Última atualização: 05/02/2019

CAPÍTULO UM

5 de julho de 2017, quarta-feira, Londres
Azikiwe não conseguia proferir algo que não fosse xingamentos ao encarar o trânsito londrino às 8h30 da manhã.
- Eu já deveria ter aprendido a este ponto. Agora estou atrasada e enfiada nesta merda de carro, na merda deste trânsito! – Os nós dos dedos ficaram quase brancos ao apertar o volante do carro. se encarou no espelho e percebeu que ainda havia maquiagem borrada sob os olhos. Droga. Pegou o celular e digitou o nome de na barra de contatos logo em seguida, deixando-o chamar pela amiga.
- Alô? ? – A voz de soou desperta do outro lado. deu um pequeno sorriso ao pensar no quão bem-disposta era a amiga, ainda que tão cedo.
- Você não vai acreditar no que aconteceu ontem à noite... – A morena se preparou para começar a reclamar, mas a interrompeu antes que o fizesse.
- Você está no meio do trânsito né? Eu consigo ouvir o estresse na sua voz, isso só acontece quando você está enfiada no meio do cruzamento. Respire fundo, conte até 10, depois, se ainda estiver brava, você pode começar a reclamar de verdade. se obrigou a acolher o conselho da amiga enquanto finalmente conseguia fazer o carro se movimentar – Mais calma?
- Já estou chegando. Vamos ver o quão calma eu realmente estou. – Vociferou ao observar um motorista louco tentar ultrapassar seu carro imprudentemente. A mulher desligou o telefone e sentiu os olhos arderem de sono pela noite mal dormida. O encontro nem havia valido a pena, de qualquer forma.
batucava os dedos contra o couro do câmbio quando finalmente entrou na rua do estacionamento e seguiu livremente até sua vaga habitual. O ar frio de Londres a encheu quando saiu do carro, o verão não estava tão quente quanto achou que estaria.
- Bom dia! – Acenou para o porteiro e seguiu diretamente para o prédio da administração, quebrando pequenos galhos contra a sola de seu tênis.
O zoológico era enorme, mas a parte do estacionamento contava apenas com uma pequena praça rodeada por copas de árvores que ajudavam no calor, mas atrapalhavam na primavera.
Azikiwe inspirou o cheiro de terra molhada, soltou os cabelos e balançou os ombros. Foco, era o que precisava.
Não havia necessidade de que os outros vissem o claro fracasso a que havia se submetido. Se bem que não havia sido um total fracasso, pelo menos não para o moço do encontro. Quer dizer, ela devia um crédito a si mesma por ter fingido estar se divertindo tanto, e créditos duplos por ter feito ele acreditar.
- Bom dia, Dra. Azikiwe! – A sempre animada recepcionista sorriu para que não se impediu contagiar com o bom humor. Engula seu orgulho machucado, Azikiwe.
- Bom dia! Houve alguma emergência enquanto estive fora? – O lado mais forte de se mostrou rapidamente. Claro, não havia como esconder a sua preocupação na noite anterior ao sair da clínica.
- Tudo sob controle, que eu saiba, mas o Cobalto sentiu sua falta à noite, deu para perceber. – Comentou a menina de olhos azuis com uma cara sorridente. soltou uma risada engasgada ao pensar naquele animal enorme sentindo saudades da "moça da carne".
- Vou lá dar atenção a ele, então. – A médica se despediu enquanto se dirigia ao vestiário.
Guardou tudo o que precisava, vestiu o jaleco e desceu praticamente correndo pela pequena encosta até a sua base de atendimento para a visita matinal aos felinos. Vestiu as luvas e pegou o balde de comida com os tratadores e conversaram sobre cordialidades: clima, trânsito, notícias, o de sempre; mas foi o urro de alegria vindo de Cobalto que fez sorrir verdadeiramente.
- Bom dia, grandalhão. Sentiu saudades? – Perguntou ao colocar parte da comida de Cobalto em seu espaço através da parede maciça.
Havia ainda uma grade separando a veterinária do animal desperto e animado com a presença da conhecida médica. O animal era enorme e extremamente assustador aos olhos do público, este passava às vezes até meia-hora observando o enorme tigre, que fazia questão de mostrar sua força predatória para quem quisesse ver, mas na verdade era apenas um bebê aos olhos de .
- Ele sentiu sua falta ontem à noite, doutora. Acho que ficou bravo ao ver Sirius ao invés da senhorita. – Um dos tratadores informou enquanto separava os alimentos. deu uma risada alta que fez Cobalto para de se movimentar e apenas encarar a médica.
- Não se preocupe, Cobalto, hoje eu sou toda sua. Mas, por enquanto, vou terminar de alimentar meus outros pacientes, então se acalme e não destrua nada até eu voltar.

