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Última atualização: 21/01/2021

Capítulo 1

- Você quer dizer que a seleção da Inglaterra é melhor que a francesa? – Gail indagou com olhos arregalados em um sotaque francês carregado. deu de ombros e disse:
- Acho, mas a seleção inglesa é arrogante demais. – Sussurrou a última parte, confidenciando para as quatro colegas dentro de um pub cheio de ingleses patriotas. A mulher tomou mais um gole de sua água com gás e jogou os cabelos cacheados para o lado. Os olhos estavam divididos entre o telão montado apressadamente no meio do pub ao ar livre e a mesa com as colegas de profissão.
- Ei, vocês viram ali atrás? – Genevive chamou a atenção das colegas para uma mesa ao lado esquerdo de onde estavam. seguiu o olhar da amiga até uma mesa cheia de homens com postura rígida e firme.
- São policiais? – Questionou Gail.
- Hm, não. Acho que são do Exército Real. – Comentou enquanto tomava outro gole da água. Balançou o corpo devido ao frio de janeiro.
Dois dias antes, quando ainda estava em Oxford, havia tido sua primeira reunião com o Departamento de Estudos Clássicos e Vernáculos da Universidade de Oxford, seu novo local de trabalho. Havia sido chamada para lecionar como professora temporária até que achassem um substituto para o cargo do antigo professor de Estudos da Literatura Grega Helenística. Estava na Europa há duas semanas, mas ainda não sabia bem como se portar sem parecer uma estrangeira, majoritariamente porque, bem, é estrangeira. A sensação de ser alguém sem pátria já a acompanhava há muito tempo, então simplesmente não se importava mais com os olhares estranhos que recebia por ser mestiça. A mãe negra e iraniana a havia dado todos os traços, menos os olhos, que puxaram ao pai, um coreano de cinquenta anos que lhe dera o que denunciava totalmente a mistura mais bela que poderia existir, de acordo com a mãe de .
- Como você sabe como são as pessoas do Exército Real? – Gail recostou sobre a cadeira e cruzou as pernas.
- Não são detetives, não teriam uma postura tão rígida. E aquele ali, o mais alto, ele parece ser o superior, já que está no canto da mesa e quando ele fala, os outros abaixam um pouco a cabeça, mas quando algum dos outros fala, o da ponta não abaixa a cabeça e nenhum dos outros também. – deu de ombros com os olhares chocados das colegas.
- Como você sabe de tudo isso só por olhar?
- Convivência. – Murmurou e tratou de mudar o assunto para algo que professores de idiomas clássicos e vernáculos amavam - Vocês viram a nova tese do professor de Harvard sobre os achados de Safo?
A partir dali todas entraram em um diálogo acirrado sobre os novos achados sáficos (um total desperdício, na opinião de Gail, já que não foram achados no mesmo local que outros, portanto uma cópia).
voltou os olhos para a mesa com os homens supostamente do Exército Real, mas teve sua atenção subitamente atraída para os gritos de alguns do pub ao ver o gol, aparentemente impedido, do time britânico sobre o outro.
- Foi impedimento. – Um homem gritou. concordou. Dois segundos depois, o impedimento foi anunciado. A mulher começou a prestar atenção no jogo, abstraindo da conversa das colegas.
Em certo ponto, já havia se juntado aos outros torcedores do Chelsea contra o Manchester City e esperava ansiosa pelo final do segundo tempo. As outras meninas também estavam mais atentas ao jogo. Todo o pub estava em tensão, os garçons haviam parado para assistir aos cinco minutos finais. O telão no meio do pub era o dono de todas as atenções, nem mesmo as luzes nos postes ovais chamavam a atenção naquele momento, nem ao menos a estética com a fachada vermelha em letras douradas, ou às árvores frondosas. Tudo ali se resumia ao futebol.
- Aposto que vai ser 4x3 no pênalti pro Manchester. – afirmou para um dos homens perto de si.
- Aposto que o Chelsea vai virar nos acréscimos. – Um garçom se aproximou com uma bandeja.
- Querem entrar na aposta? Foi iniciada por aquela mesa. – Virou o queixo e apontou para a mesa dos subordinados do Exército. suspirou e tirou uma nota da carteira. As colegas pareciam chocadas.
- Sério ?
- Quem não arrisca não petisca. – Abriu um sorriso audacioso e colocou as duas notas sobre a bandeja. O garçom anotou seu nome, o telefone e a quantidade apostada, além do placar.
- Eu quero apostar no mesmo que a moça. – O homem ao lado piscou para ela e sorriu. retribuiu um sorriso com uma piscada de olho. O torcedor era bem bonito, poderia usar o dinheiro para levá-lo a um restaurante legal depois.
- Acréscimos! – Gritou alguém no meio das vozes nervosas e ansiosas. virou o olhar e observou um dos integrantes da mesa, o que estava no meio, virar para ela com certa aspereza, se é que era possível ser áspero através do olhar, mas era o que parecia.
- No que aquela garota apostou? – ouviu a voz levemente elevada vinda da mesa dos subordinados. Não virou os olhos, mas atentou-se a eles. Parecia ser o áspero – Essa é a aposta dela? Bem, o que se esperar de uma mulher que finge saber de futebol para tentar conseguir um pouco de sexo no fim da noite? Será que ela não sabe que isso só nos afasta? – O garçom deu uma risada estrondosa com a frase machista do homem de voz áspera e olhos azuis, como constatou ao virar os olhos para ele, fitando-o diretamente.
- E no que você apostou? – Questionou sem desviar o olhar e tentando ao máximo não trancar o maxilar. O soldado pareceu levemente incomodado. Ela precisou levantar um pouco a voz para que fosse ouvida por cima dos gritos. Estavam a duas mesas de distância, mas havia um pequeno arbusto os dividindo.
- Dois pênaltis para o Chelsea e um para o Manchester. – assentiu – Por quê? Quer mudar a aposta agora que ouviu um homem falar? – De repente, fez-se um silêncio perturbador no bar. Apenas algumas vozes dos que estavam distantes da cena continuaram a ser ouvidas.
- Não, quero aumentar minha aposta em vinte libras. – Anunciou para o garçom.
- Aumento a minha em cinquenta. – Rebateu o soldado. não subiria mais ainda, sabia que a arrogância derrubava quem chegava ao máximo – Não consegue subir mais, princesa?
- Quero que você vá à merda, mas dê meu dinheiro antes. – Houve uma explosão de risadas na mesa das professoras universitárias. Gail estava vermelha de raiva.
- Nós vamos te denunciar, seu babaca! – Anunciou a professora com muita audácia. Os outros soldados da mesa estavam quietos, e o que se sentava na ponta, o mais alto, havia sumido.
- Tente. – A ameaça foi feita em um tom tão amigável que poderia parecer brincadeira, mas os olhos violentos assustaram Gail. quis gritar, mas sabia que mexer com um soldado em um país que não era seu, do qual não conhecia perfeitamente a Constituição, não daria certo.
- Ignorem, meninas. – Confidenciou com a voz denunciando a raiva – Vou ganhar essa aposta.
- Vamos embora antes que eles, ok? Ir depois é um risco. – Genevive comentou e todas concordaram – Já ouvi histórias de que os oficiais britânicos podem ser bem abusivos fora do horário de trabalho. Na França também é assim.
- Em que lugar do mundo não é assim? – bufou e observou o jogo chegar aos pênaltis.
O grito de vitória que saiu de sua boca ao ver o quarto pênalti do Manchester atingir o gol não pôde ser contido em seus lábios. Pulou em cima dos braços de Genevive e aguardou, com as mãos trêmulas, o último pênalti. Se o jogador do Chelsea perdesse aquele gol, ela perderia, se acertasse, a aposta era sua.
- MEU DEUS DO CÉU! – Berrou exasperada ao ver a bola entrando no gol. Comemorou com as amigas ao perceber que ganhara pelo menos trezentas libras naquela noite. Pensou em virar para o soldado e mostrar o dedo do meio para ele, sabia que ele merecia aquilo, mas tinha medo do que um homem – provavelmente armado – poderia fazer com ela caso o provocasse – Garçom, meu dinheiro, por favor! – Exclamou enquanto as amigas riam e brindavam com suas cervejas.
- Dividimos entre a senhora e o cavalheiro ao lado. – O garçom sorriu e entregou duzentas e cinquenta libras em sua mão. sorriu para o britânico que havia seguido seu palpite.
- Você é meu amuleto agora. – Ele comentou com um sorriso entre os gritos dos torcedores.
- Gosto desse cargo. – Retribuiu, mas foi cortada por uma figura alta em sua frente. Elevou o olhar e encontrou os olhos do soldado arrogante. Imediatamente, os olhos semicerraram e levantou-se da cadeira – Posso ajudar?
- Como você sabia do placar?
- Sergeant*, vamos embora. – Um dos colegas do homem apareceu ao seu lado. Todos eram do Exército Real mesmo, pelo que observou.
- Eu não sabia, foi um palpite baseado nos outros jogos.
- Duvido que assista futebol.
- Por quê? – Rosnou contra o rosto do oficial, os lábios já trêmulos de ódio.
- É óbvio que assiste futebol para conseguir uma dedada digna no final da noite. – pareceu perder diante de si o foco, os pulsos flexionaram e sentiu vontade de chorar de ódio. Não podia fazer nada.
- Vamos pedir que se retirem. – O garçom das apostas se colocou no meio dos dois com a bandeja.
- Peça que essa vadia volte para o país dela.
- Essa vadia imigrante vai abrir um processo contra você.
- E vai postar na Internet esse vídeo também. – Gail levantou ainda mais o celular – Aposto que o Exército Real vai amar um escândalo com um de seus oficiais em suas plataformas.
- Você não tem o menor direito de ser um xenófobo e um machista de merda! – Genevive exclamou apontando o dedo na cara dele – Tente encostar o dedo nela e eu quebro a sua cara!
- Sério, vamos embora, a noite já acabou. – O outro oficial tentou puxar o homem pelo ombro, mas isso apenas o irritou mais.
- Preciso dizer uma coisa para ela antes. – Rosnou e aproximou-se mais de , os rostos praticamente colados e sussurrou:
- Meu pai é o Tenente-Comandante do Exército, querida. – Sua voz parecia um zumbido – Tente me processar. Eu te tiro do país em dois segundos, não me importa se você tenha todos os documentos legais. Vou te fazer sumir igual o inseto que você é. – permaneceu estupefata enquanto via o homem sair praticamente arrastado pelo colega para fora do estabelecimento. Quando percebeu, já estava sentada à mesa e tentava segurar ao máximo as lágrimas.
- Vamos postar amanhã em algum horário que tenhamos mais visualizações. – Genevive e as outras começaram a discutir sobre o vídeo, sobre a situação. Tentaram consolar , mas seu coração estava saindo pela boca.
- , você está muito vermelha. Sinto tanto pelo que aconteceu, mas vamos denunciar esse abusado.
- Não. – afirmou – Ele é filho do Tenente-Comandante do Exército, pelo visto. – Murmurou, algumas lágrimas desceram sozinhas – Ele ameaçou me deportar. Só tenho o visto temporário de trabalho. Preciso manter meu visto.
- Você tem certeza? – Genevive tentou argumentar.
- Sim. Eu não posso perder esse emprego, não posso voltar para os Estados Unidos. Larguei tudo lá. Agora não tem mais volta.
O silêncio tomou conta da mesa. Ninguém mais sentia vontade de comemorar, nem mesmo com as duzentas e cinquenta libras na mão de .
- Meninas, vou para casa. Desculpa, não tenho mais ânimo. – Todas concordaram com e decidiram ir embora – Podem ir primeiro. Preciso conversar com o garçom e com o gerente. Pedir desculpas e tudo mais.
- Você não precisa pedir desculpa por nada, Ani. – Gail elevou o tom de voz levemente – Você sofreu xenofobia e machismo na frente de todo mundo e ninguém fez nada!
- Preciso da ajuda deles caso eu decida processar o oficial. – Gail balançou a cabeça, entendendo aonde a colega queria chegar.
- Ok. Você é muito esperta. Meninas, todas mandem mensagem quando chegarem em casa, por favor. Boa noite, cuidem-se.
Todas se despediram com sorrisos tristes e foram para casa. Menos .
- Gostaria de pedir desculpas pela cena. – A professora abordou o garçom quando ele parou perto da cozinha para esperar o próximo pedido.
- A senhorita não está errada. – Comentou o jovem.
- Gostaria de saber se ajudaria a dar seu testemunho caso eu decida processar aquele homem. – O garçom engoliu em seco e olhou para os lados antes de voltar seu olhar para a mulher.
- Meu supervisor não é a favor dessa política. O bar não pode tomar partido em discussões.
- Calma, mas você disse que eu estava certa!
- Eu preciso pagar minhas contas no final do mês, senhora. Aquele homem é do Exército, já o conheço. Briga com todo mundo, mas o pai dele vem e resolve tudo. Não podemos fazer nada. – o encarou embasbacada.
- Você é imigrante? – O homem negou com a cabeça.
- Não, mas meus pais são.
- E você vai virar as costas assim para o que acontece aqui?
- Contanto que não aconteça comigo, é o que posso fazer.
- Eu não acredito no que estou ouvindo. – Murmurou entredentes – Oro para que você não seja pego, de verdade, porque se for e encontrar alguém exatamente igual a você, está ferrado. – Balançou a mão com descaso e saiu marchando para fora do pub. O celular em sua mão tremia ao parar a gravação que fazia com seu celular.
O frio a fez tremer mais ainda. Observou seu carro alugado quase no fim da rua. Havia algumas pessoas para o lado contrário, mas naquela para a qual olhava não havia uma alma viva sequer. Os ombros travaram com o pensamento de que o oficial poderia estar ali esperando por ela. Fechou os pulsos dentro do sobretudo e correu até o carro, o vento frio misturado com as lágrimas frustradas. Ao chegar perto do carro, agachou na calçada e chorou.
Os ombros tremiam e os soluços ficaram incontidos por longos segundos. Sabia que qualquer um poderia vê-la ali, mas já estava distante do pub e pareceria somente estar procurando algo no chão. Não que se importasse se alguém a visse naquela situação.
Havia anos que não sentira o olhar de desprezo daquela maneira. A ameaça tão crua e livre, e mal pôde defender-se. Esperava que algum cidadão britânico a salvasse porque não poderia fazer aquilo sozinha. E sabia que jamais seria auxiliada. O que sobrava era outra história para contar aos britânicos e deixá-los chocados com a maldade do ser humano enquanto juram ser diferentes. Nenhum deles era diferente e mal precisou de um mês ali para saber que, em mais um país, estaria sozinha.
- Como era a mulher? – levantou a cabeça rapidamente ao ouvir uma voz aproximando-se pela rua, vinda da direção do pub. Sentiu os joelhos reclamarem ao colocar-se em pé rapidamente. Era o homem mais alto da mesa, provavelmente o superior do sergeant – Vocês estão indo para o apartamento? Ótimo. Podem ir dormir. Quero o Sergeant Wilson RM de pé agora. Vou pensar em uma punição. – tentou fazer as mãos pararem de tremer enquanto pegava a chave do carro, mas os dedos não pareciam ter controle próprio. As lágrimas já estavam praticamente secas pelo vento frio – Qual roupa ela usava?
A voz já estava praticamente do seu lado quando soltou um guincho ao conseguir abrir o carro.
- Com licença, poderia falar com a senhorita? – A professora praticamente tropeçou nos próprios pés devido ao susto. Virou-se e observou o dono da voz do oficial. Precisou olhar um pouco para cima. Se estivesse de salto, alcançaria a altura dele.
- Não. – Respondeu rispidamente e abriu com força a porta do carro. Precisava ir embora o mais rápido possível. Quanto mais distância da polícia, melhor.
- Você é a mulher que brigou com o meu integrante da tropa lá dentro? – A mulher precisou virar-se para respondê-lo.
- Briguei? Seu soldado me ameaçou, me difamou e me xingou ali dentro. O que eu fiz não foi brigar, mas o que eu vou fazer, ah, isso sim é outra história. – O superior balançou a cabeça. já estava com um dos pés dentro do carro, mas o colocou para fora. O superior não parecia ser rude, talvez pudesse pegar algumas informações dele. Pegou o celular para fingir ver as horas e ligou o gravador novamente, já que havia sido o último app aberto.
- Não posso pedir desculpas pela ação individual do meu subordinado, mas posso pedir desculpas em nome do que ele representou, a Royal Navy*. – tentou esconder o choque em seu olhar. Não era apenas do exército, era da Marinha Real. A organização mais antiga de todas as divisões de defesa britânica.
- Você tem poder para pedir desculpas por algo tão antigo e poderoso?
- Não creio que isso seja relevante. Mas gostaria de saber quais medidas a senhorita deseja tomar. Preciso estar a par do que reportar.
- Você não pode receber essa informação, já que não vem representando a ação individual de seu subordinado. Não vou denunciar a Marinha, vou denunciar o... Hm, qual o nome? Sergeant Wilson.
- A senhorita está bem? – cruzou os braços.
- Você não vai me convencer a não tomar providências.
- Não é meu objetivo. Se o Sergeant Wilson errou, que seja punido por tal. – A mulher tentou manter a postura na defensiva, a voz grossa e firme do oficial a ajudava, mas estava ficando cansada, a noite estava arruinada e só queria ir para casa chorar em paz.
- Você é realmente o superior dele? – O homem assentiu.
Pela primeira vez após a adrenalina começar a diminuir, observou atentamente o rosto do oficial. A pele escura escondia alguns detalhes na rua ainda mais escura. Os olhos eram claros, castanhos. Os lábios grossos estavam levemente ressecados e os ombros poderiam bloquear um jogador de futebol facilmente. percorreu todo seu tronco a procura de algo que pudesse denunciar seu cargo, mas não achou. Voltou os olhos para o cabelo. Era ralo, mas não careca. Parecia levemente estiloso, o que apenas reforçou seu estereótipo sobre o nível social daquele homem. O sobretudo preto caía por fora de um moletom cinza. A calça jeans preta terminava em um tênis esportivo.
- Posso saber o que a senhorita está fazendo?
- Procurando algo em você que denuncie quem você é de verdade. – Respondeu honestamente.
- Senhora, gostaria de me ater aos fatos do que aconteceu ali dentro.
- Não sou obrigada a responder um cidadão comum, mas a uma figura de autoridade, talvez. – Deu de ombros. Parecia ter perdido completamente o filtro devido à adrenalina. E ao copo de vinho também. Era extremamente fraca com álcool.
- Se eu disser meu cargo, você me dirá o que aconteceu ali dentro, é isso?
- Sim.
- Sou o Capitão , da Terceira Divisão dos Royal Marines da Coroa Britânica. – assentiu.
- Isso é acima ou abaixo do Major?
- A minha resposta primeiro.
- Justo. – Deu-se por vencida – Se eu falar o que aconteceu, responde à pergunta?
- Não estava envolvido no acordo.
- Qual é, eu não quero saber sobre você, só a sua posição. – O rosto do capitão enrijeceu e pigarreou. Estava abusando da sorte – Ok, vamos lá.
Enquanto contava em detalhes sobre como havia chegado ao país há duas semanas (achou relevante para a narrativa), sobre como amava futebol e acompanhava o futebol europeu há alguns anos e por isso fez aquele chute da aposta, e terminou com a ameaça do sergeant. Não falou sobre ter gravado a conversa, sobre o vídeo da amiga ou sobre o garçom.
Reparou que o capitão permanecia com as mãos para trás, o maxilar rígido sem a barba por fazer, parecia um verdadeiro militar. Arrepiou com o pensamento de um homem daqueles encarando-a no tribunal, ou a ameaçando. Ou com a boca em seu pescoço.
- Você pretende denunciar meu soldado com base em quê?
- Vou contatar um advogado primeiro.
- Ok. Se quiser que os superiores saibam disso, deve levar o pedido até o trabalho dele. – inclinou a cabeça levemente para o lado e franziu o cenho.
- Você é superior dele e o está sabotando? Que tipo de superior é esse?
- O tipo que acredita que a justiça deve ser feita, não importa qual a minha relação com a pessoa. Um crime é um crime e deve ser tratado como tal.
- Você me parece justo demais.
- Agradeço seu julgamento precoce. – A mulher arqueou a sobrancelha.
- Acabou de desdenhar de um elogio?
- Ser justo não é elogio.
- Nos dias de hoje, sim, é sim. – Capitão permaneceu em silêncio por alguns segundos.
- Então, agradeço o elogio. – sorriu e encarou a ponta da bota – Agora, uma pergunta...
- Não preciso responder mais nada, não é? – A mulher provocou com um estalo no céu da boca.
- Responda isso e respondo sua pergunta anterior.
- Fechado! – Soltou um guincho animado e arrependeu-se em seguida. O capitão mal expressou reação. Uma porta teria demonstrado mais empolgação.
- Está bem? Ele chegou a fazer mal a você fisicamente? – ponderou as motivações de sua pergunta. Talvez quisesse saber para sumir com seu corpo e se livrar das provas de corpo de delito.
- Não, não me machucou fisicamente. Isso teria sido mais fácil. – O choque cruzou rapidamente os olhos do capitão. Não creio que esperava ouvir aquilo.
- Como assim?
- Não preciso responder a isso. – Desconversou – Responda minha pergunta.
- Abaixo. Não sou superior ao Major. – assentiu, dando-se por vencida. Todo o contexto da denúncia girava a favor de Wilson. Se o pai dele fosse realmente um figurão do alto escalão, ela estava em maus lençóis.
- Essa é uma grande decepção. – Suspirou – Desculpa, pensei alto, não tem nada a ver com você.
- Queria que eu fosse superior para puni-lo e passar por cima do pai dele, o Major? – mordeu o canto esquerdo do lábio e assentiu – Sinto muito. Mas isso não significa que você não possa fazer nada. A verdade precisa vir de algum lugar, não é porque você é inferior que não possa fazer nada.
- Você acabou de dizer que sou inferior a ele?
- Em uma escala hierárquica na Marinha, sim, quanto ao caráter, não posso dizer, seria injusto com o adjetivo que você me deu. – A mulher ficou levemente chocada com as palavras dele. Parecia um robô da literatura inglesa.
- Todos os britânicos são iguais a você?
- Não preciso responder a isso. – sorriu e fungou – Obrigado pela disposição. Posso esperar te ver na base da Marinha Real em alguns dias?
- Ainda preciso considerar o processo.
- Pode tentar um processo interno na Marinha. Não posso dizer qual tem mais chances de sucesso, não é meu papel dizer isso.
- É engraçado a Marinha ter alguém como você e alguém como o Sergeant Wilson.
- Não sou melhor que ele, não são dois pesos e duas medidas.
- Ok, sua modéstia não vai me fazer mudar de ideia. Obrigada pelo tempo, obrigada por perguntar como eu estava. Foi o primeiro. – Abriu novamente a porta do carro, dessa vez, sem a menor pressa de entrar.
- Até mais... Ah, qual o seu nome? Acabei esquecendo de perguntar. – O capitão parecia levemente atordoado.
- .
- Como nome ou sobrenome?
- Não preciso responder a isso, Capitão . Você só me deu um de seus nomes, eu só te dei um dos meus. – O capitão sorriu e assentiu, os braços finalmente descruzando atrás somente para cruzá-los sobre o peitoral.
- Justo. Adeus, Srta. . Espero que tome a decisão correta. – O celular do capitão começou a apitar no bolso, e a última coisa que ouviu antes de acelerar com o carro pelas ruas de Londres, foi: - Oi, Valerie. Sim, vou te esperar no escritório durante a tarde.
deixou o sorriso murchar um pouco. É, homens atraentes são complicados. E geralmente comprometidos.
Mas ela sentira que o veria novamente. Torcia para isso. Afinal de contas, não se acha um homem londrino como aquele em qualquer bar de Londres. Não, aquele homem específico havia despertado nela o que ela não conseguia decifrar, mas estava ansiosa para fazê-lo.
*Sergeant = Sargento [não tem a mesma conotação que no português, por isso não é traduzido no texto]
*Royal Navy = Marinha Real


