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Capítulo 1

Olhei no relógio, que já marcava nove e meia. Marcus, onde você está, seu bunda mole?, pensei batendo o pé no chão. Ele sempre se atrasava, mas dessa vez ele estava passando dos limites. Isso que dava deixar seu melhor amigo no apartamento sozinho com o namorado no telefone. Provavelmente eles estavam falando de como a semana tinha sido para cada um, já que é a primeira vez em oito meses que ele e Sam ficam separados. Maldita tinha sido a hora que eu decidi deixar os dois sozinhos , pensei olhando para o lado. Uma Ferrari acabava de dobrar o caminho, chamando a atenção de todos que estavam na rua. Exibido., revirei os olhos pensando no quanto eu desprezava o dono daquela Ferrari e o quanto eu odiava as noites da semana nas quais eu tinha que sair para um bar enquanto ele fazia orgia com seus amigos e não conseguiam controlar os gritos das vadias que andavam com eles.
Eu havia me mudado para a casa de Marcus há pouco mais de seis meses e, nesse tempo, desde o primeiro dia eu desejei não ter conhecido o vizinho odioso e exibido que Marcus tinha. Eu devo admitir, ele era um dos homens mais bonitos que eu já tinha visto. Com seu um metro e noventa de altura, seus braços fortes e peitoral firme - além dos olhos esverdeados -, eu podia jurar que ele tinha saído de um dos livros de romance que eu costumava ler. Mas juntamente com um porte físico tão visto por mim em meus livros, vinha a sua tremenda galinhagem e exibicionismo exagerado.
Quando eu encontrar alguém, tomara que ele não seja tão desprezível quanto esse homem, pensei vendo-o descer do carro com uma garota em cada braço. Ele jogou a chave para o porteiro pedindo que ele colocasse o carro no estacionamento e lhe dando uma boa quantia.
- Vamos, ? – Marcus apareceu ao meu lado fazendo com que eu me virasse para ele.
- Amém! Pensei que você nunca ia descer. – Disse, olhando para ele. – Pegou tudo?
Aham. – Ele me abraçou. – Você vai ficar bem aqui sozinha? – Ele perguntou se separando de mim para me olhar.
- Mas é claro que sim, não é como se algum vizinho tarado fosse me atacar. – Falei, vendo o vizinho de Marcus virar seu rosto enquanto passava para mim. Ele me encarava como se soubesse que eu estava falando dele. Ele poderia ser um ser desprezível, mas seus olhos faziam com que minhas pernas tremessem na base.
- Eu quero que você tome cuidado, tudo bem?
- Sim, senhor, general. – Falei, batendo continência.
- Eu estou falando sério, . Você vai ficar sozinha no apartamento por quase três meses, sabe-se lá o que pode acontecer.
- Marcus, você não vai se atrasar para o seu voo? – Perguntei, começando a empurrá-lo em direção ao táxi.
- Eu não sei não, , não gosto de te deixar aqui sozinha.
- Eu sei me cuidar, Marcus. – Falei parando em frente ao táxi e abrindo a porta. – E o que pode acontecer de mal? Eu vou passar a maior parte do tempo no hospital, esqueceu que eu trabalho nele na maioria das noites da semana?
- E eu odeio que você tenha que ter de fazer isso. Você acabou com todas as nossas idas ao bar trocando de horário naquela droga.
- Você sabe que eu não gosto muito de bares, Marcus. O seu estilo de vida é totalmente diferente do meu.
- Claro. Você é praticamente uma santa e eu, bem, eu sou quase a encarnação da imoralidade. Quer dizer, depois daquele ali. – Ele apontou com a cabeça para o seu vizinho. – Eu ainda me pergunto como ele consegue.
- Você não é o único. – Respondi abaixando a cabeça. – Boa sorte com o Sam.
- Eu vou sentir sua falta. – Ele me abraçou outra vez. – Não se esquece de trancar a porta quando for para o seu precioso hospital.
- Está bem, papai. Agora vai, antes que você perca o seu voo e o Sam me ligue falando coisas não muito agradáveis.
- Eu te amo. – Ele falou antes de entrar no táxi. Marcus me jogou um beijo à medida que o carro ia se movimentando, desaparecendo na esquina.
Girei meus calcanhares, voltando para o prédio, passei pelo hall dando um breve aceno para o porteiro e continuei meu caminho até chegar ao elevador. Dez horas. Eu estou meia hora atrasada, pensei apertando o botão do elevador. Hoje era o último dia que eu iria trabalhar no turno da madrugada antes das minhas esperadas férias. Eu amava trabalhar como voluntária, mas, como qualquer ser humano, eu precisava de minutos para relaxar. Uma coisa que eu nem conseguia quando estava em casa, pois certo vizinho não conseguia entender o significado da palavra descanso e dava festas de arromba para que todo o prédio ficasse sabendo. Eu até aconselhei Marcus a se juntar com o comitê de síndicos do prédio para que essas festas parassem, mas, segundo ele, o seu vizinho não estava fazendo nada de errado. Ele não está infringindo regras, ele dizia.
A porta do elevador se abriu, fazendo com que eu levantasse meu olhar, e nele estava a única pessoa que eu desejava não ver naquela noite. Entrei no elevador sem olhá-lo.
-Sobe ou desce? – Ele perguntou quando entrei no elevador.
- Desce. – Respondi, ficando ao seu lado e vendo-o apertar o botão do estacionamento.
Eu nunca tinha conversado com ele e muito menos ficado sozinha com ele. Eu não sabia nem ao menos seu nome, o que eu sabia é que sua presença me incomodava, e muito. Eu o odiava desde o momento em que tinha colocado os olhos nele, mesmo sabendo que não era certo julgar alguém sem conhecer, mas eu não conseguia sentir nada mais do que ódio por esse homem. Não sei se era por causa das suas festas que iam até altas horas, me arrancando o sono, ou o fato dele sempre me olhar como se quisesse descobrir cada parte do meu corpo, do mesmo jeito que ele faz com as garotas que o acompanham até seu apartamento.
Agradeci mentalmente quando as portas do elevador se abriram e eu pude sair do elevador, andando rápido até meu carro. Eu escutava passos atrás de mim fazendo com que eu virasse meu rosto para trás, vendo-o dar passos lentos e fazendo o mesmo caminho que eu. Ele sorriu e eu não pude resistir em revirar os olhos. Abri a porta do meu carro, entrando no banco do motorista, liguei-o e esperei que ele passasse pela traseira, indo em direção ao porta-malas do seu carro.
Tirei o carro da vaga tendo uma bela visão da sua bunda enquanto ele tirava algemas de lá. Revirei meus olhos arrancando com o carro e saindo do estacionamento, escutando meu celular vibrar em cima do banco do passageiro. Peguei o celular olhando no visor: Rose. Eu realmente estou muito atrasada, pensei passando o sinal antes do hospital. Estacionei meu carro na vaga dos funcionários, abrindo a porta do carro para sair logo em seguida. Acenei para o segurança que estava na porta do hospital segurando-a, esperando que eu passasse, e agradeci quando passei por ele.
- Você está atrasada. – Rose falou quando passei pela recepção.
- Desculpe-me. – Falei olhando para ela – Marcus quase não saiu de casa.
- Ele deve estar preocupado em deixar você sozinha.
- Eu ficarei bem. Ele faz tempestade em copo d’água.
- Eu entendo. Lembro quando ele entrou aqui gritando por meu nome dizendo que você tinha quebrado a bacia porque caiu no banheiro.
- Está vendo? Ele é mais histérico do que mulher em dia de promoção na Channel.
- Mas, se você quiser, você pode ficar lá em casa, sabe? Meu filho mora sozinho agora e tem uma cama sobrando.
- Rose - segurei em suas mãos –, você é um anjo. Obrigada pela oferta, mas eu vou ficar bem. E se algo der errado eu prometo que vou ficar com você, tudo bem?
- Tudo bem. – Ela beijou minhas mãos. – Agora vai lá, parece que eles não querem dormir sem dizer adeus para você.
- A enfermeira Johnson vai me olhar com tanto ódio. – Falei, fazendo careta. – Deixe-me ir lá. – Falei começando a andar pelo corredor.
- . – Rose me chamou fazendo com que eu virasse para ela. – Obrigada por vir. Eu sei que seu turno já acabou e suas férias já começaram e você não precisava estar aqui, então, obrigada.
- Basta gritar, Rose. Eu estarei aqui. – Falei antes de recomeçar o caminho.
Eu era voluntária naquele hospital há mais de dois anos, as crianças das quais eu cuidava eram crianças que estavam em estado de recuperação de cirurgias ou precisavam ficar em observação. Eu frequentava esse hospital há tanto tempo, mas o mesmo sentimento acontecia quando eu entrava naquele corredor. Esse hospital não me trazia boas lembranças e enquanto eu atravessava o corredor em direção à ala da pediatria eu sentia um calafrio percorrer toda a minha espinha. Não seja fraca, . É passado., pensei entrando na ala e vendo todas as crianças acordadas e conversando alto.
- O que ainda vocês fazem acordados? – Perguntei cruzando os braços.
- Tia . – Eles gritaram ao mesmo tempo.
Naquela sala de recuperação havia quatro crianças: Jenny, que se recuperava de um transplante de rim; Jeremy, que estava em observação porque sua alergia tinha atacado outra vez; Kyle, que se recuperava de um resfriado que quase virou pneumonia; e Sansa, uma garota que acabava de descobrir que tinha perdido o movimento das pernas. Sansa era corredora na sua antiga escola, mas seu sonho tinha sido interrompido quando ela sofreu um acidente de carro, ela tinha sido a única que tinha sido machucada gravemente. Sansa tinha que permanecer no hospital, pois seus avós não podiam ficar levando-a para o local.
Jenny, Jeremy e Kyle colocaram seus braços ao redor de minha cintura, quase me esmagando em um abraço. Sansa estava conversando com a enfermeira Johnson, quando ela me olhou com reprovação, apontando para o relógio. Sussurrei uma desculpa e a vi trazer Sansa, que estava na cadeira de rodas, para perto de mim.
- Olá, meus amores. – Falei me abaixando para ficar na altura deles. Abracei cada um separadamente. – Olá, Sansa. – Falei me levantando e dando um beijo em sua testa. – Vocês não acham que está um pouco tarde para vocês ficarem acordados?
- Tia , nós fizemos uma coisa para você. – Sansa falou me estendendo uma caixa.
- Obrigada. – Falei pegando a caixa e abrindo-a.
- É uma pulseira. – Jeremy falou enquanto eu retirava a pulseira da caixinha. – Tem a inicial de cada um daqui.
- Provavelmente você não vai estar aqui quando nós tivermos alta, então queríamos que você se lembrasse um pouco da gente. – Sansa completou.
- Eu nem sei o que dizer. – Falei olhando para eles. – Em anos que eu sou voluntária aqui, nenhuma das crianças me deu um presente desses. Claro que eu ganhei cartas, que ainda estão comigo, mas mesmo assim, esse é um dos melhores presentes que eu já ganhei. Muito obrigada. – Falei abraçando cada um deles.
- Nós é que agradecemos, tia . – Jenny falou – Se não fosse você, nós não teríamos passado por isso tudo.
- Você coloca pra mim, Kyle? – perguntei estendendo a pulseira para ele. Kyle pegou a pulseira e a colocou em meu braço. – Pronto. Agora vou ter uma lembrança de cada um aqui. E agora, todos para cama. – Falei, apontando para suas camas. – Deixe que eu levo Sansa em direção a sua cama.
- Quando todos eles forem embora, eu continuarei aqui. – Sansa disse olhando para mim.
- E você os guardará para sempre em seu coração e vai dar espaço para os novos que aparecerem. – Falei parando em frente à sua cama, dando a volta ao seu lado. Peguei-a no colo, deitando-a na maca.
- Você realmente precisa ir? – Ela perguntou enquanto eu colocava o lençol em cima dela.
- Preciso. – Falei tocando em sua mão.
- Você volta?
- Mas é claro que sim.
- Meu irmão também disse isso para mim, e no final ele acabou nunca mais voltando. – Ela abaixou a cabeça. – Ele me deixou sozinha.
- Então toda vez que você se sentir sozinha você chama a enfermeira Rose e pede para que ela ligue para mim. Eu vou vir tão rápido que você não vai poder nem terminar de falar supercalifragilisticexpialidocious . – Eu disse dando um beijo em sua testa. – E pra você nunca me esquecer - falei, abrindo o zíper da minha jaqueta de couro preta – você vai poder ficar com minha jaqueta preferida.
- Mas é sua jaqueta preferida! – Ela falou pegando a jaqueta.
- Eu sei que você gosta dela.
- Obrigada, . – Ela jogou os braços ao redor do meu pescoço.
- De nada, Sansa. Agora vamos dormir que o dia pra você é sempre cheio. Parece mais uma celebridade.
- Boa noite.
- Boa noite, meu amor.

Dirigi de volta para casa com um sorriso em meus lábios. Eu sentiria falta daquelas crianças; elas haviam marcado minha vida como nenhuma criança havia feito antes, especialmente Sansa, que, apesar de ter todos os motivos para não sorrir, sempre passava pelos corredores do hospital com um sorriso no rosto. Uma garota a qual eu admirava, mesmo tendo pouca idade. Uma garota que perdeu tudo e ao mesmo tempo tem tudo que deseja em mãos. Sansa era uma garota forte e, quando soube que possivelmente não poderia mais andar, não deixou nenhuma lágrima cair em seu rosto para que sua avó não visse o quanto ela estava triste em ter que desistir do seu sonho. Eu me lembrava bem do dia em que Sansa recebeu a notícia e me lembrava, porque eu havia a havia dado. Ela tinha agido como uma guerreira deixando sua avó chorar em seu ombro e não derramando uma lágrima, desde esse dia eu jurei que nunca a deixaria sozinha e que faria com que ela se sentisse especial.
Estacionei meu carro na vaga, batendo a porta na porta do carro do vizinho de Marcus. Com certeza, eu não vou me desculpar por isso, pensei andando até o elevador. Olhei no relógio e já passava das onze, achei estranho quando entrei pelo corredor do meu apartamento e não havia nenhum sinal de barulho, de música alta ou de vadias gritando. Acho que alguém finalmente aprendeu a frase “eu sou um incômodo” e foi, finalmente, fazer suas orgias em outro lugar , pensei, rodando a chave e destrancando a porta.
- Droga! Será que ninguém vai aparecer para me ajudar?. – Escutei um grito ecoar pelo corredor. Olhei para os dois lados, não vendo ninguém, e dei de ombros, abrindo a porta e fazendo com que ela fizesse barulho - Ei, você. Você que abriu a porta agora, você poderia vir aqui? Pelo amor de Deus, eu estou desesperado. – Coloquei meu pé direito dentro de casa ignorando a voz. – Eu sei que você está aí, por favor, vem me ajudar. - Bufei, dando-me por vencida. Estúpida foi a hora que eu decidi voltar para casa mais cedo do hospital, pensei andando em direção ao apartamento que ficava em frente ao de Marcus. Empurrei a porta, que estava aberta, e eu pude ver pela fresta que a casa estava completamente detonada – Eu estou aqui no quarto. - Escutei a voz ecoar de um corredor e me dirigi até ele.
- Oh, Deus! – Falei colocando as mãos em meu rosto. O vizinho de Marcus estava completamente pelado em cima de uma cama de solteiro com apenas o quadril para baixo coberto por um lençol e com as mãos algemadas na cama. – O que você está fazendo?
- No momento, nada. Mas antes...
- Por favor - falei abrindo os olhos –, me poupe dos detalhes. – Falei olhando em volta. – O que aconteceu aqui?
- Eu fui assaltado.
- E por que ele te deixou pelado em cima de uma cama?
- O que eu posso fazer? Eram duas loiras maravilhosas que subiram comigo e com meu amigo. Eu disse que aquele bar não era confiável, mas ele não me ouviu e acabou nisso: eu amarrado nessa cama e ele desacordado no outro quarto. Eu deveria ter desconfiado quando ela pediu aquelas algemas, eu pensei que ela...
- Entendi. – Interrompi. – Você tem péssimo gosto. O que você quer que eu faça?
- Se não for pedir muito, eu queria que você me soltasse.
- Onde está a chave?
- Ela está aqui atrás. – Ele apontou com a cabeça para a prateleira em cima de sua cama. – Mas você tem que subir pela cama. – E antes que ele pudesse pronunciar alguma outra palavra, eu subi em cima da cama colocando meus pés um de cada lado do seu corpo. Ele era praticamente do tamanho da cama de solteiro, e o pouco de espaço que sobrava eu havia colocando meus tênis sujos. Avistei um brilho em cima da prateleira ficando na ponta dos pés para pegar a chave.
- Você está sujando meus lençóis com seus tênis sujos. – Ele gritou. Sentei em cima de seu tronco, um pouco acima do lençol que cobria suas pernas.
- Seria incrível se o ser humano criasse um eletrodoméstico incrível que lava roupas, não acha? – Falei rolando com a chave entre meus dedos – Ah, é mesmo, ele já criou. – Ironizei, me inclinando um pouco para o lado para tirar a algema de uma de suas mãos. Ele deixou sua mão cair no colchão fazendo uma cara de alívio enquanto eu tirava o outro lado da algema. Levantei-me, pulando da cama e começando a andar em direção a porta.
- Ei! – Ele me chamou fazendo com que eu virasse para ele. – Obrigado.
- De nada.
- Eu não sei seu nome.
- . Meu nome é .
- Muito prazer, , eu sou . – Dei um breve aceno antes de continuar meu caminho até a saída de seu apartamento.



Capítulo 2

O sol estava tão quente que nem mesmo dentro do elevador, com o ar-condicionado no máximo e usando o mínimo de roupa possível – apenas um short e uma camiseta sem mangas – o calor dava sinais de que iria passar. Oh, eu estou quase derretendo, pensei saindo do elevador em direção à portaria.
- Olá, Alfred. – Falei, me apoiando na bancada. – Alguma carta para mim?
- Não, mas – ele se abaixou, pegando um buquê de flores – o senhor James deixou isso aqui.
- Oh, quanta preocupação a dele. – Ironizei, pegando as flores e as jogando no lixo ao lado de Alfred.
- Flores servem como uma decoração perfeita.
- E servem para enfeitar enterros.
- É a segunda vez que ele aparece aqui pedindo para falar com você.
- Ele pode insistir o quanto quiser, eu não irei atendê-lo.
James era o meu ex-namorado. Nós namoramos por dois anos e, quando eu menos esperei, o peguei transando com outra, em cima da minha própria cama, em uma das festas que Marcus insistia em fazer em seu apartamento. O chão debaixo de meus pés desapareceu e as lágrimas descerem de meu rosto. James era o homem com quem eu desejava me casar, o homem perfeito para mim. Tinha um bom emprego, um porte físico que daria inveja a muita gente e atraía muitas mulheres. Mas, mesmo toda a perfeição tem seus defeitos e o perfeito, na verdade, não era perfeito, porque perfeição não existe. Isso é apenas uma ilusão boba criada para enganar garotas como eu. Não existia homem perfeito, eu sabia disso agora.
- Hoje está muito quente, você não acha, Alfred?
- Eu devo concordar. Eu daria tudo para ter uma piscina agora.
- Ah, piscina. – Gritei, assustando Alfred. – Na cobertura tem uma piscina! – falei dando um beijo na bochecha de Alfred. – Obrigada, Alfred! – Gritei para ele antes de entrar no elevador.
Piscina, como eu não tinha pensando nisso antes? , você é mesmo uma cabeça oca, pensei saindo do elevador e correndo em direção ao meu apartamento.
Fui até meu quarto, coloquei um biquíni e peguei uma toalha. Era fim de tarde e, provavelmente, o vizinho de Marcus não estaria por lá. Eu sabia seu nome agora, mas nada me impendia de mostrar o quanto eu ainda desprezava aquele homem. Mesmo já tendo visto o que ele tem de melhor – ou pelo menos o volume – ele ainda não tinha me impressionado. Ele não passava de um depravado sem coração para mim.
Saí do apartamento olhando para os dois lados do corredor e me certificando que o meu odioso vizinho não estivesse lá. Continuei meu caminho até a porta que levava ao terraço e quando a abri só pude escutar uma risada alta e fina habitar meus ouvidos. Isso só pode ser brincadeira, pensei, olhando para os dois que estavam na piscina com lábios vermelhos. Ei, espere um segundo, aquela não era a senhora Flores?
- , minha querida. – Ela falou, nadando até a borda. – Vejo que não resistiu ao calor e pensou em dar um mergulho!?
- Parece que não fui a única. – Falei cruzando os braços. – Eu volto outra hora.
- Que isso, . – Ela deu impulso para sair da piscina. – Eu que não deveria estar aqui. – Ela pegou uma toalha, se enrolando. - A piscina também é sua por direito, eu só vim bater um papo com enquanto nos refrescávamos.
- Se a senhora quiser pode ficar, eu vou usar a jacuzzi de qualquer forma. – Falei, começando a andar em direção à jacuzzi, que estava ao lado da piscina.
- Muito obrigada, querida, mas acho que já vou indo. Meu marido já deve ter chegado.
- Eu te acompanho, Marta. - já havia saído da piscina a essa hora e ficado ao lado da senhora Flores.
- Até mais, . – Ela falou acenando para mim enquanto abria a porta para ela.
- Até mais. – Eu disse colocando minha toalha ao lado da jacuzzi.
Entrei na água fria, dando um mergulho para molhar meus cabelos e refrescar minha cabeça. Encostei-me à parede da jacuzzi, me sentando para esticar minhas pernas e fechando os olhos, sentindo o cansaço de semanas de trabalho desaparecer. Eu finalmente teria paz. Sem Marcus e Sam gritando pela casa; sem enfermeira Johnson rabugenta; sem precisar sair à noite, pois, pelo o que me aparentava, o meu vizinho tinha procurado diversão em outra freguesia.
Apenas eu, meu sofá e uma coleção de filmes clássicos e românticos esperando para serem assistidos. Mas eu havia pedido paz muito cedo, pois logo senti a água se agitar e duas pernas se esticarem ao meu lado.
- Você sabia que existe uma piscina enorme aqui do lado, a qual você estava usando, e você poderia tê-la sozinha para você agora?
- Eu gosto de companhias. – Ele falou com um tom sarcástico.
- Você já se perguntou se eu quero sua companhia?
- As mulheres gostam da minha companhia.
- Eu percebi isso. – Abri os olhos, olhando para ele. – O que te faz pensar que eu quero tua companhia?
- Eu sei que você quer. – Ele se ajoelhou perto de mim.
- Não, eu não quero. – Falei apoiando minhas mãos na borda da jacuzzi, dando impulso para me levantar e sair dali.
- Você quer sim. – Ele segurou minhas pernas fazendo com que eu me sentasse na borda. Ele se ajoelhou em minha frente, ficando na altura do meu umbigo, fazendo-me olhar para baixo. – Eu ainda não lhe agradeci formalmente por ter me salvado naquele dia.
- Você não precisa. – Eu disse, apoiando minhas mãos no chão feito de madeira.
- Mas eu quero. – Ele colocou suas mãos em meus joelhos, os afastando, fazendo com que minhas pernas ficassem abertas.
- O que você está fazendo?
E, antes que eu pudesse tentar fechar minhas pernas, ele começara a dar beijos na parte interna de minha coxa, fazendo com que eu fechasse os olhos sentindo seus beijos quentes subirem por toda extensão dela. Fazia algum tempo que eu não ficava com um homem – necessariamente seis meses – então sentir os beijos de um em uma das partes mais sensíveis do meu corpo fez com a sensação aumentasse dez vezes mais. Suas mãos seguraram meus quadris, puxando-me mais para perto e apertando minha bunda. Sua boca se alternava em dar leves mordidas e beijos e quando ele chegou perto da minha intimidade, ele deu uma mordida de leve, puxando de dele e me fazendo suspirar alto.
- Então, você gostando da minha companhia? – Ele perguntou, fazendo com que eu olhasse para ele.
- Sim. – Eu sussurrei.
- Você quer que eu continue?
- Sim.
Ele sorriu maliciosamente enquanto suas mãos desceram meu biquíni e, à medida que o mesmo descia ele ia dando beijos por minha coxa, ele o jogou em algum lugar e antes mesmo que eu pudesse falar qualquer coisa, ele enterrou sua cabeça entre minhas pernas passando sua língua por minha intimidade, fazendo com que eu mordesse meu lábio.
Sua língua explorava cada centímetro da minha intimidade fazendo movimentos para cima e para baixo, parando algumas vezes para fazer movimentos de vai e vem na minha parte mais sensível, fazendo com que eu agarrasse em seus cabelos, puxando-os. Eu não sabia se o empurrava ou se o puxava mais para perto. O desejo havia tomado conta do meu corpo de uma forma que eu mesma não conhecia e a única coisa que eu sabia era que eu não queria que ele parasse.
Suas mãos seguraram em meus quadris novamente, fazendo com que eu fosse mais para perto dele e ele enterrasse sua cabeça mais ainda em minhas pernas. Sua língua me sugou mais fundo e minhas pernas abriram-se automaticamente mais e mais à medida que sua língua fazia movimentos de vai e vem em minha intimidade. Senti sua língua acelerar os movimentos enquanto suas mãos apertavam minha bunda, me empurrando para que sua língua fosse o mais fundo possível. Eu sentia todo o meu corpo relaxar, se entregando a uma das melhores sensações que um homem poderia dar a uma mulher. James nunca havia aceitado me tocar dessa maneira, ele dizia que mulheres deveriam dar prazer aos homens como foi desde o princípio. Eu nunca imaginaria que um homem poderia causar sensações extremas em uma mulher dessa maneira e, se soubesse, teria caído nos braços do primeiro que aceitasse me dar esse prazer.
E então, sem mais nem menos, sua língua abandonou minha intimidade fazendo com que eu abrisse os olhos, vendo-o se levantar e se inclinar em direção a mim. Uma de suas mãos passou por minha cintura fazendo com que nossos corpos se colassem e ele ficasse entre minhas pernas. Dando um sorriso malicioso, ele enterrou seu rosto na curva de meu pescoço e começou a dar leves mordidas. Eu podia sentir sua ereção latejar debaixo do short de tecido fino em contato com minha intimidade, fazendo com que eu cruzasse minhas pernas em sua cintura, puxando-o mais para perto. Ele então subiu uma de suas mãos pela parte interna da minha coxa, chegando até meu clitóris, massageando de leve e fazendo círculos.
Eu pude sentir que eu iria tocar o céu e que nunca, em minha vida, eu poderia ofegar tanto. O ar parecia me faltar toda vez que ele aumentava e diminuía os movimentos, enquanto eu soltava palavras obscenas em seu ouvido, palavras que eu jurei nunca nem ao menos pensar em dizer.
E, como em um passe de mágica, ele deslizou dois de seus dedos para dentro de minha intimidade, indo até o fundo, fazendo com que eu estremecesse da cabeça aos pés. Ele me penetrava sem pressa, fazendo com que gemidos de reprovação saíssem de minha boca. Comecei então a fazer movimentos para frente e para trás com meus quadris, fazendo seus dedos penetrarem mais fundo e mais rápido, fazendo gemidos saírem de minha garganta cada vez mais alto. Ele então aumentou a intensidade de seus movimentos acompanhando os movimentos de meus quadris, sussurrando palavras maliciosas em meu ouvido.
Sorri deixando que minha boca fosse levada até sua orelha, lambendo-a por inteiro, e levei então minha boca em direção ao seu pescoço, começando a dar mordidas enquanto sentia seus dedos fazerem movimentos circulares, diminuindo o ritmo. Sua boca desceu por todo o meu colo, chegando até meu biquíni, afastando-o com a mão livre, mostrando, assim, meu seio que estava excitado e se encontrava com o mamilo duro. Sua boca então começou a sugá-lo fazendo movimento circulares com a língua em volta do bico. Ele sugava meu seio enquanto me penetrava mais rápido, enquanto os gemidos começavam a ficar mais altos e mais intensos.
E então ele deu uma última sugada e uma mordida antes de descer sua boca por toda a minha barriga até chegar a minha intimidade, a qual seus dedos haviam acabado de abandonar. Suas mãos afastaram de novo minhas pernas deixando minha intimidade exposta outra vez e seguraram meu quadril enquanto sua língua tomava conta de novo de minha intimidade, fazendo movimentos circulares. Meu corpo todo se encontrava quente e eu podia sentir que meu ar faltava novamente, fazendo com que os gemidos que se formavam em minha garganta ficarem cada vez mais alto. E, quando eu menos esperei, eu senti todo o meu corpo relaxar de uma forma que nunca fez antes. Abri os olhos e o vi se levantando para ficar em minha altura, olhando em meus olhos. O que eu havia acabado de fazer?
E antes mesmo que ele pudesse pensar em fazer mais alguma coisa, minha mão voou na sua cara, acertando em cheio sua bochecha. Levantei-me depressa, me enrolando na toalha e saindo do terraço.
Entrei em meu apartamento ofegante, girando a chave na porta duas vezes para me certificar que eu estava bem segura. O que diabos acabou de acontecer?, pensei andando de um lado por outro. Eu só podia está ficando louca. Eu provavelmente tinha perdido toda a noção do que era certo e do que era errado para deixar com que ele fizesse isso comigo.
O telefone começou a tocar interrompendo meus pensamentos.
- O que é? – Falei logo quando atendi.
- Que isso, ? – Escutei a voz do Marcus do outro lado da linha. – O que aconteceu?
- Nada. Apenas o odioso do seu vizinho acabou de me dar um dos melhores orgasmos da minha vida só usando a língua, coisa que o James não sabia fazer nem usando o pênis. – Coloquei a mão na boca quando o escutei gritar do outro lado da linha.
- Eu não acredito. Você acabou de pegar meu vizinho que você odeia tanto?
- Tecnicamente, ele que me pegou.
- E pegou de jeito, pelo o que eu vi.
- Carência, Marcus, foi só carência. Não vai acontecer outra vez.
- .
- Eu tenho que ir, Marcus. Preciso tirar o cheiro desse homem odioso de mim. – Desliguei o telefone, jogando-o no sofá.
Isso nunca mais vai acontecer. É só carência. Isso vai passar. Isso não é bom para você, , você já se meteu com um desse e veja como você acabou, pensei andando em direção ao meu banheiro, desejando nunca ter tido a ideia de tomar banho de piscina.



Capítulo 3

- Eu já disse que está tudo bem, Marcus. – Falei, saindo do elevador. Marcus estava fora há três semanas agora, e todos os dias ele me ligava para saber das novidades e eu, como uma mera mortal de coração mole, acabei contando o que havia acontecido entre o e eu, nos mínimos detalhes. Marcus tinha ficado eufórico e ao mesmo tempo com inveja, pois ele sempre desejava que aceitasse sua proposta de fazer um ménage à trois com ele e Sam.
- Você o tem visto?
- Não. – Falei, parando em frente à minha porta. – E também não tenho escutado barulho das festas.
- Um sinal que você mexeu com ele.
- Marcus, eu só queria ser uma eterna romântica como você. – Falei colocando a chave na porta, girando-a. – Provavelmente eu fui só mais uma na longa lista dele.
- Ou você foi a última que será a única. Até os cafajestes tem coração.
- Pode até ser, mas isso não significa que vai ser comigo. Passou, Marcus, e não vai acontecer de novo.
- Nunca diga nunca. Agora, deixa eu ir que Sam está me chamando.
- Aproveite suas férias e não precisa se preocupar comigo.
- Mas é claro que não, meu vizinho gostosão está aí para cuidar de você.
- Tchau, Marcus. – Falei abrindo a porta de casa.
- Tchau, minha pegadora de vizinho gostosão. – Ele desligou o telefone na minha cara sem me dar o direito de resposta.
- Eu vou te matar, ! - Escutei um grito ecoar pela escada de emergência fazendo com que eu parasse na porta. – Não vai sobrar nem um pedacinho para contar a história. – Olhei para o lado, vendo a porta do elevador se abrir e um ofegante sair de lá correndo em minha direção. – Espero que esteja pronto, porque eu não terei perdão. – E antes que eu pudesse falar alguma coisa, me pegou pela cintura, me empurrando pela porta aberta para dentro de casa e rolou comigo para o lado, me prensando contra a parede, fechando a porta ao seu lado e passando a chave.
- Mas o que... – ele colocou o dedo em meus lábios recuperando o fôlego.
- O marido da senhora Flores está atrás de mim. – Ele falou.
- Bem feito, quem manda se meter com a mulher dos outros. – Interrompi-o.
- O quê? Você acha que eu fiquei com uma mulher casada?
- Não sei, mulher faz seu tipo, principalmente se ela der em cima de você.
- Ela que me agarrou. Ela vem dando em cima de mim faz algum tempo, e como naquele dia o sol estava muito quente, eu decidi tomar um banho de piscina e foi aí que ela apareceu. Ela me beijou a força e quando ela estava pronta pra dar o bote outra vez você apareceu.
- Abre essa porta, . Venha resolver isso como homens. – Peter Flores batia freneticamente na porta do apartamento da frente.
- Se você me tirar dessa, eu prometo que lhe recompenso.
- O que te faz pensar que eu te ajudaria?
- Eu sou muito bom quando se trata de agradecimento. Você sabe disso. - Ele falou sorrindo malicioso fazendo um arrepio passar por meu corpo. Empurrei-o para a parede, ficando de frente para ele.
- Fica aqui. – Falei apontando o dedo em sua cara. – Eu resolvo isso. – Abri a porta do apartamento, fechando-a atrás de mim assim que saí. – Senhor Flores, o que aconteceu?
- aconteceu. - Ele falou virando-se para mim. Senhor Flores era um homem alto que havia entregado sua vida à bebida. Muitas vezes podíamos vê-lo bebendo no bar da esquina. E, mais do que qualquer coisa, sua barriga de cerveja não engana ninguém.
- O que ele fez agora?
- Ele tomou banho de piscina com minha mulher.
- O quê? – Falei incrédula. As aulas de teatro no colegial serviram para alguma coisa. – Quando foi isso?
- Segunda-feira.
- Ah, senhor, isso é impossível.
- Mas é claro que não. Eu vi o biquíni da minha mulher na roupa suja. Ela sempre guardava aquele biquíni para o dia que fosse tomar banho na famosa piscina da cobertura onde o senhor mora.
- Oh, senhor Flores, o senhor está se esquecendo de alguma coisa.
- Estou? Do quê? A senhorita viu alguma coisa?
- Oh, mas é claro que não. – Falei olhando para ele – O senhor esqueceu que eu também moro nessa cobertura? Eu e Marcus moramos.
- E daí?
- E daí que, como todo condomínio, nós temos regras.
- É mesmo? – Ele cruzou os braços. Ele estava desconfiando que eu estava mentindo. – E quais são essas regras?
- Bem, uma delas é o dia da piscina.
- O dia da piscina?
- É. Nós dividimos os dias da semana que cada um fica com a piscina. Eu fiquei com segundas, quartas e sextas e o com terças, quintas e sábados.
- E no domingo?
- Nós nos alternamos. – Respirei fundo. – Está vendo, senhor Flores, tudo não passou de um mal entendido.
- Hum, sei. Mas eu ainda quero falar com o .
- Isso seria impossível, senhor. – Alfred, o porteiro, interrompeu nossa conversa. Ele sabia de tudo que acontecia nesse prédio, principalmente com seu morador mais famoso. Ele sabia que eu estava mentindo para proteger o , mas em seu olhar eu podia ver que ele não entendia o porquê de eu estar fazendo isso. E, bem, eu também não entendia. – O senhor viajou.
- Viajou? – O senhor Flores e eu perguntamos ao mesmo tempo.
- Ah, agora eu me lembrei. – falei batendo com a mão na minha cabeça. – É verdade. viajou com os amigos para Las Vegas para passar alguns dias lá.
- Ah, então, eu resolvo quando ele voltar. – Ele começou a andar em direção ao elevador. - Vejo você na portaria, Alfred.
- Até mais, senhor Flores. – O mais velho entrou no elevador fazendo com que Alfred e eu respirássemos aliviados.
- Onde ele está? – Alfred perguntou.
- Estou aqui, Alfred. – saiu de meu apartamento com um sorriso no rosto. – Obrigado por salvar minha pele.
- Eu é que agradeço, . Desde que o senhor chegou aqui, a diversão rola solta por esse prédio.
- E a depravação também, não se esqueça. – Ironizei, olhando para – Pronto então. Você agora pode ir para o seu apartamento fazer o que faz de melhor.
- E o que seria isso?
- Ser um riquinho mimado que não faz absolutamente nada da vida e promove festas e orgias.
- Pelo jeito você vem me observando há algum tempo.
- Quase impossível de ignorar com aquela música alta de mau gosto e as garotas saindo do seu apartamento vestindo as roupas pelo meio do caminho.
- Ele não pode voltar pro seu apartamento. – Alfred me interrompeu. – Você não vê que o senhor Flores vai voltar aqui a qualquer momento? Ele sabe que estamos mentindo.
- Isso já não é problema meu. – Falei andando em direção ao meu apartamento. – Boa sorte para vocês que ficaram tentando dar a voltar no senhor Flores, pelo que me lembro bem ele tem uma arma em casa.
- Você deveria ficar no apartamento da senhorita . - Alfred disse.
- O quê? – Falamos os dois ao mesmo tempo.
- Isso é absolutamente impossível. Eu não moro sozinha.
- Mas o senhor Marcus não está aqui e eu garanto que ele não iria se importar em ter em sua casa.
- Por que ele não pode ficar na sua casa?
- Porque o senhor Flores faz muitas visitas ao meu apartamento atrás de ferramentas para consertar aquela velha moto dele que nunca vai funcionar. – Ele explicou. – Senhorita , são apenas alguns dias. E se o senhor Flores souber que eu menti, ele vai contar para o comitê do prédio e eu provavelmente perderei meu emprego. – Ele falou cabisbaixo.
- Está bem. O pode ficar na minha casa.
- Obrigado, senhorita .
- De nada, Alfred. Eu não quero que você perca o seu emprego só porque o aqui não consegue se controlar ao ver uma saia.
- Eu já disse que ela que me atacou.
- E como você é a pessoa mais sincera do mundo, eu devo acreditar.
- Eu vou voltar para a portaria. – Alfred falou, entrando no elevador.
- Tchau, Alfred. – Acenei antes de entrar em casa, sendo seguida por . – Você pode dormir no sofá, ele foi feito para isso. Eu vou trazer alguns lençóis e um travesseiro pra você. – Falei começando a andar em direção ao corredor. segurou em meu braço me virando para ele, fazendo nossos corpos se colarem. Sua mão livre passou por minha cintura me puxando mais para perto enquanto sua boca se direcionou até meu pescoço. – . – Sussurrei sentindo sua língua passar em meu pescoço.
- Ah, , deixa eu te recompensar. – Ele sussurrou em meu ouvido antes de voltar a beijar meu pescoço.
Fechei os olhos, segurando em seus cabelos e sentindo sua boca passear por meu pescoço e um calor tomar contar de meu corpo. Algo dentro de mim me deixava fraca e com pernas bambas quando o assunto era , ele tinha algo que me deixava com uma súbita vontade de arrancar todas as suas roupas e fazer sexo até que nossos corpos não aguentassem mais. Ele despertava os desejos mais obscuros, que nem eu mesma sabia que existiam; ele fazia com que o tesão falasse mais alto e eu me pegava imaginando como seria pelo menos uma noite inteira com ele onde a última coisa que a gente faria era dormir.
Ele fazia eu me perguntar por que em todos esses anos eu não havia sentindo uma sensação tão boa. E por que diabos eu não sentia essas sensações com James?
Talvez eu não gostasse tanto assim de James, pensei abrindo os olhos e empurrando .
- , para! – Falei, levantando a cabeça e olhando para ele. – Você não pode fazer isso.
- Claro que posso, lembra aquele dia na piscina? – Ele deu um sorriso de lado e começou a andar em minha direção. – E eu sei que você gostou.
- , não. – Falei, colocando as mãos na frente do seu corpo, o impedindo de continuar. – , você não pode sair por aí fazendo aquele tipo de coisa com as mulheres.
- Mas você estava gostando. O que há de mal em agradecer as pessoas?
- Em agradecer não há nada de mal, é para isso que “obrigado” serve. Pessoas normais fazem isso, elas falam “obrigado”, dão um sorriso e vão embora, ou conversam por mais ou menos três encontros para depois fazerem aquilo.
- Então quer dizer que se eu te levar em três encontros eu posso fazer coisas como aquele dia na piscina?
– Boa noite, . – Falei, girando meus calcanhares em direção ao corredor. Eu me esqueci de algo, pensei, voltando até , que estava que estava com um sorriso no rosto. Levei minha mão com força ao seu rosto, acertando sua bochecha. – Agora sim, boa noite. – Falei, voltando até o corredor, podendo escutar ele gritar: Boa noite, !


Capítulo 4

- , acorda. – Alguém me balançava. – , acorda.
- Vai para o inferno. – Falei, colocando o travesseiro em meu rosto.
- , a casa está pegando fogo. Acorda. – Abri os olhos rapidamente e me sentei na cama. estava sentado ao meu lado gargalhando alto enquanto olhava pra mim. – Sua cara foi hilária. – Olhei para ele, incrédula, dando um soco em seu ombro. – Ouch! Precisava ser tão forte?
- Precisava sim, . – Olhei para o meu despertador ao lado da cama, que marcava oito e meia. – Que tipo de brincadeira é essa? Por que você me acordou a essa hora? Você tem noção do quanto eu esperei para poder acordar tarde? Eu vou te matar, . – Falei, ficando ajoelhada na cama e começando a dar socos em seu braço. Inclinei-me para cima dele dando socos por todo seu peitoral nu.
Eu não tinha percebido logo de primeira, mas estava sem blusa, usando apenas a boxer de ontem.
Não que eu quisesse ter visto – o que obviamente eu não queria –, mas o que eu podia fazer se eu tinha ido buscar um copo d’água na cozinha e por acaso estava tirando a blusa e mostrando aquelas costas perfeitamente definidas e musculosas e, depois, tirando as calças e ficando apenas de boxer em um segundo? Que mulher resistiria a um homem extremamente charmoso ficando com pouquíssimas roupas em sua sala de estar? Eu sei, o não era o homem que todas as mulheres desejavam para passar pelo resto da vida, mas nada evitava o fato de que quando seus pais o estavam fazendo, fizeram com muito amor. Eu já havia visto homens bonitos, mas superava qualquer um deles com aquele corpo de deus grego e aquele olhar penetrante que parecia descobrir os seus segredos mais obscuros.
Falando em olhos, os seus poderiam atrair qualquer mulher para sua rede de conquista e, por um instante, eu até pude entender porque as mulheres se jogavam pra cima dele. Não era apenas o corpo que fazia dele um objeto de desejo, eram seus olhos também. E eu podia jurar que todas as vezes que ele olhava em meus olhos, todo o meu corpo entrava em colapso e eu logo estava boba, sorrindo para ele. Eu me jogaria em cima dele com toda a certeza, pensei, balançando a cabeça.
- Isso dói, . – Ele falou segurando meus pulsos, fazendo com que eu o olhasse em seus olhos.
- Espere até eu usar o abajur que está na sala. – Falei entre os dentes.
- Que mulher marrenta.
- Seu... – Antes que eu pudesse terminar a frase, se levantou, ficando em minha frente na cama e ainda me segurando pelos pulsos e fazendo com que eu ficasse em pé. – O que você está fazendo?
- Tentando dizer obrigado. – Ele se aproximou de mim, ficando a altura da minha barriga, fazendo com que eu sentisse sua respiração perto de meu umbigo. Prendi minha respiração enquanto sentia todos os pelos do meu corpo se arrepiarem, já imaginando o que viria pela frente, mas antes que eu pudesse sentir sua língua fazer as mesmas maravilhas que aconteceram na jacuzzi, seus braços rodearam meus joelhos, me colocando em seus ombros e fazendo com que meu rosto encontrasse com suas costas.
- O que você está fazendo? Me coloca no chão! – Falei, dando socos nas suas costas. – , quando eu descer daqui, eu vou arrebentar a sua cara.
- Eu quero ver você tentar. – Ele riu enquanto me carregava pelo corredor.
- Eu estou começando a me arrepender de ter te ajudado! Por que diabos eu decidi escutar Alfred?
- Porque você não queria que Alfred perdesse o emprego dele.
- Ou eu poderia só deixar o senhor Flores te pegar, o comitê do condomínio iria ver que era melhor que você fosse expulso do prédio e eu não teria que sair todas as sextas porque você não consegue controlar o seu pinto.
- Sabia que moças não deveriam ter um vocabulário de baixo calão? – Ele falou, parando em frente à mesa da cozinha.
- Agora você quer se fazer de cavalheiro? – Dei um sorriso sarcástico.
- Eu sou um cavalheiro. – Ele me colocou no chão fazendo com que eu ficasse em sua frente. Cruzei os braços olhando para cima, era muito mais alto que eu e bem mais forte, ele poderia me agarrar e fazer coisas bem piores do que fez comigo dias atrás... O que não seria má ideia, pensei.
- Oh, mas é claro que é. – Falei, libertando-me dos meus pensamentos e me virando para trás. Meus olhos percorreram toda a mesa da cozinha, eu estava abismada. – O que é isso? – Perguntei, olhando para ele. Havia uma variedade de comidas em cima da mesa, havia pedaços de bolos, sanduíches, sucos, frutas e outras coisas que eu não consegui analisar no momento. O meu café da manhã não passava de um pão com alguma coisa ou um pacote de bolachas, o que estava em cima da mesa estava mais para um café da manhã de hotel. – Como você fez isso?
- Eu sou chef de cozinha. – Ele andou até a mesa e pegou algumas vasilhas onde tinham sanduíches, pedaços de bolos e frutas, diminuindo o número de comida que tinha na mesa.
- Chef de cozinha? Desde quando?
- Eu sempre fui apaixonado por cozinhar, eu fiz faculdade de Gastronomia e costumava trabalhar em um restaurante.
- E não trabalha mais?
- Não, faz um bom tempo que eu não entro em uma cozinha. – Ele riu pelo nariz. – Enfim, eu só achei outra maneira de dizer obrigado pelo o que você fez. – A campainha tocou. – Deixa que eu atendo. – Ele falou, andando em direção à porta, abrindo-a.
- Bom dia, senhor . – Alfred falou, entrando em meu apartamento. – Bom dia, senhorita .
- Bom dia, Alfred. – Falei, acenando para ele.
- Está tudo aqui, Alfred, espero que eles gostem. – Ele entregou as vasilhas para Alfred, que deu um breve aceno antes de sair pela porta do apartamento.
- Por que você deu aquelas vasilhas para o Alfred?
- Ah, você sabe. – Ele passou a mão pelos cabelos e eu pude jurar que ele estava envergonhado.
- Você está com vergonha? – Perguntei, sorrindo. – Marcus não vai acreditar quando eu disser isso para ele.
- Eu faço lanches para as crianças do bairro de Alfred. – Ele ignorou meu comentário. – Alguns dos pais delas não têm como pagar por seus lanches, então eu faço.
- Você? – Apontei para ele. – Fazendo lanchinho para crianças? – Peguei um prato em cima da mesa colocando alguns sanduíches. – Mãe de quem você está pegando para fazer isso? – Falei, colocando café em uma xícara. Peguei o prato e a xícara e fui em direção ao sofá, me jogando por lá mesmo. Liguei a televisão comendo o primeiro sanduíche.
- O que te faz pensar que eu estou dormindo com alguma mãe pra poder fazer isso? – Ele se sentou ao meu lado no sofá. – Eu posso ser um mulherengo, mas mulher casada não é comigo, principalmente se ela tiver crianças e especialmente se elas são pequenas. Por que você nunca confia em mim?
Olhei para ele.
- Por que eu deveria acreditar em você?
- Você sempre julga as pessoas sem nem ao menos conhecê-las?
- Não. Eu julgo pessoas que não fazem nada da vida e tiram o meu sono porque suas vidas são tão vazias que pensam que bebidas e garotas é a melhor forma de preenchê-lo.
- Desculpe por isso, mas isso também é sua culpa.
- Minha culpa? – Olhei incrédula para ele.
- É sim. Se você tivesse falado que as festas lhe incomodavam, eu...
- Iria parar? – Completei.
- Iria pensar sobre o assunto. – Rolei os olhos. – Eu iria pensar com carinho, se serve de consolo.
- Por que você não vai viver em uma casa nas montanhas? – Ele olhou para mim, cruzando os braços e jogando a cabeça para trás, soltando uma gargalhada e fazendo com que eu sorrisse também. Controle-se, . Sem mais cafajestes na sua vida, pensei antes de continuar: – Eu estou falando sério, . Seria perfeito. Você poderia dar as festas que você quisesse, trazer as garotas que você quisesse e deixaria todos os moradores daqui felizes.
- Você é sempre tão chata assim?
- Eu sou adorável, você é o inconveniente aqui.
- O que eu fiz pra você não gosta de mim tanto assim?
- Eu só não gosto de você por perto, só isso. – Respondi, virando-me para a televisão novamente.
- Eu sou tão repugnante assim? – Olhei para ele. – Ou é por que eu faço você se sentir diferente? – Ele aproximou o rosto do meu, inclinando seu corpo para frente. – Vamos lá, eu sei que você sente algo diferente por mim. – Ele falou, colocando uma de suas mãos em minha cintura. Prendi minha respiração tentando não me deixar afetar por ele, enquanto seus lábios mexiam lentamente. Como seria bom se eu pudesse mordê-los nem que fosse por um segundo, pensei balançando a cabeça. Oh, o que diabos está acontecendo comigo? – Eu sei o efeito que eu causo nas mulheres, você não é tão diferente. – Ele colocou uma de suas mãos em meu rosto, aproximando seus lábios dos meus. – Por que você não admite que me quer o tanto que eu lhe quero?
Olhei para seus olhos e eles brilhavam como eu nunca tinha visto antes, nem mesmo quando ele estava levando aquelas garotas para o seu apartamento. Era algo diferente, algo que eu me negava a aceitar.
- Nem todo mundo quer dormir com você, algumas pessoas só querem ser suas amigas.
- Quem te disse que eu te quero como amiga? – Ele disse dando um sorriso. Eu estava pronta para dar uma tapa em sua cara quando o interfone tocou, fazendo com que eu me levantasse o mais rápido possível do sofá e fosse atendê-lo – Alô? – Falei com a voz meio rouca.
- Senhorita , James acabou de subir. – Alfred falou do outro lado.
- O QUÊ? – Gritei, sentindo toda a raiva ferver por entre minhas veias. – O que esse filho da puta está fazendo aqui? Como isso aconteceu?
- Eu deixei o faxineiro aqui enquanto eu ia ao banheiro e James se aproveitou disso. Você quer que eu chame a segurança?
- Não, eu mesma vou expulsar ele daqui e dessa vez vai ser para sempre. – Joguei o interfone no canto e bufei com raiva. – Idiota, eu vou... – Virei para o lado e vi me olhando assustado. – Perdeu alguma coisa, ? – Escutei a campainha tocar, fazendo com que eu revirasse os olhos.
- , abre a porta, meu amor. – James falou do outro lado da porta.
- Você tem um namorado? – perguntou, levantando-se.
- Eu... – Fui interrompida por James abrindo a porta do meu apartamento. Ele sabia que a primeira coisa que eu fazia pela manhã era abrir a porta do apartamento para ir à portaria conversar com Alfred.
- , meu amor, você não acha que deveria fechar a porta? – Ele disse, entrando em meu apartamento e fechando a porta pela qual havia acabado de passar.
- E você não acha que deveria me deixar em paz?
- Meu amor, eu já não lhe expliquei que aquilo que você viu não foi importante? Aquilo que aconteceu com Stacie não foi nada importante, não é ela que eu amo, é você.
- E eu pensei que eu era um idiota. – se pronunciou pela primeira vez, fazendo com que nós virássemos para ele.
- Você me chamou de quê?
- Idiota. – respondeu, cruzando os braços. – Você quer que eu soletre?
- E você pensa que é quem para me chamar de idiota?
- Eu sou o viz...
- Meu novo namorado. – Falei, interrompendo
- O quê? – Os dois gritaram olhando para mim.
- Meu namorado. é meu... – Respirei fundo. – Namorado. – Completei, andando em direção a ele e parando ao seu lado. Passei um de meus braços pela cintura de , abraçando-o de lado.
- Mas nós terminamos um dia desses.
- Nós terminamos há seis meses, James.
- Você precisava de, pelo menos, um ano pra se recuperar do nosso término, é sempre assim.
- Desculpe, amigo. – começou, passando o braço por meus ombros. – não é que nem as outras. O erro foi seu em deixá-la escapar.
- É impossível. – James começou a andar de um lado para o outro. – Você estava devastada quando terminamos, você ainda gostava de mim.
- Isso mudou quando ela me conheceu, acho que você não é tão inesquecível assim. – falou com um sorriso no rosto. – Bem... – Ele se separou de mim, andando até James parando em sua frente. – Acho que você deveria ir agora. Você interrompeu um momento muito importante, se é que você me entende. – cruzou os braços, olhando para James com um sorriso de lado.
Olhei para James, que me olhava incrédulo, e subitamente uma vontade de rir tomou conta de mim.
James – de certa forma – estava certo. Se ele houvesse me procurado há alguns meses atrás eu, provavelmente, estaria sentada no sofá chorando enquanto assistia Titanic pela décima vez no mesmo dia, mas algo havia mudado dentro de mim desde que eu tinha me mudado para a casa de Marcus. Algo que eu me negava a aceitar.
olhou para mim, deu um sorriso de lado e uma piscadela, fazendo com que eu sorrisse para ele, mas logo o meu sorriso se transformou em uma cara assustada quando o punho de James foi com tudo em direção ao rosto de .
- James! – Gritei, incrédula, andando em direção a , que massageava o local que James tinha acabado de acertar. – Você perdeu a cabeça? – Falei, levantando o rosto de entre minhas mãos vendo o que estrago que James tinha acabado de fazer. – Está vendo o que você fez?
- Ele desrespeitou você, .
- Não, James, você me desrespeitou no dia em que me traiu com outra na minha própria cama. – Falei, olhando para ele. – Eu quero que você saia da minha casa e faça o favor de nunca mais voltar. – Andei até a porta e a abri. – Você pode viver sua vida sem mim a partir de agora.
Ele andou até a porta e parou em minha frente.
- ... – Ele chamou baixinho.
- Nem tente, James. – Olhei para ele. – Acabou.
- Na verdade... – falou, fazendo com que olhássemos para ele. – Não acabou ainda. – E, com um movimento rápido, pegou James pelo colarinho arrastando-o para fora do meu apartamento, dando um soco em seu rosto em seguida. – Agora sim acabou. – entrou de volta em meu apartamento, fechando a porta com força. Olhei incrédula para ele, que andou em direção à cozinha. – Você namorava esse cara? – Ele perguntou, parando em frente à geladeira, abrindo-a. – Sério, ? – Ele virou o rosto para mim antes de meter a cabeça dentro da geladeira e tirar uma cerveja de lá. – E depois você sai por ai criticando o que eu faço.
- Você é igual a ele, nem tente argumentar.
- Não, eu não sou igual a ele. Eu não sou nada parecido com ele. – Ele falou, colocando a cerveja em seu rosto.
- Os dois são mulherengos do mesmo jeito.
- Não, , o seu namorado é um verdadeiro idiota. – Ele parou em minha frente. – Se eu namorasse alguém, eu não trairia. Qual é o ponto de ter um relacionamento se você vai trair? Nenhum!
- Isso não muda o fato de que você sai por aí transando com qualquer uma.
- Eu saio por aí “transando” com “qualquer uma” porque eu sou solteiro, é isso que todos os solteiros fazem. E não são só homens, mas mulheres também. E eu posso até ficar com qualquer uma, mas, pelo menos, eu sei os valores de um relacionamento. – Ele abriu a cerveja e tomou um gole andando até o sofá. Virei meu rosto para ele e o vi colocando as calças.
- Aonde você vai? – Perguntei, vendo abotoar os botões.
- Vou fazer aquilo que eu sei fazer de melhor. – Ele calçou os tênis. – O que foi mesmo que você disse que era? – Ele andou até a porta do meu apartamento. – Ah, lembrei. Ser um riquinho mimado que não faz absolutamente nada da vida e que promove festas e orgias. Foi isso, não foi? – Ele completou, abrindo a porta.
- ... – Tentei falar, mas ele já tinha batido a porta do apartamento.

