a cabeça contra o estofado e pensei na bronca que daria em . Era a primeira vez em nossos anos de amizade que ela fazia aquilo.
Ela e Bruno haviam terminado. Eu não poderia dizer que sentia muito. Eu sabia que Bruno e tinham data de validade, creio que até mesmo ela sabia, mas não quis me meter. Eu era cegamente crente na teoria de que algumas pessoas precisam descobrir sozinhas o que gostam ou não, e não precisava da minha ajuda com aquilo. Sendo mais honesto ainda, ela rejeitaria meu comentário com um aceno e diria "sei o que estou fazendo".
E ela sabia.
Durante todos os nossos anos de amizade, já a vi saindo com algumas pessoas, e consegui dizer quais dariam certo ou não (eu havia errado uma vez, mas em que mundo eu imaginaria que ficaria um ano enrolada com um rockeiro punk fã do Supla?).
Tentei segurar a risada diante da memória de ter acompanhado os dois em um show na Paulista junto à minha ex-namorada (a que fugiu com o sheik). Lá, decidiu que terminaria com ele, e eu decidi que precisava comprar um tênis novo.
Duas decisões igualmente importantes.
, o que você acha? — encarei Flora distraidamente. Ela riu e balançou os cabelos negros para trás. — Qual é o mais bonito? — Levantou duas revistas com duas noivas indianas usando duas vestimentas extremamente semelhantes, mas eu não diria aquilo para Flora.
— Hm, o da esquerda, definitivamente.
Flora pareceu satisfeita e voltou a conversar com mamadi.
— Eu estava pensando em ir hoje fazer a prova do vestido… — Tomei um gole d’água enquanto fitava Flora com o cenho franzido. Ela não parecia estar falando sozinha, mas mamadi se levantou e estava na cozinha fazendo almoço. Só poderia se dirigir a mim.
— Boa sorte! — Sorri largamente e prendi metade do cabelo em um pequeno rabo de cavalo. Flora bufou e jogou as duas revistas ao lado do corpo, levantando-se rapidamente e se aproximando de mim.
— Quero que mamadi e se aproximem! Ela é sua noiva, e acho que seria legal se as duas passassem um tempo juntas.
Encarei Flora com um semblante descrente. Ela só poderia estar brincando. Cobri a boca com a mão para evitar uma risada desconfortável.
— Sem chance, Flora.
— Qual é, ? — ela exclamou resignada e cruzou os braços. — Você manteve escondida de mim por anos! E agora que eu finalmente a conheci, não vou deixar você sumir com ela até o dia do casamento. Poxa, é a primeira mulher que você trouxe pra casa. — Ela colocou o cabelo atrás da orelha antes de continuar. — E eu sei que você já teve muitas namoradas e namorados antes — soltei uma gargalhada estrondosa, jogando a cabeça para trás.
— Quem te disse isso?
— A ! — ela exclamou. Balancei a cabeça e encarei minha mão sobre a mesa.
está delirando.
— Eu duvido que sua noiva falaria isso como uma mentira… — Flora deu de ombros e voltou a se sentar no sofá com uma careta emburrada. — Você parece gostar dela de verdade, e eu gostei de , . Por favor, não estrague tudo e deixe-me aproveitar minha cunhada!
Ponderei por alguns segundos em silêncio. Toda aquela mentira crescia a cada dia. Ontem eu e deveríamos ter conversado sobre aquele assunto, mas ele parecia cada vez mais distante. Eu sequer sabia se gostaria de ter aquela conversa, sendo totalmente honesto.
A verdade é que as últimas semanas têm sido ótimas com . O noivado falso me permitiu falar com ela muito mais do que estávamos acostumados. A rotina adulta não nos dava muitas chances de nos vermos pessoalmente. Ser o noivo de por aquelas semanas me fez lembrar o quanto eu sentia saudades dela e da nossa amizade. Aquilo era tão ruim assim?
— Eu vou falar com ela, pode ser? — enrolei Flora por um tempo. Minha irmã, que me conhecia bem demais, negou com a cabeça.
— Eu vou falar. Dê-me seu celular. Vou ligar para ela.
— Ligar? Quem liga em pleno século XXI?
— Pessoas que querem encurralar as outras — ela respondeu com obviedade. — Mensagens dão escapatória, chamadas são diferentes.
— Isso é muito manipulador — constatei com surpresa. Desde quando Flora havia ficado calculista daquela maneira? Minha irmã pegou meu celular desbloqueado sobre a mesa e abriu as ligações.
— O contato dela está salvo como “, cara mia”? — Flora comprimiu os lábios em uma linha fina para segurar a risada. — Isso é muito meloso. — Revirei os olhos e apenas a encarei enquanto andava pela sala com o telefone na orelha.
estava com a mãe e provavelmente com o celular no silencioso, não atenderia.
— Oi, ! É a Flora, irmã do
Levantei-me de supetão e aproximei-me de Flora para pegar o celular. O único motivo para eu ter concordado com aquilo era a certeza de que não atenderia a ligação. Flora desviou da minha tentativa de toque e correu para meu quarto, trancando a porta atrás de si. Colei o ouvido na porta, ouvindo alguns murmúrios por parte de Flora.
— Isso, a prova de vestidos! Mamadi não tem o mesmo gosto que eu, então queria uma outra indiana com a minha idade para dar uma opinião… — Revirei os olhos com a desculpa esfarrapada. Eu e Flora realmente éramos irmãos. — Você consegue? Ai que ótimo! Não, não vai. Mas posso chamar ele, se você quiser! Hm, eu concordo. Ok, perfeito. Amanhã às nove na estação Tiradentes? Perfeito! Você é incrível. Estou ansiosa. Obrigada, !
Afastei-me da porta quando Flora apareceu diante de mim com uma expressão convencida.
— Eu vou sair para fazer compras com a sua noiva. Acho que amanhã vai ser um ótimo dia! — Fiz uma careta e voltei para a sala. Mamadi estava pondo a mesa. Ajudei na organização com Flora.
Quando as duas foram embora, larguei-me no sofá com a cabeça no estofado. Liguei a TV e deixei The Office, minha série de conforto, passar. Meu corpo afundou no móvel e deixei-me fechar os olhos. e Flora iriam fazer compras juntas. Eu não sabia como me sentir em relação àquilo. Na realidade, essa situação inteira era fora do comum. Eu só torcia para que não surtasse.


*





Eu estava surtando.
Após desligar a chamada com Flora, senti o ar sumir de meus pulmões. Minha mãe e meu padrasto, que riam de um vídeo recebido pelo WhatsApp, viraram para mim levemente assustados.
— Filha, está tudo bem? — Kabir aproximou-se de mim com o rosto preocupado, passando as mãos calejadas em minhas costas.
— Sim, sim. Eu só…
— Você está assim há alguns dias — minha mãe arqueou a sobrancelha e aproximou-se com o pano de prato em mãos.
— Eu acho que fiz uma bobagem. — Kabir segurou uma risada diante da cara de minha mãe. Ela era a pessoa mais organizada e metódica que eu conhecia, ainda mais do que eu.
— O que houve? Está tudo bem no seu emprego?
Lembrei-me da proposta que eu havia recebido do emprego de co-âncora no jornal do Rio, e isso só pareceu me deixar mais afobada. Eram tantas escolhas, eu estava tão perdida.
— Lembra do , certo? — comecei a conversa, mas sem saber direito como continuar. Eu nunca deixava de contar as coisas para minha mãe, e eu não havia falado nada sobre e nossa farsa, porém não precisava ser vidente para saber que ela provavelmente gritaria comigo por mentir.
— Óbvio que eu lembro do ! — minha mãe exclamou com um sorriso e sentou-se no braço do sofá. Seus cabelos curtos estavam controlados por uma bandana azul cerúleo e ela usava um vestido preto com espaços para bolsos, nos quais estavam escondidos seus remédios para pressão alta e chocolates. Ela jurava que ninguém sabia da existência deles ali, o que deixava a situação mais cômica. — Onde ele está, falando nisso? Não o vejo há tanto tempo…
— Bom, mãe, eu tenho muito que te atualizar, na verdade.
— Ih, isso pede um vinho? — Kabir tentou amenizar o clima, mas minha mãe já havia cruzado os braços em desconfiança. Ele estava entre nós duas, e levantou-se para buscar a bebida e as taças simples. Segurei a bebida em mãos e tomei um gole antes de apoiar a bebida sobre a pequena mesinha.
Minha mãe odiava quando eu bebia. Do ponto de vista dela, a partir do momento em que eu bebi uma taça de vinho, já estava a um passo ínfimo do alcoolismo. Tossi desconfortavelmente e suspirei antes de começar.
— Terminei com Bruno.
Esperei por reclamações, revolta e gritos, mas minha mãe e Kabir apenas me encararam em silêncio. Kabir pousou sua mão marrom sobre a negra de minha mãe, uma mistura absurdamente linda.
— Nenhuma reação? — questionei confusa. Kabir abriu um sorriso desconfortável.
— Querida, eu e sua mãe não gostávamos muito do Bruno…
— Mas vocês chamavam ele para ir à praia com a gente! — exclamei indignada. Minha mãe esfregou os olhos verdes com um suspiro.
— A gente precisava de outra pessoa para rachar a gasolina — ela admitiu com desdém. Arregalei os olhos em choque.
— Vocês só podem estar brincando…
— Querida, não é que nós não apoiávamos, é só que—
Kabir tentou começar, mas minha mãe o interrompeu.
— Nós preferimos o ! — Pisquei algumas vezes em direção aos dois, sem saber direito se eu acreditava naquilo ou não.
— Mas eu não namoro o .
— Mas deveria! — ela exclamou e bateu na perna de Kabir, que apenas a encarou de soslaio e suspirou.
Kabir e minha mãe se conheceram no templo que frequentávamos quando eu era criança. Minha mãe era totalmente adepta ao hinduísmo mesmo antes de conhecer meu pai. Apesar de eu não seguir a religião com ela, continuava a frequentar o templo quando ela pedia a minha presença. Há alguns anos, Kabir e minha mãe se conheceram durante um almoço de fiéis. Ele derrubou chá na calça dela e os dois se apaixonaram. Estavam juntos desde então. E apesar de ser indiano, Kabir havia aceitado bem a cultura brasileira. Às vezes, era minha mãe quem parecia mais indiana do que ele, e aquilo só me provava o quanto estereótipos são enganosos.
— Mãe, eu e somos amigos. E é isso. Acabou. Por favor, não é a primeira vez que temos essa conversa, mas gostaria que fosse a última — afirmei categoricamente. Kabir assentiu, mas minha mãe levou um tempo antes de concordar.
— Ok. Posso tentar. Qual a próxima notícia?
— Eu e estamos noivos.
Talvez eu tenha feito aquilo de propósito apenas para ver a cara de choque de minha mãe. Valeu totalmente a pena. Precisei de alguns minutos de gritos histéricos até explicar a história inteira. Minha mãe, que antes praticamente chorava de alegria, parecia prestes a me matar. Eu poderia lidar com a raiva dela, mas não esperava que fosse ser tanta. Kabir fez o papel de impedir que a taça de vinho fosse atirada em minha direção.
— Eu não criei uma mentirosa, Kabir! — ela exclamou quando Kabir disse a ela que se controlasse.
— Mãe, espera! Nós já temos tudo resolvido. E não me obrigou a mentir, eu que escolhi seguir em frente.
— Isso é pior ainda! — ela gritou nervosamente. Kabir me encarou com o semblante sério.
— Querida, vá beber água. Eu quero conversar com , pode ser? — minha mãe saiu da sala xingando em hindi. Ignorei as ofensas finais e sentei-me novamente no sofá com a cabeça entre as mãos.
— Eu sabia que a reação dela não ia ser das melhores, mas não é como se eu tivesse matado alguém nem nada disso — confessei para Kabir com uma careta. Ele riu e sentou-se de frente para mim em um banco de tecido.
— Querida, você sabe o quanto sua mãe odeia mentiras — assenti. — E ela também sabe o quanto você odeia. Por que está mentindo?
Aquela era uma boa pergunta.
Desde ontem, quando e eu dançamos no bar, eu me perguntava se minhas motivações eram unicamente pela nossa amizade. Muitas variáveis, muitos Xs sem resposta. Eu odiava aquilo.
— Eu não sei — admiti com um pesar de ombros. Aquela era a verdade. Eu ainda não tinha informações o suficiente para decidir por que havia mentido tanto desde o início.
— E está tranquilo com essa teia de mentiras? — ele questionou seriamente e passou a mão pela barba cheia.
— Não, não está. Na verdade, ele estava pronto para contar a verdade, mas eu falei para continuarmos com aquilo. A culpa é dele por mentir primeiro, mas eu que continuei. — Kabir assentiu lentamente em compreensão.
Ele parecia carregar a sabedoria e calmaria do mundo inteiro em seus olhos castanhos e dentes estranhamente alinhados para alguém que nunca havia usado aparelho, ou era o que ele dizia. Suspirei mais uma vez e senti-me calma quando ele segurou minhas mãos entre as suas.
— Eu sei que você está esperando que alguém te diga o que fazer — ele diminuiu o tom de voz e encarou a cozinha. — Sua mãe com certeza vai te dizer o que fazer também, você sabe disso. Mas não podemos tomar nenhuma decisão por você. Afinal de contas, , você é adulta e precisa se responsabilizar por suas decisões.
— Eu sei disso, mas é tão difícil — engoli em seco. — Eu tenho tantas decisões em mãos, e elas só parecem aumentar. Nunca tive dificuldades em ser prática e eficiente.
— Não é possível ser prático e eficiente quando se trata de pessoas que amamos. São vidas. Mas você não é uma mentirosa, , então não aja como uma.