Capítulo 2

Três dias depois
- Você decidiu denunciar? Ai, queimei a língua! Café desgraçado! – Genevive arquejou de dor, colocando a língua para fora e abanando com um pequeno monte de relatórios de reuniões dos professores.
- Você bota a língua no café antes dos lábios? – perguntou enquanto ajudava a amiga com o monte de livros que precisava levar até a biblioteca.
- O contexto dessa frase é muito estranho, . Mas e aí, vai denunciar ou não?
- Preciso falar com alguém antes. Já falei com um advogado, mas é caro demais e não tenho dinheiro para arcar com um advogado, sustentar a mim mesma aqui e pagar as contas médicas dos meus pais. – Chegaram à biblioteca e deixou os livros sobre a bancada de devolução – Oi, viemos devolver esses livros. Professora , por favor.
- Mas não vale a pena?
- Qualquer denúncia assim vale a pena, mas tenho uma família para sustentar e não pretendo colocar minha cabeça na linha para que isso não dê em nada. – Digitou sua senha para a bibliotecária e sorriu em agradecimento, pegando o comprovante de devolução.
- Eu entendo. Uma denúncia dá apoio para outras denúncias, mas não adianta se você não tiver um local onde repousar a cabeça no final do mês e sua família ficar passando dificuldades.
- Exatamente. – As duas se colocaram a andar pelos corredores até o estacionamento superior. Cumprimentaram alguns colegas no meio do caminho e tentaram fugir do supervisor do departamento em um dos corredores – Estou indo até agora à Marinha.
- Você vai simplesmente chegar lá?
- Ué, eles devem ter uma porta da frente, não é?
- Você quer entrar na Marinha pela porta da frente? Quem você acha que é, ? O Papa? – riu enquanto voltavam a caminhar pelo corredor externo. O dia estava bonito, apesar de frio. O sol havia decidido mostrar seu brilho após alguns dias cinzentos. levou aquilo como um bom sinal. O sol só poderia significar coisas boas, ainda mais depois de dias chuvosos. Se bem que Oxford era sempre chuvosa.
- Eu vou tentar, pelo menos! Tem o endereço no Google do prédio administrativo, já deve ser algo, não? Eu pesquisei em vários sites e a base não é divulgada para todos verem. Qualquer um pode saber a localização, mas precisa se esforçar um pouco para achar.
- E você achou? – Genevive questionou com curiosidade latente. Parecia estar acompanhando um filme.
- Hm, não... Mas não vou perder a esperança! Estou indo, Gen! Beijos. Depois te mando uma mensagem dizendo o que aconteceu! – acenou para a amiga e entrou no carro.
- Coitadinha... Espero que não seja presa antes das aulas começarem. – Gen comentou para si própria enquanto ria da coragem da amiga.
Após mais de uma hora na estrada ao som de Tchaikovsky e Akon, a professora finalmente encostou o carro em frente a um grande prédio com a estrutura de uma cúpula. Havia seguranças do lado de fora, as feições tão rígidas que questionou se quebraria o maxilar caso levasse um soco de um deles.
- Paizinho, espero que eu consiga. – Murmurou para si antes de estacionar na rua ao lado. Os saltos pretos batiam contra a calçada, a calça linen bege apertava sua cintura, mas o sweater amarelo de caxemira dava à mulher confiança que não sentia desde que chegara a Londres. Sorriu gentilmente para os seguranças, estes apenas a ignoraram assim como ignoravam a todos ao redor. deu de ombros e entrou confiante pelas portas giratórias. De repente, sentiu-se ridícula.
Todos ao seu redor usavam ternos chiques, a única cor presente em todo o andar da recepção sombria era o amarelo da blusa da professora. Ela poderia se ver refletida em todas as superfícies lixadas de mármore. Balançou os cachos e seguiu firmemente até a recepcionista.
- Olá, boa tarde. – A recepcionista sorriu cordialmente.
- Olá. Gostaria de falar com o Capitão , por favor. – tentou ao máximo parecer despreocupada, mas passou pela sua mente o sargento estar por ali. Um frio percorreu sua espinha ao imaginar o que aconteceria.
- Em nome de quem?
- Pode não dizer a ele? Ah, não, isso é estupidez, ele é um oficial. Só Srta. , por favor. – A recepcionista maneou com a cabeça. Pareceu levemente desconfiada – Quero surpreendê-lo. – Justificou-se, mas arrependeu-se imediatamente. Não estava conseguindo parecer relaxada, estava mais para psicopata se preparando para matar um oficial da Marinha Real.
- Hm, ele não está. – Disse a recepcionista negra após passar alguns segundos ao telefone – A senhora tem horário marcado? – mordeu a ponta da unha recém-feita e suspirou.
- Não, não tenho. Ele me disse para encontrá-lo aqui, mas não disse horário. Posso voltar alguma outra hora, obrigada. – Sorriu calorosamente e despediu-se. Caminhava em direção à porta rotatória, prestes a voltar para casa totalmente frustrada, quando ouviu a recepcionista chamá-la de volta.
- Senhora?
- Sim? – Aproximou-se, os saltos acompanhando o som de sua pisada. A recepcionista sorriu gentilmente.
- Poderia saber qual o seu parentesco com o Sr. ? – franziu o cenho.
- Desculpa, mas não entendo aonde quer chegar.
- Aqui está dizendo que ele está esperando uma pessoa, mas preciso saber qual a sua relação com ele. Não diz hora, data ou para quê. Apenas que está esperando uma mulher que tem o nome de...
- Valerie! – Falou em tom de voz alto demais. A recepcionista a encarou mais uma vez.
- Sim! Olá, Srta. Valerie. Vou pedir que a acompanhem até o escritório do capitão. Peço desculpas pelo inconveniente.
suspirou aliviada ao perceber que havia feito um chute correto. Lembrara do dia em que conhecera o capitão. Ao final da conversa, ouvira o homem falar com uma Valerie sobre esperá-la em seu escritório.
- Por aqui, senhorita. – Um segurança parou ao seu lado e indicou o caminho até as catracas. O medo apossou-se dela ao perceber o que havia feito. Havia mentido sobre conhecer um oficial dentro do prédio administrativo da Marinha Real Britânica. Subitamente, quis sair correndo, mas levaria um tiro na nuca antes de alcançar a porta.
- Moço, quer saber? Não vou subir. Lembrei que sou claustrofóbica. – justificou-se para o segurança que a encarou com confusão transparente.
- Senhora? Está passando bem?
- Não, estou passando muito mal! – Abanou o rosto, provavelmente vermelho, enquanto o segurança murmurava algumas palavras no walkie-talkie.
- Quer se sentar?
- Não, quero ir embora. A claustrofobia, sabe como é. – Enrolou-se nas palavras e simplesmente fez o caminho contrário às catracas, praticamente correndo até chegar na porta giratória. A pobre recepcionista a seguiu com o olhar enquanto mostrava confusão no semblante.
Ao sentir o ar de Londres no rosto, respirou fundo, o peito doendo diante do nervosismo. Se fosse até o escritório, o que diria quando ele aparecesse? Que a recepcionista havia liberado uma estranha? A mulher seria demitida. Talvez até o segurança. Não queria ser a responsável pela demissão de duas pessoas.
Colocou a mão no peito e balançou a cabeça. Não iria atrás do homem da maneira mais fácil. Atravessou a rua até um café em frente. Esperaria ali até que ele aparecesse, mesmo que isso demorasse horas e horas. E horas. Olhou para o relógio no pulso e pensou em quantas coisas poderia fazer ao invés de esperar um oficial do Exército apenas para pedir um conselho. Ponderava se valeria a pena. Suspirou e decidiu esperar. Entrou no café, pediu um suco de morango e sentou-se de frente para o prédio como a perfeita stalker que não gostaria de parecer ser.
A imagem do homem em sua mente já não era tão vívida, não sabia sequer se o reconheceria sob a luz do sol. Batucou com as unhas sobre a mesa, denunciando sua ansiedade. Uma pessoa esbarrou em sua cadeira e quase derrubou seu suco no suéter amarelo.
- Isso é ridículo. – Rosnou e levantou-se da cadeira com o suco em mãos. Marchou porta afora e decidiu estacionar o carro mais próximo ao prédio. Poderia surtar sozinha no carro enquanto ouvia Fall Out Boy em paz.
- Ora, ora! O que temos aqui. – sobressaltou-se ao ouvir uma voz atrás de si quando estava prestes a chegar perto de seu carro. Virou-se e sentiu o peito apertar ao ver Sargento Wilson parado com os braços cruzados – Agora está me perseguindo em meu horário de trabalho? O que espera? Gostou da cena do bar e quer repetir a dose?
- Não sabia que trabalhava aqui. – Não era de todo mentira. Sequer sabia se o Capitão trabalhava ali de verdade, foi apenas um chute.
- Ah, aposto que não sabia. – O sargento agora usava sua farda. A jaqueta azul à prova de fogo, com as inscrições douradas nas laterais ( não enxergou com clareza o que estava escrito), uma boina azul-marinho, os sapatos mais feios que havia visto na vida e seu distintivo estava na frente do peitoral.
- Você realmente acha que eu vim aqui para me vingar? – gesticulou com as mãos enquanto ria. Sargento Wilson apenas abriu mais o sorriso.
- Não foi pela dedada, foi? – O rosto da mulher tomou uma expressão de ódio absoluto.
- Você sabe que eu posso te enquadrar em assédio, não sabe?
- Ah, isso aqui é assédio? Você vem ao meu local de trabalho, me provoca e eu estou te assediando? Não seria ao contrário? Nenhum juiz acreditaria se você dissesse isso. – soltou uma risada e olhou para as unhas.
- Eu não vim aqui para te procurar. Vim aqui encontrar uma pessoa. – Sargento Wilson abriu um sorriso esnobe.
- Ah, é? Quem?
não sabia se Deus estava intervindo a seu favor, se era apenas uma grande coincidência ou o maior azar possível, mas observou uma figura passar do outro lado da calçada em direção ao prédio.
- O Capitão . – Disparou enquanto encarava a figura masculina por sobre o ombro do Sgt. Wilson, o qual não fingiu sequer o deboche e acidez ao encará-la.
- Você veio me denunciar para meu superior? Você esqueceu tudo o que eu te disse no bar?
precisou de toda a sua força para não engolir em seco ao vê-lo colocar a mão no coldre. Ali havia uma arma, não sabia identificar, mas não era preciso ser uma especialista para entender a mensagem que Sg. Wilson queria passar. E por isso sentiu o medo cobrir seu corpo inteiramente. E talvez tudo isso tenha desembocado em sua exclamação (que depois veio a ser assunto de suas orações):
- Ele é meu namorado, querido. Vim visitar meu namorado.

*

sabia que havia perdido totalmente o juízo no momento em que aquelas palavras saíram de sua boca.
Após algum período em silêncio, Sargento Wilson torceu o nariz e questionou firmemente a afirmação. Enquanto isso, pensava na cor da roupa de seu velório, porque ou Sg. Wilson a mataria ou o Capitão . O que tivesse a melhor pontaria.
Havia fugido da situação com a recepcionista para envolver-se em uma pior.
- Quero que você prove.
- Não preciso provar nada.
- Eu posso te prender por assédio agora.
- Vai prender a namorada de seu superior? – simplesmente não conseguia ficar calada.
- Ande logo. Você não engana a ninguém. Capitão não namoraria uma mulher feito você. – escolheu xingá-lo mentalmente ao lembrar-se da arma em seu coldre.
- Ok. Deixe-me ir na frente.
Enquanto andava até a recepção tenebrosa mais uma vez, pensava no que dizer. Não poderia cumprimentá-lo com um aceno, seria estranho, muito menos com um beijo. O capitão a afastaria e Wilson perceberia a farsa. Então seria indiciada por assédio e perderia toda a credibilidade.
- Olá, voltei! – acenou para a recepcionista timidamente. A mulher a encarou com os olhos arregalados.
- A senhorita está melhor? Claustrofobia não é fácil, eu nem imagino. – pôs a mão no peito e balançou a cabeça.
- Precisamos encarar nossos medos por quem amamos, não é? Já tomei um ar e estou pronta para ir, posso? – A recepcionista olhou para trás do ombro de e fechou o rosto ao ver Wilson parado atrás da professora.
- Pode, claro. Olá, Sargento Wilson, boa tarde.
- Já fez a ficha dela? – precisou controlar o choque ao perceber o quanto o tom de voz de Wilson havia mudado. Se antes era rude e frio, agora parecia tirânico.
- Sim, senhor. Ela está aqui para ver o Capitão .
- Depois quero analisar a ficha. – E com isso, começou a caminhar até as catracas. Os ombros largos e rígidos como de um militar. tentou fingir que sua mentira não lhe custara tudo. Sua liberdade, seu emprego, tudo. Se não a ajudasse minimamente, tudo estaria perdido.
- Está calada agora. O que houve? Está pensando em como sair dessa mentira? – Questionou o sargento ironicamente ao entrarem no elevador revestido de mármore claro pelo lado de fora. não respondeu. Sabia que daria mais munição.
Ao saírem no terceiro andar, lembrou -se onde realmente estava. No coração da inteligência marítima britânica. O coração então parecia saltar pela boca. Olhou ao redor e viu apenas pessoas de terno com as condecorações de cada um, dependendo do posto.
- Se é namorada dele, por que parece tão chocada?
- É a primeira vez que venho vê-lo. Não gostamos de misturar a vida profissional com o trabalho. – Murmurou, a mentira deslizando por seus lábios tão facilmente que chegou a estranhar. Não era uma boa mentirosa. Na realidade, sentia orgulho de não saber mentir, mas naquele momento parecia fácil. Talvez fosse a adrenalina.
Olhou para o lado esquerdo e viu a porta de madeira rústica rodeada por traços dourados e a maçaneta tão bem polida que poderia ver seu reflexo perfeitamente. Havia uma faixa indicando: “PROVISÓRIO – Capitão ". Chegara o momento da mentira principal. Sgto. Wilson a encarou com um sorriso condescendente. Ele sabia de toda a farsa e ela seria presa belamente.
Quase desistiu, mas Wilson não a deu oportunidade de correr antes de bater à porta e abri-la. segurou sua respiração ao entrar no gabinete, os olhos varrendo as paredes brancas com detalhes dourados no lustre central e nos candelabros postos sobre escrivaninhas de madeira rústica. O piso era de carpete cinza, feio como somente os órgãos do governo conseguiriam aceitar.
O olhar da professora pousou, por fim, na figura masculina atrás da mesa principal. Ele não estava sozinho. Ao seu lado, havia dois homens parados enquanto observavam um grande papel posto sobre a mesa. Ao lado deles, em cada extremidade da mesa, a bandeira britânica e a da Marinha. Todos usavam o mesmo uniforme de Sgto. Wilson, menos Capitão . Ele... Bem, pensou, ele estava um verdadeiro gostoso em sua farda. Mas guardaria aquele comentário para si. Já iria para a cadeia por motivos o suficiente, querer dar em cima do capitão era apenas a cereja no topo do bolo.
- Sargento Wilson? – O sargento o cumprimentou. A porta foi fechada atrás dela. só percebeu que estava praticamente se escondendo atrás do sargento quando um dos homens precisou esticar o pescoço para vê-la. Engoliu em seco e agradeceu por estar com as mãos trêmulas por dentro do casaco. Estava ferrada!
- Trouxe alguém que te aguardava lá embaixo, capitão. – Wilson falou com um sorriso que não chegou a seus olhos e empurrou levemente para o lado. Ela o fuzilou e suspirou.
- Oi. – Cumprimentou timidamente. Olhou para os olhos do capitão, pareciam inexpressíveis. Ela encolheu-se levemente perante seus lábios traçados em uma linha fina. Parecia estar pensando.
- Para que ser tão tímida? Ele não é seu namorado, afinal de contas? – segurou ao máximo o arregalar de olhos e apenas olhou para as mãos, agora cruzadas em frente ao seu corpo. Sentia estar prestes a gritar. Não sabia mais como mentir.
- Você está sendo extremamente indelicado. – Um dos homens ao lado de ralhou. levantou os olhos para vê-lo. Os cabelos loiros emolduravam o rosto branco como a neve, os olhos castanhos sérios e uma das sobrancelhas, que claramente nunca havia conhecido uma pinça, estava arqueada. percebeu que ele deveria ser pelo menos vinte centímetros mais alto que ela, e surpreendeu-se mais ainda ao notar que ele era ainda mais baixo que capitão , que agora a encarava com os braços cruzados.
- Ah, deixa de graça, Andrew. – Wilson desdenhou. Um silêncio desconfortável instalou-se no gabinete, apenas o som do aquecedor ecoando ao redor deles.
Havia outro subordinado ao lado de Andrew, um homem de pele oliva com os olhos verdes mais bonitos que ela já havia visto. Os cabelos, aparentemente ralos, estavam escondidos sobre o chapéu. não conseguiu encarar o capitão pelo que pareceu uma eternidade, até que conseguiu emular algumas sílabas que estava acostumada a pronunciar.
- Desculpa. – Forçou-se a falar mais alto, levantando o olhar para finalmente encarar . Wilson não escondia o sorriso gigante em seu rosto, o arquear de sobrancelha que indicava a certeza e a presunção por poder jogá-la na cadeia. Tudo foi por água abaixo.
- Posso prendê-la, capitão? Por assédio, por tentativa de coletar informações da inteligência... Hm, pelo que mais? Ah, acho que—
- Você pretende prender a namorada do seu capitão, Sargento Wilson? – mal tentou esconder a surpresa em seu olhar ao encará-lo de verdade pela primeira vez.
A pele negra era linda sob a luz quente do lustre dourado, os lábios grossos não denunciavam nada, felicidade, raiva. Apenas indiferença. Os olhos castanhos estavam fixos em Wilson, os ombros eretos e o corpo coberto por um terno preto com uma gravata preta emolduravam o porte militar. Os músculos do braço não eram visíveis, mas ela sabia que estavam lá, havia percebido na última vez que o encontrara. Ele se destoava belamente dos outros homens presentes, percebeu .
- Não, senhor, desculpe-me. Apenas pensei que—
- Fico feliz em saber que se preocupe com meu bem-estar, sargento. Mas a minha vida pessoal é somente de meu interesse. – Sua voz cortou o ar. A professora sentiu vontade de voltar a encarar o chão, mas a briga sequer era direcionada a ela. Na verdade, isso só fez com que mantivesse a cabeça parada no lugar – Estão dispensados, deixe-me falar com minha namorada em paz. – arrepiou ao ouvir o tom de voz usado para falar “namorada”. O medo do encarceramento voltou com tudo. Talvez não estivesse tão segura. Talvez fosse o tipo de cavalheiro que te prendia com algemas sem que ninguém visse, para proteger sua dignidade antes de arrancá-la mais uma vez ao jogá-la na prisão.
sentiu Wilson enrijecer ao seu lado, virando-se para abrir a porta e ir embora seguido pelos outros homens. recebeu um sorriso por parte de Andrew e um cumprimento com a cabeça. Isso a encorajou um pouco, apesar de sequer conhecê-lo.
Quando ficaram sozinhos, desviou o olhar para a prataria ao seu redor, os brasões britânicos intercalados com nós de marinheiros de corda antiga, pelo que parecia. Capitão não se mexeu, sequer falou algo, mas apenas esperou parar de fingir que estava interessada na sala antes que ela o encarasse definitivamente.
- Eu sinto muito. – Foram as primeiras palavras que saíram dos lábios da iraniana. Apertou os nós dos dedos e suspirou – Eu passei de todos os limites, mas eu vim te procurar para pedir algum conselho, e aí a recepcionista foi um amor, mas alguém esbarrou em mim no café e encontrei Wilson e eu tenho quase certeza de que ele me ameaçou, sabe? Não sei lidar bem com ameaças – Àquele ponto, parecia uma matraca ambulante, os lábios secos e a mente ativa mal conseguiam acompanhar a velocidade das palavras. apenas arqueou a sobrancelha, os lábios novamente em linha fina – Eu já fui ameaçada uma vez, mas foi por um morador de rua e eu consegui socar a cara dele antes de sair correndo. Mas aquilo foi mais uma situação de vida selvagem e—
- Você socou um morador de rua? – A voz do capitão interrompeu os pensamentos derradeiros de e ela praticamente engasgou pela parada abrupta.
- Ele me ameaçou com um canivete! – Defendeu-se, a voz aumentou um tom. Tossiu e tratou de tentar se recompor. Seu orgulho havia sido arremessado pela janela e afundado no Tâmisa.
- E o que isso tem a ver com sua mentira sobre ser minha namorada, srta. ? – precisou controlar o efeito que seu sobrenome na voz daquele homem havia exercido sobre si. Trocou o peso da perna para a outra e engoliu em seco – Ah, que indelicadeza para com a minha namorada. – torceu o nariz com a brincadeira, mas merecia – Gostaria de um chá? Do quê? E sente-se, por favor, essa história me parece mais divertida do que esses papéis em minha mesa.
relutou um pouco antes de aceitar. Estava com fome e havia jogado seu suco no lixo antes de entrar no prédio.
- Você tem hortelã?
- Sim.
- Então pode ser. – dirigiu-se até uma das duas cadeiras na frente da mesa enorme do capitão. Havia um monitor da Apple virado levemente para a direita, permitindo que ela tivesse uma visão total do corpo do capitão preparando a chaleira elétrica sobre uma mesinha pequena que comportava uma caixa de chás dos mais diversos tipos, biscoitos caros ( comprava aqueles biscoitos uma vez por mês, geralmente na TPM), adoçante e cubos de açúcar. Ao lado, uma bandeja com um conjunto de três xícaras e pires.
A professora se distraiu com os movimentos dele, a mente sendo deixada levar para como ela lidaria com a situação a partir dali. Seria honesta com ele, mas desconfiava sobre as ações do capitão dali para frente. Ela havia mentido, afinal de contas. É impossível se confiar em um mentiroso, pelo menos na visão dela.
- Obrigada. – Agradeceu ao ter o chá colocado em sua frente. A fumaça levava o cheiro do chá. O corpo agradeceu de imediato o contato dos lábios com o líquido quente. A barriga roncou no mesmo instante que o capitão colocava os biscoitos caros em sua frente. Capitão permaneceu em pé, os ombros rijos e os olhos focados nos movimentos da professora.
- Quando quiser, srta. . – suspirou e deixou a xícara sobre o pires após comer um biscoito amanteigado. Quase gemeu ao colocá-lo na boca, mas duvidava que fosse ajudá-la na situação atual.
- Bom. – Empertigou-se na cadeira e cruzou as pernas, os olhos encarando diretamente os de . Ele se surpreendeu com a mudança na postura dela, os olhos dançando pelos cabelos negros, os olhos levemente puxados, as pálpebras pintadas de laranja e os lábios carnudos – Vim atrás de você porque precisava de um conselho seu acerca da denúncia. Eu queria saber se há alguma chance de apenas fazer uma reclamação formal aqui, na Marinha, e se isso haveria efeitos. Quando cheguei, não sabia como me apresentar, então lembrei-me que você havia falado sobre uma tal de Valerie da última vez que nos vimos e—
- Eu falei de Valerie? – Ele questionou com um franzir de cenho. quase xingou-se.
- Hm... Eu te ouvi falar quando nos despedimos. Enfim, - interrompeu-o antes que pudesse ter a chance de ser taxada como louca – e então falei que era meu nome na recepção. Sei que foi errado, mas entrei em desespero. Só que não consegui subir, eu desisti. Sabia que era errado mentir. Fui esperar no café aqui em frente, mas estava frio e decidi esperar no carro. Seu subordinado me parou e isso acabou saindo, ou era isso ou ser presa por assédio, ele estava falando extremamente sério. E aqui estamos.
Um silêncio monumental estendeu-se pelo que pareceram anos. Os olhos de estavam fixados em seu rosto, mas ela não sabia por quanto tempo conseguiria sustentar seu olhar. Os olhos acabaram desviando para os lábios do capitão. Não sabia se ele havia percebido ou não.
- Você veio aqui só para isso?
- Por que outro motivo viria, capitão? – Questionou com um dar de ombros.
- Sabe, a ideia que o sargento Wilson levantou não é de todo errônea. – Capitão começou a se movimentar pela sala, dando a volta ao redor da mesa e parando perto dela, apoiando-se contra a mesa de maneira descontraída, mas somente por vista. Seus ombros continuavam rijos, e seus olhos, sérios.
- Que ideia?
- Você pode realmente ser uma espiã. – não escondeu a risada, o que gerou uma carranca do capitão, então voltou a ficar quieta.
- Com todo o respeito, eu mal sei mentir. Como seria uma espiã? E que tipo de espiã é pega? – Desdenhou da observação do capitão com um aceno.
- Um bom espião sabe quando ser pego. Você está no centro da Inteligência Britânica, está conversando com um capitão, a partir daqui, tem acesso a qualquer coisa que quiser. O que me garante sua verdade? Você já mentiu antes, não é? – sentiu-se nervosa, de repente.
- Do que me adianta estar no centro da maior inteligência da Europa se vocês são incapazes de lidar com um caso de racismo e assédio? – Arrumou-se na cadeira para encará-lo – Se eu quisesse ferrar com vocês, teria postado o vídeo, teria feito qualquer coisa, não estaria atrás de você para pedir um conselho. Sabe por que vim aqui de verdade? – Arqueou a sobrancelha, os braços cruzados sob o peito – Porque se eu decidir entrar na justiça, posso perder meu cargo na faculdade em que trabalho e colocar minha família em risco. – Havia omitido a parte sobre não ter dinheiro. O capitão não precisava saber daquilo, ainda mais após tê-la acusado de ser uma espiã – Vim até aqui para saber se preciso passar por cima do seu cargo para ir atrás de justiça ou se posso esperar o mínimo vindo de você, afinal de contas, você está no centro da Inteligência Britânica, não está?
quase sorriu em satisfação ao ver o capitão sem palavras. Aristóteles provavelmente ficaria orgulhoso dela por ter usado da retórica de forma correta.
- Tudo isso é bonito, mas ainda não sei se confio em você, srta. . Mal sei seu nome. – Encarou-a e deu de ombros.
- . . – O capitão assentiu e suspirou.
- Posso tentar fazer algo, . Na verdade, já estava pensando no que poderia fazer como medida punitiva.
- Ah, é?
- Sim. Apenas não esperava que você viesse para tirar a prova. – Sorriu e sentiu-se ser arrebatada para outro lugar. Talvez o céu. Haveria uma Marinha Celestial? Seu sorriso branco fez com que questionasse por um momento seu gosto por homens uniformizados – Mas fico feliz que tenha vindo. Sua maluquice me divertiu um pouco.
- Fico feliz que tenha sido a palhaça perfeita, capitão. – Bateu continência ridiculamente. Levantou-se e arrumou a blusa próxima ao cós da calça.
- Preciso que venha essa semana para prestar queixa. Se a queixa for prestada direto comigo, tenho mais chances de fazer algo.
- Não posso fazer isso agora? – Segurou o muxoxo.
- Pode, só pensei que talvez preferisse fazer isso sem o sargento Wilson presente.
- Espera, se eu for denunciá-lo agora ele precisa estar junto?! – Exclamou com os olhos arregalados.
- Vão precisar do depoimento dele, não?
- Que bosta azeda. – Resmungou.
- Gosto do seu vocabulário.
- Obrigada, aprendi com os melhores livros.
- Aposto que Tolkien falaria “bosta azeda”. – riu e assentiu.
- Tenho certeza que sim. Bom, de qualquer maneira, não me importo. Quero denunciá-lo agora. Essa semana estarei presa em Oxford até o fim de semana, e com todo o respeito, não pretendo deixar a Marinha Real atrapalhar meus planos.
- Não seja por isso. Vamos agora. Mas advirto que não posso controlá-lo e, bem, você viu o que aconteceu no bar. – Ele lamentou. Parecia verdadeiramente irritado. Talvez a burocracia e o jogo hierárquico realmente o impossibilitasse de tomar alguma decisão.
- Eu sei me defender, capitão. – Argumentou enquanto caminhava para fora da sala.
- Eu sei que sim, . – controlou um sorriso ao vê-lo pronunciar seu nome completo.
- Ei, eu te falei meu nome. Qual o seu? – Ele a encarou momentaneamente antes de fechar a porta atrás de si, agora novamente no corredor claro.
- . A seu dispor. – Estendeu a mão para ela, a qual apenas sorriu e estendeu de volta, cumprimentando-o. Ela não pôde deixar de notar que havia uma migalha de biscoito em seu colarinho, mas não diria aquilo. Havia deixado o homem de um metro e oitenta e cinco um pouco menos assustador, mas não menos interessante.