Capítulo 5

Já passava da meia-noite e ainda não havia chegado. Provavelmente, deve estar com alguma garota sortuda por aí, enquanto eu estou aqui pensando em quanto queria que a garota fosse eu, pensei, pegando um punhado de pipoca e colocando na boca. Desde que tinha saído pela porta – às nove da manhã – eu estava sentada nesse sofá, com uma bacia de pipoca no colo e uma garrafa de Coca-Cola do meu lado, tendo apenas uma única pausa para tomar um banho e colocar o meu pijama mais velho dentro do guarda-roupa. A minha coleção de filmes clássicos e românticos com um punhado de tragédia estava vindo a calhar naquele dia. Eu não entendia porque eu estava agindo dessa maneira, a única coisa que eu sabia é que Titanic nunca havia sido um filme tão triste quanto hoje.
Valores de um relacionamento. Essa frase se repetia na minha cabeça desde que ele havia saído daquela porta me odiando. Valores de um relacionamento, como alguém poderia falar sobre valores de um relacionamento quando, provavelmente, nunca esteve em um? Tudo bem, James não era a pessoa mais fiel desse mundo e eu sabia disso quando comecei a sair com ele, mas que culpa tinha eu se não conseguia me esquivar daquele papinho de cafajeste que ele tinha? Relacionamentos nunca são perfeitos e, mesmo antes de começar a namorar James, eu me certifiquei de conhecê-lo melhor primeiro exatamente por conta da sua fama de cafajeste. Foram meses de conversa, muitos encontros e James me tratava como uma rainha. Por um momento eu havia pensando que James tinha mudado, principalmente quando ele começou a falar sobre casamentos e filhos e logo depois nós estávamos morando juntos. Aparentemente, as aparências enganam.
Voltei minha atenção para a televisão deixando todos os pensamentos de lado. Eu estava assistindo Titanic pela décima vez naquele dia e caía bem na parte onde Rose estava em cima do pedaço de madeira junto com Jack, o que me fazia pensar por que essa vadia não tinha dado espaço para ele ao lado dela.
- Rose, tinha espaço para ele! – Joguei a bacia de pipoca na televisão.
- Eu concordo. – Dei um pulo do sofá quando escutei a voz de ecoar pela sala. Virei meu rosto para a porta enquanto ele a fechava.
- O que você está fazendo aqui?
- Você se esqueceu de que eu estou ficando aqui até o senhor Flores esquecer do ocorrido da piscina? – Ele falou, trancando a porta do apartamento.
- Pensei que você não ia mais voltar, que você estava muito ocupado com suas ami...– Ele cruzou os braços, me reprovando com o olhar. – Seus amigos.
- A maioria deles está fora da cidade. – Ele disse andando em direção ao sofá. – A maioria deles deve estar em Las Vegas se divertindo enquanto eu estou aqui com você. – Ele se sentou ao meu lado. – Triste fim esse meu.
- E o que você quer dizer com isso?
- Deve ser difícil para você ter que conviver comigo.
- E por que isso? – Cruzei os braços olhando para ele.
- Cafajestes, , você deixou bem claro que os odeia.
- E você deixou bem claro que não é que nem James. – Respondi, ajoelhando-me no sofá, ficando ao lado dele de modo que ele apenas virasse o rosto para me olhar. – E por isso eu te devo desculpas, não é porque James foi um completo idiota sem coração que todos os homens da face da terra também serão. E você tinha toda a razão, você é solteiro, tem direito de ficar com todas as garotas do mundo se quiser, e eu não estou em posição de julgá-lo. A vida é sua, no final das contas, e você faz dela o que quiser. – Terminei de falar vendo o seu olhar surpreso em minha direção. – Desculpe por ter falado todas aquelas coisas horríveis para você sem nem ao menos lhe conhecer. – Ele olhou para frente com o olhar fixo para a televisão.
- Você estava certa. – Ele disse.
- Estava? – Perguntei, surpresa.
- É. Quando você disse que minha vida era vazia e a melhor maneira de preencher esse vazio é com bebidas e garotas. – Ele sorriu sem humor. – Eu fiz algo ruim, muito ruim, e isso deixou um vazio dentro de mim que eu achava que era preenchido quando eu estava por aí com meus amigos.
- Nunca é tarde pra reparar um erro, . – Falei, vendo-o virar o rosto na minha direção com um sorriso. – O quê?
- Você nunca me chamou de .
- É o primeiro passo para uma convivência amigável entre nós dois. Não pense que eu esqueci, você ainda tirou várias das minhas noites de sono, . – Falei, vendo-o sorrir. Ele se ajeitou no sofá, sentando com a coluna reta agora e deixando um de braços pousar no encosto do sofá próximo a mim. Senti sua mão deslizar levemente por meu braço.
- Tem algo sobre você, marrentinha, que não me deixa ficar com raiva de você nem quando você está me xingando.
- Eu gosto de pensar que é a minha carinha de anjo, não tem como não gostar de um rostinho lindo desses.
- Não, não. Tem algo em você, algo que eu realmente não consigo saber o que é, eu só sei que eu gosto. E muito. – Ele começou a se aproximar de mim. – Talvez seja o jeito que você não tem medo de me colocar no meu lugar e, pode acreditar, é algo que eu procuro a minha vida inteira, mas que ninguém nunca fez. E, Deus, eu só penso em te beijar o tempo inteiro. Eu quero muito te beijar, , eu posso? – Logo depois que eu assenti a cabeça, um de seus braços rodeou minha cintura me puxando para perto, fazendo com que eu caísse, com uma perna de cada lado, em seu colo.
Senti sua respiração em meu rosto enquanto nossos narizes se tocavam levemente fazendo com que eu fechasse os olhos e logo em seguida sentisse seus lábios chocarem-se nos meus. Segurei seu rosto entre minhas mãos enquanto sentia seu outro braço rodear minha cintura, me puxando para perto enquanto sua língua pedia passagem para invadir a minha boca. E quando elas se tocaram, eu pude jurar que uma corrente elétrica havia percorrido desde o dedão do meu pé até o último fio de cabelo, fazendo todos os pelos do meu corpo levantarem automaticamente. Meu corpo todo tinha estado em frenesi e quando pensei que eu não poderia provar algo tão delicioso quanto aquele dia na jacuzzi, me beijava com seus lábios carnudos com gosto de mel. Agora eu entendo porque sua cama nunca fica vaga, pensei levando uma de minhas mãos até a sua nuca e puxando os cabelos que lá tinha.
desceu suas mãos até minhas coxas, apertando-as e dando um sorriso entre o nosso beijo, fazendo com que eu sorrisse também. Antes que eu pudesse reagir, se levantou do sofá segurando minhas pernas, fazendo com que eu soltasse um grito e me agarrasse em seu pescoço. Soltei uma gargalhada gostosa sentindo a boca de descer por meu pescoço deixando um rastro de mordidas até chegar em meu ombro, dando uma mordida forte para finalizar. Isso era algo que definitivamente eu não iria me arrepender, pois mesmo sem querer admitir, despertava em mim os desejos mais obscuros que apenas minha mente e coração sabiam que eu tinha.
Olhei em seus olhos com um sorriso no rosto antes de juntar nossos lábios mais uma vez. Senti minhas costas baterem em uma superfície dura e uma de suas mãos abandonar minha perna, fazendo com que eu perdesse o equilíbrio e caísse em pé. Coloquei minha mão na maçaneta da porta, abrindo-a e puxando para dentro pelo colarinho. Escutei soltar uma gargalhada enquanto eu o puxava e o jogava na cama sentado.
Sentei-me em seu colo colocando uma perna de cada lado do seu quadril. Segurei a barra da sua camisa e a puxei-a para cima, jogando-a em algum lugar do quarto; levei minha boca até seu pescoço começando a depositar beijos por toda a região. Suas mãos levantaram minha camisa para cima fazendo com que nos separássemos por instantes, e essas mesmas mãos apertaram minhas coxas antes de ele me jogar na cama e ficar em cima de mim, entre minhas pernas. Seus lábios começaram a beijar toda a região do meu colo enquanto suas mãos tiravam o meu sutiã jogando-o para longe, depois traçando um caminho por toda a região da minha barriga chegando até meu short, fazendo-o descer por entre minhas pernas. Sua boca fez o mesmo caminho daquele dia na jacuzzi, onde seus beijos subiram pela parte interna de minha coxa até chegarem a minha intimidade. Ele tirou minha calcinha lentamente e suas mãos afastaram minhas pernas, e antes que eu pudesse falar alguma coisa sua cabeça se enterrou entre minhas pernas e sua língua brincou com minha intimidade. Arqueei o corpo na cama e agarrei seus cabelos quando senti sua língua penetrar minha intimidade de uma forma em que eu nunca poderia ter imaginado que faria de novo.
Senti suas mãos segurarem minha bunda ao mesmo tempo em que sua língua se movia explorando cada canto da minha intimidade, fazendo com que gemidos roucos saíssem da minha garganta. Fechei os olhos sentindo todo o meu corpo queimar como um fogo ardente que nunca iria se apagar. sabia o que fazia e, principalmente, sabia como levar uma garota à loucura sem nem ao menos usar o seu melhor instrumento.
No segundo seguinte, sua boca abandonou minha intimidade subindo os beijos por minha barriga até chegar em meu seio, sugando-o por inteiro, e então, seus dedos deslizaram por minha intimidade até o fundo, fazendo com que um gemido rouco saísse de minha garganta. Seus movimentos eram devagar, fazendo com que aquilo se transformasse em praticamente uma tortura, mas aí, como se lesse meus pensamentos, ele aumentou os movimentos de seus dedos indo até o fundo e tirando-os por inteiro, fazendo com que gemidos cada vez mais altos saíssem de minha garganta. Segurei em seus cabelos puxando sua cabeça para cima, fazendo sua boca abandonar meu peito e habitar meus lábios; passei minha língua por entre seus lábios fazendo com que ele abrisse os mesmos, deixando minha língua explorar sua boca do mesmo jeito que a sua havia feito com a minha. Os movimentos de seus dedos foram se intensificando a medida que nosso beijo se tornava mais quente, fazendo com que eu cravasse minhas unhas em seus ombros e um gemido saísse de seus lábios.
então separou nossos lábios e foi travando o mesmo caminho até chegar em minha intimidade, suas mãos apertaram minha bunda fazendo com que sua cabeça se enterrasse em minha intimidade outra vez. Senti sua língua habitar o local, sugando-a com mais rapidez e fazendo com que os gemidos ficassem cada vez mais altos. Meu corpo estava quente e minhas mãos conseguiram apenas agarrar os lençóis antes de um último gemido de alívio sair da minha garganta e um sorriso formar-se em meus lábios.
Senti sua boca fazer o mesmo percurso de volta até meus lábios, fazendo com que eu abrisse os olhos e encarasse aqueles adoráveis globos esverdeados. Sorri antes de juntar nossos lábios mais uma vez, sentindo todo o seu corpo cair sobre o meu e seu membro rígido debaixo da calça entrar em contado com minha intimidade. Desci uma de minhas mãos por seu peitoral passando por seu abdômen, dando um leve arranhão antes de chegar ao cós da sua calça e desabotoar o botão. Desci o zíper lentamente e, antes que ele pudesse perceber, coloquei minha mão dentro da sua boxer segurando seu membro. Senti-o gemer entre os meus lábios e então, sorrindo entre o beijo, comecei a fazer movimentos para cima e para baixo. separou nossos lábios, fechando os olhos lentamente enquanto eu aumentava os movimentos da minha mão em seu membro, eu podia ver o prazer em seu rosto e logo pude senti-lo quando escondeu seu rosto na curva de meu pescoço, deixando sua boca ali mesmo. Aumentei os movimentos da minha mão sentindo arfar entre meu pescoço e soltar gemidos e palavras obscenas em meu ouvido, fazendo com que eu sorrisse.
Dando uma última mordida, segurou minha mão com o único resto de sanidade que lhe restava e tirou-a de seu membro, e antes que eu pudesse dizer alguma coisa ele havia juntado nossos lábios mais uma vez, agora de uma maneira brutal. Suas mãos desceram a calça que estava aberta, jogando-a em algum lugar, e logo depois o mesmo aconteceu com sua boxer.
Antes que eu pudesse gesticular alguma palavra, seu membro deslizou para dentro da minha intimidade, fazendo com que eu fechasse os olhos sentindo tamanho prazer. começou a se movimentar para frente e para trás lentamente fazendo com que eu jurasse que nunca em minha vida iria provar sensação tão deliciosa. James, na maioria das vezes, nunca havia sido tão gentil e doce comigo. Ele sempre fora um idiota que não se importava se me dava prazer ou não, só se importava com si mesmo, totalmente diferente de . Oh, se importava se estava dando o prazer o suficiente a uma mulher, pois cada estocada dele era dada de uma forma diferente e suas palavras doces – e, às vezes, maliciosas – entre mordidas no lóbulo de minha orelha provavam isso. estava me levando à loucura.
Mais uma vez.
E quando pensei que ele não poderia melhorar, ele fez com que eu tocasse o céu aumentando a velocidade de suas estocadas, fazendo com que seu membro entrasse até o fundo de minha intimidade. Senti seus lábios irem de encontro com os meus fazendo com que meus gemidos fossem abafados; abracei pelo pescoço e, em um movimento rápido, fiquei em cima dele. Separei nossos lábios ficando sentada em cima de seu tronco, sorri para ele começando a me movimentar para frente e para trás em seu membro, vendo-o fechar seus olhos. Apoiei-me em seu peito aumentando a velocidade dos movimentos do meu quadril em cima de seu membro, e me puxou pela cintura, fazendo com que eu me deitasse em cima dele sentindo seus braços rodearem minha cintura e ele me girar, minhas costas encontrando a cama de novo. Quando eu menos esperei, ele havia se tornado um homem sem coração e havia pensado só nele por um instante, aumentando a velocidade das suas estocadas dentro de mim e fazendo com que eu gemesse cada vez mais alto. Ele havia perdido o controle e, bem, eu estava gostando disso.
Os gemidos que saíam da minha garganta aumentavam a cada estocada e quando eu menos esperei todo o fogo que passava por entre minhas veias havia cessado. Abri os olhos sentindo deixar todo o peso do seu corpo cair sobre mim, tirando a conclusão que eu não tinha sido a única a chegar ao orgasmo. Nós estávamos ofegantes e sem nenhuma posição de falar alguma coisa, mas havia feito algo que valeria por mais de mil palavras. Ele olhou em meus olhos, tirando uma mecha do meu cabelo da testa, e sorriu antes de me dar um selinho. Caiu do meu lado na cama e me puxou para o seu peito, dando um beijo em minha testa e, mesmo sem querer, eu estava sorrindo e pedindo a Deus que esse momento se repetisse.

Meu celular começou a tocar anunciando que algum desocupado estava me ligando. Abri os olhos lentamente olhando para o despertador que marcava 07:45. Um filho da puta de um desocupado, pensei, virando-me para o lado e encontrando o mesmo vazio. Sentei-me na cama em um pulo olhando para o lado, tendo a certeza que não estava mais ali, então levantei o lençol um pouco encontrando meu corpo do mesmo jeito do dia em que vim ao mundo. É, não foi mais um sonho erótico com o meu vizinho irritante, pensei levantando-me da cama e segurando o lençol em meu corpo.
Olhei em volta do quarto procurando as roupas de que deveriam estar espalhadas pelo meu quarto. Por favor, por favor, não tenha feito comigo o que fez com as outras, pensei indo em direção ao banheiro. Empurrei a porta devagar tendo a certeza do que eu mais temia, ele tinha ido embora. tinha transado com a vizinha irritante dele e ido embora, como ele fazia com as outras garotas que eu já vi saindo do seu apartamento. Escutei o meu celular tocar a última vez antes do silêncio tomar conta do meu quarto outra vez.
Eu deveria saber. Eu deveria saber que ele só estava me usando para mostrar por amiguinhos ridículos deles que até a vizinha que mais o odiava poderia cair na sua conversa de homem arrependido. Eu deveria saber que todo aquele eu estou arrependido era só uma fachada para amolecer meu coração para deixar que ele entrasse nas minhas calças. Burra. Burra. Mil vezes burra! Eu tinha sido pior do que as garotas que ele trazia do bar para o seu apartamento, eu sabia o que ele fazia com essas garotas, sabia que ele faria o mesmo comigo e mesmo assim deixei-me cair em seus encantos pensando que seria diferente. Mas é claro que não seria diferente, , você não vai ser a mocinha que mostra ao vilão que ele tem bom coração, pensei indo em direção ao meu guarda-roupa. Peguei um short, uma calcinha e uma blusa e fui em direção ao banheiro, entrei logo debaixo do chuveiro deixando a água descer por meu corpo, tirando todo o cheiro dele que havia impregnado em mim, mas algo me dizia que seria preciso mais do que um banho para tirá-lo de mim, eu precisaria fazer muito mais. Marcus que me desculpasse, eu o amava muito, mas eu já deveria ter feito isso há muito tempo.
Mudar, do latim não quero cair nos encantos do vizinho do Marcus outra vez. Era o que eu iria fazer, faziam seis meses que Marcus me sustentava sem nem ao menos me deixar pagar o supermercado que eu comia, ele era como o irmão que eu nunca havia tido e mesmo que eu tivesse não se compararia ao amor que eu e o Marcus sentíamos um pelo outro. Por anos, e só eu sei, por anos eu estive com Marcus, desde que éramos pirralhos que brincavam com massinhas até quando entramos na faculdade. Era muita história para ser jogada fora, mas como minha mãe sempre dizia: um dia temos que nos desapegar daquilo que mais amamos, e por mais que eu amasse Marcus, eu teria que partir, pois eu não aguentaria ver seu vizinho odioso nunca mais.
Desliguei o chuveiro escutando o toque do meu celular ecoar pelo quarto outra vez, me enxuguei rapidamente colocando minha roupa logo depois. Corri até o quarto e peguei meu celular olhando no visor: Rose. Franzi o cenho pensando no que Rose poderia querer comigo aquela hora da manhã.
Engoli em seco, preparando-me para o pior.
- Rose? O que foi? Aconteceu alguma coisa com minhas crianças? Eles estão todas bem? Ai, meu Deus. – Despejei tudo de uma só vez e logo escutei uma gargalhada ecoar pelo outro lado da linha. – Por que você está rindo?
- Ora, mas por quê?! Se todas as vezes que eu ligar para você, você me atender com esse desespero, eu deixo para ligar só dois dias antes de você voltar. – Ela falou, tranquila, com um ar risonho do outro lado da linha. – Parece até que eu só ligo para dar notícia ruim.
- Então não aconteceu nada com minhas crianças?
- Não, não. Na verdade, aconteceu uma coisa. Oh, , você deveria ter visto.
- O que aconteceu, Rose? Fala, você está me deixando curiosa!
- Sansa, .
- O que aconteceu com ela?
- Ela está andando, , ela recuperou os movimentos das pernas. – Rose falou, e eu pude escutar gritinhos de alegria do outro lado da linha. O sorriso do meu rosto não se conteve e logo percebi que lágrimas escorriam pelo meu rosto. Sansa, minha menina, aquela que achava que nunca mais iria se recuperar do seu acidente, estava andando.
- Eu não acredito. – Falei pausadamente. – Eu não acredito que perdi isso.
- , você tinha que ver, ela desejou ardentemente que você estivesse aqui quando ela estava começando a dar os primeiros passos.
- Então por que vocês não me ligaram?
- Não queríamos atrapalhar suas férias, é a primeira vez em dois anos que você se afasta do hospital, você merecia um descanso.
- Pois meu descanso acaba de terminar. – Desliguei o celular antes mesmo de ouvir a resposta. Calcei meus tênis e corri para a porta da frente, abrindo-a e saindo em seguida. Coloquei a chave no bolso de trás e apertei freneticamente o botão do elevador. Agradeci mentalmente por ele estar vazio, porque seria bem capaz de eu sair espalhando minha felicidade ao abraçar algum vizinho.
Esperei o elevador chegar no hall e antes mesmo da porta se abrir por completo passei correndo até chegar a frente do prédio, sinalizando para algum táxi que poderia passar por ali. Vamos, vamos, táxis malditos, apareçam, pensei olhando não reparando no carro que estava parando em minha frente.
- Querendo uma carona, gatinha? – Escutei uma voz sair do carro.
- Olha aqui, seu atrevido, você pode ir indo para... – Abaixei meu olhar vendo o dono da voz e reconhecendo aquela Ferrari, o ar faltou em meus pulmões e por um segundo esqueci o porquê da raiva que eu sentia dele – Esquece. – Virei meu rosto para a rua procurando por um táxi que provavelmente não iria aparecer.
- Eu não ganho nem um bom dia?
- Olha aqui, , eu estou muito apressada agora e não tenho tempo para os seus joguinhos ridículos.
- Por que isso soou como uma indireta?
- Você sabe que isso foi uma direta. – Vi-o bufar e logo sair de dentro do carro parando ao meu lado.
- O que aconteceu, ? – Ele parou ao meu lado com os braços cruzados.
- Não é da sua conta, , agora dá licença e me deixa em paz que eu tenho que ir ao hospital.
- Hospital? Você está bem? ‘Tá sentindo alguma coisa?
- Não, , eu apenas preciso estar lá o mais rápido possível.
- Eu te levo.
- Não precisa, eu estou bem.
- Isso não foi uma pergunta. – Antes que eu pudesse rebater, ele já havia me pegado no colo e me jogado no banco do passageiro, ele deu a volta e sentou ao meu lado. Fiz menção de abrir a porta, mas ele já havia dado a partida no carro.
- Para o carro, , e me deixa sair. – Falei, tentando manter a calma.
- Você não quer ir ao hospital, então eu estou lhe levando ao hospital.
- Você não precisa fazer isso, você não é nada meu.
- Eu não sou nada seu? – Ele me olhou de relance. – E ontem foi o quê? Não foi nada?
- Você que deveria me dizer, já que saiu de fininho pela manhã sem nem deixar um rastro.
- Eu deixei um bilhete na geladeira avisando que eu iria comprar o nosso café da manhã, já que no seu apartamento não tem nada além de enlatados. – Olhei para o lado e pude ver um pequeno saquinho e dois copos de café da minha padaria preferida no banco de trás. – Você realmente achou que eu iria sair de fininho?
- É isso que você faz com todas as outras. – Falei baixo, quase como um sussurro.
- , pensei que você tinha entendido que ninguém me faz se sentir do jeito que você faz. – Peguei a bandeja que tinha os copos de café e peguei um, tomando um gole em seguida.
- Capuccino, meu preferido.
- Eu sei.
- Sabe? – Perguntei, confusa, olhando para ele.
- Sei. – Ele estacionou o carro no estacionamento do hospital. – Toda manhã eu via você e Marcus chegando com suas sacolas e eu podia ouvir você proclamar do outro lado da porta que amava capuccino e como poderia se casar com a pessoa que o inventou. – Olhei para ele mordendo a borda do meu copo. Oh, aqueles terríveis olhos me olhando com aquele brilho que nem em uma década eu poderia decifrar e que me colocariam na cadeia por tão perigosos que eram quando me encaravam por tanto tempo.
- Escutar conversa atrás da porta é feio. – Falei, abrindo a porta do carro, saí do mesmo e comecei a andar em direção a porta do hospital. Senti um puxão em meu braço e logo quando percebi os dois braços de rodeavam minha cintura, me segurando firme e me puxando para perto.
- Sabia que é feio dar as costas para as pessoas enquanto vocês estão conversando? – Ele disse enquanto eu passava meus braços por seu pescoço.
- Pensei que nossa conversa tinha acabado.
- Garota, nem um milhão de anos, eu conhecerei alguém tão marrento que nem você.
- O que eu posso fazer? É um dom que poucos têm. – Ele sorriu e aproximou nossos rostos.
- Eu nunca faria algum mal a você e, se um dia eu não te quiser mais ou você não me quiser mais, eu sei que vamos ser honestos um com o outro. – Ele disse e deu um longo selinho.

- Desculpa por ter te tratado mal, é que eu não tive as melhores experencias com relacionamentos.
- Eu entendo, mas, por favor, me promete que da próxima vez não vai se precipitar?
- Prometo. – Dei outro selinho nele. – Agora vamos, eu preciso ir. Senti meu celular vibrar dentro do bolso e lembrei porque eu estava na porta do hospital tão conhecido por mim, então me afastei de e o peguei pela mão, arrastando-o pela entrada do hospital. Nada havia mudado, o corredor que me levaria até a ala da pediatria continuava o mesmo, calmo e sereno. Os médicos que ali passavam me cumprimentavam, já éramos amigos de longa data e só Deus sabe o quanto eu vaguei por esses corredores enquanto esperava meu turno acabar ou, muitas vezes, esperando que Marcus me ligasse e dissesse que a festa no apartamento do lado tinha acabado. E, olhando para trás, vendo onde estou agora e, especialmente, com quem estou agora, eu nunca imaginaria que estaria de mãos dadas com o ser mais detestável da face da terra. Se Marcus estivesse aqui ele acharia que tinha bebido demais ou estava perdendo a consciência e eu, com certeza, lhe responderia que um pouquinho dos dois. Quem um dia imaginaria que eu estaria sorrindo e quase babando por alguém como ? Eu prometi que não iria cair no encanto daqueles olhos suplicantes e naquele corpo que fazia cada pedaço do meu esquentar como nunca antes, mas toda promessa, por menor que seja, podia ser quebrada, e eu havia quebrado a minha, não por birra ou pelo desejo de me contrariar, mas apenas pelo simples fato de que eu havia me deixado sentir outra vez. Talvez possa até acontecer de eu quebrar a cara e meu coração outra vez, mas não iria me arrepender ou me lamentar, eu iria agradecer por ele ter me feito sentir pela primeira vez em muito tempo.
- ? – Escutei a voz de Rose do outro lado do corredor. Ela parou em minha frente, me abraçando logo em seguida. – Você veio. – Ela se separou de mim. – E veio acompanhada. – Ela olhou em direção a , franzindo o cenho. – Eu não te conheço de algum lugar?
- Acho... – Ele deu uma pausa. – Acho que não.
- Tenho certeza que já vi esse rosto lindo em algum lugar.
- Eu tenho um rosto muito comum, senhora. – Ele disse dando um sorriso de lado.
- Oh, deve ser isso mesmo. – Ela voltou-se para mim novamente. – Vamos, ela vai adorar a surpresa. – Rose falou, recomeçando a andar pelo corredor do qual ela tinha vindo.
Seguimos Rose até a ala pediátrica na parte em que as crianças se recuperavam. E lá estava ela, de frente para a janela contando sua história para as crianças novatas que a encaravam com olhos atentos. Ela falava enquanto se exibia andando de um lado para o outro com a jaqueta que eu havia lhe dado no dia em que fui embora. Soltei-me de e fui andando em direção a ela sem fazer barulho para que ela não me visse e, antes que ela percebesse, coloquei minhas mãos em seus olhos para que ela não me visse. Sansa, assustada, colocou as mãos sobre as minhas e as apertou, ela então parou de falar e antes que eu pudesse falar alguma coisa ela pulou em meu pescoço me abraçando tão forte que a respiração me faltou.
- Você veio. – Ela falou em meu ouvido e me soltando aos poucos.
- Antes tarde do que nunca. – Falei, abaixando-me à sua altura.
- Pensei que você nunca mais ia voltar.
- São apenas férias, Sansa, é claro que eu ia voltar, não agora, mas daqui a alguns meses.
- Mas em alguns meses eu posso não estar aqui. – Ela se afastou de mim. – Você não vê? Eu estou melhor, eu estou andando agora.
- Mas isso não significa que eu não vá te visitar uma vez ou outra, aposto que sua avó permitiria. – Sorri, vendo-a pular mais uma vez em meu pescoço. – Agora, deixa eu te apresentar uma pessoa. – Falei, separando-me dela.
- Seu namorado?
- Pode-se dizer que sim. – Falei, colocando-me em pé outra vez. Segurei na mão de Sansa levando-a até onde e Rose estavam, Sansa apertou minha mão fazendo com que eu olhasse para ela, que olhava para frente sem ao menos mexer a cabeça – Sansa, esse daqui é o...
- . – Sansa completou, e eu olhei surpresa para ela.
- Vocês se conhecem? – Perguntei, olhando para , que não tirava os olhos de Sansa. – Alguém pode me responder?
- , ele é... – Sansa olhou para mim com os olhos cheios de lágrimas. – Ele é meu irmão.



Capítulo 6

O chão debaixo dos meus pés simplesmente desapareceu e minhas pernas tremeram como se meus ossos tivessem virado gelatina, sem nenhuma sustentação. Irmão, essa pequena palavra rodeava minha cabeça e perfurava meu cérebro fazendo as lembranças retornarem diante de meus olhos, em especial a do dia em que a encontrei em um corredor vazio chorando porque seu irmão tinha a abandonado. Desde desse dia eu jurei ser a irmã mais velha que ela nunca teve.
era o irmão de Sansa, aquele mesmo irmão que a abandonou quando ela mais precisou e aquele mesmo que eu jurei torturar quando o encontrasse pessoalmente.
Engoli em seco olhando para que olhava para Sansa com os olhos arregalados. Sansa apertou minha mão fazendo com que eu olhasse para ela e respirasse fundo, ela sabia que se não estivéssemos dentro do hospital e com tantas crianças ao nosso redor eu provavelmente pularia no pescoço de e o faria sangrar até a morte. Nunca acreditei muito em tomar as dores dos outros e muito menos em usar violência para resolver problemas, mas quando se tratava de uma criança em uma situação como a de Sansa, a pior parte de mim, aquela pequena vadia sem coração e sem escrúpulos, tomava conta do meu corpo e fazia com que eu só percebesse o que estava fazendo quando a pessoa a minha frente estava no chão. O que eu normalmente não me arrependia de fazer, devo ressaltar.
- Vocês deveriam conversar. – Falei quase sem voz fazendo com o que os dois olhassem para mim. – O quê? Vocês são irmãos e deve ter muita coisa para conversar com todo esse tempo perdido.
- . – falou, abaixando a cabeça.
- Não, , você deve ficar com sua irmã e dizer a ela o motivo de você ter se ausentado todos esses meses. Sansa ouvirá com toda a atenção, não é, minha linda? – Perguntei, olhando para Sansa e soltando sua mão.
- . – Foi a vez de Sansa falar.
- Vou me retirar para que vocês dois possam falar a sós. – Falei, afastando-me dos dois, indo em direção ao corredor por onde nós viemos. Encostei-me à parede sentindo meu coração acelerar e minha respiração falhar. Eu sentia meu sangue borbulhar dentro de minhas veias e toda a raiva tomar conta da minha mente fazendo com que eu pensasse em quantas maneiras possíveis eu poderia matar , fazendo-o sofrer do começo ao fim. Eu sabia que ele não era nem um santo, mas não sabia que ele poderia chegar ao ponto de deixar sua irmã sozinha em um hospital no momento que ela mais precisava. Entendo que pode ser uma barra ter que aguentar uma coisa como uma criança que tinha um futuro promissor indo parar em uma cama de hospital sem os movimentos das pernas, mas é pior ainda ter que aguentar tudo isso sozinha e ainda ter que ser forte do jeito Sansa fez. Eu admirava Sansa de todas as maneiras possíveis, gostaria eu ser tão forte a ponto de consolar minha avó no momento mais difícil da minha vida, e eu sabia disso porque eu conversava com ela e via em seus olhos quantos sonhos foram destruídos depois que ela sofreu o acidente. E isso fazia com que eu me perguntasse usando o mais variado tipo de palavrões em meu vocabulário: que porra o idiota do irmão dessa menina estava pensando? E como um filho da puta desses tem coragem de abandonar a irmã dele desse jeito?
Agora eu sabia a resposta e eu não gostava dela nem um pouco. era bem pior do que eu pensava, ele não era só um galinha e mauricinho sem limite. Oh não, ele era muito pior que isso, ele não tinha coração, não sentia nem um pouco de compaixão e não sentia nenhum amor naquele coração que ele dizia que tinha.
E antes que eu pudesse pronunciar algo eu já estava do lado de fora do hospital, correndo em direção ao meu apartamento sem ao menos me importar em correr duas quadras. Eu só queria me trancar em casa e chorar até que meu estômago doesse e todas as minhas lágrimas secassem. Eu tive a pior decepção da minha vida com , e mesmo que ele me traísse ou me tratasse que nem tratava as outras não doeria tanto quanto saber que ele era o irmão de Sansa.
Atravessei a rua e entrei pelo hall do prédio ofegante, o porteiro me olhou com os olhos arregalados enquanto eu passava em frente à portaria. Eu provavelmente estava toda descabelada e parecendo uma louca pela a cara que ele fez, mas eu não estava realmente me importando, eu apenas queria chegar em casa e me jogar no sofá, colocar minha coleção depressiva de filmes dramáticos, desejando nunca ter conhecido o vizinho odioso de Marcus.
- , por favor, espera. – Mesmo sem querer, eu parei de andar em direção ao elevador quando escutei sua voz ofegante. Virei-me para ele vendo-o apenas a alguns metros longe de mim, e então, tive que contar de um até dez para não pular no pescoço dele.
- Esperar? – Perguntei, mandando toda a calma para o ar. – Você esperou até Sansa se recuperar? Pelo o que eu vi, não.
- Você não sabe a verdade, se você soubesse não estaria com raiva de mim agora.
- Nada que você disser vai fazer com que minha raiva por você diminua no momento.
- E se eu dissesse que eu fui o motivo dela estar daquele jeito? E se eu disser que eu estava dirigindo o carro? Mudaria alguma coisa?
- Era... – Dei uma pausa e engoli em seco. – Era você dirigindo?
- Era sim. – Ele abaixou a cabeça. – Nós estávamos voltando de uma festa de família, eu tinha bebido muito e fui dirigindo. A única coisa que eu me lembro foi de acordar em uma cama de hospital e um médico me dizendo que eu ficaria bem, mas minha irmã estava em uma situação muito grave. Eu fiquei ao lado de Sansa até ela acordar e, no dia em que ela teve a notícia de que não iria mais andar, eu fui embora e nunca mais voltei. – Ele olhou para mim. – Mas não teve um dia em que eu não pensasse em Sansa naquele hospital, sem poder andar e me lembrando de que a culpa era minha. Eu queria ir lá, mas a culpa me consumia, e Sansa estava muito melhor sem mim.
- Melhor sem você, ? Ela precisava de você e de todo o apoio que você podia dar. Mesmo sendo o culpado, você é e sempre será o irmão dela.
- Tente entender, eu...
- Oh, , você não está em condição de me pedir nada no momento.
- Por favor, , eu sei que cometi um erro, mas isso não é motivo para você me tratar dessa maneira.
- E você quer que eu lhe trate como? Oh, , está tudo bem. Você pode abandonar sua irmã quantas vezes quiser que eu estarei lá para cuidar dela e, então, nós iríamos nos abraçar e seríamos o casal mais feliz do mundo.
- Não é hora para brincadeiras.
- Eu não estou brincando! – Gritei, olhando para ele. – Já que estamos falando sério, deixe-me perguntar uma coisa: Por que você abandonou Sansa?
- Como? Por que eu abandonei Sansa?
- É, , porque você a deixou sozinha no hospital.
- Porque a culpa dela estar daquele jeito é minha.
- Sim, essa parte eu entendi. Então, por que você não voltou quando a poeira baixou? Você se sentia culpado, certo? Então por que você não voltou para tentar se redimir?
- Eu... Eu não sei.
- Oh, claro, mas eu sei. – Falei, dando dois passos para frente. – Você queria viver essa vida de mauricinho que transa com qualquer uma e usa toda a porra do tempo e dinheiro com coisas fúteis quando se podia estar ajudando alguém, ajudando a própria irmã. Ai, como eu lhe odeio, ! – Gritei, batendo o pé no chão. – E o único motivo de eu não arrancar esse seu coração e dar para alguém que precisa é porque eu não quero colocar minhas mãos em você nunca mais.
- Você não estava reclamando ontem quando elas estavam junto das minhas.
- Não, não estava, mas foi antes de descobrir que o coração que você diz ter só tem a função de bater, enquanto a função de sentir provavelmente apodreceu dentro de você. Ou, bem melhor, ela deve ter se afogado com tantas bebidas e vadias. – Falei, virando-me para o elevador e entrando no mesmo.
A porta do elevador se fechou e junto com ele meu corpo desmoronou no chão junto com minhas lágrimas. Meu corpo borbulhava de ódio de mim mesma por deixar-me levar por um homem que eu prometi a mim mesma que nunca ia me meter. Pois garotos que nem só se relacionavam com garotas como eu para usá-las como troféus de conquista, ele provavelmente se gloriava com seus amigos como o 'pegador da vizinha que o odiava, mas a fez gritar seu nome em alto e bom som'. O coração que ele mostrou que tinha para mim não existia, era só fachada, era só para me usar e depois me jogar fora, e eu não deveria parecer surpresa com tanta falta de respeito, pois não seria o primeiro e nem ao menos o último a fazer isso. Fazer mulheres de bobas parecia ser uma função dos homens, uma função que eles adoravam.
Mas nada doía tanto quanto saber que ele era o irmão de Sansa. Oh não, nada estava doendo quanto isso e até a parte em que ele era uma cafajeste poderia dar jeito. Homens haviam mudado depois que conheceram as mulheres de sua vida, por que eu não poderia fazer o mesmo com ? Oh, claro, eu não era a mulher da vida dele. Ele não iria mudar do dia para noite porque finalmente seu coração tinha batido de uma forma diferente depois de olhar em meus olhos ou mesmo depois dos seus lábios tocarem os meus. Isso poderia acontecer em contos de fadas e poderia até acontecer com algumas pessoas no mundo de hoje, mas comigo? Por que isso aconteceria logo comigo? Digo, eu não tenho nada de especial. Meu cabelo não era o mais sedoso, meus olhos não eram os mais viciantes e meus lábios com toda certeza não eram os mais beijáveis, na verdade, eu praticamente era uma aberração do mundo feminino. Até por que, qual mulher teria Star Wars como coleção favorita para assistir nos finais de semana? Não poderia me chamar de uma nerd completa, mas eu preferia ficar em casa assistindo série e filmes do que sair para lugares barulhentos com Marcus.
A porta do elevador se abriu e eu finalmente me levantei, enxugando as lágrimas que desciam por meu rosto, eu ainda soluçava e minhas pernas tremiam à medida que eu ia em direção ao meu apartamento. Abri a porta do mesmo percebendo-a aberta e quando eu menos esperei escutei a única voz que pensei que não escutaria por um tempo.
- ! – Dois braços fortes me abraçaram pela cintura.
- Marcus? – Falei, segurando seu rosto entre minhas mãos fazendo-o olhar para mim. – O que você está fazendo aqui?
- Ele me traiu, , ele me traiu. – Ele me abraçou mais forte e começou a chorar.
- Vai ficar tudo bem, Marcus.
E então eu lembrei o quanto eu admirava Sansa em pensar apenas na dor dos outros em vez da sua.



Capítulo 7

Calcei os saltos que Marcus tinha me dado de presente de aniversário hoje pela manhã. Ele havia me acordado com o café na cama e uma caixa vermelha com o nome Louboutin escrito na tampa. Eu não gostava que Marcus gastasse dinheiro comigo, mas, em tempos como esse, onde ele estava curando-se de um péssimo término de namoro, eu não iria impedi-lo de fazer nada. Se ele quisesse que eu nadasse pelada no mar gelado no meio da madrugada, eu faria. Tiraria até uma foto para que ele emoldurasse e colocasse na cabeceira de sua cama.
E como se não bastassem os sapatos caros, Marcus tinha reservado o espaço VIP de uma boate para que eu aproveitasse ao máximo meu dia e esquecesse tudo que tinha acontecido. O que Marcus não sabia era que eu não podia deixar minha raiva passar porque se eu o fizesse provavelmente estaria do outro lado do corredor jogada na cama do seu vizinho usando nada mais que o lençol que cobria meu corpo nu. Eu até tinha pensado na possibilidade de conversar com ele, entender o motivo de tudo que ele havia feito, mas todas as vezes que eu me lembrava de Sansa sozinha naquele hospital eu deixava o ódio dominar meu corpo outra vez.
- Você está pronta? – Marcus perguntou entrando em meu quarto. Virei-me para ele, sorrindo sem os dentes. – Mais do que pronta pelo o que estou vendo, já em posição de ataque.
- Você sabe que não vou ficar muito tempo naquela boate, certo? – Andei em direção a ele. – Eu quero voltar para casa cedo.
- Para quê? – Ele saiu do meu quarto e o segui. – Para ficar chorando e assistindo àquela droga de filme que nem é um romance depressivo?
- Ei! – Falei, seguindo-o pelo corredor. – Se você for analisar em um todo o fato de que Anakin querer proteger Padme ao máximo, mesmo que, para isso, ele tenha que se tornar um Sith e ela ter morrido depois que descobriu no que ele se transformou para protegê-la, é romântico depressivo.
- Tanto faz. – Ele disse abrindo a porta, virando-se para mim em seguida. – Por favor, pelo amor de Deus, tente se divertir.
- Eu não estou muito para festa.
- Na verdade, você não está muito para a vida. – Abri a boca, incrédula – O quê? Estou mentido? Você fica trancada nessa casa e a única coisa que faz é assistir aqueles filmes nerds idiotas. – Ele soltou a porta e andou em minha direção – Já faz um mês, . Você precisa reagir, precisa sair dessa casa, ver pessoas, beijar pessoas.
- Marcus.
- Eu aceitaria até que você fosse ver aqueles seu pirralhos no hospital.
- Marcus!
- O que eu estou querendo dizer é: você precisa sair. Nem quando você terminou com aquele imbecil, que até agora eu não decorei o nome, você ficou assim. E pelo amor de Deus, , ele não é tão gostoso assim. – Marcus abriu a porta e olhou para mim. – Vamos, minha filha, que a noite é uma criança e eu não pretendo dormir tão cedo. – Passei por Marcus indo em direção ao elevador e apertando o botão. Encostei-me na parede ao lado vendo Marcus fechar a porta e olhar para mim.
Quando a porta do elevador se abriu Marcus me puxou pela mão para dentro do mesmo.
- Tenho uma surpresa para você. – Ele falou, tirando um pedaço de pano preto de dentro da sua jaqueta. – Mas para isso, você tem que está vendada.
- O quê? Nem morta! – Falei, vendo a porta do elevador se abrir fazendo com que eu saísse do mesmo e adentrasse o hall da portaria.
- Nossa, , como você é seca. – Ele falou, seguindo-me até a saída. – Eu estou gastando minha noite na qual eu poderia estar em uma boate gay, pegando tudo que é homem, para ir a uma boate cheia de hétero apenas para lhe fazer feliz e você me trata assim? Tudo bem, então, sua mal agradecida, sem coração... Meu Deus, como é que você cuidava daquelas crianças mesmo? – Parei, virando-me para ele.
- Tudo bem, mas vê lá o que você vai me aprontar.
- Prometo que essa noite vai ser do seu agrado. – Ele colocou a venda em mim e me guiou até o carro.
Marcus não falou nada o caminho inteiro, o que era muito estranho já que durante qualquer caminho, de qualquer festa, ele passava o tempo todo no telefone ligando para várias pessoas. Estranhei mais ainda quando paramos e não escutei nenhum barulho de música alta, e então pensei na possibilidade de Marcus ter me levado para um daqueles armazéns abandonados onde aconteciam raves.
- Marcus, para onde você está me levando? – Perguntei, segurando mais forte em seu braço.
- Calma, .
- Marcus, por que está tão silencioso? O que você fez, Marcus? Marcus! Quando eu tirar essa venda, eu juro que vou enfiar esses sapatos na sua goela.
- Pronto, chegamos. – Ele tirou a venda de meus olhos e tudo que eu pude ver foi um clarão branco e um grito de surpresa e logo em seguida alguns braços em volta de mim. E quando eu pude enxergar melhor, olhei em minha volta e vi que estava no hospital, na ala onde as crianças se recuperavam.
Eu não poderia estar mais feliz nesse momento, era como se o sorriso não conseguisse desaparecer de meus lábios. Oh, como eu sentia saudades das minhas crianças.
Levantei meu olhar vendo que perto da janela havia uma mesa toda enfeita, e balões por toda a ala. Olhei para baixo e vi que todas as crianças que eu cuidei estavam tentando me abraçar e estavam falando todas aos mesmo tempo, fazendo com que eu não entendesse nada do que eles estavam falando. Abaixei-me na sua altura para poder abraçar um de cada vez.
- Como eu senti falta de vocês, meus pimpolhos. – Falei, apertando cada em um abraço. – Vocês não acham que é muito tarde para vocês estarem fora da cama? – Perguntei, ajoelhando-me em sua frente.
- Ai, meu Deus, tia ! – Jeremy falou. – Nem parece que nós somos quase adolescentes quando você nos trata como criança.
- Mas vocês são minhas crianças.
- Tudo bem, só porque hoje é seu aniversário.
- Claro, senhor pré-adolescente.
- Você gostou do seu aniversário, ? – Jenny perguntou, segurando meu rosto.
- Claro que sim.
- Rose nos ajudou. – Jenny apontou para a enfermeira Rose, que estava ao lado de Marcus. – Vem! – Jenny me pegou pela mão fazendo com que eu ficasse em pé outra vez e me arrastou em direção a mesa. – Nós fizemos um bolo com nossa foto em cima, essa foi ideia da Sansa. – Ela parou em frente a mesa apontando para o bolo que tinha uma das fotos que nós tiramos meses depois que eu comecei a cuidar deles. Algumas das crianças da foto já tinham tido alta e provavelmente nunca mais iriam voltar aqui, outras estavam apenas alguns dias de irem embora também e quando eu voltasse nenhuma delas estaria aqui. – Também tem o quadro de fotos, a Sansa estava cheia de ideias nesse dia. – Ela apontou para um quadro de fotos que estava pendurado na parede. Eram tantas fotos que quase não cabiam no quadro, que era razoavelmente grande. Jenny apontava para as fotos e me lembrava de cada uma delas como se tivessem sido tiradas naquela mesma semana.
- Como você sabe disso tudo? Você nem chegou a conhecer algumas das crianças que estão nesse quadro. – Perguntei, olhando para ela.
- Bem, Sansa lembrou.
- E onde está Sansa agora?
- Estou aqui! – Escutei um grito no vindo do corredor, onde Rose e Marcus estavam parados. Virei-me esperando que ela aparecesse e quando ela o fez, um sorriso brotou em meu rosto. Sansa não estava usando roupas de hospital, o que indicava que essa ala já não era mais sua casa. Ela também parecia bem mais saudável, até suas bochechas estavam um pouco vermelhas.
Soltei a mão de Jenny e dei alguns passos em sua direção. Sansa, porém, veio correndo e pulou em meus braços e eu a abracei tão forte que eu jurei que ela poderia explodir a qualquer momento.
- Desculpe o atraso. – Ela disse se soltando de mim. – Nós perdemos noção do tempo.
- Tudo bem. – Falei, segurando em seus braços, reparado que ela estava usado a jaqueta que eu a dei no dia em que fui embora. – Eu sei que sua avó mora longe.
- Eu não moro com minha avó. – Sansa falou, e eu a olhei, confusa. – Eu moro com meu irmão agora. – Olhei para Marcus, que sorria, mas bastou olhar para o lado que seu sorriso desapareceu. Ele me olhou assustado e bastou apenas um segundo para que o sorriso em meu rosto também desaparecesse. Eu poderia jurar que meu coração iria sofrer algum tipo de colapso nervoso em apenas vê-lo de longe, fazia algum tempo que isso não acontecia e eu poderia jurar que eu estava quase curada desse tipo de sentimento. Oh, Deus, como eu estava enganada. – Não é incrível? Somos vizinhas! – Ela falou, fazendo com que eu desviasse o olhar para ela.
- Incrível! – Falei, levantando-me. – Que tal nós cantarmos os parabéns? Aposto que seus pais não estão gostando muito da ideia de vocês ficarem acordados até tão tarde. – Falei, andando em direção à mesa. – Marcus, você poderia vir acender a vela? – Falei, ficando atrás da mesa, de frente para os convidados. Marcus se pôs ao meu lado tirando um isqueiro do bolso e acendendo a vela. Os pais dos meninos se puseram ao redor da mesma e logo começamos os parabéns.
- Eu retiro o que eu disse. – Marcus sussurrou ao meu ouvido.
- O quê? – Perguntei vendo o parabéns chegar ao fim.
- Quando eu disse que ele não era tão gostoso, ele conseguiu ficar mais ainda. – Ele falou, fazendo com que eu sorrisse.
- Vamos cortar esse bolo então? – A enfermeira Rose falou pegando a faca e começando a cortar o bolo. – Para quem vai o primeiro pedaço? – Ela me entregou um prato com um pedaço enorme de bolo. As crianças todas gritaram.
- Deixa eu ver. – Falei, olhando em volta reparando no par de costas saindo da ala de pediatria. – Hum... Acho que vai pra enfermeira Rose, por ser incrivelmente paciente com todos nós. – Falei, entregando o prato para ela. A mesma me abraçou e sussurrou um obrigada em meu ouvido. As crianças a rodeavam enquanto pediam por bolo, Marcus me arrastou para o lado fazendo com que sentássemos em uma cama que estava vazia.
- Gostou da surpresa? – Marcus perguntou, fazendo com que eu olhasse pra ele.
- Nem em um milhão de anos eu esperaria por isso.
- Por quê? O que você acha que eu iria fazer?
- Bem, para começar, iria fazer com que eu enchesse a cara de bebida, depois me jogaria para cima de alguém e depois que eu ficasse com essa pessoa acabaríamos sentados numa mesa com strippers masculinos dançando em nossos colos.
- Nós ainda podemos fazer isso.
- Acho que não. – Falei, encostando a cabeça em seu ombro. – Quem sabe amanhã? Nós podemos ir naquele strip club do qual você vive falando, mas nunca vai por que é muito caro e nenhum dos seus amigos tem dinheiro para ir.
- Você está falando sério? – Ele se afastou fazendo com que minha cabeça saísse de seu ombro.
- Eu até pago para eles se for preciso. – Falei, virando-me para ele.
- Eu nem acredito nisso. – Ele me abraçou tão forte que eu pude jurar que iria explodir. – Vou lhe trazer mais pra ver esses pirralhos, quem sabe da próxima vez você me compre uma passagem para Amsterdã só de ida.
- Não abusa, Marcus. – Falei, separando-me dele. – Eu só acho que você merece, principalmente porque você me comprou esses sapatos supercaros e nós não estamos em uma boate para estreá-los.
- Nem foram tão caros, eles estavam na promoção. Falando em promoção, você sabe quem deveria sair pra comprar roupas novas? Meu vizinho adorável. Naquelas calças, eu posso jurar que consigo ver o...
- Vocês vão querer bolo? – Sansa chegou com dois pratos na mão, fazendo com que Marcus parasse de falar.
- Claro. – Peguei os pratos de sua mão. – Acho que o tio Marcus está precisando de um pouquinho de açúcar no sangue. – Entreguei um prato para ele.
- Do que vocês estavam falando? – Sansa perguntou, sentando-se na cama à nossa frente.
- De como sua querida tia adorou a surpresa, ela pensou que eu iria arrastá-la para um lugar que ela não queria ir.
- E onde seria isso? Em uma boate?
- Não. Para a casa do seu irmão. – Engasguei com o bolo.
- , você está bem? – Não sei bem de onde ele saiu, mas quando me dei conta estava olhando em seus olhos agora tão perto dos meus. Sua mão estava sobre a minha perna e seu polegar fazia carinho em minha coxa enquanto eu perdia o fôlego lentamente. Eu não estava preparada para vê-lo de tão perto ou muito menos sentir seu toque, mas com tudo isso acontecendo eu até esqueci que estava prestes a morrer engasgada.
- Ela está bem. – Marcus falou me puxando para ficar em pé fazendo com que eu ficasse de frente para ele. – Acho que precisamos ir pra casa, já que todo mundo está indo embora. – Ele me puxou para longe de . – Pelo que me lembre, essas crianças não podem ficar acordadas até tarde, não é ? – Assenti.
- Nós podemos dar uma carona para vocês. – Sansa falou, fazendo-me desviar o olhar para ela.
- Nós não queremos incomodar.
- Nem que você quisesse você seria um incômodo. – Ele disse, sorrindo.
- Vamos, . – Sansa pegou minhas mãos. – Por favor. – Olhei para ela e vi aquele olhos castanhos brilhando e por mais que eu quisesse distância de seu irmão, eu não podia dizer não.
- Mas é claro que sim.
- Eba! – Ela me abraçou. – Eu disse que ela não te odiava, . – Ela me puxou pela mão deixando um Marcus boquiaberto e um envergonhado. Sansa me arrastou pelo corredor com a força não esperada para uma criança do seu tamanho.
- Sansa, você não acha que deveríamos esperar por seu irmão e Marcus?
- Acho que não. – Ela atravessou a porta automática parando em frente ao estacionamento e virou-se para mim. – Por que você o odeia?
- Como? – Perguntei, esperando que ela deixasse o assunto para lá.
- Por que você odeia o meu irmão?
- Sansa...
- Eu sei que ele pisou na bola, mas eu já o perdoei, por que você não o perdoa então?
- Sansa, é complicado.
- Na verdade, não é, vocês adultos que complicam tudo. Você gosta dele, ele gosta de você o que impede vocês de ficarem juntos?
- Sansa... Seu irmão e eu não temos nada em comum.
- Oh, mas isso é a maior mentira de todos os tempos.
- O que é a maior mentira de todos os tempos? – perguntou, fazendo com que eu olhasse para trás.
- A idade dela. – Marcus falou. – Aposto que ela está dizendo para a Sansa que ainda tem dezoito anos. Dá para nós irmos embora? – Ele me puxou em direção ao carro. – Já que eu não vou pegar ninguém hoje, quero ao menos assistir Grey's Anatomy antes de dormir. – Ele se virou para . – Vamos, ! Abre logo esse carro ou você quer que sua amada... – dei um beliscão nele. – Ai, ! – Ele massageou o seu braço. – Quero dizer, que a gente morra de frio. – Ele abriu o carro e depois pegou Sansa pela mão. Ela cochichou algo no ouvido dele fazendo com que ele olhasse para mim, virei-me rapidamente abrindo a porta do carro e quase pulando para dentro do mesmo.
Olhei para Marcus que segurava o riso ao meu lado e antes que eu pudesse xingá-lo com o máximo de palavrões possíveis, Sansa e seu irmão entraram dentro do carro fazendo com que eu me calasse e começasse a rezar para que chegássemos logo em casa.



