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Última atualização: 04/10/2020

Capítulo 1

- Você quer dizer que a seleção da Inglaterra é melhor que a francesa? – Gail indagou com olhos arregalados em um sotaque francês carregado. deu de ombros e disse:
- Acho, mas a seleção inglesa é arrogante demais. – Sussurrou a última parte, confidenciando para as quatro colegas dentro de um pub cheio de ingleses patriotas. A mulher tomou mais um gole de sua água com gás e jogou os cabelos cacheados para o lado. Os olhos estavam divididos entre o telão montado apressadamente no meio do pub ao ar livre e a mesa com as colegas de profissão.
- Ei, vocês viram ali atrás? – Genevive chamou a atenção das colegas para uma mesa ao lado esquerdo de onde estavam. seguiu o olhar da amiga até uma mesa cheia de homens com postura rígida e firme.
- São policiais? – Questionou Gail.
- Hm, não. Acho que são do Exército Real. – Comentou enquanto tomava outro gole da água. Balançou o corpo devido ao frio de janeiro.
Dois dias antes, quando ainda estava em Oxford, havia tido sua primeira reunião com o Departamento de Estudos Clássicos e Vernáculos da Universidade de Oxford, seu novo local de trabalho. Havia sido chamada para lecionar como professora temporária até que achassem um substituto para o cargo do antigo professor de Estudos da Literatura Grega Helenística. Estava na Europa há duas semanas, mas ainda não sabia bem como se portar sem parecer uma estrangeira, majoritariamente porque, bem, é estrangeira. A sensação de ser alguém sem pátria já a acompanhava há muito tempo, então simplesmente não se importava mais com os olhares estranhos que recebia por ser mestiça. A mãe negra e iraniana a havia dado todos os traços, menos os olhos, que puxaram ao pai, um coreano de cinquenta anos que lhe dera o que denunciava totalmente a mistura mais bela que poderia existir, de acordo com a mãe de .
- Como você sabe como são as pessoas do Exército Real? – Gail recostou sobre a cadeira e cruzou as pernas.
- Não são detetives, não teriam uma postura tão rígida. E aquele ali, o mais alto, ele parece ser o superior, já que está no canto da mesa e quando ele fala, os outros abaixam um pouco a cabeça, mas quando algum dos outros fala, o da ponta não abaixa a cabeça e nenhum dos outros também. – deu de ombros com os olhares chocados das colegas.
- Como você sabe de tudo isso só por olhar?
- Convivência. – Murmurou e tratou de mudar o assunto para algo que professores de idiomas clássicos e vernáculos amavam - Vocês viram a nova tese do professor de Harvard sobre os achados de Safo?
A partir dali todas entraram em um diálogo acirrado sobre os novos achados sáficos (um total desperdício, na opinião de Gail, já que não foram achados no mesmo local que outros, portanto uma cópia).
voltou os olhos para a mesa com os homens supostamente do Exército Real, mas teve sua atenção subitamente atraída para os gritos de alguns do pub ao ver o gol, aparentemente impedido, do time britânico sobre o outro.
- Foi impedimento. – Um homem gritou. concordou. Dois segundos depois, o impedimento foi anunciado. A mulher começou a prestar atenção no jogo, abstraindo da conversa das colegas.
Em certo ponto, já havia se juntado aos outros torcedores do Chelsea contra o Manchester City e esperava ansiosa pelo final do segundo tempo. As outras meninas também estavam mais atentas ao jogo. Todo o pub estava em tensão, os garçons haviam parado para assistir aos cinco minutos finais. O telão no meio do pub era o dono de todas as atenções, nem mesmo as luzes nos postes ovais chamavam a atenção naquele momento, nem ao menos a estética com a fachada vermelha em letras douradas, ou às árvores frondosas. Tudo ali se resumia ao futebol.
- Aposto que vai ser 4x3 no pênalti pro Manchester. – afirmou para um dos homens perto de si.
- Aposto que o Chelsea vai virar nos acréscimos. – Um garçom se aproximou com uma bandeja.
- Querem entrar na aposta? Foi iniciada por aquela mesa. – Virou o queixo e apontou para a mesa dos subordinados do Exército. suspirou e tirou uma nota da carteira. As colegas pareciam chocadas.
- Sério ?
- Quem não arrisca não petisca. – Abriu um sorriso audacioso e colocou as duas notas sobre a bandeja. O garçom anotou seu nome, o telefone e a quantidade apostada, além do placar.
- Eu quero apostar no mesmo que a moça. – O homem ao lado piscou para ela e sorriu. retribuiu um sorriso com uma piscada de olho. O torcedor era bem bonito, poderia usar o dinheiro para levá-lo a um restaurante legal depois.
- Acréscimos! – Gritou alguém no meio das vozes nervosas e ansiosas. virou o olhar e observou um dos integrantes da mesa, o que estava no meio, virar para ela com certa aspereza, se é que era possível ser áspero através do olhar, mas era o que parecia.
- No que aquela garota apostou? – ouviu a voz levemente elevada vinda da mesa dos subordinados. Não virou os olhos, mas atentou-se a eles. Parecia ser o áspero – Essa é a aposta dela? Bem, o que se esperar de uma mulher que finge saber de futebol para tentar conseguir um pouco de sexo no fim da noite? Será que ela não sabe que isso só nos afasta? – O garçom deu uma risada estrondosa com a frase machista do homem de voz áspera e olhos azuis, como constatou ao virar os olhos para ele, fitando-o diretamente.
- E no que você apostou? – Questionou sem desviar o olhar e tentando ao máximo não trancar o maxilar. O soldado pareceu levemente incomodado. Ela precisou levantar um pouco a voz para que fosse ouvida por cima dos gritos. Estavam a duas mesas de distância, mas havia um pequeno arbusto os dividindo.
- Dois pênaltis para o Chelsea e um para o Manchester. – assentiu – Por quê? Quer mudar a aposta agora que ouviu um homem falar? – De repente, fez-se um silêncio perturbador no bar. Apenas algumas vozes dos que estavam distantes da cena continuaram a ser ouvidas.
- Não, quero aumentar minha aposta em vinte libras. – Anunciou para o garçom.
- Aumento a minha em cinquenta. – Rebateu o soldado. não subiria mais ainda, sabia que a arrogância derrubava quem chegava ao máximo – Não consegue subir mais, princesa?
- Quero que você vá à merda, mas dê meu dinheiro antes. – Houve uma explosão de risadas na mesa das professoras universitárias. Gail estava vermelha de raiva.
- Nós vamos te denunciar, seu babaca! – Anunciou a professora com muita audácia. Os outros soldados da mesa estavam quietos, e o que se sentava na ponta, o mais alto, havia sumido.
- Tente. – A ameaça foi feita em um tom tão amigável que poderia parecer brincadeira, mas os olhos violentos assustaram Gail. quis gritar, mas sabia que mexer com um soldado em um país que não era seu, do qual não conhecia perfeitamente a Constituição, não daria certo.
- Ignorem, meninas. – Confidenciou com a voz denunciando a raiva – Vou ganhar essa aposta.
- Vamos embora antes que eles, ok? Ir depois é um risco. – Genevive comentou e todas concordaram – Já ouvi histórias de que os oficiais britânicos podem ser bem abusivos fora do horário de trabalho. Na França também é assim.
- Em que lugar do mundo não é assim? – bufou e observou o jogo chegar aos pênaltis.
O grito de vitória que saiu de sua boca ao ver o quarto pênalti do Manchester atingir o gol não pôde ser contido em seus lábios. Pulou em cima dos braços de Genevive e aguardou, com as mãos trêmulas, o último pênalti. Se o jogador do Chelsea perdesse aquele gol, ela perderia, se acertasse, a aposta era sua.
- MEU DEUS DO CÉU! – Berrou exasperada ao ver a bola entrando no gol. Comemorou com as amigas ao perceber que ganhara pelo menos trezentas libras naquela noite. Pensou em virar para o soldado e mostrar o dedo do meio para ele, sabia que ele merecia aquilo, mas tinha medo do que um homem – provavelmente armado – poderia fazer com ela caso o provocasse – Garçom, meu dinheiro, por favor! – Exclamou enquanto as amigas riam e brindavam com suas cervejas.
- Dividimos entre a senhora e o cavalheiro ao lado. – O garçom sorriu e entregou duzentas e cinquenta libras em sua mão. sorriu para o britânico que havia seguido seu palpite.
- Você é meu amuleto agora. – Ele comentou com um sorriso entre os gritos dos torcedores.
- Gosto desse cargo. – Retribuiu, mas foi cortada por uma figura alta em sua frente. Elevou o olhar e encontrou os olhos do soldado arrogante. Imediatamente, os olhos semicerraram e levantou-se da cadeira – Posso ajudar?
- Como você sabia do placar?
- Sergeant*, vamos embora. – Um dos colegas do homem apareceu ao seu lado. Todos eram do Exército Real mesmo, pelo que observou.
- Eu não sabia, foi um palpite baseado nos outros jogos.
- Duvido que assista futebol.
- Por quê? – Rosnou contra o rosto do oficial, os lábios já trêmulos de ódio.
- É óbvio que assiste futebol para conseguir uma dedada digna no final da noite. – pareceu perder diante de si o foco, os pulsos flexionaram e sentiu vontade de chorar de ódio. Não podia fazer nada.
- Vamos pedir que se retirem. – O garçom das apostas se colocou no meio dos dois com a bandeja.
- Peça que essa vadia volte para o país dela.
- Essa vadia imigrante vai abrir um processo contra você.
- E vai postar na Internet esse vídeo também. – Gail levantou ainda mais o celular – Aposto que o Exército Real vai amar um escândalo com um de seus oficiais em suas plataformas.
- Você não tem o menor direito de ser um xenófobo e um machista de merda! – Genevive exclamou apontando o dedo na cara dele – Tente encostar o dedo nela e eu quebro a sua cara!
- Sério, vamos embora, a noite já acabou. – O outro oficial tentou puxar o homem pelo ombro, mas isso apenas o irritou mais.
- Preciso dizer uma coisa para ela antes. – Rosnou e aproximou-se mais de , os rostos praticamente colados e sussurrou:
- Meu pai é o Tenente-Comandante do Exército, querida. – Sua voz parecia um zumbido – Tente me processar. Eu te tiro do país em dois segundos, não me importa se você tenha todos os documentos legais. Vou te fazer sumir igual o inseto que você é. – permaneceu estupefata enquanto via o homem sair praticamente arrastado pelo colega para fora do estabelecimento. Quando percebeu, já estava sentada à mesa e tentava segurar ao máximo as lágrimas.
- Vamos postar amanhã em algum horário que tenhamos mais visualizações. – Genevive e as outras começaram a discutir sobre o vídeo, sobre a situação. Tentaram consolar , mas seu coração estava saindo pela boca.
- , você está muito vermelha. Sinto tanto pelo que aconteceu, mas vamos denunciar esse abusado.
- Não. – afirmou – Ele é filho do Tenente-Comandante do Exército, pelo visto. – Murmurou, algumas lágrimas desceram sozinhas – Ele ameaçou me deportar. Só tenho o visto temporário de trabalho. Preciso manter meu visto.
- Você tem certeza? – Genevive tentou argumentar.
- Sim. Eu não posso perder esse emprego, não posso voltar para os Estados Unidos. Larguei tudo lá. Agora não tem mais volta.
O silêncio tomou conta da mesa. Ninguém mais sentia vontade de comemorar, nem mesmo com as duzentas e cinquenta libras na mão de .
- Meninas, vou para casa. Desculpa, não tenho mais ânimo. – Todas concordaram com e decidiram ir embora – Podem ir primeiro. Preciso conversar com o garçom e com o gerente. Pedir desculpas e tudo mais.
- Você não precisa pedir desculpa por nada, Ani. – Gail elevou o tom de voz levemente – Você sofreu xenofobia e machismo na frente de todo mundo e ninguém fez nada!
- Preciso da ajuda deles caso eu decida processar o oficial. – Gail balançou a cabeça, entendendo aonde a colega queria chegar.
- Ok. Você é muito esperta. Meninas, todas mandem mensagem quando chegarem em casa, por favor. Boa noite, cuidem-se.
