Última atualização: 26/03/2019

CAPÍTULO UM

5 de julho de 2017, quarta-feira, Londres
Azikiwe não conseguia proferir algo que não fosse xingamentos ao encarar o trânsito londrino às 8h30 da manhã.
- Eu já deveria ter aprendido a este ponto. Agora estou atrasada e enfiada nesta merda de carro, na merda deste trânsito! – Os nós dos dedos ficaram quase brancos ao apertar o volante do carro. se encarou no espelho e percebeu que ainda havia maquiagem borrada sob os olhos. Droga. Pegou o celular e digitou o nome de na barra de contatos logo em seguida, deixando-o chamar pela amiga.
- Alô? ? – A voz de soou desperta do outro lado. deu um pequeno sorriso ao pensar no quão bem-disposta era a amiga, ainda que tão cedo.
- Você não vai acreditar no que aconteceu ontem à noite... – A morena se preparou para começar a reclamar, mas a interrompeu antes que o fizesse.
- Você está no meio do trânsito né? Eu consigo ouvir o estresse na sua voz, isso só acontece quando você está enfiada no meio do cruzamento. Respire fundo, conte até 10, depois, se ainda estiver brava, você pode começar a reclamar de verdade. se obrigou a acolher o conselho da amiga enquanto finalmente conseguia fazer o carro se movimentar – Mais calma?
- Já estou chegando. Vamos ver o quão calma eu realmente estou. – Vociferou ao observar um motorista louco tentar ultrapassar seu carro imprudentemente. A mulher desligou o telefone e sentiu os olhos arderem de sono pela noite mal dormida. O encontro nem havia valido a pena, de qualquer forma.
batucava os dedos contra o couro do câmbio quando finalmente entrou na rua do estacionamento e seguiu livremente até sua vaga habitual. O ar frio de Londres a encheu quando saiu do carro, o verão não estava tão quente quanto achou que estaria.
- Bom dia! – Acenou para o porteiro e seguiu diretamente para o prédio da administração, quebrando pequenos galhos contra a sola de seu tênis.
O zoológico era enorme, mas a parte do estacionamento contava apenas com uma pequena praça rodeada por copas de árvores que ajudavam no calor, mas atrapalhavam na primavera.
Azikiwe inspirou o cheiro de terra molhada, soltou os cabelos e balançou os ombros. Foco, era o que precisava.
Não havia necessidade de que os outros vissem o claro fracasso a que havia se submetido. Se bem que não havia sido um total fracasso, pelo menos não para o moço do encontro. Quer dizer, ela devia um crédito a si mesma por ter fingido estar se divertindo tanto, e créditos duplos por ter feito ele acreditar.
- Bom dia, Dra. Azikiwe! – A sempre animada recepcionista sorriu para que não se impediu contagiar com o bom humor. Engula seu orgulho machucado, Azikiwe.
- Bom dia! Houve alguma emergência enquanto estive fora? – O lado mais forte de se mostrou rapidamente. Claro, não havia como esconder a sua preocupação na noite anterior ao sair da clínica.
- Tudo sob controle, que eu saiba, mas o Cobalto sentiu sua falta à noite, deu para perceber. – Comentou a menina de olhos azuis com uma cara sorridente. soltou uma risada engasgada ao pensar naquele animal enorme sentindo saudades da "moça da carne".
- Vou lá dar atenção a ele, então. – A médica se despediu enquanto se dirigia ao vestiário.
Guardou tudo o que precisava, vestiu o jaleco e desceu praticamente correndo pela pequena encosta até a sua base de atendimento para a visita matinal aos felinos. Vestiu as luvas e pegou o balde de comida com os tratadores e conversaram sobre cordialidades: clima, trânsito, notícias, o de sempre; mas foi o urro de alegria vindo de Cobalto que fez sorrir verdadeiramente.
- Bom dia, grandalhão. Sentiu saudades? – Perguntou ao colocar parte da comida de Cobalto em seu espaço através da parede maciça.
Havia ainda uma grade separando a veterinária do animal desperto e animado com a presença da conhecida médica. O animal era enorme e extremamente assustador aos olhos do público, este passava às vezes até meia-hora observando o enorme tigre, que fazia questão de mostrar sua força predatória para quem quisesse ver, mas na verdade era apenas um bebê aos olhos de .
- Ele sentiu sua falta ontem à noite, doutora. Acho que ficou bravo ao ver Sirius ao invés da senhorita. – Um dos tratadores informou enquanto separava os alimentos. deu uma risada alta que fez Cobalto para de se movimentar e apenas encarar a médica.
- Não se preocupe, Cobalto, hoje eu sou toda sua. Mas, por enquanto, vou terminar de alimentar meus outros pacientes, então se acalme e não destrua nada até eu voltar.

*

- Ele pelo menos avisou que iria embora? – sussurrava, escondendo um sorriso sádico por trás de sua boca cheia de comida integral.
- Claro que não! Sério, eu considero seriamente desistir de homens.
- Se desistir, vai acabar vivendo só com os animais.
- Talvez esse seja o melhor cenário do universo. – Finalizou ao colocar um pedaço de mamão na boca e suspirar. – Mas foi até bom, sabe? Eu percebi que ele era um lixo nos primeiros quinze minutos, mas resolvi dar uma chance. Agora aprendi que não vou prolongar tanto minha paciência de Jó. – deu uma risada alta, atraindo o olhar de alguns colegas ao redor.
Naquele momento, estava sendo exibido um show de mágica no parquinho central, era a deixa para os médicos e tratadores almoçarem e terem dez minutos de descanso. Na verdade, Azikiwe amava até mesmo esses minutos contados que tinha para almoçar, aquela era a vida que havia escolhido para si, mesmo que fosse cansativa, amava cada parte. Ou talvez amasse tanto os animais que esquecia as partes ruins.
- Tenho uma cirurgia hoje no hospital, você também? – assentiu.
- Preciso cuidar de um parto de uma Ocapi* fêmea, houve algumas complicações no último exame, pelo o que eu percebi, e vou precisar acompanhar de perto. – balançou a cabeça em concordância e encarou algo por trás dos ombros da amiga.- ! Há quanto tempo! – se levantou, fazendo virar a cabeça para trás e cumprimentar com um high five e um sorriso gigante.
- Você é preguiçosa demais até para me cumprimentar, ? Sério? – deu de ombros e deu espaço para que a amiga se sentasse ao seu lado. era tão bonita, os cabelos volumosos desciam em cascata até a cintura e os olhos pretos destacavam sua pele alva no meio de Londres. – Então, o que vocês duas têm feito ultimamente?
- teve um encontro horrível ontem à noite. Ela precisou pagar a conta, o cara dormiu em cima dela e vomitou no tapete quando saiu, tudo isso sem um pingo de sexo no meio. – Os olhos de se arregalaram e não soube onde esconder a cabeça. Droga, havia perdido a cabeça de vez?
- Em minha defesa, eu tentei dar uma chance ao cara, ele tinha acabado de sair de um relacionamento, precisava se divertir. – Cada pingo do orgulho de Azikiwe ia para o esgoto conforme observava as amigas rirem abertamente para que o zoológico inteiro ouvisse. Perfeito. Já não bastasse os tratadores dando risadas pelas costas dos médicos, ainda tinha essa.
- Claramente o moço se divertiu. – Alfinetou com um sorrisinho.
- Vai para a merda, . – largou o garfo no prato e encarou a amiga com as sobrancelhas arqueadas. – Não é como se você tivesse um bom histórico de relacionamentos. Estamos no mesmo barco.
- Não estamos não, eu estou saindo com um cara legal, fofo, divertido e companheiro. Claramente o nosso barco está indo em direções opostas. – apenas mostrou a língua para a amiga.
- Vocês duas são adolescentes ou o quê? – se pronunciou enquanto mexia no celular, obviamente, não se interessando pelo assunto de duas solteiras.
era casada há cinco anos e já tinha dois filhos, ela já havia passado pelo o que as duas amigas discutiam e achava graça em observá-las se provocando.
- Meninas, vou precisar ir até o escritório. Foi bom vir aqui falar com vocês.
, depois passe em minha sala, tenho que discutir algumas observações nos relatórios da ala dos Panthera. – se despediu das duas amigas e sumiu pela porta do refeitório, deixando e sozinhas novamente.
- Preciso terminar de cuidar da Luly antes de ir falar com a chefona suprema. – Anunciou se levantando da mesa, pegando também os pratos de .
- Obrigada amiga, já vou indo também. Mais tarde a gente se fala. – concordou com a cabeça, deixou os pratos na pia e voltou a se dirigir para sua inspeção.
Andar pelo parque deixava sempre boquiaberta. O London Zoo Center era tão enorme e tão cheio de criaturas maravilhosas, ela não deixava de se surpreender. Entretanto, ficava ainda de certa forma devastada ao ver tantos animais em jaulas ao invés de estarem em seus habitats - este era um dilema que enfrentava quase todos os dias. Contudo pensar que estava ali, não para benefício próprio, mas sim para ajudar aqueles animais a terem um bom tratamento, a deixava feliz.
Enquanto caminhava, passou pelo espaço dos tigres e sorriu ao ver Shere Khan ronronando contra Linda, ela parecia mais saudável desde que o zoológico a havia resgatado de caçadores chineses que a mantiveram em cativeiro por três anos.
- Esqueci minha caneta, droga. – Resmungou repentinamente e se virou para voltar ao refeitório, dando um grito assustado ao esbarrar contra um corpo em sua frente. – Puta merda! – O coração de parecia sair do peito com o susto.
- Oh Deus, desculpa! Não quis te assustar, moça! Desculpa! – O moço de olhos negros circulados por uma auréola dourada falou desesperadamente. olhou ao redor e percebeu o olhar de muitos pais que a encaravam assustados. Droga, Azikiwe.
- Tudo bem, eu que sou assustada demais. – tentou sorrir, mas ainda sentia o coração batucar com força total. A médica finalmente prestou atenção no rapaz carregando uma pasta enorme nas mãos.
- Ok então, hã... – O rapaz focou os olhos no jaleco de – Doutora Azikiwe, é assim que se pronuncia, certo? – A moça apenas assentiu com um sorriso – Eu estou procurando a Bennet, você a viu por aqui? Você a conhece?
- Ah, sim. Está vendo aquele prédio azul ali? É o prédio da administração. Pergunte por ela e a recepcionista vai te guiar. – deu um sorriso cordial e observou pequenas ruguinhas se formarem nos olhos do estranho quando ele também sorriu.
- Obrigada, Srta. . Acho que agora somos íntimos o suficiente para que saiba meu nome, depois de todo aquele susto. – A médica deu uma risada sufocada. – Me chamo , a seu dispor. – O moço, agora , estendeu a mão e a apertou com firmeza, dando um sorriso genuíno em resposta.
- Bom, você já me conhece. – deu uma risada alta e o vento empurrou seus cabelos para longe do rosto, expondo ainda mais os olhos dourados majestosos na direção da médica.
- Desculpa novamente, não foi minha intenção.
- Fique tranquilo! Boa sorte procurando ! – balançou a mão em despedida enquanto já se virava para ir atrás de Luly.
- Obrigado! – ouviu a despedida ser dissolvida pelo vento forte soprando contra as árvores. Que moço mais caloroso, não pareceria ser britânico se não fosse pelo sotaque, pensou ao avistar o enorme pavão mostrar sua beleza a qualquer um que pudesse enxergar. A médica fez uma careta e lembrou que não havia voltado para pegar a caneta.
*Ocapi:
*Panthera: gênero de felinos que inclui tigres, onças, leopardo, jaguatirica, etc.

*

- Entre e feche a porta, por favor. – nem mesmo levantou os olhos do formulário quando irrompeu pela porta rangendo sob as palmas da médica. passou a mão por seu jaleco antes de se sentar na frente de sua amiga, mas também sua chefe. – Está com os relatórios? – A morena colocou a pilha de anotações sobre a mesa bagunçada de sua superior. não era exatamente cuidadosa com suas coisas, mas ainda sim conseguia ser organizada naquela bagunça, algo que invejava secretamente. – Houve alguma mudança no comportamento dos animais?
- Eles têm estado mais agitados ultimamente pelo excesso de barulho que os shows de mágica emitem. Quer dizer, a bombinha não é recomendada em um ambiente como um zoológico. – torceu o nariz. Odiava as apresentações circenses que às vezes eram feitas ali, os animais se estressavam e também.
- Falei com Gerald sobre isso, ele disse que é um favor que devia a um amigo. Precisamos aguentar isso por apenas mais duas semanas, fique tranquila. – suspirou e observou a sala de . Tão clean e sem graça. A janela aberta era tomada pelas árvores que tentavam entrar no prédio e retomar seu espaço em meio ao concreto. – Eu vou avaliar os documentos.
- Ok. Depois me diga o que acha sobre o projeto que te apresentei, acho que é uma iniciativa legal especialmente para os biólogos marinhos.
- Claro, claro. Não se preocupe. Eu sei que você tem uma cirurgia daqui a pouco, mas eu tenho algo a te dizer. – Automaticamente foi tomada pela curiosidade e se aproximou instintivamente da mesa da amiga. – Mas não sei se deveria agora...
- Você sabe que eu sou curiosa. Desembucha logo! – Exigiu a médica já quase escalando a mesa desorganizada de .
- Achei o cara perfeito pra você. – Todo o interior de desabou e ela se jogou na poltrona com os braços cruzados. Ela havia ficado curiosa por aquilo?
- Pelo amor de Deus, . Eu já disse que eu só saí com o cara ontem porque ele queria se divertir, poxa! Eu nem mesmo estou procurando um namorado! Por que você sempre tenta me arranjar alguém? Eu não posso ser solteira, é isso? – encarou a amiga sobre os óculos de armação vermelha e abriu um sorriso sorrateiro.
- Você pode ser solteira o quanto quiser, mas acho que você se fecha demais para homens ou qualquer outra pessoa na sua vida, não seria legal tentar mudar um pouco isso? – As sobrancelhas arqueadas de demonstravam que ela não desistiria daquela discussão tão facilmente.
- Eu tenho meus animais e meu Deus, não preciso de mais nada além disso. – Disse com um dar de ombros natural.
- Eu sei e respeito suas vontades celibatárias, porém falsas. – preferiu não discutir. – Mas dá uma chance, só uma chance, a última! Prometo! Se você não gostar desse cara, eu juro que não tento mais te arranjar com ninguém! – levantou as duas mãos ao alto e ficou esperando até que desse um sorriso pequeno em direção à amiga.
- Acho legal você estar pensando nestas coisas no horário de trabalho. – já se levantava. Precisava estar no centro cirúrgico em duas horas.
- Minha próxima reunião é daqui quarenta minutos, tive cinco minutos de intervalo e gastei eles com você, . Deveria estar agradecida. – provocou a amiga e jogou um pedaço de papel amassado na direção da veterinária.
- Ahã, obrigada por me conceder seu tempo, Grã Mestre. – A ironia escorreu pela voz da médica. – Quem é o bendito e para quando você marcou o encontro? – mostrou certo espanto. – Não tente fingir que não marcou, eu sei que você marcou! Mereço ao menos uma descrição do cara, não?
- O encontro está marcado para sexta, às oito horas. Ele vai te buscar na sua casa e não me disse planos. – arqueou a sobrancelha com curiosidade. Se fosse algum psicopata, ela socaria .
- Você não tem medo que eu seja assassinada ou sequestrada? Nunca se sabe o que se passa na cabeça de um homem, ! – A mais velha revirou os olhos na direção de que não podia acreditar na cara de pau da amiga. – Eu não quero ir a esse encontro, olha as coisas em que você me mete, !
- Calma, ! Eu conheço o que se passa na mente deste homem, e eu sei que ele não vai te sequestrar também! Eu o conheço há muito tempo, tempo o suficiente para ir à casa dele e não achar nenhuma escrava sexual no porão ou qualquer bizarrice que você esteja pensando. – cruzou os braços. Não deveria aceitar, não deveria, você está dando moral demais à , a mesma que te arrumou um encontro com um apicultor que te levou para conhecer a criação dele.
- Ok. Só porque eu tenho certeza que vou odiar e você nunca mais vai me perturbar com isso novamente. Me manda os dados do bastardo por mensagem.
- Assim que eu gosto! – bateu palminhas e pegou seu celular imediatamente.
- Ok, vou indo então. Te vejo sexta?
- Mas é claro, meu bem.