Capítulo treze



Eu odiava pegar o metrô de São Paulo em dia de semana, mas pegar no final de semana era quase um passeio turístico. Consegui ir sentada durante o caminho todo enquanto assistia The Office pelo celular. Soltei uma gargalhada incontida, atraindo a atenção de uma moça usando uma fantasia de palhaço do outro lado do vagão.
Aguardei Flora fora da catraca do metrô. Subi as escadas correndo quando ela anunciou que me esperava. E, bem, foi uma surpresa ao vê-la acenando de dentro de um carro esportivo. Como ela ainda não havia sido assaltada?!
Entrei no veículo timidamente enquanto ela sorria e me cumprimentava animadamente. O carro tinha cheiro de gente rica, e o painel na frente do volante era digital. Cobicei aquilo por alguns instantes. Flora usava um vestido azul justo ao seu corpo magro, um batom vermelho preenchia seus lábios finos e os cabelos estavam trançados em formato de coroa.
— Eu vou casar com um tecido sobre a cabeça, então é melhor provar o vestido sabendo disso.
Eu não podia discordar daquela lógica.
Pelo que percebi, a mãe de havia se sentido indisposta naquela manhã e não iria à primeira prova do vestido de Flora. Meus sentimentos alternaram entre alívio e desespero ao ouvir a notícia.
Na noite anterior, passou uma hora comigo ao telefone discutindo possíveis cenários com a mãe dele em cena. Primeiramente, decidimos que contaríamos sobre nosso término dali três semanas, quando haveria um evento com a família de . Ali a fofoca correria como fogo em folhagem seca.
Decidimos também o motivo do término: eu não queria ter filhos. Saio como vilã e a mãe de fica feliz. Eu, de verdade, não me incomodei com o arranjo dos fatos, mas , sim. Ele ainda gostaria de pensar em outra desculpa para o término do noivado, o que nos levou a mais uma hora pesquisando no Google “motivos para terminar com alguém”. Encontramos alguns motivos muito bons para terminar um namoro, mas não um noivado. Quer dizer, se dissesse que terminou comigo porque eu durmo do lado esquerdo da cama, provavelmente alguém desconfiaria.
Eu estava entristecida em parte por precisar me afastar de Flora. Eu fiquei realmente feliz por conhecê-la melhor.
— Eu não sabia que havia lojas de noiva indianas por aqui — admiti para Flora quando estacionamos em um estacionamento pago.
Saí do carro, e meus tênis confortáveis esmagaram o cascalho sob meus pés. Andamos juntas a pé até uma pequena entrada que levava escada acima até um ateliê. O bafo quente de São Paulo fazia minhas omoplatas suarem e meu corpo inteiro pingava gotículas de suor, que evaporavam antes que eu me desse conta. As paredes pareciam nos engolir enquanto subíamos os lances de degraus do pequeno estúdio. Controlei a respiração ofegante quando chegamos ao terceiro patamar, que era a loja.
Do lado de fora, ninguém imaginaria o tamanho do lugar. Todas as paredes eram preenchidas por araras de vestidos tradicionais, cores bufantes estampavam cada centímetro de minha visão. O ar condicionado contrastava com o calor excessivo da rua, e uma mulher baixinha e usando uma fita métrica enrolada ao pescoço veio nos receber.
— Olá! Eu estou aqui para a prova do vestido. Sou a Flora Patel. — Flora sorriu cordialmente para a funcionária. Encarei os arredores mais uma vez antes de segui-las até uma cortina de veludo vermelha. O ar cheirava a naftalina e incenso, meu corpo inteiro começava a tremer de frio. Ah, o choque térmico!
— Que estranho, hoje é domingo e tem uma loja aberta. Geralmente fica tudo fechado — confidenciei para Flora quando a mulher baixinha sumiu de vista pela cortina. Ela virou para mim com um sorriso simples.
— Mamadi é amiga da dona, ela abriu para que eu provasse o vestido.
Tentei controlar o choque, falhando miseravelmente, porque Flora agora gargalhava diante dos meus olhos esbugalhados.
— Uau, isso é que é confiança — assoviei e Flora assentiu.
A funcionária voltou e nos guiou através do portal dividido pela cortina. Ali dentro estavam os vestidos mais lindos que eu já havia visto na vida. Alguns manequins usavam vestimentas vermelhas com pedras incrustadas tão lindas que me fizeram cogitar casar apenas para usá-las. Se eu e não resolvêssemos a situação do noivado falso, eu provavelmente precisaria de um casamento falso também, e não reclamaria em usar um vestido falso daqueles.
Flora pediu licença e foi ao banheiro, deixando-me sozinha entre milhares de vestidos berrantes. Dedilhei alguns tecidos, pensando em quanto os casamentos indianos eram bonitos. No ano passado, fui em um que durou praticamente duas semanas. Kabir e dona senhora minha mãe jamais poderiam desconfiar do tanto que eu bebi naqueles dias. Eu juro que vi um duende em algum ponto entre uma ressaca e outra.
E quando Flora me ligou no dia anterior, havia acabado de chegar na casa da minha mãe. Tentei dizer que não, mas ela parecia animada. E lembrei-me de dizendo que Flora não tinha muitas amigas, então decidi ir como alguém que realmente gostaria da amizade dela.
Como se Flora fosse querer ser sua amiga depois que anunciar o término, não é?
Sacudi o pensamento com os ombros e suspirei. Eu precisava me lembrar constantemente de que aquilo acabaria em três semanas. Mas Flora era um amor de pessoa, e eu não conseguia resistir a alguém pedindo minha ajuda.
O celular vibrou em meu bolso. Abri um sorriso largo ao ver que era Guilherme Luchini checando se eu estava bem. Eu estava respondendo quando Flora voltou.
— Ei, vamos lá? — Segurou meu pulso e me guiou pelos vestidos das araras.
Passei o dedo por entre alguns modelos, sentindo o tecido e me chocando com os valores nas etiquetas. Senti a ponta dos dedos formigarem a cada casa decimal dos vestidos. Eu pensava em me casar algum dia, mas definitivamente não gostava de pensar no valor da cerimônia. Flora puxou uma vestimenta vermelha de um cabide, e precisei tentar com muito custo não babar no chão.
O top vermelho de manga três quartos era incrustado de desenhos dourados de flores e galhos cobrindo o redor dos seios. Pedrarias delicadas desciam até o decote e padronizavam com as mangas douradas. A saia era vermelha, mas desenhos brancos e dourados preenchiam a bainha e subiam pelo tecido, dando a impressão de movimento. Conchas e ondas pareciam dar vida ao material pesado. Junto a ele estava um sári também vermelho, mas ele era mais simples. Aquele sári indicava que Flora seria uma mulher casada.
— Pela sua cara, acho que amou esse vestido, não é? — Flora comentou com um risinho ao me ver babando. Cocei a nuca desconcertada e assenti.
— Você ficaria incrível nele, de verdade. — Flora analisou o tecido, mas torceu o nariz.
— Eu não queria usar vermelho, pensei em algo mais dourado. Mas, ei, você já decidiu o vestido?
— Hã?
— O casamento — apontou como se eu fosse meio lerda. Pisquei algumas vezes até entender.
Eu sou jornalista, preciso de respostas rápidas e inteligentes!
— Ah, sim! Eu e . É, desculpa. Não, não tenho um vestido — Flora gargalhou com a mão sobre a barriga e colocou a roupa vermelha em minhas mãos. Uma bela jornalista, eu sou.
— Prove este. — O tecido parecia pesar o dobro agora. Mudei o peso do corpo desconfortavelmente. As palavras de Kabir ecoavam em minha mente, dizendo que eu não era uma mentirosa. Acho que ele estava errado.
— Eu não acho que seja uma boa ideia. Só estou aqui para te acompanhar.
— Enquanto você se troca, eu vou atrás de um chai para nós duas. Isso é me acompanhar também. — Flora sorriu docemente e encarou a roupa que eu segurava. — é um homem de sorte. Eu sempre imaginei que houvesse algo entre vocês dois, sabia?
— Ah, é? — Encarei o tecido em minhas mãos. De repente, o ar condicionado parecia insignificante. Eu sabia que estava ficando vermelha e suada.
— Sim! Ele achava que me enganaria com aquele papo de “somos apenas amigos” e “ela é como uma irmã para mim”. Ahã, até parece.
Meu Deus, como está quente nesse lugar!
— Querida, você está bem? — Flora abanou com as unhas perfeitamente feitas em frente ao meu rosto. — Vou pegar uma água gelada e pedir para diminuírem a temperatura.
Flora sumiu novamente, e as paredes pareciam me engolir. Aquela mentira estava me consumindo. E desde quando tantas pessoas achavam que eu e tínhamos um relacionamento? Flora, Kabir, minha mãe, minhas amigas…
Deixei que a saia vermelha em minhas mãos fosse alvo do meu aperto nervoso. A situação estava saindo muito do meu controle. Eu jamais imaginaria estar em uma posição como essa, mentindo para todos e precisando ouvir situações desconfortáveis sobre como eu e meu melhor amigo somos um bom casal, quando na verdade somos apenas amigos.
me amava como irmã! Aquilo já era o suficiente para mim, por que não era para outras pessoas?
Aquela sensação ruim no estômago havia voltado, a mesma que senti quando vi ir atrás de Flaviane na noite anterior. Tentar desvendar o que aquilo significava parecia mais um trabalho cansativo, e eu não queria nenhuma outra complicação adicionada ao que eu já precisava resolver.
— Aqui está. — A funcionária que nos atendeu entregou um chai para mim. Tomei a bebida feita de especiarias e leite como se fosse um abraço. — E já diminui o ar condicionado, como você pediu.
Eu me abstraí da conversa enquanto Flora falava com a mulher sobre as provas dos vestidos. Foi um erro ter vindo aqui. Tudo isso é um erro. Flora me odiaria quando descobrisse sobre o término, me odiaria se descobrisse aquela mentira toda. Quer dizer, eu estou mentindo para ela neste momento! Que tipo de pessoa eu sou?
Pensei em mentir e dizer que estava passando mal, mas aquela seria mais uma farsa adicionada às outras, e eu não conseguiria mais adicionar mentira alguma àquela pilha.
Eu consigo aguentar até a hora de ir embora. É só manter o assunto do casamento distante, o que seria difícil, levando em conta que estávamos ali para provar vestidos de casamento.
É, aquilo seria um desastre.
Flora saiu para provar uma vestimenta parecida com a que eu segurava em mãos, mas dourada e mais discreta. Sentei-me no banco de frente para o provador. A roupa que ela havia me dado ainda estava comigo, e eu não parecia querer me livrar dela tão cedo.
— O que achamos? — questionou ao sair do provador com a mão na cintura.
Flora parecia uma mina de ouro em movimento. Ela tinha razão em ter usado uma trança em coroa naquele dia, já que um véu dourado transparente cobria seu rosto até a altura da cintura. O top chegava a quatro dedos abaixo de seus seios e era incrustado de peças douradas. O tecido reluzia contra a luz do provador, e o farfalhar do tecido era o único som ouvido, mascarando muito bem meus murmúrios sem noção diante dela.
— Se o seu noivo não desmaiar te vendo usar essa roupa, ele não te merece.
Flora gargalhou com a mão sobre a boca e subiu em um pequeno palanque, observando seu reflexo no espelho. E eu me vi atrás dela, com os olhos arregalados e a boca escancarada ao vê-la usar aquela roupa. A saia cobria o pequeno palco, e Flora era uma infinidade de tecido e beleza. Os desenhos em toda a roupa eram de fios ondulados e conchas na bainha da saia e na manga do top. Flora girou, e o vestido fez a curva junto com ela.