Capítulo 8

- Boa tarde para você, que saiu cedo sem nem ao menos dar bom dia. – Marcus falou logo quando entrei na cozinha. Eu não sabia por que, mas o sarcasmo de Marcus não estava na lista de coisas que eu queria aguentar hoje.
- Fui ao hospital conversar com a enfermeira Rose. – Falei, jogando-me no sofá. – Ela quer ajuda para treinar a nova voluntária, já que, em sua opinião, eu deveria me afastar do hospital muito mais do que três meses.
- E por que ela acha isso? – Ele perguntou, sentando-se ao meu lado. – Você trabalha lá faz o que? Três anos, né? E pelo o que você me disse, todo mundo gosta de você por lá.
- O problema é que ela acha que eu devo viver minha vida, sabe? Deixar de me enfiar lá dentro para fugir do mundo lá fora.
- 1000 pontos para a enfermeira Rose. – O olhei com um olhar de poucos amigos. – O quê? Você sabe que ela está certa. Você passou tanto tempo naquele hospital que os pacientes estavam até te confundindo com uma médica de verdade. – Sorri sem humor. – Por que você não tenta voltar àquela empresa em que você trabalhava? Seu chefe parecia gostar do seu trabalho publicitário, seus golpes de marketing pareciam agradar os clientes... Aposto que ele te aceitaria de volta.
- Você esqueceu que eu já tenho um trabalho?
- Mas isso não conta, né? Você faz um desenho ali, um anúncio aqui, uma frase e mais outro desenho ali e tudo isso para o seu pai. Isso não é um emprego de verdade.
- Mas é claro que é! A única diferença é que eu não trabalho dentro da empresa, sou mais como uma consultora.
- Grande bosta!
Marcus tinha razão. Trabalhar para o meu pai não era bem um trabalho, era mais como uma desculpa para ele colocar dinheiro na minha conta para que eu não morresse de fome, sendo que isso estava longe de acontecer já que a herança que minha mãe deixou para mim podia me sustentar por essa vida e por mais duas se fosse possível.
Papai trabalhava na Inglaterra, ele era presidente de uma empresa publicitária que ele e mamãe construíram juntos. Ela era a criatividade e ele a parte administrativa. Eles começaram fazendo um bico aqui, outro ali, até que um dia estava tendo pedido de todos os lugares do mundo. A empresa tinha crescido tanto que papai teve que se mudar para a Inglaterra quando uma filial foi aberta lá. E se adicionarmos o fato de que a única coisa que o segurava na América era minha mãe e ela já não estava entre nós, ele decidiu começar uma vida nova em seu país de origem.
Obviamente ele insistiu que eu fosse com ele, mas como eu estava na faculdade e morria de amores por James fiz tudo em meu poder para ficar e viver minha vida sem ele.
- Quando foi a última vez que você falou com seu pai? – Marcus perguntou, ligando a televisão.
- Ontem. Ele pediu conselhos sobre uma nova campanha e também alguns rascunhos para que ele mostrasse para seus novos estagiários para eles terem uma luz do que ele queria.
- Você sente muito a falta dele?
- Tanto que nem cabe no meu peito. – Fazia meses que eu não o via e normalmente não sinto sua falta no dia a dia, porém quando a saudade batia, ela vinha de uma vez e de forma tão avassaladora que eu quase não podia conter a vontade de pegar um avião e ir para Londres. – Quero visitá-lo. Ontem mesmo estava pesquisando passagens para Londres.
- Você pretende passar quanto tempo lá?
- Não sei, dois meses talvez.
- Eu apoiaria totalmente essa ideia. Seria bom você se desligar daqui um pouco, se afastar de certos vizinhos gostosos que vagam por esse corredor. – Assim que ele terminou a frase, a campainha tocou e Marcus me olho assustado. – Diz que você está esperando alguém.
- Eu não.
- Ah, não! – Marcus colocou as mãos no rosto. – Não acredito que ele fez isso.
- O que foi, Marcus? – Perguntei, me ajeitando no sofá.
- Sam me ligou ontem. – Ele disse tirando as mãos do rosto e olhando para mim. – Ele disse que me ama, que me quer de volta e iria fazer tudo que eu quisesse se fosse possível.
- E o que isso tem a ver com quem está na campainha?
- Bem, eu disse que ele podia vir aqui para conversarmos.
- Marcus! – Eu o repreendi. – Você não deveria ter feito isso.
- Por que não?
- Ele te traiu, Marcus.
- Eu sei disso, mas eu o amava muito, ainda amo. Por que eu não posso perdoá-lo?
- Porque ele é um traidor.
- Você está sendo muito radical, parece até que você nunca fez nada de errado.
- Isso não tem nada a ver com o assunto em questão.
- Mas é claro que tem, . Todo mundo erra, até você. Eu sei que o que ele fez parece um ato imperdoável, mas eu posso perdoá-lo e, se eu quiser, até dar a ele uma segunda chance.
- Mas e se ele fizer o mesmo, ou algo bem pior? – Abaixei a cabeça.
- Aí a culpa cairá sobre mim, porque eu escolhi ficar com ele outra vez. Pode ser que ele venha a me trair de novo, mas pelo menos eu lhe dei uma segunda chance e tentei; se ele não o fizer pode ser que nós fiquemos juntos para sempre ou apenas por 24 horas. Às vezes você tem que dar a cara a tapa pelas pessoas que você ama. O amor é sobre segundas chances, se você não der segundas chances para as pessoas, principalmente as pessoas a quem você ama, você nunca saberá se elas realmente estão arrependidas ou não. – Ele fez uma pausa. – Por que eu sinto que essa conversa não é sobre eu e Sam? – A campainha tocou de novo.
- Eu pensei que você não quisesse vê-lo. – Eu o vi andar em direção a porta.
- Eu pensei que você odiasse o , mas parece que você ainda quer que ele entre nas suas calças.
- Marcus! – Eu o repreendi me ajoelhando no sofá, de frente para ele. Ele riu e abriu a porta, mas seu sorriso logo desapareceu quando quem estava na porta estava muito longe de ser Sam. Na verdade, estava perto, precisamente do outro lado do corredor.
- , ! – Sansa entrou no apartamento fazendo com que me levantasse.
- Sansa, Sansa. – Falei, vendo-a me abraçar pela cintura.
- Você não sabe a novidade. – A segurei pelas mãos. – Vem! – Sansa me puxou com a força de dois cavalos e me levou até a porta. Ela me guiou para fora do meu apartamento e entrou com tudo no apartamento do irmão.
Na sala de estar estava , sem camisa, com o cabelo bagunçando e cara de sono, acompanhado de uma adorável senhora, que se não me engano, era a outra avó de Sansa, aquela que a visitava duas vezes ao ano porque morava do outro lado do oceano.
- Oh, minha querida . – Ela se levantou e andou em minha direção. – Você está mais linda do que nunca. – Ela me puxou para um abraço. – E também mais magra. – Ela me soltou. – Seu namorado não está lhe dando comida não? James, esse é o nome dele, certo?
- Eu e James não estamos mais juntos, senhora Fontinelli.
- Oh, graças a Deus! Eu não gostava muito dele.
- Não se preocupe. – Marcus falou, fazendo com que eu olhasse para trás. – A senhora não era a única. – Ele passou direto por mim e parou em frente à senhora Fontinelli, beijando-lhe a mão. – Eu sou Marcus, amigo gay e conselheiro amoroso da senhorita .
- Conselheiro amoroso? Bem, talvez o senhor possa me ajudar a convencer a senhorita a aceitar minha próxima proposta. – Ele assentiu. – Bem, como você já sabe, meu aniversário está chegando. – O aniversário de Fiona Fontinelli era um daqueles eventos que você via em revistas e desejava ardentemente ser daquele grupo de pessoas que parecia não precisar se importar se o som estava muito alto porque morava em uma casa tão grande que os únicos vizinhos ficam a metros de distância. – E como em agradecimento pelo que você fez por Sansa todo esse tempo que você ficou com ela no hospital, eu queria convidá-la para ir conosco para a Inglaterra. Eu sei que está em cima da hora, mas, querida, leve o tempo que for para arrumar sua mala. O avião ainda estará esperando de qualquer maneira. – Eu estava tão pasma que foi preciso Marcus me dar um beliscão para que eu finalmente tivesse uma reação.
- Eu... Eu não posso aceitar.
- Por que não?
- Quando eu faço o meu trabalho, eu não espero nada em troca. A senhora não precisa fazer isso, eu já tive o meu prêmio. Olhe para sua neta, ela está andando novamente e, para mim, não existe recompensar melhor do que ver minhas crianças bem e saudáveis.
- Mas isso não quer dizer que não você não possa comemorar.
- Eu vou comemorar do meu jeito.
- Ai, meu Deus! – Marcus falou, fazendo com que eu o olhasse, assustada. – Dá para você parar de fazer doce e aceitar logo?
- Marcus! – Falei, dando um beliscão nele. – Pelo amor de Deus, tenha modos.
- Ai, ! – Ele massageou seu braço. – Foi você que disse que queria ir para Londres.
- Está vendo, você já iria para Londres de qualquer maneira. – Ela me segurou pelos ombros fazendo com que eu olhasse para ela. – Eu não vejo por que você não aceitar, isso é o de menos comparado ao que você fez por Sansa quando ela ficava sozinha naquele hospital. – Ela pegou minhas mãos. – Eu quero lhe agradecer de alguma forma por ter ficado ao lado dela todo esse tempo, quando ela foi abandonada pelo próprio irmão e se viu sem esperança. – Olhei por cima do ombro de Fiona e vi abaixando a cabeça. – Você foi a irmã mais velha que Sansa não teve e você pode achar que não, mas você merecia era uma festa em sua homenagem.
- Tudo bem. – Falei sorrindo. – Eu vou arrumar minha mala.
- E não pense que você escapará dessa, senhor Marcus. - Ela apontou para ele. – Talvez eu precise de alguns conselhos seus para arrumar o marido número 3. – Ela me abraçou. – e Sansa vão levá-los ao aeroporto. – Ela me segurou pelos ombros. – O voo sai às quatro da tarde, não se atrasem. – Ela se despediu de Sansa, e Marcus e saiu do apartamento.
- Eu sabia que você ia aceitar! – Sansa me abraçou pela cintura. – Nós vamos nos divertir tanto, você vai conhecer toda a minha família. Vovô está louco pra lhe conhecer e nossas tias também. Você vai amar a todos e todos vão lhe amar.
- E como você sabe disso? – Perguntei abraçando-a de volta.
- Os membros da família /Fontinelli parecem gostar muito de você. – Ela olhou para o seu irmão, que estava sentado no sofá.
- Sansa, por que você não me ajuda a arrumar minha mala? – Marcus falou. – disse que você tem bom gosto, principalmente porque você pegou aquela jaqueta de couro que eu paquerava há anos.
- Claro. – Ela se soltou de mim e correu em direção a Marcus, que a puxou para fora do apartamento. Olhei para , que encarava a TV.
- Se você quer assistir TV, basta apertar o botão ligar no controle em cima da mesinha em sua frente.
- Inacreditável. – Ele abaixou a cabeça.
- O que foi?
- Você. – Ele apontou para mim. – Tentando fazer piada.
- Eu só estava tentando aliviar a tensão, mas já que você não quer. – Virei-me para a porta, mas antes que eu pudesse alcançá-la, ele me segurou pelo braço, fazendo com que eu me virasse para ele lentamente.
- Desculpe. – Ele disse, me segurando pelos ombros. – Eu não deveria falar com você dessa maneira, principalmente depois de tudo que você fez pela Sansa.
- E eu já disse que não preciso de tratamento especial só porque eu cuidei de Sansa.
- Não, você merece muito mais. – Ele sorriu. – Tudo que você fez por Sansa e por todas aquelas crianças, quem faz uma coisa dessas nos dias de hoje?
- Muita gente faz isso.
- Não, eles não fazem. Eu não fiz.
- Todo mundo tem seus motivos. Você teve seus motivos para fazer o que fez. – Falei colocando as mãos em seu rosto. – E, bem, eu gostaria de saber os seus motivos algum dia. – Fiquei na ponta dos pés dando-lhe um beijo na bochecha. – Só não hoje, eu tenho uma mala para arrumar. Estamos indo para Londres.


Capítulo 9

Londres estava do jeito que eu esperava: fria e chuvosa. Papai que não escute meus pensamentos, mas eu não era fã número um do frio dessa cidade. Normalmente quando eu vinha para cá e ficava na casa de meu pai, aumentava o aquecedor a quase uma temperatura de uma praia no Havaí. Los Angeles era fria no inverno, mas nunca perto o suficiente de Londres em qualquer dia do ano.
Marcus veio o voo inteiro falando das festas que nós teríamos que ir e os antigos amigos que ele queria reencontrar e provavelmente o caso que ele teria com algum britânico super gostoso e rico.
- Não se esqueça que você prometeu me levar em alguma boate gay cara. – Ele disse, descendo do carro.
- Mas eu não disse boates inglesas.
- Ah, não! Promessa é promessa, . Em Los Angeles, em Londres, não faz tanta diferença assim.
- Pensei que Londres fosse diferente. – Falei, virando-me para ele.
- E é! Porém, não tão diferente assim. Você acha que eu sou o primeiro americano que vem atrás de um inglês gostoso para me perder nos braços? Aposto que deve ter mais americano que britânico. Oh sina essa que eu carrego. – Ele fechou a porta e nós olhamos para a mansão a nossa frente. Eu já tinha visto muitas mansões nesses programas que falam da vida das celebridades, mas eu nunca imaginaria que um dia chegaria perto de uma ou muito menos ser convidada para passar um tempo dentro de uma. Eu sabia que os Fontinelli eram ricos, mas não ao ponto de ter uma mansão parecida com a de Darcy de Orgulho e Preconceito.
Sansa estava descendo do carro enquanto a ajudava. Nós não nós falamos o voo inteiro, mas isso não significa que não tenhamos trocados olhares algumas vezes.
- Mas a sua é ainda pior.
- Minha o quê?
- Sua sina. – Ele fez sinal com a cabeça. – Acho que não foi uma boa ideia você ter aceitado vir.
- Mas foi você que insistiu que eu viesse. “Você mesma disse que estava querendo ir à Londres.” – Imitei-o.
- Mas eu posso mudar de ideia.
- E eu também! E eu acho que foi uma ótima ideia a gente ter vindo.
- Acha? – Ele olhou para mim. – Você acha! , você quer nosso vizinho gostoso de volta?
- Bem, eu não sei. E não me pergunte como não sei, mas eu apenas não sei.
- Com isso eu posso ajudar. Temo duas opções, a primeira: você quer apenas ficar na boa com ele por causa da Sansa ou a segunda: você não apenas quer ficar de boa com ele por causa da Sansa, mas porque você está apaixonada por ele?
- Eu não sei. – Marcus rolou os olhos.
- Deveria existir uma lei que te proibisse de falar "eu não sei".
- Digo, eu poderia conhecê-lo melhor nessa viagem e saber o porquê dele ter feito o que fez. – Ele me olhou com os olhos arregalados.
- Uau! Isso é que eu chamo de um pulo.
- O que isso deveria significar?
- Você não queria ver o cara nem pintado de ouro e agora quer saber os motivos dele? Me desculpe, mas eu acho que isso é muito vindo de você, a senhora "eu não faço nada de errado". Isso foi inesperado, pode até descartar minhas opções vou ter que pensar em outras.
- Vou fingir que você não disse isso.
- Mas isso não quer dizer que eu estou menos certo.
- Às vezes eu te odeio!
- Mas você me ama que eu sei. – Ele me abraçou de lado. – E eu só digo essas coisas porque eu lhe amo e quero que você seja feliz.
- Eu sei disso.
- Mesmo que você tenha pegado o nosso vizinho gostoso antes de mim.
- Marcus! – Dei um empurrão nele – Controle sua língua. – Sansa se aproximou e seu irmão veio logo atrás.
- Você vai adorar todo mundo, . – Ela me pegou pela mão, me puxando em direção a casa. – Vovó disse que a família toda virá pra nossa festa de boas vindas.
- Festa de boas vindas? – Perguntei entrando no hall da casa. Do lado direito tinha uma sala com uma lareira e do lado esquerdo uma sala de estar com um número maior de sofá do que o normal, o que não era de se estranhar, já que a sala dava duas das do apartamento do Marcus. A frente tinha um corredor que parecia levar para a parte de trás da casa, do lado do mesmo havia uma escada que levava para os quartos, que aparentavam ser muitos.
- Vovó disse que é minha, mas também um pouquinho sua por tudo o que você fez por mim durante todo o tempo que eu passei no hospital.
- está precisando mesmo de uma festa. – Olhei para trás, vendo Marcus ao lado de , que riu do comentário do meu amigo. Por um momento eu esqueci o insulto que estava na ponta da minha língua e apenas me concentrei naquele sorriso que parecia não habitar aqueles lábios por um bom tempo.
- Vovó chamou todos os amigos dela. – Sansa fez com que minha atenção voltasse para ela novamente, enquanto ela me levava pela escada – Parece até que é aniversário de alguém, eu hein.
- Quem foi que disse que para comemorar precisa ser aniversário de alguém? – Falei, subindo as escadas correndo. – Vai ver sua avó quer mostrar a todos a sua história de superação. Quantas garotas conseguem voltar a andar depois de um acidente como o seu? Requer muita força de vontade.
- Acho que você tem uma parcela de culpa nisso.
- Tenho?
- Mas é claro que tem. Você é forte e você consegue passar essa força para os outros e não sou só eu que acho, todos lá no hospital diziam a mesma coisa, principalmente as crianças.
- Eu nunca pensei nisso dessa forma.
- Vai ver foi porque você não sabia que era capaz. Do mesmo jeito que você pensa que não é capaz de perdoar meu irmão, mas nós duas sabemos que isso não é verdade. – Sansa abriu a porta do quarto e me puxou para dentro. Às vezes, eu achava que Sansa tinha o poder de entrar no inconsciente das pessoas e arrancar aqueles pensamentos mais profundos e considerados loucos. Mas quando ela falava, com aqueles olhos esverdeados lhe encarando, apenas não parecia uma má ideia.
- Perdoar é um processo.
- E como está o seu processo em relação ao meu irmão? Está o favorecendo ou prejudicando?
- Favorecendo. – Olhei para frente e vi o amplo quarto. Havia uma cama de casal e em cada lado tinha uma grande janela que levava a uma varanda.
- Puta merda! – Marcus falou fazendo com que eu pulasse.
- Marcus! – Falei, pulando para trás. – Por que você faz isso?
- É força do hábito. Você viu o tamanho desses quartos? Minha cozinha e minha sala cabem aqui dentro fácil e, se duvidar, o seu quarto também. – Ele se virou para Sansa. – Quando é que começam as inscrições para entrar na sua família? Aposto que devem ter aberto uma vaga depois do que seu irmão fez.
- Marcus! – Falei, dando um beliscão nele. , que estava logo atrás, abaixou a cabeça. – Ele não...
- Está tudo bem. – Ele levantou a cabeça. – Meu quarto é aqui do lado caso você... Vocês precisem de alguma coisa. Com licença!
- Espera que eu vou com você. – Sansa correu em direção ao irmão, antes parando em minha frente. – Coloque um vestido bem bonito para hoje à noite. – Sansa pegou na mão do irmão e desapareceu pelo corredor.
- Marcus, eu ainda corto essa sua língua. – Falei me virando para ele, que estava jogado em cima da cama.
- Você sabe como eu sou, né?
- Sei. – Respondi, andando em direção a cama. – Mas isso não lhe da o direito de falar assim com ele.
- Eu não faço de propósito, eu juro. – Deitei ao seu lado. – É porque às vezes eu falo as coisas sem pensar.
- Eu sei.
- Sabe o que é mais engraçado de tudo isso? – Ele olhou para mim. – Há um mês você estava condenando o ser humano que tocasse no nome do nosso querido vizinho em questão e agora está defendendo-o.
- Eu sei. – Falei, me sentando na cama. – O que há de errado comigo? Será que eu estou ficando louca? Uma pessoa não pode mudar de opinião tão rápido, principalmente sobre alguém que você jurou odiar pelo resto da vida. Eu jurei não apenas para mim, mas para enfermeira Rose que no dia que eu encontrasse o irmão da Sansa ia enchê-lo de porrada até que ele começasse a chorar.
- Então por que você não vai?
- Porque eu não consigo! – Coloquei as mãos no rosto. – Não sei o porquê, mas eu simplesmente não consigo. Eu já pensei várias vezes em bater na porta dele e dar um soco no meio da cara dele, mas quando eu chego na porta do seu apartamento eu não consigo sair.
- Vai ver o problema não é ele, e sim você. – Olhei para ele.
- Mas não fui eu que deixei minha irmã no hospital sozinha.
- Mas por que você foi trabalhar de voluntária naquele hospital em primeiro lugar?
Eu... Eu não quero falar sobre isso.
- Mas deveria porque a única coisa que está entre você e sua felicidade é a sua culpa. – Ele deu um beijo no tipo da minha cabeça – Vá se arrumar, nós temos uma festa para ir. – Ele andou até a porta.

~•~


A festa estava rolando há mais ou menos duas horas e como Sansa disse, todos pareciam gostar de mim. Sansa me apresentou para todos os membros da sua família, alguns até me agradeceram pelo o que eu havia feito e eu simplesmente os lembrei que existiam muitas outras pessoas que elas deveriam agradecem além de mim, porém, parecia que nenhum deles estava me ouvindo. Sansa disse que eles eram desse jeito mesmo, diretos e algumas vezes meio falsos.
- Você não deveria dizer isso da sua família. – Falei em seu ouvido.
- E me diz quem não tem problema com sua família. – Sansa passou a festa me levando de familiar a familiar, meus pés já doíam mais do que qualquer vez que Marcus me obrigava a ir em uma daquelas festas. Falando em Marcus, ele estava há mais de meia hora conversando com os primos de Sansa, Garret e Fred e estava se dando assustadoramente bem com eles. O que era bom para ele, já que ele estava em processo de esquecer aquele idiota do Sam.
- Sansa. – Eu me agachei ao seu lado. – Eu vou até o bar, tudo bem para você?
- Aham. – Ela balançou a cabeça. – Mike estava me chamando para brincar de qualquer jeito.
- Tudo bem, então. – Falei dando um beijo em sua cabeça. Pedi licença das tias de Sansa (que eram muito chatas, devo ressaltar) e fui em direção ao bar. Minha cabeça doía de tanta baboseira que aquelas mulheres falavam.
- Uma dose de uísque, por favor. – Apoiei-me no balcão, massageando minhas têmporas.
- Você não acha que uísque é uma bebida muito forte para uma mulher, não? – Algum imbecil, provavelmente um dos primos meio machista que Sansa tinha, falou.
- Não tão forte quanto o soco que a mulher que vos fala pode dar. – Falei, me virando para trás. Porém não foi nenhum primo machista de Sansa que eu encontrei e sim um homem, nos seus 40 e pouco anos que eu conhecia antes mesmo de saber falar e que eu estava morrendo de saudades.
- Isso é jeito de falar com seu pai, menina? – Ele disse, abrindo os braços. Pulei com tudo em seu pescoço, quase o derrubando no chão. – Você já não é mais criança para ficar pulando no meu pescoço assim.
- Mas isso não significa que eu não sou mais a garotinha do papai. – Falei, soltando-o. Olhei para o lado, vendo virar seu copo de wiskhy de uma só vez. - O que o senhor está fazendo aqui?
- Eu sou amigo da família. Eu fiz algumas campanhas para empresa. – Ele franziu o cenho. – E você? O que está fazendo aqui?
- Eu sou amiga da família também. Sansa foi uma das garotinhas que eu cuidei quando era voluntária no hospital.
- Então você conhece o aqui? – Ele colocou a mão no ombro dele.
- Pode-se dizer que sim.
- Jimmy! – A senhora Francielli apareceu do nada, abraçando meu pai pelo pescoço. – Que bom que você veio! – Ela olhou pra mim. – Vejo que conheceu a nova queridinha da família.
- Não só conheço, como ela é minha filha.
- Sua filha? Oh, isso é incrível!
- Ela é a minha consultora particular. – Meu pai me abraçou de lado. – Tão talentosa quanto a mãe.
- Essa menina não deixa de me surpreender. Melhor você correr em, , se não vem outro e rouba esse tesouro de você. – senhora Francielli bateu nas costas do neto e saiu deixando para trás um engasgado e um "tesouro" mais do que surpresa.
- , você está bem? – Perguntei, batendo de leve na suas costas.
- Eu vou buscar outra bebida. Com licença. – Ele disse antes de se retirar.
- Eu perdi alguma coisa aqui, tesouro? – Meu pai perguntou, cruzando os braços.
- Ah, nada. é meu vizinho. – Ele arregalou os olhos. – O que foi, pai?
- Então você é a garota que ele estava falando agora há pouco... Você o pegou de jeito, hein?
- Eu não diria isso.
- Claro e nem precisa, seus olhos lhe entregam. – Ele se apoiou no bar. – não é uma má pessoa, na verdade, ele é um dos melhores rapazes que eu já conheci. – Ele levou o copo a boca. – Você deveria perdoá-lo, ele não fez por mal.
- Ele a abandonou sozinha naquele hospital. Eu entendo que ele tenha se assustado no começo, mas por que não voltou depois?
- E o que lhe fez ir trabalhar naquele hospital em primeiro lugar? – Abaixei a cabeça. – Todo mundo tem suas razões, seus medos e você deveria saber disso mais do que ninguém. Você, mais do que qualquer um, deveria entendê-lo.
- São duas histórias totalmente diferentes.
- Mas a culpa é a mesma. – Ele olhou para o seu relógio de pulso. – Eu tenho que ir. – Ele me abraçou forte. – Se cuida, minha filha. – Ele me segurou pelos ombros. – E não seja uma filha desnaturada, ligue para o seu pai.
- Eu ligarei. Amo você.
- Eu também. – E assim ele foi embora.
- Seu pai já foi?
- Pelo amor de Deus, Marcus! – Virei-me para ele, dando-lhe um soco no ombro.
- Que isso,? Para que essa violência?
- Para ver se você para de chegar de fininho e assustar os outros. – Sentei-me no banco do bar. – O que você quer?
- Tem um táxi esperando lá fora para nos levar para o maior clube gay dessa cidade. Falei com uns amigos meus e eles disseram que não tem como não superar aquele que não deve ser nomeado depois de receber uma lap-dance do stripper Raul.
- Agora?
- Agora! – Ele me puxou em direção à saída.


Capítulo 10

Fazia uma semana que estávamos em Londres e, segundo Marcus, nossas saídas escondidas estavam apenas começando. Senhora Francielli quase teve um treco quando nos pegou saindo no meio da noite de fininho, porém, segundo ela, não estávamos muito diferentes dela quando adolescente. Ela, então, sugeriu que o seu motorista nos levássemos para onde quiséssemos. Marcus aceitou na mesma hora. Sempre que ele decidia alguma coisa, parecia que nada que eu falasse o faria mudar de ideia. A senhora Francielli prometeu nos ajudar se nós prometêssemos sermos os turistas perfeitos para Sansa, que fazia questão de nos levar para todos os pontos turísticos de Londres.
Era por isso estávamos no jogo anual da família Francielli. Sansa estava pulando na lateral do campo com uma camisa maior do que ela com o nome do seu irmão nas costas. E essa era a única coisa que eu tinha prestando atenção porque, logo depois, todas as tequilas que eu bebi na noite anterior decidiram fazer efeito em forma de uma ressaca.
E como se ainda não pudesse piorar, as “líderes de torcidas” dos times faziam questão de entonar os gritos de guerra o mais alto que suas vozes permitissem.

- Eu já comentei que eu não suporto líderes de torcidas? – Falei, dando um gole em minha água. – E parece que nem com os anos elas melhoram. Pelo contrário, estão mais irritantes.
- Você estudou com algumas delas? – Marcus perguntou, apontando para as garotas ao lado do campo.
- Não, mas todas as líderes de torcidas são igualmente irritantes.
Ele riu.
- Eu sempre quis ser líder de torcida. – Marcus começou, e eu olhei com o olhar desaprovador. – O quê? Era apenas um passo dos gatos do time de futebol e todo mundo gostava de ficar perto deles.
- Eu não. – Eu me apoiei no batente atrás de mim. – Eu apenas não os achava interessantes, eles eram como todos os outros.
- Como todos os outros? Isso só pode ser brincadeira! Eles eram deuses gregos do Olimpo e você dizendo que eles eram como todos os outros?
- Você não estudou comigo no colégio, então não tem como saber se eles eram deuses ou não.
- Ah, mas tem sim. Não importa o colégio, os caras do time de futebol sempre são os mais gatos.
- Marcus, você é tão clichê.
- Ah, não, você é a clichê aqui, chefe das líderes de torcida.

Eu sorri. Por mais que eu quisesse, Marcus nunca iria esquecer do primeiro dia em que conversamos e eu lhe contei minha história de vida porque, segundo ele, era a vida que ele queria ter se tivesse nascido uma mulher. Não era que eu não gostasse de ser líder de torcida; na verdade, eu até gostava, pois era a única coisa perto de ginástica rítmica que tinha naquele colégio, mas a atenção desnecessária que eu recebia fazia com que eu rolasse os olhos até a parte de trás da minha cabeça.

- Você não tem vontade de voltar?
- A ser líder de torcida? – Perguntei, olhando para ele. – Claro que não.
- Não, a fazer ginástica rítmica.
- Não.
- Por que não?
- Porque não.
- Porque não, não é resposta.
- Tanto é, como é a única coisa que você vai conseguir.
- Mas nós dois sabemos que tem mais dessa história. – Ele olhou para mim.
Eu juro que estava a ponto de formular o maior discurso carregado de palavras malcriadas quando senti um impacto, que fez com que eu batesse as costas na arquibancada atrás de mim. Quando abri os olhos, pude ver uma cabeça em meu colo. O garoto, então, saiu do mesmo e começou a se desculpar.
- Oh, me desculpe. Você está bem? Eu te machuquei?
- Não, não. Eu estou bem.
- Tem certeza? Eu te acertei bem feio. – Ele sorriu de lado e, naquele momento, eu percebi o quão bonito era o cara que, provavelmente, tinha deixado um roxo até na minha alma.
- Tenho sim. – Balancei a cabeça.
- Se você sentir qualquer dor, me chame. – Ele pegou minha mão e a beijou. – Eu sou Fred e não precisa dizer seu nome porque todo Francielli sabe quem você é. Até depois, . – Ele voltou para o campo, porém o juiz deu o jogo como terminado, pois não queria que mais ninguém se machucasse.
- Graças a Deus! – Falei, levantando-me. – Não tem nada que me impeça de não me jogar naquela cama maravilhosa e dormir nem que seja por meia hora.
- ? – Sansa apareceu em minha frente. – Meus primos estão indo até o campo de videiras, você quer ir?
- Agora?
- Sim. – Ela juntou as mãos. – Por favor, por favor, vamos!
- Mas é claro, meu anjo. – Respondi, dando um beijo no topo da sua cabeça.
- Você vem também, Marcus? – Ela olhou para ele, que fez uma careta.
- Eu vou passar essa.
- Você que sabe, não sabe o que está perdendo. – Sansa me puxou para fora da arquibancada em direção ao campo.
- Sansa, eu fico impressionado com sua habilidade de arrastar as pessoas. – Olhamos para o lado e vimos Fred, o primo de Sansa, ao nosso lado. – Você tem muita força para alguém do seu tamanho.
- Ou deve ser o fato de que a está de ressaca.
Arregalei os olhos.
- Como? Eu não estou de ressaca, eu...
- Oh, me poupe! – Sansa soltou minha mão. – Óculos escuros e muita água? Você acha que eu não conheço? – Ela apontou com a cabeça para , que conversava animadamente com um de seus primos. – Não se preocupe, eu não vou contar para ninguém. – Ela deu de ombros e saiu saltitando em direção ao seu primo.
- Eu posso explicar. – Falei, me virando para Fred. – Antes que você pense que eu sou uma daquelas garotas que se aproveitam da boa vontade dos outros, vou logo esclarecendo que não sou. Eu juro que só saio toda noite por causa do Marcus para ver se ele tira a cabeça dele do idiota do ex-namorado que o traiu. – Ele arregalou os olhos. – Ok, um pouquinho por causa de mim também, se você soubesse...
- Uou! – Ele me interrompeu. – Ei, eu não estou te julgando não. – Ele colocou a mão em meu ombro. – Você tem todo o direto de querer sair um pouco. Aliás, a noite de Londres é uma das melhores de toda a Europa. Você não precisa me explicar motivo algum, eu já sei.
- Sabe? – Perguntei, olhando para ele.
- Não é muito difícil de perceber, sabe? – Ele olhou para o lado, fazendo com que eu olhasse também. Respirei fundo e olhei para frente, nós já estávamos a alguns passos dos campos de videira, que se estendia até o final da propriedade dos Franciellis. – Mas eu não vou falar sobre isso. Vamos falar sobre você.
- Sobre mim?
- É. O que você faz da sua vida?
- Bem, eu sou publicitária, mas, no momento, estou desempregada porque minha mãe deixou uma herança para mim que dá para o resto da minha vida. Meu pai me pede ajuda uma vez ou outra para ter uma desculpa para colocar dinheiro na minha conta. Pode rir, eu sou um clichê.
- Clichê seria se você realmente tivesse que trabalhar como todas as outras pessoas do mundo. – Eu o olhei incrédula, dando-lhe um empurrão. – Ouch! Eu não estou em posição de lhe julgar, eu trabalho na mesma empresa que todos da minha família. De pai para filho, sabe como é que é.
- Imagino.
O cheiro de uva ficava cada vez mais forte e logo todos já estavam parados, dando atenção para um homem que parecia ser o encarregado das plantações.
- Então como você foi trabalhar naquele hospital? – Olhei para frente. – Foi da bondade do seu coração ou ordem de um juiz? – Ele riu.
- Fred! – O homem falou, fazendo com que nossa atenção se voltasse para ele. – Deixe a moça em paz. É a primeira vez dela aqui e eu quero que ela saia daqui conhecendo um pouco dos Franciellis. Vá arrumar alguma coisa para fazer!
- Desculpe! – Fred saiu e se perdeu entre as videiras.

O senhor começou a explicar a história da família Francielli e de como eles fizeram sua fortuna antes de entrarem no meio da beleza feminina. Segundo ele, tudo aconteceu no século XIX, quando os ancestrais de Sansa decidiram começar as fabricações de vinho para as festas que os Franciellis costumavam dar. Até que, um dia, cheios de dívidas, os Franciellis decidiram comercializar seus vinhos e conseguiram quitar as dívidas e até fazer mais algumas.
A fabricação de vinho está na família desde então. até que a avó de Sansa, senhora Francielli – ou simplesmente Joanna –, decidiu que queria seguir um caminho diferente e foi fazer faculdade de moda. Anos depois, montou sua própria marca. Segundo Martin, Joanna fez tudo sozinha e não esperava crescer tanto no mundo da moda ou, muito menos, que sua família a apoiasse tanto a ponto de ajudá-la abrir lojas e quitar algumas dívidas.
A marca de Joanna agora tinha não só uma linha de roupa, mas também de acessórios, sapatos e até de cosméticos. O que me fazia lembrar da campanha na qual eu estava ajudando meu pai antes de vir a Londres.
- Então... – Martin se aproximou de mim com um copo de suco de uva em mãos. – Gostou de conhecer um pouco da história da família de Sansa?
- Sim! – Falei, pegando o copo de suas mãos e bebendo um pouco do conteúdo. – Obrigada! Sansa nunca falava muito da sua vida do outro lado do oceano, então conhecer um pouco do passado dela é muito bom.
- Então você não sabe sobre os pais dela?
Olhei para ele.
- Não! O que aconteceu com os pais dela?
- ! – Sansa apareceu do nada, fazendo com que eu pulasse. – Nós queremos voltar para casa, mas não conseguimos achar o Fred. Tem como você ajudar?
- Claro, meu amor.

Quando me virei para Martin, ele já não estava mais lá. Porém, ele me deixou com uma dúvida: o que tinha acontecido com os pais de Sansa? Digo, eu já tinha visto os seus avós, tanto os vindos de Londres quanto os de Los Angeles, mas nunca seus pais. Sansa também nunca tocou no nome deles e, devo admitir, eu nunca tive a curiosidade de perguntar. Eu apenas presumi que eles já não estavam mais entre nós, já que seus avós eram os únicos que a visitavam e ela morava com seu irmão antes do acidente.
- Você vai por aquele lado, e eu vou por esse. – Sansa disse, apontando para que eu fosse na direção oposta.
Andei por entre os vinhedos, olhando para os lados na esperança de encontrar Fred. Porém, a medida que eu andava, a única coisa que eu conseguia escutar era alguém que aparentava ofegar.
Eu deveria saber, eu já tinha flagrado Sam e Marcus muitas vezes, porém, acho que não o suficiente porque, quando olhei para o lado, vi Fred e um dos empregados fazendo o que eu tanto flagrei Marcus fazendo. Eu soltei um grito, que fez com que eles se ajeitassem.
Fred olhou para mim com um olhar suplicante e eu entendi exatamente o que estava acontecendo.

- , você está bem? – Sansa perguntou, começando a andar em minha direção.
- Eu só me desequilibrei. – Falei, olhando para ela. – Agora que eu lembrei: Fred disse que ia voltar para casa porque não estava se sentido bem. E nós deveríamos fazer o mesmo. – Empurrei Sansa pelos ombros para fora do campo.
- Você tem razão. Nós temos que nos arrumar para a fogueira mais tarde.
- Fogueira? – Perguntei, olhando para ela. – Nessa casa, a festa nunca acaba não?
- Não. – Ela riu. – É uma tradição de família e como estão todos os primos presentes, fica tudo mais fácil.
- E você está gostando de passar esse tempo aqui? – Perguntei, colocando o braço em seu ombro. – Rever sua família, seus primos e essas coisas?
- Mas é claro! Eu sempre sinto falta de Londres. Eu queria poder voltar a morar aqui.
- Voltar? Você já morou aqui?
- Já sim. Meu pai é inglês e minha mãe era americana.
- Era? Sua mãe... Ela morreu?
- Faz um tempo. Acho que uns três anos.
- Eu... Eu sinto muito, Sansa.
- Por quê?
- Porque, nesse tempo todo que eu fiquei com você lá no hospital, eu nem tive a curiosidade de perguntar sobre você. Eu estava muito ocupada suprimindo o ódio pelo seu irmão.
- Pois não deveria! é uma pessoa boa, que tomou algumas decisões não tão boas. Vai me dizer que você nunca fez alguma coisa de que se arrependesse?
Abaixei a cabeça. Será que todo mundo estava fazendo complô para falar do assunto que eu mais tentava evitar?
- Acho que todo mundo já fez.
- Então pronto! Conheça o mais um pouco, aí você vai ver o quão bom é o coração dele e pode até ser que vocês fiquem juntos.
- Sansa...
- Apenas tente. – Ela disse, entrando na casa. – Por mim. – Ela colocou o braço em volta da minha cintura. – Você não ficou com raiva dele por minha causa?
- Não foi por sua causa.
- Mas foi por causa do que ele fez comigo. – Ela falou enquanto subíamos a escada. – Você acha que eu não fiquei com raiva quando ele não voltou? Ele é meu irmão, pelo amor de Deus, óbvio que eu jurei nunca mais olhar na cara dele. Porém, eu percebi que precisava de tempo para entender tudo. Era ele que estava dirigindo o carro, você não acha que ele não se culpa todos os dias por causa disso? Eu sei que sim, porque eu vejo isso nos olhos dele. - Entramos no corredor dos quartos. - Eu sei que eu sou só uma criança, mas eu também não sou burra, né. Eu observo as coisas.
- Para uma criança, você está mais sensata que um adulto. – Respondi, sorrindo. – Eu não vou prometer nada, mas eu juro que vou tentar.
- Então o já está perdoado. – Ela disse quando paramos na porta do meu quarto.
- Como assim?
- Lembra daquela vez que você disse que não conseguia mais fazer aquelas cambalhotas iguais às líderes de torcidas do filme?
- Mas ali era diferente, eu já sabia fazer aquilo desde criança.
- E você sabe que já o perdoou. – Sansa saiu pelo corredor, saltitante.

Comecei a me perguntar seriamente se aquela criança tinha algum poder psíquico, porque essa era a única explicação para a sua habilidade de ler meus pensamentos, antes mesmo que eu tentasse entendê-los. Sansa era uma criança genial e não iria me assustar se ela fosse estudar em uma dessas faculdades como Harward, Yale ou Oxford.
Entrei no quarto e logo dei um pulo para trás porque, sentado em minha cama, estava Fred com os olhos vermelhos, abraçado em um travesseiro.

- Eu posso explicar! – Ele falou, levantando-se. – Você tem que saber... Você precisa saber que eu não escolhi ser assim.
- Fred, isso não é uma coisa que você escolhe. Você já nasce assim.
- Meu pai não pensa desse jeito. Ai, meu Deus, , você não pode contar para ele. Ele vai me matar! – Ele começou a andar de um lado para o outro.
- Fred. – Falei, segurando-o pelos ombros. – Eu não vou contar para ninguém, eu não tenho esse direito. É uma coisa sua, você é que tem que fazer a escolha de contar para quem você quiser. Eu não estou aqui para te julgar, eu estou aqui para te ajudar.
Ele me abraçou.
- Oh, ! Como eu queria que todo mundo pensasse que nem você. Mas, infelizmente, eles não pensam. Especialmente as pessoas da minha família e, principalmente, depois do que aconteceu com o Ian. – Ele me soltou e se sentou na cama.
- Quem é Ian? Seu primo? Namorado? Irmão? – Perguntei, cruzando os braços.
- Não, tio Ian, pai de Sansa. – Ele olhou para mim. – Você não sabe o que ele fez?
- Não. O que ele fez?
- Ele foi expulso daqui.
- Expulso? Por quê?
- Porque ele se apaixonou outra vez. Por um homem. – Eu, provavelmente, fiquei com a expressão surpresa por mais tempo do que eu deveria, pois Fred começou a estalar os dedos na minha cara para que eu acordasse do transe. – Eu vou me arrumar para a fogueira. – Fred passou por mim tão rápido que eu não pude nem ao menos pensar na hipótese de segurá-lo pelo braço e fazê-lo explicar essa história direito.
Tão rápido como Fred, Marcus entrou no meu quarto com o maior sorriso que eu o já vi usar desde Sam.
- Nossa! Parece até que você viu um fantasma. – Ele disse, fechando a porta. – O que você está fazendo aí parada?
- Quê?
- Vai se arrumar, mulher! – Marcus começou a me empurrar em direção ao banheiro.
- Marcus. – Falei, me virando para ele. – Eu preciso te dizer uma coisa.
- Diz, ué.
Olhei para ele e me lembrei da situação em que Fred estava há apenas alguns minutos. Acho melhor não contar para Marcus, não agora.
- Nada não. Escolhe aí uma roupa para mim.
- Sério?
- Sério.
- Finalmente! – Ele jogou as mãos para o alto. – É hoje que o nosso vizinho gostosão se apaixona por você de novo.
- Menos, Marcus. Bem menos.


Capítulo 11


- Eu não acredito que você me fez usar esse vestido. – falei, abaixando o vestido que Marcus tinha escolhido. Era um vestido preto, colado, que eu só usava quando saia para a balada, por quase ser uma segunda pele de tão apertado – Às vezes eu acho que você não tem juízo nessa sua cabeça.
- Aí, para de reclamar! Você já colocou essa jaqueta jeans horrorosa que te faz parece uma hippie e esse all star mais sujo que os orcs de Mordor.
- Pensei que você não gostasse de Senhor dos Anéis. – falei, cruzando os braços.
- Não gosto, mas você me obrigou a assistir e não tem coisa mais suja do que aqueles orcs. – ele respondeu, fazendo com que eu risse. Olhei para frente à procura de Fred, mas o que eu encontrei não me agradou nem um pouco. Foi como um soco no estômago, mas eu já deveria saber que ele não iria esperar para sempre. Ele era um mulherengo antes de me conhecer, por que ele iria esperar pela a única garota que não dava bola para ele? Aliás, ele já havia me levado para cama, o que mais ele iria querer de mim? Tudo bem que ele dizia que estava apaixonado por mim, porém parecia que pelo jeito que ele estava segurando a cintura daquela ruiva a paixão já tinha acabado. E há muito tempo. Eu sei que eu não deveria esperar nada dele, mas, lá no fundo eu esperava que eu fosse a garota que o fizesse mudar. A mocinha que fazia o bad boy querer ser uma boa pessoa sem nem ao menos tentar, do mesmo jeito que Jamie fez com Landon em ‘Um Amor Pra Recordar’. Porém, eu estava muito longe de ser Jamie, anos luz para ser mais correta. E como se não pudesse piorar, a ruiva virou e abriu o maior sorriso para mim. Oh não! Não, não, não!