Capítulo 3

encarou o capitão , tentando copiar seu olhar inexpressivo e os lábios perfeitamente alinhados. O máximo que conseguiu foi um bico estranho. Ele estava preenchendo a papelada como testemunha da denúncia. Ambos estavam no sexto andar do prédio, o temido Recursos Humanos. Havia pelo menos quinze funcionários sentados em baias com pequenas bandeiras britânicas em frente aos seus computadores. Havia um grande balcão separando os visitantes dos trabalhadores. sentiu-se desconfortável com o barulho dos dedos teclando o computador, de um vídeo sendo reproduzido em algum lugar no corredor atrás deles e de sua respiração pesada devido à rinite alérgica.
- Você respira alto. – Comentou sem desviar sua atenção dos papéis. Quantas rubricas eram necessárias? A professora arqueou a sobrancelha e cruzou os braços.
- A rinite é um problema que atinge milhões de pessoas. – Retrucou. Finalmente ele lhe deu espaço para preencher o restante da papelada da denúncia formal. Wilson ainda não havia aparecido, e torcia para que não o visse. Sentiu a respiração do capitão perto de si e abriu um sorriso, virando o rosto para encará-lo – Você respira alto, sabia? – O capitão arqueou a sobrancelha e olhou ao redor, mas ninguém parecia interessado neles.
- Isso não é verdade.
- É sim. – jogou o cabelo para o lado e fez mais duas rubricas – Mas não se preocupe, eu acho uma graça. – Ela não virou a cabeça para ver como ele havia reagido, mas tinha certeza de que ela própria estava ficando vermelha. Havia dado em cima do capitão da Marinha Real. Sua cara de pau havia se sobressaído nos últimos meses. Talvez fosse o clima londrino atingindo seus neurônios.
Ele não havia respondido e havia tomado aquilo como sinal de que não deveria continuar, então apenas suspirou e assinou a última linha, analisando a assinatura dele. Era pequena e não ocupava metade da linha.
- Prontinho. – Falou mais alto, chamando a atenção de uma funcionária ruiva com o rosto cheio de sardas. Ela assentiu e aproximou-se do balcão, revisando calmamente todos os parágrafos.
- A denúncia será prestada e processada em até três dias. Seu testemunho está escrito aqui – ela apontou para uma folha separada unicamente para o testemunho coletado pelos funcionários, uma hora atrás – Vamos agora pegar o testemunho do suspeito. Quando houvermos resposta sobre o procedimento, ligaremos. O capitão será a sua testemunha, portanto não estará no direito de punir o sargento Wilson.
- Espera, o quê? – arregalou os olhos, virando o rosto para – Você disse que teria mais poder caso fosse a testemunha. – Ele assentiu.
- Minha palavra como testemunha.
- Então quem vai punir o sargento? – Questionou, de repente o pensamento de que estava desprotegida havia voltado e ela sentiu vontade de rasgar a denúncia no meio. Se o capitão não a pudesse proteger...
- O meu superior, Major Levesque.
- Ele é o pai do sargento? – estava com as mãos cruzadas nas costas, o peitoral para frente e mais sério do que nunca.
- Não. O Major Wilson não pode interferir no caso, o Major Levesque se torna responsável pela medida disciplinar. – A professora suspirou aliviada e assentiu.
- Ok. Obrigada. – Agradeceu a moça e despediu-se com um aceno. Ao saírem pela porta, deram de cara com sargento Wilson e os outros dois sargentos. engoliu em seco ao observar os olhos calmos de Wilson direcionados a ela. Os sargentos prestaram continência ao capitão e permaneceram em posição.
- Somente Wilson. – O capitão ordenou e eles assentiram. Wilson entrou junto com o capitão na sala, deixando sozinha com o sargento Andrew e o outro cujo nome permanecia desconhecido. Ela olhou para o teto, para seus sapatos e suspirou. Os dois estavam do outro lado do batente, os ombros eretos, mãos cruzadas nas costas e encarando o elevador do outro lado do corredor. Não pareciam estar no ânimo de falar. Claro, estavam em serviço.
- Obrigada. – finalmente virou para encarar sargento Andrew, mas não sabia seu sobrenome. Os dois viraram para ela – Eu não sei seu sobrenome, então, sargento Andrew, obrigada por ter se posicionado hoje e no dia do jogo. – O sargento loiro abriu um sorriso deslumbrante.
- Por nada. É um prazer conhecer finalmente a namorada do capitão. Ah, e é Andrew Rodrigues. Família portuguesa. – Ele sorriu.
- Eu não me lembro de você. – se dirigiu ao sargento ao lado, o homem negro de olhos verdes.
- Sou o sargento Freeman. Meu nome é Leo. – Apresentou-se com um sorriso tão lindo quanto o de sargento Rodrigues. pensou que o critério para entrada na Marinha era a beleza absurda. Observou o crachá no peito de Andrew e arqueou a sobrancelha ao enxergar “RM” ao lado de sua posição e sobrenome.
- Sargento Rodrigues Royal Marine. Precisamos da diferença no final para não sermos confundidos com os nossos colegas do Exército. É um erro comum, já que usamos os mesmos títulos hierárquicos que eles. – Andrew explicou ao vê-la com um semblante confuso.
- Obrigada pela explicação. O que exatamente vocês fazem? – Andrew trocou um olhar com Freeman.
- Não sei se podemos falar. Wilson tem plena certeza de que a senhorita é uma espiã. – arqueou a sobrancelha perante a fala do loiro.
- Vocês também têm?
- Não há provas ainda. – Freeman afirmou e deu de ombros.
- Sim. Afinal de contas, a única razão para eu ser namorada do capitão de vocês seria por ser espiã? – sabia que não deveria dizer ser namorada do capitão, mas o divertimento ao ver os olhos dos dois arregalarem para ela foi impagável.
- Não, não! Nosso capitão é muito bonito. – Andrew apressou-se em dizer.
- O que você acha, sargento Freeman? – Questionou ao negro, que apenas deu de ombros e fitou Andrew seriamente.
- Eu acho que não deveríamos falar sobre a aparência do nosso superior, especialmente em frente a alguém que não conhecemos.
- Hm, resposta interessante, então isso é um sim? – provocou com um sorriso. Sargento Freeman abriu um pequeno sorriso e balançou a cabeça.
- Não vou elogiar a aparência do meu capitão. Não acho que seja apropriado. Além do mais, se você namora nosso capitão apenas pela beleza dele, isso é entre vocês dois. – cedeu.
E ali o silêncio permaneceu. pensava em como desmentiria o namoro sem parecer mentirosa, mas sabia que não aconteceria daquele jeito. Desde que havia conhecido o capitão percebera que ele era honesto – foi o que a motivou a buscá-lo em Londres, em primeiro lugar. Ele não mentiria. Então, fez a única coisa que poderia pensar ser sensata. Iria embora. Wilson sairia dali a pouco e ela precisaria se despedir de todos eles. A mentira viria à tona e sargento Wilson apenas teria sua raiva ampliada.
Por sorte, nunca mais precisaria vê-los novamente. Havia combinado com capitão que ele mandaria um e-mail para ela com o que ocorresse, para que ela não precisasse voltar a Londres novamente. Olhou para o relógio e percebeu que já passava das oito da noite. Estava exausta e precisava urgentemente se preparar para o início das aulas.
- Vou embora. – Anunciou para o vento. Os funcionários paravam na frente deles, esperando pelo elevador enquanto batiam os pés no chão com impaciência.
- Não vai esperar pelo capitão? – Sargento Freeman questionou.
- Não. Está tarde e preciso ir, de verdade. Foi um prazer conhecer vocês. Diga a ele que vou aguardar o retorno dele sobre o caso. – Sargento Rodrigues pareceu confuso, mas apenas acenou quando ela entrou no elevador e desceu os andares até o térreo. Ao atravessar a recepção, sentiu-se levemente mal por não ver a recepcionista. Gostaria de se despedir da moça.
Os saltos de contra o asfalto da rua foram sua companhia, acompanhados pelo som das buzinas no cruzamento. O vento extremamente frio castigava seu rosto, o cachecol voando para todos os lados, atrapalhando sua visão.
- Que merda, hein. – Resmungou e arrumou o cachecol dentro da blusa.
- ! – A professora virou e encarou capitão parado em sua frente, os lábios levemente trêmulos de frio. Estava somente de terno.
- Meu Deus, você deve estar morrendo de frio! Desculpa ter saído sem avisar, eu só não queria estar lá quando sargento Wilson saísse, desculpa. Fui uma bela covarde. – Coçou a nuca e deu de ombros. O capitão olhou para um poste ao fim da rua, balançando o corpo para espantar o frio.
- Deu tudo certo. A queixa está sendo prestada.
- Ele já deu o depoimento? – Aproximou-se um pouco mais do capitão, ainda preocupada com o tom que seus lábios tomavam devido ao frio.
- Sim, ele admitiu o que fez. – arqueou a sobrancelha.
- Tão facilmente?
- Tão facilmente. – E sorriu. havia visto muitos homens sorrirem, afinal de contas, era uma palhaça nata, mas o sorriso do capitão era o que ela esperava que fosse: quase uma fotografia.
Pensou que ele parecia ser um cara legal e lamentou precisar ir embora. Por um lado, havia sido sua primeira aventura na Europa, apesar de ter envolvido racismo e machismo. Mas Deus faz rotas certas por pessoas tortas. Algo assim.
- Obrigada pela sua ajuda. Você não precisava ter feito tudo isso por uma desconhecida. – O capitão deu de ombros.
- Não sei, tenho algo pelos indefesos. – Arqueou a sobrancelha e cruzou os braços. Provavelmente tentando impedir o calor de escapar por seu corpo.
- Você realmente acha que eu não poderia ter descido o cacete no seu subordinado? – sabia que não poderia, mas foi o suficiente para fazer o capitão rir. O som era estranhamente melodioso. Ele deveria cantar bem.
- Você parece ser muito forte, mas nesse caso, desculpa, acho que não.
- Tudo bem. Daqui dois anos eu volto com um capuz, uma arma na mão e desço o cacete nele. – Deu de ombros e percebeu o olhar inquisitivo do capitão – Isso pareceu algo que um espião diria, não?
- Completamente.
- É, estou começando a achar que posso ser uma espiã sem saber. – Apoiou a mão na lateral do pescoço e sorriu – Bom, de qualquer maneira, estou indo. Aguardo seu e-mail com a continuação. E obrigada por ter me ajudado, de novo.
virou-se para ir embora, os ombros tremeram levemente de frio. Parou dois passos depois, uma onda de coragem passando por ela.
- Na realidade, eu sou completamente nova nesse país, como você já sabe... – Voltou a andar em direção ao capitão cujo cenho estava franzido em confusão – Você sabe de alguma biblioteca aberta vinte e quatro horas?
Capitão não parecia esperar por aquilo. Ele abriu um sorriso largo e colocou as mãos dentro do bolso.
- A minha biblioteca favorita, por sinal. Só consigo passar lá depois do trabalho. Às vezes viro a noite lá. – abriu um sorriso genuíno, sabendo que os olhos brilhavam pela informação. Uma verdadeira nerd.
- Que incrível! E onde fica?
- É Sheppard Library. Estava pensando em ir lá hoje. Gostaria de ir? – mordeu o lábio tentando esconder um sorriso.
- Eu nunca negaria um passeio até a biblioteca, capitão .
- . Pode me chamar de . – A professora sorriu e assentiu.
- Ok, . Quando podemos ir?
- Deixe-me apenas subir para pegar meu casaco.
- Fechado. Vou esperar aqui.