*

Quando a sexta-feira chegou, Azikiwe nem mesmo se lembrou do encontro que teria com Hot Dude from Heaven, como o havia descrito. Nenhum nome, nenhuma foto, apenas descrições comportamentais e pessoais. Pessoais até demais.
"Um dia ele caiu pelado num rio em pleno outono, as meninas da faculdade ficaram doidas!", era o que dizia parte da mensagem de . Ótimo. sairia com um desvairado.
O real motivo de Azikiwe não estar realmente focada no encontro, era a cirurgia que havia feito na Ocapi fêmea. O bebê estava a salvo, foram 14 meses exatos de gestação, mas a Ocapi ainda não estava pronta.
- Preciso que o medicamento seja colocado na comida dela, ela já parece estar menos abatida que ontem. – passava a mão na cabeça do pequeno filhote da Ocapi. Era tão magro em relação a outros filhotes. Os olhinhos fechados e a pelagem mesclada só faziam o filhote ser mais fofo.
- Doutora, estão te bipando na UTI. – entregou o filhote à enfermeira e conferiu o bipe na calça, não havia percebido nada. A médica andou rapidamente até o terceiro andar e entrou em uma sala isolada, encontrando .
- O que houve? – Perguntou ao entrar no complexo. As roupas de estavam manchadas e havia suor em sua testa. estava apoiada em uma das macas enquanto fitava um tigre-do-sul-da-China deitado na maca. – Essa é a Linda? Quando ela deu entrada na UTI? Ninguém me avisou! – a encarou seriamente.
- Ela teve convulsões ontem à tarde, você estava fazendo uma cirurgia. Eu acompanhei o processo, mas precisava cuidar de uma cirurgia marcada. Conversei com o neurologista e ele disse que pode ter relação com o choque que Linda provavelmente reviveu quando os tratadores foram dar comida. Ela deve ter se assustado com os tratadores e correu até bater com a cabeça em uma árvore. – As médicas se colocaram ao lado do enorme tigre sedado na maca. checou os níveis cardíacos do animal, assim como a dosagem de remédio antes de suspirar.
- Lidar com animais que sofreram traumas é tão complicado.
- Eu não sou a médica responsável, mas me mandou aqui como supervisora. Tem medo que algum enxerido tente tirar informações sobre um dos últimos tigres-do-sul-da-China existentes do mundo. – balançou os ombros e o tronco, claramente demonstrando o cansaço das últimas quarenta e oito horas.
- Você não vai pra casa desde quando?
- Acho que desde ontem de manhã. Precisei cuidar de algumas cirurgias e uma papelada.
- É, eu também. – As duas se mantiveram em silêncio durante um tempo.
- Hoje é seu encontro com o amigo da , né? Espero que o feedback seja positivo. – estalou a língua no céu da boca e deu uma risada preguiçosa.
- Qualquer feedback é mais positivo do que aquele último cara. Nossa, qualquer um! – As duas riram.
- Tome cuidado, qualquer coisa é só me ligar, sério! – Na maior parte do tempo, era ótima em ser mãe de três filhas, as duas pequenas e , que havia criado uma teoria sobre ter uma conexão materna com feita antes mesmo das duas nascerem, mesmo tendo apenas cinco anos de diferença uma da outra.
- Ok, mãe. Fique tranquila. não marcaria um encontro sem confiar de verdade no cara. – Espero. – Seu plantão já acabou, não? Já deveria estar indo para casa. – Observou ao olhar em seu relógio. 14h30. Seu turno acabaria em vinte minutos.
- Já acabou, mas estou esperando chegar junto com os seguranças. Estão realmente preocupados com a ameaça que outro sequestro poderia causar. – assentiu em compreensão. Lidar com animais em extinção implicava em lidar com ladrões e a mídia, ambos bem similares em diversos sentidos.
- Pode ir, eu espero ela chegar. Meu plantão só acaba em vinte minutos.
- Ok. Estou indo, então. – E pensar que ainda teria que lidar com crianças chorando em casa... – Bom encontro, . Vai dar tudo certo! Conte-me tudo depois!
- Claro! Bom descanso. – se despediu com um aceno, fechando a porta da UTI atrás de si com um estalo. – Ah, Linda. Você não tem noção do quão guerreira você é. – observava o diafragma do tigre se mover, aumentando a calmaria dentro da tempestade que estava solta dentro da médica.
Pouco tempo depois, chegou acompanhada de três brutamontes que mal olharam na direção de , apenas se colocaram na frente da porta e outro foi para o corredor seguinte.
- Você precisa de um banho, Azikiwe.
- Você precisa de um abraço bem apertado. – soltou uma risada anasalada.
- Precisamos tomar cuidado com Linda, especialmente agora, não podemos correr o risco de perder uma sul-da-China.
- Vai dar tudo certo, ela já está sendo medicada e vai ser bem cuidada. Acho que daqui dois dias no máximo já vai ser colocada em um local isolado para ver se o efeito do remédio é promissor. – Uma médica reportando a sua superior, era isso o que acontecia entre as duas no momento. sempre se perguntou se algum dia entraria em conflito com a chefe e o que sobraria da relação delas caso isso acontecesse.
- Está dispensada, Azikiwe. Vai tomar um banho e ir pra casa, precisa estar descansada para hoje à noite. – apenas assentiu e seguiu pelo corredor até o vestiário, pegou suas roupas e saiu do hospital com o coração na mão pensando tanto em Linda quanto no bebê Ocapi. Fez uma oração silenciosa enquanto entrava no carro e pedia que tudo ficasse bem com os dois animais.

*

- Acho que estou arrumada demais, não? – se encarou no espelho pela vigésima vez. Ela nunca conseguia escolher a roupa de primeira, eram necessárias pelo menos quatro trocas para que se decidisse. Trágico. A blusa oversized branca deixava seus ombros a mostra e a calça jeans com pequenos rasgos fizeram se perguntar se não estava casual demais, mas não é como se soubesse para onde iria, sabia apenas que iria sair. – Eu nem sei como o sujeito é! Meu Deus do céu! , eu vou te matar!
correu para a cozinha e preparou o chá de erva cidreira antes que a água esfriasse. Havia dormido apenas quatro horas, mas se sentia renovada, a xícara de chá a ajudou muito nisso. A médica balançava os ombros em sinal claro de nervosismo já que se sentia totalmente no escuro. Não sabia o que esperar além de um cara divertido e cara-de-pau, exatamente como o havia descrito. Nada além disso. se olhou uma última vez no espelho antes de receber uma mensagem no celular.

"Oi, ! Sou eu, seu date de hoje haha. Estou te esperando aqui embaixo. É o prédio marrom, certo?"

Será que deveria mudar de roupa mais uma vez?

"Estou descendo!"

Nada de mudar de roupa.
- Você está linda, . Abrace a mulher poderosa que você é! - falou consigo mesma antes de pegar a pequena bolsa e calçar os sapatos. A mulher desceu no elevador impacientemente, deixando a curiosidade aflorar cada vez mais dentro de si.
Ao sentir a brisa fria bater contra seu rosto, se sentiu eternamente grata por estar usando um sobretudo confortável. Olhou ao redor e observou um homem encostado a um Jeep prata, e levando em consideração que era o único na rua que parecia estar esperando alguém, deduziu ser seu Hot Dude, mas não conseguiu enxergar pela rua mal iluminada do condomínio. Azikiwe começou a se aproximar do homem, tentando dar a sorte de matar logo sua curiosidade. Quando já estava próxima o suficiente para que seus sapatos fossem ouvidos através do vento, o sujeito levantou a cabeça e sorriu.
?
- Olá novamente, doutora Azikiwe. – deu seu melhor sorriso enquanto as peças criavam forma em sua cabeça confusa. Mas o que está acontecendo? – Você parece chocada. Isso é decepção?
- Isso é choque, desculpa. É que a não falou o seu nome, nem mandou foto ou nada assim! – deu uma risada nervosa e mudou o peso do pé para o outro. Ela não se lembrava de ser tão bonito assim. Quer dizer, o cabelo enrolado estava penteado para cima, deixando que seus olhos brilhantes e sua pele bronzeada fosse destacada. Wow. Além disso, ele parecia ter senso de moda. usava uma camisa preta que apertava seus braços levemente musculosos, a calça jeans cinza torneava as coxas fortes. E os olhos, ah, os olhos dourados finalmente voltaram a ser objeto de admiração por parte de . Meu Deus, ele não para de sorrir?
- Vamos conversar melhor no carro? Está friozinho aqui fora! – assentiu e se dirigiu para o lado do passageiro, entrando rapidamente e sendo recebida pelo ar quente emanando do aquecedor.
Primeiros encontros, ainda mais quando são agendados por uma terceira pessoa, conseguem ser bem estranhos e havia passado por alguns desse tipo, mas parecia confortável, quase como se ele realmente quisesse estar ali sem uma terceira força suprema enchendo o saco dele. Talvez estivesse desesperado.
- Nós nos conhecemos há poucos dias no zoológico. – Foi o que conseguiu dizer, e riu.
- Sim, sim. Por sua causa, consegui achar sem mais problemas. Obrigado!
- Acho que eu deveria largar a carreira de veterinária e simplesmente ser guia do zoológico. – O homem deu uma gargalhada gostosa e se arrepiou. Por conta do frio, claro.
- Você ficou surpresa, não ficou? Por ser eu?
- Fiquei. Mas não foi uma surpresa ruim. - sorriu - Aonde estamos indo? – A curiosidade de falou mais alto. Ela apenas via as ruas se tornarem avenidas e pegaram um pequeno engarrafamento no caminho.
- É um conjunto de food trucks que eu gosto muito. Eu não quis tomar a liberdade de escolher um restaurante específico, então resolvi escolher vários. – Azikiwe deu um sorriso sincero pela escolha de e concordou com a cabeça.
- Eu gosto muito de comida de food truck! O meu favorito é o de comida mexicana e coreana, é muito bom! – Ok, entraram no assunto comida. sabia que poderia passar a noite falando sobre comida e não ficaria entediada.
- Comida coreana? Nunca comi...
E por mais meia hora presos no engarrafamento, e falaram apenas sobre comida, não que tivesse desgostado da conversa. Na verdade, ela ficou surpresa em conseguir engatar uma conversa tão facilmente com , tão simples e legal. Além do mais, não parecia ter um porão com escravas sexuais, mas ainda era muito cedo para tirar conclusões.
Ao chegarem no conjunto de food trucks, não escondeu o som de sua barriga roncando.
- Acho que precisamos escolher algo rápido, né? – comentou com bom humor e quis se enfiar embaixo do banco. Isso é hora de se manifestar, caramba?
- Wow, tem tanta coisa! – não escondeu o fascínio. Havia luzes coloridas conectando os carros de comida e os assentos pareciam ser feitos de materiais recicláveis. Uma moça negra com dreads cantava a música ao vivo em uma língua que ela não conhecia, mas era gostosa de se ouvir, e o lugar não estava lotado. Preciso vir aqui de novo. Mesmo que esse encontro dê errado, eu com certeza vou voltar aqui.
- Sim, por isso eu gosto de vir aqui, sabe? Tem de tudo e para todos os gostos. Estou feliz que você gostou. – Ela deu um sorriso largo para que retribuiu sem esforço.
- Boa noite! Sejam bem-vindos! – Uma moça de cabelos loiros e com roupa de garçonete os abordou – Mesa para dois?
- Sim, Aedith! Tem como você conseguir perto do food truck de comida asiática, por favor? – o encarou. Ele realmente gostava de food trucks, se até mesmo conhecia a garçonete.
- Claro. Sigam-me. – O local em que foram colocados era muito bom, a música não estava tão alta e estavam um pouco afastados das conversas altas.
- Obrigada. – agradeceu a garçonete – Esse lugar é incrível, . Eu nunca tinha ouvido falar, mas com certeza vou voltar. – Os dois estavam em pé um de frente para o outro, e sustentou o olhar que lançou a ela sem parar de sorrir.
- Ainda bem que gostou. O que vai querer comer? – deu uma olhada ao redor e focou no carro de comida coreana. Ele sabia que havia um ali? seguiu o olhar de e deu uma risada. – Coreana, vai ser?
- Pode ser! Mas você nunca comeu, não prefere algo diferente? – Ele deu de ombros e passou a mão no cabelo.
- Quero provar coisas novas. Vamos lá. – Os dois caminharam até o carro de comida coreana, que era o mais bonito, na opinião de . – O que você me recomenda, Srta. Azikiwe?
- Hm... Se você gosta de pimenta, tteokpokki é o melhor! Mandu também é ótimo, kimbap é bem simples, mas é muito gostoso também. – Ela não escondeu a felicidade quando uma moça veio recolher seus pedidos.
- Pode ser tudo isso! – Os dois pediram seus pratos e deixou que pagasse após uma pequena discussão que foi resolvida ao Azikiwe afirmar que pagaria pelo menos uma sobremesa.
Durante todo o tempo, e não pararam de conversar, nem mesmo quando a comida chegou. Azikiwe agradeceu pelo alimento, levando os dois a uma conversa sobre religião e crenças; não deixava de pensar no quão confortável se sentia, e que há muito tempo não se sentia assim em um encontro às cegas.
- Você não acreditaria nas pérolas que um jornalista precisa presenciar. É hilário. – comentou e bebeu mais um gole de soju. o havia feito provar a bebida alcóolica e ele pareceu gostar bastante.
- Eu sou veterinária, acredite, as pérolas são incríveis também. – Os dois ficaram em um silêncio confortável por alguns segundos. – Como você conheceu ? Se for "ok" por você falar, claro. – estava segurando essa pergunta desde que havia entrado no carro.
- Eu sou um amigo antigo dela. Conheci através do meu pai e acabamos nos tornando amigos durante o ensino médio. – Azikiwe assentiu com a cabeça e colocou mais um pedaço de kimbap na boca. – E você? Conhece do zoológico mesmo?
- Sim. Eu e nos tornamos amigas efetivamente há uns dois anos, se não me engano. Acho que o amor aos animais é o que liga realmente o pessoal do zoológico, sabe? Nós fazemos o que fazemos por amor a eles, isso nos aproxima bastante. – Um lampejo de curiosidade e ironia passaram pelos olhos de , mas foi rápido demais para que conseguisse avaliar realmente. A médica não sabia dizer em que ponto e ela haviam se tornado mais próximos, mas pouco tempo depois, estavam jogando sinuca no espaço de jogos e até mesmo dardos.
- Você joga muito bem! – comentou com uma risada engasgada quando encaçapou três bolas seguidas.
- Eu jogava na faculdade, muitas festas entediantes, então a sinuca era meu entretenimento.
- Eu joguei futebol na faculdade e odiava ir às festas, sinceramente. Eu ficava estressada perto de tanta gente bêbada. – riu e acabou errando a bola. precisou se aproximar da bola branca, parando ao lado do jornalista. O cheiro do perfume dele era muito bom. Droga, que homem cheiroso.
- Tudo bem, ? – A forma como o apelido da mulher saiu da boca inchada de fez com que ela criasse um cenário digno de novela em sua cabeça alterada.
- Sim, sim. Desculpe, acabei viajando. – Ela deu uma risada e se aproximou mais da bola, por consequência, de , este nem ao menos se afastou. errou a bola miseravelmente, mas percebeu que a presença de era muito forte ao seu lado e acabou não ligando para a bola parada perto do buraco, apenas na respiração levemente irregular do homem atrás de si. – Eu te dei a vitória, esse ponto deveria ser meu. – ergueu a sobrancelha e sorriu preguiçosamente.
- Obrigada por tornar meu trabalho menos árduo. – E a última bola disponível foi encaçapada facilmente por . – Acho que você me deve uma garrafa de soju. – não controlou a risada ao colocar o taco em cima da mesa. se aproximou mais dela, deixando-a irritada pela distância tão grande entre os dois.
- Acho que eu te devo uma sobremesa e um soju, que tal? – Ela estalou a língua e cruzou os braços sob os seios. deu um sorriso quase felino ao assentiu devagar com a cabeça.
- Aceito.

*

- Ele voltou dirigindo depois de beber? – Foi a primeira pergunta que fez no sábado ao irem para o parque.
- Não, voltamos de táxi e ele disse que voltaria no dia seguinte para pegar o carro. – A amiga assentiu levemente com a cabeça enquanto caminhavam ao redor de um pequeno lago. As filhas de brincavam com dois coleguinhas de pega-pega enquanto e a amiga caminhavam tranquilamente.
- Ele é bonito?
- Sim, muito gentil também. Não lembro de ter tido sequer um momento desconfortável com ele. – deu um sorriso meio bobo. – Ele já tem meu número, disse que iria me ligar, então é só esperar.
- Ele tentou te beijar? – gritou com as crianças antes de voltar a atenção novamente a amiga.
- Sim, mas eu acabei tropeçando na grama e nós dois só rimos. – A mais velha assentiu com a cabeça - Ele não deu a entender que iria para a cama comigo. Talvez porque eu tenha mencionado a igreja, não sei. Fiquei feliz por ele não ter insinuado, mas ao mesmo tempo me perguntei se ele só realmente não queria transar comigo. - deu uma risada fraca e revirou levemente os olhos. A mulher sempre observava todos os fatos antes de fazer qualquer comentário concreto.
- Não vi nada de problemático ou errado com esse rapaz, pelo o que você me disse. – O lado mãe da amiga era tão forte que se perguntou como ela era antes de ter seus filhos.
- Eu me sinto uma boba por querer que ele me ligue logo. – chutou uma pequena pedra no caminho e colocou a mão dentro dos bolsos da calça de moletom.
- Não é ser boba, é criar expectativas. – E tem diferença?
- Não sei... Espero que eu não quebre a cara como das outras vezes. Às vezes a gente chega a um ponto de cansaço.
se sentia uma idiota por esperar a ligação de , e mais idiota ainda por não tê-lo beijado na noite anterior.

