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Atualizada em: 19/10/2020

Capítulo um

O telefone em minhas mãos parecia pesar cinquenta quilos.
A brisa fria da Avenida Paulista às sete da noite não parecia nada se comparada ao calor que subia por meu corpo envergonhado. As luzes do Mc Donald’s atrás de mim tornavam minha sombra na calçada extremamente alongada, sendo interrompida momentaneamente pelos carros que passavam próximos à calçada.
Abri o contato de no celular e observei nossa última conversa. Cinco dias atrás. Ela havia me mandado um meme de engenharia e eu respondi com uma figurinha da Gretchen. Me entristecia saber que ela provavelmente me socaria após lhe contar da cagada magistral que eu havia feito.
Ouvi uma buzina próxima à minha orelha e encarei os carros com suas luzes do farol brilhando diante de meus olhos. Eu estava ao lado da estação Brigadeiro sem qualquer coragem de entrar no metrô para ir para casa.
Precisamos conversar.”
Enviei a mensagem com o ponto final. Quem me levaria a sério se eu não usasse o ponto final na mensagem? Precisava mostrar que eu realmente precisava conversar com .
Arrumei a alça da bolsa nos ombros e desci pelas escadas rolantes, finalmente tomando coragem.
Jesus Cristo, alguém morreu? Eu fiz algo? Você perdeu a virgindade?”
Revirei os olhos com a mensagem e dei uma risada abafada. Esperei na plataforma do metrô.
Posso passar ?”
avisei o porteiro
Suspirei.
Eu estava ferrado.
O terno em meu corpo parecia estranhamente justo naquele momento, assim como pareceu naquela manhã, um mês atrás, quando cheguei à recepção da Construtora Sobral, local em que almejei trabalhar desde o primeiro dia na faculdade, quando o diretor da empresa foi um dos palestrantes para os calouros suados e cansados do campus da USP.
— Vim para a entrevista na Construtora Sobral, 13° andar. — Sorri para a recepcionista de cabelos ruivos. Ela sorriu de volta e assentiu.
Aguardei nervoso enquanto subia pelo elevador prateado. Alguns funcionários ao meu lado conversavam sobre metas de vendas e falavam mal de influencers. Pelo visto uma tal de Boca Rosa havia sido racista. Foquei naquela conversa até o 13° andar.
— Sente-se, por favor. — A recepcionista da Sobral pegou o telefone em suas mãos e indicou bancos felpudos para mim. Sentei-me com as mãos cruzadas sobre o colo.
A empresa parecia ainda mais incrível dali. Paredes cinzentas subiam em formato de maquete. As salas de reunião eram de vidro. Havia maquetes de prédios expostas sobre algumas mesas de reunião ao lado da recepção. Suspirei. Aquele emprego já era meu!
Com esse pensamento centrado e animado, pedi para ir ao banheiro antes da entrevista. Mijaria como um verdadeiro vitorioso!
Caminhei a passadas tímidas para o coração da empresa, onde ficava o banheiro. O da recepção estava quebrado, havia dito a funcionária. Encarei as baias nas quais homens de terno e duas mulheres trabalhavam.
Todos pareciam focados em seus computadores, e algumas outras salas de reunião se estendiam ao longo do andar inteiro pertencente a uma das maiores empresas de engenharia do Brasil.
Duas pessoas sorriram para mim, e relaxei. Virei à esquerda, em direção ao banheiro, quando ouvi uma voz vinda da sala de reunião ao meu lado.
— O primeiro candidato está aqui.
Tentei me controlar, mas não sabia como. Parei ao lado da parede, escondido pela privacidade do gesso.
— Ele é jovem? — Uma voz disse.
Não consegui ver o rosto dos dois homens que conversavam.
— Parece.
— Ah, droga! — Resmungou a segunda voz — Nem quero entrevistá-lo, vai ser perda de tempo.
Meu coração bateu acelerado no peito.
— O currículo dele é ótimo.
— Currículo ótimo não faz o funcionário, Pietro.
A segunda voz tinha razão, mas isso não me deixava menos desesperado. Ele sequer queria me entrevistar, o que eu havia feito de errado? Questionei-me se seria por minha etnia, e minhas mãos suaram em resposta ao pensamento.
— Não podemos mais contratar jovens depois do Kaique! Não podemos lidar com outro escândalo de assédio sexual. — Arregalei os olhos. Olhei para o fim do corredor e ouvi passos. Eu seria descoberto espionando. Virei-me para ir em direção ao banheiro, apenas a dois metros de onde eu estava.
— Só considere contratar esse garoto se ele estiver casado ou prestes a casar, Pietro.
Foi a última coisa que ouvi antes de observar uma moça da limpeza virar o corredor em minha direção.
Fechei a porta do banheiro atrás de mim e encarei-me no espelho.
Eu não sou casado!
Batuquei os dedos contra o mármore da mesa. Mijar vitorioso não era mais uma opção. Mijei derrotado.
Refiz meu caminho até a recepção. Sequer valeria a pena participar da entrevista? Eu já seria negado assim que me fizessem aquela pergunta, não importa o quão incrível eu fosse.
Observei detidamente enquanto um homem de terno giz perfeitamente delineado andava em minha direção. Ele portava um sorriso simpático. Ele vai ser o responsável pela ligação para dizer que você não é um bom candidato. Pisquei algumas vezes.
— Sou o Pietro e vou te entrevistar junto ao pessoal do RH, ok? — Assenti simpaticamente.
Meu Deus, o que eu faço?!
Segui Pietro, a primeira voz daquela conversa nada legal. Abri e fechei as mãos algumas vezes, a tensão e nervosismo pungentes ali. Sentei-me na cadeira. Estávamos na mesma sala pela qual eu havia passado há pouco, próxima ao banheiro.
Só havia eu, Pietro e uma moça que eu não havia visto antes, a responsável do RH.
Convenci-me de que não me perguntariam sobre meu estado civil. Aquilo só podia ser palhaçada.
— Você é um ótimo candidato, . Amei seu nome, por falar nisso, é bem diferente. Chique. — Agradeci à responsável do RH com um sorriso.
era um nome que me perseguia desde pequeno. Meu pai havia registrado meu nome, já que minha mãe estava desmaiada na sala pós-parto. Eles haviam combinado que meu nome seria Josué, mas meu pai quis deixar meu nome gringado.
— Temos mais uma pergunta, .
Meu coração acelerou no peito. Encarei Pietro. Ele parecia pleno, na verdade, parecia perfeitamente entediado. Gostaria de estar daquela maneira.
— Qual é o seu estado civil?
DROGA! MIL VEZES, DROGA!!!!!!!!!!
Pisquei algumas vezes, as palavras tentando escapar de minha boca.
— Fique calmo, esse é um assunto delicado para você? — A responsável questionou seriamente. Pietro parecia entretido agora.
— Não, não é isso.
Enrolei.
Aquele emprego realmente valeria aquilo tudo? Quer dizer, eu precisava ter uma família para ter bom caráter? Que tipo de lógica era aquela? Ser casado já impediu assédio?
Pisquei algumas vezes. Diga algo, !
— Não sou solteiro.
A responsável arqueou a sobrancelha, e Pietro riu.
— Isso é bom, mas o que exatamente você é? — Ela repetiu a pergunta.
Olhei para o lado de fora. Observei dois homens dando risada em suas mesas enquanto abriam uma planta de prédio, ao que parecia de onde eu via. Eles apoiaram o molde sobre a mesa e pegaram seus esquadros. Senti meu coração acelerar novamente.