— Eu queria poder usar isso para trabalhar — Flora confessou ao me encarar pelo espelho, e foi a minha vez de gargalhar. Sua pele escura dava vida ao tom de dourado. Ela tirou o véu e mordeu o lábio inferior.
— O que houve? Não gostou de algo? — questionei seriamente e levantei-me, deixando a roupa sobre o banco.
— Será que Kadir vai gostar? — ela ponderou seriamente, passando a mão pelo tecido da saia com súbita falta de coragem. Sorri compreensiva em sua direção.
— Ele vai amar, Flora — assegurei-a com um sorriso. — Você é a noiva mais bonita que eu já vi, e ele também vai pensar isso. Mas a questão é: você consegue se imaginar usando essa roupa? — Dei a volta ao seu redor, parando ao seu lado. Flora continuou encarando o reflexo no espelho, seu peito subia e descia calmamente.
Ali, parada, ela parecia uma divindade. Suas mãos delicadas estavam cruzadas sobre o umbigo, os olhos grandes escaneavam toda a extensão da roupa, parecendo pensativa.
— Eu nunca me senti tão linda — ela admitiu com os olhos cheios de lágrimas. Controlei a ardência em meus próprios olhos ao vê-la limpar as lágrimas tímidas com as costas das mãos.
Ei, você não pode se dar ao luxo de ser amiga do seu futuro ex-noivo!!!
Minha consciência me puxou de volta à realidade com um soco. Empertiguei-me em minha própria postura, pigarreando levemente.
— Eu achei o meu vestido — Flora encarou com um sorriso o seu reflexo no espelho.
— Você não vai provar nenhum outro? — questionei confusa.
— Quando você acha o certo, não é preciso provar mais nenhum — ela me encarou com um sorriso enigmático. — Serve tanto para homens quanto para vestidos. — Gargalhei em sua direção enquanto ela se sentava ao meu lado e tomava seu chai. Nós duas permanecemos encarando o reflexo de Flora. O vestido parecia ainda mais bonito a cada minuto, pois novos detalhes surgiam conforme encarávamos sua extensão.
— Obrigada por me chamar — confidenciei ao fitá-la de verdade. Flora sorriu e segurou minha mão, seus dedos quentes pelo chai fizeram com que eu me sentisse mais calma.
— Eu fico feliz que possamos ser amigas, cunhadinha.
E ali estava a memória de que nada daquilo era real. Tentei controlar o desconforto e apenas sorri.
— Eu também, Flora.
— Bem, agora você precisa provar a roupa! Está segurando isso desde que chegamos aqui! — Flora deu um tapinha de leve em meu braço.
— Eu só vou provar porque eu nunca coloquei um desses na vida — condicionei. Ela revirou os olhos e me empurrou levemente, apontando para o provador com a cabeça.
— Vou te esperar aqui para podermos tirar uma foto e mandarmos para o .
— Hm, melhor não. Não quero que me veja assim — comentei nervosamente. Flora mordeu o lábio inferior e sorriu.
— Tudo bem, mas quero a foto mesmo assim, para recordação.
Por que ela precisava ser tão legal?
Caminhei em direção ao provador. Enquanto tirava a roupa e vestia o top, pensava em como havia chegado até ali. Eu não me arrependia de ter ajudado . Mas me arrependia por precisar mentir para Flora, para a mãe de e para todos ao nosso redor.
O tecido deslizava por minha pele tranquilamente. Era uma pena estar provando aquele vestido após sair do metrô sujo de São Paulo, mas, ei, ossos do ofício do paulistano.
, eu estou recebendo uma ligação! Já volto! — Flora anunciou próxima à cortina do provador. Dei meu ok e continuei arrumando o tecido. Eram muitos detalhes e muito pano em jogo, então tomei o cuidado para não comprometer aquela peça absurdamente cara. A etiqueta indicava que aquela roupa valia pelo menos três salários meus. Porém, ao me encarar no espelho, todos aqueles sentimentos foram colocados em espera — o medo, as mentiras, a raiva e o cansaço.
Eu estava deslumbrante.
A saia, assim como eu esperava, parecia ter vida própria. O top pinicava meus seios em contato com o material, mas nem de perto me incomodava verdadeiramente. O tecido comprido e longo que adornava a roupa era laranja com bolinhas douradas. Por um segundo, fechei os olhos e consegui imaginar uma cerimônia diante de mim. sorria em minha direção e me puxava para dançar, usando a mesma roupa tradicional que o vi usar no dia do almoço em família. Um arrepio percorreu minhas pernas. Abri os olhos e pisquei para meu reflexo no espelho do provador apertado. Meu peito subia e descia acelerado diante de minhas fantasias. Eu estava lendo demais! Malditos escritores de romance nacionais, vocês me pagam!
Não sabia onde colocar as mãos, então as manti em minha cintura, meus olhos não deixaram de conferir que meus seios estavam bem colocados no top, minha cintura deixava suas gordurinhas passando pela barriga, mas nem aquilo me incomodava. Algumas estrias em meu braço estavam salientes quando arrumava as mangas. Eu estava estranhamente satisfeita com o resultado. Talvez me casar não fosse tão ruim assim. Mesmo que desse errado, pelo menos as fotos seriam lindas.
Ouvi a cortina do corredor ser aberta. Flora havia voltado. Encarei-me uma última vez e joguei o tecido sobre o rosto, como o véu.
— Eu nunca me senti tão misteriosa, sabia? — exclamei com uma risada. — Eu adoro os casamentos brasileiros, mas eles nem de perto têm a mesma graça que os casamentos indianos. — Segurei a cortina do provador e gargalhei antes de continuar. — Sério, imagina derrubar molho nisso aqui? Eu nem consigo imaginar o trabalho para—
Interrompi-me ao ver me encarando quando abri a cortina por completo. Ele estava parado no meio da sala de vestidos de noiva, e seu queixo pareceu cair ao me ver parada diante dele. Fui tomada por uma onda de vergonha e nervosismo. A noção do ridículo caiu sobre mim rapidamente.
, eu posso explicar! — comecei a exclamar antes de Flora aparecer por trás dele com um sorriso.
— Eu queria poder enquadrar a cara do meu irmão agora — Flora gargalhou, mas permaneci com meu olhar apreensivo na direção de . Ele não esboçou nenhuma reação. — ? — Flora estalou os dedos diante dos olhos dele. Apoiei as mãos na cintura.
— Estou tão horrenda assim? — questionei com a sobrancelha arqueada, o que finalmente fez com que pigarreasse.
— Você é a mulher mais linda do mundo, . — Fui tomada por uma onda de vergonha. Senti minhas bochechas enrubescerem diante do comentário. Flora bateu palminhas e sorriu de orelha a orelha, mas não tirava os olhos de mim, percorrendo cada centímetro de pele com os olhos.
— Pelo amor de Deus, pare de devorar minha cunhada com os olhos! — Flora gargalhou.
desviou o olhar para ela pela primeira vez. — , suba no mini palco! — Flora ordenou com um sorriso.
— Flora, é melhor não. Isso foi bobagem. — Tentei me esconder de novo no provador, mas foi quem tomou a dianteira.
— Você claramente teve o maior esforço para colocar o vestido. Acho que é justo aproveitar mais um pouco, não? — Sua voz estava mais rouca e mais altiva.
Pisquei algumas vezes sem reação. andou até mim com um sorriso e segurou minha mão, puxando-me até o pequeno palanque. Meus pés descalços encostaram na madeira gelada. Diante de mim estava o meu reflexo completo. O véu cobria a vergonha em minhas bochechas e meus lábios tremendo de nervosismo. e Flora me encaravam pelo espelho.
— Se você não se casar nesse vestido, eu vou fazer um escândalo — Flora comentou com os olhos arregalados. Encarei-a pelo espelho com desconforto.
— Ele é caro, Flora.
— Eu pago.
Dessa vez, até a encarou.
— Não é necessário, Flora.
— É sim! — ela exclamou com o cenho franzido. — Esse é o meu presente de casamento.
— O seu presente de casamento é adorável — comecei. — Mas isso é muito caro, Flora, de verdade.
— Sim. Não podemos aceitar — embarcou na onda.
nunca nega presentes meus — ela começou com o semblante sério. — Eu vou pagar pelo meu vestido. Conversem sobre isso. Mas eu não pretendo desistir tão fácil — deu o ultimato e sumiu pela cortina de veludo.
Logo, eu e éramos os únicos ali. Desci do palanque rapidamente, pronta para voltar ao provador e torcer para ir parar em Nárnia. Fui impedida por , que se adiantou antes que eu fechasse a cortina atrás de mim.
— Desculpa — comecei o discurso imediatamente. Por sorte, o véu protegia minha feição desconcertada. — Eu só me deixei levar porque a roupa é tão bonita, e Flora insistiu. Foi tão estúpido, eu sei. Eu nem sei o que dizer, só desculpa.
permaneceu em silêncio, e então gargalhou. Gargalhou tão alto e forte que precisei cruzar os braços. A vergonha agora era substituída por raiva.
— Por que você está rindo?! Eu falei alguma coisa engraçada, por acaso?
— É só que eu nunca te vi com tanta vergonha antes! — ele exclamou sorridente. — É muito fofo, sabia?
— Vai à merda — xinguei e dei um tapa em seu braço. — Eu estava aqui morta de preocupação, e você faz piada?!
… — ele começou ao parar de rir. Suas mãos foram em direção à bainha do véu, puxando o tecido para cima com delicadeza. Logo meu rosto estava descoberto e me encarava livremente. O vento gelado do ar condicionado atingiu minhas maçãs do rosto. — Você nunca precisa sentir vergonha comigo, sabe disso, não é?
— Eu sei, mas eu estou usando uma roupa tradicional indiana de um casamento, e nem vamos nos casar! — exclamei enquanto gesticulava. permaneceu brincando com o tecido do véu em suas mãos enquanto sorria.
— O que eu falei é verdade, sabia? — franzi o cenho. — Você é a mulher mais linda do mundo.
— Para com isso, . — Busquei força em minha voz para dizer, mas eu sequer achava que ele já havia me encarado alguma vez como agora. Fixei meus olhos em seu rosto, em como suas sobrancelhas grossas estavam franzidas, em suas bochechas vermelhas pelo calor e seus lábios cheios.
— Por que você nunca aceita meus elogios, ? — perguntou ao soltar a ponta do véu. Eu não tinha resposta para aquilo.
— Porque elogios de amigo não contam — arqueou a sobrancelha. O ar em meus pulmões sumiu. Nossos corpos estavam próximos demais. Eu podia sentir sua respiração em meu rosto e o calor de sua pele próxima à minha.
Você sabe que, se quiser uma aventura sexual insana, pode contar comigo.
— Meus elogios deveriam contar. — A voz de soou próxima, deixei que meus olhos caíssem para seus lábios, subindo novamente para seu olhar tenso em minha direção.
não tinha ideia do quanto os elogios dele contavam para mim. Eu não conseguia falar, sabia que diria alguma besteira.
— Eu gosto quando você me elogia, . — Arrumei coragem para falar sem gaguejar. sorriu e brincou com a ponta do véu. Segui seu olhar, meu peito já doía por não estar respirando direito.
Gritei assustada ao ouvir o barulho do meu celular cortar a cortina de tensão entre nós dois. não deu risada do meu susto ou do meu grito, o que era impossível. Ele sempre ria. Cortei nosso contato visual com muito custo e virei-me de costas para pegar meu aparelho entre as roupas que usava antes. A saia farfalhou com o movimento. O nome de Guilherme brilhava na tela com o nome “O Italiano”. seguiu meu olhar e observou o mesmo que eu. Sua expressão se tornou impassível por um segundo, voltando logo ao seu sorriso descontraído habitual.
— Você deveria atender o italiano — ele indicou o celular com a cabeça e colocou a mão dentro dos bolsos da calça jeans. — Eu vou atrás de Flora, ver por que está demorando tanto para comprar o vestido. Já volto.
Segurei o celular em mãos e atendi o telefone. Mas mesmo após a voz de Guilherme soar pela ligação, a voz de era a que ecoava em meus ouvidos.