*

- Ele pelo menos avisou que iria embora? – sussurrava, escondendo um sorriso sádico por trás de sua boca cheia de comida integral.
- Claro que não! Sério, eu considero seriamente desistir de homens.
- Se desistir, vai acabar vivendo só com os animais.
- Talvez esse seja o melhor cenário do universo. – Finalizou ao colocar um pedaço de mamão na boca e suspirar. – Mas foi até bom, sabe? Eu percebi que ele era um lixo nos primeiros quinze minutos, mas resolvi dar uma chance. Agora aprendi que não vou prolongar tanto minha paciência de Jó. – deu uma risada alta, atraindo o olhar de alguns colegas ao redor.
Naquele momento, estava sendo exibido um show de mágica no parquinho central, era a deixa para os médicos e tratadores almoçarem e terem dez minutos de descanso. Na verdade, Azikiwe amava até mesmo esses minutos contados que tinha para almoçar, aquela era a vida que havia escolhido para si, mesmo que fosse cansativa, amava cada parte. Ou talvez amasse tanto os animais que esquecia as partes ruins.
- Tenho uma cirurgia hoje no hospital, você também? – assentiu.
- Preciso cuidar de um parto de uma Ocapi* fêmea, houve algumas complicações no último exame, pelo o que eu percebi, e vou precisar acompanhar de perto. – balançou a cabeça em concordância e encarou algo por trás dos ombros da amiga.- ! Há quanto tempo! – se levantou, fazendo virar a cabeça para trás e cumprimentar com um high five e um sorriso gigante.
- Você é preguiçosa demais até para me cumprimentar, ? Sério? – deu de ombros e deu espaço para que a amiga se sentasse ao seu lado. era tão bonita, os cabelos volumosos desciam em cascata até a cintura e os olhos pretos destacavam sua pele alva no meio de Londres. – Então, o que vocês duas têm feito ultimamente?
- teve um encontro horrível ontem à noite. Ela precisou pagar a conta, o cara dormiu em cima dela e vomitou no tapete quando saiu, tudo isso sem um pingo de sexo no meio. – Os olhos de se arregalaram e não soube onde esconder a cabeça. Droga, havia perdido a cabeça de vez?
- Em minha defesa, eu tentei dar uma chance ao cara, ele tinha acabado de sair de um relacionamento, precisava se divertir. – Cada pingo do orgulho de Azikiwe ia para o esgoto conforme observava as amigas rirem abertamente para que o zoológico inteiro ouvisse. Perfeito. Já não bastasse os tratadores dando risadas pelas costas dos médicos, ainda tinha essa.
- Claramente o moço se divertiu. – Alfinetou com um sorrisinho.
- Vai para a merda, . – largou o garfo no prato e encarou a amiga com as sobrancelhas arqueadas. – Não é como se você tivesse um bom histórico de relacionamentos. Estamos no mesmo barco.
- Não estamos não, eu estou saindo com um cara legal, fofo, divertido e companheiro. Claramente o nosso barco está indo em direções opostas. – apenas mostrou a língua para a amiga.
- Vocês duas são adolescentes ou o quê? – se pronunciou enquanto mexia no celular, obviamente, não se interessando pelo assunto de duas solteiras.
era casada há cinco anos e já tinha dois filhos, ela já havia passado pelo o que as duas amigas discutiam e achava graça em observá-las se provocando.
- Meninas, vou precisar ir até o escritório. Foi bom vir aqui falar com vocês.
, depois passe em minha sala, tenho que discutir algumas observações nos relatórios da ala dos Panthera. – se despediu das duas amigas e sumiu pela porta do refeitório, deixando e sozinhas novamente.
- Preciso terminar de cuidar da Luly antes de ir falar com a chefona suprema. – Anunciou se levantando da mesa, pegando também os pratos de .
- Obrigada amiga, já vou indo também. Mais tarde a gente se fala. – concordou com a cabeça, deixou os pratos na pia e voltou a se dirigir para sua inspeção.
Andar pelo parque deixava sempre boquiaberta. O London Zoo Center era tão enorme e tão cheio de criaturas maravilhosas, ela não deixava de se surpreender. Entretanto, ficava ainda de certa forma devastada ao ver tantos animais em jaulas ao invés de estarem em seus habitats - este era um dilema que enfrentava quase todos os dias. Contudo pensar que estava ali, não para benefício próprio, mas sim para ajudar aqueles animais a terem um bom tratamento, a deixava feliz.
Enquanto caminhava, passou pelo espaço dos tigres e sorriu ao ver Shere Khan ronronando contra Linda, ela parecia mais saudável desde que o zoológico a havia resgatado de caçadores chineses que a mantiveram em cativeiro por três anos.
- Esqueci minha caneta, droga. – Resmungou repentinamente e se virou para voltar ao refeitório, dando um grito assustado ao esbarrar contra um corpo em sua frente. – Puta merda! – O coração de parecia sair do peito com o susto.
- Oh Deus, desculpa! Não quis te assustar, moça! Desculpa! – O moço de olhos negros circulados por uma auréola dourada falou desesperadamente. olhou ao redor e percebeu o olhar de muitos pais que a encaravam assustados. Droga, Azikiwe.
- Tudo bem, eu que sou assustada demais. – tentou sorrir, mas ainda sentia o coração batucar com força total. A médica finalmente prestou atenção no rapaz carregando uma pasta enorme nas mãos.
- Ok então, hã... – O rapaz focou os olhos no jaleco de – Doutora Azikiwe, é assim que se pronuncia, certo? – A moça apenas assentiu com um sorriso – Eu estou procurando a Bennet, você a viu por aqui? Você a conhece?
- Ah, sim. Está vendo aquele prédio azul ali? É o prédio da administração. Pergunte por ela e a recepcionista vai te guiar. – deu um sorriso cordial e observou pequenas ruguinhas se formarem nos olhos do estranho quando ele também sorriu.
- Obrigada, Srta. . Acho que agora somos íntimos o suficiente para que saiba meu nome, depois de todo aquele susto. – A médica deu uma risada sufocada. – Me chamo , a seu dispor. – O moço, agora , estendeu a mão e a apertou com firmeza, dando um sorriso genuíno em resposta.
- Bom, você já me conhece. – deu uma risada alta e o vento empurrou seus cabelos para longe do rosto, expondo ainda mais os olhos dourados majestosos na direção da médica.
- Desculpa novamente, não foi minha intenção.
- Fique tranquilo! Boa sorte procurando ! – balançou a mão em despedida enquanto já se virava para ir atrás de Luly.
- Obrigado! – ouviu a despedida ser dissolvida pelo vento forte soprando contra as árvores. Que moço mais caloroso, não pareceria ser britânico se não fosse pelo sotaque, pensou ao avistar o enorme pavão mostrar sua beleza a qualquer um que pudesse enxergar. A médica fez uma careta e lembrou que não havia voltado para pegar a caneta.
*Ocapi:
*Panthera: gênero de felinos que inclui tigres, onças, leopardo, jaguatirica, etc.

*

- Entre e feche a porta, por favor. – nem mesmo levantou os olhos do formulário quando irrompeu pela porta rangendo sob as palmas da médica. passou a mão por seu jaleco antes de se sentar na frente de sua amiga, mas também sua chefe. – Está com os relatórios? – A morena colocou a pilha de anotações sobre a mesa bagunçada de sua superior. não era exatamente cuidadosa com suas coisas, mas ainda sim conseguia ser organizada naquela bagunça, algo que invejava secretamente. – Houve alguma mudança no comportamento dos animais?
- Eles têm estado mais agitados ultimamente pelo excesso de barulho que os shows de mágica emitem. Quer dizer, a bombinha não é recomendada em um ambiente como um zoológico. – torceu o nariz. Odiava as apresentações circenses que às vezes eram feitas ali, os animais se estressavam e também.
- Falei com Gerald sobre isso, ele disse que é um favor que devia a um amigo. Precisamos aguentar isso por apenas mais duas semanas, fique tranquila. – suspirou e observou a sala de . Tão clean e sem graça. A janela aberta era tomada pelas árvores que tentavam entrar no prédio e retomar seu espaço em meio ao concreto. – Eu vou avaliar os documentos.
- Ok. Depois me diga o que acha sobre o projeto que te apresentei, acho que é uma iniciativa legal especialmente para os biólogos marinhos.
- Claro, claro. Não se preocupe. Eu sei que você tem uma cirurgia daqui a pouco, mas eu tenho algo a te dizer. – Automaticamente foi tomada pela curiosidade e se aproximou instintivamente da mesa da amiga. – Mas não sei se deveria agora...
- Você sabe que eu sou curiosa. Desembucha logo! – Exigiu a médica já quase escalando a mesa desorganizada de .
- Achei o cara perfeito pra você. – Todo o interior de desabou e ela se jogou na poltrona com os braços cruzados. Ela havia ficado curiosa por aquilo?
- Pelo amor de Deus, . Eu já disse que eu só saí com o cara ontem porque ele queria se divertir, poxa! Eu nem mesmo estou procurando um namorado! Por que você sempre tenta me arranjar alguém? Eu não posso ser solteira, é isso? – encarou a amiga sobre os óculos de armação vermelha e abriu um sorriso sorrateiro.
- Você pode ser solteira o quanto quiser, mas acho que você se fecha demais para homens ou qualquer outra pessoa na sua vida, não seria legal tentar mudar um pouco isso? – As sobrancelhas arqueadas de demonstravam que ela não desistiria daquela discussão tão facilmente.
- Eu tenho meus animais e meu Deus, não preciso de mais nada além disso. – Disse com um dar de ombros natural.
- Eu sei e respeito suas vontades celibatárias, porém falsas. – preferiu não discutir. – Mas dá uma chance, só uma chance, a última! Prometo! Se você não gostar desse cara, eu juro que não tento mais te arranjar com ninguém! – levantou as duas mãos ao alto e ficou esperando até que desse um sorriso pequeno em direção à amiga.
- Acho legal você estar pensando nestas coisas no horário de trabalho. – já se levantava. Precisava estar no centro cirúrgico em duas horas.
- Minha próxima reunião é daqui quarenta minutos, tive cinco minutos de intervalo e gastei eles com você, . Deveria estar agradecida. – provocou a amiga e jogou um pedaço de papel amassado na direção da veterinária.
- Ahã, obrigada por me conceder seu tempo, Grã Mestre. – A ironia escorreu pela voz da médica. – Quem é o bendito e para quando você marcou o encontro? – mostrou certo espanto. – Não tente fingir que não marcou, eu sei que você marcou! Mereço ao menos uma descrição do cara, não?
- O encontro está marcado para sexta, às oito horas. Ele vai te buscar na sua casa e não me disse planos. – arqueou a sobrancelha com curiosidade. Se fosse algum psicopata, ela socaria .
- Você não tem medo que eu seja assassinada ou sequestrada? Nunca se sabe o que se passa na cabeça de um homem, ! – A mais velha revirou os olhos na direção de que não podia acreditar na cara de pau da amiga. – Eu não quero ir a esse encontro, olha as coisas em que você me mete, !
- Calma, ! Eu conheço o que se passa na mente deste homem, e eu sei que ele não vai te sequestrar também! Eu o conheço há muito tempo, tempo o suficiente para ir à casa dele e não achar nenhuma escrava sexual no porão ou qualquer bizarrice que você esteja pensando. – cruzou os braços. Não deveria aceitar, não deveria, você está dando moral demais à , a mesma que te arrumou um encontro com um apicultor que te levou para conhecer a criação dele.
- Ok. Só porque eu tenho certeza que vou odiar e você nunca mais vai me perturbar com isso novamente. Me manda os dados do bastardo por mensagem.
- Assim que eu gosto! – bateu palminhas e pegou seu celular imediatamente.
- Ok, vou indo então. Te vejo sexta?
- Mas é claro, meu bem.

