Última atualização: 05/07/2019

Capítulo 1 - Aquele do Jornalista

5 de julho de 2017, quarta-feira, Londres
Azikiwe não conseguia proferir algo que não fosse xingamentos ao encarar o trânsito londrino às oito e meia da manhã.
- Eu já deveria ter aprendido a este ponto. Agora estou atrasada e enfiada nesta merda de carro, na merda deste trânsito! – Os nós dos dedos ficaram quase brancos ao apertar o volante do carro. se encarou no espelho e percebeu que ainda havia maquiagem borrada sob os olhos. Droga. Pegou o celular e digitou o nome de na barra de contatos logo em seguida, deixando-o chamar pela amiga.
- Alô? ? – A voz de soou desperta do outro lado. deu um pequeno sorriso ao pensar no quão bem-disposta era a amiga, ainda que tão cedo.
- Você não vai acreditar no que aconteceu ontem à noite... – A morena se preparou para começar a reclamar, mas a interrompeu antes que o fizesse.
- Você está no meio do trânsito, né? Eu consigo ouvir o estresse na sua voz, isso só acontece quando você está enfiada no meio do cruzamento. Respire fundo, conte até 10, depois, se ainda estiver brava, você pode começar a reclamar de verdade. se obrigou a acolher o conselho da amiga enquanto finalmente conseguia fazer o carro se movimentar – Mais calma?
- Já estou chegando. Vamos ver o quão calma eu realmente estou. – Vociferou ao observar um motorista louco tentar ultrapassar seu carro imprudentemente. A mulher desligou o telefone e sentiu os olhos arderem de sono pela noite mal dormida. O encontro nem havia valido a pena, de qualquer forma.
batucava os dedos contra o couro do câmbio quando finalmente entrou na rua do estacionamento e seguiu livremente até sua vaga habitual. O ar frio de Londres a encheu quando saiu do carro, o verão não estava tão quente quanto achou que estaria.
- Bom dia! – Acenou para o porteiro e seguiu diretamente para o prédio da administração, quebrando pequenos galhos contra a sola de seu tênis.
O zoológico era enorme, mas a parte do estacionamento contava apenas com uma pequena praça rodeada por copas de árvores que ajudavam no calor, mas atrapalhavam na primavera.
Azikiwe inspirou o cheiro de terra molhada, soltou os cabelos e balançou os ombros. Foco, era o que precisava.
Não havia necessidade de que os outros vissem o claro fracasso a que havia se submetido. Se bem que não havia sido um total fracasso, pelo menos não para o moço do encontro. Quer dizer, ela devia um crédito a si mesma por ter fingido estar se divertindo tanto, e créditos duplos por ter feito ele acreditar.
- Bom dia, Dra. Azikiwe! – A sempre animada recepcionista sorriu para que não se impediu contagiar com o bom humor. Engula seu orgulho machucado, Azikiwe.
- Bom dia! Houve alguma emergência enquanto estive fora? – O lado mais forte de se mostrou rapidamente. Claro, não havia como esconder a sua preocupação na noite anterior ao sair da clínica.
- Tudo sob controle, que eu saiba, mas o Cobalto sentiu sua falta à noite, deu para perceber. – Comentou a menina de olhos azuis com uma cara sorridente. soltou uma risada engasgada ao pensar naquele animal enorme sentindo saudades da “moça da carne”.
- Vou lá dar atenção a ele, então. – A médica se despediu enquanto se dirigia ao vestiário.
Guardou tudo o que precisava, vestiu o jaleco e desceu praticamente correndo pela pequena encosta até a sua base de atendimento para a visita matinal aos felinos. Vestiu as luvas e pegou o balde de comida com os tratadores e conversaram sobre cordialidades: clima, trânsito, notícias, o de sempre; mas foi o urro de alegria vindo de Cobalto que fez sorrir verdadeiramente.
- Bom dia, grandalhão. Sentiu saudades? – Perguntou ao colocar parte da comida de Cobalto em seu espaço através da parede maciça.
Havia ainda uma grade separando a veterinária do animal desperto e animado com a presença da conhecida médica. O animal era enorme e extremamente assustador aos olhos do público, este passava às vezes até meia-hora observando o enorme tigre, que fazia questão de mostrar sua força predatória para quem quisesse ver, mas na verdade era apenas um bebê aos olhos de .
- Ele sentiu sua falta ontem à noite, doutora. Acho que ficou bravo ao ver Sirius ao invés da senhorita. – Um dos tratadores informou enquanto separava os alimentos. deu uma risada alta que fez Cobalto para de se movimentar e apenas encarar a médica.
- Não se preocupe, Cobalto, hoje eu sou toda sua. Mas, por enquanto, vou terminar de alimentar meus outros pacientes, então se acalme e não destrua nada até eu voltar.

*


- Ele pelo menos avisou que iria embora? – sussurrava, escondendo um sorriso sádico por trás de sua boca cheia de comida integral.
- Claro que não! Sério, eu considero seriamente desistir de homens.
- Se desistir, vai acabar vivendo só com os animais.
- Talvez esse seja o melhor cenário do universo. – Finalizou ao colocar um pedaço de mamão na boca e suspirar. – Mas foi até bom, sabe? Eu percebi que ele era um lixo nos primeiros 15 minutos, mas resolvi dar uma chance. Agora aprendi que não vou prolongar tanto minha paciência de Jó. – deu uma risada alta, atraindo o olhar de alguns colegas ao redor.
Naquele momento, estava sendo exibido um show de mágica no parquinho central, era a deixa para os médicos e tratadores almoçarem e terem 10 minutos de descanso. Na verdade, Azikiwe amava até mesmo esses minutos contados que tinha para almoçar, aquela era a vida que havia escolhido para si, mesmo que fosse cansativa, amava cada parte. Ou talvez amasse tanto os animais que esquecia as partes ruins.
- Tenho uma cirurgia hoje no hospital, você também? – assentiu.
- Preciso cuidar de um parto de uma Ocapi* fêmea, houve algumas complicações no último exame, pelo o que eu percebi, e vou precisar acompanhar de perto. – balançou a cabeça em concordância e encarou algo por trás dos ombros da amiga. - ! Há quanto tempo! – se levantou, fazendo virar a cabeça para trás e cumprimentar com um high five e um sorriso gigante.
- Você é preguiçosa demais até para me cumprimentar, ? Sério? – deu de ombros e deu espaço para que a amiga se sentasse ao seu lado. era tão bonita, os cabelos volumosos desciam em cascata até a cintura e os olhos pretos destacavam sua pele alva no meio de Londres. – Então, o que vocês duas têm feito ultimamente?
- teve um encontro horrível ontem à noite. Ela precisou pagar a conta, o cara dormiu em cima dela e vomitou no tapete quando saiu, tudo isso sem um pingo de sexo no meio. – Os olhos de se arregalaram e não soube onde esconder a cabeça. Droga, havia perdido a cabeça de vez?
- Em minha defesa, eu tentei dar uma chance ao cara, ele tinha acabado de sair de um relacionamento, precisava se divertir. – Cada pingo do orgulho de Azikiwe ia para o esgoto conforme observava as amigas rirem abertamente para que o zoológico inteiro ouvisse. Perfeito. Já não bastasse os tratadores dando risadas pelas costas dos médicos, ainda tinha essa.
- Claramente o moço se divertiu. – Alfinetou com um sorrisinho.
- Vai para a merda, . – largou o garfo no prato e encarou a amiga com as sobrancelhas arqueadas. – Não é como se você tivesse um bom histórico de relacionamentos. Estamos no mesmo barco.
- Não estamos não, eu estou saindo com um cara legal, fofo, divertido e companheiro. Claramente o nosso barco está indo em direções opostas. – apenas mostrou a língua para a amiga.
- Vocês duas são adolescentes ou o quê? – se pronunciou enquanto mexia no celular, obviamente não se interessando pelo assunto de duas solteiras.
era casada há cinco anos e já tinha dois filhos, ela já havia passado pelo o que as duas amigas discutiam e achava graça em observá-las se provocando.
- Meninas, vou precisar ir até o escritório. Foi bom vir aqui falar com vocês.
, depois passe em minha sala, tenho que discutir algumas observações nos relatórios da ala dos Panthera. – se despediu das duas amigas e sumiu pela porta do refeitório, deixando e sozinhas novamente.
- Preciso terminar de cuidar da Luly antes de ir falar com a chefona suprema. – Anunciou se levantando da mesa, pegando também os pratos de .
- Obrigada amiga, já vou indo também. Mais tarde a gente se fala. – concordou com a cabeça, deixou os pratos na pia e voltou a se dirigir para sua inspeção.
Andar pelo parque deixava sempre boquiaberta. O London Zoo Center era tão enorme e tão cheio de criaturas maravilhosas, ela não deixava de se surpreender. Entretanto, ficava ainda de certa forma devastada ao ver tantos animais em jaulas ao invés de estarem em seus habitats - este era um dilema que enfrentava quase todos os dias. Contudo pensar que estava ali, não para benefício próprio, mas sim para ajudar aqueles animais a terem um bom tratamento, a deixava feliz.
Enquanto caminhava, passou pelo espaço dos tigres e sorriu ao ver Shere Khan ronronando contra Linda, ela parecia mais saudável desde que o zoológico a havia resgatado de caçadores chineses que a mantiveram em cativeiro por três anos.
- Esqueci minha caneta, droga. – Resmungou repentinamente e se virou para voltar ao refeitório, dando um grito assustado ao esbarrar contra um corpo em sua frente. – Puta merda! – O coração de parecia sair do peito com o susto.
- Oh Deus, desculpa! Não quis te assustar, moça! Desculpa! – O moço de olhos negros circulados por uma auréola dourada falou desesperadamente. olhou ao redor e percebeu o olhar de muitos pais que a encaravam assustados. Droga, Azikiwe.
- Tudo bem, eu que sou assustada demais. – tentou sorrir, mas ainda sentia o coração batucar com força total. A médica finalmente prestou atenção no rapaz carregando uma pasta enorme nas mãos.
- Ok então, hã... – O rapaz focou os olhos no jaleco de – Doutora Azikiwe, é assim que se pronuncia, certo? – A moça apenas assentiu com um sorriso – Eu estou procurando a Bennet, você a viu por aqui? Você a conhece?
- Ah, sim. Está vendo aquele prédio azul ali? É o prédio da administração. Pergunte por ela e a recepcionista vai te guiar. – deu um sorriso cordial e observou pequenas ruguinhas se formarem nos olhos do estranho quando ele também sorriu.
- Obrigada, Srta. . Acho que agora somos íntimos o suficiente para que saiba meu nome, depois de todo aquele susto. – A médica deu uma risada sufocada. – Me chamo , a seu dispor. – O moço, agora , estendeu a mão e a apertou com firmeza, dando um sorriso genuíno em resposta.
- Bom, você já me conhece. – deu uma risada alta e o vento empurrou seus cabelos para longe do rosto, expondo ainda mais os olhos dourados majestosos na direção da médica.
- Desculpa novamente, não foi minha intenção.
- Fique tranquilo! Boa sorte procurando ! – balançou a mão em despedida enquanto já se virava para ir atrás de Luly.
- Obrigado! – ouviu a despedida ser dissolvida pelo vento forte soprando contra as árvores. Que moço mais caloroso, não pareceria ser britânico se não fosse pelo sotaque, pensou ao avistar o enorme pavão mostrar sua beleza a qualquer um que pudesse enxergar. A médica fez uma careta e lembrou que não havia voltado para pegar a caneta.
*Ocapi:
*Panthera: gênero de felinos que inclui tigres, onças, leopardo, jaguatirica, etc.

*


- Entre e feche a porta, por favor. – nem mesmo levantou os olhos do formulário quando irrompeu pela porta rangendo sob as palmas da médica. passou a mão por seu jaleco antes de se sentar na frente de sua amiga, mas também sua chefe. – Está com os relatórios? – A morena colocou a pilha de anotações sobre a mesa bagunçada de sua superior. não era exatamente cuidadosa com suas coisas, mas ainda assim conseguia ser organizada naquela bagunça, algo que invejava secretamente. – Houve alguma mudança no comportamento dos animais?
- Eles têm estado mais agitados ultimamente pelo excesso de barulho que os shows de mágica emitem. Quer dizer, a bombinha não é recomendada em um ambiente como um zoológico. – torceu o nariz. Odiava as apresentações circenses que às vezes eram feitas ali, os animais se estressavam e também.
- Falei com Gerald sobre isso, ele disse que é um favor que devia a um amigo. Precisamos aguentar isso por apenas mais duas semanas, fique tranquila. – suspirou e observou a sala de . Tão clean e sem graça. A janela aberta era tomada pelas árvores que tentavam entrar no prédio e retomar seu espaço em meio ao concreto. – Eu vou avaliar os documentos.
- Ok. Depois me diga o que acha sobre o projeto que te apresentei, acho que é uma iniciativa legal especialmente para os biólogos marinhos.
- Claro, claro. Não se preocupe. Eu sei que você tem uma cirurgia daqui a pouco, mas eu tenho algo a te dizer. – Automaticamente foi tomada pela curiosidade e se aproximou instintivamente da mesa da amiga. – Mas não sei se deveria agora...
- Você sabe que eu sou curiosa. Desembucha logo! – Exigiu a médica já quase escalando a mesa desorganizada de .
- Achei o cara perfeito pra você. – Todo o interior de desabou e ela se jogou na poltrona com os braços cruzados. Ela havia ficado curiosa por aquilo?
- Pelo amor de Deus, . Eu já disse que eu só saí com o cara ontem porque ele queria se divertir, poxa! Eu nem mesmo estou procurando um namorado! Por que você sempre tenta me arranjar alguém? Eu não posso ser solteira, é isso? – encarou a amiga sobre os óculos de armação vermelha e abriu um sorriso sorrateiro.
- Você pode ser solteira o quanto quiser, mas acho que você se fecha demais para homens ou qualquer outra pessoa na sua vida, não seria legal tentar mudar um pouco isso? – As sobrancelhas arqueadas de demonstravam que ela não desistiria daquela discussão tão facilmente.
- Eu tenho meus animais e meu Deus, não preciso de mais nada além disso. – Disse com um dar de ombros natural.
- Eu sei e respeito suas vontades celibatárias, porém falsas. – preferiu não discutir. – Mas dá uma chance, só uma chance, a última! Prometo! Se você não gostar desse cara, eu juro que não tento mais te arranjar com ninguém! – levantou as duas mãos ao alto e ficou esperando até que desse um sorriso pequeno em direção à amiga.
- Acho legal você estar pensando nestas coisas no horário de trabalho. – já se levantava. Precisava estar no centro cirúrgico em duas horas.
- Minha próxima reunião é daqui 40 minutos, tive cinco minutos de intervalo e gastei eles com você, . Deveria estar agradecida. – provocou a amiga e jogou um pedaço de papel amassado na direção da veterinária.
- Ahã, obrigada por me conceder seu tempo, Grã Mestre. – A ironia escorreu pela voz da médica. – Quem é o bendito e para quando você marcou o encontro? – mostrou certo espanto. – Não tente fingir que não marcou, eu sei que você marcou! Mereço ao menos uma descrição do cara, não?
- O encontro está marcado para sexta, às oito horas. Ele vai te buscar na sua casa e não me disse planos. – arqueou a sobrancelha com curiosidade. Se fosse algum psicopata, ela socaria .
- Você não tem medo que eu seja assassinada ou sequestrada? Nunca se sabe o que se passa na cabeça de um homem, ! – A mais velha revirou os olhos na direção de que não podia acreditar na cara de pau da amiga. – Eu não quero ir a esse encontro, olha as coisas em que você me mete, !
- Calma, ! Eu conheço o que se passa na mente deste homem, e eu sei que ele não vai te sequestrar também! Eu o conheço há muito tempo, tempo o suficiente para ir à casa dele e não achar nenhuma escrava sexual no porão ou qualquer bizarrice que você esteja pensando. – cruzou os braços. Não deveria aceitar, não deveria, você está dando moral demais à , a mesma que te arrumou um encontro com um apicultor que te levou para conhecer a criação dele.
- Ok. Só porque eu tenho certeza que vou odiar e você nunca mais vai me perturbar com isso novamente. Me manda os dados do bastardo por mensagem.
- Assim que eu gosto! – bateu palminhas e pegou seu celular imediatamente.
- Ok, vou indo então. Te vejo sexta?
- Mas é claro, meu bem.

*


Quando a sexta-feira chegou, Azikiwe nem mesmo se lembrou do encontro que teria com Hot Dude from Heaven, como o havia descrito. Nenhum nome, nenhuma foto, apenas descrições comportamentais e pessoais. Pessoais até demais.
“Um dia ele caiu pelado num rio em pleno outono, as meninas da faculdade ficaram doidas!”, era o que dizia parte da mensagem de . Ótimo. sairia com um desvairado.
O real motivo de Azikiwe não estar realmente focada no encontro, era a cirurgia que havia feito na Ocapi fêmea. O bebê estava a salvo, foram 14 meses exatos de gestação, mas a Ocapi ainda não estava pronta.
- Preciso que o medicamento seja colocado na comida dela, ela já parece estar menos abatida que ontem. – passava a mão na cabeça do pequeno filhote da Ocapi. Era tão magro em relação a outros filhotes. Os olhinhos fechados e a pelagem mesclada só faziam o filhote ser mais fofo.
- Doutora, estão te bipando na UTI. – entregou o filhote à enfermeira e conferiu o bipe na calça, não havia percebido nada. A médica andou rapidamente até o terceiro andar e entrou em uma sala isolada, encontrando .
- O que houve? – Perguntou ao entrar no complexo. As roupas de estavam manchadas e havia suor em sua testa. estava apoiada em uma das macas enquanto fitava um tigre-do-sul-da-China deitado na maca. – Essa é a Linda? Quando ela deu entrada na UTI? Ninguém me avisou! – a encarou seriamente.
- Ela teve convulsões ontem à tarde, você estava fazendo uma cirurgia. Eu acompanhei o processo, mas precisava cuidar de uma cirurgia marcada. Conversei com o neurologista e ele disse que pode ter relação com o choque que Linda provavelmente reviveu quando os tratadores foram dar comida. Ela deve ter se assustado com os tratadores e correu até bater com a cabeça em uma árvore. – As médicas se colocaram ao lado do enorme tigre sedado na maca. checou os níveis cardíacos do animal, assim como a dosagem de remédio antes de suspirar.
- Lidar com animais que sofreram traumas é tão complicado.
- Eu não sou a médica responsável, mas me mandou aqui como supervisora. Tem medo que algum enxerido tente tirar informações sobre um dos últimos tigres-do-sul-da-China existentes do mundo. – balançou os ombros e o tronco, claramente demonstrando o cansaço das últimas quarenta e oito horas.
- Você não vai pra casa desde quando?
- Acho que desde ontem de manhã. Precisei cuidar de algumas cirurgias e uma papelada.
- É, eu também. – As duas se mantiveram em silêncio durante um tempo.
- Hoje é seu encontro com o amigo da , né? Espero que o feedback seja positivo. – estalou a língua no céu da boca e deu uma risada preguiçosa.
- Qualquer feedback é mais positivo do que aquele último cara. Nossa, qualquer um! – As duas riram.
- Tome cuidado, qualquer coisa é só me ligar, sério! – Na maior parte do tempo, era ótima em ser mãe de três filhas, as duas pequenas e , que havia criado uma teoria sobre ter uma conexão materna com feita antes mesmo das duas nascerem, mesmo tendo apenas cinco anos de diferença uma da outra.
- Ok, mãe. Fique tranquila. não marcaria um encontro sem confiar de verdade no cara. – Espero. – Seu plantão já acabou, não? Já deveria estar indo para casa. – Observou ao olhar em seu relógio. Duas e meia da tarde. Seu turno acabaria em 20 minutos.
- Já acabou, mas estou esperando chegar junto com os seguranças. Estão realmente preocupados com a ameaça que outro sequestro poderia causar. – assentiu em compreensão. Lidar com animais em extinção implicava em lidar com ladrões e a mídia, ambos bem similares em diversos sentidos.
- Pode ir, eu espero ela chegar. Meu plantão só acaba em 20 minutos.
- Ok. Estou indo, então. – E pensar que ainda teria que lidar com crianças chorando em casa... – Bom encontro, . Vai dar tudo certo! Conte-me tudo depois!
- Claro! Bom descanso. – se despediu com um aceno, fechando a porta da UTI atrás de si com um estalo. – Ah, Linda. Você não tem noção do quão guerreira você é. – observava o diafragma do tigre se mover, aumentando a calmaria dentro da tempestade que estava solta dentro da médica.
Pouco tempo depois, chegou acompanhada de três brutamontes que mal olharam na direção de , apenas se colocaram na frente da porta e outro foi para o corredor seguinte.
- Você precisa de um banho, Azikiwe.
- Você precisa de um abraço bem apertado. – soltou uma risada anasalada.
- Precisamos tomar cuidado com Linda, especialmente agora, não podemos correr o risco de perder uma sul-da-China.
- Vai dar tudo certo, ela já está sendo medicada e vai ser bem cuidada. Acho que daqui dois dias no máximo já vai ser colocada em um local isolado para ver se o efeito do remédio é promissor. – Uma médica reportando a sua superior, era isso o que acontecia entre as duas no momento. sempre se perguntou se algum dia entraria em conflito com a chefe e o que sobraria da relação delas caso isso acontecesse.
- Está dispensada, Azikiwe. Vai tomar um banho e ir pra casa, precisa estar descansada para hoje à noite. – apenas assentiu e seguiu pelo corredor até o vestiário, pegou suas roupas e saiu do hospital com o coração na mão pensando tanto em Linda quanto no bebê Ocapi. Fez uma oração silenciosa enquanto entrava no carro e pedia que tudo ficasse bem com os dois animais.

*


- Acho que estou arrumada demais, não? – se encarou no espelho pela vigésima vez. Ela nunca conseguia escolher a roupa de primeira, eram necessárias pelo menos quatro trocas para que se decidisse. Trágico. A blusa oversized branca deixava seus ombros a mostra e a calça jeans com pequenos rasgos fizeram se perguntar se não estava casual demais, mas não é como se soubesse para onde iria, sabia apenas que iria sair. – Eu nem sei como o sujeito é! Meu Deus do céu! , eu vou te matar!
correu para a cozinha e preparou o chá de erva cidreira antes que a água esfriasse. Havia dormido apenas quatro horas, mas se sentia renovada, a xícara de chá a ajudou muito nisso. A médica balançava os ombros em sinal claro de nervosismo já que se sentia totalmente no escuro. Não sabia o que esperar além de um cara divertido e cara-de-pau, exatamente como o havia descrito. Nada além disso. se olhou uma última vez no espelho antes de receber uma mensagem no celular.

“Oi, ! Sou eu, seu date de hoje haha. Estou te esperando aqui embaixo. É o prédio marrom, certo?”

Será que deveria mudar de roupa mais uma vez?

“Estou descendo!”

Nada de mudar de roupa.
- Você está linda, . Abrace a mulher poderosa que você é! - falou consigo mesma antes de pegar a pequena bolsa e calçar os sapatos. A mulher desceu no elevador impacientemente, deixando a curiosidade aflorar cada vez mais dentro de si.
Ao sentir a brisa fria bater contra seu rosto, se sentiu eternamente grata por estar usando um sobretudo confortável. Olhou ao redor e observou um homem encostado a um Jeep prata, e levando em consideração que era o único na rua que parecia estar esperando alguém, deduziu ser seu Hot Dude, mas não conseguiu enxergar pela rua mal iluminada do condomínio. Azikiwe começou a se aproximar do homem, tentando dar a sorte de matar logo sua curiosidade. Quando já estava próxima o suficiente para que seus sapatos fossem ouvidos através do vento, o sujeito levantou a cabeça e sorriu.
?
- Olá novamente, doutora Azikiwe. – deu seu melhor sorriso enquanto as peças criavam forma em sua cabeça confusa. Mas o que está acontecendo? – Você parece chocada. Isso é decepção?
- Isso é choque, desculpa. É que a não falou o seu nome, nem mandou foto ou nada assim! – deu uma risada nervosa e mudou o peso do pé para o outro. Ela não se lembrava de ser tão bonito assim. Quer dizer, o cabelo enrolado estava penteado para cima, deixando que seus olhos brilhantes e sua pele bronzeada fosse destacada. Wow. Além disso, ele parecia ter senso de moda. usava uma camisa preta que apertava seus braços levemente musculosos, a calça jeans cinza torneava as coxas fortes. E os olhos, ah, os olhos dourados finalmente voltaram a ser objeto de admiração por parte de . Meu Deus, ele não para de sorrir?
- Vamos conversar melhor no carro? Está friozinho aqui fora! – assentiu e se dirigiu para o lado do passageiro, entrando rapidamente e sendo recebida pelo ar quente emanando do aquecedor.
Primeiros encontros, ainda mais quando são agendados por uma terceira pessoa, conseguem ser bem estranhos e havia passado por alguns desse tipo, mas parecia confortável, quase como se ele realmente quisesse estar ali sem uma terceira força suprema enchendo o saco dele. Talvez estivesse desesperado.
- Nós nos conhecemos há poucos dias no zoológico. – Foi o que conseguiu dizer, e riu.
- Sim, sim. Por sua causa, consegui achar sem mais problemas. Obrigado!
- Acho que eu deveria largar a carreira de veterinária e simplesmente ser guia do zoológico. – O homem deu uma gargalhada gostosa e se arrepiou. Por conta do frio, claro.
- Você ficou surpresa, não ficou? Por ser eu?
- Fiquei. Mas não foi uma surpresa ruim. - sorriu - Aonde estamos indo? – A curiosidade de falou mais alto. Ela apenas via as ruas se tornarem avenidas e pegaram um pequeno engarrafamento no caminho.
- É um conjunto de food trucks que eu gosto muito. Eu não quis tomar a liberdade de escolher um restaurante específico, então resolvi escolher vários. – Azikiwe deu um sorriso sincero pela escolha de e concordou com a cabeça.
- Eu gosto muito de comida de food truck! O meu favorito é o de comida mexicana e coreana, é muito bom! – Ok, entraram no assunto comida. sabia que poderia passar a noite falando sobre comida e não ficaria entediada.
- Comida coreana? Nunca comi...
E por mais meia hora presos no engarrafamento, e falaram apenas sobre comida, não que tivesse desgostado da conversa. Na verdade, ela ficou surpresa em conseguir engatar uma conversa tão facilmente com , tão simples e legal. Além do mais, não parecia ter um porão com escravas sexuais, mas ainda era muito cedo para tirar conclusões.
Ao chegarem no conjunto de food trucks, não escondeu o som de sua barriga roncando.
- Acho que precisamos escolher algo rápido, né? – comentou com bom humor e quis se enfiar embaixo do banco. Isso é hora de se manifestar, caramba?
- Wow, tem tanta coisa! – não escondeu o fascínio. Havia luzes coloridas conectando os carros de comida e os assentos pareciam ser feitos de materiais recicláveis. Uma moça negra com dreads cantava a música ao vivo em uma língua que ela não conhecia, mas era gostosa de se ouvir, e o lugar não estava lotado. Preciso vir aqui de novo. Mesmo que esse encontro dê errado, eu com certeza vou voltar aqui.
- Sim, por isso eu gosto de vir aqui, sabe? Tem de tudo e para todos os gostos. Estou feliz que você gostou. – Ela deu um sorriso largo para que retribuiu sem esforço.
- Boa noite! Sejam bem-vindos! – Uma moça de cabelos loiros e com roupa de garçonete os abordou – Mesa para dois?
- Sim, Aedith! Tem como você conseguir perto do food truck de comida asiática, por favor? – o encarou. Ele realmente gostava de food trucks, se até mesmo conhecia a garçonete.
- Claro. Sigam-me. – O local em que foram colocados era muito bom, a música não estava tão alta e estavam um pouco afastados das conversas altas.
- Obrigada. – agradeceu a garçonete – Esse lugar é incrível, . Eu nunca tinha ouvido falar, mas com certeza vou voltar. – Os dois estavam em pé um de frente para o outro, e sustentou o olhar que lançou a ela sem parar de sorrir.
- Ainda bem que gostou. O que vai querer comer? – deu uma olhada ao redor e focou no carro de comida coreana. Ele sabia que havia um ali? seguiu o olhar de e deu uma risada. – Coreana, vai ser?
- Pode ser! Mas você nunca comeu, não prefere algo diferente? – Ele deu de ombros e passou a mão no cabelo.
- Quero provar coisas novas. Vamos lá. – Os dois caminharam até o carro de comida coreana, que era o mais bonito, na opinião de . – O que você me recomenda, Srta. Azikiwe?
- Hm... Se você gosta de pimenta, tteokpokki é o melhor! Mandu também é ótimo, kimbap é bem simples, mas é muito gostoso também. – Ela não escondeu a felicidade quando uma moça veio recolher seus pedidos.
- Pode ser tudo isso! – Os dois pediram seus pratos e deixou que pagasse após uma pequena discussão que foi resolvida ao Azikiwe afirmar que pagaria pelo menos uma sobremesa.
Durante todo o tempo, e não pararam de conversar, nem mesmo quando a comida chegou. Azikiwe agradeceu pelo alimento, levando os dois a uma conversa sobre religião e crenças; não deixava de pensar no quão confortável se sentia, e que há muito tempo não se sentia assim em um encontro às cegas.
- Você não acreditaria nas pérolas que um jornalista precisa presenciar. É hilário. – comentou e bebeu mais um gole de soju. o havia feito provar a bebida alcóolica e ele pareceu gostar bastante.
- Eu sou veterinária, acredite, as pérolas são incríveis também. – Os dois ficaram em um silêncio confortável por alguns segundos. – Como você conheceu ? Se for “ok” por você falar, claro. – estava segurando essa pergunta desde que havia entrado no carro.
- Eu sou um amigo antigo dela. Conheci através do meu pai e acabamos nos tornando amigos durante o ensino médio. – Azikiwe assentiu com a cabeça e colocou mais um pedaço de kimbap na boca. – E você? Conhece do zoológico mesmo?
- Sim. Eu e nos tornamos amigas efetivamente há uns dois anos, se não me engano. Acho que o amor aos animais é o que liga realmente o pessoal do zoológico, sabe? Nós fazemos o que fazemos por amor a eles, isso nos aproxima bastante. – Um lampejo de curiosidade e ironia passaram pelos olhos de , mas foi rápido demais para que conseguisse avaliar realmente. A médica não sabia dizer em que ponto e ela haviam se tornado mais próximos, mas pouco tempo depois, estavam jogando sinuca no espaço de jogos e até mesmo dardos.
- Você joga muito bem! – comentou com uma risada engasgada quando encaçapou três bolas seguidas.
- Eu jogava na faculdade, muitas festas entediantes, então a sinuca era meu entretenimento.
- Eu joguei futebol na faculdade e odiava ir às festas, sinceramente. Eu ficava estressada perto de tanta gente bêbada. – riu e acabou errando a bola. precisou se aproximar da bola branca, parando ao lado do jornalista. O cheiro do perfume dele era muito bom. Droga, que homem cheiroso.
- Tudo bem, ? – A forma como o apelido da mulher saiu da boca inchada de fez com que ela criasse um cenário digno de novela em sua cabeça alterada.
- Sim, sim. Desculpe, acabei viajando. – Ela deu uma risada e se aproximou mais da bola, por consequência, de , este nem ao menos se afastou. errou a bola miseravelmente, mas percebeu que a presença de era muito forte ao seu lado e acabou não ligando para a bola parada perto do buraco, apenas na respiração levemente irregular do homem atrás de si. – Eu te dei a vitória, esse ponto deveria ser meu. – ergueu a sobrancelha e sorriu preguiçosamente.
- Obrigada por tornar meu trabalho menos árduo. – E a última bola disponível foi encaçapada facilmente por . – Acho que você me deve uma garrafa de soju. – não controlou a risada ao colocar o taco em cima da mesa. se aproximou mais dela, deixando-a irritada pela distância tão grande entre os dois.
- Acho que eu te devo uma sobremesa e um soju, que tal? – Ela estalou a língua e cruzou os braços sob os seios. deu um sorriso quase felino ao assentiu devagar com a cabeça.
- Aceito.