Todas se despediram com sorrisos tristes e foram para casa. Menos .
- Gostaria de pedir desculpas pela cena. – A professora abordou o garçom quando ele parou perto da cozinha para esperar o próximo pedido.
- A senhorita não está errada. – Comentou o jovem.
- Gostaria de saber se ajudaria a dar seu testemunho caso eu decida processar aquele homem. – O garçom engoliu em seco e olhou para os lados antes de voltar seu olhar para a mulher.
- Meu supervisor não é a favor dessa política. O bar não pode tomar partido em discussões.
- Calma, mas você disse que eu estava certa!
- Eu preciso pagar minhas contas no final do mês, senhora. Aquele homem é do Exército, já o conheço. Briga com todo mundo, mas o pai dele vem e resolve tudo. Não podemos fazer nada. – o encarou embasbacada.
- Você é imigrante? – O homem negou com a cabeça.
- Não, mas meus pais são.
- E você vai virar as costas assim para o que acontece aqui?
- Contanto que não aconteça comigo, é o que posso fazer.
- Eu não acredito no que estou ouvindo. – Murmurou entredentes – Oro para que você não seja pego, de verdade, porque se for e encontrar alguém exatamente igual a você, está ferrado. – Balançou a mão com descaso e saiu marchando para fora do pub. O celular em sua mão tremia ao parar a gravação que fazia com seu celular.
O frio a fez tremer mais ainda. Observou seu carro alugado quase no fim da rua. Havia algumas pessoas para o lado contrário, mas naquela para a qual olhava não havia uma alma viva sequer. Os ombros travaram com o pensamento de que o oficial poderia estar ali esperando por ela. Fechou os pulsos dentro do sobretudo e correu até o carro, o vento frio misturado com as lágrimas frustradas. Ao chegar perto do carro, agachou na calçada e chorou.
Os ombros tremiam e os soluços ficaram incontidos por longos segundos. Sabia que qualquer um poderia vê-la ali, mas já estava distante do pub e pareceria somente estar procurando algo no chão. Não que se importasse se alguém a visse naquela situação.
Havia anos que não sentira o olhar de desprezo daquela maneira. A ameaça tão crua e livre, e mal pôde defender-se. Esperava que algum cidadão britânico a salvasse porque não poderia fazer aquilo sozinha. E sabia que jamais seria auxiliada. O que sobrava era outra história para contar aos britânicos e deixá-los chocados com a maldade do ser humano enquanto juram ser diferentes. Nenhum deles era diferente e mal precisou de um mês ali para saber que, em mais um país, estaria sozinha.
- Como era a mulher? – levantou a cabeça rapidamente ao ouvir uma voz aproximando-se pela rua, vinda da direção do pub. Sentiu os joelhos reclamarem ao colocar-se em pé rapidamente. Era o homem mais alto da mesa, provavelmente o superior do sergeant – Vocês estão indo para o apartamento? Ótimo. Podem ir dormir. Quero o Sergeant Wilson RM de pé agora. Vou pensar em uma punição. – tentou fazer as mãos pararem de tremer enquanto pegava a chave do carro, mas os dedos não pareciam ter controle próprio. As lágrimas já estavam praticamente secas pelo vento frio – Qual roupa ela usava?
A voz já estava praticamente do seu lado quando soltou um guincho ao conseguir abrir o carro.
- Com licença, poderia falar com a senhorita? – A professora praticamente tropeçou nos próprios pés devido ao susto. Virou-se e observou o dono da voz do oficial. Precisou olhar um pouco para cima. Se estivesse de salto, alcançaria a altura dele.
- Não. – Respondeu rispidamente e abriu com força a porta do carro. Precisava ir embora o mais rápido possível. Quanto mais distância da polícia, melhor.
- Você é a mulher que brigou com o meu integrante da tropa lá dentro? – A mulher precisou virar-se para respondê-lo.
- Briguei? Seu soldado me ameaçou, me difamou e me xingou ali dentro. O que eu fiz não foi brigar, mas o que eu vou fazer, ah, isso sim é outra história. – O superior balançou a cabeça. já estava com um dos pés dentro do carro, mas o colocou para fora. O superior não parecia ser rude, talvez pudesse pegar algumas informações dele. Pegou o celular para fingir ver as horas e ligou o gravador novamente, já que havia sido o último app aberto.
- Não posso pedir desculpas pela ação individual do meu subordinado, mas posso pedir desculpas em nome do que ele representou, a Royal Navy*. – tentou esconder o choque em seu olhar. Não era apenas do exército, era da Marinha Real. A organização mais antiga de todas as divisões de defesa britânica.
- Você tem poder para pedir desculpas por algo tão antigo e poderoso?
- Não creio que isso seja relevante. Mas gostaria de saber quais medidas a senhorita deseja tomar. Preciso estar a par do que reportar.
- Você não pode receber essa informação, já que não vem representando a ação individual de seu subordinado. Não vou denunciar a Marinha, vou denunciar o... Hm, qual o nome? Sergeant Wilson.
- A senhorita está bem? – cruzou os braços.
- Você não vai me convencer a não tomar providências.
- Não é meu objetivo. Se o Sergeant Wilson errou, que seja punido por tal. – A mulher tentou manter a postura na defensiva, a voz grossa e firme do oficial a ajudava, mas estava ficando cansada, a noite estava arruinada e só queria ir para casa chorar em paz.
- Você é realmente o superior dele? – O homem assentiu.
Pela primeira vez após a adrenalina começar a diminuir, observou atentamente o rosto do oficial. A pele escura escondia alguns detalhes na rua ainda mais escura. Os olhos eram claros, castanhos. Os lábios grossos estavam levemente ressecados e os ombros poderiam bloquear um jogador de futebol facilmente. percorreu todo seu tronco a procura de algo que pudesse denunciar seu cargo, mas não achou. Voltou os olhos para o cabelo. Era ralo, mas não careca. Parecia levemente estiloso, o que apenas reforçou seu estereótipo sobre o nível social daquele homem. O sobretudo preto caía por fora de um moletom cinza. A calça jeans preta terminava em um tênis esportivo.
- Posso saber o que a senhorita está fazendo?
- Procurando algo em você que denuncie quem você é de verdade. – Respondeu honestamente.
- Senhora, gostaria de me ater aos fatos do que aconteceu ali dentro.
- Não sou obrigada a responder um cidadão comum, mas a uma figura de autoridade, talvez. – Deu de ombros. Parecia ter perdido completamente o filtro devido à adrenalina. E ao copo de vinho também. Era extremamente fraca com álcool.
- Se eu disser meu cargo, você me dirá o que aconteceu ali dentro, é isso?
- Sim.
- Sou o Capitão , da Terceira Divisão dos Royal Marines da Coroa Britânica. – assentiu.
- Isso é acima ou abaixo do Major?
- A minha resposta primeiro.
- Justo. – Deu-se por vencida – Se eu falar o que aconteceu, responde à pergunta?
- Não estava envolvido no acordo.
- Qual é, eu não quero saber sobre você, só a sua posição. – O rosto do capitão enrijeceu e pigarreou. Estava abusando da sorte – Ok, vamos lá.
Enquanto contava em detalhes sobre como havia chegado ao país há duas semanas (achou relevante para a narrativa), sobre como amava futebol e acompanhava o futebol europeu há alguns anos e por isso fez aquele chute da aposta, e terminou com a ameaça do sergeant. Não falou sobre ter gravado a conversa, sobre o vídeo da amiga ou sobre o garçom.
Reparou que o capitão permanecia com as mãos para trás, o maxilar rígido sem a barba por fazer, parecia um verdadeiro militar. Arrepiou com o pensamento de um homem daqueles encarando-a no tribunal, ou a ameaçando. Ou com a boca em seu pescoço.
- Você pretende denunciar meu soldado com base em quê?
- Vou contatar um advogado primeiro.
- Ok. Se quiser que os superiores saibam disso, deve levar o pedido até o trabalho dele. – inclinou a cabeça levemente para o lado e franziu o cenho.
- Você é superior dele e o está sabotando? Que tipo de superior é esse?
- O tipo que acredita que a justiça deve ser feita, não importa qual a minha relação com a pessoa. Um crime é um crime e deve ser tratado como tal.
- Você me parece justo demais.
- Agradeço seu julgamento precoce. – A mulher arqueou a sobrancelha.
- Acabou de desdenhar de um elogio?
- Ser justo não é elogio.
- Nos dias de hoje, sim, é sim. – Capitão permaneceu em silêncio por alguns segundos.
- Então, agradeço o elogio. – sorriu e encarou a ponta da bota – Agora, uma pergunta...
- Não preciso responder mais nada, não é? – A mulher provocou com um estalo no céu da boca.
- Responda isso e respondo sua pergunta anterior.
- Fechado! – Soltou um guincho animado e arrependeu-se em seguida. O capitão mal expressou reação. Uma porta teria demonstrado mais empolgação.
- Está bem? Ele chegou a fazer mal a você fisicamente? – ponderou as motivações de sua pergunta. Talvez quisesse saber para sumir com seu corpo e se livrar das provas de corpo de delito.
- Não, não me machucou fisicamente. Isso teria sido mais fácil. – O choque cruzou rapidamente os olhos do capitão. Não creio que esperava ouvir aquilo.
- Como assim?
- Não preciso responder a isso. – Desconversou – Responda minha pergunta.
- Abaixo. Não sou superior ao Major. – assentiu, dando-se por vencida. Todo o contexto da denúncia girava a favor de Wilson. Se o pai dele fosse realmente um figurão do alto escalão, ela estava em maus lençóis.
- Essa é uma grande decepção. – Suspirou – Desculpa, pensei alto, não tem nada a ver com você.
- Queria que eu fosse superior para puni-lo e passar por cima do pai dele, o Major? – mordeu o canto esquerdo do lábio e assentiu – Sinto muito. Mas isso não significa que você não possa fazer nada. A verdade precisa vir de algum lugar, não é porque você é inferior que não possa fazer nada.
- Você acabou de dizer que sou inferior a ele?
- Em uma escala hierárquica na Marinha, sim, quanto ao caráter, não posso dizer, seria injusto com o adjetivo que você me deu. – A mulher ficou levemente chocada com as palavras dele. Parecia um robô da literatura inglesa.
- Todos os britânicos são iguais a você?
- Não preciso responder a isso. – sorriu e fungou – Obrigado pela disposição. Posso esperar te ver na base da Marinha Real em alguns dias?
- Ainda preciso considerar o processo.
- Pode tentar um processo interno na Marinha. Não posso dizer qual tem mais chances de sucesso, não é meu papel dizer isso.
- É engraçado a Marinha ter alguém como você e alguém como o Sergeant Wilson.
- Não sou melhor que ele, não são dois pesos e duas medidas.
- Ok, sua modéstia não vai me fazer mudar de ideia. Obrigada pelo tempo, obrigada por perguntar como eu estava. Foi o primeiro. – Abriu novamente a porta do carro, dessa vez, sem a menor pressa de entrar.
- Até mais... Ah, qual o seu nome? Acabei esquecendo de perguntar. – O capitão parecia levemente atordoado.
- .
- Como nome ou sobrenome?
- Não preciso responder a isso, Capitão . Você só me deu um de seus nomes, eu só te dei um dos meus. – O capitão sorriu e assentiu, os braços finalmente descruzando atrás somente para cruzá-los sobre o peitoral.
- Justo. Adeus, Srta. . Espero que tome a decisão correta. – O celular do capitão começou a apitar no bolso, e a última coisa que ouviu antes de acelerar com o carro pelas ruas de Londres, foi: - Oi, Valerie. Sim, vou te esperar no escritório durante a tarde.
deixou o sorriso murchar um pouco. É, homens atraentes são complicados. E geralmente comprometidos.
Mas ela sentira que o veria novamente. Torcia para isso. Afinal de contas, não se acha um homem londrino como aquele em qualquer bar de Londres. Não, aquele homem específico havia despertado nela o que ela não conseguia decifrar, mas estava ansiosa para fazê-lo.
*Sergeant = Sargento [não tem a mesma conotação que no português, por isso não é traduzido no texto]
*Royal Navy = Marinha Real