Capítulo quatorze




Quando Flora me mandou mensagem avisando que e ela estavam na Tiradentes comprando roupas, decidi passar para dizer oi para as duas.
Ou era isso ou passar o dia vendo The Office enquanto esperava a segunda-feira chegar. Eu preferia rir com , então a decisão pareceu óbvia. Aproveitei que estava me sentindo selvagem e resolvi ir de carro. Era domingo e o trânsito estaria tranquilo.
Cruzei os bairros com um leve desconforto. Eu odiava dirigir na metrópole. Todos buzinavam demais e se irritavam demais, além de o trânsito ser caótico. Era mais fácil pegar o metrô ou andar de bicicleta, mas hoje era domingo, e eu estava com pressa em ir até as duas. Precisava admitir que, em parte, era por medo de acabar surtando e contando toda a verdade para minha irmã.
Quando mamadi anunciou no grupo da família que estava indisposta e que não iria à prova, eu sabia que era uma desculpa esfarrapada. Até parece que estar doente era um motivo para mamadi deixar de fazer o que quisesse. Uma vez ela foi com pneumonia buscar Flora numa balada, não preciso dizer que aquele dia foi uma prova de fogo para a nossa família. No final, Flora chegou em casa com um pênis de borracha na testa e mamadi berrava atrás dela. Acho que minha irmã nunca mais foi a uma balada desde então.
Estacionei o carro em um estacionamento com o valor por hora absurdamente caro e subi as escadas estreitas até o terceiro andar. Acenei para um homem grande parado em frente ao caixa. Flora apareceu por entre uma cortina e me abraçou com força. Observei vários vestidos enfiados em sacolas e dispostos em diversos cabides, aquilo parecia uma festa de cores e tecidos bufantes.
— Sua noiva está lá dentro! — Flora anunciou animadamente. Seus cabelos estavam levemente desarrumados. — Eu já provei meu vestido e decidi qual vou levar. Acho que você vai ter uma surpresa legal quando entrar na sala de prova!
— Eu posso fazer isso? — questionei com o cenho franzido.
— Claro que pode. Mamadi pediu para abrirem a loja para nós hoje.
— Ser rico tem suas regalias — provoquei com um sorriso. Flora revirou os olhos.
— E você só não aproveita porque é orgulhoso demais para isso.
— Talvez. — Dei de ombros e encarei as paredes pintadas de branco, esperando que aparecesse por ali a qualquer instante.
— Vá lá dentro, já estou indo. — Minha irmã apontou para uma cortina vermelha de tecido de veludo. Caminhei a passadas largas até a entrada da pequena saleta. Ao abrir a cortina, ouvi a risada de e fui tomado por uma vontade de sorrir junto. Minha amiga tinha esse efeito sobre mim, na realidade, sobre qualquer pessoa que estivesse com ela.
Não a vi quando entrei na sub-sala, e percebi que sua voz vinha do provador.
Quando ela saiu, tive a certeza de que meu coração vomitou dentro de mim. Uma vez, quando fui a um museu com a escola, observei uma releitura de uma rainha egípcia alta com o vestido mais lindo que eu havia visto. Na época, com 14 anos, decidi que só me envolveria com uma mulher se ela fosse linda daquela maneira. Eu, tão novo, não seria capaz de imaginar que seria ainda mais linda do que a egípcia na parede do museu.
Eu sequer podia acreditar que era possível que ela ficasse mais bonita. era uma caixinha de surpresas. E vê-la tímida aumentou meu nível de admiração mil vezes mais. Cerrei meus punhos e abri e fechei as mãos algumas vezes. Eu precisava dizer algo, porém sentia que qualquer coisa estragaria o que eu realmente queria dizer. Não havia palavras na língua portuguesa boas o suficiente para descrever a beleza dela naquele momento, e mesmo que houvesse, não seria o suficiente.
Quando vi que o italiano a ligava, foi como um balde de água fria no pequeno faz de conta que minha mente insistia em criar quando e eu nos aproximávamos demais. Pigarreei ao alcançar Flora do lado de fora. Ela dava risada com uma moça baixinha e o mesmo homem do caixa.
— Ela está trocando de roupa e já sai.
, por que você não aceita o presente? — Flora questionou seriamente, puxando-me de canto para longe dos ouvidos dos donos da loja.
— Eu já falei, é caro demais.
— Você nunca recusou um presente meu por causa de valor. — Suspirei pesadamente e encarei o teto.
Pequenos arrepios cruzavam meu corpo ao lembrar da tensão que havia sentido na sala minutos atrás.
jamais aceitaria. Ela é tão orgulhosa quanto você diz que eu sou. — Flora franziu o cenho e deu de ombros.
— Duvido.
— É sério — reforcei mais uma vez e controlei uma gargalhada antes de me justificar. — Uma vez ela desmaiou e se recusou a ir para o hospital, porque quem queria levá-la era um colega de trabalho que ela odiava. — Flora arregalou os olhos. — Mas ela melhorou muito, sério.
— Que horror, ! Você não pode sair falando esse tipo de coisa sobre a sua noiva para qualquer um!
— E você é qualquer um? — questionei confuso diante de sua revolta.
— Meu Deus, você é um tapado — ela praticamente rosnou e me deu um tapa na cabeça. — basicamente fez uma caridade ao aceitar casar com você, sabia?
— Ela é linda pra caramba, né? — Tentei segurar o sorriso crescente em meus lábios, mas era ridículo sequer tentar. Flora cruzou os braços e sorriu orgulhosa.
— Ela é. Fico feliz que finalmente tenha conquistado ela, . — Olhei para trás de seu ombro. não havia saído.
— Flora, você não contou nada para , não é? — questionei em tom baixo e segurei seu braço, puxando-a para mais longe. Flora arqueou a sobrancelha.
— Não, claro que não. Ué, por quê? Você está escondendo isso dela? Mas é tão fofo! — Flora parecia confusa.
Queria dizer a ela a verdade e abrir o jogo sobre e eu, mas eu não podia. Eu sabia que não me perdoaria por expor tudo aquilo enquanto ela estivesse por perto, e também sabia que Flora ficaria chateada.
— Ah, aquele evento com nossa família foi cancelado. — Flora captou minha atenção novamente.
— Hã?
— O daqui três semanas. Mamadi acabou de mandar mensagem no grupo da família avisando. E ela me pediu para te dizer que vamos viajar. Você comentou que estaria de folga, não é? — Tentei falar algo, mas apenas gaguejei. Como sairia daquela?
— Então, não vou tirar folga, sabe como é… — Flora cruzou os braços e revirou os olhos.
— Mamadi já ligou para a sua empresa e conferiu sua folga.
— Ela fez o quê?! — exclamei exasperado e bati com as mãos sobre as coxas. Flora deu de ombros.
— Você está surpreso?
— Não, mas isso não deixa a situação menos revoltante!
— Lide com isso, Patel. Nós vamos para aquela praia particular no Rio de Janeiro do amigo de mamadi.
— Você quer dizer amante? — questionei com a sobrancelha arqueada. Flora me fitou seriamente com os lábios crispados.
— Você não sabe se eles são amantes ou não, e não é justo com mamadi que você fale essas coisas sobre ela. — Foi a minha vez de cruzar os braços sobre o peito e fitá-la em descrença.
— Eles eram amantes, sim, Flora. E você sabe disso.
— Mamadi nunca admitiu nada — ela defendeu.
— Como se a nossa família falasse sobre seus problemas abertamente, não é? — provoquei, mas Flora não respondeu, tomei aquilo como incentivo para continuar. — Você, por exemplo, sequer abriu a boca para falar sobre o casamento que mamadi te forçou a ter.
Flora levantou a cabeça subitamente e fechou uma carranca.
— Você não está sendo justo.
— Ah, por que seu casamento arranjado é?
— Você só diz essas coisas porque você é homem, ! — Flora de repente pareceu explodir em um hindi perfeito. Precisei me forçar para entender o que dizia. — Acha que é tão fácil virar as costas para a minha família como você fez? Porque não é! E, ao contrário do que você pode pensar, eu estou feliz com essa situação. Eu e Kadir começamos isso como um acordo, mas eu estou apaixonada por ele, que droga!
Troquei o peso de um pé para o outro desconfortavelmente. Flora respirava alto. Fiquei aliviado por ela ter explodido comigo em nosso idioma materno, parecia mais aliviada ao final.
— Foi mal. Eu não sabia como você estava lidando com isso tudo.
— É, como se a nossa família falasse sobre seus problemas abertamente, não é? — ela comentou com ironia escorrendo por suas palavras.
— Somos iguais aos nossos pais, não é? — questionei seriamente. Flora assentiu.
— Para a nossa maior infelicidade. — Dei um empurrão em seu ombro. Encarei meus pés e suspirei. Flora e eu nunca brigamos por mais de dez segundos.
— O que acha de tentarmos sermos menos parecidos com eles e sairmos para jantar e conversarmos sobre você e Kadir? — Flora resmungou com uma expressão exasperada.
— Não dá pra forçar essas coisas, !
— Claro que dá! — retruquei. — Casos de família por acaso é algo espontâneo?
— As pessoas são pagas para ir àquele programa. — Flora fez um gesto de desdém com as mãos. Coloquei a mão esquerda no peito e fiz uma expressão de choque.
— Como você ousa dizer que aquela obra nacional não é espontânea? — Flora revirou os olhos.
— Além disso, eu e Kadir estamos indo à terapia de casal. — Deu de ombros. Tentei controlar o choque em minhas feições.
— Ele é um indiano que vai ao psicólogo? Uau, realmente é algo novo.
— Pois é. — Flora passou as mãos pelo cabelo e sorriu para o chão. — A gente vai construir uma família, e eu preciso do seu apoio nisso, . Eu estou apoiando você e a , não estou?
— Sobre isso… — comecei com leve receio. Eu queria ser honesto com minha irmã sobre o que estava acontecendo em minha vida, e isso incluía falar sobre .
— Ah, quero levá-la para almoçar. E hoje. Você vai sumir daqui e me deixar conversar com paz com minha cunhada, ok? — Olhei para um ponto atrás de Flora, onde já estava de volta às suas roupas cotidianas. Calça jeans e blusa laranja. Aquela era uma combinação nova. Talvez ela usasse aquele conjunto significando “hoje vou matar o do coração”.
usando uma roupa de noiva não era uma visão que eu esperava algum dia presenciar. Mas a surpresa foi absurdamente devastadora. Ela estava belíssima. E não sabia aceitar meus elogios. Sempre foi assim, desviava deles com alguma piada ou uma réplica sobre a minha aparência.
No início da faculdade, achava que era o jeito dela de tentar me dizer que não estava interessada em mim, mas isso até descobrir que ela não costumava aceitar elogios de pessoas que a conheciam. Por quê? Eu não tenho ideia, mas é quase uma missão pessoal fazê-la aceitar meus elogios e entendê-los. Talvez eu tenha muito tempo livre em mãos para me dedicar a essas bobagens.
estava de saída. — Flora apontou para mim com um sorriso. piscou algumas vezes em sinal de nervosismo.
— Ah, é? Mas ele não acabou de chegar? — me encarou suplicante com o olhar. Eu não ganharia aquela batalha da minha irmã. E eu poderia me divertir um pouco com .
— Estou muito cansado. Passei a noite toda pensando na minha noiva. — Pisquei em sua direção, começou a ficar vermelha. Flora achou adorável, mas eu sabia que a vermelhidão decorria da raiva. — Eu preciso dormir um pouco.
— Sim, e vamos poder falar mal dele o quanto quisermos — minha irmã comentou. Arqueei a sobrancelha em sua direção, subitamente interessado naquele almoço.
— Eu não concordo com essa estratégia — argumentei.
— No final do dia, podemos ir a um tanque de tiros e colocar as meias fedidas dele como alvo. — continuou com uma gargalhada, ao passo que Flora entrou na onda e começou a detalhar atitudes minhas que a irritavam.
E apesar de saber que estávamos em uma redoma de vidro e que a qualquer momento tudo poderia desabar, me permiti pensar em como seria se nada daquilo fosse uma mentira. Se realmente me amasse. Decidi ir embora antes que minha mente voltasse a me sacanear. Eu não entraria naquilo novamente. Nunca mais.