— Me caso em três meses. — Falei de uma vez, a mentira rastejando por meus lábios miseravelmente.
Como eu odeio mentiras.
Pietro me encarou com mais atenção, como se só tivesse percebido a minha presença ali verdadeiramente agora.
— Mas você parece tão novo. — Ele comentou. Estava me sondando.
— Já queríamos ter casado antes. Sou bem tradicional, sabe. — A mentira crescia, e eu não conseguia parar de falar — Estamos juntos há três anos. Namoramos juntando grana para o casamento. Como éramos estagiários, só queríamos oficializar o casório quando pudéssemos arcar com todos os gastos.
Até eu acreditaria naquela mentira bem elaborada e totalmente descarada.
Eu sequer havia namorado por mais de um ano, quanto mais três anos. E casamento? Pelo amor de Deus! Tenho vinte e seis anos!
Mas Pietro não precisava saber disso.
Por isso, quando a entrevista acabou e voltei para casa, esperei pacientemente. Entrei em todas as minhas redes sociais. Tirei a visibilidade do meu status de relacionamento e minha bio do instagram. Eu só possuía três fotos, todas minhas em Campos do Jordão, e em uma delas estava , com seus olhos pequenos pelo sol e usando um moletom rosa. Eles que pensassem o que quisessem!
Ao receber a ligação no dia seguinte, mal pude acreditar. O emprego era meu! Pietro havia me ligado para dar as boas novas.
— Passei no emprego! — Gritei para pelo telefone na mesma hora.
Minha amiga desde o primeiro dia de aula da faculdade gritou em comemoração do outro lado.
— Eu falei que você conseguiria! — Ela respondeu animada — Você é muito capaz, eu sabia.
Pois é, ela mal sabia.
E tudo estava bem. O emprego era meu, ninguém mais havia me perguntado sobre minha noiva. Era como se tudo tivesse passado. Eu tinha colegas de trabalho e dois projetos em andamento. Eu tinha um vale refeição capaz de alimentar minha família por um mês inteiro e um salário ótimo. Nada precisava mudar.
Até aquele dia.
, venha aqui, por favor. — Fui chamado na sala de Dodô, nosso chefe de departamento e o homem que havia conversado com Pietro na sala aquele dia. Eu o reconheci pela forma como falava. Senti antipatia por ele na mesma hora em que fui apresentado a ele formalmente.
— Tá tudo bem? — Questionei ao adentrar no cubículo, fechando a porta atrás de mim.
Dodô tinha a pele negra e os olhos cansados, bolsas de olheiras sombreavam seu semblante. Ele cruzou os braços sobre a barriga delgada e sorriu.
— Tudo sim, fique tranquilo. Pietro falou comigo hoje, e percebi algo. Sei que somos aparentemente uma empresa reservada, mas somos um ambiente descontraído e familiar.
Assenti.
— Temos o coquetel de funcionários no final do semestre, mas acho que já saiba disso.
— Sei sim.
— Bem, você está completando seu primeiro mês aqui, e vai ser sua primeira confraternização. Pietro disse que você pode estar se sentindo desconfortável em trazer sua noiva, então estou aqui para encorajá-lo a trazê-la! É um ambiente bem legal e incentivamos os funcionários a trazerem seus parceiros. Quer dizer, parceires. O RH tem uma nova política de uso de pronomes neutros. — Permaneci em silêncio.
Eu sequer lembrava que estava noivo. Quer dizer, porque eu realmente não estava! Que papo era aquele do nada? Eu mataria Pietro! Já tínhamos intimidade o suficiente para isso.
— Não sei se ela se sentiria confortável, Dodô… — Enrolei, mas ele parecia decidido.
— Você está aqui há pouquíssimo tempo e já é um dos meus melhores funcionários. — Mantive os lábios em uma linha fina — Traga sua noiva, ok?
Saí da sala com um ponto de interrogação em minha testa. Tenho certeza de que chefes não podem se meter na vida dos funcionários daquela maneira.
— Vocês tiveram a conversa de levar o parceiro para a confraternização? — Pelé, meu colega de mesa, perguntou-me assim que sentei. Assenti em sua direção — Estão fazendo isso por causa do escândalo.
Ah, o escândalo!
O escândalo de assédio sexual que pairava sobre a empresa junto com um baita processo. O funcionário que trabalhava aqui antes de mim, Félix, havia assediado sexualmente três mulheres da empresa. Após uma delas se pronunciar, as outras duas o denunciaram também. O caso saiu na imprensa através de uma das mulheres, que era amiga de uma jornalista famosa.
A empresa demorou a se posicionar sobre o caso, já que Félix era um dos diretores, então a imprensa caiu em cima. A Construtora Sobral perdeu três clientes no processo. Depois disso, Félix foi demitido. As três funcionárias pediram demissão. Eu havia sido contratado. Agora, eu precisava levar minha noiva inexistente para a festa da firma a fim de fazer sala e parecer digno.
— Você vai levar a sua noiva? — Pelé perguntou, seus olhos vasculhando sua mesa atrás de um lápis. Ele era branco, não entendia por que seu apelido era Pelé. Na verdade, sequer sabia seu nome de verdade.
— Eu? — Enrolei.
— Sim, aquela moça do seu Instagram, não é? Ela é linda, cara!
!
— Sim, vou levá-la. — Respondi prontamente. Três colegas levantaram o olhar em nossa direção. Eu estava enfiado até o pescoço em mentiras. Engoli em seco.
— Que legal! Ela é linda mesmo. Cara de sorte! — Agnaldo respondeu do outro lado.
Essa empresa está cheia de fofoqueiros!
— Todos vamos levar, meu bem. — Pardal também se pronunciou, os cabelos loiros balançando ao passar a mão sobre eles — Solteiros são altamente encorajados a não irem. Pelo visto ainda estamos sendo sondados pela mídia.
— Que perigo, hein! — Respondi sem encará-los, meus olhos vidrados em minha mesa.
Observei paralisado meus post-its largados sobre o computador aberto. Meu Deus, o que eu faria?
— Espera, ouvi certo? vai trazer a noiva? Ah, que legal! Estou ansiosa para conhecer sua noiva! Ela é linda mesmo — Laura comentou do outro lado. Daquela distância, pelo menos quinze funcionários haviam ouvido além dos da minha baia.
E foi com essa confusão em mente que bati à porta de naquela noite.
— Você está com cara de quem comeu cachorro quente estragado. — Ela comentou assim que abriu a porta. Seus olhos miravam os meus, um sorriso largo estava em seus lábios quando ela me abraçou e me puxou para dentro.
Observei seu corpo se esgueirar até a cozinha enquanto tagarelava sobre eu ser misterioso por mensagem.
, você vai me odiar tanto depois do que eu vou te dizer… — Comecei quando ela voltou à sala, seus olhos passando entre meu corpo largado no sofá e sua mesa de centro.
— Ih, o que houve? — Ela pareceu levemente preocupada. se aproximou e sentou ao meu lado no sofá, seus olhos fitando meu corpo por inteiro — Você não parece bêbado. O que foi que você fez? Engravidou alguém?
— Eu estou noivo. — Encarei-a. estava gaguejando, seus olhos pareciam alternar entre meus olhos e minha testa.
— Mas como assim? De quem?
— Você não vai querer saber.