CAPÍTULO DOIS - AQUELE DA VIAGEM PARA O CONGO

21 de julho de 2017, sexta-feira, Londres
- Você luta jiu jitsu ou MMA? Eu não vejo diferença nenhuma. – encarou o rosto inchado de com certo choque no rosto.
- O cara não queria desistir, acabamos nos machucando. Acontece. – A mais nova deu de ombros conforme tirava o jaleco do corpo e substituía a blusa branca por uma roxa. revirou os olhos na direção da amiga e trocou de roupa.
- Você ainda vai acabar se machucando feio e eu vou dar risada, sério. – deu uma gargalhada alta, fazendo com que sua costela doesse. Talvez tivesse exagerado na noite anterior – E como vão os preparativos para a sua viagem? Tudo certo? – acenou com a cabeça e sentiu o cansaço abatê-la repentinamente.
Iria viajar durante duas semanas para uma fundação no Congo com o objetivo de estudar os comportamentos dos animais e tentar achar uma forma de ajudar Linda e o bebê Ocapi a se adaptarem melhor ao zoológico ou dar o diagnóstico final de que não poderiam mais abrigar o filhote em sua propriedade, mas talvez o entregar àquela fundação. Tudo dependia das palavras finais de Azikiwe.
A médica se sentia feliz por poder fazer essa viagem, estava cansada do clima londrino dos últimos dias, além de estar precisando de ar fresco. Porém, ao pensar no tempo de voo e que estaria sozinha no avião, ficava estressada. Ela odiava aviões ou qualquer coisa que a pusesse no ar por mais de dez segundos. Além do mais, não sabia se era corajosa o suficiente para encarar possíveis casos de Ebola na região.
- Termino de arrumar as malas hoje e parto domingo à tarde.
A semana havia sido cansativa demais para todos no zoológico. Ao pegar o celular para ver as horas, percebeu que nem ao menos se perguntou se a havia ligado ou não, quer dizer, depois de três semanas sem sinal de vida do homem, simplesmente havia esquecido dele. Talvez não por completo, mas 80%.
- Quero muitas fotos, ! Grave vários vídeos dos animais e da paisagem, quero pelo menos sentir como se estivesse lá.
- Você vai na próxima, vou fazer questão de te levar. – sorriu para a amiga e colocou a bolsa preta nos ombros.
- Nada mais que a sua obrigação, lad. Vamos? – As duas caminhavam pelos corredores já vazios dos vestiários até o estacionamento, onde se separaram. entrou no carro e suspirou ao ligar o rádio, o seu podcast favorito começaria dali dois minutos.

"Boa noite, ouvintes. Neste momento são nove horas e vinte e três minutos e o programa preparado para vocês nesta noite de sexta-feira chuvosa, é especial. Tantos dias nublados em Londres e ignoramos a beleza que a chuva realmente tem, cada aspecto que traz para nossas vidas, cada pedaço de tristeza e lamento que é lavado quando as gotas caem em nossos guarda-chuvas. Você tem dado importância aos pequenos sinais que a vida te mostra? Ou tem ignorado cada um deles por achar estar vendo uma imagem maior, quando na verdade tem a visão limitada pelo orgulho e ganância? Antes de apresentarmos nosso convidado especial, começaremos com uma música pedida por um ouvinte."

sorriu ao ouvir o início de Close to You dos Carpenters ecoar pelo carro. Os músculos relaxaram e o congestionamento não a incomodou, na verdade, ela se sentiu feliz por estar presa no carro e poder desfrutar daquele momento de paz. A chuva batia contra o vidro, não era comum de se ver uma chuva daquelas em pleno verão, mas não reclamou. Cada pedaço de pele era aquecido pelo aquecedor, mas ainda havia um arrepio gélido percorrendo suas costas, a lembrança fresca do encontro com , três semanas atrás. Ela já havia sido rejeitada antes, não havia problema com isso, mas achava estranho. Ele parecia ter gostado do encontro, será que era tão bom ator? Ao questionar sobre o acontecido, ela apenas deu de ombros e disse que também não havia conseguido contatar o homem, mas parecia estar mentindo.
- Ele deve ter sido preso por tráfico de órgãos no Sudão. – brincou com e esta apenas a ignorou e voltou a comer seu almoço, uma semana antes.
olhou para o banco do passageiro, para a mala de viagem que estava cheia de documentos e mais papelada que a havia pedido para encaminhar para a ONG e desejou que o homem de quase um metro e oitenta estivesse sentado ao seu lado. Pare de pensar besteiras, . Supere, você perdeu dessa vez. E com um dar de ombros enfezado, voltou sua atenção para o trânsito londrino enquanto este abria um pequeno espaço para ela em compaixão dos pensamentos perturbados pelos cabelos negros e olhos felinos.

*

- Filha, se cuida. Não esqueça de mandar mensagem quando chegar lá! – deu um beijo na bochecha da mãe e logo em seguida um abraço em seu pai.
- Fica tranquila, Okoye. Ela vai estar segura, eu conheço o dono da ONG, ele é gente fina. – Como esperado, Bruce Havilliard conhecia qualquer um do ramo da medicina veterinária.
- Eu não posso me preocupar com minha filha? – deu uma risada alta e beijou novamente sua mãe.
- Obrigada por ficarem de olho no meu apartamento enquanto estou fora. Cuidado com as plantas mamãe, pelo amor de Deus.
O uber apareceu no canto da visão de , e então desceu apressadamente as escadas da portaria do prédio dos pais. acenou uma última vez para os pais antes de pegar o celular e conferir o horário. Sete da manhã, ainda havia bastante tempo para chegar ao aeroporto sem atrasos.

*

estava atrasada.
Estava tão cansada que acabou cochilando com a cabeça apoiada em uma mesa e perdeu a hora. Agora, corria como desesperada para o portão de embarque antes que não pudesse mais entrar no avião.
O coração estava disparado e sentia o mini travesseiro em seu pescoço a sufocar conforme atravessava o aeroporto. A voz no alto falante anunciou a última chamada quando chegou no saguão de embarque. A aeromoça portada perfeitamente e com a maquiagem impecável mediu Azikiwe de cima a baixo, provavelmente reconhecendo mais uma passageira atrasada, mas não se importou com isso, não quando fitou o enorme avião que a levaria direto para a República Democrática do Congo. Que Deus a ajudasse nas próximas dezoito horas.
se aconchegou em seu assento e respirou fundo. Graças ao dono do zoológico, ela poderia viajar de primeira classe, mas se sentia totalmente deslocada daquelas pessoas que sentavam ao seu redor. Mesmo que ganhasse consideravelmente bem, Azikiwe nunca usaria dinheiro em aviões, talvez com comida, no máximo em roupas, mas jamais aviões. A médica pegou os documentos que a havia entregado e passou o olho por cima de cada um deles. Não era de sua conta, mas disse que não haveria problema, especialmente porque não era nada demais, apenas burocracia desnecessária, e odiava burocracia.
- Aceita alguma bebida, Srta.? – Azikiwe levantou a cabeça para a aeromoça e pediu uma água. Os olhos nervosos de corriam pelas páginas para se distrair do enorme avião no qual estava. Na pasta se encontravam apenas nomes de financiadores que não conhecia, cadastros de clientes, cartas formais – uma delas fechada e selada, destinada a um dos diretores da fundação, mas a mulher não pôde deixar de querer pesquisar os financiadores, não se recordava de alguns – Aqui está. – A aeromoça entregou o copo d'água para , a médica empurrou os pensamentos para o fundo da mente e se concentrou na oração silenciosa que fazia.
Quando o avião decolou, Azikiwe jurou que nunca mais se sujeitaria àquilo novamente.

*

- Estou bem, . Eu não sei falar muito bem francês, mas estou conseguindo me virar bem até agora. Eu estou esperando o motorista para ir até a fundação. – estava no banheiro terminando de lavar o rosto mortalmente pálido quando sua chefe ligou. A imagem refletida no espelho era bem diferente da mulher que havia embarcado em Londres.
- Que ótimo! Não esqueça de mandar uma mensagem quando chegar lá. Estão havendo algumas ações de protesto no país, além de ainda poder haver risco de pegar ebola, então fique atenta e se cuide, por favor. – Mais um problema na lista de Azikiwe. A morena já estava se acostumando com isso.
- Fica tranquila. Vou usar máscara perto dos animais e em áreas de risco. – murmurou do outro lado.
- Vou desligar, preciso ir à uma reunião. Vai dar tudo certo. suspirou ao guarda o celular novamente no bolso e se inclinou novamente para o lixo, achando que fosse vomitar o resto do almoço que comera no avião. A médica precisou reunir toda a força que tinha para caminhar com as malas até o portão de desembarque.
Quem deveria procurar? Homem, mulher, velho, jovem? Os olhos curiosos de seguiram cada uma das pessoas com plaquinhas na mão a espera dos passageiros até que achou uma com seu nome em uma caligrafia garranchada. Azikiwe sorriu ao se aproximar de uma moça negra baixinha com um sorriso largo no rosto.
- Srta. Azikiwe? – assentiu, surpresa com a falta do sotaque francês da moça – Acompanhe-me – a médica não questionou e seguiu a moça lado a lado – Teve um bom voo?
- Acho que deve ter sido bom, mas eu estava ocupada demais passando mal. – A nativa riu e assentiu.
- Não está com a cara muito boa, gostaria de comer alguma coisa no caminho? Temos mais uma viagem de duas horas pela frente. – arrumou a rodinha da mala com o pé e negou com a cabeça.
- Acredite, a última coisa que eu quero agora é comer.
Durante o caminho até a van da fundação, absorveu toda a paisagem. A energia emanada era diferente de Londres, era mais pura. O céu brilhava em um azul intenso e uma onda de calor encheu o corpo agasalhado de ao colocar os pés para fora do aeroporto. O calor londrino não era nada comparado com aquele que sentia, mesmo que não fosse tão forte quanto dos países tropicais.
A capital do país, Kinshasa, não parecia refletir o que era visto nos jornais com tanta intensidade, mas ainda sentia a tensão invadir seu corpo quando observava os militares parados com armas em punho no meio das avenidas enquanto atravessavam a cidade para o interior do país. Cada vez mais, a médica engolia em seco ao ver alguns corpos largados perto de plantações e homens armados até os dentes nas fronteiras entre cidades. Ela não conseguia dormir, mas apenas revirar em sua mente possíveis cenários de guerra em que aqueles homens poderiam ter morrido e mal tiveram um funeral digno.
- As facções estão sempre em guerra, Srta., mas não se assuste, estamos seguros. – tentou acreditar, de verdade, mas sentia o interior se revirar. O ser humano é deplorável, era nisso em que pensava quando, horas de viagem depois, avistou um enorme portão de arame e mais homens armados parados na frente de uma placa que dizia "ROCWA Foundation" – Chegamos – Keyla, nativa e motorista da fundação, virou a cabeça para trás enquanto segurava o volante – Vou ser sua guia aqui dentro também, Srta. Sinta-se à vontade para fazer perguntas, mas apenas não saia desacompanhada daqui, nunca. – Azikiwe assentiu destemidamente com a cabeça e reuniu suas tralhas espalhadas no banco. Quando atravessaram os portões de aço fortemente protegidos, soltou a respiração que mal percebeu estar segurando. Nas próximas duas semanas, aquela seria sua realidade, aparentemente.
- Obrigada por me trazer, Keyla. – A médica agradeceu ao descer do carro em frente a uma das sete casas no meio de um campo enorme. Os portões haviam ficado para trás, mas ainda era possível distinguir os arames farpados nas torres de controle. Parecia mais uma prisão do que qualquer coisa – É aqui onde vou ficar? – A moça acenou com a cabeça e guiou Azikiwe para dentro da casa azul que não possuía um jardim na frente, mas era tão bonita e organizada por fora que fez questionar se não havia sido inaugurada menos de dois meses atrás. As janelas eram enormes e grandes cortinas impediam a visão interior da casa, além de um tapete laranja cobrir a entrada, deixando maravilhada com a simplicidade, mas beleza extraordinária do lugar. Antes de entrar pela porta, inspirou o cheiro de mata que a invadiu por completo. Ela se sentia no paraíso. Antes que Keyla saísse, sentiu-se tentada a perguntar.
- Vocês já foram invadidos antes?
- Apenas uma vez, alguns meses atrás. Mataram cinco nossos e sete animais, um deles era um de nossos Ocapi – O interior da médica se revirou, entretanto ela tinha certeza que não era mais a comida do avião.
- Sinto muito. – Keyla assentiu com a cabeça e se retirou da casa após se despedir brevemente e lembrar a médica da localização das máscaras, deixando sozinha na estrutura de paredes brancas e piso de mármore.
não tinha um pressentimento bom quanto ao tempo que passaria naquele lugar, não sabia exatamente o que acontecia, talvez fosse o efeito do voo, mas parecia que uma mão segurava seus ombros e a dizia para ficar, mas que não seria fácil.
deixou a mala sobre a cama desforrada em um quarto e se dirigiu ao banheiro, precisava de um banho urgente antes de dormir. Os pensamentos não a deixaram nem mesmo enquanto cantava Choctaw County Affair ao esfregar os cabelos, tentando dispersar aquele sentimento incômodo que a tomava. não costumava ser receosa, entretanto esse sentimento a incomodava tanto ao ponto de simplesmente sair do banho apressada para ir dormir e esquecer as paranoias que tomavam seu tempo. Porém, ao deitar no colchão, o rosto de veio à mente e ela sentiu vontade de gritar. Sem paranoias, huh?
A mente de parecia brincar com ela até que definhasse entre os lençóis e deixasse de dormir, permanecendo com a sua cara doente igual ao sair do voo mais cedo.
Por volta do meio-dia, Keyla veio buscar a médica em seu quarto, mas estava de fones e acabou não ouvindo as batidas na porta, e novamente a morena ficou sozinha na pequena casa com seus pensamentos viajantes.
- Chega, preciso respirar. - Ela resmungou em determinado momento. Vestiu uma regata, uma calça militar e saiu do cafofo, deixando o vento forte fustigar seu rosto, mas sem realmente se incomodar. A máscara branca impediu que o resto do mundo visse sua boca aberta. A paisagem linda tomou toda a sua visão; um Jeep antigo cruzou a visão de entre as árvores, formando uma pequena trilha até que a vista se perdesse.
A médica respirou fundo e deixou que o ar a tomasse completamente, aquele desespero que a havia consumido passava aos poucos e os pensamentos se acalmavam. Um barulho de mensagem surpreendeu a moça, lembrando-a de súbito que deveria ter dado notícias à sua mãe.
- Droga, droga… - abriu o aplicativo de mensagens, mas soltou uma risada amarga ao ver a última mensagem recebida.