*


- Allah nas alturas! – praticamente gritou ao achar seu livro infantil favorito. Não havia ninguém além deles e da bibliotecária de vinte e poucos anos. A maioria das pessoas jamais passaria o tempo em uma biblioteca, ainda mais de madrugada. Foi um choque agradável ver que havia pessoas jovens interessadas em livros.
- Esse é o livro favorito da minha sobrinha. – comentou pela prateleira atrás dela. Seu rosto estava entre um livro sobre anatomia humana e outro sobre a vulva.
- Ela lê isso? Quantos anos ela tem?
- Dois anos. Era o livro favorito da mãe dela também. É raro ter um livro com uma personagem negra, ainda mais criança. – assentiu e folheou as páginas amareladas com um sorriso. Colocou o livro nos carrinhos de devolução e continuou a dedilhar as lombadas antigas. Quando chegou aos clássicos, deixou-se envolver pelos títulos familiares. Homero, Platão, Safo, Calímaco, Teócrito, achou até mesmo alguns evangelhos em grego koiné.
Ao seu redor, as luzes acesas contrastavam com as áreas de estudo atrás de si. Havia diversas mesas com abajures apoiados em cima. Havia três acesos, provavelmente para dar ideia de localização. segurou um livro com alguns achados de Safo e passou pelas páginas. Assustou-se ao sentir ao seu lado.
- Não conheço nada de Safo. Você gosta de literatura grega? – Questionou ao pegar O Banquete de Platão da prateleira.
- Sou professora de literatura grega. – Informou e absorveu com deleite o choque nos olhos de .
- Uau. Eu não esperava por essa. – Comentou honestamente, seus olhos castanhos fitavam com interesse latente – Você consegue ler esse poema em sua mão? – A mulher encarou o fragmento na página.
- “E lembre-se de quanto a quero/ Ou já esqueceu? Pois vou lembrar-lhe/ Os nossos momentos de amor” – Leu o trecho em inglês após lê-lo em grego. fitou o rosto de , os olhos brilhavam em choque.
- Você é provavelmente a pessoa mais inteligente do mundo. – riu e precisou pôr a mão sobre os lábios quando a bibliotecária bufou. Apesar de jovem, o barulho era igual ao das bibliotecárias idosas americanas. repreendeu-se. Precisava aprender a falar baixo, mas era difícil quando vinha de culturas são escandalosas.
- Agradeço, mas não sou. O que achou do fragmento?
- Era para uma mulher, não era? Os poemas de Safo eram homoeróticos? Li algo sobre isso em um ensaio de Píndaro.
- Espera, você lê Píndaro? – estava levemente confusa.
- Você acha que somente professores de clássicos se interessam por literatura? – Questionou. sentiu-se ridícula. Sim, achava que não fosse o tipo que lia. Na verdade, ela achava isso da maioria das pessoas.
- Só estou curiosa. – Deu de ombros – Não é comum achar pessoas fora do ramo acadêmico que gostem de literatura grega, ainda mais Píndaro.
- Acho justo. Eu também não esperava que você gostasse. Não sinto essa imagem dos americanos.
- Ei! – exclamou com uma risada – Sei que a maioria dos americanos são péssimos em geografia, mas gostamos de ler.
- Você sabe achar a Turquia no mapa? – assentiu.
- Eu nasci nos Estados Unidos, mas sou filha de pai coreano. Comecei a fazer multiplicação com um dia de vida, e quando completei um mês já sabia tocar piano.
levou para a seção de matemática. Começou a explicar a formação de navios e os cálculos por trás da escolha de material, a física que precedia o universo (nas palavras dele). O papo continuou até que tivesse levado de volta ao prédio da Marinha. Ele sorria e dava risadas das observações nada matemáticas de , levando a um embate de quem conhecia melhor o universo (empate). Ela olhou para o capitão e pensou que poderia ser amiga dele, gostaria de ser. Isso se ela não estragasse tudo.
- Chegamos. – Ela anunciou ao estacionar na frente do prédio. Havia alguns seguranças na frente, e a recepção estava semi-iluminada. Na rua, quase nenhum carro atravessava a avenida movimentada durante o dia. Já passava de uma da manhã.
- Obrigada por me trazer. Mas está meio tarde, não? Não é seguro você voltar sozinha.
- Eu vou dizer que conheço o capitão da Royal Marine.
- Acho que você não vai ter tempo para isso, . – A professora riu e assentiu.
- Fica tranquilo. – ficou em silêncio por algum tempo até que suspirou com uma careta.
- Anota meu número, então. – franziu o cenho. Ele tinha o semblante preocupado e totalmente diferente de alguns minutos atrás. Ele parecia... Incomodado?
- Não precisa dar o seu número. – Abriu um sorriso – Eu prefiro não pegar seu número se for um sacrifício tão grande, capitão .
- Não é isso, é que eu não costumo passar meu número em situações como...
- Vou te interromper agora, capitão , antes que você fale mais do que gostaria de falar. Não precisa explicar. – Ela assegurou, mas a sobrancelha estava arqueada – Você não me conhece. Não precisa me passar seu número. Não poderia cobrar algo assim de você. Só gostaria que tivesse me avisado antes de eu te arrastar para a biblioteca à força. – Ela murmurou e batucou os dedos contra o volante.
- Na verdade, foi um dos dias mais divertidos que eu tive em meses. E eu quis ir. – assentiu, não realmente convencida, mas poderia lidar com aquilo. Afinal de contas, nem todo mundo era obrigado a gostar dela. Mas, por algum motivo, queria que gostasse. Ele parecia ser alguém divertido para sair quando ela estivesse em Londres, fugindo de Oxford.
- Fico feliz que minha palhaçada tenha te entretido. – Riu pelo nariz e continuou a batucar os dedos contra o volante.
O silêncio estendeu-se no carro, e quando estava pronta para se despedir, sentiu a mão de roçar contra seu braço. Um arrepio automático subiu por sua perna esquerda. Virou-se para pedir desculpas pelo esbarrão, mas encontrou os olhos de focados nos seus, descendo logo para os lábios da professora. repetiu o movimento involuntariamente. Os olhos castanhos pareciam quase pretos sob a luz precária dos postes. Os lábios pareciam mais cheios, e o corpo dela controlou um arrepio quando percebeu que ele havia prendido a língua levemente entre os dentes.
- Gostei do seu nariz. – Ela sussurrou, a voz mais firme do que imaginava.
- Gostei da sua boca, não deixei de pensar nela o dia todo, na verdade. – A mão de encostou-se a sua bochecha, e seu impulso foi fechar os olhos. A brecha que ele precisava para beijá-la.
derreteu-se nos lábios de , suas mãos em seu pescoço e sua mente a levando de volta para os locais mais sórdidos e primitivos que poderia. Não pôde evitar o suspiro quando os lábios dele desceram para seu pescoço, a língua trilhando o caminho até o lóbulo de sua orelha, puxando levemente com os dentes. De relance, pôde ver as janelas do carro embaçadas, o arrepio em seu corpo a levando a locais que não lembrava conhecer há meses. Tudo aquilo estava guardado dentro de si?
- Eu preciso ir para casa, . – O final da frase quase esmoreceu quando segurou sua nuca com um pouco mais de força.
- Uhum. – Ele murmurou e voltou sua atenção ao pescoço agora totalmente exposto de . Ela segurou a cabeça dele, guiando-o para os locais mais sensíveis. As pontas dos pés estavam curvadas dentro do sapato caro.
- , - ela murmurou entre os beijos – Eu preciso ir. – Ele rosnou baixinho e soltou um muxoxo, voltando sua atenção para os olhos de .
- Obrigado pela noite. – Ele murmurou contra seus lábios, ainda sem parar de encará-la. Abriu a porta do carro, saiu e a fechou atrás de si, apoiando-se contra a janela aberta. estava com o cabelo bagunçado, os lábios molhados e inchados, as mãos suadas sobre o volante – Boa noite, . Dirija com cuidado. – observou a silhueta do capitão atravessar a recepção, cumprimentando os guardas. Ela apoiou a cabeça contra o estofado, os olhos atordoados pela rua.
Aqueles seriam os cinquenta minutos mais longos de sua vida.

Capítulo 4

- Ele me enrolou, Genevive. – resmungou quando se sentou com a amiga à mesa da lanchonete. Dia vinte e três de janeiro, era o que marcava o calendário. Dali exatamente um mês, começaria a conviver na sala de aula como docente. O fato de poder dar aulas em Oxford ainda era um sonho.
- Ele não te enrolou...
- Ah, não enrolou? Eu quase me sentei naquele homem há uma semana. Ele me enrolou para eu esquecer que ele não queria meu número. Ele me beijou para me fazer perder o foco. – deu uma mordida em seu pão e tomou um gole de chá – E eu caí igual uma burra. Eu tenho trinta anos, Genevive! Eu não deveria ser enganada tão facilmente! – Genevive arqueou seus olhos acinzentados para ela.
A francesa era uma das pessoas mais bonitas que já havia visto. Os olhos emolduravam uma pele cor de oliva, os cabelos crespos formavam um black power digno de comercial e sua voz era simplesmente melodiosa.
- , mas você queria algo com ele? O objetivo não era unicamente a situação com... Bem, com aquele pedaço de inferno do subordinado dele? – encarou Genevive.
- Você está começando a pegar minhas manias.
- Eu sei, não posso evitar, suas expressões são incríveis. – sorriu e tomou outro gole de chá.
Desde que havia chegado até a Inglaterra havia tomado mais chá do que todo o restante da vida até aquele momento. Ela percebeu, com choque, que estava se acostumando muito mais rapidamente do que achava.
Falava com seus pais todos os dias antes de dormir, mas sentia mais saudade da Coreia do que dos Estados Unidos em si. Talvez fosse pelo fato de nunca se considerar verdadeiramente americana.
– Voltando ao seu capitão gostoso...
- Ele não é tão gostoso. – Murmurou a contragosto e tossiu levemente com o chá.
- É sim. Pare de tentar diminuir a imagem dele na sua mente para se sentir menos pior.
- Você tem razão. – Suspirou e deu de ombros, arrumando a pilha da antologia que passaria aos seus alunos do segundo ano de graduação – É só que... Nós dois nos demos tão bem durante toda a noite... Eu nunca esperei que pudesse beijá-lo no final da noite, mas pensei que ele pelo menos quisesse ser meu, sei lá, amigo? – Colocou a cabeça entre as mãos – Olha isso, pareço ter doze anos.
- É normal quando gostamos de alguém e almejamos a amizade dessa pessoa, meu bem.
- Pois é. Mas tudo bem, acontece. – Deu de ombros e colocou o restante do pão na boca, os olhos divagando para o tabuleiro de bolos no balcão – Eu estou cansada demais para conhecer alguém, isso faz sentido? – Genevive assentiu – Mas o cara que conheci no bar na quinta-feira definitivamente me fez esquecer um pouco do que aconteceu com .
- Você é impossível, . – Genevive deu risada e encarou as unhas feitas – Ah, você vai amanhã para Londres para a conferência com aquele empresário do Irã, não é? – assentiu e lembrou-se do seu trabalho que lhe rendia um bom dinheiro extra.
Não havia muitos intérpretes de farsi na Europa. E os que estavam lá, bem, a maioria era ilegal.
Há alguns anos, havia começado a traduzir entrevistas e matérias do inglês para o farsi, chamando a atenção de um líder iraniano que a havia conhecido em uma palestra sobre a cultura iraniana na Califórnia. Desde então, sempre que necessário uma intérprete, era chamada para ajudar quem quer que fosse a figurona da vez.
Behruz Yasser, um empresário muito famoso no ramo de alimentos, precisava conversar com um outro megaempresário britânico. Não era de sua conta saber de seus negócios, então assinava um termo de confidencialidade. Ela sabia apenas que o vocabulário envolvia alimentos, termos contratuais (passara a noite inteira pesquisando) e vocabulário empresarial. Até aquele momento, nunca havia ouvido sobre planos de morte e esquemas terroristas, como já a haviam perguntado antes.
- A conferência não vai ser em Londres, vai ser na Irlanda. – Comentou com um suspiro – Vou a Londres para pegar o trem.
- Não é mais fácil pegar o trem de Bristol?
- Sim, mas Behruz Yasser quer me ver pessoalmente antes de irmos. Além do mais, ele já está em Londres.
- Boa sorte, querida. – Genevive estendeu a xícara de chá em sinal de compaixão. aceitou, por agora. Sabia o que a aguardava no dia seguinte.
*
- Gostaria de tomar algo, senhorita ? – levantou os olhos para encarar Behruz Yasser.
O homem tinha cabelos negros, assim como sua barba bem feita. O terno estava perfeitamente moldado em seu corpo, disfarçando a barriga protuberante sobre a calça social. Ele fumava um cigarro de palha e espalhava a fumaça na cara de . Ela tinha certeza de que era proibido fumar ali.
- O que o senhor tomar, posso tomar também. – Agradeceu quando foi colocado um suco de frutas vermelhas em sua frente. Arrumou-se em seu chador*, tomando aos poucos enquanto Behruz conversava com seus seguranças e às vezes mexia em seu celular. sabia que era melhor evitar falar mais do que o necessário, ou poderia soar desrespeitosa.
- Você é uma boa menina, . Pena que esteja envolvida com os porcos. – abaixou os olhos e apenas assentiu.
- É verdadeiramente uma pena.
- Sei que já assinamos o termo, mas gostaria apenas de relembrá-la para não deixar meu lado. Nunca se sabe o que os britânicos podem arranjar.
- Tem razão. – assentiu. Tentou ignorar a coceira em sua cabeça devido ao chador, mas estava ficando um pouco insuportável no calor da cabine fechada.
Quando finalmente chegaram a Dublin, foram aguardados por três carros parados na rua atrás da estação. abaixou a cabeça e entrou no carro de Behruz Yasser. Estava tão acostumada a virar outra pessoa na presenta de seus clientes iranianos, era como se criasse uma personagem. Poderia ser divertido, dependendo de quem fosse representar. Behruz Yasser era um iraniano de Caxã, na província de Ispaã, e tinha fortes conexões com o governo. sabia que deveria fazer apenas o que lhe fora ordenado fazer, que manter a cabeça baixa a deixaria longe de problemas. Levando em consideração sua situação no país e o poder de Behruz, preferia parecer indefesa mais que qualquer outra coisa.
- Senhor, chegamos. – Anunciou a Behruz quando o motorista britânico começou a indicar algumas direções para ela.
- A senhorita primeiro. – Anunciou ao abrir a porta.
Estavam diante de uma enorme mansão a oeste de Dublin. As janelas de giro de madeira davam um ar antigo ao ambiente, apesar da porta ser extremamente moderna e nova. O jardim bem cuidado era intercalado por uma passarela em ladrilhos brilhantes de mármore.
Não havia portões ou grades, mas ela observara seguranças em cada esquina até chegarem ali. Na calçada, ela viu três homens vestidos com roupas comuns, mas conseguira observar um deles carregar a arma no bolso.
respirou fundo e cobriu as mãos suadas sob o chador negro. Estava muito frio. As roupas sob a vestimenta não pareciam comportar o suficiente do frio que sentia. Sabia que ficaria doente, ou que a sinusite atacaria assim que tomasse um banho quente.
Observou um homem sair pela porta da frente. Travis Benjamin, o milionário que conversaria com Behruz.
- Olá, sejam bem-vindos! – Acenou para a pequena comitiva. permaneceu ao lado de Behruz, entrando na casa logo atrás dele e traduzindo a pequena conversa fiada entre os dois envolvendo o caminho até ali e a comida do trem. Travis era um homem com mais ou menos cinquenta anos, olhos azuis, loiro e com o sorriso mais astuto que já havia visto. Sentiu imediatamente que deveria manter-se afastada dele – E você, quem é? – Ele se dirigiu à , os olhos descendo por toda a roupa.
- , senhor Travis. – As palavras deslizaram em voz baixa, porém firme.
- Bom, senhorita , aceita um copo d’água?
- Estou bem, obrigada. – Negou com um sorriso.
- Então, aos negócios! – Bateu as mãos em um estalo e sorriu.
olhou ao redor. Praticamente não havia móveis, apenas uma mesa de vidro enorme no centro de uma sala com um lustre prata como maior enfeite pendendo sobre a cabeça deles. O cômodo dava para uma cozinha com balcão americano, os armários pareciam intocados, e não havia nada além de uma pia de mármore.
Claramente aquela casa havia sido alugada ou não era habitada. A luz fraca de inverno atravessava o cômodo com um tom melancólico contra as paredes claras. A casa até mesmo emitia eco quando falavam.
Até que um movimento no canto da parede chamou sua atenção. Observou um homem com o uniforme que havia visto com clareza nos últimos dias. Parecia... Quase arregalou os olhos ao ver Andrew parado, as mãos cruzadas nas costas e os olhos focados nela. Seu arquear de sobrancelha indicava reconhecimento e certa confusão, mas voltou rapidamente a olhar em outra direção.
Sentaram-se à mesa, o coração de levemente acelerado. Se a Marinha estava ali, então algo estava acontecendo, não? Ela havia feito sua pesquisa durante a semana, sabia que os Royal Marines eram uma divisa diferente da Marinha em si. Eles cuidavam de partes específicas... Como o transporte de autoridades importantes. Virou os olhos para Travis. Não se lembrava dele como uma autoridade. E não viu outro intérprete da parte de Travis.
- Senhor Behruz, os britânicos não possuem um intérprete deles.
- Eu sei. Um dos termos foi que somente eu tivesse uma intérprete. Vai precisar fazer o papel por dois. Não se preocupe, vou dobrar o que pagaria anteriormente. – assentiu e pensou na enxaqueca que viria após alternar entre dois idiomas constantemente.
A professora pegou seu caderno e papel. Olhou a lista de códigos específicos nas traduções e prosseguiu com sua função.
Enquanto traduzia a conversa deles, pensava em tudo o que Behruz havia enviado para ela acerca do britânico. Um megaempresário que gostaria de investir nos negócios de Behruz. Não havia mais informação do que aquela. Mas se Andrew estava ali, algo estava acontecendo. Algo que ela ansiava saber, mas não sabia como.
- Espero que tenha visto o plano de estratégia que enviamos, senhor Behruz. – Traduziu a mensagem entre os dois, os olhos alternando entre um e outro. Travis batucou os dedos brancos contra a mesa de vidro, adotando uma postura descontraída – Ficamos interessados no seu projeto, e a Coroa está muito interessada em seus serviços.
Serviços?, pensou . Que tipo de serviço?
- Pode contar com nosso sigilo, seu país não saberá de nossos acordos, e nenhum de nossos inimigos, esperamos. – engoliu em seco ao final da frase, mas fez parecer apenas como uma pausa para ar. Controlou o tremor nas mãos e parou de escrever no caderno quando Behruz começou a falar:
- , a partir de agora, se abrir sua boca para falar algo além do que direi, será morta nessa sala. – Ela se arrepiou com a fala cruel. Havia um sorriso no rosto de Behruz enquanto dirigia sua fala a ela, mas os olhos permaneciam em Travis. Não sabia o que estava acontecendo, muito menos como proceder – Boa garota. Vamos lá. Diga a ele que a estratégia foi analisada, mas os riscos são maiores que as garantias. Queremos um sinal de vinte mil libras. – traduziu e observou Travis batucar com os dedos sobre a mesa da mesma forma que ela fazia quando estava pensando sobre algo sério – E diga que se alguma informação vazar, não me responsabilizo pelos homens dele, apenas pelos meus.
- Entendo o que queira dizer, Behruz. Está pensando em sua segurança, e eu não poderia negligenciar nada disso. Como vê, trouxe os melhores homens à disposição para o caso. Você está seguro. Nosso acordo é seguro. – traduziu a mensagem de Travis, as mãos sob o chador levemente trêmulas pela ameaça de Behruz.
- Esse branquelo vai me sacanear. – Murmurou Behruz para e suspirou – Diga a ele que aceito o acordo, contato que os vinte mil estejam nas contas que eu lhe passei em vinte e quatro horas, então, enviarei todas as armas que ele quiser. Após isso, entraremos em contato para novos fornecimentos. – Um sorriso se estendeu pelo rosto de Travis ao ouvir que tudo havia saído como planejado.
A professora criou um sinal para “armas” em seu caderno, apesar de saber que nada daquilo estava em seu contrato.
- , minha linda... – Começou Travis, os olhos vidrados nos seus. Ele parecia calmo e pacífico, diferente do toque histérico quando abriu a porta para eles – Diga a seu chefe que será assim. Foi um prazer negociar com um aliado. O alto escalão não saberá o que aconteceu aqui. – E piscou para ela.
passou a mensagem para o empresário iraniano. Desde quando um empresário do ramo alimentício contrabandeava armas?! Ainda mais para a Coroa Britânica!
- Bom, acho que podemos ir, então. – Behruz anunciou com um sorriso vitorioso. Os olhos brilhavam diante de parte do dinheiro que receberia.
se levantou da cadeira acompanhando o anfitrião e virou-se para seguir Behruz Yasser até o carro, pronta para voltar para Oxford e virar a noite pensando em como a Coroa estava comprando armas contrabandeadas. Começava a surtar com as possibilidades quando viu parado à porta. Seus olhos encontraram imediatamente os de . Ele sequer expressou reação, os ombros ainda altos e os olhos fixos.
- Senhor, vamos escoltá-lo de volta para a estação. – não pôde evitar o arrepio enquanto a imagem dos dois se beijando em seu carro voltava à mente. Os lábios dele estavam ressecados, seus olhos estavam fixos em Behruz. parecia uma geladeira diante de Behruz.
comprimiu os lábios em uma linha fina, tentando controlar os pensamentos, e traduziu a mensagem. estava usando o uniforme, mas parecia incompleto sem o cap branco com a faixa vermelha e o brasão britânico no centro. Usava apenas o uniforme preto com as abotoaduras prata, nada mais. Nada que o identificasse completamente como parte da Coroa. Mas ele ainda sim parecia perfeitamente britânico. Perfeitamente perigoso, e agora, pelo que poderia inferir, perfeitamente criminoso.
Não havia a menor dúvida de que o que ocorria ali não era um cronograma oficial. A Coroa estava envolvida com a compra de armas justamente do inimigo de um aliado diplomático, os Estados Unidos? Não, reformulando, os britânicos xingavam, agrediam e matavam os iranianos ao chamá-los de terroristas, mas ali estavam, negociando.
não pôde evitar a raiva que subiu por seu peito. Encarou Andrew ao seu lado esquerdo e arqueou a sobrancelha, com a expressão mais fria que conseguia colocar em seu semblante, e então seguiu Behruz em direção à porta. Capitão esperava próximo ao carro com as mãos cruzadas atrás do corpo e o olhar direcionado a Yasser.
- Foi bom fazer acordo com vocês, Travis. – Behruz acenou antes de entrar no carro. parou apenas para traduzir e se despedir de Travis. estava parado ao seu lado, mas seu olhar estava acima dela, olhando para o final da rua.
entrou atrás de Behruz e assustou-se quando fechou a porta assim que se acomodou no lugar. Ela virou o rosto para o lado levemente, vendo o capitão entrar no carro atrás deles.
ponderava os cenários que poderiam acontecer a partir dali. Ela tinha um acordo com Behruz, mas nada o impedia de matá-la ali mesmo, afinal de contas, ela não era cidadã britânica. Morreria como um dos iranianos indigentes, sua família não saberia o que havia acontecido com ela, e seria esquecida em meio a milhares de rostos como o seu, esquecidos pela Coroa e por seu próprio país.
- Você fez um bom trabalho, . – Behruz comentou em farsi, e a professora forçou-se a encará-lo. Assustou-se ao sentir as costas da mão dele passarem por sua bochecha. Ele riu e recuou, as mãos de volta ao seu colo coberto por uma calça social – Temos um acordo escrito. Devo lembrá-la do que combinamos?
- Não, senhor Behruz. – Comentou, a voz denunciando seu nervosismo. Ele assentiu e encarou o motorista, um britânico que não tinha ideia acerca do que falavam. Ao lado dele, no banco do carona, um outro iraniano aliado de Behruz estava com a mão apoiada na janela, os olhos voltados para a estrada. encostou a cabeça no estofado e tentou controlar as batidas do coração.
- Não está curiosa para saber o que aconteceu ali? – Questionou Behruz após alguns segundos silenciosos.
- A ignorância é uma virtude às vezes. – Comentou sem encará-lo, os olhos voltados para a estrada.
- Uma mulher sábia. – Riu pelo nariz e virou o rosto da mulher para si com cuidado. controlou o asco que sentiu e apenas o encarou – É uma pena, de verdade, que não more no Irã. Tenho certeza de que seria uma ótima esposa. – Ele sorriu e passou os dedos levemente ao longo do chador de , no final pousando a mão na dela – Ou algo do tipo. – E voltou novamente à posição anterior, rindo pelo nariz, como se o pensamento de como “algo do tipo” o divertisse.
A professora aguardou alguns segundos antes de esconder as mãos sob o chador. Queria chorar e tomar quatro banhos.
Lembrava-se de sua mãe dizendo que a melhor coisa que fez foi sair do Irã, não porque não amava seu país, porque amava. Os avós de haviam sido mortos em um ataque. Haviam descoberto as reuniões secretas que os porcos, os cristãos, faziam. Os avós de estavam naquela reunião. A mãe dela, então, fugira pela Turquia ao sair de Teerã, capital do Irã. Ao chegar no país, conheceu um médico sul-coreano que estava visitando um amigo na época, Ben , seu nome americano.
nascera dessa união alguns anos depois. Ela ouvira muitas histórias da mãe sobre sua ascendência, e apesar de nunca ter ido ao Irã, sentia vontade de conhecer o país que carregava toda a sua história. falava farsi desde que se entendia por gente, seguia o calendário muçulmano, apesar de ser cristã como sua mãe e seu pai, mas nunca dizia isso aos seus contratantes. Corria o risco de ser morta, independentemente de estar na Europa ou na Ásia. Para eles, ela era a muçulmana perfeita. Ela deixava que acreditassem, afinal de contas, era sua cultura e sua história. E Allah era seu Deus, no fim de tudo.
- Vamos. – Anunciou Behruz ao chegarem à estação de trem.
saiu do carro e observou com leve repugnância sair do automóvel atrás de si, os olhos castanhos agora focados no seus por milésimos antes de se voltarem para Behruz. Ele se aproximou com os passos firmes e a expressão séria.
- Faça boa viagem, senhor Behruz. – arqueou a sobrancelha perante a pronúncia perfeita de do sobrenome do empresário e traduziu a mensagem para Yasser. Ele assentiu e estendeu a mão para cumprimentar o capitão.
- Obrigado, soldado. Você seria um ótimo representante do meu país. Não esqueça da proposta que eu lhe fiz. – Behruz arriscou um inglês arranhado, e a professora controlou o choque ao vê-lo tentar conversar com .
Algumas palavras foram traduzidas por , mas ela ainda se focava em não deixar o queixo tremer de raiva.
- Não vou esquecer. – Assegurou , o rosto ainda inexpressível. lembrou do sorriso dele e seu muxoxo quando ela havia dito que precisava ir embora naquele dia no carro.
Todo aquele papo de honestidade de foi por água abaixo.
Ela se deixara enganar pelas palavras bonitas que prometiam verdade. Mais uma vez, ela havia sido decepcionada. Sabia que não podia confiar em homens, fosse qual fosse a nacionalidade, mas se chocara ainda mais com a capacidade patológica de mentira de .
Alguém que denunciava seu próprio subordinado também aceitava o contrabando de armas, aquilo mostrava um nível de deturpação moral além do que ela imaginava.
- Vamos. – Behruz colocou as mãos na base das costas de , conduzindo-a até a entrada da estação.
Os ombros dela estavam tão rijos que chegavam a doer.
O caminho todo para casa foi feito em silêncio. Quando chegaram a Londres, despediram-se, e a mulher se viu sozinha quando Behruz entrou em outro carro e foi em direção ao aeroporto.
Os olhares que recebia dos britânicos eram invasivos, mas apenas ignorou. Atrás de si havia um parque, não lembrava do nome, não lhe interessava no momento. Somente precisava processar o que estava acontecendo.
Andou pela beira do lago até achar um banco vazio. Os corredores faziam exercícios, e o restante de neve lamacenta cobria o chão.
havia visto a neve nos últimos dias, e sentiu-se honrada por ter presenciado um evento certamente raro em Londres, mas os resquícios agora pareciam transtornos, a lama havia sujado seu tênis favorito.
Ela sentou-se e pensou em tirar o chador de sua cabeça, mas sentiria ainda mais frio, e não havia levado nada além de coisas que pudesse carregar nos bolsos da calça jeans sob a vestimenta iraniana. Suspirou e cruzou os braços, os olhos vidrados no mato em sua frente.
Pensou em ligar para a mãe e contar o que havia ocorrido, mas somente o pensamento de Behruz achar sua mãe fazia com que desistisse da ideia. Talvez fosse a hora de oferecer seus serviços de intérprete apenas para pessoas não envolvidas com política. Aquela experiência a havia traumatizado mais do que gostaria de admitir.
Em nenhuma das outras vezes havia sido ameaçada de morte, ou sequer tratada com tanto nojo. Pousou a mão sobre o local onde Behruz a havia tocado e sentiu uma onda de ânsia de vômito tomá-la por completo.
Ela sabia que algo poderia ter acontecido com ela se não fosse pelo britânico no carro. Não, ela tinha certeza daquilo. Fechou os olhos mediante a possibilidade e forçou sua mente a pensar em outra coisa, mas foi interrompida pelo som de seu celular no bolso. O número no visor era desconhecido. Não costumava atender números estranhos, mas poderia ser alguém de Oxford.
- Alô? – A garganta arranhou.
Estava ficando doente!
Colocou-se em pé, precisava aquecer um pouco o corpo. Lembrou-se dos remédios que seu pai havia dado para ela e estavam na prateleira de casa. Desejava saber se havia alguma loja de produtos coreanos por ali, mas o bairro coreano ficava distante de onde estava, e não iria lá apenas para comprar vitaminas.
- ? – Ela ficou em silêncio ao ouvir a voz de .
- Como você conseguiu meu número? – Ela não havia conseguido disfarçar a rispidez.
- Eu peguei na recepção do prédio da Marinha. – Ouviu um barulho do outro lado da chamada, parecia uma porta fechando – Precisamos conversar.
- Hm, agradeço a proposta. Me parece extremamente atraente. – A ironia escorreu por suas palavras. Sentiu os lábios tremerem com o frio. Estava na hora de pegar um táxi até o local onde havia estacionado seu carro. Já estava escuro, e logo mais seria impossível aguentar o frio de janeiro. Colocou o fone de ouvido que estava em outro bolso e abriu o aplicativo da Uber.
- É sério, . – Ele parecia impaciente – Não tem nada a ver com o que aconteceu conosco dois e—
- Meu Deus, você acha que estou assim por que você não me passou seu número? – Questionou com a voz agora beirando à histeria. Chamou o Uber e começou a andar em direção ao local indicado.
- Não, mas pensei que poderia—
- Você tem dez segundos para me dar uma boa razão para não desligar o telefone na sua cara. – O efeito raivoso quase foi desfeito pelo tropeção que levou em uma poça de lama, seu grito afetou a credibilidade de suas palavras.
- Você está bem? – Ele perguntou parecendo preocupado. Dissimulado.
- Não importa, capitão.
- Você está agindo como criança, . Não está me deixando explicar.
- O que eu vi hoje explica muita coisa, capitão . – Argumentou e acenou para o motorista da Uber – Olá, boa noite! Pode seguir o GPS, obrigada. – Interrompeu a conversa ao entrar no carro. esperou pacientemente. Deveria estar pensando em outras mentiras.
- Eu quem deveria dizer isso! Você estava sendo intérprete de Behruz Yasser.
- Como você tem a pronúncia tão perfeita?
- Pratiquei em frente ao espelho. – Ele provocou. quase podia vê-lo sorrindo.
- Você está realmente querendo conversar? Porque não está funcionando. – suspirou. fitou o motorista pelo retrovisor, ele parecia focado na música que tocava pelo rádio.
- Você tem razão. Hoje foi um dia estressante. – Ele ficou em silêncio – Podemos sair para conversar? Sei que vocês foram até Londres. Já cheguei aqui.
- Estou indo para Oxford. – comentou e quase gemeu de felicidade quando percebeu que o motorista havia aumentado o aquecedor.
- Posso ir até lá.
- Não é necessário, .
- Eu insisto. – encarou o estacionamento à sua esquerda.
- Obrigada pela corrida, moço. – Despediu-se do motorista e andou em direção ao funcionário do estacionamento – Onde você está, capitão? Posso tentar te encontrar.
- Vou te passar o endereço por mensagem. – agradeceu ao funcionário quando pegou a chave e entregou as libras equivalentes ao tempo estacionado.
- Até daqui a pouco. – Despediu-se e desligou o celular. Correu em direção ao seu carro e suspirou aliviada ao tirar o chador, que coçava em sua nuca suada pelo nervosismo.
pegou dois casacos a mais que havia levado e os colocou no corpo. Enrolou o cachecol ao redor do pescoço e colocou a touca quente. Observou a mensagem de com sua localização chegar em seu celular. Ele não tinha foto de perfil. sequer conseguia imaginá-lo tirando uma foto. Será que ele gostava de selfies? Será que já havia mandado nudes? Ele tinha cara de quem não se esforçava para mandar um nude decente... Ela balançou a cabeça e ligou o carro. Precisava parar de pensar tanta besteira.