- ? – ela disse, apertando os olhos para enxergar melhor – Oh meu Deus! É você! – ela andou em minha direção e me abraçou forte.
- Anastasia. – respondi, abraçando-a de volta – O que você faz aqui? – eu queria ser simpática, eu juro que sim, mas meu tom saiu mais ríspido do que eu desejava.
- É tão bom te ver! – ela continuou, se afastando – Nossa! Como você mudou, nem parece mais aquela garota que farreava de quinta a domingo.
- A ? – Marcus perguntou, apontando pra mim – Essa aqui? Farreava de quinta a domingo? Ela detesta festas. Deus sabe o quanto eu luto para que ela vá pra alguma boate comigo.
- O quê? Ela sempre dava as melhores festas.
- Verdade? – ele cruzou os braços e olhou para mim – Isso você não me contou.
- Ela era a garota mais popular do colégio, chefe das líderes de torcidas e melhor acrobata de todas, sem mencionar que ela era presidente do grêmio. Ela era a rainha do nosso colégio.
- Não é pra tanto, Anastasia.
- Oh, , não é como se fosse mentira.
- O que não é mentira? – eu juro que se essa situação piorasse eu poderia ter um ataque cardíaco.
- A , rainha do nosso colégio.
- Vocês estudaram juntas? – perguntou.
- Sim. sempre foi a primeira opção e eu tinha que me contentar em ser sempre a segunda.
- Parece que não mudou muita coisa. – Marcus disse e eu o belisquei.
- Desculpe meu amigo, ele já está um pouco alterado.
- Oh, eu entendo! Os Franciellis sempre dão as melhores festas.
- Eu percebi. – respondi, olhando para frente – Marcus, eu acho que o Fred está nós chamando. Vocês nos dão licença?
- Mas é claro, eu e o não íamos ficar de qualquer maneira. – ela segurou em seu braço e dessa vez eu não pude evitar de olhar – Nós vamos jantar.
- Oh, bom jantar.
- Olha o Fred está nos chamando mesmo e ele está desesperado. – Marcus falou, segurando em minha mão – Tchau, Anastasia. – ele me puxou e eu finalmente pude colocar as ideias no lugar e ver que Fred estava mesmo nos chamando.
- Não desapareça, hein ?! – ela gritou, fazendo com que eu olhasse para trás. Eu apenas sorri sem os dentes e deixei Marcus continuar me guiando.
- Você conhece a Anastasia? – Fred perguntou, antes mesmo que eu pudesse sentar na cadeira de sol a sua frente.
- Elas estudaram juntas. – Marcus começou, me puxando para sentar ao seu lado – E a era o perfeito exemplo de rainha do colégio. Você era má com os losers também?
- Não acho que tenha o perfil de ser má com ninguém, olha o que ela fez pela Sansa, olha o que ela fez por mim.
- O que ela fez por ti? – Marcus me olhou com os olhos arregalados.
- Você não disse pra ele? – Fred perguntou.
- Disse o quê? – Marcus perguntou, alternando o olhar para mim e para Fred.
- Eu achei que você tinha contado.
- Eu não tinha o direito de contar. – comecei – É algo seu e se você quiser contar, você conta.
- Da pra alguém me contar logo antes que eu morra de curiosidade?
- Eu sou gay. – Marcus olhou para Fred e deixou o seu queixo quase cair no chão – E a me pegou com um dos caras que trabalha aqui.
- Na cama?
- Em uma das videiras.
- Oh. Meu. Deus! – Marcus falou pausadamente – Sabia que não era o único que tive essa ideia.
- Tem alguma coisa nessas videiras que me excitam. – Fred riu – Acho que é o perigo de ser pego, eu adoro uma aventura.
- Eu também. – Marcus sorriu e era um sorriso sincero, um que eu não tinha visto fazia um tempo – Então, há quanto você sabe que é gay?
- Acho que eu sempre soube, mas nunca tive a coragem de assumir por conta do meu pai. Sabe como é, machista.
- Oh se sei! Meu pai era do mesmo jeito, mas com o tempo ele aprendeu a respeitar. Vai ver o seu pai aprenda a fazer o mesmo.
- Acho que na nossa família isso nunca ia acontecer, basta você ver o que eles fizeram com o tio Ian.
- Tio Ian?
- É, o pai de Sansa. – Marcus olhou para mim com os olhos arregalados e Fred continuou – Ele se assumiu gay um pouco antes da morte da mãe de Sansa, a família inteira foi à loucura. Minha avó disse que ele não fazia mais parte dessa família e o proibiu de ver os filhos.
- Não acredito! E o que Sansa e fizeram?
- Bem, tio Ian disse que eles ficariam nos cuidados da nossa avó e ela os mandou para Califórnia para que eles ficassem com a mãe. Porém, depois de quase dois anos a mãe deles morreu de câncer, então vovó comprou um apartamento para eles ficarem e colocou na empresa para que ele trabalhasse e não só ficasse vagabundando. Mas isso não o impediu de beber todas sempre que tinha a oportunidade.
- Mas e Sansa? Ela não morava com ele? – dessa vez foi minha vez de perguntar.
- Ele sempre a deixava na casa dos avós nos finais de semana.
- Então o é desse jeito bem antes do acidente de Sansa?
- sempre gostou de uma boa festa, mas sempre foi responsável, especialmente quando Sansa estava por perto. Mas naquele Natal ele simplesmente não era ele mesmo e ele aparentava extremamente chateado.
- Mas você perguntou o que ele tinha?
- Oh, . sempre evita esse assunto e eu também prefiro não tocar no mesmo. Ele vai falar quando ele estiver pronto, eu não vou pressioná-lo.
- Uou! Eu pensei que eu tinha problemas, mas o seu namorado ganhou de lavada.
- Parece que ele está indo muito bem, obrigada, pelo jeito que ele segurava na cintura da Anastasia. – resmunguei olhando para baixo.
- Você está com ciúmes! – Marcus gritou.
- Não, foi só um comentário.
- Um bem maldoso.
- Marcus!
- Ah, . Quem você está querendo enganar? Todo mundo sabe que você tem uma coisa pelo o e só não foi falar com ele ainda pelo o que ele fez com Sansa, mas eu sei que você já o perdoou, principalmente depois que Sansa conversou com você. Faltava bem pouquinho pra você se jogar nos braços do nosso vizinho gostoso e viver um romance digno de filme, porque, vamos combinar, vocês dois se gostam e merecem um pouco de felicidade. Mas aí ele apareceu agarrado com aquela ruiva de farmácia da sua amiga "oi, eu sou segunda opção" e você agora ficou toda insegura e eu não sei porque, já que está claro que aquela sua amiga só é um Step. Nossa, fiquei sem ar agora! – Marcus pegou o copo das mãos do Fred e tomou todo o conteúdo. Olhei para Fred esperando que ele dissesse que Marcus estava errado ou equivocado, mas ele apenas balançou a cabeça e disse:
- Não olha pra mim, ele tem razão.
- Mas...
- Ah, . Como é que você vai saber se não perguntar? Aposto que pra você vai se abrir. Ele gosta de você e quer ficar com você. E a Anastasia, bem, eles são amigos e ela já tenta faz um tempo, mas eu tenho certeza que ele está pensando em você enquanto está com ela.
- E o que é que vocês querem que eu faça? Espere no quarto dele até que ele volte e pergunte tudo que eu quero saber?
- Eu acho uma ótima ideia. – Marcus disse.
- Eu não vou fazer isso.
- Por que não? – Fred perguntou – Você só tem a ganhar com isso. É só uma conversa.
- Aí é que está! – Marcus começou – A tem medo que ela não consiga resistir e faça tudo ao contrário.
- Tudo ao contrário?
- É. Sexo de reconciliação, depois a DR.
- Marcus! – dei um soco em seu braço – Você fala como se eu fosse uma descontrolada.
- E quem é que consegue controlar o amor?
- Vocês realmente acham que isso é uma boa ideia?
- Melhor ter logo a certeza do que viver na dúvida.
- Como eu já disse, você só tem a ganhar com isso. – olhei para Fred e depois para Marcus, então eu sabia que estava prestes a fazer a maior merda da minha vida.
- Quer saber? – levantei-me – Eu vou!
- O quê? – Marcus cuspiu a bebida – Eu duvido.
- Pois eu vou.
- Você não precisa fazer isso, se você não quiser. – Fred disse.
- Mas aí é que está, eu quero. Eu só não queria admitir, porque aí eu teria que admitir que eu sinto alguma coisa por e, pior ainda, que eu já o perdoei, sim, só não consegue admitir isso por causa da minha própria culpa.
- Sua culpa? Culpa de quê? Cuidar de criancinhas indefesas e odiar seus irmãozinhos gostosos? – Marcus riu e eu dei um tapa em sua cabeça.
- Essa história é pra outra hora. Agora eu tenho que resolver essa de agora. Tchau! – juntei todas as forças que eu sabia que não tinha e marchei de volta em direção a mansão dos Franciellis. Não fiz nem questão de olhar para trás, porque caso o fizesse eu poderia desistir no mesmo instante e pegar o primeiro vôo de volta para Califórnia.
Dessa vez eu iria até o fim, eu irei enfrentar meus maiores medos, que me impediam de ser feliz e viver o a história de amor que eu mereço viver. Eu não deixaria minha culpa ou o meu passado ficarem no meio, eu enfrentaria meus demônios e eu iria vencer. Subi a escada de dois em dois, quase chegando sem ar no corredor que dava acesso aos quartos, andei em passos largos até o quarto de e bati duas vezes. Abri a porta do quarto, encontrando-o no escuro. Entrei no mesmo, acendendo a luz e fechando a porta atrás de mim. Seu quarto era parecido com o meu, amplo, com paredes brancas e móveis da mesma cor. Na parede uma foto de Sansa, ele e mais um casal, que presumi que fosse seus pais. lembrava seu pai enquanto Sansa lembrava sua mãe, com o mesmo cabelo cor de fogo e igualmente bonita. Sentei-me na cama para que eu pudesse esperá-lo. Foi aí que o quarto começou a ficar pequeno e as inseguranças tomaram conta da minha mente. A quem eu estava querendo enganar? Isso era uma má ideia! Uma péssima, para ser mais precisa. E se ele chegasse com Anastasia e eles não percebessem que eu estava lá e... Bem, você sabe. Eu precisaria de uma viagem pra China para superar.

- Isso foi uma péssima ideia! – levantei-me, andado até a porta. Mas quando estiquei minha mão para alcançar a maçaneta, a porta estava se abrindo.
- ? – ele perguntou surpreso, entrando em seu quarto – O que você está fazendo aqui?
- Hum...Eu estava procurando Fred.
- Ele está lá embaixo com Marcus.
- Oh, está? Eu vou falar com ele então. Tchau. – tentei andar até a porta, porém ele segurou em meu braço, fazendo com que eu virasse para ele.
- . – ele sussurrou – O que você realmente está fazendo aqui? – levantei meu olhar, fitando seus lábios entreabertos.
- Eu estou procurando Sansa.
- O quarto dela é ao lado do seu. – ele cruzou os braços.
- Tudo bem. – falei, dando-me por vencida – Eu vim falar com você. Pronto, falei. Ufa.
- Sobre? – ele cntinou de braços cruzados, como que esperando. Bem, a verdade era que Marcus estava certo. Absolutamente e estupidamente certo. Eu estava sim chateada com e queria sim quebrar a cara dele no meio, porém eu também tinha uma vontade de que ele me contasse tudo, do começo ao fim, para que eu então entendesse o porquê dele ter feito tudo o que ele fez. Eu sabia que a culpa podia consumir uma pessoa, basta dar uma boa olhada para trás para todas as decisões que eu tomei nos últimos 6 anos. Então por que eu não dava uma chance a ele? Eu não estava em posição de julgá-lo. Na verdade, mas do que ninguém eu deveria entendê-lo, porém ainda existia aquele pequeno fantasma do passado, bloqueando qualquer chance de eu ser feliz.
- Bem...
- É sobre Sansa? – ele virou de costas para mim e andou até a cama – Sobre as coisas que ela vem te falando desde... Bem, desde que você descobriu que eu era o irmão dela? – ele se virou para mim e sentou na cama atrás dele – Eu já disse para ela que parasse, porém, você a conhece. Sansa colocou na cabeça que nós deveríamos ficar juntos e ela acha é a única culpada por isso não ter acontecido ainda.
- Isso não é verdade! – ele olhou para mim – Ok, é verdade que eu disse que ia quebrar a tua cara quando descobrisse quem você era, mas a culpa não é dela. É muito mais do que isso.
- Bem, talvez você devesse dizer isso a ela. – ele se levantou e andou até a porta – Ela está lá embaixo. – ele abriu a porta.
- Oh, claro! – falei, saindo do seu quarto e parando no corredor – Você deve estar ocupado. – continuei, me virando para ele.
- Ocupado?
- É. Boa noite, . – respondi, antes de andar pelo corredor em direção à escada.
- Espere um segundo! – ele falou, fazendo com que eu virasse para ele – Você acha que eu e Anastasia...
- Isso realmente não é da minha conta, você faz o que quiser. É a sua vida.
- Você está com ciúmes! – e lá estava aquele risinho de lado que eu odiava, mas ao mesmo tempo adorava.
- Eu não... mas é claro que não. Eu vou embora. – falei, me virado para a escada novamente.
- Se serve de consolo, nós nem saímos da garagem. – eu me virei para ele – Eu estava muito ocupado desejando que fosse você.

Eu juro por Deus que eu não sei como eu tive a coragem de me mover ou muito menos de correr até ele e me jogar em seus braços, porém quando eu menos esperei ele estava me segurando pela cintura, enquanto eu entrelaçava as pernas em seu tronco. Não demorou muito para aquele sorriso de lado aparecesse, aquele mesmo que aparecia todas as noites em minha mente e fazia com que um súbito calor tomasse conta do meu corpo. Oh, mas dessa vez ele não iria sair ganhando.
Segurei seu rosto com minhas mãos, me aproximei de sua boca e puxei seu lábio inferior com os dentes. Ele andou comigo e me imprensou na parede ao lado da sua porta. Não demorou muito para que seus lábios fossem pressionados contra os meus e logo depois sua língua entrar em contato com a minha, fazendo com que os pelos da minha nuca levantassem. Desci uma de minhas mãos por dentro da sua camisa, arranhando suas costas de baixo para cima, fazendo com que ele mordesse meu lábio inferior um pouco mais forte do que ele desejava, mas isso não queria dizer que eu não gostei. Na verdade, tal ato fez com que passasse a mão por seu cangote e puxasse os cabelos que ali estavam, fazendo com que ele imprensasse mais meu corpo contra a parede.
Eu sei que estávamos no meio de um corredor de uma casa cheia de gente, em frente ao quarto da irmã dele. Porém, se ele também quisesse, nós poderíamos fazer amor nessa parede, sem nem ao menos nos importar se alguém visse. E era por isso que ele era tão perigoso, não só pelo fato de ser extremamente gostoso ou pelo carisma em excesso. Oh, não! Era essa maldita ideia que aparecia na minha cabeça toda vez que estávamos juntos, de que nada mais existia no mundo a não ser nós dois, que o mundo podia está explodindo lá fora, mas nada poderia nos atingir, porque, no final das contas, não existia nada mais certo do que nós dois. Eu era uma controladora nata e não saber controlar meus impulsos quando estava com alguém, quase me fazia entrar em colapso. Era algo que eu só sentia quando estava com ele e eu sabia que era algo perigoso de sentir. Ele me segurou no colo e abriu a porta, me levando para dentro do quarto. Não demorou muito para que minhas costas batessem na cama e logo sua boca começasse a dar chupões em meu pescoço. Desci minhas mãos para a barra de sua blusa e a puxei, jogando-a em algum lugar do quarto. Senti seus lábios passarem por meu colo, enquanto suas mãos apertavam meus seios. Sua boca passou novamente por meu pescoço até chegar em minha boca novamente. Me agarrei a seu pescoço e entrelacei minhas pernas em sua cintura, enquanto suas mãos faziam o caminho até minha cintura.

- , ! – ele falou, interrompendo. Afastei meu rosto do seu, para que eu pudesse olhar em seus olhos.
- O quê? – perguntei, ainda um pouco ofegante.
- A gente não pode fazer isso.
- O quê? Por quê?
- Porque não está certo.
- Eu pensei que você tinha dispensado a Anastasia. – olhei para ele.
- E eu dispensei. – ele falou, ficando de joelho na cama – Mas a gente, não pode acontecer, pelo menos não desse jeito, não na situação que a gente se encontra. – ele olhou para mim – Você entende?
- Entendo. – falei, me sentando na cama.
- Eu quero – ele se aproximou – que a gente se resolva. Eu quero te contar tudo, pra que você entenda o porquê de tudo que eu fiz.
- A gente não pode fazer psicologia reversa e se reconciliar pra depois ter a DR? – ele riu, provavelmente não acreditando que, estava negando uma discussão, quando falar era a coisa que eu mais gostava de fazer – Foi uma brincadeira.
- Não, não foi. Acredite, eu mais do que ninguém quero te escutar gemendo meu nome enquanto eu te levo a loucura, porém eu quero fazer do jeito certo dessa vez. – ele colocou a mão em meu rosto – Eu quero te conhecer melhor, . Eu estou falando sério. Eu quero conhecer cada pedaço seu e, acima de tudo, eu quero que você me conheça, porque aí você vai conseguir me enxergar mais do que um cafajeste que mora ao lado.
- Que promove orgias e não deixa os vizinhos dormir, não vamos esquecer disso. – eu ri, enquanto ele fazia uma careta – O que você propõe?
- Que saiamos amanhã. Tem um café muito bom no centro da cidade, lá seria um bom lugar para conversar.
- Eu topo, mas eu tenho que falar pro Marcus.
- Não se preocupe, aposto que ele e Fred já tem planos. – olhei para ele desconfiada – O quê? Você acha que foi a única que pegou Fred no flagra?
- Você sabe?
- Sei, mas ele não sabe que eu sei. – ele abaixou a cabeça – Posso te fazer uma proposta indecente?
- , eu não vou te algemar na cama. – ele riu e beliscou meu nariz.
- Muito engraçada a senhorita. Haha. – ele riu e depois olhou para mim – Fica comigo.
- Tipo, dormir com você?
- É. Eu sinto sua falta. – meu coração dentro do peito derreteu mais rápido que as geleiras da Antártida e eu me esqueci completamente o porquê que estávamos brigados – Mas é só se você quiser, porque se não...
- Eu quero. – falei, começando a desamarrar meus tênis. Ele se levantou, desligado a luz, enquanto eu jogava meus tênis e casacos em algum lugar do quarto. pulou de volta pra cama e me puxou para que eu deitasse em seu peito. E, por um momento, eu tinha certeza que não tinha lugar no mundo que eu quisesse estar agora, porque ali era onde eu pertencia. Bem ali, com ele, era onde eu me sentia segura, era onde eu me sentia em casa.
- ? – chamei baixinho.
- O quê?
- Eu também senti sua falta. Muito.


Capítulo 12

Fazia um tempo que eu não dormia tão bem e acordava com um sorriso no rosto. Podia ser o fato de que pela primeira vez eu consegui dormir sem ter pesadelos ou pelo braço ao redor da minha cintura. Algo me dizia que a segunda opção era a mais provável.
Abracei-me mais a ele, para ter certeza de que tudo que tinha acontecido não tinha sido apenas um sonho. Estava tudo muito bom pra ser verdade, parecia que a qualquer minuto alguém poderia tirar tudo isso de mim e mostrar que eu não merecia ser feliz desse jeito. Mas bastou apenas um beijo na testa para que eu percebesse que não tinha como alguém tirar isso de mim e que, finalmente, ser feliz fazia parte da minha realidade.

- Bom dia. – ele disse com a voz meio rouca. Apertei meu braço ao redor da sua cintura.
- Bom dia! – respondi, não conseguindo conter o sorriso em meu rosto.
- Pensei que ia te ver dormindo mais um pouco. – ele passou a mão por meu braço – Só pra ter certeza que eu não sonhei com isso.
- Você não é o único. – sentei-me na cama – Que horas são? Eu acho que Marcus pode estar me procurando a essa hora.
- Ou ele pode estar muito ocupado. – respondeu, se sentando pra ficar de frente pra mim.
- Você acha?
- Eu sei que Fred não perde tempo, Marcus muito menos. – ele se aproximou para dar um selinho, mas eu coloquei a mão em sua boca – Que foi?
- Acabei de acordar. Bafo. – respondi, levantando da cama. Peguei meus tênis no chão, mas antes que eu pudesse dar mais um passo, ele me puxou fazendo com que eu caísse na cama.
- Eu não ligo. – ele se deitou por cima de mim e me deu um selinho.
- , , ! – Sansa entrou no quarto como um furacão gritando, fazendo com que eu empurrasse e ele caísse deitado na cama – A desa... – a voz de Sansa desapareceu no momento que ela me viu sentada na cama – ...pareceu.
- Eu sabia! – Marcus apareceu atrás de Sansa – Você está me devendo duas garrafas de champanhe. – a cara de Marcus com aquele sorriso vitorioso nos lábios fez com que minhas bochechas queimassem.
- Eu pensei que eles estariam no quarto das videiras, é bem mais romântico.
- E esses dois são românticos? Querida, o que esses dois têm é pressa.
- Marcus! – o repreendeu, mas como Marcus era Marcus, ele apenas deu de ombros.
- Parou a palhaçada, né. – falei me levantando – Vocês não têm que fazer qualquer outra coisa não? Tomar café ou um banho ou talvez criar um pouco de vergonha na cara? – falei, olhando para Marcus.
- Não está mais aqui quem falou. – Marcus levantou as mãos – Vamos Sansa, deixa esses dois chatos aí. – Marcus segurou Sansa pelos ombros e a conduziu pra fora do quarto.
- Não se preocupe, Sansa já me encontrou em situações mais embaraçosas.
- ! – falei, dando um tapa em seu braço. Ele segurou minha cintura, me puxando pra perto.
- Vamos sair, tomar um café.
- E Sansa?
- Aposto que Marcus e Fred podem cuidar dela.
- Eu falo com Marcus então.
- Eu vou te esperar lá embaixo. – ele me deu um selinho antes que eu saísse pela porta. Encostei-me na mesma, não deixando um sorriso escapar de meus lábios.
- Parece que a noite foi boa. – deixei meus tênis cair no chão olhando para o lado.
- Marcus! – falei, pegado meus tênis – Quer me matar do coração?
- Se o nosso vizinho não matou, não sou eu quem vai matar. – ele cruzou os braços e me seguiu até o quarto – E aí, como foi a noite de vocês? Vocês fizeram as pazes?
- Estamos trabalhando nisso. – respondi, jogando uma roupa em cima da cama – Preciso que você fique com Sansa hoje, e eu vamos sair.
- Considere feito. Posso levar Fred comigo?
- Mas é claro. Eu ia sugerir isso. – andei em direção ao banheiro, porém voltei no mesmo instante – Posso confessar uma coisa?
- Tenho certeza que já sei o que é, mas fala.
- Eu nunca me senti desse jeito. – falei, me sentando ao seu lado – Eu não consigo parar de sorrir, minhas bochechas já estão doloridas. E meu coração, eu acho que tem chances de explodir a qualquer momento.
- Você está apaixonada! – ele beijou o topo da minha cabeça – Você merece, .
- Mereço mesmo? – perguntei, olhando para ele – De verdade? Porque às vezes eu acho que eu estou predestinada a viver na miséria.
- Esse papo outra vez?
- Você sabe, não é fácil.
- Mas deveria. Eu já te disse para parar com essa mania de se martirizar e de se culpar.
- Gostaria que fosse fácil assim. É bem mais fácil falar do que fazer. – me levantei – Acho que vou contar o que eu fiz pra ele.
- , pelo amor de Deus, será que você não se permite ser feliz por um momento?
- E você quer que eu faça o quê? Esconda dele pra sempre?
- Não. – ele se levantou – Oh, minha rainha, deixa as coisas fluírem naturalmente, aproveita esse momento e depois você conta pra ele.
- Você acha?
- Sim! Poxa, se permite ser feliz um pouco antes de voltar a se culpar por algo que não é sua culpa. – ele me abraçou.
- Você sabe que foi. – me soltei dele – Agora deixa eu ir lá, porque tenho um encontro com o garanhão do 701.

Não demorei muito no banho. Marcus já não estava no quarto quando eu entrei de volta, então coloquei minha roupa e um sobretudo por cima. Londres estava com clima que indicava que hoje seria um daqueles dias que iria chover mais do que o normal. Desci as escadas, vendo conversando com Fred, Marcus e Sansa.
- Vamos? – perguntei, me sentando ao seu lado.
- Eu não acredito que vocês vão nos abandonar. Me abandonar, no caso. – Sansa começou.
- Ah, Sansa – olhei para e depois pra ela – se você quiser pode vir com a gente.
- Com a cara feia que meu irmão está fazendo, tenho quase certeza que isso é um programa a dois.
- Eu não estou fazendo cara nenhuma.
- Até parece. – ela revirou os olhos – Vocês podem ir sem mim, eu deixo. Aliás, vocês são meu OTP.
- OTP? – perguntei, confusa.
- É One True Pairing. Quando você torce por um casal, pra que eles fiquem juntos, porque você tem certeza que eles nasceram um para o outro.
- Obrigada pelo papo, pequena nerd. – começou, se levantando – Mas nós temos que ir, o trânsito de Londres é o pior. – me levantei também.
- Não façam nada do que eu não faria. – Marcus falou.
- Mas não tem nada que você não faria, Marcus.
- Por isso mesmo.
- Vamos! – entrelaçou nossas mãos – Até mais tarde. – me arrastou para fora da mansão, mas ainda pude escutar algumas piadinhas como "tchau, casal vinte", "não se percam", "voltem inteiros".

No caminho a conversa fluiu naturalmente, começou sobre a música que estava tocando e terminou sobre porque não tinha feito uma faculdade, já que seu sonho sempre foi abrir um restaurante. Segundo ele, sua avó lhe deu duas opções: ou ficar na sarjeta sem nenhum dinheiro para ir pra faculdade ou trabalhar na empresa com um emprego milionário, ter um apartamento na cobertura e carro do ano. E como ele era jovem e ingênuo se deixou influenciar pela avó e pela certeza de ter uma vida que já era certa. Não é como se eu pudesse julgá-lo, se qualquer pessoa estivesse em sua situação, provavelmente faria o mesmo. Quem não gostaria de ter uma vida já resolvida, sem preocupação nenhuma em procurar emprego e com um salário de fazer inveja?

- Eu acho que você deveria tentar ao menos fazer um curso. – falei, descendo do carro. – Sei lá, se você gosta e acha que tem futuro, deveria ir atrás.
- Você acha que eu já não pensei nisso?
- Então porque você não fez ainda?
- Por um motivo: senhora Francielli.
- Você deveria bater de frente com ela, , ela não tem que mandar na sua vida. – ele entrelaçou nossas mãos e olhou para mim.
- Você fala como se fosse fácil, você não conhece minha avó.
- Ela não me parece tão mal.
- É porque com você, a protetora de Sansa, ela nunca disse um ai. – ele abriu a porta, esperando que eu passasse e depois passou. Andei em direção a uma mesa e sentei-me, enquanto sentou à minha frente – Acho que ela gostaria que você fosse da família mais do que gostaria que eu fosse.
- Também não é pra tanto. Eu não sou perfeita, eu sou humana. Só porque eu ajudei Sansa, não quer dizer que eu sou um anjo e mereço um pedestal em minha homenagem.
- Eu não ajudei Sansa, nem ao menos fui visitá-la, quando descobri que ela estava naquele estado.
- ...
- O que vocês vão querer? – a garçonete apareceu.
- Eu vou querer um cappuccino. – respondi.
- Dois então.
- Já volto com seus pedidos. Com licença. – a moça saiu.
- Olha, ... – comecei, mas ele me interrompeu.
- Eu fui um covarde, pode dizer! Deixei que a culpa me consumisse aos poucos e nem ao menos passava em frente daquele hospital. Em vez disso, deixei me levar pelas festas e as mulheres.
- A culpa nos leva a fazer loucuras.
- Igual ao amor.
- É, mas no amor pelo menos as loucuras são, algumas vezes, saudáveis. A culpa não te consome, te mata aos poucos, faz com que você até duvide da sua humanidade.
- Você parece saber muito sobre o assunto.
- Você não foi o único que fez merda.
- Aqui seus cappuccinos. – a moça os colocou em cima da mesa, enquanto nós resmungávamos um agradecimento.
- A minha merda foi muito grande.
- Sou toda ouvidos. – ele olhou pra mim e riu nervoso. Respirou fundo e então começou:
- Era Natal e toda a família estava reunida na casa da minha avó na Califórnia. Todo ano ela alternava entre Londres e Califórnia. Às vezes eu acho que ela faz isso pra testar os seus familiares, principalmente aqueles que não aparecem. Nossa avó tem dessas de querer mostrar pra todos que é ela quem manda. Nada contra mulheres no poder, mas ela às vezes faz pra humilhar, sabe? Aquela velha história de “olha o que eu tenho e você não”. – ele tomou um pouco do seu café – Não foi até o aniversário da morte da nossa mãe que Sansa começou a insistir em ver nosso pai. Você sabe como Sansa é, não desiste até ter tudo o que quer e eu não a culpo por isso. Porra, ninguém deveria crescer sem um pai e Sansa estava sem uma figura paterna por preconceito besta e sem cabimento. – ele olhou para mim – Meu pai é gay, só descobriu isso antes de mamãe morrer. Eu sei que meu pai amou minha mãe até o último dia de sua vida, eu vi tudo o que eles viveram. Era amor e um dos mais bonitos, que fazia inveja a qualquer um que presenciasse! Entretanto, a vida é imprevisível, às vezes as coisas apenas acontecem. No amor então, tudo é incerto, porém estranhamente prazeroso. Meu pai e minha mãe eram dois hippies, sem preconceito e levando a vida de boa. Eu descobri um tempo depois que ele já tinha se apaixonado por outros caras e minha mãe por outras mulheres. Pode até parecer putaria, mas como os dois diziam: não existe regra quando o assunto é amor. Simplesmente acontece, sem aviso prévio e avassalador como um furacão. Eu entendia esse lado deles, mas quando eu descobri que meu pai estava se apaixonando por outro cara, eu perdi a cabeça. Poxa, minha mãe estava morrendo em uma cama de hospital e meu pai estava de caso com outro? Eu fiquei muito puto! Falei um monte de coisa na cara dele e fui pro primeiro bar que eu encontrei. Eu bebi até não conseguir andar e quando eu estava saindo do bar, ele foi a primeira cara que eu vi. Todas as vezes que meus amigos diziam que eu era um bêbado chorão, eu negava, mas bastou olhar para o meu pai para lágrimas começarem a cair. Demorou um tempo, mas eu me acostumei com a ideia, até minha mãe estava louca pra conhecer o novo namorado de papai. Pode dizer, um tanto quanto estranho, né? Minha mãe na cama de hospital e meu pai apresentando o namorado novo pra ela. Meus pais eram melhores amigos e contavam tudo um para o outro, não tinha como esconder que aquele sorriso no rosto uma vez ou outra era por causa de alguém.
- Então sua mãe apoiava seu pai? Ela não ligou dele estar apaixonado por outra pessoa?
- Ela sempre dizia que era ela quem estava com os dias contados e que ele tinha era mais que aproveitar a vida e celebrar o amor.
- Se sua mãe apoiava, por que diabos vocês não podem vê-lo?
- Como sempre, minha avó Bonnie não estava de acordo. Imagina como foi pra ela entrar no quarto onde minha mãe estava internada e ver meu pai de mãos dadas com outro cara? Ela quase teve um colapso nervoso. Ela nunca imaginaria que meu pai fosse fazer uma coisa dessas, especialmente quando sua mulher estava em uma cama de hospital. Mamãe já estava doente fazia uns anos, passou meses indo e voltando do hospital. Nesse meio tempo meu pai conheceu Clide, seu, agora, companheiro. Eles se conhecerem em um desses pubs de Londres, em uma das vezes que meu pai vinha a trabalho. Você sabe como é, conversa vai, conversa vem, aí quando ele percebeu já estava se apaixonando. Ele escondeu de nós por meses, porém mamãe percebeu, é claro.
- Então foi dela que a Sansa puxou seus poderes psíquicos?
- Com certeza. – ele riu – Nós morávamos em Londres na época, mas como a família da minha mãe morava na Califórnia, ela decidiu continuar o tratamento por lá. Minha mãe viu a reação de Bonnie quando soube que meu pai estava de namorado novo. Ela sabia que Bonnie não aprovava o passado do filho, Deus sabe o quanto ela ficou feliz quando descobriu que meu pai ia casar com uma mulher. Então mamãe usou seu poder de persuasão e pediu para conversar a sós com Bonnie. Não sei exatamente o que ela fez, mas no mês seguinte estávamos nos mudando para a casa dos nossos avós por parte de mãe e ela não tinha falado um ai sobre meu pai e seu namorado. Depois que minha mãe partiu, demorou dois anos para que meu pai assumisse que estava em um novo relacionamento. Era um jantar de comemoração do seu aniversário e obviamente que ele queria que Clide estivesse com ele, mas Bonnie odiou a ideia. No mesmo dia ela expulsou-o da família e disse que ela teria a nossa guarda a partir de ali. Papai até tentou lutar no tribunal, mas perdeu. Como meu pai morava aqui e minha avó o queria o mais longe possível de nós, ela nos despachou para Califórnia de vez e me colocou dentro da empresa.
- E vocês nunca mais viram seu pai?
- Nós tínhamos direito a uma visita por mês, vovó não poderia tirar isso dele. Só que quando eu completei 21 anos, peguei toda a grana que eu tinha e comprei um apartamento onde Bonnie não podia controlar cada passo da nossa vida. Na verdade, mais pra mim do que pra Sansa, já que ela escolheu morar com nossos avós.
- Então foi aí que você virou , o garanhão do 701?
- Foi. – ele riu – Não foi de propósito, eu simplesmente comecei a sair de domingo a domingo, depois do trabalho com os caras e as garotas eram apenas consequência. – tomou outro gole do café – Só que naquele Natal, Sansa queria porque queria vê-lo, mas papai estava aqui em Londres junto com Clide, seu companheiro.


Flashback (3º pessoa)

- Sansa, eu já te disse. Semana que vem nós vamos a Londres visitá-lo. – o garoto rolou os olhos, enquanto terminava o seu quarto copo de vinho. Sansa o estava perturbando desde que acordou, queria ver o pai de qualquer maneira.
- Mas é Natal, ! – ela puxava a mão do irmão, enquanto ele travava o caminho em direção à cozinha. Se tinha que aguentar aqueles familiares chatos e a ladainha de Sansa, tinha pelo menos que ter um pouco de álcool no sangue.
- Eu sei, Sansa. – ele respondeu, procurando uma garrafa de vinho cheia dentro da dispensa – Você acha que eu não queria ele aqui com a gente?
- Eu ainda não entendo porque ele não pode vir pra cá.
- As coisas são complicadas, Sansa. Um dia eu te explico tudo.
- E por que você não explica agora? – o garoto abriu a garrafa e pegou uma taça em cima da bancada. Encheu o copo, quase esvaziando a garrafa – É por que eu sou criança, não é?
- Exato. Agora para de importunar? – ele disse antes de começar a beber.
- Só se você prometer que não vai ficar com raiva. – a pequena sorriu amarelo enquanto seu irmão a encarava.
- O que foi que você fez, Sansa ? – ele colocou o copo em cima da mesa, olhando para irmã com os braços cruzados. O celular de começou a tocar e ele se assustou assim que viu no visor o nome do pai – Oi, pai!
- Estou aqui fora, Sansa está melhor? – o mais velho olhou para a irmã, que soltou um grito e correu para fora.
- Acho que você vai descobrir. – escutou o grito da irmã e logo desligou o celular. Andou em passos largos para fora da casa e avistou seu pai e Clide. não era o tipo de pessoa que se emocionava, mas fazia tanto tempo que não via seu pai que foi quase impossível não deixar com que os olhos se enchessem d'água. Correu em direção ao seu pai e o abraçou tão forte que poderia jurar que o iria esmagar ali mesmo.
- Acho que alguém sentiu minha falta. – ele se soltou do filho e o olhou da cabeça aos pés – Olha pra você, , já é um homem.
- E bonito, por sinal.
- E aí, Clide? Beleza? – cumprimentou o companheiro de seu pai.
- E pelo o que eu vejo, você, senhorita Sansa , não está doente coisa nenhuma. – ele apertou o nariz da menina.
- Ops.
- Você sabe que é feio mentir, certo?
- Mas foi por uma boa causa, você está aqui. – ela abraçou o pai mais uma vez – Vem gente, vamos entrar! – Sansa tentou puxar o pai pelo braço, fazendo com que olhasse para seu filho. entendia porque seu pai não podia entrar e achava o motivo mais do que estúpido, porém, por pedido do pai, decidiu não contrariar a vontade da senhora Francielli.
- O que ele está fazendo aqui? – a voz que veio das costas de fez com que ele soltasse um grunhido. Isso não terminaria bem.
- Eu vim ver meus filhos. – Ian respondeu, encarando a mulher, que até pouco tempo chamava de mãe – Sansa disse que estava passando mal.
- Agora que já viu que ela não está doente, pode ir embora.
- Por que papai não pode ficar? – Sansa perguntou, agarrada à cintura do pai – Só hoje, por favor.
- Acho que seu pai tem outro canto pra ir, não é, Ian? – Ian olhou para a mãe e sabia que aquele olhar indicava que se ele não fosse embora, era capaz dele nunca mais ver seus filhos.
- Pois é, tampinha. – Sansa fez cara de choro – Não fique triste, linda, vocês vão pra Londres semana que vem e nós vamos em todos os lugares que você quiser.
- Até no aquário?
- Sim. – ele abraçou a menina – E não me assuste dessa maneira outra vez, meu coração de pai não aguenta.
- Desculpa. – ela deu um beijo em sua bochecha – Te amo, pai.
- Eu também te amo, tampinha. – a garota se afastou do pai limpando as lágrimas.
- Te vejo em Londres, filho. – Ian abraçou o filho.
- Até Londres. – Ian se separou do filho e olhou para sua mãe. A senhora virou a cabeça de lado e Ian entendeu isso como um adeus. Ian e Clide foram embora e Sansa agarrou-se na cintura do irmão.
- Ainda bem que ele teve o bom senso de ir embora daqui. – olhou incrédulo para a avó. Ele simplesmente não entendia como alguém poderia ser tão sem coração a ponto de ignorar a existência do próprio filho e deixar duas crianças sem pai – Vamos, queridos, a tia de vocês quer vê-los. – a senhora tentou puxá-los, mas o garoto não deixou.
- Não.
- O quê? – ela o olhou, incrédula – Vamos agora!
- Você não pode me obrigar. Não mais.
- Eu sou sua avó, eu mando em vocês. Vocês vão vir comigo agora!
- A não ser que você chame a polícia, nós não vamos entrar nessa casa outra vez.
- É o que veremos. – a senhora virou-se para casa novamente, mas continuou:
- A senhora quer saber de uma coisa? Eu cansei! Cansei! Cansei de você e dessa mania de querer controlar a vida dos outros, como se fôssemos bonecos no seu show de marionetes. Olha o que você fez com o seu próprio filho, olha o que você está fazendo comigo e com Sansa. Você simplesmente decidiu que não tem mais filho e nos deixou sem pai. Você acha isso certo?
- Você não reclamou quando veio morar aqui na Califórnia com um emprego milionário garantido.
- Porque eu não tinha o poder pra dizer que eu queria ficar com meu pai em vez de você. Eu te aguentei todos esses anos, porque ele me pediu e disse que vinha nos buscar. – me aproximei dela – Você não tem coração! Todo mundo aqui pra você é só uma marionete nesse showzinho que é a sua vida. Sansa está crescendo sem um pai, porque você tem esse pensamento arcaico de que meu pai ter se apaixonado por outro cara é a pior coisa do universo. Sabia que existe coisas piores? Tipo esse teu preconceito estúpido que separa famílias. – já gritava – E você quer saber de uma coisa? Nós não vamos mais fazer parte desse seu showzinho.
- O que você quer dizer com isso?
- Que quer você queira ou não, nosso pai vai se tornar presente em nossas vidas. Que nós vamos ser uma família outra vez e se pra isso você precise expulsar nós dois dessa família, considere feito. Vem, Sansa! – pegou a irmã pela mão e marchou em direção ao carro.
- Eu ainda tenho a guarda da sua irmã.
- Isso é o que veremos. – sabia que isso o custaria tudo, principalmente o seu emprego, porém nunca tinha se sentido tão livre. Sua avó poderia demiti-lo o quanto quisesse, detestava aquele emprego de toda forma. Poderia agora montar seu próprio restaurante, fazer o que realmente gostava. ignorou todos os gritos de sua avó e arrancou com o carro.
- Ai meu Deus! Nós estamos em grandes apuros. – Sansa falou com um sorriso no rosto – Eu pensei que você nunca ia dar um basta nisso. Nós vamos morar com papai, certo?
- Uma coisa de cada vez, Sansa. Se concentra agora em colocar o cinto de segurança. – estava tão concentrado na irmã que não percebeu ter passado em um sinal vermelho ou muito menos outro carro vindo e colidindo com o seu.
- Sansa! – foi a única coisa que conseguiu gritar antes de tudo ficar preto.


Fim do Flashback


- Eu ia falar com meu pai pra pedir a guarda de Sansa. Eu não aguentava mais ter que fazer tudo que minha avó mandava. Eu queria ter uma família, queria que Sansa tivesse uma família, mas na vida as coisas nem sempre saem como o planejado, e depois do acidente eu simplesmente não consegui mais. A culpa de Sansa estar naquele estado era minha, se eu tivesse obedecido minha avó provavelmente Sansa não estaria naquele hospital sozinha.
- Já ouviu falar que todos os males vêm para o bem? Não estou dizendo que o que você fez foi certo, porém eu entendo perfeitamente o seu medo. Acho que machucar alguém que a gente ama faz isso com a gente, fica com essa culpa incontrolável quase que te impossibilitando de seguir em frente.
- Você está dizendo que entende? Que não me odeia?
- Oh, ! Na primeira semana eu já não te odiava. – levantei-me e sentei-me ao seu lado – Não vou mentir, eu fiquei com muita raiva de você, juro que quase bati na sua casa pra dar o soco na sua cara, mas eu tinha medo porque aí eu teria que admitir pra mim mesma uma coisa que pensei que nunca iria fazer.
- O quê?
- Que eu estou apaixonada pelo garanhão do 701. – ele sorriu e segurou meu rosto.
- Está?
- Pensei que você soubesse disso.
- O problema é que as coisas com você, minha querida vizinha, são imprevisíveis.
- Então você não prevê que eu estou prestes a te beijar? – perguntei, roçando nossos narizes.
- Isso eu prevejo, porque eu estou prestes a te beijar também.
- Por favor, não. – olhei para o lado, encontrando nada mais nada menos do que o coroa que eu não via há um tempo.
- Pai? – perguntei, confusa – O que o senhor está fazendo aqui? – levantei, o abraçando.
- Eu vim deixar minha namo... amiga no trabalho e vi vocês dois pela vitrine. – ele apontou para a moça que estava do lado de fora, segurando um guarda-chuva. Ela era bem bonita e, pelo jeito que meu pai a olhava, parecia mais do que amiga – Vocês já estão indo embora?
- Não. Chegamos há pouco tempo.
- Vocês se importam em me esperar? Vou só deixar a Charlie e volto já.
- A gente espera. – ele sorriu antes de dar um beijo em minha testa e desaparecer. Sentei-me ao lado de , olhando-o desconfiada.
- O que foi?
- Namo...amiga?
- Ih, o teu pai é outro, , pergunta pra ele.
- Ah , ele vai desconversar. Me conta você.
- Não sou de fazer fofoca.
- Nem por um beijinho? – perguntei, passando os braços por seu pescoço – Ah , me conta, vai!
- Pergunta pro seu pai, ele já está vindo.
- E aí, como vocês estão? – meu pai perguntou, sentando-se na nossa frente.
- Ah, querido, pode cortar o papo furado. Quem é Charlie?
- Uma amiga, já disse.
- Na verdade você disse namo...amiga, então suponhamos que ela é sua namorada e você não quer me dizer porque tem medo da minha reação.
- Mas o quê? Como? Mas você?
- Acho que tenho andado muito com Sansa . – ele riu – Pai, você está namorando? – ele me olhou e, pelo brilho naqueles olhos, a resposta era sim.
- Eu ia te contar, era por isso que eu queria que você viesse para Londres. Charlie é uma mulher incrível, estamos juntos há uns sete meses. Ela é louca pra te conhecer, mas, não só ela como eu, estávamos com medo da sua reação.
- Pai, – segurei suas mãos – você merece ser feliz. Não vai ser eu que vou te tirar esse direito, principalmente depois de tudo.
- ...
- Eu adoraria conhecê-la, quero saber suas intenções com meu velho.
- Não estou velho. – ele deu um beliscão em minha mão – Que tal jantar na minha casa amanhã? Pode levar o se quiser.
- Claro, se você levar a Charlie. E meu irmãozinho, claro.
- Que irmãozinho? Está louca, menina?
- Eu sempre quis um irmão.
- Querida, vai ficar na teoria, porque não sei se dou conta de criar outro. Já foi difícil criar você, sua gatinha rebelde.
- Você era rebelde? – olhei para o meu pai e depois para .
- É modo de falar. – olhei para meu pai.
- E como está sua estadia na casa dos Franciellis? Vejo que o senhor aí está te fazendo companhia? – meu pai apontou para o braço de ao meu redor, o qual ele logo tirou e colocou em cima da mesa.
- Eles são maravilhosos.
- E Marcus?
- Você sabe como é o Marcus: adora uma festa, uma boca livre e luxo. Ele está aproveitando mais do que eu.
- Imagino. – ele olhou para o relógio – Eu tenho que ir, tenho que voltar pra empresa. – ele se levantou e eu o acompanhei.
- Se cuida, meu velho. – falei, abraçando-o.
- Se cuida, gatinha rebelde. – ele se virou para – E cuide da minha filha.
- Pode deixar, senhor. – apertou a mão de meu pai.
- Senhor? Fui rebaixado pra senhor agora? O que aconteceu com amigo? Camarada? Começou a namorar minha filha e já está bancando o namorado educado? – meu pai estendeu a mão.
- Até logo, então, velhote. – apertou sua mão.
- Você me respeite que eu ainda posso te dar umas porradas.
- Essa eu gostaria de ver você tentar.
- Controla seu namorado senão você fica sem. Tchau, pombinhos. Ah, e você está me devendo duas cervejas. – ele disse, antes de sair do café.
- Duas cervejas? – perguntei, confusa.
- É. Antes de saber que você era filha dele, ele me contou que ia contar para a filha sobre Charlie. Então, como eu pensei que você era uma patricinha sem noção, eu apostei que quando você descobrisse ia fazer um show. – ele fez sinal para a garçonete pedindo a conta.
- Um show?
- É. Espernear, chorar, dizer que quer que eles terminem e essas coisas.
- Mas é claro que não.
- O que você queria que eu pensasse? Seu pai quase não fala sobre você, o máximo que ele disse foi que você morava na Califórnia e uma vez ou outra o ajudava em algumas campanhas. – a garçonete trouxe a conta, porém nem ao menos deixou com que eu desse uma olhada, já foi entregando as notas para a garçonete.
- Ei! Eu pensei que nós íamos dividir.
- Que tal você pagar aquelas cervejas que eu devo para o seu pai, hein? – ele se levantou – Aliás, a culpa é toda sua.
- Minha culpa? – levantei-me, acompanhando-o até a saída.
- É, você não fez jus a minha expectativa. – ele segurou a porta, esperando que eu passasse.
- E o que você esperava?
- Deixa eu ver! – ele segurou em minha mão, puxando-me para perto – Eu esperava que você fosse uma daquelas herdeiras que gasta tudo com festa, sapatos e roupas. Aquelas bem enjoadas e chatas.
- Festas nem tanto, mas sapatos e roupas ainda são o meu ponto fraco. Você não quer ficar entre uma garota e sapatos, ou quer?
- Deus me livre! Já experimentei ir a uma loja em dia de liquidação. Não, obrigado, estou muito bem.
- Escolha sábia, senhor .
- E você?
- Eu o quê?
- Nunca imaginou como seria o irmão de Sansa?
- Na verdade, não. Eu só me imaginava dando um soco no meio da cara dele.
- E por que não deu?
- Acho que já fui malvada o suficiente com ele.
- Nisso nós estamos de acordo. – o celular de começou a tocar, fazendo-nos parar em frente ao carro.
- O quê? Alguma coisa com Sansa?
- Não. Parece que Bonnie vai dar outra festa hoje à noite. – ele abriu o carro.
- Sua família não cansa de dar festa todo dia, hein? – perguntei, entrando no carro.
- Aparentemente não. – ele respondeu entrando no banco de motorista.

~•~


Os Franciellis bebiam, comiam, falavam e respiravam festa. Toda e qualquer besteira que fosse era motivo pra reunir toda a família se embebedar e comer até ficar a ponto de explodir.
- Sua família sabe como dar uma festa. – falei, parando em frente à escada. A festa era no jardim e todos já estavam lá, exceto por mim e , porque acabamos pegando no sono logo que chegamos e perdemos a hora.
- Aprendi com os melhores. – ele sussurrou em meu ouvido, me abraçando por trás – Vamos sair daqui?
- O quê? – olhei para ele – Nós acabamos de chegar.
- Quem liga?
- Eu ligo. O que os seus familiares vão pensar de mim?
- Eles não vão pensar nada, eles nem perceberam que nós chegamos. – olhei em volta, vendo que estava certo. Para eles nem parecia que nós dois existíamos e, bem, quem resistiria a uma proposta indecente de um gostoso desses?
- Alguém já te disse que você é muito abusado, vizinho? – voltei a andar em direção à casa. Não demorou muito para que ele me abraçasse por trás e sua boca começasse a dar beijos em meu pescoço. Fizemos o caminho de volta, vendo que agora a casa inteira estava escura, o que tornava tudo isso ainda mais excitante.
Suas mãos começaram a apertar minha cintura, enquanto sua língua quente passava por meu pescoço. Não foi até que ele cravou os dentes em meu pescoço que eu soltei um gemido baixo dos meus lábios, sentindo que ele sorriu e suas mãos começaram a subir em direção aos meus seios, apertando-os.
Ah, esse garoto sabia como deixar uma garota louca por ele, quase implorando para ele possuí-la nessa escada.
- Você não sabe o quanto eu senti sua falta. – ele sussurrou, logo chegamos ao corredor.
- Vem me mostrar então, bonitinho. – me soltei dos seus braços e corri com dificuldade em direção ao meu quarto. Mas antes que eu pudesse girar a maçaneta senti duas mãos me segurarem pela cintura e me colocarem entre a porta e ele. Ele afastou meus cabelos e segurou meu rosto em suas mãos, se aproximando aos poucos. O beijo começou devagar e sem segundas intenções, mas bastou minhas mãos o puxarem mais pra perto, por debaixo de sua camisa, para que ele mordesse meu lábio. Sim, era um corredor, mas não tinha nada mais excitante do que saber que a qualquer minuto nós poderíamos ser pegos. Segurei-o pela cintura, empurrando-o para que ele ficasse contra a porta. Levei minha mão para um certo volume visível em sua calça e acariciei. Não demorou muito para que minhas mãos encontrassem o botão da sua calça e o desabotoasse, então coloquei minha mão dentro da sua calça, acariciando seu membro por cima da sua boxer. segurou meu rosto e mordeu meu lábio antes de começar a dar mordidas em meu pescoço. Puxei o zíper da sua calça para baixo, vendo-a descer por entre suas pernas. Comecei a desabotoar sua camisa, enquanto me olhava com um sorriso nos lábios. Me aproximei, começando a beijar seu pescoço enquanto tirava sua blusa. Passei minhas mãos por seus ombros e comecei a distribuir beijos por seu tórax, descendo por seu abdômen. Ajoelhei-me em frente ao volume da sua cueca e a puxei para baixo, passando a língua por toda a extensão do seu pênis, vendo-o fechar os olhos e morder seu próprio lábio. Repeti o ato mais algumas vezes, antes de passar a língua por sua glande. E mais uma vez, e outra, e outra, até que ele segurou em meus cabelos, empurrando minha cabeça em direção ao seu membro. Entendi o recado e logo comecei a chupá-lo com vontade, sentindo-o segurar forte em meus cabelos. Ora mais lento, ora mais rápido, às vezes até passava as unhas por seu abdômen, sentindo-o contrair seus músculos. podia não saber, mas escutá-lo gemer meu nome enquanto eu o dava prazer era música para os meus ouvidos.
Ele segurou forte em meus cabelos, fazendo com que eu o olhasse. Não demorou muito para que ele me puxasse para cima e me prensasse contra a porta novamente.
- Ah garota, você me deixa louco.
- Você não viu nada. – abri a porta atrás de mim, cambaleando para dentro. tratou de tirar suas calças e os sapatos - Senta na cama. – falei, me afastando dele.
- Pra quê?
- Vai logo, ! – ele apenas fez o que eu mandei. Puxei o zíper do vestido para baixo fazendo com que o mesmo caísse no chão. Andei até ele ficando entre suas pernas.
- E eu pensei que você não pudesse ficar mais gostosa, aí você me vem de lingerie preta e salto só pra mim. É um sonho. – ele segurou meus quadris, recomeçando a beijar meu pescoço.
- Acostuma, bonitinho, eu tenho uma pra cada dia da semana. – coloquei uma perna de cada lado de seu corpo, segurando seu rosto entre minhas mãos. Ele passou a mão por minha coxa, subindo em direção a minha bunda, apertando a mesma. Senti seus beijos por toda a extensão do meu colo, enquanto eu puxava seus cabelos, e não demorou muito para suas mãos subirem até o fecho do meu sutiã e o tirasse. Enquanto sugava meu seio com a boca e apertava o outro com a mão, eu puxava seus cabelos. Ele segurou minha cintura e me jogou de encontro a cama, se deitou por cima de mim, ficando entre minhas pernas. Não demorou muito para que sua boca traçasse o caminho em direção a minha intimidade, sorriu antes de puxar minha calcinha para baixo e começar a deixar um rastro da sua boca quente por dentro da minha coxa. Meus olhos se fecharam e um grunhido saiu por minha garganta quando ele mordeu minha coxa. Um sorriso tomou conta dos meus lábios, logo quando ele passou a língua por toda a extensão da minha intimidade. Abri os olhos a ponto de vê-lo sorrir sapeca antes de deslizar um dedo por minha intimidade, vendo-me arfar. Deixou que sua boca tomasse conta do meu clitóris, enquanto ainda me penetrava com seu dedo. era o tipo de cara que sabia dar prazer a uma mulher. Meu Deus, esse enlouquecia qualquer pessoa em seu perfeito estado de sanidade, ainda mais vizinhas que sentiam sua falta.