Capítulo quinze




Caixas de mudança são muito pesadas, e eu não tenho uma coluna boa. Laís resmungava da mesma dor nas costas enquanto apoiava o pequeno móvel de cabeceira ao lado do colchão de Lorena.
— Pelo amor de Deus, Lorena vai morar com o namorado ou com três pessoas? — minha amiga exclamou e limpou uma camada de suor no paninho amarelo em sua mão.
Apoiei-me contra a parede e respirei fundo, tomando um gole d'água.
— Pelo que Lorena me contou, Marcos ainda está decidindo o que vai manter desde o seu dead name e essas coisas — comentei. Laís assentiu em compreensão.
Nós todas esperávamos que Lorena e aquela-que-não-deve-ser-pronunciada fossem ficar juntas pelo resto da vida, mas nenhuma delas parecia ter coragem de pedir uma a outra para morarem juntas, e então, quando a parceira de Lorena se assumiu trans e a família de Marcos não aceitou bem, os dois tomaram a decisão de morarem juntos. Estávamos felizes com a decisão, e eles dois também. Minhas amigas mereciam toda a felicidade do mundo, e Marcos era uma ótima pessoa.
Peguei-me pensando se algum dia estaria com alguém que minhas amigas apoiassem integralmente. Até agora, eu havia feito um péssimo trabalho nisso. Meu dedo podre me acompanhava por todo lado.
— Então quer dizer que você provou um vestido de casamento? — Laura questionou ao entrar no quarto. Ela já havia desistido das roupas, usava apenas um top e um shorts que tirou de uma das caixas de Lorena. Estava um calor infernal às oito da noite.
Após o nosso trabalho naquela terça, uma semana após o incidente do vestido, todas topamos vir ajudar Marcos e Lorena com a mudança para o novo apartamento em um bairro da zona oeste, próximo ao trabalho de ambos. Eu trabalhava próximo dali, então foi aliviante só precisar pegar um ônibus até lá.
— Pois é, provei. — Prendi o cabelo em um coque e tirei minha camisa, ficando só de sutiã junto com Laura. O vento atingiu meu colo e suspirei aliviada.
— E o ? — Laís questionou cautelosamente.
Nós não havíamos falado mais nada sobre o meu namoro falso com , apesar das insistentes provocações. Eu sabia que as meninas diriam verdades que eu ainda não estava pronta para aceitar, ainda mais depois de Guilherme.
E falando no italiano, nós estávamos nos dando muito bem. Conversamos durante o feriado prolongado e combinamos de jantar naquele sábado para que ele me ajudasse na entrevista. E eu depois transaria com ele. Essa última parte não era confirmada, mas eu faria um esforço para que acontecesse.
A motorista do Uber estava certa sobre o seu conselho. E agora que meu período fértil havia acabado, eu tinha mais clareza da situação ao meu redor. Era meramente hormonal o que eu senti por — os arrepios, o nervosismo, a vontade massiva de fazer da cara dele um banco. Agora eu era uma nova mulher.
— O deve ter babado até fazer uma poça — Laura provocou com uma risada curta.
— Ah, mas quem não? — respondi e comecei a puxar algumas caixas do corredor, colocando-as no quarto ao lado do guarda-roupa.
— Tem razão, bom ponto. — Laura deu de ombros e sorriu em minha direção. — Estamos torcendo muito pelo seu emprego, . De verdade. A gente quer te ver brilhando na televisão brasileira. — Controlei as lágrimas que me pareciam impossíveis de segurar.
Minhas amigas eram tudo pra mim. Em todos os momentos, estando certa ou errada, elas estavam lá. Eu tive a maior sorte do mundo por ter pessoas tão preciosas ao meu lado. Eu morreria e mataria por elas, mas mais morreria, porque matar me mandaria para a cadeia, o que me impediria de manter o contato com elas. Só por isso. Com quem eu conversaria sobre as fofocas da cadeia?
— Eu espero conseguir, mas não quero criar expectativa. Guilherme vai me ajudar com a entrevista. — Laís mordeu o lábio inferior e arqueou as sobrancelhas, dando um sorriso arteiro.
— Ele te ajudou com muita coisa na sexta, né? Você foi até uma boa anfitriã e recebeu o nosso italiano com um belo de um chá brasileiríssimo! — Laura gargalhou com a fala de Laís, curvando-se para frente. Eu a acompanhei sem conter o bom humor. Estar com elas, não importava a situação, era motivo para me sentir renovada.
, sua vida está muito movimentada — Laura comentou com um sorriso sapeca. — Dois homens, um noivo falso, uma cunhada fofa, proposta de promoção… Nossa, quem diria que você se colocaria nessas situações? — Cerrei os olhos em sua direção.
— O que quer dizer com isso?
— O que eu quero dizer é o seguinte, — ela começou, buscando em Laís apoio para minhas respostas — você não é uma pessoa espontânea quando se trata da sua vida amorosa. — Pisquei algumas vezes. — Você tenta controlar tudo ao seu redor, se estressa com coisas pequenas que fogem do seu controle e nunca se dá uma chance sem ser no seu ambiente de trabalho.
Ouvir aquilo não era o que eu esperava para a minha noite, apesar de estarem com razão. Laís apenas assentiu em concordância e tomou outro gole d'água.
— Ficamos felizes que você esteja se descobrindo mais — Laís completou o pensamento. Ruminei aquelas palavras por algum tempo, e eventualmente acabei sorrindo.
— Eu esqueci o bem que me fazia. — Laura e Laís trocaram olhares cúmplices. — Sei que vocês não acreditam na nossa amizade, mas a verdade é que eu e temos uma amizade bonita, cara, e isso é raro de achar.
— Você tem razão — Laís cedeu e sentou-se no chão com as costas apoiadas contra a parede. Ouvimos um murmúrio vindo do corredor. Laura torceu o nariz e se levantou para fechar a porta.
— Os dois estão ocupados. — Apontou com a cabeça para a porta fechada. Fiz uma careta, e as três gargalharam juntas.
— E como foi o almoço com a sua cunhada falsa? — Laura questionou com a voz mais alta, tentando impedir qualquer uma de nós três de ouvir algo que não deveríamos.
— Foi bom.
E era verdade. Flora era um amor de pessoa, e ela pagou pelo jantar. Eu e minha carteira agradecemos muitíssimo. Eu esquecia por vezes que Flora administrava algumas empresas, e por isso ganhava muito mais do que eu ganharia na vida. Por isso, quando fomos a um restaurante, que o nome eu sequer conseguia pronunciar, em um bairro nobre, respirei aliviada por ela dizer que era por conta dela.
Eu podia ser orgulhosa com muitas coisas, mas não com pessoas pagando minha comida.
Durante nossa conversa, descobri que Flora amava seu noivo e estava pronta para passar sua vida com ele. Aquilo me surpreendeu. Eu não me imaginaria amando alguém que fui forçada a me casar. Não mesmo. Apenas o pensamento foi o suficiente para parecer esmagar meu peito. Eu preferia estar sozinha do que me sentir presa a alguém com quem não valia a pena viver.
Você demorou demais para se ligar com Bruno.
E ali estava a questão que me incomodava acerca de Bruno. Enrolei demais para cortar o que eu já sabia não ter futuro. Aquilo nunca havia acontecido. Eu estava ficando preguiçosa demais e acomodada demais. Talvez fosse bom mudar de emprego, ir para outra cidade, começar do zero.
E quando Flora começou a falar sobre o casamento animadamente, eu permaneci com os olhos vidrados nela. Aquela mulher tinha um poder ao redor de si de conquistar qualquer pessoa. Eu percebi quando o garçom veio nos atender e seu rosto se iluminou diante da simpatia dela. E quem não se iluminaria?
— Sabe, sempre foi muito palhaço… — ela começou com um sorriso enquanto arrastava a ponta das unhas sobre a beirada da taça de vinho praticamente vazia.
Ao nosso redor, casais e grupos de amigos se reuniam. O ambiente era preenchido por risadas, conversas e por música ao vivo. Enfiei mais uma garfada de massa na boca e praticamente gemi de felicidade. A comida era muito boa!
— Hm — murmurei entre mastigadas. — Palhaço é pouco, Flora.
— Sim, você razão. — Flora gargalhou. — De qualquer modo, eu sempre soube que ele era um galinha na faculdade, com a atlética e tudo mais. é o tipo de cara que não é lembrado pela beleza absurda, mas pelo senso de humor. — Maneei com a cabeça, sem saber exatamente aonde ela queria chegar. — E eu só me pergunto por que ele demorou tanto para te conquistar.
Flora deitou a cabeça de lado, parecendo realmente curiosa. Engoli em seco e mastiguei por mais tempo, tentando ganhar vantagem antes de responder.
demorou para me conquistar porque eu tenho dedo podre. — Aquela era uma verdade inegável. E era absurdo o quanto eu me sentia em paz conversando com Flora. Encostei-me contra a cadeira e sorri. — Ele me aguentou lidando com muitos caras sem noção. — Sorri para meu prato e cruzei os braços. — E nunca me julgou por nenhum deles. Ele só estava ali.
Algo em meu peito apertou, senti imediatamente uma vontade absurda de ligar para e conversar com ele, agradecer por tudo o que ele havia feito por mim. Levantei meus olhos apenas para encontrar Flora com um largo sorriso no rosto.
— Acho que sempre foi rendido por você, — ela confidenciou. Tudo ao meu redor parecia um vórtex pronto para me sugar para um buraco negro. As risadas ficaram ensurdecedoras e meu coração batia tão acelerado que eu considerava arritmia como um problema real naquele momento.
— Isso não é verdade. — Minha voz pareceu esganiçada. Flora apenas riu, balançando a cabeça.
— É sim. E acho que você sempre retribuiu, sendo bem honesta — ela comentou com delicadeza, mas um olhar sagaz preenchia seu rosto.
Eu queria me enfiar no chão e me arremessar de cara nas cordas do piano no meio do salão.
— Meu Deus, você está muito vermelha. Estou sendo muito indelicada, me perdoa. — Flora balançou as mãos diante de meus olhos com uma careta enfeitando seu rosto. Eu estava praticamente sem respirar.
E naquela noite, quando me mandou uma mensagem perguntando como foi o almoço, eu o ignorei. Assim como suas outras mensagens no dia seguinte. E foi depois de ignorar a décima que aceitei sair com Guilherme novamente.
A voz de Bruno em minha mente sussurrando "ele se aproveitou da sua ingenuidade, ele sabe o que está fazendo" parecia martelar junto com as batidas do meu coração.
— Será que vai demorar para eles saírem do quarto? — Laura questionou. Laís decidiu colocar uma música no celular. Apagamos a luz e permanecemos as três sentadas na varanda do apartamento. O vento quente e abafado se misturava a um ar gelado que vinha com o findar da noite. Ao longe, observei o rio Pinheiros e a raia olímpica da USP.
Apoiei o queixo nos joelhos, tomando mais um gole de água.
— Eu acho que sim. Da outra vez, precisei esperar duas horas, porque Lorena estava com a chave da antiga casa dela no quarto.
— Duas horas? — Laís arqueou a sobrancelha.
— Pois é. — Segurei o riso escandaloso quando minhas amigas pareciam discutir acirradamente sobre o tempo de duração do sexo entre mulheres e homens.
Senti meu celular vibrar em minhas mãos, e sorri ao ver a mensagem de Guilherme.
"O que você está fazendo?"
"Esperando meus amigos transarem para ir embora"
"Ai, ai… Poderia ser a gente, né?"
Abri um sorriso sorrateiro e respondi antes de bloquear:
"Quer conhecer meu cafofo?"
— Por que você está sorrindo? — Laís perguntou inquisidora e pulou em cima de mim, pegando o celular e arregalando os olhos ao ler as mensagens. — Você vai dar!!!!
Soltei uma gargalhada alta e neguei com a cabeça.
— Pra esse homem? Quantas vezes ele quiser.
— Caramba… — Laura assobiou. — Cadê esse na minha vida?
— Dá um desconto pra . — Eu estava prestes a agradecer Laís pela trégua, mas o agradecimento morreu em meus lábios quando vi seu olhar em minha direção. — Ela precisa aproveitar o Guilherme antes de perceber que está apaixonada.
— Cansei desse papo merda. — Levantei-me e apoiei-me contra o parapeito da varanda. Laura e Laís permaneceram em silêncio atrás de mim, logo ouvi um suspiro.
— Foi mal, não falo mais. — Laís tocou meu tornozelo. Virei-me para encará-la no mesmo momento em que uma rajada de vento atingiu meus cabelos, aliviando o calor. Quase gemi de alívio.
— Eu só… — resmunguei desajeitadamente. — Esses dias eu considerei dar em cima de — admiti a contragosto. Laís arregalou os olhos e Laura abriu um sorriso arteiro.
— E não deu por quê? — Laura questionou.
— Porque… pelo mesmo motivo por que eu não o beijei naquela festa da faculdade. Nós somos bons amigos.
— Bons amigos podem se pegar às vezes! — Laís contra argumentou sabiamente com a sobrancelha arqueada.
— Não com . — Mordi a ponta da unha e suspirei. — Acho que ele talvez tenha gostado de mim na época da faculdade. — Laura revirou os olhos.
— Você acha? , pelo amor de Deus, mas isso é ÓBVIO para qualquer pessoa com capacidade cognitiva.
— Como jornalista investigativa, você é uma ótima cozinheira — Laís comentou com o semblante mais sério. — Ok, e aí, o que você pretende fazer?
— Nada. — Dei de ombros. — Não tem o que fazer.
— Você não vai entrar no modo paranoico e afastar ele de você, vai? — Laura questionou seriamente e, ao não responder, ela transformou o rosto na faceta mais impassível que eu já havia visto. — Isso não é justo, .
— Eu não sei lidar com essas coisas — admiti honestamente. — Por que ele não me disse?
— Porque você ia fazer o que fez agora. Além disso, não é como se você tivesse dado tempo para ele tomar alguma iniciativa, né? — Laís retrucou. — Você foi sempre muito assertiva com a sua política de não querer namorar indianos.
— Eu teria dado uma chance a ele se tivesse sido honesto antes.
— Não teria, . — Laura suspirou e tocou o ossinho entre os olhos. — Você teria fugido, inventado alguma desculpa, qualquer coisa, é o que você faz normalmente.
Permaneci encarando o chão sem conseguir encarar minhas amigas. Elas tinham razão.
— Eu não quero dar uma de doida.
— Então não dê! — Laís sorriu em minha direção e abriu os braços. — Você só precisa ter certeza se o que você está sentindo é tesão acumulado ou algo mais. E nós estamos aqui para ajudar. Enquanto isso… — ela levantou a mão e pegou meu celular. — Dê uma chance ao Guilherme Luchini. Não vai fazer mal um pouco de casualidade. Tenta ver se consegue sair com ele, eu e Laura vamos ficar aqui.
Laura assentiu junto com Laís. Respirei fundo e peguei meu celular. Uma mensagem de se sobrepunha à de Guilherme. Apertei o chat do italiano e sorri com sua última mensagem.
"Estou doido para conhecer um pouco mais de você, ;)"
Encarei minhas amigas uma última vez antes de responder:
"Quer ir hoje?"
"Estou chamando um Uber!"
Joguei a blusa sobre meu corpo e despedi-me das meninas, caminhando com um sorriso até o metrô para ir para minha casa. Eu pensaria no que fazer com depois, mas hoje eu queria me divertir um pouco mais. Talvez deixar a despojada tomar conta não fosse algo tão ruim assim, afinal de contas.



Capítulo dezesseis




Flaviane estava largada em minha cama e mexia em seu celular enquanto eu saía do banho. Ela sorriu em minha direção e levantou-se. Seu corpo completamente nu em minha frente parecia esculpido por algum gênio da arte, e peguei-me fitando cada curva de seus ombros, as saboneteiras expostas, a pele negra que parecia sugar toda a claridade da lua ao seu redor, tomando-a para si.
— Gosto da forma como você me olha — ela sussurrou e segurei sua cintura, dando beijos espaçados em seu pescoço. Flaviane segurou meus ombros e afastou-se com um sorriso. — Preciso ir para casa, e você precisa voltar para a sua noiva.
Controlei o arrepio que atravessou minha espinha. Flaviane não sabia que eu e não éramos noivos de verdade, e eu preferia que achasse que eu a estava traindo do que mentindo. Que beleza, não é?
— Não quer mais uma rodada? — sondei com um risinho. Flaviane deu um beijo em meu peitoral exposto e balançou a cabeça.
— Próxima vez é lá em casa, . Tenho que voltar, preciso buscar minha filha com o pai dela.
Quando Flaviane desceu o elevador, permaneci em silêncio sepulcral, encarando minha residência com um suspiro. Passei a mão na nuca úmida e liguei a TV, deixando meus olhos percorrem o caminho atrás dos jornalistas em busca de , que estava de plantão naquele dia. Quando vi sua pele escura ao fundo, abri um sorriso minúsculo e sentei-me no sofá, esticando as pernas sobre o pequeno banquinho.
Peguei meu celular e abri nossa conversa.

"Você está famosa, está na televisão."

Observei com uma gargalhada quando pegou o telefone e abriu algo que parecia um sorriso gigante. Ela não voltou o olhar para a bancada onde os jornalistas permaneciam, apenas respondeu. Acompanhei em tempo real o aplicativo indicando o "digitando..." e seus dedos se moverem pela televisão.

"Quem é? Aqui é a assessora da . Se quiser falar com ela, marque um horário."

Gargalhei e levantei-me do sofá, andando em círculos com o celular em mãos. Passei a mão por sobre a barba e senti minha boca explodir em sorrisos.

"Ah, marcar horário? Eu não tenho privilégio especial? Que pena, porque eu pensei em algumas coisas bem divertidas para fazer com ela..."