*

Quando a sexta-feira chegou, Azikiwe nem mesmo se lembrou do encontro que teria com Hot Dude from Heaven, como o havia descrito. Nenhum nome, nenhuma foto, apenas descrições comportamentais e pessoais. Pessoais até demais.
"Um dia ele caiu pelado num rio em pleno outono, as meninas da faculdade ficaram doidas!", era o que dizia parte da mensagem de . Ótimo. sairia com um desvairado.
O real motivo de Azikiwe não estar realmente focada no encontro, era a cirurgia que havia feito na Ocapi fêmea. O bebê estava a salvo, foram 14 meses exatos de gestação, mas a Ocapi ainda não estava pronta.
- Preciso que o medicamento seja colocado na comida dela, ela já parece estar menos abatida que ontem. – passava a mão na cabeça do pequeno filhote da Ocapi. Era tão magro em relação a outros filhotes. Os olhinhos fechados e a pelagem mesclada só faziam o filhote ser mais fofo.
- Doutora, estão te bipando na UTI. – entregou o filhote à enfermeira e conferiu o bipe na calça, não havia percebido nada. A médica andou rapidamente até o terceiro andar e entrou em uma sala isolada, encontrando .
- O que houve? – Perguntou ao entrar no complexo. As roupas de estavam manchadas e havia suor em sua testa. estava apoiada em uma das macas enquanto fitava um tigre-do-sul-da-China deitado na maca. – Essa é a Linda? Quando ela deu entrada na UTI? Ninguém me avisou! – a encarou seriamente.
- Ela teve convulsões ontem à tarde, você estava fazendo uma cirurgia. Eu acompanhei o processo, mas precisava cuidar de uma cirurgia marcada. Conversei com o neurologista e ele disse que pode ter relação com o choque que Linda provavelmente reviveu quando os tratadores foram dar comida. Ela deve ter se assustado com os tratadores e correu até bater com a cabeça em uma árvore. – As médicas se colocaram ao lado do enorme tigre sedado na maca. checou os níveis cardíacos do animal, assim como a dosagem de remédio antes de suspirar.
- Lidar com animais que sofreram traumas é tão complicado.
- Eu não sou a médica responsável, mas me mandou aqui como supervisora. Tem medo que algum enxerido tente tirar informações sobre um dos últimos tigres-do-sul-da-China existentes do mundo. – balançou os ombros e o tronco, claramente demonstrando o cansaço das últimas quarenta e oito horas.
- Você não vai pra casa desde quando?
- Acho que desde ontem de manhã. Precisei cuidar de algumas cirurgias e uma papelada.
- É, eu também. – As duas se mantiveram em silêncio durante um tempo.
- Hoje é seu encontro com o amigo da , né? Espero que o feedback seja positivo. – estalou a língua no céu da boca e deu uma risada preguiçosa.
- Qualquer feedback é mais positivo do que aquele último cara. Nossa, qualquer um! – As duas riram.
- Tome cuidado, qualquer coisa é só me ligar, sério! – Na maior parte do tempo, era ótima em ser mãe de três filhas, as duas pequenas e , que havia criado uma teoria sobre ter uma conexão materna com feita antes mesmo das duas nascerem, mesmo tendo apenas cinco anos de diferença uma da outra.
- Ok, mãe. Fique tranquila. não marcaria um encontro sem confiar de verdade no cara. – Espero. – Seu plantão já acabou, não? Já deveria estar indo para casa. – Observou ao olhar em seu relógio. 14h30. Seu turno acabaria em vinte minutos.
- Já acabou, mas estou esperando chegar junto com os seguranças. Estão realmente preocupados com a ameaça que outro sequestro poderia causar. – assentiu em compreensão. Lidar com animais em extinção implicava em lidar com ladrões e a mídia, ambos bem similares em diversos sentidos.
- Pode ir, eu espero ela chegar. Meu plantão só acaba em vinte minutos.
- Ok. Estou indo, então. – E pensar que ainda teria que lidar com crianças chorando em casa... – Bom encontro, . Vai dar tudo certo! Conte-me tudo depois!
- Claro! Bom descanso. – se despediu com um aceno, fechando a porta da UTI atrás de si com um estalo. – Ah, Linda. Você não tem noção do quão guerreira você é. – observava o diafragma do tigre se mover, aumentando a calmaria dentro da tempestade que estava solta dentro da médica.
Pouco tempo depois, chegou acompanhada de três brutamontes que mal olharam na direção de , apenas se colocaram na frente da porta e outro foi para o corredor seguinte.
- Você precisa de um banho, Azikiwe.
- Você precisa de um abraço bem apertado. – soltou uma risada anasalada.
- Precisamos tomar cuidado com Linda, especialmente agora, não podemos correr o risco de perder uma sul-da-China.
- Vai dar tudo certo, ela já está sendo medicada e vai ser bem cuidada. Acho que daqui dois dias no máximo já vai ser colocada em um local isolado para ver se o efeito do remédio é promissor. – Uma médica reportando a sua superior, era isso o que acontecia entre as duas no momento. sempre se perguntou se algum dia entraria em conflito com a chefe e o que sobraria da relação delas caso isso acontecesse.
- Está dispensada, Azikiwe. Vai tomar um banho e ir pra casa, precisa estar descansada para hoje à noite. – apenas assentiu e seguiu pelo corredor até o vestiário, pegou suas roupas e saiu do hospital com o coração na mão pensando tanto em Linda quanto no bebê Ocapi. Fez uma oração silenciosa enquanto entrava no carro e pedia que tudo ficasse bem com os dois animais.