*


- Ele voltou dirigindo depois de beber? – Foi a primeira pergunta que fez no sábado ao irem para o parque.
- Não, voltamos de táxi e ele disse que voltaria no dia seguinte para pegar o carro. – A amiga assentiu levemente com a cabeça enquanto caminhavam ao redor de um pequeno lago. As filhas de brincavam com dois coleguinhas de pega-pega enquanto e a amiga caminhavam tranquilamente.
- Ele é bonito?
- Sim, muito gentil também. Não lembro de ter tido sequer um momento desconfortável com ele. – deu um sorriso meio bobo. – Ele já tem meu número, disse que iria me ligar, então é só esperar.
- Ele tentou te beijar? – gritou com as crianças antes de voltar a atenção novamente a amiga.
- Sim, mas eu acabei tropeçando na grama e nós dois só rimos. – A mais velha assentiu com a cabeça - Ele não deu a entender que iria para a cama comigo. Talvez porque eu tenha mencionado a igreja, não sei. Fiquei feliz por ele não ter insinuado, mas ao mesmo tempo me perguntei se ele só realmente não queria transar comigo. - deu uma risada fraca e revirou levemente os olhos. A mulher sempre observava todos os fatos antes de fazer qualquer comentário concreto.
- Não vi nada de problemático ou errado com esse rapaz, pelo o que você me disse. – O lado mãe da amiga era tão forte que se perguntou como ela era antes de ter seus filhos.
- Eu me sinto uma boba por querer que ele me ligue logo. – chutou uma pequena pedra no caminho e colocou a mão dentro dos bolsos da calça de moletom.
- Não é ser boba, é criar expectativas. – E tem diferença?
- Não sei... Espero que eu não quebre a cara como das outras vezes. Às vezes a gente chega a um ponto de cansaço.
se sentia uma idiota por esperar a ligação de , e mais idiota ainda por não tê-lo beijado na noite anterior.


Capítulo 2 - Aquele da Viagem para o Congo

21 de julho de 2017, sexta-feira, Londres
- Você luta jiu jitsu ou MMA? Eu não vejo diferença nenhuma. – encarou o rosto inchado de com certo choque no rosto.
- O cara não queria desistir, acabamos nos machucando. Acontece. – A mais nova deu de ombros conforme tirava o jaleco do corpo e substituía a blusa branca por uma roxa. revirou os olhos na direção da amiga e trocou de roupa.
- Você ainda vai acabar se machucando feio e eu vou dar risada, sério. – deu uma gargalhada alta, fazendo com que sua costela doesse. Talvez tivesse exagerado na noite anterior – E como vão os preparativos para a sua viagem? Tudo certo? – acenou com a cabeça e sentiu o cansaço abatê-la repentinamente.
Iria viajar durante duas semanas para uma fundação no Congo com o objetivo de estudar os comportamentos dos animais e tentar achar uma forma de ajudar Linda e o bebê Ocapi a se adaptarem melhor ao zoológico ou dar o diagnóstico final de que não poderiam mais abrigar o filhote em sua propriedade, e talvez o entregar àquela fundação. Tudo dependia das palavras finais de Azikiwe.
A médica se sentia feliz por poder fazer essa viagem, estava cansada do clima londrino dos últimos dias, além de estar precisando de ar fresco. Porém, ao pensar no tempo de voo e que estaria sozinha no avião, ficava estressada. Ela odiava aviões ou qualquer coisa que a pusesse no ar por mais de 10 segundos. Além do mais, não sabia se era corajosa o suficiente para encarar possíveis casos de Ebola na região.
- Termino de arrumar as malas hoje e parto domingo à tarde.
A semana havia sido cansativa demais para todos no zoológico. Ao pegar o celular para ver as horas, percebeu que nem ao menos se perguntou se a havia ligado ou não, quer dizer, depois de três semanas sem sinal de vida do homem, simplesmente havia esquecido dele. Talvez não por completo, mas 80%.
- Quero muitas fotos, ! Grave vários vídeos dos animais e da paisagem, quero pelo menos sentir como se estivesse lá.
- Você vai na próxima, vou fazer questão de te levar. – sorriu para a amiga e colocou a bolsa preta nos ombros.
- Nada mais que a sua obrigação, lad. Vamos? – As duas caminhavam pelos corredores já vazios dos vestiários até o estacionamento, onde se separaram. entrou no carro e suspirou ao ligar o rádio, o seu podcast favorito começaria dali dois minutos.

“Boa noite, ouvintes. Neste momento são nove horas e 23 minutos e o programa preparado para vocês nesta noite de sexta-feira chuvosa, é especial. Tantos dias nublados em Londres e ignoramos a beleza que a chuva realmente tem, cada aspecto que traz para nossas vidas, cada pedaço de tristeza e lamento que é lavado quando as gotas caem em nossos guarda-chuvas. Você tem dado importância aos pequenos sinais que a vida te mostra? Ou tem ignorado cada um deles por achar estar vendo uma imagem maior, quando na verdade tem a visão limitada pelo orgulho e ganância? Antes de apresentarmos nosso convidado especial, começaremos com uma música pedida por um ouvinte.”

sorriu ao ouvir o início de Close to You dos Carpenters ecoar pelo carro. Os músculos relaxaram e o congestionamento não a incomodou, na verdade, ela se sentiu feliz por estar presa no carro e poder desfrutar daquele momento de paz. A chuva batia contra o vidro, não era comum de se ver uma chuva daquelas em pleno verão, mas não reclamou. Cada pedaço de pele era aquecido pelo aquecedor, mas ainda havia um arrepio gélido percorrendo suas costas, a lembrança fresca do encontro com , três semanas atrás. Ela já havia sido rejeitada antes, não havia problema com isso, mas achava estranho. Ele parecia ter gostado do encontro, será que era tão bom ator? Ao questionar sobre o acontecido, ela apenas deu de ombros e disse que também não havia conseguido contatar o homem, mas parecia estar mentindo.
- Ele deve ter sido preso por tráfico de órgãos no Sudão. – brincou com e esta apenas a ignorou e voltou a comer seu almoço, uma semana antes.
olhou para o banco do passageiro, para a mala de viagem que estava cheia de documentos e mais papelada que a havia pedido para encaminhar para a ONG e desejou que o homem de quase um metro e 80 estivesse sentado ao seu lado. Pare de pensar besteiras, . Supere, você perdeu dessa vez. E com um dar de ombros enfezado, voltou sua atenção para o trânsito londrino enquanto este abria um pequeno espaço para ela em compaixão dos pensamentos perturbados pelos cabelos negros e olhos felinos.

*


- Filha, se cuida. Não esqueça de mandar mensagem quando chegar lá! – deu um beijo na bochecha da mãe e logo em seguida um abraço em seu pai.
- Fica tranquila, Okoye. Ela vai estar segura, eu conheço o dono da ONG, ele é gente fina. – Como esperado, Bruce Havilliard conhecia qualquer um do ramo da medicina veterinária.
- Eu não posso me preocupar com minha filha? – deu uma risada alta e beijou novamente sua mãe.
- Obrigada por ficarem de olho no meu apartamento enquanto estou fora. Cuidado com as plantas, mamãe, pelo amor de Deus.
O Uber apareceu no canto da visão de , e então desceu apressadamente as escadas da portaria do prédio dos pais. acenou uma última vez para os pais antes de pegar o celular e conferir o horário. Sete da manhã, ainda havia bastante tempo para chegar ao aeroporto sem atrasos.

*


estava atrasada.
Estava tão cansada que acabou cochilando com a cabeça apoiada em uma mesa e perdeu a hora. Agora, corria como desesperada para o portão de embarque antes que não pudesse mais entrar no avião.
O coração estava disparado e sentia o mini-travesseiro em seu pescoço a sufocar conforme atravessava o aeroporto. A voz no alto falante anunciou a última chamada quando chegou no saguão de embarque. A aeromoça portada perfeitamente e com a maquiagem impecável mediu Azikiwe de cima a baixo, provavelmente reconhecendo mais uma passageira atrasada, mas não se importou com isso, não quando fitou o enorme avião que a levaria direto para a República Democrática do Congo. Que Deus a ajudasse nas próximas 18 horas.
se aconchegou em seu assento e respirou fundo. Graças ao dono do zoológico, ela poderia viajar de primeira classe, mas se sentia totalmente deslocada daquelas pessoas que sentavam ao seu redor. Mesmo que ganhasse consideravelmente bem, Azikiwe nunca usaria dinheiro em aviões, talvez com comida, no máximo em roupas, mas jamais aviões. A médica pegou os documentos que a havia entregado e passou o olho por cima de cada um deles. Não era de sua conta, mas disse que não haveria problema, especialmente porque não era nada demais, apenas burocracia desnecessária, e odiava burocracia.
- Aceita alguma bebida, senhorita? – Azikiwe levantou a cabeça para a aeromoça e pediu uma água. Os olhos nervosos de corriam pelas páginas para se distrair do enorme avião no qual estava. Na pasta se encontravam apenas nomes de financiadores que não conhecia, cadastros de clientes, cartas formais – uma delas fechada e selada -, destinada a um dos diretores da fundação, mas a mulher não pôde deixar de querer pesquisar os financiadores, não se recordava de alguns – Aqui está. – A aeromoça entregou o copo d’água para , a médica empurrou os pensamentos para o fundo da mente e se concentrou na oração silenciosa que fazia.
Quando o avião decolou, Azikiwe jurou que nunca mais se sujeitaria àquilo novamente.

*


- Estou bem, . Eu não sei falar muito bem francês, mas estou conseguindo me virar bem até agora. Eu estou esperando o motorista para ir até a fundação. – estava no banheiro terminando de lavar o rosto mortalmente pálido quando sua chefe ligou. A imagem refletida no espelho era bem diferente da mulher que havia embarcado em Londres.
- Que ótimo! Não esqueça de mandar uma mensagem quando chegar lá. Estão havendo algumas ações de protesto no país, além de ainda poder haver risco de pegar ebola, então fique atenta e se cuide, por favor. – Mais um problema na lista de Azikiwe. A morena já estava se acostumando com isso.
- Fica tranquila. Vou usar máscara perto dos animais e em áreas de risco. – murmurou do outro lado.
- Vou desligar, preciso ir à uma reunião. Vai dar tudo certo. suspirou ao guardar o celular novamente no bolso e se inclinou novamente para o lixo, achando que fosse vomitar o resto do almoço que comera no avião. A médica precisou reunir toda a força que tinha para caminhar com as malas até o portão de desembarque.
Quem deveria procurar? Homem, mulher, velho, jovem? Os olhos curiosos de seguiram cada uma das pessoas com plaquinhas na mão à espera dos passageiros até que achou uma com seu nome em uma caligrafia garranchada. Azikiwe sorriu ao se aproximar de uma moça negra baixinha com um sorriso largo no rosto.
- Srta. Azikiwe? – assentiu, surpresa com a falta do sotaque francês da moça – Acompanhe-me. – a médica não questionou e seguiu a moça lado a lado – Teve um bom voo?
- Acho que deve ter sido bom, mas eu estava ocupada demais passando mal. – A nativa riu e assentiu.
- Não está com a cara muito boa, gostaria de comer alguma coisa no caminho? Temos mais uma viagem de duas horas pela frente. – arrumou a rodinha da mala com o pé e negou com a cabeça.
- Acredite, a última coisa que eu quero agora é comer.
Durante o caminho até a van da fundação, absorveu toda a paisagem. A energia emanada era diferente de Londres, era mais pura. O céu brilhava em um azul intenso e uma onda de calor encheu o corpo agasalhado de ao colocar os pés para fora do aeroporto. O calor londrino não era nada comparado com aquele que sentia, mesmo que não fosse tão forte quanto dos países tropicais.
A capital do país, Kinshasa, não parecia refletir o que era visto nos jornais com tanta intensidade, mas ainda sentia a tensão invadir seu corpo quando observava os militares parados com armas em punho no meio das avenidas enquanto atravessavam a cidade para o interior do país. Cada vez mais, a médica engolia em seco ao ver alguns corpos largados perto de plantações e homens armados até os dentes nas fronteiras entre cidades. Ela não conseguia dormir, mas apenas revirar em sua mente possíveis cenários de guerra em que aqueles homens poderiam ter morrido e mal tiveram um funeral digno.
- As facções estão sempre em guerra, Srta., mas não se assuste, estamos seguros. – tentou acreditar, de verdade, mas sentia o interior se revirar. O ser humano é deplorável, era nisso em que pensava quando, horas de viagem depois, avistou um enorme portão de arame e mais homens armados parados na frente de uma placa que dizia “ROCWA Foundation” – Chegamos! – Keyla, nativa e motorista da fundação, virou a cabeça para trás enquanto segurava o volante – Vou ser sua guia aqui dentro também, Srta. Sinta-se à vontade para fazer perguntas, mas apenas não saia desacompanhada daqui, nunca. – Azikiwe assentiu destemidamente com a cabeça e reuniu suas tralhas espalhadas no banco. Quando atravessaram os portões de aço fortemente protegidos, soltou a respiração que mal percebeu estar segurando. Nas próximas duas semanas, aquela seria sua realidade, aparentemente.
- Obrigada por me trazer, Keyla. – A médica agradeceu ao descer do carro em frente a uma das sete casas no meio de um campo enorme. Os portões haviam ficado para trás, mas ainda era possível distinguir os arames farpados nas torres de controle. Parecia mais uma prisão do que qualquer coisa – É aqui onde vou ficar? – A moça acenou com a cabeça e guiou Azikiwe para dentro da casa azul que não possuía um jardim na frente, mas era tão bonita e organizada por fora que fez questionar se não havia sido inaugurada há menos de dois meses atrás. As janelas eram enormes e grandes cortinas impediam a visão interior da casa, além de um tapete laranja cobrir a entrada, deixando maravilhada com a simplicidade, mas beleza extraordinária do lugar. Antes de entrar pela porta, inspirou o cheiro de mata que a invadiu por completo. Ela se sentia no paraíso. Antes que Keyla saísse, sentiu-se tentada a perguntar.
- Vocês já foram invadidos antes?
- Apenas uma vez, alguns meses atrás. Mataram cinco nossos e sete animais, um deles era um de nossos Ocapi. – O interior da médica se revirou, entretanto ela tinha certeza que não era mais a comida do avião.
- Sinto muito. – Keyla assentiu com a cabeça e se retirou da casa após se despedir brevemente e lembrar a médica da localização das máscaras, deixando sozinha na estrutura de paredes brancas e piso de mármore.
não tinha um pressentimento bom quanto ao tempo que passaria naquele lugar, não sabia exatamente o que acontecia, talvez fosse o efeito do voo, mas parecia que uma mão segurava seus ombros e a dizia para ficar, mas que não seria fácil.
deixou a mala sobre a cama desforrada em um quarto e se dirigiu ao banheiro, precisava de um banho urgente antes de dormir. Os pensamentos não a deixaram nem mesmo enquanto cantava Choctaw County Affair ao esfregar os cabelos, tentando dispersar aquele sentimento incômodo que a tomava. não costumava ser receosa, entretanto esse sentimento a incomodava tanto ao ponto de simplesmente sair do banho apressada para ir dormir e esquecer as paranoias que tomavam seu tempo. Porém, ao deitar no colchão, o rosto de veio à mente e ela sentiu vontade de gritar. Sem paranoias, huh?
A mente de parecia brincar com ela até que definhasse entre os lençóis e deixasse de dormir, permanecendo com a sua cara doente igual ao sair do voo mais cedo.
Por volta do meio-dia, Keyla veio buscar a médica em seu quarto, mas estava de fones e acabou não ouvindo as batidas na porta, e novamente a morena ficou sozinha na pequena casa com seus pensamentos viajantes.
- Chega, preciso respirar. - Ela resmungou em determinado momento. Vestiu uma regata, uma calça militar e saiu do cafofo, deixando o vento forte fustigar seu rosto, mas sem realmente se incomodar. A máscara branca impediu que o resto do mundo visse sua boca aberta. A paisagem linda tomou toda a sua visão; um Jeep antigo cruzou a visão de entre as árvores, formando uma pequena trilha até que a vista se perdesse.
A médica respirou fundo e deixou que o ar a tomasse completamente, aquele desespero que a havia consumido passava aos poucos e os pensamentos se acalmavam. Um barulho de mensagem surpreendeu a moça, lembrando-a de súbito que deveria ter dado notícias à sua mãe.
- Droga, droga… - abriu o aplicativo de mensagens, mas soltou uma risada amarga ao ver a última mensagem recebida.

“Olá, doutora/guia. Está disponível hoje?”

a havia mandado mensagem depois de, não três dias - como a regra ridícula costumava dizer -, mas três semanas. A morena resolveu ignorar a mensagem e ligou para sua mãe, tranquilizando-a e contando sobre a beleza do local, o que foi o suficiente para que Okoye Azikiwe se conformasse e deixasse a filha voltar ao surto inicial.
não ficou feliz com a mensagem, na verdade, ela sentiu o ímpeto de apenas ignorá-lo e deixar seu orgulho levar o melhor de si.
- Doutora! Dormiu bem? - Keyla apareceu em sua visão e ignorou o celular ainda vibrando.
- Não consegui dormir, na verdade. Acabei só descansando a vista.
- Já que não consegue dormir, gostaria de dar uma olhada pela reserva? Pelo menos pela parte mais superficial, por ora? - assentiu alegremente e voltou apenas para passar protetor solar, por um chapéu e pegar a câmera fotográfica.
- Vamos? - Keyla guiou a veterinária até o Jeep velho que havia visto passar há pouco tempo. A moça se acomodou no banco do passageiro enquanto a nativa se dirigia para o lado do motorista.
A ansiedade negativa que tomava foi rapidamente tomada por uma felicidade genuína ao começarem a explorar as acomodações da reserva da fundação.
Passaram pelos santuários dos gorilas, animais caçados ilegalmente no Congo em grande número. não deixava de se chocar com as histórias que Keyla contava sobre os enormes gorilas que escaparam da morte por triz, chegando a matar caçadores com as próprias mãos para defender os filhotes.
- Vamos ver a última família de Ocapi que temos por aqui. - A médica automaticamente precisou controlar a ansiedade, mas Keyla foi mais rápida e deu uma risada meiga ao detectar o ânimo da veterinária, que ficou chocada ao ver a família Ocapi se alimentando em seu próprio santuário. Os animais ficavam “livres” em um espaço enorme, mas Keyla informou que saíam da casa deles algumas vezes na semana, apenas para evitar confrontos com os outros animais predadores habitantes do mesmo espaço. A vegetação ficava mais densa conforme iam se aprofundando na área e o sol começava a descer para oeste, fazendo com que suasse cada vez mais sob o chapéu.
- Os animais são lindos… Queria que todos do zoológico pudessem ser tão livres quanto os daqui. - Desabafou a médica com um sorrisinho tímido. Keyla não tirou os olhos da estrada de terra, mas concordou com a cabeça.
- Às vezes é difícil olhar para todos esses animais e imaginar que podem sumir um dia pela caça ilegal, é triste imaginar que nossa luta pode não ter retorno. Acho que entende como nos sentimos. - assentiu com a cabeça e continuou a tirar fotos do que era possível. A Fundação avaliaria as fotos, que não poderiam ser publicadas, serviriam apenas como recordação. Quando o céu já começava a manchar de vermelho sangue, as duas mulheres voltaram para as instalações. A barriga de Azikiwe roncava tanto que até mesmo Keyla ofereceu uma fruta de uma das árvores.
- Vamos direto para o refeitório, vou te apresentar aos médicos e voluntários. - assentiu e apenas seguiu Keyla para dentro do pavilhão cheio àquela hora. As pessoas jantavam cedo e dormiam cedo, era o que a nativa havia dito à um pouco antes.
- Keyla! - Um homem alto de olhos castanhos e pele negra como a noite interceptou as duas assim que entraram no refeitório. Os dois começaram a conversar animadamente em francês e se sentiu particularmente estúpida por saber cinco línguas e nenhuma delas ser aquela falada - Quem é a sua amiga? - O moço disse em um inglês forte.
- Sou a doutora Azikiwe, prazer. - A sobrancelha do homem se arqueou em surpresa.
- Sobrenome africano, doutora? - assentiu e o homem deu um sorriso largo - É bom conhecer uma irmã por aqui. Prazer, sou o Eliah. - A médica apertou a mão de Eliah e sorriu em seguida. Ele gritou algo em francês para o resto dos presentes e quatro pessoas comemoraram e deram risadas, levantando os copos metálicos. olhou curiosa para Eliah - Acabei de informar que uma Azikiwe veio nos visitar. Os que levantaram as mãos são Azikiwe também. - soltou uma risada alta, levando Keyla a rir também.
- Vamos jantar, doutora. - A nativa guiou pela fila do bandejão. A comida parecia boa, pensou Azikiwe ao colocarem raízes selvagens, torta de frango e alguns legumes em seu prato - Você veio em um bom dia, é o único em que temos massa fina desse jeito.
- Isso aqui está muito bom. - mal conseguiu terminar de orar pelo alimento antes de devorar a torta e as raízes, gemendo de felicidade. Alguns médicos haviam se juntado à ela e Keyla e conversavam sobre as rotinas dos animais e dos próprios funcionários, mostrando à os horários que deveria acordar e quem a acompanharia durante as semanas que estaria ali. A médica se mostrou inegavelmente feliz ao saber que veria Eliah pelo tempo que estaria ali.
- Na verdade, um dos nossos colaboradores chegou hoje, ele pode te dar algumas dicas também. O que acha? - Eliah comentou enquanto acompanhava para sua estalagem. Os mosquitos pareciam comer os braços da veterinária, mas o vento era agradável e a companhia de Eliah também.
- Qualquer ajuda é bem-vinda! Preciso absorver o máximo neste tempo que passar aqui. - Eliah assentiu, sua pele contrastando contra a regata azul. não podia negar que o homem era bonito, além de ser extremamente charmoso.
- Vou tentar me fazer útil ao máximo. Nós temos um dia de folga por semana, então podemos ir até a cidade comprar o que quisermos, o que acha? Podemos te mostrar o que for possível da capital. - Quando finalmente chegaram ao cafofo de , ela pensou que queria continuar conversando, mas estava cansada demais para engatar uma conversa real.
- Eu adoraria! - Ela sorriu preguiçosamente.
- Você está cansada, não está? Vá dormir. Temos um dia cheio amanhã, doutora Azikiwe. - apenas assentiu.
- Eu acabei não perguntando, mas qual é sua especialização? - já tirava os sapatos na entrada da casa, copiando seu vizinho de casa que já tinha as janelas fechadas e os sapatos não estavam mais no tapete.
- Neurologista. Como os animais que vêm pra cá muitas vezes sofrem danos cerebrais por objetos, acabo sendo mais necessário por aqui do que em outros lugares. - escondeu um pouco o choque. Cada palavra que saía da boca de Eliah parecia tão segura. A médica teve certeza de que gostaria de conversar com o homem - Boa noite, doutora Azikiwe - e com um aceno, Eliah se dirigiu para o lado contrário do qual estava, mas uma parte de dentro de si torceu para que o homem fosse seu vizinho da casa de janelas fechadas.

*


25 de julho, terça-feira, República do Congo
Quando o relógio marcou sete horas da manhã, já estava de pé e pronta para ir tomar café - o único incentivo para acordar àquela hora. Dessa vez, a moça estava usando um short largo verde musgo com diversos bolsos, onde já havia guardado suplementos médicos de emergência e algumas barras de cereal. O barulho dos animais matutinos relaxou Azikiwe o suficiente para que mantivesse o bom humor.
Ao sair do quarto, não pôde deixar de bisbilhotar a porta de entrada da casa vizinha, mas agora havia uma janela aberta e nenhum tênis na porta. Talvez conhecesse a vizinha misteriosa?
- Bom dia, doutora. - Keyla já usava o equipamento mostrando claramente que iria alimentar os animais e se animou ao se voluntariar para ajudá-la - Claro, pode me encontrar na ala das aves daqui 40 minutos. Eliah pode te levar lá, se quiser.
- Seria adorável. - Keyla riu dos modos britânicos da médica. agradeceu e se dirigiu até o refeitório onde alguns funcionários comiam silenciosamente. A médica pegou a bandeja de comida com frutas, pão e leite e sentou-se em uma mesa mais afastada. Ao pegar o celular, parou novamente na mensagem que não havia respondido desde o dia anterior.
O contato de piscava diante dos olhos da médica, mas ela não sabia precisamente que ação tomar, até porque não estava acostumada com o que a fez sentir em apenas um encontro, talvez a luxúria que tenha preenchido seus olhos não fosse tão costumeira, mesmo que a mulher já houvesse tido outros parceiros antes, ainda sentia-se intrigada.

“Não estou na cidade. Fica pra próxima.”

Foi a resposta final de . Quer dizer, eles não deviam nada um ao outro, então não havia porque parecer fria daquele jeito. Ah, mas é tranquilo ele tentar te beijar e só mandar mensagem três semanas depois, certo? largou o celular em cima da mesa e se concentrou em coisas mais importantes, e definitivamente não era uma delas.
A médica já montava o relatório do dia anterior para mandar para sua superiora, . As observações estruturais e dos animais eram o foco do relatório, mas não pôde deixar as condições ambientais de fora e enquanto pensava nisso, não reparou em uma silhueta parada à sua frente, fazendo com que sua sombra dificultasse a visão da obstetra.
- Que coincidência, também não estou na cidade. - Os pelos das costas de se eriçaram vergonhosamente ao ouvir aquela voz. Azikiwe pensou ter ouvido errado, mas ao levantar a cabeça e fitar os olhos fixos de nos seus, teve certeza de que uma brincadeira de muito mau gosto estava sendo feita com ela.


Capítulo 3 - Aquele da Madalena

- O que faz aqui? - Foi a primeira coisa que conseguiu professar antes de Eliah aparecer rapidamente por trás dela sem que percebesse.
- Bom dia! - A voz animada do homem tirou a atenção de para si.
- Bom dia, Eliah. Você pode me levar ao recanto das aves? - Sua voz não passava de um sussurro, como se os pensamentos gritantes em sua cabeça abafassem sua voz.
O que ele fazia ali? Por que havia mandado a mensagem? Talvez já soubesse que estaria ali e queria apenas brincar com sua cara. Se fosse o caso, que brincadeira boba. Entretanto, precisou de um pouco de ajuda para não medir o homem da cabeça aos pés, então forçou-se a encarar Eliah.
- Pelo visto você conheceu o . Ele vai te deixar lá, se não houver problema. - apenas assentiu. Usaria o caminho até lá para descobrir o que o homem de olhos felinos fazia ali.
- Vai ser um prazer, Srta. Azikiwe. - abaixou a cabeça e deu um sorriso beirando a malícia.
- Doutora*. Doutora Azikiwe. - Eliah arqueou as sobrancelhas e alternou o olhar entre os dois, como se finalmente entendesse que se conheciam. apenas deu de ombros e colocou as mãos nos bolsos.
- Como quiser, doutora. - O silêncio caiu sobre os três pesadamente. encarou sua comida desconfortavelmente e resolveu colocar um fim naquilo.
- Preciso encontrar Keyla. - manifestou-se, cortando o contato visual - Vamos a pé? - assentiu fracamente ainda sem conseguir tirar os olhos da mulher.
- Qualquer coisa, é só me chamar. - A médica sabia que Eliah falava com ela, ainda tentando entender o que havia acontecido entre a médica e . Por fim, Eliah saiu do pavilhão para ir checar um dos gorilas que foi resgatado nas semanas anteriores, deixando e sozinhos.
A médica se dirigiu para a pequena estrada de terra sem ver se a seguia ou não. Ainda se lembrava do caminho que fizera de carro com Keyla. se colocou ao seu lado, deixando que seu perfume se misturasse ao aroma das árvores carregado pelo vento. Maldito homem cheiroso.
- Você parece tão mais pacífica. - Foi a voz calma e abafada pela máscara de que fez com que levantasse a cabeça para encará-lo.
- Não tem como não ser pacífico em um local desses. - sentia os olhos do homem sobre si, mas apenas ignorou. Os dois já enxergavam o recanto dos pássaros ao longe, deixando a mulher aliviada.
- Consegui te surpreender novamente, certo? - controlou o impulso de revirar os olhos e apenas o encarou sob o chapéu que usava.
- Não gosto de surpresas.
- Mas aparentemente gostou de saber que era eu seu date algumas semanas atrás. - As sobrancelhas da médica se arquearam em descrença.
- Você é realmente tão seguro de si? - O arquear de sobrancelhas de respondia claramente. A pele bronzeada do homem parecia começar a se avermelhar sob o sol, como se tivesse passado muito tempo no campo.
- Não é como se ser inseguro fosse melhor. - Arrogância, era isso que não conseguira detectar da última vez que se encontraram. O recanto se aproximava cada vez mais e só queria começar a correr, nem que precisasse parecer louca.
- Por que está aqui?
- O mesmo que você, , mas talvez por motivos diferentes. Eu sou membro frequente aqui da fundação. Sempre que posso estou aqui como voluntário, só não imaginava que você estaria aqui junto comigo. Coincidências, huh? - não caiu naquele papo vago, não mesmo. Sua curiosidade a consumia por dentro, assim como a agonia por não saber a verdade.
- Hm, ok. - sabia que não conseguiria mais nada se continuasse insistindo, tentaria descobrir de outras formas. A estrada de terra abriu para a direita, revelando uma enorme construção de aço espaçado, abrigo de diversos pássaros que surgiam por todos os lados e de diversas cores.
- Doutora Azikiwe, . - Keyla os cumprimentou ao abrir a pequena porta para que entrassem. Automaticamente, sentiu um bater de asas muito próximo de si e logo em seguida uma arara azul pousou em seu ombro direito - Conheça Luft. Ele sempre fica animado quando uma fêmea aparece, seja humana ou animal. - deu risada e encarou o belo animal empoleirado em seu ombro, as pequenas garras prendiam sua regata e o bico da ave estava enfiado no chapéu da veterinária. O sorriso não podia ser contido nos lábios de ao passo que pegou um pouco de ração da mão de Keyla e alimentou o animal, logo depois a ave saiu voando de seu ombro para se juntar às outras.
- Keyla, como estão os novos bicos? As feridas já foram tratadas? Precisa de mais alguma ajuda com eles? - desviou o olhar de um casal de Honeyguide para , que acariciava a cabeça de um Batis minor, se não estava enganada. Os braços levemente musculosos se abriram para que o pequeno voador passasse por sua extensão. deu uma risadinha e a encarou, mas a médica já havia voltado a atenção para um tucano voando entre as árvores.
- As rações deveriam ter chegado há quatro dias, mas estamos sem previsão. Os vendedores disseram que estão tentando vir o mais rápido possível. - ouvia mesmo que eles houvessem abaixado o tom de voz sob as máscaras. Sabia que não era correto ouvir a conversa dos outros, mas estava próxima o suficiente e não parecia ser nada demais.
- Vou dar uma olhada nisso, não se preocupe. - E ali acabou o papo sobre rações. pegou punhados da ração que Keyla havia lhe dado e terminaram rapidamente de alimentar todas as aves do recanto.
O sol já começava a brilhar com mais força, o chapéu de estava caído em suas costas e suor escorria no meio de seus seios. Não estava acostumada realmente com calor, então os 29 graus de temperatura a faziam ferver.
- Quer beber água, doutora? - perguntou ao jogar um pouco do conteúdo nos cabelos.
- Sim, por favor. - pegou a garrafa enquanto caminhavam para o próximo local que a mulher deveria visitar, a área dos tigres. Para chegar até lá, precisariam andar um quilômetro e meio. informou que o Jeep estava quebrado e os outros estavam sendo usados para outras atividades, então se colocaram novamente a pé - Obrigada pela água, não estou exatamente acostumada com tanto calor. - assentiu e jogou o resto da água por dentro de sua camiseta roxa, deixando seu corpo marcado. desviou o olhar, ainda sentindo a coleira que seu orgulho havia amarrado em seu pescoço apertar cada vez que se sentia tentada a olhar para ele.
- Você pode olhar, não tem problema. - apenas ignorou o homem.
- Quando chegou aqui? - A médica precisava desconversar aquilo antes que entrasse em um flerte do qual não conseguiria sair.
- Ontem antes do almoço. Você chegou umas duas horas antes que eu.
- Como sabe? - observava pequenos animais que corriam pela mata do lado esquerdo da estrada, deixando-a ainda mais relaxada.
- Eu te vi correr igual louca para o salão de embarque, meu voo partiu pouco tempo depois que o seu. - Os olhos arregalados de pareceram divertir , que caiu na gargalhada - Você estava desesperada, foi tão engraçado! - A médica deu um tapa no braço de , este a encarou divertidamente - Você que pagou mico e eu que apanho? Qual é a graça nisso?
- Eu estava cansada, só isso! Eu passei a noite anterior no plantão! E por que me dizer isso? - deu de ombros e parou a encarando de frente.
- Qual seria a graça em não te dizer? Piadas são feitas para serem compartilhadas. - cruzou os braços sob o peito, tirando os cabelos dos ombros suados.
- Não sou piada, por mais que realmente deva ter sido engraçado. - Ela se entregou levemente ao riso, deixando que o vento frio cruzasse o caminho dos dois, balançando os cabelos da médica.
- Não é todo dia que vemos alguém tão alta como você correndo por um aeroporto com um travesseiro de aliens no pescoço, sinceramente.
- Ok, sem abuso. - Os dois deram risada e voltaram a andar, as mãos raspando uma contra a outra e sem que percebessem, o ar parecia girar ao redor deles com uma sinfonia harmônica.
*Em alguns países sem ser o Brasil, o termo “doutor” é utilizado corretamente para se referir aos praticantes da medicina - também a veterinária - e para qualquer outra área em que o profissional possua o certificado de “doutor(a)”.