Arrisquei-me, e perdi de vista quando uma reportagem foi colocada no lugar dos jornalistas. Eu sabia que ela estava corando, o que foi confirmado pela demora em me responder. Quando a tela voltou aos jornalistas, percebi que não estava mais sozinha, havia um homem parado diante de si com um sorriso gigante e um terno.
Guilherme Luchini.
Bloqueei o celular e o joguei sobre o sofá, cruzando o apartamento a passos largos, pegando um copo d'água na cozinha. A voz do âncora ainda ecoava em meu ouvido quando meu celular começou a tocar.
— Diga, . — Atendi o celular com um pigarreio.
— Oi, meu amor! — ela exclamou sorridente e ouvi uma buzina. — Ainda de pé o convite das coisas divertidas que você quer fazer comigo?
Controlei o ímpeto de responder com uma cantada barata.
— Claro! Eu pensei que você estivesse de plantão.
— Ah, não, eu tenho banco de horas e o RH praticamente me expulsou daqui. A emissora não quer problemas com denúncia de funcionários.
— Bom, nesse caso, quer vir aqui pra casa? — Comecei a fuçar nos armários praticamente vazios. Precisava fazer compras logo.
— Sim! Chego aí em meia hora, se o metrô colaborar.
Fiz o pedido de mercado pelo aplicativo. Vinho, chocolate e cervejas. Com o que tinha no armário, resolvi fazer uma pizza de microondas. Dava para o gasto.
E quando chegou, precisei controlar as batidas descompassadas de meu peito.
Ela usava um vestido vermelho solto e um blazer branco. Seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo e um brinco dourado pendia em suas orelhas. Estava deslumbrante, para dizer o mínimo.
— Oi, ! Cuidado com o chão, deixei cair um copo hoje… E uau, isso é tudo pra mim? — questionei com um sorriso enquanto ela largava os sapatos na entrada da casa e revirava os olhos maquiados. colocou uma sacola marrom em minha mão e adentrou na casa com familiaridade de quem já havia frequentado demais aquele lugar. — E a roupa é nova.
— Sim, eu resolvi fazer umas compras para o tempo que vou passar no Rio.
— Você vai daqui uma semana já, não é? — Fiz os cálculos em minha mente, percebi com agrado que ela estaria no Rio quando eu estivesse lá viajando com minha família.
— Isso mesmo! Guilherme está sendo de grande ajuda com o que fazer, como agir…
— E de outras coisas também, né? — provoquei com um sorriso e a empurrei pelo ombro. gargalhou e assentiu. — Pensei que não quisesse outro relacionamento, .
— E não quero — retrucou enquanto caminhávamos até a cozinha.
Peguei nas mãos a sacola e vi que ela trouxera uma porção de batata frita com ketchup. A sacola indicava o Bar do Gato. Nós nos tornamos amigos de uma das sócias com rapidez, e agora tínhamos desconto em alguns pratos específicos. Eu até tinha um prato feito em minha homenagem, que se chamava Engenheiros da Paulista, um beirute com tudo de mais gorduroso que o Brasil pode oferecer.
— Estou transando com ele, só isso. — enfiou um punhado de batatas na boca no mesmo momento em que o microondas indicou que a pizza estava pronta. Virei-me de costas para ela e alcancei a comida, tentando controlar uma careta.
— Você não estava no processo de amor próprio? — questionei com o cenho franzido. Tirei a pizza da forma e a coloquei em um prato. Metade para mim e metade para ela.
— As pessoas acham que amor próprio significa sempre dar um tempo para si mesmo afastado dos outros — ela começou, mastigando as batatas crocantes. — E eu estou dando um tempo do amor, mas isso é algo puramente físico, não vejo problema.
— Cuidado para não se apaixonar pelo italiano, …. — alertei. Ela suspirou e encheu uma taça de vinho.
, eu, de verdade, não considero me relacionar com ele. Eu não quero, não gosto da ideia, mas eu também não estava apegada emocionalmente ao Bruno, você sabe disso. Eu só quero alguém pra transar comigo sem burocracia, e é exatamente o que o Guilherme também quer. Enquanto estivermos na mesma página, estamos tranquilos. — Assenti diante de seu argumento bem elaborado.
— Eu estava pensando sobre como nossos relacionamentos são influenciados por nossos pais — comecei, cruzando os braços ao encará-la. assentiu enquanto tomava um copo d’água.
— E qual foi a sua conclusão?
— Nós somos cópias inatas deles. Inclusive, eu e Flora somos idênticos aos meus pais. E você? — deu de ombros e colocou o copo sobre a pia, tomando tempo para pensar.
— Não conheci meu pai, então não sei como seria a responsabilidade. Minha mãe diz que sou muito parecida com ele de jeito, até o fato de ser cabeça dura. — Sorri ao vê-la esconder uma careta.
— Isso é verdade.
— Ah, cale a boca. — Ela arremessou um pano de prato em minha direção com um sorriso. — De qualquer modo, meu pai e minha mãe eram bem parecidos, ela disse.
— Você sente muita falta dele?
Falar do pai de era algo novo. Mesmo quando éramos mais novos, não falava dele. Aquelas eram as informações mais recentes que ela havia dado de seu pai.
— Eu sentia quando era mais nova, hoje em dia, não. Não tem como sentir saudade de alguém que você nunca conheceu. — Concordei com um aceno de cabeça. bufou e encarou o teto. — Esses dias eu sonhei com ele. Quer dizer, não era ele, já que eu não sei como é o rosto dele hoje em dia, mas era um homem que eu sabia ser meu pai.
Permaneci em silêncio pelo tempo que podia. parecia subitamente frágil.
— E ele… ele me abraçava e dizia que tudo ia ficar bem. — Tentei evitar o choque cruzando meu semblante quando uma expressão de dor cruzou os olhos dela. — Isso depois de ele vir até mim em um cavalo vermelho com crina de unicórnio. Depois disso, ele entrou na água e sumiu. Ah, e o Ronaldinho também estava no sonho.
— O fenômeno?
— Não, você sabe que esse é o Ronaldo. Eu tô falando do gaúcho.
— Você teve alguma notícia do seu pai que possa ter desencadeado isso?
— Sendo bem honesta? Não. — Deu de ombros e começou a organizar os meus temperos sobre a bancada branca. — Foi só como uma sensação… sei lá, de que meu pai estava perto de mim. Enfim, ridículo.
— Não é ridículo — retruquei. — Seu pai é Kadir, tudo bem, mas também é normal você sentir falta do seu pai biológico. — Aproximei-me de e fiz com que parasse de arrumar o orégano e a pimenta-do-reino. Virei-a para mim com delicadeza e sorri. — Você é humana, , pare de achar que pode deixar de ser uma quando bem entender.
— Prometo tentar. — me fitou por alguns segundos antes de suspirar. — Chega desse papo analítico, deixa isso para a minha sessão amanhã com a psicóloga.
sumiu para dentro do apartamento para lavar as mãos. Peguei os pratos, o vinho e a cerveja e levei tudo para a sala. Mudei de canal ao ver que era Guilherme quem apresentava uma notícia no noticiário. Coloquei na Netflix e sentei-me no meu lado do sofá, cruzando as pernas desajeitadamente enquanto a esperava voltar.
— Você trouxe alguém pra cá? — questionou quando voltou do corredor. Ela tinha um sorriso arteiro no rosto e uma expressão maliciosa.
— Flaviane — comentei subitamente envergonhado. controlou um sorrisinho e tirou o blazer, jogando-o sobre a poltrona. Os braços escuros estavam desnudos, ela se alongou porcamente e jogou-se no sofá ao meu lado.
— Como foi? — questionou enquanto tomava um gole de vinho e roubava o controle de minha mão para ligar a televisão.
— Bom — respondi sucinto e virei-me para a televisão. Eu sabia que minhas bochechas provavelmente estavam vermelhas.
— Você nunca fica envergonhado, . — provocou. — Você está a fim dela? Mesmo?
— Não. — Maneei a cabeça e tomei um gole da minha cerveja. — Estou corando porque não costumamos falar em detalhes sórdidos sobre nossas transas. — O rosto de se moldou em uma expressão de compreensão.
— Você não quer falar sobre a experiência transcendental com a Flaviane?
— Não foi transcendental.
— Eu já vi a Flaviane, acho que transcendental seria pouco para descrever aquele avião montado em você.
Ah, a delicadeza de !
Gargalhei e assenti.
— Por que você não dá uma chance para ela? — questionou seriamente, seus olhos permaneciam nos meus e não se desviaram. Ela sempre foi direta e decidida, não sentia vergonha de muita coisa. Esse é só um dos motivos para eu ainda sentir um deleite ao lembrar de como ela havia ficado envergonhada usando aquele vestido de noiva, duas semanas atrás.
— Porque eu não gosto dela desse jeito, não vale a pena. — Estiquei-me para roubar o controle da Netflix de volta, mas apenas deu um tapa em minha mão.
— Ok. — Deu de ombros e ligou em um filme brasileiro lançado nos últimos dias, mas eu não consegui prestar atenção direito.
, eu vou estar no Rio quando você for para lá — soltei em algum momento, e apenas me encarou de soslaio.
— Que adorável, , mas não precisa ir comigo, eu sei me virar sozinha.
— Não, linguaruda, não é isso. Vou passar o fim de semana e a segunda-feira lá. — pausou o filme e virou-se inteiramente para me encarar.
Por um instante, lembrei-me do primeiro momento em que vi diante de mim naquele anfiteatro na politécnica. Assim que bati os olhos nela, a achei tão linda. Queria sentar do lado dela só para poder estar perto, e foi o que eu fiz, praticamente jogando meu amigo para sentar em outra cadeira. E a cena do sutiã, ah, aquilo ainda me fazia gargalhar de vez em quando. Ela ficou roxa de vergonha. Eu fiquei roxo por segurar a risada honesta diante do sutiã com desenhos da Barbie.
— A gente pode se encontrar no Rio! — exclamou sorridente, arrumando-se no sofá animada. — Podemos ir pra praia… Imagina? e no Rio. A gente pode fazer uma varredura por lá.
— Você está muito animada.
— Claro! Eu vou passar uma semana no Rio de Janeiro, quero aproveitar ao máximo. Tenho até um roteiro de viagem para fazermos, . — pegou o celular na mão e enfiou o roteiro que havia feito na minha cara. Peguei o aparelho com uma risada. — O ruim é que meu hotel é bem no centro, e os mais próximos da praia são muito caros…
— Ei, por que você não vem comigo? Faz a sua entrevista, já que você vai alguns dias antes, te busco e você passa o restante dos dias na praia particular do amigo de mamadi. Sei que podemos andar de barco para outras praias, ver os centros históricos e tudo mais. — Os olhos de estavam arregalados, sua boca abria em um “O” perfeito.
— EU AMEI! — gritou e se jogou em meus braços, colocando-se em pé rapidamente e andando de um lado para o outro com a expressão pensativa. — Calma, mas como você vai? O que vai fazer lá? Não tem o jantar com a sua família?
— Pois é, isso foi cancelado. Vamos viajar para essa praia. — Os ombros de caíram imediatamente.
— Não vou viajar com sua família, .
— Ué, por que não?
— Eu não sei se você bateu a cabeça e teve uma amnésia, mas, até onde eu sei, estamos fingindo ser noivos. Se eu for para a essa viagem sendo sua noiva, vou precisar mentir, e eu não aguento mais, acho que você também não. Se eu for como se já estivéssemos terminados… bem, eu não preciso explicar por que isso seria estranho, não é? — Ela parou e cruzou os braços. Levantei-me do sofá também e fui arrumar os livros na estante da sala, tentando ocupar a mente e deixar a energia de meu corpo fluir de alguma maneira.
— E se nós terminássemos na viagem? — Uma lâmpada poderia facilmente ter parado sobre minha cabeça. Virei-me para trás, estava bebendo o vinho e me analisando.
— Continue.
— Você pode ir comigo, nós temos uma briga super feia no último dia e terminamos! Você vai voltar no seu vôo normal e dá tudo certo. E, de quebra, você ainda aproveita a praia particular do amante da minha mãe!
— Amante? — parecia confusa. — Não era amigo?
— Os dois! — Fiz sinal de desdém, mas não parecia totalmente convencida. Ela era muito racional, pelo amor de Deus. — , olha só o tanto de coisa que você fez esse ano, e ainda estamos no início dele. Uma chance de emprego, uma redescoberta pessoal, um noivo gostoso… Você precisa começar a pegar as oportunidades que a vida te dá e pensar um pouco menos às vezes, sabia?
pareceu ponderar por alguns instantes. Aquilo era um bom sinal, ela pelo menos estava considerando o que eu havia dito.
— Quer saber? Você está certo, vamos para a praia particular do amante da sua mãe!
— Esse é o espírito! — comemorei e sorri em sua direção, colocando o último livro na ordem. Levantei-me com um leve resmungar.
— O seu vizinho também está feliz por nós, colocou até um forró para tocar. — brincou quando o som de Falamansa invadiu o apartamento vindo diretamente do meu vizinho de porta, um recifense muito viciado em forró. Eu já havia baixado várias músicas que ele tocava durante a semana. — Estou feliz demais para ver algum filme, vamos dançar!
— Nós podemos fazer muita coisa bem, , mas dançar não é uma delas. — Minha amiga gargalhou e se aproximou, puxando-me pela mão e tomando a guia da música. — Espera aí, você está sendo o homem da dança? — questionei incrédulo. apenas riu e começou a guiar nossos pés.
— Não existe homem dança, e eu tenho treinado bastante em casa — comentou próxima ao meu ouvido e puxou minha cintura para perto. Praticamente tremi diante de seu toque, e acho que ela percebeu, mas não se moveu, apenas me puxou um pouco mais.
Após o baque inicial, comecei a seguir seus movimentos no momento em que a próxima música começou.
e eu ríamos de nossos passos destrambelhados, mas eventualmente pegamos a manha do ritmo, e logo estávamos girando pela sala. Acho que estávamos dançando algum estilo musical, mas definitivamente não era forró.
— Você está rebolando errado! — exclamou em minha direção com uma gargalhada, limpando uma leve camada de suor da testa. Minha amiga se aproximou de mim e colocou as mãos em minha cintura, mexendo de um lado para o outro sem tirar a atenção dali.
— Nem deveríamos estar rebolando assim dançando forró… Nós estamos em uma cena de Ritmo Quente, por algum acaso? Eu sou a Baby e você é o meu Johnny Castle? — gargalhou ainda com a mão em minha cintura e assentiu.