Capítulo dois

Samira



— Não. — Afirmei categoricamente.
— Nem se eu pagar três almoços? — Fuzilei — Desculpa.
Observei meus polegares. Minhas unhas estavam limpas e pintadas do azul mais profundo que existia na paleta de cores da manicure. Ela disse que aquela cor combinaria com a minha semana, representaria os mares conturbados e imprevisíveis.
Bem, eu definitivamente não esperava dizer que era meu noivo para seu chefe a fim de conseguir um emprego.
— Eu namoro, . — Relembrei-o. assentiu, seus olhos piscavam rapidamente, maquinando ideias naquela cabeça de quem é um bobão.
— Mas eu não te pedi em noivado de verdade, . — Estreitei os olhos.
— Mas seu chefe acha que sim.
— Mas ele não precisa saber que você não é minha noiva! — Virei-me para encará-lo completamente. batucava os dedos sobre o joelho coberto pela calça social.
— Podemos inventar uma desculpa no dia. Que tal eu ficar com caganeira? — arqueou a sobrancelha.
— Eu acho essa uma ótima ideia. — Ele sorriu. Os olhos fitavam os meus com alívio.
era definitivamente hiperativo. Ele já estava de pé novamente, seus braços se movendo constantemente enquanto enumerava motivos para eu não odiá-lo por ter mentido.
Eu jamais poderia odiar .
— E outro motivo, eu sou muito gostoso.
— Você precisa de motivos melhores. — Argumentei. revirou os olhos e voltou a andar pela sala.
Lembrei-me de nosso primeiro dia de aula na faculdade. Eu havia ido para o prédio errado do campus. Ao invés de ir para a Escola de Comunicação e Artes, acabei parando na Escola Politécnica de engenharia. Em certo momento, durante a orientação, eu percebi que a grade horária era totalmente diferente.
Virei-me para o garoto ao lado e perguntei onde eu estava. Ao descobrir que estava longe do meu prédio, levantei-me correndo e acabei prendendo minha blusa na cadeira, abrindo um rasgo gigantesco. Meu sutiã virou objeto de risada no meio do auditório lotado. Quis morrer, mas apenas ri nervosamente. , o garoto ao meu lado, tirou seu moletom politécnico e me entregou.
Ele almoçou comigo naquele dia e me levou para conhecer o campus, já que eu havia perdido a minha orientação. Não lembro de ter estado longe dele um dia sequer desde aquele momento. Ele pegou uma matéria a mais na faculdade só para podermos nos formar no mesmo semestre, já que eu havia pegado DP.
— Não vai rolar a caganeira. — falou após algum tempo. Pisquei em sua direção.
— Quê?
— Cagar em excesso, isso não vai rolar.
— Ué, quem não acredita em um bom e velho cocô fedido e mole? — sorriu em minha direção, mas balançou a cabeça.
— Mês passado um dos funcionários lançou essa sobre a namorada. Meu chefe não acreditou. O garoto admitiu depois de um minuto que ele havia mentido e que na verdade era gay. — Arregalei os olhos.
— Meu Deus, a sua empresa é cheia de pessoas fingindo ser o que não são. — Provoquei, meus lábios abertos em um sorriso caótico. cruzou os braços.
— Ei, não me julgue.
— Jamais faria isso.
— Faria sim, você está morrendo de vontade de dar risada e dizer que eu mereço essa enrascada. — Dei de ombros.
— Mentir nunca é a solução.
— Mas agora eu tenho um emprego, não é?
— Sim, só não tem a noiva.
Levantei-me do sofá e andei até a cozinha com em meu encalço. Observei seu corpo alto e esguio. Seus cabelos estavam levemente compridos, nas bochechas. A pele escura acolhia bem a cor de seu terno de giz.
— Como eles acreditaram que você tinha uma noiva se você sequer usa aliança? — Questionei ao tomar um gole d’água.
Após o choque inicial de ter achado que havia realmente ficado noivo de alguém, quase enfartei ao entender a mentira que ele havia soltado. Ele havia escondido aquilo de mim por mais de um mês. Se ele não fosse obrigado, ele sequer diria algo para mim?
— Eu disse que não compramos aliança para economizar para o casamento.
Ele era um bom mentiroso, eu precisava reconhecer aquilo.
— Sinto muito, não vou entrar nessa mentira, . Você sabe o que eu acho sobre mentiras. — Falei, meu coração levemente pesado por precisar dar o ultimato, mas não éramos adolescentes. Em algum momento aquela mentira seria descoberta e tudo iria para os ares.
— Eu sei, me desculpa. — Ele passou as mãos pelos cabelos grandes e pela barba. Meu apartamento ficou em silêncio enquanto ele fitava a geladeira, suas mãos dentro do bolso da calça social.
Eu poderia pintá-lo dali. O contorno da mandíbula ficaria perfeito no carvão. Eu já tentei desenhar dois anos atrás, mas ele havia se esquivado.
— O que vai fazer? — Questionei. suspirou.
— Contar a verdade, eu acho. Você está certa, começar algo errado é saber que vai terminar errado. — Mordi o lábio e fitei o chão.
— Ser honesto não é fácil.
— É, não é. Acho que vou começar a enviar meu currículo. — Ele sorriu tristemente. Abri e fechei as mãos. Queria consolá-lo, mas sabia que era o certo a se fazer. Senti meu celular vibrar em meu bolso. Bruno. Ele havia perguntado se poderia vir passar a noite aqui — Ei, quer ir comer pizza? — desconversou, um sorriso aparecendo novamente em seu rosto.
— Bruno está vindo. — Respondi enquanto respondia Bruno no chat de mensagem. Levantei o olhar e observei meu amigo com o cenho franzido.
— Você chamou um cara para vir para cá? Ele deve ser especial, hein. — Sorri com sua provocação ao cutucar minha cintura.
— Ele é, , muito.


*


Acordei muito cedo no dia seguinte. Bruno estava desacordado e suas costas arranhadas demonstravam uma noite muito divertida. Joguei o lençol para o lado e fui ao banheiro. havia esquecido a mala do trabalho na minha casa, então ofereci-me para levar a ele na construtora, já que trabalhávamos próximos um do outro.
Peguei o ônibus praticamente dormindo em pé. Observei quando uma pomba fez cocô em cima do tênis de uma moça. Aquele talvez tenha sido o ápice da minha risada em plena sete e meia da manhã no transporte público de São Paulo. Que tristeza.
— Pode subir. — A recepcionista me recebeu com um sorriso. A mala em minha mão pesada pelo menos dois quilos. Como carregava aquilo de um lado para o outro?
A empresa estava muito vazia quando entrei, da maneira como combinamos.
Se ninguém me visse ali seria melhor.
estava usando uma camiseta social e calça jeans. Sexta-feira. Dia livre. Ele até mesmo havia se livrado do tênis de bico chato e usava um all star.
— Cara, vi um pombo cagar no pé de uma mulher. — Foi assim que o cumprimentei. gargalhou, jogando a cabeça para trás e pondo a mão na barriga.
— Esse tipo de coisa deveria ser gravada.
— Eu estava ocupada segurando esse trambolho. — Levantei a mala em sua direção. segurou a maleta em mãos — Como você não é todo torto?
— Ah, eu sou um pouco. — Ele pareceu refletir — Mas em locais específicos.
— Bem — Pigarreei — É isso. Nos vemos depois?
— Claro, . — Ele me abraçou, o perfume envolvendo meu corpo assim que me afastei. Virei-me para ir embora no momento em que ouvi uma voz atrás de nós.
— Essa é a ?!
Aquele deveria ser Dodô. Encarei , ele piscava fortemente e parecia ansioso, mais ainda do que já era.
— Olá, prazer. — Estendi a mão em sua direção. Os olhos energéticos do homem de mais de cinquenta anos alternavam entre e eu.
— As pessoas aqui estavam começando a achar que você era uma lenda urbana. — Ele comentou com uma risada. pareceu engasgar. Alternei meu olhar entre os dois.
— Lenda urbana mesmo é a tristeza no olhar desse cara desde que ele começou a trabalhar aqui! Nunca o vi tão feliz. — Puxei sardinha para o lado de , mas ele ainda parecia constipado. O que deu nele?
— Na verdade, Dodô, eu preciso falar com você sobre algo… — adiantou e se colocou diante de mim — Pode ir, ! Obrigado por trazer minha maleta. — Ele piscou em minha direção. Observei paralelamente quando outros funcionários saíam de suas baias e vinham para a recepção pegar café. Alguns pararam e nos encararam — Sobre e eu… — começou.
Algumas cabeças atrás de permaneciam nos encarando. Meu amigo não havia percebido a situação. Lembrei-me de quando ele ligou anunciando que havia conseguido o emprego, seus olhos brilhavam e ele me girou no ar.
— É o emprego dos meus sonhos. — Ele disse — Finalmente vou poder criar projetos que ajudem a comunidade. — Ele sorriu, os olhos pequenos pelo sorriso gigante aberto em seu rosto.
Mordi o lábio em nervosismo.
Aquele não era o emprego dos sonhos só por causa do salário, eu sabia que significava muito mais do que só uma carteira assinada.
está tão ansioso para a confraternização! — Praticamente berrei, empurrando para o lado e encarando Dodô diretamente nos olhos. Observei levemente preocupada quando bateu na mesa da recepção. Ops! — Nós estamos, na verdade. Estarei lá, com certeza. Não perderia por nada. — Encarei meu amigo, seus olhos meio arregalados e seus cabelos bagunçados. Ele também daria uma ótima pintura nesse momento, eu poderia chamá-lo de “Caos Mentiroso”.
— Ahã. — concordou e se colocou ao meu lado — Estamos mesmo. Muito.
Dodô nos encarou com uma leve curiosidade.
— Ai, o amor jovem… — Ele divagou — Que saudade… Poder chegar em casa tarde e acordar cedo sem enxaqueca… — Segurei a risada enquanto Dodô divagava sobre sua idade. agradeceu com o olhar, eu percebi.
Eu só esperava não me arrepender por aquela mentira.