*


Uma semana havia se passado, mas ainda não sabia decifrar o que se passava na cabeça daquela mulher. Seus olhos procuravam os dela constantemente, buscando aquele brilho que tinham quando ela sorria abertamente. Durante aquele período, o jornalista se sentia mais tranquilo ali, em um local com uma recém controlada epidemia de ebola, do que os anos que passara em Londres na mansão com o pai.
Em momento algum havia perguntado o motivo de ter passado três semanas sem dar sinal de vida, mas não sentiu que poderia mentir para a bela mulher de pele escura e olhos vivos como jamais havia visto, então preferiu fingir que não havia acontecido.
- Não é possível em lugar algum que você considere o Capitão América melhor que o Homem de Ferro. - Os dois haviam entrado em uma discussão sobre HQs alguns minutos atrás e descobriram que divergiam muito sobre os heróis favoritos.
- O Capitão, além de ser um ótimo líder, veio de um lugar diferente do Tony, têm conceitos diferentes e vivências diferentes, mas Steve viu o pior da guerra! - A forma como os olhos de brilhavam ao falar das HQs fazia considerar acatar suas opiniões apenas para vê-la sorrir um pouco mais, mas não conseguia deixar seu próprio orgulho.
- Tony Stark teve a mente invadida por Thanos! Ele ficou preso no portal em New York! Não é possível que o Capitão, em pleno terreno, pudesse ter feito o que ele fez. - arqueou as sobrancelhas.
- Steve Rogers conseguiu se virar muito bem sem o Homem de Ferro, Spider ou Hulk por muito tempo, não acredito que poderia ser vencido por alguns aliens, ele daria um jeito. Além do mais, são os Vingadores, jamais deixariam que lutassem sozinhos. - E ali acabou a discussão, quando Keyla e Eliah correram até os dois completamente ofegantes, mas os olhos estavam focados na médica sentada à sua frente.
- Doutora Azikiwe, acabou de chegar um tigre-do-sul-da-China! Ele está fraturado e com três balas alojadas entre as patas traseiras e o estômago. - Os olhos de se arregalaram ao se levantar do banco em que estava sentada, preparando-se para correr ao lado dos dois, dando instruções rápidas e experientes, como se já tivesse feito aquilo milhares de vezes. Ela deu uma última olhada para antes de disparar porta afora para encontrar o animal.

*


- Preciso de uma sala de cirurgia e um anestesista, agora! - ditava ordens em inglês conforme checava a pressão da fêmea tigre-do-sul-da-China. Como o animal havia parado ali, ela ainda não sabia, mas observava as pupilas dilatadas do tigre, este já começava a demonstrar sinais de perda de consciência. A médica subiu com o animal e cinco funcionários da fundação em uma picape. Iriam até o centro cirúrgico localizado em um dos prédios dentro da fundação. Nunca havia visto um animal tão severamente ferido. O vento jogava os cabelos contra o rosto, o tigre rosnou jogando a cabeça pesada para trás. Chegaram rapidamente ao local, um anestesista já estava preparado na sala, disseram. subiu as escadas até o segundo andar correndo, amaldiçoando o fato do elevador estar no sexto andar.
- Doutora, a nossa outra médica está chegando, mas ainda está saindo da cidade. Você pode começar a cirurgia? - Uma enfermeira com sotaque extremamente pesado parou ao seu lado assim que saiu das escadas. observou o animal enorme deitado do outro lado do vidro que as separava.
- Posso. Vou me vestir, já têm a roupa preparada? Preciso que liguem para a médica responsável agora. Vou fazer a cirurgia enquanto converso com ela. - A enfermeira assentiu e levou a médica para se vestir e desinfetar antes de entrar na sala de cirurgia. Antes de cada operação de risco, orava e implorava pela vida do animal, e não foi diferente em outro continente.
Que Deus a ajudasse.

*


04 de agosto de 2017, sexta-feira, República Democrática do Congo
havia dormido por dois dias seguidos na UTI com a fêmea. Cada mudança respiratória deixava a médica preocupada, especialmente porque ela ainda estava fraca e poderia não sobreviver até o final do dia, mas se mostrou extremamente prestativo ao levá-la comida comprada na cidade e algumas roupas novas.
- Precisei entrar em seu quarto, mas não reparei na bagunça, não se preocupe. - Foi o único riso que havia sido arrancado da médica desde que havia terminado a cirurgia. Havia burburinhos sobre a chegada do animal à instituição, não sabiam quem havia largado o animal ali, apenas que uma picape sem placa havia jogado um lençol enorme no lado sudoeste da fundação, e ao conferir, acharam a fêmea aos urros que assustaram os pássaros empoleirados nas árvores. sentira tanta raiva após colocar o animal em observação, cada célula sua queimava quando pegava casos de maus tratos - Podemos achar quem fez isso, sabia? - tentou demonstrar otimismo, mas não era possível ao observar o animal enfraquecido na maca.
- Queria ir atrás de cada um desses homens e chutar o saco deles. - riu e pareceu dizer algo, ignorando em seguida - Está tudo certo? - O homem assentiu, mas pareceu distante.
- Preciso sair, volto mais tarde. Se precisar de algo, me ligue. - E assim, correu como vento, deixando e Madalena sozinhas. Madalena, pois havia sobrevivido ao apedrejamento.

*


05 de agosto de 2017, sábado, República Democrática do Congo
estava deitada em sua cama olhando para o teto, ainda sem conseguir dormir. Havia ligado para há pouco tempo e reportou os fatos ocorridos nos últimos dias, além de comentar sobre a presença marcante de .
- É incrível como o perigo te persegue, garota! Infelizmente, não temos jurisdição para trazer essa fêmea para cá, já temos nossa cota de tigres-do-sul-da-China, mas iremos enviar fundos para que cuidem especialmente bem dela, não se preocupe. - E não se preocupou, apenas acreditou na palavra da amiga. Em algum momento acabou dormindo, mas foi acordada por batidas na janela atrás de si. A espinha da médica se arrepiou e ela fingiu estar dormindo. Talvez fosse algum visitante perdido.
- , sou eu, . - O interior da mulher se esquentou e sentou rapidamente no colchão, abrindo um pedaço da janela para que pudesse ver o rosto do homem - Podemos conversar? - Sua voz não passava de um sussurro além das canções dos insetos. Havia apenas uma luz entre eles, que era a do celular de .
- Você não consegue ficar muito tempo sem me ver, não é? - Sua voz rouca e cansada se despedaçou na metade da sentença quando a encarou seriamente como nunca havia feito. Ok, parece sério - Você não pode ser visto, certo? - Ele assentiu. Talvez se arrependeria de deixá-lo entrar - Pule a janela logo, mas não se acostume. - O breu tomava o quarto de , a luz do celular havia parado de brilhar, e apenas a silhueta do homem podia ser vista no meio do escuro enquanto pousava graciosamente no colchão, como se já houvesse feito aquilo antes.
- Bonita camisola. - A voz baixa de invadiu o interior da mulher que apenas respirou fundo e chutou para longe o ímpeto de responder.
- Obrigada. Comprei na cidade. - deu uma risada rouca - Acendo a luz? - A negação veio em seguida, apenas respirou fundo. O que estava acontecendo? - Você vai me contar o que está acontecendo ou vai continuar apenas fazendo sinais?
- Preciso te fazer uma proposta. - A voz do homem saiu ainda mais baixa do que antes e finalmente entendeu o que estava acontecendo.
- Você não está pensando em transar comigo, está? - A sorte de é que estava tudo escuro, senão teria socado pela cara que havia feito.
- Você acha que esse é meu método de conquista? Invadir a casa de mulheres no meio da noite e pedir por sexo? Pelo amor de Deus, Azikiwe. Você deve ao menos me dar alguns créditos. - Antes que conseguisse responder, já havia sacado o próprio celular do bolso, deixando a luz boa o suficiente para que pudesse iluminar alguns papéis em sua mão e o próprio rosto.
- O que aconteceu?
- A aparição de Madalena não é um engano, não é apenas algum caçador que apareceu do nada e resolveu devolvê-la. Tem tanta coisa por trás disso, tanta sujeira.
- E como você sabe disso? Presumo que não tenha sido você o culpado, mas imaginava que isso fosse acontecer? - assentiu com a cabeça.
- Eu não vim até aqui para passear, Azikiwe, eu sou jornalista, estou investigando a corrupção entre grandes fundações de direitos dos animais, públicas e privadas. - Os olhos de se arregalaram em surpresa. Ela não esperava aquilo. Cada pedaço do rosto de revelava a verdade, percebia Azikiwe com o coração acelerado. Esquemas de corrupção.
- Você está investigando meu zoológico? - assentiu levemente com a cabeça - Encontrou algo? - O homem pareceu hesitar, como se debatesse se deveria contá-la ou simplesmente fingir que nada havia acontecido e queria apenas um booty call - Ok, deixamos essa para depois. Vou começar com algo mais simples… Como você se meteu nisso? - A voz dos dois não passava de um sussurro conforme sentavam no colchão. A conversa seria longa, pensou ao prender os cabelos em um rabo de cavalo, expondo ainda mais sua pele coberta por uma camada muito fina de suor devido às janelas fechadas.
- Eu sou produtor de documentários independentes e resolvi fazer um focado especialmente em fundações protetoras dos animais na Europa. Eu já era doador constante desta fundação, então consegui contatos fáceis já que já estava inserido neste contexto. - assentiu, pedindo para que continuasse. parecia pisar em ovos ao falar com a mulher - Pedi permissão a uma moça da administração de uma dessas fundações para me deixar dar uma olhada nos acúmulos bancários, precisava de um dado específico para bater com um que havia achado na internet, mas acabei achando documentos claramente errados em comparação com a informação passada pela empresa à mídia. Resolvi procurar mais e acabei achando um esquema de Caixa 2 entre três fundações, mas ainda é muito raso para que eu possa realizar uma denúncia formal, além de precisar de mais apoio político e midiático se quiser que isso funcione. - não deixou expressar nenhuma reação ao que o homem falava, mas a verdade era que seu coração batia como louco em seu peito, os músculos retesaram e a língua parecia anestesiada, não conseguia dizer nada. - Não tem nenhum comentário? - parecia ansioso, esfregando as mãos umas contra as outras. Os olhos pintados de dourado pareciam ainda mais brilhantes pela luz da lua que invadia o quarto, dando visão o suficiente de seu rosto.
- Eu estou processando tudo, mas eu só ouvi da sua boca, preciso de provas para poder acreditar nisso.
- Claro, imaginei. Trouxe algumas fotos e o dossiê de uma dessas empresas. Não espero que tome alguma providência brusca quanto a isso, mas eu confio em você, confio que quer o melhor para os animais, vi isso quando se esforçou para salvar aquele tigre, vi em você o que não vejo nesses caras.
- Eu não sei o que dizer, . - E não sabia, de verdade.
O dossiê parecia fogo do inferno em suas mãos geladas, os olhos percorreram o papel pardo e as mãos travaram ao abrir o primeiro documento, um daqueles era igual ao do zoológico, um dos documentos que pedira para entregar ao chefe da fundação, e havia entregado sem ao menos saber do que se tratava - Isso é loucura demais… Se isso tudo for verdade, tantas instituições estão envolvidas em esquemas corruptos mundiais. Você tem noção da bomba que tem em suas mãos? - A voz de era um sussurro perplexo ao começar a pensar em possíveis cenários que compunham aqueles documentos em suas mãos, além de outros que já tinha.
- Sim. Sei que vai ser difícil, estou coletando essas informações há um ano, mas estou ainda na superfície, tem muito mais sujeira. A sua ajuda seria bem-vinda, . Essa é a minha proposta, tentar desmascarar todos esses nomes sujos antes que os próprios animais sofram com isso. Acha que estamos sem ração por puro azar? - tentou esconder o lampejo de choque ao perceber que notara que estava ouvindo a conversa com Keyla mais cedo - Sim, falamos propositalmente perto de você. Estão desviando dinheiro dos cuidados dos animais para esquemas criminais.
- Isso é informação demais para processar, . Meu Deus, isso é informação demais. - Os olhos da médica passavam dos documentos em suas mãos para o homem sentado a pouco espaço de si, sem saber exatamente como reagir. fazia parte daquilo? - Por isso você foi falar com , não foi? Por isso saiu comigo também? Já fazia parte dos planos de vocês me colocar nisso, não fazia? - A compreensão atingiu - Por isso você não mandou mensagem? Por que não adiantaria falar comigo se não fosse sobre o plano de vocês dois? - não conseguia parar de falar, cada pedaço se encaixava perfeitamente em sua mente, como se um grande quebra-cabeças estivesse formado e ela conseguisse ver o plano maior - Você sequer estava perdido quando me encontrou aquele dia no zoológico? - não respondeu, mas não precisou da resposta, sabia apenas ao olhar para o homem que não desviou o olhar, mas engoliu em seco - Saia, por favor. - Sua voz saiu baixa, mas tão séria quanto poderia ser. Achava que nunca havia estado tão séria na vida - Não fale comigo até que eu processe cada parte do que você me disse, não finja que me conhece, porque claramente está errado se achou que eu gosto de ser usada dessa forma. - assentiu e se levantou do colchão, abrindo a janela e colocando a cabeça para fora para ver se havia mais alguém ali.
- Nenhuma parte do nosso encontro foi fingida para tentar te induzir a concordar com isso. Eu falo sério quando digo que pedi para sair com você porque queria te conhecer melhor, mas não consigo negar que queria ver se era realmente apta para o lugar que gostaria que você ocupasse e agora, mais do que nunca, tenho certeza que te quero no meu time. - A voz de era tudo o que ouvia, não teve coragem de se virar para olhá-lo nos olhos, não quando sentia a traição de zunindo em seu ouvido - Assim como sei que acertei ao te contar, porque sei que não vai falar para ninguém sobre isso, porque você é ética e é sensata. Seja sensata quanto a isso. Voltamos para Londres em dois dias, se quiser conversar antes disso, estarei aguardando. - Ao finalizar, saiu pela janela e sumiu na noite escura, deixando a mulher sozinha na casa com seus pensamentos.
ligou o celular, três horas da manhã. Será que poderia ligar para àquela hora? A mulher merecia, merecia tantos xingamentos, tantas ofensas, mas resolveu analisar o que tinha em mãos, aprendera isso com os pais logo cedo: analise o que tem, saiba do que se trata, então argumente com propriedade.


Capítulo 4 - Aquele do 'Sim'

se sentia péssimo. Os músculos estavam doloridos pela tensão, pelo olhar de confusão, choque e dor que havia lançado a ele. Talvez ele tenha começado aquilo de forma errada, não deveria tê-la chamado para sair e tentado beijá-la no final, mas nenhuma parte dele se arrependia daquilo. As costas tatuadas estavam nuas quando deitou-se na cama e não conseguiu dormir pensando nas informações que precisaria absorver sozinha em um quarto escuro. Pensou em ligar para a amiga, , mas receberia xingamentos aos montes por tê-la acordado, com certeza.
A opção que sobrou ao homem, era deixar que cenários fossem criados em sua mente, cenários em que o entregava para o dono do zoológico e acabava na cadeia; ou em que ela se juntava a ele para desmascarar os corruptos. Talvez alguns outros cenários tenham se misturado àquele, mas tentou focar-se no problema atual, sendo distraído rapidamente pela imagem de de camisola pérola em sua frente, tão perto que podia sentir o calor que emanava dela, tão perto que poderia tocá-la facilmente. Os pelos do braço se eriçaram e ele precisou andar pela casa escura para tentar tirar os pensamentos da cabeça cheia, mas a imagem constante daquela mulher enchia sua mente, os cabelos jogados nos ombros, a clavícula livre de tecido, as coxas grossas expostas, até a merda da alça da camisola largada no antebraço o deixava louco, droga. balançou os ombros e resolveu tomar banho, não havia outra opção naquele momento além de deixar a água fria lavar seus desejos para longe.

*


não estava no pavilhão como nos últimos dias quando se encontravam para conversar e comer. imaginou que a médica estaria com Madalena na UTI, já que a noite anterior havia sido decisiva para saber se o animal viveria ou não. Ele ficou tentado a ir até a unidade, mas precisava dar espaço para , precisava deixá-la tomar sua decisão por conta própria e não seria útil de modo algum, talvez até a deixasse mais ansiosa e frustrada. O jornalista comeu rapidamente e foi se encontrar com Eliah e Keyla, e conversavam ao alimentar os enormes gorilas. Os mais novos brincavam entre si, rolando no chão e se jogando na água.
- Qual foi a reação dela? - Keyla foi a primeira a perguntar.
- Com certeza não foi a melhor, pela cara dele. - Eliah provocou e fez um gesto obsceno para o amigo.
- Realmente, não foi a melhor, mas eu esperava pior. - Eliah deu risada e jogou um pé de alface inteiro para o maior gorila.
- Esperava que ela saísse te denunciando por aí?
- Esperava que ela me batesse. Azikiwe parece muito forte, acho que ficaria seriamente machucado. - Keyla deu risada, mas concordou.
- Você não tem chance, ela luta jiu jitsu. - riu e voltou a ajudar os amigos a alimentar os gorilas. Os três seguiram de volta para o pavilhão do refeitório às 11 horas, depois de alimentarem todos os animais que precisavam ser alimentados. Quando chegaram ao pavilhão no horário do almoço, já estava sentada e almoçando, além de parecer falar com alguém ao celular e não parecia feliz com aquilo.
- Cara, você está muito ferrado. - Eliah deu tapinhas nas costas de e se dirigiu para a fila praticamente vazia. Todos ali almoçavam bem cedo. Keyla se separou dele também, deixando-o sozinho como um bobo ao encarar . A mulher captou seu olhar, mas não o fuzilou, não mostrou o dedo, nada, contudo havia uma calma sombria em seus olhos como se soubesse de uma tempestade que estava chegando e não queria compartilhar a informação com ninguém. Ela era a própria tempestade se formando na direção de .

*


balançou os pés enquanto esperava atender a ligação.
- Quando esperava me contar sobre essa palhaçada? - Foi a primeira coisa que disse quando a amiga atendeu o telefone animadamente.
- , não devemos falar disso agora.
- Não, não iremos. Vamos falar disso quando eu voltar, você vai me pagar um jantar no restaurante mais gostoso de Londres e vai abrir uma garrafa de vinho só para mim, porque eu mereço. - não riu, sabia que falava sério e que não fazia aquilo como suborno ou chantagem, mas sim porque era o acordo delas sempre que a outra estava chateada, verdadeiramente chateada.
- Combinado, . Te espero daqui três dias, te busco na sua casa. - E assim a ligação acabou, rápida, mas que prometia uma conversa cheia de perguntas. observou parado perto da porta do pavilhão, encarando a jovem com curiosidade mortal. Ele que fique olhando.
se levantou do banco e se preparou para voltar ao hospital. Madalena estava estável, mas precisava deixar a médica informada sobre tudo o que estava acontecendo. A médica local havia chegado tarde no dia da cirurgia de Madalena e precisou voltar para a capital, teria que realizar uma cirurgia, havia dito. A mulher pegou as chaves do Jeep com Keyla e foi até a clínica, mas a mente viajava para as informações que havia soltado na noite anterior.
Ela estava trabalhando em um local que estava sendo investigado por corrupção, mas o que garantia que e não eram tão corruptos quanto os outros? A mente de doía desde o dia anterior, não conseguia dormir sem imaginar os olhos de dizendo que deveria sair com , a amiga nem mesmo piscou ou vacilou, ela mentira com tanta facilidade, essa foi a parte assustadora.
A médica pensou em ligar para , mas não era seu direito contar o que estava acontecendo, não quando nem mesmo ela processara o que havia acontecido, e foi com o coração acelerado e a cabeça latejando que passou o dia inteiro no hospital cuidando do único ser que merecia verdadeiramente seu tempo.

*


08 de agosto de 2017, terça-feira, Londres
O voo de volta havia sido tão ruim quanto o de ida, concluiu ao pousarem em Londres novamente. estava três poltronas atrás, pronto para sair do avião, mas mal conseguia se levantar sem sentir a cabeça girar.
Os dois precisaram passar oito horas juntos, desde a saída da fundação até o embarque no avião, mas havia restringido a conversa às informações sobre o voo, o que cada um queria comer e apenas. Não queria falar com o homem, não queria lidar com aquilo no momento, mas durante o voo, de madrugada, logo após uma turbulência que fez com que não conseguisse mais pregar os olhos, ela resolveu pegar os documentos e analisá-los mais uma vez, cruzando com alguns dados que tinha ouvido de reuniões e visto em outros documentos, além de ir atrás das empresas - as quais ela descobriu, sem muita surpresa, serem fachadas - que não reconhecera nos documentos.
O interior de revirava enquanto a ficha caía de verdade e ela percebeu que um dos possíveis motivos para as apresentações circenses nos parques não fosse um favor do dono, mas talvez um modo de mascarar pagamentos. Quando terminou de ler a papelada, já sentia o peso do cansaço triplicar em seus ombros. Ela realmente corria em direção ao perigo sem nem ao menos hesitar.
- Vamos, doutora Azikiwe? - ofereceu a mão, a qual ela aceitou. Não estava preparada para lidar com tudo aquilo, mas começou a prestar atenção no ponto de vista de e e entendeu, em partes, seus motivos, mas não entendia a ligação ou o motivo de se importar com tudo aquilo. Podia ser um justiceiro ou algo assim.
ajudou a pegar suas malas e não falou com ela até colocá-la dentro de um Uber para casa. Talvez o rosto inchado e sem cor de indicasse que ela realmente não estava bem o suficiente para conversar, seja lá sobre o que fosse.
- Quer que eu vá com você? - Perguntou o homem à , a mulher negou com a cabeça e logo em seguida abriu a porta do carro e vomitou um líquido amarelo perto dos pés de na calçada - Ok, não é mais questão de querer, precisamos ir a um hospital. - tentou reclamar, tentou negar e dizer que poderia se virar sozinha e ele deveria ir ao inferno com todos aqueles problemas, mas ela não teve forças.
- Devo mudar a rota? - Perguntou o motorista do Uber olhando descaradamente para os bancos tentando medir se o vômito de Azikiwe havia atingido o seu carpete ou não.
- Sim, por favor. - entrou no banco de trás e deixou que deitasse a cabeça em seu ombro - Qual o endereço do hospital mais próximo?

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10 de agosto de 2017, quinta-feira, Londres
- Não acho que ela tenha desmaiado pela notícia, não se preocupe. - A mulher extremamente séria colocou gentilmente a taça sobre a mesa de vidro e se recostou novamente na cadeira. conseguia sentir a tensão em seus ombros, os nós dos dedos mostravam o nervosismo incontido, não paravam quietos.
- Também acho que ela não vai contar a ninguém. Pelo o que eu percebi, ela é realmente íntegra. - se levantou da cadeira já que não conseguia conter a ansiedade dentro de si, então começou analisar os livros na estante de , passando os dedos nas lombadas amareladas pelo tempo de existência de cada um daqueles clássicos da literatura inglesa.
- Não tenho dúvidas quanto a isso, mas eu entendo o porquê de ela não querer falar com você, , talvez até comigo. - A voz de era macia e controlada, como se mergulhasse em uma calmaria profunda e centrada da qual nem mesmo o amigo conseguiria tirá-la - Ela descobriu que trabalha em um ramo muito mais caótico e corrupto do que ela imaginava, não é de se estranhar que ela tenha essa reação, você teve a mesma quando descobriu tudo. - Ele não gostava de falar daquilo, não gostava de relembrar toda a sujeira que havia descoberto.
- Sim, eu sei. Ela foi trabalhar hoje? - balançou a cabeça em negação.
- Deixei que ela ficasse até amanhã em casa, a mãe dela disse que ela dormiu até ontem de madrugada. - O silêncio recaiu sobre a sala, apenas os pássaros passando pela janela de eram ouvidos.
observou o tapete branco estendido pela sala, o lustre de cristais que ele mesmo havia dado para a amiga quando esta se mudou para Londres, mas parou seu olhar nas fotos dos dois quando eram pequenos, e outra do pai de e o pai de sentados em uma mesa, rindo e conversando.
- Você fez uma manobra arriscada, sabia? Chamá-la para sair e fingindo encontrá-la por acidente no zoológico. - virou o tronco para encarar a mulher.
- Precisava arriscar, . - Ela assentiu e se levantou, colocando-se ao lado de . Os dois começaram a encarar as fotos de família, as memórias de anos atrás foram surgindo.
- Eu sei que você fez isso sem a intenção de machucar minha amiga, , mas eu não queria colocá-la no meio disso, entretanto foi necessário. Só quero que ela saia com a mesma integridade de quando entrou, então guarde o que você tem dentro das suas calças, não estrague tudo, ouviu? - o encarava furtivamente, mas ele não se deu o trabalho de retribuir o olhar.
- , prometo manter meu pênis no meio das minhas pernas até o final da vida, você sabe. - A amiga deu uma risada e ele pôde sentir o revirar de olhos.
- Você é um babaca, Crawford. - O homem seguiu a risada da amiga, os dois tornaram a sentar nas cadeiras e colocou um dossiê enorme entre os dois - Informações novas e atualizadas. Liguei para um dos meus amigos do jornal, preparei o terreno, mas não disse nada relacionado ao escândalo. - assentiu e continuou a analisar as contas bancárias, as fotos que ele mesmo havia tirado alguns meses atrás nas reuniões - Vamos precisar acionar a Inteligência Britânica, sabe disso, não é? Senão vão acabar nos descobrindo e aí sim o circo pega fogo. - cruzou as mãos sobre a calça jeans e abaixou a voz como se um agente federal fosse invadir sua casa e levar toda a preciosidade em suas mãos - Eu sei o quanto isso é sério para você, , mas não podemos deixar nosso orgulho entrar na frente do que é certo, foi assim que tudo isso começou.
- Você está certa, mas não podemos deixar que isso caia nas mãos de corruptos tão fortes quanto eles, . Como podemos confiar na Inteligência quando são homens também?
- Nós também somos homens, . Precisamos confiar que tudo vai dar certo. - suspirou e balançou os cabelos com as mãos.
- Vamos lidar com isso depois, ok? Por enquanto eu só quero ir dormir. Vou para casa, tenho uma reunião com uma prestadora de serviços de stream.
- Não pense demais na , . Ela pode se virar sozinha, é mais forte do que eu e você juntos. - assentiu e deu as costas para a amiga, deixando o prédio para trás ao começar a andar pela rua, mas não pôde deixar de pensar na mulher de cabelos volumosos que torcia para passar a ser sua nova colega de profissão.

*


- Mãe, pode ir para casa! O papai vai começar a me culpar por estar dormindo sozinho nestes últimos dias! - fechou a porta da geladeira com o pé e correu até a chaleira, preparando um chá forte para a mãe.
- Eu sei, eu sei! Vou assim que você sair para trabalhar, filha. Tenho compromissos também, sabia? Não estou aposentada. Vou dar uma palestra hoje à noite, preciso preparar alguns slides antes de ir. - Okoye se sentou à mesa e começou a comer bolinhos e broa que havia trazido de casa. sentiu o estômago roncar ao ver as comidas, apenas colocou alguns bolinhos em uma sacola, despediu-se da mãe e correu para o carro antes que se atrasasse.
O corpo estava revigorado, ela precisava admitir, não havia cansaço a rondando como nos últimos dias, não havia e seus segredos enquanto estava sendo paparicada pela mãe, não havia drama adulto. Ela estava em paz. Mas tudo isso, claro, antes de chegar ao trabalho.
- Bom dia, doutora Azikiwe! - A recepcionista de cabelos vermelhos a cumprimentou com um sorriso - Está se sentindo melhor?
- Estou sim, obrigada. Tem alguma coisa para mim? - A mulher desapareceu sob o balcão e voltou com uma caixa e alguns envelopes em mãos.
- São para você. Ah, e dra. pediu para ir à sala dela.
- Obrigada. - E assim levou aqueles pacotes até sua pequena sala, mas não se incomodou em abri-los, precisava ir até os tratadores. O som dos animais acordando, as folhas de início de outono começando a se mostrar, fizeram com que Azikiwe relaxasse ainda mais. Cumprimentou os tigres que a lamberam e brincaram com a médica um tempo depois de comerem. Até Linda estava lá novamente, mas estava isolada dos outros, já que ainda era agressiva com os tratadores.
- Estamos fazendo o melhor, mas ela se sente ameaçada sempre que vamos dar comida. - Um dos tratadores disse com certa tristeza na voz. já o conhecia e sabia que estava lá há anos, então era o mais próximo de todos os tigres.
- Vamos com paciência, exatamente como você tem feito. Estamos pensando em colocá-la em um projeto de reintegração dos animais da África. Vamos tentar colocar alguns tigres criados em campos na natureza novamente. - O tratador assentiu, deixando que a conversa fluísse mais um pouco antes de Azikiwe seguir até os animais aquáticos.
- Ora, ora, vou desmaiar e conseguir alguns dias de folga também. - A voz de fez com que se virasse para a amiga - Que foi, menina?
- Estava com saudades. - As duas se abraçaram e passou as mãos nos cabelos de .
- Você estava no Congo, eu estava aqui cuidando de crianças e animais, eu estava com saudades de ter alguém com quem desabafar - riu e passou os braços ao redor do ombro da amiga.
- Você já cuidou dos seus bebês aquáticos? - assentiu com a cabeça e olhou para as árvores.
- Semana passada uma tartaruga morreu, mas não houve reposição dos animais, então estamos tentando fazer com que um casal se reproduza, até que está dando certo. - ouviu a amiga falar sobre os animais, mas sua mente voou longe, para um par de olhos vibrantes e lábios que pediram uma resposta sobre o que lhe havia sido proposto - Você está viajando, . - A mulher virou a cabeça para a mais velha, dando um sorrisinho amarelo de desculpas.
- Desculpa, Jan. Estava pensando em Linda. - se sentia péssima em mentir, mas não estava pronta para contar o que realmente havia acontecido na viagem.
- Algum progresso com a fundação? - se limitou a encarar os primeiros visitantes do zoológico.
- Largaram um tigre-do-sul-da-China na frente do portão da fundação, precisei realizar uma cirurgia de emergência. - arregalou os olhos e parou a amiga.
- Ele não estava catalogado entre os últimos do mundo? - balançou a cabeça em negação - Tráfico de tigres, é isso? Droga, queria ter ido. - encarou a amiga, mas deu de ombros.
- Não temos um laudo oficial, até porque fui embora antes que terminassem a apuração, mas parece que há alguma quadrilha que faz tráfico desses animais no Congo, não apenas de gorilas. - ignorou o frio que subiu por sua espinha - É bem mais sério do que eu imaginava.
- O animal sobreviveu? - suspirou de alívio ao ver a amiga assentir fracamente.
- Três balas e vários sinais de tortura. Ela vai ser uma das primeiras no processo de reintegração assim que estiver melhor. Vamos, quer dizer, vão colocá-la junto com outros tigres primeiro.
- Espero que prendam essas pessoas, . E logo. - O olhar de raiva no rosto da amiga foi o suficiente para sentir o estômago revirar e sua mente puxá-la para o outro lado, para a sala de .
- Jan, esqueci algo lá em cima. Nos vemos mais tarde? - assentiu com a cabeça e mudou a direção, indo diretamente para a sala da amiga e chefe.