— Sim. Agora só falta a gente ir para um lago e eu te carregar no ar!
— Acho que podemos fazer isso agora… — provoquei com um sorriso. Antes que pudesse gritar, peguei-a no colo pela cintura, levantando-a. Ela se contorceu em risadas, batendo em meu ombro enquanto eu tomava cuidado para que ela não batesse com a cabeça no teto. — You can do it, Johnny Castle!
— Mas o Johnny que levanta a Baby — retrucou ao me olhar de cima. Dei um impulso e a joguei mais para cima, segurando em suas coxas com meu braço.
— Isso é machismo! — exclamei sorridente. abriu os braços e a girei pela sala.
Minha visão ficou turva pelos giros, senti minha pressão titubear e lembro-me apenas de soltar um grito assustado quando caí no chão, puxando junto. Exclamei de dor quando bati com a bunda direto no piso frio.
! — exclamou preocupada, sua queda havia sido amortecida pela minha. Seus cabelos batiam meu rosto e ela gargalhava, apesar da preocupação.
— Estou bem, só quebrei a bunda. — Arquejei de dor e comecei a gargalhar com ela, deitando a cabeça no chão gelado. estava com as pernas ao redor de minha cintura, sentada em minha barriga.
Permaneci em silêncio, encarando-a com o plano de fundo do meu vizinho forrozeiro. Não dissemos nada por um tempo, mas eu contornava cada traço de seu rosto sob a lua atravessando a janela. Seu peito subia e descia veloz pelas risadas, suas mãos estavam agarradas ao tecido de minha camisa com delicadeza. Fui tomado por uma súbita noção de que ela estava sentada em mim com os cabelos bagunçados e os olhos alegres.
O de anos atrás batia à porta, implorava para entrar, para poder pegá-la pelo cabelo e beijá-la até que perdesse o fôlego. Coloquei minhas mãos em sua cintura, mas não reclamou, não fez nada além de se mover sobre meu corpo, descendo um pouco mais, aconchegando-se em mim. Fiz pequenos círculos em seu quadril com a ponta dos dedos. Ninguém havia falado nada, não tínhamos força para isso. Acho que também havia pensado aquilo, porque colocou as mãos sobre as minhas e sorriu.
Naquele momento não havia italiano, Flaviane, nada. Apenas nós dois e o vizinho, que agora tocava Calcinha Preta. Wesley Safadão era melhor do que ninguém para embalar aquele momento com seu forró eletrônico.
, eu preciso te fazer uma pergunta… — começou com a voz rouca.
Percebi quando ela começou a se agachar diante de mim, e eu não estava imaginando coisas, estava acontecendo algo ali, algo que eu não entendia e não esperava presenciar algum dia, somente nos meus sonhos (e eles foram muitos).
— Pode perguntar o que quiser, princesa — incentivei. sorriu com a alcunha, mas não falou, apenas pairou sobre meu rosto como um espelho. Seus cabelos presos caíam em meu rosto, pinicavam meu pescoço e me imploravam para serem segurados por minhas mãos trêmulas.
A verdade é que eu era absurdamente apaixonado por desde que nos conhecemos. Talvez isso seja eufemismo. Sendo mais honesto ainda, eu não sou bom em destrinchar o que sinto, mas que esteja registrado que eu sentia algo.
Todas as vezes que ela sorria para mim, um pedaço meu morria, porque sua voz ecoando o mantra de não se relacionar com indianos era mais alta do que os rugidos do meu pau adolescente bombeando todo o sangue possível para lá.
E merda, esteve em minha mente por pelo menos três anos dos nove que nos conhecemos. Eu a amei em silêncio por anos (digo que é amor, mas eu tinha dezenove anos e ereções matinais com nome e sobrenome, era complicado diferenciar tesão de qualquer outra coisa, já que os sintomas são os mesmos que amor: dor quando não aliviado, felicidade quando finalmente acontece, arrepios quando você não pode mostrar o que está rolando em público, e é bem vergonhoso).
Eu superei.
Eu sei que superei, porque, do contrário, não teria saído com outras pessoas, encontrado novos amores e tido meu coração quebrado outras vezes.
Superei e entendi que ela me via como amigo. Finalmente parei de me incomodar com isso, segui minha vida.
Mas desde que voltamos a nos falar regularmente, desde que ela voltou a sorrir pronunciando meu nome e a me abraçar como não fazíamos há anos, algo em mim pareceu surgir de uma profundeza há muito esquecida, como quando você acha que perdeu uma roupa favorita, e aí acha em algum momento enfiada no fundo de uma caixa de doação. Você fica chocado, alegre, mas corre o risco de a roupa não servir mais, já que você cresceu. A diferença é que aquela roupa ainda parecia me servir bem, o que me assustou. Cada segundo daquela revirada no baú me assustava, já que e eu não éramos mais adolescentes.
Ela não havia me correspondido em anos, por que corresponderia agora? Por que meu coração insistia em me lembrar de que o noivado falso poderia não ser falso se eu simplesmente me arriscasse? Mas as opções não eram boas, não. poderia dizer “oh, , deus do sexo e da virilidade, eu te amo” ou, a versão mais condizente com a realidade, “me desculpa, mas somos só amigos”.
A segunda opção não seria problemática se não fosse .
Ela se afastaria, provavelmente sumiria sem dizer mais nada, para evitar que eu tivesse meu coração partido (como se a rejeição em si já não fosse o suficiente). E eu preferiria passar uma vida fingindo não amá-la do que passar essa mesma vida privado do seu sorriso. Meus amigos me dariam vinte socos se me ouvissem falando desse jeito sobre uma mulher, porém era o que eu pensava. Desde que tudo isso voltou a aflorar e eu me senti novamente como um pirralho com as calças arriadas a cada chance possível, percebi o quanto me cansava fingir que somente conseguia ser amigo dela.
Eu não tinha mais forças para encarar toda aquela avalanche, e esse sentimento pessimista me deu uma ponta de coragem para talvez fazer o que o de anos atrás não conseguiu: me colocar em primeiro lugar.
não sabia do meu abismo por ela, não era justo comigo ou com ela que eu continuasse a me machucar daquela maneira. Eu precisava me dar uma chance de superá-la ao ponto de nunca mais precisar duvidar se sinto algo ou não. Mas enquanto não me desse o “não” definitivo, eu sempre pensaria naquela brecha.
E essa brecha parece ainda mais escancarada agora, quando encaro seus lábios, volto o olhar para ela e vejo que ela também encara minha boca. Talvez aquele fosse o momento. O “não” me libertaria, o “sim” também, quer para o bem ou para o mal.
? Você está meio pálido — constatou com um arquear de sobrancelha.
— É impressão — sussurrei e levantei minha mão apoiada em sua cintura, dedilhando sua coxa exposta pelo vestido que havia subido por suas pernas grossas e escuras. — Você tem o nariz lindo. — gargalhou próxima ao meu rosto. Ela cheirava a algo bom e familiar. Daqui, observava seus traços perfeitamente iluminados pela lua. Os olhos castanhos com ruguinhas de sorriso ao lado, os lábios cheios, o nariz batata, o peito subindo e descendo pelas respirações profundas e as marcas de sorriso ao lado da boca. Detive meu olhar naquele ponto por mais tempo.
— Eu já elogiei o seu nariz assim antes — ela relembrou com um sorriso. Fui transportado para a festa anos atrás, quando eu e quase nos beijamos e ela elogiou meu nariz. Abri um sorriso descarado.
— Então chegamos à conclusão de que os dois têm narizes bonitos, é isso? — provoquei, dando um apertão em seu quadril, o que a fez rir. apoiou os braços ao lado da minha cabeça e roçou nossos narizes com um sorriso.
Aquilo realmente estava acontecendo?
Pisquei algumas vezes, ainda levemente incrédulo, mas sem coragem para me afastar. Meu coração batia acelerado no esôfago, pois é, esôfago, porque meu corpo inteiro parecia reagir a ela daquela maneira: sem noção e de impossível compreensão à mente humana.
E quando finalmente cortou o espaço entre nós dois, meu corpo inteiro liberou a tensão montada sobre mim. Seus lábios tinham gosto de chocolate e vinho, e eles me abraçaram como se já fôssemos amigos de longa data. Segurei imediatamente sua nuca, puxando-a para mais perto, enquanto a outra mão permanecia em seu quadril, fazendo carinhos circulares.
Tivemos uma leve dificuldade no início, levando a rir e afundar-se mais em minha cintura, o que gerou um gemido baixo da minha parte. Os lábios de eram exatamente como eu esperava, confortáveis e gentis, como se ela quisesse aproveitar cada segundo daquilo, o que era ótimo, porque eu estava viciado.
Controlei um arquejo desesperado quando sorriu entre os beijos, descendo para meu pescoço. Passei as pontas dos dedos por suas costas desnudas no vestido e sorri ao ver que sua pele se arrepiava sob meu toque. Apenas o som de nossos lábios tocando era ouvido no apartamento escuro, isso e Calcinha Preta.
Aprofundei o beijo com mais desespero, passando minha mão para sua coxa, descendo a outra para a lateral de seu seio. Eu sequer sabia que um beijo podia ser tão gostoso, erótico e lento ao mesmo tempo. Minha calça jeans pareceu um empecilho desgraçado naquele momento.
O mundo pareceu se converter em estrelas alucinógenas quando os dois puxaram o cabelo um do outro ao mesmo tempo, e gemidos baixos e suspiros aceleravam e intensificavam nosso toque. Trilhas de fogo subiam por meu tronco enquanto enfiava suas mãos por minha camiseta, dedilhando a pele e apertando de leve minha cintura quando aprofundamos ainda mais o beijo. Detive meu toque para subir seu vestido por um momento. Eu nunca havia beijado antes, não sabia os limites. Uma ex-namorada disse que eu era “mão boba”, não sabia se aquilo afastaria ou não.
— Você não precisa ser tímido comigo, — ela disse enquanto depositava um beijo sobre meu pomo de Adão. — Pode me tocar como você quiser — sussurrou em meu ouvido antes de puxar o lóbulo de minha orelha levemente com os dentes. Revirei os olhos inconscientemente quando ela colocou minha mão sobre sua bunda e rebolou ao mesmo tempo contra minha calça jeans.
Eu ia morrer. Um filete de suor escorria por minhas costas e meu corpo inteiro ainda tentava acompanhar o que acontecia. estava me beijando!
— Eu preciso sentar, essa posição não rola — murmurei contra nossos lábios.
Eu queria ter no meu colo, poder senti-la com o corpo inteiro sobre o meu, beijar seu pescoço sem medo de cairmos ou sem a gravidade me dando um torcicolo, porque aquele era o melhor beijo do mundo.
O de anos atrás pulava ao meu redor e gritava: “É ISSO AÍ, SEU MERDA, CONSEGUIMOS!”. O atual dirigiu os beijos para o pescoço de enquanto começava a me sentar, tentando fingir não ser o cara mais feliz do mundo.
Contudo, fui tomado por uma pontada de dor absurda na bunda e soltei um grito involuntário quando tentei me sentar, voltando a deitar enquanto pontos pretos e brancos dançavam em minha visão. arregalou os olhos e saiu de cima de mim com os lábios inchados e os olhos confusos.
do céu! Eu sentei com força em você? Eu quebrei seu pênis por cima da calça? — Neguei debilmente, amaldiçoando aquela dor maldita.
— Cara, eu não consigo sentar!
Eu estava pronto para dizer que ela não precisava se preocupar, mas olhou para o chão e percebeu um pequeno filete de sangue ao lado da minha cintura.
— Meu Deus, você está sangrando! — exclamou assustada e começou a andar de um lado para o outro. Segui seu olhar e constatei assustado que, sim, eu estava sangrando. Será que aquilo havia saído da minha bunda?!
— Hospital, ! — decretei, tentando controlar o nervosismo. Provavelmente não era nada, mas a voz assustada de me fazia crer que o Thanos havia socado a manopla dele no meu ânus e liberado pequenos stormtroopers lá dentro.
— Ok, vamos. Você consegue levantar? Não é perigoso? Dá para quebrar o cu? Eu não sei dizer… acho que não. — começou a divagar enquanto pegava a chave do carro, seu blazer e buscava um casaco para mim. — Ok, vamos tentar te levantar. Você consegue?
— Acho que sim. — Virei de bruços. tentou conter um arquejo de susto, mas não conseguiu. — PELO AMOR DE DEUS! O QUE ACONTECEU? — gritei assustado.
— Você caiu em cima de alguma coisa, eu só não sei dizer o que é, mas sua camisa está toda manchada de sangue. Sem desespero. Não se mexe, acho melhor chamar uma ambulância, não é? Vai que você se mexe e isso aí te mata.
, você não está ajudando! — exclamei. — Foi um caco de vidro de um copo que eu quebrei hoje, pelo visto não limpei direito — praguejei com raiva. — E uma ambulância por causa de um vidro? Eles vão dar risada da nossa cara, sabia?
— Eu sei que é algo pequeno, só que parece estar bem perto do ossinho da bunda, e é recomendação dos primeiros socorros que você não se mexa. Você nunca assistiu novela das nove? Espera aí, já volto.
Eu não a vi, mas notei de esguelha quando pegou seu celular e começou a conversar com a mulher da emergência.
— Sim, ele caiu em cima de um caco de vidro! Foi bem na coluna. Sei que está sangrando bastante e deve ter penetrado pela camiseta, porque não consigo enxergar… Isso. Não, eu não mexi no lugar. — Uma pausa. — , você tá sentindo ardência?
— Não. — respondi. Observei a silhueta de atrás de mim pelo vidro da janela.
— A pressão está caindo? Está se sentindo tonto?
— Eu só tô com uma vergonha do cacete, ! Os bombadões de três metros da emergência vão vir me resgatar porque eu sentei no vidro… pelo amor de Deus, que vergonha. E se algum deles for bonito, ?
— Não, não está se sentindo tonto, pelo menos não mais do que já é. — me ignorou e voltou a conversar. — Quanto tempo? Ok, nós aguardamos. Obrigada! — Minha amiga se agachou em minha frente e tentou controlar o riso. — A ambulância está vindo.
— Pode tirar o sorrisinho da cara, !
— Não dá, querido . Quando a Baby caiu, o Johnny deu risada, não foi? Estou apenas sendo fiel ao roteiro…