*

- Acho que estou arrumada demais, não? – se encarou no espelho pela vigésima vez. Ela nunca conseguia escolher a roupa de primeira, eram necessárias pelo menos quatro trocas para que se decidisse. Trágico. A blusa oversized branca deixava seus ombros a mostra e a calça jeans com pequenos rasgos fizeram se perguntar se não estava casual demais, mas não é como se soubesse para onde iria, sabia apenas que iria sair. – Eu nem sei como o sujeito é! Meu Deus do céu! , eu vou te matar!
correu para a cozinha e preparou o chá de erva cidreira antes que a água esfriasse. Havia dormido apenas quatro horas, mas se sentia renovada, a xícara de chá a ajudou muito nisso. A médica balançava os ombros em sinal claro de nervosismo já que se sentia totalmente no escuro. Não sabia o que esperar além de um cara divertido e cara-de-pau, exatamente como o havia descrito. Nada além disso. se olhou uma última vez no espelho antes de receber uma mensagem no celular.

"Oi, ! Sou eu, seu date de hoje haha. Estou te esperando aqui embaixo. É o prédio marrom, certo?"

Será que deveria mudar de roupa mais uma vez?

"Estou descendo!"

Nada de mudar de roupa.
- Você está linda, . Abrace a mulher poderosa que você é! - falou consigo mesma antes de pegar a pequena bolsa e calçar os sapatos. A mulher desceu no elevador impacientemente, deixando a curiosidade aflorar cada vez mais dentro de si.
Ao sentir a brisa fria bater contra seu rosto, se sentiu eternamente grata por estar usando um sobretudo confortável. Olhou ao redor e observou um homem encostado a um Jeep prata, e levando em consideração que era o único na rua que parecia estar esperando alguém, deduziu ser seu Hot Dude, mas não conseguiu enxergar pela rua mal iluminada do condomínio. Azikiwe começou a se aproximar do homem, tentando dar a sorte de matar logo sua curiosidade. Quando já estava próxima o suficiente para que seus sapatos fossem ouvidos através do vento, o sujeito levantou a cabeça e sorriu.
?
- Olá novamente, doutora Azikiwe. – deu seu melhor sorriso enquanto as peças criavam forma em sua cabeça confusa. Mas o que está acontecendo? – Você parece chocada. Isso é decepção?
- Isso é choque, desculpa. É que a não falou o seu nome, nem mandou foto ou nada assim! – deu uma risada nervosa e mudou o peso do pé para o outro. Ela não se lembrava de ser tão bonito assim. Quer dizer, o cabelo enrolado estava penteado para cima, deixando que seus olhos brilhantes e sua pele bronzeada fosse destacada. Wow. Além disso, ele parecia ter senso de moda. usava uma camisa preta que apertava seus braços levemente musculosos, a calça jeans cinza torneava as coxas fortes. E os olhos, ah, os olhos dourados finalmente voltaram a ser objeto de admiração por parte de . Meu Deus, ele não para de sorrir?
- Vamos conversar melhor no carro? Está friozinho aqui fora! – assentiu e se dirigiu para o lado do passageiro, entrando rapidamente e sendo recebida pelo ar quente emanando do aquecedor.
Primeiros encontros, ainda mais quando são agendados por uma terceira pessoa, conseguem ser bem estranhos e havia passado por alguns desse tipo, mas parecia confortável, quase como se ele realmente quisesse estar ali sem uma terceira força suprema enchendo o saco dele. Talvez estivesse desesperado.
- Nós nos conhecemos há poucos dias no zoológico. – Foi o que conseguiu dizer, e riu.
- Sim, sim. Por sua causa, consegui achar sem mais problemas. Obrigado!
- Acho que eu deveria largar a carreira de veterinária e simplesmente ser guia do zoológico. – O homem deu uma gargalhada gostosa e se arrepiou. Por conta do frio, claro.
- Você ficou surpresa, não ficou? Por ser eu?
- Fiquei. Mas não foi uma surpresa ruim. - sorriu - Aonde estamos indo? – A curiosidade de falou mais alto. Ela apenas via as ruas se tornarem avenidas e pegaram um pequeno engarrafamento no caminho.
- É um conjunto de food trucks que eu gosto muito. Eu não quis tomar a liberdade de escolher um restaurante específico, então resolvi escolher vários. – Azikiwe deu um sorriso sincero pela escolha de e concordou com a cabeça.
- Eu gosto muito de comida de food truck! O meu favorito é o de comida mexicana e coreana, é muito bom! – Ok, entraram no assunto comida. sabia que poderia passar a noite falando sobre comida e não ficaria entediada.
- Comida coreana? Nunca comi...
E por mais meia hora presos no engarrafamento, e falaram apenas sobre comida, não que tivesse desgostado da conversa. Na verdade, ela ficou surpresa em conseguir engatar uma conversa tão facilmente com , tão simples e legal. Além do mais, não parecia ter um porão com escravas sexuais, mas ainda era muito cedo para tirar conclusões.
Ao chegarem no conjunto de food trucks, não escondeu o som de sua barriga roncando.
- Acho que precisamos escolher algo rápido, né? – comentou com bom humor e quis se enfiar embaixo do banco. Isso é hora de se manifestar, caramba?
- Wow, tem tanta coisa! – não escondeu o fascínio. Havia luzes coloridas conectando os carros de comida e os assentos pareciam ser feitos de materiais recicláveis. Uma moça negra com dreads cantava a música ao vivo em uma língua que ela não conhecia, mas era gostosa de se ouvir, e o lugar não estava lotado. Preciso vir aqui de novo. Mesmo que esse encontro dê errado, eu com certeza vou voltar aqui.
- Sim, por isso eu gosto de vir aqui, sabe? Tem de tudo e para todos os gostos. Estou feliz que você gostou. – Ela deu um sorriso largo para que retribuiu sem esforço.
- Boa noite! Sejam bem-vindos! – Uma moça de cabelos loiros e com roupa de garçonete os abordou – Mesa para dois?
- Sim, Aedith! Tem como você conseguir perto do food truck de comida asiática, por favor? – o encarou. Ele realmente gostava de food trucks, se até mesmo conhecia a garçonete.
- Claro. Sigam-me. – O local em que foram colocados era muito bom, a música não estava tão alta e estavam um pouco afastados das conversas altas.
- Obrigada. – agradeceu a garçonete – Esse lugar é incrível, . Eu nunca tinha ouvido falar, mas com certeza vou voltar. – Os dois estavam em pé um de frente para o outro, e sustentou o olhar que lançou a ela sem parar de sorrir.
- Ainda bem que gostou. O que vai querer comer? – deu uma olhada ao redor e focou no carro de comida coreana. Ele sabia que havia um ali? seguiu o olhar de e deu uma risada. – Coreana, vai ser?
- Pode ser! Mas você nunca comeu, não prefere algo diferente? – Ele deu de ombros e passou a mão no cabelo.
- Quero provar coisas novas. Vamos lá. – Os dois caminharam até o carro de comida coreana, que era o mais bonito, na opinião de . – O que você me recomenda, Srta. Azikiwe?
- Hm... Se você gosta de pimenta, tteokpokki é o melhor! Mandu também é ótimo, kimbap é bem simples, mas é muito gostoso também. – Ela não escondeu a felicidade quando uma moça veio recolher seus pedidos.
- Pode ser tudo isso! – Os dois pediram seus pratos e deixou que pagasse após uma pequena discussão que foi resolvida ao Azikiwe afirmar que pagaria pelo menos uma sobremesa.
Durante todo o tempo, e não pararam de conversar, nem mesmo quando a comida chegou. Azikiwe agradeceu pelo alimento, levando os dois a uma conversa sobre religião e crenças; não deixava de pensar no quão confortável se sentia, e que há muito tempo não se sentia assim em um encontro às cegas.
- Você não acreditaria nas pérolas que um jornalista precisa presenciar. É hilário. – comentou e bebeu mais um gole de soju. o havia feito provar a bebida alcóolica e ele pareceu gostar bastante.
- Eu sou veterinária, acredite, as pérolas são incríveis também. – Os dois ficaram em um silêncio confortável por alguns segundos. – Como você conheceu ? Se for "ok" por você falar, claro. – estava segurando essa pergunta desde que havia entrado no carro.
- Eu sou um amigo antigo dela. Conheci através do meu pai e acabamos nos tornando amigos durante o ensino médio. – Azikiwe assentiu com a cabeça e colocou mais um pedaço de kimbap na boca. – E você? Conhece do zoológico mesmo?
- Sim. Eu e nos tornamos amigas efetivamente há uns dois anos, se não me engano. Acho que o amor aos animais é o que liga realmente o pessoal do zoológico, sabe? Nós fazemos o que fazemos por amor a eles, isso nos aproxima bastante. – Um lampejo de curiosidade e ironia passaram pelos olhos de , mas foi rápido demais para que conseguisse avaliar realmente. A médica não sabia dizer em que ponto e ela haviam se tornado mais próximos, mas pouco tempo depois, estavam jogando sinuca no espaço de jogos e até mesmo dardos.
- Você joga muito bem! – comentou com uma risada engasgada quando encaçapou três bolas seguidas.
- Eu jogava na faculdade, muitas festas entediantes, então a sinuca era meu entretenimento.
- Eu joguei futebol na faculdade e odiava ir às festas, sinceramente. Eu ficava estressada perto de tanta gente bêbada. – riu e acabou errando a bola. precisou se aproximar da bola branca, parando ao lado do jornalista. O cheiro do perfume dele era muito bom. Droga, que homem cheiroso.
- Tudo bem, ? – A forma como o apelido da mulher saiu da boca inchada de fez com que ela criasse um cenário digno de novela em sua cabeça alterada.
- Sim, sim. Desculpe, acabei viajando. – Ela deu uma risada e se aproximou mais da bola, por consequência, de , este nem ao menos se afastou. errou a bola miseravelmente, mas percebeu que a presença de era muito forte ao seu lado e acabou não ligando para a bola parada perto do buraco, apenas na respiração levemente irregular do homem atrás de si. – Eu te dei a vitória, esse ponto deveria ser meu. – ergueu a sobrancelha e sorriu preguiçosamente.
- Obrigada por tornar meu trabalho menos árduo. – E a última bola disponível foi encaçapada facilmente por . – Acho que você me deve uma garrafa de soju. – não controlou a risada ao colocar o taco em cima da mesa. se aproximou mais dela, deixando-a irritada pela distância tão grande entre os dois.
- Acho que eu te devo uma sobremesa e um soju, que tal? – Ela estalou a língua e cruzou os braços sob os seios. deu um sorriso quase felino ao assentiu devagar com a cabeça.
- Aceito.