Parecia que ele sabia e fazia exatamente o que me levaria à loucura. Ficou praticamente impossível não deixar palavras profanas saírem de meus lábios entre meus gemidos, e respirar ficava cada vez mais difícil. Eu já agarrava os lençóis na cama quando do nada ele simplesmente parou. Me apoiei em meus cotovelos vendo-o levantar da cama e ir em direção a calça. Não demorou muito para que ele rasgasse a embalagem do preservativo e o colocasse em seu membro. Engatinhou até mim e se pôs entre minhas pernas; mordi os lábios vendo-o encaixar seu membro em minha intimidade. A primeira estocada foi lenta, apenas para me provocar, porém nós dois sabíamos que esse joguinho de provocação não demoraria muito tempo. deitou por cima de mim e começou a me beijar, enquanto a velocidade dos seus quadris aumentava. Uma de minhas mãos arranhava suas costas enquanto a outra segurava os cabelos da sua nuca.
Nossos corpos já estavam suados e eu podia jurar que as costas dele já estavam mais do que vermelha. Aquela velha sensação tomou conta do meu corpo e logo eu já estava gemendo o nome dele entre meus lábios, enquanto eu agarrava mais forte em seus cabelos. chegou no clímax logo depois, escondeu o rosto ofegante em meu pescoço enquanto recuperávamos o folego.

- Eu definitivamente senti sua falta. – ele disse ante de me beijar – Principalmente de você gemendo meu nome. – sussurrou em meu ouvido.
- Seu tarado! – dei um tapa em seu braço. olhou para o lado, levantando-se da cama.
- Você não sabe o quanto é prazeroso escutar você gemendo meu nome. – ele disse antes de entrar no banheiro. Eu estava pronta para responder quando escutei batidas na porta. Puxei o lençol para cobrir meu corpo, levantando-me e indo em direção a mesma.
- Pelo amor de Deus, você ainda está assim? – Marcus entrou no meu quarto – Vai se trocar! – ele olhou em volta – , que bagunça é essa? Por que... Ai meu Deus! , você está pelado. – Marcus olhou para , que saía do banheiro usando nada. Em vez de desviar o olhar, Marcus apenas ficou encarando-o.
- Marcus! – tampei seus olhos com a mão – Pelo amor de Deus, nem pra virar!
- Fiquei paralisado, o que eu posso fazer? – riu pelo nariz.
- Não ri! E veste uma roupa.
- Que mulher marrenta. – colocou sua boxer e eu tirei a mão de cima dos olhos do Marcus.
- Acho que vou avisar lá embaixo que vocês não poderão comparecer à festa.
- Não, que isso, nós vamos sim.
- Deus me livre! Você está toda suada, sua maquiagem e cabelo arruinados. Fica aí com seu vizinho odioso que ninguém vai sentir a falta de vocês mesmo.
- Mas, Marcus, e a Sansa?
- Ah querida, aquela ali vai ficar super feliz por vocês. Agora deixa eu ir que está tendo open bar e open food e eu não perco essa boca livre por nada.
- Às vezes você envergonha.
- Só as vezes? – Marcus deu uma piscadela e saiu do quarto. Virei-me para , que tinha um sorriso nos lábios.
- E o que a gente faz agora?
- Já que a gente já fez a parte da DR e a reconciliação – ele andou em direção a porta e a trancou – A gente repete a parte da reconciliação.
- Quem disse que eu quero?
- Vai recusar o garanhão do 701? – ele fez pose.
- Está mais pra perdedor do 701. – ele me olhou incrédulo.
- Eu vou te mostrar quem é o perdedor aqui. – ele me pegou nos braços e me jogou na cama, começando a me fazer cócegas – Quem é o perdedor aqui?
- para, eu estou pelada. – falei, entre risos, tentando me cobrir.
- E eu ligo?
- Eu vou morrer! Eu tô sem ar! Jesus! – falei ofegante.
- Tudo bem, parei. – ele levantou as mãos e se sentou na ponta da cama. Sentei-me ao seu lado, recuperando o fôlego – Eu não sou muito bom nisso.
- Em fazer cócegas? Acho que você está sendo modesto.
- Não, em relacionamentos. – ele olhou para mim.
- Eu entendo se você não quiser nada sério, não dá pra mudar assim da água pro vinho.
- Mas é esse o problema: eu quero mudar. Eu quero ser o cara pra você. Andar de mãos dadas pelas ruas, assistir comédias românticas, porque você gosta, e chamar de docinho ou lindinha ou amorzinho. Pacote cara apaixonado completo.
- Eu sou mais uma fã de filmes de nerd do que comédias românticas. – falei, segurando sua mão – , você não precisa mudar nada, eu gosto você do jeito que você é. Safado e tudo. Quando eu me apaixonei por você, eu já sabia como você era. Não estou esperando um príncipe encantando que faz tudo certo, até porque ele não existe. Se você quiser mudar tem que ser por você, mas saiba, logo agora, que se for pra você ficar se agarrando com outras, eu não vou querer. Sou bem mente aberta, mas dividir o cara por quem eu tô apaixonada eu não divido. Então se quer ficar vadiando por aí, é melhor sair por aquela porta.
- Tudo bem. – ele se levantou, andando até a porta e eu pude jurar que meu coração parou por um minuto. Sua mão já estava girando a maçaneta quando ele voltou correndo e pulou em cima de mim.
- Você acha mesmo que depois de tudo que a gente passou pra ficar juntos, eu ia escolher ficar por aí vadiando?
- Seu inútil! Imbecil! – dei um soco em seu braço – Você quase me matou do coração.
- Você que ficou toda séria "blá blá blá sai por aquela porta". – ele me imitou.
- Eu não falo assim.
- Eu quero ficar com você, . Será que você não entende?
- Acho que você vai ter que me convencer.
- Já até sei o lugar. – ele se levantou e andou em direção ao banheiro – Você não vem?
- Estou pensando. – ele jogou a sua boxer na minha cara – Estou indo, seu pervertido.
- Bem que você gosta.
Enquanto eu andava em direção ao banheiro, a pergunta que não queria calar era: será mesmo que eu finalmente tinha conseguido o meu felizes para sempre?


Capítulo 13


- Vejo que a noite foi maravilhosa. – Marcus falou assim que eu entrei em seu quarto.
- Vejo que isso não é da sua conta. – disse, me sentando na cama – Mas, sim, a noite foi maravilhosa.
- Eu nem acredito que você e o nosso vizinho se entenderam, melhor ainda, são um casal. – ele se sentou ao meu lado – Quem diria que seria alguém como que lhe faria feliz.
- Alguém como ?
- É, tão fodido quanto você.
- Esse papo outra vez? – falei, me levantando.
- Vai rolar esse papo até você contar a verdade pra ele.
- Marcus, eu vou contar, só preciso de tempo.
- Contanto que esse seu tempo não seja igual ao de James, pra mim já é de bom tamanho. Vocês namoraram por quase dois anos e o cara nem te conhecia direito, .
- É, mas com vai ser diferente. É diferente! Poxa, Marcus, tem uma grande chance de eu estar completamente apaixonada por ele.
- Tipo de falar as três palavrinhas?
- Tipo de falar as três palavrinhas e muito mais. Marcus, até família eu tô pensando em ter com o cara, coisa que eu nunca imaginei com nenhum dos meus namorados.
- Então é sério.
- Bota sério nisso. – cruzei os braços – Não quero perdê-lo, não quando eu acabei de recuperá-lo.
- E você não vai. – Marcus segurou em meus ombros – Eu vou parar de falar desse assunto, prometo. – ele me soltou – Agora vamos – ele arrumou os peitos que ele gostaria de ter – que eu tenho um britânico pra conquistar nessa fogueira.
- Alguém já te disse que você não tem peitos?
- Eu gosto de fingir que sou mulher às vezes, mulheres são tão poderosas. – Marcus jogou o cabelo que ele também gostaria de ter e saiu rebolando para fora do quarto. Segui Marcus até o corredor e logo que saí encontrei Sansa vindo com uma de suas primas.
- ! – Sansa correu até mim e me abraçou pela cintura.
- Oi, minha linda. – abracei-a de volta – Às vezes eu tenho a sensação de que quase não vejo você nessa viagem.
- Você ter vindo nessa viagem foi só uma desculpa pra você e ficarem juntos. Já que vocês estão, é bom que aproveitem.
- Sansa!
- Mas é verdade! Londres não é Paris pra ser a cidade do amor, mas tem algo sobre essa cidade.
- É, realmente. – começamos a descer as escadas – Eu ainda acho que eu deveria passar mais tempo com você.
- Quando voltarmos pra Califórnia, nós podemos passar mais tempo juntas. Eu ainda quero visitar o resto que ficou no hospital.
- Somos duas então. Nós podemos ir juntas, que tal?
- Eu vou adorar.
- Vai adorar o quê, pirralha? – falou, pegando-a e rodopiando Sansa pela sala.
- Me solta, ! Eu não sou mais criança. – Sansa falou irritada.
- Claro que você é, sua pirralha.
- Eu vou te socar.
- Tão valente. – colocou-a no chão – Tudo bem, vai lá, super adulta, eu rodopio outra pessoa. – olhou pra mim e começou a andar na minha direção.
- Sai daqui, . Ao contrário de Sansa, eu quebro a sua cara. – levantei as mãos.
- Quebra nada. – me puxou pelas mãos e me abraçou pela cintura, começando a dar beijos no pescoço.
- Sai, , isso faz cócegas. – falei, entre risos, tentando me desfazer do seu abraço.
- Vem agora quebrar a minha cara.
- Eu quebro mesmo.
- Só se for de tanto dar beijo. – Marcus falou descendo as escadas.
- Se for de beijo, eu quero. – ele fez biquinho.
- Não tem beijinho aqui.
- Vocês dois são tão fofos, bateu até aquela ânsia de vômito agora. – Marcus falou, revirando os olhos – Vocês não têm outro lugar pra ir, não?
- Mas que mal humor!
- Na verdade, temos sim. – se separou de mim – Acho até que estamos atrasados.
- Aonde vocês vão? – Fred perguntou.
- Jantar com meu pai e a nova namorada dele.
- Mentira! Seu pai tem namorada? – Marcus falou com a boca aberta – Ela é bonita? Ela é uma cobra? Ela vai ser sua madrasta? Será que ela vai ser boazinha ou malvada?
- Uou, Marcus, isso aqui não é um dos contos de fadas da Disney. Pelo o que eu vi dela, ela é bonita, sim. Esse jantar é justamente pra isso, pra nós nos conhecermos melhor.
- E pro teu pai ficar de olho no aí. – Marcus apontou para .
- Ele sabe que eu vou cuidar bem da filha dele.
- Oh se sabe! – Marcus deu uma piscadela. Peguei uma almofada no sofá e joguei na cara dele – Ai, .
- É pra você aprender a ficar de bico calado. – Marcus deu língua.
- Acho melhor nós irmos antes que isso aqui vire uma luta de MMA. – me pegou pela mão – Tchau para os que ficam, até mais tarde.
- Tchau Sansa, meu amor. – dei um abraço forte em Sansa – Tchau Fred, tchau Marcus.
- Não façam nada que eu não faria. – Marcus disse e eu mostrei-lhe o dedo do meio. Marcus fez uma cara de chocado e mostrou o dedo pra mim também.
- Vocês dois são fogo. – falou, abrindo a porta da mansão.
- Intimidade, meu caro , é uma merda.
- Há quanto tempo vocês dois se conhecem?
- Nossa, na verdade, eu nem sei direito. Eu conheci Marcus logo quando eu entrei na faculdade, ele era amigo de uma das meninas com quem eu andava. Com a gente foi logo de cara, sabe? Foi questão de meses pra gente virar melhores amigos. Marcus sempre me fazia rir e, naquela época, rir era o que eu mais precisava. – ele abriu a porta de seu carro – Então somos praticamente inseparáveis desde então.
- Marcus também é publicitário? – ele perguntou, ligando o carro.
- Não, na verdade, Marcus é formado em artes.
- Artes?
- Ele sempre disse que era só uma desculpa pra ver homens pelados, mas ele é muito bom. Ele deu aula por um tempo, mas aí percebeu que odeia adolescentes, então foi ser curador de uma galeria.
- Nunca imaginei Marcus como curador.
- Ele é muito bom com pessoas, só não dando aula, ele pode vender uma coleção inteira em um piscar de olhos. Ele convenceu o meu pai a comprar um quadro super caro que ele tinha achado a coisa mais feia da exposição. Às vezes eu acho que Marcus foi uma bruxa na outra vida. – nós dois rimos – E como assim, publicitário também?
- O quê?
- Você perguntou se Marcus era publicitário também. Como é que você sabe que eu sou publicitária?
- Seu pai me disse. Ele sempre pediu sua ajuda com os assuntos da empresa e depois falava que um dia ia trazer você pra perto dele. – ele olhou pra mim de relance – Sabe o que eu sempre me pergunto? Como nós não nos conhecemos antes. Porque faz pelo menos uns três anos que eu conheço seu pai e ele nem ao menos mostrou uma foto sua atualmente. As que ele tem são de pelo menos anos atrás e você era totalmente diferente; o cabelo, pelo menos.
- Ai Jesus! Eu vou matar o meu pai! Eu só não gosto de foto, e as únicas que ele tem de mim são de sete anos atrás. Eu era diferente, um diferente ruim.
- Olha, eu lembro de pouca coisa, mas que você era feia eu tenho certeza de que não era. – ele estacionou o carro.
O problema era que eu não estava falando de beleza. Na verdade, por ser líder de torcida e a garota mais popular do colégio, eu sempre me cuidava. Cabelo, maquiagem e roupas eram as únicas coisas que passavam pela minha cabeça na época. O diferente que eu me referia era sobre o de dentro, da pessoa. No caso, da minha pessoa e o que ela fez anos atrás.
- Seu pai mora naquele prédio do outro lado da rua. – ele saiu do carro e eu o segui. O prédio ficava no final da rua.
- Ele se mudou? – perguntei olhando para o prédio, enquanto pegava algo dentro do carro.
- Ele e Charlie agora moram juntos. – ele parou um instante – Ei, olha pra cá! – virei-me para trás e um flash me cegou.
- O que é que você está fazendo, ?
- Dando uma repaginada no seu álbum de fotos. – outro flash – Dá um sorrisinho aqui, faça amor com a câmera. – outro e mais outro – Vai, vizinha, dá um sorrisinho.
- , quer parar? – tentei impedi-lo de continuar – , para com isso!
- Tudo bem, eu paro. – ele falou abaixando a câmera. Era uma polaroide, daquelas de fotos instantâneas. pegou as fotos e as colocou dentro da jaqueta.
- , joga isso fora que eu aposto que está uma mais feia que a outra.
- Claro que não, vou guardar todas. – ele se aproximou – Agora vem cá, vamos tirar uma juntos.
- Eu não gosto de foto.
- Deixa de besteira. – ele me abraçou pela cintura e posicionou a câmera – Pronta? – assenti e ele posicionou a câmera. Eram típicas fotos de casais, abraçados, fazendo careta, outra eu beijando sua bochecha, outra ele beijando minha testa.
- Até que não ficaram ruins. – peguei a câmera de suas mãos enquanto ele via as fotos. Ainda tinha rolo na câmera quando eu decidi ter uma recordação do meu vizinho safado – Ei, ! – levantou o olhar e eu tirei uma foto sua.
- Ah não, .
- Você pode tirar foto minha e eu não posso tirar foto sua? – peguei a foto e coloquei dentro do meu casaco – Agora estamos quites. – estendi a câmera para ele, que a pegou e colocou dentro do carro.
- Você é muito engraçadinha, vizinha. – ele passou o braço por meus ombros.
- Você também não fica longe, vizinho. - falei, o abraçando pela cintura.
- Você acha que vamos ficar bem quando voltarmos pra casa?
- Claro que vamos, . – olhei pra ele – Por que a pergunta?
- Sei lá, em casa a atmosfera é diferente.
- É, mas vai tudo ficar bem, você vai ver. – entramos no prédio.
- Senhor , há quanto tempo. – o porteiro falou – Vejo que trouxe sua namorada dessa vez. O apartamento do senhor ?
- É sim. Podemos subir?
- Podem ficar à vontade. – fomos em direção ao elevador e apertou o botão do quinto andar.
- Nervosa?
- Um pouco. Já pensou se ela não gosta de mim?
- Eu acho que ela está pensando a mesma coisa. – ele riu – Relaxa, vocês duas vão se entender. E, além do mais, quem não gosta de você, hein, minha vizinha pentelha?
- Eu sei, sou apaixonante mesmo, pode dizer, vizinho. – abracei-o pela cintura, saindo do elevador. olhou pra mim com um sorriso no rosto e depois beijou meu nariz.
- Às vezes eu acho que você nem sabe o quanto. – tocou a campainha e eu me ajeitei. Meu pai abriu a porta com um sorriso no rosto e Charlie estava atrás dele, com um sorriso no rosto também.
- Vocês estão atrasados.
- O que são quinze minutos pra quem esperou meses pra ver a filha, hein? – abracei-o pelo pescoço – E a casa de vocês está com um cheiro ótimo. – soltei-me dele, entrando em sua casa.
- Seu pai que cozinhou, ele disse que era seu prato preferido. – Charlie falou.
- Meu pai cozinhou? A cozinha ainda está intacta? – parei em frente a ela.
- Por incrível que pareça, sim.
- Eu sou . – estendi a mão para ela.
- Eu sou Charlie. – ela ignorou minha mão e partiu para o abraço – Eu ouvi muito sobre você.
- Engraçado, eu não ouvi nada sobre você. – eu falei me afastando. a cumprimentou.
- Isso é minha culpa, eu pedi pro seu pai não falar nada. Queria que nós nos conhecêssemos pessoalmente.
- Tudo bem. Acho que tudo tem uma hora certa pra acontecer. – meu pai parou ao lado dela com o maior sorriso no rosto. Eles formavam um belo casal.
- Não sabia que vocês dois namoravam, seu pai nunca mencionou esse pequeno detalhe.
- Vai ver é porque eu não sabia que a garota pela qual se dizia apaixonado era minha filha.
- Então você não sabia?
- Descobri quando fui na casa dos Franciellis e vi lá.
- Uau! Que coincidência.
- Muita, mas, por favor, não se beijem na minha frente, ainda é meio perturbador. – meu pai fez careta – E então, vamos jantar?
- Vamos, estou louca pra provar essa sua comida, paizinho.


O jantar tinha sido maravilhoso e à medida que tudo tinha acontecido e eu conheci Charlie melhor, eu pude ver que ela fazia meu pai muito feliz. Ela era uma mulher encantadora, e pelo jeito que eles se olhavam, dava até gosto de ver eles dois juntos. Não vou mentir que eu não senti uma pontada de ciúmes, mas meu pai merecia ser feliz, principalmente depois de tudo que eu fiz.

- Pai, eu não acredito que vou dizer isso, mas você está cozinhando divinamente. – falei jogando o guardanapo na mesa – Eu estou até assustada.
- Eu também fiquei quando ele fez a primeira refeição sozinho. – Charlie era chef de um restaurante, sua paixão pela comida foi como eles se conheceram. Ele foi jantar em seu restaurante com um amigo e, logo quando tudo acabou, ele decidiu dar parabéns ao chef. Foi amor à primeira vista e ele passou a frequentar o restaurante até criar coragem pra chamá-la pra sair. No terceiro encontro, meu pai decidiu que iria cozinhar para Charlie, o que foi um completo desastre, já que meu pai não sabia fritar nem um ovo. Eles terminaram a noite com pizza, vinho e provavelmente muito sexo, mas essa parte eu decidi fingir que não sabia.
- Quando você for pra Califórnia, vou te obrigar a cozinhar pra mim.
- Ou o pode cozinhar pra você.
- Você também é um chef, ? – Charlie perguntou.
- Só nas horas vagas.
- Nunca pensou em seguir carreira, não?
- Já, mas você sabe, as coisas nem sempre saem como o planejado.
- Ainda dá tempo, você ainda é novo.
- É né, quem sabe.
- Quem sabe na próxima vez seja você cozinhando pra gente.
- É, quem sabe.
- , você me ajuda a tirar a mesa? – meu pai perguntou.
- Claro. – levantei-me, começando a recolher os pratos.
- Tem uma coisa que eu quero muito perguntar, mas sempre esqueço. Quem é aquela do quadro? – perguntou, olhando para o quadro que ficava em cima da lareira no outro cômodo.
- É minha mãe.
- Você quase nunca fala da sua mãe, . Vocês dois, na verdade.
- Ela faleceu faz alguns anos em um acidente de carro. – meu pai começou e eu abaixei o olhar – estava terminando o colegial, faz uns seis anos.
- Sete, na verdade. – falei, levantado o olhar.
- Desculpa, eu deveria saber que esse ainda é um assusto delicado.
- Não tem problema, faz muito tempo. Acho que posso arriscar dizer que já não dói tanto quanto antes. Volto já. – falei, me retirando da sala. A cozinha não ficava tão longe, graças a Deus; era capaz de eu cair com tudo pelo o estado em que minhas pernas se encontravam.
- Você deveria contar pra ele. – larguei os pratos em cima da pia – Ele merece saber.
- Eu sei, mas não agora.
- Que melhor hora do que agora? – meu pai colocou o resto da louça em cima do balcão – Você acabou de perdoá-lo pelo o que ele fez com Sansa, fica mais fácil dele te entender.
- Exatamente por isso que eu não quero contar. – olhei para ele – Olha o que eu fiz com ele, pai! Eu o torturei por semanas pelo o que ele fez com Sansa, quando o que eu fiz nem chega a se comparar. Se eu falar, ele nunca mais vai olhar na minha cara, e eu não quero isso. Eu gosto muito dele, não quero perdê-lo outra vez.
- Se você acha que é o certo a fazer.
- Eu acho. Vou esperar a poeira baixar um pouco aí sim eu conto. – dei uma pausa – Não pense que só porque eu não contei que isso não me mata por dentro. Na verdade, está me corroendo, mas agora não é a hora certa.
- Não estou julgando, só acho que ele precisa saber.
- Saber do quê? – apareceu atrás de nós. Olhei para o meu pai assustada – Quem precisa saber do quê?
- Marcus. – olhei confusa para ele – Precisa saber que eu quero que se mude pra Londres.
- O quê? – nós dois falamos – Por quê? – completou.
- Ah, agora que eu tenho a Charlie, queria que ficasse um tempo aqui para conhecê-la melhor. – olhei para ele – Uns meses, talvez.
- Mas tem as crianças do hospital, não é? E Marcus.
- E você também né, seu bobo. – falei, andando até ele. Coloquei meus braços ao redor do seu pescoço e ele sorriu, colocando os seus ao redor da minha cintura – Acho que a gente já passou tempo demais separado, você não acha?
- Eu tenho certeza. Agora não tem quem me faça ficar sem você. – ele deu um beijo estalado na minha bochecha.
- Isso seria tão bonito se você não fosse minha filha. – meu pai fez uma careta – Você dois deveriam ir, já está tarde.
- Claro, papito. – respondi me soltando de – Vou só ver se Charlie ainda precisa de ajuda. – saí da cozinha e fui em direção à sala de jantar – Quer ajuda?
- Não precisa, hoje é o dia do seu pai lavar a louça, ele tira. – ela disse olhando pra mim – Olha, , eu quero te dizer que eu tenho as melhores intenções com seu pai. Ele é um cara incrível, um dos melhores, quero que você saiba que eu gosto muito dele.
- Você fala como se eu fosse a mãe dele. – me aproximei dela – Meu pai tem todo o direito a felicidade e, se a mesma é com você, quem sou eu pra impedi-los? Se vocês se amam do jeito que eu acho que vocês se amam, eu apoio de todo o coração. Eu sei que eu tenho uma cara meio de enjoada e ele já deve ter te contado o que eu fiz, mas eu só quero o melhor pro meu pai. E sem falar que vocês formam o belo casal.
- Eu não te julgo pelo que aconteceu.
- Acho que não precisa, eu já faço isso diariamente. – abaixei a cabeça e depois olhei para ela novamente – Quando forem à Califórnia, nós podemos fazer o jantar no apartamento do .
- Eu iria adorar.
- Pensei que você tinha vindo ajudar Charlie a tirar o resto da mesa. – virei-me para trás e vi meu pai e .
- Isso foi antes de descobrir que é a sua vez de lavar a louça.
- Charlie! Eu ia fazer fazer metade do trabalho.
- Acho que não foi dessa vez. – parei ao lado do , entrelaçando nossas mãos – Vamos?
- Claro. Obrigada pelo jantar, foi realmente muito bom. – andamos até a porta.
- Vamos ver se você cozinha tão bem quanto eu, hein ?! – meu pai abriu a porta.
- Isso aqui não é master chef, pai.
- Você é que pensa.
- Tchau, pai. – abracei-o forte – Vou sentir saudades.
- Eu também, pirralha. Lembre-se que tem pai. – ele me soltou – E você, cuide da minha filha.
- Tchau, Charlie. – abracei-a também – Foi um prazer te conhecer, obrigada pelo jantar.
- Sempre que quiser vir, pode avisar. – ela me soltou – Foi um prazer. – andamos até a porta e eu dei um último abraço em meu pai.
- Se cuida, velhote. – falei andando até o elevador.
- Respeito, pirralha. – ele gritou antes que eu entrasse no mesmo.
- Eu não disse que ia dar tudo certo?
- Ainda bem. Charlie é uma mulher incrível e eles fazem um casal muito lindo, você não acha?
- São mesmo. – ele passou o braço por meus ombros – Mas nós dois somos mais. – saímos do elevador, nos despedindo do porteiro.

Tudo estava correndo bem, as coisas finalmente pareciam estar no caminho certo. Exceto o fato do que não só meu pai, mas também Marcus, insistirem para que eu contasse a verdade para . Não era que eu não quisesse, eu queria, mas só não agora. Ou talvez eles estivessem certos e fosse melhor contar logo tudo de uma vez.
- , eu tenho que falar uma coisa com você.
- Pode falar.
- É que é mais complicado do que parece, porque eu tenho certeza de que quando eu te contar, eu tenho uma grande chance de te perder.
- Você está me assustando.
- , há alguns anos eu... – meu celular começou a tocar – Eu não acredito! – peguei o celular no bolso e vi que Marcus ligava. Tinha pelo menos umas dez mensagens só dele. – O quê? – perguntei irritada.
- Nossa, que humor do cão! – Marcus disse do outro lado da linha – Nós temos que voltar pra casa, deu um problema na empresa e eu preciso que você me ajude.
- Com o quê, Marcus? Eu não sei nada sobre arte.
- Meu chef pediu pra eu fazer uma propaganda pra promover a galeria, mas eu esqueci totalmente. Eu preciso apresentar isso daqui dois dias.
- Você quer que eu faça uma propaganda pra uma galeria em dois dias?
- Ah, , por favor. A gente faz tudo no avião, já vi você fazer muita coisa com prazo mais curto. – soltei o ar pela boca. Tudo bem que eu queria ficar em Londres, mas nada iria mudar se eu voltasse pra Califórnia agora. Ou iria?
- Tudo bem.
- Eu vou ver se consigo nos colocar em um voo pra Califórnia ainda hoje. Muito obrigada, ! Eu te amo.
- Tchau, Marcus. – desliguei o telefone, colocando-o de volta no bolso. me olhava confuso com as mãos no bolso – Eu vou ter que voltar pra Califórnia hoje.
- Hoje? Mas por quê?
- Marcus teve um problema no trabalho e precisa da minha ajuda.
- Você não pode ajudar daqui?
- Nós dois sabemos que isso seria impossível. – aproximei-me dele, colocando meus braços ao redor do seu pescoço – Você não pode vir com a gente?
- Não, nós vamos amanhã pro interior, pra casa de uma tia. Ela não pode viajar porque está presa no trabalho. – ele passou os braços por minha cintura – São só dois dias, dá pra aguentar.
- É mesmo. O que pode acontecer em dois dias?


Capítulo 14

Por

Os dois dias que nós tínhamos planejado ficar separados se transformaram em uma semana. Minha avó teve a brilhante ideia de visitar alguns parentes na Itália, porque eles estavam loucos pra ver Sansa. Engraçado, quando Sansa estava no hospital nenhum deles teve a decência de visitá-la; sei que eu não estava muito atrás, mas de certo modo eu tinha um motivo. não ficou chateada com isso, apenas disse que esperava que eu voltasse logo porque estava com saudades. Pode apostar, ela não era a única.
Óbvio que quando eu coloquei os pés no meu prédio, antes mesmo de abrir a porta de casa, eu bati em sua porta apenas pra encontrar uma com cara de sono e o cabelo bagunçado. Ela esfregou os olhos e depois sorriu pra mim, jogando os braços ao redor do meu pescoço.

- Seria muito carente da minha parte dizer que eu senti sua falta? – ela disse, sussurrando em meu ouvido.
- Não, porque eu senti a sua também. – falei, me separando dela pra poder beijá-la.
- Eu devo estar com uma cara péssima. – ela falou, colocando as mãos no rosto – Rose pediu minha ajuda pra treinar a nova estagiária, fiquei no hospital até quase hoje de manhã.
- Está mesmo. – falei e ela olhou pra mim incrédula.
- Idiota! – ela deu um soco em meu braço e se separou de mim – Onde está Sansa?
- Decidiu se mudar de vez pra casa dos nossos avós por parte de mãe. Segundo ela, prefere ter uma vida sem todo esse luxo.
- E sua avó aceitou isso?
- Você sabe como Sansa é, sempre consegue as coisas que quer. Sansa merece um pouco de paz, depois de tudo que aconteceu.
- E como merece. – ela cruzou os braços – Eu vou tomar banho, pode ficar à vontade. – ela começou a andar em direção ao corredor.
- Não quer companhia?
- Não, senta aí e me espera, . E nada de gracinhas, viu?! – ela desapareceu no corredor e eu me joguei no sofá, ligando a tv. Não demorou muito pra eu escutar o barulho de chave na porta e logo depois Marcus e Fred entrarem no apartamento aos beijos. Pigarreei alto, mas os dois pareceram não me escutar, até que liguei a televisão no último volume e os dois pularam para lados oposto.
- Porra, ! Que merda você está fazendo aqui? – Fred falou, se virando pra mim.
- Devo lhe fazer a mesma pergunta, já que você disse que ia ver os preparativos da festa.
- Nós dois sabemos que isso era mentira, claro que eu vim ver Marcus. – Fred rolou os olhos – Pelo menos pra alguma coisa serviu meu pai não vir pra esse baile idiota.
- Baile idiota? – Marcus perguntou.
- É, uma festa anual da empresa pra comemorar as metas alcançadas. Esse ano a filial daqui bateu a meta antes das outras, então eles ganharam uma festa.
- E você já falou com a ?
- Não.
- Por que não?
- Porque eu não vou, prefiro ficar com ela.
- Mas você não pode ficar com ela lá na festa?
- Marcus, por que o interesse? – cruzei os braços.
- Não, por nada. – ele deu de ombros.
- Você estragou tudo, . – Fred falou, me olhando furioso.
- O que foi que eu fiz?
- Fica calado. – ele se virou pra Marcus – Eu ia fazer isso depois, mas certas pessoas estragam tudo – ele se virou pra mim – então, você quer ir pra festa comigo? A gente pode ir jantar antes, se você quiser.
- Claro que eu quero. – ele sorriu e depois olhou pra mim – Você tem que levar a também.
- Me levar pra onde? – apareceu na sala com os cabelos molhados – Fred, não sabia que você vinha. – ela andou até ele, o abraçando – Vocês vieram juntos? – ela perguntou, andando até mim e parando ao meu lado.
- Sim.
- Então, do que vocês estavam falando?
- Da festa que vai ter hoje lá na empresa, onde deveria ir, mas se recusa.
- Por quê? – ela olhou pra mim.
- Prefiro ficar com você. – passei o braço por seus ombros. Ela sorriu, dando um beijo na minha bochecha.
- Ele tem realmente que ir? – ela perguntou olhando pra Fred.
- Tem.
- Se o problema é passar mais tempo comigo, eu vou com você.
- Sério? Eu pensei que depois desses dias separados a gente podia passar um tempo sozinhos, só nós dois.
- Claro, eu faço o esforço de colocar um salto e um vestido. – ela me abraçou pela cintura.
- Que lindo. – Marcus disse, andando até a porta – Agora , dá pra você levar a pro seu apartamento?
- Por quê? – olhei pra ele confuso e começou a rir.
- Vamos, amor. – ela pegou na minha mão, me arrastando até a porta – Vê se não quebrem nada você dois. – ela disse antes de sair do apartamento.
- Faço das suas palavras, as minhas. – Marcus fechou a porta soltando um ‘finalmente’. Peguei a chave de dentro do bolso e abri a porta, passou por mim parando no meio da sala.
- Engraçado que você sempre passou tanto tempo no meu apartamento e eu quase nunca vim no seu. – ela se virou pra mim – Só daquela vez que você estava na cama, algemado, e aquelas garotas roubaram você e o seu amigo.
- Quando você sujou meus lençóis com seus tênis sujos. – andei até ela, colocando as mãos em sua cintura.
- Já ouviu falar em lavanderia, ? Nunca é tarde pra usar. – ela passou os braços pelo meu pescoço, me dando um selinho – Então, o que você quer fazer?
- Não sei, não planejei nada, eu só quero ficar com você. – eu falei, vendo-a sorrir.
- Você tem pipoca?
- Acho que deve ter alguma na dispensa, por quê?
- Coloca no micro-ondas. No seu quarto tem televisão?
- Tem.
- Tá certo. – ela se separou de mim e foi em direção ao corredor.
- Ei, pra onde você vai?
- Vou conectar no Netflix. Se prepara, , que hoje nós vamos fazer programinha de casal.
- Programinha de casal?
- É. – ela andou até mim, passando os braços pelo meu pescoço – Você sabe, coloca um filme meloso, comer uma pipoca, dar uns amassos e essas coisas. Você nunca fez programa de casal?
- Nunca fiquei com uma menina por mais de uma noite.
- Nem quando você era mais novo?
- Não, eu nunca fui do tipo que namorava.
- Hum, mas agora vai aprender, lindinho. – ela me deu selinho e saiu – Estou te esperando no quarto e não esquece da minha pipoca.

Se algum dia alguém me dissesse que passaria uma tarde inteira jogado na cama, alternando entre dar uns amassos e assistir filmes melosos com uma garota, eu provavelmente gargalharia alto. Só que foi exatamente isso que nós fizemos, trazia esse lado romântico que eu nem sabia que eu tinha, e mesmo que eu não quisesse admitir, fazer programinha de casal não me parecia uma má ideia se toda vez fosse com ela.
Era noite quando nós decidimos nos levantar da cama, pode ter certeza que teve muito protesto da minha parte. jogou um terno que estava no meu guarda roupa na minha cara, antes de sair do meu quarto anunciando que ia pra casa tomar banho e se arrumar. Fred entrou no meu apartamento tempo depois, anunciando que também ia se arrumar, claro que depois dessa eu tive que fazer o mesmo.
Acho que fazia muito tempo que eu não me sentia assim tão completo e feliz. Eu finalmente tinha enfrentado os meus medos – não dá melhor forma possível, mas mesmo assim – e estava tentando ao máximo compensar, não só Sansa, mas também por todo o tempo perdido. Claro que eu insisti para Sansa vir morar comigo, mas ela insistiu que eu não precisava fazer isso, que preferia morar com nossos avós. E disse também que já havia me perdoado e que entendia um pouco a minha falta de responsabilidade com ela depois do acidente, até dizia que isso a tinha feito mais forte do que nunca. Agora imagina, uma pirralha de 12 anos, que quase não saiu das fraldas, falando como se fosse gente grande e mandando eu ir atrás da pessoa que mais precisava escutar as minhas sinceras desculpas.
Não era que eu não quisesse. Na verdade, o perdão de era a coisa que eu mais queria no mundo. Mas vamos combinar, era cabeça dura e não iria me perdoar assim tão fácil.

- Por isso que você tem que contar tudo pra ela, . – Sansa falou, enquanto eu me arrumava para ir ao encontro do Anastasia, uma velha amiga.
- E você acha que é fácil chegar perto da ? Sansa, aquela mulher mata só com um olhar. Ainda mais depois de tudo.
- Você é mais frouxo que as calças que você consumava usar.
- Você fala isso porque não foi você que abandonou a irmã sozinha em um hospital.
- Mas você voltou, não voltou? – olhei para ela.
- Não por conta própria, você sabe. – disse a ela – Desculpe por isso.
- , se as suas desculpas fossem dinheiro, dava pra eu dar entrada em um carro, a essa altura. – ela segurou meu rosto – Eu sei por que você não voltou, foi a mesma razão pela qual eu não perguntava por você: medo. Acho que é de genética, sabe? Papai tem, mamãe tinha, até a nossa avó tem dentro daquele buraco negro que ela chama de coração.
- Sansa!
- Vai me dizer que você não a detesta nem um pouquinho?
- Na verdade, mais do que eu deveria. – me levantei e ela se levantou também, me abraçando pela cintura.
- Eu não te odeio. Claro que eu odiei por um tempo, mas acho que o tempo foi passando e eu fui entendendo aos poucos o seu lado. Principalmente, o que eu vi naquele Natal. – ela falou com a voz chorosa.
- Ah, baixinha! – me abaixei, dando-lhe um abraço – Eu vou atrás dele, tudo bem? Prometo que dessa vez seremos uma família.
- Mas a nossa avó...
- Pode vir quem vier, mas nós vamos ser uma família de novo. E se a quiser, ela pode fazer parte também.
- e se beijando debaixo de uma árvore.
- Algo assim.


E aqui estava eu, com o peito aliviado, porque, pela primeira vez, minha vida estava entrando nos eixos. Eu sei que pode parecer pessimista da minha parte, mas tudo estava bom demais pra ser verdade, de certa forma eu estava esperando apenas o momento certo pra algo ruim acontecer.
Escutei vozes vindo da sala, anunciando que todos já estavam lá.

- Finalmente, , pensei que você tinha descido pelo ralo. – Marcus disse, se levantando – Posso só comentar que amo boca livre? – deu um tapa no braço de Marcus e o repreendeu dizendo:
- Marcus! Cadê os modos que sua mãe te ensinou?
- Deixei pelo caminho à medida que fui ficando mais velho. – ele andou até a porta, com Fred logo atrás. estava de braços cruzados, balançando a cabeça.
- Um dia ele me mata de vergonha. – coloquei as mãos em sua cintura, puxando-a para perto – Você está linda.
-Aposto que você fala isso pra todas.
- Mas nenhuma delas tem meu coração como você tem. – ela sorriu, colocando os braços ao redor do meu pescoço.
- Pra quem nunca namorou, você bem que sabe ser meloso.
- O que posso dizer? Você traz o meu lado romântico.
- Dá pra vocês dois virem logo?! – Marcus apareceu na porta – Vocês fazem sexo louco quando voltarem.
-Ai meu Deus, Marcus! – ela colocou as mãos no rosto – Eu vou te matar, sua borboleta de purpurina!

Marcus foi o caminho inteiro de chamego com Fred, enquanto eu fui obrigado a ir no banco da frente do lado do motorista, já que eu tinha mais tempo com a do que Marcus teria com Fred. não protestou, segundo ela, depois que Fred apareceu, Marcus está até mais feliz e ela jura que nunca viu ele assim, nem com seu ex-namorado, com o qual ela jurava que ele ia casar.
Eu podia ter ido o caminho inteiro sem ela ao meu lado, mas isso não significava que eu não passei o caminho inteiro olhando para ela.

- Parece que sua empresa reflete a sua família: adora uma festa de arromba. – falou ao meu lado.
- Mas nada se compara na festa que eu tenho planejada pra nós dois. – sussurrei em seu ouvido, vendo me olhar incrédula.
- Eu juro que eu vou te matar! – ela disse, dando um tapa em meu braço – Você só pensa nisso?!
- É a única coisa que eu consigo pensar com você nesse vestido.
- Tarado!
- Gostosa! – ela riu, balançando a cabeça. Logo seu sorriso desapareceu quando ela olhou pra frente – A Anastasia também veio com vocês? – ela perguntou, olhando pra mim.
- Não, não sabia que ela vinha. – respondi, vendo Anastasia acenar para nós – Ela trabalha na filial de Londres, pode ser que minha avó tenha pedido pra ela vir como representante.
- Ou ela deve ter se oferecido, já que ela sabe fazer isso muito bem.
- Pensei que vocês eram amigas.
- Éramos, no passado, eu não falo com Anastasia desde o colégio.
- E por que isso?
- Eu tive que mudar de colégio. – senti que ela ficou tensa, abaixando a cabeça.
- Ei, você pode contar comigo, ok? – ela levantou a cabeça, olhando pra mim – Eu vou sempre estar aqui.
- Eu sei, e eu quero te contar.
- É a mesma coisa que você estava tentando me contar em Londres?
- É, mas vamos mudar de assunto? Isso aqui é uma festa, então que tal a gente ir dançar? – ela me puxou para a pista de dança.
- Eu não gosto de dançar.
- Ah, , nós dois sabemos que você pode fazer estrago com esses quadris.
- Assim não tem como eu recusar. – fiz ela rodopiar, segurando-a pela cintura depois.
- Pensei que você tinha dito que não sabia dançar.
- Eu não gosto, não quer dizer que não fui obrigado a dançar com todas as minhas primas em suas festas de debutante.
- Fiquei até com um pouco de pena de você. – ela se aproximou do meu ouvido e disse: – Ou não.
- Você é muito malvada.
- Você não imagina o quanto. – ela soltou minha mão e passou os braços por meu pescoço, me dando um selinho – A gente tem que ficar muito tempo nessa festa? – olhei pra ela confuso – Não é que eu não gosto de festas, mas é que eu queria ficar com você. Só com você.
- Se fosse só você... – puxei-a pra perto, sussurrando em seu ouvido – Não vejo a hora de tirar esse vestido.
- Você é muito tarado, sabia? – ela deu um tapa em meu braço.
- E a culpa é minha? Você faz isso comigo.
- Eu que não quero entrar em detalhes nas coisas que você faz comigo. – eu sorri, me aproximando dela pronto para beijá-la, só que antes que eu pudesse tocar seus lábios alguém pigarreou alto. Olhei para o lado, vendo Liv, uma das sócias da empresa. Liv era uma senhora nos seus quarenta anos que era uma das amigas da minha avó, a única que eu consigo aguentar. Ela era diferente das outras, em vez de arrumar um marido que fizesse tudo, ela entrou na faculdade de Direito e lá conheceu sua parceira nesses últimos anos, Jessy.
- Será que eu posso ter essa dança? – ela perguntou olhando para nós dois. olhou pra mim, se afastando.
- Claro. – ela disse – Eu vou ficar com os meninos.
- Não se preocupe, querida, o aqui não faz o meu tipo, mas você sim. – arregalou os olhos e ficou vermelha.
- Oh, com licença. – ela me deu um sorriso e saiu à procura dos meninos.
- Sua namorada é muito bonita. – ela disse, segurando minha mão enquanto eu colocava a outra na sua cintura.
- Eu sei. – respondi olhando pra ela, que me olhou com os olhos arregalados – O quê?
- Você não negou.
- Negou o quê?
- Quando eu a chamei de namorada, você não negou.
- Mas ela é. Tecnicamente eu ainda não conversei com ela sobre isso, mas eu não quero mais ninguém.
- Nossa! Eu nunca pensei que viveria o dia pra te ver falando de um compromisso sério com uma mulher.
- É, eu também nunca pensei que hoje você estaria casada e em processo de adoção do seu segundo filho.
- Parece que nós dois crescemos, hein?!
- Parece que sim. – Liv olhou pra mim e nenhum dos dois conseguiu segurar a gargalhada. Nós éramos amigos desde que eu entrei na empresa, costumávamos sair nos sábados juntos atrás de mais uma noite sem compromisso, até que ela conheceu Jessy e me abandonou. Em menos de dois anos, elas estavam morando juntas e adotando a sua primeira filha.
- Essa é aquela garota do seu prédio?
- Ela mesma. – Liv sabia de tudo da minha vida, não tinha uma coisa que eu não contasse pra ela. Quando eu contei pra ela sobre , ela disse que ela fez certo e que deveria ter dado um soco no meio da minha cara.
- E vocês estão de boa?
- Eu contei tudo pra ela.
- Tudo mesmo?
- Não deixei nada de fora. – olhei pra , que ria com Marcus e Fred – Eu estou apaixonado por ela, isso me assusta.
- Pelo o jeito que ela te olha, o sentimento é recíproco.
- Mas falta alguma coisa, sabe? Eu sinto que ela está me escondendo algo.
- Ou talvez você só esteja paranoico. Você tem que admitir, é a primeira vez que eu te vejo realmente feliz em anos. Acho que você está tão acostumado a viver na miséria que procura defeito na felicidade.
- É, acho que você está certa.
- , meu favorito. – Anastasia apareceu bêbada ao meu lado, cambaleando e com um copo na mão.
- Anastasia, você está bem? – me separei de Liv.
- Eu estou ótima, você não vê? – ela abriu os braços, ainda cambaleando pros lados.
- Você está bêbada. – falei, segurando-a pela cintura.
- Acho melhor você tirar ela daqui. Eu falo pra sua namorada.
- Tudo bem. Vamos, Anastasia, eu vou te tirar daqui. – peguei um dos braços dela e passei por meus ombros. Andei até o corredor do banheiro, onde eu sabia que tinha alguns bancos espalhados.
- Ai, , você sempre foi tão bom comigo. – ela me abraçou pelo pescoço – Você sempre foi tão bom com todo mundo, mesmo que a única coisa que as pessoas conseguissem ver fosse a sua fama de mulherengo. Você tem o melhor coração do mundo.
- Obrigado, eu acho.
- É por isso que a não te merece.
- Anastasia, você não sabe nada do meu relacionamento com a .
- E você não faz ideia de quem é a de verdade, se você soubesse, não a veria com os mesmos olhos. – coloquei-a sentada em um banco e me afastei dela – Ela não é o anjo que você imagina.
- Anastasia, você está bêbada.
- Claro que estou, você está aqui com ela e não comigo. Ela não te merece, ! Eu, sim, eu te mereço.
- Anastasia, supera, sem ou não, eu nunca vou ficar com você.
- Tem certeza?
- Tenho. – virei-me de costas pra ela, tentando voltar para o salão.
- Então você não se importa com o fato dela ter matado a própria mãe? – parei de andar no mesmo instante – Vejo que ela não lhe contou nada sobre o passado tenebroso dela. – virei-me para ela – Eu posso não saber nada sobre o seu relacionamento, mas eu conheço a , e ela é uma assassina.


Flashback (terceira pessoa)

- Era a final do campeonato e como era mais do que esperado, o time da casa havia ganhado. Os piratas tinham roubado o título dos guerreiros e finalmente tinham acabado com a rixa que habitava entre os dois times rivais durante todos esses anos. Obviamente eles não teriam conseguido isso sem o seu pirata favorito, o comandante do navio, Erick James. O típico garoto popular que namorava a chefe das líderes de torcida, que segundo ele era a principal razão para seu sucesso. Sem seu apoio, ele provavelmente não seria ninguém.
E o que falar da garota mais encantadora que todo o colégio já vira e adorava? era a típica garota que parecia ter saído de um desses comerciais de absorvente, sempre feliz e sorridente, matando todas as garotas de inveja por sempre ter tudo o que queria.
O capitão não lhe dava bola? Ela lutou até que ele desse, e quando deu, não tinha cara que não quisesse estar no lugar dele. Não era capitã das líderes de torcida? Lutou com todas as garras até chegar no topo. Ela não era o tipo de pessoa que desistia, na verdade, ela não aceitava um não como resposta. Muitos diziam que ela era determinada, outros, mimada. Não tinha uma garota naquela escola que não desejasse ter a vida que ela tinha. Tudo parecia perfeito. E quem não queria uma vida perfeita?