Capítulo três




— Você está parecendo uma princesa! — Comentei enquanto enfiava um cheetos na boca.
— Eu não quero parecer uma princesa, quero parecer uma rainha poderosa e incrível capaz de derrubar qualquer pessoa apenas estalando os dedos.
— Então você quer ser o Thanos? — Sumarizei seus pensamentos, mas apenas piscou algumas vezes.
— Ele usava umas roupas bem bonitinhas.
Sairíamos dali quinze minutos para a confraternização da empresa. Tudo estava indo magicamente bem!
— Bruno está ok com essa situação, ? — Questionei mais uma vez, mordendo os lábios em nervosismo. Apoiei-me em meus cotovelos na cama, meus olhos seguindo a silhueta de no banheiro enquanto passava algo nos olhos. Cruzes, que treco é esse?!
— Uhum. — Ela murmurou concentrada.
— Certeza? — bufou e me encarou ainda segurando o treco de metal nos olhos — Você não vai perder os cílios com isso? Um trambolho desses no olho, gente… Pra quê?
— O nome disso é curvex, .
— Curvex, latex, eslatex, tanto faz, é bizarro. — Dei de ombros e deitei com a cabeça no travesseiro — Sinto muito mesmo por te fazer passar por isso.
— Se você falar isso mais uma vez, vou ser obrigada a enfiar esse curvex no meio da sua bunda! — Ela gritou do banheiro. Levantei a cabeça e gargalhei, rolando na cama preguiçosamente.
— Não quero ir, !
— Garoto, levanta. — apareceu pronta do banheiro. Bati palmas estrondosas.
— Você é a mulher mais linda do mundo. — Observei abrir um sorriso largo.
— Eu sei. — Ela piscou com seus olhos castanhos em minha direção. Sua pele estava coberta por um vestido cheio de estampas africanas, em seus pés repousavam sapatos fechados vermelhos. Ela parecia gritar luz e alegria.
Flexionei os dedos várias vezes em sua direção, e me puxou para cima.
— Vamos repassar o plano. — Recapitulei quando estávamos chegando ao endereço da casa de festas que meu chefe havia indicado.
— Claro, chefe.
— Você é minha noiva. — arqueou a sobrancelha enquanto dirigia.
— Ah, sério? É novidade essa parte.
— Sua ironia não é capaz de abalar minha confiança, ok? — Retruquei com um sorriso — Isso vai dar certo!
— Não gosto dessa confiança, . — comentou nervosamente.
— Quando meus cálculos de probabilidade já estiveram errados? — Questionei, meu peito estufando.
— Hã… Teve aquela vez que você acabou caindo numa vala naquela festa e—
— Cale a boca, foi só uma vez. Voltando ao assunto. — riu pelo nariz — Estamos juntos há três anos, somos bem tradicionais e já namoramos querendo casar. — assentiu e trocou de marcha, os barulhos das várias pulseiras encheram o carro.
Ela estava muito cheirosa naquele dia. O carro parecia exalar uma estufa do Jardim Botânico. Aquele era o perfume que eu dei para em seu aniversário do ano passado.
— Vamos nos abraçar, vou fazer sala com suas colegas e odiar seus colegas homens cis.
— Basicamente.
— Perfeito, já é o que eu faço naturalmente, não é? — Ela piscou em minha direção, os olhos delineados e dourados preencheram minha visão.
— Não sei como Bruno ficou ok com isso, sério.
— Bruno não precisa ficar “ok” com nada, . — retrucou, sua expressão um pouco mais séria e impaciente aparecendo — Eu sou sua melhor amiga. Faria qualquer coisa por você. — Ela repetiu e balançou a perna esquerda sobre a embreagem.
— Você mentiu por mim, sei o quanto odeia mentira. — Deitei a cabeça contra o estofado do carro. suspirou.
— Esse trabalho significa o mundo para você, não é? — Assenti — Então significa o mundo para mim.