*

- Ele voltou dirigindo depois de beber? – Foi a primeira pergunta que fez no sábado ao irem para o parque.
- Não, voltamos de táxi e ele disse que voltaria no dia seguinte para pegar o carro. – A amiga assentiu levemente com a cabeça enquanto caminhavam ao redor de um pequeno lago. As filhas de brincavam com dois coleguinhas de pega-pega enquanto e a amiga caminhavam tranquilamente.
- Ele é bonito?
- Sim, muito gentil também. Não lembro de ter tido sequer um momento desconfortável com ele. – deu um sorriso meio bobo. – Ele já tem meu número, disse que iria me ligar, então é só esperar.
- Ele tentou te beijar? – gritou com as crianças antes de voltar a atenção novamente a amiga.
- Sim, mas eu acabei tropeçando na grama e nós dois só rimos. – A mais velha assentiu com a cabeça - Ele não deu a entender que iria para a cama comigo. Talvez porque eu tenha mencionado a igreja, não sei. Fiquei feliz por ele não ter insinuado, mas ao mesmo tempo me perguntei se ele só realmente não queria transar comigo. - deu uma risada fraca e revirou levemente os olhos. A mulher sempre observava todos os fatos antes de fazer qualquer comentário concreto.
- Não vi nada de problemático ou errado com esse rapaz, pelo o que você me disse. – O lado mãe da amiga era tão forte que se perguntou como ela era antes de ter seus filhos.
- Eu me sinto uma boba por querer que ele me ligue logo. – chutou uma pequena pedra no caminho e colocou a mão dentro dos bolsos da calça de moletom.
- Não é ser boba, é criar expectativas. – E tem diferença?
- Não sei... Espero que eu não quebre a cara como das outras vezes. Às vezes a gente chega a um ponto de cansaço.
se sentia uma idiota por esperar a ligação de , e mais idiota ainda por não tê-lo beijado na noite anterior.

CAPÍTULO DOIS - AQUELE DA VIAGEM PARA O CONGO

21 de julho de 2017, sexta-feira, Londres
- Você luta jiu jitsu ou MMA? Eu não vejo diferença nenhuma. – encarou o rosto inchado de com certo choque no rosto.
- O cara não queria desistir, acabamos nos machucando. Acontece. – A mais nova deu de ombros conforme tirava o jaleco do corpo e substituía a blusa branca por uma roxa. revirou os olhos na direção da amiga e trocou de roupa.
- Você ainda vai acabar se machucando feio e eu vou dar risada, sério. – deu uma gargalhada alta, fazendo com que sua costela doesse. Talvez tivesse exagerado na noite anterior – E como vão os preparativos para a sua viagem? Tudo certo? – acenou com a cabeça e sentiu o cansaço abatê-la repentinamente.
Iria viajar durante duas semanas para uma fundação no Congo com o objetivo de estudar os comportamentos dos animais e tentar achar uma forma de ajudar Linda e o bebê Ocapi a se adaptarem melhor ao zoológico ou dar o diagnóstico final de que não poderiam mais abrigar o filhote em sua propriedade, mas talvez o entregar àquela fundação. Tudo dependia das palavras finais de Azikiwe.
A médica se sentia feliz por poder fazer essa viagem, estava cansada do clima londrino dos últimos dias, além de estar precisando de ar fresco. Porém, ao pensar no tempo de voo e que estaria sozinha no avião, ficava estressada. Ela odiava aviões ou qualquer coisa que a pusesse no ar por mais de dez segundos. Além do mais, não sabia se era corajosa o suficiente para encarar possíveis casos de Ebola na região.
- Termino de arrumar as malas hoje e parto domingo à tarde.
A semana havia sido cansativa demais para todos no zoológico. Ao pegar o celular para ver as horas, percebeu que nem ao menos se perguntou se a havia ligado ou não, quer dizer, depois de três semanas sem sinal de vida do homem, simplesmente havia esquecido dele. Talvez não por completo, mas 80%.
- Quero muitas fotos, ! Grave vários vídeos dos animais e da paisagem, quero pelo menos sentir como se estivesse lá.
- Você vai na próxima, vou fazer questão de te levar. – sorriu para a amiga e colocou a bolsa preta nos ombros.
- Nada mais que a sua obrigação, lad. Vamos? – As duas caminhavam pelos corredores já vazios dos vestiários até o estacionamento, onde se separaram. entrou no carro e suspirou ao ligar o rádio, o seu podcast favorito começaria dali dois minutos.