"Olá, doutora/guia. Está disponível hoje?"

a havia mandado mensagem depois de, não três dias - como a regra ridícula costumava dizer -, mas três semanas. A morena resolveu ignorar a mensagem e ligou para sua mãe, tranquilizando-a e contando sobre a beleza do local, o que foi o suficiente para que Okoye Azikiwe se conformasse e deixasse a filha voltar ao surto inicial.
não ficou feliz com a mensagem, na verdade, ela sentiu o ímpeto de apenas ignorá-lo e deixar seu orgulho levar o melhor de si.
- Doutora! Dormiu bem? - Keyla apareceu em sua visão e ignorou o celular ainda vibrando.
- Não consegui dormir, na verdade. Acabei só descansando a vista.
- Já que não consegue dormir, gostaria de dar uma olhada pela reserva? Pelo menos pela parte mais superficial, por ora? - assentiu alegremente e voltou apenas para passar protetor solar, por um chapéu e pegar a câmera fotográfica.
- Vamos? - Keyla guiou a veterinária até o Jeep velho que havia visto passar há pouco tempo. A moça se acomodou no banco do passageiro enquanto a nativa se dirigia para o lado do motorista.
A ansiedade negativa que tomava foi rapidamente tomada por uma felicidade genuína ao começarem a explorar as acomodações da reserva da fundação.
Passaram pelos santuários dos gorilas, animais caçados ilegalmente no Congo em grande número. não deixava de se chocar com as histórias que Keyla contava sobre os enormes gorilas que escaparam da morte por triz, chegando a matar caçadores com as próprias mãos para defender os filhotes.
- Vamos ver a última família de Ocapi que temos por aqui. - A médica automaticamente precisou controlar a ansiedade, mas Keyla foi mais rápida e deu uma risada meiga ao detectar o ânimo da veterinária, que ficou chocada ao ver a família Ocapi se alimentando em seu próprio santuário. Os animais ficavam "livres" em um espaço enorme, mas Keyla informou que saíam da casa deles algumas vezes na semana, apenas para evitar confrontos com os outros animais predadores habitantes do mesmo espaço. A vegetação ficava mais densa conforme iam se aprofundando na área e o sol começava a descer para oeste, fazendo com que suasse cada vez mais sob o chapéu.
- Os animais são lindos… Queria que todos do zoológico pudessem ser tão livres quanto os daqui. - Desabafou a médica com um sorrisinho tímido. Keyla não tirou os olhos da estrada de terra, mas concordou com a cabeça.
- Às vezes é difícil olhar para todos esses animais e imaginar que podem sumir um dia pela caça ilegal, é triste imaginar que nossa luta pode não ter retorno. Acho que entende como nos sentimos. - assentiu com a cabeça e continuou a tirar fotos do que era possível. A Fundação avaliaria as fotos, que não poderiam ser publicadas, serviriam apenas como recordação. Quando o céu já começava a manchar de vermelho sangue, as duas mulheres voltaram para as instalações. A barriga de Azikiwe roncava tanto que até mesmo Keyla ofereceu uma fruta de uma das árvores.
- Vamos direto para o refeitório, vou te apresentar aos médicos e voluntários. - assentiu e apenas seguiu Keyla para dentro do pavilhão cheio àquela hora. As pessoas jantavam cedo e dormiam cedo, era o que a nativa havia dito à um pouco antes.
- Keyla! - Um homem alto de olhos castanhos e pele negra como a noite interceptou as duas assim que entraram no refeitório. Os dois começaram a conversar animadamente em francês e se sentiu particularmente estúpida por saber cinco línguas e nenhuma delas ser aquela falada - Quem é a sua amiga? - O moço disse em um inglês forte.
- Sou a doutora Azikiwe, prazer. - A sobrancelha do homem se arqueou em surpresa.
- Sobrenome africano, doutora? - assentiu e o homem deu um sorriso largo - É bom conhecer uma irmã por aqui. Prazer, sou o Eliah. - A médica apertou a mão de Eliah e sorriu em seguida. Ele gritou algo em francês para o resto dos presentes e quatro pessoas comemoraram e deram risadas, levantando os copos metálicos. olhou curiosa para Eliah - Acabei de informar que uma Azikiwe veio nos visitar. Os que levantaram as mãos são Azikiwe também. - soltou uma risada alta, levando Keyla a rir também.
- Vamos jantar, doutora. - A nativa guiou pela fila do bandejão. A comida parecia boa, pensou Azikiwe ao colocarem raízes selvagens, torta de frango e alguns legumes em seu prato - Você veio em um bom dia, é o único em que temos massa fina desse jeito.
- Isso aqui está muito bom. - mal conseguiu terminar de orar pelo alimento antes de devorar a torta e as raízes, gemendo de felicidade. Alguns médicos haviam se juntado a ela e Keyla e conversavam sobre as rotinas dos animais e dos próprios funcionários, mostrando à os horários que deveria acordar e quem a acompanharia durante as semanas que estaria ali. A médica se mostrou inegavelmente feliz ao saber que veria Eliah pelo tempo que estaria ali.
- Na verdade, um dos nossos colaboradores chegou hoje, ele pode te dar algumas dicas também. O que acha? - Eliah comentou enquanto acompanhava para sua estalagem. Os mosquitos pareciam comer os braços da veterinária, mas o vento era agradável e a companhia de Eliah também.
- Qualquer ajuda é bem-vinda! Preciso absorver o máximo neste tempo que passar aqui. - Eliah assentiu, sua pele contrastando contra a regata azul. não podia negar que o homem era bonito, além de ser extremamente charmoso.
- Vou tentar me fazer útil ao máximo. Nós temos um dia de folga por semana, então podemos ir até a cidade comprar o que quisermos, o que acha? Podemos te mostrar o que for possível da capital. - Quando finalmente chegaram ao cafofo de , ela pensou que queria continuar conversando, mas estava cansada demais para engatar uma conversa real.
- Eu adoraria! - Ela sorriu preguiçosamente.
- Você está cansada, não está? Vá dormir. Temos um dia cheio amanhã, doutora Azikiwe. - apenas assentiu.
- Eu acabei não perguntando, mas qual é sua especialização? - já tirava os sapatos na entrada da casa, copiando seu vizinho de casa que já tinha as janelas fechadas e os sapatos não estavam mais no tapete.
- Neurologista. Como os animais que vêm pra cá muitas vezes sofrem danos cerebrais por objetos, acabo sendo mais necessário por aqui do que em outros lugares. - escondeu um pouco o choque. Cada palavra que saía da boca de Eliah parecia tão segura. A médica teve certeza de que gostaria de conversar com o homem - Boa noite, doutora Azikiwe - e com um aceno, Eliah se dirigiu para o lado contrário do qual estava, mas uma parte de dentro de si torceu para que o homem fosse seu vizinho da casa de janelas fechadas.

*

25 de julho, terça-feira, República do Congo
Quando o relógio marcou sete horas da manhã, já estava de pé e pronta para ir tomar café - o único incentivo para acordar àquela hora. Dessa vez, a moça estava usando um shorts largo verde musgo com diversos bolsos, onde já havia guardado suplementos médicos de emergência e algumas barras de cereal. O barulho dos animais matutinos relaxou Azikiwe o suficiente para que mantivesse o bom humor.
Ao sair do quarto, não pôde deixar de bisbilhotar a porta de entrada da casa vizinha, mas agora havia uma janela aberta e nenhum tênis na porta. Talvez conhecesse a vizinha misteriosa?
- Bom dia, doutora. - Keyla já usava o equipamento mostrando claramente que iria alimentar os animais e se animou ao se voluntariar para ajudá-la - Claro, pode me encontrar na ala das aves daqui quarenta minutos. Eliah pode te levar lá, se quiser.
- Seria adorável. - Keyla riu dos modos britânicos da médica. agradeceu e se dirigiu até o refeitório onde alguns funcionários comiam silenciosamente. A médica pegou a bandeja de comida com frutas, pão e leite e sentou-se em uma mesa mais afastada. Ao pegar o celular, parou novamente na mensagem que não havia respondido desde o dia anterior.
O contato de piscava diante dos olhos da médica, mas ela não sabia precisamente que ação tomar, até porque não estava acostumada com o que a fez sentir em apenas um encontro, talvez a luxúria que tenha preenchido seus olhos não fosse tão costumeira, mesmo que a mulher já houvesse tido outros parceiros antes, ainda sentia-se intrigada.

"Não estou na cidade. Fica pra próxima."

Foi a resposta final de . Quer dizer, eles não deviam nada um ao outro, então não havia porque parecer fria daquele jeito. Ah, mas é tranquilo ele tentar te beijar e só mandar mensagem três semanas depois, certo? largou o celular em cima da mesa e se concentrou em coisas mais importantes, e definitivamente não era uma delas.
A médica já montava o relatório do dia anterior para mandar para sua superiora, . As observações estruturais e dos animais eram o foco do relatório, mas não pôde deixar as condições ambientais de fora e enquanto pensava nisso, não reparou em uma silhueta parada à sua frente, fazendo com que sua sombra dificultasse a visão da obstetra.
- Que coincidência, também não estou na cidade. - Os pelos das costas de se eriçaram vergonhosamente ao ouvir aquela voz. Azikiwe pensou ter ouvido errado, mas ao levantar a cabeça e fitar os olhos fixos de nos seus, teve certeza de que uma brincadeira de muito mau gosto estava sendo feita com ela.

CAPÍTULO TRÊS - AQUELE DA MADALENA

- O que faz aqui? - Foi a primeira coisa que conseguiu professar antes de Eliah aparecer rapidamente por trás dela sem que percebesse.
- Bom dia! - A voz animada do homem tirou a atenção de para si.
- Bom dia, Eliah. Você pode me levar ao recanto das aves? - Sua voz não passava de um sussurro, como se os pensamentos gritantes em sua cabeça abafassem sua voz.
O que ele fazia ali? Por que havia mandado a mensagem? Talvez já soubesse que estaria ali e queria apenas brincar com sua cara. Se fosse o caso, que brincadeira boba. Entretanto, precisou de um pouco de ajuda para não medir o homem da cabeça aos pés, então forçou-se a encarar Eliah.
- Pelo visto você conheceu o . Ele vai te deixar lá, se não houver problema. - apenas assentiu. Usaria o caminho até lá para descobrir o que o homem de olhos felinos fazia ali.
- Vai ser um prazer, Srta. Azikiwe. - abaixou a cabeça e deu um sorriso beirando a malícia.
- Doutora*. Doutora Azikiwe. - Eliah arqueou as sobrancelhas e alternou o olhar entre os dois, como se finalmente entendesse que se conheciam. apenas deu de ombros e colocou as mãos nos bolsos.
- Como quiser, doutora. - O silêncio caiu sobre os três pesadamente. encarou sua comida desconfortavelmente e resolveu colocar um fim naquilo.
- Preciso encontrar Keyla. - manifestou-se, cortando o contato visual - Vamos a pé? - assentiu fracamente ainda sem conseguir tirar os olhos da mulher.
- Qualquer coisa, é só me chamar. - A médica sabia que Eliah falava com ela, ainda tentando entender o que havia acontecido entre a médica e . Por fim, Eliah saiu do pavilhão para ir checar um dos gorilas que foi resgatado nas semanas anteriores, deixando e sozinhos.
A médica se dirigiu para a pequena estrada de terra sem ver se a seguia ou não. Ainda se lembrava do caminho que fizera de carro com Keyla. se colocou ao seu lado, deixando que seu perfume se misturasse ao aroma das árvores carregado pelo vento. Maldito homem cheiroso.
- Você parece tão mais pacífica. - Foi a voz calma e abafada pela máscara de que fez com que levantasse a cabeça para encará-lo.
- Não tem como não ser pacífico em um local desses. - sentia os olhos do homem sobre si, mas apenas ignorou. Os dois já enxergavam o recanto dos pássaros ao longe, deixando a mulher aliviada.
- Consegui te surpreender novamente, certo? - controlou o impulso de revirar os olhos e apenas o encarou sob o chapéu que usava.
- Não gosto de surpresas.
- Mas aparentemente gostou de saber que era eu seu date algumas semanas atrás. - As sobrancelhas da médica se arquearam em descrença.
- Você é realmente tão seguro de si? - O arquear de sobrancelhas de respondia claramente. A pele bronzeada do homem parecia começar a se avermelhar sob o sol, como se tivesse passado muito tempo no campo.
- Não é como se ser inseguro fosse melhor. - Arrogância, era isso que não conseguira detectar da última vez que se encontraram. O recanto se aproximava cada vez mais e só queria começar a correr, nem que precisasse parecer louca.
- Por que está aqui?
- O mesmo que você, , mas talvez por motivos diferentes. Eu sou membro frequente aqui da fundação. Sempre que posso estou aqui como voluntário, só não imaginava que você estaria aqui junto comigo. Coincidências, huh? - não caiu naquele papo vago, não mesmo. Sua curiosidade a consumia por dentro, assim como a agonia por não saber a verdade.
- Hm, ok. - sabia que não conseguiria mais nada se continuasse insistindo, tentaria descobrir de outras formas. A estrada de terra abriu para a direita, revelando uma enorme construção de aço espaçado, abrigo de diversos pássaros que surgiam por todos os lados e de diversas cores.
- Doutora Azikiwe, . - Keyla os cumprimentou ao abrir a pequena porta para que entrassem. Automaticamente, sentiu um bater de asas muito próximo de si e logo em seguida uma arara azul pousou em seu ombro direito - Conheça Luft. Ele sempre fica animado quando uma fêmea aparece, seja humana ou animal. - deu risada e encarou o belo animal empoleirado em seu ombro, as pequenas garras prendiam sua regata e o bico da ave estava enfiado no chapéu da veterinária. O sorriso não podia ser contido nos lábios de ao passo que pegou um pouco de ração da mão de Keyla e alimentou o animal, logo depois a ave saiu voando de seu ombro para se juntar às outras aves.
- Keyla, como estão os novos bicos? As feridas já foram tratadas? Precisa de mais alguma ajuda com eles? - desviou o olhar de um casal de Honeyguide para , que acariciava a cabeça de um Batis minor, se não estava enganada. Os braços levemente musculosos se abriram para que o pequeno voador passasse por sua extensão. deu uma risadinha e a encarou, mas a médica já havia voltado a atenção para um tucano voando entre as árvores.
- As rações deveriam ter chegado há quatro dias, mas estamos sem previsão. Os vendedores disseram que estão tentando vir o mais rápido possível. - ouvia mesmo que eles houvessem abaixado o tom de voz sob as máscaras. Sabia que não era correto ouvir a conversa dos outros, mas estava próxima o suficiente e não parecia ser nada demais.
- Vou dar uma olhada nisso, não se preocupe. - E ali acabou o papo sobre rações. pegou punhados da ração que Keyla havia lhe dado e terminaram rapidamente de alimentar todas as aves do recanto.
O sol já começava a brilhar com mais força, o chapéu de estava caído em suas costas e suor escorria no meio de seus seios. Não estava acostumada realmente com calor, então os vinte e nove graus de temperatura a faziam ferver.
- Quer beber água, doutora? - perguntou ao jogar um pouco do conteúdo nos cabelos.
- Sim, por favor. - pegou a garrafa enquanto caminhavam para o próximo local que a mulher deveria visitar, a área dos tigres. Para chegar até lá, precisariam andar um quilômetro e meio. informou que o Jeep estava quebrado e os outros estavam sendo usados para outras atividades, então se colocaram novamente a pé - Obrigada pela água, não estou exatamente acostumada com tanto calor. - assentiu e jogou o resto da água por dentro de sua camiseta roxa, deixando seu corpo marcado. desviou o olhar, ainda sentindo a coleira que seu orgulho havia amarrado em seu pescoço apertar cada vez que se sentia tentada a olhar para ele.
- Você pode olhar, não tem problema. - apenas ignorou o homem.
- Quando chegou aqui? - A médica precisava desconversar aquilo antes que entrasse em um flerte do qual não conseguiria sair.
- Ontem antes do almoço. Você chegou umas duas horas antes que eu.
- Como sabe? - observava pequenos animais que corriam pela mata do lado esquerdo da estrada, deixando-a ainda mais relaxada.
- Eu te vi correr igual louca para o salão de embarque, meu voo partiu pouco tempo depois que o seu. - Os olhos arregalados de pareceram divertir , que caiu na gargalhada - Você estava desesperada, foi tão engraçado! - A médica deu um tapa no braço de , este a encarou divertidamente - Você que pagou mico e eu que apanho? Qual é a graça nisso?
- Eu estava cansada, só isso! Eu passei a noite anterior no plantão! E por que me dizer isso? - deu de ombros e parou a encarando de frente.
- Qual seria a graça em não te dizer? Piadas são feitas para serem compartilhadas. - cruzou os braços sob o peito, tirando os cabelos dos ombros suados.
- Não sou piada, por mais que realmente deva ter sido engraçado. - Ela se entregou levemente ao riso, deixando que o vento frio cruzasse o caminho dos dois, balançando os cabelos da médica.
- Não é todo dia que vemos alguém tão alta como você correndo por um aeroporto com um travesseiro de aliens no pescoço, sinceramente.
- Ok, sem abuso. - Os dois deram risada e voltaram a andar, as mãos raspando uma contra a outra e sem que percebessem, o ar parecia girar ao redor deles com uma sinfonia harmônica.
*Em alguns países sem ser o Brasil, o termo "doutor" é utilizado corretamente para se referir aos praticantes da medicina - também a veterinária - e para qualquer outra área em que o profissional possua o certificado de "doutor(a)".

*

Uma semana havia se passado, mas ainda não sabia decifrar o que se passava na cabeça daquela mulher. Seus olhos procuravam os dela constantemente, buscando aquele brilho que tinham quando ela sorria abertamente. Durante aquele período, o jornalista se sentia mais tranquilo ali, em um local com uma recém controlada epidemia de ebola, do que os anos que passara em Londres na mansão com o pai.
Em momento algum havia perguntado o motivo de ter passado três semanas sem dar sinal de vida, mas não sentiu que poderia mentir para a bela mulher de pele escura e olhos vivos como jamais havia visto, então preferiu fingir que não havia acontecido.
- Não é possível em lugar algum que você considere o Capitão América melhor que o Homem de Ferro. - Os dois haviam entrado em uma discussão sobre HQs alguns minutos atrás e descobriram que divergiam muito sobre os heróis favoritos.
- O Capitão, além de ser um ótimo líder, veio de um lugar diferente do Tony, têm conceitos diferentes e vivências diferentes, mas Steve viu o pior da guerra! - A forma como os olhos de brilhavam ao falar das HQs fazia considerar acatar suas opiniões apenas para vê-la sorrir um pouco mais, mas não conseguia deixar seu próprio orgulho.
- Tony Stark teve a mente invadida por Thanos! Ele ficou preso no portal em New York! Não é possível que o Capitão, em pleno terreno, pudesse ter feito o que ele fez. - arqueou as sobrancelhas.
- Steve Rogers conseguiu se virar muito bem sem o Homem de Ferro, Spider ou Hulk por muito tempo, não acredito que poderia ser vencido por alguns aliens, ele daria um jeito. Além do mais, são os Vingadores, jamais deixariam que lutassem sozinhos. - E ali acabou a discussão, quando Keyla e Eliah correram até os dois completamente ofegantes, mas os olhos estavam focados na médica sentada à sua frente.
- Doutora Azikiwe, acabou de chegar um tigre-do-sul-da-China! Ele está fraturado e com três balas alojadas entre as patas traseiras e o estômago. - Os olhos de se arregalaram ao se levantar do banco em que estava sentada, preparando-se para correr ao lado dos dois, dando instruções rápidas e experientes, como se já tivesse feito aquilo milhares de vezes. Ela deu uma última olhada para antes de disparar porta afora para encontrar o animal.