*

A festa da empresa foi tudo o que uma empresa na cara da mídia por assédio sexual é: um porre. Vários casais preenchiam o jardim florido, contei pelo menos quarenta, todos conversando sobre queijos e vinhos que comeram quando foram para a Itália ou Campos do Jordão — os queijos são bem similares, como um colega fez questão de enfatizar.
Encarei do outro lado do jardim. Ela conversava animadamente com mais três mulheres. Por vezes elas me encaravam, e eu apenas sorria e acenava, e elas voltavam a rir. Como eu queria estar rindo!
— Você precisa mudar seu mindset, cara. Minha namorada é uma baita investidora, ela já deve estar chegando e vai amar falar sobre isso com vocês, paspalhos. — Consegui ouvir Pietro falar na roda. Controlei-me para não gritar.
Como eu queria estar na praia agora tomando sol e açaí!
— E você, ? O que acha sobre a bolsa atual? — Virei-me atentamente quando meu nome foi jogado na roda.
— Cara, investir na bolsa é o maior problema agora, mas o fundo imobiliário está rendendo bem. — Respondi. havia me dito isso no caminho para cá. Ela investia no fundo imobiliário, eu investia no tesouro direto.
— Você tem razão, e por falar nisso…
E Pietro desandou a falar sobre a Bolsa. Eu desandei a pensar no quanto a comida estava boa. Nada se compara a um bom e velho churrasco. Observei pisar falso em seu sapato com o canto dos olhos. Hm, aquilo não era boa coisa.
— Licença. — Disse aos meus colegas e atravessei o jardim rapidamente, passando ao lado da grande piscina decorativa.
Qual a graça de ter uma piscina gigante se eu não posso afogar Pietro nela?
Toda a estrutura do jantar da empresa era elegante. Havia tendas brancas espalhadas por todo o enorme jardim com diferentes alimentos. Em uma barra estava o churrasco, em outra, crepes de chocolate e queijo preenchiam o ar com o aroma de gordura saturada e açúcar.
Atravessei as tendas esvoaçantes e sorri para o moço do churrasco. Ele me veria muito mais ainda naquela tarde.
— Oi, meninas. — Sorri ao me aproximar da roda em que estava. Quatro rostos viraram em minha direção, inclusive — Posso pegar minha noiva rapidinho? — Elas assentiram e riram.
— Você é uma mulher de sorte, ! — A esposa de um dos funcionários disse para , mas sorria em minha direção. Interessante.
— Eu que sou o sortudo. — Respondi com um sorriso casto.
— O que houve? — questionou quando nos afastamos levemente da roda de conversa. Ela era mais baixa, então levantava o pescoço para me encarar. Olhei ao redor, todos estavam distraídos rindo alto e conversando.
— Você está bêbada? — Pisquei na direção de quando ela gargalhou em meu rosto, o cheiro doce de morango atingindo meu nariz.
— Estou moderadamente funcional.
— Vou tomar isso como um “não”. — Suspirei e ri — Não acredito que vou precisar te carregar para casa. Vai tomar uma água, mulher.
— Hm, descobri algo interessante. — Ela riu um pouco e seus olhos começavam a ficar pequenos, apoiando as duas mãos em meu peito coberto pela camisa social.
— O quê?
— Esqueci. — Ela gargalhou e apoiou a cabeça em meu peito, da mesma maneira como fazia há anos. Puxei-a pelo ombro e a encarei.
— Lembre.
— Ah, lembrei! — Ela riu novamente e suspirou — Flaviane está gamada você, cara. — Ela diminuiu o tom de voz. Encarei de soslaio Flaviane, a moça de cabelos ruivos e sorriso encantador que ria naquele momento. Trabalhávamos no mesmo corredor do escritório.
— Eu já sabia. — arqueou a sobrancelha.
— Sabia?
— Sabia. Ela já me ofereceu sexo. — piscou algumas vezes.
— Não acredito. E por que você não fez?! — Ela exclamou.
— Porque eu sou noivo, lembra? — Pisquei em sua direção, mas apenas permaneceu em silêncio, me encarando com seus olhos inquisidores.
— Você é fiel até à sua noiva falsa… — Ela suspirou pesadamente — Não contei ao Bruno que viemos. — Ela disparou.
Meu peito pareceu doer, como se eu tivesse levado um soco nas costas. Eu provavelmente levaria um quando Bruno soubesse desse nosso teatro.
Até agora havíamos feito um bom papel. Ninguém parecia desconfiar, não que houvesse alguém realmente interessado, mas as fotos dos funcionários possuíam poses minhas e de nos abraçando. Em um delas, eu beijava a cabeça de , ela gargalhava contra meu peito. O fotógrafo, o Denis do RH, disse que seria a foto do meu aniversário da empresa.
Ótimo.
— Por que não? — Questionei, mas encarou a piscina atrás de nós dois e suspirou.
— Ele sente ciúmes de nós dois. — sorriu com os dentes cerrados — Por isso.
— Mas ele não tem motivos para sentir ciúmes. — Afirmei e coloquei as mãos dentro do bolso.
— Eu sei disso! — Ela exclamou, parecia mais sóbria — Não queria ter outra briga por causa disso.
— Vocês brigaram? — Arqueei a sobrancelha e vasculhei em sinal de alguma mágoa — Nunca foi minha intenção me meter entre vocês, .
— Eu sei disso também. — Ela suspirou novamente.
— Mais uma foto do casal! — Denis gritou atrás de nós dois com seu cachecol amarelo balançando para os lados. virou-se com um sorriso gigante. Pai amado, ela era um camaleão!
Abracei-a por trás e apoiei minha bochecha ao lado da dela. Parecia um ensaio fotográfico de gravidez. Quando Denis sumiu entre flashes em outros funcionários, voltei a encará-la.
— Isso tem sido algo constante entre vocês? Essa discussão? — Abaixei meu tom de voz. Pude ver que desviava o olhar constantemente. Ela parecia chateada.
— Você não tem culpa por ele não confiar em mim. — Ela respondeu apenas.
— Mas isso é algo que eu posso evitar, não é? — Questionei.
parecia séria, e tinha razão em estar. Não era a primeira vez que um relacionamento de nós dois sofria do grande “vocês têm certeza de que não se gostam?”. Minha última namorada havia questionado isso um dia após transarmos (pois é, romântico). Permaneci a encarando sem qualquer reação.
“Você realmente está me perguntando se gosto de outra mulher depois de eu dizer que te amo pela primeira vez?”, questionei com total incredulidade na direção da loira deitada em minha cama. Ela terminou comigo dois meses depois. Havia achado um sheik e se mudaria para casar com ele. Não tive reação, apenas lembro-me de encarar chocado o celular quando ouvi o áudio do término. Onde diabos ela achou um sheik?!
— Acho que vou embora, . Não deveria ter falado sobre Bruno. — mudou o peso de um pé para o outro e cruzou os braços.
— Não, fica, por favor. — Estendi minha mão em sua direção — Depois falamos sobre isso, que tal? — encarou minha mão estendida e deu um tapa nela.
— Você vai fazer um aperto de mão com a sua noiva? — Ela arqueou a sobrancelha.
— Você é muito tradicional, sabe? — gargalhou e me abraçou de lado, sua mão envolvendo minha cintura.
— Vai se ferrar.
— Um doce. — Respondi ironicamente.
— Pessoal! — Dodô gritou de cima de uma mesa, chamando a atenção de todos presentes — Gostaria da atenção de vocês antes de encerrarmos nosso churrasco! — Observei enquanto meu chefe tentava se equilibrar.
— Minha pressão caiu só de ver isso. — sussurrou ao meu lado.
— Esses dias têm sido difíceis para todos, mas gostaria de dizer que está tudo bem. Esperamos que nenhum incidente como aquele ocorra de novo. — Cerrei os punhos dentro do bolso. Incidente? Observei ao redor. A maioria das mulheres estava com o semblante sério e fechado.
— Foi um crime, chefe. — Respondi alto, apertou minha mão ao meu lado. Dodô me encarou com o cenho franzido.
— Tem razão. — Ele cedeu rapidamente. Dodô não era muito orgulhoso — A partir de agora, teremos punições ainda mais rígidas para qualquer caso de assédio ou abuso na empresa. — Ele falou mais alto. olhou para baixo, mas fui capaz de pegar de relance um sorriso em seu rosto. Voltei a olhar para frente, um sorriso surgindo em meus próprios lábios ao vê-la sorrir.


— Você realizou perfeitamente a sua obrigação lá dentro. — comentou ao entrarmos no carro novamente. Ela estava do lado do carona agora, as pernas estavam cruzadas no banco, as camadas do vestido cobriam o banco, pegando parte do câmbio com o tecido.
— Eu fui um bom homem feministo? — Questionei.
— Esquerdomacho algum seria capaz de performar o que rolou ali. — Ela provocou, uma gargalhada gostosa escoando por sua boca.
— Ok, agora eu tenho direito a pedir um nude?
— Da Flaviane, com certeza.
— Eu estava pensando em um do Dodô. — gargalhou com a mão na boca.
Já estávamos cruzando a cidade novamente, um silêncio gostoso preencheu o carro.
— Obrigado por tudo. — Comentei enquanto batucava os dedos contra o volante.
Virei-me para quando paramos no semáforo vermelho. Ela assentiu.
— Foi divertido.
— Tudo é divertido quando se está bêbado. — cerrou os olhos.
— Eu não me arrependo de nada.
— Nem de topar essa insanidade comigo?
— Ah, sim, disso sim. — Ela riu — Não, na verdade, foi bem divertido.
— Agora você está livre dessa mentira, . Semana que vem vou anunciar nosso término para Pietro, ou seja, em dez minutos a empresa toda vai saber.
— Foi legal ser sua noiva por uma tarde, sabia? — Ela virou-se de lado no banco. Encarei-a de soslaio.
— Ah, é? Minha futura noiva vai ser uma mulher sortuda? Ou meu futuro noivo?
— Completamente.
— Ótimo. — Sorri para a avenida — O importante é que já foi, podemos dar risada disso.
— Ah, muitas risadas.
Mordi o lábio para controlar um sorriso. Eu não tinha ideia do quanto eu não riria daquilo no dia seguinte.