*


- Pode entrar! - A voz abafada de fez-se ouvir após bater algumas vezes na porta - ! Achei que não viesse tão cedo. - Não havia julgamento ou desconfiança em sua voz, apenas uma ponta de arrependimento que fez questão de demonstrar ao se levantar e aproximar-se da amiga - Você está melhor?
- Sim, dormi bastante. - deu uma risada baixa.
- Deve ter muito o que perguntar. - Ah, você não tem ideia, pensou Aria.
- Eu aceito, . - Os olhos da amiga se arregalaram e ela arqueou as sobrancelhas.
- O quê?
- Eu aceito fazer parte do seu esquema com . Aceito ir atrás de mais informações e colocar esses caras na cadeia ou que se tornem pelo menos vergonha nacional. - assentiu e deu um sorriso que não chegou aos seus olhos.
- Você tomou essa decisão por conta própria? - conteve o impulso de fazer uma careta.
- Acho que sou grande o suficiente para tomar minhas próprias decisões, chefe. - O rosto de era imparcial, uma das barreiras mais complicadas de quebrar, percebera assim que encontrou a chefe pela primeira vez, dois anos atrás.
- Eu confio na sua decisão, , só quero garantir de que ela não foi tomada por raiva ou drasticamente. Não é como se essa situação toda fosse um parque de diversões, estamos falando de crimes internacionais. - apenas assentiu com a cabeça e cruzou os braços sob os seios.
- Minha decisão continua a mesma. Não quero me vingar desses homens pela sujeirada que eles fazem, quero dar aos animais condições reais para viverem, quero que essas máfias sejam desestruturadas. Eu não poderia ligar menos pro destino desses homens, eu só quero os animais livres; eles não têm culpa se o ser humano é um lixo. - arqueou a sobrancelha e deu uma risada sincera.
- Ok, . Vamos nos encontrar hoje na minha casa depois do trabalho, preciso te apresentar o que temos em mãos até agora e te informar como pode ser útil daqui pra frente. - assentiu. O coração batia com tanta força que a mulher podia ouvi-lo, cada parte de seu corpo pedia por mais adrenalina, ela queria fazer mais e queria fazer logo.
- Ok, combinado. Mais alguma coisa? - hesitou e caminhou até sua mesa, evitando o contato com a amiga.
- Preciso saber o que acontece entre você e , . - estava preparada para aquela pergunta.
- Nada, nada é o que acontece entre nós dois. Se existia algum indício de desejo carnal que fosse, acabou no momento em que ele me usou para me colocar no meio disso. - deu um sorriso sarcástico e mirou aqueles olhos claros para a amiga, a boca vermelha se fechou em uma linha fina logo em seguida.
- Nada? Não parecia nada disso, não com as descrições que Eliah me deu. - mudou o peso de um pé para o outro e levantou o queixo.
- Quando a minha vida passar a ser da conta do Eliah, você pode começar a confiar no que ele diz, até lá, o que eu sinto, o que eu penso, é da minha conta e meu veredito. Essa é a minha condição, não quero que esse plano invada a minha vida pessoal. - levou as mãos ao alto em sinal de rendição e deu um riso.
- Eu amo a sua personalidade, . - deu uma piscadinha para a amiga, retribuiu com um sorriso.
- É, eu também.
e se despediram rapidamente, tendo a primeira voltado ao trabalho com os tigres. Algumas horas depois, passou o almoço inteiro encarando a amiga, como se visse algo diferente.
- Por que você está desse jeito? - A mais velha não conteve a curiosidade. tirou os olhos da macarronada e encarou a amiga.
- Desse jeito? Como assim?
- Seus ombros estão totalmente tensos. Você não estava assim antes de entrar na sala da , e ela não está almoçando com a gente hoje, por falar nisso. - apenas deu de ombros.
- Falamos sobre burocracia e meu plano de reintegração falhou miseravelmente com os animais aquáticos. - O que não era de todo mentira, a reintegração das focas falhou, havia dito antes de sair da sala. suspirou e encarou a parede atrás de .
- Não sei quanto tempo mais vou aguentar ficar aqui. - largou o talher no prato e encarou seriamente a amiga, era a primeira vez que falavam desse assunto.
- Você está procurando outro emprego? - encarou todos ao redor, mas o refeitório estava barulhento pelas conversas animadas dos médicos e tratadores.
- Estou procurando em outro país. - O choque não passou despercebido no rosto de . iria realmente sair do zoológico? O rosto de se contraiu, assim como seus ombros.
- Você já conseguiu, não conseguiu? - sentiu o ar sumir um pouco de seus pulmões quando a amiga assentiu com a cabeça - Onde?
- México. Entrei em contato com alguns laboratórios, eles fazem pesquisas marinhas e acabaram me contatando mês passado, não dei nenhuma resposta ainda, mas estão ficando impacientes. - assentiu, mas não sabia o que dizer além disso. Não havia o que dizer.
- E como vai fazer com a mudança? Seu marido, seus filhos? - suspirou, ela parecia ter pensado muito naquilo.
- Meu marido é tradutor, ele não vai ficar sem emprego, mas meus filhos são os que me preocupam, tenho medo da mudança ser assustadora demais. - A mais velha passou a mão sobre os cabelos sedosos e os jogou para trás do ombro em seguida. não pôde deixar de notar o quão séria e madura ela parecia em sua frente. Ela havia tomado sua decisão, percebeu , apenas não estava pronta para realizar.
- Você tem todo o meu apoio, . Eu só quero o melhor para você, mesmo que o melhor seja longe de mim. - parecia querer chorar, mas se controlou e limitou-se a sorrir em agradecimento.
- Preciso respondê-los até amanhã à tarde, vou te avisar assim que tomar uma decisão. - assentiu e as duas comeram em silêncio o resto do tempo. iria para o México, pelo visto, e também seguiria uma nova etapa em sua vida, iria se juntar a uma gangue, ou qualquer outro nome que fossem dar e tentaria colocar alguns deles na cadeia. No que ela havia se metido?

*


- Wow, o conceito de hoje é “vestida para matar”? - riu quando a mediu de cima a baixo.
- Vou sair depois, vou a um lançamento de livro. - A porta do apartamento de foi aberta e percebeu que nunca havia entrado no recinto da amiga e chefe. O hall se abria em três compartimentos, a cozinha, a sala de estar e um corredor maior que parecia ligar os quartos. A luz fraca do ambiente fez com que fechasse um pouco os olhos.
- Pode seguir em frente, vamos para a biblioteca. - As duas seguiram para o corredor maior que abria para uma escada lateral, ouvia o som dos saltos contra a madeira ecoar por todo o perímetro - Vire aqui, isso. - A mais nova arregalou os olhos ao ver o tamanho da biblioteca de . As quatro paredes eram cobertas por estantes lotadas de livros, um lustre pendia no meio do cômodo. Havia quatro poltronas e um divã púrpura sobre um tapete branco.
- Wow, isso aqui é enorme! - Logo em seguida, uma pequena porta foi aberta no corredor e um vestido de smoking caminhou em direção às duas com um sorriso enorme no rosto.
- Olá, damas. E aí, como estou? - O homem deu um giro. apenas gargalhou e estalou a língua no céu da boca.
- Já teve dias melhores, . - O apelido saiu tão naturalmente da boca de , eles dois pareciam muito amigos.
- Ah, você só diz isso porque é invejosa. - repousou seu olhar em e sorriu. Os olhos dourados mediram a médica de cima a baixo, parando na coxa levemente exposta pelo vestido.
- Fico feliz que tenha se reunido a nós. Tomou a decisão sensata, então? - se sentou em uma das poltronas e encarou a amiga.
- É, pelo visto sim.
- Sentem-se, vocês dois. Precisamos agilizar isso, vocês têm lugares importantes para ir. - encarou novamente e precisou usar toda a sua força para não procurar o contorno dos lábios carnudos, mas era difícil com o cheiro do homem impregnado em cada canto do cômodo. pegou uma enorme pasta de documentos e entregou à , que sentiu o peso sobre suas mãos, fazendo-a arquejar.
- Caramba, isso aqui é o dossiê? - assentiu enquanto a amiga abria na primeira página, deslizando os dedos sobre as letras digitadas. Cada informação era lida por com incrível atenção. Imagens de políticos e donos de empresas apareciam conforme os olhos folheavam as páginas preenchidas por dados bancários, fotos e observações pessoais - Meu Deus, minhas roupas são dessa empresa! - deu uma risada seca, fazendo com que levantasse seu olhar. Ele estava a encarando com aquele mesmo brilho felino que naquela madrugada em que havia invadido seu quarto.
- Vire a página. - Os olhos de se arregalaram ao ler as informações seguintes.
- Eles vendem pele de animais para a indústria de roupas? Não, eles mantêm uma empresa que faz a separação da pele e da carne para o tráfico. - O choque que percorria o rosto da mulher parecia ter deixado os outros dois desconfortáveis.
- Não fazemos isso por reconhecimento próprio, . Só quero que saiba disso. - A mulher mal conseguia levantar a cabeça para , apenas continuava folheando cada página e absorvendo cada informação. O que será que o Green Peace acharia daquilo?
- O que preciso fazer primeiro? - e se encararam.
- Primeiro, precisamos que converse com os tratadores do zoológico, vamos começar aos poucos. Como você já deve ter desconfiado, aqueles shows de mágica não são cortesia de ninguém, são esquemas para cobrir gastos efetuados em propina e lavagem de dinheiro, precisamos conversar com os tratadores, saber se eles têm alguma informação valiosa sobre a vinda do dinheiro ou quem é o dono do espetáculo, já que não consegui. - Lysandra comentou sucintamente.
- Vejo o que consigo fazer. Como passo as informações para vocês? - tirou um celular do bolso e o entregou para .
- Pode usar esse telefone quando estiver se sentindo em perigo ou quando achar que algo vai dar errado, apenas nestes casos. Faremos reuniões semanais em locais diferentes, mas a casa de é como nosso QG, já que é bem protegido. - guardou o celular na bolsa brilhante e voltou a encarar os dois.
- Ok, mais alguma informação? - batucou com os dedos contra a pele exposta do antebraço.
- Precisamos te dizer quem mais está conosco. Eliah, Keyla, , e mais outros cinco que estão espalhados pelo mundo. A equipe de filmagem do documentário de não sabe. - A mente de parou de entender o que havia sido dito após o nome de ser mencionado. claramente pegou a deixa, porque respirou fundo.
- Ela entrou no nosso esquema há um mês. Ela já falou com você sobre o emprego no México, não é? O principal motivo de ela querer aceitar, é porque é mais fácil para conseguir informações, além de ser o mais longe possível se algo acontecer por aqui. - sentiu vontade de gritar e espernear. A amiga também havia mentido? - Não fique brava com ela, . Da mesma forma que você não se sentiu no direito de contar a ela que havia entrado para esse esquema, ela não se sentiu também.
- Estou apenas um pouco chocada, nada demais. - A mente da médica trabalhava a mil por hora, cada pedaço de si procurava informações que a ajudassem a pegar deixas de quando teria demonstrado estar enfiada naquilo tudo, mas não achou nada. - Preciso ir, . - assentiu com a cabeça e se levantou para levar a amiga até a porta.
- Eu te levo até lá, . - se prontificou, colocando-se na frente da médica.
- Não precisa, . - O vestido de oscilava em sua visão quando a luz da lua batia nos adornos brilhantes, ela sentia o olhar do homem em cada pedra antes de pousar os olhos nos seus.
- Eu insisto.
- Ok. Mas você também tem um lugar para ir, não vai se atrasar? - negou enquanto pegava a chave do carro em cima da escrivaninha.
- Meu compromisso começa em três horas, ainda tenho tempo. Além do mais, bailes são sempre um saco. - Baile? Isso explicava a vestimenta.
- Vamos indo, então. Até amanhã, . - As duas amigas se despediram com um abraço sincero. De repente as pernas de estavam fracas sobre o salto, ela se sentia confusa e tentava conectar as partes que faltavam em sua memória, falhando miseravelmente. estava enfiada naquilo tanto quanto ela, deve ter tido as mesma dúvidas e inseguranças quanto àquilo, talvez ainda houvesse.
a guiou até o Jeep em silêncio, ao entrarem no carro, o jornalista ligou o rádio e deixou que a música clássica preenchesse o silêncio.
- Pode colocar o endereço no GPS, por favor? - pegou o celular da mão de , colocando rapidamente o endereço da casa no navegador, logo em seguida o devolvendo para seu acompanhante. Além de Tchaikovsky, nenhum som se propagava no pequeno cubículo, mas foi rápido em acabar com aquilo - Você está muito bonita, sabia? - Ah, pronto.
- Obrigada, você também não está nada mal. - deu uma risada gostosa e a encarou de canto antes de acelerar o carro pelas ruas de Londres.
- Estou inseguro, talvez devesse mudar de roupa? - deu um risinho o olhou novamente, avaliando-o de cima a baixo. Os olhos da mulher pararam em seu pomo de Adão, descendo para os braços marcados pelos músculos sobressalentes, indo para as coxas e se perdendo no pedal do carro - Wow, depois dessa secada, tenho certeza que estou maravilhoso. - O rosto da mulher corou.
- Você poderia me dar um pouco dessa autoestima, que tal?
- Pra que você precisa da minha autoestima quando se é bonita desse jeito? - arqueou a sobrancelha e virou a cabeça para encarar o rosto de fixo no trânsito em sua frente.
- Você me acha bonita? - Um sorriso brincou nos lábios de , ele a encarou demoradamente ao pararem em um semáforo e deu um risinho baixo.
- Você sabe a resposta.
- Gosto de ouvir, acho que aprendi isso com você. - O jornalista a encarou rapidamente antes do semáforo abrir.
- Eu te achei bem mais bonita de camisola, mas está igualmente deslumbrante. - Um arrepio cruzou o corpo de .
- Não vamos ignorar que você pulou a janela, invadiu o meu quarto naquela noite. Não romantize a invasão de privacidade. - A risada alta de invadiu o carro, sobressaindo o ato final que tocava no rádio.
Ao chegarem no local do lançamento do livro, arqueou a sobrancelha e deu um sorriso cínico.
- Você é elitizada, então? Lançamento de livro em mansão? Deve ser algo bem especial. - olhou para o smoking de com incredulidade.
- Você quer falar sobre elitização, ? Sério? Você vai a um baile.
- Touchée. - riu e se preparou para sair do carro quando segurou levemente seu pulso - Quer carona para casa? - A mulher se sentiu tentada a negar, mas não era sempre que conseguia uma carona tão facilmente. Além do mais, a companhia de havia sido incrivelmente agradável.
- Pode ser. A que horas acaba seu baile? - olhou para o horário no celular em suas mãos.
- Assim que você me mandar mensagem. Não se incomode em me ligar, talvez deixe alguns dos velhos com quem vou socializar com inveja por eu ter alguém para buscar. - se despediu de com um aceno e só soltou a respiração quando o carro sumiu na esquina seguinte.

*


- Mendel, há quanto tempo! Parabéns pelo livro! - abraçou o amigo com força e Mendel abriu um sorriso enorme, os olhos azuis e a pele alva se destacavam sob a luz amarelada do salão de baile onde uma enorme mesa cheia de livros se estendia. O local estava cheio, alguma música pop tocava ao fundo e garçons passavam com taças de champagne e suco, tudo estava combinando com a personalidade de Mendel.
- Obrigado, meu bem! Fico feliz que esteja aqui, você é uma das minhas musas, afinal de contas. - deu um sorriso tímido. Os cabelos vermelhos do amigo estavam impecáveis e possuía um olhar tão energético que fazia querer sair pulando e dançando, como se estivesse perdendo muito tempo ao ficar parada ali. Mendel a puxou de lado quando uma fotógrafa apareceu com a câmera em mãos, dois flashes depois e se via solta pela casa. Não se sentia confortável em eventos daquele nível. O vestido prata brilhante com uma abertura enorme nas costas coçava em alguns pontos, mas ela ignorou a coceira ao ir para o bar cheio e cercado de dançarinas exóticas. Mendel realmente sabia fazer uma festa. O bartender deu um sorriso para ao vê-la e a mulher retribuiu.
- Uma água com gás, por favor. - Os olhos de passaram ao redor do enorme cômodo no qual se encontrava, analisando os rostos felizes, fosse pela bebida ou não, e os corpos que se moviam no salão. Não havia ninguém realmente dançando, pareciam se divertir mais em fofocas que sentia nojo em ouvir. Durante anos, Azikiwe frequentou festas como aquela por conta de seus pais e sempre odiou cada parte daquele circo todo.
- Aqui está. - O bartender colocou o copo com a bebida na frente de , a médica pegou a água e se pôs a andar pelos corredores largos, parando para observar as pinturas cubistas nas paredes brancas impecáveis. A cabeça da mulher se inclinou levemente para a esquerda, checando cada forma geométrica mostrada através das pinceladas do artista.
- Se você olhar por muito tempo, acaba ficando sem sentido, não acha? - se assustou ao olhar para o lado e ver uma figura masculina se aproximar. O homem de cabelos castanhos e olhos escuros deu um sorriso para a médica, seu rosto lhe parecia muito familiar.
- Não poderia concordar menos, quanto mais observo, mais fascinada eu fico. - Os dois voltaram a encarar a pintura, mas havia uma pulga atrás da orelha de Azikiwe.
- Sou o Erasmus Stone. - Um clique na mente de a lembrou do dossiê de , o rosto lhe era familiar pois ele estava lá - E a senhorita? - O sorriso de Erasmus se direcionou para o decote de que precisou conter as mãos para não jogar o resto da bebida no rosto do homem.
- Azikiwe. - Ela estendeu a mão, a qual o homem pegou e deu um beijo leve sobre a palma. recolheu a mão rapidamente e deu um sorriso amarelo.
- Está acompanhada, srta. Azikiwe? - enxergava a malícia por trás daquele sorriso, era o mesmo com o qual aparecia na foto, os braços ao redor de duas prostitutas - claramente drogadas -, o rosto vermelho e um cigarro de maconha em mãos. Azikiwe lembrou das anotações acerca dele, era o filho do dono de uma pequena rede de açougues e desconfiavam que eles misturassem carne de aves silvestres do norte da África ao frango, vendendo as penas em seguida. Um arrepio percorreu todo o corpo de . Talvez pudesse fazer algo, conseguir alguma informação, uma chance daquelas não cairia em suas mãos novamente, precisava apenas seguir ao plano mental que havia criado e não estragar nada.
- Não, não estou. - A médica forçou o melhor sorriso que podia, estufando ainda mais os seios, algo que pareceu agradar Erasmus.
- Odiaria te deixar sozinha, aceita me acompanhar? - assentiu e se pôs a andar pelo corredor. Ela conhecia aquele tipo de homem, sabia que tinha sede de poder, mas gostava de ser controlado secretamente, nunca na frente de seus companheiros já que isso diminuiria a sua credibilidade. Puf, homens e seus egos maiores que a cabeça - Nunca te vi nos eventos de Mendel, é nova no círculo?
- Festas não são o meu forte. - Azikiwe sentiu alguns olhares sobre si e Erasmus, mas apenas ignorou e sorriu de lado para o homem - Mas parece ser o seu. - Erasmus sorriu e se aproximou ainda mais do corpo de . Ela podia sentir o cheiro do perfume invadir seus sentidos conforme se dirigiam para a varanda no final do corredor.
- Como sabe?
- Está bebendo uísque, tem dois botões abertos da camisa e está completamente relaxado, como se estivesse acostumado com o ambiente. - Erasmus mordeu o lábio levemente e piscou para .
- Gostei de você. - O vento frio atingiu o corpo de e ela resmungou. A varanda mostrava o pátio em sua frente, rodeado por árvores de copas baixas e uma pequena fonte no meio dos arbustos, a água era esguichada por dois querubins de expressões singelas nos rostos petrificados. A mente de estava agitada, precisava ir com calma e fazer as perguntas certas - Está tremendo de frio, pegue. - Os ombros foram cobertos por um tecido confortável. pôde observar as tatuagens de Stone sob a camisa branca e os músculos dos braços pareciam fugir das mangas apertadas.
- Obrigada, Erasmus. Posso te chamar assim?
- Claro, claro. - terminou sua água rapidamente e apoiou os cotovelos contra o parapeito da varanda, Erasmus repetiu o ato.
- O que você faz além de ir a festas e abordar mulheres admiradoras da arte? - O homem riu e se virou para encarar a médica.
- Sou herdeiro de uma cadeia de açougues, a Stone Fridges, você deve conhecer. - fingiu indiferença, mas assentiu.
- Deve ser legal, digo, poder ser dono de algo assim. - Erasmus suspirou.
- Nem sempre. Tomar decisões não é fácil. - Ele tomou um grande gole da bebida em suas mãos. Interessante - E você? O que faz quando não está em festas que não gosta? - Ele conseguiu mudar de assunto, mas seria estranho para voltar àquele anterior sem levantar suspeitas.
- Sou herdeira de uma clínica veterinária. - Ela não estava mentindo, a clínica de seus pais era sua herança, mas não pensava em herdá-la como médica responsável, talvez como administradora. Os olhos de Erasmus oscilaram um pouco, percebeu . Ele agia como os predadores do zoológico, estava analisando e medindo suas próximas palavras.
- Você não se incomoda em estar perto de um, tecnicamente, açougueiro? - Sim, sim, sim, estou muito incomodada, pensou Aria agitadamente.
- Negócios são negócios. - deixou que a mentira escorresse por seus lábios, tomando forma no sorriso de Stone.
- Você está certíssima. - Erasmus se aproximou perigosamente do corpo de . Ela engoliu em seco, mas deixou que ele colocasse a mão ao redor de sua cintura.
- Eu estive te observando desde que botou os pés nesta casa, gostaria de te conhecer melhor, se possível. Quer dar o fora? Festas são realmente um saco, mas com a companhia ideal, uma festa a dois pode ser mais divertida. - O hálito de bebida cobriu o sussurro contra a orelha da médica. Ela precisava sair dali, seu limite de espiã amadora havia chegado ao fim. Aquilo era o pedido de sexo mais sem vergonha que já havia recebido.
- Minha carona está chegando, desculpe. - Stone sorriu contra a orelha de , mas não se afastou.
- Não posso te provar que sou uma boa companhia? - sentiu o interior revirar, mas virou o rosto para encarar os olhos que a fitavam. inclinou um pouco mais o rosto e deu um beijo no canto dos lábios de Stone que hesitou por um segundo, tempo o suficiente para que ela se afastasse e sorrisse timidamente.
- Vou ao banheiro, já volto. - sentia o olhar feroz do homem atrás de si queimar contra suas costas nuas. O salto da médica ecoava em seus ouvidos até que entrasse esbaforidamente no banheiro, colocando as mãos na pia. O sobretudo queimava em seus ombros e ela o retirou, jogando-o sobre o divã dourado na parede. pegou o celular da bolsa, pensou em usar o de emergência, mas não queria assustar .
- Alô? - A voz do homem soou pelo telefone enquanto abria as portas das cabines. Não havia ninguém ali, ainda bem.
- ? - Sua voz não passava de um sussurro, como se Stone pudesse ouvi-la.
- Você se incomoda se eu for aí e te fazer companhia? O baile estava um saco e não achei quem eu estava procurando.
- Por acaso essa pessoa é Erasmus Stone? - Uns sons estranhos foram ouvidos, mas ignorou.
- Sim, como sabe? - A voz desconfiada de ecoou pelos ouvidos de , ela ergueu o pescoço como se fosse enxergar Stone do outro lado da porta.
- Estou com ele, Erasmus quer me levar para beber! Droga, , eu quase beijei ele! - xingou baixo e sua voz se afastou do microfone por um tempo.
- Fique parada aí, estou chegando. , não saia dessa casa por nada. - A voz alarmada de incendiou o interior da médica, ela não sabia o quanto poderia enrolar antes de Stone desconfiar que ela havia pulado pela janela do banheiro.
- Eu vou me virar, . Só traga esse seu traseiro para cá rápido antes que eu acabe socando o rosto dele. Se não me achar no térreo, estarei no banheiro feminino do segundo andar à esquerda. - A risada de ressoou e não pôde evitar um sorrisinho. Droga.
- Ok, 10 minutos e chego aí, já havia saído da festa mesmo.
- Estou te esperando. - desligou a chamada e se encarou mais uma vez no espelho. Os cabelos crespos estavam mais cheios, os olhos estavam arregalados e os lábios vermelhos estavam inchados pelas mordidas que havia lhes dado, mas se sentia deslumbrante naquele vestido, ela estava deslumbrante e precisaria ter isso em mente antes de sair para encontrar Erasmus e jogar sua dignidade no lixo. A cabeça da mulher pendeu para o lado, seu corpo não era padrão, mas deixaria que todo o seu manequim 44 entrasse no jogo e não para perder - Você consegue, . - Seus passos a guiaram para a porta do banheiro, pegou o terno e antes de sair, ela já sabia que Erasmus a esperava do outro lado do corredor com os braços cruzados. Um sorriso escapou dos lábios do homem quando olhou para os dois lados do corredor, conferindo o fluxo de pessoas. Não havia ninguém ali, todos estavam concentrados no discurso que Mendel estava dando no andar de baixo, ela deveria estar assistindo àquele discurso. Ela o chamou com o indicador, encostando os ombros na parede, sentindo o choque do frio e do quente em sua pele. Erasmus se aproximou devagar, um sorriso cheio de luxúria estampou seu rosto de feições fortes.
- Você me deixou esperando. - Ele sussurrou ao colocar as mãos ao redor da cintura de , roçando os polegares contra suas costas. A boca de Erasmus se dirigiu até a orelha da mulher e ele deu uma risada que fez com o que o corpo da médica arrepiasse inconscientemente de nojo. Ela segurou as alças do cinto de Stone para evitar que as mãos tremessem, mas ele entendeu como um incentivo e encostou sua pélvis a dela colocando o joelho entre as duas pernas de . Ela deu um sorriso falsamente manso e calmo antes de dirigir sua boca ao pescoço de Erasmus, soltando uma risada quente contra a base de sua orelha - Acho que a espera valeu totalmente a pena. - assentiu fracamente, mas empurrou o corpo do homem para trás ao observar um vulto passar no corredor ao lado. Ela sorriu envergonhadamente para Erasmus, mas ele não pareceu notar.
Azikiwe virou as costas e entrou no banheiro, Stone a acompanhou imediatamente, mas ao entrarem no recinto, ele não foi cuidadoso como no espaço exterior. Suas mãos puxaram os quadris da mulher para si, segurando a base de suas costas e descendo sua mão para cintura, seus lábios atacaram o pescoço de . A médica sentiu os dedos dos pés se curvarem de nojo, mas deixou que ele continuasse com os beijos descontrolados até sua clavícula, fingindo um eventual gemido baixo.
Os olhos de Erasmus encararam os de e ela não conseguiu desviar quando os lábios se encontraram no beijo mais violento que ela já havia recebido. Ele não era paciente, muito menos deixou respirar antes de bater com as costas da mulher na parede e continuar atacando seus lábios vermelhos. Ela apenas se deixou levar, não precisaria fazer aquilo durar muito mais, pensou, mas os pensamentos a levaram para as coisas horríveis que aquele homem deveria ter feito, os esquemas proibidos, a lavagem de dinheiro, corrupção, prostituição, tudo aquilo a enojou demais, então ela apenas tentou empurrar tudo aquilo para o fundo da mente e puxou o corpo de Stone mais perto com a perna direita, seguindo o beijo apesar de tudo. Quando ela se viu novamente imersa em pensamentos, desejou que fossem os lábios de um homem de cabelos enrolados e olhos felinos que estivessem beijando-a e se odiou por isso. Odiou-se por querer beijar mesmo depois do que ele havia feito. De repente, a porta se abriu, mas os lábios de estavam amortecidos demais pela agressividade que mal conseguiu virar o pescoço para encarar quem havia entrado.
- Sua desgraçada! Eu te chamo para uma festa e você me trai na cara dura? - precisou disfarçar o alívio em seu rosto ao encarar um transtornado na porta. A médica levou um tempo até processar o que estava tentando fazer. Wow, ele atuava muito bem.
- Do que você está falando? Nós não temos nada! - Ela empurrou Erasmus para trás, o homem parecia meio perdido até que finalmente entendeu o que estava acontecendo - Saia daqui! - Boa, . Continue assim, daqui a pouco vai poder estrear uma telenovela mexicana. bufou e encarou Erasmus com nojo.
- Sai daqui, palhaço. Tenho contas a ajustar com essa vagabunda. - o encarou realmente chocada. Entrariam naquele jogo de xingamentos, de verdade?
- Eu faço a porcaria que eu quiser, seu merda. Eu estava me divertindo com ele muito mais do que me diverti com você. - Erasmus arregalou os olhos, mas começou a se afastar do casal, passando por trás de rapidamente. Covarde - Hey, Erasmus, te vejo por aí. Vamos repetir o que aconteceu aqui hoje. - Ela piscou confiantemente para Stone antes que este saísse voando pela porta.
- Você vai ver o que eu vou fazer com você, Azikiwe! - se aproximou da porta e gritou alguns xingamentos antes de virar para a mulher e dar um sorriso largo. - Somos bons atores, não? Aquela rejeição? Genial. - Os dois trocaram um high five antes que realmente lembrasse o motivo de estar ali - Ele te machucou? Meu Deus, você está sangrando! - As mãos de Azikiwe se dirigiram aos lábios e se assustou ao ver a quantidade de sangue que estava impregnada em seus dedos.
- Droga, ele parecia um monstro me beijando, pelo amor de Deus. - Ela pegou um papel e o apoiou contra os lábios. O estômago ainda revirava com o gosto da bebida na boca de Erasmus e a sensação de suas mãos em seu corpo a deixavam extremamente desconfortável, iria se livrar daquele vestido o mais rápido possível.
- Você parecia entretida no beijo, levando em conta o tamanho da ereção dele, ele também estava feliz demais. - só conseguiu dar uma risada fraca e encarou pelo espelho iluminado.
- Eu estava contando os minutos pra que você chegasse, . Eu reprisei todas as temporadas de Suits na cabeça, acredite. - O jornalista jogou a cabeça para trás e riu alto, deixando que os ombros se movimentassem junto.
- Você é uma mulher difícil de agradar, pelo visto. - Ela deu de ombros jogou o papel higiênico no lixo antes de pegar outro para limpar os restos de batom que haviam ido parar em sua bochecha, de alguma forma. se aproximou mais de e usou a barra da manga do smoking para limpar seu pescoço molhado, logo em seguida um pedaço mais alto na bochecha da mulher que ela não havia visto. Os olhos da médica seguiram os movimentos de , deixando que o papel em sua mão pendesse ao lado do corpo - A única coisa que me irrita é aquele babaca ter tido a chance de te beijar antes que eu, você poderia reservar uma atuação dessas para mim. - riu e parou de tocar o rosto da médica.
- Você pode guardar essas informações para si, . Eu não vou te beijar, não depois de tudo o que aconteceu. - Ele deu de ombros e colocou as mãos no bolso da calça.
- Nem você acredita nisso, mas pode continuar fingindo por quanto tempo quiser. - As sobrancelhas de se arquearam e ela se aproximou um pouco mais de , passando as unhas por seu pescoço.
- Você vai precisar ralar muito, querido . - O apelido saiu quase como um rugido da boca de . Os olhos de a fitaram com o mesmo olhar que Linda a lançava quando era hora da comida. Que Deus a ajudasse.
- Ok, vamos ver. - Foi tudo o que ele disse antes de abrir a porta do banheiro e sair, olhando nas duas direções antes de puxar o braço de - Ele está no fim do corredor, finja que está sendo arrastada, ok? Não vamos levantar suspeitas de que foi tudo armação. - assentiu e começou a bater nos ombros de conforme saíam do banheiro, ele a arrastando pelo corredor largo até as escadas. Todos já haviam voltado a seus parceiros de festa. colocou as mãos nas costas de e ela precisou ignorar a queimação onde a mão encostava, mas o seguiu escada abaixo para a porta da frente. Mandaria uma mensagem para Mendel mais tarde.
O valet trouxe o carro rapidamente e , ainda com o rosto de raiva atuada, abriu a porta do carro para , fingindo jogá-la lá dentro e deu a volta pela frente. O valet mais novo parecia chocado com a cena, mas não pôde fazer nada. A médica se sentiu mal pelo garoto, mas precisou conter a risada quando entrou no carro e acelerou pela avenida já quase vazia àquela hora. Quando já não se encontravam às vistas de qualquer um da festa, deixou que a risada saísse incontida de seus lábios machucados.
- Meu Deus, você viu a cara daquele menino? - deu uma risada fraca e assentiu.
- Acho que vou receber uma intimação de violência contra a mulher amanhã na minha porta. - fez uma careta - Como diabos você acabou com ele, falando nisso? Eu fui ao baile para encontrá-lo.
- Pelo visto ele curte festas regadas a bebidas de verdade, não apenas champagne. - revirou os olhos e a encarou de relance.
- Você também bebeu, não? Não acho que teria beijado aquele cara sem álcool no sangue. - negou e abriu o espelho sobre o seu assento, deixando os olhos percorrerem os lábios ainda mais inchados.
- Eu vou pagar mais tarde pela sobriedade. Não sei exatamente como dei a sorte de encontrá-lo, mas o reconheci do dossiê e resolvi tirar uma casca dele, fiz errado? - negou com a cabeça, mas parecia sério.
- Se fosse alguém que já sabia desse tipo de risco, eu consideraria algo normal, mas seu primeiro contato com essa gente foi assim, fiquei com medo de que algo pudesse acontecer e…
- E eu fosse estragar o seu esquema? Fique tranquilo, eu dei minha palavra. Além do mais, como você acha que eu sobrevivi tanto tempo perto de gente como Erasmus, sendo apenas gentil e carismática? - Ela deu uma risada amarga e virou o rosto para a rua.
- Não foi o que eu quis dizer, . Jamais desconfiei que fosse entregar nosso esquema, mas não tem como não me preocupar com o que ele poderia fazer com você. - Ela não virou o rosto para encará-lo novamente, mas respirou fundo e deixou que a paisagem passasse por seus olhos rapidamente.
- Eu sei me cuidar, sabe disso, não é? Eu luto, sou uma mulher adulta e consigo me defender. Nunca precisei de alguém cuidando de mim além do meu amigo lá em cima, não acho que eu vá precisar agora. - permaneceu em silêncio por um tempo antes de suspirar.
- Desculpa por tudo, . Não quis mentir para você ou te enganar, só estava fazendo o que achava que era o melhor, foi a forma que encontrei. Me arrependo amargamente por ter feito as coisas daquela maneira, mas não me arrependo porque foi isso que te trouxe aqui. - virou para encarar e arqueou a sobrancelha. As expressões fortes de estavam marcadas pelas luzes da rua, ele estava sério e desviou um pouco o olhar para encarar Azikiwe.
- Ok, está perdoado, mas se eu descobrir que está escondendo alguma merda desse tipo de mim, vou te caçar até o final do mundo e te encher de socos. - riu descontraidamente e estalou a língua no céu da boca. Ela só podia estar ficando louca.
- Não farei mais isso, , não se preocupe. - Ela assentiu, deixando que as palavras de se tornassem verdades para si. Acreditar era a única opção que restava.
- Como foi o baile? - deu de ombros e batucou com os dedos no volante.
- Um saco. Meu pai, quer dizer, ah, foi um saco. - o encarou, mas não quis fazer mais perguntas acerca de seu pai. havia ajustado a postura rigorosamente, como se houvesse uma presença perto de si que sussurrava em seu ouvido que deveria se portar daquele jeito.
- Meus pais amavam ir a essas convenções sociais, eu sempre odiei.
- Qual é a graça de ouvir gente fofoqueira fofocando sobre idiotices? - concordou. Os dois pararam no restaurante Nando’s e pegaram lanches para viagem. A médica olhou para e mordeu os lábios antes de resmungar de dor.
- O que acha de conversarmos um pouco sobre essa história desse esquema político digno de Scandal antes de eu ir para casa? Não tenho que trabalhar amanhã e você? - a encarou antes de iniciar o carro.
- Você está me chamando para sair? - revirou os olhos colocou uma batatinha na boca.
- Se não quiser, tudo bem. Pode me deixar em casa. - riu e roubou uma das batatas da médica.
- Eu quero, claro que sim. Preciso realmente te deixar a par de tudo o que está acontecendo. Espero que não tenha toque de recolher. - arqueou a sobrancelha antes de comer outra batata. a fitou inteiramente mais uma vez antes de rir consigo próprio e ligar o motor do carro, mas só conseguia pensar no sentimento de felicidade genuína que começava a surgir em seu peito conforme cruzavam Londres ao som de risadas e Sacerdotes Domini.