Capítulo dezessete




Não fazia parte dos meus planos estar às dez da noite em um hospital no meio de São Paulo. Eu estava sentada na cadeira enquanto esperava a enfermeira me dar alguma notícia. Flora, contato de emergência de , estava a caminho.
Encostei a cabeça na parede e controlei a gargalhada desenfreada. Quando eu fico nervosa, dou risada. Muita risada. Quando cheguei aos finalmentes pela primeira vez, gargalhei tanto que o cara achou que eu estivesse rindo do tamanho do pênis dele, então se levantou e saiu, mas eu continuei rindo sozinha por mais meia hora.
Por isso, quando os paramédicos precisaram descer com na maca pelos andares até o térreo, passei o caminho todo praticamente fazendo xixi nas calças de rir, ao passo que me xingava em um hindi escrachado.
Uma das paramédicas me pediu para parar de rir, já que aquilo deixava nervoso e somente dificultava o trabalho para descer de maca. Então segurei a gargalhada até entrar no carro para acompanhar a ambulância, mas soltei tudo lá dentro.
Eu havia beijado ! De verdade, de língua e tudo que tinha direito. E havia sido ótimo. Lembrei do cheiro de xampu de seu cabelo, dos lábios macios e gostosos, de corpo ele suspirou e gemeu meu nome em alguns momentos.
E puta merda, eu lembrei especialmente do quanto eu estava pronta para qualquer coisa que ele pedisse. Se achasse uma boa ideia acender o gás porque seria romântico, eu provavelmente faria. Pairei com meus dedos sobre meus lábios e sorri ao lembrar do sorriso dele entre os beijos, do corpo magro me puxando para perto mais e mais, como se qualquer espaço entre os dois precisasse ser preenchido até que não houvesse mais nada entre nós dois. Como eu queria repetir aquele beijo!
! — A voz de Flora me puxou de volta para a realidade nada gargalhável da situação. — O que aconteceu? Foi um acidente sério? Ele está bem? — A irmã de estava com os olhos arregalados e vermelhos, parecia ter chorado. Nossa, mas eu sequer havia explicado o que aconteceu. Ela realmente se preocupava com o irmão.
— A enfermeira não deu notícias ainda, ele entrou de maca e foi direto por aquela porta. Estou esperando aqui há uns trinta minutos. — Flora assentiu e foi até a recepção, pedindo por mais informações.
Observei seu porte com interesse. Ela usava a parte de cima do pijama de seda (muito bonito, por sinal) e calça moletom. Será que ela estava com Kadir antes de vir para cá?
Afundei-me na cadeira e tomei mais um gole da água. Eu já deveria estar dormindo àquela hora para acordar cedo e trabalhar, mas não conseguiria descansar sem saber como estava. Na realidade, não conseguiria dormir depois daquele beijo, apenas ficaria rolando na cama de um lado para o outro, pensando no quanto eu não queria que aquilo tivesse acabado.
— Bom, ele está passando por uma microcirurgia — Flora adiantou ao se aproximar novamente. — Caiu em cima de um caco de vidro que não limpou direito e os estilhaços estavam meio espaçados. — Arregalei os olhos e deitei a cabeça para trás.
— Isso que dá ele não usar produto de limpeza quando limpa vidro… — resmunguei. Flora se sentou ao meu lado e me encarou com curiosidade.
disse para o médico que caiu no chão porque estava te ensinando a lutar, mas eu duvido muito disso por alguns motivos: primeiro, ele não sabe lutar; segundo, ele não sabe lutar. Então, o que aconteceu? — Senti-me enrubescer enquanto encarava minhas unhas feitas.
— A gente estava fazendo aquela cena de Ritmo Quente… — minha voz saiu como uma criança sendo pega com a boca na botija fazendo algo que a mãe disse que era proibido. — Sabe? Quando o Johnny Castle levanta a Baby e…
— Você tá brincando! — Flora me interrompeu e gargalhou alto, apoiando a testa sobre o braço cheio de pulseiras e um relógio caro. Tentei segurar a risada, mas não consegui. A cena era ridícula em todos os sentidos possíveis.
— Não, é sério! Mas aí é que fica melhor, Flora, o era a Baby e eu era o Johnny! — Flora começou a tremer devido às risadas, e algumas pessoas ao nosso redor torceram o nariz. Nós não podemos ser felizes no hospital, por acaso?
— Vocês dois são as criaturas mais fofas do universo — ela comentou e balançou a cabeça em negativa.
Controlei o riso nervoso que tentava se apossar de mim. Antes do acidente monumental, eu sabia que estava pronta para beijar , e eu não podia colocar a culpa no período fértil ou em qualquer outro fator externo. Eu estava sóbria, prestes a menstruar e muito consciente da rebolada proposital que dei contra sua cintura. Os dedos de encostaram em minha cintura sobre o vestido, aquele mero movimento foi capaz de me fazer perder o mínimo de sanidade que ainda me restava desde a prova do vestido.
E eu estava prestes a arruinar o momento perguntando se era verdade que ele era apaixonado por mim. Em minha defesa, era uma pergunta simples com apenas duas opções de respostas: sim e não. Se sim, eu engataria em uma conversa dinâmica sobre como eu queria beijar a boca dele. Se não, eu também tentaria engatar em uma conversa para beijá-lo. Mas não consegui, talvez por medo da resposta, talvez por não saber se era a coisa certa a se fazer. Se quisesse me dizer que estava apaixonado, ele diria, não é? Somos amigos. Se ele não quis dizer, então era direito dele e forçá-lo não era a escolha certa. Novamente, um limbo. E esse era um no qual eu não queria entrar. Felizmente, não precisei me martirizar com nada daquilo, o beijo era uma resposta mais eficiente.
Eu disse mais cedo naquele dia que não queria me envolver com ninguém, mas quanto mais eu tentava me convencer de que eu e não daríamos certo, mais ele provava que eu poderia estar errada, e aquele lampejo de esperança havia se apossado do meu peito.
Sabia que as meninas me odiariam por pensar o que pensei, mas eu queria esmagar aquela ínfima esperança antes que ela crescesse o suficiente até parecer grande demais para esconder.
havia visto tantos relacionamentos meus irem para o brejo, tantas vezes em que eu era a errada da relação. Nós dois somos tão diferentes estando com outras pessoas, eu não queria arrastar meu amigo para a minha teia. Ele não merecia aquilo.
era compreensivo demais, passivo demais. A atual não é uma boa parceira para ninguém. Além disso, ser casual com ele estava fora de cogitação. Se ele já teve sentimentos por mim antes, não seria justo da minha parte dar qualquer margem para que voltassem até que eu estivesse minimamente pronta para me abrir com ele. Mas agora com o beijo, como seria?
E essa é a controladora adiantando que ele realmente sentiu algo por mim. sequer havia confirmado.
Quantas vezes enquanto crescemos as pessoas não nos irritam de casal com outra pessoa, mas nós a vemos apenas como amigo? poderia ter passado pela mesma coisa, levando em consideração o quanto é sociável, amável e carinhoso. Era muito fácil se apaixonar por ele. E por mais que eu não tivesse gostado dele por todos esses anos, eu sabia o quanto poderia cair nas graças de agora, porque eu queria.
Meu Deus, como eu queria que ele tivesse continuado o que começamos na casa dele. Queria ter sentido suas mãos firmes na minha coxa, sua barba na minha bochecha e seus cabelos em meus dedos.
Cerrei os punhos sobre a coxa enquanto Flora saía para comprar um lanche. Por que diabos ele não havia se declarado antes? Por que não admitiu? Por que não seguiu em frente naquele dia da festa? Por que fingiu que aquilo não aconteceu?
A frustração tomou conta do meu corpo inteiro diante das perguntas sem respostas e das quais eu era parcialmente culpada. Peguei-me pensando que eu queria ser tentar algo com , que tentar me prender ao desapego com ele apenas o afastaria de mim, e eu não queria aquilo, não mesmo.
?
Levantei o olhar diante da voz masculina que me chamava. Um homem marrom, de pele escura e olhos ainda mais escuros me encarava. Seus cabelos eram ralos e entradas subiam por sua cabeça.
— Posso ajudar? — questionei levemente atordoada. Será que era um parente de que eu não reconheci? Não era o pai dele, com certeza, porque o pai de era mais baixo e mais gordo.
Antes que eu pudesse responder, olhei para trás, a mãe de entrava no hospital com uma máscara hospitalar no rosto.
— Ah, você é parente de ? — perguntei com um sorriso. Estendi a mão, ao passo que o homem estendeu também, mas parecia nervoso.
Encarei a mãe de se aproximando no momento em que Flora apareceu por outro corredor ao meu lado. A comitiva indiana havia chegado, o que chamou a atenção dos pacientes, especialmente pela mãe de usar um sari laranja.
— Mamadi! — Flora abraçou a mãe assim que se aproximou.
— Oi, filha. está bem?
— Sim, tudo tranquilo. — Flora me encarou e pareceu comentar mentalmente que a microcirurgia não deveria ser pronunciada.
O homem ainda diante de mim não havia desviado o olhar, e tentei ao máximo não me sentir desconfortável, então sorri para a mãe de Flora e acenei.
— Oi! É um prazer te rever. — Dei meu melhor sorriso, ao passo que a tia sorriu cortês e voltou o olhar para o homem diante de mim.
— Então vocês já tiveram a chance de colocar o papo em dia? — ela perguntou com leve interesse, largando sua bolsa ao lado da cadeira onde eu estava sentada. Flora franziu o cenho, parecia tão confusa quanto eu.
— Como assim? Desculpa por não ter te reconhecido, você é do templo que minha mãe frequenta? — Virei-me para o desconhecido morrendo de vergonha. Tenho certeza de que minha mãe me mataria por não lembrar de um rosto amigo.
O homem piscou algumas vezes e sorriu nervoso, colocando as mãos no bolso da calça social muito cara. O templo que Kabir e minha mãe frequentavam não era abastado, então estranhei que ele frequentasse aquele local.
— Templo? — A mãe de Flora gargalhou e maneou com a cabeça, estendendo o braço cheio de braceletes na direção de nós dois. Alternei o olhar entre ela e ele, mas Flora parecia subitamente consciente da situação. Todos, menos eu, estavam cientes de uma piada hilária e imaginavam que eu a conhecia, portanto deveria rir junto, mas eu estava perdida.
Será que ele era um parente meu por parte de pai?
Enquanto crescia, minha mãe falou poucas vezes de meu pai. Ele havia nos abandonado no Brasil para construir uma família na Índia. Meu doador de esperma (que é como o chamo na maior parte das vezes) achou que era possível manter duas famílias simultâneas — o que funcionou, até minha mãe descobrir e o chutar de casa.
Ela descobriu mais tarde, quando eu tinha três anos, que ele já estava prometido a uma mulher na Índia, mas que havia se apaixonado por minha mãe quando veio ao Brasil para fundar uma empresa. Era a justificativa perfeita: passar tempos na Índia e no Brasil, mantendo duas famílias com álibi credível.
A última notícia que tivemos dele foi quando completei cinco anos. A empresa havia falido e meu pai nunca mais deu as caras no Brasil. Eu sequer o havia conhecido. Já tinha visto algumas fotos de um álbum que minha mãe guardava da época em que eu era bebê. Ela não havia se livrado das fotos porque eu estava nelas, mas todas as outras em que ela e meu pai apareciam foram para o lixo.
Então saber que eu tinha um parente por parte de pai no Brasil foi uma surpresa, levando em consideração que ninguém da família dele nos reconhecia como parentes (e nem deveriam, na realidade).
— Você é parente por parte de pai? — Tentei a sorte, ao passo que o homem assentiu e abriu um sorriso trêmulo. — Ah, sério? Nossa, eu nunca tinha conhecido um parente por parte do meu pai… — Encarei a mãe de com o semblante curioso. — E como vocês se conhecem?
— Ah, querida… — A mamadi de Flora apoiou a mão no queixo e nos encarou com curiosidade.
, podemos conversar?
Ouvir a voz do homem me deixou nervosa, pois parecia mais sério e rígido do que até mesmo minha mãe. Será que havia acontecido algo com meu pai? Por um instante, pensei que ele havia morrido, e uma sensação desesperadora tomou conta de mim, mesmo que eu não soubesse o motivo.
— É sobre o seu pai.
Aquele homem tinha um sotaque bangalês muito forte, apesar de parecer ser fluente em português. Assenti em sua direção e o acompanhei até o canto do hospital. Enquanto isso, peguei meu celular e digitei uma mensagem apressada para minha mãe:

“Acho que aconteceu algo com meu pai… Tem um homem aqui no hospital que me conhece, e acho que ele é da família dele. Além disso, os dois se parecem. Você sabe se ele tinha algum irmão ou primo? Ele tem um sotaque de Bangladesh também”

Enviei a mensagem rapidamente e coloquei um sorriso educado no rosto, assim como minha mãe havia ensinado.
Virei-me de frente para o estranho e estendi a mão em sua direção para que continuasse no mesmo momento em que a notificação de minha mãe apareceu no celular.

“Filha? Do que está falando? Seu pai era filho único… Acho que esse homem pode ter cometido um engano. Onde você está?”

— Bom, eu conheço seu pai — ele começou, parecia nervoso e ficava mexendo os dedos calejados e preenchidos por anéis de pedras grandes.
— De onde?
— Desde pequenos.
— E como você sabia que eu estava aqui? Ele pediu para você trazer alguma mensagem?
— Eu não entendi o final, pode repetir?
— Meu pai, ele falou para você me dizer algo? — reformulei a pergunta. Meu coração batia acelerado no peito. Será que meu pai havia tentado contato?
— Eu vim passar um tempo na casa de Anushka, sou amigo de família. Temos negócios juntos. Descobri que você está noiva do filho de Anushka.
— Mas isso ainda não explica exatamente…
Meu celular começou a tocar ensandecidamente com o toque especial de minha mãe.
— Licença só um minuto, por favor. — pedi educadamente e afastei-me, colocando o celular na orelha. — Oi, mãe, tá tudo bem… Pelo visto ele é um parente do meu pai, eles se conhecem desde pequenos.
, presta atenção! — ela exclamou impaciente e nervosa. — Olha o braço dele, tem alguma cicatriz no peito da mão?
Virei-me de soslaio e encarei sua mão.
— Qual delas?
— A direita, eu acho.
Fitei-o com atenção, mas ele parecia distraído com uma pintura na parede. Prestei mais atenção em sua mão e percebi o traço da cicatriz subindo até a manga da camiseta social.
— Sim, ele tem.

Levantei a cabeça no mesmo momento em que ele me encarou, um sorriso triste estava em seu rosto.
— Mãe, pelo amor de Deus, você está me assustando. Ele é algum agiota ou algo do tipo? Só os agiotas têm cicatrizes assim!
, sai daí agora e vem aqui para casa, precisamos conversar. — A voz de minha mãe beirava ao desespero.
O homem se aproximava de mim, mas não consegui me mexer.
— Ele é meu pai? — Minha voz embargada sequer conseguia processar a profundidade daquelas palavras. Elas não pareciam verdade quando saíram, não pareciam verdade quando minha mãe começou a chorar ou quando o homem finalmente se aproximou de mim após ter ouvido a minha pergunta.
Ninguém precisou dizer nada, mas eu sabia.
Eu finalmente estava conhecendo meu pai.




Continua...


Nota da autora: AI, AI, E ESSA APARIÇÃO? O pai da Samira é uma parte muito importante da vida dela, não poderia deixar de retratar ele de alguma forma... O que vocês acham que vai sair dali, hein?
Até semana que vem!

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Espero você lá.



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