Capítulo quatro



O gosto de baba seca e chocolate invadiram minha boca assim que acordei. Minha cabeça girava e eu sentia a enxaqueca dando boas-vindas. Meus divertidamentes deveriam estar em pé de guerra. Levei um tempo até perceber por que minha cabeça doía tanto.
— Eu sei que você está aí! — Uma voz berrou pela porta.
Pisquei algumas vezes e levantei-me da cama rapidamente, minha pressão caindo no processo. Andei em direção à porta com a campainha invadindo o apartamento estrondosamente. Fenólio estava na casa dos pais, será que era uma namorada?
Patel Singh! Abra esta porta agora!
Travei antes de chegar à porta. A baba seca parecia um manjar divino se comparado ao gosto ruim que subiu por minha garganta. Tinha certeza de que vomitaria.
Abri a porta com um sorriso torto cafajeste pendendo nos lábios. Flora me encarava com os olhos semicerrados e as bochechas vermelhas.
— Oi, irmãzinha.
Mal pisquei antes que ela tivesse entrado pela porta.
— Por que diabos você não está pronto para ir ao aniversário de almoço do papá e da mamadi? — Fechei a porta atrás de nós dois e arrumei o calção na cintura.
— Porque eu não vou. — Dei de ombros. Caminhei até a cozinha, Flora vinha atrás de mim bufando e xingando.
— Isso é burrice.
— Burrice seria ir ao almoço, Flora.
Havia um motivo para alguns filhos de pais indianos quererem tanto sair de casa. O motivo da minha casa tinha nome e sobrenome: minha mãe.
— Papá quer sua presença. — Ri pelo nariz enquanto colocava leite no copo, ainda de costas para minha irmã. Senti o gosto ruim na boca piorar.
— Fico feliz que você tenha parado de tentar colocar mamadi na equação. — Mexi em meus cabelos compridos e coloquei meus óculos, que estavam em cima da geladeira. Era o único lugar que eu lembrava de pegá-los. Quem colocaria óculos na geladeira? Ninguém, por isso mesmo eu nunca os perdia, não havia outro local possível para colocá-los.
— Mamá te ama, … — Flora suspirou.
Virei-me para encará-la totalmente sem humor nos olhos e na expressão. Os cabelos compridos e negros de minha irmã estavam trançados em uma coroa em sua cabeça. Ela usava a roupa tradicional que mamá havia pedido que usasse, um sári de seis metros de comprimento enrolado no corpo de Flora. O batom vermelho destacava a pele marrom, e os olhos estavam marcados por um delineado que mamadi usava constantemente.
— Não vou discutir isso com você, Flora. — Retruquei sem ânimo, minha cabeça estalando — Vou voltar a dormir agora. Você pode fechar a porta quando sair? Não quero ser assaltado. — Sorri sem mostrar os dentes e passei por ela, indo em direção ao meu quarto.
— Mamá disse que é importante, e se você perder algo?! O que as pessoas vão dizer? — Flora insistiu, sua voz ecoando pelo corredor pequeno.
— Me encaminhe depois pelo WhatsApp. O último anúncio dela foi que a Versace havia enviado um vestido para ela testar o tecido. — Flora suspirou atrás de mim.
Larguei-me na cama e me cobri novamente. Fechei os olhos, mas eu sabia que Flora permanecia parada à porta com seu sári farfalhando contra o chão. Ouvi seus brincos tilintarem e seu colar bater em seu pescoço enquanto ela andava por meu quarto.
. — Ela suspirou pesadamente e sentou-se ao meu lado na cama — Por favor, por mim!
Arquejei e murmurei, abrindo os olhos novamente para encará-la.
— Vai ter álcool? — Flora revirou seus olhos.
— Eu por acaso iria a um almoço de família sem uma boa dose de álcool no sangue? — Ela bufou e riu.
— Me dê cinco minutos.
— Use o sherwani que mamá enviou mês passado.
— Não recebi. — Fingi tristeza, mas observei consternado quando Flora abriu meu guarda-roupa e tirou o sherwani pendurado do armário. Suspirei.
— É, não recebeu. — Flora jogou a vestimenta em minha direção.
Levantei-me da cama rapidamente e me tranquei no banheiro. Sabia que Flora só sairia da minha casa comigo ao seu lado.
Os almoços de família eram sempre regados a muita música, comida e ofertas. Peguei um remédio para enxaqueca na gaveta do banheiro, já prevendo o que me aguardava. Não sabia se estava sequer preparado para lidar com mamá, especialmente se ela tivesse escolhido aquela data para me apresentar a outra pretendente.
Da última vez, quando neguei a mamá uma noiva, ela pegou uma faca na cozinha e disse que seria seu fim. Lembro-me seriamente de sentir meu sangue gelar. Não estava pronto para passar por aquilo de novo, como no dia em que eu disse a ela que não seguiria a carreira de engenheiro.
“Você é meu maior desgosto”, ela disse no momento da raiva, nove anos atrás, quando anunciei querer ser jornalista.
Naquele mesmo ano, apliquei para engenharia no vestibular. Quando passei, mamá disse com um aceno de desdém: “Ok. Agora vamos te arranjar uma esposa”.
Lembro-me de chorar de ódio no colo de Flora. Ela sabia o que eu sentia. Na realidade, entendia ainda melhor. A única pessoa que sofria mais na mão de mamá era Flora. Ela estava prometida em casamento para um médico indiano que havia feito a proposta para meus pais. Estamos no século XXI, mas isso não significava que alguns costumes haviam sumido.
Eu era um dos únicos homens indianos capazes de serem motivo de desgosto pras suas mães. Essa só era a prova de que eu realmente havia pisado na bola em algum momento. Um filho homem ser motivo de desgosto constantemente? Hm.
Mamá também sabia disso, então creio que por isso ela seja tão dura comigo, para que eu em algum momento ceda e seja um bom filho, o filho que ela espera que eu seja.
Sei que mamadi, no fundo, talvez bem no fundo, ache que quer fazer isso para nosso bem. Somos de gerações diferentes e criados em países diferentes com culturas diferentes. Por isso o diálogo era impossível. Mamá sempre ganhava as discussões, e consequentemente Flora se casaria dali cinco meses.
Sentia-me mal. Nunca falamos sobre isso, mas questionei-me se o motivo de Flora não ter se revoltado ainda era porque eu havia feito isso primeiro, como se ela não quisesse ser a segunda decepção de mamá. A sensação invadiu meu peito com força novamente. Não sabia se algum dia teria coragem de descobrir a verdade.
! mandou mensagem! — Flora gritou do outro cômodo. Enrolei-me na toalha e coloquei a cabeça para fora do banheiro.
— Dê-me o celular. — Estendi a mão. Flora colocou o celular em minha mão, e voltei-me a trancar no banheiro.

Hoje não é o aniversário de casamento dos seus pais?

Sua mensagem piscava na tela.

É, pois é.

Por que você não falou nada?

“Não achei ser relevante

Bloqueei o celular e coloquei o sherwani cobalto com detalhes floridos prateados costurados à mão. Fios de prata desciam pela gola do sherwani e formavam um colar sobre meu peito. Arrumei o tecido fino e coloquei a calça social da mesma cor combinando. Estranhei mamá não ter colocado um salwar para que eu usasse, uma calça folgada que é mais justa no tornozelo, mas não questionei. Mamá não poderia ser questionada sobre seu gosto de moda. Na verdade, sobre nada.

Estou na torcida por você. E lembre-se que sua mãe te ama, . E você esqueceu sua carteira comigo. Você precisa parar com esse costume de esquecer tudo em qualquer lugar. Meus pais foram viajar, então estou sem fazer nada. Me avisa quando quiser ir embora dos seus pais, te levo a sua carteira e podemos ir tomar um sorvete. Boa sorte, vai dar tudo certo.”