Capítulo 5

pensou várias vezes antes de sair do carro. Pensou que, se havia mentido sobre seu caráter, poderia muito bem fazer qualquer outra coisa. Ela ponderou suas opções. Jamais conseguiria derrubá-lo em um combate, ele era da Royal Navy.
Por garantia, abriu o porta-luvas e analisou a faca escondida dentro de um saco de veludo preto. Ficava escondida no fundo do compartimento. Ela pegou a faca, tirou a capa de proteção e pensou se valeria a pena. Não havia pegado naquilo há quatro anos. Suspirou e a guardou no bolso de trás, arrumou o cachecol e saiu do carro.
Estava em frente a um restaurante italiano. Arqueou a sobrancelha e olhou para sua roupa. O suéter azul estava sobreposto pelo cachecol preto e pelo sobretudo preto. Havia trocado o sapato por outro reserva, um all star velho que havia comprado três anos atrás. Não sabia quais eram os planos de , então arrumou a faca no bolso e andou até a entrada.
Havia um deque de madeira do lado de fora da cantina, mas as cadeiras estavam vazias. O frio afugentara os clientes para o interior quente, e as luzes laranjas e amarelas fizeram se sentir em um filme. Ela olhara pelo exterior, mas não vira sentado nas cadeiras mais próximas à saída. Garçons andavam de um lado para o outro com pratos cheios nas bandejas, e pelo visto havia música ao vivo. foi recebida na recepção por uma moça com traços sul-asiáticos e sorriso pintado de vermelho.
— Boa noite, acho que meu acompanhante já está aqui — murmurou e tentou olhar ao redor. Os olhos pararam no canto direito próximo ao bar. Seus olhos encontraram os de . — Na verdade, já o estou vendo. — comentou para a recepcionista, mas sem tirar os olhos dele.
— Ah, está aqui. Bom jantar. — agradeceu e caminhou em direção a ele.
usava um suéter vermelho e uma a calça jeans preta skinny que marcava suas coxas musculosas. Desde quando capitães do exército eram estilosos? Ela percebeu que seu sobretudo preto estava apoiado na cadeira atrás de si.
— Boa noite — ela cumprimentou com um sorriso educado antes de se sentar.
não havia tirado o sobretudo, a faca apareceria e ninguém acreditaria se ela dissesse ser uma cozinheira que andava sempre preparada para cortar um peito de frango.
— Você está com o nariz vermelho. Está ficando doente? — perguntou e tomou outro gole da água em seu copo.
Não havia nada na mesa além de uma pequena cesta com pães e manteiga. A toalha de mesa era vermelha e combinava perfeitamente com as paredes marrons.
— Sim. O chador não é exatamente a maior fonte de calor — respondeu e apoiou os braços sobre a mesa — Mas você não está curioso acerca disso, então vamos ao principal, capitão .
— Primeiro, pizza. — franziu o cenho ao ver um garçom chegar por trás dela com uma bandeja fumegante. — Mozzarella ou brócolis? — A professora sentiu o estômago arder de fome ao ver os quatro pedaços fumegantes em sua frente. Nunca havia visto pizza daquela maneira. Parecia tão... cara.
— Mozzarella, por favor. — O garçom colocou um pedaço em seu prato e outro no de , então estendeu um pequeno banquinho ao lado da pizza com os dois pedaços restantes. — Como você sabia o que pedir?
— Você comentou na biblioteca que seu sonho era provar pizza de mozzarella direto da Itália. — Deu de ombros, e abriu um sorriso em compreensão.
— Você está tentando me comprar dessa forma?
— Eu não estou fazendo nada disso. — Arqueou a sobrancelha e colocou um pedaço de pizza na boca. seguiu o passo e começou a comer.
— Então o que está fazendo? Por que um restaurante? Poderíamos ter nos encontrado na sede da Marinha. Ah, não, verdade, você é sujo. — Ela deu de ombros e colocou outro pedaço na boca. Não estava brava naquele momento, não há como ficar brava enquanto se come a melhor pizza do universo.
— Eu sou sujo? Você foi intérprete de Behruz Yasser, e eu sou sujo? — tomou um gole de água para evitar xingá-lo.
— Você veio me encurralar em um jantar para perguntar qual o meu relacionamento com ele?
— Se você insiste em falar sobre isso, por que não começar por aí? — observou seus lábios abrirem em um sorriso ágil.
— Eu sei que já disse isso muitas vezes hoje, mas, de verdade, não é da sua conta, capitão . Se está tentando tirar alguma informação de mim, pode desistir, querido. — arrastou-se ao final. se recostou na cadeira e assentiu enquanto encarava um ponto por sobre seu ombro.
— Você precisa falar, querida.
— Você tem um mandato?
— Não — ela sorriu e deu de ombros — mas estou emitindo uma intimação a depoimento. Está com o juiz. — controlou o nervosismo que correu por seu corpo. Sentiu seu sangue ferver e apoiou os talheres no prato.
— Você está blefando.
— Por que eu faria isso?
— Porque você é mentiroso. Quem mente uma vez, mente duas e mente mil. — assentiu e apoiou o queixo na mão esquerda. mastigou furiosamente mais um pedaço de pizza.
— Por isso mesmo não confio em você e estou emitindo uma intimação. Você mentiu sobre ser minha namorada, não sabia sobre o que mais mentiria. Descobri hoje. Você está envolvida com um homem que já foi responsável pela morte de diversos americanos e britânicos.
— Eu não sabia sobre isso — foi honesta. A memória de Yasser passando as costas da mão contra sua bochecha a fez querer chorar.
— Não acredito.
— Leve-me para fazer um teste do polígrafo, então. Não tenho razão para mentir.
— O encontro de hoje não certifica nada disso, .
— Pare de me chamar pelo nome completo! — arquejou.
— Seu nome vai estar escrito assim na ficha criminal. Por que não se acostumar?
— Você é uma figura de autoridade suja. O que impede que eu te denuncie? E muito mais do que isso — apoiou a língua entredentes — seus subordinados e as pessoas do seu trabalho pensam que eu sou sua namorada. Acha mesmo que vão acreditar que eu sou suja, mas você não sabia nada sobre minha podridão? — abriu um sorriso convencido ao ver que essa ideia não havia passado pela mente de e deu de ombros. — Você tem duas opções: me prender, e aí eu te levo junto, ou me contar que merda está acontecendo e eu posso pensar em te dizer algo. Você pode até não ser preso, mas vai continuar confiável?
— Eu e você sabemos que esse não é um acordo justo — constatou, mas sorriu. sentiu o ímpeto de socar aquele sorriso dali.
— Eu nunca quis que fosse.
suspirou e terminou sua pizza com mais uma mordida. encarou suas sobrancelhas grossas, os lábios que trouxeram tantas memórias durante a semana. Sentiu-se tentada a beijá-lo mais uma vez, então depois o socaria.
— A intimação ainda vai ser emitida, . Você vai responder para alguém que está tentando te ajudar ou para alguém que está tentando te ferrar. O Major Wilson pode ser a pessoa a te interrogar. — procurou algum blefe em sua expressão, mas não encontrou.
A ideia de que uma versão mais velha e mais poderosa do sargento Wilson fosse tentar tirar alguma informação dela... não, os cenários pareciam todos negativos.
— Então vamos pensar nisso com carinho, que tal? — propôs, a mente girando sem parar. — Cada um tem direito a uma pergunta de cada vez. Vamos sopesar as respostas a partir daí.
— Isso é extremamente sujeito a mentiras — ele afirmou — e infantil. — revirou os olhos.
— Não podemos demorar a responder. É mais fácil saber se é mentira ou não.
— Hm, ok. — estralou os dedos e sorriu ao convencer .
— Você já me conhecia antes do bar? — ela questionou rapidamente.
— Não, eu te conheci pela primeira vez por causa do meu sargento. Você foi enviada para o bar para nos espionar?
— Não. Eu só estava com minhas amigas. Você é corrupto?
— Não preciso responder.
— Então, sim. — sentiu um peso enorme em seu estômago. Não queria que fosse uma pessoa ruim.
— Você sabe dos planos de Yasser?
— Não. Só sei o que ouvi hoje. Descobri sobre as armas durante a conversa, ele nem sequer havia me passado o vocabulário armamentista para me preparar, por isso tive dificuldade — foi honesta. Não mentiria. Além do mais, se ele contasse a Yasser, ela não havia dito nada demais. — Você é corrupto? — repetiu a pergunta. Imaginava que estaria ponderando responder sinceramente, já que ela havia respondido.
— Não, não sou. — Ele a encarou. passou os olhos por todo o rosto de .
— Não sei se acredito — confessou. — Você não me parecia ser mau caráter, mas seu último truque me faz duvidar disso.
— Truque?
— Ah, . Você me beijou para me distrair do fato de não querer me passar seu número. Devo admitir, foi uma bela manobra, mas dificultou muito a minha decisão de julgamento. — pareceu confuso.
— Você acha que te beijei para me livrar de algo que eu disse? — A risada dele fez com que se sentisse boba. Havia dito algo engraçado? Fechou o rosto em uma carranca, o que fez com que a risada de aumentasse. — Eu te beijei porque você é linda, engraçada e gostosa pra caramba, , não porque eu não queria te passar meu número. Você sequer me deixou explicar. O motivo de eu não te passar meu número naquele dia era porque entraria em missão no dia seguinte, nem poderia te responder. Eu fiquei na defensiva porque estava pensando na série de assaltos na estrada em direção a Oxford. Sou uma pessoa paciente, mas você parece ser ansiosa demais. — cruzou os braços e balançou os pés sob a mesa. Ele fora honestamente bruto. Não esperaria outra coisa. — Agora seu julgamento mudou?
— Não, na verdade, não. — Ele pareceu ficar sério novamente. — O que eu vi hoje me fez duvidar de cada palavra que você disse.
— Vamos fazer o teste do polígrafo. — arregalou os olhos e aproximou-se mais na mesa.
— Você está falando sério?
— Seríssimo. Vamos até a sede. Pode testar a minha honestidade. Pretendo testar a sua.
— Ok. Você vai pagar a conta. Eu vim totalmente no escuro, não imaginei se arrastada para um restaurante italiano. — arqueou a sobrancelha.
— Tudo bem. Mas vamos no mesmo carro. Não vou correr o risco de você fugir.
— Por que eu fugiria?
— Pessoas culpadas costumam fugir.
— Mas eu sou inocente!
— Vamos provar isso no polígrafo — argumentou, e sentiu a faca no bolso com um pouco mais de urgência. Sabia que poderia precisar usá-la em caso ele tentasse algo. A incerteza a estava consumindo. Quando andaram até o carro, fez questão de ficar um pouquinho mais atrás, evitando que pudesse ver o movimento no bolso.
— Eu não sei chegar lá. Sabe ir daqui? — Perguntou a ele ao entrarem no carro. Quando andou até o banco do carona, guardou a faca no outro bolso.
— Sim. Pode seguir na avenida até o final e depois virar à esquerda. — Somente o som do aquecedor era ouvido.
não sentia vontade de falar, estava concentrada demais criando cenários nos quais a matava e escondia seu corpo em um matagal. O relógio marcava oito da noite. Chegaria tarde em casa e perderia o domingo inteiro dormindo. Assustou-se ao ouvir o barulho da chamada do celular reverberar no carro pelo bluetooth. riu e balançou a cabeça. viu o nome de sua mãe no visor e pensou em ignorar, mas sabia que ela ficaria muito preocupada.
— Oi, mamãe — falou em farsi quando a ligação foi atendida. Não queria falar em inglês na frente dele.
— Oi, filhota! Por que estamos falando em farsi? Você costuma gostar de falar em francês comigo — sorriu com a voz calorosa da mãe.
— Estou com saudade de falar em farsi, preciso treinar — argumentou e virou à esquerda. Olhou para , que apenas gesticulou que ela poderia seguir em frente.
— Se é assim, tudo bem. Está ocupada?
— Um pouco, na realidade, mamãe. Estou com companhia...
— É um homem?! — perguntou animada. balançou a cabeça em negativa.
— Sim, mãe. — ouviu a linha ficar muda. Nunca havia falado com sua mãe sobre homens, e sentia-se estranha em começar a falar sobre isso na frente do homem com quem estava no carro prestes a ir fazer um teste para saber se ele era corrupto ou não.
— Ele é seu... hã, namorado?
— Não, mãe! Ele é só um colega que conheci em um pu-, quer dizer, reunião, que fui. Ele é da Marinha.
— Da Marinha? Ele deve ter um bom currículo... Você pode finalmente ter achado seu marido, ! Qual a etnia dele?
— Mãe! Eu não vou me casar com ele só porque ele é da Marinha Britânica.
— Ué, e por que não? Homens da Marinha têm plano de saúde, não?
— Mãe, de novo isso?
— Seu pai está te mandando um “oi”.
— Outro para ele. Mãe, preciso desligar — disse ao ver os sinais nervosos de . — Sim, vamos fazer a chamada em vídeo na semana que vem para o jantar em família. Sim. Beijos.
terminou de dar as direções e finalmente chegaram ao prédio. Ambos saíram do carro em direção ao elevador na entrada de visitantes. fez questão de olhar para a câmera e sorrir.
— Você está tentando parecer mais inocente? Porque isso, com certeza, não está ajudando — comentou e se apoiou contra a barra do espelho.
— Estou tentando te fazer parecer mais culpado, caso algo aconteça comigo — ela respondeu com um dar de ombros.
— Você acha que vou te matar?
— Eu não confio em você.
permaneceu em silêncio até chegarem ao nono andar. Os dois andaram pelo corredor escuro iluminado apenas pelas luzes do elevador até uma porta grande e pesada.
— Você sabe mexer nisso de verdade? — questionou ao entrarem em uma sala com as paredes cinzas. Havia apenas duas mesas, uma maior e uma menor, que comportava um aparelho ao lado de um computador e uma impressora.
— Sim. Sente-se, . — Sua voz cortou o ar.
Ela se sentou e controlou a ansiedade que insistia em se mostrar evidente através de suas pernas. Colocou as mãos sobre o colo e encarou o homem parado em sua frente. Ele ligou o computador e organizou os materiais, colocou um aparelho que parecia um medidor de pressão em seu braço e na ponta do indicador esquerdo.
— Vamos começar com algo fácil — iniciou quando a máquina emitiu um barulho e algo parecido com uma caneta começou a se mexer. Havia duas, uma linha em azul e outra em vermelho. — Qual o seu nome?
— ela respondeu e encarou os medidores.
— Ok. Qual foi o placar do jogo do Chelsea e do Manchester? — moveu-se desconfortavelmente na cadeira.
— 4x3 nos pênaltis. — A máquina mexeu mais uma vez, assentiu. O homem tirou o casaco e arregaçou as mangas do suéter, deixando sua pele à mostra.
— Você sabe falar farsi?
— Sim. — Mais uma vez o barulho, e já estava prestes a surtar de estresse.
— Por que você foi hoje ao encontro com Behruz Yasser? — respirou fundo antes de responder.
— Sou tradutora e intérprete, ele contratou meus serviços. — assentiu.
— Você sabia sobre o assunto conversado antes do encontro?
— Não. — sentia o nervosismo correr por seu corpo. a encarou mais uma vez.
— Você está participando de algum plano contra a Coroa?
— Não, nem em sonho. — pareceu satisfeito com a resposta. — Minha vez.
— Eu só tenho mais uma pergunta. — arqueou a sobrancelha.
— Não fizemos esse acordo no elevador — argumentou.
— Você pode fazer mais uma para mim. Por que aceitou o trabalho? — estava pronta para responder, até perceber que havia feito a pergunta em um farsi perfeito.
— Eu estou confusa demais para falar algo — ela murmurou completamente admirada.
— Você acha mesmo que não havia algum falante de farsi lá dentro? — perguntou em farsi novamente.
— Como você aprendeu a falar farsi?
— Essa pode ser sua pergunta extra. Agora, responda a minha. — Sua voz séria fez com que jogasse seus questionamentos para o lado e respirasse fundo. Ele havia ouvido a conversa com sua mãe sobre maridos e plano de saúde!
— Porque eu precisava do dinheiro.
— Isso não é o suficiente.
— É sim. Minha vez — respondeu em farsi. Trocaram de posição, e ensinou a ela como mexer. Colocou o apoio no braço dele e o pin em seu dedo. Sentiu os calos nas mãos dele ao tocá-lo e apenas elevou o olhar para o dele. — Qual o seu nome? — decidiu imitar suas perguntas até chegar no que queria. — Você está trabalhando para ou com Behruz?
— Não — Sua voz soou grossa. Ela observou seu corpo marcado na camiseta preta justa quando ele precisou tirar o suéter, então respirou fundo e olhou para o monitor. Ele estava falando a verdade.
— Você é corrupto?
— Não. — quase suspirou aliviada ao ver a máquina marcar a verdade, mas nem tanto. Ele poderia estar trapaceando de alguma forma.
— Você está participando de algum plano contra a Coroa? — arqueou a sobrancelha.
— Não. Você só tem mais uma pergunta. — pensou em todas as perguntas que gostaria de fazer.
— Você realmente emitiu o mandato? — a encarou por alguns segundos.
— Sim. Eu iria te interrogar de uma maneira ou outra — assentiu e se levantou para tirar os aparelhos dele.
esperou pacientemente enquanto ela tocava seu braço. Por um instante, ela quis parar com a mão ali. Sua pele estava quente e, se ela virasse a cabeça, estaria com o rosto perigosamente perto do dele. Ela não pôde controlar a ansiedade. fitou o suéter vermelho em cima da mesa.
— Você ouviu então a ameaça que ele me fez, não é? — ela perguntou com a voz levemente trêmula. Não havia mentira nas palavras de . Ela não sabia se poderia confiar nele, mas era o único que havia compreendido as palavras de Behruz.
— Ouvi. Sinto muito. — E realmente parecia sentir, mas aquilo não significava nada. assentiu e tirou o aparelho do dedo indicador dele. continuava sentado, mas seu tronco estava virado para ela. — Você acabou de se envolver em uma história gigante, . Sinto ainda mais por isso.
— O que quer dizer? — hesitou e finalmente se levantou. Estava a poucos centímetros de . Não era muito mais alto que ela, mas o suficiente para que ela precisasse levantar um pouco o queixo para encará-lo.
— O que eu quero dizer é que você vai ser obrigada a depor.
, eu assinei um contrato. Não posso fazer isso. — sabia que sua voz começava a aumentar. O pensamento voltou para Behruz a ameaçando, o tom de sua voz tão natural assombraria seus sonhos pelos próximos dias.
— Ou você quebra o contrato, ou vai presa. — Ela o encarou com as sobrancelhas arqueadas.
— Se você já sabia de tudo isso, por que me fez vir aqui? Por que armou toda essa palhaçada de jantar? Foi para cultivar alguma esperança de liberdade em mim para depois tirar tudo de uma vez? — sua voz já beirava à histeria.
— Porque precisava saber se te defenderia ou não.
— O que quer dizer?
— Você vai precisar depor, mas podemos fazer um acordo. — o encarou em choque. — Não posso dizer agora. Você precisa confiar em mim.
— Eu não sei se posso fazer isso, . — Ela apoiou a mão na têmpora. A cabeça doía. — Eu tenho mais medo de Behruz do que da Marinha.
— Você me fez as perguntas, sabe que eu sou limpo, que não estou do lado de Behruz. Vou te dar até amanhã para pensar. Você já tem meu número. Vamos até sua casa pedir seu depoimento de qualquer forma assim que o mandato for emitido. Você pode escolher confiar em mim e salvar sua pele ou não confiar, então não vou poder interferir por você.
— Como posso confiar em você, ? — perguntou honestamente.
Àquele ponto só pensava em sua mãe e em sua reação se soubesse que sua filha, a qual vivia em paz na Europa, havia sido assassinada por um criminoso iraniano. O coração apertou no peito ao imaginá-la chorando sobre seu túmulo.
— Posso provar amanhã, mas hoje não. Não posso fazer promessas que não posso cumprir. — ponderou sua expressão. — Além do mais, eu vi sua faca no bolso. Eu tinha muito menos razões para confiar em você do que você em mim, . — Ela cerrou os punhos e encarou o sorriso de .
— Por que parece que você está sempre dois passos à minha frente?
— Porque é meu trabalho estar, . Então, temos um acordo? — sabia que estava cometendo um grande erro ao apertar a mão estendida do capitão, mas estava pronta para arcar com as consequências, pelo menos pensava estar.