"Boa noite, ouvintes. Neste momento são nove horas e vinte e três minutos e o programa preparado para vocês nesta noite de sexta-feira chuvosa, é especial. Tantos dias nublados em Londres e ignoramos a beleza que a chuva realmente tem, cada aspecto que traz para nossas vidas, cada pedaço de tristeza e lamento que é lavado quando as gotas caem em nossos guarda-chuvas. Você tem dado importância aos pequenos sinais que a vida te mostra? Ou tem ignorado cada um deles por achar estar vendo uma imagem maior, quando na verdade tem a visão limitada pelo orgulho e ganância? Antes de apresentarmos nosso convidado especial, começaremos com uma música pedida por um ouvinte."

sorriu ao ouvir o início de Close to You dos Carpenters ecoar pelo carro. Os músculos relaxaram e o congestionamento não a incomodou, na verdade, ela se sentiu feliz por estar presa no carro e poder desfrutar daquele momento de paz. A chuva batia contra o vidro, não era comum de se ver uma chuva daquelas em pleno verão, mas não reclamou. Cada pedaço de pele era aquecido pelo aquecedor, mas ainda havia um arrepio gélido percorrendo suas costas, a lembrança fresca do encontro com , três semanas atrás. Ela já havia sido rejeitada antes, não havia problema com isso, mas achava estranho. Ele parecia ter gostado do encontro, será que era tão bom ator? Ao questionar sobre o acontecido, ela apenas deu de ombros e disse que também não havia conseguido contatar o homem, mas parecia estar mentindo.
- Ele deve ter sido preso por tráfico de órgãos no Sudão. – brincou com e esta apenas a ignorou e voltou a comer seu almoço, uma semana antes.
olhou para o banco do passageiro, para a mala de viagem que estava cheia de documentos e mais papelada que a havia pedido para encaminhar para a ONG e desejou que o homem de quase um metro e oitenta estivesse sentado ao seu lado. Pare de pensar besteiras, . Supere, você perdeu dessa vez. E com um dar de ombros enfezado, voltou sua atenção para o trânsito londrino enquanto este abria um pequeno espaço para ela em compaixão dos pensamentos perturbados pelos cabelos negros e olhos felinos.

*

- Filha, se cuida. Não esqueça de mandar mensagem quando chegar lá! – deu um beijo na bochecha da mãe e logo em seguida um abraço em seu pai.
- Fica tranquila, Okoye. Ela vai estar segura, eu conheço o dono da ONG, ele é gente fina. – Como esperado, Bruce Havilliard conhecia qualquer um do ramo da medicina veterinária.
- Eu não posso me preocupar com minha filha? – deu uma risada alta e beijou novamente sua mãe.
- Obrigada por ficarem de olho no meu apartamento enquanto estou fora. Cuidado com as plantas mamãe, pelo amor de Deus.
O uber apareceu no canto da visão de , e então desceu apressadamente as escadas da portaria do prédio dos pais. acenou uma última vez para os pais antes de pegar o celular e conferir o horário. Sete da manhã, ainda havia bastante tempo para chegar ao aeroporto sem atrasos.

*

estava atrasada.
Estava tão cansada que acabou cochilando com a cabeça apoiada em uma mesa e perdeu a hora. Agora, corria como desesperada para o portão de embarque antes que não pudesse mais entrar no avião.
O coração estava disparado e sentia o mini travesseiro em seu pescoço a sufocar conforme atravessava o aeroporto. A voz no alto falante anunciou a última chamada quando chegou no saguão de embarque. A aeromoça portada perfeitamente e com a maquiagem impecável mediu Azikiwe de cima a baixo, provavelmente reconhecendo mais uma passageira atrasada, mas não se importou com isso, não quando fitou o enorme avião que a levaria direto para a República Democrática do Congo. Que Deus a ajudasse nas próximas dezoito horas.
se aconchegou em seu assento e respirou fundo. Graças ao dono do zoológico, ela poderia viajar de primeira classe, mas se sentia totalmente deslocada daquelas pessoas que sentavam ao seu redor. Mesmo que ganhasse consideravelmente bem, Azikiwe nunca usaria dinheiro em aviões, talvez com comida, no máximo em roupas, mas jamais aviões. A médica pegou os documentos que a havia entregado e passou o olho por cima de cada um deles. Não era de sua conta, mas disse que não haveria problema, especialmente porque não era nada demais, apenas burocracia desnecessária, e odiava burocracia.
- Aceita alguma bebida, Srta.? – Azikiwe levantou a cabeça para a aeromoça e pediu uma água. Os olhos nervosos de corriam pelas páginas para se distrair do enorme avião no qual estava. Na pasta se encontravam apenas nomes de financiadores que não conhecia, cadastros de clientes, cartas formais – uma delas fechada e selada, destinada a um dos diretores da fundação, mas a mulher não pôde deixar de querer pesquisar os financiadores, não se recordava de alguns – Aqui está. – A aeromoça entregou o copo d'água para , a médica empurrou os pensamentos para o fundo da mente e se concentrou na oração silenciosa que fazia.
Quando o avião decolou, Azikiwe jurou que nunca mais se sujeitaria àquilo novamente.