Li a mensagem de e sorri. Ela era positiva a todo momento, como isso era possível? Acho que em parte era porque não conhecia mamá, mas conhecendo bem , ela tiraria o melhor da experiência de conhecê-la pessoalmente.
— Hm, que lindo! — Flora exclamou quando voltei para o quarto.
Sentei-me na cama e deixei que minha irmã arrumasse meu cabelo, como ela gostava de fazer quando morávamos juntos sob o mesmo teto. Observei-me no banheiro em seguida. Parecia um perfeito filho, pronto para obedecer seus pais e se casar para ser miserável pelo resto da vida. Que coincidência absurda eu estar fingindo estar noivo quando a pura ideia me causava desespero.
— Acha que mamá vai tentar me apresentar a outra mulher hoje? — Questionei quando descemos o elevador. O porteiro nos encarou descaradamente quando passamos pela portaria.
— Não sei. — Ela respondeu cantarolando.
— E seu noivo?
Resolvi ser cauteloso em minhas perguntas acerca daquele assunto. Eu e Flora não conversávamos tanto quanto eu gostaria, então eu não conseguia saber em que pé estavam as coisas.
— Está tudo ótimo, ! — Ela exclamou sorridente — Eu dei muita sorte.
Tentei buscar nela algum sinal de mentira ou de nervosismo, mas não encontrei. Franzi o cenho. Alguém poderia ser feliz naquela situação?
— E ele vem hoje? — Questionei novamente enquanto dirigia em direção ao caminho tão conhecido por mim.
— Uhum. — Ela murmurou.
— Por que está agindo estranho?
— Por nada. — Ela deu de ombros.
Permanecemos em silêncio até chegarmos ao casarão de nossos pais.
Papá era um dos acionistas de uma rede de shoppings em São Paulo. O contador dele havia indicado que papá investisse seu dinheiro no Fundo Imobiliário há quinze anos, e de alguma maneira absurda papai virou um dos acionistas majoritários. Agora mamá poderia usar Versace sem sequer arranhar a fortuna deles.
Adentramos pelos jardins floridos e bem podados após abrirem a porta para nós. O carro esmagava os pedregulhos da entrada do pátio. Estacionamos ao lado de alguns carros já estacionados. A casa se estendia diante de nós com seus tijolos bem colocados e janelas de madeira maciça.
Mamá queria dar a impressão de uma casa rústica. Bem, ela conseguiu.
— Por que você está tão calmo? — Flora perguntou finalmente quando já subíamos a pequena escada de placas de granito até a entrada da casa.
— Porque eu já estou acostumado com isso? — Falei em tom de questionamento.
— Nossa, quando foi a minha vez eu estava bem mais ansiosa.
— Do que você—
Ia começar a questionar, mas isso até uma bola de pelos gigante pular em meu colo.
— Fiona! — Exclamei e dei pequenos beijos na cabeça da pitbull da família. Seu corpo pesado fez com que eu precisasse me agachar para poder fazer carinho em sua orelha.
— Tem pêlo no seu sherwani. — Flora apontou. Levantei-me e limpei alguns pêlos do peito com a mão — Estou muito feliz por você. — Flora disse novamente, os olhos brilhando com algumas lágrimas tímidas.
— Obrigada, Flora. — Beijei sua testa e caminhamos juntos por entre a porta.
Lá dentro, algumas pessoas estavam deitadas em divãs e sentadas nos tapetes persas importados de mamá. Milhares de estampas coloridas giravam pela sala de jantar e pela sala de estar, as primeiras que víamos assim que entrávamos na casa. Pinturas de meninas brincando estampavam a parede atrás dos sofás, e um lustre pendia no meio da sala. Aquele lugar cheirava à infância. Por alguns instantes, esqueci-me do meu nervosismo e me senti em casa.
Fomos cumprimentados por alguns tios, como chamávamos os anciãos indianos do círculo de amizade dos nossos pais.
Flora foi interrompida por algumas tias, que a puxaram para longe provavelmente para falar do casamento e sobre como ela precisava emagrecer se quisesse manter seu marido.
Continuei a caminhar até a cozinha.
O cheiro de curry de peixe invadiu completamente meus sentidos. Seria um baita almoço, então! Entrei na sala à direita, dando de cara com a imensa cozinha, que dava para os fundos da casa. Mamá estava ali com toda a sua exuberância e cores vermelhas.
— Mamadi. — Sorri em direção à minha mãe quando ela levantou o olhar da panela para me encarar.
Estava caótico dentro da cozinha. Três funcionárias corriam de um lado para o outro preparando os pratos para serem levados à mesa baixa na sala de jantar. Além disso, observei bandejas serem apoiadas na mesa com diversas entradas.
Ah, por isso não havia tanta gente ainda. A maioria deveria estar do lado de fora conversando. Chegamos antes do almoço ser servido.
! — Ela exclamou e sorriu por trás da fumaça que subiu da panela ao abrir a tampa — Este tempero está bom, mas falta alguma coisa. — Ela indicou a uma das funcionárias e afastou-se do fogão — Você veio, hein? Achei que fosse dar uma desculpa esfarrapada.
Mamá era uma mulher de um metro e cinquenta com os olhos mais assustadores do mundo.
— Eu não faria isso. — Tentei sorrir confiante, mas mamadi apenas passou por mim, indo em direção à sala.
— E sua irmã? — Ela questionou e sorriu para um dos convidados recém chegados.
— Com as tias. — Respondi sucinto, mas percebi que ela já havia acabado sua fração de atenção direcionada a mim. Agora ela ria e falava em hindi com o convidado. Eu tinha certeza de que ele era um produtor de filme.
O círculo de amizades de nossos pais era estranhamente misturado. Mamadi parecia moderna se comparada aos outros indianos que eu conhecia, mas isso era só o exterior. Quando ela descobriu sobre minha sexualidade, me jogou para fora de casa e chorou ao dizer: "Você foi a desgraça dos deuses sobre nossa família". Devo dizer que meu aniversário de dezoito anos foi muito divertido.
Balancei a cabeça em uma tentativa inútil de me livrar das memórias constrangedoras daquele dia, então parei o garçom ao meu lado e peguei um drink extremamente doce da bandeja. Mamadi amava misturar a cultura brasileira à cultura indiana em tudo o que fazia. Ela costumava dizer não gostar muito do Brasil e sentir saudades de seu país, mas sequer cogitava voltar para lá. Eu sabia que ela amava este país tanto quanto eu e minha irmã, mas não queria perder a pose diante de seus amigos.
— Você está precisando de algo mais forte do que esse drink, não é? — Virei-me a tempo de ver Kadir, o noivo de Flora, sorrindo para mim. Ele tinha um sotaque do sul forte. Sorri em sua direção e apertei sua mão.
— Você não tem ideia, cara.
Kadir tinha olhos castanhos e uma barba cheia, mas era estranhamente harmonioso. O verdadeiro indiano que mamá desejava para Flora. Contive um suspiro de frustração, os questionamentos acerca da rebeldia contida de Flora ainda afloravam em minha mente imaginativa.
Eu precisava de algo mais forte.
Continuei conversando com Kadir sobre seu trabalho (estava tudo ok, mas havia um novo cirurgião sendo racista com ele) e sobre os detalhes do casamento (Flora ainda não havia escolhido o vestido de noiva, e os dois estavam indecisos entre tulipas e rosas). Surpreendi-me ao perceber que Kadir estava inteirado sobre os detalhes do casamento, que gostaria de fazer parte de todo o processo de preparação, não apenas chegar ao altar e dizer as palavras mágicas. Talvez Flora estivesse certa, talvez tudo estivesse 'ok' entre eles dois. Talvez ele fosse alguém legal, afinal de contas.
Fui até a cozinha e peguei uma garrafa de bebida que meu pai deixava guardada para ocasiões especiais. Nada mais especial do que o aniversário de um casal, certo?
— Você nunca foi muito cuidadoso para pegar minhas bebidas. — Virei-me para trás rapidamente com a garrafa em mãos.
Senti-me novamente com dezessete anos, quando meu pai me pegou pela primeira vez com a bebida em mãos. Desde os dezesseis anos, eu pegava a garrafa às vezes apenas para bebericar e devolvia de volta para o esconderijo atrás dos pratos chineses.
Uma noite, após mamá ser um doce de pessoa comigo e com Flora, desci até a cozinha e peguei a garrafa, virando-a direto na boca. Dei três goles cheios de fúria e amargura antes de observar papá me encarando na porta.
— Vícios são criados quando coisas aparentemente inofensivas servem para te fazer esquecer da sua realidade.
Papá não me repreendeu, não me bateu, nada disso. Ele parecia cansado, como se vinte anos houvessem sido adicionados às suas feições, contrastando com a felicidade que ele mostrara durante todo o dia com nossa família. Mas ali, de madrugada, com a casa inteira dormindo e apenas nós dois acordados, ele parecia verdadeiramente exausto.
— Desculpa. — Sussurrei olhando para baixo.
— Guarde isso e vá dormir. Nunca mais beba quando se sentir triste ou irritado, está me ouvindo? — Assenti, meus olhos ainda fitando o chão.
— Sim, papá.
— Ótimo. Faça algo diferente. Compre ações na bolsa, leia um livro, vá para a academia, mas não estrague a sua vida. Não te criei para ser um alcoólatra.