Capítulo 2

Três dias depois
- Você decidiu denunciar? Ai, queimei a língua! Café desgraçado! – Genevive arquejou de dor, colocando a língua para fora e abanando com um pequeno monte de relatórios de reuniões dos professores.
- Você bota a língua no café antes dos lábios? – perguntou enquanto ajudava a amiga com o monte de livros que precisava levar até a biblioteca.
- O contexto dessa frase é muito estranho, . Mas e aí, vai denunciar ou não?
- Preciso falar com alguém antes. Já falei com um advogado, mas é caro demais e não tenho dinheiro para arcar com um advogado, sustentar a mim mesma aqui e pagar as contas médicas dos meus pais. – Chegaram à biblioteca e deixou os livros sobre a bancada de devolução – Oi, viemos devolver esses livros. Professora , por favor.
- Mas não vale a pena?
- Qualquer denúncia assim vale a pena, mas tenho uma família para sustentar e não pretendo colocar minha cabeça na linha para que isso não dê em nada. – Digitou sua senha para a bibliotecária e sorriu em agradecimento, pegando o comprovante de devolução.
- Eu entendo. Uma denúncia dá apoio para outras denúncias, mas não adianta se você não tiver um local onde repousar a cabeça no final do mês e sua família ficar passando dificuldades.
- Exatamente. – As duas se colocaram a andar pelos corredores até o estacionamento superior. Cumprimentaram alguns colegas no meio do caminho e tentaram fugir do supervisor do departamento em um dos corredores – Estou indo até agora à Marinha.
- Você vai simplesmente chegar lá?
- Ué, eles devem ter uma porta da frente, não é?
- Você quer entrar na Marinha pela porta da frente? Quem você acha que é, ? O Papa? – riu enquanto voltavam a caminhar pelo corredor externo. O dia estava bonito, apesar de frio. O sol havia decidido mostrar seu brilho após alguns dias cinzentos. levou aquilo como um bom sinal. O sol só poderia significar coisas boas, ainda mais depois de dias chuvosos. Se bem que Oxford era sempre chuvosa.
- Eu vou tentar, pelo menos! Tem o endereço no Google do prédio administrativo, já deve ser algo, não? Eu pesquisei em vários sites e a base não é divulgada para todos verem. Qualquer um pode saber a localização, mas precisa se esforçar um pouco para achar.
- E você achou? – Genevive questionou com curiosidade latente. Parecia estar acompanhando um filme.
- Hm, não... Mas não vou perder a esperança! Estou indo, Gen! Beijos. Depois te mando uma mensagem dizendo o que aconteceu! – acenou para a amiga e entrou no carro.
- Coitadinha... Espero que não seja presa antes das aulas começarem. – Gen comentou para si própria enquanto ria da coragem da amiga.
Após mais de uma hora na estrada ao som de Tchaikovsky e Akon, a professora finalmente encostou o carro em frente a um grande prédio com a estrutura de uma cúpula. Havia seguranças do lado de fora, as feições tão rígidas que questionou se quebraria o maxilar caso levasse um soco de um deles.
- Paizinho, espero que eu consiga. – Murmurou para si antes de estacionar na rua ao lado. Os saltos pretos batiam contra a calçada, a calça linen bege apertava sua cintura, mas o sweater amarelo de caxemira dava à mulher confiança que não sentia desde que chegara a Londres. Sorriu gentilmente para os seguranças, estes apenas a ignoraram assim como ignoravam a todos ao redor. deu de ombros e entrou confiante pelas portas giratórias. De repente, sentiu-se ridícula.
Todos ao seu redor usavam ternos chiques, a única cor presente em todo o andar da recepção sombria era o amarelo da blusa da professora. Ela poderia se ver refletida em todas as superfícies lixadas de mármore. Balançou os cachos e seguiu firmemente até a recepcionista.
- Olá, boa tarde. – A recepcionista sorriu cordialmente.
- Olá. Gostaria de falar com o Capitão , por favor. – tentou ao máximo parecer despreocupada, mas passou pela sua mente o sargento estar por ali. Um frio percorreu sua espinha ao imaginar o que aconteceria.
- Em nome de quem?
- Pode não dizer a ele? Ah, não, isso é estupidez, ele é um oficial. Só Srta. , por favor. – A recepcionista maneou com a cabeça. Pareceu levemente desconfiada – Quero surpreendê-lo. – Justificou-se, mas arrependeu-se imediatamente. Não estava conseguindo parecer relaxada, estava mais para psicopata se preparando para matar um oficial da Marinha Real.
- Hm, ele não está. – Disse a recepcionista negra após passar alguns segundos ao telefone – A senhora tem horário marcado? – mordeu a ponta da unha recém-feita e suspirou.
- Não, não tenho. Ele me disse para encontrá-lo aqui, mas não disse horário. Posso voltar alguma outra hora, obrigada. – Sorriu calorosamente e despediu-se. Caminhava em direção à porta rotatória, prestes a voltar para casa totalmente frustrada, quando ouviu a recepcionista chamá-la de volta.
- Senhora?
- Sim? – Aproximou-se, os saltos acompanhando o som de sua pisada. A recepcionista sorriu gentilmente.
- Poderia saber qual o seu parentesco com o Sr. ? – franziu o cenho.
- Desculpa, mas não entendo aonde quer chegar.
- Aqui está dizendo que ele está esperando uma pessoa, mas preciso saber qual a sua relação com ele. Não diz hora, data ou para quê. Apenas que está esperando uma mulher que tem o nome de...
- Valerie! – Falou em tom de voz alto demais. A recepcionista a encarou mais uma vez.
- Sim! Olá, Srta. Valerie. Vou pedir que a acompanhem até o escritório do capitão. Peço desculpas pelo inconveniente.
suspirou aliviada ao perceber que havia feito um chute correto. Lembrara do dia em que conhecera o capitão. Ao final da conversa, ouvira o homem falar com uma Valerie sobre esperá-la em seu escritório.
- Por aqui, senhorita. – Um segurança parou ao seu lado e indicou o caminho até as catracas. O medo apossou-se dela ao perceber o que havia feito. Havia mentido sobre conhecer um oficial dentro do prédio administrativo da Marinha Real Britânica. Subitamente, quis sair correndo, mas levaria um tiro na nuca antes de alcançar a porta.
- Moço, quer saber? Não vou subir. Lembrei que sou claustrofóbica. – justificou-se para o segurança que a encarou com confusão transparente.
- Senhora? Está passando bem?
- Não, estou passando muito mal! – Abanou o rosto, provavelmente vermelho, enquanto o segurança murmurava algumas palavras no walkie-talkie.
- Quer se sentar?
- Não, quero ir embora. A claustrofobia, sabe como é. – Enrolou-se nas palavras e simplesmente fez o caminho contrário às catracas, praticamente correndo até chegar na porta giratória. A pobre recepcionista a seguiu com o olhar enquanto mostrava confusão no semblante.
Ao sentir o ar de Londres no rosto, respirou fundo, o peito doendo diante do nervosismo. Se fosse até o escritório, o que diria quando ele aparecesse? Que a recepcionista havia liberado uma estranha? A mulher seria demitida. Talvez até o segurança. Não queria ser a responsável pela demissão de duas pessoas.
Colocou a mão no peito e balançou a cabeça. Não iria atrás do homem da maneira mais fácil. Atravessou a rua até um café em frente. Esperaria ali até que ele aparecesse, mesmo que isso demorasse horas e horas. E horas. Olhou para o relógio no pulso e pensou em quantas coisas poderia fazer ao invés de esperar um oficial do Exército apenas para pedir um conselho. Ponderava se valeria a pena. Suspirou e decidiu esperar. Entrou no café, pediu um suco de morango e sentou-se de frente para o prédio como a perfeita stalker que não gostaria de parecer ser.
A imagem do homem em sua mente já não era tão vívida, não sabia sequer se o reconheceria sob a luz do sol. Batucou com as unhas sobre a mesa, denunciando sua ansiedade. Uma pessoa esbarrou em sua cadeira e quase derrubou seu suco no suéter amarelo.
- Isso é ridículo. – Rosnou e levantou-se da cadeira com o suco em mãos. Marchou porta afora e decidiu estacionar o carro mais próximo ao prédio. Poderia surtar sozinha no carro enquanto ouvia Fall Out Boy em paz.
- Ora, ora! O que temos aqui. – sobressaltou-se ao ouvir uma voz atrás de si quando estava prestes a chegar perto de seu carro. Virou-se e sentiu o peito apertar ao ver Sargento Wilson parado com os braços cruzados – Agora está me perseguindo em meu horário de trabalho? O que espera? Gostou da cena do bar e quer repetir a dose?
- Não sabia que trabalhava aqui. – Não era de todo mentira. Sequer sabia se o Capitão trabalhava ali de verdade, foi apenas um chute.
- Ah, aposto que não sabia. – O sargento agora usava sua farda. A jaqueta azul à prova de fogo, com as inscrições douradas nas laterais ( não enxergou com clareza o que estava escrito), uma boina azul-marinho, os sapatos mais feios que havia visto na vida e seu distintivo estava na frente do peitoral.
- Você realmente acha que eu vim aqui para me vingar? – gesticulou com as mãos enquanto ria. Sargento Wilson apenas abriu mais o sorriso.
- Não foi pela dedada, foi? – O rosto da mulher tomou uma expressão de ódio absoluto.
- Você sabe que eu posso te enquadrar em assédio, não sabe?
- Ah, isso aqui é assédio? Você vem ao meu local de trabalho, me provoca e eu estou te assediando? Não seria ao contrário? Nenhum juiz acreditaria se você dissesse isso. – soltou uma risada e olhou para as unhas.
- Eu não vim aqui para te procurar. Vim aqui encontrar uma pessoa. – Sargento Wilson abriu um sorriso esnobe.
- Ah, é? Quem?
não sabia se Deus estava intervindo a seu favor, se era apenas uma grande coincidência ou o maior azar possível, mas observou uma figura passar do outro lado da calçada em direção ao prédio.
- O Capitão . – Disparou enquanto encarava a figura masculina por sobre o ombro do Sgt. Wilson, o qual não fingiu sequer o deboche e acidez ao encará-la.
- Você veio me denunciar para meu superior? Você esqueceu tudo o que eu te disse no bar?
precisou de toda a sua força para não engolir em seco ao vê-lo colocar a mão no coldre. Ali havia uma arma, não sabia identificar, mas não era preciso ser uma especialista para entender a mensagem que Sg. Wilson queria passar. E por isso sentiu o medo cobrir seu corpo inteiramente. E talvez tudo isso tenha desembocado em sua exclamação (que depois veio a ser assunto de suas orações):
- Ele é meu namorado, querido. Vim visitar meu namorado.