*

- Preciso de uma sala de cirurgia e um anestesista, agora! - ditava ordens em inglês conforme checava a pressão da fêmea tigre-do-sul-da-China. Como o animal havia parado ali, ela ainda não sabia, mas observava as pupilas dilatadas do tigre, este já começava a demonstrar sinais de perda de consciência. A médica subiu com o animal e cinco funcionários da fundação em uma picape. Iriam até o centro cirúrgico localizado em um dos prédios dentro da fundação. Nunca havia visto um animal tão severamente ferido. O vento jogava os cabelos contra o rosto, o tigre rosnou jogando a cabeça pesada para trás. Chegaram rapidamente ao local, um anestesista já estava preparado na sala, disseram. subiu as escadas até o segundo andar correndo, amaldiçoando o fato do elevador estar no sexto andar.
- Doutora, a nossa outra médica está chegando, mas ainda está saindo da cidade. Você pode começar a cirurgia? - Uma enfermeira com sotaque extremamente pesado parou ao seu lado assim que saiu das escadas. observou o animal enorme deitado do outro lado do vidro que as separava.
- Posso. Vou me vestir, já têm a roupa preparada? Preciso que liguem para a médica responsável agora. Vou fazer a cirurgia enquanto converso com ela. - A enfermeira assentiu e levou a médica para se vestir e desinfetar antes de entrar na sala de cirurgia. Antes de cada operação de risco, orava e implorava pela vida do animal, e não foi diferente em outro continente.
Que Deus a ajudasse.

*

04 de agosto de 2017, sexta-feira, República Democrática do Congo
havia dormido por dois dias seguidos na UTI com a fêmea. Cada mudança respiratória deixava a médica preocupada, especialmente porque ela ainda estava fraca e poderia não sobreviver até o final do dia, mas se mostrou extremamente prestativo ao levá-la comida comprada na cidade e algumas roupas novas.
- Precisei entrar em seu quarto, mas não reparei na bagunça, não se preocupe. - Foi o único riso que havia sido arrancado da médica desde que havia terminado a cirurgia. Havia burburinhos sobre a chegada do animal à instituição, não sabiam quem havia largado o animal ali, apenas que uma picape sem placa havia jogado um lençol enorme no lado sudoeste da fundação, e ao conferir, acharam a fêmea aos urros que assustaram os pássaros empoleirados nas árvores. sentira tanta raiva após colocar o animal em observação, cada célula sua queimava quando pegava casos de maus tratos - Podemos achar quem fez isso, sabia? - tentou demonstrar otimismo, mas não era possível ao observar o animal enfraquecido na maca.
- Queria ir atrás de cada um desses homens e chutar o saco deles. - riu e pareceu dizer algo, ignorando em seguida - Está tudo certo? - O homem assentiu, mas pareceu distante.
- Preciso sair, volto mais tarde. Se precisar de algo, me ligue. - E assim, correu como vento, deixando e Madalena sozinhas. Madalena, pois havia sobrevivido ao apedrejamento.

*

05 de agosto de 2017, sábado, República Democrática do Congo
estava deitada em sua cama olhando para o teto, ainda sem conseguir dormir. Havia ligado para há pouco tempo e reportou os fatos ocorridos nos últimos dias, além de comentar sobre a presença marcante de .
- É incrível como o perigo te persegue, garota! Infelizmente, não temos jurisdição para trazer essa fêmea para cá, já temos nossa cota de tigres-do-sul-da-China, mas iremos enviar fundos para que cuidem especialmente bem dela, não se preocupe. - E não se preocupou, apenas acreditou na palavra da amiga. Em algum momento acabou dormindo, mas foi acordada por batidas na janela atrás de si. A espinha da médica se arrepiou e ela fingiu estar dormindo. Talvez fosse algum visitante perdido.
- , sou eu, . - O interior da mulher se esquentou e sentou rapidamente no colchão, abrindo um pedaço da janela para que pudesse ver o rosto do homem - Podemos conversar? - Sua voz não passava de um sussurro além das canções dos insetos. Havia apenas uma luz entre eles, que era a do celular de .
- Você não consegue ficar muito tempo sem me ver, não é? - Sua voz rouca e cansada se despedaçou na metade da sentença quando a encarou seriamente como nunca havia feito. Ok, parece sério - Você não pode ser visto, certo? - Ele assentiu. Talvez se arrependeria de deixá-lo entrar - Pule a janela logo, mas não se acostume. - O breu tomava o quarto de , a luz do celular havia parado de brilhar, e apenas a silhueta do homem podia ser vista no meio do escuro enquanto pousava graciosamente no colchão, como se já houvesse feito aquilo antes.
- Bonita camisola. - A voz baixa de invadiu o interior da mulher que apenas respirou fundo e chutou para longe o ímpeto de responder.
- Obrigada. Comprei na cidade. - deu uma risada rouca - Acendo a luz? - A negação veio em seguida, apenas respirou fundo. O que estava acontecendo? - Você vai me contar o que está acontecendo ou vai continuar apenas fazendo sinais?
- Preciso te fazer uma proposta. - A voz do homem saiu ainda mais baixa do que antes e finalmente entendeu o que estava acontecendo.
- Você não está pensando em transar comigo, está? - A sorte de é que estava tudo escuro, senão teria socado pela cara que havia feito.
- Você acha que esse é meu método de conquista? Invadir a casa de mulheres no meio da noite e pedir por sexo? Pelo amor de Deus, Azikiwe. Você deve ao menos me dar alguns créditos. - Antes que conseguisse responder, já havia sacado o próprio celular do bolso, deixando a luz boa o suficiente para que pudesse iluminar alguns papéis em sua mão e o próprio rosto.
- O que aconteceu?
- A aparição de Madalena não é um engano, não é apenas algum caçador que apareceu do nada e resolveu devolvê-la. Tem tanta coisa por trás disso, tanta sujeira.
- E como você sabe disso? Presumo que não tenha sido você o culpado, mas imaginava que isso fosse acontecer? - assentiu com a cabeça.
- Eu não vim até aqui para passear, Azikiwe, eu sou jornalista, estou investigando a corrupção entre grandes fundações de direitos dos animais, públicas e privadas. - Os olhos de se arregalaram em surpresa. Ela não esperava aquilo. Cada pedaço do rosto de revelava a verdade, percebia Azikiwe com o coração acelerado. Esquemas de corrupção.
- Você está investigando meu zoológico? - assentiu levemente com a cabeça - Encontrou algo? - O homem pareceu hesitar, como se debatesse se deveria contá-la ou simplesmente fingir que nada havia acontecido e queria apenas um booty call - Ok, deixamos essa para depois. Vou começar com algo mais simples… Como você se meteu nisso? - A voz dos dois não passava de um sussurro conforme sentavam no colchão. A conversa seria longa, pensou ao prender os cabelos em um rabo de cavalo, expondo ainda mais sua pele coberta por uma camada muito fina de suor devido às janelas fechadas.
- Eu sou produtor de documentários independentes e resolvi fazer um focado especialmente em fundações protetoras dos animais na Europa. Eu já era doador constante desta fundação, então consegui contatos fáceis já que já estava inserido neste contexto. - assentiu, pedindo para que continuasse. parecia pisar em ovos ao falar com a mulher - Pedi permissão a uma moça da administração de uma dessas fundações para me deixar dar uma olhada nos acúmulos bancários, precisava de um dado específico para bater com um que havia achado na internet, mas acabei achando documentos claramente errados em comparação com a informação passada pela empresa à mídia. Resolvi procurar mais e acabei achando um esquema de Caixa 2 entre três fundações, mas ainda é muito raso para que eu possa realizar uma denúncia formal, além de precisar de mais apoio político e midiático se quiser que isso funcione. - não deixou expressar nenhuma reação ao que o homem falava, mas a verdade era que seu coração batia como louco em seu peito, os músculos retesaram e a língua parecia anestesiada, não conseguia dizer nada. - Não tem nenhum comentário? - parecia ansioso, esfregando as mãos umas contra as outras. Os olhos pintados de dourado pareciam ainda mais brilhantes pela luz da lua que invadia o quarto, dando visão o suficiente de seu rosto.
- Eu estou processando tudo, mas eu só ouvi da sua boca, preciso de provas para poder acreditar nisso.
- Claro, imaginei. Trouxe algumas fotos e o dossiê de uma dessas empresas. Não espero que tome alguma providência brusca quanto a isso, mas eu confio em você, confio que quer o melhor para os animais, vi isso quando se esforçou para salvar aquele tigre, vi em você o que não vejo nesses caras.
- Eu não sei o que dizer, . - E não sabia, de verdade.
O dossiê parecia fogo do inferno em suas mãos geladas, os olhos percorreram o papel pardo e as mãos travaram ao abrir o primeiro documento, um daqueles era igual ao do zoológico, um dos documentos que pedira para entregar ao chefe da fundação, e havia entregado sem ao menos saber do que se tratava - Isso é loucura demais… Se isso tudo for verdade, tantas instituições estão envolvidas em esquemas corruptos mundiais. Você tem noção da bomba que tem em suas mãos? - A voz de era um sussurro perplexo ao começar a pensar em possíveis cenários que compunham aqueles documentos em suas mãos, além de outros que já tinha.
- Sim. Sei que vai ser difícil, estou coletando essas informações há um ano, mas estou ainda na superfície, tem muito mais sujeira. A sua ajuda seria bem-vinda, . Essa é a minha proposta, tentar desmascarar todos esses nomes sujos antes que os próprios animais sofram com isso. Acha que estamos sem ração por puro azar? - tentou esconder o lampejo de choque ao perceber que notara que estava ouvindo a conversa com Keyla mais cedo - Sim, falamos propositalmente perto de você. Estão desviando dinheiro dos cuidados dos animais para esquemas criminais.
- Isso é informação demais para processar, . Meu Deus, isso é informação demais. - Os olhos da médica passavam dos documentos em suas mãos para o homem sentado a pouco espaço de si, sem saber exatamente como reagir. fazia parte daquilo? - Por isso você foi falar com , não foi? Por isso saiu comigo também? Já fazia parte dos planos de vocês me colocar nisso, não fazia? - A compreensão atingiu - Por isso você não mandou mensagem? Por que não adiantaria falar comigo se não fosse sobre o plano de vocês dois? - não conseguia parar de falar, cada pedaço se encaixava perfeitamente em sua mente, como se um grande quebra-cabeças estivesse formado e ela conseguisse ver o plano maior - Você sequer estava perdido quando me encontrou aquele dia no zoológico? - não respondeu, mas não precisou da resposta, sabia apenas ao olhar para o homem que não desviou o olhar, mas engoliu em seco - Saia, por favor. - Sua voz saiu baixa, mas tão séria quanto poderia ser. Achava que nunca havia estado tão séria na vida - Não fale comigo até que eu processe cada parte do que você me disse, não finja que me conhece, porque claramente está errado se achou que eu gosto de ser usada dessa forma. - assentiu e se levantou do colchão, abrindo a janela e colocando a cabeça para fora para ver se havia mais alguém ali.
- Nenhuma parte do nosso encontro foi fingida para tentar te induzir a concordar com isso. Eu falo sério quando digo que pedi para sair com você porque queria te conhecer melhor, mas não consigo negar que queria ver se era realmente apta para o lugar que gostaria que você ocupasse e agora, mais do que nunca, tenho certeza que te quero no meu time. - A voz de era tudo o que ouvia, não teve coragem de se virar para olhá-lo nos olhos, não quando sentia a traição de zunindo em seu ouvido - Assim como sei que acertei ao te contar, porque sei que não vai falar para ninguém sobre isso, porque você é ética e é sensata. Seja sensata quanto a isso. Voltamos para Londres em dois dias, se quiser conversar antes disso, estarei aguardando. - Ao finalizar, saiu pela janela e sumiu na noite escura, deixando a mulher sozinha na casa com seus pensamentos.
ligou o celular, três horas da manhã. Será que poderia ligar para àquela hora? A mulher merecia, merecia tantos xingamentos, tantas ofensas, mas resolveu analisar o que tinha em mãos, aprendera isso com os pais logo cedo: analise o que tem, saiba do que se trata, então argumente com propriedade.

CAPÍTULO QUATRO - AQUELE DO 'SIM'

se sentia péssimo. Os músculos estavam doloridos pela tensão, pelo olhar de confusão, choque e dor que havia lançado a ele. Talvez ele tenha começado aquilo de forma errada, não deveria tê-la chamado para sair e tentado beijá-la no final, mas nenhuma parte dele se arrependia daquilo. As costas tatuadas estavam nuas quando deitou-se na cama e não conseguiu dormir pensando nas informações que precisaria absorver sozinha em um quarto escuro. Pensou em ligar para a amiga, , mas receberia xingamentos aos montes por tê-la acordado, com certeza.
A opção que sobrou ao homem era deixar que cenários fossem criados em sua mente, cenários em que o entregava para o dono do zoológico e acabava na cadeia; ou em que ela se juntava a ele. Talvez alguns outros cenários tenham se misturado àquele, mas tentou se focar no problema atual, sendo distraído rapidamente pela imagem de de camisola pérola em sua frente, tão perto que podia sentir o calor que emanava dela, tão perto que poderia tocá-la facilmente. Os pelos do braço se eriçaram e ele precisou andar pela casa escura para tentar tirar os pensamentos da cabeça cheia, mas a imagem constante daquela mulher enchia sua mente, os cabelos jogados nos ombros, a clavícula livre de tecido, as coxas grossas expostas, até a merda da alça da camisola largada no antebraço o deixava louco, droga. balançou os ombros e resolveu tomar banho, não havia outra opção naquele momento além de deixar a água fria lavar seus desejos para longe.

*

não estava no pavilhão como nos últimos dias quando se encontravam para conversar e comer. imaginou que a médica deveria estar com Madalena na UTI já que a noite anterior havia sido decisiva para saber se o animal viveria ou não. Ele ficou tentado a ir até a unidade, mas precisava dar espaço para a , precisava deixá-la tomar sua decisão por conta própria e não seria útil de modo algum, talvez até a deixasse mais ansiosa e frustrada. O jornalista comeu rapidamente e foi se encontrar com Eliah e Keyla enquanto conversavam ao alimentar os enormes gorilas. Os mais novos brincavam entre si, rolando no chão e se jogando na água, fazendo rir.
- Qual foi a reação dela? - Keyla foi a primeira a perguntar.
- Com certeza não foi a melhor, pela cara dele. - Eliah provocou e fez um gesto obsceno para o amigo.
- Realmente, não foi a melhor, mas eu esperava pior. - Eliah deu risada e jogou um pé de alface inteiro para o maior gorila.
- Esperava que ela saísse te denunciando por aí?
- Esperava que ela me batesse. Azikiwe parece muito forte, acho que ficaria seriamente machucado. - Keyla deu risada, mas concordou.
- Você não tem chance, ela luta jiu jitsu. - riu e voltou a ajudar os amigos a alimentar os gorilas. Os três seguiram de volta para o pavilhão do refeitório após as onze horas, depois de alimentarem todos os animais que precisavam ser alimentados. Quando chegaram ao pavilhão no horário do almoço, já estava sentada e almoçando, além de parecer falar com alguém ao celular e não parecia feliz com aquilo.
- Cara, você está muito ferrado. - Eliah deu tapinhas nas costas de e se dirigiu para a fila que começava a esvaziar. Todos ali almoçavam bem cedo. Keyla se separou dele também, deixando-o sozinho como um bobo ao encarar . A mulher captou seu olhar, mas não o fuzilou, não mostrou o dedo, nada, contudo havia uma calma sombria em seus olhos como se soubesse de uma tempestade que estava chegando e não queria compartilhar a informação com ninguém. Ela era a própria tempestade se formando na direção de .