*

- Estou bem, . Eu não sei falar muito bem francês, mas estou conseguindo me virar bem até agora. Eu estou esperando o motorista para ir até a fundação. – estava no banheiro terminando de lavar o rosto mortalmente pálido quando sua chefe ligou. A imagem refletida no espelho era bem diferente da mulher que havia embarcado em Londres.
- Que ótimo! Não esqueça de mandar uma mensagem quando chegar lá. Estão havendo algumas ações de protesto no país, além de ainda poder haver risco de pegar ebola, então fique atenta e se cuide, por favor. – Mais um problema na lista de Azikiwe. A morena já estava se acostumando com isso.
- Fica tranquila. Vou usar máscara perto dos animais e em áreas de risco. – murmurou do outro lado.
- Vou desligar, preciso ir à uma reunião. Vai dar tudo certo. suspirou ao guarda o celular novamente no bolso e se inclinou novamente para o lixo, achando que fosse vomitar o resto do almoço que comera no avião. A médica precisou reunir toda a força que tinha para caminhar com as malas até o portão de desembarque.
Quem deveria procurar? Homem, mulher, velho, jovem? Os olhos curiosos de seguiram cada uma das pessoas com plaquinhas na mão a espera dos passageiros até que achou uma com seu nome em uma caligrafia garranchada. Azikiwe sorriu ao se aproximar de uma moça negra baixinha com um sorriso largo no rosto.
- Srta. Azikiwe? – assentiu, surpresa com a falta do sotaque francês da moça – Acompanhe-me – a médica não questionou e seguiu a moça lado a lado – Teve um bom voo?
- Acho que deve ter sido bom, mas eu estava ocupada demais passando mal. – A nativa riu e assentiu.
- Não está com a cara muito boa, gostaria de comer alguma coisa no caminho? Temos mais uma viagem de duas horas pela frente. – arrumou a rodinha da mala com o pé e negou com a cabeça.
- Acredite, a última coisa que eu quero agora é comer.
Durante o caminho até a van da fundação, absorveu toda a paisagem. A energia emanada era diferente de Londres, era mais pura. O céu brilhava em um azul intenso e uma onda de calor encheu o corpo agasalhado de ao colocar os pés para fora do aeroporto. O calor londrino não era nada comparado com aquele que sentia, mesmo que não fosse tão forte quanto dos países tropicais.
A capital do país, Kinshasa, não parecia refletir o que era visto nos jornais com tanta intensidade, mas ainda sentia a tensão invadir seu corpo quando observava os militares parados com armas em punho no meio das avenidas enquanto atravessavam a cidade para o interior do país. Cada vez mais, a médica engolia em seco ao ver alguns corpos largados perto de plantações e homens armados até os dentes nas fronteiras entre cidades. Ela não conseguia dormir, mas apenas revirar em sua mente possíveis cenários de guerra em que aqueles homens poderiam ter morrido e mal tiveram um funeral digno.
- As facções estão sempre em guerra, Srta., mas não se assuste, estamos seguros. – tentou acreditar, de verdade, mas sentia o interior se revirar. O ser humano é deplorável, era nisso em que pensava quando, horas de viagem depois, avistou um enorme portão de arame e mais homens armados parados na frente de uma placa que dizia "ROCWA Foundation" – Chegamos – Keyla, nativa e motorista da fundação, virou a cabeça para trás enquanto segurava o volante – Vou ser sua guia aqui dentro também, Srta. Sinta-se à vontade para fazer perguntas, mas apenas não saia desacompanhada daqui, nunca. – Azikiwe assentiu destemidamente com a cabeça e reuniu suas tralhas espalhadas no banco. Quando atravessaram os portões de aço fortemente protegidos, soltou a respiração que mal percebeu estar segurando. Nas próximas duas semanas, aquela seria sua realidade, aparentemente.
- Obrigada por me trazer, Keyla. – A médica agradeceu ao descer do carro em frente a uma das sete casas no meio de um campo enorme. Os portões haviam ficado para trás, mas ainda era possível distinguir os arames farpados nas torres de controle. Parecia mais uma prisão do que qualquer coisa – É aqui onde vou ficar? – A moça acenou com a cabeça e guiou Azikiwe para dentro da casa azul que não possuía um jardim na frente, mas era tão bonita e organizada por fora que fez questionar se não havia sido inaugurada menos de dois meses atrás. As janelas eram enormes e grandes cortinas impediam a visão interior da casa, além de um tapete laranja cobrir a entrada, deixando maravilhada com a simplicidade, mas beleza extraordinária do lugar. Antes de entrar pela porta, inspirou o cheiro de mata que a invadiu por completo. Ela se sentia no paraíso. Antes que Keyla saísse, sentiu-se tentada a perguntar.
- Vocês já foram invadidos antes?
- Apenas uma vez, alguns meses atrás. Mataram cinco nossos e sete animais, um deles era um de nossos Ocapi – O interior da médica se revirou, entretanto ela tinha certeza que não era mais a comida do avião.
- Sinto muito. – Keyla assentiu com a cabeça e se retirou da casa após se despedir brevemente e lembrar a médica da localização das máscaras, deixando sozinha na estrutura de paredes brancas e piso de mármore.
não tinha um pressentimento bom quanto ao tempo que passaria naquele lugar, não sabia exatamente o que acontecia, talvez fosse o efeito do voo, mas parecia que uma mão segurava seus ombros e a dizia para ficar, mas que não seria fácil.
deixou a mala sobre a cama desforrada em um quarto e se dirigiu ao banheiro, precisava de um banho urgente antes de dormir. Os pensamentos não a deixaram nem mesmo enquanto cantava Choctaw County Affair ao esfregar os cabelos, tentando dispersar aquele sentimento incômodo que a tomava. não costumava ser receosa, entretanto esse sentimento a incomodava tanto ao ponto de simplesmente sair do banho apressada para ir dormir e esquecer as paranoias que tomavam seu tempo. Porém, ao deitar no colchão, o rosto de veio à mente e ela sentiu vontade de gritar. Sem paranoias, huh?
A mente de parecia brincar com ela até que definhasse entre os lençóis e deixasse de dormir, permanecendo com a sua cara doente igual ao sair do voo mais cedo.
Por volta do meio-dia, Keyla veio buscar a médica em seu quarto, mas estava de fones e acabou não ouvindo as batidas na porta, e novamente a morena ficou sozinha na pequena casa com seus pensamentos viajantes.
- Chega, preciso respirar. - Ela resmungou em determinado momento. Vestiu uma regata, uma calça militar e saiu do cafofo, deixando o vento forte fustigar seu rosto, mas sem realmente se incomodar. A máscara branca impediu que o resto do mundo visse sua boca aberta. A paisagem linda tomou toda a sua visão; um Jeep antigo cruzou a visão de entre as árvores, formando uma pequena trilha até que a vista se perdesse.
A médica respirou fundo e deixou que o ar a tomasse completamente, aquele desespero que a havia consumido passava aos poucos e os pensamentos se acalmavam. Um barulho de mensagem surpreendeu a moça, lembrando-a de súbito que deveria ter dado notícias à sua mãe.
- Droga, droga… - abriu o aplicativo de mensagens, mas soltou uma risada amarga ao ver a última mensagem recebida.

"Olá, doutora/guia. Está disponível hoje?"