- Anastasia! – vinha gritando, pendurada nas costas do namorado. Já eram quase três da manhã e ela já estava mais do bêbada – Anastasia, a bebida acabou! – ela pulou das costas do namorado e parou na frente da amiga.
- E o que você quer que eu faça?
- Compre mais? – falou como se fosse óbvio.
- Você não acha que é melhor você ir pra casa?
- Briguei com minha mãe, melhor não.
- Então você veio afogar as mágoas na bebida?
- E comemorar, claro.
- , vai pra casa! É melhor. – a amiga aconselhou. Anastasia sabia o que acontecia quando exagerava na bebida, ainda mais depois de uma das brigas da mãe, que se tornaram constantes depois que a garota decidiu viajar por um ano em vez de ir pra faculdade.
- Mas que saco! Eu não quero!
- É melhor você ir.
- Eu vou, mas eu vou é comprar mais bebida. – ela pegou na mão de Erick – Vamos, Erick.
Anastasia seguiu até a porta, onde parou no mesmo instante a ponto de ver a mãe da garota.
- , casa agora! – havia puxado a mãe no quesito beleza e também no mandona.
- Não.
- O quê? Eu acho que eu não ouvi direito.
- Você ouviu direito, sim.
- Eu sou sua mãe, você vai me obedecer.
- Hoje não. – ela puxou Erick, passando direto por sua mãe.
- Entra nesse carro agora.
- Não. E com licença que eu tenho que comprar bebida.
- Olha o jeito que você fala comigo.
- , você não acha que deveria ir com sua mãe? – a garota olhou incrédula para o namorado.
- Até você, Erick? – ela se virou pro namorado – Tudo bem, pode ficar, eu vou sozinha. – andou em passos largos até o carro, procurando a chave dentro da jaqueta. Abriu o carro e se jogou dentro do mesmo a ponto de ver sua mãe parar ao lado do carro.
- Você não vai dirigir nesse estado.
- Você que apostar? – ela disse, vendo sua mãe entrar no carro – Sai desse carro agora.
- Não até você me dar as chaves.
- Então aperta o cinto que nós vamos dar uma volta. – a garota arrancou com o carro, fazendo com que sua mãe se segurasse no painel.
- , para esse carro.
- Não. Ops, sem as mãos. – a garota tirou as mãos do volante.
- ! Pelo amor de Deus, para esse carro.
- Não.
- Para esse carro pra gente conversar.
- Não.
- Para esse carro agora! – olhou para sua mãe e freou o carro de uma vez. A situação entre as duas tinha piorado conforme a menina crescia, sentia essa enorme vontade de crescer e de conhecer o mundo, enquanto sua mãe tinha outros planos para ela. As brigas constantes entre as duas pioraram quando a garota disse que iria sair de viagem durante um ano antes de ir pra faculdade. Sua mãe, claro, ficou uma fera, esperava que a filha fosse trabalhar junto com ela. Os três mosqueteiros, era assim que costumavam se chamar. – Eu sei que você está chateada, mas você tem que entender, querida, nós só queremos o melhor pra você.
- Às vezes o que é melhor pra você, não é o melhor pra mim.
- E você acha que eu não sei? Ver você crescer e tomar o rumo que você mesma está traçando assusta.
- Então você vai me deixar viajar por um ano?
- Vou. – ela soltou um grito – Sua avó já está providenciando tudo.
- Eu não acredito que você colocou aquela jararaca no meio.
- Ela é sua avó! Mostre um pouco de respeito.
- Não dá quando estamos falando da encarnação do demônio. – ela olhou para a mãe – Eu sabia. Mas é claro que eu sabia. – ela ligou o carro novamente – Óbvio que você ia colocar a vovó nisso, aquela megera que você chama de mãe.
- ! – a garota arrancou com carro novamente – Sua avó pode providenciar tudo que você quiser.
- Será que a senhora não entende que eu não ligo pra conforto? Eu quero viajar com meus amigos, com o dinheiro que eu juntei, sem ser a filha e neta de duas milionárias. Será que é difícil entender?
- Você é que não entende nada, quer tudo seja feito do seu jeito. Você é muito mimada.
- Mimada? Se eu sou mimada a culpa é sua! – foi por um segundo, e foi tudo que precisou para que um motorista bêbado avançasse o sinal e ela perdesse o controle do carro.


End flashback



- A sua querida matou a própria mãe. – Anastasia se levantou – Me pergunto até se ela não fez de propósito, já que a mãe sempre tentava controlá-la a cada passo que ela dava. sempre foi um espírito livre, muito independente e desapega de tudo. Eu sempre avisei que esse hábito dela de beber tudo o que tinha e o que não tinha a levaria pra um lugar que ela não queria. – ela olhou pra mim – Eu estava certa afinal, na verdade, eu sempre estou. A não é o anjinho que você pensa que ela é, na verdade, ela é um leão em pele de cordeiro que se faz de boa moça antes de dar o bote.
- Você está mentindo.
- Eu realmente gostaria que isso fosse verdade, que eu estivesse mentindo, mas não estou. A vergonha foi tanta que ela mudou de colégio, mudou até de cidade e a última vez que eu escutei falar dela foi quando o juiz lhe deu um serviço comunitário.

Eu estava em pleno estado choque. Abri a boca umas, duas ou três vezes, mas nenhum som saiu. Minha mente tentava processar o máximo de informação, mas a única coisa que eu consegui pensar foi o quão mal ela me tratou depois que descobriu o que eu fiz com Sansa, o quanto eu sofri pelo seu perdão, sendo que de certa forma ela deveria entender a minha dor. Ela sabia que eu não tinha feito de propósito, ela sabia que eu só não fui atrás de Sansa antes por vergonha do que eu tinha feito e ainda assim ela ainda fez com que eu me sentisse pior do que eu deveria, me fez pensar que ela era alguém quando na verdade ela era tão culpada quanto eu.
Então foi quando a raiva tomou conta. Todo esse tempo eu achava que era muito boa pra mim, que eu poderia nascer de novo e não merecê-la, quando na verdade ela era exatamente o que a Anastasia disse: um leão em pele de cordeiro.
- . – escutei sua voz de longe, até cheguei a pensar que fosse coisa da minha cabeça, mas logo a voz se repetiu de novo: – , está tudo bem?
- Me diga você, , está tudo bem? – me virei para ela – Olha pra mim e me diz se eu estou bem! – eu gritei.
- , o que foi que aconteceu? – ela andou até mim, colocando as mãos em meu rosto.
- Tira as suas mãos sujas de sangue de mim. – tirei suas mãos de meu rosto, me afastando – Eu sempre pensei que você era boa demais pra mim, que eu poderia passar a minha vida inteira te pedindo perdão e mesmo assim eu não seria merecedor de você. Só que a vida me mostrou que talvez eu não queira seu perdão e talvez eu não mereça mesmo ficar com você.
- , você está me assustando. O que foi que aconteceu?
- Você aconteceu! Você é uma mentirosa, uma manipuladora, uma assassina, fica se fazendo de boa moça quando na verdade seu pecado é muito pior. Você é muito pior!
- , do que...
- Você matou sua mãe! – gritei, vendo-a arregalar os olhos – Você estava dirigindo bêbada com ela no carro. Vai me dizer que isso é mentira?
- ... – sua voz falhou – , eu ia te contar.
- Quando, , quando? Porque se não fosse por Anastasia, eu poderia casar com você e você nunca ia me contar o que fez.
- Eu queria te contar, eu tentei te contar, mas eu tive medo de te perder...
- Medo de me perder? Você acha que eu não tive medo quando eu fiz o que fiz com Sansa? Você acha que eu não me culpei todo dia? Quando você descobriu a verdade, você só me fez sentir pior do que eu já me sentia. Você me fez sentir pior do que nada.
- ...
- , você não teve nem a decência de tentar me entender, você me fez de idiota e me fez de saco de pancada todo esse tempo. Vem cá, o jeito que você me tratou foi um jeito que você achou pra fazer você se sentir melhor?
- Mas é claro que não, eu não queria te machucar! – ela se aproximou de mim, segurando em meu rosto, e eu pude ver que ela chorava também.
- Mas machucou, e muito.
- Tenta me entender, . Eu não queria te perder, eu te amo tanto.
- Não vai adiantar, , você já me perdeu. – tirei suas mãos de meu rosto.
- Eu posso explicar. A gente pode tentar, a gente...
- Não, , a gente não pode mais nada, porque a gente não existe mais. Não dá pra continuar desse jeito.
- ...
- Eu te machuco, aí você me machuca. Você acha que isso é um relacionamento saudável?
- É só mais um obstáculo, a gente vai superar isso. – ela disse, limpando as lágrimas.
- Acho que o pior não foi nem a mentira, eu entendo, eu fiz o mesmo, mas foi o jeito que você me tratou como se eu não tivesse nem o direito de me arrepender porque não adiantaria, porque minha passagem pro inferno já estava comprada. , você acabou comigo.
- , por favor...
- Não, , quem não quer te escutar agora sou eu. Eu não quero te ver nunca mais.


Capítulo 15

Por


Respirei fundo, me olhando no espelho mais uma vez. Meus olhos ainda estavam vermelhos e a falta de sono estava visível em forma de olheiras. Uma semana se passou desde o incidente da festa. Marcus e Fred me encontraram chorando e soluçando alto e decidiram me trazer pra casa, porém bastou apenas a menção do nome dele pra que eu chorasse ainda mais, então Marcus já sabia o que tinha acontecido. Não foi muito difícil de juntar os pontos, Anastasia estava se gabando por finalmente mostrar ao quem eu era de verdade. Fred teve que segurá-lo, para que ele não voasse no pescoço dela.
Desde então eu me tranquei no meu quarto, esquecendo que o mundo lá fora ao menos existia. Eu sabia que o que eu tinha feito não tinha sido certo, Deus sabe o quanto eu me culpei por conta do acidente com minha mãe, não teve um dia que eu não pensasse nela e em como seria nossas vidas, se eu tivesse ido pra casa com ela. Minha vida a partir dali virou uma série de "E se...". E se eu tivesse obedecido ela? E se eu não tivesse bebido tanto? E se eu tivesse escutado ela? E se eu não fosse tão mimada? E se, e se...
Hoje eu tinha criado coragem e tinha decidido ao menos tentar conversar com . Eu sabia que ele tinha todo o direito de estar chateado comigo, porém eu também sabia que eu tinha o direito de me explicar. Eu tinha dado outra chance a ele quando estávamos em Londres, escutei tudo que ele tinha falado sobre Sansa e o acidente, era mais do que justo que ele me escutasse também. Marcus achava que não era uma boa ideia, que ele precisava de espaço e tempo pra absorver tudo, mas eu sabia que se eu fizesse isso teria uma boa chance de perdê-lo para sempre.
Passei pela sala, vendo que Marcus não estava lá, ele provavelmente me impediria de fazer o que eu estava prestes a fazer. Abri a porta do meu apartamento, respirando fundo e batendo na porta do apartamento da frente.
- , sou eu, . – bati na porta, não obtendo resposta – , por favor, abre a porta! – bati na sua porta – , me deixa explicar. Eu preciso que você me deixe explicar.
- Ele não está em casa - virei meu rosto para o lado - Ele está em Londres. – vi meu pai andando em minha direção – Eu encontrei com ele e quando perguntei de você, ele me ignorou. – ele parou ao meu lado – , o que foi que aconteceu? Até uns dias atrás vocês estavam no maior clima de apaixonados.
- Ele descobriu tudo. – respondi, vendo minha voz falhar e logo depois as lágrimas caírem. Meu pai me puxou pra perto, me abraçando forte.
- Você contou pra ele?
- Não, ele descobriu sozinho. – me afastei dele.
- Como ele descobriu?
- Anastasia contou pra ele. – entrei em casa com meu pai logo atrás. Sentei no sofá, vendo-o fechar a porta e sentar-se ao meu lado – Ela ficou bêbada e contou tudo pra ele.
- Anastasia? Sua ex melhor amiga Anastasia?
- É, aparentemente ela trabalha para os e se apaixonou por ele. – olhei para ele – Ele me odeia, pai.
- , isso não é verdade.
- É sim, pai, e eu não tiro a razão dele disso. Eu sou uma pessoa horrível, eu tirei a pessoa que você mais amava no mundo, porque eu era uma pirralha mimada.
- , você sabe que isso não é verdade. Não foi você que estava dirigindo um carro bêbado e avançou o sinal, foi o outro motorista, lembra? Às vezes eu acho que você esquece que isso não foi sua culpa.
- Mas foi! – falei um pouco mais alto – Se eu não tivesse entrado naquele carro nada disso tinha acontecido, se eu não tivesse inventado de tirar um ano viajando nós não brigaríamos tanto e ela estaria com a gente agora. Isso tudo é culpa minha!
- Você não deveria se martirizar por coisas na qual você não tem controle.
- Mas eu tinha controle, pai.
- , você não é Deus. – ele me puxou pra perto – Eu sei que você tem esse complexo de Mulher-Maravilha igual à sua mãe, mas você não controla tudo. Você não controla o tempo, as pessoas e, às vezes, nem a você mesmo.
- Por que você nunca me odiou pelo o que eu fiz?
- Porque eu te amo, você é minha filha e eu sei que não foi sua culpa. Às vezes eu acho que você pensa que fez de propósito, que você entrou naquele carro já sabendo que aquele motorista bêbado ia entrar na contramão e bater em vocês. Você não pode prever o futuro; e se fizesse, faria tudo diferente, não faria?
- Sim.
- Está vendo? Você precisa se lembrar que você não é um monstro, você é um ser humano e na minha opinião um com um bom coração.
- Eu não sou uma pessoa boa.
- O que torna uma pessoa boa não é a habilidade de fazer bondade ou a coisa certa, e sim quantas vezes ela tem de errar, se desculpar e fazer a coisa certa. – ele se levantou – Agora vamos, eu tenho um lugar pra te levar.
- Pai, eu não quero sair.
- Mas você vai, . Eu nunca deveria ter deixado você sair daquela psiquiatra, eu não vou errar duas vezes.
- Por favor, pai.
- Você sabe que eu não te forçaria a nada, certo?! Mas dessa vez quem vai fazer diferente sou eu. Você precisa de ajuda, , e você sabe disso.
- Tudo bem, eu vou.
- E eu consegui uma vaga com a sua antiga psiquiatra, Dra. Tessa.


Fui o caminho inteiro calada, meu pai não tentou puxar assunto, porque ele sabia o quanto eu detestava ir à psiquiatra. Quando o juiz sentenciou que eu deveria passar a ver uma psiquiatra, eu faltei a primeira semana inteira com a desculpa que tinha perdido a hora, mas meu pai quando descobriu passou a vir em todas as sessões comigo e esperava até a hora de eu sair. É, eu não gostava nem um pouco de falar sobre o que tinha acontecido, talvez seja por isso que eu estava aqui, sentada no banco de passageiro, a caminho da mesma psiquiatra de cinco anos atrás.
Quando chegamos ao hospital, meu pai se assustou quando alguns dos funcionários me cumprimentaram, ele sabia que eu tinha continuado meu trabalho voluntário depois que minha sentença acabou, mas o que ele não sabia é que eu ainda estava trabalhando lá.
- Eu pensei que você tinha parado de ser voluntária aqui. – ele perguntou, me guiando pelo hospital.
- Eu não consegui. – respondi, entrando no elevador junto com ele – Eles não tinham ninguém pra ajudar e eu já estava aqui.
- Então você ainda trabalha aqui?
- Na verdade, eu não sei. Eles conseguiram uma pessoa pro cargo agora, uma com um diploma. Nas últimas semanas eu só estava vindo pra ajudar a treiná-la, sabe? Para as crianças se acostumarem com ela.
- Mas e se eles pedirem, você vai ficar?
- Honestamente? Eu não sei, eu realmente não sei. – saímos do elevador pelo corredor no qual eu conhecia muito bem. Mesmo depois de cinco anos não vindo aqui, o lugar ainda me dava calafrios. Maggie ainda era secretária e quando ela me viu, abriu o maior sorriso.
- . – ela disse, se levantando e me abraçando. Maggie sempre foi muito carinhosa comigo, não sei ao certo porque, mas ela sempre tentava melhorar o meu humor.
- Oi, Maggie.
- Você continua linda. – ela se separou de mim – Jimmy.
- Oi, Maggie. – Maggie foi para de trás da sua mesa, avisando a doutora que eu estava aqui – Ela está esperando por você.
- Obrigada, Maggie. – me virei para o meu pai – Você vai me esperar?
- Claro. Eu só preciso arrumar um lugar pra colocar meu notebook.
- Aqui o sinal é péssimo, mas na cafeteria é muito melhor.
- Você vai ficar bem sozinha?
- Claro. - ele beijou minha testa e desapareceu pelo corredor. Virei-me para Maggie, andando até a porta do consultório. Respirei fundo antes de abrir a mesma, dando de cara com a Dra. Tessa em pé ao lado da sua mesa.
- Olá, , como vai?
- Doutora Tessa, vou bem. E a senhora? – respondi, fechando a porta atrás de mim. Tessa apontou para o sofá na frente da sua cadeira. O lugar não tinha mudado muito, talvez um quadro aqui ou um vaso ali, mas tudo continuava o mesmo.
- Eu estava esperando o dia que você ia voltar. – ela disse se sentando na poltrona à minha frente.
- Verdade? Sou tão previsível assim?
- Não, , é que você nunca terminou seu tratamento.
- Mas eu cumpri o tempo que me foi estimado.
- Sim, cumpriu, mas não cumpriu o seu tratamento. O que você passou não foi nada fácil, lembra da primeira vez que você chegou aqui? Você nem ao menos falava direito e quando falava, você chorava. Demorou meses pra eu conseguir alguma coisa de você e quando eu consegui, a única coisa que você dizia era: a culpa foi toda minha.
- Mas a culpa foi minha.
- E por que você acha que a culpa foi sua?
- Porque eu que estava dirigindo o carro! Se eu não tivesse insistido pra passar um ano viajando, nós não brigaríamos tanto. Se eu não tivesse entrado naquele carro, eu não teria batido! Se eu não fosse tão mimada e não tivesse bebendo, minha mãe ainda estaria aqui.
- Mas não foi você que estava bêbada e entrou na contra mão batendo do lado em que sua mãe estava. – ela deu uma pausa – Faz mais de cinco anos que eu não te vejo, mas eu posso ver que você não fez nenhum progresso. Você continua dizendo a mesma coisa que dizia há cinco anos, sua vida continua sendo na base do “e se”. Quando é que é que você vai começar a viver o agora? Quando é que você vai parar de viver no passado e focar pra melhorar o seu futuro?
- Você fala como se fosse fácil esquecer o que eu fiz.
- Eu nunca pedi pra você esquecer nada, até porque quanto mais você se esforça pra esquecer algo mais pensa naquilo. O que eu sempre tentei trabalhar com você foi a única coisa que você ainda não conseguiu fazer: se perdoar. Você ainda não se perdoou, . Como é que você espera seguir em frente, se você não pode perdoar a si mesma? – a doutora Aurora não sabia, mas ela tinha acabado de colocar um pouco de sal numa ferida ainda aberta. Abaixei a cabeça, vendo minha visão ficar embaçada e logo senti o gosto salgado na minha boca.
- O que mudou na sua vida depois que eu te vi? Pelo o que eu me lembre, você tinha sido aceita na faculdade e estava prestes a cursar publicidade e propaganda. Tinha conhecido um garoto, vocês ainda estão juntos?
- Eu me formei, arrumei um emprego bom e fiquei por lá durante um ano inteiro. E o garoto, não estamos mais juntos.
- Por que eu tenho a sensação de que você já não está mais por lá?
- Porque eu briguei com um dos meus colegas e meu pai me ofereceu um emprego melhor.
- Então você se mudou pra Londres com ele?
- Não, eu apenas o aconselhava em algumas campanhas. Ele achou melhor eu sair de lá, pra evitar conflitos.
- Então você acha que tomou a decisão certa ao sair do seu emprego e não encarar os seus problemas?
- Acho que sim, meu pai acha que sim.
- Eu não estou perguntando o que o seu pai acha, , estou perguntando o que você acha.
- Eu não sei, ok?! Eu realmente não sei, eu só achei que seria mais fácil pra evitar conflitos.
- Então toda vez que você ficar de frente com algum conflito, você vai simplesmente ignorá-lo? Não vai nem ao menos tentar fazer as coisas melhorarem, vai simplesmente fazer o mais fácil e desistir? – fiquei calada, limpando as lágrimas – Veja bem, , desde o acidente da sua mãe, você colocou na sua cabeça que você não é capaz de se virar sozinha quando, na verdade, você é mais capaz do que você imagina. Você se apoia nos outros e escuta o que eles têm pra dizer, mas não leva em consideração a sua opinião no assunto. Você deixa os outros tomarem as decisões da sua vida, quando você é quem deveria estar fazendo isso. Você não pode fugir dos seus problemas porque uma hora ou outra eles voltam pra te assombrar, já está mais do que na hora de você tomar as rédeas da sua vida.
- Meu pai me obrigou a vir aqui.
- Eu sei que sim, mas depois dessa sessão a escolha deve ser sua se você vai voltar ou não.
- E se eu não quiser vir?
- A decisão será sua.
- Mas e se meu pai me obrigar?
- Ele não fará isso, eu posso falar com ele dizendo que ele deveria deixar você começar a decidir as coisas por conta própria.
- Mas e se eu admitir que eu tenho um problema e começar a vir pras suas sessões, você vai poder me curar?
- Eu posso ajudar o quanto você quiser, mas a iniciativa de melhorar de vida tem que partir de você. Você tem que ter em mente que você é o seu problema, mas você também é a sua solução. Entretanto, tenha em mente que eu não estou pedindo pra você mudar completamente de vida da noite pro dia, é uma batalha diária que você vai ter que travar.
- Você acha que eu posso melhorar de vida? Seja sincera, doutora.
- Sinceramente? Eu acredito que todo mundo pode mudar de vida, o que você precisa é só querer. A vida é uma eterna batalha, de altos e baixos, num dia você ganha, no outro você perde, e o mais importante é que você tenha em mente em não desistir. Eu sei que pode parecer o fim do mundo às vezes, Deus, e como eu sei, mas daqui um tempo você vai olhar pra trás e perceber que fez o certo em não desistir.
- Você sempre deu ótimos conselhos.
- Obrigada. – ela respirou fundo – Então, o que você decidiu, vai continuar vindo pra minhas sessões?
- Acho que está mais do que na hora de eu admitir que eu tenho um problema. – olhei para ela – Eu sempre soube que eu nunca superei o que eu fiz, mas eu não percebi o quando isso podia interferir no meu futuro, na minha chance de ser feliz.
- Você está falando do seu relacionamento com aquele garoto?
- Oh não, James e eu não estamos mais juntos faz um tempo, e pra falar a verdade eu não sei como ficamos juntos por tanto tempo.
- Por que diz isso?
- Sabe quando você acha que merece o que está vivendo mesmo sendo um dos piores tempos que você está passando? – ela assentiu para que eu continuasse – Bom, James foi isso. Eu sabia que ele não era lá um dos caras mais fiéis e eu arrumava desculpas pelo jeito que ele me tratava, porque eu achava que merecia aquilo.
- E por que você achava isso?
- Porque eu sempre achei que nunca merecia alguém que me amasse, mesmo porque alguém como eu – que tinha tirado a vida da própria mãe – não merecia amor. Eu merecia sofrer, porque eu tinha feito os outros sofrerem. Depois que eu e James terminamos, eu prometi que não ia mais me apaixonar; alguém como eu não merecia nem ao menos estar em um relacionamento. Boba era eu que achava que podia controlar meu coração.
- Então você se apaixonou outra vez?
- Como eu nunca pensei que aconteceria. – respirei fundo – Mas as coisas não deram certo, ele descobriu tudo e foi embora. Eu não o culpo por ter feito isso, se você soubesse o que eu o fiz passar, doutora, me abandonaria também.
- Que tal você guardar essa história pra próxima sessão? Acho que você precisa passar um tempo pra absorver o que me disse hoje. É como eu disse: uma batalha diária, um passo de cada vez. Que tal dessa vez você começar a encarar os seus problemas de frente, hein?! Tentar ao menos conversar pra resolver a situação.
- Acho que eu posso trabalhar com isso. – me levantei da cadeira – Eu tinha até me esquecido.
- Esquecido?
- É, de como era bom ter alguém pra conversar, você sempre deu ótimos conselhos.
- Obrigada. Se você quiser, esse horário está vago. É só falar com Maggie que ela pode marcar pra você.
- Obrigada, doutora. – andei até a porta – Te vejo amanhã. – fechei a porta e fui em direção à secretária, marcando mais algumas consultas. Eu sabia que a Dra. Tessa poderia me ajudar, depois do acidente ela tinha me ajudado bastante. Porém, quando a minha sentença acabou, eu achava que estava curada; ou pelo menos era isso que eu continuava me dizendo pra poder passar pelo dia. Estava na hora de eu admitir que eu precisava tomar as rédeas da minha vida, fazer coisas que me ajudassem a melhorar o que em mim ainda era um problema. Não mudar de vida pra noite pro dia, mas como ela disse: uma batalha diária que eu tinha que travar todos os dias.
- ? – saí do elevador indo em direção a cafeteria quando uma voz me tirou dos meus pensamentos. Virei para trás vendo Rose indo do outro lado do corredor, em direção à ala de pediatria.
- Rose?
- O que é que você está fazendo aqui? Veio visitar as crianças?
- Na verdade, não. Vim ver a Dra. Tessa.
- Está tudo bem? Você está bem?
- Não, mas espero que eu vá ficar.
- Quer ficar um pouco com as crianças? Você sempre fica melhor depois que fica com elas.
- Acho melhor não.
- Por que não?
- Você me conhece há mais de cinco anos, certo, Rose?! Então você já deve ter percebido que eu sempre resolvo o problema dos outros, mas nunca os meus.
- Você usava as crianças como uma forma de esquecer do que você passou. – ela falou cruzando os braços.
- Então você percebeu.
- Não foi muito difícil, . Quando você percebeu que não pensava tanto na sua mãe enquanto estava na ala de pediatria, cuidando daquelas crianças, você se jogou com tudo. Você ficava aqui dia e noite, fugindo dos seus problemas em vez de encará-los.
- Não é a primeira vez que eu escuto isso hoje.
- A questão é o que você vai fazer sobre isso: vai continuar fugindo ou vai encarar seus problemas?
- Eu estou com medo, Rose. Muito medo mesmo. – olhei pra ela, me encostando na parede atrás de mim.
- E quem não está, minha querida?! Todo mundo tem medo de alguma coisa, medo de perder alguém, medo de não ter tomado a decisão certa, medo disso, medo daquilo. Sentir medo também faz parte da vida, a vida não é só felicidade, tem vários obstáculos e não importa quantas vezes você caia, quebre a cara, chore, o importante é que você não pare de lutar. E você, , é uma baita de uma lutadora.
- Obrigada, Rose.
- De nada.
- Tem certeza que não quer ficar um pouco com as crianças?
- Acho que já está na hora deles se acostumarem com a nova voluntária.
- Então quer dizer que você não vai voltar?
- Está mais do que na hora de eu colocar a cara a tapa e aprender a lutar contra meus medos. Não vão ser fácil, mas eu tenho esperança que eu vou conseguir.
- Estou orgulhosa de você. – ela me deu um beijo no topo da minha cabeça.
- Eu preciso ir, meu pai está me esperando. Obrigada, Rose.
- Sempre que precisar. – andei em direção à cafeteria encontrando meu pai, sentado, concentrado na tela do computador. Ele viu e fechou o notebook, colocando dentro da bolsa.
- E aí, como foi? – meu pai perguntou se levantando.
- Foi bom.
- E você vai voltar? Porque se você não voltar, eu juro que te trago arrastada.
- Não vai ser preciso. – segurei-o pelas mãos – Pai, eu preciso te pedir um coisa.
- Qualquer coisa.
- Eu não quero mais te aconselhar nas suas campanhas publicitárias.
- O quê? Por quê?
- Você sabe porquê. Eu te "aconselhar" é só uma desculpa pra você colocar dinheiro na minha conta.
- ...
- Eu preciso aprender a me virar sozinha e com você me sustentado isso não vai acontecer.
- E o que você vai fazer? Vai usar o dinheiro que sua mãe te deixou?
- Não, eu vou arrumar o emprego. Depois que eu terminar o treinamento da nova voluntária, eu vou procurar um emprego pra me sustentar.
- Tem certeza?
- Tenho. Eu tenho que começar por algum lugar, eu posso estar um pouco enferrujada, mas eu sei que eu consigo. Um passo de cada vez.
- Tudo bem, eu não vou interferir na sua decisão.
- Obrigada. – eu o abracei – Agora vamos comer que chorar me deixa com fome. – me separei dele, segurando em seu braço – Você paga, hoje eu ainda sou filhinha do papai.
- Não tenho o que reclamar disso.


Capítulo 16

Dois meses passam voando quando você se ocupa com um monte de coisas pra fazer, e eu tinha feito questão de ocupar cada segundo do meu dia. Às tardes e começos da noite eu ficava no hospital, tendo sessões com a Dra. Tessa ou ajudando Rose com a nova estagiária; às manhãs eu passava procurando emprego e distribuindo currículos pelas as empresas que eu conseguia; meu pai se ofereceu para ajudar, mas eu recusei. Eu tinha que aprender a me virar sozinha, não podia continuar confiando que alguém iria me salvar, eu tinha que aprender a me salvar. Não estou dizendo que está sendo fácil, mas eu estava aprendendo a lidar com os meus problemas em vez de fazer o mais fácil.
Bem, quase todos os problemas.
Eu não o vi nenhuma vez pelo prédio, cheguei até a pensar que tinha se mudado, porém eu sabia que ele estava me evitando o tanto quanto eu o estava evitando. Não era que eu não queria vê-lo, na verdade, eu queria muito, mas algo dentro de mim dizia que eu ainda não estava preparada pra ter uma conversa. Pelo menos não uma na qual não sairíamos pior do que começamos.
Pra falar a verdade, eu sentia falta dele. Ocupar meu dia também era uma forma de não pensar sobre ele, mas uma vez ou outra, como agora, eu deixava meus pensamentos se perderem no que nós vivemos e no que poderíamos viver.
- ?
- Sim? – me levantei, pegando minha bolsa.
- JJ quer te ver agora.
- Claro.
Essa deveria ser a minha décima entrevista só essa semana, eu tinha criado coragem pra deixar o meu currículo na antiga empresa que eu trabalhava. Eu sabia que não ia me levar a nada, JJ sempre tinha os melhores publicitários na sua empresa, mas eu tinha que tentar. Tina, a garota do Recursos Humanos, me ligou essa manhã dizendo que JJ queria me entrevistar, eu me assustei, porém aceitei o convite.
A nova secretária – que eu não decorei o nome – bateu na porta do meu ex-chefe antes de abri-la e fazer menção pra eu entrar. Agradeci, entrando na sala, encontrando JJ em pé ao lado da sua mesa.
- , como é bom te ver. – JJ poderia ser o chefe mais exigente do mundo, porém ele também era um dos caras mais alto astral que eu já conheci. Ele era extremamente simpático e quase nunca se estressava com alguém. – Você continua linda, se duvidar, até mais.
- Pensei que isso fosse uma entrevista de emprego.
- E é, mas uma beleza como a sua não pode passar despercebida.
- Sempre tão charmoso.
- Estou treinando pra quando eu ver meu marido essa noite, eu estou prestes a conhecer os filhos dele.
- Aposto que você vai conquistá-los apenas com um oi.
- Então, onde você estava trabalhando antes daqui?
- Nenhuma empresa oficialmente. Meu pai estava precisando de ajuda, então eu o ajudava em algumas campanhas.
- Então você continua trabalhando como voluntária?
- Você lembra? – ele assentiu – Depois que eu saí daqui, comecei a trabalhar em tempo integral como voluntária.
- Oh, isso é incrível. E como foi essa experiência pra você?
- Gratificante. – ele sorriu pra mim e se apoiou na mesa.
- Bom, você pode começar na segunda então?
- O quê? Mas eu pensei...
- Você sempre foi uma das melhores publicitárias que eu já tive, , te perder do jeito que eu te perdi foi erro de principiante, eu não vou deixar isso acontecer outra vez. Eu só não insisti pra que você ficasse porque você tinha aquele negócio no olhar.
- Negócio no olhar?
- Acho que você não percebe, mas seus olhos te entregam toda vez. Você tinha os olhos de quem estava travando uma batalha interna todos os dias, você não estava feliz. Então eu te deixei ir, esperando que um dia você voltasse.
- Mas seu time não está completo?
- Pra falar a verdade, a nossa empresa cresceu tanto que qualquer ajuda é bem vinda. Normalmente ninguém aguenta a nossa carga horária, então pedem demissão nos primeiros meses, eu estou com dois publicitários a menos desde o mês passado. Quando eu vi seu currículo, eu tive que separá-lo.
- Então eu não tenho mais aquele negócio no olhar?
- Claro que tem, mas dessa vez você está ganhando. – ele sorriu.
- Muito obrigada, JJ.
- Que isso, querida, eu que agradeço a Deus por ele ter me mandado você.
- Também não é pra tanto.
- Claro que é. – ele cruzou os braços – Então, vai poder começar segunda ou não?
- Sim.
- Você vai começar em campanhas pequenas primeiramente. Junto com você vai entrar mais outra pessoa, então vocês vão trabalhar juntas a maior parte do tempo. Creio que sua antiga mesa já está ocupada.
- Sem problemas.
- Novos começos então?
- Novos começos.

Depois de deixar toda a documentação necessária no RH, eu saí do meu novo emprego com um sorriso no rosto e um alívio no peito. Era a primeira vez em muito tempo que eu sentia que eu estava seguindo em frente, sentia que eu estava fazendo progresso sobre tudo que aconteceu comigo todos esses anos. Doutora Tessa era uma das principais razões pra isso, às vezes eu chegava a me perguntar por que eu tinha parado de ir a suas sessões. A cada sessão, ela me ajuda a ver o mundo por outra perspectiva, a procurar respostas para as minhas perguntas e também me lembrar que eu também sou humana. Chegava a ser engraçado, o ser humano ser lembrado que é humano e não um Deus absoluto de que tudo sabe, que tudo já viveu, que tudo já sentiu e que tem poder do controle absoluto. Na verdade, uma das coisas que eu descobri nesses dois meses de tratamento é que eu não posso controlar tudo, a única coisa que eu tinha controle era o jeito que eu reagiria a certas situações, e pra falar a verdade, nem isso. Uma vez ou outra você deixa o sentimento falar mais alto. Então o segredo era deixar as coisas fluírem que um dia elas se ajeitam, ou pelo menos eu esperava que sim.
Saí do elevador, e por não estar prestando atenção, acabei esbarrando em alguém.
- Oh, me desculpe. – falei, me virando para a pessoa.
- ?
- Lily?
- Ai meu Deus! É você mesmo. – Lily me puxou para um abraço. Lily e eu costumávamos ser amigas quando eu trabalhava na empresa de JJ. Quando eu saí, nós acabamos perdendo contato; algo que eu estava começando a perceber que eu fazia com muita frequência – Olha pra você, mudou tanto desde a última vez que eu te vi. – ela se separou de mim.
- Você também! Não acredito que você trocou aquele cabelão por um Chanel.
- Chega um momento da sua vida em que você tem que arrumar outras prioridades, quando se trabalha 12 horas por dia. – ela sorriu olhando para minha roupa e depois pra mim – E você, o que você veio fazer aqui?
- Acredite ou não, mas eu vim ver se eu conseguia um emprego.
- Não me diga que JJ deixou você escapar outra vez.
- Não, ele acabou de me contratar.
- Então nós vamos trabalhar juntas outra vez?
- Creio que sim.
- Graças a Deus! Odeio trabalhar com novatos que só me dão ideias clichês já usadas. Às vezes eu me pergunto se vai matá-los pensar um pouquinho. – ela rolou os olhos – Fico feliz que você voltou e pra comemorar isso que tal ir para o bar depois do expediente?!
- No Myrin?
- Esse mesmo.
- Te vejo lá então.

O caminho pra casa foi tranquilo, em algum momento eu liguei para o meu pai pra contar as novidades. Ele ficou felicíssimo, e um pouco chateado por me perder, porém feliz por eu conseguir o que eu queria. Pela primeira vez em meses eu sentia que minha vida estava indo por uma direção que eu nunca esperava que fosse, mas de que algum modo parecia certa.
Depois de pagar o táxi e pegar a correspondência, eu entrei no elevador sentindo meu coração acelerar. Não era a primeira vez que isso acontecia, na verdade, era até comum toda vez que eu entrasse nesse elevador sentir meu coração nas orelhas. Uma parte de mim, uma bem pequena, tinha esperança – e ao mesmo tempo medo – de encontrar vagando pelo prédio. Eu sabia que podia acontecer, mas eu estava rezando para que não.
A doutora Tessa já me aconselhou que eu conversasse com ele, falasse tudo que eu tinha pra falar e também escutasse tudo que ele tinha pra falar, porém eu ainda tinha medo e acreditava que não estava pronta. Então, toda vez que as portas do elevador se abriam, eu rezava pra que ele não estivesse do outro lado.
Que pena que essa reza não servia pra todo mundo.
- Anastasia? – perguntei, saindo do elevador.
- ! – ela respondeu, se virando pra mim.
- O que você está fazendo aqui? – perguntei por cima do ombro, sabendo que ela estava me seguindo pelo barulho dos seus saltos no piso.
- Eu vim falar com você.
- Comigo? – abri a porta, olhando para ela – Não vejo o que você possa querer comigo. – entrei em casa, segurando a porta para que ela entrasse atrás.
- Você sabe que isso não é verdade, você sabe o que eu fiz.
- Muito difícil de esquecer, pra falar a verdade. – disse seca, me virando para ela. Anastasia me seguiu e parou do outro lado da mesinha de centro da sala.
- Não precisa ser grossa também, eu estou aqui pra pedir desculpas.
- Muito fácil pedir desculpas depois de fazer a merda.
- Eu não fui a única que fiz merda.
- Mas eu o perdi por sua culpa! – gritei, jogando as chaves em cima da mesa – Desculpe, eu não quis dizer isso.
- O que disse?
- Me desculpe, a culpa não é sua.
- Mas eu contei tudo pra ele.
- Eu sei, e eu posso dizer que isso foi uma sacanagem enorme, mas não foi você que o colocou pra Cristo quando descobriu sobre a irmã dele. Se alguém deve se responsabilizar sou eu, fui eu que o maltratei quando descobri a verdade sobre Sansa. Na época eu não sabia, mas hoje eu sei que fiz porque não tinha me perdoado ainda, então eu joguei todas as minhas frustrações em cima dele.
- Pelo o que aconteceu com sua mãe? , não foi sua culpa, você já deve saber disso agora.
- É mais fácil falar do que fazer, Anastasia. Perdoar os outros é bem mais fácil que perdoar a si mesmo, porque mesmo que todo mundo diga que não foi sua culpa, uma hora ou outra aquilo volta com tudo pra te matar de pouquinho em pouquinho. Você ter falado pro – respirei fundo – não foi o que fez nosso relacionamento acabar, a gente sabotou o que a gente tinha fazia um tempo.
- Vocês dois não tem volta?
- Honestamente? – olhei para ela – Eu não sei e no momento eu não estou preparada pra entrar em nenhum relacionamento, acho que nenhum de nós estava, pra falar a verdade.
- Eu entendo. – ela abaixou a cabeça, focando no pedaço na mesa de centro – O que é isso? – tentei pegar o papel de suas mãos, mas Anastasia já estava abrindo o cartão – "Feliz dia 25, espero que não tenha esquecido o que fez." – Anastasia pegou o pedaço do jornal dentro do cartão – , o que é isso?
- A manchete que saiu no jornal sobre o acidente da minha mãe.
- E por que você tem isso? – ela perguntou, olhando pra mim. Anastasia podia ser muitas coisas e podia fazer anos que nós não conversávamos, mas ela ainda podia descobrir os meus segredos mais obscuros apenas com um olhar. Depois do acidente, ela era a única com quem eu mantive contato antes de decidir cortar todas as relações com a minha antiga vida. Ela sabia quem tinha mandado o cartão. – Eu não acredito! A jararaca ainda pega no seu pé?
- Todo dia 25 ela me manda um cartão pra lembrar do acidente, eu consegui me livrar depois que eu me mudei pra casa de Marcus, mas ela me achou outra vez.
- Outch! A velha não mudou nenhum pouco, continua a mesma rainha de gelo de sempre. – ela respirou fundo – Você vai ficar bem?
- Espero um dia que sim, mas pode ter certeza que eu estou melhor do que antes.
- Eu ganho um abraço pelos velhos tempos?
- Claro. – Anastasia me abraçou forte e disse: – Desculpe por bagunçar sua vida.
-Há males que vem para o bem. – me separei dela – O que você fez não foi legal, mas me fez abrir os olhos pros vários erros que estavam atrapalhando a minha vida.
-Você sabe que eu nunca quis o seu mal, não sabe?!
-Claro que sei. – escutamos o barulho de chaves na porta e logo depois Marcus entrar com Fred no apartamento.
- O que a jararaca segunda opção está fazendo aqui? Garota, me dá pelo menos uma razão pra não te jogar dessa janela. – Marcus arregaçou as mangas enquanto Fred segurava seu braço.
- Marcus, está tudo bem, Anastasia só veio pedir desculpas pelo que fez e você sabe que tudo não foi total culpa dela.
- Não anula o fato que não era o segredo dela pra contar.
- Do que vai adiantar agora, hein?! Já passou, não adianta chorar pelo leite derramado.
- Eu realmente sinto muito. – Anastasia falou mais uma vez antes de abrir a porta – Até logo, .
- Até logo. – Anastasia saiu e Marcus fechou a porta com um estrondo.
- Até nunca mais, você quis dizer. – Marcus disse, andando em direção à cozinha.
- Eu já te disse, Marcus, eu prefiro não guardar rancor. Não vai me adicionar em nada, pra falar a verdade, só vai me fazer mal.
- Eu concordo com a . – Fred se sentou à mesa que tinha na cozinha.
- Claro que você concorda, vocês dois estão na mesma vibe de paz e amor. – Marcus rolou os olhos.
- É porque somos pessoas inteligentes que viram que guardar rancor não leva a nada, perdoar é a melhor.
- Fale isso pro seu primo então. – Fred engasgou com a água, enquanto olhava pra Marcus com olhos arregalados.
- Marcus!
- Não, Fred, tudo bem. – me levantei – Marcus, eu preciso falar com você.
- Pode falar.
- Quando eu voltar eu falo, só me espere acordado, okay?
- Você vai pra onde?
- Vou pra minha sessão com a Dra. Tessa e depois vou sair com uma colega de trabalho.
- Então você conseguiu o emprego de volta?
- Consegui. Você lembra da Lily? – ele assentiu – Ela ainda trabalha lá e me chamou pra sair com o pessoal da empresa.
- Eu sempre gostei dela.
- É, e ela sempre gostou de ti. Eu tenho que ir, até mais tarde, garotos.

Depois da sessão com a doutora Tessa, eu peguei um táxi para o bar. O bar que Lily escolheu ficava do outro lado da cidade, perto da empresa de JJ, então demorou quase uma hora pra chegar até lá por conta do engarrafamento. O lugar estava lotado e pela voz desafinada vindo do palco, era noite do karaokê.
- Você veio! – Lily se levantou para me abraçar.
- Claro que sim, eu precisava sair de casa.
- É, você sempre evitou multidões. – sentei-me ao seu lado – Você quer uma cerveja?
- Depois quem sabe. – olhei para o palco onde algumas garotas cantavam alguma música da Taylor Swift.
- Então eu quero que você me conte tudo. – olhei para Lily.
- Tudo?
- É, tudo o que você fez nesse tempo que a gente não se viu.
- Não muito, o mesmo de sempre.
- Você e James ainda estão juntos?
- Não.
- Graças a Deus! Aquele cara era um idiota!
- Era mesmo.
- Nenhum gatinho novo na área?
- A única coisa que eu quero de relacionamento é distância, quero focar no trabalho.
- Quem fala isso é porque teve o coração partido.
- Estraçalhado, pra falar a verdade.
- Sinto muito. Quando você quiser conversar, eu vou estar por aqui.
- Claro, mas agora vamos nos concentrar na péssima voz daquelas garotas.
- Nem me fale, eu canto bem melhor. – ela rolou os olhos – Agora, não fica chateada comigo.
- O que foi que você fez, Lily?
- Chamei toda a galera do trabalho pra vir. Eu achei que seria uma boa pra você conhecer todo mundo.
- Claro, não tem problema.
- Tem certeza?
- Tenho.
- Então tá. Oh, Peyton, pode vir.

Eu tinha até me esquecido o quanto Lily poderia me tirar da minha zona de conforto e me convencer a fazer as coisas mais loucas que eu nunca imaginei que faria; coisas como arriscar cantar uma música da Nicki Minaj em um bar lotado de gente. Eu tinha até esquecido o quanto era bom fazer algo sem pensar nas consequências, apenas viver no momento. Tudo na minha vida desde o acidente da minha mãe foi pensando no que eu fiz e o quanto eu não merecia ser feliz.
Agora, pensando bem, vejo que em todos esses anos eu sabotara a minha própria felicidade. Em qualquer situação em que eu sentia que tudo iria ficar bem, uma voz dentro da minha cabeça gritava que era exatamente o que eu merecia.
Depois da quinta cerveja e da terceira música, Lily e eu decidimos sentar e descansar.
- Você está procurando um apartamento? Tem um incrível no meu prédio. – ela disse, tomando um gole da sua cerveja.
- Verdade? Seria maravilhoso. – eu disse, porém, uma voz lá no fundo dizia: aprenda a se virar sozinha. – Mas não acho que isso é uma boa ideia.
- Por que não? Juro pra você que você vai amar.
- É que eu tenho que aprender a me virar sozinha, entende?!
- Não. Uma ajudinha não faz mal a ninguém.
- No meu caso, faz. – ela me olhou confusa – Pode-se dizer que aconteceu muita coisa nesse tempo que eu estive fora.
- Tudo bem então. – ela começou a mexer na bolsa – Pode ser que você não queira minha ajuda, mas deveria procurar ele aqui. – Lily colocou um cartão em cima da mesa – Um corretor pode te ajudar com o que você precisa. Além do mais, você não vai ter tanto tempo livre assim pra procurar apartamento sozinha, ou vai?
- Você tem razão, acho que uma ajudinha não fazer mal a ninguém. – peguei o cartão e joguei dentro da minha bolsa, vendo no meu relógio que já passava das duas da manhã – Puta merda! Eu acho melhor ir embora, Marcus está me esperando pra conversarmos.
- Você ainda não contou para ele?
- É difícil contar para o seu melhor amigo que não quer mais morar com ele, especialmente quando ele cuida de você como se fosse uma filha. Se foi difícil dizer para o meu pai que eu queria ficar na Califórnia, imagina como vai ser dizer pro Marcus que eu quero me mudar.
- Boa sorte.
- Fala pra todo mundo que eu tive que ir e que espero vê-los na segunda.
- Pode deixar.

Depois de pegar um táxi direto pra casa não, tendo que enfrentar nenhum engarrafamento, graças a Deus, eu encontrei uma casa completamente escura. Grunhi mentalmente, já pensando que teria que arrumar um lugar na agenda lotada de Marcus e Fred, o casal apaixonado, pra poder conversar com Marcus. Talvez fosse pro melhor, eu poderia preparar melhor o que falar. Ou Marcus poderia estar em meu quarto, sentado na cama, encarando as caixas do jeito que eu o encontrei.
-Marcus, você me assustou! – falei, colocando a mão em meu peito – O que você está fazendo aqui sentado na minha cama como um psicopata esperando pra me matar?
- Você vai se mudar, não vai?
- O quê?
- Você começou a colocar suas coisas em caixas, seus livros já não estão nas prateleiras. – me sentei ao seu lado – É por causa do nosso vizinho?
- Não exatamente, é mais por mim. Você sabe que eu te amo, né, Marcus?! Como se você fosse o irmão que eu não tive, ou pelo menos ainda não tive, mas eu preciso aprender a me virar sozinha. Não que eu vá me isolar do mundo, mas eu preciso parar de me apoiar nos outros pra decidir o que fazer da minha vida. Eu preciso de um tempo pra me descobrir, pra melhorar e, principalmente, me perdoar.
- Eu sabia que um dia isso ia acontecer. Por Deus, se seu pai sentiu metade do que eu tô sentindo agora quando você decidiu morar na Califórnia, foi pra caralho.
- Prometo que melhora com o tempo. – abracei-o de lado – Eu ainda estou procurando um apartamento, se eu tiver sorte, eu me mudo no próximo mês.
- Então eu ainda tenho um mês pra te mimar?
- Sim, um mês pra me fazer panquecas todos os dias. – falei, o abraçando forte – Provavelmente vou usar esse tempo pra aprender a cozinhar.
- Ou você pode aprender todos os números de todos os restaurantes perto do seu novo lar.
- Provavelmente uma melhor ideia. – nós dois rimos.
- Você vai procurar apartamento sozinha?
- Lily me deu o número de um corretor pra me ajudar com isso, você sabe, a carga horária pra quem trabalha pro JJ é bem puxada.
- Então amanhã ligamos pra ele e vejamos o que ele tem pra oferecer.
- Obrigada por entender.
- É o mínimo que eu posso fazer. Eu estive contigo em todos os momentos, fossem eles bons ou ruins, eu não vou te abandonar porque você decidiu tomar as rédeas da sua vida. – ele se levantou – Agora deixa eu ir que meu namorado me espera.
- Namorado?
- Nós conversamos hoje e eu nunca estive tão feliz.
- Parabéns, Marcus, você e Fred são perfeitos um para o outro. Vocês merecem ser feliz depois de tudo que te aconteceu.
- E você também. Um dia você vai ficar tão feliz quanto eu, eu acredito nisso.
- Um dia, eu espero, Marcus.


Capítulo 17

- , onde está seu batom vinho? – Lily perguntou, mexendo em uma das minhas gavetas.
- Está em alguma gaveta da minha penteadeira. – respondi, me sentando na cama. Foi aí que eu lembrei que tinha algo naquela gaveta que eu não queria que ninguém visse, mas quando eu levantei o olhar já era tarde demais, Lily já tinha encontrado.
- Você sente falta dele? – Lily perguntou, segurando uma foto de nós dois que Sansa tinha tirado quando estávamos em Londres. Abaixei minha cabeça, me concentrando nas minhas sandálias.
- Honestamente? – fiquei em pé, me olhando no espelho – Não tem um dia que eu não deseje que tudo fosse diferente. Que eu tivesse dito a verdade pra ele, que eu nunca tivesse parado de procurar ajuda, que eu não o tivesse maltratado do jeito que eu fiz. – me virei para ela – Só que querer não é poder e o que está feito, já não tem mais volta. Às vezes eu sinto vontade de pedir desculpa por tudo que eu fiz.
- Talvez você possa fazer isso, talvez você pudesse ir no seu antigo prédio para encontrá-lo.
- Você acha que eu já não fiz isso?
- Você foi no prédio dele?
- Depois de uma garrafa de vinho, é claro. Álcool sempre ajuda e é sempre uma boa desculpa.
- E então, o que aconteceu? O que ele disse?
- Ele não mora mais lá, então eu tomei como um sinal de que deixasse essa história pra lá. Não é como se eu pudesse consertar o que eu fiz, Lily, você tinha que ter visto o jeito que ele me olhou quando Anastasia falou a verdade. – abaixei a cabeça – Parecia que alguém tinha o apunhalado nas costas, ou pior, no coração. E eu não podia nem ao menos dizer que foi ela que deu o golpe, porque eu sabia que tinha sido eu quem tinha segurado aquela faca e o golpeado inúmeras vezes.
- Ele também mentiu pra você, , não é como se ele fosse um anjinho.
- Outro sinal de que nós não deveríamos ficar juntos. Eu menti e ele também, que tipo de relacionamento é esse?!
- , às vezes as pessoas que a gente gosta mentem pra nos proteger. As belas mentiras e as terríveis verdades. A verdade machuca muito mais que uma mentira. Já pensou se ele tivesse falado a verdade pra você logo de cara? ”Ei , antes de tudo, eu sofri um acidente de carro que resultou que minha irmã ficasse paraplégica temporariamente e eu não consegui visitá-la porque a culpa me consumia.” – ela engrossou a voz – Não faz muito sentido, você não acha? Vocês tinham acabado de se conhecer, não dá pra contar os seus piores medos pra alguém que você acabou de conhecer, só porque sente alguma coisa pela pessoa. Por Deus, a gente tem até medo de admitir pra nós mesmos, quem dirá pra um desconhecido. – ela deu uma pausa – O que eu quero dizer é que todo mundo erra, e um erro não define o seu caráter. Você tentou se redimir com o acidente da sua mãe, começou a trabalhar no hospital, foi trabalhar pro seu pai e até namorou aquele idiota do Jason, porque achou que não merecia amor de verdade. E , ah, seu querido , não foi visitar a irmã porque se sentia culpado pelo o que aconteceu com ela, pelo que ele – mesmo que indiretamente – fez com ela. A culpa, maior do que qualquer sentimento, pode comer uma pessoa de dentro pra fora. Às vezes ela faz com que o nosso interior transpareça a pior versão de nós mesmos, e a única coisa que nos resta fazer é achar algo que nos traga de volta, ou melhor, no seu caso, alguém. Vocês trouxeram o melhor um do outro. Você não acha que é razão suficiente pra pelo menos tentar?

Eu sempre soube que Lily era boa com as palavras, ela sempre foi melhor do que eu na hora de se expressar, mas eu nunca imaginaria que ela me daria uma nova visão na situação que eu estava agora. Um erro não define seu caráter e ela estava certa sobre isso, só porque alguém comete um erro não quer dizer que ela seja má pessoa. Errar, como qualquer outra coisa, faz parte da vida.