*

sabia que havia perdido totalmente o juízo no momento em que aquelas palavras saíram de sua boca.
Após algum período em silêncio, Sargento Wilson torceu o nariz e questionou firmemente a afirmação. Enquanto isso, pensava na cor da roupa de seu velório, porque ou Sg. Wilson a mataria ou o Capitão . O que tivesse a melhor pontaria.
Havia fugido da situação com a recepcionista para envolver-se em uma pior.
- Quero que você prove.
- Não preciso provar nada.
- Eu posso te prender por assédio agora.
- Vai prender a namorada de seu superior? – simplesmente não conseguia ficar calada.
- Ande logo. Você não engana a ninguém. Capitão não namoraria uma mulher feito você. – escolheu xingá-lo mentalmente ao lembrar-se da arma em seu coldre.
- Ok. Deixe-me ir na frente.
Enquanto andava até a recepção tenebrosa mais uma vez, pensava no que dizer. Não poderia cumprimentá-lo com um aceno, seria estranho, muito menos com um beijo. O capitão a afastaria e Wilson perceberia a farsa. Então seria indiciada por assédio e perderia toda a credibilidade.
- Olá, voltei! – acenou para a recepcionista timidamente. A mulher a encarou com os olhos arregalados.
- A senhorita está melhor? Claustrofobia não é fácil, eu nem imagino. – pôs a mão no peito e balançou a cabeça.
- Precisamos encarar nossos medos por quem amamos, não é? Já tomei um ar e estou pronta para ir, posso? – A recepcionista olhou para trás do ombro de e fechou o rosto ao ver Wilson parado atrás da professora.
- Pode, claro. Olá, Sargento Wilson, boa tarde.
- Já fez a ficha dela? – precisou controlar o choque ao perceber o quanto o tom de voz de Wilson havia mudado. Se antes era rude e frio, agora parecia tirânico.
- Sim, senhor. Ela está aqui para ver o Capitão .
- Depois quero analisar a ficha. – E com isso, começou a caminhar até as catracas. Os ombros largos e rígidos como de um militar. tentou fingir que sua mentira não lhe custara tudo. Sua liberdade, seu emprego, tudo. Se não a ajudasse minimamente, tudo estaria perdido.
- Está calada agora. O que houve? Está pensando em como sair dessa mentira? – Questionou o sargento ironicamente ao entrarem no elevador revestido de mármore claro pelo lado de fora. não respondeu. Sabia que daria mais munição.
Ao saírem no terceiro andar, lembrou -se onde realmente estava. No coração da inteligência marítima britânica. O coração então parecia saltar pela boca. Olhou ao redor e viu apenas pessoas de terno com as condecorações de cada um, dependendo do posto.
- Se é namorada dele, por que parece tão chocada?
- É a primeira vez que venho vê-lo. Não gostamos de misturar a vida profissional com o trabalho. – Murmurou, a mentira deslizando por seus lábios tão facilmente que chegou a estranhar. Não era uma boa mentirosa. Na realidade, sentia orgulho de não saber mentir, mas naquele momento parecia fácil. Talvez fosse a adrenalina.
Olhou para o lado esquerdo e viu a porta de madeira rústica rodeada por traços dourados e a maçaneta tão bem polida que poderia ver seu reflexo perfeitamente. Havia uma faixa indicando: “PROVISÓRIO – Capitão ". Chegara o momento da mentira principal. Sgto. Wilson a encarou com um sorriso condescendente. Ele sabia de toda a farsa e ela seria presa belamente.
Quase desistiu, mas Wilson não a deu oportunidade de correr antes de bater à porta e abri-la. segurou sua respiração ao entrar no gabinete, os olhos varrendo as paredes brancas com detalhes dourados no lustre central e nos candelabros postos sobre escrivaninhas de madeira rústica. O piso era de carpete cinza, feio como somente os órgãos do governo conseguiriam aceitar.
O olhar da professora pousou, por fim, na figura masculina atrás da mesa principal. Ele não estava sozinho. Ao seu lado, havia dois homens parados enquanto observavam um grande papel posto sobre a mesa. Ao lado deles, em cada extremidade da mesa, a bandeira britânica e a da Marinha. Todos usavam o mesmo uniforme de Sgto. Wilson, menos Capitão . Ele... Bem, pensou, ele estava um verdadeiro gostoso em sua farda. Mas guardaria aquele comentário para si. Já iria para a cadeia por motivos o suficiente, querer dar em cima do capitão era apenas a cereja no topo do bolo.
- Sargento Wilson? – O sargento o cumprimentou. A porta foi fechada atrás dela. só percebeu que estava praticamente se escondendo atrás do sargento quando um dos homens precisou esticar o pescoço para vê-la. Engoliu em seco e agradeceu por estar com as mãos trêmulas por dentro do casaco. Estava ferrada!
- Trouxe alguém que te aguardava lá embaixo, capitão. – Wilson falou com um sorriso que não chegou a seus olhos e empurrou levemente para o lado. Ela o fuzilou e suspirou.
- Oi. – Cumprimentou timidamente. Olhou para os olhos do capitão, pareciam inexpressíveis. Ela encolheu-se levemente perante seus lábios traçados em uma linha fina. Parecia estar pensando.
- Para que ser tão tímida? Ele não é seu namorado, afinal de contas? – segurou ao máximo o arregalar de olhos e apenas olhou para as mãos, agora cruzadas em frente ao seu corpo. Sentia estar prestes a gritar. Não sabia mais como mentir.
- Você está sendo extremamente indelicado. – Um dos homens ao lado de ralhou. levantou os olhos para vê-lo. Os cabelos loiros emolduravam o rosto branco como a neve, os olhos castanhos sérios e uma das sobrancelhas, que claramente nunca havia conhecido uma pinça, estava arqueada. percebeu que ele deveria ser pelo menos vinte centímetros mais alto que ela, e surpreendeu-se mais ainda ao notar que ele era ainda mais baixo que capitão , que agora a encarava com os braços cruzados.
- Ah, deixa de graça, Andrew. – Wilson desdenhou. Um silêncio desconfortável instalou-se no gabinete, apenas o som do aquecedor ecoando ao redor deles.
Havia outro subordinado ao lado de Andrew, um homem de pele oliva com os olhos verdes mais bonitos que ela já havia visto. Os cabelos, aparentemente ralos, estavam escondidos sobre o chapéu. não conseguiu encarar o capitão pelo que pareceu uma eternidade, até que conseguiu emular algumas sílabas que estava acostumada a pronunciar.
- Desculpa. – Forçou-se a falar mais alto, levantando o olhar para finalmente encarar . Wilson não escondia o sorriso gigante em seu rosto, o arquear de sobrancelha que indicava a certeza e a presunção por poder jogá-la na cadeia. Tudo foi por água abaixo.
- Posso prendê-la, capitão? Por assédio, por tentativa de coletar informações da inteligência... Hm, pelo que mais? Ah, acho que—
- Você pretende prender a namorada do seu capitão, Sargento Wilson? – mal tentou esconder a surpresa em seu olhar ao encará-lo de verdade pela primeira vez.
A pele negra era linda sob a luz quente do lustre dourado, os lábios grossos não denunciavam nada, felicidade, raiva. Apenas indiferença. Os olhos castanhos estavam fixos em Wilson, os ombros eretos e o corpo coberto por um terno preto com uma gravata preta emolduravam o porte militar. Os músculos do braço não eram visíveis, mas ela sabia que estavam lá, havia percebido na última vez que o encontrara. Ele se destoava belamente dos outros homens presentes, percebeu .
- Não, senhor, desculpe-me. Apenas pensei que—
- Fico feliz em saber que se preocupe com meu bem-estar, sargento. Mas a minha vida pessoal é somente de meu interesse. – Sua voz cortou o ar. A professora sentiu vontade de voltar a encarar o chão, mas a briga sequer era direcionada a ela. Na verdade, isso só fez com que mantivesse a cabeça parada no lugar – Estão dispensados, deixe-me falar com minha namorada em paz. – arrepiou ao ouvir o tom de voz usado para falar “namorada”. O medo do encarceramento voltou com tudo. Talvez não estivesse tão segura. Talvez fosse o tipo de cavalheiro que te prendia com algemas sem que ninguém visse, para proteger sua dignidade antes de arrancá-la mais uma vez ao jogá-la na prisão.
sentiu Wilson enrijecer ao seu lado, virando-se para abrir a porta e ir embora seguido pelos outros homens. recebeu um sorriso por parte de Andrew e um cumprimento com a cabeça. Isso a encorajou um pouco, apesar de sequer conhecê-lo.
Quando ficaram sozinhos, desviou o olhar para a prataria ao seu redor, os brasões britânicos intercalados com nós de marinheiros de corda antiga, pelo que parecia. Capitão não se mexeu, sequer falou algo, mas apenas esperou parar de fingir que estava interessada na sala antes que ela o encarasse definitivamente.
- Eu sinto muito. – Foram as primeiras palavras que saíram dos lábios da iraniana. Apertou os nós dos dedos e suspirou – Eu passei de todos os limites, mas eu vim te procurar para pedir algum conselho, e aí a recepcionista foi um amor, mas alguém esbarrou em mim no café e encontrei Wilson e eu tenho quase certeza de que ele me ameaçou, sabe? Não sei lidar bem com ameaças – Àquele ponto, parecia uma matraca ambulante, os lábios secos e a mente ativa mal conseguiam acompanhar a velocidade das palavras. apenas arqueou a sobrancelha, os lábios novamente em linha fina – Eu já fui ameaçada uma vez, mas foi por um morador de rua e eu consegui socar a cara dele antes de sair correndo. Mas aquilo foi mais uma situação de vida selvagem e—
- Você socou um morador de rua? – A voz do capitão interrompeu os pensamentos derradeiros de e ela praticamente engasgou pela parada abrupta.
- Ele me ameaçou com um canivete! – Defendeu-se, a voz aumentou um tom. Tossiu e tratou de tentar se recompor. Seu orgulho havia sido arremessado pela janela e afundado no Tâmisa.
- E o que isso tem a ver com sua mentira sobre ser minha namorada, srta. ? – precisou controlar o efeito que seu sobrenome na voz daquele homem havia exercido sobre si. Trocou o peso da perna para a outra e engoliu em seco – Ah, que indelicadeza para com a minha namorada. – torceu o nariz com a brincadeira, mas merecia – Gostaria de um chá? Do quê? E sente-se, por favor, essa história me parece mais divertida do que esses papéis em minha mesa.
relutou um pouco antes de aceitar. Estava com fome e havia jogado seu suco no lixo antes de entrar no prédio.
- Você tem hortelã?
- Sim.
- Então pode ser. – dirigiu-se até uma das duas cadeiras na frente da mesa enorme do capitão. Havia um monitor da Apple virado levemente para a direita, permitindo que ela tivesse uma visão total do corpo do capitão preparando a chaleira elétrica sobre uma mesinha pequena que comportava uma caixa de chás dos mais diversos tipos, biscoitos caros ( comprava aqueles biscoitos uma vez por mês, geralmente na TPM), adoçante e cubos de açúcar. Ao lado, uma bandeja com um conjunto de três xícaras e pires.
A professora se distraiu com os movimentos dele, a mente sendo deixada levar para como ela lidaria com a situação a partir dali. Seria honesta com ele, mas desconfiava sobre as ações do capitão dali para frente. Ela havia mentido, afinal de contas. É impossível se confiar em um mentiroso, pelo menos na visão dela.
- Obrigada. – Agradeceu ao ter o chá colocado em sua frente. A fumaça levava o cheiro do chá. O corpo agradeceu de imediato o contato dos lábios com o líquido quente. A barriga roncou no mesmo instante que o capitão colocava os biscoitos caros em sua frente. Capitão permaneceu em pé, os ombros rijos e os olhos focados nos movimentos da professora.
- Quando quiser, srta. . – suspirou e deixou a xícara sobre o pires após comer um biscoito amanteigado. Quase gemeu ao colocá-lo na boca, mas duvidava que fosse ajudá-la na situação atual.
- Bom. – Empertigou-se na cadeira e cruzou as pernas, os olhos encarando diretamente os de . Ele se surpreendeu com a mudança na postura dela, os olhos dançando pelos cabelos negros, os olhos levemente puxados, as pálpebras pintadas de laranja e os lábios carnudos – Vim atrás de você porque precisava de um conselho seu acerca da denúncia. Eu queria saber se há alguma chance de apenas fazer uma reclamação formal aqui, na Marinha, e se isso haveria efeitos. Quando cheguei, não sabia como me apresentar, então lembrei-me que você havia falado sobre uma tal de Valerie da última vez que nos vimos e—
- Eu falei de Valerie? – Ele questionou com um franzir de cenho. quase xingou-se.
- Hm... Eu te ouvi falar quando nos despedimos. Enfim, - interrompeu-o antes que pudesse ter a chance de ser taxada como louca – e então falei que era meu nome na recepção. Sei que foi errado, mas entrei em desespero. Só que não consegui subir, eu desisti. Sabia que era errado mentir. Fui esperar no café aqui em frente, mas estava frio e decidi esperar no carro. Seu subordinado me parou e isso acabou saindo, ou era isso ou ser presa por assédio, ele estava falando extremamente sério. E aqui estamos.
Um silêncio monumental estendeu-se pelo que pareceram anos. Os olhos de estavam fixados em seu rosto, mas ela não sabia por quanto tempo conseguiria sustentar seu olhar. Os olhos acabaram desviando para os lábios do capitão. Não sabia se ele havia percebido ou não.
- Você veio aqui só para isso?
- Por que outro motivo viria, capitão? – Questionou com um dar de ombros.
- Sabe, a ideia que o sargento Wilson levantou não é de todo errônea. – Capitão começou a se movimentar pela sala, dando a volta ao redor da mesa e parando perto dela, apoiando-se contra a mesa de maneira descontraída, mas somente por vista. Seus ombros continuavam rijos, e seus olhos, sérios.
- Que ideia?
- Você pode realmente ser uma espiã. – não escondeu a risada, o que gerou uma carranca do capitão, então voltou a ficar quieta.
- Com todo o respeito, eu mal sei mentir. Como seria uma espiã? E que tipo de espiã é pega? – Desdenhou da observação do capitão com um aceno.
- Um bom espião sabe quando ser pego. Você está no centro da Inteligência Britânica, está conversando com um capitão, a partir daqui, tem acesso a qualquer coisa que quiser. O que me garante sua verdade? Você já mentiu antes, não é? – sentiu-se nervosa, de repente.
- Do que me adianta estar no centro da maior inteligência da Europa se vocês são incapazes de lidar com um caso de racismo e assédio? – Arrumou-se na cadeira para encará-lo – Se eu quisesse ferrar com vocês, teria postado o vídeo, teria feito qualquer coisa, não estaria atrás de você para pedir um conselho. Sabe por que vim aqui de verdade? – Arqueou a sobrancelha, os braços cruzados sob o peito – Porque se eu decidir entrar na justiça, posso perder meu cargo na faculdade em que trabalho e colocar minha família em risco. – Havia omitido a parte sobre não ter dinheiro. O capitão não precisava saber daquilo, ainda mais após tê-la acusado de ser uma espiã – Vim até aqui para saber se preciso passar por cima do seu cargo para ir atrás de justiça ou se posso esperar o mínimo vindo de você, afinal de contas, você está no centro da Inteligência Britânica, não está?
quase sorriu em satisfação ao ver o capitão sem palavras. Aristóteles provavelmente ficaria orgulhoso dela por ter usado da retórica de forma correta.
- Tudo isso é bonito, mas ainda não sei se confio em você, srta. . Mal sei seu nome. – Encarou-a e deu de ombros.
- . . – O capitão assentiu e suspirou.
- Posso tentar fazer algo, . Na verdade, já estava pensando no que poderia fazer como medida punitiva.
- Ah, é?
- Sim. Apenas não esperava que você viesse para tirar a prova. – Sorriu e sentiu-se ser arrebatada para outro lugar. Talvez o céu. Haveria uma Marinha Celestial? Seu sorriso branco fez com que questionasse por um momento seu gosto por homens uniformizados – Mas fico feliz que tenha vindo. Sua maluquice me divertiu um pouco.
- Fico feliz que tenha sido a palhaça perfeita, capitão. – Bateu continência ridiculamente. Levantou-se e arrumou a blusa próxima ao cós da calça.
- Preciso que venha essa semana para prestar queixa. Se a queixa for prestada direto comigo, tenho mais chances de fazer algo.
- Não posso fazer isso agora? – Segurou o muxoxo.
- Pode, só pensei que talvez preferisse fazer isso sem o sargento Wilson presente.
- Espera, se eu for denunciá-lo agora ele precisa estar junto?! – Exclamou com os olhos arregalados.
- Vão precisar do depoimento dele, não?
- Que bosta azeda. – Resmungou.
- Gosto do seu vocabulário.
- Obrigada, aprendi com os melhores livros.
- Aposto que Tolkien falaria “bosta azeda”. – riu e assentiu.
- Tenho certeza que sim. Bom, de qualquer maneira, não me importo. Quero denunciá-lo agora. Essa semana estarei presa em Oxford até o fim de semana, e com todo o respeito, não pretendo deixar a Marinha Real atrapalhar meus planos.
- Não seja por isso. Vamos agora. Mas advirto que não posso controlá-lo e, bem, você viu o que aconteceu no bar. – Ele lamentou. Parecia verdadeiramente irritado. Talvez a burocracia e o jogo hierárquico realmente o impossibilitasse de tomar alguma decisão.
- Eu sei me defender, capitão. – Argumentou enquanto caminhava para fora da sala.
- Eu sei que sim, . – controlou um sorriso ao vê-lo pronunciar seu nome completo.
- Ei, eu te falei meu nome. Qual o seu? – Ele a encarou momentaneamente antes de fechar a porta atrás de si, agora novamente no corredor claro.
- . A seu dispor. – Estendeu a mão para ela, a qual apenas sorriu e estendeu de volta, cumprimentando-o. Ela não pôde deixar de notar que havia uma migalha de biscoito em seu colarinho, mas não diria aquilo. Havia deixado o homem de um metro e oitenta e cinco um pouco menos assustador, mas não menos interessante.