Capítulo 6

estava na sua quarta sequência de agachamentos quando ouviu tocarem a campainha. Desligou a música francesa que tocava nos alto falantes e espiou pela janela o térreo. Mordeu o interior da bochecha ao ver parado ao lado de outros dois homens aguardando na porta da frente. colocou o moletom sobre a camisa levemente suada e desceu as escadas até o hall de entrada.
— Quem é? — Tentou ganhar tempo arrumando os últimos detalhes da casa.
— Exército Britânico. — Ouviu uma voz desconhecida.
Na noite anterior, após a cena desconfortável com no polígrafo, foi para casa com a mente voltada para o que aconteceria no dia seguinte. Ele pediu para que ela confiasse nele, mas ainda tinha suas dúvidas. Esperava que ele provasse ser digno de sua confiança naquele momento.
— Já vai! — gritou e tentou achar a chave no meio do molho que a dona da casa havia dado para ela quando se mudou. Ainda havia algumas caixas espalhadas pela sala e algumas na cozinha (não havia tirado todas as panelas, era uma trabalheira).
A professora encarou seu reflexo no espelho no hall e ajeitou alguns fios de cabelo para o lado. Tentou parecer ser pega em um momento desprevenido, como havia pedido. Nada mais desprevenido do que estar fazendo exercícios físicos, não?
— Olá, posso ajudar? — questionou ao abrir a porta. Encarou as três figuras paradas sobre o tapete de boas-vindas.
estava do lado esquerdo, usava o mesmo uniforme do dia anterior, mas agora portava o cap com a faixa vermelha no meio.
Ele estava incrivelmente sério, na mera opinião de .
No meio estava um homem de olhos azuis e pele branca como somente a neve canadense conseguia ser. E do lado direito, uma mulher de olhos pretos e semblante ainda mais sério que o de encarava com leve desinteresse. Usava roupas diferentes, estava de terno azul marinho e havia uma medalha do lado esquerdo do peito.
— Srta. ? — Ela assentiu perante a voz do homem do meio. — Sou o Major Levesque. Temos uma intimação para depoimento. Já que você já está familiarizada com a Marinha — comentou com um sorriso —, achamos que não seria problema vir aqui para agilizarmos o processo.
arqueou a sobrancelha. Tinha certeza de que aquilo era ilegal. Encarou e suspirou. O voto de confiança estava dado. Já comemorava internamente por aquele não ser o pai do sargento Wilson.
— Podem entrar. Se vocês tivessem ligado antes, eu teria pelo menos feito algo para comerem. — Levou-os à mesa da cozinha. — Fiquem à vontade. Desculpa a bagunça, ainda estou de mudança.
Os três se sentaram à mesa com as posturas perfeitas e os olhos analisando tudo ao redor. O divã estava cheio de caixas em cima, a janela que dava para o jardim descia do teto até uma escrivaninha marrom abarrotada de livros empilhados. Ainda não tinha terminado de arrumar sua estante, faltavam duas para chegar.
— Aceitam um chá, uma água? Tenho vinho também, mas não sei se podem beber durante o serviço. — estava ficando nervosa, e costumava falar mais do que deveria quando isso acontecia.
— Eu aceito um chá, por favor. — O homem branco sorriu, e isso fez com que relaxasse um pouco.
— Água, por favor. — A mulher respondeu por ela e .
colocou a chaleira no fogo e pegou a caixa de chás que a locatária dera a ela como presente de boas-vindas. Ainda não havia terminado de provar todos os chás dali. Entregou os copos d’água para os visitantes e pegou um para si própria.
— Em que posso ajudar? — questionou ao se sentar junto a eles do lado contrário da mesa. Os três a encaravam com os braços apoiados sobre a tábua.
— Senhorita , soubemos através do Capitão que a senhorita estava presente ontem em uma reunião altamente sigilosa com Behruz Yasser e Travis Benjamin.
— Ok... — ela indicou que continuassem.
— Gostaríamos de saber sua relação com o senhor Behruz: como o conheceu, se sabe algo além do que foi falado ontem. — observou um gravador ser colocado em sua frente, ao lado da fruteira, e sorriu nervosamente.
— Eu não tenho direito a um advogado antes de prestar depoimento? — Tentou se esquivar. Aquilo a faria parecer mais culpada, mas estava nervosa. O medo de lhe passar a perna subia por seu corpo. Havia calculado diversos cenários, e já tinha algumas cartas que poderia lançar caso ele a tentasse sacanear.
— Sim, tem — respondeu prontamente —, mas podemos fazer isso mais rapidamente e com menos problemas, se ficar entre nós. — sustentou seu olhar por algum tempo, os olhos voltando então para os outros dois. estava com o mesmo olhar desinteressado de todas as vezes em que haviam se encontrado em público.
— Ok. Antes de falar qualquer coisa, gostaria de direito à proteção — foi direta. Entrelaçou os dedos e fitou diretamente o homem do meio. — Não sei o nome de vocês, não sei se vocês são quem realmente são. E preciso ver melhor a intimação. — A mulher aparentemente indiana pareceu levemente surpresa, os olhos buscando .
— Justíssimo. — Major Levesque sorriu. — Eu sou o Major Levesque, como já disse. Essa é a nossa diretora do departamento investigativo, Lesley. E esse, como você já sabe, é o Capitão . — arqueou a sobrancelha ao final. — Estamos cientes da denúncia que você prestou nos últimos dias. Capitão é sua testemunha, e isso não irá interferir em nossa conversa. — Ele entregou um papel à . — E essa é a intimação. Leia com calma.
passou os olhos por todo o papel, observando as assinaturas e carimbos do juiz. Por fim, suspirou e assentiu.
— E a proteção?
— Você vai falar algo que seja digno de proteção? — questionou com um arquear de sobrancelha.
— Eu assinei um contrato com um traficante de armas. Você acha mesmo que eu não preciso de proteção? Eu sou só uma professora. E nada me garante que vocês não trabalhem para ele. — Houve silêncio na sala.
— Ok, vamos conversar, antes de tudo. — Diretora Lesley tomou a dianteira. — Podemos fazer um acordo, mas, primeiro, precisa contar o que sabe.
— Isso me parece pegadinha.
— É sua escolha, . Não precisamos fazer nenhum acordo, mas você parece ser alguém legal — Major Levesque comentou —, então queremos fazer isso aqui dar certo.
— Gosto da forma como você mente — comentou. O nervosismo a fazia perder o juízo. — Isso está gravando? — Apontou para o gravador.
— Quando você estiver pronta — respondeu Major Levesque.
— Fui contratada por Behruz para ser intérprete dele. Eu sou chamada algumas vezes por certas autoridades iranianas, mas de outros países não falantes da língua inglesa também, como Itália, Alemanha...
— Você consegue provar isso? — interrompeu a Drta. Lesley. assentiu.
— Fui intérprete de um membro alemão da Bundesrat na Copa do Mundo de 2018. Está gravado em vídeo. De qualquer modo, eu fui intérprete de um empresário iraniano dois meses atrás, nos Estados Unidos. Esse esquema geralmente é feito por contatos, e esse empresário me recomendou a Behruz. Nunca tive nenhuma relação com o governo iraniano ou com planos conspiratórios. E, na verdade, fiquei pensando no que aconteceu ontem. — escondeu um sorriso. — Vocês não esperavam que eu estivesse lá, não é?
— Não esperávamos, mas não foi difícil contornar. Behruz passou o nome de outro intérprete com quem já havíamos conversado — argumentou.
— Não, vocês não esperavam que uma civil visse a Coroa negociar tráfico de armas com um contrabandista iraniano. Fiquei me perguntando por que diabos vocês estariam metidos em um jogo político sujo. Sei que os governos entram em sujeiras absurdas para atingirem seus objetivos, mas por que a Marinha estaria envolvida nisso? E além do mais, vocês estavam de uniforme. Que contrabando é feito com as roupas de trabalho oficiais? — Balançou a cabeça e percebeu que tinha a atenção de todos. — Vocês estão tentando prender Behruz, não, vocês estão tentando pegar um peixe ainda maior, só não sei dizer quem... A Coroa provavelmente não sabe disso, por isso vocês vieram pessoalmente. Esse juiz é amigo de um de vocês, não é? — Arqueou a sobrancelha. continuava inexpressível, mas ela conseguira ver o canto de seu lábio tremer levemente. Estava irritado. — O meu acordo é o seguinte: eu posso ajudá-los no que quiserem com Behruz, mas eu quero proteção. Quero que assegurem que estarei segura enquanto ajudá-los e, caso necessário, sejam minha cobertura para que eu possa fugir para algum outro país. Se vocês prestaram atenção na reunião de ontem, sei que já sabem que Behruz nunca vai confiar em vocês. — Direcionou os olhos rapidamente para . — Então, a melhor opção é ter a mim, uma civil que aparentemente é inocente aos olhos de Behruz, para conseguir as informações para vocês, não é?
quase chorou de alívio ao ver a expressão no rosto da diretora. Havia sido o blefe mais insano que fez na vida. Havia depositado parte de suas cartas na mesa, e foi de satisfação quase espiritual ver como eles morderam a isca.
— Você é inteligente, senhorita . Devo reconhecer. — Major Levesque coçou a barba. — Como sabia que estávamos ouvindo toda a conversa de vocês? — Estava ali a chance de entregar e o encontro deles na noite anterior, mas ainda não estava na hora.
— O motorista do carro — comentou, olhando para o major. — Ele me encarou pelo retrovisor quando Behruz me fez a pergunta sobre saber mais do que havia acontecido lá dentro. Pensei ser coincidência, mas ele não esperava ser visto espionando. E é por isso que sei que, antes mesmo de entrarem, não iriam me acusar de traição. Levei um tempo para processar tudo isso, mas agora que estamos em transparência, podemos discutir nossos termos, que tal?
*
observou as mãos trêmulas quando foi ao banheiro, algumas horas depois. Eles haviam acabado de sair, mas a esperava no andar debaixo. Fora designado para explicar a ela acerca dos programas de segurança que poderiam conseguir, também para ensiná-la alguns macetes.
perguntou se Lesley não poderia fazer aquilo, mas a diretora estava indo para outra reunião. Quando os outros dois saíram pela porta, correu para o banheiro.
— Você consegue, — disse para si mesma enquanto se apoiava na pia. Sua faceta corajosa foi para o brejo.
Durante a conversa, passou tudo o que ela e Behruz conversaram, comentou que poderia conseguir algumas informações através de colegas seus e que, como o acordo com Travis ainda não estava completamente feito, haveria ainda o sinal para então haver a troca de mercadoria. Ele ainda precisaria falar com o empresário.
No contrato constava que aquela não se restringia a uma operação única, mas não tinha ideia de quando seria chamada de novo.
Todos concordaram que ela não seria colocada em situação de perigo e somente faria algo quando pedissem a ela, já que era uma civil. Em hipótese alguma ela estaria sozinha com Behruz. Aquilo a aliviou.
Eles lhe informaram que Travis estava trabalhando com eles para diminuir sua pena (estava sendo investigado por lavagem de dinheiro, assassinato e outras coisas sobre as quais preferia não se aprofundar).
Qualquer deslize de Travis e ele seria preso imediatamente. Tudo naquele cenário parecia absurdamente instável.
Major Levesque não quis informar por que a Marinha estava envolvida naquele assunto, mas imaginou que o transporte das armas fosse ser feito pelo mar, o que parecia ainda mais perigoso. E não sabia quem era o peixe grande que buscavam além de Behruz.
Ela ainda estava levemente perdida, mas pelo menos sabia que não estava envolvida em um esquema criminoso, pelo menos não diretamente. E sabia que precisaria tentar descobrir mais sobre os planos de Yasser, apenas não sabia como.
— Você por acaso se mexeu desde que eu subi?
questionou ao descer as escadas. O moletom de Oxford aquecia seu corpo do frio.
— Sim.
— Você é um pouco estranho, capitão comentou com um sorriso. — Eu estou morrendo de fome. Trabalho dando aulas e falo pelos cotovelos, mas hoje foi o ápice. Quer uma pizza?
— Fui instruído a te ajudar, , não a comer pizza.
— Você me levou para comer pizza sem me dizer nada — argumentou. permaneceu em silêncio, até que suspirou.
— Ok, certo. Mas sem pizza. Que tal comida indiana?
— Por Deus, sim! — comemorou e pegou o número na geladeira de um casal de indianos que tinham um restaurante no bairro.
Fez o pedido enquanto observava a casa mais uma vez. As mãos estavam nas costas enquanto analisava as pinturas coloridas nas paredes, os tapetes persas da loja de sua família, os móveis antigos deixados pela locatária. sentiu-se particularmente boba quando o observou sorrir para uma foto dela quando era pequena e estava suja de suco de beterraba.
— Hm, deve chegar em meia hora — ela anunciou em tom de voz baixo. assentiu e aproximou-se dela. — Pode sentar-se no sofá, capitão. Sinta-se à vontade.
— Eu pensei que sua casa seria ainda mais colorida — ele comentou com um sorriso quando se sentou sobre a manta branca que cobria o sofá.
— Por quê? Só por que falo pelos cotovelos?
— Porque você é colorida.
— Você precisa desenvolver isso um pouco melhor.
— Você trabalha com poesia, . Acho que você desenvolveria melhor do que eu. — sorriu.
— Você também lê bastante. Não pode dizer ser de humanas? — negou e se aconchegou ao sofá, o corpo enorme sendo abraçado por mantas fofas e almofadas coloridas. Uma cena cômica, mas fascinante.
— Eu sirvo para fazer cálculos e para matemática. Gosto de ler, mas não significa que seja bom em interpretação de texto.
— Você não precisa ser bom em tudo — ela comentou com as pernas cruzadas sobre o sofá. Usava uma meia de Naruto que ganhou de sua irmã em seu aniversário. Nunca assistiu o anime, mas ficara tão honrada pela irmã ter pensado nela que apenas agradeceu, e essa se tornou sua meia favorita.
— Você é infinitamente mais inteligente do que eu poderia imaginar, admitiu após um período silencioso. Agora estava com os cotovelos apoiados no joelho, o corpo inclinado para perto do sofá em que estava sentada.
— Você achou que eu viria de mãos vazias?
— Não, mas não imaginei que viria daquela maneira.
— Você não contou a eles sobre eu ter dito ser sua namorada, não é? — tomou coragem para perguntar.
— Não. Eles não podem achar que tivemos alguma ligação antes do seu encontro com Behruz — afirmou com uma careta. — A situação ficaria feia.
— Por quê? — se arrependeu assim que perguntou. — Ah, poderia ser visto como traição ou espionagem, não é? — assentiu e passou a mão pelos cabelos que estavam crescendo.
— Isso significa que nós dois estaríamos ferrados. Fico feliz por não ter dito nada.
— Eu jamais falaria aquilo. — Fez uma careta.
— Au! Sou tão inamorável assim? — percebeu o tom de flerte em sua voz, mas não cederia naquele momento.
— Sim. Uma total aberração — comentou com um riso. — Vamos lá, diga-me o que preciso fazer e como devo proceder daqui para frente.
*
já estava no décimo soco contra o ombro de quando bateram à porta. Ela tossiu em estado ofegante. tomou a dianteira e foi até a porta enquanto ela se recompunha, jogada em cima do tapete caro que sua mãe a havia dado de presente.
— Você me destruiu — ela resmungou quando ele voltou com três sacolas cheias na mão. Colocou em cima da mesa e voltou para ajudá-la.
— As pessoas têm o costume de achar que somente fazer academia já é o suficiente para serem fortes — ele desdenhou. — Mas a autodefesa, aeróbico, tudo isso é muito mais útil.
— Percebi. Agora sei paralisar Behruz somente com um soco! — comemorou e colocou novamente o moletom que havia tirado para as aulas de autodefesa que estava dando.
Acertaram um acordo de proteção que envolvia troca de passaporte, identidade nova e uma casa no subúrbio dos Estados Unidos. Voltaria para a sua pátria caso algo acontecesse. pensou em seu trabalho e que poderia precisar abandoná-lo.
Na realidade, ela estava esperando o arrependimento bater por ter tomado aquela decisão, mas sua consciência estava tranquila. Ela não tinha opção, ou cooperava ou se tornaria suspeita.
Major Levesque estava certo de que Behruz usaria um de seus próprios homens caso não fosse a pessoa por trás daquilo. Talvez ela devesse deixar a Marinha se ferrar com seus problemas, mas Behruz viria atrás dela de qualquer modo. O pensamento a encheu de temor por um instante.
— A senhorita pode ajudar a acabar com um esquema que mata milhares de civis todos os anos, civis do seu povo — Major Levesque disse com um olhar sério. Ela apenas assentiu e engoliu em seco. A pressão era grande.
Depois de acertados, se ofereceu para ensiná-la treinamentos básicos uma vez por semana para que se defendesse caso fosse necessário. Em troca, ela deveria começar a fazer aulas de luta em alguma academia durante a semana. se questionou se outra pessoa não poderia fazer aquilo, mas, como a lembrou, não é como se todos soubessem sobre aquela pequena missão.
— Musculação não é o suficiente, não importa o quão bonito seu corpo seja — ele dissera enquanto a estava sufocando em uma posição desagradável. tossiu e deu tapinhas no ombro dele.
— Você me elogiou enquanto me enforcava? — perguntou com perplexidade.
— Foi uma constatação. — Deu de ombros.
— Vamos, quero te enforcar agora. — E voltaram ao treino.
Agora, sentados à mesa, devorando o jantar mais delicioso da semana, se perguntava se era daquela maneira por ser soldado ou se era soldado por ser daquela maneira. Quer dizer, ele parecia ser hilário, mas sério ao mesmo tempo.
Ela o encarou enquanto pensava em possíveis piadas que poderia contar em uma mesa com seus amigos.
— Você está me encarando há quase um minuto. Tem algo no meu rosto? — questionou com o cenho franzido.
— Hm, não — desconversou. — Estava pensando em que tipo de piada você conta para os seus amigos.
— Você realmente estava pensando nisso? — Então jogou a cabeça para trás em uma risada estrondosa. acompanhou sua risada com a cabeça balançando. — Eu geralmente dou risada dos meus amigos.
— Ah, é? Se você não é bom em contar piadas, no que é, então? — apoiou o queixo na mão esquerda e refletiu.
— Acho que eu canto bem. — Deu de ombros.
— Você pode cantar um pouco, eu não me incomodaria para testar uma teoria. Sabe como é, método empírico. — apenas sorriu.
— Você usa desculpas muito bem elaboradas. Tem certeza de que não é advogada?
— Nah, eu sou boa demais para isso. E provavelmente choraria no meio do tribunal.
— Acho que você faria a promotoria chorar — atiçou com um sorriso. — O que você fez hoje me provou isso.
— Esse é o melhor elogio que já recebi. — Ela sorriu, colocou a mão no peito e fingiu limpar uma lágrima.
Terminaram de comer entre risadas e algumas provocações da parte de acerca da força muscular de .
— Preciso ir, — o capitão comentou ao ajudá-la a lavar a louça.
— Ei, você me chamou só pelo meu primeiro nome! — comemorou e deu um soquinho fraco em seu braço com o pano de prato.
— Tem razão. Não sei por que fiz isso. — Apoiou-se contra a pia e deitou a cabeça de lado para encará-la.
— Acho que é porque está pronto para ser meu amigo. Afinal de contas, você vai vir me ver uma vez por semana para treinarmos, não é?
— Sim, tem razão. Bem, preciso ir.
— Você disse que me ensinaria mais um exercício antes de ir — cobrou.
— Tinha esquecido. Vamos lá, ele é rápido — chamou-a novamente para a sala. Já haviam tomado chá, e o gosto de pimenta já desaparecera de seus lábios.
— Eu estou tomando tanto chá que vou ficar com taquicardia — constatou com uma careta.
— Então será uma verdadeira britânica. — piscou o olho para ela e tomou o restante do chá.
— Ok, qual o movimento? — questionou quando se encontravam novamente em cima do tapete após arrumarem toda a louça.
— Vou te ensinar rapidamente a derrubar alguém maior do que você. Você precisa posicionar bem seu peso igualmente, então, independentemente de onde a pessoa se jogar, você consegue segurar seu próprio peso. — apoiou sua mão na cintura de — Pegue na barra da calça, ou algum tecido da perna. — Ele guiou as mãos dela até a parte mais folgada de sua calça social. Ele estava sem a parte de cima do uniforme, usava apenas uma segunda pele preta — Desestabilize uma perna e me empurre para baixo — ordenou próximo ao ouvido dela para segurar bem a perna. assentiu e seguiu as recomendações, mas havia esquecido do peso da perna.
— Meu Deus! — gritou quando caiu com o joelho no chão ao lado da coxa de . Riu quando viu a cara assustada dele.
— Você quase bateu com seu joelho em um lugar nada legal. — Ele gargalhou e se apoiou nos cotovelos. imaginou sua cara de dor caso ela o machucasse. Provavelmente acabaria com o flerte entre eles. — Você está encarando, . — ele praticamente sussurrou, seu tom levemente envergonhado.
— Caramba, desculpa. — Ela tinha certeza de que estava vermelha. — Eu me distraí. — Os dois se sentaram sobre o tapete.
— Tudo bem, acontece. — Sorriu e a encarou mais uma vez. — Sinto muito se não pareci honesto com tudo o que aconteceu com o Behruz, não sabia se podia confiar em você — ele disse após alguns segundos.
— Desculpa por ter levado uma faca ao jantar italiano.
— Somente uma mulher muito segura de si e incrivelmente assustadora faria aquilo. — abaixou a cabeça e riu. — Foi a coisa mais perturbadoramente sexy que eu já vi.
Quando a professora levantou os olhos para os dele, o sorriso já havia sumido, e estava ali a mesma expressão da noite em que se beijaram.
— Você achou sexy eu ter levado uma faca para um jantar? — Ela murmurou, os olhos correram pelo rosto de .
— Acho que a vida militar fez algo com minha cabeça — O capitão comentou com um sorriso. esticou mais o braço, praticamente engatinhando na direção de .
— Provavelmente — ela respondeu, seu rosto pairando sobre o dele. — No próximo jantar eu trago uma bazuca. — apenas assentiu, os olhos permaneceram vidrados nos lábios dela.
— Faça isso.
Seus lábios se encostaram mais uma vez com urgência que não lembrava sentir há muito tempo. As mãos dele foram dirigidas para seus cabelos, enrolando-os em seus dedos e a puxando para o meio de suas pernas.
precisou se apoiar no sofá atrás da cabeça de , as pernas automaticamente colocadas em cada lado do quadril dele. Ela suspirou quando ele a puxou em sua direção. As mãos do capitão desceram pelas suas costas, firmes em sua calça de moletom. Cada centímetro do corpo dela queimava com o toque de .
segurou as madeixas de entre os dedos e fez carinho em sua nuca. Seus lábios exploravam cuidadosamente cada centímetro de sua mandíbula. A pele do capitão parecia brasa pura contra a dela, o corpo dele poderia engolir o seu se quisesse, e ela gostaria daquilo.
Com um movimento sutil, começou a movimentar seu quadril contra o dele.
— Quer subir? — Gemeu entre os lábios de quando ele a puxou contra seu quadril mais uma vez. Ela se sentia sem ar e tinha certeza de que explodiria.
— Uhum.
se colocou em pé e tirou o moletom mais uma vez junto com a blusa por baixo, o sutiã preto estava exposto ao frio londrino. tirou sua segunda pele, revelando um corpo ainda mais surpreendente por baixo de todos os panos que o escondiam.
— Espera — ela sussurrou, indo em direção a ele.
passou com o dedo da linha do pescoço até a cintura do homem coberta pela calça social. Sabia que estava com cara de maníaca, os olhos implorando pelo corpo de , mas não podia evitar.
— Você é lindo, . — Os olhos voltaram a encará-lo. O coração estava acelerado e as mãos ansiosas para tocá-lo. Sua mão parou no cós da calça dele. Ela viu o olhar dele mudar rapidamente, os olhos desviando para algo atrás dela. — Está tudo bem? — questionou com certa preocupação.
— Eu preciso ir, , mesmo.
Ele parecia desperto de um sonho. arqueou a sobrancelha e cruzou os braços.
— Aconteceu algo? Você tem problemas de autoestima? Olha, eu entendo, é completamente normal, e se você for pequeno nós podemos—
— Quê? Não é nada disso — negou com o cenho franzido. Colocou novamente a segunda pele e suspirou. — Eu apenas não acho que seja uma escolha sábia. — estava completamente estupefata.
A sensação de humilhação subiu por seu peito praticamente exposto. Alcançou o moletom e o colocou de qualquer jeito sobre o tronco.
— Sábia? Por que você não pensou nisso antes de eu tirar a merda da minha roupa, ?!
— Porque eu não estava pensando direito, — argumentou e colocou o restante do uniforme. encarou os músculos de desaparecerem quando ele se vestiu novamente, então encarou o teto.
— Eu me coloco em cada situação... Já deveria ter imaginado que algo assim aconteceria. — Amaldiçoou. — Que ódio! — exclamou em coreano e percebeu o olhar confuso de .
— Você está me xingando em outro idioma?
— É o mínimo que você merece depois disso tudo, . — Cerrou os punhos.
— Sinto muito, , eu—
— Não, — cortou o homem com um gesto da mão. — Você não é o primeiro nem o último a agir dessa maneira. Por favor, vá embora. Até semana que vem. — sentiu a hesitação no corpo dele, parecia querer dizer algo, mas desistiu em seguida. Ele caminhou até a porta e colocou os sapatos na entrada. Não havia chance de alguém entrar usando sapatos em sua casa.
— Até semana que vem, — despediu-se com um aceno e foi até a calçada, em direção ao carro estacionado. fechou a porta atrás de si, o cansaço pesando em sua mente junto com a excitação que ainda deixava rastros físicos em seu corpo.
havia mudado de expressão de repente. Encostara a mão dele na cicatriz enorme que estava alojada na lateral do corpo de .
Ela sentiu as lágrimas subirem aos olhos ao lembrar de outra situação em que um homem sentiu nojo de sua cicatriz e deu uma desculpa esfarrapada para não a beijar novamente. Fungou mais uma vez e balançou a cabeça. seria tão fútil àquele ponto? Ele próprio era cheio de cicatrizes, como ela percebera. Pequenos cortes aqui e acolá, alguns no peito, outros nos ombros. Desejou desesperadamente ver as costas dele, traçar cada uma das cicatrizes e talvez criar algumas temporárias. Fechou os olhos com força.
— Ele pode simplesmente ter perdido o tesão em mim — admitiu para si mesma e suspirou, as mãos levadas à têmpora dolorida. — Olha só, estou criando teorias assombrosas de novo e agindo como uma paranoica. E agora estou falando sozinha. Ótimo.
pegou o restante de comida indiana e sentou-se no sofá, os olhos vidrados na série de televisão que tentava assistir para se distrair dos possíveis motivos para a fuga repentina de , mas chegou à conclusão de que não deveria remoer aquilo tudo.
Um homem que havia conhecido há pouco mais de duas semanas não deveria estar em seu pensamento. Ela sabia que não. Ela não merecia ficar com alguém que não sabia o que queria. Mas aquilo não havia tornado a rejeição menos irritante naquele momento.