*

balançou os pés enquanto esperava atender a ligação.
- Quando esperava me contar sobre essa palhaçada? - Foi a primeira coisa que disse quando a amiga atendeu o telefone animadamente.
- , não devemos falar disso agora. - Então ela já sabia que falara com ela.
- Não, não iremos. Vamos falar disso quando eu voltar, você vai me pagar um jantar no restaurante mais gostoso de Londres e vai abrir uma garrafa de vinho só para mim, porque eu mereço. - não riu, sabia que falava sério e que não fazia aquilo como suborno ou chantagem, mas sim porque era o acordo delas sempre que a outra estava chateada, verdadeiramente chateada.
- Combinado, . Te espero daqui três dias, te busco na sua casa. - E assim a ligação acabou, rápida, mas que prometia uma conversa cheia de perguntas. observou parado perto da porta do pavilhão, encarando a jovem com curiosidade mortal. Ele que fique olhando.
se levantou do banco e se preparou para voltar ao hospital. Madalena estava estável, mas precisava deixar a médica informada sobre tudo o que estava acontecendo. A médica local responsável havia chegado tarde no dia da cirurgia de Madalena e precisou voltar para a capital, teria que realizar uma cirurgia, havia dito. A mulher pegou as chaves do Jeep com Keyla e foi até a clínica, mas a mente viajava para as informações que havia soltado na noite anterior.
Ela estava trabalhando em um local que estava sendo investigado por corrupção, mas o que garantia que e não eram tão corruptos quanto os outros? A mente de doía desde o dia anterior, não dormira, não conseguia dormir sem imaginar os olhos de dizendo que deveria sair com , a amiga nem mesmo piscou ou vacilou, ela mentira com tanta facilidade, essa foi a parte assustadora.
A médica pensou em ligar para , mas não era seu direito contar o que estava acontecendo, não quando nem mesmo ela processara o que havia acontecido, e foi com o coração acelerado e a cabeça latejando que passou o dia inteiro no hospital cuidando do único ser que merecia verdadeiramente seu tempo.

*

08 de agosto de 2017, terça-feira, Londres
O voo de volta havia sido tão ruim quanto o de ida, concluiu ao pousarem em Londres novamente. estava três poltronas atrás pronto para sair do avião, mas mal conseguia se levantar sem sentir a cabeça girar. Os dois precisaram passar oito horas juntos, desde a saída da fundação até o embarque no avião, mas havia restringido a conversa às informações sobre o voo, o que cada um queria comer e apenas. Não queria falar com o homem, não queria lidar com aquilo no momento, mas durante o voo, de madrugada, logo após uma turbulência que fez com que não conseguisse mais pregar os olhos, ela resolveu pegar os documentos e analisá-los mais uma vez, cruzando com alguns dados que tinha ouvido de reuniões e visto em outros documentos, além de ir atrás das empresas - as quais ela descobriu sem muita surpresa, serem fachadas - que não reconhecera nos documentos.
O interior de revirava enquanto a ficha caía de verdade e ela percebeu que um dos possíveis motivos para as apresentações circenses nos parques não fosse um favor do dono, mas talvez um modo de mascarar pagamentos. Quando terminou de ler a papelada, já sentia o peso do cansaço triplicar em seus ombros. Ela realmente corria em direção ao perigo sem nem ao menos hesitar.
- Vamos, doutora Azikiwe? - ofereceu a mão, a qual ela aceitou. Não estava preparada para lidar com tudo aquilo, mas começou a prestar atenção no ponto de vista de e e entendeu, em partes, seus motivos, mas não entendia a ligação ou o motivo de se importar com tudo aquilo. Podia ser um justiceiro ou algo assim.
ajudou a pegar suas malas e não falou com ela até colocá-la dentro de um uber para casa. Talvez o rosto inchado e sem cor de indicasse que ela realmente não estava bem o suficiente para conversar, seja lá sobre o que fosse.
- Quer que eu vá com você? - Perguntou o homem à , a mulher negou com a cabeça e logo em seguida abriu a porta do carro e vomitou um líquido amarelo perto dos pés de na calçada - Ok, não é mais questão de querer, precisamos ir a um hospital. - tentou reclamar, tentou negar e dizer que poderia se virar sozinha e ele deveria ir ao inferno com todos aqueles problemas, mas ela não teve forças.
- Devo mudar a rota? - Perguntou o motorista do uber olhando descaradamente para os bancos, tentando medir se o vômito de Azikiwe havia atingido o seu carpete ou não.
- Sim, por favor. - entrou no banco de trás e deixou que deitasse a cabeça em seu ombro. - Qual o endereço do hospital mais próximo?

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10 de agosto de 2017, quinta-feira, Londres
- Não acho que ela tenha desmaiado pela notícia, não se preocupe. - A mulher extremamente séria colocou gentilmente a taça sobre a mesa de vidro e se recostou novamente na cadeira. conseguia sentir a tensão em seus ombros, os dedos que mostravam o nervosismo incontido não paravam quietos.
- Também acho que ela não vá contar a ninguém, pelo o que eu percebi, ela é realmente íntegra. - se levantou da cadeira já que não conseguia conter a ansiedade dentro de si, então começou analisar os livros na estante de , passando os dedos pelas lombadas amareladas pelo tempo de existência de cada um daqueles clássicos da literatura inglesa.
- Não tenho dúvidas quanto a isso, mas eu entendo o porquê de ela não querer falar com você, , talvez até comigo. - A voz de era macia e controlada, como se mergulhasse em uma calmaria profunda e centrada da qual nem mesmo o amigo conseguiria tirá-la - Ela descobriu que trabalha em um ramo muito mais caótico e corrupto do que ela imaginava, não é de se estranhar que ela tenha essa reação… Você teve a mesma quando descobriu tudo. - Ele não gostava de falar daquilo, não gostava de relembrar toda a sujeira que havia descoberto.
- Sim, eu sei. Ela foi trabalhar hoje? - balançou a cabeça em negação.
- Deixei que ela ficasse até amanhã em casa, a mãe dela disse que ela dormiu até ontem de madrugada. - O silêncio recaiu sobre a sala, apenas os pássaros passando pela janela de eram ouvidos.
observou o tapete branco que se estendia pela sala, o lustre de cristais que ele mesmo havia dado para a amiga quando esta se mudou para Londres, mas parou seu olhar nas fotos dos dois quando eram pequenos, e outra do pai de e o pai de sentados em uma mesa, rindo e conversando.
- Você fez uma manobra arriscada, sabia? Chamá-la para sair e fingindo encontrá-la por acidente no zoológico. - virou o tronco para encarar a mulher.
- Precisava arriscar, . - Ela assentiu e se levantou, colocando-se ao lado de . Os dois começaram a encarar as fotos de família, as memórias de anos atrás foram surgindo.
- Eu sei que você fez isso sem a intenção de machucar minha amiga, , mas eu não queria colocá-la no meio disso, entretanto foi necessário. Só quero que ela saia com a mesma integridade de quando entrou, então guarde o que você tem dentro das suas calças, não estrague tudo, ouviu? - o encarava furtivamente, mas ele não se deu o trabalho de retribuir o olhar.
- , prometo manter meu pênis no meio das minhas pernas até o final da vida, você sabe. - A amiga deu uma risada e ele pôde sentir o revirar de olhos.
- Você é um babaca, Crawford. - O homem seguiu a risada da amiga, os dois tornaram a sentar nas cadeiras e colocou um dossiê enorme entre os dois - Informações novas e atualizadas. Liguei para um dos meus amigos do jornal, preparei o terreno, mas não disse nada relacionado ao escândalo. - assentiu e continuou a analisar as contas bancárias, as fotos que ele mesmo havia tirado alguns meses atrás nas reuniões - Vamos precisar acionar a Inteligência Britânica, sabe disso não é? Senão vão acabar nos descobrindo e aí sim o circo pega fogo. - cruzou as mãos sobre a calça jeans e abaixou a voz como se um agente federal fosse invadir sua casa e levar toda a preciosidade em suas mãos - Eu sei o quanto isso é sério para você, , mas não podemos deixar nosso orgulho entrar na frente do que é certo, foi assim que tudo isso começou.
- Você está certa, mas não podemos deixar que isso caia nas mãos de corruptos tão fortes quanto eles, . Como podemos confiar na Inteligência quando são homens também?
- Nós também somos homens, . Precisamos confiar que tudo vai dar certo. - suspirou e balançou os cabelos com as mãos.
- Vamos lidar com isso depois, ok? Por enquanto eu só quero ir dormir. Vou para casa, tenho uma reunião com uma prestadora de serviços de stream.
- Não pense demais na , . Ela pode se virar sozinha, é mais forte do que eu e você juntos. - assentiu e deu as costas para a amiga, deixando o prédio para trás ao começar a andar pela rua, mas não pôde deixar de pensar na mulher de cabelos volumosos que torcia para passar a ser sua nova colega de profissão.

*

- Mãe, pode ir para casa! O papai vai começar a me culpar por estar dormindo sozinho nestes últimos dias! - fechou a porta da geladeira com o pé e correu até a chaleira, preparando um chá forte para a mãe.
- Eu sei, eu sei! Vou assim que você sair para trabalhar, filha. Tenho compromissos também, sabia? Não estou aposentada. Vou dar uma palestra hoje à noite, preciso preparar alguns slides antes de ir. - Okoye se sentou à mesa e começou a comer bolinhos e broa que havia trazido de casa. sentiu o estômago roncar ao ver as comidas, apenas colocou alguns bolinhos em uma sacola, despediu-se da mãe e correu para o carro antes que se atrasasse.
O corpo estava revigorado, ela precisava admitir, não havia cansaço a rondando como nos últimos dias, não havia e seus segredos enquanto estava sendo paparicada pela mãe, não havia drama adulto. Ela estava em paz. Mas tudo isso, claro, antes de chegar ao trabalho.
- Bom dia, doutora Azikiwe! - A recepcionista de cabelos vermelhos a cumprimentou com um sorriso - Está se sentindo melhor?
- Estou sim, obrigada. Tem alguma coisa para mim? - A mulher desapareceu sob o balcão e voltou com uma caixa e alguns envelopes em mãos.
- São para você. Ah, e Dra. pediu para ir à sala dela.
- Obrigada. - E assim levou aqueles pacotes até sua pequena sala, mas não se incomodou em abri-los, precisava ir até os tratadores. O som dos animais acordando, as folhas de início de outono começando a se mostrar, fizeram com que Azikiwe relaxasse ainda mais. Cumprimentou os tigres que a lamberam e brincaram com a médica um tempo depois de comerem. Até Linda estava lá novamente, mas esta estava isolada dos outros, já que ainda era agressiva com os tratadores.
- Estamos fazendo o melhor, mas ela se sente ameaçada sempre que vamos dar comida. - Um dos tratadores disse com certa tristeza na voz. já o conhecia e sabia que estava lá há anos, então era o mais próximo de todos os tigres.
- Vamos com paciência, exatamente como você tem feito. Estamos pensando em colocá-la em um projeto de reintegração dos animais da África. Vamos tentar colocar alguns tigres criados em campos na natureza novamente. - O tratador assentiu, deixando que a conversa fluísse mais um pouco antes de Azikiwe seguir até os animais aquáticos.
- Ora, ora, vou desmaiar e conseguir alguns dias de folga também. - A voz de fez com que se virasse para a amiga - Que foi, menina?
- Estava com saudades. - As duas se abraçaram e passou as mãos nos cabelos de .
- Você estava no Congo, eu estava aqui cuidando de crianças e animais, eu estava com saudades de ter alguém com quem desabafar - riu e passou os braços ao redor do ombro da amiga.
- Você já cuidou dos seus bebês aquáticos? - assentiu com a cabeça e olhou para as árvores.
- Semana passada uma tartaruga morreu, mas não houve reposição dos animais, então estamos tentando fazer com que um casal se reproduza, até que está dando certo. - ouviu a amiga falar sobre os animais, mas sua mente voou longe, para um par de olhos vibrantes e lábios que pediram uma resposta sobre o que lhe havia sido proposto - Você está viajando, . - A mulher virou a cabeça para a mais velha, dando um sorrisinho amarelo de desculpas.
- Desculpa, Jan. Estava pensando em Linda. - se sentia péssima em mentir, mas não estava pronta para contar o que realmente havia acontecido na viagem.
- Algum progresso com a fundação? - se limitou a encarar os primeiros visitantes do zoológico.
- Largaram um tigre-do-sul-da-China na frente do portão da fundação, precisei realizar uma cirurgia de emergência. - arregalou os olhos e parou a amiga.
- Ele não estava catalogado entre os últimos do mundo? - balançou a cabeça em negação - Tráfico de tigres, é isso? Droga, queria ter ido. - encarou a amiga, mas deu de ombros.
- Não temos um laudo oficial, até porque fui embora antes que terminassem a apuração, mas parece que há alguma quadrilha que faz tráfico desses animais no Congo, não apenas de gorilas. - ignorou o frio que subiu por sua espinha - É bem mais sério do que eu imaginava.
- O animal sobreviveu? - suspirou de alívio ao ver a amiga assentir fracamente.
- Três balas e vários sinais de tortura. Ela vai ser uma das primeiras no processo de reintegração assim que estiver melhor. Vamos, quer dizer, vão colocá-la junto com outros tigres primeiro.
- Espero que prendam essas pessoas, . E logo. - O olhar de raiva no rosto da amiga foi o suficiente para sentir o estômago revirar o coleira do orgulho puxá-la para o outro lado, para a sala de .
- Jan, esqueci algo lá em cima. Nos vemos mais tarde? - assentiu com a cabeça e mudou a direção, indo diretamente para a sala da amiga e chefe.

*

- Pode entrar! - A voz abafada de fez-se ouvir após bater algumas vezes na porta - ! Achei que não viesse tão cedo. - Não havia julgamento ou desconfiança em sua voz, apenas uma ponta de arrependimento que fez questão de demonstrar ao se levantar e aproximar-se da amiga - Você está melhor?
- Sim, dormi bastante. - deu uma risada baixa.
- Deve ter muito o que perguntar. - Ah, você não tem ideia.
- Eu aceito, . - Os olhos da amiga se arregalaram e ela arqueou as sobrancelhas.
- O quê?
- Eu aceito fazer parte do seu esquema com . Aceito ir atrás de mais informações e colocar esses caras na cadeia ou que se tornem pelo menos vergonha nacional. - assentiu e deu um sorriso que não chegou aos seus olhos.
- Você tomou essa decisão por conta própria? - conteve o impulso de fazer uma careta.
- Acho que sou grande o suficiente para tomar minhas próprias decisões, chefe. - O rosto de era imparcial, uma das barreiras mais complicadas de quebrar, percebera assim que encontrou a chefe pela primeira vez, dois anos atrás.
- Eu confio na sua decisão, , só quero garantir de que ela não foi tomada por raiva ou drasticamente. Não é como se essa situação toda fosse um parque de diversões, estamos falando de crimes internacionais. - apenas assentiu com a cabeça e cruzou os braços sob os seios.
- Minha decisão continua a mesma. Não quero me vingar desses homens pela sujeirada que eles fazem, quero dar aos animais condições reais para viverem, quero que essas máfias sejam desestruturadas. Eu não poderia ligar menos pro destino desses homens, eu só quero os animais livres; eles não têm culpa se o ser humano é um lixo. - arqueou a sobrancelha e deu uma risada sincera.
- Ok, . Vamos nos encontrar hoje na minha casa depois do trabalho, preciso te apresentar o que temos em mãos até agora e te informar como pode ser útil daqui pra frente. - assentiu. O coração batia com tanta força que a mulher podia ouvi-lo, cada parte de seu corpo pedia por mais adrenalina, ela queria fazer mais e queria fazer logo.
- Ok, combinado. Mais alguma coisa? - hesitou e caminhou até sua mesa, evitando o contato com a amiga.
- Preciso saber o que acontece entre você e , . - Ah, estava preparada para aquela pergunta.
- Nada, nada é o que acontece entre nós dois. Se existia algum indício de desejo carnal que fosse, acabou no momento em que ele me usou para me colocar no meio disso. - deu um sorriso sarcástico e mirou aqueles olhos claros para a amiga, a boca vermelha se fechou em uma linha fina logo em seguida.
- Nada? Não parecia nada disso, não com as descrições que Eliah me deu. - mudou o peso de um pé para o outro e levantou o queixo.
- Quando a minha vida passar a ser da conta do Eliah, você pode começar a confiar no que ele diz, até lá, o que eu sinto, o que eu penso, é da minha conta e meu veredito. Essa é a minha condição, não quero que esse plano invada a minha vida pessoal. - levou as mãos ao alto em sinal de rendição e deu um riso.
- Eu amo a sua personalidade, . - deu uma piscadinha para a amiga, retribuiu com um sorriso.
- É, eu também.
e se despediram rapidamente, tendo a primeira voltado ao trabalho com os tigres. Algumas horas depois, passou o almoço inteiro encarando a amiga, como se visse algo diferente.
- Por que você está desse jeito? - A mais velha não conteve a curiosidade. tirou os olhos da macarronada e encarou a amiga.
- Desse jeito? Como assim?
- Seus ombros estão totalmente tensos. Você não estava assim antes de entrar na sala da , e ela não está almoçando com a gente hoje, por falar nisso. - apenas deu de ombros.
- Falamos sobre burocracia e meu plano de reintegração falhou miseravelmente com os animais aquáticos. - O que não era de todo mentira, a reintegração das focas falhou, havia dito antes de sair da sala. suspirou e encarou a parede atrás de .
- Acho que nunca vamos conseguir tirar esses animais daqui, . - O desabafo de se fez dolorido para a amiga, já que sentia a mesma coisa - Não sei quanto tempo mais vou aguentar ficar aqui. - largou o talher no prato e encarou seriamente a amiga, era a primeira vez que falavam desse assunto.
- Você está procurando outro emprego? - encarou todos ao redor, mas o refeitório estava barulhento pelas conversas animadas dos médicos e tratadores.
- Estou procurando em outro país. - O choque não passou despercebido no rosto de . iria realmente sair do zoológico? O rosto de se contraiu, assim como seus ombros.
- Você já conseguiu, não conseguiu? - sentiu o ar sumir um pouco de seus pulmões quando a amiga assentiu com a cabeça - Onde?
- México. Entrei em contato com alguns laboratórios, eles fazem pesquisas marinhas e acabaram me contatando mês passado, não dei nenhuma resposta ainda, mas estão ficando impacientes. - assentiu, mas não sabia o que dizer além disso. Não havia o que dizer.
- E como vai fazer com a mudança? Seu marido, seus filhos? - suspirou, ela parecia ter pensado muito naquilo.
- Meu marido é tradutor, ele não vai ficar sem emprego, mas meus filhos são os que me preocupam, tenho medo da mudança ser assustadora demais. - A mais velha passou a mão sobre os cabelos sedosos e os jogou para trás do ombro em seguida. não pôde deixar de notar o quão séria e madura ela parecia em sua frente. Ela havia tomado sua decisão, percebeu , apenas não estava pronta para realizar.
- Você tem todo o meu apoio, . Eu só quero o melhor para você, mesmo que o melhor seja longe de mim. - parecia querer chorar, mas se controlou e limitou-se a sorrir em agradecimento.
- Preciso respondê-los até amanhã à tarde, vou te avisar assim que tomar uma decisão. - assentiu e as duas comeram em silêncio o resto do tempo. iria para o México, pelo visto, e também seguiria uma nova etapa em sua vida, iria se juntar a uma gangue, ou qualquer outro nome que fossem dar e tentaria colocar alguns deles na cadeia. No que ela havia se metido?