Capítulo 3

encarou o capitão , tentando copiar seu olhar inexpressivo e os lábios perfeitamente alinhados. O máximo que conseguiu foi um bico estranho. Ele estava preenchendo a papelada como testemunha da denúncia. Ambos estavam no sexto andar do prédio, o temido Recursos Humanos. Havia pelo menos quinze funcionários sentados em baias com pequenas bandeiras britânicas em frente aos seus computadores. Havia um grande balcão separando os visitantes dos trabalhadores. sentiu-se desconfortável com o barulho dos dedos teclando o computador, de um vídeo sendo reproduzido em algum lugar no corredor atrás deles e de sua respiração pesada devido à rinite alérgica.
- Você respira alto. – Comentou sem desviar sua atenção dos papéis. Quantas rubricas eram necessárias? A professora arqueou a sobrancelha e cruzou os braços.
- A rinite é um problema que atinge milhões de pessoas. – Retrucou. Finalmente ele lhe deu espaço para preencher o restante da papelada da denúncia formal. Wilson ainda não havia aparecido, e torcia para que não o visse. Sentiu a respiração do capitão perto de si e abriu um sorriso, virando o rosto para encará-lo – Você respira alto, sabia? – O capitão arqueou a sobrancelha e olhou ao redor, mas ninguém parecia interessado neles.
- Isso não é verdade.
- É sim. – jogou o cabelo para o lado e fez mais duas rubricas – Mas não se preocupe, eu acho uma graça. – Ela não virou a cabeça para ver como ele havia reagido, mas tinha certeza de que ela própria estava ficando vermelha. Havia dado em cima do capitão da Marinha Real. Sua cara de pau havia se sobressaído nos últimos meses. Talvez fosse o clima londrino atingindo seus neurônios.
Ele não havia respondido e havia tomado aquilo como sinal de que não deveria continuar, então apenas suspirou e assinou a última linha, analisando a assinatura dele. Era pequena e não ocupava metade da linha.
- Prontinho. – Falou mais alto, chamando a atenção de uma funcionária ruiva com o rosto cheio de sardas. Ela assentiu e aproximou-se do balcão, revisando calmamente todos os parágrafos.
- A denúncia será prestada e processada em até três dias. Seu testemunho está escrito aqui – ela apontou para uma folha separada unicamente para o testemunho coletado pelos funcionários, uma hora atrás – Vamos agora pegar o testemunho do suspeito. Quando houvermos resposta sobre o procedimento, ligaremos. O capitão será a sua testemunha, portanto não estará no direito de punir o sargento Wilson.
- Espera, o quê? – arregalou os olhos, virando o rosto para – Você disse que teria mais poder caso fosse a testemunha. – Ele assentiu.
- Minha palavra como testemunha.
- Então quem vai punir o sargento? – Questionou, de repente o pensamento de que estava desprotegida havia voltado e ela sentiu vontade de rasgar a denúncia no meio. Se o capitão não a pudesse proteger...
- O meu superior, Major Levesque.
- Ele é o pai do sargento? – estava com as mãos cruzadas nas costas, o peitoral para frente e mais sério do que nunca.
- Não. O Major Wilson não pode interferir no caso, o Major Levesque se torna responsável pela medida disciplinar. – A professora suspirou aliviada e assentiu.
- Ok. Obrigada. – Agradeceu a moça e despediu-se com um aceno. Ao saírem pela porta, deram de cara com sargento Wilson e os outros dois sargentos. engoliu em seco ao observar os olhos calmos de Wilson direcionados a ela. Os sargentos prestaram continência ao capitão e permaneceram em posição.
- Somente Wilson. – O capitão ordenou e eles assentiram. Wilson entrou junto com o capitão na sala, deixando sozinha com o sargento Andrew e o outro cujo nome permanecia desconhecido. Ela olhou para o teto, para seus sapatos e suspirou. Os dois estavam do outro lado do batente, os ombros eretos, mãos cruzadas nas costas e encarando o elevador do outro lado do corredor. Não pareciam estar no ânimo de falar. Claro, estavam em serviço.
- Obrigada. – finalmente virou para encarar sargento Andrew, mas não sabia seu sobrenome. Os dois viraram para ela – Eu não sei seu sobrenome, então, sargento Andrew, obrigada por ter se posicionado hoje e no dia do jogo. – O sargento loiro abriu um sorriso deslumbrante.
- Por nada. É um prazer conhecer finalmente a namorada do capitão. Ah, e é Andrew Rodrigues. Família portuguesa. – Ele sorriu.
- Eu não me lembro de você. – se dirigiu ao sargento ao lado, o homem negro de olhos verdes.
- Sou o sargento Freeman. Meu nome é Leo. – Apresentou-se com um sorriso tão lindo quanto o de sargento Rodrigues. pensou que o critério para entrada na Marinha era a beleza absurda. Observou o crachá no peito de Andrew e arqueou a sobrancelha ao enxergar “RM” ao lado de sua posição e sobrenome.
- Sargento Rodrigues Royal Marine. Precisamos da diferença no final para não sermos confundidos com os nossos colegas do Exército. É um erro comum, já que usamos os mesmos títulos hierárquicos que eles. – Andrew explicou ao vê-la com um semblante confuso.
- Obrigada pela explicação. O que exatamente vocês fazem? – Andrew trocou um olhar com Freeman.
- Não sei se podemos falar. Wilson tem plena certeza de que a senhorita é uma espiã. – arqueou a sobrancelha perante a fala do loiro.
- Vocês também têm?
- Não há provas ainda. – Freeman afirmou e deu de ombros.
- Sim. Afinal de contas, a única razão para eu ser namorada do capitão de vocês seria por ser espiã? – sabia que não deveria dizer ser namorada do capitão, mas o divertimento ao ver os olhos dos dois arregalarem para ela foi impagável.
- Não, não! Nosso capitão é muito bonito. – Andrew apressou-se em dizer.
- O que você acha, sargento Freeman? – Questionou ao negro, que apenas deu de ombros e fitou Andrew seriamente.
- Eu acho que não deveríamos falar sobre a aparência do nosso superior, especialmente em frente a alguém que não conhecemos.
- Hm, resposta interessante, então isso é um sim? – provocou com um sorriso. Sargento Freeman abriu um pequeno sorriso e balançou a cabeça.
- Não vou elogiar a aparência do meu capitão. Não acho que seja apropriado. Além do mais, se você namora nosso capitão apenas pela beleza dele, isso é entre vocês dois. – cedeu.
E ali o silêncio permaneceu. pensava em como desmentiria o namoro sem parecer mentirosa, mas sabia que não aconteceria daquele jeito. Desde que havia conhecido o capitão percebera que ele era honesto – foi o que a motivou a buscá-lo em Londres, em primeiro lugar. Ele não mentiria. Então, fez a única coisa que poderia pensar ser sensata. Iria embora. Wilson sairia dali a pouco e ela precisaria se despedir de todos eles. A mentira viria à tona e sargento Wilson apenas teria sua raiva ampliada.
Por sorte, nunca mais precisaria vê-los novamente. Havia combinado com capitão que ele mandaria um e-mail para ela com o que ocorresse, para que ela não precisasse voltar a Londres novamente. Olhou para o relógio e percebeu que já passava das oito da noite. Estava exausta e precisava urgentemente se preparar para o início das aulas.
- Vou embora. – Anunciou para o vento. Os funcionários paravam na frente deles, esperando pelo elevador enquanto batiam os pés no chão com impaciência.
- Não vai esperar pelo capitão? – Sargento Freeman questionou.
- Não. Está tarde e preciso ir, de verdade. Foi um prazer conhecer vocês. Diga a ele que vou aguardar o retorno dele sobre o caso. – Sargento Rodrigues pareceu confuso, mas apenas acenou quando ela entrou no elevador e desceu os andares até o térreo. Ao atravessar a recepção, sentiu-se levemente mal por não ver a recepcionista. Gostaria de se despedir da moça.
Os saltos de contra o asfalto da rua foram sua companhia, acompanhados pelo som das buzinas no cruzamento. O vento extremamente frio castigava seu rosto, o cachecol voando para todos os lados, atrapalhando sua visão.
- Que merda, hein. – Resmungou e arrumou o cachecol dentro da blusa.
- ! – A professora virou e encarou capitão parado em sua frente, os lábios levemente trêmulos de frio. Estava somente de terno.
- Meu Deus, você deve estar morrendo de frio! Desculpa ter saído sem avisar, eu só não queria estar lá quando sargento Wilson saísse, desculpa. Fui uma bela covarde. – Coçou a nuca e deu de ombros. O capitão olhou para um poste ao fim da rua, balançando o corpo para espantar o frio.
- Deu tudo certo. A queixa está sendo prestada.
- Ele já deu o depoimento? – Aproximou-se um pouco mais do capitão, ainda preocupada com o tom que seus lábios tomavam devido ao frio.
- Sim, ele admitiu o que fez. – arqueou a sobrancelha.
- Tão facilmente?
- Tão facilmente. – E sorriu. havia visto muitos homens sorrirem, afinal de contas, era uma palhaça nata, mas o sorriso do capitão era o que ela esperava que fosse: quase uma fotografia.
Pensou que ele parecia ser um cara legal e lamentou precisar ir embora. Por um lado, havia sido sua primeira aventura na Europa, apesar de ter envolvido racismo e machismo. Mas Deus faz rotas certas por pessoas tortas. Algo assim.
- Obrigada pela sua ajuda. Você não precisava ter feito tudo isso por uma desconhecida. – O capitão deu de ombros.
- Não sei, tenho algo pelos indefesos. – Arqueou a sobrancelha e cruzou os braços. Provavelmente tentando impedir o calor de escapar por seu corpo.
- Você realmente acha que eu não poderia ter descido o cacete no seu subordinado? – sabia que não poderia, mas foi o suficiente para fazer o capitão rir. O som era estranhamente melodioso. Ele deveria cantar bem.
- Você parece ser muito forte, mas nesse caso, desculpa, acho que não.
- Tudo bem. Daqui dois anos eu volto com um capuz, uma arma na mão e desço o cacete nele. – Deu de ombros e percebeu o olhar inquisitivo do capitão – Isso pareceu algo que um espião diria, não?
- Completamente.
- É, estou começando a achar que posso ser uma espiã sem saber. – Apoiou a mão na lateral do pescoço e sorriu – Bom, de qualquer maneira, estou indo. Aguardo seu e-mail com a continuação. E obrigada por ter me ajudado, de novo.
virou-se para ir embora, os ombros tremeram levemente de frio. Parou dois passos depois, uma onda de coragem passando por ela.
- Na realidade, eu sou completamente nova nesse país, como você já sabe... – Voltou a andar em direção ao capitão cujo cenho estava franzido em confusão – Você sabe de alguma biblioteca aberta vinte e quatro horas?
Capitão não parecia esperar por aquilo. Ele abriu um sorriso largo e colocou as mãos dentro do bolso.
- A minha biblioteca favorita, por sinal. Só consigo passar lá depois do trabalho. Às vezes viro a noite lá. – abriu um sorriso genuíno, sabendo que os olhos brilhavam pela informação. Uma verdadeira nerd.
- Que incrível! E onde fica?
- É Sheppard Library. Estava pensando em ir lá hoje. Gostaria de ir? – mordeu o lábio tentando esconder um sorriso.
- Eu nunca negaria um passeio até a biblioteca, capitão .
- . Pode me chamar de . – A professora sorriu e assentiu.
- Ok, . Quando podemos ir?
- Deixe-me apenas subir para pegar meu casaco.
- Fechado. Vou esperar aqui.