Capítulo 7

A semana passou rapidamente. lera tantos artigos diferentes que, em certo ponto, começara a imaginar poetas gregos pelados em sua cozinha enquanto preparava seu café da manhã.
— É melhor que meu salário valha essas loucuras — murmurou ao imaginar Platão e Aristóteles jogando beerpong em uma festa. Imaginou que Platão acabaria com Aristóteles facilmente e que Ari — sim, ele possuía apelido — seria o primeiro a ficar bêbado e desmaiar.
— Sexta-feira, ! — Genevive apareceu com um sorriso gigante no rosto. — Quais os planos para hoje? Amanhã já é início de fevereiro, praticamente um mês até o início das aulas. Está animada?
— Sim! — exclamou com um sorriso enorme. Realmente estava.
já havia enviado e-mails aos alunos avisando sobre alguns conteúdos que seriam abordados ao longo do semestre. Enviara o cronograma de avaliações, as leituras obrigatórias e as optativas. Todos os slides estavam prontos (passara a semana inteira trabalhando neles), as provas também, assim como os trabalhos avaliativos. A professora estava nervosa com relação aos alunos. Seria a primeira vez que lecionaria a alunos do ensino superior, havia apenas dado aula de latim e grego para crianças e um ano de aula no ensino médio e odiado cada segundo com os adolescentes.
— Os planos, quais são? — questionou a francesa ao sentar-se ao lado da amiga na mesa da sala abafada dos professores.
O campus de Oxford era enorme, se perdia constantemente enquanto passava pelos corredores e pela grama fria. Alguns alunos que participavam dos times de esportes já ocupavam os gramados de treino, havia certa gritaria próxima à sala em que estavam. Muitos cursos começam em janeiro, mas alguns de artes e design começariam em março, como o que ela lecionaria.
— Vou passar a noite comendo comida coreana e assistindo novelas italianas com minha irmã.
Genevive sorriu agradavelmente para .
— Parece divertido — comentou enquanto tomava seu iogurte.
— Como você não está tremendo de frio? — aprumou-se em seu sobretudo e torceu o nariz para a amiga.
— Sei que vocês, americanos, estão acostumados com calor de trinta e sete graus, afinal de contas, o aquecimento global tem dado um soco em vocês, mas aqui na Europa o frio é infinitamente mais comum.
— E mais agressivo — resmungou , fungando mais uma vez. — O verão de vocês é praticamente uma piada.
— O inverno de vocês também.
— Mas aqui praticamente não neva!
— E desde quando neve é algo positivo? — Genevive levantou a voz com um sorriso provocador. reconheceu sua derrota e deu de ombros. Não era uma pessoa orgulhosa, na maioria das vezes. — Você sente falta dos Estados Unidos?
— Às vezes. Eu nasci lá, mas não é exatamente meu país. Já morei em muitos lugares diferentes e só passei dez anos da minha vida por ali. — Genevive assentiu em compreensão. Por um instante, seu olhar oscilou para a janela gigante do lado de fora, voltando a focar em .
—E quanto ao homem com que você saiu?
— Quê? Homem, que homem?
— O capitão gostoso, você o chamou assim.
tomou um gole de sua bebida para ganhar tempo, mas não conseguiu se desviar dos olhares provocativos da mulher de pele negra, que apenas revirou os olhos e apoiou o queixo sobre a mão direita, batucando a bochecha com as unhas.
— Ah, chamei? Não me lembro. — Genevive riu e balançou os cabelos crespos.
— Você não falou mais sobre ele. Aconteceu algo?
— Só o básico. Homens.
— Ele tinha namorada ou noiva? — negou, mas a ideia ainda passava pela sua mente. Essa teoria explicaria muita coisa.
— Não que eu saiba.
— Vocês ainda vão se ver?
— Temo que sim. — Genevive pareceu confusa. — Ainda falta resolver toda a questão do processo.
não estava mentindo, mas aquela confusão parecia ter acontecido há milhares de dias. Seu foco estava unicamente em Behruz Yasser. Checava seu celular de cinco em cinco minutos para ver se ele faria contato novamente.
— Ainda odeio muito aquele sargento — rosnou e jogou seu iogurte no lixo. — Ah, fico feliz que não esteja mais dolorida.
O corpo de ainda estava absorvendo o impacto das aulas de luta que começara a fazer na academia perto de casa. Alternava com a musculação habitual e as aulas de muay thai. Estava destruída. estava certo, não se sentia tão forte quanto achava ser fazendo apenas musculação e aeróbico.
e Genevive permaneceram conversando até o horário de saída das duas. Andaram rindo até o estacionamento.
até que estava gostando de Oxford, apesar de todos os apesares e do clima absurdamente diferente da Coreia, parecia ser um lugar meio termo entre sua pátria, a pátria de seus pais e a sensação de pertencimento.
Ela tentou controlar o pensamento fugitivo de que poderia facilmente ser alguém que gostaria de ter junto durante a sua estadia, para que lhe mostrasse os lugares mais divertidos e os melhores programas.
Mas, como sempre, mostrava ter o dedo mais podre do universo quando se tratava dos homens por quem tinha um abismo.
Sua fama era muito mais do que conhecida entre suas amigas: homens indisponíveis, babacas, ou que pareciam ser amores e perfeitos, mas isso até descobrir que eram noivos. Um deles tentou assaltar , que o ameaçou com uma faca gigante da cozinha. Até hoje ela carregava a marca por tentar reagir àquilo. O mero pensamento fez com que um arrepio cruzasse sua espinha, tornando o frio europeu uma mera lembrança incômoda se comparado ao que sentia naquele momento.
Memórias podem ser locais perigosos da mente humana, especialmente quando não se espera que elas apareçam.
— O capitão gostoso — Genevive parou no meio da rua e balbuciou algumas palavras em um sotaque extremamente francês. se virou atordoada na direção do olhar da amiga, cerrando os olhos ao encontrar o alvo.
— O que ele está fazendo aqui? — questionou em choque ao vê-lo parado contra uma árvore. Estava mexendo no celular despreocupadamente. Os ombros permaneciam eretos, mas havia um sorriso em seu rosto. — A teoria da namorada não me parece tão absurda, não é? — comentou de lado para a amiga, bufando em seguida. — Te vejo na segunda, Gen.
caminhou entre os buracos lamacentos, temendo pela bota nova que havia comprado naquela semana. Precisava receber seus alunos com todo o glamour de uma professora iniciante, mas não desqualificada.
Ao chegar mais perto, observou o rosto de levantar-se até encontrar o dela.
— Por que está aqui?
Foi a primeira coisa que perguntou ao finalmente atingir o asfalto, cruzando os braços sobre o peito em uma tentativa de se proteger de , ou do próximo fora que ele a daria.
— Nossa aula.
O capitão guardou o celular no bolso do sobretudo e umedeceu os lábios. Os olhos castanhos fixos nos da professora.
— Mas é só amanhã.
— No nosso contrato está às sextas. — Ele arqueou a sobrancelha e abriu a mochila aos seus pés, tirou um maço de papéis dali cobertos por uma pasta transparente. — Você precisa assinar o termo, revisar tudo o que está aí. Se quiser um advogado, pode chamar.
— Até quando posso assinar?
— Hoje.
— Vocês são ardilosos. — cantarolou enquanto folheava as páginas cheias de números e termos de compromisso.
Já olhara por cima um termo de vida. A Marinha não se responsabilizaria caso ela morresse prestando serviços à Coroa, mas enviaria um aviso aos pais dela e entregaria o corpo, caso fosse encontrado. Engoliu em seco e desistiu de olhar os documentos.
— É padrão de segurança — justificou com o cenho franzido. Uma pequena fumaça saiu por seus lábios, preenchendo a visão de .
— É, bem robótico — ela murmurou a contragosto. — Bom, você veio de carro?
— Sim. — Apontou para um carro preto à distância.
— Você trouxe mais gente? — arqueou a sobrancelha e expressou surpresa ao ver duas pessoas sentadas nos bancos do carro de . — São a sua tropa?
Seu estômago embrulhou imediatamente ao lembrar de sargento Wilson. seguiu seu olhar e assentiu, passando a mão em sua bochecha, provavelmente procurando uma barba que não estava ali.
— Eles vão ajudar. Além do mais — ele confidenciou com um sorriso —, eles queriam sair de Londres. Leo queria ir ao Eagle and Child Pub, conhece? Ele disse que queria se sentir como Tolkien. — não evitou a risada.
— Eu já fui, é incrível. E também fiquei imaginando uma reunião de Tolkien e C. S. Lewis ali, foi deslumbrante.
— Deslumbrante? — arqueou a sobrancelha ao passo que cruzou os braços.
— Está julgando meu vocabulário?
— Você pareceu um britânico falando. Foi adorável. — riu e tirou o cabelo dos olhos.
— Chamar alguém de adorável por usar “deslumbrante” é algo totalmente novo para mim, mas obrigada.
Por um instante, esquecera do que havia acontecido em sua casa enquanto andavam em direção ao carro. Resolveu deixar aquilo de lado. claramente mostrou que não queria nada, e ela não o forçaria.
E se ele tentasse algo? estava pronta para dar o xeque-mate. Ela sabia o que queria. Se ele não sabia, problema o dele.
Ao se aproximarem do carro, Andrew foi o primeiro a acenar com um sorriso largo. Leo estava argumentando fortemente com ele antes de virar de costas e observá-los se aproximando. Apenas sorriu e abriu a porta do carro.
— Olá, srta. — cumprimentou com a mão estendida. esticou a mão e sorriu enquanto o cumprimentava de volta. Leo era adorável e possuía os olhos verdes mais lindos que ela já vira.
— Olá! — Andrew deu a volta no carro e sorriu largamente ao vê-la. — Estou encantado em conhecê-la sem restrições governamentais. — estendeu a mão, ao passo que Andrew se inclinou para levá-la aos lábios. Ela se assustou com o gesto, um sorriso sincero surgindo em seu rosto. — Um prazer! — Voltou a sorrir, o que fez Leo revirar os olhos.
— Você é um puxa-saco — resmungou o colega.
— Vamos? — indicou o carro com a cabeça, ignorando as farpas trocadas entre os dois homens com capacidade para imobilizar dez homens sozinhos, mas que discutiam sobre as cordialidades culturais britânicas.
— Vou pegar meu carro e encontro vocês na minha casa. — apontou para seu próprio carro. assentiu e pediu que ela mandasse as coordenadas para ele.
Ao entrar no carro, pensou sobre o que faria para o jantar. Pensou também em como Andrew parecia mais velho que e sobre como Leo era sério, mas extremamente charmoso.
Tentou manter-se longe da noite de sábado passado, mas foi sacaneada, mais uma vez, por si mesma e se pegou lembrando dos lábios de , do toque dele e da firmeza com que ele havia segurado sua cintura contra o corpo dele, as pontas dos dedos praticamente fumegando contra a pele gelada. Balançou a cabeça e aumentou o volume do rádio até chegar em casa.
— Como começamos nossa primeira aula? — questionou ao entrarem em sua residência. Eram homens com mais de um metro e oitenta que poderiam derrubar um tanque, usando uniforme completo, mas apenas de meias vermelhas com estampas engraçadas. segurou o riso ao ver as meias do Bob Esponja de Leo.
— Elas são confortáveis — ele se defendeu quando ela o encarou de cima abaixo.
— Eu posso imaginar. — Sorriu e apontou para sua própria meia da Hermione. Leo abriu um sorriso tímido. — Então, vocês querem comer algo? Tomar alguma coisa? Eu não imaginava que vocês viriam hoje, então peço perdão pela bagunça.
— Bagunça? — Andrew desdenhou com a mão e riu. — Você vai surtar se vir meu apartamento.
— Nossa, você e seu marido são bagunçados demais — Leo comentou com o cenho franzido.
— Nós somos espíritos livres.
— Não, vocês são bagunçados — interferiu, rindo. se pegou vidrada no som daquela risada, como se todo seu corpo respondesse a ele. — Eu aceito um copo d’água, .
A professora andou até a cozinha e colocou copos d’água em uma bandeja. Levou até os soldados e sentiu uma sensação estranhamente cômoda ao vê-los parados ao seu redor. Nunca havia se sentido confortável próxima a soldados ou policiais por diversos motivos, mas eles lhe passavam uma segurança que ela não se lembrava de sentir quando cercada por figuras de autoridade. Talvez eles não fossem tão amedrontadores.
— Você já a ensinou a como quebrar a perna de alguém? — Leo perguntou seriamente.
Ok, talvez eles fossem sim amedrontadores.
— Não. — virou-se para encará-la. — Não acho que possamos ensinar isso a ela.
— Ei, qual o problema? — abriu os braços, mostrando seus bíceps. — Poderia ser muito útil! E se alguém tentar me matar? Quebrar a perna retardaria a corrida e eu poderia fugir. Se o assassino tiver as duas pernas funcionando, as chances de eu morrer são maiores.
— Se ele tiver uma arma, talvez quebrar o braço seja mais útil, não? — revidou com a sobrancelha arqueada.
— Não tenho restrições. Quebrar o braço e a perna seria o pacote completo. — Deu de ombros e Andrew concordou.
— Vamos começar com o básico por enquanto. — encerrou a discussão sobre braços quebrados e tirou o casaco, pegando os dos outros oficiais e levando até o hall de entrada. — Começou as aulas de luta na academia?
— Sim, todos os dias durante a semana.
— Ótimo. — Pareceu pensar por alguns segundos e encarou os dois sargentos. — Mostrem as quatro imobilizações básicas e depois ela treina comigo.
Durante as duas horas seguintes, foi esmagada, imobilizada, sentiu as costas doerem, quase foi sufocada (havia errado um movimento) e finalmente conseguiu fazer Leo bater a mão contra seu braço, pedindo uma trégua. Ela sorriu e comemorou com pulos de felicidade quando o sargento afirmou que poderia tê-lo enforcado de verdade se quisesse. Ela sabia que ele estava sendo gentil, mas ainda estava feliz.
— Você está bem? — Andrew questionou quando terminou de lutar com ela por trinta segundos. respirava com dificuldade.
— Eu estou. Só me deixe ficar aqui até amanhã. — Tossiu e pôs a mão sobre o peito, controlando a pulsação no peito e o chiado em seu ouvido.
— Vamos repassar uma última vez — ele incentivou e a puxou para cima rapidamente, voltando a treinar.
seguiu os movimentos, e parte dela foi pelo instinto. A mão esquerda cruzou pela lateral do pescoço de Andrew e o puxou para perto com o cotovelo ao mesmo tempo que o joelho se dirigia para a barriga dele. O movimento não o pegou de surpresa, mas ele sorriu quando ela conseguiu se defender do golpe, uma tentativa de chave de braço. Ela não sabia quanto tempo passaram naquele processo, mas ao terminarem, sorria muito mais do que arfava.
— Isso é incrível — exclamou com um sorriso escancarado, sentindo os batimentos cardíacos em sua cabeça. O rabo de cavalo estava frouxo e ela pingava de suor, mas sentia-se mais animada do que quando haviam começado.
— Pois é, não é? Níveis moderados de adrenalina em constância podem te ajudar em um momento de confronto real — Leo comentou, encarando-os a partir do braço do sofá. estava do lado de fora fazendo uma ligação. Já passava das sete da noite.
— Eu vou lembrar disso caso seja necessário? Digo, em uma situação de adrenalina? — questionou, alternando entre goles de água, então passou o paninho rosa sobre o rosto para limpar o suor.
— Pode ser que sim, pode ser que não — Leo respondeu com sinceridade. — Mas se você repete os movimentos, cria uma memória muscular que vem sem que perceba. Além do mais, muito movimentos de luta são instintivos, você só precisa aprender alguns macetes para guiá-los. — assentiu. O cansaço começava a pesar sobre seus ombros.
— Vocês vão ao Eagle and Child? — Ela observou os dois sargentos se encararem.
— Pretendemos. Mas o capitão está lá fora há um bom tempo. Pode ser que algo sério esteja acontecendo e precisemos voltar para Londres. — Andrew se sentou no chão e cruzou as pernas. Os dois estavam somente com as calças da marinha e usavam segundas peles pretas. Combinavam perfeitamente com o tom de pele natural deles, apesar de Leo ser negro e Andrew ser branco e pálido.
— Hm, entendo. — Ela assentiu. — Posso fazer uma pergunta a vocês?
— Manda. — Andrew sorriu.
— Capitão contou alguma coisa sobre nós dois e...
— Sobre vocês não namorarem de verdade? — Leo questionou com a sobrancelha arqueada. assentiu, a vergonha subindo por seu corpo novamente. — Contou, mas não especificou exatamente o que aconteceu. Disse que cabia a você explicar.
— Hm, foi um mal-entendido, na verdade — ela começou, as mãos dentro dos bolsos da calça de moletom para esconder o nervosismo. Odiava estar em situações desastrosas. Não costumava ser desastrada, mentirosa, mas os últimos dias haviam mostrado um novo lado dela. — Eu não sei se deveria dizer a vocês, o sargento Wilson pode achar ruim e—
— Sargento Wilson é um membro honorário da companhia — Leo interrompeu. — Ele é da base administrativa em Londres. Nossa base não fica na capital, na realidade. Ela é localizada em Portsmouth. É próximo a Southampton, conhece? — negou.