Capítulo 5 - Aquele do QG

12 de agosto de 2017, sábado, Londres
não conseguiu se concentrar em nada além das estampas na parede de seu quarto. Não havia uma parte de si que levantaria daquela cama no momento. Suas costas estalaram e ela se espreguiçou ao virar de barriga para cima, fitando o teto azul. A noite anterior havia sido divertida, ela precisava admitir, mas ainda sentia-se tão cansada que mal podia piscar direito sem que a cabeça doesse.
Depois de sair da festa com , levando em conta que ainda era cedo, os dois foram até um dos pubs irlandeses favoritos de e ali passaram a noite toda conversando. segurava a cauda do vestido de para que ela não tropeçasse sobre os enormes homens rindo e admirando as costas nuas da médica. não havia bebido, o que havia surpreendido em níveis que sua mente alegre não poderia processar, entretanto ela ficou feliz por ter alguém sensato e sóbrio perto de si, especialmente quando puxou briga com um marmanjo de quase um metro e 90 de altura.
- Você quer acabar com o rosto roxo? - a encarava diretamente nos olhos enquanto ela sentia os olhares dos outros homens sobre si no bar. não conseguia tirar os olhos de , nem quando o mesmo marmanjo provocava a médica, mas ela não conseguia pensar naquilo, apenas nos olhos vibrantes que a encaravam e prometiam um sermão digno de sua mãe.
- Melhor ouvir seu homem, dona. Ele te domou certinho, pelo visto. - pareceu extremamente estressado e soltou os ombros de .
- Você pode simplesmente ir pro seu canto e parar de falar tanta merda. - A resposta de despertou a atenção do dono do bar que assistia de perto da cozinha, provavelmente se preparando para chamar os seguranças. sentiu o enjoo tomar conta de si e colocou as mãos pesadas sobre os ombros de .
- Estou me sentindo mal. - Crawford a encarou preocupado, era o que lembrava, pôs a mão sobre sua cintura e a levou para fora do bar, ignorando os valentões que brindavam e riam atrás deles. Babacas - Eu preciso voltar lá e acabar com a raça deles, . - Azikiwe rebateu enquanto a deixava dentro do carro. Ele deu uma risada ao colocar a cauda do vestido próximo à perna de .
- Você precisa saber quando lutar, Azikiwe. Havia sete deles lá dentro e o dono do bar provavelmente era parente do maior, eu não arriscaria. - o encarou exatamente como havia feito pouco tempo atrás e sorriu.
- Isso é o que faz um bom lutador, certo? Socos e chutes nem sempre são úteis quando não se tem essa mente enoooorme que você tem. - A médica começou a rir e bagunçou os cabelos de . Ele não pareceu realmente incomodado com isso.
- Vou te deixar em casa, vamos. - Ele deu a volta no carro e sentou-se ao lado de Azikiwe. Depois disso, não se lembrava de tanta coisa, talvez tivesse dormido e babado como uma idiota, mas não se importava, não quando sua cabeça doía e as pedras brilhantes do vestido a incomodavam.
- Eu nunca mais vou beber. - Ela resmungou enquanto tentava se sentar com as pernas cruzadas sobre a cama.
passou as mãos no rosto e sentiu dificuldade ao piscar, provavelmente era a quantidade de rímel seco que estava acumulado. A médica se levantou e tirou o vestido imediatamente, deixando que sua pele nua respirasse, havia diversos pontos vermelhos em sua pele misturados entre marcas do vestido e o beijo de Erasmus na noite anterior. Azikiwe passou as mãos no pescoço e resmungou ao abrir a geladeira e sentir o frio arrepiar toda a sua pele exposta. Pegou uma garrafa de Coca-Cola inteira, um pacote de chocolate no armário e pediu um hambúrguer extremamente gorduroso pelo aplicativo de entregas. Sua primeira refeição do dia era digna de repúdio fitness. A médica se sentou no sofá da sala e deixou que os olhos se fechassem gradativamente até que ela se encontrasse em um estado de imobilidade total, sentindo a corrente de vento contra seus seios, os braços e as pernas; a sensação não poderia ser mais revigorante.
conseguia se desligar facilmente do mundo ao redor, respirar fundo e então emergir em uma realidade de sensações sem que seus pensamentos tumultuados a importunassem. Um bipe do seu celular a despertou, fazendo com que a médica xingasse e pegasse o celular a contragosto. O nome de brilhava na barra de mensagens, automaticamente ela deu um sorriso preguiçoso e abriu a conversa.

“Avise se não estiver bem! Deixei almoço pra você na portaria do seu prédio, espero que não se incomode com isso.”

arregalou os olhos e se arrependeu amargamente em seguida, sentindo a cabeça latejar pelo movimento brusco. Ela se levantou do sofá e correu até o interfone do apartamento ligando para o porteiro, o moço confirmou a história. colocou um pijama e desceu até a portaria encontrando uma sacola do Nando’s embrulhada ali.
- Um homem deixou aqui há pouco tempo, srta. Azikiwe. - O porteiro entregou a sacola em suas mãos e agradeceu rapidamente, voltando ao seu apartamento. Azikiwe abriu a sacola e encontrou o sanduíche que havia dito a ser o seu favorito, então cancelou a solicitação de comida pelo aplicativo e sentou-se na frente da TV, colocando uma série policial de comédia na Netflix, tirando novamente as roupas. Eu tenho minha casa, portanto posso andar pelada na droga da minha própria casa. Durante o episódio, encarou o celular de relance e resolveu responder rapidamente.

“Obrigada pelo almoço ;) foi bem melhor do que sair para comprar hahaha. Se quiser vir almoçar comigo um dia desses, está convidado.”

Simples. queria almoçar com e esperava que fosse mútuo. Ela começou a pensar que talvez não fosse uma má ideia estar perto de tanto quanto ela achava. se pegou pensando em como seria passar os dedos gélidos em seu cabelo e no beijo dele, mas balançou a cabeça e tomou mais um gole de seu refrigerante. Estava parecendo uma adolescente. A mensagem de resposta veio logo em seguida.

“Claro! Se houver sobremesa, melhor ainda ;)”

soltou uma risadinha, bloqueou o celular e voltou a passar a tarde em sua própria companhia, deixando que seu corpo quase se tornasse parte do sofá, mas mesmo assim foi uma das melhores tardes que já havia tido em meses.

*


14 de agosto de 2017, segunda-feira, Londres

- Você pretendia me contar sobre tudo isso antes ou depois de se mudar para o México? - foi surpreendida pela amiga enquanto arrumava as injeções dos animais.
- te contou? - assentiu com a cabeça e cruzou os braços, fitando com todo o cinismo que tinha dentro de si - Desculpe, não era meu direito te falar. Não é como se você tivesse corrido para me contar, de qualquer forma.
- Eu sei, não estou brava nem nada, só queria saber quando você ia me contar que estamos no mesmo esquema. - olhou novamente ao redor, mas não enxergou ninguém no laboratório. fechou a maleta prateada e encarou Azikiwe com seus grandes olhos escuros, deixando que seu olhar invasivo percorresse cada centímetro do rosto de .
- me contou o que houve sexta à noite, foi perigoso. Ele fez alguma coisa com você? - As informações se espalhavam rapidamente.
- Não, não fez. Eu deixei que me desse algumas bitocas, mas nada além disso. Precisava comprar tempo até chegar.
Tempo. Tudo o que tinha era tempo, ela pensara nisso durante o final de semana. Tempo era crucial para o esquema deles, mas ela nunca teve um bom timing com quase nada, isso era preocupante.
- Eu quase soquei a cara de quando ele disse que te colocou em um Uber e não te deixou em casa, ele deveria ter te levado! - O quê? - Você estava bêbada o suficiente para não se lembrar de nada? Que babaca! E desde quando você bebe? Você raramente coloca álcool na boca! - A confusão nos olhos de foi substituída por compreensão rapidamente. não havia dito toda a verdade sobre o que acontecera naquela noite, afinal de contas.
- Eu cheguei bem. E eu só bebi duas cervejas, você sabe que sou fraca demais com bebida, por isso não bebo. - segurou a maleta nas mãos e se levantou do banco alto em que estava sentada, deixando sua altura contrastar com a de . Por que havia mentido sobre o destino final deles naquela noite? Será que tinha vergonha ou simplesmente queria respeitar o momento de ? Talvez fosse por egoísmo, seres humanos são tendenciosos.
- Quer vir comigo aplicar as vacinas ou tem algo mais importante? - deu de ombros e seguiu a amiga para fora do laboratório veterinário. Alguns dos pesquisadores sul-africanos haviam chegado na sexta-feira para realizar experimentos de fertilização in vitro com algumas espécies, Azikiwe estava ansiosa para acompanhar as pesquisas de perto, queria realizar uma pesquisa especializada acerca daquela área.
As duas amigas caminharam pelo farfalhar das folhas outonais cada vez mais aparentes, deixando os ombros de relaxados e seus olhos piscavam preguiçosamente devido à brisa que ricocheteava seus cabelos armados. Chegaram à ala dos animais aquáticos e ajudou a amiga a aplicar injeções nos pequenos animais, mas resolveu deixar os tratadores cuidarem melhor daquilo. Os animais eram mais próximos a eles do que de .
- Te vejo no almoço, . - se despediu com um aceno e voltou a caminhar pelo zoológico.
O local abriria em 10 minutos, mas Azikiwe não se sentia animada como nos outros dias. Observou cada jaula, cada cativeiro e se sentiu mal. Pensou em quanto dinheiro sujo havia sido investido naquele lugar, em quantas pessoas foram roubadas até que o zoológico fosse construído.
O zoológico, apesar de ser um local que deixasse levemente incomodada, precisava ser reconhecido como um espaço em que animais eram salvos, tratamentos contra doenças eram descobertas, além de pesquisas desenvolvidas para melhorar a qualidade de vida dos próprios bichos. Cada dia mais, sentia-se extremamente compilada a ir até o fundo com aquela organização, nem que fosse o mínimo para abrir uma investigação contra as máfias e corrupção.
A médica voltou seu olhar para os tigres que a encaravam silenciosamente, ela se virou para Linda e deu um sorriso meigo, aproximando-se da ala. Dali dois dias, seriam apresentados os filhotes de tigre aos mais velhos e estaria ali para fazer o acompanhamento. A vida animal era difícil, mas similar à humana. O mais forte sobrevive, o mais fraco se adapta da forma que pode.
se sentia como um fraco, precisando se esquivar dos problemas que insistiam em socá-la no rosto, entretanto sentia que a decisão que havia tomado de desmascarar os criminosos corruptos era como um teste final, sentia que tanta coisa mudaria ao ponto de não ser mais a mesma.
- Está divagando muito, Azikiwe. - apareceu ao seu lado e deu tapinhas nas costas da amiga. Ela usava um vestido turquesa esvoaçante por baixo do jaleco, acentuando ainda mais sua pele alva.
- Estou? Estava pensando sobre a adaptação dos filhotes de tigre. - assentiu e se pôs a encarar duas fêmeas brincando, soltando rugidos estrondosos.
- Está tudo bem? Digo, acerca do que aconteceu sexta? Achei perigoso ir até sua casa, especialmente porque Erasmus tem uma fama péssima de ir atrás de suas conquistas. - arqueou a sobrancelha e deu uma risada amarga.
- Acredite, ele não vai vir atrás de mim, não depois da cara que Erasmus fez quando brigou com ele. - riu e balançou os cabelos fracamente. não pôde deixar de se surpreender novamente quando a amiga se virou de frente para ela e disse:
- Vocês dois não têm nada mesmo? Não saíram depois da festa? - não queria mentir, não se sentia confortável ao mentir, mas havia contado uma história e se ela contasse uma diferente, levantaria suspeita demais sobre algo que nem aconteceu. Entretanto, se ela mentisse talvez pareceria que era algo sério quando na verdade, não significava nada. Azikiwe quis se jogar de um penhasco.
- Ele me deixou em casa. - assentiu. Meias verdades, tudo o que mais odiava, mentiras e meias verdade, porém lá estava ela, mentindo para uma das melhores amigas.
- Ele me disse que te deixou em um Uber. - assentiu, mas deu de ombros.
- Ele não queria que você tivesse a impressão errada, entendi isso, levando em conta o papo que nós estamos tendo agora. - Os olhos castanho-claro oscilaram entre e a vegetação rasteira antes de respirar fundo.
- , se algo estiver acontecendo entre vocês, preciso saber. Talvez não agora, mas em um futuro, preciso saber e medir as consequências em uma balança. Acredito em separação de trabalho e vida pessoal, mas não sei neste caso, não sei no que afetaria a nossa operação. - A voz de não passava de sussurro enquanto ela olhava distraidamente o parque; fazia parecer que estava apenas comentando sobre o clima, não dando uma lição de moral na amiga. Azikiwe encarou com as sobrancelhas arqueadas e sentiu um certo pingo de mágoa dentro de si.
- Não existe nada entre nós dois, não se preocupe. Não vou estragar a operação de vocês, fica tranquila. - sentiu o receio da amiga, mas antes que pudesse tomar alguma atitude, Azikiwe já havia subido para cuidar dos filhotes de tigre.

*


17 de agosto de 2017, quinta-feira, Londres

- Agora sim! Parecemos estar em uma reunião da Liga da Justiça! - carregava uma bandeja de chá em suas mãos e a depositou na pequena mesa entre as cinco cadeiras dispostas ao redor desta. Era a primeira reunião geral desde que havia entrado para o “clubinho”, como havia ironizado. , e estavam conversando sobre amenidades até Crawford chegar com a algazarra.
- Eu sou a Mulher-Gavião. - se manifestou e riu quando revirou os olhos para a amiga.
- Vamos pegar a personagem mais chata e dá-la para , olha só a cara de bosta que ela fez quando eu entrei. - sentou-se ao lado de e cruzou as pernas, sorrindo para a morena.
- Vamos começar? Nossos celulares ficaram na sala apenas por precaução, não podemos correr o risco de nada nos atrapalhar. - ignorou o amigo e prosseguiu com o início da reunião. assentiu e se recostou na poltrona enquanto bebericava o chá de erva-cidreira em suas mãos gélidas. A morena sentiu os ombros relaxarem instantaneamente quando o chá alcançou seu estômago - aceitou o trabalho no México, deve partir mês que vem e então vai monitorar os nossos passos de lá, além de trabalhar junto com alguns pesquisadores. - deu um sorriso largo e assentiu. Ela parecia animada.
- Devo passar as informações codificadas, então tomei a liberdade de criar algo como um manual para vocês. - estendeu pequenas cadernetas para todos e sorriu satisfeita consigo mesma - Queimem assim que aprenderem os códigos. - fitou, era um alfabeto fonético, mas um pouco mais complicado.
- Já sabemos que encontrou Erasmus na semana passada, então precisamos descobrir o que fazer com isso, como tirar vantagem dele. - Todos ficaram em silêncio e foi quem o quebrou, pigarreando.
- Posso me aproximar dele novamente. O dono da festa em que eu estava é conhecido pelas festas monumentais. Se ele estava naquela, estará em outras menores e eu posso me infiltrar nelas. - Todos a encararam, mas ninguém falou nada. parecia tentado a falar, mas foi quem tomou a dianteira.
- Isso é arriscado, . Você pegou um grande peixe semana passada, não sei se seria saudável você continuar nisso, pode acabar pior do que imagina. - Havia preocupação estampada ali, preocupação viva e potente. balançava as pernas e batucava os dedos contra as coxas finas - Tem certeza que consegue fazer isso, ainda mais sem ser descoberta? - deu de ombros.
- Ele gostou do que viu, não é tão difícil enganar um homem com uma ereção. - e riram alto, mas apenas revirou os olhos e apoiou o queixo na palma da mão.
- Como pretende fazer ele se aproximar de você depois do que houve semana passada? - indagou.
- Ele deixou escapar que tomar decisões como chefe nem sempre é fácil, e eu acabei compartilhando ser herdeira de uma clínica de animais, posso puxar essa conexão e fingir que estou interessada em seus negócios. Em algum momento ele vai ceder! - Ele tem que ceder. encarou ansiosamente, deixando que os pensamentos girassem por sua cabeça mirabolante.
- Odeio admitir, mas é o melhor que temos. Alguns arquivos sumiram do banco de dados da maioria dos acionistas suspeitos, talvez se conseguir tirar algo de Erasmus, podemos recobrar as perdas e achar os arquivos. - encarou esperando que a mulher desse a resposta final.
- Ok, vamos fazer isso. , fale com seu amigo o mais rápido que puder e tente entrar na próxima festa disponível. , tente conseguir alguém de confiança que estiver aqui em Londres para acompanhá-la.
- Infelizmente, se eu ou fôssemos com você, o plano iria por água abaixo. - repousou seu olhar sobre os ombros tensos de , parecia tentado a tirá-la daquela sala.
- Fiquem tranquilos, eu consigo. Consegui da última vez, não?
- É, mas foi beijada a força por Erasmus. - retrucou. O pensamento fez o chá revirar no estômago de . Lembrar daquele beijo a deixava enojada, como se houvesse se vendido. Azikiwe lembrava de pedir desculpas a Deus tantas vezes que acabou perdendo o sentido. a encarava com desinteresse, parecia calmo e racional, exatamente como deveria ser. Ela somente não entendia direito porque a indiferença a irritou.
- Eu que o beijei, sabia o que estava fazendo. Sei o que vou passar ao me sujeitar a Erasmus e sei que não vão me deixar sozinha. Simples. - mordeu os lábios.
- Ele tem algumas passagens na polícia por tentativa de estupro, . Esse foi um dos motivos de correr tão desesperado. Omitimos essa parte do dossiê porque não tem relação alguma com o caso, mas ele é um merda. - Os ombros de se forçaram a relaxar, ela não deixou transparecer o fato de que ter beijado um estuprador a deixava abalada, mas sentiu-se tentada a ir ao banheiro passar alvejante nos lábios.
- Consigo me virar, . Se me colocaram aqui é porque confiam em mim, então confiem nisto e no que sou capaz de fazer.
- Apenas tome cuidado. - Foi o que disse para a mais nova enquanto a olhava sobre a borda da xícara de chá.
- Não se preocupe. Além disso, consegui falar com alguns tratadores, eles disseram que a quantidade de ração diminuiu de uns meses pra cá. - disse para ninguém em especial.
- Houve um corte no orçamento mensal em algumas áreas, mas recebi a folha de pagamento desta forma. O dono do London Zoo Center foi quem me passou a folha administrativa pessoalmente. - comentou desconfortável, mesmo sendo a pessoa de maior poder do zoológico, parecia estar encurrala. Não havia espaço para defeitos em , não quando ela não podia vacilar - não sabia dessa parte, mas outro motivo para estar indo ao México é porque ela vai ajudar na construção de uma ONG só nossa para abrigar animais selvagens resgatados. Temos parte da equipe pronta, apenas esperando o nosso aviso, mas precisamos desestabilizar alguns nomes do dossiê primeiro. - Os olhos de se arregalaram em surpresa e assentiu envergonhadamente.
- Não queria estragar a surpresa. Queríamos que você fizesse parte com a clínica de seus pais que um dia vai vir a ser sua e como consultora direta. - Azikiwe assentiu levemente com a cabeça.
- Vou pensar em tudo isso. - assentiu e cruzou as pernas. sentiu-se tentada a dizer que não possuía o melhor interesse na clínica dos pais, mas se conteve.
- , alguma resposta de seus contatos no Congo? - Eliah e Keyla… sentia saudades da presença deles e por vezes, queria visitá-los novamente.
- O tigre que salvou está morto. Foi envenenado dentro da própria Fundação. - Os músculos dos ombros de Azikiwe travaram e ela se sentiu afogada momentaneamente. Envenenada. A palavra ressoava em sua mente sem parar, os ombros pesaram humilhantemente e ela não conseguiu esconder o nojo em seu olhar. procurou seus olhos e deu um aceno consolador, o qual não conseguiu responder.
- Acharam o culpado? - Perguntou Azikiwe controlando a raiva que sentia por dentro. Ela se sentia idiota por ter achado que conseguiria salvar aquele animal claramente torturado há muito tempo.
- Não, ainda não, mas há suspeitas. Chequei a lista com os nossos arquivos, mas os suspeitos não batem com as descrições de alguns capangas, isso nos leva a pensar que pode haver uma outra gangue se juntando ao esquema. - processou todas as informações passadas por .
- Havia algum traço de pele nas garras de Madalena? - encarou com as sobrancelhas arqueadas.
- Acha que ela pode ter lutado contra o assassino? Mas ela havia acabado de sair do hospital. - se inclinara na cadeira, curioso para saber até onde a mente de os levaria.
- Linda foi agredida por muito tempo. Os enfermeiros disseram que ela se assustava frequentemente com as agulhas, deve ser sido muito dopada, então tem medo de agulhas. Presumo que foi o método do envenenamento, não foi? - assentiu - É a única forma de matar um animal daqueles, ou envenenando ou a sangue frio. Posso chutar que Linda reagiu e deve ter arranhado o assassino antes de morrer.
- Ela morreu ontem à noite, o resultado da autópsia deve sair em uma semana, mais ou menos. - assentiu e batucou os dedos contra os braços da poltrona, deixando que os pensamentos a invadissem rapidamente.
- Cheque os tratadores, se algum foi ferido recentemente. Se acabarem descobrindo, ele vai afirmar que foi outro animal, chequem as patas desse animal e se não houver sinais de agressão, é o culpado. Já vi um caso desses antes, funcionou.
- Boa, . , ligue agora para Eliah e peça para ele efetuar exatamente como disse, vamos encontrar quem fez isso e então interrogá-lo. A polícia provavelmente o vai fazer, mas quero algum dos nossos lá dentro, seja como suposto aliado ou o que quer que seja, não me importa contanto que o achemos. - assentiu e se colocou de pé rapidamente, deixando o cômodo para pegar seu celular no hall.
- Boa sacada, Azikiwe. - sorriu para a amiga e piscou em seguida. sorriu, mas não deixou de pensar na vida de Madalena, um animal que sofrera tanto e sobreviveu a uma cirurgia difícil apenas para ser morta dias depois.
- Não podemos deixar essa chance escapar e ainda mais agora com Erasmus. , vamos precisar entrar em jogo o mais rápido possível. Consegue contatar seu amigo? - assentiu e se retirou do cômodo para pegar o celular também.
Azikiwe encontrou encostado contra a parede da sala digitando algo em seu celular, assim que ouviu o som dos sapatos de , sorriu e a encarou.
- Parabéns, sua primeira resolução. - assentiu e precisou passar a mão próxima ao abdômen de para pegar o celular atrás do homem, sentindo um arrepio quando ele se afastou da parede e praticamente grudou seu corpo ao de Azikiwe - Continue assim e vai longe. - Os olhos brilhantes a encararam animadamente, ele se afastou tão rápido quanto havia chegado, deixando um ar gelado contra o corpo de .
Os olhos de Azikiwe a encararam pelo espelho, mostrando o rosto saudável e mais moreno graças ao verão, os lábios estavam rosados e ela conseguia ver algo em seus olhos que há algum tempo não via, adrenalina pura e algo mais que ela não conseguia identificar. Os ombros expostos pela blusa listrada mostravam tensão, ainda lembrando do olhar de a devorando de dentro para fora sem que conseguisse respirar, mas ela gostava. Gostava muito.
passou a mão pelo pescoço e pegou o celular, discando o número de seu amigo festeiro.