*


- Allah nas alturas! – praticamente gritou ao achar seu livro infantil favorito. Não havia ninguém além deles e da bibliotecária de vinte e poucos anos. A maioria das pessoas jamais passaria o tempo em uma biblioteca, ainda mais de madrugada. Foi um choque agradável ver que havia pessoas jovens interessadas em livros.
- Esse é o livro favorito da minha sobrinha. – comentou pela prateleira atrás dela. Seu rosto estava entre um livro sobre anatomia humana e outro sobre a vulva.
- Ela lê isso? Quantos anos ela tem?
- Dois anos. Era o livro favorito da mãe dela também. É raro ter um livro com uma personagem negra, ainda mais criança. – assentiu e folheou as páginas amareladas com um sorriso. Colocou o livro nos carrinhos de devolução e continuou a dedilhar as lombadas antigas. Quando chegou aos clássicos, deixou-se envolver pelos títulos familiares. Homero, Platão, Safo, Calímaco, Teócrito, achou até mesmo alguns evangelhos em grego koiné.
Ao seu redor, as luzes acesas contrastavam com as áreas de estudo atrás de si. Havia diversas mesas com abajures apoiados em cima. Havia três acesos, provavelmente para dar ideia de localização. segurou um livro com alguns achados de Safo e passou pelas páginas. Assustou-se ao sentir ao seu lado.
- Não conheço nada de Safo. Você gosta de literatura grega? – Questionou ao pegar O Banquete de Platão da prateleira.
- Sou professora de literatura grega. – Informou e absorveu com deleite o choque nos olhos de .
- Uau. Eu não esperava por essa. – Comentou honestamente, seus olhos castanhos fitavam com interesse latente – Você consegue ler esse poema em sua mão? – A mulher encarou o fragmento na página.
- “E lembre-se de quanto a quero/ Ou já esqueceu? Pois vou lembrar-lhe/ Os nossos momentos de amor” – Leu o trecho em inglês após lê-lo em grego. fitou o rosto de , os olhos brilhavam em choque.
- Você é provavelmente a pessoa mais inteligente do mundo. – riu e precisou pôr a mão sobre os lábios quando a bibliotecária bufou. Apesar de jovem, o barulho era igual ao das bibliotecárias idosas americanas. repreendeu-se. Precisava aprender a falar baixo, mas era difícil quando vinha de culturas são escandalosas.
- Agradeço, mas não sou. O que achou do fragmento?
- Era para uma mulher, não era? Os poemas de Safo eram homoeróticos? Li algo sobre isso em um ensaio de Píndaro.
- Espera, você lê Píndaro? – estava levemente confusa.
- Você acha que somente professores de clássicos se interessam por literatura? – Questionou. sentiu-se ridícula. Sim, achava que não fosse o tipo que lia. Na verdade, ela achava isso da maioria das pessoas.
- Só estou curiosa. – Deu de ombros – Não é comum achar pessoas fora do ramo acadêmico que gostem de literatura grega, ainda mais Píndaro.
- Acho justo. Eu também não esperava que você gostasse. Não sinto essa imagem dos americanos.
- Ei! – exclamou com uma risada – Sei que a maioria dos americanos são péssimos em geografia, mas gostamos de ler.
- Você sabe achar a Turquia no mapa? – assentiu.
- Eu nasci nos Estados Unidos, mas sou filha de pai coreano. Comecei a fazer multiplicação com um dia de vida, e quando completei um mês já sabia tocar piano.
levou para a seção de matemática. Começou a explicar a formação de navios e os cálculos por trás da escolha de material, a física que precedia o universo (nas palavras dele). O papo continuou até que tivesse levado de volta ao prédio da Marinha. Ele sorria e dava risadas das observações nada matemáticas de , levando a um embate de quem conhecia melhor o universo (empate). Ela olhou para o capitão e pensou que poderia ser amiga dele, gostaria de ser. Isso se ela não estragasse tudo.
- Chegamos. – Ela anunciou ao estacionar na frente do prédio. Havia alguns seguranças na frente, e a recepção estava semi-iluminada. Na rua, quase nenhum carro atravessava a avenida movimentada durante o dia. Já passava de uma da manhã.
- Obrigada por me trazer. Mas está meio tarde, não? Não é seguro você voltar sozinha.
- Eu vou dizer que conheço o capitão da Royal Marine.
- Acho que você não vai ter tempo para isso, . – A professora riu e assentiu.
- Fica tranquilo. – ficou em silêncio por algum tempo até que suspirou com uma careta.
- Anota meu número, então. – franziu o cenho. Ele tinha o semblante preocupado e totalmente diferente de alguns minutos atrás. Ele parecia... Incomodado?
- Não precisa dar o seu número. – Abriu um sorriso – Eu prefiro não pegar seu número se for um sacrifício tão grande, capitão .
- Não é isso, é que eu não costumo passar meu número em situações como...
- Vou te interromper agora, capitão , antes que você fale mais do que gostaria de falar. Não precisa explicar. – Ela assegurou, mas a sobrancelha estava arqueada – Você não me conhece. Não precisa me passar seu número. Não poderia cobrar algo assim de você. Só gostaria que tivesse me avisado antes de eu te arrastar para a biblioteca à força. – Ela murmurou e batucou os dedos contra o volante.
- Na verdade, foi um dos dias mais divertidos que eu tive em meses. E eu quis ir. – assentiu, não realmente convencida, mas poderia lidar com aquilo. Afinal de contas, nem todo mundo era obrigado a gostar dela. Mas, por algum motivo, queria que gostasse. Ele parecia ser alguém divertido para sair quando ela estivesse em Londres, fugindo de Oxford.
- Fico feliz que minha palhaçada tenha te entretido. – Riu pelo nariz e continuou a batucar os dedos contra o volante.
O silêncio estendeu-se no carro, e quando estava pronta para se despedir, sentiu a mão de roçar contra seu braço. Um arrepio automático subiu por sua perna esquerda. Virou-se para pedir desculpas pelo esbarrão, mas encontrou os olhos de focados nos seus, descendo logo para os lábios da professora. repetiu o movimento involuntariamente. Os olhos castanhos pareciam quase pretos sob a luz precária dos postes. Os lábios pareciam mais cheios, e o corpo dela controlou um arrepio quando percebeu que ele havia prendido a língua levemente entre os dentes.
- Gostei do seu nariz. – Ela sussurrou, a voz mais firme do que imaginava.
- Gostei da sua boca, não deixei de pensar nela o dia todo, na verdade. – A mão de encostou-se a sua bochecha, e seu impulso foi fechar os olhos. A brecha que ele precisava para beijá-la.
derreteu-se nos lábios de , suas mãos em seu pescoço e sua mente a levando de volta para os locais mais sórdidos e primitivos que poderia. Não pôde evitar o suspiro quando os lábios dele desceram para seu pescoço, a língua trilhando o caminho até o lóbulo de sua orelha, puxando levemente com os dentes. De relance, pôde ver as janelas do carro embaçadas, o arrepio em seu corpo a levando a locais que não lembrava conhecer há meses. Tudo aquilo estava guardado dentro de si?
- Eu preciso ir para casa, . – O final da frase quase esmoreceu quando segurou sua nuca com um pouco mais de força.
- Uhum. – Ele murmurou e voltou sua atenção ao pescoço agora totalmente exposto de . Ela segurou a cabeça dele, guiando-o para os locais mais sensíveis. As pontas dos pés estavam curvadas dentro do sapato caro.
- , - ela murmurou entre os beijos – Eu preciso ir. – Ele rosnou baixinho e soltou um muxoxo, voltando sua atenção para os olhos de .
- Obrigado pela noite. – Ele murmurou contra seus lábios, ainda sem parar de encará-la. Abriu a porta do carro, saiu e a fechou atrás de si, apoiando-se contra a janela aberta. estava com o cabelo bagunçado, os lábios molhados e inchados, as mãos suadas sobre o volante – Boa noite, . Dirija com cuidado. – observou a silhueta do capitão atravessar a recepção, cumprimentando os guardas. Ela apoiou a cabeça contra o estofado, os olhos atordoados pela rua.
Aqueles seriam os cinquenta minutos mais longos de sua vida.