— Ele é um pé no saco e só está conosco porque o pai dele está tentando uma transferência dele para Portsmouth. — Andrew disparou com um sorriso provocador. — E nosso trabalho é adaptá-lo ao ambiente. Ele já sofreu uma denúncia, creio que isso seja o suficiente para que sua transferência seja negada — sorriu e espreguiçou-se —, uma pena, de fato.
riu de sua postura irônica. Ele voltou a ficar sério e a encarou, continuando:
— Sentimos muito pelo que aconteceu no pub. De verdade, queríamos fazer algo na hora, mas não é tão fácil.
— É por que ele é o filho do chefe? — perguntou, a voz mais raivosa do que esperava. — Que merda. E por que estão em Londres se é tão longe da base de vocês? — Um lampejo de indiferença cruzou os olhos de Leo com uma rapidez que não imaginava ser possível.
— Não podemos comentar, infelizmente — ele respondeu. Já deveria estar acostumado a responder aquilo. percebera que eles pareciam ter um modo de operação diferente dependendo da pergunta ou situação.
— Claro, claro. — tentou não parecer curiosa demais, mas estava. Será que haviam ido ali apenas pela questão com Behruz? Algo mais estava acontecendo? — Posso perguntar até quando vão ficar?
— Isso não foi decidido ainda — Andrew respondeu dessa vez, os olhos repreensivos para Leo. — Mas por enquanto estamos ajudando o capitão com seu treino e cuidamos também do assunto de Behruz, como você sabe.
— Hm... Vocês sabiam acerca do que se tratava antes de irem à reunião? — Leo empertigou-se no sofá, parecia desconfortável com o rumo da conversa.
— Não — admitiu, porém sorriu em seguida. realmente gostara do sorriso dele. — Mas faz parte do nosso trabalho não precisar saber de muita coisa.
— Isso não irrita vocês? — questionou com a sobrancelha arqueada. Agora que havia parado de suar, estava ficando com muito frio. — Ficar no escuro, sem saber o que está acontecendo?
— Acho que nos acostumamos. — Andrew apoiou o queixo nos joelhos. — Grande parte de trabalhar em algo como a Marinha é saber que nem sempre teremos noção do que está acontecendo. Apenas obedecemos.
— Vocês obedecem cegamente às ordens?
— Não cegamente, mas não é como se tivéssemos escolha — Andrew tomou um tom cauteloso. Ele parecia ter voltado ao modo soldado. não pôde deixar de perceber como ambos estavam novamente sérios e mais próximos um do outro. Será que percebiam que se aproximavam como uma barreira quando alguém começava a questioná-los acerca de sua profissão?
— E o capitão é da mesma maneira?
Parte de torcia para que não, mas uma grande parte sua sabia que ele também era subordinado de alguém. Subordinado do pai do sargento Wilson, por exemplo. Ele também respondia a uma hierarquia.
— Capitão tem autonomia para discutir, às vezes — Leo o defendeu —, por isso não precisamos revidar as ordens. Ele geralmente é a barreira antes de chegar em nós. E confiamos em nosso capitão. Não há outra opção senão confiar.
— Por quê?
— Porque se não confiamos uns nos outros para decisões pequenas, como podemos confiar enquanto estamos dentro de um cenário de guerra? O ponto é o seguinte: uma equipe não é feita de pessoas parecidas, mas de pessoas que podem dar a vida umas pelas outras, sabendo que estão sendo protegidas ao mesmo tempo. Por isso é tão importante confiarmos no capitão.
não escondeu o deleite ao vê-los falando mais. Leo tinha jeito com as palavras, ela percebera. Apenas escolhia não as usar com tanta frequência.
— Já que o capitão ainda está lá fora, se incomodam se eu for tomar um banho? Ah, se quiserem tomar também, fiquem à vontade — ofereceu, mas ambos negaram.
subiu correndo as escadas e tomou um banho rápido, trançou os cabelos em uma trança embutida rapidamente e desceu as escadas. Quando voltou, estava sentado junto aos seus colegas no sofá.
— Já vão? — perguntou esbaforida ao vê-los novamente com suas fardas. Uma sensação de tristeza pesou sobre seu peito. Havia gostado da presença deles.
— Conseguimos o dia de folga amanhã. — sorriu ao encará-la. — Vamos ao Eagle and Child hoje e voltamos mais tarde para Londres. — O capitão encarou o chão antes de voltar seu olhar para ela. — Gostaria de ir conosco?
— Claro! As cervejas são por minha conta! — Andrew comemorou.
olhou para e colocou alguns fios de cabelo fujões atrás da orelha. Ele sorriu para ela e piscou. Diabo de homem gostoso.
*
— Ok, mas como você traduziria gírias na língua orc? — divagou. Andrew franziu o cenho e Leo espalmou as mãos sobre a mesa.
— Transliteração, obviamente.
— Orcs não sabem falar em gíria! — revidou a mulher com uma careta.
— Sabem sim — argumentou. — Você é linguista e não acredita em gírias orc? Só porque são monstros, não é? Eu chamaria isso de preconceito. — Bebericou seu café e arqueou a sobrancelha.
— Você está dizendo que eu estou fazendo preconceito linguístico contra criaturas fictícias criadas por um britânico?
— Suas palavras. — sorriu e acenou para o garçom. — Outra rodada de cerveja para eles e mais um expresso para mim, por favor.
— Uau, você realmente está se aproveitando da minha bondade — exclamou ao observar sua comanda ser levada pelo garçom. Já era a terceira rodada. Andrew estava vermelho e Leo sorria bobamente. sequer se lembrava de tê-lo visto sorrir alguma outra vez sem ser para fazer piadas sobre Andrew.
— Você deveria saber que soldados bebem muito. — Leo apontou o dedo para ela.
— Sim, vemos todo o tipo de horror. — Andrew embarcou na onda.
— Duvido que vocês já tenham visto um horror como um orc devorando um hobbit... — Leo fez uma careta e apoiou seu copo sobre a mesa, fitando com curiosidade.
— E você já viu?
— Claro.
— Onde?
— Nos meus livros.
Leo bufou e se apoiou contra o encosto do banco. riu e cruzou os braços, encarando com curiosidade.
Ela era fácil de ler, pelo menos parecia ser. E gostava de pensar isso. não seguia a mesma lógica. Ele a fitou com interesse súbito desde o primeiro momento em que a viu, chorando no asfalto gelado.
A beleza era, no mínimo, de tirar seu fôlego. Ele não diria exótica, porque é algo que ouvira durante toda a sua vida, mas não era como se fosse achada em cada olhar nas ruas. Não. Os olhos mais puxados, os lábios grossos, as sobrancelhas cheias e a pele escura eram só alguns dos traços mais lindos dela.
O que o deixava totalmente sem reação era o quão direta aquele diabo em forma de mulher era.
, que era acostumado a ser a pessoa direta em todas as interações sociais, havia se surpreendido com o quanto a professora era decidida. Não hesitou ao beijá-lo, ao ameaçá-lo no polígrafo, ao perceber que fora encurralada quando descobriu que ele também falava farsi.
Nada parecia surpreendê-la por mais de cinco segundos, tudo ao seu redor era novidade por menos tempo do que para ele.
E a prova exata era a de que ainda tentava digerir a novidade que era em sua mente. Parecia uma invasão desgostosa de início, mas agora ele simplesmente não sabia o que fazer. Ao fechar os olhos, se lembrava das janelas embaçadas do carro, quando um gemido da parte dela fez com que seu corpo inteiro se acendesse. Quando treinava com seus subordinados, o gosto da boca de sobre a sua, montada em seu colo enquanto se entregava inteiramente a ele, tudo aquilo rugia em seus ouvidos mais alto do que os batimentos de seu coração após uma hora seguida de cardio.
E enquanto ela sorria para sua tropa, passava a ponta das unhas sobre os lábios e gargalhava das palhaçadas de Leo, se questionou por que diabos ela precisava estar enfurnada em sua vida como uma peça investigativa.
— Você está quieto, , por acaso o gato comeu sua língua? — provocou, tirando a atenção do capitão de suas batatas intocadas diante de si.
— Eu só prefiro falar quando for conveniente. — Deu de ombros e tomou um gole grande de sua bebida, voltando seu olhar para a professora.
— Estamos falando sobre técnicas de posição de luta, isso não é conveniente? — continuou a provocação, arqueando a sobrancelha.
— Caramba, liberaram a mesa de sinuca! — Leo apontou e cutucou Andrew com o cotovelo. Os dois praticamente voaram por cima do corpo de para tomarem a mesa antes que duas moças ruivas alcançassem o local primeiro.
É, cavalheirismo não existe no exército.
observou com um sorriso pequeno quando as duas moças e os sargentos se dividiram em duplas e começaram a jogar.
Apenas o som das risadas e da música ambiente preenchiam o espaço entre e . Ela batucou com as unhas longas sobre a madeira, virando-se para encará-lo em seguida.
— É tão difícil quanto parece responder a ordens de superiores sem poder dizer que não?
virou-se para após sua pergunta, não esperando aquilo da parte dela. Deu de ombros e virou seu tronco para a professora, fitando-a diretamente.
— É... irritante. Assim como em qualquer emprego, eu acho.
— Mas “em qualquer emprego” — empregou aspas no ar enquanto falava — nós não envolvemos a vida de outras pessoas tão diretamente, muito menos a segurança de um país.
— Quando você fala assim, faz parecer que eu sou um tipo de presidente. — sorriu, o que fez morder o lábio para evitar que um sorriso surgisse em seu próprio rosto.
Ele não podia se dar ao luxo de confundi-la, não após o choque no olhar dela quando ele a negou. Apesar de saber ter perdido seu autocontrole ao beijá-la, ainda era capitão, e fazia parte de uma investigação muito séria, mesmo que não soubesse disso com tanta profundidade.
Seria apenas mais complicado caso ele fosse em frente com aquilo.
Trabalhar com órgãos governamentais sempre foi algo para a vida toda. É necessário estar à disposição o tempo todo, pronto para largar tudo e mudar de vida de uma hora para outra, o que tornava toda a situação de namoro, flerte, algo muito mais complicado.
Claro, havia casos ali e acolá, mas nada que tirasse sua noite ou fizesse acordar de madrugada após um sonho nada puritano envolvendo a boca de em seu ombro enquanto ele se afundava nela, apenas para voltar e fazer tudo de novo.
Um arrepio lento e mortal cruzou sua espinha, e acompanhou sua mudança de olhar.
— Está tudo bem?
Se ela soubesse por um instante que fosse o que se passava na cabeça de , estaria com as bochechas rubras.
Ou não, parecia não se incomodar com nada disso.
— Vou parar de beber, claramente aqueles bobões vão fazer um estrago. — apontou com o gargalo da garrafa para Leo e Andrew. Leo parecia aos poucos aceitar as investidas de uma das ruivas, ao passo que Andrew e sua companheira faziam um high five após acertar uma bola.
— Deixe que eles se divirtam, você também precisa, obviamente.
era professora, e sabia que ser mandona era um traço característico seu tão primitivo quanto andar. empertigou-se na cadeira ao perceber como havia gostado de seu tom direto.
— E como eu posso me divertir?
Era inevitável que o flerte saísse. arqueou a sobrancelha, controlando cada célula de seu corpo para não ceder a ele, aos olhos em sua direção, aos músculos do braço, à calça apertada... Por um instante, ela se sentiu compilada a esfregar as pernas uma na outra.
— Você pode ir comigo jogar sinuca, vou acabar com a sua vida.
saiu da mesa, puxando junta. O contato entre os dois fez com que ele se demorasse um pouco mais na base da coluna dela, os dedos pinicando sem poder tocá-la com mais intensidade.
— E aí, estão acabando a partida? — interrompeu a partida, observando o placar indicado no ábaco ao lado da mesa. — Olá, prazer, eu sou a !
As duas mulheres acenaram sorridentes para .
— Na verdade, eu e o Leozinho aqui estávamos dando o fora, tem problema? — A ruiva número 1 passou a mão pela cintura de Leo, que apenas arqueou a sobrancelha, mas não se afastou.
Leozinho?
encarou o subordinado com a sobrancelha arqueada, indicando que aquilo seria motivo de piada pelos próximos dias, talvez meses.
— Se divirtam! E tomem cuidado! — exclamou quando os dois saíram de sua visão.
Andrew segurava a gargalhada, trocando olhares com o capitão de maneira bem humorada. pegou o taco em mãos e sorriu para .
— Vamos deixar isso divertido? Mulheres contra homens, que tal? E o perdedor precisa comprar algo do bar para os vencedores.
Andrew aceitou facilmente, passando a mão livre pelos cabelos rasos.
— Topo fácil, e você, capitão?
— Claro, tudo para ver a carteira da ir para os ares — provocou, recebendo risadas prolongadas da Ruiva 2 e de Andrew, que zerou os pontos da partida.
— Qual é o seu nome? — se voltou para a Ruiva 2, não poderia continuar chamando a mulher daquele jeito durante toda a noite.
— Pode me chamar de Benna, e você deve ser a , não é? — A iraniana assentiu e se colocou ao lado da colega de equipe, fitando os dois homens diante de si com um sorriso presunçoso.
— Vamos deixar vocês começarem, vão perder de qualquer jeito — decretou, fazendo sinal de desdém para eles.
Ela quis fingir que não, mas uma centelha de desafio pesou nos olhos de , e uma que não envolvia sinuca. Os pelos de sua nuca se arrepiaram, novamente ela sentiu vontade de levá-lo para casa e fazer da cara daquele homem diante de si de cadeira.
Para controlar o desconforto, trocou o peso das pernas, seguindo com os olhos afiados enquanto ele calmamente arrumava as bolas sobre a mesa. Os segundos desaceleraram enquanto ele arrumava o taco, os músculos flexionaram e relaxaram antes de atingir as bolas, encaçapando duas no processo.
Andrew comemorou, Benna riu, meio alta pela bebida.
— Você joga bem... — ela comentou, um interesse ligeiro permaneceu em sua voz.
se aproximou da bola branca, encaçapou mais uma e abriu um sorriso largo para , dando de ombros.
— Você deveria ter começado.
Ela se deliciou com a provocação, e escondeu um sorriso triunfante quando ele errou a próxima jogada. Benna jogou e errou. Assim como Andrew, que realmente não estava se importando com o jogo. Ele e sua rival começaram a conversar sobre como cuidar de gatos em apartamentos é cansativo. Mas manteve sua atenção em , não tirando os olhos dos dele enquanto se dirigia à bola branca, que estava parada ao lado dele.
suspirou e deitou a cabeça para o lado, encarando com os olhos manhosos.
— Eu deveria ter começado, você é realmente muito melhor do que eu... — ela começou, praticamente ronronando ao lado dele. arqueou a sobrancelha e apoiou o braço sobre a ponta do taco, sorrindo para , sem cair por um segundo em seu teatro indefeso.
— Eu tenho certeza de que você vai encaçapar uma bola nessa jogada.
Ela deu de ombros e se posicionou, empinando um pouco mais a bunda de propósito. Se a havia negado, não foi por falta de desejo, aquilo era óbvio para ela, então o faria ceder enquanto ele demonstrasse interesse, apenas para que o visse implorar para poder segurar seus cabelos entre os dedos.
Seus olhos brilharam com vitória escancarada ao conseguir encaçapar três bolas.
O único sinal de resignação de veio com uma bufada pequena e um sorriso de canto.
— Caramba, você é boa! Pode jogar por nós duas! — Benna riu, pendendo com a cabeça para trás.
— Eu prefiro jogar em dupla, é mais divertido. Trabalho em equipe e essas coisas — retrucou e piscou na direção da ruiva. Ela se moveu para perto da bola branca, do lado oposto de onde estava a encarando. Ele permaneceu quieto como uma estátua enquanto ela mirava o taco, observando o quanto ele estava em sua mira. E, ao atingir a bola na caçapa, abriu um sorriso mordaz ao se levantar preguiçosamente, encarando o capitão.
Nenhum dos dois se mexeu por alguns instantes, em um jogo de quem cederia primeiro.
se viu forçada a isso quando seu celular vibrou no bolso do casaco. Desviou o olhar apenas para encarar a tela, seu estômago embrulhou ao fazê-lo. cedeu também, inclinando a cabeça para ela.
— Behruz. O Behruz está me ligando.





Continua...



Nota da autora: OLÁ, PESSOAL! Esse capítulo ficou GIGANTE! Espero que tenham gostado dele
Amerish ficou em #1 de fanfics vip mais lidas do FFOBS, e tudo isso é por causa de vocês. Muito obrigada, de verdade, vocês são incríveis e maravilhosos. PERFEITOS!
Até semana que vem, pessoal!

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Espero você lá.



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Continua...



Nota da autora: Olá, meus amores! Demorei pra voltar com a fic, peço perdão por isso. Agora que finalizei Engaged (corre lá pra ler!), posso me dedicar a esse bebê aqui.
O que acham dessa relação entre os dois? Complicada, né?
Beijos e até a próxima!




Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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