*

- Wow, o conceito de hoje é "vestida para matar"? - riu quando a mediu de cima a baixo.
- Vou sair depois, vou a um lançamento de livro. - A porta do apartamento de foi aberta e percebeu que nunca havia entrado no recinto da amiga e chefe. O hall se abria em três compartimentos, a cozinha, a sala de estar e um corredor maior que parecia ligar os quartos. A luz fraca do ambiente fez com que fechasse um pouco os olhos.
- Pode seguir em frente, vamos para a biblioteca. - As duas seguiram para o corredor maior que abria para uma escada lateral, ouvia o som dos saltos contra a madeira ecoar por todo o perímetro. - Vire aqui, isso. - A mais nova arregalou os olhos ao ver o tamanho da biblioteca de . As quatro paredes eram cobertas por estantes lotadas de livros, um lustre pendia no meio do cômodo. Havia quatro poltronas e um divã púrpura sobre um tapete branco.
- Wow, isso aqui é enorme! - Logo em seguida, uma pequena porta foi aberta no corredor e um vestido de smoking caminhou em direção às duas com um sorriso enorme no rosto.
- Olá, damas. E aí, como estou? - O homem deu um giro. apenas gargalhou e estalou a língua no céu da boca.
- Já teve dias melhores, . - O apelido saiu tão naturalmente da boca de , eles dois pareciam muito amigos.
- Ah, você só diz isso porque é invejosa. - repousou seu olhar em e sorriu. Os olhos dourados mediram a médica de cima a baixo, parando na coxa levemente exposta pelo vestido.
- Fico feliz que tenha se reunido a nós. Tomou a decisão sensata, então? - se sentou em uma das poltronas e encarou a amiga.
- É, pelo visto sim.
- Sentem-se, vocês dois. Precisamos agilizar isso, vocês têm lugares importantes para ir. - encarou novamente e precisou usar toda a sua força para não procurar o contorno dos lábios carnudos, mas era difícil com o cheiro do homem impregnado em cada canto do cômodo. pegou uma enorme pasta de documentos e entregou à , que sentiu o peso sobre suas mãos, fazendo-a arquejar.
- Caramba, isso aqui é o dossiê? - assentiu enquanto a amiga abria na primeira página, deslizando os dedos sobre as letras digitadas. Cada informação era lida por com incrível atenção. Imagens de políticos e donos de empresas apareciam conforme os olhos folheavam as páginas preenchidas por dados bancários, fotos e observações pessoais - Meu Deus, minhas roupas são dessa empresa! - deu uma risada seca, fazendo com que levantasse seu olhar. Ele estava a encarando com aquele mesmo brilho felino que naquela madrugada em que havia invadido seu quarto.
- Vire a página. - Os olhos de se arregalaram ao ler as informações seguintes.
- Eles vendem pele de animais para a indústria de roupas? Não, eles mantém uma empresa que faz a separação da pele e da carne para o tráfico. - O choque que percorria o rosto da mulher parecia ter deixado os outros dois desconfortáveis.
- Não fazemos isso por orgulho, . Só quero que saiba disso. - A mulher mal conseguia levantar a cabeça para , apenas continuava folheando cada página e absorvendo cada informação. O que será que o Green Peace acharia daquilo?
- O que preciso fazer primeiro? - e se encararam.
- Primeiro, precisamos que converse com os tratadores do zoológico, vamos começar aos poucos. Como você já deve ter desconfiado, aqueles shows de mágica não são cortesia de ninguém, são esquemas para cobrir gastos efetuados em propina e lavagem de dinheiro, precisamos conversar com os tratadores, saber se eles têm alguma informação valiosa sobre a vinda do dinheiro ou quem é o dono do espetáculo, já que não consegui.
- Vejo o que consigo fazer. Como passo as informações para vocês? - tirou um celular do bolso e o entregou para .
- Pode usar esse telefone quando estiver se sentindo em perigo ou quando achar que algo vai dar errado, apenas nestes casos. Faremos reuniões semanais em locais diferentes, mas a casa de é como nosso QG, já que é bem protegido. - guardou o celular na bolsa brilhante e voltou a encarar os dois.
- Ok, mais alguma informação? - batucou com os dedos contra a pele exposta do antebraço.
- Precisamos te dizer quem mais está conosco. Eliah, Keyla, , e mais outros cinco que estão espalhados pelo mundo. A equipe de filmagem do documentário de não sabe. - A mente de parou de entender o que havia sido dito após o nome de ser mencionado. claramente pegou a deixa, porque respirou fundo.
- Ela entrou no nosso esquema há um mês. Ela já falou com você sobre o emprego no México, não é? O principal motivo de ela querer aceitar, é porque é mais fácil para conseguir informações, além de ser o mais longe possível se algo acontecer por aqui. - sentiu vontade de gritar e espernear. A amiga também havia mentido? - Não fique brava com ela, . Da mesma forma que você não se sentiu no direito de contar à ela que havia entrado para esse esquema, ela não se sentiu também.
- Estou apenas um pouco chocada, nada demais. - A mente da médica trabalhava a mil por hora, cada pedaço de si procurava informações que a ajudassem a pegar deixas de quando teria demonstrado estar enfiada naquilo tudo, mas não achou nada. - Preciso ir, . - assentiu com a cabeça e se levantou para levar a amiga até a porta.
- Eu te levo até lá, . - se prontificou, colocando-se na frente da médica.
- Não precisa, . - O vestido de oscilava em sua visão quando a luz da lua batia nos adornos brilhantes, ela sentia o olhar do homem em cada pedra antes de pousar os olhos nos seus.
- Eu insisto.
- Ok. Mas você também tem um lugar para ir, não vai se atrasar? - negou enquanto pegava a chave do carro em cima da escrivaninha.
- Meu compromisso começa em três horas, ainda tenho tempo. Além do mais, bailes são sempre um saco. - Baile? Isso explicava a vestimenta.
- Vamos indo, então. Até amanhã, . - As duas amigas se despediram com um abraço sincero. De repente as pernas de estavam fracas sobre o salto, ela se sentia confusa e tentava conectar as partes que faltavam em sua memória, falhando miseravelmente. estava enfiada naquilo tanto quanto ela, deve ter tido as mesma dúvidas e inseguranças quanto àquilo, talvez ainda houvesse.
a guiou até o Jeep em silêncio, ao entrarem no carro, o jornalista ligou o rádio e deixou que a música clássica preenchesse o silêncio.
- Pode colocar o endereço no GPS, por favor? - pegou o celular da mão de , colocando rapidamente o endereço da casa no navegador, logo em seguida o devolvendo para seu acompanhante. Além de Tchaikovsky, nenhum som se propagava no pequeno cubículo, mas foi rápido em acabar com aquilo - Você está muito bonita, sabia? - Ah, pronto.
- Obrigada, você também não está nada mal. - deu uma risada gostosa e a encarou de canto antes de acelerar o carro pelas ruas de Londres.
- Estou inseguro, talvez devesse mudar de roupa? - deu um risinho o olhou novamente, avaliando-o de cima a baixo. Os olhos da mulher pararam em seu pomo de Adão, descendo para os braços marcados pelos músculos sobressalentes, indo para as coxas e se perdendo no pedal do carro. - Wow, depois dessa secada, tenho certeza que estou maravilhoso. - O rosto da mulher corou.
- Você poderia me dar um pouco dessa autoestima, que tal?
- Pra que você precisa da minha autoestima quando se é bonita desse jeito? - arqueou a sobrancelha e virou a cabeça para encarar o rosto de fixo no trânsito em sua frente.
- Você me acha bonita? - Um sorriso brincou nos lábios de , ele a encarou demoradamente ao pararem em um semáforo e deu um risinho baixo.
- Você sabe a resposta.
- Gosto de ouvir, acho que aprendi isso com você. - O jornalista a encarou rapidamente antes do semáforo abrir.
- Eu te achei bem mais bonita de camisola, mas está igualmente deslumbrante. - Um arrepio cruzou o corpo de .
- Não vamos ignorar que você pulou a janela, invadiu o meu quarto naquela noite. Não romantize a invasão de privacidade. - A risada alta de invadiu o carro, sobressaindo o ato final que tocava no rádio.
Ao chegarem no local do lançamento do livro, arqueou a sobrancelha e deu um sorriso cínico.
- Você é elitizada, então? Lançamento de livro em mansão? Deve ser algo bem especial. - olhou para o smoking de com incredulidade.
- Você quer falar sobre elitização, ? Sério? Você vai a um baile.
- Touchée. - riu e se preparou para sair do carro quando segurou levemente seu pulso - Quer carona para casa? - A mulher se sentiu tentada a negar, mas não era sempre que conseguia uma carona tão facilmente. Além do mais, a companhia de havia sido incrivelmente agradável.
- Pode ser. A que horas acaba seu baile? - olhou para o horário no celular em suas mãos.
- Assim que você me mandar mensagem. Não se incomode em me ligar, talvez deixe alguns dos velhos com quem vou socializar com inveja por eu ter alguém para buscar. - se despediu de com um aceno e só soltou a respiração quando o carro sumiu na esquina seguinte.