- Você acha que eu deveria procurá-lo? – perguntei, mordendo o lábio.
- Na verdade, eu acho que você deveria ficar onde você está, porque como Chuck Bass mesmo disse: Quando duas pessoas estão predestinadas a ficar juntas, eventualmente, elas acham seu caminho de volta .
- Desde quando você é tão positiva e romântica?
- Tenho passado muito tempo com aquele nerd gatinho do marketing.
- Pensei que você gostasse mais de roqueiros.
- Eu também, minha querida amiga, porém a vida tem jeitos de te mostrar que, mesmo quando você pensa que tudo está do jeito que você sempre quis, ela pode te surpreender. – ela pegou sua bolsa – Nós vamos sair pro cinema amanhã, meio brega, mas nós dois estamos louco pra ver o novo filme da Marvel.
- “A vida tem jeitos de te mostrar que, mesmo quando você pensa que tudo está do jeito que você sempre quis, ela pode te surpreender.
- Vamos logo, cabeção, nós já estamos atrasadas.
- Não é como se a festa fosse começar antes de nós chegarmos. – respondi, segurando a porta para que ela passasse – Como é mesmo o nome do restaurante?
- Le Sansa. – entramos no elevador – JJ disse que é do filho dele e chamou todo mundo pra inauguração. Aparentemente ele cozinha super bem, sem contar que a Brit do RH disse que ele é um gatinho.
- A Brit acha todo mundo um gatinho.
- Isso é verdade. – saímos do elevador em direção à saída do meu apartamento – Se a comida estiver ruim, a gente sai correndo e arruma o primeiro hambúrguer pra comer.
- Negócio fechado.

O restaurante do filho de JJ ficava em uma das ruas mais movimentadas da cidade. Não era pra tanto, aparentemente, o marido de JJ era tão rico quanto ele e ambos estavam bancando o filho. Lily, conhecida como rádio fofoca da empresa, sabia tudo da vida de todo mundo, principalmente a do nosso chefe. Aparentemente JJ se casou com um cara e esse cara já tinha dois filhos, Lily disse que o mais velho era um cozinheiro e estava abrindo seu próprio restaurante. E por isso estávamos aqui, dentro de um táxi, indo pra essa inauguração.
Nesses últimos dois meses minha vida tinha mudado drasticamente, eu tinha passado de noites como voluntária no hospital para noites mal dormidas fazendo campanhas. Podia ser exaustivo, mas eu não poderia mentir que eu estava amando tudo aquilo outra vez, publicidade parecia uma paixão que vinha de família e mesmo tanto tempo parada parecia que eu não tinha perdido o meu talento.
Eu tinha me mudado para um loft com uma aparência de armazém no centro da cidade, vendi todas as coisas que eu tinha no apartamento antigo, exceto os livros, e comecei tudo de novo. Eu tinha até esquecido como era bom mudar, ter um novo recomeço, parecia que a vida ficava um pouco mais leve.

- Brit acabou de me mandar uma mensagem dizendo que o dono do restaurante é um gato mesmo. – Lily falou quando paramos em frente ao restaurante – Aparentemente, ele também é solteiro.
- Então nós já sabemos que ela vai jogar um charme pra ele. – respondi, dando o dinheiro para o taxista – Obrigada, senhor. – Lily foi a primeira a descer do carro e eu saí logo atrás. O lugar estava lotado do lado de fora, mas, como éramos convidadas, o nosso nome estava na lista e não precisaríamos enfrentar uma fila.
- Qual o nome de vocês?
- Lily Winters e . – Lily respondeu para o cara, que abriu a porta para nós. O restaurante era lindo, bem decorado, tinha uma aparência de rústico, bem aconchegante, e estava quase lotado.
- Onde é que está a Brit junto com os outros?
- Eles estão naquela cabine ali, vamos lá. – Lily me segurou pela mão, me puxando em direção à cabine.
- Finalmente! – Brit foi a primeira que se levantou e veio nos cumprimentar – Não sei qual é a pior das duas no quesito chegar atrasada em locais.
- Ela! – nós duas falamos ao mesmo tempo.
- Esse lugar é incrível.
- Se você acha que o lugar é um sonho, imagina quando você ver o dono.
- É gatinho? – Lily perguntou.
- Gatinho? Está mais pra Deus grego, me leva pro teu Olímpio.
- Acho que alguém está na seca. – Lily disse, rindo – Onde é que a gente arruma uma bebida por aqui?
- O bar fica na parte de cima, as bebidas são de graça pros convidados.
- E por que vocês não estão lá em cima?
- O lugar está lotado, só conseguimos mesa aqui embaixo.
- Então nós vamos arrumar umas bebidas e depois quando a fome bater a gente volta. – todos assentiram e nós nos dirigimos à escada que dava pra parte de cima. Quando nós estávamos indo em direção ao bar, senti uma mão segurar meu braço, me impendido de continuar.
- Tira a mão dela, velhote. – Lily respondeu antes que eu pudesse virar pra trás.
- , filha, o que você faz aqui? – olhei para trás, dando de cara com meu pai.
- Pai? – me virei por completo pra ele – Eu vim com uns amigos, é inauguração do restaurante do filho de JJ.
- Você sabe quem o filho de JJ?
- Não, nunca o vi na vida. – franzi o cenho – Pai, que cara é essa? Você está me assustando.
- , acho melhor você ir embora.
- Pai, do que você está falando? Eu acabei de chegar.
- Merda! – ele resmungou baixinho – Eu sabia que isso ia acontecer um dia.
- Pai, você está bem? Cadê a Charlie?
- ! – eu não tive nem tempo pra processar tudo direito, quando eu percebi, Sansa já estava me agarrando pela cintura – Eu sabia que você vinha, eu sempre soube!
- Sansa? – olhei para baixo, abraçando-a de volta – O que você está fazendo aqui?
- É o meu restaurante, Le Sansa. Na verdade é do , mas tem meu nome. – ela se separou de mim, correndo em direção ao irmão.

O pior de tudo não era o fato de ser dono do restaurante, ou o fato de que não só meu pai estava aqui, ou Marcus ou Fred e até mesmo Anastasia, e sim quem estava com todos eles, me olhando com um olhar que podia matar qualquer um. Lily estava certa sobre destino, o maldito sempre pregava uma peça na gente, especialmente quando não estávamos esperando. Eu tentei sorrir, juro que tentei, mas logo o lugar começou a rodar e tudo ficou preto.

Sabe quando você tem um sonho e pensa que está caindo então acorda de uma vez? Foi exatamente assim que eu acordei, de um susto. Só que em vez de cair voluntariamente de um penhasco, alguém me empurrava de lá, alguém que eu conhecia bem e costumava chamar de vovó há algum tempo. Eu me perguntava por que Ravenna tinha aparecido em meus sonhos depois de tanto tempo, até que eu dei uma olhada em volta e vi que eu não estava em meu quarto. Não pude conter o grunhido enquanto colocava as pernas para fora do sofá. Parecia que todos os meus pesadelos estavam se concretizando ao mesmo tempo, primeiramente , que era enteado do meu chefe, logo depois Ravenna atrás e sem falar de Marcus, que estava com a cara de que poderia me matar a qualquer momento. É, meus caros, a sorte não estava do meu lado.
Levantei-me do sofá indo em direção à porta, eu poderia cuidar deles separadamente; pra falar a verdade, era o aconselhável. Então eu ia fazer o que eu fazia de melhor: ir embora e pensar no que eu poderia fazer antes de fazer algo do qual eu me arrependeria.
- Se você quer fugir, eu sugiro a porta de trás, eles estão todos no corredor esperando notícias de você. – eu parei ao ouvir sua voz. Fazia um tempo, mas sua voz me deu aquela incrível sensação de nostalgia da qual eu não esperava. Era como uma música que você parou de escutar e quando escuta se pergunta o porquê de ter parado.
- Eu não estava tentando fugir. – falei, rápido, sem me virar para trás. Olhei para frente, encarando o grande espelho que me permitia ver seu reflexo atrás de mim. Ele abaixou a cabeça e riu.
- Parece que você continua uma péssima mentirosa. – ele levantou o olhar, olhando pra mim pelo espelho – Bem, não tão péssima assim. – me virei para ele, o olhando incrédula.
- Eu não vou passar o resto da minha vida pedindo perdão pelo o que eu fiz com você, . – eu disse, olhando para ele. Não era assim que eu imaginava que nosso reencontro aconteceria. – O que eu fiz foi sim errado, e eu peço perdão por isso, mas não quer dizer que eu vá deixar toda vez que nos encontramos você me fazer sentir culpada.
- Essa é a primeira vez que nos vemos em meses, .
- E parece que foi pro melhor, você nem ao menos me deu uma chance pra explicar. Pegou o primeiro voo pra Londres e me ignorou completamente. Eu sei o porquê de você ter feito isso, foi a mesma coisa que eu fiz, mas não quer dizer que foi a coisa certa. Eu nunca deveria ter te tratado do jeito que eu tratei, agora eu sei que eu estava machucada e te machucar era uma forma muito bizarra de me fazer sentir melhor. Só que eu não vou passar o resto da minha vida te pedindo perdão, . No dia que você quiser conversar sem pedras nas mãos, escutar o que eu tenho pra dizer, é só me procurar.

E com isso, eu saí pela porta da frente, encontrando todos me encarando assustados. Meu pai foi o primeiro que se levantou e me abraçou forte.
- Você está bem? – ele segurou em meus ombros – Eu fiquei preocupado, filha.
- Filha? – olhei para o lado vendo um cara ao lado de JJ, que parecia assustadoramente com – Você disse filha? Tipo, sua filha, ?
- É, Ian, essa é a minha filha, .
- Você a escondeu muito bem, a última vez que eu a vi ela tinha uns 5 anos. Graças a Deus ela puxou a mãe, já pensou se ela herda esse seu nariz horroroso? – meu pai balançou a cabeça – Eu sou Ian, é um prazer finalmente te ver novamente, . – ele estendeu a mão pra mim, e eu a apertei.
- É muito prazer finalmente conhecê-lo. – olhei para Sansa, que tinha um sorriso de orelha a orelha – Fico feliz que o senhor tenha se reencontrado com seus filhos.
- Então essa é a do ? – JJ perguntou e Sansa assentiu. Eu estava prestes a responder quando Ravenna entrou no meu campo de visão, fazendo com que meu sorriso desaparecesse instantaneamente. Sabe quando o céu está azul e você está pronta pra sair de casa e curtir aquele dia maravilhoso, mas quando você coloca os pés pra fora começa a chover? Essa era exatamente a sensação que Ravenna me dava toda vez que nos encontrávamos, uma nuvem grande, cinza, que só trazia escuridão pra minha vida.
- Vejo que tirou aquela cor de cabelo horrível que tinha, está mais parecida com sua mãe.
- Ravenna. – respondi seca.
- Nenhum "quanto tempo, vovó, eu senti sua falta".
- Talvez se eu realmente sentisse sua falta, eu poderia falar isso, porém esse não é o caso. – meu pai me deu um beliscão – Ai! Por que você fez isso?
- Ela ainda é sua avó.
- Se você conta fazer bullying com sua própria neta todos esses anos como amor... Claro, por que não?
- Você mereceu cada minuto, você sabe que sim.
- Então você merece cada minuto que esqueci que nós temos algum parentesco.
- ! – meu pai me repreendeu.
- Na verdade, isso não é verdade, toda vez que eu me comporto como uma rainha do gelo, eu lembro da parte da genética que eu faço questão de esquecer. Negar o sobrenome Bennet é o mesmo que negar a existência da sua mãe. – ela disse, entre os dentes.
- Eu nunca vou esquecer minha mãe, isso é fato. A única coisa que eu nego é a sua existência, Ravenna. – olhei para Lily, que parecia ler meus pensamentos e já estava com minhas coisas em mãos – Eu adoraria ficar, mas eu tenho que ir. Estou esperando ansiosa pela sua carta. – parei ao lado dela e disse: - Quanto tempo, vovó, eu senti sua falta. Com licença. – passei quase correndo por todos e segurei na mão de Lily, que me guiou até a saída do restaurante.
- ...
- Agora não, Lily, eu juro que eu estou a ponto de explodir.
- Tudo bem, você me conta tudo na sua casa. – ela abriu a porta do táxi.
- Ah, não pense que você vai fugir de mim dessa vez! – Marcus apareceu não sei de onde e foi nos empurrando pra dentro do táxi – Você vai me contar tudo que você andou aprontando, , especialmente desse par de peitos de aço que você adquiriu nesse meio tempo que decidiu dar uma de Elizabeth Gilbert. Uma ligação de vez em quando não faz jus ao que eu acabei de presenciar.

Depois de dar o meu endereço para o taxista, ninguém falou mais nada durante o caminho. Eu sabia que Marcus estava furioso por eu ter cancelado nosso encontro semana passada, eu também sabia que ele estava maquinando na sua cabeça um sermão. Não era pra menos, me afundar em trabalho foi a melhor solução que eu tinha achado para esquecer dos problemas que eu tinha.
Quando chegamos ao meu apartamento, eu joguei minha bolsa em qualquer lugar e deixei meus sapatos pela casa antes de me jogar no sofá.

- Seu apartamento é lindo. – Marcus disse fazendo com que eu abrisse os olhos. Ele e Lily estavam sentados no sofá a minha frente.
- Você não precisa ser bonzinho comigo, Marcus, eu cancelei com você pelo menos umas quatro vezes só esse mês. Eu sou uma péssima amiga, pode dizer.
- Você acha que eu estou chateado com isso?
- Não está?
- Um pouco ofendido, porque você trocou minha companhia por uma fotocópia sua, tão viciada em trabalho quanto você e menos divertida, mas não chateado. – Lily deu um empurrão nele – , eu te conheço tão bem quanto seu pai, gosto até de pensar melhor que ele, dava pra ver no seu olhar toda vez que você via eu e Fred juntos, você se martirizava mais um pouco. Dava pra perceber que você precisava de um tempo então foi isso que eu te dei.
- Obrigada.
- Mas da próxima vez eu vou te dar umas boas palmadas, fique ciente disso. – Marcus disse, fazendo com que eu sorrisse e Lily soltasse uma gargalhada – Eu estava no meio de uma discursão com a Ravenna quando seu pai te viu, Ravenna parou na mesma hora e parecia que ela precisava ir lá e tirar o sorriso que tinha no seu rosto. Nossa, aquela mulher não tem coração.
- Pra Ravenna o acidente inteiro foi minha culpa.
- E foi?
- Não. – me ajeitei no sofá – Sabe o que foi que eu aprendi nesses meses de terapia? Que você não pode ficar pensando no que você poderia mudar no passado, mas deveria se concentrar pra melhorar seu presente, pra ter um futuro mais são; não melhor, nem incrível, mas, sim, são. Eu não estava sã, por anos, mesmo fazendo mais bondade que eu fiz na minha vida inteira, eu só estava tentando tapar o sol com a peneira, ajudando os outros pra ver se pelo menos me fazia sentir melhor. Namorando idiotas, porque eu achava que eu merecia ser tratada daquela maneira, e deixando os outros tomarem conta de mim como se eu fosse uma boneca, como se eu não fosse forte o suficiente pra reagir. Eu me culpei por muito tempo, por Deus, deixei Ravenna sapatear em cima de mim como se eu fosse sua pista de dança particular, mas eu aprendi que não foi minha culpa. As coisas poderiam ser diferentes? Claro que poderiam, mas não são, então aceita que dói menos. Literalmente, dói menos.
- Já tentou falar isso pra Ravenna? – Lily perguntou.
- Ravenna só quer alguém pra culpar, contanto que ela não mande me matar, deixa ela com a vingancinha de colegial.
- Você não vai nem ao menos tentar confrontá-la?
- Não. Eu já estou confrontando meus medos, meus demônios todos os dias, agora os delas, isso aí já é com ela.
- Eu não gosto de admitir, mas esse tempo sozinha foi muito bom pra você. – Marcus se levantou e se sentou ao meu lado, me abraçando.
- Você poderia dormir aqui, pelos velhos tempos? – falei, o abraçando pela cintura.
- Você tem sorvete? – Marcus perguntou.
- Sério que você está perguntando por sorvete? – Lily se levantou, andando em direção as prateleiras em cima da mesa da cozinha, pegando duas garrafas de lá – Eu não sei vocês, mas o que eu realmente preciso é uma dose.
- Isso faz de nós duas. – falei, pegando uma das garrafas de suas mãos e colocando uma dose. Tomei tudo de uma vez, sentindo o líquido descer queimando pela minha garganta.
- O que foi que o te disse pra você sair da sala dele com cara de poucos amigos? – Marcus perguntou.
- Aquele bom e velho trocadilho de boa mentirosa.
- Espero que você tenha dado um tapa no meio da cara dele. – Lily falou.
- Não era você que era “team ” há algumas horas?
- Não se ele está sendo um idiota.
- Eu não o culpo pelo jeito que ele falou comigo, porém eu também não vou passar o resto da minha vida pedindo perdão pelo que eu fiz. Ele está fazendo exatamente o que eu fiz e por isso eu não vou jogar a primeira pedra, só espero que não leve anos pra ele perceber que esse jeito de vida não é saudável. Se ele quiser me escutar, eu ficarei mais do que feliz em conversar.
- Ele se atolou em trabalho desde que você foi embora. Quando voltou de Londres, vendeu o apartamento, pediu demissão da empresa da família e arrumou um investidor para o seu novo negócio, o que não foi difícil por conta do sobrenome que ele tem.
- Isso é maravilhoso.
- O investidor é a sua avó, por isso ela estava lá.
- Outch! Carma realmente existe e te atinge quando você menos espera. – falei, tomando outra dose. O celular de Marcus começou a tocar e ele pediu licença pra poder atender, Lily olhou pra mim antes de dizer:
- Brit estava certa.
- Sobre o quê?
- O dono do restaurante é sim um deus do olímpio, um do qual você já desfrutou de todo jeito que ela nem pode imaginar.
E, pelo trocadilho, eu caí na gargalhada.

~*~


- Marcus pediu pra te entregar isso. – dei um pulo, colocando a mão no coração e encarando JJ. Fazia duas semanas desde o incidente do restaurante e nesse meio tempo eu reduzi qualquer tipo de comunicação com JJ à restritamente profissional. Agora que eu sabia que era seu enteado, algo fazia com que eu ficasse tensa toda vez que ele estava no mesmo recinto – É o convite do aniversário surpresa do Fred amanhã, ele disse que ligaria, mas está muito ocupado tentando esconder tudo.
- Tudo bem. – peguei o convite de suas mãos e andei até à mesa em que Lily estava e me sentei ao seu lado. JJ continuou olhando pra mim com um sorriso nos lábios – O quê?
- Nada. – ele se sentou em minha frente – Então, qual é a história?
- Que história? Marcus e eu nos conhecemos no colegial, somos amigos desde então.
- Você sabe que não é disso que eu estou falando. Você e , qual a história de vocês? Eu tentei perguntar, mas a única coisa que ele disse é que é complicado.
- E ele tem razão, é complicado.
- Só isso?
- JJ, você não acha que é um pouco estranho você estar perguntando a uma de suas publicitárias sobre o relacionamento que ela tinha com o seu enteado?
- Você usar esse bando de palavra complicada não vai fazer com que eu desista da resposta.
- Foi uma série de eventos inoportunos que acabaram levando ao que estava acontecendo agora. Melhorou?
- As vezes eu te odeio.
- Entra na fila então. – JJ riu e se levantou, não antes de dizer:
- Pode até ser complicado, , mas eu sei que você sabe que a história de vocês é umas das maiores histórias de amor já contada. E você sabe o que dizem sobre grandes histórias de amor?
- Elas terminam em tragédia?
- Não, em um final feliz. Já tá mais do que na hora de você aceitar que você merece seu final feliz, garota.

Pra dizer que eu passei a semana inteira com essa pequena frase na cabeça, foi um começo. Pra piorar tudo, todas as vezes que eu fechava os olhos, eu sonhava com . Não um pesadelo onde tudo terminava em tragédia, mas um sonho onde tudo terminava em um final feliz. Lily percebeu a minha falta de sono e as minhas repentinas canecas de café durante o dia, mas não falou nada, Lily não era do tipo que forçava o assunto, ela esperava até que a pessoa estivesse pronta. Quando eu pedi que ela me acompanhasse até o aniversário de Fred, ela apenas balançou a cabeça e disse que não via a hora dos comes e bebes.
Era por isso nós estávamos paradas em frente à casa da qual JJ e Ian moravam, para o aniversário surpresa de Fred. JJ abriu a porta todo sorridente e abraçou uma de cada vez, antes de nos convidar para dentro. O lugar não estava lotado, pude ver alguns dos familiares que eu já tinha conhecido da viagem à Londres de longe, mas nada se comparava quando eu olhei para o lado e vi com um sorriso nos lábios, enquanto conversava com meu pai. Eu sei que fazia um tempo que eu não o via e também fazia um tempo que eu não o via sorrindo, mas isso não quer dizer que eu senti meu coração dar um pulo dentro do peito.
- ! – Sansa veio correndo em minha direção, me abraçando pela cintura.
- Oi, Sansa! – me afastei dela – Olha como você está linda com esse vestido.
- Gostou? Clide que comprou. – olhei-a confusa até que eu me lembrei que o nome do parceiro de Ian era Clide, mas eu o conhecia como JJ.
- Por que você não usa Clide? – perguntei, me virando para JJ.
- Porque é um nome horrível. – ele disse, tomando um gole da sua bebida – Então eu uso meus dois sobrenomes. – ele se virou para Lily – Lily, não vai beber nada?
- Pensei que você nunca ia perguntar. – ela disse, se virando pra mim.
- Pode ir lá, eu já te alcanço. – Lily e Clide sairam e quase na mesma hora Ian parou à minha frente.
- , você veio. – Ian me abraçou – Fico muito feliz que você esteja aqui, Sansa não para de falar de você.
- Fico feliz que ela não tenha me esquecido.
- E eu não fui a única. – Sansa sorriu, antes de sair correndo para onde seus outros primos estavam.
- Eu juro que essa menina tem poderes psíquicos.
- Acredite, não é só você que pensa isso. – nós dois rimos – Fico feliz que você finalmente tenha se reencontrado com seus filhos, os dois sentiam muito a sua falta.
- E eu senti a deles, só Deus sabe o sofrimento que eu passei em não poder conviver com meus próprios filhos.
- Eu posso imaginar. – não era que eu não admirasse o trabalho que meu pai fez em me criar nos últimos anos, mas, às vezes, o que mais queria era o colo da minha mãe.
- Eles sempre foram o meu casal preferido, os seus pais. O jeito que eles se olhavam... para um cara que não acreditava no amor naquela época, bastava só olhar pra eles, pra saber que eu queria aquilo também.
- É, eles viviam em fase de lua-de-mel todo o tempo, um pouco irritante, pra falar a verdade. – sorri pra ele – Mas é a vida, coisas ruins acontecem e, apesar de tudo, eu fico muito feliz que ele tenha encontrado a Charlie e eles estejam muito felizes.
- Isso é verdade.
- Se você não se importa, Ian, eu quero ir falar com meu pai, faz um tempo que eu não o vejo.
- Claro, pode ir lá. – andei até onde meu pai estava, agora sozinho, e joguei meus braços ao redor do pescoço dele, quase derrubando-o.
- Paizinho, querido, que saudades.
- Você não deveria se apoiar em mim desse jeito, minhas costas não são tão boas como antigamente. – ele se afastou de mim.
- A idade está finalmente chegando. – eu disse, rindo – Cadê a Charlie, ela não veio com você?
- Não, ela não pode viajar.
- Ela está doente?
- Não, completamente o oposto, ela está melhor do que nunca.
- Então por que ela não veio? – meu pai puxou a maior quantidade de ar que podia e depois soltou tudo de uma vez.
- , eu tenho que te contar uma coisa.
- Okay.
- É que... – meu pai tomando todo o conteúdo do seu copo.
- Pai, você está me assustando.
- Desculpa, é que eu estou nervoso. Eu não sei por onde começar.
- Do começo seria uma boa.
- Eu e Charlie vamos nos casar. – eu engasguei com minha bebida e olhei incrédulo para o meu pai – E ela está gravida. – eu não sabia se era possível, mas eu juro que meu queixo quase caiu no chão.
- Pai, isso é incrível. – abracei-o pelo pescoço – Parabéns, você e Charlie merecem serem felizes. Você mais do que ninguém. – separei-me dele – E eu vou ser irmã mais velha, dá pra acreditar?! Eu vou mimar tanto essa criança, você não tem noção.
- Você não está chateada?
- Chateada? Por que eu ficaria chateada?
- Não sei, por causa de eu me casar outra vez.
- Pai, mas é claro que não, você merece toda a felicidade do mundo, e se você encontrou isso com Charlie, eu te apoio totalmente. Não sou eu que vou tirar sua felicidade pela segunda vez.
- ...
- Eu sei, você não precisa falar. – abracei-o novamente – Eu estou feliz por você, e aposto que mamãe deve estar lá em cima gritando um finalmente. – meu pai riu e disse:
- Obrigado, filha. Eu nunca pensei que seria feliz depois do que aconteceu com sua mãe, mas Charlie foi realmente um anjo que aconteceu na minha vida.

Eu estava prestes a responder quando Marcus gritou pra todo mundo se preparar, porque Fred já estava vindo. Quando Fred entrou no jardim, gritando com Marcus dizendo pra ele parar de brincadeiras bobas e contar o que estava acontecendo, o seu queixo foi praticamente no chão quando ele viu com um bolo nos braços, enquanto todo mundo cantava seus parabéns, dava pra ver no jeito que Marcus e Fred se olhavam que os dois estavam mesmo apaixonados. Fred abraçou cada convidado agradecendo pela presença, até que JJ gritou para Fred fazer um discurso e mandou todo mundo ficar calado.
- Eu queria agradecer a presença de todos - Fred começou – É muito importante que todos vocês estejam aqui nesse dia tão especial. Queria agradecer especialmente ao meu namorado maravilhoso que fez um ótimo trabalho em esconder tudo de mim, porque ele sabe o quanto eu amo surpresa. – ele estendeu a mão para Marcus, que a pegou, e Fred o puxou pra perto – Você foi a melhor coisa que aconteceu pra mim, eu te amo! – e Fred beijou Marcus, um beijo digno de cena de filme. Todo mundo começou a aplaudir, quando um estrondo na porta de Fred fez com que todos parassem. Da porta veio um homem que estava a ponto de explodir de tão vermelho e pegou Fred pelo colarinho, o afastando de Marcus, dando um soco nele, fazendo com que ele caísse no chão logo em seguida.
- Eu não acredito que isso seja verdade, Frederico! – ele gritou enquanto Fred cuspia sangue e se sentava no chão – Você é, você é....
- Gay. – Fred disse, se levantando – Pode dizer, não é doença, você não vai virar um se dizer.
- Você é uma decepção, sempre foi! Eu pensei que te colocando na empresa você ia deixar de ser tão sensível e viraria homem, mas não, desde pequeno você sempre mostrou que não tinha o que precisava pra ser homem.
- Chad, por favor! – uma mulher falou, já chorando, e eu pude reconhecê-la como a mãe de Fred.
- Não, Yolanda, isso também é culpa sua! – ele se virou pra Fred novamente – Saiba que a partir de agora você não é mais meu filho, Frederico! Você é outra desonra pra essa família, igual ao seu tio! Tinha que virar bicha! Eu deveria te dar uma surra até você virar homem, em você e nesse seu... Esse seu namorado!

Eu juro que eu tentei me segurar, não deixar as emoções falarem mais alto, porém, se tinha uma coisa que eu tinha aprendido é que quando se trata das pessoas que a gente ama, a razão vai pro espaço. Então eu andei a passos largos até o pai de Fred e o cutuquei no ombro e quando ele se virou, eu usei o meu conhecimento em defesa pessoal e o soquei no meio da cara.
- Se você ameaçar Marcus ou Fred outra vez, eu juro que da próxima vez faço você perder um dente, seu preconceituoso de merda! – o pai de Fred me olhou abismado, mas logo eu pude ver a raiva dentro de seus olhos.
- Sua vadiazinha, quem você pensa que é?! – antes que eu pudesse responder, o pai de Fred estava no chão outra vez, só que dessa vez não tinha sido eu que tinha socado ele, e sim .
- Podem levar ele. – ele falou para os seguranças – E pode falar que nós vamos prestar queixas, isso é invasão de propriedade privada.
- Essa é a casa do meu irmão! – o pai de Fred gritou, enquanto tentava se soltar dos seguranças.
- Mas não quer dizer que você seja bem-vindo. – disse se virando pra mim. Ele segurou meu rosto entre suas mãos e perguntou: - Você está bem? – Preciso dizer que eu fiquei surpresa com a repentina proximidade do seu rosto com o meu e carinho na sua voz foi um começo. Fazia um tempo que ele não olhava pra mim com tanta ternura em seus olhos e não me tocava, então a única coisa que consegui fazer foi assentir.
- Senhor , nós precisamos do senhor. – beijou o topo da minha cabeça e desapareceu entre os convidados. Lily apareceu ao meu lado, me pegando pela mão e me guiando até a cadeira mais próxima. Me joguei na mesma, olhando pro nada, sem nem ao menos saber como reagir. Que porra foi que aconteceu aqui?
- Eu não sei do que eu estou mais passada: você dando um soco na cara de um cara ou beijando o topo da sua cabeça. – Lily disse com um copo de uísque na mão.
- Não me pergunte nada, porque eu realmente não sei o porquê de nada que aconteceu nesse momento. – peguei o copo de sua mão e bebi todo o conteúdo.
- Direita fenomenal hein, filha?! – meu pai apareceu em minha frente com um sorriso no rosto e com a mão levantada. Foi impossível não sorrir enquanto eu batia em sua mão.
- Você não está chateado?
- Mas é claro que não, você não é a única que queria dar um soco na cara de Chad. – ele olhou pra minha mão – Você deveria colocar um gelo nisso.
- Eu posso te levar. – Ian apareceu atrás de meu pai com um sorriso no rosto – Eu sei que você precisa ir pro aeroporto.
- Você já vai embora? – perguntei, me levantando – Mas você acabou de chegar.
- Se você não ignorasse todas as minhas ligações, saberia que eu estava na cidade.
- Desculpa, nós tínhamos um projeto enorme essa semana e minha meta toda fez com que eu chegasse em casa e dormisse.
- Eu entendo. – ele me abraçou apertado – Estamos te esperando em Londres, Charlie vai ficar muito feliz em te ver.
- Claro, e estou mais do que feliz em ter um irmãozinho ou uma irmãzinha. – ele beijou o topo da minha cabeça e se despediu de Ian e Lily. O jardim já estava praticamente vazio e eu vi Clide arrastar Sansa para dentro de casa, enquanto Fred, sua mãe e Marcus acompanhavam os policiais.
- Vamos colocar um gelo na sua mão? – assenti, me levantando. Lily pegou a garrafa de vodca ao seu lado e colocou debaixo do braço.
- O quê? – ela perguntou enquanto andávamos em direção a casa – Não é como se ninguém fosse beber, pode acreditar que nós vamos fazer um ótimo proveito dela. – entramos na cama e Ian indicou para que eu sentasse no balcão, enquanto Lily procurava um copo no qual ela pudesse depositar o conteúdo da garrafa. Ian estendeu dois copos pra ela, que agradeceu antes de colocar um pouco pra mim e pra ela. Ele me entregou uma toalha com gelo e eu agradeci, colocando em cima da minha mão.
- Eu vou ver como Sansa está, fiquem à vontade. – Ian desapareceu pela escada e Lily sentou ao meu lado no balcão.
- Que direita fenomenal, hein dona ?! – Lily disse, fazendo com que eu gargalhasse – Quem sabia que você tinha um espírito de amazona dentro desse corpo de menina boazinha.
- Eu sempre soube.
- Que bom. E quando é que essa amazona vai lutar pelo cara que ela está apaixonada e, pelo o que eu vi hoje, que também está apaixonado por ela?
- O quê? – olhei para ela.
- , aquele garoto te ama tanto.
- Do que você está falando?
- Você tem tanta certeza que ele te odeia por você ter mentido que você nem percebe o jeito que ele olha pra você quando você não está olhando. É incrível, é perceptível que ele trava uma batalha interna entre ficar longe de você ou correr até você e agarrá-la como se não houvesse amanhã.
- Só porque você fez quatro semestres de psicologia não quer dizer que você saiba tudo sobre pessoas.
- Ah, mas quando se trata de amor, é impossível de esconder. – ela disse, antes de tomar todo o conteúdo do seu copo e pular do balcão – Eu vou procurar um banheiro nessa mansão, não sinta muito minha falta.
- Não sentirei. – olhei para minha mão, que estava vermelha, começando a ficar um pouco roxa. Abri a mesma, sentindo-a doer então coloquei a toalha em cima. Pelo menos eu não teria que explicar pro meu chefe porque eu apareci com uma mão roxa segunda-feira no trabalho, ele já sabia e, pode ter certeza que, ele achou que foi por uma boa causa.
- Como está sua mão? – levantei meu olhar, vendo parado na porta.
- Doendo como nunca antes. – respondi, vendo-o andar até onde eu estava e se sentar ao meu lado no balcão. Senti um arrepio passar pela minha espinha e aquele frio na barriga. Para quem não teve contato em meses, sentar tão perto assim de mim parecia até maldade, principalmente pelo fato que eu não podia tocá-lo, ou beijá-lo ou dizer tudo que estava entalado na minha garganta. – Quem diria que dar um soco em uma pessoa causaria danos pra quem dá o soco também?
- Mas valeu a pena, pode admitir.
- E como valeu. – nós rimos – Obrigada por ter me defendido do pai de Fred, eu jurava que ele vinha pra cima de mim. Eu não pensei muito bem no depois, pra ser bem sincera.
- Qualquer um faria o mesmo, além do mais, você não é a única que gostou de ter dado um soco nele, eu também gostei. – nós ficamos em silêncio.
- Como está Fred?
- Foi pra delegacia com Marcus, aparentemente ele fez questão de prestar queixa.
- Bom, ele está mais do que certo, o pai dele merece pelo menos uma noite atrás das grades.
- E como merece, ele sempre foi uma das piores pessoas quando se trata de assuntos como este. Eu lembro vividamente do que ele falava do meu pai, eu só não tinha partido a cara dele no meio, porque Fred sempre pediu que eu deixasse pra lá. – estendi a toalha com gelo pra ele e ele me olhou confuso – Eu não fui a única que deu um soco na cara dele, pode ficar.
- Mas e você?
- Acho que meus dedos já ficaram dormentes. – entreguei a toalha pra ele e nossas mãos se tocaram por apenas alguns segundos.
- Obrigado. – ele colocou o gelo em sua mão e olhou para frente. Por mais que eu quisesse, as palavras de Lily continuavam ecoando na minha cabeça. “Aquele garoto te ama tanto”. Se quando eu descobri a verdade sobre Sansa eu não parei de pensar nele, seria possível que o mesmo tivesse acontecendo com ? Será que mesmo com tudo que a gente passou, nós ainda tínhamos uma chance de ter um futuro juntos? Será que o tempo curava mesmo todas as feridas? Você vai ter que perguntar pra saber, pensei.
- ... – ele desviou o olhar da sua mão para mim.
- Quase que eu não acho um banheiro nessa casa. – Lily entrou na cozinha, fazendo com que nós olhássemos pra ela – Está pronta pra ir pra casa, ? – Lily levantou o olhar e viu que estava ao meu lado – Oh, eu volto outra hora.
- Não precisa. – pulou do balcão e colocou a toalha no mesmo – Eu posso levar vocês.
- Não precisa.
- Nós aceitamos. – Lily respondeu levantando as sobrancelhas duas vezes. se virou pra mim, esperando que eu falasse alguma coisa.
- Nós adoraríamos.
- Vamos então. – foi na frente e Lily me pegou pela mão, me puxando pra saída.
- “Não precisa”. Sério, ?! Pensei que você queria conquistá-lo de volta. – ela sussurrou ao meu lado.
- Mas não desse jeito. – sussurrei de volta – As coisa não são simples assim, Lily.
- Pareciam bem simples antes de eu entrar na cozinha. – eu estava prestes a responder quando ligou o carro chamando nossa atenção. Lily correu e entrou no banco de trás, enquanto eu entrei no banco do passageiro. olhou pra mim, esperando que eu dissesse alguma coisa mais, mas eu apenas mordi meu lábio.
- Pra onde?
- Oh, claro. Meu prédio fica em WeHo. Você vai ficar na minha casa, Lily?
- Não, eu ainda tenho um encontro com o Max hoje à noite. – Max era o cara do marketing, com o qual Lily estava saindo há algumas semanas.
- Então você pode me deixar primeiro, eu moro mais perto do que a Lily. – eu dei meu endereço para e nós dirigimos em silêncio até meu apartamento. Meu celular começou a tocar na minha bolsa e eram mensagens de Lily dizendo “fala alguma coisa”, “pergunta alguma coisa”, “larga de ser marica”, “conquista esse boy de volta” e tudo que eu fiz foi ignorá-la, eu sabia que uma hora ou outra ela iria desistir. Tanto tempo ignorando Lily não fez com que eu percebesse que já estávamos na minha rua.
- Obrigada pela carona, . – falei quando paramos em frente ao meu prédio.
- Não há de quê. – ele respondeu, sorrindo sem os dentes.
- Até segunda, Lily.
- Até segunda, . – saí do carro e andei em direção ao meu prédio, sem nem ao menos olhar pra trás. Entrei no meu apartamento largando minha bolsa em cima da mesa e deixando meus sapatos na sala. Adentrei meu quarto já com minhas roupas em mão e vesti minha camisa mais larga e minha calça de moletom. Quando eu estava saindo do banheiro, depois de tirar minha maquiagem e amarrar meu cabelo, a campainha tocou. Olhei para o lado, vendo que Lily tinha esquecido seus sapatos preferidos no meu quarto, andei até a porta, abrindo a mesma, esperando ver Lily, porém estava longe de ser ela.
- ? O que você está fazendo aqui? – perguntei, olhando assustada pra ele.
- Oi. – ele olhou para os seus pés – Eu estou pronto.
- O quê?
- Eu estou pronto pra te escutar.


Capítulo 18

- ? – Eu pisquei algumas vezes, sem nem ao menos saber o que dizer. Isso está mesmo acontecendo? – ? – ele chamou mais uma vez, mas da minha boca não saía nada. Acho que era assim que você fica quando o cara que você ama aparece na sua porta, esperando uma explicação de um dos momentos mais tenebrosos da sua vida. Eu tinha, sim, imaginado que um dia iria aparecer na minha porta pedindo uma explicação, mas nada se comparava ao momento em si. olhou pra mim, passando as mãos pelo cabelo – Eu vou embora. – ele se virou para ir embora.
- Não! – gritei, fazendo com que ele parasse e se virasse para mim – Você quer entrar? – balançou a cabeça e eu dei espaço para que ele entrasse em meu apartamento – Você quer alguma coisa? Algo pra beber? – perguntei, vendo-o andar em direção a uma das cadeiras que ficava em frente ao sofá.
- Eu deveria pedir a coisa mais forte que você tem, mas não seria uma ideia muito boa misturar álcool e dirigir. – ele disse, sorrindo, antes de se sentar.
- É, coisas ruins podem acontecer. – respondi, andando em direção ao sofá em sua frente. encarava a mesa de centro enquanto eu o encarava. Pela primeira vez, eu não sabia o que dizer, nem ao menos por onde começar. Como é que você diz pro cara por qual você está apaixonada um dos seus momentos mais obscuros que te levou a anos de terapia?
- Eu...
- Você... – falamos os dois ao mesmo tempo – Você primeiro. – ele continuou.
- Eu vou falar tudo logo de uma vez antes que eu perca a coragem. – eu disse e ele assentiu – Como você sabe, minha avó é Ravenna Bennet, herdeira da rede de hotéis, Balnort Hotel, minha mãe, Amelia, era sua filha. Ravenna sempre teve tudo que sempre quis e, não sei se você percebeu trabalhando com ela, ela adora controlar tudo e todos ao redor. Não foi muito diferente quando se tratou da vida da minha mãe, ela praticamente tinha a vida da filha toda planejada desde o dia que ela nasceu. Tirar notas boas, entrar em uma faculdade de administração para que ela viesse administrar os hotéis algum dia, casar com herdeiro pra ficar ainda mais rica. Só que minha mãe sempre quis viver sua vida do jeito que ela mesma planejou e as coisas começaram a desandar quando ela decidiu fazer faculdade de publicidade. Ravenna foi relutante no começo, mas achou que poderia vir a convencer minha mãe a mudar de ideia depois que a faculdade acabasse. Só que o que ela não esperava era que ela conhecesse meu pai e se apaixonasse por ele. No começo, Ravenna não o viu como ameaça, até que minha mãe começou a falar de montar sua própria empresa e até montar sua própria família. Ravenna quis acabar com o romance de todas as maneiras possíveis, não queria que minha mãe terminasse com um Zé ninguém que não tinha nada no bolso. Essa mania de Ravenna de se meter na vida dos outros fez com que minha mãe fizesse de tudo pra se distanciar ao máximo do nome dela; quando ela se casou com meu pai, deixou o sobrenome Bennet de lado e adotou o sobrenome do meu pai. – olhei para ele, que escutava tudo atenciosamente, antes de continuar – Meus pais decidiram então montar sua própria empresa de publicidade, mamãe sempre amou a sua profissão, mas fazer com que Ravenna mordesse a língua era um dos melhores sentimentos que ela poderia sentir. Papai sempre disse que ela não deveria sentir tão bem em provar que sua mãe estava errada, porém, minha mãe sempre me disse que ele não a conhecia com ela conhecia. – me encostei no sofá – Depois que eu nasci, a empresa dos meus pais já estava indo muito bem, a medida que os anos foram passando eles dois foram criando um nome para eles, se tornando uma das maiores empresas de publicidade do mercado. Minha mãe, mesmo não tendo uma relação boa com Ravenna, decidiu que não a privaria de ver a sua neta, só que isso fez com Ravenna quisesse me controlar do mesmo jeito que ela fez com minha mãe, o que ela conseguiu fazer durante alguns anos. Eu sempre pensei que Ravenna fosse a melhor avó do mundo, ela sempre me dava tudo que eu queria, me mimava e aos poucos ela conseguiu me distanciar dos meus pais. Minha mãe nunca falou uma coisa ruim sobre minha avó, eu tive que descobrir tudo sozinha. Começou quando um namorado meu foi conhecê-la e no dia seguinte ele terminou comigo, outra vez foram minhas amigas que de repente decidiram me excluir do grupo, depois o diretor me proibindo de participar das atividades do colégio, até que um dia eu escutei uma discussão da minha mãe com Ravenna e eu lembro exatamente das palavras dela "Se você não tomar cuidado, sua filha vai terminar igual a você: casada com um Zé ninguém, morando em um bairro de classe média, com uma filha adolescente que é uma receita pra desastre". Depois disso eu cortei Ravenna da minha vida completamente, e foi aí que as coisas começaram a desandar. – respirei fundo – Era meu último ano do colégio e eu decidi que ia me juntar a um grupo de amigos e viajar durante um ano em vez de ir logo pra faculdade. Minha mãe ficou paranoica, mesmo que ela não gostasse de admitir, tudo que Ravenna falava ficava guardado no seu inconsciente e dessa maneira ela me prendia como forma de me proteger do mundo, do mesmo jeito que Ravenna fez com ela. Eu era jovem, não sabia o que eu queria da vida, estava me descobrindo, ter minha mãe me pressionando a cada segundo da minha vida com o plano que ela escolheu pra mim só fez com que a nossa situação piorasse. Eu passei a deixar todas as frustrações que eu tinha dentro de mim refletirem do lado de fora, fazendo com que eu me tornasse uma pessoa que eu mesma não conhecia. Eu comecei a sair para as festas, desaparecer nos finais de semana, criei um hábito de beber e dirigir, fazendo com que minha relação com minha mãe fosse de mal a pior. No dia do acidente eu tive uma das piores brigas com ela, tudo porque ela tinha achado o dinheiro que eu tinha juntado, com o trabalho do qual ela não fazia ideia que eu tinha arrumado, e um mapa com todas as futuras localizações que eu iria visitar. Foi uma das piores brigas que eu tive com ela, eu disse tantas coisas que eu sabia que iria feri-la. – limpei as lágrimas que teimavam em cair – Aconteceu tudo tão rápido, ela tinha acabado de dizer que estava trabalhando com Ravenna pra que eu tivesse as melhores acomodações, depois o sinal abriu e quando eu menos esperei o nosso carro estava capotando.


Flashback


A primeira coisa que eu senti doer foi a cabeça, parecia a pior ressaca que eu já tinha experimentado na vida. Tentei respirar fundo, mas logo me arrependi, a fumaça entrou pelo meu nariz, e logo eu comecei a tossir freneticamente e meu peito começou a doer.
- , filha, você está bem? – virei minha cabeça, abrindo meus olhos e vendo minha mãe ao meu lado. Minha visão estava turva, mas logo quando eu consegui enxergar melhor, percebi que estávamos de cabeça pra baixo. Olhei para o outro lado, vendo apenas algum tipo de plantação antes de virar para minha mãe outra vez – Você está bem?
- Minha cabeça dói. – respondi, tocando minha testa, sentindo um corte sangrar – O que aconteceu?
- Um carro avançou o sinal vermelho. – tentei me mexer, o que fez com que meu peito doesse – Nós capotamos. – A primeira coisa que veio a minha cabeça foram as palavras de Ravenna: Essa garota é a receita para um desastre.
- Isso tudo é minha culpa. – foi a única coisa que eu disse, antes de começar a chorar.
- , filha, não é verdade. – ela tossiu.
- Se eu tivesse obedecido a senhora, nada disso tinha acontecido. – comecei a soluçar – Eu faço tudo errado, vovó está certa, eu sou uma receita para o desastre.
- Isso não é verdade, . – ela passou a mão por meu rosto, tossindo – Não deixe o que sua avó fala te afetar, Ravenna não te conhece como eu conheço. – as tosses de minha mãe se intensificaram e dessa vez ela colocou a mão na boca e logo eu pude ver o sangue na mesma. Olhei pra baixo vendo que minha mãe estava sangrando, um pedaço de vidro se encontrava debaixo da sua costela.
- Mãe, você está sangrando. – eu disse tentando tocá-la, mas ela me impediu, me pegando pelas mãos.
- , escuta o que eu vou dizer.
- Mãe, nós temos que procurar ajuda. – eu disse, entre choros, tentando abrir a porta.
- Eu quero que você cuide do seu pai, ok?! – ela sorriu – Você sabe que ele não consegue fazer nada sozinho, sem mim ele vai ficar perdido e vai precisar de você mais do que nunca.
- Mãe, por favor, não fala assim, a gente vai sair dessa. – eu disse, olhando pra ela – Você vai me ver se formando em publicidade, do mesmo jeito que você e papai se formaram. Os três mosqueteiros, lembra?!
- Não antes de você viajar com seus amigos. – ela disse, tossindo mais forte, saindo mais sangue da sua boca – Eu quero que você saiba que eu estou muito orgulhosa de você, saber que você se esforçou e lutou por algo que você queria me fez perceber que você puxou o lado guerreira da minha família. Não é o que eu tinha planejado pra você, mas me fez perceber que você é a única que pode escrever sua história. – ela sorriu e pude ver o sangue entre seus dentes – Eu quero que você se lembre dos momentos bons e ruins que passou comigo, filha. – ela piscou os olhos – E também que nada disso foi sua culpa.
- Mas isso é minha culpa! Se eu não tivesse te desobedecido, nós não estaríamos aqui. Eu sou uma péssima filha, eu faço tudo errado.
- Não, você não é. – ela disse passando a mão por meu rosto – Você é a melhor filha que alguém pode ter. – ela tossiu mais algumas vezes – Eu te amo, , não se esqueça disso. – ela fechou os olhos e esperei que ela os abrisse novamente.
- Mãe? – falei, balançando seu ombro – Mãe? Mãe? – balancei-a de novo – Ai meu Deus! Ajuda! Alguém me ajuda! – comecei a bater no vidro antes de tudo ficar preto.

End Flashback



- Depois disso eu apaguei e acordei no hospital.
- Se sua mãe te falou isso, por que você se culpa tanto, ? – ele disse, me pegando de surpresa.
- Porque falar é mais fácil do que fazer, sem falar que desde o acidente Ravenna fez questão de me lembrar só as coisas ruins do que aconteceu. Ela precisava de alguém pra culpar e eu fui a sua vítima favorita.


Flashback


- Mãe? – foi a primeira palavra que eu consegui falar. Minha garganta estava seca, fazendo com que minha voz saísse rouca – Mãe?
- Estou aqui, filha. – tentei abrir os olhos, enxergando apenas uma luz forte, enquanto alguém apertava minha mão – , você está bem?
- Água. – falei e segundos depois senti um canudo em minha boca e logo depois o líquido gelado descer por minha garganta. Com o tempo, meus olhos foram se ajustando à luz e eu pude ver meu pai, ao lado da minha cama, com os olhos vermelhos.
- Oi filha, como você se sente? – ele perguntou, pegando em minha mão.
- Como se um caminhão tivesse passado por cima de mim. – respondi, me ajeitando na cama. Meus olhos se fecharam por alguns instantes e o acidente passou em flashes por meus olhos – Cadê a mamãe? – perguntei, olhando pra ele – Pai, onde está minha mãe? Ela está bem? – meu pai abaixou a cabeça, evitando meu olhar.
- Quando vocês chegaram, vocês duas estavam muito mal, sua mãe estava pior. – eu vi as lágrimas começarem a descer por seu rosto – Os médicos tentaram salvá-la, mas já era tarde demais. Ela morreu no caminho para a cirurgia. – ele disse, apertando mais minha mão.
- Não. – comecei a balançar a cabeça – Não. – senti as lágrimas descerem por meu rosto – Não pode ser.
- Eu sinto muito, filha.
- Não, ela não pode ir desse jeito. – eu falei, um pouco alto até demais, ainda balançando a cabeça em negação – Não quando eu tenho tanto pra dizer, não quando eu tenho tanto pra aprender com ela.
- , filha... – meu pai foi interrompido pela porta do meu quarto sendo aberta com um estrondo.
- Você matou minha filha! – Ravenna apareceu. - Você matou minha filha e fez de propósito.
- Ravenna, eu já te disse, o motorista avançou o sinal.
- Mas ela estava dirigindo bêbada! – ela apontou para mim – Se vocês tivessem a mandando para um colégio interno do jeito que eu mandei, ela não teria se tornado essa dissimulada.
- Ravenna...
- Isso tudo é culpa sua! Se minha filha nunca tivesse te conhecido, ela estaria viva nesse momento. – ela olhou pra mim – Ela não teria essa desculpa pra filha que teve coragem de matar a própria mãe.
- Ravenna, tem apenas 17 anos, ela ainda é uma criança que não sabe muita coisa da vida. – meu pai disse em um tom tão calmo que até assustou Ravenna – Ela não tem culpa de nada. sim, ela tinha bebido algumas cervejas, mas não foi ela que avançou o sinal.
- Isso não justificava, ela não deveria estar atrás do volante depois de ter ingerido álcool! E sem falar que ela é menor de idade, como é que você permite uma coisa dessas?!
- Eu não vou dar aquela de pai hipócrita e dizer que nessa idade eu já não bebia, porque eu já fazia coisa bem pior. – ele levantou a sua voz – Não adianta culpar por algo que estava fora do controle dela.
- Você está muito calmo para alguém que acabou de perder a esposa que tanto amava. – ela disse sarcástica.
- Eu posso aguentar qualquer coisa de você, Ravenna, mas o seu sarcasmo direcionado ao meus sentimentos relacionado a sua filha eu não vou aceitar. Eu amava, ou melhor dizendo, ainda amo a sua filha mais do que eu já amei qualquer pessoa na minha vida inteira. sabe qual foi a última coisa que ela me disse antes de morrer? Que eu cuidasse da nossa filha, porque ela era prova do quão grande era o nosso amor. – as lágrimas começaram a descer pelos olhos do meu pai – E antes de culpa qualquer outra pessoa sobre o relacionamento de vocês duas não ser um dos melhores, você deveria recapitular tudo que o que você fez com ela durante todos esses anos. – Ravenna olhou com tanto ódio para o meu pai que se um olhar pudesse matar qualquer um, teria sido naquele momento. Depois ela direcionou seu olhar pra mim e disse:
- Eu vou transformar sua vida em um inferno! Eu vou fazer você se lembrar o que você fez, eu vou fazer você se lembrar o tipo de pessoa que é de verdade, nem que seja a última coisa que eu faça.