a havia mandado mensagem depois de, não três dias - como a regra ridícula costumava dizer -, mas três semanas. A morena resolveu ignorar a mensagem e ligou para sua mãe, tranquilizando-a e contando sobre a beleza do local, o que foi o suficiente para que Okoye Azikiwe se conformasse e deixasse a filha voltar ao surto inicial.
não ficou feliz com a mensagem, na verdade, ela sentiu o ímpeto de apenas ignorá-lo e deixar seu orgulho levar o melhor de si.
- Doutora! Dormiu bem? - Keyla apareceu em sua visão e ignorou o celular ainda vibrando.
- Não consegui dormir, na verdade. Acabei só descansando a vista.
- Já que não consegue dormir, gostaria de dar uma olhada pela reserva? Pelo menos pela parte mais superficial, por ora? - assentiu alegremente e voltou apenas para passar protetor solar, por um chapéu e pegar a câmera fotográfica.
- Vamos? - Keyla guiou a veterinária até o Jeep velho que havia visto passar há pouco tempo. A moça se acomodou no banco do passageiro enquanto a nativa se dirigia para o lado do motorista.
A ansiedade negativa que tomava foi rapidamente tomada por uma felicidade genuína ao começarem a explorar as acomodações da reserva da fundação.
Passaram pelos santuários dos gorilas, animais caçados ilegalmente no Congo em grande número. não deixava de se chocar com as histórias que Keyla contava sobre os enormes gorilas que escaparam da morte por triz, chegando a matar caçadores com as próprias mãos para defender os filhotes.
- Vamos ver a última família de Ocapi que temos por aqui. - A médica automaticamente precisou controlar a ansiedade, mas Keyla foi mais rápida e deu uma risada meiga ao detectar o ânimo da veterinária, que ficou chocada ao ver a família Ocapi se alimentando em seu próprio santuário. Os animais ficavam "livres" em um espaço enorme, mas Keyla informou que saíam da casa deles algumas vezes na semana, apenas para evitar confrontos com os outros animais predadores habitantes do mesmo espaço. A vegetação ficava mais densa conforme iam se aprofundando na área e o sol começava a descer para oeste, fazendo com que suasse cada vez mais sob o chapéu.
- Os animais são lindos… Queria que todos do zoológico pudessem ser tão livres quanto os daqui. - Desabafou a médica com um sorrisinho tímido. Keyla não tirou os olhos da estrada de terra, mas concordou com a cabeça.
- Às vezes é difícil olhar para todos esses animais e imaginar que podem sumir um dia pela caça ilegal, é triste imaginar que nossa luta pode não ter retorno. Acho que entende como nos sentimos. - assentiu com a cabeça e continuou a tirar fotos do que era possível. A Fundação avaliaria as fotos, que não poderiam ser publicadas, serviriam apenas como recordação. Quando o céu já começava a manchar de vermelho sangue, as duas mulheres voltaram para as instalações. A barriga de Azikiwe roncava tanto que até mesmo Keyla ofereceu uma fruta de uma das árvores.
- Vamos direto para o refeitório, vou te apresentar aos médicos e voluntários. - assentiu e apenas seguiu Keyla para dentro do pavilhão cheio àquela hora. As pessoas jantavam cedo e dormiam cedo, era o que a nativa havia dito à um pouco antes.
- Keyla! - Um homem alto de olhos castanhos e pele negra como a noite interceptou as duas assim que entraram no refeitório. Os dois começaram a conversar animadamente em francês e se sentiu particularmente estúpida por saber cinco línguas e nenhuma delas ser aquela falada - Quem é a sua amiga? - O moço disse em um inglês forte.
- Sou a doutora Azikiwe, prazer. - A sobrancelha do homem se arqueou em surpresa.
- Sobrenome africano, doutora? - assentiu e o homem deu um sorriso largo - É bom conhecer uma irmã por aqui. Prazer, sou o Eliah. - A médica apertou a mão de Eliah e sorriu em seguida. Ele gritou algo em francês para o resto dos presentes e quatro pessoas comemoraram e deram risadas, levantando os copos metálicos. olhou curiosa para Eliah - Acabei de informar que uma Azikiwe veio nos visitar. Os que levantaram as mãos são Azikiwe também. - soltou uma risada alta, levando Keyla a rir também.
- Vamos jantar, doutora. - A nativa guiou pela fila do bandejão. A comida parecia boa, pensou Azikiwe ao colocarem raízes selvagens, torta de frango e alguns legumes em seu prato - Você veio em um bom dia, é o único em que temos massa fina desse jeito.
- Isso aqui está muito bom. - mal conseguiu terminar de orar pelo alimento antes de devorar a torta e as raízes, gemendo de felicidade. Alguns médicos haviam se juntado a ela e Keyla e conversavam sobre as rotinas dos animais e dos próprios funcionários, mostrando à os horários que deveria acordar e quem a acompanharia durante as semanas que estaria ali. A médica se mostrou inegavelmente feliz ao saber que veria Eliah pelo tempo que estaria ali.
- Na verdade, um dos nossos colaboradores chegou hoje, ele pode te dar algumas dicas também. O que acha? - Eliah comentou enquanto acompanhava para sua estalagem. Os mosquitos pareciam comer os braços da veterinária, mas o vento era agradável e a companhia de Eliah também.
- Qualquer ajuda é bem-vinda! Preciso absorver o máximo neste tempo que passar aqui. - Eliah assentiu, sua pele contrastando contra a regata azul. não podia negar que o homem era bonito, além de ser extremamente charmoso.
- Vou tentar me fazer útil ao máximo. Nós temos um dia de folga por semana, então podemos ir até a cidade comprar o que quisermos, o que acha? Podemos te mostrar o que for possível da capital. - Quando finalmente chegaram ao cafofo de , ela pensou que queria continuar conversando, mas estava cansada demais para engatar uma conversa real.
- Eu adoraria! - Ela sorriu preguiçosamente.
- Você está cansada, não está? Vá dormir. Temos um dia cheio amanhã, doutora Azikiwe. - apenas assentiu.
- Eu acabei não perguntando, mas qual é sua especialização? - já tirava os sapatos na entrada da casa, copiando seu vizinho de casa que já tinha as janelas fechadas e os sapatos não estavam mais no tapete.
- Neurologista. Como os animais que vêm pra cá muitas vezes sofrem danos cerebrais por objetos, acabo sendo mais necessário por aqui do que em outros lugares. - escondeu um pouco o choque. Cada palavra que saía da boca de Eliah parecia tão segura. A médica teve certeza de que gostaria de conversar com o homem - Boa noite, doutora Azikiwe - e com um aceno, Eliah se dirigiu para o lado contrário do qual estava, mas uma parte de dentro de si torceu para que o homem fosse seu vizinho da casa de janelas fechadas.

*

25 de julho, terça-feira, República do Congo
Quando o relógio marcou sete horas da manhã, já estava de pé e pronta para ir tomar café - o único incentivo para acordar àquela hora. Dessa vez, a moça estava usando um shorts largo verde musgo com diversos bolsos, onde já havia guardado suplementos médicos de emergência e algumas barras de cereal. O barulho dos animais matutinos relaxou Azikiwe o suficiente para que mantivesse o bom humor.
Ao sair do quarto, não pôde deixar de bisbilhotar a porta de entrada da casa vizinha, mas agora havia uma janela aberta e nenhum tênis na porta. Talvez conhecesse a vizinha misteriosa?
- Bom dia, doutora. - Keyla já usava o equipamento mostrando claramente que iria alimentar os animais e se animou ao se voluntariar para ajudá-la - Claro, pode me encontrar na ala das aves daqui quarenta minutos. Eliah pode te levar lá, se quiser.
- Seria adorável. - Keyla riu dos modos britânicos da médica. agradeceu e se dirigiu até o refeitório onde alguns funcionários comiam silenciosamente. A médica pegou a bandeja de comida com frutas, pão e leite e sentou-se em uma mesa mais afastada. Ao pegar o celular, parou novamente na mensagem que não havia respondido desde o dia anterior.
O contato de piscava diante dos olhos da médica, mas ela não sabia precisamente que ação tomar, até porque não estava acostumada com o que a fez sentir em apenas um encontro, talvez a luxúria que tenha preenchido seus olhos não fosse tão costumeira, mesmo que a mulher já houvesse tido outros parceiros antes, ainda sentia-se intrigada.

"Não estou na cidade. Fica pra próxima."

Foi a resposta final de . Quer dizer, eles não deviam nada um ao outro, então não havia porque parecer fria daquele jeito. Ah, mas é tranquilo ele tentar te beijar e só mandar mensagem três semanas depois, certo? largou o celular em cima da mesa e se concentrou em coisas mais importantes, e definitivamente não era uma delas.
A médica já montava o relatório do dia anterior para mandar para sua superiora, . As observações estruturais e dos animais eram o foco do relatório, mas não pôde deixar as condições ambientais de fora e enquanto pensava nisso, não reparou em uma silhueta parada à sua frente, fazendo com que sua sombra dificultasse a visão da obstetra.
- Que coincidência, também não estou na cidade. - Os pelos das costas de se eriçaram vergonhosamente ao ouvir aquela voz. Azikiwe pensou ter ouvido errado, mas ao levantar a cabeça e fitar os olhos fixos de nos seus, teve certeza de que uma brincadeira de muito mau gosto estava sendo feita com ela.


Continua...


Nota da autora: Olá, guapxs! Como estão? Obrigada por estarem acompanhado "Zoo", espero que estejam gostando!
Obrigada pelos comentários, significam o mundo pra mim ^^
Fiquem com Deus e até a próxima <3





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Reggaetón Lento





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