Capítulo 4

- Ele me enrolou, Genevive. – resmungou quando se sentou com a amiga à mesa da lanchonete. Dia vinte e três de janeiro, era o que marcava o calendário. Dali exatamente um mês, começaria a conviver na sala de aula como docente. O fato de poder dar aulas em Oxford ainda era um sonho.
- Ele não te enrolou...
- Ah, não enrolou? Eu quase me sentei naquele homem há uma semana. Ele me enrolou para eu esquecer que ele não queria meu número. Ele me beijou para me fazer perder o foco. – deu uma mordida em seu pão e tomou um gole de chá – E eu caí igual uma burra. Eu tenho trinta anos, Genevive! Eu não deveria ser enganada tão facilmente! – Genevive arqueou seus olhos acinzentados para ela.
A francesa era uma das pessoas mais bonitas que já havia visto. Os olhos emolduravam uma pele cor de oliva, os cabelos crespos formavam um black power digno de comercial e sua voz era simplesmente melodiosa.
- , mas você queria algo com ele? O objetivo não era unicamente a situação com... Bem, com aquele pedaço de inferno do subordinado dele? – encarou Genevive.
- Você está começando a pegar minhas manias.
- Eu sei, não posso evitar, suas expressões são incríveis. – sorriu e tomou outro gole de chá.
Desde que havia chegado até a Inglaterra havia tomado mais chá do que todo o restante da vida até aquele momento. Ela percebeu, com choque, que estava se acostumando muito mais rapidamente do que achava.
Falava com seus pais todos os dias antes de dormir, mas sentia mais saudade da Coreia do que dos Estados Unidos em si. Talvez fosse pelo fato de nunca se considerar verdadeiramente americana.
– Voltando ao seu capitão gostoso...
- Ele não é tão gostoso. – Murmurou a contragosto e tossiu levemente com o chá.
- É sim. Pare de tentar diminuir a imagem dele na sua mente para se sentir menos pior.
- Você tem razão. – Suspirou e deu de ombros, arrumando a pilha da antologia que passaria aos seus alunos do segundo ano de graduação – É só que... Nós dois nos demos tão bem durante toda a noite... Eu nunca esperei que pudesse beijá-lo no final da noite, mas pensei que ele pelo menos quisesse ser meu, sei lá, amigo? – Colocou a cabeça entre as mãos – Olha isso, pareço ter doze anos.
- É normal quando gostamos de alguém e almejamos a amizade dessa pessoa, meu bem.
- Pois é. Mas tudo bem, acontece. – Deu de ombros e colocou o restante do pão na boca, os olhos divagando para o tabuleiro de bolos no balcão – Eu estou cansada demais para conhecer alguém, isso faz sentido? – Genevive assentiu – Mas o cara que conheci no bar na quinta-feira definitivamente me fez esquecer um pouco do que aconteceu com .
- Você é impossível, . – Genevive deu risada e encarou as unhas feitas – Ah, você vai amanhã para Londres para a conferência com aquele empresário do Irã, não é? – assentiu e lembrou-se do seu trabalho que lhe rendia um bom dinheiro extra.
Não havia muitos intérpretes de farsi na Europa. E os que estavam lá, bem, a maioria era ilegal.
Há alguns anos, havia começado a traduzir entrevistas e matérias do inglês para o farsi, chamando a atenção de um líder iraniano que a havia conhecido em uma palestra sobre a cultura iraniana na Califórnia. Desde então, sempre que necessário uma intérprete, era chamada para ajudar quem quer que fosse a figurona da vez.
Behruz Yasser, um empresário muito famoso no ramo de alimentos, precisava conversar com um outro megaempresário britânico. Não era de sua conta saber de seus negócios, então assinava um termo de confidencialidade. Ela sabia apenas que o vocabulário envolvia alimentos, termos contratuais (passara a noite inteira pesquisando) e vocabulário empresarial. Até aquele momento, nunca havia ouvido sobre planos de morte e esquemas terroristas, como já a haviam perguntado antes.
- A conferência não vai ser em Londres, vai ser na Irlanda. – Comentou com um suspiro – Vou a Londres para pegar o trem.
- Não é mais fácil pegar o trem de Bristol?
- Sim, mas Behruz Yasser quer me ver pessoalmente antes de irmos. Além do mais, ele já está em Londres.
- Boa sorte, querida. – Genevive estendeu a xícara de chá em sinal de compaixão. aceitou, por agora. Sabia o que a aguardava no dia seguinte.
*
- Gostaria de tomar algo, senhorita ? – levantou os olhos para encarar Behruz Yasser.
O homem tinha cabelos negros, assim como sua barba bem feita. O terno estava perfeitamente moldado em seu corpo, disfarçando a barriga protuberante sobre a calça social. Ele fumava um cigarro de palha e espalhava a fumaça na cara de . Ela tinha certeza de que era proibido fumar ali.
- O que o senhor tomar, posso tomar também. – Agradeceu quando foi colocado um suco de frutas vermelhas em sua frente. Arrumou-se em seu chador*, tomando aos poucos enquanto Behruz conversava com seus seguranças e às vezes mexia em seu celular. sabia que era melhor evitar falar mais do que o necessário, ou poderia soar desrespeitosa.
- Você é uma boa menina, . Pena que esteja envolvida com os porcos. – abaixou os olhos e apenas assentiu.
- É verdadeiramente uma pena.
- Sei que já assinamos o termo, mas gostaria apenas de relembrá-la para não deixar meu lado. Nunca se sabe o que os britânicos podem arranjar.
- Tem razão. – assentiu. Tentou ignorar a coceira em sua cabeça devido ao chador, mas estava ficando um pouco insuportável no calor da cabine fechada.
Quando finalmente chegaram a Dublin, foram aguardados por três carros parados na rua atrás da estação. abaixou a cabeça e entrou no carro de Behruz Yasser. Estava tão acostumada a virar outra pessoa na presenta de seus clientes iranianos, era como se criasse uma personagem. Poderia ser divertido, dependendo de quem fosse representar. Behruz Yasser era um iraniano de Caxã, na província de Ispaã, e tinha fortes conexões com o governo. sabia que deveria fazer apenas o que lhe fora ordenado fazer, que manter a cabeça baixa a deixaria longe de problemas. Levando em consideração sua situação no país e o poder de Behruz, preferia parecer indefesa mais que qualquer outra coisa.
- Senhor, chegamos. – Anunciou a Behruz quando o motorista britânico começou a indicar algumas direções para ela.
- A senhorita primeiro. – Anunciou ao abrir a porta.
Estavam diante de uma enorme mansão a oeste de Dublin. As janelas de giro de madeira davam um ar antigo ao ambiente, apesar da porta ser extremamente moderna e nova. O jardim bem cuidado era intercalado por uma passarela em ladrilhos brilhantes de mármore.
Não havia portões ou grades, mas ela observara seguranças em cada esquina até chegarem ali. Na calçada, ela viu três homens vestidos com roupas comuns, mas conseguira observar um deles carregar a arma no bolso.
respirou fundo e cobriu as mãos suadas sob o chador negro. Estava muito frio. As roupas sob a vestimenta não pareciam comportar o suficiente do frio que sentia. Sabia que ficaria doente, ou que a sinusite atacaria assim que tomasse um banho quente.
Observou um homem sair pela porta da frente. Travis Benjamin, o milionário que conversaria com Behruz.
- Olá, sejam bem-vindos! – Acenou para a pequena comitiva. permaneceu ao lado de Behruz, entrando na casa logo atrás dele e traduzindo a pequena conversa fiada entre os dois envolvendo o caminho até ali e a comida do trem. Travis era um homem com mais ou menos cinquenta anos, olhos azuis, loiro e com o sorriso mais astuto que já havia visto. Sentiu imediatamente que deveria manter-se afastada dele – E você, quem é? – Ele se dirigiu à , os olhos descendo por toda a roupa.
- , senhor Travis. – As palavras deslizaram em voz baixa, porém firme.
- Bom, senhorita , aceita um copo d’água?
- Estou bem, obrigada. – Negou com um sorriso.
- Então, aos negócios! – Bateu as mãos em um estalo e sorriu.
olhou ao redor. Praticamente não havia móveis, apenas uma mesa de vidro enorme no centro de uma sala com um lustre prata como maior enfeite pendendo sobre a cabeça deles. O cômodo dava para uma cozinha com balcão americano, os armários pareciam intocados, e não havia nada além de uma pia de mármore.
Claramente aquela casa havia sido alugada ou não era habitada. A luz fraca de inverno atravessava o cômodo com um tom melancólico contra as paredes claras. A casa até mesmo emitia eco quando falavam.
Até que um movimento no canto da parede chamou sua atenção. Observou um homem com o uniforme que havia visto com clareza nos últimos dias. Parecia... Quase arregalou os olhos ao ver Andrew parado, as mãos cruzadas nas costas e os olhos focados nela. Seu arquear de sobrancelha indicava reconhecimento e certa confusão, mas voltou rapidamente a olhar em outra direção.
Sentaram-se à mesa, o coração de levemente acelerado. Se a Marinha estava ali, então algo estava acontecendo, não? Ela havia feito sua pesquisa durante a semana, sabia que os Royal Marines eram uma divisa diferente da Marinha em si. Eles cuidavam de partes específicas... Como o transporte de autoridades importantes. Virou os olhos para Travis. Não se lembrava dele como uma autoridade. E não viu outro intérprete da parte de Travis.
- Senhor Behruz, os britânicos não possuem um intérprete deles.
- Eu sei. Um dos termos foi que somente eu tivesse uma intérprete. Vai precisar fazer o papel por dois. Não se preocupe, vou dobrar o que pagaria anteriormente. – assentiu e pensou na enxaqueca que viria após alternar entre dois idiomas constantemente.
A professora pegou seu caderno e papel. Olhou a lista de códigos específicos nas traduções e prosseguiu com sua função.
Enquanto traduzia a conversa deles, pensava em tudo o que Behruz havia enviado para ela acerca do britânico. Um megaempresário que gostaria de investir nos negócios de Behruz. Não havia mais informação do que aquela. Mas se Andrew estava ali, algo estava acontecendo. Algo que ela ansiava saber, mas não sabia como.
- Espero que tenha visto o plano de estratégia que enviamos, senhor Behruz. – Traduziu a mensagem entre os dois, os olhos alternando entre um e outro. Travis batucou os dedos brancos contra a mesa de vidro, adotando uma postura descontraída – Ficamos interessados no seu projeto, e a Coroa está muito interessada em seus serviços.
Serviços?, pensou . Que tipo de serviço?
- Pode contar com nosso sigilo, seu país não saberá de nossos acordos, e nenhum de nossos inimigos, esperamos. – engoliu em seco ao final da frase, mas fez parecer apenas como uma pausa para ar. Controlou o tremor nas mãos e parou de escrever no caderno quando Behruz começou a falar:
- , a partir de agora, se abrir sua boca para falar algo além do que direi, será morta nessa sala. – Ela se arrepiou com a fala cruel. Havia um sorriso no rosto de Behruz enquanto dirigia sua fala a ela, mas os olhos permaneciam em Travis. Não sabia o que estava acontecendo, muito menos como proceder – Boa garota. Vamos lá. Diga a ele que a estratégia foi analisada, mas os riscos são maiores que as garantias. Queremos um sinal de vinte mil libras. – traduziu e observou Travis batucar com os dedos sobre a mesa da mesma forma que ela fazia quando estava pensando sobre algo sério – E diga que se alguma informação vazar, não me responsabilizo pelos homens dele, apenas pelos meus.
- Entendo o que queira dizer, Behruz. Está pensando em sua segurança, e eu não poderia negligenciar nada disso. Como vê, trouxe os melhores homens à disposição para o caso. Você está seguro. Nosso acordo é seguro. – traduziu a mensagem de Travis, as mãos sob o chador levemente trêmulas pela ameaça de Behruz.
- Esse branquelo vai me sacanear. – Murmurou Behruz para e suspirou – Diga a ele que aceito o acordo, contato que os vinte mil estejam nas contas que eu lhe passei em vinte e quatro horas, então, enviarei todas as armas que ele quiser. Após isso, entraremos em contato para novos fornecimentos. – Um sorriso se estendeu pelo rosto de Travis ao ouvir que tudo havia saído como planejado.
A professora criou um sinal para “armas” em seu caderno, apesar de saber que nada daquilo estava em seu contrato.
- , minha linda... – Começou Travis, os olhos vidrados nos seus. Ele parecia calmo e pacífico, diferente do toque histérico quando abriu a porta para eles – Diga a seu chefe que será assim. Foi um prazer negociar com um aliado. O alto escalão não saberá o que aconteceu aqui. – E piscou para ela.
passou a mensagem para o empresário iraniano. Desde quando um empresário do ramo alimentício contrabandeava armas?! Ainda mais para a Coroa Britânica!
- Bom, acho que podemos ir, então. – Behruz anunciou com um sorriso vitorioso. Os olhos brilhavam diante de parte do dinheiro que receberia.
se levantou da cadeira acompanhando o anfitrião e virou-se para seguir Behruz Yasser até o carro, pronta para voltar para Oxford e virar a noite pensando em como a Coroa estava comprando armas contrabandeadas. Começava a surtar com as possibilidades quando viu parado à porta. Seus olhos encontraram imediatamente os de . Ele sequer expressou reação, os ombros ainda altos e os olhos fixos.