End Flashback



- Meu pai disse que ela estava inconsciente quando chegou ao hospital, mas ainda estava viva. Ela perdeu muito sangue, estava muito fraca, e a última coisa que ela disse foi que nós, meu pai e eu, foram as melhores coisas que aconteceram. – continuei encarando a mesa de centro, nem ousando levantar o olhar – Demorou um mês para que Ravenna começasse a mandar suas cartas me lembrando do acidente. Eu estava começando a me recuperar do trauma, mas mesmo que eu quisesse, as cartas de Ravenna me lembravam que eu era um monstro e que eu...
- Não merecia ser amada. – ele completou, fazendo com que eu olhasse para ele.
- Depois disso, minha vida foi de mal a pior. Toda vez que eu estava começando a melhorar, a carta de Ravenna chegava e todo o meu progresso ia pro lixo. Até que um dia eu parei de tentar, eu deixei que as palavras de Ravenna me atingissem e tomassem conta da minha vida. Chega até ser bizarro o fato de que a única memória que eu tive da minha mãe durante anos, foi o fato de eu ter provocado o acidente que resultou em sua morte. O único momento que eu esquecia de tudo era quando eu estava ajudando no hospital. No momento em que eu saía daquelas portas, era como se eu fosse outra pessoa, a versão monstro que Ravenna tinha de mim tomava conta. – respirei fundo antes de continuar – Até conhecer você, é claro, quando eu me mudei pro prédio de Marcus. Eu lembro do primeiro dia que eu te vi, chegando com um dos seus amigos, completamente bêbado. Você dormiu no elevador naquele dia, e continuava a apertar o botão do seu andar, mas não conseguia sair até que eu te arrastei até sua porta. – eu sorri – Eu não sei por que, mas você e as suas histórias era o que me fazia gargalhar. Claro, você era um cachorro, e sempre andava com um bando de mulheres com mais de um metro de perna, então eu não tinha nenhuma chance.
- Eu também lembro do primeiro dia que eu te vi. – ele disse, sorrindo – Você estava entrando no prédio com seu café, agradecendo aos deuses por morar perto de uma padaria com café decente, e eu decorei o seu pedido. Eu pensei até em dar em cima de você, mas você sempre me olhou com tanto desprezo.
- Não era desprezo, era precaução.
- Precaução por quê?
- Eu sabia que se eu deixasse você entrar o inevitável aconteceria.
- E o que seria isso?
- Eu me apaixonaria por você. – ele levantou o olhar e eu continuei: – Eu te amo, . Eu não espero que você diga o mesmo, ou que você pule em meus braços e perdoe tudo que eu fiz, eu só acho que você deveria saber. – ele não disse nada, apenas se levantou e saiu do meu apartamento, sem nem ao menos olhar pra trás.

~x~


- Ele se levantou e foi embora? – Lily perguntou, tomando um pouco do seu café.
- Sim. – respondi, me encostando na cadeira.
- Só isso? Nem um telefonema?
- Nem sinal de fogo.

Fazia duas semanas desde que apareceu na porta do meu apartamento, pronto pra escutar o que eu tinha pra falar. Então foi isso que eu fiz, desenterrei todos os meus demônios, abri meu coração pra no final ele se levantar e ir embora sem olhar pra trás. Não era que eu esperasse que ele voltasse pra mim correndo, me perdoando pelo o que eu fiz... Ah, a quem eu queria enganar! Eu esperava, sim, que quando eu contasse tudo em relação ao acidente de minha mãe, e eu ao menos tentaríamos fazer as coisas darem certo. Porém, a expectativa nunca superava a realidade e a única coisa que eu consegui dele foi total silêncio.
- Vai atrás dele, ! Larga de ser bunda mole. – Lily falou, batendo na mesa.
- Lily, eu já disse o que tinha pra dizer, agora só depende dele. Eu não posso simplesmente aparecer em sua porta, exigindo uma resposta. Ele respeitou meu espaço, agora só cabe a mim respeitar o dele.
- E olha onde isso te levou. – Lily disse, com uma expressão incrédula – Eu sei que você não é de correr atrás de ninguém, , mas será que essa sua falta de interesse pela resposta dele não quer dizer que você não gosta dele tanto assim? Porque, honestamente, suas ações não são de uma pessoa que está prestes a perder alguém que ama.
- Então só porque eu não estou perseguindo o garoto 24 horas por dia, 7 dias por semana, quer dizer que eu não estou interessada? Quer dizer que eu não o amo do jeito que eu acho que amo? – agora foi a minha fez de olhar para ela incrédula – Você acha que foi fácil contar a minha história de vida pra alguém, especialmente uma tão trágica e que deixou tantas feridas e, que de uma forma bizarra e indireta, influenciou no nosso relacionamento trazendo mais complicações do que o esperado?! Você acha que é fácil abrir meu coração do jeito que eu fiz?! – eu perguntei, esperando alguma resposta dela, mas a única coisa que eu consegui foi silêncio – Quando a gente ama uma pessoa a gente respeita o espaço dela, eu estou respeitando o espaço dele do mesmo jeito que ele respeitou o meu quando eu descobri sobre a Sansa. Você acha que não dói esse silêncio agonizante dele? Você acha que eu não quero aparecer na porta dele, exigindo uma resposta pra minha angústia? Mas é claro que eu quero. Só que ao mesmo tempo eu quero que ele chegue na conclusão do que ele sente por mim nos seus próprios termos, não porque eu exigi.
- E se depois dessa espera toda vocês ainda não ficarem juntos?
- Bem, meu coração vai partir em mil pedaços.
- Você estava esperando que quando você contasse seu lado da história, vocês ficassem juntos?
- Sim, e dessa vez a gente ia fazer tudo direitinho, sinceridade seria a base de tudo.
- Você é muito positiva.
- Isso que dá ir a psicóloga cinco dias da semana, por duas horas.
- Desculpa te atacar desse jeito, é que vocês dois me deixam frustrada às vezes. É porque pra mim parece tão simples: se vocês se amam, fiquem juntos, ponto final.
- Quem dera a vida fosse assim fácil. – me levantei, andando em direção à saída do refeitório com Lily ao meu lado.
- Lily, . – Brit apareceu na nossa frente – JJ está chamando vocês na sala de reunião cinco, alguma coisa sobre um novo cliente.
- Mais um? E a essa hora? O nosso expediente já acabou.
- Parece que eles são importantes e só conseguiram arrumar tempo agora.
- Ótimo. – Lily grunhiu – Ai meu Deus, lá vem mais um final de semana sem vida social.
- Como se você tivesse alguma vida social. – parei em frente à sala de reunião e bati duas vezes anunciando que estávamos prestes a entrar. JJ estava sentado na ponta da mesa, enquanto os dois clientes estavam virados de costas pra nós. Eu realmente gostaria que permanecesse dessa maneira, porque na hora que eles se viraram pra nós meu sorriso desapareceu.
- Não precisa nem sentar. Eu vou escolher a outra que não seja a . – Ravenna disse em um tom seco, dando as costas pra gente. Eu queria dizer que a minha falta de reação tinha vindo do fato de Ravenna estar na minha frente, mas não. sentado ao lado dela me pegou totalmente de surpresa. Eu simplesmente não conseguia parar de olhar pra ele e aparentemente nem ele conseguia parar de olhar pra mim.
- Ravenna, a é uma das melhores publicitárias que a gente tem na empresa, ela seria perfeita para o que vocês querem. – JJ disse, nos tirando do transe.
- Não. – Ravenna disse outra vez e eu percebi que JJ estava prestes a protestar quando eu disse:
- Está tudo bem, JJ. Eu vou deixar vocês a sós. Com licença.
- Espera! – disse, fazendo com que eu parasse em frente à porta e me virasse pra ele. Ele estava em pé, olhando pra mim, antes de se virar e falar com Ravenna – Você não vai ao menos escutar a proposta dela? Digo, se JJ disse que ela é uma das melhores, ela pode ser o que estamos procurando.
- Eu não acredito que você está cogitando essa ideia depois de tudo que eu falei sobre ela! – Ravenna disse olhando pra mim – Ela é uma criminosa! Eu não sei como uma empresa como a sua aceita alguém como ela. estava prestes a rebater quando eu disse:
- Tudo bem. – olhei para ele – Ravenna é o cliente, então ela tem todo o direito de escolher que publicitária ficar, aposto que Lily vai fazer um trabalho maravilhoso com o restaurante de vocês. Com licença. – dessa vez eu saí do escritório o mais rápido que pude, praticamente correndo pra minha mesa, do lado oposto à sala de reunião.

Continuei com o meu trabalho, tentando esquecer quem estava dentro da sala de reunião a alguns metros de mim, porém a cada minuto eu olhava para a porta esperando algum movimento. Quando eu vi JJ abrindo a porta, abaixei a cabeça olhando diretamente para o meu computador, não me incomodando nem ao menos em olhar pra cima.
- Sua avó é uma bruxa. – Lily se jogou na cadeira que estava em minha frente, fazendo com que eu olhasse pra ela – Agora eu entendo porque você não usa o sobrenome dela, qualquer distância dela é extremamente necessária. – Lily apoiou os cotovelos na mesa, olhando pra amiga – Ah, , aquele garoto te ama.
- Você já disse isso.
- Eu sei, mas hoje eu tive a certeza. Ele passou a reunião inteira olhando pra porta e quando Brit entrou, eu o vi segurar o ar com a pequena esperança de que fosse você. – Lily jogou todas as suas coisas dentro da bolsa – Você vai no barzinho junto com o pessoal?
- Eu...
- . – Brit apareceu ao nosso lado – JJ está precisando de você na sala dele. – grunhi alto, me levantando da cadeira.
- Você quer que eu te espere?
- Não, Lily, pode ir com a galera. Eu preciso ir pra casa me entupir de sorvete e esquecer que esse dia existiu.
- Qualquer coisa me liga. – Lily me abraçou antes de ir embora. Peguei minhas coisas e fui em direção ao escritório de JJ, bati na porta e entrei assim que ele pediu.
- Brit disse que o senhor queria me ver. – disse, entrando em seu escritório.
- Mikael acabou de me pedir pra te tirar do projeto do restaurante dele.
- O quê?
- Alguém aparentemente mostrou a ele quem realmente era a publicitária que ele tinha contratado.
- Ravenna... – eu disse, abaixando a cabeça.
- Eu vou passar o projeto pra Lily e você vai pegar os projetos pequenos dela.
- Tudo bem.
- Tudo bem? É só isso que você tem a dizer?
- O que você queria que eu fizesse? Encontrasse Ravenna e dissesse pra ela tudo que está entalado?
- Isso deveria ser o mínimo que eu esperaria de você, ela acabou de tirar de ti um dos melhores projetos que você já fez. Falar tudo que está entalado seria o apropriado. – JJ se levantou e andou até mim, me entregando um cartão – O que é isso? Por que você está me dando esse cartão?
- É o hotel que sua avó está hospedada. – olhei para ele confusa – Seu pai me contou tudo sobre você, . Eu sei o que você passou, os demônios com quais você lutou, está na hora de você lutar contra o pior deles.
- Mas...
- Você só vai conseguir seguir em frente com sua vida quando você enfrentar sua avó. Até lá, ela vai continuar atrapalhando sua felicidade e, pelo visto, sua vida profissional também. E nós dois sabemos que está mais do que na hora de você ser feliz, garota.
- Eu aprecio o gesto, mas a última pessoa que eu quero ver na vida é Ravenna, quem dirá, enfrentá-la. – coloquei o cartão em meu bolso – Amanhã eu converso com a Lily em relação à troca de projetos. Boa noite.
- Boa noite, .

Eu juro que eu tentei tirar as palavras de JJ da minha cabeça todo o caminho pra casa e enquanto eu fazia o jantar, mas toda vez que eu pensava nos eventos que tinham ocorrido naquele dia o meu sangue fervia só em pensar que tudo que eu tentei construir nesses últimos meses, na pessoa que eu estava tentando me tornar, estava indo por água abaixo, porque Ravenna ainda me culpava pelos meus erros do passado, por algo que estava totalmente fora do meu controle. Então, com a amazona que existia dentro de mim, eu coloquei a primeira roupa que eu vi, peguei a caixa que estava no fundo do meu guarda-roupa e saí de casa. Depois de conseguir um táxi, dei o endereço do hotel onde Ravenna estava ficando, e deixei a raiva tomar conta. Não que fosse um dos melhores sentimentos que alguém pudesse ter por alguém, mas no momento estava servindo.
Entrei pelo loby do hotel indo em direção a recepção perguntando pelo paradeiro da minha querida avó, quando eles me disseram que ela estava no bar do hotel. Andei em passos largos até avistá-la sozinha, tomando algum coquetel.
- Você não cansa de infernizar a minha vida? – perguntei um pouco alto demais, fazendo com que ela olhasse pra mim.
- Eu não sei do que você está falando. – ela abaixou sua bebida e olhou pra mim.
- Você sabe muito bem do que eu estou falando.
- Então você sabe muito bem que você mereceu.
- Mereci? – perguntei incrédula – Quer saber de uma coisa, Ravenna? Eu cansei!
- Como é que é?
- Foi isso mesmo que você escutou: Eu cansei! Cansei dessa sua cruzada idiota de me fazer sentir culpada pelo o que aconteceu com minha mãe.
- Você estava dirigindo bêbada, eu tenho todo o direito de te culpar! Você matou minha filha. – ela gritou, se levantando.
- E eu perdi a minha mãe! – eu gritei de volta – Você já não acha que isso é castigo suficiente?! Você não acha que eu não penso nisso todos os dias desde aquele dia que eu acordei naquele hospital?! Se você não sabe, deixa que eu te digo: Eu penso todo os dias! Eu penso que tudo poderia ter sido diferente; eu penso que eu poderia tê-la obedecido; eu penso que eu poderia tê-la escutado e não entrado naquele carro; eu penso que eu deveria ter tendo entendê-la, quando ela queria me proteger do mundo; eu penso que meu pai poderia ser menos miserável depois que ela se foi; eu até penso em você. – apontei o dedo pra ela – Eu penso que eu tirei a coisa mais importante da sua vida, a sua única filha, mesmo você sendo a rainha de gelo que você é! Eu deixei você me maltratar durante anos, porque eu achava que você estava certa, que eu era mesmo uma assassina. Eu deixei você vencer todas as vezes que eu namorava um cara idiota, porque eu achava que merecia ser tratada daquele jeito; todas as vezes que eu chorei até dormir, porque achava que merecia todos as suas cartas lembrando do que eu fiz; e, principalmente, todas as vezes que eu deixei os outros cuidarem de mim, porque achava que eu não era forte o suficiente pra lutar, pra cuida de mim mesma. Só que eu percebi uma coisa, vovó querida, eu sou forte o suficiente pra lutar de volta e aqui estou eu pra dizer que isso aqui, esses seus joguinhos, acabam agora! – coloquei a caixa em que tinha todas as cartas que ela me mandou ao longo dos anos em cima da mesa, peguei a bebida de sua mão e o isqueiro em cima da mesa e joguei os dois dentro da caixa, fazendo com que a mesma pegasse fogo. Ravenna olhou entre mim e a caixa, incrédula – Você não vai mais controlar minha vida, você não vai me fazer se sentir culpada pelo que aconteceu. Você já me fez perder muita coisa, principalmente o cara que eu amo. Você não vai mais enviar porcaria de carta nenhuma! Eu já aceitei o que aconteceu, não quer dizer que doa menos, mas pelo menos eu consigo viver com essa dor. Mamãe gostaria que eu seguisse em frente e é isso que eu estou fazendo. – me aproximei dela e disse: – Mais uma carta, Ravenna, e eu te processo por abuso. – eu estava prestes a sair, até que me lembrei – E não pensei que eu me esqueci da minha herança, eu quero tudo que é meu e você me negou durante todos esses anos, principalmente a parte dela na empresa que é minha. Você não vai mais mexer na minha vida, Ravenna. Passar bem!

Então andei em passos largos até a saída, sem nem ao menos olhar pra trás, mas com o coração mais leve. Parecia que eu tinha tirado um elefante das minhas costas e agora eu poderia seguir com minha vida.
- ? – me virei pra trás, dando de cara com um muito confuso – , o que você está fazendo aqui? E por que você está chorando?
- Não é da sua conta. – limpei as lágrimas e comecei a andar em direção à rua a procura de um táxi.
- Me solta! – eu disse quando eu senti sua mão em meu braço.
- Ei, , espera! – ele me segurou pelos ombros, fazendo com que eu olhasse para ele – O que foi? Por que você está chorando? Ravenna fez alguma coisa pra você?
- Isso realmente não importa.
- Claro que importa.
- Desde quando você se importa?! – falei, me afastando dele – Você me ignora desde o dia em que eu contei tudo que aconteceu, claramente você não se importa.
- ...
- Eu não quero saber, eu preciso ir embora. – eu disse, me virando de costas pra ele.
- Me deixa pelo menos te levar pra casa, você não vai conseguir um táxi a essa hora. – me virei pra ele, respirando fundo.
- Tudo bem.

O único som presente no carro era o do rádio que tocava alguma estação que, segundo o locutor, era a estação daqueles que tinham sofrido por amor. Foi praticamente uma tortura ir o caminho inteiro escutando Ed Sheeran, Adele e Taylor Swift cantar tudo que eu vivi, o que nós vivemos. Quando Sad Beautiful Tragic começou a tocar eu jurei que pularia do carro, porém, por intervenção divina, eu avistei o meu prédio de longe.
- Eu te levo até a porta. – ele disse, saindo do carro e indo em direção a porta do passageiro e abrindo.
- Obrigada. – passamos pelo porteiro dando boa noite, antes de entrarmos no elevador. Eu juro que a tensão poderia ser cortada com uma faca, esse era provavelmente o momento mais desconfortável do dia. – Obrigada por me trazer. – eu disse, parando em frente a porta do um apartamento.
- Sem problema. – ele sorriu e eu abri a porta do meu apartamento.
- Boa noite, .
- Boa noite, . – ele sorriu outra vez, antes de se virar e andar em direção ao elevador. Me virei para porta, a ponto de entrar em casa.
- Eu também. – ele disse, fazendo com que eu me virasse pra ele – Eu também te amo, , e mesmo que tudo pareça dizer que nós somos o casal mais complicado do mundo, nós merecemos ao menos tentar. Você estava certa quando disse que eu não me importava, eu não me importo. Na verdade, eu estou pouco me fodendo pra pessoa que você era no passado, porque tudo que aconteceu te fez essa pessoa que você é hoje e eu posso afirmar com todas as letras que eu amo cada pedaço dela. Eu te amo e eu sinto sua falta pra caralho. Agora só falta você me dizer: você quer realmente dar uma chance pra nós dois? Você quer fazer dar certo, dessa vez com o pacote casal completo, sem segredos?
- Pensei que você nunca ia perguntar. – corri até ele, com um sorriso no rosto, me jogando em seus braços – Sem segredos.
- Sem segredos.
E então nós depositamos todo o amor que sentíamos um pelo outro e a saudade que sentíamos em um beijo que me tirou do chão, me arrepiou a espinha e me deu esperança de que tudo finalmente ia ficar bem.


Capítulo 19

A primeira coisa que senti foi cócegas no meu pescoço, depois foi um aperto ao redor da cintura. Demorou um tempo para eu me dar conta do que estava acontecendo, mas quando eu dei, foi impossível não sorrir. Me virei na cama, abrindo os olhos, dando de cara com , sorrindo para mim.
- Bom dia. – ele disse, dando um beijo no topo da minha cabeça.
- Definitivamente um bom dia. – respondi, o abraçando pela cintura. Em todas as noites que eu sonhei em acordar nos braços de outra vez, nenhuma delas era comparada ao que eu estava sentido agora. Meses ocupando a maioria do meu tempo com alguma atividade para não pensar nele, para quando a noite chegasse ele atormentasse meus sonhos, mostrando que eu o tinha perdido e que não existia uma chance de conquista-lo de volta. O amor aguentava uma quantidade certa de dor, e eu o tinha machucado tanto que não tinha como esse amor voltasse a ser o que era antes. Eu acordava sentindo como se alguém tivesse dado uma facada em meu coração, mas hoje era diferente, eu sentia que meu coração estava livre das torturas e meu corpo estava mais leve. Ficar perto de quem a gente ama, especialmente depois de tanta tragédia, realmente fazia um bem danado.
- No que você está pensando?
- Em como é bom acordar com seus braços ao redor de mim. – O apertei outra vez – Eu senti muito a sua falta.
- Eu também. – Ele respirou fundo e disse: – Eu tentei te procurar, sabia?
- O quê? – Perguntei surpresa, levantando a cabeça para olhar para ele – Eu pensei que você me odiava, eu tentei te procurar no seu apartamento, mas você estava em Londres. Meu pai disse que você o ignorou quando perguntou por mim, eu pensei que você nunca mais ia querer olhar na minha cara depois que descobrisse o que eu fiz.
- E eu não ia. – Ele disse, se sentando na cama, fazendo com que eu fizesse o mesmo – Demorou três semanas até que eu percebesse que eu precisava te escutar; mais uma semana para eu criar coragem para perguntar ao Marcus se eu podia falar com você, só para ele me dizer que você tinha se mudado, trocado de celular, estava muito ocupada com seu novo emprego e ele não sabia onde você morava. – Ele começou a fazer padrões na minha coxa com seus dedos – Eu falava com ele toda semana, para ver se eu conseguia descobrir o seu paradeiro, mas o máximo que você fazia era dizer que estava muito ocupada e remarcava. – Ele olhou para mim – Depois de um tempo, o restaurante começou a tomar conta do meu tempo e eu pensei que seria uma boa concentrar na minha vida, já que você claramente estava seguindo com a sua.
- Eu não fazia ideia. – Eu abaixei a cabeça – Todo esse tempo eu me ocupei para tirar você da minha cabeça quando você estava atrás de mim. A gente podia ficar conhecido como o casal com o pior timing.
- Mas tudo isso valeu a pena, , esse tempo que a gente passou separado foi bom para nós dois. – Ele me puxou para o seu colo, fazendo com que eu passasse os meus braços por seus ombros – Já ouviu dizer o tempo cura todas as feridas?
- Então todas as suas feridas estão curadas?!
- Talvez você devesse dar um beijinho, ainda dói um pouquinho. – Ele fez biquinho.
- É mesmo? – Perguntei, sorrindo – E onde dói?
- Aqui! – Ele apontou para os seus lábios. Eu apenas sorri, lhe dando um selinho. passou as mãos por debaixo da blusa que eu estava usando, aprofundando o beijo. E foi aí que eu percebi que eu poderia viver com acordar em seus braços, beijos demorados e conversas profundas, porque o cara que eu estava beijando como se não houvesse amanhã valia a pena.
- Agora vamos. – Ele disse, se separando de mim, me colocando na cama. – Eu vou fazer um café da manhã para a gente. – pulou da cama, caçando sua samba canção pelo chão.
- Que tal, café na cama? – Perguntei, me jogando na cama. colocou sua samba canção e sorriu pra mim.
- Você está resistindo ao meu pedido de tomar café, vizinha?
- Ex-vizinha. – Falei, levantando o dedo pra ele – E sim, eu estou resistindo. O que você vai fazer? – apenas sorriu de orelha a orelha, andando até a cama e me pegou no colo. Eu soltei um grito, colocando as mãos ao redor do seu pescoço, enquanto ele me levava para a cozinha. Chegando lá ele me colocou sentada no balcão e sussurrou um “fica aqui”, enquanto ia em direção à minha geladeira. não deixou que eu o ajudasse a fazer o café, disse que eu só ia o atrapalhar, o que rendeu uma cara de indignada da minha parte e uma risada da dele. Eu o assistia se movimentar pela cozinha e toda vez que ele passava por mim roubava um beijo. Meu Deus, se isso era céu, eu nunca mais queria voltar para a terra.
- O que você estava fazendo no hotel de Ravenna? – perguntou depois de um tempo. Ele tinha acabado de cozinhar e tinha insistido que eu ficasse na mesma posição enquanto nós comíamos. Aparentemente, ele detestava comer sentando. Levantei a cabeça, olhando para ele – Por que você estava chorando? Ela fez alguma coisa para você?
- Na verdade, eu fiz pra ela. – Respondi, colocando o prato ao meu lado no balcão – Você lembra que eu te contei que ela costumava me mandar cartas e que essas cartas eram uma das razões que eu não conseguia seguir em frente? – Ele assentiu – Eu resolvi dar um basta nisso! JJ me chamou no escritório dele, depois que vocês foram embora para dizer que eu tinha perdido o meu cliente mais importante, o dono do Venamour, Mikael. Aparentemente alguém tinha ligado para ele e mostrado "quem eu era de verdade."
- Eu não acredito que ela fez isso. – abaixou a cabeça.
- Eu não ia fazer nada, ia ignorar o que aconteceu, mas JJ me disse que eu ainda tinha que encarar o meu maior medo de todos, no caso, Ravenna, pra poder seguir em frente e ser feliz. As palavras deles ficaram enterradas na minha mente, até que eu peguei uma caixa com todas as cartas que Ravenna tinha me mandando ao longo dos anos e queimei todas na frente delas. Era por isso que eu estava chorando, porque eu finalmente me livrei do que estava me puxando para trás.
- Sua avó tentou mudar o jeito que eu pensava sobre você, sabia? – Ele disse, passando as mãos por minhas coxas – Ela viu o jeito que eu olhei para você. Quando eu fui deixar sua avó no hotel, ela pediu que eu descesse para conversamos sobre o restaurante, só que logo Ravenna mudou o assunto tendo você como tema. Eu fiquei logo puto e disse que ela não tinha direito de falar de você daquele jeito, você já não era a pessoa que ela conheceu anos atrás. Quando eu te encontrei, eu estava indo embora.
- Você me defendeu?
- Claro que defendi, . Ninguém fala da mulher que eu amo daquele jeito, como você fosse um monstro que não merecesse uma segunda chance. Se sua avó tirasse pelo menos um tempo para te conhecer, iria ver o quão incrível que você é.
- Cuidado, , quem te escutar pode até afirmar que você está apaixonado.
- Tá aí um coisa que eu cansei de negar. – Ele colocou as mãos ao meu lado no balcão – Eu espero que você saiba disso, que eu te amo e que dessa vez, a gente vai fazer tudo certo.
- Mesmo depois de tudo que aconteceu? Mesmo de você saber tudo que eu fiz?
- Sim. Eu fico feliz por você ter passado por tudo que passou, fez de você a pessoa que você é hoje. – Ele deu um beijo em minha testa – E não vou dizer que fico feliz pela gente ter passado por todos esses obstáculos no nosso relacionamento, mas definitivamente fez com que a gente ficasse mais forte e provasse que nosso amor é muito mais do só implicância de vizinhos. – Sorri, mordendo meu lábio.
- Quem pensou que eu te salvando daquelas algemas, nós estaríamos aqui hoje, declarando nosso amor um para o outro.
- Eu sempre soube. – Ele respondeu, passando a mão por minhas costas por debaixo da minha blusa. Eu puxei seu rosto com as mãos para que nossos lábios de tocassem. me abraçou pela cintura, aprofundando o beijo e eu pude jurar que eu estava no céu e ninguém ia acabar com o meu momento. Porém, a campainha logo tocou, fazendo com que eu grunhisse alto.
- Quem ousa atrapalhar o momento como esse?! – Eu disse jogando as mãos para o alto. olhou para mim, gargalhando alto.
- Você quer que eu atenda a porta?
- Quero sim, eu vou colocar um short. – Dei um último selinho nele, antes de pular do balcão e andar em direção ao quarto. Procurei no meu guarda roupa, pegando o primeiro short que eu vi. Quando eu voltei para sala, Lily estava entrando, enquanto fechava a porta. Ela olhou para mim de boca aberta e olhos arregalados e depois sorriu de lado.
- Lily! – Eu disse, andando até ela, a abraçando – O que você veio fazer aqui? Especialmente tão cedo?!
- Eu... – ela olhou para e depois pra mim – Hum, eu vim falar com você.
- Se vocês quiserem, eu posso ir pro quarto. – começou apontando em direção ao meu quarto.
- Não precisa, isso também envolve você. – Lily se sentou no sofá, respirou fundo e começou: – Você está no noticiário da manhã.
- O quê? – Eu juro que eu não queria gritar, mas foi inevitável – Do que você está falando?
- É só do que todo mundo está falando. – Ela ligou a televisão, fazendo eu me virar para a mesma.
- "A milionária Ravenna Bennet, dona da rede de hotéis Balnort foi atacada na noite dessa sexta-feira. As testemunhas falaram que Ravenna estava sentada em uma das mesas do bar, apreciando uma boa taça de vinho, quando a intrusa entrou carregando uma caixa. As duas discutiram por alguns minutos, até que a moça colocou fogo na caixa na frente da milionária." – Nessa parte, a televisão mostrou um vídeo gravado pela câmera de segurança do hotel, para a minha felicidade, eu estava de costas para a câmera, fazendo com que meu rosto não aparecesse. – "A acessória do hotel disse que Ravenna passa bem e que a mesma não vai prestar queixas. Parece que nem todos gostaram da volta da milionária à sua cidade de origem. No próximo bloco..." – Lily desligou a televisão e se virou pra mim.
- Eu sou sua fã! – Lily de jogou no sofá – Eu sei que você odeia conflitos, mas, porra, , por que diabos você se segurou por tanto tempo? Isso foi a coisa mais incrível que você já fez!
- Eu agi por impulso. – Me sentei no braço da poltrona.
- Você deveria agir por impulso mais vezes, aparentemente te leva a lugares mais incríveis. – Ela apontou com a cabeça para – Vocês formam um belo casal.
- Obrigado, Lily. – disse, passando sua mão por minhas costas. – Espero que vocês não se importem, mas eu tenho que ir.
- Lançamento da nova marca de vinhos que você trouxe da Itália, certo?! – Lily disse, fazendo com que eu a olhasse surpresa – O quê? A Brit vive stalkeando a página do restaurante do seu namorado só pela oportunidade de esbarrar nele. – Ela deu de ombros – Pena que a partir de agora ele já tem dona, né?! – Lily disse, fazendo com que eu ficasse vermelha. apenas deu um beijo no topo da minha cabeça e disse:
- Pelo o visto vocês duas tem muito o que conversar, eu vou só no quarto pegar minhas coisas pra eu poder ir embora.
- Eu vou com você. – Eu disse me levantando e o seguindo em direção ao quarto. Quando chegamos no mesmo, fechou a porta e logo em seguida me pegou pela cintura, me beijando de um jeito que fez os cabelos da minha nuca se arrepiarem.
- Vai ser uma tortura passar o dia inteiro longe de você. – Ele disse, colocando seu rosto em meu pescoço.
- Você pode vir logo depois desse lançamento, eu não me importo.
- Ou você pode vir pro lançamento e depois nós podemos ir para o meu apartamento. – Ele me deu um selinho – Eu posso dizer para o Ash reservar uma mesa para minha namorada e a amiga dela.
- Sua namorada? – Perguntei, surpresa, mas não conseguindo conter o sorriso – Em que momento da noite passada e nessa manhã você pediu para que eu fosse sua namorada?
- Pensei que quando eu disse que te amava já estaria incluso que eu quero que nós fiquemos juntos para sempre. Namorada agora, noiva em um futuro bem próximo, minha mulher daqui a alguns anos.
- Acho que você vai ter que explicar detalhadamente, porque eu não funciono direito antes das dez da manhã.
- Eu – ele deu um beijo na minha bochecha – quero – na outra bochecha – que – ele deu um beijo no meu pescoço – você – ele abriu minha blusa, dando um beijo entre meus seios – seja – ele levantou minha blusa, se ajoelhando à minha frente, dando um beijo em minha barriga fazendo com que eu risse – minha namorada – Ele pegou minhas mãos, olhando para mim debaixo para cima – Você aceita?
- Eu vou pensar no seu caso.
- Ah, eu tenho jeito de te convencer. – Ele abriu o botão no meu short e disse: – Lembra disso?
- E como lembro. – Eu disse, colocando minhas mãos em seus ombros – Mas acho que nós deveríamos deixar isso para depois, você tem outras preocupações.
- Eu sou multitarefas. – Ele sorriu de lado, antes de se levantar – Mas eu entendo o que você está dizendo. – Ele deu um beijo no topo da minha cabeça antes de sair pelo quarto catando suas roupas. Ele se virou para mim logo que terminou de calçar os sapatos e apontou para sua blusa – Eu vou precisar dela para sair daqui.
- Ou você pode pegar uma das suas que você deixou comigo no meu guarda-roupa. – Apontei para o guarda-roupa. Ele sorriu para mim, abrindo o mesmo e tirando uma blusa lá de dentro.
- E eu me perguntando onde essa camisa estava. – Ele disse, andando até mim, depois de colocar a camisa. Ele passou os braços pela minha cintura, me puxando para a perto – Te vejo hoje à noite?
- Com toda a certeza. – Respondi, ficando nas pontas dos pés, dando um selinho nele – Acho melhor nós irmos, Lily deve pensar que nós estamos fazendo amor com essa demora.
- E você pode culpá-la? Esses meses foram uma tortura sem você, nós temos que recuperar o tempo perdido.
- Você é insaciável. – Me afastei dele, indo em direção ao corredor.
- Quando se trata de você, eu sou mesmo. – Ele disse, passando o braço por meus ombros. Lily estava no seu celular, com um copo de suco na mão.
- Foi um prazer te ver novamente, Lily. – disse, tirando o braço dos meus ombros e o colocando na minha cintura.
- Você também.
- Espero vocês hoje à noite então?! – Ele perguntou, olhando para mim.
- Claro. – Respondi, o acompanhando até a porta – Você acha que vai poder ter um tempinho para mim?
- Vai ser uma noite louca, mas eu posso sempre tentar dar uma escapada. – Ele disse, abrindo a porta e se virando para mim – Eu te amo.
- Também te amo. – Fiquei na ponta dos pés, dando um selinho nele – Até mais tarde.
- Até mais tarde, amor. – ele disse, antes de correr para o elevador que tinha acabado de chegar no meu andar. Eu o vi dar uma piscadela para mim antes das portas do mesmo fechar.
- Ai, Lily, eu acho que estou no céu. – Eu falei, me jogando ao lado dela no sofá.
- Se eu tivesse um boy daquele, eu estaria no céu também.
- O que aconteceu com aquele cara do marketing?
- Leão em pele de cordeiro.
- Esses são os piores. – Ela se encostou no sofá, de um modo que ela pudesse olhar para mim – O quê?
- Como assim o quê? Pode ir contando tudo que aconteceu, porque eu vim correndo quando eu vi você tacando fogo naquela caixa em frente à sua avó, esperando uma explicação, para o babado ainda ficar mais forte quando eu encontro nada mais nada menos que atendendo a porta da sua casa SEM CAMISA. – Ela disse, quase sem fôlego – Quando as pessoas dizem que sua...
Eu estava prestes a responder quando meu celular começou a tocar, eu o atendi sem nem ao menos olhar quem era.
- Me diz que não era você queimando aquela caixa na frente da sua avó – A voz, que eu logo reconheci como a voz de meu pai, disse.
- Avó não, Ravenna. – Eu o corrigi, colocando o celular no viva voz.
- , você não deveria ter feito isso, você não deveria dizer isso. Ela é mãe da sua mãe, ela é família.
- Engraçado, se eu me lembro bem eu parei de ser neta dela logo depois que a mamãe morreu. – Respirei fundo – Eu não quero brigar, pai. Eu sei que você não aprova o que eu fiz, mas eu não me arrependo. Na verdade, eu só me arrependo de não ter feito antes. – Eu me levantei, começando a andar de um lado para o outro.
- Ela me ligou. – Ele deu uma pausa – Você exigiu a sua parte na herança que sua mãe te deixou, ? Eu pensei que você não queria nada com o dinheiro que vinha da sua avó.
- E não quero, eu vou usar esse dinheiro pra ajudar os outros, a quem precisa. Era isso que a mamãe gostaria que eu fizesse. – Meu pai respirou fundo e respondeu:
- Eu estou muito orgulhoso da mulher que você se tornou, mas não pense que nós não vamos discutir sobre isso, mocinha. – Antes que eu pudesse responder, escutei a voz de Charlie do outro lado da ligação, mas eu não consegui entender o que ela dizia – Charlie acha que você fez certo e que merecia uma medalha por colocar a sua avó no lugar dela. Ela também está dizendo que estamos atrasados para a consulta.
- Pra consulta? Você está doente? Charlie está doente? O bebê está bem?
- Calma, . – Ele riu – Está tudo bem com todos nós, é uma consulta rotineira e segundo o médico, nós já podemos ver um pouco do seu irmãozinho ou irmãzinha.
- Me manda uma foto?!
- Claro, mas agora eu tenho que ir. Se cuida e tente não queimar mais nada.
- Farei o meu melhor, paizinho. Te amo.
- Também te amo. Até logo, filha.
- Até logo, manda um beijo pra Charlie.
Desliguei o celular e me joguei no sofá ao lado de Lily.
- Agora que tudo isso acabou, você pode me contar tudo que aconteceu nessas últimas 24 horas?
- Começou depois que JJ me chamou no escritório dele...


~xxxxxxxx~



Lily passou a tarde inteira na minha escutando tudo que eu tinha pra dizer. Em algum momento ela se levantou e disse que eu precisava de um vestido pra hoje à noite então ela me arrastou para o shopping com a finalidade de achar o vestido perfeito. Quando nós chegamos em casa, já era hora de nos arrumarmos para a inauguração da qual Lily fez questão de fazer parte. Tentei ligar pra Marcus para contar as novidades, porém seu celular só caía na caixa postal.
- , você quer relaxar?! – Lily disse, tirando o celular das minhas mãos. Já passava das nove da noite e nós estávamos atrasadas, sem contar que o trânsito também não deve estar colaborando.
- O Marcus nunca deixa de atender o celular, Lily. Até quando transando ele atende para dizer que liga depois.
- Ai meu Deus!
- É, eu não acredito que eu vou dizer isso, mas com o tempo você se acostuma. – tentei seu número novamente, porém, caixa postal de novo.
- Por que não deixa uma mensagem?
- Porque Marcus nunca olha sua caixa postal. – o táxi parou de repente, fazendo com que minha atenção virasse para a fila enorme que tinha do lado de fora do Le Sansa. O taxista virou para nós e eu o entreguei o dinheiro, murmurando um “obrigada” e saindo do taxi – Eu realmente estou preocupada. – Voltei minha atenção para o meu celular, avisando que já estávamos do lado de fora do restaurante para que logo respondeu que mandaria alguém nos buscar – Você acha que aconteceu alguma coisa?
- , – ela segurou nos meus ombros – já ouviu dizer que notícia ruim é a primeira que chega? Então, se tivesse acontecido alguma coisa com Marcus você já estaria sabendo. – Ela me soltou – Agora relaxa, se deixa ser feliz, você merece.
- Senhorita ? – Um cara de terno se aproximou de nós.
- Sim.
- Eu sou Henrique, trabalho com o senhor . Eu estou aqui para escoltá-las até sua mesa.
- Mostre o caminho então. – Respondi, seguindo-o com Lily ao meu lado. Nós passamos direto da fila, recebendo alguns olhares desaprovadores de algumas pessoas. Henrique nos guiou até uma mesa na área VIP, onde nela tinha o meu nome escrito debaixo de “Reservado”. Depois de sentarmos em uma daquelas cabines com um sofá, Lily e eu pedimos alguns drinks e petiscos para passar a noite. O restaurante estava lotado, o evento estava acontecendo lá embaixo, onde os garçons iam pelas mesas oferecendo vinhos para os convidados. Lily e eu passamos a maior parte da noite conversando, por incrível que pareça eram raras as vezes que saímos apenas as duas; normalmente nós saiamos em bando com o pessoal da empresa e quase nunca tínhamos tempo para conversar sozinhas.
Claro que a conversou cessou logo que eu desvie o olhar de Lily e vi quem se aproximava da mesa. Com uma roupa de chefe de cozinha, que o deixava mais dez vezes mais atraente, se aproximava da nossa mesa com três taças de vinhos e uma garrafa na mão. Eu juro que eu tentei me segurar, mas foi quase impossível, em questão de segundos eu estava encontrando-o quase na metade do caminho, jogando meus braços ao redor dele, o abraçando forte.
- Você está linda. – Ele disse em meu ouvido, se separando um pouco de mim – Não vejo a hora de tirar esse vestido.
- Agora essa vai ser a única coisa que eu vou conseguir pensar o resto da noite.
- Meu trabalho aqui está feito então. – sorriu, me dando um selinho – Acho que nós deveríamos ir sentar com Lily, para ela não ficar sozinha. – Ele disse, começando a andar até a mesa.
- Olá, Lily. – Ele disse, sentando em frente para ela enquanto eu me sentei ao seu lado – Se divertindo?
- Sinto que agora eu vou ficar segurando vela.
- Mas é claro que não, Lily. – respondeu, pegando o vinho e abrindo. Ele serviu três taças e dividiu entre nós – Do que vocês duas estavam falando antes de eu chegar?
- De como minha vida amoroso é um desastre.
- Mas vai melhorar, acredite, eu sei. – respondeu, colocando o braço ao redor da minha cintura e me puxando para a perto.
- Bem, se vocês dois se resolveram, ainda tenho esperança. – Ela disse, tomando um pouco do seu vinho – E eu te esqueci de te dizer, , JJ me ligou e aparentemente não vai ser preciso trocar de projetos.
- O quê?
- Parece que alguém ligou para o dono do restaurante, te elogiou e só desligou o telefone quando ele mudou de ideia. – Lily disse, olhando pra .
- Você fez isso? – Olhei para , que apenas me olhou de canto de olhando, tomando seu vinho.
- Você esperava que eu fizesse o quê? – Ele colocou a taça em cima da mesa – Eu vi seu portfólio, , seria burrice não ter você como responsável pela campanha de um restaurante tão renomado quanto o do Mikael.
Eu fiquei sem palavras, a única coisa que eu consegui fazer foi encará-lo estonteada. Deus, como eu amava esse garoto. Mas antes que eu pudesse falar ou fazer algo, o nome de ecoou pelo restaurante, fazendo com que nós olhássemos para eles.
- Finalmente eu te achei. – Marcus disse, chegando perto da mesa. Ele olhou para e só depois que me viu – ? – Ele perguntou, olhando para o braço de ao redor da minha cintura – Vocês dois estão juntos? Aí meu Deus! Eu não acredito! Finalmente!
- Você saberia disso se atendesse meus telefonemas. Por que você estava me ignorando?
- Eu não estava te ignorando, , foi que aconteceu uma coisa. – Ele abaixou a cabeça.
- Está tudo bem com Fred? Marcus, está tudo bem com você? – Perguntei preocupada.
- Está tudo bem com a gente, mas é sua avó, , ela está no hospital.
- O quê?
- Ela foi te procurar no meu apartamento e enquanto eu falava várias coisas horríveis pra ela, ela começou a passar mal. Fred está com ela no hospital agora, como é sócio dela eu pensei em chamá-lo. – Olhei para e logo depois para Lily. Ravenna podia ser uma cobra, rainha do gelo sem coração, mas ela ainda era mãe da minha mãe e, por mais que eu não gostasse de admitir, ela ainda era parte da família.
- Vamos! – Eu disse, me levantando. Lily e se levantaram também.
O caminho até o hospital foi silencioso, ninguém teve coragem de falar uma palavra, eu pelo menos não tive coragem de perguntar como tudo aconteceu. foi o caminho inteiro acariciando minha mão, tentando me confortar de alguma maneira, Marcus estava quase comendo as mãos enquanto Lily, que trouxe a garrafa e a taça, tomava o resto de vinho que restava.
Quando nós chegamos na sala de recepção, Fred estava sentado em uma cadeira balançando a perna freneticamente. Ele levantou o olhar quando percebeu movimento e correu para abraçar Marcus.
- Ela está fora de perigo. – Ele disse se separado dele – Ela estava perguntando se eu podia chamar aqui, aparentemente ela queria falar com ele. – Ele olhou para o lado e viu nossas mãos entrelaçadas – Marcus, você está vendo o que eu estou vendo?
- Aparentemente os dois fizeram as pazes enquanto nós cuidávamos de Ravenna.
- O que aconteceu com ela? – Eu perguntei, mordendo o lábio.
- Pressão alta. Aparentemente, ela teve fortes emoções recentemente. – Fred olhou para Marcus.
- O que você fez, Marcus?
- Eu pensei que ela estava atrás de você pra infernizar sua vida, então eu falei umas coisas não muito amigáveis até que ela passou mal na nossa frente. Eu só não queria que ela atrapalhasse sua felicidade, especialmente agora que você estava se recuperando.
- Marcus, você não é o único que causou isso. – Apontei para a televisão ao lado dele, onde passava a mesma notícia de hoje de manhã – Eu preciso vê-la.
- Eu vou com você. – disse, apertando minha mão.
- Ela está no quarto 212. – Fred disse e nós seguimos pelo corredor. Minhas pernas pareciam bambas, eu tive que me concentrar em andar para não cair.
- ... – falei, segurando sua mão, fazendo ele parar – Eu não sei se posso fazer isso. – Abaixei minha cabeça – Eu não sei como eu vou reagir, Ravenna me machucou muito e eu ainda não me recuperei completamente. Sarcasmo vai ser minha principal resposta, eu tenho certeza disso.
- Vai dar tudo certo. – Ele colocou as mãos em meu rosto – Eu vou estar ao seu lado para o que você precisar. – Ele me abraçou pelos ombros, enquanto eu o abraçava pela cintura. Não sei quanto tempo nós passamos abraçados, mas eu logo senti meu corpo relaxando aos poucos – Está melhor? – Ele perguntou, passando as mãos por meus braços. Assenti a cabeça. – Quer entrar?
- Sim. – Respondi, segurando em sua mão. foi o primeiro que entrou, me puxando logo em seguida. Ravenna estava deitada na cama, com uma aparência pálida, enquanto passava pelos canais da televisão. Ela sorriu quando o viu, mas seu sorriso desapareceu quando ela me viu.
- Olá, Ravenna. – Ele disse, parando em frente à cama dela – Como você está?
- Eu estou melhor. – Ela disse, sorrindo fraco. Ela olhou para nossas mãos entrelaçadas.
- Eu não sabia que vocês estavam juntos. – Ravenna disse, olhando para nós dois – Será que eu posso falar com minha neta? Ás sós?
- Neta? – Ri sem humor – Essa foi boa.
- . – Ele me cutucou, fazendo com que eu olhasse para ele – Pega leve. – Ele deu um beijo no topo da minha cabeça – Eu vou deixar vocês duas à sós. – saiu do quarto, fechando a porta atrás dele. Cruzei os braços, voltando meu olhar pra Ravenna.
- Eu fico muito feliz por vocês dois, dá para ver no olhar dele que ele te ama muito. – Eu apenas assenti – Você vai me dar um tratamento de silêncio?
- Eu não sei o que você quer que eu diga, Ravenna, não é como se fossemos amigas de anos. A única comunicação que tínhamos era quando você me mandava aquelas cartas, me lembrando que tipo de pessoa eu era, segundo você. – Ela abaixou a cabeça, mas não antes de eu ver as lágrimas rolando por seu rosto.
- Eu fui te procurar, sabia? – Ela levantou a cabeça – Eu queria conversar com você sobre tudo que eu fiz, pedir desculpa. – E, pela segunda vez na noite, eu fiquei sem palavras – Depois que você queimou as cartas na minha frente, eu percebi o quão errada eu estava, ver você reagindo daquela maneira com tanta raiva, me fez perceber o quanto eu te machuquei todos esses anos. Você estava certa quando disse que eu estava te culpando pela morte da minha filha, sua mãe, eu precisava focar meu sentimento na raiva, em vez de ficar de luto, e você era o alvo mais fácil.
- O que você me fez passar, Ravenna, durante todos aqueles anos mudou minha vida completamente. Na verdade, atrapalhou a minha vida em todos os aspectos.
- Eu sei disso.
- Não, Ravenna, você não sabe. – Foi a minha vez de sentir lágrimas nos olhos – Você não tem ideia do que eu passei, você acha que sabe porque agora você quer perdão, mas só quem sentiu é que realmente sabe o que passou. Eu passei anos da minha vida sentido pena de mim mesma, me deixando ser maltrata e manipulada como uma boneca de pano. Eu quase perdi o que cara que eu amo por causa disso, você tem ideia?! Você tem ideia como foi difícil para mim me deixar pelo menos se apaixonar por alguém?! – Eu continuei limpando as lágrimas – Se você quer meu perdão, você já tem, mas não pense em nenhum momento que nós vamos ter algum tipo de relacionamento, porque você destruiu isso antes mesmo do acidente.
- Não tem como eu fazer você mudar de ideia?!
- Pode ser que com o tempo eu mude, mas no momento, eu só quero distância de você. Eu te desejo tudo de bom e eu realmente espero que você melhore. Adeus. – Eu saí do quarto de Ravenna, soluçando alto de tanto chorar. Minhas pernas me traíram e logo eu caí no chão encostada na parede. Eu não sei por quanto tempo eu chorei, mas logo eu senti sendo puxada para um abraço. Eu não precisava abrir os olhos para saber quem era, eu podia sentir o seu cheiro enquanto ele acariciava o meu cabelo. Logo eu senti alguém segurar minha mão, enquanto outro alguém passava a mão por minha panturrilha, quando eu abri os olhos vi Lily ao meu lado e Marcus e Fred à minha frente.
- Você está bem? – Fred perguntou.
- Não.
- Quer tomar um porre pra melhorar? – Agora foi a vez de Marcus, o que me fez rir.
- Marcus! – todos o repreenderam.
- O quê? Uma bebida sempre ajuda, eu hein. – Ele deu de ombros.
- Como foi a conversa com Ravenna? Vocês fizeram as pazes? – Lily perguntou.
- Nem tudo na vida tem um final feliz. – Olhei para ela – Eu a perdoei pelo o que ela fez comigo todos esses anos, mas eu não sei se nós podemos ter algum tipo de relacionamento. Ela arruinou tudo antes mesmo do acidente.
- Relaxa por um tempo. Pensa direito. Se permita cogitar a ideia e então toma uma decisão.
- O que eu faria sem vocês? – Perguntei, olhando a minha volta.
- Não sei, eu realmente me pergunto como você sobreviveu sem mim esses últimos meses. – Marcus respondeu.
- Ei, ela tinha a mim. – Lily disse, dando um empurrando Marcus – Você acha que vai ficar bem daqui para a frente?
- Contanto que eu tenha vocês, eu vou ficar bem. Vocês vão ficar comigo?
- Sim. – Lily disse.
- Claro. – Fred também.
- Sempre. – E agora foi a vez de .
- O que eu ganho com isso? – Marcus disse – Mas é claro que sim. Enquanto você estiver rodeada de pessoas que você ama e te amam de volta – ele disse apontando para todos ao meu redor – tudo vai ficar bem.
- Tudo vai ficar bem.
Eu repeti. Esse seria meu novo mantra.


Fim



Nota da autora: Espero que vocês tenham gostado dessa aventura que foi Revival, ela é umas das histórias mais diferentes que eu já escrevi e foi um desafio escrevê-la, porém eu amei absolutamente cada segundo. Segue o link do grupo e aquela velha listinha com as minhas outras histórias no site.

Reminiscência
Outros/Em Andamento
Restritas - Outros/Em Andamento
Thereafter
Mitologia/Em Andamento
McFly/Finalizada
Flawless Curse
McFly/Finalizada

Shorts:
03. Blue Jeans
03. Hands To Myself
03. Kiss It Better
04. John Wayne
06. Grown
06. Only Angel
06. The Mighty Fall
08. Colors
09. Young Volcanoes
12. Forever Halloween
13. I Know What You Did Last Summer
14. Easy Way Out
15. Devil in Me
15. Lucky Ones
15. New Love
Bônus: Why Do You Love Me?
Paris At Midnight

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Para saber se a história tem atualização pendente, clique aqui


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