Capítulo 6 - Aquele da festa

01 de setembro de 2017, sexta-feira

- Como come tanto sem engordar? - Azikiwe inclinou a cabeça para o lado enquanto observava devorar um prato de massa com vontade inacreditável.
- Eu queimo calorias pela raiva que eu sinto. - A médica não conteve uma risada que se intensificou quando viu a ponta do nariz de suja de molho.
havia ido buscar a médica no zoológico naquele dia para que pudesse explicá-la dignamente sobre as empresas investigadas e que pudesse tirar todas as dúvidas antes da festa de Mendel, no dia seguinte.
Azikiwe ligou para o amigo semanas antes e este ficou mais do que feliz em ver a amiga de volta à elite. odiava aqueles eventos, odiava voltar a ver rostos que passavam nos telejornais, mas estes escondiam a verdadeira nojeira no dia-a-dia daquelas pessoas, não que ela fosse muito melhor do que eles.
- Me lembre de nunca te deixar com raiva, odiaria ver você definhar. - arqueou a sobrancelha e apoiou o garfo sobre o prato praticamente raspado. Pelo menos havia gostado da comida.
- Você parece ser o tipo de mulher que me deixaria assim, Azikiwe.
- Você vai acabar descobrindo.
- Animada para amanhã? Vai voltar ao círculo, afinal de contas. - estava tirando uma com a cara da médica desde que viu o convite que Mendel a enviara por e-mail, convocando-a para o baile outonal na casa do amigo no interior, levaria uma hora e meia de carro até chegar lá.
Desde que revelou que os pais haviam sido frequentadores dos bailes da alta sociedade, Crawford não largara do pé de Azikiwe.
- Espero que seu lado pomposo não volte com você do interior. Gostaria de ver a cara de todas aquelas pessoas ao verem real cocô de vaca no verdadeiro campo. - Ele zombou com um sorriso bobo.
- Você conhece o verdadeiro cocô de vaca, por acaso? - também não estava muito atrás nas brincadeiras maldosas que os dois compartilhavam. A mulher descobriu que nunca havia lavado uma louça ou um banheiro, pois a família tinha criados para fazer aquilo por ele.
- Já precisei me enfiar em locais péssimos para cobrir algumas histórias, Azikiwe.
- E em nenhum momento você precisou lavar uma louça? - riu e jogou a cabeça para trás, deixando que os cabelos grandes se espalhassem por seu rosto.
- Eu sempre tive sorte e nunca fui escolhido para lavar louças. - O desafio brilhava claramente nos olhos de que cruzou os braços sob o peito e abaixou um pouco mais no assento da cadeira - Fico surpreso por você já ter lavado louça, Azikiwe.
- Meu pai não é meu pai biológico. - Os olhos de demonstravam curiosidade genuína conforme o corpo se inclinava para frente na mesa, mais próximo a - Minha mãe era veterinária, mas trabalhava com uma amiga em Bradford, então casou com meu pai biológico e me teve. Meus pais terminaram antes mesmo de eu nascer, ele não parecia querer ter a responsabilidade de uma criança sobre seus ombros alcóolatras. Quando eu tinha uns onze anos, minha mãe se mudou para Londres e acabou parando na clínica que meu atual pai é dono. O resto é história, estou com preguiça demais para continuar. - Uma surpresa agradável, era o que mostravam os olhos de conforme ele passava o polegar pelo lábio inferior e sorria levemente - No início, eu lembro de alguns dias minha mãe nem mesmo ter dinheiro para comprarmos frango, portanto acabávamos nos alimentando mais de raízes e frutas por alguns meses até estabilizarmos. Nunca passei fome, mas não posso dizer que sempre vivi em um mar de rosas, pelo menos não até meus pais alavancarem o negócio.
- Você se parece com sua mãe, muito. - assentiu e deu um risinho.
- Tenho quase a mesma cor de pele que ela, mas ela é sul-africana, veio para a Inglaterra com 19 anos para terminar a faculdade de veterinária. - Um silêncio confortável caiu sobre os dois, cobrindo-os pela brisa gelada que emanava das brechas das janelas. O pequeno apartamento de parecia se fechar ao redor dos dois, mesclando as respirações e tornando o ambiente quase sufocante - Vou colocar seu prato na cozinha. - se levantou repentinamente e pegou o prato do outro lado da mesa, roçando as mãos contra as de . A mulher caminhou até a pequena cozinha e empilhou os pratos, lidaria com aquilo mais tarde. Ao se virar, viu parado no batente da entrada para o cômodo, deixando que os olhos passeassem livremente por .
- Queria poder ir amanhã. - Foi o que ele disse e fungou levemente, deixando que os olhos se fixassem apenas na médica - Tenho receio de que Erasmus possa tentar alguma coisa novamente… Eu não vou estar lá para te tirar de uma situação daquelas, . - conteve o impulso de retrucar, dizer que poderia se virar, mas se deu o luxo de apenas absorver a preocupação de .
- Não se preocupe. Seu amigo vai me acompanhar, não vai? Athos? - assentiu levemente - Vai dar tudo certo. Se você confia nele, eu confio. - Um sorriso escapou pelos lábios de Crawford e ela sentiu algo no peito queimar levemente - Vamos agilizar nossa reunião, senão vai se atrasar para o seu compromisso. - passou por e se sentou no sofá da sala, cruzando as pernas e encarando a televisão, a qual projetava um arquivo do Power Point mostrando um gif de dançando. Exibido. Ele disse que levara a semana preparando a apresentação para e , de modo que o aprendizado pudesse ser mais dinâmico. não contestou.
- Antes de começar, gostaria de dizer que dúvidas serão respondidas no final e se quiser um autógrafo do palestrante, deverá pegar uma senha. - não pôde deixar de rir quando apontou um laser vermelho para a tela e escreveu o nome da médica com o feixe de luz - Talvez devesse ser menos dinâmico, dessa forma você vai acabar prestando atenção demais em mim, seria trágico desperdiçar tanto tempo.
- Apenas cale a boca e comece a apresentação, . - Um slide passou, eram algumas fotos aleatórias.
- Ok. Na metade de 2015, havia sido contratada pelo zoológico como uma das diretoras administrativas, e em um dos seus primeiros meses detectou uma falha em um dos contratos com a transferência de um pavão para Londres. Como estava no início do tempo no zoológico, resolveu ficar calada, mas dois meses depois, houve outro erro no contrato, não poderia ser percebido a não ser que se conhecesse o que estava escrito. O valor da transferência era referente a dois animais de grande porte, mas apenas um chegou no zoológico, resolveu investigar.
foi até a sede um dia e acabou se enfiando entre os arquivos não digitalizados, deu de cara com alguns dos nossos contratos e tirou foto de todos que podia. Enfim, algum tempo se passou e no fim de 2015 eu e nos encontramos em um dos nossos eventos familiares, contei meu plano para o documentário sobre o papel do zoológico no desenvolvimento dos animais e ela acabou me contando o que havia visto. - quase podia ver o desespero e o pesar nos ombros de conforme ela desabafava para o amigo e sentiu-se mal - Lembro de não pensar duas vezes e embarquei junto com ela para descobrir mais sobre a organização, quem sabe fazer uma denúncia formal ou uma exposição no meu documentário? Decidimos nos organizar, então ela descobriu outra empresa ligada à LAFRA, que é a empresa que cuida das finanças do zoológico, eles emitem as notas fiscais e tudo mais, e eu fui atrás de mais informações com o meu time de documentário.
- Foi tudo um disfarce? Seu documentário? - negou com a cabeça, mas bateu os pés no chão.
- Apenas veio a calhar… Acho que foi sorte. Enfim, saímos da LAFRA diretamente para a T&N Turismo. A T&N era responsável por transportar os animais que estavam nas papeladas da LAFRA, mas não para os locais indicados nas notas fiscais, sempre para outros lugares, geralmente no norte da África; esse impasse nos pegou, como eles conseguiam as pistas de pouso? Mesmo como uma empresa de turismo, precisariam pagar propina ou algo assim para que concordassem com os planos da LAFRA, então fucei mais um pouco e achei uma pequena empresa de aviação que faz parte da T&N, responsável pela liberação das pistas e controle do tráfico de animais no norte do continente. A parte mais difícil é conseguir acessos às pistas, já que tantos outros políticos ou celebridades utilizam postos parecidos para não pagarem impostos.
“Depois que os animais chegavam ao destino, as carnes eram transportadas por terra firme até pequenas instalações da Davis&Tennant, a rede de açougues da família de Erasmus, no meio das cidades que faziam a separação da pele e carne dos animais para serem revendidas no mercado negro ou para aqueles que se agradam em comer coisas exóticas, geralmente estrangeiros que se entregam a qualquer dito da tribo anfitriã. Por alguns anos, no passado, os estrangeiros eram convencidos de que carne de tigre curava dores, os nativos cobravam uma fortuna apenas porque não haviam conseguido vender todo o resto da carne para os açougues. - O choque estava claramente estampado no rosto de , ela sentia os lábios de Erasmus contra os seus, sentia o olhar daquele homem sobre si, olhar predatório, olhar de um animal, um dos animais dos quais ele matara e vendera a carne como simbologia fajuta de fé - Está conseguindo acompanhar?
- Eu quero vomitar, isso sim. - coçou a nuca e pulou os slides.
- Depois das carnes, as peles eram mandadas para empresas de costura como a Sketche Design ou o mercado negro. Ficaria surpresa com a quantidade de pessoas que entram nesses lugares apenas para contrabandear peles de animal, já que não é mais bem visto pela sociedade contemporânea. De qualquer forma, o dinheiro arrecadado no final voltava para o patrocinador que mantinha a imagem de marketing de todo o esquema. - pareceu distante de repente.
- Quem é o pilar principal de toda essa operação? Quem é o cabeça? Ainda não sei. - suspirou e voltou o olhar para o Power Point.
- Temos uma desconfiança… Desconfiamos de Gerald Arthur, é um empresário muito famoso. - pareceu conhecer aquele nome de algum lugar, mas se interrompeu quando continuou a falar - Precisamos tomar muito cuidado com nossas afirmações, ainda mais quando estamos trabalhando sem ajuda governamental.
- Ok, qual é o meu papel? - mirou o laser no teto e ficou por um tempo assim, pensando.
- Erasmus faz parte do círculo de influência da Davis&Tennant, precisamos que ele nos diga algum local da pista de voo que sirva de referência. Não conseguimos rastrear os passos sem termos um norte a seguir. - A voz séria de demonstrava uma paciência que ele não parecia realmente ter. - Posso fazer isso, talvez não amanhã, claro. Mas vou tentar. - assentiu e a encarou novamente. - Eu já lhe disse, saiba escolher as lutas, observe tudo ao seu redor e absorva o que for possível. Se você notar que há uma luta na qual não vale a pena lutar, não lute.
- Às vezes nós perdemos porque não arriscamos nas causas perdidas, sabia disso? - não sabia dizer o que brilhava nos olhos de .
- Causas perdidas podem ser salvas, mas é preciso saber quando. - e se encararam por um momento. tentava ler os olhos do homem, mas falhou miseravelmente. parecia esconder o mundo sob os olhos brilhantes, circulados por um dourado vívido que fez o corpo de estremecer.
- Causas perdidas são o que me formaram, a minha vida foi cercada por causas perdidas. Todas as minhas escolhas me trouxeram onde eu estou hoje, não me sinto mal por ter apostado em causas que pessoas com a sua mentalidade não têm coragem de apostar. - A voz de saiu em tom quase gutural, os ombros retesaram e mal piscava. Ela passara por tanto antes de chegar onde estava, recebeu tantas portas na cara, tanto choro tomava conta do passado de , mas foi preciso que apenas uma porta se abrisse para que ela construísse sua própria história, e não sentia um pingo de arrependimento.
- Não me arrependo por ter abandonado causa alguma também, aposto minhas cartas em terreno seguro. - Ele deu de ombros e cruzou os braços, deixando que os olhos felinos se fixassem apenas em Azikiwe.
- Então por que diabos está fazendo parte de uma organização que não é segura? Por que se dar o trabalho de correr atrás de tanta merda sob os lençóis quando você nem mesmo tem ligação com a área de veterinária? - Era aquilo que segurava dentro de si desde que descobrira sobre o esquema corrupto. Ela queria saber, queria descobrir o que levou a se deslocar da sua casa cheia de empregados para a vida de um jornalista que se enfiava em buracos praticamente inabitáveis.
- Essa é a minha aposta, , mas é a única causa que eu realmente torço para que não seja totalmente perdida. - Um lampejo de dor passou rapidamente pelos olhos de - Eu entrei nisso esperando estar errado, mas como descobri que tanta gente sofreu nas mãos dessas pessoas nojentas, resolvi dar uma chance. Uma chance às causas perdidas que abandonei antes.
- Essa é uma péssima forma de tentar aliviar a própria consciência. - Ele deu uma risada seca.
- Não é como se você pudesse me dizer o que é bom ou não para mim e minha consciência. - Uma ponta de raiva surgiu no peito de . Babaca - Esse olhar que você lança para mim é o mesmo que vai lançar quando estiver nos braços de Erasmus amanhã? Melhor aprender a controlar melhor suas expressões faciais.
- Você deveria controlar um pouco seu ego, ele vai acabar te matando e levando tudo o que você ama junto. - A voz de era áspera, seus punhos estavam fechados ao lado do corpo e a raiva que surgia de dentro de si começava a corroer a sanidade - Não posso decidir o que é bom ou não para você, mas pelo visto alguém precisa te dizer às vezes antes que você se feche nesse seu mundo em que você é o único existente. - parecia prestes a quebrar o controle em suas mãos, mas apenas respirou fundo e o deixou em cima do hack. A atmosfera queimava, quase podia sentir. O barulho de um celular a despertou da imersão em que estava. Azikiwe pegou seu telefone ao seu lado, observando o nome de Mendel brilhar na tela.
- Boa sorte amanhã. - disse antes de pegar a bolsa sobre o hack e ir até a porta de entrada. As costas de estavam retesadas, conseguia ver o contorno dos músculos das costas sob a camisa branca.
- Eu não acredito em sorte. - Foi o que disse finalmente, antes que fechasse a porta atrás de si com um estrondo. Azikiwe atendeu o telefone, mas percebeu que as mãos tremiam levemente de raiva.
Ela não se arrependeu do que havia dito a , pelo menos não nos primeiros cinco minutos desde a sua partida.

*


Azikiwe estava pronta para sair quando o interfone tocou e ela soube que estava na hora de ir. Ela deu uma última olhada no espelho, checando a pantacourt listrada e a regata preta com detalhes dourados. O verão resolvia dar as últimas lufadas de vida antes de abrir espaço para o outono, portanto o dia estava incrivelmente quente. jogou um sobretudo bege por cima da bolsa, os cabelos crespos estavam presos em um coque firme e grandes argolas pendiam em suas orelhas.
- Tudo certo. Você consegue, você é linda, você é um mulherão e você vai fazer aquele cara rastejar aos seus pés. - balançou os ombros e desceu o elevador, deixando que os tênis em seus pés batucassem contra o piso.
Quando parou na portaria, não imaginou que o amigo de pudesse ser um dos concorrentes a um programa de modelos. Os ombros largos estavam escondidos sob um blazer de azul tão escuro quanto os olhos que fitavam a rua, a calça jogger preta contrastava com a blusa branca cobrindo seu tronco. Azikiwe ficou boba ao encarar o homem que havia virado seu olhar para a médica. Ela deu um saltinho quando o porteiro abriu o portão para que passasse.
- Você é a dra. Azikiwe, certo? - assentiu - Prazer, sou Athos. - Athos e eram parecidos, percebeu quando fitou o mesmo círculo dourado ao redor dos olhos do homem e os cabelos escuros e enrolados. A única diferença, percebeu , era que era mais magro e mais alto, enquanto o homem em sua frente parecia exalar treinamentos militares nos músculos torneados.
- Você foi confinado a passar o dia comigo. Sinto muito. - Athos deu uma risada e deu de ombros.
- Pelo o que disse, não será desagradável. - não conseguira falar com desde a noite anterior, ela até mesmo pensou em ligá-lo, mas ainda sentia o orgulho ferido, portanto apenas desligou o celular e foi dormir. Sentia-se incrivelmente estúpida desde que acordara naquela manhã.
- Vamos no meu carro? - O homem deu de ombros e seguiu até um estacionamento do outro lado da rua.
- O meu carro está estacionado por aqui, não tem problema. - Os dois entraram em silêncio e se perguntou o que mais teria dito e por que Athos e Crawford eram tão semelhantes - Quer repassar o plano? Parece nervosa. - Athos a fitou. As mãos da mulher seguravam o volante com um pouco de força conforme se colocavam em direção às ruas.
- Pode ser. - Athos deu um risinho. desviou o olhar da rua para encarar o rosto muito parecido com o de .
- Eu e somos primos, caso esteja curiosa. - mordeu os lábios. Era péssima em disfarçar a real curiosidade - Nossos pais são irmãos e os olhos vieram deles.
- Como foi parar no time de documentário dele? - Azikiwe deixou uma música clássica suave preencher o carro enquanto finalmente se colocavam na avenida que os levaria para a estrada até a mansão de campo de Mendel.
- Estou de recesso da faculdade por um tempo. Achei isso uma boa forma de ganhar dinheiro, além do mais, eu gosto de me sentir como um espião. - deu uma gargalhada e foi acompanhada por Athos.
- Não sabe exatamente o que faremos hoje? - Athos negou com a cabeça, mas deu de ombros.
- Estou recebendo, então não me incomodarei em não saber, fique tranquila. - lambeu os cantos da boca e observou a avenida por um momento.
- Mendel é um amigo meu. Preciso ficar de olho em um homem, mas ele não é exatamente alguém agradável de se lidar, preciso que preste atenção no que acontece e a qualquer sinal suspeito, avise ou corra para o carro, vou te encontrar o mais rápido possível. - Athos assentiu novamente, deixando que os ombros flexionassem em tensão - Só interrompa caso seja algo sério, Athos. Não posso perder essa chance. - Os dois permaneceram em silêncio por alguns minutos. A música preenchia o carro completamente, deixando mais tranquila, mas ainda sentia o nervosismo dentro de si.
Estar naquele evento implicava diretamente com o fato de precisar lidar com pessoas que seus pais sempre lhe informaram para permanecer distante. sabia que poderia cuidar de si mesma, mas cada uma daquelas pessoas estava lá para avaliar, julgar e destruir caso fosse necessário. Não eram apenas festas, assemelhavam-se mais à guerra burguesa.
- falou muito de você, sabia? - A voz de Athos soou divertida e precisou conter a curiosidade ao virar-se para ele.
- O que exatamente? - Athos deu de ombros e sorriu maliciosamente.
- O que ele não me disse, era que você seria tão carismática e bonita. - riu e encarou Athos, o rosto jovial fitava a mulher com interesse claro. Athos deveria ter 23 anos no máximo, não que fosse muito mais novo que .
- Seu sobrenome também é Crawford? - Athos torceu o nariz.
- Crawford é o sobrenome da mãe de , o sobrenome que compartilhamos é North. Crawford North. - Aquele sobrenome parecia comum à , mas não se lembrava exatamente de onde - Pensei que conhecesse o pai de .
- Por que deveria? - encarou North com a curiosidade estampada sem vergonha em sua cara, mas Athos desviou o olhar rapidamente.
- Pensei que estivessem juntos, por isso. - Azikiwe soltou uma risada alta e Athos a encarou confuso. - Eu e ? Não, não.
- Perdoe-me, então. - Os dois permaneceram em silêncio por mais um tempo.
No lugar de prédios, a paisagem começava a se tornar verde. Os pastos começaram a passar rapidamente, o céu brilhava intensamente em um azul maravilhoso e quase sem nuvens. Poucos carros circulavam na estrada. abriu as janelas e deixou que o vento agitasse um pouco seus fios soltos, mas apenas ignorou o pensamento que lhe dizia que estaria toda bagunçada quando chegasse ao lugar.
Liberdade, era o que sentia ao se colocar na estrada, apenas enxergando o horizonte se estender diante de si como um mar sem fim, preenchendo a solidão que ela sentia por vezes. Um sorriso surgiu em seus lábios com memórias de sua infância no interior com sua mãe, cuidando dos animais da fazenda vizinha e, por um momento, desejou que estivesse sentado ao seu lado contemplando a paisagem junto com ela. balançou os ombros e deixou que a culpa pesasse sobre seus ombros, não deveria ter sido tão bruta na noite anterior.
- Ele é uma boa pessoa, dra. Azikiwe. - virou a cabeça para Athos, espantada por ter esquecido que não estava sozinha no carro - Conversamos hoje, ele parecia irritado e chateado, não perguntei o porquê, mas quando falei dele para você mais cedo, fez a mesma careta. - Azikiwe apenas permaneceu encarando a estrada, não tinha coragem de encarar Athos.
- Talvez eu tenha sido maldosa. - Athos encarou as mãos sobre as pernas e suspirou.
- Ele consegue ser bem babaca também, portanto devo presumir que suas palavras atingiram o ego dele. - assentiu e não precisou encarar Athos para saber que estava revirando os olhos - Isso é algo comum em nossa família, deve ter passado de pai para filho. Mas o que quero dizer, não se sinta tão mal por ter ensinado uma lição a ele. - inspirou fundo e o encarou de soslaio.
- Eu também consigo ser bem sem noção, Athos. Os dois. - Doeu dizer aquilo, mas era verdade.
Pediria desculpas a quando voltasse a Londres na próxima reunião que tivessem na casa de .
- Desculpa me meter. - apenas fez um gesto com a mão e os dois voltaram a conversar sobre amenidades. Athos contou que estava no último ano da faculdade de aviação civil e que a faculdade havia sido invadida semanas antes, resolveram então dar um tempo de descanso para os alunos até que tudo fosse recuperado e a investigação terminasse. Azikiwe se surpreendeu com as histórias que Athos contava sobre a faculdade, mas se deleitou na felicidade que ele demonstrou em falar sobre o futuro, o mesmo deleite que ela tinha na esperança de conseguir um mundo melhor para os animais que tratava.
- Às vezes me sinto mal por trabalhar em um zoológico. Os animais estão presos, mas entendo a importância desses lugares, especialmente porque tomamos passos importantes na evolução ou repopulação de diversas espécies graças à criação dos zoológicos. Ainda assim, tenho vontade de largar tudo e ir trabalhar em um campo de reabilitação para animais selvagens. - Athos não escondeu a surpresa e o choque.
- Você é incrível. - soltou uma risada sem graça e esticou os dedos das mãos, sentindo o vento gelar as articulações.
- Como nunca te encontrei em uma dessas reuniões da alta sociedade de Londres? Meus pais as frequentaram por um tempinho e nunca te vi em nenhuma. - Athos deu de ombros.
- Eu morei a maior parte de minha vida no Canadá, voltei para Londres para fazer faculdade, mas sempre preferi os eventos que eu e íamos quando passávamos as férias juntos. Eram qualquer coisa, menos de alta classe. - conteve a careta. Faltavam apenas 10 minutos para chegarem. North e Azikiwe resolveram rever o plano mais uma vez - Se perguntarem o que somos, o que quer dizer?
- Posso dizer que somos amigos. Erasmus viu na última vez que nos encontramos.
- Erasmus Stone? Não acho que ele realmente tenha reconhecido … Quer dizer, de toda a nossa família, sempre foi o que se manteve distante das convenções sociais, apenas usava do artigo de poder para entrar em baladas e essas coisas, mas nunca em eventos como o que estamos indo.
- Por via das dúvidas, somos amigos e você resolveu me fazer companhia. Se alguém perguntar da natureza da minha relação com , diga que ele apenas me entrevistou para o documentário. - Era o que o grupo havia decidido. O fio que ligava e era o documentário, simples e nada difícil de se acreditar - Na última festa, fiz parecer que e eu tínhamos alguma relação, mas Erasmus não disse nada sobre o incidente para ninguém, foi o que meu amigo disse. As notícias correm rápido na alta sociedade, se ele abrisse a boca, Mendel saberia. - dizia aquelas palavras mais para si do que para Athos, já que ele parecia relaxado ao seu lado.
- Fechado. Vamos nos divertir. - sorriu fracamente quando um muro enorme surgiu ao seu lado. Os portões estavam fechados e um time de seguranças circulava o perímetro, a enorme propriedade de Mendel se estendia até que os olhos de se perdessem - Wow, seu amigo sabe como viver. - O comentário de Athos resultou apenas em um balançar de cabeça da parte de . A médica virou o carro em uma pequena rua de terra que levava diretamente até os enormes imponentes portões. Alguns seguranças encararam o carro e um deles se dirigiu até o lado de .
- Nome?
- Azikiwe e acompanhante. - Os olhos de passaram mais uma vez pela enorme extensão da casa que se mostrava após os portões.
- Nome do acompanhante?
- Athos North. - O segurança fez um manejo leve com a cabeça e os portões foram abertos. O queixo de quase foi ao chão quando entraram finalmente no espaço. Os muros se estendiam para os lados, mas o lado de dentro era totalmente arborizado, havia uma fonte - parecida com a da casa de Mendel em Londres - no caminho de terra que levava até a entrada da mansão. As paredes eram azul claro e as pilastras feitas de mármore cor de petróleo davam ao lugar uma impressão rústica, mas ainda sim maravilhosa. Os parapeitos das janelas eram de um azul escuro vibrante, a mesma cor das portas. Como se possível, o céu maravilhoso contrastava ainda mais com a estrutura monumental. Os jardins estavam em perfeito estado e rolando na grama estavam três cachorros enormes de pelagem castanha e preta. Muitas pessoas estavam espalhadas pelo terreno ao redor da casa, mas ainda havia muito espaço além das instalações. Um espaço para a piscina se estendia na diagonal da casa, o caminho era ladrilhado por pedras brilhantes. observou algumas pessoas sentadas sob uma tenda enorme feita com tecidos persas, pelo o que Azikiwe pôde deduzir. Havia dançarinas e malabaristas espalhados, ocupando a atenção de alguns convidados entretidos, os olhos ambiciosos almejando tal talento ou simplesmente cobiçando os artistas.
- Boa tarde, srta.! Pode deixar o carro conosco. - se assustou ao ver um funcionário de cabelos ralos bater levemente na janela do carro. Azikiwe e Athos saíram do veículo e a mulher entregou a chave para o valet.
- Muito obrigada! - O valet sorriu largamente. Provavelmente era uma das poucas pessoas que realmente desviou a atenção para o rosto do funcionário magro de corpo esguio.
- Esse lugar é até que bem parecido com as festas que eu dou. - Athos comentou com um assobio. Os dois se puseram a andar em uma das cinco estradinhas ladrilhadas até a entrada da casa. O vento batia contra o rosto de , mas este não parecia tão puro quanto o da estrada. Talvez as pessoas ali dentro conseguissem contaminar até mesmo o oxigênio.
O nervosismo começava a tomar conta de seu corpo inteiramente, cada célula implorava para que voltasse correndo para casa.
- Não fique tão nervosa, doutora. Vou estar o tempo todo com você lá dentro. - assentiu e respirou fundo, deixando que a confiança de Athos passasse para si. Imediatamente, Azikiwe começou a reconhecer alguns rostos que a cumprimentavam de leve. Ela os reconheceu da festa de bodas que seus pais realizaram no ano passado. Infelizmente, Azikiwe não foi liberada daquele evento social.
- Como são as festas que você dá, geralmente? - A casa se aproximava mais, mas queria se distrair. Ela conseguia enxergar o suor que escorria pelo rosto dos cuspidores de fogo e as pregas nos vestidos das dançarinas que sorriam sem parar, sem jamais deixar o cansaço transparecer.
- Pessoas estão largadas na grama, a maioria uma em cima da outra e a música está tão alta que não se pode ouvir outra coisa em quarteirões. - arqueou a sobrancelha e sorriu para Athos.
- Queria ver isso. - North soltou uma risada e se aproximou um pouco mais de , deixando que as mãos pendessem ao lado do corpo.
- Você será minha convidada de honra.
- ! Que bom que você veio! - Azikiwe virou levemente a cabeça apenas para ver Mendel se aproximar com uma taça de champagne na mão. Ele estava esvoaçante, era como descreveria o amigo que usava uma túnica indiana e calças brancas. O peito nu se mostrava por frestas da túnica e os olhos claros fitavam Athos ao lado da amiga com curiosidade palpitante.
- Como está, Mendel? - Ela perguntou ao abraçar o amigo com força. Por mais que ela odiasse as convenções sociais das quais Mendel participava, os dois conseguiam se entender muito bem desde que ela se lembrava por gente.
- Muito bem. Você deve ser Athos North, certo? - Athos fez uma cara confusa, fazendo com que Mendel risse alegremente - Prazer em te conhecer, já ouvi falar muito de você. - Mendel estendeu a mão, a qual Athos apertou com firmeza.
- Prazer. Acha que devo saber o porquê de você saber meu nome? - Mendel negou com a cabeça, fazendo com que Athos desse de ombros - Algumas coisas são melhores se mantidas em segredo.
- Gostei de você. - Mendel piscou para Athos - Vamos querida, vou te apresentar algumas pessoas. Athos, fique à vontade, sei que não tem problema em se misturar em locais assim. - O amigo de deu uma última piscada para o homem de olhos dourados e puxou Azikiwe pelo braço para longe. Athos deu um olhar de desculpas para a médica antes de começar a caminhar até a tenda persa.
- Obrigada por me convidar. - Disse quando os dois pararam longe o suficiente dos ouvidos curiosos dos convidados, mas ainda podiam ser vistos por qualquer um que viesse detectar a localização do anfitrião.
- É um prazer, de verdade, tê-la aqui. Agora poderia me explicar porque estava se engalfinhando com Erasmus Stone? Pelo amor de Deus, ! Você tinha um pouco mais de consciência! - Azikiwe balançou a cabeça quando as memórias tomaram conta de si.
- Eu estava com a cabeça em outro lugar, não pensei em nada! Ele vem hoje? - Mendel assentiu levemente. O tecido da túnica farfalhou junto com o vento, deixando que as pregas brilhantes refletissem contra o sol forte do meio-dia.
- Deve chegar mais tarde, mas confirmou a presença. Você vai querer um replay? É isso mesmo? - conteve a ânsia que subiu por seu peito, mas apenas respirou fundo. Tinha um papel a cumprir. - Eu me atraio por coisas estranhas. - Mendel deu uma risada alta.
- Não posso negar. Mas vem cá, qual é o lance com Athos? Ele é bissexual mesmo? - não havia pensado nisso.
- Você acha que é?
- Ouvi boatos, apenas. A família não o leva para alguns eventos porque bebe e acaba agarrando algum homem na frente de todos. Aparentemente o pai dele é bem conservador. - absorveu o que Mendel disse, mas não soube acrescentar nada.
- Ele é gente fina. Vá em frente, pode ser que consiga uma casquinha. - Mendel deixou que o sorriso malicioso tomasse conta do rosto.
- Eu não vou querer apenas uma casquinha daquilo tudo, . Eu lembro vagamente de ter visto North na última vez, mas não lembro de tê-lo convidado. Você o conhece? - precisou se segurar para não engolir em seco.
- Sim. Ele está montando um documentário sobre a vida animal e me entrevistou. Ele queria fazer algumas perguntas e como estava por perto naquele dia, o chamei para me encontrar. - Mendel assentiu distraidamente.
- Ele é parecido com o primo. Talvez possa conseguir algo dos dois. - soltou uma risada e bateu nos ombros de Mendel.
- Boa sorte nesse jogo familiar, amigo. - Mendel estalou com a língua e deu de ombros.
- Não preciso de sorte quando tenho toda essa munição. - E apontou para seu corpo. invejava a autoestima de Mendel, sinceramente.
- Você é impossível, sabia?
- Você não tem ideia, , querida.

*


Algumas horas se passaram sem que Erasmus aparecesse, portanto resolveu passar o tempo simplesmente aproveitando o sol e a companhia de Athos.
Mendel tentou apresentar aos convidados, inseri-la no círculo, e Azikiwe tentou se deixar levar, mas acabou se entediando e voltou para o lado de North. Ele parecia tão entediado quanto ela, mas escondia com sorrisos e papo furado com alguns que o reconheciam.
- Você é um ótimo ator, sabia? - comentou dando um gole em seu suco de laranja.
- Sou um ótimo amante, ator, cantor, dançarino. - revirou os olhos, mas sorriu.
- Não é da minha conta, mas Mendel pareceu interessado em você. - Athos batucou com os dedos contra o maxilar forte.
- Percebi, mas estou hoje aqui como seu companheiro, estou sendo pago para isso. - não deixou de conter a careta.
- Você faz parecer como se fosse meu acompanhante de luxo. - Athos riu.
- Posso ser, se você quiser, não precisaria pagar nada. Sua presença já é meu pagamento. - precisou conter o rubor de leve em suas bochechas ao beber outro gole de seu suco - Entendi porque ele se admira tanto com você. - Athos inclinou a cabeça para o lado e mordeu os lábios.
- ? Por que acha isso? - controlou o tom de voz.
- Vocês é uma pérola. - Azikiwe ia continuar as perguntas, mas foi surpreendida quando algo, não, alguém caiu em cima de suas costas.
- Merda! - Ela resmungou ao sentir algo gelado escorrer no tecido fino da regata. virou a cabeça a tempo de ver uma mulher de olhos azuis a encarando assustada.
- Me desculpe! Eu tropecei e acabei caindo! Perdão! - O líquido gelado escorria pelas costas de Azikiwe, ela apenas se levantou rapidamente e colocou as mãos contra a regata, levando os dedos ao nariz em seguida. Cheirava a morango - Eu trouxe uma blusa a mais no carro, posso te dar! Ah, meu Deus, desculpe! - Athos se colocou ao lado de passando a mão por seus ombros.
- , vá ao banheiro no primeiro andar, vou pegar a blusa com essa moça e levo para você. - apenas encarou a mulher novamente, ela parecia realmente arrependida.
- Fique tranquila, sei que foi um acidente. - Foi o que disse antes de desaparecer para dentro da casa, procurando um banheiro. O líquido de morango era meio grudento, mas Azikiwe apenas ignorou a sensação e subiu as escadas de mármore escuro até o primeiro andar.
- Está procurando o banheiro? Fica à segunda direita. - Uma voz masculina forte chamou a atenção de .
- Obrigada! Estou perdida e totalmente suja. - O homem se aproximou de Azikiwe, fazendo com que os olhos da médica fitassem os olhos brilhantes com o mesmo círculo dourado de Athos e . queria gritar, queria sair correndo, mas ela precisava ficar ali e ter certeza do que estava vendo.
- Precisa de ajuda? - A voz grossa e paciente encobriu Azikiwe por completo. Ela ia responder quando passos foram ouvidos da escada.
- ! Peguei a bl- - Os olhos de Athos pararam nas costas do homem bem na frente da médica - Tio! O que faz aqui? Pensei que estaria na Austrália. - A voz de Athos não demonstrava nada além de uma curiosidade genuína. Ele não parecia exatamente feliz.
- Athos! Que bom te ver interagindo sem estar totalmente bêbado. - Athos torceu o nariz e encarou por cima dos ombros do tio. Os cabelos pretos iguais aos de estavam perfeitamente arrumados, até as sobrancelhas arqueadas eram idênticas.
- Essa é Azikiwe, minha companheira de hoje. Talvez seja o motivo de eu não ter enchido a cara. - A atenção do homem se voltou para a médica, a curiosidade vívida naqueles olhos dourados que perfuravam a alma da mulher.
- Nos esbarramos ao acaso. É um prazer, srta. Azikiwe. A vejo por vezes no zoológico. Gosto do seu trabalho. - apertou a mão estendida do tio de Athos, deixando que o calor da mão enorme a recebesse, mas ainda não sabia exatamente como reagir.
- O prazer é todo meu. E obrigada pelo zoológico. É sempre bom trabalhar em lugar que é referência em cuidados de animais selvagens. E obrigada pela ajuda. - O homem assentiu e deu um sorriso.
- Aproveitem a festa. - E então ele se pôs a descer as escadas, deixando Athos e sozinhos no enorme corredor frio.
- Esse é o pai de , certo? - Ela queria saber, precisava saber. Athos percebeu a preocupação nos olhos da mulher e assentiu.
- Você acabou de conhecer pessoalmente Gerald Arthur North, dono do London Zoo Center. - Um tapa, era o que havia recebido. Ela havia conectado todas as peças antes que Athos sequer dissesse, mas não parecia real.
Ela nunca havia visto alguma foto do chefe que não fosse preta e branca nas paredes do hospital, não conseguia discernir o dourado dos olhos que pertenciam a .
O pai de era o principal suspeito do esquema de corrupção, o patrocinador da empresa de advocacia e investigado por desviar aproximadamente cinco milhões de euros. Por ano.
pegou a blusa da mão de Athos e se dirigiu para o banheiro, na direção em que Gerald North havia apontado, contrária a que ele estava vindo.
Gerald Arthur North, pai de Crawford North. Quando fechou a porta do banheiro, sentiu um peso no peito.