Papá se virou em seu pijama com uma blusa de vereador e uma calça de seda. O contraste de quem pensavam que ele fosse e de quem ele realmente gostaria de ser. Aquela imagem permaneceu comigo por muitas noites após aquela, e permanecia naquele momento.
— Não estou bebendo para esquecer nada. — Afirmei prontamente quando ele se aproximou de mim, mas guardei a garrafa apenas para desencargo de consciência.
— Acho difícil acreditar nisso. — Ele respondeu com um riso nasal. Sentou-se na caldeira em frente ao balcão. As cozinheiras estavam no momento arrumando a mesa tranquilamente, eu pude observar pela brecha na sala de jantar.
— Feliz aniversário de casamento. — Sorri para ele, e papá sorriu.
— 47 anos de casados é muita coisa. — Ele comentou enquanto abria uma das panelas com sopa de peixe — Nem acredito.
— Vocês são felizes? — Questionei, meus olhos se recusando a encarar meu progenitor.
Papá demorou a me responder. Eu sabia que conversar sobre sentimentos, sobre nossa vida pessoal, nada daquilo era comum, mas não éramos uma família completamente indiana ou completamente brasileira, então precisávamos pegar o melhor de cada cultura.
— Felicidade é algo complexo para se discutir após tanto tempo juntos. — Ele foi cauteloso em sua resposta. Assenti — Acho que somos felizes, sua mãe é, pelo menos.
Mordi o lábio. Eu sabia que papá se entristecia em algum nível pelo materialismo de mamá. Ele havia feito tudo em sua vida por ela. Enfrentara o papá de mamadi e pediu a mão dela em casamento no dia da festa de noivado de mamadi com outro homem.
Todas as ações de investimento foram ideias de mamá, mas papá não se importava tanto assim com o dinheiro, tinham o suficiente para nos criar bem, porém mamadi não se contentava com aquilo, então papá fez mais. Sempre mais.
— Você ama a mamá? — Perguntei mais uma vez. Papá mudou o peso de uma perna para outra.
— Amor é para jovens, .
E com essa conversa íntima, voltamos para a sala. As mãos grandes e calejadas de papá deram tapinhas em minhas costas. Ele usava um salwar branco sob seu sherwani dourado e branco. As cores realçaram sua pele mais escura que a minha.
Mamadi aguardava na ponta da mesa. A comida estava toda servida, e os convidados já estavam ao redor da mesa baixa. Papá se aproximou, ainda em pé, e tomou o lugar na ponta da mesa, mamadi se colocando atrás dele.
Coloquei-me ao lado de Layla, minha prima de terceiro grau. Ela não usava a vestimenta tradicional, mas um vestido com estampas coloridas e cabelo adornado com fios de prata.
— Você está muito elegante, quase da realeza. — Ela sorriu de canto enquanto as pessoas ainda conversavam antes da refeição ser servida. Sentei-me com as pernas cruzadas, a opção de talheres ao lado dos pratos estava lá para aqueles que se sentissem mais confortáveis comendo como os ocidentais, como mamá dizia.
Encarei os talheres com certa relutância, o meu lado adolescente gritando pela aprovação dos meus pais, para que eu comesse com a mão, como era costume, apenas para que eu, por um instante que fosse, pudesse ser mais parecido com eles e não com os brasileiros ao meu redor.
— Você está muito bonita também, Layla. — Respondi ao comentário com um sorriso.
Papá deu as graças frente ao altar destinado aos deuses. Fiz a prece como lembrava-me quando era mais novo, as palavras deslizando por meus lábios com tamanha familiaridade que poderia parecer quase natural, se não fosse pela minha pronúncia errada de uma das palavras, que acabou saindo mais alto sobre as outras pessoas.
Não ousei abrir o olho, sabia que mamadi estaria me encarando mesmo com os olhos fechados. Droga!
Quando abrimos os olhos, todos começaram a comer. A música voltou. As pessoas riam e conversavam entre si. Negócios eram fechados, casamentos eram discutidos. O resultado do jogo do Corinthians e do Palmeiras virou tema em algum momento.
Levantei-me da mesa para pegar um copo d'água após engasgar, mamadi me seguiu com o olhar quando pedi licença da mesa. Layla me acompanhou enquanto dava tapinhas em minhas costas.
— Você não sabe comer devagar? — Ela ralhou me entregando um copo d'água. Engoli rapidamente o conteúdo, meus pulmões estavam voltando a se lembrar como funcionavam. Limpei meus olhos lacrimejantes.
— Acho que desacostumei com a pimenta. — Layla arqueou a sobrancelha.
— Você tem estado desacostumado com muitas coisas — Ela provocou, os olhos passando por meu sherwani —, menos com uma. — Franzi o cenho em sua direção enquanto enchia outro copo d'água. As cozinheiras nos ignoravam, mas pareciam incomodadas com nossa presença na cozinha cheia. Levei Layla para um canto.
— Como assim? — Layla revirou seus olhos delineados.
— Sua noiva. — Ela respondeu simplesmente, e eu senti o engasgo voltar novamente.
Meu peito doía enquanto a tosse saía descontrolada por meus lábios.
— Como você sabe disso? — Exclamei com os olhos arregalados. Olhei ao redor da cozinha, mas as cozinheiras estavam desinteressadas.
— Eu fui ao churrasco ontem. — Ela comentou como se fosse óbvio — Meu namorado, o Pietro, me chamou. Eu cheguei no final, fiquei presa no plantão do hospital. Te vi saindo no carro com uma mulher muito bonita. Pietro me disse que era sua noiva.
Pietro, linguarudo de merda!
Pisquei algumas vezes, meus olhos percorreram seu rosto atrás de algum sinal de brincadeira, mas ele não estava lá, apenas um humor cômico de quem pegou um amigo fazendo alguma bobagem e se divertisse com a situação.
— Não é o que você está pensando, eu-
— Não precisa se explicar! — Ela interrompeu com uma expressão de desdém — Você não me deve satisfações, mas vai deixar sua mamadi feliz. Ela é indiana, não é? Sua noiva. — Pisquei novamente, ainda atordoado.
— Sim. Ela é.
era, na verdade, filha de mãe brasileira e pai indiano. Meio brasileira e meio indiana, assim como eu, mas de maneiras diferentes.
— Mas, novamente, não é isso o que-
Fui interrompido por uma figura de um metro e cinquenta e olhos grandes vidrados em mim.
— Está tudo bem? — Mamadi questionou. Assenti rapidamente. Encarei Layla quase suplicando, mas eu não precisava dizer nada.
Minha prima sabia que mamadi não estava sabendo do noivado. Se soubesse, já teria chamado toda a Índia para uma festa de noivado. Além disso, teria gritado comigo durante três horas por não ter falado com ela antes. Imaginar um cenário caótico em que mamadi descobria sobre meu noivado fez meu peito acelerar.
Acompanhei mamadi e Layla de volta à mesa e sentei-me, mas minhas pernas tremiam mesmo após ter permanecido sentado. Eu sentia meu corpo implorar para me levantar e andar pela casa. Odiava sentar à mesa para almoçar ou jantar, não conseguia permanecer mais do que cinco minutos sentado sem bater com os pés no chão ou estralar os dedos.
— Tenho um anúncio a fazer! — Mamadi exclamou com os olhos cheios de alegria.
Encarei Flora do outro lado da mesa com o cenho franzido, mas ela também sorria. Seu olhar se desviou do de mamá para o meu rosto, e quando ela percebeu minha confusão, seu semblante tornou-se sério.
O que estava acontecendo?
Papá parecia tão perdido quanto eu, mas eu só havia percebido isso porque sua sobrancelha subiu e desceu rapidamente, tão rapidamente que somente alguém que o conhecia há mais de vinte anos poderia perceber.
— Teremos um casamento! — Ela exclamou. Meu peito apertou, senti que iria desmaiar — Como sabem, Flora e Kadir se casarão ano que vem.
Mal pude esconder o alívio que tomou minha existência. Minhas mãos suavam tanto que eu precisei limpá-las contra minha calça.
Mas isso não me preparou para o que veio em seguida.
— E meu filho, , vai se casar também!
De repente, todos os olhares estavam voltados para mim. O curry pesou em meu estômago enquanto mamá me levantava e me levava para a ponta da mesa.
— Eu nunca estive tão orgulhosa de você. — Ela sorriu para mim com os olhos lacrimejando. As pessoas ao nosso redor comemoraram, risadas altas foram ouvidas enquanto meus parentes faziam piada sobre papá perder os dois filhos de uma vez — E mais tarde espero que você me explique por que eu descobri sobre o seu noivado através de outra pessoa, não de você. — Ela sussurrou perto de mim, longe da visão dos convidados. Merda!





Continua...


Nota da autora: Essa nota aqui é um GRANDE agradecimento. Chegamos ao quarto capítulo de engaged, e já temos mais de 540 leituras! Isso é ABSURDO!
O que vocês acharam sobre a família do Joshua? Eu devo dizer que a Flora tem meu coração todinho, tô ansiosa pra vocês conhecerem melhor essa personagem incrível! O que vocês acham que vai rolar a partir de agora? hihihi
No próximo capítulo vai sair uma playlist pra Engaged! Me sigam no spotify (link aqui embaixo) e fiquem atentos às atualizações.
Até semana que vem, família!




Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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