*

- Mendel, há quanto tempo! Parabéns pelo livro! - abraçou o amigo com força e Mendel abriu um sorriso enorme, os olhos azuis e a pele alva se destacavam sob a luz amarelada do salão de baile onde uma enorme mesa cheia de livros se estendia. O local estava cheio, alguma música pop tocava ao fundo e garçons passavam com taças de champagne e suco, tudo estava combinando com a personalidade de Mendel.
- Obrigado, meu bem! Fico feliz que esteja aqui, você é uma das minhas musas, afinal de contas. - deu um sorriso tímido. Os cabelos vermelhos do amigo estavam impecáveis e possuía um olhar tão energético que fazia querer sair pulando e dançando, como se estivesse perdendo muitas coisas ao ficar parada ali. Mendel a puxou de lado quando uma fotógrafa apareceu com a câmera em mãos, dois flashes depois e se via solta pela casa. Não se sentia confortável em eventos daquele tipo, o vestido prata brilhante com uma abertura enorme nas costas coçava em alguns pontos, mas ela ignorou a coceira ao ir para o bar cheio e cercado de dançarinas exóticas. Mendel realmente sabia fazer uma festa. O bartender deu um sorriso para ao vê-la e a mulher retribuiu.
- Uma água com gás, por favor. - Os olhos de passaram ao redor do enorme cômodo no qual se encontrava, analisando os rostos felizes, fosse pela bebida ou não, e os corpos que se moviam no salão. Não havia ninguém realmente dançando, pareciam se divertir mais em fofocas que sentia nojo em ouvir. Durante anos, Azikiwe frequentou festas como aquela por conta de seus pais e sempre odiou cada parte daquele circo todo.
- Aqui está. - O bartender colocou o copo com a bebida na frente de , a médica pegou a água e se pôs a andar pelos corredores largos, parando para observar as pinturas cubistas nas paredes brancas impecáveis. A cabeça da mulher se inclinou levemente para a esquerda, checando cada forma geométrica mostrada através das pinceladas do artista.
- Se você olhar por muito tempo, acaba ficando sem sentido, não acha? - se assustou ao olhar para o lado e ver uma figura masculina se aproximar. O homem de cabelos castanhos e olhos escuros deu um sorriso para a médica, seu rosto lhe parecia muito familiar.
- Não poderia concordar menos. - Os dois voltaram a encarar a pintura, mas havia uma pulga atrás da orelha de Azikiwe.
- Sou o Erasmus Stone. - Um clique na mente de a lembrou do dossiê de , o rosto lhe era familiar pois ele estava lá. - E a senhorita? - O sorriso de Erasmus se direcionou para o decote de que precisou conter as mãos para não jogar o resto da bebida no rosto do homem.
- Azikiwe. - Ela estendeu a mão, a qual o homem pegou e deu um beijo leve sobre a palma. recolheu a mão rapidamente e deu um sorriso amarelo.
- Está acompanhada, Srta. Azikiwe? - enxergava a malícia por trás daquele sorriso, era o mesmo com o qual aparecia na foto, os braços ao redor de duas prostitutas - claramente drogadas -, o rosto vermelho e um cigarro de maconha em mãos. Azikiwe lembrou das anotações acerca dele, era o filho do dono de uma pequena rede de açougues e desconfiavam que eles misturassem carne de aves silvestres do norte da África ao frango, vendendo as penas em seguida. Um arrepio percorreu todo o corpo de . Talvez pudesse fazer algo, conseguir alguma informação, uma chance daquelas não cairia em suas mãos novamente, precisava apenas seguir ao plano mental que havia criado e não estragar nada.
- Não, não estou. - A médica forçou o melhor sorriso que podia, estufando ainda mais os seios, algo que pareceu agradar Erasmus.
- Odiaria te deixar sozinha, aceita me acompanhar? - assentiu e se pôs a andar pelo corredor. Ela conhecia aquele tipo de homem, sabia que tinha sede de poder, mas gostava de ser controlado secretamente, nunca na frente de seus companheiros já que isso diminuiria a sua credibilidade. Puf, homens e seus egos maiores que a cabeça. - Nunca te vi nos eventos de Mendel, é nova no círculo?
- Festas não são o meu forte. - Azikiwe sentiu alguns olhares sobre si e Erasmus, mas apenas ignorou e sorriu de lado para o homem. - Mas parece ser o seu. - Erasmus sorriu e se aproximou ainda mais do corpo de . Ela podia sentir o cheiro do perfume invadir seus sentidos conforme se dirigiam para a varanda no final do corredor.
- Como sabe?
- Está bebendo champagne, tem dois botões abertos da camisa e está completamente relaxado, como se estivesse acostumado com o ambiente. - Erasmus mordeu o lábio levemente e piscou para .
- Gostei de você. - O vento frio atingiu o corpo de e ela resmungou. A varanda mostrava o pátio em sua frente, rodeado por árvores de copas baixas e uma pequena fonte no meio dos arbustos, a água era esguichada por dois querubins de expressões singelas nos rostos petrificados. A mente de estava agitada, precisava ir com calma e fazer as perguntas certas. - Está tremendo de frio, pegue. - Os ombros foram cobertos por um tecido confortável. pôde observar as tatuagens de Stone sob a camisa branca e os músculos dos braços pareciam fugir das mangas apertadas.
- Obrigada, Erasmus. Posso te chamar assim?
- Claro, claro. - terminou sua água rapidamente e apoiou os cotovelos contra o parapeito da varanda, Erasmus repetiu o ato.
- O que você faz além de ir à festas e abordar mulheres admiradoras da arte? - O homem riu e se virou para encarar a médica.
- Sou herdeiro de uma cadeia de açougues, você deve conhecer. - fingiu indiferença, mas assentiu.
- Deve ser legal, digo, poder ser dono de algo assim. - Erasmus suspirou.
- Nem sempre. Tomar decisões não é fácil. - Ele tomou um grande gole da bebida em suas mãos. Interessante. - E você? O que faz quando não está em festas que não gosta? - Ele conseguiu mudar de assunto, mas seria estranho para voltar àquele anterior sem levantar suspeitas.
- Sou herdeira de uma clínica veterinária. - Ela não estava mentindo, a clínica de seus pais era sua herança, mas não pensava em herdá-la como médica responsável, talvez como administradora. Os olhos de Erasmus oscilaram um pouco, percebeu . Ele agia como os predadores do zoológico, estava analisando e medindo suas próximas palavras.
- Você não se incomoda em estar perto de um, tecnicamente, açougueiro? - Sim, sim, sim, estou muito incomodada.
- Negócios são negócios. - deixou que a mentira escorresse por seus lábios, tomando forma no sorriso de Stones.
- Você está certíssima. - Erasmus se aproximou perigosamente do corpo de , ela engoliu em seco, mas deixou que ele colocasse a mão ao redor de sua cintura.
- Eu estive te observando desde que botou os pés nesta casa, gostaria de te conhecer melhor, se possível. Quer dar o fora? Festas são realmente um saco, mas com a companhia ideal, uma festa a dois pode ser mais divertida. - O hálito de bebida cobriu o sussurro contra a orelha da médica. Ela precisava sair dali, seu limite de espiã amadora havia chegado ao fim. Aquilo era o pedido de sexo mais sem vergonha que já havia recebido.
- Minha carona está chegando, desculpe. - Stone sorriu contra a orelha de , mas não se afastou.
- Não posso te provar que sou uma boa companhia? - sentiu o interior revirar, mas virou o rosto para encarar os olhos que a fitavam. inclinou um pouco mais o rosto e deu um beijo no canto dos lábios de Stone que hesitou por um segundo, tempo o suficiente para que ela se afastasse e sorrisse timidamente.
- Vou ao banheiro, já volto. - sentia o olhar feroz do homem atrás de si queimar contra suas costas nuas. O salto da médica ecoava em seus ouvidos até que entrasse esbaforidamente no banheiro, colocando as mãos na pia. O sobretudo queimava em seus ombros e ela o retirou, jogando-o sobre o divã dourado na parede. pegou o celular da bolsa, pensou em usar o de emergência, mas não queria assustar .
- Alô? - A voz do homem soou pelo telefone enquanto abria as portas das cabines. Não havia ninguém ali, ainda bem.
- ? - Sua voz não passava de um sussurro, como se Stone pudesse ouvi-la.
- Você se incomoda se eu for aí e te fazer companhia? O baile estava um saco e não achei quem eu estava procurando.
- Por acaso essa pessoa é Erasmus Stone? - Uns sons estranhos foram ouvidos, mas ignorou.
- Sim, como sabe? - A voz desconfiada de ecoou pelos ouvidos de , ela ergueu o pescoço como se fosse enxergar Stone do outro lado da porta.
- Estou com ele, Erasmus quer me levar para beber! Droga, , eu quase beijei ele! - xingou baixo e sua voz se afastou do microfone por um tempo.
- Fique parada aí, estou chegando. , não saia dessa casa por nada. - A voz alarmada de incendiou o interior da médica, ela não sabia o quanto poderia enrolar antes de Stone desconfiar que ela havia pulado pela janela do banheiro.
- Eu vou me virar, . Só traga esse seu traseiro para cá rápido antes que eu acabe socando o rosto dele. Se não me achar no térreo, estarei no banheiro feminino do segundo andar à esquerda. - A risada de ressoou e não pôde evitar um sorrisinho. Droga.
- Ok, dez minutos e chego aí, já havia saído da festa mesmo.
- Estou te esperando. - desligou a chamada e se encarou mais uma vez no espelho. Os cabelos crespos estavam mais cheios, os olhos estavam arregalados e os lábios vermelhos estavam inchados pelas mordidas que havia lhes dado, mas se sentia deslumbrante naquele vestido, ela estava deslumbrante e precisaria ter isso em mente antes de sair para encontrar Erasmus e jogar sua dignidade no lixo. A cabeça da mulher pendeu para o lado, seu corpo não era escultural, longe disso, mas deixaria que todo o seu manequim 44 entrasse no jogo e não para perder - Você consegue, . - Seus passos a guiaram para a porta do banheiro, pegou o terno e antes de sair, ela já sabia que Erasmus a esperava do outro lado do corredor com os braços cruzados. Um sorriso escapou dos lábios do homem quando olhou para os dois lados do corredor, conferindo o fluxo de pessoas. Não havia ninguém ali, todos estavam concentrados no discurso que Mendel estava dando no andar de baixo, ela deveria estar assistindo àquele discurso. Ela o chamou com o indicador, encostando os ombros na parede, sentindo o choque do frio e do quente em sua pele. Erasmus se aproximou devagar, exatamente com o predador que aparentava ser, um sorriso cheio de luxúria estampou seu rosto de feições fortes.
- Você me deixou esperando. - Ele sussurrou ao colocar as mãos ao redor da cintura de , roçando os polegares contra suas costas. A boca de Erasmus se dirigiu até a orelha da mulher e ele deu uma risada que fez com o que o corpo da médica arrepiasse inconscientemente. Ela segurou as alças do cinto de Stone para evitar que as mãos tremessem, mas ele entendeu como um incentivo e encostou sua pélvis a dela colocando o joelho entre as duas pernas de . Ela deu um sorriso manso e calmo antes de dirigir sua boca ao pescoço de Erasmus, soltando uma risada quente contra a base de sua orelha. - Acho que a espera valeu totalmente a pena. - assentiu fracamente, mas empurrou o corpo do homem para trás ao observar um vulto passar no corredor ao lado. Ela sorriu envergonhadamente para Erasmus, mas ele não pareceu notar.
Azikiwe virou as costas e entrou no banheiro, Stone a acompanhou imediatamente, mas ao entrarem no recinto, ele não foi cuidadoso como no espaço exterior, suas mãos puxaram os quadris da mulher para si, segurando a base de suas costas e descendo sua mão para sua curvatura e seus lábios atacaram o pescoço de , ela sentiu os dedos dos pés se curvarem de nojo, mas deixou que ele continuasse com os beijos descontrolados até sua clavícula, fingindo um eventual gemido baixo.
Os olhos de Erasmus encararam os de e ela não conseguiu desviar quando os lábios se encontraram no beijo mais violento que ela já havia dado. Ele não era paciente, muito menos deixou respirar antes de bater com as costas da mulher na parede e continuar atacando seus lábios vermelhos. Ela apenas se deixou levar, não precisaria fazer aquilo durar muito mais, pensou, mas os pensamentos a levaram para as coisas horríveis que aquele homem deveria ter feito, os esquemas proibidos, a lavagem de dinheiro, corrupção, prostituição, tudo aquilo a enojou demais, então ela apenas tentou empurrar tudo aquilo para o fundo da mente e puxou o corpo de Stone mais perto com a perna direita, seguindo o beijo apesar de tudo. Quando ela se viu novamente imersa em pensamentos, desejou que fossem os lábios de um homem de cabelos enrolados e olhos felinos que estivessem beijando-a e se odiou por isso. Odiou-se por querer beijar mesmo depois do que ele havia feito. De repente, a porta se abriu rapidamente, mas os lábios de estavam amortecidos demais pela agressividade que mal conseguiu virar o pescoço para encarar quem havia entrado.
- Sua desgraçada! Eu te chamo para uma festa e você me trai na cara dura? - precisou disfarçar o alívio em seu rosto ao encarar um transtornado na porta. A médica levou um tempo até processar o que estava tentando fazer. Wow, ele atuava muito bem.
- Do que você está falando? Nós não temos nada! - Ela empurrou Erasmus para trás, o homem parecia meio perdido até que finalmente entendeu o que estava acontecendo - Saia daqui! - Boa, . Continue assim, daqui a pouco vai poder estrear uma telenovela mexicana. bufou e encarou Erasmus com nojo.
- Sai daqui, palhaço. Tenho contas a ajustar com essa vagabunda. - o encarou realmente chocada. Entrariam naquele jogo de xingamentos, de verdade?
- Eu faço a porcaria que eu quiser, seu merda. Eu estava me divertindo com ele muito mais do que me diverti com você. - Erasmus arregalou os olhos, mas começou a se afastar do casal, passando por trás de rapidamente. Covarde. - Hey, Erasmus, te vejo por aí. Vamos repetir o que aconteceu aqui hoje. - Ela piscou confiantemente para Stone antes que este saísse voando pela porta.
- Você vai ver o que eu vou fazer com você, Azikiwe! - se aproximou da porta e gritou alguns xingamentos antes de virar para a mulher e dar um sorriso largo. - Somos bons atores, não? A aquela rejeição? Genial. - Os dois trocaram um high five antes que realmente lembrasse o motivo de estar ali. - Ele te machucou? Meu Deus, você está sangrando! - As mãos de Azikiwe se dirigiram aos lábios e se assustou ao ver a quantidade de sangue que estava impregnada em seus dedos.
- Droga, ele parecia um monstro me beijando, pelo amor de Deus. - Ela pegou um papel e o apoiou contra os lábios. O estômago ainda revirava com o gosto da bebida na boca de Erasmus e a sensação de suas mãos em seu corpo a deixavam extremamente desconfortável, iria se livrar daquele vestido o mais rápido possível.
- Você parecia entretida no beijo, levando em conta o tamanho da ereção dele, ele também estava feliz demais. - só conseguiu dar uma risada fraca e encarou pelo espelho iluminado.
- Eu estava contando os minutos pra que você chegasse, . Eu reprisei todas as temporadas de Suits na cabeça, acredite. - O jornalista jogou a cabeça para trás e riu alto, deixando que os ombros se movimentassem junto.
- Você é uma mulher difícil de agradar, pelo visto. - Ela deu de ombros jogou o papel higiênico no lixo antes de pegar outro para limpar os restos de batom que haviam ido parar em sua bochecha, de alguma forma. se aproximou mais de e usou a barra do smoking para limpar seu pescoço, que estava molhado, logo em seguida um pedaço mais alto na bochecha da mulher que ela não havia visto. Os olhos da médica seguiram os movimentos de , deixando que o papel em sua mão pendesse ao lado do corpo. - A única coisa que me irrita é aquele babaca ter tido a chance de te beijar antes que eu, você poderia reservar uma atuação dessas para mim. - riu e parou de tocar o rosto da médica.
- Você pode guardar essas informações para si, . Eu não vou te beijar, não depois de tudo o que aconteceu. - Ele deu de ombros e colocou as mãos no bolso da calça.
- Nem você acredita nisso, mas pode continuar fingindo por quanto tempo quiser. - As sobrancelhas de se arquearam e ela se aproximou um pouco mais de , passando as unhas por seu pescoço.
- Eu acredito no que falo, porque é o que sinto. Você vai precisar ralar muito antes que possa sentir um terço do que aquele cara sentiu, . - O apelido saiu quase como um rugido da boca de . Os olhos de a fitaram com o mesmo olhar que Linda a lançava quando era hora da comida. Que Deus a ajudasse.
- Ok, vamos ver. - Foi tudo o que ele disse antes de abrir a porta do banheiro e sair, olhando nas duas direções antes de puxar o braço de . - Ele está no fim do corredor, finja que está sendo arrastada, ok? Não vamos levantar suspeitas de que foi tudo armação. - assentiu e começou a bater nos ombros de conforme saíam do banheiro, ele a arrastando pelo corredor largo até as escadas. Todos já haviam voltado a seus parceiros de festa. colocou as mãos nas costas de e ela precisou ignorar a queimação onde a mão encostava, mas o seguiu escada abaixo, seguindo para a porta da frente. Mandaria uma mensagem para Mendel mais tarde.
O valet trouxe o carro rapidamente e , ainda com o rosto de raiva atuada, abriu a porta do carro para , mas parecia jogá-la lá dentro e deu a volta pela frente. O valet mais novo parecia chocado com a cena, mas não pôde fazer nada. A médica se sentiu mal pelo garoto, mas precisou conter a risada quando entrou no carro e acelerou pela avenida já quase vazia àquela hora. Quando já não se encontravam às vistas de qualquer um da festa, deixou que a risada saísse incontida de seus lábios machucados.
- Meu Deus, você viu a cara daquele menino? - deu uma risada fraca e assentiu.
- Acho que vou receber uma intimação de violência contra a mulher amanhã na minha porta. - fez uma careta - Como diabos você acabou com ele, falando nisso? Eu fui ao baile para encontrá-lo.
- Pelo visto ele curte festas regadas a bebidas de verdade, não apenas champagne. - revirou os olhos e a encarou de relance.
- Você também bebeu, não? Não acho que teria beijado aquele cara sem álcool no sangue. - negou e abriu o espelho sobre o seu assento, deixando os olhos percorrerem os lábios ainda mais inchados.
- Eu vou pagar mais tarde pela sobriedade. Não sei exatamente como dei a sorte de encontrá-lo, mas o reconheci do dossiê e resolvi tirar uma casca dele, fiz errado? - negou com a cabeça, mas parecia sério.
- Se fosse alguém que já sabia desse tipo de risco, eu consideraria algo normal, mas seu primeiro contato com essa gente foi assim, fiquei com medo de que algo pudesse acontecer e…
- E eu fosse estragar o seu esquema? Fique tranquilo, eu dei minha palavra. Além do mais, como você acha que eu sobrevivi tanto tempo perto de gente como Erasmus, sendo apenas gentil e carismática? - Ela deu uma risada amarga e virou o rosto para a rua.
- Não foi o que eu quis dizer, . Jamais desconfiei que fosse entregar nosso esquema, mas não tem como não me preocupar com o que ele poderia fazer com você. - Ela não virou o rosto para encará-lo novamente, mas respirou fundo e deixou que a paisagem passasse por seus olhos rapidamente.
- Eu sei me cuidar, sabe disso, não é? Eu luto, sou uma mulher adulta e consigo me defender. Nunca precisei de alguém cuidando de mim além do meu amigo lá em cima, não acho que eu vá precisar agora. - permaneceu em silêncio por um tempo antes de suspirar.
- Desculpa por tudo, . Não quis mentir para você ou te enganar, só estava fazendo o que achava que era o melhor, foi a forma que encontrei. Me arrependo amargamente por ter feito o que fiz, mas não me arrependo porque foi isso que te trouxe aqui. - virou para encarar e arqueou a sobrancelha. As expressões fortes de estavam marcadas pelas luzes da rua, ele estava sério e desviou um pouco o olhar para encarar Azikiwe.
- Ok, está perdoado, mas se eu descobrir que está escondendo alguma merda desse tipo de mim, vou te caçar até o final do mundo e te encher de socos. - riu descontraidamente e estalou a língua no céu da boca. Ela só podia estar ficando louca.
- Não farei mais isso, , não se preocupe. - Ela assentiu, deixando que as palavras de se tornassem verdades para si. Acreditar era a única opção que restava.
- Como foi o baile? - deu de ombros e batucou com os dedos no volante.
- Um saco. Meu pai, quer dizer, ah, foi um saco. - o encarou, mas não quis fazer mais perguntas acerca de seu pai. havia ajustado a postura rigorosamente, como se houvesse uma presença perto de si que sussurrava em seu ouvido que deveria se portar daquele jeito.
- Meus pais amavam ir a essas convenções sociais, eu sempre odiei.
- Qual é a graça de ouvir gente fofoqueira fofocando sobre idiotices? - concordou. Os dois pararam no restaurante Nando's e pegaram lanches para viagem. A médica olhou para e mordeu os lábios antes de resmungar de dor.
- O que acha de conversarmos um pouco sobre essa história desse esquema político digno de Scandal antes de eu ir para casa? Não tenho que trabalhar amanhã e você? - a encarou antes de iniciar o carro.
- Você está me chamando para sair? - revirou os olhos colocou uma batatinha na boca.
- Se não quiser, tudo bem. Pode me deixar em casa. - riu e roubou uma das batatas da médica.
- Eu quero, claro que sim. Preciso realmente te deixar a par de tudo o que está acontecendo. Espero que não tenha toque de recolher. - arqueou a sobrancelha antes de comer outra batata. a fitou inteiramente mais uma vez antes de rir consigo próprio e ligar o motor do carro, mas só conseguia pensar no sentimento de felicidade genuína que começava a surgir em seu peito conforme cruzavam Londres ao som de risadas e Sacerdotes Domini.


Continua...


Nota da autora: ¡Hola, guapas! Gostando da história? Obrigada pelos comentários de vocês! Qualquer crítica ou incentivo, pode me mandar uma mensagem em qualquer rede social que vou mais do que feliz responder vocês :) beijos e fiquem com Deus <3





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