“Eu entrei nisso esperando estar errado, mas como descobri que tanta gente sofreu nas mãos dessas pessoas nojentas, resolvi dar uma chance. Uma chance às causas perdidas que abandonei antes.”

A voz de tomava conta das paredes azulejadas enquanto ela trocava a camisa, deixando que os seios fossem expostos ao vento frio que entrava pela janela. Agora entendia, entendia a dor que passava pelos olhos de e porque entrou naquele esquema, para provar que o pai era inocente, mas ao perceber o que ele havia feito, queria apenas acabar com aquela nojeira antes que estourasse. Azikiwe sentiu vontade de sair correndo dali, ir para Londres e simplesmente abraçar mesmo que ele não precisasse de sua pena. Ele fez uma escolha, escolha essa que não sabia se faria se fosse seu pai ali. Ah, .
saiu do banheiro, tinha plena certeza de que estava com cara de quem havia comido algo estragado. O top cropped preto a incomodava, era pequeno demais, mas ela ignorou incômodo e simplesmente se dirigiu a Athos. Os olhos percorreram as escadas e subiram para o longo corredor de onde viera Gerald. Se ela estava no banheiro, o que haveria no outro lado do corredor que o chamara a atenção?
- Espere aqui, avise se alguém subir as escadas. - Ela disse em um sussurro e se dirigiu na direção em que o pai de estava minutos atrás. Cada passo era descompassado com as batidas de seu coração.
Havia apenas duas portas no corredor, ela entrou na primeira; era um quartinho com uma cama e parecia intocado. olhou novamente na direção de Athos, mas ele parecia relaxado ao fazer um sinal positivo com o polegar. Ela se dirigiu ao quarto seguinte, tentando ao máximo não deixar as mãos tremerem; o quarto era cheio de materiais de construção, alguns pneus e sacos de cimento estavam encostados na parede, mas algo chamou a atenção de Azikiwe: um papel dobrado sob luvas gastas. Ela entrou rapidamente e tirou o papel do local, abrindo-o devagar. A mensagem estava em espanhol. agradeceu a Deus pelos cursos de idioma que havia feito.
“Cuidei do cabrón, precisamos de um substituto.”
foi cuidadosa ao tirar uma foto rapidamente e colocar o papel exatamente onde estava anteriormente. Seus pés a guiaram inconscientemente para fora do quarto, Athos a encarava com os olhos meio arregalados.
- Se você vomitar aí, vai ser um problema! - Ele disse alto e imediatamente se agachou com a mão sobre o estômago, jogando os cabelos contra o rosto.
- Está tudo bem aí em cima? - Uma voz abafada foi dirigida a Athos.
- Sim, ela apenas bebeu demais. Valeu. - A resposta rápida de North foi aceita e o silêncio predominou novamente. levantou-se da posição falsa, andou rapidamente até Athos e suspirou.
- Você acabou de salvar a minha pele. - North estava confuso, mas sorriu.
- A seu dispor, sempre.
Os dois desceram até o andar de baixo, voltando para a tenda persa. tentou negar, mas procurou o pai de com os olhos curiosos. Eles se pareciam tanto, sentia-se tão idiota por não ter percebido antes ao olhar no dossiê. apenas percebia agora que não havia foto de Gerald North no dia em que leu aquele relatório e acabou não conectando ao dono do local em que trabalhava, apenas porque no dossiê não dizia que “dono do zoológico em que a trabalha” era a ocupação do homem, mas sim empresário. deve ter pedido aquilo à , devia querer falar por conta própria, não por um dossiê. Talvez quisesse lidar com a vergonha de ter um pai corrupto pessoalmente.
- Você precisa fingir melhor, . - Athos apoiou as mãos no joelho e se aproximou ainda mais de - Eu consigo sentir seu nervosismo daqui e meu tio também vai perceber. - Azikiwe manteve os olhos em Athos, se aproximando um pouco mais também.
- Eu não posso exatamente estar exuberante com o que descobri. - Athos deixou os lábios em uma linha fina - Desculpa, aticei sua curiosidade. - North assentiu com a cabeça, mas deu de ombros depois.
- Eu me viro com minha própria curiosidade. Enfim, conseguiu o que queria?
- Sim e não. Erasmus não está aqui. - começava a se perguntar o porquê. A mensagem no papel, o pai de havia deixado ou teria recebido? Se fosse recebido, ele com certeza teria jogado fora. O cabrón poderia muito bem ser Erasmus, já que não estava ali e Gerald tinha contato direto com o pai de Stone.
- Quer ir embora? Já está escurecendo. - De fato, o céu começava ser tingido com tons de azul escuro misturado com rosa e laranja, os olhos de brilharam ao identificar as cores, transformando cada uma em um mantra silencioso para que se levantasse e fingisse que estava tudo bem com tudo, ela precisou pelo menos ter essa esperança limpa em seu coração.
- Vamos esperar e ver se alguém vai entrar na casa para pegar a mensagem. Não vou conseguir dormir tranquilamente se não tiver certeza de que fiquei até o mais tarde possível. - Athos assentiu. - Vamos aproveitar a festa ao máximo, então.


Capítulo 7 - Aquele em que só deu as mãos

não conseguia se concentrar em nada desde que acordou naquela manhã.
A discussão com na noite anterior ainda passava em sua cabeça, ele se sentia um idiota por ter deixado que aquilo passasse dos limites, mas não conseguia se arrepender do seu ponto de vista, não conseguia se expor o suficiente para realmente abraçar a ideia de Azikiwe, mas queria tentar.
Os ombros do jornalista se ergueram em tensão ao pensar na noite anterior. Assim que saiu da casa de , encheu a cara até que estivesse cansado demais para sequer se importar com sua sanidade mental. As mãos estavam trêmulas ao abrir a porta de casa, ir até um pequeno quarto e encarar a enorme parede cheia de fios vermelhos, laranjas e azuis que cobriam o quadro marrom preenchido por fotos e anotações garranchadas, quase como se uma mente em velocidade máxima estivesse em ação. E estava.
Crawford largou os sapatos no quarto e deixou que a mente o levasse para os lábios da mulher que tocaram seu pescoço no bar, mas não se lembrou muito bem da sensação nas horas seguintes, não quando a cabeça doía e os ombros pareciam feitos de pedra. Os olhos de haviam percorrido cada centímetro exposto da loira que se empenhava fortemente em beijá-lo e se pôs a perguntar o que aquela pobre criatura teria visto na posição mais pobre e nojenta de na noite anterior. Será que aquela moça estaria tão quebrada e cansada quanto ele para que se enxergasse no reflexo dos olhos dourados?
olhou para o criado-mudo ao seu lado e expirou ao ver que o relógio marcava apenas quatro da manhã. Não conseguia dormir, não com os pesadelos e pensamentos lotados de gritos e raiva rondando ao seu redor, esperando que sua guarda estivesse baixa para então massacrá-lo da forma que apenas ele próprio sabia ser possível. A cabeça latejava exacerbadamente ao levantar-se da cama e caminhar novamente até o pequeno quarto de porta simples, deixando que a maçaneta queimasse em suas mãos gélidas e os olhos encontrassem a enorme parede cheia de informações investigacionais assim que colocou os pés no espaço minúsculo.
De repente, queria ligar para e pedir para que não fosse, que não se arriscasse, mas que esquecesse toda e qualquer teoria que ele houvesse contado. passou os olhos sobre algumas informações que não havia compartilhado nem mesmo com . As nojeiras que ele descobriu naquele período de um ano pareciam devorá-lo vivo, mas devoraria aquilo sozinho, não decepcionaria todos ao seu redor.
Na parede lateral esquerda, havia um quadro menor preenchido por informações sobre o documentário, enquanto na direita, tudo o que ele havia recolhido sobre os esquemas de corrupção estava repousado. O contraste entre as duas paredes fazia com que os ombros de se encolhessem, havia tanta diferença entre o mundo real e o que ele mostraria no documentário, de certa forma. Mas havia beleza no meio daquela podridão, era o que ele tentaria mostrar com sua criação, era o que torcia para fazer sentido quando toda aquela merda explodisse.
Como se fossem atraídos, os olhos de fitaram a foto que havia tirado de algumas semanas atrás quando realmente foi ao zoológico entrevistá-la acerca do trabalho como veterinária em ambiente urbano misturado com o selvagem. O sorriso de Azikiwe iluminava as fotos ao redor, os cabelos volumosos moldavam seu rosto e os olhos vívidos fitavam a câmera como se ela estivesse conversando com naquele exato momento, e ele queria que ela estivesse. Queria sentir aquela felicidade mais do que pura quando via aquele jaleco branco voar contra a brisa ou vê-la colocando a ponta da língua para fora quando analisava algum animal como ele a havia visto fazer no mesmo dia daquela entrevista.
- Você está enfiado na mais profunda merda, . - Ele murmurou para si, deixando que a voz ressoasse no quarto vazio. Assim que toda aquela história acabasse, ele se sentiria mais do que feliz em arrancar aquele brain storm da parede. E ele esperava não estar sozinho ao fazê-lo.
*

passou o dia em reuniões e entrevistas por telefone com diversos patrocinadores de seu documentário, alguns cobravam datas e outros simplesmente gostariam de saber sobre o funcionamento de seus produtos eletrônicos.
- Consegui falar com a coordenação do zoológico de São Paulo, no Brasil, eles liberaram o uso dos nosso drones; no Canadá, estamos livres para gravarmos a rotina da ala dos animais aquáticos. Vamos nos organizar para irmos daqui um mês com o material pronto para o Canadá e seguiremos para São Paulo, precisamos conseguir também ver se podemos ir até a Amazônia, quem sabe pegar a fauna em plena pulsação? O verão está chegando no hemisfério sul, de qualquer forma. - desviou a atenção da papelada para o colega de trabalho, Jeffords. O homem estava caminhando de um lado para o outro no escritório, balançando a cabeça antes de dizer algo - Confio em você para cuidar da compra das passagens e lidar com a comunicação externa, Jeffords. - Foi o que disse antes de cruzar os braços e fitar o amigo de pele clara e olhos verdes.
- Eu sei, eu sei. Está tudo resolvido, estou apenas repassando tudo em minha cabeça. Você terminou todas as entrevistas no UK, Estados Unidos, México, África do Sul, República do Congo. Falta o Canadá e Brasil. O nosso prazo é de cinco meses para terminarmos todas as gravações e elas estarem organizadas cronologicamente. Todos os nossos arquivos e centros de pesquisa estão flanqueados por segurança de primeira e nossas câmeras tiveram algumas falhas, mas vamos consertá-las antes da próxima viagem. - Crawford assentiu, o amigo sabia que já estava ciente de todas as informações, mas apenas repassava para lembrá-los do que deveriam fazer, se haveria alguma falha.
- Os vistos estão certos. O que me irrita é precisarmos irmos para o Canadá, sendo que estávamos ali do lado! Maldita câmera! - falhou miseravelmente em esconder o estresse em suas palavras.
- Tem razão. Nosso patrocinador não ficou feliz quando contamos que vamos precisar das passagens inteiras para o Canadá. - assentiu e massageou as têmporas com a ponta dos dedos gélidos.
- O transporte do material também está certo? - Jeffords assentiu e colocou mais uma pilha de papéis documentados na frente de Crawford, a pilha anterior havia sido retirada sem que ele mesmo percebesse.
- Já contatamos um tradutor para o Brasil, vai ser nosso guia. - assinou algumas vias dos contratos e os entregou ao amigo de cabelos ruivos.
- O tradutor do Brasil está cobrando uma fortuna! Deveríamos procurar alguém por aqui que saiba falar português, talvez saia até mais barato. Além disso, preciso começar a olhar as fitas de edição, algum material já pode ser descartado por um tempo, vamos focar no mais importante. - Jeffords acenou com a cabeça e terminou de empilhar todos os contratos e vias de ordem de serviço que havia assinado - Quer sair pra almoçar? - O ruivo assentiu com a cabeça ao olhar para o relógio no pulso.
- Aonde quer ir? São quatro horas da tarde, talvez seja melhor jantarmos de uma vez.
- Já sei para onde podemos ir, é um restaurante coreano que me apresentaram um tempinho atrás. - se levantou da cadeira e pegou as chaves do carro e a bolsa com alguns documentos. Jeffords o encarou com as sobrancelhas franzidas.
- Você? Comida coreana? Não sabia que existia relação. - Crawford revirou os olhos e saiu do pequeno escritório, esperando o amigo.
- Aprendi a gostar, é realmente muito bom. Vamos em New Malden, eu dirijo. - Jeffords fez uma careta e seguiu o amigo para fora do pequeno apartamento que haviam alugado para os propósitos do documentário. colocou os quatro códigos de senha na porta e em seguida a fechou com as chaves, segurança nunca é demais.
- Você quer dirigir meia hora apenas para comer comida coreana? Isso tudo é estresse? - fez um gesto vulgar para o amigo ao descer as pequenas escadas até a portaria do prédio. Jeffords abriu o portão com a digital e os dois se puseram na direção do vento gélido que soprava para o sul.
Quando entraram no carro, se viu pensando novamente em e em Athos. Os dois deveriam estar na festa e , provavelmente, estaria em cima de Erasmus àquela hora, o pensamento fez com que apertasse o volante com um pouco de força.
O primo havia passado na casa de Crawford mais cedo para que pudesse receber o pagamento do mês passado e ser instruído a como se comportar. disse quantas vezes foram necessárias para que ele protegesse Azikiwe a qualquer custo, não deixaria que ela se machucasse.
- luta jiu jitsu, acho que ela teria que me proteger. - Athos ironizou e socou o ombro do primo com força - Vocês dois brigaram ou algo assim? Pareceu ter comido algo estragado quando falei o nome dela. - O moreno deu de ombros e apenas ignorou a pergunta do primo.
- Vá cuidar da sua vida, North. - O sobrenome deslizou por como uma ofensa, Athos sabia disso.
- E você, cuide dessa amargura, North. - Antes que pudesse socar Athos novamente, este já havia corrido pela porta de entrada para a rua.
- Cara, pelo amor de Deus, você está parando olhando para o nada! Acorda, Crawford! - O som dos dedos estalando acordou de uma imersão que ele não sabia ter se colocado. A cabeleira ruiva trouxe de volta à realidade, mas não completamente.
- Foi mal, foi mal! Vamos logo, estou com fome.
*

estava com as mãos suadas e fingia muito mal não estar preocupado enquanto esperava na frente da casa de dentro do Jeep.
- Ela não te disse mesmo o que houve? - Ele olhou sentada ao seu lado, mas ela apenas negou pela milésima vez com a cabeça, os olhos fixos no portão de entrada. Os dois estavam esperando ali desde que mandou uma mensagem do celular de emergência.
“Recanto dos tigres, 23h00”. Nada mais, nem mesmo uma palavra sobre o que havia acontecido e parecia tão preocupada quanto o jornalista.
- Pode ser só algo que ela estava com vontade de dizer e não quis esperar até a próxima quinta, . - sabia que ela estava tentando se convencer do que havia dito, mas não tinha confiança. Nem mesmo ele tinha.
- E ela mandaria uma mensagem no celular de emergência? Celular esse que ela afirmou com todas as letras só usar em último caso? - suspirou alto. não queria ser negativo, mas não é como se houvesse positivismo na atmosfera ou na situação em si. Os olhos do jornalista captaram um movimento de faróis no final da rua e o carro de Azikiwe apareceu em seu campo de visão. Ele se endireitou imediatamente e começou a balançar os pés contra o tapete do carro, esperando até que Athos saísse do banco do carona com um sorriso enorme do rosto e caminhasse na direção do Jeep. O coração de acelerou ao pensar se o primo iria parar para cumprimentá-lo, mas este apenas deu um sorriso descarado e malicioso para o primo, logo em seguida sorrindo para com agrado felino nos olhos. com certeza socaria o primo assim que possível.
- , ela piscou duas vezes com o farol. - comentou com a voz baixa e Athos passou reto por eles, indo em direção ao seu carro no final da rua.
- Esperamos dois minutos? - A mulher ao seu lado assentiu fracamente. recostou-se contra o banco estofado e colocou a mão na têmpora, esperando que a ansiedade não o consumisse vivo. usava seu boné vermelho e havia colocado sua peruca chanel habitual, o que indicava que as chances de serem vistos poderia ser altas. olhou para o relógio e ao ver que três minutos haviam se passado, os dois saíram do carro casualmente, deixando o vento fustigar-lhes.
- Vamos no apartamento de Azikiwe, somos Lavinia e Ralph. - torceu nariz ao ouvir o nome falso que haviam lhe dado. O porteiro encarou os dois com desinteresse e sumiu do campo de visão para interfonar no apartamento de .
- Podem entrar! - A voz do porteiro foi abafada pela cabine, mas o portão se abriu e os dois subiram as escadas rapidamente até o elevador já a espera. De cabeça baixa, e subiram em silêncio até o sétimo andar, deixando que apenas o barulho das engrenagens fosse absorvido por suas mentes cheias. Quando a cabine chegou ao andar indicado, já esperava do lado de fora do apartamento.
- Vocês vieram rápido, ainda bem. - Sua voz estava rouca, percebeu . Os olhos estavam levemente borrados de maquiagem e mesmo assim estava bonita, mas não tinha o mesmo brilho que resplandecia naquela foto no escritório de , ela parecia ansiosa e cansada - Entrem. - Ela se virou de costas e abriu a porta do apartamento. nem mesmo havia dirigido o olhar para , mas ao entrar no apartamento, não pôde deixar de encará-la com culpa. Precisaria se desculpar antes de sair.
- O que houve, ? - perguntou em tom de voz baixo. Azikiwe indicou para que os dois sentassem no sofá, mas permaneceu de pé, dando passos desconfortáveis pela sala pequena. O apartamento estava um pouco bagunçado, algumas roupas estavam sobre uma cadeira e havia maquiagem na mesa e no hack, ela deve ter saído com pressa naquela manhã, pensou . Os olhos de Azikiwe pararam nos de e ele viu relâmpagos tentando se libertar, havia uma aura selvagem ao redor da mulher.
- Eu conheci Gerald North. - O sangue de pareceu congelar, ele prendeu a respiração sem que percebesse e os olhos puderam apenas fitar os de , procurando qualquer julgamento ou nojo em sua voz - Ele enviou uma mensagem para alguém, não sei quem é, não consegui rastrear ninguém que estava na casa subindo para o local onde achei a mensagem. - Ela pegou o celular nas mãos e colocou na visão dos dois - Aí está dizendo que ele cuidou do babaca, não sei exatamente a tradução literal disso em inglês, e que precisam de um substituto. - o encarou com o canto dos olhos, e então começou a batucar os dedos contra os joelhos expostos.
- Ele sabe seu nome por causa do zoológico? - assentiu rapidamente e deu uma versão geral do que havia acontecido. A cada menção do nome de Gerald fazia os ombros de se encolherem um pouco mais, talvez fosse raiva ou cansaço, ele não sabia dizer - Eu e Athos ficamos até umas nove e 40, mas eu não aguentava mais ficar remoendo.
- Está certa, mas ainda acho que seja lá pra quem for a carta, deve esperar até que não haja mais ninguém na casa… Você confia de verdade no Mendel? - encarou com certo choque no olhar.
- O que quer dizer, , é que nós todos confiamos em alguém e acabamos descobrindo algo que não gostaríamos acerca dessa pessoa, devemos então duvidar de tudo o que é posto em nossa frente. - assentiu e se colocou em pé, deixando que a ansiedade transparecesse. Ao inferno com toda aquela merda.
- Por que confirmou seu nome a ele? - A voz de estava séria e arrastada - Se o reconheceu e lembra do que leu sobre ele nos folhetins, deve saber do que ele é capaz de fazer com aqueles que entram no caminho dele. No momento em que ele te reconhecer como ameaça, já era. Você já era. - precisou conter a dor em sua voz quando encarou Azikiwe e mais uma vez. As duas o encaravam seriamente, mas via receio em seus olhares.
- Vamos com calma, ele desconfiou de alguma ação sua? - se contrapôs, tentando observar todos os cenários possíveis.
- Não. Athos me apresentou como seu acompanhante, acho que isso o irritou o suficiente. Além do mais, eu não fui até lá procurando a carta, mas sim o banheiro. Inclusive, ele que me guiou! Não tem motivo para desconfiança alguma.
- Erasmus não foi à festa e logo em seguida esse bilhete aparece, não é coincidência, não mesmo… - Por alguns segundos, apenas a batida do sapato de era ouvido. encarou e esta retribuiu o olhar, ele queria contar a ela sobre seu pai, mas ainda hesitava, não havia deixado que ninguém realmente entrasse naquele terreno.
- Cheguei a pensar o pior sobre Erasmus, mas acham que iriam tão longe? E por que iriam eliminá-lo? - se pôs a indagar.
- Iriam, com certeza iriam. Não temos certeza, mas pelo o que você falou no lançamento do livro do seu amigo, Erasmus disse que tomar decisões poderia ser muito difícil. Talvez tenham o confrontado e ele pode ter amarelado, então precisam de um substituto. - deixou que o lado jornalista falasse mais alto, falar os fatos em voz alta tornava-os mais coesos - Isso é especulação, mas faz sentido. Erasmus Stone é o filho de um dono de uma rede de carnes, essa mesma rede que corta os animais, separa a pele e as envia para diferentes lugares do mundo. Qualquer um com o mínimo de consciência sabe que isso é um crime e dos grandes, além da corrupção por trás e tudo mais. - assentiu, mas permaneceu encarando o chão.
- Será que ele se sentiu mal? - encarou , mas negou.
- Pode ser que ele tenha notado que é um negócio arriscado demais e instável demais.
- Ele não queria arriscar em uma possível causa perdida. - Algo beliscou a mente de quando a voz de se fez audível - Talvez ele estivesse certo quanto a isso.
- Mas Erasmus deveria confiar o suficiente no pai e em Gerald, o esquema está bem escondido aos olhos de todos, algo diferente fez ele desistir. Ele pode ter achado algum erro no esquema, algo que nós que estamos de fora não podemos enxergar. - comentou.
- Precisamos arranjar algum jeito de fazê-lo falar.
- Tenho toda a agenda dele comigo, assim como de alguns acionistas. - disse com o olhar alternando entre e - O único evento que eu consegui conectar é o no Brasil, o país é um dos maiores exportadores de carne para o Reino Unido, deve ter alguma relação com isso. Eles vão ter uma reunião com alguns acionistas em um hotel no centro, mas não temos como rastreá-lo até lá.
- Na verdade, temos sim. - A voz de se fez ouvida, os olhares ansiosos se dirigiram a ele - Tenho algumas gravações em São Paulo, posso dar um jeito de mudar o esquema das gravações para coincidir com o dia em que vão estar lá. - abriu um sorriso enorme.
- Faça isso.
- Precisamos achar algum intérprete que possa nos guiar pelo Brasil, mas é praticamente impossível sem que ele nos dedure. - suspirou e resmungou.
- Eu falo português. - Os olhos de praticamente pularam da cara.
- Meu Deus, verdade! Eu esqueci! - A mais velha se pôs de pé em um pulo - Você consegue ir? Dou algum jeito de passar suas cirurgias para outra pessoa, não tem problema. Vamos mascarar a sua ida com a ajuda para identificar os animais, ainda mais porque você é especialista em tigres, podemos usar os do-sul-da-China como uma desculpa perfeita. - encarou .
- Acha que consegue? - Ela batucou os dedos contra a perna direita.
- Sim, consigo. Se conseguir arranjar isso para mim e achar alguém para substituir minhas cirurgias, eu irei. - abriu um sorriso fraco - Eu já visitei o Brasil uma vez, alguns anos atrás, o problema com o passaporte e visto não vão ser tão complicados.
- Isso é ótimo. , veja com seu time de gravação, dê algum jeito de direcionar seu pessoal para São Paulo, chegue dois dias antes, pegue um dia de folga apenas para dar a volta por São Paulo e sei lá, esbarrem neles sem querer. - estava animada, o sorriso enorme contagiou que riu junto.
- Eu nunca vi alguém tão feliz com uma emboscada. - Ela comentou e toda a aura feroz que a tomava pareceu sumir.
- Vou resolver tudo isso amanhã de manhã, fique tranquila.
- Já que acabamos por aqui, preciso ir para casa. - se colocou em pé e bateu as mãos animadamente - Minha carona chegou. Vejo você amanhã, ? - Azikiwe assentiu com um sorriso.
- Vou resolver alguns detalhes sobre São Paulo com a , ok? - assentiu distraidamente para . Eles se despediram e apenas quando as portas do elevador se fecharam com dentro, tomou coragem para encarar Azikiwe nos olhos. Ela coçou o pescoço, Crawford acabou acompanhando o movimento descaradamente - Precisamos conversar.
*

encarou o chão até que algum dos dois estivesse pronto para falar.
- Pelo menos se divertiu apesar do meu pai?
- Sim. Não vai ser um homem que irá acabar com minha diversão, nunca. - soltou uma risada fraca e se sentou novamente no sofá, Azikiwe hesitou, mas sentou-se ao lado de Crawford.
- Vamos começar do início, ok? Desculpa por ontem, eu fui um babaca, não deveria ter agido daquela forma. - balançou a cabeça e se virou para encontrar os olhos de diretamente nos dela, o dourado e o castanho se chocando.
- Eu também fui bem sem noção, não sabia sobre o seu pai. Acho que consigo entender o seu lado agora. - Os ombros de pesavam contra seu corpo, ela se sentia levemente envergonhada, mas não sabia se mudaria de opinião mesmo se soubesse sobre o pai de .
- Não quis contar sobre meu pai, não consigo articular que o homem que me trouxe ao mundo é responsável pelo roubo de milhões de euros.
- Sinto muito. Mas se serve de algum consolo, você não merece o pai que tem. Além do mais, você e Athos são bem mais bonitos. - deu uma gargalhada alta e encostou a cabeça no sofá.
- Acho que estou pronto para ir à guerra com ele. - mordeu a ponta dos lábios. Não se sentia no direito de falar algo sobre o pai dele, não quando não se mostrava aberto a isso.
- Quando está pensando em ir para o Brasil? - a encarou de soslaio e suspirou.
- Acho que daqui exatamente um mês, preciso de um tempo para organizar os materiais e ligar para nossos contatos se deslocarem até São Paulo.
- Você tem alguma aliança de mercado com seu pai?
- Nunca quis me meter nos negócios do meu pai. Tive apenas sorte de encontrar as pessoas certas na faculdade, elas abriram portas enormes para mim, mas não devo mentir que usar o meu sobrenome para falar com algumas pessoas é bem legal. - sorriu e começou a encarar as unhas.
- Eu não estou acostumada com tudo isso, . - Ela suspirou - É totalmente fora da minha realidade. Eu fugi da faculdade de direito com toda as minhas forças porque odeio lidar com burocracia ou pessoas de má fé, - soltou uma risada sufocada - e agora eu estou cercada delas. Deve ser Deus me dizendo que não tem como fugir desse tipo de gente, mas isso não me impede de odiar cada segundo ao descobrir que existem pessoas tão ruins.
- Um pensamento por outro, ok? - sorriu carinhosamente - Estou pensando em terminar toda essa palhaçada e sumir do mapa. Ir embora para algum país pequeno e simplesmente me desligar dessa teia da qual eu não consigo sair.
- Espero que você realize o seu desejo. - Ela sorriu fracamente e os dois permaneceram em silêncio, cada um imerso nos próprios devaneios - Você quer beber alguma coisa? - olhou no relógio. 23h40, teria que estar no hospital às 15h00, tinha tempo para desfrutar da companhia de , ele parecia precisar.
- Acho melhor ir embora. Você vai trabalhar amanhã, não quero incomodar. - revirou os olhos e se levantou do sofá.
- Vou trabalhar tarde, não tem problema. - foi até a cozinha e pegou duas taças, logo em seguida um vinho que deixou guardado por algum tempo.
- Você não bebeu na festa? - negou com a cabeça ao entregar uma taça para .
- Precisei voltar dirigindo e eu também não sou tão fã de bebida, sendo sincera. Na verdade, nem Athos bebeu depois das quatro. - arqueou as sobrancelhas.
- Ele costuma encher a cara até não aguentar mais. - deu de ombros - Se divertiu com ele?
- Ele se mostrou extremamente gentil e engraçado. Vocês dois são idênticos, é chocante. - Crawford soltou uma risada alta e tomou um gole do vinho.
- Costumávamos dizer que éramos gêmeos quando éramos crianças, acreditavam facilmente.
- Athos me contou sobre as festas de vocês, aparentemente estou convidada para a próxima. - encarou pela borda da taça ao tomar um gole. Os olhos do homem estavam focados completamente nos de , ela sentiu algo a incomodar quando ele mordeu os lábios.
- Você vai gostar, acredite. Quer dizer, o dia seguinte é bem bagunçado, não posso garantir nada.
- Você e Athos me encaram como se eu não soubesse o que se passa nesses lugares. Não é porque não frequento que eu não conheça. - deu de ombros.
- É estranho te imaginar em festas. Ainda estamos nos conhecendo, mas gostaria de ver esse seu lado. Pode ser divertido. - O mesmo sorriso estava de volta. mordeu novamente o lábio inferior e balançou os cabelos encaracolados com as mãos - Talvez você me surpreenda.
- Eu já não te surpreendi o suficiente até agora? Tsc, você é bem difícil de impressionar, Crawford. - deu um peteleco de leve na taça e a colocou sobre o hack, cruzando as pernas em seguida, o olhar de se dirigiu diretamente para as coxas grossas que estavam torneadas pela calça.
- Descobri que não canso de me surpreender com você, Azikiwe. - sentiu o ar esquentar e de repente o sobretudo estava quente demais em seus ombros, ela o tirou, deixando o cropped preto exposto completamente. A mulher da festa não deu por falta, Azikiwe então simplesmente resolveu ficar com ele, não parecia tão desconfortável.
- Você ainda não sabe da metade, . - inclinou um pouco a cabeça para o lado, deixando o pescoço completamente exposto - Quer um pouco mais? - não se encolheu diante do olhar que lançou para si, os olhos dourados lançando farpas elétricas com os de , aquele mesmo olhar felino predatório que costumava aparecer em seus pensamentos contra sua vontade.
- Sim, por favor. - se esticou para pegar o vinho, mas um som estrondoso a assustou, fazendo com que a garrafa escorregasse e batesse contra o hack, derrubando vinho.
- Droga. - Ela xingou antes de correr para pegar o celular. ria como louco na sala, já se levantando para ir atrás de um pano. Azikiwe pegou o celular na bolsa, o contato de Athos gritando na tela. - Está na terceira gaveta do lado direito! - Ela disse alto o suficiente para que ouvisse - Alô? Athos?
- Oi! Não estava dormindo, estava? - voltou para a sala com a mão esquerda suja de vinho pendendo ao lado. estava limpando a enorme mancha de vinho que se espalhava aos poucos na madeira do hack.
- Não, não estava. Aconteceu alguma coisa? - foi até a pia e deixou que a água lavasse o cheiro de álcool que estava em suas mãos.
- Eu esqueci minha camisa no seu carro. Deixei uma reserva lá, lembra? - xingou baixinho quando apareceu com a camiseta branca suja de vinho também. Ele deu uma risada falhada e o acompanhou - Você está com companhia? Desculpe, não queria atrapalhar.
- Não estou com ninguém, eu derrubei vinho no chão. - a encarou com as sobrancelhas arqueadas e se aproximou um pouco mais da mulher, deixando que o cheiro de seu perfume a preenchesse. Droga de homem cheiroso.
- Posso passar no zoológico segunda para pegar, se não for incomodar? - Azikiwe soltou um gritinho quando sentiu duas mãos fazerem cócegas em sua barriga. Ela segurou o riso, mas falhou miseravelmente - , passo lá na segunda, ok? Aproveita a companhia. - Athos soltou uma risada maliciosa e desligou o telefone, mas mal teve tempo de processar antes de deixar que uma risada alta tomasse conta de si.
- , para! - Ela gritou tentando fugir das mãos do jornalista, mas ele beliscava sua pele de leve.
- Queria deixar Athos com inveja. - Ele comentou quando finalmente deixou respirar. As mãos da médica se apoiaram contra a pia, ainda soltando risadas falhadas.
- Como sabia que era ele? - Perguntou finalmente.
- Athos fala incrivelmente alto e você aparentemente tem o volume do celular no máximo. - finalmente parou de rir e o encarou com as mãos na cintura.
- Curioso. - Ela passou por , esbarrando seus ombros e se dirigiu para a sala - Desculpa, você acabou sujando sua camisa. - apareceu na soleira da porta e deu de ombros.
- Não tem problema. Você tem alguma outra camisa aí?
- Acho que sim, espera aí. - A mulher foi até o quarto e pegou um moletom vermelho da Disney - Aqui, esse é meu moletom favorito, não suje. - soltou uma risada ao ver a estampa.
- Geralmente é ao contrário, não é? A mulher usa o moletom do cara e tudo mais. - deu de ombros.
- Eu falei que sou surpreendente. - sorriu largamente.
- Claramente. - indicou o banheiro e esperou ele sair apenas para gargalhar ainda mais alto do que quando ele havia lhe feito cócegas.
- Você está uma graça com meu moletom. - Ela comentou com as bochechas vermelhas de tanto rir. , o homem de um metro e 78, estava usando um moletom da Disney. Pelo fato de ser mais encorpada, o moletom havia caído perfeitamente bem, se surpreendeu Azikiwe - Fica melhor em você do que em mim, sabia?
- É claro, sou eu quem está usando. Tudo fica bem em mim. - revirou os olhos.
- Acredite no que quiser.
- , agora que já derrubamos o vinho, já estou usando as suas roupas, acho que preciso ir embora. - mordeu o lábio inferior e cruzou os braços.
- Você bebeu e vai dirigir? - inclinou a cabeça.
- Preocupada comigo?
- Preocupada com os motoristas que vão se sujeitar a isso. - riu e deu de ombros.
- Bebi apenas um gole, estou tranquilo. - o encarou com desconfiança, mas olhou para a taça de quase intacta e cedeu.
- Ok. Mande mensagem quando chegar em casa, certo? - assentiu levemente ainda sem parar de sorrir.
- Ok, mamãe. - revirou os olhos e deu um tapa em seu braço - Me diverti, de verdade. Na quinta-feira já vai estar tudo pronto para a viagem, vou te passar todas as informações.
- Obrigada. Até quinta. - o guiou até a porta, se apoiando no batente - Toma cuidado. - Ela sussurrou, evitando que a voz incomodasse os vizinhos, como se a risada não fosse o suficiente. a encarou com os aros dourados brilhando ainda mais.
- Não vai me dar beijo de boa noite? - ignorou o estremecer que a percorreu e ainda estalou a língua contra o céu da boca.
- Você pode sonhar com isso, Crawford. - Ela cantarolou, recebendo uma risada sarcástica de volta.
- Prometo tornar o sonho o mais delicioso possível. - Antes que pudesse responder, havia entrado no elevador e ela se viu sozinha no hall.
- Droga de homem. - Ela resmungou e fechou a porta atrás de si, mas não conseguiu se livrar do cheiro de em sua mente.