- Senhor, vamos escoltá-lo de volta para a estação. – não pôde evitar o arrepio enquanto a imagem dos dois se beijando em seu carro voltava à mente. Os lábios dele estavam ressecados, seus olhos estavam fixos em Behruz. parecia uma geladeira diante de Behruz.
comprimiu os lábios em uma linha fina, tentando controlar os pensamentos, e traduziu a mensagem. estava usando o uniforme, mas parecia incompleto sem o cap branco com a faixa vermelha e o brasão britânico no centro. Usava apenas o uniforme preto com as abotoaduras prata, nada mais. Nada que o identificasse completamente como parte da Coroa. Mas ele ainda sim parecia perfeitamente britânico. Perfeitamente perigoso, e agora, pelo que poderia inferir, perfeitamente criminoso.
Não havia a menor dúvida de que o que ocorria ali não era um cronograma oficial. A Coroa estava envolvida com a compra de armas justamente do inimigo de um aliado diplomático, os Estados Unidos? Não, reformulando, os britânicos xingavam, agrediam e matavam os iranianos ao chamá-los de terroristas, mas ali estavam, negociando.
não pôde evitar a raiva que subiu por seu peito. Encarou Andrew ao seu lado esquerdo e arqueou a sobrancelha, com a expressão mais fria que conseguia colocar em seu semblante, e então seguiu Behruz em direção à porta. Capitão esperava próximo ao carro com as mãos cruzadas atrás do corpo e o olhar direcionado a Yasser.
- Foi bom fazer acordo com vocês, Travis. – Behruz acenou antes de entrar no carro. parou apenas para traduzir e se despedir de Travis. estava parado ao seu lado, mas seu olhar estava acima dela, olhando para o final da rua.
entrou atrás de Behruz e assustou-se quando fechou a porta assim que se acomodou no lugar. Ela virou o rosto para o lado levemente, vendo o capitão entrar no carro atrás deles.
ponderava os cenários que poderiam acontecer a partir dali. Ela tinha um acordo com Behruz, mas nada o impedia de matá-la ali mesmo, afinal de contas, ela não era cidadã britânica. Morreria como um dos iranianos indigentes, sua família não saberia o que havia acontecido com ela, e seria esquecida em meio a milhares de rostos como o seu, esquecidos pela Coroa e por seu próprio país.
- Você fez um bom trabalho, . – Behruz comentou em farsi, e a professora forçou-se a encará-lo. Assustou-se ao sentir as costas da mão dele passarem por sua bochecha. Ele riu e recuou, as mãos de volta ao seu colo coberto por uma calça social – Temos um acordo escrito. Devo lembrá-la do que combinamos?
- Não, senhor Behruz. – Comentou, a voz denunciando seu nervosismo. Ele assentiu e encarou o motorista, um britânico que não tinha ideia acerca do que falavam. Ao lado dele, no banco do carona, um outro iraniano aliado de Behruz estava com a mão apoiada na janela, os olhos voltados para a estrada. encostou a cabeça no estofado e tentou controlar as batidas do coração.
- Não está curiosa para saber o que aconteceu ali? – Questionou Behruz após alguns segundos silenciosos.
- A ignorância é uma virtude às vezes. – Comentou sem encará-lo, os olhos voltados para a estrada.
- Uma mulher sábia. – Riu pelo nariz e virou o rosto da mulher para si com cuidado. controlou o asco que sentiu e apenas o encarou – É uma pena, de verdade, que não more no Irã. Tenho certeza de que seria uma ótima esposa. – Ele sorriu e passou os dedos levemente ao longo do chador de , no final pousando a mão na dela – Ou algo do tipo. – E voltou novamente à posição anterior, rindo pelo nariz, como se o pensamento de como “algo do tipo” o divertisse.
A professora aguardou alguns segundos antes de esconder as mãos sob o chador. Queria chorar e tomar quatro banhos.
Lembrava-se de sua mãe dizendo que a melhor coisa que fez foi sair do Irã, não porque não amava seu país, porque amava. Os avós de haviam sido mortos em um ataque. Haviam descoberto as reuniões secretas que os porcos, os cristãos, faziam. Os avós de estavam naquela reunião. A mãe dela, então, fugira pela Turquia ao sair de Teerã, capital do Irã. Ao chegar no país, conheceu um médico sul-coreano que estava visitando um amigo na época, Ben , seu nome americano.
nascera dessa união alguns anos depois. Ela ouvira muitas histórias da mãe sobre sua ascendência, e apesar de nunca ter ido ao Irã, sentia vontade de conhecer o país que carregava toda a sua história. falava farsi desde que se entendia por gente, seguia o calendário muçulmano, apesar de ser cristã como sua mãe e seu pai, mas nunca dizia isso aos seus contratantes. Corria o risco de ser morta, independentemente de estar na Europa ou na Ásia. Para eles, ela era a muçulmana perfeita. Ela deixava que acreditassem, afinal de contas, era sua cultura e sua história. E Allah era seu Deus, no fim de tudo.
- Vamos. – Anunciou Behruz ao chegarem à estação de trem.
saiu do carro e observou com leve repugnância sair do automóvel atrás de si, os olhos castanhos agora focados no seus por milésimos antes de se voltarem para Behruz. Ele se aproximou com os passos firmes e a expressão séria.
- Faça boa viagem, senhor Behruz. – arqueou a sobrancelha perante a pronúncia perfeita de do sobrenome do empresário e traduziu a mensagem para Yasser. Ele assentiu e estendeu a mão para cumprimentar o capitão.
- Obrigado, soldado. Você seria um ótimo representante do meu país. Não esqueça da proposta que eu lhe fiz. – Behruz arriscou um inglês arranhado, e a professora controlou o choque ao vê-lo tentar conversar com .
Algumas palavras foram traduzidas por , mas ela ainda se focava em não deixar o queixo tremer de raiva.
- Não vou esquecer. – Assegurou , o rosto ainda inexpressível. lembrou do sorriso dele e seu muxoxo quando ela havia dito que precisava ir embora naquele dia no carro.
Todo aquele papo de honestidade de foi por água abaixo.
Ela se deixara enganar pelas palavras bonitas que prometiam verdade. Mais uma vez, ela havia sido decepcionada. Sabia que não podia confiar em homens, fosse qual fosse a nacionalidade, mas se chocara ainda mais com a capacidade patológica de mentira de .
Alguém que denunciava seu próprio subordinado também aceitava o contrabando de armas, aquilo mostrava um nível de deturpação moral além do que ela imaginava.
- Vamos. – Behruz colocou as mãos na base das costas de , conduzindo-a até a entrada da estação.
Os ombros dela estavam tão rijos que chegavam a doer.
O caminho todo para casa foi feito em silêncio. Quando chegaram a Londres, despediram-se, e a mulher se viu sozinha quando Behruz entrou em outro carro e foi em direção ao aeroporto.
Os olhares que recebia dos britânicos eram invasivos, mas apenas ignorou. Atrás de si havia um parque, não lembrava do nome, não lhe interessava no momento. Somente precisava processar o que estava acontecendo.
Andou pela beira do lago até achar um banco vazio. Os corredores faziam exercícios, e o restante de neve lamacenta cobria o chão.
havia visto a neve nos últimos dias, e sentiu-se honrada por ter presenciado um evento certamente raro em Londres, mas os resquícios agora pareciam transtornos, a lama havia sujado seu tênis favorito.
Ela sentou-se e pensou em tirar o chador de sua cabeça, mas sentiria ainda mais frio, e não havia levado nada além de coisas que pudesse carregar nos bolsos da calça jeans sob a vestimenta iraniana. Suspirou e cruzou os braços, os olhos vidrados no mato em sua frente.
Pensou em ligar para a mãe e contar o que havia ocorrido, mas somente o pensamento de Behruz achar sua mãe fazia com que desistisse da ideia. Talvez fosse a hora de oferecer seus serviços de intérprete apenas para pessoas não envolvidas com política. Aquela experiência a havia traumatizado mais do que gostaria de admitir.
Em nenhuma das outras vezes havia sido ameaçada de morte, ou sequer tratada com tanto nojo. Pousou a mão sobre o local onde Behruz a havia tocado e sentiu uma onda de ânsia de vômito tomá-la por completo.
Ela sabia que algo poderia ter acontecido com ela se não fosse pelo britânico no carro. Não, ela tinha certeza daquilo. Fechou os olhos mediante a possibilidade e forçou sua mente a pensar em outra coisa, mas foi interrompida pelo som de seu celular no bolso. O número no visor era desconhecido. Não costumava atender números estranhos, mas poderia ser alguém de Oxford.
- Alô? – A garganta arranhou.
Estava ficando doente!
Colocou-se em pé, precisava aquecer um pouco o corpo. Lembrou-se dos remédios que seu pai havia dado para ela e estavam na prateleira de casa. Desejava saber se havia alguma loja de produtos coreanos por ali, mas o bairro coreano ficava distante de onde estava, e não iria lá apenas para comprar vitaminas.
- ? – Ela ficou em silêncio ao ouvir a voz de .
- Como você conseguiu meu número? – Ela não havia conseguido disfarçar a rispidez.
- Eu peguei na recepção do prédio da Marinha. – Ouviu um barulho do outro lado da chamada, parecia uma porta fechando – Precisamos conversar.
- Hm, agradeço a proposta. Me parece extremamente atraente. – A ironia escorreu por suas palavras. Sentiu os lábios tremerem com o frio. Estava na hora de pegar um táxi até o local onde havia estacionado seu carro. Já estava escuro, e logo mais seria impossível aguentar o frio de janeiro. Colocou o fone de ouvido que estava em outro bolso e abriu o aplicativo da Uber.
- É sério, . – Ele parecia impaciente – Não tem nada a ver com o que aconteceu conosco dois e—
- Meu Deus, você acha que estou assim por que você não me passou seu número? – Questionou com a voz agora beirando à histeria. Chamou o Uber e começou a andar em direção ao local indicado.
- Não, mas pensei que poderia—
- Você tem dez segundos para me dar uma boa razão para não desligar o telefone na sua cara. – O efeito raivoso quase foi desfeito pelo tropeção que levou em uma poça de lama, seu grito afetou a credibilidade de suas palavras.
- Você está bem? – Ele perguntou parecendo preocupado. Dissimulado.
- Não importa, capitão.
- Você está agindo como criança, . Não está me deixando explicar.
- O que eu vi hoje explica muita coisa, capitão . – Argumentou e acenou para o motorista da Uber – Olá, boa noite! Pode seguir o GPS, obrigada. – Interrompeu a conversa ao entrar no carro. esperou pacientemente. Deveria estar pensando em outras mentiras.
- Eu quem deveria dizer isso! Você estava sendo intérprete de Behruz Yasser.
- Como você tem a pronúncia tão perfeita?
- Pratiquei em frente ao espelho. – Ele provocou. quase podia vê-lo sorrindo.
- Você está realmente querendo conversar? Porque não está funcionando. – suspirou. fitou o motorista pelo retrovisor, ele parecia focado na música que tocava pelo rádio.
- Você tem razão. Hoje foi um dia estressante. – Ele ficou em silêncio – Podemos sair para conversar? Sei que vocês foram até Londres. Já cheguei aqui.
- Estou indo para Oxford. – comentou e quase gemeu de felicidade quando percebeu que o motorista havia aumentado o aquecedor.
- Posso ir até lá.
- Não é necessário, .
- Eu insisto. – encarou o estacionamento à sua esquerda.
- Obrigada pela corrida, moço. – Despediu-se do motorista e andou em direção ao funcionário do estacionamento – Onde você está, capitão? Posso tentar te encontrar.
- Vou te passar o endereço por mensagem. – agradeceu ao funcionário quando pegou a chave e entregou as libras equivalentes ao tempo estacionado.
- Até daqui a pouco. – Despediu-se e desligou o celular. Correu em direção ao seu carro e suspirou aliviada ao tirar o chador, que coçava em sua nuca suada pelo nervosismo.
pegou dois casacos a mais que havia levado e os colocou no corpo. Enrolou o cachecol ao redor do pescoço e colocou a touca quente. Observou a mensagem de com sua localização chegar em seu celular. Ele não tinha foto de perfil. sequer conseguia imaginá-lo tirando uma foto. Será que ele gostava de selfies? Será que já havia mandado nudes? Ele tinha cara de quem não se esforçava para mandar um nude decente... Ela balançou a cabeça e ligou o carro. Precisava parar de pensar tanta besteira.


Continua...



Nota da autora: Gente, eu quero agradecer imensamente. Mais de 400 visitas na fic e ela só está sendo contada há menos de um mês! Isso é doideira demais! Obrigada, gente, de verdade! Se você está lendo isso aqui, obrigada mesmo. Isso me motiva a escrever.
Beijos e se cuidem, até a próxima!

Obrigada, Liih! Espero que você esteja se cuidando também. Beijos.



Eu estou me cuidado sim, Aninha. Na medida do possível, entre trancos e barrancos, mas estamos indo. ♥ Mal posso esperar pela att.
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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Continua...



Nota da autora: Olá! Mais uma fic pra conta e espero que possam se animar com essa da mesma maneira que eu estou animada! No próximo capítulo rola playlist da fic ;)



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