Capítulo 8 - Aquele da Perseguição

23 de agosto de 2017, quarta-feira
- Você só pode estar brincando comigo! - xingou quando abriu a porta de casa e viu diversas correspondências sob sua porta de entrada. Ela havia acabado de voltar do plantão no hospital e mal podia esperar para se jogar na cama e mofar - Desde quando estou devendo tantas coisas? - A mulher se agachou reclamando de dores nas costas. Largou as chaves e a bolsa em cima da mesa, analisando os envelopes em suas mãos - Contas, contas, mais contas… Hum, cartão fidelidade? Não, obrigada. - Azikiwe se jogou no sofá enquanto analisava o conteúdo das contas, sentindo um aperto no peito ao analisar as taxas de juros do empréstimo estudantil que ainda pagava - Do que adianta se formar dois anos antes que a maioria das pessoas se as contas vão continuar para sempre? Que merda.
soltou um suspiro pesado e deixou que os pés se libertassem dos sapatos brancos. Todo o seu armário era constituído por sapatos brancos, jalecos verdes e blusas de manga comprida. Não havia uma variedade exorbitante ali, isso irritava um pouco Azikiwe, mas a médica não podia se dar ao luxo de fazer compras, não quando estava chegando mais perto de se livrar da dívida exorbitante de seu empréstimo. Mesmo que seus pais insistissem em emprestá-la dinheiro ou pagar sua universidade, Azikiwe não deixou que interferissem em algo dela. Além disso, sabia que pedir emprestado dinheiro para a família nunca era boa ideia.
Uma exclamação surpresa surgiu nos lábios da médica quando ela observou um envelope cinza selado com uma figurinha de Rajah, tigre personagem de Aladdin. Um arrepio cruzou a espinha de Azikiwe conforme ela abria o envelope que parecia estufado, cheio de material dentro.
- Que porcaria é essa? - O ar sumiu dos pulmões da veterinária ao ver uma imensidão de fotos dentro do papel cinza. Ela se levantou em um pulo e espalhou as fotos em cima da mesa. Todas as fotografias mostravam ou em situações casuais, mas nunca tiradas de um ponto de vista que estivesse olhando, ou . Em uma delas, os dois estavam no zoológico durante a entrevista para o documentário de Crawford, o sorriso de para quando ele não estava olhando indicava que ela estava leve e confortável na presença do homem; em outra, os dois alimentavam os pássaros no recanto das aves no Congo. Esta foto em particular parecia ter sido tirada da esquerda de onde estava, na floresta, se Azikiwe se recordava; ainda em outra fotografia, estava se agarrando com uma moça loira e muito mais baixa que ele em um bar, formando uma sequência de outras fotos desde sua saída com a moça em seu pescoço até uma em que ele entrava super bêbado em seu apartamento, local que Azikiwe nem mesmo sabia onde ficava. O que diabos significava aquilo tudo? Quem estaria espionando a médica?
A mulher virou o envelope cinza, agora vazio, procurando um endereço, qualquer coisa que indicasse quem havia enviado as fotos, mas não havia nada. sabia que não sabia que aquelas fotos haviam sido tiradas, isso era óbvio. Quem enviara? Teriam sido os assassinos de Madalena, devido à figurinha?
correu para o interfone, roendo as unhas até que o porteiro atendesse.
- Olá, Julius. Poderia me dizer quem colocou as minhas correspondências pela minha porta? - Azikiwe ouviu a estática do aparelho e o afastou rapidamente do ouvido, voltando a ouvir a voz pesada do porteiro.
- Eu mesmo, srta. Azikiwe. Peguei as entregas hoje de tarde que chegaram do correio e coloquei em todos os apartamentos como sempre. Por quê? Algo errado? - quis soltar um grito. Não chegaria a lugar nenhum entrevistando seu porteiro. Ela murmurou um agradecimento e desligou o interfone, deixando que apenas os pensamentos gritassem com o sangue em seus ouvidos.
- O que diabos está acontecendo… - Ela começou a murmurar e voltou para a mesa, analisando novamente todas as fotos, procurando por alguma pista que a levasse para quem havia tirado as fotos.
E se existiam fotos, provavelmente existiria uma chantagem, certo?
Automaticamente, Azikiwe deixou que uma parcela de medo a invadisse conforme percebeu a verdade. Encontraram onde ela morava, não que fosse realmente difícil. E o mais importante: tinham acesso à . Poderiam matá-la ou encurralar a médica quando bem entendessem. socou a mesa e soltou uma série de xingamentos quando bateu com o dedinho de forma errada na quina.
Talvez fosse o momento de falar com . O homem estava nas fotos e com certeza não deveria saber que estava sendo fotografado aos beijos. Azikiwe pegou a sequência de fotos de Crawford e as segurou nas mãos trêmulas. Ele parecia completamente diferente do homem que ela conhecia. Quando aquela foto teria sido tirada? Ele não parecia o mesmo, talvez estivesse no fundo do poço no momento em que as fotos foram tiradas. Ele estava com os ombros curvados, não sorria ao lado da loira, parecia ainda mais cansado que o normal, o moletom preto que o cobria estava amarrotado, a calça jeans parecia velha e gasta, mas os cabelos eram os mesmos, cabelos selvagens e indomáveis que despertavam a atenção de Azikiwe desde seu primeiro encontro.
Claramente, ele gosta que outras mulheres deem atenção a seu cabelo
. Pelo amor de Deus, em que merda ela estava pensando?
largou as fotos em cima da mesa novamente e se sentou, todo o cansaço dos últimos dias pesava em suas costas como uma bigorna preparada para afundá-la. Apenas o tique-taque de seu relógio de parede era ouvido conforme ela tentava pensar nos próximos passos. Deveria ignorar essa ação ou tomar alguma providência? Precisaria melhorar a segurança em seu apartamento, isso era óbvio. Automaticamente, pegou seu celular e resolveu testar algo.
- Alô? ? Ah, desculpa estar ligando, precisei fazer um teste rápido! Acho que deu problema com minha operadora. Sim, nos vemos depois, beijos. - mordeu os lábios com força quando não conseguiu identificar se havia um grampo ou não em seu celular, a linha não parecia estática. Ela reconheceria se houvesse. Estaria segura em seu apartamento? Decidida a não deixar na mão da sorte, começou a revirar o local atrás de possíveis câmeras escondidas. Olhou dentro dos livros de medicina, no móvel sob o espelho do banheiro, próximo às almofadas, na televisão, nas pequenas estatuetas de monumentos históricos que ficavam em cima do hack.
Nada, não havia sinal de quem invadira a propriedade de . Talvez o ponto máximo houvesse sido a portaria do prédio. Querendo ou não, certo alívio preencheu o peito da médica e ela deixou que os olhos pesassem um pouco mais. Estava há três dias sem dormir, vivendo a base de café e energéticos, precisava dormir urgentemente antes de tomar qualquer medida contra os chantagistas - pelo menos era o que Azikiwe achava que eram.
Então não deixou que a consciência pesasse ao se jogar na cama e dormir antes mesmo de a cabeça alcançar o travesseiro.
*

24 de agosto de 2017, quinta-feira
- Pelo visto, me tornei alvo. - disse ao colocar o envelope cinza em cima da mesa de jantar. , , e estavam sentados em uma mesa afastada no Outback. A luz extremamente baixa e as vozes altas dos adolescentes um pouco afastados da mesa camuflavam o verdadeiro motivo do encontro deles ali. Uma reunião enquanto devoravam uma costela de porco. Azikiwe se ateve à salada e batata frita com cheddar.
- Que merda, ! Esperou até agora para falar? E se houvessem mandado outro desses para você? Ainda por cima mataram o principal suspeito da morte de Madalena! Era um funcionário novo na fundação, ele estava arranhado nas costas. Quando levaram o rapaz ao interrogatório, dois dias depois ele foi morto. Está tudo uma belezinha. - foi o primeiro a se pronunciar.
- Mas não mandaram. Tudo sob controle. - se forçou a dizer o mantra enquanto ensaiava na frente do espelho no vestiário. e viram as fotos logo em seguida, se demorando em uma foto em que pulava a janela do quarto de no Congo. Talvez essa fosse a foto em que mais havia se demorado após acordar naquela manhã. Ela deixou um sorriso irônico escapar ao perceber como fora ridícula a cena do homem pulando sua janela no meio da noite, mas este sumiu gradativamente quando ela percebeu que outra pessoa havia presenciado o encontro deles.
- Por que você pulou uma janela? - Perguntou ao levantar os olhos da foto. arqueou a sobrancelha e soltou um risinho.
- Acho que ele está revivendo os tempos adolescentes, pulando na casa dos outros no meio da noite. O que estava acontecendo aqui? - coçou a nuca e encarou Azikiwe, desculpando-se com o olhar.
- Foi quando eu contei à sobre as fraudes nos contratos. - Ele comentou com a voz baixa e a compreensão atingiu todas as mulheres ao redor. soltou uma gargalhada alta, ultrapassando até mesmo o som da algazarra dos adolescentes que riram contagiados pela risada da mulher mais velha. os analisava, mas não escondia o sorriso e a gargalhada que veio em seguida.
abriu um sorriso enorme ao observar Athos se aproximando da mesa com a língua presa entre os dentes perfeitamente brancos. Ele usava um casaco jeans sobre uma blusa branca e bermuda preta. Os ombros do homem estavam perfeitamente relaxados, atraindo a atenção dos adolescentes que ainda acompanhavam as risadas contínuas de .
Athos se sentou ao lado de na ponta da mesa. No meio da confusão, mal viu pegar as fotos e guardá-las em sua pasta. Homem esperto.
- Pessoal, esse jantar é mais como uma apresentação do nosso novo membro oficial. - anunciou com um sorrisinho contido. arregalou os olhos e se virou para Athos sem disfarçar a felicidade.
- Finalmente alguém do sexo masculino que seja realmente suportável. - a encarou com falso choque nos olhos.
- Esse seu amor por mim vai ser sua ruína, Azikiwe. - se deliciou com o perigo do flerte na frente dos amigos, mas sentiu o interior girar com o sorriso que transpareceu em sua direção.
- Pode ir sonhando, Crawford.
Os cinco tiveram um jantar tranquilo, conversaram sobre amenidades e evitaram falar sobre o verdadeiro motivo de estarem ali. Com tantas pessoas ao redor, seria arriscado, ainda mais depois de ter recebido as fotos. Uma parte dela não deixava de olhar ao redor, procurando alguém com uma câmera. Ela estava sendo paranoica, nada aconteceria enquanto estivesse ali. Mas e quando estivesse sozinha? Azikiwe balançou a cabeça e empurrou os pensamentos para longe. confiava em seu Deus o suficiente para saber que tudo daria certo no final. Ela esperava.
- Você veio de carro, Athos? - perguntou quando pagaram a conta e já se dirigiam para fora do restaurante. Crawford negou com a cabeça e chutou o chão levemente.
- Meu carro está na oficina, tive um problema com o câmbio.
- Eu te deixo em casa depois de levar a .
- Seria ótimo. Mas não é fora de mão? - deu de ombros e os cinco se separaram ao andar pelos corredores pouco espaçosos do local.
- Ele é um verdadeiro colírio, hein? - comentou com um sorrisinho malicioso perto do ouvido de .
- Athos? - Perguntou a mulher com a voz baixa. A pele negra de brilhava assim como seus olhos ao assentir - Realmente… Ele e são idênticos. - arqueou a sobrancelha.
- São mesmo, mas Athos é uma versão mais bombada. - As duas soltaram uma risada e rapidamente se juntou a elas, deixando que os homens andassem na frente discutindo algo sobre futebol. se sentiu tentada em ir até eles para discutir o tema, mas se manteve com suas amigas.
Rapidamente chegaram até o estacionamento. O Jeep de fez um barulho ao ser ativado, atraindo a atenção de .
- Tchau, meninas. Até amanhã! - se despediu e entrou no banco da frente do carro de . Estava tão acostumada a pegar carona que esqueceu de perguntar a Athos se ele gostaria de acompanhar o primo, mas pareceu feliz ao vê-la ali.
- Vou te deixar em casa primeiro, Athos. Vi a rota e é mais perto te deixar e depois a . - Athos assentiu levemente com a cabeça e arqueou a sobrancelha para o primo.
- Tem certeza que não quer dormir lá em casa hoje? - encarou Athos pelo retrovisor e assentiu.
- Tenho que resolver alguns problemas das passagens para o Brasil. - encarou pelo canto dos olhos. Ela respirou fundo ao lembrar que teria que voltar a usar uma certa rede social para treinar um pouco mais seu português.
- Ah, isso vai ser legal! Vai precisar que eu te acompanhe nessa também ou apenas no Canadá? - arqueou a sobrancelha e virou um pouco mais o tronco para encarar Athos largado no banco de trás do carro.
- Você vai com a gente, é isso? - Athos Crawford assentiu com um sorriso perturbadoramente sedutor.
- Sim. Não aguentaria de saudades de você, . - O apelido soou como uma canção nos lábios de Athos. apenas riu envergonhadamente e voltou a encarar o estacionamento. ligou o carro e se colocaram na rua rapidamente.
Azikiwe ligou o rádio e deixou a Capital FM tocar. parecia segurar o volante com força, os ombros estavam tensos e os olhos não deixavam o trânsito, nem mesmo ria das piadas que Athos fazia com . A médica estranhou a reação de , mas se manteve calada até que o homem começou a encarar continuamente o retrovisor.
- O que houve?
- Acho que tem alguém nos seguindo. - Ele encarou novamente o retrovisor. olhou para trás e viu que um enorme veículo branco se aproximava rapidamente. acelerou e o veículo também. A avenida estava com um bom trânsito, era possível trafegar entre os carros e foi exatamente o que fez. O carro que os seguia pareceu cansar de disfarçar, se aproximando perigosamente. sentiu o peito apertar, como se estivessem socando seu pulmão, e não duvidava que fossem completar o ato, de fato.
- Merda. - Athos xingou e não pôde fazer nada além de rezar e impedir que o medo a consumisse. Ela olhou para as outras vias e para o viaduto que se estendia sobre eles.
- Se mantenha a esquerda, vamos precisar fazer uma curva brusca ali.
- O quê? - desviou o olhar para o rosto de .
- Daqui alguns metros tem a entrada para a ponte. Você vai precisar jogar o carro com tudo para a direita bem em cima da hora, vamos ganhar alguma vantagem em cima desse cara. - assentiu levemente e se moveu mais para esquerda, exatamente como Azikiwe havia pedido. A placa seguinte avisava que a virada para o retorno ao viaduto estava a 100 metros.
Aquilo precisaria funcionar, ou os três capotariam com o carro.
- Se segurem, vocês podem bater com a cabeça. - Azikiwe prendeu o fôlego ao ver que o carro se aproximava tão rapidamente que ela poderia ver o motorista se estivesse a luz do dia. Ela não duvidou, aquilo daria certo - Agora! - anunciou e jogou o volante com força para o lado contrário, puxando para a direita. Azikiwe soltou um grito ao bater com a testa no vidro do carro - Merda! Vocês estão bem? - gritou quando finalmente fizeram a curva para subir o viaduto. virou para trás e suspirou aliviada ao constatar que o carro não os seguia.
- Estamos.
- Você está em um filme do James Bond, .
- Eu preferia estar em algum filme do Ryan Gosling. - Murmurou enquanto passava a mão na testa dolorida. Aquilo formaria um galo, com certeza.
- Eu também. - Athos resmungou ainda encarando a rua pelo vidro do carro - Por que estavam perseguindo a gente? Nos viram no Outback? Eu fiz um reconhecimento de leve antes de entrar no restaurante, tudo parecia tranquilo.
- Acho que talvez estivessem nos esperando desde o estacionamento. Mas se quisessem ter nos matado, já o teriam feito. Queriam nos dar um aviso, dizer que podem nos achar e que estamos em suas mãos. - Divagou conforme enfiavam-se entre ruas pequenas ao longo das avenidas. ainda olhava para o retrovisor diversas vezes, procurando os perseguidores.
- Nas mãos de quem? - foi quem fez a pergunta crucial. Quem havia enviado as fotos? Quem os estava perseguindo? Quem matou Madalena? Quem matou o principal suspeito do assassinato da tigresa?
- Vou precisar fazer algumas ligações. - Foi o que disse antes de colocar a mão sobre o braço de e acariciar levemente seu cotovelo - Vai ficar tudo bem. - Ele disse com um sorriso e voltou as mãos para o volante.
- Seja lá quem for, quer passar uma mensagem. - comentou e rapidamente pensou em e . As duas estavam em seus respectivos carros. Sozinhas - Vou ligar para as meninas.
- Athos, preciso que venha comigo. Você tem aula amanhã?
- Tenho. Vou virado, não seria a primeira vez. Vou falar com um pessoal da minha sala e perguntar o que sabem sobre equipamentos de segurança.
percebeu que as mãos tremiam enquanto digitava o contato de , ela respirou fundo e tentou não deixar a ansiedade levar o melhor de si naquele momento. Entretanto, não conseguiu disfarçar o alívio ao ouvir a voz animada de com o som de seus filhos no fundo.
- Oi, . Está tudo bem?
- Fomos seguidos, Jan. Você percebeu algo de estranho enquanto ia para casa? Algum carro te seguiu?
- Meu Deus! Como assim? Estão bem? Viram quem os seguiu? - foi bombardeada com perguntas das quais ela não tinha resposta.
- Estamos bem, mas não sabemos de nada além disso. Estamos no escuro. Se cuida, Jan! Vou ligar para agora. Fica com Deus, beijos.
- Acho engraçado você falar de Deus em um momento desses. - Athos comentou quando desligou o telefone. Ela suspirou enquanto procurava o contato de .
- Se não fosse por Ele, eu já teria me jogado para fora desse carro há muito tempo, Crawford.
A ligação com também foi normal. A mulher não se surpreendeu quando Azikiwe informou o que havia acontecido, ela já esperava que aquilo iria acontecer, era apenas questão de tempo.
- Vamos colocar proteção em cima de você e Athos a partir de hoje. Eu e já temos seguranças particulares e alguns equipamentos em nossos respectivos apartamentos, está na hora de vocês também terem. - Foi o que a mulher disse antes de desligar e prometer informar Azikiwe dos próximos eventos.
- Você acha que isso poderia chegar aos meus pais? - sussurrou depois de alguns minutos em silêncio completo. levou algum tempo para responder. Eles estavam dando voltas sem sentido há 20 minutos para despistar qualquer possível perseguidor.
- Não acho que a curto prazo, mas é possível. - estava sendo honesto, ela sabia disso, mas sentia o peito se apertar ao ponto de ser física a dor que sentia.
- Se fizerem alguma coisa com eles, eu sou capaz de matar qualquer um, não importa se eu vá presa ou morra junto. - Ela vociferou sentindo os dedos apertarem a capinha do celular involuntariamente.
- Esperamos não chegar a tanto. - só percebeu que a palma da mão sangrava levemente devido à pressão das unhas quando passou os polegares pela palma, envolvendo suas mãos enormes sobre as dela. Ela virou a cabeça para encarar o homem e relaxou imediatamente.
- Eu também. - Ela sussurrou e deu um aperto de leve na mão de , fazendo-o sorrir largamente.
precisou desvencilhar-se do toque quando mandou uma mensagem falando sobre possíveis datas para que dois profissionais fossem até sua casa instalar câmeras de segurança e aparelhos de proteção. Pouco tempo depois, já conseguia reconhecer sua vizinhança e parte dela murchou ao saber que teria que passar a noite sozinha.
- Obrigada pela carona. - Ela murmurou ao encarar o prédio de apenas oito andares.
- Sempre que precisar. - piscou e destrancou as portas do carro. respirou fundo e se despediu de Athos antes de sair do carro com o capuz do moletom que o homem havia lhe emprestado sobre a cabeça. Era melhor prevenir do que remediar.
A trajetória até seu apartamento foi silenciosa. sempre preferiu morar em uma casa, poderia ter dois cachorros e talvez alguns gatos, mas ela não pôde negar os pontos positivos em viver no apartamento que era herança de sua avó para ela.
Como pagava os empréstimos estudantis, Azikiwe não possuía dinheiro para praticamente mais nada além disso, deixando-a à mercê de viver no atual imóvel.
Não que este fosse ruim, não mesmo, quatro apartamentos por andar e já veio decorado com o gosto estranhamente moderno da avó postiça paterna. Foi um grande choque para a família do padrasto de ver que ela estava inserida no testamento da grande pesquisadora Havilliard, já que a menina nem mesmo era sua neta biológica. se lembrava de ter recebido ameaças muito adultas de alguns familiares após a leitura do testamento quando ela tinha apenas 19 anos. riu ao lembrar da avó de cabelos negros e pele alva, do sorriso caloroso e dos doces exóticos que ela fazia questão de preparar toda vez que a menina a visitava.
- Eu sinto saudades. - sussurrou ao abrir a porta de casa e fitar a decoração com traços espanhóis que sua avó havia lhe deixado. A mulher vivera ali por pouco tempo antes de se casar pela sexta vez com um ricaço do ramo de fabricação de produtos esportivos.
checou novamente cada espaço do apartamento antes de deitar-se em sua cama e respirar fundo. Desde que Madalena havia morrido, os pesadelos estavam ficando mais reais, mais assustadores, de forma que ela mal conseguia dormir devido ao seu trabalho com o plus dos sonhos macabros que assolavam suas míseras horas de sono.
A maioria dos sonhos consistia em alguns animais a atacando até que ela perdesse partes do corpo como a perna ou o braço, fazendo com que a mulher acordasse sobressaltada e aos prantos; em outros sonhos, ela ouvia uma voz misteriosa que ela reconhecia ser a dos assassinos de Madalena a assombrando e dizendo-lhe que ela seria morta da mesma forma. respirou fundo novamente e tirou os sapatos, largando-os perto da cama. Ela se aconchegou nos travesseiros coloridos e sentiu os ombros pesarem. Talvez estivesse na hora de falar com um antigo amigo sobre tudo aquilo. Mas faria isso no dia seguinte, naquela noite, ela precisava se concentrar em não sonhar.
*

26 de agosto de 2017, sábado
- Ainda bem que o culto de jovens continua sendo aos sábados de manhã. - Azikiwe sorriu largamente para o pastor Fred Havilliard, um homem de 30 anos, cabelos negros e olhos verdes como os de sua mãe.
- Você deveria voltar a frequentar os cultos, sentimos saudades suas por aqui. - Fred abraçou fortemente a meio-irmã e deu um tapinha em sua cabeça - Você está bem? Não nos vemos há alguns meses. - Frederick era incrível, isso era perceptível a qualquer pessoa se passasse mais de cinco minutos conversando com o homem. O jovem abriu mão de toda a herança da família e de muitas outras regalias para poder seguir o caminho do seminário e se virar por conta própria para pastorear a própria igreja. Bom, estava funcionando.
A verdade era que Fred era uma inspiração para Azikiwe desde que havia se mudado com a mãe para a casa dos Havilliards. Fred havia recebido a menina de braços abertos e fora ele quem a apresentara ao cristianismo. Não se separaram desde então.
- Estou levando. E você? Como está sua esposa? Já está grávida novamente? - Fred deu uma risada alta e os olhos verdes reluziram.
- Ainda não, mas planejamos ter mais alguns filhos. A economia não é a melhor, mas não consigo imaginar a casa sem mais alguns pentelhos correndo por ela. - sorriu largamente e aprumou-se contra o sobretudo azul. A temperatura havia caído drasticamente, anunciando cada vez mais a chegada do outono.
- Posso ir visitar vocês qualquer dia desses? Estou indo para o Brasil daqui algumas semanas, queria ver a Sharon antes de ir viajar. - Fred arqueou a sobrancelha e arrumou o colarinho, guiando a irmã para seu gabinete.
- Mas é claro que pode! Vou avisar a Sharon para preparar o chá da tarde para vocês, que tal? - assentiu enquanto cruzavam o templo até uma salinha na parte de trás do púlpito, a sala do pastor. O local inteiro era muito aconchegante, apesar de ser enorme. Havia um grande palco com uma cruz enorme atrás do púlpito, as cadeiras eram dispostas em “U”, como se fosse um anfiteatro grego e todo o local era adornado por modernos aparelhos de som e a decoração gritava modernidade, diferente da maior parte das catedrais antigas. Sendo a Inglaterra o berço da igreja protestante, era de se estranhar alguma unidade tão moderna e ainda assim tão grande quanto aquela, mas amava cada pedaço.
- Eu adoraria, Fred. Porém, tente não ficar lá, não gosto muito de você. - Frederick riu ao abrir a porta para a irmã antes de fechá-la atrás dos dois. A sala era pequena, porém extremamente confortável. O sofá preto de couro estava lá desde que podia se lembrar, Fred não parecia tentado a mudar a peça de lugar.
- Por mais adorável que seja a sua visita, creio que você tenha um motivo por trás, não é? - cruzou as mãos em cima das pernas e arrumou a postura - Você só fica rígida desse jeito quanto está nas reuniões de família, então deve ser algo sério. - A expressão brincalhona de Fred deu lugar a uma faceta preocupada.
- Eu estou tendo pesadelos… - Ela começou e percebeu o quão idiota parecia ao falar, mas Fred apenas gesticulou com a mão, incentivando-a a continuar falando - Esses sonhos geralmente terminam quando eu morro ou estou sendo ameaçada de morte. - A voz de ia abaixando conforme as memórias dos sonhos a invadiam, fazendo com que sua pele se arrepiasse por baixo do sobretudo - E-eu estou assustada pelas probabilidades, Fred. Eu não posso te dizer exatamente o que está acontecendo, mas eu estou com medo. - Ouvir as palavras sendo ditas pela primeira vez em voz alta, fez com que sentisse um grande peso saindo do peito. Fred pegou a mão da mulher sobre a mesa e começou a fazer pequenos círculos em sua palma, exatamente como fazia quando oravam.
- Você está correndo perigo real, ?
- Talvez?
- Como seu pastor, eu devo dizer a você que procurar ajuda é necessário, que você não pode viver um perigo desses sem ter ajuda do seu lado; e como seu irmão, eu quero sair por essa porta e socar quem quer que esteja lhe oferecendo perigo. Você é minha irmã, meu dever é te proteger de todo o mal possível, mas sei que você não é criança.
- O que acha de eu procurar um psicólogo? - Fred maneou com a cabeça.
- Acho que estava falando de uma ajuda além da psicológica. Você não pode me dizer mais nada? Está metida com drogas ou algo assim? - soltou uma risada esganiçada.
- Não, pelo amor de Deus! - sentia uma vontade tão enorme de falar para Fred o que realmente estava acontecendo, mas não poderia fazer isso sem colocar tanto ele como sua família inteira em perigo - Eu salvei a vida de um tigre no Congo e algumas pessoas queriam que esse tigre estivesse morto, e conseguiram. - Fred arqueou a sobrancelha, claramente não era o que ele esperava ouvir.
- Estão vindo atrás de você por que você fez o seu trabalho?
- Mesmo que eu seja obstetra, só eu estava disponível naquele dia e não sei, foi um livramento, pelo menos eu pensei.
- O que aconteceu com o assassino?
- Acharam um suspeito alguns dias atrás, mas ele foi encontrado morto. - Fred apertou um pouco mais a mão de .
- E você não ativou a polícia? - sentiu o interior revirar ao perceber o rumo que a conversa estava levando. Droga, não deveria ter ido ali.
- Eu não posso, Fred. Simplesmente não posso.
- , eu não sei se consigo ficar parado esperando algo acontecer com você. Você é minha família! - E ali estava, o que sabia que iria vir, mas ela preferiu ignorar. Droga, mil vezes, droga!
- Foi um erro vir aqui. Desculpe. - Ela se levantou da cadeira e passou a mão por trás do pescoço. Fred automaticamente se levantou também.
- , calma. Vamos conversar. Desculpe ter surtado, mas eu me preocupo com você. - Azikiwe sentiu a dor no olhar de Frederick, ela não precisava de mais aquilo acrescentado aos seus pesadelos.
- Vou procurar um psicólogo. Mande um abraço para Sharon e às crianças. - Ela murmurou e praticamente correu para fora da igreja, sentindo o estômago revirar. Ela não deveria ter fugido daquele jeito, não deveria nem mesmo ter ido até lá, para início de conversa. O arrependimento bateu forte contra o peito de , ela não poderia contar a ninguém sem que estivesse comprometida e comprometesse outras pessoas ao seu redor.
Azikiwe correu para o carro estacionado e só parou de dirigir alguns quarteirões depois. Ela pegou o celular e se dirigiu à lista de contatos, abrindo na conversa com a antiga psicóloga.
Olá, dra. Luna, tudo bom? Ainda está atendendo naquele consultório? Se estiver, gostaria de marcar uma consulta.
enviou a mensagem e então largou o celular no banco ao lado, sentindo um peso enorme nos ombros. Será que , e e sentiam daquela forma? Ou ela estava apenas sendo fraca sozinha?
Não era hora de pensar naquilo, talvez umas horinhas no tatame a ajudariam a esquecer.




Continua...


Nota da autora: Sem nota.




Outras Fanfics:
- Reggaetón Lento
- 05. Fancy

Nota da beta: O negóocio está esquentando, hein?! Vishe! Estou adorando!
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.



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